DATA NO REAL

Aconteceu a primeira vez quando eu tinha 32 anos, em 27 de fevereiro de 2021. Não recebo muitas visitas. Moro só. Estamos há quase um ano vivendo a pandemia do corona. Às 20h19 recebi uma visita insólita: alguém que bateu à minha porta, sem muito estardalhaço. Não tenho campainha. Fiquei alarmado, pois é preciso ter uma chave para ter acesso às escadas que conduzem ao meu apartamento. Pensei imediatamente: “O que um vizinho quer comigo agora?”. Vivo em paz e isolamento, mal sei-lhes os rostos. Decidi usar o olho mágico, e num átimo fiquei lívido. “Eu disse para ele não vir aqui! Nós não nos falamos há anos! O que ele quer com isso?!?” Disse em voz alta que não iria abrir, que era para a visita ir embora. Mas a resposta veio num tom e numa voz que me desconcertaram. Não pode ser ele – pode? Olhei de novo. Bem, se parece muito, mas a verdade é que nem se veste como ele. Uma barba média, acho que, pensando melhor, deve ser uns 10, 20 anos mais jovem. Calça comprida, camisa social, bem-abotoada, manga longa. Chove quase sem intercursos há vários dias, coisa que eu nunca havia presenciado no Distrito Federal. Decidi abrir a porta. Voltei a ficar confuso, dei três passos para trás – antes que pudesse pronunciar qualquer sílaba, o homem ergueu o braço em sinal de que eu me tranquilizasse e de que iria esclarecer toda a situação sem que eu devera ficar nervoso. Ele deu alguns passos dentro do apartamento sem pedir licença.

– Oi, eu lembro alguém para você?

– Sim. (Ele é a cara do meu pai, porra, só pode tá de sacanagem!)

– Meu nome é Rafael…

Essas 4 palavras pareceram me dar um choque. Meu cérebro girava com mil conclusões em intensa velocidade. Emiti uma risada sarcástica involuntariamente, afinal essa era a resposta que “tudo isso” parecia pedir de qualquer mortal sensível…

– …de Araújo Aguiar. Por isso eu o lembro. Como vê, você cortou seu cabelo.

– Impossível, que porra é essa?!

– 27/02/2021, dia que recebi a visita de um cavalheiro que me disse: “Meu nome é Rafael – de Araújo Aguiar, por isso eu lembro seu pai, não tenha medo!” Como calcula, pela minha idade, “ele já morreu”, isto é, para mim. Você um dia vai usar o cabelo curto de novo, e etc., etc.

Meu sorriso amarelo de deboche continuava na cara. Mas eu tinha que me mexer e respirar, então acabei por forcejar que ele, uma vez que já tinha entrado, se pusesse à vontade, que se sentasse onde quisesse… Não havia mais hostilidade em meu ser.

– E, por fim, aos 50 anos você fará a mesma coisa, com você mesmo. É inútil explicar. Eu sempre tive um forte senso de destino, desde criança, e isso não vai mudar em tempo algum!

– Que me resta – devo acreditar em você! Se não quiser revelar muita coisa, bem. Mas então por que veio? – não vou perguntar como…

– Eu vim salvar sua vida. Não vá trabalhar amanhã! Você iria morrer nas ferragens do metrô. Assim de chofre é tudo quanto posso dizer. Ah!… Os livros! – ele vira minha estante na sala e correu para esse setor da casa de que tanto gosto. – Revelações chocantes sobre você, eu direi duas: um dia essa não será mais a sua casa. Você morará num espaço um pouco maior. E morará com algumas pessoas… – Ele continuou desfilando os olhos pelas prateleiras próximas da entrada da varanda, parecendo se agitar e querer mexer em tudo ao mesmo tempo, sem conseguir se decidir.

– Ah, é tanto tempo! Vou dizer a você, em caráter confirmatório, anedotas relacionadas a alguns desses exemplares.

Eu fiz uma cara de “Não tema, apenas continue o que você está fazendo”, sem precisar emitir sons.

Comos, Carl Sagan. O livro de que não gostamos, de que você não gosta mais. O outro dele aqui, O mundo assombrado… Ó, alguns dos nossos próprios livros! E David Harvey, Condição pós-moderna… Não se preocupe em separá-los dos outros… Dimitri acabará não os comprando…

– Eu já esperava!…

– Já tem livros em latim e italiano? Vou te dizer: eu sei 6 línguas. Leio nas seis. Tirando o português, é claro. Você aprenderá mais essas duas e enjoará de aprender outros idiomas. Assim se dará.

Ele falou isso porque viu uma folha com uma conjugação de verbos em Latim.

– Schur… Haha! Você já se desiludiu com a psicanálise, não é verdade? Roazen, já quase sem lombada… É, é pra essa época que eu vim!

– Caralho!…

– Os exemplares de jornal da Escala, a obra completa de Nietzsche que eu comprei no curso de sociologia!

Ele parecia estar mais falando consigo mesmo do que… Quero dizer, parecia estar sozinho na sala! Passou a mão por mais algumas lombadas de livros

Foi há pouco que você os meteu em ordem alfabética de novo, não foi? Você vai ler todos estes que ainda não leu e tem dúvida se vai viver o suficiente para ler de fato… José Lins do Rego, Pedra BonitaO apanhador no banco de centeio… campo de centeio Solha, Israel Rêmora ou o Sacrifício das Fêmeas… Aquele It ali em cima… E este computador…

Ele apontou para meu PC ligado.

-…Ele tem uns 2 tera de HD, não é isso mesmo?

– É.

Ele parecia rir de uma coisa nostálgica e bem antiga, como um tamagotchi para mim.

– Em qual tomo do Sítio do Pica-Pau Amarelo você está?

– O quinto. Você deve lembrar que eu lia sempre no banheiro… O exemplar está ao lado da pia…

– É mesmo!!

E continuou o exame…

O Capital… Sabe, Rafa… As revoluções mentais e de caráter que mudaram sua vida até aqui… Houve várias, não houve? O contato com Nietzsche, a conversão desabrida ao marxismo, depois a virada em 180 graus quanto a Platão… A descoberta dos reais méritos da “Pseudanálise” de “Fraude”… Você ainda viverá duas revoluções nessa mesma escala de valores… Continuará perfeiçoando sua ética, lixando sua estátua moral, melhorando e ficando mais e mais conformado consigo mesmo…

– Interessante. Só que eu não consigo imaginar…

– Se pensa que vou contar essa parte em detalhes, ou o que acontece lá fora, está muito enganado!

– Muito bem – talvez seja melhor assim!

– Ah, os CDs… O que você anda escutando na last.fm?

Agora nós dois sorríamos, cúmplices de um crime perfeito incomunicado.

– Eu estou no meu “mês de fevereiro de Overkill”… Se tornou minha terceira banda, só atrás de Metallica e Black Sabbath. Nós montamos umas listas bem fodas, divididas em “gêneros” que “enxergamos” nas canções…

– É, é isso mesmo! Uau!

– Você se surpreende com o próprio passado! E eu que recebo um “viajante no tempo” estou aqui, com sangue frio…

Eu queria terminar a frase para ele não me crer tão pedante ou não aproveitar qualquer brecha, mas ele deu de ombros. Nós não iríamos conversar sobre nosso pai, é claro que não.

– Então… eu só vim reiterar: não vá trabalhar amanhã, e um dia você estará contando isso a você mesmo também… Era o objetivo total da minha visita, o resto foi bônus!

– Não imaginava coisa diferente, até porque hoje…

– Mas vou quebrar sua expectativa…

Ele retirou do bolso da calça um cartão que eu nunca vira. Disse que era para eu usar em 2030, ou assim que a tecnologia o permitisse. Que todos os dados necessários estavam no próprio cartão, não havia uma senha, meu corpo bastaria para ser reconhecido como dono legítimo do objeto e daquilo que eu possuiria através dele… E ele me disse:

– Você encontrará algum dinheiro. Ele é seu. Eu vou embora agora… Você queria ter me perguntado no início… É, aconteceu dessa mesma maneira, e eu lembrava algumas reações que você forçosamente teria… Eu mesmo me embananei e esqueci de dizer que tinha a chave, mas que importância tinha, quando você percebeu que era eu! Agora vejo que o homem que me visitou também havia se embananado! Por isso abri lá embaixo, mas não queria ser mal-educado e deixar de bater, aqui em cima… É verdade, não me esforcei para cumprir um script ou atuar… Não é que, como antes ele tinha batido, eu bati também… É que realmente não me parecia idéia boa… Queria também que coincidisse de você estar em casa, não tinha certeza mais se o horário estava correto, se essa primeira visita daria certo… Mas pode deixar, eu vou te trancar aqui.

E riu.

– Até sempre!

– Até sempre!

Eu manuseei aquele cartão de crédito do futuro, e deplorei a tragédia da condição humana: então é sempre assim mesmo! quando finalmente conseguimos dinheiro, é quando já nos tornamos indiferentes a ele…

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ESCRITOS PRECOCES DE FREUD, INCLUINDO “O PROJETO”

RELATÓRIO SOBRE MEUS ESTUDOS EM PARIS E BERLIM (1886 [1960])

Notas introdutórias de Strachey

O relatório com que apropriadamente tem início a Standard Edition das Obras Psicológicas de Freud é um relato contemporâneo que seu protagonista faz de um evento histórico: o desvio dos interesses científicos de Freud da neurologia para a psicologia.”

Por iniciativa de Siegfried Bernfeld, esse relatório foi descoberto nos Arquivos da Universidade pelo Professor Josef Gicklhorn, o que possibilitou sua publicação – primeiramente em inglês – 70 anos depois de ter sido escrito, por gentileza de Eissler, Secretário dos Arquivos Sigmund Freud em Nova Iorque. O original, que se encontra nos Arquivos da Universidade de Viena, consiste em 12 folhas manuscritas, das quais a primeira contém apenas o título.”

Livro propriamente dito

O Salpêtrière, que foi o primeiro local que visitei, é um amplo conjunto de edifícios que, por seus prédios de 2 andares dispostos em quadriláteros, assim como por seus pátios e jardins, lembra muito o Hospital Geral de Viena. Com o passar do tempo, o Salpêtrière serviu a finalidades muito diferentes, e seu nome (assim como a nossa Gewehrfabrik) provém da primeira dessas finalidades. Os edifícios foram, afinal, convertidos em lar de mulheres idosas (Hospice pour la vieilesse (femmes), 1813) e proporcionam asilo a 5 mil pessoas. A natureza das circunstâncias fez com que as doenças nervosas crônicas viessem a figurar nesse material clínico com especial freqüência; e os antigos ‘médicins des hôpitaux’ da instituição (Briquet, por exemplo) tinham começado a fazer um estudo científico dos pacientes. Mas o trabalho não pôde prosseguir de modo sistemático por causa do costume existente entre os ‘médicins des hôpitaux’ franceses de mudarem freqüentemente de hospital e, ao mesmo tempo, trocarem o ramo especial da medicina que estão estudando, até que sua carreira os conduza ao grande hospital clínico do Hôtel-Dieu. Mas J.-M. Charcot, quando era ‘interne’ no Salpêtrière, em 1856, percebeu ser necessário fazer das doenças nervosas crônicas o tema de um estudo constante e exclusivo; resolveu retornar ao Salpêtrière como ‘médicin des hôpitaux’ e, depois, jamais abandonar esse hospital.”

No Salpêtrière, meu trabalho assumiu uma forma diferente daquela que eu, de início, tinha estabelecido para mim mesmo. Eu havia chegado com a intenção de fazer de uma única pergunta, objeto de uma cuidadosa investigação; e como, em Viena, o assunto eleito por mim eram os problemas anatômicos, tinha escolhido o estudo das atrofias e degenerações secundárias que se seguem às afecções do cérebro nas crianças. Um material patológico extremamente valioso estava à minha disposição; achei, todavia, que as condições para me utilizar dele eram muitíssimo desfavoráveis. O laboratório de modo algum oferecia condições para receber um pesquisador de fora, e esse espaço e esses recursos, tal como existiam, haviam-se tornado inacessíveis devido à falta de qualquer espécie de organização. Assim sendo, vi-me obrigado a desistir do trabalho com a anatomia e a me contentar com uma descoberta referente às relações dos núcleos da coluna posterior da medulla oblongata.”

Charcot costumava dizer que, falando de modo geral, o trabalho da anatomia estava encerrado e que a teoria das doenças orgânicas do sistema nervoso podia ser dada como completa: o que precisava ser abordado a seguir eram as neuroses. Sem dúvida, essa afirmação pode ser considerada como nada além da expressão do rumo tomado por suas próprias atividades.”

Até o presente, dificilmente se pode considerar a palavra histeria como um termo com significado bem-definido. O estado mórbido a que se aplica tal nome caracteriza-se cientificamente apenas por sinais negativos; tem sido estudado escassa e relutantemente; e carrega a ira de alguns preconceitos muito difundidos. Entre estes estão a suposição de que a doença histérica depende de irritação genital, o ponto de vista de que nenhuma sintomatologia definida pode ser atribuída à histeria simplesmente porque nela pode ocorrer qualquer combinação de sintomas e, finalmente, a exagerada importância dada à simulação no quadro clínico da histeria.”

A Idade Média estava familiarizada de modo preciso com os ‘estigmas’ da histeria, seus sinais somáticos, e os interpretava e utilizava à sua própria maneira. No departamento de ambulatório, em Berlim, contudo, verifiquei que esses sinais somáticos da histeria eram praticamente desconhecidos e que, em geral, quando se fazia um diagnóstico de ‘histeria’, parecia estar eliminada qualquer motivação para se obter mais algum informe a respeito do paciente.”

Estudando cientificamente o hipnotismo – área da neuropatologia que teve que ser arrancada, de um lado, do ceticismo e, de outro, do embuste –, Charcot chegou a uma espécie de teoria da sintomatologia histérica.”

Neste ponto, devo observar que a disposição de considerar as neuroses provenientes de trauma (‘railway spine’) como histeria encontrou decidida oposição por parte de autoridades alemãs, especialmente do Dr. Thomsen e do Dr. Oppenheim, médicos assistentes do Charité, de Berlim. Conheci pessoalmente a ambos, mais tarde, em Berlim, e esperava ter a oportunidade de verificar se sua oposição era justificada. Infelizmente, porém, os pacientes em questão já não se encontravam mais no Charité. Fiquei, todavia, com a impressão de que a questão não está madura para uma decisão, mas que Charcot acertadamente começara por abordar os casos típicos e mais simples, ao passo que seus adversários alemães partiram do estudo de exemplos indeterminados e mais complexos.”

PROPAGANDA É A ALMA DO NEGÓCIO: “Quando tomei conhecimento de que Charcot tencionava publicar uma nova coletânea de suas conferências, ofereci-me para fazer uma tradução alemã; graças a essa tarefa, entrei em contato pessoal mais próximo com o Professor Charcot e também pude prolongar minha estada em Paris além do período coberto por minha bolsa de estudos. Essa tradução está por ser publicada em Viena, em maio do corrente ano, pela editora de Toeplitz & Deuticke.”

As repetidas visitas ao Professor Munk e ao laboratório de agricultura do Professor Zuntz possibilitaram-me formar opinião própria acerca da controvérsia entre Goltz e Munk quanto à questão da localização do sentido da visão no córtex cerebral. O Dr. B. Baginsky, do laboratório de Munk, teve a gentileza de demonstrar para mim suas preparações do trajeto do nervo acústico e de solicitar minha opinião a respeito delas.”

PREFÁCIO À TRADUÇÃO DAS CONFERÊNCIAS SOBRE AS DOENÇAS DO SISTEMA NERVOSO, DE CHARCOT (1886)

Nota de Strachey

Três dessas conferências (XI, XII e XIII) tratam da afasia. Em um breve comentário, Freud mostra que já estava especialmente interessado no assunto, sobre o qual, 5 anos depois, escreveria sua monografia.”

EXTRATOS DOS DOCUMENTOS DIRIGIDOS A FLIESS (1892-1899 [1950])

Strachey

O mais importante destes esboços é o extenso documento – com umas 40 mil palavras [+100pp.] – a que demos o título de Projeto para uma Psicologia Científica.” “Seguimos o critério dos organizadores dos Anfänge, ao destacar o Projeto do restante da correspondência e editá-lo no fim do volume.”

Extratos

O PAPEL DESEMPENHADO PELAS EMPREGADAS [na gênese da histeria]

Uma imensa carga de culpa, com autocensuras (por furto, aborto etc.), torna-se possível para a mulher mediante identificação com essas pessoas de baixo padrão moral, que tão freqüentemente são lembradas por ela como sem valor, sexualmente ligadas com o pai ou o irmão dela.”

PROJETO PARA UMA PSICOLOGIA CIENTÍFICA (1895 [1950])

Strachey

O título alemão (Esboço de uma Psicologia) foi escolhido pelos compiladores dos Anfänge [como sempre refletindo o péssimo gosto de Kris & Anna]; o título inglês é escolha do tradutor. O original não tem título.”

O exame do manuscrito logo confirmou a existência de inúmeras divergências em relação à versão publicada. O tradutor se viu, assim, na situação diversa da que tinha enfrentado para verter a maior parte das obras de Freud, onde o leitor que alimenta dúvidas ou desconfianças a respeito da fidelidade da tradução pode quase sempre recorrer a um texto alemão confiável. Aqui, infelizmente, não existe tal texto publicado, só sendo possível obtê-lo mediante um fac-símile do manuscrito original. De modo que o tradutor arca inevitavelmente com uma responsabilidade especial e absoluta, pois o leitor fica inteiramente à mercê dele, e o tratamento do texto tem que se adaptar a essa situação. Seu critério deve obedecer a duas considerações: conseguir apresentar algo que seja inteligível, fluente e com um estilo inglês aceitável, além de reproduzir a intenção do autor da maneira mais exata possível. Esses dois objetivos muitas vezes entram em conflito, mas, no caso de uma obra tão difícil e importante como esta (e nas circunstâncias que acabamos de mencionar), a tradução precisa optar, mais do que nunca, pela fidelidade.

A letra de Freud, nesse caso específico, não é muito difícil de ser decifrada por quem já esteja familiarizado com os caracteres góticos, e não existem realmente muitos pontos discutíveis no texto propriamente dito. Pode-se, aliás, afirmar que Freud (tal como Ben Jonson disse de Shakespeare) ‘nunca riscou uma linha’, e as páginas de seus manuscritos se sucedem completamente livres de alterações: no Projeto, em cerca de 40 mil palavras do mais conciso raciocínio, existem ao todo apenas 20 e poucas correções.”

Freud não foi um escritor meticuloso; ocorre, assim, um determinado número de deslizes óbvios, corrigidos sem comentário em nossa versão, exceto quando o erro é discutível ou de especial importância. A pontuação não é sistemática (às vezes faltam vírgulas ou não se fecham alguns parênteses) e, seja como for, em geral não coincide com as normas inglesas. Isso também se aplica à mudança de parágrafos, que, além do mais, nem sempre é fácil de determinar.”

Em compensação, mantivemo-nos invariavelmente fiéis ao método extremamente pessoal e muito pouco inglês com que Freud sublinha toda palavra, oração ou frase a que atribui suma importância. Para outro de seus expedientes para imprimir ênfase – o de escrever uma palavra ou oração em caracteres latinos, em vez de caracteres góticos – julgamos desnecessário acrescentar uma nota de rodapé.”

Mas o maior problema causado pelo manuscrito de Freud é o uso de abreviaturas. São dos mais variados gêneros. Atingem o máximo nas primeiras 4 páginas e meia – o trecho escrito a lápis no trem. Não que esteja redigido com menos nitidez do que o resto; pelo contrário. Mas não só as palavras isoladas se acham abreviadas, como acontece com freqüência em todo o manuscrito, como também as próprias frases estão escritas em estilo telegráfico: faltam artigos definidos e indefinidos e há orações que omitem o verbo principal. Eis, por exemplo, a tradução literal da primeira frase da obra: ‘Intenção de fornecer psic. natural-científica, i.e., representar processos psic. como quant. determinar estados de partículas matérias especificáveis, para assim tornar compreensível e livre de contradições.’

É nesse sentido que divergimos fundamentalmente dos organizadores dos Anfänge, que fazem todas as suas modificações sem o menor tipo de advertência.” “a necessidade de corrigir os inúmeros erros cometidos na versão publicada em alemão nos acarretou um excesso de notas de rodapé. Sem dúvida, muitos leitores ficarão irritados com isso, mas desse modo os que possuem [a] edição alemã poderão compará-la de perto com o manuscrito original.” “o Projeto, apesar de ser manifestamente um documento neurológico, contém em si o núcleo de grande parte das teorias psicológicas que Freud desenvolveria mais tarde.”

O auxílio que o Projeto dá à compreensão do sétimo capítulo teórico de A Interpretação dos Sonhos está comentado com certa minúcia na Introdução do Editor Inglês àquela obra. Mas, na realidade, o Projeto, ou melhor, seu espírito invisível, paira sobre toda a série de obras técnicas de Freud até o fim.” “Aqui a ênfase está colocada exclusivamente no impacto do meio sobre o organismo e na reação do organismo ao meio.” “As ‘pulsões’ são apenas entidades indefinidas, que mal recebem um nome.”

Já se assinalou muitas vezes que é no Projeto que se encontra uma antecipação do eu estrutural que surge em O Eu e o Isso.”

pode-se, em primeiro lugar, notar a insistência de Freud na necessidade primordial de prover a máquina de uma ‘memória’; por outro lado, há o seu sistema de ‘barreiras de contato’, que permite à máquina fazer uma ‘escolha’ adequada, com base na lembrança de acontecimentos anteriores, entre as linhas alternativas de reação ao estímulo externo; e, mais uma vez, há, na descrição feita por Freud do mecanismo de percepção, a introdução da noção fundamental de realimentação (feedback) como modo de corrigir erros no próprio relacionamento da máquina com o meio. Essas e outras semelhanças, caso confirmadas, constituíram (sic) sem dúvida novas provas da originalidade e fertilidade das idéias de Freud e, talvez, uma sedutora possibilidade de ver nele um precursor do behaviorismo de nossos dias.”

O Projeto – PARTE I

princípio de inércia neuronal” “o princípio da inércia explica a dicotomia estrutural (dos neurônios) em motores e sensoriais”

CLARA INSPIRAÇÃO REICHIANA: “Se retrocedermos ainda mais, poderemos, em primeira instância, vincular o sistema nervoso, como herdeiro da irritabilidade geral do protoplasma, com a superfície externa irritável (de um organismo), que é interrompida por extensões consideráveis de superfície não-irritável.” Movimentos orgásmicos unicelulares.

À proporção que (aumenta) a complexidade interior (do organismo), o sistema nervoso recebe estímulos do próprio elemento somático – os estímulos endógenos – que também têm que ser descarregados. Esses estímulos se originam nas células do corpo e criam as grandes necessidades como respiração, sexualidade. Deles, ao contrário do que faz com os estímulos externos, o organismo não pode esquivar-se; não pode empregar a quantidade deles para a fuga do estímulo. Eles cessam apenas mediante certas condições, que devem ser realizadas no mundo externo. (Cf., por exemplo, a necessidade de nutrição.)”

A essência dessas novas descobertas é que o sistema nervoso se compõe de neurônios distintos e construídos de forma similar, que estão em contato recíproco por meio de uma substância estranha, que terminam uns sobre os outros como fazem sobre porções de tecido estranho”

NUNCA LEU HERÁCLITO: “Uma teoria psicológica digna de consideração precisa fornecer uma explicação para a ‘memória’. Ora, qualquer explicação dessa espécie se depara com a dificuldade de admitir, por um lado, que, depois de cessar a excitação, os neurônios fiquem permanentemente modificados em relação a seu estado anterior, ao passo que, por outro lado, não se pode negar que as novas excitações, em geral, encontrem as mesmas condições de recepção que encontraram as excitações precedentes. Desse modo, parece que os neurônios teriam que ser ao mesmo tempo, indiferenciadamente, influenciados e inalterados.”

ficar cheio de Q (catexia [energia, nesse contexto – veremos ao longo do texto que este termo é mal-definido, porque em cada frase pode significar algo diferente, por isso essa nomenclatura deveria ser ANIQUILADA])” Para o darwinista F., quanto maior a cabeça, menor a dor de cabeça. Simples assim. Quanto mais neurônios, mais capacidade de reter impressões e traumas, etc. Uma simples abordagem de tamanho de HD. Não à toa os imbecis da área de tecnologia superestimam esse tipo de trabalho ‘pioneiro’.

…embora fosse possível seguir uma linha de pensamento darwiniano e apelar para o fato de que os neurônios impermeáveis são imprescindíveis e, por conseguinte, têm que subsistir.”

Para ser um gênio é necessário abdicar da concentração de conhecimentos: regalar os neurônios da periferia com a mesma riqueza dos centros!

TAMPOUCO LEU CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS: “O sistema nervoso tem a mais decidida propensão a fugir da dor.”

Uma personalidade tremida, que não treme na base. (Sobre nós os sensitivos)

Até aqui nada se disse sobre o fato de que toda teoria psicológica, independentemente do que se realiza do ponto de vista da ciência natural, precisa satisfazer mais um requisito fundamental. Ela tem de nos explicar tudo o que já conhecemos, da maneira mais enigmática, através de nossa ‘consciência’; e, uma vez que essa consciência nada sabe do que até agora vimos pressupondo – quantidades e neurônios –, também terá de nos explicar essa falta de conhecimento.”

Sempre no umbral de fundar uma psicologia, mas até aí, ele não se destaca mais do que uma boa dúzia de dúzia de homens deste campo e desta época, ou bem anteriores até.

PELO MENOS LEU CRÍTICA DA RAZÃO PURA: “Onde se originam as qualidades? Não no mundo externo. Pois lá, segundo o parecer da nossa ciência natural, à qual também devemos submeter a psicologia aqui, só existem massas em movimento e nada mais.”

É sempre possível hipostasiar uma solução: “reunimos ânimo suficiente para presumir que haja um terceiro sistema de neurônios

Só mediante essas hipóteses tão complicadas e pouco óbvias é que pude até agora introduzir os fenômenos da consciência na estrutura da psicologia quantitativa. Naturalmente, não se pode tentar explicar como é que os processos excitatórios dos neurônios levam à consciência. É apenas uma questão de estabelecer uma coincidência entre as características da consciência que conhecemos e os processos nos neurônios (…) que variam paralelamente a elas.”

Segundo uma avançada teoria mecanicista,¹ a consciência é um mero apêndice aos processos fisiológico-psíquicos e sua omissão não acarretaria alteração na passagem psíquica [dos acontecimentos].”

¹ Essa nunca foi uma teoria ‘avançada’.

Já ouviu aquela expressão? Botânico vê planta em todo lugar…

…Isso lembra muito as condições impostas pela lei de Fechner, que poderiam ser localizadas.”

É muito digno de nota o fato de que a condução dos neurônios y consiga manter uma posição entre as características da permeabilidade e da impermeabilidade, de vez que recuperam sua resistência quase por completo, apesar da passagem de Q. Isso contradiz totalmente a propriedade que atribuímos aos neurônios y, de ficarem permanentemente facilitados pela passagem de uma corrente de Q. Como explicar essa contradição? Admitindo que a restauração da resistência, depois da passagem de uma corrente, é uma característica geral das barreiras de contato.” “Durante a passagem da Q, a resistência fica suspensa; depois ela se restabelece, mas em vários níveis, em proporção à Q que passou por ela, de maneira que, na vez seguinte, uma Q menor já conseguirá passar, e assim por diante. Quando se estabelece a facilitação mais completa, ainda resta uma certa resistência, que é igual para todas as barreiras de contato e que também requer o aumento das Qs até um determinado limiar antes de permitir sua passagem. Essa resistência seria uma constante. Por conseguinte, o fato de que as Qs endógenas atuam por soma apenas significa que essas Qs são constituídas de parcelas de excitação mínimas, menores que a constante. A via endógena de condução está, portanto, e apesar disso, completamente facilitada.” “No momento em que a via de condução é reajustada, nenhum limite adicional é fixado para essa soma. Aqui, y está à mercê de Q, e é assim que surge no interior do sistema o impulso que sustenta toda a atividade psíquica. Conhecemos essa força como vontade – o derivado das pulsões.” Sistema de vontade infinitesimal, quanta ironia! Pois se há algo de imensurável nesse mundo, tão grande quanto ‘grande’ pode ser, algo inefável que tentamos alcançar ou simbolizar… Esse algo atende pela palavra VONTADE!

O maior erro freudiano nesta tópica: no seu sistema nervoso, a dor tem valor (+); o prazer, valor (-). O que isso quer dizer? Que na hierarquia a dor ocupa o primeiro lugar. Esta é uma química arbitrária que não pode funcionar como a dos elétrons e prótons, infelizmente. O prazer como sub-espécie de dor. O nada como fim do sistema. Uma mentira. Como não entendeu este ponto aquele que estudou sobre a sexualidade infantil é um verdadeiro enigma (o cume da auto-cegueira): dado que o adulto se caracteriza pela maior vivência de desprazer (mas também prazer!), sendo qualitativamente mais completo, superior, como é que seu pseudo-sistema filosófico foi ser rematado duas décadas depois com uma força chamada Tânatos como cabeça de um débil corpúsculo chamado Eros?! Quanto mais dor, mais realização vital, deveria ser concluído segundo as próprias premissas freudianas do Projeto! Evitar a dor não constitui um desejo razoável de nenhuma criatura viva. F. entendeu o neurótico como aquele que sofria dor demais, quando devia ter entendido aquele que evitou sofrer mais dor (o enrijecido)! O que também me causa espanto é o fato de Wilhelm Reich não ter se dado conta de que todas as ‘premissas culturais’ a-sociais do tardo-Freud estavam perfeitamente esboçadas aqui, não o contrário – que homem cheio de vitalidade era esse que ele diz ter conhecido até 1920 (e, no plano teórico, até 1905)?!

SOBRE SISTEMAS TRIPARTIDOS: No princípio era o Jokenpo…

Não fica difícil especular, nesse ponto da leitura, que seu sistema foi revelado assimétrico mais tarde, e F. teve de recorrer a um oposto simétrico de sua catexia, i.e., a sublimação.

Quando a imagem mnêmica do objeto (hostil) é renovadamente catexizada por qualquer razão – por nova percepção, digamos –, surge um estado que não é o da dor, mas que, apesar disso, tem certa semelhança com ela. Esse estado inclui o desprazer e a tendência à descarga que corresponde à experiência da dor. Como o desprazer significa aumento de nível, deve-se perguntar qual a origem dessa Q.” Interessante: podíamos até mesmo cravar existir uma LEI DA COMPULSÃO À NÃO-REPETIÇÃO: preferimos sofrer dores diferentes do que reprisar sempre as mesmas dores. Esta “inocente” premissa adquire ares de importância dentro da refutação do sistema freudiano, não obstante, quando nos lembramos que o recalcamento nada mais é do que uma suposta forma de não-repetição do evento – eis que a psicanálise procura o tratamento dessa condição na recuperação da lembrança reprimida e na revivescência do trauma – o que é absurdo, segundo o Projeto. Aqui pegamos F. no pulo. Ruminar sobre traumas não nos induz a qualquer cura ou auto-superação. Busque traumas novos ou apodreça revivendo o mesmo dia eternamente… Além disso, ao avesso, um prazer inédito, quando revivido, gera cada vez menos prazer. Um masturbador compulsivo mórbido nos é repelente através da mesma noção: é inconcebível que ainda como fonte de um prazer simples e fugaz alguém repita o ato consecutivas vezes no mesmo dia. O mesmo com qualquer conquista biográfica…

Só nos resta, pois, pressupor que, devido à catexia [repressão-descarga] das lembranças, o desprazer é liberado do interior do corpo e de novo transmitido. O mecanismo dessa liberação só pode ser retratado da seguinte maneira. Assim como existem neurônios motores que, quando cheios até certo ponto, conduzem Q aos músculos, descarregando-a, devem também existir neurônios ‘secretores’ que, quando excitados, provocam no interior do corpo o surgimento de algo que atua como estímulo sobre as vias endógenas de condução de y. A esses neurônios [secretores] chamaremos de neurônios-chave.” Todo e qualquer aprofundamento da tese no Projeto implica um novo tipo de neurônio tirado do ânus de F. Desse ponto de vista, o eu nada mais é do que um neurônio gigante.

Logo, se o ego existe, ele deve inibir os processos psíquicos primários.”

É sério que isso é um projeto para uma psicologia científica? FÓRMULA: “Se (hipótese), logo (conclusão condicional).”

A catexia [neste contexto, repressão] de desejo, levada ao ponto de alucinação, e a completa produção do desprazer, que envolve o dispêndio total da defesa, são por nós designadas como processos psíquicos primários; em contrapartida, os processos que só se tornam possíveis mediante uma boa catexia do eu, e que representam versões atenuadas dos referidos processos primários, são descritos como processos psíquicos secundários.”

nenhuma experiência sexual produz qualquer efeito enquanto o sujeito ignora toda e qualquer sensação sexual – quer dizer, em geral, antes do início da puberdade.”

Não é certo que, nos adultos, o eu fique completamente livre de sua carga durante o sono. De qualquer forma, ele retira um enorme número de catexias, que, no entanto, ao despertar, são restabelecidas imediatamente e sem esforço.”

A consciência das idéias oníricas é, acima de tudo, descontínua. O que se torna consciente não é uma sucessão integral de associações, mas apenas alguns de seus pontos de parada isolados, entre os quais existem vínculos intermediários inconscientes que podemos facilmente descobrir quando estamos acordados.”

(*) “o próprio Freud atribuiu a descoberta do conceito de regressão a Albertus Magnus, filósofo escolástico do século XIII, e ao Leviathan de Hobbes (1651).” Onde neste último???

(*) “A palavra alemã Regression apareceu pela primeira vez, ao que nos conste (num contexto semelhante), cerca de 18 meses mais tarde, num rascunho enviado a Fliess no dia 2 de maio de 1897 (Rascunho L). Mas sua primeira publicação foi em A Interpretação dos Sonhos.

(*) “A regressão topográfica é a que Breuer introduziu; foi empregada no Projeto e forma o tema principal do Capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos.”

PARTE II

a “proton pseudos (primeira mentira histérica)” é tão real quanto Adão.

PARTE III

Assim, vemo-nos inesperadamente diante do mais obscuro problema: a origem do eu – ou seja, de um complexo de neurônios que se mantêm presos a suas catexias, um complexo, por conseguinte, que permanece por breves períodos em nível constante.”

O eu primeiro aprende que não deve catexizar as imagens motoras, de modo que resulte a descarga, enquanto não se cumprirem determinadas condições advindas da percepção.”

O desprazer permanece como o único meio de educação. Confesso, porém, que não sei explicar como a defesa primária, a não-catexização devido a uma ameaça de desprazer, pode ser representada mecanicamente.”

Por catexia intencional deve-se entender aqui não uma catexia uniforme, como a que afeta todo um setor no caso da atenção, mas uma catexia que se destaque, que sobressaia ao nível do eu.”

Que acontece, então, com as lembranças capazes de afeto até serem dominadas? Não se pode supor que o tempo, a repetição enfraqueçam sua capacidade de afeto, já que, normalmente, esse fator (a repetição) até contribui para intensificar a associação.” Vago e dúbio.

O fato de que a lembrança exibe característica alucinatória durante tanto tempo também requer explicação, que é importante para nosso conceito da alucinação. Aqui é plausível supor que essa capacidade para a alucinação, além da capacidade para o afeto, sejam indicações de que a catexia do eu ainda não exerceu nenhuma influência sobre a lembrança e de que nesta predominam as linhas primárias de descarga e o processo total ou primário.”

as facilitações estão sujeitas a uma decadência gradativa (esquecimento)” Autocontraditório; e o inconsciente não estaria ‘fora do tempo’?

pensamento intencional” “pensamento teórico”

Pelo menos cite Kant, ô, rapazola! “O início dos processos de pensamento derivados (do pensamento prático) é a formação de juízos.”

A atividade de pensamento realizada com juízos, e não com complexos perceptuais desordenados, significa uma economia considerável.”

o pensamento cognitivo, que, indubitavelmente, aparece como uma preparação para o pensamento prático, embora na realidade só se tenha desenvolvido tardiamente deste último.” Hipótese obscura.

JÁ CRIOU SUBTIPOS DEMAIS, CHEGA! “Ainda temos de considerar outro tipo de pensamento: o crítico ou examinador. Essa forma de pensamento é motivada quando, apesar de ter obedecido a todas as regras, o processo de expectativa, seguido pela ação específica, não causa satisfação, e sim desprazer.”

APÊNDICE B: TRECHO DA CARTA 39, ESCRITA POR FREUD A FLIESS EM 1º DE JANEIRO DE 1896

Os neurônios w [percepção] são os neurônios y que só têm capacidade muito reduzida de catexia quantitativa.” É uma tentativa grosseira de dizer que existem neurônios-dedicados-à-consciência e neurônios-dedicados-ao-inconsciente.

Os processos y seriam inconscientes em si [que ‘si’? Noumeno?] e só subseqüentemente adquiririam uma consciência secundária, artificial, ao se vincularem aos processos de descarga e de percepção (associação da fala).” “Agora fica muito mais fácil compreender a regra da defesa, que não se aplica às percepções [w], mas apenas aos processos y. O fato de a consciência secundária ficar para trás possibilita uma descrição simples dos processos neuróticos. (…) O conflito entre a condução orgânica puramente quantitativa e os processos excitados em y pela sensação consciente me permite explicar também a liberação de desprazer, da qual necessito para o recalcamento nas neuroses sexuais.” Obcecado por desvendar a histeria, que não era sólida mas, igualmente, desmanchou no ar no séc. XX. Ele não via a natureza, via o que lhe interessava.

Essa nova hipótese também se ajusta melhor ao fato de que os estímulos sensoriais objetivos são tão ínfimos que, de acordo com o princípio da constância, é difícil derivar dessa fonte a força de vontade.”

Isso nos ofereceria a tão almejada distinção entre os movimentos ‘voluntários e espásticos’, e ao mesmo tempo permitiria explicar todo um grupo de efeitos somáticos secundários – na histeria, por exemplo.” Vê-se por que Reich era tão entusiasmado por esse material.

Diz que a dor força seu caminho ao inconsciente. Sem nexo.

antes dos ataques de enxaqueca não se tem nenhuma sensação olfativa subjetiva. Por conseguinte, o nariz receberia, por assim dizer, informações sobre os estímulos olfativos internos por intermédio dos corpora cavernosa, tal como recebe os estímulos externos através da membrana de Schneider: seríamos vítimas do próprio corpo. Essas duas formas de se produzir a enxaqueca – espontaneamente ou por odores e emanações tóxicas humanas, seriam portanto equivalentes, e seus respectivos efeitos poderiam ser provocados a qualquer momento por soma.”

Reflexologia nasal, agora que paro para pensar, seria como atribuir ao nariz (não externamente, lógico) atributos como o arregalar ou fechar dos olhos ou ampliação-redução da retina, etc.

APÊNDICE C: A NATUREZA DA Q

(*) “É bem verdade que, cerca de um ano e meio antes da redação do Projeto, em seu primeiro artigo sobre as neuropsicoses de defesa (1894a), ele já tinha feito uma vaga comparação entre algo que seria precursor da Q e ‘uma carga elétrica espalhada pela superfície de um corpo’.

É forçoso reconhecer que existem certas partes obscuras na descrição fornecida no Projeto para a natureza do estado ‘ligado’ e seu mecanismo. Uma das mais intrigantes diz respeito ao processo de ‘juízo’ e ao papel nele desempenhado por uma catexia procedente do eu. Essa influência está descrita das maneiras mais variadas – como ‘catexia colateral’, ou ‘pré-catexia’, ou ‘hipercatexia’ – e se encontra intrinsecamente implicada na idéia de uma catexia da atenção.”

(*) “Efetivamente, todo o problema da relação da atenção com a Q requer um exame meticuloso. (…) A atenção é mencionada discretamente na Seção 14 da Parte I, mas logo começa a mostrar sua importância (na Seção 19 da Parte I e na Seção 6 da Parte II), até se tornar, na Parte III, um elemento quase predominante. Apesar disso, nos escritos posteriores de Freud, a atenção, depois de ser citada esporadicamente, é quase relegada ao esquecimento.” Faltou atenção ao mestre…

(*) “Essas incertezas subseqüentes a respeito das pulsões (entidades que, tal como a Q, se encontram ‘na fronteira entre o mental e o físico’) e de sua classificação nos lembram que Freud sempre se mostrou muito coerente ao salientar nossa ignorância quanto à natureza básica da Q ou de seja lá qual for o nome que se lhe dê.” Nesse ‘nossa’, ele parecia não se incluir!

A indefinição de todas as nossas discussões sobre o que descrevemos como metapsicologia se deve, naturalmente, ao fato de nada sabermos da natureza do processo excitatório que ocorre nos elementos dos sistemas psíquicos, e a não nos sentirmos autorizados a formular qualquer hipótese sobre o assunto. Estamos, conseqüentemente, trabalhando o tempo todo com um grande fator desconhecido, que somos obrigados a transportar para cada fórmula nova.” Além do Princípio do Prazer – Mas, não obstante todo esse ceticismo teórico (honesto), o engraçado é que a ‘clínica psicanalítica’ era perfeita!!

ELIMINATION – Overkill (traduzida, com alterações)

Terminal, doença terminal?

Tarde demais, brother!

O que é essa tosse, essa falta de ar?

Fatal?

Tá de brincadeira, irmão!

Preciso duma segunda opinião!

Gargalhando diante dum tufão

Que arranca toda a plantação

Chorando numa casa

que mais parece um funeral

Chegou algum boleto e é pra mim?

Errou o endereço:

sete palmos mais abaixo!

Extinção, extinção

Extinção, extinção!

Contagiosa? E por que não?!

Se não for só eu pra cova…

É, dói, eu sei

Nunca é fácil se deixar partir!

Puxo o fio da tomada

Mas é difícil de arrancar!

Na hora derradeira

Sua visão muda

Não há nada a perder…

Expulsão, expulsão

Expulsão, expulsão!

Exterminar o certo

Exterminar o errado

Exterminar o fraco

Exterminar o forte

Exterminar seus sentimentos

Extinguir, tarde demais!

Suprimir a fé

Erradicar, erradicar!

Se eu vivesse mais um dia

Faria do céu terra, da terra céu

Faria uma boa atuação

Sou bonzinho, não me levarão!

Ah, se eu tivesse só mais um dia!

Diria na sua cara:

“Arrancaria os aparelhos da tomada

De todo mundo, todos podres!

Extinguiria a raça!”

Queremos a cura, queremos o saber

Tenha esperança, seja lá como

Não, você está espalhando o caos

Infectando uma nação!

Um trem-bala – próxima parada:

Aniquilação!

Desenganado, ah, sem dúvida!

Decadência lenta, de dentro pra fora

Me cuidar pra quê?

O último a sair fecha a tampa do caixão

Gastar tudo que tem guardado

E ‘inda querer mais um bocado

Se vejo o teto agora

É porque estou no chão!

Excreção, excreção

Excreção, excreção!

Troçando a epidemia

Tem algo no ar

Lamentando a pandemia

Escavar, escavar, meu túmulo

Até ficar sem unha!

Eliminar a fé,

Eliminar, eliminar!

LEVIATÃ OU MATÉRIA, FORMA E PODER DE UM ESTADO ECLESIÁSTICO E CIVIL – Hobbes (trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva) // ou: MANUAL DE COMO NÃO FILOSOFAR HOJE EM DIA ou COMO OS PRIMEIROS CRENTES PENSAVAM: Ahab se submete à baleia branca indestrutível.

DICA PRECIOSA: Passe longe de todos os capítulos cujos títulos estiverem grifados em verde, não importa quão ardente seja sua vontade de conhecer este autor e esta obra na fonte original. Também dos capítulos em que consta apenas o sinal “(…)” nada achei de aproveitável. Obra esta considerada um “clássico” da filosofia moderna, até hoje não sei por quê! Para os parâmetros da Idade Média (muito, muito abaixo dos nossos), creio que Hobbes não esteja assim tão mal…

apertado entre aqueles que de um lado se batem por uma excessiva liberdade, e do outro por uma excessiva autoridade, é difícil passar sem ferimento por entre as lanças de ambos os lados.”

TEMPOS DE PENSAMENTOS QUE NÃO PODEMOS E NEM QUEREMOS RECUPERAR: “Pois vendo que a vida não é mais do que um movimento dos membros, [!] cujo início ocorre em alguma parte principal interna, por que não poderíamos dizer que todos os autômatos (máquinas que se movem a si mesmas por meio de molas, tal como um relógio) possuem uma vida artificial? Pois o que é o coração, senão uma mola; e os nervos, senão outras tantas cordas; e as juntas, senão outras tantas rodas, imprimindo movimento ao corpo inteiro, tal como foi projetado pelo Artífice?”

pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado, ou Cidade (em latim civitas), que não é senão um homem artificial, embora de maior estatura e força do que o homem natural, para cuja proteção e defesa foi projetado.”

há um ditado que ultimamente tem sido muito usado: que a sabedoria não se adquire pela leitura dos livros, mas do homem.” “Mas há um outro ditado que ultimamente não tem sido compreendido, graças ao qual os homens poderiam realmente aprender a ler-se uns aos outros, se se dessem ao trabalho de fazê-lo: isto é, Nosce te ipsum, Lê-te a ti mesmo.”

A VELHA ILUSÃO SOLIPSISTA QUE SÓ SE AGRAVA COM O TEMPO: “a partir da semelhança entre os pensamentos e paixões dos diferentes homens, quem quer que olhe para dentro de si mesmo, e examine o que faz quando pensa, opina, raciocina, espera, receia, etc., e por que motivos o faz, poderá por esse meio ler e conhecer quais são os pensamentos e paixões de todos os outros homens, em circunstâncias idênticas.”

Ora, se não é o Platão que cria platõezinhos práticos (Políticos, i.e., Filósofos, de Inicial Maiúscula!): “Mas mesmo que um homem seja capaz de ler perfeitamente um outro através de suas ações, isso servir-lhe-á apenas com seus conhecidos, que são muito poucos. Aquele que vai governar uma nação inteira deve ler, em si mesmo, não este ou aquele indivíduo em particular, mas o gênero humano. O que é coisa difícil, mais ainda do que aprender qualquer língua ou qualquer ciência, mas ainda assim, depois de eu ter exposto claramente e de maneira ordenada minha própria leitura, o trabalho que a outros caberá será apenas verificar se não encontram o mesmo em si próprios. [!!] Pois esta espécie de doutrina não admite outra demonstração. [!!!]”

PRIMEIRA PARTE. DO HOMEM

I. DA SENSAÇÃO

não há nenhuma concepção no espírito do homem que primeiro não tenha sido originada, total ou parcialmente, nos órgãos dos sentidos”

…VENTO E BOLHAS: “objeto é uma coisa, e a imagem ou ilusão uma outra. De tal modo que em todos os casos a sensação nada mais é do que a ilusão originária, causada pela pressão”

E fez-se a Ilusão

Pelo Antagonismo e Concorrência e Luta Intestina

de

Pressões!

Poema Horroroso como seu Autor indireto!

II. DA IMAGINAÇÃO

embora o vento deixe de soprar, as ondas continuam a rolar durante muito tempo ainda” “A imaginação nada mais é portanto senão uma sensação diminuída” “a imaginação e a memória são uma e a mesma coisa”

quando alguém compõe a imagem de sua própria pessoa com a imagem das ações de outro homem, como quando alguém se imagina um Hércules, ou um Alexandre (o que freqüentemente acontece àqueles que lêem muitos romances), trata-se de uma imaginação composta e na verdade nada mais é do que uma ficção do espírito.” Horrível

Esses cansativos e cretinos exemplos dos “sensualistas”: “depois de olharmos fixamente para o Sol, permanece diante dos nossos olhos uma imagem do Sol que se conserva durante muito tempo depois” Vá ao oculista dos Ínferos!

As imaginações daqueles que se encontram adormecidos denominam-se sonhos.” Você passou muito tempo vendo seu pai comer sua mãe?

Valeu, Confúcio! “contento-me com saber que, estando desperto, não sonho, muito embora, quando sonho, me julgue acordado.”

o excesso de calor de algumas das partes provoca a cólera, e faz surgir no cérebro a imaginação de um inimigo.” Deve ser! Todo morador do cerrado deve sonhar com poodles pretos…

O erotismo é o calor no pau! Durma sem cueca!

Desta ignorância quanto à distinção entre os sonhos, e outras ilusões fortes, e a visão e a sensação, surgiu, no passado, a maior parte da religião dos gentios, os quais adoravam sátiros, faunos, ninfas, e outros seres semelhantes, e nos nossos dias a opinião que a gente grosseira tem das fadas, fantasmas, e gnomos, e do poder das feiticeiras. Pois, no que se refere às feiticeiras, não penso que sua feitiçaria seja algum poder verdadeiro; contudo, elas são justamente punidas, pela falsa crença que possuem, acrescentada ao seu objetivo de a praticarem se puderem, estando sua atividade mais próxima de uma nova religião do que de uma arte ou uma ciência.” Dizer o quê! Hobbes ataca o catolicismo em sua obra inteira – não sabemos se por convicção ou medo da Coroa Inglesa (não que algum dos cenários seja menos pusilânime) – mas aplaude a sua instituição mais abominável: o Holocausto da Inquisição! Este é o livro mais merecedor da nota 1/5 do meu recente método de avaliação de leituras.


III. DA CONSEQÜÊNCIA OU CADEIA DE IMAGINAÇÕES

além da sensação e dos pensamentos e, da cadeia de pensamentos, o espírito do homem não tem qualquer outro movimento, muito embora, com a ajuda do discurso e do método, as mesmas faculdades possam ser desenvolvidas a tal ponto que distinguem os homens de todos os outros seres vivos.”

IV. DA LINGUAGEM

Hobbes considerava-se um antiescolástico! Veremos cada vez mais a ironia de seu posicionamento: “O primeiro autor da linguagem foi o próprio Deus, que ensinou a Adão a maneira de designar aquelas criaturas que colocava à sua vista, pois as Escrituras nada mais dizem a este respeito.” “Pois nada encontrei nas Escrituras que pudesse afirmar, direta ou indiretamente, que a Adão foram ensinados os nomes de todas as figuras, números, medidas, cores, sons, ilusões, relações, e muito menos os nomes de palavras e de discursos, como geral, especial, afirmativo, negativo, interrogativo, optativo, infinitivo, as quais são todas úteis, e muito menos os de entidade, intencionalidade, qüididade, e outras insignificantes palavras das Escolas.” Essa expressão em itálico será repetida ad nauseam quando falar dos (que ele considera serem os) Escolásticos…

Adão inventou sozinho as preposições. Ou teria sido sua costela? Eta!

Adão não pichava, porque não havia muros nem “grafite em spray”…

oN THE WALL

E se eu cavar um Poço de Babel?

dado que a natureza armou os seres vivos, uns com dentes, outros com chifres, e outros com mãos para atacarem o inimigo, nada mais é do que um abuso da linguagem ofendê-lo com a língua, a menos que se trate de alguém que somos obrigados a governar, mas então não é ofender, e sim corrigir e punir.” Pro seu governo eu desejo e profiro que você vá tomar no seu cu!

Adão cabulou as divinas aulas de matemática no Instituto Éden? “E parece [sim, pois é mera ilusão] que houve uma época em que esses nomes de números não estavam em uso, e os homens contentavam-se em utilizar os dedos de uma ou das duas mãos para aquelas coisas que desejavam contar, e daí resultou que hoje as nossas palavras numerais [??] só são 10 em qualquer nação, e em algumas só são cinco, caso em que se recomeça de novo.”

em geometria (que é a única ciência que aprouve a Deus conceder à humanidade) os homens começam por estabelecer as significações de suas palavras, e a esse estabelecimento de significações chamam definições, e colocam-nas no início de seu cálculo.”

à medida que os homens vão adquirindo uma abundância de linguagem, vão-se tornando mais sábios ou mais loucos do que habitualmente. Nem é possível sem letras que algum homem se torne ou extraordinariamente sábio, ou (a menos que sua memória seja atacada por doença, ou deficiente constituição dos órgãos) extraordinariamente louco. Pois as palavras são as calculadoras dos sábios, que só com elas calculam; mas constituem a moeda dos loucos que a avaliam pela autoridade de um Aristóteles, de um Cícero, ou de um Tomás, ou de qualquer outro doutor que nada mais é do que um homem.”

Se eu fosse louco eu seria incomensuravelmente trilionário…

Como bom escritor-cão eu demarco território e faço xixi em tudo.

Eu sou contra metáforas. Isto é uma metáfora.

V. DA RAZÃO E DA CIÊNCIA

razão nada mais é do que cálculo (isto é, adição e subtração) das conseqüências de nomes gerais estabelecidos para marcar e significar nossos pensamentos. Digo marcar quando calculamos para nós próprios, e significar quando demonstramos ou aprovamos nossos cálculos para os outros homens.”

a aritmética é uma arte infalível e certa.”

É tão intolerável na sociedade dos homens como no jogo, uma vez escolhido o trunfo, usar como trunfo em todas as ocasiões aquela série de que se tem mais cartas na mão.”

aquele que tira conclusões confiado em autores, e não as examina desde os primeiros itens em cada cálculo perde o seu esforço e nada fica sabendo” Careful what you preach: lest you suffer your own recriminations!

A VIDA SEM ABSURDO SERIA UM ERRO: “o erro é apenas uma ilusão, ao presumir que algo aconteceu, ou está para acontecer, acerca do que, muito embora não tivesse acontecido, não existe contudo nenhuma impossibilidade aparente. Mas quando fazemos uma asserção geral, a menos que seja uma asserção verdadeira, sua possibilidade é inconcebível. E as palavras com as quais nada mais concebemos senão o som são as que denominamos absurdas; insignificantes, e sem sentido. E portanto se alguém me falasse de um quadrângulo redondo, ou dos acidentes do pão no queijo, ou de substâncias imateriais, ou de um sujeito livre, livre-arbítrio, ou qualquer coisa livre, mas livre de ser impedida por oposição, não diria que estava em erro, mas que as suas palavras eram destituídas de sentido, ou seja, absurdas.”

EU CONTO OU VOCÊS CONTAM? “o privilégio do absurdo, ao qual nenhum ser vivo está sujeito, exceto o homem. E entre os homens aqueles que professam a filosofia são de todos os que lhe estão mais sujeitos. Pois é bem verdade aquilo que Cícero disse algures a seu respeito: que nada há mais absurdo do que aquilo que se encontra nos livros de filosofia.”

O PITÁGORAS MODERNO ANTI-ENSAÍSTA: “não há um só que comece seus raciocínios com definições, ou explicações dos nomes que irá usar, o que é um método que só tem sido usado em geometria, cujas conclusões foram assim tornadas indiscutíveis.” Como você é um sujeito que descreveu as sensações, eu só gostaria de pedir uma coisa: não carece definir tudo, apenas tenha tato!

Atribuo a terceira causa de absurdos ao fato de se darem nomes de acidentes de corpos exteriores a nós a acidentes de nossos próprios corpos, como fazem aqueles que dizem <a cor está no corpo>, <o som está no ar>, etc.”

A sexta ao uso de metáforas, tropos e outras figuras de retórica, em vez das palavras próprias.” Como p.ex. esses filosofastros que falam como geômetras!

A OVELHA NEGRA DA FAMÍLIA TEOLÓGICA MEDIEVAL: “A sétima aos nomes que nada significam, mas que se tomam e aprendem por hábito nas Escolas, como hipostático, transubstanciar, consubstanciar, eterno-agora¹ e outras semelhantes cantilenas dos escolásticos.”

¹ Mais sobre isso no longínquo CAPÍTULO XLVI.

Para aquele que sabe evitar estas coisas não é fácil cair em qualquer absurdo, a menos que seja pela extensão do cálculo, no qual pode talvez esquecer o que ficou para trás.” Você viu onde deixei de fechar um ( e um [?!?

Pois todos os homens por natureza raciocinam de forma semelhante” Algumas linhas após ter ‘refutado’ a existência do ‘universal’.

CONHECI UM MESTRE DE ESGRIMA CHAMADO SÃO PAULO: “Mas aqueles que acreditando apenas na autoridade dos livros vão cegamente atrás dos cegos são como aquele que, acreditando nas falsas regras de um mestre de esgrima, presunçosamente se aventura contra um adversário que ou o mata ou o desgraça.”

SÓ ACREDITO NO QUE LEIO NAS CASCAS DAS ÁRVORES: “é sinal de loucura, e geralmente desprezado com o nome de pedantismo, abandonar o próprio juízo natural para se deixar conduzir por sentenças gerais lidas em autores e sujeitas a muitas exceções.” Se um homem chamado Thomas Hobbes passar por aqui, não acredite em NADA do que ele disser!

VI. DA ORIGEM INTERNA DOS MOVIMENTOS VOLUNTÁRIOS VULGARMENTE CHAMADOS PAIXÕES; E DA LINGUAGEM QUE OS EXPRIME (primeiro capítulo legível [em geral])

Este esforço, quando vai em direção de algo que o causa, chama-se apetite ou desejo, sendo o segundo o nome mais geral, e o primeiro freqüentemente limitado a significar o desejo de alimento, nomeadamente a fome e a sede. Quando o esforço vai no sentido de evitar alguma coisa chama-se geralmente aversão. As palavras apetite e aversão vêm do latim, e ambas designam movimentos, um de aproximação e o outro de afastamento.”

Das coisas que não desejamos nem odiamos se diz que as desprezamos. Não sendo o desprezo outra coisa senão uma imobilidade ou contumácia do coração, ao resistir à ação de certas coisas. A qual deriva do fato de o coração estar já estimulado de maneira diferente por objetos mais potentes, ou da falta de experiência daquelas coisas.”

nem há qualquer regra comum do bem e do mal, que possa ser extraída da natureza dos próprios objetos. Ela só pode ser tirada da pessoa de cada um (quando não há Estado) ou então (num Estado) da pessoa que representa cada um”

A língua latina tem duas palavras cuja significação se aproxima das de bom e mau, mas que não são exatamente as mesmas, e são as palavras pulchrum e turpe. Significando a primeira aquilo que por quaisquer sinais aparentes promete o bem, e a segunda aquilo que promete o mal. Mas em nossa língua não temos homens suficientemente gerais para exprimir essas idéias. Para traduzir pulchrum, a respeito de algumas coisas usamos belo; de outras, lindo ou bonito, assim como galante, honrado, adequado, amigável. Para traduzir turpe usamos repugnante, disforme, feio, baixo, nauseante e termos semelhantes, conforme seja exigido pelo objeto. Todas estas palavras, em sua significação própria, indicam apenas o aspecto ou disposição que promete o bem e o mal. Assim, há 3 espécies de bem; o bem na promessa, que é pulchrum; o bem no efeito, como fim desejado, que se chama jucundum, delicioso; e o bem como meio, que se chama utile, ou proveitoso. E outras tantas espécies de mal: pois o mal na promessa é o que se chama turpe; o mal no efeito e no fim é molestum, desagradável, perturbador; e o mal como meio, inutile, inaproveitável, prejudicial.”

O desejo de saber o porquê e o como chama-se curiosidade, e não existe em qualquer criatura viva a não ser no homem. Assim, não é só por sua razão que o homem se distingue dos outros animais, mas também por esta singular paixão.”

