O mito da ascensão social baseado no domínio culto da língua portuguesa (e estrangeirismos), apresentado de forma sócio-histórica [2.0]

  • Conceito e evolução da prática do CORONELISMO:
    • Trata-se de um fenômeno que, embora não particularmente brasileiro, é muito específico de nossa formação: desde nossas origens como Colônia, na pirâmide social a elite privilegiada é uma OLIGARQUIA AGRÁRIA muito difícil de contestar principalmente nos grotões mais inacessíveis do país, onde a dominação impessoal do Estado se faz ver com menos força;
    • Num segundo estágio, o coronel se alia à República para oficializar seu mando, que já era prático.
    • Mesmo com a possibilidade das eleições e a ampliação do voto censitário, a política da ameaça implícita ou explícita e o esquema da troca de favores (a popular “compra de votos”) pôde manter muitas dinastias coronelistas na extensão do território brasileiro.
    • Com a urbanização acelerada do Brasil no séc. XX, o coronelismo é considerado em degeneração, mas não morto.
    • O latifundiário é, enquanto “dono dos meios de produção”, o “instituidor da linguagem” e o representante-mor da desigualdade na distribuição de renda nacional.

  • CARREIRAS – Planejamento familiar dos clãs dominantes (recorte “Brasil-Colônia” até “República Velha”, com resquícios na modernidade):
  • Filhos homens como preferência
  • Carreiras ideais:
  • Direito (o ideal: o juiz da comarca)
  • Medicina (o ideal: o único médico da população)
  • Teologia (o padre era o culto ou intelectual da aldeia, do município, e era muito mais influente politicamente do que na contemporaneidade; exercia as funções de diplomata; dominava várias línguas, produzia em Latim, fazia a ponte entre o poder secular “católico” e o “perdão divino” – sem a Igreja e seus representantes nomeados, seria inconcebível um processo de colonização em massa como fôra realizado.)
  • À mulher cabia a função de “guardiã do lar”, costureira, cozinheira;
  • Com o afrouxamento das “exigências sociais”, elas puderam desfrutar de uma educação liberal (ter professores particulares, aprender a gramática, a se portar com etiqueta, receber aulas de música, etc.). Muitas filhas, à puberdade, eram enviadas para conventos, para ser freiras, súditas dos padres, sem liberdade de convicções; deveriam apenas repercutir o status quo.
  • O patriarca ainda tinha de arcar com o dote. Em contrapartida, um filho bem-nascido faria jus a uma filha bem-nascida de outro patriarca.
  • Modos de transmissão da carreira:
  • Filhos (transmissão hereditária e sangüínea);
  • “Apadrinhados” sob a relação de cunhadismo ou compadrismo (os amigos da família ou protegidos também eram educados nos mesmos moldes – poderiam retribuir o favor mais tarde, beneficiando os membros da família que o patrocinou).

COMENTÁRIOS ANALÍTICOS:

  • Esse cenário não se modificou tanto com o decorrer do processo de colonização, com a “independência” do Brasil, nem muito menos com a proclamação da República, que foram movimentos circunscritos às elites, mesmo que contassem com revoltas populares regionais, o mais das vezes abafadas pelo Poder Público (ex: Inconfidência Mineira).
  • REPERCUSSÕES NA ATUALIDADE: Ainda ouvimos muito o papo da “grande carreira que irá garantir o futuro do meu filho e dos meus netos” na boca mais até dos “cultos” do que do “povão”. E onde há uma grande carreira há um grande conjunto hermético de jargões.
  • “O que importa é ser feliz” ainda é uma visão muito moderninha sobre vocação profissional.
  • A prova de que a norma culta é só uma etiqueta, sem valor por si só, é a situação dos Professores de Português (Gramática clássica) no Brasil, tirando as conhecidas exceções (personalidades e celebridades como Pasquale ou professores notórios de cursinhos, que ascendem socialmente).

MARCOS BAGNO CITA:

  • “A violência urbana está intimamente ligada a uma situação social de profunda injustiça, que dá ao Brasil, como eu já disse, o triste segundo lugar entre os países com a pior distribuição de renda de todo o mundo, perdendo apenas para Botswana, um país africano desértico, muito menor e muito menos desenvolvido.”
  • Mesmo se a posição do Brasil no ranking tenha se modificado e melhorado após a publicação desta 49ª edição do livro “PRECONCEITO LINGUÍSTICO”, a desigualdade de renda no Brasil continua alarmante, muito pior que outros indicadores sociais baseados estritamente na MÉDIA DA RIQUEZA CALCULÁVEL dividida pelo NÚMERO ABSOLUTO DE HABITANTES (IDH, renda per capita…).
  • COMPLEMENTAÇÃO:
  • Índice Gini 2013 (pré-GOLPE ANTI-DEMOCRÁTICO): Brasil 82.1 pontos, 15º entre 182 nações (termo de comparação: Botswana: 34º).

