HÍPIAS MENOR ou DA MENTIRA

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

 

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

 

(*) MOTE DO DIÁLOGO: “qual dos dois personagens célebres da mitologia, Aquiles ou Ulisses, é superior?” – A.P.V.

(*) “Como sói acontecer nos diálogos desta fase de Platão, a conversa culmina numa aporia: os personagens chegam a um fim sem apresentar soluções ao problema e encerram a obra reconhecendo sua ignorância.” – A.P.V.

“SÓCRATES – Muito bem, Eudico. Com muito prazer é que perguntaria a Hípias sobre algumas das coisas que ele afirmara com respeito a Homero. Ouvi dizer, da parte de teu pai Apemantes, que a Ilíada de Homero era um poema melhor que a Odisséia, sendo aquele mais belo que este, tanto quanto é Aquiles superior a Ulisses. (…) Desejaria, pois, saber de Hípias, se não se aborrece, claro, o que pensa destes heróis e qual dos dois prefere, levando em conta que já discursara sobre tantas matérias e acerca de tantos poetas, particularmente o Pai de todos, Homero.

EUDICO – Esteja certo de que qualquer pergunta que fizeres a Hípias será respondida sem demora. Não é isso mesmo, Hípias?

HÍPIAS – Incorreria eu em grave falta se, acostumado como estou em ir da Élide, minha pátria, a Olímpia, participar das assembleias gerais do povo grego durante os jogos, aberto a todo tipo de questão e debate, me negasse agora a fazer o mesmo com Sócrates!

SÓCRATES – Ó Hípias! Ditoso de ti se a cada Olimpíada te apresentas no templo com a alma tão confiante em tua sabedoria! Muito me espantaria deparar com um atleta que exibisse tua mesma segurança, que confiasse nas próprias forças do corpo tanto quanto tu confias no poder de teu espírito.

HÍPIAS – Se penso bem de mim mesmo, não é em vão, Sócrates; desde que comecei a freqüentar os jogos olímpicos nunca encontrei adversário a minha altura.

SÓCRATES – Decerto, Hípias, teu renome é um monumento reluzente de sabedoria para teus concidadãos da Élide, e ainda mais para os que te geraram!”

“HÍPIAS – (…) Homero fez de Aquiles o mais valente de quantos guerrearam em Tróia; de Nestor, o mais prudente; e de Ulisses o mais astuto.

SÓCRATES – Pelos deuses, Hípias! Concordarias em conceder-me um desejo? Não é difícil: é não troçar de mim, quando verificar que eu compreendo apenas com bastante esforço o que tu dizes, e se me mostro tão importuno ao perguntar aquilo que ignoro. Por favor, te peço que respondas com doçura e complacência a minhas dúvidas!

HÍPIAS – Seria indelicado de minha parte, Sócrates, agir desta maneira, sendo eu um professor. Seria ilícito que eu que recebo a paga por ensinar tantas pessoas e estou acostumado ao ofício e tenho tato para a coisa não te oferecesse a indulgência e a polidez que são de ordem.”

“SÓCRATES – (…) Não é Aquiles representado igualmente como astuto?

HÍPIAS – De jeito nenhum, Sócrates. Ele é representado como o homem mais sincero. Quando o poeta escreve o diálogo de ambas as figuras, assim se expressa Aquiles:

– Ó nobre filho de Laerte, o sagaz Ulisses, é preciso que te diga sem rodeios o que penso e o que estou disposto a fazer, porque me é adverso tanto quanto são as portas do Hades o ver gente que dissimula e esconde suas reais intenções. Por conseguinte, dir-te-ei sem delongas tudo que tenciono fazer.

            Percebeste o quanto este trecho demonstra a sinceridade de Aquiles e o caráter astuto e dissimulador de Ulisses?”

“Por astuto me parece que subentendes <mentiroso>.”

“SÓCRATES – Homero cria que o homem veraz e o mentiroso são dois homens, nunca o mesmo.

HÍPIAS – E como haveria de ser de outra maneira, Sócrates?

SÓCRATES – Logo, tu pensas igual.

HÍPIAS – Decerto que sim, e seria bem estranho discordar neste tocante! Esta era o título, entre os antigos, do nono livro da Ilíada.

SÓCRATES – Procedamos assim: abandonemos por ora a Homero, tanto mais quanto não nos é permitido consultar a opinião oculta de alguém que já morreu. Sem embargo, já que comungas com ele no essencial, responde-me a um só tempo por ele e por ti.”

“SÓCRATES – Crês que os homens mentirosos são homens incapazes de fazer alguma coisa, como por exemplo os doentes, ou consideras que os mentirosos são capazes de fazer algo?

HÍPIAS – Tenho-os por bastante capazes; e dentre suas capacidades está a de enganar os demais.

SÓCRATES – Segundo o que dizes, os astutos são igualmente capazes; não é isso mesmo?

HÍPIAS – Não erras.

SÓCRATES – Os astutos e os mentirosos são tais por imbecilidade e defeito natural, ou por malícia guiada pela inteligência?

HÍPIAS – Por malícia.

SÓCRATES – Logo, são inteligentes, conforme todos os indícios?

HÍPIAS – Por Zeus, Sócrates! E muito!

SÓCRATES – Sendo inteligentes, sabem ou não sabem o que fazem?

HÍPIAS – Sabem-no perfeitamente bem, e porque o sabem fazem mal.

SÓCRATES – Sabendo o que sabem, são ignorantes ou instruídos?

HÍPIAS – Instruídos, na arte de enganar.

(…)

SÓCRATES – Os homens sinceros e os mentirosos diferem entre si, e são ao mesmo tempo o oposto um do outro.

HÍPIAS – Ora, evidente.”

“Portanto, o homem incapaz e ignorante neste gênero não é mentiroso.”

“Se se te perguntasse quanto é 3×700, não responderias querendo, com maior certeza e maior ânsia que qualquer um, a verdade?

HÍPIAS – Com certeza.

SÓCRATES – E isto fá-lo-ias, posto que és sábio e muito competente em matemática.

HÍPIAS – Decerto.”

“Agora responde-me, com firmeza: se te perguntassem quanto é 3×700, não serias tu capaz de mentir como ninguém mais o é, e não serias igualmente capaz de dar uma resposta falsa contanto que fizesse parte de tua intenção mentir e eludir a verdade? Poderia o ignorante em cálculos mentir melhor do que tu, ainda que quisesse mentir?”

“SÓCRATES – O mentiroso é mentiroso em outras coisas e não nos números, e não poderá mentir ao contar?

HÍPIAS – Por Zeus! O mentiroso pode mentir nos números ou em qualquer outra coisa, Sócrates.”

“SÓCRATES – Estou vendo que o mesmo homem é capaz tanto de mentir quanto de ser veraz sobre o cálculo, e este homem é o que é melhor no seu tipo de arte, isto é, o melhor calculador.

HÍPIAS – Concedo-te.”

“SÓCRATES – Ânimo, Hípias! Vê todas as ciências em panorama, e me testifica se em alguma delas ocorre algo diferente do que relatei. És sem paralelo o mais instruído dos homens na maioria das artes, o que já ouvi da tua boca mesmo, numa ocasião em que o afirmaste com jactância. Foi na praça pública onde te ouvi enumerar teus conhecimentos. (…) Relataste saber forjar anéis, alegando seres o fabricador do anel que vestias. O mesmo disseste com referência a um selo, uma esponja de banho e um recipiente de azeite. Tudo era obra tua. Acrescentavas, inclusive, que havias feito tu mesmo o calçado que calçavas e os trajes que trajava. (…) Ademais, contavas que levava contigo poemas, versos heróicos, tragédias, ditirambos e muitos outros gêneros de textos em prosa sobre uma variedade de temas (…) e também és mestre na ciência do ritmo, da harmonia e da gramática, sem contar muitas outras, que me seria penoso lembrar. E no entanto omiti ou só agora me veio à mente tua excelente memória, que é aquilo de que mais te vanglorias. Mas isto seria sem fim, Hípias, porque sempre um ou outro talento seu ficaria de fora de minha lista, nunca exaustiva…”

“HÍPIAS – Sócrates, confesso que não adivinho aonde queres chegar…

SÓCRATES – Se é verdade o que dizes, deve ser porque neste instante não estás empregando tua portentosa memória artificial, crendo que ela não seria necessária para o caso. Pôr-te-ei, portanto, no caminho sem demora: Lembras-te de haver dito que Aquiles era sincero e de que Ulisses era um embusteiro e mentiroso?

HÍPIAS – Claro que sim.

SÓCRATES – (…) Donde se segue que se Ulisses é mentiroso é ao mesmo tempo veraz; e que se Aquiles é veraz é igualmente mentiroso; logo, não são dois homens distintos, nem opostos entre si, mas bastante semelhantes.

HÍPIAS – Sócrates, tu tens sempre o talento de embaraçar uma discussão. Te apoderas do mais espinhoso que há no discurso, e te apegas a ele, perscrutando e examinando parte por parte; qualquer que seja o assunto, jamais em tuas impugnações tu observa o todo, o conjunto. Eu demonstrarei com provas e testemunhas cabais que Homero compôs Aquiles como o protótipo da franqueza e nesse tocante superior a Ulisses, e Ulisses como um embusteiro em mil ocasiões, e neste aspecto inferior a Aquiles. Se continuas a discordar, dá-me tuas razões a fim de provar que Ulisses tem mais valor do que penso que tem. (…)

SÓCRATES – Hípias, mui distante estou de negar que tu sejas mais sábio que eu. Mas quando alguém fala tenho sempre o costume de me pôr atento, crendo eu que quem fala é homem bastante hábil; e como anseio deveras por compreender tudo o que diz o sábio, examino ponto por ponto, e cotejo suas palavras umas com as outras, a fim de aperfeiçoar meu juízo. Já, ao contrário, se converso com um espírito vulgar nada lhe pergunto, pois o que ele dirá não me interessa!

“Com efeito, depois de haver começado pelos versos que tu referiste, …me é adverso tanto quanto são as portas do Hades o ver gente que dissimula e esconde suas reais intenções, acrescenta Aquiles um pouco depois a seu discurso que nem Ulisses nem Agamêmnon fá-lo-ão dobrar nunca os joelhos, e que abandonará com certeza o cerco de Tróia.”

“Depois de ter falado desta maneira, tanto diante do exército como em particular com os de sua confiança, nunca na Ilíada ficamos sabendo de Aquiles reunindo sua bagagem para fazer a viagem, nem que tenha desancorado algum navio do porto. Muito pelo contrário: durante toda a saga nunca dá nenhum passo rumo a sua pátria, e fica patente que ele também é, por isso, um dissimulador.”

“HÍPIAS – Tudo consiste em que não examinas bem as coisas, Sócrates. Nas circunstâncias em que Aquiles mente, não há desígnio premeditado de fazê-lo, senão que a derrota do exército forçou-o a isso, pois a despeito da sua intenção original ele se viu premido a regressar ao campo de batalha para salvar seus companheiros. Mas Ulisses mente desde o início deliberadamente, com insídia.

SÓCRATES – Tu enganas muito bem teus contendores, querido Hípias: imitas perfeitamente a Ulisses!

HÍPIAS – Nada disso, Sócrates. Em que foi que eu te enganei? Que queres dizer?

SÓCRATES – Quando supões que Aquiles não mente com deliberação; um homem tão charlatão, tão insidioso, que além de ser falso em suas palavras, se é que nos ateremos ao que está em Homero, demonstra ainda dominar a arte da dissimulação e do engodo, de uma maneira ainda não pressentida sequer por Ulisses! Mesmo diante do próprio Ulisses atreveu-se ele a listar as vantagens e desvantagens de cada atitude a tomar (continuar ou não a guerra), e nem Ulisses, o maroto, se apercebeu de que estava bancando o joguete do herói. Ou Ulisses cai de propósito, se assim for, e não emite sinais de que tenha compreendido que Aquiles enganava-o.

HÍPIAS – Em que trecho da Ilíada?

SÓCRATES – Não tomarei parte nos combates sangrentos enquanto Heitor, filho de Príamo, não houver chegado às tendas e às naves dos Mirmidões, após empreender uma carnificina entre os Argivos e queimado toda a sua frota! Quando este dia chegar, saiba que porei Heitor em seu devido lugar. Crês tu, Hípias, que o filho de Tétis, o discípulo do sapientíssimo Quíron, tinha memória de peixe, para, assim, depois de despejar terríveis torrentes de palavras sobre seus próprios companheiros de armas, dizer a Ulisses, por um lado, que iria partir, e a Ájax, por outro, que permaneceria no campo de batalha?

HÍPIAS – Não preciso crer que fosse defeito ou limitação de memória, Sócrates. Mas a razão que Aquiles teve para dizer isso a Ájax foi pela bondade inata de seu caráter, que o fez mudar rapidamente de resolução. Quanto a Ulisses, entretanto, pouco importa que ele minta ou seja honesto, pois é sempre frio e calculista.”

“SÓCRATES – Mas Hípias, considera! Não acabamos de concordar que os que mentem voluntariamente são superiores aos que mentem sem querer?!?

HÍPIAS – Como seria possível, Sócrates, que os que cometem uma injustiça, tramam teias e nós cegos, e que causam o mal premeditadamente, justo eles, são melhores que outros, que incorrem em tais faltas contra sua própria vontade, sendo por isso mesmo dignos de compaixão? Porque aquele que comete um crime culposo é absolvido; mas a lei diz outra coisa sobre quem comete um crime com dolo!”

“sempre que dialogo com algum de vós, tão creditados por sua sabedoria e em quem todos os gregos depositam sua fé, descubro que nada sei!”

“sou como sou, para não dizer coisa pior.”

“vejo que quem fere outrem, comete ação injusta, mente, engana e incorre em falta voluntária, mas não involuntária, é melhor que quem age com inocência…”

(A Hípias) Por favor, suplico: não te negues a curar minh’alma! Far-me-ias um grande serviço, livrando-me assim da ignorância, como farias também a meu corpo, livrando-o duma doença. Se tens a intenção de pronunciar um longo discurso, declaro-te desde já que assim não me curarás, porque não poderei acompanhar-te! Mas se desejas me responder como o fizeste até agora, ser-me-ás de enorme auxílio, e creio que disso nenhum mal a ti derivaria.

(A Eudico) Tenho o direito de pedir este socorro a ti, ó filho de Apemantes, posto que tu me comprometeste a ter este diálogo com Hípias! Se este se nega a me responder, faz-me o favor de suplicar-lhe em meu lugar.”

“HÍPIAS – (…) Esse Sócrates tudo engabela, distorce e desvirtua numa discussão! Tudo me leva a crer que ele não almeja outra coisa senão criar discórdia…

SÓCRATES – Meu querido Hípias, se eu o faço, é a despeito meu! Porque se fôra eu capaz de engabelar, distorcer e desvirtuar de propósito, significa que seria eu, segundo tu mesmo, sábio e hábil; coisa que não sou. Faço essas coisas por acidente, podes ter certeza. Escuta: exerce agora teu próprio ditado. Tu me disseste que é preciso ser indulgente com os que fazem o mal sem querer.”

“SÓCRATES – O bom corredor não é o que corre bem e o mau corredor o que corre mal?

HÍPIAS – Correto.

SÓCRATES – E não corre mal aquele que corre lentamente, ao passo que corre bem aquele que corre ligeiro?

(…)

SÓCRATES – (…) A velocidade é um bem e a lentidão um mal?

HÍPIAS – Sem dúvida.

SÓCRATES – De 2 homens que correm lentamente, um com intenção e fingimento e o outro porque é apenas devagar, qual é o melhor corredor?

HÍPIAS – O que corre lentamente porque quer.

SÓCRATES – Correr não é agir?

HÍPIAS – Claro que sim.

SÓCRATES – Se é agir, não é fazer alguma coisa?

HÍPIAS – Concedo.

SÓCRATES – Logo, aquele que corre mal faz uma coisa má e feia quando o assunto é a corrida.

HÍPIAS – Exato, exato.

SÓCRATES – Aquele que corre devagar, não corre mal?

HÍPIAS – Sim.

SÓCRATES – O bom corredor faz esta coisa má e feia porque quer; e o mau fá-la porque é só o que sabe fazer.

HÍPIAS – Assim parece.

SÓCRATES – Na corrida, por conseguinte, o que faz o mal sem querer é mais mau.

HÍPIAS – Sim, Sócrates, é pior na corrida.

SÓCRATES – Na luta: de 2 lutadores que perdem, um deliberadamente, outro porque foi realmente derrotado, qual deles é o melhor?