O medo sem se saber por que ou de quê chama-se terror pânico, nome que lhe vem das fábulas que faziam de Pan seu autor.”

O entusiasmo súbito é a paixão que provoca aqueles trejeitos a que se chama riso. Este é provocado ou por um ato repentino de nós mesmos que nos diverte, ou pela visão de alguma coisa deformada em outra pessoa, devido à comparação com a qual subitamente nos aplaudimos a nós mesmos. [=Kant, Schopenhauer, Bergson, etc.] (…) um excesso de riso perante os defeitos dos outros é sinal de pusilanimidade. Porque o que é próprio dos grandes espíritos é ajudar os outros a evitar o escárnio, e comparar-se apenas com os mais capazes.” Esta concepção envelheceu.

em todos os casos tanto o riso como o choro são movimentos repentinos, e o hábito a ambos faz desaparecer. Pois ninguém ri de piadas velhas, nem chora por causa de uma velha calamidade.”

SER OU NÃO SER: “Quando surgem alternadamente no espírito humano apetites e aversões, esperanças e medos, relativamente a uma mesma coisa; quando passam sucessivamente pelo pensamento as diversas conseqüências boas ou más de uma ação, ou de evitar uma ação; de modo tal que às vezes se sente um apetite em relação a ela, e às vezes uma aversão, às vezes a esperança de ser capaz de praticá-la, e às vezes o desespero ou medo de empreendê-la; todo o conjunto de desejos, aversões, esperanças e medos, que se vão desenrolando até que a ação seja praticada, ou considerada impossível, leva o nome de deliberação.” “Esta sucessão alternada de apetites, aversões, esperanças e medos não é maior no homem do que nas outras criaturas vivas, consequentemente os animais também deliberam.” [!!]

Os animais, dado que são capazes de deliberações, devem necessariamente ter também vontade. A definição da vontade vulgarmente dada pelas Escolas, como apetite racional, não é aceitável. Porque se assim fosse não poderia haver atos voluntários contra a razão. Pois um ato voluntário é aquele que deriva da vontade, e nenhum outro.”

Que espécie de felicidade Deus reservou àqueles que devotamente o veneram, é coisa que ninguém saberá antes de gozá-la. Pois são alegrias que agora são tão incompreensíveis quanto a expressão visão beatífica, usada pelos Escolásticos, é ininteligível.” HAHAHA!

VII. DOS FINS OU RESOLUÇÕES DOS DISCURSOS

Ninguém pode chegar a saber, através do discurso, que isto ou aquilo é, foi ou será, o que equivale a conhecer absolutamente. É possível apenas saber que, se isto é, aquilo também é; que, se isto foi, aquilo também foi; e que, se isto será, aquilo também será; o que equivale a conhecer condicionalmente. E não se trata de conhecer as conseqüências de uma coisa para outra, e sim as do nome de uma coisa para outro nome da mesma coisa.”

Acreditar, ter fé em, ou confiar em alguém, tudo isto significa a mesma coisa: a opinião da veracidade de uma pessoa. (…) Esta singularidade do uso eclesiástico da palavra deu origem a numerosas disputas relativas ao verdadeiro objeto da fé cristã.”

TÍPICO HOMEM DA REFORMA: “quando acreditamos que as Escrituras são a palavra de Deus, sem ter recebido qualquer revelação imediata do próprio Deus, o objeto de nossa crença, fé e confiança é a Igreja, cuja palavra aceitamos e à qual aquiescemos. E aqueles que acreditam naquilo que um profeta lhes diz em nome de Deus aceitam a palavra do profeta, honram-no e nele confiam e crêem, aceitando a verdade do que ele diz, quer se trate de um verdadeiro ou de um falso profeta. O mesmo se passa também com a outra História. Pois se eu não acreditasse em tudo o que foi escrito pelos historiadores sobre os feitos gloriosos de Alexandre ou de César, não creio que o fantasma de Alexandre, ou de César, tivesse qualquer motivo justo para ofender-se, nem ninguém a não ser o historiador. Se Tito Lívio afirma que uma vez os deuses fizeram uma vaca falar, e não o acreditamos, não estamos com isso retirando nossa confiança a Deus, mas a Tito Lívio. De modo que é evidente que, seja o que for que acreditarmos tendo como única razão para tal a que deriva apenas da autoridade dos homens e de seus escritos, quer eles tenham ou não sido enviados por Deus, nossa fé será apenas fé nos homens.”

VIII. DAS VIRTUDES VULGARMENTE CHAMADAS INTELECTUAIS, E DOS DEFEITOS CONTRÁRIOS A ESTAS

A primeira virtude, isto é, a imaginação, quando não é acompanhada de juízo, não se recomenda [Maurício G.¹]; mas a última, que é o juízo e discrição, recomenda-se por si mesma, sem a ajuda da imaginação.”

¹ Ainda mais: “Gênero de loucura para o qual não conheço nenhum nome especial, mas cuja causa é às vezes a falta de experiência, devido à qual uma coisa pode parecer a alguém nova e rara, quando aos outros assim não parece”

Num bom poema, quer seja épico ou dramático, assim como também nos sonetos, epigramas e outras obras, é necessário tanto o juízo como a imaginação. Mas a imaginação deve ser a mais eminente, pois tais obras devem agradar por sua extravagância” “Num bom livro de história (…) a imaginação não tem lugar; a não ser para ornamentar o estilo.”

Os pensamentos secretos de cada homem percorrem todas as coisas, sagradas ou profanas, limpas ou obscenas, sérias ou frívolas, sem vergonha ou censura. Coisa que o discurso verbal não pode fazer, limitado pela aprovação do juízo quanto ao momento, ao lugar e à pessoa. Um anatomista pode falar ou escrever sua opinião sobre um assunto pouco limpo, porque nesse caso não se trata de agradar, e sim de ser útil. Mas se um outro homem escrevesse suas extravagantes e frívolas fantasias sobre o mesmo assunto, seria o mesmo que alguém apresentar-se numa reunião depois de ter-se espojado na lama. E é na falta de discrição que reside a diferença. Por outro lado, em casos de deliberada dissipação do espírito e dentro do círculo familiar, é licito jogar com os sons e com as significações equivocas das palavras, coisa que muitas vezes não é sinal de extraordinária fantasia. Mas num sermão, ou em público ou diante de pessoas desconhecidas, ou às quais se deva reverência, nenhum jogo de palavras deixará de ser considerado insensatez, e a diferença reside apenas na falta de discrição. De modo que quando há falta de talento não é a imaginação que falta, mas a discrição. Portanto o juízo sem imaginação é talento, mas a imaginação sem juízo não o é.”

Governar bem uma família ou um reino não corresponde a diferentes graus de prudência, mas a diferentes espécies de ocupação, do mesmo modo que desenhar um quadro em pequeno ou em grande, ou em tamanho maior que o natural, não corresponde a diferentes graus de arte. Um simples marido é mais prudente nas questões de sua própria casa do que um conselheiro privado nas questões de um outro homem.”

Se à prudência se acrescentar o uso de meios injustos ou desonestos, como aqueles a que os homens são levados pelo medo e pela necessidade, temos aquele perverso talento a que se chama astúcia, e é um sinal de pusilanimidade. Porque a magnanimidade é o desprezo pelos expedientes injustos ou desonestos. É aquilo a que os latinos chamavam versutia (que se traduz por versatilidade), e consiste no afastamento de um perigo ou incomodidade presente mediante a passagem a um ainda maior, como quando se rouba um homem para pagar a outro, é apenas uma astúcia de vistas curtas, que se chama versutia a partir de versura, que significa aceitar dinheiro com usura pelo presente pagamento dos juros.”

Quanto ao talento adquirido (ou seja, adquirido por método e instrução) o único que existe é a razão, que assenta no uso correto da linguagem, e da qual derivam as ciências.” “se a diferença proviesse da têmpera do cérebro, e dos órgãos dos sentidos, quer externos quer internos, não haveria a menor diferença entre os homens, quanto à vista, o ouvido e os outros sentidos, do que quanto a sua imaginação e discrição. Portanto ela deriva das paixões, que são diferentes, não apenas por causa das diferenças de constituição dos homens, mas também por causa das diferenças de costumes e de educação entre estes.”

assim como não ter nenhum desejo é o mesmo que estar morto, também ter paixões fracas é debilidade, e ter paixões indiferentemente por todas as coisas é leviandade e distração. E ter por qualquer coisa paixões mais fortes e veementes do que geralmente se verifica nos outros é aquilo a que os homens chamam loucura.” “Por vezes uma paixão extraordinária e extravagante deriva da má constituição dos órgãos do corpo, ou de um dano a eles causado, e outras vezes o dano e indisposição dos órgãos são causados pela veemência ou pelo extremo prolongamento da paixão. Mas em ambos os casos a loucura é de uma só e mesma natureza. § A paixão cuja violência ou prolongamento provoca a loucura ou é uma grande vanglória, a que vulgarmente se chama orgulho e auto-estima, ou é um grande desalento de espírito. O orgulho torna os homens sujeitos à cólera, cujo excesso é a loucura chamada raiva ou fúria. E assim ocorre que o excessivo desejo de vingança, quando se torna habitual, prejudica os órgãos e se transforma em raiva, e que o amor excessivo, junto ao ciúme, também se transforma em raiva; o conceito exagerado de si mesmo, quanto à sabedoria, ao saber, às maneiras, e coisas semelhantes, se transforma em distração e leviandade, e a mesma, junta à inveja, se transforma em raiva; a veemente convicção da verdade de alguma coisa, quando contrariada pelos outros, também se transforma em raiva.”

O abatimento provoca no homem receios infundados, o que constitui uma loucura vulgarmente chamada melancolia, que se manifesta em diversas condutas: freqüentação de cemitérios e lugares solitários, atos de superstição e medo de alguém ou de alguma coisa determinada.”

Esta convicção de inspiração, vulgarmente chamada espírito particular, começa muitas vezes com a descoberta feliz de um erro geralmente cometido pelos outros. E sem saberem ou lembrarem mediante que conduta da razão chegaram a uma verdade tão singular [sem possuírem espelho em casa, como vulgarmente se diz] (conforme eles pensam, embora muitas vezes seja apenas uma inverdade), passam a admirar-se a si mesmos, como sendo uma graça especial de Deus todo-poderoso, que tal lhes teria revelado sobrenaturalmente, por intermédio de seu Espírito.”

a variedade da conduta dos homens que bebem demais é a mesma que a dos loucos, uns enraivecendo-se, outros amando, outros rindo, tudo isso de maneira extravagante, mas conformemente às várias paixões dominantes. Porque os efeitos do vinho limitam-se a eliminar a dissimulação, ao mesmo tempo que ocultam do próprio bebedor a deformidade de suas paixões. Porque, segundo creio, os homens mais sóbrios não gostariam que a futilidade e extravagância de seus pensamentos, nos momentos em que andam sozinhos dando rédea solta a sua imaginação, fossem tornadas públicas, o que vem confirmar que as paixões sem guia não passam, em sua maioria, de simples loucura.

Tanto nos tempos antigos como nos modernos tem havido 2 opiniões comuns relativamente às causas da loucura. Uns atribuindo-a às paixões, outros a demônios e espíritos, tanto bons como maus, que supunham capazes de penetrar num homem e possuí-lo, movendo seus órgãos da maneira estranha e inconsiderada que é habitual nos loucos. Assim, os primeiros chamam loucos a esses homens, mas os segundos às vezes chamam-lhes endemoninhados (ou seja, possessos dos espíritos), outras vezes energúmenos (isto é, agitados ou movidos pelos espíritos) [interessante]; e hoje na Itália são chamados não apenas pazzi, loucos, mas também spiritati, isto é, possessos.”

Houve uma vez uma grande afluência de gente em Abdera, cidade da Grécia, por causa da representação da tragédia de Andrômeda, num dia extremamente quente. Em resultado disso uma grande parte dos espectadores foi acometida de febres, sendo este acidente devido ao calor e à tragédia conjuntamente, e os doentes limitavam-se a recitar jâmbicos com os nomes de Perseu e Andrômeda. O que foi curado, juntamente com a febre, pela chegada do inverno. Esta loucura foi atribuída às paixões suscitadas pela tragédia. Fato semelhante foi uma epidemia de loucura que grassou em outra cidade grega, que atacou apenas as jovens donzelas, levando muitas delas a enforcar-se. Tal fato foi por muitos considerado obra do diabo. Mas houve um que suspeitou que esse desprezo pela vida provinha de alguma paixão do espírito e, supondo que elas não desprezariam também sua honra, aconselhou os magistrados a despirem as que se enforcavam e a expô-las nuas publicamente. A estória diz que isto curou essa loucura. Por outro lado os mesmos gregos atribuíam muitas vezes a loucura à intervenção das Eumênides, ou Fúrias, e outras vezes a Ceres, Febo e outros deuses; os homens atribuíam muitas coisas a fantasmas, considerando-os corpos aéreos vivos, e geralmente chamavam-lhes espíritos. E tal como nisto os romanos tinham a mesma opinião que os gregos, o mesmo acontecia com os judeus, que chamavam aos profetas loucos ou endemoninhados (conforme consideravam os espíritos bons ou maus); alguns deles chamavam loucos tanto aos profetas como aos endemoninhados, e alguns chamavam ao mesmo homem tanto endemoninhado como louco.”

Como terá então sido possível que os judeus caíssem nessa opinião? Não consigo imaginar razão alguma, a não ser a que é comum a todos os homens, nomeadamente a falta de curiosidade para procurar as causas naturais e a identificação da felicidade como gozo dos grosseiros prazeres dos sentidos, e das coisas que mais diretamente a eles conduzem. Porque quem vê no espírito de um homem qualquer aptidão ou defeito invulgar ou estranho, a menos que se dê conta da causa de onde provavelmente derivou, dificilmente pode considerá-lo natural. Não sendo natural, é inevitável que o considerem sobrenatural; e então que pode ele ser, senão a presença nele de deus ou do diabo? (…) Em resumo, é manifesto que quem se comportasse de maneira invulgar era considerado pelos judeus como possesso, quer por Deus quer por um espírito maligno. Com exceção dos saduceus, que erravam tanto no sentido oposto que não acreditavam na existência de quaisquer espíritos (o que está muito próximo do ateísmo declarado), e talvez por isso ainda mais instigavam os outros a chamarem endemoninhados a esses homens, em vez de loucos.

Mas por que motivo nosso Salvador procedeu, para curá-los, como se estivessem possessos e não como se estivessem loucos? Ao que não posso dar outro tipo de resposta, senão aquela que é dada aos que de maneira semelhante usam as Escrituras contra a crença no movimento da Terra. As Escrituras foram escritas para mostrar aos homens o reino de Deus, e preparar seus espíritos para se tornarem seus súditos obedientes; deixando o mundo, e a filosofia a ele referente, às disputas dos homens, pelo exercício de sua razão natural.¹ Que o dia e a noite provenham do movimento da Terra, ou do Sol, ou que as ações exorbitantes dos homens derivem da paixão ou do diabo (desde que não adoremos a este último), nenhuma diferença faz quanto a nossa obediência e sujeição a Deus todo-poderoso, que é o fim para que se escreveram as Escrituras. Quanto ao fato de nosso Salvador falar à doença como se falasse a uma pessoa, esse é o procedimento habitual daqueles que curam apenas pela palavra, como Cristo fazia (e os encantadores pretendem fazer, quer falem a um diabo ou não).² Pois não se diz que Cristo (Mt. 8:26) repreendeu também os ventos e as águas? E não se diz que ele (Lc. 4:39) repreendeu também uma febre? Todavia isto não prova que uma febre seja um diabo. E quando se diz que muitos desses diabos se confessaram a Cristo, não é necessário interpretar essas passagens a não ser no sentido de que esses loucos se lhe confessaram. E quando nosso Salvador (Mt. 12:43-45) falou de um espírito impuro que, tendo saído de um homem, vai errando pelos lugares secos, procurando repouso sem nunca encontrá-lo, e volta para o mesmo homem³ juntamente com 7 outros espíritos piores do que ele, isto é manifestamente uma parábola, que se refere a um homem que; depois de um pequeno esforço para libertar-se de seus desejos, é vencido pela força deles, e se torna 7x pior do que era. Assim, nada vejo nas Escrituras que exija acreditar que os endemoninhados eram outra coisa senão loucos.”

¹ Essa passagem e as outras que lhe seguem não deixam de ser uma bela interpretação secular e moralista (sem ironia de minha parte)!

² E quanto à Psicanálise, que veio depois de Hobbes, estaria mais para coisa de messias 2.0 ou de feiticeiros?

³ Não é ao mesmo homem, mas à mesma casa, ou seja, uma geração diferente da mesma família ou, no sentido amplo, aos descendentes da raça humana, que pecam igual ou pior que os exemplares originais pecaram. Obviamente, aqueles que não sabem ler esses 3 versículos saem acreditando em casas mal-assombradas!

Mas para ter a certeza de que suas palavras não correspondem a nada no espírito [para confirmar que os Escolásticos são literalmente loucos] seriam necessários alguns exemplos. Se alguém os quiser, tome um escolástico por sua conta, e veja se ele é capaz de traduzir qualquer capítulo referente a uma questão difícil; como a Trindade, a Divindade, a natureza de Cristo, a Transubstanciação, o livre-arbítrio, etc., para qualquer das línguas modernas, de maneira a tornar o assunto inteligível. Ou então para um latim tolerável, como o que era conhecido por todos os que viviam na época em que o latim era a língua vulgar. Qual é o significado destas palavras: A primeira causa não insufla necessariamente alguma coisa na segunda, por força da subordinação essencial das causas segundas, pela qual pode ser levada a atuar? Elas são a tradução do TÍTULO do 6º capítulo do 1º livro de Suárez, Do concurso, movimento e ajuda de Deus Quando alguém escreve volumes inteiros cheios de tais coisas, é porque está louco ou porque pretende enlouquecer os outros? E particularmente quanto ao problema da transubstanciação, aqueles que dizem, depois de pronunciar certas palavras, que a brancura, a redondez, a magnitude, a qualidade, a corruptibilidade, todas as quais são incorpóreas, etc., passam da hóstia para o Corpo de nosso abençoado Salvador, não estarão eles fazendo desses -uras, -ezes, -tudes e -dades outros tantos espíritos possuindo o corpo? Porque por espíritos sempre entendem coisas que, sendo incorpóreas, podem contudo ser movidas de um lugar para outro. Assim, este tipo de absurdo pode legitimamente ser contado entre as muitas espécies de loucura. E todo o tempo em que, guiados por pensamentos claros de suas paixões mundanas, se abstêm de discutir ou escrever assim, não é mais do que um intervalo de lucidez. E tanto basta quanto às virtudes e defeitos intelectuais.” Amém!

¹ Será que é por escrever mal que Suárez é tão exaltado por Heidegger?

IX. DOS DIFERENTES OBJETOS DO CONHECIMENTO

(…)

X. DO PODER, VALOR, DIGNIDADE, HONRA E MERECIMENTO

O maior dos poderes humanos é um Estado.” “ter amigos é poder”

A reputação do poder é poder, pois com ela se consegue a adesão daqueles que necessitam proteção.”

qualquer qualidade que torna um homem amado, ou temido por muitos, é poder”

A beleza é poder, pois, sendo uma promessa de Deus, recomenda os homens ao favor das mulheres e dos estranhos.”

As ciências são um pequeno poder”

A manifestação do valor que mutuamente nos atribuímos é o que vulgarmente se chama honra e desonra. Atribuir a um homem um alto valor é honrá-lo, e um baixo valor é desonrá-lo. Mas neste caso alto e baixo devem ser entendidos em comparação com o valor que cada homem se atribui a si próprio. O valor público de um homem, aquele que lhe é atribuído pelo Estado, é o que os homens vulgarmente chamam dignidade. E esta sua avaliação pelo Estado se exprime através de cargos de direção, funções judiciais e empregos públicos, ou pelos nomes e títulos introduzidos para a distinção de tal valor.”

Ceder o passo ou o lugar a outrem, em qualquer questão, é honrar, porque equivale a admitir um poder superior.”

Imitar é honrar”

nos Estados existem outras honras.”

a fonte de toda honra civil reside na pessoa do Estado, e depende da vontade do soberano. É temporária. É o caso da magistratura, dos cargos públicos e dos títulos e, em alguns lugares, dos uniformes e emblemas.”

A riqueza é honrosa, porque é poder. A pobreza é desonrosa.”

a obscuridade é desonrosa. Descender de pais obscuros é desonroso.”

Não altera o caso da honra que uma ação seja justa ou injusta, porque a honra consiste apenas na opinião de poder. Os antigos pagãos grandemente honravam os deuses, quando os introduziam em seus poemas cometendo violações, roubos, e outras grandes mas injustas e pouco limpas ações. Por nada é Júpiter tão celebrado como por seus adultérios, ou como Mercúrio por suas fraudes e roubos. E o maior elogio dos que se fazem, num hino de Homero, é que, tendo nascido de manhã, inventou a música ao meio-dia, e antes do anoitecer roubou o gado de Apolo a seus pastores.”

não se considerava desonra ser pirata ou ladrão de estrada, sendo estes pelo contrário considerados negócios legítimos, não apenas entre os gregos, mas também nas outras nações, como o prova a história dos tempos antigos. E nesta época, e nesta parte do mundo, os duelos são e sempre serão honrosos, embora ilegais, até que venha um tempo em que a honra seja atribuída aos que recusam, e a ignomínia aos que desafiam. Porque os duelos são também muitas vezes conseqüência da coragem, e o fundamento da coragem é sempre a força ou a destreza, que são poder”

Os antigos comandantes gregos, quando iam para a guerra, mandavam pintar em seus escudos as divisas que lhes aprazia, sendo um escudo sem emblema sinal de pobreza, próprio do soldado comum; mas não havia transmissão dessas divisas por herança. Os romanos transmitiam as marcas de suas famílias, mas eram as imagens, não as divisas de seus antepassados. Entre os povos da Ásia, África e América não há, nem jamais houve tal coisa. Só os germanos tinham esse costume, e foi daí que ele passou para a Inglaterra, França, Espanha e Itália, onde eles em grande número ajudaram os romanos, ou fizeram suas próprias conquistas nessas regiões ocidentais do globo.

Porque a Germânia antigamente se encontrava tal como todos os países em seus inícios, dividida por um número infinito de pequenos senhores ou chefes de família, que estavam continuamente em guerra uns com os outros. Esses chefes ou senhores, sobretudo a fim de poderem ser reconhecidos por seus sequazes quando iam cobertos de armas, e em parte como ornamento, pintavam sua armadura, ou escudo, ou capa, com a efígie de um animal ou qualquer outra coisa, e além disso colocavam uma marca ostensivamente visível na cimeira de seus elmos. E esta ornamentação das armaduras e do elmo era transmitida por herança aos filhos, ao primogênito em toda sua pureza, e aos restantes com alguma nota de diversidade, a qual o velho senhor, ou seja, em holandês, o Here-alt, considerasse conveniente. Mas quando muitas dessas famílias reunidas formavam uma monarquia mais ampla, essa função de heraldo, que consistia em distinguir os brasões, tornava-se um cargo particular independente. Os descendentes desses senhores constituíram a grande e antiga nobreza, que em sua maioria usava como emblemas criaturas vivas caracterizadas por sua coragem ou afã de rapina, ou castelos, ameias, tendas, armas, barras, paliçadas e outros sinais de guerra, pois nada era então tão honrado como a virtude militar. Posteriormente não só os reis, mas também os Estados populares, adotaram diversos tipos de escudo, para dar aos que iam para a guerra ou dela voltavam, como encorajamento ou como recompensa de seus serviços.”

Os títulos de honra, como duque, conde, marquês, e barão, são honrosos, pois significam o valor que lhes é atribuído pelo poder soberano do Estado. Nos tempos antigos esses títulos correspondiam a cargos e funções de mando, sendo alguns derivados dos romanos, e outros dos germanos e franceses. Os duques, em latim duces, eram generais de guerra. Os condes, convites, eram os companheiros ou amigos do general, e era-lhes confiado o governo e a defesa dos lugares conquistados e pacificados. Os marqueses, marchiones, eram condes que governavam as marcas ou fronteiras do Império.¹ Estes títulos de duque, conde e marquês foram introduzidos no Império, na época de Constantino, o Grande, numa adaptação dos costumes da milícia dos germanos. Mas barão parece ter sido um título dos gauleses, e significa um grande homem, como os guardas que os reis e príncipes usavam na guerra para rodear sua pessoa. O termo parece derivar de vir, para ber e bar, que na língua dos gauleses significava o mesmo que vir em latim. E daí para bero e baro, e assim esses homens eram chamados berones, e posteriormente barones, e (em espanhol) varones. Mas quem quiser conhecer mais minuciosamente a origem dos títulos de honra pode encontrá-la, como eu fiz, no excelente tratado de Selden sobre o assunto. Com o passar do tempo estes cargos de honra, por ocasião de distúrbios ou por razões de bom e pacífico governo, foram transformados em meros títulos, servindo em sua maioria para distinguir a preeminência, lugar e ordem dos súditos no Estado, e foram nomeados duques, condes, marqueses e barões para lugares dos quais essas pessoas não tinham posse nem comando, e criaram-se também outros títulos, para o mesmo fim.”

¹ Atuais policiais federais.

XI. DAS DIFERENÇAS DE COSTUMES

a competição pelo elogio leva a reverenciar a antiguidade. Porque os homens competem com os vivos, não com os mortos, e atribuem a estes mais do que o devido a fim de poderem empanar a glória dos outros.”

embora depois da morte seja impossível sentir os louvores que nos são feitos na Terra, apesar disso essa fama não é vã, porque os homens encontram um deleite presente em sua previsão, assim como no beneficio que daí pode resultar para sua posteridade. Embora agora não o vejam, mesmo assim imaginam-no, e tudo o que constitui prazer para os sentidos constitui também prazer para a imaginação.”

Ter recebido de alguém a quem consideramos nosso igual maiores benefícios do que esperávamos faz tender para o amor fingido, e na realidade para o ódio secreto, pois nos coloca na situação de devedor desesperado que, ao recusar-se a ver seu credor, tacitamente deseja que ele se encontre onde jamais possa voltar a vê-lo. Porque os benefícios obrigam, e a obrigação é servidão; a obrigação que não se pode compensar é servidão perpétua; e perante um igual é odiosa.”

não duvido que, se acaso fosse contrária ao direito de domínio de alguém, a doutrina segundo a qual os 3 ângulos de um triângulo são iguais a 2 ângulos de um quadrado teria sido, suprimida mediante a queima de todos os livros de geometria.”

é impossível proceder a qualquer investigação profunda das causas naturais, sem com isso nos inclinarmos para acreditar que existe um Deus eterno”

XII. DA RELIGIÃO

tal como Prometeu (nome que quer dizer homem prudente) foi acorrentado ao monte Cáucaso, um lugar de ampla perspectiva, onde uma águia se alimentava de seu fígado, devorando de dia o que tinha voltado a crescer durante a noite, assim também o homem que olha demasiado longe, preocupado com os tempos futuros, tem durante todo o dia seu coração ameaçado pelo medo da morte, da pobreza ou de outras calamidades, e não encontra repouso nem paz para sua ansiedade a não ser no sono.”

A matéria informe do mundo era um deus com o nome de Caos. O céu, o oceano, os planetas, o fogo, a terra, os ventos, eram outros tantos deuses.” “Invocavam também seu próprio engenho, sob o nome de Musas; sua própria ignorância, sob o nome de Fortuna; seu próprio desejo sob o nome de Cupido; sua própria raiva sob o nome de Fúrias; seu próprio membro viril sob o nome de Príapo; atribuíam suas propuções (sic) a Íncubos e Súcubos; de modo tal que nada que um poeta pudesse introduzir como pessoa em seu poema deixavam de fazer um deus, ou um demônio.”

os prognósticos dos tempos vindouros (…) os gentios (…) acrescentaram inúmeras outras supersticiosas maneiras de adivinhação. E fizeram os homens acreditar que descobririam sua sorte, às vezes nas respostas ambíguas ou destituídas de sentido dos sacerdotes de Delfos, Delos, e Amon, e outros famosos oráculos, respostas que eram propositadamente ambíguas, para dar conta do evento de ambas as maneiras, ou absurdas, pelas intoxicantes emanações do lugar, o que é muito freqüente em cavernas sulfurosas. Às vezes nas folhas das sibilas, sobre cujas profecias (como talvez as de Nostradamus, pois os fragmentos atualmente existentes parecem ser invenção de uma época posterior) havia alguns livros que gozavam de grande reputação no tempo da República Romana. Às vezes nos insignificantes discursos de loucos, supostamente possuídos por um espírito divino, ao que chamavam entusiasmo, e a estas maneiras de predizer acontecimentos se chamava teomancia ou profecia. Às vezes no aspecto apresentado pelas estrelas ao nascer, o que se chamava horoscopia, e era considerado parte da astrologia judicial. Às vezes em suas próprias esperanças e temores, o que se chamava tumomancia ou presságio. Às vezes nas predições dos bruxos, que pretendiam comunicar-se com os mortos, o que se chama necromancia, esconjuro e feitiçaria (…) Às vezes no vôo ou forma de se alimentar das aves, o que se chamava augúrio. Às vezes nas entranhas de um animal sacrificado, o que se chamava aruspicina. Às vezes nos sonhos. Às vezes no crocitar dos corvos ou no canto dos pássaros. Às vezes nas linhas do rosto, o que se chamava metoposcopia, ou pela palmistria nas linhas da mão, ou em palavras casuais, o que se chamava omina. Às vezes em monstros ou acidentes invulgares, como eclipses, cometas, meteoros raros, terremotos, inundações, nascimentos prematuros e coisas semelhantes, a que chamavam portento e ostenta, porque pensavam que eles prediziam ou pressagiavam alguma grande calamidade futura. Às vezes no simples acaso, como no jogo de cara ou coroa, ou na contagem do número de orifícios de um crivo [apêndice do regador, ralo], ou no jogo de escolher versos de Homero e Virgílio, e em inúmeras outras invenções do gênero.”

Numa Pompílio pretendia ter recebido da ninfa Egéria as cerimônias que instituiu entre os romanos; o primeiro rei e fundador do reino do Peru pretendia que ele e sua esposa eram filhos do Sol; e Maomé, para estabelecer sua nova religião, pretendia falar com o Espírito Santo, sob a forma de uma pomba.”

LIBERDADE OU PÃO, DISSE UM RUSSO: “Entretido pela pompa e pela distração dos festivais e jogos públicos, celebrados em honra dos deuses, nada mais necessitava do que pão, para se manter afastado do descontentamento, de murmúrios e protestos contra o Estado.”

os romanos, que tinham conquistado a maior parte do mundo então conhecido, não tinham escrúpulos em tolerar qualquer religião que fosse, mesmo na própria cidade de Roma, a não ser que nela houvesse alguma coisa incompatível com o governo civil. E não há notícia de que lá alguma religião fosse proibida, a não ser a dos judeus [associação entre os itálicos – os do texto, não os da Bota! – não é mera coincidência, pois eis uma Vontade de Poder intolerável, o sumo da arrogância], os quais consideravam ilegítimo reconhecer sujeição a qualquer rei mortal ou a qualquer Estado.”

O judeu, o menino mimado dono da bola, não sabe brincar. Quis ser o Pai dos Pais, o diferente entre os iguais. O primeiro entre os primeiros, mais imortal que os outros imortais…

Mas quando foi o próprio Deus, através da revelação sobrenatural, que implantou a religião, nesse momento ele estabeleceu também para si mesmo um reino particular (…) É certo que Deus é o rei de toda a Terra, mas mesmo assim pode ser rei de uma nação peculiar e escolhida. Pois não há nisso maior incongruência do que no fato de aquele que detém o comando geral de todo o exército ter também um regimento ou companhia que lhe pertença em particular.¹” Grande silogismo!

¹ Paradigma do rei que não agüentaria existir sem um séquito de puxa-sacos.

quando faltaram os milagres faltou também a fé.” Hmmm… Doravante…

a filosofia e doutrina de Aristóteles foi levada para a religião pelos homens das Escolas, do que surgiram tantas contradições e absurdos que acarretaram para o clero uma reputação tanto de ignorância como de intenção fraudulenta, e levaram o povo a tender para a revolta contra eles, tanto contra a vontade de seus próprios príncipes, como na França e na Holanda, quanto de acordo com sua vontade, como na Inglaterra.”

XIII. DA CONDIÇÃO NATURAL DA HUMANIDADE RELATIVAMENTE À SUA FELICIDADE E MISÉRIA

O OMNIUM CONTRA OMNES NÃO É NADA DO QUE FALAM (sentimento de insegurança relativa – embora jamais tenha existido, também não vejo o que poderia mudar na história do Homem ainda que fosse um dado real): “Com isto se torna manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. Pois a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida. Portanto a noção de tempo deve ser levada em conta quanto à natureza da guerra, do mesmo modo que quanto à natureza do clima. Porque tal como a natureza do mau tempo não consiste em 2 ou 3 chuviscos, mas numa tendência para chover que dura vários dias seguidos, assim também a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal, durante todo o tempo em que não há garantia do contrário.”

Poderá porventura pensar-se que nunca existiu um tal tempo [voilà!], nem uma condição de guerra como esta, e acredito que jamais tenha sido geralmente assim, no mundo inteiro; mas há muitos lugares onde atualmente se vive assim. Porque os povos selvagens de muitos lugares da América, com exceção do governo de pequenas famílias, cuja concórdia depende da concupiscência natural, não possuem qualquer espécie de governo, e vivem em nossos dias daquela maneira embrutecida que acima referi. Seja como for, é fácil conceber qual seria [esse] gênero de vida (…) quando (…) os homens (…) deixam-se cair em guerra civil.”

XIV. DA PRIMEIRA E SEGUNDA LEIS NATURAIS, E DOS CONTRATOS

doação, dádiva ou grafia, palavras que significam uma e a mesma coisa.”

Um pacto em que eu me comprometa a não me defender da força pela força é sempre nulo.” “Porque embora se possa fazer um pacto nos seguintes termos: Se eu não fizer isto ou aquilo, mata-me; não se pode fazê-lo nestes termos: Se eu não fizer isto ou aquilo, não te resistirei quando vieres matar-me. Porque o homem escolhe por natureza o mal menor, que é o perigo de morte ao resistir, e não o mal maior, que é a morte certa e imediata se não resistir.”

Era assim a fórmula pagã, que Júpiter me mate, como eu mato este animal.”

XV. DE OUTRAS LEIS DE NATUREZA

A observância desta lei que ordena distribuir eqüitativamente a cada homem, o que segundo a razão lhe pertence chama-se eqüidade ou (conforme acima já disse) justiça distributiva. Sua violação chama-se acepção de pessoas, prosopolepsia.”

Há duas espécies de sorteio, o arbitrário e o natural. O arbitrário é aquele com o qual os competidores concordaram; o natural ou é a primogenitura (que os gregos chamavam kleronomia, o que significa dado por sorteio) ou é a primeira apropriação.”

XVI. DAS PESSOAS, AUTORES E COISAS PERSONIFICADAS

A palavra <pessoa> é de origem latina. Em lugar dela os gregos tinham prosopon, que significa rosto, tal como em latim persona significa o disfarce ou a aparência exterior de um homem, imitada no palco. E por vezes mais particularmente aquela parte dela que disfarça o rosto, como máscara ou viseira. E do palco a palavra foi transferida para qualquer representante da palavra ou da ação, tanto nos tribunais como nos teatros. De modo que uma pessoa é o mesmo que um ator, tanto no palco como na conversação corrente. E personificar é representar, seja a si mesmo ou a outro”

quando o ator faz um pacto por autoridade, obriga através disso o autor, e não menos do que se este mesmo o fizesse, nem fica menos sujeito a todas as conseqüências do mesmo.”

Estes autores condicionais são geralmente chamados fiadores, em latim fidejussores e sponsores; quando especialmente para dívidas, praedes; e para comparecimento perante um juiz ou magistrado, vades.”

SEGUNDA PARTE. DO ESTADO

XVII. DAS CAUSAS, GERAÇÃO E DEFINIÇÃO DE UM

(Reich, PMF, a guerra e as facções inexistentes entre os animais) “É certo que há algumas criaturas vivas, como as abelhas e as formigas, que vivem sociavelmente umas com as outras (e por isso são contadas por Aristóteles entre as criaturas políticas), sem outra direção senão seus juízos e apetites particulares, nem linguagem através da qual possam indicar umas às outras o que consideram adequado para o beneficio comum. Assim, talvez haja alguém interessado em saber por que a humanidade não pode fazer o mesmo.”

(Swift, Gulliver, Houyhnhnms & a coisa que não é) “essas criaturas, embora sejam capazes de um certo uso da voz, para dar a conhecer umas às outras seus desejos e outras afecções, apesar disso, carecem daquela arte das palavras mediante a qual alguns homens são capazes de apresentar aos outros o que é bom sob a aparência do mal, e o que é mau sob a aparência do bem”

Feito isto, à multidão assim unida numa só pessoa se chama Estado, em latim civitas. É esta a geração daquele grande Leviatã, ou antes (para falar em termos mais reverentes) daquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa.”

XVIII. DOS DIREITOS DOS SOBERANOS POR INSTITUIÇÃO

Se antes de mais não houvesse sido aceite, na maior parte da Inglaterra, a opinião segundo a qual esses poderes eram divididos entre o rei e os lordes e a câmara dos comuns, o povo jamais haveria sido dividido nem caído na guerra civil: primeiro entre aqueles que discordavam em matéria de política, e depois entre os dissidentes acerca da liberdade de religião; lutas que agora instruíram os homens quanto a este ponto do direito soberano, a ponto de poucos haver hoje (na Inglaterra) que não vejam que esses direitos são inseparáveis, e assim serão universalmente reconhecidos no próximo período de paz; e assim continuarão, até que essas misérias sejam esquecidas e não mais do que isso, a não ser que o vulgo seja mais bem-educado do que tem sido até agora.”

Como a grande autoridade é indivisível, e inseparavelmente atribuída ao soberano, há pouco fundamento para a opinião dos que afirmam que os reis soberanos, embora sejam singulis majores com maior poder do que qualquer de seus súditos, são apesar disso universis minores com menos poder do que eles todos juntos.”

o poder é sempre o mesmo, sob todas as formas, se estas forem suficientemente perfeitas para proteger os súditos. E isto sem levar em conta que a condição do homem nunca pode deixar de ter uma ou outra incomodidade, e que a maior que é possível cair sobre o povo em geral, em qualquer forma de governo, é de pouca monta quando comparada com as misérias e horríveis calamidades que acompanham a guerra civil, ou aquela condição dissoluta de homens sem senhor, sem sujeição às leis e a um poder coercitivo capaz de atar suas mãos, impedindo a rapina e a vingança. E também sem levar em conta que o que mais impulsiona os soberanos governantes não é qualquer prazer ou vantagem que esperem recolher do prejuízo ou debilitamento causado a seus súditos, em cujo vigor consiste sua própria força e glória, e sim a obstinação daqueles que, contribuindo de má vontade para sua própria defesa, tornam necessário que seus governantes deles arranquem tudo o que podem em tempo de paz, a fim de obterem os meios para resistir ou vencer a seus inimigos, em qualquer emergência ou súbita necessidade.”

XIX. DAS DIVERSAS ESPÉCIES DE GOVERNOS POR INSTITUIÇÃO, E DA SUCESSÃO DO PODER SOBERANO

torna-se evidente que só pode haver 3 espécies de governo. Porque o representante é necessariamente um homem ou mais de um, e caso seja mais de um a assembléia será de todos ou apenas de uma parte. Quando o representante é um só homem, o governo chama-se uma monarquia. Quando é uma assembléia de todos os que se uniram, é uma democracia, ou governo popular. Quando é uma assembléia apenas de uma parte, chama-se-lhe uma aristocracia. Não pode haver outras espécies de governo, porque o poder soberano inteiro (que já mostrei ser indivisível) tem que pertencer a um ou mais homens, ou a todos.

Encontramos outros nomes de espécies de governo, como tirania e oligarquia, nos livros de história e de política. Mas não se trata de nomes de outras formas de governo, e sim das mesmas formas quando são detestadas. Pois os que estão descontentes com uma monarquia chamam-lhe tirania, e aqueles a quem desagrada uma aristocracia chamam-lhe oligarquia. Do mesmo modo, os que se sentem prejudicados por uma democracia chamam-lhe anarquia”

Como é possível que numa monarquia aquele que detém a soberania através de uma descendência de 600 anos, que é o único a ser chamado soberano, que recebe de todos os seus súditos o título de Majestade, e é inquestionavelmente considerado por todos como seu rei, apesar de tudo isso jamais seja considerado seu representante, sendo esta palavra tomada, sem que ninguém o contradiga, como o título daqueles que, por ordem do rei, foram designados pelo povo para apresentar suas petições e (caso o rei o permitisse) para exprimir suas opiniões?”

E, na maior parte dos casos, se por acaso houver conflito entre o interesse público e o interesse pessoal, preferirá o interesse pessoal, pois em geral as paixões humanas são mais fortes do que a razão. De onde se segue que, quanto mais intimamente unidos estiverem o interesse público e o interesse pessoal, mais se beneficiará o interesse público. Ora, na monarquia o interesse pessoal é o mesmo que o interesse público. A riqueza, o poder e a honra de um monarca provêm unicamente da riqueza, da força e da reputação de seus súditos.”

as resoluções de um monarca estão sujeitas a uma única inconstância, que é a da natureza humana, ao passo que nas assembléias, além da da natureza, verifica-se a inconstância do número. Porque a ausência de uns poucos, que poderiam manter firme a resolução, uma vez tomada (ausência que pode ocorrer por segurança, por negligência ou por impedimentos pessoais), ou a diligente aparição de uns poucos da opinião contrária, podem desfazer hoje tudo o que ontem ficou decidido.”

do mesmo modo que uma criança tem necessidade de um tutor ou protetor, para preservar sua pessoa e autoridade, assim também (nos grandes Estados) a soberana assembléia, por ocasião de todos os grandes perigos e perturbações, tem necessidade de custodes libertatis, ou seja, de ditadores e protetores de sua autoridade. Que são o equivalente de monarcas temporários, aos quais ela pode entregar, por um tempo determinado, o completo exercício de seu poder.”

com respeito ao monarca eletivo, cujo poder está limitado à duração de sua vida, como acontece atualmente em muitas regiões da cristandade, ou a certos anos ou meses, como no caso do poder dos ditadores entre os romanos, se ele tiver o direito de designar seu sucessor não será mais eletivo, mas hereditário. Mas se ele não tiver o direito de escolher seu sucessor, nesse caso haverá algum outro homem, ou assembléia, que após sua morte poderá indicar um novo monarca, pois caso contrário o Estado morreria e se dissolveria com ele, voltando à condição de guerra. Se for sabido quem terá o poder de conceder a soberania após sua morte, será também sabido que já antes a soberania lhe pertencia. Porque ninguém tem o direito de dar aquilo que não tem o direito de possuir, e guardar para si mesmo se assim lhe aprouver.” Anacronismo: H. não entendia as instituições romanas.

WORLD AS SLAVERY: “Em terceiro lugar, enquanto o povo romano governava a região da Judéia (por exemplo) através de um presidente, nem por isso a Judéia era uma democracia, porque seus habitantes não eram governados por uma assembléia da qual algum deles tivesse o direito de fazer parte; nem uma aristocracia, pois não eram governados por uma assembléia da qual alguém pudesse fazer parte por sua eleição. Eram governados por uma só pessoa que, embora em relação ao povo de Roma fosse uma assembléia do povo, ou democracia, em relação ao povo da Judéia, que não tinha qualquer direito de participar no governo, era um monarca. Pois embora quando o povo é governado por uma assembléia, escolhida por ele próprio em seu próprio seio, o governo se chame uma democracia ou aristocracia, quando o povo é governado por uma assembléia que não é de sua própria escolha o governo é uma monarquia; não de um homem sobre outro homem, mas de um povo sobre outro povo.”

é necessário para a conservação da paz entre os homens que, do mesmo modo que foram tomadas medidas para a criação de um homem artificial, também sejam tomadas medidas para uma eternidade artificial da vida. Sem a qual os homens que são governados por uma assembléia voltarão à condição de guerra em cada geração, e com os que são governados por um só homem o mesmo acontecerá assim que morrer seu governante. Esta eternidade artificial é o que se chama direito de sucessão.”

Considera-se que há palavras expressas ou testamento quando tal é declarado em vida do soberano, viva vote ou por escrito, como os primeiros imperadores de Roma declaravam quem deviam ser seus herdeiros. Porque a palavra <herdeiro> não significa por si mesma os filhos ou parentes mais próximos de um homem, mas seja quem for que de qualquer modo este último declarar que deverá suceder-lhe em suas propriedades.”

os romanos, depois de terem subjugado muitas nações, a fim de tornarem seu governo mais aceitável procuraram eliminar essa causa de ressentimento, tanto quanto consideraram necessário, concedendo às vezes a nações inteiras, e às vezes aos homens mais importantes das nações que conquistaram, não apenas os privilégios, mas também o nome de romanos. E a muitos deles deram um lugar no Senado, assim como cargos públicos, inclusive na cidade de Roma. E era isto que nosso mui sábio monarca, o rei Jaime, visava ao esforçar-se por realizar a união dos dois domínios da Inglaterra e da Escócia. Se tal tivesse conseguido, é muito provável que tivesse evitado as guerras civis, que levaram à miséria ambos esses reinos, na situação atual. Portanto, não constitui injúria feita ao povo que um monarca decida por testamento sua sucessão, apesar de que, por culpa de muitos príncipes, tal haja sido às vezes considerado inconveniente. Em favor da legitimidade de uma tal decisão há também um outro argumento: que sejam quais forem os inconvenientes que possam derivar da entrega de um reino a um estrangeiro, o mesmo pode também acontecer devido ao casamento com um estrangeiro, dado que o direito de sucessão pode acabar por recair nele. Todavia, isto é considerado legítimo por todos os homens.”

XX. DO DOMÍNIO PATERNO E DESPÓTICO

os homens que escolhem seu soberano fazem-no por medo uns dos outros, e não daquele a quem escolhem, e neste caso submetem-se àquele de quem têm medo. Em ambos os casos fazem-no por medo, o que deve ser notado por todos aqueles que consideram nulos os pactos conseguidos pelo medo da morte ou da violência.”

É juiz do que é necessário para a paz, e juiz das doutrinas; é o único legislador, e supremo juiz das controvérsias, assim como dos tempos e ocasiões da guerra e da paz; é a ele que compete a escolha dos magistrados, conselheiros, comandantes, assim como todos os outros funcionários e ministros; é ele quem determina as recompensas e castigos, as honras e as ordens.”

Quanto à geração, quis Deus que o homem tivesse uma colaboradora, e há sempre dois que são igualmente pais; portanto o domínio sobre o filho deveria pertencer igualmente a ambos, e ele deveria estar igualmente submetido a ambos, o que é impossível, pois ninguém pode obedecer a dois senhores.” A última frase está certa, mas foi empregada no pior contexto possível.

Nesta condição de simples natureza, ou os pais decidem entre si, por contrato, o domínio sobre os filhos, ou nada decidem a tal respeito. Se houver essa decisão, o direito se aplica conformemente ao contrato. Diz-nos a história que as Amazonas faziam com os homens dos países vizinhos, aos quais recorriam para o efeito, um contrato pelo qual as crianças do sexo masculino seriam enviadas de volta, e as do sexo feminino ficavam com elas; assim, o domínio sobre as filhas pertencia à mãe.” É incrível como o homem eurocêntrico era fascinado pela e ao mesmo tempo tinha tanto pavor da civilização amazona, que hoje sabemos ser mítica mas que foi considerada historicamente fundada pela historiografia amadora dos “séculos românticos”…

ANTES DO MAPEAMENTO DO CÓDIGO GENÉTICO… “Caso não haja contrato, o domínio pertence à mãe. Porque na condição de simples natureza, onde não existem leis matrimoniais, é impossível saber quem é o pai a não ser que tal seja declarado pela mãe.”

Mas se a abandonar, e um outro a encontrar e alimentar, nesse caso o domínio pertence a quem a alimentou. Pois ela deve obedecer a quem a preservou porque, sendo a preservação da vida o fim em vista do qual um homem fica sujeito a outro, supõe-se que todo homem prometa obediência àquele que tem o poder de salvá-lo ou de destruí-lo.”

Aquele que tem domínio sobre um filho tem também domínio sobre os filhos desse filho, e sobre os filhos de seus filhos. Porque aquele que tem domínio sobre a pessoa de alguém também tem domínio sobre tudo quanto lhe pertence, sem o que o domínio seria apenas um título, desprovido de quaisquer efeitos.” Matusalém owns it all…

O domínio adquirido por conquista, ou vitória militar, é aquele que alguns autores chamam despótico, de despotes, que significa senhor ou amo, e é o domínio do senhor sobre seu servo.” “Porque pela palavra servo (quer seja derivada de servire, servir, ou de servare, salvar, disputa que deixo para os gramáticos) não se entende um cativo, que é guardado na prisão, ou a ferros, até que o proprietário daquele que o tomou, ou o comprou de alguém que o fez, decida o que vai fazer com ele; porque esses homens (geralmente chamados escravos) não têm obrigação alguma, e podem, sem injustiça, destruir suas cadeias ou prisão, e matar ou levar cativo seu senhor; por servo, entende-se alguém a quem se permite a liberdade corpórea e que, após prometer não fugir nem praticar violência contra seu senhor, recebe a confiança deste último. Muito eloqüente, digo, conveniente…

E o que os homens fazem quando pedem quartel (como agora se lhe chama, e a que os gregos chamavam zogria, tomar com vida) é escapar pela submissão à fúria presente do vencedor, e chegar a um acordo para salvar a vida, mediante resgate ou prestação de serviços.”

O senhor do servo é também senhor de tudo quanto este tem, e pode exigir seu uso. Isto é, de seus bens, de seu trabalho, de seus servos e seus filhos, tantas vezes quantas lhe aprouver. Porque ele recebeu a vida de seu senhor, mediante o pacto de obediência, isto é, o reconhecimento e autorização de tudo o que o senhor vier a fazer. E se acaso o senhor, recusando-o, o matar ou o puser a ferros, ou de outra maneira o castigar por sua desobediência, ele próprio será o autor dessas ações, e não pode acusá-lo de injúria.”

Torna-se assim patente que uma grande família, se não fizer parte de nenhum Estado, é em si mesma, quanto aos direitos de soberania, uma pequena monarquia.”

Examinemos agora o que as Escrituras ensinam relativamente às mesmas questões. Assim disseram a Moisés os filhos de Israel: Fala-nos, e ouvir-te-emos; mas que Deus não nos fale, senão morreremos. Isto implica uma obediência absoluta a Moisés.”

A respeito do direito dos reis, disse o próprio Deus pela boca de Samuel: Este será o direito do rei que sobre vós reinará. Ele tomará vossos filhos, e os fará guiar seus carros, e ser seus cavaleiros, e correr na frente de seus carros; e colher sua colheita, e fazer suas máquinas de guerra e instrumentos de seus carros; e levará vossas filhas para fazerem perfumes, para serem suas cozinheiras e padeiras.”

O anti-semita poderia usar esse trecho como fundamento para seu ódio àqueles que “optaram por se tornar semelhantes” e abdicaram de qualquer privilégio de Diáspora: “Nós seremos como todas as outras nações, e nosso rei julgará nossas causas, e irá à nossa frente para comandar-nos em nossas guerras.”

O talento de fazer e conservar Estados consiste em certas regras, tal como a aritmética e a geometria, e não (como o jogo do tênis) apenas na prática. Regras essas que nem os homens pobres têm lazer, nem os homens que dispõem de lazer tiveram até agora curiosidade ou método suficientes para descobrir.” Se se refere ao tênis (que realmente é coisa de rico até hoje), você viveu pouco, sr. Hobbes! Se se refere à Ciência Política… Para um “Pai Fundador”, você envelheceu rápido…

XXI. DA LIBERDADE DOS SÚDITOS

Mas tal como os homens, tendo em vista conseguir a paz, e através disso sua própria conservação, criaram um homem artificial, ao qual chamamos Estado, assim também criaram cadeias artificiais, chamadas leis civis, as quais eles mesmos, mediante pactos mútuos, prenderam numa das pontas à boca daquele homem ou assembléia a quem confiaram o poder soberano, e na outra ponta a seus próprios ouvidos. Embora esses laços por sua própria natureza sejam fracos, é no entanto possível mantê-los, devido ao perigo, se não pela dificuldade de rompê-los.”

A liberdade à qual se encontram tantas e tão honrosas referências nas obras de história e filosofia dos antigos gregos e romanos, assim como nos escritos e discursos dos que deles receberam todo o seu saber em matéria de política, não é a liberdade dos indivíduos, mas a liberdade do Estado”

QUER INCINERAR JUDEUS? VÁ EM FRENTE (O QUE ACONTECE FOI AUTORIZADO POR DEUS): “Porque tal como entre homens sem senhor existe uma guerra perpétua de cada homem contra seu vizinho, sem que haja herança a transmitir ao filho nem a esperar do pai, nem propriedade de bens e de terras, nem segurança, mas uma plena e absoluta liberdade de cada indivíduo; assim também, nos Estados que não dependem uns dos outros, cada Estado (não cada indivíduo) tem absoluta liberdade de fazer tudo o que considerar (isto é, aquilo que o homem ou assembléia que os representa considerar) mais favorável a seus interesses.”

Nestas partes ocidentais do mundo, costumamos receber nossas opiniões relativas à instituição e aos direitos do Estado de Aristóteles, Cícero e outros autores, gregos e romanos, que viviam em Estados populares, e em vez de fazerem derivar esses direitos dos princípios da natureza os transcreviam para seus livros a partir da prática de seus próprios Estados (…) Tal como os gramáticos descrevem as regras da linguagem a partir da prática do tempo, ou as regras da poesia a partir dos poemas de Homero e Virgílio. (…) E creio que em verdade posso afirmar que jamais uma coisa foi paga tão caro como estas partes ocidentais pagaram o aprendizado das línguas grega e latina.” Supõe-se que tiraram seus conhecimentos de algum lugar. Ou da Bíblia que… (insira aqui raciocínio silogístico cujo fim é a glória do Rei da Inglaterra).

a oferta de perdão tira daqueles a quem é feita o pretexto da defesa própria, e torna ilegítima sua insistência em ajudar ou defender os restantes.” Soberanos não mentem!

XXII. DOS SISTEMAS SUJEITOS, POLÍTICOS E PRIVADOS

autorizar uma companhia de mercadores a tornar-se uma corporação, ou corpo político, é o mesmo que conferir-lhe um duplo monopólio, um de simples compradores, e o outro de simples vendedores. Porque quando uma companhia é incorporada para qualquer país estrangeiro determinado, ela só exporta as mercadorias vendáveis nesse país, o que constitui simples compra no interior, e simples venda no estrangeiro. Porque no interior há apenas um comprador, e no estrangeiro apenas um vendedor, sendo ambas as coisas lucrativas para o mercador, pois assim compra no interior a preço mais baixo, e vende no estrangeiro a preço mais alto.” zzz

H. & IMPERIALISMO: “essas corporações não passam de monopólios, embora fossem altamente proveitosas para o Estado, se pudesse haver reunião num corpo político nos mercados estrangeiros e ao mesmo tempo (…) liberdade no próprio país, cada um comprando e vendendo ao preço que pudesse.”

Os corpos privados regulares, mas ilegítimos, são aqueles que se unem numa só pessoa representativa sem qualquer espécie de autoridade pública. É o caso das corporações de mendigos, ladrões e ciganos, para organizarem melhor suas ocupações de mendicância e de roubo. [HAHAHA] E o das corporações de homens que se unem, pela autoridade de qualquer pessoa estrangeira, em outro domínio, para a propagação mais fácil de qualquer doutrina, ou para constituir um partido contrário ao poder do Estado.”

CONTRADITÓRIO (NÃO PODE HAVER LIGA DE SOBERANOS ABSOLUTOS, CONSÓRCIO DE LEVIATÃS!): “as ligas entre Estados, acima dos quais não há qualquer poder humano constituído, capaz de mantê-los a todos em respeito, não apenas são legítimas como são também proveitosas¹ durante o tempo que duram. Mas as ligas de súditos de um mesmo Estado, onde cada um pode defender seu direito por meio do poder soberano, são desnecessárias para a preservação da paz e da justiça e (caso seus desígnios sejam malévolos, ou desconhecidos do Estado) também ilegítimas.”

¹ Como sempre a pergunta é “para quem?”, mas H. a desconhece. O proveito nada tem a ver com benévolo ou malévolo; na verdade, na esfera leviataniana, não há malévolo, segundo H., o que é insultante lermos nos sécs. XX ou XXI.

XXIII. DOS MINISTROS PÚBLICOS DO PODER SOBERANO

O ‘DE GRAÇA’ QUE SAI CARO: “Só o monarca, ou a assembléia soberana, possui abaixo de Deus autoridade para ensinar e instruir o povo, e nenhum homem além do soberano recebe seu poder Dei gratia simplesmente, isto é, de um favor que vem apenas de Deus. Todos os outros recebem seus poderes do favor e providência de Deus e de seus soberanos, e assim numa monarquia se diz Dei gratia & Regis, ou Dei providentia & voluntate Regis.”

XXIV. DA NUTRIÇÃO E PROCRIAÇÃO DE UM ESTADO

Os filhos de Israel eram um Estado no deserto, e careciam dos bens da terra, até o momento em que se tornaram senhores da Terra Prometida, a qual foi posteriormente dividida entre eles, não conforme sua própria discrição, mas conforme a discrição do sacerdote Eleazar e do general Josué. Os quais, quando já havia 12 tribos, ao fazer delas 13 mediante a subdivisão da tribo de José, apesar disso dividiram a terra em apenas 12 porções, e não atribuíram qualquer terra à tribo de Levi, atribuindo-lhe 10% dos frutos da terra, divisão que portanto era arbitrária. E embora quando um povo toma posse de um território por meio da guerra nem sempre ele extermine os antigos habitantes (como fizeram os judeus), deixando suas terras a muitos, ou à maior parte, ou a todos, é evidente que essas terras passam a ser patrimônio do vencedor, como aconteceu com o povo da Inglaterra, que recebeu todas as suas terras de Guilherme, o Conquistador.” blá, blá, blá…

Embora na Inglaterra o Conquistador tenha reservado algumas terras para seu próprio uso (além de florestas e coutadas, tanto para sua recreação como para a preservação dos bosques), e tenha também reservado diversos serviços nas terras que deu a seus súditos, parece que elas não foram reservadas para sua manutenção em sua capacidade pública, mas em sua capacidade natural, pois ele e seus sucessores lançaram impostos arbitrários sobre as terras de todos os seus súditos, sempre que tal consideraram necessário.”

XXV. DO CONSELHO

Quando para fazer todas as coisas existem regras infalíveis (como as regras da geometria, para as máquinas e os edifícios), toda a experiência do mundo é incapaz de igualar o conselho daquele que aprendeu ou descobriu a regra. Quando não existe tal regra, aquele que tem mais experiência no tipo de questão de que se trata será senhor do melhor julgamento, e será o melhor conselheiro.”

