[ARQUIVO] LA ROCHEFOUCAULD

 

1ª PARTE

Mascaramento de imperfeições—exemplo: “Eu não posso. Logo, eu não quero.”

Devidamente transposto no séc. XIX, quando começou a ascender o amor ao nada: “Há no coração humano uma geração perpétua de paixões, de modo que a ruína de uma é quase sempre o estabelecimento de outra.”

“somos muitas vezes firmes por fraqueza e audaciosos por timidez.” (*)

“Os homens odeiam até mesmo aqueles que lhes prestam serviços e deixam de odiar aqueles que os cobriram de ultrajes.”

“a moderação dos homens em seu mais alto grau é desejo de parecer maiores que sua fortuna.” Nem muito feliz nem muito cabisbaixo publicamente: assim espanta-se o mau agouro dos invejosos e a compaixão destrutiva dos piedosos.

“excetuando-se sua enorme vaidade, os heróis são feitos como os outros homens.”

“Nem o sol nem a morte podem ser encarados fixamente.”

(*) Desfecho de Zaratustra: a verdade é que o anfitrião deveria ter sido mais duro com os visitantes desde o início, mas sua reação retardada mostrou ser a melhor de todas. Porque nós, metade tiranos, tiranos do espírito, temos pena dos outros, mas não de nós mesmos. E aí somos cruéis ao máximo com os outros, indiretamente (mas em cheio), assim que ficamos com raiva do nosso próprio sentimento de pena.

MAIS UMA: “O mal que praticamos não atrai tanta perseguição e ódio quanto nossas boas qualidades.”

A diferença entre ciúme e inveja: “merecer” ou não uma coisa. Têm inveja da minha escrita; eu sou enciumado de mestrandos burros.

“Eu quero que você seja feliz!”—quanta maldade nesse desejo!

O mito do amor crescente—talvez os mais nobres sentimentos devessem ficar incomunicáveis.

O orgulho é constante numa vida—o problema é que ele se disfarça em “orgulho silencioso” quando o amor-próprio não é mais exteriorizado, seja porque se o percebeu ofendido e atacado pelos outros, seja porque simplesmente é-se mais virtuoso, e isso encolhe a vaidade e a pavonice: a tranqüilidade da superioridade. Ou seja: palavras viram desprezo. O maior tagarela e prosador torna-se o maior desprezador.

PENA DOS BILIONÁRIOS: “Por diferentes que sejam as fortunas, há, contudo certa compensação de bens e de males que as torna iguais.”

P. 22: o ideal de pobreza dos filósofos; maus do século XVII; do humor.

“Ocorre com o verdadeiro amor o mesmo que com a aparição de fantasmas: todos falam deles, mas poucos já os viram.”

“Um ingrato pode ser menos culpado de sua ingratidão que aquele que lhe fez o bem.”

“É uma espécie de galanteio fazer notar que nunca usamos galanteios.”

Espírito: o enganador. Coração: suas verdadeiras disposições.

“Os defeitos do espírito, como os do rosto, aumentam com a idade.”

“O que mais liberalmente damos são conselhos.”

“fazemos o bem para podermos impunemente fazer o mal.”

“O uso contínuo da astúcia é a marca de um espírito pequeno.”

Talvez possa antecipar a síntese máxima desse livro: que nossa força reside em sermos seres fracos. Sempre obtemos bem mais do que parecemos capazes de fazer. Nós, as pontes, nós os comediantes, nós que tratamos bem a maioria dos interlocutores—não há como não surpreender!

“Há pessoas que jamais teriam se apaixonado se não tivessem ouvido falar do amor.”

“Preferimos falar mal de nós mesmos a não falar de nós.”

“procurar tão insistentemente agradar a si mesmo é um meio equivocado de tentar agradar aos outros ou persuadi-los”

“Um homem de espírito haveria de ficar com freqüência muito embaraçado sem a companhia dos tolos.”

Sob várias formas ao longo do livro: “A natureza faz o mérito e a sorte lhe dá emprego.”

“O que nos leva a apegar-nos a novas amizades não é tanto o cansaço que temos das antigas ou o prazer de mudar, quanto o desgosto de não sermos admirados por aqueles que nos conhecem demais e a esperança de sermos mais admirados por aqueles que não nos conhecem.”

“Esquecemos facilmente nossos erros quando somente nós os conhecemos.”

“Quem vive sem loucura não é tão sensato quanto pensa.”

“A distância diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e acende o fogo.”

“Há maus que seriam menos perigosos se não tivessem nenhuma bondade.”

“Por que é que temos bastante memória para reter até nos mínimos detalhes o que nos aconteceu e que não tenhamos bastante para lembrar quantas vezes os contamos à mesma pessoa?”

“Por vezes supomos odiar a bajulação, mas só odiamos a maneira de bajular.”

“É mais difícil ser fiel à amante quando se é feliz do que quando se é maltratado.”

“As mulheres desconhecem toda a sua afetação.”

“O sotaque da região em que nascemos permanece no espírito e no coração, como na linguagem.” (???) P.S.: Como os gaúchos—as gaúchas—são orgulhos@s (vaidosas?) da sua própria voz! Nisso, já beiram a xenofobia…

“O maior milagre do amor é curar da afetação!”

“É muito difícil romper quando a gente já não se ama.”

“Aborrecem-nos quase sempre aqueles com quem não é permitido se aborrecer.”

“Somente as pessoas que evitam causar ciúmes é que são dignas de que se tenha ciúmes delas.”

“O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele.”

“Sabe-se muito bem que não se deve falar da própria mulher, mas não se sabe suficientemente que menos ainda se deveria falar de si.”

“As violências a que nos submetemos para nos impedir de amar são muitas vezes mais cruéis que os rigores de quem amamos.”

“Quase todos os jovens pensam ser naturais, quando são apenas mal-educados e grosseiros.”

“A inveja é destruída pela verdadeira amizade”

“A violência que nos fazemos para permanecer fiéis a quem amamos não vale mais que uma infidelidade.”

“Ela não era bonita”—a flecha do cupido demora muito até ser retirada.

“Perde-se às vezes o ar burguês no exército, mas nunca na côrte.”—distinguir-se pelo valor, não pela afetação. Talvez fosse o remédio para os mais esdrúxulos dessa classe média candanga, principalmente dessa ralé empertigada dos cursinhos de direito.

“Guarda-se por muito tempo o primeiro amante, enquanto não se arranja um segundo.”

“O que menos se encontra no galanteio é amor.”

A Filosofia é útil para o passado e o futuro, mas não serve para o presente.

Quanto mais distante a perspectiva da qual se observa a vida, menos ela faz sentido. Hoje, aqui, tudo é plenamente coerente.

“As afetadas se sentem honradas com os ciúmes que têm de seus amantes, para esconder que têm inveja das outras mulheres.”

“Poucos sabem ser velhos.”

“As mulheres que amam perdoam mais facilmente as grandes indiscrições que as pequenas infidelidades.”

“Nada impede tanto ser natural que a vontade de sê-lo.”

“É mais fácil conhecer o homem em geral que um homem em particular.”

“Não desejaríamos praticamente nada com ardor, se soubéssemos perfeitamente o que desejamos.”

“Tratamos de nos orgulhar dos defeitos que não queremos corrigir.”

“A velhice é um tirano que proíbe sob pena de morte todos os prazeres da juventude.”

“Nas primeiras paixões as mulheres amam o amante [lato sensu] e nas outras, amam o amor.”

NADA CONSOLADOR: “Por mais raro que seja o verdadeiro amor, é ainda mais raro que a verdadeira amizade.” Eu não usufruí nem de um, nem da outra.

“A vontade de ser lamentado ou admirado constitui muitas vezes a maior parte de nossa confiança.”

CONSOLADOR: “A mesma firmeza que serve para resistir ao amor serve também para torná-lo violento e duradouro e as pessoas fracas, que são sempre agitadas pelas paixões, quase nunca a têm verdadeiramente.”

“A timidez é um defeito perigoso de repreender nas pessoas que queremos livrar dela.”

“Quando temos o coração ainda agitado com o que resta de uma paixão, estamos mais perto de sermos invadidos por uma nova do que quando inteiramente curados dela.”

“Geralmente só se conta o primeiro galanteio das mulheres depois do segundo.”

AFORISMO 500: “Há pessoas tão centradas em si mesmas que, quando estão apaixonadas, encontram meios de se ocupar de sua paixão sem se ocupar da pessoa que amam.”

P. 74: consideração sobre os suicidas e outros. O diário problema da morte. O mais divertido é que a morte em si não existe—mas a reputação é um pós-morte vivido na vida muito importante! Um suicida é, no mínimo, muito mais nobre que qualquer fiel de religião. Porque isso se chama: viver a vida com covardia. Não adianta parasitar um organismo que desejaria ser suprimido dessa maneira anêmica.


2ª PARTE

P. 79: um pouco de História

P. 80: um pouco das possessões e viagens ilustres de La Rochefoucauld

P. 81: sobre a relatividade da beleza—quando as menos belas desbancam as mais belas

As frases da primeira parte ajudam bastante aqui, dados os vocábulos dos quais o autor retira um significado bastante específico e “de época”, como “humor” ou “espírito”; mas, na realidade, é bem provável que estes parágrafos maiores tenham sido escritos antes e aí sim La Rochefoucauld engastou e poliu suas pérolas, já que a arte dos aforismos do sábio é mais bem-elaborada e marcante.

P. 87: a inevitável beleza da espontaneidade infantil

Exatamente o que vinha pensando mais dia, menos dia: o retrato da decadência desta sociedade é que o adulto é sempre feio, não se sente confortável. Educação falha—super-coação dos poucos que tentam prosseguir mais ou menos na mesma marcha harmônica. “Isso é o certo para a sua idade”—padronização extenuante; rejeição das atitudes e hábitos dos bem-nascidos, como intolerância ao seu perguntar incessante, ao seu falar e ao seu contar, risadas a suas observações mais ingênuas. Coação dos próprios moleques já pervertidos a um estilo absolutamente bárbaro e fanfarrão—mesmo Aquiles passaria belos anos de tormenta no mar antes de voltar pintado de ouro, desta socialização que tentou vencê-lo (para não falar de Ulisses). Hoje até os homens são superafetados. “Mantenha a boca fechada, você fica parecendo bobo assim” “Cada um quer ser outro e não ser mais o que é” “Você fica bravo quando escuta música?”—talvez eu lance um CD sampleado com “Vozes do Rebanho—greatest hits”. “Fuleiro buddy” “corta esse cabelo”…

CRÍTICA AO MODERNO: faltam salões amplos.

ILUSÃO DE QUE SE PUDESSE SALVAR ALGUMA COISA: “não temos a força de terminar voluntariamente e, no declínio do amor como no declínio da vida, ninguém pode decidir-se a prevenir os desgostos que deverá ainda experimentar.”

P. 108: homem, o superanimal

P. 119: as semostradeiras e sua paixão por velhos que “já foram alguma coisa”.

“Pode-se ter ao mesmo tempo um ar sério no espírito e dizer muitas vezes coisas agradáveis e alegres” “Os jovens têm usualmente o espírito alegre e zombeteiro, sem o terem sério, e é isso que os torna muitas vezes importunos.”

“Que pessoas teriam começado a se amar se elas se tivessem visto antes como se vêem na seqüência dos anos?”


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] EXTENSÃO DOS COMENTÁRIOS PASSADOS (Zaratustra)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

28: o “homem da morfina”

31: representando uma comédia

38: “deserto”, “dragão”; a solidão do sábio, as agruras e a moral do mundo ocidental.

39: eu já sou a criança

40: a luta do dia a dia. Para o insone. É preciso cair desprotegido, acabar com o ranger de dentes.

43: metafísica antropomorfa

52: escrever com o sangue

83: a constante alegoria da flecha. Estás aqui, há ainda muito por viver…

86: a cidade de “Vaca Malhada”. Uma tarde de sabedoria.

96: desaguar no mar

116: sobre o iminente uso indevido dos postulados de Zaratustra

117: o asno

123: da sensualidade e da dança

125: sobre a perda de amigos

145: da sucessão dos poetas. Sensação de descrever o inefável em vão.

147: preservai os monumentos

156: para se livrar de Hegel

173: o anão e o eterno retorno; o pórtico do “instante”.

174: o jovem e a temerária serpente em sua boca

182: não há teias e fins, mas dados e jogadores

193: Estado e Capital

200: cena digna de Ulisses

219: o grande déspota que manipula o passado

233: do pensamento abissal

235: novo círculo, nova serpente. Velho expediente. Declaração de morte à metafísica.

287: o nojo da elite

291: “Tudo é permitido.”

303: paródia da bíblia. Mas esta é o livro inteiro! Ausência da mulher em qualquer candidato.

322: o homem, emulador de todos os animais

328: a Europa aleijada


Da desilusão histórico-maníaca nietzschiana ou a sucessão ad infinitum de erros humanos no projeto de consecução da transmutação de todos os valores. No final de O Anticristo—mas não só deste livro, e costumeiramente assim que realmente vai se acercando do fim do que ia dizer—é clarividente o tom lamurioso, a oscilação, provocados pela narrativa de momentos cruciais em que o homem moderno ou ainda o homem antigo mais tardio falhou ao intentar a milenar inversão de valores, fosse com a desagregação/implosão do Império Romano; o retrocesso da Renascença; ou as Cruzadas e a expulsão dos mouros. É como se insidiosamente o devir brindasse o homem sedento pela volta da nobreza com uma irônica solene recusa. Cabe todo esse descontentamento? Ele ser considerado válido dentro da habitual lógica nietzschiana? Que outras lições advêm daí? As características da nostalgia e do remorso são realmente chamativas em sua obra. Poderia isso querer dizer, em que pese tudo, que a realidade empírica do homem seja transfigurar-se em seu ideal, que ainda assim o ocaso e soçobramento do niilismo estão fora de questão? O que garante a ocorrência, por fim, desta tal “guerra santa de indivíduos” e o desmantelamento dos Estados-nações? De Sócrates a Lutero, Napoleão, César Augusto e César Bórgia e Maquiavel, ele parece não aceitar a efemeridade do gênio ou a faceta obscura dessas populações privilegiadas. Devemos assumir no mínimo que ninguém está isento de cometer seus errinhos, erros e grandes gafes.

“Zaratustra quis voltar a ser homem”

SOBRE COM QUE PESSOAS NÃO É FUNESTO LIDAR ROTINEIRAMENTE: “Gosto muito também dos pobres de espírito. Favorecem o sono. São bem-aventurados, mormente quando se lhes dá sempre razão”

“Teu Em-si se ri de teu Eu e de seus impulsos arrogantes.” O belo diálogo—ou ordens unilaterais—do instinto (do corpo, da matéria!) com a(à) consciência.

“Mais um século de leitores e o próprio espírito terá mau cheiro.”

“meu demônio (…) o espírito da gravidade”

“amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas estamos habituados a amar.

Há sempre algo de loucura no amor, mas também há sempre algo de razão na loucura.”

“Onde acaba o Estado—Olhai para lá, meus irmãos! Não conseguis ver o arco-íris e as pontes que levam ao super-homem?”

“Teu sonho deve revelar-te o que faz teu amigo quando desperto.”

“Os mais afastados são os que pagam seu amor ao próximo e desde que vos reunis em cinco, um sexto é que vai morrer.”

“Enfim, meus irmãos, evitai ser injustos com os solitários. Como poderia um solitário esquecer? Como poderia tomar medidas?”

“Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?”

“mesmo o mais astuto compra suas mulheres às cegas.”

“Muitas breves loucuras, isso é que chamais amor. (…) casamento (…) tolice prolongada.”

“Solitários de hoje, que viveis marginalizados, algum dia devereis chegar a ser um povo. De vós que vos escolhestes a vós mesmos, deverá surgir e crescer um povo eleito, do qual nascerá o super-homem.”

“Na verdade, vos aconselho: Afastai-vos de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda, envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado!”

“E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o acaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã” “E o sol do conhecimento atingirá seu zênite.”

“Em torno de nós reina o outono”

“Se existissem deuses, como poderia eu suportar não ser um deus? Por conseguinte, não há deuses.”

“Nunca houve até hoje um super-homem”

“Em meus filhos quero remediar o fato de ter sido filho de meus pais. E, no futuro, todo, quero remediar este presente.”

“É difícil viver entre os homens porque é muito difícil calar. Sobretudo para um falador.”

“e aquele que quiser permanecer limpo entre os homens deve aprender a lavar-se em água suja”

“Até acredita em vossas mentiras, se mentis bem a respeito dele, porque no fundo do coração suspira: ‘Quem sou eu?’”

“Bendito seja aquele que endurece!”

“Aquele que foi de minha têmpera tropeçará em seu caminho com aventuras iguais às minhas, de forma que seus primeiros companheiros só poderão ser cadáveres e palhaços.

Seus segundos companheiros, porém, serão chamados seus fiéis: um enxame animado, muito amor, muita loucura, muita veneração juvenil.

A estes fiéis não deverá ligar seu coração aquele que dentre os homens for de minha índole. Nessas primaveras e nesses prados de variadas cores, aquele que conhece não deve dar confiança à fraca e fugitiva espécie humana.”

“Para ti, é uma vergonha rezar!”

“Não consiste precisamente a divindade em haver deuses, e que Deus não exista?”

“Esquece-se o que os homens são quando se vive com eles.”

“Há também outros cantores que não têm a garganta expedita, a mão eloqüente, expressivo o olhar e o coração desperto, senão quando têm a casa cheia. Não me pareço com eles.”

“E algumas invenções são tão boas que, como o seio da mulher, são úteis e agradáveis ao mesmo tempo.”

“A sociedade humana é uma tentativa, assim eu ensino, uma longa investigação, mas uma investigação de quem manda.

Uma tentativa, meus irmãos, e não um ‘contrato’.”

“A todos os momentos a existência principia. Em torno de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. A senda da eternidade é tortuosa.”

“o canto é o que convém a convalescentes”

“Ensinar que há um grande ano de devir, um ano monstruoso que, à semelhança de um relógio de areia, tem sempre que se voltar novamente para correr e se esvaziar outra vez.” “O nós das causas em que me encontro tornará a criar-me! Eu mesmo pertenço às causas do eterno regresso das coisas.”

“Todas as palavras não foram feitas para os que são pesados? Não mentem todas as palavras ao que é leve? Canta! Não fales mais!”

“Não cantes! Silêncio! O mundo é perfeito.”

“Que aconteceria se aquele, cujo pai foi afeiçoado às mulheres, aos vinhos fortes e aos javalis, exigisse de si castidade?”

AS CINDERELAS: “A meia-noite é também meio-dia”

“se algum dia quisestes que uma vez se repetisse, se algum dia dissestes: ‘Agradas-me, felicidade! Instante, momento!’ Então quisestes que tudo retornasse.”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Este sou eu que, na primeira vez em que li esta obra a sério (…) estava sufocado e necessitando me apartar. Hoje o movimento é reverso, também na pureza. Andando em círculos?…

Eu tenho mãos e pés! O que mais eu poderia querer?

Um maldito com uma navalha ensaiou a destruição do cosmo!

Eu estou em busca de um exército! De certa fama “diferente” na cidade. Um respeito mesclado com temor. Como andar sempre no limbo entre o imprestável e o impecável, porque pecaminoso mesmo é fracassar por excesso de uma só coisa, hipertrofia de uma convicção, quer dizer, do olho que agora nada vê. Cornucópia que pretende ser uma armadilha de coelho ou rato para afastar toda a fauna exótica (…) e me distrair de mim mesmo.

Todos são apenas macacos imutáveis—eu sou o único em movimento. Caricaturas de desenvolvimento: (…) Todos estagnados diante da própria essência. Hoje eu sou um ponto, uma estrela, no firmamento de (…) Em breve terei feito os mais velhos comerem poeira cósmica: (…) e o que subsistirá? Os mortos, os clássicos… O insondável.

Não parece estranho que nunca tenha sonhado, ao longo desses anos todos, nem tenha ouvido relatos a respeito, que eu mesmo fosse deus, que de algum modo adquiria a onipotência—mas esse sujeito é aquele que sabe que num instante vai acordar? T.E., o último discípulo viúvo, me persegue nessas representações, como um lado gosmento e sórdido da inconsciência superada.

E aquele que cai doente, sem quem lhe dê de comer?

Os animais antropomorfos de Zaratustra—fiéis escudeiros—a meio caminho?

Que fazer, eu que nem os animais ideais tenho?

Cerveja e masturbação. Há de alguma forma uma pureza em quem passou a vida ao lado de uma única e jamais experimentou entorpecentes ilegais. Eu: alguém que não teve coragem de se servir de uma prostituta. Mas não devemos fazer propaganda, e por dois motivos. Não esquecer também da outra metade da família. TRABALHADORES. DESPREZADORES. Eu que não amo minha ascendência. Por isso é que eu acho: numa briga de vida ou morte com alguém fisicamente mais forte, eu levaria vantagem. O BRAVO. Sou o escriba encarregado de sistematizar as qualidades dos meus últimos parentes?

Imagina teu futuro mais funesto, e lento! Isso será razão para praguejar? Só temos voz para o presente. Se bem que o presente é um elo de uma cadeia, que o comanda, ele mesmo um dos líderes dessa cadeia. Aqui fala um soberano e eleito, elo da cadeia fenomenal chamada humanidade, esta uma das argolas do colar chamado mundo! Aqui não se trata de bijuteria, pois não se pode quebrar, cada peça precisa ser mais maleável que a borracha e mais resistente que o diamante! Então o que eu digo, petulante, hoje? Para ser frase eterna, que seja: já muito eu venci… Justifiquei-o?


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] O ANTICRISTO II

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

48-51: Nietzsche, os dois Budismos. Talvez uma demonstração de que uma vez “nula”, a Europa já não tem muito o que temer…

73: a “boa-nova” do Messias

81: o cristianismo de fechada; o padre perdido.

102: do Gênese à Torre de Babel

119: Manu

126: extrema nostalgia romana

129: ode ao Islã


“A noção cristã de Deus (…) Deus como aranha.”

“Se não se conseguir terminar com o cristianismo, os alemães são a causa disso…”

“E conta-se o tempo a partir do dies nefastus em que essa fatalidade começou—a partir do primeiro dia do cristianismo!—Por que não contá-lo a partir de seu último dia?A partir de hoje?—Transmutação de todos os valores!”


Anotações de cunho pessoal:

O reino de Deus como um imenso hospital—última visita: pobretões implorando ao Senhor pela pronta recuperação do paciente em estado terminal, porque “Ele pode tudo!”. Como se não estivesse pressuposto desde o começo que mais cedo ou mais tarde—nessa ou noutras gerações desta família—a crença no poder de Deus será reduzida a cinzas. Eu simplesmente não sei me comportar como um doente!

Em simples coisas como o futebol de três décadas atrás se viaja no tempo de forma literal e impactante o suficiente para dizer: como perdemos o gosto; massacramos qualquer cadência! Ação, ação, ação, chazam! Quero um chá, Zâmbia irá me esperar! A música não alenta? Tirar alguma conclusão? Pra que a pressa? Outra hora vem… Ainda que “o dia” fosse amanhã, eu diria: ainda falta muito tempo para o mundo acabar…


9 de março de 2010

[ARQUIVO] SCHOPENHAUER COMO EDUCADOR (A III Intempestiva)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

25: o homem moderno entre um sim e um não

33: Shelley, Prometeu Desacorrentado

37: o problema do ceticismo

61: o castigo do homem tornado a ser animal

68: tartufismo

75: da moda

80-1: o “mata-moscas” do sábio

110: o elogiado filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson

111: as eternas metáforas da bela mulher e da velhota


“Um homem nunca sobe mais alto a não ser quando ignora para onde seu caminho pode levá-lo.”

O prefácio mais lindo e comovente.

“De fato, todo aquele que tiver o furor philosophicus no corpo não terá mais tempo para o furor politicus e se absterá sabiamente de ler jornal todos os dias e especialmente militar num partido, embora não se deva hesitar um instante para tomar seu lugar na hierarquia, desde que um perigo real ameace a pátria.”

Livro essencialmente para tratar daquele que escolheu a carreira de professor no âmbito da modernidade e se vê diante do ESTADO para filosofar… Sobre a honestidade e o caráter de um professor universitário… Há coisas que simplesmente estão fora de pauta. Agregue-se a isso a função de antiquário do moderno.

“E se quiserem ouvir os cantos da solidão, escutem a música de Beethoven.”

“E se for verdade que as florestas devem rarear aos poucos, não chegará um momento em que será necessário usar bibliotecas como nos servimos de lenha, palha e gravetos?”

“Toda filosofia que acreditar afastar ou mesmo resolver com a Judá de um acontecimento político o problema da existência não passa de uma caricatura e de um sucedâneo da filosofia.”

“As águas da religião estão em baixa e deixam atrás delas pântanos e lamaçais (…) Jamais o século foi mais secular, mais pobre de amor e de bondade.”

“No devir, tudo é vazio, mentiroso, chato e miserável”

“a terra perderá seu peso, os acontecimentos e as potências terrestres não serão mais que sonhos, uma transfiguração semelhante àquela das tardes de verão se difundirá em torno dele.”

“A pressa é geral, porque todos querem escapar de si mesmos”

“deveríamos algum dia aprender a odiar algo de mais geral que nossa individualidade (…) será somente então que um novo fim será fixado a nosso amor e a nosso ódio”

“Mas quando alguém se acostumou a traduzir toda espécie de experiência em termos de dialética e num puro problema cerebral, é surpreendente ver com que rapidez se resseca em semelhante atividade, que logo só é capaz de se fazer entender por um estalar de ossos.”

“Em oitavo lugar, (…) Seus consoladores são os livros ou escutar outro pensar de forma diversa da sua, é assim que consegue matar o tempo durante um longo dia.”

“se fixarão por objetivo preparar o surgimento de um novo Schopenhauer, de um gênio filosófico.”

“o fato de ser obrigado a pensar publicamente, em horas previamente determinadas, em coisas previamente fixadas. E diante de jovens! (…) E se acontecesse um dia de sentir que nesse dia não consegue pensar em nada, que nenhuma única idéia lhe vem ao espírito—e que tivesse de se apresentar, no entanto, a fingir de pensar?” “essa maneira de pesquisar em inumeráveis opiniões estranhas e absurdas lhe parece quase o mais repugnante e o menos oportuno dos serviços.” “‘É um bom filólogo, um bom arqueólogo, um bom lingüista, um bom historiador’, mas nunca: ‘É um bom filósofo.’”

“é mais filosófico nada saber do que aprender o que quer que seja”

“em nossos dias precisamente é uma raça fraca que ocupa as cátedras de filosofia e Schopenhauer, se tivesse agora de escrever seu tratado sobre a filosofia universitária, não teria mais necessidade de tomar sua clava: uma vareta lhe bastaria.”

“Aqui e acolá, um dentre eles tenta ainda um pequeno vôo metafísico—com os resultados habituais: vertigem, enxaqueca e sangramento do nariz.”

