PAIDEIA: A formação do homem grego (tradução do original PAIDEIA: Die Formung des griechischen Menschen)

Tradução de ARTUR M. PARREIRA

Adaptação para a edição brasileira de MONICA STAHEL

Revisão de GILSON CÉSAR CARDOSO DE SOUZA

5. ed., SP: WMF Martins Fontes, 2010.

Alguns livros são muito longos para ler em vida. Por isso, eu reduzi o conteúdo de 1413 páginas para 329, para que você pudesse ler também! A perda em conteúdo foi a mínima possível, assim espero. Com comentários meus e ilustrações de fora do livro.


ÍNDICE REMISSIVO [CONTROL+F]

I. LUGAR DOS GREGOS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

LIVRO PRIMEIRO: A PRIMEIRA GRÉCIA

1.1 NOBREZA E ARETE

1.2 CULTURA E EDUCAÇÃO DA NOBREZA HOMÉRICA

1.3 HOMERO COMO EDUCADOR

1.4 HESÍODO E A VIDA DO CAMPO

1.5 O ESTADO JURÍDICO E O SEU IDEAL DE CIDADÃO

1.6 A AUTOFORMAÇÃO DO INDIVÍDUO NA POESIA JÔNICO-EÓLICA

1.7 SÓLON COMEÇO DA FORMAÇÃO POLÍTICA DE ATENAS

1.8 O PENSAMENTO FILOSÓFICO E A DESCOBERTA DO COSMOS

1.9 LUTA E TRANSFORMAÇÃO DA NOBREZA

1.10 A POLÍTICA CULTURAL DOS TIRANOS

LIVRO SEGUNDO: APOGEU E CRISE DO ESPÍRITO ÁTICO

2.1 O DRAMA DE ÉSQUILO

2.2 O HOMEM TRÁGICO DE SÓFOCLES

2.3 OS SOFISTAS

2.4 EURÍPIDES E O SEU TEMPO

2.5 A COMÉDIA DE ARISTÓFANES

2.6 TUCÍDIDES COMO PENSADOR POLÍTICO

LIVRO TERCEIRO: À PROCURA DO CENTRO DIVINO

3.1 PRÓLOGO

3.2 SÉCULO IV

3.3 SÓCRATES

3.4 A IMAGEM DE PLATÃO NA HISTÓRIA

3.5 DIÁLOGOS SOCRÁTICOS MENORES DE PLATÃO

3.6 O PROTÁGORAS

3.7 O GÓRGIAS

3.8 O MÊNON

3.9 O BANQUETE

3.10 A REPÚBLICA – I

3.11 A REPÚBLICA – II

3.12 A REPÚBLICA – III

LIVRO QUARTO: O CONFLITO DOS IDEAIS DE CULTURA NO SÉCULO IV

4.1 A MEDICINA COMO PAIDEIA

4.2 A RETÓRICA DE ISÓCRATES E O SEU IDEAL DE CULTURA

4.3 EDUCAÇÃO POLÍTICA E IDEAL PAN-HELÊNICO

4.4 A EDUCAÇÃO DO PRÍNCIPE

4.5 AUTORIDADE E LIBERDADE NA DEMOCRACIA RADICAL

4.6 ISÓCRATES DEFENDE A SUA PAIDEIA

4.7 XENOFONTE: O CAVALEIRO E O SOLDADO IDEAIS

4.8 O FEDRO DE PLATÃO: FILOSOFIA E RETÓRICA

4.9 PLATÃO E DIONÍSIO: A TRAGÉDIA DA PAIDEIA

4.10 AS LEIS

EPÍLOGO – TRANSIÇÃO

E.1 DEMÓSTENES: AGONIA E TRANSFORMAÇÃO DA CIDADE-ESTADO


I. LUGAR DOS GREGOS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Sem dúvida, a estabilidade não é indício de saúde, porque reina também nos estados de rigidez senil, nos momentos finais de uma cultura: assim sucede na China confucionista pré-revolucionária

Por mais elevadas que julguemos as realizações artísticas, religiosas e políticas dos povos anteriores, a história daquilo a que podemos com plena consciência chamar cultura só começa com os gregos.”

este retorno à Grécia, esta espontânea renovação da sua influência, não significa que lhe tenhamos conferido, pela sua grandeza espiritual, uma autoridade imutável, fixa e independente do nosso destino. O fundamento do nosso regresso reside nas nossas próprias necessidades vitais, por mais variadas que elas sejam através da História.”

O conhecimento do fenômeno original pressupõe uma estrutura espiritual análoga à dos gregos, atitude semelhante à que Goethe adota na consideração da natureza” “Precisamente num momento histórico em que (…) o complicado mecanismo da cultura se tornou hostil às virtudes heróicas do Homem, é preciso, por profunda necessidade histórica, voltar os olhos para as fontes de onde brota o impulso criador do nosso povo.”

Quanto maior é o perigo de até o mais elevado bem se degradar no uso diário, com tanto mais vigor sobressai o profundo valor das forças conscientes do espírito que se destacaram na obscuridade do coração humano e estruturaram, no frescor matinal e com o gênio criador dos povos jovens, as mais altas formas de cultura.”

Em contraste com a exaltação oriental dos homens-deuses, solitários, acima de toda a medida natural; (…) em contraste com a opressão das massas, sem a qual não seria concebível a exaltação dos soberanos (…) o início da história grega surge como princípio de uma valoração nova do Homem” Em busca do Santo Graal que não reluz como ouro – mas é-o –, o Re-Renascimento.

Do ponto de vista oriental, é impossível compreender como os artistas gregos conseguiram representar o corpo humano, livre e descontraído, fundados, não na imitação de movimentos e atitudes individuais escolhidas ao acaso, mas sim na intuição das leis que governam a estrutura, o equilíbrio e o movimento do corpo. (…) Os gregos tiveram o senso inato do que significa <natureza>.” Kant acerta aqui (livro 3): não se captou um modelo, mas abstraiu-se como ele seria, em existindo. Uma essência traduzida no fenomênico das pinceladas e/ou cinzeladas.

A mais alta obra de arte a que seu anelo se propôs foi a criação do Homem vivo. Os gregos viram pela 1ª vez que a educação tem de ser também um processo de construção consciente.” “A palavra alemã Bildung (formação, configuração) é a que designa do modo mais intuitivo a essência da educação no sentido grego e platônico.”

entre os povos, o grego é o antropoplástico.”

Acima do Homem como ser gregário ou como suposto eu autônomo, ergue-se o Homem como idéia.” Nada de ciência política clássica, nada de liberalismo.

O humanismo e o classicismo de outros tempos ignoraram este fato, ao falarem da <humanidade>, da <cultura>, do <espírito> dos gregos ou dos antigos, como expressão de uma humanidade intemporal e absoluta. O povo grego transmitiu, sem dúvida, à posteridade, de forma imorredoura, um tesouro de conhecimentos imperecíveis. Mas seria um erro fatal ver na ânsia de forma dos gregos uma norma rígida e definitiva. A geometria euclidiana e a lógica aristotélica são, sem dúvida, fundamentos permanentes do espírito humano, válidos ainda em nossos dias, e dos quais não é possível prescindir. [quem sabe] Mas até essas formas universalmente válidas (…) são (…) inteiramente gregas e não excluem a coexistência de outras formas de intuição e de pensamento lógico e matemático.”

Nesse tempo em que a história grega desembocou no Império Romano e deixou de constituir uma nação independente, o único e mais elevado ideal da sua vida foi a veneração das suas antigas tradições. Desse modo foram eles os criadores daquela teologia classicista do espírito que é característica do humanismo. A sua estética vita contemplativa é a forma originária do humanismo e da vida erudita dos tempos modernos.”

Também o neo-humanismo alemão do tempo de Goethe considerou o grego como manifestação da verdadeira natureza humana num período da História definido e único, o que é uma atitude mais próxima do racionalismo da <Época das Luzes>” “Quando, atualmente, com o perigo inverso de um historicismo sem limite nem fim, nesta noite em que todos os gatos são pardos, voltamos aos valores permanentes da Antiguidade, não podemos considerá-los de novo como ídolos intemporais.”

no melhor período da Grécia era tão inconcebível um espírito alheio ao Estado como um Estado alheio ao espírito.” “…desde a idade heróica de Homero até o Estado autoritário de Platão, dominado pelos filósofos, e no qual o indivíduo e a comunidade social travam a sua última batalha no terreno da filosofia.”

A trindade grega do poeta, do Homem de Estado e do sábio encarna a mais alta direção da nação.”

Assim se eleva a <literatura> grega clássica acima da esfera do puramente estético, onde a quiseram em vão encerrar, e exerce um influxo incomensurável através dos séculos.”

Não é possível compreender o ideal agônico, revelado nos cantos pindáricos aos vencedores, sem conhecer as estátuas que nos mostram os vencedores olímpicos na sua encarnação corporal, ou as dos deuses, como encarnação das idéias gregas sobre a dignidade da alma e do corpo humano.”

Sem dúvida, os verdadeiros representantes da paideia grega não são os artistas mudos – escultores, pintores, arquitetos –, mas os poetas e músicos, os filósofos, os retóricos e os oradores, quer dizer, os homens de Estado. No pensamento grego, o legislador encontra-se, em certo aspecto, muito mais próximo do poeta que o artista plástico (…) os gregos nunca falam da ação educadora da contemplação e da intuição das obras de arte, no sentido de Winckelmann.”

a história da educação grega coincide substancialmente com a da literatura.”

Será colocado de forma nova um problema velho: o fato de o processo educativo ter sido vinculado desde sempre ao estudo da Antiguidade.” “O nascimento da moderna história da Antiguidade, considerada como disciplina científica, trouxe consigo uma mudança fundamental da nossa atitude para com ela.” “Mas, ao lado desta história enciclopédica e objetiva da Antiguidade, menos livre de valorações do que imaginam os seus mais eminentes promotores, permanece o perene influxo da <cultura clássica>

Pois bem: quando a nossa cultura toda, abalada por uma experiência histórica monstruosa,¹ se vê forçada a um novo exame dos seus próprios fundamentos, propõe-se outra vez à investigação da Antiguidade o problema, último e decisivo para o nosso próprio destino, da forma e do valor da educação clássica.”

¹ Monstro: parte da nossa essência de que não lembrávamos mais.

#TítulodeLivro

O MONSTRO & O FILÓSOFO

Usar a História para compreender a Metafísica. Nunca ao contrário.

LIVRO PRIMEIRO: A PRIMEIRA GRÉCIA

1.1 Nobreza e arete

educação e formação tem raízes diversas (…) Já Platão comparou a formação ao adestramento de cães de raça. (…) O kalos kagathos grego dos tempos clássicos revela esta origem tão claramente como o gentleman inglês.”

Mesmo onde a diferença de formação conduz à constituição de castas rígidas, o princípio da herança que nelas domina é corrigido e compensado pela ascensão de novas forças procedentes do povo. (…) Uma vez que a mais antiga tradição escrita nos mostra uma cultura aristocrática que se eleva acima do povo, importa que a investigação histórica a tenha como ponto de partida. Toda a formação posterior, por mais elevada que seja, e ainda que mude de conteúdo, conserva bem clara a marca da sua origem. A formação não é outra coisa senão a forma aristocrática, cada vez mais espiritualizada, de uma nação.”

não se pode utilizar a história da palavra paideia como fio condutor para estudar a origem da formação grega, porque esta palavra só aparece no séc. V. O mais antigo traço é Ésquilo, Sete contra Tebas, 18. (…) no início do séc. V a palavra tinha o simples significado de <criação dos meninos>, em nada semelhante ao sentido elevado que adquiriu mais tarde (…) O tema essencial da história da formação grega é antes o conceito de arete, que remonta aos tempos mais antigos. Não temos na língua portuguesa um equivalente para este termo; mas a palavra <virtude>, na sua acepção não-atenuada pelo uso puramente moral,¹ e como expressão do mais alto ideal cavaleiresco unido a uma conduta cortês e distinta e ao heroísmo guerreiro, talvez pudesse exprimir o sentido da palavra grega.” Discordo: hoje é impossível transmitir essa equivalência através desta palavra. Mas a discordância se dirige só ao tradutor, evidentemente. O mais próximo seria “nobreza de caráter”.

¹ A besta-loira é um animal deficiente.

O testemunho mais remoto da antiga cultura aristocrática helênica é Homero”

Tanto em Homero quanto nos séculos posteriores, o conceito de arete é freqüentemente usado no seu sentido mais amplo, isto é, não só para designar a excelência humana, como também a superioridade de seres não-humanos: a força dos deuses ou a coragem e rapidez dos cavalos de raça.(*)

(*) Para a arete do cavalo: [vide além (capítulo sobre Xenofonte] e também em Platão, Rep., 335 B, onde se fala da arete dos cães e dos cavalos. Em 353 B, fala-se da arete dos olhos; arete dos deuses: I, 498.”

Vigor e saúde são a arete do corpo; sagacidade e penetração, a arete do espírito. (…) É verdade que arete tem com freqüência o sentido de aceitação social, significando então <respeito>, <prestígio>. Mas isto é secundário, e deve-se à grande influência social de todas as valorações do homem nos primeiros tempos. (…) uma força que (…) constituía a perfeição [do indivíduo].”

Só uma vez, nos livros finais, Homero entende por arete as qualidades morais ou espirituais. Em geral (…) heroísmo, considerado não no nosso sentido de ação mortal e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela.” Os hindus que se jogam debaixo das rodas das charretes nas cerimônias religiosas não teriam, portanto, arete.

morreu como um herói esforçado”: contraponto do patético “morreu como uma pomba” da lavra cristã.

O nome de aristoi convém a um grupo numeroso; mas, no seio deste grupo, que se ergue acima da massa, há luta pelo prêmio da arete. (…) A palavra aristeia, empregada mais tarde para os combates singulares dos grandes heróis épicos, corresponde plenamente àquela concepção.”

De certo modo pode-se dizer que a arete heróica só se aperfeiçoa com a morte física do herói. Ela reside no homem mortal, ou melhor, ela é o próprio homem mortal; mas perpetua-se, mesmo depois da morte, na sua fama, i.e., na imagem da sua arete, tal como o acompanhou e dirigiu na vida. (…) Os deuses de Homero são, por assim dizer, uma sociedade imortal de nobres (…) Ser piedoso quer dizer <honrar a divindade>.”

O amor da pátria, que hoje resolveria a dificuldade, era alheio aos antigos nobres. Agamemnon só consegue apelar para o seu poder soberano através de um ato despótico, pois tal poder nem sequer é admitido pelo sentimento aristocrático, que o reconhece apenas como primus inter pares. No sentimento de Aquiles perante a negação da honra que por suas façanhas lhe é devida, imiscui-se também esta sensação da opressão despótica. (…) As armas de Aquiles, caído em combate, são concedidas a Ulisses, não obstante os superiores merecimentos de Ájax; e a tragédia deste acaba na loucura e no suicídio.”

A filosofia sublima e universaliza os conceitos que capta na sua limitação originária, mas com isso se confirma e se define a sua verdade permanente e indestrutível idealidade.”

Aspirar à <beleza> (que para os gregos significa ao mesmo tempo nobreza e eleição) e fazê-la sua é não perder nenhuma ocasião de conquistar o prêmio da mais alta arete.”

Quem estima a si próprio deve ser infatigável na defesa dos amigos, sacrificar-se pela pátria, abandonar prontamente dinheiro, bens e honrarias para <fazer sua a beleza>. Esta frase curiosa repete-se com insistência, o que mostra até que ponto a mais sublime entrega a um ideal é para Aristóteles prova de um elevado amor-próprio. Quem está impregnado de auto-estima deseja antes viver um breve período no mais alto gozo a passar uma longa existência em indolente repouso; prefere viver só um ano por um fim nobre, a uma vasta vida por nada; escolhe antes executar uma única ação grande e magnífica a fazer uma série de pequenas insignificâncias.

Nestas palavras revela-se o que há de mais peculiar e original no sentimento de vida dos gregos, aquilo por que nos sentimos essencialmente unidos a eles: o heroísmo.”

Entre os dois grandes filósofos e os poemas de Homero, estende-se a cadeia ininterrupta de testemunhos da persistência da idéia de arete, própria dos primeiros tempos da Grécia.”

1.2 Cultura e educação da nobreza homérica

Atualmente não é possível considerar a Ilíada e a Odisséia – fontes da primitiva história da Grécia – como uma unidade, quer dizer, como obra de um só poeta, embora na prática continuemos a falar de Homero como a princípio fizeram os antigos, agrupando sob este nome diversos poemas épicos. O fato de a Grécia clássica, desprovida de senso histórico, ter separado daquela massa os dois poemas, considerando-os superiores de um ponto de vista puramente artístico e declarando os outros indignos de Homero, não afeta o nosso juízo científico nem pode ser considerado como tradição no sentido próprio da palavra. Do ponto de vista histórico, a Ilíada é um poema muito mais antigo. A Odisséia reflete um estágio muito posterior da história da cultura. Com esta verificação, ganha a maior importância o problema da determinação do século a que uma e outra pertencem. A fonte principal para chegar à solução deste problema são os próprios poemas. Apesar de toda a perspicácia consagrada a este assunto, reina quanto a ele a maior insegurança. As escavações dos últimos 50 anos enriqueceram, sem dúvida de modo fundamental, o nosso conhecimento da Antiguidade grega, e sobretudo ofereceram-nos soluções precisas no que se refere à questão do núcleo histórico da tradição heróica; mas nem por isso avançamos um passo na determinação da época exata dos nossos poemas, que vários séculos separam do nascimento das sagas.” Curioso que Adorno não seja citado nem uma única vez. Apenas eu mesmo o citei numa observação, neste post.

É principalmente a Wilamowitz que devemos o fato de ter relacionado as primeiras análises realizadas segundo um critério exclusivamente lógico e artístico com os nossos conhecimentos históricos sobre a cultura grega primitiva.” Veja adiante indicações de leitura do autor Wilam.

A propensão expressa a renunciar por completo à análise de Homero manifesta-se em trabalhos recentes como o de F. DORNSEIFF, Archaische Mythenerzählung (Berlim, 1933) e F. JACOBY, ‘Die geistige Physiognomie der Odissee’, Die Antike, vol. 9, 159.”

será impossível considerar a Odisséia como uma imagem da vida da nobreza primitiva, se as suas partes mais importantes procederem da segunda metade do séc. VI, como atualmente crêem cientistas qualificados. E. SCHWARTZ, Die Odyssee (Munique, 1924), p. 294 e WILAMOWITZ, Die Heimkehr des Odysseus (Berlim, 1927), especialmente pp. 171-ss.: <Quem em questões de linguagem, religião ou costumes mistura a Ilíada e a Odisséia, quem, com Aristarco, as separa do resto como [GREGO], não pode pretender ser levado em conta.>” Curioso!

julgo ter demonstrado que o I canto da Odisséia – aceito pela crítica, depois de Kirchoff, como uma das últimas elaborações da epopéia – já era considerado obra de Homero por Sólon, e mesmo, pelo que tudo indica, antes do seu arcontado (594), i.e., no séc. VII, pelo menos.” “Parece-me fora de dúvida que a Odisséia, quanto ao essencial, já devia existir no tempo de Hesíodo.”

HIPERTROFIA DA HISTORIOGRAFIA: “O desejo compreensível dos investigadores de quererem saber mais do que aquilo que realmente podemos saber acarretou freqüentemente o descrédito injustificado da investigação como tal.”

Os heróis da Ilíada, que se revelam no seu gosto pela guerra e na sua aspiração à honra como autênticos representantes da sua classe, são, todavia, quanto ao resto da sua conduta, acima de tudo grandes senhores, com todas as suas excelências, mas também com todas as suas imprescindíveis debilidades. É impossível imaginá-los vivendo em paz: pertencem ao campo de batalha.”

Quando a Odisséia pinta a existência do herói depois da guerra, as suas viagens aventurosas e a sua vida caseira com a família e os amigos, inspira-se na vida real dos nobres do seu tempo e projeta-a com ingênua vivacidade numa época mais primitiva. [Todo o argumento da Dialética do Esclarecimento] Ela é, deste modo, a nossa fonte principal para conhecermos a situação da antiga cultura aristocrática. Pertence aos jônios, em cuja terra nasceu (…) Vê-se claramente que as suas descrições não pertencem à tradição dos velhos cantos heróicos, mas assentam na observação direta e realista das coisas contemporâneas.”

Se a periferia da imagem do mundo da Odisséia nos arrasta para a fantasia aventureira dos poetas, para as sagas heróicas e mesmo para o mundo do fabuloso e do maravilhoso, é com tanto maior força que a sua descrição das relações familiares nos aproxima da realidade.” “Só um ou outro traço realista e político, como a cena de Tersites, revela o tempo relativamente tardio do nascimento da Ilíada na sua forma atual. Nessa cena, Tersites, o <atrevido>, adita na presença dos nobres mais proeminentes um tom desdenhoso. Tersites é a única caricatura realmente maliciosa de toda a obra de Homero.” Conferir o excelente Tersites shakespeariano: https://seclusao.art.blog/2018/12/16/troilus-and-cressida/.

Os rapsodos não pertenciam, provavelmente, à classe nobre. Na lírica, na elegia e no iambo, pelo contrário, encontramos com freqüência poetas aristocráticos.” Wilamowitz

A vergonhosa conduta dos pretendentes [de Penélope] é constantemente estigmatizada como uma ignomínia para eles e para a sua classe. Ninguém pode contemplá-la sem indignação e é, depois, severamente expiada.”

A figura do aventureiro astuto e rico de recursos é criação do tempo das viagens marítimas dos jônios. A necessidade de glorificar o seu herói liga-se ao ciclo dos poemas troianos, e principalmente aos que se referem à destruição de Ílion.”

A arete própria da mulher é a formosura. (…) A mulher, todavia, não surge apenas como objeto da solicitação erótica do homem, como Helena ou Penélope, mas também na sua firme posição social e jurídica de dona de casa.” “Na Odisséia, Helena, de volta a Esparta com o primeiro marido, aparece como o protótipo da grande dama, modelo de distinta elegância e de soberana forma e representação social.”

A posição social da mulher nunca mais voltou a ser tão elevada [da perspectiva grega] como no período da cavalaria homérica. Arete, a esposa do príncipe Feace, é venerada pelo povo como uma divindade.”

Quando Agamemnon decide levar para a terra Criseida, capturada como despojo de guerra, e declara perante a assembléia que a prefere a Clitemnestra, pois não a acha inferior a ela nem pela presença ou pela estatura, nem pela prudência ou linhagem, é possível que isso seja fruto do caráter particular de Agamemnon – e já os antigos comentadores observaram que toda a arete da mulher está aqui descrita num só verso – mas a maneira imperiosa como o homem procede, acima de toda a consideração, não é coisa isolada no decurso da Ilíada. Amíntor, pai de Fênix, desentende-se com o filho por causa da amante, pela qual abandona a esposa; e o filho, incitado pela própria mãe, faz a côrte àquela, roubando-a do pai.¹ E não se trata de costumes de guerreiros embrutecidos. Acontece em tempo de paz.”

¹ Para tristeza de Platão em Leis XI!

É na mais alta, íntima e pessoal relação do herói com a sua deusa Palas Atena, a qual o guia nas suas andanças e jamais o abandona, que o poder espiritual da mulher como inspiradora e guia acha a sua expressão mais bela.” E curiosamente não é uma mulher de carne!

O mestre dos heróis por excelência era, naquele tempo, o prudente centauro Quíron, que vivia nos desfiladeiros selvosos, de abundantes nascentes, das montanhas de Pélion, na Tessália. Diz a tradição que uma longa série de heróis foi sua discípula e que Peleu, abandonado por Tétis, confiou-lhe a guarda de seu filho Aquiles.” “Embora o poeta do canto nono ponha Fênix em lugar de Quíron, Pátroclo é convidado a aplicar num guerreiro ferido um remédio que aprendeu de Aquiles, o qual por sua vez o aprendera outrora de Quíron” “O poeta da <Embaixada a Aquiles> não pôde utilizar o tosco centauro como medianeiro, ao lado de Ájax e Ulisses, pois só um herói cavaleiresco podia surgir como educador de outro herói. (…) Para substituto de Quíron foi escolhido Fênix, que era vassalo de Peleu e príncipe dos dólopes.”

A Fênix era permitido exprimir verdades que Ulisses não poderia dizer. Na boca daquele, este intento supremo de vergar a inquebrantável vontade do herói e chamá-lo à razão adquire o seu mais grave e íntimo vigor: deixa antever, no caso do seu fracasso, o trágico desenlace da ação como conseqüência da inflexível negativa de Aquiles.” “Todo leitor sente e compartilha intimamente, em toda a sua gravidade, a decisão definitiva do herói, da qual depende o destino dos gregos e do seu melhor amigo Pátroclo e, por fim, o seu próprio destino.” “Peleu entrega o seu filho Aquiles, sem qualquer experiência na arte da palavra e na conduta guerreira, ao seu leal vassalo (…) Fênix ficou junto dele e considerou-o como filho quando lhe foram recusados os próprios filhos pela trágica maldição de seu pai Amíntor.”

Contra a poderosa força irracional do desvario, da deusa Ate, são impotentes toda a arte da educação humana e todo o conselho razoável.”

o íntimo conflito entre as paixões cegas e a mais perfeita intuição, tido como o autêntico problema de toda a educação no mais profundo sentido da palavra. Isto não tem nenhuma relação com o moderno conceito de decisão livre nem com a correspondente idéia de culpa. A concepção antiga é muito mais ampla e, por isso mesmo, mais trágica.”

A figura antitética do rebelde peleida é Telêmaco, cuja educação o poeta nos descreve no primeiro livro da Odisséia. Enquanto Aquiles lança ao vento as doutrinas de Fênix e se precipita para a perdição, Telêmaco presta atenção às advertências da deusa, disfarçada sob a figura do amigo e hóspede de seu pai, Mentes. (…) o costume dos jovens da alta nobreza de serem acompanhados nas suas viagens por um aio ou mordomo.”

A bonita relação de Telêmaco com Mentor, cujo nome serviu desde o Telêmaco de Fénelon para designar o velho amigo protetor, guia e mestre, fundamenta-se no desenvolvimento do tema pedagógico”

A análise crítica do aparecimento da Odisséia levanta um problema decisivo. A Telemaquia foi um poema originariamente independente ou esteve desde o início incluído na epopéia tal como o encontramos hoje?”

O conjunto da Odisséia constitui uma linda criação composta de duas partes separadas: Ulisses, ausente e retido na ilha da ninfa apaixonada, rodeado de mar, e o seu filho inativo, à espera dele no lar abandonado.”

Este jovem passivo, amável, sensível, dolorido e sem esperança teria sido um aliado inútil para a luta rude e decisiva da vingança de Ulisses, que no seu regresso ao lar seria forçado a enfrentar os pretendentes sem nenhuma ajuda. Mas Atena converte-o no companheiro de luta, valente, ousado e decidido.

Objetou-se, contra a afirmação de uma formação pedagógica consciente da figura de Telêmaco, nos quatro primeiros cantos da Odisséia, que a poesia grega não nos dá nenhum quadro do desenvolvimento interno de um caráter. A Odisséia não é, efetivamente, uma novela pedagógica moderna, e por isso a transformação de Telêmaco não pode ser apontada como desenvolvimento, no sentido atual. Naquele tempo só podia ser explicada como obra da inspiração divina. Mas essa inspiração não surge, como é freqüente na epopéia, de modo puramente mecânico, por ordem de um Deus ou simplesmente em sonhos.”

os dois grandes aristocratas, Píndaro e Platão.”

Não falta nenhum traço essencial nesta Telemachou paideia: nem os conselhos de um velho amigo experiente; nem o influxo delicado e sensível da mãe temerosa e cheia de cuidados pelo seu filho único (e não será conveniente consultá-la no momento decisivo, porque seria muito mais capaz de, com os seus temores, refrear o filho, por longo tempo mimado, do que compreender-lhe a súbita elevação)” Uma ficção em que Platão tivesse conseguido, senão erigir a República, pelo menos falsificar Homero, de forma que a Odisséia a que temos acesso seja da sua pena, e não mais antiga!

É com a mais calorosa simpatia que o poeta pinta a confusão íntima de Telêmaco quando este, educado na simplicidade da nobreza rural, é recebido numa pequena ilha como hóspede de grandes senhores e entra pela primeira vez no grande mundo para ele desconhecido.”

Agamemnon foi morto logo após o regresso de Tróia; Ulisses esteve 20 anos afastado do lar. Este espaço de tempo bastou ao poeta para poder situar o ato e a estada de Orestes na Fócida, antes do começo da ação da Odisséia. [Tudo mui bem pensado. Poderia de fato ser um o autor? Ainda mais sempre o pai de todos?] O acontecimento era recente, mas a fama de Orestes estendera-se já a toda a Terra, e Atena refere-o a Telêmaco em palavras inflamadas.”

1.3 Homero como educador

foi o cristianismo [neste caso, Platão como seu mentor!] que, por fim, converteu a avaliação puramente estética da poesia em atitude espiritual predominante. É que isso lhe possibilitava rejeitar, como errôneo e ímpio, a maior parte do conteúdo ético e religioso dos antigos poetas e, ao mesmo tempo, aceitar a forma clássica como instrumento de educação e fonte de prazer.” “Repugna-nos naturalmente ver a tardia poética filosófica do helenismo interpretar a educação em Homero como uma árida e racionalista fabula docet ou, de acordo com o modelo dos sofistas, fazer da epopéia uma enciclopédia de todas as artes e ciências. Mas esta quimera da escolástica não é senão a degenerescência de um pensamento em si mesmo correto, o qual, como tudo quanto é belo e verdadeiro, se torna grosseiro em mãos grosseiras.”

A arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual. É o que os gregos chamaram psicagogia.”

Na epopéia manifesta-se a peculiaridade da educação helênica como em nenhum outro poema. Nenhum outro povo criou por si mesmo formas de espírito comparáveis àquelas da literatura grega posterior. Dela nos vêm a tragédia, a comédia, o tratado filosófico, o diálogo, o tratado científico sistemático, a história crítica, a biografia, a oratória jurídica e panegírica, a descrição de viagens e as memórias, as coleções de cartas, as confissões e os ensaios.”

E, como sucedeu entre os gregos, também entre os indianos, germanos, romanos, finlandeses e alguns povos nômades da Ásia Central nasceu dos cantos heróicos uma epopéia.”

Os poeirentos manuscritos da épica medieval da Canção de Rolando, do Beowulf e dos Nibelungos, dormitavam nas bibliotecas e foi preciso que uma erudição prévia os redescobrisse e trouxesse à luz. A Divina Comédia de Dante é o único poema da Idade Média que desempenhou papel análogo ao de Homero, não só na vida da sua própria nação, mas até de toda a humanidade.”

Hölderlin disse: O que permanece é obra dos poetas. Este verso exprime a lei fundamental da história da educação helênica.”

Na nossa grande epopéia, precedida de longa evolução dos cantos heróicos, estes epítetos, com o uso, perderam a vitalidade, mas são impostos pela convenção do estilo épico. Os epítetos isolados já não são empregados sempre com um significado individual e característico. São em grande medida ornamentais.”

Tudo quanto é baixo, desprezível e falho de nobreza é suprimido do mundo épico.”

Homero tudo engrandeceu: animais e plantas, a água e a terra, as armas e os cavalos. Podemos afirmar que não deixou nada sem elogio e sem louvor. Mesmo Tersites, o único que ele difamou, denomina-o orador de voz clara.” Dión de Prusa

a poesia mélica nasce de canções populares; o iambo, dos cantos das festas dionisíacas; os hinos e o prosodion, dos serviços divinos; os epitalâmios, das cerimônias populares das bodas; as comédias, dos komos; as tragédias, dos ditirambos. Podemos dividir assim as formas originais a partir das quais se desenvolvem os gêneros poéticos posteriores”

A didática e a elegia seguem os passos da épica e aproximam-se dela pela forma. Dela recebem o espírito educador que passa mais tarde a outros gêneros, como os iambos e os cantos corais. A tragédia, tanto pelo seu material mítico como pelo seu espírito, é a herdeira integral da epopéia. É unicamente à sua ligação com a epopéia e não à sua origem dionisíaca que ela deve o seu espírito ético e educador.”

As descrições de batalhas campais só conseguem despertar o nosso interesse nas cenas dominadas por grandes heróis individuais.”

Em vez de uma história da guerra troiana ou da vida inteira de Aquiles, apresenta apenas, com prodigiosa segurança, as grandes crises, alguns momentos de significação representativa e da mais alta fecundidade poética, o que permite concentrar e evocar, em breve espaço de tempo, dez anos de guerra com todos os seus combates e vicissitudes, passadas, presentes e futuras.”

A Ilíada começa no instante em que Aquiles, colérico, retira-se da luta, o que põe os gregos no maior apuro.”

do mesmo modo o final não se compara ao êxito triunfante de uma aristeia comum. Aquiles não fica satisfeito com a sua vitória sobre Heitor. Toda a história finda com a tristeza inconsolável do herói, com aquelas espantosas lamentações de morte de gregos e troianos perante Pátroclo e Heitor, e com a sombria certeza que o vencedor tem a respeito do seu próprio destino.

Quem pretende suprimir o último Canto ou continuar a ação até a morte de Aquiles, e quiser fazer da Ilíada uma aquileida ou pensar que ela era originariamente assim, estará encarando o problema de um ponto de vista histórico e de conteúdo, não do ponto de vista artístico da forma. (…) É o triunfo do herói, não a sua ruína, que pertence à autêntica aristeia. A tragédia contida na resolução de Aquiles de vingar em Heitor a morte de Pátroclo, apesar de saber que após a queda de Heitor o espera a ele, por sua vez, uma morte certa, não encontrará a sua plenitude até a consumação da catástrofe.”

À cegueira de Agamemnon, junta-se, no Canto IX, a de Aquiles, de conseqüências bem mais graves, porque <não sabe ceder> e, cego pela cólera, ultrapassa todas as medidas humanas. Quando já é tarde demais é que fala cheio de arrependimento. Maldiz então o rancor que o levou a ser infiel ao seu destino heróico, a permanecer ocioso e a sacrificar o seu amigo mais querido. Agamemnon, depois da sua reconciliação com Aquiles, lamenta igualmente a sua própria cegueira numa ampla alegoria sobre os efeitos mortais de ate. Homero concebe a ate, tal como a moira, de modo estritamente religioso, como força divina a que o homem mal pode resistir.”

A frase de Heráclito situa-se no final do caminho percorrido pelos gregos no conhecimento do destino humano. O poeta que criou a figura de Aquiles está no início desse caminho.”

A ação não se desentranha como uma desconexa sucessão temporal. Impera sempre nela o princípio da razão suficiente.” “Homero, no entanto, não é autor moderno que considera tudo simplesmente no seu desenvolvimento interno, como experiência ou fenômeno de uma consciência humana. No mundo em que vive, nada de grande acontece sem a cooperação de uma força divina, e a mesma coisa acontece na epopéia.”

Os deuses estão sempre interessados no jogo das ações humanas. Tomam partido por este ou por aquele, conforme desejam repartir os seus favores ou tirar vantagem. (…) Também na Ilíada os deuses se dividem em dois campos. Isto é crença antiga. Mas são novas algumas facetas da sua elaboração, como o esforço do poeta para manter, tanto quanto possível, na dissensão que a guerra de Tróia provoca no Olimpo, a lealdade mútua dos deuses, a unidade do seu poder e a estabilidade do seu reino divino. A causa última de todos os acontecimentos é a decisão de Zeus. (…) A consideração psicológica e a metafísica de um mesmo acontecimento não se excluem de modo nenhum.” “A epopéia conserva, assim, uma duplicidade característica. Qualquer ação deve ser encarada ao mesmo tempo sob o ponto de vista humano e sob o ponto de vista divino.”

Basta pensar na epopéia cristã medieval escrita em língua românica ou germânica, onde nenhuma força divina interfere e todos os acontecimentos decorrem sob o prisma do acontecer subjetivo e da atividade puramente humana, para nos darmos conta da diferença da concepção poética da realidade própria de Homero.”

Quando dois povos lutam entre si e imploram com preces e sacrifícios o auxílio dos seus deuses, põem os deuses em situação delicada, sobretudo dentro de um pensamento que acredita na onipotência e na justiça imparcial do poder divino.” “Em contraste, (…) vê-se na Ilíada um sentimento religioso cuja representação da divindade, e principalmente do soberano supremo do mundo, serve de alimento às idéias mais sublimes da arte e da filosofia posteriores. Só na Odisséia, porém, descobrimos uma concepção mais coerente e sistemática do governo dos deuses.

Recebe da Ilíada a idéia de um concílio dos deuses, no início dos Cantos I e V; mas cai na vista a diferença entre as cenas tumultuosas do Olimpo da Ilíada e os maravilhosos concílios de personalidades sobre-humanas da Odisséia. Na Ilíada os deuses chegam quase a passar a vias de fato.” “os deuses empregam na sua luta meios humanos – humanos demais” “O Zeus que preside ao concílio dos deuses no começo da Odisséia representa uma elevada consciência filosófica do mundo.” “É através desse prisma ético e religioso que o poeta encara os sofrimentos de Ulisses e a hybris [hubris] dos pretendentes, expiada com a morte.”

Cada personagem conserva firmemente a sua atitude e o seu caráter. Esta rígida construção ética pertence, provavelmente, aos últimos estágios da elaboração poética da Odisséia.”

1.4 Hesíodo e a vida do campo

A vida despreocupada da classe senhorial, em Homero, não deve induzir-nos em erro: a Grécia exige dos seus habitantes uma vida de trabalho.”

O seu solo é formado de múltiplos vales estreitos e paisagens cortadas por montanhas. Quase não tem as vastas planícies, fáceis de cultivar, do norte da Europa, o que obriga a uma luta incessante com o solo para arrancar dele o que só assim ele consegue dar. A agricultura e o pastoreio foram sempre as ocupações mais importantes e mais características dos gregos. Só no litoral prevaleceu, mais tarde, a navegação. Nos tempos mais remotos predominou em absoluto a atividade agrícola.”

Hesíodo conta no conhecido proêmio da Teogonia como despertou para a vocação de poeta: era um simples pastor e guardava os seus rebanhos no sopé do Hélicon, quando um dia recebeu a inspiração das musas, que lhe puseram nas mãos o bastão do rapsodo.”

Embora não se possa, num povo tão multiforme como o grego, generalizar a partir da situação da Beócia, as condições desta são, em grande medida, típicas. (…) Não existe a escravatura e nada indica, mesmo remotamente, que aqueles camponeses e pastores que viviam do trabalho das suas mãos descendessem de uma raça subjugada na época das grandes migrações, como acontecia na Lacônia.”

para Hesíodo o mundo heróico pertence a outra época, diferente e melhor do que a atual, <a idade do ferro> que descreve com cores tão sombrias nos Erga. Não há nada de tão característico no sentimento pessimista do povo trabalhador como a história das cinco idades do mundo, que começa com os tempos dourados, sob o domínio de Cronos, e leva, pouco a pouco, em linha descendente, à subversão do direito, da moral e da felicidade humana nos duros tempos atuais.”

<Camponês> ainda não quer dizer <inculto>. As próprias cidades dos tempos antigos, principalmente na metrópole grega, são acima de tudo cidades rurais e continuam a sê-lo mais tarde”

O seu poema dirige-se primordialmente aos homens da sua condição e parte do princípio de que os seus ouvintes entendem a linguagem artística de Homero, que é a que ele próprio emprega.”

Na grande massa das sagas da Teogonia encontramos muitos temas antiquíssimos, já conhecidos de Homero, mas também muitos outros que nele não aparecem. (…) Os preferidos são os mitos que exprimem a concepção da vida realista e pessimista daquela classe ou as causas das misérias e necessidades da vida social que os oprimem: o mito de Prometeu, no qual Hesíodo encontra a solução para o problema do cansaço e dos sofrimentos da vida humana; (…) o mito de Pandora, que é alheio ao pensamento cavaleiresco e exprime a concepção triste e prosaica da mulher como fonte de todos os males. (…) O modo como, p.ex., conta as histórias de Prometeu e Pandora pressupõe nitidamente que já eram conhecidas dos seus ouvintes. (…) todas as classes sociais possuem o seu próprio tesouro de mitos.”

A grande novidade desta obra está em o poeta falar na primeira pessoa. (…) É o enlace imediato do poema com a disputa jurídica sustentada contra o seu irmão Perses que justifica esta ousada inovação.”

Zeus, que humilha os poderosos e exalta os humildes” Já ouvi isso nalgum lugar!

Só o ricaço, que tem os celeiros cheios e não está apertado pelo cuidado da própria subsistência, pode entregar-se à inútil mania das disputas. Ele pode fazer maquinações contra a fazenda e os bens dos outros, e desperdiçar o tempo no mercado.”

Insensatos, não sabem quão verdadeira é a máxima que diz que a metade é maior que o todo e qual é a bênção contida na erva mais humilde que a terra faz crescer para o homem, a malva [flor púrpura] e o asfódelo.” Erga, 40

A tendência causal nascente encontrou satisfação na construção sagaz de uma genealogia completa dos deuses. (…) o Caos, que também encontramos nos mitos nórdicos, é evidentemente uma idéia originária das raças indo-germânicas. (…) O pensamento da Teogonia não se contenta em pôr em interação os deuses reconhecidos e venerados nos cultos nem se atém aos conceitos tradicionais da religião em vigor.”

logo no relato introdutório sobre a Éris boa e a má vê-se que a Teogonia e os Erga, apesar da diferença dos assuntos, não estavam separadas na mente do poeta e o pensamento do teólogo penetra o do moralista, assim como o deste se manifesta claramente na Teogonia.”

O trabalho e os sofrimentos devem ter aparecido em algum momento no mundo. Não podem ter feito parte, desde a origem, da ordem divina e perfeita das coisas. Hesíodo assinala-lhes como causa a sinistra ação de Prometeu, o roubo do fogo divino, que encara do ponto de vista moral. Como castigo, Zeus criou a primeira mulher, a astuta Pandora, mãe de todo o gênero humano. Da caixa de Pandora saíram os demônios da doença, da velhice, e outros males mil que hoje povoam a Terra e o mar.”

Não merecemos mais o mito.

Este uso normativo do mito revela-se com maior nitidez porque Hesíodo, nos Erga, coloca a narração das 5 idades do mundo logo em seguida à história de Prometeu, mediante uma fórmula de transição que talvez não tenha estilo, mas é sumamente característica para o que nos interessa. Se quiseres, contar-te-ei com arte uma segunda história até o fim. Acolhe-a, porém, no teu coração. (Erga, 106).”

Hesíodo não viu que, na realidade, os dois mitos se excluem (…) Enumera como causas da desventura cada vez maior dos homens o aumenta da irreflexão, o desaparecimento do temor dos deuses, a guerra e a violência. Na quinta idade, a do ferro, em que o poeta lamenta ser forçado a viver, domina só o direito do mais forte. Nela só prosperam os malfeitores.” Shishio/Meruem

Somos todos Prometeus. Somos promessas prestes a não vingar.

Homero e Píndaro chamam ainos também aos exemplos míticos. Só mais tarde o conceito se circunscreve às fábulas de animais. Possui o sentido já conhecido de advertência ou conselho. Assim, não é apenas a fábula do falcão e do rouxinol que é ainos. Ela é só um exemplo que Hesíodo dá aos juízes.”

A identificação da vontade divina de Zeus com a idéia do direito e a criação de uma nova personagem divina, Dike, tão intimamente ligada a Zeus, o deus supremo, são a imediata conseqüência da força religiosa e da seriedade moral com que a classe camponesa nascente e os habitantes da cidade sentiram a exigência da proteção do direito.”

Deixa-me aconselhar-te com verdadeiro conhecimento, Perses, minha criança grande. (…) Os deuses imortais puseram o suor antes do êxito. A senda que a ele conduz é íngreme e comprida, e de início penosa.”

O trabalho é celebrado como o único caminho, ainda que difícil, para alcançar a arete. (…) Não se trata da arete guerreira da antiga nobreza, nem da arete da classe proprietária, baseada na riqueza, mas sim da arete do homem trabalhador, que tem a sua expressão numa posse de bens moderada.” “Hesíodo quer com plena consciência colocar ao lado do adestramento dos nobres, tal como se espelha na epopéia homérica, uma educação popular, uma doutrina da arete do homem simples.”

Perses, e quem quer que ouça as doutrinas do poeta, deve estar disposto a deixar-se guiar por ele, caso não seja capaz de conhecer intimamente o que lhe é proveitoso e o que lhe é prejudicial. (…) Estes versos constituíram, na ética filosófica posterior, o fundamento primeiro de toda a doutrina moral e pedagógica. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles aceita-os integralmente nas suas considerações preliminares sobre o princípio adequado do ensino moral. (…) Perses não tem uma concepção justa. Mas o poeta tem de admitir que ela pode ser ensinada, na medida em que procura transmitir-lhe a sua própria convicção e influenciá-lo.”

Quem vive na pobreza é aborrecido pelos deuses e pelos homens; é comparável ao zangão, que devora o penoso trabalho das abelhas. Procura um prazer justo, dando-te ao trabalho numa medida equilibrada. (…) O trabalho é a única coisa justa na tua condição”

Esta corrente imemorial que brota da terra, inconsciente ainda de si própria, é a parte mais comovedora de Hesíodo e a causa principal da sua fôrça.”