XXVI. DAS LEIS CIVIS

A antiga lei de Roma era chamada sua lei civil, da palavra civitas, que significa Estado. E os países que, tendo estado submetidos ao Império Romano e governados por essas leis, ainda conservam delas a parte que consideram necessária, chamam a essa parte a lei civil, para distingui-la do resto de suas próprias leis civis.” “defino a lei civil da seguinte maneira: A lei civil é, para todo súdito, constituída por aquelas regras que o Estado lhe impõe, oralmente ou por escrito, ou por outro sinal suficiente de sua vontade, para usar como critério de distinção entre o bem e o mal”

Em todos os Estados o legislador é unicamente o soberano, seja este um homem, como numa monarquia, ou uma assembléia, como numa democracia ou numa aristocracia. Porque o legislador é aquele que faz a lei. E só o Estado prescreve e ordena a observância daquelas regras a que chamamos leis, portanto o Estado é o único legislador. Mas o Estado só é uma pessoa, com capacidade para fazer seja o que for, através do representante (isto é, o soberano), portanto o soberano é o único legislador. Pela mesma razão, ninguém pode revogar uma lei já feita a não ser o soberano, porque uma lei só pode ser revogada por outra lei, que proíba sua execução.”

O soberano de um Estado, quer seja uma assembléia ou um homem, não se encontra sujeito às leis civis. Dado que tem o poder de fazer e revogar as leis, pode quando lhe aprouver libertar-se dessa sujeição, revogando as leis que o estorvam e fazendo outras novas”

A lei de natureza e a lei civil contêm-se uma à outra e são de idêntica extensão.”

PODRE!

NUNCA VIU UMA BALANÇA EM SUA EXISTÊNCIA: “há lugar para perguntar de onde derivam aquelas opiniões que se encontram nos livros de eminentes juristas de vários Estados, segundo as quais o poder legislativo depende, diretamente ou por conseqüência, de indivíduos particulares ou juízes subordinados. Como, por exemplo, Que a lei comum só está submetida ao controle do Parlamento, o que só é verdade se o Parlamento detém o poder soberano, e só pode reunir-se ou dissolver-se por sua própria discrição. Pois se outrem tiver o direito de dissolvê-lo, terá o direito de controlá-lo, e conseqüentemente o de controlar seus controles. E caso não exista tal direito o controlador das leis não será o Parlamentum, e sim o Rex in Parlamento.” Última vez que reproduzo essa cansativa cadeia ilógica de H.

AUTODESCRIÇÃO: “é possível que muito estudo fortaleça e confirme sentenças errôneas, e quando se constrói sobre falsos fundamentos quanto mais se constrói maior é a ruína.”

sendo o Estado, em seu representante, uma só pessoa, não é fácil surgir qualquer contradição nas leis, e quando tal acontece a mesma razão é capaz, por interpretação ou alteração, de eliminar a contradição.”

E nos tempos antigos, quando as cartas ainda não eram de uso comum, muitas vezes as leis eram postas em verso, para que o povo inculto, tomando prazer em cantá-las e recitá-las, pudesse mais facilmente guardá-las na memória.”

NÃO SOMOS MAIS NATURAIS? “Todas as leis, escritas ou não, têm necessidade de uma interpretação. A lei de natureza, que não é escrita, embora seja fácil para aqueles que sem parcialidade ou paixão fazem uso de sua razão natural, deixando portanto sem desculpa seus violadores, tornou-se agora apesar disso [??], devido ao fato de haver poucos, ou talvez ninguém que em alguns casos não se deixe cegar pelo amor de si ou qualquer outra paixão [??], a mais obscura de todas as leis [???], e por isso é a que tem mais necessidade de intérpretes capazes.”

Num Estado, a interpretação das leis de natureza não depende dos livros de filosofia moral. Sem a autoridade do Estado, a autoridade de tais filósofos não basta para transformar em leis suas opiniões, por mais verdadeiras que sejam. Tudo o que escrevi neste tratado sobre as virtudes morais, e sua necessidade para a obtenção e preservação da paz, embora seja evidentemente verdadeiro, não passa por isso a ser lei. Se o é, é porque em todos os Estados do mundo faz parte das leis civis. Embora seja naturalmente razoável, é graças ao poder soberano que é lei. Caso contrário, seria um grande erro chamar lei não-escrita à lei de natureza, sobre a qual tantos volumes foram publicados, com tão grande número de contradições, uns dos outros, e de si mesmos.”

o céu e a terra passarão; mas nem um artigo da lei de natureza passará, porque ela é a eterna lei de Deus.”

De maneira semelhante, quando é posto em questão o significado das leis escritas, quem escreve um comentário delas não pode ser considerado seu intérprete. Porque em geral os comentários estão mais sujeitos a objeções do que o texto, suscitando novos comentários, e assim tal interpretação nunca teria fim. Portanto, a não ser que haja um intérprete autorizado pelo soberano, do qual os juízes subordinados não podem divergir, os intérpretes não podem ser outros senão os juízes comuns, do mesmo modo que o são no caso da lei não-escrita.”

Nas Instituições de Justiniano encontramos 7 espécies de leis civis.

1. Os editos, constituições e epístolas do príncipe, isto é, do imperador, porque todo o poder do povo residia nele. São semelhantes a estes as proclamações dos reis da Inglaterra.

2. Os decretos de todo o povo de Roma (incluindo o Senado), quando eram postos em discussão pelo Senado. Inicialmente estes eram leis em virtude do poder soberano que residia no povo, e os que não foram revogados pelos imperadores continuaram sendo leis pela autoridade imperial. Porque de todas as leis que são obrigatórias se entende que são leis em virtude da autoridade de quem tem poder para revogá-las. De certo modo semelhantes a estas leis são os atos do Parlamento da Inglaterra.

3. Os decretos do povo comum (excluindo o Senado), quando eram postos em discussão pelos tribunos do povo. Os que não foram revogados pelo imperador continuaram sendo leis pela autoridade imperial. Eram semelhantes a estes as ordens da Câmara dos Comuns na Inglaterra.

4. Senatus consulta, as ordens do Senado. Porque quando o povo de Roma se tornou demasiado numeroso para poder reunir-se sem inconveniente, o imperador considerou preferível que se consultasse o Senado em vez do povo. Estas têm alguma semelhança com os atos de conselho.

5. Os editos dos pretores, e (em alguns casos) os dos edis, tal como os dos juízes supremos nos tribunais ingleses.

6. Responsa prudentum, que eram as sentenças e opiniões dos juristas a quem o imperador dava autorização para interpretar a lei, e para responder a todos quantos em matéria de lei pediam seu conselho. Respostas essas que os juízes, ao proferirem suas sentenças, eram obrigados a respeitar pelas constituições do imperador. Seriam semelhantes aos relatórios de casos julgados, se as leis inglesas obrigassem os outros juízes a respeitá-las. Porque os juízes da lei comum na Inglaterra não são propriamente juízes, mas juris consulti, aos quais tanto os lordes quanto os 12 homens do povo são obrigados pela lei a pedir conselho.

7. Finalmente, os costumes não-escritos (que são por natureza uma imitação da lei) são autênticas leis, pelo consentimento tácito do imperador, caso não sejam contrários à lei de natureza.” Sempre a falsa simetria Império Romano x Coroa Britânica.

As leis positivas divinas (pois sendo as leis naturais eternas e universais são todas elas divinas) são as que, sendo os mandamentos de Deus (não desde toda a eternidade, nem universalmente dirigidas a todos os homens, mas apenas a um determinado povo, ou a determinadas pessoas), são declaradas como tais por aqueles a quem Deus autorizou a assim declará-las. Mas como pode ser conhecida esta autoridade do homem para declarar quais são essas leis positivas de Deus? Deus pode ordenar a um homem, por meios sobrenaturais, que comunique leis aos outros homens. Mas dado que faz parte da essência da lei que aquele que tem a obrigação receba garantias da autoridade de quem lho declara, aquilo de que não podemos tomar naturalmente conhecimento que seja proveniente de Deus, como é possível, sem revelação sobrenatural, ter a garantia da revelação recebida pelo declarante, e como é possível ter-se a obrigação de obedecer-lhe? Quanto à primeira pergunta, é evidentemente impossível alguém ter a garantia da revelação feita a outrem sem receber uma revelação feita particularmente a si próprio. Mesmo que alguém seja levado a acreditar em tal revelação, devido aos milagres que vê o outro fazer, ou devido à extraordinária santidade de sua vida, ou por ver a extraordinária sabedoria ou o extraordinário sucesso de suas ações, essas não são provas garantidas de uma revelação especial. Os milagres são feitos maravilhosos, mas o que é maravilhoso para um pode não sê-lo para outro. A santidade pode ser fingida, e os sucessos visíveis deste mundo são as mais das vezes obra de Deus através de causas naturais e vulgares. Portanto ninguém pode infalivelmente saber pela razão natural que alguém recebeu uma revelação sobrenatural da vontade de Deus, pode apenas ter uma crença e, conforme seus sinais pareçam maiores ou menores, uma crença mais firme ou uma crença mais frágil.

Quanto à segunda pergunta, como podemos adquirir a obrigação de obedecer-lhe, já não é tão difícil. Porque se a lei declarada não for contrária à lei de natureza (a qual é indubitavelmente a lei de Deus) e alguém se esforçar por obedecer-lhe, esse alguém é obrigado por seu próprio ato; obrigado a obedecer-lhe, não obrigado a acreditar nela; porque as crenças e cogitações interiores dos homens não estão sujeitas aos mandamentos, mas apenas à operação de Deus, ordinária e extraordinária.”

O pacto que Deus fez com Abraão (de maneira sobrenatural) dizia o seguinte: Este é o pacto que deves observar entre mim e ti, e tua semente depois de ti. A semente de Abraão não teve essa revelação, e nem sequer ainda existia, mas participou do pacto, ficando obrigada a obedecer o que Abrão lhes apresentasse como lei de Deus; o que só foi possível em virtude da obediência que deviam a seus pais, os quais (se não estiverem sujeitos a nenhum outro poder terreno, como era o caso de Abraão) têm poder soberano sobre seus filhos e servos. Por outro lado, quando Deus disse a Abraão: Em ti serão abençoadas todas as nações da Terra, pois sei que ordenarás a teus filhos e a tua casa que continuem depois de ti a seguir a via do Senhor, e a observar a retidão e o julgamento, é evidente que a obediência de sua família, que não teve qualquer revelação, dependia da obrigação anterior de obedecer a seu soberano. No monte Sinai, só Moisés subiu até Deus. O povo foi proibido de aproximar-se, sob pena de morte, e mesmo assim foi obrigado a obedecer a tudo quanto Moisés lhe apresentasse como lei de Deus. Com que fundamento, a não ser sua própria submissão, podiam dizer: Fala-nos, e nós te ouviremos, mas que Deus não nos fale, senão morreremos? Estas duas citações mostram suficientemente que num Estado os súditos que não tenham recebido uma revelação segura e certa relativamente à vontade de Deus, feita pessoalmente a cada um deles, devem obedecer como tais às ordens do Estado.” Disparate absurdo!

Penso que as expressões lex civilis e jus civile, quer dizer, lei e direito civil, são usadas promiscuamente para designar a mesma coisa, mesmo entre os mais doutos autores, e não deveria ser assim. Porque direito é liberdade, nomeadamente a liberdade que a lei civil nos permite, e a lei civil é uma obrigação, que nos priva da liberdade que a lei de natureza nos deu. A natureza deu a cada homem o direito de se proteger com sua própria força, e o de invadir um vizinho suspeito a título preventivo, e a lei civil tira essa liberdade, em todos os casos em que a proteção da lei pode ser imposta de modo seguro. Nessa medida, lex e jus são tão diferentes como obrigação e liberdade.”

Hoje jamais passaria pela cabeça do maior libertário ou transgressor revolucionário que “direito” (doutrina, que é o mesmo significado de direito em ‘direito civil’) tenha qualquer relação com “liberdade”! O Direito regulamenta o “direito de ir e vir” significa: A Lei emana suas restrições sobre a faculdade condicional ou possibilidade de ir e vir. Se liberdade fosse, liberdade continuaria a ser. Mas sabemos que em H. a única liberdade – que de fato chamaríamos liberdade – é a da guerra civil de todos contra todos. Então, dada sua obsessão por esta única hipótese-prima de sua cabeça, todo o demais não passa de raciocínio distorcido feito para ajustar as coisas ao seu preconceito principal. Talvez tenha faltado a Thomas Hobbes unicamente um talento para a biologia: estudar melhor e, assim, compreender a natureza e o que ele deveria considerar com mais propriedade como lei de natureza!

Os termos usados na lei são jubeo, injungo, mando e ordeno, e os termos usados numa carta são dedi, concessi, dei e concedi; e o que é dado e concedido a um homem não lhe é imposto por uma lei. Uma lei pode ser obrigatória para todos os súditos de um Estado, mas uma liberdade ou carta destina-se apenas a uma pessoa, ou apenas a uma parte do povo.”

XXVII. DOS CRIMES, DESCULPAS E ATENUANTES

Deliciar-se apenas na imaginação com a idéia de possuir os bens, os servos ou a mulher de um outro, sem qualquer intenção de lhos tirar pela força ou pela fraude, não constitui infração da lei que diz não cobiçarás. Também não é pecado o prazer que se pode ter ao imaginar ou sonhar com a morte de alguém de cuja vida não se pode esperar mais do que prejuízo e desprazer; só o é a resolução de executar qualquer ato que a tal tenda. Porque sentir prazer com a ficção daquilo que agradaria se fosse real é uma paixão tão inerente à natureza tanto do homem como das outras criaturas vivas que fazer disso um pecado seria o mesmo que considerar pecado ser-se um homem.”

todo crime é um pecado, mas nem todo pecado é um crime.” “Distinção esta já feita pelos gregos, nas palavras hamartema, enklema e aitia: das quais a primeira, que se traduz por pecado, significava qualquer espécie de violação da lei, e as duas últimas, que se traduzem por crime, significavam apenas o pecado do qual um homem pode acusar outro. Não há lugar para humana acusação de intenções que nunca se tornam visíveis em ações exteriores. De maneira semelhante, os latinos, com a palavra peccatum (pecado) designavam toda espécie de desvio em relação à lei, e com a palavra crimen (derivada de terno, que significava perceber) designavam apenas os pecados que podem ser apresentados perante um juiz”

Se alguém vier da Índia para nosso país, e persuadir os homens daqui a aceitar uma nova religião, ou lhes ensinar qualquer coisa que tenda à desobediência das leis deste país, mesmo que esteja perfeitamente persuadido da verdade do que ensina, estará cometendo um crime, e pode ser justamente punido pelo mesmo, não apenas por sua doutrina ser falsa, mas também por estar fazendo uma coisa que não aprovaria em outrem, a saber, que partindo daqui procure modificar lá a religião. Mas a ignorância da lei civil serve de desculpa a quem se encontrar num país estranho, até que ela lhe seja declarada, pois até esse momento nenhuma lei civil é obrigatória.”

Das paixões que mais freqüentemente se tornam causas do crime uma é a vanglória, isto é, o insensato sobrestimar do próprio valor. Como se a diferença de valor fosse efeito do talento, da riqueza ou do sangue, ou de qualquer outra qualidade natural, sem depender da vontade dos que detêm a autoridade soberana. De onde deriva a presunção de que as punições ordenadas pelas leis, e geralmente aplicáveis a todos os súditos, não deveriam ser infligidas a alguns com o mesmo rigor com que são infligidas aos homens pobres, obscuros e simples, abrangidos pela designação de vulgo.” “E também os que têm multidões de parentes poderosos, assim como os homens populares, que adquiriram boa reputação junto à multidão, adquirem coragem para violar as leis devido à esperança de dominar o poder ao qual compete mandá-las executar.” “De maneira geral, todos os homens possuídos de vanglória (a não ser que sejam inteiramente timoratos) estão sujeitos à ira, pois têm mais tendência do que os outros a interpretar como desprezo a normal liberdade de conversação.”

De todas as paixões, a que menos faz os homens tender a violar as leis é o medo. (…) Apesar disso, em muitos casos o medo pode levar a cometer um crime.” Corretíssimo, meu caro. Que bom que aditou o corretivo!

os estóicos consideravam crimes igualmente graves matar uma galinha, contra a lei, e matar o próprio pai.” Citação?

Quando alguém se encontra privado de alimento e de outras coisas necessárias a sua vida, e só é capaz de preservar-se através de um ato contrário à lei, como quando durante uma grande fome obtém pela força ou pelo roubo o alimento que não consegue com dinheiro ou pela caridade, ou quando em defesa da própria vida arranca a espada das mãos de outrem, nesses casos o crime é totalmente desculpado”

O BRASIL ANDA MUITO MAL DAS PERNAS, E A DESPEITO DISSO PLANTANDO BANANEIRA… “O mesmo ato praticado contra a lei, se derivar da presunção de força, riqueza e amigos capazes de resistir aos que devem executar a lei, é um crime maior do que se derivar da esperança de não ser descoberto ou de poder escapar pela fuga. Porque a presunção da impunidade pela força é uma raiz da qual sempre brotou, em todas as épocas e devido a todas as tentações, o desprezo por todas as leis, ao passo que no segundo caso o receio do perigo que leva um homem a fugir torna-o mais obediente para o futuro.”

Por exemplo: a lei condena os duelos, e a punição é capital. Em contrapartida, quem recusa um duelo fica sujeito ao desprezo e ao escárnio, irremediavelmente; e por vezes é considerado pelo próprio soberano indigno de desempenhar qualquer cargo de comando na guerra. Dado isso, se alguém aceitar um duelo, levando em conta que todos os homens legitimamente se esforçam por conquistar uma opinião favorável dos detentores do poder soberano, manda a razão que não se aplique um castigo rigoroso, dado que parte da culpa pode ser atribuída a quem castiga.”

Também os atos de hostilidade à situação presente do Estado são crimes maiores do que os mesmos atos praticados contra pessoas privadas, porque o prejuízo se estende a todos. São desse tipo a revelação das forças e dos segredos do Estado a um inimigo, assim como quaisquer atentados contra o representante do Estado, seja ele um monarca ou uma assembléia, e todas as tentativas, por palavras ou atos, para diminuir a autoridade do mesmo, quer no momento presente quer na sucessão. Crimes que os latinos definiam como crimina laesae majestatis, e consistem em propósitos ou atos contrários a uma lei fundamental.”

Também o roubo e dilapidação do tesouro ou da renda pública é um crime maior do que roubar ou defraudar um particular, porque roubar o público é roubar muitos ao mesmo tempo.”

a violação da castidade pela força é mais grave do que por sedução. A de uma mulher casada é mais grave do que a de uma mulher solteira.”

Assim, a ofensa causada por contumélia, seja por palavras ou gestos, quando o único prejuízo que causa é o agravo de quem a recebe, não foi levada em conta pelos gregos, pelos romanos, e por outros Estados tanto antigos quanto modernos, partindo do princípio de que a verdadeira causa do agravo não está na contumélia (que não produz efeitos sobre pessoas conscientes de sua própria virtude), e sim na pusilanimidade de quem se considera ofendido.” Sujeitos como eu não seriam processados em Atenas, nem receberiam ameaças levianas, uma vez que só rebati indivíduos em erro até hoje (não importa com que intensidade, sendo no fim meras palavras, que infligiram indignação provavelmente pela consciência pesada do ofendido). Isso transformaria todo nosso Direito no que concerne a injúrias e calúnias.

Porque matar seus próprios pais é um crime maior do que matar qualquer outro, dado que o pai deve ter a honra de um soberano (embora tenha cedido seu poder à lei civil), pois a tinha originalmente por natureza.”

XXVIII. DAS PENAS E DAS RECOMPENSAS

os danos causados pela autoridade pública, sem condenação pública anterior, não devem ser classificados como penas, mas como atos hostis.”

SOBRE ENCARCERAR LADRÃO DE POTE DE MARGARINA: “é da natureza das penas ter por fim predispor os homens a obedecer às leis, fim esse que não será atingido se a utilidade da pena for menor do que o beneficio da transgressão, e redundará no efeito contrário.”

POR EXTENSÃO, TORNOZELEIRA? “A palavra prisão abrange toda restrição de movimentos causada por um obstáculo exterior, seja uma casa, a que se dá o nome geral de prisão, seja uma ilha, caso em que se diz que as pessoas lá ficam confinadas, seja um lugar onde as pessoas são obrigadas a trabalhar, como antigamente se condenavam as pessoas às pedreiras, e atualmente se condenam às galés, seja mediante correntes ou qualquer outro impedimento.”

O exílio (banimento) ocorre quando por causa de um crime alguém é condenado a sair dos domínios do Estado, ou de uma de suas partes, para durante um tempo determinado ou para sempre ficar impedido de lá voltar. E por sua própria natureza, sem outras circunstâncias, não parece ser uma pena, mas mais uma fuga, ou então uma ordem pública para através da fuga evitar a aplicação da pena. Cícero dizia que jamais tal pena foi aplicada na cidade de Roma, e chamava-lhe um refúgio para quem está em perigo. [Ironicamente Cícero foi exilado.] Se alguém for banido e apesar disso for autorizado a desfrutar de seus bens e do rendimento de suas terras, a simples mudança de ares não constitui uma penalidade, nem contribui para benefício do Estado, em função do qual todas as penas são ditadas (quer dizer, para que a vontade dos homens seja conformada à observância da lei), e muitas vezes constitui um prejuízo para o Estado. Porque um homem banido é um inimigo legítimo do Estado que o baniu, pois não é mais um membro desse Estado. Mas se além disso for privado de suas terras ou bens, nesse caso não é no exílio que a pena consiste, e esta deve ser incluída entre as penas pecuniárias.” Devia voltar à moda.

Mas infligir qualquer dano a um inocente que não é súdito, se for para beneficio do Estado, e sem violação de qualquer pacto anterior, não constitui desrespeito à lei de natureza. Porque todos os homens que não são súditos ou são inimigos ou deixaram de sê-lo em virtude de algum pacto anterior. E contra os inimigos a quem o Estado julgue capazes de lhe causar dano é legítimo fazer guerra, em virtude do direito de natureza original, no qual a espada não julga, nem o vencedor faz distinção entre culpado e inocente, como acontecia nos tempos antigos, nem tem outro respeito ou clemência senão o que contribui para o bem de seu povo. É também com este fundamento que, no caso dos súditos que deliberadamente negam a autoridade do Estado, a vingança se estende legitimamente, não apenas aos pais, mas também à 3ª e 4ª gerações ainda não existentes, que conseqüentemente são inocentes do ato por causa do qual vão sofrer.”

quando o soberano de um Estado estipula um salário para qualquer cargo público, aquele que o recebe é obrigado em justiça a desempenhar seu cargo; no caso contrário, fica apenas obrigado pela honra a reconhecer e a esforçar-se por retribuir. Embora não haja para os homens solução legítima, quando se lhes ordena que abandonem seus negócios pessoais para desempenharem funções públicas, sem recompensa ou salário, mesmo assim não são a tal obrigados, nem pela lei de natureza nem pela instituição do Estado, a não ser que o serviço em questão não possa ser realizado de outra maneira. Porque se considera que o soberano pode fazer uso de todas as capacidades desses homens, desde que a estes se reconheça o mesmo direito que ao mais ínfimo soldado, o de reclamar como uma dívida o pagamento dos serviços prestados.”

Expus até aqui a natureza do homem (cujo orgulho e outras paixões o obrigaram a submeter-se ao governo), juntamente com o grande poder de seu governante, ao qual comparei com o Leviatã, tirando essa comparação dos dois últimos versículos do capítulo 41 de Jó, onde Deus, após ter estabelecido o grande poder do Leviatã, lhe chamou Rei dos Soberbos. Não há nada na Terra, disse ele, que se lhe possa comparar. Ele é feito de maneira a nunca ter medo. Ele vê todas as coisas abaixo dele, e é o Rei de todos os Filhos da Soberba. Mas dado que é mortal, e sujeito à degenerescência, do mesmo modo que todas as outras criaturas terrenas, e dado que existe no céu (embora não na terra) algo de que ele deve ter medo, e a cuja lei deve obedecer, vou falar no capítulo seguinte de suas doenças, e das causas de sua mortalidade; e de quais as leis de natureza a que deve obedecer.”

ao redor dos seus dentes está o terror.

As suas fortes escamas são o seu orgulho, cada uma fechada como com selo apertado.

Uma à outra se chega tão perto, que nem o ar passa por entre elas.

Umas às outras se ligam; tanto aderem entre si, que não se podem separar.

Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pálpebras da alva.

Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela.

Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira.

O seu hálito faz incender os carvões; e da sua boca sai chama.

No seu pescoço reside a força; diante dele até a tristeza salta de prazer.

Os músculos da sua carne estão pegados entre si; cada um está firme nele, e nenhum se move.

O seu coração é firme como uma pedra e firme como a mó de baixo.

Levantando-se ele, tremem os valentes; em razão dos seus abalos se purificam.

Se alguém lhe tocar com a espada, essa não poderá penetrar, nem lança, dardo ou flecha.

Ele considera o ferro como palha, e o cobre como pau podre.

A seta o não fará fugir; as pedras das fundas se lhe tornam em restolho.

As pedras atiradas são para ele como arestas, e ri-se do brandir da lança;

Debaixo de si tem conchas pontiagudas; estende-se sobre coisas pontiagudas como na lama.

As profundezas faz ferver, como uma panela; torna o mar como uma vasilha de ungüento.

Após si deixa uma vereda luminosa; parece o abismo tornado em brancura de cãs.

Jó 41:14-32, descrição deste Moby Dick-Cthulhu que Hobbes decidiu equivaler à “gaiola de ferro weberiana” chamada Estado!

XXIX. DAS COISAS QUE ENFRAQUECEM OU LEVAM À DISSOLUÇÃO DO ESTADO

se os homens se servissem da razão da maneira como fingem fazê-lo, podiam pelo menos evitar que seus Estados perecessem devido a males internos. Pois, pela natureza de sua instituição, estão destinados a viver tanto tempo quanto a humanidade, ou quanto as leis de natureza, ou quanto a própria justiça, que lhes dá vida. Portanto quando acontece serem dissolvidos, não por violência externa, mas por desordem intestina, a causa não reside nos homens enquanto matéria, mas enquanto seus obreiros e organizadores.”

Pois enquanto a fórmula do antigo Estado romano era o Senado e o povo de Roma, nem o Senado nem o povo aspiravam à totalidade do poder, o que primeiro causou as sedições de Tibério Graco, Caio Graco, Lúcio Saturnino e outros, e mais tarde as guerras entre o Senado e o Povo, no tempo de Mário e Sila, e novamente no tempo de Pompeu e César, com a extinção de sua democracia e a instalação da monarquia.” Cf. capítulos 1 e 2 de Merivale, History of the Romans under the Empire vol. I.

os homens adquirem a tendência para debater consigo próprios e discutir as ordens do Estado, e mais tarde para obedecê-las ou desobedecê-las conforme acharem conveniente em seus juízos particulares.”

a lei é a consciência pública”

MAU ECLESIÁSTICO: “Também tem sido freqüentemente ensinado que a fé e a santidade não podem ser atingidas pelo estudo e pela razão,¹ mas sim por inspiração sobrenatural, ou infusão, o que, uma vez aceite, não vejo por que alguém deveria justificar a sua fé, ou por que razão todos os cristãos não seriam também profetas, ou por que razão alguém deveria seguir, como regra de ação, a lei de seu país em vez de sua própria inspiração. E assim caímos outra vez no erro de atribuir a nós mesmos o julgar do bem e do mal, ou de tornar seus juízes esses indivíduos particulares que fingem ser inspirados sobrenaturalmente, o que leva à dissolução de todo governo civil.” “os escritos de teólogos ignorantes, os quais, juntando as palavras das Sagradas Escrituras de uma maneira diversa daquela que é conforme à razão, fazem tudo para levar os homens a pensar que a santidade e a razão natural não podem coexistir.”²

¹ Hoje nem mesmo um homem tolo discordaria deste enunciado, fosse este homem religioso ou pagão; como quer que tenha sido entendido na época de H., este fragmento me parece um tanto fora de propósito!

² Vejamos: em 2000 anos ninguém compreendeu o sentido de “Dai a César o que é de César…”, somente Thomas Hobbes!! Mas a grande ironia é que Cristo não era um fariseu (estudioso). E não disse que César seria sempre César e que a humanidade devesse se prostrar diante dele. César é o bom governante, não o tirano.

o povo dos judeus foi levado a rejeitar Deus e a pedir ao profeta Samuel um rei à maneira das outras nações; do mesmo modo as cidades menores da Grécia foram continuamente perturbadas com sedições das facções aristocrática e democrática, desejando uma parte de quase todos os Estados imitar os lacedemônios e a outra parte os atenienses. E não duvido que muitos homens tenham ficado contentes com as recentes perturbações na Inglaterra à imitação dos Países Baixos, supondo que de nada mais precisavam para se tornar ricos do que mudar, como tinham feito, a forma do seu governo, pois a constituição da natureza humana está em si sujeita ao desejo de novidade.”

Quanto à rebelião contra a monarquia em particular, uma de suas causas mais freqüentes é a leitura de livros de política e de história dos antigos gregos e romanos, da qual os jovens, e todos aqueles que são desprovidos do antídoto de uma sólida razão, recebendo uma impressão forte e agradável das grandes façanhas de guerra praticadas pelos condutores dos exércitos, formam uma idéia agradável (…) e julgam que sua grande prosperidade procedeu, não da emulação de indivíduos particulares, mas da virtude da sua forma de governo popular[,] não atentando nas freqüentes sedições e guerras civis provocadas pela imperfeição da sua política. A partir da leitura de tais livros, os homens resolveram matar seus reis, porque os autores gregos e latinos consideraram legítimo e louvável fazê-lo, desde que antes de matá-lo o chamassem de tirano, pois não dizem que seja legítimo o regicídio, isto é, o assassinato de um rei, mas sim o tiranicídio, isto é, o assassinato de um tirano. (…) Em resumo, não consigo imaginar coisa mais prejudicial a uma monarquia do que a permissão de se lerem tais livros em público, sem mestres sensatos lhes fazerem aquelas correções capazes de retirar-lhes o veneno que contêm, veneno esse que não hesito em comparar à mordida de um cão raivoso, que constitui uma doença denominada pelos físicos hidrofobia, ou medo d’água. Pois aquele que assim foi mordido tem um contínuo tormento de sede e contudo não pode ver a água, e fica num estado como se o veneno conseguisse transformá-lo num cão; do mesmo modo quando uma monarquia é mordida até o âmago por aqueles autores democráticos que continuamente rosnam em suas terras, ela de nada mais precisa do que de um monarca forte, que contudo quando surgir será detestado devido a uma certa tiranofobia, ou medo de ser governado pela força.”

O Ragnarok é uma guerra civil!

a epilepsia ou doença de cair (que os judeus consideravam como uma espécie de possessão pelos espíritos) (…) nesta doença há um espírito não-natural, ou vento na cabeça, que obstrui as raízes dos nervos e que, agitando-os violentamente, faz desaparecer o movimento que naturalmente eles deviam ter como resultado do poder da alma sobre o cérebro, e que por isso causa movimentos violentos e irregulares (que os homens chamam de convulsões) nas partes, a ponto daquele que é tomado por eles cair umas vezes na água, outras vezes no fogo”

muito embora alguns percebam que tal governo não é governo, mas divisão do Estado em 3 facções, e o chamem monarquia mista, a verdade é que não é um Estado independente, mas 3 facções independentes, não uma pessoa representativa, mas 3. No reino de Deus pode haver 3 pessoas independentes sem quebra da unidade no Deus que reina, mas quando são os homens que reinam e estão sujeitos à diversidade de opiniões isso não pode acontecer. Portanto, se o rei representa a pessoa do povo e a assembléia geral também representa a pessoa do povo, e uma outra assembléia representa a pessoa de uma parte do povo, não há apenas uma pessoa, nem um soberano, mas 3 pessoas e 3 soberanos.

Não sei a que doença do corpo natural do homem posso comparar exatamente esta irregularidade de um Estado, mas uma vez vi um homem que tinha outro homem ligado a um de seus lados, com cabeça, braço, tronco e estômago próprios:¹ se tivesse outro homem do outro lado, a comparação podia então ser exata.”

¹ Quase a única lembrança que me restava da leitura do Leviatã durante meu curso de sociologia, em 2009, 11 anos atrás (já agora 12 quando reviso para publicação), e que eu começava a achar que fosse um delírio, pois que o livro passava já da metade e eu não havia encontrado nada parecido com “aquele relato do homem de 2 cabeças”! Ei-lo.

o exército é tão forte e numeroso que se torna fácil acreditar que ele é o povo. Foi por este meio que Júlio César, erguido pelo povo contra o Senado, tendo conquistado para si próprio a lealdade do seu exército, tornou-se senhor tanto do Senado como do povo. E este procedimento de homens populares e ambiciosos é pura rebelião e pode ser comparado aos efeitos da feitiçaria.” Não sei qual é a parte mais tosca dessa passagem: desprezar Júlio César, comparar rebelião social com feitiçaria (era um tardo-medieval, afinal!) ou o fato de ser inconseqüente com a própria filosofia da soberania-a-qualquer-custo: Kill The King (Senate, factions), The King is Dead, Julius Caesar is the King, Long live the King!

XXX. DO CARGO DE SOBERANO REPRESENTANTE

Mas supondo que estes meus princípios não sejam princípios racionais, tenho contudo a certeza de que são princípios tirados da autoridade das Escrituras, como mostrarei quando falar do reino de Deus (administrado por Moisés) sobre os judeus, seu povo dileto por meio de um pacto.”

o espírito da gente vulgar é como papel limpo, pronto para receber seja o que for que a autoridade pública queira nele imprimir.”

aqueles que empreendem reformar o Estado pela desobediência verão que assim o destroem, como as filhas de Peleu que, desejando trazer de volta a juventude do pai decrépito, seguindo o conselho de Medéia, o cortaram em pedaços e o cozinharam juntamente com ervas estranhas, mas não fizeram dele um novo homem.”

É portanto manifesto que a instrução do povo depende totalmente de um adequado ensino da juventude nas Universidades. Mas (podem alguns dizer) não são as Universidades da Inglaterra já suficientemente eruditas para fazer isso? Ou será que querem tentar ensinar às Universidades? Perguntas difíceis.”

a impunidade faz a insolência, a insolência o ódio e o ódio a tentativa de derrubar toda a grandeza opressora e insolente”

Da igualdade da justiça faz parte também a igual imposição de impostos, igualdade que não depende da igualdade dos bens mas da igualdade da dívida que todo homem deve ao Estado para sua defesa. Não é suficiente que um homem trabalhe para a manutenção de sua vida; é necessário também que lute para assegurar seu trabalho. Ou têm de fazer como os judeus fizeram depois do regresso do cativeiro, reedificando o templo com uma mão e segurando a espada com a outra; ou então têm de contratar outros para lutar por eles. Pois os impostos que são cobrados ao povo pelo soberano nada mais são do que os soldos devidos àqueles que seguram a espada pública para defender os particulares no exercício de várias atividades e profissões.” “Pois que razão há para que aquele que trabalha muito e, poupando os frutos do seu trabalho, consome pouco seja mais sobrecarregado do que aquele que vivendo ociosamente ganha pouco e gasta tudo o que ganha, dado que um não recebe maior proteção do Estado do que o outro?”

E sempre que muitos homens, por um acidente inevitável, se tornam incapazes de sustentar-se com seu trabalho, não devem ser deixados à caridade de particulares, mas serem supridos pelas leis do Estado.”

Mas no que diz respeito àqueles que possuem corpos vigorosos, a questão coloca-se de outro modo: devem ser obrigados a trabalhar e, para evitar a desculpa de que não encontram emprego, deve haver leis que encorajem toda a espécie de artes, como a navegação, a agricultura, a pesca e toda a espécie de manufatura que exige trabalho.¹ Aumentando ainda o número de pessoas pobres mas vigorosas, devem ser removidas para regiões ainda não suficientemente habitadas, onde contudo não devem exterminar aqueles que lá encontrarem, mas obrigá-los a habitar mais perto uns dos outros e a não utilizar uma grande extensão de solo para pegar o que encontram, e sim tratar cada pequeno pedaço de terra com arte e cuidado a fim de este lhes dar o sustento na devida época. E quando toda a terra estiver superpovoada, então o último remédio é a guerra, que trará aos homens ou a vitória ou a morte.”

¹ Hoho! Leis que encorajam! Não é porque isso foi dito no século XVII que é menos cretino do que é hoje – leis nunca deram conta da atividade econômica, a não ser de forma negativa (taxação da indústria, alfândega, proibições de venda e consumo de determinados artigos, etc.) – nunca uma lei que não fosse IMPOSITIVA “encorajou” por si só as forças produtivas. Esquece-se que o recurso estatal necessário para efetivar um “encorajamento” é diretamente dependente do próprio recurso e vontade da indústria. Um Estado miserável não veria efeito benéfico algum decorrente de tal lei. Um Estado rico, como o inglês, veria uma indústria cada vez mais forte e monopolista – mas não por causa da Lei, aliás, pelo exato contrário, a idéia da criação da Lei proveio do caráter de comerciante do povo britânico. Ou seja, mero wishful thinking imperialista. Tome como exemplo a Zona Franca de Manaus: o Estado “encorajou” a industrialização em zona de industrialização quase zero, às expensas da parte industrializada do país. Notável realização – não fosse seu caráter um tanto relativo ou módico no quadro geral: hoje Manaus não é uma nova São Paulo, nem o Brasil subiu de patamar no mercado mundial. Assim que os benefícios fiscais cessaram, houve êxodo industrial.

Pois todas as palavras estão sujeitas à ambigüidade, e portanto a multiplicação de palavras no texto da lei é uma multiplicação da ambigüidade. (…) quando vejo quão

curtas eram as leis dos tempos antigos, e como a pouco e pouco se foram tornando mais extensas, penso ver uma luta entre aqueles que escreveram a lei e aqueles que pleiteiam contra ela, procurando os primeiros circunscrever os segundos, e os segundos evitar a circunscrição, tendo estes alcançado a vitória.”

a indignação dispõe os homens não só contra os autores da injustiça, mas também contra todo o poder que parece protegê-los, como no caso de Tarquínio, quando por causa do ato insolente de um de seus filhos foi expulso de Roma, e a própria monarquia foi dissolvida.”

e como todas as espécies de manufatura, também a maldade aumenta por ser vendável. E muito embora às vezes se possa adiar uma guerra civil com tais meios, o perigo torna-se ainda maior e a pública ruína mais certa.”

conhecer aqueles que conhecem as regras de quase todas as artes é em grande parte conhecer também a mesma arte, pois nenhum homem pode certificar-se da verdade das regras dos outros, exceto aquele que primeiro aprendeu a compreendê-las. (…) Nestas regiões da Europa tem sido considerado um direito de certas pessoas fazer parte do mais alto conselho de Estado por herança, o que tem origem nas conquistas dos antigos germanos, nas quais muitos senhores absolutos, reunindo-se para conquistar outras nações, não entrariam na confederação sem aqueles privilégios que pudessem constituir marcas de diferença em tempos vindouros, entre sua posteridade e a posteridade de seus súditos. Sendo esses privilégios incompatíveis com o poder soberano, pela graça do soberano parecem conservá-los, mas lutando por eles como se fossem seus direitos, têm necessariamente de perdê-los a pouco e pouco e por fim não recebem mais honras do que aquelas que resultam naturalmente de suas capacidades.” Implicado nisto está que Hobbes admite que há soberanias e soberanias: a dos germanos era imperfeita. A da Coroa Inglesa, perfeita. Mas por que não haveria de nascer uma soberania mais-que-perfeita em apenas 100 ou 200 anos? Hoje, quem sabe, Hobbes seria um Elon Musk ou acionista majoritário da Coca-Cola, com as mesmíssimas crenças, apenas perfumadas!

XXXI. DO REINO DE DEUS POR NATUREZA

(…)

TERCEIRA PARTE. DO ESTADO CRISTÃO

XXXII. DOS PRINCÍPIOS DA POLÍTICA CRISTÃ

(…)

XXXIII. DO NÚMERO, ANTIGUIDADE, ALCANCE, AUTORIDADE E INTÉRPRETES DOS LIVROS DAS SAGRADAS ESCRITURAS

só posso reconhecer como Sagradas Escrituras, dos livros do Antigo Testamento, aqueles que a autoridade da Igreja da Inglaterra ordenou que fossem reconhecidos como tais. É suficientemente sabido quais são esses livros, sem ser preciso enumerá-los aqui: são os mesmos que são reconhecidos por São Jerônimo, que considera apócrifos os restantes, a saber, a Sabedoria de Salomão, o Eclesiastes [Eclesiástico? Aqui o tradutor pode ter fodido tudo!], Judite, Tobias, o primeiro e o segundo dos Macabeus (apesar de ter visto o primeiro em hebreu), e o terceiro e o quarto de Esdras. Josephus, um sábio judeu que escreveu na época do imperador Domiciano, reconhece 22 dos canônicos, fazendo o número coincidir com o alfabeto hebreu. São Jerônimo faz o mesmo, embora ambos os reconheçam de maneiras diferentes. Porque Josephus conta 5 livros de Moisés, 13 dos Profetas, que escreveram a história de sua própria época (e veremos depois como concordam com os escritos dos profetas contidos na Bíblia) e 4 dos Hinos e preceitos morais. Mas São Jerônimo reconhece 5 livros de Moisés, 8 dos Profetas e 9 outros sagrados escritos, aos quais chama Hagiógrafos. Os Septuaginta, que eram setenta sábios judeus, enviados por Ptolomeu, rei do Egito, para traduzir a lei judia do hebreu para o grego, não nos deixaram, como Sagradas Escrituras em língua grega, nada a não ser o mesmo que é reconhecido pela Igreja da Inglaterra.

Quanto aos livros do Novo Testamento, são igualmente reconhecidos como cânone por todas as Igrejas cristãs e por todas as seitas de cristãos que admitem qualquer livro como canônico.” Eu senti a ironia, safadinho!

CHRIST INC.: “Em primeiro lugar, quanto ao Pentateuco, não constitui argumento suficiente para afirmar que foi escrito por Moisés o fato desse lhe chamar os 5 livros de Moisés. Tal como os títulos do livro de Josué, do livro dos Juízes, do livro de Rute e dos livros dos Reis não são argumentos suficientes para provar que eles foram escritos por Josué, pelos Juízes, por Rute ou pelos Reis. Porque nos títulos dos livros o tema é tão freqüentemente assinalado como o autor. (…) Lemos no último capítulo do Deuteronômio, versículo 6, a respeito do sepulcro de Moisés, que ninguém conhecia seu sepulcro até este dia, isto é, até o dia em que essas palavras foram escritas. Portanto é manifesto que essas palavras foram escritas depois de seu funeral. Porque seria uma estranha interpretação dizer que Moisés falou de seu próprio sepulcro (mesmo por profecia), afirmando que não foi encontrado até um dia no qual ele ainda estava vivo.” “De maneira semelhante, nos Números 21:14, o autor cita outro livro mais antigo, intitulado O Livro das Guerras do Senhor, onde foram registrados os feitos de Moisés no mar Vermelho e na ponte de Arnon. Fica assim perfeitamente evidente que os 5 livros de Moisés foram escritos depois de seu tempo, embora não seja manifesto quanto tempo depois.”

Ora, o verso não é o estilo habitual dos que se encontram em grande aflição, como , nem dos que vão confortá-los como amigos. Mas nos tempos antigos era freqüente em filosofia, sobretudo em filosofia moral.

Os Salmos foram escritos em sua maioria por Davi, para uso dos cantores. A eles foram acrescentados alguns cantos de Moisés e outros homens santos, sendo alguns deles posteriores ao regresso do cativeiro, como o 137 e o 126, por onde fica manifesto que o Saltério foi compilado e posto na forma atual depois do regresso dos judeus de Babilônia.”

Os livros do Eclesiastes e dos Cânticos não têm nada que não seja de Salomão, a não ser os títulos e inscrições. Porque As palavras do pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém, e O Cântico dos Cânticos parecem ter sido feitos para fins de distinção, quando os livros das Escrituras foram reunidos num único corpo de lei, para que também os autores, e não só a doutrina, pudessem subsistir.”

Dos profetas, os mais antigos são Sofonias, Jonas, Amós, Oséias, Isaías e Miquéias, que viveram no tempo de Amazias e Azarias, ou Ozias, reis de Judá. Mas o livro de Jonas não é propriamente um registro de sua profecia (a qual está contida em poucas palavras: Quarenta dias e Nínive será destruída), mas a história ou narração de sua rebeldia e desrespeito aos mandamentos de Deus; assim, dado que ele é o tema do livro, há pouca probabilidade de que seja também seu ator. Mas o livro de Amós é sua própria profecia. Jeremias, Abdias, Nahum e Habacuc profetizaram no tempo de Josias. Ezequiel, Daniel, Ageu e Zacarias profetizaram no cativeiro.

Quanto ao tempo em que Joel e Malaquias profetizaram, não se torna evidente a partir de seus escritos. Mas examinando as inscrições ou títulos de seus livros fica bastante claro que todas as Escrituras do Antigo Testamento foram postas na forma que possuem após o regresso dos judeus do cativeiro em Babilônia, e antes do tempo de Ptolomeu Filadelfo (…) E se os livros Apócrifos (…) neste ponto merecem crédito, as Escrituras foram postas na forma que lhes conhecemos por Esdras.”

Os autores do Novo Testamento viveram todos menos de uma geração depois da Ascensão de Cristo, e todos eles viram nosso Salvador, ou foram seus discípulos, com exceção de São Paulo e São Lucas. Em conseqüência, tudo o que por eles foi escrito é tão antigo como a época dos apóstolos. (…) o concílio de Laodicéia é o primeiro que conhecemos a recomendar a Bíblia às Igrejas cristãs, como sendo os escritos dos profetas e apóstolos, e esse concílio se reuniu no ano de 364 depois de Cristo.”

UM ARQUEÓLOGO DE FÉ: “E nessa época, embora até então a ambição fosse o que dominava entre os grandes doutores da Igreja, fazendo-os deixar de reconhecer os imperadores, apesar de cristãos, como pastores, mas só como ovelhas, e considerar como lobos os imperadores não-cristãos, e de se terem esforçado por apresentar sua doutrina, não como conselho e informação, na qualidade de pregadores, mas como leis, na qualidade de governantes absolutos; embora tais fraudes pretendessem tornar o povo mais piedoso e mais obediente à doutrina cristã; apesar de tudo isto estou convencido de que isso não os levou a falsificar as Escrituras, embora as cópias dos livros do Novo Testamento estivessem apenas nas mãos dos eclesiásticos, pois se tivessem a intenção de assim fazer sem dúvida os teriam tornado mais favoráveis do que são a seu poder sobre os príncipes cristãos. Portanto, não vejo qualquer razão para duvidar que o Antigo e o Novo Testamento, tais como atualmente os conhecemos, são os verdadeiros registros das coisas que foram feitas e ditas pelos profetas e apóstolos. Assim, talvez alguns daqueles livros que são chamados Apócrifos não tenham sido deixados fora do cânone por inconformidade de doutrina com o restante, mas apenas por não terem sido encontrados em hebreu. Porque depois da conquista da Ásia por Alexandre, o Grande, eram poucos os judeus cultos que não conheciam perfeitamente a língua grega.”

XXXIV. DO SIGNIFICADO DE ESPÍRITO SANTO, ANJO E INSPIRAÇÃO NOS LIVROS DAS SANTAS ESCRITURAS

substância e corpo significam a mesma coisa. Portanto, substância incorpórea são palavras que, quando reunidas, se destroem uma à outra, tal como se alguém falasse de um corpo incorpóreo.”

Não vou examinar como chegamos a traduzir espíritos pela palavra fantasmas, que nada significa, nem no céu nem na terra, a não ser os habitantes imaginários do cérebro do homem. Digo apenas que no texto a palavra espírito não significa tal coisa, e ou significa propriamente uma substância real, ou significa metaforicamente alguma aptidão ou afecção extraordinária da mente ou do corpo.”

os judeus, com o mesmo fundamento, sem haver nada no Antigo Testamento que a tal os obrigasse, eram geralmente de opinião (com exceção da seita dos saduceus) de que essas aparições (que por vezes a Deus aprazia fazer surgir na imaginação dos homens, para seu próprio serviço, e portanto lhes chamava seus anjos) eram substâncias independentes da imaginação, e criaturas permanentes de Deus. Assim, os que julgavam bons para eles eram considerados anjos de Deus, e os que julgavam ser-lhes prejudiciais eram chamados anjos maus ou espíritos malignos. Como era o caso do espírito de Píton, e dos espíritos dos loucos, dos lunáticos e dos epilépticos.”

se torna evidente que anjo significa aqui simplesmente o próprio Deus, o qual fez sobrenaturalmente que Agar ouvisse uma voz vinda do céu; ou melhor, trata-se simplesmente de uma voz sobrenatural, testemunhando a presença especial de Deus. Sendo assim, por que não poderão os anjos que apareceram a Ló, e são chamados homens (Gên 19:13), e aos quais, embora fossem dois, Ló falou como se fosse só um (vers. 18), e a esse um como se fosse Deus (porque as palavras são: Ló lhes disse: ‘Não, rogo-vos, Senhor!’), ser entendidos como imagens de homens, sobrenaturalmente formadas na imaginação, tal como antes um anjo foi entendido como uma voz imaginada? Quando o anjo chamou a Abraão desde o céu, para que detivesse sua mão que ia matar Isaac (Gên 22:11), não houve aparição, mas apenas uma voz. A qual não obstante foi com bastante propriedade chamada mensageiro ou anjo de Deus, pois declarou sobrenaturalmente a vontade de Deus, o que evita o esforço de supor quaisquer fantasmas permanentes. Os anjos que Jacó viu na escada do céu (Gên 28:12) eram uma visão de seu sonho, portanto eram apenas uma fantasia e um sonho”

Embora em Daniel encontremos dois nomes de anjos, Gabriel e Miguel, o próprio texto deixa claro (Dan 12:1) que por Miguel se entende o Cristo, não como anjo, mas como príncipe; [?] e que Gabriel (tal como as idênticas aparições a outros santos durante o sono) não passava de um fantasma sobrenatural, pelo qual pareceu a Daniel, em seu sonho, que estando dois santos falando um deles disse ao outro: Gabriel, vamos fazer este homem entender sua visão. Porque Deus não precisa de distinguir seus servos celestes com nomes, que só se tornam úteis para as curtas memórias dos mortais.”

XXXV. DO SIGNIFICADO DE REINO DE DEUS E SANTO NAS ESCRITURAS

É a isto que se chama o Antigo Pacto ou Testamento, que encerra um contrato entre Deus e Abraão, mediante o qual Abraão fica obrigado, assim como sua posteridade, a ficar sujeito de maneira peculiar à lei positiva de Deus, porque à lei moral já estava obrigado antes, através de um juramento de obediência. Embora ainda não seja dado a Deus o nome de rei, nem a Abraão e sua descendência o nome de reino, a coisa é a mesma, a saber, a instituição mediante um pacto da soberania peculiar de Deus sobre a descendência de Abraão.”

Este pacto, no sopé do monte Sinai, foi renovado por Moisés (Êx 19:5) quando o Senhor ordenou a Moisés que falasse ao povo desta maneira: Se efetivamente obedecerdes a minha voz e respeitardes meu pacto, então sereis um povo peculiar para mim, pois toda a terra me pertence. E sereis sob mim um reino sacerdotal e uma nação santa. Povo peculiar era, no latim vulgar, peculium de cunctis populis; na tradução inglesa feita no reinado de Jaime, um tesouro peculiar sob mim, acima de todas as nações, e a tradução francesa de Genebra, a jóia mais preciosa de todas as nações. Mas a tradução correta é a primeira, [claro que H. não seria herético com um rei seu] pois é confirmada pelo próprio São Paulo (Ti[Te?] 2:14), quando diz, aludindo a essa passagem, que nosso abençoado Salvador se deu a si mesmo por nós, com o fim de purificar-nos para si mesmo, como um povo peculiar (isto é, extraordinário). Por que em grego a palavra é periorisios, que geralmente se opõe à palavra epiorisios, e, assim como esta significa vulgar, cotidiano, ou (como na oração do Senhor) de uso diário, assim também a outra significa excedente, e armazenado, e gozado de maneira especial, e é a isso que os latinos chamavam peculium. E este significado da passagem é confirmado pela razão para ela dada por Deus imediatamente a seguir, onde ele acrescenta: Todas as nações do mundo são minhas, mas não é dessa maneira que sois meus, e sim de uma maneira especial. Porque elas são minhas em virtude do meu poder, mas vós sereis meus por vosso próprio consentimento e pacto.”

A tradução inglesa acima referida, seguindo a de Genebra, refere um reino de sacerdotes, o que ou significa a sucessão de um sumo-sacerdote após outro, ou então não está de acordo com São Pedro nem com o exercício do sumo-sacerdócio.”

por Reino de Deus se entende propriamente um Estado, instituído (pelo consentimento dos que lhe iriam ficar sujeitos) para seu governo civil e para o controle de seu comportamento, não apenas para com Deus, seu soberano, mas também uns para com os outros em matéria de justiça, e para com as outras nações tanto na paz como na guerra.”

Mas há muitas outras passagens que provam claramente o mesmo. Em primeiro lugar (I Sam 8:7) aquela em que os anciãos de Israel (revoltados com a corrupção dos filhos de Samuel) pediram um rei, e Samuel mostrou seu desagrado e orou ao Senhor, e o Senhor em resposta lhe disse: Escuta a voz do povo, pois não foi a ti que eles rejeitaram, foi a mim, para que não reine sobre eles. Onde é evidente que o próprio Deus era então seu rei, e que Samuel não comandava o povo, mas apenas a ele comunicava o que de vez em quando Deus lhe ditava.” “E depois de os israelitas rejeitarem Deus os profetas predisseram sua restituição (Is 24:23): Então a Lua ficará confundida, e o Sol ficará envergonhado, quando o Senhor das Hostes reinar no monte Sion e em Jerusalém.”

E no Novo Testamento o anjo Gabriel disse de nosso Salvador (Lc 1:32-33): Ele será grande, e será chamado o Filho do Altíssimo, e o Senhor lhe dará o trono de seu pai Davi; e ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó e seu reino não mais terá fim. Aqui também se trata de um reino na terra, e foi porque o reclamou que lhe foi dada a morte, como inimigo de César. A insígnia de sua cruz era Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus; por escárnio, foi coroado com uma coroa de espinhos; e por sua proclamação diz-se dos discípulos (At 17:7): Isso todos eles fizeram contrariamente aos decretos de César, dizendo que havia um outro rei, chamado Jesus. Portanto, o Reino de Deus é um reino real, não um reino metafórico, e é neste sentido que é tomado, não só no Antigo Testamento como também no Novo. Quando dizemos porque teu é o Reino, o Poder e a Glória, deve entender-se o Reino de Deus pela força de nosso pacto, e não pelo direito do poder de Deus”

XXXVI. DA PALAVRA DE DEUS E DOS PROFETAS

Abraão é chamado profeta (Gên 20:7), quando num sonho Deus fala a Abimelec desta maneira: Restitui portanto agora ao homem sua mulher, porque ele é um profeta, e rezará por ti, de onde se pode também concluir que o nome de profeta pode ser dado, e não impropriamente, aos que nas igrejas cristãs têm a vocação de dizer orações públicas para a congregação.”

A profecia não é uma arte, nem tampouco (quando é tomada como predição) uma vocação constante, mas um emprego extraordinário e temporário por Deus, na maior parte dos casos de homens bons, mas às vezes também de homens maus.” A profecia era uma técnica falha. Exemplo: psicanálise.

XXXVII. DOS MILAGRES E SEU USO

O primeiro arco-íris que foi visto no mundo foi um milagre, porque foi o primeiro, e conseqüentemente era estranho. E serviu como um sinal de Deus, colocado no céu, para garantir a seu povo que não haveria mais destruição universal do mundo pelas águas. Mas atualmente, como é freqüente, não é um milagre nem para os que conhecem suas causas naturais, nem para os que não as conhecem.”

as obras de Deus no Egito, pela mão de Moisés, foram propriamente milagres, porque foram feitas com a intenção de levar o povo de Israel a acreditar que Moisés não fôra até eles por qualquer desígnio dependente de seu próprio interesse, e sim como enviado de Deus.”

Seria demasiado longo enumerar as diversas espécies desses homens a quem os gregos chamavam thaumaturgi, quer dizer, capazes de coisas maravilhosas; mas tudo o que eles fazem, fazem-no apenas graças a sua habilidade.”

em nosso tempo não ouvi falar de um único homem que tenha visto qualquer dessas obras maravilhosas, feita pelo encantamento, ou palavra, ou prece de alguém, que seja considerada sobrenatural pelos que são dotados de uma razão um pouco mais que medíocre.”

XXXVIII. DO SIGNIFICADO DE VIDA ETERNA, INFERNO, SALVAÇÃO, MUNDO VINDOURO E REDENÇÃO NAS ESCRITURAS

Quanto ao lugar onde os homens deverão gozar essa vida eterna que Cristo conseguiu para eles, os textos acima citados parecem indicar que é na terra. Pois tal como em Adão todos morreram, isto é, perderam o Paraíso e a vida eterna na terra, assim também em Cristo todos serão vivificados; portanto, todos os homens deverão viver na terra, pois caso contrário a comparação não seria própria. Com isto parece concordar o salmista (Sal 133:3): Sobre Sião envia Deus a bênção, e também a vida perpétua; pois Sião é em Jerusalém, na terra. E também São João (Apo 2:7): Ao que resistir darei a comer da árvore da vida, que fica no meio do Paraíso de Deus. Esta era a árvore da vida eterna de Adão, e essa vida era para ser na terra.”

Dado que Adão e Eva, se não tivessem pecado, teriam vivido na terra eternamente, em suas pessoas individuais, é manifesto que não teriam procriado continuadamente sua espécie. Porque se as almas imortais fossem capazes de geração, como é hoje o gênero humano, em pouco tempo não haveria mais lugar na terra para se ficar. Os judeus que perguntaram a nosso Salvador quem seria na ressurreição o marido da mulher que havia desposado muitos irmãos desconheciam quais eram as conseqüências da vida eterna, e por isso nosso Salvador lhes lembrou essa conseqüência da imortalidade: que não haverá geração, e conseqüentemente não haverá casamento, tal como não há casamento nem geração entre os anjos. A comparação entre aquela vida eterna que Adão perdeu e a que nosso Salvador recuperou por sua vitória sobre a morte também é válida nisto, que tal como Adão perdeu a vida eterna por seu pecado e contudo ainda viveu algum tempo depois disso, assim também o fiel cristão recuperou a vida eterna pela paixão de Cristo, embora morra de morte natural e continue morto durante algum tempo, até a ressurreição.” Sei que a conseqüência e coesão hobbesianas são perfeitas de um ponto de vista teológico o exegético, mas não é possível ler essas passagens sem sentir que desperdiçamos nosso tempo com tolices!