“é da própria natureza da filosofia nunca se deixar assalariar”


Anotações de cunho pessoal:

Tem-se pelo menos uma certeza: não se atingiu o auge de nada. O que não significa que tenha sido em vão. Ainda que houvesse um “ato em si” reconhecido por todas as épocas como tendo sido o mais grandioso, isso nunca é percebido no tempo presente, é sempre “tarde demais”. Mas o mais comum e salutar e natural é projetá-lo à frente de si… Portanto, não existe “meio-termo” de um homem íntegro. Ou só existem híbridos.


9 de março de 2010

[ARQUIVO] O CASO WAGNER

4ª CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA: WAGNER EM BAYREUTH

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

92: a recorrente puxada de orelha nos alemães e seus estudos históricos

93: a orientalização do mundo, desde Alexandre

98: o problema da arte como única justificativa para a vida

100: a linguagem universal

110: da transição de um talento a outro: Wagner, Goethe, Schiller—da expressão escrita à oral/musical?

112: da árvore que finca raízes; Zaratustra.

126: as músicas de Wagner são versadas

129: as diversas sensações suscitadas no ouvinte pelo desenvolvimento das técnicas musicais

130: para entender Beethoven

131: Wagner e Heráclito


Já não acreditava mais no que escrevia? Última homenagem terna?

“Em toda parte o homem só encontra sua insuficiência pessoal, sua impotência total ou parcial. Que coragem teria para combater se não tivesse recebido previamente a consagração de uma causa que ultrapassa sua personalidade?” “nossa tríplice insuficiência”—“Não podemos estar felizes”; “não podemos ser morais”; “não podemos até mesmo ser sábios” “a arte é a atividade do homem em repouso”, isso quer dizer: “A arte não é o mestre e o mentor da atividade concreta”—porque somos como somos e as personagens não ditam nosso comportamento. Mas adoramos ser múltiplos.

Arte como mapa da vida, a vida como o JOGO DOS JOGOS: “a grandeza e o valor insubstituível da arte consistem precisamente no fato de que evoca a aparência de um mundo mais simples, de uma solução mais rápida para os enigmas da vida. Aquele que a vida fere não pode prescindir dessa aparência, como não pode prescindir do sono.” …AND JUSTICE FOR ALL

“Impedir que o arco se rompa, essa é a razão de ser da arte.”

O erro nietzscheano, se existe algum aqui, consiste na crença na instantaneidade da mudança e em seu marco divisório, que certamente não era este Wagner nem esta Bayreuth!

Elogios alter-biográficos que num espaço de uma década e meia seriam convertidos em autobiográficos: Ecce Homo, ele mesmo! Despojado de seu ídolo, superado…

Um pouco de afetação, aqui e acolá. Alguns anos depois, em que hierarquia situaria seu “primeiro músico absoluto”?


O CASO WAGNER (p.d.)

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

20: Benjamin Constant

22: sobre querer-se fundir com o amante

24: “o nada, a Circe indiana”

38: Wagner e Hegel—“a música como idéia”

44: Nietzsche contra os adolescentes

45: Wagner, o Minotauro. Ou comunista, comedor de criancinhas.

47: os tipos mórbidos de Dostoievsky


Ouvir 20 vezes uma mesma música devia ser algo bastante excepcional, àquele tempo.

Um libelo chauvinista.

Humor picante, sob a égide cesárea (“dizer o sério rindo”).

Como no Ecce Homo, tratado encharcado de citações em francês.

Siegfried//Shakespeare—tanto Siegfried e Brunilda quanto Romeu e Julieta “só podem se amar no Além”: logo, o “depois” é mais importante que o REAL.

“Wagner resume a modernidade. Não adianta, deve-se começar por ser wagneriano…”

“Um ser esgotado é atraído por aquilo que é nocivo: um vegetariano o é pelos legumes.”

Mais para o final da vida, começou a citar jornais em seus textos.

“Quando não se é rico, é preciso ser suficientemente digno para se ser pobre!…”

Só no epílogo, a crítica mais contundente e clara: uso dos mitos que sustentavam uma moral aristocrática para posar e se refestelar sobre a massa cristã. Ainda ensina: não se CONVENCE alguém ou uma época a favor ou contra uma crença.


Anotações de cunho pessoal:

De repente, acordamos pensando horrores daqueles por quem guardávamos uma alta estima!


NIETZSCHE CONTRA WAGNER

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

58: tiradas sarcásticas com direito até a merchand!

62-3: no parágrafo sobre a música como eco tardio de uma outra época, a previsão do gênero folk!

67: lamenta a França igualmente perdida… e já lamantara a Itália, no prefácio


“Ninguém leva ao teatro o sentido mais refinado de sua arte, muito menos quando se é artista que trabalha para o teatro—a solidão faz falta, a perfeição não tolera testemunhas… No teatro, nos tornamos plebe, rebanho, mulher, fariseu, gado eleitoral, patrono de igreja, idiota—wagneriano: é ali que a consciência mais pessoal se submete ao encanto nivelador da maioria, é ali que reina o próximo, ali é que nos tornamos próximo…”

“Foi assim que, progressivamente, passei a compreender Epicuro, antítese de um grego dionisíaco, e igualmente o cristão que, de fato, não passa de uma espécie de epicurista e se conforma a seu axioma ‘a fé torna feliz’.”

“A doença é sempre a resposta se queremos duvidar de nosso direito à nossa missão, se começamos a tornar as coisas mais fáceis para nós em qualquer sentido. Estranho e assustador ao mesmo tempo! São nossas facilitações que devemos expiar mais duramente! E se, depois disso, quisermos recuperar a saúde, não há mais escolha: temos de nos carregar mais pesadamente do que estávamos antes…”


De 5 a 8 de março de 2010

[ARQUIVO] A FILOSOFIA NA ÉPOCA TRÁGICA DOS GREGOS

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

47: o reinado do agon

130: Eurípides, o socrático

133: os Cínicos, super-socráticos


Sobre o tempo, para além da História (Homem)

Com três historietas é possível compor o retrato de um homem”

é significativo que seja Sócrates o primeiro grande grego a ser feio”


Anotações de cunho pessoal:

Existe o suicídio por felicidade incontível? Creio que nesse momento eu me proporia a isso: seria uma das mortes mais invejadas em todas as salas de cinema.

Ficção contemporânea e seu maior erro: os mortos como seres fracassados. O protagonista clássico nunca morre (anti-Aquiles, este ainda assim capturado de ângulo romântico).

ARTE E ILUSÃO: Um estudo da psicologia da representação pictórica — E.H. Gombrich (trad. Raul de Sá Barbosa), 1995.

Foi sobretudo Ernst Kris, esse historiador da arte transformado em psicanalista, que, no curso de uma amizade de mais de vinte anos, ensinou-me a fecundidade das abordagens psicológicas.”

Em virtude da alarmante alta no preço dos livros, sou grato à Phaidon Press por lançar sua edição de Arte e ilusão em capa mole.”

Sendo a arte uma coisa da mente, segue-se que qualquer estudo científico da arte é psicologia. Pode ser outras coisas também, mas será sempre psicologia.

MAX J. FRIEDLÄNDER, Von Kunst und Kennerschaft

uma vez que o espelho parece estar a meio caminho entre o meu reflexo e eu, as dimensões da sua superfície serão metade do seu tamanho aparente. E, por mais que tal fato possa ser demonstrado com a ajuda de triângulos semelhantes, a afirmação é recebida, geralmente, com franca incredulidade. A despeito de toda a geometria, eu também teimosamente insistirei em que vejo realmente minha cabeça (tamanho natural) quando faço a barba, e que é o tamanho na superfície do espelho que é o fantasma.”

Que as descobertas e efeitos de representação, que eram o orgulho de artistas de outros tempos, tenham ficado hoje triviais, é coisa que não nego por um só momento. E, todavia, acredito que estaremos em perigo de perder contato com os grandes mestres do passado se aceitarmos a doutrina, tão em moda, de que essas questões nunca tiveram nada a ver com arte.”

Talvez até o colorido berrante das nossas caixas de corn flakes para comer com leite no café da manhã deixasse boquiabertos os contemporâneos de Giotto.”

(argu)men(to)

Ruskin (…) em 1843, seu livro Modern Painters, em defesa de Turner. Esse vasto tratado é, talvez, o derradeiro e mais persuasivo dos livros em que a história da arte é interpretada como uma progressão até a verdade visual, na tradição que começou com Plínio e Vasari.”

Sem ter consciência do fato, Ruskin preparou, assim, a carga explosiva que faria ir pelos ares o edifício acadêmico. Para Barry, ‘o simples retorno da nossa óptica natural’ parecera insuficiente para produzir coisa melhor que a Madona Rucellai. Para Ruskin e seus seguidores, o alvo do pintor tinha de ser a volta à verdade não adulterada da óptica natural. As descobertas dos impressionistas e os debates inflamados que eles provocaram aumentaram o interesse de artistas e críticos por esses mistérios ela percepção.”

A intervenção das tribos germânicas, que Riegl considera mais inclinadas à subjetividade que os romanos, permitiu à arte prosseguir suas transformações num plano mais elevado, passando de uma concepção tátil do espaço tridimensional, tal como na Renascença, para a maior subjetividade do Barroco e a vitória das puras sensações ópticas do Impressionismo”

O evolucionismo está morto, mas os fatos que deram origem ao seu mito insistem em permanecer insepultos e devem ser levados em conta.”

Foi André Malraux quem percebeu o significado dessas descobertas nos cativantes volumes da sua Psicologia da arte. Há muito de Hegel e de Spengler nos rapsódicos hinos que Malraux tece ao mito e à mudança, mas ele conseguiu, pelo menos, liquidar o equívoco que se expõe ao merecido ridículo no cartum de Alain: a idéia de que os estilos do passado refletem literalmente a maneira pela qual os artistas ‘viam’ o mundo. Malraux sabe que a arte nasce da arte, não da natureza. E, todavia, apesar de todo o seu fascínio e de seus brilhantes apartes sobre psicologia, o livro de Malraux não nos dá o que promete no título, uma psicologia da arte. Ainda não temos explicações satisfatórias para o cartum de Alain. Mas talvez estejamos mais bem-preparados do que Riegl para tentar essa explicação. Aprendemos muito sobre o poder das convenções e das tradições, e não apenas em um campo. Os historiadores já investigaram a influência que tem a fórmula para o cronista, cujo ofício é registrar acontecimentos recentes; estudiosos da literatura, como Ernest Robert Curtius, demonstraram o papel dos topoi, os tradicionais lugares-comuns, na trama da poesia. Os tempos parecem maduros para abordarmos mais uma vez o problema do estilo, fortificados pelo conhecimento da força da tradição.”

Rudolf Arnheim, Art and Visual Perception

Não é por acaso que os pintores sempre foram aconselhados, desde o tempo antigo, a ter os seus estúdios voltados para o norte. Porque, se o pintor de um retrato ou de uma natureza-morta tem a intenção de copiar a cor do seu motivo por área, não pode permitir que um raio de sol transtorne o processo.”

John Constable, Stonehenge

a proverbial figura de cera que tantas vezes provoca um certo mal-estar por ultrapassar as fronteiras do simbolismo.”

Chegamos a Giotto pelo longo caminho que vai dos impressionistas para trás, via Michelangelo e Masaccio, e, conseqüentemente, o que vemos primeiro nele não é o ‘realismo’, mas um rígido comedimento e uma espécie de indiferença majestática.”

Numa cause célebre do século XIX, o embrião de um porco, rotulado como embrião humano para provar uma teoria evolucionista, derrubou uma figura de grande reputação.”

Poucas discussões sobre filosofia da representação tiveram mais influência que a importante passagem da República, na qual Platão introduz a comparação entre uma pintura e uma imagem no espelho. A filosofia da arte tem sido assediada por ela desde então. A fim de reexaminar sua teoria das idéias, Platão compara o pintor ao carpinteiro.
Este, ao fazer um sofá, traduz a idéia, ou conceito, de sofá em matéria. O pintor que representa o sofá do carpinteiro em um dos seus quadros apenas copia a aparência de um sofá determinado. Está, assim, duas vezes distante da idéia.”

Todos nós conhecemos o sentimento provocado quando a febre ou a fadiga afrouxam os gatilhos das nossas reações e um fragmento de papel de parede parece de repente nos encarar ou fazer-nos caretas com um esgar ameaçador.”

Em muitos lugares do mundo há histórias de estátuas que têm de ser acorrentadas para impedir que se ponham a andar por conta própria e de artistas que se abstêm de dar a última pincelada nos seus quadros para impedir que as imagens adquiram vida.”

Uma senhora que estava visitando o ateliê do pintor observou: ‘Mas certamente o braço dessa mulher está comprido demais!’ Ao que o artista, polido, respondeu: ‘Madame, a senhora está enganada. Isso não é uma mulher, é um quadro.’”

Foi preciso que ampliássemos os nossos horizontes históricos e tomássemos progressivamente conhecimento de outras civilizações para que nos déssemos conta do que tem sido com perfeita justiça chamado de ‘o milagre grego’, a singularidade da arte grega.”

Fontes do séc. XVII mencionam que Agostino considerava a orelha o traço mais difícil de desenhar. Teria até construído um grande modelo de orelha em gesso para instrução dos alunos.”

um livro de Pieter de Jode, publicado em Antuérpia, em 1629, com o título característico de Várias figuras acadêmicas recentemente compiladas do natural com enorme trabalho e grande despesa, muito conveniente para jovens que se interessam pela arte de desenhar

O cínico pode recordar a história do vigarista que prometera a sua vítima um tesouro, a ser recolhido em certo lugar à meia-noite. Havia uma única condição: de nenhum modo ele poderia pensar num crocodilo branco enquanto cavasse, ou o tesouro desapareceria.”

o quanto escutamos realmente pouco quando ouvimos um discurso é coisa de que só nos damos conta indo a um teatro em país estrangeiro” William James


Não há tridimensionalidade nem “fita branca” entre as marcas pretas.

Não é uma espiral, mas círculos de centro igual.

O Cubismo, a meu ver, é a tentativa mais radical já empreendida para exterminar a ambigüidade e impor uma única interpretação da pintura—a de coisa feita pela mão do homem, uma tela colorida.” “O principal impulso por trás do Cubismo foi forçosamente artístico. Não é justo, portanto, ver o Cubismo essencialmente como um expediente para reforçar nossa consciência do espaço. Se esse foi o seu objetivo, então o movimento malogrou.”

Poucas pessoas têm idéia de que uma relva iluminada pelo sol é amarela…”

« Monet n’est qu’um oeil—mais quel oeil ! »

Qualquer mulher sabe que é tão impossível predizer o efeito de cores e formas umas sobre as outras sem experimentá-las juntas quanto dizer o resultado exato dos ingredientes de um prato antes de prová-lo. São impressões ‘globais’, que resultam da interação de inumeráveis estímulos. Nem a maior especialista em moda ousaria afirmar que um chapéu lhe vai bem sem colocá-lo na cabeça em frente a um espelho, pois basta uma linha ou uma nuança para mudar a Gestalt da sua fisionomia da maneira mais inesperada.”

Desde que a mesma cor parece diversa quando mudam as dimensões da área, um fac-símile em escala reduzida parece falso, embora todas as cores sejam idênticas às do original. É duvidoso que essa dificuldade possa vir algum dia a ser superada pelos que fazem reproduções de pinturas em cores para livros.”

Nossa mente recusa aceitar o fato de que a distância a que o pico do monte Everest está do nível do mar—8.848 metros—é pouco superior à distância de 8km que um automóvel percorre numa questão de minutos.”

Algumas fotografias, como algumas pinturas, parecem convincentes; outras, não. Sua escala, a proximidade da montanha da margem do quadro, até sua montagem ou moldura podem influenciar a impressão geral da maneira mais imprevisível.”

Sempre que o pintor sustenta que imita as coisas como as vê, é certo que as vê mal. Representará essas coisas segundo a sua imaginação imperfeita e produzirá uma pintura ruim.” Poussin

O termo ‘caricatura’ e a caricatura como instituição datam apenas dos últimos anos do séc. XVI. E os inventores da arte não foram os propagandistas pictóricos, que existiam, de uma forma ou de outra, séculos antes, mas dois artistas altamente sofisticados e refinados, os irmãos Carracci.”

Para mim, o galo não faz cock-a-doodle-doo, como na Inglaterra, nem cocorico, como na França, nem kiao-kiao, como na China, mas kikeriki, como sempre fez em alemão.”

Claude Lorrain, Paisagem com Moisés e a Sarça Ardente

Wordsworth também foi um campeão do modo simples de falar contra as pretensões da ‘dicção poética’. Ele também viu o poeta ‘pronto para acompanhar os passos do Homem da Ciência’ na sua busca da verdade; ele também reclamou, como primeiro requisito para a produção da poesia, ‘a habilidade de observar com exatidão as coisas como são em si mesmas e de descrevê-las com fidelidade’.” Justamente por isso não é um bom poeta.


GLOSSÁRIO:

batiscafo: “Aparelho autônomo de mergulho que permite explorar as profundidades do mar. (O batiscafo funciona como um balão livre: seu invólucro contém um líquido mais leve que a água, desempenhando o mesmo papel do gás de um balão, enquanto uma provisão de granalha, que se desprende, substitui o lastro de areia.).”

escorço: “Redução de uma figura segundo as regras de perspectiva.”

[ARQUIVO] O LIVRO DO FILÓSOFO

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

16: o problema milenar de ter começado a se preocupar com o de fora, mero reflexo do que é “de dentro”. Hipertrofia teutônica.

20: elogios a Kant

22: a necessária—anti-Marcuse—marginalização da Filosofia

60: a sinestesia da criança

67: em certos aspectos me parece que estes esboços são a prévia direta de VdP, que veio para realizar um projeto antigo

69: “impossibilidade da metafísica” reiteradas vezes

72: do filósofo-legislador ou do iconoclasta

108: sobre a efemeridade do Helenismo

110: o imenso perigo da centralização política

119: ANEXO transbordante (“SOBRE OS HUMORES”). A luta entre o lembrar e o esquecer, o osciloscópio da mente e do coração. Aqueles que não amo mais, aqueles que ainda vou amar… Aquilo que amo…

O filósofo como freio da roda do tempo.

É nas épocas de grande perigo que os filósofos aparecem—no momento em que a roda gira cada vez mais depressa—eles e a arte tomam o lugar do mito que desaparece. Mas eles se lançam muito à frente, pois a atenção dos contemporâneos só se volta lentamente para eles.”

Antes dos 30, já desfia as categorias de niilismo.

o filósofo trágico não é um cético”

Todo ídolo nasce do nada.

Íntimo parentesco entre os filósofos e os fundadores de religião.”—O Judeu maometano e minha aparência de “tabuador”.

A arte repousa na imprecisão da vista.”

Sobre o “metafísico em Nietzsche” (mais particularmente, eu diria: “sobre o sentido da vida”): “Vocês não devem se refugiar numa metafísica, mas sacrificar-se à civilização do devir! É por isso que me oponho absolutamente ao idealismo do sonho.” Sua metafísica é real.

Que sentido tem o homem dizer não! Com toda a franqueza, enquanto todos os seus sentidos e todos os seus nervos dizem sim! E que cada fibra, cada célula se opõe.”

Não autorizamos mais a ficção conceitual. Somente na obra de arte.”

Sobre meu mandamento 4 (vide em 03/03/10 neste blog (e também o hilário excerto do dia 4!): “Vocês praticam a filosofia com jovens sem experiência: seus anciãos se voltam para a história. Vocês não têm de modo algum filosofia popular, mas em compensação têm conferências populares vergonhosamente uniformes. Temas de composição propostos pelas universidades aos estudantes, sobre Schopenhauer! Discursos populares sobre Schopenhauer! Isso é falta de toda dignidade!”

o povo tem necessidade das anomalias, a obra de arte é prova disso (…) O filósofo como médico da civilização.”

A falsa oposição entre a vida prática e a vida contemplativa é asiática. Os gregos compreendiam melhor as coisas.”


Anotações de cunho pessoal:

Se o filósofo congela o tempo e as rodas da confusão, ele é o doente por excelência, porque na vida de um pensador e de muitas outras pessoas é a doença que cumpre esse papel de calmaria e reassentamento.

Eu estou tão alto que poderia rasgar o céu. Subi. Eu subi tanto: confesso que já nem sei mais como descer da árvore.

Não é coincidência eu não ter (mais) primos-irmãos? No máximo primos de primas?

Maço é sempre de papel

mas eu quero o mais cruel

Você não está vendo? O mundo vai virar areia…

Três pratos de tigres para três dias tristes…


De 3 a 4 de março de 2010

[ARQUIVO] ALÉM DO BEM E DO MAL: Prelúdio de uma filosofia do futuro

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

29: a guerra nietzscheana contra o átomo. Virando a página, o mais forte argumento contra a vida eterna.

47: no labirinto

54: “vontade de potência”

56: a máscara do espírito profundo

57: os filósofos do futuro

59: os mais abandonados e desprezados—os que mais teriam de ser ouvidos!

64: “Nós, homens do norte”

69: amaldiçoar o mundo; dizer sim ao círculo.

74: talvez o resumo de epicurista seja “aquele que encontra a beleza no sofrimento”

108: em defesa do clima tropical

111: dos escassos homens fortes nas civilizações tardias

119: a cilada do “empirismo”

121: sobre o fim (moderno) e o esvaziamento da filosofia

126-7: o tipo cético

131: continuação da II Intempestiva—para se livrar da Crítica

135: os predestinados

142: o pastiche

152: do gosto indefinível

155: um problema de nutrição!

178: Henry Bayle, “o último grande psicólogo da França”

189: mau e ruim; forte e insignificante; nas peças ficcionais, a predominância do tipo de antagonista que é contrário a tudo “humano” e que é invariavelmente possuidor de uma força notável; costumeiramente, é necessária a reunião de dois ou mais dos “fracos e bonzinhos” para poder detê-lo. E o mau sempre peca por subestimá-los. Pequena variante: o lado mau é desprovido das qualidades exigidas para chegar ao poder, então lança mão de artimanhas.

190: a opinião dos outros acerca de si!

201: o santo odeia o santo

210: Hobbes contra o riso


falso, isto é, estóico”

tudo o que é raro aos seres raros”

Talvez o livro em que Nietzsche está mais zombeteiro e em que mais destila seu talento de filólogo para desmontar todas as concepções. Jargões como “interpretação”, “psicologia do erro” e “texto/fato” (no sentido de que TEXTO seria o em-si, o absolutamente real, o imparcial longamente buscado; sendo INTERPRETAÇÃO a constatação de que só assim se apresenta cada TEXTO ou fragmento de texto, quando multifacetado) são notáveis.

Falta diferenciar o estóico do budista.

Não é a força dos grandes sentimentos que faz os homens superiores, mas sua duração.”

Em tempos de paz o homem belicoso ser ataca a si mesmo”

A mulher aprende a odiar à medida que desaprende a fascinar.”

É quando nosso orgulho acaba de ser ferido que é mais difícil ferir nossa vaidade.”

Queres dispor alguém em teu favor? Finge-te embaraçado diante dele.”

Quando o amor e o ódio não estão em jogo, a mulher joga de maneira medíocre.”

As grandes épocas de nossa vida são aquelas em que temos a coragem de considerar o que é mau em nós como aquilo que temos de melhor.” Presente, o dom ferino da escrita—a acusação freqüente de que eu padeço da loucura genial, de um gênio louco.

A vontade de superar uma paixão não é, em definitivo, senão a vontade de outra ou de muitas outras paixões.”

Ainda não vi um livro que continuasse—reafirmasse—essa idéia do BUDISMO EUROPEU. Por que não eu?

De novo a esperançosa Rússia, a “terra da vontade”!

nova casta (…) O tempo da pequena política passou: o século que já se anuncia traz em sai luta pelo domínio do mundo(*)—e a obrigação da grande política” Algo saiu muito errado…

(*) a Guerra Fria não durou milhares de anos e não foi orquestração de uma nova casta. Martin e a transvaloração de todos os valores eslavos (???)

Que importa a verdade para a mulher? Nada desde as origens é mais estranho, mais antipático, mais odioso para a mulher que a verdade. Sua grande arte é a mentira, seu negócio mais proeminente é a aparência e a beleza. Confessemos, nós homens honramos e amamos precisamente essa arte e esse instinto na mulher, nós que temos a tarefa difícil e que nos unimos de boa vontade, para nosso alívio, a seres cujas mãos, cujos olhares, cujas ternas loucuras fazem parecer quase como erros nossa seriedade, nossa profundidade (…) E não é verdade que, em termos gerais, ‘a mulher’ foi sobretudo pouco estimada pelas mulheres e não por nós?—Nós homens desejamos que a mulher não continue a comprometer-se com esclarecimentos. De fato, era dever do homem cuidar e dispor da mulher, quando a Igreja decretava: ‘Mulier taceat in ecclesia!’ [Que a mulher se cale na igreja]. Era para o bem das mulheres que Napoleão deu a entender à eloqüente Madame De Staël: ‘Mulier taceat in politicis!’—e eu creio que um verdadeiro amigo das mulheres é aquele que hoje conclama: ‘Mulier taceat de muliere’.”

Gostaria de dizer que a democratização na Europa é ao mesmo tempo uma preparação involuntária para o surgimento de tiranos—palavra que deve ser entendida em todos os sentidos, mesmo naquele mais espiritual.”

O vaidoso se alegra com todo bom conceito que se tem dele”

nada dura até o depois de amanhã, uma só espécie de homens excetuada, os medíocres.”

SE O GÊNIO É UMA MÁQUINA, EU JÁ QUEBREI. 197: Da minha fragilidade e esterilidade. “os homens refinados e raros, mais difíceis de serem compreendidos, correm o risco de ficar sozinhos e, por causa de seu isolamento, sucumbem aos perigos e raramente se reproduzem.”

a classe social já está quase determinada pelo grau de sofrimento que um homem pode suportar” Há espíritos livres e impudentes que gostariam de esconder e negar que têm o coração partido, mas orgulhosamente incurável e, às vezes, a própria loucura é uma máscara que esconde um saber fatal e demasiado seguro.”

Certa impaciência e a consciência de ter sido sempre condenado à comédia (…) esse gênero de homem conhece a solidão e o que ela tem de mais venenoso.”


Anotações de cunho pessoal:

Quando tudo está na ponta dos cascos, é porque os cascos estão à beira do precipício.

A primeira galinha nasceu sem ovo.

Não entender um elogio é um grande insulto!


De 22 a 28 de fevereiro de 2010

[ARQUIVO] AURORA: Reflexões sobre os preconceitos morais

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

35: loucura atrelada à fome; menção do Brasil.

54: na Grécia, a esperança era um vício

59: o objetivo de Platão sempre foi viver

62: o último homem e a estrela insignificante; a fé na embriaguez (triste retrato).

66: nosso caráter de eternum mobile

75: “o inventor do cristianismo”

76: a religião não-religiosa

82: Don Juan

86: nota de rodapé sobre Prometeu: “Depois de 30 eras ou séculos, Hércules o libertou”—para um grego—sobretudo—esse tempo era inimaginável: como nossa fermentação do caldo da vida nos oceanos. Mas o período já excede a era judaica!

112-4: para o desprezo

120-3: nutrição

153: defende que duas pessoas só se casem quando já tiverem um filho crescido

178: para todos e para ninguém; o preceptor.

187: diretrizes para tratar o criminoso

191-3: a judeca no séc. XX: otimismo!

