[ARQUIVO] POLÍTICA — Aristóteles

Originalmente publicado em 9 de março de 2011

Preceptor de Alexandre, o Grande. “Romperá com seu real discípulo depois do assassínio de Calístenes” No entanto: “Jamais se envolveu com política prática.”

Um dos primeiros a perceber que existem leis que governam a sociedade, e elas não estavam em nenhum outro tipo de conhecimento previamente desenvolvido. Pensamento dinâmico: as instituições mudam.

Zeus não respeitou seu pai, por que então esperaria recebe-lo dos filhos sem o emprego da violência? Sobre o fosso etário entre pais e filhos, que muito atrapalha em sua relação, Aristóteles defende uma profilática: que sejam gerados no inverno!

Foi o criador do célebre modo peripatético: ensinar de pé e em movimento, ao ar livre. Estimula o fluxo de idéias e o espírito questionador—vocês sabem porque o psicólogo muitas vezes prefere o paciente deitado?

Muitas de suas obras se perderam. Algumas são atribuídas a si, mas provavelmente provêm de discípulos.

Estudou 158 Constituições de Estados—na época a Grécia estava em dissolução, e a República Romana em ascensão. Havia “zilhões” de pequenos Estados (cidades-Estados)—a geografia política do mundo era bem diferente do que é hoje. Contribuiu com as bases do Direito Moderno. “ideal reformador”

Até a forma como a população se distribui no espaço é digna de problematização.

Considerações efêmeras sobre a escravidão. “Não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um e obediência por outro”

18: a amizade entre senhor e escravo

“Há serviçais e serviçais, e há senhores e senhores.”

Economia vs. Crematística

E.: modesta e nobre; despida em absoluta do “D” marxista, se preocupava apenas com a Mercadoria e os recursos escassos.

C.: supérflua, grotesca e vil.

“Tampouco foi a natureza que produziu o comércio que consiste em comprar para revender mais caro.”

22: escambo; moeda; acumulação. “Ora, é absurdo chamar ‘riquezas’ um metal cuja abundância não impede de se morrer de fome”

24: o médico vendido. O professor vendido.

“a bondade intrínseca do Estado”

“a mulher passaria por atrevida se não fosse mais reservada do que um homem em suas palavras.”

42: da vocação

“a felicidade consiste em ação” “[a vida ativa] abarca também as meditações que tratam dessas ações e desses projetos”

COMO FUGIR DA LEI DA SELVA (“SOBREVIVÊNCIA DO MAIS FORTE”):

A paz à guerra;

O repouso ao trabalho;

O honesto ao útil e necessário.

“Ao fazer a guerra, vários Estados se conservaram, mas, assim que conseguiram a superioridade, entraram em decadência, semelhantes ao ferro que se enferruja pela inação.” “a guerra nos força a ser justos e temperantes. Pelo contrário, na paz e no repouso, é comum que a prosperidade nos torne indolentes.”

59: atletas: não ter filhos. “não seja permitido criar nenhuma que nasça mutilada” “Desde os primeiros momentos do nascimento, é bom acostumar as crianças ao frio” “São as primeiras impressões as que mais nos afetam”

57: música

70: já fala no nome “Itália”

“a beleza e a estatura não pertencem à maioria.”

“Democracia” não é o governo da maioria, etimologicamente, mas dos pobres.

“Mas onde as leis não têm força [para premiar a meritocracia] pululam os demagogos. O povo torna-se tirano” A antecipação do socialismo e do paradoxo de Robespierre. A verdade é que desde sempre se falou em revolução.

Uma hora fala em Deus, noutra fala em Zeus.

“arraia-miúda” “para bem comandar é preciso ter antes obedecido”

130: “A mediania é, pois, o melhor estado”

“os homens que menos provocam revoltas são o que se sobressaem quanto ao mérito.”

152: da morte conspiratória de Filipe. “quase todos os usurpadores conservaram a soberania durante a vida, apesar do ódio público, mas quase todos os seus sucessores perderam-na incontinente.” “A mais longa tirania foi a de Ortógoras e de seus descendentes, em Sício. Durou cem anos.” Ainda assim, não teria sido, literalmente, uma das mais cruéis.

“Pelo fim do serviço militar obrigatório! Vote 25050.”

160: sobre a taxação

“Os homens facilmente se corrompem pela prosperidade, pois nem todos são capazes de suportá-la”

161: sobre os parlamentares e seus vencimentos: a idéia aristotélica de se não auferir SALÁRIO ao político profissional. Assim, será uma função por VOCAÇÃO, e não COBIÇA. Só os mais ricos, que já são ricos, estariam aptos, mas eles teriam menos chances de legislar em causa própria; e os pobres não se sentiriam ultrajados como hoje se vê com os sucessivos “auto-aumentos” que se concedem os deputados.

Já cobrava TRANSPARÊNCIA das autoridades em relação às receitas e gastos, mesmo sem um site na internet para publicá-lo.

“No caso de algum rico ultrajar [aos mendigos]~, será punido mais severamente do que se tivesse insultado um igual.”

Da liberdade e da igualdade na Democracia: “sofisma miserável.”

“Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais e aos juízes as punições.” Maquiavélico, literalmente. Não seria o caso de Maquiavel ser um aristotélico?

178: Aristóteles vs. Platão-Marx no tocante à propriedade privada

Recomenda-se também, como medida anti-viciosa, um teto para rendimentos por indivíduo ou família, sem falar na dignidade do pão (banquetes públicos) aos indigentes. (O SER HUMANO É CORRUPTO, ENTÃO A LEI DEVE CORRIGI-LO)

187: roubar para matar

“a audácia das mulheres lacedemônias é sempre nociva”

Estado de poucos milhares de pessoas!

“Não se deve exigir que um mesmo homem seja flautista e sapateiro.”

Platão famoso precursores do feminismo; e queria institui a obrigatoriedade da ambidestria!

205: Drácon, o severo

[ARQUIVO] DO QUE SE FALA?

O mundo é constituído de portais móveis de acesso: é a única condição para o aparecimento de um novo homem. Quando tem de acontecer, a pessoa fica 9 meses na soleira desse estranho portal, esperando que lhe cantem a senha. Não há uma regra fixa para determinar como e com que freqüência se movem os portais, nem quanto tempo depois de utilizados eles se fecham. Há um número bastante elevado deles, porém muitos não preenchem as condições necessárias para convidar humanos. Ficam em estado de latência por um grande período, até que se saiba que viraram pedra e que não serão acometidos da magia da viagem, sob nenhuma hipótese, até que devagarinho se fecham, desaparecem, somem até os registros de que um dia foram uma tentativa. Em compensação, há tantos outros portais que recebem mais de uma pessoa! Não há realmente um limite conhecido, mas o portal envelhece e se danifica com o uso, como qualquer das criaturas que passa por ele. Há relatos de portais que recebem e por onde passam aqueles que um dia se converterão também em portais. Muitos seres humanos não conseguem se separar, por gratidão, do portal que lhe trouxe a este mundo, e o conservam ao lado por muitos anos, até que a lei natural encerre a existência de um dos dois (usualmente do portal em primeiro lugar) ou que o sujeito seja chamado para participar de complicados processos de forjas de novos portais, para os quais se exige muita responsabilidade e um certo exclusivismo: tudo o mais na vida do indivíduo passa a ser executado em função do seu novo trabalho. Outros seres humanos, porém, vêem seu portal desmanchar logo depois do acesso. Muitos passam décadas sem vê-lo, sem lembrar de seu aspecto, até que há um reencontro. Certo é que, embora tragam muitas pessoas, portais não podem oferecer o percurso inverso: ninguém pode abandonar este mundo para voltar, e do que havia ali é tabu comentar!

Quando em algumas regiões do mundo os portais parecem já ter perdido o fôlego de outrora, há sempre uma contrapartida, um outro lado do mundo em que os portais vivem uma era de ouro e dão boas-vindas a muitos seres. Não se sabe quando e como surgiu o primeiro portal e até quando poderá ingressar gente e os portais poderão funcionar e cumprir sua missão, que é afinal o que eles sabem fazer. Quem tenta adivinhar são os próprios marujos dessa migração dimensional, que tentam estabelecer um limite máximo de portais, bem como um número mínimo, sem os quais o equilíbrio seria desfeito. Atualmente há uma quantidade assustadora deles, mas a vontade de que eles existam declinou. Tentaria descrever, se pudesse, a melancolia e a sensação de estranhamento provocadas quando o portal se despede de seus respectivos viajantes. Estes olham para onde não mais está mas poderia estar aquele, ou seja, para o vazio, fundamentalmente, e exclamam: “A porta por onde eu vim se fechou! Que consolo tenho eu, senão terminar a minha parte da eterna obra de perecimento, mais humilde do que nunca?”.

8 de outubro de 2011

[ARQUIVO] SELEÇÃO DO SEXO

Já devo ter escrito isso em algum lugar, mas… Eu não estou à altura de mim mesmo! Sou “ocasional” demais…


Vantagem, afinal, para Eduardo, de Gabriela em relação a Isadora (OS SOFRIMENTOS DO JOVEM EDWARDS): é um ser que olha para cima e obedece, sem arrogância, mesmo que (e porque) você não seja um pai (tão mais velho assim).


“Se alguém não está desejoso de ter filhos, deveria estar desejoso de não ter sexo!” “Se você não quer os filhos, então sofra as conseqüências!”

Bom humor frio chuvoso cheiro de brilho gloss de morango nu


Castidade—pesque a idade de ouro, contamine-se amputado e já esquecido do orgasmo intra-carnal… Deixe que ela foda com quantos queira quantas vezes achar que deve. Supere a dor e a inveja, não deixe que se tornem palavras vagas e estranhas. Encare-os como marcianos em relação a sua Terra. Não quero este troféu. Sei das tentações e retrocessos de fora, de fora desta película e desta membrana, quando não sou mais peixe no aquário… Pensa que seis putas suntuosas ao seu redor não o modificariam… E se sonhar que…


Uma vez um dengo, sempre um dengo, hei de querer

é o maior prazer da humanidade, fazer orgias e infectar o ar… OITO

Meter, meter, meter… Se errou o alvo, não tens o que temer… Síncopes sincrônicas

tudo é tão ralo e frágil que desmancha como o sêmen na limonada…

Eu te valorizei, abelha-rainha…

Se está cansado, vire homem, faça o que é de praxe e se corrompa…

por isso tenho a certeza—NÃO NASCI PARA TRABALHAR.

Precalcinha anti -gravi10 da situação

Recall citrus ante


29 de setembro de 2011

[ARQUIVO] ILIAD — Dover-THRIFT EDITIONS

Originalmente publicado em 5 de março de 2011


PERSONAGENS

Jove: Zeus; Júpiter.

Juno: Hera

Réia: mãe de Zeus (uma titã)

Leto: mãe de Apolo, mulher de Zeus; a.k.a. Latona.

Helena: filha de Zeus e Leda

Tíndaro: pai adotivo de Helena

Aquiles: filho de Peleus e da imortal Tétis; neto de Poseidon; bisneto (pelo pai) e sobrinho-neto (pela mãe) de Zeus.

Poseidon: Netuno

Ajax (1 dos 2): segundo em perícia guerreira entre os aqueus

Apollo: deus-sol; antigo Hélio.

Ârtemis: Lua; Selene, entre outros nomes.

Hermes: Mercúrio

Vênus (signo de touro!): Afrodite; primeira Vênus; filha de Urano.

Cronos: Saturno

Hades (rebaixado!): Plutão

Gaia: Terra

Ares: Marte


iii: “We know charm of the Elizabethan translations, but he who would attempt one that shall vie with these must eschew all Elizabethanisms that are not good Victorianisms also.” “Prose differs from verse much as singing from speaking or dancing from walking”

Homero teria aversão a descrever cenas violentas.

Agamemnon quer outo e tributos, o máximo que conseguir chupar, de seus súditos. “pegue o que conseguir levar”

O complexo sistema da dádiva—parece que os aqueus/gregos não podem ver um rabo-de-saia.

Um tempo tão cheio de mal-educados!

31: Páris, o cagão

Toma-lá-dá-cá entre Hera e Zeus.

Falas repetidas…

TRECHO BASTANTE RECORRENTE: “The hero fell on his knees, and propped himself with his hand resting on the ground till the darkness of night fell upon his eyes.”—a escuridão descende aos olhos daquele que submerge ao Hades.

“the immortal blood”—deuses de linhagem inferior podem ser facilmente feridos por um humano com perícia.

“for the gods do not eat bread nor drink wine”

“Olympus, where the gods dwell.”

“no man who fights with gods will live long or hear his children pratting about his knees when he returns from battle.”

62: a armadura de Atena

MARTE, UMA VERDADEIRA CRIANÇA MIMADA: “Mars roared as loudly as nine or tem Thousand men in the thick of a fight” “We gods are continually suffering in the most cruel manner at one another’s hands while helping mortals” “I hate you worst of all the gods in Olympus, for you are ever fighting and making mischief” Zeus

“not even the child unborn and in its mother’s womb; let not a man of them be left alive, but let all in Ilius perish, unheeded and forgotten.”

“Wine hives a man fresh strength when he is weared, as you know are with fighting on behalf of your kinsmen.”

Atena e Apolo, desde sempre irmãos e rivais demais.

É impressionante o nº de mortes acidentais na batalha: “queria ferir fulano, mas ele desviou (por ‘culpa de um deus) e o arpão acertou um outro, de menor fama, insignificante e sem peso na soma de forças, eu diria, porém, sem dúvida honroso e ainda um forte guerreiro, cheio dos antepassados irreprocháveis, que estão nos anais da História por seus feitos, conquanto estejam agora no Hades, para onde também irei resignadamente—quando, é claro, chegar a minha hora.”…

Atena, a de olhos cinzas.

O ESTUPRO DE ZEUS: Uma mortal, qualquer que seja, obviamente não o recusaria, pois o constrangimento inicial já seria se apaixonar, dada a diferença de poderes e majestades. Mas e se tivesse um inexplicável orgulho e relutasse? Teria suas pernas abertas por um Trovão.

Guerras respeitáveis em que os adversários paravam ao anoitecer e se recolhiam a suas bases, para voltarem à carga quando houvesse novamente luz natural.

Tudo em prol do “queridinho de Zeus”, o homem mais espetacular. Agamemnon: “I will give him seven excellent work-women, Lesbians, whom I chose for myself when he took Lesbos.” Hoje, o que aconteceria com Aquiles? A renca de jornalistas tem raiva de privilégios!