Não é fácil concluir, de qualquer texto que eu possa encontrar, que o lugar onde os homens irão viver eternamente, depois da ressurreição, seja o céu, entendendo-se por céu aquelas partes do mundo que são mais distantes da terra, onde ficam as estrelas, ou acima das estrelas, num outro céu mais alto chamado coelum empyreum (que não tem referência nas Escrituras, nem fundamento na razão). Por Reino do Céu entende-se o reino do Rei que habita no céu, e seu reino era o povo de Israel, ao qual ele governava através dos profetas seus lugar-tenentes, primeiro Moisés e depois dele Eleazar e os Soberanos-Sacerdotes, até que no tempo de Samuel esse povo se revoltou e escolheu como rei um mortal, à maneira das outras nações. E quando Cristo, nosso Salvador, através da pregação de seus ministros, convencer os judeus a voltar e chamar os gentios a sua obediência,¹ então haverá um novo Reino do Céu, porque então nosso rei será Deus, cujo trono fica no céu, sem que nas Escrituras haja qualquer necessidade evidente de que os homens ascendam até essa felicidade mais alto do que o escabelo onde Deus apoia os pés, isto é, a terra. Pelo contrário, está escrito (Jo 3:13) que ninguém ascenderá ao céu a não ser aquele que desceu do céu, o filho do homem que está no céu.”

¹ Mais conhecido como nunca.

Que a alma do homem seja eterna por sua própria natureza, e uma criatura viva independente do corpo, ou que qualquer simples homem seja mortal sem ser pela ressurreição no último dia (com exceção de Enoque e Elias) é uma doutrina que não é manifesta nas Escrituras.” O negrito denuncia: a mitologia nunca se purifica/esteriliza totalmente antes de petrificar-se em religião.

Mas como esta doutrina (apesar de provada por não poucas ou obscuras passagens das Escrituras) será pela maioria considerada uma novidade, limito-me a propô-la, nada sustentando quanto a este ou qualquer outro paradoxo da religião; esperando o fim daquela disputa pela espada, a respeito da autoridade (ainda não decidida entre meus concidadãos)¹ pela qual toda espécie de doutrina deverá ser aprovada ou rejeitada, e de quem dará as ordens, tanto oralmente como por escrito, que devem ser obedecidas (sejam quais forem as opiniões dos particulares) por todos os homens que pretendem ser protegidos pelas leis. Porque as questões de doutrina relativas ao Reino de Deus têm tamanha influência sobre o reino dos homens que só podem ser decididas por quem abaixo de Deus detém o poder soberano.” Guerra civil entre Estados…

¹ 2021: sem atualizações. A Irlanda católica que o diga, aliás!

O nome do lugar onde até à ressurreição ficam todos os homens, quer tenham sido enterrados ou engolidos pela terra, é geralmente designado nas Escrituras por palavras que significam debaixo de terra. Os latinos usavam sobretudo Infernus e Inferi, e os gregos Hades. Quer dizer, um lugar onde os homens não podem ver, compreendendo-se tanto o sepulcro como qualquer outro lugar mais profundo.¹ Mas o lugar dos condenados depois da ressurreição não está determinado, quer no Antigo quer no Novo Testamento, por qualquer indicação de situação, mas apenas pela companhia: que será no lugar para onde foram os homens perversos que Deus, em ocasiões anteriores, e de maneira extraordinária e miraculosa, fez desaparecer da face da terra. (…) Como por exemplo que estão in Inferno, in Tartarus, ou no poço sem fundo; porque Corah, Dathan e Abirom foram engolidos vivos pelo chão. Não que os autores das Escrituras pretendessem fazer-nos acreditar que poderia haver no globo terráqueo, que não é infinito, e além disso não é (se comparado com a altura das estrelas) de grandeza considerável, um poço sem fundo; quer dizer, um buraco de profundidade infinita, como os gregos em sua Demonologia (quer dizer, em sua doutrina a respeito dos demônios), e depois deles os romanos, chamavam Tartarus. Do qual Virgílio diz,

Bis patet in praeceps, tantum tenditque sub umbras,

Quantum ad aetherum coeli suspectus Olympum”

¹ Metáfora para a morte, seu estúpido!

TRANSMIGRAÇÃO PARA O REINO PRIMITIVO? “Por outro lado, como aqueles poderosos homens da terra, que viveram no tempo de Noé, antes do dilúvio (e a quem os gregos chamavam heróis,¹ e as Escrituras gigantes, e ambos dizem que foram produzidos pela copulação dos filhos de Deus com os filhos dos homens),² foram por causa de sua vida perversa destruídos pelo dilúvio geral, o lugar dos condenados também é às vezes assinalado pela companhia desses gigantes mortos, como nos Prov 21:16: O homem que se extravia do caminho do entendimento irá permanecer na congregação dos gigantes; e em Jo 26:5: Contemplai os gigantes gemendo sob as águas, e os que moram com eles. Neste caso o lugar dos condenados é debaixo d’água.”

¹ Depois do próprio Dilúvio deles!

² Como funciona isso? Dá para explicar melhor?

ATÉ A CIDADE DE DEUS NECESSITA ESCRAVOS: “Em terceiro lugar, dado que as cidades de Sodoma e Gomorra, devido a sua perversidade, foram pela ira extraordinária de Deus consumidas com o fogo e o enxofre, e porque juntamente com elas a região ao redor fez-se um pestilento lago betuminoso, o lugar dos condenados é por vezes expresso pelo fogo e como um lago fervente. Por exemplo, no Apocalipse, 21:8: Mas os timoratos,[?] os incrédulos e abomináveis, assim como os assassinos, os fornicadores, os feiticeiros e idólatras, e todos os mentirosos, terão sua parte no lago que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte. Fica assim manifesto que o fogo do Inferno, aqui expresso por metáfora, a partir do fogo verdadeiro de Sodoma, não significa uma espécie ou lugar determinado de tormento, mas deve ser tomado indefinidamente, como destruição, como é o caso em 20:14, onde se diz que a morte e o Inferno foram lançados ao lago de fogo, quer dizer, foram abolidos e destruídos. Como se depois do juízo final não houvesse mais mortes, nem se fosse mais para o Inferno, quer dizer, não se fosse mais para o Hades (palavra da qual talvez derive a que usamos), o que é o mesmo que não mais se morrer.”

A BÍBLIA PREVIU AMONG US: “Em quarto lugar, a partir da praga das trevas infligida aos egípcios, sobre a qual está escrito: Eles não se viam uns aos outros, e ninguém saiu de onde estava durante três dias, mas todos os filhos de Israel tinham luz em suas moradas; chama-se ao lugar dos perversos depois do Julgamento as trevas absolutas ou (conforme o original) trevas exteriores. É o que está expresso (Mt 22:13) quando o rei ordena a seus servos que amarrem mãos e pés do homem que não tinha vestido sua roupa de casamento, e que o expulsem eis to skotos to exoteron, para as trevas de fora ou trevas exteriores; o que quando traduzido por trevas absolutas não significa a grandeza dessas trevas, mas onde elas ficam, a saber, fora da morada dos eleitos de Deus.”

Por último, havia um lugar perto de Jerusalém, chamado vale dos filhos de Hinon, numa parte do qual, chamada Tophet, os judeus haviam cometido a mais tremenda idolatria, sacrificando seus filhos ao ídolo Moloch, onde também Deus havia infligido a seus inimigos os mais tremendos castigos, e onde Josias havia incinerado os sacerdotes de Moloch sobre seus altares, como se verifica em geral em 2 Rs 23. Mais tarde o lugar servia para acumular o lixo e o esterco lá levado da cidade, e lá se costumava de vez em quando fazer fogueiras, para purificar o ar e eliminar o cheiro à putrefação. Depois disso os judeus passaram a denominar o lugar dos condenados a partir deste lugar abominável, com o nome de Gehena ou vale de Hinon. E Gehena é a palavra que agora habitualmente se traduz por inferno, e é a partir das fogueiras que lá de vez em quando ficavam ardendo que temos a noção de fogo perpétuo e inextinguível.”

Ora visto não haver ninguém [sempre há] que interprete as Escrituras no sentido de, depois do dia do julgamento, os perversos deverem ser eternamente punidos no vale de Hinon, ou de eles ressuscitarem para depois ficarem eternamente debaixo do chão ou d’água, ou de depois da ressurreição nunca mais se verem uns aos outros, ou não se mexerem do lugar onde estão, segue-se necessariamente, creio eu, que o que se diz a respeito do fogo do Inferno é dito metaforicamente, e portanto há um sentido próprio a procurar (porque para todas as metáforas há um fundamento real, capaz de ser expresso em termos próprios) tanto para o lugar do Inferno quanto para a natureza dos tormentos infernais e dos atormentadores. Em primeiro lugar, a natureza e propriedades dos atormentadores são exata e propriamente expressas pelo nome do inimigo, ou Satanás, o acusador, ou Diabolus, e o destruidor, ou Abadon. Estes nomes significativos, Satanás, Diabo e Abadon, não nos apresentam nenhuma pessoa individual, como é costume com os nomes próprios, mas apenas uma função ou qualidade, sendo portanto apelativos; os quais não deviam ter deixado de ser traduzidos, como é o caso nas Bíblias latinas e modernas, porque assim parecem ser os nomes próprios de demônios, e fica mais fácil os homens serem levados a acreditar na doutrina dos diabos, que nesse tempo era a religião dos gentios, e era contrária à de Moisés e de Cristo. E dado que inimigo, acusador e destruidor são termos que significam o inimigo daqueles que estarão no Reino de Deus, se depois da ressurreição o Reino de Deus ficar na terra, o inimigo e seu reino devem também situar-se na terra. Pois também assim era no tempo anterior à deposição de Deus pelos judeus. Porque o reino de Deus era na Palestina, e as nações circunvizinhas eram os reinos do inimigo, e assim por Satanás se entende qualquer inimigo terreno da Igreja.” Me parece, então, que já estamos vivendo este Pós-Apocalipse e que a Nova Zelândia é a Civitas Dei.

Será que no inferno lê-se a Bíblia? Isto é, o condenado, como o presidiário, poderia se converter post facto?

Embora haja muitas passagens onde se fale do fogo e dos tormentos perpétuos (nos quais é possível lançar pessoas sucessivamente e umas atrás das outras, para sempre), não encontro nenhuma onde se afirme que lá haverá uma vida eterna para qualquer pessoa individual, e sim, pelo contrário, uma morte perpétua, que é a segunda morte:¹ Porque quando a morte e o sepulcro tiverem entregue os mortos que lá estavam, e cada homem tiver sido julgado conforme suas ações, a morte e o sepulcro serão também lançados ao lago de fogo. Isto é a segunda morte. Por onde fica evidente que deverá haver uma segunda morte para todos os que forem condenados no dia do juízo, depois da qual não mais morrerão.” É só isso então? Tanto terror por causa de uma segunda vida de Sísifo?

¹ É só uma metáfora, idiota! Talvez para a própria morte perpétua, absurdo crível para os crentes! Você mesmo disse que com a morte lançada ao lago de fogo não havia mais mortes, tolo!

O livro de Samuel gera alguns probleminhas e dores de cabeça para os ‘exegetas de contexto’: o único profeta que relata ascensões ante-cristãs ao Céu e salvações excepcionais, etc.

Com a salvação, o que nos espera é um glorioso reino de nosso rei, por conquista, e não a segurança através da fuga; portanto, quando procuramos a salvação devemos também procurar o triunfo; e antes do triunfo, a vitória; e antes da vitória, a batalha; a qual é impossível supor que se dê no céu.”

ISAÍAS TAMBÉM É PROBLEMÁTICO: “a salvação será na terra, quando Deus reinar em Jerusalém, por ocasião do retorno de Cristo; e de Jerusalém virá a salvação dos gentios que serão recebidos no Reino de Deus, como é também declarado pelo mesmo profeta (Isaías)”

XXXIX. DO SIGNIFICADO DA PALAVRA IGREJA NAS ESCRITURAS

os padres gregos lhe chamavam kyriake, a casa do Senhor, e a partir daí nossa língua passou a chamar-lhe kyrke e igreja. Quando não é usada no sentido de uma casa, a palavra igreja significa o mesmo que Ecclesia significava nos Estados gregos, quer dizer, uma congregação ou assembléia de cidadãos convocada para ouvir falar o magistrado. A qual no Estado de Roma se chamava Concio, e aquele que falava era chamado Ecclesiastes e Concionator. E quando a assembléia era convocada pela autoridade legítima ela era chamada Ecclesia legitima, uma igreja legítima, ennomos ekklesia. Mas quando ela era perturbada por clamores tumultuosos e sediciosos era considerada uma igreja confusa, ekklesia synklexymene. Às vezes a palavra também é usada para designar os homens que têm o direito de fazer parte da congregação, mesmo quando não se encontram efetivamente reunidos; quer dizer, para designar toda a multidão dos cristãos, por mais dispersos que possam estar. Como em Atos 8:3, onde se diz que Saulo assolava a Igreja. E neste sentido se diz que Cristo é a cabeça da Igreja. Às vezes a palavra também designa uma certa parte dos cristãos, como em Col 4:15: Saudai a igreja que está em sua casa. E às vezes também apenas no sentido dos eleitos, como em Ef 5:27: Uma Igreja gloriosa, sem manchas nem rugas, sagrada e sem mácula; o que se diz da Igreja triunfante, ou Igreja vindoura. Às vezes designa uma congregação reunida, cujos membros professam o cristianismo, quer essa profissão seja verdadeira ou fingida, conforme se verifica em Mt 18:17, onde se diz: Di-lo à Igreja e, se recusar ouvir a Igreja, que ele seja para ti como um gentio, ou um publicano.”

não existe na terra qualquer Igreja universal a que todos os cristãos sejam obrigados a obedecer, pois não existe na terra um poder ao qual todos os outros Estados se encontrem sujeitos. Existem cristãos, nos domínios dos diversos príncipes e Estados, mas cada um deles está sujeito àquele Estado do qual é um dos membros, não podendo em conseqüência estar sujeito às ordens de qualquer outra pessoa. Portanto uma Igreja que seja capaz de mandar, julgar, absolver, condenar ou praticar qualquer outro ato é a mesma coisa que um Estado civil formado por homens cristãos, e chama-se-lhe um Estado civil por seus súditos serem homens, e uma Igreja por seus súditos serem cristãos. Governo temporal e espiritual são apenas duas palavras trazidas ao mundo para levar os homens a se confundirem, enganando-se quanto a seu soberano legítimo. (…) Os doutores da Igreja são chamados pastores, e assim o são também os soberanos civis. Mas se entre os pastores não houver alguma subordinação, de maneira a que haja apenas um chefe dos pastores, serão ensinadas aos homens doutrinas contrárias, que poderão ser ambas falsas, e das quais uma necessariamente o será. Quem é esse chefe dos pastores, segundo a lei de natureza, já foi mostrado: é o soberano civil.”

XL. DOS DIREITOS DO REINO DE DEUS EM ABRAÃO, MOISÉS, NOS SUMOS E NOS REIS DE JUDÁ

Morto Aarão e depois dele também Moisés, o reino, por ser um reino sacerdotal, passou em virtude do pacto ao filho de Aarão, Eleazar, o Sumo-Sacerdote. E Deus declarou-o soberano (logo a seguir a ele), ao mesmo tempo que designou Josué para general de seu exército.”

O intervalo entre a morte de Josué e a época de Saul é freqüentemente indicado no livro dos Juízes do seguinte modo: que nesses dias não havia rei em Israel; e algumas vezes com esta adição, que cada homem fazia aquilo que a seus olhos era certo. Pelo que deve entender-se que onde se diz não havia rei, isso significa não havia soberano poder em Israel. E assim era, se considerarmos o ato e o exercício de tal poder. Pois depois da morte de Josué e Eleazar, surgiu uma outra geração (Jz 2:10) que não conhecia o Senhor, nem as obras que tinha feito por Israel, e que procedeu mal perante o Senhor e serviu Baal.” “E os judeus tinham aquela qualidade que São Paulo observou: procurar um sinal, não só antes de se submeterem ao governo de Moisés, mas também depois de se terem comprometido por sua submissão.”

Portanto, seja qual for a obediência prestada a qualquer dos juízes (que eram homens escolhidos extraordinariamente por Deus para salvar seus súditos rebeldes das mãos do inimigo), isso não pode constituir argumento contra o direito do Sumo-Sacerdote ao poder soberano, em todas as questões, quer de política, quer de religião. E nem os juízes, nem o próprio Samuel tiveram um chamado habitual para o governo, mas sim um chamado extraordinário, e foram obedecidos pelos israelitas não por dever mas por reverência para com seu favor junto a Deus, que aparecia em sua sabedoria, coragem ou fortuna.”

O QUANTO A SUBMISSÃO A UMA IDÉIA FIXA NÃO OBRIGA A INTERPRETAÇÕES UNILATERAIS! “Aos juízes sucederam os reis, e enquanto anteriormente toda autoridade, quer em religião quer em política, estava no Sumo-Sacerdote, agora ela estava toda no rei. Pois a soberania sobre o povo, que existia antes não apenas em virtude do poder divino, mas também por um pacto particular dos israelitas com Deus, e logo abaixo dele com o Sumo-Sacerdote, como seu vice-rei sobre a terra, foi abandonada pelo povo com o consentimento do próprio Deus.”

E em geral durante toda a história dos reis, tanto de Judá como de Israel, sempre houve profetas que controlavam os reis por transgredirem a religião, e às vezes também por erros de Estado, como Josafá foi censurado pelo profeta Jeú por ajudar o rei de Israel contra os sírios, e Hezekiah por Isaías, por mostrar seus tesouros aos embaixadores de Babilônia. Por tudo isto se vê que embora o poder tanto do Estado quanto da religião estivesse nos reis, contudo nenhum deles deixou de estar controlado em seu uso, a não ser quando eram bem-vistos por suas capacidades naturais ou por sua fortuna. De tal modo que das práticas daqueles tempos não pode tirar-se nenhum argumento de que o direito de supremacia em religião não pertencia aos reis, a menos que o atribuamos aos profetas; nem concluir, porque rezando Hezekiah ao Senhor diante dos querubins, não obteve dele resposta nessa altura mas mais tarde pelo profeta Isaías, que portanto Isaías era o chefe supremo da igreja; ou, porque Josias consultou Hulda, a profetisa, a respeito do livro da lei, que portanto nem ele nem o Sumo-Sacerdote, mas sim Hulda, a profetiza, tinha a suprema autoridade em matéria de religião, o que penso não ser a opinião de nenhum doutor. Durante o cativeiro, os judeus não tinham Estado algum e depois de seu regresso, embora renovassem seu pacto com Deus, não foi feita promessa de obediência nem a Esdras nem a qualquer outro.”

E logo depois se tornaram súditos dos gregos (com cujos costumes e demonologia, assim como com a doutrina dos cabalistas, sua religião tornou-se muito corrompida), de tal modo que nada se pode coligir de sua confusão, tanto no Estado quanto na religião, a respeito da supremacia em qualquer deles.”

XLI. DA MISSÃO DE NOSSO ABENÇOADO SALVADOR

Nossa redenção foi levada a cabo em sua primeira vinda, pelo sacrifício mediante o qual se ofereceu na cruz por nossos pecados; nossa redenção foi parcialmente levada a cabo por sua própria pessoa, e parcialmente efetuada atualmente por seus ministros, o que assim continuará até seu retorno. E após esse retorno começará seu glorioso reinado sobre seus eleitos, que há de durar eternamente. Faz parte da missão de Redentor, isto é, de quem pagou o resgate do pecado (resgate esse que é a morte), que ele tenha sido sacrificado, tendo assim carregado em sua própria cabeça e afastado de nós nossas iniqüidade, da maneira que Deus havia exigido.”

Tal como o sacrifício de um só dos bodes era um preço suficiente (porque aceitável) para o resgate de todo Israel, assim também a morte do Messias é um preço suficiente para pagar os pecados de todo o gênero humano, pois nada mais foi exigido. Os sofrimentos de Cristo nosso Salvador parecem estar aqui figurados, tão claramente como na oblação de Israel, ou em qualquer de seus outros símbolos no Antigo Testamento. Ele foi ao mesmo tempo o bode sacrificado e o bode expiatório.”

Até aqui, por conseguinte, nada foi feito ou ensinado por Cristo que tenda a diminuir o direito civil dos judeus ou de César. Pois no que diz respeito ao Estado em que nessa época os judeus viviam, tanto os que governavam como os que eram governados esperavam a vinda do Messias e do Reino de Deus, o que lhes teria sido impossível se suas leis o proibissem, quando viesse, de se manifestar e se dar a conhecer. Assim, dado que ele nada fez senão procurar provar que era o Messias, pela pregação e pelos milagres, ele nada fez contra as leis dos judeus. O Reino que reclamava só viria num outro mundo. Ensinou todos os homens entretanto a obedecerem aos que se sentavam na cadeira de Moisés. Permitiu-lhes que dessem a César o seu tributo, e recusou exercer ele mesmo as funções de juiz. Como podiam então suas palavras ou ações ser sediciosas, ou tenderem para a derrubada do governo civil então existente? Mas como Deus havia determinado seu sacrifício, a fim de levar seus eleitos de volta à obediência do pacto primitivo, usou como meios que se realizassem a malícia e a ingratidão dos judeus. E também nada fez de contrário às leis de César. Pois embora o próprio Pilatos (para contentar os judeus) o entregasse para ser crucificado, antes de assim fazer declarou abertamente que nele não havia encontrada falta.” O próximo Cristo não pode ser um bobo apolítico. Hobbes promoveu uma quimera acima do seu já mais propagado Leviatã: historicizou completamente o cristianismo e a crença cristã.

XLII. DO PODER ECLESIÁSTICO

demorou muito, depois da Ascensão, antes que qualquer rei ou soberano civil abraçasse e publicamente autorizasse o ensino da religião cristã.”

O Cardeal Belarmino, em sua terceira controvérsia geral, tratou um grande número de questões relativas ao poder eclesiástico do Papa de Roma, e começa com a seguinte: se ele deveria ser monárquico, aristocrático ou democrático. Sendo todas estas espécies de poder soberanas e coercitivas. Mas toda a disputa seria em vão, se se verificasse que não lhes foi deixado por nosso Salvador qualquer espécie de poder coercitivo, mas apenas o poder de proclamar o Reino de Cristo e de persuadir os homens a submeterem-se-lhe, e através de preceitos e bons conselhos ensinar aos que se submeteram o que devem fazer para serem recebidos no Reino de Deus quando ele chegar, e que os apóstolos e outros ministros do Evangelho são apenas nossos professores e não nossos comandantes, e que seus preceitos não são leis, mas apenas salutares conselhos.”

QUANDO COMEÇA A LOUCURA: “Portanto, os ministros de Cristo neste mundo não recebem desse título qualquer poder para punir alguém por não acreditar ou por contradizer o que dizem, isto é, o título de ministros cristãos não lhes dá o poder de punir a esses. Mas se tiverem poder civil soberano, por instituição política, nesse caso podem sem dúvida legitimamente punir qualquer contradição de suas leis.”

VAMOS TER QUE DRENAR A LISTA: “um mártir, conforme a verdadeira definição da palavra, é uma testemunha da ressurreição de Jesus o Messias, papel que só pode ser desempenhado pelos que com ele conviveram na terra e o viram depois de assim se ter erguido.” “Aquele que, para sustentar qualquer doutrina que ele próprio tenha tirado da história da vida de nosso Salvador, e dos Atos ou Epístolas dos apóstolos, ou na qual acredite por aceitar a autoridade de um particular, se opuser às leis e à autoridade do Estado civil, está muito longe de ser um mártir de Cristo, ou um mártir de seus mártires.”

XLIII. DO QUE É NECESSÁRIO PARA ALGUÉM ENTRAR NO REINO DOS CÉUS

É bastante evidente que, quando alguém recebe duas ordens contrárias e sabe que uma vem de Deus, tem de obedecer a esta e não à outra, embora seja a ordem de seu legítimo soberano (quer se trate de um monarca, quer se trate de uma assembléia soberana) ou a ordem de seu pai. A dificuldade consiste portanto no seguinte, que os homens, quando recebem ordens em nome de Deus, não sabem em alguns casos se a ordem vem de Deus, ou se aquele que ordena o faz abusando do nome de Deus para algum fim próprio e particular.” Ingenuidade tocante. Mas a maior inocência e puerilidade vem à frente: “Servos, obedecei a vossos senhores em tudo e Crianças, obedecei a vossos pais em todas as coisas

a causa imediata da fé é o ouvido.”

QUARTA PARTE. DO REINO DAS TREVAS

XLIV. DAS TREVAS ESPIRITUAIS RESULTANTES DE MÁ INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS

o reino das trevas, tal como é apresentado nestes e outros textos das Escrituras nada mais é do que uma confederação de impostores, que para obterem o domínio sobre os homens neste mundo presente, tentam por meio de escuras e errôneas doutrinas, extinguir neles a luz, quer da natureza, quer do Evangelho, e deste modo desprepará-los para a vinda do reino de Deus.”

Estamos portanto ainda nas trevas.”

a vã e errônea filosofia dos gregos, especialmente a de Aristóteles.”

AGORA O ANGLICANO PROVARÁ O CARÁTER SATÂNICO DOS CATÓLICOS: “O povo foi assim por toda parte obrigado a um duplo tributo: um para o Estado, outro para o clero; além de que aquele que era pago ao clero era o décimo de seus rendimentos, ou seja, o dobro daquilo que o rei de Atenas (considerado um tirano) tirava de seus súditos para pagar todos os cargos públicos, pois ele nada mais pedia do que a vigésima parte, e apesar disso mantinha com ela abundantemente o Estado.” “Do mesmo erro de considerar a atual Igreja como o reino de Deus, proveio a distinção entre as leis civis e as leis canônicas, sendo a lei civil os atos dos soberanos em seus próprios domínios e a lei canônica os atos do Papa nos mesmos domínios. Cânones os quais, muito embora não passassem de cânones, isto é, regras propostas e só voluntariamente recebidas pelos príncipes cristãos até a mudança do império para Carlos Magno, contudo depois, à medida que o poder do Papa aumentava, tornaram-se leis obrigatórias, e os próprios imperadores (para evitarem maiores males a que o povo cego podia ser conduzido) eram obrigados a deixá-los passar por leis. É por isso que em todos os domínios [seculares] onde o poder eclesiástico do Papa é totalmente aceite, os judeus, os turcos e os gentios são na Igreja romana tolerados em sua religião, na medida em que, no exercício de sua profi$$ão, não ofendam o poder civil, enquanto num [Estado] cristão, [ARGUMENTAÇÃO REALMENTE PÍFIA E CONFUSA] embora estrangeiro, não ser da religião romana é capital, porque o Papa pretende que todos os cristãos são seus súditos.”

Do mesmo erro resulta que em todos os Estados cristãos há certos homens que estão isentos, por liberdade eclesiástica, dos tributos e dos tribunais do Estado civil; pois assim está o clero secular, além dos monges e frades, os quais em muitos lugares constituem uma parte tão importante do povo comum que, se houvesse necessidade, se podia só com eles organizar um exército, suficiente para qualquer guerra em que a Igreja militante os quisesse empregar contra seu próprio príncipe ou outros príncipes.”

CONTRA A TRANSUBSTANCIAÇÃO: “Pois se for suficiente para desculpar de idolatria dizer que já não é pão mas sim Deus, por que razão não serviria a mesma desculpa para os egípcios, no caso de terem tido a ousadia de dizer que os alhos e as cebolas que veneravam não eram alhos nem cebolas, mas uma divindade sob sua espécie ou semelhança?” “Nem a Igreja de Roma alguma vez estabeleceu esta transubstanciação, até a época de Inocêncio III, o que não foi há mais de 500 anos, quando o poder dos Papas estava no auge, e as trevas se tinham tornado tão densas que os homens não distinguiam o pão que lhes era dado para comer, especialmente quando era marcado com a figura de Cristo na cruz, como se quisessem que os homens acreditassem que se transubstanciava não só no corpo de Cristo mas também na madeira da cruz, e que comiam ambos em conjunto no sacramento.”

A mesma encantação, em vez de consagração, é usada também no sacramento do batismo, no qual o abuso do nome de Deus em cada uma das várias pessoas, e em toda a Trindade, com o sinal da cruz a cada nome constitui o encanto: pois primeiro, quando fazem a água benta, o padre diz: Conjuro-te, criatura da água, em nome de Deus Pai Todo Poderoso, e em nome de Jesus Cristo seu único Filho Nosso Senhor, e em virtude do Espírito Santo, que te tornes água conjurada para afastar todos os poderes do inimigo, e para erradicar e suplantar o inimigo, etc. E o mesmo na bênção do sal que se mistura com ela: Que tu, sal, sejas conjurado, que todos os fantasmas e velhacaria da fraude do demônio possam fugir e abandonar o lugar em que és salpicado; e que todos os espíritos sujos sejam conjurados por aquele que virá para julgar os vivos e os mortos. O mesmo na bênção do óleo: Que todo o poder do inimigo, toda a hoste do Diabo, todos os assaltos e fantasmas de Satanás, possam ser afastados por esta criatura do óleo. E quanto à criança que está para ser batizada, é sujeita a muitos encantamentos: primeiro, na porta da igreja o padre assopra três vezes no rosto da criança e diz: Sai de dentro dele espírito sujo e dá lugar ao Espírito Santo, o confortador. Como se todas as crianças, até serem assopradas pelo padre, fossem demoníacas. Novamente, antes de sua entrada na igreja, diz como antes, Conjuro-te, etc., para que saias e abandones este servo de Deus. E novamente o mesmo exorcismo é repetido uma vez mais antes do batismo.” HAHAHAHAHAHA!

É esta a janela que dá entrada à tenebrosa doutrina, primeiro dos tormentos eternos, e depois do Purgatório, e conseqüentemente dos fantasmas dos mortos passeando principalmente em lugares consagrados, solitários ou escuros, e daí às pretensões de exorcismo e conjuração de fantasmas, como também de invocação de homens mortos, e à doutrina das indulgências, isto é, de isenção durante um tempo, ou para sempre, do fogo do Purgatório onde se pretende que estas substâncias incorpóreas são queimadas para serem purificadas e preparadas para o céu. Pois sendo os homens geralmente possuídos, antes do tempo de nosso Salvador, por contágio da demonologia dos gregos, da opinião de que as almas dos homens eram substâncias distintas de seus corpos, e portanto que quando o corpo estava morto, a alma de todos os homens, quer bem-aventurados, quer maus, tinha de subsistir em algum lugar por virtude de sua própria natureza, sem reconhecerem portanto qualquer presente sobrenatural de deuses, os doutores da Igreja hesitaram durante muito tempo acerca do lugar no qual elas deviam esperar até serem reunidas a seus corpos na ressurreição, supondo durante algum tempo que elas permaneciam debaixo dos altares, mas depois a Igreja de Roma achou mais interessante construir para elas um lugar no Purgatório, que nestes últimos tempos tem sido demolido por algumas outras igrejas.”

a época em que os Papas ficaram tão seguros de sua grandeza que desprezavam todos os reis cristãos, e pisando o pescoço dos imperadores para troçarem quer deles, quer das Escrituras, com as palavras do Salmo 91, Pisarás o leão e a serpente, o jovem leão e o dragão pisarás com teus pés.

Não lemos que São João tenha exorcizado a água do Jordão, nem Filipe a água do rio onde batizou o eunuco, nem que algum pastor do tempo dos apóstolos tenha tomado seu cuspe e o tenha posto no nariz da pessoa a ser batizada, dizendo: In odorem sua vitais, isto é, Para um suave odor ao Senhor, onde nem a cerimônia do cuspe, devido a sua sujeira, nem a aplicação daquela Escritura, devido a sua ligeireza, podem ser justificadas por qualquer autoridade humana.” HAHAHAHAHA!

Ecl 3:19: “…o homem não tem preeminência sobre a besta, pois tudo é vaidade.”

o verme da consciência nunca morre”

Também parece difícil dizer que Deus, que é o Pai da misericórdia (…) sem cujo dom livre o homem não tem nem inclinação para o bem, nem arrependimento do mal, quisesse punir as transgressões dos homens sem qualquer limite de tempo, e com todos os extremos de tortura que os homens podem imaginar, e mais.”

O fogo, ou tormentos preparados para os maus em Gehena, Tophet, ou em qualquer outro texto, podem continuar para sempre; e nunca faltarão homens maus para serem neles atormentados, muito embora nem todos nem ninguém eternamente.” [???]

MAIS DIGNO DE BUDA DO QUE DE LUCAS: “Os filhos deste mundo casam-se e são dados em casamento mas aqueles que forem considerados como dignos daquele mundo e da ressurreição dos mortos, nem se casam nem são dados em casamento, nem podem morrer mais, pois são iguais aos anjos e são os filhos de Deus, sendo os filhos da ressurreição. Os filhos deste mundo que estão no estado em que Adão os deixou casar-se-ão e serão dados em casamento, isto é, corrompem-se e geram sucessivamente, o que é uma imortalidade da espécie, mas não das pessoas dos homens. Eles não são dignos de serem contados entre aqueles que obterão o mundo futuro e uma ressurreição absoluta dos mortos, mas apenas um curto período, como moradores daquele mundo, e para o fim apenas de receber um castigo condigno por sua contumácia.” Muito Full Metal Alchemist também: os habitantes da Cidade de Deus vivem dos sacrifícios humanos da outra dimensão!

Nem é vergonha confessar que a profundidade das Escrituras é demasiado grande para ser perscrutada pelo curto entendimento humano.”

Não matarás; e Aquele que matar será condenado perante os juízes, ou perante a sessão dos setenta, mas digo-vos: ficar colérico contra um irmão sem causa, ou dizer a ele ‘Raca’, ou louco, é homicídio, e será castigado no dia do juízo, e sessão de Cristo e seus apóstolos, com o fogo do inferno.” Muita gente que cruzou meu caminho está fudida!

XLV. DA DEMONOLOGIA, E OUTROS VESTÍGIOS DA RELIGIÃO DOS GENTIOS

Que espécie de coisas eram essas a que atribuíam o nome de demônios, é algo que aparece em parte na genealogia de seus deuses, escrita por Hesíodo, um dos mais antigos poetas dos gregos” “Os gregos, por meio de suas colônias e conquistas, comunicaram sua língua e escritos à Ásia, ao Egito e à Itália, e também, por uma necessária conseqüência, sua demonologia ou (como São Paulo lhe chama) suas doutrinas dos diabos. E por este meio o contágio chegou também aos judeus, quer da Judéia, quer de Alexandria e outras partes, onde estavam espalhados.”

Contudo a doutrina contrária, a saber, que há espíritos incorpóreos, tem até agora prevalecido de tal modo na Igreja, que o uso do exorcismo (isto é, da expulsão de demônios por conjuração) se apoiou nela e (embora praticado rara e fracamente) ainda não foi totalmente suprimido.”

Um outro vestígio de gentilismo é o culto das imagens, que não foi instituído por Moisés no Antigo Testamento, nem por Cristo no Novo, nem ainda trazido dos gentios, mas deixado entre eles, depois de terem dado seus nomes a Cristo.” Pintores, os primeiros hereges modernos.

o culto das imagens de Cristo e de seus apóstolos tornou-se cada vez mais idólatra, exceto alguns tempos depois de Constantino, quando vários imperadores e bispos e concílios gerais observaram sua ilegitimidade, e condenaram-na, mas era demasiado tarde ou fizeram-no de maneira demasiado fraca.”

O primeiro a ser canonizado em Roma foi Rômulo, e isto devido à narrativa de Julius Proculus, que jurou diante do Senado ter falado com ele depois de sua morte, e ter-lhe assegurado que morava no céu e lá era chamado Quirino, e que seria propício ao Estado da nova cidade. E sobre isto o Senado deu público testemunho de sua santidade. Júlio César e outros imperadores depois dele tiveram idêntico testemunho, isto é, foram canonizados como santos, pois a canonização é agora definida por tal testemunho e é o mesmo que a apotheosis dos gentios.

Foi também dos gentios romanos que os Papas receberam o nome e poder de Pontifex Maximus. Este era o nome daquele que no antigo Estado de Roma tinha a autoridade suprema, sob[re?] o Senado e o povo, para regular todas as cerimônias e doutrinas referentes à religião. E quando Augusto César mudou o Estado para uma monarquia, ele reservou para si apenas este cargo e o de tribuno do povo (isto é, o poder supremo quer no Estado, quer na religião) e os imperadores que lhe sucederam desfrutaram do mesmo. Mas na época do Imperador Constantino, o primeiro que professou e autorizou a religião cristã, estava de acordo com sua profissão de fé fazer com que a religião fosse regulada (sob sua autoridade) pelo bispo de Roma, embora pareça que não receberam logo o nome de pontifex, mas sim que os bispos que se sucederam o tomaram para si por iniciativa própria, para fortalecer o poder que exerciam sobre os bispos das províncias romanas.”

podemos a propósito observar que não há lugar para a superioridade do Papa sobre os outros bispos, exceto nos territórios onde ele próprio é o soberano civil, e naqueles em que o imperador, tendo o soberano poder civil, expressamente escolheu o Papa como principal pastor, sob sua autoridade, de seus súditos cristãos.” Oficialmente, hoje, apenas o Vaticano (sendo ele próprio o soberano).

Levar imagens em procissão é outro vestígio da religião dos gregos e dos romanos, pois também eles transportavam seus ídolos de lugar para lugar, numa espécie de carroça, que era especialmente destinada a esse fim, chamada thensa e vehiculum deorum pelos latinos, e a imagem era colocada numa moldura ou escrínio, que chamavam ferculum.”

A estas procissões também pertenciam as tochas acesas e as velas diante das imagens dos deuses, tanto entre os gregos como entre os romanos. Pois mais tarde os imperadores de Roma receberam as mesmas honras, como lemos acerca de Calígula, que ao ascender ao império foi transportado de Misenum para Roma, no meio de uma multidão de gente, por caminhos enfeitados com altares e animais para sacrifício e tochas acesas; e acerca de Caracala, que foi recebido em Alexandria com incenso, e com flores arremessadas, e dadouxiais, isto é, com tochas, pois dadouxoi eram aqueles que entre os gregos seguravam tochas acesas nas procissões de seus deuses. E com o andar dos tempos o povo devoto mas ignorante muitas vezes prestou honras a seus bispos com uma pompa semelhante de velas de cera, e às imagens de nosso Salvador e dos santos, constantemente, na própria igreja. E assim se chegou ao uso de velas de cera que foi também estabelecido por alguns dos antigos Concílios.”

Os gentios tinham também sua água lustralis, isto é, a água benta. A Igreja de Roma também os imita em seus dias santos. Eles tinham suas bacanais e nós temos nossas vigílias que lhes correspondem, eles as saturnalia, nós os carnavais e a liberdade dos servos na terça-feira de Entrudo, eles sua procissão de Príapo, nós a festa de ir buscar, levantar e dançar à volta dos maios; e dançar é uma das formas de culto; e eles tinham a procissão chamada ambarvalia e nós a procissão pelos campos na semana das ladainhas. Nem penso que estas sejam todas as cerimônias que foram deixadas na Igreja desde a primeira conversão dos gentios, mas são todas as que de momento consigo lembrar; e se alguém observasse bem aquilo que é contado nas histórias referentes aos ritos religiosos dos gregos e dos romanos, não duvido de que encontraria mais destas velhas garrafas vazias do gentilismo que os doutores da Igreja romana, ou por negligência ou por ambição, encheram outra vez com o novo vinho da cristandade, que a seu tempo não deixará de destruí-los.” Vai lá Hobbes, tritura os católicos, Hobbes! Boa, moleque!

XLVI. DAS TREVAS RESULTANTES DA VÃ FILOSOFIA E DAS TRADIÇÕES FABULOSAS

Definição pela qual fica evidente que não consideramos como parte dela aquele conhecimento originário chamado experiência, no qual consiste a prudência, porque não é atingido por raciocínio, mas se encontra igualmente nos animais e no homem, e nada mais é do que a memória de sucessões de eventos em tempos passados, na qual a omissão de qualquer pequena circunstância, alterando o efeito, frustra a esperança do mais prudente, visto que nada é produzido pelo raciocínio acertadamente senão a verdade geral, eterna e imutável.” Ainda bem que o que praticamos hoje sob esse nome não tem nada a ver com filosofia para H.

Execra Aristóteles, mas pensa mediante suas categorias limitantes.

Os Maias previram o capitalismo, portanto são melhores que Hobbes. Hobbes não os considera filósofos (a menos que retire os maias da alcunha de ‘selvagens americanos’) – se é que se preocupou em estudar a história das civilizações pré-colombianas – tinha muito o que fazer!

Segundo ele, o homem primitivo não filosofava por falta de tempo. Conhecemos esse clichê. Mas o “filósofo” contemporâneo (ou escolástico tardio, no caso presente!) não filosofa pelo exato oposto: tem tempo demais! O ócio do racional é o pior ócio de todos.

COROLÁRIO DE UMA FILOSOFIA DE MERDA: “era impossível, até que se erigisse um grande Estado, que as coisas se passassem de maneira diferente. O ócio é o pai da filosofia, e o Estado, o pai da paz e do ócio.”

DETERMINISMO ECONÔMICO, JÁ NESSA IDADE TÃO TENRA? “Depois que os atenienses, pela derrota dos exércitos persas, alcançaram o domínio do mar, e portanto de todas as ilhas e cidades marítimas do Arquipélago, tanto da Ásia como da Europa, e se tornaram ricos, não tinham nada que fazer nem em seu país nem fora dele, exceto (como diz São Lucas, Atos, 17:21) contar e ouvir notícias, ou discorrer publicamente sobre filosofia, dirigindo-se aos jovens da cidade.”

Daqui resultou que o lugar onde qualquer deles ensinava e discutia se chamava schola, que em sua língua significava ócio, e suas disputas diatribae, o que significa passar o tempo.”

E acredito que dificilmente pode afirmar-se alguma coisa mais absurda em filosofia natural do que aquilo que hoje se denomina a Metafísica de Aristóteles, nem mais repugnante ao governo do que a maior parte daquilo que disse em sua Política, nem mais ignorante do que uma grande parte de sua Ética.” Só concordamos sobre a Política, mas ainda assim provavelmente por razões contrárias (pois H. odeia as soluções democráticas de Ar.).

Aquilo que agora se chama uma Universidade é uma reunião e uma incorporação, sob um governo, de muitas escolas públicas, numa única cidade. Na qual as principais escolas foram ordenadas para as 3 profissões, isto é, da religião romana, do direito romano e da arte da medicina.”

Há uma certa philosophia prima, da qual todas as outras filosofias deviam depender, e que consiste principalmente em limitar convenientemente as significações daquelas apelações ou nomes que são de todos os mais universais, limitações essas que servem para evitar ambigüidade e equívocos no raciocínio, e são comumente chamadas definições”

Dizem-nos, a partir desta metafísica, que misturada com as Escrituras passa a constituir a Escolástica, que há no mundo certas essências separadas dos corpos, às quais chamam essências abstratas e formas substanciais. Para a interpretação deste jargão é aqui exigida um pouco mais de atenção do que habitualmente e assim peço desculpas àqueles que não estão habituados a este tipo de discurso por consagrar-me àqueles que o estão.”

E assim como usamos o verbo é, os latinos usam o seu verbo est e os gregos o seu ésti em todas as suas declinações. Não posso dizer se todas as outras nações do mundo têm em suas diferentes línguas uma palavra que lhe corresponda ou não, mas tenho a certeza de que não têm necessidade dela, pois colocar os dois nomes em ordem poderia servir para significar sua conseqüência, se fosse esse o costume”

dir-nos-ão que a eternidade é a manutenção do presente, o nunc stans¹ (como as escolas lhe chamam) que nem eles nem ninguém compreende[m], tal como não compreenderiam um hic stans para uma infinita grandeza de espaço.”

¹ Nada mais que o presente eterno, o aspecto mais concreto de nossa existência, nosso a priori, como diria Kant. A base de todo filosofar.

NÃO DEIXAM DE ESTAR GRAVEMENTE CERTOS: “Se desejardes saber por que razão um certo tipo de corpos cai naturalmente no chão enquanto outros se elevam dele naturalmente, as escolas dir-vos-ão, baseadas em Aristóteles, que os corpos que caem são pesados e que este peso é que faz que eles desçam. Mas se lhes perguntardes o que entendem por peso, defini-lo-ão como uma tendência para se dirigir ao centro da terra; de tal modo que a causa pela qual as coisas caem é uma tendência para estar embaixo, o que é o mesmo que dizer que os corpos descem ou sobem porque o fazem. Ou dir-vos-ão que o centro da terra é o lugar de repouso, e conservação para coisas pesadas, e portanto eles tendem a ir para lá, como se as pedras e os metais tivessem desejos, ou pudessem discernir em que lugar querem estar, como o homem, ou amassem o repouso.”

UM IDIOTA FÍSICO: Condensado é quando há na mesma matéria menos quantidade do que antes, e rarefeito quando há mais. Como se pudesse haver matéria sem uma determinada quantidade, quando a quantidade nada mais é do que a determinação de matéria, isto é, de corpo, pelo que dizemos que um corpo é maior ou menor do que outro, tanto ou quanto. Ou como se um corpo estivesse feito sem qualquer quantidade, e que mais tarde fosse nele colocada mais ou menos conforme se pretendesse que o corpo fosse mais ou menos denso.” E para dar com a razão, como ele tanto gosta de exaltar, bastaria com entender Demócrito!

E VEMOS QUE OS ESCOLÁSTICOS BATERAM NA TRAVE PARA CHEGAR A GRANDES VERDADES: “Quanto à causa da vontade para fazer determinada ação, a qual é denominada volitio, atribuem-na à faculdade, isto é, à capacidade em geral que os homens têm para quererem umas vezes uma coisa, outras vezes outra, a qual é chamada voluntas, fazendo da potência a causa do ato, como se se atribuísse como causa dos bons e maus atos dos homens sua capacidade para praticá-los.”

Se uma metafísica e uma física como estas não forem vã filosofia, então nunca houve nenhuma, nem teria sido necessário que São Paulo nos avisasse para a evitarmos.” Justamente. Pré-história da filosofia.

Constitui também vã e falsa filosofia dizer que o casamento repugna à castidade, ou continência, e portanto transformá-lo em vício moral, como o fazem aqueles que alegam castidade e continência para negarem o casamento do clero.”

Originariamente um tirano significava simplesmente um monarca, mas quando mais tarde, na maior parte da Grécia, aquela forma de governo foi abolida, o nome começou a significar não apenas a coisa, como antes, mas com ela o ódio que os Estados populares lhe tinham. Assim como também o nome de rei se tornou odioso depois da deposição dos reis em Roma, como sendo uma coisa natural a todos os homens conceberem alguma grande falta como sendo significada em qualquer atributo que é dado com despeito e a um grande inimigo. E quando os mesmos homens ficarem descontentes com aqueles que têm a administração da democracia, ou aristocracia, não vão procurar nomes desagradáveis com os quais possam exprimir sua cólera, mas imediatamente chamam a uma anarquia e à outra oligarquia, ou tirania de alguns. E aquilo que ofende o povo não é outra coisa senão o fato de ser governado não como cada um deles o faria, mas como o representante público, quer se trate de um homem ou de uma assembléia de homens, julgar conveniente, isto é, por um governo arbitrário, pelo que atribuem maus epítetos a seus superiores, desconhecendo sempre (até talvez um pouco depois de uma guerra civil) que sem esse governo arbitrário tal guerra seria perpétua e que são os homens e as armas, não as palavras e promessas, que fazem a força e o poder das leis.” Absolutamente ignóbil em sua compreensão histórica e em seu sentir. Entende tudo às avessas e se orgulha disso. Niilista jurídico.

Finalmente, quanto aos erros provenientes de uma história incerta e falsa, não serão fábulas de velhas todas as lendas de milagres fictícios nas vidas dos santos, e todas as histórias de aparições e fantasmas alegadas pelos doutores da Igreja romana para apoiar suas doutrinas do inferno e do purgatório, o poder do exorcismo e outras doutrinas que não têm nenhum aval nem na razão, nem nas Escrituras, como também todas aquelas tradições a que chamam a palavra oral de Deus?” Como filósofo, excelente anti-papista.

Nossas próprias navegações tornam manifesto, e todos os homens versados em ciências humanas agora reconhecem, que há antípodas. E todos os dias se torna cada vez mais visível que os anos e os dias são determinados pelos movimentos da terra. Contudo os homens que em seus escritos supõem esta doutrina como uma ocasião para apresentar as razões pró e contra têm sido por causa dela punidos pela autoridade eclesiástica. Mas que razão há para isso? Será por que tais opiniões são contrárias à verdadeira religião? Não podem sê-lo, se são verdadeiras. Deixemos portanto que a verdade seja primeiro examinada por juízes competentes, ou refutada por aqueles que pretendem conhecer o contrário.” E o que temos hoje? Padres psicanalistas. Ou seja: nada mudou.

XLVII. DO BENEFÍCIO RESULTANTE DE TAIS TREVAS, E A QUEM APROVEITA

depois que o império foi dividido, não foi difícil introduzir junto do povo, já a eles sujeito, um outro título, a saber, o direito de São Pedro, não apenas para conservar intacto seu pretenso poder, mas também para ampliá-lo sobre as mesmas províncias cristãs, embora estas não estivessem mais unidas no império de Roma. Este benefício de uma monarquia universal (considerando o desejo dos homens de terem uma autoridade) constitui uma conjetura suficiente de que os Papas que a ela pretenderam e que durante muito tempo a desfrutaram, eram os autores da doutrina pela qual foi obtida, a saber, que a Igreja agora sobre a terra é o reino de Cristo.”

todos os outros bispos, seja em que Estado for, não recebem seu direito nem imediatamente de Deus, nem mediatamente de seus soberanos civis, mas do Papa – é uma doutrina pela qual acabam existindo em todos os Estados cristãos muitos homens poderosos (pois assim o são os bispos) que são dependentes do Papa e que lhe devem obediência, embora ele seja um príncipe estrangeiro, por meio do que é capaz de (como muitas vezes o fez) instigar uma guerra civil contra o Estado que não se submeter a ser governado segundo seu prazer e interesse.” Uma prefiguração incrível da Guerra Fria!

Defende a seguir o pagamento de impostos pelas igrejas, como por qualquer associação normal. É, ainda estamos na Idade Média – mas com o hediondo televangelismo, uf!…

Em quinto lugar, o fato de ensinar que o matrimônio é um sacramento deu ao clero o juízo sobre a legitimidade dos casamentos, e portanto, sobre quais os filhos que são legítimos, e conseqüentemente sobre o direito de sucessão a reinos hereditários.” Era mais difícil dar o golpe do baú…

Em sexto lugar, a negação do casamento aos padres serviu para assegurar este poder do Papa sobre os reis. Pois se um rei for padre não pode casar e transmitir seu reino a sua posteridade; se não for padre, o Papa passa a pretender ter esta autoridade eclesiástica sobre ele e sobre seu povo. Em sétimo lugar, pela confissão auricular obtém, para a manutenção de seu poder, um melhor conhecimento dos desígnios dos príncipes e dos grandes personagens do Estado civil do que estes podem obter acerca dos desígnios do Estado eclesiástico.” Gosto desse Hobbes maquiavélico – isto é, cientista político na melhor acepção do termo!

Em undécimo lugar, por sua demonologia e pelo uso do exorcismo, e outras coisas com isso relacionadas, conservam (ou julgam conservar) mais o povo sob o domínio de seu poder. Finalmente, a metafísica, a ética e a política de Aristóteles, as distinções frívolas, os termos bárbaros, e a linguagem obscura dos escolásticos ensinada nas Universidades (que foram todas erigidas e regulamentadas pela autoridade papal) servem-lhes para evitar que estes erros sejam detectados e para levar os homens a confundirem o ignis fatuus da vã filosofia com a luz do Evangelho.”

E portanto pela supracitada regra do cui bono [o que ganho com isso, por que razão, o que há de bom?, etc.] podemos com razão considerar como autores de todas estas trevas espirituais o Papa e o clero romano, e também todos aqueles que tentam colocar no espírito dos homens esta doutrina errônea de que a Igreja agora sobre a terra é aquele Reino de Deus mencionado no Antigo e no Novo Testamento.” Ah, Nietzsche, você estava tão certo! Todos esses pontos estavam prestes a derruir, quando surgiram esses pastores loucos!

a impaciência daqueles que lutam para resistir a tal usurpação antes de os olhos de seus súditos estarem abertos apenas contribuiu para aumentar o poder a que resistiam. Não censuro portanto o Imperador Frederico por deter a agitação em relação a nosso compatriota Papa Adriano, pois tal era a disposição de seus súditos nessa ocasião que, se não o tivesse feito, provavelmente não teria sucedido no império. Mas censuro aqueles que no princípio, quando seu poder estava inteiro, suportaram que essas doutrinas fossem forjadas nas Universidades de seus próprios domínios e contiveram a agitação contra todos os sucessivos Papas, enquanto estes subiam sobre os tronos de todos os soberanos cristãos para os dominar, quer eles, quer seus povos, a seu bel prazer.”

Suas consciências eram livres, e suas palavras e ações só estavam sujeitas ao poder civil. Mais tarde os presbíteros (à medida que os rebanhos de Cristo aumentavam), reunindo-se para discutirem o que deviam ensinar e portanto obrigando-se a nada ensinar contra os decretos de suas assembléias, fizeram crer que o povo estava por conseguinte obrigado a seguir sua doutrina, e quando ele se recusou a fazê-lo recusaram mantê-lo em sua companhia (a isso se chamou então excomunhão), não por serem infiéis, mas por serem desobedientes. E este foi o primeiro nó em sua liberdade. E aumentando o número de presbíteros, os presbíteros da principal cidade ou província assumiram uma autoridade sobre os presbíteros paroquiais e apropriaram-se do nome de bispos. E este foi um segundo nó na liberdade cristã. Finalmente o bispo de Roma, no que se refere à cidade imperial, assumiu uma autoridade (em parte pela vontade dos próprios imperadores e pelo título de Pontifex Maximus, e finalmente, quando os imperadores estavam enfraquecidos, pelos privilégios de São Pedro) sobre todos os outros bispos do império, o que constituiu o terceiro e último nó, e toda a síntese e construção do poder pontifical.”

XLVIII. ÚLTIMO CAPÍTULO

Primeiro o poder dos Papas foi totalmente dissolvido pela Rainha Isabel e os bispos, que antes exerciam suas funções pelo direito do Papa, passaram depois a exercer o mesmo pelo direito da rainha e seus sucessores, muito embora, retendo a expressão jure divino, se pudesse pensar que eles o recebiam de Deus por direito imediato. E assim foi desatado o primeiro nó. Depois disto os presbiterianos obtiveram ultimamente na Inglaterra a queda do episcopado: e assim foi desamarrado o segundo nó. E quase ao mesmo tempo o poder foi também tirado aos presbiterianos, e deste modo estamos reduzidos à independência dos primitivos cristãos para seguirmos Paulo, ou Cefas¹ ou Apolo, segundo o que cada homem preferir.” Pena que numa civilização arruinada ninguém não-excepcional preferirá Apolo!

¹ Trata-se do apóstolo Pedro conforme batizado por Jesus (em latim, Cephas).

…E assim nasceu a Publicidade!

Mas depois que esta doutrina, que a Igreja agora militante é o reino de Deus referido no Antigo e Novo Testamento, foi aceite no mundo, a ambição e a solicitação de cargos que lhe estão adstritos, e especialmente o grande cargo de ser o representante de Cristo, e a pompa daqueles que obtiveram assim os principais cargos públicos, tornou-se gradualmente tão evidente que perderam a reverência interior devida à função pastoral, de tal modo que os homens mais sábios, entre aqueles que possuíam qualquer poder no Estado civil, só precisavam da autoridade de seus príncipes para lhes negarem obediência.”

Também a linguagem que eles usam, quer nas igrejas, quer nos atos públicos, sendo o latim, que não é comumente usado por qualquer nação hoje existente, o que é senão o fantasma da antiga figura romana?”

As fadas, seja qual for a nação onde habitem, só têm um rei universal, que alguns de nossos poetas denominam rei Oberon, mas as Escrituras denominam Belzebu, príncipe dos demônios. Do mesmo modo os eclesiásticos, seja qual for o domínio em que se encontrem, só reconhecem um rei universal, o Papa. Os eclesiásticos são homens espirituais e padres fantasmagóricos. As fadas são espíritos e fantasmas. As fadas e os fantasmas habitam as trevas, as solidões e os túmulos. Os eclesiásticos caminham na obscuridade da doutrina, em mosteiros, igrejas e claustros.

Os eclesiásticos têm suas igrejas catedrais, as quais, seja qual for a vila onde são erguidas, por virtude da água benta e de certos encantos denominados exorcismos, possuem o poder de transformar essas vilas em cidades, isto é, em sedes do império. Também as fadas têm seus castelos encantados e alguns fantasmas gigantescos que dominam as regiões circunvizinhas.

As fadas não podem ser presas nem levadas a responder pelo mal que fazem. Do mesmo modo os eclesiásticos desaparecem dos tribunais da justiça civil.

Os eclesiásticos tiram dos jovens o uso da razão por meio de certos encantos compostos de metafísica e milagres e tradições e Escrituras deturpadas, pelo que estes ficam incapazes seja para o que for exceto para executarem aquilo que lhes for ordenado. Do mesmo modo as fadas, segundo se diz, tiram as crianças de seus berços e transformam-nas em loucos naturais, a que o vulgo chama duendes e que têm tendência para praticar o mal.

As velhas não especificaram em que oficina ou laboratório as fadas fabricam seus encantamentos, mas os laboratórios do clero são bem conhecidos como sendo as Universidades que receberam sua disciplina da autoridade pontifícia.

Quando alguém desagrada às fadas, diz-se que estas enviam seus duendes para beliscá-lo. Os eclesiásticos, quando algum Estado civil lhes desagrada, também mandam seus duendes, isto é, súditos supersticiosos e encantados para beliscarem seus príncipes, pregando a sedição, ou um príncipe encantado com promessas para beliscar outro.

As fadas não se casam, mas entre elas há incubi, que copulam com gente de carne e osso. Os padres também não se casam.

Os eclesiásticos tiram a nata da terra por meio de donativos de homens ignorantes que têm medo deles e por meio de dízimos; o mesmo acontece na fábula das fadas, segundo a qual elas entram nas leitarias e banqueteiam-se com a nata que retiram do leite.

A história também não conta que tipo de dinheiro corre no reino das fadas. Mas os eclesiásticos naquilo que recebem aceitam a mesma moeda que nós, muito embora, quando têm de fazer algum pagamento, o façam com canonizações, indulgências e missas.”

Não foi portanto muito difícil expulsá-los, a Henrique VIII por seu exorcismo, e à Rainha Isabel pelo dela. Mas quem sabe se este espírito de Roma, que agora desapareceu e que, vagueando por missões através dos lugares desertos da China, do Japão e das Índias, ainda não produziu escassos frutos e não pode voltar, ou melhor, uma assembléia de espíritos ainda mais maléfica do que ele, para habitar esta casa asseada e limpa, tornando portanto o fim ainda pior do que o princípio?”

Gostei do rompante de fúria final. Podemos até atribuir a inclinação à tirania na Rússia à sobrevivência mais marcada do Império Romano nesta região – a Igreja Ortodoxa, isto é, a segunda metade daquele Cristianismo de Estado: czares, comunistas com agenda própria e neo-caudilhos como seus sumos-sacerdotes.