HÍPIAS – O primeiro, ao que parece.

(…)

SÓCRATES – Destarte, aquele que faz uma coisa má e feia por vontade própria é melhor lutador que o outro.

HÍPIAS – Sim, Sócrates, perfeitamente.”

“HÍPIAS – Seria assaz estranho, Sócrates, se o homem voluntariamente injusto fôra melhor que o que o é involuntariamente.

SÓCRATES – E no entanto parece ser a conclusão de nosso raciocínio. Não acho que seja realmente assim! Pelo menos para mim, fica um sabor amargo ao dizer essas palavras… Mas responde-me de novo: a justiça é exclusivamente uma capacidade ou uma ciência? Ou uma ou outra, sem poder ser ambas ou nenhuma das duas?

HÍPIAS – É uma necessidade que seja apenas uma das duas, Sócrates.”

(Pseudo?) HÍPIAS MAIOR OU “O QUE É O BELO?”

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

Na série que envolve as obras provavelmente inautênticas (identificadas pelo prefixo (Pseudo?) no título), dou minha opinião pessoal ao final, contextualizando o escrito face à obra platônica canônica.

(*) “A autoria do Hípias Maior permanece há tempos em disputa” – A.P.V

SÓCRATES – (…) podes precisar-me, Hípias, por que todos estes antigos filósofos cuja sabedoria muito se exalta, como Pítaco¹, Brias, Tales de Mileto e outros mais recentes, até o tempo de Anaxágoras, todos ou quase todos eles, se negaram a envolver-se nos negócios públicos?

HÍPIAS – A explicação, Sócrates, é que o juízo limitado destes homens fazia-os incapazes de abraçar duas coisas ao mesmo tempo (os negócios particulares e os do Estado).

SÓCRATES – Por Zeus, Hípias! Crês tu, se é verdade que as artes se aperfeiçoaram com o passar do tempo, e se nossos artistas excelem em muito aos artistas dos séculos passados, como muitos querem–, crês tu, Hípias, que vossa arte – falo da Sofística – se fez progressivamente mais perfeita, de sorte que, ao compararmos os sofistas de hoje com os filósofos de ontem (quando ainda não existia a Sofística) – que era o tipo de sábios que podia então existir–, dizia eu, crês tu que, na comparação, os sábios antigos são ignorantes perto de vós?

HÍPIAS – Com toda a certeza, caro Sócrates.

SÓCRATES – De forma que, se Brias voltasse a este mundo, seria um homem ridículo a vossos olhos, como Dédalo, que, no dizer de nossos grandes escultores, se trabalhasse agora em suas obras, que noutro tempo lhe granjearam tanta reputação, seria alvo das mais descaradas zombarias?

HÍPIAS – Dizes a plena verdade, Sócrates. Sem embargo, não deixo eu de preferir os antigos aos modernos, e de fazer deles os maiores enaltecimentos, a fim de evitar a má opinião dos vivos e, ao mesmo tempo, a indignação dos mortos.”

¹ Historiograficamente, esta informação é imprecisa, já que Pítaco de Mitilene, um dos Sete Sábios da Grécia, atuante nos séculos VII e VI a.C., fôra general em sua cidade, embora tenha abdicado do cargo depois de uma década, de livre e espontânea vontade, recusando-se a agir como tirano.

No que toca aos sábios antigos, jamais nenhum deles quis precificar a própria sabedoria, vendendo-a no mercado, nem fazer valer seus conhecimentos para tirar vantagem na vida pública, adquirindo assim privilégios inacessíveis aos comuns dos cidadãos. Tão ingênuos e ignorantes com respeito ao dinheiro, não achas?!”

HÍPIAS – (…) Só na Sicília, onde Protágoras se havia estabelecido com grande renome, eu consegui juntar 150 minas de ouro, e isso sendo eu mais jovem. Só na aldeia chamada Ínico obtive mais de 20 minas! Ao voltar da Sicília, entreguei todo o dinheiro a meu pai.”

SÓCRATES – (…) Anaxágoras, na contra-mão dos demais, governou-se tão mal na vida que, metendo-se a filosofar o dia inteiro, esqueceu-se do restante: após haver herdado um patrimônio colossal, perdeu-o pela cláusula do abandono e prescrição do direito. (…) O povo acha a mesma coisa: diz que o sábio deve ser acima de tudo sábio para si mesmo, e que o objetivo central da filosofia deve ser justamente enriquecer. (…) Por falar nisso, Hípias, deves ter viajado a Esparta muitas e muitas vezes, segundo creio?

HÍPIAS – De forma alguma, Sócrates!

SÓCRATES – Que dizes?! Nunca lucraste em Esparta?

HÍPIAS – Nem um só óbolo.

SÓCRATES – Verdadeiramente, isso que dizes muito me espanta! Mas diz-me, Hípias, tua sabedoria não faz mais virtuosos todos aqueles que conversam e aprendem contigo?”

HÍPIAS – Sim, Sócrates, é preciso confessá-lo.”

SÓCRATES – Posto que amam a sabedoria, têm dinheiro e tu lhes podes ser útil… Que anomalia sucede que não vens de Esparta transbordando de dinheiro?! Queres que digamos que os espartanos instruem melhor seus filhos que poderias tu mesmo fazê-lo? Achas isto?

HÍPIAS – Discordo, Sócrates.”

SÓCRATES – Não seria principalmente na Tessália, onde se tem tanta fixação por engalanar cavalos, onde seria mais bem-recebido um mestre de hípica? E não seria este o profissional capaz de prometer mais utilidades, melhor na arte de lidar com cavalos que nenhum outro?”

SÓCRATES – Que dizes? Existe em Esparta o costume de agir mal, e de nunca praticar o bem?

HÍPIAS – Não chegaria a esses extremos, Sócrates.

SÓCRATES – Não obram bem, em dar a seus filhos uma educação acima da média?

HÍPIAS – Certamente que sim, Sócrates. Mas suas leis são refratárias a qualquer educação estrangeira. Se não fosse por isto, nenhum preceptor haveria de ganhar tanto quanto eu instruindo os jovens espartanos, porque sabes, Sócrates, é incrível o prazer com que me escutavam e os elogios que me teciam; mas, como já te disse, a lei impede de pagar preceptores estrangeiros.”

SÓCRATES – Quem é esse tal <cidadão comum>? Referes-te aos hábeis ou aos ignorantes?

HÍPIAS – O comum!

SÓCRATES – Chamas o <comum das gentes> aos que conhecem a verdade?

HÍPIAS – Não, Sócrates.”

SÓCRATES – Os espartanos, segundo tu, fariam melhor atendendo teus próprios interesses – pagando-te, tu, um estrangeiro, para educá-los – ao invés de adotar uma educação cem por cento nacional para seus jovens?

HÍPIAS – Afirmo-o sem medo, Sócrates.”

SÓCRATES – (…) Mas Hípias – em que ocasião é que os espartanos te exaltam e têm tanto prazer em escutar-te? Seria acaso quando dás lições de astronomia e explica as revoluções celestes, ciência esta que dominas?

HÍPIAS – Não, Sócrates, este tipo de matéria não agrada ao espartano.

SÓCRATES – Talvez eles gostem, então, de geometria, que tu também dominas?

HÍPIAS – Menos ainda. A maior parte deles mal sabe contar!

SÓCRATES – Não vês neles sequer alguma inclinação para estudos aritméticos?

HÍPIAS – Por Zeus, Sócrates! Tudo menos isso.

SÓCRATES – Já vejo que ensinas-lhes então gramática ou música, que seriam outras disciplinas ainda não citadas e nas quais tu és não só um mestre mas o primeiro entre todos?

(…)

HÍPIAS – Eles me escutam com gosto, Sócrates, quando refiro-lhes a genealogia dos heróis e dos grandes homens; a origem e a fundação das cidades; enfim, a História antiga, porque parece que só nisso fixam a atenção. Para comprazê-los, apliquei-me com esmero no estudo de todas essas velharias.

SÓCRATES – Que sorte a tua, Hípias! Seria muito aborrecido ensinar História aos atenienses, pois que exigiriam que relatasses na sequência exata todos os nomes dos arcontes desde Sólon! Porque só para memorizar tantos nomes, acho que tu terias perdido muito de teu precioso tempo.

HÍPIAS – Nem tanto quanto imaginas, Sócrates. Sei repetir 50 nomes só de ouvi-los uma única vez!

SÓCRATES – Deveras? Não me havia apercebido de que eras mestre também em mnemotécnica! Confesso agora que os espartanos tinham muita razão em ouvir-te com prazer; parece que se apegaram a ti, como as crianças pequenas se apegam às velhas, sempre pedindo que contem as mais variadas estórias.

HÍPIAS – Por Zeus, Sócrates! Acabo de ser aplaudido por um discurso sobre as belas ocupações que convêm aos jovens. Este discurso, que compus com dedicação, se destaca sobretudo pela elegância de estilo. Lê comigo este começo e a expressão desta idéia: Depois da queda de Tróia, Pirro pergunta a Nestor no que é que se deve aplicar um jovem a fim de obter um dia grande reputação. Nestor responde com numerosos exemplos e preceitos muito belos. Li este discurso em Esparta; e, sob demanda de Êudico, filho de Apemanto, voltarei a recitá-lo, aqui em Atenas, dentro de 3 dias, na escola de Fidóstrato, não, claro, sem acrescentar outros discursos dignos da curiosidade das pessoas cultas. Desejo muito que compareças a esta reunião, Sócrates, e que leves contigo os amigos que consideres os mais inteligentes.”

SÓCRATES – (…) Quem te ensinou, Sócrates, o que é belo e o que é feio? Poderás dizer-me o que é o belo? Confesso que fiquei paralisado diante destas perguntas. Minha estupidez não me permitiu responder a este homem, então me retirei pensativo. Permaneci incomodado comigo mesmo e disposto a não sair deste estado enquanto não solucionasse este problema. Censurei em mim mesmo tamanha tolice e fiz uma promessa: me aproveitar da primeira ocasião em que encontrasse algum sofista, sábio como sois, a fim de ser instruído a fundo neste assunto. Assim, da próxima vez que encontrar este meu interlocutor, terei uma resposta na ponta da língua para dar-lhe. Por conseguinte, meu caro Hípias, este meu encontro contigo é um acontecimento muito bem-aventurado e fortuito! Ensina-me, suplico-te o que é o belo. Mas me explica com clareza, de forma que este homem questionador não se ponha a rir de minha fala um tanto ridícula à próxima vez que nos virmos!”

SÓCRATES – (…) em matéria de objeções, sou muito bom e um adversário à altura de qualquer empresa; então, se não te desgosta o procedimento, far-te-ei guerra com as palavras e representarei o papel do próprio homem que é meu adversário nessa contenda, a fim de extrair-te esta verdade por mim tão cobiçada.

HÍPIAS – Faz o que tu queres, Sócrates. Esta questão, como eu já disse, não é grande coisa. Ensinar-te-ei como responder perguntas ainda mais difíceis que estas, até o ponto em que serás irrefutável.”

SÓCRATES – Estrangeiro, prosseguirá nosso homem, diz-me agora: que é o belo?

HÍPIAS – Sua curiosidade não fica saciada com saber as coisas que são belas?

SÓCRATES – A mim não me soa suficiente, Hípias. Ele exige e quer saber que é o belo!”

HÍPIAS – (…) o belo é uma jovem formosa.

SÓCRATES – Pelos céus, Hípias! Tua resposta é excelente! Incomparável!! Se eu fosse direto com esta definição responder ao meu homem, crês que ele se poria satisfeito de todo e que não teria com que me retrucar?

HÍPIAS – Que poderia este miserável retrucar-te, Sócrates? Nada lhe sobraria que fizesse parte do senso comum e que merecesse a aprovação de qualquer testemunha!”

SÓCRATES – Quão complacente és, Sócrates!, o homem dir-me-ia. Uma égua formosa não é também uma coisa bela? O oráculo de Apolo mesmo reconhece-lhe esta qualidade.

SÓCRATES – (…) uma panela bonita não é uma coisa bela?

HÍPIAS – Ah, Sócrates! Não é factível que um homem seja tão grosseiro a ponto de usar termos tão chulos numa discussão estética!

SÓCRATES – Assim é, Hípias, mas não esperes deste homem qualquer indício de cultura e etiqueta; é um grosseirão que não liga para mais nada a não ser ficar buscando a verdade em todas as coisas. (…) Se uma panela fosse feita por um oleiro entendido, fosse bem redondinha, lisa e cozida, como destas que se vêem adornadas de duas asas na feira, mui elegantes, e viesse acompanhada de meia dúzia de louças, e o homem descreve tal peça, será forçoso admitir que é uma obra bela”

HÍPIAS – Sou capaz de acreditar. Inegável que um vaso bem trabalhado é belo, mas não convém compará-lo a uma égua, muito menos com uma bela jovem nem com as demais coisas belas; isso não merece ser chamado propriamente de belo!

SÓCRATES – (…) Ignoras acaso a palavra de Heráclito: o mais belo dos macacos é feio comparado ao mais feio da espécie humana?”

SÓCRATES – (…) Mas como! Se se comparam as jovens gregas e as deusas, não se poderá objetar a mesma coisa da comparação entre panelas, éguas e mulheres? (…) não se diz também, à guisa e semelhança, que o mais formoso e perfeito dos homens não é senão um símio comparado a um deus?”

SÓCRATES – Se condescendermos neste ponto, se rirá e me dirá: Lembras-te, ó Sócrates, do que te havia perguntado?; Ó sim, me recordo muito bem, eu responderia; tu me perguntaste o que é o belo; Isso mesmo, ele por sua vez responderia. E no lugar de me responderes tu citas como belas coisas que tu mesmo tiraste da tua imaginação, mas que ora são coisas belas ora são coisas feias, nunca sendo só belas ou só feias!

SÓCRATES – Por que, ele insistirá, Fídias não fez de marfim as pupilas da estátua de Atenas, como o resto da escultura, no lugar de inserir pedras preciosas, as que mais se aproximam, dentre as jóias, da brancura do marfim? E uma bela pedra, não é uma coisa bela? Que me dizes, Hípias?”

Das duas colheres, a de madeira e a de ouro, qual mais convém à panela? Creio que a de madeira, porque dá um bom odor às verduras, e com ela não se quebram as vasilhas, o que seria uma desgraça, porque toda a substância se derramaria, o fogo se apagaria e aos convidados do banquete só restariam os boas-noites. A colher de ouro causaria todos estes desastres, e por esta razão me parece que em tal caso deveríamos optar pela colher de madeira, a não ser que sejas tu doutra opinião.”

HÍPIAS – Sócrates, queres tu que eu te dê de uma vez por todas a conhecer uma definição do belo, que encerre esses discursos longos e enfadonhos?”

rir, quando não se tem o que dizer, é rir de si mesmo e expor-se ao ridículo do público.”

Crês, Sócrates, que não merece chibatadas o homem que em vez de responder àquilo que se lhe é perguntado põe-se a cantar como um ditirambo o que nada tem a ver com a questão? A essa interpelação do meu homem questionador, eu diria:

Como?!

– Não te faças de dissimulado: não lembras que te perguntei ao princípio QUE É O BELO?, aquilo que faz belas todas as coisas que são chamadas belas, seja uma pedra, um pedaço de madeira, um homem, um deus, uma ação, uma ciência qualquer?? É isto que questiono faz tempo e, no entanto, tu ages como se o que ouviste de minha boca houvesse sido uma exortação para que cantasses. Teus ouvidos estão tão bons quanto os de um moinho de pedra. Ou parece que tu não tens nem ouvidos nem inteligência.”

O conveniente ou decoroso é o que torna as coisas belas? Ou aqueles não tornam as coisas belas, apenas emprestam-lhes esta aparência, embora não o sejam? Ou nem isso?”

se o que faz algo ser belo é sua conveniência, é este então o belo que buscamos, Hípias! E não algo que, por ser belo, torna algo conveniente, isto é, faz parecer conveniente, embora não o seja (…) porque, raciocina comigo: uma mesma coisa não pode ser simultaneamente causa da ilusão e da verdade!”