A IRA DE AQUILES: “coward and hero are held in equal honour, and death deals like measure to him who works and him who is idle.” O <diálogo com a mãe> fôra travestido no filme, e está na fala aquilina dirigida a Ajax e Ulisses. O mesmo dilema de Hamlet, afinal. “He may offer me tem or even twenty times what he has now done, nay—not though it be all that he has in the world, both now or even shall have; he may promise me the wealth of Orchomenus or of Egyptian Thebes, which is the richest city in the whole world, for it has a hundred gates through each of which two hundred men may drive at once with their chariots and horses; he may offer me as the sands of the sea or the dust of the plain in multitude, but even so he shall not move me till I have been revenged in full for the bitter wrong he has done me. (…) My life is more to me than all the wealth of Ilius while it was yet at peace before the Achaeans went there” [o teatro da vontade]

104: Fênix era bem mais velho e criou Aquiles

MAIS UMA NOTA DE RODAPÉ: “Essa é uma estranha estória. Ephidamas, aparentemente ainda um jovem, com pai e mãe, e pelo menos um irmão mais velho ainda vivos, é exorbitantemente rico, e paga uma alta soma a seu avô para casar com sua própria tia. Isso, no entanto, é o que Homero parece dizer.” (!)


Isso foi um divisor de éguas na minha vida.


“I, however, am no god to be able to tell about all these things, for the battle raged everywhere about the stone wall as it were a fiery furnace.”


Padre M. Alves Correia—não leia nenhuma tradução desse infeliz!


“Then the son of Oileus severed the head from the neck in revenge for the death of Anphimachus, and sent it whirling over the crowd as though it had been a ball, till it fell in the dust at Hector’s feet.”

“Even cowards gain courage from companionship”

“…so that he fell heavily to the ground.” “…and his limbs failed beneath him” “death, life’s foe”

“Cowardly she-wolves that you are”

“All things pall after a while—sleep, love, sweet song, and stately dance”

Como pode indivíduos valerem tanto? Privilegiados no campo de batalha jamais destinados a perecer. Por mais forte que seja um homem, nenhum valor único à propalada “estratégia de peões”. A tendência realista seria que os homens proeminentes fossem logo rechaçados e varridos do front pela união invencível dos medíocres. Sem dúvida o melhor jeito de sobreviver na guerra é ser covarde para passar despercebido. Mas meia-covardia (meia-coragem) é punida com amputações e deformidades futuras.

Personagens de contos de fada contam contos realistas para suas crianças quando esses seres de mentirinha estão indo dormir?

168: medo de um escândalo sexual olímpico

“tearing the eye-ball from the socket”


À espera de um milagre… …que não vai acontecer.

A(ma)r(go)s

Do dente do dragão nasce o guerreiro tebano


173: exercício de futurologia de Jove. O lego com sangue humano.

Eis um caso familial à parte em que é sempre o pai ou a mãe aquele que testemunha a morte do filho, e não o contrário: quando se é um deus, pleno de rebentos.

“He kicked down the wall of the Achaeans as easily as a child who playing on the sea-shore has built a house of sand and then kicks it down again and destroys it—even so did you, O Apollo, shed toil and trouble upon the Argives, filling them with panic and confusion.”

Será que não seria comum acabar mutilando e espatifando seus próprios “comrades”, tendo em vista que o raio de alcance das armas era extenso e havia um aglomerado tão impressionante, caótico e móvel de homens? Haja perícia a fim de evitar esse destino infeliz. Perícia, preces e sacrifícios de bois a Jove e Atenéia!

“the sweat rained from every pore of his body”

Aquiles-Alucard tinha realmente os melhores equipamentos; entre os quais, uma lança pesadíssima para qualquer “grego normal”, para ele era leve como brisa. Ele também maneja uma espécie de Biggoron. Aquiles não foi só, mas levou cinco companhias de homens em 50 navios, que estavam desde sempre ancorados na praia, próximos ao centro da batalha, aguardando suas ordens.

Troianos: forasteiros mas nem tanto (todo deus tem seus favoritos).

Pátroclo foi morto por Apolo pessoalmente (ou “divinamente”?).

A metáfora freqüente do leão que avança sobre sua presa para caracterizar o guerreiro valente que se lança sobre os despojos do adversário ou amigo morto em combate, visando a ficar com suas armas e tesouros: ninguém pode parar um leão.

No livro, Pátroclo não está mascarado, nem tampouco é confundido com Aquiles ao ser executado.

Heitor é em verdade muito menos que o segundo homem em poderio. Pátroclo, talvez Ulisses e outro aquivo como Ajax são capazes de vencê-lo numa luta justa. Embora o Olimpo jogue sujo.

“fight might and main”

“he [Hector] puto n the immortal armours of the son of Peleus”

Menos de um terço do livro é devotado às peripécias de Aquiles! E mesmo o cavalo de Tróia, terá aparição bem súbita. Tão súbita quanto a de Papai Noel no Carnaval.

“they reached the rich” “great grief”

“Mesmo Hércules, o mais amado por Zeus—mesmo ele não pôde escapar da mão da morte, porque o destino e a temível raiva de Hera o derrubaram, bem como eu devo cair quando estiver morto se tal destruição é o que me espera.”

“As upland shepherds that cannot chase some famished lion from a carcase, even so could not the two Ajaxes scare Hector son of Priam from the body of Patroclus.” “shrink from the thought that Patroclus may become meat for the dogs of Troy.” Heitor, o carniceiro, primeiro ancestral do goleiro Bruno.

“Then Juno sent the busy sun, loth though he was, into the waters of Oceanus”

“The god of war deals out like measure to all, and the slayer may yet be slain.”

Tempos em que a loucura momentânea era só a interferência de um deus.

“But a man can fight all day if he is full fed with meat and wine”

“Ulysses answered: ‘Achilles, son of Peleus, mightiest of all the Achaeans, in battle you are better than I, and that more than a little, but in counsel I am much before you, for I am older and of greater knowledge.”

Briseis não é cu-doce (coquete) aqui. Não deve haver cena íntima.

Aquiles jejuou, em luto, até a batalha.

“laughter-loving Venus”

Hades tem medo de que os tremores de seu vizinho de cima, Netuno, possam fazer seu teto desmoronar.

“No man may fight Achilles, for one of the gods is always with him as his guardian angel”

“Nay, hero, pray to the ever-living gods, for men say that you were born of Jove’s daughter Venus, whereas Achilles is son to a goddess of inferior rank. Venus is child to Jove, while Thetis is but daughter to the old man of the sea.” O irmão <mais fraco> de Zeus. Poseidon, alias, tem cabelos negros, diferente das representações grisalhas mais comuns.

“as though he were a god”

É um desce-sobe da carroça danado!

Por onde anda Páris a esta altura?

“kindle a fierce fire” Hera a seu filho, Deus Vulcano

266-7: em pouco mais de uma página, o “duelo final”

“Though men forget their dead when once they are within the house of Hades, yet not even there will I forget the comrades whom I have lost.” “Achilles glared at him and answered, ‘Dog, talk not to me neither of knees nor parents; would that I could be as sure of being able to cut your flesh into pieces and eat it raw, for the ill you have done me, as I am that nothing shall save you from the dogs” Aquiles raspou sua cabeça no enterro de Pátroclo

Aquiles tinha cavalos imortais que foram presentes dos deuses a seu pai, Peleu. Ao que tudo indica, não foi por amor que Tétis casou com este humano.

“The woodman does more by skill than by brute force”

281: corrida maluca!

Competições acirradíssimas e até sangrentas no próprio acampamento grego; como se não estivessem em meio a uma guerra e todos ali fossem parceiros incondicionais! Agon: no fundo, todos são parceiros, e Aquiles não odeia Heitor coisa nenhuma! Premiação: uma mulher vale menos que um caldeirão. “painful art of wrestling”—Ulisses vs. Ajax, son of Telamon. Empate! Na corrida, Ulisses vence Ajax, son of Oileus e Antíloco. Sempre com sua serelepe deusa de prontidão… Ajax de Oileus foi atrapalhado por Atena, escorregou e caiu de boca na bosta de vaca.


GLOSSÁRIO

bier: leito mortuário a céu aberto

(to) pall: fenecer

[ARQUIVO] ALICE—EDIÇÃO COMENTADA—ZAHAR—Reverendo Dodgson, a.k.a. L.C.

Originalmente publicado em 4 de janeiro de 2011

“Tua ingenuidade é uma fonte perene.”

“Alice no País”, um conto muito hermético. Talvez tão hermético quanto o Pequeno Príncipe.

“As crianças de hoje sentem-se aturdidas e às vezes apavoradas pela atmosfera de pesadelo dos sonhos de Alice. É apenas porque adultos—cientistas e matemáticos em particular—continuam a apreciá-los que os livros de Alice têm sua imortalidade assegurada. É apenas para esses adultos que as notas deste volume são dirigidas.” “os elementos sádicos em Alice, que são bastante brandos comparados aos dos desenhos animados dos últimos 20 anos.”

“Não há dúvida sobre a profundidade e a sinceridade de suas idéias anglicanas [Carroll]. Era ortodoxo sob todos os aspectos, salvo por sua incapacidade de acreditar na danação eterna.” “levou uma vida sem sexo, sem grandes acontecimentos, e feliz.”

“Gosto de crianças (exceto meninos)” “Os corpos nus das meninas (em contraste com os dos meninos) lhe pareciam extremamente belos. Quando a oportunidade se apresentava, desenhava-as ou fotografava-as nuas, com a permissão da mãe, é claro. ‘Se eu tivesse a criança mais linda do mundo para desenhar ou fotografar’, escreveu, ‘e descobrisse nela um ligeiro acanhamento (por mais ligeiro e facilmente superável que fosse) de ser retratada nua, eu sentia ser um dever solene para com Deus abandonar por completo a solicitação.’ Por temor de que essas imagens desnudas criassem embaraços para as meninas mais tarde, pediu que após a sua morte fossem destruídas ou devolvidas às crianças ou a seus pais. Nenhuma parece ter sobrevivido.” “Tornou-se especialista em encontrar menininhas em vagões de trem e praias públicas. Um saco preto que sempre levava consigo nessas viagens ao litoral continha quebra-cabeças de arame e outros regalos inusitados para estimular o interesse delas. Chegava a carregar um suprimento de alfinetes de segurança para prender as saias de menininhas quando desejavam chapinhar na arrebentação. As manobras iniciais de aproximação podiam ser divertidas. Certa vez, quando estava desenhando perto do mar, uma menina que havia caído na água passou por ele com as roupas encharcadas. Carroll rasgou a ponta de um mata-borrão e disse: ‘Posso lhe oferecer isto para se enxugar?’”

“O que distingue Carroll de outros escritores que viveram vidas desprovidas de sexo (Thoreau, Henry James…) e de escritores que eram fortemente atraídos por meninas (Poe, Ernest Dowson…) era sua curiosa combinação, quase única na história da literatura, de completa inocência sexual com uma paixão que só pode ser qualificada de inteiramente heterossexual.”

“Mais de um crítico comentou as semelhanças entre O Processo de Kafka e o julgamento de Valete de Copas”

“O riso, declara Reinhold Niebuhr, é um dos mais excelentes sermões, uma espécie de terra de ninguém entre a fé e o desespero. Preservamos nossa sanidade rindo dos absurdos superficiais da vida, mas o riso se transforma em amargura e escárnio se dirigido para as irracionalidades mais profundas do mal e da morte.”

Alice foi sua mais apaixonante amiguinha. Ele teria por volta de 30 anos quando ela era pequena (10 ou 11 anos seria uma idade provável? Vide mais além nestas anotações!), e parece que a cortejava, irritando a mãe. Lewis Carroll e termos como perversão e pedofilia dão bom número de resultados no Google. Isso não quer dizer unanimidade. Terreno espinhoso.

“aquelas fotografias ambíguas que fazia em quartos sombrios.” Nabokov, escritor e tradutor russo do legado de Carroll

“Críticos notaram também a similaridade entre os desfechos de Aventuras de Alice (…) e Invitation to a Beheading, de Nabokov.”


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“de que serve um livro (…) sem figuras nem diálogos?”

“imagine fazer mesura quando se está despencando no ar! Você acha que conseguiria?”

“como é a chama de uma vela depois que a vela se apaga”

“Em geral dava conselhos muito bons para si mesma”

“Deveria haver um livro escrito sobre mim, ah isso deveria!”

“Um gole de conhaque.”

50: o cogumelo que altera o tamanho

Uma escolar em crise de identidade. Sempre perdida em meio às algazarras e grosserias dos adultos. Bem dialético…

O Reino de Terror da Rainha de Copas. É uma matriarquia.

“Uma sopa pode muito bem ficar boa sem pimenta…”

Parece com a moral do Visconde de Sabugosa.

“Só assim você se prepara para uma carreira: aulas mais rápidas a cada dia”

“Se a Inglaterra some de vista… é que a França apareceu!”


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Gatos dão banho em seus próprios filhotes?

O mito da realidade paralela por trás do reflexo do vidro.

150: a preocupação com a saúde das rosas ao ar livre (//Pequeno Príncipe)

177: aquela vontade infantil de varrer toda a poeira da rua

191: a força do destino

“Ora, algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã.”

“Como posso trabalhar se eu ainda cago nas calças?”, pensa o homem que atropela as etapas.

Um sorriso tão falso e amplo que degolou sua cabeça.

Talvez os poderes das peças no xadrez sejam um resquício do matriarcado?

“Não gosto de pertencer ao sonho de outra pessoa”

230: os tombos em sonhos

“como se pode conversar com uma pessoa se ela diz sempre a mesma coisa?”

Diz-se que em “Através do Espelho” Alice teria 7 anos e ½, tendo-se passado meio ano após as aventuras do primeiro maravilhoso sonho.

“Marimbondos-macho, como o de Carroll, embora pareçam temíveis, assemelham-se aos reis do xadrez. São criaturas amáveis, inofensivas.”

“na França e na Inglaterra nos sécs. XVII e XVIII (…) era possível saber instantaneamente qual era a profissão de um homem pelo tipo de peruca que exibia.” Martin Gardner—o intérprete dos livros.

“A face de um marimbondo de fato parece uma face humana envolta por um lenço”

286: a dor de perder os cachos

“Temo que seja verdade que não há crianças na América.” Carroll—Apesar do seu livro mais famoso ter sido publicado pela primeira vez num 4 de julho!

“Mais de uma centena de artistas ilustraram os livros de Alice.”


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NOTAS

“As imagens de Alice feitas por Tenniel não retratam Alice Liddell, que tinha cabelo escuro cortado curto e franja caindo lisa sobre a testa. [LiDDeLL CaRRoLL CARROSSEL] L.C. enviou a Tenniel uma fotografia de Mary Hilton Bacock, outra amiga criança, recomendando-lhe que a usasse como modelo”

“O sr. Tenniel é o único artista que desenhou para mim que se recusou a usar um modelo, declarando que tinha tão pouca necessidade de um quanto eu de uma tabuada de multiplicar para resolver um problema matemático! Arrisco-me a pensar que estava errado e que, por falta de modelo, desenhou várias imagens de ‘Alice’ completamente desproporcionais—cabeça evidentemente grande demais e pés evidentemente pequenos demais.” Ora, isso se chama estilo, senhor Carroll!