REVISÃO E CONCLUSÃO

No capítulo 29 mencionei como uma das causas da dissolução dos Estados sua geração imperfeita, consistindo na falta de um poder legislativo absoluto e arbitrário, na ausência do qual o soberano civil está condenado a segurar a espada da justiça de maneira inconstante e como se ela fosse demasiado fogosa para suas mãos.” Que demente!

E porque o nome de tirania não significa nem mais nem menos do que o nome de soberania, esteja ela em um ou em muitos homens, a não ser que de quem usa a primeira palavra se entende ser contrário aos que chama tiranos, penso que a tolerância de um ódio professo da tirania é uma tolerância do ódio ao Estado em geral, e uma outra má semente, não muito diferente da primeira.”

Sabemos que geralmente em todos os Estados a execução dos castigos corporais era entregue ou a guardas ou a outros soldados do poder soberano, ou entregue àqueles que por falta de meios, desprezo da honra e dureza de coração eram adequados para um tal oficio. Mas entre os israelitas era uma lei positiva de Deus seu soberano que quem fosse culpado de crime capital devia ser apedrejado até a morte pelo povo, e que as testemunhas deviam lançar a primeira pedra, e depois das testemunhas o resto do povo. Esta era uma lei que designava quem deviam ser os executores, mas não que alguém devesse lançar uma pedra nele antes da culpa formada e da sentença, na qual a congregação era juiz. As testemunhas deviam contudo ser ouvidas antes de que se procedesse à execução, a menos que o fato tivesse sido cometido na presença da própria congregação, ou à vista dos legítimos juízes, pois nesse caso não eram necessárias outras testemunhas além dos próprios juízes.”

E esta suposição de uma futura ratificação é às vezes necessária para a segurança de um Estado, como numa inesperada rebelião qualquer homem que possa dominá-la por seu próprio poder na região onde ela começar, sem lei ou comissão expressa, pode legalmente fazê-lo e providenciar para que seu ato seja ratificado ou perdoado, enquanto o estiver praticando ou depois de tê-lo praticado.”

De maneira semelhante quando um pai tem um filho rebelde, a lei diz (Dt 21:18) que deverá levá-lo perante os juízes da cidade e que todo o povo da cidade o apedrejará.”

Que eu tenha desprezado o ornamento de citar os antigos poetas, oradores e filósofos, ao contrário do costume dos últimos tempos (quer eu tenha procedido bem ou mal nisso), resulta de meu próprio juízo, apoiado em muitas razões. Pois, em primeiro lugar, toda a verdade da doutrina depende ou da razão ou das Escrituras, ambas as quais dão crédito a muitos autores, mas nunca o recebem de nenhum. Em segundo lugar, as matérias em questão não são de fato, mas de direito, em que não há lugar para testemunhas.”

THE DUBBING EFFECT: AN EYE-TRACKING STUDY ON HOW VIEWERS MAKE DUBBING WORK – Pablo Romero-Fresco

Despite being, perhaps along with voiceover, the most criticised (and even vilified) audiovisual translation (AVT) mode, there is little doubt that, generally speaking and from different viewpoints, dubbing works. It is still the preferred form of access to foreign-language audiovisual content for millions of viewers in countries such as Spain, Italy, France and Germany and the preferred choice to translate cartoons and children’s films in subtitling countries (Chaume 2013). Its success is not only commercial, as recent research shows that dubbing is also a very effective translation mode from a cognitive point of view (Wissmath et al. 2009; Perego et al. 2016). Despite the artifice involved in replacing the original actors’ voices for other voices in another language, it seems that (habituated) dubbing viewers still manage to suspend disbelief and become immersed in the fiction of film (Palencia 2002).”

How do we watch a dubbed film? How do we manage to suspend disbelief without being distracted by its artificial nature and by the mismatch between audio and visual elements? In short, what cognitive mechanisms do we activate to make dubbing work?

The aim of this paper is to answer these questions by analysing, with the help of eye-tracking technology, the viewing patterns of spectators watching dubbed and original films. This analysis is complemented by a discussion of other aspects that may be relevant to the perception and overall reception of dubbing, including cultural arguments concerning habituation, psychological and cognitive notions of suspension of disbelief and perceptual phenomena such as the McGurk effect (McGurk and MacDonald 1976).”

When they are first exposed to film, children normally have no knowledge of the artifice involved in cinematic fiction, which means that they go straight from wonder into habituation and automatism. By the time they learn about the prefabricated nature of cinema, film viewing has already settled as an unconscious experience whose enjoyment requires not questioning the reality of what they are seeing, that is, suspending disbelief. Crucially, dubbing audiences are exposed to both original and dubbed films from an early age. They are astounded by the magic of cinema (wonder), regardless of whether or not it is dubbed. The artifice of dubbing (the mismatch between audio and visuals, the almost inevitable lack of total synchrony, even in high-quality dubbing, etc.) is overlooked along with the artifice of cinematic fiction, as they go from wonder to habituation and unconscious automatism. By the time dubbing audiences learn about dubbing (just as when they learn about film), they have already internalised how to watch it without questioning it. In other words, getting used to dubbing, when it happens at an early age, is simply part of the (unconscious) process of getting used to film.”

Even if a particular audience is used to dubbing, there is a tolerance threshold that must be respected with regard to at least two of the key dubbing constraints: synchrony and the naturalness of the dialogue. According to Rowe (1960: 117), this tolerance threshold may vary across countries:

American and English audiences are the least tolerant, followed closely by the Germans. […] The French, staunch defenders of their belle langue and accustomed to the dubbing process since those early days when rudimentary techniques made synchronization a somewhat haphazard achievement, are far more annoyed by slipshod dialogue than imperfect labial illusions. To the Italians, the play’s the thing and techniques take the hindmost, as artistically they should.”

The notion of suspension of disbelief was originally coined in 1817 by the poet and philosopher Samuel Taylor Coleridge (in Parrish 1985: 106), who suggested that if a writer could provide a fantastic tale with a ‘human interest and a semblance of truth’, the reader would suspend judgement concerning the plausibility of the narrative. This term has since been used for film (Allison et al. 2013) and AVT (Bucaria 2008). Pedersen (2011: 22) applies it to subtitling, calling it a ‘contract of illusion’ or tacit agreement between the subtitler and the viewers where the latter agree to believe ‘that the subtitles are the dialogue, that what you read is actually what people say.’”

The McGurk effect (1976) is generally regarded as one of the most powerful perceptual phenomena demonstrating the interaction between hearing and vision in speech perception. It is described by Smith et al. (2013) as ‘an auditory illusion that occurs when the perception of a phoneme’s auditory identity is changed by a concurrently played video of a mouth articulating a different phoneme.’ A typical example would involve the audio of a given phoneme (such as /ba/) dubbed over a speaker whose mouth is visually articulating another phoneme (such as /ga/). Most subjects will report hearing /da/ even though the only sound that is heard is /ba/. Discovered by Harry McGurk and John MacDonald in 1976, this phenomenon shows that speech perception is multimodal and that vision can often be more important than audio in the perception of sounds. From a neurological standpoint, the McGurk effect shows that information from the visual cortex instructs the auditory cortex which phoneme to ‘hear’ before an auditory stimulus is received (Smith et al. 2013). This is generally regarded as a robust effect, i.e. knowledge about it does not seem to eliminate its illusion. The effect has been shown to apply under very different conditions, including different viewers’ profiles (Rouger et al. 2008), audiovisual cross-dressing (combination of female faces and male voices) (Green et al. 1991), cross-cultural comparisons (Rosenblum 2010) and even speakers standing on their heads (Green 1994).”

Could it be that dubbing viewers are amongst the few individuals who have managed to switch off the McGurk effect so as not to be distracted by the asynchronous combination of sound and image? Have they found a way to avoid being put off by the mismatch between lips and audio or do they simply not look at the lips? Should the latter be true, is this an unconscious mechanism and can the above-mentioned early-acquired habit of viewing dubbed films and the ability to suspend disbelief account for this?”

Early studies (Buswell 1935; Yarbus 1965/1967) and also more recent research on face processing and the perception of gaze (Langton et al. 2000; Birmingham and Kingstone 2009) have shown that we tend to focus on faces and, more specifically, on eyes, when looking at other human beings. This may be partly explained by the visual saliency and social importance of eyes (Senju and Hasegawa 2005; Senju et al. 2005). However, most of this research has focused on static images, rather than dynamic viewing. Recent research performed on dynamic face viewing suggests that this attention bias may be task-dependent and not exclusive to the eyes (Gosselin and Schyns 2001). Buchan et al. (2007) found that their participants’ gaze was directed to the eyes when asked to perform emotion judgements and to the mouth when asked to recognise speech. In a recent study aiming to identify what controls gaze allocation during face perception, Võ et al. (2012: 12) concluded that there is no such thing as a general bias to look at someone’s eyes and that, at least during dynamic face viewing, ‘gaze follows function’. In other words, we seem to adjust our gaze allocation dynamically ‘for the purpose of seeking information on an event-to-event basis’ (ibid.: 11). In their study, conducted with 88 participants watching videos with close-ups of different people speaking, the mouth attracted as much as 34% of the gaze allocation. This is in line with the findings obtained by Foulsham and Sanderson (2013), who found a distribution of 71% on the eyes and 29% on the mouth in dynamic face viewing with speaking faces. The percentage of time fixating the mouth has been shown to increase when there is background noise (Buchan et al. 2012), low linguistic competence (Robinson et al. 2015) or poorly synched lips (Smith et al. 2013), which is not too dissimilar to what happens in dubbing.

In contrast with the intense scholarly activity devoted to the analysis of static and dynamic face viewing, the application of eye tracking to dubbing is still in its infancy. Vilaró and Smith (2011) compared the gaze behaviour of viewers watching an animated film in the original English audio condition, a Spanish language version with English subtitles, an English language version with Spanish subtitles and a final version dubbed into Spanish without subtitles. The participants were English speakers who did not know Spanish. The results of the study show evidence of subtitle reading in all conditions (even when they were in Spanish and therefore unhelpful for the participants) and a great deal of similarity in the exploration of peripheral objects.”

Their results confirm the cognitive efficiency and positive reception of both AVT modalities but also that complex audiovisual material may require extra effort from the viewers so as to accelerate their reading process. To our knowledge, no research has yet analysed and compared how viewers watch faces in original and dubbed films. This is the aim of the experiment presented in this article, whose findings, along with the above-included discussions on habituation, suspension of disbelief and engagement, intend to provide a picture of how viewers make dubbing work.”

However, excessive focus on the characters’ mouths may also put off dubbing viewers, making it difficult for them to suspend disbelief and engage with the film. As a result, the hypothesis for this experiment is that given our tendency to (a) lip read and be confused by asynchrony as per the McGurk effect and (b) look at both eyes and mouth in moving faces, we have adopted an unconscious strategy not to look at mouths in dubbing (because there is no useful information to obtained from there) in an attempt, aided by an early acquired and subconsciously internalised dubbing viewing habit, to suspend disbelief and be engaged with the dubbed fiction.”

The first stimulus video was the 6-minute final scene (from 1:36:00 to 1:42:29) of Casablanca (Michael Curtiz, 1942) dubbed into Spanish, of which 2 minutes (from 1:36:12 to 1:38:12) were closely analysed to detect eye movements in close-ups. A second stimulus video consisted of the original English version of the same excerpt, which was used with the control group of native English participants. Finally, the third stimulus video, used to analyse native Spanish viewers’ eye movements when watching an original film in Spanish, was a 6-minute scene (from 0:29:15 to 0:35:23) from Todo sobre mi madre (Pedro Almodóvar, 1999), of which 2 minutes (from 0:30:01 to 0:32:01) were closely analysed to detect eye movements in close-ups. Drawing on Perego et al. (2016), the videos were compared regarding their audiovisual complexity. Despite the significant difference in production year (1942 and 1999) and format (black and white vs. colour), the videos proved to be remarkably comparable regarding duration, speech rate (measured in words per minute), type-token ratio (degree of lexical variation), lexical density, syntactical complexity and number of close-ups”

Participant’s eye movements were recorded using the standalone Tobii T120 eye tracker (Tobii Technology AB, Stockholm, Sweden) integrated in a 17-inch monitor with a 1024×768 resolution that allowed the maximisation of the stimulus display to cover the entire screen. Both the eye-tracking server and the client display application ran on Windows PCs connected via 1GB Ethernet. This eye tracker, which operates at a sampling rate of 60Hz with an accuracy of 0.5°, is unobtrusive, as it allows for a large degree of head movement and ensures natural behaviour, which is important in order to obtain ecologically valid results. During the recording time, the Tobii T120 eye tracker collects raw gaze movement data every 16.6 ms, using a filter to parse the coordinates of the movements into fixations and saccades. For the analysis, two areas of interest were drawn on those shots of the videos that featured close-ups, one covering the characters’ eyes and the other covering their mouths. When using the eye-tracking data to test the above-mentioned hypotheses, the focus was placed on 3 types of measurements that are relevant to gain knowledge of visual attention distribution: number of fixations, mean fixation duration and percentage amount of time spent on the defined areas of interest. A distinction was made between close-ups with dialogue and silent close-ups in order to ascertain whether the presence of dialogue has any impact on the viewers’ eye movements.”

This study involved 42 participants (31 female and 11 male), mostly postgraduate students and young professionals. None of them received course credits or payment for participation. Of those 42 participants, 18 were native English and 24 were native Spanish. All of them had normal or corrected-to-normal vision. A total of 31 participants reported that they did not wear corrective lenses of any sort, seven reported that they wore contacts, and four reported that they wore glasses. Due to poor calibration and other data collection issues, the data from seven participants were discarded from the final analysis, bringing the total down to 35 (15 native English and 20 native Spanish) and dropping the number of males and females to 8 and 27, respectively. The ages of participants ranged from 25 to 60 (M = 28.00; SD = 8.55).”

Participants sat in front of the eye tracker at a distance of 60-70 cm, the eye tracker camera’s focal length. Calibration was performed once for each participant before viewing the first video and required following nine dot targets displayed sequentially on the screen, each shrinking in diameter from 30 to 2 pixels.”

Spanish participants watching Casablanca spent a significantly greater percentage of time looking at eyes than English participants watching Casablanca and that the same group of Spanish participants watching Todo sobre mi madre.”

No effects were observed regarding gender or age. Comprehension was on average very high (5/5 for Casablanca in English, 4.9/5 for Casablanca in Spanish and 4.6/5 for Todo sobre mi madre) and the sense of presence may be regarded medium-high (3.6/5 for Casablanca in English, 3.7/5 for Casablanca in Spanish and 3.8/5 for Todo sobre mi madre).”

the viewing patterns of the Spanish participants watching Casablanca dubbed into Spanish are significantly different: 95% on eyes and 5% on mouths. This extreme focus on the eyes/negative mouth bias is unlike anything found so far in the literature and very different to the way in which the Spanish participants view faces in the original Spanish film used in the experiment, where, after watching the dubbed clip, they show the same distribution (76% vs 24%) found in the literature and in the English group watching the original version of Casablanca.”

these results, which have subsequently been supported by those obtained in Di Giovanni and Romero (2018) with Italian participants, point to the potential existence of a dubbing effect, an unconscious eye movement strategy performed by dubbing viewers to avoid looking at mouths in dubbing, which prevails over the natural way in which they watch original films and real-life scenes, and which arguably allows them to suspend disbelief and be transported into the fictional world. Although not conscious, this mechanism seems to be activated only with dubbed films and is then turned off when watching an original film, where the viewing pattern is aligned with eye movements in real life.”

NOTAS

It is worth noting that eye tracking can only detect the central vision obtained by the fovea (Slaghuis and Thompson 2003). Foveal vision allows us to obtain detailed information typically within six degrees of our field vision, that is, spanning five words in a row when reading printed text at ordinary size at about 50 centimeters from the eyes. Parafoveal or peripheral vision, which can span up to 120 degrees, is thus not detected by eye trackers.” Ora, amigo, isso muda toda a conclusão do estudo! É óbvio que as pessoas simplesmente olham para a face inteira das pessoas na tela!

However, even though peripheral vision can be used to differentiate movement from stillness and even certain types of rhythms and contrast, it cannot help to distinguish colours, shapes or details (Wästlund et al. 2017).” HMM… O que você está dizendo é que NÃO existe visão periférica? Como conseguimos assistir em 16:9 gigantes?

THE 12 TABLES – com comentários de Coleman-Norton

This celebrated code, after its compilation by a commission of 10 men (decemviri), who composed in 451BC 10 sections and 2 sections in 450BC, and after its ratification by the (then) principal assembly (comitia centuriata) of the State in 449BC was engraved on 12 bronze tablets (whence the name Twelve Tables),¹ which were attached to the Rostra before the Curia in the Forum of Rome. Though this important witness of the national progress was destroyed during the Gallic occupation of Rome in 387BC, yet copies must have been extant, since Cicero (106BC-43BC) says that in his boyhood schoolboys memorized these laws ‘as a required formula’. However, now no part of the 12 Tables either in its original form or in its copies exists. The surviving fragments of the 12 Tables come from the writings of late Latin writers and fall into these 4 types:

¹ The code was known under 2 titles: Lex Duodecim Tabularum and Duodecim Tabulae.

(1) Fragments which seem to contain the original words, ‘modernized’ in spelling;

(2) Fragments which are fused with the context of the quoter, but with little distortion;

(3) Fragments which not only are fused but also much distorted, although with a preservation through paraphrase;

(4) Passages which present only an interpretation (or an opinion based on one), or a title.”

the attribution of some items to certain tablets is debatable. The probable order of the fragments, which total over 115, has been inferred from various statements and from other indications of ancient authors.”

TABLE 1. PROCEEDINGS PRELIMINARY TO TRIAL

7. If one of the parties shall not have appeared, after noon the judge shall adjudge the case in favour of him present.

8. If both parties be present, sunset shall be the time-limit of the proceedings.”

TABLE 2. TRIAL

(…)

TABLE 3. DEBT

5. Unless the debtors make a compromise, they shall be held in bonds for 60 days. During those days they shall be brought to the magistrate into the meeting-place on 3 successive market-days and the amount for which they have been judged liable shall be declared publicly. Moreover on the 3rd market-day the debtors shall suffer capital punishment or shall be delivered for sale beyond the Tiber (river).”

Numa passagem não muito bem-compreendida, fica em suspenso a possibilidade do credor poder mutilar o corpo do réu na porcentagem ou fração que lhe é devida, quando ele falha em pagar o valor e é ofertado no mercado, já que o credor (o litigante) teria direito a 1/x do ‘corpo’ do réu!

TABLE 4. PATERNAL POWER

1. O recém-nascido severamente deformado deve ser morto de imediato.

2. Se um pai repudiou o filho três vezes para que fosse vendido no mercado, o filho deverá ser declarado livre do seu pai.¹

¹ A prerrogativa do patria potestas significava que se o antigo comprador de um filho liberta seu escravo, o filho reentra nas posses do pai. Este fragmento significa que mesmo este instituto não tem mais razão de ser quando há manumissão tripla.

3. Para repudiar a esposa, o marido deverá ordenar-lhe que cuide de seus próprios negócios, confiscar-lhe todas as chaves e expulsá-la.

4. Sobre a herança legal, aquele que estava no útero é admitido, se, é claro, vier a nascer.¹

¹ Interpretação: alegados filhos, i.e., crianças nascidas no décimo mês após a morte do tido como progenitor, não têm direito à herança.”

TABLE 5. INHERITANCE AND GUARDIANSHIP

1. Mulheres devem permanecer sob tutela, mesmo após a maioridade.¹ … As virgens vestais são excepcionais, e ficam livres do controle parental.

¹ 25 anos (para mulheres). Para homens, a maioridade em casos de julgamentos por roubo ou por prejuízo causado a terceiros, por exemplo, é 16!

2. As propriedades movíveis de uma mulher que estão sub tutelagem de seu agnato¹ não podem ser auferidas por usucapião, salvo se esses bens tiverem sido cedidos pela proprietária, com consentimento do tutor.”

¹ Parentes paternos. Cognatos são parentes paternos ou maternos. A família agnática é toda aquela contemplada na lei civil. A família cognática possui regulamentações na lei dos gentios.

4. Se um indivíduo morre sem testamento e não tem descendente direto, o agnato macho mais próximo deve ser o herdeiro.

5. Sem agnato macho, os homens do clã do falecido¹ terão direito à herança.

¹ Por inferência em relação à nota anterior, trata-se de algum cognato.

(*) Tutor e guardião não devem ser confundidos: o segundo é o das crianças irresponsáveis pela idade; o primeiro é o dos lunáticos, dentre os quais incluíam-se os pródigos.”

TABLE VI. OWNERSHIP AND POSSESSION

7. O usucapião de bens movíveis é completado após um ano; o usucapião de bens inamovíveis (herança, terrenos) é completado somente após 2 anos.”

TABLE VII. REAL PROPERTY

6. Neighboring persons shall mend the roadway. If they keep it not laid with stones, one shall drive one’s beast vehicles across the land where one shall wish.”

10. The owner of a tree may gather its fruit which falls upon another’s farm.”

TABLE VIII. TORTS OR DELICTS

1. If any person had sung or had composed a song which caused slander or insult to another person . . . he should be clubbed to death.¹”

¹ “Slander and libel are not distinguished from each other in Roman Law.”

14. It is forbidden that a thief be killed by day . . . Unless he defend himself with a weapon, even though he shall use that weapon and shall resist, you shall not kill him. And even if the thief resist, you shall shout.”

18. A stolen thing is debarred from prescription (usucapio).

19. No person shall practise usury at a rate of more than 1/12¹ [0,083%] … if he do, a usurer shall be condemned for quadruple damages.”

¹ “The uncia (whence our ‘ounce’) is the unit of division of the asa and is used also as 1/12 of anything. One-twelfth the principal paid yearly as interest equals 8,33%.”

a The as originally was a bar (1ft. in length) of aes (copper), then a weight, then a coin weighing 1 pound and worth about $0.17. From time to time the as was reduced in weight and was depreciated in value, until by the provisions of the Lex Papiria in 191BC the as weighed ½ ounce and was valued at $0.008.”

24. The penalty for false testimonies is that any person who has been convicted of speaking false witness shall be precipitated from the Tarpeian Rock.¹”

¹ “A southern spur of the Capitoline Hill, which overlooks the Forum, and named after Tarpeia, a legendary traitress”

27. No person shall hold nocturnal meetings in the city.”

TABLE IX. PUBLIC LAW

3. A judge (iudex) or an arbitrator (arbiter) legally (iure) appointed, who has been convicted of receiving money for declaring a decision, shall be punished capitally (capite).”

6. It is forbidden to put to death . . . unconvicted anyone whomsoever.”

TABLE X. SACRED LAW

4. Women shall not tear their cheeks or have a lessus¹ (sorrowful outcry) on account of the funeral.”

¹ “Cicero says that some older interpreters suspected that some kind of mourning-garment was meant by lessus, but that he inclines to the interpretation that it signifies a sort of sorrowful wailing (De Legibus, II)”

6. Anointing by slaves and every kind of drinking-bout is abolished . . . There shall be no costly sprinkling, no myrrh-spiced drink, no long garlands, no incense-boxes.”

9. Gold shall not be added to a corpse. But him whose teeth shall have been fastened with gold, if a person shall bury or shall burn him with that gold, it shall be with impunity (sine fraude).”

TABLE XI. SUPPLEMENTARY LAWS

(…)

TABLE XII. SUPPLEMENTARY LAWS

(…)

UNPLACED FRAGMENTS

o direito a recorrer de qualquer sentença é outorgado.”

MR. PERCOLATOR ENTREGA OS PONTOS SOBRE O FINAL DE TWIN PEAKS!

Hoje temos um convidado muito especial! Pela primeira vez neste blog, não sou eu que estou com a palavra, mas Phillip Jeffries, astro de Twin Peaks, ex-David Bowie, atual chaleira… Bom, é uma longa história… Mas a razão de termos alguém tão especial no nosso programa-tempo-espaço é que este homem-espírito quase-onisciente nos poderá contar, afinal, QUE PORRA FOI ESSA DA TERCEIRA TEMPORADA da série do David Lynch – ele com certeza anotou a placa, não importa o número de números e coordenadas… Obviamente, só alguém tão insano quanto ele, eu, poderia conduzir essa entrevista de tirar o fôlego, ou de repor o fôlego, no caso de quem é movido a café e teorias da conspiração…

Ps: Peço que nos desculpem quando o entrevistado faz especulações desconexas; a responsabilidade não é nossa mas de uma aparente lobotomia e estados ligeiros de afasia sofridos pelo entrevistado enquanto ente da Loja de Conveniência. Tomamos a liberdade de editar alguns trechos que nos soaram muito prolixos, e algumas outras passagens em que a estática comprometeu nossa audição (mas sempre que isso ocorreu nós refizemos a pergunta e reiteramos nossa curiosidade sobre aspectos específicos da resposta).

 

SEJA BEM-VINDO, SR. PERCOLATOR! DIGA ALGUMA COISA PARA TODOS OS FÃS DE TWIN PEAKS QUE ESTÃO NOS LENDO! VOCÊ REALMENTE É UM BULE DE CAFÉ?

PERCOLATOR: Meus cumprimentos a todos! Boa noite, suponho… Porque Twin Peaks fica muito melhor à noite! Sobre o outro assunto, vai dizer que você não sabia?! Nunca foi no reddit? Nunca frisou a imagem? Aquilo não é um percolador, amigo, e eu tampouco sou o objeto mas sim a bo—

ERA BRINCADEIRA. (risos) APENAS PARA ESQUENTARMOS! VOU DIRETO AO PONTO, VOCÊ PODE DESENVOLVER A SUA RESPOSTA O QUANTO QUISER, E EU JÁ AVISO QUE VOU TE INTERROMPER BASTANTE… MAS NÃO É PARA OUTRA COISA QUE ESTAMOS AQUI: O QUE SIGNIFICA O FINAL DE TWIN PEAKS – THE RETURN? OUVI DIZER QUE VOCÊ TEM A(S) CHAVE(S) DO MISTÉRIO!

PERCOLATOR: Do meu ponto de vista, que é atemporal, com certeza tenho mais evidências do que qualquer personagem da história que você pudesse trazer – e garanto que não tenho interesse por nenhuma das partes, sendo assim possível fazer um minucioso relato imparcial… Mas como o assunto é David Lynch, devo avisá-lo de que isso também não é muito pretensioso, sabe, não almejo ao estatuto da verdade… Você pode considerar como “mais uma opinião” de alguém que acompanhou os personagens muito de perto! (risos metálicos) Vamos lá, me bombardeie com as suas perguntas! O que você quer saber primeiro? Eu acho que minha resposta tem mais partes do que capítulos nesta terceira temporada…

 

ENTÃO, PARA COMEÇAR… O QUE É O BLACK LODGE OU SALÃO NEGRO? O QUE É A RED ROOM? ALGUNS DIZEM QUE A RED ROOM QUE VEMOS É UMA “SALA DE ESPERA” PARA O VERDADEIRO SALÃO NEGRO, SABE? AQUELA COISA DA SALA COM O SOFÁ E AS ESTÁTUAS GREGAS, E A OUTRA SALA PARA ONDE VAI COOPER APÓS UM CORREDOR?… PARECE QUE NA RED ROOM APENAS O (ANTIGO) BRAÇO E MIKE INTERAGEM COM COOPER, OU LAURA, MAS NUNCA DE FORMA AGRESSIVA, AO PASSO QUE NA PRÓXIMA SALA, I.E., NO SUPOSTO SALÃO NEGRO, COISAS MAIS HORRIPILANTES ACONTECEM…

PERCOLATOR: Primeiro, eu quero que você tire da sua cabeça essa distinção entre black lodge e red room. Isso é coisa de fã! Estes são sinônimos para o mesmo lugar… Além disso, sendo o black lodge o que podemos chamar de inferno, ou pior-que-o-inferno, o hall de entrada para tal lugar seria diferente do lugar em si? Uma vez satisfeitas as condições para entrar no salão negro, a entrada e a livre troca entre as salas dentro do salão negro não são um problema para as visitas ou seus ‘anfitriões’. Cooper não teve que cumprir nenhum pré-requisito para pular de uma sala para outra, mas quando ele tentou, uma vez, sair do black lodge para o mundo dos homens novamente, a cortina vermelha se tornou espessa, como que de aço. Vê no que me fundamento para fazer essas afirmações?

 

COM CERTEZA! MINHAS PRÓXIMAS DÚVIDAS ESTÃO DIRETAMENTE RELACIONADAS COM UM TÓPICO QUE VOCÊ CITOU: QUAIS SÃO EXATAMENTE AS CONDIÇÕES PARA ENTRAR NO BLACK LODGE? E QUEM PODE SAIR?

PERCOLATOR: Ou você entra morto, ou você morre ao entrar…

 

ESPERA! COOPER ESTÁ MORTO DESDE 1991?!

PERCOLATOR: Calma, chegaremos lá, não se precipite!… Sendo mais didático, algumas vítimas de espíritos malignos como BOB são mortas e poderão a partir daí ser encontradas no black lodge em sua forma física final, inalteradas. Este é o além dessas pessoas. Agora, reconheço que não é assim com todo mundo… O agente especial Cooper e Windom Earle foram dois humanos excepcionais que entraram no black lodge seguindo o único caminho permitido para os vivos, e por conta própria: após se informarem sobre o alinhamento de Júpiter e Saturno e da localização do portal, e de que o medo e o amor são capazes de franquear essa barreira sobre-humana, eles puderam adentrar essas imediações, sem o ônus de terem sofrido uma morte trágica. (risos) Isso não quer dizer, porém, que se pode circular nos aposentos do diabo sem pagar um alto preço por isso!

 

O QUE QUER DIZER COM ‘DIABO’?!? FALA DA JUDY?

PERCOLATOR: Vamos devagar, meu entrevistador afoito! Falo apenas em sentido metafórico. Veja, é como nas histórias românticas: para se sobreviver a um evento que provavelmente o mataria, você tem de oferecer algo em troca, certo? Fausto, Dorian Gray, todas essas criações literárias têm uma coisa em comum: empenharam sua alma! Eu te pergunto, e se não quiser responder, eu respondo: qual preço Windom Earle pagou pela sua ousadia?… Ele foi morto por BOB, porque ali não é um serial killer psicopata humano quem faz as regras! E qual preço pagou o agente Cooper?

 

BOM, TENHO QUE RECONHECER QUE NÃO SEI ONDE VOCÊ QUER CHEGAR… COOPER ENTROU NO SALÃO NEGRO… PRIMEIRO PENSÁVAMOS QUE PARA SALVAR ANNIE BLACKBURN, ISSO É O QUE PENSÁVAMOS EM 1991 – MAS SÓ EM 2016 FOMOS INFORMADOS POR GORDON COLE QUE COOPER PRETENDIA ALGO MAIS…

PERCOLATOR: Na mosca! Então você diz: ele entrou esperando estar incólume aos maus efeitos desse lugar, efeitos para os quais o Major Garland Briggs e o policial Hawk tinham tentado preparar Cooper. Isso nas nossas teorias dos anos 90. Ele só teria uma coisa a ganhar: sua dama. Era uma questão “órfica” até então!

 

DISCORDO DE VOCÊ NO PARALELO: NA MITOLOGIA, ORFEU DESCE AOS ÍNFEROS PARA CONVENCER HADES E PERSÉFONE A DEVOLVER-LHE EURÍDICE, QUE HAVIA MORRIDO. NESTE CASO, ELE CONTAVA SINCERAMENTE COM SALVAR ANNIE… E PELO QUE SABEMOS ANNIE, APESAR DE NÃO TER LEVADO MAIS UMA VIDA NORMAL, FOI RESGATADA POR COOPER, AFINAL DE CONTAS…

PERCOLATOR: É correto! Há uma falta de simetria, você notou bem! Annie entrou como Cooper e Windom, em que pese contra sua vontade! Ela entrou viva no alojamento… no black lodge! E pôde sair, mas pagando um alto preço…

 

ENTÃO LÁ VAMOS NÓS DE NOVO COM O QUE VOCÊ DIZIA A PRINCÍPIO…

PERCOLATOR: Sim! Tudo que devemos considerar é: o método e condição do ‘corpo’ na entrada! Cooper pagou um preço por entrar vivo no salão negro, e vou tentar explicar isso. Como você sabe, ele foi retido pelo seu Doppelgänger, então tecnicamente ele nem sequer ‘salvou’ Annie. Mas ficar retido no salão negro não foi o castigo de Cooper, ou nem de longe toda sua pena, e além disso ele estava previamente informado dessa circunstância… através de sua enorme sensitividade onírica… Ele foi avisado em sonho que estaria no black lodge dali a 25 anos. Voltando a Orfeu e Eurídice, o que aconteceu? Orfeu entrou vivo, saiu vivo e depois… Err, odeio spoilers, leia o mito! Leia a peça, leia em qualquer lugar, as fontes são muitas… Eurídice, como se vê, se deu mal… Na Grécia Antiga as pessoas ‘não morriam’, i.e., morrer era insignificante para elas. Eurídice continuou como pedra, pensando e falando. Você sabe o que Aquiles e Ulisses faziam no Hades? Eles só podiam ser eles mesmos: conversar sobre os feitos heroicos passados, alimentar-se de sombras, reunir-se como nos acampamentos de guerra, contar estórias… Óbvio que enquanto espectros não sentiam mais fome nem necessidades fisiológicas… Encare isso como uma extensão inútil da vida… Bom, o que há de comum entre a saga de Orfeu e a saga de Cooper, neste caso? Primeiro, vamos supor que Cooper-Annie sejam o “casal protagonista”, porque nem sequer começamos a falar de Laura Palmer… Orfeu-Eurídice: ambos tiveram fins trágicos… Cooper e Annie também! Ainda chegaremos lá… Você sabe qual a diferença entre Cooper e Laura Palmer, no que tange ao black lodge? Cooper não era um escolhido…

 

AGORA VOCÊ CHEGOU AO PONTO QUE INTERESSA AOS LEITORES, MEU PROLIXO INTÉRPRETE! COOPER TINHA UM SEGUNDO OBJETIVO ESSE TEMPO TODO… E DESCOBRIMOS, EM 2016, QUE NENHUM DELES, P.EX., ERA LIDAR COM BOB! NEM MESMO ACERTAR AS CONTAS COM WINDOM EARLE…

PERCOLATOR: Eu gosto do seu raciocínio rápido… Começo a fumegar como o cachimbo do Popeye! Espero que o pessoal esteja nos acompanhando sem sobressaltos… O objetivo duplo do nosso agente Cooper era desde o início, em arranjo secreto com seu chefe Gordon Cole do FBI, o Major Briggs, Daiane (sem nem mesmo o conhecimento de Gordon!) e a entidade conhecida por vocês como o Gigante ou Bombeiro, recuperar Laura Palmer e lidar com Jowday… Os dois objetivos eram indissociáveis… Ele precisaria sair do black lodge para fazê-lo, e isso levaria tempo… Eu não sei dizer como fica a percepção de uma pessoa nesse lugar, me entende?! Eu já perdi a noção do que é tempo, meu caro, não sou um bom parâmetro! Mas ousaria dizer que Cooper esqueceu Annie, e isso não se deve a nenhum defeito de caráter… Tínhamos muito mais em jogo. Laura Palmer, viva ou morta, era, aliás, outra que sabia dos planos de Cooper, além de Gordon e do Gigante, por exemplo. Laura Palmer pode ser considerada a ‘Eurídice sortuda’: ela era a escolhida, tinha prerrogativas especiais que nenhuma dessas heroínas da mitologia tinham… Agora, espero que isso não seja muito súbito para você, mas qual era a ‘cláusula tácita’ do contrato de Cooper, que achou o salão negro?

 

SEGUNDO VOCÊ, QUE ELE MORREU PARA CONSEGUIR UMA VANTAGEM TÁTICA NA CRUZADA CONTRA O MAL DOS MALES, JUDY!

PERCOLATOR: Nossa, você é tão abrangente assim sempre?! Não, Cooper não morreu, e você está certo e errado ao mesmo tempo, mas não entenderia isso agora. Dale Cooper e Lara Palmer são as únicas pessoas nessa história que envelhecem. Leland é visto no salão em 1991 e em 2016, e ele permanece igual… Cooper ganha a anistia das forças do salão negro, contanto que faça um sacrifício de igual monta… Algum palpite?!

 

VOCÊ ESTÁ SE REFERINDO À SAÍDA DE COOPER DO BLACK LODGE APÓS A ‘REUNIFICAÇÃO’ COM SEU OUTRO EU, QUANDO ELE ALTEROU O PASSADO PARA CONTROLAR O FUTURO…

PERCOLATOR: Invejável, Cila, invejável! Ou Cooper permanecia por toda a eternidade no salão negro, salvando a memória de sua passagem pelo mundo, ou sacrificava justamente todo o seu passado, e o melhor período de sua vida, que foi quando conheceu as pessoas mais especiais e encontrou seu propósito… assim que pisou em Twin Peaks! Na verdade, tratar-se-ia de GENOCÍDIO COLETIVO, literalmente apagar a história de milhares de pessoas… Seria um desejo muito egoísta, concorda?! Talvez apenas o Cooper reunido ao seu lado negro, Mr. C, pudesse reunir a coragem para tomar tal decisão… Mas você se engana se pensa que foi assim… Cooper já entrara no black lodge decidido – pelo bem maior da humanidade… O Gigante não o deixara hesitar um instante sequer! Se ele pudesse evitar que o que o levou a Twin Peaks em primeiro lugar acontecesse… Ele poderia voltar ao seu mundo, fora do salão, vivo! Claro que para fazer esse ‘servicinho’ (salvar Laura) ele contou com o papai aqui, hehehe! (Plateia faz “uuuuuhhhh!!!! Gostoso! Lindo! Tesão! Aaaah, é Percolator!” Não sabemos se a sério ou jocosamente.)

 

ENTÃO ELE ENGOLIU AS CONSIDERAÇÕES ÉTICAS POTENCIALMENTE NEGATIVAS DE ‘APAGAR A HISTÓRIA VIVIDA POR MILHARES DE PESSOAS’ E RESOLVEU DAR PROSSEGUIMENTO AO PLANO DE MATAR JUDY… MAS ISSO AINDA NÃO PROVA QUE ALGUÉM ‘SEMPRE PERDE’ QUANDO ENTRA NO SALÃO… TRATA-SE DE UM DILEMA ÉTICO, O DO ‘MAL MENOR’…

PERCOLATOR: Entendo onde sua astúcia quer chegar! Mas veja: nunca foi uma escolha: Cooper sempre esteve fadado a fazer o que fez… E como ele escolheu fazer o que fez, você bem sabe que ele não pararia ali… O Gigante o alertou… Ele não conseguiria trazer Laura de volta à sua casa… A essa altura, como você viu a série duas vezes, com muita atenção, você sabe que Laura Palmer, que nasceu primeiro como um ‘orbe’ em 1945… 1947?… Meu deus, minha memória começa a falhar… 1955?! Bom, a Laura Palmer que conhecemos veio a este mundo em 1971… Dale Cooper pôde evitar a sua morte física em 1989, mas Judy ‘levou a melhor’ do mesmo jeito… E Cooper, portanto, sendo livre para viver sua vida deixando tudo isso de lado, decidiu no entanto tomar o passo seguinte, a ‘segunda metade’… Eu disse ‘segunda metade’????

 

É CLARO QUE VOCÊ DISSE SEGUNDA METADE. E VOCÊ DISSE DUAS VEZES!

(Risadas na plateia.)

PERCOLATOR (O chale fica rosado dos lados): (Pigarreada.) Eu disse – mais cedo – que não era possível dissociar um objetivo do outro… Salvar Laura e lidar com Judy-Jowday! Cooper sabia que evitar que BOB ou simplesmente uns humanos imbecis estuprassem e matassem a garota não era o mesmo que SALVÁ-LA… E depois temos Judy. Então eu afirmo com todas as letras: desde o início Cooper partiu para uma missão suicida.

 

AGORA ENTENDO SEUS CIRCUNLÓQUIOS, SR. PERCOLATOR! ME DIGA UMA COISA: VOCÊ NÃO ACHA QUE LYNCH IRRITOU MUITOS FÃS ANULANDO ASSIM TODOS OS EVENTOS DAS DUAS PRIMEIRAS TEMPORADAS?!

PERCOLATOR: Bom, do ponto de vista do show business… E eu entendo de show business… (Bowie feelings) Talvez. Mas analisando friamente, Cooper era o homem talhado para esta dura missão – e quando eu disse que ele tinha um alto preço a pagar, não era por ENTRAR NO SALÃO NEGRO – mas pelo dom que ele adquiriu ao sair de lá… Que era converter tudo que REALMENTE ACONTECEU com ele e seu ‘sósia invertido’… em SONHO. De forma que o real fundamental passou a ser seu encontro com Laura Palmer na dimensão que os fãs desse show chamam de ‘red room’… Desde o início. Enquanto a memória de Cooper estiver viva, creio que seus sonhos, e com isso todo o carisma dos habitantes de Twin Peaks, estará a salvo… (Lágrimas pretas descem pelo bico do bule.) (Plateia consternada.)

 

PRIMEIRO VOCÊ ME PEDE CALMA, AGORA VOCÊ JÁ AVANÇA PARA CONCLUSÕES MUITO AVANÇADAS! FALE MAIS UM POUCO SOBRE ESSA ‘JORNADA INTERIOR’ DO COOPER QUE SERVE DE PRÓLOGO AO EMBATE FINAL QUE ELE TRAVA COM A ENTIDADE JUDY. VOCÊ ACHA QUE SE MATASSEM DOUGLAS JONES OU SE O BAD COOPER TIVESSE AVISTADO SARAH PALMER, TUDO IA TERMINAR DO MESMO JEITO QUE NA ‘PRÉ-CONCLUSÃO’, À DELEGACIA?

PERCOLATOR: É claro que, de um jeito ou de outro, mesmo que o total se dê graças à soma de cada uma das individualidades envolvidas, às 2:53 aquilo tudo estava destinado a acontecer… Black Cooper e Cooper se fundiriam, o plano ‘não tinha como dar errado’. Essa era a parte boba, a cereja do bolo… O cerne da missão era o que aconteceria depois… Você quer que eu fale mais alguma coisa não-esclarecida sobre os episódios 1-17 ou posso ir diretamente para o 18?

 

VOCÊ COLOCOU AS COISAS MUITO BEM. ESTAVA PENSANDO ESSES DIAS QUE NA VERDADE “TWIN PEAKS” NÃO TEM 3 TEMPORADAS! ANALISAVA O TÍTULO DO REBOOT… TWIN PEAKS: O RETORNO. ACHO QUE ‘TWIN PEAKS’ PROPRIAMENTE DITO SERIAM OS 17 PRIMEIROS EPISÓDIOS. ANTES EU ACHAVA QUE ‘O RETORNO’ ERA O ACLAMADO RETORNO DA SÉRIE, QUE SÓ FOI POSSÍVEL GRAÇAS AO ARDOR DOS FÃS. MAS HOJE EU PENSO DIFERENTE: OS 17 PRIMEIROS EPISÓDIOS SÃO ‘O QUE ACONTECE PARA ENROLAR O EXPECTADOR’ ATÉ QUE COOPER CONTINUE O ENREDO DE 1991…

PERCOLATOR: Genial! Genial! Não esperava menos de você… Isso foi meio… Como é o nome daquele cara, ééé, da sua música popular brasileira, um que não é muito querido, ou seja, não estou falando do Chorão… Um que morreu… Ahh… Acho que antes de você nascer… Um tal Marcelo Cavalo…

(Risadas da plateia.)

 

VOCÊ QUIS DIZER… RENATO RUSSO… É, EU ENTENDI A REFERÊNCIA! E ANTES QUE ME ACHEM PIRRALHO, EU TINHA O I T O ANOS QUANDO RENATO RUSSO MORREU… DEPOIS, EU TINHA 24 ANOS, TALVEZ MAIS, QUANDO O CHORÃO MORREU… E ESSE DE QUEM VOCÊ FALA NADA TINHA A VER COM ESSA MINHA IDÉIA… MARCELO CAMELO, ELE ESTÁ VIVO POR AÍ…

PERCOLATOR: Ah sim! Perdão! Eu pensava no fundo do poço… No cavalo branco, nas drogas que extraviaram os jovens, e nessa Sarah Palmer…

 

E PARA O PÚBLICO DESORIENTADO, EU EXPLICO ESSA BIZARRA CADEIA DE ASSOCIAÇÕES: RENATO RUSSO DECLAROU, CERTA FEITA, QUE A VIDA É AQUILO QUE PASSA ENQUANTO NOS PREOCUPAMOS COM OUTRAS COISAS…

PERCOLATOR: Ecce homo! Você, não ele! Para que Twin Peaks fosse ressuscitada enquanto série, não FILME, eu diria que David Lynch teve que recorrer a alguns expedientes… Não vou criticar essa obra-prima mas… O motivo da minha entrevista é saber o que era tudo aquilo no episódio 18, estou correto?!

 

NADA MAIS, NADA MENOS!

PERCOLATOR: E você ressignificou o título dentro de sua cabeça de forma apropriada… O Retorno não é o retorno de TP… Mas o retorno do viajante para casa, a Odisséia do protagonista, e nada mais… Na verdade Lynch soterrou todos os doces sonhos e tortas e rosquinhas dos anos 80 e 90 com essa marretada brutal, digo, com este golpe de Hitchcock – serra elétrica… E L E C T R I… C I T Y! Entenderam?! marretada… serra… elétrica… Garmonbozia!!! (Plateia no mais absorvente silêncio.)

E-eu quis dizer… ELECTRI-CITY… TWIN PEAKS É UMA CIDADE!!!

(Plateia ainda majoritariamente em silêncio – algumas senhoras exclamam ‘ã?’, ‘perdi alguma coisa?’, etc.)

 

SR. PERCOLATOR… ESQUEÇAMOS ISSO, ESQUEÇAMOS ISSO… AH, AH! NOSSO CONVIDADO É MUITO ENGRAÇADO, NÃO É GENTE?! RETOMANDO O FIO… O RETORNO ERA SÓ O DE DALE COOPER DE SEU LONGO ASILO NO BLACK LODGE, PARA COMPLETAR SUA MISSÃO DOS DOIS COELHOS NUMA CAJADADA SÓ… SE A PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA SE CONCENTROU NO MITO DE ORFEU, ESSA AGORA É A VERDADEIRA SACADA LYNCHIANA DESTA DÉCADA: DALE COOPER É ULISSES RETORNANDO!

PERCOLATOR: U-lá-lá! Melhor impossível, monsieur… Mas responda-me então… quer falar mais sobre alguma coisa que não tratamos com profundidade da Twin Peaks que virou Dream Peaks ou quer falar sobre Odessa, etc., etc., do capítulo 18, a única verdadeira CONTINUAÇÃO de TP?!

 

UMA OPINIÃO PESSOAL: QUAL VOCÊ ACHOU O MOMENTO MAIS ENGRAÇADO E O MOMENTO MAIS TRÁGICO DE TODO O SHOW, TIRANDO O FINALE?!

PERCOLATOR: Vejo no casal Ed e Norma a maior tragédia de Twin Peaks: a perda de todos os anos dourados que poderiam ter tido facilmente. A futilidade de um final feliz que é exatamente isso: chegou apenas no final do final! Sobre os momentos mais cômicos… impossível separar um só! Apesar de todas as peripécias de Dougie Jones, eu vou ficar com 2 na cidade de Twin Peaks: Lucy e Andy aporrinhando o policial Hawk, que só queria investigar pistas valiosas sobre o desarquivado caso Cooper, na sala cheia de arquivos daqueles tempos…; e aquele homem creditado como “bêbado” que é preso com o policial corrupto e aqueles outros personagens e não pára de repetir as frases (muito douguiano por sinal!), rebatendo os xingamentos! Bem, fora de TP mas não exatamente fora dos seus personagens que crescemos apreciando, tem a sensacional conversa do Jerry Horne com o seu próprio pé!

 

EXCELENTE. ÓTIMAS LEMBRANÇAS! AGORA, SENHOR SEGREDOS BURILANTES… PODE FALAR DO QUE MAIS O IMPORTUNA E QUE VOCÊ PRECISA DESABAFAR PARA O PÚBLICO FIEL, MAS NÃO ESQUEÇA DE DAR TODOS OS PINGOS NOS I’S: VOCÊ TEM DE EXPLICAR SEU PAPEL NA TRAMA, E FALAR UM POUCO DO GIGANTE E DO SALÃO BRANCO TAMBÉM! E QUAL O NÍVEL DE RELACIONAMENTO OU INTERAÇÃO ENTRE ESSES DOIS ESPAÇOS…

PERCOLATOR: Claro, claro! Já que você tocou no assunto, já vamos tirar isso do caminho: atente para uma coisinha: eu sou sócio do Gigante, é!… É, eu sou o cara!… Não, não, não adianta querer me gabar, esses fãs são um saco, vão atrás das declarações de qualquer personagem, confrontam o Lynch e o Mark Frost, também… Eventualmente entregariam minha egolatria, então eu me autocorrijo: o Gigante é hierarquicamente superior a mim. É como um deus ou entidade que contrabalança a existência de Judy, e tem seu próprio espaço, o adivinhado salão branco, que até acolhe bem mais pessoas do que o salão negro, e pode devolvê-las mais rápido… Garland Briggs, Bobby Briggs, Andy Brenan… O próprio Cooper… E tem mais: o Gigante pode ir ao salão negro quando quiser, vocês viram como isso é possível ao final da segunda temporada… Teoricamente o contrário também é possível, ou Judy não tentaria melar a reentrada do Cooper bonzinho no mundo real de novo, antes da imersão de yin-yang, i.e., dele com ele mesmo para ser o que ele sempre devera ter sido – um agente mais pragmático e menos ‘rosa’, menos otimista em relação ao futuro… Bom, tudo isso para dizer que eu vivo numa espécie de ‘espaço neutro’, mas eu tinha claramente um papel de mocinho no enredo!…

 

E FOI VOCÊ QUE DEU AQUELE TELEFONEMA AO BAD COOP?

PERCOLATOR: Ah, aquilo do episódio 2?! Nããão, aquilo não fui eu, não… Mas olha, eu não tenho um Doppelgänger, sabia?

 

(CARA ABORRECIDA) EU SABIA QUE VOCÊ NÃO TINHA UM DOPPELGÄNGER. ACHO QUE ISSO NUNCA PASSOU PELA CABEÇA DE NINGUÉM, PHILLIP… SE ME PERMITE SER MAIS ÍNTIMO.

(Platéia grita: ‘É… Ninguém…’ Leve burburinho depois.)

PERCOLATOR: Ah, à vontade! Nomes não são problemas, eh, eh! Gostaria até de me aprofundar mais nessa questão de nomes mais tarde, por favor, me lembre disso! Vou continuar com as explicações que remetem ao episódio 18:

Eu tenho um dom, que é a da viagem no tempo; obviamente só seres muito especiais podem ter acesso a esse meu dom, e por sua vez alterarem o passado… Com a MINHA ajuda… (Aqui alguns segundos se passam. Acho que o Percolator esperava ser calorosamente aplaudido.) (Pigarreada.) O que eu quero esclarecer é o momento da cena inaugural, daquela conversa “em código” entre Cooper e o Gigante… Ali ele estava no salão branco, mas ele não tinha autorização para sair do salão negro no primeiro episódio… Então você deve estar ciente que aquela cena aconteceu bem depois… Na verdade vou contar exatamente quando: assim que mandei Cooper para 1989…

 

MAS POR QUE ELE NÃO CAIU LOGO DE CARA EM 1989? POR QUE FOI PARAR NA SALA COM O GIGANTE?

PERCOLATOR: Ah, o Gigante é como Judy, entende? Ele está em todos os tempos… Isso não era problema para ele… Mas lembre-se que o nosso agente precisava de uma ajudinha, de um aconselhamento… Eu mesmo fui informado pelo Gigante em pessoa, então não era difícil para mim só mudar o ‘local’ de destino da viagem no tempo… Claro que Cooper já tinha o que era necessário para comparecer ao salão branco após eliminar, alegoricamente falando, seu eu do lado negro… Ahhh… e você deve saber por que raios o Gigante não podia ter essa conversa no black lodge… E aliás quase não puderam conversar direito no próprio white lodge… A verdade é que Judy pode penetrar nos domínios do Gigante, mas também não teria muito a ganhar com isso… Vê? Só para espionagem, isto é… Então Cooper foi avisado dos efeitos colaterais que viajar para ‘Odessa’ (é assim que vou chamar o mundo onde se passa o final da série, para ficar mais fácil de associar) acarretaria… Claro que nunca é tarde para informar que outra componente do plano ‘exterminação de Judy’ era Daiane… Mas nem Gordon Cole foi informado do real paradeiro dela, pois ela era um grande ás na manga e Cooper e o Gigante preferiram assim… O Gigante cuidou de tudo nesse ínterim, é por isso que Coop a reencontrou numa zona neutra, completamente disfarçada, no seu caminho de volta para esta realidade, no que ficou agora no cânone apenas como ‘sonho de Cooper’… Naido! Depois de cair sua “casca” na delegacia, Daiane se revelou, mas tem uma coisa diferente com ela, e isso vai nos causar confusão mais para a frente se eu não alertar todo mundo disso: Daiane não é como Laura ou Cooper, na verdade talvez seja… Talvez não… Sabe, confesso que nem eu posso entrar na cabeça do Lynch, mas, por ora, para não confundi-los, só direi: ela foi estuprada pelo maluco do Bad Coop no mínimo duas vezes, e fez aquela ‘dança afrodisíaca’ com o Good Coop esse mesmo número mínimo de vezes, como vocês devem ter interpretado por tabela vendo o episódio 18… E ela é a mais pessimista quanto ao ‘plano’… Não à toa, ela deixa tudo para o Cooper e dá no pé: aquele bilhete… Linda, Richard… Então é isso… Por que o Gigante avisou essas coisas ao Cooper precisamente nessa hora, se só precisava mesmo era falar do som da captura de Judy? Porque não interessa quando ele o fizesse, se meia hora antes, ou 25 anos antes… Estar onde Cooper e Daiane, e Laura, estavam… em Odessa… logo borraria todas as explicações… Mas também vou te dizer: existe uma ambigüidade na declaração do Gigante: ‘Você está longe…’ Podia ser porque no segundo seguinte o próprio Gigante (que é mais poderoso do que eu) enviou Cooper para os bosques de Twin Peaks, aproximando-o do alvo de sua missão em 1989… Mas podia ser por uma outra coisa. Não me deixe sair daqui sem esse esclarecimento, por favor!

 

MAS SR. PERCOLATOR, VOCÊ NÃO PODE IR A LUGAR NENHUM!

(Risos na plateia. De fato, ele não tem pernas!)

POR FAVOR, NÃO SE AFLIJA! CONTINUE DE ONDE TINHA PARADO!

PERCOLATOR: O tempo?

 

NÃO, NÃO, ACHO QUE JÁ ERA DEPOIS DISSO! VOCÊ TROUXE COOPER A 2016 ASSIM QUE ELE ‘FALHOU’ (COMO TODOS PREVIAM) NO RESGATE DE LAURA, NÃO?

PERCOLATOR: Na verdade, eu não usei mais a ‘máquina’… VOCÊ SABE QUANTO TEMPO DEMORA PARA CARREGAR AQUELA COISA QUE FAZ UM OITO DEITADO (SÍMBOLO DO INFINITO) E AÍ DEIXA O HÓSPEDE VIVO DO BLACK LODGE NUM OUTRO ANO?! CARA, AQUILO DEMORA PRA (BEEEEEEP)!!! (O bule se recompõe.) Após aquela cena tocante – em que Cooper vê seu braço suspenso no ar, abandonado – ser cortada por Lynch (como eu acho que você vai cortar meus palavrões na edição final dessa entrevista), Cooper, ou Kyle MachLachlan, como queira, de ‘mãos vazias’, caminhou de volta ao black lodge, só para ‘confirmar uma coisa’. Ele pôde apurar que Laura estava longe do black lodge agora, que Leland, sem BOB, mantinha a mesma aparência e ainda se lembrava de tudo, porque Cooper não podia retirar do salão negro quem já havia entrado, mesmo alterando o futuro e convertendo sua primeira realidade em sonho, porque, afinal, o black lodge está fora do tempo! Como eu dizia, Laura é ‘diferente’. Todo o resto aconteceu e não é reversível, isto é, da perspectiva do salão negro: Windom Earle, Annie, Maddy… O próximo passo era reencontrar Laura através das coordenadas do Gigante. E Cooper pôde confirmar mais uma coisa: Leland permanecia com a mesma cara. Ele não! Estava 25 anos mais velho, isto é, estava da mesma idade, não tinha ‘remoçado’ quando transportei ele e sua parceira no tempo. Mas para o que iam fazer, não fazia muita diferença… A par de tudo, portanto, como acabei de ‘entregar’, Daiane, que também apareceu nos bosques de Twin Peaks em 1989, se encaminhou como combinado para os sicômoros, em outras palavras para a porta do black lodge, a mesma usada por Cooper 25 anos antes (Espera, agora estou confuso: ou seria alguns dias ou semanas depois? Err…), numa excelente sincronia entre parceiros de FBI… Ainda que seja só uma secretária do Bureau… Agora era hora de seguir as instruções restantes do Gigante: 4 3 0…

 

ESPERA, COMO VOCÊ SABE QUE ELES SAÍRAM EM 1989? ISTO É, O GIGANTE PODERIA TÊ-LOS TRANSPORTADO DE VOLTA A 2016 MESMO SEM SEU CONHECIMENTO…

PERCOLATOR: Sim, sim, mas quem os transportou no tempo foi Judy…

 

VOCÊ TEM PROVAS?

PERCOLATOR: Na verdade, tenho uma: o carro do Cooper!

 

SÓ ISSO?

PERCOLATOR: Com certeza! Quer dizer, o carro é o fundamental… Mas se você notar que um andar não é construído num hotel de beira de estrada (hotel de posto, ainda por cima!) do dia pra noite… É, posso dizer que não havia muitos outros elementos para corroborar minha tese… Mas eu ainda sou o melhor que você tem!

 

POIS BEM, CONTINUE COM A CONFUSA CRONOLOGIA DOS FATOS…

PERCOLATOR: E então, além da quase-onisciência do Gigante, você quer saber por que o Cooper sabia tudo que sabia que deveria fazer e como tinha certeza factual que nem tudo tinha mudado mesmo sem poder comprová-lo pelo black lodge (pois Laura não estava mais lá)? Que ele deveria procurar uma mulher de meia idade, e não uma jovem de 17 anos em Odessa?

 

JÁ IMAGINO DO QUE QUEIRA FALAR…

PERCOLATOR: Isso, dos sussurros! O grande segredo da primeira temporada foi cochichado no ouvido de Cooper num sonho… Isso não impediu os autores de prolongarem o mistério de ‘Quem matou Laura Palmer?’ por mais bastantes episódios… Eis que Laura 25 anos mais velha cochichou de novo no ouvido de Cooper, mas dessa vez no verdadeiro black lodge, e cochichou uma outra coisa, cochichou sobre…

 

JUDY!

PERCOLATOR: Exatamente! Olha, eu não sei o que ela falou, literalmente, mas eu posso te oferecer versões que são mais ou menos exatas…

1) Você pode ir quando puder me encontrar em Odessa.

2) Você pode ir quando eu não estiver mais aqui (no black lodge).

