A produção industrial de Tânatos: a construção de modelos de corpo e de sexualidade e sua relação com o consumo à luz da última Teoria das Pulsões – Guilherme di Angellis da Silva Alves (mestrado em Comunicação)

 

“O nascimento da sexualidade tem a ver com a dissociação do objeto sexual do objeto da função vital, separando a necessidade do desejo, que é um fluxo psíquico de retorno da experiência de satisfação.”

“O tabu da menstruação seria derivado do recalque orgânico, uma <defesa contra uma fase do desenvolvimento que foi superada>.” “A educação é definida por Freud como sendo fundamentalmente um processo de recalcamento dos estímulos sexuais olfativos anteriores à bipedia.”

“A excitação sexual se torna contínua e não mais cíclica. Essa mudança diz respeito à passagem do funcionamento instintivo para o pulsional, determinante para o desenvolvimento da cultura. A instituição da família, que representa o início da civilização humana, não seria possível sem esta mudança do instinto para a pulsão, definida por Freud como força constante.”

“É na perspectiva do desejo que se pode falar em angústia. Lacan nos ensina que esta é o melhor remédio para aquele, pois reintroduz a referência à falta originária da estrutura. A angústia, diz Lacan, é um afeto – e um afeto que não engana, já que possui relação estrutural com o que constitui o sujeito, isto é, a falta, a incompletude.”

T&T: “O violento pai primevo fôra sem dúvida o modelo de cada um do grupo de irmãos: e, pelo ato de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um deles adquirindo uma parte de sua força. A refeição totêmica, que é talvez o mais antigo festival da humanidade, seria assim uma repetição e uma comemoração desse ato memorável e criminoso, que foi o começo de tantas coisas: da organização social, das restrições morais e da religião.”

“Para ilustrar essa assertiva, há um mito grego que diz que Afrodite e Ares tiveram vários filhos, entre eles Eros, deus do amor. Diferente dos outros filhos do casal, Eros não crescia. Era um bebê pequeno, frágil, rosado, de asas transparentes e covinhas no rosto. Preocupada com a saúde do filho, Afrodite consultou Têmis, deusa guardiã da lei, que respondeu que seu filho era assim porque o Amor não podia crescer sem Paixão.”

“O amor se atém à passagem do que cessa de não se escrever para o que não cessa de se escrever. É nessa região de intercessão entre os regimes simbólico e imaginário que o amor se inscreve, e, sendo assim, o amor é essencialmente produção de sentido. Por isso, o amor é não só produtor de um discurso fragmentado, porque infinitizado, como também constitui um legítimo estilo literário, a correspondência amorosa: o amor exige reciprocidade, exige correspondência, o que leva Lacan a afirmar que <amar é querer ser amado>”

“Cada uma das três artes gregas de conduta – a Dietética, a Econômica e a Erótica – propõem modelos específicos de comportamento em relação ao sexo. A Dietética trata da temperança por meio do uso moderado dos atos de prazeres, chamado pelos gregos de aphrodisia – os atos de Afrodite. O exercício dessa moderação exigia um cuidado com os momentos específicos em que esses atos deveriam ser praticados, manifestando preocupação com a sobrevivência do indivíduo e com a manutenção da espécie. Já a Econômica não dizia respeito ao uso comedido e oportuno dos atos de prazer, mas à manutenção, por parte do marido, da estrutura hierárquica dentro de sua casa. O problema a ser apreendido neste campo é como assegurar o privilégio e o poder que o homem mantém em relação à esposa e aos escravos. O marido deve temer qualquer excesso e praticar o domínio de si sobre os outros para garantir essa permanência. Por fim, o cuidado solicitado pela Erótica diz respeito à virilidade do adolescente e ao seu status futuro de homem livre. Não se trata apenas do homem ser senhor do seu prazer, mas de compreender de que maneiras ele pode dar lugar à liberdade do outro no domínio que exerce sobre si mesmo. No pensamento grego clássico, a relação com os rapazes é o núcleo mais delicado e ativo de reflexão e elaboração.”