“gozo ávido da Vida que só ocorre nas horas felizes da infância, quando tudo é novo e justo, e quando Pecado e Dor são apenas nomes—palavras vazias que nada significam!”

“Para as centenas de referências a Dodgson e aos livros de Alice em Finnegans Wake, ver o excelente artigo de Ann McGarrity Buki, ‘Lewis Carroll in Finnegans Wake’, em Lewis Carroll: A Celebration (Clarkson N. Potter, 1982), organizado por Edward Guiliano.”

Adoro “fofoca de Época”.

“O Dodô incapaz de voar foi extinto por volta de 1681. (…) O Dodô era nativo das Ilhas Maurício, no Oceano Índico. Marinheiros holandeses e colonizadores [dinamarqueses] matavam as ‘aves nojentas’, como as chamavam, para comê-las (…) O Dodô é um dos primeiros exemplos de espécie animal totalmente extinta pela espécie humana. Ver ‘The Dodo in The Caucus Race’ por Stephen Jay Gould, em Natural History (nov. 1996).” Porém o que se diz em outras fontes é que a carne deste animal aparentado com a família do pombo (só que bem maior) não era muito apetitosa, e ele se findou muito mais por motivos indiretos da colonização que pela predação em si.

“Tennyson teve o poema em alta conta enquanto sonhava, mas esqueceu-o completamente quando despertou.” Isso não é muito incomum, eu acho!

UTILIDADE PÚBLICA (p. 50): Ao que parece, as chances de envenenamento são menores se eu, perdido na floresta, decidir comer um cogumelo de forma chata. Diz-se que cogumelos volumosos como o do Mario quase sempre carregam algum tipo de veneno.

57: a história da mulher mais feia do mundo, que teria inspirado a aparência da Duquesa que nana o bebê-porco

“O Gato de Cheshire não está no manuscrito original, Alice’s Adventures Under Ground.” “Whoopi Goldberg foi o Gato de Cheshire na versão enfadonha e medíocre de Alice(…) que a NBC levou ao ar em 28 de fevereiro de 1999.”

“Vez por outra Carroll fazia um esforço para ser cordial com um menino, mas em geral só quando ele tinha irmãs que desejava conhecer.”

62: Alice e Kerouac! Até mesmo o Talmude diz o que o Gato diz!

A VENDETA NIETZSCHEANA POR INTERMÉDIO DE UM NOIADO E SEU CHARGISTA: “‘É impossível descrever Bertrand Russell’, escreve Norbert Wiener no cap. 14 de sua autobiografia Ex-Prodigy, ‘exceto dizendo que ele parece o Chapeleiro Louco… A caricatura de Tenniel quase revela uma antecipação por parte do artista.’”

“Pelo que sei, não se fizeram estudos empíricos sobre o modo como crianças reagem a tais cenas [decapitações] e o dano que é ou não causado às suas psiques. Minha impressão é que a criança normal acha tudo isso muito divertido e não é prejudicada em absoluto, mas que não se deveria permitir que livros como Alice(…) e O Mágico de Oz circulassem livremente entre adultos que não estão se submetendo a análise.”

88: menção de Dante (saga do Paraíso)

89: teoria dos jogos—pôquer

Sobre a frase das “aulas cada vez mais rápidas”: “No décimo segundo dia e nos dias subseqüentes, começariam os alunos a dar aula para o professor?”

“Cary Grant soluçou ao longo da canção [Estrela da Tarde] em seu papel de Tartaruga Falsa na medíocre versão de Alice para o cinema produzida pela Paramount em 1933.”

104: refuta-se a teoria de que as tartarugas choram quando desovam à noite na areia da praia. Na verdade elas possuem glândulas de remoção do sal perto dos olhos.

“Na Idade Média e no Renascimento, jogava-se xadrez por vezes com peças humanas em campos enormes (veja Gargantua e Pantagruel, de Rabelais, livro 5, caps. 24 e 25)”

142: viagem atômica! Fala da criação de uma anti-matéria que serviria a propósitos nucleares mais poderosos que a fusão e a fissão.

Carroll teria “se esquecido” dos bispos por respeitar a ortodoxia cristã.

“Nenhum carrolliano pode deixar de ler Night of the Jabberwock. É uma obra de ficção excepcional, que tem vínculos estreitos com os livros de Alice.”

Carroll e Edward Lear teriam sido pioneiros, pais dos dadaístas e tantos outros—porém o segredo de seu sucesso está menos na técnica hipertrofiada e fervorosa e mais no descompromisso de sua poesia relaxada e oportuna, vindo de quem sabe, coisa que o séc. XX, engajado, não capta muito bem. Isso reforça a minha tese de não fundar uma escola nova.

C. escreveu o primeiro livro aos 13.

181-2: o controverso tema dos sonhos simultâneos/coincidentes/em interseção

CARROLL IRIA ADORAR UMA VITROLA COM UM LP DA XUXA DENTRO! “Desde que C. a utilizou, a ‘vida às avessas’ foi a base de muitas fantasias e histórias de ficção científica. A mais conhecida é o conto de F. Scott Fitzgerald, The Strange Case of Benjamin Button.”

“C. era um grande admirador dos Pensamentos, de Pascal.”

204: citação da troça hobbesiano-tomista sobre o riso

“Os estudiosos de Finnegans Wake não precisam ser lembrados de que Humpty Dumpty é um dos símbolos básicos do livro: o grande ovo cósmico cuja queda, como a queda causada pela bebedeira de Finnegan, sugere a queda de Lúcifer e do homem.”

211: Ulisses e o truque lingüístico do Ninguém contra o ciclope Polifemo (Pensamento Verde!)

“C. gostava especialmente das terças-feiras.”


Eu sou teimoso e sei chifrar

por que você haveria de me evitar?

troco as rimas por outras

igual deixo minha fúria à solta!

GLOSSÁRIO

chapinhar: resvalar com alguma parte do corpo na água. Ou mesmo afundar, ir e vir na superfície.

[ARQUIVO] FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO

 

Originalmente publicado em 22 de dezembro de 2010

“o que se exige para a exposição da filosofia é, antes, o contrário da forma do conceito. O absoluto não deve ser conceitualizado, mas somente sentido e intuído”

“Não é o conceito, mas o êxtase, não é a necessidade fria e metódica da Coisa (…) mas sim o entusiasmo abrasador.”

“Pela insignificância daquilo com que o espírito se satisfaz, pode-se medir a grandeza do que perdeu.”

“Mas a filosofia deve guardar-se de querer ser edificante [moral].”

“a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vazio de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha.”

“o começo é fim”

“O espírito só alcança sua verdade na medida em que se encontra a si mesmo no dilaceramento absoluto. (…) Esse demorar-se é o poder mágico que converte o negativo em ser.” “Foi por isso que alguns dos antigos conceberam o vazio como motor.”

“A matemática se orgulha e se pavoneia frente à filosofia (…) proposições mortas e rígidas.”

“a necessidade de um outro saber.”

“A aparição é o surgir e passar que não surge nem passa”

“O formalismo da filosofia da natureza pode ensinar que a inteligência é a eletricidade, ou que o animal é o nitrogênio.”

“Difícil decidir o que é maior: a sem-cerimônia com que se pinta tudo que há no céu, na terra e nos infernos com tal sopa de tintas; ou a vaidade pela excelência desse meio-universal: uma coisa serve de apoio à outra.”

“Sofistaria é uma palavra-de-ordem do senso comum contra a razão cultivada”

“O cepticismo que termina com a abstração do nada ou do esvaziamento não pode ir além disso, mas tem de esperar que algo de novo se lhe apresente”

“no movimento da consciência ocorre um momento do ser-em-si ou do ser-para-nós, que não se apresenta à consciência, pois ela mesma está compreendida na experiência.”

“Fica patente que por trás da assim chamada cortina, que deve cobrir o interior, nada há para ver; a não ser que nós entremos lá dentro—tanto para ver como para que haja algo ali atrás para ser visto.”

“A consciência-de-si só alcança sua satisfação em uma outra consciência-de-si.”

SUPRASSUMIR, que permeia toda a obra: não aniquilar, porque isso inexiste, mas superar algo e conservá-lo de forma metamorfoseada, mutada, sintetizada, modificada—primeiro inconsciente, depois que vem à baila. Funde-se um momento do passado com o ser; mas então já é algo novo, de características inéditas, embora a matéria-prima não possa ser negada. Portanto suprassumir é superar e voltar. Incorporar. É como a morte do pai: ele não morre, realmente.

“obstinação (…) uma liberdade que ainda permanece no interior da escravidão” Paralelamente, se se pensa que o senhor não teme e se põe cego a um perigo que é real, pode-se dizer que ele nunca foi tão inumano, não no sentido que lhe seria mais desejável, o de cruel, mas de que ele se coisifica, por coisificar o Outro: me ignora como dotado de sentimentos, ousadia e liberdade, torna-se simplesmente vulnerável…

“Seu falatório [o da consciência] é, de fato, uma discussão entre rapazes teimosos: um diz A quando o outro diz B, e diz B quando o outro diz A: e assim cada um, à custa da contradição consigo mesmo, se paga a alegria de ficar sempre em contradição com o outro.”

Estoicismo como estágio preliminar do ceticismo. Ceticismo como estágio preliminar da consciência infeliz. “Movimento de uma nostalgia infinita”

Se para Marx o moto é o trabalho, em Hegel são o desejo e o trabalho.

165: no fim, um tratado anti-cartesiano em sua essência

“gozo” “graças” “Além” “dom”: brincalhão Hegel.

“Na luta da alma, a consciência singular só está como momento musical, abstrato”

POR QUE SE TEM RAZÃO EM DIZER QUE NÃO SE PODE ESCAPAR OU AINDA NINGUÉM ESCAPOU DE HEGEL: “O que deve-ser, também é, de fato. O que apenas deve ser, sem ser, não tem verdade nenhuma.”

205: a mesma coisa que o “coeficiente de atrito” sartriano. “É indiferente a esse rio da vida que espécie de moinhos ele faz girar.”

“as leis são sem verdade”

226: sobre videntes que lêem a mão do cliente!

238: Hamlet e a cena do crânio

240: Hegel, o criminalista: por que seus coleguinhas cientistas do séc. XIX erravam clamorosamente ao medir a periculosidade de um criminoso pelas medidas de seu crânio. “Por conseguinte, as observações estabelecidas sobre esse ponto têm o mesmo valor que as do vendedor e da lavandeira”

254-5: moral e virtude

257: hedonismo; “ipseidade”

261: equilibrando-se entre altruísmo e egoísmo

262: o que “Durkheim e seu deus” e Dostoievsky também souberam em seu tempo—a teoria do grande criminoso (ou quando a sociedade é o revoltado em questão, e o indivíduo indolente ou inadaptado o conservador)

271: nossa quixotesca missão

“Mas a consciência virtuosa entra em luta contra o curso-do-mundo como contra um oposto ao bem.” “Portanto a virtude é vencida pelo curso-do-mundo”

274: inversão (moral cristã vs. moral antiga): “tudo isso só produz tédio” (“[N]a cultura de nossa época”)—A morte de Deus.

E mais adiante, um prato cheio para mal-entendidos, partindo de uma consciência proletária: “o curso-do-mundo não é tão mau como aparentava (…) o movimento da individualidade é a realidade do universal.” “são apenas uma maneira de ver, e nada mais.” E ainda metade do livro pela frente…

“um nada labutando rumo ao nada.”

“O talento, do mesmo modo, não é outra coisa que a individualidade originária determinada que se considera como meio interior, ou como passagem do fim à efetividade”

281: da concorrência e da competição. Formulação antecipada do “além do bem e do mal”.

“desvanecer do desvanecer”

NÃO SERIA UM RIO DO QUAL SÓ SE FOGE DUAS VEZES? “Haja o que houver, a consciência honesta vai sempre implementar e atingir a Coisa mesma, já que é o predicado de todos esses momentos como este gênero universal.”

Por que não preferir o congelamento do tempo? Por que todo domingo parece uma tortura, cadafalso para a alma, o último gole, a última canção, o despertador, tudo que cause muita dor? Pessoas que querem dormir mais de 10 ou 12h, i.e., hibernar, para um ser humano, que compartilham algo realmente profundo comigo mas que não dispõem da complexidade ou força de caráter que seriam necessárias para compreenderem em que ovos elas mesmas estão pisando… Passar pelas humilhações como um trator, é o que pensamos que queremos… A questão é: melhor uma hipocrisia mórbida exagerada do que o Complexo de Poliana da ditadura do prazer!

“É como meninos maus, que recebendo uma palmada se alegram a si mesmos, por terem sido precisamente a causa do castigo.”

“Para ela [a consciência honesta], a Coisa mesma é tanto Coisa sua como absolutamente obra nenhuma; ou seja, é o puro agir, ou o fim vazio, ou ainda, uma efetividade desativada. Faz sujeito desse predicado uma significação depois da outra, e as esquece sucessivamente.”

“O consolo pelo fracasso do fim, pois pelo menos foi querido, pelo menos foi puramente agido—como também a satisfação de ter dado aos outros algo para fazerem, fazem do puro agir ou de uma obra totalmente má, a essência: porque se deve chamar uma obra má a que não é absolutamente nenhuma.”

Exatamente o que se passou pela minha cabeça ao ler o epílogo de Neurose, de Edgar Morin, nem pela primeira, nem pela última vez, esse fluir que independe de nós, o qual devemos nos preparar para aproveitar, é essa bem a palavra, considerando apenas os acontecimentos correntes e seus efeitos imediatos, a supressão do filosofar, em verdade filosofia efetiva, quer seja, em carne viva—Espírito poderoso!—Porque o amanhã ainda pode esperar em seu devido lugar e agora nada há de mais importante a considerar… Nada de atropelamentos… Mas se não der, tudo bem também. Era parte do plano, estava fixado no firmamento, tinha que se suceder assim, você não tem culpa, era incapaz. A própria sensação de suportar é só uma sensação de sensação, fugidia… Suporta-se qualquer coisa desde que haja oxigênio para puxar e, afinal, por que a pressa? Só não precisa recair no outro extremo e ter calma demais… Cada refeição tem sua hora de ser servida e saboreada…

“O todo é interpenetração semovente da individualidade e do universal” “surge um jogo de individualidades, uma com a outra, jogo em que se enganam e se encontram enganadas, umas pelas outras, como se enganam a si mesmas.”

“O que lhe interessa [à primeira individualidade] na Coisa é seu agir e atarefar-se; e quando os outros se dão conta que era isso a Coisa mesma, se sentem também ludibriados. Mas, de fato (…) queriam enganar os outros, do mesmo modo como lamentam ter sido enganados.”