3) Você pode ir quando puder matar dois coelhos com uma cajadada só.

4) Você pode ir quando houver se reunido com seu lado negro.

5) Você já, já pode ir, mas saiba que nós dois vamos matar Judy juntos e morrer!

6) Você pode ir, e juntos vamos matar Judy, mas Judy nos matará – é um bom trato, que acha?

7) Judy agora é minha mãe!

8) Eu posso matar Judy, lembra? Eu e você somos sacrifícios—

 

SENHOR PERCOLATOR…

PERCOLATOR: Pra quê a formalidade?! Ainda vai ficar usando ‘sr.’ para falar comigo?

 

MUITO BEM, PERCOLATOR… DESCULPE INTERROMPER SEU ROTEIRO, MAS VOCÊ NÃO ACHA QUE COM UNS 10 PALPITES DESSES UMA HORA IRIA ACERTAR EM CHEIO? QUER DIZER, NÃO É COMO JOGAR DUCK HUNT COM A PISTOLA GRUDADA NA TELA?

PERCOLATOR: (Risos) Sei o que isso parece, mas…mas não é bem assim… Eu confesso que ia dar 10 palpites, número redondo, mas agora não importa. Não é que os outros 9 tiros são desperdiçados… É tudo parte de um tiroteio maior…TODAS AS FRASES ESTÃO CORRETAS. É um mosaico. A imagem total só pode ser enxergada com a composição de todas essas frases.

 

AH BOM!

PERCOLATOR: Então, vou ‘chutar’ só mais um, mas este não foi, com certeza, porque demoraria mais para ser cochichado do que vemos Laura na tela com Cooper. Nem por isso é um palpite menos importante:

9) É impossível me levar para o white lodge. Eu já cumpri minha missão. Mas tudo bem, você esquecerá disso, aprecio seu caráter e esforço para reverter as coisas – isso é a vida! Eu me orgulho de você.

E confesso francamente que essa seria a única confissão de Laura que faria o destemido agente especial Cooper ficar pasmo do jeito que ficou!

Em outras palavras, a Rabbit Hunt exige muitos tiros, todos precisos, mas disparados à distância… saindo da toca do coelho!… Alice… Tremond… Chauf—

 

OLHA, ESSA ÚLTIMA VERSÃO DO COCHICHO DA LAURA PALMER ESTÁ MUITO MAIS PESSIMISTA QUE AS DEMAIS. PODE NOS EXPLICAR ESSA CONTRADIÇÃO?

PERCOLATOR: Só quando eu terminar minha explicação!

 

ENTÃO, TÁ!

PERCOLATOR: Em resumo, Cooper sabia que Laura apareceria da mesma idade (envelhecida) no ‘outro universo’, em Odessa. E que não era aquela mesma moça que resgatou da morte em 1989, mas, sem tirar nem pôr, a entidade que mostrou ‘sua verdadeira face’ a Cooper dentro do black lodge… E que, portanto, ainda havia sofrido tudo o que sofreu nas mãos de BOB. Sabe de outra coisa? Como você interpreta aquele sumiço espantoso de Laura Palmer no início da terceira temporada?

 

BOM, JÁ OUVI DE TUDO… ALGUNS DIZEM QUE É PARA ASSINALAR QUE “O QUE VOCÊS VÃO VER NOS PRÓXIMOS 17 EPISÓDIOS NUNCA ACONTECEU, OU – NÃO TEM IMPORTÂNCIA NENHUMA! – ATÉ LÁ, NADA DE LAURA!” – MAS EU PESSOALMENTE COMEÇO A VER QUE O PREÇO QUE COOPER TEVE DE PAGAR PELO SEU ‘DOM DE CONVERTER O REAL EM SONHO’ FOI PESADO DEMAIS ATÉ PARA ELE…

PERCOLATOR: Ah, um homem erudito, outrossim! É bom saber que mesmo que eu tivesse um piripaque neste instante, parece que você mesmo já ia poder explicar para todas essas pessoas, lendo avidamente, todas as minhas idéias!!! Você lê muito rápido nas entrelinhas… Parece até que você É meu Doppelgänger

(Risadas da plateia.)

 

ESSA PIADA FOI INTENCIONAL?

PERCOLATOR: Posso ser honesto?

 

DEVE.

PERCOLATOR: Não!

(Risadas mais estrepitosas de todos.)

 

ACHO QUE SEU DOPPELGÄNGER SERIA UM…

PERCOLATOR: …péssimo stand-up comedian!

 

ISSO.

PERCOLATOR: Vou daqui, De Cílaga… Cof, cof… Agora que você entende a tragédia da situação do Cooper, sigamos com a parte 18, e depois a gente explica pra esse pessoal ignorante o que significa a Laura ter sumido de repente também em 2016, quer dizer, no black lodge, onde não é passado mas também não é futuro…

Daiane tenta convencer Cooper a não ‘fazer isso’, ou esse é o jeito singelo dela mandar quem ela ama ‘ir se ferrar’… porque sabe que essa decisão é irreversível… E tediosa, pois já tomada inú—

 

VOCÊ VAI ESTRAGAR TUDO!

PERCOLATOR: Ah, é verdade! Às vezes eu nem me atento… Bom, então, Daiane sabia que Cooper ia fazer o que ele ia fazer, porque ela sabe prever o futuro…

 

TAMBÉM NÃO PRECISA APELAR E TRATAR TODO MUNDO COMO UM BANDO DE BURRO…

PERCOLATOR: Bem, digamos que uns são mais teimosos e outros mais resignados. Eu diria que a Daiane é BEM resignada… Mas nem por isso ela deixaria de viajar com ele para as coordenadas 430, onde conseguiriam adentrar uma ‘realidade embaralhada’, com certas características especiais, que podiam favorecer ou atrapalhar Cooper (atrapalhar: porque o Gigante não poderia mais ajudá-lo; ajudar: porque esta é a última dimensão, a dimensão-gaiola, ou, como vou explicar mais adiante, um BLACK LODGE AMPLIADO). E Daiane também não deixaria de fazer o ritual do acasalamento de novo com Cooper… Digo, ah, hum, (limpada na garganta) pela primeira vez!

Aliás, não sei se é uma boa regra ou lei de decodificação de séries difíceis com outros diretores, mas com Lynch, se algo se REPETE, principalmente numa série com DOPPELGÄNGERS… Pode confiar, meu caro! Aquilo é central na interpretação… É… Depois que soubemos que Judy é uma ENTIDADE TARADA (me refiro a Sam e Tracy), ficou fácil de saber como os dois seriam chupados para onde está Laura, porque Laura está com Judy… Ou perto o suficiente de Judy, de qualquer maneira… no mesmo país de proporções continentais! Enfim, depois que Laura e Cooper fizeram sexo… Perdão, agora sou eu a trocar nomes, será que Judy mexeu com minhas recordações?! Depois que Daiane e Cooper atraíram a força negativa com que o FBI vinha se preocupando há muito tempo, a ponto de considerar BOB um epifenômeno inofensivo… Bem, aí eles são puxados por Judy para o futuro, a forma mais econômica que ela tinha de embaralhar a memória dos visitantes indesejados da sua ‘gaiola’… Ao sair do motel, Cooper descobre um prédio diferente, com um carro diferente. Tudo indica que ele está em 2016 em Odessa… Mas, se quer saber, essa especulação é um tanto inútil… Lembre-se que tudo pode ser artifício e que, bem, no black lodge o tempo não importa!

 

UMA FALA E TANTO, PERCOLATOR! AGORA PROGREDIMOS BASTANTE… EU QUERIA INTERROMPER ANTES, MAS FUI VENDO ONDE SUA RESPOSTA IA DAR… AQUILO SOBRE A GAIOLA… ALGUMA BASE OU INTUIÇÃO?

PERCOLATOR: Minha base é que Bad Cooper foi parado pelo Gigante quando ele acessou as “coordenadas corretas” através de uma gaiola do white lodge… Não me entendam mal, eu não creio que Odessa seja o white lodge… Mas o Gigante está no controle da situação agora… Ele só não pode fazer tudo sozinho, precisa de elementos humanos que terminem o plano… Ele tem uma gaiola de força para conter Judy até o momento decisivo, eu não sei dizer se essa gaiola é Odessa (digo, o universo inteiro para onde Cooper e Daiane migraram) ou apenas a casa dos Palmers. Mas mais do que ver uma gaiola expulsando o Bad Coop e encaminhando-o para a delegacia no episódio 17, minha maior pista é a seguinte, Cila. Vamos brincar de embaralhar nomes!

Laura Page – Carrie Palmer

merge fusão

Isso foi meu ‘demonstrativo’: que este universo é uma espécie de síntese dos que já conhecemos. Mas o principal para sua pergunta seria:

Carrie Page

E, se quer saber, parry também indica que o melhor ataque é a defesa… Mullins não venceria Judy no auge, acredite em mim! Primeiro você confina seu inimigo às cordas, ou a um espaço-tempo de que sabe que ele não vai sair, e então você faz algo indireto que o derrota…

 

AH, ENTENDO! CONTINUE, ESTOU BASTANTE INTERESSADO…

PERCOLATOR: Depois de Cooper acordar no hotel, já não tem muito o que falar. Podemos dar fast-forward até a cena derradeira…

Laura, i.e., Carrie, pressente a ligação daquele funesto lugar com todo o seu passado problemático, mas ainda não encontra o que dizer, como reagir… Inadvertidamente, Cooper solta a frase, ‘Em que ano estamos?’ – que era o gatilho para a reação em cadeia que o Gigante queria…

What year is it? Você quer que eu responda?

 

POR FAVOR.

PERCOLATOR: No one!

 

AH, QUE GRANDE PEDAÇO DE INFORMAÇÃO, PERCOLATOR!

PERCOLATOR: Você quer mais uma tão importante quanto esta?

 

MANDA VER! (ESPERO QUE EU NÃO ME ARREPENDA DESSA VEZ…)

PERCOLATOR: A moça drogada estava em SP: (11) 9…

 

PERCOLATOR: A propósito, eu preferia que fosse “Roger & Linda” a Richard e Linda!

 

E POR QUÊ?

PERCOLATOR: Lembra do meu supermétodo? Ro-da; lin-ger. Duas coisas que parecem acontecer aqui em Twin Peaks: O Retorno!

 

PERCOLATOR: Mas olha, Richard também ficou legal: Lin(LYN)ch….are

 

SAIA DO MEU PROGRAMA AGORA!!!

PERCOLATOR (ignorando): Also… Linda não te parece uma inversão silábica de Dale?!

 

…SENHOR… EVIDENTEMENTE O SENHOR DESENVOLVEU UMA MONOMANIA POR JOGOS LINGÜÍSTICOS!!

PERCOLATOR: Ah, vai, admita! Essas provas são mais consistentes do que as que você vê por aí na internet… tomada 3, tomada 15? Dicas de episódios?! Cooper sequer desperta no episódio 15! A chave do Great Northern era 315! Enfim, melhor ser lingüista do que numerologista!

 

QUE SEJA! CONFESSO QUE A COISA DO “MERGE” ME SOOU BEM ENGENHOSA…

PERCOLATOR: E então, quer que eu termine? Laura se recorda da contradição que está no ar e seu grito de angústia “agride” a eletricidade de Odessa (o mundo em que estão), sobretudo parece causar um curto-circuito na casa onde está Judy… Mas algo dá errado… Judy parece operar uma espécie de reset de seguro antes que a missão suicida estivesse cumprida… Isso vai explicar muitas pontas soltas da entrevista: Cooper volta, senão ao seu encontro com o Gigante, à própria entrada do black lodge ou o que vocês chamam de red room, sem lembrar de nada! Isso sim é pior do que a morte, não acha? Talvez Coop seja um fantasma condenado à imortalidade, e o que é pior, cíclica e ignorante, até o fim dos tempos!

Talvez Judy seja invencível… Só que nem o Gigante sabe disso. Ele acha que após um número infindável de tentativas, Coop poderá obter o êxito, pois cada vez que Odessa é conjurada as coisas se desenrolam de um jeito minimamente diferente… “Você está longe…”… Coop, ainda mais ignorante, posto que não é, de origem, uma entidade atemporal, sempre tem fé no seu próprio taco, e sempre fracassa. O Gigante, que percebe o ciclo do tempo, fora das dimensões, ainda se mantém otimista, após cada fracasso de Coop. Eis a alegoria de Sísifo em nova forma. É preciso continuar tentando. Para o Gigante, indiretamente. Para Coop, diretamente, como o herói da história. O que aconteceria se Judy pudesse ser vencida? A realidade em que ela se aloja se autodestruiria, exatamente como acontece todas as vezes em que Coop falha em sua missão. A diferença seria que Judy jamais voltaria a habitar qualquer outra realidade!

 

PERCOLATOR—

PERCOLATOR: No fim, supervalorizamos a dicotomia sucesso x fracasso: quando a vida é um jogo de perde-perde, na verdade se torna indistinto perder ou ganhar; perder perde a conotação ruim. Tanto faz lutar até o fim com bravura ou saber a hora exata de jogar a toalha: ambas são formas nobres de existência, reações humanas, as únicas conhecidas e possíveis. A realidade é perfeita em si mesma. Não esqueçamos que não só enquanto processo isso é válido, mas que também enquanto fim nada acontece de diferente, e isso não precisa nos envergonhar: afinal, tudo terminará da mesma maneira. Longe de ser um conformismo, no sentido pejorativo, é apenas a velha filosofia presente em cada dia do homem: memento mori.

 

MAS SE NÃO É A DILMA!

PERCOLATOR: Bom, me deixei levar pelo discurso!

 

QUE BOM QUE VOLTOU A SI… VOCÊ ACREDITA MESMO NISSO? NOSSA, NÃO PENSEI QUE CHEGARÍAMOS A TANTO, E NOSSA ENTREVISTA ACABARIA COMIGO TENDO CALAFRIOS!

PERCOLATOR: Bom… Se eu acredito nessa coisa de ciclo eterno em que se enredou o pobre Cooper (e mais alguém)?!?

ERA BRINCADEIRA! É assim que eu QUERIA que terminasse, porque odeio happy endings! Mas creia-me, Paulra Cage com aquele grito de banshee realmente estourou tudo e destruiu Jowday!

 

EU JÁ NEM DOU CRÉDITO A SUAS PLOT TWISTS, MEU CARO.

PERCOLATOR: Embora, (tom sombrio na voz) a teoria de que Cooper vem tentando há muito tempo (E pode ser que essa que assistimos seja a última vez, aquela em que conseguiu, finalmente – por que não? Uma mescla das duas meta-teorias?!) se justifica porque é a única que explica a segunda Daiane Evans na porta do motel, e seu receio descabido de que Cooper atravesse para Odessa (que inclusive se parece muito com a palavra Odissey…).

 

NÃO VAMOS COMEÇAR DE NOVO, NÃO É???

PERCOLATOR: Com o quê?

 

VOCÊ SABE!

PERCOLATOR: Eu te perguntei isso?

 

VAMOS, VAMOS, PERCOLATOR! OS FÃS DE TWIN PEAKS TÊM UM LONGO DIA PELA FRENTE, E NOSSA ENTREVISTA TAMBÉM TEM LIMITE DE TEMPO! MAS, PARA BANCAR O ADVOGADO DO DIABO DA SUA ‘HIPÓTESE EXTREMA’, E SE A DAIANE SÓ TEVE UMA ALUCINAÇÃO E VIU UM TULPA SAIR DE TRÁS DA PILASTRA DO POSTO, DEVIDO AO ESTRESSE EM QUE SE ENCONTRAVA?

PERCOLATOR: Ora, é possível!… Você disse que estamos com os minutos contados, quanto tempo ainda temos?

 

MENOS DO QUE COOPER TEVE NAQUELA SALA NA DELEGACIA PARA SE DESPEDIR DE SEUS AMIGOS! EU GOSTARIA DE TE AGRADECER PELA DISPONIBILIDADE, POR SAIR UM POUCO DE SUA ZONA NEUTRA E NOS ELUCIDAR NESTES MISTÉRIOS! EU JÁ NÃO SEI MAIS NO QUE ACREDITAR: NO SUCESSO OU NO FRACASSO DO AGENTE COOPER. VOCÊ PLANTOU UMA MINHOCA NA MINHA CABEÇA! SEE YOU LATER, PERCOLATOR!

PERCOLATOR: Eu que agradeço imensamente a concessão deste nobre tempo-espaço! (Risos da plateia) Quando sair, não apague a luz: eu não vou a lugar nenhum!

 

SAGRADA FAMÍLIA

Republicado

Não estamos satisfeitos com aquilo que nós temos

a não ser quando o perdemos

e depois o reavemos

De certo modo,

é um querer viajar

até o ponto do saturar

para em seguida tecer o voltar

Eterna saudade

do que precisa ser superado

Enquanto eu quero viver

o cristão só pensa em morrer

para descobrir o que vem depois

A sina está feita

quando se descobre

que o rabo da cobra

era a cabeça!

Infância

Mil ressurreições

A deposição

do ressentimento

de qualquer cristão

Vingança

qualquer anti-semita delineia

mas a minha

não é contra o espelho

nem avessa a minhas veias

Onde corre sangue

e não a metafísica hobbesiana

do judeu exangue

Deus Mamon, deus-dinheiro

O umbigo mais profundo

O sofista mais infecundo

O carnaval da elite

é pagão

Faz ajoelhar até

o chão

Típico valor

de pedra

Esse de se curvar diante de

uma reza

Eu voo

Porque seus pontos cegos

são mais cegos que os meus

O JORRO D’ÁGUA

De 28-03-2009

Do bebedouro ou do tonel

Por que essa explosão?

No meio da noite

A mulher distante se avizinha

O dinheiro se reaninha

O ouvido amigo se dilata

Para ouvir a queixa

de um lamuriado

Quer que batam,

mas se sente injustiçado

Lei da compensação?

Porque a aflição e o afeto

são como o vírus que

cristaliza

no ar

e de repente

com um sopro

vibra

CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE & NOVAS CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE

-Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse-

P. 2548 das Obras Completas em Português (no volume XV)

Em verde: trechos execráveis.

Esta obra teve uma circulação maior do que qualquer outra obra de Freud, com exceção, talvez, de The Psychopathology of Everyday Life. Também se distingue pela quantidade de erros de impressão nela existentes. Como ficou assinalado acima, quarenta foram corrigidos na segunda edição; porém havia ainda muitos mais, e pode ser observado um número considerável de pequenas variações no texto das diversas edições. A presente tradução inglesa segue o texto dos Gesammelte Werke, que é, de fato, idêntico ao texto dos Gesammelte Schriften; e somente foram registradas as discordâncias mais importantes das primeiras versões.”

As conferências publicadas neste livro foram proferidas por Freud em dois períodos de inverno sucessivos, durante a Primeira Guerra Mundial: 1915-16 e 1916-17.”

Em seu prefácio às New Introductory Lectures, há pouco citado, Freud nos refere que a primeira metade da série atual, a série inicial, ‘foi improvisada e escrita logo depois’, e que ‘esboços da segunda metade foram feitos durante as férias do verão intermediário, em Salzburg, e passados para o papel, palavra por palavra, no inverno seguinte’ [mentiroso]. Acrescenta que, naquela época, ‘ainda possuía o dom de uma memória fotográfica’, pois, por mais cuidadosamente que suas conferências pudessem ter sido preparadas, na realidade, invariavelmente, as proferia de improviso, e geralmente sem anotações. Existe concordância geral no tocante à sua técnica de dar conferências: que ele nunca era retórico [nada mais diferente do que estão prestes a ler…] e que seu tom era sempre o de uma conversação tranqüila e mesmo íntima. Contudo, não se deve supor, por isso, que houvesse algo de desleixo ou desordem nessas conferências. Elas quase sempre tinham uma forma definida – início, meio e fim – e podiam, freqüentemente, dar ao ouvinte a impressão de possuírem uma unidade estética.”

Freud se socorreu evidentemente das conferências como método de expor suas opiniões, mas apenas sob uma condição particular: ele devia estar em vívido contato com seu auditório real ou suposto. Os leitores do presente volume descobrirão como é constante Freud manter esse contato – quão regularmente ele coloca objeções na boca de seus ouvintes, e quão freqüentemente existem debates imaginários entre ele e seus ouvintes. [pois isso é que é ser ultra-retórico, e extremamente enfadonho!] Na verdade, ele estendia esse método de formular suas exposições a alguns de seus trabalhos que absolutamente não são conferências: a totalidade de The Question of Lay Analysis (1926e) e a maior parte d’O Futuro de uma Ilusão (1927c) tomaram a forma de diálogos entre o autor e um ouvinte que faz críticas.” E ‘o futuro de uma ilusão’ é talvez o livro mais chato de F. que eu já lera depois deste aqui…

As Conferências Introdutórias podem ser verdadeiramente consideradas como um inventário das conceituações de Freud e da posição da psicanálise na época da Primeira Guerra Mundial. As dissidências de Adler e Jung já eram história passada, o conceito de narcisismo já tinha alguns anos de vida, [isso não impede o recalque de F. de sempre citá-los pejorativamente durante as conferências] o caso clínico do ‘Wolf Man’, que marcou época, tinha sido escrito (com exceção de 2 passagens) um ano antes do começo das conferências, embora não fosse publicado senão mais tarde. E, também, a grande série de artigos ‘metapsicológicos’ sobre a teoria fundamental tinha sido ultimada alguns meses antes, ainda que apenas 3 deles tivessem sido publicados. (Mais 2 deles surgiram logo após as conferências, porém os 7 restantes desapareceram sem deixar vestígio.)”

Em nenhuma outra parte fornece tão claro resumo da formação dos sonhos como nas últimas páginas da Conferência XIV. Sobre as perversões, não há comentários mais inteligíveis do que aqueles encontrados nas Conferências XX e XXI.”

* * *

PRIMEIRA CONFERÊNCIA

Da maneira como estão as coisas, no momento, tal escolha de profissão arruinaria qualquer possibilidade de obter sucesso em uma universidade, e, se começou na vida como médico clínico, iria encontrar-se numa sociedade que não compreenderia seus esforços, que o veria com desconfiança e hostilidade e que despejaria sobre ele todos os maus espíritos que estão à espreita dentro dessa mesma sociedade.” Citando seu ex-discípulo favorito Jung?

CIGANO SEDUTOR! “Na própria psiquiatria, a demonstração de pacientes, com suas expressões faciais alteradas, com seu modo de falar e seu comportamento, propicia aos senhores numerosas observações que lhes deixam profunda impressão. Assim, um professor de curso médico desempenha em elevado grau o papel de guia e intérprete que os acompanha através de um museu, enquanto os senhores conseguem um contato direto com os objetos exibidos e se sentem convencidos da existência dos novos fatos mediante a própria percepção de cada um.”

A CAIXA PRETA DA PSEUDANÁLISE: “A conversação em que consiste o tratamento psicanalítico não admite ouvinte algum; não pode ser demonstrada. Um paciente neurastênico ou histérico pode, naturalmente, como qualquer outro, ser apresentado a estudantes em uma conferência psiquiátrica. Ele fará uma descrição de suas queixas e de seus sintomas, porém apenas isso. As informações que uma análise requer serão dadas pelo paciente somente com a condição de que ele tenha uma ligação emocional especial com seu médico; ele silenciaria tão logo observasse uma só testemunha que ele percebesse estar alheia a essa relação. Isso porque essas informações dizem respeito àquilo que é mais íntimo em sua vida mental, a tudo aquilo que, como pessoa socialmente independente, deve ocultar de outras pessoas, e, ademais, a tudo o que, como personalidade homogênea, não admite para si próprio.”

O resultado da pesquisa sem dúvida lhes traria uma confirmação, no caso de Alexandre; no entanto, provavelmente seria diferente quando se tratasse de personagens como Moisés ou Nemrod.”

CONVENIENTEMENTE, FAÇAM O QUE EU DIGO, MAS ESQUEÇAM TUDO QUE EU FIZ: “Mas os senhores têm o direito de fazer outra pergunta. Se não há verificação objetiva da psicanálise nem possibilidade de demonstrá-la, como pode absolutamente alguém aprender psicanálise e convencer-se da veracidade de suas afirmações? É verdade que a psicanálise não pode ser aprendida facilmente, e que não são muitas as pessoas que a tenham aprendido corretamente. Naturalmente, porém, existe um método¹ que se pode seguir, apesar de tudo. Aprende-se psicanálise em si mesmo, estudando-se a própria personalidade. Isso não é exatamente a mesma coisa que a chamada auto-observação, porém pode, se necessário, estar nela subentendido. Existe grande quantidade de fenômenos mentais, muito comuns e amplamente conhecidos, que, após conseguido um pouco de conhecimento da técnica,¹ podem se tornar objeto de análise na própria pessoa. Dessa forma, adquire-se o desejado sentimento de convicção da realidade dos processos descritos pela análise e da correção dos pontos de vista da mesma.¹ Não obstante, há limites definidos ao progresso por meio desse método. A pessoa progride muito mais se ela própria é analisada por um analista experiente e vivencia os efeitos da análise em seu próprio eu (self),² fazendo uso da oportunidade de assimilar de seu analista a técnica mais sutil do processo. Esse excelente método é, naturalmente, aplicável apenas a uma única pessoa³ e jamais a todo um auditório de estudantes reunidos.”

¹ Sempre palavras vazias, que nunca são fundamentadas em toda sua obra.

² O monopólio de saber do especialista – BAM!

³ Veja como toma-se o cuidado de aumentar ao máximo a quantidade e gravidade das restrições para aquisição do “grande método ou técnica infalível e bastante seleta”!

A educação que receberam previamente deu uma direção particular ao pensar dos senhores que conduz para longe da psicanálise. Foram formados para encontrar uma base anatômica para as funções do organismo e suas doenças, [fala aqui dele mesmo] a fim de explicá-las química e fisicamente e encará-las do ponto de vista biológico. Nenhuma parte do interesse dos senhores, contudo, tem sido dirigida para a vida psíquica, onde, afinal, a realização desse organismo maravilhosamente complexo atinge seu ápice. Por essa razão, as formas psicológicas de pensamento têm permanecido estranhas aos senhores. Cresceram acostumados a encará-las com suspeita, a negar-lhes a qualidade científica, a abandoná-las em poder de leigos, poetas, filósofos naturalistas e místicos.”

NÃO É PORQUE A PSICANÁLISE É UMA FRAUDE QUE A PSIQUIATRIA DINÂMICA, SUA ARQUI-INIMIGA, TAMBÉM NÃO SERIA! “É verdade que a psiquiatria, como parte da medicina, se empenha em descrever os distúrbios mentais que observa, e em agrupá-los em entidades clínicas; porém, em momentos favoráveis os próprios psiquiatras duvidam de que suas hipóteses puramente descritivas mereçam o nome de ciência. Nada se conhece da origem, do mecanismo ou das mútuas relações dos sintomas dos quais se compõem essas entidades clínicas; ou não há alterações observáveis, no órgão anatômico da mente, que correspondam a esses sintomas, ou há alterações nada esclarecedoras a respeito deles.”

EM OUTROS TERMOS, VIVA A PSICOLOGIA!, MAS NÃO NECESSARIAMENTE A MINHA PSICOLOGIA: “Essa é a lacuna que a psicanálise procura preencher. Procura dar à psiquiatria a base psicológica de que esta carece. Espera descobrir o terreno comum em cuja base se torne compreensível a conseqüência do distúrbio físico e mental.”

A primeira dessas assertivas impopulares feitas pela psicanálise declara que os processos mentais são, em si mesmos, inconscientes e que de toda a vida mental apenas determinados atos e partes isoladas são conscientes.”

Essa segunda tese, que a psicanálise apresenta como uma de suas descobertas, é uma afirmação no sentido de que os impulsos instintuais que apenas podem ser descritos como sexuais, tanto no sentido estrito como no sentido mais amplo do termo, desempenham na causação das doenças nervosas e mentais um papel extremamente importante e nunca, até o momento, reconhecido.”

A sociedade acredita não existir maior ameaça que se possa levantar contra sua civilização do que a possibilidade de os instintos sexuais serem liberados e retornarem às suas finalidades originais.”

Mas não se preocupem: isto que lhes ensino não detonará a vossa boa sociedade pelos ares! É como se dissesse…

SEGUNDA CONFERÊNCIA

Escolhamos como tema determinados fenômenos muito comuns e muito conhecidos, os quais, porém, têm sido muito pouco examinados e, de vez que podem ser observados em qualquer pessoa sadia, nada têm a ver com doenças. São o que se conhece como ‘parapraxias’, às quais todos estão sujeitos.”

nenhum pardal cai do telhado sem a vontade de Deus.”

Descobrimos que as parapraxias desse tipo e o esquecimento dessa espécie ocorrem em pessoas que não estão fatigadas ou distraídas ou excitadas, mas que estão, sob todos os aspectos, em seu estado normal – a menos que decidamos atribuir ex post facto às pessoas em questão, puramente por conta de suas parapraxias, uma excitação que, entretanto, elas mesmas não comportam.”

Um teimoso erro de impressão dessa espécie, segundo se conta, certa vez esgueirou-se para dentro de um jornal social-democrata. A notícia que dava de uma cerimônia incluía as palavras: ‘Entre os que estavam presentes, podia-se notar Sua Alteza o Kornprinz.’ No dia seguinte, fez-se uma tentativa de correção. O jornal pedia desculpas e dizia: ‘Devíamos, naturalmente, ter dito <o Knorprinz>.’ Em tais casos, as pessoas falam de um ‘demônio dos erros de impressão’ ou um ‘demônio da composição tipográfica’ – expressões que, pelo menos, vão além de qualquer teoria psicofisiológica dos erros de impressão.”

Tinha sido confiado a um estreante dos palcos o importante papel, em Die Jungfrau von Orleans (Schiller), do mensageiro que anuncia ao rei de ‘der Connétable schickt sein Schwert zurück [o Condestável devolve sua espada]’. Um primeiro ator divertia-se, durante os ensaios, com induzir repetidamente o nervoso jovem a dizer, em vez das palavras do texto: ‘der Komfortabel schickt sein Pferd zurück [o cocheiro devolve seu cavalo]’. Conseguiu seu intento: o desventurado principiante realmente fez sua estréia na representação com a versão corrompida, apesar de haver sido admoestado de não fazê-lo, ou, talvez, porque tenha sido admoestado.” Scharr spieler, Schauspieler

Dois escritores, Meringer e Mayer (um, filólogo, o outro, psiquiatra), de fato tentaram, em 1895, atacar o problema das parapraxias por esse ângulo. Coligiram exemplos e começaram por abordá-los de maneira puramente descritiva. Isso, naturalmente, até aqui não oferece nenhuma explicação, embora possa preparar o caminho para alguma. Distinguem os diversos tipos de distorções que o lapso impõe ao discurso pretendido, como ‘transposições’, ‘pré-sonâncias (antecipações)’, ‘pós-sonâncias (perseverações)’, ‘fusões (contaminações)’ e ‘substituições’. Eu lhes darei alguns exemplos desses principais grupos propostos pelos autores. Um exemplo de transposição seria dizer ‘a Milo de Vênus’ em vez de ‘a Vênus de Milo’ (transposição da ordem das palavras); um exemplo de pré-sonância seria: ‘es war mir auf der Schwest… auf der Brust so schwer’; e uma pós-sonância seria exemplificada pelo conhecido brinde que saiu errado: ‘Ich fordere Sie auf, auf das Wohl unseres Chefs aufzustossen’ (em vez de ‘anzustossen’). Essas três formas de lapso de língua não são propriamente comuns. Os senhores encontrarão exemplos muito mais numerosos, nos quais o lapso resulta de contração ou fusão. Assim, por exemplo, um cavalheiro dirige-se a uma senhora na rua com as seguintes palavras: ‘Se me permite, senhora, gostaria de a begleit-digen.’ A palavra composta que se juntou a ‘begleiten [acompanhar]’ evidentemente escondeu em si ‘beleidigen [insultar]’.”

A explicação em que esses autores tentaram basear sua coleção de exemplos, é especialmente inadequada. Acreditam que os sons e as sílabas de uma palavra têm uma ‘valência’ determinada, e que a inervação de um elemento de alta valência pode exercer uma influência perturbadora em outro de menor valência. Com isso, estão evidentemente se baseando nos raros casos de pré-sonância e pós-sonância; essas preferências de uns sons a outros (se é que de fato existem) podem não ter absolutamente qualquer relação com outros casos de lapsos de língua. Afinal, os lapsos de língua mais comuns ocorrem quando, em vez de dizermos uma palavra, dizemos uma outra muito semelhante; e essa semelhança é, para muitos, explicação suficiente de tais lapsos. Por exemplo, um professor declarou em sua aula inaugural: ‘Não estou geneigt [inclinado] (em vez de geeignet [qualificado]) a valorizar os serviços de meu mui estimado predecessor.’ Ou então, outro professor observava: ‘No caso dos órgãos genitais femininos, apesar de muitas Versuchungen [tentações] – me desculpem, Versuche [tentativas] ….’”

Um presidente da câmara dos deputados de nosso parlamento certa vez abriu a sessão com as palavras: ‘Senhores, observo que está presente a totalidade dos membros, e por isso declaro a sessão encerrada.’” “O presidente não esperava nada de bom da sessão e ficaria satisfeito se pudesse dar-lhe um fim imediato.” Suposição vazia.

E não seria de surpreender se tivéssemos mais a aprender sobre lapsos de língua com escritores criativos, do que com filólogos e psiquiatras.”

Lento, muito lento…

TERCEIRA CONFERÊNCIA

E talvez pudéssemos encontrar uma saída acompanhando o filósofo[-psicólogo] Wundt, quando diz que os lapsos de língua surgem se, em conseqüência de exaustão física, a tendência a associar prevalece sobre aquilo que a pessoa tenciona dizer.” Poeta cansado.

Empilha vários exemplos anônimos, provavelmente falsos (além de chulos).

Essa opinião, porém, não é sustentada apenas por nós, psicanalistas; é opinião geral, aceita por todos em sua vida diária e negada somente quando se torna teoria.”

Os senhores não terão dúvida em achar inacreditável que nós próprios podemos desempenhar um papel intencional em coisa tão freqüente como o é o doloroso acidente de perder algo.”

QUARTA CONFERÊNCIA

EXEMPLO DE RETÓRICA VAZIA: “prova da existência de determinado propósito não é argumento contra a existência de um propósito oposto; há lugar para ambos. É apenas uma questão de saber como se colocam esses contrários”

QUINTA CONFERÊNCIA

Não me levem a mal: ainda acho que a ‘onirologia’ freudiana é sua melhor parte, a ponta de iceberg ainda não submergida no nonsense escolástico atual. No entanto, continuará havendo trechos grifados em verde, devido à exposição ‘sofística’ do ‘Professor’…

VERBETE ENCICLOPÉDICO FABRICADO PARA UMA HISTÓRIA TOTALMENTE PESSOAL: “Um dia descobriu-se que os sintomas patológicos de [MEUS] determinados pacientes neuróticos têm um sentido. Nessa descoberta fundament[ei]ou-se o método psicanalítico de tratamento [meu método]. Acontecia que no decurso desse tratamento os [meus] pacientes, em vez de apresentar seus sintomas, apresentavam sonhos. Com isso, surgiu a suspeita [eu suspeitei] de que também os sonhos teriam um sentido.” Se o método fosse rigoroso, não haveria a necessidade de “terceirizar” a grande descoberta. O método não pode ser replicado a não ser pelo “Pai” da “““Ciência”””. Além disso, há autores mais pioneiros que F. na onirologia, mas eles não receberam o devido crédito (foram inclusive consultados por F. enquanto elaborava sua Interpretação dos sonhos).

Traz consigo a reprovação geral de não ser científico e desperta a suspeita de uma inclinação pessoal pelo misticismo. Imaginem um profissional da medicina dedicando-se a sonhos, quando há tantas coisas mais sérias, mesmo na neuropatologia e na psiquiatria: tumores da dimensão de maçãs comprimindo o órgão da mente, hemorragias, inflamação crônica, onde, em todos, as alterações dos tecidos podem ser demonstradas ao microscópio!”

QUANDO A HONESTIDADE É USADA COMO FERRAMENTA PRELIMINAR DA ORATÓRIA POSTERIOR: “Via de regra, não se pode fazer nenhum relato de sonhos. Se alguém faz um relato de um sonho, existe alguma garantia de que seu relato foi correto, ou, pelo contrário, não poderia ter alterado seu relato à medida que o fazia e ter sido compelido a inventar algum acréscimo para compensar a obscuridade de suas recordações? A maioria dos sonhos não pode absolutamente ser lembrada e é esquecida, salvo pequenos fragmentos. E de que modo a interpretação de material desse tipo pode servir como base de uma psicologia científica ou como método de tratar pacientes?”

há outros assuntos de pesquisa psiquiátrica que padecem da mesma característica de indefinição – em muitos casos, por exemplo, as obsessões, e estas têm, em última análise, sido abordadas por psiquiatras respeitáveis e conceituados.”

Da literatura que trata do assunto, o principal trabalho pelo menos sobreviveu: o livro de Artemidoro de Daldis, [F. mente!] que provavelmente viveu durante o período do imperador Adriano. Não sei dizer-lhes como aconteceu que, depois disso, a arte de interpretar sonhos sofreu um declínio e os sonhos caíram em descrédito.”

O abuso final da interpretação de sonhos foi atingido em nossos dias com tentativas de descobrir, a partir dos sonhos, os números destinados a serem premiados no jogo do loto.”

A única contribuição de valor aos conhecimentos sobre sonhos, que temos a agradecer às ciências exatas, refere-se ao efeito produzido no conteúdo dos sonhos pelo impacto de estímulos somáticos durante o sono. Um autor norueguês, recentemente falecido,¹ J. Mourly Vold, publicou dois alentados volumes de pesquisas experimentais sobre sonhos (edição alemã, 1910 e 1912), que se dedicam quase que exclusivamente às conseqüências das alterações na postura dos membros. Foram-nos recomendados como modelos de pesquisa exata sobre sonhos.”

¹ É se imaginar que se se encontrasse vivo não teria sido creditado pelo invejoso F.

O sonhar é, evidentemente, vida mental durante o sono – algo que tem certas semelhanças com a vida mental desperta, mas que, por outro lado, se distingue dela por grandes diferenças. Essa era, há muito tempo, a definição de Aristóteles. Talvez existam ainda conexões mais estreitas entre sonhos e sono. Podemos ser acordados por um sonho; muito freqüentemente temos um sonho quando acordamos espontaneamente ou quando somos tirados, à força, do sono. Assim, os sonhos parecem ser um estado intermediário entre o sono e a vigília.”

Esse é um problema fisiológico sobre o qual ainda existe muita controvérsia. Quanto a esse respeito não podemos chegar a qualquer conclusão; penso, porém, que devemos tentar descrever as características psicológicas do sono. O sono é um estado no qual não desejo saber de nada do mundo externo, um estado no qual retirei do mundo externo meu interesse. Ponho-me a dormir retraindo-me do mundo externo e mantendo afastados de mim seus estímulos. Também vou dormir quando estou fatigado dele.”

As crianças, ao contrário, dizem: ‘Eu não vou dormir agora; não estou cansado e quero ter mais algumas experiências.’ A finalidade biológica do sono parece ser, portanto, a recuperação, e sua característica psicológica a suspensão do interesse pelo mundo. Nossa relação com o mundo, ao qual viemos tão a contragosto, parece incluir também nossa impossibilidade de tolerá-lo ininterruptamente. Assim, de tempos em tempos nos retiramos para o estado de pré-mundo, para a existência dentro do útero. A todo custo conseguimos para nós mesmos condições muito parecidas com aquelas que então possuímos: calor, escuridão e ausência de estímulos. Alguns de nós se embrulham formando densa bola e, para dormir, assumem uma postura muito parecida com a que ocupavam no útero.” Sem forçar, muitos encontrariam aqui as posições do cismático Rank!

Não deveria existir qualquer atividade mental no sono; se este começa a ficar inquieto, é por que não conseguimos atingir o estado fetal de repouso: não fomos inteiramente capazes de evitar os remanescentes da atividade mental. Os sonhos consistiriam nesses remanescentes.”

Os processos mentais no sono têm um caráter bastante diferente daqueles que se realizam em vigília. Nos sonhos experimentamos toda sorte de coisas e acreditamos nelas, ao passo que nada experimentamos, exceto talvez o estímulo perturbador isolado. Nós o experimentamos predominantemente sob a forma de imagens visuais; sentimentos também podem estar presentes, assim como pensamentos que nisso se entrelaçam. Os outros sentidos também podem experimentar algo; porém, mesmo assim, se trata principalmente de uma questão de imagens. Parte da dificuldade de fornecer uma descrição dos sonhos se deve ao fato de termos de traduzir essas imagens em palavras.”

No que concerne às dimensões dos sonhos, alguns são muito curtos e compreendem apenas uma única imagem, ou umas poucas imagens, um único pensamento, ou mesmo uma única palavra; outros são extraordinariamente ricos em seu conteúdo, apresentam novelas inteiras e parecem durar longo tempo. Há sonhos tão claros como a experiência vigil, tão claros que, bastante tempo após havermos acordado, não percebemos que eram sonhos; e outros existem que são indescritivelmente obscuros, vagos e borrados. Na realidade, em um mesmo sonho partes muito definidas podem se alternar com outras de uma vaguidade que mal se pode discernir. Há sonhos inteiramente plenos de sentido ou, pelo menos, coerentes, humorísticos mesmo, ou fantasticamente belos; outros, ademais, são confusos, imbecis por assim dizer, absurdos, muitas vezes positivamente loucos. Há sonhos que nos deixam praticamente frios e outros em que se manifestam afetos de todos os tipos – sofrimento a ponto de fazer chorar, ansiedade a ponto de nos acordar, surpresa, encantamento, etc. Os sonhos são, de hábito, esquecidos facilmente, após o despertar, ou podem perdurar através do dia, lembrados mais e mais indistintamente até o fim do dia; outros, ainda – por exemplo, sonhos da infância – , são tão bem-preservados que, 30 anos após, permanecem na memória como se fossem experiência recente. Os sonhos, à semelhança de pessoas, podem aparecer somente em uma única ocasião para nunca mais, ou retornar na mesma aparência não-modificada ou com pequenas dessemelhanças. Em suma, esse fragmento da vida mental durante a noite tem um imenso repertório à sua disposição”

…sonho relatado por um observador inteligente, Hildebrandt (1875), todos eles reações à campainha de um despertador:

Sonhei, então, que certa manhã de primavera eu saía a passeio e vagava pelos verdes campos até chegar a uma aldeia próxima, onde vi os aldeões, em suas melhores roupas, com seus livros de cânticos debaixo do braço, reunindo-se na igreja. Evidente! Era domingo e o culto do início da manhã logo estaria começando. Decidi assistir ao culto, mas, antes, eu estava um tanto acalorado de caminhar, entrei no cemitério que circundava a igreja, para refrescar. Enquanto lia algumas das lápides dos túmulos, ouvi o sineiro subindo a torre da igreja e, lá no alto, via agora o pequeno sino da aldeia, que logo daria o sinal para o início das devoções. Por um momento eu o vi pendente ali, sem movimento, depois começou a balançar, e subitamente seu repicar começou a soar claro e penetrante – tão claro e penetrante que pôs fim ao meu sono. Porém, o que estava soando era o despertador. (…)

O sonho não reconhece o despertador – e sequer este aparece no sonho – mas substitui o ruído do despertador por outro; interpreta o estímulo que está pondo fim ao sono, contudo o interpreta de forma diferente em cada uma das vezes. Por que faz isso? Não há resposta; parece questão de capricho. Compreender o sonho significaria poder dizer por que esse determinado ruído, e não outro, foi escolhido para interpretar o estímulo proveniente do despertador.”

a interpretação de ‘corredores longos, estreitos e ventosos’, como derivados de um estímulo intestinal, parece válida e confirma a asserção de Scherner de que os sonhos procuram sobretudo representar o órgão que emite o estímulo por objetos que se lhes assemelham.”

Quando uma pessoa constrói algo em conseqüência de um estímulo, o estímulo não necessita, por isso, levar a cabo todo o trabalho. O Macbeth de Shakespeare, por exemplo, foi uma pièce d’occasion composta para celebrar a elevação ao trono do rei que foi o primeiro a unir as coroas dos 3 reinos. Essa ocasião histórica imediata, porém, abrangeria todo o conteúdo da tragédia? Explica todas as suas grandezas e os seus enigmas? Pode ser que os estímulos externos e internos, também, atingindo a pessoa em sono, sejam apenas provocadores do sonho e, por conseguinte, nada nos revelem de sua essência.”

Os devaneios são fantasias (produtos da imaginação): são fenômenos muito generalizados, observáveis mais uma vez tanto nas pessoas sadias como nas doentes, e são facilmente acessíveis ao estudo em nossa própria mente. A coisa mais notável a respeito dessas estruturas imaginárias é que lhes foi dado o nome de ‘devaneios’ [daydreams – ignoro em Alemão], de vez que nelas não há qualquer traço dos dois elementos comuns aos sonhos.” Eu particularmente nunca ‘devaneei’…

O FILME OU ‘NEGATIVO’ DO SONHO OU ‘NIGHT-DREAM’: “não experimentamos nem alucinamos, mas imaginamos, sabemos que estamos tendo uma fantasia, não vemos, mas pensamos.”

Esses devaneios surgem no período pré-púbere, freqüentemente ainda na parte final da infância; persistem até a maturidade ser alcançada e, então, ou são abandonados ou mantidos até o fim da vida. O conteúdo dessas fantasias é dominado por um motivo muito inteligível. São cenas e eventos em que as necessidades egoísticas de ambição e poder da pessoa, ou seus desejos eróticos, encontram satisfação.”

Eles se acomodam aos tempos, por assim dizer, e recebem uma ‘marca da época’ que testemunha a influência da nova situação. São a matéria-prima da produção poética, pois o escritor criativo usa seus devaneios com determinadas remodelações, disfarces e omissões, para construir as situações que introduz em seus contos, novelas ou peças. O herói dos devaneios é sempre a própria pessoa, seja diretamente, seja por uma óbvia identificação com alguma outra pessoa.”

SEXTA CONFERÊNCIA

A escola de Wundt introduziu o que conhecemos como experiências de associação, nas quais se diz à pessoa uma palavra-estímulo e a pessoa tem de responder a ela tão rapidamente quanto lhe é possível, com qualquer reação que lhe ocorra.”

A escola de Zurique, liderada por Bleuler e Jung, encontrou explicação para as reações que se sucediam na experiência de associação, fazendo as pessoas em experiência elucidarem suas reações por meio de associações subseqüentes, no caso de essas reações terem mostrado aspectos marcantes. Constatou-se então que essas reações marcantes eram determinadas de forma muito definida pelos complexos da pessoa. Assim, Bleuler e Jung estabeleceram a primeira ponte entre a psicologia experimental e a psicanálise.”

Como pode haver uma ponte entre o behaviorismo (algo tão concreto quanto contestável, justamente dada sua surda concretude) e o ‘nada’ – avant la lettre ou interessadamente? Avant la lettre no caso de Freud ter conhecido Jung e Bleuler depois deste estudo, o que não é muito crível; interessadamente para o caso de ambos terem conduzido a pesquisa já enquanto discípulos de Freud. Então, de forma simples, pode-se dizer que, não Jung nem Bleuler, mas Freud – por meio de suas ferramentas – encontrou aquilo que tanto procurava, i.e., inventou astutamente como procurar aquilo que já tinha achado (com todos os sentidos subliminares da palavra achado). Uma inversão tipicamente cartesiana? ‘Eu acho, logo tateio’ no lugar do mais ‘lógico-empírico’ eu tateio logo acho…

E LÁ VAMOS NÓS… “Certo dia verifiquei que não conseguia recordar o nome do pequeno país da Riviera cuja capital é Monte Carlo.”

SÉTIMA CONFERÊNCIA

Não consigo imaginar como alguém do público desta conferência que foi ao primeiro dia – ou ao quinto dia, quando começou a palestrar sobre os sonhos – tenha se prestado a retornar… Condensação, irmão, condensação no palavrório!

esses dias sonhei com uma fase aquática de Banjo-Kazooie.

óleos, peças e notas musicais

água cinza, piche

submerso

ancorado

sem ar

Jinjo

Ernest JinJones

um Jin

um gênio!

Leonardo

Rafael

eu e Jin, Sun,

Saiyd Jarra

Água da jarra

Jack, Sawyer, Kate,

tabu e… leiro zoo e

boo mafoo

Adalto

autuado

Ginga

Ging

Dong

Freecs

freaks

no doubt

about

a dark

cont

&

fake.

n(e)(n)t

Hunters and prey

Hamsters and pray

TWO Gods

Atom and Evil

Karamazóv

Fountain of Désirées

Le réel

reel&fish

confiscation

celebration

demise of a

nation

defec-

tível

perfume de

estrume lagoa

nadazul

resumindo meu trabalho onírico, eu acho que tudo se refere à escuridão da vida vista pelos olhos de uma criança.

o rio que corre forte e rápido é o maior inimigo de si mesmo

Se a resistência é pequena, o substituto não pode estar muito distante do material inconsciente; contudo, uma resistência maior significa que o material inconsciente está muito distorcido e que será longo o caminho que se estende desde o substituto ao material inconsciente.” Não seria o contrário?

Se tomamos nota por escrito de um sonho e então anotamos todas as idéias que emergem como resposta a ele, podemos verificar que essas idéias são muitas vezes mais longas do que o texto do sonho.” Biblioteca inútil da alma pública

OITAVA CONFERÊNCIA

Essa característica dos sonhos de ejaculação (como foi assinalado por Otto Rank) faz deles assunto especialmente favorável ao estudo da deformação onírica.”

NONA CONFERÊNCIA

Em qualquer parte onde existem lacunas no sonho manifesto, a censura é responsável por elas. Devemos ir mais adiante e considerar como manifestação da censura toda passagem em que um elemento onírico é recordado de maneira especialmente indistinta, indefinida, duvidosa, em meio a outros elementos construídos mais claramente.”

quando a resistência é grande, temos de percorrer longas cadeias de associações a partir do elemento onírico, somos conduzidos para longe deste, e, em nosso caminho, temos de vencer todas as dificuldades representadas pelas objeções críticas às idéias que ocorrem.” Reiteração.

O desejo de prazer – a ‘libido’, conforme o denominamos – escolhe sem inibição seus objetos e, de preferência, os proibidos: não somente as mulheres de outros homens, mas, acima de tudo, objetos incestuosos, objetos sagrados segundo o consenso da humanidade, mãe e irmã de um homem, pai e irmão de uma mulher.” E por que não desejos homossexuais, F.?

O simbolismo é, talvez, o mais notável capítulo da teoria dos sonhos. Em primeiro lugar, como os símbolos são versões constantes, realizam até certo ponto o ideal da antiga, tanto como da popular, interpretação dos sonhos, do qual, com nossa técnica, nos afastamos muito.”

O filósofo K.A. Scherner (1861) deve ser apontado como o descobridor do simbolismo onírico, se é que absolutamente se possam situar seus inícios nos tempos atuais.” Pelo menos teve a idoneidade de mencioná-lo.

DÉCIMA CONFERÊNCIA

Nos mitos sobre o nascimento de heróis – aos quais Otto Rank (1909) dedicou um estudo comparado, sendo o mais antigo o mito do rei Sargão, de Agade (cerca de 2800 a.C.) –, uma parte predominante é desempenhada pelo abandono na água e o resgate da água.”

O fato de fogões representarem mulheres e útero, é confirmado pela lenda grega de Periandro de Corinto e sua esposa Melissa. O tirano, segundo Heródoto, faz aparecer o espírito de sua mulher, a quem amara apaixonadamente e, contudo, assassinara por ciúmes, a fim de obter dela algumas informações. A mulher morta provou sua identidade dizendo que ele, Periandro, havia ‘metido seu pão dentro de um forno frio’, como forma de disfarçar um acontecimento que só era conhecido dos dois. Na revista Anthropophyteia, editada por F.S. Krauss, inestimável fonte de conhecimentos de antropologia sexual, ficamos sabendo que, em determinada região da Alemanha, de uma mulher que deu à luz uma criança se diz que ‘o forno dela se fez em pedaços’.”

#offtopic

o título do governante do Egito antigo, ‘Faraó’, significa simplesmente ‘Grande Saguão do Paço’. (No antigo oriente, os pátios entre os duplos portões de uma cidade eram locais de encontro públicos, assim como as praças do mercado do mundo clássico)”

a relação simbólica pode ultrapassar os limites da linguagem – o que, aliás, foi afirmado há muito tempo por um antigo pesquisador de sonhos, Schubert (1814).”

O trevo de 4 folhas tomou o lugar do de 3 folhas, que realmente se presta para ser um símbolo. O porco é um antigo símbolo da fertilidade. O cogumelo é sem dúvida um símbolo do pênis: existem cogumelos (fungos) que devem seu nome sistemático (Phallus impudicus) à sua inconfundível semelhança com o órgão masculino.”

DÉCIMA PRIMEIRA CONFERÊNCIA

Às vezes a condensação pode estar ausente; via de regra se faz presente e, muitíssimas vezes, é enorme. Jamais ocorre uma mudança em sentido inverso; ou seja, nunca encontramos um sonho manifesto com extensão ou com conteúdo maior do que o sonho latente. A condensação se realiza das seguintes maneiras: (1) determinados elementos latentes são totalmente omitidos, (2) apenas um fragmento de alguns complexos do sonho latente transparece no sonho manifesto e (3) determinados elementos latentes, que têm algo em comum, se combinam e se fundem em uma só unidade no sonho manifesto. Se preferirem, podemos reservar o termo ‘condensação’ apenas para o último desses processos. Seus resultados podem ser demonstrados com especial facilidade. Os senhores não terão dificuldade em relembrar exemplos de seus próprios sonhos, em que pessoas diferentes são condensadas em uma só. Um personagem composto, deste tipo, pode, talvez, assemelhar-se a A, mas pode, talvez, [enquanto se assemelha] a A, estar vestida como B, executar algo que lembre C, e ao mesmo tempo podemos saber que é D. Essa estrutura composta naturalmente está dando ênfase àquilo que as 4 pessoas têm em comum. É possível, naturalmente, formar tal estrutura composta de coisas ou de lugares, do mesmo modo que de pessoas, contanto que as diferentes coisas e lugares tenham em comum algo que o sonho latente acentua. O processo se assemelha à construção de um conceito novo e transitório que tem nesse elemento comum o seu núcleo. O resultado dessa superposição de elementos separados, que foram condensados conjuntamente, é, via de regra, uma imagem difusa e vaga, à semelhança daquilo que sucede quando se batem diversas fotografias sobre uma mesma chapa. A produção de estruturas compostas, como essas referidas, deve ser de grande importância para a elaboração onírica, porquanto podemos demonstrar que[,] ali onde inicialmente faltam os elementos comuns para formá-las, estes são introduzidos deliberadamente – por exemplo, através da escolha da palavra pelas quais um pensamento é expresso.” “A imaginação ‘criativa’ realmente é bastante incapaz de inventar qualquer coisa; ela pode apenas combinar entre si componentes que são estranhos.”

Embora a condensação torne os sonhos obscuros, não parece dar-nos a impressão de ela ser efeito da censura. Antes, parece ser devida a um fator automático ou econômico, mas, em todo caso, a censura lucra com ela. Aquilo que a condensação consegue realizar pode ser bastante extraordinário. Às vezes é possível, com seu auxílio, combinar duas seqüências de pensamentos latentes muito diferentes, em um único sonho manifesto, de modo que se pode chegar a algo que parece ser uma interpretação suficiente de sonho, e no entanto, procedendo assim, pode-se deixar de perceber uma possível ‘superinterpretação’.”

Quando diversos sonhos ocorrem durante a mesma noite, têm freqüentemente a mesma significação e indicam que está sendo feita uma tentativa de manejar cada vez mais eficazmente um estímulo de crescente insistência.” Não necessariamente. Depois que sonhei com a morte do pai (ou meu suicídio?), a cena mudava para duas crianças brincando de embaixadinha num quarto…

Com algumas exceções destacadas, os discursos nos sonhos são cópias e combinações de discursos que alguém ouviu ou enunciou para si próprio no dia anterior ao sonho e que foram incluídos nos pensamentos latentes, ou como material ou como instigadores dos sonhos.”

DÉCIMA SEGUNDA CONFERÊNCIA

Em primeiro lugar, devo admitir que ninguém efetua interpretação de sonhos como sua atividade principal. Como ocorre, então, que as pessoas os interpretam? Ocasionalmente, sem nenhum objetivo em vista, alguém pode se interessar por sonhos de um conhecido seu, ou alguém pode esquadrinhar seus próprios sonhos durante algum tempo a fim de preparar-se para o trabalho psicanalítico; mas, na maior parte das vezes, aquilo com que se tem de lidar são os sonhos de pacientes neuróticos que estão em tratamento psicanalítico. Esses sonhos constituem excelente material e de modo algum são inferiores aos de pessoas sadias; a técnica do tratamento, porém, requer que subordinemos a interpretação de sonhos aos objetivos terapêuticos, e temos de permitir que bom número de sonhos tenha sido examinado até havermos extraído dos mesmos alguma coisa de utilidade para o tratamento. Alguns sonhos que ocorrem durante o tratamento escapam inteiramente a uma análise completa: de vez que se originam de um grande acervo de material que ainda nos é desconhecido, é impossível entendê-los antes de o tratamento chegar ao término.”

Talvez o melhor exemplo de interpretação de um sonho seja o que foi relatado por Otto Rank (1910b), consistindo em dois sonhos inter-relacionados, tidos por uma jovem, que ocupam cerca de 2 páginas impressas: mas sua análise vai a 76 páginas [pouta merda!]. Assim, eu deveria necessitar de cerca de um semestre inteiro para conduzi-los através de um único trabalho dessa espécie. Se se tomar qualquer sonho relativamente longo e muito deformado, há que fornecer tantas explicações do mesmo, levantar tanto material que surge no curso das associações e das recordações, seguir tantas vias secundárias, que uma conferência a respeito dele seria muito confusa e insatisfatória.”

Quando se perde alguém que é de nossas relações e nos é caro, surgem sonhos de um tipo especial, durante algum tempo após, nos quais o conhecimento da morte chega às mais estranhas conciliações com a necessidade de trazer novamente à vida a pessoa morta. Em alguns desses sonhos, a pessoa que morreu está morta e ao mesmo tempo permanece viva porque não sabe que está morta; somente se soubesse, morreria completamente. Em outros, a pessoa está meio morta e meio viva, e cada um desses estados vem indicado por uma forma particular. Não devemos descrever esses sonhos como simplesmente absurdos; pois ser devolvido novamente à vida não é mais inconcebível nos sonhos do que o é, por exemplo, em contos de fadas, nos quais isso ocorre como fato muito rotineiro.”

AQUI QUEM FALA É O CASTO: “Estou certo de que os senhores ouviram, uma vez ou outra, a psicanálise afirmar que todo sonho tem uma significação sexual. Pois bem, os senhores mesmos estão em condições de formar um julgamento da incorreção dessa acusação.”

