ALICES‘ ABENTEUER IM WUNDERLAND – trad. Antoine Zimmermann

Alice no País das Maravilhas revertido ao Português a partir da tradução alemã e (levemente) modificado a gosto. – Apenas as melhores passagens. Com as atualizações para este século espero não ofender a memória de Carroll!

E de que valem os livros”, concluiu Alice, “sem figuras e diálogos?”

Em meio à queda ela pegou, de um dos quadros, um potinho com os dizeres: “LARANJAS EM CONSERVA”, porém, para imenso pesar seu, ele estava vazio.

Ah!“ disse Alice de si para si, “depois de tamanha queda nunca vou conseguir subir de volta ainda que me depare com uma escada! Quão longe de casa ela já não estaria! Já falei tanto em voz alta desde que comecei a cair que acho que falei mais do que em toda a minha vida anterior!” (O que muito provavelmente era verdade.) “Gostaria de falar menos, pois significa que cairia menos!”

Pra baixo, pra baixo, pra baixo! Esse precipício não quer acabar nunca? „Quantos kilômetros será que eu ainda vou cair?“ Continuou a menina em voz alta. „Eu devo estar lá pela metade do trajeto! Deixa ver… isso deve dar uns 1350 kilômetros, segundo os meus cal–“(é bom que se saiba: Alice só tinha aprendido uma ou outra coisa na escola, e embora essa não fosse uma ocasião tão oportuna para exibir seus conhecimentos, até porque ninguém a ouvia, talvez ela não estivesse tão longe de acertar, chutando como o Messi) – “É, mais ou menos por aí; mas em que latitude e longitude seria isso?” (Alice não ligava o mínimo para o conceito de latitude e longitude; ela só queria mesmo era usar substantivos bonitos.)

Logo ela estaria batendo na mesma tecla. “Ah, como eu queria cair de uma vez no chão! Que engraçadas não devem ser, lá embaixo, as pessoas andando de ponta-cabeça! Como eles se chamam mesmo? Os Antipáticos, eu acho.” (Dessa vez ela no fundo agradecia de todo coração ninguém poder ouvir, pois a palavra estava muito mal-empregada.) “Claro que assim que chegar eu devo perguntar como é que se chama o país. Por gentileza, senhora, essa é a Nova Zelândia ou a Austrália? (E ela tentou se ajoelhar – para fazer a mímica de quem agradece a informação, mas é meio difícil fazer isso em queda livre! Poderia ela conseguir com muito esforço?) „Mas ela me tomaria por uma menininha muito tola, ao ouvir essa pergunta! Não, não é pergunta que se faça! Quem sabe eu consiga ler em alguma placa.”

DINÁ com certeza vai sentir minha falta à noite!” (Dinah era a gata.) “Tomara que não esqueçam de colocar leite no pires dela na hora do chá. Diná! Bichinha! eu queria que você estivesse aqui embaixo comigo. Só o que me preocupa é que não tem nenhum rato no espaço; mas tenho certeza que ela acharia um papagaio. Aposto que ela ia adorar esse salto infinito! E gatos caçam papagaios?” . . . “Será que gatos gostam de caçar papagaios? Gostam gostam gostam? Gostam papagaios de caçar gatos?“

A primeira idéia de Alice foi que essa chave deveria ser a de uma das portas do corredor. Porém, todas as chaves ou eram demasiado grandes, ou demasiado pequenas; logo, ela estava de volta ao início. Quando ela repassava pelos mesmos lugares, deparou-se com cortinas baixinhas que não havia percebido na primeira volta. Afastou-as e viu que detrás havia uma portinhola, de coisa de uns 40 centímetros, no máximo. Ela testou a chavinha dourada no trinco na fechadura, e, para euforia sua, a tranca deu um click.

Ao abrir a porta Alice se achou no meio de um corredor pequenito, não muito maior que uma casa de rato.

Dessa vez ela encontrou uma garrafinha. “Isso com certeza não estava aqui antes”, disse Alice; e do gargalo do objeto pendia uma etiqueta, escrito “BEBA-ME!” em belas e garrafais (sem trocadilhos!) letras, digo, fontes, nada úmidas. Na verdade, minto: estava escrito “Beba-me”, em caixa baixa. É que a sede e o desespero nos fazem ver tudo maior, e com pontos de exclamação! Mas a precoce Alice, parecendo uma adulta, não queria se resolver tão rápido a cumprir ordens alheias, pois quem é adulta não adula. “Não nos precipitemos! Vai que é um veneno – melhor prevenir!”

e aquilo cheirava muito bem (era uma mistura de torta de cereja com chantilly, abacaxi, peru assado e rabanada), então ela não resistiu e bebeu tudo, glut-glut!

agora Alice tinha 25 centímetros de altura, e seu rosto demonstrava satisfação com a própria genialidade, posto que ela passava a ter o tamanho certo para atravessar a porta e ir ao belo jardim!

COMA-ME!“, estava escrito numa bela letrinha. “Ótimo, vou comê-lo com gosto”, disse Alice, “e quando eu ficar maior vou alcançar o molho de chaves; depois que encolher uma segunda vez vou poder rastejar pelo buraco da porta. No fim das contas vou chegar ao jardim – então dá tudo na mesma!

Ela mastigou um pedacinho, e falou intrigada para si mesma: “Pra cima ou pra baixo?” Ela encostou a mão na cabeça e ficou estupefata: como estava grande! Claro que ela já contava com isso; é que tudo estava dando tão certo que ela não podia deixar de se maravilhar com cada coisa!

Ela não hesitou e comeu o bolo todinho.

Ai, meus pobres pezinhos! quando vou poder calçar umas meias e sapatos em vocês, meus queridinhos? … vou presenteá-los todo Natal com um par de botas novo!”

Pobre Alice! de súbito, antes de que se pudesse aperceber, ela já estava na ponta dos sapatos, com um olho espionando o jardim; mas logo o que se passaria lhe daria muito o que pensar. Ela se sentou e se segurou para não recomeçar a chorar.

Era o coelho branco, que vinha exuberantemente bem-vestido e com brilhantina no penteado, com um par de luvas numa mão e um leque na outra. Ele aloprava em grandes passadas enquanto deixava escapar: “Ó! a duquesa, a duquesa! logo ela vai sair, e eu deixando-a esperar!” … O coelho a seguia, deixando o par de luvas brancas e o leque cair, arranjando-se noite adentro, como podia.

Eu certamente não sou Ida“, dizia ela, “pois ela possui longos cachos, ao passo que meu cabelo não é nada cacheado; e na melhor das hipóteses Clara eu também não sou, pois que eu sou tão clarinha, e ela, ah, ela de clara não tem nada! Além do mais, ela é ela mesma, e eu sou eu, e, ah, como tudo é tão confuso! … Deixe-me ver: 4 vezes 5 é 12, e 4 vezes 6 é 13, e 4 vezes 7 é – ai ai! nessa arte do cálculo não sei passar do 20! Ah, mas a tabuada também não vai a tanto… Agora vamos de Geografia. Rondônia é a capital de Porto Velho, e Roráima é a capital de Cegueira, e Romaria––não, eu acho que tudo isso está errado! Eu preciso ser como a Clara!…”

…quando Clara eu for, gostaria de aqui embaixo ficar!…”

mas tão pequenina eu sou como nunca se viu, não, nunquinha! E devo dizer que isso é deveras horrível, ah se é!”

* * *

Ô rato, sabe o que é? desde que pulamos nesse lodo todo estou cansadíssima de nadar, ô rato!” (Alice meditou com que idioma devia dirigir-se a um rato falante; Alice não tinha certeza de todo, mas sua memória tão prodigiosa recordava que na gramática teutônica de seu irmão lia-se “Eine Maus – einer Maus – einer Maus – eine Maus – Maus!”)

Talvez ele não seja civilizado”, pensou Alice, “quem sabe é um selvático, aquele que acompanhava Guilherme o King Kongquistador” (apesar do conhecimento anedótico de Alice em História, ela não tinha muita noção de quanto tempo havia passado desde cada evento que podia evocar, e andava misturando as lições com videogames e filmes do Tarzan). Ela conseguiu se lembrar de uma coisa das suas aulas de Espanhol: “donde queda mi gatita?”. Na verdade era a primeira frase do seu livro-texto de conversação. O rato aumentou o ímpeto de suas patinhadas n’água, revelando pavor no tremor.

Não gosto de gatos!”, gritou o rato, todo eriçado, com uma voz fora de si.

Você ia gostar de gatos, se estivesse no meu lugar?”