Hesíodo é o primeiro poeta grego que fala do seu ambiente em seu próprio nome. Deste modo ergue-se acima da esfera épica, que apregoa a fama e interpreta as sagas, até a realidade e as lutas atuais. (…) Surge aqui pela primeira vez uma pretensão a guia, que não se fundamenta numa ascendência aristocrática nem numa função oficial reconhecida. Ressalta imediatamente a semelhança com os profetas de Israel, já salientada de tempos antigos. No entanto, é com Hesíodo, o primeiro dos poetas gregos a apresentar-se com a pretensão de falar publicamente à comunidade, baseado na superioridade do seu conhecimento, que o helenismo se anuncia como uma época nova na história da sociedade.”

É característica pessoal do poeta-profeta grego querer guiar o Homem transviado para o caminho correto, por meio do conhecimento mais profundo das conexões do mundo e da vida.”

1.4 Educação estatal de Esparta

Renunciaríamos de antemão a compreender a história dos gregos se, em conformidade com as divisões habituais do assunto, deixássemos o Estado aos historiadores <políticos> e aos investigadores do direito público e nos limitássemos ao conteúdo da vida espiritual. Pode-se escrever uma história da cultura alemã num longo período sem aludir à política. Esta só é fundamental nos tempos modernos. Por causa disso estudou-se durante muito tempo o povo grego e sua cultura predominantemente sob um prisma estético. Mas isto é um violento deslocamento do centro de gravidade. Só na polis se pode encontrar aquilo que abrange todas as esferas da vida espiritual e humana e determina de modo decisivo a sua estrutura. No período primitivo da cultura grega, todos os ramos da atividade espiritual brotam diretamente da raiz unitária da vida em comunidade.”

É da maior importância para o nosso intuito ver como o espírito da polis grega encontrou a sua expressão, primeiro na poesia e logo a seguir na prosa”

A mescla de dialetos diferentes, visível na epopéia, prova que a criação artística da poesia homérica é fruto da colaboração de várias raças e povos na elaboração do vocabulário, estilo e métrica dos poemas. (…) A investigação histórica jamais poderá desligar do nosso Homero cantos inteiros que apresentem uma tonalidade unitária de dialetos eólios. As particularidades do espírito dórico e jônico, ao contrário, revelam-se de maneira precisa nas formas da vida das cidades e na fisionomia espiritual da polis. Ambos os tipos se juntam na Atenas dos séculos V e IV. Enquanto a vida real do Estado ateniense recebe o influxo decisivo do ideal jônico, na esfera espiritual, por influência aristocrática da filosofia ática, vive a idéia espartana de uma regeneração que, no ideal platônico da formação, funde-se numa unidade superior com a idéia fundamental jônico-ática, despojada da sua forma democrática, de um Estado regido pelo direito.”

em vão se buscaria um nome espartano entre os moralistas e filósofos gregos. Em contrapartida, Esparta tem, de pleno direito, um lugar na história da educação.”

ao contrário de Homero e Hesíodo, na elegia de Tirteu encontramos apenas a formulação de um ideal, como é próprio da essência dessa poesia de puro pensamento.”

O nosso testemunho principal, a Constituição dos Lacedemônios, de Xenofonte, é fruto do romantismo meio filosófico meio político do séc. IV a.C. (…) A admiração de Xenofonte baseava-se ainda no conhecimento de Esparta através de uma íntima experiência pessoal, enquanto o enlevo romântico que se revela na biografia de Licurgo, por Plutarco,¹ baseia-se apenas num saber adquirido em antigas fontes literárias de valor heterogêneo.”

¹ Nunca será o bastante alertar o leitor desatento: Plutarco não tem quase valor histórico; todas as suas biografias devem ser lidas com suspeição a priori, como anedotas folclóricas guardando esparsos fundos de verdade.

ORIGEM DA DISTINÇÃO DOS NOMES LACEDEMÔNIA E ESPARTA

A crença de que a educação espartana era uma preparação militar unilateral deriva da Política de Aristóteles. (…) Depois da vitória na guerra do Peloponeso, Esparta conseguiu na Grécia uma hegemonia indiscutível, que perdeu ao fim de 30 anos, após a catástrofe de Leuctra.” “O dinheiro, que antes Esparta mal conhecia, entrou na cidade em torrentes, e <foi descoberto> um velho oráculo, segundo o qual a ambição arruinaria Esparta. Nesta época, dominada por uma política de expansão fria e calculista, ao estilo de Lisandro, em que os Lacedemônios se tinham apoderado despoticamente das acrópoles de quase todas as cidades gregas e as liberdades políticas das chamadas cidades autônomas haviam sido todas destruídas, a antiga disciplina espartana surgiu involuntariamente à luz do uso maquiavélico que dela fazia Esparta.”

A migração dórica, de que os gregos sempre guardaram uma recordação indelével, é o último dos movimentos de povos, possivelmente originários da Europa Central, que a partir da península balcânica penetraram na Grécia e se misturaram com os povoadores de outras raças mediterrânicas ali fixadas primitivamente, constituindo assim o povo grego que a história nos apresenta. O tipo característico dos invasores conservou em Esparta a sua maior pureza. A raça dórica ofereceu a Píndaro o seu ideal de homem loiro, de alta estirpe, tal como era representado não só o Menelau homérico, mas também o herói Aquiles, e em geral todos os <helenos de loira cabeleira> da Antiguidade heróica. A primeira coisa a levar em conta é que os espartanos constituíam, entre a população lacônia, apenas uma reduzida classe dominante, de formação tardia. Sob o seu domínio estava uma classe popular, livre, operária e camponesa, os periecos, bem como os servos hilotas, a massa dos submetidos, quase sem quaisquer direitos. Os antigos relatos dão-nos de Esparta a imagem de um acampamento militar permanente. Essa aparência vinha muito mais da constituição inteira da comunidade do que de uma ânsia de conquista. (…) A assembléia do povo espartano não é outra coisa senão a antiga comunidade guerreira. Não há nela qualquer discussão. Limita-se a votar SIM ou NÃO em face de uma proposta definida do conselho dos anciãos. [Daí poderia advir o orgulho nacionalista hegeliano diante de uma origem bárbara da cultura superior, não só d’A República como também do Estado Germânico, suposto fim da História e consumação do Espírito!] Este tem direito a dissolver a assembléia e pode retirar da votação as propostas com resultado desfavorável. (…) A sua organização representa um poder moderador no conflito de forças entre os senhores e o povo. (…) É significativo que o eforato [conselho de anciãos] seja a única instituição não-atribuída à legislação de Licurgo.”

quanto mais importância se concede à educação e à tradição oral, menor é a coação mecânica e externa da lei sobre todos os detalhes da vida.”

A participação de todos os cidadãos espartanos na educação militar torna-os uma espécie de casta aristocrática. Aliás, muitos traços dessa educação lembram a formação da antiga nobreza grega. Mas o fato de ter sido estendida aos que não eram nobres prova que houve uma evolução que modificou neste sentido o presumível domínio original dos nobres.”

Tirteu é ainda a nossa única fonte em relação às guerras messênicas, dado que a crítica moderna demonstrou ser total ou predominantemente fictícia a tradição dos historiadores mais recentes. O impulso da sua inspiração foi suscitado pela grande sublevação dos messênios, três gerações após a sua primeira subjugação. Durante 19 anos lutaram sem cessar, armados de lanças, os pais de nossos pais, com paciente coração; no 20º ano, os inimigos abandonaram os férteis campos e fugiram para as altas montanhas de Ithoma.

Em nenhum outro lugar a poesia grega revela tão claramente como a criação poética brota da vida da comunidade humana. (…) Por isso se exprime com freqüência na 1ª pessoa do plural: Lutemos!, Morramos!.”

A estreita ligação entre o indivíduo e a cidade estava, em tempo de paz, simplesmente latente para o cidadão médio, mesmo num Estado como o espartano. No caso de perigo, todavia, a idéia da totalidade manifestava-se subitamente com a maior força. A dura necessidade da longa e duvidosa guerra que acabava de eclodir foi a base férrea em que o Estado espartano se cimentou. Não precisava só de políticos e militares, naquela conjuntura. Precisava também encontrar expressão adequada para os novos valores humanos que na guerra se revelavam.” “a lenda fez de Tirteu um enviado de Apolo.”

Do ponto de vista formal, a elegia de Tirteu não é uma criação original. Os elementos formais lhe foram dados. A forma métrica da elegia – o dístico – é indubitavelmente mais antiga.”

DICOTOMIA ELEGIA X ODE: “A elegia não possui forma <interna> como chegaram a julgar os gramáticos da Antiguidade. Guiados pela evolução posterior do gênero e por uma falsa etimologia, quiseram reduzir todas as formas da elegia a uma raiz comum: o canto fúnebre. A elegia (…) só tinha um elemento constante: o fato de ser dirigida a alguém, indivíduo ou multidão. (…) Até o nosso fragmento, que começa num tom aparentemente mais reflexivo, atinge o seu acme e o seu termo sob a forma da exortação (…) simplesmente tal como a poesia didática dos Erga hesiódicos, dirige-se de maneira mais direta e intencional a uma personalidade determinada.” “Veste com a linguagem da epopéia um assunto contemporâneo.”

E ainda que fosse mais belo que Titono e mais rico do que Midas e Ciniras, mais régio que Pélops, filho de Tântalo, e dotado de uma língua mais lisonjeira que Adrasto, se tivesse todas as glórias do mundo, mas não possuísse o valor guerreiro, não quereria honrá-lo. Não dará boas provas de si na luta se não for capaz de encarar a morte sangrenta na peleja e de lutar corpo-a-corpo com o adversário.”

Mas aquele que cai entre os combatentes e perde a vida bem-amada cobre de glória a sua cidade, os seus concidadãos e o seu pai, ao ser chorado por todos, novos e velhos, quando jaz, com o peito, o côncavo escudo e a armadura trespassados por muitos projéteis; a sua dolorosa memória enche a cidade inteira e são honrados entre os homens o seu sepulcro e os seus filhos, e os filhos dos seus filhos e toda a sua linhagem; a honra do seu nome não se extingue jamais e, mesmo que jaza no seio da terra, torna-se imortal.”

a <polisação> do conceito da arete heróica deriva da <polisação> da idéia da glória heróica” (…) O <nome> é preservado com segurança da fugacidade do presente, pela vida duradoura da comunidade. § os gregos primitivos não conheceram a imortalidade da <alma>. O Homem morria com a morte do corpo. A psyche homérica significa antes o contrário: a imagem corpórea do próprio Homem, que vagueia no Hades como uma sombra: um puro nada.”

O homem político alcança a perfeição através da perenidade da sua memória na comunidade pela qual viveu ou morreu. Só o crescente menosprezo pelo Estado, próprio das épocas seguintes, e a progressiva valorização da alma individual, que alcança o apogeu com o Cristianismo, possibilitaram aos filósofos tomarem o desprezo da glória por uma exigência moral. Nada de semelhante se encontra ainda na concepção do Estado de Demóstenes e de Cícero. É com a elegia de Tirteu que se inicia o desenvolvimento da ética do Estado.”

O poeta contrasta a morte gloriosa no campo de batalha com a vida desventurada e errante, destino inevitável do homem que não cumpriu na guerra os seus deveres de cidadão (…) Anda pelo mundo errante, com o pai, a mãe, a mulher e os filhos. Na sua pobreza e indigência, é um estranho onde quer que vá e todos o fitam com olhos hostis.”

Não estabelece qualquer diferença entre os que foram desterrados por uma necessidade estatal de exceção, porque fugiram ante o inimigo, e os que abandonaram voluntariamente o país para escaparem ao serviço militar, sendo forçados por isso a viver como estranhos em outra cidade.” “O novo ideal da arete política exprime, em face da arete da epopéia, uma transformação da concepção religiosa. A polis é a suma de todas as coisas humanas e divinas.”

O pensamento que impregna a Eunomia tem a maior importância para o conhecimento da atitude pessoal de Tirteu e da sua oposição ao espírito político da Jônia e de Atenas. Enquanto estas nunca se sentiram vinculadas à autoridade da tradição e do mito, mas se empenharam em regular a distribuição dos direitos políticos segundo um pensamento mais ou menos universal, social e justo, Tirteu, à moda antiga, faz derivar do poder dos deuses a eunomia espartana e vê nessa origem a sua garantia mais alta e inviolável. Foi o próprio Zeus, filho de Crono, esposo da coroada Hera, que aos Heráclidas [tradição de haver dois reis, inicialmente, na cidade – descendentes de Heracles] deu esta cidade. Abandonamos com eles o ventoso Erineus e viemos até a vasta ilha de Pélops.

os reis são o único elo legítimo entre o Estado atual e o ato de doação divina que no passado o fundou. O oráculo de Delfos fundamentou para sempre a posição legítima dos reis.”

O Tirteu da Eunomia pertence a Esparta. O Tirteu das elegias guerreiras pertence à Grécia inteira.”

Para ilustrar a posição dos guerreiros no seu Estado ideal, Platão toma Tirteu como modelo, quando propõe honrar os guerreiros acima dos vencedores em Olímpia.”

É a autêntica idéia grega da formação. Uma vez modelada, a forma conserva o seu valor mesmo em estágios posteriores e mais elevados e qualquer novidade precisa confrontar-se com ela. Assim, o filósofo Xenófanes de Cólofon, cem anos após Tirteu, aplica-se em transformar aquelas idéias e sustenta que só à força espiritual cabe, no Estado, a mais alta posição”

A crítica de Platão dirige-se menos contra Tirteu que contra os excessos de força do Estado espartano da época, cujo fundamento encontra nos poemas guerreiros daquele. Nem mesmo os seus maiores admiradores poderiam descobrir naquela Esparta inflexível e unilateral qualquer vestígio de espírito musical e poético. Nesse sentido, são eloqüentes o silêncio de Xenofonte e os esforços fracassados de Plutarco para preencherem aquela lacuna. (…) Felizmente, apesar da fragmentação das nossas tradições e documentos, podemos provar que a antiga Esparta dos tempos heróicos do séc. VII tinha uma vida mais rica e estava totalmente livre da pobreza espiritual que a sua imagem histórica nos apresenta de modo tão vigoroso.”

foi chamado o grande músico Terpandro de Lesbos, inventor da cítara de 7 cordas, para dirigir o coro das festas religiosas e organizá-lo segundo o sentido das suas inovações. A Esparta das épocas subseqüentes adotou rigidamente os padrões de Terpandro e considerou toda a evolução posterior como uma revolução contra o Estado. Mas esta própria rigidez mostra até que ponto a antiga Esparta encarou a educação musical como coisa essencial para a formação do ethos humano”

Os abundantes resquícios de poesias corais de Alcman, lírico originário de Sardes e naturalizado espartano, completam de modo perfeito a imagem da Esparta arcaica.” “Os seus versos, escritos para os coros das jovens espartanas, jorram do humor jovial e da força realista da raça dórica, que só em traços isolados se manifestam através da estilização homérica das elegias de Tirteu. As canções de Alcman, que mencionam os nomes das jovens do coro e apregoam os seus méritos e as suas pequenas ambições e invejas, transportam-nos com idêntica vivacidade e realismo às rivalidades dos concursos musicais da antiga Esparta e revelam-nos que o espírito de emulação do sexo feminino não era inferior ao dos homens. Vê-se por elas também, com toda a clareza, que a condição da mulher na vida pública e privada de Esparta era muito mais livre que entre os Jônios, influenciados pelos costumes asiáticos, e que em Atenas, por sua vez influenciada pelos Jônios.”

1.5 O Estado jurídico e o seu ideal de cidadão

Aos jônios, como a todos os gregos da Ásia Menor, falta energia política construtiva, e em nenhum lugar deixaram uma formação estatal permanente e ativa.”

A estreiteza da faixa costeira em que ocorreu a série de invasões e a impossibilidade de penetrar profundamente no interior do país, ocupado por povos politicamente desorganizados e bárbaros, como os lídios, frígios e cários, atraiu cada vez mais as cidades da costa para o comércio marítimo, com o aumento da segurança na navegação. Isto converteu logo a nobreza de proprietária rural em empresária.”

A ação da Odisséia chega, para leste, até a Fenícia e Cólquida; para sul, até o Egito; para o ocidente, até a Sicília e a Etiópia Ocidental; e para o norte, no Mar Negro, até o país dos cimérios. É perfeitamente a narração do encontro do navegante com uma frota de navios e mercadores fenícios, cujo comércio se estendia a todo o Mediterrâneo e fazia a mais perigosa concorrência aos gregos. A viagem dos argonautas, com as suas maravilhosas descrições de povos e países longínquos, é também uma autêntica epopéia marítima.”

Esta elevada estima pelo direito por parte dos poetas e dos filósofos não precede a realidade, como se poderia pensar. Pelo contrário, é apenas o reflexo da importância fundamental que aqueles progressos deviam ter na vida pública daqueles tempos, i.e., desde o séc. VII até o início do séc. VI.”

o aumento da oposição entre os nobres e os cidadãos livres, a qual deve ter surgido em conseqüência do enriquecimento dos cidadãos alheios à nobreza, gerou facilmente o abuso político da magistratura e levou o povo a exigir leis escritas. As censuras de Hesíodo contra os senhores venais, que na sua função judicial atropelavam o direito, eram o antecedente necessário dessa reclamação universal.”

Dizia-se das partes contenciosas que <dão e recebem dike>. Assim se compendiava numa palavra só a decisão e o cumprimento da pena. O culpado <dá dike>, o que equivale originariamente a uma indenização, ou compensação. O lesado, cujo direito é reconduzido pelo julgamento, <recebe dike>. O juiz <reparte dike>. Assim, o significado fundamental de dike equivale aproximadamente a dar a cada um o que lhe é devido. (…) O alto sentido que a palavra recebe na vida da polis posterior aos tempos homéricos não se desenvolve a partir desse significado exterior, e sobretudo técnico, mas sim do elemento normativo que encontra no fundo daquelas antigas formas jurídicas, conhecidas de todo mundo. (…) hybris [ou hubris] – palavra cujo significado original corresponde à ação contrária ao direito. [arrogância, prepotência: arroga-se um direito que efetivamente não tem, não segue o caminho justo] Enquanto themis refere-se principalmente à autoridade do direito, sua legalidade e sua validade, dike significa o cumprimento da justiça. Assim se compreende que a palavra dike se tenha convertido necessariamente em grito de combate de uma época em que se batia pela consecução do direito uma classe que até então o recebera apenas como themis, quer dizer, como lei autoritária.”

Os próprios nobres tinham de submeter-se ao novo ideal político que surgiu da consciência jurídica e se tornou medida para todos. (…) Encontramos, desde os tempos mais recuados, uma série de palavras que designam certos gêneros de delitos, como adultério, assassínio, rapto, furto. Mas falta-nos um conceito genérico para designar a propriedade pela qual evitamos aquelas transgressões e nos mantemos dentro dos justos limites.”

O conceito de justiça, tida como a forma de arete que engloba e satisfaz todas as exigências do perfeito cidadão, supera naturalmente todas as formas anteriores. Todavia, os graus anteriores da arete não são por isso suprimidos: ao contrário, são elevados a uma nova forma.”

A raiz da ética filosófica de Platão e Aristóteles na ética da velha polis foi desconhecida dos tempos posteriores, habituados a encará-la como a ética absoluta e intemporal. Quando a Igreja cristã começou a estudá-la, achou estranho que Platão e Aristóteles chamassem virtudes morais à fortaleza e à justiça. Mas teve de conformar-se com este fato original da consciência moral dos gregos. (…) fizeram-se por isso inúmeras teses sobre a questão de saber se a fortaleza é uma virtude e como é que pode sê-lo. A aceitação consciente da antiga ética da polis pela moral filosófica posterior e a influência que por meio desta ela exerceu sobre o futuro são para nós um processo perfeitamente natural da história do espírito.”

A educação pública dos jovens é, porém, uma exigência que a filosofia do séc. IV foi a primeira a formular. Esparta é o único dos Estados mais antigos a exercer influência imediata na formação da juventude.”

É com razão que Platão denomina <antiga formação> a ginástica e a música. O cuidado que as cidades dedicaram, sob a forma de grandes e onerosos concursos, a esta formação, originalmente aristocrática, não se limitava a desenvolver o espírito de luta e o interesse musical. Era na competição que se formava o verdadeiro espírito comunitário. Assim se compreende facilmente o orgulho que os cidadãos gregos tinham em serem membros da sua polis. Para a identificação total de um grego exigia-se não só o seu nome e o do seu pai, mas também o da sua cidade natal.”

Com razão, o legislador era considerado educador do seu povo, e é característico do pensamento grego que ele seja freqüentemente colocado ao lado do poeta, e as determinações da lei junto das máximas da sabedoria poética.”

Mas na filosofia da natureza de Anaximandro de Mileto, por volta do séc. VI, ainda achamos um reflexo mais primitivo da idéia de lei. Transpõe para o reino da natureza a representação da dike da vida social da polis e explica a conexão causal da geração e corrupção das coisas como contenda jurídica, em que, por sentença do tempo, elas terão de expiar e pagar indenização conforme as injustiças que cometeram.” “vê-se bem como é profunda a conexão entre o nascimento da consciência filosófica nos jônios e a origem do Estado jurídico.”

O homem não é só <idiota>; é <político> também. Precisa ter, ao lado da habilidade profissional, uma virtude cívica genérica, pela qual se põe em relações de cooperação e inteligência com os outros, no espaço vital da polis. (…) a nova política do homem não pode estar vinculada, como a educação popular de Hesíodo,¹ à idéia do trabalho humano. (…) Se contemplarmos o processo evolutivo da educação grega a partir do ponto de vista hodierno inclinar-nos-emos a crer que o novo movimento teria de aceitar o programa de Hesíodo: substituir a formação geral da personalidade, própria dos nobres, por um novo conceito de educação popular, em que se avaliaria cada homem pela eficácia do seu trabalho específico, e o bem da comunidade resultaria de cada um realizar com a máxima perfeição possível o seu trabalho particular,¹ tal como o aristocrata Platão exigia no Estado autoritário da sua República, dirigido por uma minoria espiritualmente superior. Estaria de acordo com o tipo de vida popular e a diversidade dos seus mestres; o trabalho não seria uma vergonha, mas o fundamento único da consideração citadina. No entanto, e sem prejuízo do reconhecimento deste importante fato social, a evolução real seguiu um curso completamente diverso.”

¹ O camponês utilitário

² O trecho sublinhado soa familiar?

Esta aptidão <geral>, política, pertencia até então unicamente aos nobres. (…) O novo Estado não podia esquecer esta arete, se compreendia corretamente os seus próprios interesses.” “o ideal do cidadão permaneceu o que Fênix já ensinara a Aquiles: estar apto a proferir belas palavras e a realizar ações. Os homens dirigentes da burguesia ascendente¹ deviam atingir este ideal, e até os indivíduos da grande massa deviam participar, em certa medida, no pensamento desta arete.”

¹ Muito me incomoda este tipo de vocábulo anacrônico de Jaeger ao longo de toda a obra: até que ponto é lícito chamar uma classe não-plebéia porém não-aristocrática nascente na Antiguidade de “burguesia”, termo insólito no contexto? Vou criticar o mesmo de novo mais adiante!

Cabe a questão: o Homem ainda é um animal político? A sociedade parece mais com um vespeiro.

Para Sócrates, filho de um pedreiro, um simples operário,¹ constituía um paradoxo surpreendente o fato de um sapateiro, um alfaiate ou um carpinteiro precisarem no seu trabalho de um certo saber autêntico, ao passo que ao político bastava uma educação genérica, de conteúdo bastante indeterminado, embora o seu <ofício> tratasse de coisas muito mais importantes. (…) Observada por este prisma, a falta daquela habilidade especial aparecia diretamente como a essência da democracia. (…) Quando o novo estado (sic) jurídico apareceu, a virtude dos cidadãos consistiu na livre submissão de todos, sem distinção de dignidade ou de sangue, à nova autoridade da lei. (…) Neste sentido, não existia o problema da cooperação.”

¹ De novo… Operário!

O ANTI-MESSIAS & O HOMEM-URBANO: “Aristóteles designa o Homem como ser político e, assim, distingue-o do animal pela sua qualidade de cidadão. Esta identificação da humanitas, do ser-homem, com o Estado, compreende-se apenas na estrutura vital da antiga cultura da polis grega, para a qual a vida em comum é a súmula da vida mais elevada e adquire até uma qualidade divina.”

Platão dá-nos uma transcrição fiel do sentido originário da <cultura geral>, segundo o espírito da primitiva polis grega. (…) A verdadeira educação é para Platão uma formação <geral>, porque o sentido do político é o sentido do geral.” O homem acusado de precipitar o mundo em decadência (Nietzsche), veja só, não passava de um inveterado nostálgico de tempos insondáveis!

A antiga cidade-estado (sic) é o 1º estágio, depois da educação nobre, na caminhada do ideal <humanista> para uma educação ético-política geral e humana. Aliás, podemos dizer que foi esta a sua verdadeira missão histórica. (…) Não se pode calcular o seu valor nem pelo gênio de cada um dos chefes, cuja aparição depende de condições excepcionais, nem pela sua utilidade para a multidão, à qual não se pode transmitir sem um efeito nivelador sobre as 2 partes. (…) O ideal de uma arete política geral é indispensável, dada a necessidade da formação contínua de uma camada de dirigentes, sem a qual nenhum povo ou Estado pode subsistir, qualquer que seja a sua constituição.” A Europa é um verdadeiro milagre!

1.6 A autoformação do indivíduo na poesia jônico-eólica

Todavia, (…) não achamos, à primeira vista, uma expressão equivalente do novo ideal de cidadão na poesia da época.” “Apenas podemos mencionar as histórias relativas à fundação de certas cidades, redigidas num estilo épico convencional. Mas nenhuma destas obras da cultura citadina primitiva, já numericamente raras, se eleva à importância de uma verdadeira epopéia do Estado, como entre os romanos foi a Eneida de Virgílio, a última das grandes obras do gênero. (…) foi na criação da prosa que o novo ethos do Estado encontrou a sua verdadeira expressão revolucionária.”

nenhum escritor jônico ou eólico captou o heroísmo político interior de Sólon, que se tornaria a fonte de uma nova grande poesia.”

As conexões causais entre o espiritual e o material permanecem na maior obscuridade por ausência completa de qualquer tradição relativa às condições econômicas da época. (…) E este vestígio do espírito jônico tem a maior importância para a história dos gregos e da humanidade.”

Até os animais, nas disputas das fábulas, reclamam uns aos outros os <seus direitos>, em humorística imitação das relações humanas.”

COISAS QUE HEGEL NÃO VÊ: “É altamente significativo que o tipo de individualismo que com assombrosa independência se manifesta nestas poesias pela primeira vez, não se exprima, à maneira moderna, como simples experiência da sensibilidade do eu” “Este moderno tipo de individualismo poético não é mais do que um retorno às formas primitivas e naturais da arte” “Nada é mais insensato do que julgar que foram os gregos os primeiros a trazerem ao mundo o sentimento e o pensamento individual. Pelo contrário (…) a lírica chinesa, tão aparentada à moderna.”

não nos é fácil conceber com clareza e precisão o que Arquíloco e outros poetas da sua espécie entenderam por individualidade.” “As manifestações da individualidade nunca são exclusivamente subjetivas. Seria preferível dizer que, numa poesia como a de Arquíloco, o eu individual busca exprimir e representar em si próprio a totalidade do mundo objetivo e suas leis.”

Os heróis homéricos teriam sentido a perda do Escudo como a ruína de sua honra e prefeririam sacrificar a vida a sofrer semelhante afronta. O novo herói de Paros exprime as suas reservas neste ponto e está certo de provocar o riso dos seus contemporâneos, quando diz: Um dos Saios, nossos inimigos, regozija-se agora com o meu escudo, arma impecável que sem querer deixei ficar num matagal. No entanto, escapei à morte, que é o fim de tudo. Quero lá saber deste escudo! Comprarei outro melhor. A deliciosa mescla do moderno¹ humor naturalista (alheio a qualquer tipo de ilusões, e segundo o qual até um herói só tem uma vida para perder) com a nobre ressonância da retórica épica, que nos fala de <arma impecável> e da morte que <é o fim de tudo>, é fonte inesgotável de efeitos cômicos. Protegido por eles, o esforçado desertor pode aventurar a sua insolente conclusão e afirmar com sinceridade desconcertante: Comprarei outro melhor! Que é um escudo, afinal, senão um pedaço de pele de boi curtida, com uns adornos de metal brilhante!

¹ Novamente o incômodo com a palavra.

na audaciosa afirmação pessoal de Arquíloco em face das limitações do decoro tradicional e na decidida franqueza com que a mantém, já se encontra implícita a consciência de poder ser não apenas mais descarado, mas também mais espontâneo e sincero do que aquele que está submetido com mais rigor ao código moral.”

Se nos afligimos com a maledicência do povo, não desfrutamos o prazer da vida. A inércia e o comodismo da natureza humana tiveram certamente neste processo de emancipação um papel não-desprezível, e é evidentemente nesta direção que aponta a raiz da palavra.”

Já Homero ensinava que o espírito do Homem é tão mutável como os dias que Zeus ilumina. Arquíloco aplica ao mundo da vida que o rodeia esta sabedoria homérica. (…) A ética da antiga nobreza venerava a Fama como uma força superior, porque tinha dela uma idéia muito diferente: a honra das grandes façanhas e o seu jovial reconhecimento no círculo dos espíritos nobres. Transferida para a massa invejosa, que mede tudo que é grande pela sua própria e acanhada medida, perde qualquer sentido.”

Foi com certa precipitação que se atribuiu a condições de caráter pessoais a totalidade da poesia iâmbica, de conteúdo em grande parte exprobratório. Julga-se legítimo, neste como em qualquer outro gênero de poesia, pensar numa explicação puramente psicológica e encarar a poesia como resultante da expansão imediata da subjetividade amarga do seu criador. Esquece-se, assim, que a aparição da sátira literária da primitiva cidade grega é um fenômeno característico da época em que se expande a importância crescente do demos. Originariamente, o iambo era de uso corrente nas festas públicas de Dionisos (sic) e correspondia antes à explosão de um sentimento popular do que à expressão de um rancor pessoal. Prova disso é que o espírito do iambo se incorpora com a maior fidelidade e continua na comédia ática, onde o poeta aparece claramente como o porta-voz da crítica possível.”

Quero contar-vos uma fábula…, assim começa a história do macaco e da raposa. A fábula da raposa e da águia começa do mesmo modo: Existe entre os homens uma fábula que reza assim…

Porque em Hesíodo encontra-se freqüentemente esse tema, quis-se deduzir a sua hostilidade pelas mulheres de certo romance passional cuja experiência amarga se teria refletido dessa maneira. Todavia, a troça contra as mulheres e o sexo feminino é um dos temas mais antigos da sátira popular em reuniões públicas. A sua repetição em Semônides de Amorgos não é só uma débil imitação de Hesíodo; ela se vincula, sim, com o antigo e verdadeiro iambo, que nunca consistiu na simples injúria e difamação pública de uma pessoa a quem se quer mal. (…) a sua contrapartida, a sátira contra os homens, também não faltou, embora antes de Aristófanes não a encontremos na poesia.”

E qual podia ser o valor ideal ou artístico da simples explosão do ódio ou da raiva pessoal, mesmo expressos da forma mais bela? Se assim fosse, não se teria escutado muitos séculos depois, a voz de Arquíloco ao lado daquela de Homero, nos concursos musicais, não o teriam considerado, como testemunha Heráclito, mestre dos gregos, não teriam captado a íntima ligação dos seus poemas como a consciência geral do mundo circundante.”

Píndaro, o mestre da educação com base no elogio das virtudes nobres, diz: Vi ao longo o satirizante Arquíloco, desamparado e na maior indigência, a cevar-se nas mais violentas e ofensivas inimizades.

A religiosidade de Arquíloco tem raízes no problema da tyche. A sua experiência de Deus é a experiência da tyche. O conteúdo destas considerações, e em parte o seu vocabulário, vem de Homero. Mas a luta do Homem contra o destino é transferida do mundo sublime dos heróis para a esfera da vida cotidiana.” “A partir daí, o desenvolvimento da idéia de tyche entre os gregos segue os passos do desenvolvimento do problema da liberdade humana. O esforço para alcançar a independência significa, em grande medida, a renúncia a muito do que o Homem recebeu da tyche como dom.”

Este primeiro grande monólogo da literatura grega surge da transferência da exortação a outra pessoa, tal como era de uso no iambo e na elegia, para a própria pessoa daquele que fala e que assim se desdobra e é, por um lado, orador, e, por outro, espírito que pensa e quer.”

Não te deves pavonear perante o mundo, quando venceres, nem abater-te e lamentar-te quando fores vencido; alegra-te com o que é digno de alegria, não desfaleças em excesso; na desgraça, conhece o ritmo que mantém os homens nos seus limites.”

A aplicação da palavra ao movimento da dança e à música, da qual deriva a nossa palavra, é secundária e esconde o seu significado fundamental. Antes de mais nada, devemos perguntar como é que os gregos entenderam a essência da dança e da música.”

Ritmo é aqui o que impõe firmeza e limites ao movimento e ao fluxo. (…) Também Demócrito fala do ritmo do átomo no primitivo e autêntico sentido e por ele entende não o movimento do átomo, mas sim, como já Aristóteles corretamente interpretou, o seu <esquema>. (…) É evidente que, quando os gregos falam do ritmo de um edifício ou de uma estátua, não se trata da transposição metafórica da linguagem musical. E a intuição originária que se encontra no âmago da descoberta grega do ritmo da dança e da música não se refere à fluência destas, mas sim, pelo contrário, as suas pausas e à constante limitação do movimento.”

Revela-se uma auto-submissão às próprias limitações, consciente e livre da autoridade da mera tradição. O pensamento humano torna-se dono de si próprio e, assim como aspira a submeter a vida da polis a leis universalmente válidas, também penetra, para além destes limites, na esfera da interioridade humana e também coloca balizas no caos das paixões. Nos séculos seguintes, o palco desta luta é a poesia, dado que a filosofia só mais tarde, e em segundo plano, nela toma parte.”

A poesia da nova época nasce da necessidade, experimentada pelo indivíduo livre, de separar progressivamente o humano do conteúdo mítico da epopéia, na qual se havia exprimido até então.”

Seres de um só dia, como os animais no prado, vivemos ignorantes do modo que a divindade usará para levar cada coisa a seu fim. Vivemos todos da esperança e da ilusão; os seus desígnios, porém, nos são inacessíveis. …”

Semônides, frag. 1

Enquanto dura a flor dos anos, os mortais andam de coração leve e traçam mil planos irrealizáveis. Ninguém pensa na velhice ou na morte. E, enquanto têm saúde, não curam da enfermidade. Insensatos os que assim pensam e não sabem que para os mortais é breve o tempo da juventude e da existência. Aprende tu isto e, meditando no fim da vida, deixa a tua alma gozar um pouco de prazer. A juventude surge aqui como fonte de todas as ilusões exageradas e de todos os empreendimentos desmedidos, porque não tem presente a sabedoria de Homero, que recorda a brevidade da vida. Singular e nova é a conseqüência tirada desta afirmação pelo poeta: a exortação a gozar os prazeres da vida enquanto é tempo. Isto não se encontra em Homero.”

Foi na Jônia que pela 1ª vez surgiu uma poesia hedonista”

O que em Arquíloco age mais como o extravasamento acidental de uma natureza forte e de um sentimento pessoal e passageiro torna-se, para os seus sucessores, a sabedoria total da vida e traduz-se em exigência universal, no ideal de uma vida que desejam partilhada por todos os homens. Sem a loira Afrodite não há vida nem prazer! Preferia estar morto – proclama Mimnermose tivesse de não mais gozar dela. Nada haveria de mais errôneo do que imaginar um poeta como Mimnermo um sensual voluptuoso e decadente. De Semônides não conhecemos o bastante para formarmos uma idéia cabal da sua personalidade. Alguns poemas de Mimnermo possuem um tom político e guerreiro e atestam pelos seus versos homéricos, tensos e vigorosos, uma consciência e tradição cavaleiresca.”

Do ponto de vista histórico, a poesia hedonista é um dos momentos críticos mais importantes da evolução grega. Só é preciso lembrar que o pensamento grego colocava sempre o problema do indivíduo, na ética e na estrutura do Estado, como um conflito no predomínio do prazer e da nobreza. Na sofística revela-se abertamente o conflito entre estes dois impulsos de toda a ação humana, e a filosofia de Platão culmina com a vitória sobre a aspiração do prazer a tornar-se o mais alto bem da vida humana.”

para que se chegasse, por fim, a uma fórmula harmônica tal como oferece o ideal da personalidade humana proposto por Aristóteles, foi preciso que a busca da alegria plena de viver e do gozo do prazer achasse uma afirmação resoluta e fundamental em face da exigência da nobreza, mantida pela epopéia e pela antiga elegia.”

não se pode esquecer que Arquíloco é um precursor da lírica eólica, embora os seus poemas, inclusive os de ódio, em que se manifesta com paixão a sua subjetividade, se orientem ainda por normas universais da sensibilidade moral. A lírica eólica, principalmente em Safo, chega muito mais longe e converte-se em pura expressão do sentimento.”

a conexão viva das canções de Alceu dedicadas à bebida com os banquetes masculinos, e das canções nupciais e amorosas de Safo com os círculos musicais das jovens companheiras que se agrupam em redor da poetisa”

Reflexões piedosas, serenas ou resignadas sobre o curso do mundo e o destino enlaçam-se de forma totalmente nova com uma filosofia de bebedores que sepulta todas as agruras da vida pessoal na embriaguez dionisíaca. Assim, o tom individual desta lírica não é incompatível com a convivência da sociedade dos homens, embora se vá estreitando o círculo das pessoas ante as quais se pode manifestar a personalidade individual.”

Na prece, o Homem encontra-se também na atitude original, na sua nua solidão pessoal, perante o Ser. Ao dirigir-se à força divina como a um tu invisível mas presente, o suplicante converte-se ainda mais em órgão de expressão dos seus próprios sentimentos e emoções, e expande-se, liberto de qualquer testemunha humana. Em parte alguma isto se manifesta de maneira tão bela como em Safo. § Tudo se passa como se o espírito grego precisasse de Safo para dar o último passo no mundo da intimidade do sentimento subjetivo. Os gregos deviam ter sentido isto como algo de muito grande quando, no dizer de Platão, honraram Safo como a décima musa. A poesia feminina não é insólita na Grécia. Mas nenhuma colega na arte chegou à altura de Safo. Esta é singular. Comparada, porém, com a riqueza da poesia de Alceu, a lírica de Safo é muito limitada. Está circunscrita ao mundo das mulheres que a rodeiam, e ainda assim sob o ponto de vista da vida em comum entre a poetisa e o círculo das suas donzelas. A mulher como mãe, amante, ou esposa, que aparece na poesia grega com a maior freqüência e é celebrada pelos poetas de todos os tempos, dado que é com essa imagem que vive na poesia do homem, não aparece na poesia de Safo senão fortuitamente, por motivo do ingresso ou da saída de alguma das donzelas do seu círculo. Não é objeto de inspiração poética para Safo. A mulher entra no seu círculo como a garotinha que acaba de deixar o seio materno. Sob a proteção de uma mulher solteira, cuja vida está votada, como a de uma sacerdotisa, ao serviço das musas, recebe a consagração da beleza, por meio de danças, cânticos e jogos.”

Entre a casa paterna e a vida matrimonial situa-se uma espécie de mundo ideal intermediário que só podemos conceber como uma educação da mulher de acordo com a mais alta nobreza da alma feminina. A existência do círculo de Safo pressupõe a concepção educativa da poesia, evidente para os gregos desse tempo.”

Salta aos olhos desprevenidos o paralelo entre o eros platônico e o eros sáfico. § Esse eros feminino, cujas flores poéticas nos encantam pela delicadeza do seu aroma e pelo esmalte das suas cores, teve força suficiente para fundar uma verdadeira comunidade humana. (…) Existia na charis sensual dos jogos e danças e encarnava na grandeza da forma que estava presente como modelo na comunidade das companheiras. A lírica sáfica atinge os seus momentos culminantes na solicitação quente ao coração agreste e ainda não aberto de uma donzela”

Agora interessa-nos aqui muito menos a verificação da existência de um aspecto sensual na erótica sáfica do que a plenitude de sentimento que abala poderosamente a totalidade da alma humana. A poesia de amor masculina nunca atingiu na Grécia a profundidade espiritual da lírica de Safo. Só mais tarde a polaridade do espiritual e do sensual ganhou real importância na vida erótica, até penetrar profundamente na alma e preencher a vida inteira. § Esta transformação da sensibilidade masculina foi considerada uma efeminação helenística. Em todo o caso, nos primeiros tempos só a mulher era capaz daquela entrega total da alma e dos sentidos, único sentimento que, para nós, merece a designação de amor. (…) Naquele tempo, ainda estranho ao conceito de matrimônio por amor, era difícil surgir na mulher o amor pelo homem. Do mesmo modo, foi apenas na forma do eros platônico que o amor do homem, na sua mais elevada espiritualização, conseguiu em relação à mulher a sua expressão poética. Seria anacronismo interpretar o amor de Safo, sempre ligado à sensibilidade sensual, como o equivalente do anseio metafísico da alma platônica pela Idéia, que é o segredo do seu eros. No entanto, (…) É daqui que deriva a grande dor que dá à poesia de Safo não só o terno encanto da melancolia, mas ainda a elevada nobreza da verdadeira tragédia humana.

A lenda, que cedo se apoderou da sua figura, explicou o mistério que envolve a sua pessoa e a sua vida sentimental por meio da história de um amor infeliz por um belo homem de nome Fáon, e pintou a sua tragédia no dramático salto dos rochedos de Lêucade abaixo. Mas o homem está completamente ausente do seu mundo. Aparece, quando muito, à margem desse mundo, como pretendente de uma das suas queridas pequenas, e é olhado com indiferença.”

Basta-me ver-te e ficam mudos os meus lábios, ata-se a minha língua, um fogo sutil corre sob a minha pele, tudo escurece ante o meu olhar, zunem-me os ouvidos, escorre por mim o suor, acometem-me tremores e fico mais pálida que a palha; dir-se-ia que estou morta.”

Onde encontraremos na arte ocidental algo que, antes de Goethe, se compare a ela?”

Alguns dizem que o que há de mais belo na Terra é um esquadrão de cavalaria; outros, um exército de guerreiros apeados; outros ainda, uma esquadra de navios; mas o mais belo é ser amado por quem o coração suspira.”

1.7 Sólon: começo da formação política de Atenas

A pujança ática só atingiu o apogeu um século depois, com a tragédia de Ésquilo.”

Imaginemos que se tivessem perdido todos os vestígios dos poemas de Sólon. Sem eles não estaríamos em condições de compreender o que há de mais grandioso e memorável na poesia ática contemporânea da tragédia e nem a vida espiritual inteira de Atenas – a perfeita interpenetração de toda a produção espiritual grega com a idéia do Estado.”

A SÍNTESE ESPARTA-JÔNIA-ATENAS: “Em Esparta faltava o traço de união entre a força educadora implícita na nova ordem jurídica que regia a vida política e a liberdade sem rédeas dos poetas jônicos, no pensamento e na palavra. A cultura ática foi a primeira a equilibrar as duas forças”

Os monumentos clássicos da cultura política grega, de Sólon até Platão, Tucídides e Demóstenes, são, na sua totalidade, criação dos filhos da Ática.”

O primeiro passo para a edificação do direito do sangue, as proverbiais <leis draconianas>, significou mais uma consolidação das relações recebidas que um rompimento com a tradição. Tampouco as leis de Sólon queriam suprimir o domínio dos nobres como tal. Foi a reforma de Clístenes, após a queda da tirania dos Pisistrátidas, que acabou violentamente com ele.”

Os conceituados proprietários apreciadores de cavalos, que nos vasos arcaicos vemos pintados, conduzindo os seus carros velozes por ocasião de uma festa ou, mais freqüentemente, para assistirem ao funeral de algum companheiro, opunham-se aos servos que trabalhavam no campo como massa compacta. O mais egoísta espírito de casta e a distância altaneira dos superiores e terratenentes em face das classes inferiores opunham uma barreira inamovível às exigências da população, cuja situação desesperada Sólon descreve comovido, no seu grande iambo.”

A proibição, por Sólon, do fausto asiático e das lamentações das mulheres, em uso até então nas cerimônias fúnebres dos senhores mais importantes, foi uma concessão ao sentimento popular.”

No que se refere ao tempo de Sólon, a deusa sentada do museu de Berlim é a representação perfeita da altivez feminina nesta antiga aristocracia ática.” Talvez se refira a esta escultura de Perséfone:

Sem o estímulo do Oriente jônico, seria inconcebível principalmente o movimento político nascido da massa economicamente fraca com a figura de Sólon, seu chefe proeminente, em que se interpenetram inseparavelmente o ático e o jônico.” “A sua linhagem poética é o jônico mesclado de formas áticas, pois, naquele tempo, o ático ainda não estava apto a ser empregado na alta poesia.”

A Eunomia é, como Dike, uma divindade – Hesíodo dá-lhe o nome de irmãs na Teogonia – e tem também uma ação imanente.” “Convém recordar que na Jônia Tales e Anaximandro, filósofos da natureza milesianos, ensaiavam por essa época as primeiras passadas na ousada senda do conhecimento de uma lei estável do devir eterno da natureza.”