194-6: do escravo assalariado

221: há a música feita com a exclusiva segunda intenção de hipnotizar o ouvinte, sacolejá-lo de lá pra cá, sereia, pérfida, inconfiável, mesquinha

228: para uso pelo nazismo

235: o perigo de endeusar uma biografia: ela deve ser sobretudo imitável!; senão, perde o encanto…

261: não bancar o superior (que se é), descer das nuvens, ser pateta e bem-humorado, quando o quilate daqueles com quem se interage é desprezível

275: grande dado sobre os gregos—quer dizer, em suma, que para a paleta de cores desses antigos, não faz o mínimo sentido declarar: o Planetinha Azul. O mar, o céu, as florestas, tudo eram outros tons para eles… Maior proximidade—continuidade—entre homem e natureza. Não está descartado que um dia a pele humana seja azul!

281: o gênio sem crédito: quando os pilotos da sua vida são inferiores a você. Quando você é ilegitimamente comandado, subalterno. O ÓRFÃO.

311: espécie de rancor contra o teatro

316: nossa saga principal cheia de “subquests”

322-6: a história de Comte

328: da parcimônia antiga no filosofar e do estilo enciclopédico moderno

429 (546): Epicteto; da única humildade aceitável.

442: da epilepsia

334-6: precisamos todos estar sempre grávidos!


Prefácio: o homem do subterrâneo.

Confiar nos próprios sentimentos significa obedecer mais ao avô, à avó e aos antepassados do que obedecer aos deuses que estão em nós, à nossa razão e à nossa experiência.”

Nihil humani a me alienum puto”

Os homens que conhecem instantes de sublime encanto e que, em momentos comuns, por causa do contraste e da extrema usura de suas forças nervosas, se sentem miseráveis e desolados, consideram tais momentos como a verdadeira manifestação de si mesmos, de seu ‘eu’; pelo contrário, a miséria e a desolação como o efeito do ‘não-eu’; é por isso que pensam em seu meio, em sua época, em seu mundo todo, com sentimentos de vingança. A embriaguez parece-lhes ser a verdadeira vida, o eu autêntico: em tudo o resto vêem adversários e inimigos da embriaguez, qualquer que seja a espécie dessa embriaguez, espiritual, moral, religiosa ou artística. A humanidade deve boa parte de suas desgraças a esses embriagados entusiastas: pois são infatigáveis semeadores do joio do descontentamento de si e dos outros, do desprezo de seu tempo e do mundo e sobretudo do cansaço. Talvez todo um inferno de criminosos não poderia produzir essas conseqüências nefastas e distantes, esses efeitos pesados e inquietantes, que corrompem a terra e o ar e que são o apanágio dessa nobre pequena comunidade de seres desenfreados, extravagantes e meio loucos, gênios que não sabem se dominar e que só encontram alegria em si próprios quando se perdem completamente: enquanto o criminoso, pelo contrário, dá ainda provas de domínio de si, de sacrifício e de sabedoria e mantém vivas essas qualidades naqueles que o temem. Por causa dele a abóbada celeste que se eleva acima da vida se torna talvez perigosa e obscura, mas a atmosfera permanece vigorosa e severa.—Além disso, esses iluminados põem todas as suas forças para propagar a fé na embriaguez, como se fosse a vida por excelência! Precisamente como se corrompe rapidamente os selvagens com a ‘aguardente’, que os leva a perecer, a humanidade foi corrompida em seu conjunto, lenta e fundamentalmente, pela aguardente espiritual dos sentimentos inebriantes e por aqueles que mantinham vivo o desejo dela: talvez termine por perecer por causa disso.”

de onde provém essa aversão repentina e sem razão contra aquele que possuiu toda a liberdade de espírito e que se tornou ‘crente’? (…) Talvez tudo isso pretenderia nos levar a entender que não somos totalmente seguros de nós mesmos! Plantamos em torno de nós, no momento oportuno, as cercas-vivas do desprezo mais espinhento, para que, no momento decisivo em que a idade nos torna fracos e esquecidos, possamos ultrapassar nosso próprio desprezo!—Sinceramente, esta suposição é errônea e aquele que a formula ignora tudo que anima e determina o espírito livre: como este último está longe de achar a mudança de suas opiniões desprezível em si! Como, pelo contrário, aprecia a faculdade de mudar sua opinião, qualidade rara e superior, sobretudo quando se consegue mantê-la até a velhice! E seu orgulho (e não sua pusilanimidade) chega até a colher os frutos proibidos do spernere se spemi [desprezar ser desprezado] e do spernere se ipsum [desprezar-se a si mesmo], longe de se deter no temor que inspiram aos vaidosos e aos timoratos. (…) nossa boa vontade é vencida pela idéia da monstruosa deslealdade que deve ter reinado no apóstata de espírito livre, pela idéia de uma degenerescência geral que corrói o caráter até a medula.”

passamos por verdadeiras crises de orgulho.—E agora aponta a primeira aurora de apaziguamento, de cura (…) consideramo-nos então patetas e vaidosos—como se nos tivesse acontecido qualquer coisa de único! (…) Não nos encolerizamos se a magia da saúde recomeça seu jogo—contemplamos esse espetáculo como se estivéssemos transformados, calmos e cansados ainda. Nesse estado não se pode ouvir música sem chorar.” Nota-se uma diminuição do poder da música!

não há senda voltada para o mundo real! Estamos em nossa teia como aranhas e ainda que apanhemos alguma coisa, podemos apanhar somente e sempre o que se deixar prender em nossa teia.”

uma borboleta voa de cá para lá, sem se importar que sua vida não vai durar mais que um dia e que a noite será muito fria para sua fragilidade alada.”

nós, anões malignos, com nossa vontade e nossas causas finais, somos importunados, calcados aos pés, muitas vezes feridos por gigantes imbecis, arqui-imbecis: os acasos (…) esses monstros sobrevêm muitas vezes quando a existência na teia de aranha das causas finais se tornou demasiado enfadonha e pusilânime”

“‘Há, portanto, um único reino, aquele da imbecilidade e do acaso?’ (…) sim (…) Essas mãos de ferro da necessidade que agitam os dados do acaso continuam seu jogo”–indefinidamente “nós mesmos agitamos o copo dos dados”

Não são raros os elogios aos sofistas.

A embriaguez lhes interessa mais que a alimentação.”

entre todos os habitantes da Europa são eles [os judeus] que, na desgraça, têm mais raramente o recurso à bebida ou ao suicídio para sair de um embaraço profundo (…) Todo judeu encontra na história de seus pais e de seus antepassados uma fonte de exemplos de raciocínio frio e de perseverança em situações terríveis (…) quando Israel tiver transformado sua vingança eterna em bênção eterna da Europa: então retornará esse sétimo dia em que o velho Deus dos judeus poderá se alegrar consigo mesmo, por sua criação e por seu povo eleito—e todos nós, todos, queremos nos alegrar com ele!”

a flauta socialista dos apanhadores de ratos lhes ressoa sempre aos ouvidos—esses apanhadores de ratos que querem sempre inflamá-los em esperanças absurdas!” “mudar de lugar mal um sinal de escravidão contra mim se manifeste (…) estar pronto para morrer: contanto que não seja necessário suportar mais essa indecente servidão (…) Pudesse a Europa livrar-se de um quarto de seus habitantes! (…) E que importa então se nos faltará um pouco de ‘braços’ para o trabalho! (…) Talvez iríamos então introduzir chineses (…) infundir (…) um pouco de persistência asiática.”

Napoleão conservava nele próprio a convicção de que falava mal.”

Quando se encena um mito, esse mito pertence a uma civilização em ocaso.

Quando nos abandonamos a uma impressão momentânea que devora e aniquila tudo—essa é a disposição da festa moderna!”

Todos os historiadores contam coisas que nunca existiram, salvo na representação.”

Quando nos calamos durante um ano, desaprendemos a conversa fútil e aprendemos a palavra.” Ah, o enigma de escrever tão bem!

sermos nossos próprios reis e fundarmos pequenos Estados experimentais. Somos experiências: vamos sê-lo de bom grado.” Até onde estou disposto a encarar testes? Nova residência, nova e azul solidão! Mulher e filhos? Veja quando a exclamação se torna suspeição! Eu mereço ser “o fim”.

454. INTERRUPÇÃO—Um livro como este não é feito para ser lido apressadamente de ponta a ponta, nem para ser lido em voz alta; deve ser aberto muitas vezes, especialmente durante um passeio ou uma viagem (*); é preciso poder mergulhar nele, depois olhar para os lados e não encontrar mais nada de usual em torno de si.”

Uma poderosa doçura como aquela de um pai—onde esse sentimento se apoderar de ti, é lá que deverás edificar tua morada—quer seja no tumulto ou no silêncio.”

É fascinante como o autor fala das mesmas personagens, dos mesmos assuntos, basicamente, de modo mastigado e inovador ao longo de década e meia de livros. É encantador este seu jeito empolgante do existir repetitivo. Lemos o que já estamos cansados de saber, se bem que com um sorriso nos lábios.

Evitemos trocar, precipitadamente e com violência, as condições morais às quais estamos habituados, por uma nova avaliação das coisas—pelo contrário, queremos continuar ainda a viver muito tempo nessas condições—até que, provavelmente muito tarde, percebamos que a nova avaliação se tornou preponderante em nós e que as pequenas doses às quais, a partir de agora, devemos nos habituar, produziram em nós uma nova natureza.”

As 4 virtudes cardeais: lealdade, generosidade, coragem e civilidade.

Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.”


Anotações de cunho pessoal:

Ações geram muitas reflexões—imagine se eu agisse mais… Dilatação do tempo!

Meu consolo é a embriaguez artística.

Se a história da formiga e da cigarra fosse uma parábola racial-nacional ao invés de animal para descrever o caráter imprevidente—ou bipolar—humano, aí então a formiga seria o chinês e a cigarra seria o europeu. E o kwakiutl? Um intermediário?

Forrest Gump—quando não havia mais nada interessante, ele apenas correu e correu… Merdas acontecem.

Não “O que você é capaz de fazer?”, mas um “Qual o diâmetro das suas capacidades, do seu eu mais fraco ao seu eu mais forte?”—de não conseguir fazer uma mísera compra de pão sem tremer e vacilar no caixa a discursar naturalmente para uma multidão. Sim, toda essa gama é possível! Uma mulher, uma grande motivação, um diferencial inanimado qualquer, pode leva-lo de ser o pedinte mais mísero a um sonhado messias.

uma particularidade que salta aos olhos”, assim que você se apresenta pela primeira vez a alguém e não sabe que impressão deixa. Nietzsche não poderia deixar de comentar sobre bigodes espessos e o tipo militar que esse “cultivo facial” evoca. Uma dureza de personalidade apropriada onde se pode refugiar. A pergunta é: qual é sua particularidade/quais foram ao longo do tempo? 1) Sinal no queixo; espinhas; cabelo assanhado; óculos fundo-de-garrafa; o sorriso. Qualquer um desses é um candidato forte do meu passado recordável. 2) a barba, a altura, a vestimenta, a postura. Enfim: sou multifacetado de tal forma, polivalente, “multifocal”, vários pontos prenderiam a atenção de outrem em mim, que essa questão se torna um enigma. A primeira visão da mulher que mais amei até hoje não me reconforta nem um pouco: o nerd. Há de se notar que meu organismo se esforça intensamente por se livrar dessa pecha, eliminando até o raquitismo, o que podia lembra-lo: a pança de chopp é mais uma possibilidade.

Tem mais tino para a coisa que o próprio capitão. Mas não pode falar nada, por que arriscar antes da hora H? Além do mais, essa nossa rancorosa juventude idosa já nos ensinou que talvez seja melhor um comandante experiente e ruim do que um novato talentoso!

(*) Durante meu vôo de ida a SP, minha vizinha de acento (embora entre nós houvesse um brucutu, um estreito corredor e ainda outro brucutu!), uma graciosa menina que achei ser amiga ou parente dos outros, de preto, ainda mais harmônica quando se punha a ler, com aquele fino volume em riste, sustentado pelos delicados bracinhos, em meio ao caos de nuvens, constipações, tosses, choros, molecagens e comissárias de bordo entoando seus hinos. Aquela visão destoante me encantou, e não fiquei menos surpreso quando soube que estava ali por outro motivo: concerto da Beyoncé Knowles. Isso não me decepcionava, propriamente. É como se me fizesse, antes, suspirar: “Ainda bem que ele anão terá que se espremer e ralar para achar um lugar no Inferno!”—sua graça só ampliou aos meus olhos. Todo esse relato só para fazer constar: foi ali que me arrependi de não ter trazido um livro como esse na bagagem!

Maioria das coisas que fiz até hoje não teve testemunhas.

Quem me pergunta “como/por que você escreve tão bem?” realmente nunca parou para pensar na pergunta, ainda que saiba a resposta para “por que você é inferior a nós” (é o que esses “doutos” “percebem” nas entrelinhas de suas demagogias fraternais): “Sou um sem amigos”. Qualquer condição é uma moeda, uma moeda íntegra: foi cunhada e tem conseqüências dos dois lados.

De 4 a 10 de fevereiro de 2010

TRÓPICO DE CÁNCER — Henry Miller

“No tengo dinero, ni recursos, ni esperanzas. Soy el hombre más feliz del mundo. Hace un año, hace seis meses, creía que era un artista. Ya no lo pienso, lo soy. Todo lo que era literatura se ha desprendido de mí. Ya no hay más libros que escribir, gracias a Dios.”

“No es un libro en el sentido ordinario de la palabra. No, es un insulto prolongado, un escupitajo a la cara del Arte, una patada en el culo a Dios, al Hombre, al Destino, al Tiempo, al Amor, a la Belleza… a lo que os parezca.”

“Cuando todo vuelva a retirarse a la matriz del tiempo, reinará el caos de nuevo, y el caos es la partitura en la que está escrita la realidad. Tú, Tania, eres mi caos. Por eso canto.”

“El canguro tiene un doble pene: uno para los días de entre semana y otro para las fiestas. Duermevela.”

“De todos esos judíos, la más encantadora es Tania, y por ella también yo me volvería judío. ¿Por qué no? Yo hablo como un judío. Y soy feo como un judío. Además, ¿quién odia más a los judíos que un judío?”

“Y, cuando vuelve, viene limpiándose los dientes con un palillo y le cuelga un poco de huevo de la perilla. Come en el restaurante por consideración hacia mí. Dice que le duele darse una comilona mientras le miro.”

“Después de mí, puedes recibir garañones, toros, carneros, ánades, san bernardos. Puedes embutirte el recto con sapos, murciélagos, lagartos. Puedes cagar arpegios, si te apetece, o templar una cítara a través de tu ombligo.”

“Lo malo de Irene es que tiene una maleta en lugar de un coño. Quiere cartas voluminosas para embutirlas en su maleta. Inmensas, avec des choses inouïes

“como dice Sylvester, un hombre que nunca ha padecido una neurosis no sabe lo que es sufrir.”

“Hay personas que no pueden resistir el deseo de meterse en una jaula con fieras y dejarse despedazar. Se meten en ella hasta sin revólver ni látigo. El temor las vuelve temerarias… Para el judío, el mundo es una jaula llena de fieras. La puerta está cerrada y él está dentro sin látigo ni revólver. Su valor es tan grande, que ni siquiera huele los excrementos en el rincón. Los espectadores aplauden, pero él no oye. Según cree, el drama está ocurriendo dentro de la jaula. Piensa que la jaula es el mundo. Al encontrarse de pie ahí, solo e indefenso, y con la puerta cerrada, descubre que los leones no entienden su lengua. Ningún león ha oído hablar nunca de Spinoza. ¿Spinoza? Pero si ni siquiera pueden hincarle el diente.”

“Junto a la perfección de Turgueniev coloco la perfección de Dostoyevski. (¿Hay algo más perfecto que El eterno marido?)”

“La época exige violencia, pero sólo estamos obteniendo explosiones abortivas. Las revoluciones quedan segadas en flor, o bien triunfan demasiado de prisa. La pasión se consume rápidamente. Los hombres recurren a las ideas, comme d’habitude. No se propone nada que pueda durar más de veinticuatro horas. Estamos viviendo un millón de vidas en el espacio de una generación. Obtenemos más del estudio de la entomología, o de la vida en las profundidades marinas, o de la actividad celular…”

“Las personas son como los piojos: se te meten bajo la piel y se entierran en ella. Te rascas y te rascas hasta hacerte sangre, pero no puedes despiojarte permanentemente.”

“Las mujeres se levantan para ofrecerme sus asientos. Ya nadie me empuja con rudeza. Estoy encinta. Ando como un pato, con mi enorme vientre apretado contra el peso del mundo.”

“Hemos elaborado una nueva cosmogonía de la literatura, Boris y yo. Será una nueva Biblia: El último libro. Todos los que tengan algo que decir lo dirán aquí… anónimamente. Vamos a agotar el siglo. Después de nosotros, ningún otro libro… durante una generación, por lo menos.”

“Durante cien años o más, el mundo, nuestro mundo, ha estado muriendo. Y, en estos cien últimos años aproximadamente, ningún hombre ha sido lo bastante loco como para meter una bomba por el ojo del culo a la creación y hacerla saltar por los aires. El mundo está pudriéndose, muriendo poco a poco. Pero necesita el coup de grâce, necesita saltar en pedazos. Ninguno de nosotros está intacto, y, sin embargo, tenemos en nuestro interior todos los continentes y los mares que separan los continentes y las aves del aire. Vamos a consignar la evolución de este mundo que ha muerto, pero que no ha recibido sepultura. Estamos nadando en la superficie del tiempo y todo lo demás ha naufragado, está naufragando, va a naufragar.”

“¿Qué necesidad tengo de dinero? Soy una máquina de escribir. Se ha apretado el último tornillo. La cosa fluye. Entre la máquina y yo no hay separación. Yo soy la máquina…”

“Vuestra cercanía es la cercanía de los planetas. Yo soy el vacío entre vosotros. Si me retiro, no tendréis vacío en el que poder moveros.”

“Aquí se puede leer en las paredes dónde vivieron Zola y Balzac y Dante y Strindberg y todos los que alguna vez fueron algo. Todo el mundo ha vivido aquí en un momento o en otro. Nadie muere aquí…”

“Yo pensaba que un pájaro no podía volar, si se le mojaban las alas.”

“¿Cómo diablos va a escribir uno, cuando no sabe dónde va a sentarse al cabo de media hora?” “Hasta una novela mala requiere una silla en que sentarse y un poco de aislamiento.”

Un hombre cortado en rodajas… ¡No podéis imaginar lo furioso que estoy por no haber pensado en un título así! ¿Dónde está ese tío que escribe «el mismo visto por su amante… el mismo visto por… el mismo…» ¿Dónde está ese tipo? ¿Quién es? Quiero darle un abrazo. Desearía con toda el alma haber tenido suficiente inteligencia como para imaginar un título así…”

“Todos estamos muertos, o agonizantes, o a punto de morir. Necesitamos buenos títulos. Necesitamos carne -rodajas y rodajas de carne-, filetes jugosos, bistecs, riñones, criadillas, mollejas.”

“Cómo puede un hombre vagar por ahí todo el día con el estómago vacío, e incluso tener una erección de vez en cuando, es uno de esos misterios que los «anatomistas del alma» explican con demasiada facilidad.”

“Me daba placer sentarme en la terraza del pequeño tabac y observarla ejercer su oficio, observar cómo recurría con otros a las mismas muecas, a los mismos trucos, que había usado conmigo. «¡Está trabajando!»: eso era lo que pensaba yo al respecto, y observaba sus transacciones con aprobación. Más adelante, cuando me hube aficionado a Claude, y la veía noche tras noche en su sitio de costumbre, con su redondo culito cómodamente hundido en el asiento de felpa, sentía una especie de rebelión inexpresable contra ella; me parecía que una puta no tenía derecho a estar allí sentada como una dama, esperando tímidamente a que alguien se acercara, mientras bebía a sorbitos su chocolat, pero no alcohol. Germaine era una buscona. No esperaba a que te acercases de ella: era ella la que te abordaba y te capturaba.”

“No miraba fijamente al techo con ojos inexpresivos ni contaba las chinches en el empapelado de la pared; ponía los cinco sentidos en lo que estaba haciendo, decía lo que un hombre quiere oír cuando está montando a una mujer.”

“A lo largo de los Campos Elíseos, las ideas manan de mí como el sudor. Tendría que ser lo bastante rico como para tener una secretaria a la que poder dictar mientras camino, pues las mejores ideas siempre se me ocurren cuando estoy lejos de la máquina.”

“Pero ¡no hay remedio! En Europa te acostumbras a no hacer nada. Te pasas el día con el culo pegado a la silla y gimiendo. Te contagias. Te pudres.”

“«¡Odio París! -gime-. Todos esos estúpidos que se pasan el día jugando a las cartas… ¡míralos! ¡Y escribir! ¿De qué sirve poner una palabra tras otra? Puedo ser un escritor sin escribir, ¿no es cierto? ¿Qué demuestra el hecho de que escriba un libro? Y, en cualquier caso, ¿para qué queremos los libros? Ya existen demasiados libros…»

¡No te jade! Pero, si yo ya he pasado por todo eso: hace muchos años. Ya he superado mi juventud melancólica.”

“Cuando pienso en Tania metiéndose en la cama con esa vejiga reventada, me irrito. Pensar que un imbécil pobre y mustio, con vulgares obras de Broadway bajo la manga, está orinando en la mujer que amo.”

“El universo ha empequeñecido; sólo tiene una manzana de largo y no hay estrellas ni árboles ni ríos. La gente que vive aquí está muerta (…) Gente ya muerta intenta desesperadamente subir a la horca, pero la rueda gira demasiado de prisa…”

“¡Los libros que había leído… a los dieciocho años! No sólo Homero, Dante, Goethe, no sólo Aristóteles, Platón, Epicteto, no sólo Rabelais, Cervantes, Swift, no sólo Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Baudelaire, Villon, Carducci, Manzoni, Lope de Vega, no sólo Nietzsche, Schopenhauer, Kant, Hegel, Darwin, Spencer, Huxley… no sólo eso, sino también todos los autores menores entre ellos. Eso en la página 18. Alors, en la página 232 se derrumba y confiesa. No sé nada, reconoce. Conozco los títulos, he compilado bibliografías, he escrito ensayos críticos, he calumniado y difamado… Puedo hablar durante cinco minutos, o durante cinco días, pero después me agoto, quedo exprimido y seco.”

“No es difícil estar solo, si eres pobre y fracasado. Un artista siempre está solo… si es un artista.”

“Era su París. No hace falta ser rico, ni ser un ciudadano siquiera, para sentir de ese modo con respecto a París. París está lleno de gente pobre: la legión de mendigos más orgullosos y sucios que haya pisado la tierra, me parece a mí. Y, aun así, dan la impresión de estar en casa. Eso es lo que distingue al parisino de los habitantes de las otras metrópolis.”

“Nueva York hace que hasta un rico se sienta insignificante. Nueva York es frío, reluciente, maligno. Los edificios dominan. Hay una especie de frenesí atómico en la actividad que se produce; cuanto más furioso el ritmo, más empequeñecido el espíritu. Un fermento constante, pero igual daría que se produjera en un tubo de ensayo. Nadie sabe de qué se trata. Nadie dirige la energía. Estupendo. Grotesco. Desconcertante. Un tremendo impulso reactivo, pero completamente falto de coordinación.”

“Toda una ciudad erigida sobre el vacío abismo de la nada. Sin sentido. Sin el menor sentido. ¡Y la calle Cuarenta y Dos! La cima del mundo la llaman. ¿Dónde está el fondo, entonces?”

“El hombre que hay a mi lado está profundamente dormido. Parece un agente de bolsa, con su gran barriga y su bigote encerado. Me gusta así. Me gusta especialmente esa gran barriga y todo lo que ha contribuido a formarla. ¿Por qué no habría de dormir profundamente?”

“Se contuvo. Gran error, en mi humilde opinión. El arte consiste en llegar hasta las últimas consecuencias. Si comienzas con los tambores, tienes que acabar con dinamita, o TNT. Ravel sacrificó algo por la forma, por una verdura que la gente ha de digerir antes de irse a la cama.”

“Dondequiera que haya diez hindúes juntos, allí está la India con sus sectas y cismas, sus antagonismos raciales, lingüísticos, religiosos, políticos. En la persona de Gandhi están experimentando brevemente el milagro de la unidad, pero cuando desaparezca, se producirá un desplome, una recaída total en la rivalidad y el caos tan característicos del pueblo indio.”

“El enemigo de la India no es Inglaterra, sino América. El enemigo de la India es el espíritu del tiempo, la manecilla que no se puede volver hacia atrás. Nada podrá contrapesar ese virus que está envenenando el mundo entero. América es la encarnación misma de la perdición. Va a arrastrar al mundo entero hasta el abismo sin fondo.”

“Por una fracción de segundo quizá, experimenté esa claridad total que, según dicen, el epiléptico tiene el privilegio de conocer. En aquel momento perdí completamente la ilusión del tiempo y del espacio: el mundo desplegó su drama simultáneamente a lo largo de un meridiano sin eje. En aquella especie de eternidad pendiente de un hilo sentí que todo estaba justificado, supremamente justificado; sentí mis guerras interiores, que habían dejado esa pulpa y esos despojos; sentí los crímenes que bullían allí para surgir mañana en titulares sensacionales; sentí la miseria que estaba moliéndose a sí misma con almirez y mortero, la larga y triste miseria que se derrama gota a gota en pañuelos sucios. En el meridiano del tiempo no hay injusticia: sólo hay la poesía del movimiento que crea la ilusión de la verdad y del drama.”

“Todo se soporta –ignominia, humillación, pobreza, guerra, crimen, ennui— gracias al convencimiento de que de la noche a la mañana algo ocurrirá, un milagro, que vuelva la vida tolerable.”

“Y de ese tormento y miseria eternos no resulta ningún milagro, ni un vestigio microscópico de milagro. Sólo ideas, ideas pálidas, atenuadas, que hay que cebar mediante la matanza; ideas que brotan como bilis, como las tripas de un cerdo, cuando lo abren en canal.”

“¿Y si en el último momento, cuando la mesa del banquete esté puesta y resuenen los címbalos, apareciera de repente, y sin aviso alguno, una fuente de plata en la que hasta los ciegos pudiesen ver que no hay ni más ni menos que dos enormes chorizos de mierda?”

– Tengo todos los dientes podridos -dice, mientras hace gárgaras-. Es esta mierda de pan que te dan a comer aquí -abre la boca lo más posible y se baja el labio inferior-. ¿Ves? Tuve que sacarme seis ayer. Pronto voy a necesitar otra dentadura postiza.

“De todos modos, vente por aquí, porque me vuelvo loco hablando con estas tías estúpidas. Quiero hablar contigo de Havelock Ellis. ¡Joder! Hace tres semanas que saqué el libro y todavía no le he echado una ojeada. Se pudre uno aquí. ¿Quieres creer que todavía no he estado nunca en el Louvre… ni en la Comédie Française? ¿Vale la pena ir a esos sitios? En cualquier caso, supongo que te distrae en cierto modo. ¿Qué haces tú todo el día? ¿No te aburres? ¿Cómo te las arreglas para echar un polvo?”