Não, nunquinha”, Alice respondeu num tom displicente: “não seja mais mau! Se você se comportar não te vou mostrar nossa gata Diná…”

…e ela é uma caçadora de ratos tão famosa –– ó, eu peço perdão!” repetiu Alice, se contendo para não amedrontar ainda mais o pobre rato; ela realmente não podia evitar, mas não fazia por mal. “Prometo que não volto a tocar no assunto enquanto você não quiser!”

Então o rato nadou rápido como nunca, superando em muito a agilidade de Alice, evadindo o grande lodaçal num átimo.

lá estavam um pato e um dodô, um papagaio de penas vermelhas e uma jovem águia, e ainda uma variedade de criaturas exóticas. Alice meteu-se de penetra nesta distinguida sociedade assim que chegou à margem do grande lago-poça.

* * *

A primeira questão foi, para tentar resumir: … Uma grande diatribe com o papagaio, tipo ranzinza, que gostava de ficar repetindo: “eu sou mais velho que você e portanto devo ser mais sábio”; Alice não deixava por menos e questionava a idade da ave teimosa, mas isso o papagaio não sabia ou não queria esclarecer. No fim nada ficou decidido, ninguém levou a melhor na discussão desarrazoada. Esse papagaio gostava de repetir o argumento!

…Guilherme o Kongquistador do Chic-eiro, que exigiu privilégios da Peppa, foi muito querido pelos selvagens, e logo se tornou o líder que eles tanto procuravam; não custaria muito para Guilherme usurpar e conquistar o Cacho de Bananas. Edviges e Hog-Verrugartz, Grafeno de Mércia e Niobitumba“

AAAH!“, bocejou o papagaio.

Foi o que me pareceu“, disse o rato – “Vou mais longe: Edviges e Hog-Verrugartz, Grafeno de de Mércia e Niobitumba, esclareceu em adição; o próprio Stigândhi, o patriota arcebispo de Canterbury achou melhor—„

Achou O QUÊ?“ perguntou a formiga.

ACHOU“, redarguiu o rato já um tanto fora de si: “você quer saber mais do o narrador o que cada palavra significa…”

Eu sei muito bem o que PALAVRAS significam, quando EU as acho”, continuou a formiga: “De praxe o que se acha é um sapo ou um verme. A pergunta é: o que achou o arcebispo?”

O rato fingiu que não ouviu a pergunta, e deu prosseguimento: “…achou melhor, acompanhado de Edu Moscóvis, recusar a coroa a Guilherme. Guilherme apesar de muito ponderado, cedeu ao seu temperamento primata insolente, não é mesmo, minha querida?”, foi se voltando para Alice conforme discorria.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, foi cortando Alice: “não ponha palavras na minha boca.”

Nesse caso”, disse o dodô, todo solene: “eu proponho que a assembléia entre em recesso até que possamos efetivamente esmiuçar os novos fatos e…”

Fale direito!”, respondeu a águia. “Eu não distingo o sentido de suas longas palavras, e nem pretendo!”, terminou de dizer contraindo o pescoço, e se esforçando para ocultar um risinho de canto. Todas as outras aves começaram a piar em visível aprovação.

O que se queria dizer”, falou o dodô, em tom exaltado, “era que o melhor meio para nos decidirmos seria organizar uma corrida eleitoral.”

O que é uma corrida eleitoral?” perguntou Alice, sem muita vontade de saber, na verdade; mas o dodô seguia seu raciocínio, como se não ouvira a pergunta; e nenhum outro animal se dispôs a respondê-la.

Então”, emendou o dodô, “a melhor arte, aquela que esclarece, é o jogo.”

Antes do “um, dois, três, já!” ela já partiu em disparada, queimando a largada, vendo-se logo que isso não era algo fácil de organizar, pois nem mesmo se havia decidido ainda qual seria a linha de chegada (e haveria quantos turnos?). Decorria cerca de meia hora desde que o corre-corre tinha começado quando o dodô aclamou de súbito: “A corrida terminou!”, e ninguém queria mesmo continuar a correr (votar!), com dor nos dedos. E todos se perguntaram ao mesmo tempo: “E quem diabos ganhou?”

Essa dúvida o dodô não respondeu sem muita prévia reflexão, de modo que ele se sentou com um dedo apoiando a testa (a mesma postura de Shakespeare em um de seus retratos), enquanto a multidão conservava o silêncio, na expectativa. Finalmente disse o dodô: “Cada um ganhou, e todos devem receber o prêmio, pois isto é uma democracia!”

Mas quem deve DAR o prêmio?” perguntou todo um coro uníssono de vozes.

Obviamente que ela!”, disse o dodô, com a pata a apontar Alice. E assim todos daquele círculo se dirigiram a Alice, gritando: “Prêmio, prêmio!”

Alice não fazia a menor idéia do que fazer; em seu desespero, meteu a mão no bolso e achou um pacotinho de doces (afortunadamente fechado, não estragado pela água salgada); o que ela ofereceu como recompensa. Ela distribuiu um quitute para cada.

Contudo, saibam vocês que a menina também deve receber um prêmio”, interveio o rato.

É justo”, respondeu com equanimidade o dodô. “O que tem você ainda no bolso?”

Só um dedal”, respondeu Alice, desolada.

Para mim, é bom o bastante”, continuou o dodô, embora o presente não fôra para ele. Todos estavam em círculo ao redor de Alice, no momento em que o dodô se apossava cerimoniosamente do dedal para examiná-lo com mais cuidado, e também para fazer o papel de presenteador, e logo encetava outro discurso com ar grandiloqüente: “Solicitamos que a menina aceite gentilmente esse elegante dedal, o qual eu do-dou, comparável a deliciosas ba-bagas de nossa pra-praça!”; e ao encerrar dis-discurso um tanto efêmero e pouco espetaculoso para tanta cerimônia, receberam, tanto o orador como a presenteada pelo seu próprio dedal, o aplauso geral. Tudo bem quando termina bem.

Alice achou tudo aquilo muitíssimo tolo; mas essa assembléia dos animais parecia se levar tão a sério e ser tão compenetrada no que fazia que ela não se permitiu rir em voz alta, preferindo, em vez disso, e na falta do que falar, inclinar-se em agradecimento em gesto simples, estendendo as mãos depois a fim de receber seu dedal de volta por graça dos animais. Foi uma performance bastante respeitável.

Você me prometeu contar sua história“, disse Alice – „e donde vem isso de você desdenhar os kás e agás?“

Ah“, suspirou o ratinho, „você decreto não ia querer conhecer minha história; pois é uma história muito longa e muito hemorrágica.“

Com isso, foi o ratinho que fez perguntas a Alice.

O seu rabo não te deixa mentir? Será possível? Deve ser verdade!“

Alice via com admiração como a rabicha do ratinho se encolhia toda por entre suas patas traseiras; „mas como, hemorrágica? Que mágica faz você então?

…Vamos, coragem, não se esquive tanto! eu tenho de te fazer perguntas, senão não terei com o que passar os próximos dois dias.“

…caro Senhor, sem juiz, sem testemunhas, nada disso é necessário!“

Eu sou testemunha, eu sou juiz“, falou, com uma careta astuta e cortante, „A pergunta me convém e condena-o à morte!“

Não passe da medida!“, pronunciou o rato, se sentindo enforcado pelas palavras de Alice. „O que é que você está pensando?!“

Peço perdão“, respondeu Alice, muito contristada: „mas é que você mudou de assunto umas 50 vezes, eu acho, mudou mais que de mão o bilhete premiado…“

Pré…miado!!“, exclamou o rato, resoluto e já fora de si.

Premiado!“, exclamou Alice, que gostava tanto de fazer novos amigos, e via no rato mais um. „Ó, mas e agora, quer mudar de assunto quando o papo eu engato??“

En…gato!!“, contestou o rato por reflexo, começando, incomodado, a se mexer do lugar. „Já não posso mais escutar uma palavra quando você brinca com essas coisas!“

Eu não fiz por mal!“, se desculpou outra vez a pobre Alice. „Ah, mas você é tão, tão sensível!”

O rato só resmungou em resposta.

Por favor, volte, e conte-me sua história direito!“, insistiu Alice num berro; e os demais, todos em coro: „Isso, por favor, vai, conta!“ – mas o ratinho se tremeu todo, de medo ou de raiva, balançou a cabeça e seguiu adiante a passos rápidos.

e uma velha sapa aproveitou o ensejo para confidenciar a sua filha: „Sim, sim, minha criança! aproveite essa lição, nunca deixe o mau humor prevalecer! „Ó, cale esta língua grande, mamãe!“, respondeu a jovem sapa malcriada.