SÓCRATES – Fala baixo, Hípias, para não irritar e espantar o belo que tanto buscamos! Vês que até agora essa busca já nos custou bastantes sacrifícios; o belo nos abandonará e se nos escapará por entre nossas mãos se procedermos com alarde. Não é que eu queira ser cético quanto às esperanças que me concedes, ó Hípias, pois estou convicto de que uma vez que tu te ponhas a pensar sozinho sobre algo imediatamente encontrarás a resposta. Mas suplico-te que penses e busques o belo aqui, diante de mim. Portanto, se me permites, vamos juntos atrás desta solução, e procedamos juntos à indagação. Se obtemos êxito, será uma grande fortuna para mim. Senão, ora, é preciso ter paciência, porque eu não sou tu, não tenho teus dons: sei que quando te queres aplicar em algo, o encontras naturalmente, sem a ajuda de ninguém. Acontece que tanto desejo eu saber o que é o belo que não gostaria de perder uma oportunidade tão ilustre! Se fazes isso por mim, não mais te importunarei uma outra vez.”

SÓCRATES – Mas a causa não é a mesma coisa que aquilo que ela causa, porque jamais uma causa pode ser causa de si própria. Por exemplo: estás de acordo em que a causa é aquilo que faz ou que produz?

HÍPIAS – Em absoluto.”

SÓCRATES – (…) de forma que, conforme nossa linha de raciocínio, o belo é como o <pai do bom>.

HÍPIAS – Ó Sócrates, que bela conclusão!”

SÓCRATES – Por conseguinte, não aspiremos a que o belo seja simultaneamente o útil, nem o vantajoso, nem aquilo que causa um bem; esta opinião é ainda mais ridícula que aquela segundo a qual vínhamos concluindo, precipitadamente, que o belo é uma jovem formosa e todas as outras belas coisas, como panelas e que-tais.

HÍPIAS – Concordo contigo, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem, Hípias! Porém, sei eu onde estou?! A cada passo encontro mil dificuldades e dúvidas. Não te ocorre nada que possa nos tirar deste beco?”

Não é garantido que a beleza do homem, da pintura, dos ornamentos, regozijam a vista? Por outro lado, os cantos harmoniosos, vozes agradáveis, enfim, a música, a boa conversação e os discursos bem-feitos, não nos causam, igualmente, prazer?”

SÓCRATES – As belas leis, as belas instituições… são belas porque agradam aos olhos e aos ouvidos, ou por alguma outra beleza?

HÍPIAS – Isso não seria impossível, caro Sócrates, mas tenho certeza que coisa tão difícil não poderá discernir nosso homem tão questionador!

SÓCRATES – Por Cérbero que guarda o Hades, Hípias!! Não se ocultará algo assim a um homem de quem vivo a receber lições; quem sempre me censura quando falo algo impróprio ou incoerente, sempre que dou prova de minha ignorância em qualquer assunto, embora pensasse estar proferindo uma verdade.

HÍPIAS – Mas quem é este nosso homem afinal, Sócrates?

SÓCRATES – É Sócrates, filho de Sofronisco, que não permitiria que esta proposição ligeira arrematasse um problema tão magnânimo. Ele jamais será levado a crer que eu saiba algo que eu não sei.

VOZ INTERIOR DE SÓCRATES – Donde é que nasce, Hípias e Sócrates, isso de dardes o nome de belo ao que é agradável aos olhos e ouvidos, e isso de recusardes, ao mesmo tempo, este mesmo nome àquilo que é agradável aos demais sentidos – p.ex. ao vinho, às carnes e ao prazer do amor? (…) Por que não chamá-los belos também?”

Que responderíamos, Hípias? Talvez que as gentes fariam troça de nós se disséramos levianamente que o comer é uma coisa bela, ao invés de dizer que é simplesmente agradável; que o odor dos perfumes é belo, e não agradável. E não é sensível que os prazeres do amor, muito embora sejam muito doces, são tão vergonhosos que as pessoas só aceitam deles gozar às escondidas? Mas eis, Hípias, que nosso interlocutor retrucará: Entendo o que dizeis. O pudor impede-vos chamar belos a todos estes prazeres, porque o mundo inteiro o repugnaria. Mas eu não vos perguntei o que é que os homens pensam do belo, eu vos perguntei O QUÊ É, AFINAL DE CONTAS, O BELO?

Não satisfeito, ele prosseguirá: O que agrada à vista agrada à vista e ao ouvido? O que agrada ao ouvido agrada ao ouvido e à vista? Responderemos: O que agrada a um destes dois sentidos não agrada os dois ao mesmo tempo, i.e., afirmamos que cada um destes prazeres é, separadamente, agradável por si mesmo e que ambos juntos são agradáveis (se há uma bela figura e um belo som ocorrendo na mesma cena).

Ele insistirá: O prazer, enquanto prazer, difere do prazer? Com isso não quero saber de vós qual dos dois é o maior prazer, se é que algum dos dois o é, mas se, dentre tantos prazeres, podemos dizer que eles se distinguem entre si, de modo que podemos chamar uns prazeres de <prazeres> e outros prazeres de <não-prazeres>, já que aos primeiros se opõem. Nós diremos, obviamente, que não. Não é isso mesmo?”

Não nego que meu espírito é capaz de me representar muitos destes objetos. Mas desconfio de mim mesmo, bem o sabes. Porque ao mesmo tempo que os vejo tão distintamente, tu mesmo não os vês. Tu que és rico graças à sabedoria que acumulaste, como ninguém de nossa época. Por que eu vejo esses objetos sem ter ganho jamais um óbolo, miserável e ignorante que sou? Temo, querido Hípias, que troces de mim e que até te comprazas em ludibriar-me; será que não mentes que nada enxergas? Porque esses objetos são claríssimos para mim!”

SÓCRATES – (…) Creio (…) que o que nós, tu e eu, somos juntos, não o somos no particular, nem um, nem o outro.

HÍPIAS – Sócrates, me parece que te comprazes em estabelecer paradoxos mais e mais chocantes à medida que conversamos. Este é o maior que já me apresentaste!”

HÍPIAS – Teu defeito, Sócrates, e o de todos os que têm o costume de disputar comigo, consiste em deixar de considerar as coisas no seu conjunto. (…)

SÓCRATES – Não se faz o que se quer, querido Hípias, mas o que se pode, diz o provérbio.”

Era tão escassa nossa capacidade antes de tuas palavras iluminarem nosso espírito, que críamos, ó Hípias, que cada um de nós é um, e que os dois juntos não somos o que é cada um, isto é, que os dois juntos somos 2, e não 1! A que ponto chegava nossa tolice! Mas tu acabas de demonstrar-me, Hípias, que se tu e eu juntos somos 2, necessariamente cada 1 de nós tem que ser 2; e se cada 1 de nós é 1, os 2 juntos temos que ser igualmente 1.”

SÓCRATES – (…) Cada um de nós é mais que um, e tem consciência de que é mais que um?

HÍPIAS – Não.

SÓCRATES – Se não é mais que um, é ímpar; não pensas que é impar?

HÍPIAS – Sim.

SÓCRATES – E juntos, ambos, somos ímpares?

HÍPIAS – Não, Sócrates.

SÓCRATES – Então somos pares; não é certo?

HÍPIAS – Pares.

SÓCRATES – Se os dois juntos somos pares, cada um de nós separadamente é par?

HÍPIAS – Não.”

SÓCRATES – Estes dois prazeres são belos porque são prazeres, já se os tome junta, já se os tome separadamente? E, neste conceito, todos os demais prazeres, os dos outros sentidos, não são belos como estes, posto que reconhecêramos, há pouco, que não deixam de ser prazeres.

HÍPIAS – Sim, Sócrates, conforme conviéramos.

SÓCRATES – Mas disséramos que eram belos, porque goza-se mediante os olhos e os ouvidos.”

…e, por conseguinte, pode-se, com razão, chamar de belos a estes 2 prazeres juntos, mas não se pode dizer que cada um seja belo em particular!”

SÓCRATES – Diremos, então, que os dois juntos são belos, e que cada um em particular não o é?

HÍPIAS – Por que não?”

eu não concebo que nós dois juntos sejamos belos, e que nem um nem outro o sejamos tratados no particular! Ou, pelo contrário, que um e outro sejamos particularmente belos, mas que não o sejamos em conjunto!”

Já que errais, dizei-me, ao menos, QUE É O BELO, dentro desta perspectiva limitada que tomastes de que o belo concirna tão-só aos prazeres da vista e dos ouvidos, se é que sois dignos de tal resposta.”

Dizeis-me, pois, que o belo é um prazer vantajoso.”

Não é o vantajoso o que produz o bem? Mas o efeito e a causa que produz o efeito são dois, como já vimos. Eis-nos aqui subsumidos mais uma vez em nosso primeiro liame. Porque o bem não seria o belo, nem o belo seria o bem, posto que são duas coisas distintas.”

HÍPIAS – Que são todos esses raciocínios miseráveis, Sócrates, além de pequenezas e sutilezas, como já indicaste? Queres saber em que consiste a verdadeira beleza, a que é digna deste nome? Consiste ela em falar com eloqüência na assembléia, diante de um tribunal ou de um magistrado qualquer, até produzir a convicção e conseguir uma recompensa, e que não seja pequena, e sim a maior de todas, quer seja, o prazer de salvar sua vida, sua fortuna e a de seus amigos. Nisto é que te deves aplicar com seriedade, Sócrates, e não em bagatelas e ninharias, ocupação néscia e pobre, que só te faz passar por insensato.

SÓCRATES – Ah, quão feliz és, Hípias! É raro este privilégio de saber de antemão com o quê um homem de bem deve ocupar-se. E mais feliz ainda quando tu pudeste desde muito cedo na vida consagrar-te justamente a estas coisas. Esta é a história de tua vida! Quanto a mim, uma fatalidade me condena a contínuas incertezas, e quando chego a revelar estas dificuldades a vós, sábios, tudo o que ganho são justas palavras de desprezo. Jogais-me na cara, exatamente como tu agora, que só me ocupo de ninharias, de tolices e misérias. É verdade! E justamente por ser verdade e estardes corretos, tento falar como vós, para quem elaborar belos discursos, falar com elegância e brilhantismo perante numerosas pessoas ou ante os juízes ou qualquer assembléia é uma coisa fácil, e que resulta em inúmeras vantagens! No momento, alguns de meus amigos, principalmente este homem que me critica sem tréguas, me persegue e me ataca com suas repreensões e tenho os ouvidos esgotados de tantas que são suas queixas – porque ele está sempre por perto e vivemos juntos. Quando estamos em casa, por exemplo, e ele me ouve falar dessa maneira, me pergunta se não me constranjo de indagar sobre tão belas ocupações, logo eu, que a olhos vistos não tem qualquer conhecimento do belo. Como é que podes julgar, diz ele, se uma disputa, uma ação ou qualquer coisa é bela, sem saber O QUE É O BELO? Se não mudas de opinião, crês que a morte não seria preferível a uma vida tal? (…) Mas quiçá seja necessário que eu sofra todas estas provações, e não seria impossível que disso resultara alguma utilidade, afinal. Pelo menos, a polêmica que sustentei com vós dois, hoje, valeu-me algo, Hípias, que era compreender enfim um provérbio popular, que diz:

As coisas belas são difíceis!

JULGAMENTO DA AUTENTICIDADE DA OBRA

Embora apodítico – sem uma solução satisfatória –, este diálogo carrega toda a genialidade de Platão e o método socrático ou maiêutico, levando-o ao extremo sem ser jocoso (a não ser para ridicularizar o presunçoso Hípias). Destaque para a voz interior ou o gênio ou o demônio socrático, que intervém na conversa, em itálico, nos momentos-chave: na aparência, sempre contra o próprio Sócrates; mas, na realidade efetiva, contra as falácias de Hípias. Para mim é preocupação de segunda ou de terceira ordem que algum erudito ou escoliasta duvide da originalidade da autoria deste Hípias.

LAQUES OU DO VALOR // Ou: Da prevalência da virtude sobre a valentia – Platão

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Lisímaco e Melesias pedem conselhos a Laques e Nícias sobre se seus filhos deveriam se alistar no exército e tomar aulas particulares na arte da esgrima. Depois de conversarem um pouco, pedem a ajuda de Sócrates. (…) Sócrates discute com Laques e Nícias sobre o significado exato da valentia ou coragem, chamada neste diálogo de valor” – A.P.V

(*) “O valor [valentia ou bravura guerreiras] ainda não foi definido, posto que todas as definições propostas estão, ou por excesso ou por carência, em desacordo com a idéia mesma de valor. Este é um diálogo do jovem Platão, apodítico (não chega a uma conclusão satisfatória).” – P.A.

Cada um de nós tem um filho; eles estão conosco: este é filho de Melesias, e leva o nome de seu avô, Tucídides; aquele é o meu, e leva o nome de meu pai, Aristides. Estamos determinados a educá-los da melhor maneira, ao invés de proceder como a maioria dos pais, que desde que seus filhos estejam na puberdade deixam-nos viver aos próprios caprichos e prazeres.”

Sabeis que Melesias e eu não temos mais que uma mesa em comum e que nossos filhos comem sempre conosco. (…) Tanto este como eu conversamos com nossos filhos, narrando-lhes as muitas proezas de nossos pais, tanto na paz quanto na guerra, enquanto eram cidadãos de Atenas e de suas aliadas. A desgraça é que nem temos o quê relatar de nós próprios, de modo que ruborizamos em sua presença, sem ter remédio senão culpar nossos próprios pais; porque, desde que éramos já homens formados, deram-nos total liberdade para viver na preguiça e na licença, e assim é que nossa educação foi desperdiçada. Nossos pais, ao contrário, sempre estavam a serviço da comunidade. Por isso é que não cessamos de admoestar nossos filhos, dizendo-lhes que se se abandonam e não nos obedecem se desonram a si próprios; mas se se aplicam talvez se tornem dignos dos nomes que carregam. Eles respondem que nos obedecerão em tudo; tendo em vista tal promessa, andamos indagando o que deveriam aprender e a educação que deveríamos dar-lhes para que se façam homens de bem, tanto quanto seja possível. Alguém disse que <nada melhor para um jovem que aprender a esgrima>, estimando um homem que anda por cá em Atenas como de valor imensurável, que atinge o firmamento. Com efeito, vimo-lo manejando sua arma e desempenhando sua arte, e esta exibição quase nos convenceu a levarmos nossos filhos para que seja ele seu mestre. Antes, nós quatro julgamos melhor vir diante de vós, não só para uma visita amistosa e uma conversa agradável, como sempre cabe entre pessoas de bem, mas para que nos auxilieis com vossa sabedoria de vida, lançando-nos uma luz sobre este caso. Que credes ser o melhor para nossos filhos, amigos?”

LAQUES – (…) Falaste de forma admirável, Lisímaco; mas o que me surpreende é que decidistes pedir ajuda justamente a nós dois acerca disso, quando não o fizestes primeiro a Sócrates, que, ademais de ser de teu próprio povo, consagra-se de forma integral a estas matérias relacionadas à educação dos jovens. Se houvésseis perguntado primeiro a Sócrates sobre quais ciências são mais necessárias à instrução dos jovens, e quais são as ocupações mais honrosas, o conselho recebido haveria de valer muito mais.

LISÍMACO – Como, Laques? Disseste que Sócrates se dedica à educação da juventude?

LAQUES – To asseguro, Lisímaco.

NÍCIAS – Também posso-o assegurar. Não faz mais de 4 dias que deu a meu filho um professor de música, Dámon, discípulo de Agatocles, e que, superior em sua arte, tem todas as demais qualidades que podes desejar de um homem que é elegido a dirigir a conduta de jovens desta idade.”

tu, ó filho de Sofronisco! Se tens algum bom conselho que dar-me, a mim que sou de teu povo, não mo negues (…) Teu pai Sofronisco e eu fôramos amigos de infância, e não deixamos de cultivar a amizade até sua morte, sem o menor desentendimento. Agora recordo que mil vezes estes jovens, falando-se em casa, repetem a todo instante o nome de Sócrates, a quem enaltecem de mil jeitos diferentes, e eu jamais me apercebi, esse tempo todo, de que falavam justamente do Sócrates filho de Sofronisco! Mas, ó meus filhos, dizei-me agora: é este o Sócrates de que ouvi tantas vezes falardes?”

LISÍMACO – Por Hera! Estou altamente satisfeito, meu querido Sócrates, ao ver quão bem susténs a reputação de teu pai, que era o melhor dos homens.”

LAQUES – (…) Na derrota de Délio, retirou-se comigo, e posso-te assegurar que se todos os demais houvessem cumprido seu dever como Sócrates o fez nossa cidade ter-se-ia sustentado e não haveria experimentado o amargo sabor da desgraça.”

LISÍMACO – (…) Merece este exercício da esgrima ser aprendido pelos jovens?