A tirania, i.e., o domínio exercido sobre a aristocracia restante por uma estirpe nobre e o seu chefe, apoiados na massa popular, era o perigo mais temível que Sólon podia pintar aos olhos da sociedade ática dos eupátridas (…) É altamente significativo que ele nos fale do perigo da democracia. Por imaturidade das multidões, esse perigo era longínquo ainda.” “é característico da natureza humana que, apesar desta intuição, Atenas se tenha visto igualmente forçada a passar pela regência dos tiranos.”

Se foi por debilidade vossa que haveis sofrido o mal, não lanceis sobre os deuses o peso da culpa. Fostes vós próprios que permitistes a esta gente que se engrandecesse, dando-lhe a força e caindo por isso em vergonhosa servidão.”

Sólon, frag. 8

Moira torna fundamentalmente inseguros todos os esforços humanos, por mais sérios e coerentes que pareçam, e não há previsão que possa evitar esta Moira, como era evitada a desgraça proveniente da culpa pessoal, na primeira parte do poema. Atinge os bons e os maus, sem distinção. É totalmente irracional a relação entre o nosso esforço e o nosso êxito.” “A insegurança do êxito dos melhores esforços não acarreta a resignação nem a renúncia ao próprio esforço.”

A interpretação da divina Moira como força de equilíbrio necessária nas inevitáveis diferenças econômicas entre os homens prescreve uma linha de conduta a sua ação política.”

Jamais um estadista se elevou tão acima da mera vontade de poder como Sólon, que deixou o país e partiu em longa viagem, assim que deu por finda a sua obra legislativa. Não se cansa de salientar que não aproveitou a sua situação para enriquecer ou tornar-se um tirano, como em seu lugar teria feito a maioria, e preza-se de ser alcunhado de néscio por não ter aproveitado a ocasião.”

Semônides ensinou ser a vida tão breve e tão fértil em dores e canseiras que não devemos chorar um defunto por mais que um dia após a morte.”

Não há homem feliz. Todos os mortais debaixo do sol estão mergulhados em canseiras.”

Sólon, frag. 5

À massa basta submeter-se às leis que lhe são impostas. Mas aquele que as impõe precisa ter uma alta medida, que não se encontra afixada em parte alguma.”

Pela sua união do Estado e do espírito, da comunidade e do indivíduo, Sólon é realmente o primeiro ateniense.”

1.8 O pensamento filosófico e a descoberta do cosmos

Os <pré-socráticos> constituíram, desde Aristóteles, o problema histórico e o fundamento sistemático da filosofia ática clássica, i.e., o platonismo.”

A sofística é um acontecimento de tipo educativo, no sentido mais próprio. Só uma história da educação pode dar-lhe o verdadeiro valor. Em geral, o conteúdo teórico da sua doutrina é escasso.”

A filosofia jônica da natureza sucede a epopéia sem solução de continuidade.” “Não é fácil definir se a idéia dos poemas homéricos, segundo a qual o Oceano é a origem de todas as coisas, difere da concepção de Tales, que considera a água o princípio original do mundo; seja como for, é evidente que a representação do mar inesgotável colaborou para a sua expressão.”

Mitogonia autêntica ainda encontramos na filosofia de Platão e na de Aristóteles. São exemplos o mito da alma em Platão e, em Aristóteles, o amor das coisas pelo motor imóvel do mundo.”

Se representarmos o mundo por uma série de círculos concêntricos, a partir da exterioridade da periferia para a interioridade do centro, veremos que o processo pelo qual o pensamento racional toma posse do mundo se realiza na forma de uma penetração progressiva que vai das esferas exteriores para as mais profundas e interiores, até chegar, com Sócrates e Platão, ao centro, quer dizer, à alma. A partir deste ponto, realiza-se, no neoplatonismo, um movimento inverso até o fim da filosofia antiga.”

Se juntarmos à filosofia da natureza tudo o que a poesia jônica a partir de Arquíloco e a poesia de Sólon trouxeram ao pensamento construtivo no campo religioso e ético-político, ficará evidente que nos basta quebrar os limites que separam a prosa da poesia para obtermos uma imagem completa da evolução do pensamento filosófico, na qual também está compreendido o reino humano.”

O problema do Homem não foi encarado pelos gregos, a princípio, do ponto de vista teórico. Mais tarde, no estudo dos problemas do mundo externo e particularmente da Medicina e da Matemática, é que se descobriram intuições do tipo de uma techne exata, que serviram de modelo para a investigação do homem interior. Recordemos as palavras de Hegel: o rodeio é o caminho do espírito.”

O que logo se evidencia na figura humana destes primeiros filósofos – que, naturalmente, não deram a si próprios este nome platônico – é a sua típica atitude espiritual: devotamento incondicional ao conhecimento, estudo e aprofundamento do ser, em si mesmo. (…) A tranqüila indiferença daqueles investigadores pelas coisas que aos demais homens pareciam importantes, como o dinheiro, as honras e até o lar e a família, a sua aparente cegueira com relação aos seus próprios interesses e a sua indiferença perante as emoções da praça pública deram origem às conhecidas anedotas sobre a atitude espiritual daqueles pensadores. Recolhidas principalmente pela Academia platônica e pela escola peripatética, foram propostas como exemplo e modelo do BIOS POLITIKOS, considerado por Platão como a autêntica práxis dos filósofos.”

WHY THE SKY? “O sábio Tales, absorto na contemplação de um fenômeno celeste qualquer, cai dentro de um poço, e a sua criada trácia faz pouco dele, por querer saber as coisas do céu e não ver o que está sob os seus pés. Pitágoras, quando lhe perguntam para quê vive, responde: para contemplar o céu e as estrelas. Anaxágoras, acusado de não se interessar pela família nem pela pátria, aponta com a mão o céu e diz: eis a minha pátria. É comum a todos aquele incompreensível devotamento ao conhecimento do cosmos, à <meteorologia>, como então se dizia num sentido mais vasto e mais profundo, i.e., a ciência das coisas do alto. A conduta e as aspirações dos filósofos são desmedidas e extravagantes, no sentido do povo, e é crença popular dos gregos que aqueles homens sutis e sonhadores são infelizes (…) [Este sentimento] refere-se evidentemente à hybris, pois o pensador ultrapassa os limites impostos ao espírito humano pela inveja dos deuses.

Existências deste tipo, audaciosas e solitárias, só na Jônia, numa atmosfera da maior liberdade pessoal, podiam desabrochar. Esta gente insólita era, ali, deixada em paz, quando em qualquer outro local teria suscitado escândalo e enfrentado toda a espécie de dificuldades. Na Jônia, homens da classe de Tales de Mileto cedo ganhavam popularidade, eram transmitidas com interesse as suas sentenças e afirmações e contavam-se anedotas a seu respeito.”

Pelo que sabemos, foi Anaximandro o primeiro que teve a coragem de escrever em prosa as suas idéias e de difundi-las, tal como o legislador escrevia as suas tábuas. O filósofo elimina com isso a intimidade do seu pensamento”

Hecateu de Mileto começa o seu tratado genealógico com estas palavras ingênuas: Diz Hecateu de Mileto: variados e ridículos são os discursos dos gregos; eu, porém, Hecateu, digo o seguinte.

Só é verdade o que <eu> posso explicar por razões concludentes, aquilo que o <meu> pensamento consegue justificar perante si próprio. Toda a literatura jônica, desde Hecateu e Heródoto, criador da Geografia e da Etnologia e pai da História, até os médicos, em cujos escritos se encontram os fundamentos da ciência médica durante vários séculos, está impregnada deste espírito e usa nas suas críticas aquela forma pessoal característica.”

No conceito grego de physis estavam, inseparáveis, as duas coisas: o problema da origem – que obriga o pensamento a ultrapassar os limites do que é dado na experiência sensorial – e a compreensão, por meio da investigação empírica, do que deriva daquela origem e existe atualmente.”

A conexão do nascimento da filosofia naturalista com Mileto, a metrópole da cultura jônica, torna-se clara, se notamos que os seus 3 primeiros pensadores – Tales, Anaximandro e Anaxímenes – viveram no tempo da destruição de Mileto pelos persas (início do séc. V).”

Tomaremos o exemplo de Anaximandro, a figura mais imponente dos físicos milesianos, para elucidarmos o espírito daquela filosofia arcaica. É ele o único de cuja concepção de mundo podemos obter uma representação exata. Nele se revela a prodigiosa amplitude do pensamento jônico. Foi ele quem primeiro criou uma imagem do mundo de verdadeira profundidade metafísica e rigorosa unidade arquitetônica. Foi ele também o criador do primeiro mapa da Terra e da geografia científica.” “O mundo de Anaximandro é construído segundo rigorosas proporções matemáticas. O disco terrestre da concepção homérica não passa de uma representação ilusória. Na realidade o caminho diário do Sol do Oriente para o Ocidente passa por baixo da Terra, de modo a reaparecer no Oriente, no seu ponto de partida. O mundo não é, assim, uma meia-esfera, mas uma esfera completa, em cujo centro se situa a Terra.”

E o diâmetro da Terra tem 3 vezes a sua altura, pois a Terra tem a forma de um cilindro achatado. Não se apóia numa base sólida nem cresce para o ar, como uma árvore, a partir de raízes invisíveis e profundas.(*) Está suspensa no espaço do mundo.

(*) Na cosmogonia órfica de FERECIDES, que em parte se liga às concepções míticas mais antigas, fala-se de um <carvalho alado>. Combina a doutrina de Anaximandro da livre suspensão com a representação da árvore que tem as raízes do infinito. PARMÊNIDES (frag. 15a) diz que a Terra <está enraizada na água>.”

não tenho qualquer escrúpulo em fazer retroceder até Anaximandro o germe dos esquemas cartográficos que Heródoto, Scylax e outros autores atribuem a Hecateu. A superfície da Terra divide-se em 2 partes aproximadamente iguais: a Europa e a Ásia. Aparece em separado um trecho da última: a Líbia. Rios caudalosos constituem as fronteiras. A Europa e a Líbia são divididas em 2 partes iguais, a primeira pelo Danúbio e a segunda pelo Nilo.” “o Oceano, nunca visto por olhos humanos, pelo menos a leste e ao norte.”

aquela grande máxima, a única de Anaximandro que nos foi diretamente transmitida: Onde estiver a origem do que é aí também deve estar o seu fim, segundo o decreto do destino. Porque as coisas têm de pagar umas às outras castigo e pena, conforme a sentença do tempo.

Muito se escreveu sobre esta frase, desde Nietzsche até Erwin Rhode, e várias interpretações místicas foram tentadas.”

A idéia de Sólon é esta: a dike não depende dos decretos da justiça terrena e humana nem resulta da simples intervenção externa de um decreto da justiça divina, como sucedia na antiga religião de Hesíodo. É imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das desigualdades. Portanto, a sua inexorabilidade é o <castigo de Zeus>, a <paga dos deuses>. Anaximandro vai muito além. Essa compensação eterna não se realiza só na vida humana, mas também no mundo inteiro, na totalidade dos seres.” “Temos, portanto, o direito de caracterizar a concepção do mundo de Anaximandro como a íntima descoberta do cosmos. Esta descoberta não se podia fazer senão no fundo da alma humana. Nada se teria podido fazer com telescópios, observatórios ou qualquer outro tipo de investigação empírica. Foi da mesma faculdade intuitiva que brotou a idéia de infinidade dos mundos, atribuída a Anaximandro pela tradição.”

o Prometeu de Ésquilo chama a descoberta do número de obra-prima da sabedoria criadora da cultura.”

Assim, como freqüentemente sucede, deparamos com um conhecimento perene e infinitamente fecundo unido a uma aplicação prática equivocada. Esta audaciosa supervalorização aparece em todos os grandes momentos do pensamento racional.”

Só o conhecimento da essência da harmonia e do ritmo que dela brota já seria suficiente para garantir aos gregos a imortalidade na história da educação humana. É quase ilimitada a possibilidade de aplicação daquele conhecimento a todas as esferas da vida.”

A harmonia exprime a relação das partes com o todo. Está nela implícito o conceito matemático de proporção que o pensamento grego se figura em forma geométrica e intuitiva. A harmonia do mundo é um conceito complexo em que estão compreendidas a representação da bela combinação dos sons no sentido musical e a do rigor dos números, a regularidade geométrica e a articulação tectônica. É incalculável a influência da idéia de harmonia em todos os aspectos da vida grega dos tempos subseqüentes. Abrange a arquitetura, a poesia e a retórica, a religião e a ética.”

É para a história das religiões um mistério a estreita vizinhança que no culto délfico une Apolo e Dionisos. (…) Nenhum outro deus intervém tão profundamente na conduta pessoal. É provável que o espírito de limitação, ordem a clareza de Apolo nunca tivesse abalado tão profundamente a alma humana, se a funda e excitante comoção dionisíaca não houvesse previamente preparado o terreno, arredando toda a eukosmia burguesa. A religião délfica penetrou então de modo tão vivo e tão íntimo, que demonstrou ser apta a conduzir e colocar a seu serviço todas as forças construtivas da nação. Os <sete sábios>, os reis mais poderosos e os tiranos do séc. VI reconheceram naquele deus profético a suprema instância do conselho justo. No séc. V, Píndaro e Heródoto estavam profundamente imbuídos do espírito délfico e são os seus testemunhos mais notáveis.”

O sentido da sophrosyne grega seria mal-compreendido se interpretado como expressão de uma natureza inata, de uma índole harmônica e jamais perturbada. Para compreendê-la, basta perguntar por que foi justamente naquele tempo que ela irrompeu de forma tão imperativa, de modo a penetrar subitamente, nas profundezas mais inesperadas da existência e, principalmente, da intimidade humana. (…) A maior ofensa aos deuses é <não pensar humanamente> e aspirar à elevação exclusiva. A idéia da hybris, originariamente concebida de modo perfeitamente concreto na sua oposição à dike e limitada à esfera terrena do direito, cedo se estende à esfera religiosa. Compreende agora a pleonexia do Homem em face da divindade.” “A felicidade dos mortais é mutável como os dias. O Homem não deve, portanto, aspirar ao que está alto demais.” “O sóbrio relancear do espírito de investigação pela profundidade da natureza oferece ao Homem o espetáculo da geração e da corrupção incessantes, governado por uma legalidade universal indiferente ao Homem e ao seu insignificante destino, e que transcende com a sua férrea <justiça> a nossa breve felicidade.”

A fantasia dos simples pinta a imagem de uma vida futura no além, como uma vida de gozos sensíveis; o espírito dos nobres luta pela própria afirmação no meio da voragem do mundo, com a esperança de uma redenção pela consumação do seu caminho. Ambos, porém, coincidem na certeza do seu destino superior.”

Também eu sou da raça dos deuses. (DIELS, Vorsokratiker [5ª ed.] I, 15 [ORFEU, frags. 17-ss.]) Estas palavras estão gravadas, como passaporte para a viagem para o outro mundo, nas pequenas tábuas órficas de ouro, achadas nos sepulcros do sul da Itália. § O conceito órfico da alma representa um passo essencial no desenvolvimento da consciência pessoal humana. Sem ele seria impensável a concepção platônica e aristotélica da divindade do espírito e a distinção entre o Homem meramente sensível e o seu próprio eu, que constitui sua vocação plena.” “Empédocles exalta Pitágoras no seu poema órfico, Purificação. Interpenetram-se em Empédocles as crenças órficas da alma e a filosofia jônica da natureza.”

Assim sou eu, como um exilado de Deus, que vagueia daqui para ali”

Empédocles, frag. 115, 13

Com Xenófanes de Cólofon, o segundo dos grandes emigrados jônicos que estabeleceram o seu campo de ação no ocidente do mundo helênico, deixamos a linha dos pensadores rigorosos.” “Xenófanes é um poeta. Com ele, o espírito filosófico apoderou-se da poesia. Isto é sinal inequívoco de que o espírito filosófico começa a tornar-se uma força educativa, pois a poesia continua a ser como sempre a expressão autêntica da formação nacional.” “A nova prosa jônica só gradualmente alarga o seu campo e, por estar expressa num dialeto limitado a um círculo reduzido, nunca adquire a ressonância da poesia, que se serve da linguagem de Homero e é, por conseguinte, pan-helênica.”

Até um pensador abstrato e rigoroso como Parmênides, ou um filósofo da natureza como Empédocles, adotam a forma hesiódica da poesia didática. Talvez tenham sido incitados a fazê-lo pelo exemplo de Xenófanes que, embora não tenha sido um verdadeiro pensador nem tenha escrito nunca um poema didático sobre a natureza, como se disse freqüentemente, foi um dos iniciadores da exposição poética da doutrina filosófica. (*) (…) K. REINHARDT, no seu Parmênides (Bonn, 1916), refuta a opinião corrente¹ segundo a qual Xenófanes é o fundador do eleatismo. Todavia, não me parece ter razão ao considerá-lo como discípulo de Parmênides.” Neste ponto, me auto-re-remeto às instrutivas “leituras CAPES” (projeto ou ciclo OUSIA) (Ver no Seclusão)

¹ Hegelianismo!

Além dos seus poemas filosóficos, Xenófanes escreveu ainda um poema épico, A fundação de Cólofon, e A fundação da Colônia de Eléia.¹ Este homem inquieto, que aos 92 anos escreve um poema em que contempla uma vida de 67 anos [segundo seu Fragmento 7] de incansáveis peregrinações, iniciada provavelmente com as emigrações de Cólofon para a Itália meridional, erige, com o primeiro, um monumento a sua antiga pátria. Talvez tenha pessoalmente tomado parte na fundação de Eléia. Contudo, nestes poemas aparentemente impessoais, o sentimento pessoal toma uma parte muito maior do que era hábito. (…) foi considerado como um rapsodo que na praça pública recitava Homero, e em círculos reduzidos dirigia as suas sátiras contra Homero e Hesíodo. Isto não combina com a unidade da sua personalidade,² que imprime um caráter inequívoco a todas as palavras que dele se conservaram. Apóia-se numa má interpretação da tradição.”

¹ Infelizmente obras quase que integralmente perdidas.

² Não teria sido seu ganha-pão? Normalmente o grande homem precisa se contradizer para sobreviver…

Ordena ao poema que cale as vergonhosas dissensões dos deuses e as lutas dos titãs, gigantes e centauros, invenções dos tempos idos, que nos banquetes os cantores gostam de celebrar.” Velho rabugento!

Comia à mesa dos ricos e das personalidades eminentes, como mostra a anedota da sua engenhosa conversa com o tirano Hierão de Siracusa. Mas nunca encontrou naquele ambiente nem a estima inteligente nem a elevada consideração social que obteve na sua própria pátria jônica: permaneceu só.” Nisso ele foi bem filosofal!

Em parte alguma da história da cultura grega vemos de modo tão claro o choque violento e inevitável entre a velha cultura aristocrática e os homens da nova filosofia, que pela primeira vez aqui lutam por conquistar um lugar na sociedade e no Estado” “O subseqüente desenvolvimento da história dá razão à segurança do seu gesto. Destruíram o domínio absoluto do ideal agonístico. Já não é possível a Xenófanes ver, como Píndaro, a revelação da divina arete do vencedor em cada vitória olímpica, na palestra ou no pugilismo, nas corridas a pé ou a cavalo.”

O conceito de arete alcança, com esta fase, o tempo da sua evolução: coragem [Aquiles], prudência [Ulisses/Odisseu], justiça [Atena(s)] e, por fim, sabedoria [os superdotados] – tais são as qualidades que ainda para Platão formam o conteúdo da arete cívica. (…) Deu-se o passo que leva da mera intuição da verdade à crítica e condução da vida humana.” “Com armas pedidas a Xenófanes, ainda Eurípides ataca o tradicional apreço dos gregos pelo atletismo, e a crítica de Platão ao valor educativo dos mitos homéricos segue a mesma linha. (…) Na antiga filosofia da natureza, são outras as forças que imperam: a fantasia dirigida e controlado pelo intelecto, que, de acordo com o eminente sentido plástico e arquitetônico dos gregos, procura articular e ordenar o mundo sensível, e pelo pensamento simbólico, que interpreta a partir da vida humana a existência não-humana.” “As proposições de Parmênides constituem um encadeamento rigorosamente lógico, impregnado da consciência da força construtiva da conseqüência das idéias.” “A força com que Parmênides expõe aos ouvintes as suas doutrinas fundamentais não deriva de uma convicção dogmática, mas da vitória da necessidade do pensamento. O conhecimento é também uma absoluta ananke para Parmênides, que ainda o denomina dike ou moira, evidentemente por influência de Anaximandro.” “A Dike de Parmênides (…) é a necessidade implícita no conceito do Ser (…) Nas frases insistentemente repetidas <o Ser é, o não-Ser não é; e: o que é não pode não-ser>, Parmênides exprime a necessidade do pensamento da qual deriva a impossibilidade de realizar no conhecimento a contradição lógica.” “Parmênides é o primeiro pensador que levanta conscientemente o problema do método científico e o primeiro que distingue com clareza os dois caminhos principais que a filosofia posterior há de seguir: a percepção e o pensamento.”

Heráclito de Éfeso realiza a revolução mais completa. A história da Filosofia considerou-o por longo tempo um filósofo da natureza e colocou o seu princípio originário, o fogo, na mesma linha da água de Tales e do ar de Anaximandro. O vigor significativo das misteriosas proposições do <Obscuro>, freqüentemente expressas em forma de aforismos, já devia ter evitado aos historiadores a confusão deste temperamento duramente recalcado com o de um investigador consagrado unicamente à fundamentação dos fatos.”

O logos de Heráclito não é o pensamento conceitual de Parmênides, cuja lógica puramente analítica exclui a representação figurada de uma intimidade espiritual sem limites.” Será assim mesmo? Minha impressão é a de que foram mais lentos ainda para compreender Parmênides do que Heráclito!

O ethos é o daimon do Homem.”

Os homens, é certo, vivem como se cada um tivesse a sua razão particular.”

Tal como a polis, também o universo inteiro tem a sua lei. É a primeira vez que aparece esta idéia tipicamente grega. (…) O logos de Heráclito é o espírito, enquanto órgão do sentido do cosmos.”

A dike só aparece na luta. A nova idéia pitagórica da harmonia serve agora para dar sentido ao ponto de vista de Anaximandro. Só se une o que se opõe; é da diferença que brota a mais bela harmonia. (…) Toda a natureza está repleta de violentos contrastes: o dia e a noite, o verão e o inverno, o calor e o frio, a guerra e a paz, a vida e a morte sucedem-se em eterna mudança. (…) É um eterno caminho, ascendente e descendente. É mudando que repousa. A vida e a morte, a vigília e o sono, a mocidade e a velhice são, no fundo, uma e a mesma coisa. Uma transforma-se na outra, e esta volta a ser o que era primeiro.

O arco e a lira são o símbolo de Heráclito para a harmonia dos contrários no cosmos. Executam ambos a sua obra, pela sua ação tensa, recíproca e oposta. Ao vocabulário filosófico faltava ainda o conceito genérico de tensão. (…) Só no nosso tempo foi apreciada no seu justo valor.” “A doutrina de Heráclito surge como a primeira antropologia filosófica, em face dos filósofos primitivos.”

O Uno, que é o único sábio e prudente, quer e não quer ser chamado Zeus. O sentimento político dos gregos desse tempo inclina-se a pensar como tirânico o governo de um só.” “A antiga filosofia da natureza não tinha formulado expressamente o problema religioso. A sua concepção do mundo oferecia uma visão do Ser separado do humano. A religião órfica preenchia este vazio e sustentava a crença no caráter divino da alma, em meio ao turbilhão destruidor do devir universal onde a filosofia da natureza parecia precipitar o Homem. Mas a filosofia da natureza, no seu conceito de cosmos dominado pela Dike, oferecia um ponto de cristalização à consciência religiosa. Foi nele que Heráclito inseriu a sua interpretação do Homem (…) Foi pelo conceito heracliteano de alma que a religião órfica se ergueu a um estágio mais alto. Pelo seu parentesco com o <fogo eternamente vivo> do cosmos, a alma filosófica é capaz de conhecer a divina sabedoria e de nela se manter. Assim, a oposição entre o pensamento cosmológico e o pensamento religioso do séc. VI aparece superada e unificada na síntese de Heráclito – que vive já no umbral da centúria seguinte.”

1.9 Luta e transformação da nobreza

Embora Píndaro pertença à lírica coral e Teógnis à poesia gnômica, do ponto de vista da história da educação formam uma unidade. Neles encarna o despertar da consciência aristocrática o sentimento superior da sua particular vocação e proeminência” “Este ethos consciente e educador é característico, não apenas de Hesíodo, Tirteu e Sólon, mas também de Píndaro e Teógnis, e opõe-se à ingênua espontaneidade com que, entre os jônios, irrompe o espírito em todas as suas formas.”

A longa duração do domínio dos nobres e da cultura aristocrática – manancial da mais alta vontade educadora da nação – em terras da metrópole pode ter contribuído de modo essencial a que nada de novo pudesse prosperar nela, sem que lhe fosse oposta a tradição, como ideal definido de uma forma perfeita do humano.”

Píndaro e Teógnis lutam por um mundo agonizante. Os seus poemas não produzem um renascimento da nobreza na ordem política exterior, mas sim a perenidade dos seus ideais, no momento em que as novas forças do tempo os punham em maior risco, e a incorporação do seu vigor social e construtivo ao patrimônio da nação helênica. § Se hoje possuímos uma imagem da vida e condições sociais da nobreza nos sécs. VI e V, é só à poesia que o devemos. (…) É até disso perdemos muito. (…) A descoberta da lírica coral de Baquílides, quase desconhecida até agora, mostra apenas que, para o nosso objetivo, não precisamos sair de Píndaro. Começaremos por Teógnis, porque é, provavelmente, o mais antigo dos dois. Oferece, além disso, a vantagem de nos revelar as difíceis condições sociais em que se debatia a nobreza de então – elas aparecem em primeiro plano nos poemas de Teógnis –, enquanto Píndaro nos mostra antes a cultura aristocrática quanto as suas convicções religiosas e aos seus mais altos ideais de perfeição humana.”

Por mais interessantes que em si mesmos sejam estes temas filológicos, não os trataria com tanto detalhe, se a tradição que nos revela o poeta não nos fizesse, ao mesmo tempo, penetrar tão profundamente naqueles fragmentos da educação grega, tão intimamente ligados ao influxo posterior de Teógnis. § A coleção que, por puro acaso, nos foi transmitida sob o nome de Teógnis devia já existir no séc. IV (…) A pesquisa recente dedicou uma quantidade apreciável de trabalho primoroso à análise deste livro singular. Na sua forma atual, mal deve ter passado pelo fogo purificador da crítica filológica alexandrina. Foi corretamente usado nos banquetes dos sécs. V e IV, até a época em que esta importante corrente da vida <política> dos gregos foi desaparecendo gradualmente; depois foi lido e propagado apenas como curiosidade literária. Foi logo relacionado com o nome de Teógnis, porque um livro desse poeta serviu de núcleo a um florilégio de máximas e poemas de vários poetas anteriores e posteriores (do séc. VII ao V). Todos foram cantados nos banquetes, ao som da flauta. (…) A antologia não inclui poetas posteriores ao séc. V, o que coincide com a época da morte política da nobreza. (…) A íntima união do banquete e do eros, que Platão nos mostra na sua forma mais elevada no seu Banquete,¹ reflete-se também claramente na história da coleção de Teógnis, visto que o chamado livro II – na realidade um livro independente – tem por objeto o eros, que se festejava naquelas ocasiões. § Felizmente, basta-nos a sensibilidade estilística e espiritual para separar e distinguir nitidamente os poemas de Teógnis daqueles dos outros poetas da antologia. (…) Não se trata de um poema orgânico, mas de uma coleção de máximas. Foi só esta característica que permitiu incorporar aos versos de Teógnis aqueles que lhe são estranhos. (…) Apesar da independência exterior das máximas, observa-se nelas o progresso de uma idéia, e elas têm um prólogo e uma conclusão, que se separam nitidamente das que a seguem. Para reconhecer a autenticidade deste velho livro de Teógnis ajuda-nos muito (…) também a forma constantemente repetida dos discursos do poeta, ao amado jovem a quem dedica sua doutrina (…) O fato de expor a sua doutrina em forma de máximas dá-lhe ocasião de repetir freqüentemente a invocação a <Cirno> ou ao <filho de Polipaides>, embora não em todas as máximas. Na velha poesia proverbial dos nórdicos deparamos também com a mesma forma. Também nela se repete periodicamente o nome da pessoa a que se dirige. (…) Simplesmente, enquanto no livro de máximas de Teógnis aparece com muita freqüência, nas outras partes aparece raras vezes e em trechos próximos uns dos outros. (…) É evidente que a última parte da coleção constituía originalmente uma coleção independente, que incluía fragmentos de Teógnis ao lado dos fragmentos de outros poetas. (…) Platão atesta nas Leis a existência de antologias semelhantes nas escolas da época. (…) O fato de ninguém se ter dado ao trabalho de evitar as repetições que indicamos mostra bem o quanto se procedeu toscamente. (…) o livro de máximas a Cirno é o fundamento autêntico a que se deve referir tudo o mais.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/04/07/o-banquete-ou-do-homossexualismo-supremo/.

#DitadoMegaPopular

Cirno, tive a sensata idéia de estampar nos meus versos o meu selo, de tal modo que nunca ninguém possa roubá-los clandestinamente nem tomar por mau o que neles há de bom, mas digam todos: estes são versos de Teógnis de Mégara, famoso entre todos os homens. Não posso agradar a toda a gente da nossa cidade. Não há nisso maravilha alguma, filho de Polipao, pois nem Zeus consegue agradar a todos, quando manda chuva ou estiagem.

Versos 19-23

Este traço individualista é particularmente interessante num aristocrata tradicional do tipo de Teógnis, pois por ele se vê que o espírito do tempo o tinha afetado muito mais profundamente do que ele julgava. (…) Não era totalmente novo mencionar o nome do poeta no começo da obra. Mas o exemplo de Hesíodo na Teogonia não suscitara imitadores e apenas um imediato predecessor de Teógnis, o poeta gnômico Focílides de Mileto, tinha se servido deste artifício para assinalar a propriedade das suas máximas, pela razão evidente do seu tipo de versos se poder tornar facilmente propriedade comum, na qualidade de provérbios. De fato, os famosos versos de Focílides e de Teógnis foram citados como provérbios, sem o nome dos autores, pelos escritores subseqüentes. (…) Seguindo-lhe o exemplo, o tirano Hiparco, filho de Pisístrato, ao escrever as máximas que haviam de ser gravadas nos Hermes das estradas áticas, encimou-as com as palavras: Isto é de Hiparco, para logo prosseguir: Não enganes o teu amigo, ou: Segue sempre o reto caminho. (PSEUDO-PLATÃO, Hiparco, 228C)” TRECHOS DESTA OBRA EM: https://seclusao.art.blog/2019/10/01/pseudo-hiparco-ou-do-amor-a-ganancia/

Os autores atuais não precisam empregar este meio porque o nome do autor e o título da obra vêm no frontispício. Não era isso que ocorria no séc. VI a.C.. A única solução era a que Hecateu, Heródoto e Tucídides adotaram: começar os livros com a menção do seu nome e a consignação dos seus intentos. Não se seguiu este costume nos livros de medicina que nos chegaram nas coleções de Hipócrates; por isso, os autores de tais livros continuam a ser um mistério para nós.” “a palavra selo se converte na expressão técnica para designar o lugar em que consta o nome do autor.”

PSEUDO-TEÓGNIS: “Mas Teógnis não podia prever as dificuldades com que os eruditos deparariam, dois milênios e meio depois, quando só existisse um exemplar do seu livro. É esta a nossa situação em face do único manuscrito antigo do qual depende toda a nossa tradição de Teógnis. Ele esperava que o livro chegasse a todas as mãos. Mas não era fácil que pudesse pensar em milênios. Não podia prever que, ao fim de cem anos, o seu livro de máximas seria impiedosamente abreviado, compendiado e finalmente agrupado num livro, com os de outros desconhecidos, para cantar nos banquetes. Muito menos podia suspeitar que a incorporação do seu nome ao prólogo do livro, em vez de protegê-lo contra o furto espiritual, pudesse contribuir para que ele fosse considerado como autor de todos os poemas anônimos com ele reunidos na coleção.”

Focílides oferece-nos regras gerais para a conduta prática da vida. A originalidade de Teógnis aparece claramente, quando se contrapõe àquele ou a Hesíodo. Quer ensinar a formação integral dos nobres, aqueles preceitos sagrados que até agora só oralmente foram transmitidos de geração em geração.” “O jovem a quem se dirige está ligado ao poeta pelos laços do eros. É evidente que estes formam, para o poeta, o pressuposto essencial da sua relação educadora. A sua união deve apresentar algo de típico aos olhos da classe a que ambos pertencem. É significativo que da primeira vez que encaramos de perto a cultura da nobreza dórica nos surja o eros masculino como fenômeno de importância tão decisiva.”

Não se deve esquecer que o eros do homem pelos jovens ou adolescentes era um elemento histórico essencial na constituição da primitiva sociedade aristocrática, e inseparavelmente vinculado aos seus ideais éticos e à sua posição. Falou-se de amor dórico pelos adolescentes. É perfeitamente justificada a atribuição, pois aquela prática sempre foi mais ou menos alheia ao sentimento popular dos jônios e dos áticos, como a comédia, principalmente, o revela.¹ As formas de vida das classes superiores transmitem-se naturalmente à burguesia rica.”

¹ Jaeger não sabe aqui pesar o surgimento do gênero da Comédia justamente no ocaso da civilização grega.

desde Sólon – em cujos poemas o amor dos adolescentes aparece ao lado do amor das mulheres e dos esportes nobres como um dos maiores bens da vida – até Platão. Sempre a nobreza helênica esteve profundamente influenciada pelos dórios.”

a relação do amante com o amado podia ser comparada à autoridade educadora dos pais em relação aos filhos. Aliás, até mesmo a superava em múltiplos aspectos, na idade em que o jovem começa a libertar-se da tradição e da autoridade familiar e atinge a maturidade viril. Ninguém pode duvidar das numerosas afirmações dessa força educadora, cuja história atinge o apogeu no Banquete de Platão. A doutrina da nobreza, em Teógnis, que mergulha a raiz no mesmo círculo de vida, nasce integralmente deste impulso educador cujo aspecto erótico facilmente esquecemos, devido a sua apaixonada gravidade moral.”

Dei-te asas com que possas voar sobre terras e mares. Em todas as festas e banquetes te verás na boca das pessoas. Jovens encantadores te cantarão o nome à música das flautas. E mesmo após a tua descida ao Hades continuarás a andar por Hellas e pelas ilhas, e atravessarás o mar para seres cantado pelos homens futuros, enquanto durarem a Terra e o Sol. Então já nada serei para ti e, como a um garoto, me iludirás com palavras.”

O poeta prevê que o Estado, nessa altura ainda em paz, cairá em guerra civil, cujo termo será a tirania. A única via salvadora é o regresso à justa desigualdade e ao governo dos nobres. E isto já não tem qualquer viabilidade.”

Homens (…) que antes cobriam a sua nudez com grosseiras vestes de pele de cabra e viviam como selvagens fora da cidade são agora, Cirno, as pessoas importantes (…) Espetáculo insuportável! Troçam secretamente uns dos outros e enganam-se, ignorantes de qualquer norma tradicional. Cirno, por nenhum pretexto faças teu amigo um homem destes. Sê amável quando lhes falares, mas não te associes a eles para nenhum desígnio sério. Convém que conheças a mentalidade destes sujeitos miseráveis e saibas que não se pode confiar neles. Esta sociedade perdida só ama a fraude, a perfídia e a impostura.”

Teó., Versos 53-68

Seria demais esperar da parte do representante da velha nobreza decaída o pleno reconhecimento daquela justiça.” “As queixas contra a violação do direito enchem a primeira parte do poema de Hesíodo tal como do poema de Teógnis.” “Ambos os poetas são levados por impulso pessoal e pelas necessidades de ocasião a formular as suas verdades em proposições de validade universal, de acordo com o estilo arcaico.”

Toda revolução gera na sociedade uma crise de confiança. Os que têm convicções parecidas unem-se estreitamente porque a traição espreita por todo lado. O próprio Teógnis diz que, em ocasião de discórdia política, um homem seguro vale mais do que o outro. Será isto ainda a velha ética aristocrática? § É certo que propôs como exemplo as amizades ideais de Teseu e Peirítoo, de Aquiles e Pátroclo, e que pertence ao mais antigo estágio da educação aristocrática o culto do bom exemplo.”

os nobres não tiveram outro remédio senão inserir-se de qualquer modo no todo. Podiam considerar-se um Estado secreto, injustamente submetido ao Estado, e aspirar à restauração do primeiro. Se, porém, o considerarmos com atenção, a verdade é que se converteram num simples partido em luta pelo poder (…) A antiga exigência de uma boa escolha das amizades transforma-se em exagerado exclusivismo político.”

ECOS PARMENÍDEOS: “Teógnis aconselha o seu jovem amigo a adaptar-se exteriormente às circunstâncias vigentes. Segue pela via média, como eu faço.” “Na luta com o demos é preciso também um mimetismo protetor. A dificuldade moral desta luta é não ser, devido a sua natureza específica, uma luta aberta. Mas Teógnis está convencido de que um homem nobre continua sempre nobre.”

A posição da velha aristocracia fundava-se na posse de propriedades rurais. O aparecimento da moeda afetou-lhe a prosperidade. (…) Esta alteração das condições econômicas afetou profundamente o conceito de arete, pois este englobava a estima social e a posse de bens. Sem ela, era impossível exercer algumas das qualidades essenciais ao homem nobre, como a liberalidade e a magnanimidade. Até entre os camponeses era evidente que a riqueza implicava arete e consideração social, como se vê pelas palavras de Hesíodo.”

A desigualdade econômica não era para Sólon contrária à vontade divina, pois além do dinheiro e das propriedades havia outra riqueza: a posse de membros sãos e a alegria de viver. Se tivesse de escolher entre a arete e as riquezas teria dado preferência à primeira. Percebemos o que há de revolucionário, forte e positivo nestas idéias se pensarmos que Teógnis não se cansa de lamentar e maldizer a pobreza, atribuindo-lhe um poder ilimitado sobre os homens. (…) A experiência dos odiados novos-ricos ensinou-lhe o quanto é fácil se harmonizarem e se juntarem o dinheiro e a vulgaridade.”

As considerações de Sólon apenas suscitam em Teógnis um humor resignado e melancólico. Está, pelas suas próprias experiências, profundamente convencido de que o Homem nunca é responsável pelos seus êxitos ou fracassos. Os homens nada mais podem fazer do que entregar-se à vontade dos deuses. Em nada podem contribuir para a determinação do seu próprio destino. Até na riqueza, no sucesso e nas honras se encontra o germe da desventura. Não temos outro remédio, portanto, senão implorar tyche. De que serve o dinheiro ao homem vulgar se não tem o espírito reto! Só pode precipitá-lo na perdição.”

DIGNIDADE X DINHEIRO EM TODOS OS TEMPOS: “onde quer que houvesse um nobre a lutar pela sua sobrevivência e pela sua idiossincrasia, foi seu espelho a sabedoria pedagógica de Teógnis de Mégara. Muitas das suas idéias reviveram em fase posterior, na luta da burguesia contra o proletariado.” [!]

A poesia de Píndaro é arcaica. Mas ela o é num sentido muito diverso das obras dos seus contemporâneos e mesmo dos poetas pré-clássicos mais antigos. Perto dele, os iambos de Sólon parecem modernos quanto ao vocabulário e ao sentimento. (…) Quando, a partir da <antiga> cultura da Jônia, nos aproximamos de Píndaro, temos a impressão de sair fora (sic) da unidade da evolução espiritual que da epopéia de Homero irradia em linha reta para a lírica individual e para a filosofia jônica da natureza, e de ingressarmos em outro mundo.” “É que, por mais que a fé aristocrática de Píndaro tenha em comum com a epopéia, o que em Homero aparece já quase só como jovial brincadeira tem para Píndaro a mais grave seriedade. Isto, naturalmente, depende em parte da diferença entre a poesia épica e os hinos pindáricos. Nos segundos trata-se de preceitos religiosos; na primeira, de uma colorida narração da vida.”

Foi porventura nos jogos fúnebres celebrados em Olímpia em honra de Pélops, semelhantes aos que a Ilíada descreve em honra de Pátroclo, que as festividades olímpicas e as posteriores tiveram origem. É sabido que os jogos fúnebres também podiam ser celebrados periodicamente, como os de Adrasto em Sicyon, embora o caráter destes fosse diferente. Festas assim podiam ter sido celebradas muito cedo em honra do Zeus Olímpico. E a descoberta, nos mais antigos santuários, de oferendas com figuras de cavalos permite supor a existência de corridas de carros nos mais primitivos cultos daqueles lugares, muito tempo antes do que a tradição relativa aos jogos olímpicos nos diz sobre o primeiro triunfo de Coroibos nas corridas pedestres.”

A unidade do físico e espiritual que nas obras-primas da escultura grega admiramos, e que para nós está irremediavelmente perdida, aponta-nos o caminho para chegarmos à compreensão da grandeza humana do ideal agonístico, embora a realidade nunca lhe tenha correspondido.”

É em Píndaro que pela primeira vez os hinos aos vencedores se convertem numa espécie de poesia religiosa.”

Hoje ninguém pode mais pensar numa entrega genial e espontânea aos ditames da fantasia, como no tempo do Sturm und Drang se pensou, atribuindo a Píndaro o que era característico das convicções particulares desse tempo. E quando ainda hoje se acolhe inconscientemente essa interpretação, na presença da forma total dos hinos pindáricos, isto não está de acordo com a tendência das últimas gerações a não se fixarem só na originalidade da sua arte, mas também, cada vez mais, no seu elementos técnico e profissional.”

Muitas vezes, o destino precipita o Homem numa desgraça sem-saída, que não lhe permite alcançar a perfeição. Só é perfeita a divindade. O Homem não o pode ser, quando o toca o dedo do destino.”

Simônides, apesar de ser insubstituível para a história do problema da idéia grega da arete – na interpretação dos seus escólios, que Sócrates discute com os sofistas no Protágoras¹ de Platão –, não é o representante pleno da ética aristotélica, no sentido de Píndaro.” “É ele o primeiro sofista.”

¹ https://seclusao.art.blog/2018/03/02/protagoras-outros/

A arete só é divina porque um deus ou um herói foi antepassado da família que a possui. Dimana dele a força da arete, a qual se renova sem cessar nos indivíduos que constituem a série das gerações.” “O elogio tem um lugar firme nos epinícios. É pelo ingresso neste coro que o vencedor se situa ao lado dos deuses e dos heróis. A que deus, a que herói, a que homem celebrarei? – começa o 2º poema olímpico.”

O tempo não pode desfazer o que está feito; mas pode, em parte, sobrevir com o esquecimento, Latha, quando um homem daimon intervém no seu destino. Apesar da sua tenaz repugnância, a aflição morre dominada pela nobre alegria, quando a moira de Deus concede a rica prosperidade de uma ventura superior.”

Daí resulta para Píndaro um grave problema: explicar como é possível que, após uma longa sucessão de homens famosos, uma família desapareça repentinamente. Isto aparece como uma ruptura inexplicável na cadeia de testemunhos da força divina de uma estirpe, que une aos tempos heróicos a atualidade do poeta. (…) Píndaro fala desta interrupção da areta (sic) humana, no 6º hino nemeu. A raça dos homens e a raça dos deuses estão profundamente separadas.”

Assim, hoje, Alcímidas, vencedor das competições juvenis, prova que no seu sangue palpita uma força análoga à dos deuses. Parece desaparecer no seu pai, mas reaparece no pai do seu pai, Praxídamas, grande vencedor em Olímpia, no Istmo e em Neméia. Com as suas vitórias acabou com o obscuro esquecimento de seu pai Socleides, filho sem glória de um pai glorioso. Acontece o mesmo que com os campos, os quais ora dão aos homens o pão de cada dia, ora lhe recusam. (…) Para o pensamentos grego é evidente que com o aumento das gerações de uma casa pode aparecer uma colheita má, uma aphoria, idéia que voltamos a encontrar em tempos pós-cristãos, quando o autor do estudo Do Sublime investiga as causas do desaparecimento dos grandes espíritos criadores, na época dos epígonos.” Schiller?

É nisto que se distingue dos cantos impessoais de Homero. Os seus heróis são homens que vivem e lutam no seu tempo, mas que ele situa no mundo dos mitos”

A máxima <torna-te quem és> oferece a suma da sua educação inteira. É este o sentido de todos os modelos míticos que se propõe aos homens. Revela-se neles a imagem mais alta do seu próprio ser.” “Não se diz uma palavra sobre Píndaro nas introduções às nossas edições de Platão. Em contrapartida, sempre nelas surgem, como eterna doença e na forma de incrustações estranhas, as matérias-primas dos hilozoístas [hilozoísmo: espécie de panteísmo jônico].”

O amor filial é, depois da veneração de Zeus, senhor do céu, o dever principal da antiga ética cavaleiresca. Já Quíron, o sábio centauro, protótipo do educador dos tempos heróicos, o imprimiu na mente do peleida Aquiles, quando o teve a seu cuidado.”

O poeta vive e move-se inteiramente num mundo em que o mito é tão real como a própria realidade; e quer celebre o triunfo de um antigo nobre, quer o de algum tirano que rapidamente alcançou o apogeu, ou o do filho de um burguês sem ascendência, a todos eleva a honras quase divinas, de que se tornaram credores pelo contato da varinha mágica da sua sabedoria sobre o alto sentido destas coisas.” “Mas será possível educar, com a convicção de que é no sangue que se encontra a arete? Píndaro tomou várias vezes posição em face deste problema. Na realidade o problema já fôra levantado por Homero, no canto da Ilíada em que Aquiles é posto em face do educador Fênix, no momento decisivo, e a admoestação deste se mostra ineficaz ante o endurecido coração do herói. No entanto, ali se trata do problema da possibilidade de moldar o caráter inato, ao passo que em Píndaro surge a moderna questão de saber se a verdadeira virtude pode ser ensinada ou se reside no sangue. Não esqueçamos que em Platão surge constantemente uma questão análoga.”