296: primeira menção de “Estado”

“O mundo ético—o mundo cindido entre o aquém e o além”

O ÚTERO DA TERRA: “[o morto] desposar o seio da terra, a individualidade elementar imperecível.”

FAMÍLIA, PIEDADE, INCESTO: “a relação sem mistura encontra lugar entre irmão e irmã. São o mesmo sangue, o qual porém neles chegou à sua quietude e equilíbrio. Por isso não se desejam um ao outro”

CERTA ASSIMETRIA QUE IRRITARIA AS FEMINISTAS: “a perda do irmão é irreparável para a irmã; e seu dever para com ele, o dever supremo.”

“O irmão [o homem] é o lado segundo o qual o espírito da família se torna a individualidade que se volta para Outro e passa à consciência da universalidade. O irmão abandona essa eticidade da família—imediata elementar e por isso propriamente negativa—a fim de conquistar e produzir a eticidade efetiva, consciente de si mesma.” “A irmã, porém (…) ou a mulher (…) a guardiã da lei divina.”

325: Édipo. Antígona, a Anti-Édipo. Ele atenta contra a lei de Deus; ela, contra a lei da polis. Édipo apenas age como um bom cidadão, Antígona como fiel e temente ao Olimpo.

“os irmãos encontram ambos sua mútua destruição, através um do outro.”

Recorrente referência a um mundo “subterrâneo”.

Hegel masculiniza o Estado ou governo e feminiza o genos. Em tempos em que o mais viril não aceitaria guerrear…

“A figura ética do espírito desvaneceu, e surge uma outra em seu lugar.”

“mesmo o espírito que partiu está presente no sangue dos parentes, no Si da família”

“o todo, como cada momento singular, é uma realidade alienada de si mesma”

“O Iluminismo leva a cabo a alienação (…) Essa revolução produz a liberdade absoluta”

340: o nacionalista Hegel

362: “Diógenes no tonel”

“na substância ética a religião aparecia como fé no mundo subterrâneo”

“carente-de-espírito”: se refere a um além

“rico-de-espírito”: auto-suficiente, essência fenomenológica

Cada pessoa é uma igreja. Mas não são Capelas Sistinas, apenas frágeis toldos sobre suas cabeças.

“No que concerne o seu conteúdo, o Iluminismo é, antes de tudo, a inteligência vazia (…) encontra-o [o conteúdo] na fé.” “Com isso declara a fé como sendo um erro, e uma ficção poética sobre o mesmo que o Iluminismo é.” “está descartado completamente o pensamento do engano.”

SOBRE A FALTA DE SOFISTICAÇÃO DO PENSAMENTO MODERNO: “Essa sabedoria própria do Iluminismo aparece-lhe [à religião], necessariamente, como a banalidade mesma, e ao mesmo tempo como a confissão da banalidade.” “consciência crente” “A fé tem naquele Si o momento que a leva à perfeição; mas perecendo por causa dessa plenitude (…)”

INDÍCIOS DE POR QUE A MORAL, NO SISTEMA HEGELIANO, NÃO SE AUTO-SUPRIMIRIA, COMO A LIBERDADE, A INTELIGÊNCIA, A FÉ, O CETICISMO & O ESTOICISMO: “A perfeição, portanto, não há que atingi-la efetivamente, mas só há que pensa-la como uma tarefa absoluta, i.e., como uma tal que permanece tarefa, pura e simplesmente. (…) O que ocorre de fato, não se consegue distinguir nos longes obscuros da infinitude—para onde se deve protelar, por esse motivo, a obtenção da meta. (…) isso leva a contradições: uma tarefa que deve permanecer tarefa e, contudo, ser cumprida (…) Pela consideração de que a moralidade consumada encerra uma contradição, se lesaria a santidade da essencialidade moral, e o dever absoluto pareceria como algo inefetivo.”—Niilismo em estado bruto, grassando entre os pós-modernos cansados de missões, anômicos, baratas tontas que pedem arrego e são tão vaidosos quanto vãos… Pit stop.

Em seguida, todos os elementos do ­­saber-mentir!

“aproximar-se sempre mais e mais do nada significa diminuir.” “a lamentação que é mais uma lágrima sobre a necessidade.”

448: a “bela alma”—odor de Wilde?

DE QUE TODA AÇÃO GERA FINS INDESEJADOS, E DE POR QUE ISSO NÃO PODE PARAR

É necessário que por mais que se capte a lei trágica dos fins indesejáveis da ação, exerça-se a ação apaixonadamente, i.e., com convicção de que não havia mais certo a fazer. Pelo simples fato de que não fosse assim e: 1) ou viveríamos no aborrecido mundo em que “querer” seria sempre “poder” e aí então indelevelmente, depois de um pouco de sacanagem, o Espírito se suprimiria, ao invés de apenas suprassumir seus estados um pelo outro. Porque a realidade tem que estar deslocada do pensamento “para dar certo”; 2) ou nos manteríamos inertes, ou enraivecidos. O fato é que seríamos ainda obrigados a agir, e qualquer ação destrutiva ainda seria carregada de paixão. Mas, se quisermos exagerar, se sabemos (e acreditamos a cada segundo!) que tudo que fizermos “dá errado” ou no seu oposto, passaríamos a viver de pura má-fé—mas assim que descobríssemos que mesmo a ação maligna visando ao bem seria traída pela sua benignidade última, e porque nada mais era que uma esperteza pessoal de última hora, desistiríamos desse modo “birrento” de proceder e simplesmente nos colapsaríamos ou nos suicidaríamos. Rá! Porém, como isso é mais uma artimanha do Para-Si imediato, simplesmente ingênua demais para capturar o inconsciente, aí então acho que seríamos forçados a continuar a viver! E para viver… Que nem sonho quando… O mundo, os acontecimentos, são o meio-termo entre a onipotência sem-sal e o autômato-barata-tonta-super-títere, afinal temos que ter alguma autonomia para fazer as escolhas, mas nunca, rigorosamente sob nenhuma circunstância, podemos assumir total controle. Deus e coisas não dariam certo aqui, apenas humanos, um espírito propulsor e propalado por fenômenos. É pisar em outra pedra quando saltar da anterior… A vida é um jogo de tabuleiro enquanto ainda gostamos dele. Num banco imobiliário sem ser Lex Luthor, o Rei do Crime, nem alguém tão endividado quanto o Corinthians. Eternamente bailando a mesma Dança dos Cisnes… Navegadores do Mar dos Erros! Não seria de Eros?!

“Ninguém é herói para seu criado-de-quarto” Ninguém mais tem criado-de-quarto…

“A série das diversas religiões, que vão produzir-se, só apresenta igualmente de novo os diversos lados de uma única religião”

649: totemismo

478: deus ex machina

479: nacionalismo; Hobbes.

“deus, que é o espírito do povo ético” “a consciência ética se deixa (…) assim determinar (…) de uma maneira irrefletida e estranha, como por meio de um jogo de dados.”

482: idealismo musical

484: o banquete

“princípio feminino da nutrição” “espírito masculino da força”

488: da desportividade

490: as Musas e os Aedos (cantores, intérpretes mundanos)

491: moral do Prólogo do Céu—“os deuses existem para servir os humanos”. Não havendo consenso divino… Os deuses nada arriscam…

493: tragédia

496: de Édipo a Macbeth e Hamlet. Fala justamente da hesitação em cumprir a vingança, o príncipe dinamarquês como que livre de uma superstição ancestral. Ele duvida do pai e monta a peça. Mas não fugiu ao fado! Não tente a ação contrária (reflexões acima)!

“O frenesi da sacerdotisa, a figura desumana das bruxas, a voz da árvore, do pássaro, o sonho, etc., não são modos em que a verdade apareça, mas sinais de advertência do embuste, da irreflexão, da singularidade e contingência do saber.”

Comédia como o destino dos deuses. Somos anti-trágicos, porque sabemos demais, e Hamlet já é assaz engraçado.

502: sobre a comedialização do mundo

504: “Deus morreu”

Conclusão da consciência infeliz-trágica; em oposição à divina consciência feliz-cômica. Porém, algo não bate aí: o pós-moderno não é alegre e mundano demais? O tempo de Hegel, por mais que ele fosse capaz de pressentir um outro dele derivado, não é, ao mesmo tempo que confiante, sério e amuado? “no Estado de Direito [o Todo-Poderoso de Hegel], o mundo ético e sua religião soçobraram na consciência cômica; e a consciência infeliz é o saber dessa perda total.”

“As estátuas são agora cadáveres cuja alma vivificante escapou, como os hinos são palavras cuja fé escapou”

“Deus só é acessível no puro saber especulativo (…) Deus é o espírito” “auto-humilhação da essência divina (…) O representar toma o outro lado, o mal, como um acontecer alheio à essência divina. Captar o mal nessa essência mesma, como a sua cólera, é o esforço extremo e mais árduo do representar em conflito consigo mesmo;—esforço que, por carecer de conceito, permanece infrutífero.”

524: a figura do semi-Deus, Cristo, qualquer um na História que serve conscientemente de pára-raio universal. Aceita todo o depósito do mal e lança as sementes.

“Esse movimento é o círculo que retorna sobre si, que pressupõe seu começo e que só o atinge no fim.” “o conteúdo da religião proclama no tempo, mais cedo que a ciência, o que é o espírito; mas só a ciência é o verdadeiro saber do espírito sobre si mesmo.” Fim que deixa patente a formulação apócrifa do eterno retorno: um momento forçoso da “máquina universal” em que o Espírito se auto-denotaria antes de seguir a sua marcha como sempre… “é o novo ser-aí, um novo mundo e uma nova figura-de-espírito. (…) como se todo o anterior estivesse perdido para ele, e nada houvesse aprendido da experiência dos espíritos precedentes. (…) embora esse princípio recomece desde o princípio sua formação, parecendo partir somente de si, ao mesmo tempo é de um nível mais alto que [re]começa.” “Sua meta [do espírito] é a revelação da profundeza, e essa é o conceito absoluto.” Muito bem, e depois da transa vem outra transa, sem perdão… De modo que se o mundo alcança mesmo esse fim, só que isso não tem nada de mais. É apenas belo. E no dia seguinte Fenomenologia está na gráfica e… Sils-Maria recebe convidados e… eu me apoio a esta escrivaninha… Disso, reitera-se ainda: Rafael, espero que este seja (mais) um marco para sua vida. Olvidar e caminhar, até mesmo SEM olhar para trás—ironicamente neste mesmo momento quero reler meu primeiro livro, o do astronauta—, porque o caminho pela frente pressupõe a bagagem… Dir-se-ia que TODA vida precisa dessa culminância? Que renasci, etc.?

GLOSSÁRIO

penates: deuses romanos do lar

[ARQUIVO] O MAL-ESTAR NÃO É UMA ILUSÃO

Originalmente publicado em 26 de novembro de 2010

A) HAMLET, O PRÍNCIPE DA DINAMARCA

“A sorte só pôs o que Deus dispôs.”

“Imaginais, então, que eu sou mais fácil de tocar do que esta flauta?”

“Levarem tanto tempo esses ossos para se formarem, só para virem a servir de bola!”

“Por que não acompanhar a imaginação as nobres cinzas de Alexandre, até encontra-las servindo para tapar um barril?” Do pó ao pó.

“o gato mia; o cachorro também terá seu dia.”

“Já pensei, como os nossos estadistas, que é feio escrever bem”

“igual a ele, só poderá encontrar em seu próprio espelho.”

B) FUTURO DE UMA ILUSÃO

“Alvoreceu a noção, no povo mais bem-dotado da Antiguidade, de que Moira alçava-se acima dos deuses e que mesmo estes tinham os seus próprios destinos.”

“Nosso comportamento, portanto, deveria modelar-se no de um professor sensato que não se opõe a um novo desenvolvimento iminente, mas que procura facilitar-lhe o caminho e mitigar a violência de sua irrupção.”

“o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem permanecer crianças para sempre” “Como honestos arrendatários nesta Terra”

C) O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO (mesmo volume)

“Aquele que tem preocupações, tem também aguardente.” Busch

“nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos.” Goethe

“Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância das outras pessoas.”

“Vale a pena observar que os próprios órgãos sexuais genitais, cuja visão é sempre excitante, dificilmente são julgados belos; a qualidade da beleza, ao contrário, parece ligar-se a certos caracteres sexuais secundários.”

“apesar de todos os progressos evolutivos do homem, ele dificilmente acha repulsivo o odor de suas próprias excreções, mas somente o das outras pessoas (…) Seria incompreensível, também, que o homem empregasse o nome de seu mais fiel amigo no mundo animal—o cão—como termo injurioso, se essa criatura não provocasse seu desprezo através de duas características: ser um animal cujo sentido dominante é o do olfato e não ter horror dos excrementos nem se envergonhar de suas funções sexuais.”

D) OUTROS ESCRITOS

“Os Irmãos Karamazovi são o mais grandioso romance jamais escrito; quanto ao episódio do Grande Inquisidor, um dos pontos culminantes da literatura mundial, dificilmente qualquer valorização será suficiente.” “D. jogou fora a oportunidade de se tornar mestre e libertador da humanidade e se uniu a seus carcereiros.” “na aura da crise epiléptica, um momento de felicidade suprema é experimentado.”

[ARQUIVO] A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS

 

Originalmente publicado em 18 de novembro de 2010

“este livro (…) foi, como verifiquei, parte de minha própria auto-análise, minha reação à morte de meu pai—i.e., ao evento mais importante, à perda mais pungente da vida de um homem.”

“natureza autocurativa do espírito” Fichte

“Vaschide observa que muitas vezes se notou que nos sonhos as pessoas falam línguas estrangeiras com mais fluência e correção do que na vida de vigília.”

“sonho hipermnésico”

“após a morte de um ente querido, as pessoas em geral não sonham com ele logo de início, enquanto se acham dominadas pela dor.”

“nada que tenhamos possuído mentalmente uma vez pode se perder inteiramente” Scholz

“[Para dormir,] fechamos nossos canais sensoriais mais importantes, os olhos” “Por movimentos involuntários durante o sono podemos descobrir alguma parte do corpo e expô-lo às sensações de frio, ou provocar sensações de pressão ou contato, devido a mudanças de posição.” “É possível que sejamos picados por um mosquito” “o ranger de uma porta pode produzir um sonho com ladrões.” “Se os lençóis da cama caírem durante a noite, talvez sonhemos com estamos andando nus de um lado para outro ou então caindo na água.” “Se estivermos atravessados na cama e com os pés fora da beirada, talvez sonhemos que estamos à beira de um tremendo precipício ou caindo de um penhasco”

“Acúmulos de sêmen provocam sonhos lascivos,(*), e dores locais produzem imagens de maus-tratos, agressões ou ferimentos…”

(*) Mas parece que quanto mais bato, mais sonho com mulheres. Superprodução?