(…)

NÍCIAS – (…) Este e o de montar a cavalo são os mais próprios para jovens livres, porque devido às guerras que temos ou que possamos ter não existem exercícios superiores a estes que se praticam armados. São de imenso auxílio nos combates, seja na tática em fila, seja, uma vez rompida a fila, no corpo-a-corpo; seja perseguindo o inimigo que de ora em ora retrocede para golpear, seja em fuga e na necessidade de livrar-se dos perseguidores que nos alcançam com o raio de sua espada. Aquele habituado a este tipo de exercício não teme nem o mano-a-mano nem o combate com múltiplos inimigos, e sempre se sagrará o vencedor. Por outro lado, tais exercícios são capazes de inspirar uma verdadeira paixão por outros ainda mais sérios e compenetrados. Dou por estabelecido que todo homem que se exercita na esgrima se enamora cedo ou tarde também da tática militar; e quando atingiu esse grau, cheio de ambição e ansioso pelas glórias, instrui-se em tudo que possa alimentar essa idéia, e trabalha em aperfeiçoar-se de degrau em degrau nos conhecimentos de um general de exército. (…) esta ciência da esgrima faz os homens mais valentes e mais atrevidos na peleja”

LAQUES – (…) se é a esgrima uma ciência, como pretendem aqueles que a ensinam, como Nícias pronunciou, estou conforme em que se a deve aprender; mas se não é uma ciência e os que se dizem mestres de esgrima nos enganam ao superestimá-la, ou, ainda que seja uma ciência, se é de pouco interesse, para quê a ela nos consagraríamos? O que me insta a falar assim é o estar persuadido de que, se a esgrima fôra uma ciência que merecera a pena, não teriam os lacedemônios deixado de cultivá-la, sendo estes os maiores cultivadores da arte militar! (…) Porque todo homem que reconhece em si o talento para redigir tragédias não se dirige à Ática, batendo de cidade em cidade a fim de representar suas peças; ele vem direto a Atenas, o centro das tragédias por excelência.”

Em todas as demais artes sempre há, dentre seus praticantes, quem sobressaia e adquira renome; mas quanto aos mestres de esgrima, uma estranha fatalidade os persegue. Porque este mesmo Estesilau que oferece espetáculos aos atenienses, como acabamos de assistir, e que se tem a si mesmo em tão alta conta, vi-o eu em determinada ocasião sendo o protagonista de um espetáculo exatamente o contrário, lastimável que fôra a cena! Estando num navio que perseguiu e alvejou outro, um navio mercador inimigo, Estesilau combatia com sua lança comprida com um ferro cortante na ponta, arma a meu ver tão ridícula quanto fôra sua performance entre os combatentes. As <proezas> de que foi capaz então sequer merecem ser relatadas! O resultado que obteve com essa tresloucada estratégia guerreira merece, entretanto, especial menção tendo em vista o assunto que nos consome. Como nosso homem manejava essa arma pouco prática, sucedeu-lhe, desgraçadamente, que se enredara numa estrutura do navio inimigo, de forma que, por mais que se esforçara a fim de desenredar sua desajeitada arma da embarcação que a prendia, não o lograva.”

LISÍMACO – (…) Se Nícias e Laques fossem do mesmo parecer, poderíamos evitar-te o incômodo, ó Sócrates! Mas vês tu que dissentem por inteiro. É necessário, pois, ouvir teus ditames, a fim de ver qual das duas teses merece tua aprovação.

SÓCRATES – Como, Lisímaco? Então tu segues o princípio da maioria?

LISÍMACO – Mas que de melhor se poderia tentar?

SÓCRATES – Tu também, Melesias? Em matéria de eleger os exercícios que convirão a teu filho, ater-te-ás antes ao princípio democrático da maioria que à opinião de um só homem, contanto que ele se revele bem-educado e formado pelos melhores professores?

MELESIAS – Quanto a mim, Sócrates, meu critério favorito é sem dúvida o segundo.”

eu creio que, para bem julgar, é preciso julgar pela razão e não pelo número.”

Explico-me melhor. Parece-me que ao princípio não nos pusemos de acordo sobre a coisa que deveria ser matéria de deliberação, a fim de saber quem de nós é o mais hábil e que fôra formado pelos melhores mestres.”

No que toca a mim, Lisímaco e Melesias, sou o primeiro a confessar que jamais tive mestre nesta arte, ainda que a amasse desde meus anos de juventude; o caso é que eu não era rico o bastante para pagar sofistas que ma ensinassem, eles que se jactam de ser os únicos capazes de criar homens de bem; então pelo menos no meu caso nunca houve professor nesta arte. Se Nícias e Laques sabem nomear mestres da esgrima, isso em nada me surpreenderá; porque, sendo mais ricos que eu, puderam com certeza pagar professores, e, aliás, sendo também mais velhos que eu, conhecem mais coisas e pessoas no mundo, e mesmo na hipótese de ser muito difícil e muito raro achá-lo, podem ter encontrado tal mestre. Destarte, creio que eles possam ser de mais ajuda que eu para a educação dos jovens.”

Mas o que mais me surpreende é que estejam tão conformes em seus pareceres. Rogo-te, Lisímaco, que assim como Laques te suplicara que não me deixasses sair, e que me obrigasses a dar meu próprio parecer, tenhas tu agora a bondade de impedir que Laques e Nícias se vão antes de solucionar o dilema, dizendo-lhes: Sócrates dá fé de nada entender sobre estas matérias, e é portanto incapaz de decidir quem de vós dois está mais arrazoado em seu discurso, porque não teve nenhum mestre, nem encontrou a ciência da esgrima por si mesmo

NÍCIAS – Vê-se bem, caro Lisímaco, que conheces Sócrates tão-só enquanto filho de Sofronisco, teu amigo, mas que nunca viste sua conduta de perto; sem dúvida só deve tê-lo apreciado durante sua primeira infância, tendo-o contemplado enquanto pai e filho faziam libações nos templos ou quando Sofronisco trazia-o à assembleia de teu distrito; porque depois que se fez homem, Sócrates se tornou uma figura peculiar de que não é fácil fazer juízo assim à primeira vista.

LISÍMACO – Por que dizes isso, ó Nícias?

NÍCIAS – Porque ignoras por completo que Sócrates encara de forma diferente todo aquele que conversa consigo, e desde o instante que a conversação começa, por mais que o assunto seja algo de absolutamente indiferente ou a mais reles ninharia, Sócrates adora avaliar os outros e tomar ciência de sua conduta e caráter, dirigindo pouco a pouco o fio do discurso para seus próprios propósitos. Logo estar-te-ás interrogando como vives e como viveste. Quando o diálogo tiver chegado ao ponto desejado por Sócrates, em que suas teias, como as de uma aranha, já enredaram o interlocutor de modo que sua avaliação se torna agora algo inextricável ao perscrutado, ser-te-á impossível dispensares Sócrates antes que ele termine seu procedimento, que ele chama de parto das idéias. Pois bem: Sócrates só dará a conversa por terminada assim que já tiver aprendido a conhecer a alma e o gênio de seu homem a fundo, depois de haver sabido tudo de bom e mau que ele fez. Eu já até me acostumei a este modo de se conduzir de Sócrates. Ora, é uma necessidade que passes por esta alfândega, querido amigo. Eu confesso que não me lisonjeio de hoje estar liberto da teia de Sócrates! Foi um procedimento doloroso, mas, olhando retrospectivamente, estou grato pelo resultado da análise. Com o tempo esta avaliação, que era desagradável, adquiriu até um ar prazenteiro, e sempre sinto um contentamento singular nas minhas conversações com Sócrates desde então. Por mais que seja insólito no começo, nunca é um mal grande demais para ninguém que um bom conselheiro te advirta sobre tuas faltas, passadas e futuras, com base em quem tu és. Se um homem quer-se fazer sábio, que não tema de forma alguma este exame tão sincero, a menos que, segundo a máxima de Sólon, negue-se a ver as coisas como elas são, i.e., que todo dia é preciso aprender alguma coisa. Não penses de modo néscio que a sabedoria nos atinge como que de repente, com a idade. Diante de tudo que te relatei, ó Lisímaco, não será para mim inaudito nem muito menos desagradável ver-me agora colocado por Sócrates no banco dos réus uma vez mais. Na verdade, supusera desde sua entrada neste cômodo que, no fim das contas, não seriam nossos filhos os alvos de toda esta nossa discussão sobre o melhor método de educá-los, mas nós mesmos é que seríamos os julgados! De minha parte, uma vez que já conheço Sócrates há longos anos, voluntario-me a ser dissecado moralmente por ele a partir de agora.”

LAQUES – (…) Quando ouço qualquer homem que fale sobre a virtude e o saber, e que é um homem na acepção da palavra, digno de suas próprias convicções, encanta-me: para mim é um prazer indescritível constatar que suas palavras e ações se encontram em perfeito acordo. Figura-se-me que este é o único músico que sustenta uma harmonia perfeita, não com uma lira, nem com qualquer outro instrumento, mas segundo o tom de sua própria vida; porque todas as suas ações concordam com todas as suas palavras, não segundo o compasso lídio, frígio ou jônico, mas segundo o dórico,(*) único merecedor do título de <harmonia grega>. Quando um homem destas disposições fala, como disse, encanta-me, enche-me de gozo e ninguém há que não creia que me transportei e fiquei louco ao ouvir seus discursos; tal é a avidez com que escuto suas palavras. Mas aquele que faz tudo ao contrário muito me aflige, me aflige cruelmente. Quanto melhor esses homens desarmônicos parecem explicar-se, tanto maior é minha aversão a suas palavras.

(…)

Sigo, sim, o ditado de Sólon, pois creio que é preciso estar aberto a novas lições todos os dias, por mais velhos que sejamos. Só acrescento à máxima o seguinte: tudo que aprendermos deve se restringir à boca dos homens de bem.

(…) no mais, que seja o meu mestre mais jovem do que eu, que careça de reputação e renome e que-tais, a mim isso não me importa.

(…) Diz-me, sendo assim, aquilo que te aprouver, sem que minha idade avançada detenha-te de qualquer maneira.”

(*) “Os gregos dividiam o tom em 4 classes: o lídio, lúgubre, próprio para as lamentações; o frígio, veemente e próprio para excitar as paixões; o jônico, afeminado e dissoluto; e o dórico, varonil. Por isto Sócrates prefere este àqueles. Na República III Platão volta a condenar em absoluto os estilos lídio e jônico.”

LISÍMACO – (…) quanto a mim, falta-me memória, por conta de meus muitos anos; esqueço a maior parte das perguntas que queria fazer enquanto ouço longos discursos, e não me recordo, depois de um tempo, de muitos dos detalhes, sobretudo quando o tema principal da discussão é interrompido e entrecortado por novos assuntos.”

SÓCRATES – Tratemos sem mais delongas, Laques, de definir com exatidão o que é o valor; depois examinaremos os meios de comunicá-lo aos jovens.”

LAQUES – (…) O homem que conserva seu posto de batalha, que não foge, que rechaça o inimigo – tens aqui o homem valente.

SÓCRATES – Muito bem, Laques. Mas talvez por haver eu me explicado mal tenhas respondido uma coisa diferente daquilo que eu perguntei!”

SÓCRATES – (…) os citas, p.ex., não deixam de atacar por combaterem fugindo; como Homero mesmo disse¹ quanto aos cavalos de Enéias, eles vão e voltam no campo de batalha, sem parar num ponto, hábeis tanto em evadir quanto em desferir o golpe fatal.”

¹ Ilíada VIII

os espartanos, como ouvi referirem sobre a batalha de Platéia, quando atacaram os persas, que formavam um muro com seus broquéis, perceberam que não lhes conviria manter-se firmes em seus postos; sendo assim, logo empreenderam a fuga. Quando as fileiras dos persas se romperam, perseguindo os espartanos, estes deram meia-volta, infantes e cavaleiros, e mediante esta manobra estratégica massacraram seus inimigos.”

SÓCRATES – Todos estes homens são valentes. Uns provam seu valor contra os prazeres, outros contra as tristezas, estes contra os desejos, aqueles contra os temores, e em meio a todos estes acidentes podem ainda outros, na via contrária, dar provas de covardia.”

LAQUES – Parece-me que o valor é uma inclinação da alma a manifestar constância em todas as coisas.”

SÓCRATES – (…) mas me parece que não tomas por valor toda a constância da alma, e infiro-o porque pelo que compreendi tu situas o valor no número das coisas belas.”

SÓCRATES – E quando se tropeça com a insensatez, não é covardia em vez de valentia? Não é coisa má e perniciosa?

LAQUES – Sem contradição.”

SÓCRATES – A paciência, ou constância, unida à razão, é, em tua opinião, o verdadeiro valor?

LAQUES – Assim creio eu.

SÓCRATES – Vejamos (…)”

SÓCRATES – De maneira, Laques, que estas pessoas, que não têm nenhuma experiência, e atiram-se de cabeça no perigo de forma muito mais imprudente que os que se expõem com alguma técnica e razão?

LAQUES – Sim, sem dúvida.

SÓCRATES – Mas a audácia insensata e a paciência irracional nos pareceram antes vergonhosas e prejudiciais.

LAQUES – Isso também é correto.

SÓCRATES – E o valor nos pareceu uma coisa que é bela!

LAQUES – Convenho sem restrições.

SÓCRATES – Pois bem, agora sucede tudo ao contrário! Damos o nome de valor a uma audácia insensata

LAQUES – Confesso que sim…”

SÓCRATES – (…) nem tu nem eu nos ajustamos ao tom dórico, ao que parece, porque nossas ações não correspondem a nossas palavras.”

SÓCRATES – (…) Lembra-te que, segundo nossos princípios, ser paciente é ser valente.

LAQUES – Estou concorde com esta definição, Sócrates, e acuso o golpe, isto é, não simulo não o haver sentido com qualquer desculpa estranha, ainda que seja novato nesse tipo de desporto (tua avaliação de caráter e definição das coisas a teu modo); mas, confesso-te, me deixa desgostoso o fato de não poder exprimir em palavras aquilo que penso, e que penso que é justo, porque me parece que concebo com perfeição o que é o valor; mas, incrivelmente, na hora de expressá-lo, se me escapa a idéia…

SÓCRATES – Mas Laques, o dever de um bom caçador não consiste em não se cansar e não se ver jamais ludibriado e vencido?

LAQUES – De acordo.

SÓCRATES – Queres que entre em nossa disputa, ou partida de caça, Nícias, para ver se ele se torna um atleta mais ditoso?

LAQUES – Quero-o, por que não haveria de querer?

SÓCRATES – Então junta-te a nós neste exercício, Nícias! Vem e socorre teus prezados amigos, que vêem-se agora embaraçados e que não sabem que rumo tomar!”

NÍCIAS – Ouvindo-vos, faz muito tempo, me parecia, estáveis a definir esta virtude – o valor – de forma muito ruim. Ah, Sócrates! Que ocorre que, desta vez, não te vejo valendo-te do método com que tantas vezes e com tanta perícia empregaste?”

SÓCRATES – (…) o valor é uma ciência.

LAQUES – Ciência de quê, Sócrates?

(…)

SÓCRATES – (…) não será, indubitavelmente, a ciência do tocador de flauta…

NÍCIAS – Não.

SÓCRATES – Nem a do tocador de lira?

NÍCIAS – Tampouco.

SÓCRATES – Qual é, e sobre que versa esta ciência?

(…)

NÍCIAS – Digo, Laques, que é a ciência das coisas que são de temer e das que não são de temer, seja na guerra, seja em todas as demais ocasiões da vida.

LAQUES – Estranha definição essa, Sócrates!

SÓCRATES – Mas por que a achas estranha, Laques?

LAQUES – Por quê?! Porque a ciência e o valor são duas coisas distintas!

SÓCRATES – Nícias discorda de ti.”

LAQUES – (…) Os médicos não conhecem por acaso o que há que temer nas doenças? E, neste caso, crês tu que os homens valentes são os que conhecem o que se deve temer? Ou não chamas os médicos de homens valentes?

NÍCIAS – Não, não os chamo de homens valentes!

LAQUES – O mesmo para os labradores. E no entanto, os labradores conhecem perfeitamente o que há que temer com respeito a seu ofício! O mesmo sucede, então, com todos os demais artistas ou artesãos. Conhecem todos muito bem o que se há de temer na sua respectiva profissão e aquilo que não se deve de forma alguma temer, e não são, por isso, mais valentes, Sócrates.”

NÍCIAS – (…) Mas atrever-te-ás a dizer que é bom viver sempre, e que não há por aí muitas pessoas para quem é mais vantajoso, em certas condições, morrer do que viver?

LAQUES – Não nego que isso deverá ocorrer amiúde.