“¿Para qué quiere uno los brazos y las piernas? No necesitas los brazos ni las piernas para escribir. Necesitas seguridad… paz… protección. Todos esos héroes que desfilan en sillas de ruedas… es una lástima que no sean escritores. Simplemente con que pudiera uno estar seguro de que, al ir a la guerra, sólo perdería las piernas… si pudiese uno estar seguro de eso, por mí que estallara una guerra mañana.”

“El libro ha de ser absolutamente original, absolutamente perfecto. Por eso es por lo que, entre otras cosas, le resulta imposible empezarlo. En cuanto se le ocurre una idea, empieza a impugnarla. Se acuerda de que Dostoyevsky la usó, o Hamsun, o algún otro autor.” “Y, por eso, en lugar de ponerse a escribir su libro, lee un autor tras otro para asegurarse absolutamente de que no va a hollar su propiedad privada. Y cuanto más lee, más desdeñoso se vuelve. Ninguno de ellos es satisfactorio; ninguno de ellos llega al grado de perfección que se ha impuesto a sí mismo.”

“Una vez fuera de su vista, nos echamos a reír histéricamente. ¡La dentadura postiza! Dijéramos lo que dijésemos del pobre diablo, y también dijimos cosas buenas de él, siempre acabábamos hablando de la dentadura postiza. Hay personas en este mundo cuya figura es tan grotesca, que hasta la muerte las vuelve ridículas.”

“¿Te has tirado alguna vez a una mujer que se hubiera afeitado el chocho? Es repulsivo, ¿verdad? Y también divertido. Cosa de locos. Ya no parece un chocho: es como una almeja muerta o algo así.»” “Estaba tan entusiasmado, que me olvidé de ella completamente. Nunca en mi vida he mirado un coño tan en serio. Daba la impresión de que nunca había visto uno. Y cuanto más lo miraba, menos interesante me parecía. Eso demuestra que no tiene nada de particular, especialmente cuando está afeitado. Lo que lo vuelve misterioso es el pelo.” “Sólo una vez vi un coño real en una estatua: era de Rodin. Tienes que ir a verlo alguna vez…”

“Cuando las miras vestidas, te imaginas toda clase de cosas: les confieres una individualidad, que desde luego no tienen. Lo que hay es una raja ahí, entre las piernas, y te excitas con ella… la mitad de las veces ni siquiera la miras.”

“los quince francos son como la causa primordial de las cosas y, en lugar de escuchar nuestra propia voz, en lugar de dar de lado a la causa primordial, seguimos asesinando y asesinando y cuanto más cobardes nos sentimos, más heroicamente nos comportamos, hasta que llega un día en que el fondo se desploma y de repente todos los cañones enmudecen y los camilleros recogen a los héroes mutilados y sangrantes y les prenden medallas en el pecho.”

“Cuando el mundo estalle y la última edición haya pasado a la imprenta, los correctores de pruebas recogerán sosegadamente todas las comas, puntos y comas, guiones, asteriscos, corchetes, paréntesis, puntos, signos de admiración, etc., y los colocarán en una cajita sobre la silla del director. Comme ça tout est réglé… »

“Un buen corrector de pruebas no tiene ambiciones, ni orgullo, ni mal humor. Un buen corrector de pruebas es como Dios Todopoderoso, está en el mundo pero no es de él. Sólo existe para los domingos.”

“Nunca he visto un lugar como París en lo que a variedad de viandas sexuales se refiere. En cuanto una mujer pierde un diente o un ojo o una pierna, se hace de la vida. En América se moriría de hambre, si no tuviera otra cosa que ofrecer que una mutilación.”

“En Rusia no quieren ver caras tristes; quieren que estés animado, entusiasta, alegre, optimista. Me pareció muy semejante a América. No nací con esa clase de entusiasmo.”

“Requiere más concentración detectar la falta de una coma que compendiar la filosofía de Nietzsche.”

“Todo lo que de valor hay en América, Whitman lo ha expresado, y no hay nada más que decir. El futuro es de la máquina, de los robots. Fue el Poeta del Cuerpo y del Alma, Whitman. El primer poeta y el último. Es casi indescifrable hoy, un monumento cubierto de jeroglíficos primitivos para los que no hay explicación.”

“Europa está saturada de arte y su suelo está lleno de huesos muertos y sus museos rebosan de tesoros saqueados, pero lo que Europa no ha tenido nunca es un espíritu libre, sano, lo que podríamos llamar un HOMBRE. Goethe fue lo más aproximado, pero Goethe fue un presuntuoso, en comparación. Goethe fue un ciudadano respetable, un pedante, un pelmazo, un espíritu universal, pero estampado con la marca de fábrica alemana, con el águila bicéfala. La serenidad de Goethe, su actitud tranquila, olímpica, no es sino el somnoliento letargo de una deidad burguesa alemana. Goethe es el fin de algo, Whitman es un comienzo.”

“Hasta ahora, mi idea, al colaborar conmigo mismo, ha sido abandonar el patrón oro de la literatura. En pocas palabras, mi idea ha sido presentar una resurrección de las emociones, describir la conducta de un ser humano en la estratosfera de las ideas, es decir, presa del delirio. Retratar a un ser presocrático, a una criatura mitad cabra, mitad Titán. En resumen, erigir un mundo sobre la base del omphalos, no sobre una idea abstracta clavada a una cruz. Aquí y allá podéis haberos topado con estatuas abandonadas, oasis desaprovechados, molinos de viento omitidos por Cervantes, ríos que corren montaña arriba, mujeres con cinco y seis senos dispuestos longitudinalmente, a lo largo del torso.”


GLOSSÁRIO:

ascuas: brasa

barrote = PT: “Pequena trave de madeira, de metal, que serve de sustentação de soalhos, telhados etc.”

cachivache: porcaria

canguelo: calafrios

chanclo: galocha

chinche: percevejo

chulo: cafetão

empalmarse: excitar-se = TO HAVE A BONE

escaparatista: vitrinista

estropajo: esponja de aço

gachí: mulher

mustio: murcho

perilla: cavanhaque

polvo: sexo

quevedo: pincenê

reja: grade

tamiz: peneira

THE FREUDIAN LEFT: Wilhelm Reich, Geza Roheim, Herbert Marcuse — Paul Robinson, 1969.

INTRODUCTION: FREUDIAN RADICALISM

F. has most frequently been identified, along with Weber, Durkheim, Pareto, and even Spengler, as one of the great antiutopians of the early 20th century, the man who dealt the final blow to the revolutionary aspirations of Marxism.”


WILHELM REICH

R. belonged to the 2nd generation of F.’s psychoanalytic critics. It was a generation that fell between that of the earliest deviants (Jung, Adler, and Stekel) and the later generation of revisionists and ego-psychologists who began their work in the 1930’s (Fromm, Horney, Sullivan, Anna F., Ernst Kris, Heinz Hartmann, and Erik Erikson).”

(*) “The Function of the Orgasm (1942) is not a translation of Die Funktion des Orgasmus (1927). Much of the material from the 1927 monograph was included in the later work, but they are, for all practical purposes, two separate books. This bibliographical anomaly is perhaps the most obvious example of the sorry editorial state in which Reich’s writings find themselves. By 20th-century standards R. was remarkably prolific. An official list of his publications, compiled by the Orgone Institute Press, notes 26 books and almost 100 articles (…) Most of R.’s more popular books went through several editions and translations during his lifetime, and at every turn he took it upon himself to bring his ideas up to date—without, unfortunately, always bothering to inform the reader. It is not unusual, f.e., to come upon a reference to the Nazi-Soviet pact in a work supposedly written in 1935.”

He invariably professed that character-analytic therapy was only a prologue to the traditional exploration of the unconscious by means of free associations. But Reich rarely got past the preliminaries. [que ironia…] A careful reading of Character-Analysis, or any of the clinical writings, reveals that the detection and dissolution of character resistances absorbed his entire therapeutic energies.”

It happened once or twice that I fell in love with a patient. Then I was frank about it. I stopped the treatment and I let the thing cool off. Then we decided either yes or no to go to bed.”

The death instinct implied that human suffering was inevitable, under socialism as well as capitalism. Thus Reich, like Adler before him, was forced to separate himself from psychoanalysis as much for political as for intellectual reasons. F., too, was fully aware of the ideological nature of his disagreement with R.. He claimed, most unfairly, that R.’s article on masochism ‘culminated in the nonsensical statement that what we have called the death instinct is a product of the capitalistic system.’ F. even went so far as to state that ‘The Masochistic Character’ had been written ‘in the service’ of the Communist party.”

The first difficulty R. faced was persuading his fellow Marxists that psychoanalysis was not an ‘idealistic’ diversionary maneuver of the decaying bourgeoisie, the spiritual counterpart, so to speak, of imperialism. He addressed himself to this task in a short work entitled Dialektischer Materialismus und Psychoanalyse (1929), perhaps the most tightly argued piece he ever wrote.”

A decade before Erich Fromm, and two decades before Theodor Adorno (et al.), R. asserted that the triumph of Nazism in Germany could not be understood simply in terms of Hitler’s charisma or the machinations of German capitalists.”

Hitlerism was only the most highly developed form of a malady which had plagued mankind for centuries, namely mysticism.”

Reich also proposed to counteract the development of homosexuality with what might be termed ‘co-militarism’: ‘the inclusion of female youth in the life of the army and the navy.’”

One of the ironies of a nonrepressive society is that it eliminates that need for sexual escape which forms the basis of our erotic subculture. In short, the end of repression would mean no more dirty jokes”

In the end R. obviously preferred Bentham to Marx. His utopian bias led him to discount the stresses and strains of communal life, as he had those of psychic life.”

If R.’s political ideas were utopian, his biological and cosmological speculations can only be called insane.”

R. wanted no part of Georg Groddeck’s psychosomatic theories.”

Libido was electricity, and the orgasm a spectacular electrical storm.”

Orgone energy was R.’s élan vital. In fact, R. explicitly claimed Bergson as an intellectual forebear, along with Giordano Bruno and Johannes Kepler. But unlike Bergson’s élan vital, Kepler’s vis animalis, or any other metaphorical evocation of the forces of life, Orgone energy was ‘visible, measurable and applicable.’”

His intellectual activities in the new world consisted principally in a fantastic elaboration of the cosmological and, ultimately, religious implications of the discovery of the Orgone. (…) Orgone energy had been defined originally as the form of energy unique to life, but in 1951 R. announced that it was the primordial stuff out of which all reality evolved. (…) The galactic systems, the aurora borealis, hurricanes, and gravity were likewise various manifestations of Orgone energy. In brief, R. propounded a unified-field theory more ambitious than even the most undisciplined physicist could have imagined.”

“‘God’ represented an anthropomorphic projection of man’s awareness of the Cosmic Orgone Ocean. (…) R. was even prepared to admit that the relentlessly antisexual gospel of St. Paul was historically justified, given ‘the pornographic, filthy, sick mind of man in sexual matters.’”

The science of Orgonomy was as fantastic and elaborate as any theological system, and its content was identical with that of the great religions of salvation”

The word ‘sex’, ‘abused and smutted into a horrible nightmare, into a rubbing of cold penises within stale vaginas’, was abandoned altogether, and for ‘sexual intercourse’ he substituted ‘the genital embrace’.”

Such was the sad but (one can’t help feeling) appropriate end to a career so utterly serious and hopelessly grandiose that it faded imperceptibly into farce.”


GEZA ROHEIM

One might say that his work represented a halfway house between the tortured acquiescence of F. and the unqualified opposition of Herbert Marcuse.”

There was in effect only one event in Roheim’s life: his field trip to Australia and the South Seas between 1929 and 1931.”

In general he reserved Hungarian for his more parochial interest in the folklore of his native land, German for his theoretical contributions to psychoanalysis, and English for his technical anthropological writings.”

Only my friends of the Central Australian desert can be described as primitives in the true sense of the word […] All other ‘primitives’ whom I know (Somali, Papuo-Melanesians, Yuma Indians) are closer to us psychologically than to the Australians.”

In his most important work, Thalassa, Ferenczi had interpreted sexual intercourse as an attempt to reverse the process of being born.”

and the king’s elaborate headgear could be interpreted either as the secondary sexual characteristics of the male animal during the rutting season, or as a vagina, in which case the king’s head represented the phallus, and the head in the crown corresponded to the penis in the vagina.”

Unfortunately, R. weakened his critique of cultural relativism by involving himself in a pointless debate over the universality of the Oedipus complex.”

Instead of calling the Yurok anal, which they were, Erik Erikson preferred to speak of ‘retentiveness’, and worse yet, he even praised the Yurok for this quality.”


HERBERT MARCUSE

I have chosen in this chapter to examine the revolutionary Freudian criticism of Herbert Marcuse, devoting only a short section to Norman O. Brown. I had originally planned to give equal attention to both men, but I have become convinced that Marcuse is definitely the finer of the two theorists.”

most of Marcuse’s critical energies were reserved for an analysis of the Fascist undercurrents in the Liberal tradition.”

For both Burke and de Maistre, f.e., history and historically evolved society sat in judgment of any supposedly ‘ideal’ society that pure reason might concoct.”

It was incorrect, he argued, to conclude from the early manuscripts that Marx was a frustrated philosopher posing as an economist. The central concepts of even these early writings were already economic concepts, if not in the narrow sense of technical economic theory. They represented a translation into economic terms of the critical tendencies previously expressed in a more or less exclusively philosophical vocabulary.”

Marxism had proved inadequate not because it was overly abstract and revolutionary, but precisely because it was not revolutionary enough.”

Marcuse considered all of modern sociology, with its insistence on the neutrality of scientific research, the victim of positivist relativism.”

Since art shows the beautiful as present, it pacifies revolutionary desire. Together with the other cultural artifacts it has contributed to the larger educational task of this culture: to discipline the liberated individual . . . so that he can bear the unfreedom of societal existence.”

Mas é impossível negar que há um escasso senso de concretude corporal na atmosfera intoxicante da Fenomenologia do Espírito, em que a realidade constantemente ameaça se dissolver em pura autoconsciência.”

In his first book on Hegel, Marcuse had praised Heidegger for his contributions to Hegel scholarship—an encomium which he probably regretted after Heidegger had shown his political colors following the Nazi takeover.”

RÉPLICA DO ENSINAMENTO ESTÓICO PARA O HOMEM PRESO NO TOURO MECÂNICO: “The essential freedom of man, as Sartre sees it, remains the same before, during, and after the totalitarian enslavement of man. For freedom is the very structure of human being and cannot be annihilated even by the most adverse conditions: man is free even in the hands of the executioner.”

The mention of Marx is intended as more than an idle comparison. He was clearly the unacknowledged hero of Eros and Civilization. That Marcuse never mentioned Marx’s name in the book was an extraordinary feat of legerdemain. [destreza]”

Although he did not state so explicitly, he obviously transformed F.’s primal father into the capitalist entrepreneur, and the band of brothers into the European proletariat.”

The brothers’ guilt was the guilt which the proletariat bore for its inability to carry the revolution through to a successful culmination.”

Marcuse was not always consistently pessimistic about technology in One-Dimensional Man; there were in fact passages which upheld the older ideal of its liberating potential. But the dominant note was one of skepticism and despair.”

It has often been noted that advanced industrial civilization operates with a greater degree of sexual freedom—‘operates’ in the sense that the latter becomes a market value . . . The sexy office and sales girls, the handsome, virile junior executive and floor walker are highly marketable commodities.”

Compare love-making in a meadow and in an automobile, on a lovers’ walk outside the town walls and on a Manhattan street. In the former cases, the environment partakes of and invites libidinal cathexis and tends to be eroticized.”

Thus where the sexual deviant had been the hero of Eros and Civilization, the highly repressed neurotic assumed the role of chief social critic in One-Dimensional Man.”

PSICOLOGIA E ALQUIMIA — Jung

PREFÁCIO DOS EDITORES

O VOLUME VI ‘Tipos Psicológicos’ e o volume VII – ‘O Eu e o Inconsciente’ e ‘Psicologia do Inconsciente’ – eram considerados básicos e imprescindíveis à compreensão de sua Obra Completa pelo próprio C.G. JUNG. Nesta Obra Completa, o presente volume n° XII, ‘Psicologia e Alquimia’ ocupa um lugar central. O texto é aqui apresentado em sua terceira edição.”

I

INTRODUÇÃO À PROBLEMÁTICA DA PSICOLOGIA RELIGIOSA DA ALQUIMIA

A exigência da ‘imitatio Christi’, isto é, a exigência de seguir seu modelo, tomando-nos semelhantes a ele, deveria conduzir o homem interior ao seu pleno desenvolvimento e exaltação. Mas o fiel, de mentalidade superficial e formalística, transforma esse modelo num objeto externo de culto”

Cristo pode ser imitado até o ponto extremo da estigmatização, sem que seu imitador chegue nem de longe ao modelo e seu significado. Não se trata de uma simples imitação, que não transforma o homem, representando assim um mero artifício. Pelo contrário, trata-se de realizar o modelo segundo os meios próprios de cada um – Deo concedente – na esfera da vida individual.”

A concepção inadequada da ‘imitatio Christi’ apenas exterior é reforçada pelo preconceito europeu que distingue a atitude ocidental da oriental. O homem ocidental sucumbe ao feitiço das ‘dez mil coisas’: distingue o particular, uma vez que está preso ao eu e ao objeto, permanecendo inconsciente no que diz respeito às raízes profundas de todo o ser. Inversamente, o homem oriental vivência o mundo das coisas particulares e o seu próprio eu como um sonho, pelo fato de seu ser encontrar-se enraizado no fundamento originário; este o atrai de forma tão poderosa que relativiza sua relação com o mundo, de um modo muitas vezes incompreensível para nós.”

A atitude oriental (principalmente a hindu) representa o contrário dessa atitude: o mais alto e o mais baixo estão dentro do sujeito (transcendental). Por este motivo o significado do ‘atman’, do si-mesmo, é elevado além de todos os limites.”

O psíquico é só natureza – e por isso se pensa comumente que nada de religioso pode provir dele.”

(Um pouco mais de Meister Eckhart não faria mal a ninguém!)”

Uma projeção exclusivamente religiosa pode privar a alma de seus valores, tomá-la incapaz de prosseguir em seu desenvolvimento, por inanição, retendo-a num estado inconsciente. Ela pode também cair vítima da ilusão de que a causa de todo o mal provém de fora, sem que lhe ocorra indagar como e em que medida ela mesma contribui para isso. A alma parece assim tão insignificante a ponto de ser considerada incapaz do mal e muito menos do bem.”

É verdade que os missionários cristãos pregam o Evangelho aos pobres pagãos nus, mas os pagãos interiores que povoam a Europa ainda não ouviram essa mensagem.”

Todavia, quando demonstro que a alma possui uma função religiosa natural, e quando reafirmo que a tarefa mais nobre de toda a educação (do adulto) é a de transpor para a consciência o arquétipo da imagem de Deus, suas irradiações e efeitos, são justamente os teólogos que me atacam e me acusam de ‘psicologismo’.”

A psicologia, enquanto ciência da alma, deve restringir-se ao seu objeto e precaver-se no sentido de não ultrapassar seus limitas, fazendo afirmações metafísicas ou não importa que profissão de fé.”

Ignoramos em última instância de onde se origina o arquétipo, da mesma forma que ignoramos a origem da alma. A competência da psicologia enquanto ciência empírica não vai além da possibilidade de constatar, à base de uma pesquisa comparativa, se o tipo encontrado na alma pode ou não ser designado como uma ‘imagem de Deus’. Desta forma, nada se afirma de positivo ou de negativo acerca de uma possível existência de Deus, do mesmo modo que o arquétipo do ‘herói’ não pressupõe a sua existência.” Bela saída pela tangente!

Ninguém pode evitar a fé em aceitar como causa primeira Deus, Purusha, Atman ou Tao, eliminando assim a inquietude última do homem. A ciência trabalha com escrúpulo e não pretende tomar o céu de assalto.”

O ponto de vista religioso interpreta o tipo como algo decorrente da ação do impressor; o ponto de vista científico o interpreta como símbolo de um conteúdo desconhecido e inapreensível.”

É impensável que qualquer figura determinada possa exprimir a indeterminação arquetípica. Senti-me impelido por isso a dar o nome psicológico de Si-mesmo (Selbst) ao arquétipo correspondente – suficientemente determinado para dar uma idéia da totalidade humana e insuficientemente determinado para exprimir o caráter indescritível e indefinível da totalidade.”

o símbolo de Cristo é da maior importância para a psicologia, porquanto constitui, ao lado da figura de Buda, talvez o símbolo mais desenvolvido e diferenciado do Si-mesmo. Isto pode ser avaliado pela amplitude e pelo conteúdo dos predicados atribuídos ao Cristo, que correspondem à fenomenologia psicológica do Si-mesmo de um modo incomum, apesar de não incluir todos os aspectos deste arquétipo.”

O Si-mesmo não só é indefinido, como também comporta paradoxalmente o caráter do definido e até mesmo da unicidade.” “A inclusão de uma personalidade humana, única (especialmente quando ligada à natureza divina indefinível), corresponde ao individual absoluto do Si-mesmo, que liga o único ao eterno e o individual ao mais geral.”

A vivência dos opostos nada tem a ver com a visão intelectual, nem com a empatia. É mais aquilo a que poderíamos chamar de destino.”

Sabe-se que os números ímpares sempre foram masculinos não só para nós, ocidentais, como também para os chineses; quanto aos números pares, são femininos.”

Como o leitor já percebeu pelo título deste livro, ocupa-se ele com o significado psicológico da alquimia e portanto com um problema que, salvo raríssimas exceções, tem escapado à pesquisa científica até o presente.”

A alquimia constitui como que uma corrente subterrânea em relação ao cristianismo que reina na superfície. A primeira se comporta em relação ao segundo como um sonho em relação à consciência e da mesma forma que o sonho compensa os conflitos do consciente, assim o esforço da alquimia visa preencher as lacunas deixadas pela tensão dos opostos no cristianismo.”

A transformação histórico-universal da consciência para o lado ‘masculino’ é em primeiro lugar compensada pelo inconsciente ctônico-feminino.”

Não se escandalize o leitor se a minha digressão soa como um mito gnóstico. Movemo-nos aqui no terreno psicológico em que está enraizada a gnose. A mensagem do símbolo cristão é gnose, e a compensação do inconsciente o é ainda mais.”

A alquimia trata principalmente do germe da unidade que está oculto no caos de Tiamat e que corresponde à contrapartida da unidade divina.”

O número três não é uma expressão natural da totalidade, ao passo que o número quatro representa o mínimo dos determinantes de um juízo de totalidade.”

O ‘mercúrio’ é sem dúvida ‘quadratus’, mas também uma serpente tricéfala, ou simplesmente uma tri-unidade.”

os temas do sonho sempre reaparecem depois de determinados intervalos, sob certas formas que designam à sua maneira o centro.”

Poderíamos estabelecer um paralelo entre esses processos em espiral e o processo de crescimento das plantas; o tema vegetal (árvore, flor, etc.) também retorna freqüentemente nesses sonhos e fantasias, ou em desenhos espontâneos.” O tema do concurso refeito: voltei ao Colégio Militar por direito, “me emendei”, etc. Há sempre uma festa que é a do meu casamento ou casamento do A. em que bebo tanto que emendo o fim de semana com a segunda de trabalho.

No processo do tratamento psíquico, a relação dialética conduz logicamente ao confronto do paciente com sua sombra, essa metade obscura da alma da qual nos livramos invariavelmente através de projeções, ora carregando o próximo – num sentido mais ou menos lato – de todos os vícios que são nossos, ora transferindo os próprios pecados para um mediador divino através da ‘contritio’ ou da ‘attritio’ mais amena.(*)

(*) Contritio é ‘arrependimento perfeito’. Attritio é ‘arrependimento imperfeito’ (‘contritio imperfecta’ à qual também pertence a ‘contritio naturalis’). A primeira considera o pecado como oposição ao Bem Supremo; a última o rejeita por sua maldade e feiúra e também por medo do castigo.”

Quando a sombra é trazida à consciência pode arrastar consigo, à tona, os conteúdos do inconsciente coletivo. Isto pode exercer uma influência tremenda sobre a consciência, uma vez que a vivificação dos arquétipos molesta o mais frio dos racionalistas, e precisamente a ele.”

O simples conhecimento da estrutura psíquica da neurose também é insuficiente nesses casos; quando o processo atinge a esfera do inconsciente coletivo encontramo-nos diante de material saudável, ou seja, dos fundamentos universais da psique, com suas variações individuais. O que ajuda a compreender essas camadas mais profundas da psique é, por um lado, o conhecimento da mitologia e da psicologia primitiva e, por outro, de um modo muito especial, o conhecimento das etapas históricas preliminares da consciência moderna. A consciência atual foi modelada tanto pelo espírito da Igreja, como pela ciência em cujos primórdios se ocultava muita coisa que não podia ser aceita pela Igreja. Trata-se principalmente de remanescentes do espírito da Antiguidade e do seu sentimento da natureza que não era possível extirpar, tendo encontrado um refúgio na Filosofia Natural da Idade Média. Os antigos deuses dos planetas sobreviveram a muitos séculos de Cristianismo sob a forma de ‘spiritus metallorum’ e componentes astrológicos do destino.”

A alquimia movia-se de fato sempre no limite da heresia e era proibida pela Igreja. Ela desfrutou entretanto da proteção eficaz da obscuridade de seu simbolismo, que a qualquer momento podia ser explicado por uma alegoria inofensiva. Para muitos alquimistas, o aspecto alegórico se achava de tal modo em primeiro plano, que estavam totalmente convencidos de tratar-se apenas de corpos químicos. Outros, entretanto, consideravam o trabalho de laboratório relacionado com o símbolo e seu efeito psíquico. Tal como demonstram os textos, esses alquimistas tinham a consciência do efeito psíquico, a ponto de condenarem os ingênuos fazedores de ouro como mentirosos, trapaceiros ou extraviados.”

A grande preocupação da Igreja é a ‘imitatio Christi’, ao passo que o alquimista, na solidão e na problemática obscura de sua obra, sucumbe sem saber ou mesmo sem querer aos pressupostos inconscientes naturais de seu espírito e de seu ser, por não dispor para se apoiar de modelos claros e inequívocos como o Cristo. Os autores estudados pelo alquimista fornecem-lhe símbolos cujo sentido ele capta a seu modo, embora na realidade toquem e excitem seu inconsciente. Ironizando-se a si mesmos, os alquimistas cunharam a expressão: ‘obscurum per obscurius’ (o obscuro pelo mais obscuro).”

A unidade dos quatro, o ouro filosófico, o ‘lapis angularis’ (pedra angular), a ‘aqua divina’ (água divina) correspondiam na Igreja à cruz de quatro braços na qual o ‘Unigenitus’ foi sacrificado, uma vez na história e por toda a eternidade.”