“Em minhas juventude eu costumava usar um despertador para me levantar regularmente, numa determinada hora. Por centenas de vezes deve ter acontecido de o ruído produzido por esse instrumento se enquadrar num sonho aparentemente longo e interligado, como se todo ele estivesse levando àquele fato único e tivesse alcançado seu fim precípuo no que era um clímax logicamente indispensável.” Hildebrandt

“O intérprete de um sonho não deve dar asas à própria engenhosidade e desprezar as associações do sonhador.”

“excitações subjetivas da retina”

“Maury verificou que, quando lhe acontecia acordar mais uma vez após um intervalo muito prolongado, ele conseguia detectar em seu sonho as mesmas imagens que lhe haviam flutuado diante dos olhos como alucinações hipnagógicas antes de adormecer.”

“Um escritor tão remoto quanto Aristóteles já considerava perfeitamente possível que os primórdios de uma doença se fizessem sentir nos sonhos antes que se pudesse observar qualquer aspecto dela na vida de vigília, graças ao efeito amplificador produzido nas impressões pelos sonhos.”

“A freqüência dos sonhos de angústia em caso de doenças do coração e dos pulmões é geralmente admitida.” “No caso de distúrbios digestivos, os sonhos contêm idéias relacionadas com o prazer ou a repulsa na alimentação.”

59: Schopenhauer e a verdadeira gênese do sonho

SONHOS TÍPICOS: “cair de grandes alturas”, “dentes que caem”, “voar”…

“muitas vezes sabemos que sonhamos, sem saber o que sonhamos” “Por outro lado, ocorre que às vezes os sonhos mostram extraordinária persistência na memória.”

“Os sonhos cedem ante as impressões e um novo dia da mesma forma que o brilho das estrelas cede à luz do sol.”

“a maioria das pessoas tem muito pouco interesse em seus sonhos.”

“quando um sonho parece ter sido esquecido pela manhã, ainda assim pode ser recordado no decorrer do dia, caso seu conteúdo, embora esquecido, seja evocado por alguma percepção casual.”

“podemos muito bem duvidar se nossa lembrança do que resta deles não será falseada.”

“Mesmo o maior amante da verdade dificilmente consegue relatar um sonho digno de nota sem alguns acréscimos ou retoques.” Jessen

“tornamo-nos artistas sem nos apercebermos disso, e o relato periodicamente repetido impõe-se à crença de seu autor, que de boa-fé o apresenta como fato autêntico, devidamente estabelecido segundo métodos adequados.” Egger

“com a aproximação do sono é possível observar como, à medida que as atividades voluntárias se tornam mais difíceis, surgem representações involuntárias, que se enquadram todas na categoria de imagens.” “Os sonhos, portanto, pensam predominantemente por meio de imagens visuais—mas não exclusivamente.” “pensamentos” “resíduos de representações verbais” “os sonhos alucinam” “parecemos não pensar, mas ter uma experiência”

“nossos poderes de julgamento e de vontade de modo algum se alteram no sono. (…) Mesmo em seus sonhos o homem não pode violar as leis do pensamento como tais (…) Da mesma forma, nos sonhos ele só pode desejar o que considera como um bem (sub ratione boni).” Haffner

“Se não pudéssemos ouvir nem sentir enquanto estamos efetivamente adormecidos, mas só depois de acordarmos, seria inteiramente impossível despertarmos” Burdach

“Quem quer que se comportasse, quando acordado, da maneira peculiar às situações dos sonhos, seria considerado louco. Quem quer que falasse, quando acordado, da maneira como as pessoas falam nos sonhos, ou descrevesse o tipo de coisas que acontecem nos sonhos, dar-nos-ia a impressão de ser apalermado ou débil mental.”

“Segundo Spitta, Hegel afirma que os sonhos são destituídos de qualquer coerência objetiva e razoável.”

“não ficamos nem um pouco surpresos quando um cão cita um verso de um poema” Hildebrandt

“os sonhos se dissolvem num louco redemoinho de confusão caleidoscópica” Radestock

“O sonhador é um ator” Belboeuf

“Há nos sonhos uma encantadora poesia, uma alegoria arguta, um humor incomparável, uma rara ironia. (…) Retrata a beleza terrena ante nossos olhos num esplendor verdadeiramente celestial (…) mostra-nos nossos temores cotidianos da mais aterradora forma (…) não podemos deixar de sentir que jamais em nossa vida o mundo real nos ofereceu algo que lhe fosse equivalente.” Hildebrandt

“Relatos de numerosos casos, bem como a coletânea de exemplos feitos por Chabaneix (1897), parecem tornar indiscutível o fato de que os sonhos são capazes de dar prosseguimento ao trabalho intelectual diurno e leva-lo a conclusões que não foram alcançadas durante o dia, e que podem resolver dúvidas e problemas e constituir a fonte de uma nova inspiração para os poetas e compositores musicais.”

“Schopenhauer (…) sustenta que qualquer pessoa que apareça num sonho age e fala em completo acordo com seu caráter.”

“eu nem sonharia em fazer tal coisa” “dize-me com que sonhas…” “Eu?! Jamais!”

E AGORA, BOM CRISTÃO? “Todo aquele que odeia seu irmão é um assassino.”

Com efeito, alguns defendem que no reino dos sonhos se encontra o “x”, i.e., nosso autêntico eu. Não fosse assim, como explicar que jamais tive pendores homossexuais nessas noites, e quando assassinei (Max Cavalera, cães…) me acometi de uma culpa terrível? Lá no fundo, incesto não é(foi) crime—velho papo dos justificados crimes de paixão (contribuição de Scholz)

“o imperativo categórico de Kant é um companheiro que nos segue tão de perto que não nos podemos ver livres dele nem sequer no sono.” Hildebrandt

SANTO OFÍCIO DA INQUISIÇÃO: “Se alguém disser heresias durante um sonho, os inquisidores deverão ocupar-se de investigar sua forma de vida, pois o que ocupa um homem durante o dia está fadado a retornar em seu sono.”

“paixões antigas e soterradas revivem” Benini

Bem como os homens primitivos, que avançavam 5km ao ano nas florestas e desertos, nós, os mestres na tabuada da moral, devemos ir aos pouquinhos, porque qualquer Sprint descabido é pior do que voltar a alojar a cabeça sob as telhas precárias e quebradiças da moral antiga.

“como poderiam os dez dedos de alguém que não soubesse música produzir uma peça musical?”

“Um homem privado da capacidade de sonhar ficaria, com o correr do tempo, mentalmente transtornado, pois uma grande massa de pensamentos incompletos e não-elaborados e de impressões superficiais se acumularia em seu cérebro e, por seu grande volume, estaria fadada a sufocar os pensamentos que deveriam ser assimilados em sua memória como conjuntos completos.” Robert

“Quando estavam profundamente apaixonados, quase nunca sonhavam um com o outro antes do casamento ou durante a lua-de-mel; e se tinham sonhos eróticos era para serem infiéis com alguém que lhes fosse indiferente ou odioso.” Yves Delage

“O sonho é, muitas vezes (…) a reprimenda dos seres abandonados.” Anatole France

“Sem sonhos por certo envelheceríamos mais cedo” Novalis

“p.ex., no caso de estímulos dolorosos, o sonhador poderá empenhar-se numa luta desesperada com cães ferozes”

“Kant escreve em algum ponto de sua obra: ‘O louco é um sonhador acordado’.”

“Schopenhauer chama os sonhos de loucura breve e, à loucura, de sonho longo.”

“o intérprete de maior êxito é o homem que consegue identificar a verdade a partir da imagem deformada.” Um oniromante.

Duas letras iniciais de uma palavra podem explicar muitas das aparições oníricas; um livro ou dicionário dos sonhos que fixe a conotação de alguns verbetes só tem chance de ser algo válido se for integralmente em português, i.e., não-resultante de tradução ou equivalente. Quanto ao sonhador, todo esse raciocínio está comprometido se se tratar de um poliglota…

“creio que onde existe uma mente criativa, a razão relaxa sua vigilância sobre seus portais (…) Vocês se queixam de sua improdutividade porque rejeitam cedo demais e discriminam com excessivo rigor.” Schiller

“Se houvesse na ciência algo como o direito à retaliação, por certo eu estaria justificado, por minha parte, em desprezar a literatura editada desde a publicação deste livro.”

“dá-se que sou levado a meus próprios sonhos, que oferecem um material abundante e conveniente, oriundo de uma pessoa mais ou menos normal e relacionado com múltiplas circunstâncias da vida cotidiana.” “Provavelmente, fui sensato em não depositar demasiada fé na descrição de meus leitores.”

FREUD E A COCAÍNA: “Nessa época, eu vinha fazendo uso freqüente da cocaína para reduzir algumas incômodas inchações nasais, e ficara sabendo, alguns dias antes, que uma de minhas pacientes, que seguira meu exemplo, desenvolvera uma extensa necrose da membrana mucosa nasal. Eu fora o primeiro a recomendar o emprego da cocaína, em 1885, e essa recomendação trouxera sérias recriminações contra mim. O uso indevido dessa droga havia apressado a morte de um grande amigo meu. Isso ocorrera antes de 1895.” “Essas injeções me fizeram recordar mais uma vez meu infeliz amigo que se envenenara com cocaína. Eu o havia aconselhado a só usar a droga por via oral, enquanto a morfina era retirada; mas ele de imediato se aplicara injeções de cocaína.” “Como já tive ocasião de dizer, eu nunca havia considerado a idéia de que a droga fosse ministrada por injeções.”

“Apesar de estar vestida. (…) E francamente não senti nenhum desejo de penetrar mais a fundo nesse ponto.”

135: Otto, com amigos como F., não precisa de detratores.

“Minha paciente, Irma, era uma jovem viúva (…) sua viuvez, cuja alteração muito alegraria os amigos dela.”

“Tendo adquirido, desde quando consigo recordar, o hábito de trabalhar até altas horas da noite, sempre tive dificuldade de acordar cedo.”

148: a velhice e a retomada dos sonhos bobos e diretos da primeira infância

“Eu mesmo não sei com que sonham os animais.”

“‘os porcos sonham com bolotas e os gansos, com milho.’ Diz um provérbio judaico”

156: professor vienense equiparado a um semideus

“Meu pai, cujos cabelos se embranqueceram de tristeza em poucos dias”

“sonhos hipócritas”: “vi-me perturbado, por várias noites em estreita sucessão, por um sonho algo confuso que tinha como tema a reconciliação com um amigo que eu deixara de lado muitos anos antes. Na quarta ou quinta ocasião, consegui finalmente compreender o sentido do sonho. Era uma incitação para que eu abandonasse meus últimos resquícios de consideração pela pessoa em causa e me libertasse dela por completo, e que fôra hipocritamente disfarçada em seu oposto. [interpretação sempre bastante conveniente]”

“ ‘Então o senhor não pratica o coito normal?’

‘Tomo a precaução de retirar antes da ejaculação.’ ”

174: a eterna discussão sobre a criminalidade do aborto

“Uma das duas forças propulsoras que levam a esses sonhos [de contradesejo] é o desejo de que eu esteja errado. Tais sonhos aparecem regularmente no curso de meus tratamentos quando um paciente se encontra num estado de resistência a mim; e posso contar como quase certo provocar um deles depois de explicar a um paciente pela 1ª vez minha teoria de que os sonhos são realizações de desejos. A rigor, é de se esperar que a mesma coisa aconteça com alguns dos leitores dessa obra: eles estarão inteiramente dispostos a ter um de seus desejos frustrados num sonho caso isso sirva para confirmar que eu estou errado.” “os sonhos de angústia são sonhos de conteúdo sexual cuja respectiva libido se transformou em angústia.”

178: F. sobre sua alcunha de “tarado”

“Os sonhos podem selecionar seu material de qualquer parte da vida do sonhador, contanto que haja uma linha de pensamento ligando a experiência do dia do sonho (as impressões ‘recentes’) com as mais antigas.”

“eu realmente havia escrito algo, uma monografia sobre uma planta, a saber, uma dissertação sobre a coca que atraíra a atenção de Karl Koller para as propriedades anestésicas da cocaína. Eu mesmo havia indicado essa aplicação do alcalóide em meu artigo publicado, mas não fôra suficientemente rigoroso para levar o assunto adiante.”

“O reino dos chistes não conhece fronteiras.”

195: de acordo com o que F. apregoa, um sonho lúcido seria a maior contradição do aparelho nervoso

“Nada que tenha realmente continuado a ser irrelevante pode ser reproduzido num sonho. [a longo prazo]”

“Os sonhos aparentemente inocentes revelam ser justamente o inverso quando nos damos ao trabalho de analisá-los. São, se é que posso dizê-lo, lobos na pele do cordeiro.”

“Quando alguma coisa num sonho tem o caráter de discurso direto, i.e., quando é dita ou ouvida e não simplesmente pensada (…) então isso provém de algo realmente falado, na vida de vigília”

“Du hast deine Fleischbank offen”

“Se alguém tiver a curiosidade de saber, posso acrescentar que o sonho ocultava uma fantasia de eu me comportar de maneira imprópria e sexualmente provocante e de a paciente erguer uma defesa contra minha conduta.”

“Uma vela é um objeto que pode excitar os órgãos genitais femininos e, quando está quebrada, de modo a não poder ficar de pé adequadamente, significa que o homem é impotente.”

214: o erro dos pseudanalistas de atribuírem à infância toda a importância da vida adulta

“Todas essas correrias inocentes com as amiguinhas foram lembradas porque tomavam o lugar de outras, menos inocentes.” “Quando uma mulher sonha que está caindo, isso tem quase invariavelmente uma conotação sexual”

219: fica parecendo que toda empregada doméstica já deu em serviço

222: fractais nos sonhos

“a megalomania da infância”: “Também já tomamos conhecimento [nós quem?] (…) da íntima relação entre o urinar na cama e o traço de caráter da ambição.”

232: primeiros sinais do complexo de Édipo

“Todos os sonhos são, num certo sentido, sonhos de conveniência; servem à finalidade de prolongar o sono, em vez de acordar.”

SONHO MAL-SUCEDIDO: Aquele que o faz acordar (pesadelo stricto sensu)—um sonho sonhado plenamente, por mais desagradável que soe à consciência crítica póstuma, não é um pesadelo, embora dele digamos: “tive um pesadelo!”.

253: grande excitação sexual ao acordar de madrugada; a paralisia corporal; descer e subir escadas de dois em dois ou três em três degraus, correr como se na lua (ausência de gravidade).

SONHOS DE NUDEZ ÍNTEGRA OU PARCIAL: “As pessoas em cuja presença o sonhador sente vergonha são quase sempre estranhos de traços imprecisos.” “No sonho típico nunca se dá o caso de a roupa que causa tanto embaraço suscitar objeções ou sequer ser percebida pelos espectadores.” “as duas partes do sonho ficam, conseqüentemente, em desarmonia uma com a outra.”