“A exigência de moderação e austeridade não se apresenta como lei a qual todos deveriam se submeter. Está mais para um princípio de conduta para aqueles que querem dar à existência uma forma mais elevada.” “O amor não era compartilhado com as mulheres, mas entre seus iguais. Já a relação sexual era sempre feita com o homem ocupando o papal ativo, que representava seu caráter dominante sobre os demais. O papel ativo é um princípio norteador dessa moral, demonstrado especialmente na pederastia, a relação de amor e de aprendizado entre o erasta e o erômano, o amante e o amado, o homem livre e o rapaz em formação. O excesso e a passividade são, para o homem grego, as duas principais formas de imoralidade.”

“A temperança é a palavra-chave. A maneira como se considerava esses atos, os questionamentos que são feitos, os regimes a serem adotados, tudo tinha como norte esse princípio. Não se trata de não ter desejos, portanto, mas de não deixar que esses desejos impeçam os homens de serem senhores de si.”

“É somente a esposa que pode dar filhos legítimos e garantir a continuidade da instituição familiar. Dessa forma, a relação entre os esposos não tinha outra função diferente da de produzir uma descendência. Toda a atividade sexual das mulheres deve se situar dentro da relação conjugal, o marido como parceiro exclusivo. Elas se encontram sempre a seu poder. Em caso de adultério, as sanções são tanto de ordem privada como pública. Já o homem tem por obrigação respeitar uma mulher casada ou que está sob a guarda paterna, mas a ofensa nestes casos é voltada ao homem que detém o controle da mulher.”

“A aphrodisia em relação aos rapazes constitui, para o pensamento grego, objeto de grande inquietação. Não há uma oposição excludente entre amar alguém de seu próprio sexo e amar alguém do sexo oposto. As linhas que demarcavam a sexualidade não eram tão radicais assim. Do ponto de vista da moral, a oposição entre o homem temperante, senhor de si, e aquele que se entregava desmedidamente aos prazeres era muito mais grave.” “o desejo que visa o próprio ato e que se realiza ao acaso poderia ser destinado tanto às mulheres quanto aos rapazes, mas o amor mais nobre e mais racional só é direcionado aos homens.” “Havia o encanto da conquista, do cortejo, da juventude, da beleza, do exercício do poder. Mas ao mesmo tempo em que os rapazes eram objetos de desejo, também eram homens livres em formação, daí a necessidade de formá-los. Além de uma relação de desejo, a pederastia tinha um papel pedagógico importante”

“havia um desprezo pelos jovens que cediam facilmente ou que se demonstravam muito interessados, os homens efeminados eram desqualificados etc.” “Com o rapaz, o cortejo se dava em espaços públicos, às vistas de todos. Além disso, o jovem era livre para escolher o amante que quisesse, o que fortalecia os jogos de conquista. À medida que os jovens amadureciam, as relações deixavam de ser tornar interessantes.”

“Podia-se até atribuir aos rapazes a forma mais elevada de amor, mas a abstenção também era solicitava para que se pudesse preservar o valor espiritual da relação. Essa idade de transição, tão frágil, era uma oportunidade para provar seu valor, se formar, se medir. Quem aceitasse o papel passivo na relação podia perder seus direitos de cidadão. Após esse período de formação, ele estava apto a constituir família e exercer a sua condição de domínio sobre outros.”

FORMAÇÃO DO CARÁTER E A HORA DE PASSAR O BASTÃO: “entre um homem e um rapaz, que estão em posição de independência recíproca, e entre os quais não existe constrição institucional, mas um jogo aberto (com preferência, escolha, liberdade de movimento, desfecho incerto), o princípio de regulação das condutas deve ser buscado na própria relação, na natureza do movimento que os leva um para o outro, e da afeição que os liga reciprocamente.” “as jovens mulheres é que posteriormente passam a ter tais cuidados, proteções e cortejos”

desprezar o desprazer, dás o que prezar?

“a imagem do jovem quadro sobrecarregado de tarefas e responsabilidades é estranha ao espírito grego, como lhe são estranhas as virtudes positivas que o mundo industrial inclui nas palavras produtividade e rendimento. Na ética do grego de outrora, a guerra é um meio de aquisição muito mais defensável do que o comércio.” Amouretti

“A educação era constituída da alfabetização básica e da aritmética, do ensino da música e da educação física.”

“Um senhor poderia fazer sexo com um escravo, desde que ocupasse o papel ativo na relação. A postura dominante era realmente o fundamental, independente do tipo de relação.”