A possessão revela-se quase sempre pelo fato de as pessoas possuídas se identificarem com os conteúdos. Não reconhecendo o papel que lhes é imposto como efeito dos novos conteúdos a serem descobertos, elas os encarnam exemplarmente em suas vidas, tomando-se profetas e reformadoras.” “Jesus tomou-se assim a imagem protetora contra todos os poderes arquetípicos que ameaçavam apoderar-se das pessoas. A boa-nova anunciava: ‘Já aconteceu, e já não vos acontecerá mais se acreditardes em Jesus, o filho de Deus!’” “Por isso sempre houve pessoas que, não se satisfazendo com a dominante da vida consciente, buscaram por debaixo do pano ou por atalhos secundários, para seu bem ou para seu mal, a experiência originária das raízes eternas. Seguindo o fascínio do inconsciente irrequieto, puseram-se a caminho rumo .ao deserto, onde, como Jesus, depararam com o filho das Trevas”

Mas a parte anímica da obra não desapareceu. Ela conquistou novos intérpretes, como vemos por exemplo no Fausto e na relação significativa da psicologia moderna do inconsciente com a simbólica alquímica.”

II.

SÍMBOLOS ONÍRICOS DO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Contribuição para o conhecimento dos processos do inconsciente manifesto nos sonhos

a simbólica da mandala”

O material de que disponho consiste em mais de mil sonhos e impressões visuais de um homem ainda jovem cuja formação científica deve ser sublinhada.” “A não ser uma curta entrevista no início, antes de começar as observações, não encontrei o sonhador durante os oito primeiros meses. Assim, pois, 355 dos 400 sonhos foram sonhados independentemente de qualquer contato pessoal comigo.”

Não contesto de modo algum a possibilidade de sonhos ‘paralelos’, isto é, de sonhos cujo sentido coincida com a atitude da consciência ou venha em apoio desta última. Mas na minha experiência, pelo menos, estes últimos são relativamente raros.”

O chapéu que cinge a cabeça é redondo como o círculo solar da coroa, contendo por isso a primeira alusão à mandala.”

usar o chapéu de outra pessoa

boné capacete

boina

usar o cabelo de outra pessoa

O mar é o símbolo do inconsciente coletivo porque sob sua superfície espelhante se ocultam profundidades insondáveis.”

Tal como a mania de perseguição resulta de um relacionamento envenenado pela desconfiança, assim também uma realidade ilusória vem substituir a animação normal do meio ambiente e, em lugar de pessoas, começam a mover-se sombras aterradoras e fantasmagóricas. Este é o motivo pelo qual o homem primitivo povoava os lugares desertos e solitários de ‘diabos’ e outros fantasmas.” Porões do CMB.

A resistência do consciente contra o inconsciente, bem como a depreciação deste último, é uma necessidade histórica do desenvolvimento da consciência, pois de outro modo ela nunca se teria diferenciado do inconsciente. A consciência do homem moderno porém distanciou-se demasiadamente da realidade do inconsciente.”

país das crianças”

O País das Maravilhas aceita todas as idades, é atemporal

É infantil não apenas aquele que permanece criança por muito tempo, mas aquele que separando-se da infância pensa que ela não existe mais porque não a vê.”

A pré-história psíquica é o espírito da gravidade, que exige degraus e escadas porque não pode voar, a modo do intelecto, sem corpo e sem peso.”

O inconsciente pessoal deve sempre ser resolvido em primeiro lugar, isto é, deve ser integrado na consciência. De outro modo, o acesso ao inconsciente coletivo tomar-se-ia impossível. A viagem com pai e mãe, subindo e descendo muitas escadas, corresponde a esta conscientização de conteúdos infantis ainda não-integrados.”

SONHO 13

O pai grita ansioso: ‘Este é o sétimo!’”

Se for correta a interpretação de que o ‘sétimo’ corresponde ao degrau máximo da iluminação, o processo da integração do inconsciente pessoal deveria em princípio estar concluído.”

Enquanto planeta Mercúrio ele é o mais próximo do sol, o que indica também sua maior afinidade com o ouro. Enquanto metal, o mercúrio dissolve o ouro e apaga seu brilho solar.”

A ‘arte negra’ porém não é tão remota quanto se pensa; o sonhador, como homem culto, devia ter lido o Fausto. Este último é um drama alquímico do começo ao fim, embora o homem culto de hoje tenha apenas uma vaga idéia disto.”

Os monólogos da caveira, no Fausto e em Hamlet, evocam o absurdo aterrador da existência quando é apenas considerada pelo ‘pálido esboço do pensamento’.”

O fenômeno da ‘voz’ sempre tem um caráter definitivo e indiscutível para o sonhador, isto é, a voz enuncia uma verdade ou condição que já não pode ser posta em dúvida.”

Nenhuma mandala é igual a outra, sendo individualmente diferentes. Acrescentou que as mandalas encontradas nos mosteiros e nos templos não têm significado particular, por serem meras representações exteriores. A verdadeira mandala é sempre uma imagem interior, construída pouco a pouco através da imaginação (ativa) somente em períodos de distúrbio do equilíbrio anímico, ou quando se busca ima pensamento difícil de ser encontrado por não figurar na doutrina sagrada.”

ela é sempre um sistema quaternário, uma ‘quadratura circuli’ (quadratura do círculo), cujos conteúdos procedem invariavelmente da dogmática lamaísta.”

É essencial conhecer esta valorização máxima do símbolo, porquanto coincide com o significado central dos símbolos mandálicos individuais, caracterizados pelas mesmas qualidades de natureza por assim dizer ‘metafísica’. Se não estivermos completamente enganados, eles representam um centro psíquico da personalidade que não é idêntico ao ‘eu’. Observei tais processos e imagens ao longo de vinte anos, através de um material empírico relativamente abundante.”

Pratica-se a ioga indiana de qualquer escola, seguem-se regimes alimentares, aprende-se de cor a teosofia, rezam-se mecanicamente os textos místicos da literatura universal – tudo isto porque não se consegue mais conviver consigo mesmo e porque falta fé em que algo de útil possa brotar de nossa própria alma.”

Perde-se a culpa, que é substituída por uma inocência infantil; reaparece então o pai mau responsável por isto e a mãe pouco amorosa responsável por aquilo e nesses inegáveis nós causais fica-se preso como uma mosca em teia de aranha, sem perceber que se perdeu a liberdade moral.”

O tipo de veículo, num sonho, ilustra o tipo de movimento, ou a maneira pela qual se avança no tempo – em outras palavras, como se vive sua vida psíquica, individual ou coletivamente, por seus próprios meios ou por meios emprestados, espontaneamente ou mecanicamente. No avião, o sonhador é conduzido por um piloto desconhecido, isto é, por vima intuição de origem inconsciente.” “No sonho de que tratamos agora, ele está num bonde elétrico que pode ser usado por qualquer pessoa; isto significa que ele se movimenta ou se comporta como qualquer pessoa.”

Da mesma forma os filósofos afirmam que o quadrado deve transformar-se em triângulo, isto é, em corpo, espírito e alma, os quais antes do vermelho aparecem em três cores, ou seja, o corpo ou a terra num negro saturnino, o espírito num branco lunar como água, a alma ou o ar, amarelo como o sol. Então o triângulo estará completo, todavia, por sua vez, ele deve transformar-se num círculo, isto é, num vermelho inalterável.”

o intelecto do homem moderno considera tudo isto o maior dos absurdos. No entanto, este juízo de valor não impede que tais associações de idéias existam há muitos séculos, desempenhando um papel de suma importância.” “(Muitos de meus críticos, que se dizem ‘cientistas’, reagem exatamente como aquele bispo que excomungou os besouros por proliferarem desavergonhadamente.)”

A retro-identificação com os ancestrais humanos e animais significa, no plano psicológico, uma integração do inconsciente, um verdadeiro banho de renovação na fonte da vida, onde se é novamente peixe, isto é, inconsciente, como no sono, na embriaguez e na morte; daí o sono de incubação, a consagração orgiástica dionisíaca e a morte ritualística na iniciação. Tais procedimentos realizam-se sempre no lugar sagrado. Podemos transpor facilmente estas idéias para o concretismo freudiano: o temenos [estrutura geralmente quadrangular ou circular que nos rodeia e protege] seria o útero materno, e o rito, uma regressão ao incesto. No entanto, neste caso, trata-se de equívocos de neuróticos, os quais permaneceram parcialmente infantis. Ignoram que essas práticas foram exercidas pelos adultos desde os primórdios, sendo portanto impossível explicá-las como simples regressões ao estágio infantil. Caso contrário, as mais altas conquistas da humanidade não significariam mais do que desejos infantis pervertidos, e a expressão ‘infantil’ perderia a sua razão de ser.”

Se esses ritos de renovação não produzissem resultados efetivos, não só teriam desaparecido na pré-história, como nem mesmo teriam surgido. Nosso caso demonstra que mesmo quando a consciência está a milhas de distância das representações arcaicas dos ritos de renovação, o inconsciente procura reaproximá-los da consciência, mediante os sonhos. Sem dúvida alguma a autonomia e autarquia da consciência representam qualidades sem as quais esta última não existiria; no entanto, tais qualidades podem constituir também um perigo de isolamento e de aridez, por criarem uma alienação insuportável do instinto, resultante da cisão entre consciência e inconsciente.”

Minha experiência, entretanto, testemunha que a consciência só pode pretender a uma posição relativamente central, devendo aceitar o fato de que de certa forma é ultrapassada e cercada pela psique inconsciente por todos os lados. ‘Para trás’, mediante os conteúdos inconscientes, está conectada com as condições fisiológicas e com os pressupostos arquetípicos. Contudo também protende ‘para frente’, através de intuições que por sua vez são parcialmente condicionadas por arquétipos e por percepções subliminares, ligadas à relatividade espácio-temporal do inconsciente. Deixo ao critério do leitor que examine a possibilidade de uma tal hipótese, após uma ponderação cuidadosa sobre esta série de sonhos e sobre a temática por ela levantada.”

As festas carnavalescas medievais e o jogo da péla na igreja foram abolidos relativamente cedo; conseqüentemente, o carnaval foi secularizado, desaparecendo a ebriedade divina do espaço sagrado. Restaram na igreja o luto, a severidade, o rigor e a alegria espiritual temperada. Mas a embriaguez, essa forma de possessão imediata e perigosa, desligou-se dos deuses, envolvendo por isso o mundo dos homens em seu excesso e seu ‘pathos’. As religiões pagãs enfrentavam este perigo, dando lugar no culto a esse êxtase da embriaguez.”

A problemática do três e quatro, do sete e oito, que GOETHE tocou neste ponto, é um dos enigmas da alquimia que remonta historicamente a textos atribuídos a CHRISTIANOS.”

Filho, toma do corpo mais simples e redondo, e não do triangular ou quadrangular, toma do redondo; porque o redondo está mais próximo da simplicidade do que o triangular. Note-se que o corpo simples não tem ângulo algum, pois é o primeiro e o último dentre os planetas, como o sol entre as estrelas”

Os leões, como todos os animais selvagens, indicam afetos latentes. Na alquimia, o papel do leão é importante e tem um significado semelhante. Trata-se de um animal ‘do fogo’, alegoria do diabo, e indica o perigo do sonhador ser tragado pelo inconsciente.”

De vez em quando aparecem mandalas ‘perturbadas’. Elas consistem de todas as formas derivadas do círculo, do quadrado ou da cruz regular; bem como as formas baseadas não no número quatro, mas no três ou no cinco. Os números seis e doze constituem neste caso uma certa exceção. O doze pode ter relação com o quatro ou o três. Os doze meses e os doze signos do Zodíaco são símbolos circulares, colocados à nossa disposição. Da mesma forma, o seis é um conhecido símbolo do círculo. O três sugere a predominância da idéia e da vontade (trindade) e o cinco, o homem físico (materialismo).” // CANA NA CASA & O 6 IMPOSSÍVEL

A ‘voz’ tem em geral um caráter indiscutível de autoridade e costuma comparecer nos momentos decisivos.”

Sem o círculo vertical azul a mandala dourada permanece incorpórea e bidimensional, mera imagem abstrata. Somente a interferência do tempo e do espaço no aqui e agora cria a realidade. A totalidade se concretiza apenas no instante, naquele instante que Fausto buscou pela vida afora.”

A visão do ‘relógio do mundo’ não é o último estágio, nem o ponto culminante no desenvolvimento dos símbolos da psique objetiva. No entanto ela é mais ou menos o desfecho da terça parte inicial do material que abrange cerca de quatrocentos sonhos e visões.”

Não quero contudo insinuar que me julgo capaz de fazer afirmações concludentes acerca de um tema tão complexo. Não é a primeira vez que trato de uma série de manifestações espontâneas do inconsciente. Já o fiz em meu livro Símbolos da Transformação; neste se tratava do problema de uma neurose (da puberdade), ao passo que aqui a problemática se prolonga até a individuação. Além disso, há uma diferença considerável entre as duas personalidades em questão. O primeiro caso, do qual aliás nunca tratei pessoalmente, terminou numa catástrofe psíquica (psicose); o segundo, aqui em questão, apresenta um desenvolvimento normal, tal como tenho observado freqüentemente em pessoas de elevado nível intelectual.”

É como se normalmente existisse uma nítida insistência no quatro, ou como se houvesse estatisticamente uma probabilidade maior em relação ao quatro. Não posso silenciar a seguinte observação: o fato de o principal elemento químico constitutivo do organismo físico ser o carbono – caracterizado por quatro valências – é sem dúvida um ‘lusus naturae’ (um jogo da natureza) bastante estranho”

III.

AS IDÉIAS DE SALVAÇÃO NA ALQUIMIA

Uma contribuição à história das idéias na alquimia

LENTAMENTE, no decurso do século XVIII, a alquimia pereceu em sua própria obscuridade. Seu método de explicação – ‘obscurum per obscurius, ignotum per ignotius’ (o obscuro pelo mais obscuro, o desconhecido pelo mais desconhecido) – era incompatível com o espírito do iluminismo e particularmente com o alvorecer da ciência química, no final do século. Mas estas duas novas forças intelectuais apenas eram o tiro de misericórdia na alquimia. Sua decadência interna começara pelo menos um século antes, no tempo de JAKOB BÖHME, quando muitos alquimistas abandonaram seus alambiques e cadinhos, devotando-se inteiramente à filosofia (hermética).”

Sobre este aspecto da alquimia, especialmente quanto a seu significado psicológico, o livro de HERBERT SILBERER Probleme der Mystik und ihrer Symbolik (1914) fornece uma informação abundante. O simbolismo fantástico relacionado com o aspecto psicológico é graficamente descrito num trabalho de BERNOULLI: Seelische Entwicklung im Spiegel der Alchemie. Podemos encontrar em EVOLA um relato detalhado da filosofia hermética: La tradizione ermetica. Mas um estudo abrangente das idéias contidas nos textos, e da sua história, ainda está faltando, embora sejamos devedores a REITZENSTEIN por sua importante obra preparatória neste campo.”

Quatro estágios são assinalados, caracterizados pelas cores originárias já mencionadas em HERÁCLITO: melanosis (o enegrecimento), leukosis (embranquecimento), xanthosis (amarelecimento), iosis (enrubescimento).” “Mais tarde, por volta dos séculos XV e XVI, as cores foram reduzidas a três, e a xanthosis, também chamada ‘citrinitas’, caiu gradualmente em desuso, ou então era raramente mencionada. Em seu lugar a ‘viriditas’ (o verde) aparece raras vezes após a melanosis ou ‘nigredo’.”

A partir da ‘nigredo’, a lavagem (ablutio, baptisma) conduz diretamente ao embranquecimento, ou então ocorre que a alma (anima) liberta pela morte é reunida ao corpo morto e cumpre sua ressurreição; pode dar-se finalmente que as múltiplas cores (omnes colores) – a ‘cauda pavonis’ (cauda do pavão) – conduzam à cor branca e una, que contém todas as cores. Neste ponto, a primeira meta importante do processo é alcançada: trata-se da ‘albedo’, ‘tinctura alba’, ‘terra alba foliata’, ‘lapis albus’, etc., altamente valorizada por muitos alquimistas como se fosse a última meta. É o estado lunar ou de prata, que ainda deve alçar-se ao estado solar. A ‘albedo’ é, por assim dizer, a aurora; mas só a ‘rubedo’ é o nascer do sol. A transição para a ‘rubedo’ constitui o amarelecimento (citrinitas), se bem que como já observamos este é suprimido posteriormente.”

Tal é superficialmente e em suas linhas gerais a estrutura da alquimia, como é conhecida por todos. Do ponto de vista do nosso conhecimento moderno da química, ela nos diz pouco ou nada e se nos voltarmos para os textos, com seus mil e um processos e receitas legados pela Idade Média e pela antiguidade, encontraremos poucos dentre eles, relativamente, de significado identificável pelo químico. É provável acharmos a maioria sem sentido; é indubitável que jamais foi produzida uma verdadeira tintura ou ouro artificial durante todos esses séculos de intenso labor. Podemos então perguntar com toda a razão o que induzia os velhos alquimistas a prosseguir trabalhando ou ‘operando’ (como diziam) de modo constante, escrevendo todos aqueles tratados sobre a ‘divina’ arte, se toda a sua ação era tão desprovida de esperança? Para fazer-lhes justiça devemos acrescentar que todos os conhecimentos essenciais da química e suas limitações eram-lhes desconhecidos e assim podiam ter esperança como aqueles que sonhavam com o vôo e cujos sucessores fizeram tal sonho tornar-se realidade. Nem poderíamos subestimar o sentido da satisfação que nasce do empreendimento, da aventura: o ‘quaerere’ (buscar) e o ‘invenire’ (achar). Estes permanecem, na medida em que os métodos empregados parecem ter sentido. Nada havia naquele tempo que pudesse convencer o alquimista da falta de sentido de suas operações químicas; e o que é mais, ele contava com uma longa tradição de não poucos que haviam obtido o maravilhoso resultado.”

Se admitimos que o alquimista usa o processo químico só simbolicamente, então por que trabalha num laboratório com cadinhos e alambiques? E se, como ele constantemente afirma, está descrevendo processos químicos, por que os desfigura com seu simbolismo mitológico até torná-los irreconhecíveis?”

A constituição espiritual do homem pertencente aos ciclos pré-modernos da cultura era tal, que cada percepção física tinha simultaneamente um componente psíquico que o ‘animava’, conferindo à imagem um ‘significado’ adicional e ao mesmo tempo uma tonalidade emotiva particular e poderosa. Assim sendo, a física antiga era ao mesmo tempo uma teologia e uma psicologia transcendental: pelo fato de receber os lampejos das essências metafísicas na matéria dos sentidos corporais. A ciência natural era ao mesmo tempo uma ciência espiritual e os múltiplos sentidos dos símbolos reuniam os diversos aspectos em um único conhecimento.” EVOLA

Fazer segredo pode ser um mero blefe com o propósito óbvio de explorar os crédulos. Mas toda tentativa de explicar a alquimia unicamente sob este ponto de vista é, na minha opinião, desmentida pelo fato de que vim bom número de tratados detalhados, eruditos e conscienciosos foram escritos e impressos anonimamente, não podendo portanto ter representado uma vantagem ilegítima para alguém.”

Na tentativa de explicar o mistério da matéria, projetava outro mistério, isto é, projetava seu próprio fundo psíquico desconhecido no que pretendia explicar”

O alquimista não pratica sua arte por acreditar teoricamente numa correspondência, mas tem uma teoria das correspondências pelo fato de vivenciar a presença da idéia na matéria (physis).”

A astrologia é uma experiência primordial, como a alquimia. Projeções deste tipo repetem-se todas as vezes que o homem tenta explorar uma escuridão vazia, preenchendo-a involuntariamente com formas vivas.”

As exposições de HOGHELANDE vêm provar, tal como os dois textos anteriores, que durante as experiências de laboratório ocorrem alucinações ou visões, as quais só podem ser projeções de conteúdos inconscientes.” Neste momento ouvindo CATHEDRAL, trilha perfeita.

A fim de podermos compreender tais afirmações temos que livrar-nos de todas as idéias modernas sobre a constituição de um gás, e concebê-las como puramente psicológicas. Trata-se nesse caso da projeção de pares de opostos, tais como leve – pesado, visível – invisível, etc. Acontece que a identidade dos opostos é a característica de todo fato psíquico no estado inconsciente. Assim sendo, uma ‘anima corporalis’ é simultaneamente ‘spiritualis’ e o núcleo do ar sólido e pesado é ao mesmo tempo o ‘spiritus creator’ que paira sobre as águas.”

Assim por exemplo o sábio MICHAEL MAIER censura GEBER – autoridade clássica – de ser o mais obscuro de todos, afirmando que seria preciso um Édipo para decifrar o enigma da ‘Gebrina Sphinx’. BERNARDUS TREVISANUS, outro alquimista famoso, acusa GEBER de obscurantista, comparando-o a um Proteu que promete a fruta e dá cascas.”

Mercurius encontra-se no início e no fim da obra. É a ‘prima materia’, o ‘caput corvi’, a ‘nigredo’, Como dragão, devora-se a si mesmo e como dragão morre para ressuscitar sob a forma do lapis. É o jogo de cores da ‘cauda pavonis’ (cauda do pavão) e a separação nos quatro elementos. É o hermafrodita, o ser primordial, o qual se divide, formando o par clássico de irmão-irmã, e se unifica na ‘coniunctio’, a fim de aparecer de novo ao fim sob a forma radiante do ‘lumen novum’ (nova luz), do lapis. É metal e não obstante líquido, matéria e no entanto espírito, frio porém ígneo, veneno que é medicamento, um símbolo unificador de opostos.”

A metáfora enfática usada por NIETZSCHE no Zarathustra: ‘Para mim uma imagem dorme na pedra’, parece dizer o mesmo, mas em uma ordem inversa. Na antigüidade, o mundo da matéria era preenchido pela projeção de um segredo anímico que, desde então, aparecia como o segredo da matéria, assim permanecendo até a decadência da alquimia no século XVIIl. A intuição estática de NIETZSCHE porém queria arrancar da pedra o segredo do super-homem, onde ele até então dormia. À semelhança dessa imagem, NIETZSCHE queria criar o super-homem, o qual segundo a linguagem dos antigos poderia ser considerado o homem divino. Os velhos alquimistas, pelo contrário, procuravam a pedra miraculosa que contivesse uma essência pneumática a fim de extrair dela a substância que penetra em todos os corpos (pois ela é o ‘espírito’ que penetrou na pedra), transformando todas as substâncias vis em matéria nobre mediante a tintura. Esta ‘matéria-espírito’ é como o mercúrio que se encontra invisivelmente dentro dos minérios e que deve em primeiro lugar ser expulso afim de ser recuperado ‘in substantia’. Mas assim que se possui esse mercúrio penetrante é possível ‘projetá-lo’ em outros corpos, fazendo-os passar do estado imperfeito para o estado perfeito.”

Na medida em que o ponto de vista da psicologia complexa é realista, isto é, fundamentado na hipótese de que os conteúdos psíquicos são existências, os atributos mencionados caracterizam uma parcela inconsciente da personalidade, dotada de uma consciência superior que ultrapassa o humano comum. Empiricamente, tais figuras exprimem sempre ‘insights’ ou qualidades superiores, ainda não conscientes, podendo-se até mesmo perguntar se elas podem ser atribuídas ou não ao ego propriamente dito. Tal problema, que o leigo pode considerar um sofisma, se reveste de um enorme significado na prática. Uma atribuição incorreta pode provocar inflações perigosas, que o leigo só considera sem importância por desconhecer os desastres anímicos e exteriores que podem ser causados por tais inflações.”

Assim como no cristianismo a divindade se oculta na figura do servo, na ‘filosofia’ ela se oculta na pedra insignificante.”

Poderíamos ser tentados a explicar o simbolismo alquímico da transformação como sendo uma caricatura da Missa, se sua origem não fosse pagã e portanto muito mais antiga.”

Os alquimistas são, de fato, pessoas solitárias; cada qual diz o que tem a dizer à sua maneira. Raramente têm discípulos e parece que transmitiam bem pouca coisa por tradição direta; nem temos provas da existência de quaisquer sociedades secretas. Cada qual trabalhava sozinho no laboratório e sofria com a sua solidão.”

não é correto afirmar que os alquimistas nunca definiram a ‘materia prima’; muito pelo contrário, foram tantas as definições dadas que estas acabaram por contradizer-se repetidamente.”

Voltai-vos para mim de todo o coração e não me rejeiteis, por eu ser preta e escura, pois o sol assim me queimou; e as profundezas cobriram o meu rosto e a terra foi deteriorada e maculada em minhas obras, pois havia escuridão sobre ela, por eu ter afundado no lodo da profundeza e minha substância não foi explorada. Por isso clamo da profundeza e do abismo da Terra minha voz se dirige a todos vós que passais pelo caminho: Tende cuidado e olhai para mim, se jamais um dentre vós encontrou alguém que comigo se parecesse, eu lhe porei nas mãos a estrela matutina.”

Não podemos esquecer que o alquimista não faz a menor questão de se torturar com escrúpulos morais, sob pretexto de o homem ser um nada pecador que vai ao encontro da obra de redenção de Deus através de uma conduta ética irrepreensível. O alquimista está no papel de um ‘redentor’ cujo ‘opus divinum’ é mais uma continuação da obra divina de redenção do que uma medida de prevenção contra uma eventual danação por ocasião do Juízo Final.”

Uma vez que o incesto se dá a conselho dos filósofos, a morte do filho do rei é algo de desagradável e perigoso. A consciência coloca-se numa situação perigosa pela descida ao inconsciente; aparentemente, é como se ela se extinguisse. A situação é a do herói dos primórdios devorado pelo dragão. Em se tratando de um decréscimo ou extinção da consciência, tal ‘abaissement du niveau mental’ equivale ao ‘peril of the soul’ tão temido pelos primitivos (medo dos espíritos).”

Quando a própria mãe se une a seu filho maritalmente, não se considera este ato como incestuoso. Pois é a natureza que assim ordena e assim exige a sagrada lei do destino, e o fato não desagrada a Deus.”

O mito gnóstico originário sofreu estranhas transformações: o ‘nous’ e a ‘physis’ constituem uma unidade indistinta na ‘prima materia’, tomando-se uma ‘natura abscondita’.”

O alquimista ressalta incessantemente a sua ‘humilitas’ (humildade) e sempre inicia seus tratados invocando Deus. Não pensa em identificar-se com Cristo; muito pelo contrário, a alquimia estabelece um paralelo entre a substância procurada, o ‘lapis’, e o Cristo. Não se trata assim propriamente de uma identificação, mas do ‘sicut’ (assim como) hermenêutico, que indica a analogia.”

O homem moderno deve quase considerar-se feliz pelo fato de que, no momento da colisão com o pensamento e a vivência orientais, seu empobrecimento espiritual chegou a tal ponto que mal percebeu contra o que estava colidindo. Seu confronto com o Oriente desenrola-se agora no nível totalmente inadequado e inócuo do intelecto”

As raízes do gnosticismo não radicam no cristianismo; aliás seria mais verdadeiro afirmar que este último assimilou idéias do gnosticismo.”

WEI PO-YANG, An Ancient Chinese Treatise on Alchemy

nos escritos dos padres da Igreja o vento sul é uma alegoria do Espírito Santo, provavelmente devido à natureza quente e seca desse vento. Por este motivo, o processo de sublimação é denominado na alquimia árabe ‘o grande vento do sul’, referindo-se ao aquecimento da retorta e do seu conteúdo. O Espírito Santo é ígneo e provoca a exaltação.”