258: o rei está nu

“Somente na nossa infância é que somos vistos em trajes inadequados, tanto por membros de nossa família como por estranhos” “É difícil passarmos por um vilarejo do interior neste lado do mundo sem encontrarmos uma criança de dois ou três anos que levante a camisinha diante de nós, talvez em nossa homenagem.” “O núcleo de um sonho de exibição situa-se na figura do próprio sonhador (não como era em criança, mas tal como aparece no presente) e em seu traje inadequado (que emerge indistintamente, seja em virtude de camadas superpostas de inúmeras lembranças posteriores de estar desalinhado, seja como decorrência da censura).” “Acrescentam-se a isso as figuras das pessoas em cuja presença o sonhador se sente envergonhado.” “e o próprio Paraíso nada mais é do que uma fantasia grupal da infância do indivíduo.”

“Não há dúvida de que os vínculos entre nossos sonhos típicos, os contos de fada e o material de outros tipos de literatura criativa não são poucos nem acidentais.”

264: brigas entre irmãos

“O medo da morte não tem nenhum sentido para uma criança”

CRONOS, URANO E ZEUS: “Quanto mais irrestrita era a autoridade paterna na família antiga, mais precisava o filho, como seu sucessor predestinado, descobrir-se na posição de inimigo, e mais impaciente devia ficar para tornar-se chefe, ele próprio, através da morte do pai. Mesmo em nossas famílias de classe média [e sobretudo, diria Dostoievsky, pelo doloroso contraste!], os pais se inclinam, em regra, a recusar a seus filhos a independência e os meios necessários para obtê-la, fomentando assim o crescimento do germe de hostilidade que é inerente à relação entre eles.” “Em nossa sociedade de hoje, os pais tendem a se agarrar desesperadamente ao que resta de uma potestas patris famílias agora tristemente antiquada”

“uma predileção natural costuma fazer com que o homem tenda a mimar excessivamente suas filhinhas, enquanto sua mulher toma partido dos filhos homens, muito embora os dois, quando seu julgamento não é perturbado pela magia do sexo, mantenham uma rigorosa fiscalização sobre a educação dos filhos. A criança está perfeitamente ciente dessa parcialidade e volta-se contra aquele de seus pais que se opõe a demonstrá-la.” Seria uma peculiaridade brasileira ou de sociedades despóticas (partindo em primeiro lugar do chefe que prima por ser eterno e não deixar decair seu clã) a vontade manifesta do pai ter um herdeiro homem?

275: Laio, rei de Tebas, era incomensuravelmente mais burro que Cronos; tragédias clássicas vs. modernas.


“Muito homem desde outrora em sonhos tem deitado

Com aquela que o gerou. Menos se aborrece

Quem com tais presságios sua alma não perturba”

Jocasta


“Segundo a visão que se originou em Goethe e é ainda hoje predominante, Hamlet representa o tipo de homem cujo poder de ação direta é paralisado por um desenvolvimento excessivo do intelecto.” “neurastênico” “súbito rompante de cólera”

Existem famílias muito mais avançadas do que a minha. Poderiam conversar gargalhando na sala de estar sobre estas coisas…

“Wilhelm Stekev, que propôs a primeira interpretação dos sonhos com o vestibular, era de opinião que eles estavam regularmente relacionados com provas sexuais e com a maturidade sexual. Minhas experiência tem muitas vezes confirmado seu ponto de vista.” Algo definitivamente caduco em nossos tempos.

“Se um sonho for escrito, talvez ocupe meia página. A análise que expõe os pensamentos oníricos subjacentes a ele poderá ocupar 6, 8 ou 12 vezes mais espaço.”

“a ama-de-leite, carregando o peso do bebê em seus braços.”

Por mais que sejam sedutores os encantos, melhor é confinar-me ao mosteiro… Nem que esse mosteiro possua mil janelas: pelo menos ele não me deixa misturar-me.

Como é bobo o advogado, entretido em seus papéis! Não está desconfiado, nem de uma desventura, nem de dez.

“os mais divertidos e curiosos neologismos”

“Não faz muito tempo, encontrei uma única exceção a essa regra(*) no caso de um rapaz que sofria de obsessões, ao mesmo tempo que mantinha intactos seus dons intelectuais altamente desenvolvidos. As palavras expressas que corriam em seus sonhos não derivavam de observações que ele próprio tivesse feito ou ouvido. Continham o texto não-distorcido de suas idéias obsessivas, que, na vida de vigília, só alcançavam sua consciência sob forma modificada.”

(*) As falas ouvidas claramente no sonho são em geral tiradas da experiência vivida, intactas ou levemente embaralhadas.

“coisas que fossem mutuamente contraditórias não poderiam agrupar-se num todo único. (…) pois trata-se do mesmo homem, esteja ele acordado ou sonhando.”

“Muitas vezes, é como se o mesmo material fosse representado nos dois sonhos a partir de diferentes pontos de vista. (Isso é certamente o que acontece quando uma série de sonhos durante uma noite termina numa emissão ou num orgasmo—uma série em que a necessidade somática encontra o caminho para uma expressão progressivamente mais clara.”

“a pessoa que, no sonho, sente uma emoção que eu mesmo experimento em meu sono é aquela que oculta meu ego.”

“quando um sonho se recusa obstinadamente a revelar seu sentido, sempre vale a pena ver o efeito de inverter em particular alguns elementos de seu conteúdo manifesto”

338: da nitidez variável das impressões no onírico

“O conteúdo de todos os sonhos que ocorrem na mesma noite faz parte do mesmo todo; o fato de estarem divididos em várias seções, bem como o agrupamento e número dessas seções—tudo isso tem sentido e pode ser encarado como uma informação proveniente dos pensamentos latentes do sonho.”

“o 1º desses sonhos homólogos a ocorrer é muitas vezes o mais distorcido e tímido, ao passo que o seguinte será mais confiante e nítido.”

“Nossa empregada, que era um gênio para guardar coisas”

“o enigma do ‘sonho dentro do sonho’”: “Incluir algo num ‘sonho dentro do sonho’ equivale, assim, a desejar que a coisa descrita como sonho nunca tivesse acontecido [o ‘não’ ou partícula eminentemente negativa do sonho de que fala F.]. Em outras palavras, quando um evento específico é inserido num sonho como sonho pelo próprio trabalho do sonho, isso implica a mais firme confirmação da realidade do evento, sua afirmação mais forte. O trabalho do sonho se serve do sonhar como forma de repúdio, confirmando assim a descoberta de que os sonhos são realizações de desejos.”

“Encenava-se uma ópera de Wagner, que durara até quinze para as 8 horas da manhã.”

As imagens do sonho são para aliviar “a pressão psicológica causada pela constrição da ação de pensar”.

SIMBOLISMOS GENERICAMENTE ACEITOS: “todo portão representa um dos orifícios corporais (um ‘buraco’); cozinha: lugar que oculta o sexo. Livro de Salomão usado: guardaríamos reminiscências. “‘Mudar de casa’ pode ser facilmente substituído pela palavra ‘Ausziehen’ [que tanto significa ‘mudar de casa’ como ‘despir-se’], e portanto se relaciona com a questão da ‘roupa’. Quando há também um ascensor [inglês ‘lift’] ou elevador no sonho, isso nos faz lembrar o velho inglês ‘to lift’, como em ‘to lift one’s clothe’, i.e., suspender a roupa’.” Guarda-chuva se abrindo: ereção. Caixas, armários, fornos: ventre. Quarto: mulher. Portas no quarto: relação sexual com a mulher. “Sonhar que se passa por uma série de cômodos representa um bordel ou um harém.” Cortarem seu cabelo: castração. Pisar numa mina: castração; blá, blá, blá…

“Goethe (…) aparece como um símbolo paterno em alguns sonhos”

“o padrão rítmico da cópula é reproduzido quando se sobe uma escada.”

Descer ou tentar descer de uma fachada, cheio de angústia: tempos em que andar era difícil, e em que os móveis eram enormes.

Colecionadores de gravatas retratados como maníacos.

“Ele interpretou prontamente o poço como uma vagina, tendo em conta o acolchoado macio de suas paredes.”

502: sonhos de polução

EXPLICAÇÃO DO DENTE COMO ESTÍMULO SEXUAL ENCOBRIDOR NOS SONHOS: Dado que boca, nariz e mesmo o rosto como um todo remetem diretamente às zonas erógenas e a parte intra-labial NÃO, isto seria suficiente. Mas são brancos (em teoria, roçam sempre a língua). Mas por que não unhas? Porque é uma associação mais fraca—o bebê já nasce com unhas, e só eventualmente o ser humano perde uma ou outra.

“As pessoas que têm sonhos freqüentes de estar nadando (…) foram (…) pessoas que urinavam na cama, e repetem em seus sonhos um prazer de que há muito aprenderam a se abster.” “sonhos (…) em que o sonhador (…) nada (…) relacionam-se com jogos que envolvem movimento, que são extraordinariamente atraentes para as crianças.” Não sou mais acrobata, não posso executar mortais embaixo d’água ou cambalhotas no pula-pula… Um lumpen no reino das brincadeiras!

428: “falos alados dos antigos”

VIELA ESTREITA: “a representação de uma tentativa de coitus a tergo (entre as duas imponentes nádegas do corpo feminino).”

“os sonhos disfarçados de relações sexuais com a própria mãe são muitas vezes mais freqüentes do que os sonhos diretos.”

SONHO <INTRA-UTERINO> (PAREDES VERMELHAS): “As ocorrências de ‘déjà vu’ nos sonhos têm significado especial. Esses lugares são, invariavelmente, os órgãos genitais da mãe de quem sonha; não existe, de fato, nenhum outro lugar sobre o qual se possa asseverar com tal convicção que já se esteve lá antes.”

“os ladrões representavam o pai do sujeito adormecido ao passo que os fantasmas correspondiam a figuras femininas de camisolas brancas.”

442: auto-erotismo

“Nos sonhos, a hora do dia muitas vezes representa a idade do sonhador em algum período especial de sua infância.”

“A velocidade do carro é então utilizada pelo paciente como uma oportunidade para dar vazão a comentários irônicos.—Se ‘o inconsciente’, como elemento dos pensamentos de vigília do sujeito, tiver de ser representado num sonho, poderá ser substituído com muita propriedade por regiões subterrâneas. (…) Os animais selvagens são empregados pelo trabalho do sonho, em geral, para representar os impulsos arrebatados de que o sonhador tem medo, quer sejam os seus próprios, quer os de outras pessoas. (…) Poder-se-ia dizer que os animais selvagens são empregados para representar a libido, uma força temida pelo ego e combatida por meio do recalque.”

452: quando inventamos a compreensão de uma letra de música (lacunas)

457: o sonho shakespeariano-romano de F.

462: pessoas mortas nos sonhos

“Um sonho se torna absurdo, portanto, quando o julgamento de que algo ‘é absurdo’ figura entre os elementos incluídos nos pensamentos oníricos”

“idade (…) não é defesa contra a loucura.”

“É fácil perceber como a megalomania suprimida dos pais se transfere, em seus pensamentos, para os filhos, e parece bastante provável que esta seja uma das maneiras pela qual a supressão desse sentimento, que se faz necessária na vida real, é efetivada.”

Nunca se está vivendo a cena, ela “já foi feita”, é apenas um filme que passa: “Por exemplo, posso tentar pensar arbitrariamente num número, mas isso é impossível: o número que me ocorre é inequívoca e necessariamente determinado por pensamentos que haja em mim, ainda que estejam distantes de minha intenção imediata.”

“transmutação de todos os valores psíquicos”

555: Silberer e o cunho metassexual dos sonhos

“o umbigo do sonho, o ponto em que ele mergulha no desconhecido.”

“Du Prel refere-se ao fato de que, após tentarmos em vão relembrar um nome, é freqüente ele nos ressurgir de pronto na lembrança, sem qualquer aviso prévio. Disso ele conclui que ocorreu um pensamento inconsciente, mas provido de um objetivo, e que seu resultado penetrou subitamente na consciência.”

597: sonho, a porta de entrada da loucura

609: a fada dos três desejos e o casal brigão

Os sonhos de angústia mais comuns: paralisado, incapaz de fugir de um perseguidor apócrifo; o demônio “vencendo”.

[ARQUIVO] O HOMEM REVOLTADO

Originalmente publicado em 27 de outubro de 2010

Quais fundamentos residem sob essa dita vida? Para mim tudo se resume a uma aberração matemática—o êxito cabe a poucos. “Mas o que é o êxito?”, você dirá. A própria vida do exitoso parece uma peça pregada. Durante apenas algumas horas na semana posso eu realmente me perguntar coisas e me indignar. A sonolência e o cansaço tomam conta de mim. Mas se fosse só isso! Meu humor, eu não consigo estabelecê-lo minimamente. Sou um escravo completo. Não é possível observar o próprio auto-perecimento pelo imperativo do trabalho! Não é possível ter um ponto de vista não-estulto sobre a família. Não acho o sal e o molho shoyo para temperar e suportar os meus dias.

Se não é para ficar pensando na morte da bezerra, eu sou a bezerra! Sim, porque ao menos como o portador sacro de leite eu sou melhor do que como essa bola massacrada de jogos de pingue-pongue sem-fim!

“todo suicídio solitário, quando não há ressentimento, é generoso e desdenhoso.”

“Não se é niilista pela metade.”

“Respirar é julgar. (…) Falar repara (…) A absurdidade perfeita tenta ser muda. (…) A ferida que se coça com tanta solicitude acaba dando prazer.”

“entrar no movimento pelo qual o absurdo supera a si próprio.”

“Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar.” “Antes morrer de pé do que viver de joelhos.”

Revolta como contrário de ressentimento. “o revoltado defende aquilo que ele é”. Já “O ressentimento é sempre ressentimento contra si mesmo”.

31: “Ivan Karamazov” “insurreição metafísica” “Eu me revolto, logo existimos”

“A história da revolta metafísica não pode, portanto, ser confundida com a do ateísmo.” “do dândi ao revolucionário” “justificar a perda da autoridade divina”

43-4: análise do mito prometéico, o primeiro Satã. “Zeus (…) cujos dias estão contados”

“a palavra eterna de Édipo que, cego e desgraçado, irá reconhecer que tudo vai bem.”

Epicuro e Lucrécio, dois revoltados antigos. “De espera em espera consumimos nossa vida e morremos todos no sofrimento” “Como Epicteto e Marco Aurélio, Epicuro vai banir a morte da existência humana.” “morrer significa apenas retornar aos elementos. O ser é a pedra.”

52: o infernal Don Juan de Molière, que despreza o lúgubre Convidado de Pedra em seus dizeres de redenção

53: Sade, teórico precoce da vontade de poder. “Toda ética da solidão implica exercício de poder.”