FLERTANDO COM O PERIGO: NAS CERCANIAS DA TOCA DA RAPOSA: “a abordagem de um erastes (o parceiro ativo e mais velho) era um meio pelo qual um rapaz jovem podia sentir-se querido e valorizado por si mesmo. (…) O amor de uma mulher, membro dependente da sociedade, talvez não fosse tão valoroso quanto o de um homem, em especial se fosse mais velho, rico, bonito e influente. Mesmo assim, o eromenos (o rapaz que o erastes tentava conquistar) só chegava até certo ponto. Permitir a penetração anal era, para um grego, ser tratado como uma mulher e, portanto, uma humilhação degradante. É interessante notar que os cidadãos atenienses eram privados da cidadania, se condenados por prostituição masculina. Em Atenas, tal atividade podia ser deixada com segurança à prática dos não-atenienses.” Jones

“É importante salientar que a arte grega demorou até o século IV a.C para representar a figura feminina também como ideal de beleza.”

“o conceito de cidadania era restrito apenas aos homens que tivessem mães e pais atenienses. (…) Quando o marido trazia amigos para jantar em sua casa, a mulher e os filhos se retiravam. Cabia a elas todo o serviço doméstico. Não tinham direitos à educação formal e nem podiam participar da política. Seus atributos deveriam ser a castidade, a obediência, o conhecimento das tarefas domésticas e a economia dos gastos.”

“O homem podia repudiar a esposa sem qualquer motivo. Isto era direito legal; a mulher só podia fazê-lo em casos de provocação extrema por parte do marido. Alguns direitos à mulher autorizavam-na a freqüentar o teatro e o festival destinado às mulheres. Contudo, para os homens ela continuava a ser apenas gyne – portadora dos filhos.” CABRAL, Juçara.

“Havia o dildo, um objeto no formato do pênis que era esculpido em madeira, que era lubrificado em azeite para ser usado pelas mulheres para se satisfazerem sexualmente. A homossexualidade feminina é bem documentada, talvez num misto de sexualidade reprimida e sentimento de solidariedade entre elas.”

Se a mulher era tão “objetal”, como uma só conseguiu desencadear a Guerra de Tróia?

O penetra, o superior das festas.

“O fim dessa moral romana é claro: a subordinação da pessoa à cidade, que necessitava de habitantes dispostos a se sacrificar por ela nas guerras.”

“Este desejo de glória, de renome eterno, é sem dúvida a vingança do indivíduo que a sociedade reprimia, em vida, de mil maneiras: magistrado, não podia prosseguir a sua obra para além de um ano, chefe militar, se não tinha a sorte de obter qualquer vitória decisiva durante o seu comando, cabia ao sucessor a colheita dos louros. É perante a morte que volta a ser ele próprio, que a vida adquire valor exemplar na medida em que respeitou a disciplina em todas as suas formas: virtus, pietas e fides.” Grimal

“Na Grécia, os (…) esportes eram um exercício com um fim em si, uma arte. Em Roma, essa prática de ginástica pura foi ignorada. Os exercícios dos jovens eram uma preparação para a guerra, sem arte, sem preocupação estética.”

“As mulheres tinham uma paixão tão exagerada pelo luxo a ponto de alguns historiadores terem atribuído a isso o declínio do império, devido ao enorme gasto com importações. Elas se contentavam com isso frente ao fato de não terem direitos plenos e de ficarem basicamente restritas ao lar.”

“A forma mais comum do matrimônio era a de usus, que só tornava a união legal depois de um ano de convivência. Enquanto isso, a mulher continuava pertencendo ao pai. Essa espécie de estágio probatório era benéfica aos dois cônjuges. Outro tipo de matrimônio era o coemptio, em que se comprava a mulher pagando em dinheiro ao pai da noiva.

           O exagero prevalecia entre os homens livres. Era uma forma de se extrapolar a repressão e as exigências da vida pública, cheia de moralidades e demandas por virtude e severidade. Se na vida pública, havia uma série de restrições, no sexo tudo era permitido.

           <O conto do romano casto, corrompido pelos ‘maus vizinhos’ – os gregos – realmente é um conto. Deleitar-se em fartura de comida, de bebida e orgias não significa ‘viver à grega’, pois alugar, comprar mulheres e viver entregue aos prazeres era costume comum entre os romanos.> Cabral

           Gregos e romanos consideravam a prostituição uma peça importante na ordem social. Garantia a segurança das mulheres casadas e era vista como uma necessidade à higiene pública. Contando que os homens e as mulheres que se prostituíssem não fossem de nascimento livre, tudo era permitido, como comprar, alugar, raptar. Até as crianças que fossem escravas poderiam servir para a prostituição.”