Eu queria muito que Diná estivesse aqui, ah, como eu queria!“, exclamou Alice em voz alta, mas sem se dirigir a ninguém em específico. „Diná iria atrás dele com toda certeza!“

E quem é Diná, se posso lhe perguntar?“, ousou o papagaio.

Alice respondeu com firmeza e comoção, com aquela firmeza e comoção de quem fala do coração: „Diná é nossa gata, e o passatempo dela é caçar ratos, caça tão bem que vocês nem imaginam! E, ah!, ela já persegue pássaros também! Uma vez ela comeu uma avezinha que foi uma beleza! Ela fica com uma careta tão assustadora nessas horas!“

Essa confidência deu azo a uma bagunça muito maior que a da corrida eleitoral de agora há pouco. Num piscar de olhos os bichos que voavam haveriam de dar o fora: uma pega-rabuda velhinha, coitada, se encolheu toda; antes de pronunciar: „Eu tenho mesmo de ir para casa! Esse sereno não é nada bom para minha garganta!“ e um canário pipilou para seus filhotes: „Vamos, vamos, criançada! Já está na hora de dormir, vamos para a cama, vamos!“ Com essas convincentes desculpas e fórmulas protocolares foram-se afastando todos, deixando Alice completamente sozinha no meio da sede daquela grande assembléia, agora deserta.

* * *

a duquesa! a duquesa! Ah, minhas patas tão molengas! ah, minha pelugem e minha barba! Ela vai me tosar e enforcar, tão certo como furões são furões! Ah, onde elas podem ter caído no caminho? Eu não entendo!“

Que é que você faz aqui, Mariana? Vá neste instante a sua casa e me arranje um par de luvas e um leque! Depressa!

Entrementes, chegou Alice a um quartinho bem arrumadinho, com mesa que dava para uma janela e, lá fora (como Alice já esperava) um leque e dois ou três parzinhos de luvas de tafetá … Dessa vez, nada de bilhetes nem recados como „BEBA-ME“. Mesmo assim, embebida em confiança, se me permitem a expressão, Alice puxou a tampa e botou a garrafa entre os lábios.

Mas“, disse Alice, „quer dizer que não fiquei mais alta? Bem, isso é um alívio! – não ser uma mulher altona… – se bem que… meninas altas não têm de fazer dever de casa nem ir pra escola! Ah, ISSO eu não queria ter de fazer!“

Ah, simplória Alice!“, disparou ela para si mesma. „Como poderia você estudar por aqui? Olhe ao redor, por um acaso você está vendo algo parecido com uma escola? Nem muito menos um livro-texto eu vi, desde que cheguei!“

…Aqui, Abelagarto! o senhor exclamou: você tem de trepar pela chaminé!“

Primeiro ouviu um coro geral: „Lá está o Abel a voar!“, depois a voz do coelho, solo: „Na queda, entalou o seu traseiro!“, e em seguida um grande silêncio. Por último, de novo uma confusão de vozes:

– Não, prendeu foi a cabeça!

– Mais aguardente!

– Não o sufoquem!

– Como vai, meu velho? que foi que lhe aconteceu? conte-nos a todos!

Eu mesmo não sei – Mas estou bem, obrigado! Estou muito melhor – mas ainda estou muito irritado para contar“

Chovia muitíssimo, mas Alice conseguiu correr logo para debaixo duma mata bem espessa.

O principal a fazer agora“, disse Alice consigo, enquanto aguardava debaixo do arvoredo, „é esperar juntinho do maior tronco dessa floresta; e, em segundo lugar, achar a estrada para aquele jardim tão lindo. É, não tem plano melhor!”

Soou mesmo como um plano primoroso, bem-feito, como se de há muito pensado e repensado. O único problema era que ela podia até ser boa para planejar, mas era péssima para executar!

* * *

O bom conselho da lagartixa.

A lagartixa e Alice se entreolharam longamente. Finalmente, a lagartixa agarrou seu hookah e o levou à boca, aproveitando, enlanguescida, cada parcela da fumaça. Sua voz saiu toda lerda e anestesiada: „Quem é você?“

Não foi um começo de conversa promissor. Alice respondeu: „Eu – eu não sei bem, agora – talvez eu soubesse quem eu era hoje quando acordei; mas tanta coisa aconteceu e me transformei tantas vezes que agora estou confusa!“

Que quer dizer?“, respondeu a lagarta, insolente. „Me esclareça!“

Receio que eu não possa esclarecer nada, lagartixa, porque eu não sou eu, a senhora vê agora?“

Eu não vejo, não.“

Eu não consigo mesmo explicar…“, emendou Alice, muito polida: „…o que eu não consigo entender. Quando alguém encolhe e aumenta tantas vezes num só dia, fica todo atrapalhado!“

Não, não fica, não!“

Talvez você não tenha percebido, mas é que quando você está no casulo se metamorfoseia, fica mais curta ou mais longa, quer dizer, os dois, porque umas partes suas encolhem e até somem, outras encompridam, até nascem! E aí vira uma borboleta, não é engraçado isso?“

De modo algum.“

Você muda muito, muito mesmo, parece outra! até onde EU sei isso é uma coisa muito curiosa de ver!“

VOCÊ!“, a lagarta respondeu com desprezo. „Quem é você então?“

E aqui estávamos de volta ao começo do diálogo outra vez! Alice já estava irritada com a situação, porque falava muito, com cortesia e afeto, e recebia respostas curtas e grossas. Parecia que não ia dar liga! Ela atirou a cabeça pra trás e falou, muito convencida, mudando de estratégia: „Eu ACHO que VOCÊ devia me falar PRIMEIRO QUEM É VOCÊ?!“

POR QUÊ?“

Ai, outra pergunta difícil. E Alice estava quase sem chão ou meios de se desembaraçar. Alice decidiu que não ia conseguir nada ficando ali e tentando seu melhor, então já estava prestes a seguir o seu caminho.

Venha cá!“, disse inesperadamente a lagartixa, „eu tenho algo importante a dizer!“

Alice, por mais brava que estivesse, achava difícil de resistir à curiosidade. Deu meia-volta e, fingindo relutância, aproximou-se.

Não seja desconfiada!“, observou a esperta lagartixa.

Isso é tudo?“, perguntou Alice, incrédula e decepcionada demais para tentar se comportar diante da estranha interlocutora.

Não…“

Alice pensou: quer saber? Vou esperar e ter paciência, não tenho mesmo nada melhor que fazer! Talvez, quem sabe, essa daí desembucha e fala alguma coisa de útil. Vale o esforço, já que já estou aqui! Alguns minutos depois, exalou fumaça a lagartixa, sem a menor pressa; até que, por fim, tirou o hookah da boca e pronunciou: Você está dizendo, mocinha,… que t a m b é m se t r a n s f o r m a ?!“

Eu não consigo, lagartixa, passar dez minutos simplesmente vendo as coisas gigantescas ou minúsculas… Estou sempre tendo que trocar tudo!“

Não consegue ver as coisas só dum jeito?“

É isso que eu estava tentando dizer esse tempo todo! Como se eu fosse uma estranha pro meu próprio corpo, entende? Mas não posso evitar!“, finalmente pôs tudo para fora a borocoxô Alice.

E dizia: Você é velho, Pai Martinho“, disse a lagartixa.

Alice cruzou as mãos sobre o peito e começou a recitar:

Você é velho, Pai Martinho“, assim dizia Juca Troll,

E suas cãs tão compridas;

Mesmo assim você fica o tempo todo de ponta-cabeça;

Como é que você nem transpira?”

Quando eu era jovem,“ o Pai Martinho respondia,

Exclamava: Ai, para o cérebro esse frio não é bom!

Foi aí que descobri que eu não tinha nada a perder

Então encarei com coragem a questão,

Aquecendo meu cérebro no chão!“

Você é velho“, dizia o rapaz, „e é tão gordo!

Não tinha como dar cambalhotas para trás na sua idade sem tombar!

Cruzes vezes mil! Como é que você dá conta?“

Quando eu era jovem“, respondia o velho ao jovem tão confuso,

Eu me machuquei e caí no chão, que estorvo!

Aí passei essa pomada, que me deixou tão elástico

Como dois de você, sua anta!“

Você é velho“, dizia o rapaz, „e todo desdentado,

Como é que pode conseguir a carne dura mastigar?