Nessa época floresceram as sociedades secretas, sobretudo os Rosa-cruzes – a melhor prova da exaustão do segredo da alquimia! A existência de uma ordem secreta tem sua razão de ser quando é necessário proteger um segredo que perdeu sua vitalidade e que só poderá perdurar de um modo formal.”

Na tradição medieval associa-se o unicórnio ao leão ‘porque este animal é como o leão, forte, feroz e cruel’. ‘Por esta razão’, diz BACCIUS, ‘este animal chama-se Lycornu na França e na Itália’, o que parece significar um derivado de ‘lion’.” “Conta-se do unicórnio coisas semelhantes às do dragão, que em sua qualidade de animal subterrâneo habita cavernas e gargantas; que eles (os unicórnios) se escondem e habitam os desertos e as altas montanhas e as grutas mais profundas e estranhas e as tocas dos animais selvagens, entre sapos e outros vermes nojentos e imundos”

No Rig-Veda, ele é chamado de ‘Pai Manu’ e conta-se que com sua filha gerou os homens. É o fundador da ordem social e moral. É o primeiro sacrificador e sacerdote. Transmitiu aos homens a doutrina dos Upanishades.”

O leão, sendo um animal perigoso, é semelhante ao dragão. Este tem que ser morto; quanto ao leão, tem pelo menos que ter as patas cortadas. O unicórnio também deve ser domado; por ser um monstro, possui um significado simbólico superior e sua natureza é mais espiritual do que a do leão.”

Segundo o Li-ki há quatro animais benévolos ou espirituais: o unicórnio (K’i-lin), a fénix, a tartaruga e o dragão. O unicórnio é o maior dos quadrúpedes. Seu corpo é de cervo, tem rabo de boi e cascos de cavalo. Suas costas têm cinco diferentes cores e seu ventre é amarelo. É benévolo em relação aos outros animais. Dizem que aparece por ocasião do nascimento dos bons imperadores ou dos grandes sábios. Se é ferido, isto significa maus presságios. Apareceu pela primeira vez no jardim do Imperador Amarelo. Mais tarde, dois unicórnios viviam em P’ing-yang, capital do imperador Yao. Um unicórnio apareceu à mãe de Confúcio, estando ela grávida. Antes da morte de Confúcio houve um presságio que ela ocorreria: um cocheiro feriu um unicórnio.”

Este apanhado do simbolismo do unicórnio não passa de uma amostra, exemplificando as conexões intimamente entretecidas e emaranhadas que há entre a filosofia natural pagã, o gnosticismo, a alquimia e a tradição da Igreja, a qual, por sua vez, influenciou profundamente a cosmovisão da alquimia medieval. Espero que este exemplo tenha esclarecido meu leitor até que ponto a alquimia representava um movimento filosófico-religioso ou ‘místico’.”

EPÍLOGO

NUNCA ficou muito claro o que os antigos filósofos entendiam por ‘lapis’. Esta questão só será respondida satisfatoriamente depois de sabermos que conteúdos eles projetavam de seu inconsciente. Somente a Psicologia do Inconsciente poderá resolver tal enigma. Sabemos que um conteúdo do inconsciente, enquanto projetado, é inacessível.”

Identificando-se com Paris, Fausto traz a ‘coniunctio’ da projeção para a esfera da vivência pessoal psicológica e portanto para a consciência. Este passo decisivo significa nada mais nada menos do que a solução do enigma alquímico, e também o resgate de uma parte da personalidade até então inconsciente. Todo acréscimo de consciência porém traz consigo o perigo da inflação. Isto fica demonstrado claramente no aspecto de super-homem em Fausto. A morte deste, necessidade que se deve às exigências da época, não constitui de modo algum uma resposta satisfatória. O nascimento e transformação que se seguem à ‘coniunctio’ se dão no além, isto é, no inconsciente, deixando o problema em aberto. Este foi retomado por NIETZSCHE, como sabemos, no Zarathustra: o da transformação em super-homem, que ele aproximou perigosamente do homem terrestre. Isto provocou inevitavelmente o ressentimento anticristão, pois o seu super-homem é uma hybris da consciência individual, que se choca necessariamente com o poder coletivo do cristianismo – levando à destruição catastrófica do indivíduo. É sabido o modo pelo qual e de que formas características isto aconteceu ‘tam ethice quam physice’ (tanto moral como fisicamente) com o próprio NIETZSCHE. E que resposta os tempos subseqüentes deram ao individualismo do super-homem nietzscheano? Responderam com o coletivismo, com a organização coletivista e o amontoamento de massas ‘tam ethice quam physice’, escarnecendo de tudo o que existira até então.”

O fogo esfriou, transformando-se em ar, o ar tornou-se o vento de Zarathustra e causou uma inflação de consciência. Esta, pelo visto, só pôde ser dominada pelas mais aterradoras catástrofes da civilização, ou seja, pelo dilúvio que os deuses enviaram à humanidade pouco hospitaleira.” Jung criou uma estorinha de gibi na própria cabeça.

Este estado de possessão inconsciente prosseguirá até o dia em que o europeu se ‘assuste com sua semelhança a Deus’.”

O termo científico ‘individuação’ não significa de modo algum que se trate de fatos inteiramente conhecidos e esclarecidos. Ele apenas designa um domínio obscuro de pesquisa ainda em curso dos processos psíquicos através dos quais a personalidade em formação atinge seu centro no inconsciente. Trata-se de processos vitais, que, por seu caráter numinoso, serviram desde os primórdios de estímulo fundamental para a formação dos símbolos.”

FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES — Kant

 

Pode-se chamar empírica a toda a filosofia que se baseie em princípios da experiência, àquela porém cujas doutrinas se apoiam em princípios a priori chama-se filosofia pura. Esta última, quando é simplesmente formal, chama-se Lógica; mas quando se limita a determinados objectos do entendimento chama-se Metafísica.” Para Kant a Metafísica é o lugar da Ética.

Desta maneira surge a ideia duma dupla metafísica, uma Metafísica da Natureza e uma Metafísica dos Costumes. A Física terá portanto a sua parte empírica, mas também uma parte racional; igualmente a Ética, se bem que nesta a parte empírica se poderia chamar especialmente Antropologia prática, enquanto a racional seria a Moral propriamente dita.” Outra “confusão” gargantual em que se meteria alguém do nosso século esperando coincidência de terminologias: antropologia não era nada parecido com nossa classificação!

O homem, com efeito, afectado por tantas inclinações, é na verdade capaz de conceber a ideia de uma razão pura prática, mas não é tão facilmente dotado da força necessária para a tornar eficaz in concreto no seu comportamento.”

os próprios costumes ficam sujeitos a toda a sorte de perversão enquanto lhes faltar aquele fio condutor e norma suprema do seu exacto julgamento. Pois que aquilo que deve ser moralmente bom não basta que seja conforme a lei moral, mas tem também que cumprir-se por amor dessa mesma lei; caso contrário, aquela conformidade será apenas muito contingente e incerta, porque o princípio imoral produzirá na verdade de vez em quando acções conformes à lei moral”

Não se vá pensar, porém, que aquilo que aqui pedimos exista já na propedêutica que o célebre Wolff antepôs a sua Filosofia moral a que chamou Filosofia prática universal, e que se não haja de entrar portanto em campo inteiramente novo.”

Com efeito, a Metafísica dos Costumes deve investigar a ideia e os princípios duma possível vontade pura, e não as acções e condições do querer humano em geral, as quais são tiradas na maior parte da Psicologia.” Uma vontade pura inexiste, eis o erro de Kant.

obrigação; em verdade este conceito não é nada menos que moral, mas é o único que se pode exigir de uma filosofia que não atende à origem de todos os conceitos práticos possíveis” Kant quereria que fosse inato o fato de obedecermos a alguma obrigação, qualquer que ela fosse, a despeito de sermos seres moralmente livres.

Como, porém (…) uma Metafísica dos Costumes, a despeito do título repulsivo, é susceptível de um alto grau de popularidade e acomodamento ao entendimento vulgar, acho útil separar dela este trabalho preparatório de fundamentação, para de futuro não ter de juntar a teorias mais fáceis as subtilezas inevitáveis em tal matéria.”

Ora, se num ser dotado de razão e vontade a verdadeira finalidade da natureza fosse a sua conservação, o seu bem-estar, numa palavra a sua felicidade, muito mal teria ela tomado as suas disposições ao escolher a razão da criatura para executora destas suas intenções. Pois todas as acções que esse ser tem de realizar nesse // propósito, bem como toda a regra do seu comportamento, lhe seriam indicadas com muito maior exactidão pelo instinto, e aquela finalidade obteria por meio dele muito maior segurança do que pela razão; e se, ainda por cima, essa razão tivesse sido atribuída à criatura como um favor, ela só lhe poderia ter servido para se entregar a considerações sobre a feliz disposição da sua natureza, para a admirar, alegrar-se com ela e mostrar-se por ela agradecida à Causa benfazeja, mas não para submeter à sua direcção fraca e enganadora a sua faculdade de desejar, achavascando assim a intenção da natureza; numa palavra, a natureza teria evitado que a razão caísse no uso prático e se atrevesse a engendrar com as suas fracas luzes o plano da felicidade e dos meios de a alcançar;

a natureza teria não-somente chamado a si a escolha dos fins, mas também a dos meios, e teria com sábia prudência confiado ambas as coisas simplesmente ao instinto.

Observamos de facto que, quanto mais uma razão cultivada se consagra ao gozo da vida e da felicidade, tanto mais o homem se afasta do verdadeiro contentamento; e daí provém que em muitas pessoas, e nomeadamente nas mais experimentadas no uso da razão, se elas quiserem ter a sinceridade de o confessar, surja um certo grau de misologia, quer dizer de ódio à razão.”

Portanto, se a razão não é apta bastante para guiar com segurança a vontade no que respeita aos seus objectos // e à satisfação de todas as nossas necessidades (que ela mesma—a razão—em parte multiplica), visto que um instinto natural inato levaria com muito maior certeza a este fim, e se, no entanto, a razão nos foi dada como faculdade prática, isto é, como faculdade que deve exercer influência sobre a vontade, então o seu verdadeiro destino deverá ser produzir uma vontade, não só boa quiçá como meio para outra intenção, mas uma vontade boa em si mesma, para o que a razão era absolutamente necessária, uma vez que a natureza de resto agiu em tudo com acerto na repartição das suas faculdades e talentos.”

Para desenvolver, porém, o conceito de uma boa vontade altamente estimável em si mesma e sem qualquer intenção ulterior, conceito que reside já no bom senso natural e que mais precisa de ser esclarecido do que ensinado, este conceito que está sempre no cume da apreciação de todo o valor das nossas acções e que constitui a condição de todo o resto, vamos encarar o conceito do Dever que contém em si o de boa vontade, posto que sob certas limitações e obstáculos subjectivos, limitações e obstáculos esses que, muito longe de ocultarem e tornarem irreconhecível a boa vontade, a fazem antes ressaltar por contraste e brilhar com luz mais clara.”

Aquilo que eu reconheço imediatamente como lei para mim, reconheço-o com um sentimento de respeito que não significa senão a consciência da subordinação da minha vontade a uma lei, sem intervenção de outras influências sobre a minha sensibilidade.” “O respeito é propriamente a representação de um valor que causa dano ao meu amor-próprio. É portanto alguma coisa que não pode ser considerada como objecto nem da inclinação nem do temor, embora tenha algo de análogo com ambos simultaneamente.”

Todo o respeito por uma pessoa é propriamente só respeito pela lei (lei da rectidão, etc), da qual essa pessoa nos dá o exemplo. Porque consideramos também o alargamento dos nossos talentos como um dever, representamo-nos igualmente numa pessoa de talento por assim dizer o exemplo duma lei (a de nos tornarmos semelhantes a ela por meio do exercício), e é isso que constitui o nosso respeito.”

NOVUM ORGANUM – Francis Bacon (trad. José Aluysio Reis de Andrade)

Que haja, finalmente, dois métodos, um destinado ao cultivo das ciências e outro destinado à descoberta científica. Aos que preferem o primeiro caminho, seja por impaciência, por injunções da vida civil, seja pela insegurança de suas mentes em compreender e abarcar a outra via (este será, de longe, o caso da maior parte dos homens), a eles auguramos sejam bem sucedidos no que escolheram e consigam alcançar aquilo que buscam. Mas aqueles dentre os mortais, mais animados e interessados, não no uso presente das descobertas já feitas, mas em ir mais além; que estejam preocupados, não com a vitória sobre os adversários por meio de argumentos, mas na vitória sobre a natureza, pela ação; não em emitir opiniões elegantes e prováveis, mas em conhecer a verdade de forma clara e manifesta; esses, como verdadeiros filhos da ciência, que se juntem a nós, para, deixando para trás os vestíbulos das ciências, por tantos palmilhados sem resultado, penetrarmos em seus recônditos domínios. Chamaremos ao primeiro método ou caminho de Antecipação da Mente e ao segundo de Interpretação da Natureza.” Muito ingênuo crer que cultivo e descoberta, ou teoria e prática, se distinguem.

AFORISMOS SOBRE A INTERPRETAÇÃO DA NATUREZA E O REINO DO HOMEM

LIVRO I

AFORISMOS

PRIMEIRAS SEMENTES DA TECNOCRACIA? “Nem a mão nua nem o intelecto, deixados a si mesmos, logram muito. Todos os feitos se cumprem com instrumentos e recursos auxiliares, de que dependem, em igual medida, tanto o intelecto quanto as mãos. Assim como os instrumentos mecânicos regulam e ampliam o movimento das mãos, os da mente aguçam o intelecto e o precavêm.”

No trabalho da natureza o homem não pode mais que unir e apartar os corpos.”

No desempenho de sua arte, costumam imiscuir-se na natureza o tísico, o matemático, o médico, o alquimista e o mago. Todos eles, contudo — no presente estado das coisas —, fazem-no com escasso empenho e parco sucesso.”

Mesmo os resultados até agora alcançados devem-se muito mais ao acaso e a tentativas que à ciência. Com efeito, as ciências que ora possuímos nada mais são que combinações de descobertas anteriores. Não constituem novos métodos de descoberta nem esquemas para novas operações.”

A lógica tal como é hoje usada mais vale para consolidar e perpetuar erros, fundados em noções vulgares, que para a indagação da verdade, de sorte que é mais danosa que útil.”

O silogismo consta de proposições, as proposições de palavras, as palavras são o signo das noções. Pelo que, se as próprias noções (que constituem a base dos fatos) são confusas e temerariamente abstraídas das coisas, nada que delas depende pode pretender solidez. Aqui está por que a única esperança radica na verdadeira indução.”

Não há nenhuma solidez nas noções lógicas ou físicas. Substância, qualidade, ação, paixão, nem mesmo ser, são noções seguras. Muito menos ainda as de pesado, leve, denso, raro, úmido, seco, geração, corrupção, atração, repulsão, elemento, matéria, forma e outras do gênero. Todas são fantásticas e mal definidas.”

As noções das espécies inferiores, como as de homem, cão, pomba, e as de percepção imediata pelos sentidos, como quente, frio, branco, negro, não estão sujeitas a grandes erros. Mas mesmo estas, devido ao fluxo da matéria e combinação das coisas, também por vezes se confundem. Tudo o mais que o homem até aqui tem usado são aberrações”

19. Só há e só pode haver duas vias para a investigação e para a descoberta da verdade. Uma, que consiste no saltar-se das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, a seguir, descobrirem-se os axiomas intermediários a partir desses princípios e de sua inamovível verdade. Esta é a que ora se segue. A outra, que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares, ascendendo contínua e gradualmente até alcançar, em último lugar, os princípios de máxima generalidade. Este é o verdadeiro caminho, porém ainda não instaurado.

20. Na primeira das vias o intelecto deixado a si mesmo acompanha e se fia nas forças da dialética. Pois a mente anseia por ascender aos princípios mais gerais para aí então se deter. A seguir, desdenha a experiência. E tais males são incrementados pela dialética, na pompa de suas disputas.”

São de quatro gêneros os ídolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresentá-los, lhes assinamos nomes, a saber: Ídolos da Tribo; Ídolos da Caverna; Ídolos do Foro e Ídolos do Teatro.”

doutrina dos ídolos tem a ver com a interpretação da natureza o mesmo que a doutrina dos elencos sofísticos com a dialética vulgar.”

O intelecto humano, mercê de suas peculiares propriedades, facilmente supõe maior ordem e regularidade nas coisas que de fato nelas [nelas onde? nas peculiares propriedades, ou na ordem e regularidade? nesse como naquele caso, ou se ignora que só podemos ser aquilo que somos ou incorre-se em tautologia.] se encontram. Desse modo, como na natureza existem muitas coisas singulares e cheias de disparidades, aquele imagina paralelismos, correspondências e relações que não existem. Daí a suposição de que no céu todos os corpos devem mover-se em círculos perfeitos, rejeitando por completo linhas espirais e sinuosas, a não ser em nome.” Um começo quase incongruente; seguido por uma brilhante constatação.

E ainda a própria natureza do ar comum, bem como de todos os corpos de menor densidade (que são muitos), é quase por completo desconhecida.”

Mas é melhor dividir em partes a natureza que traduzi-la em abstrações. Assim procedeu a escola de Demócrito, que mais que as outras penetrou os segredos da natureza.”

As formas são simples ficções do espírito humano, a não ser que designemos por formas as próprias leis do ato [movimento].”

Os homens se apegam às ciências e a determinados assuntos, ou por se acreditarem seus autores ou descobridores, ou por neles muito se terem empenhado e com eles se terem familiarizado. Mas essa espécie de homens, quando se dedica à filosofia e a especulações de caráter geral, distorce e corrompe-as em favor de suas anteriores fantasias. Isso pode ser especialmente observado em Aristóteles[,] que de tal modo submete a sua filosofia natural à lógica que a tornou quase inútil e mais afeita a contendas.”

A própria estirpe dos alquimistas elabora uma filosofia fantástica e de pouco proveito, porque fundada em alguns poucos experimentos levados a cabo em suas oficinas. Assim também Gilbert,(*) que, depois de laboriosamente haver observado o magneto, logo concebeu uma filosofia toda conforme ao seu principal interesse.”

(*) “Autor de De Mangnete

Poucos são os temperamentos que conseguem a justa medida, ou seja, não desprezar o que é correto nos antigos, sem deixar de lado as contribuições acertadas dos modernos.”

Os ídolos do foro são de todos os mais perturbadores: insinuam-se no intelecto graças ao pacto de palavras e de nomes. Os homens, com efeito, crêem que a sua razão governa as palavras. Mas sucede também que as palavras volvem e refletem suas forças sobre o intelecto, o que torna a filosofia e as ciências sofisticas e inativas. As palavras, tomando quase sempre o sentido que lhes inculca o vulgo, seguem a linha de divisão das coisas que são mais potentes ao intelecto vulgar.”

E mesmo as definições não podem remediar totalmente esse mal, tratando-se de coisas naturais e materiais, posto que as próprias definições constam de palavras e as palavras engendram palavras.”

Tome-se como exemplo a palavra úmido e enumerem-se os significados que pode assumir. Descobriremos que esta palavra úmido compila notas confusas de operações diversas que nada têm em comum ou que não são irredutíveis. Significa, com efeito, tudo o que se expande facilmente em torno de outro corpo; tudo o que é em si mesmo indeterminável e não pode ter consistência; tudo o que facilmente cede em todos os sentidos; tudo o que facilmente se divide e dispersa; tudo o que se une e junta facilmente; tudo o que facilmente adere a outro corpo e molha; tudo o que facilmente se reduz a líquido, se antes era sólido. De sorte que se pode predicar e impor a palavra úmido em um determinado sentido, ‘a chama é úmida’; em outro, ‘o ar não é úmido’; em outro, ‘o pó fino é úmido’; e em outro, ainda, ‘o vidro é úmido’. Daí facilmente transparece que esta noção foi abstraída de forma leviana apenas da água e dos líquidos correntes e vulgares, sem qualquer adequada verificação posterior.”

as noções de greda e lodo são boas; a de terra, má. Mais deficientes são as palavras que designam ação, tais como: gerar, corromper, alterar. As mais prejudiciais são as que indicam qualidades (com exceção dos objetos imediatos da sensação), como: pesado, leve, tênue, denso, etc.”

Ainda que seja de utilidade nula a refutação particular de sistemas, diremos algo das seitas e teorias e, a seguir, dos signos exteriores que denotam a sua falsidade; e, por último, das causas de tão grande infortúnio e tão constante e generalizado consenso no erro.”

O mais conspícuo exemplo da primeira [filosofia sofística] é o de Aristóteles, que corrompeu com sua dialética a filosofia natural”

Isso se torna mais manifesto quando se compara a sua filosofia com as filosofias que eram mais celebradas entre os gregos. Sem dúvida, as homeomerias, de Anaxágoras; os átomos, de Leucipo e Demócrito; o céu e a terra, de Parmênides; a discórdia e a amizade, de Empédocles; a resolução dos corpos na adiáfora natureza do fogo e o seu retorno ao estado sólido, de Heráclito, sabem a filosofia natural, a natureza das coisas, experiência e corpos. Mas na Física, de Aristóteles, na maior parte dos casos, não ressoam mais que as vozes de sua dialética.” “A ninguém cause espanto que no Livro dos Animais e nos Problemas, e em outros tratados, ocupe-se freqüentemente de experimentos. Pois Aristóteles estabelecia antes as conclusões, não consultava devidamente a experiência para estabelecimento de suas resoluções e axiomas. E tendo, ao seu arbítrio, assim decidido, submetia a experiência como a uma escrava para conformá-la às suas opiniões. Eis por que está a merecer mais censuras que os seus seguidores modernos, os filósofos escolásticos, que abandonaram totalmente a experiência.”

A escola empírica de filosofia engendra opiniões mais disformes e monstruosas que a sofistica ou racional. As suas teorias não estão baseadas nas noções vulgares (pois estas, ainda que superficiais, são de qualquer maneira universais e, de alguma forma, se referem a um grande número de fatos), mas na estreiteza de uns poucos e obscuros experimentos. Por isso, uma tal filosofia parece, aos que se exercitaram diariamente nessa sorte de experimentos, contaminando a sua imaginação, mais provável, e mesmo quase certa; mas aos demais apresenta-se como indigna de crédito e vazia. Há na alquimia, nas suas explicações, um notável exemplo do que se acaba de dizer. Em nossos dias não se encontram muitos desses casos, exceção feita talvez à filosofia de Gilbert.”

Mas a corrupção da filosofia, advinda da superstição e da mescla com a

teologia, vai muito além e causa danos tanto aos sistemas inteiros da filosofia quanto às suas partes, pois o intelecto humano não está menos exposto às impressões da fantasia que às das noções vulgares. A filosofia sofística, afeita que é às disputas, aprisiona o intelecto, mas esta outra, fantasiosa e inflada, e quase poética, perde-o muito mais com suas lisonjas. Pois há no homem uma ambição intelectual que não é menor que a ambição da vontade. Isso acontece, sobretudo, nos espíritos preclaros e elevados. § Na Grécia, encontram-se exemplos típicos de tais filosofias, sendo o caso, antes dos demais, de Pitágoras, onde aparecem aliadas a uma superstição tosca e grosseira. Mais perigoso e sutil é o exemplo de Platão e sua escola.”

Alguns modernos incorreram em tal inanidade que, com grande leviandade, tentaram construir uma filosofia natural sobre o primeiro capítulo do Gêneses. sobre o Livro de Jó e sobre outros livros das Sagradas Escrituras, buscando assim os mortos entre os vivos.”

os homens não cessam de fazer abstrações sobre a natureza, ate atingir a matéria potencial e informe; nem cessam de dissecá-la até chegar ao átomo. Tudo isso, ainda que correspondesse à verdade, pouco serviria ao bem-estar do homem.”

BOM RESUMO DA COISA TODA: “a filosofia de Aristóteles, depois de destruir outras filosofias (à maneira dos otomanos, com seus irmãos) com suas pugnazes refutações, pronunciou-se acerca de cada uma das questões. Depois, inventou ele mesmo, ao seu arbítrio, questões para as quais a seguir apresentou soluções, e dessa forma tudo ficou definido e estabelecido”

Já falamos de todas as espécies de ídolos e de seus aparatos. Por decisão solene e inquebrantável todos devem ser abandonados e abjurados. O intelecto deve ser liberado e expurgado de todos eles, de tal modo que o acesso ao reino do homem, que repousa sobre as ciências, possa parecer-se ao acesso ao reino dos céus, ao qual não se permite entrar senão sob a figura de criança.” Incrível trecho, que se pouco adaptado (como segue) poderia ter sido perfeitamente pronunciado por Nietzsche séculos depois:

Já falamos de todas as espécies de ídolos e de seus aparatos. Por decisão solene e inquebrantável todos devem ser abandonados e abjurados. O sentimento a eles dedicado deve ser liberado e expurgado de todos eles, de tal modo que o acesso ao reino do homem, que repousa sobre a gaia ciência, possa parecer-se ao acesso a este mundo mesmo e à terra, o mundo-aparência tão negligenciado ultimamente, ao qual não se permite entrar senão sob a figura de criança.

Em terceiro lugar, é imprópria a indução que estabelece os princípios das ciências por simples enumeração, sem o cuidado de proceder àquelas exclusões, resoluções ou separações que são exigidas pela natureza.” Muito irônico!

As ciências que possuímos provieram em sua maior parte dos gregos. O que os escritores romanos, árabes ou os mais recentes acrescentaram não é de monta nem de muita importância; de qualquer modo, está fundado sobre a base do que foi inventado pelos gregos.”

o nome de sofistas, que foi aplicado depreciativamente aos que se pretendiam filósofos e que acabou por designar os antigos retores, Górgias, Protágoras, Hípias e Polo, compete igualmente a Platão, Aristóteles, Zenão, Epicuro, Teofrasto; e aos seus sucessores Crisipo, Carnéades, e aos demais.”

Mas os mais antigos dos filósofos gregos, Empédocles, Anaxágoras, Leucipo, Demócrito, Parmênides, Heráclito, Xenófanes, Filolau e outros (omitimos Pitágoras, por se ter entregue à superstição), não abriram escolas, ao que saibamos: ao contrário, e, no maior silêncio, com rigor e simplicidade, vale dizer, com menor afetação e aparato, se consagraram à investigação da verdade. E a nosso juízo, melhor se saíram, só que suas obras, com o decorrer do tempo, foram sendo ofuscadas por outras mais superficiais, mas mais afeitas à capacidade e ao gosto do vulgo; pois o tempo, como o rio, trouxe-nos as coisas mais leves e infladas, submergindo o mais pesado e consistente.”

conheciam apenas uma exígua parte dos países e das regiões do mundo. Chamavam indistintamente de citas a todos os povos setentrionais e de celtas a todos os ocidentais. Nada conheciam das regiões africanas, situadas além da Etiópia setentrional, nem da Ásia de além Ganges, e muito menos ainda das províncias do Novo Mundo, de que nada sabiam, nem de ouvido, nem de qualquer tradição certa e constante. E mais, julgavam inabitáveis muitas zonas e climas em que vivem e respiram inumeráveis povos. As viagens de Demócrito, Platão, Pitágoras, que não eram mais que excursões suburbanas, eram celebradas como grandiosas.”