Píndaro quebra o sigilo e apresenta a sua resposta no terceiro Canto nemeu:

A glória só tem pleno valor

quando é inata. Quem só tem

o que aprendeu é um homem obscuro e indeciso,

jamais caminha com um passo firme.

Apenas esquadrinha

com imaturo espírito

mil coisas altas.”

A arte do poeta, como a arete das Olimpíadas, também não pode ser ensinada. É, por natureza, <sabedoria>.”

Mas a águia é a mais rápida entre todas as aves. Rapidamente enxerga ao longe e captura a sangrenta presa. Os corvos crocitam e alimentam-se aqui embaixo.”

E com isto deixamos o mundo aristocrático, que parece afundar-se gradualmente no silêncio, e de novo nos confiamos à torrente da História, que rumorejante passa por cima dele, quando parecia deter-se.”

Parece ser uma lei na vida do espírito que, quando um tipo de existência atinge o seu tempo, encontre a força necessária para formular o seu ideal e atingir o seu conhecimento mais profundo (…) Assim, a decadência da cultura nobre da Grécia produziu Píndaro; a da cidade-Estado, Platão e Demóstenes; e a hierarquia da igreja medieval, no momento em que ia transpor a linha do seu apogeu, produziu Dante.”

1.10 A política cultural dos tiranos

Neste posto avançado do mundo grego, a Sicília, em face do crescente poderio de Cartago sobre o mar e o comércio, foi muito mais duradouro do que na Grécia propriamente dita o <domínio de um só>.”

A crescente expansão da economia monetária frente à economia natural operou uma revolução no valor das propriedades dos nobres que até então haviam sido o fundamento da ordem política. Agarrados às antigas formas da economia, os nobres estavam num plano inferior em face dos possuidores das novas fortunas adquiridas no comércio e na indústria. E até entre as antigas estirpes se cavava um abismo com a mudança de posição de algumas das velhas famílias, que também se dedicaram ao comércio. Como Teógnis menciona, algumas famílias empobreceram e não puderam conservar a sua antiga posição social. Outras, como os Alcmeônidas da Ática, reuniram tal fortuna, que o seu poderio se tornou insuportável para os seus companheiros de classe, que não puderam resistir à tentação de lutarem pela consecução do poder político.”

Apesar de serem fenômeno de política puramente interna, ou talvez por isso mesmo, os tiranos estavam ligados uns aos outros por uma solidariedade internacional, freqüentemente baseada em laços matrimoniais. Anuncia-se a solidariedade, tão habitual no séc. V, entre as democracias e as oligarquias. É assim que nasce pela primeira vez – e isso é um fato memorável – uma política de largos vôos que, p.ex., em Atenas, Corinto e Mégara, levou à fundação de colônias.”

Enquanto a importância de Pisístrato reside no fato de ter preparado a futura grandeza de Atenas, Periandro elevou Corinto a uma altura que, após sua morte, jamais voltou a ser alcançada.”

Em nenhum lugar os tiranos se agüentavam por mais de 2 ou 3 gerações. A maioria das vezes eram novamente derrubados pela nobreza, já experimentada na política e ciente de seu objetivo. Não obstante, porém, a maior parte das vezes o usufruto da revolução cai logo sob o domínio do povo, como em Atenas. Como observa Políbio na sua teoria das crises e transformações dos regimes políticos, a causa principal da queda dos tiranos é, em geral, a incapacidade dos filhos e netos, que só herdam do pai a força, e não o vigor espiritual, assim como a má utilização do poder recebido do povo num despotismo arbitrário.” “Como diz engenhosamente Burckhardt, havia um tirano em cada grego e ser tirano constituía para todos tal sonho de felicidade que Arquíloco não achou melhor maneira de caracterizar o seu alegre sapateiro do que declarar que ele não aspirava à tirania. Os gregos achavam que o domínio de um homem só, de bondade realmente incomum, estava <de acordo com a natureza> (Aristóteles) e submetiam-se a ele de melhor ou pior grado.”

A impopularidade desta pressão, que nem sequer o hábito foi capaz de suavizar, obrigou os tiranos a contrabalançá-la por meio da cuidadosa manutenção das formas exteriores de eleição para os cargos, pelo cultivo sistemático da lealdade e pela busca de uma política econômica favorável ao público. Pisístrato compareceu algumas vezes perante os tribunais de justiça, quando estava implicado em alguma demanda, para provar o domínio ilimitado do direito e da lei. Isto produzia no povo uma forte impressão.”

Os nobres que podiam converter-se em rivais perigosos eram desterrados ou eram encarregados de tarefas honrosas em outros lugares do país.”

A tirania foi por muitos chamada <o reino de Cronos>, i.e., a idade de ouro, e contava-se todo tipo de histórias sobre as visitas pessoais do senhor aos campos e suas conversas com o povo simples e trabalhador, cujo coração ganhava com a sua afabilidade e com a diminuição das contribuições.” “O tirano é o protótipo do homem de Estado que surgiu mais tarde, embora carecesse da responsabilidade deste. Deu o primeiro exemplo de uma ação de previsão e de visão ampla, realizada pelo cálculo dos fins e dos meios internos e externos, e ordenada segundo um plano. Foi ele na verdade o verdadeiro político.”

No séc. IV, quando despertou o interesse geral pelas individualidades importantes, e a biografia nasceu como gênero literário novo, o objeto preferido das suas descrições foram os poetas, os filósofos e os tiranos. Entre os chamados 7 sábios, que alcançaram a celebridade no começo do séc. VI, encontramos tiranos como Periandro e Pítaco, ao lado de legisladores, poetas e outras personagens desse tipo. É especialmente significativo que quase todos os poetas daquele tempo tenham passado a vida na côrte dos tiranos. A individualidade não é, pois, um fenômeno de massa, uma nivelação geral do espírito, mas uma verdadeira e íntima independência – razão de sobra para que as cabeças independentes procurassem unir-se entre si.”

Foi nesse tempo que Atenas conquistou pela 1ª vez o título de cidade das musas, que conservou para sempre.” “Num diálogo falsamente atribuído a Platão, Hiparco, o filho mais novo de Pisístrato, é chamado o 1º esteta, o <erótico e amante da arte>.” https://seclusao.art.blog/2019/10/01/pseudo-hiparco-ou-do-amor-a-ganancia/

O interesse do Estado pela cultura é um sinal inequívoco do amor dos tiranos pelo povo. Depois da queda deles, continuou no Estado democrático, que não fez mais do que seguir o exemplo dos seus predecessores.”

O mecenato de muitos tiranos do Renascimento e das côrtes régias posteriores surge-nos, apesar de todos os serviços prestados à vida espiritual de seu tempo, como algo forçado, como se aquele tipo de cultura não tivesse raízes profundas nem na aristocracia nem no povo e fosse apenas o capricho luxuoso de uma pequena camada social. É importante não esquecer que já na Grécia também aconteceu coisa parecida. As côrtes dos tiranos gregos, no fim do período arcaico, são parecidas com as dos primeiros Medici.” “É porque se sentem privilegiados que o homem de espírito e o seu protetor se juntam, apesar até do seu mútuo desdém.”

Quando a côrte de Samos fechou as portas e o tirano Polícrates foi crucificado pelos persas, Anacreonte mudou a tenda para a côrte de Hiparco, em Atenas, tendo ido buscá-lo um navio de 50 remos. E quando o último rebento dos Pisistrátidas de Atenas caiu e foi condenado ao exílio, Simônides passou-se para a côrte dos Escópadas da Tessália até que, também ali, caiu o teto da sala e pereceu a dinastia inteira. É altamente simbólica a história que nos diz ter sido Simônides o único sobrevivente. Velho de 80 anos, emigrou ainda para a côrte do tirano Hierão de Siracusa. A cultura destes homens era como a sua vida.”

LIVRO SEGUNDO: APOGEU E CRISE DO ESPÍRITO ÁTICO

2.1 O drama de Ésquilo

Até a morte de Péricles, foram nobres os chefes do Estado democrático de Atenas, e o poeta mais importante da jovem república, Ésquilo, filho de Eufórion e primeiro grande representante do espírito ático, como Sólon cem anos antes, era filho da nobreza rural.”

São raras na história as batalhas travadas com tão grande pureza por uma idéia, como as de Maratona e Salamina. Dado que os atenienses abandonaram a cidade e se fizeram ao mar <com todo o povo>, a bordo dos navios, devemos crer que Ésquilo tenha participado da batalha naval, ainda que Íon de Quio não o tenha mencionado nas suas memórias de viagens, escritas uma geração depois. (…) Conduzido pela superioridade espiritual de um ateniense e inflamado por um novo heroísmo, um pequeno exército vencera, na luta pela independência, as multidões de XerxesCf. Ésquilo, Os Persas

Píndaro anseia pela restauração do mundo aristocrático em todo o seu esplendor, de acordo com o espírito da submissão tradicional. A tragédia de Ésquilo é a ressurreição do homem heróico dentro do espírito da liberdade. É o caminho direto e necessário que vai de Píndaro a Platão, da aristocracia do sangue à aristocracia do espírito e do conhecimento.” “Desapareceu o luxuoso vestuário jônico, para dar lugar às vestes dóricas simples e varonis. Desaparece também do rosto das esculturas desta década o sorriso convencional e inexpressivo derivado do ideal jônico de beleza, sendo substituído por uma seriedade profunda e quase severa. É a geração de Sófocles a primeira a encontrar, no meio dos dois extremos, o equilíbrio da harmonia clássica.” “Sófocles, Eurípides e Sócrates são filhos da burguesia. O primeiro descende de uma família de industriais; os pais de Eurípides eram pequenos proprietários rurais; o pai de Sócrates era um honrado carpinteiro [romantização?] de um pequeno arrabalde.”

A tragédia devolve à poesia grega a capacidade de abarcar a unidade de todo o humano. Neste sentido, só a epopéia homérica se pode comparar a ela. Apesar da grande fecundidade da literatura, nos séculos intermediários, só a epopéia a iguala quanto à riqueza do conteúdo, à força estruturadora e amplitude do seu espírito criador.” “nos épicos dos chamados ciclos renasce o interesse pelo conteúdo material das sagas relativas à guerra de Tróia. Falta a estes poetas a compreensão da grandeza artística e espiritual da Ilíada e da Odisséia. Só querem narrar o que sucedeu antes e depois.” “Esta atitude histórica era inevitável, dado que primitivamente as memórias das sagas eram tidas por história autêntica. A poesia de catálogos, atribuída a Hesíodo por causa do parentesco do estilo do seu autor com o deste, e que vinha satisfazer o interesse dos cavaleiros em descobrirem uma genealogia nobre que os unisse à árvore genealógica dos deuses e dos heróis, dá mais um passo neste processo de historização dos mitos.”

No momento em que as forças mais poderosas pareciam afastar-se do heroísmo com crescente decisão, e em que florescia o conhecimento reflexivo e a aptidão para as emoções mais sensíveis (como a literatura jônica mostra), nasce das mesmas raízes um novo espírito de heroísmo mais interior e mais profundo, estreitamente vinculado ao mito e à forma do ser que dele provém.”

Os novos ensaios para determinar, a partir de um ponto de vista filológico, a origem histórica e a essência da tragédia deixam à margem esta questão. Quando derivam a nova criação de uma outra qualquer forma anterior puramente literária e crêem talvez que os ditirambos dionisíacos <adquiriram forma séria> no instante em que uma cabeça original os pôs em contato com o conteúdo dos antigos cantos heróicos, limitam-se a considerar as condições exteriores do problema. A tragédia ática não passaria de um fragmento dramatizado dos cantos heróicos, representado por um coro dos cidadãos de Atenas.” “Infelizmente não temos qualquer idéia precisa das mais antigas formas da tragédia, e portanto só podemos julgar as formas superiores da sua evolução.”

Tentaremos só avaliá-la como objetivação espiritual da nova forma de homem que naquela altura se desenvolveu, e da força educadora que irradia daquela realização imperecível do espírito grego. É tão considerável o volume das obras conservadas dos trágicos gregos que teremos de olhá-la de uma distância adequada se não quisermos consagrar-lhe um livro inteiro. (…) é a mais alta manifestação de uma humanidade para a qual a religião, a arte e a filosofia formam uma unidade indivisível.” “As épocas em que a história da cultura e da educação humana seguiram total ou predominantemente os caminhos separados destas formas espirituais são forçosamente unilaterais, por mais profundas que sejam as razões históricas daquela unilateralidade.”

Se encarássemos o desenvolvimento da tragédia grega, desde Ésquilo até Sófocles e Eurípides, do ponto de vista da estética pura, seria totalmente diverso o nosso juízo a seu respeito; mas, do ponto de vista da história da formação humana, (…) é assim que surge o seu processo, como reflete (…) o espelho da consciência pública que é a comédia desse tempo. Os contemporâneos não consideravam nunca a natureza e a influência da tragédia de um ponto de vista exclusivamente artístico. Era a tal ponto a rainha, que a tornavam responsável pelo espírito da comunidade. E embora devamos pensar, como os historiadores, que os grandes poetas não eram só criadores, mas também os representantes daquele espírito, isto não altera em nada a responsabilidade da sua função diretiva, que o povo helênico achou maior e mais grave que a dos chefes políticos que se sucederam no governo constitucional. Só a partir deste ponto de vista é que se pode compreender a intervenção do Estado platônico na liberdade da criação poética, tão inexplicável e insustentável para o pensamento liberal. Sem embargo, este sentido da responsabilidade da poesia trágica não pode ter sido o originário, se pensarmos que no tempo de Pisístrato a poesia era considerada apenas como objeto de prazer.” “Os festivais dramáticos de Atenas constituíam o ideal de um teatro nacional, do tipo daquele que os poetas e diretores de cena alemães da nossa época clássica se esforçaram em vão por implantar.”

O impulso dionisíaco convinha mais aos dramas cômicos, satíricos e burlescos”

O poeta não enfrentava, nos bancos dispostos em torno do local das danças, um público de gosto literário estragado, mas sim um público capaz de sentir a força da psicagogia, um povo inteiro disposto a emocionar-se num instante como jamais o teriam podido conseguir os rapsodos, com os cantos de Homero.”

Ó tu, o primeiro dos gregos, que ergueste as palavras à altura da mais alta nobreza!, assim evoca a sombra de Ésquilo um poeta de uma geração posterior.”

Outro elemento era a magnificência do espetáculo, que seria vã curiosidade tentar reconstruir. Quando muito, a sua lembrança pode ajudar o leitor moderno a libertar-se da imagem do teatro fechado, totalmente contrária ao estilo da tragédia grega. Basta recordar a máscara trágica, tão freqüente na arte grega, para notar esta diferença. Torna-se patente nela a diferença essencial entre a tragédia grega e qualquer outra arte dramática posterior. Era tão grande o seu afastamento da realidade comum que a fina sensibilidade dos gregos descobriu na paródia e transposição das suas palavras para as situações da vida cotidiana uma fonte inesgotável de efeitos cômicos.”

A concentração de um destino humano inteiro no breve e impressionante curso dos acontecimentos, que no drama se desenrolam ante os olhos e os ouvidos dos espectadores, representa, em relação à epopéia, um aumento enorme do efeito instantâneo produzido na experiência vital das pessoas

Como diz o seu nome, a tragédia nasceu das festas dionisíacas dos coros de bodes. Bastou para tanto que um poeta visse a fecundidade artística do entusiasmo ditirâmbico (tal como o vemos na concentração do mito da antiga lírica coral siciliana) e fosse capaz de traduzi-la numa representação cênica e de transferir os seus próprios sentimentos para o eu estranho do ator. Assim, o coro, de narrador lírico, converteu-se em ator e, portanto, em sujeito dos sentimentos que até então apenas havia partilhado e acompanhado com as suas emoções.”

Já n’As Suplicantes, uma das tragédias mais antigas, que não era ação, mas pura paixão, a força da sympatheia, que suscitava a participação sentimental dos ouvintes por meio dos lamentos do coro, serviu para dirigir a atenção para o destino que, enviado pelos deuses, produzia aqueles abalos na vida dos homens. Sem este problema da tyche ou da moira, que a lírica dos jônios fizera chegar à consciência daquele tempo, jamais se teria gerado uma tragédia autêntica a partir dos antiquíssimos <ditirambos de conteúdo mítico>. (…) Deles até Ésquilo, vai um passo gigantesco.”

As lendas tradicionais são vistas através das mais íntimas convicções da atualidade. Os sucessos de Ésquilo, Eurípides principalmente, foram mais além, a ponto de converterem a tragédia mítica numa representação da vida cotidiana.”

O próprio Agamemnon de Ésquilo se comporta de modo totalmente diverso do Agamemnon de Homero. É um filho genuíno do tempo da religião e da ética de Delfos, constantemente perturbado pelo medo de, como vencedor, na plenitude da força e da ventura, incorrer na hybris. Está completamente impregnado da crença de Sólon, segundo a qual a abundância conduz à hybris e a hybris à ruína. (…) Prometeu é concebido como o principal conselheiro, caído em desgraça, do jovem tirano ciumento e desconfiado que lhe deve a consolidação do seu poder alcançado recentemente pela força e que com ele não o quer partilhar, porque Prometeu o quer aplicar à realização dos seus planos secretos de salvação da humanidade sofredora. Na figura de Prometeu misturam-se o político e o sofista, como o prova a repetida designação do herói por meio do último termo, nessa época ainda honroso também.”

as longas enumerações de países, rios e povos, que vemos no Prometeu Agrilhoado e no Prometeu Libertado,¹ não constituem só um adorno poético, mas caracterizam ao mesmo tempo a onisciência do herói.”

¹ Só restaram fragmentos.

Foi Welcker o primeiro a notar que Ésquilo não compunha, em geral, tragédias isoladas, mas trilogias. Mais tarde, no entanto, quando foi abandonada esta forma de composição, continuaram a ser representadas igualmente 3 peças do mesmo autor.” “Um dos mais intrincados problemas das crenças de Sólon, partilhadas pelo poeta, era a transmissão das maldições familiares de pais a filhos, e muitas vezes até dos culpados aos inocentes.” “O problema do drama de Ésquilo não é o Homem. O Homem é o portador do destino. O destino é que é o problema. A atmosfera está carregada de tormenta desde o primeiro verso, sob a opressão do daimon que pesa sobre a casa inteira. Dentre todos os autores dramáticos da literatura universal, Ésquilo é o mestre supremo da exposição trágica.” “É precisamente na contínua intromissão de Deus e do Destino que a mão do poeta se revela. Nada de semelhante vemos no mito. Tudo o que acontece na tragédia encontra-se sob a preocupação dominante do problema teológico, tal como Sólon o desenvolve nos seus poemas, a partir da epopéia mais recente.” “Os erros que arrastam o Homem para a ruína são de uma força demoníaca à qual ninguém pode resistir. É ela que induz Helena a abandonar a casa do marido para fugir com Páris, e é ela que endurece o coração de Aquiles perante a embaixada que o exército lhe envia para dar explicações para a reparação da sua honra ultrajada, e perante as admoestações do seu velho preceptor.”

como é freqüente a divindade dar sucessos aos insensatos e aos maus, e permitir que fracassem os esforços dos justos, ainda quando são norteados pelas melhores idéias e intenções! É indiscutível a presença desta <infelicidade imprevisível> no mundo. É o resíduo irredutível da velha Ate de que fala Homero e que conserva a sua verdade, ao lado do reconhecimento da própria culpa. Está intimamente vinculada à experiência humana que os mortais denominam sorte, pois esta se transforma facilmente na mais profunda dor, assim que os homens se deixam seduzir pela hybris.”

O drama Os Persas mostra do modo mais simples como a tragédia esquiliana provém daquela raiz. É digno de nota que ela não pertença a nenhuma trilogia, o que tem para nós a vantagem de nos permitir ver o desenvolvimento da tragédia no espaço mais reduzido de uma unidade fechada. Mas Os Persas é um exemplo único pela ausência do elemento mítico. O poeta elabora em forma de tragédia um acontecimento histórico que viveu pessoalmente.” “Maravilharam-se alguns, ingenuamente, pelo fato de os poetas gregos não terem usado com mais freqüência <temas históricos>. É simples a razão disso. A maioria dos acontecimentos históricos não reúne as condições requeridas pela tragédia grega.” “Tudo se reduz ao efeito do destino na alma daquele que o experimenta.” “A própria experiência da dor não interessa por si mesma. (…) A dor acarreta a agudeza do conhecimento. (…) Existe um grau intermediário no <conhece-te a ti mesmo> do deus de Delfos, que exige o conhecimento dos limites do humano”

Nenhum poeta antes dele experimentou e exprimiu com tanta força e vivacidade a essência do demoníaco. Até a fé mais inquebrantável na força ética do conhecimento é forçada a convir em que a Ate continua a ser sempre a Ate“Aquilo que nós chamamos caráter não é essencial na tragédia de Ésquilo.”

Na Oréstia alcançam o apogeu não só a imaginação criadora da linguagem e a arte construtiva do poeta, mas também a tensão e o vigor do problema moral e religioso. E parece incrível que Ésquilo tenha escrito esta obra dramática, a mais pujante e viril que a história conhece, na velhice, e pouco tempo antes de morrer.” “A culpa de Orestes não se fundamenta de modo nenhum no seu caráter, nem é a este, como tal que, a intenção do poeta se dirige. Ele é apenas o filho infeliz, amarrado pela vingança do sangue. No instante em que atinge a virilidade, espera-o a maldição sinistra que o levará à perdição, ainda antes de ter começado a gozar a vida. O deus de Delfos compele-o com renovado vigor, sem que nada o possa desviar do destino que o espera.”

A idéia de Sólon de que os filhos devem expiar as culpas dos pais gera em Sete contra Tebas, final da trilogia relativa aos reis tebanos, um drama que ultrapassa a Oréstia em força trágica, não só pelo parricídio com que termina, mas ainda por outros aspectos. Os irmãos Etéocles e Polinices são vitimados pela maldição que pesa sobre a raça dos Labdácidas, e que Ésquilo fundamenta nas culpas dos antepassados. Sem este fundo, teria sido completamente impossível para o seu sentimento religioso um acontecimento como o que o drama apresenta.” “A arete pessoal e o destino superpessoal atingem aqui a sua tensão máxima.” “Tem-se a impressão de que a culpa dos antepassados em terceiro grau não é uma amarra suficientemente forte para agüentar o peso ingente do sofrimento.”

os padecimentos e os erros de Prometeu têm origem nele mesmo, na sua natureza e na sua ação. (…) Para Hesíodo, era apenas o prevaricador castigado pelo crime de ter roubado o fogo de Zeus. Com a força de uma fantasia que nunca os séculos poderão honrar e admirar suficientemente, Ésquilo descobriu nesta façanha o germe de um símbolo humano imortal”

Estava reservado ao gênio grego a criação deste símbolo do heroísmo doloroso e militante de toda criação humana, como a mais alta expressão da tragédia da sua própria natureza. Só o Ecce Homo, saído de um espírito completamente diverso, com a sua dor pelos pecados do mundo, conseguiu criar um novo símbolo eternamente válido de humanidade, sem no entanto roubar nada à validade do anterior.” “É certo que o Prometeu Libertado deveria completar aquela imagem”

Esta fusão do coro com os espectadores representa uma nova etapa no desenvolvimento da arte coral de Ésquilo. Em As Suplicantes, o verdadeiro ator é ainda o coro das Danaides. Não há outro herói. Que esta era a essência original do coro foi Nietzsche quem pela 1ª vez o exprimiu com toda clareza [em] A Origem da Tragédia, obra genial da juventude, ainda que mesclada de elementos incompatíveis.”

Uma das raízes mais vigorosas da força educativa da tragédia grega consiste no coro que, com seus cantos de simpatia, objetiva na orquestra as experiências trágicas da ação.”

2.2 O homem trágico de Sófocles

Foi com plena consciência que Sófocles aceitou o papel de sucessor de Ésquilo” “Não deixa de ter razão a crítica de Aristófanes e dos seus contemporâneos, quando vê em Eurípides não o corruptor da tragédia de Sófocles, mas sim da tragédia de Ésquilo.”

não nos inclinamos a encarar como preconceito que é necessário superar o entusiástico juízo dos classicistas que considera Sófocles o apogeu do drama grego, pelo rigor da sua forma artística e pela sua luminosa objetividade. É assim que a ciência e o moderno gosto psicológico que a acompanha orientam as preferências para o tosco arcaísmo de Ésquilo e para o refinado subjetivismo dos últimos tempos da tragédia ática” Jaeger banca o apologeta sem igual de todos aqueles que descreve, no final nos tornando vacilantes quanto a qualquer um de seus juízos.

A impiedade de Eurípides – no sentido que lhe deu a tradição – é mais religiosa, apesar de tudo, que a tranqüila credulidade de Sófocles.”

Temos que partir do efeito cênico que produz, o qual não se esgota com a compreensão da sua técnica inteligente e superior.”

como explicar o fracasso, salvo algumas experiências com o público mais ou menos especializado, de todas as naturais tentativas modernas para encenar as tragédias de Ésquilo e de Eurípides, ao passo que Sófocles é o único dramaturgo grego que se agüenta nos repertórios dos nossos teatros? Isto não é certamente fruto de um preconceito classicista. A tragédia de Ésquilo não consegue agüentar-se nos palcos modernos, pela rigidez nada dramática do coro que a domina e que o peso das idéias e da expressão não compensa, sobretudo se faltam o canto e a dança. É certo que, numa época perturbada como a nossa, a dialética de Eurípides desperta um eco de simpática afinidade. Mas não há coisa mais mutável que os problemas da sociedade burguesa. Basta pensar o quanto estão longe de nós Ibsen ou Zola, no entanto incomparavelmente mais próximos do que Eurípides, para compreender que aquilo que constituiria a força de Eurípides, no seu tempo, representa precisamente para nós uma barreira intransponível.”

Se nos perguntarmos quais são as criações dos trágicos gregos que vivem na fantasia dos homens independentemente do palco e da sua ligação com o drama, veremos que em primeiro lugar estão as de Sófocles. Esta sobrevivência isolada das figuras enquanto tais jamais teria podido ser obtida pelo mero domínio da técnica cênica, cujo efeito é sempre momentâneo. Talvez nada nos custe mais a compreender do que o enigma da sabedoria tranqüila, simples, natural, com que ele ergueu aquelas figuras humanas de carne e osso, repletas das paixões mais violentas e dos sentimentos mais ternos, de grandeza heróica e altiva e de autêntica humanidade, tão semelhantes a nós e ao mesmo tempo dotadas de tão alta nobreza. Nada nelas é artificial ou exorbitante. (…) A verdadeira monumentalidade é sempre simples e natural. O seu segredo reside no abandono do que na aparência é acidental e não essencial, de modo que a lei interior, oculta ao olhar comum, resplandeça com perfeita clareza.”

Nascem todos de uma necessidade que não é nem a generalidade vazia do tipo nem a simples determinação do caráter individual: é a própria essencialidade, oposta ao que não tem essência.”

quando chamamos Sófocles de o plástico da tragédia, trata-se de uma qualidade que nenhum outro partilha e que exclui qualquer comparação dos trágicos com a evolução das formas plásticas.”

O monumento perene do espírito ático na época da sua maturidade é constituído pela tragédia de Sófocles e pela escultura de Fídias. Ambos representam a arte do tempo de Péricles.”

Podemos, assim, chamar Sófocles de clássico, no sentido de que atinge o ponto culminante no desenvolvimento da tragédia. A tragédia consuma nele a <sua natureza>, como diria Aristóteles.”

Um escultor de homens como Sófocles pertence à história da educação humana, como nenhum outro poeta grego, num sentido inteiramente novo.” “É algo totalmente diverso da ação educadora, no sentido de Homero, ou da vontade educacional, no sentido de Ésquilo. Pressupõe a existência de uma sociedade humana, para a qual a <educação>, a formação humana na sua pureza, e por si mesma, converteu-se no ideal mais alto.” “Quase se poderia considerá-la uma arte educativa, como em outra época e em condições de tempo muito mais artificiais o foi a batalha de Goethe no Tasso, para descobrir a forma na vida e na arte.”

É lenda, sem dúvida, o relato que descreve Sófocles na flor da mocidade, a dançar no coro que celebrava a vitória de Salamina, onde Ésquilo combateu. Mas o fato de que a vida do jovem se tenha iniciado na época em que a tempestade acabava de passar é para nós muito elucidativo. Sófocles encontra-se no estreito e altaneiro píncaro do brilhante meio-dia do povo ateniense, e que tão velozmente havia de passar. É na serenidade, sem vento e sem nuvens, do dia incomparável cuja aurora despontou com a vitória de Salamina que a sua obra desabrocha. Pouquíssimo tempo antes de Aristófanes conjurar a sombra do grande Ésquilo, para que este salvasse da ruína a cidade, Sófocles fechou os olhos. Não viu a derrota de Atenas. Morreu depois da vitória de Arginusas ter despertado a última grande esperança de Atenas; e agora lá embaixo – assim o representa Aristófanes pouco depois da sua morte – vive consigo próprio e com o mundo na mesma harmonia com que viveu na Terra.”

Orgulhosa dessa nova forma das relações humanas, aquela época criou para elas uma nova palavra, <urbano>, a qual duas décadas mais tarde se encontrava em uso pleno entre todos os prosadores áticos, em Xenofonte, nos oradores, em Platão.”

a arte e a anedota encarnam em Sófocles e Péricles a síntese da mais alta nobreza da kalokagathia ática, tal como corresponde ao espírito do tempo.”

Não é por mera casualidade de temperamento pessoal que Sófocles é o mestre do meio-tom, ao passo que Ésquilo nunca o poderia conseguir. Em nenhuma outra parte é a forma, de modo tão imediato, a expressão adequada, ou melhor, a revelação do ser e do seu sentido metafísico. Sófocles não responde à pergunta sobre a essência e sentido do ser com uma concepção do mundo ou uma teodicéia, como Ésquilo, mas sim com a forma dos seus discursos e a figura dos seus personagens.”

Não é sem razão que o coro das tragédias de Sófocles repete constantemente que a fonte de todo o mal é a ausência de medida.” “esta consciência das normas ideais do Homem é peculiar à época em que a sofística se inicia. O problema da arete humana é agora estudado com extraordinária intensidade do ponto de vista da educação. O homem <tal como deve ser> é o grande tema da época e a meta de todos os esforços dos sofistas. Até agora, os poetas buscaram só fundamentar os valores da vida humana. Mas não podiam ficar indiferentes à nova vontade educacional.”

A <alma> é objetivamente reconhecida como o centro do Homem. (…) Há muito tempo a escultura tinha descoberto as leis do corpo humano e dele fizera o objeto do mais fervoroso estudo. Voltava a descobrir na <harmonia> do corpo o princípio do cosmos, que o pensamento filosófico já confirmara para a totalidade. A partir do cosmos chega agora o mundo grego à descoberta do espiritual.” “é o único reino do ser que, embora sujeito a uma ordem jurídica, ainda não tinha sido penetrado pela idéia cósmica. É evidente que, à semelhança do corpo, a alma também tem o seu ritmo e a sua harmonia. Entramos com isso na idéia de uma estrutura da alma.” “Protágoras fala da educação da alma por meio da verdadeira eurhytmia e euharmostia.”

Só entre o povo grego a idéia da educação podia brotar das normas da arte escultórica. (…) Naquele tempo, a educação, a poesia e a escultura estavam intimamente ligadas.”

É esta tendência antropocêntrica do espírito ático que dá lugar ao nascimento da <humanidade>, não no sentido do amor humano pelos outros membros da comunidade, que os gregos chamaram filantropia, mas sim no sentido do conhecimento da verdadeira e essencial forma humana.

É especialmente significativo que seja a 1ª vez que a mulher aparece como representante do humano, ao lado do homem, com idêntica dignidade. As numerosas figuras femininas de Sófocles, como Antígona, Electra, Dejanira, Tecmesa, Jocasta, para não falar de outras secundárias, como Clitemnestra, Ismena e Crisótemis, iluminam com o maior fulgor a elevação e amplitude da humanidade de Sófocles. A descoberta da mulher é a conseqüência necessária da descoberta do homem como objeto próprio da tragédia.”

Em Sófocles, passam a uma posição secundária as exigências da teodicéia, que tinha dominado o pensamento religioso, desde Sólon até Teógnis e Ésquilo. O que em Sófocles é trágico é a impossibilidade de evitar a dor. É este o rosto inevitável do destino, do ponto de vista humano. Não é que seja abandonada a concepção religiosa do mundo, de Ésquilo; de modo nenhum. Simplesmente já não é nela que se coloca a ênfase. Vê-se isso com especial clareza numa das primeiras obras de Sófocles, a Antígona, onde ainda aparece com vigoroso relevo aquela concepção do mundo.

A maldição familiar da casa dos Labdácidas, cuja ação aniquiladora Ésquilo acompanha durante várias gerações na trilogia tebana, permanece ainda em Sófocles a causa originária, mas situada num plano de fundo. Antígona cai como sua última vítima, do mesmo modo que em Sete de Ésquilo, Etéocles e Polinices. Sófocles leva Antígona e o seu opositor Creonte a participarem na realização do seu destino pelo vigor das suas ações, e o coro não se cansa de falar da transgressão da medida e da participação de ambos no seu infortúnio.”

Antígona está determinada para a dor, pela sua própria natureza; poderíamos até dizer que foi eleita para ela, visto que a sua dor consciente converte-se numa nova forma de nobreza. Esta eleição para a dor, naturalmente alheia a qualquer representação cristã, revela-se de modo eminente no diálogo do prólogo entre Antígona e as suas irmãs. A ternura juvenil de Ismena retrocede aterrada perante a deliberada escolha da sua própria ruína.”

com a peculiar ironia trágica de Sófocles, no momento em que o coro acaba de celebrar o direito e o Estado, proclamando a expulsão para fora de qualquer sociedade humana daquele que despreza a lei, Antígona é agrilhoada. Para cumprir a lei não-escrita e obedecer ao mais simples dever fraterno, afronta com plena consciência o decreto tirânico do rei que, baseado na força do Estado, proíbe-lhe, sob pena de morte, que dê sepultura ao seu irmão Polinices, morto em combate contra a própria pátria. No mesmo instante aparece ao espírito do espectador um outro aspecto da natureza humana. O orgulhoso hino emudece perante o súbito e trágico conhecimento da debilidade e da miséria humana.

Foi com uma intuição profunda que Hegel viu na Antígona o trágico conflito de 2 princípios morais: a lei do Estado e o direito familiar.” Uau, que profundo, o grande Hegel… Porém, H. emitiu o parecer errado: não é a lei do Estado que prevalece – como poderia se equivocar de tal maneira? Não que o direito familiar seja o vitorioso: a vitória cabe ao indivíduo realizando-se em sua liberdade ética e antagonizando até o último momento o arbítrio – não dos deuses, mas do próprio homem.

ainda que se fale de hybris e da falta de medida e de compreensão, não é no centro que estes conceitos se encontram, como na obra de Ésquilo, mas sim na periferia.” ???

A irracionalidade desta Ate, que inquietou o sentido da justiça de Sólon e preocupou a época inteira, é um pressuposto do trágico, mas não constitui o problema da tragédia. Ésquilo procura resolver o problema. Sófocles pressupõe a Ate. Mas não é de mera passividade a sua posição perante o fato inevitável da dor enviada pelos deuses, que desde a sua origem a velha lírica lamentou. Não partilha as resignadas palavras de Simônides, segundo as quais o Homem tem de perder necessariamente a arete, quando o infortúnio inexorável o derruba. A elevação dos seus grandes sofredores à mais alta nobreza é o Sim que Sófocles dá a esta realidade, a esfinge cujo enigma fatal consegue resolver. É o homem trágico de Sófocles o 1º a elevar-se a uma autêntica grandeza humana, pela completa destruição da sua felicidade terrena ou da sua existência física e social.”

Esta arte chega ao auge de sua perfeição na cena do reconhecimento de Electra e de Orestes. O disfarce intencional do salvador, o seu regresso à casa paterna e a maneira gradual como ele deixa cair as suas vestes fazem a dor de Electra passar por todos os graus, desde o céu até o inferno.”

Exilado da pátria e cego, o velho Édipo vagueia mundo afora, esmolando, pela mão de sua filha Antígona, outra das figuras preferidas que o poeta jamais abandona. Nada é mais característico da essência da tragédia de Sófocles que a compaixão do poeta para com as suas próprias figuras. Nunca o abandonou a idéia do que seria feito de Édipo.”

Na plenitude da vida Sófocles achou plena satisfação em colocar Édipo no meio da tempestade do aniquilamento. Põe-no diante dos olhos do espectador no momento em que se amaldiçoa e quer aniquilar, desesperado, a sua existência, tal como já com as próprias mãos havia apagado a luz dos olhos. Também em Electra, no instante em que a personagem atinge a plenitude da tragédia o poeta corta, subitamente, o fio da ação.

É altamente significativo que Sófocles tenha retomado o tema de Édipo, pouco antes da sua morte. Seria errôneo esperar desse segundo Édipo a resolução final do problema. Quem tentasse interpretar neste sentido a apaixonada autodefesa do velho Édipo, a sua repetida insistência em que foi na ignorância que realizou todos os seus atos, confundiria Sófocles com Eurípides. [Interpretação corrente!] Nem o destino nem Édipo são absolvidos ou condenados. No entanto, é a uma luz mais alta que o poeta parece encarar aqui a dor. É um último encontro com o velho peregrino sem descanso, pouco antes de chegar ao seu termo. A sua nobre natureza continua inquebrantável na sua força impetuosa, apesar do infortúnio e da velhice. A consciência ajuda-o a suportar a dor, esta velha companheira insuperável que nem nas últimas horas o abandona. Esta imagem agreste não dá nenhum lugar à ternura sentimental. No entanto, a dor torna Édipo venerável. O coro sente-lhe o terror, mas ainda mais a grandeza, e o rei de Atenas recebe o mendigo cego com as honras devidas a um hóspede ilustre. Era no solo ático que ele devia encontrar o último repouso, rezava um oráculo divino. A morte de Édipo está envolta em mistério. Sai sozinho e sem guia para o bosque e ninguém mais o volta a ver. Tão incompreensível como a senda da dor, pela qual a divindade conduz Édipo, é o milagre da salvação que no fim o espera. (…) Não se pode saber como, mas a consagração à dor aproxima-o dos deuses e separa-o do resto dos homens. Agora repousa na colina de Colono, na pátria querida do poeta, nos bosques sempre verdejantes das Eumênides, em cujos ramos canta o rouxinol. Nenhum pé humano pode pisar o lugar. Mas é dele que irradia a bênção para toda a terra da Ática.”

2.3 Os sofistas

Foi com os sofistas que a palavra paideia, que no século IV e durante o helenismo e o império haveria de ampliar cada vez mais a sua importância e a amplitude do seu significado, pela 1ª vez foi referida à mais alta arete humana e, a partir da <criação dos meninos> – em cujo simples sentido a vemos em Ésquilo, pela primeira vez (Sete contra Tebas, 18) –, acaba por englobar o conjunto de todas as exigências ideais, físicas e espirituais, que formam a kalokagathia, no sentido de uma formação espiritual consciente.”

se excetuarmos Esparta, onde desde Tirteu se tinha estruturado uma forma peculiar de educação cívica, a agoge (que não tem nada de semelhante no resto da Grécia), não havia nem podia haver nenhuma forma de educação estatal comparável às que a Odisséia, Teógnis e Píndaro nos mostram; e as iniciativas privadas desenvolviam-se muito lentamente.” “A educação profissional, herdada do pai pelo filho que lhe seguia o ofício ou a indústria, não se podia comparar à educação total de espírito e de corpo do nobre” “Era uma simples ampliação do conceito de comunidade de sangue, com a única diferença de que a vinculação da estirpe substituíra o antigo conceito aristocrático do Estado patriarcal. Não era possível pensar em outro fundamento. Por mais forte que fosse o sentimento da individualidade, era impossível conceber que a educação se fundamentasse em outra coisa que não a comunidade da estirpe e do Estado.”

E se a moderna cidade-Estado se apropriara da arete física da nobreza, por meio da instituição da ginástica, por que não seria possível alcançar, através de uma educação consciente pela via espiritual, as inegáveis qualidades diretivas, que eram patrimônio daquela classe?”

Não tem importância para nós, agora, a apreciação da forma democrática da organização do Estado ático” “Problemas como o da educação política do Homem e da formação de minorias dirigentes, da liberdade e da autoridade, só neste grau da evolução espiritual podem surgir e só nele podem alcançar a sua plena urgência e importância para o destino.” “Prova disso é o pensamento dos grandes educadores e filósofos nascidos daquela experiência ter conseguido prontas soluções, que transcendem ousadamente as formas existentes do Estado e cuja fecundidade é inesgotável para qualquer outra situação análoga.”

o problema das relações das grandes personalidades espirituais com a comunidade, problema que preocupou todos os pensadores até o fim da cidade-Estado, sem que chegassem a entrar em acordo. No caso de Péricles, foi encontrada uma feliz solução para o indivíduo e para a sociedade.”

Esta necessidade fez-se sentir mais desde a entrada de Atenas no mundo internacional, com a economia, o comércio e a política subseqüentes às guerras contra os persas. Atenas ficou devendo a salvação a um só homem e a sua superioridade espiritual. Depois da vitória, não pôde suportar muito tempo, já que o seu poder era incompatível com o antiquado conceito da <isonomia>, e ele aparecia como um tirano dissimulado. Assim, por uma evolução lógica, chegou-se à convicção de que a manutenção da ordem democrática do Estado dependia cada vez mais da justa eleição da personalidade dirigente. Para a democracia, o problema dos problemas era ter de se reduzir a si própria ad absurdum, a partir do momento em que quis ser mais que uma forma rigorosa do poder político e se converteu no domínio real da massa sobre o Estado.

Já desde o começo a finalidade do movimento educacional comandado pelos sofistas não era a educação do povo, mas a dos chefes. No fundo não era senão uma nova forma da educação dos nobres.”

Era a eles que acorriam os que desejavam formar-se para a política e tornar-se um dia dirigentes do Estado.” “Não deviam limitar-se a cumprir, mas tinham de criar as leis do Estado e, além da experiência que se adquire na prática da vida política, era-lhes indispensável uma intelecção universal da essência das coisas humanas. É certo que as qualidades fundamentais de um homem de Estado não se podem adquirir. São inatos o tato, a presença de espírito e a previsão, qualidades que Tucídides exalta acima das outras em Temístocles. Pode-se, no entanto, desenvolver o dom de pronunciar discursos convincentes e oportunos.”

a força que as musas concedem ao rei (…) A faculdade oratória situa-se em plano idêntico ao da inspiração das musas aos poetas.”

A idade clássica chama de orador o político meramente retórico. A palavra não tinha o sentido puramente formal que mais tarde adquiriu, mas abrangia também o próprio conceito.”

Esta falsa modernização do conceito grego de arete peca essencialmente por fazer surgir aos olhos do homem atual como arrogância ingênua e sem-sentido a pretensão dos sofistas ou mestres da sabedoria, como os contemporâneos os chamavam e a si próprios eles se intitulavam.”

É natural que encaremos os sofistas retrospectivamente, pelo ponto de vista cético de Platão, para quem o princípio de todo o conhecimento filosófico é a dúvida socrática sobre a possibilidade de ensinar a virtude. É, porém, historicamente incorreto e inibe toda a compreensão autêntica daquela importante época da história da educação humana sobrecarregá-la de problemas que aparecem apenas numa fase posterior da reflexão filosófica. Do ponto de vista histórico, a sofística é um fenômeno tão importante como Sócrates ou Platão. Além disso não é possível concebê-los sem ela.”

A racionalização da educação política não passa de um caso particular da racionalização da vida inteira, que mais do que nunca se baseia na ação e no êxito.” “O ético, que <se compreende por si próprio>, cede involuntariamente o passo ao intelectual, que se situa em primeiro plano.” “É o tempo em que o ideal da arete do Homem recolhe em si todos os valores que a ética aristotélica reúne mais tarde como prerrogativas espirituais, e que, com os valores éticos do Homem, procura juntar numa unidade mais alta.” “os seus pressupostos pedagógicos eram tão justos como a dúvida racional de Sócrates.”

deparamos nos sofistas com duas modalidades distintas de educação do espírito: a transmissão de um saber enciclopédico e a formação do espírito nos seus diversos campos. Claramente se vê que o antagonismo espiritual destes dois métodos de educação só pode alcançar unidade no conceito superior de educação espiritual. Ambas as formas de ensino sobreviveram até o presente, mais sob a forma de compromisso que na sua unilateralidade.”

A poesia e a música eram para Protágoras as principais forças modeladoras da alma, ao lado da gramática, da retórica e da dialética. É na política e na ética que mergulham as raízes desta terceira forma de educação sofística. Distingue-se da formal e da enciclopédica, porque já não considera o homem abstratamente, mas como membro da sociedade.”