Seu segredo você me contará!“

Ah, eu muito discuti na vida porque era magistrado,

Sobretudo com minha querida mulher, dona do lar;

Nessa arte fiquei tão refinado,

Que minha boca até aço tritura se deixar!“

Você é velho“, dizia o rapaz, „e nem era assim tão graçola;

Agora fica aí todo-prosa

Igual artista de circo! Até uma enguia

Equilibra – na ponta do nariz!

Me explica todo esse dom!“

Três respostas tiveste tu, ó besta, e já basta!

Ou vou te ensinar uma lição (das boas),

No quadro-negro e de giz

Para ver se esta tua cabeça quente esfria!“

Tem algo errado“, disse a lagartixa.

É, tem uns errinhos na canção, eu acho“, disse Alice, acanhada; „Eu sou boa em trocar umas palavras pelas outras sem querer…“

Não é isso: está errado do começo ao fim“, disse a lagartixa toda empertigada. Seguiu-se um silêncio comprido de um minuto.

A lagartixa foi quem voltou a falar primeiro: „Quão grande você QUER ficar?“.

Ah, não é ficar desse ou daquele tamanho que eu acho ruim, é só ficar toda hora trocando de tamanho que não é lá muito agradável, concorda?”, respondeu Alice com vivacidade.

Não, não concordo, não!“

Alice nem respondeu. Nunca na vida ela se sentiu tão contrariada por alguém! Ou essa lagartixa não prestava ou, ela pensou, estava ficando muito suscetível à opinião alheia!

Você está satisfeita agora?“, deu corda de novo à conversa a lagartixa.

Eu queria ficar, na verdade, um pouquinho mais alta, senhora lagartixa, se me fosse permitido escolher… três polegadas e meia não é um tamanho muito bom!“

Pelo contrário, isso é ser bastante alto, a altura ideal, eu acho“, rebateu a exasperada lagartixa, que não admitia contrariedades. Para acompanhar a fala, se estirou toda como estava em cima da folha, para parecer mais impávida, o que a deixava com 3 polegadas de altura.

Mas é que eu não estou habituada!“, lançou a modo de escusa a pobre menina, não sem muita manha na voz. E neste momento ela pensava: „Eu queria poder pegar numa mão todas essas criaturas atrevidas cheias de más-línguas!“

Pois com o tempo todo mundo se acostuma“, disse a lagartixa sonolenta antes de voltar a fumar seu hookah, toda apascentada.

Dessa vez Alice aguardou pacientemente, pois queria muito pedir um favor à senhora lagartixa. Depois de dois ou três minutos com o hookah na boca, e depois de dois arrastados bocejos, a conversa podia reiniciar.

A lagartixa voltou com muitos cogumelos, rastejando sob o peso de tantos. Ao fim da trilha dividiu os cogumelos em dois montes, na grama: „Os deste lado a aumentam; os do outro lado a encolhem“.

Deste, do outro? Qual é qual?“

Dos cogumelos!“, e de repente tinha sumido do campo de visão de Alice.

Finalmente, para saber quais cogumelos faziam o quê, os do bolso esquerdo e os do bolso direito, que ela tomou o cuidado de manter separados, ela colocou na palma das mãos uma pequena amostra de cada bolsinho e se dispôs a experimentá-los, mordicando-os.

Agora vejamos, qual é o efeito dos pedaços de cogumelo da mão direita?“ Hora de provar o efeito: num piscar de olhos ela sentiu imensa dor no queixo, pois ele se chocou com os seus pés!

Ela se assustou com sua rápida transformação, mas não havia tempo a perder agora que ela sabia que comer do bolso direito fá-la-ia cada vez mais anã. Logo ela se pôs a mordiscar da mão esquerda. Foi trabalhoso, já que seu queixo estava tão perto dos pés que quase não havia como abrir a boca e fazer passar um pedacinho de cogumelo.

Ah, por fim minha cabeça está livre!“, exclamou Alice, com bastante entusasimo, o que não a impediu de, num piscar de olhos, se encontrar novamente angustiada, ao perceber que seus ombros não podiam ser vistos em lugar algum: tudo o que ela podia enxergar, olhando para baixo, era seu monstruoso pescoço, que começava num pontinho lá embaixo e chegava até sua cabeça agora elevada aos céus. Era como uma vareta ou um mastro muito fino estendido por sobre um mar verde.

O que será que é toda essa coisa verde?“, pensou Alice. „E cadê meus ombrinhos, pra onde eles foram? Mesmo minhas pobres mãozinhas, não consigo nelas reparar! Só sei que ainda tenho olhos porque vejo – não os olhos, é claro…“ Mas evidente que ela ainda sentia seus membros, então experimentou tocar as coisas. Nada ela alcançava, mas ainda sentia seus pezinhos sobre a grama. No entanto nada se produziu em sua visão: tudo era menos do que um ponto escuro lá no chão.

Pelo visto e pelo não visto, ela era incapaz de alcançar seu rosto com suas mãozinhas. Ela teve então a idéia de baixar sua cabeça, comprimindo seu enorme pescoço. Para arroubo seu, ao flexionar este membro, ele obedecia seus comandos como se fôra o corpo de um animal invertebrado, uma serpente mesmo. Alice então serpenteou pelo ar, de forma um tanto circense e risível, um zigue-zague após o outro. Naturalmente que foi-se dirigindo cada vez para mais perto do mar verde, curiosa. Agora que podia ver de mais perto, notou que os tons mais escuros nada mais eram que as folhas das copas das árvores mais elevadas do grande jardim! Assim que ela se embrenhou por ali todos os galhos começaram a farfalhar, que confusão! Uma pomba, incomodada com a intrusão, apareceu diante dos olhos da serpente-Alice, e cutucou sua carita com acintosas chicotadas das asas.

Olha a cobra!!“, guinchou a valente pomba.

Eu não sou uma cobra!“, defendeu-se imediatamente Alice, indignada pela ofensa, aliás. „Me deixe em paz!“

É cobra sim, senhora!“, repetiu a pomba, mas com um pouco mais de receio, chiando em vez de guinchando. „E o pior é que nenhuma cobra deixa de ser má e traiçoeira!“, completou a pomba, já soluçando, a muito custo, tanto era seu medo instintivo da criatura superior.”

Eu não sei do que você está falando!“, foi a resposta de Alice.

Nas raízes das árvores eu procurei, no riacho eu procurei, na sebe eu procurei…”, sem reparar na aflição de Alice; “…mas essas cobras! Nenhuma que conheci era boa!“

Alice quase não entendia a situação em que se metera; cogitou, contudo, que era inútil continuar arrazoando com a pomba e que o melhor era dar no pé (no pescoço, propriamente) dali.

Você não sabe o trabalho que é até chocarem esses ovos“, arremeteu a pomba. „vigiar dia e noite para que bichos como cobras não se banqueteiem com meus próprios filhotes ainda nem nascidos! Não prego o olho há três semanas, imagine!“

Ó, lamento muitíssimo, parece que você teve muitos dissabores na vida“, disse Alice, que não via outro jeito de entabular conversa que não expressando sua sincera opinião.

…e então foi que eu procurei outra árvore dessa floresta, um galho bem alto, onde não pudesse chegar nenhuma cobra“, continuou a pomba, ainda cheia de desconfiança. „Eu realmente não esperava que uma cobra me caísse do céu perto do meu ninho!! Xôôô, cobrona!“

Mas eu já disse que não sou nenhuma cobra! Eu sou uma – eu sou uma–“

…É uma o quê, então? Já vi tudo: você quer é me passar a perna, sua cobra-raposa! A mim você não engana!“

Eu – eu sou uma menininha“, prosseguiu Alice, quase gaga, com cara de coitada. Depois de tantas transformações no mesmo dia, e de comer as migalhas que o cão amassou, a jovem se sentia em verdadeira crise de identidade, não muito diferente das adolescentes com o dobro de sua idade.

Um papinho muito bonito, realmente!“, atalhou a pomba, com profundo desdém. „Eu passei penas e penúrias toda a minha vida, muito mais que uma menininha com certeza já passou, e vi muita coisa, viu, mas nunca uma pessoa com um pescoço de coooobra…! Não, não! Você é uma cobra safada e mentirosa! Você não pode esconder os fatos! Nem vem que não tem, hoje você não come UM ovinho no que depender de mim!“ Um discurso digno de uma fábula de La Fontaine!