DÉCIMA TERCEIRA CONFERÊNCIA

Uma criança pequena não ama necessariamente seus irmãos e irmãs; muitas vezes, obviamente não os ama. Sem dúvida ela os odeia como rivais seus, e é fato sabido que esta atitude freqüentemente persiste por muitos anos, até ser atingida a maturidade ou mesmo até mais tarde, sem interrupção. Com efeito, muito amiúde esta atitude é substituída, ou melhor, digamos, é encoberta por outra, mais cordial. Mas, a que é hostil em geral parece ser a que surge primeiro.”

Via de regra, só existe uma pessoa que uma menina inglesa odeia mais do que a sua mãe; é a sua irmã mais velha.” Bernard Shaw

Otto Rank (1912b) demonstrou, em cuidadoso estudo, como o complexo de Édipo proporcionou aos autores dramáticos uma riqueza de temas com infindáveis modificações, atenuações e disfarces – isto é, com distorções do tipo que já conhecemos como obra de uma censura.”

Quando abandonadas a si próprias, ou sob a influência de sedução, amiúde as crianças realizam proezas consideráveis na área da atividade sexual perversa.”

DÉCIMA QUARTA CONFERÊNCIA

é muito mais difícil a elaboração onírica alterar o sentido dos afetos de um sonho do que o seu conteúdo; os afetos, às vezes, são altamente resistentes. O que então acontece é a elaboração onírica transformar o conteúdo aflitivo dos pensamentos oníricos na realização de um desejo, ao passo que o afeto desagradável persiste inalterado.”

Uma fada boa prometeu a um casal pobre assegurar-lhe a realização dos seus 3 primeiros desejos. Eles ficaram jubilosos e puseram-se a pensar em como escolher cuidadosamente seus 3 desejos. Mas um cheiro de lingüiça frita, proveniente da casa próxima, tentou a mulher a desejar algumas lingüiças. Num relâmpago, ali estavam as lingüiças; e esta foi a primeira realização de desejo. Mas o marido se enfureceu, e, em sua raiva, desejou que as lingüiças ficassem dependuradas no nariz da mulher. E foi isto o que também aconteceu; e não havia como retirá-las dessa nova posição. Esta foi a segunda realização de desejo; mas o desejo era do homem, e a sua realização foi muito desagradável para sua mulher. Os senhores sabem o restante da história. Visto que, afinal, eles eram, de fato, um – marido e mulher – o terceiro desejo não podia ser senão o de que as lingüiças se desprendessem do nariz da mulher.”

A geração da ansiedade assumiu o lugar da censura. Ao passo que de um sonho infantil podemos dizer ser ele a realização franca de um desejo permitido, e de um sonho deformado como sendo a realização disfarçada de um desejo reprimido, a única fórmula adequada a um sonho de ansiedade consiste em que este é a realização franca de um desejo reprimido.”

Sonhos de ansiedade, via de regra, são também sonhos que fazem despertar; habitualmente interrompemos nosso sono antes que o desejo reprimido, no sonho, tenha executado a realização completa, apesar da censura. Nesse caso, a função do sonho fracassou, mas sua natureza essencial não foi modificada com isto. Temos comparado os sonhos com o vigia noturno ou guardião do sono, que procura proteger nosso sono contra perturbações. O vigia noturno, também, pode chegar ao ponto de acordar a pessoa que dorme, se sente que é por demais fraco para, sozinho, afugentar a perturbação ou o perigo. Ainda assim, às vezes conseguimos continuar nosso sono, mesmo quando o sonho começa a ficar inseguro e a transformar-se em ansiedade. Dizemos a nós mesmos, em nosso sono, ‘afinal é apenas um sonho’, e continuamos dormindo.”

Há alguns pacientes neuróticos que são incapazes de dormir, e admitem que sua insônia foi, inicialmente, intencional. Não ousavam dormir porque temiam os seus sonhos – isto é, temiam os resultados do enfraquecimento da censura. Os senhores constatarão com facilidade, entretanto, que, a despeito disto, o afastamento da censura não importa em grande desorganização. O estado de sono paralisa nossa capacidade motora. Se nossas intenções más começam a perturbar, elas podem, afinal, causar nada mais do que simplesmente um sonho, que é inócuo, do ponto de vista prático.”

Pensamos, pois, que alguma coisa se acrescenta aos resíduos diurnos, algo que também fazia parte do inconsciente, um impulso pleno de desejos, poderoso, porém reprimido; e é este, somente, que torna possível a construção do sonho. A influência deste impulso pleno de desejos sobre os resíduos diurnos cria a outra parte dos pensamentos oníricos latentes – essa parte que já não necessita parecer racional e inteligível como se fosse derivada da vida desperta.”

“‘Os resíduos diurnos’, os senhores me perguntarão, ‘são realmente inconscientes no mesmo sentido que o desejo inconsciente que deve ser acrescentado a eles, a fim de torná-los capazes de produzir um sonho?’ A suposição dos senhores está correta. Este é o ponto saliente em todo este assunto. Não são inconscientes no mesmo sentido. O desejo onírico pertence a um inconsciente diferente – àquele inconsciente que já reconhecemos como tendo uma origem infantil e mecanismos peculiares. Seria muito oportuno distinguir essas duas espécies de inconscientes por meio de nomes diferentes. Preferiríamos, porém, esperar até nos familiarizarmos com a área dos fenômenos das neuroses. As pessoas consideram um tanto fantástico haver um só inconsciente. Que dirão quando confessarmos que temos de nos haver com dois?”

DÉCIMA QUINTA CONFERÊNCIA

O idioma chinês está cheio de exemplos de imprecisão que poderiam nos deixar muito alarmados. Como se sabe, compõe-se de numerosos sons silábicos que são falados isolados ou combinados aos pares. Um dos principais dialetos possui uns 400 destes sons. Como o vocabulário deste dialeto é calculado em cerca de 4 mil palavras, porém, conclui-se que cada som tem, em média, 10 significados diferentes – alguns menos, mas outros, em troca, têm mais. Existem numerosos métodos de evitar a ambigüidade, pois não se pode inferir, apenas a partir do contexto, qual dos 10 significados do som silábico a pessoa tenciona transmitir ao ouvinte. Entre esses métodos estão aqueles que consistem em combinar 2 sons em uma palavra composta e em utilizar 4 diferentes ‘tons’ na pronúncia das sílabas. Do ponto de vista de nossa comparação, é ainda mais interessante verificar que este idioma praticamente não tem gramática. É impossível dizer se uma das palavras monossilábicas é um substantivo, ou um verbo, ou um adjetivo; e não há flexões verbais, pelas quais se possa reconhecer gênero, número, desinência, tempo e modo. Assim, a linguagem consta, poderia dizer-se, apenas de matéria-prima, assim como nossa linguagem-pensamento fica reduzida, através da elaboração onírica, à sua matéria-prima, e se omite qualquer expressão de relação. No idioma chinês, a solução do sentido, em todos os casos, cabe ao entendimento de quem ouve, e nisto a pessoa se guia pelo contexto. Tomei nota de um exemplo de um provérbio chinês que, traduzido literalmente, reza assim: ‘Pouca visão, muita maravilha’. Não é difícil compreender isto. Pode significar: ‘Quanto menos alguém viu, mais tem com que se maravilhar’; ou: ‘De muita coisa se admira aquele que viu pouco.’ Naturalmente, não há maneira de diferenciar entre estas 2 versões que diferem apenas gramaticalmente. Apesar desta imprecisão, foi-nos assegurado que o idioma chinês é um veículo bastante eficiente de expressão do pensamento. Assim, a imprecisão não deve necessariamente produzir ambigüidade.”

Talvez nem todos os senhores estejam cientes de que uma situação semelhante surgiu na história da decifração das inscrições assírio-babilônicas. Houve época em que a opinião pública esteve muito inclinada a considerar visionários os decifradores da escrita cuneiforme, e a totalidade de suas pesquisas, uma ‘impostura’. Mas, em 1857, a Royal Asiatic Society fez uma experiência decisiva. Solicitou a 4 dos peritos mais altamente respeitados em escrita cuneiforme, Rawlinson, Hincks, Fox Talbot e Oppert para remeterem, em envelopes lacrados, traduções independentes de uma inscrição recentemente descoberta; e, após uma comparação entre os 4 trabalhos, pôde anunciar que a concordância entre estes peritos era suficiente para justificar o crédito que até então se havia dado e a confiança em posteriores realizações. A zombaria por parte do mundo leigo culto diminuiu gradualmente, após isto, e desde então tem aumentado enormemente a certeza na leitura dos documentos cuneiformes.”

Uma confusão muito pior parece estar subjacente à afirmação de que a idéia de morte pode ser encontrada por trás de todo sonho (Stekel, 1911, 34).” Briguem mais!

os senhores acharão bastante incompreensível uma afirmação de que todos os sonhos devem ser interpretados bissexualmente, como confluência de duas correntes, descritas como masculina e feminina (Adler, 1910).”

Um dia o valor objetivo da investigação sobre sonhos pareceu ser posto em xeque por uma observação de que os pacientes em tratamento analítico ordenam o conteúdo dos sonhos conforme as teorias prediletas de seus médicos – alguns sonhando predominantemente com impulsos instintuais sexuais, outros, com a luta pelo poder, e ainda outros, até mesmo, com renascimento (Stekel).”

Freqüentemente, é possível influenciar uma pessoa acerca do que ela vai sonhar, mas nunca aquilo que sonhará.”

DÉCIMA SEXTA CONFERÊNCIA (no ano seguinte – início das Novas conf. – poderia ter-se saído muito bem sem elas, aliás)

Nunca pude convencer-me da verdade da máxima segundo a qual a controvérsia é a mãe de todas as coisas. Penso que deriva dos sofistas gregos e, como eles, peca por supervalorizar a dialética.” Péssimo começo.

Algumas pessoas jamais tomaram conhecimento de quaisquer de minhas autocorreções, e continuam, até hoje, a criticar-me por hipóteses que, para mim, há muito cessaram de ter o mesmo significado. Outros me reprovam justamente por estas modificações, e, por causa delas, consideram-me indigno de confiança.”

todo aquele que se conduz dessa forma e deixa aberta a porta entre a sala de espera e a sala de consulta de um médico, é mal-educado e merece uma recepção inamistosa.”

“‘ele é um trapaceiro que dá mais do que tem.’ O psiquiatra não sabe como lançar mais luz sobre um caso como este. Ele deve contentar-se com um diagnóstico e um prognóstico – incertos, apesar de uma grande quantidade de experiência, e com sua evolução futura.”

Ela própria estava intensamente apaixonada por um homem jovem, pelo mesmo genro que a persuadira a procurar-me na qualidade de paciente. Ela mesma nada sabia, ou, talvez, sabia muito pouco dessa paixão; no relacionamento familiar que existia entre ambos, era fácil essa afeição apaixonada disfarçar-se como afeição inocente.” “posso recordar-lhes que a relação entre sogra e genro tem sido considerada, desde as épocas mais remotas da raça humana, como relação particularmente embaraçosa e que, entre tribos primitivas, deu origem a regulamentações e ‘evitações’ tabu muito poderosas.”

Ainda que a psicanálise se mostrasse tão ineficaz em qualquer outra forma de doença nervosa e psíquica, como se mostra ineficaz nos delírios, estaria plenamente justificada como insubstituível instrumento de investigação científica.” Um se pergunta de onde vinha tamanha autoconfiança…

DÉCIMA SÉTIMA CONFERÊNCIA

PURA FALSA MODÉSTIA: “Em todo caso, pode parecer questão de somenos importância saber quem fez a descoberta, de vez que, como sabem, toda descoberta é feita mais de uma vez, e nenhuma se faz de uma só vez. Ademais disso, nem sempre o sucesso acompanha o mérito: não foi de Colombo que a América recebeu seu nome. O grande psiquiatra Leuret opinou, antes de Breuer e Janete (sic), que mesmo nas idéias delirantes do insano se poderia encontrar um sentido, bastaria que compreendêssemos a maneira de traduzi-las. Devo admitir que, durante longo tempo, estive disposto a dar bastante crédito a Janet por elucidar os sintomas neuróticos, porque ele os considerava expressão de idées inconscientes que dominavam os pacientes. Depois disso, porém, ele se tem expressado com exagerada reserva, como se quisesse admitir que o inconsciente, para ele, não tivesse sido nada mais que uma fórmula verbal, um expediente, une façon de parler – que ele, com isso, não quis significar nada de real. Desde então, deixei de compreender os escritos de Janet”

Freud almoçava espinafre com biotômico Fontoura nessa época (para estar tão galante e soberbo das idéias).

A histeria morreu porque a psicossomática nasceu.

A neurose obsessiva manifesta-se no fato de o paciente se ocupar de pensamentos em que realmente não está interessado, de estar cônscio de impulsos dentro de si mesmo que lhe parecem muito estranhos, e de ser compelido a ações cuja realização não lhe dá satisfação alguma, mas lhe é totalmente impossível omitir. Os pensamentos (obsessões) podem ser, em si, carentes de significação, ou simplesmente assunto sem importância para o paciente; freqüentemente, são de todo absurdos e, invariavelmente, constituem o ponto de partida de intensa atividade mental que exaure o paciente e à qual ele somente se entrega muito contra sua vontade. Obriga-se, contra sua vontade, a remoer pensamentos e a especular, como se se tratasse dos seus mais importantes problemas vitais. Os impulsos, dos quais o paciente se apercebe em si próprio, também podem causar uma impressão de puerilidade e falta de sentido; via de regra, porém, têm um conteúdo da mais assustadora categoria” “não suponham que ajudarão o paciente, nem de longe, admoestando-o para que adote uma nova conduta, deixe de ocupar-se com esses pensamentos absurdos e faça algo sensato em lugar de suas extravagâncias infantis.”

O que é posto em ação, em uma neurose obsessiva, é sustentado por uma energia com a qual provavelmente não encontramos nada comparável na vida mental normal. Existe uma coisa apenas, que ele pode fazer: realizar deslocamentos, trocas, pode substituir uma idéia absurda por outra um pouco mais atenuada, em vez de um cerimonial pode realizar um outro. Pode deslocar a obsessão, mas não removê-la. A possibilidade de deslocar qualquer sintoma para algo muito distante de sua conformação original é uma das principais características desta doença.”

Além das obsessões, de conteúdo positivo e negativo, a dúvida se faz notar na área intelectual, e lentamente começa a corroer até mesmo aquilo que geralmente é tido como muito certo.” “Ao mesmo tempo, o neurótico obsessivo inicia seus empreendimentos com uma disposição de grande energia, freqüentemente é muito voluntarioso e, via de regra, tem dotes intelectuais acima da média. Geralmente atingiu um nível de desenvolvimento ético satisfatoriamente elevado; mostra-se superconsciencioso, e tem uma correção fora do comum em seu comportamento.”

É verdade que, graças à sua própria discrição e às falsificações de seus biógrafos [he, he!], pouco sabemos dos aspectos íntimos dos grandes homens que são nossos modelos; não obstante, também sucede um deles, como Émile Zola, poder ser um fanático da verdade, e, assim, ficamos conhecendo seus muitos e estranhos hábitos obsessivos, dos quais foi vítima a vida inteira.”

Nossa paciente gradualmente veio a constatar que era devido à sua qualidade de símbolos dos genitais femininos que os relógios eram retirados do meio de seus objetos de uso à noite. Os relógios – embora em outra parte tenhamos encontrado outras interpretações simbólicas para os mesmos – assumiram a significação genital devido à sua relação com processos periódicos e intervalos de tempo iguais. (…) A ansiedade de nossa paciente, porém, estava voltada em especial contra a possibilidade de ela ter o seu sono perturbado pelo tique-taque de um relógio. O tique-taque do relógio pode ser comparado com a pulsação ou latejamento do clitóris durante a excitação sexual.”

quanto ao restante, remeto-os (…) à vívida luz lançada sobre os mais obscuros sintomas daquilo que se conhece como dementia praecox, por C.G. Jung (1907), numa época em que ele era apenas psicanalista e ainda não aspirava a ser profeta”

DÉCIMA OITAVA CONFERÊNCIA

As neuroses traumáticas não são, em sua essência, a mesma coisa que as neuroses espontâneas que estamos acostumados a investigar e tratar pela análise; até agora, não conseguimos harmonizá-las com nossos pontos de vista, e espero, em algum época, poder explicar-lhes a razão desta limitação.” Espera poder “suicidar” Tausk!

Como é que ninguém se dava conta do caráter burlesco e charlatão dessas palestras? “Aqui, pois, mais uma vez devemos interromper o trajeto que iniciamos. Por agora, não conduz a nada mais, e teremos de nos instruir com outras coisas, antes de podermos encontrar sua correta continuação.” “tão logo os processos inconscientes pertinentes se tenham tornado conscientes, o sintoma deve desaparecer.” “A tese, segundo a qual os sintomas desaparecem quando se fazem conscientes seus motivos predeterminantes inconscientes, tem sido confirmada por todas as pesquisas subseqüentes, embora nos defrontemos com as mais estranhas e inesperadas complicações ao tentarmos pô-la em prática.”

Saber nem sempre é a mesma coisa que saber: existem diferentes formas de saber, que estão longe de serem psicologicamente equivalentes.” Foucault mode on.

Não estaria eu confundindo-os ao retomar, com tanta freqüência, coisas que já disse ou fazendo ressalvas às mesmas – ao iniciar seqüências de idéias e depois abandoná-las?” Sim.

DÉCIMA NONA CONFERÊNCIA

Então conseguimos perceber que a resistência se refugiou dentro da dúvida, que é própria da neurose obsessiva, e desta posição ela consegue resistir-nos. É como se o paciente dissesse: ‘Sim, está tudo muito bem, muito interessante, e terei muita satisfação em prosseguir ainda mais. Eu mudaria um bocado minha doença, se tudo isto fosse verdade. Mas não acredito, nem um pouco, que seja verdade; e, na medida em que não acredito, não faz qualquer diferença para minha doença.’

As mulheres têm um talento de mestre para explorar, na relação com o médico, uma transferência afetuosa, com nuances eróticas, destinada à resistência. Se esta ligação atinge determinado nível, desaparece todo o seu interesse pela situação imediata do tratamento e todas as obrigações que assumiram no início; seu ciúme, que nunca está ausente, e sua irritação ante a inevitável rejeição, embora expressos respeitosamente, não podem deixar de ter como efeito um dano na harmonia entre paciente e médico, e assim inativam uma das mais poderosas forças motrizes da análise.”

Inicialmente, Breuer e eu empreendíamos a psicoterapia por meio da hipnose; a primeira paciente de Breuer foi totalmente tratada sob influência hipnótica, e, no início, eu o segui neste procedimento. Admito que, naquela época, o trabalho avançava mais fácil e satisfatoriamente, e também em muito menos tempo. Os resultados eram, porém, incertos e não duradouros, e por esse razão finalmente abandonei a hipnose.”

CIÊNCIA MUITO LIMITADA (QUASE CIENCINHA): “tudo aquilo que disse aqui sobre repressão e a formação e significação dos sintomas derivou de 3 formas de neurose – histeria de angústia, histeria de conversão e neurose obsessiva, e que, numa primeira instância, só é válido para estas formas. Estes 3 distúrbios, que estamos acostumados a agrupar conjuntamente como ‘neuroses de transferência’ também circunscrevem a região em que a terapia psicanalítica pode funcionar. As demais neuroses têm sido estudadas de forma muito menos completa pela psicanálise; num grupo delas a impossibilidade de influência terapêutica foi uma das razões desse abandono.” É a histeria uma neurose?

Na neurose obsessiva, as duas partes freqüentemente estão separadas; o sintoma então se torna bifásico (divide-se em 2 estágios) e consiste em 2 ações, uma depois da outra, as quais se anulam reciprocamente.”

VIGÉSIMA CONFERÊNCIA (pedaço hediondo de literatura!)

Somente pessoas de seu próprio sexo podem excitar seus desejos sexuais; pessoas do outro sexo, e especialmente os órgãos sexuais destas pessoas absolutamente não constituem para eles objeto sexual e, em casos extremos, são objetos de repulsa. Isto implica, naturalmente, que abandonaram qualquer participação na reprodução. Tais pessoas denominamos homossexuais ou invertidas. São homens e mulheres que, freqüentemente mas não sempre, conduzindo-se irrepreensivelmente, em outros aspectos possuindo elevado desenvolvimento intelectual e ético, são vítimas apenas deste único desvio fatídico. Pela boca de seus porta-vozes científicos, eles se apresentam como variedade especial da espécie humana – um ‘terceiro sexo’ que tem o direito de se situar em pé de igualdade com os outros dois. Naturalmente, eles não são, como também gostam de afirmar, uma ‘élite’ da humanidade; entre eles, há pelo menos tantos indivíduos inferiores e inúteis como os há entre pessoas de tipo sexual diferente. Esta classe de pervertidos, de qualquer modo, se comporta em relação a seus objetos sexuais aproximadamente da mesma forma como as pessoas normais o fazem com os seus. Agora, porém, chegamos a uma longa série de pessoas anormais cuja atividade sexual diverge cada vez mais amplamente daquilo que parece desejável para uma pessoa racional. Na sua multiplicidade e estranheza, somente podem ser comparadas aos monstros grotescos, pintados por Brueghel para a tentação de Santo Antônio, ou à longa procissão de deuses e crentes desaparecidos, que Flaubert faz desfilar ante os olhos de seu piedoso penitente. Uma tal miscelânea requer algum tipo de ordenamento para que não venha a confundir nossos sentidos. Por conseguinte, nós os dividimos naqueles em que, como os homossexuais, o objeto sexual foi modificado, e em outros nos quais a finalidade sexual é que foi primariamente modificada. O primeiro grupo inclui aqueles que renunciaram à união dos dois genitais e que substituem os genitais de um dos parceiros envolvidos no ato sexual por alguma outra parte ou região do corpo; com isto, eles desprezam a falta de dispositivos orgânicos adequados, assim como todo impedimento oriundo de sentimentos de repulsa. (Por exemplo, substituem a vulva pela boca ou pelo ânus.) Outros há que, realmente, ainda mantêm os genitais como um objeto – não, porém, por causa da função destes, mas de outras funções em que o genital desempenha um papel, seja por motivos anatômicos, seja por causa de sua proximidade. Neles, constatamos que as funções excretórias, que foram postas de lado como impróprias, durante a educação das crianças, conservam a capacidade de atrair a totalidade do interesse sexual. E ainda há outros que abandonaram totalmente o genital como objeto, e tomaram alguma outra parte do corpo como o objeto que desejam – um seio de mulher, um pé, ou uma trança de cabelos. Depois há outros para os quais as partes do corpo não têm nenhuma importância, mas todos os seus desejos se satisfazem com uma peça de roupa, um sapato, uma peça de roupa íntima – são de fetichistas. Ainda mais atrás, nesse séquito, se enfileiram essas pessoas que requerem de fato o objeto total, mas fazem a este exigências muito definidas – estranhas e horríveis exigências –, até mesmo a de que esse objeto devesse tornar-se um cadáver indefeso e de que, usando de uma violência criminosa, transformem-no num objeto no qual possam encontrar prazer. Mas basta com essa espécie de horror! O segundo grupo é formado por pervertidos que transformaram em finalidade de seus desejos sexuais aquilo que normalmente constitui apenas um ato inicial ou preparatório. São pessoas cujo desejo consiste em olhar outras pessoas, ou palpá-las, ou espiá-las durante a execução de atos íntimos, ou pessoas que expõem partes do corpo que deveriam estar encobertas, na obscura expectativa de poderem ser recompensadas, em troca, por uma ação correspondente. Depois vêm os sádicos, essas pessoas enigmáticas, cujas tendências carinhosas não têm outro fim senão o de causar sofrimento e tormento a seus objetos, indo desde a humilhação até as lesões físicas graves; e, como que para contrabalançá-los, seus equivalentes opostos, os masoquistas, cujo único prazer consiste em sofrer toda espécie de tormentos e humilhações de seu objeto amado, seja simbolicamente, seja na realidade. Ainda existem outros em que diversas dessas precondições anormais estão unidas e entrelaçadas; e, por fim, devemos nos lembrar de que cada um destes grupos pode ser encontrado sob duas formas: ao lado daqueles que procuram sua satisfação sexual na realidade, estão os que se contentam simplesmente com imaginar essa satisfação, que absolutamente não necessitam de um objeto real, mas podem substituí-lo por suas fantasias.”

A menos que possamos compreender essas formas patológicas de sexualidade e correlacioná-las com a vida sexual normal, não poderemos nem mesmo entender a sexualidade normal.”

Iwan Bloch corrige a opinião de que todas essas perversões são ‘sinais de degeneração’, mostrando que tais aberrações do fim sexual, esses afrouxamentos do nexo com o objeto sexual, ocorreram desde tempos imemoriais, em todas as épocas conhecidas, entre todos os povos, os mais primitivos e os mais civilizados, e, em algumas ocasiões, foram tolerados e difusamente reconhecidos.”

A reivindicação que fazem os homossexuais ou invertidos de serem uma exceção desfaz-se imediatamente ao constatarmos que os impulsos homossexuais são encontrados invariavelmente em cada um dos neuróticos e que numerosos sintomas dão expressão a essa inversão latente.”

somos forçados a encarar a escolha de um objeto do mesmo sexo como um desvio na vida erótica, desvio cuja ocorrência é positivamente freqüente, e cada vez aprendemos mais sobre isso, atribuindo-lhe importância particularmente elevada.”

Temos até mesmo verificado que determinada doença, a paranóia, que não deve ser incluída entre as neuroses de transferência, origina-se habitualmente de uma tentativa no sentido de o doente libertar-se de impulsos homossexuais excessivamente intensos.”

mulheres neuróticas muito freqüentemente produzem sintomas assim, à feição de um homem. Ainda que isso não se deva considerar homossexualismo, relaciona-se muito de perto com as precondições destas.”

não atribuímos à consciência da pessoa os impulsos sexuais pervertidos, mas os localizados em seu inconsciente.”

Uma quantidade incrivelmente grande de atos obsessivos pode remontar à masturbação, da qual constituem repetições e modificações disfarçadas; sabe-se muito bem que a masturbação, embora sendo uma ação única e uniforme, acompanha as mais diversas formas do fantasiar sexual.”

Maneira catastrófica de informar uma verdade, que não deixaria de apresentar suas conseqüências: “Pois a investigação psicanalítica teve de ocupar-se também com a vida sexual das crianças, e isto porque as lembranças e associações emergentes durante a análise de sintomas de adultos remetiam-se regularmente aos primeiros anos da infância. O que inferimos destas análises mais tarde se confirmou, ponto por ponto, nas observações diretas de crianças. E, com isso, verificou-se que todas essas inclinações à perversão tinham suas raízes na infância, que as crianças têm uma predisposição a todas elas e põem-nas em execução numa medida correspondente à sua imaturidade – em suma, que a sexualidade pervertida não é senão uma sexualidade infantil cindida em seus impulsos separados”

Sem dúvida, a experiência deve ter ensinado aos educadores que a tarefa de docilizar a tendência sexual da nova geração só poderia ser efetuada se começassem a exercer sua influência muito cedo, se não esperassem pela tempestade da puberdade, mas interviessem logo na vida sexual das crianças, que é preparatória para a puberdade.” E vimos o quanto esses educadores estavam completamente errados!

erigiu-se o ideal de tornar a vida das crianças assexual, e, no decorrer do tempo, as coisas chegaram ao ponto de as pessoas realmente acreditarem que as crianças sejam assexuais e, subseqüente, de a ciência proclamar isto como doutrina. Para evitar que sejam contraditas suas crenças e suas intenções, a partir daí as pessoas passam por alto as atividades sexuais das crianças (que não são de se desprezar) ou se mostram contentes quando a ciência assume um ponto de vista diferente com relação a tais atividades. As crianças são as únicas a não concordar com essas convenções. Afirmam seus direitos animais com total naïveté e dão constantes provas de que ainda terão de trilhar o caminho da pureza. É por demais estranho que as pessoas que negam a existência da sexualidade nas crianças nem por isso se tornam mais brandas em seus esforços educacionais, mas perseguem as manifestações daquilo que negam que exista, com a máxima severidade – descrevendo tais manifestações como ‘traquinagens pueris’. É também do maior interesse teórico o período de vida que contradiz mais flagrantemente o preconceito de uma infância assexual – os anos de vida de uma criança até os 5 ou 6 –, ser posteriormente, na maioria das pessoas, coberto pelo véu da amnésia, o qual só é completamente desfeito pela investigação analítica, embora anteriormente tenha sido permeável à construção de alguns sonhos.”

Em exata analogia com a ‘fome’, empregamos ‘libido’ como nome da força (neste caso, a força do instinto sexual, assim como, no caso da fome, a força do instinto de nutrição) pela qual o instinto se manifesta. Outros conceitos, como os de ‘excitação’ e ‘satisfação’ sexual, não requerem explicação.”

VIGÉSIMA PRIMEIRA CONFERÊNCIA

o beijar pode facilmente tornar-se perversão completa – ou seja, se se torna tão intenso, que uma descarga genital e o orgasmo sobrevêm diretamente, coisa nada rara.”

O período de latência também pode estar ausente: não acarreta necessariamente qualquer interrupção da atividade sexual e dos interesses sexuais por toda a extensão da linha. A maior parte das experiências e dos impulsos mentais anteriores ao início do período da latência agora sucumbe à amnésia infantil”

Esse curso do desenvolvimento realiza-se com tanta rapidez, que, talvez, jamais pudéssemos conseguir, pela observação direta, apreender firmemente os seus quadros fugazes. Foi apenas com a ajuda da investigação psicanalítica das neuroses que se tornou possível descobrir as fases ainda mais precoces do desenvolvimento da libido. Para dizer a verdade, estas não são senão hipóteses; mas, se os senhores efetuarem a psicanálise na prática, verificarão que são hipóteses necessárias e úteis.”

Um dos bravos discípulos da psicanálise foi designado oficial médico no front alemão, em algum lugar da Polônia [Viktor Tausk]. Ele chamou a atenção de seus colegas pelo fato de, ocasionalmente, exercer inesperada influência sobre algum paciente. Indagado a respeito, reconheceu que estava empregando os métodos da psicanálise e declarou-se disposto a transmitir seu conhecimento a seus colegas. Depois disso, todas as noites os oficiais médicos da tropa, seus colegas e superiores, reuniam-se a fim de aprender as doutrinas secretas da análise. Tudo correu bem, durante algum tempo; quando, porém, falou ao seu auditório a respeito do complexo de Édipo, um de seus superiores levantou-se, declarou que não acreditava nisso, que constituía um ato vil, por parte do conferencista, falar-lhes a respeito de tais coisas, a homens honestos que estavam lutando por seu país e que eram pais de família; e que proibia a continuação das conferências. Este foi o final do caso. O analista viu-se transferido para outra parte do front. Parece-me mau, entretanto, se uma vitória alemã exige que a ciência se ‘organize’ dessa maneira, e a ciência alemã não reagirá bem a uma organização dessa espécie.”

A obra do dramaturgo ateniense mostra a maneira como o feito de Édipo, realizado num passado já remoto, é gradualmente trazido à luz por uma investigação engenhosamente prolongada e restituído à vida por meio de sempre novas séries de provas. Nesse aspecto, tem certa semelhança com o progresso de uma psicanálise. No decorrer do diálogo, Jocasta, a iludida mãe e esposa, declara-se contrária à continuação da investigação. Apela para o fato de que muitas pessoas sonharam com dormir com a própria mãe, mas que os sonhos devem ser menosprezados.”

SENSIBILIDADE ESTILÍSTICA E DE LINGUAGEM PROXIMAL DO ZERO: “Conquanto um homem tenha reprimido seus maus impulsos para dentro do inconsciente e prefira dizer a si mesmo, posteriormente, que não é responsável por eles, ele, não obstante, tem de reconhecer essa responsabilidade na forma de um sentimento de culpa cuja origem lhe é desconhecida.”

Senão vejamos quantos absurdos em pouco espaço físico linear: autorepressão!, maus impulsos (conceituar pra quê?!), para DENTRO do inconsciente (onde é isso, quando é isso?), o consciente moralista agora é um DEUS que governa o inconsciente! Que sentimento de culpa, meu amigo?! Você não superou o complexo de Édipo? Desconhecida como, se ele expulsou para DENTRO do ABSTRATO e INCORPÓREO inconsciente (que está DENTRO de si) tudo aquilo?

VIGÉSIMA SEGUNDA CONFERÊNCIA

repressão diz respeito às regiões psíquicas que supomos existirem ou, se abandonamos essa desajeitada hipótese de trabalho, [muito expediente em seu trabalho] à construção do aparelho mental a partir dos diferentes sistemas psíquicos.” “a repressão também pode ser enquadrada no conceito de regressão, de vez que também a repressão pode ser descrita como um retorno a um estágio anterior e mais profundo na evolução de um ato psíquico. No caso da repressão, porém, esse movimento retrocessivo não nos interessa, já que falamos também em repressão, no sentido dinâmico, quando um ato psíquico é detido no estágio inferior, inconsciente. O fato é ser a repressão um conceito topográfico-dinâmico, ao passo que a regressão é um conceito puramente descritivo.”

não podemos chamar de regressão da libido um processo puramente psíquico, nem podemos dizer onde deveríamos localizá-lo no aparelho mental.” Talvez você devesse jogar fora a noção de repressão, portanto, porque a única coisa que valha em psicologia é o conhecimento descritivo.

Devemos estar preparados para constatar que nossos pontos de vista estarão sujeitos ainda a outras ampliações a reavaliações, quando pudermos levar em consideração não apenas a histeria e a neurose obsessiva, como também as outas neuroses, as neuroses narcísicas.”

histéricos são boqueteiros

neuróticos são sodomitas

quem chupa gosta de isqueiros

quem caga pra tudo

quem dizes que imita?

Uma regressão da libido, sem repressão, jamais produziria uma neurose, mas levaria a uma perversão.”

conhecemos pessoas capazes de suportar uma privação dessa espécie, sem serem lesadas: não são felizes, sofrem devido aos seus anseios, porém não adoecem.”

REICH E O NÚMERO: “Há um limite à quantidade de libido não-satisfeita que os seres humanos, em média, podem suportar.”

A esse ponto, aproveito a oportunidade para alertá-los contra a possibilidade de tomarem partido em uma disputa muito desnecessária. Em assuntos científicos, as pessoas mantêm muito essa tendência de selecionar uma parte da verdade, colocando-se a favor dessa parte somente. Foi justamente dessa forma que diversas correntes de opinião já se cindiram do movimento psicanalítico, algumas delas reconhecendo os instintos egoísticos e negando os sexuais, e outras atribuindo importância à influência das incumbências reais da vida e desprezando o passado do indivíduo – e outras mais.” Sujeito magoado!

A psicanálise das neuroses de transferência não nos dá um acesso fácil a um exame detalhado dos instintos do eu [leia-se interdições morais – nada de instintual aqui!]; quando muito, chegamos a conhecê-los, em certa medida, através das resistências que se opõem à análise.”

sua educação intelectual reduziu seu interesse pelo papel feminino que estava destinada a desempenhar. Devido à sua moral mais elevada e ao desenvolvimento intelectual de seu eu, ela entrou em conflito com as exigências de sua sexualidade.”

VIGÉSIMA TERCEIRA CONFERÊNCIA

PERCEBA COMO FUNCIONA A FALSIFICAÇÃO: “a experiência analítica de fato nos leva a supor que experiências puramente casuais, na infância, são capazes de deixar atrás de si fixações da libido.” Experiências baseadas em teorias, jamais verificáveis; suposições sobre o que já eram, antes de tudo, meras hipóteses, dogmatizadas, e assim por diante…

CERTO PITAGORISMO-KARDECISMO-JUNGUISMO! “As disposições da constituição também são indubitavelmente [!] efeitos secundários de experiências vividas pelos ancestrais no passado (…) Sem essa aquisição, não haveria hereditariedade.”

a importância das experiências infantis não deve ser totalmente negligenciada, como as pessoas preferem, em comparação com as experiências dos ancestrais da pessoa e com sua própria maturidade; pelo contrário, as experiências infantis exigem uma consideração especial.” Bem contraditório: o Édipo sai do berço e volta às cavernas e aos totens quando é conveniente e vice-versa…

TUDO É ‘EXTREMAMENTE DUVIDOSO’ NO FREUDISMO: “continua sendo extremamente duvidoso saber até onde a profilaxia na infância possa ser executada com vantagens, e se uma modificação de atitudes para com a situação imediata não poderia oferecer um melhor ângulo de abordagem à prevenção das neuroses.” Talvez Anna Freud tenha enxergado aqui a brecha de sua Ego Psychology para baixinhos… O papel da prevenção pedagógica!

Descobrimos, há algum tempo, que os neuróticos estão ancorados em algum ponto do seu passado” Por revelação divina! Bom, ainda é melhor que o kleinismo…

Isto somente compreenderemos em conexão com algo novo que ainda teremos de aprender das pesquisas analíticas da formação dos sintomas.”

CHARLATANISMO, MAS COM MUITO INSIGHT! “Conforme os senhores verão, essa descoberta está fadada, mais que qualquer outra, a desacreditar tanto a análise, que chegou a tal resultado, como os pacientes, em cujas declarações se fundamentam a análise e todo o nosso entendimento das neuroses. Existe, contudo, mais alguma coisa singularmente desconcertante em tudo isso. Se as experiências infantis trazidas à luz pela análise fossem invariavelmente reais, deveríamos sentir estarmos pisando em chão firme; se fossem regularmente falsificadas e mostrassem não passar de invenções de fantasias do paciente, seríamos obrigados a abandonar esse terreno movediço e procurar salvação noutra parte. Mas, aqui, não se trata nem de uma nem de outra coisa: pode-se mostrar que se está diante de uma situação em que as experiências da infância construídas ou recordadas na análise são, às vezes, indiscutivelmente falsas e, às vezes, por igual, certamente corretas, e na maior parte dos casos são situações compostas de verdade e de falsificação.”

VIGÉSIMA QUARTA CONFERÊNCIA

A estrutura teórica da psicanálise, que criamos, é, com efeito, uma superestrutura, que um dia terá de se erguer sobre seus fundamentos essenciais. Acerca disso, porém, nada sabemos ainda. O que caracteriza a psicanálise como ciência não é o material de que trata, mas sim a técnica com a qual trabalha.”

Os problemas das neuroses ‘atuais’, cujos sintomas provavelmente são gerados por uma lesão tóxica direta, não oferecem à psicanálise qualquer ponto de ataque. Ela pouco pode fazer para esclarecê-los e deve deixar a tarefa para a pesquisa biológico-médica.”

Posso informar-lhes, pois, que distinguimos 3 formas puras de neuroses ‘atuais’: neurastenia, neurose de angústia e hipocondria.” Esta última foi inventada depois de seu último período real de investigação teórica (até, no máximo, 1900).

VIGÉSIMA QUINTA CONFERÊNCIA

Hoje em dia, entretanto, devo observar que não conheço nada que possa ter menos interesse para mim, ao tratar-se da compreensão psicológica da ansiedade, do que o conhecimento dos trajetos dos nervos, por cuja extensão passam suas excitações.” Joguem fora meus Projetos.

ROBBING RANK: “Acreditamos ser no ato do nascimento que ocorre a combinação de sensações desprazíveis, impulsos de descarga e sensações corporais, a qual se tornou o protótipo dos efeitos de um perigo mortal, e que desde então tem sido repetida por nós como rigor mortal, e que desde então tem sido repetida por nós [cacofonia] como o estado de ansiedade.”

O substantivo ‘Angst’, ‘Enge’, acentua a característica de limitação da respiração que então se achava presente em conseqüência da situação real, e é, agora, quase invariavelmente recriada no afeto.”

Talvez lhes interesse saber como pôde alguém formar essa idéia de que o ato do nascimento é a origem e o protótipo do afeto de ansiedade. Nisto a especulação teve muito escassa participação; antes, o que fiz foi tomá-la emprestada da naïve mente popular.”

Semelhante tendência a uma expectativa do mal pode ser encontrada na forma de traço de caráter em muitas pessoas de quem não se pode, de outro modo, dizer serem doentes; diz-se que são superansiosas ou pessimistas.”

VIGÉSIMA SEXTA CONFERÊNCIA

devemos, porém, ater-nos aos fatos biológicos subjacentes aos instintos. No momento atual, sabemos muito pouco a respeito deles, e, ainda que soubéssemos mais, isto teria pouca importância para nosso trabalho analítico.” Hein?

É, também, óbvio que obteremos muito pouco proveito se, seguindo o exemplo de Jung, insistirmos na unidade original de todos os instintos e dermos o nome de ‘libido’ à energia que se manifesta em todos eles.” A pior conferência do recalcado.

VIGÉSIMA SÉTIMA CONFERÊNCIA

(…)

VIGÉSIMA OITAVA CONFERÊNCIA

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HEGEL, MARX E NIETZSCHE: ARISTÓTELES, PLATÃO E SÓCRATES DE CABEÇA PARA BAIXO

Texto originalmente publicado em 26 de março de 2009

Na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, o Marx jovem lança os postulados da sua futura filosofia iconoclasta trans-moderna. A partir da página 108 (edição de A Questão Judaica que contém o excerto no apêndice) a covardia alemã e o estado de subserviência da cultura teutônica tornam-se palpáveis.

Quais são os principais sinais de que uma cultura começa a evaporar (entra em decadência)? Um inequívoco é a transformação do que foi trágico em Comédia. O Estado alemão do século XIX, comandado por kaisers que tentam ser ingleses, é a sátira do Antigo Regime. Segundo Karl Marx, tendemos a nos despedir de um processo histórico de modo alegre, rememorando suas facetas risíveis. O mesmo se sucede hoje, na Pós-Modernidade: todas as Artes e todas as Ciências são auto-comediantes. Chegou-se ao ponto de as comédias de comédias proliferarem: Guerra nas Estrelas, uma paráfrase cósmica dos combates épico-medievais (George Lucas bebe da fonte de Tolkien), é a série campeã de referências divertidas nos filmes e seriados americanos. No âmbito político, ver Chávez, o Carlitos do Socialismo, o último adeus da alternativa falha ao Capitalismo clássico.

Voltando à Alemanha, inscrevia-se o país em uma situação tão peculiar que se poderia defini-la no entreposto entre o esgotamento do mundo idealista e o não-saber-o-que-fazer. Isso implicava refutar qualquer filosofia e, tacitamente, aceitar o destino fatal, o cumprimento da mesma filosofia (de qualquer modo, a maneira mais ágil de transvalorar, se não fosse a única)! Se tudo por enquanto (anos 1840) fôra teoria (imaginação), amanhã o que faríamos não seria prática, mas tão-somente reflexo do que viemos a ser… Até que o movimento iniciado gere um colapso extraordinário e outro projeto renasça das cinzas – Holocausto? Por colapso sem proporções, certamente quer-se dizer o fracasso e a humilhação alemães, o débito pelo progressivismo tedesco no século em que a Inglaterra não queria guerrear.

A Alemanha havia cumprido sua função intelectual antes do mundo – Hegel é quem disso se apercebe, sendo simultaneamente aquele que arremata esta compreensão, assim como um protagonista de García Márquez fadado a desaparecer lendo um texto sobre si –, mas parou em 1900. Os dois filósofos de mais renome que sucederam Hegel são os pássaros do devir do mundo moderno.

Hegel percebeu que quando o homem se dava conta de que estava preso numa cadeia de fatos já projetados, aí nascia a História. Marx apenas reforçou esse juízo com sua pseudo-inversão. Talvez Nietzsche não tenha reforçado muito mais, porém foi categórico. O que é do futuro do projeto realmente autônomo é de lá e é apenas uma meta do observador daqui, QUE AINDA NÃO SUPEROU A SI MESMO. Marx se engana no derradeiro pingo de seu trabalho, quando, consciente de que o homem que ainda não se superou jamais teria respostas definitivas para problemas como esse (simplesmente o da auto-superação da humanidade!), ainda assim afirma que a chave da transvaloração é o proletário. Nietzsche não cita diretamente nenhuma fórmula capaz de subverter o Cristianismo, o espírito iluminista e os Estados-nações. Não há fórmulas. A fórmula é decidida pela própria existência a cada segundo transcorrido – a única menção mais clara de Friedrich Nietzsche ao atingimento do Übermensch consta do princípio de Vontade de Potência e é um duplo alerta: caso as categorias do niilismo se mostrem invencíveis, justo no momento em que o homem teria mais força e capacidade para ultrapassá-las, tendo chegado tão longe, isto significaria que ou os modos de produção não estão maduros o suficiente ou ainda não se encontrou o modo adequado. Talvez essa seja a linha mais enigmática do legado deste último filósofo, o Sócrates depois de Cristo. Provavelmente as duas coisas vêm juntas, e ainda que não se possa pressenti-las no horizonte o pensador do martelo, morto em 1900, nos envia preces otimistas (especialmente a nós): não importa o dia em que cheguem, os novos valores um dia vão chegar…

NOTA CONCLUDENTE: Por incapacidade total de que me entendam adotarei silêncio rotundo e constante sobre as coisas da vida em conversas. Lembre-se sempre: é melhor para a alma forte ser centrípeta que centrífuga, e aliás é o único pathos que ela conhece para si. Respirar o ar do crepúsculo e sê-lo, ser mais imperioso que qualquer jovem, que quaisquer pés sobre o asfalto. Auto-satisfação comigo mesmo e com minha majestade. A onda do mar navega milhas e milhas antes de arrebentar. Escolherei o pedregal.

O DIABO VESTE O QUE IVAN QUER

– …e, assim, a humanidade acabou com o século XIX.

– Como podes dizê-lo? E tudo de importante que nos define hoje – Freud, para começar?!

– …Freud, tu dizes?!!? Hahahaha!! Fica-te a saber: grandessíssimo pamonha este aí. E mais: não te digo que a humanidade parou num ano determinado. Nada se sabe a respeito disso. E, depois, não foi em 99 como naquele lixo do Matrix. E não tens como simplesmente saíres e fazeres a checagem! Não há nada lá fora, ó romântico Mulder! Só posso-te dizer que foi muito mais cedo no século. Não há mais homens. Nada que seja novo sob o sol, no sentido de que tudo não passa de idéia compósita dos últimos pensadores. Toma teu Dostoiévsky, por exemplo. Que sabe porventura André Breton? Niño bobo, palerma. Crês que haveria algo depois da revolução burguesa? Toda a história desde o remate da filosofia continental é mera inflexão dos escritores. Ergue-se um império dos trabalhadores no Oriente do mundo civilizado – é uma conclusão lógica a forma como derruiu, qualquer autor poderia narrar essa história. Junta então 20 deles trabalhando ou em colaboração ou individualmente e tens diante dos olhos todos os mais ínfimos detalhes, com a maior verossimilhança… Bombas de destruição em massa: haveria que esperar o quê do homem se se pusesse teoricamente a adivinhar sobre elementos químicos mais avançados da tabela periódica que os já conhecidos pelos químicos do XIX? Satélites e a conquista da lua, a esterilidade dos outros planetas… Tudo isso cheira a folhetim apressado de Júlio Verne! Porque já a terra é um deserto cansado… Videogames, realidade aumentada e a continuidade da importância dos clássicos… Tudo isso é da pena dos mais qualificados antes do fim do humano. Mas o pior é que a história é como um romance que nunca termina… E exasperar-se-ia a mente dos maiores gênios se se pusesse a imaginar – e depois?… – e depois?… O socialismo e o fascismo reciclados voltam a se enfrentar, ó!!! Mas não há nada inédito nisto, e como poderia?! É exercício imaginativo, nada disso foi vivido realmente. Vê tu! E ninguém lança as tais bombas nunca! Ecologia! Pré-história… Nunca houve, então como o homem ilustrado poderia contá-la em enredo pós-apocalíptico? Essas ficções são sempre bem ruins… Começa-se a pensar que teria sido melhor que a terra fosse plana, mas o problema dos desertos se repetiria, notaste?!… E o que é o oceano senão o espelho do espaço sideral, desse nada? Não, não, amigo, tira da tua cabeça essas manias…

A MEDLEY OF MEANINGS: Insights from an instance of gameplay in League of Legends – Max Watson, 2015. In: Journal of Comparative Research in Anthropology and Sociology

Huizinga’s writings influenced the work of other prominent mid-to-late-century theorists of games and play (Elias and Dunning 2008; Morgan and Meier 1995; Suits 2005; Suits 1995), as well as more recent specialists on digital¹ games (Dyer-Witheford & de Peuter 2009; Juul 2003; Juul 2002). It is on meaningful play in digital games that this article focuses. Though Huizinga obviously did not have the chance to comment on digital games themselves, I, like those listed above, think that his work can be relevant to understanding this newest form of games in interesting ways.”

¹ “I prefer the prefix ‘digital’ to more clearly define these games in media terms from their analogue counterpart, but for all practical purposes I mean the same thing as the more colloquial ‘video games’ or ‘computer games’.”

There have been a growing number of games produced in recent years which are particularly well designed to foster insightful gameplay, digital games which engage with and raise awareness for important real-world issues by being played. Titles like Among the Sleep and Papo & Yo deal in an emotive way with the weighty issues of domestic abuse from alcoholic parents (Caballero 2012; Ugland and Jordet 2014). In Among the Sleep, players see through the eyes of a two year old boy as he flees from a dark monster who turns out to be his mother when she drinks; in Papo & Yo the protagonist flees his abusive father into an imaginary, magical favela where he solves puzzles with the help of a monster. In This War of Mine players control a ragged group of civilians clinging to life in a war-torn city, needing to manage scarce resources and make difficult ethical decisions, like whether to steal food from the needy to feed one’s own starving group (11 bit studios 2014). The game is inspired by the Yugoslav wars and is a departure from the far more commonly seen perspective of the soldier in war games. In Don’t Look Back players are exposed to the emotions of loss and grieving, playing through a game inspired by the Greek tale of Orpheus and Eurydice (Cavanagh 2009).”

In Elude players navigate between 3 emotional landscapes, normal, happy, and depressed, striving for the ever ephemeral happiness and being habitually dragged into all-consuming depression. The gameplay offers players an emotive window into what living with depression can be like. As the developers note, ‘It is specifically intended to be used in a clinical context as part of a psycho-education package to enhance friends’ and relatives’ understanding of people suffering from depression about what their loved ones are going through’ (Rusch, Ing & Eberhardt 2010). Depression Quest follows a bleak choose-your-own-adventure style of gameplay, as the player navigates the life of a mid-twenties person with depression (Quinn, Lindsey & Schankler 2013). And the conglomeration of games For the Records deals with an array of mental health issues, from eating disorders to depression (Rusch & Rana 2014).”

It is worth noting, however, that while heavily issue-driven games like those discussed above are growing in prominence, they are still in the minority, and are generally produced by smaller-scale, indie developers — though bigger budget titles exist as well: for example the third-person shooter Spec Ops: The Line prominently engages with post-traumatic stress disorder (Yager 2012). And while at best this explicitly meaningful approach to game design harnesses the power of play that Huizinga discusses and uses it to help players to specific real world insights, at times in striving to make these games meaningful, developers create gameplay that may not be as ‘fun’ as is found in commercially-successful, mainstream games. This is something of which their developers are often acutely aware and even accept based on propriety.”

Others argue that even such mainstream games are meaningful, albeit worryingly so. In this interpretation, while the content and gameplay of most mainstream games may be trivial or meaningless to observers, its effects certainly are not. (…) Others put forth normative arguments about how digital games can warp players’ minds, obfuscating their view of the real world and causing them to withdraw from it.”

China has banned soccer games that list Taiwan as a country (Krotoski 2004), Germany has prohibited games which depict Nazi symbols (Rawlinson 2014), Iran banned Battlefield 3 for depicting an invasion of Iran (Stuart 2011), and Venezuela issued a moratorium on violent games altogether (McWhertor 2010). Meanwhile, the effects on minors of violence and nudity in digital games has been debated at the U.S. Supreme Court (Supreme Court of the United States 2011).”

For a counterpoint which sees gameplay in general in a far more positive light, see (McGonigal 2011)”

The strongest recent articulation of digital games’ potential to inculcate worrisome real-world viewpoints came with the Gamergate controversy. The controversy was complex (…) for a good chronological summary see Stuart 2014 — but one undeniably salient part of it was a strong thrust of misogyny amongst some proponents of the Gamergate movement. Interestingly, considering the topic of this article, another key component was many Gamergaters claiming to be defending ‘ethics’ for their stance on purported unethical collusion between games journalists and developers. These [Gamergaters’ ‘ethics’] were often disguised as a rejection of what they labelled ‘social justice warriors’ purported incursions into the world of digital games, which brought with them an overemphasis on socially themed gameplay like that found in the abovementioned insightful games. Indeed, Zoey Quinn, the main creator of Depression Quest, was a central target of the Gamergate attacks. Many drew links with these views and the negative, often objectifying depictions of women in mainstream games (Sarkeesian 2013), and pointed to the new influx of women playing games caused by the emergence of casual, mobile-based games as a demographic shift that challenged the status quo (Ernst 2014). For some scholars, the vitriol exhibited by some members of the Gamergate movement marked a challenge to the distinct identity of the ‘gamer’ (Chess and Shaw 2015). Dan Golding summed up this sentiment well in a piece titled ‘The End of Gamers’ in which he wrote ‘From now on, there are no more gamers — only players’ (Golding 2014).”

E eu que achava que era o contrário: gamers sendo a degenerescência do tipo antigo, não-reacionário e aberto a inovações, mais ou menos perceptível como uma comunidade de interesses, de fato (o player engajado – não em questões sociais, mas no playing – das revistas de videogame dos anos 80 e 90 no Brasil). Com o advento das questões sociais de facto, hoje esta ‘comunidade’ cingiu-se em duas: a dos responsáveis e a dos gamers esquizofrênicos. Não raro os esquizofrênicos são da nova geração e os gamers responsáveis (players) são justamente players antigos que não enxergavam games como ato político mas agora amadureceram para acolher essa nova função da mídia – games não são apenas games. Social players vs. mysanthropic players. Estes últimos curiosamente alinhados com visões sociais conservadoras, já que afinal é preciso ter uma ideologia de vida ainda que se seja refratário a tudo além do gaming per se – esses garotos e homens barbados (nalguns casos) escolheram os valores do neoliberalismo e do fascismo, avatares arcaicos, em franca e paradoxal oposição ao fetiche tecnológico de que também compartilham. São gamers passivos, quase apenas espectadores. Acríticos noveleiros.

Observação incidental: Incrível como o artigo do Wikipédia sobre o GAMERGATE é absolutamente tendencioso, disfarçado de “cobertura do ponto de vista dos dois lados da contenda”, revertendo acusações de misoginia de grupo a grupo, quando é muito claro que os contrários à tag são os verdadeiros misóginos e troublemakers.

Golding and others have depicted gamers as an exclusive, predominantly male group weaned on mainstream games that are low on insight and high on violence and misogyny.”

As for the professionals…it is clear that they are not players but workers. When they play, it is at some other game.” (Caillois 1961, 6)

I have seen people, running the gamut from diehard to casual, refer to themselves in one sentence as gamers, and in the next as players, to what they are doing as gaming, and then describing it as playing. There is even the frequently used and problematic, for those who seek to decouple games and play, word gameplay.” Você está confundindo análise filológica com semântica.

In this article’s second half, to which I will presently turn, I take this notion of a medley of meanings from its current highly theoretical and perhaps still somewhat opaque enunciation and ground and articulate it through an ethnographic recounting of an instance of gameplay in the mainstream, ostensibly meaning-light game League of Legends.” Amigo, é o melhor que você faz. a discussão teórica estava um porre (salvei os leitores do meu blog dos momentos sacais).

* * *

Allow me to start with Morgan. It would be easy and I think fair to classify Morgan as an anti-social player of the type recounted by other anthropologists (Kou & Nardi 2013, 2014); akin to the antagonist in conflicts found in the foundational texts of New Games Journalism between players who sought propriety and respect and those who thrived on slurs and hurt feelings (Dibbell 1993; Gillen 2004; Shanahan 2004). Or, for those who prefer the more classical categorizations recounted near the beginning of this article, Morgan was very much being a spoilsport in Huizinga’s sense.”

Should we challenge Morgan’s racist remarks, not knowing whether it would stop them or encourage more? Hold fast in the pre-agreed positions or acquiesce to Morgan’s insistence on taking the jungle? Encourage team-play or treat Morgan as a lost cause? And equally importantly, how would each decision play out? Thus in a sense, to use Sicart’s terminology, Morgan posed a wicked problem for the other players. This was a problem that struck to the very heart of each particular player’s subjective gameplay experience, and, with Donath [1999, sobre trolling] in mind, I would venture to say that the posing these uncomfortable questions, witnessing the reactions to them, and then responding in turn was more integral to Morgan’s own subjective play experience in LoL than the technical gameplay itself.”

Robin reacted in a similar way to how most experienced LoL players reacted to players like Morgan. Robin was more than willing to make it known that Morgan’s actions were unwelcome, continuing to verbally challenge Morgan throughout the game. Nonetheless, Robin did bend and played the top lane, rather than allowing Morgan’s actions to drag the whole team to a defeat from an undefended flank. I propose that Robin’s approach to playing is quite similar to what Huizinga had in mind with the ideal player: Robin plays the game for fun, and reacts in a strong and negative way to spoilsports like Morgan.

Terry explicitly stated a desire to be a professional gamer, but it was the cool patience of Terry’s reactions to Morgan’s insults and incorrigibility that truly reflected somebody striving to imbue their gameplay with a strong degree of professionalism. This is not to say that adopting such a disposition made Terry somehow less of a player than the rest of us. Terry was obviously neither the snarling, exclusive, and victory-obsessed “gamer” brought forth by Gamergate, nor Caillois’ working professional devoid of the play spirit mentioned in the previous section. Rather, a part of Terry’s professional attitude to play was being able to weather with a cool head the wicked problems put forth by fellow players, in order to make the decisions which would maximize our team’s chances of winning the match, something Morgan’s actions drew out rather than suppressed.

It is harder to speculate about the largely silent Alex. One might take Alex’s initial claims to being a novice at face value: that in learning a new game Alex was focusing mostly on the technical rather than social aspects of gameplay. However, skilled moves like Alex beating Morgan to a kill seem to imply a greater deal of experience than was being admitted. It could be that Alex’s self-referral as a novice was simply a way of tempering the team’s expectations. If Alex was that experienced and cunning, then perhaps staying largely quiet and outside of team’s arguments was part of a broader strategy to rob players like Morgan of the validation and satisfaction that angry responses to impropriety can bring, a sentiment grasped in the gaming maxim ‘don’t feed the trolls’. Or the answer could be far simpler: Alex might just be a quiet person.

Finally, I brought my own particular disposition to gameplay into the medley. I was in part reacting in my normal way as a player to Morgan’s actions, which I viewed negatively. Conversely, I was also holding my tongue more than I might otherwise, remembering my role as a researcher and attempting to observe as thoroughly as I participated. And all the while, I was trying not to let the team down by performing poorly in the technical side of gameplay.”