NÍCIAS – E crês que as coisas que soam temíveis àqueles que têm por vantajoso o continuar vivendo se pareçam com as coisas temíveis para aqueles que julgam que às vezes é preferível a morte honrosa que o viver desonroso?

LAQUES – Não, sem dúvida as coisas para cada classe de gentes são dessemelhantes!”

LAQUES – Posso até entender que, conforme se diz, não há outros homens valentes senão os adivinhos; porque que outro homem senão o adivinho pode conhecer se é mais vantajoso morrer ou viver? (…)

NÍCIAS – Mas como?! Pensas que seja negócio de adivinho conhecer as coisas que são temíveis e as que não são de se temer?

LAQUES – Sem dúvida. Se não for assim, a quem caberia?

NÍCIAS – A quem?! A quem eu digo, meu querido Laques, ao homem valente! Porque o ofício de um adivinho é conhecer somente os sinais das coisas que devem suceder, sejam mortes, doenças, as perdas de bens, as derrotas e vitórias nas guerras. Porém, crês tu, verdadeiramente, que convém mais a um adivinho que a um outro tipo de homem o decidir quais destes acidentes são ou não vantajosos?”

LAQUES – (…) Nícias não tem valor para confessar que não sabe o que diz; não faz mais que arengar e se contorcer a fim de disfarçar seu embaraço. Podíamos, por exemplo, tu e eu, Sócrates, continuar indefinidamente neste tipo de disputa sofística, ocultando cada qual ao adversário as próprias contradições em que nós mesmos incorremos sem cessar. Se falássemos diante dos juízes, esta conduta até que seria desculpável, mas numa conversação íntima entre amigos, que significa querer triunfar a qualquer custo com palavras vãs?

SÓCRATES – Sustentas, igualmente, que esta ciência não é dada a toda classe de homens, posto que não é conhecida ou monopolizada nem pelos médicos, nem pelos adivinhos, e que, portanto, não podem estes homens ser valentes, a menos que tenham adquirido por seus próprios meios esta ciência? É isto que queres dizer, não é?

NÍCIAS – Sim, Sócrates, foste ao cerne da questão.”

NÍCIAS – (…) A meu ver, não ter medo e ser valente são duas coisas muito diferentes. (…)”

SÓCRATES – Laques, vejo que não te apercebeste com clareza de que Nícias aprendeu belas lições de nosso amigo Dámon, e que Dámon é o melhor aluno de Pródico, o mais hábil de todos os sofistas neste tipo de discussão!¹

LAQUES – Ó, Sócrates! É bem típico dos sofistas, deveras, fazer essas vãs ostentações de suas cultivadas sutilezas, mas não quadra bem, esse tipo de conduta, a Nícias, que os atenienses escolheram, afinal, para cabeça da república!”

¹ Este não é o mesmo Dámon citado mais acima (um músico).

SÓCRATES – Eis aqui nossa opinião, Nícias. Por coisas temíveis entendemos os males do porvir, e por coisas não-temíveis entendemos as coisas do porvir que, por algum motivo, ou parece que são boas ou, ao menos, não nos parecem ser más. Admites nossa definição como válida?

NÍCIAS – Posso admiti-la com segurança, Sócrates.

SÓCRATES – E a ciência destas coisas é o que tu chamas de valor?

NÍCIAS – Exato!

SÓCRATES – Passemos então a um terceiro ponto, para verificar se seguimos de acordo. Dizemos Laques e eu que, em todas as coisas, a ciência tem um caráter universal e absoluto; não é uma para as coisas passadas e outra para as coisas futuras, porque a ciência é sempre a mesma. Por exemplo: quanto à saúde, sempre é a mesma ciência a medicina, pois vê o que foi, o que é e o que será são e enfermo. Na agricultura, sabe-se o que foi, o que é e o que será no plantio da terra. Na guerra, a ciência do general se estende a tudo, desde o remoto passado, percorrendo o presente até as coisas que não são ainda; nenhuma necessidade tem o general da arte da adivinhação! Antes, o contrário: manda o general no adivinho, como quem sabe muito mais o que acontecerá do que o próprio oráculo!

SÓCRATES – Não é correto, então, que o valor seja considerado unicamente como a ciência das coisas temíveis e não-temíveis, porque isso corresponderia a dizer que se distingue passado e futuro, e isto não é uma ciência. E depois, como se haveria de temer o passado?

NÍCIAS – Estou de acordo.

SÓCRATES – Tu mesmo nos definiste a terceira parte do valor, porém sem percorrer os dois primeiros passos. O que fizemos Laques e eu foi abranger o raciocínio para conhecer a unidade e a natureza total do valor. Agora me parece que, finalmente, segundo teus princípios, Nícias, chegamos à definição do valor enquanto ciência: não só o conhecimento das coisas temíveis, como também o de todos os bens e males em geral. Ou terás neste meio-tempo mudado de opinião, meu querido?”

SÓCRATES – O valor, então, é uma parte da virtude ou é ela por inteiro?

NÍCIAS – Me parece que o segundo, Sócrates.

SÓCRATES – Não obstante, nós havíamos dito que o valor não era mais que uma parte da virtude!

NÍCIAS – Com efeito, e havíamos errado, ao que tudo indica.

SÓCRATES – E então?

NÍCIAS – Sócrates, confesso que estou confuso e que sei agora menos do que sabia antes.

SÓCRATES – Destarte, depois de todos os rodeios, não averiguamos ainda com exatidão no que consiste o valor.

NÍCIAS – É a única coisa de que estou certo no dia de hoje!

LAQUES – Ah, Nícias! Cria que tu indagarias melhor do que eu ou do que qualquer outro, depois de ver com que desdém te manifestaste, ao ver-me dialogar com Sócrates! E confesso que estava a nutrir grandes esperanças de que vós chegásseis a um resultado melhor, escorados na sabedoria de Dámon!”

LAQUES – (…) de minha parte, aconselho Lisímaco e Melesias a não nos consultarem mais sobre a educação de seus filhos: é benquisto que se entendam sobre este assunto unicamente com Sócrates (…)”

NÍCIAS – Ah! Neste ponto estou conforme contigo, Laques! Se Sócrates decidir pelo futuro de nossos filhos, não há necessidade de preocupação ulterior. Estou disposto a entregar meu próprio rebento Nicérato a ele, se tem a bondade de se encarregar dele. Mas todos os dias, quando proponho este plano a Sócrates, ele desconversa e me indica outros mestres, recusando a proposta! Vê, Lisímaco, se tens mais influência sobre ele do que eu!”

LISÍMACO – (…) Pois então, Sócrates, que nos diz? Abrandar-te-ás e aceitarás encarregar-te destes jovens a fim de fazê-los melhores?”

por que preferir-me a mim?! Me parece que nenhum de nós merece a preferência!”

TEAGES OU DA CIÊNCIA – Platão

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Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “O diálogo Teages é citado por Nietzsche em Vontade de Potência: <No Teages de Platão está escrito: ‘Cada um de nós desejaria ser o senhor de todos os homens, se possível, e o melhor de todos os deuses.’ Essa atitude deve voltar a existir>”¹ – A.P.V.

¹ Quanta ingenuidade! Como se não fossem esses os pequenos e últimos homens que tornam a Terra quase inabitável hoje! Quanta imbecilidade nos seria poupada se todos os idiotas pelo menos pudessem se envergonhar diante da própria idiotice – quantos projetos de poder não seriam abortados e quantas abominações e atrocidades lamentáveis não se nos pouparia essa humildade não fingida mas necessária do fraco-com-vontade-direcionada-para-o-poder-político! Todo filósofo na verdadeira acepção fugiria de ocupar um cargo público verdadeiramente influente e poderoso. Nietzsche demonstra sua inocência ao sublinhar as palavras do imberbe do diálogo; ou finge-se de tolo com segundas intenções.

(*) “Sócrates de nada sabe; nada ensina; mas pelo menos recebeu dos Céus o dom maravilhoso de discernir em que jovens se encontram disposições de caráter excelentes. O que Sócrates chama seu gênio ou daimon, voz interior da consciência, adverte-lhe quando deve aceder à comunicação com alguns seletos indivíduos, ou quando é preciso se recusar, pois antecipa que não será proveitoso para ambas as partes o discursarem e evidenciar exemplos de virtude, que não serão de qualquer maneira seguidos, por fatalidade do destino (inerência do caráter dos indivíduos em questão).” – P.A.

DEMÓDOCO – (…) Sem dúvida alguns de seus camaradas e alguns jovens de nosso povo, que vêm a Atenas, relatam certas conversações de que foram ouvintes, e que lhes transtornam a cabeça. Cheio do sentimento de emulação, meu filho Teages não cessa de atormentar-me, suplicando-me com insistência que zele por sua educação, pagando a um sofista. Não é o gasto o que me detém, Sócrates, mas temo que tamanha paixão ponha este garoto a perder!”

SÓCRATES – Diz-me: como devemos chamar a Bácis,(*) Sibila e nosso Anfílito?

TEAGES – Adivinhos, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem. Diz-me agora outra coisa: que nome deve-se dar a Hípias e Periandro com relação ao governo que ambos exerceram?

TEAGES – O de tiranos, Sócrates. Que outro nome mereceriam?

SÓCRATES – Logo, todo homem que deseja mandar como eles em todos os habitantes da cidade deseja adquirir um império tirânico, convertendo-se em tirano.

TEAGES – Convenho.

SÓCRATES – Pois aí tens a ciência por que tanto estás apaixonado!

TEAGES – Isso é uma conseqüência natural do que eu disse.

SÓCRATES – Ah, maroto! Tu desejas fazer-te nosso tirano, e tens o atrevimento de queixar-te, e já faz muito tempo, de que teu pai não te paga um professor que te treine no ofício de tirano! E tu, Demódoco, conhecendo a ambição de teu filho, e sabendo precisamente a quem enviá-lo a fim de torná-lo hábil na magnífica ciência que deseja, por um acaso não pões-te envergonhado ao saber que por longo intervalo priva-o já desta imensa felicidade, não tendo procurado até agora um mestre para Teages? E uma vez que se queixa de ti a mim, como bem vês, vejamos juntos aonde poderemos enviá-lo, e se conhecemos alguém que possa torná-lo um bom tirano!

(*) Bácis era um oráculo que, muito antes da invasão de Xerxes à Grécia, predissera a incursão militar deste imperador persa.”

SÓCRATES – Teages, se faláramos com Eurípides, quem uma vez disse: Os tiranos hábeis são formados pelos hábeis; e lhe perguntáramos: Eurípides, no que é que os tiranos se fazem hábeis ao aprenderem o ofício dos hábeis? E ele, no lugar de objetar diretamente, dissera: Os lavradores hábeis são formados pelos hábeis; e, acompanhando seu raciocínio, quiséssemos, pois, saber em que os lavradores se fizeram hábeis?; não é verdade, então, que Eurípides nos responderia: <Ora, na agricultura>?”

TEAGES – Não responderia senão isso, Sócrates.

(…)

SÓCRATES – Sendo assim, uma vez que ele afirma que os tiranos hábeis são formados pelos hábeis, se lhe perguntáramos: Eurípides, no que é que esses tiranos se tornaram hábeis? No quê pode consistir sua ciência?… O que pensas que Eurípides responderia, caro Teages?

TEAGES – Por Zeus! Não entendo, Sócrates!

SÓCRATES – Então queres que te diga?

TEAGES – Sim, se não for incômodo.

SÓCRATES – É a ciência que, segundo Anacreonte,¹ ensinava Calícrates, filha de Ciana.² Não recordas nada de Anacreonte sobre isso?

TEAGES – Sim, me recordo.

SÓCRATES – E então, Teages, não desejas que te ponham nas mãos de um homem que exerça a mesma profissão desta antiga Calícrates, filha de Ciana, para saberes, tal qual ela sabia, nas palavras do poeta, a arte de formar tiranos, até que sejas tu mesmo tirano, e quem sabe um dia sejas o tirano de Atenas ou quem sabe de toda a Grécia?

TEAGES – Sócrates, já há vários minutos te estás mofando de mim!

SÓCRATES – Eu?!? Não dizes tu mesmo que a ciência que queres que te ensinem é a de governar todos os cidadãos? Podes governá-los sem fazer-te tirano, homem?!

TEAGES – Desejaria de todo o coração fazer-me o tirano de todos os homens, ou pelo menos da maior parte deles. Mas creio que tu mesmo, Sócrates, tens a mesma ambição, como todos os homens a têm! E quiçá, não satisfeito em ser tirano, preferirias até ser um deus. Mas eu não te disse, literalmente, que era isso o que eu tanto desejava.

SÓCRATES – Adianta-te pois: que é que desejas? Não é governar teus concidadãos?

TEAGES – Mas não é governá-los pela força como fazem os tiranos, mas com seu beneplácito, como fizeram os grandes homens que já tivemos em Atenas.

SÓCRATES – Te referes a Temístocles, Péricles, Címon e outros desta estirpe?

TEAGES – Exatamente.

¹ Anacreonte de Téos, poeta que viveu nos séculos VI e V a.C. Vivia como conselheiro político de tiranos gregos.

² Não confundir com o célebre arquiteto, também contemporâneo de Anacreonte, que projetou o Partenon.

SÓCRATES – (…) Acreditas poder adquirir esta habilidade, dirigindo-te a outros que não estes profundos políticos nesta ciência, que sabem conduzir não apenas sua polis, mas muitas, seja de gregos, seja de bárbaros? Ou pensas acaso que, conversando com outros além destes, far-te-ás tão hábil como eles?

TEAGES – Sócrates, ouvi de discursos alheios que tu já disseste noutras ocasiões(*) que os filhos destes grandes políticos não valiam mais que os filhos de um sapateiro velho e, tanto quanto concebo, parece-me que disseste uma verdade inconteste. Seria eu muito insensato se crera que algum destes grandes políticos poder-me-ia comunicar uma ciência, se não a puderam comunicar a seus próprios filhos, o que decerto teriam feito se fosse isso possível, preferindo ensinar um descendente seu que um mero estranho.

SÓCRATES – Que é que tu farias, Teages, se tiveras um filho, que andara atrás de ti o dia inteiro, incitando-te a caçar um mestre para si, a fim de se tornar um grande pintor? Tu, pai deste indivíduo hipotético, não deverias medir esforços a fim de satisfazer seu desejo, conquanto, por outro lado, encontrar-te-ias num impasse ou aporia, visto que teu filho já houvera deixado claro que desprezava os melhores pintores e professores de pintura existentes, resistindo a qualquer estágio em suas escolas!

(*) Ver Mênon e Górgias.” PS: Górgias já foi traduzido; Mênon está pendente.

Como podes crer surpreendente ou arengar e queixar-te de que teu pai não saiba que procedimento tomar a teu respeito, muito menos aonde enviar-te-ia a fim de que tu te fizeras realmente hábil? Porque nós, se é que o desejas, podemos neste instante mesmo colocar-te em mãos de nossos melhores e mais sábios professores de política; tu nada tens a fazer senão eleger um; nenhum deles te pedirá nada, esta parte é conosco. Tua família investirá seu patrimônio e tu adquirirás, por meio de seus ensinamentos, mais reputação perante o povo, muito mais do que poderias angariar em tuas relações e amizades habituais.”

Demódoco, tu tens mais idade que eu; desempenhaste os cargos mais importantes, és uma das pessoas mais admiradas em teu distrito de Anajira, e ninguém é mais estimado e honrado do que tu no resto da cidade; e nem teu filho nem tu podeis ver em mim nenhuma destas vantagens que possuis. Se teu filho despreza o trato com nossos políticos e busca os sofistas, que prometem educar bem à juventude, temos disponíveis na cidade Pródico de Céos, Górgias de Leôncio, Pólo de Agrigento, e tantos outros, todos hábeis; de tempos em tempos eles perambulam por todas as cidades da Grécia, atraindo jovens das casas mais ricas e nobres; jovens que poderiam ser ensinados, é verdade, sem que se lhes custasse um único óbolo, caso elegessem um concidadão como seu professor, ao invés dum estrangeiro. (…) Amaria de todo coração saber todas essas ciências, mas fiz profissão de confessar que nada sei, por assim dizer, além, é claro, duma só ciência, de pouco interesse, não obstante: a do amor.(*) De modo que lisonjeio-me verdadeiramente de ser mais profundo nesta última ciência que todos aqueles que me precederam e que vivem em nosso século.