Eu comi ovos hoje, mais cedo“, não resistiu a confessar Alice, com a melhor das intenções. „Mas é que menininhas comem ovos igualzinho as cobras!“

Eu acho que não!“, retrucou a pomba, alerta: „Porque quem faz uma atrocidade dessas só pode ser uma serpente muito da esperta, mas não mais esperta do que eu!“

Toda essa linha de raciocínio era tão nova para Alice que ela parou um par de minutos a refletir, em silêncio. A pomba interrompeu sua meditação com a seguinte estocada: „O que você quer são ovos, isso eu sei bem demais, mais do que gostaria de saber, na verdade; só que pouco me importa se você é uma menininha comedora de ovos ou uma serpente, o que me importa é que não vai parar ovo nenhum na sua barriga, está me entendendo?!?“

Pra você pouco importa, mas pra mim importa muito! E além do mais eu não estou querendo ovo nenhum e, quando eu quiser comer, não vou comer dos seus. Eu não como ovo cru!“

Então vá embora de uma vez, ora ovas!“, disse a pomba, no auge da irritação, enquanto sentou empertigada em seus ovos. Alice foi baixando a cabeça o melhor que podia pelo emaranhado de galhos e troncos. Mas, como se pode imaginar, como uma criança faz um nó cego no seu cadarço que mal aprendera a amarrar, não duraria até Alice se enroscar no próprio pescoço e entre as árvores! „Ai, ai, quantos ramos, socorro!“ Como uma aprendiz de costureira, ela teve de retroceder várias vezes e desfazer o que tinha feito. Nisso um bocado de tempo já havia passado. Finalmente ela alcançou com a cabeça as mãozinhas, com pedacinhos de cogumelo à espera. Dessa vez ela tomou muito mais cuidado, mordiscando porções bem pequenininhas, ora duma mão, ora da outra, para não ter mais surpresas desagradáveis. Depois de mil transformações para mais e para menos, ela finalmente ficou grandinha do jeitinho que queria.

E o que ela queria era voltar ao seu „tamanho original“, se é que é possível uma criança de 7 anos assim pensar e fazer sentido. Mas o fato é que Alice voltava a ter o tamanho de uma menininha de sua idade, poucos centímetros a mais ou a menos, que importa! No começo ela se sentiu muito engraçada, desacostumada que estava com o mais prosaico dos normais. Mas logo voltou a seu costume de falar alto consigo mesma, da forma mais lúcida que as circunstâncias permitiam: „Ótimo, meu plano deu certo! Nunca pensei que fosse tão confuso crescer e diminuir! Depois de mudar tanto, não sei o que pode me acontecer no momento seguinte! Agora sou da altura correta: mas quem me garante que daqui a uns minutos não vou estar do tamanho deste capim, ou gigante como aquela árvore? Bom, estou do tamanho certo para passear no jardim!“ Enquanto falava, ela caminhava, e veio a deparar com uma clareira com uma edícula ao centro. Ela tinha a altura de algumas polegadas. „Quem eu sou agora não me permite entrar aí, pois sou enorme para quem quer que habite nesta casa! Fora que eu ia deixar quem quer que esteja aí muito assustado, se me olhasse pela janela!“ E lá foi a esperta Alice mordiscar de leve do cogumelo que a diminuía… Isto é, ela mordiscou uma porçãozita da mão direita. E diminuindo ora demais até para a portinha, outrora aumentando demais para caber ali dentro, finalmente ela chegou às dimensões certas para bater e entrar. Alguém abriria?

* * *

Por que seu gato ri assim?“

É um gato amarelo, porque o sorriso do gato é amarelo!“

Eu não sabia que os gatos riam tanto, muito menos amarelo; aliás eu não sabia que esses animais PODIAM rir!“

Vê-se que você não sabe muito…“, disse a duquesa, „…pois é assim como lhe digo.“

Eu só queria varrer a entrada da minha casa“, deu um rouco rosnar a dequesa. „o mundo vai continuar girando como sempre – e ninguém devia falar da vida alheia!“

24 horas, penso eu; ou seriam 12? Eu–“

Repreenda teus jovens pra lá,

E dê-lhes uma sova se alguém espirrar;

Ah, tudo são cachos e cores

Quem é que se irrita com esses dissabores?“

CORO

(a cozinheira e o bebê completaram.)

Au! au! au!“

Eu dou uma bronca no meu moleque,

E dou-lhe uma sova quando espirra;

Ora, eu sei que pimenta irrita

Quando cai nas suas narinas!

CORO

Au! au! au!“

* * *

Não tem assento! Não tem assento!“, gritaram, assim que Alice se aproximou. „Pra mim tem lugar o bastante, sim, vejo cadeiras vazias!“, disse Alice, relutante diante da má vontade geral, sentando-se na grande cadeira com braços ao final da mesa.

Cai-lhe bem um vinho?“, ouviu-se da lebre-de-março, como que coagindo ao perguntar.

Eu não gostaria, esta é SUA mesa; não é para mais de três pessoas.“

Seu cabelo deve ocupar o resto“, disse o Chapeleiro.

Como vê, você não pode afirmar que ‘eu vejo porque eu como’ no lugar de ‘eu como porque eu vejo’.”

Sim, você também não pode afirmar…”, contemporizou a lebre, “…‘eu quero porque eu posso‘ no lugar de ‘eu posso porque eu quero‘!“

“’Eu respiro quando eu durmo‘ nunca vai querer dizer ‚eu durmo quando eu respiro‘!“

O que mais temos pra hoje?“ … ele tinha seu relógio colocado sobre a mesa, e ficava muito nervoso e angustiado, sempre consultando-o, e quando não observava os ponteiros se punha intrigado, chacoalhava o dispositivo e punha-o na orelha para ver se não teria parado. Alice caiu em si e então respondeu: „É o quarto.“

Dois! Dia errado!“, pareceu se rejubilar o Chapeleiro. „Eu lhe disse que a manteiga estragaria!“, pronunciou, sentando-se e olhando com repulsa para a lebre.

Era a melhor manteiga“, respondeu ela, cabisbaixa.

Sim, mas agora temos que comer torrada sem acompanhamento“, resmungou o Chapeleiro. „Aqui essa faca não serve para nada, pois não temos no que passar!“

A lebre pegou o relógio e o observou, taciturna; em seguida molhou-o em sua xícara de chá e olhou-o de novo, mas em vão! “Era mesmo a melhor manteiga…“

Esse relógio é muito engraçado!“, observou – com a boca – Alice. „Ele mostra o dia, não as horas!“

E não deveria?“, resmungou a lebre; „Que mostrasse as horas, ainda vai… mas onde mostraria o ano?“

Em lugar nenhum, é lógico…“, respondeu a esperta Alice, „…porque não é preciso relógio para indicar algo tão longo!“

Pois é este o propósito do MEU relógio“, respondeu o Chapeleiro.

Mas qual é a resposta?“, perguntou a menina.

Ora, não faço a menor idéia“, respondeu o Chapeleiro.

Nem eu!“, respondeu a lebre.

Alice suspirou, irritada. “Eu acho que vocês não sabem usar o tempo, se propõem charadas das quais não sabem a resposta!”

Se você soubesse usar o tempo tão bem quanto eu…“, arremeteu o Chapeleiro, “…você não diria isso, porque nós sim é que sabemos usar o tempo!“

Eu não sei o que você quis dizer.“

É claro que você não pode saber, nem sabe poder!“, respondeu o Chapeleiro, meneando a cabeça depreciativamente, e depois olhando a menina do alto. “Você não faz a mínima idéia da noção de tempo!“

Eu acho que não“, respondeu Alice com cautela. “Mas ontem mamãe me disse que eu devia passar o tempo com minha irmã mais velha.“

É? Ela devia estar de muito mau humor para lhe dizer algo assim; pois o tempo não é alguém com quem outr’alguém consiga fazer alguma coisa, muito menos passar! Quando alguém quer ser firme com o tempo, usa um relógio. Por exemplo, uma certa vez eram 9 da manhã. Não adianta fazer nada, por mais rápido que seja, sequer dar bom dia, que depois já não são mais 9 da manhã! Porque o tempo a usou, não foi você que usou o tempo! Faça a experiência, e quando você acabar, vai ter de escrever outra coisa no relógio! Bobeou e… Uma e meia da tarde–é assim que é o tempo!”

Ah, isso seria esplêndido!“, disse Alice, pensativa, “mas então eu não estaria faminta quando desse a hora, não é verdade?“

De início talvez não…“, respondeu o Chapeleiro, “…mas até uma e meia com certeza estaria!”

Mas então, o que é que todos vocês fazem aqui, estão comemorando alguma coisa, ou tomam chá aqui todos os dias?“

O Chapeleiro não pôde evitar baixar a cabeça. “Eu não venho aqui todos os dias! Nós tínhamos nos reunido a última vez na última Páscoa…”

Ah, papagaio, ah, papagaio!