Em todo caso, é uma afirmação superficial dizer que aquilo que de novo o de único que liga todos os sofistas é o ideal educativo da retórica: isso é comum a todos os representantes da sofística, ao passo que diferem na apreciação do resto das coisas, a ponto de não ter havido sofistas, como Górgias, que só foram retóricos, e não ensinaram outra coisa. Comum a todos é antes o fato de serem mestres da arete política e aspirarem a alcançá-la mediante o fomento da formação espiritual, qualquer que fosse a sua opinião sobre a maneira de realizá-la.”

É claro que a nova educação (…) se arriscava a cair nas maiores parcialidades, caso não se fundamentasse numa investigação séria e num pensamento filosófico rigoroso (…) Foi a partir deste ponto de vista que Platão e Aristóteles impugnaram mais tarde o sistema total da educação sofística e o abalaram nos seus próprios fundamentos.”

A história da filosofia que Aristóteles nos dá na Metafísica não inclui os sofistas. As mais recentes histórias da filosofia consideram-nos como fundadores do subjetivismo e do relativismo filosóficos. O esboço de uma teoria por parte de Protágoras não justifica tais generalizações e é um erro evidente de perspectiva histórica pôr os mestres da arete ao lado de pensadores do estilo de Anaximandro, Parmênides ou Heráclito. [Entendi o sentido de ‘pôr ao lado’ neste contexto; porém, se fosse um comentário elogioso, os sofistas deveriam se sentir honrados de dividir honras com Parmênides.]

A cosmologia dos milesianos mostra-nos até que ponto o afã investigador da <história> jônica estava originariamente distante de todo o humano e de toda a ação educacional e prática. [será?] (…) A audaciosa tentativa de Xenófanes para fundamentar a arete no conhecimento racional de Deus coloca este conhecimento em íntima ligação com o ideal educativo; e parecia, em instantâneo vislumbre, que a filosofia da natureza iria, pela aceitação da poesia, obter o domínio da formação e da vida da nação. Mas Xenófanes é um fenômeno isolado (…) Heráclito foi o único dos grandes pensadores capaz de articular o Homem na construção jurídica do cosmos regido por um princípio unitário. E Heráclito não é um fisiólogo. (…) Com Anaxágoras de Clazômenas, que situa na origem do ser o espírito, como força ordenadora e diretiva, entra na cosmogonia a tendência antropocêntrica do tempo. No entanto, continua sem solução de continuidade a concepção mecanicista da natureza. (…) Empédocles de Agrigento é um centauro filosófico. Na sua alma biforme convivem em rara união a física jônica dos elementos e a religião da salvação órfica.”

Até um pensador tão estritamente naturalista como Demócrito não pôde deixar de lado o problema do Homem e do seu mundo moral específico. (…) prefere traçar uma linha divisória entre a filosofia da natureza e a sabedoria ética e educativa, que deixa de ser uma ciência teórica para de novo adotar a forma tradicional da parênese.”

O interesse cada vez maior da filosofia pelos problemas do Homem, cujo objeto determina com exatidão cada vez maior, é mais uma prova da necessidade histórica do advento dos sofistas. Todavia, a exigência que eles vêm satisfazer não é de ordem teórica e científica, mas sim de ordem estritamente prática. É esta a razão profunda pela qual tiveram em Atenas uma ação tão forte, ao passo que a ciência dos fisiólogos jônicos não pôde lançar ali quaisquer raízes. Sem compreenderem nada desta investigação separada da vida, os sofistas vinculam-se à tradição educativa dos poetas, a Homero e a Hesíodo, a Teógnis, a Simônides e a Píndaro.”

Simônides já é, no fundo, um sofista típico.(*) Os sofistas deram o último passo. Transplantaram para a nova prosa artística, em que eram mestres, os vários gêneros de poesia parenética onde o elemento pedagógico se revelava com maior vigor, e entraram assim em consciente emulação, na forma e no conteúdo, com a poesia. Esta transposição do conteúdo da poesia para a prosa é sinal da sua racionalização definitiva.

(*) Disse-o já PLATÃO, Prot., 339 A.”

Foram os primeiros intérpretes metódicos dos grandes poetas aos quais vincularam, com predileção, os seus ensinamentos. Não se deve, porém, esperar uma interpretação no sentido em que nós a entendemos. Encaravam os poetas de modo imediato e intemporal e os situavam despreocupadamente na atualidade, como o revela graciosamente o Protágoras de Platão.”

Homero é para os sofistas uma enciclopédia de todos os conhecimentos humanos, desde a construção de carros até a estratégia, e uma mina de regras prudentes para a vida.(*) A educação heróica da epopéia e da tragédia é interpretada de um ponto de vista francamente utilitário.

(*) PLATÃO, Rep. 598 E, mostra este tipo de interpretação sofística de Homero num quadro cheio de precisão.”

Tudo isto recorda os literatos do Renascimento. Renasce neles a independência, o cosmopolitismo e a despreocupação que os sofistas trouxeram ao mundo. Hípias de Élis, que falava de todos os ramos do saber, ensinava todas as artes e só ostentava no corpo vestes e adornos feitos por suas mãos, é o perfeito uomo universale. [aqui, self-made man] (PLATÃO, Híp. Men., 368 B.)”

Não tinham cidadania fixa, devido a sua vida constantemente andarilha. Que na Grécia tenha sido possível este modo de vida tão independente é o mais evidente sintoma do aparecimento de um tipo de educação completamente novo, individualista na sua raiz mais íntima, por mais que se falasse de educação para a comunidade e da virtude dos melhores cidadãos. Os sofistas são, com efeito, as individualidades mais representativas de uma época que na sua totalidade tende para o individualismo. Os seus contemporâneos tinham razão, quando os consideravam os autênticos representantes do espírito do tempo. É também sinal dos tempos viverem da educação. Esta era <importada> como uma mercadoria e exposta à venda. Encerra algo de profundamente verdadeiro esta maliciosa comparação de Platão. Não devemos, porém, tomá-la por crítica aos sofistas e às doutrinas deles, mas antes por um sintoma espiritual.”

Podemos, pois, considerá-los um estágio da maior importância no desenvolvimento do humanismo, embora este só tenha encontrado a sua verdadeira e mais alta forma após a luta entre os sofistas e sua superação por Platão. Há sempre neles algo de incompleto e imperfeito. A sofística não é um movimento científico, mas sim a invasão do espírito da antiga física e <história> dos jônios por outros interesses da vida e sobretudo pelos problemas pedagógicos e sociais que surgiram em conseqüência da transformação do Estado econômico e social. O seu primeiro efeito, porém, foi suplantar a ciência, tal como nos tempos modernos aconteceu com o florescimento da pedagogia, da sociologia, e do jornalismo. Na medida em que (…) formulou um conceito de educação, a sofística levou a uma ampliação dos domínios da ciência jônica nos aspectos ético e social, e abriu o caminho a uma verdadeira filosofia e ética, ao lado e mesmo acima da ciência da natureza. PLATÃO, no Hípias Maior¹ (281 C), salienta a oposição entre a tendência prática dos sofistas e a antiga filosofia separada da vida.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/11/10/pseudo-hipias-maior-ou-o-que-e-o-belo/

Ainda agora está por resolver a questão de saber se a pedagogia é uma ciência ou uma arte; e não foi ciência mas sim techne que os sofistas chamaram a sua teoria e arte da educação.” “A conversão da educação numa técnica é um caso particular da tendência geral do tempo a dividir a vida inteira numa série de compartimentos separados, concebidos com vistas a uma finalidade e teoricamente fundamentados num saber adequado e transmissível. É sobretudo em matemática, medicina, ginástica, teoria musical, arte dramática, etc. que nós encontramos especialistas e obras especializadas. Até os escultores, como Policleto, escrevem a teoria da sua arte. § Por outro lado, os sofistas consideravam a sua arte o coroamento de todas as artes.”

Enquanto o dom de Prometeu, o saber técnico, só pertence aos especialistas, Zeus infundiu em todos os homens o sentido da justiça e da lei, pois sem ele o Estado não subsistiria. Existe, porém, um grau mais alto de intelecção do direito do Estado. É o que a techne política dos sofistas ensina, e que é, para Protágoras, a verdadeira educação e o vínculo espiritual que conserva unidas a comunidade e a civilização humanas. § Nem todos os sofistas atingiram tão elevado conceito da sua profissão. O sofista mediano dava-se por satisfeito em transmitir a sabedoria.”

Convém evitar a identificação da techne com o sentido moderno do conceito de <vocação>, cuja origem cristã o distingue do conceito de techne. Cf. KARL HOLL, Die geschichte des Worts Beruf, Sitz. Berl. Akad., 1924.”

a língua grega não tem outra palavra para exprimir o poder e o saber que o político adquire por meio da ação. E é perfeitamente visível que Protágoras se esforça por distinguir esta techne das técnicas profissionais, em sentido estrito, e por lhe dar um sentido de totalidade e de universalidade.”

Esta educação ética e política é um traço fundamental da essência da verdadeira paideia. (…) Não é como exemplo histórico, meramente aproximado, que usamos o termo humanismo; é com plena reflexão, para designarmos o ideal de formação humana que com a sofística penetra nas profundezas da evolução do espírito grego e no seu sentido mais essencial. Para os tempos modernos, o conceito de humanismo refere-se de modo expresso à educação e à cultura da Antiguidade.”

Platão e Isócrates adotam as idéias educacionais dos sofistas e nelas introduzem diversas modificações. Não há nada que caracteriza tão bem esta transformação como o fato de Platão, chegado ao termo da sua vida e do seu saber, ter transformado, nas Leis, a célebre frase de Protágoras (tão característica, na sua própria ambigüidade, do tipo de humanismo dele): O Homem é a medida de todas as coisas, no axioma: A medida de todas as coisas é Deus.

são essenciais ao humanismo a indiferença religiosa, o <relativismo> epistemológico e o ceticismo que Platão combate e que fazem dele o mais duro adversário dos sofistas. (…) Na nossa exposição posterior voltaremos a abordar este problema, assim como a luta da educação e da cultura para fazerem reconhecer a religião e a filosofia, luta que na história universal atinge o ponto culminante com a aceitação do cristianismo no período final da Antiguidade. § Aqui só podemos adiantar uma resposta sumária. A velha educação helênica, anterior aos sofistas, ignora a distinção entre religião e cultura. Está profundamente enraizada no religioso. A cisão tem lugar no tempo dos sofistas, que é ao mesmo tempo a época da criação da idéia consciente da educação.”

1000AGRE ÚNICO: “Provavelmente o humanismo só podia brotar das grandes tradições educacionais helênicas, no momento histórico em que entravam em crise os mais altos valores educativos.”

Do ponto de vista histórico, é preciso determinar, antes de tudo, se Platão destruiu ou completou o humanismo dos sofistas – o primeiro que a História conheceu. (…) considerando-se as coisas exclusivamente à luz da História, parece que há muito está decidido que o ideal de formação humana propugnado pelos sofistas tem em si um grande futuro, mas não é uma criação acabada. A sua clara consciência da forma tem tido uma inestimável eficácia prática na educação, até o dia de hoje. Mas era precisamente pelo que as suas aspirações tinham de superlativo que ela necessitava de um fundamento mais profundo de ordem filosófica e religiosa. (…) Platão ultrapassa a idéia de educação dos sofistas, precisamente porque volta atrás, e remonta à origem.”

Foi então que pela 1ª vez surgiu uma paideia do homem adulto. O conceito, que originariamente designava apenas o processo da educação como tal, estendeu ao aspecto objetivo e de conteúdo a esfera do seu significado, exatamente como a palavra alemã Bildung (formação) ou a equivalente latina cultura, do processo de formação passam a designar o ser formado e o próprio conteúdo da cultura, e por fim abarcam, na totalidade, o mundo da cultura espiritual”

Adquirir consciência é uma grandeza, mas é a grandeza da posteridade.” “conserva toda a sua força a frase de Hegel que diz que a coruja de Atena só levanta vôo ao declinar o dia. Foi só à causa da sua juventude que o espírito grego, cujos mensageiros são os sofistas, alcançou o domínio do mundo. Assim se compreende que Nietzsche e Bachofen tenham visto na época de Homero ou na tragédia, antes do despertar da ratio, o apogeu dos tempos. Mas não se pode aceitar esta valoração absoluta e romântica dos tempos primitivos.” “Sentimos com dor a perda que acarreta o desenvolvimento do espírito.” “É necessariamente esta a nossa posição; encontramo-nos num estágio avançado da cultura, e em muitos aspectos procedemos também dos sofistas. Estão muito mais <próximos> de nós do que Platão ou Ésquilo. Por isso é que precisamos tanto destes.”

A razão desta carência de notícias está em não terem deixado nenhum escrito que a eles sobrevivesse por muito tempo. Os escritos de Protágoras, que nisto como em tudo tinha um lugar de preferência, ainda eram lidos no final da Antiguidade; mas também foram esquecidos, a partir de então. Cf. PROTÁGORAS, frag. 2, Diels (conservado por Porfírio).”

A Medicina permanecera largo tempo no estado de arte de curar, mesclada de exorcismos e de superstições populares. O progresso do conhecimento da natureza entre os jônios e o estabelecimento de uma ciência empírica influenciaram a arte de curar e levaram os médicos a realizar observações científicas do corpo humanos e seus fenômenos.” “Transpôs-se da totalidade do universo para a individualidade humana o conceito de physis, que recebeu, assim, um matiz peculiar.”

O homem desgraçado ou inclinado ao mal constitui exceção. Foi, neste ponto que em todos os tempos se fundamentou a crítica religiosa cristã do humanismo. É certo que nesta questão o otimismo pedagógico dos sofistas não é a última palavra do espírito grego. Todavia, se os gregos tivessem partido da consciência universal do pecado e não do ideal de formação do Homem, jamais teriam chegado a criar uma pedagogia nem um ideal de cultura.”

Píndaro e Platão jamais partilharam as ilusões democráticas sobre a educação das massas por meio da instrução. Foi o plebeu Sócrates quem redescobriu estas dúvidas aristocráticas relativas à educação. Recordem-se as palavras resignadas de Platão, na Carta Sétima, sobre a estreiteza dos limites dentro dos quais o influxo do conhecimento se pode exercer sobre a massa dos homens, e as razões que ele invoca para se dirigir antes a um círculo restrito e não à multidão inumerável, como portador de uma mensagem de salvação.”

É precisamente nesta íntima antinomia entre a grave dúvida sobre a possibilidade da educação e a vontade inquebrantável de realizá-la que residem a grandeza e a fecundidade do espírito grego. Há lugar entre os dois pólos para a consciência do pecado e pessimismo cultural do cristianismo e para o otimismo educativo dos sofistas.”

As diferenças individuais entre os métodos educativos dos sofistas, de que os seus descobridores se mostram tão orgulhosos, não passam de um objeto de divertimento para Platão. Apresenta juntas as personalidades de Protágoras de Abdera, Hípias de Élis e Pródico de Ceos, que são hóspedes simultâneos do rico ateniense Cálias, cuja casa se tornara pousada de celebridades espirituais. Assim se faz salientar que, apesar de todas as diferenças, há entre todos os sofistas um parentesco espiritual.”

Prêmios e castigos são outorgados pela sociedade, lá onde se trata de bens que podem ser alcançados pelo esforço consciente e pela aprendizagem.” “A virtude cívica é o fundamento do Estado. Sem ela, nenhuma sociedade poderá subsistir. Quem nela não participa deve ser treinado, castigado e corrigido, até que se torne melhor; se for incurável, terá de ser banido da sociedade e até morto. Assim, não é só a justiça punitiva, mas o Estado inteiro, que é para Protágoras uma força educadora. A rigor, é o espírito político do Estado constitucional e jurídico, tal como se realiza em Atenas”

É digno de nota que os sofistas nunca tenham propugnado a oficialização da educação, embora esta exigência esteja muito próxima do ponto de vista de Protágoras. Supriram esta falta oferecendo a educação por meio de contratos privados.”

Pelo ensino da música a criança é educada na sophrosyne e afastada das más ações. Segue-se o estudo dos poetas líricos, cujas obras são apresentadas em forma de composições musicais. Introduzem o ritmo e a harmonia na alma do jovem, para que este saiba dominar-se, uma vez que a vida do Homem precisa da euritmia e da justa harmonia. Esta deve manifestar-se em todas as palavras e ações de um homem realmente educado. O jovem é mais tarde levado à escola de ginástica, onde os paidotribes lhe fortalecem o corpo, para que seja servo fiel de um espírito vigoroso e para que o homem nunca fracasse na vida por culpa da debilidade do corpo.” “Os filhos dos ricos começam a aprender antes e acabam mais tarde a sua educação.” “É característico do novo conceito o fato de Protágoras pensar que a educação não acaba com a saída da escola. Em certo sentido, poderia dizer-se que é precisamente nossa época que começa.”

O conhecimento que por meio do ensino penetra na alma não tem para com ela a mesma relação que a semente tem para com a terra. A educação não é um mero processo de crescimento que o educador alimenta, favorece e guia deliberadamente.”

É indiferente que talvez tenha sido Platão o primeiro a empregar a expressão <formar>. A idéia de formação está implícita na aspiração de Protágoras a formar uma alma rítmica e harmônica por meio da impressão do ritmo e da harmonia musical.”

Antes dos sofistas não se fala de gramática, de retórica ou de dialética.”

Perderam-se os seus escritos gramaticais; mas os gramáticos posteriores, peripatéticos e alexandrinos, os reelaboraram. As paródias de Platão oferecem-nos vislumbres da sinonímia de Pródico de Ceos, e sabemos ainda alguma coisa da classificação dos diversos tipos de palavras, de Protágoras, bem como da doutrina de Hípias sobre o significado das letras e das sílabas. Perderam-se também as retóricas dos sofistas, que eram manuais destinados à publicidade. Um remanescente deste tipo de livros é a retórica de Anaxímenes, em grande parte elaborada com conceitos recebidos.” “É certo que se perdeu sua obra capital, as Antilogias de Protágoras.”

Foi na escola de Platão que a lógica surgiu em 1º lugar, e as caricaturas que o Eutidemo¹ traça dos jogos erísticos de alguns sofistas de 2º plano, cujos excessos a filosofia séria impugna, mostram até que ponto se empregou, desde o início, o vigor da nova arte de discutir como arma nos combates oratórios. Está aqui muito mais próximo da retórica que da lógica teórica e científica.”

¹ https://seclusao.art.blog/2018/08/31/eutidemo-ou-do-disputador-ou-da-mentira-sofistica-frente-a-verdade-dialetica/.

como num teclado, os oradores dominam os tons mais diversos. Tal é a <ginástica do espírito>, cuja falta tão freqüentemente notamos nos discursos e escritos atuais.”

Os gregos deram o nome de agon aos debates judiciais, porque tinham sempre a impressão de se tratar de uma luta entre 2 rivais, sujeita à forma e à lei. Novas investigações mostraram como a argumentação lógica da prova, introduzida pela retórica, foi substituindo, na oratória jurídica do tempo dos sofistas, as antigas provas jurídicas de testemunhas, torturas e julgamentos.” “A retórica é a forma de educação predominante nos últimos tempos da Antiguidade. Estava tão perfeitamente adaptada à predisposição formal do povo grego, que se converteu numa fatalidade, ao desenvolver-se por cima de tudo o mais, como uma trepadeira.”

Unida à gramática e à dialética, a retórica tornou-se o fundamento da formação formal do Ocidente. Desde os últimos tempos da Antiguidade formaram juntas o chamado trivium, que juntamente com o quadrivium constituía as 7 artes liberais, que, sob esta forma escolar, sobreviveram a todo o esplendor da arte e da cultura gregas. Ainda hoje as classes superiores dos liceus franceses conservam, como sinal da ininterrupta tradição da educação sofística, os nomes destas disciplinas, herdadas das escolas monásticas medievais. § Os sofistas não uniram ainda aquelas três artes formais à Aritmética, Geometria, Música e Astronomia, que formaram posteriormente o sistema das 7 artes liberais.”

Antes deles, a música constituía apenas um ensino prático, como mostra a descrição que Protágoras faz da essência da educação dominante. A instrução musical estava nas mãos dos mestres de lira. A ela uniram os sofistas a doutrina teórica dos pitagóricos sobre a harmonia.”

O que hoje denominamos cultura humanista no estrito sentido da palavra, e que é impossível sem o conhecimento das literaturas clássicas na sua língua original, só podia florescer num solo não-grego, mas influenciado no que tinha de mais profundo pelo espírito helênico, como foi o povo romano. A educação baseada nas 2 línguas, grega e latina, é, na sua concepção plena, uma criação do humanismo do Renascimento.”

Uma objeção capital da crítica pública contra este aspecto da educação sofista era a inutilidade das matemáticas para a vida prática. Como se sabe, Platão, no seu plano de estudos, considera a Matemática uma propedêutica para a Filosofia. Nada mais alheio aos sofistas do que esta concepção. (…) Isócrates, um discípulo da retórica sofística que após longos anos de oposição acabou por conceder um certo valor à Matemática” “As Mathemata representam o elemento real da educação sofística; a gramática, a retórica e a dialética, o elemento formal. A posterior divisão das artes liberais no trivium e no quadrivium depõe também a favor daquela separação em 2 grupos de disciplina.”

PLATÃO, Hípias Maior, 285 B mostra unicamente a enciclopédica variedade do saber de Hípias; Hípias Menor,¹ 368 B, o seu consciente esforço para a universalidade, pois tinha o orgulho de dominar todas as artes.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/11/13/hipias-menor-ou-da-mentira/

É a primeira vez que se reconhece o valor do puramente teórico para a formação do espírito. (…) Pelo conhecimento matemático alcança-se a capacidade de construir e ordenar e, de modo geral, a força espiritual. Os sofistas nunca chegaram a formular uma teoria desta ação. Foram Platão e Aristóteles os que primeiro alcançaram uma consciência plena da importância educacional da ciência pura.”

Nos tempos antigos, só por exceção esta atitude espiritual aparecia em algumas personalidades excepcionais, que pelo seu afastamento da vida citadina corrente e seus interesses, e pela sua originalidade entre admirável e ridícula, granjeavam respeito, consideração e amável indulgência. Agora as coisas eram bem outras. Este saber aspirava a converter-se na autêntica e <superior> educação e a suplantar a educação tradicional. § A oposição não podia brotar do povo trabalhador, que desde o início se viu excluído desta educação, pois era <inútil>, cara e dirigida às esferas dirigentes. A crítica só era possível no seio das classes superiores, que sempre haviam possuído uma alta formação e uma medida certa e que, mesmo sob a democracia, mantinham intacto, quanto ao essencial, o seu ideal de gentleman, a kalokagathia. Políticos eminentes como Péricles, e altas personalidades sociais, como Cálias, o homem mais rico de Atenas, davam o exemplo de um apaixonado amor ao estudo, e muitas pessoas de destaque mandavam os filhos às conferências dos sofistas. (…) [os pais] não queriam que seus filhos se convertessem em sofistas. Alguns discípulos mais bem-dotados dos sofistas seguiam os seus mestres de cidade em cidade e aspiravam a fazer profissão dos ensinamentos recebidos. Em contrapartida, os jovens distintos que assistiam as suas conferências não os julgavam modelos dignos de imitação. Pelo contrário, acentuavam a diferença de classe que os separava dos sofistas, todos procedentes de famílias burguesas, e estabeleciam um limite além do qual não podia passar a sua influência. (…) Lembra a discussão entre <Sócrates> – que neste caso se identifica com Platão – e o nobre ateniense Cálicles, no Górgias,¹ sobre o valor da investigação pura para a formação do homem superior que aspira à ação política. Cálicles repele violentamente a ciência como vocação da vida inteira. É boa e útil para preservar os jovens contra tendências perniciosas na perigosa idade em que ocorrem (…) Quem não tiver sentido bem cedo estes interesses não chegará nunca a ser um homem completo e permanecerá sempre numa fase imatura do seu desenvolvimento quem encerrar a sua vida toda nesta atmosfera acanhada. Cálicles estabelece os limites da idade em que é necessário ocupar-se deste saber, ao afirmar que deve ser adquirido <com propósito educativo>, i.e., durante uma idade que serve de simples transição. Cálicles é o tipo da sua classe social. Não nos podemos ocupar aqui da atitude que Platão assume diante dele. O mundo distinto de Atenas e toda a sociedade burguesa participam em maior ou menor grau do ceticismo de Cálicles perante o novo entusiasmo espiritual da sua juventude. (…) Cálicles pertence também à escola sofística, como todas as suas palavras manifestam. Mas aprendeu depois, como político, a subordinar esse grau da sua educação ao curso total da sua carreira de estadista. Cita Eurípides, cuja obra é espelho de todos os problemas do seu tempo.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/03/02/gorgias-ou-da-retorica/.

Philosophari sed paucis” Cícero

Filosofar é coisa rara

foi originariamente proferida por um grego essa <máxima romana> que emociona tantos dos nossos filo-helenistas.”

Ocupar-se da investigação <só por mor da educação> e na medida em que esta faz falta era a fórmula da cultura do tempo de Péricles, uma vez que essa cultura era integralmente prática e política. O seu fundamento era o império ateniense, que tinha por finalidade obter o domínio do mundo helênico. Até Platão, quando após a ruína do império pregava o ideal da <vida filosófica>, justificava o seu intento pelo valor prático em prol da edificação do Estado. (…) E foi só depois de desaparecida a grandeza ateniense que, em Alexandria, reapareceu a ciência jônica.”

O Estado aparece na teoria de Protágoras como fonte de todas as energias educadoras. Além disso, o Estado é uma grande organização educacional que impregna deste espírito todas as suas leis e instituições sociais.”

Foi entre estes 2 pólos – educação e poder – que o Estado dos tempos clássicos se realizou, em tensão constante. Esta tensão gera-se em todos os casos em que o Estado educa os homens exclusivamente para si. A exigência da consagração da vida individual aos objetivos do Estado pressupõe a concordância destes objetivos com o bem-estar do todo e de cada uma de suas partes, entendido corretamente.”

Segundo Protágoras, a educação para o Estado significa educação para a justiça. É precisamente neste ponto que, no tempo dos sofistas, se origina a crise do Estado, a qual se converte ao mesmo tempo na mais grave crise da educação. É superestimar a influência dos sofistas considerá-los, e isso ocorre com freqüência, os executores desta evolução. Aparece mais sensível nas suas doutrinas porque é nelas que se espelham com maior nitidez os problemas do tempo e porque a educação acusa com o maior vigor qualquer perturbação da autoridade legítima.”

a guerra do Peloponeso foi uma prova final para o crescente e irresistível poder de Atenas. Após a morte de Péricles, afetou gravemente a autoridade do Estado e o próprio Estado até, e tornou apaixonada a luta pelo poder interno. Ambos os partidos utilizaram a retórica e a arte de discutir dos sofistas. Mas não se pode afirmar que pelas suas concepções políticas os sofistas deveriam necessariamente pertencer a um dos partidos.” “de uma simples luta de partidos converteu-se numa luta espiritual que corroía os princípios fundamentais da ordem vigente.”

Cálicles impugna a educação segundo o espírito de Protágoras, i.e., segundo o espírito dos ideais tradicionais da <justiça>, com um pathos que deixa transparecer com paixão uma transmutação total de todos os valores.”

Desde a meninice que tratamos como leões os melhores e mais poderosos de nós: oprimimo-los, enganamo-los e subjugamo-los, ao dizer-lhes que devem contentar-se com ser iguais aos outros e que é isto o nobre e o justo. Quando, porém, surge um homem de natureza realmente poderosa, sacode tudo isto, rompe as cadeias e liberta-se, calcando aos pés todo o nosso amontoado de letras e sortilégios, as nossas artes mágicas e as nossas leis contra a natureza; e ele, o escravo, levanta-se e aparece como senhor nosso: é então que brilha em todo o seu esplendor o direito da natureza.”

Górgias, 483 E

Palavras tão belas e sinceras quanto perigosas e ambíguas. Toda a ciência política moderna gravitará em torno delas, interpretando-as bem ou mal.

o conceito de direito, no sentido da lei, perdeu a sua íntima autoridade moral. Na boca de um aristocrata ateniense, é o anúncio declarado da revolução. Com efeito, o golpe de estado de 403, depois da derrota de Atenas, estava animado deste espírito.”

Para a consciência atual, a política e a moral pertencem, com ou sem razão, a 2 reinos separados, e as normas de ação não são as mesmas em ambos os domínios. Nenhuma tentativa teórica para superar essa cisão pode mudar qualquer coisa no fato histórico de que a nossa ética provém da religião cristã e a nossa política do Estado antigo.” “Esta divergência, sancionada pelos séculos e em relação à qual a filosofia moderna várias vezes tentou fazer da necessidade virtude, era desconhecida dos gregos.” “era (…) quase uma tautologia a convicção de que o Estado era a única fonte das normas morais” Maldito rebelde de Nazaré!

Devemos abstrair-nos aqui da nossa idéia de consciência pessoal. Também ela é oriunda da Grécia, mas desabrochou em época muito posterior. Só havia 2 possibilidades para os bregos do séc. V: ou a lei do Estado é a norma suprema da vida humana e está em concordância com a ordenação divina da existência, de tal maneira que o Homem e o cidadão são uma e a mesma coisa; ou as normas do Estado estão em contradição com as normas estabelecidas pela natureza ou pela divindade, caso em que o Homem pode deixar de reconhecer as leis do Estado.” // Sófocles, Antígona

É no momento em que se cava o abismo entre as leis do Estado e as leis cósmicas que se abre o caminho que leva ao cosmopolitismo da época helenística.”

Senhores, todos quantos aqui estais presentes, sois a meus olhos semelhantes, parentes e concidadãos, não pela lei, mas pela natureza. Segundo a natureza, o semelhante é parente do semelhante; mas a lei, tirano dos homens, força a muitas coisas contra a natureza.”

Protágoras, 337 C

Hípias quer estender a igualdade e a fraternidade a todos os seres que têm rosto humano. Do mesmo modo se exprime o sofista ateniense Antifonte no seu livro A Verdade, de que recentemente se acharam numerosos fragmentos.(*) Bárbaros e Gregos, temos todos a mesma natureza, em todos os aspectos.

(*) Oxyrh. Pap. XI n. 1364 Hunt, publicado já em DIELS, Vorsok, II (Nachtr. XXXIII) frag. B col. 2, 10 ss. (4ª ed.).”

Este ideal de igualdade internacional, tão alheio à democracia grega, representa a mais extrema oposição às críticas de Cálicles.”

Do ponto de vista da política realista, as teorias de Antifonte e de Hípias, com as suas idéias de igualitarismo abstrato, não representavam, de momento, grande perigo para o Estado vigente.”

Já nos poemas homéricos podem-se enxergar os vestígios mais antigos desta maneira de pensar, que estava bem de acordo com o espírito grego. A sua aptidão inata para considerar as coisas na sua totalidade podia atuar de maneiras muito diferentes no pensamento e na conduta do Homem.” “Um preferia morrer heroicamente a perder o seu escudo. Outro abandonava-o e comprava um novo, pois a vida era-lhe mais querida.”

Se queremos viver num Estado, temos de nos conformar às suas normas. Mas acontecerá o mesmo se quisermos viver em outro. A lei carece, pois, de força compulsiva absoluta.”

se falta a coação interna, se a justiça consiste só na legalidade externa dos usos de comportamento e no evitar o prejuízo da pena, então não há qualquer motivo para proceder segundo a lei, nos casos em que não há ocasião nem perigo de faltar às aparências e em que não existem testemunhas da nossa ação.”

as palavras de Aristóteles na Política, segundo as quais é melhor para o Estado ter leis ruins, mas estáveis, do que leis em contínua mudança, por melhores que sejam. A penosa impressão do forjamento de leis pela massa e da luta dos partidos políticos, com todas as suas contingências e fraquezas humanas, tinha forçosamente de abrir o caminho ao relativismo.” Vivemos nesse quadro desolador.

Nem todos os sofistas aceitaram tão aberta e integralmente o hedonismo e o naturalismo. Protágoras não o podia ter aceitado, pois nega da maneira mais decidida ter partilhado este ponto de vista, quando Sócrates procura levá-lo a ele, no diálogo platônico do seu nome, e só a sutil dialética socrática consegue que o varão venerável acabe por confessar que deixou aberta na sua doutrina uma brecha por onde o hedonismo, que ele recusava, podia penetrar.”

O simples conceito de <obediência à lei>, que nos primeiros tempos da constituição do novo Estado jurídico fôra um elemento de liberdade e de grandeza, já não era suficiente para exprimir as exigências da nova e mais profunda consciência moral.”

2.4 Eurípides e o seu tempo

Entre Eurípides e Sófocles pusemos a sofística de permeio, visto que, nos dramas que se conservaram e que pertencem todos aos seus últimos anos, o <poeta do iluminismo grego>, como foi chamado, está impregnado das idéias e da arte retórica dos sofistas.” “A sofística tem uma cabeça de Jano, da qual um dos rostos é o de Sófocles e o outro o de Eurípides.” “Sófocles caminha sobre os íngremes píncaros dos tempos. Eurípides é a revelação da tragédia cultural que arruinou a sua época.”

Nunca as múltiplas ramificações do povo heleno – que só tardiamente se atribuíram esse nome comum – tinham na sua história vivido uma tal concentração de forças estatais, econômicas e espirituais, como a que na Acrópole produziu o maravilhoso Pártenon, para honrar a deusa Atena, desde então considerada a alma divina do seu Estado e do seu povo.”

Quanto maior era a grandeza com que a época se manifestava em todos os seus empreendimentos, e a elasticidade, reflexão e entusiasmo com que cada indivíduo se consagrava às suas próprias tarefas e às da comunidade, tanto mais intensamente se sentia o inaudito crescimento da mentira e da hipocrisia – por cujo preço se comprava aquele esplendor – e a íntima insegurança de uma existência que se via forçada a todos os esforços para alcançar o progresso externo.”

Na sua atitude puramente clínica, essa análise da enfermidade constitui um paralelo emocionante com a célebre descrição da peste que nos primeiros anos da guerra minou a saúde física e a resistência do povo.”

a recordação das revoluções passadas e das paixões associadas a elas aumenta a gravidade dos nossos próprios transtornos.”

a amplitude e a popularidade de uma cultura não-erudita, mas vivida simplesmente, tal como existe na Atenas da 2ª metade dos sécs. V e IV, é fenômeno único na História e talvez só tivesse sido possível nos estreitos limites de uma comunidade citadina em que o espírito e a vida pública chegaram a uma interpenetração tão perfeita.”

A transformação que a poesia operou nos banquetes (que já não eram mera ocasião para a bebida, a exaltação e o divertimento, mas sim um foco da vida espiritual mais séria) mostra bem a mudança enorme que desde os tempos aristocráticos se operou na sociedade.” “A luta de morte entre a educação antiga e a nova educação libertária e sofística penetra nos banquetes do tempo de Eurípides e marca-o como etapa decisiva na história da educação.”

De fato, em comparação com uma atmosfera tão inquieta como a de Atenas, na qual pululavam todos os germes daquelas críticas da tradição e onde qualquer indivíduo exigia no campo do espírito uma liberdade de pensamento e de palavra análoga à que a democracia outorgava aos cidadãos na assembléia do povo, pouco significava, em suma, a rude ousadia emancipadora de alguns poetas ou pensadores isolados, no meio de uma comunidade citadina que vivia dentro das normas habituais. Aquilo era completamente estranho e alarmante para a essência do Estado antigo, mesmo na sua fora democrática, e tinha necessariamente de produzir um choque entre esta liberdade individualista não-garantida por nenhuma instituição e as forças conservadoras do Estado. Assim se viu no processo movido a Anaxágoras, sob acusação de impiedade, ou em ataques ocasionais contra os sofistas, cujas doutrinas iluministas eram em parte francamente hostis ao Estado. Geralmente, porém, o Estado era tolerante para com todos os movimentos espirituais e orgulhava-se até da nova liberdade dos seus cidadãos. Não devemos esquecer que a democracia ateniense daquela época e das seguintes serviu a Platão de modelo para a sua crítica da constituição democrática, por ele considerada uma anarquia intelectual e moral.”

A acusação contra o filósofo Anaxágoras era antes dirigida contra seu protetor e partidário, Péricles.”

Ganhou foros de cidadania o espírito estrangeiro, que originariamente era um meteco. Mas desta vez não foram os poetas que entraram em Atenas, embora não faltassem também, pois Atenas assumira a direção incontestada em tudo o que se referia às massas.”

Durante a sua juventude, Platão seguiu Crátilo, discípulo de Heráclito. [mais detalhes em 3.3]

Não se fala dos que não viveram em Atenas ou lá não apareceram com freqüência.”

o Estado, a religião, a moral e a poesia. O Estado racional realiza na concepção histórica de Tucídides a sua última façanha espiritual, em que eterniza a sua essência. Por isso, o grande historiador permanece mais confinado ao seu tempo que os seus 2 grandes concidadãos. O seu profundo conhecimento disse, aliás, menos à Grécia posterior do que a nós, pois não se repetiu tão cedo como ele teria podido pensar a situação histórica para a qual escreveu a sua obra.”

Eurípides é o último poeta grego, no sentido antigo da palavra. Mas também ele tem um pé num campo distante daquele em que a tragédia grega nasceu. A Antiguidade o chamou o filósofo do palco.”

Para definir a atitude dessa época historicista e racional em face do mito, temos o fato significativo de o historiador Tucídides sustentar que a investigação da verdade não é nada menos que a destruição do mito.”

Ésquilo já não tinha adaptado as antigas sagas às representações e aos anseios do seu tempo? Não tinha Sófocles, por razões semelhantes, humanizado os antigos heróis? E a assombrosa renovação, no drama dos últimos 100 anos, do mito que já parecia morto na epopéia mais tardia, o que era ela senão a transfusão de sangue e vida nova ao corpo daquele mundo longo tempo exânime?”

É evidente que convinha mais à consciência grega a projeção do mito num mundo fictício e idealizado, convencional e estético, como o da lírica coral do séc. VI e dos últimos tempos da epopéia, do que a sua adaptação à realidade comum, que, comparada ao mito, correspondia para o espírito grego ao que nós entendemos por profano.”

Como em toda a poesia grega verdadeiramente viva, a forma surge em Eurípides organicamente de um conteúdo determinado, é inseparável dele e é por ele condicionada na própria formação lingüística da palavra e na estrutura da frase.” “As novas formas que contribuíram para a formação do drama de Eurípides foram o realismo burguês, a retórica e a filosofia. Esta mudança de estilo tem o maior alcance para a história do espírito, pois anuncia-se nela o futuro domínio destas 3 forças decisivas para a formação do helenismo posterior.”

Para a época de Eurípides, o aburguesamento da vida significava o mesmo que para nós a proletarização. Muitas vezes faz alusão a ele quando faz entrar em cena, em vez dos heróis trágicos do passado, mendigos maltrapilhos. Era precisamente contra esta degradação da alta poesia que os seus adversários se insurgiam.”

Discute-se o casamento. São trazidas à luz da publicidade as relações sexuais, que durante muitos séculos tinham constituído um noli me tangere da convenção. São uma luta, como qualquer relação na natureza. Não reina aqui, como sempre sobre a Terra, o direito do mais forte? Assim, já na fábula de Jasão que abandona Medéia descobre o poeta os sofrimentos do seu tempo, e introduz nela problemas desconhecidos do mito original, incorporando-os à grandiosa plástica da representação. § Não eram precisamente Medéias as mulheres da Atenas de então. Eram para isso toscas e oprimidas demais ou cultas demais. Por isso escolhe o poeta a bárbara Medéia que mata os filhos com o intuito de ultrajar o marido infiel, para mostrar a natureza elementar da mulher, livre das limitações da moral grega. Jasão, que para a sensibilidade geral dos gregos era um herói sem mancha, ainda que não certamente um marido fiel, torna-se um covarde oportunista. Não age por paixão, mas sim por cálculo frio. Isso era necessário para fazer da infanticida do mito uma figura trágica. O poeta empresta-lhe toda a sua simpatia, em parte porque considera deplorável o destino da mulher, o qual fica eclipsado, à luz do mito, pelo fulgor do herói masculino, cujas façanhas e fama são as únicas dignas de louvor; mas sobretudo porque o poeta quer fazer de Medéia a heroína da tragédia matrimonial burguesa, tal como se manifesta na Atenas daquele tempo, embora não de forma extrema. (…) Medéia é um autêntico drama do seu tempo, pelo conflito entre o egoísmo ilimitado do homem e a ilimitada paixão da mulher. São essencialmente burguesas as disputas, os impropérios e os arrazoados de ambas as partes. Jasão ostenta prudência e generosidade. Medéia faz reflexões filosóficas sobre a posição social da mulher, sobre a desonrosa violência da entrega sexual a um homem estranho, a quem é preciso seguir no casamento e comprar por um rico dote. E explica que o parto dos filhos é muito mais perigoso e heróico que as façanhas dos heróis na guerra.”

Em Orestes – que não lembra em nada Ésquilo ou Sófocles – Menelau e Helena, de novo unidos após longa separação, regressam da sua viagem, no momento em que a pena pelo assassínio da mãe afunda Orestes numa comoção nervosa diante da ameaça de linchamento pela justiça popular. Orestes implora o auxílio do tio. Menelau puxa sua bolsa. Mas, embora se sinta compadecido no seu coração, é covarde demais para jogar por seu sobrinho e pela sobrinha Electra a sua felicidade, penosamente reconquistada. Sobretudo porque o seu sogro Tíndaro, avô de Orestes e pai da falecida Clitemnestra, está furioso e sedento de vingança. Isto completa o drama familiar. Movido pelos agitadores, o povo condena Orestes e Electra à morte, por falta de um defesa apropriada. É então que aparece o fiel Pílades, que jura matar a formosa Helena para vingar Orestes da conduta de Menelau. Isso, porém, não chega a acontecer, porque os deuses, que simpatizam com a heroína, raptam-na e a levam para o céu. Em vez dela, Orestes e Pílades querem assassinar-lhe a filha Hermíone e incendiar-lhe a casa. Impede-os, porém, o aparecimento de Apolo, como deus ex machina, e a peça acaba bem.”

A introdução da retórica na poesia é um fenômeno de não menos graves conseqüências. Era um caminho que levaria à total dissolução da poesia oratória.”

Assim como de início a prosa buscou na poesia os seus processos, mais tarde a própria prosa produziu uma reação na poesia.”

Os discursos de personagens míticos constituem um dos mais constantes exercícios das escolas retóricas, como o mostra a defesa de Palamedes por Górgias e o elogio que este faz de Helena.”

Foi atribuída a Antístenes uma luta retórica entre Ájax e Ulisses diante dos juízes, e a Alcidamante uma acusação de Ulisses contra Palamedes. Quanto mais aventuroso era o tema, mais apto estava a demonstrar a difícil arte <de converter a pior coisa na melhor>, ensinada pelos sofistas.”

A retórica sofista procura defender o direito do ponto de vista subjetivo do acusado, por todos os processos de persuasão.” “O antigo conceito de culpa era totalmente objetivo.” “Ésquilo e Sófocles ainda estão impregnados dessa antiga idéia religiosa, mas procuram atenuá-la, dando ao Homem sobre o qual recai a maldição uma participação mais ativa na elaboração do seu destino (…) Os personagens são <culpados> no sentido da maldição que pesa sobre eles, mas são <inocentes> para a nossa concepção subjetiva.”

O velho Sófocles apresenta-nos o seu Édipo em Colono, defendendo-se do decreto de expulsão promulgado pelos habitantes do lugar onde se acolheu, com a alegação da sua inocência e de que foi sem conhecimento nem vontade que cometeu os seus crimes de parricídio e incesto. Alguma coisa aprendeu de Eurípides a este respeito.”

Como sabemos, a subjetivação do problema da responsabilidade jurídica no direito penal e na defesa perante os tribunais do tempo de Péricles ameaçava esfumar as fronteiras entre a culpabilidade e a inocência.”

a Helena de Eurípides analisa o seu adultério e considera-o perpetrado sob a compulsão da paixão erótica.” // As Troianas, 948

A sua intelectualidade sensível, que parece débil em comparação com a força vital profundamente enraizada de Ésquilo, torna-se o instrumento espiritual de uma arte trágica que precisa cimentar e espicaçar, por meio de uma dialética febril, o seu arrebatamento subjetivo.”

A impiedosa crítica que os homens dirigem contra os deuses é um motivo que sempre acompanha a ação trágica, mas é sempre acidental.”

em As Troianas, os seus heróis, orgulho da nação, são desmascarados como homens de brutal ambição e animados de simples fúria de destruição.”

Eurípides desenvolve o elemento lírico que desde o início fôra essencial ao drama, mas o transpõe do coro para os personagens.”

A comédia, com as suas contínuas censuras à música moderna da arte de Eurípides, prova que perdemos com ela algo de essencial.”

Em As Bacantes, obra da velhice, o poeta atinge a elevação máxima da sua força lírica, com a irrupção elementar da embriaguez dionisíaca, que constitui, em todo o âmbito das nossas tradições antigas, a mais genuína manifestação desta estranha loucura orgiástica, e mesmo atualmente nos deixa pressentir com a maior nitidez a força de Dioniso nas almas arrebatadas por aquela fúria.”

Eurípides é o primeiro psicólogo.” “É a primeira vez que, com despreocupado naturalismo, introduz-se no palco a loucura”

Na Medéia e no Hipólito, descobre os trágicos efeitos da patologia erótica e da erótica deficiente. Em contrapartida, na Hécuba, descreve o efeito deformador da dor excessiva sobre o caráter, a espantosa e bestial degenerescência da nobre dama que tudo perdeu.”

O Homem já não quer nem pode submeter-se a uma concepção da existência que não o tome como medida última.”