 

VIDA & MORTE DO “PIOR” DOS CORONÉIS – Horácio de Matos (1882-1931, Bahia)

 

Descendente do tio; condecorado pela Guarda Nacional; sufocador de resistências, inclusive comunistas. Elegeu-se Senador e fez o que quis durante a república do café-com-leite.

Morte irônica: “Apesar de uma vida pautada pelo belicismo, almejava o desarmamento do sertão e, quando este finalmente ocorre, morre assassinado em circunstâncias misteriosas, após ter sido imotivadamente preso pelo governo getulista instalado na capital baiana.”

 

BÔNUS LITERÁRIO

 

“Jargões” que “embasbacam”: assim como o primeiro grupo citou uma EMENTA de PROCESSO ininteligível para “o comum dos mortais”, não são raros trechos literários em que nossos escritores satirizam a condição social que imperava entre os mais favorecidos. Um exemplo a propósito vem do romance A MORENINHA, de JOAQUIM MANOEL DE MACEDO (vamos reproduzir alguns trechos que bem o demonstram):

Numa determinada cena, uma jovem desmaia. Um séquito de médicos (4 rapazes recém-formados) tentam descobrir quais foram as causas do desmaio, e começa um debate realmente excêntrico e engraçado (alguns trechos foram recortados por questões de tempo e espaço – NEGRITOS NOSSOS):

– Eu diagnostico uma baquites. Concebe-se perfeitamente que as etesias desenvolvidas pela decomposição dos éteres espasmódicos e engendrados no alambique intestinal, uma vez que a compressão do diafragma lhes cause vibrações simpáticas que os façam caminhar pelo canal colédoco até o periósteo dos pulmões…

– C’est trop fort!… [outro personagem contesta em francês, obviamente pouco falado nas camadas mais populares, e mesmo nas mais ricas]

– Daí, passando à garganta, perturbam a quimificação da hematose, que por isso se tornando em linfa hemostática, vá de um jacto causar um tricocéfalo no esfenóide, podendo mesmo produzir uma protorragia nas glândulas de Meyer, até que, penetrando pelas câmaras ópticas, no esfíncter do cerebelo, cause um retrocesso prostático, como pensam os modernos autores, e promovam uma rebelião entre os indivíduos cerebrais: por conseqüência isto é nervoso.

(…)

– Sangue! sempre sangue! eis a Medicina romântica do insignificante Broussais [autor desconhecido a não ser para estudantes]! mas eu detesto tanto a Medicina sanguinária, como a estercorária, herbária, sudorária e todas as que acabam em ária. Desde Hipócrates [fundador da arte da Medicina], que foi o maior charlatão do seu tempo, até os nossos dias, tem triunfado a ignorância, mas já, enfim, brilhou o sol da sabedoria… Hahnemann [outro autor obscuro]… ah!… quebrai vossas lancetas, senhores! para curar o mundo inteiro basta-vos uma botica homeopática, com o Amazonas ao pé!… queimai todos os vossos livros [aqui o autor usa um argumento que faz deboche do próprio palavrório indiscrimado da turma], porque a verdade está só, exclusivamente, no alcorão de nosso Mafoma [Mafoma era um médico – seu livro era tão importante que era considerado sagrado], no Organon do grande homem! Ah! se depois do divino sistema morre por acaso alguém, é por se não ter ainda descoberto o meio de dividir em um milhão de partes cada simples átomo da matéria! Senhores, eu concordo com o diagnóstico de meu colega, mas devo combater o tratamento por ele oferecido. (…) Ouçam-me. Uma mulher padecia este mesmo mal; já tinha sofrido trinta sangrias; haviam-lhe mandado aplicar mais de trezentas bichas [sanguessugas, método antigo], purgantes sem conta, vomitórios às dúzias e tisanas aos milheiros; quis o seu bom gênio que ela recorresse a um homeopata, que, com três doses, das quais cada uma continha apenas a trimilionésima parte de um quarto de grão de nihilitas nihilitatis [de “nada”, traduzindo! Usar o Latim também era sinônimo de chiqueza], a pôs completamente restabelecida; e quem quiser pode ir vê-la na rua… É certo que não me lembro agora onde, mas posso afirmar que ela mora em uma casa e que hoje está nédia, gorda, com boas cores e até remoçou e ficou bonita… Outro fato.

(…)

como, pois, se arrojaria Paula a morrer, contra a ordem expressa dos quatro hipocratíssimos senhores?…”

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR:

Sobre coronelismo, procurar REGO e LEAL.

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