(*) O Banquete [já traduzido]

SÓCRATES – (…) Por concessão divina, possuo um dom admirável que nunca me abandonara desde meu nascimento, quer seja: uma voz que, quando se deixa escutar, me aparta sempre do que vou fazer, mas que nunca me impele, por exemplo, a agir. (…) Sem dúvida conheceis o precioso Cármides, filho de Glauco: um dia ele me inteirou de seu projeto de combater nos jogos nemésios.(*) Mal me confidenciou isso, ouvi meu gênio interior. Tratei então de convencê-lo a abandonar seu projeto, dizendo-lhe: Mal abriste a boca, Cármides, ouvi a voz do deus, que pronunciava: Não vás à Neméia, Cármides! Me respondeu Cármides: Esta voz te adverte, talvez, que eu não serei campeão nem estarei no pódio, mas, se não obtenho a grande vitória, não importa; pois ter-me-ei exercitado, terei lutado e com isso me dou por satisfeito. Dito isto, separou-se de mim e foi à Neméia, onde combateu. Podeis vós saber que é que sucedeu, porque é coisa amplamente conhecida… Cármides morreu. Mas não só esta previsão me foi dada: Clitômaco, irmão de Timarco, poderá referir a vós as últimas palavras deste último, morto por haver desprezado as advertências dos deuses. Evatlo, atleta e corredor célebre, também conhece a história, pois que hospedava Timarco à época. Enfim, qualquer dos dois dir-vos-á que Timarco assim se pronunciou…

TEAGES – Que é que Timarco disse a Clitômaco à hora da morte, te imploro que digas!

SÓCRATES – Expiro neste momento porque não quis crer em Sócrates, irmão!, foi o que disse Timarco. Se quiserdes saber o que quis ele dizer, não adiarei a explicação: quando Timarco levantou-se da mesa com Filêmon, filho de Filemônides, com o intuito de irem matar Nícias, filho de Heroscamandro, em virtude de uma conspiração política, assim se dirigiu a mim, que estava no mesmo banquete que ele: E então, Sócrates? Segui vós aqui a beber; eu tenho necessidade de sair agora para tratar um assunto. Em um momento estarei de volta, se os deuses quiserem. Neste instante mesmo ouvi a voz de minha consciência. Chamei-lhe a atenção: Não saias, to suplico! A voz me assinalou o mal. Ele se deteve. Porém, passados mais alguns minutos, voltou a se levantar, dizendo-me: Sócrates, vou-me, sem demora. De novo, a voz repetiu sua mensagem em minha cabeça e eu o impedi. À terceira vez,¹ para livrar-se de mim sem inconvenientes, levantou-se sem me dirigir a palavra, e, aproveitando-se da ocasião de que meu espírito se concentrava noutra coisa, evadiu o banquete, indo realizar as ações que o levariam à morte. (…) Também podeis saber por inúmeros de nossos concidadãos o que eu disse à ocasião da expedição para a Sicília; e como se deu a derrota de nosso exército.

(*) Um dos 4 grandes jogos da Grécia; celebravam-se a cada 3 anos, perto da Neméia, no Peloponeso, em honra de Arquemoros.”

¹ Evento bíblico? Hehe.

Por que disse tudo isso? Para dar a entender a vós que até quando se trata daqueles que mais anelam estabelecer relações comigo, tudo depende, ao cabo, deste gênio que me governa; aqueles a quem ele se mostra contrário jamais poderão retirar de mim, Sócrates, qualquer bem ou utilidade; nem me é possível ir contra esta vontade divina. Muitos outros o gênio trata com indiferença, isto é, nada me comunica, mas mesmo que entre em conversação com estes sobre a virtude, ao fim eles nada realizam de bom; porém, aqueles que verdadeiramente mantêm relações comigo, com a aprovação explícita do gênio, são os mesmos de quem me falavas ainda agora, aqueles que em pouquíssimo tempo efetuam notáveis progressos morais – só que estes progressos não são firmes nem permanentes em uma parcela destes homens: esta classe de homens tira proveito de minha companhia enquanto me encontro a seu lado, de forma até surpreendente, mas basta que nos separemos por alguma casualidade e voltam a seu primeiro caráter, sem se diferenciarem em nada dos homens comuns. Foi isto que aconteceu a Aristides, filho de Lisímaco e neto de Aristides.(*)

(*) Rival político de Péricles.”

Tenho de contar-te, Sócrates, uma coisa incrível, porém tão incrível e fabulosa quanto segura e verdadeira. Nunca pude aprender nada de ti, como sabes muito bem. No entanto, jamais deixei de desfrutar de nossas conversações enquanto convivíamos, fosse a sós em minha casa, fosse na rua ou nos banquetes. E ainda assim há diversos graus: se estivéssemos na mesma casa, havia progressos em meu entendimento moral; mas se compartilhávamos a existência no mesmo cômodo, havia progressos ainda mais notáveis neste ponto. E enquanto estivesses apenas presente, mas calado, um era o ritmo do meu progresso; mas quando falavas e eu escutava atentamente, o ritmo era ainda mais rápido. E se eu fixava os olhos em ti, isto aumentava ainda mais a qualidade e a velocidade de minha instrução, comparado a quando eu apenas fitava outro elemento qualquer, a parede, uma cadeira, o chão. E este progresso era muito mais sensível se eu sentava a teu lado e estava em contato direto contigo. Esta minha capacidade, Sócrates, depois de que viajei e nos separamos, está, em suma, desaparecida.”

APOLOGIA DE SÓCRATES – atualizado e ampliado

Conteúdo original em https://seclusao.art.blog/2017/12/08/apologia-de-socrates/ (08/12/17) – Foram acrescentados novos trechos e editadas algumas das traduções de 2 anos atrás.

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for do tradutor Azcárate ou da editora Ana Pérez Vega, um (*) antecederá as aspas.

(*) “Os últimos acusadores de Sócrates foram Anito, que morreu posteriormente apedrejado no Ponto, Lícon, que sustentou a acusação, e Meleto.”

esta é a primeira vez na minha vida que compareço perante um tribunal de justiça, apesar de contar mais de 70 anos. (…) muitos acusadores (…) disseram-vos que há um certo Sócrates, homem sábio que indaga o que se passa nos céus e nas entranhas da terra e que sabe converter uma doutrina má em boa. (…) Por outra parte, estes acusadores são em grande número, e faz muito tempo que estão metidos nesta trama. (…) o mais injusto é que não me é permitido conhecer nem nomear meus acusadores, à exceção de um certo autor de comédias.”

Remontemos, pois, à primeira causa da acusação, sobre a que fui tão desacreditado e que deu a Meleto segurança para me arrastar a este tribunal.”

E nem é porque não considere louvável o poder instruir os homens, como fazem Górgias de Leôncio(*), Pródico de Céos(**) e Hípias de Élide(***). Estes grandes personagens têm o maravilhoso talento, aonde quer que vão, de persuadir os jovens a se unir a eles e abandonar seus concidadãos, quando poderiam estes ser seus mestres sem custar-lhes um óbolo [centavo].

(*) Górgias de Leontinos ou de Leontini [atual Sicília] (em grego, Γοργίας) (circa 485a.C.-circa 380a.C): filósofo do período antropológico da Filosofia grega.

(**) Pródico de Céos (Pródikos; circa 465(50?)a.C.-circa 395a.C.) foi um filósofo grego, que formou parte da primeira geração de sofistas. Nasceu no povoado de Yulis, na ilha egéia de Céos (uma das Cíclades, no mar Egeu).

(***) Hípias de Élide, sofista grego das primeiras gerações, nasceu aproximadamente em meados do século V a.C. e ademais foi um jovem contemporâneo de Protágoras e Sócrates. A maior fonte de conhecimento sobre ele é Platão. Aparece nos diálogos platônicos (Hípias menor e Hípias maior), além de (de forma breve) no Protágoras.”

Cálias III, filho de Hipônico [sogro de Alcibíades, neto de Cálias II], homem que gasta mais com os sofistas que todos os cidadãos juntos”

(*) “Querefonte, segundo Platão, era um cidadão ateniense que perguntou ao oráculo de Delfos se havia alguém mais sábio do que Sócrates, e a Pitonisa contestou-lhe que não havia nenhum grego mais sábio que este.”

ele não mente, a divindade não pode mentir.”

Pode muito bem suceder, que nem ele nem eu saibamos nada do que é belo e do que é bom; mas há esta diferença, que ele crê sabê-lo por mais que nada saiba, e eu, não sabendo nada, admito não saber. Me parece, pois, que nisto eu, ainda que por pouco, era mais sábio, porque não cria saber o que de fato não sabia. (…) fui em busca de outros, conhecendo bem que me fazia odioso, e fazendo-me violência, porque temia os resultados; mas me parecia que devia, sem duvidar, preferir a voz de deus a todas as coisas, e para topar com o verdadeiro sentido do oráculo, ir de porta em porta pelas casas de todos aqueles que gozavam de grande reputação (…) todos aqueles que passavam por ser os mais sábios me pareceram que não eram, ao passo que todos aqueles que não gozavam desta mesma opinião se achavam, em verdade, muito mais próximos de sê-lo.”

Depois destes grandes homens de Estado, fui então aos poetas, tantos aos tragediógrafos quanto aos ditirâmbicos, fora outros, em nada duvidando de que com eles finalmente seria pego no pulo, i.e., descoberto como mais ignorante que eles. Com esse intuito, examinei suas obras, as mais famosas e bem-escritas, e perguntei-lhes o que queriam dizer aqui e ali, e qual era seu objetivo, para que isso me instruísse. (…) Não houve um só de todos os poetas vivos que houvesse abordado que soubesse dizer ou dar razão de seus próprios poemas. Aprendi então que não é a sabedoria que guia os poetas, mas certos movimentos da natureza e um entusiasmo semelhante ao dos profetas e adivinhos; que todos dizem coisas muito boas, sem compreender nada do que dizem. Convenci-me então da presunção dos poetas, que se julgavam os mais sábios num sem-número de matérias. Deixei-os, pois, persuadido de que até eu era superior a eles, pela mesma razão que eu era superior aos políticos.”

Era melhor para mim ser como sou. Desta singela conclusão, atenienses, nasceu contra mim todo o ódio e inimizade que se me dedicam, capaz de produzir todas as calúnias que conheceis, fazendo-me adquirir esta fama injusta de homem sábio.”

Parece-me, atenienses, que somente Deus é o verdadeiro sábio, e que isto quisera dizer por intermédio de seu oráculo, deixando transparecer que toda a sabedoria humana não é grande coisa ou, por melhor dizer, que não é nada; e se o oráculo nomeou a Sócrates, sem dúvida valeu-se de meu nome como um exemplo, e como se dissesse a todos os homens: <O mais sábio de entre vós é aquele que reconhece, como Sócrates, que sua sabedoria nada é>.”

Isto tanto me preocupa que não tenho tempo para me dedicar ao serviço da república nem ao cuidado de meus assuntos pessoais, e vivo numa grande pobreza em virtude deste culto que rendo a deus. Por outro lado, muitos jovens das mais abastadas famílias, em meio a seu tempo ocioso, a mim se juntam de bom grado, e nisso sentem tanto prazer que acabam emulando meu método, e saem por aí questionando os homens auto-intitulados sábios, pondo-os à prova. E não duvideis de que acabam encontrando boa colheita, porque há muitos desses homens vãos pela cidade: tão confiantes quanto são ignorantes.

Todos aqueles que os jovens convencem de que não passam em realidade de uns ignorantes acabam por se voltar contra mim e não contra os próprios jovens, e espalha-se esse rumor de que há um tal Sócrates, malvado e infame, corruptor da juventude; quando se lhes pergunta o que faz Sócrates ou o que ensina Sócrates, não têm o que dizer, e para dissimular a debilidade de sua acusação e a vacuidade de seu argumento soltam estes impropérios de sempre dirigidos aos filósofos, coisa trivial, vós o sabeis. Alegam que Sócrates indaga o que é que se passa nos céus e nas entranhas da terra, que além disso não crê nos deuses, que explica as causas más como sendo boas. E toda essa celeuma só porque não se atrevem a dizer a verdade: que o único que faz Sócrates é pegar esses pseudo-sábios no pulo, descobrindo seu segredo (eles nada sabem).”

Meleto representa os poetas, Anito os políticos e artistas e Lícon os oradores.”

ACUSAÇÃO FORMAL: “Sócrates é réu, porque corrompe os jovens, porque não crê nos deuses do Estado, e porque no lugar destes deuses estabelece novas divindades que chama de demônios ou espíritos ou gênios.”

SÓCRATES – (…) já que encontraste quem corrompe os jovens desta cidade, e já o denunciaste aos magistrados, é necessário que digas quem fará dos jovens pessoas melhores. Fala, vejamos de quem se trata!… Vês, Meleto? Calaste-te. Estás perplexo, não atinas com que responder. Não te parece isto vergonhoso? Não é a prova cabal de que jamais te preocupaste com a educação da juventude? Mas repito, meu excelente Meleto: quem é aquele que pode melhorar os jovens?

MELETO – As leis.

SÓCRATES – Meleto, sabes que não foi esta minha pergunta. Eu te pergunto quem é o homem; porque é evidente que a primeira coisa que este homem deve conhecer são as leis.

MELETO – São, Sócrates, os magistrados aqui reunidos.

SÓCRATES – Como, Meleto?! Estes magistrados ou juízes são capazes de instruir os jovens e fazer deles pessoas melhores?

MELETO – Sim, Sócrates, certamente.

SÓCRATES – Mas são todos estes juízes, ou há entre eles uns que são capazes e outros que não?

MELETO – Todos igualmente.

SOCRATES – Hm, perfeitamente. Por Hera! De um só golpe deste a Atenas um número enorme de bons preceptores! Mas sigamos adiante, Meleto. Estes ouvintes que nos escutam, o júri, podem eles, também, fazer dos jovens melhores, ou não?

MELETO – Podem.

SÓCRATES – E os senadores?

MELETO – O mesmo digo dos senadores.

SÓCRATES – Mas, querido Meleto, todos aqueles que vêm à assembléia do povo corrompem igualmente os jovens ou são capazes de melhorá-los?

MELETO – São todos capazes.

SÓCRATES – Segue-se daí que todos os atenienses podem fazer os jovens melhores, menos eu; só eu os corrompo, não é assim, Meleto?

MELETO – Sim, Sócrates.

SÓCRATES – Ó, sou mesmo um desgraçado! Mas continua a responder-me. Parece-te que sucederá o mesmo com os cavalos? Podem todos os homens aperfeiçoá-los, e é possível que somente um indivíduo possua a capacidade de arruiná-los? (…) Há um só bom domador ou há alguns bons domadores? E o restante dos homens, que não são domadores, será que pioram os cavalos? Não seria assim com todos os animais? Ó, sem dúvida! Anito e tu já conviestes nisto! Porque seria extremamente raro e vantajoso para a juventude que um só houvera capaz de corrompê-la, enquanto todos os demais instruem-na e a conduzem no bom caminho. Mas tu provaste com sobras, Meleto, que a educação da juventude não é coisa que tenha tirado teu sono um só dia, e teus discursos evidenciam com clareza absoluta que tu jamais te ocupaste desta matéria que motiva tua perseguição contra mim.”

SÓCRATES – Existirá alguém que prefira receber dano daqueles com quem trata a tirar vantagem? Responde, porque a lei manda que me respondas neste tribunal. Há alguém em seu juízo perfeito que prefira ser piorado que melhorado, Meleto?

MELETO – Não, não há.

SÓCRATES – Mas então, vejamos: quando me acusas de corromper a juventude e torná-la pior, sustentas que faço-o deliberadamente ou sem querer?

MELETO – Sabes o que fazes, Sócrates.

SÓCRATES – Tu és jovem, eu um ancião. É possível que tua sabedoria seja assim tão superior a minha, que sabendo tu que o contato com os maus causa o mal, e o contato com os bons causa o bem, suponhas-me tão ignorante que não saiba que, se converto aqueles que me rodeiam em maus, exponho-me a receber o mesmo mal em paga? Supões que eu, apesar desta simples consequência lógica, insista e persista no mal, e isso por livre e espontânea vontade, conhecedor dos meus atos? (…) Um de dois: ou eu não corrompo os jovens, ou, corrompendo-os, fá-lo sem saber e contra minha vontade, e de qualquer maneira que seja tu és um caluniador. Se corrompo a juventude a despeito de minhas intenções, a lei não permite que se cite alguém que não pode responder pelos próprios atos no tribunal. Não é culpado aquele que erra involuntariamente; só pode ser réu aquele que peca porque quer. O procedimento nestes casos seria chamar-me e repreender-me, instruindo-me no jeito correto de fazer as coisas. É certo que, se me ensinam aquilo que não sei, não mais errarei. Mas tu, com propósito, e longe de preocupar-te em educar-me, arrastas-me a este tribunal, onde o objetivo da lei é castigar as ofensas, jamais o mero repreender ou prevenir faltas voluntárias.