QUANTA FÉ NA TÉCNICA! “Nas artes mecânicas, que são fundadas na natureza e se enriquecem das luzes da experiência, vemos acontecer o contrário, e essas (desde que cultivadas), como que animadas por um espírito, continuamente se acrescentam e se desenvolvem, de inicio grosseiras, depois cômodas e aperfeiçoadas, e em contínuo progresso.”

Crê-se comumente que a filosofia de Aristóteles obteve o consenso universal pelo fato de que, quando de sua divulgação, todas as outras filosofias dos antigos morriam ou desapareciam, e pelo fato de que nos tempos subseqüentes não se encontrou nada melhor; dessa forma, a filosofia aristotélica parece tão bem fundada e estabelecida, pois canalizou para si o tempo antigo e o tempo moderno. A isso se responde: primeiro, o que se pensa em relação à cessação das antigas filosofias depois da divulgação das obras de Aristóteles é falso, porque muito tempo depois, até a época de Cícero e mesmo nos séculos seguintes, as obras dos antigos filósofos ainda subsistiram. Mas, depois, no tempo das invasões bárbaras do Império Romano, após toda doutrina humana ter, por assim dizer, naufragado, então, se conservaram apenas as doutrinas de Aristóteles e de Platão, como tábuas feitas de matéria mais leve e menos sólida, flutuando no curso dos tempos.” Ou Heráclito e Parmênides não se ocupavam de escrevê-las.

Das vinte e cinco centúrias em que mais ou menos estão compreendidos a história e o saber humano, apenas seis podem ser escolhidas e apontadas como tendo sido fecundas para as ciências ou favoráveis ao seu desenvolvimento. No tempo como no espaço há regiões ermas e solidões. De fato só podem ser levados em conta três períodos ou retornos na evolução do saber: um, o dos gregos; outro, o dos romanos e, por último, o nosso, dos povos ocidentais da Europa; a cada um dos quais se pode atribuir no máximo duas centúrias de anos.” “Não há, com efeito, motivos para se fazer menção nem dos árabes, nem dos escolásticos. Estes, nos tempos intermédios, com seus numerosos tratados mais atravancaram as ciências que concorreram para aumentar-lhes o peso.”

Deve-se acrescentar, ademais, que a filosofia natural, mesmo entre os seus fautores, não encontrou um único homem inteira e exclusivamente a ela dedicado, particularmente nos últimos tempos, a não ser o exemplo isolado de elucubrações de algum monge, em sua cela, ou de algum nobre, em sua mansão.” “Por serem disso dependentes é que a astronomia, a óptica, a música, inúmeras artes mecânicas, a própria medicina, e, o que é espantoso, a filosofia moral e política e as ciências lógicas não alcançaram qualquer profundidade, mas apenas deslizam pela superfície e variedade das coisas.”

A verdadeira e legítima meta das ciências é a de dotar a vida humana de novos inventos e recursos. Mas a turba, que forma a grande maioria, nada percebe, busca o próprio lucro e a glória acadêmica.” Que coisa, não!

Quem, ainda, se disponha a considerar aquelas coisas tidas mais por curiosas que sérias e passe a examinar mais a fundo as obras dos alquimistas, acabará não sabendo se estes são mais dignos de riso ou de lágrimas.”

A propósito veja-se como, entre os gregos, foram condenados por impiedade os que, pela primeira vez, ousaram proclamar aos ouvidos não afeitos dos homens as causas naturais do raio e das tempestades. Não foram melhor acolhidos, por alguns dos antigos padres da religião cristã, os que sustentaram, com demonstrações certíssimas — que não seriam hoje contraditas por nenhuma mente sensata —, que a Terra era redonda e que, em conseqüência, existiam antípodas.

Além disso, nas atuais circunstancias, as condições para a ciência natural se tornaram mais árduas e perigosas devido às sumas e aos métodos da teologia dos escolásticos. Estes, como lhes cumpria, ordenaram sistematicamente a teologia, e lhe conferiram a forma de uma arte, e combinaram, com o corpo da religião, a contenciosa e espinhosa filosofia de Aristóteles, mais que o conveniente.”

Outros temem que, pelo exemplo, os movimentos e as mudanças da filosofia acabem por recair e abater-se sobre a religião. Outros. finalmente, parecem temer que a investigação da natureza acabe por subverter ou abalar a autoridade da religião, sobretudo para os ignorantes. Mas estes dois últimos temores parecem-nos saber inteiramente a um instinto próprio de animais, como se os homens, no recesso de suas mentes e no segredo de suas reflexões, desconfiassem e duvidassem da firmeza da religião e do império da fé sobre a razão e, por isso, temessem o risco da investigação da verdade na natureza.” Haha.

Supõem existir, através das revoluções do tempo e das idades do mundo, um certo fluxo e refluxo das ciências; em certas épocas crescem e florescem; em outras declinam e definham, como se depois de um certo grau e estado não pudessem ir além” Não menospreze a sabedoria do homem vulgar!

“‘Muitos passarão e a ciência se multiplicará’, o que evidentemente significa que está inscrito nos destinos, isto é, nos desígnios da Providência, que o fim do mundo o que, depois de tantas e tão distantes navegações parece haver-se cumprido ou está prestes a fazê-lo — e o progresso das ciências coincidam no tempo.” O idiota interpretou o “fim do mundo” como sendo a circunavegação da Terra, i.e., de forma literal!

Ainda não foi criada uma filosofia natural pura. As existentes acham-se infectadas e corrompidas: na escola de Aristóteles, pela lógica; na escola de Platão, pela teologia natural; na segunda escola de Platão, a de Proclo e outros, pela matemática, a quem cabe rematar a filosofia e não engendrar ou produzir a filosofia natural.” Ironicamente o que se pode chamar de resultado mais claro de uma filosofia natural pura é o mais rematado ceticismo.

A esses experimentos costumamos designar por lucíferos, para diferenciá-los dos que chamamos de frutíferos. Aqueles experimentos têm, com efeito, admirável virtude ou condição: a de nunca falhar ou frustrar, pois não se dirigem à realização de qualquer obra, mas à revelação de alguma causa natural.” Do capeta!

Os médios são os axiomas verdadeiros, os sólidos e como que vivos, e sobre os quais repousam os assuntos e a fortuna do gênero humano. Também sobre eles se apoiam os axiomas generalíssimos, que são os mais gerais. Estes entendemos não simplesmente como abstratos, mas realmente limitados pelos axiomas intermediários. Assim, não é de se dar asas ao intelecto, mas chumbo e peso para que lhe sejam coibidos o salto e o vôo.”

se antes da invenção dos canhões alguém, baseado nos seus efeitos, os descrevesse: foi inventada uma máquina que pode, de grande distância, abalar e arrasar as mais poderosas fortificações, os homens então se poriam a cogitar das diferentes e múltiplas formas de se aumentar a força de suas máquinas bélicas pela combinação de pesos e rodas e dispositivos que tais, causadores de embates e impulsos. Mas a ninguém ocorreria, mesmo em imaginação ou fantasia, essa espécie de sopro violento e flamejante que se propaga e explode. A sua volta não divisavam nenhum exemplo de algo semelhante, a não ser o terremoto e o raio, que, como fenômenos naturais de grandes proporções, não imitáveis pelo homem, seriam desde logo rejeitados.

Do mesmo modo, se antes da descoberta do fio da seda alguém houvesse falado: há uma espécie de fio para a confecção de vestes e alfaias que supera de longe em delicadeza e resistência e, ainda, em esplendor e suavidade, o linho e a lã, os homens logo se poriam a pensar em alguma planta chinesa, ou no pêlo muito delicado de algum animal, ou na pluma ou penugem das aves; mas ninguém haveria de imaginar o tecido de um pequeno verme tão abundante e que se renova todos os anos. Se alguém se referisse ao verme teria sido objeto de zombaria, como alguém que sonhasse com um novo tipo de teia de aranha.”

Aqui termina igualmente a parte destrutiva de nossa Instauração, que compreende três refutações: refutação da razão humana natural e deixada a si mesma, refutação das demonstrações e refutação das teorias, ou dos sistemas filosóficos e doutrinas aceitos. Essa refutação foi cumprida tal como era possível, isto é, por meio dos signos e dos erros evidentes. Não podíamos empregar nenhum outro gênero de refutação, por dissentirmos das demais quanto aos princípios e quanto às formas de demonstração.”

(*) “A tinta usada antes da imprensa era muito fina. Assim, essa modificação também foi condição para o novo invento.”

(*) “Enquanto homem do mundo, não teve condições de se informar da verdadeira ciência do seu tempo, apesar de suas idéias gerais serem proféticas.”

Eis por que, como já o dissemos muitas vezes, a nossa obra deve ser atribuída mais à sorte que à habilidade, e é mais parto do tempo que do talento. Pois parece não haver dúvidas de que uma espécie de acaso intervém tanto no pensamento dos homens quanto nas obras e nos fatos.”

A esta altura, não seria impróprio distinguirem-se três gêneros ou graus de ambição dos homens. O primeiro é o dos que aspiram ampliar seu próprio poder em sua pátria, gênero vulgar e aviltado; o segundo é o dos que ambicionam estender o poder e o domínio de sua pátria para todo o gênero humano, gênero sem dúvida mais digno, mas não menos cúpido. Mas se alguém se dispõe a instaurar e estender o poder e o domínio do gênero humano sobre o universo, a sua ambição (se assim pode ser chamada) seria, sem dúvida, a mais sábia e a mais nobre de todas.” Aspecto <nietzscheano> apontado em Bacon.

O PESA-NERVOS — Antonin Artaud

 

Todos aqueles que têm pontos de referência no espírito, quero dizer, de um certo lado da cabeça, em bem localizados embasamentos de seus cérebros, todos aqueles que são mestres em sua língua, todos aqueles para quem as palavras tem um sentido, todos aqueles para quem existem altitudes na alma, e correntes de pensamento, aqueles que são o espírito da época, e que nomearam essas correntes de pensamento, eu penso em suas tarefas precisas, e nesse rangido de autômato que espalha aos quatro ventos seu espírito, — são porcos.

Aqueles para quem certas palavras têm sentido, e certas maneiras de ser, aqueles que mantêm tão bem os modos afetados, aqueles para quem os sentimentos têm classes e que discutem sobre um grau qualquer de suas hilariantes classificações, aqueles que crêem ainda em ‘termos’, aqueles que remoem ideologias que ganham espaço na época, aqueles cujas mulheres falam tão bem e também e que falam das correntes da época, aqueles que crêem ainda numa orientação do espírito, aqueles que seguem caminhos, que agitam nomes, que fazem bradar as páginas dos livros — são os piores porcos.”

Nada, exceto um belo Pesa-nervos.

Uma espécie de estação incompreensível e bem no meio de tudo no espírito.”

Vamos, eu serei compreendido dentro de dez anos pelas pessoas que farão o que vocês fazem hoje. Então meus gêiseres serão conhecidos, meus gelos serão vistos, o modo de desnaturar meus venenos estará aprendido, meus jogos d’alma estarão descobertos. Então meus cabelos estarão sepultos na cal, todas minhas veias mentais, então se perceberá meu bestiário e minha mística terá se tornado um chapéu. Então ver-se-á fumegar as junturas das pedras, e arborescentes buquês de olhos mentais se cristalizarão em glossários, então ver-se-ão cair aerólitos de pedra, então ver-se-ão cordas, então se compreenderá a geometria sem espaços, e se aprenderá o que é a configuração do espírito, e se compreenderá como eu perdi o espírito.”

[ARQUIVO] DA UTILIDADE & DO INCONVENIENTE DA HISTÓRIA PARA A VIDA —A II Intempestiva de Nietzsche—

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

35: o deus ex machina; a “história monumental” como a perfeita para o supra-homem, ou aquele com ânsia de ser clássico. Uma “estrutura do herói” muito antes do nazismo de Campbell.

44: bricolage. Lévi-Strauss devia ser um fóssil vivo com seu hábito exclusivo de releituras de cartas.

50: o novo amigo do homem moderno, a irracionalidade

51: o descompasso entre teoria e prática

52: o “sentido não-histórico” dos gregos; forma vs. conteúdo; gregos são auto-suficientes. Não são colonizadores; o fosso bem antes: “aumentamos, até a insensibilidade com relação à barbárie, o perigoso abismo que separa o conteúdo da forma.”

54: só um povo tão sério quanto os teutônicos poderia provocar tanto riso; quando uma sociedade importa seu vestuário de outras, ela é decadente. A despeito de muitos pensarem em vias públicas, a realidade é que não entendemos o conceito de clima tropical!

61: Dom Quixote

63: “Faça o que eu digo…”

65: quando o didatismo apaga a “hierarquia filosófica” e cada “sistema” e cada indivíduo de qualquer época e país se torna tão relevante quanto os milhares de outros. Nivela-se, para se ter idéia, um pré-socrático e um medieval, um grande poeta torna-se tão prosaico quanto e tão parecido com um filólogo ou um jurista. É como um almanaque isométrico, ou ainda um álbum de figurinhas sem protagonistas ou estrelas de brilho mais intenso. Meras curiosidades, afinal ninguém está certo sozinho, o que mais parece dizer que se trata de uma coleção de erros ou de adultos engraçados que tinham vidas pacatas e que se preocupavam mais com o invisível que com que tipo de roupa saíam à rua.

66: o problema da crítica; história crítica.

69: a “justiça”

78: para o passado—oráculos.

87: sobre a divisão do trabalho

97: Hegel e a Ideologia Alemã

99: “A moral é, p.ex., ofendida por ver que um Rafael tenha tido de morrer aos 36 anos.”; a cena da idolatria ao bode.

100: ponte para alguma coisa; a ironia pós-moderna.

107: São estas as páginas seguidas mais hilárias desse homem! “a partir de amanhã, o tempo não existirá mais e todos os jornais deixarão de circular”

109: “da ausência de toda diversidade entre o homem e o animal—doutrinas que tenho por verdadeiras, mas por mortais” presente eterno, egoísmo, felicidade

116: para todos e ninguém


O primeiro parágrafo já toca nos animais! A tentativa de diálogo entre um homem e um animal: “Isso acontece porque esqueço sempre o que pretendo responder”, assim o animal gostaria de se justificar às súplicas do homem que fala sozinho, se não esquecesse o que tinha em mente um segundo depois… Mas… como pode então o cão latir pelo seu dono (tutor)? O animal = a criança.

a natureza mais poderosa e mais formidável”

Todos os enunciados já estão aqui; aliás, poder-se-ia dizer que ele sempre foi assim, que ele não visava a nada, não perseguia o rabo de nenhuma cobra (Ivan!): “A negação do homem supra-histórico [estrutural] não vê a salvação no desenvolvimento, mas, pelo contrário, considera que o mundo acabou e atingiu seu fim em cada momento particular.” Em outras palavras, vencemos o niilismo extremo.

No fundo, o que foi possível outrora não poderia se reproduzir uma segunda vez, a menos que os pitagóricos tivessem razão em acreditar que uma mesma constelação dos corpos celestes produzisse até nos mínimos detalhes os mesmos acontecimentos na terra, de modo que quando as estrelas ocuparem a mesma posição uma com relação às outras, um estóico se uniria a um epicurista, César seria assassinado e, de novo, em outras condições, Colombo descobriria a América.”

Perigo de hipertrofia de qualquer uma das 3 categorias de história.

O crítico sem angústia, o antiquado sem compaixão, aquele que conhece o sublime sem poder realizar o sublime: essas são plantas que se tornaram estranhas a seu solo nativo e que, por causa disso, degeneraram e se transformaram em joio.”

Utiliza expressões que se consagrariam em títulos de obras posteriores.

História antiquada: a monumental tornada linear, uniforme, homogênea; ou seja, os personagens e costumes possuindo o mesmo valor.

A França como uma referência cultural “menos degradada”. Em busca da unidade superior.

É assim que [o grande homem] abandona a alegria divina de criador (…) para ficar oprimido sob a profunda compreensão de seu destino. E acaba o curso da vida como iniciado solitário, como sábio saturado. Esse é o espetáculo mais doloroso que se possa ver. (…) É necessário que essa cisão entre o ser íntimo e o exterior desapareça sob os golpes do martelo da angústia. (…) É preciso que expresse o que compreendeu, que o defenda (…) Essa necessidade violenta produzirá um dia a ação vigorosa.”

Como se deve ler o suicídio de Werther: “Seja homem e não me siga!”

Por que devemos ouvir incessantemente a hipérbole das hipérboles, a palavra universo, quando cada um só deveria sinceramente falar do homem?”

Mede o que sabes do nível do que podes”

Exatamente a assunção da vítima das três categorias do fazer-história: “este tratado, com sua crítica imoderada, com o verdor de sua humanidade, com seus saltos freqüentes da ironia ao cinismo, do orgulho ao ceticismo, mostra muito bem, não gostaria de escondê-lo, que carrega a marca moderna, o caráter da personalidade fraca.” “É necessário ser jovem para compreender esse protesto”


Anotações de cunho pessoal:

Síndrome dos jogos de futebol (dos livros eu até entendo): por que eles são tão bons para pensar na vida?

Talvez eu precise, mais do que a colega tuiteira a meu lado, dotar a vida de plurissentidos numa taxa que assustaria o estranho ao ninho.

Ilhas de despreocupação no inferno.

Nunca mais vou deixar de olhar aquela pequena conversa com o Marco Antônio depois da aula como um marco divisor.

Um dia a menos para a vida passar” é um pensamento idiota.


De 28 de janeiro a 4 de fevereiro de 2010

A CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES — Pseudo-Xenofonte (trad. Pedro Ribeiro Martins), 2011.

NOTA PRÉVIA

O autor é recorrentemente referido como Pseudo-Xenofonte, principalmente na bibliografia francesa, italiana e espanhola. A tradição anglo-saxônica designa-o com o qualificativo de Velho Oligarca (Old Oligarch), que se tornou famoso; essa designação, no entanto, não contribui para o debate, já que não podemos inferir com certeza a idade ou a identidade do autor.”


O AUTOR DA CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES

A única voz contrária a esta tese na Antiguidade é a de Demétrio de Magnésia, historiador contemporâneo de Cícero, citado por Diógenes Laércio 2.57, no capítulo sobre a vida de Xenofonte. Nesta controversa passagem, a autoria da Constituição dos Atenienses e da Constituição dos Lacedemônios é posta em dúvida.”

É ponto pacífico entre os filólogos modernos que o estilo de X diverge em quase tudo do de Xenofonte. Bowersock 1968 461 abre a introdução de sua edição ao texto, caracterizando-o como tantalizingly inept, para em seguida adicionar repetitive e awkward à lista dos seus traços estilísticos. Em contrapartida, Xenofonte é visto como um mestre da prosa ática, de linguagem refinada e clara.”

Xenofonte, o Velho, foi membro do círculo socrático e é referido poucas vezes em obras conhecidas, como possivelmente em D.L. 2.59. Este personagem é conhecido por ter caído do cavalo e ter sido salvo por Sócrates durante a batalha de Délio (D. L. 2.22-23). Normalmente é confundido com o historiador Xenofonte, não só por este episódio da queda, mas também por ser indicado como o autor dos Hellenika. Sua idade, sua aproximação com os círculos filosóficos de Atenas e o fato de usar o mesmo nome são os argumentos positivos para a determinação de Xenofonte, o Velho, como autor da Constituição dos Atenienses.

Xenofonte de Melite, filho de Eurípides, foi um nobre que ocupou a hiparquia em 446 a.C. e a estrategia em 440 a.C., tendo morrido em batalha como estratego em 429 a.C. durante a campanha na Bótica (Thuc. 2.79). A coincidência do nome e o fato de este Xenofonte ter sido tanto estratego como hiparco são os grandes argumentos para o aceitar como autor da obra, pois, em 1.3, X afirma que a hiparquia e a estrategia são as únicas posições que ainda eram ocupadas somente pela classe alta.”

Tucídides, o autor da História da Guerra do Peloponeso, aparece como uma hipótese pela semelhança dos temas abordados. A longa explanação sobre o poder naval de Atenas nos discursos atribuídos a Péricles guarda semelhança com a descrição do império naval na Constituição dos Atenienses.”

A mais célebre destas comparações é a do capítulo 1.11, entre o direito de um espartano de surrar um escravo, seja ele sua propriedade ou não, e a atitude dos Atenienses de não aplicar castigos físicos aos escravos.”

Há de se reter em mente que o autor é provavelmente um oligarca, que possivelmente ocupou uma função militar (estrategia, hiparquia ou trierarquia), que dividiu com Tucídides opiniões em voga na época, conviveu com círculos sofistas e, provavelmente, estava incluído nas conversações dos oligarcas que tramaram o golpe de 411 a.C. e o dos trinta tiranos de 404 a.C.”

podemos afirmar, com bastante segurança, que o autor é um Ateniense, pois utiliza a primeira pessoa diversas vezes quando refere-se a esse povo”

Contudo, Pseudo-Xenofonte abre exceções e refere-se aos Atenienses na terceira pessoa, quando explicita sua desaprovação com relação a uma decisão por eles tomada, como, por exemplo (1.1): Quanto à forma de governo dos Atenienses, que escolheram este tipo de constituição, eu não a aprovo.”

mas, quando, por exemplo, a frota ateniense é citada, observamos uma aproximação do autor, pelo uso da primeira pessoa, como nesta frase: Exatamente destes materiais são feitos os meus navios (2.11).”

Frisch 1942 187 sugere que o autor está fora da Ática no momento de composição da obra, que foi exilado ou banido, e se dirige a oligarcas de outra cidade. A argumentação de Frisch baseia-se no uso excessivo da palavra autothi que indica um distanciamento; o nome ‘Atenas’ é constantemente substituído por autothi ao invés de enthade. A tradução seria, então, ‘lá’ e não ‘aqui’ como se esperava de alguém que escreve dentro da cidade de Atenas.”

Se detesta o fato de o povo ter poder de decisão, por outro lado exalta o poder da armada democrática. Como conciliar este paradoxo?”

A teoria do diálogo como gênero do texto nunca foi levada a sério, porém a base de sua argumentação é mantida. De fato, existem duas vozes em enorme contraste.”

por um lado, o Velho Oligarca é extremamente apegado às suas convicções morais, que o aproximam da nobreza e da oligarquia, provavelmente pela sua história de vida; mas, por outro, é fascinado pela magnitude bélica que a democracia pode oferecer, através de sua pujante marinha.”

É um homem culto, frequenta os círculos intelectuais e está familiarizado com as ideias dos sofistas, apesar de não ser um deles.”


A DATA DA CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES

Para todos os efeitos, consideramos que o texto foi escrito entre 431 e 424 a.C., concordando com as argumentações de Ste Croix 1972 309 e Marr e Rhodes 2008 6.”

A única possibilidade de o texto não ter sido escrito durante o século V a.C. é a de termos em mãos um exercício de escola ou uma reconstituição histórica da Atenas do tempo de Péricles, tese defendida por Belot 1880.”

Pseudo-Xenofonte descreve uma Atenas soberana nos mares, que desfruta de um sistema democrático estável e pujante. O que nos leva a acreditar que o opúsculo foi escrito antes da derrota naval na Sícilia (413 a.C) e depois da transferência da maior parte dos poderes do Areópago para a assembleia e para o conselho.”

o Velho Oligarca refere algumas práticas imperialistas atenienses, tais como a perseguição às elites das cidades aliadas e o pagamento dos tributos em dinheiro ao invés do fornecimento de serviço militar. Esta mudança de comportamento da hegemônica Atenas é observada, principalmente, depois de 454 a.C., quando o tesouro da Liga de Delos é transferido para o seu território e as cidades aliadas deixam de fornecer apoio militar e passam a pagar seus impostos em dinheiro.”

Por fim, se esta ou qualquer data antes de 420 a.C. for correta, podemos afirmar que este é o mais antigo exemplar de prosa ática e o primeiro dedicado a uma crítica do sistema democrático (Marr e Rhodes 2008 6).”


A NATUREZA DA CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES

A única certeza sobre a forma da Constituição dos Atenienses é a de que não se trata de poesia por não obedecer a um esquema métrico. De resto, estamos no campo das especulações. O enigmático texto pode corresponder a uma carta pessoal, um discurso público, um texto recreativo para ser lido em grupos pequenos, um tratado argumentativo político, um tratado teórico sobre guerra e até mesmo um diálogo. Há uma longa discussão sobre as propriedades estilísticas do texto que continua em aberto.”

Kirchhoff 1874 acreditava que o tratado estava demasiadamente fragmentado para ser lido como um texto completo, como por exemplo os parágrafos 1.13, sobre as casas de banho e palestras, e 2.9, sobre os sacrifícios e festivais, que parecem completamente deslocados dentro do contexto em que ocorrem (Frisch 1942 42); mas a partir da edição de Kalinka 1913, as dúvidas sobre a unicidade da obra foram postas de lado e hoje o texto é entendido como uma unidade, mesmo que apresente problemas de conexão entre os tópicos.”

Roscher 1841, pioneiro da crítica moderna do tratado, acreditava estar diante de um relatório feito ao governo espartano, que explicava o sistema político ateniense. Belot 1880 considerava o texto uma carta pessoal de Xenofonte ao rei Agesilau, com o objetivo de levar ao rei espartano informações sobre a marinha e o sistema político atenienses. As duas hipóteses podem ser refutadas pelo argumento defendido por Frisch 1942 e que encontra aceitação entre a maioria dos críticos da obra. Para o autor dinamarquês, o texto tem um caráter oral muito bem marcado.”

Distinguem-se as Politeiai escritas na Grécia dos séculos V e IV a.C em três grupos: filosófico, científico e político. A República de Platão e os livros 6 e 7 da Política de Aristóteles são os melhores exemplos de Constituições filosóficas, pois tratam a questão da disputa entre as constituições de maneira utópica e idealizada. A Constituição dos Atenienses de Aristóteles é a melhor representante do tipo científico, já que trabalha com uma suposta imparcialidade e analisa diacronicamente as instituições políticas de Atenas. O último tipo abarca obras como os discursos de Péricles, especialmente a oração fúnebre, onde Tucídides recria o discurso do estratego ateniense enfatizando o modelo político democrático e os efeitos concretos na vida política e militar de Atenas decorrentes deste modelo. O texto que estudamos certamente pertence ao último tipo.”

Diferentemente da obra homônima de Aristóteles, Pseudo-Xenofonte não está interessado em analisar sistematicamente a transição das sucessivas formas de governo de Atenas, nem o seu mecanismo de funcionamento.”

Pseudo-Xenofonte não tem interesse no futuro e na sobrevivência da sua obra. Fala do presente e tem intenção de influenciar o contexto em que vive. Seus escritos, provavelmente, não teriam sobrevivido se não tivessem sido, por algum motivo, adicionados ao corpus de Xenofonte.”

Como também não tem preocupações artísticas, como Eurípides e Aristófanes, que contribuíram igualmente para o debate sobre os diferentes tipos de constituição, não necessita de esconder as palavras na boca de personagens. O Velho Oligarca não precisa ser sutil, não precisa emocionar sua plateia, nem produzir um espetáculo. Está livre para ir direto ao ponto.”

