AS ARMAS CÔMICAS – Os interlocutores de Platão no Crátilo. Luisa Buarque. in: Estudos Clássicos. UFRJ/Cofecub (CAPES)

…os próprios deuses são brincalhões.”

Aristófanes – Acarnenses

A. – Aves

A. – Cavaleiros

A. – Pássaros

A. – Rãs

A. – Vespas

Ricoeur – La Métaphore Vive

Schleiermacher – Introductions aux Dialogues de Platon, 2004

Platão não faz uma história da filosofia, ou doxografia, à maneira aristotélica – corrigindo calculadamente os seus erros. Platão nos expõe, no fim das contas, um páthos da disputa.” “mais um sinal de que o filósofo não concebe predecessores históricos, já que apresenta discussões entre concepções vivas e atuantes.”

anonimato platônico” “tática do camaleão”

Sócrates se censura por ter sido mais agonista do que filósofo.”

erística, a arte da controvérsia”

a República, onde são tecidos os mais altos e respeitosos louvores a Homero e à sua obra, e onde, simultaneamente, o autor dedica boa parte de um grande livro a contestar a poesia homérica como método pedagógico, e a propor a substituição dessa poesia por sua própria filosofia. E também o Sofista, onde a reverência sincera ao mestre Parmênides acaba dando lugar a um parricídio que mais parece um genocídio, visto que leva ao túmulo junto com Parmênides grande parte da tradição eleata, assim como parte da sofística”

quais são as personagens históricas implicitamente chamadas à cena junto com Sócrates, Crátilo e Hermógenes?”

Com o nascimento da etimologia científica no início do séc. XIX, iniciou-se uma forte tendência a tratar o Crátilo como um diálogo distinto da maioria dos outros diálogos platônicos.” “a prática desenvolvida no Crátilo só pode ser considerada <etimológica> se esse termo for entendido em um sentido distinto do sentido moderno.”

P. está atacando uma tendência do pensamento grego de superestimar as palavras; um tal ataque frontal à cultura grega requer uma exposição meticulosa dos maus hábitos lingüísticos.” Baxter, 1992

P. tenta exorcizar a fascinação generalizada de seus contemporâneos por todas as hermenêuticas de seu tempo, rapsódica, trágica, religiosa e gramatical, que pretendiam fazer economia de uma ontologia.” Dalimier, 1998

Cálias gastara muito dinheiro com os sofistas; esse é, diga-se de passagem, um dos chistesmais bem formulados do diálogo”

O adivinho Eutífron, como se sabe, é personagem central do diálogo homônimo, que não por acaso é também um diálogo de coloração cômica. Eutífron, <espírito obtuso> segundo Méridier (2003), p. 17, costuma ser motivo de zombaria; o povo de Atenas escarnece dos seus delírios oraculares.”

se muitos afirmavam ser impossível dizer o falso tomando como base a identificação parmenídica entre ser, pensar e falar, o corolário mais perigoso de tais afirmações pode ser resumido, precisamente, pela idéia protagórica de que a diferença entre os discursos está apenas em sua eficácia e utilidade, e não em sua verdade, ou capacidade de gerar conhecimento.”

o essencial da cultura grega era heraclítico avant la lettre.” “Heráclito é o corifeu de um coro, é a mosca de um alvo que deve ser derrubado por inteiro.” “afirmar que tudo flui significa afirmar que o que antes era verdadeiro pode virar falso, de modo que não há nem sujeito de conhecimento estável nem objeto de conhecimento para ser conhecido. A ética se torna cambiante, a linguagem se torna praticamente inútil e o conhecimento impossível.” “o relativismo protagórico tem sua versão ontológica na transformação incessante dos entes, isto é, no relativismo heraclítico, e este encontra sua versão ética nas afirmações protagóricas.” “a doutrina heraclítica do fluxo e a doutrina protagórica do homem-medida.”

<A medida de todas as coisas é deus> P. em seu último diálogo, Leis, 716c4. Dinamitando a Antropologia Existencialista! Erguendo picos de dinamite para que a Europa vivesse sempre no perigo de explodir tudo…

Crátilo fala por meio de oráculos – talvez imitando seu mestre Heráclito”

O nome, para os gregos, possui uma virtude mágica, ele pode exprimir o caráter daquele que o leva e está ligado misteriosamente à sua pessoa. Donde as práticas de feitiço e de sortilégio que repousam freqüentemente sobre a crença de que se pode ter poder sobre um homem por intermédio de seu nome. Os nomes dos deuses são sagrados; as teogonias costumam explicar a essência de uma divindade pelo seu nome.” Goldschmidt, 1940

a etimologia do nome de Hermógenes é absolutamente simples e clara”

Ver, quanto às etimologias dos nomes de Aquiles, Pátroclo, Héracles, Enéas e Demódoco, entre outros, G. Nagy (1979).”

em Homero, e talvez na épica em geral, por exemplo, o nome, muitas vezes, traz em seu bojo toda a história da personagem, contém em potência o desenvolvimento do enredo daquela vida.”

os jambos, dos quais parece derivar a comédia.”