SÓCRATES – (…) explica-te se me acusas de ensinar que há muitos deuses (e neste caso, se creio que há deuses, não sou ateu, e falta a matéria para que seja eu culpado), ou se estes deuses não são do Estado. (…) Ou bem me acusas de que não admito nenhum deus, e que ensino os demais a que não reconheçam nenhum?

MELETO – Acuso-te de não reconhecer nenhum deus.

SÓCRATES – Oh, maravilhoso Meleto!, por que dizes isso? O quê!! Eu não creio como os demais homens que o sol e a lua são deuses?!

MELETO – Não, por Zeus! Ateniense Sócrates, tu não crês nisto, porque afirmas que o sol é uma pedra e a lua um pedaço de terra.

SÓCRATES – Mas tu estás acusando Anaxágoras em meu lugar, querido Meleto? Creio que menosprezes estes juízes, subestimando sua inteligência, ao pensar que eles ignorem que os livros de Anaxágoras de Clazômenas estão repletos de asserções deste tipo. E que necessidade teriam os jovens de aprender comigo coisas que poderiam aprender no teatro mesmo, por um dracma quando muito?

SÓCRATES – Meleto, tu dizes coisas verdadeiramente incríveis. Nem mesmo te pões de acordo contigo! Me parece, caros atenienses, que este Meleto é um insolente, que forjou esta acusação com o único intuito de insultar-me, com toda a audácia de um imberbe, porque, justamente, só veio ao tribunal a fim de testar-me e propor um enigma, dizendo-se a si próprio: Vejamos se Sócrates, este homem que se passa por tão sábio, reconhece que me contradigo e que digo coisas absurdas, ou se consigo enganá-lo, não só a ele como a todos os presentes! Efetivamente, contradizes-te em tua acusação, porque é como se tu dissesses: Sócrates é réu; primeiro, porque não reconhece deuses; segundo, porque os reconhece! Não seria isto mangar dos outros? Pelo menos eu creio que sim. Atenienses, suplico-vos que não vos irriteis comigo, se falo de forma tão simplória. Responde mais isto, Meleto. Há alguém no mundo que crê na existências de coisas humanas mas não na existência de homens?… Juízes, mandai que ele responda, e que deixe de murmurar tanto!… Há quem acredite haver regras para domar cavalos, e que não haja cavalos? Que há tocadores de flauta e que não há som de flauta? (…) há alguém que ao mesmo tempo creia nas coisas dos demônios, e que, no entanto, creia que não há demônios?

MELETO – Não, sem dúvida.

SÓCRATES – Que trabalho custou-me arrancar-te esta confissão! Respondeste-me, mas não sem que os magistrados a isso te obrigassem!”

SÓCRATES – E estes demônios, não estamos convencidos de que são deuses ou filhos de deuses? É assim, sim ou não?

MELETO – Sim.”

…E se os demônios são filhos dos deuses, filhos bastardos, que seja, pois o que dizem é que são filhos de deuses com ninfas ou de deuses com homens quaisquer, diz-me, quem é o homem capaz de crer que há filhos de deuses, mas que não há deuses? Seria como acreditar que há mulas e jegues mas que não há cavalos nem asnos!”

Talvez alguém objete: Não tens remorso, Sócrates, de te haveres consagrado a um estudo que te põe neste momento em risco de morte?

Meu filho, se vingares a morte de Pátroclo, teu amigo, matando a Heitor, tu morrerás, porque tua morte deve seguir à de Heitor.”

É uma verdade constante, atenienses, que todo homem que escolheu um posto que tenha crido honroso, ou que foi-lhe imposto por seus superiores, deve se manter firme, e não deve temer nem a morte, nem o que há de mais terrível, antecipando-se a todo o horror.

Conduzir-me-ia de uma maneira singular e estranha, atenienses, se depois de ter guardado fielmente todos os postos a que me destinaram nossos generais em Potidéia, em Anfípolis e em Délio(*) [não confundir com Delos] e de ter arriscado minha vida tantas vezes, agora que o deus me ordenou passar meus dias no estudo da filosofia, estudando-me a mim mesmo e estudando os demais, abandonasse este posto por medo da morte ou de qualquer outro perigo. (…) Porque temer a morte, atenienses, não é outra coisa senão se crer sábio sem o ser, e crer conhecer o que não se conhece. Com efeito, ninguém conhece a morte, nem sabe se é o maior dos bens para o homem.

(*) Sócrates se distinguiu por seu valor nos dois primeiros lugares, e na batalha de Délio salvou as vidas de Xenofonte e Alcibíades, seus discípulos.”

Se me dissésseis: Sócrates, em nada estimamos a acusação de Anito, e te declaramos absolvido; mas só à condição de que cessarás de filosofar e de fazer tuas indagações de costume; e se reincidires, e se se chegar a descobri-lo, tu morrerás. Se me désseis a liberdade sob estas condições, responder-vos-ia sem hesitar: Atenienses, respeito-vos e amo-vos; mas obedecerei a deus antes que a vós, e enquanto eu viver não cessarei de filosofar, dando-vos sempre conselhos, retomando minha vida ordinária, e dizendo a cada um de vós quando vos encontrasse: – Bom homem, como, sendo ateniense e cidadão da maior cidade do mundo por sua sabedoria e por seu valor, como é que não te envergonhas de não haveres pensado senão em amontoar riquezas?

Toda minha ocupação se resume em trabalhar para persuadir-vos, jovens e velhos, de que antes do cuidado com o corpo e com as riquezas, antes de qualquer outro cuidado, vem o da alma e seu aperfeiçoamento”

Fazei o que pede Anito, ou não o façais; dai-me a liberdade, ou não ma deis; eu não posso fazer outra coisa, ainda que houvesse de morrer mil vezes… Mas não murmureis, atenienses, e concedei-me a graça que vos pedi ao princípio: escutai-me com calma. Calma que creio não resultar infrutífera; fato é que tenho de dizer-vos outras muitas coisas que, quiçá, far-vos-ão murmurar. Mas não vos deixeis levar pela paixão. Estai persuadidos de que se me fizerdes morrer com base no que acabo de declarar-vos, o mal não será só para mim. Com efeito, nem Anito nem Meleto podem causar-me mal algum, porque o mal nada pode contra o homem de bem. Far-me-ão condenarem-me à morte, é certo, ou quiçá ao desterro, ou à perda dos meus bens e dos meus direitos de cidadão”

condenar-me seria ofender o deus e desconhecer a dádiva que vos foi regalada. Morto eu, atenienses, não encontraríeis facilmente outro cidadão que o deus conceda a esta cidade – sim, sei que esta comparação vos soará ridícula e prepotente –, como se diz de um corcel nobre e generoso, porém entorpecido por sua nobreza, e que tem necessidade da espora, de ser excitado, constrangido e despertado para o bom comportamento. Figura-se-me que sou realmente aquele que deus escolheu para excitar os atenienses e retificá-los, atiçá-los, fustigá-los, espetá-los, cuidar de vós, numa só palavra, jamais abandonar-vos, nem um só instante!”

Que resultará disso, amigos? Passareis o resto da vida dormentes, profundamente insensíveis, a menos que o deus tenha compaixão de vós e vos envie um outro homem que se pareça comigo. (…) Há um quê de sobre-humano no fato de eu ter abandonado durante tantos anos meus próprios interesses a fim de me consagrar aos vossos, dirigindo-me a cada qual de vós, como se fôra um pai ou um irmão mais velho, como só um destes poderia fazer… exortando-vos sem descanso a que praticásseis a virtude.”

ZARATUSTRA II (OU ZARATUSTRA ZERO): “Talvez pareça absurdo que eu me tenha intrometido a dar lições a cada um em particular, e que jamais me tenha atrevido a me apresentar em vossas assembléias, para dar meus conselhos à pátria. Quem mo impediu, atenienses, foi este demônio familiar, esta voz divina de que tantas vezes vos falei, e que serviu a Meleto para formar admiravelmente um capítulo da acusação. (…) Essa voz é a que sempre se me opôs, quando quis mesclar-me nos negócios da república”

É preciso, de toda necessidade, que aquele que quiser combater pela justiça, por pouco que queira viver, seja tão-somente um simples particular e não um homem público.”

é impossível que eu deixe de ser vítima da injustiça.”

Já sabeis, atenienses, que nunca desempenhei nenhuma magistratura, e que fui tão-somente senador. A tribo de Antioquia, à qual pertenço, ocupava seu turno no Pritaneu quando, contra toda a lei, vos empenhastes em processar um dos dez generais que não haviam enterrado os corpos dos cidadãos mortos no combate naval das Arginusas; injustiça, reconheceis hoje, porque arrependestes-vos.¹ Fui eu o único senador que se atreveu a opor-se a vós a fim de impedir a violação das leis. Protestei contra vosso decreto, e apesar dos oradores que estavam prestes a denunciar-me, apesar de vossas ameaças e vitupérios, preferi correr este perigo ao lado da lei e da justiça que consentir convosco em tão insigne iniqüidade, sem que me impedissem nem os grilhões nem a morte.

Isto se deu quando a cidade era governada pelo povo, porém já depois que se estabeleceu a oligarquia (decadência dos costumes): havendo-nos mandado os Trinta tiranos que outros quatro e eu fôramos a Tholos(*) para um assunto, comunicaram-nos uma ordem: prender Léon de Salamina para a execução. Os Trinta davam este tipo de comando à toa, a muitas pessoas, a fim de comprometer o maior número de cidadãos o possível em seus crimes e calamidades. (…) Mas vede: todo o poder destes Trinta tiranos, por maior que fôra, não me intimidou. Não foi o bastante para turvar meu juízo ou fazer-me desobedecer à lei justa.

Assim que saímos de Tholos, dirigiram-se os outros 4 a Salamina, e mataram León. Eu voltei a minha casa. Não duvideis de que minha morte teria sido ordenada em muito pouco tempo caso naquele momento mesmo não tivesse sido abolido tal governo. Existe um grande número de cidadãos capazes de testemunhar a meu favor.

Credes que eu haveria de viver tantos anos se me mesclara ainda mais do que nestas ocasiões nos negócios da república? Se, como homem de bem, houvera combatido toda e qualquer classe de interesse bastardo, dedicando-me exclusivamente à defesa da suprema justiça? Esperança vã, atenienses! Nem eu nem nenhum outro houvera podido fazê-lo. Mas a única coisa a que me propusera em toda minha vida pública e privada foi jamais ceder ante a injustiça, jamais ceder aos tiranos que meus caluniadores querem agora convencer-vos de que são meus discípulos! (…) como meu ofício não é mercenário, não me recuso a discursar, ainda que sem a menor das retribuições; e estou sempre disposto, seja com ricos ou com pobres, a dedicar todo o tempo àquele cidadão que queira me fazer perguntas, e, se o prefere, a fazer-lhe eu mesmo as perguntas que ele queira responder, ou as que ele deseja que eu pergunte de todo o coração. E se, dentre estes que questionei, há alguns que se tornaram homens de bem ou pícaros, nem por isso devo ser exaltado ou censurado. Porque não sou eu a causa. Nunca prometi ensinar coisa alguma a ninguém.

¹ Atenas, além de ter vencido a batalha de Arginusa contra Esparta, não tinha como enterrar soldados mortos como náufragos, cujos cadáveres afundaram em alto-mar!

(*) “Sala de despacho dos Pritaneus, prítanes ou senadores – P.A. / Vestígios dessa câmara, uma sala redonda, foram escavados por arqueólogos em tempos recentes. – A.P.V.”

Como já vos disse, foi o deus mesmo quem me deu esta ordem, através dos oráculos, sonhos e outros meios de que se vale a divindade quando quer que os homens saibam qual é a sua vontade.”

Não desejo contar com a proteção dos que ‘corrompi’, porque poderiam ter razões para defender-me com unhas e dentes; mas seus pais, que não seduzi e que têm já certa idade, que outra razão podem ter para querer me proteger, senão minha inocência?”

tenho parentes e tenho três filhos, dos quais o maior está na adolescência e os outros dois na infância, e no entanto, não os farei comparecer aqui para vos comprometer a absolver-me.”

muitos que vi, que passavam por grandes personagens, agiam com uma baixeza surpreendente quando se tornavam réus de um julgamento, como que persuadidos de que seria para eles um grande mal se lhes arrancassem a vida, e de que se tornariam imortais caso viesse a sonhada absolvição. Repito que, obrando assim, só poderiam cometer uma afronta a Atenas, pois fariam com que os estrangeiros cressem que os mais virtuosos dentre nós, os favoritos e os mais dignos de louvor, em nada se diferenciavam, no fundo, de mulherzinhas miseráveis. Isso é o que não deveis absolutamente fazer, atenienses, vós que houvestes alcançado tanto renome. Se quiséramos fazê-lo, nós, grandes personagens, estais obrigados, vós magistrados, a impedir-nos, e declarar que condenareis ainda mais depressa àquele que recorrer a estas cenas trágicas para mover os juízes por compaixão, ridicularizando nossa polis. Aquele que esperar tranqüilamente vossa sentença, com efeito, demorará mais a morrer.”

* * *

não esperava ver-me condenado por tão escasso número de votos.”

(*) “A lei permitia ao acusado condenar-se a uma destas três penas: prisão perpétua, multa ou desterro. Sócrates não caiu nesta armadilha.”

Dito isto, de que sou eu merecedor? De um grande bem, sem dúvida, atenienses, se é que recompensais verdadeiramente o mérito. E que é que convém a um homem pobre, vosso benfeitor, e que tem necessidade de uma grande concessão e tolerância a fim de se ocupar exclusivamente em exortar-vos? Nada convém-lhe tanto, atenienses, quanto ser alimentado no Pritaneu, o que é-lhe muito mais devido que àqueles dentre vós que ganharam as corridas de charrete nos jogos olímpicos; porque estes, com suas vitórias, fazem que pareçamos mais felizes; eu, eu os faço, não em aparência, mas verdadeiramente, mais felizes. Acresce que os atletas de renome não carecem deste tipo de socorro – o sustento alheio –; por outro lado, eu dele necessito.”

Se tivésseis uma lei que ordenasse que um julgamento de morte durasse muitos dias, como se pratica noutras partes, estou convencido de que vos convenceria de minha inocência. Mas como hei de destruir tantas calúnias num espaço de tempo tão curto? Tenho a mais absoluta certeza que nada fiz de mal a ninguém. Como hei de fazê-lo a mim mesmo, pois, confessando que mereço ser castigado, impondo-me a mim mesmo uma pena? Por não ter de sofrer necessariamente o suplício a que me condena Metelo, suplício que, verdadeiramente, não sei se é um bem ou um mal, iria eu optar, em detrimento da pena capital, por uma dessas penas ditas ‘menores’, que tenho certeza que são realmente males? Condenar-me-ei eu, inocente, a alguma delas? Seria cabível uma prisão perpétua? E que significa viver, sendo eterno escravo dos Onze?(*) Será justo o confinamento até que pague eu a multa estipulada? Isto equivale à pena de prisão perpétua, pois que não tenho com que pagar a multa. Condenar-me-ei ao desterro? Era preciso que eu fosse obcecado pelo ‘estar vivo’, queridos atenienses, se não percebesse que, se vós, meus concidadãos, não mais suporteis meus hábitos e conversações nem minhas máximas, havendo-vos irritado a ponto de levar vosso ódio e repulsa às últimas conseqüências, com muito mais razão os homens de outros países não poderiam em absoluto suportar-me! Preciosa vida para Sócrates, se a esta idade, expulso de Atenas, se visse errante de cidade em cidade como um vagabundo e como um proscrito! Sei muito bem que, aonde quer que eu vá, os jovens me escutarão, como me escutam os de Atenas; mas se os rechaço eis que rogarão a seus pais que me desterrem; e, se não os rechaço, eis que seus próprios pais e parentes, sem nenhum rogo, se apressarão em arrojar-me da cidade ainda mais depressa!

(*) “O número de magistrados encarregados de vigiar as prisões.”