A comédia infiltra-se cada vez mais nas cenas trágicas. A comédia de Menandro representa a continuação dessa tendência.”

Não é de se suspeitar de que foi precisamente por ter compreendido tudo a seu respeito e a respeito do seu mundo, com visão cética, que ele aprendeu a celebrar a felicidade da fé humilde dos antigos, baseada numa verdade religiosa que ultrapassava os limites da razão e que a ele próprio faltava?” “Eurípides é o criador de um tipo de arte que já não se fundamenta na cidadania, mas na própria vida.”

Os seus retratos mostram-nos a fronte negligentemente cercada de emaranhadas mechas de cabelo, tal como era típico das artes plásticas caracterizar as cabeças dos filósofos.”

Existem poetas infelizes na vida que na sua obra parecem completamente felizes. Sófocles conseguiu na vida aquela harmonia que a sua arte irradia.”

O prejuízo causado por Eurípides ao teatro ateniense é compensado pela sua incalculável ação sobre os séculos seguintes.”

2.5 A comédia de Aristófanes

Só a poesia nos permite apreender a vida de uma época em toda a riqueza das suas formas e tonalidades e na eternidade da sua essência humana. Daí o paradoxo, por outro lado perfeitamente natural, de talvez nenhum período histórico, nem sequer do passado mais próximo, poder ser apresentado e tão intimamente compreendido como o da comédia ática.”

A cena de Tersites na Ilíada, que expõe o repugnante e odioso agitador à troça pública, é uma cena genuinamente popular, uma pequena comédia entre as múltiplas tragédias que a epopéia homérica encerra. E na farsa divina que a contra-vontade representa o par de enamorados Ades e Afrodite, são os próprios deuses olímpicos que se tornam objeto das joviais gargalhadas dos expectadores.

O fato de que até os altos deuses pudessem ser tema e objeto do riso cômico prova que, no sentir dos gregos, em todos os homens e em todos os seres de forma humana reside, ao lado da força que leva ao pathos heróico e à grave dignidade, a aptidão e a necessidade do riso. Alguns filósofos posteriores definiram o Homem como único animal capaz de rir – embora na maioria das vezes ele seja definido como o animal que fala e pensa. Deste modo, colocam o riso no mesmo plano da linguagem e do pensamento, como expressão da liberdade espiritual. Se fizermos uma ligação entre o riso dos deuses homéricos e esta idéia filosófica do Homem, não poderemos negar a alta origem da comédia, apesar da menor dignidade deste gênero e dos seus motivos espirituais.”

O espírito moderno só conseguirá compreender o encanto ímpar da comédia aristofânica desde que se liberte do preconceito histórico que a encara apenas como uma primeira fase, genial mas ainda tosca e informe, da comédia burguesa.”

As vestes fálicas dos atores e os disfarces do coro, especialmente por meio de máscaras de animais – rãs, vespas, pássaros –, provêm de uma antiquíssima tradição, pois já se encontram presentes em velhos autores cômicos, em quem esta memória se mantém bem viva”

Dificilmente pode ser obra da pura casualidade o fato de que tenha sido Aristófanes o único sobrevivente da tríade de poetas cômicos – Cratino, Eupolis e ele – estabelecida como clássica pelos filólogos alexandrinos. Este cânon, procedente sem dúvida do paralelismo com a tríade dos poetas trágicos, era uma simples sutileza da história literária e não refletia o valor efetivo daqueles poetas, nem sequer para os tempos helenísticos.” “Platão teve razão em introduzir Aristófanes no Banquete, como representante exclusivo da comédia.” “Quando com a idade perdiam sutileza e engenho, fontes elementares do seu êxito, até os poetas preferidos eram vaiados sem compaixão. É esse o destino de todos os palhaços.”

Parece indubitável que até o velho bêbado Cratino, que Aristófanes, na parábase de Os Cavaleiros, propõe que seja retirado do palco urgentemente e conservado no Pritaneu até a morte, em estado de honorável embriaguez, baseava toda a sua força e todo o seu prestígio na sua sátira contra personagens políticos de notória impopularidade. É este o autêntico iambo antigo, nascido da sátira política. Mesmo Eupolis e Aristófanes, os brilhantes Dióscoros da jovem geração, que começaram como amigos, escrevendo as suas peças em colaboração, e acabaram como inimigos violentos, acusando-se mutuamente de plagiadores, são sucessores de Cratino nas suas invectivas contra Cléon e Hipérbolo.”

a sátira trivial à calvície de alguns espectadores, o ritmo indecente da dança do córdax, a galhofa das cenas de pancadaria, por meio das quais o autor disfarçava a idiotice das suas piadas.”

As Nuvens confessa abertamente o quanto se sente superior aos seus predecessores (e não apenas a eles) e em que medida confia no poder da sua arte e da sua palavra. Sente-se orgulhoso por introduzir todos os anos uma <idéia> nova, pondo simultaneamente a força inventiva da nova poesia cômica não só frente à antiga, mas também frente à tragédia, que operava constantemente sobre um material dado. (…) Um poeta cômico podia, com um desafio destes, concitar o interesse universal, do mesmo modo que um jovem político podia lançar-se brilhantemente encarregando-se da acusação num grande processo político de escândalo. Só era preciso ter coragem para isso.”

Foi na comédia que o excesso de liberdade gerou, por assim dizer, o seu próprio antídoto. Superou-se a si própria e estendeu a liberdade de expressão, a parrhesia, até às coisas e instâncias que mesmo as constituições mais livres consideram tabu.”

Em Atenas, a função censora pertencia à comédia. É isso que dá à graça de Aristófanes, a qual supera muitas vezes as suas chicotadas, a inaudita seriedade que se oculta por trás das suas alegres máscaras.”

O fato de que a educação tenha ocupado na comédia, apesar da agitação daqueles dias de guerra, um lugar tão amplo e mesmo predominante, ao lado da política, demonstra a sua enorme importância naquele tempo. Só através da comédia podemos chegar a conhecer a violenta paixão que gerou e as causas de que procede a luta pela educação.”

Quando a caricatura atingia os homens do governo com uma despreocupação artística análoga à imagem de Sócrates que As Nuvens nos apresenta, era humano que os atingidos empregassem a força para se defender, ao passo que os particulares, como Sócrates, estavam desamparados, como diz Platão, à mercê das troças populares da comédia.”

As palavras de Goethe em Poesia e Verdade descrevem perfeitamente os efeitos deste gênero de nostalgia do passado, na poesia. Causa universal prazer recordar com engenho a história de uma nação; congratulamo-nos com as virtudes dos nossos maiores e sorrimos perante as faltas que julgamos ter superado há muito tempo.”

Na Alemanha, foi com o despertar da vida política que despertou (sic) o interesse pela comédia política de Aristófanes. Mas só nas últimas décadas os problemas políticos chegaram a atingir a agudeza que tiveram em Atenas, no final do séc. V. Os dados fundamentais são os mesmos: estão em jogo as forças opostas da comunidade e do indivíduo, da multidão e da inteligência, dos pobres e dos ricos, da liberdade e da opressão, da tradição e do iluminismo.”

Tudo o que Aristófanes descreve pertence a um capítulo imoral: o humano, excessivamente humano. (…) O real dissolve-se continuamente numa realidade intemporal mais elevada, fantástica ou alegórica. O poeta alcança nisto a sua maior profundidade”

Aristófanes pinta em Os Comilões a ação deformadora do ensino sofístico sobre a juventude e nessa peça já vai muito mais ao fundo. Um camponês ático educou um dos filhos em casa, à moda antiga, e mandou o outro para a cidade, a fim de desfrutar as vantagens da nova educação. Este regressa transformado, moralmente corrompido e inútil para as tarefas do campo. (…) O pai fica consternado ao ver que ele já não sabe cantar nos festins as velhas obras de Alceu e Anacreonte. Em vez das antigas palavras de Homero, só entende as glosas às leis de Sólon, pois a educação política agora sobrepuja tudo. O nome do retórico Trasímaco aparece num verso em que se trata de uma discussão sobre o uso das palavras. Mas, em conjunto, a peça não parece ter ultrapassado os limites da troça inofensiva.”

O capricho da natureza tinha até cuidado da máscara cômica de Sócrates, dando-lhe um aspecto de sileno, de nariz chato, lábios protuberantes e olhos saltados.” “Embora na realidade quase todo o dia se passasse no mercado, misteriosamente colocou o seu Sócrates fantástico numa estreita tenda de pensador, onde, suspenso de um balanço sobre o pátio, e de pescoço torcido, investigava o <Sol>, enquanto os seus discípulos, sentados no chão, enterravam na areia os seus pálidos rostos, no intuito de perscrutarem o mundo subterrâneo. É costume estudar As Nuvens à luz da história da filosofia e, no melhor dos casos, desculpa-se Aristófanes. Summum ius, summa iniuria. É uma iniqüidade fazer com que o burlesco Sócrates da comédia compareça no tribunal da rigorosa justiça histórica. (…) O seu herói é um iluminista distante do povo e um homem de ciência ateu. Por meio de alguns traços tomados de Sócrates, personifica-se nesta figura o cômico típico do sábio vaidoso e satisfeito consigo próprio. § Para quem tem em mente a imagem que Platão nos dá de Sócrates, esta caricatura não tem graça. A autêntica graça está na descoberta de semelhanças ocultas, e aqui não enxergamos semelhança nenhuma.”

A ânsia de Sócrates pelos conceitos parecia superar até a dos sofistas. Não se pode exigir do poeta a quem o racionalismo em voga, sob qualquer forma que se apresentasse, parecia igualmente demolidor, finos matizes entre um e os outros. (…) Aristófanes vê com clarividência a dissolução de toda a herança espiritual do passado e não consegue contemplá-la impassivelmente. É certo que se teria visto na maior perplexidade se alguém lhe tivesse perguntado a sua <íntima convicção> a respeito dos deuses antigos. Mas, como poeta cômico, achava ridículo que os meteorólogos classificassem o éter de divino e procurava representar isso de modo vivo na prece de Sócrates ao Turbilhão (…) ou às Nuvens, cujas formas imateriais suspensas no ar apresentavam uma tão evidente semelhança com as doutrinas dos filósofos. (…) a atmosfera encontrava-se excessivamente saturada de ceticismo perante os resultados do pensamento humano”

ENVELHECEU MAL: “No tempo em que florescia o logos justo e se exigia uma conduta virtuosa, nunca se ouvia uma criança recalcitrar. Todas seguiam na rua ordeiramente a caminho da escola e não levavam capa, ainda que caíssem flocos de neve como flocos de farinha. Eram rigorosamente ensinadas a cantar velhas canções, com melodias dos antepassados. Se alguma cantasse com adornos e floreados, à moda dos músicos de agora, teria sido açoitada. Era assim que se educava uma geração como a dos vencedores de Maratona. Hoje enfraquecem-se as crianças, envolvendo-as em mantas, e uma pessoa arde em fúria ao ver a maneira mole e desleixada como os jovens seguram sobre o ventre os escudos, nas danças de armas das Panatenéias. O logos justo promete aos mocinhos que se entregam a ele e a sua educação ensiná-los a odiar a ágora e os banhos, a se envergonharem de toda conduta vergonhosa (sic), a se indignarem quando troçam deles, a se levantarem na presença dos anciãos e a lhes cederam o lugar, a honrarem os deuses e a venerarem a imagem da Modéstia, a não andarem com[o?] bailarinas e a não responderem ao pai. Devem exercitar-se no ginásio, untando com azeite o corpo vigoroso, em vez de discursarem na ágora ou se deixarem levar aos tribunais para discutirem sobre bagatelas. Coroados de canas, disputarão com camaradas belos e decentes as corridas sob as oliveiras da academia, cheirando a madressilva e a folhas de choupo; em seguida, gozarão a plenitude da primavera. O coro exalta os homens ditosos que viveram nos belos tempos antigos, em que reinava esta educação, e goza o doce aroma da sophrosyne que se desprende das palavras do logos justo.”

Os oradores da epopéia deram às normas ideais um sentido paradigmático e este uso foi seguido pela poesia mais antiga. Os sofistas aproveitam essa tradição e colecionam exemplos míticos, que ao seu relativismo naturalista e dissolvente podiam servir para todos os fins. Enquanto antes no tribunal a defesa procurava demonstrar que o caso estava em conformidade com a lei, agora ataca as leis e os costumes, e tenta demonstrar que são deficientes. A fim de rebater a afirmação de que os banhos quentes debilitam o corpo, o logos injusto aduz o herói nacional Hércules, o qual, para se regalar, pediu a Atena que fizesse brotar da terra fontes de água quente, nas Termópilas. Elogia o costume de permanecer e discursar na ágora, que o logos justo reprova, e para isso invoca a eloqüência de Nestor e de outros heróis homéricos.”

Se queres seguir o meu conselho, dá livre curso à natureza, salta e ri, não te detenhas ante o vergonhoso. Se fores acusado de adultério, nega a tua falta e invoca Zeus que também não teve força bastante para resistir a Eros e às mulheres. Não é possível que tu, simples mortal, sejas mais forte que um deus. É a mesma argumentação da Helena de Eurípides, ou da ama, no Hipólito. A discussão culmina no ponto em que o elogio tecido pelo logos injusto a sua moral relaxada provoca as gargalhadas do público.”

Qual era a posição do poeta na luta entre a velha e a nova educação? (…) Ele próprio foi beneficiário da educação moderna e a comédia seria inconcebível nos bons tempos antigos a que o seu coração pertencia e que, no entanto, o teriam vaiado.” Normal.

A evocação da antiga paideia não significa um convite a regressar ao passado. Aristófanes não é um reacionário dogmático e rígido. Mas o sentimento de se ver arrastado pela corrente do tempo e de ver substituído por algo de novo também valioso, era vigorosamente suscitado nesta época de transição e enchia de receio os espíritos clarividentes. Nada tinha a ver com o moderno conhecimento das linhas históricas e nem com a crença geral na evolução e no <progresso>.”

Para nós é paradoxal que este aspecto da nova educação seja escarnecido numa peça cujo herói é Sócrates. Na economia da comédia, pelo menos como chegou até nós, a própria cena da discussão entre o logos justo e o injusto pouco tem a ver com Sócrates, que, por outro lado, não estava presente. Mas o final de As Rãs prova que Sócrates é também, para o poeta, o protótipo de um novo espírito que matava o tempo com sofísticas sutilezas, abstrusas e minuciosas, desprezando os valores insubstituíveis da música e da tragédia.”

A crítica a Eurípides visa a toda a sua criação poética e converte-se finalmente numa quase perseguição.” “Ficou órfã a tragédia. Atingiu-se evidentemente uma encruzilhada histórica. Mais tarde, na comédia de Aristófanes, Gerytades, apareceram os tristes epígonos, o trágico Meleto, o ditirâmbico Cinesias e o cômico Sanírio, como enviados ao mundo subterrâneo para ali receberem o conselho dos grandes poetas. Assim a época ironizava a si mesma.”

Dioniso em pessoa desce ao mundo subterrâneo para de novo trazer Eurípides. Até o maior adversário do defunto era forçado a reconhecer que era este o desejo mais ardente do público. O seu deus Dioniso é a personificação simbólica do público do teatro, com todas as suas cômicas fraquezas, grandes e pequenas.” “Aristófanes abandona as suas troças anteriores, na maioria ocasionais e que teriam sido inadequadas àquele momento, para penetrar até o fundo do problema.” “A descida ao mundo subterrâneo era um tema predileto da comédia. Esta atitude põe As Rãs em contato com os Demoi de Êupolis, onde os antigos estadistas e estrategos atenienses são chamados do Hades para auxiliarem o Estado, mal-avisado. Pela união desta idéia com a do concurso dos poetas, Aristófanes chega a uma solução surpreendente: Dioniso, que desceu ao Hades para buscar Eurípides, traz por fim, depois de um triunfo de Ésquilo, em lugar do seu adversário, o velho poeta, para salvar a pátria.”

O que para os meninos é o mestre

que lhes mostra o reto caminho

isso nós, os poetas, somos para os adultos.

Por isso lhes devemos dizer sempre o que há de mais nobre.”

O Ésquilo de Aristófanes

E, embora Aristófanes saiba perfeitamente que Eurípides não é um espantalho, mas sim um artista imortal a quem a sua própria arte deve imensas coisas, e embora os seus sentimentos estejam de fato muito mais perto de Eurípides que de Ésquilo, seu ideal não pode ignorar que esta nova arte não está em condições de dar à cidade o que Ésquilo deu aos cidadãos do seu tempo, e que nenhuma outra coisa podia salvar a sua pátria na amarga necessidade do momento.”

Adeus, Ésquilo, sai já daqui,

vai salvar a cidade com sãos conselhos

e educar os néscios, que são inumeráveis.

Há muito a tragédia não era capaz de tomar a atitude e usar a linguagem que a comédia aqui ousa empregar. O seu âmbito vital era ainda a vida pública e o que nela se move, ao passo que a tragédia abandonara muito antes os seus profundos problemas e se refugiara na intimidade humana.”

2.6 Tucídides como pensador político

Não é Tucídides o primeiro dos historiadores gregos. Por conseguinte, o primeiro passo para compreendê-lo é tomar conhecimento do grau de desenvolvimento da consciência histórica. É claro que antes dele nada há que se lhe compare; e a História posterior enveredou por caminhos totalmente diversos, pois tomou a sua forma e os seus pontos de vista das tendências espirituais dominantes na sua própria época. Mas há ligação entre Tucídides e os seus predecessores.”

Tanto quanto sabemos, é Hecateu, oriundo, como os primeiros grandes fisiólogos, do centro cultural de Mileto, o primeiro que transfere a <pesquisa> da physis para a terra habitada, que até então fôra estudada apenas como parte do cosmos e na sua estrutura mais superficial e genérica.”

Foi Heródoto que deu o segundo passo: ainda mantém unitária a ciência dos povos e dos países, mas já situa o Homem no centro. Viajou por todo o mundo civilizado de então – Oriente Próximo, Egito, Ásia Menor e Grécia –, estudou a descreveu todos os tipos de costumes e maneiras estranhas e a maravilhosa sabedoria dos povos mais antigos, descreveu a magnificência dos seus templos e palácios e contou a história dos seus reis e de muitos homens importantes e notáveis, mostrando como neles se manifestavam o poder da divindade e os altos e baixos da mutável sorte humana. É pela sua referência ao grande tema da luta entre o Oriente e o Ocidente, desde a sua primeira manifestação no combate dos gregos com o vizinho reino da Lídia, no reinado de Creso, até as guerras pérsicas, que esta arcaica e variegada multiplicidade de dados ganha unidade. Com uma complacência e uma habilidade narrativa análogas às de Homero, relata para a posteridade, na sua prosa só aparentemente ingênua e despretensiosa – que os seus contemporâneos saboreiam como os antigos tempos saboreavam os versos da epopéia –, a glória dos feitos dos helenos e dos bárbaros.”

Tucídides é o criador da história política. Este conceito não se aplica a Heródoto, embora sejam as guerras pérsicas o ponto culminante da sua obra.”

Comparado com o vasto horizonte universal da descrição de povos e países por Heródoto, cuja serena contemplação se estende a todas as coisas divinas e humanas de toda a terra conhecida, é restrito o campo visual de Tucídides. Não se estende para além da esfera de influência da polis grega. Mas este objeto tão restrito está carregado dos mais graves problemas e é experimentado e analisado com a mais profunda intensidade.”

A história que Heródoto traça dos povos não teria, por si só, desembocado na história política. Mas Atenas, voltada para o presente e concentrada nele, cedo se viu arrastada num remoinho do destino, em que o pensamento político desperto viu-se forçado a completar-se com o conhecimento histórico, embora em sentido diverso e com conteúdo diferente: era necessário chegar ao conhecimento da necessidade histórica que empurrava a evolução da cidade de Atenas para a sua grande crise. Não é que a história se torne política; o pensamento político é que se torna histórico.”

fundamentalmente, só se preocupa com a guerra do Peloponeso, i.e., com a história vivida no seu próprio tempo. Ele próprio diz, no primeiro parágrafo do seu livro, que começou a sua obra com o começo da guerra, por estar convencido da importância daquele acontecimento.” “Era, pois, muito diferente daquilo que geralmente entendemos por historiador. E as suas excursões por terras do passado, por mais que apreciemos o seu sentido crítico, são sempre incidentais ou escritas para fazer sobressair, em contraste com o passado, a importância do presente. § O melhor exemplo disto é a chamada Arqueologia, no início do livro I. O seu fim primordial é demonstrar que o passado não tem importância”

Parece-lhe sem importância o passado dos povos gregos, mesmo nos seus empreendimentos mais elevados e mais famosos, porque a vida daqueles sempre era estruturalmente incapaz de uma organização estatal ou do poder digna deste nome. Não tinha tráfico nem comércio, no moderno sentido da palavra.” “As partes mais favoráveis do país eram precisamente as mais disputadas e os seus habitantes mudavam com a maior freqüência.” “O espírito desta pré-história é análogo ao das construções dos sofistas sobre o começo da civilização humana. (…) Encara o passado com uma visão de político moderno, i.e., do ponto de vista do poder. A própria cultura, a técnica e a economia são consideradas apenas como pressupostos para o desenvolvimento de um poder autêntico. Este consiste principalmente na formação de grandes capitais e extensas riquezas territoriais apoiadas num grande poderio marítimo. (…) O imperialismo de Atenas, do qual já pouco resta, dá-lhe a medida para a avaliação da história primitiva.

A história de Tucídides é de uma independência perfeita, tanto na escolha do ponto de vista como na aplicação destes princípios. Homero é estudado, sem quaisquer preconceitos ou romantismo, com o olhar de um político da força. O reino de Agamemnon é considerado por Tucídides o primeiro grande poderio helênico de que se tem notícia. De um verso de Homero, interpretado com exagero enorme, conclui com uma penetração inexorável que o seu império se estendeu através dos mares e foi sustentado por uma grande marinha. O catálogo dos navios da Ilíada desperta-lhe o maior interesse, e, apesar do seu ceticismo quanto às tradições poéticas, mostra-se disposto a aceitar as suas referências precisas sobre o potencial dos contingentes gregos na guerra de Tróia, porque confirmam as suas idéias sobre a falta de importância dos instrumentos de poder daquele tempo. (…) Com a entrada das ilhas e das cidades da Ásia Menor na liga ática, cria-se no mundo dos Estados gregos um poder capaz de contrabalançar o poderio de Esparta, até então predominante. A história subseqüente não é mais do que a competição entre estes 2 poderes, com os conseqüentes incidentes e conflitos, até que explode a guerra final, em face da qual as anteriores parecem brincadeiras de moleques.”

Novamente o bisonho problema do anacronismo em Jaeger.

O meu ponto de vista difere do de W. SCHADEWALDT (Die Geschichtschreibung des Thukydides, Berlim, 1929), que, de acordo com E. SCHWARTZ (Das Geschichtswerk des Thukydides, Bona, 1919), defende que a arqueologia é a parte mais antiga de Tucídides e tenta interpretar, a partir dela, o espírito do Tucídides anterior, <o discípulo dos sofistas>.”

Talvez a minha obra pareça pouco divertida por falta de lindas histórias. Será útil, no entanto, a todo aquele que queira formar um juízo adequado e examinar objetivamente o que aconteceu e o quê, de acordo com a natureza humana, acontecerá certamente no futuro, do mesmo modo ou de modo semelhante. Isto é mais uma aquisição de valor permanente do que uma peça de luxo para satisfação momentânea.”

A essência do acontecer histórico não reside para ele numa ética qualquer ou numa filosofia da história, nem numa idéia religiosa. A política é um mundo regulado por peculiares leis imanentes, que só se podem descobrir se considerarmos os acontecimentos, não isoladamente, mas em ligação com o seu curso total.”

O conceito de Tucídides sobre o conhecimento da história política não pode ser caracterizado melhor do que por umas célebres palavras do Novum Organon de Bacon, onde opõe à Escolástica o seu próprio ideal científico: Scientia et potentia humana in idem coincidunt, quia ignoratio causae destituit effectum. Natura enim non nisi parendo vincitur. Et quod in contemplatione instar causae est, id in operatione instar regulae est. [A ciência e a potência humana (política) coincidem,¹ uma vez que a ignorância da causa invalida seus efeitos. A natureza só pode ser vencida pelo conhecimento das causas. A causa (teórica) observada pelo método da contemplação nos conduz a operações regulares (regras práticas).]

[¹ Outra interpretação mais atual: as Humanidades e as Ciências Exatas. Ambas são objetos lógicos de estudo no infinito otimismo da era baconiana.]

A peculiaridade do pensamento de Tucídides sobre o Estado é a sua carência de qualquer doutrina abstrata, de qualquer fabula docet, ao contrário da concepção religiosa de Sólon e das filosofias do Estado dos sofistas ou de Platão. (…) A concepção de Tucídides seria inconcebível independentemente do tempo em que ele viveu.”

Buscar nos discursos de Tucídides os vestígios de algo realmente pronunciado na época é um empreendimento tão estéril como procurar descobrir nos deuses de Fídias determinados modelos humanos.”

O conceito de causa provém do vocabulário da Medicina (…) Foi ela que pela 1ª vez estabeleceu a distinção científica entre a verdadeira causa de uma enfermidade e o seu mero sintoma.”

O conhecimento desta causa tem algo de libertador, pois coloca aquele que o possui acima das odiosas lutas dos partidos e do espinhoso problema da culpa e da inocência. Mas também tem algo de opressivo, pois faz aparecer como resultantes de um longo processo, condicionado por uma mais alta necessidade

Von Ranke, História da Prússia, 2ª ed., 1871.

Como 2ª potência comercial da Hélade e, portanto, como naturais competidores de Atenas, os coríntios são os seus inimigos mais encarniçados. (…) Vemos surgir diante de nós uma imagem do caráter do povo ático de uma força nunca igualada por nenhum orador ateniense, ao tecer o louvor da sua pátria, nem sequer pela oração fúnebre de Péricles, composta livremente pelo próprio Tucídides, que dela conservou não poucos traços no discurso dos coríntios. Com certeza não se trata realmente de um discurso mantido pelos coríntios em Esparta, mas sim de uma criação essencialmente livre de Tucídides. Este louvor de um inimigo diante dos inimigos é uma peça de grande refinamento retórico que, além da sua imediata finalidade agitadora, desempenha para o historiador um papel importantíssimo: dá-nos uma análise incomparável dos fundamentos psicológicos do desenvolvimento do poderio de Atenas.”

Nos primeiros dias da guerra, a opinião pública via em Atenas a encarnação da tirania e em Esparta o refúgio da liberdade.”

O continuador de Tucídides, Xenofonte, prova até que ponto os contemporâneos estavam longe de compreender a idéia de uma legalidade imanente a todo o poder político.”

Assim como a tragédia grega se distingue do drama posterior pelo coro, cujas emoções refletem sem cessar o curso da ação e lhe acentuam a importância, também a narração histórica de Tucídides distingue-se da história política dos seus sucessores pelo fato de o assunto vir constantemente acompanhado de uma elaboração intelectual que o explica, converte os fatos em acontecimentos espirituais e por meio de discursos torna-os patentes ao leitor.”

Nem no resultado da campanha siciliana nem no resultado final da guerra reconhece ele uma obscura necessidade histórica. Podemos imaginar um tipo de pensamento histórico absoluto que julgue intolerável ver ali o efeito de uma necessidade, mas sim o resultado de um falso cálculo ou o simples jogo do puro acaso.”

LIVRO TERCEIRO: À PROCURA DO CENTRO DIVINO

3.1 Prólogo

A época helenística será tratada num livro à parte. Aristóteles, Teofrasto, Menandro e Epicuro deverão ser estudados no começo do período helenístico, cujas raízes de vida remontam ao séc. IV. Tal como Sócrates, Aristóteles é uma figura que marca a transição entre duas épocas. Em Aristóteles, porém, mestre dos sábios, a concepção da paideia sofre uma notável diminuição da sua intensidade, o que torna difícil situar esta figura ao lado da de Platão, o verdadeiro filósofo da paideia.”

Se isso dependesse apenas da vontade do autor, os seus estudos fechariam com uma descrição do vasto processo histórico pelo qual foi helenizada a cristandade e cristianizada a civilização helênica.” “Este livro sublinha muitas vezes que não foi pela destruição das suas bases prévias, mas sempre pela sua transformação, que a cultura grega evoluiu. (…) A regra de Fílon¹ dominou a cultura grega desde Homero até o neoplatonismo e os padres cristãos da baixa Antiguidade.”

¹ “20BC-circa 50AD), also called Philo Judaeus, was a Hellenist Jewish philosopher who lived in Alexandria, in Egypt. (…) He adopted allegorical instead of literal interpretations of the Hebrew Bible. (…) He represented the Alexandrian Jews in a delegation to the Roman Emperor Gaius Caligula following civil strife between the Alexandrian Jewish and Greek communities. (…) His ethics were strongly influenced by Aristotelianism and Stoicism, preferring a morality of virtues without passions

(…)

Some of Philo’s works have been preserved in Greek, while others have survived through Armenian translations, and a smaller amount survives in a Latin translation. Exact date of writing and original plan of organization is not known for much of the text attributed to Philo.”

Obras recomendadas: Against Flaccus, Embassy to Gaius, On the Eternity of the World. Cf. http://www.earlyjewishwritings.com/philo.html

O historiador deve deixar o filósofo resolver as suas antinomias. Isto não significa, porém, que a história do espírito seja um puro relativismo. Mas é indubitável que o historiador não se deve aventurar a decidir quem é que tem a verdade absoluta.”

Na baixa Antiguidade, os documentos escolhidos para serem conservados eram-no inteiramente em função de sua importância para o ideal da paideia, e praticamente deixava-se de lado qualquer livro que se considerasse falho de valor representativo, segundo este ponto de vista. A história da paideia grega está completamente fundida com a história da transmissão e conservação dos textos clássicos mediante manuscritos.”

JAEGER, Platos Stellung im Aufbau der grieschischen Bildung, Berlim, 1928.

______, Platos Staatsethik, Berlim, 1924. (ensaio)

______, Aristóteles

Os meus estudos preliminares para o capítulo sobre a medicina grega transcenderam os limites desta obra e foram publicados em livro separado (Diokles von Karystos).”

3.2 Século IV

A queda brusca de Atenas do alto da sua posição abalou o mundo helênico porque deixava nos limites do Estado grego um vazio difícil de preencher.” “É assombrosa a rapidez com que o Estado ateniense se recompôs da sua derrota e soube encontrar novas fontes de energia material e espiritual.” “Também agora Atenas continuava a ser – ou, antes, foi agora que ela começou a ser de verdade – a paideusis da Hélade.” “O séc. IV é a época clássica da história da paideia, se entendemos por esta o despertar de um ideal consciente de educação e de cultura. É com razão que coincide com um século tão problemático.” “O século anterior decorrera sob o signo da plena realização da democracia. Quaisquer que sejam as objeções contra a viabilidade política deste ideal jamais realizado de uma autonomia extensiva a todos os cidadãos livres, é indubitável que o mundo lhe deve a criação de uma personalidade humana responsável diante de si própria.” “O Estado ateniense não pareceu reconhecer o fato de o seu ideal, apesar da sua grande superioridade material, ter sucumbido na luta. Não é no terreno constitucional que se devem buscar os traços da vitória espartana, mas sim na órbita da filosofia e da paideia.” “Despontava a convicção de que Esparta era menos uma determinada constituição do que um sistema educacional aplicado até as suas últimas conseqüências.” “Isto sugeria a idéia de fazer da educação o ponto de Arquimedes, em que era necessário apoiar-se para mover o mundo político.” “Na literatura do séc. IV deparamos com todos os matizes da realização desta idéia, desde a admiração simplista e superficial do princípio espartano da educação coletiva até a sua recusa absoluta e a sua substituição por um ideal novo e superior de formação humana e de ligação do indivíduo à coletividade.” “o caráter privado de toda a anterior educação de Atenas aparecia como um sistema fundamentalmente falso e ineficaz, que devia ceder o passo ao ideal da educação pública, embora o próprio Estado não soubesse fazer o mínimo uso desta idéia. Mas a mesma idéia abriu largo caminho através da filosofia, que a assimilou” “Aconteceu o que na História acontece tantas vezes: a consciência salvadora chegou tarde.”

Licurgo, Discurso contra Leócrates

A sua caminhada em direção a uma nova paideia partiu da convicção de que era necessário um ideal novo e mais alto do Estado e da sociedade, e acabou por ser a busca de um novo Deus.” O eterno cotejo Protágoras x Platão.

A poesia perdeu o seu poder de direção da vida espiritual. O público exige em proporção cada vez maior a representação regular das obras procedentes dos velhos mestres do séc. anterior, e a lei acaba por ordená-la.”

A comédia definha e já não é a política que ocupa o centro dela. É com facilidade excessiva que temos tendência a esquecer que foi ainda imensa a produção poética desta época, sobretudo em matéria de comédias. É que a tradição sepultou todos estes milhares de obras. Só se conservaram as dos prosadores: Platão, Xenofonte, Isócrates, Demóstenes e Aristóteles, além das de não raros autores secundários.” “É tão significativa a supremacia espiritual da prosa sobre a poesia, que ela acaba por extinguir totalmente pelos séculos afora a recordação desta.”

Os discursos de Isócrates e de Demóstenes permitem-nos tomar parte na história dos sofrimentos e na problemática do Estado grego, nesta fase final da sua vida. E é com os escritos docentes de Aristóteles que pela 1ª vez a ciência e a filosofia gregas patenteiam à posteridade o interior do laboratório das suas investigações.”

Uma história da literatura que partisse da simples forma do eidos estilístico não conseguiria captar esta unidade vital interior da época.” “O triunfo da prosa sobre a poesia foi obtido graças à aliança entre as vigorosas forças pedagógicas, que já na poesia grega atuavam cada vez em maior grau, e o pensamento racional da época, que penetrava agora cada vez mais fundo nos verdadeiros problemas vitais do Homem. Finalmente, o conteúdo filosófico e imperativo da poesia despoja-se da sua forma poética e modela no discurso livre uma nova forma que corresponde mais perfeitamente a suas necessidades, e chega até a ver nessa forma um tipo novo e superior de poesia.”

a nova orientação implica um perigoso isolamento do espírito e um fatal menosprezo da sua função de cultura coletiva.” “são poucos os que injetam sangue na massa; e falham no instante decisivo. É fácil dizer que as pessoas cultas teriam podido transpor este abismo, por si próprias. Platão, a mais importante figura da época e a que viu mais claramente que nenhuma outra o problema da estrutura da comunidade e do Estado em conjunto, tomou na sua velhice a palavra sobre este tema e explicou por que não conseguira trazer uma mensagem para todos.” “O que acontece é que os esforços se concentravam primeiro no problema do modo como se podiam formar os governantes e os guias do povo, e só em segundo lugar nos meios pelos quais estes homens dirigentes podiam formar o conjunto do povo.” Além da formação do líder político, a formação do rebanho.

3.3 Sócrates

Do homem de carne e osso e do cidadão ateniense nascido em 469 a.C. e condenado à morte e executado no ano 399 a.C. poucos traços ficaram gravados na história da humanidade, quando esta o elevou à categoria de um dos seus poucos <representantes>. Para a formação desta imagem não contribuíram tanto a sua vida e a sua doutrina, se é que realmente professava alguma, como a sua morte, sofrida por causa das suas convicções. A posteridade cristã outorgou-lhe a coroa de mártir pré-cristão, e o grande humanista da época da Reforma, Erasmo de Roterdam, incluía-o ousadamente entre os seus santos e orava: Sancte Socrates, ora pro nobis!

Na Idade Média, Sócrates não fôra mais que um nome famoso transmitido à posteridade por Aristóteles e Cícero. A sua estrela começa agora a se elevar, enquanto a de Aristóteles, o príncipe da Escolástica, entra em declínio. Sócrates torna-se o guia de todo o Iluminismo e de toda a filosofia moderna; o apóstolo da liberdade moral, separado de todo dogma e de toda tradição, sem outro governo além daquele da sua própria pessoa e obediente apenas aos ditames da voz interior da sua consciência”

Escrever a história da representação de Sócrates seria uma empresa gigantesca. O mais eficaz será fazê-lo segundo determinados períodos. Uma tentativa deste gênero encontra-se, p.ex., na obra de Benno BÖHM, Sokrates im 18. Jahrhundert: Studien zum Werdegang des modernen Persönlichkeitsbewusstseins [Sócrates no século XVIII: Estudos sobre o desenvolvimento da consciência da personalidade moderna], Leipzig, 1929.”

No entanto, seria uma posição completamente falsa crer que todo este empenho em edificar sob a égide de Sócrates uma nova <humanidade> terrena fosse dirigida contra o Cristianismo, em vez do que se fizera na Idade Média, ao colocar Aristóteles como o fundamento de toda a filosofia cristã. Pelo contrário, ao filósofo pagão era agora confiada a missão de contribuir para criar uma religião moderna, em que o conteúdo imperecível da religião de Jesus se fundisse com certos traços essenciais do ideal helênico do homem.” “quando veio a Reforma, com o seu esforço por levar a sério, pela 1ª vez, a volta à forma <pura> do Evangelho, surgiu como reação e contrapartida o culto socrático da época <iluminada>. Esse culto, porém, não pretendia desbancar o Cristianismo, antes lhe infundia forças que naquela época se julgavam indispensáveis. Até o pietismo, produto da reação do sentimento cristão puro contra uma religião cerebral e teológica já exaurida, abrigava-se junto a Sócrates e julgava descobrir nele uma certa afinidade espiritual.”

Foi nos nossos dias, a partir do momento em que Nietzsche se desligou do Cristianismo e proclamou o advento do super-homem, que o sábio ateniense teve de pagar o ilimitado poder que desde o início da Idade Moderna exercera, como protótipo da anima naturaliter christiana. À força de aparecer ao longo dos séculos vinculado a ele, Sócrates parecia tão indissoluvelmente unido àquele ideal cristão de vida dualista, desdobrada em corpo e alma, que não se podia imaginar como não sucumbiria com ele. Ao mesmo tempo, na tendência anti-socrática de Nietzsche renascia, sob nova forma, o velho ódio do humanismo erasmiano contra o humanismo conceitual dos escolásticos.”

Eduard Zeller, História da filosofia grega

Dizer pré-socrático equivalia a dizer pré-filosófico, uma vez que os pensadores do mundo arcaico eram agora fundidos com a grande poesia e a grande música da sua época, para formarem o quadro da <época trágica> dos gregos.”

…Deste modo, Sócrates era apeado do pedestal firme, embora sem ser de 1ª categoria, onde o colocara a filosofia idealista do séc. XIX, de acordo com a sua própria imagem da História, e de novo se via arrastado para o turbilhão das lutas do presente. (…) A luta travada por Nietzsche é, depois de muito tempo, o 1º indício de que a antiga força atlética de Sócrates permanece intacta e ameaça, mais que nenhuma outra, a segurança interior do super-homem moderno. (…) Ninguém teria mais direito a ser compreendido a partir da sua própria <situação> do que o próprio Sócrates, um homem que não quis deixar à posteridade nem uma só palavra escrita por sua mão, pois se entregou por completo à missão que o seu presente lhe apontava. Esta situação da sua época, que Nietzsche, na sua luta implacável contra os excessos da extrema racionalização da vida moderna, não tinha interesse nem paciência para compreender em detalhe, foi por nós exposta com todo o rigor como a <crise do espírito ático> (pp. 283-ss.) [LIVRO SEGUNDO].”

Entre os especialistas modernos que situam o nascimento dos diálogos socráticos como forma literária já em vida do próprio Sócrates, citaremos apenas Constantin RITTER, Platon (Munique, 1910), t. I, p. 202, e WILAMOWITZ, Platon (Berlim, 1919), t. I, p. 150. Esta hipótese cronológica sobre os primeiros diálogos platônicos está relacionada com a concepção que os citados autores têm da essência e do conteúdo filosófico destas obras.”

A semelhança entre as condições em que nasce a literatura socrática e aquelas de que datam os mais antigos relatos cristãos sobre a vida e a doutrina de Jesus foi muitas vezes destacada e, de fato, salta à vista.”

O abalo deste acontecimento deixou na vida deles um traço fundo e forte. E tudo parece indicar que foi precisamente esta catástrofe que os levou a representar o seu mestre em escritos. Esta opinião foi fundamentada em detalhe, contra Ritter, por Heinrich MAIER, Sokrates (Tubing, 1913), pp. 106-ss. Também A.E. TAYLOR, Sócrates (Edimburgo, 1932; trad. esp. México, 1961), p. 10, adere ao seu ponto de vista.”

A socrática converte-se no eixo literário e espiritual do novo século e, depois da queda do poder temporal de Atenas, o movimento que dela nasce passa a ser a fonte mais importante do seu poder espiritual sobre todo o mundo.”

O retrato literário de Sócrates é a única imagem fiel, decalcada sobre a realidade viva de uma individualidade grande e original, que a era clássica grega nos transmitiu. E o móbil a que este esforço respondia não era a fria curiosidade psicológica nem a ânsia de proceder a uma dissecação moral, mas antes o desejo de viver o que nós denominamos personalidade, ainda quando à linguagem faltavam a idéia e o termo necessários à expressão deste valor.”

Cf. R. HIRZEL, Der Dialog (Lepzig, 1895), t. I, pp. 2-ss., sobre o desenvolvimento anterior do diálogo, e pp. 83-ss. sobre as formas dos diálogos socráticos e seus representantes literários.”

O círculo socrático durou poucos anos. Cada um dos discípulos aferrava-se apaixonadamente a sua concepção e surgiram até diversas escolas socráticas. É por este motivo que nos encontramos na situação paradoxal de até hoje não termos sido capazes de nos pôr de acordo quanto à verdadeira significação da sua figura, apesar de ser ele a personalidade de pensador da Antiguidade que chegou até nós com uma tradição mais rica.”

Platão, dramaturgo inato, já escrevera tragédias antes de entrar em contato com Sócrates. A tradição afirma que ele as queimou todas, quando, sob a impressão dos ensinamentos deste mestre, dedicou-se à investigação filosófica da verdade. Mas, quando, após a morte de Sócrates, resolveu manter viva, a seu modo, a imagem do mestre, descobriu na imitação artística do diálogo socrático a missão que lhe permitiria colocar o seu gênio dramático a serviço da filosofia.”

Os informes de Xenofonte só coincidem com os de Platão num pequeno trecho, para além do qual nos deixa sobre brasas, com a sensação de que Xenofonte peca por falta, enquanto, em contrapartida, Platão peca por excesso. Já Aristóteles inclinava-se a crer que a maior parte dos pensamentos filosóficos do Sócrates de Platão devem ser considerados doutrina deste e não daquele.” “Creio que K. von FRITZ (Rheinisches Museum, t. 80, pp. 36-8) aduz novas e concludentes razões contra a autenticidade da Apologia de Xenofonte.”

Xenofonte conheceu a venerou Sócrates na sua juventude, sem nunca, porém, ter chegado a incluir-se entre os seus verdadeiros discípulos.” “Xenofonte não tornou a ver Sócrates. Foi algumas décadas mais tarde que escreveu as suas obras socráticas. A única que parece anterior é a que agora se conhece com o nome de <Defesa>.(*) Trata-se de uma alegação em defesa de Sócrates contra uma <acusação>, segundo todas as aparências puramente literária e fictícia, e onde se julgou descobrir um folheto do sofista Polícrates, publicado durante a década de noventa do séc. IV.(**) A este folheto responderam sobretudo Lísias e Isócrates, e pelas Memoráveis de Xenofonte chegamos à conclusão de que também ele tomou a palavra por aquele motivo.

(*) Seguindo H. MAIER e outros, aplicamos este nome aos 2 primeiros capítulos das Memoráveis de XENOFONTE.

(**) Xenofonte fala sempre do <acusador> no singular, enquanto Platão, na Apologia,¹ se refere sempre aos <acusadores> no plural, como corresponde realmente à situação gerada durante o processo. É certo que, no princípio, Xenofonte refere-se também à acusação judicial, mas depois dedica-se principalmente a refutar as censuras feitas posteriormente a Sócrates, segundo nos informam outras fontes, no panfleto de Polícrates.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/10/18/apologia-de-socrates-atualizado-e-ampliado/

Temos um exemplo de como Xenofonte incorporou mais tarde numa unidade mais ampla um escrito concebido nas suas origens como independente, no princípio das Helênicas (1-II, 2). Originariamente esta parte propunha-se a acabar a obra histórica de Tucídides. Termina, como é natural, com a guerra do Peloponeso. Mais tarde, Xenofonte ligou com este escrito o seu relato da história da Grécia de 404 a 362.”

Nos diálogos de Platão, Sócrates aparece como filósofo que expõe a teoria das idéias, pressupondo-a expressamente, como algo familiar ao círculo dos seus discípulos.”