Quão verde é sua pena!,

Será que você conhece essa música?”

Eu acho que já ouvi algo parecido!“

E continua assim“, foi puxando o Chapeleiro, mais empolgado:

Você não verdeja só na calmaria,

mas até quando chove e quando neva!

Ah, papagaio, ah, papagaio!“

Aqui se juntou a capivara para cantar, sonolento: “Ah, papagaio, ah, mamagaia, ah, papagaio, ah, mamagaia!“

Obrigado, eu tinha me esquecido de que a rainha declamara: ‘Abominável aquele que mata o tempo com algazarras. Este deve ser decapitado!’“

Ó, que horror! que desalmada!“, exclamou Alice.

E pra mim, depois disso, é como se não existisse o tempo! Agora são sempre seis horas!”

Isso fez Alice ter de concluir, de forma inteligente: “Por isso é que tem tantas xícaras de chá na mesa?”

Exato. Sempre é hora de servir o chá, e não temos tempo nem de lavar as xícaras.”

Então vocês estão sempre sentados aqui? O tempo todo?”

Assim o é. Enquanto as xícaras servirem.”

Mas e quando vocês precisarem começar do início uma nova rodada de chá?”

Ora, quando o assunto acabar nós iniciamos outro. A pequena dama pode por exemplo contar uma estória.”, bocejou verbalmente a capivara.

Ah, no momento não consigo pensar em nada!”, disse Alice, preocupada em acabar cometendo algum desaforo.

Então deixe a capivara falar!”, pronunciaram os outros dois. “Vamos, capizzzzara, acorda!” E deram-lhe, de cada lado, um beliscão caprichado.

A capivara foi despertando e abrindo seus olhos vermelhos lentamente. “Eu nem dormi”, falando com voz de sono: “Eu ouvi cada palavra dessa última conversa.”

Conte-nos uma estória!”, pediu a lebre.

Era uma vez três irmãzinhas…”, começou a capivara. “Chamavam-se Maria, Lúcia e Aparecida, e viviam juntas num poço–”

Como viviam assim?”, perguntou Alice, parecendo excessivamente interessada. Queria saber como faziam para beber e comer, na verdade.

Elas viviam de xarope”, explicou a capivara, depois de pensar um minuto inteiro.

Mas isso seria impossível; elas iam ficar doentes rapidinho!”

Elas eram isso mesmo, as três eram muito, muito doentinhas.”

Mas POR QUE elas viviam logo no fundo do poço?”

Não quer mais um pouco de chá?”, perguntou a lebre a Alice com muita pompa.

Um pouco mais? Eu não cheguei a beber nem uma gota! Se não bebi nada, não posso beber mais.”

Você quis dizer que não pode beber menos”, interveio o Chapeleiro. “É muito fácil beber mais do que nada.”

Ninguém pediu a sua opinião!“

Por que elas viviam num poço?, anda!”

A capivara piscou lentamente e em seguida respondeu, repetindo o que já havia dito: “Era um poço de xarope.”

Era nada!“, disse Alice, furiosa. Mas o Chapeleiro e a lebre responderam juntos: “Xxxxxhhh!”. E a capivara resmungou:

Quem é mal-educado não pode ouvir estórias!”

Não ligue! Continue sua estória!”, disse Alice, apaziguadora. “Não vou mais interrompê-la. Vou ser toda ouvidos!”

As três irmãzinhas também – aprendem a criar coisas, saiba você!”

O que elas criaram?”, perguntou Alice, interrompendo, antes que se esquecesse do que queria perguntar.

Xarope”, disse a capivara sem pensar, mas com as pálpebras a pesar.

Eu preciso de xícara limpa”, atalhou o Chapeleiro, “nós precisamos de mais espaço aqui!”

O Chapeleiro foi o único que tirou vantagem da troca, e Alice continuou com tanto chá quanto antes (zero mililitros), como a lebre teve de se contentar em lamber o prato raso, pois a leiteira estava quase vazia. Na tentativa de beber o pouquinho de leite ainda disponível, derrubou tudo.

Mas não entendo. Como elas conseguiram fazer o xarope?”

Ora, não é necessária nenhuma técnica em especial para fazer qualquer xarope”, contemporizou o Chapeleiro. “Você nunca viu como é fácil fazer um xarope de qualidade, de muita qualidade, da melhor qualidade? Ai ai, sua cabeça de vento!…”

…então elas fizeram uma mistura – de tudo que começasse com X.”

Por que com X?” perguntou Alice, cheia de inocência.

E por que não?”, contestou a lebre.

Alice permaneceu calada.

…tudo o que começa com X, como xícara de chá, xampu do Xenofonte, xixi de rato, xarrua do Xá, xérox de uma foto da lua, xô!, xeiro e até algumas vezes o ‘x’ do tesouro!”

Ora, não me xame de Xuxa“, disse o Chapeleiro.

Isso foi o estopim, indelicado demais para a menina Alice: ela ficou muito, muito magoada, se levantou e se afastou. A capivara continuava piscando como se fôra cair dormindo a qualquer instante, e os outros dois nem repararam em sua saída, muito embora ela tenha olhado para trás ainda umas duas vezes, na esperança infantil de que eles pudessem se desculpar e de que ela voltaria a se sentar com eles. Da útima vez que ela olhou para trás viu a capivara desmaiada com a cara metida no bule de chá.

Essa foi a companhia para tomar chá mais XATA que XÁ encontrei, na minha vidinha toda inteira!”

Ela passou um bom tempo caminhando e contemplando aquele jardim maravilhoso, passando por debaixo das flores do canteiro e das tão cheirosas e frescas filhas primaveris da mãe-natureza.

* * *

Atenção, Cinco! Vê se não respinga tinta em mim!”

Sete resvalou no meu cotovelo!”

Isso não TE ajuda em nada, Dois”, falou o Sete.

Suas cabeças! Suas cabeças—”

Disparate!”, respondeu Alice, bem alto e segura de si, e a rainha se conservou em silêncio, mas por bem pouco.

O rei levou a mão ao seu braço e disse brandamente: “Espere, querida, não passa de uma criança!”

A rainha olhou para o rei com cara de poucos amigos um só instante, depois fingiu que se esqueceu do marido e da garota e falou aos valetes de copas deitados de bruço: “Levantem daí!”

Vocês não precisam morrer!“, disse Alice, metendo as cartas num vaso de flores das proximidades. Os três soldados foram daqui para ali, atrás dela, e depois os trancaram com placidez.

Suas cabeças caíram?”, berrou a rainha.

Suas cabeças já eram, conforme as ordens de vossa majestade!”, bradaram os soldados em resposta.

Isso é bom!”, berrou a rainha. “Você sabe jogar croquet?”

Os soldados seguiram quietos, observando a reação que a pergunta produziria em Alice.

Sim!”, berrou Alice.

Então junte-se a nós!“, bramiu a rainha, e Alice se juntou aos jogadores, com cara de enxerida.

Est… está um dia lindo!”, pronunciou uma voz acanhada perto de si. Ela se aproximou do coelho branco, que ao contrário das palavras que dizia manifestava intensa preocupação no olhar.

Demais! Cadê a duquesa?”

Sh, shhh!“, chiou o coelho, bem baixinho, com o dedo indicador encostando na boca. Seu nervosismo aumentou. Avhegou-se ao pé do ouvido de Alice e confidenciou: “Ela foi condenada à morte.”

Por quê?”

Você quis dizer: que tragédia?”, perguntou o coelho.

Não, não, não foi isso que eu quis dizer. Eu não acho nada, não acho que é uma tragédia! Eu perguntei: POR QUÊ?”

Ela deu uma bofetada na rainha”, esclareceu o coelho. Alice riu alto. “Shhh, quieta!”, sussurrou o coelho cada vez mais baixo. “A rainha vai ouvi-la!” Com efeito, nesse mesmo instante a rainha se aproximava, gritando: “Vamos, todos em seus lugares!”

O terreno era todo sulcado, cheio de subidas e descidas, montículos e buracos. A bola era na verdade um ouriço, e cada taco um flamingo, que os soldados eram obrigados a carregar no colo e manipular.

Como vai você?“, disse o gato, que na verdade era só um sorriso de gato.

Alice esperou os olhos aparecerem para assentir com a cabeça. “Mas não adianta nada conversar com você”, disse a menina, “até suas orelhas aparecerem, pelo menos”. Enfim surgiu a grande cabeça, em sua totalidade. Ali estava Alice com seu flamingo-taco; contou-lhe tudo que transcorrera até agora no jogo, finalmente certa de que o gato, com suas orelhas, podia ouvir cada palavrinha.