“As orgias [de] que os romanos participavam – e que contavam com pessoas de todas as classes – ajudavam a diminuir [a] tensão da severidade que era exigida. Tudo era feito com muito exagero e[,] além do sexo, havia comida e principalmente muita bebida. Terminava com vômitos; como que para limpar a alma e se preparar novamente para as obrigações da vida pública.”

“Os novos tempos de recessão exigiam que o comportamento dos romanos também se modificasse. Antes epicuristas, os romanos passaram adotar uma moral mais austera, mais exigente. Já não se podia mais esbanjar luxo e exagero na vida social e na vida sexual. O estoicismo grego ganhava forças ao privilegiar a negação dos prazeres mundanos. Em tempos de pobreza e recessão, até a economia dos corpos se faz necessária.” Estoicismo compulsório não é estoicismo.

“Dentre as diversas religiões que sobreviviam clandestinamente em Roma, o imperador Constantino viu no cristianismo a que mais se adequava ao novo modelo econômico, que agora exigia temperança em todos os aspectos da vida.”

“A imposição das leis do Estado eram substituídas pelas ameaças do inferno e pela promessa de uma vida eterna e feliz.” Cabral

“O cristianismo não introduziu um pensamento novo. Seu grande feito foi ter dado ar sacro e metafísico a um moral que já existia, mas sob a forma pagã. Ele nasce como um socialismo primitivo, para confortar pobres e oprimidos em sua pobreza e opressão.”

João Crisóstomo e Metódi[c]o admitiam que, se os casais limitassem as carícias e a paixão, teriam chances de salvação eterna. Era consenso de toda a igreja a permissão de um só casamento, pois diziam os padres: o segundo será considerado adultério, o terceiro, fornicação[,] e o quarto, ignóbil” Cabral

A vergonha está abaixo do pecado. E eu pensando que as vergonhas eram o próprio pecado!

“O verdadeiro prazer está no mundo metafísico.”

“Santo Agostinho havia afirmado que o sexo precisava ser feito de forma pura e sem prazer para não ser pecaminoso.”

“As classes médias começavam a substituir a aristocracia na estrutura do poder.” ???

“As mulheres da era vitoriana, período compreendido entre 1840 e 1900, eram seres apáticos e de uma moralidade exagerada. O desconhecimento do próprio corpo era sinal de pureza.”

“no espaço social, como no coração de cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e fecundo: o quarto dos pais. Ao que sobra só resta encobrir-se; o decoro das atitudes esconde os corpos, a decência das palavras limpa os discursos” Foucault

fecundidade do cu

“O exagero da moralidade chegava ao ponto de se proibir consultas ginecológicas a não ser em extrema necessidade.”

“Com a transformação das esposas em guardiãs da moralidade, os homens apelavam para a prostituição, que cresceu vertiginosamente no período vitoriano. Não demorou muito para uma onda de doenças venéreas invadir novamente o mundo cristão – como havia acontecido no século XV. Com medo da infecção em massa, os governos adotaram diversas medidas para coibir a prostituição. Os maridos tiveram de voltar ao lar matrimonial.”

“Com o estudo do mundo antigo, é possível perceber que não foi por falta de capacidade técnica que o desenvolvimento da indústria se deu muito aquém do possível. Ramos cita Tales de Mileto, que desviou o curso do rio Halys, Eupalinos, que escavou um túnel de um quilômetro de comprimento na montanha de Castro, e muitos outros.”

“Vale lembrar que a etimologia da palavra trabalho é tripalium, três paus, um instrumento que subjugava escravos e animais e os forçava a produzir.”

“Os monges passam a adotar em sua vida monástica uma série de procedimentos de rotina, de sistematização, de aumento da produção e de investimento científico na agricultura, na pecuária, na botânica. Desse período surge uma série de importantes invenções para a agricultura e para a economia, como a luneta, a roda dentada, os óculos, o moinho hidráulico, o moinho de vento e tantas outras.”