62: o paradoxo do assassino ou psicopata perfeito: Jason. Matar é eliminar o prazer futuro de tirar a vida de alguém, se este fosse o último ser vivo do recinto. Forçosamente haveria uma auto-aniquilação (paradigma de Majin Boo). Mas Don Juan e serial killers têm opções demais pela frente até a primeira repetição do cardápio, que talvez já nem seja repetição… Nietzsche e o prazer do sexo. Perde-ganha.

“O senhor, por sua vez, aceita ser escravo e talvez até mesmo o deseje. ‘O cadafalso também seria para mim o trono das volúpias.’”

Metamorfose imagética de Satã em Vigny: “Um adolescente ‘jovem, triste e encantador’ substitui a besta fera de chifres.”

69: “essa obstinação com o satanismo” “a metafísica do pior” “o poeta, para ser aceito, deve então ser maldito”

“O dandismo é uma forma degradada da ascese.” “audácias da ‘excentricidade’”

76: Ivan, “quixotismo metafísico” “Com este ‘tudo é permitido’ começa realmente a história do niilismo contemporâneo.’ “a lei do assassinato”

Jamais se admite a—ou se deixa de ficar constrangido diante da—morte legal, i.e., a execução burocrática do Estado. Ride the Lightning

“O Único (…) Stirner ri diante do impasse, Nietzsche se atira contra as paredes.” Stirner, o mais “adolescente” do séc. XIX (que o diga a Ideologia Alemã): “a fraternidade é apenas o ‘modo de ver domingueiro dos comunistas’.” “a guerra dos Únicos”

Já em Nietzsche: “O próprio caos também é uma servidão. (…) Em outras palavras, (…) a revolta desemboca na ascese.” “O amor fati substitui o que era um odium fati.”

Hitler: “A doutrina do super-homem levando à fabricação metódica de subomens”

“Devemos ser advogados de defesa de Nietzsche”

Séc. XX e luta de trincheiras pelo território: “colonização a propósito de Hegel”.

“corrigindo Nietzsche com a ajuda de Marx”

Por que o nome “revolta metafísica”? “Nietzsche (…) antes dele Marx, (…) substituem ambos o além pelo mais tarde.”

Começam as tergiversações camusianas: “marxismo-leninismo” como o protótipo desse casamento entre o social e o esquizóide, o político e o artista, o histórico e o natural. “cesarismo intelectual”

“Depois de Moby Dick, O processo, Zaratustra, Os possuídos, o que imaginar?”

“O melhor, um sono bem embriagado na praia.”

Rimbaud

116: surrealistas que se mataram—Crevel, Rigaut e Vaché. Comparado, o movimento em seus atos gratuitos entrópicos, por Camus, a uma apologia de um sujeito que atualmente chamaríamos de Charles Manson.

“o amor sem objeto, que é o das almas torturadas.”

André Breton, o marxista. “Poder-se-iam contar nos dedos da mão os comunistas que chegaram à revolução pelo estudo do marxismo. Primeiro, a pessoa se converte, em seguida, lê as Escrituras e os Padres.” Ser comunista no começo do séc. XX era como acreditar no amor. Era a última escapatória da modorra da vida. Era como estar namorando, se casar, preencher-se com algum afeto; ou mesmo comer alguém na balada. Simplesmente, coisas que todo homem deveria experimentar. Que deixa mais forte quem nele acredita.

“Uma das teses fundamentais do surrealismo é que realmente não há salvação.” “o estado de sítio pouco a pouco se generaliza”

“ainda não houve revolução na história.” Crítica tácita à idéia trotskista: não pode haver governo revolucionário. “Se houvesse revolução uma única vez, não haveria mais história. Haveria uma feliz unidade e uma morte satisfeita. É por isso que todos os revolucionários visam à unidade do mundo e agem como se acreditassem no fim da história.”

A ESTERILIDADE DA REVOLTA DE ESPÁRTACO: “o exército bate em retirada [de Roma], sem ter combatido (…) Começam então a derrota e o martírio.”

143: Rousseau, germe de Stalin

“Em suas instituições, Saint-Just abolia a carne para menores de 16 anos e sonhava com uma nação vegetariana e revolucionária.” Atmosfera insustentável: “Quem critica é traidor; quem não apóia ostensivamente a república, um suspeito.”

“Rousseau, a quem não faltava bom senso, compreendera efetivamente que a sociedade do Contrato só convinha aos deuses.”

“A bandeira vermelha, símbolo (…) do Executivo”

Espanha, a única nação européia a não perder o Rei após a I Guerra Mundial.

“ninguém se torna deus com tanta facilidade”

E os acontecimentos se tornam esmagadores em velocidade, a ponto de este livre ser anacrônico em 50 anos, apesar das verdades milenares que contém.

“Chega o dia em que a ideologia entra em choque com a psicologia. Não há mais então poder legítimo.” “justificados pela (…) ausência de justificação” “o homem (…) de agora em diante estará fadado às revoluções do séc. XX (…) para finalmente fundar a religião do homem.”

“Se bem que haja infinitamente mais em Hegel do que nos hegelianos de esquerda (…) O vencedor sempre tem razão, esta é uma das lições que se pode tirar do maior sistema alemão do séc. XIX.” “Matar ou escravizar” Hegel

Indiretamente, Hegel fundou a atitude terrorista pessoal e de Estado: o matar e morrer pela transcendência, pela missão. Beco sem-saída.

FEUERBACH: “A Phénoménologie, bíblia que só teria profetizado o passado, colocava um limite nos tempos.” “O endeusamento de Hegel por ele mesmo, após a deificação de Napoleão, a partir de agora inocente porque havia conseguido estabilizar a história, só durou 7 anos. Em vez da afirmação total, o niilismo recobriu o mundo. A filosofia, mesmo a filosofia dos escravos, tem também seu Waterloo.”

“Stendhal via uma primeira diferença dos alemães com os outros povos no fato de se exaltarem pela meditação em vez de se acalmarem.”

184: Raskolnikov, Pisarev e o “assassinato da própria mãe”—curioso prelúdio em O Estrangeiro.

“Aquele que entendeu a realidade não se insurge contra ela, antes se rejubila.”

188: Proudhon e seus flertes com o Satanismo

Bakunin a favor de uma ditadura do proletariado. Outro “inimigo marxista” que é seu complemento ideal. Porém, tece-se, à p. 189, uma espécie de bakuninismo-stalinismo.

“O revolucionário é um homem condenado antecipadamente. Ele não deve ter relações românticas, nem coisas ou seres amados. Ele deveria despojar-se até de seu nome. Nele, tudo deve concentrar-se em uma única paixão: a revolução.” Nechaiev

“Com ele, pela primeira vez a revolução vai separar-se explicitamente do amor e da amizade.”

“se a revolução é o único valor, ela exige tudo e até mesmo a delação; portanto, o sacrifício do amigo.”

Este capítulo sobre os primórdios do niilismo russo é também uma genealogia dos atentados terroristas.

“Em 1883, atentado contra o imperador da Alemanha, cujo assassino foi executado a machadadas.” “assassinato de Carnot” + Operação Valquíria. “O futuro é a única transcendência dos homens sem deus.”

“Quanto a Hitler, sua religião confessa justapunha, sem hesitação, o Deus-Providência e o Walhalla.” “Até mesmo sua forma física, medíocre e banal, não representava para ele um limite, fundia-o com a massa.” “Hitler era a história em estado puro.” “A Alemanha desmoronou por ter travado uma luta imperial com um pensamento político provinciano.”

“Quando o procurador inglês observa que ‘de Minha luta, a estrada levava diretamente às câmaras de gás de Majdanek’, ele toca, pelo contrário, no verdadeiro assunto do julgamento, o das responsabilidades históricas do niilismo ocidental, o único, no entanto, que não foi realmente discutido em Nuremberg, por motivos evidentes. Não se pode conduzir um julgamento anunciando a culpabilidade geral de uma civilização. Julgaram-se apenas os atos que, esses pelo menos, eram gritantes diante do mundo inteiro.”

Impossível não lembrar da “paralisação da História” e da eterna guerra em 1984.

“a mãe grega que foi forçada por um oficial a escolher qual dos três filhos seria fuzilado.”

“Esta primeira tentativa de uma Igreja construída sobre o nada pagou-se com a própria aniquilação.”

“Hitler exemplifica o caso, talvez único na história, de um tirano que não deixou nenhum saldo.” “a negação de tudo é servidão”

O TEMPO GREGO: “Aristóteles (…) não se julgava posterior à guerra de Tróia”

“povos nórdicos, que não têm uma tradição de amizade com o mundo

“Marx é o Jeremias do deus histórico e o Santo Agostinho da revolução.”

DE MAISTRE VS. MARX: “A eternidade os separa no princípio, mas a historicidade acaba reunindo-os numa conclusão realista.” “Maistre odiava a Grécia (que irritava Marx, avesso a qualquer beleza solar)”

“O progresso, paradoxalmente, pode servir para justificar o conservantismo.”

“Marx não dispõe de zombarias suficientes para o otimismo racional dos burgueses.” “O positivismo mostra com muita clareza as repercussões da revolução ideológica do séc. XIX, da qual Marx é um dos representantes, e que consistiu em colocar no fim da história o Paraíso e a Revelação que a tradição colocava na origem do mundo.” “ele [Comte] quis ser o São Paulo dessa nova religião e substituir o catolicismo de Roma pelo catolicismo de Paris.” “sociolatria” “religiões horizontais do nosso tempo”

Comte vs. Marx: o primeiro inaugurava uma transição sem sofrimento: “como querem os desordenados marxistas de nosso tempo” “Sua doutrina, que ele [Marx] considerava realista, era efetivamente realista no tempo da religião da ciência, do evolucionismo darwinista, da máquina a vapor e da indústria têxtil.” “Seria mais correto chamar a posição de Marx de determinismo histórico.” “Marx avança mais do que Hegel e dá a entender que o considera um idealista (coisa que ele não é ou, pelo menos, não mais do que Marx é materialista)”

“O proletariado só pode existir no plano da história mundial… A ação comunista só pode existir como realidade histórica planetária.” “Não se espera pelo poder ou então espera-se por ele indefinidamente. Chega o dia em que é preciso tomá-lo, e é esse dia que continua sendo algo meio nebuloso para os leitores de Marx.”

“Michel Collinet, em La Tragédie du marxisme, assinala em Marx três formas de tomada de poder pelo proletariado: república jacobina, no Manifesto Comunista; ditadura autoritária, em 18 Brumário; e governo federal e libertário em A guerra civil na França.”

“Se está garantido que o reino chegará, que importa o tempo? O sofrimento nunca é provisório para quem não acredita no futuro.” “Nessa Jerusalém estrepitante de máquinas maravilhosas, quem ainda se lembrará do grito do degolado?” “No fundo, que diferença tem de Fourier, que anuncia ‘os desertos férteis, a água do mar potável e com gosto de violeta, a eterna primavera…’?” “Mas todo socialismo é utópico, sobretudo o socialismo científico.” “Quem decidirá quanto à oportunidade senão o oportunista?”

Séc. XIX, o dos erros, do “agora vai!”, do “recebi uma mensagem confirmando o fim para tal dia”. O século da soberba crença no eu.

“Ainda no fim do século IV, um bispo da África proconsular calculava que restavam 101 anos de vida no mundo.”

“Sob um de seus aspectos, a história do socialismo em nosso século pode ser considerada como a luta do movimento proletário contra a classe camponesa.” “A luta das nacionalidades revelou-se pelo menos tão importante para explicar a história quanto a luta de classes.” “Divisão do trabalho e propriedade privada, dizia [Marx], são expressões idênticas. A história demonstrou o contrário.” Equívoco!

250: a derrocada da II Internacional. Basicamente conclusões parecidas com as do(a) autor(a) da unidade I de Sociologia Brasileira (Benedict Anderson?).

“o proletariado não teve outra missão histórica senão a de ser traído.” “A história do niilismo contemporâneo não é mais portanto que um longo esforço para dar ordem, apenas pelas forças humanas e simplesmente pela força, a uma história que não tem mais ordem.” “Não se prega a razão; quando isso acontece, não é mais razão.” “Marx não é mais científico do que La Rochefoucauld” “Em outras palavras, estamos no purgatório e nos prometem que não haverá inferno.” Resumo: as relações materiais guiam o homem. O fim da História representa, portanto, o fim da matéria. Voilà!

“cidade definitiva” “A dialética aplicada corretamente não pode e não deve parar.” “a dialética não é nem pode ser revolucionária. Do nosso ponto de vista, ela é somente niilista, puro movimento que visa negar (sic) tudo que não for ele mesmo.”

“O fim da história não é um valor de exemplo e de aperfeiçoamento. É um princípio arbitrário e terrorista.” “A vontade de poder veio ocupar o lugar da vontade de justiça, fingindo inicialmente identificar-se com ela, relegando-a depois a algum lugar no fim da história, quando já não houver mais nada para ser dominado na terra.”

Stalin estava no fim da vida à publicação desse livro.

“Marx, bom estrategista e filósofo medíocre [!]”

LENIN, MAIS MAQUIAVÉLICO DO QUE SE PENSA: “Ele nega a espontaneidade das massas.” Matou o irmão. Ou melhor: mandou enforcá-lo. “O governo das pessoas é substituído pela administração das coisas…” Se essa afirmação pudesse ser ajustada, diria que já somos coisas. “Lassalle, inventor do socialismo de Estado”

“Não ocorreu a nenhum socialista prometer o advento da fase superior do comunismo” Lenin

A URSS mais parece o III Reich em câmera lenta (tudo ou nada).

“A verdadeira paixão do séc. XX é a servidão.”

Cada vez seria mais capaz de apostar que Sartre só veio a se aproximar do Marxismo por pura birra contra Camus.

ORWELLISMO: “A cada ano, às vezes a cada mês, o Pravda se corrige, sucedem-se as edições retocadas da história oficial, Lenin é censurado, Marx deixa de ser publicado.” “a fabricação da verdade” “o rei está nu” “romantismo da eficácia” E a maquiagem do lado ocidental?

“formigueiro de homens sós” “física das almas” “O pão substituído pelo cupom de racionamento” “O estado de sítio, mesmo estendido aos limites do mundo, não é a reconciliação.”

“No universo do julgamento, finalmente conquistado e acabado, um povo de culpados caminhará sem trégua rumo à inocência impossível, sob o olhar amargo dos Grandes Inquisidores. No séc. XX, o poder é triste.” “Se nossa história é nosso inferno, não saberíamos desviar-lhe o rosto. Tal horror não pode ser escamoteado, ele deve ser assumido para ser superado” “elites desonradas dessa época” “renascer ou morrer” Outro bom título para o livro seria CONTRA A REVOLUÇÃO.