O quê, Sócrates, se fores banido não poderás manter-te em repouso e guardar silêncio? (…) se vos digo que calar no meu exílio seria o mesmo que desobedecer a Deus, e que por esta razão me é impossível guardar silêncio, não me creríeis, decerto, e entenderíeis isto como ironia!

uma vida sem avaliação moral não é vida”

Verdadeiramente, se fosse eu rico, condenar-me-ia a uma multa tal que pudesse pagá-la, porque isto não me causaria nenhum prejuízo; mas não posso, porque nada tenho, a menos que queirais que a multa seja proporcional a minha indigência, e neste particular poderia ela se estender no máximo a uma mina de prata, pois é a isto que me condeno.”

(Havendo-se Sócrates condenado a si mesmo à multa por obedecer à lei, os juízes deliberaram e o condenaram à morte…)”

E para agravar vossa vergonhosa situação, sabeis que os estrangeiros me chamarão sábio, ainda que eu não o seja! No lugar deste gravame para vós, poderíeis muito bem ter agido com mais paciência, pois minha morte adviria naturalmente. Alcançaríeis da mesma forma vosso objetivo, pois vede: na idade em que estou, já não disto muito da morte.”

Não são as palavras, atenienses, aquilo que me faltara; é a impudência de não vos haver dito aquilo que gostaríeis de ouvir. Teria sido para vós uma grande satisfação o haver-me visto lamentar, suspirar, chorar, suplicar e cometer todas as demais baixezas que estais vendo todos os dias dentre outros acusados.”

Sucede amiúde nos combates que pode-se salvar a própria vida com muita facilidade, depondo as armas e pedindo asilo e clemência ao inimigo, e o mesmo sucede em todos os demais perigos; há mil expedientes utilizáveis para evitar a morte. Quando alguém está em liberdade para escolher suas ações ou seu discurso, é realmente fácil. Ah, atenienses! Não é evitar a morte que é difícil, mas evitar a desonra, que se aproxima muito mais ligeira que a morte!

Ó vós, que me houvestes condenado à morte! Quero predizer-vos o que vos sucederá, porque me vejo naqueles instantes, quando a morte se aproxima, em que os homens são capazes de profetizar o futuro. Vo-lo anuncio: vós que me matais agora, vosso castigo não tardará, quando eu houver finalmente morrido, e será, por Zeus!, mais cruel que o castigo que me impusestes! Ao desfazer-vos de mim, só houvestes tentado em vão descarregar-vos do importuno peso da prestação de contas de vossa existência, mas vos sucederá tudo ao contrário, vo-lo predigo!”

se credes que basta matar alguém para impedir que outros vos denunciem e joguem na cara que viveis pessimamente, vos enganais de forma terrível. Esta maneira de libertar-vos de vossos censores não é decente nem sequer possível. A melhor maneira, ao mesmo tempo decente e muito simples, é, no lugar de calar os homens, fazer-vos pessoas melhores.”

Com respeito a vós que me absolvestes com vossos votos, ó, atenienses! Conversarei convosco com o maior prazer, no intervalo de tempo entre meu encarceramento e os preparativos dos Onze. Concedei-me, suplico-vos, um momento só de atenção, nesta oportunidade, pois nada impedirá que conversemos juntos; haverá tempo de sobra. Quero dizer-vos, como amigos que sois, antes disso, só uma coisa que acaba de suceder-me, e explicar-vos o que significa. Sim, meus juízes (e, chamando-vos desta maneira, não me engano no nome!), sucedeu-me hoje uma coisa muito maravilhosa. A voz divina de meu demônio familiar que me fazia advertências tantas vezes, e que às menores ocasiões não deixava jamais de separar-me de todo o mal que possivelmente viesse a empreender, hoje, que me sucede o que vós vedes, e que a maior parte dos homens tem pelo mal supremo, esta voz não me disse nada, nem esta manhã, enquanto saía de casa, nem quando cheguei ao tribunal, nem após começar a discursar a vós. E todavia muitas vezes me sucedeu ser interrompido em meio a minhas conversações por esta ‘voz’! Hoje a nada meu gênio interior se opôs, em nenhum momento de minha fala ou de minhas ações. Que quer dizer isso? Vou dizê-lo! São fortes indícios de que o que me sucedeu é um grande bem”

É preciso que de duas uma: ou que a morte seja um aniquilamento absoluto e uma privação de todo sentido, ou, como se diz, que seja um trânsito da alma de uma paragem para outra. Se é a privação de todo sentido, um sono pacífico que não é turvado por nenhum sonho, que maior vantagem poderia apresentar a morte? (…) Se a morte é semelhante coisa, chamo-a com razão de um bem; porque então o tempo todo inteiro não é mais que uma longa noite.

Mas se a morte é um trânsito de um lugar para outro, e se, segundo se diz, lá embaixo está o paradeiro de todos os que um dia viveram, que maior bem, outrossim, é possível imaginar, ó meus juízes? Porque se, ao deixar os juízes prevaricadores deste mundo, encontramos no Hades os verdadeiros juízes, que se diz que fazem, ali sim, justiça, Minos, Radamanto, Éaco, Triptólemo e todos os demais semideuses que foram justos em vida, não é esta a mudança mais feliz que há? A que preço não compraríeis a felicidade de conversar com Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero? (…) Que transporte de alegria não teria eu assim que me encontrasse com Palamedes, com Ájax, filho de Telamon, e com todos os demais heróis da antiguidade, que foram vítimas da injustiça? Que prazer o poder comparar minhas aventuras com as suas! Mas ainda seria um prazer infinitamente maior para mim passar ali os dias, interrogando e examinando e avaliando todos estes personagens, para distinguir os verdadeiramente sábios dos que apenas crêem sê-lo e não o são (os torpes). Há alguém, juízes meus, que não daria tudo aquilo que possui neste mundo para poder examinar em pessoa aquele que conduziu um vasto exército contra Tróia? Ou Ulisses, ou Sísifo, ou tantos outros, homens, mulheres, cuja conversação e avaliação moral seriam de um júbilo inexprimível? De fato é uma recompensa que não traz qualquer prejuízo! Ali entraríamos em contato com os mais felizes e os únicos que gozam de fato da imortalidade, se havemos de crer no que diz o vulgo.”

Eis, em suma, por que a voz divina nada me dissera neste dia. Não guardo nenhum rancor contra meus acusadores, nem contra os que me condenaram. (…) Um favor, apenas, peço-vos: Quando meus filhos houverem crescido, suplico-vos que os fustigai, os atormentai, como eu vos atormentei, no caso de que eles prefiram as riquezas à virtude, e de que se creiam algo quando nada são! Não deixeis de vexá-los bastante, se eles deixarem de se aplicar naquilo em que devem se aplicar, imaginando que são aquilo que não são!

Mas já é tempo de que nos retiremos daqui, eu para morrer, vós para viverdes. Entre vós e eu, quem leva a melhor parte? Isto é o que ninguém sabe, exceto Deus.”

(Pseudo?) CARTAS I & II. Platão a Dionísio, Sabedoria. (2) / Critérios da presente edição (palavras da editora das Obras Completas Mobi/EPub)

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for do tradutor Azcárate ou da editora Ana Pérez Vega, um (*) antecederá as aspas.

Recorda sempre o mau comportamento que tiveste comigo, para que te conduzas melhor com os demais.”

* * *

A natureza quer que a sabedoria e o poder soberano se reúnam, e assim é que se seguem um ao outro, buscam-se e terminam por amalgamar-se.”

Costuma-se celebrar juntos os pares Periandro de Corinto e Tales de Mileto; Péricles e Anaxágoras; ou mesmo trios, como Creso da Lídia, Sólon e Ciro. Os poetas, seguindo este costume, mesclam em seus cantos Creonte e Tirésias, Polinides e Minos, Agamemnon e Nestor, Ulisses e Palamedes, e, se não me engano, os homens nenhuma outra razão tiveram para unir Zeus e Prometeu. Cantam seus heróis, apresentando-no-los seja em relação de amizade, seja em relação arquetípica de inimizade, quando não como seres em perfeita simbiose de amor e ódio (amigos num ponto e adversários em outro).”

É nosso dever preocuparmo-nos com o porvir, porque a natureza quisera que só ao escravo fosse o futuro indiferente, enquanto que o homem livre e bem-nascido deve fazer os maiores esforços para deixar à posteridade uma reputação sem mácula. Isto me demonstra que os mortos conservam algum sentimento de tudo que fizeram e sofreram em vida, subsistindo sua herança e seu legado na terra; as almas boas o pressentem, as más teimam em negá-lo.”

Que coisa há de mais santa e piedosa que proteger a filosofia? E que coisa mais impiedosa que desprezá-la?”

Cheguei à Sicília gozando a reputação de ser o maior filósofo desta era (…) Não era coisa rara sujeitos que espalhavam aos quatro ventos que tu desdenhavas meus conselhos, e que eram outros cuidados os que te ocupavam; vê que era esse, pelo menos, o juízo público siciliano.”

Se desprezas completamente a filosofia, não há mais que falar; se aprendeste outra ou se tu mesmo descobriste uma melhor que a minha, que seja bem-vinda; mas, se estás satisfeito com as minhas lições, preciso é que me faças a justiça que me é devida; Hoje, como dantes, marcha adiante; eu seguirei teus passos. Honrado por ti, eu te honrarei; privado das honras que me são devidas, guardarei silêncio. Pensa bem nisso; honrando-me a mim honras à filosofia, e obterás, sozinho na vasta multidão, a reputação de filósofo, que é o objeto de tua ambição. Mas se, pelo contrário, eu te honrasse apesar de teu desvario, passaria eu por homem que só ama e busca as riquezas, e já sabemos quão odiosa é semelhante qualificação. Em suma, se tu me honrares, isto será uma glória para ti e para mim; e se eu te honrasse sem ser honrado, seria uma vergonha para ambos.”

tu não estás contente com as razões que eu expusera sobre a natureza do primeiro ser. (…) A alma humana deseja com ardor penetrar estes mistérios, e para chegar a consegui-lo examina tudo aquilo que se parece com ela, mas não encontra absolutamente nada que a satisfaça. Quanto ao rei e ao demais de que eu falara, nada há que se lhes pareça. O que vem abaixo, isto está ao alcance da alma.

Como responder, ó, filho de Dionísio e Dóris!, tua pergunta, qual é a causa do mal em geral? A alma se atormenta com sua ignorância, e enquanto não se vê livre desta ignorância não encontra meios de chegar à verdade. No entanto, um dia, em que passeávamos pelos teus jardins à sombra dos lauréis, disseste-me tu que havias resolvido este problema sem o auxílio de ninguém.”

Fizeste mui bem em enviar-me Arquidemo. Quando ele voltar com minhas respostas a tuas perguntas, surgirão, quiçá, novas dúvidas em teu espírito. Então me reenvia teus questionamentos, e na volta do navio de Arquidemo terás de novo amplas explicações. Se obrigas Arquidemo a empreender esta viagem de ida e volta por duas ou três vezes, e se examinas com cuidado aquilo que eu te comunicar, muito me surpreenderá se tuas dúvidas não se virem substituídas pelas mais claras e corretas noções. Ânimo, pois! e ajusta tua conduta conforme meus preceitos.”

Esta doutrina é preciso que medites muitas e muitas vezes, estudando-a sem cessar. Porque, como o ouro, não se purifica senão depois de muitos anos e grandes trabalhos. Mas escuta o que há nisto de admirável: há homens, demasiados em número, gente de entendimento, inclusive, dotados de boa memória e de juízo seguro e penetrante, avançados em idade e conhecedores desta doutrina há pelo menos 30 anos – estes homens mesmo são os primeiros a confessar que aquilo que noutros tempos lhes parecia incrível e absurdo, é-lhes hoje muito mais digno de fé; e aquilo que lhes parecia indubitável e absoluto já não possui nenhuma credibilidade a seus olhos. Levando isto em conta, não percas a paciência nem te desgostes se até agora não tiveres feito qualquer progresso notável em tuas indagações. Evita sobretudo escrever tuas reflexões, porque é preciso exercitar a memória; e o papel em que fazes apontamentos pode desaparecer. Por esta razão, nunca escrevi nada: não há nem haverá jamais obras de Platão! [!!!] As que se me atribuem são de Sócrates, de quando era bem moço. Adeus, atende meus conselhos; e depois que tiveres lido e relido esta carta, arroja-a ao fogo!

* * *

(*) “Respeitamos em todo o possível a valiosa tradução original de Patrício de Azcárate, apegada ao grego, conquanto influenciada pela tradução latina de Cristoforo Landino e ainda a francesa, de Victor Cousin. Apenas corrigimos imprecisões e arcaísmos do original. Modernizamos também a transcrição de nomes próprios, etc. As notas, salvo quando se indicam expressamente as iniciais P.A., são desta editora. –Ana Pérez Vega

MISCELÂNEA PSEUDO-PLATÔNICA – Da Virtude, Da Justiça, Definições & Poesias

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

DA VIRTUDE

(*) “A virtude pode, por sua natureza, ser ensinada? – Não, porque Temístocles, Aristides, Péricles, Tucídides foram incontestavelmente homens de bem, tiveram filhos que aprenderam a música, a equitação e todas as demais coisas, e, se não aprenderam a ser virtuosos, que é de mais valia que todo o precedente, é porque a virtude é impossível de se ensinar.

Será a virtude um dom da natureza, quer dizer, uma qualidade natural? – Não, porque se os homens fossem uns naturalmente bons, outros naturalmente maus, haveria uma arte para os distinguir, como há a respeito dos cavalos e dos cães, que permite conhecer quais são de boa e quais são de má condição.

Mas se a virtude não procede nem do ensino nem da natureza, donde vem? – Dos deuses. A virtude é um presente dos deuses.

DA JUSTIÇA

(*) “Este diálogo não apresenta estilo nem gosto. A sequidão da forma é como a aridez do fundo. Que daimon inspirara a Símon o Socrático a idéia de escrever diálogos para cansar tradutores, uma vez que é o que impera ao se traduzir seus textos, e cansar os leitores, na hipótese de haver algum?”

DEFINIÇÕES

(*) “Alguns aforismos possuem origem estóica ou peripatética. A maior parte pertence à sabedoria vulgar, aos cidadãos que conheciam filósofos, mas não a filosofia. (…) O estilo, sempre mediano, é algumas vezes, além disso, obscuro, até o ponto de impor ao tradutor a necessidade de inventar algum sentido.”

A fortuna é a marcha do desconhecido ao desconhecido; a causa fortuita de um sucesso independente dos homens.”

A alma é o que se move a si mesma. É a causa do movimento vital dos seres vivos.”

O poder é aquilo que produz por sua própria virtude.”

O osso é a medula condensada pelo calor.”

O elemento é o que compõe e decompõe os seres compostos.”

A virtude (…) é o hábito de observar a lei.”

A justiça (…) é o hábito de se conformar às leis.”

A piedade é a justiça perante os deuses; é o culto voluntário que a eles prestamos.”

A apatia é a qualidade de ser inacessível às paixões.”

A preguiça é o entorpecimento da parte irascível da alma.”

A fé é a persuasão fundada de que as coisas são tais como nos parecem; é a firmeza de caráter.”

A oportunidade é o instante favorável para agir ou deixar que ajam.”

A aptidão é uma feliz disposição da alma para aprender rapidamente.”

A voz é um som que sai de nossa boca para expressar nosso pensamento.”

O sofista é aquele que anda à caça de jovens ricos e distintos para tirar proveito deles.”

O depósito é o que se entrega a um terceiro com confiança.”

A dificuldade de aprender é a torpeza do espírito para o estudo.”

O despotismo é um poder irresponsável, mas justo.”

A consternação é o temor da desgraça.”

POESIAS

Astarote, há pouco

estrela da manhã,

brilhavas entre os vivos;

agora, estrela da tarde,

brilhas entre os mortos.”

A uma querida insensível.

Eu te dou esta maçã:

se me amas, recebe-ma

e me concede

tua virgindade.

Se me rechaças,

recebe a maçã também!

e vê quão passageiros são

o rubor e o a maciez de tua pele!”

Laís, que desdenhosa se riu de toda a Grécia,

sempre assediada duma multidão de varões,

Laís, consagra teu espelho a Vênus! E diz:

Porque ver-me tal como sou agora eu não quero;

e tal como era, já não posso.

Que importa que as árvores se cubram de frutos!

Os meus são para mim minha desgraça!”

Sou o companheiro das ninfas

Antes derramava o colorado vinho

Hoje derramo a água cristalina”

Dizeis que há 9 Musas!

Decerto vos enganais;

Eu sei de uma 10ª:

Safo de Lesbos.”

Afrô, minha frô

Tu não és como a escultura de Praxíteles,

nem vens de seu cinzel;

Tu és tal como na antiguidade

Era, enquanto aguardava a resposta

de Páris o Pastor.”