Sobre o Niilista Não-Suicida [REPRISE]

Este é um post um pouco diferente para os padrões do Seclusão. Trata-se do primeiro de uma série (intermitente, irregular) de “missão:resgate” de textos clássicos de um jovem escritor que já escreveu muito: em que pese eu ter 30 anos e alguns meses, há mais de 10 anos sou um autor, e com isso quero dizer: com textos em nível de publicação, sem constrangimento para todos os eventuais envolvidos. Quanto à qualidade dos meus “textos de juventude”, se meu comentário pareceu PRESUNÇOSO, serão vocês mesmos os melhores árbitros… Apreciaria em alto grau este “feedback com lag”, mas é bom lembrar que eu não voltaria a escrever o que então escrevi, embora consiga me ler melhor, hoje, ao reler meu eu-antigo. A série é inaugurada hoje e possui algumas características distintivas: sempre terá a marca [REPRISE] no título, e as hashtags se referirão de forma mais literal ao conteúdo, com termos-chaves contidos no próprio texto ou nele subentendidos, e abdicarei também das categorias criadas pela interface do WordPress, mais “objetivas”, neste caso em especial. Analogamente, ao invés de virem no cabeçalho do post, as tags virão logo acima do texto, isto é, logo abaixo deste parágrafo introdutório. Chega de falação: espero que possam desfrutar! Nos vemos…

#Literatura #GabrielGarcíaMárquez #NiilismoNegativo #Suicídio #eutanásia #SolidãoProfunda #LeiamaBiografiadeumHomemChamadoGuyDebord! #náusea #infinito #sim #ansiedade #laconismo #Moral #PedidodeSocorroInconsciente #AMaratonaIncomunicáveldoCristão(DonzeladeFerro) #Musas


Sábado, 07 de Julho de 2007

Já leu Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez? O fim dos Buendía é o fim intelectual do homem que descobre e acredita no niilismo. Chega-se ao fim do trilho. Nada é mais doloroso do que constatar o paradoxo da existência. Do que esse limbo entre o natural (o instinto de sobrevivência, a vontade biológica de perpetuar a espécie e de conservar a vida no tempo) e a anulação da vontade de viver atingida pelo intelecto, possível apenas, por enquanto, no ser humano. Tenho vontade de encerrar o Blog, mas só o encerrarei se encerrar a vida. Deveria haver um posto médico chamado “eutanásia niilista”, onde uma injeção matasse o indivíduo indolormente. Indivíduos que deveriam apenas entrar, conversar com um especialista para que ele expusesse todas as conseqüências, para que averiguasse se aquela pessoa é realmente niilista, compreende o niilismo, e por último bastaria um SIM, sem mais delongas, para o fim. A anulação da existência. Como não há tal posto, a vida realmente fica complicada. Há, além dos instintos naturais, muita censura social em relação a atitudes depressivas e suicidas. É impossível dizer o tempo todo aos amigos desse sentimento, é impraticável ter esse tipo de conversa com os pais, o que apenas perpetua o sofrimento, que deve ser mantido tão em segredo quanto possível, e a agonia do indivíduo, que precisa viver até que suas células já não agüentem mais o tranco. Maioria dos suicídios amadores (e todos o são, pois não há o posto médico para os partidários da eutanásia niilista, como eu expus) dá errado, ou é doloroso. Por isso a pessoa ainda refuga na hora da execução. Seria tão fácil se as garantias fossem ilimitadas…

O grande problema do homem é descobrir que não há sentido na vida. Que é uma contradição a condição de ser humano e, pior, o próprio homem descobre, em certo ponto, essa contradição. Quando a Humanidade incluiu essa descoberta em seu legado, mudou – para sempre. Deus está morto.
Marx está morto. A razão está morta! O ego está morto, basta querer. Sem baluartes, sem mesmo o super-homem de Nietzsche e sua televisão, que você preferiu desligar, junto com a Sociedade do Espetáculo, só sobra o ímpeto de apagar-se.