1) provavelmente a injúria pode ser assimilada ao nome próprio porque desempenha a mesma função de apelativo; 2) distintamente do nome próprio, que identifica sem atribuir nenhuma qualidade ao seu portador, aquela qualifica.” Saetta-Crotone (2005)

Crátilo é conhecido pelo extremismo narrado por Arist.: não é possível entrar nem mesmo uma vez no rio de Heráclito. Crátilo é, por assim dizer, mais realista que o rei.” “na Metafísica, Arist. diz que Crátilo fôra o primeiro professor de P., de modo que o filósofo ateniense teria sido extremamente marcado pela doutrina heraclítica.”

Aristófanes é um escritor particularmente sensível aos níveis de linguagem e à tonalidade das palavras. Foi possível provar, p. ex., que ele conhecia perfeitamente o vocabulário técnico da medicina e que suas comédias apresentavam inúmeros pontos de encontro com o corpus hipocrático. Da mesma forma, ele tem consciência da distância que separa a linguagem épica da linguagem comum.” Lamberterie, 1998

A relação de profunda admiração e rivalidade entre Aristófanes e Eurípides se revela das mais variadas maneiras e é assunto para toda uma vasta bibliografia.” “Eur. é assim tratado em As Aves como os próprios sofistas, sem maldade, mas antes com uma simpatia um pouco irônica, que mostra que aquele que zomba dele não é insensível ao que ele tem de sedutor.”

O trocadilho de Strepsíades, que liga o início e o fim da obra, tem muito mais importância do que aparenta ter à primeira vista.” “Sócrates se posiciona claramente contra a tese de que tudo flui, afirmando que, segundo ela, <nada é são, e tudo escoa e vai como vasos de argila>.” “o filósofo apresenta a mesma comparação entre o movimento rotatório dos pensamentos e dos argumentos dos sábios e o movimento giratório da fabricação da cerâmica: a vertigem circular dos sábios em geral (que também se encontram embaralhados em um mesmo saco)” Barthes diria: mas não é isso o ápice do dizer-sim nietzscheano?

uma utilização platônica de noções portadora da crítica aos pretensos sábios, que com sua propalada sabedoria, acabam por confundir-se e levar os outros à confusão.” Reversão ad infinitum do argumento: seu autor, sua melhor vítima. Está para nascer o homem que irá parar a roda…

Ao reino do turbilhão no pensatório, que se revela ao fim ser um mero reino do vaso de argila” Há quem enalteça a olaria!

utilização dúbia, em ambos os contextos, da crítica ao deus ex-machina. Na peça, é a máquina que traz Sócrates. Ela é utilizada, portanto, como recurso do próprio comediógrafo para destacar a entrada em cena de um de seus personagens principais. Recurso verdadeiramente cômico, porém, já que, ao contrário da utilização tradicional deste mesmo expediente pelos tragediógrafos, o fato de chamar atenção para o próprio recurso utilizado é parte integrante do uso aristofânico. (…) O curioso é que o Sócrates platônico, assim como o de A., utiliza a mechané. Porém, ao contrário deste, utiliza-a, mas rejeita-a posteriormente, explicitando que sua utilização anterior havia sido desonesta com seu interlocutor”

<quanto mais alto é o coqueiro, maior é o tombo do coco>. Eleva-se à maior altura possível a tese adversária para que sua queda seja mais longa e definitiva.”

Aristófanes opera um redobro da anedota: se Tales havia apenas caído em um buraco, o que já era ridículo, Sócrates torna-se duas vezes mais ridículo. Pelos mesmos motivos (isto é, por olhar para o céu para examinar os astros), uma lagartixa defeca em sua boca, o que faz com que Strepsíades corra para a sua escola, julgando que, sendo duas vezes mais ridículo do que Tales, será também duplamente útil a seus propósitos.”

Como nota Chambry (1967), no diálogo Protágoras, todo o ambiente foi tomado de empréstimo da comédia de Êupolis, Os Aduladores, também passada na casa do rico Cálias e que pinta como aduladores os sofistas, dentre os quais figura o próprio Sócrates.”

O filósofo não é retórico (Górgias), nem sofista (Sofista), nem político (Político), nem poeta (República). Mas, por outro lado, é o verdadeiro retórico (Fedro, 271a-272b), o verdadeiro Político (Górgias, 521d) e o verdadeiro poeta (Fédon, 61a e Leis, 817b2-3).”

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