A escrita de Politeiai passou a ser um gênero literário. Foram atribuídas à escola de Aristóteles 158 Politeiai, todas perdidas, exceto a mais célebre, a Constituição dos Atenienses. Crítias também escreveu, em verso, diversas Politeiai, tendo chegado a nós alguns fragmentos das Constituição dos Atenienses, Constituição dos Lacedemônios e Constituição dos Tessálios. Xenofonte deu o seu contributo ao gênero das Constituições e escreveu a Constituição dos Lacedemônios, obra na qual relata o modo de vida, sistema militar e organização política dos Espartanos.”

o nome do tratado deve ter sido estabelecido posteriormente”

O teatro trágico de Eurípides e cômico de Aristófanes dialogam com esta pequena obra em termos de vocabulário político e de conteúdo. Além deles, Heródoto 3.80-83 também divide o mesmo interesse político ao narrar a discussão dos nobres persas sobre a melhor forma de constituição. Procederemos a uma série de breves comparações, com o objetivo de evidenciar as divergências e convergências das obras citadas até agora com o opúsculo de Pseudo-Xenofonte.”

Megabizo, o defensor da oligarquia no debate de Heródoto, certamente poderia fazer parte do clube de aliados políticos de Pseudo-Xenofonte. Eles dividem a mesma visão moral: existem pessoas melhores que outras e são elas que devem estar no poder. Servem-se dos mesmos argumentos para diminuir seus adversários – a falta de utilidade e a ignorância do povo. Diferenciam-se por questões práticas. Megabizo lança um voraz ataque à democracia e Pseudo-Xenofonte trabalha a possibilidade de se viver bem numa democracia. A diferença é que o Velho Oligarca tem uma democracia concreta para basear suas críticas positivas, enquanto que Megabizo raciocina apenas no plano das ideias.

O último a falar é Dario, vencedor do debate e defensor da monarquia. O futuro rei dos Persas deslegitima a oligarquia e a democracia usando um só argumento: os homens tendem a polemizar-se uns contra os outros, e desta disputa pelo primeiro lugar nascem discórdias que farão, eventualmente, com que retornem ao estado de monarquia. Pseudo-Xenofonte nada tem a dizer sobre a monarquia, pois não está interessado em debates teóricos; e, como sua realidade exige uma reflexão sobre o posicionamento político de oligarcas dentro de uma democracia, a monarquia parece uma alternativa distante demais para ser discutida neste pequeno texto.”


CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES

1.1. Quanto à forma de governo dos Atenienses, que escolheram este tipo de constituição, eu não a aprovo pela seguinte razão: aqueles que a escolheram optaram por privilegiar a ralé ao invés da elite. Eis por que a não aprovo. Mas já que decidiram desta maneira, pretendo demonstrar como eles conseguem preservar a sua constituição e resolver os restantes assuntos de Estado, mesmo recebendo a crítica dos outros gregos.”

(*) “No caso da strategia existiam dez vagas a serem preenchidas. Cada candidato apresentava-se e, em seguida, era submetido à aprovação dos membros da assembleia. Caso o candidato contasse com a aprovação da maioria, era incluído entre os dez strategoi. Se os dez postos já estivessem ocupados e outro candidato se apresentasse, o novo postulante deveria apontar contra qual dos strategoi entraria no pleito. Estabelecidos os dois candidatos, eles eram submetidos à escolha da assembleia novamente (Hansen 1993 272-273).”

1.5. Em qualquer parte do mundo, a classe alta opõe-se à democracia. Nas camadas superiores há pouca desordem e injustiça e existe a preocupação com a preservação da boa moral, enquanto que entre o povo reina a ignorância, a desordem e a perversidade; a pobreza faz com que se cometam atos censuráveis, sendo a falta de educação e a ignorância de alguns o resultado da falta de dinheiro.”

Se fossem os da elite a falar e a legislar, seria excelente para os do nível deles, mas mau para os membros do povo. Atualmente, porém, qualquer um da ralé que queira pode levantar-se e usar da palavra para defender os seus interesses e os do seu grupo.”

1.8. A cidade pode não ser a ideal por praticar estas regras, mas a democracia está mais protegida desta maneira. Pois o povo não deseja um governo que o escravize, por melhor que ele seja. O que o povo deseja é ser livre e comandar, pouco importa se o governo for ruim”

1.9. Mas se é um bom governo que procuras, verás, em primeiro lugar, os mais hábeis estabelecendo as leis no seu próprio interesse; daí resulta que os membros da elite castigarão os da ralé e decidirão sobre os assuntos da cidade, sem permitirem que os desequilibrados decidam, falem ou sequer tomem parte na assembleia. Em virtude destas medidas, que são excelentes, o povo sucumbiria rapidamente à escravidão.”

1.10. Quanto aos escravos e aos metecos, [estrangeiros] tamanha é a impunidade em Atenas que lá não é permitido castigá-los fisicamente e o escravo não te dá passagem. Vou explicar por que existe este costume local: se fosse legítimo o homem livre bater no escravo, no meteco ou no liberto, corria-se o risco permanente de surrar um Ateniense, acreditando tratar-se de um escravo; é que lá o povo não se veste melhor do que os escravos e metecos e sua aparência também em nada é melhor.

1.11. Se há quem se surpreenda com o fato de que lá é concedido aos escravos viver uma vida confortável e até, em alguns casos, em grande estilo, devo dizer que também esta prática segue claramente um propósito. Pois onde quer que haja um poderio naval é necessário, por razões financeiras, depender dos escravos: pode assim receber-se parte dos rendimentos auferidos e lucrar com a sua alforria. Onde os escravos são ricos, não há condições que meu escravo tenha medo de ti.”

A cidade precisa dos metecos por suas diversas competências e para a manutenção da frota. Por este motivo agimos com razão ao darmos liberdade de expressão aos metecos.”

1.13. Em Atenas, o povo considera fora de moda os que praticam exercícios físicos e música, não por entender estas atividades como de mau gosto, mas porque ele mesmo não tem condições de praticá-las. Quanto aos encargos públicos da coregia, dos concursos atléticos e do apetrechamento das trirremes, é sabido que são os ricos que asseguram os coros, organizam as competições desportivas e equipam as trirremes, mas é o povo quem toma parte no coro ou nas competições atléticas e quem tripula as embarcações. O povo entende que deve ser pago por cantar, correr, dançar e tripular os navios, de forma a enriquecer cada vez mais e os ricos ficarem cada vez mais pobres. Nos tribunais preocupam-se mais em acumular vantagens para si do que com a justiça propriamente dita.”

os Atenienses navegam por aí em permanentes denúncias; odeiam a elite, dentro do princípio de que quem comanda é necessariamente odiado pelos comandados. Ora se os ricos e a elite têm força nas cidades, o império do povo de Atenas durará pouquíssimo tempo. Por esta razão privam a elite dos seus direitos políticos, confiscam-lhes o dinheiro, exilam-nos, matam-nos, enquanto intercedem a favor da ralé. A elite ateniense socorre a elite das cidades aliadas, por perceber que é no seu próprio interesse que protege os membros da classe alta das outras cidades.”

1.19. Ademais, por causa das possessões em terras estrangeiras e das funções públicas que exercem no exterior, os Atenienses e seus escravos aprendem, sem se dar conta, a manejar o remo. Afinal, um homem que navega com frequência acaba por aprender a usar o remo, assim como seu escravo, além de se familiarizar com os termos náuticos.”

2.1. A infantaria pesada ateniense, que não tem uma boa reputação, foi estabelecida da seguinte forma: eles sabem que sua infantaria é inferior em número e força à de seus inimigos, mas sabem também que é mais poderosa que a de seus aliados pagadores de impostos. Consideram, então, que o poder da infantaria é suficiente enquanto forem superiores aos seus aliados.”

2.3. Das cidades continentais sob o domínio de Atenas, as maiores são controladas pelo medo e as menores por pura necessidade, pois não existe cidade que não precise importar ou exportar produtos, e para tal é necessário haver o consentimento dos senhores do mar.

2.4. Ademais, é permitido aos talassocratas fazer o que os donos da terra só ocasionalmente conseguem: devastar a terra dos mais poderosos; pois lhes é possível navegar junto à costa onde há poucos ou nenhum inimigo e, caso sejam atacados, podem embarcar e zarpar. Quem realiza tal manobra enfrenta menos dificuldades do que quem envia auxílio usando a infantaria.”

2.7. Se se considerar também os assuntos de menor importância, em primeiro lugar, os Atenienses, em razão do domínio marítimo, misturaram-se com outros povos e descobriram produtos de consumo variados, pois o que há de especialidades na Sícilia ou na Itália, no Chipre ou no Egito, na Lídia ou no Ponto, no Peloponeso ou seja onde for, tudo isso acaba reunido em um só lugar, em virtude do império marítimo.

2.8. Mais ainda, por ouvirem todos os dialetos, acabaram por adotar características de uns e de outros. Enquanto que os outros Gregos, em grande parte, conservam o seu próprio dialeto, modo de vida e maneira de vestir, os Atenienses usam uma mistura de tudo quanto é grego e bárbaro.”

(*) “Um exemplo da influência estrangeira, em termos de moda seguida pelos Atenienses nobres, é o abandono das túnicas de linho em favor de uma vestimenta mais modesta e a utilização de cabelos longos presos, seguindo a tendência espartana (Thuc. 1.6.3).”

a cidade realiza muitos sacrifícios, à custa do erário público, mas é o povo que aproveita os banquetes, dividindo entre si as partes dos animais sacrificados”

Nenhuma outra cidade possui estes dois tipos de produtos: não há na mesma cidade madeira e linho. A cidade que é rica em linho está implantada em território plano e sem madeira, do mesmo modo que da mesma cidade não vêm cobre e ferro, nem há duas ou três destas matérias-primas em uma mesma cidade, mas uma encontra-se em uma cidade e outra em outra.”

2.13. Mais ainda: junto de toda costa continental há um promontório ou uma ilha posicionada de frente para terra firme ou um estreito, sendo assim possível aos senhores do mar [por mais que residentes também em terra firme] atracar em um destes lugares e pilhar os moradores do continente.”

Quando algo mau acontece em decorrência das políticas do povo, logo culpam um punhado de homens como oposicionistas, pelos resultados catastróficos das suas políticas. Pelo contrário, se o resultado é positivo, atribuem a si mesmos os méritos.”

poucos são os pobres e populares a sofrer ataques nas comédias, e quando o são é por terem o perfil de fofoqueiros ou por tentarem tirar vantagem do povo. Nesse caso, o povo não se incomoda em vê-los ridicularizados pela comédia.”

2.19. Afirmo, então, que o povo ateniense sabe exatamente quais são os cidadãos de bem e quais os de índole duvidosa; apesar disso prefere idolatrar os que são mais convenientes e úteis aos seus interesses, mesmo que sejam de índole duvidosa; o povo tende a odiar os cidadãos de bem, pois não acredita que a excelência inata destes homens possa trazer algum benefício para si, pelo contrário, acredita que será danosa.”

2.20. Pessoalmente, perdoo o povo pela democracia, pois todos os que procuram o melhor para si devem ser perdoados. Por outro lado, aquele que não pertence ao povo e no entanto escolheu fazer sua vida política numa cidade democrática e não numa oligárquica, assumiu uma atitude irregular, com a consciência de que, para uma pessoa de má índole, é mais fácil passar desapercebido em uma cidade democrática do que numa oligárquica.”

por vezes nem o Conselho nem a Assembleia chegam a uma conclusão sobre os assuntos de um particular, mesmo que ele tenha esperado durante um ano. Mas isto acontece em Atenas unicamente pelo excesso de processos, porque não é possível deliberar-se sobre todos os casos e despachá-los.”

3.3. Ouve-se dizer: se alguém for ao Conselho ou à Assembleia com dinheiro na mão, tem o seu processo tramitado. Eu concordo que muito se resolve em Atenas com dinheiro e mais ainda resolver-se-ia se mais dinheiro fosse gasto. Mas a verdade é que a cidade não conseguiria despachar todos os assuntos encaminhados nem se dessem aos conselheiros e membros da Assembleia todo o ouro e a prata do mundo.”

(*) “Os processos privados (dikas) e públicos (graphas) distinguem-se por terem acusadores diferentes. Enquanto que nos processos privados o acusador tem de ser obrigatoriamente a pessoa lesada, nos processos públicos qualquer cidadão pode assumir o papel de acusador. O processo de Sócrates, por exemplo, foi um processo público. A prestação de contas (euthyna) era a avaliação oficial que a Assembleia fazia de cada funcionário público ao término de seu mandato (Varona 2009 128-130).”

(*) “As Targélias, festival em honra de Apolo, aconteciam no sétimo dia do mês que leva seu nome (thargelion – entre maio e junho). Possuíam uma relação estreita com a fertilidade. Era durante este festival que se procedia também à purificação da cidade: dois homens eram alimentados às custas da cidade e logo em seguida eram expulsos, simbolizando a eliminação do mal em Atenas (Simon 1983 76-79). As Panateneias eram celebradas anualmente em honra de Atenas durante o hekatombaion (entre julho e agosto). É considerado o festival mais importante de Atenas e era composto por uma vigília, procedida por uma corrida noturna de tochas; o dia seguinte iniciava com uma grande procissão com a finalidade de levar à deusa o peplos; realizava-se então uma hecatombe e, em último lugar, tinham lugar as competições, destacando-se os concursos de música, regatas, corridas de carro e as provas atléticas (Rocha Pereira 2006 350-355).”

(*) “A composição dos júris em Atenas seguia um processo complexo e ao mesmo tempo prático. Para ser apto ao cargo, o voluntário deveria ter pelo menos trinta anos e ser cidadão. Do universo de voluntários, eram selecionados, por meio da sorte, seis mil juízes por ano; estes compunham a eliaia, termo que designava tradicionalmente a própria Assembleia dos cidadãos e depois passou a referir-se somente ao conjunto dos jurados. A partir do grupo dos seis mil, eram formados, aleatoriamente (através de um complexo processo descrito por Arist. Ath. 63-67), os pequenos tribunais deliberativos. Um tribunal contava, normalmente, com um grupo que variava de quinhentos a dois mil jurados, dependendo da importância do caso em questão. O pagamento pelo serviço de jurado, instituído por Péricles (Arist. Ath. 27.3), era de dois óbolos por dia, e depois foi aumentado para três óbolos diários, por influência de Cléon (MacDowell 1978 33-40).”

3.8. Ademais, é preciso ter em conta que os Atenienses têm de organizar festivais, durante os quais os julgamentos ficam suspensos, e organizam o dobro de festivais que as outras cidades. E estou apenas a considerar os equivalentes aos que a cidade organiza, e que são pouquíssimos. Nestas circunstâncias entendo que não há outra forma de lidar com os negócios públicos em Atenas se não da maneira como eles o fazem nos dias de hoje. Exceto por algum detalhe que possa ser suprimido ou adicionado, mas não é possível mudar muito sem afetar a democracia.”

3.12. Há quem pense que nenhuma outra cidade promove tanto a cassação injusta dos direitos de cidadão. Eu, por minha parte, sustento entretanto que são poucos os que são cassados injustamente, embora haja alguns.”


GLOSSÁRIO:

cleruco: “Cidadão que, na antiga Grécia, recebia um lote de terreno em um país conquistado e comumente para lá emigrava sem perda da cidadania.

talassocracia: “Estado cujo poder reside especialmente no domínio marítimo.”

O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA — Lima Barreto

Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia.”

Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera, fora a do doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: ‘Se não era formado, para quê? Pedantismo!’”

– Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio—não é bonito!

– Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas, que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um inglês notável, muito o elogia.

Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.”

Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da Pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.”

Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves — era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.”

Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do ‘seu’ rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.”

Todas as manhãs, antes que a ‘Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo’, ele se atracava até ao almoço com o Montoya, Arte y diccionario de la lengua guaraní ó más bien tupí, e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão.”

e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela corografia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegável, os melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz às nascentes. Ele amava sobremodo os rios; as montanhas lhe eram indiferentes. Pequenas talvez…”

Este Quaresma! Que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico… Arre! Não tem outra conversa”

Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado — aí, julga ela, é que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da distinção.”

Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou e passou à cidade, propriamente. A sua fama já chegava a São Cristóvão e em breve (ele o esperava) Botafogo convidá-lo-ia, pois os jornais já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua poética…”

Como em tudo o mais, o major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias — flores exóticas; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes, como aquelas que ele tinha ali.”

– Oh! Por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O Bilac — conhecem? – quis fazer-me uma modinha, eu não aceitei; você não entende de violão, ‘Seu’ Bilac.

Nada entendia de guerras, de estratégia, de tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai, para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos.”

Que é um dentista? perguntava ele de si para si. Um cidadão semiformado, uma espécie de barbeiro. Preferia um oficial, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e ele acedeu.”

– Nem se podia esperar outra coisa, disse o doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura…

– Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.

– Telha de menos, disse Florêncio.

Genelício atalhou com autoridade:

– Ele não era formado, para que meter-se em livros?

– É verdade, fez Florêncio.

– Isto de livros é bom para os sábios, para os doutores, observou Sigismundo.

– Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?

– Decerto, disse Albernaz.

– Decerto, fez Caldas.

O primeiro fato surpreendeu, mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma extravagância, uma pequena mania, se apresentou logo em insânia declarada.”

A brusca popularidade de Quaresma, o seu sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e superiores. Já se viu! dizia o secretário. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma coisa! Pretensioso! O diretor, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. O colega arquivista era o menos terrível, mas chamou-o logo de doido.”

Não era a primeira vez que ela vinha ali. Mais de uma dezena já subira aquela larga escada de pedra, com grupos de mármores de Lisboa de um lado e do outro, a Caridade e Nossa Senhora da Piedade; penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas, atravessara o átrio ladrilhado, deixando à esquerda e à direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mistério da loucura; subira outra escada encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia às vezes, aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando Quaresma. Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao certo; uns três ou quatro meses, se tanto. Só o nome da casa metia medo. O hospício!”

A saúde não depende dela e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida, prolongar a existência, quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo e para onde.”

Com o seu padrinho, como fora? A princípio, aquele requerimento… Mas que era aquilo? Um capricho, uma fantasia, coisa sem importância, uma idéia de velho sem conseqüência. Depois, aquele ofício? Não tinha importância, uma simples distração, coisa que acontece a cada passo… E enfim? A loucura declarada, a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa… Enfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sair, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do seu delírio, aquela agitação desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com que se realizava fora dele e com os atos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde saía, de que ponto do seu ser tomava nascimento!”

Como é fácil na vida tudo ruir! Aquele homem pautado, regrado, honesto, com emprego seguro, tinha uma aparência inabalável; entretanto bastou um grãozinho de sandice…”

No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio. Como em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda gente, de várias condições, nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos.”

É um trabalho árduo, esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gíria burocrática. Aposentado o sujeito, solenemente por um decreto, a coisa corre uma dezena de repartições e funcionários para ser ultimada. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz; ainda estou fazendo o cálculo; e a coisa demora um mês, mais até, como se se tratasse de mecânica celeste.”

De resto, ele agora sofria particularmente — sofria na sua glória, produto de um lento e seguido trabalho de anos. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu. Aborrecia-se com o rival, por dois fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto; e segundo: por causa das suas teorias. Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. O que ele via no fato de haver um preto famoso tocar violão, era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento.”

Sem hábito de leitura e de conversa, sem atividade doméstica qualquer, ela passava os dias deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe doce chorar.”

Não havia três meses que viera habitar aquela casa, naquele ermo lugar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis meses no hospício da Praia das Saudades. Saíra curado? Quem sabe lá? Parecia; não delirava e os seus gestos e propósitos eram de homem comum embora, sob tal aparência, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que cevara durante tantos anos”

Embora nunca tivesse sido alegre, a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes, muito abatimento moral, e foi para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça, onde se dedicava a modestas culturas.”

Como é que toda a gente queria ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico, sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre, alegre e saudável? E era agora que ele chegava a essa conclusão, depois de ter sofrido a miséria da cidade e o emasculamento da repartição pública, durante tanto tempo!”

Encomendou livros nacionais, franceses, portugueses; comprou termômetros, barômetros, pluviômetros, higrômetros, anemômetros. Vieram estes e foram arrumados e colocados convenientemente.”

A irmã, mais velha que ele, não partilhava aquele seu entusiasmo pelas coisas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com ele, não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo. Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito… Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira!”

Estava tirando sardinha com mão de gato… Aquilo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as asas daquele ‘estrangeiro’, que vinha não se sabe donde!”

Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação da cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções. Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.”

Num trecho, há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.”

Não há nos nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades européias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.”

Olhe, major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral e intelectual, entretanto, se amanhã o presidente dissesse: ‘Seu Ricardo, você vai ser deputado’, o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os trenos do instrumento?”

ALINHADO COM MONTEIRO LOBATO RECLAMANDO DO CABOCLO: “Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele ‘sopapo’ que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto de um doente. Por que, ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola. Não podia ser preguiça só ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar. As populações mais acusadas de preguiça, trabalham relativamente. Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda parte, os casais, as famílias, as tribos, plantam um pouco, algumas coisas para eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!… § Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses e anos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. Aquilo era uma situação do camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal de La Bruyère que tinha face humana e voz articulada…”

– Terra não é nossa… E “frumiga”?… Nós não “tem” ferramenta… isso é bom para italiano ou “alamão”, que governo dá tudo… Governo não gosta de nós…

Em nome do Marechal Floriano, qualquer oficial, ou mesmo cidadão, sem função pública alguma, prendia e ai de quem caía na prisão, lá ficava esquecido, sofrendo angustiosos suplícios de uma imaginação dominicana. Os funcionários disputavam-se em bajulação, em servilismo… Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, às ocultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem responsabilidades…”

O FASCISMO EXISTE EM TODAS AS ÉPOCAS: “Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a companhia, a todo esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá diz ele, ao progresso e também ao advento do regime normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis, o paraíso enfim, com inscrições em escritura fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!…”

A matemática do positivismo foi sempre um puro falatório que, naqueles tempos, amedrontava toda gente. Havia mesmo quem estivesse convencido que a matemática tinha sido feita e criada para o positivismo, como se a Bíblia tivesse sido criada unicamente para a Igreja Católica e não também para a Anglicana.”

O sono não tardava a vir ao fim da quinta página… Isso era o diabo! Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances franceses, Goncourt, Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira que os tratados. Ele não compreendia a grandeza daquelas análises, daquelas descrições, o interesse e o valor delas, revelando a todos, à sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daqueles personagens, um mundo!”

A simpatia dos desinteressados, da população inteira era pelos insurgentes. Não só isso sempre acontece em toda parte, como particularmente, no Brasil, devido a múltiplos fatores, há de ser assim normalmente.

Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade, levam a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e mudanças.”

FLORIANO O MOLENGÃO: “O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de enérgico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do país, manhoso talvez um pouco, uma espécie de Luís XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tibieza de ânimo, e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que passou, tornou-se notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos.”

Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Filipe II, de um Guilherme I, da Alemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não compreende o descaso florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas.”

A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse ‘homem-talvez’ que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo.”

Não há dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água.”

– Eu sirvo sim, sim, mas dêem-me o meu violão.

Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:

– Restituam o violão ao cabo Ricardo!

Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de teatro”

<A IDADE MÉDIA FOI O AUGE DA CIVILIZAÇÃO>: “Se a gente diz: ‘No tempo de Clotário, ele próprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame mais a mulher deste e filhos’ — o positivista objeta: ‘Ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja’. ‘São Luís’, diremos logo nós, ‘quis executar um senhor feudal porque mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas’. Objeta o fiel: ‘Você não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a decadência’… Citam-se as epidemias de moléstias nervosas, a miséria dos campônios, as ladroagens a mão armada dos barões, as alucinações do milênio, as cruéis matanças que Carlos Magno fez aos saxões; eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja; outra que ele já tinha desaparecido.”

O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada disso: é simplesmente casamento, uma coisa vazia, sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades.”

Parece que nem um dos grandes países oprimidos, a Polônia, a Irlanda, a Índia apresentará o aspecto cataléptico do nosso interior. Tudo aí dorme, cochila, parece morto; naqueles há revolta, há fuga para o sonho; no nosso… Oh!… dorme-se…”

Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem… Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada… O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folk-lore, das suas tentativas agrícolas… Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!”

DICIONÁRIO

bacurau: “[Brasil] Nome comum de várias aves noturnas da América tropical.”

capadócio: trapaceiro, charlatão, malandro

fígaro: antigo para barbeiro

manipanso: ídolo africano; indivíduo muito gordo.

treno: canto plangente

EL HORROR ECONÓMICO—Viviane Forrester

Es verdad que no faltan las alegres imposturas, como por ejemplo aquella que eliminó de las estadísticas entre 250.000 y 300.000 desocupados de un solo golpe… al borrar a los que trabajan por lo menos 78 horas mensuales, es decir, menos de dos semanas y sin estabilidad.”

Pero aún hoy se pretende que lo social y económico están regidos por las transacciones realizadas a partir del trabajo cuando éste ha dejado de existir. Las consecuencias de este desfasaje son crueles. Se trata y se juzga a los sin trabajo, víctimas de esa desaparición, en función de los criterios propios de la época en que abundaban los puestos de trabajo. Despojados de empleo, se los culpa por ello, se los engaña y tranquiliza con promesas falsas que anuncian el retorno próximo de la abundancia, la mejoría rápida de la coyuntura afectada por los contratiempos.”

La vergüenza debería cotizarse en la Bolsa: es un factor importante de las ganancias.”

Caras de bebés de otros continentes, de tiempos de hambre, bebés con cara de viejo o de Auschwitz, acunados en las privaciones, el sufrimiento, la agonía brusca, y que parecen saber, haber aprendido de un solo golpe toda nuestra Historia, más sabios que cualquiera sobre la ciencia de los siglos, como si hubieran experimentado todo, conocido todo acerca del mundo que los expulsa.”

¿Será posible semejante ‘contrariedad’ en una sociedad tan poco ingenua, tan informada, dotada de refinados aparatos críticos, filosas ciencias sociales, y una acentuada afición por el análisis de su propia historia? Pero por eso mismo, por saturación, cinismo, desengaño, a veces por convicción, frecuentemente por negligencia, ¿no está poco dispuesta a emplear la mirada penetrante; no ha perdido la lucidez de reconocer que la necesidad apremiante exige actuar con lucidez?”

La indiferencia casi siempre es mayoritaria y desenfrenada. Ahora bien, a su manera estos últimos años fueron los campeones de la inconsciencia pacífica frente a la instauración de una dominación absoluta; campeones de la Historia disimulada, de los avances imperceptibles, de la desatención general. Una desatención tan grande que ni siquiera fue registrada. Este desentendimiento, esta falta de observación, fueron obtenidos sin duda mediante estrategias sigilosas, obstinadas, que introdujeron lentamente sus caballos de Troya y supieron sustentarse tan bien sobre aquello que propagaban —la falta de vigilancia—, que fueron y siguen siendo imperceptibles, y por ello tanto más eficaces.”

Es un régimen nuevo, pero regresivo: un retorno a las concepciones de un siglo diecinueve del que se eliminó el factor ‘trabajo’. ¡Espantoso!”

GLOSSÁRIO:

baladí: insignificante