UMA (DUAS) ODE(S) AO AMOR IMPOSSÍVEL

Crítica de 2 de março de 2009

Quão brilhante é a neo-clássica adaptação de Romeu e Julieta de Shakespeare para o cinema! Talvez esteja fora de moda, não só o próprio amor, mas a forma textual em que ele é comunicado. Na era da falta de imaginação, imagens e sons devolvem ao jovem o doce – e ao cabo amargo – sabor da ilusão. Talvez o diretor Luhman tivesse em conta a situação do professor de literatura ao iniciar as gravações. Afinal, com a exceção do rosto de DiCaprio, cilada que captura as menininhas – sem volta: todas as aventuras são sem-volta –, esta é a única maneira de solidificar o que é líquido e esparso. O vívido contraste entre a erudição e o colorido de boate é o mesmo de entre as carroças e os possantes carros, das páginas (sem vida? O leitor está inerte!) com as câmeras, da batina sóbria e da camisa florida do padre (dos padres. E o que se tira disso? Há algo familiar demais entre os opostos que se atraem para ser ignorado!

A contradição que não se pode resolver, entre dois inimigos de sangue, é o mesmo dilema que sente a carne. Posto que é tão real, não pode ser loucura ou confusão. Ou será que serão? Tudo isso é, e muito mais; a nova força semovente abraça todas as alteridades num invólucro só. O que é de hoje e o que já se tornou estranho, fóssil de uma enterrada era… sempre estiveram no recôndito de cada alma. Nenhuma experiência é previsível, não há ato que possa ser repetido – logrado duas vezes.

THE TRANSSEXUAL EMPIRE: The making of the she-male (sic) – Janice Raymond, 1994.

This book has been long in process. It began as a conference paper delivered at the New England Regional American Academy of Religion Meeting in 1972. Much of it had another life as my doctoral dissertation, which was finished at Boston College in 1977. Finally, it metamorphosed into a book.”

Shortly after the book was published in 1979, Johns Hopkins, which was the first US medical institution to perform transsexual surgery, phased out the procedure and dismantled its Gender Identity Committee. Although some of my friends credited The Transsexual Empire as an important influence on the termination of the surgery, I think the closing of Johns Hopkins’s doors had much more to do with several other factors, some announced and some not publicized.”

In his work on children and sexuality, Money and co-editor Gertrude Williams went so far as to state that a man who commits incest is a sexual deviant, which is <like being a religious deviant in a one-religion society>.”

Transexualism remains, as in 1979, largely a male phenomenon. Female-to-constructed-male transsexuals are relatively rare. For example, of the transsexual surgeries currently performed at the University of Minnesota’s Program in Human Sexuality, the second US institution to perform the surgery, 85% are male to female.”

I still maintain that men, being freer to experiment than women, seek out and submit to the surgery more often.” Oh, but then, as a consequence, they lose their free-will, see the paradox?

Iron John’ [?] embraces the standard of men’s new-found ability to cry as a primary marker of male liberation.” HAHAHAHA!

As opposed to men who seek opposite sex hormones and surgery, most women’s ‘gender dissatisfaction’ has been in not being feminine enough, or in not fulfilling their female role, e.g., motherhood. Thus medical science has tended to direct women into conforming to male dominant images and roles of femininity.”

ESTRANHA AUTOFAGIA… “Simone de Beauvoir gave us the insight that woman has been fabricated by man as ‘the other’, the relative being—relative to himself as the norm. So it should not be surprising that men, who have literally and figuratively, constructed women for centuries, are now ‘perfecting’ the man-made women out of their own flesh.”

Since transsexualism effectively has become a medical problem, the medical model prevails as the legitimate and dominant form of therapy, requiring psychiatric evaluation, hormonal and surgical intervention, and often a host of countless secondary cosmetic surgeries, all meant to adjust the artifactually evolving female body to the accepted feminine stereotypes.”

Defining and treating transsexualism as a medical [challenge] prevents the person experiencing so-called gender dissatisfaction from seeing it in a gender-challenging or feminist framework.”

Many want to know why the issue of transsexualism is of concern in the schema of pressing issues of feminism. As I saw it then and see it now, transsexualism goes to the question of what gender is, how to challenge it, and what reinforces gender stereotyping in a role-defined society. These questions have been raised subsequently in the context of more recent debates defined by the current argot of ‘transgender’.”

If it all boils down to some innate, essential quality, any attempt to change this state of affairs would be futile. In fact Raymond states that as sex reassignment surgery cannot change chromosomal sex, the transsexual does not really change sex at all.” Woodhouse

When I wrote this [the title of her book, thoughtlessly!], many reviewers took it to mean that a vast male conspiracy was afoot to eradicate ‘native-born’ women—the ultimate male plot to possess women totally. That was never what I meant, nor was it what I intended to convey.”

In giving us the concept of ‘the banality of evil’, Hannah Arendt reminded us that wrong-doing and destruction are not always radically intentional or the result of planned conspiracies, but they may be terribly ordinary.”

The title of my book was satirized in ‘The Empire Strikes Back; a Post-transsexual Manifesto’, an article written by Sandy Stone. Stone, a male-to-constructed female transsexual, was hired in the 1970s as a sound engineer by Olivia Records, the all-women recording company. This set off a controversy in feminist circles that I alluded to and commented on in The Transsexual Empire. Since then, it seems that Stone has gotten himself a thorough post-modernist education, and he now theorizes that, after all is said and done, the transsexual is really text, or perhaps a full-blown genre.”

A transsexual who passes is obeying the Derridean imperative . . . to begin to write oneself into the discourses by which one has been written.” S.S.

Raymond contemplated transsexualism with all the frustration and disgust of a missionary watching prime converts backslide into paganism and witchcraft.” Shapiro

men, and some women, who undergo transsexual surgery are terribly alienated from their bodies, so alienated that they think little of mutilating them.”

The term, transgender,¹ covers preoperative and postoperative transsexuals, transvestites, drag queens, cross dressers, gays and lesbians, bisexuals, and straights who exhibit any kind of dress and/or behavior interpreted as ‘transgressing’ gender roles.”

¹ “While I realize that much of the traditional literature distinguishes among drag queens, cross dressers, and transvestism, and that there are some significant differences among these groups, what they all have in common is that they wear women’s clothes. Further, they wear the kind of hyperfeminine women’s clothes that many women would never wear.”

When Boy George accepted a Grammy award for Best New Artist in 1985, he thanked his US audience for recognizing not only his music but ‘a good drag queen’. Perhaps the more flamboyant US version of Boy George is African-American RuPaul, whose musical act has become a highly successful marketable commodity.”

When most women put on pants, a necktie, combat boots, or a business-looking blazer, they are not trying to pass as men.” How do you know?

But transgenderist defiance equals a kind of androgynous humanism, an individualist assertion of androgynous blending, rather than a political defiance of both roles.” E o que você propõe enquanto esperamos a hora da meia-noite e um, i.e., o fim do pós-modernismo? “Política”? Mas esse é o problema: política no sentido clássico não existe mais, odiando-se Derrida ou não… O que acontece agora é uma etapa intermediária de uma lenta inversão.

And so androgynous humanism replaces feminist politics.” You got it. You can fight against it, not accept it, but this is fundamental reality (not a construto)…

Stone Butch Blues is basically a transgender odyssey of a woman growing up in the gay bars and working-class factories of the 1950s and 1960s. Coming of age as a young ‘butch’ [sapatão] in Buffalo, Feinberg movingly describes the working-class reality of this historical butch world with a sharp consciousness of its political aspects—a more powerful testimony to class politics than any Marxist analysis—” Nossa, e cadê o Nobel dessa autora?!

A key turning point is when Jess, the butch protagonist in the novel, undergoes hormone treatment and breast surgery. Living and working as a butch has become too painful and fraught with harassment and violence, but so has the realization that Jess feels herself to be other than a woman—a ‘he-she’, feeling neither like a woman or man but ‘different’.”

Maleness and femaleness are governed by certain chromosomes, and the subsequent history of being a chromosomal male or female. Masculinity and femininity are social and surgical constructs.” Sequer há diferenciação no Português.

The term transsexualism¹ was first used by Harry Benjamin in a lecture at a meeting of the New York Academy of Medicine in 1953.”

¹ “Harry Benjamin first became interested in sex conversion (which he later named transsexualism) when sex researcher Alfred Kinsey referred him to a case that he, Kinsey, could not understand. Kinsey was preparing a second volume on sexual behavior and discovered in the taking of his case histories a young boy whose great ambition was to become a girl. Benjamin subsequently began seeing other cases of a similar nature, began referring candidates abroad for surgery before the operation could be performed legally in the United States, and published the first systematic and professional account of transsexualism in a volume entitled The Transsexual Phenomenon (New York: Julian Press, 1966).”

But I have chosen to consistently employ the term transsexualism, because it is one of the main contentions of this work that transsexualism operates as an ideology which the suffix -ism is meant to denote.”

À GÊNESE DOS GENERA (PRATICAMENTE): “6. Psychological Sex. Much of the literature uses this terminology to designate attitudes, traits, characteristics, and behavior that are said to accompany biological maleness or femaleness. I would prefer the term psychosocial sex to indicate the all-important factor that such attitudes, traits, characteristics, and behavior are socially influenced. Robert Stoller uses the term gender to distinguish this kind of sex from biological sex.”

gender identity is the private experience of gender role, and gender role is the public expression of gender identity.”

The word gender has certain problems for the feminist critic. It gives the impression that there is a fixed set of psychosocial conditions that determines gender identity and role.”

Moreover, the change in genital sex does not make reproduction possible. Maybe with the development of various forms of reproductive technology, this will be feasible in the future, but as yet, a change in genital sex is not accompanied by reproductive capacity.”

In 1975, for example, the Second International Conference on Transsexualism was renamed the Second International Conference of Gender Dysphoria.”

Until, of course, the surgery was popularized, post-Christine Jorgensen, the specific need of surgery was not evident, although some people may have felt that they wanted to change sex.” wiki: “Christine Jorgensen (30 de maio de 1926 – 3 de maio de 1989) foi uma mulher trans americana e a primeira pessoa a ser abertamente conhecida nos Estados Unidos por ter passado pela cirurgia de re-designação sexual.”

ROOT OF ALL EVIL: “These disciplines attribute the conditions of a sexist society to amorphous ‘roles’ and ‘forces’ that are unspecified. Nobody is blamed and everyone is blamed. Such words delete the agents of these ‘roles’ and ‘forces’—that is, the society and institutions men have created.”

Writers on moral issues frequently do little or no in-the field research. They understand their discipline as a ‘library science’, or they limit their empirical research to institutions that ‘treat’ the problem, rather than also including those persons and individuals who are most immediately affected. (Daniel Callahan, for example, did a comprehensive medical, legal, and ethical analysis of abortion, yet nowhere in his study does he indicate that he spoke extensively with women who were in the process of choosing or had chosen abortions.)¹ It has been my experience that talking with transsexuals themselves, as well as with individuals involved in the study and treatment of transsexualism, especially in their occupational milieu, made a vast difference in what I came to know about transsexualism.” Não creio que entrevistas com envolvidos possam mudar opiniões das pessoas engajadas num estudo. O fato de ter entrevistado transexuais pode apenas ter reforçado suas crenças anti-transexualidade, o que não significa que elas estejam erradas, mas que o estudo etnológico não é ‘o todo’ da questão.

¹ Quem liga para o que homens falam sobre aborto de qualquer maneira??

All this helped form my belief that the issue of transsexualism is basically one of social ontology—that is, an issue of what society allows and encourages its constituency to be.”

it is perhaps imperative that I explain further just what I mean by ontology.” Por favor!

I have therefore chosen to talk about transsexualism as most deeply a question of be-ing,¹ which cannot be separated from the social context that generated the problem to begin with.”

¹ “Because the ontological tradition generated such a static notion of being, modern ethicists have talked about its impossibility for providing a basis for ethics. They have often pointed to the need for a post-metaphysical way. Yet the split between being and becoming is not a necessary one, as Mary Daly has pointed out, and has always seemed rather artificial and imposed as compared to the experience of being and its philosophical intuition in individual lives. Thus Daly speaks about being as be-ing. Be-ing is the initial power of everything, not as static structure, but as the direction of a process.”

There are many questions that people often ask about transsexualism. When was the first transsexual operation performed? Where was it done? How did transsexualism first gain public recognition? What is the cost of the surgery? How, medically speaking, is a person transsexed? What are the legal ramifications of sex conversion surgery? Is it possible to change birth certificates, drivers’ licenses, and the like? Has transsexualism been a phenomenon throughout history?

Transsexual operations have been surgically possible since the early 1930s. The hormonal and surgical techniques, however, were not refined and made public until the early 1950s. Since then, thousands of transsexual operations have been performed both here and abroad. Largely due to the support of individuals such as Harry Benjamin, M.D., and institutions such as the Erickson Educational Foundation and Johns Hopkins, transsexual treatment and surgery has become a legitimate medical area of research and activity. The medical specialties that it calls forth, or more correctly that call it forth, are varied and complex, beginning with hormone therapy and often ending in numerous operative procedures. Just as complicated are the legal intricacies of changing sex on birth certificates, licenses, and other certificates of personhood required to live one’s life. Other legal issues also affect the institutions performing the surgery.” “Historical antecedents are found in certain mythological accounts, initiation rites, and certain modes of eunuchism and castration but, strictly speaking, transsexualism has no historical precedents.” Tirésias, O Adão dos Trans

Christine is a powerful name!

Although Christian Hamburger has been credited with bringing together many of the surgical specialties for the treatment of the transsexual, he was not the first physician to perform transsexual surgery. This title belongs to a German, F.Z. Abraham, who, in 1931, reported the first case of sex-conversion surgery. In the years between 1931-52 sporadic and piecemeal reports of transsexual operations came forth, primarily from Germany and Switzerland. Hamburger, however, seems to have been the first to make use of hormonal castration and to follow up on his patients.”

Casablanca, Istanbul, and countries such as Denmark, Germany, and Switzerland, were the most frequent locations to which transsexuals travelled, provided they could pay the cost and were willing to risk little or no medical follow-up. Today, however, the situation, at least in the United States, is quite different.”

Although reports conflict as to how many transsexual operations have actually been performed in this country and how many persons seek the surgery, figures published in Newsweek magazine on November 22, 1976, indicated that there are about 3,000 transsexuals in the U.S. who have undergone surgery and 10,000 more who view themselves as members of the opposite sex.” “In the spring of 1973, the Erickson Foundation Newsletter reported that only 10% of those individuals who go through evaluation for surgery eventually achieve it.”

In other areas, for example New York City, courts have ruled that transsexual operations are to be included in medical assistance provided by the city and state for persons on welfare. In New Jersey, Medicaid payments have been authorized in some cases. Since federal funds that had been allocated for abortions have recently been withdrawn, feminists are struck by the inequity of this situation. To paraphrase Jimmy Carter, life has been ‘fair’ to transsexuals.”

It is reasonable to speculate that the extreme difficulty I had in finding male transsexuals, plus the scant mention of them in the literature, may be indicative of the fact that there are fewer of them than are claimed.”

male transsexualism may well be a graphic expression of the destruction that sex-role molding has wrought on men. Thus it could be perceived as one of the few outlets for men in a rigidly gender-defined society to opt out of their culturally prescribed roles. Women, on the other hand, since the recent rise of feminism, have been able to confront sex-role oppression on a sociopolitical, as well as personal, level. Thus women have realized that both masculine and feminine identities and roles are traps.” Ambíguo face ao desenvolvimento ulterior da transexualidade. Talvez as mulheres tenham emburrecido (claro, pois a humanidade como um todo emburreceu) nos últimos 40 anos?

Karen Homey reversed Freud’s theory of penis envy calling it womb envy.” E o garoto aprende o que é um útero aos 3 anos de idade? Quando se pensa que é IMPOSSÍVEL piorar Freud…

The same socialization that enables men to objectify women in rape, pornography, and ‘drag’ enables them to objectify their own bodies. In the case of the male transsexual, the penis is seen as a ‘thing’ to be gotten rid of. Female body parts, specifically the female genitalia, are ‘things’ to be acquired.”

Transsexualism is thus the ultimate, and we might even say the logical, conclusion of male possession of women in a patriarchal society. Literally, men here possess women.” Olhe pelo lado bom: o começo do fim do patriarcado…

Objectification is largely accomplished by a process of fragmentation. The fetish is the fragmented part taken away from the whole, or better, the fetish is seen to contain the whole.” Klein, a fetichista da psicanálise.

The four steps are penectomy, castration, plastic reconstruction, and formation of an artificial vagina (vaginoplasty). Some transsexuals have only the first and second steps performed, and indeed, some writers recommend this approach.”

The vagina is constructed by creating a cavity between the prostate and the rectum. An artificial vagina is formed from a skin graft from the thigh and lined with penile and/or scrotal skin. Thus orgasmic sensation is possible. The shape of the artificial vagina is maintained by a mold that is worn continuously for several weeks following surgery. Once healing has occurred, manual dilation or penile insertion 2 or 3 times weekly is necessary to prevent narrowing, which can result through the contraction of scar tissue.” For me this is news!

One of the ill effects of long-term androgen therapy has been attacks of acne. Some observers also report a libido increase that they regard as undesirable and troublesome, but whether or not this is caused by biological or social-psychological influences is debatable. One of the more serious consequences of androgen is that all its effects are not always reversible. If a woman decides to stop hormone treatment, her voice may retain its low pitch and her facial hair may remain.”

The female transsexual patient, perhaps considerably more than the male, feels quite strongly that something is wrong internally. The menses are regarded as loathsome and often are described as being exceedingly painful.”

The removal of ovaries was used to tame deviant women during the 19th and early 20th century rash of sexual surgery. This mode of female castration has now been superseded by hysterectomy. If one regards the male trans as a potential deviant, as a potential lesbian and woman-identified woman, the comparison between these castrated women and male transsexuals is significant.” “A remoção dos ovários foi usada para domesticar mulheres desviantes durante a erupção das primeiras cirurgias sexuais no fim do séc. XIX e começo do séc. XX. No entanto, esse método de castração feminina já foi há muito tempo superado pela histerectomia [extração do útero]. Se se olha o transexual macho como desviante ‘em potencial’, enquanto possível lésbica ou mulher que se identifica com mulheres, a comparação entre essas mulheres castradas de outrora e o transexual homem de hoje torna-se significativa.”

The vagina remains. Phallus construction, when undertaken, begins in conjunction with a hysterectomy. It is technically possible to construct a penis surgically by rotating a tube flap of skin from the left lower quadrant of the abdomen and closing the vaginal orifice. A urinary conduit can be led through such a phallus, so that the constructed penis may be used for urination. However, because of complications, many surgeons have decided against constructing the phallus so it can be used to urinate. Instead, the female urethra is maintained in its existing position beneath the constructed penis. But the new penis lacks sensitivity, and can become erect only through the insertion of certain stiffening material that remains in the penis all the time, or can be put in and out through an opening in its skin.” “Some transsexuals recognize that the phallus will serve little, if any, role in sexual activity, since the technique of creating an erect penis has not been developed. Some female transsexuals, however, do undergo the number of hospitalizations required for phallus construction. They are convinced that the rodlike stiffener, inserted into the skin of the constructed member, can put pressure on the original clitoris (which still remains) during intercourse, making an orgasm possible.”

For the male transsexual, ‘toilet trauma’, as Zelda Suplee calls it, is a particular fear. Public lavatory facilities for men often require the kind of exposure that women do not meet, and this alone increases the female transsexual’s anxiety about phallus construction.”

A case in Argentina ruled that a transsexual’s consent to sex conversion surgery was unnatural, and therefore invalid, and the surgeon became liable in tort for assault”

As Robert Sherwin has stated, there is no law that expressly forbids males to wear female clothing, per se. There are laws that forbid males from doing so for the purposes of defrauding when, for example, one tries to gain illegal entry or attempts to acquire money by such impersonation.”

The causes of transsexualism have been debated for years. Perhaps the earliest commentator was Herodotus. He explained the origin of what he referred to as ‘the Scythian illness’ by resorting to divine causation. Venus, enraged with the plundering of her temple at Ascelos, changed the Scythian males and their posterity into women as her divine punishment for their misdeeds.”

I will demonstrate that while biological and psychological investigations seek different causes, they both utilize the same theoretical model—i.e., both seek causes within the individual and/or interpersonal matrix.” “For example, psychological theories measure a transsexual’s adjustment or nonadjustment to the cultural identity and role of masculinity or femininity.”

There are many reasons I have chosen to do an extensive analysis of Money’s work. First of all, his theories on sex differences have gained wide acceptance, both in academic and lay circles. They have also been widely cited by feminist scholars. No other researcher in this area has developed any comparable body of research. Thus most discussions of sex differences refer to Money’s work as a kind of bible. Second, no one has done a comprehensive analysis and critique of Money’s work, especially as it relates to issues surrounding transsexualism. For example, Money’s much-publicized theory that core gender identity is fixed by the age of 18 months forms one critical basis for the justification of transsexual surgery, and therefore deserves special attention. Finally, inherent in Money’s proclaimed scientific statements about sex differences are many normative and philosophical statements about the natures of women and men. Under the guise of science, he makes normative and prescriptive statements about who women and men are and who they ought to be.”

Compared to earlier theorists, Money appears to be a very astute and careful researcher of gender identity. For example, the earlier, more reductionistic theorists linked anatomy directly to destiny. Straightforward links between hormonal factors and supposed behavioural results were simplistically set forth. In Money, however, the connection between the two is indirect.”

O CHOMSKY DOS ESTUDOS DE GÊNERO: “The interaction of biological and social factors is explained by using the concept of a program and by comparing that program to the development of native language. There are certain parts of the program that exert a determining influence, particularly in the prenatal period, and leave a permanent imprint. These are hormonal influences that act on the brain to set up supposed neural pathways to receive postnatal, social, gender identity signals.”

Is science, in John Money, reducible to hidden pseudo-metaphysical statements about the nature and behavior of men and women?”

Their causal explanation of tomboyism is grounded in fetal hormonal activity:

The most likely hypothesis to explain the various features of tomboyism in fetally masculinized genetic females is that their tomboyism is a sequel to a masculinizing effect on the fetal brain. This masculinization may apply specifically to pathways, most probably in the limbic system or paleocortex, that mediate dominance assertion (possibly in association with assertion of exploratory and territorial rights) and, therefore, manifests itself in competitive energy expenditure.”

For the little it is worth as commentary on Adam’s Rib, it is the female sex that is primal. The early embryo is female until the 5th or 6th week of fetal life. A testicular inductor substance must be generated at this point to suppress the growth of ovaries. No ovarian inductor is required for female differentiation because all mammalian embryos of either genetic sex have the innate capacity for femaleness. Eve and not Adam appears to have been the primeval human that God had in mind.”

Thus initial embryonic female differentiation is so powerful that even without the presence of female hormones, female internal and external sex structure will result whether in an XX or XY genotype. Furthermore, as Eileen van Tassell has pointed out, the male needs the X chromosome in order to survive. There is no YO chromosomal anomaly. The female, however, does not need a second X, and XO females have been born and survived.”

The genital anatomic fact is that, embryologically speaking, the penis is a masculinized clitoris; the neurophysiological fact is that the male brain is an androgenized female brain.” Robert Stoller

To advocate a flexibility within the range of stereotypes, yet not do away with the stereotypes completely, is similar to giving a woman whose feet have been bound and mutilated crutches or a chair to be carried in, yet not the ability to completely and freely move about.”

Would Money assert that if ‘society’ has driven racist attitudes into the ‘core’ of one’s identity, it has no right to expect that one should drive them out?”

This is an incredible piece of sexist advice, advocating some of the worst aspects of sexual stereotypes. Why should a 5-year-old girl be encouraged to rehearse ‘flirtatious coquetry’ with her father while her mother stands on the sidelines permitting such behavior within suitable ‘limits of rivalry’?”

I believe that the first cause, that which sets other causes of transsexualism in motion (such as family stereotypes and interactions), is a patriarchal society, which generates norms of masculinity and femininity.”

Stoller attributes male transsexualism to a classic mother-child relationship that occurs within the context of a disturbed marriage.”

As Kando summarizes, ‘transsexuals are reactionary, moving back toward the core-culture rather than away from it. They are the Uncle Toms of the sexual revolution. With these individuals, the dialectic of social change comes full circle and the position of greatest deviance becomes that of greatest conformity’

Why women tend to be less tolerant of the transsexual phenomenon is an interesting question. It is my belief that this is because more women than men perceive the destructiveness that is inherent in sex-conversion procedures.”

Henry Guze’s insight may be of some interest here. He notes that the female transsexual in some ways puts masculinity on a pedestal. In doing so, he responds as if he were unworthy of this esteemed role. Since he feels he does not really fit the cultured concept of a male, a concept he fears but also loves and admires, he must be a female. I would add to this that he must be a female in order to participate in what is basically a male, heterosexual culture, and that sex-conversion surgery is his only entrance into this world that he basically loves and admires but doesn’t totally fit into as a man. This also explains his repugnance against homosexuality, which would prohibit his fitting into the ‘straight’ world.”

The recent debate and divisiveness that the transsexual lesbian-feminist has produced within feminist circles has convinced me that, while lesbian-feminists may be a small percentage of transsexuals, the issue needs an in-depth discussion among feminists. (…) Because the oral and written debate concerning the transsexual lesbian-feminist seems to be increasing out of proportion to their actual numbers, I think that feminists ought to consider seriously the amount of energy and space we wish to give to this discussion. However, if any space should be devoted to this issue, it is in a book that purports to be a feminist analysis of transsexualism.”

Transsexual lesbian-feminists show yet another face of patriarchy. As the female transsexual exhibits the attempt to possess women in a bodily sense while acting out the images into which men have molded women, the female who claims to be a lesbian-feminist attempts to possess women at a deeper level, this time under the guise of challenging rather than conforming to the role and behavior of stereotyped femininity.”

All men and male-defined realities are not blatantly macho or masculinist. Many indeed are gentle, nurturing, feeling, and sensitive, which, of course, have been the more positive qualities that are associated with stereotypical femininity. In the same way that the so-called androgynous man assumes for himself the role of femininity, the transsexual lesbian-feminist assumes for herself the role and behavior of feminist. (…) they lure women into believing that they are truly one of us—this time not only one in behavior but one in spirit and conviction.”

It is not accidental that most female transsexuals who claim to be feminists also claim to be lesbian-feminists.” “Lesbian-feminists have spent a great deal of energy in attempting to communicate that the self-definition of lesbian, informed by feminism, is much more than just a sexual choice. It is a total perspective on life in a patriarchal society representing a primal commitment to women on all levels of existence and challenging the bulwark of a sexist society—that is, heterosexism. Thus it is not a mere sexual alternative to men, which is characterized simply by sexually relating to women instead of men, but a way of being in the world that challenges the male possession of women at perhaps its most intimate and sensitive level. In assuming the identity of lesbian-feminist, then, doesn’t the transsexual renounce patriarchal definitions of selfhood and choose to fight sexism on a most fundamental level?”

If, as I have noted earlier, femininity and masculinity are different sides of the same coin, thus making it quite understandable how one could flip from one to the other, then it is important to understand that the transsexual lesbian-feminist, while not exhibiting a feminine identity and role, still exhibits its obverse side—stereotypical masculinity.”

One of the definitions of male, as related in Webster’s, is ‘designed for fitting into a corresponding hollow part.’ This, of course, means much more than the literal signification of heterosexual intercourse. It can be taken to mean that men have been very adept at penetrating all of women’s ‘hollow’ spaces, at filling up the gaps, and of sliding into the interstices.”

I feel raped when Olivia passes off Sandy, a transsexual, as a real woman. After all his male privilege, is he going to cash in on lesbian feminist culture too?”

The question of deception must also be raised in the context of how transsexuals who claim to be lesbian-feminists obtained surgery in the first place. Since all transsexuals have to ‘pass’ as feminine in order to qualify for surgery, so-called lesbian-feminist transsexuals either had to lie to the therapists and doctors, or they had a conversion experience after surgery.”

Deception reaches a tragic point for all concerned if transsexuals become lesbian-feminists because they regret what they have done and cannot back off from the effects of irreversible surgery (castration). Thus they revert to masculinity (but not male body) by becoming the man within the woman, and more, within the women’s community, getting back their maleness in a most insidious way by seducing the spirits and the sexuality of women who do not relate to men.”

Transsexuals merely cut off the most obvious means of invading women so that they seem non-invasive.”

There is a long tradition of eunuchs who were used by rulers, heads of state, and magistrates as keepers of women. Eunuchs were supervisors of the harem in Islam and wardens of women’s apartments in many royal households. In fact, the word eunuch, from the Greek eunouchos, literally means ‘keeper of the bed’. Eunuchs were men that other more powerful men used to keep their women in place. By fulfilling this role, eunuchs also succeeded in winning the confidence of the ruler and securing important and influential positions.”

In Mesopotamia, many eunuchs became royal officers and managers of palaces, and ‘others emerge on the pages of history as important and often virile figures’. Some were famous warriors and statesmen, as well as scholars. One finds eunuchs associated with temples dedicated to the goddesses from at least 2000 B.C. until well into the Roman period. In fact the earliest mention of eunuchs is in connection with the Minoan civilization of Crete, which was a transitional period from an earlier gynocentric society. It thus appears that eunuchs, to some extent, always attached themselves to women’s spaces and, most frequently, were used to supervise women’s freedom of movement and to harness women’s self-centeredness and self-government. It is stated that entree into every political circle was possible for eunuchs even if barred to other men.”

Will the acceptance of transsexual lesbian-feminists who have lost only their outward appendages of physical masculinity lead to the containment and control of lesbian-feminists? Will every lesbian-feminist space become a harem?”

Eve was born of Adam; Dionysus and Athena were born of Zeus; and Jesus was generated by God the Father in his godly birth. (Mary was a mere receptacle used to conform Jesus to earthly birth standards.)”

Men, of course, invented the feminine, and in this sense it could be said that all women who conform to this invention are transsexuals, fashioned according to man’s image. Lesbian-feminists exist apart from man’s inventiveness, and the political and personal ideals of lesbian-feminism have constituted a complete rebellion against the man-made invention of woman, and a context in which women begin to create ourselves in our own image.”

In the most popular version of the myth, Semele, the mother of Dionysus while pregnant with him, is struck by Zeus with a thunderbolt and is thus consumed. Hermes saves the 6-month fetal Dionysus, sews him up in Zeus’s thigh, and after 3 more months, Zeus ‘births’ him. Thus Zeus exterminates the woman and bears his own son, and we have single-parent fatherhood (read motherhood). Moreover, Jane Harrison has pointed out that <the word Dionysus means not ‘son of Zeus’ but rather Zeus-Young Man, i.e., Zeus in his young form>. Thus Dionysus is his own father (read mother) and births himself into existence.

Whether we are talking about being born of the father, or the self (son), which in the myth are one and the same person (as in the Christian trinity), we are still talking about male mothering. At this level of analysis, it might seem that what men really envy is women’s biological ability to procreate.”

Most often, lesbian existence is simply not acknowledged, as evidenced in the laws against homosexuality, which legislate against male homosexuals, but not lesbians. It has been simply assumed that all women relate to men, and that women need men to survive. Furthermore, the mere labeling of a woman as ‘lesbian’ has been enough to keep lesbian living harnessed or, at best, in the closet.”

While the super-masculine Apollo overtly oppresses with his contrived boundaries, the feminine Dionysus blurs the senses, seduces, confuses his victims—drugging them into complicity, offering them his ‘heart’ as a love potion that poisons.”

such liberalism is repressive, and that it can only favor and fortify the possession of women by men.”

We have seen 3 reasons why lesbian-feminists are seduced into accepting transsexuals: liberalism, gratitude, and naiveté. There is yet another reason—one that can be perhaps best described as the last remnants of male identification.” “one way of avoiding that feared label [man-hater], and of allowing one’s self to accept men, is to accept those men who have given up the supposed ultimate possession of manhood in a patriarchal society by self-castration.”

How many women students writing on such a feeble feminist topic as ‘Should Women Be Truck Drivers, Engineers, Steam Shovel Operators?’ have had their male professor scribble in the margins: But what are the real differences between men and women? Transsexuals, and transsexual lesbian-feminists, drag us back to answering such old questions by asking them in a new way. And thus feminists debate and divide because we keep focusing on patriarchal questions of who is a woman” “We know that we are women who are born with female chromosomes and anatomy, and that whether or not we were socialized to be so-called normal women, patriarchy has treated and will treat us like women. Transsexuals have not had this same history.”

Although popular literature on transsexualism implies that Nature has made mistakes with transsexuals, it is really society that has made the mistake by producing conditions that create the transsexual body/mind split.”

Should non-transsexual men who wish to fight sexism take on the identity of women and/or lesbian-feminists while keeping their male anatomy intact? Why should castrated men take on these identities and self-definitions and be applauded for doing so? To what extent would concerned blacks accept whites who had undergone medicalized changes in skin color and, in the process, claimed that they had not only a black body but a black soul?”

Transsexuals would be more honest if they dealt with their specific form of gender agony that inclines them to want a transsexual operation. This gender agony proceeds from the chromosomal fact of being born XY and wishing that one were born XX, and from the particular life history that produced such distress. The place to deal with that problem, however, is not the women’s community. The place to confront and solve it is among transsexuals themselves.”

One transsexual openly expressed that he felt female transsexuals surpassed genetic women.”

Genetic women are becoming quite obsolete, which is obvious, and the future belongs to transsexual women. We know this, and perhaps some of you suspect it. All you have left is your ‘ability’ to bear children, and in a world which will groan to feed 6 billion by the year 2000, that’s a negative asset”

Transsexual lesbian-feminists challenge women’s preserves of autonomous existence. Their existence within the women’s community basically attests to the ethic that women should not live without men—or without the ‘reconstructed man’. How feminists assess and meet this challenge will affect the future of our genuine movement, self-definition, and power of being.”

Recently, male photographers have entered the book market by portraying pseudolesbians in all sorts of positions, clothing, and contexts that could only be fantasized by a male mind. In short, the manner in which women are depicted in these photographs mimics the poses of men pawing women. Men produce ‘lesbian’ love the way they want it to be and according to their own canons of what they think it should be.”

The Transsexual Empire is ultimately a medical empire, based on a patriarchal medical model. This medical model has provided a ‘sacred canopy’ of legitimations for transsexual treatment and surgery.” “From time to time there are ‘in-house’ debates about certain elements of the model, but on the whole, it functions at an established and consistent level of orthodoxy. (I use the term medical model to mean an ideology that stresses: freedom from physical or mental pain or disease; the location of physical or mental problems within the individual or interpersonal context; an approach to human conflicts from a diagnostic and disease perspective to be solved by specialized technical and professional experts.)”

Since the 19th century, especially, problems of alienation have been individualized. With the advent of Freudian psychoanalysis, which was later incorporated into medical psychiatry, ‘health’ values began to take the place of ethical values of choice, freedom, and understanding.”

The medical model has gradually yet consistently treated problems of social alienation in the therapy of closed rooms, and more recently in the small group counselling sessions of family clinics and community mental health centers. Ernest Becker has contended that initially, ‘the psychoanalytic cure began its work by focusing on the individual; now, it is broadening out to the study and therapy of the family’.”

Many persons express the urgency of their desire to be transsexed in terms of ‘normalizing’ their self-perceived masculine or feminine psyche in a male or female body. The abhorrence of homosexuality, expressed by many transsexuals, and their unwillingness to be identified as such, indicate their desire to ‘normalize’ their sexual relationships as heterosexual by acquiring the appropriate genitalia. (…) Thus the transsexual is generally no advocate of social criticism and change.”

Health values are all of a piece again with our philosophy of adjustment, spurious individualism, and unashamed and thoughtless self-seeking.”

All of us are in some way constricted by sex-role socialization. One way of viewing transsexuals is that they are uniquely constricted by the rigidified definitions of masculinity and femininity.”

Until the problems that psychiatry has claimed for itself are broadened into a general criticism of patriarchal society, transsexualism will not be understood as a medical manipulation of social and individual action and meanings. Meanwhile, the medical model and its empire continue to domesticate the revolutionary potential of transsexuals. The potential stance of the transsexual as outsider to the conventional roles of masculinity and femininity is short-circuited. (…) Thus be-ing is reduced to well-being (therapy).”

Thomas Szasz has noted that the conquest of human existence by the mental-health professions started with the identification and classification of so-called mental illnesses, and has culminated in our day with the claim that ‘all of life is a psychiatric problem for behavioural science to solve’.” “Indeed, Szasz contends that the ‘mandate’ of the contemporary psychiatrist is precisely ‘to obscure’, and moreover ‘to deny’ the ethical dilemmas of life, and to transform these into medical and technical problems susceptible to their solutions.”

De-ethicization, of course, is defended in the name of scientific knowledge and neutrality. However, neutrality is a myth and the politics of diagnosis and therapy remain. So too do the philosophical-ethical dimensions of the psychological craft. Under the guise of science, psychological explanations often include value judgments. For example, when John Money and Patricia Tucker assert: ‘Once a sex distinction has worked or been pressured into the nuclear core of your gender schema, to dislodge it is to threaten you as an individual with destruction’, they are using popularized pseudoscientific language where the ‘oughts’ have been deleted, yet where they permeate the sentence. Thus the reader translates: ‘Once a sex distinction has worked or been pressured into the nuclear core of your gender schema, one should not dislodge it, else the individual is threatened with destruction.’ One might also ask here, destruction by whom? by what? Once more, the agent is deleted.”

Fetishization, for example, is one explanation why law-enforcement officials in our society are so obsessed with issues of traffic violations, marijuana, and the like, but cannot cope with the much more serious problems of rape and murder.”

Interestingly, these photographs seldom show the whole person. With a zoom lens effect, they center upon the breasts or phallus. Thus the photographs themselves illustrate the fetishizing of transsexualism. The medical-surgical solution begins to assert control in the narrow area of the chemical and surgical specialties. Attention becomes focused upon constructing the vagina, for example, in as aesthetic a way as possible.”

In the 19th century, clitoridectomy for girls and women, and to a lesser extent, circumcision for boys were accepted methods of treatment for masturbation and other so-called sexual disorders. In the 1930s, Egas Moniz, a Portuguese physician, received the Nobel Prize for his ‘ground-breaking work’ on lobotomies. Moniz operated on state mental hospital inmates, using lobotomy for everything from depression to aggression. The new terminology for brain surgery of this nature today is psychosurgery, which its proponents have attempted to disassociate from the cruder procedures of Moniz and others by pointing to its more ‘refined’ surgical techniques. But call it lobotomy or psychosurgery, surgeons continue to intrude upon human brains on the basis of tenuous localization theories that supposedly pinpoint the area of the brain where the ‘undesirable’ behavior can be found and excised.”

Reinforcement is a key-word for behaviorists. One of the central claims of B.F. Skinner is that the immediacy of reinforcement is what shapes successive behavior in all ‘learning animals’. Skinner differs from classical conditioning theorists (e.g., Pavlov) in saying that behaviour is shaped by what follows it rather than by what precedes it. In the past, most psychologists of this persuasion had assumed that new attitudes were necessary to develop new behavior. Skinner turned this around and said that new attitudes follow or accompany changed behavior.” “Thus transsexual counseling and clinics sire very good examples of Skinner’s ‘operant conditioning’ philosophy: the controller, using a series of carefully planned schedules of positive and/or negative reinforcements (shortening or lengthening the ‘passing’ time) brings about desired responses (stereotypical behavior) from the transsexual. However, the most significant point in Skinner’s philosophy is that the controller will exert hardly any control, because the controlled will control themselves voluntarily. Coercion, in the traditional sense, will not have to be employed.”

To use another example: Many oppressed people use heroin to make life tolerable in intolerable conditions. Heroin usage is a highly effective yet dangerous treatment for dissatisfaction and despair. Recently, for example, black leaders have drawn attention to heroin as a pacifier of black people. As Jesse Jackson has phrased it: ‘We have come from the southern rope to the northern dope.’ In a strict sense, one cannot say that the drug is forced upon its users. Indeed they seek it eagerly. But in the long run, the willing use of the drug strengthens the position of the oppressors and the oppressed. The contentment and euphoria produced by the drug diffuses the militancy, or potential militancy, of the user. Thus heroin is a tool of behavior control and modification.”

It may be that the general population resists the idea of seeing emotional coercion in the same terms as physical coercion because it threatens basic beliefs about man’s autonomy, because one likes to think of himself as a logical individual under the control of intellect rather than emotion.”

Presently, the controllers are the gender identity clinics and the transsexual experts who staff them. It is not far-fetched to conceive of a ‘gender identity business’, as such institutions proliferate, functioning as centers of social control. We now have violence control centers, such as Vacaville, which, in the words of its main organizer, has been designed to focus on the ‘pathologically violent individual’ and is aimed at ‘altering undesirable behavior’.”

Furthermore, we can safely predict, on the basis of past and present CIA and FBI activities, that if gender identity facilities became government controlled, some gender modification activities would be reported while others would be repressed from public view; only those offering a therapeutic rationale would be revealed. Moreover, such controllers and centers for control (such as Johns Hopkins and UCLA) would continue to have a very specific philosophy about what women and men should be, how they should act, and what functions they should perform in society. In fact, gender identity clinic research and treatment has already been funded by grants from the National Institute of Mental Health and other government-affiliated funding sources. All this is happening, and will continue to happen, of course, in the name of science and therapy, and with the denial that any social engineering is taking place. Here we have institutional sexism at its most functional capacity.

A dystopian perspective, some will say, but such perspectives have a way of highlighting present and future reality by daring to predict what most persons do not, or choose not to, perceive.”

Individuals undergo psychosurgery giving ‘informed consent’; parents, on advice of school administrators and physicians, sign ‘informed consent’ papers to have Ritalin administered to their children in public-school centers; women ‘consentingly’ undergo unnecessary hysterectomies for prophylactic reasons such as the vague ‘threat’ of uterine cancer (imagine a prophylactic penectomy!)”

If behaviorist philosophers such as B.F. Skinner are right, and behaviorist technicians such as José Delgado remains active, then future social controllers can replace control-through-torture with control-through-pleasure. What is becoming possible with Delgado’s electronic brain stimulation (ESB) is also becoming possible with transsexual surgery.”

Electrodes were implanted in her right temporal lobe and upon stimulation of a contact located in the superior part about 30mm below the surface, the patient reported a pleasant tingling sensation in the left side of her body ‘from my face down to the bottom of my legs.’ She started giggling and making funny comments, stating that she enjoyed the sensation ‘very much’. Repetition of these stimulations made the patient more communicative and flirtatious, and she ended by openly expressing her desire to marry the therapist. . . . The second patient expressed her fondness for the therapist (who was new to her), kissed his hands, and talked about her immense gratitude for what was being done for her.” Delgado

transsexuals are volunteering for surgery that they hope will relieve their sex role ‘dis-ease’ of gender dissatisfaction and dysphoria. But there is no evidence to prove that transsexual surgery ‘cures’ what is basically a problem of transcendence.”

Imagine what would happen if a male child pill became freely available throughout the world through the World Health Organization. Even in developed countries there is surprising prejudice among ordinary people in favour of having male children; among most African, Asian, Central and South American peoples, this prejudice amounts to almost an obsession. Countless millions of people would leap at the opportunity to breed male: no compulsion or even propaganda would be needed to encourage its use, only evidence of success by example. . . . I hope, incidentally, that it is obvious why I specified a ‘man child’ pill; one selecting for females would not work.” John Postgate

Women’s right to work, even to travel alone freely, would probably be forgotten transiently.

Polyandry might well become accepted in some societies; some might treat their women as queen ants, others as rewards for the most outstanding (or most determined) males. . . . Whether the world would come to resemble a giant boy’s public school or a huge male prison is difficult to predict.”

Transsexual surgery is professedly done to promote the individual transsexual’s right of synchronizing body and mind. Yet what society ‘gains’ is a role conformist person who reinforces sex roles.”

Medical civilization teaches that suffering is unnecessary, because pain can be technically eliminated. . . . The subject is better understood when the social situation in which pain occurs is included in the explanation of pain.” Ivan Illich, filho, com certeza, de pais letrados e de bom gosto!

What has been scarcely noted in many commentaries on transsexualism is the immense amount of physical pain that the surgery entails. Generally, this fact is totally minimized. Most postoperative transsexuals interviewed seldom commented on the amount of physical pain connected with their surgery. Are we to suppose no pain is involved? Anyone who has the slightest degree of medical knowledge knows that penectomies, mastectomies, hysterectomies, vaginoplasties, mammoplasties, and the like cannot be painless for those who undergo them. There is also the pain of anxiety about possible consequences of surgery such as cancer or faulty healing. It seems that the silence regarding physical pain, on the part of the transsexual, can be explained only by an attitude of masochism, where one of the key elements of the transsexual order is indeed the denial not only of self but of physical pain to the point ‘where it may actually be subjectively pleasurable’, or at least subjectively negligible. At least one medical team has recognized this, although in muted and partial form.”

The sadomasochist is someone who has trouble believing in the validity and sanctity of people’s insides—their spirit, personality, or self. These insides could be his own or others’; if they are his own he tends to be masochistic, if they are others’ he tends to be called a sadist” Becker

Transvestism, for them, is too superficial and does not provide the bite or the painful experience of true conversion.” Yea, go on through some ordeal, then you have truly lived!

Learning from the Nazi Experience. Much of the literature on medical experimentation has focused on the various captive populations of prisoners and mental patients, but the most notorious example of unethical medical experimentation on a captive population is the Nazi concentration camps. The example of the Nazi camps has often been cited in ethical arguments that attempt to sensationalize and disparage opposing views. Furthermore, ethicists especially have used these experiments to throw sand in people’s eyes about such issues as abortion and euthanasia, and to create ethical arguments based on a kind of domino theory. In mentioning the Nazi experiments, it is not my purpose to directly compare transsexual surgery to what went on in the camps but rather to demonstrate that much of what did go on there can be of value in surveying the ethics of transsexualism.”

A ‘FITA’ DO CAPÍTULO NEGRO: “In fact, one of the first comprehensive codes of medical ethics, specifically dealing with the ethics of experimentation, emerged from the Nuremberg trials in the wake of the famous ‘Doctors Trial’ or, as it is sometimes called, the ‘Trial of the Twenty-Three’. The Nazi medical experiments read like a series of horror stories. The experiments were quite varied. High-altitude tests were done on prisoners to observe the point at which they stopped breathing. Inmates of the camps were subjected to freezing experiments to observe the changes that take place in a person during this kind of slow death, and also to determine the point of no return. Experiments in bone-grafting and injections with lethal viruses were commonplace. The much-publicized sterilization experiments were carried out on a massive scale at several camps, primarily by radiation and surgical means, for the purpose of seeing how many sterilizations could be performed in the least amount of time and most ‘economically’ (thus anaesthesia was not used). However, the point of all this background is not merely to recite a list of atrocities, but to highlight several points that apply to the situation of transsexualism.”

The activities of the Nazi physicians . . . were, unfortunately, not the aberrations of a holy healing profession imposed upon it by the terrors of a totalitarian regime, but, on the contrary, were the characteristic, albeit exaggerated, expressions of the medical profession’s traditional functions as instruments of social control.” Szasz

ABOMINÁVEL MUNDO VELHO

Today especially, it is no longer the alliance of church and state that should be feared, that is, theocracy, but rather the alliance between medicine and the state, that is, pharmacracy.¹”

¹ “Inasmuch as we have words to describe medicine as a healing art, but have none to describe it as a method of social control or political rule, we must first give it a name. I propose that we call it pharmacracy, from the Greek roots pharmakon, for ‘medicine’ or ‘drug’ and kratein, for ‘to rule’ or ‘to control’. . . . As theocracy is rule by God or priests, and democracy is rule by the people or the majority, so pharmacracy is rule by medicine or physicians.” Szasz, Ceremonial Chemistry

What we are witnessing in the transsexual context is a science at the service of a patriarchal ideology of sex-role conformity in the same way that breeding for blond hair and blue eyes became a so-called science at the service of Nordic racial conformity.”

One must remember that many of the Nazi physicians whose experiments were the most brutal refused to recognize in the end that they had done wrong. Dr. Karl Brandt, for example, during his trial at Nuremberg, offered his living body for medical experiments like those he had conducted. Before Brandt met his death at the side of the gallows, he made a final speech, which included these words: ‘It is no shame to stand on this scaffold. I served my Fatherland as others before me.’

it is significant that the first physician on record to perform sex-conversion surgery was a German by the name of F.Z. Abraham, who reported the first case in 1931. Furthermore, Benjamin relates that the Institute of Sexual Science in Berlin did much work on transvestism (and probably transsexualism before it was named such) under the leadership of Dr. Magnus Hirschfeld. Benjamin states that it had a ‘famous and rich museum, clinic, and lecture hall’. In 1933, he says, it was destroyed by the Nazis because, ‘The Institute’s confidential files were said to have contained too many data on prominent Nazis, former patients of Hirschfeld, to allow the constant threat of discovery to persist’. Benjamin visited Hirschfeld and his Institute many times during the 1920s.”

I met another boy whom the scientists of Auschwitz, after several operations, had successfully turned into a woman. He was then 13 years old. After the war, a complicated operation was performed on him in a West German clinic. The doctors restored the man’s physical masculinity, but they couldn’t give back his emotional equilibrium.”

By this comparison, I do not mean to exploit the very real difference between a conditioned ‘voluntary’ medical procedure performed on adult transsexuals and the deliberate sadism performed on unwilling bodies and minds in the camps. However, it is important to understand that some transsexual research and technology may well have been initiated and developed in the camps and that, in the past, as well as now, surgery was not performed for the present professed goal of therapy, but to accumulate medical knowledge.”

There is a crucial distinction between integration and integrity. Briefly, integration means putting together a combination of parts in order to achieve completeness or wholeness. In contrast, the word integrity means an original wholeness from which no part can be taken away. It is my contention that, in a deep philosophical sense, transsexual therapy and treatment have encouraged integration solutions rather than helping individuals to realize an integrity of be-ing. In its emphasis on integration, much of the recent psychological, medical, and medical-ethical literature on transsexualism, and the solutions they propose, resemble theories of androgyny. In many ways, contemporary transsexual treatment is a modem version of medieval, androgynous alchemy where stereotypical femininity is integrated with a male genotype to produce a transsexually constructed woman. As alchemy treated the qualitative as quantitative in its attempts to isolate vital forces of the universe within its laboratories of matter, transsexual treatment does the same by reducing the quest for the vital forces of selfhood to the artifacts of hormones and surgical appendages. Transsexualism is comparable to the theme of androgyny that represents biological hermaphroditism, because ultimately the transsexual becomes a surgically constructed androgyne, and thus a synthetic hybrid. Furthermore, the transsexual also becomes a sex-stereotyped hermaphrodite, often unwittingly displaying his former masculine gestures, behavior, and style while attempting to conform to his new feminine role.”

The first drafts of this chapter were entitled An Ethic of Androgyny. But as I examined the androgynous tradition and its uses in recent literature, problems of etymology, history, and philosophy arose that were not evident at first glance. These necessitated the choice of a different ethical vision, which I have called integrity.”

Until those contemplating transsexual surgery come to realize that such a step does nothing to promote this integrity on both a personal and social level, they will continue to settle for many of the false and partial modes of androgynous integration.”

For an extensive and specific delineation of the androgynous tradition in theology and philosophy, from its prepatriarchal origins, through Plato, the Midrashim, the Gnostics, and others, up through nineteenth-century French philosophy and social theory, see: Janice G. Raymond, ‘Transsexualism: An Etiological and Ethical Analysis’ (Unpublished Ph.D. dissertation, Boston College, 1977).”

Maleness and femaleness were perceived as divisions resulting from the Fall and not originally intended to be part of primordial personhood. Thus, for example, Adam in the Garden of Eden is represented as originally combining and/or transcending maleness and femaleness. Such androgynous notions are present in the rabbinic commentaries on Genesis, in the Gnostics, in the Jewish Cabala, and in John Scotus Erigena. In this same context, androgyny became a salvation or reunification theme, bringing divided personhood, maleness and femaleness, back into its original and divinely intended unity of either biological bisexuality or asexuality.”

Many writers see Jesus as the unique bearer of androgynous humanity. This conception of Jesus, implicit in some of the Gnostic literature, is developed by Erigena in his portrayal of the Resurrected Jesus, and reaches its apex in Jacob Böhme.”

Although the primal Adam is written about as androgynous or hermaphroditic, one is still left with the impression that the original human was more male than female.” “Thus the male portion of androgyny remains steady and constant, while the female is the wayward, unsteady half. In the Gnostics, moreover, the female must make herself male before a salvific androgyny can be reached.”

In Plato, androgyny is mixed with misogyny to support male homosexuality which is regarded as the superior form of love.”

In no writing on androgyny is the male exhorted to make himself female before he can become androgynous.”

Beginning with Auguste Comte and up to the Saint-Simonians, androgyny comes to symbolize human progress, universal unity, and the removal of social oppression, especially that of female and class oppression.”

The word androgyny is formed from integrating the Greek aner and gyne (with the male classically coming first).” “Nor would the term gynandry be adequate. Although the female root of the word comes first, the primary image is still one of the sexual sphinx.”

For every woman who makes herself male will enter the Kingdom of Heaven.”

Unfortunately even the brilliant Virginia Woolf had a similar notion of androgyny in A Room of One’s Own.”

Perhaps with the overcoming of women’s oppression, the woman in man will be allowed to emerge.” Betty Rozsak

One would not put master and slave language or imagery together to define a free person.”

As models for the ‘new androgyny’, James Nolan gives us ‘pansexual rock images’ of David Bowie, Janis Joplin, Mick Jagger, and Bette Midler.”

Here we have the ultimate co-optation of the Women’s Movement—an ‘adolescent stage’ that we have already passed through. Androgyny becomes the great leap forward, a synonym for an easily accessible human liberation that turns out to be sexual liberation—a state of being that men can enter as easily as women through the ‘cheap grace’ of the ‘wider’ countercultural revolution. What androgyny comes to mean here, in fact, is sexual revolution, phrased in the language of The Third Sex. Sex (fucking), not power, becomes the false foundation of liberation.”

Integrity gives us a warrant for laying claim to a wholeness that is rightfully ours to begin with and that centuries of patriarchal socialization to sex roles and stereotyping have eroded.” “The real mytho-historical memory may have been that of an original psychosocial integrity where men were not masculine, nor women feminine, and where these definitions and prescribed norms of personhood did not exist.”

Initially, Rachel Carson demonstrated that chemical pesticides were disastrous to the planet. Barry Commoner followed by showing how so-called technological ‘advances’ have debilitated our ecosystems, because everything is related to everything else. In a similar manner, evidence is beginning to prove that hormone treatment and surgery are destructive intrusions of the total ‘bio-ecosystems’ of transsexuals.”

Transsexuals often betray this socially constructed hermaphroditism.”

As Ivan Illich has pointed out, anyone who ‘becomes dependent on the management of his intimacy. . . renounces his autonomy, and his health must decline.’

Transsexual surgery turns into an antisocial activity that promotes the worst aspects of a patriarchal society by encouraging adaptation to its sex roles.”

The transsexual odyssey can be viewed as a quest for transcendence, an effort to go beyond the limits of the self (symbolized by the acquisition of a new body). But from the perspective of transcendence, transsexualism’s greatest weakness is its deflection of the ‘courage to be’, and its short-circuiting of existential risk, creativity, world-building, and social healing—all of which are elements of genuine transcendence.”

There is no doubt that selfhood presupposes embodiment and that our bodies cannot be ignored in any authentic development of selfhood. However, even many persons who have been wracked with severe physical pain or deformed by natural or imposed crippling agents have been able to transcend these conditions.”

Transsexuals move totally in the realm of the body while thinking that they are transcending the body. To use Daly’s terminology, they are ‘possessed’ by their bodies and cannot confront and transcend that possession.”

We might say that the body is part of the creative ground of existence, but we are not bound by that structure in the full creative sense.”

In a thousand subtle ways, the reassignee has the bitter experience that he is not—and never will be—a real girl but is, at best, a convincing simulated female. Such an adjustment cannot compensate for the tragedy of having lost all chance to be male and of having, in the final analysis, no way to be really female.”

To encourage would-be transsexuals to hand over their bodies to the transsexual empire hardly seems to be an adequate or genuinely sensitive response to the questions that transsexualism raises. Those who advocate medicalized transsexualism as the answer to a desperate emergency situation of profound sex-role agony only serve, in my opinion, to prolong the emergency. They seem sensitive only to Band-Aid solutions that ultimately help to make more medicalized victims and to enhance the power of the medical empire.”

Any woman who has experienced the agony of sex-role oppression in a patriarchal society is hardly insensitive to the suffering that transsexuals experience.”

Isn’t it possible for persons who desire sex-conversion surgery, and who have also experienced sex-role oppression and dissatisfaction with their bodies, to band together around their own unique form of gender agony—especially those who claim to have a deep commitment to feminism? Many will say that this is too much to ask of transsexuals. Yet it is no more than women have asked of ourselves—those who have taken feminism seriously and have tried to live unfettered by gender in a gender-defined society.

This book will, no doubt, be dismissed by many transsexuals and transsexual advocates as intolerant. Tolerance, however, can easily become repressive, as Marcuse has pointed out. It is often a variation on the ‘poverty of liberalism’, functioning as sympathy for the oppressed.”

those who take a critical position will be subjected to accusations of dogmatism and intolerance, when in fact those who are unwilling to take a stand are exercising the dogmatism of openness at any cost. This time, the cost of openness is the solidification of the medical empire and the multiplying of medical victims. Those who advocate tolerance of medicalized transsexualism are expressing a false sympathy which, in both the immediate and ultimate context, can only facilitate and fortify the possession of women by men.”

When tolerance serves mainly to protect the fabric by which a sexist society is held together, then it neutralizes values. It is important to help break the concreteness of oppression by showing its theoretical inconsistencies and by stretching minds to think about solutions that only appear to be sensitive and sympathetic.”

Marcuse, in his essay Repressive Tolerance, has written:

The political locus of tolerance has changed: while it is more or less quietly and constitutionally withdrawn from the opposition, it is made compulsory behavior with respect to established policies. Tolerance is turned from an active into a passive state, from practice to non-practice. . . . It is the people who tolerate the government, which, in turn, tolerates opposition within the framework determined by the constituted authorities.”

Many feminists are opposed to transsexualism. Yet that opposition, having moved outside the limits of tolerance set up by the medical authorities, will often be decried as intolerant. What is happening here is a fundamental reversal.”

Does a moral mandate, however, necessitate that transsexualism be legally mandated out of existence? What is the relationship between law and morality, in the realm of transsexualism? While there are many who feel that morality must be built into law, I believe that the elimination of transsexualism is not best achieved by legislation prohibiting transsexual treatment and surgery but rather by legislation that limits it—and by other legislation that lessens the support given to sex-role stereotyping, which generated the problem to begin with.”

Cultural iatrogenesis . . . consists in the paralysis of healthy responses to suffering, impairment, and death. It occurs when people accept health management designed on the engineering model, when they conspire in an attempt to produce, as if it were a commodity, something called ‘better health’. This inevitably results in the managed maintenance of life on high levels of sub-lethal illness.” Illich

In the early stages of the current feminist movement, consciousness-raising groups were very common. These groups were composed of women who talked together about their problems and directions as women in a patriarchal society. Gradually, these groups came to the insight that ‘the personal is political’, thus providing the first reconciliation between what had always been labeled the ‘personal’ and the ‘political’ dimensions of life. Women, who had felt for years that the dissatisfaction they had experienced as women was a personal problem, came to realize in concert with other women that these problems were not peculiar to them as individuals but were common to women as a caste. (…) From these consciousness-raising groups came much of the initial political action of the women’s movement.”

aside from this one-to-one form of counseling, the model of consciousness-raising emphasizes the group process itself.”