DO CAOS AO BARRO, DA LAMA AO CAOS: Lisboa, 1755

Este microconto foi inspirado – ou é a “tradução intersemiótica música-conto” – pelo álbum conceitual “1755” da banda portuguesa e lisboeta Moonspell (lançado em 2017).

 

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…Do caos primordial Deus criou o que não havia e fez a Terra, que era boa. E, insatisfeito, fez da terra o Homem, que era ainda melhor. Mas queriam os desígnios divinos insondáveis que, após uma passagem incalculável – da perspectiva humana – de tempo, a lama regressasse ao caos, sem destruir a perfeição de todo o seu Plano. Vamos direto, como um diretor de teatro que anseia por montar o cenário do Epílogo para a platéia em suspensão e ansiedade asfixiantes, ao desfecho desta história: Lisboa, capital portuguesa, Ano do Domínio da Igreja Apostólica Romana 1755.

A humanidade, ao menos a parte devota, sempre especulou sobre o quando e o como do seu fim. O livro de João, o João profeta apocalíptico, não o primeiro João, benévolo, nunca falou de forma clara. Sua poesia enunciativa e admoestadora dificilmente poderia ser entendida senão de forma figurada, críptica. Como, afinal, seriam os cristãos julgados no Último Dia, no Segundo Advento de Jesus Cristo? Seria através de ondas de fogo, labaredas que chovessem dos céus, uma guerra inaudita entre todos os homens com armas brancas ou pólvora, ou mediante um Neo-Dilúvio, uma tsunami? Na virada de 999 d.C. para o ano 1000, muitos padres e intérpretes autorizados pelo Papa anunciavam a chegada da marca fatal – que não veio, a despeito da virada cabalística. Mas o Eevento estava cada vez mais próximo, isso nenhum lógico, beato ou herege, poderia negar. Certamente não demoraria mais um milênio inteiro! Havia sinais…

As sucessivas gerações corruptas de homens apenas atestavam as Escrituras, página por página, crime por crime, e ignomínia por ignomínia. Permita-me, no entanto, aludir, em meio a matéria tão importante: as gentes que discorriam sobre o Apocalipse sempre se olvidavam do onde, como coisa óbvia, autoevidente demais! Talvez tivessem pensado que o cataclismo final sobreviria de forma simultânea sobre todo o globo terrestre, circunavegado por Fernão de Magalhães ainda no século XVI. Mas, de forma simbólica, e, repito, só Deus sabe o porquê, a Hecatombe, ou pelo menos seu epicentro, pois não chegaram mais notícias ao autor deste manuscrito, se deu inopinadamente em Lisboa, afetando o coração da nação que ousou, a primeira de todas, dominar o mundo com bravura, sendo não obstante tão pequena em território e escassa em número.

Então foi assim que se deu, no local referido: as fundações, onde pisam os homens, foram de repente desestabilizadas. O concreto virou virou areia. Onde não virou areia, cindiu-se; e o horizontal verticalizou-se, e o vertical deitou-se. Formou-se uma onda de choque. As placas tectônicas africana e euroasiática se atritaram com veemência e ferocidade. Abismos se abriram. A força inigualável, imparável, inanalisável, colossal, arrancando raízes de árvores ancestrais, desabando edificações, gerando montanhas em planícies, desfigurando planaltos e achatando e homogeneizando picos e vales, sem discriminar nenhum panorama, fez-se sentir por todas as criaturas mortais lusitanas. Aquela força, em suma, que os pagãos teimam em chamar pelo simples e neutro epíteto de “Natureza”.

Na cidade não havia mais a Mão do Homem, só a Mão Todo-Poderosa da tal “Natureza”. E logo não havia mais cidade. Apenas um sítio arqueológico sem arqueólogos para estudá-lo e escavá-lo.

Se uma voz então dissesse alguma coisa, é provável que dissesse: – É porque te amo tanto, Homem, que ouso fazê-lo! Um fim indolor e grandiloquente. Uma ópera geográfica, geológica, grave, dissonante, profunda. – Assim se expressaria, decerto, o Diretor desta magnum opus da aniquilação.

Vede, todos são já cadáveres; mas é como se ainda escorresse o sangue em profusão. Vede! Para quê todas as tumbas do passado? Eis um cemitério muito mais eficaz e superlativo, muito mais imediato; a todos escapa a luz do sol, as caveiras ocupam o devido lugar, sem cerimônia, sem velo, sem coveiro – a não ser Um só.

E não há chamas, mas é como se tudo ardesse. E já nada se move, mas é como se as pedras não cessassem de rolar e o chão nunca deixasse de desmoronar, o destino de deslizar… A morte se tornou um quadro eterno que precisa se completar na Estática da beleza da tragédia. Nem um chiado branco se houve nesse negro dia. Está-se diante do retrato humano mais belo, porque nenhum artista de talento acabado e com os modelos mais perfeitos à mão poderia reproduzir esta… cena. Já narrada há tanto tempo, em linhas tortas, por João, não custa reiterar.

Quarenta foi o número de fundações de templos de igrejas caídas, soterradas, pulverizadas, esfareladas, como se elas representassem mais do que as centenas de milhares de seres humanos que desapareceram em fugazes instantes. E se houvesse 666, o número da besta em templos seria escombros, igualmente. O Poder Supremo não faz concessões à aritmética. Nenhum camelo atravessou qualquer agulha. Lisboa foi Sodoma, foi Gomorra: ricos e pobres jazem agora juntos, só corpo, sem alma, condenados, sem dúvida, pelo previdente Juízo Divino. Dentre todos, ninguém se encontrava à destra do Livro. Não havia nenhum Eleito na cidade de Lisboa.

Um dia, e este dia foi Primeiro de Novembro, véspera do Dia dos Mortos, os conquistadores dos Sete Mares, exaltados por Camões, foram marcados — pelos Sete Pecados. E abatidos num átimo por Quatro Navegadores-Bestas, Anjos-Vingadores. Que sirva esta história que já começou em ruínas como alegoria — do frágil destino humano: oriundos do pó das dignas Estrelas, estamos fadados a decair do material de que fomos feitos, o Barro Celeste, à Sepultura infecta, às recônditas cavernas do Hades, indiferentes a noções tais quais ordem e caos…

 

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CURIOSIDADE HISTÓRICA: Realmente houve um grande terremoto em Lisboa no ano de 1755, ou “sismo”, como chamam os portugueses. Registra-se que pelo menos 1/3 da cidade foi totalmente destruído. No litoral, houve a formação de ondas de 20 metros de altura e a ocorrência de múltiplos incêndios nos destroços deixados. A Livraria Real foi consumida pelo fogo, perdendo-se livros que remontavam à Idade Antiga, perda imensurável de tesouros que nos faz lembrar de Alexandria mas também do descaso que acabou por “assassinar” nosso Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018. Não havia condições de medir os tremores como hoje se faz, mas especula-se que este evento atingiu de 8.5 a 9 pontos na escala Richter. Estatísticas, consideradas inconfiáveis pelos sismólogos mais pessimistas, que julgam que a mortandade foi muito maior, apontam para 10 mil vítimas fatais àquela ocasião.

O grande desastre serviu como catalisador para o surgimento da própria sismologia moderna e foi citado por pensadores de primeira grandeza, como Voltaire, em ensaios de cunho filosófico.

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