“É no mosteiro medieval que as categorias de tempo e de espaço se modificam radicalmente, o relógio e o sino – elementos fundamentais no período industrial – os novos reguladores. Lá, as horas canônicas são disciplinadas pela mecânica do tempo, com as atividades sempre realizadas em intervalos regulares. Ramos destaca que é dentro da etapa medieval que transcorre uma história secreta da revolução industrial.”

“Entre as invenções mais importantes no período anterior à Primeira Guerra estão a luz incandescente, o cinema, a aviação, os raios-X, a psicanálise, a física quântica. Esses inventos proporcionaram um admirável mundo novo. O homem realiza o sonho de Ícaro, se comunica a distância, guarda o som em uma caixa de cera, vê a fotografia em movimento.

           Mas talvez a mais revolucionária e impactante invenção tenha sido o automóvel. Ele é mais que um meio de transporte: origina um novo mercado e reestrutura a organização do trabalho, modifica as bases econômicas e sociais e dá origem a novos comportamentos e costumes. No início, sua produção era artesanal e escassa, até o desenvolvimento do modelo T da Ford, em 1908, marco da história automobilística. É um veículo barato, seguro, simples de dirigir e que funcionava a base de qualquer produto que produzisse combustão. (…) Ford queria adaptar a organização do trabalho ao processo reverso de se abater e desmantelar o animal.”

“Só depois que as mulheres começarem a navegar pelo oceano e empurrar o arado; quando elas gostarem de ser acossadas e cercadas por todos os tipos de homem nas vias públicas do comércio e do mundo dos negócios; quando elas amarem a traição e o torvelinho da política; quando elas amarem a devassidão do campo de luta, o fumo dos ribombos e o sangue da batalha, mais do que amam os afetos e as alegrias do lar e da família, então será tempo de falarmos sobre as tornarmos eleitoras.” George H. Williams, senador norte-americano, 1866

“O Brasil teve sua primeira eleitora em 1927 e sua primeira prefeita em 1928, na cidade de Lajes, Rio Grande do Norte.”

“Foi Hollywood, desde os dias em que sua popularidade se disseminou – nos anos 20 – até a televisão solapar sua influência nos anos 50, que da maneira mais consistente, conscienciosa e na moda, sustentou a imagem do casamento como o objetivo natural da mulher, a culminação romântica de sua vida. Muitas mensagens foram vendidas ao público, antes e desde então, mas nunca nenhuma o foi tão efetivamente como a mensagem hollywoodiana do glamour, romance e casamento. Muito depois que a <mulher moderna> se libertou das idéias e hábitos de sua avó vitoriana, Hollywood continua a condicioná-la à crença de que o lugar e o destino da mulher estavam no lar. Não porque, como no passado, inexistissem opções para ela, mas porque essa mulher estava atada lá, pelo mágico poder do amor.” Tannahill

“O folhetim no lugar do romance, o teatro de revista no lugar do teatro”

“Surge entre os veículos de comunicação, por exemplo, o pennypress, jornal de custo irrisório, que contém notícias sobre celebridades, escândalos com homens públicos, tragédias, folhetins e faits divers. Ele não tem por objetivo informar a população acerca dos temas mais relevantes, e sim de divertir, entreter.”

“A primeira exibição feita pelos irmãos Lumière em dezembro de 1895 choca os presentes, que veem não só a descoberta científica, mas a capacidade que ela tem para espantar e surpreender.” “O cinema diverte multidões a preços baixíssimos (no século XX, ao menos) e proporciona um distanciamento da realidade. (…) Ele se projeta no outro para que não lembre de si, e no dia seguinte retorne ao trabalho – seja uma fábrica ou uma repartição pública – bem disposto.”

OS IRRECONCILIÁVEIS BENJAMIN E ADORNO: “Divertir-se significa concordar; (…) significa sempre: não ter de pensar, esquecer a dor, inclusive quando ela é mostrada. Em sua base está a impotência. Com efeito, é uma fuga: não, como se pretende, fuga da terrível realidade, mas do último pensamento de resistência que a realidade ainda pode ter deixado.” T.A. apud Wolf

Squizo-jazz of a lost soul

“Como uma droga, o prazer que advém da fuga, da diversão, vicia. Em uma estrutura social em que o tempo livre se torna cada vez mais escasso, o divertimento acaba por se tornar uma necessidade fisiológica.”