É ultrajante a condição de querer e não fazer. É uma agonia que permanecerá até a morte do niilista. É como o noivo que pede a noiva em casamento e espera alguns segundos ou frações de segundo pelo tremular afirmativo de sua boca ou gestos que igualmente sinalizem o “sim”. Mas pense nessas frações de segundo como a vida inteira de uma pessoa: uma ansiedade cortante, o imprevisto, o querer se matar e não poder, será que um dia se se matará, será que um dia será criado um sentido para a existência, será que, o pior de tudo, esse estado de dúvida plena permanecerá até a morte natural (não-suicida) do sujeito niilista? Este texto é perigoso, é! Desculpe, mas poucos irão entender. Se você entendesse, você estaria na mesma situação de fim de trilho e de desamparo que eu. Por favor, para os que não entenderam, não chamem um psiquiatra, não liguem para o hospício, não ensaiem discursos moralistas, pois eu sou amoral. Apenas me deixe[m] quieto. Ria, se for o caso, se não conseguir se conter. Mas seja lacônico em suas considerações.

Descobrir e ser partidário do niilismo e do determinismo, e ser impossível deixar de ser, pois todo o resto é tão idiota quanto (a razão, Deus, o Estado e o ego, tudo isso é tão idiota quanto a desrazão, a falta da divindade, a ausência do Estado e o esmagamento do ego, pois o niilista é o nada, é o zero, é tudo é a mesma coisa, e todas as coisas não são nada – por que “existe-se?”), é como descobrir que todos vivem nas chamas do Inferno. A diferença é que o não-niilista não vê as chamas, não sente as chamas. O niilista passa a sentir a queimação. São chamas que não irão matar, apenas promover o suplício “eterno enquanto dure”. E infelizmente o ser humano é equipado com um aparato animal que qualquer código genético encerra: somos impelidos a viver. A viver nas chamas, no suplício? Ou são as chamas, ou são as trevas. As trevas de deixar de existir. E o ser humano abomina essa idéia. Acha-se importante. Tantas gerações viveram antes dele sem nenhum prejuízo, mas ele insiste em achar que ele é um diferencial, que ele está no mundo e não poderia ser diferente, que a inexistência é a tragédia. O esquecimento é, desde os gregos, aquilo que se deve evitar de todas as formas. A ironia é que o niilista entende que deixando-se ou não de viver, nada importa mesmo, ou mesmo que importe temporariamente o destino fatídico é, cedo ou tarde, cair no esquecimento completo, do qual durante a vida pretendemos fugir. Pode ser interpretado assim também o dia-a-dia do niilista: um corredor de uma maratona eterna, que não consegue esgotar suas energias, desmaiar, não lhe é permitido desistir, mas ele vai ficando cada vez mais estafado e o sofrimento é sua única companhia.

Como não pratiquei o suicídio, não entendo o mecanismo que leva um postulante ao mesmo [a] fazer ou não seu ato pretendido. Dizer que “é porque há uma razão, que deve ser criada pelo ser, para continuar vivo” é presunção. Aquele que conseguiu morrer poderia ser enquadrado nisso. A diferença é que ele morreu, se livrou! E eu?! E nós? Nesse limbo terrível e maldito, de ser homem, de estar nas chamas e querer pular nas trevas, e não conseguir pular, e mesmo os que eventualmente pulem, tudo, tudo… Tudo redunda e é o NADA… Existimos?

* * *
Como disse, fecharia o Blog se pudesse fechar todo o resto comigo. O Blog não será fechado, embora não haja o mínimo sentido em nada publicado nele. Não foi o primeiro nem o último post.

{fim do texto de 07/07/07 – uau, que data macabra! Todos os grifos, como negritos e mudanças de cor, além dos raros colchetes, foram adicionados hoje.}

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s