Aristóteles (…) fornece indicações importantes sobre a relação que existe entre Sócrates e Platão:

Na primeira época dos seus estudos, Platão seguira os ensinamentos de Crátilo, discípulo de Heráclito, o qual ensinava que na natureza tudo flui e nada possui uma consistência firme e estável. Quando conheceu Sócrates, Platão viu abrir-se diante de si outro mundo. (…) Platão acabou por se persuadir que ambos, Sócrates e Crátilo, tinham razão, dado que se referiam a dois mundos completamente diversos. (…)

(…) nos diálogos que (…) devem ser considerados como as primeiras obras de Platão, todas as investigações de Sócrates assumem a forma de perguntas e respostas sobre conceitos universais: O que é a coragem? O que é a piedade? O que é o autodomínio? E até o próprio Xenofonte nota expressamente, embora só de passagem, que Sócrates desenvolvia incessantes investigações desse tipo, esforçando-se por chegar a uma determinação dos conceitos. (Mem., 6) (…) Mas, com o tempo, não podia satisfazer, pois o Sócrates que nos apresenta parece ser uma mediocridade e a sua filosofia dos conceitos uma banalidade. Era precisamente contra este pedante homem de conceitos que investiam os ataques de Nietzsche. Foi por isso que estes ataques não fizeram mais do que minar a confiança em Aristóteles como testemunho histórico, naqueles cuja fé na grandeza de Sócrates e na sua força revolucionária universal não se deixou abalar. Estaria Aristóteles tão desinteressado do problema das origens da teoria platônica das idéias, que ele próprio combate com tão grande violência? (…) Esta vacilação aparece caracterizada com clareza pelas 2 tentativas mais notáveis e mais cientificamente sistematizadas que nestes últimos anos se fizeram para penetrar no Sócrates histórico: a grande obra do filósofo berlinense H. Maier sobre Sócrates e os trabalhos da escola escocesa, representada pelo filólogo J. Burnet (Greek Philosophy, 1924, além do verbete ‘Socrates’ na Hastings Encyclopaedia of Religion and Ethics, vol. XI) e pelo filósofo A.E. Taylor (op. cit.).” “Como fontes históricas sobre o Sócrates real, Maier considera sobretudo os escritos <pessoais> de Platão: a Apologia e o Críton;¹ ao lado destes, reconhece como relatos de livre criação, mas no fundo fiéis à verdade, uma série de diálogos menores de Platão, tais como o Laques,² o Cármides,³ o Lísis,4 o Íon, o Eutífron6 e os dois Hípias.”

¹ https://seclusao.art.blog/2018/01/29/criton-ou-do-dever/

² https://seclusao.art.blog/2019/11/03/laques-ou-do-valor-ou-da-prevalencia-da-virtude-sobre-a-valentia-platao/

³ https://seclusao.art.blog/2019/11/25/carmides-ou-da-sabedoria/

4 https://seclusao.art.blog/2019/12/14/lisis-ou-da-amizade-amorosa/

6 https://seclusao.art.blog/2017/11/16/socrates-o-maior-dos-sofistas/

Sócrates proclama o evangelho do domínio do Homem sobre si próprio e da <autarquia> da personalidade moral. Isto faz dele a contrafigura ocidental de Cristo e da religião oriental da redenção.”

Não tem a mínima verossimilhança interna a pretensão de distinguir artificiosamente entre o Platão da primeira fase e o da última, para assim se chegar à conclusão de que só o primeiro se propõe [a] oferecer um retrato de Sócrates, enquanto o segundo toma-o só como máscara para expor a sua própria filosofia, tal como ela se desenvolveu ao longo dos anos. (…) Na realidade, já que não tencionava expor a doutrina de Sócrates, mas sim os seus próprios pensamentos, Platão abandona Sócrates como figura principal dos seus diálogos e a substitui por outras personagens estranhas ou anônimas. Sócrates era efetivamente tal como Platão o pinta: o criador da teoria das idéias, da teoria da reminiscência e da preexistência da alma, da teoria da imortalidade da alma¹ e da teoria do Estado ideal. Numa palavra: era o pai da metafísica ocidental.”

¹ Não grifo porque a teoria da imortalidade é um sine qua non da teoria das reminiscências e das idéias, bem como estas são sine qua non da primeira, ou seja, estão em inextricável dependência no corpus (supostamente socrático-)platônico.

Quem pretender descobrir no campo da teoria e do pensamento sistemático a sua grandeza terá de lhe atribuir demais, à custa de Platão, ou então duvidará radicalmente da sua importância pessoal. (…) a importância desta figura não vem continuar nenhuma tradição científica nem pode ser derivada de nenhuma constelação sistemática na história da filosofia. Sócrates é o homem do momento, num sentido absolutamente elementar. A sua volta sopra uma aragem verdadeiramente histórica.”

É a segunda vez que na história da Grécia o espírito ático invoca as forças centrípetas da alma helênica contra as suas forças centrífugas, opondo ao cosmos físico das forças naturais em luta, criação do espírito investigador da Jônia, uma ordem dos valores humanos. Sólon descobrira as leis naturais da comunidade social e política. Sócrates embrenha-se na própria alma, a fim de penetrar no cosmos moral.”

Na idade madura, Sócrates viveu o apogeu do poder ateniense e o florescimento clássico da poesia e da arte de Atenas, e visitava a casa de Péricles e de Aspásia. Foram seus discípulos governantes tão discutidos como Alcibíades e Crítias.”

Sócrates era um grande amigo do povo, mas era considerado mau democrata. (…) era indubitável que ele tinha declarado defeituoso, como norma fundamental, o princípio socrático dominante em Atenas, segundo o qual o governo era incumbência da maioria do próprio povo (…) É caso para pensar que esta posição se ia formando dentro dele, diante da crescente degenerescência da democracia ateniense, durante a guerra do Peloponeso. Para quem, como ele, tinha sido educado no espírito dominante na época das guerras pérsicas e assistira ao apogeu do Estado, era forte demais aquele contraste para não provocar toda uma série de dúvidas críticas.” Um grande homem jamais deixará de ser um aristocrata no seu íntimo.

é importante compreender que na Atenas daqueles dias também se considerava atuação política o fato de permanecer à margem dos manejos políticos do momento e que os problemas do Estado determinavam de modo decisivo os pensamentos e a conduta de qualquer homem, sem exceção.”

Segundo os informes do Fédon,¹ Sócrates, através desta crítica da filosofia da natureza, chegava à teoria das idéias, a qual, no entanto, de acordo com os dados convincentes da Aristóteles, não se pode atribuir ainda ao Sócrates histórico.” Jaeger se contradiz.

¹ https://seclusao.art.blog/2019/01/25/fedon-ou-da-alma/

Na Antiguidade, qualquer referência de princípios à experiência, como fundamento de toda a ciência exata da realidade, estava sempre associada à Medicina (…) É da Medicina grega, e não da filosofia grega, que é filho o empirismo filosófico dos tempos modernos.”

Há uma certa analogia interior entre o diálogo socrático e o ato de se desnudar para ser examinado pelo médico ou pelo ginasta, antes de se lançar no combate, na arena. (…) O ateniense daqueles tempos sentia-se mais no seu meio no ginásio do que entre as 4 paredes da sua casa, onde dormia e comia. Era ali, sob a transparência do céu da Grécia, que diariamente se reuniam novos e velhos para se dedicarem ao cultivo do corpo.”

O palco, onde, em longo solilóquio, brilham os sofistas é a casa particular ou a sala improvisada. Em contrapartida, Sócrates é o cidadão simples, a quem todos conhecem. A sua ação passa quase despercebida; a conversa com ele agarra-se quase espontaneamente, e como sem querer, a qualquer tema de ocasião. Não se dedica ao ensino nem tem discípulos; assim o afirma, pelo menos. Só tem amigos, camaradas. A juventude sente-se fascinada pelo fio cortante daquele espírito, ao qual não há nada que resista.”

E quem julga que se pode retrair, intratável, perante ele, ou encolher os ombros com indiferença ante a forma pedante das suas perguntas ou a intelectual banalidade dos seus exemplos, não tarda a baixar da pretensa altura do seu pedestal. (…) Por outro lado, é compreensível que as nossas histórias escolares da filosofia deixem tudo isso de lado, por o considerarem meros adornos poéticos da imagem que Platão traça de Sócrates.”

É certo que o próprio Sócrates designa a sua <ação> – que palavra significativa! – pelos nomes de <filosofia> e <filosofar>; e, na Apologia platônica, afiança aos seus juízes que não se afastará dela enquanto viver e respirar. Mas não devemos dar a estas palavras o significado que vieram a ganhar em séculos posteriores, ao cabo de uma longa evolução (…) Toda a literatura dos socráticos se manifesta unanimemente contra esta possibilidade de separar a doutrina da pessoa.”

A palavra <alma>, pelas suas origens na história do espírito, tem sempre para nós uma conotação de valor ético ou religioso. Tem um tom cristão, como as expressões <serviço de Deus> e <cuidado da alma>. Ora, é nas prédicas protrépticas de Sócrates que a palavra <alma> adquire pela 1ª vez este alto significado.”

Se consultarmos a clássica obra-prima de Erwin Rohde, Psique, chegaremos à conclusão de que Sócrates não tem significado especial dentro deste processo histórico. Este autor passa-o por alto. Rohde, à p. 240, apenas nos sabe dizer de Sócrates, na única passagem da sua obra em que o cita, que ele não acreditava na imortalidade da alma. Para tal contribui o preconceito contra Sócrates, <o racionalista>, que Rohde já partilhara com Nietzsche desde a sua juventude”

BURNET, “The Socratic Doctrine of the Soul”, em Proceedings of the British Academy for 1915-6.

A origem da forma do discurso exortatório ou diatribe, como tal, remonta naturalmente aos tempos primitivos. No entanto, a forma educacional e moral da prédica que prevalece nas homilias cristãs ao lado da dogmática e da exegética adquire o seu caráter literário na socrática, que, por sua vez, remonta à protréptica oral de Sócrates.”

Seria a socrática uma antecipação do Cristianismo, ou poderá mesmo afirmar-se que com Sócrates irrompe na evolução do helenismo um espírito estranho, oriental, o qual, graças à posição da filosofia grega como grande potência educadora, se traduz logo em efeitos de envergadura histórica universal, impelindo à união com o Oriente?”

Quis-se atribuir a Sócrates a teoria da imortalidade do Fédon platônico e até a teoria da preexistência do Mênon,¹ mas estas duas idéias complementares têm origem claramente platônica. A posição socrática em face do problema da subsistência da alma aparece certamente bem-definida na Apologia, onde, em presença da morte, não se diz qual será a sua sorte depois desta.”

¹ https://seclusao.art.blog/2020/01/22/menon-ou-da-virtude-ou-da-inexistencia-de-uma-ciencia-politica-ultima-traducao-do-ciclo-platao-obras-completas-virginia-woolf-ao-final/

se aceitarmos a afirmação de Aristóteles de que a teoria das idéias não é de Sócrates mas de Platão, teremos de defender idêntica posição no que se refere à teoria da imortalidade do Fédon, que se baseia na teoria das idéias.”

têm origem puramente helênica todos os traços aliciantes que na prédica socrática nos parecem cristãos. (…) É na poesia e na filosofia que floresce a evolução religiosa superior do espírito grego, e não no culto dos deuses, que costumamos encarar quase sempre como o conteúdo principal da história da religião helênica.”

É indubitável que a religião dionisíaca e órfica dos gregos, bem como a dos mistérios, apresentam certas <fases preliminares> e analogias; mas não se pode explicar este fenômeno dizendo que as formas socráticas do discurso e da representação derivam de uma seita religiosa que se pode afastar a seu bel-prazer como estranhas aos gregos, ou aceitar como oriental. Tratando-se de Sócrates, o mais sóbrio dos homens, seria verdadeiramente absurdo pressupor a existência de uma influência eficaz destas seitas orgiásticas nas camadas irracionais da sua alma.”

A alma de que Sócrates fala só pode ser compreendida com acerto se é concebida em conjunto com o corpo, mas ambos como dois aspectos distintos da mesma natureza humana.”

Sócrates não pode crer que só o Homem tenha espírito.”

A virtude física e a virtude espiritual não são, pela sua essência cósmica, mais do que a <simetria das partes> em cuja cooperação corpo e alma assentam. É a partir daqui que o conceito socrático do <bom>, o mais intraduzível e o mais exposto a equívocos de todos os seus conceitos, se diferencia do conceito análogo na ética moderna. Será mais inteligível para nós o seu sentido grego se em vez de dizermos <o bom> dissermos <o bem>, acepção que engloba simultaneamente a sua relação com quem o possui e com aquele para quem é bom.” Não melhora muito, sinceramente… Pelo contrário, até piora: além do bem e do mal; o bem desta frase já se tornou estanque. Já em o espírito superior é bom, é o melhor, depreende-se que ele é bom porque é mais que os outros homens, está acima do ruim (não mau, porém estragado).

Se o conceito da vida, do bios (que designa a existência humana, não como um simples processo temporal, mas como uma unidade plástica cheia de sentido, como uma forma consciente de vida) ocupa doravante uma posição de tão grande relevo na filosofia e na ética, é à vida real do próprio Sócrates que, numa parte muito considerável, isso se deve. A sua vida foi uma antecipação do novo bios, baseado integralmente no valor interior do Homem.”

A sua descoberta da alma não significa a separação dela e do corpo, como tantas vezes se afirma em desabono da verdade, mas antes o domínio da primeira sobre o segundo. Mens sana in corpore sano é uma frase que corresponde a um autêntico sentido socrático.”

Os sofistas eram os mestres desta arte que, apresentada desta forma, constituía coisa nova. Sócrates parece ligar-se plenamente a eles, para logo seguir o seu próprio caminho. (…) A paideia dos sofistas era uma colorida mistura de materiais de origem vária. O seu objetivo era a disciplina do espírito, mas não existia entre eles unanimidade quanto ao saber mais indicado para atingi-la, pois cada um deles seguia estudos especializados e, naturalmente, considerava a sua disciplina como a mais conveniente de todas. Sócrates não negava o valor que havia em ocupar-se de todas as coisas que eles ensinavam, mas o seu apelo ao cuidado da alma continha já potencialmente um critério de limitação dos conhecimentos recomendados por aqueles educadores.”

Os gregos, aliás, consideravam geralmente o mundo cósmico como algo de sobrenatural e imperscrutável para os simples mortais. E [o] Sócrates [de Xenofonte] partilhava este temor popular contra o qual ainda Aristóteles teve de se erguer no início da sua Metafísica. Reservas semelhantes Sócrates fazia também em relação aos estudos matemáticos e astronômicos dos sofistas de orientação mais realista” “Contrapôs-se então a ele o Sócrates de Platão, que na República preconiza a educação matemática como único caminho certo da filosofia. Este ponto de vista está, porém, condicionado pela própria evolução platônica para a dialética e para a teoria do conhecimento”

Platão e Xenofonte coincidem em que Sócrates era um mestre de política. Só assim se compreende o seu choque com o Estado e o seu processo [judicial].” Não tem a ver com a acusação de monoteísmo – ou não como entendemos a questão hoje (de forma puramente teológica).

Esta passagem em Memoráveis I demonstra que o que nós denominamos <ético>, separando-o como um mundo à parte, estava indissoluvelmente ligado ao político, não só para Xenofonte, mas também para Platão e Aristóteles.” Os fins são os meios.

CORRUPTOR DE MENORES: “Aquilo de que Sócrates era acusado era precisamente o uso que Alcibíades e Crítias fizeram da sua cultura, na vida política. Segundo Xenofonte, porém, esta censura devia servir-lhe antes de desculpa, visto que um tal uso dos seus ensinamentos era contrário às intenções do mestre.” O grande jamais corromperá o pequeno. Mas não poderá tampouco salvá-lo de sua condição ou moira.

O homem que é educado para governar tem de aprender a antepor o cumprimento dos deveres mais prementes à satisfação das necessidades físicas. Tem de se sobrepor à fome e à sede. Tem de se acostumar a dormir pouco, a deitar-se tarde e a se levantar cedo.” Exigente demais!

Quem não é capaz de tudo isto fica condenado a figurar entre as massas governadas.” “O ascetismo socrático não é a virtude monacal, mas sim a virtude do homem destinado a mandar.”

A enkrateia não constitui uma virtude especial, mas, como acertadamente diz Xenofonte, a <base de todas as virtudes>, pois equivale a emancipar a razão da tirania da natureza animal do homem e a estabilizar o império legal do espírito sobre os instintos. (…) podemos traduzir o conceito de enkrateia (…) pela expressão (…) <autodomínio>.”

nesta época, a palavra <livre> é primordialmente o que se opõe à palavra escravo. Não tem aquele sentido universal, indefinível, ético e metafísico, do moderno conceito de liberdade.”

MEGERA INDOMADA: “O diálogo com o seu próprio filho Lâmpocles, que se revoltava contra o mau humor de Xantipa, sua mãe, mostra o quanto estava longe Sócrates de dar razão àqueles que condenavam precipitadamente os pais, ou denotavam uma impaciência pouco piedosa em relação ao seu feitio ou até aos seus defeitos manifestos.”

Em Homero, a amizade é a camaradagem do soldado; e na educação da nobreza, em Teógnis, apresenta-se como proteção e baluarte contra os perigos da vida pública, em tempos de convulsões políticas.”

É certo que a experiência ensina que até entre os homens bons e que aspiram a fins elevados nem sempre reinam a amizade e a benevolência, mas, ao contrário, impera com grande freqüência um antagonismo mais feroz que entre as criaturas pouco dignas. Aqui está uma experiência particularmente desanimadora.”

A amizade começa pelo aperfeiçoamento da própria personalidade. Mas necessita, além disso, dos dons do <erótico>, que ironicamente Sócrates gosta de predicar de si próprio, do homem que precisa dos outros e corre atrás deles, que recebeu da natureza o dom, logo por ele tornado arte, de agradar a quem lhe agrada. Não é como a Cila de Homero, que imediatamente se agarrava aos homens, os quais, assim, fugiam dela ao vê-la de longe. Parece antes a sereia, que atrai o homem de muito longe, com o seu canto suave.”

Sócrates nunca fala em <discípulos> e rejeita também a pretensão de ser <mestre> de quem quer que seja. Limita-se a manter <convivência> com os homens, seja qual for a sua idade, e <conversa> com eles.”

Um dos grandes paradoxos é este homem, o maior educador que se conhece, não ter querido falar de paideia com referência a sua própria atividade, embora todo mundo visse nele a mais perfeita personificação desse conceito. É claro que a palavra não se podia evitar indefinidamente, e tanto Platão como Xenofonte a usam freqüentemente para designarem as aspirações de Sócrates e caracterizarem a sua filosofia. Mas Sócrates encontrou esta palavra carregada pela prática e teoria <pedagógicas> do seu tempo: considerava como representantes típicos da paideia moderna Górgias, Pródico e Hípias.” “E através desta ironia genuinamente socrática descobre-se a consciência da missão da verdadeira educação e da magnitude da sua dificuldade, da qual o resto do mundo não tem a menor idéia.”

É Platão que, baseado nas tentativas de um novo conceito do saber que descobre em Sócrates, elabora a lógica e o conceito; segundo este autor, Sócrates foi apenas o pregador, o profeta da autonomia moral. No entanto, esta explicação esbarra com dificuldades tão grandes como a opinião contrária, a de que em Sócrates já vem defendida a teoria das idéias.”

Nenhum dos diálogos socráticos de Platão chega a definir realmente o conceito moral que nele se investiga; mais ainda, existiu por muito tempo a opinião geral de que nenhum destes diálogos chega realmente a um resultado.”

O conhecimento do bem, que Sócrates descobre na base de todas e cada uma das chamadas virtudes humanas, não é uma operação da inteligência, mas antes, como acertadamente Platão compreendeu, a expressão consciente de um ser interior do Homem.”

a idéia socrática contém implícita a premissa de que não pode existir a ilegalidade consciente, porque isso implicaria a existência de ilegalidades voluntárias.”

a natureza do bem implica que cada um o reconheça como quiser. A vontade humana situa-se, assim, no centro das nossas considerações.”

A verdadeira essência da educação é dar ao Homem condições para alcançar o fim autêntico da sua vida. Identifica-se com a aspiração socrática ao conhecimento do bem, com a phronesis. E esta aspiração não se pode restringir aos poucos anos de uma chamada cultura superior. Só pode alcançar seu objetivo ao longo de toda a vida do Homem” “O Homem, assim concebido, nasceu para a paideia. Esta é o seu único patrimônio verdadeiro. Como todos os socráticos são unânimes nesta concepção, o seu autor deve ter sido Sócrates, ainda que ele afirmasse de si próprio que não sabia <educar os homens>.”

É certo que Sócrates, ao contrário de Platão, não parece partir fundamentalmente da idéia de que os Estados atuais não têm remédio.”

Quantas vezes ele insiste em que não é ele, Sócrates, mas sim o logos quem diz isto ou aquilo! (…) No fundo, o conflito com o Estado nasce para a filosofia e para a ciência a partir do momento em que a investigação se exerce sobre a natureza das <coisas humanas>, i.e., sobre o problema do Estado e da arete e surge em face desta questão como razão normativa. É o instante em que a filosofia troca a herança de Tales pelo legado de Sólon.”

Foi nem mais nem menos Hegel quem negou à razão subjetiva o direito de criticar a moral do Estado, que é por si a fonte e a concreta razão de ser de toda a moral sobre a Terra. Eis um pensamento totalmente inspirado na Antiguidade e que nos ajuda a compreender a atitude do Estado ateniense para com Sócrates.”

Platão era o único que se sentia, como ateniense e como político, à altura de compreender Sócrates plenamente. Indica no Górgias como a tragédia se vem aproximando.”

Pessoalmente, Sócrates está muito longe das conseqüências que Platão deriva da sua morte. E mais longe ainda da valorização e da interpretação histórico-espiritual que se dá ao acontecimento de que foi vítima. A inteligência histórica, se tivesse existido naquele tempo, teria destruído o sentido trágico deste destino. (…) É um privilégio muito duvidoso o de ver à luz da história a própria época e mesmo a própria vida.” “Platão afirma o homem político no domínio da Idéia, mas por isso mesmo afasta-se da realidade política, ou procura realizar o seu ideal em outra parte qualquer do mundo, em que existam melhores condições para ele.”

O pouco apreço pela ciência e pela erudição, o gosto pela dialética e pelos debates em torno aos problemas do valor são características atenienses, tanto quanto o sentido do Estado, dos bons costumes, do temor de Deus, se deixar para trás a charis espiritual que paira sobre tudo.”

O mais provável é não ter Platão escrito estas palavras em Atenas. Por certo, deve ter fugido para Mégara, com os demais discípulos de Sócrates, após a morte deste, e foi ali ou nas suas viagens que escreveu as suas primeiras obras socráticas.”

3.4 A imagem de Platão na história

É só a partir da cultura antiga que se pode compreender uma figura como a de Santo Agostinho, que traçou a fronteira histórico-filosófica da concepção medieval do mundo, por meio da sua Cidade de Deus, tradução cristã da República de Platão. A própria filosofia aristotélica, com a recepção da qual a cultura dos povos medievais do Oriente e do Ocidente, no seu apogeu, assimilou o conceito universal do mundo da filosofia antiga, não era senão uma outra forma do platonismo.”

COISA MAIS BIZA…RRA! “O Platão que o teólogo e místico bizantino Gemistos Plethon transmitiu aos italianos do quattrocento e cujas doutrinas Marsílio Ficino professava na Academia platônica de Lourenço de Médici, em Florença, era um Platão visto pelos olhos de Plotino (…) Para aqueles tempos, Platão era acima de tudo o profeta e o místico religioso

Até agora tentara-se reconstruir a filosofia à maneira do séc. XVIII, esforçando-se por abstrair dos seus diálogos o conteúdo dogmático, quando o tinham. Depois, com base nas teses assim estabelecidas e tomando como modelo as filosofias posteriores, procurava-se penetrar na metafísica e na ética platônicas, e edificar com todas estas disciplinas um sistema, já que só se concebia a existência de um pensador sob esta forma. O mérito de Schleiermacher consiste em ter visto bem, com certeiro golpe de vista que os românticos tinham para desentranhar a forma como expressão da individualidade espiritual, que aquilo que a filosofia platônica tinha de característico era precisamente não tender para a forma de um sistema fechado, mas sim manifestar-se por meio do diálogo filosófico inquisitivo.”

podemos até afirmar que, assim como na Antiguidade a filosofia alexandrina foi desenvolvendo os seus métodos à luz da investigação da obra de Homero, também a ciência histórica do espírito alcançou no séc. XIX o seu máximo apuro, com a luta para conseguir compreender o problema platônico.”

Tanto a explicação pormenorizada do texto como a investigação da autenticidade das diversas obras chegadas até nós sob o nome de Platão abriram o caminho a um estudo concreto que se ia especializando sem cessar, de modo que o problema platônico parecia ir afundando cada vez mais nesta direção. Foi então que, a partir de C.F. Hermann, os intérpretes se foram habituando a encarar as obras deste filósofo como a expressão de uma evolução progressiva e gradual da sua filosofia”

É certo que, após alguns êxitos iniciais, este caminho da investigação acabou por se desacreditar, em consequência dos seus exageros, pois veio cair na ilusão de que seria possível situar no tempo todos e cada um dos diálogos, através de uma estatística filológica perfeitamente mecanizada. Seria ingratidão, porém, esquecer que foi uma descoberta puramente filológica que determinou a maior reviravolta operada, desde Schleiermacher, nos estudos platônicos.” “é possível distinguir três grupos principais de obras, onde se podem distribuir com boa verossimilhança os diálogos mais importantes. § Este resultado das investigações filosóficas da 2ª metade do séc. XIX tinha, por força, de abalar a imagem schleiermacheriana de Platão, já considerada clássica, uma vez que se verificou serem obras maduras, correspondentes a sua senectude, vários diálogos platônicos por ele tidos como primeiros e introdutórios, e que versavam sobre problemas metódicos. (…) Agora eram rapidamente puxados para o centro da discussão os diálogos <dialéticos>, como o Parmênides,¹ o Sofista² e o Político,³ nos quais o Platão do último período parece discutir com a sua própria teoria das idéias.” Confrontar com o que diz Azcárate. Missão para depois.

¹ https://seclusao.art.blog/2018/09/14/parmenides-ou-das-ideias/

² https://seclusao.art.blog/2018/09/09/o-sofista-ou-do-ser/

³ https://seclusao.art.blog/2019/05/27/o-politico-ou-da-soberania/

Não é, pois, nada estranho que este neokantismo se tenha sentido surpreendido e fascinado por tão inesperada projeção dos seus próprios problemas na evolução dos últimos anos de Platão” Aqui: revigoramento do ceticismo em oposição ao ultra-romantismo.

nesta nova concepção de conjunto, a importância de Platão para a filosofia moderna assentava no aspecto metódico, com a mesma unilateralidade com que para a filosofia metafísica do meio século anterior assentava no apoio que a metafísica platônica e aristotélica lhe dava, na sua luta contra a crítica de Kant.” “A nova forma de conceber este filósofo culminava na tentativa de infirmar, como falsas, as objeções de Aristóteles à teoria platônica das idéias, tentativa que vinha mostrar indiretamente que essa nova forma se deixava guiar por Aristóteles, mesmo sem aceitar o seu modo de ver, pois concentrava no mesmo ponto a sua interpretação da doutrina platônica.”

as Leis, que representa mais da quinta parte de toda a obra escrita de Platão e onde a teoria das idéias não desempenha o menor papel.”

IRONIAS DE FERRO: Enquanto bilhões vivem sem uma metafísica, certos indivíduos têm o privilégio de viver ativamente 2 ou 3 projetos destas. Onde quer que o sol nasça e bata, Platão é que ri de nós.

Foi de novo uma descoberta filológica que permitiu um passo fundamental e que, sem pretensões filosóficas de nenhum tipo, levou a derrubar os limites demasiado estreitos em que estava encerrada esta concepção da obra platônica. Desta vez, não foi a cronologia a afetada pela descoberta, mas sim a crítica da autenticidade dos textos. Já desde a Antiguidade sabia-se que a coleção dos escritos platônicos transmitida pelos séculos continha muitas coisas inautênticas, mas foi a partir do séc. XIX que a crítica textual atingiu o máximo grau de intensidade. É certo que no seu cepticismo visava muito além do alvo e acabou por ficar paralisada. (…) as suspeitas caíram apenas, essencialmente, sobre escritos de qualidade duvidosa. Julgavam-se falsas também as cartas de Platão: a existência indubitável de peças e fragmentos falsos na coleção de cartas que chegou até nós sob o seu nome levava os críticos a repudiar a coleção em bloco; e, como era indiscutível que algumas destas cartas continham um material histórico valioso acerca da vida de Platão e das suas viagens à côrte do tirano Dionísio de Siracusa, recorria-se à hipótese do autor destes documentos apócrifos ter utilizado na sua redação informes muito apreciáveis. Historiadores como Eduard Meyer, levando em conta o grande valor das cartas como fonte histórica, advogaram a sua autenticidade, e logo o seu exemplo foi seguido pelos filólogos, a partir do momento em que Wilamowitz confirmou a autenticidade das cartas sexta, sétima e oitava, i.e., das peças mais importantes da coleção.”

COMPELIDOS À MISANTROPIA: “O patético relato de Platão sobre suas repetidas tentativas de intervenção ativa na vida política dava ao seu biógrafo a possibilidade de pintar algumas cenas ricas de colorido, que vinham quebrar dramaticamente o recolhimento da vida do filósofo no seio da Academia e descobriam, além disso, o complicado fundo psicológico desta vida, cuja atitude contemplativa, como agora se mostrava, tinha sido imposta pela trágica pressão das condições desfavoráveis de seu tempo a um caráter inato de dominador. Vistas por este prisma, as repetidas vezes que Platão tentou uma carreira de estadista não apareciam de modo nenhum como episódios infelizes de uma vida puramente intelectual, nos quais Platão procurara concretizar certos princípios éticos da sua filosofia. Todavia, a convicção de que é o Platão autêntico e real o homem que na Carta VII nos fala da sua própria evolução espiritual e dos objetivos da sua vida, a partir dos quais adota uma posição diante da sua própria filosofia, tem também uma importância decisiva para a concepção de conjunto da sua obra filosófica.” “A esta concepção da filosofia platônica chegara eu em longos anos de esforço incessante dirigido à captação da sua verdadeira essência, sem prestar grande atenção às cartas, uma vez que desde a juventude partilhava o preconceito filológico contra a sua autenticidade.”

podem reunir-se em grupo à parte os diálogos menores; (I) mas as obras extensas como o Protágoras, o Górgias, o Mênon, o Banquete e o Fedroonde estão contidas as idéias platônicas essenciais sobre a educação, merecem ser examinadas separadamente e uma a uma (II) (…) A República e as Leis são, naturalmente, as obras que devem formar o verdadeiro nervo central deste estudo. (III)”

¹ https://seclusao.art.blog/2018/03/17/fedro-ou-da-beleza-ou-ainda-do-caralho-voador/

A sua filosofia, encarada como o apogeu de uma cultura (paideia) tornada já histórica, deve ser focada, mais do que geralmente se costuma fazer, na sua função orgânica dentro do processo total do espírito grego e da história da tradição helênica, e não como um mero sistema de conceitos com existência própria.”

A história da paideia, encarada como a morfologia genética das relações entre o homem e a polis, é o fundo filosófico indispensável no qual se deve projetar a compreensão da obra platônica.” “A sua obra de reformador está animada do espírito educador da socrática, que não se contenta em contemplar a essência das coisas, mas quer criar o bem.”

3.5 Diálogos socráticos menores de Platão

São muito reduzidas as proporções exteriores destas obras, que correspondem pouco mais ou menos a uma conversa travada por casualidade.” “o dialeto ático neles usado não tem paralelo na literatura grega, pela sua graça natural, espontaneidade e genuína vivacidade de colorido.” “estes diálogos, do tipo do Laques, do Eutífron e do Cármides, revelar-se-iam pelo seu brilho e pelo seu frescor, como as obras de juventude de Platão.”

Já no Eutífron fala-se do processo movido contra Sócrates, e como a Apologia e o Críton, ambos tratando do desenlace de Sócrates, se encaixam no mesmo grupo é provável que todas as obras reunidas neste grupo tivessem sido escritas logo depois da morte do mestre.”

<Petulância juvenil> é a rubrica sob a qual WILAMOWITZ agrupa estas obras alegres, que considera as mais antigas de todas.”

Já na velhice Platão escreveu um diálogo, o Filebo,¹ onde Sócrates aparece como figura central, apesar de nas demais obras da velhice, nos chamados diálogos dialéticos, o Parmênides, o Sofista e o Político, e no diálogo sobre a filosofia da natureza intitulado Timeu,² Sócrates desempenhar um papel secundário e ser nas Leis substituído pela figura do estrangeiro ateniense.”

¹ https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/

² https://seclusao.art.blog/2019/06/08/timeu-ou-da-natureza/

Não foi da dúvida que os primeiros diálogos platônicos nasceram. Que não é assim já o indica a soberana segurança com que é vincada a linha interior daquelas conversas, não tanto em cada obra de per si, mas principalmente no conjunto delas.” Opinião distinta da de Azcárate.

É preciso ser muito ingênuo para, do fato de nenhum destes diálogos terminar com a definição didática do tema discutido, tirar a conclusão de que estamos diante de um principiante que arrisca os primeiros passos, falhados, num campo ainda inexplorado teoricamente.” “O nosso pensamento, associando-se ao dos outros, procura adiantar-se ao andamento da discussão (…) Se se tratasse de uma conversa real a que tivéssemos assistido, poderíamos atribuir ao acaso este resultado negativo.” “A falta de saída, que era para Sócrates um estado permanente, converte-se para Platão no estímulo que o impele à resolução da aporia.”

Sobre a história da interpretação moderna de Platão, cf. o livro (já antiquado mas ainda útil para certos pormenores) de F. UEBERWEG, Untersuchungen über die Echtheit und Zeitfolge platonischer Schriften, etc. (Viena, 1861)

A ciência política apresenta-se já no Cármides, como no Górgias, em paralelo com a ciência médica.”

A maior censura que se pode fazer a muitos representantes do método histórico-evolutivo, tanto no que se refere a sua defeituosa concepção artística como quanto a sua deficiente concepção filosófica, é partirem da hipótese de que, em todas e cada uma das suas obras, Platão diz tudo o que sabe e pensa.”

Platão e seus irmãos Glauco e Adimanto, que ele, de modo muito significativo, apresenta precisamente na República como discípulos e interlocutores de Sócrates, pertenciam evidentemente, como Crítias e Alcibíades, àquela juventude da antiga nobreza ática que, de acordo com as tradições familiares, sentia-se chamada a dirigir o Estado e buscava em Sócrates o mestre da virtude política.” “Mas, enquanto para homens como Alcibíades e Crítias esta doutrina não fazia mais do que atiçar a fogueira dos seus ambiciosos planos de golpes de Estado, para Platão, que o seu tio Crítias convidou a colaborar no novo Estado autocrático, após a derrocada da constituição democrática vigente, era visível a incompatibilidade daquele regime com as idéias de Sócrates, e foi por isso que ele se negou a cooperar.”

A duplicidade deste acontecimento gerou a certeza de que não foram a constituição democrática ou oligárquica, como tais, mas sim única e exclusivamente a degenerescência moral do Estado vigente, fossem quais fossem as suas formas, o que o arrastou a um conflito mortal com o mais justo dos seus cidadãos.”

profunda resignação” “Chegara à convicção de que para um homem como ele, plenamente possuído da vontade educacional de Sócrates, seria um absurdo esbanjamento de si próprio imiscuir-se ativamente na vida política de Atenas, pois lhe parecia que o Estado existente, e não só o ateniense mas todos eles, estava condenado a desaparecer, se não o salvasse um milagre divino. E que esta concepção não é precisamente resultado da sua evolução posterior, mas sim que já vivia nele desde o princípio, prova-o a Apologia, 31E, e a recapitulação dos mesmos pontos em Apol., 36B.”

a pretensão de tornar os filósofos reis ou os governantes filósofos, para que o Estado possa ser melhorado.” “Enquanto a Carta Sétima foi tida por apócrifa, considerou-se este indício evidente da sua falsidade; o falsificador, pensava-se, quisera dar-lhe um cunho de autenticidade e para isso reproduzira uma das idéias mais conhecidas de Platão; mas incorrera no descuido de apresentar como já existente na década de 90 a República, obra donde a frase procede e que, segundo os resultados da moderna investigação, não fôra escrita antes da década de 70 do séc. IV. (…) Não havia a mínima dúvida de que se tratava de uma citação de si próprio feita por Platão, e ele, naturalmente, não podia ignorar quando escrevera aquela obra.” “ora, o mais verossímil é que as idéias proclamadas nos seus diálogos tenham sido expostas e discutidas muitas vezes no seu ensinamento oral, antes de serem dadas a conhecer por escrito ao mundo exterior”

Julius STENZEL, Plato’s Method of Dialectic (barato na Amazon)

O SEGUNDO MUNDO: SENSÍVEL, ETERNO

Aristóteles já assimila com toda a clareza teórica os métodos lógicos da abstração. A pergunta socrática o que é o bom?, o que é o justo?, não implicava de modo nenhum o conhecimento teórico do que eram logicamente os conceitos universais. Portanto, quando Aristóteles diz que Sócrates ainda não chegara a hipostasiar, como algo distinto da realidade sensível, os conceitos universais que investigava (o que Platão faz), essa afirmação não se deve interpretar no sentido de que Sócrates já teria chegado à teoria aristotélica do universal e de que Platão cometeu mais tarde o erro inconcebível de duplicar de certo modo esses conceitos gerais, já antes conhecidos por Sócrates na sua natureza abstrata, e de colocar ao lado do conceito do justo uma idéia do justo existente em si mesma. (…) as idéias platônicas (…) representam para Aristóteles uma duplicação inútil do mundo sensível. Ele é supérfluo para Aristóteles, pois este já atingiu a natureza abstrata do conhecimento universal.”


Aristóteles:
“o universal está no devir. Eu sou a síntese de Sócrates, Heráclito e Parmênides.”

Quando Platão aponta dentro do múltiplo o uno, que o método dialético procura captar como forma ou, dito em grego, como idéia ou eidos, apóia-se na terminologia da Medicina do seu tempo” “Partindo daqui, vemos como o movimento dialético se vai elevando já nos primeiros diálogos até chegar à virtude em si, na unidade da qual Sócrates sintetizava as várias virtudes particulares. A investigação da virtude particular leva constantemente, não a distingui-la das outras, como a princípio poderia parecer, mas sim àquela unidade superior a tudo o que é virtude, ao bem em si e ao seu conhecimento.” “Rep., II, 537C: o verdadeiro dialético é o sinóptico, capaz de abarcar as coisas no conjunto. A mesma descrição do dialético aparece no Fedro, 265D. A síntese do diverso na unidade da idéia.”

O cotejo do emprego dos conceitos eidos e idea nos diálogos de Platão, para chegar a resultados concludentes, teria de abarcar também outras palavras e expressões usadas para descrever o uno no múltiplo”

Nenhuma das suas obras contém uma completa exposição da teoria das idéias, neste sentido, nem sequer na época em que a existência desta teoria se pode comprovar por meio de repetidas referências a ela.” “São poucas as passagens em que Platão entra no exame dos problemas mais espinhosos da teoria das idéias. Pelas informações pormenorizadas de Aristóteles sobre a chamada fase matemática da teoria das idéias, na qual Platão procura explicar as idéias com a ajuda dos números, verificamos com assombro que ele e os seus discípulos elaboraram na Academia uma doutrina de cuja existência os diálogos daquele período nem sequer nos permitem suspeitar”

Aliás, nem é certo que as primeiras obras de Platão não contivessem qualquer alusão à existência da teoria das idéias, pois já no Eutífron, que todos os autores classificam entre os diálogos da primeira fase, fala-se do objeto da investigação dialética como de uma idéia

CRITER, Neue Untersuchungen über Platon (Munique, 1910)

Os diálogos menores surgem assim como uma introdução ao problema central do pensamento platônico, nos seus dois aspectos: o intrínseco e o formal.”

O que se pode assegurar, sim, porque é evidente, é que a tendência histórico-evolutiva do séc. XIX liga pouco demais para as numerosas linhas de conexão que Platão traça entre umas e outras obras, e por meio das quais nos dá a entender que todas elas vão gradualmente cobrindo um grande problema de conjunto e formam uma grande unidade em que o primeiro passo só é plenamente explicado pelo último. (…) SHOREY, The Unity of Plato’s Thought (Chicago, 1904)

O repetido fracasso dos esforços empregados em descobrir a verdade e presenciados pelo leitor faz com que este compreenda pouco a pouco, com clareza cada vez maior, a dificuldade de chegar a um conhecimento real e adquira a consciência das premissas que até então admitia como evidentes e que constituem o fundamento da sua própria existência.”

A ETERNIZAÇÃO DA LINGUAGEM ESCRITA: “O poder educador de Sócrates (…) iria (…) conquistar o mundoPlatão como o proporcionador de uma grande maiêutica, de uma vida inteira, como se reproduzira então o “diálogo da vida”. Transmitindo para o futuro as sementes da oralidade original mas restrita no tempo de Sócrates. Neste escopo, Aristóteles devia julgar-se o “aluno perfeito”, que Sócrates e Platão sempre haviam procurado.

3.6 O Protágoras

Permitimo-nos, por razões de brevidade, conservar a tradução tradicional das palavras gregas arete e episteme por <virtude> e <saber>, respectivamente, apesar de serem ambas equívocas porque têm as conhecidas acepções concomitantes modernas, que as palavras gregas não possuíam. (…) não dar à palavra <saber> o sentido que tem presentemente a palavra <ciência>, em vez do significado espiritual dos valores, daquilo a que os gregos chamam phronesis

Protágoras, o diálogo, está envolto num esplendor de alegria juvenil, de engenho e finura espiritual, que não encontramos em nenhuma outra obra platônica.”

Um jovem discípulo e amigo de Sócrates, Hipócrates, desperta-o, alta madrugada, batendo com força a sua porta e rogando-lhe que o deixe entrar. É que ao regressar a Atenas, na noite do dia anterior, ouviu dizer que Protágoras se encontra na cidade; e tão grande acontecimento emociona-o. (…) E vem ter com Sócrates tão cedo, para lhe rogar que o apresente ao mestre. Como prelúdio do diálogo principal surge agora, no ambiente do pátio da casa onde os 2 personagens passeiam até despontar o dia, uma conversa de puro estilo socrático, na qual Sócrates tenta sondar a firmeza da decisão do jovem Hipócrates e fazer-lhe compreender a aventura em que se vai meter.”

Neste diálogo, Sócrates não é um ancião venerável como o sofista Protágoras, mas sim um homem na força da idade, o que contribui para acentuar a falta de respeito que inspira. Hipócrates vê nele apenas o conselheiro e o amigo encarregado de lhe facilitar o aceso a Protágoras. (…) se o jovem se quisesse tornar médico, diz-lhe, devia receber o ensino do mais importante dos médicos de seu tempo, o seu homônimo Hipócrates de Cós; se desejasse ser escultor, o de Policleto ou Fídias; portanto, ao dirigir-se a Protágoras para se fazer seu discípulo, parece disposto a abraçar a carreira de sofista. Hipócrates, porém, repele decididamente esta insinuação e é aqui que se acusa uma diferença essencial entre a educação sofística e o ensino dos profissionais: os discípulos particulares do sofista são os únicos que estudam a sua arte com o intuito de mais tarde a exercerem como profissão; os mancebos atenienses de famílias distintas que se juntam a sua volta não têm em vista outra finalidade que não a de o escutarem para <se cultivarem>. O que o jovem do diálogo não sabe dizer é em que consiste esta cultura (paideia), e fica-se com a sensação de que a sua atitude é típica da juventude do seu tempo, ansiosa por se cultivar.”

NÃO ACEITAMOS DEVOLUÇÕES! “Protágoras (…) considerado com realismo, assemelha-se, pois, como fenômeno social, ao mercador e vendedor ambulantes que oferecem ao comprador, por dinheiro, as mercadorias importadas.”

É claro que Sócrates não se apresenta, de modo nenhum, como um médico desse tipo; mas, uma vez que afirma que para a alimentação do corpo se devem consultar em caso de dúvida, na qualidade de peritos, o médico ou o mestre de ginástica, por si mesma desponta a interrogação de quem será o perito chamado a sentenciar sobre o alimento adequado à alma, quando isso for necessário.”

Preocupados com o problema da essência do verdadeiro educador, ambos os personagens se põem a caminho para a residência de Cálias, pois fez-se dia e têm de se apressar para visitar o sofista, assediado por visitantes de manhã à noite. O porteiro daquela casa rica já está em estado de irritação, sinal de que não são Hipócrates e Sócrates os primeiros a chegar.”

profiteri, donde é derivado o termo professor, empregado no Império Romano para designar o sofista dedicado ao ensino.”

Circus comes to town.

Saber é lucrar. Arquétipo: Agostinho.

Parece contraditório que Platão, por sua vez fundador de uma escola, manifeste-se tão violentamente contra o profissionalismo dos sofistas. A sua escola, porém, baseava-se no princípio socrático da amizade e pretendia continuar, através da sua dialética, a velha forma da educação por meio do trato pessoal.”

Acostumado a apoiar-se no prestígio educacional dos grandes poetas da Antiguidade, desde Homero até Simônides, e na herança da sua sabedoria, que os sofistas se esforçavam por transformar numa sabedoria escolar sensata e moralizadora, Protágoras inverte os papéis e vê os antecessores da sua arte naqueles heróis do espírito, que sob o manto da poesia queriam ocultar à desconfiada sociedade do seu tempo a sua (de todos e de cada um deles) qualidade de sofistas.”

Sócrates repara que Protágoras sente-se orgulhoso dos seus novos admiradores, e sugere que se convidem também Pródico e Hípias para a conferência, o que Protágoras acolhe com satisfação.”