Como lhe pareceu a rainha?” perguntou o gato, num sussurro prudente.

À vezes acho muitas coisas, às vezes nada. Tenho muito o que falar sobre isso…”

Vendo que a rainha se aproximava, não continuou sua fala, à espera de que ela se aproximasse mais. A rainha ia exortando todos que encontrava pelo caminho a não ficarem à toa no campo, ordenando que cada atleta se esforçasse por demonstrar seu valor, e relembrando que o ócio era contra a lei.

Quando chegou perto o bastante de Alice, esboçou um sorriso e perguntou com quem ela conversava. Fitou aquela cabeça aérea do gato com muita curiosidade sem esperar resposta.

É um amigo meu – um gato-sorridente. Permiti Vossa Majestade que que vo-lo apresente.”

Sua aparência não me agrada“, disse a rainha. “Ele deve beijar minha mão agora, em sinal de devoção.”

Ó, preferiria não!”

Ora, não seja impertinente! E pare de me olhar assim!” A cabeça do gato se deslocou para trás de Alice enquanto ouvia essas queixas da rainha.

O gato olha para a rainha, a rainha olha para o gato”, disse Alice. “Li isso em algum lugar, só não lembro onde!”

O carrasco afirmou que não era possível decapitar uma cabeça que não tinha nenhum corpo. Que nunca vira coisa semelhante. E que mesmo quando se é avançado em idade é ainda possível aprender algo de novo.

A rainha objetou, por seu lado, que todos que tivessem uma cabeça deviam poder ser decapitados, e que isso sequer merecia virar tema de discussão.

* * *

Alice não estava gostando de várias coisas em seu aspecto: em primeiro lugar, que a duquesa fosse tão feia; em segundo, que fosse tão gorda; e terceiro, que seu queixo pontudo chegasse quase a espetar o ombro da menina. Com um queixo tão afiado, era como estar refém de uma espada!

Você por um acaso chegou a ver o FALSO CÁGADO?”

Não”, respondeu Alice. “Eu nem sei o que é um FALSO CÁGADO!”

É um cágado que vira uma falsa sopa de cágado”, explicou a rainha.

Eu nunca vi até hoje, nem nunca ouvi falar de uma coisa assim.”

Venha já; ela deve contar-lhe a história.”

Logo ela chegou perto de um grifo, que dormitava ao sol. [Se não sabe o que é um grifo, olhe o desenho, fazendo o favor – não, não olhe, pensando bem, porque aqui não tem (o desenho)!]

Venha aqui, vá acolá, faça isso, façaquilo… Nunca em toda a minha vida fui tão mandada pelos outros!”

Por que chamam-na Mamãe Broncaqui?”, perguntou Alice.

Ela RALHA AQUI ou ralha ali o dia todo”, disse o falso cágado, emburrado. “Você é realmente estúpida.”

Ah, então você nunca freqüentou boas escolas…”, condescendeu o falso cágado, achando-se, aliás, muito generoso por isso. “Em nossa escola as contas sempre vêm ao final – depois de Francês, aula de Piano, aula de costura. Essas são mais importantes.”

Muito importante, tanto a nova como a velha, Marografia. A aula de Fonte – o professor de Fonte e Esguicho era um velho bacalhau, que costumava ensinar sua disciplina semanalmente. Ele ensinava a Fricção de Nadadeira e Manias, Fonte Oceânica, Cintilação Oceânica e Impressão Oceânica!”

E quantas horas durava a classe?”, quis saber Alice, ou na verdade pronunciou essas palavras, querendo muito mesmo era mudar de assunto.

Dez no primeiro dia”, respondeu o falso cágado, “nove no seguinte, e assim por diante.”

Que escola mais gozada essa!”

Esta é a razão de ser de um professor.”

Então no décimo primeiro dia todos estão livres?”

Naturalmente!”

E o que acontece no décimo segundo dia então?”, perguntou Alice, excepcionalmente entusiasmada em termos de assuntos escolares.

É o suficiente por ora”, interrompeu o grifo, no melhor dos intentos: “Conte agora você sobre o jogo.”

* * *

O balé das lagostas.

Reparem se ela não tem ossos no pescoço!”

Talvez você nunca tenha vivido debaixo d‘água”—(“Não”, respondeu Alice)— “e talvez você não tenha familiaridade com as lagostas”—(Alice queria ter dito “eu já provei uma vez”, mas se apercebeu a tempo da gafe e, no lugar, disse, simplesmente: “Não, nunquinha!”—“você não faz idéia de quão emocionante o balé das lagostas é.”

Não, realmente não, que tipo de dança é?”

Antes”, respondeu o grifo, “façam uma fila na praia—”

Deve ser uma dança muito bonita”, disse Alice, ansiosa.

Então você não vem

você não vem

você não vem dançar comigo?

Não, eu não quero, não posso,

não irei dançar contigo!

Você sabe por que esse peixe se chama lixa?”

Não tenho a menor idéia. Por quê?”

É porque”, respondeu o grifo, com uma voz solene e profunda, “o homem SE LIXA para conhecê-lo bem. Dessa forma você já tem uma coisa interessante para contar sobre suas aventuras!”

…Veja minha terra e minhas marés verdes…”

Essa é a coisa mais abstrusa que já ouvi!“.

É, também acho, mmas é melhor ouvir até o fim”, aconselhou o grifo. E Alice continuou na escuta.

Ma – ravilhosa so – pa!

Ma – ravilhosa so – pa!

Ra – inha das so – pas,

Mara-maravilhosa Sô! Pá!

* * *

No centro do tribunal havia uma mesa com uma torta tamanho família. Parecia tão apetitosa que uma mera espreitada na sobremesa deixava Alice morta de fome.

O juiz era na verdade o rei, que trazia a coroa em cima da peruca, e toda hora ele rodava a coroa, de modo que o frontispício ora estava na testa, ora na nuca; decerto que ele se sentia muito incomodado e pouco à vontade na posição.

E aqueles 12 animaizinhos lá na frente, aposto que são os jurados”, pensou Alice.

Ela se repetiu essa palavra duas ou três vezes, porque parecia muito briosa aprendendo coisas assim difíceis. Depois ela pensou, com razão, que muitas menininhas de sua idade se sentiriam assaz invejosas por não saberem tudo isso que ela agora sabia.

Mas que coisa mais tola!”, pensou alto Alice. De todo modo o coelho foi o próximo a falar: “Silêncio no salão!”. O rei sentou com seu monóculo e começou a espiar os arredores, para ver quem tinha aberto a boca.

Alice pôde ver com exatidão como todos os jurados anotavam “Mas que coisa mais tola!” em seus quadros, e reparou também que um deles não sabia como a frase se escrevia, de modo que teve de consultar o seu vizinho. “Ai, ai! o quadro dele vai estar uma maravilha quando o interrogatório terminar!”, pensou Alice.

Todos os jurados têm uma pena de escrever, então por que não eu?”, guinchou aquele que não sabia escrever direito. Isso foi demais para nossa menina Alice; ela levantou e foi ao outro lado da sala, conseguiu se enfiar entre toda aquela aglomeração do tribunal e logo achou um ensejo de furtar a pena. E ela foi tão serelepe que o pobrezinho do jurado ia demorar trezentos anos para se dar conta de quem fôra o responsável pelo sumiço da pena.

Arauto, anuncie a promotoria!“

Rainha Amada, ela assa o bolo,

Valete de Copas, meu caro, vem com o bolo na mão.

Onde está ele agora? Ai!”

Que entrem as últimas testemunhas!“

Sou um pobre homem, Vossa Majestade”, começou o timorato Chapeleiro, com a voz trêmula, “e preciso primeiro tomar o meu chá – não demora mais que uma palavrinha –, afora a rala fatia de pão com manteiga – e veja, basta uma xicrinha, um pratinho, um bulinho.”

E que é que tem um prato e um bule?”, perguntou despeitada a rainha.

Precisam estar quando tomo o chá”, emendou o Chapeleiro.

Naturalmente que um serviço de chá requer prato e bule. Tem-me por uma besta por um acaso? Quero lhe ouvir!”

Eu sou um pobre homem“, seguiu sem avançar o Chapeleiro, “e desde então não tenho mais como tomar meu chá – a lebre é testemunha!”

Mas O QUÊ disse a capivara?”, perguntou um dos jurados.

E-eu esqueci!”

Mas é preciso que lembre”, disse a rainha, “…senão corto-lhe a cabeça!”