Cazuza de Massa

“Importante ressaltar que tanto na publicidade voltada para o público masculino quanto na direcionada às mulheres, é o corpo feminino que é erotizado. No primeiro caso, numa incitação da libido; no segundo, uma incitação nascisística e identificatória.”

O SUZANAVIEIRISMO: “O que conta, diz Morin, não é mais a experiência acumulada, mas a adesão ao movimento.”

“Historicamente, ela [a devoção ao belo] acelera o vir-a-ser, ele mesmo acelerado, de uma civilização. Sociologicamente, ela contribui para o rejuvenescimento da sociedade. Antropologicamente, ela verifica a lei do retardamento contínuo do bolk [termo pejorativo para designar pessoa velha e ultrapassada, caretona, ou o ato de vomitar voluntariamente, se em verbo – “to bolk”], prolongando a infância e a juventude junto ao adulto. Metafisicamente, ela é um protesto ilimitado contra o mal irremediável da velhice” Morin

“É do período pós-guerra o baby-boom, a reafirmação do papel histórico de parideira, só que desta vez com adjetivos como rainha do lar, dona de casa. Foi só na década de 60 que as mulheres começaram a perceber que a conquista do voto foi apenas simbólica.”

“No lugar da eterna alegria, havia tédio, tédio infindável.”

“Os relatórios de Alfred Kinsey mostravam que 40% dos homens eram infiéis e que 70% tinham visitado prostitutas [??]. Além disso, um sexto dos homens do campo já havia tido relações zoofílicas.”

“Nos Estados Unidos de 65, havia um divórcio para cada quatro casamentos. Em 77, um divórcio para cada dois casamentos.”

O que é uma pequena e maleável ética que se veste todo dia antes de sair à rua? Uma etiqueta.

“O final de semana é redentor. Todo feriado é santo, na medida em que salva a existência de uma morte por asfixia.”

“Foi-se o tempo da temperança. Dá-se ao consumo um valor instintivo. Ao conseguir atribuir esse valor, o consumo vira consumismo, uma necessidade do corpo que precisa ser saciada, tal a angústia que se cria quando não a alimentamos”

SAFETY COURSE

A linha de chegada é muito chata, me deixe enrolar nesta corrida circular sem ineditismos ou saídas do script.

* * *

A metodologia é o cerne da chatice. Trabalho achatado na clínica de Pasteur.

“A palavra revista vem do inglês magazine, de origem árabe, cujo significado é depósito de mercadorias. Foi no inglês que a palavra adquiriu o significado de <publicação periódica, de caráter literário, contendo leituras amenas e instrutivas, e adornada de estampas>.” NIMER, Miguel. Influências Orientais na Língua Portuguesa: os vocábulos árabes, arabizados, persas e turcos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.

“Em 1937, é lançada a revista Marie-Claire. Com um preço popular e uma tiragem de 800 mil exemplares, a revista introduz às classes menos abastadas os tratamentos cosméticos e os cuidados com moda e comportamento. Esses processos são interrompidos durante a segunda guerra, mas retornam logo após, acompanhando e estruturando as mudanças sociais. A Marie-Claire é publicada em mais de 30 edições internacionais, cada uma seguindo um modelo diferente, de acordo com a cultura do país. No Brasil, é publicada desde 1991.

“Na Itália, a imprensa feminina é o segmento mais sólido da indústria cultural. Em alguns casos, a publicidade chega a significar mais de metade do conteúdo das revistas. Entre 53 e 63, o número chega ao triplo na relação publicidade/reportagens. Além disso, nota-se um oligopólio na produção desses conteúdos, já que quatro empresas controlam ¾ da produção editorial.”

“O primeiro periódico brasileiro voltado ao público feminino foi a revista Espelho Diamantino, editada no Rio de Janeiro em 1827. Editada por homens, versava sobre literatura, política, arte e moda. Ainda nessa época de imprensa artenasal (sic!), surgiram as revistas Espelho das Brasileiras, de 1831, Jornal das Senhoras, de 1852, a primeira publicação a conter artigos de cunho feminista. Em 1875, aparece o periódico O Sexo Feminino, que contava com 800 assinaturas, feito considerável para a época. A revista possuía um olhar crítico sobre a dominação masculina através do casamento, contendo vários artigos que manifestavam apoio ao divórcio e à maior participação das mulheres no mercado de trabalho.”