Se um jovem entrasse para aluno de Zêuxis e este prometesse torná-lo melhor, todo mundo saberia em quê: na pintura. Se com o mesmo propósito acorresse a Ortágoras de Tebas, ninguém tampouco ignoraria que neste caso o progresso se referiria à sua instrução como tocador de flauta. Pois bem, em que campo progredirá para o melhor quem receber o ensino de Protágoras?” “À pergunta feita Protágoras não pode responder em nome de todos os que exibem o nome de sofistas, pois entre eles também não existe unanimidade de critério quanto a este ponto. P.ex., Hípias, ali presente é representante das <artes liberais>, sobretudo do que mais tarde se chamaria quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música. Estes ramos do ensino sofístico eram os que melhor podiam fazer jus à pergunta de Sócrates, pois apresentavam o desejado caráter técnico; mas na sua educação Protágoras dá preferência incondicional aos ramos sociais do saber. Entende que os jovens que passaram pelo habitual ensino de tipo elementar e agora aspiram a completá-lo por meio de uma cultura superior que os prepare, não para uma profissão determinada, mas para a carreira política, não desejam entregar-se a novos estudos técnicos determinados, porque é de outra coisa que necessitam, e é isto que ele lhes quer ensinar: a capacidade de se orientarem retamente a si próprios, de orientarem os outros sobre o melhor processo de administrarem a sua casa, e de dirigirem com êxito, em palavras e ações, os assuntos do Estado.”

Sócrates reconhece que esta é uma elevada finalidade, mas expõe as suas dúvidas acerca da possibilidade de estimular por meio do ensino esta virtude” “Os homens que mais se salientam pelas suas qualidades espirituais e morais não dispõem de meios para transmitirem aos outros as qualidades que os distinguem, a sua arete. Péricles, pai dos dois jovens aqui presentes, deu-lhes uma educação excelente em tudo aquilo para que existem professores, mas naquilo em que a sua própria grandeza se firma ele não os educa nem os entrega a outro para que os eduque, antes os deixa andar à solta, para <instruírem-se livremente>, como se a arete fosse por si própria pousar sobre eles.” O bom nobre à nobreza torna.

Recolhe, assim, sob forma filosófica, uma idéia fundamental da aristocracia, que Píndaro apresentara e que a pedagogia racionalista dos sofistas preferia deixar de parte, em vez de se deter para refutá-la. Parecia não conhecer limites o otimismo pedagógico dos sofistas; a sua vigorosa concepção intelectual do objetivo da educação contribuía para alentar este otimismo, que parecia, aliás, corresponder à tendência geral do tempo, sobretudo à evolução da maioria dos Estados para a democracia.”

É evidente que, ao procurar encontrar assim um processo moderno que substituísse, em bases racionais, a antiga e rigorosa educação dada à nobreza, Protágoras demonstrava um sentido muito arguto para captar as necessidades do presente e a mudança operada na situação; mas era precisamente neste ponto que melhor se revelava a falha da paideia sofística.”

A objeção de Sócrates tem tal caráter de objeção de princípio que obriga Protágoras, desde logo, a desviar a conversa do campo meramente técnico-didático para um plano espiritual superior. Nem todos os sofistas teriam sido capazes de seguir neste terreno o crítico da sua pedagogia, mas Protágoras era o homem indicado para isso. Nas intervenções em que responde a Sócrates detidamente, Platão apresenta-nos com mão de mestre um adversário nada desprezível. Teria sido um mau representante da época pedagógica se não tivesse tomado posição diante daquele problema fundamental de toda a educação ou não estivesse em condições de lutar por ela. A dúvida suscitada sobre a possibilidade de educar o homem partia de experiências individuais contra as quais não havia nada a alegar. É por isso que Protágoras desloca habilmente o ponto de partida e examina o problema sob o ponto de vista dos seus novos conhecimentos sociológicos” “sem aceitar como premissa a possibilidade de educar a natureza humana, todas estas instituições, que de fato existiam, perderiam o sentido e a razão de ser.”

Esta vasta exposição de princípios permite a Platão fazer com que o grande sofista – que é ao mesmo tempo um mestre da forma – brilhe em todas as modalidades da retórica. Sócrates confessa-se arrebatado e vencido” “A força de Sócrates não está na graça com que narra mitos ou faz longas exposições doutrinais, mas antes na tensão dialética das suas perguntas certeiras, às quais é forçoso retorquir. Esta arte dialética de Sócrates revela-se triunfalmente na tentativa seguinte de atrair o adversário ao seu próprio terreno.”

não é à luz de uma virtude concreta que Sócrates aponta aqui as relações entre a parte e o todo, mas sim por meio da comparação integral de todas as virtudes entre si, com o que se propõe demonstrar a unidade delas. Que ele, ao fazer isto, proceda, em certos aspectos concretos, de modo mais sumário que nos diálogos menores, não obedece apenas à circunstância de o seu propósito de estabelecer uma comparação completa obrigá-lo precisamente a percorrer um caminho mais longo, e a encurtar, portanto, as etapas; é importante ver também que uma minúcia maior o faria incorrer em repetições, já por si inevitáveis, aliás.”

Sócrates procura arrancar ao seu interlocutor a concessão de que a justiça e a piedade são essencialmente a mesma coisa ou, pelo menos, coisas muito semelhantes e afins, o que Protágoras aceita, embora contra [a] vontade. Sócrates pretende aduzir a mesma prova a respeito das outras parelhas de virtudes mencionadas, deixando para o fim a valentia, por esta ser de todas as virtudes a que mais se diferencia psicologicamente das outras.”

A crescente indisposição de Protágoras obriga Sócrates a interromper aqui a conversa, antes de ser ter atingido o seu objetivo” “Protágoras (…) se aproveita para desviar a conversa sobre a virtude e a possibilidade de ensiná-la para outro terreno, o da explicação poética, uma das formas essenciais da paideia sofística.”

ele tira dos versos de Simônides um sentido congruente com a sua conhecida tese de que nenhum homem pratica voluntariamente o mal.” Diante do fascismo, é mera questão semântica de somenos importância: que em sua cabeça o fascista esteja fazendo o bem, tanto faz. Deve ser execrado e neutralizado da mesma forma que se a tese contrária fosse prevalente (a de que o malvado têm ciência da própria maldade e liberdade de escolha).

Sócrates interroga a multidão em profundidade, para averiguar a razão por que considera neste caso que o prazer procurado é nocivo, em última instância. E obriga-a a reconhecer que não sabe dar outra razão a não ser que o prazer desfrutado acarreta como conseqüência um mal maior. Por outras palavras: a meta final (TELOS), em relação à qual a multidão reconhece diferenças de valor entre umas e outras sensações de prazer, é, por sua vez, o prazer e só o prazer. É nesta passagem que o conceito fundamental da finalidade aparece pela primeira vez em Platão.” “Pelo fato de isso ser certo é que o <deixar-se arrastar pelo prazer>, que a multidão invoca como motivo, significa apenas que se cometeu um erro de cálculo escolhendo o prazer menor em vez do maior, pela simples razão de ser o que estava mais perto no momento da opção.”

Investigaremos em outra ocasião, continua Sócrates, qual é esta arte da medida e em que consiste a sua essência; mas o que desde já podemos assegurar é que são um saber e um conhecimento tais que nos podem fornecer a pauta para a nossa conduta, bastando para isso demonstrar o ponto de vista defendido por Protágoras e por mim (Prot., 357). O conceito da medida e da arte de medir (metretike), que se emprega aqui repetidamente e com grande insistência, tem uma importância fundamental para a concepção platônica da paideia e do saber. Aqui aparece primeiramente como simples postulado e, além disso, aplicado para determinar o bem supremo, o qual não pode ser concebido, de modo nenhum, em sentido socrático.”

Sócrates sublinha expressamente a sua concordância com a tese de que o bom é o agradável e de que isto é, portanto, o critério da vontade e da conduta do Homem. O próprio Protágoras, animado pelo consenso geral, também adere agora, tacitamente, à tese que antes via com certo receio (Qui tacet, consentire videtur [Quem cala consente]). Deste modo, todas as sumidades em educação ali agrupadas sob o mesmo teto acabam por se harmonizar, unânimes, ao nível dos polloi, de que Sócrates partira. Sócrates tem-nos todos presos na armadilha.”

Com isto, Sócrates obriga os sofistas a aceitarem o seu conhecido paradoxo de que ninguém <procede mal> voluntariamente (…) Partindo dessa concepção é fácil, para ele, resolver o problema, não resolvido ainda, das relações entre a valentia e o saber, acrescentando assim o último elo que faltava a sua cadeia demonstrativa da unidade da virtude, ainda incompleta.”

Pois bem, se definimos o medo como o pressentimento de um mal, a conseqüência será que Protágoras, ao conceber a valentia como o não-retroceder perante aquilo sobre que incide o temor, incorre em contradição com a tese que todos acabam de assinar, e que afirma que ninguém avança conscientemente para o que considera um mal.” “Chegamos assim à conclusão de que a valentia é essencialmente o mesmo que sabedoria: o conhecimento do que na realidade se deve ou não temer.”

Sócrates, que não achava a virtude suscetível de ser ensinada, agora busca provar por todos os meios que a virtude é, sob todas as formas, um saber; e Protágoras, que a considerava matéria apta para ensino, faz, ao contrário, grandes esforços para demonstrar que ela é tudo menos um saber (…) O drama finda com o espanto mostrado por Sócrates em face deste resultado aparentemente contraditório”

Suspeitamos de que Sócrates, dada a descontração com que se manifesta no Protágoras, troça de todos os sofistas e de nós mesmos. E por fim exigimos que nos fale a sério de um problema de tanta seriedade. É isto que ele faz no Górgias, que é, sob muitos pontos de vista, o perfeito irmão gêmeo do Protágoras e o indispensável complemento sério do humor travesso vazado neste.” Velhos não podem sorrir (obra mais tardia de Platão)

3.7 O Górgias

O ponto de vista extremo nesta questão é o aplicado por WILAMOWITZ, no seu Platon t. I, aos diferentes diálogos. Uma obra como o Fedro, p.ex., onde se investigam as relações entre a retórica e a dialética, é exposta por esta autor sob o lírico título de <Um venturoso dia de Verão>. Não se pode passar por alto da relação entre o ponto de vista de Wilamowitz e o livro de Dilthey intitulado Vida e poesia. A fórmula <vida e poesia>, tirada da lírica moderna, não serve para interpretar os diálogos de Platão.”

a seriedade do Górgias não se deve exatamente ao fato de nele se refletir um estado de ânimo momentaneamente ensombrado, e a proximidade temporal da morte de Sócrates não é necessária para explicar o pathos grandioso que esta obra respira, como não o é para explicar o fúnebre dramatismo do Fédon, que os mesmos intérpretes situam, no tempo, muito longe da morte de Sócrates e bem perto do jovial Banquete.”

Górgias de Leontinos, criador da retórica, na forma em que ela havia de pautar os últimos decênios do séc. V, é para Platão a personificação desta arte, tal como Protágoras é da sofística no diálogo que tem o seu nome.” Existe sofística sem retórica e retórica sem sofística?

UMA RETÓRICA AINDA ÉTICA: “a sofística, que é um fenômeno meramente pedagógico (…) Rhetor continua ainda na época clássica a ser o nome para designar o estadista, que num regime democrático precisa sobretudo ser orador. A retórica de Górgias propõe-se formar retóricos neste sentido da palavra.”

Górgias cita até casos em que a palavra do retórico convenceu um enfermo da necessidade de tomar um remédio ou de se submeter a uma operação, depois de o médico competente ter fracassado nesse intento.”

É a sua arte que aponta para todo tipo ao qual deverão submeter o seu saber. Não foram os arquitetos e engenheiros navais, cujo saber Sócrates enaltece como modelo, quem levantou as fortificações e os portos de Atenas, mas sim Temístocles e Péricles, que, apoiados no poder da retórica, convenceram o povo da necessidade de realizar estas obras.” “Se um atleta usar a sua força para estrangular pai e mãe, não haverá motivo para disso tornar responsável o seu mestre, pois este lhe transmitiu a sua arte, para que fizesse bom uso dela.” “Quando Górgias afirma que o retórico transmite aos seus discípulos a sua arte para que eles façam <bom uso> dela, parece pressupor que o mestre nesta arte sabe o que é bom e justo e que os seus discípulos já albergam neles, ou recebem do mestre, um saber igual.”

A descrição deste antagonismo entre o sentimento de poder, ainda meio envergonhado e tingido de moral, da velha geração inventora da retórica e o consciente e cínico amoralismo da nova geração revela a grande arte de Platão para desenvolver dialeticamente, por meio de uma gradação de cambiantes, um tipo espiritual, em todas as suas formas características. (…) três formas fundamentais (…) o aparecimento de cada tipo novo recrudesce a luta (…) Às figuras de Górgias e do seu discípulo Polo vem juntar-se mais tarde, como terceiro e mais coerente representante do <homem retórico>, o estadista Cálicles, que proclama abertamente o direito do mais forte como moral suprema.”

FALAR É CRIAR PODER: “A crítica da segunda parte do Górgias parte da tese que afirma ser a retórica uma techne. O nosso conceito de arte não reflete adequadamente o sentido da palavra grega. Esta tem em comum com a arte a tendência à aplicação e ao aspecto prático. Por outro lado, em oposição à tendência individual criadora não submetida a nenhuma regra (para muitos implícita hoje na palavra arte), acentua o fator concreto do saber e da aptidão, que para nós estão ligados ao conceito de especialidade. [um anti-saber platônico]” “Designa toda profissão prática baseada em determinados conhecimentos especializados e, portanto, não só a pintura, a escultura, a arquitetura e a música, mas também, e talvez com maior razão ainda, a medicina, a estratégia militar ou a arte da navegação.” “neste sentido, o grego techne corresponde freqüentemente, na terminologia filosófica de Platão e Aristóteles, à moderna palavra teoria (…) Techne, por sua vez, distingue-se, como teoria, da <teoria> no sentido platônico de <ciência pura>, já que aquela teoria (a techne) é sempre concebida em função de uma prática.”

Conforme os contextos, pode acontecer em Platão a palavra episteme em vez da palavra techne, quando lhe interessa destacar o fato de esta <arte> política ter como base um verdadeiro <saber>.”

Sócrates (…) divide a lisonja em 4 classes: a sofística, a retórica, a <arte> da perfumaria e a <arte> culinária.” Paladar, olfato, tato (social!)… só faltaram a <arte> de ler ou contemplar esculturas e a <arte> de ouvir música.

A vida do Homem divide-se em vida da alma e vida do corpo, e ambas requerem uma arte especial para velar por elas. Os cuidados da alma incumbem à política ou arte do Estado (e esta correlação, surpreendente para nós, lança uma luz esplendorosa sobre o objetivo final de Platão, ou seja, a arte do Estado, e sobre o sentido completamente novo que ele dá a este conceito) [uma sociedade em que a psicologia se tornou um ramo epistemológico é uma sociedade falida, a necrose da política]; a arte destinada a velar pelo corpo carece de nome especial. E ambas as artes – a que consiste em velar pela alma e a que versa sobre os cuidados do corpo – subdividem-se por sua vez em duas espécies, das quais uma corresponde à alma sã ou ao corpo são e a outra vela pelo corpo ou alma enfermos. O ramo da política chamado a velar pela alma sã é a legislação, enquanto a alma enferma reclama os cuidados da administração prática da justiça. Dos cuidados do corpo sadio se encarrega a ginástica; os do corpo doente são matéria da Medicina. As 4 artes encaminham-se para a consecução do melhor (…) Como variantes da lisonja, correspondem-lhes 4 imagens ilusórias: à legislação, a sofística; à justiça, a retórica; à ginástica, a <arte> da perfumaria; e à Medicina, a <arte> culinária. [!] Estas já não visam à consecução do melhor no Homem, mas aspiram somente a lhe agradar. Para isso, agem à base da mera experiência e não, como as verdadeiras artes, sobre o fundamento de um princípio firme e do conhecimento”

As características essenciais do conceito de techne são: primeira, é um saber baseado no conhecimento da verdadeira natureza do seu objeto; segunda, é capaz de dar conta das suas atividades sempre que tem consciência das razões

O modelo que Platão apresenta nesta análise da essência de uma verdadeira techne é a Medicina. (…) A <arte política>, que é a meta da filosofia e da cultura novas que se procuram fundar, é concebida como uma medicina da alma.”

Tal como no Protágoras, Platão pretende aqui demonstrar que os sofistas e retóricos, embora tenham aperfeiçoado até o requinte os meios técnicos de cultura e de influência sobre os homens, continuam a dar guarida às idéias mais primitivas (…) Platão opõe um novo humanismo ao humanismo dos sofistas e retóricos.”

Polo (…) não consegue compreender como Sócrates pode não julgar apetecível o poder do tirano. E resta-lhe ainda o último trunfo, que ele joga, ao perguntar se porventura não se deve julgar ditoso o rei dos persas. E, como Sócrates responde: Não sei, pois ignoro qual é a sua paideia e a sua justiça, [sua formação e adestramento, sua criação e seu autofreio] Polo, sem se poder conter, atira-lhe esta pergunta surpreendente: Como? É nisso que se baseia toda a felicidade?

Temos de optar entre a filosofia do poder e a filosofia da educação.”

Rep., 444C-E. A arete é a saúde da alma; é portanto, o estado normal, a verdadeira natureza do Homem.”

Sempre se suspeitou que por trás de Cálicles se ocultava uma certa personagem histórica da alta sociedade ateniense daquele tempo. Essa hipótese é muito verossímil e tem até certa probabilidade psicológica. (…) É, sem dúvida, uma figura tão histórica como Anito, inimigo de Sócrates e adversário dos sofistas, que aparece no Mênon; no caso, é indiferente que Cálicles fosse o nome real do personagem ou simplesmente um pseudônimo.”

Cálicles é o 1º dos defensores da retórica que ao ataque moral de Sócrates contra ela opõe um pathos de verdade própria. Reata desse modo a discussão sobre a retórica, encarada como instrumento da vontade de poder, discussão que Sócrates, com a inversão dialética do conceito de poder, fizera derivar, em seu favor, para o ético.”

No conceito de Cálicles, poder defender-se a si próprio constitui o critério do verdadeiro homem e uma espécie de justificação ética da tendência ao poder, como se o Estado primitivo se prolongasse até o presente. Quem não puder defender-se quando sofrer uma injustiça, mais lhe valerá morrer. Cf. Górg., 483B.” “As leis, a massa é quem faz, quer dizer, os fracos, que são os que concedem louvores e censuras segundo o padrão das suas conveniências.”

quando entra em cena um homem verdadeiramente forte, pisa em todo aquele amontoado de letras que são as nossas leis e instituições contrárias à natureza, e imediatamente volta a brilhar a chama do direito natural.” No caso de ser um homem verdadeiramente fraco, ídolo e ícone dos lumpen, chegou-se à desintegração máxima. É o direito natural não de uma casta legisladora na verdadeira acepção da palavra, mas o direito natural das bestas-feras.

Cálicles vê na educação apenas adestramento orientado no sentido de extraviar e iludir sistematicamente as naturezas fortes e a manter de pé o poder dos fracos. [Suma do Capital: pedagogia moderna] A formação começa na infância, como com os animais selvagens que se quer domesticar.” “Na concepção da lei como uma prisão contrária à natureza, Cálicles coincide com o sofista Antifonte e com a sua teoria do nomos e da physis.”

como cairá no ridículo sempre que pretender agir como pessoa privada ou pública, cada vez irá refugiando-se mais nos seus estudos, pois só neles se sentirá seguro. De tudo isto se depreende que, para fins de formação de paideia, é conveniente não se dedicar à filosofia senão durante certo tempo, pois, se o prazo deste estudo se prolonga, uma pessoa liberal torna-se servil, num estudo que agrilhoa o espírito e rouba totalmente a garra ao Homem. Esta maneira de encarar a paideia como uma simples fase da formação, para a qual se requerem só uns tantos anos, manifesta um perfeito antagonismo em relação ao elevado conceito de Platão, para quem ela abarca toda a vida do Homem.”

De que lhe adiantaria – diz – a sua filosofia da resignação perante a injustiça, se um belo dia o sepultassem na prisão e o acusassem injustamente de qualquer delito? Poderia acontecer que o acusassem de crime de morte, sem que ele <pudesse defender-se>. Podia acontecer que o esbofeteassem e que o autor da injúria se retirasse impune. A alusão à morte de Sócrates realça a força das palavras do cru realista aos olhos do leitor desta cena, que se supõe ocorrida muito tempo antes da condenação de Sócrates à morte.¹

Sócrates está satisfeito por ter enfim encontrado um adversário que diz abertamente o que pensa. Se conseguir fazê-lo incorrer também em contradição, já ninguém poderá objetar que Cálicles não exprimiu a sua verdadeira opinião, como Górgias e Polo.”

¹ Ao leitor cristão é inevitável também a associação com Cristo: sua altíssima e exigente moral demanda que a bofetada não seja paga nem defendida. Ninguém é digno de seguir esta elevada moral. Não há, no caso de Cristo, sentimento interno de injúria, nem ressentimento pela impunidade daquele que esbofeteia. Desde a bofetada já há uma corrupção: o não-nobre não está no lugar de esbofetear o nobre. Sequer passa pela sua cabeça – não se trata de sanção judicial ao ato vil. Isso, claro, numa República. Está errado bater como também está errado apanhar. É como a situação da mendicância na contemporaneidade: o princípio do justo caminho já foi perdido. Diante deste quadro, e somente deste quadro, tudo é permitido, nobres e vilões estão em equanimidade. Era do chorume.

Os modernos intérpretes de Platão fizeram muitas vezes da contradição entre esta maneira de definir o telos e a definição hedonística que dele se dá no Protágoras o ponto de partida para toda a sua concepção da evolução platônica, dando por certo que, até o Górgias, Platão não se elevou à altura moral do Fédon, com cuja tendência ao ascetismo e à positiva valoração ética da <morte> aquele coincide também.”

basta substituir, como norma, o prazer pelo bem, que é considerada a mais exata de todas as medidas por Platão, no Filebo, e por Aristóteles no Político, obra de juventude ainda acentuadamente platonizante.” O Político aristotélico não deve ser confundido com a sua Política, muito menos com o Político platônico.

E, como inequivocamente o Górgias nos ensina, a arete é aquilo cuja parousia faz os bons serem bons: quer dizer, é a Idéia, o protótipo de tudo o que é bom.”

Se o prazer e o desprazer não podem servir de norma à nossa conduta, a retórica tem de abandonar o posto diretivo que os seus representantes lhe atribuíam nos mais importantes assuntos da vida do Homem” “A escolha acertada do agradável e do desagradável, que só tenha a preocupação de saber se é bom ou mau: eis a missão decisiva da vida humana. Isto, porém, como o próprio Cálicles concede laconicamente a Sócrates, não incumbe a qualquer um.”

É agora que ganha significado pleno a interrogação de Sócrates sobre o caráter da retórica como saber, com que o Górgias principia. (…) dois tipos de vida (bioi) diferentes. Um baseia-se nas artes da lisonja, que na realidade não são artes, mas simples imagens enganosas delas. Atentando para a modalidade principal deste gênero, nós a chamamos de ideal retórico da vida.” “Em face dele aparece o tipo de vida filosófico. (…) trata-se, portanto, de uma verdadeira techne no pleno sentido da palavra (…) Esta terapêutica não existe só para o indivíduo, mas também para a coletividade. Por conseguinte, também a lisonja pode incidir sobre o indivíduo e sobre a massa. Platão aduz como exemplos da 2ª vários gêneros de poesia e de música, a música de flauta, a poesia coral e ditirâmbica e a tragédia. Todos eles visam exclusivamente [a]o prazer e, se neles descontarmos o ritmo, o metro e a melodia, ficará só a pura demegoria e a eloqüência pública (para a atitude negativa de Platão contribui, pois, a degeneração virtuosista da arte, na sua época). Esta concepção da poesia como parte da eloqüência, que mais tarde, adiantada já a Antiguidade, se generalizaria, aparece aqui pela 1ª vez, e tem em Platão um sentido francamente pejorativo.” “A análise da poesia segue a mesma linha que a da sofística e a da retórica, no Protágoras e no Górgias (…) O demos perante o qual o poeta aparece como retórico não é somente a parte masculina da cidade, mas uma massa mista de crianças, mulheres e homens, de livres e de escravos. No entanto, a retórica de primeiro plano, a que se dirige aos homens da cidade, ou seja, a retórica política, também não é melhor que o gênero por nós denominado poesia”

Se a grandeza de um estadista consiste realmente em satisfazer os seus próprios apetites e os da massa, então é indubitável que tais políticos merecem a fama que a História lhes confere. Porém, se a missão do estadista é infundir às suas obras determinada forma, um eidos tão perfeito quanto possível, para em seguida se orientar por ele, como fazem o pintor, o arquiteto, o construtor naval e todo e qualquer técnico, ordenando de modo lógico as partes do todo para que se ajustem bem, então chegaremos à conclusão de que aqueles estadistas não passaram de uns incompetentes. Assim como toda a produção de arte tem a sua forma e a sua ordem, de cuja realização depende a sua perfeição, e assim como o corpo humano tem o seu próprio cosmos, que chamamos de saúde, também na alma existe um cosmos e uma ordem.”

É certo que antes de Platão a língua grega não usa o termo cosmos neste sentido de ordem legal interior da alma; conhece, porém, o adjetivo kosmios, para exprimir uma conduta refletida e disciplinada. Também a lei de Sólon falava da eukosmia da conduta pública dos cidadãos e principalmente da juventude.”

devendo recordar-se que, no grego, a palavra <bom> não tem apenas o estrito sentido <ético> que hoje se dá a ela, mas é o adjetivo correspondente ao substantivo arete, e portanto designa toda a classe de virtude ou excelência.” “quando a língua grega designa o bem-estar com a expressão <fazer bem>, esta expressão encerra, para Platão, uma sabedoria mais profunda que a advertida por aqueles que a empregam: (…) <fazer bem> assenta pura e exclusivamente no <agir bem>.”

O que entre os deuses e os homens tem vigor não é a pleonexia, a ambição por mais; é a proporção geométrica. Mas de geometria nada entende Cálicles.”

Se se tratasse de se proteger contra as injustiças sofridas, não haveria outro caminho senão o de submeter-se incondicionalmente ao sistema político vigente na sua época. Quando um tirano furioso e desprovido de paideia domina o Estado, não tem outro remédio senão temer todo aquele que esteja espiritualmente acima dele. Jamais se poderá, pois, tornar seu amigo, e desprezará, ao mesmo tempo, os que forem piores do que ele. Por conseguinte, o tirano não poderá ter por amigos senão os que lhe sejam semelhantes, os que louvem e censurem o mesmo que ele louva e censura, e estejam, além disso, dispostos a se deixarem dominar por ele.”

Ambos aparecem colocados diante do mesmo problema: o de como se devem comportar para com o <tirano> do seu Estado – o demos ateniense – que exige sejam (sic) incondicionalmente respeitados os seus desejos. Sócrates mostrou que não ignora as conseqüências que a sua franqueza lhe pode acarretar e que está disposto a afrontá-las pelo bem da pátria. É Sócrates, o representante da virtude, quem é o herói. Cálicles, o defensor da moral do senhor, do direito do mais forte, é na realidade o homem fraco, que se adapta exteriormente para dominar, mediante a hábil flexibilidade do homem de palavras.”

Cálicles e Sócrates aparecem agora como a mais perfeita encarnação destes dois tipos de homem: o adulador e o lutador.”

É Platão quem, seguindo correntemente o hábito socrático da indagação dialética, introduz o conceito de exame na educação superior. Na República edifica totalmente sobre esta base a cultura do governante. Trata-se de um conceito tirado das technai dos especialistas: do médico, do arquiteto, etc., como o próprio Platão nos dá a entender pelos exemplos.”

Pelo que os seus críticos dizem dele, Péricles tornou os atenienses ociosos, covardes, tagarelas e ambiciosos, quando introduziu o pagamento de gratificações. Recebeu-os relativamente sossegados das mãos dos seus predecessores para convertê-los num povo revoltado, como a sua própria sorte o prova. Címon e Temístocles foram por esse povo enviados para o exílio, e Milcíades esteve para ser lançado no Hades.”

PRINCÍPIO DA ARETE DO S-H: “Ainda não existiu um estadista no sentido socrático da palavra. Os estadistas famosos de Atenas foram meros servidores do Estado, em vez de serem educadores do povo. Converteram-se no instrumento das fraquezas da natureza humana, que procuraram explorar, em vez de as superarem por meio da persuasão e da coação.”

Ninguém fale, porém, de ingratidão do povo que derrubar e expulsar os seus governantes. É o velho subterfúgio dos sofistas que têm a pretensão de educar os homens na virtude e se queixam de ingratidão quando os discípulos se portam mal para com eles e se recusam a pagar-lhes os honorários. Entre o sofista e o retórico não há diferença essencial, a não ser que por ela entendamos ser o retórico, que com tão grande desdém olha o sofista, muito inferior a ele na realidade, exatamente como o juiz o é em relação ao legislador e o médico em relação ao ginasta. Quando o retórico ou o sofista acusam quem dizem ter <educado>, é a si próprios e a sua educação que na realidade acusam.”

A opção pré-existencial da sorte da vida no além, que Platão pinta no final da República (617B-620D), serve de fundo metafísico a esta opção terrestre. A passagem do Górgias é, por sua vez, o desenvolvimento do tema da Apologia (29D) em que Sócrates opta também, ante o perigo iminente que ameaça a sua vida, pela conservação do seu bios filosófico.”

creio que somos pouquíssimos os atenienses (para não dizer que sou eu só) que nos esforçamos por praticar a verdadeira arte do Estado; talvez seja eu o único a defender a causa do Estado entre os homens deste tempo.”

É no Górgias que Platão abandona pela 1ª vez a simples atitude de exame e investigação predominante nos diálogos anteriores; apresenta ali o filósofo, na época em que esta investigação, de aparência meramente intelectual, e à qual ele atribui um tão alto valor para uma conduta reta, desvenda toda a sua profundidade, e em que o jogo, que ele veio seguindo de modo tão inexplicavelmente apaixonado, se transforma em luta contra o mundo inteiro, luta que exige o sacrifício da própria vida. Nos primeiros diálogos de Platão, a partir do Críton, soam de preferência os arpejos claros e alegres desta música filosófica, os quais atraem todos os amantes das musas. Mas quem não treme quando de repente ouve ressoar no Górgias as vozes profundas e brônzeas da sinfonia socrática e por trás daquela perfeita alegria capta o motivo da resignação diante da morte? Pela 1ª vez desde a Apologia aparecem aqui fundidas num todo a vida e a doutrina de Sócrates. Por entre a aparente indecisão lógica dos diálogos de Sócrates resplandece aqui a resolução incondicional da existência socrática, certa da sua meta final, uma existência, portanto, que já de algum modo deve possuir aquele saber tão ardentemente desejado e que exclui qualquer possibilidade de uma opção errônea da vontade.”

Platão expõe-no com a certeza – adquirida na unidade da palavra e da realidade na pessoa do seu mestre – de isto ser pura e simplesmente o autêntico Ser. O Górgias desvenda ao nosso olhar uma nova valoração da vida.”

Não é fácil considerar o Sócrates histórico o autor destas livres adaptações literárias dos mitos religiosos, mesmo que de vez em quando neles prendesse a atenção. Mas também não se pode aceitar, por corresponder a uma concepção excessivamente tosca da verdade espiritual, a hipótese tão difundida de que foi nas suas viagens ou de outro modo qualquer que Platão assimilou a influência dos mistérios órficos ou outros mitos parecidos, e os combinou, na sua concepção, com a ética socrática. [talvez se refira principalmente a Nietzsche? Pouco provável, haja vista a nota de rodapé a seguir.] Os mitos platônicos sobre o destino da alma no além-morte não são produtos dogmáticos de nenhum sincretismo histórico-religioso.(*) Interpretá-los assim seria menosprezar completamente a capacidade poética criadora de Platão, que neles atinge um dos seus pontos culminantes.

(*) Neste erro incorre a maioria dos investigadores que abordam o elemento órfico de Platão, movidos pelo interesse do historiador das religiões. O que vai mais longe neste sentido é Macchioro, que faz derivar do orfismo a maior parte da filosofia de Platão.”

Há 3 mundos e 4 reinos aquáticos no mais inferior deles (Fédon), mas quem liga, se somos apenas homens da segunda caverna que irão parar no Hades ou não? Nossa integridade ética ou a falta dela não se alterarão por causa disso.

SOBRE O VALOR DOS VALORES DE UM PONTO DE VISTA EXTRA-MORAL: “Sem um tal ponto de apoio num mundo invisível, a existência do homem que vive e pensa como Sócrates perderia o equilíbrio, pelo menos se for vista pelos olhos de seres limitados ao mundo dos sentidos. A verdade da valoração socrática da vida só se podia compreender se referida a um <além>, tal como o descrevia a linguagem vigorosa e sensível das representações órficas da vida post-mortem: uma morada onde se podia emitir um juízo definitivo sobre o valor e o desvalor, a felicidade e a ruína do Homem, onde a <própria alma> era julgada pela <própria alma>, sem o invólucro protetor e enganoso da beleza, da posição social, da riqueza e do poder. Este <juízo>, que a imaginação religiosa transpõe para uma 2ª vida, situada para além da morte, torna-se para Platão uma verdade superior, quando procura desenvolver até o fim o conceito socrático da personalidade humana como um valor puramente interior, baseado em si próprio.”

as injustiças passadas perduram na alma e formam a essência dela.”

As incuráveis – na maioria almas de tiranos e homens de poder, que já não é possível salvar com nenhuma terapêutica – são erigidas em exemplos eternos, paradeigmata,¹ para benefício das outras.”

¹ Paradigma e também arquétipo, norma.

Platão põe agora na pessoa do seu mestre a sua própria convicção apaixonada de ser Sócrates o verdadeiro educador de que o Estado precisa, e faz com que Sócrates, cheio de um sentimento da própria personalidade e com um pathos nada socrático, mas inteiramente platônico, denomine-se, baseado na sua pedagogia, o único estadista do seu tempo.”

Enquanto na Apologia este conflito podia ainda aparecer aos olhos de certos leitores como uma catástrofe isolada, o Górgias põe a descoberto que o pensamento de Platão gira sem cessar em torno daquele conflito.” “A Carta Sétima esclarece com precisão a perene importância filosófica que esta experiência vivida tem para Platão, e o faz com tal brilho que a obra e o testemunho pessoal se completam do modo mais perfeito.”

A crítica do Górgias dirige-se de maneira tão exclusiva contra os estadistas atenienses do presente e do passado, que há a aparência de que a vontade reformadora de Platão admitiria ainda a possibilidade de uma transformação política na sua própria pátria. No entanto, a Carta Sétima prova que já naquela época Platão não admitia tal possibilidade. Como é que o espírito socrático podia penetrar num Estado refratário até a medula, como o ateniense? Por trás do Górgias ergue-se já a idéia do Estado dos filósofos. A crítica demolidora do Estado histórico, contida nesta obra, não tende para a revolução violenta nem é a explosão de um fatalismo sombrio, de um estado de espírito calamitoso, o qual teria sido compreensível depois da bancarrota interna e externa de Atenas, subseqüente à guerra do Peloponeso.” O que é então? Um ligeiro escapismo que duraria 3 mil anos.

Para a maneira moderna de sentir confundem-se aqui duas missões distintas que, pelo menos até há pouco, era costume separarmos com rigor. A nossa política é política realista, a nossa ética individual, idealista.” “Foi no tempo de Sócrates que esta unidade sofreu o primeiro abalo sério. As razões do Estado e o sentimento moral dos indivíduos começaram a divorciar-se cada vez mais abertamente, à medida que se embrutecia a vida política e se tornava independente e mais afinado o sentimento moral dos melhores indivíduos. Esta ruptura da 1ª harmonia entre a virtude humana e a virtude cívica (…) constitui a premissa histórica do pensamento platônico sobre a filosofia do Estado. Era agora revelado que o poder do Estado de submeter os espíritos ao seu império – poder evidente na antiga cidade-Estado – tinha o seu reverso perigoso. Com o tempo, forçosamente levaria os indivíduos de cultura superior a enveredarem por atalhos e a afastarem-se do Estado ou a aplicarem-lhe a sua norma ética ideal, gerando desse modo um conflito insolúvel entre o seu modo de ver e o Estado real.”

A Idéia de Ser do Filho de Deus não é animada, mas um quadro na parede.

segundo o modo de ver de Platão, o Estado não pode ficar para trás em face desta evolução moral e tem de encetar o caminho de se converter em educador e médico de almas ou então resignar-se, caso não queira assumir esta missão, a ser considerado um organismo degenerado e indigno da sua autoridade.”

Longe de se opor ao saber profissional, é deste que ele tira o seu ideal.” “É precisamente ao chegar ao ponto da evolução em que esperamos deparar com o moderno conceito de consciência pessoal e de livre decisão moral do indivíduo que nós vemos este conceito ser de novo eliminado e em seu lugar instaurada uma verdade filosófica objetiva que reivindica para si o direito de dominar toda a vida da comunidade humana e, portanto, do indivíduo.”

Aquela brincadeira de infância: o último a chegar é a mulher do tirano.

3.8 O Mênon

No Protágoras, Sócrates procurara ganhar os sofistas para a sua causa. Mas quanto mais tentava aprofundar a sua tese de que a virtude só podia ser, em última instância, um saber, afastando-se assim da sua primitiva negação da possibilidade de a virtude ser ensinada, mais Protágoras resistia a aceitar que a sua pretensão de passar por mestre da virtude só podia ser salvaguardada mediante a aceitação do axioma socrático de que a virtude é um saber.”

uma vez estabelecida a equivalência entre a virtude e o saber e esclarecida a importância deste saber-virtude para toda a educação, tornava-se urgentemente necessária uma investigação especial do problema do que era o saber assim concebido. Pois bem, o Mênon é o primeiro diálogo em que se aborda esta investigação. Esta é, aliás, a obra mais chegada no tempo ao grupo de diálogos que anteriormente comentamos, e constitui, portanto, a resposta mais imediata de Platão ao problema colocado no Protágoras: que espécie de saber é aquele que Sócrates considera fundamental para a arete?” “Em nenhum momento poderia haver um programa da sua escola que limitasse a filosofia ao problema do saber, principalmente se esta palavra se concebe com a generalidade abstrata da moderna teoria do conhecimento e da lógica moderna.”

Segundo Platão, é em começar por inquirir primeiro o que é a arete em si, antes de se aventurar a dizer como se entra na posse dela, que se baseia a nova formulação do problema por Sócrates. Quando Sócrates condiciona a aquisição da arete à solução do problema da sua essência, ou seja, a um difícil e complexo processo intelectual, isto significa que a arete passou a ser algo problemático para ele e para a sua época.”

Mênon aprendeu com Górgias, seu mestre, a distinguir a virtude do homem e a da mulher, a do adulto e a da criança, a do homem livre e a do escravo.”

Este algo, a partir de cujo ponto de vista as virtudes não aparecem múltiplas e distintas, mas, ao contrário, são todas uma e a mesma virtude, é o que Platão denomina eidos. (…) A locução <olhando para> aparece com freqüência na pena de Platão e exprime plasticamente a essência do que ele entende por eidos ou idea.” O Ser grego é acessível através da visão, e não da reflexão cartesiana da representação. O olho reflete a luz (as cores, a forma) assim como na era moderna a ‘mente’ reflete a própria ‘idéia’ (o próprio olho refletindo a forma)!

o eidos platônico se elabora de maneira absolutamente concreta, com base no problema da virtude (arete). Se queremos saber o que é a saúde, não vamos averiguar se ela se manifesta de modo diverso no homem, na mulher, etc., mas procuramos, sim, captar o eidos, sempre e em todas as partes idêntico, da saúde.”

Precisamente, o eidos do bem ou da arete, do qual Platão fala, não é outra coisa senão esta concepção do bem <em totalidade>. O característico disso é que este bem <em totalidade> é ao mesmo tempo designado por Platão como o verdadeiro real e existente, o que repugna a uma equiparação com o nosso <conceito> lógico, com o universal. No Mênon, tal como nos diálogos anteriores, não deparamos nunca com uma verdadeira definição da arete, e é evidente, aliás, que semelhante definição não tem de momento nada que ver com o problema da virtude em si, quer dizer, da idéia. O <que é> é explicado como idéia e não como definição.”

É Aristóteles quem, de certo modo, rompe a marcha por este caminho errado, ao sustentar que foi Sócrates quem primeiro procurou definir os conceitos universais, que Platão hipostasiou em uma realidade ontológica e assim inutilmente duplicou.” “A maioria dos lógicos modernos segue os passos de Aristóteles nesta reconstituição do processo interior que levou Platão a estabelecer a teoria das idéias. A <escola de Marburgo>, que durante algum tempo preconizou com grande insistência e em numerosas publicações uma nova interpretação platônica, declarou-se energicamente contrária à concepção aristotélica. Veja-se principalmente Paul NATORP, Platos Ideenlehre (Marburgo, 1910). Esta reação não levou diretamente a esclarecer a compreensão da verdadeira posição histórica dos dois grandes filósofos, porque pecava em sentido contrário. (…) Julius STENZEL, no seu primeiro livro, Studien zur Entwicklung der platonischen Dialektik (Breslau, 1917, trad. inglesa de D.J. Allan, Oxford, 1940 [op. cit. em negrito]), foi quem soube tirar as conclusões acertadas desta tentativa frustrada da escola de Marburgo e aprofundar a verdadeira situação histórica da lógica platônica do Ser.”

Este conceito lógico universal parece tão evidente aos olhos de um moderno que se considera simples apêndice fastidioso e problemático aquilo em que a idéia platônica ultrapassa este conceito (…) ainda que nós distingamos claramente em Platão os 2 aspectos – o do lógico universal e o do ontológico real –, o certo é que para ele formam absolutamente uma unidade.”

os equívocos dos intérpretes modernos não provêm tanto de se interpretarem mal as palavras do próprio Platão, coisa dificilmente concebível em si mesma, como do fato de para elas terem transferido certas noções lógicas de origem posterior.” “Na opinião de Aristóteles, Platão fizera dos conceitos universais entidades metafísicas, atribuindo-lhes uma existência independente, separada das coisas captadas pelos sentidos. A verdade é que Platão nunca deu o segundo passo (o de <hipostasiar> os conceitos), simplesmente porque também não dera o primeiro, ou seja, a abstração dos conceitos universais como tais. Longe disso: para ele, o conceito lógico aparece ainda completamente envolto na roupagem da idéia.”

A relação destes esforços dialéticos comuns com o ato de visão intelectual que aparece no fim deste caminho esclarece-se na Carta VII, por meio da comparação com o ato de friccionar 2 pedaços de madeira até fazerem fogo.”

Além do alto grau de consciência lógica que Platão revela constantemente neste diálogo, é eloqüente neste sentido principalmente a grande quantidade de termos técnicos que ele usa para designar os seus diferentes passos metódicos. Para fazer um <exercício>, como Platão faz aqui, é necessário dominar as regras que se querem tomar como base. Neste sentido, é muito instrutiva a arte consciente da ilustração dos processos lógicos por meio de exemplos (paradigmas), cuja função Platão põe continuamente em relevo.”

a essência não admite, como p.ex. o Fédon ensina, um mais e um menos, e nenhuma figura o é em maior ou menor grau que outra qualquer. O círculo não é figura em grau mais alto do que o retângulo. Cf. Fédon, 93B-D et Mênon 74E.” // Geometria aristotélica: círculo é a figura por excelência.

arte experimental x a priori autocontido em si mesmo

Enquanto o Górgias, para traçar o esboço de uma nova techne ético-política, tomava antes a Medicina por modelo, o Mênon segue principalmente o exemplo das matemáticas.”

A transposição acima, da arte médico-hipocrática às matemáticas, obriga a entrada da reminiscência no arcabouço platônico. A idéia de reminiscência se torna uma necessidade filosófica (reminiscência como visão interior preexistente):

Para se aproximar da natureza desta intuição interior, Platão recorre ao mundo de idéias do mito religioso. E como os gregos não podem representar-se nenhuma intuição sem objeto real, e por outro lado o espírito do Homem – p.ex., o do escravo da investigação geométrica anterior – não viu nem conhece ainda nada de semelhante, Platão interpreta a existência potencial do conhecimento matemático na alma como uma visão comunicada a esta numa vida anterior.”

Interessa menos a Platão a idéia da imortalidade, como base necessária para o seu conceito da personalidade moral, do que a possibilidade de essa idéia servir de fundo a sua nova teoria de um saber de certo modo inato na alma do Homem. Sem aquele fundo, este saber ficará reduzido a uma idéia pálida e vaga. Em contrapartida, em conexão com a preexistência, abrem-se perspectivas inimagináveis em várias direções, e o conhecimento do Bem em si, que se investiga, alcança a completa independência em relação a qualquer experiência exterior e uma dignidade quase religiosa.”

Sócrates sempre se detivera no não-saber. Platão, ao contrário, sente-se impetuosamente impelido a ir avançando até alcançar o saber [impossível por definição, caso em que nos tornaríamos deuses, cf. O Banquete]. Apesar disso, é na ausência de saber que ele vê o sinal da verdadeira grandeza de Sócrates, pois Platão interpreta-a como as dores do parto de um tipo completamente novo de saber, que Sócrates trazia nas entranhas. Trata-se daquele conhecimento interior da alma que o Mênon procura captar com precisão e descrever pela 1ª vez: a intuição das idéias. (…) E não foi porque só a partir desse momento Platão tivesse sido capaz de vê-la assim; é que ele só a julgou possível de assim ser explicada aos outros a partir do momento em que abordou a tarefa de expor a natureza maravilhosa deste saber, que descobria