O infeliz Chapeleiro deixou a xícara e o pão mirrado caírem e deixou-se, também, cair, parando de joelhos diante da autoridade. “Eu sou um homem miserável, muito, muito reles, Vossa Majestade!”, era só o que ele sabia dizer.

Você é um orador miserável!”, não perdeu a brecha a rainha.

Eu gostaria muito de voltar ao meu chá”, respondeu o Chapeleiro com um olhar perplexo e desesperado dirigido em súplica à rainha, como desde o início do interrogatório, como um velho cantor pobre de repertório que só sabe repetir o mesmo estribilho.

Você pode ir“, disse a rainha, ao que o Chapeleiro se dirigiu apressado para fora do tribunal, só que tão apressado que um de seus sapatos ficou pelo caminho.

Pimenta, principalmente“, disse a cozinheira.

Xarope“, respondeu uma vozinha sonolenta detrás de si.

Prendam essa capivara!“, exclamou a rainha, voz esganiçada. “DeCAPIvarem essa CAPIta! Expulsem essa capivara do tribunal! Suprimam-na! Belisquem-na! Arramquem-lhe o bigode!”

O coelho branco retirou os óculos. “Como ordena Vossa Majestade; por onde devo começar?”

Comece do começo”, disse o rei, como quem explica um problema matemático. “E chegue ao final, passando pelo meio.”

Esses eram os versos, igual o coelho branco os cantou:

O que escutei de você,

me deixou com inveja;

Ela dizia que comigo se embevecia

quando eu só nadar podia!

Eles escreveram que eu não ia

(Era só o que sabíamos):

Quando eles nada fazem,

O que será de nós?

Eu lhe dava um, ela lhe dava dois,

Eles me davam três vezes quatro;

Mas ela está aqui, ela está ao meu lado;

Todos estão comigo!

Talvez eu e ela

Um dia nos desencontremos,

Mas ela sempre vai

Esperar eu voltar!

Eu pensava muito nos meus erros,

E ela dava muitos faniquitos,

Eu esperava o fim de tudo aquilo,

Enquanto isso ofendido.

Não tem preço, eles dirão,

O amor de alguém;

Não há alma nesse mundo

Que a conheça tão bem!”

Essa é a maior revelação que ouvimos até agora!”, disse o rei, esfregando as mãos. “Deixem os jurados trabalharem.”

Se é que alguém consegue entender alguma coisa que eles fazem”, disse Alice (ela estava tão por fora do que acontecia nestes últimos minutos que já não tinha coragem sequer de perguntar o significado de nada a ninguém, e essa foi a vez que ela passou mais tempo calada). “Dessa missa não acredito na metade! E digo mais, não enxergo nisso nenhum sentido!”

Os jurados escreveram tudo em suas pranchetas: “Ela acha que não há nenhum sentido nisso”, mas nenhum deles pensava no sentido daquelas palavras.

Quando não faz sentido,” disse o rei, esclarecedor, “isso nos poupa um grande volume de trabalho! Quer dizer que não temos que nos preocupar com nada! Só sei que nada sei.”

Mas aí vem alguém e diz: ‘E elas ainda estão aqui’”, disse Alice.

De fato, eles ainda estão! ela segue aqui!”, disse o rei, triunfante, ao tempo em que colocava uma fatia de torta em cima da mesa, perto do valete de copas. “Nada pode ser mais claro! De novo: ‘Ah, lá vem o chilique!’”.

(Os pobres jurados, perdidos, ouviram e começaram a escrever a mesma coisa em suas lousas: não faz nenhum sentido. E eles copiavam tudo como ouviam nos menores pingos, a ponto de terem de mergulhar a pena no tinteiro diversas vezes sem parar.)

Então não foi culpa sua!”, disse o rei, e dei um risinho, olhando de par em par para todo o júri. Todos pareciam ter levado uma pi(c)ada letal de escorpião. Ficaram paralisados, e com semblante pesado.

Ora, foi uma pi(c)ada!”, saiu-se com essa o rei, demonstrando nervosismo – foi então que após segundos muito tensos sem se ouvir um farfalhar de papel nem mesmo ruído de cadeiras atritando contra o solo, todos soltaram o ar de seus pulmões e gargalharam sonoramente.

Ai, que idiotice!”, falou Alice, em voz alta, sem conseguir se conter. “Se a decisão é só a opinião dela!”

Cale a boca!”, disse a rainha, enquanto sua cara se tornava violeta.

Eu não quero!”

Cortem-lhe a cabeça!“, bradou a rainha o mais alto que podia. Mas as cartas não saíram de seus postos.

Quem perguntou algo a vocês?”, ousou Alice, no cúmulo de seu justificado despeito. “Vocês não são nada além de um baralhinho inofensivo!”

Com essas palavras, ergueu-se todo o carteado no ar, circundando a menina. Ela soltou um grito, meio de susto, meio de ira, instintivamente soergueu os braços, sentindo-se cercada, dos pés à cabeça, isto é, dos cabelos aos sapatos. Cada uma daquelas cartas parecia se mover conforme flutuam as folhas secas de uma árvore ao capricho dos ventos numa refrescada tarde outonal! Significa que elas podem até demorar, mas vão, então, finalmente cair no chão, indefesas?! Ela ouvia agora, de repente, a tranqüilizadora voz de sua irmã mais velha, que a segurava em seu regaço:

Calma, Alicinha! Foi só um pesadelo!”

Mas sua irmã ali continuava, perfeitamente sentada e tranqüila, com a cabeça apoiada numa das mãos, enquanto a outra folheava o grande livro, ambas debaixo da sombra da copa da árvore, naquela linda tarde nublada. E a pequena Alice sonhava, a sua distinta maneira, com maravilhosas aventuras, e só agora percebia: foi tudo um longo, longo sonho inocente!

Espera, não é possível! Ela estava no País das Maravilhas, e talvez eu também conheça este lugar!” E tentou fechar os olhos e abri-los de novo, para ver se mudava de lugar. Mas ao reabri-los olhava em volta e via a realidade, o pomar de sua casa, na Inglaterra, não em outra terra, se maravilhosa era! Aquela graminha verde não deixava ninguém mentir, ela bem a conhecia. E aquele velho e familiar farfalhar calmo da brisa gentil… Sim, tudo aquilo era muito conhecido da irmã de Alice. Até o mesmo laguinho, à margem do qual, ouvindo aquelas ondinhas diminutas, ela estava acostumada a perder os sentidos e embalar no sono, outrora…

GLOSSÁRIO

Adler: águia

angenehm: agradável

Apfelsine: laranja = ORANGE

Atem: fôlego

bescheiden: contrito, modesto

Brett: quadro

Dachspitze: sótão, abóbada

durchkriechen: rastejar

eilig(e): com pressa, apessado(a)

einmachen: conservar

Ende: pato

entweder: equivalente ao either inglês

Entzücken: arroubo

Faselhase: ??? “[Brasil] Zoologia. Tipo de esquilo (Sciurus aestuans) que, sendo encontrado na Amazônia e em certas partes do litoral brasileiro, possui aproximadamente 20 centímetros de comprimento, de pelagem marrom-oliácea e possuidor de uma longa cauda.” A tradução mais difícil foi a desse personagem. Vemos que em cada tradução o autor escolhe um novo animal, apesar de o esquilo ser o protótipo ideal (ainda que a ilustração nada tenha de esquilo, a ser franco!), então eu fiz o mesmo e parti para a inovação, optando por uma brasileiríssima capivara!

gewiss: decerto

Gipfel: copa, topo (como duma árvore)

Herzogin: duquesa

indem: enquanto

Kaninchenbau: toca do coelho

knabbern: mordiscar

Mäuseloch: casa de rato (hoje sem o trema)

mutig: corajoso, valente, brioso

nützen: ajudar

Rätsel: charada

rieseln: escorrer

schnur: fio

stolpern: deparar-se com

Tat: delito (jurídico)

Todtenkopf: veneno

Töpf: pote

Trost: alívio

übel: mau

Übrigen: restante

Ufer: margem

Verdruss: descontentamento, desprazer, irritação, decepção

vertreiben: expulsar; sentido de ‘passar’ quando usado com o tempo como objeto.

Verzweiflung: desespero

Vorbeifallen: ??? (vorbei: prévio, passado; Fallen: queda)

vorsichtig: cautelosamente

Zuckerplätzschen: docinhos

TROCADILHOS INTERESSANTES OU NEM TANTO

Mausoleum: Mouse ao léu. Um rato vivíssimo, mas tão folgado e preguiçoso que parecia estar morto!

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