Capricho, de 1952, é a revista feminina mais antiga ainda em circulação. Com suas fotonovelas, chegou a vender 500 mil exemplares por mês. Em 61, surge Cláudia. Em 1973, a editora Abril lança a revista Nova, a primeira publicação feminina a abordar temas mais polêmicos, como sexo, relacionamento e vida profissional.”

“Já Men’s Health surge nos Estados Unidos em 1987, com a proposta de criar um estilo de vida para os homens, com matérias sobre fitness, nutrição, moda e sexualidade. No Brasil, a primeira publicação de Men’s Health é de maio de 2006. Apesar de existirem no mercado diversas outras revistas voltadas ao público masculino, Men’s Health é a primeira que aborda temas que se relacionam diretamente com o conteúdo das revistas femininas, marcando uma nova etapa na construção do ideal de masculino e feminino.”

“Para as mulheres, o cuidado com o corpo antecede a exigência de um bom desempenho sexual e de se afirmar por meio dele. Para os homens, o desempenho estético do corpo é que é mais recente. Ambas as publicações reforçam e dão mais ênfase aos elementos menos consolidados nesse ideal de masculinidade hegemônica e de feminilidade enfatizada, o que explica por que em Nova o sexo é o tema mais recorrente e em Men’s Health é o cuidado com o corpo.” “Enquanto em Nova o tom autoritário prevalece, em Men’s Health ele é muito mais fraternal. A revista se propondo, como define no site e em vários de seus editoriais, a ser um mentor disposto a liberar todo o potencial do leitor.” “A ansiedade preenche o espaço entre a imagem vista no espelho e na capa da revista, e ela é um excelente motivador, pois as respostas (aparentes) para as inseguranças dos leitores também estão impressas nas mesmas revistas.”

Repetitio ad infinitum!

“Não é na depressão que devemos pensar aqui, mas na afanise, no ascetismo, na anorexia de viver. É este o verdadeiro sentido de Além do princípio do prazer. A metáfora do retorno à matéria inanimada é mais forte que se pensa, pois esta petrificação do Eu visa a anestesia e a inércia na morte psíquica. É apenas uma aporia, mas é uma que permite compreender o objetivo e o sentido do narcisismo de morte” Green

“o homem enfermo retira suas catexias libidinais de volta para seu próprio ego, e as põe para fora novamente quando se recupera.” Freud – A História do Movimento Psicanalítico

“o narcisismo primário estaria do lado deste aquém do recalcamento, do lado de um mundo não-ordenado, ilimitado, onde o Eu se confundiria com o cosmo de onde decorre sua qualificação ego-cósmica. Ora, como dissemos, a característica do narcisismo primário absoluto é a procura de um nível zero da excitação.” Stephen Hawking e o Bilhete de Suicídio do Universo (Alergia a Nozes)

“A inveja do objeto alcança seu ápice quando se supõe que este goza sem conflito. O pênis narcisista projetado (não importa qual sexo) é aquele que pode gozar sem inibição, sem culpa e sem vergonha.” Green

“Green faz o retrato de Narciso e é quase impossível separá-lo dos olimpianos de Morin.”

Torna-te quem tu és? Conhece-te a ti mesmo? Que nada: sê feliz! “Ontologicamente, o modelo da capa é a representação da realização de todos os desejos e do fim de todas as angústias, o que para as revistas se resume em pilares de posse e de consumo. Isso representa, na verdade, o instinto de morte, é Tânatos sendo produzido em escala industrial. Vende-se a solução para angústias e necessidades ontológicas, impossíveis, portanto, de serem solucionadas. A indústria cultural faz isso em essência, mudando apenas as máscaras que a encobrem. É esta a sua metafísica: é a salvação que está em jogo, que é prometida, mas ela não precisa mais esperar a morte para redimir seus crentes. Ela se encontra aqui na Terra, em valores individuais, precários e transitórios. Mas a redenção só existe para quem acredita que precisa ser redimido – e é por isso que o mal-estar exerce um papel tão fundamental na construção desses modelos de comportamento.”

“Surge a repulsa do próprio corpo e do próprio ser. O próximo passo seria a esperança.”

Algumas citações são repercutidas 2, 3 vezes. No total, temos 220 páginas. Custa tão barato iludir e tornar-se um mestre?

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