“A história necessária, não suficiente, não passa portanto de uma causa ocasional. Ela não é ausência de valor, nem o próprio valor, nem mesmo o material do valor. Ela é a ocasião, entre outras, em que o homem pode experimentar a existência ainda confusa de um valor que lhe permite julgar a história. A própria revolta nos faz essa promessa. (…) Certamente, a história é um dos limites do homem; neste sentido o revolucionário tem razão. Mas o homem, em sua revolta, coloca por sua vez um limite à história.”

“descobri-la [a revolta] em estado puro na criação artística.” “viver e deixar viver”


IV. REVOLTA E ARTE (última seção)

A arte por enquanto ausente. De tudo! “O niilista Nekrassov, grande e comovente poeta, afirma entretanto que prefere um pedaço de queijo a toda a obra de Pushkin.” “Seguindo os intérpretes revolucionários da Fenomenologia, não haverá arte na sociedade reconciliada.” “a arte posta a serviço da revolução” “O sapateiro russo, a partir do momento em que fica consciente de seu papel revolucionário, é o verdadeiro criador da beleza definitiva. Rafael só criou uma beleza passageira, que será incompreensível para o novo homem.” “Notemos efetivamente que, nessa luta entre Shakespeare e o sapateiro, quem maldiz Shakespeare ou a beleza não é o sapateiro, mas, ao contrário, aquele que continua a ler Shakespeare e não resolve fazer botas, que, aliás, ele nunca conseguiria fazer.”

“a última coisa que um artista pode sentir, diante de sua arte, é o arrependimento.” Só artista entende artista. Eu sei o que é o desprezo às artes! A vida toda, jamais reconhecido por aquilo que realmente se é! Eis o valor de nosso tempo…

Não existe fadiga para o artista. Sempre penso no “Gohan, fique nervoso!” aplicado a minha pessoa. É o baygon de parede que atiça as muriçocas! Esmurre meu olho, conviva comigo, pise no meu calo! Estúpido xará, abra essa boca! Fale do que você não compreende uma vírgula. Assim você me alimenta! Eu transformo em jóias preciosas o adubo da sociedade! Zangar-se é em muitos casos a brecha para a mofa!

“o extremo sofrimento tira o gosto pela leitura.”

“A não ser nos instantes fulgurantes da plenitude, toda realidade é para eles [os homens revoltados] incompleta.” “entender a vida como destino, eis sua verdadeira nostalgia”

Todos os insetos são assim: nunca se insurgem contra você antes que você manifeste sua clara desaprovação primeiro. Depois, só o que sabem ser são marimbondos, como que libertados após mil anos, sem distinguir graça de ridículo, grandeza do que é vil, i.e., eles mesmos. Esses imbecis do banho-maria são o que há de pior! Mas antes uma ferramenta que mostre a desaprovação instantânea da outra pessoa, e que remanesça tudo bem, depois dos pratos limpos, do que todo esse acúmulo de sujeira invisível que só nubla o coração, embora ainda não a visão!

“Parece que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que com o fato de ele não durar. (…) nossas piores torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade.”

“O vergonhoso sofrimento do amante, a partir de agora solitário, não é tanto de não ser mais amado, mas de saber que o outro pode e deve amar ainda. Em última instância, todo homem devorado pelo desejo alucinado de durar e de possuir deseja aos seres que amou a esterilidade ou a morte. Esta é a verdadeira revolta.”

Poor and idiot guy,

You should know that I never decline!

“Dar nome ao desespero é superá-lo. A literatura desesperada é uma contradição em termos.”

“heróis perturbadores” “Julien Sorel” “eles terminam aquilo que nós nunca consumamos” “paliativo de uma realidade falhada” Os protagonistas dos romances são como que terroristas. Parece que sempre há tempo para mudar de idéia e ir fazer outra coisa… Escrever mais uma linha… Arrepender-se de seus crimes…

304: Faulkner e os cínicos americanos. Se fosse pintura, seria modernista, estilizada: “Neste nível mecânico, na verdade, os homens se parecem, explicando-se, desta forma, o curioso universo em que todos os personagens parecem intercambiáveis, mesmo em suas particularidades físicas.”

PROUST: “As moças em flor riem e tagarelam eternamente diante do mar, mas aquele que as contempla perde pouco a pouco o direito a amá-las, assim como as que ele amou perdem o poder de serem amadas.”

Afirmação absoluta ou negação absoluta são igualmente prejudiciais nas artes (realismo e niilismo). Algum outro período histórico em que se tentou um realismo? “a arte dos macacos” “a arte moderna [.ak.a. politizada], em sua quase totalidade, é uma arte de tiranos e de escravos, não de criadores.”

O PROBLEMA FORMA-CONTEÚDO: “A arte é uma exigência de impossível à qual se deu forma. (…) Como o verdadeiro classicismo não é mais que um romantismo domado, o gênio é uma revolta que criou sua própria medida. Por isso, não há gênio, contrariamente ao que se ensina hoje, na negação e no puro desespero.”

COROLÁRIO: “a sociedade capitalista e a sociedade revolucionária são apenas uma, na medida em que se escravizam ao mesmo meio—a produção industrial” “a era do comentário perpétuo e da reportagem agoniza; ela anuncia então a era dos criadores.” Época antropofágica. Deifágica. Amanhã: Leonardo da Vinci vs. Napoleão? “Só como exceção se encontram assassinos entre os artistas.” “Torturadores humanistas” “as vítimas (…) entediam.”

Sangue: mais banal que graxa. A era do “zombie proudness”. A cabeça decapitada ainda é livre.

“Quando Caim mata Abel, ele foge para o deserto.”

Forrest Gump é um cara que “se cansa” das coisas e não vai até a última conseqüência, como nos romances. Ou será que ele se apazigua com seu filho indo para a escola? Se bem que seus afetos são sem-fixos… Brotar-lhe-á um novo amor carnal?

“a música silenciosa que ainda irá transfigurar os infernos terrestres.”

“A física confirma a filosofia”

“O pensamento aproximativo é o único gerador de real.” Ernst Bickel

“a ciência servirá talvez à revolta individual [num futuro próximo]. Esta terrível necessidade marcará a virada decisiva.”

339: Heráclito e Nêmesis, a deusa da medida

No limbo entre cinismo e humanismo. Se eu fosse um jogador seria um meio-campo cerebral, desses que faltam hoje em dia.

342: países do Norte—rei e sindicatos coabitando! Serenidade grega… “justo retorno das coisas” “ideologia alemã (…) i.e., tirania.”

“Nossa civilização vegeta (…) no desejo das pequenas glórias de velhos adolescentes.” Lúcifer pós-rebeldia: seu pecado é a desmedida (alçar-se, invertido, ao lugar daquele que combate por abjeção). A importância do budismo. Epicurêca; Senicuro.

“A revolta é a medida, é ela quem a exige” “palavras de coragem e de inteligência (…) junto ao mar” “as crianças continuarão a morrer sempre injustamente, mesmo na sociedade perfeita.” “O ‘por quê’ de Dimitri Karamazov continuará a ecoar; a arte e a revolta só morrerão com a morte do último homem.” “o segredo da Europa é que ela não ama mais a vida.” Por que Ulisses preferiu Ítaca a se tornar Imortal?

“aqui se encerra o romantismo. (…) é preciso renunciar à época e aos seus furores adolescentes. O arco se verga, a madeira geme.”

[ARQUIVO] MEMÓRIAS DO SUBSOLO

Originalmente publicado em 13 de outubro de 2010


Prefácio de Schnaiderman, Boris: “Gorki deixou uma anotação: ‘Para mim, todo Nietzsche está em Memórias do Subsolo. Neste livro—e até hoje não o sabem ler—se dá para toda a Europa a fundamentação do niiliwsmo e do anarquismo. Nietzsche é mais grosseiro que Dostoiévski’.”


“Existem cidades meditativas e não-medidativas.”

20: determinismo; responsabilidade.

23: o agir; a imoralidade última dos atos; nossa carga pesada; o acúmulo de maldizeres, rugas e expressões e contrações involuntárias da face quando um nome é evocado. O grande prazer incontrolável e tirânico da auto-tortura… Último homem do meu tronco eu sou. Homo ironicus, enfim. Maneiras de se gastar o tempo aprendendo o que já sabemos, processo testado e aprovado elevado até a décima potência.

“Mas que fazer, se a destinação única e direta de todo homem inteligente é apenas a tagarelice”


Estúpido e perfeito como uma barata.

Você é do tipo que para acender um cigarro tem de parar de pensar.

Eu não tenho uma opinião formada sobre nada.

Todas essas bolhas de sabão não são remorsos—é só um jeito; o seu jeito.

O fundamento é o absurdo.

Não, nada disso te machuca. O que é longo prazo para você?


“Cleópatra (…) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das escravas, deleitando-se com seus gritos e convulsões.”

61: o romantismo russo, que é o negativo do romantismo europeu


A cidade nunca é a mesma quando o conto é diferente.


66: o status de mosca. Mosca humana, mosca filosófica.


Dias comuns, em que fazemos coisas gratuitas, inesperadas, e isso vem a mudar nossas vidas.


85: chegar antes que todos na mesa e entabular conversa com o garçom

“Até na aflição a vida é boa”

“Se eu fosse pai e tivesse uma filha, creio que amaria mais a filha do que os filhos; estou certo disso” “Teria ciúme, juro por Deus. Ora, poderia ela beijar um estranho?”

“Sabe que, por amor, pode-se atormentar uma pessoa?”

“Você fala como se estivesse lendo um livro”

“Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e irremediavelmente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pecado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios”

[ARQUIVO] NOITES BRANCAS

 

Originalmente publicado em 12 de outubro de 2010


A familiaridade da sua cidade.


“Caminhava cantando (…) como qualquer homem feliz que não tenha amigos, nem conhecidos, e que nos seus momentos de felicidade não tem com quem compartilhar a sua alegria.”


Será que é isso? Quando a paixão passa do estágio 1, eu como um todo passo a me comportar como minhas mãos quando tenho o que escrever, ou seja, de modo soberano e automático? Porventura nunca eu tinha pisado nesta estranha lua? Inventei-me uma nova casca, tornou-se possível um jeito todo diferente de gostar de alguém? Meio desdenhoso, frio, retardado nas reações? Inveja de alguns casais menos apegados… Inveja, e não ciúme.

Um jeito de sempre ter algo pra falar com alguém é eleger um terceiro funesto, i.e., escolher alguém pra Cristo. Não são poucos os casos da minha vida, em retrospectiva, em que a primeira ou única via para o meu flerte era o mexerico, falar mal de fulano. Risadas e entendimento.

Não há nenhum personagem que não possamos interpretar, independentemente da nossa idade. Ou sexo.


“Dir-se-ia que vivo num sonho, mas mesmo em sonhos nunca acreditei que poderia um dia falar com uma mulher, fosse ela quem fosse…”

“Quando o meu coração fala, a minha boca não se sabe calar.”

“Criei, nos meus sonhos, romances completos!”

“sei que o senhor é inflamável como a pólvora.”

“não é na rua que se deve procurar conselheiro”—atenção às exceções!


Aparentemente, um pré-Homem do Esgoto.


“e ele procede de tão modo que, a pouco e pouco, os seus amigos acabam todos por desaparecer.”

“neste momento, abriram-se no meu cérebro milhares de válvulas e tenho de deixar as palavras afluírem em torrente, pois, caso contrário, sufocaria.”

“o livro em que distraidamente pegara cai das mãos do meu sonhador, que nem sequer leu até à terceira página.”


O supérfluo que é vital!


Tá comigo,

Tá com Deus,

Deus Morreu,

Deus agora é seu Umbigo


“enquanto não chega essa temível hora, não deseja nada”

“Mas como pode falar de algo que não te aconteceu?” Do mesmo modo que posso silenciar sobre tantas coisas que com efeito me sucederam!

“após as minhas noites fantásticas passei por pavorosos momentos de abatimento!”

“Sabe que me vejo obrigado a celebrar o aniversário dos meus sentimentos”

“gosto de edificar o meu presente de harmonia com o irreversível passado” o antanho mais antanho que volta à baila… “…e, muitas vezes, vagueio como uma sombra, sem objetivo, sombrio e triste, por sítios afastados.”


Agora pense: o mais cruel é ser o segundo eu! Porque decidi vir depois de mim…


“sentia, apesar de tudo [da sensação de déjà vu e de eterna reprise], que a vida era mais fácil e tranqüila, não existindo nela esta idéia negra que agora a mim se apegou; nada desses problemas de consciência, sombrios e severos remorsos, que nem de dia nem de noite me deixam descansado.”


Dias perfeitos são estragados. São ilhas afundadas sem deixar vestígios. E para os martírios, moldura e verniz serão sempre recordados. Feriado desgraçado.

Se o “pai médio” na Rússia guarda(va) qualquer semelhança com o meu pai, não há a menor dúvida de que, desse ângulo, o alcoolismo é uma bênção purificadora.


“Mas, Deus meu, como posso ter acreditado em tal coisa? [que ela—ou que alguém—me amasse]”

“porque (sic) não somos todos uns para os outros como irmãos e irmãs?”

O doce da mulher: essa é uma reflexão infinita.

[ARQUIVO] ELOGIO DA LOUCURA

 

Originalmente publicado em 6 de outubro de 2010

Causas errôneas que associamos a um efeito porque a relação se sucede UMA vez no tempo mas nos convence:

– ligar o ventilador, andar pela casa, pensante. Em seguida ter febre. Logo… prefere passar calor e defender o sedentarismo—ou seria o sesentadismo?

– escrever muitas palavras de caneta na mão e na epiderme como um todo. Cair doente. Logo… a lenda urbana da tinta que escorre pro sangue é verdadeira.

– gripar durante o último trabalho do semestre: como não acredito em sacanagem de Deus, atribuo ao cansaço acumulado. Mas faltam evidências…

Que tal “Elogio à Supressão dos Direitos Humanos”? Elogio ao Suicídio, Elogio da Preguiça ou dos 7 Pecados. Elogio da (Fora-de-Moda) Castidade. Elogio da Falta de Jeito. Elogio da TV Aberta—agora pegou pesado!

26: do covarde que se exime da loucura e a rotula em terceiros. Qualquer semelhança com cabeças-de-ovo da universidade é mero atrevimento meu, veja só. Quem está com as instituições oficiais está com a san(t)idade. Afilhados de chocadeira.

33: ver uma criança cética e prudente nos assusta

“o prazer supremo da vida que é o de tagarelar”

O parto é tão insondável quanto a partida.

36: Vênus, a Afrodite Dourada

47: pito em Sócrates; Marco Túlio, aquele que sentia tremedeiras antes de cada belo discurso.

49: auto-identificação do solitário

62: as transfigurações de Pitágoras

Não se perde uma oportunidade de achincalhar os estóicos.

A Quintessência dos Infernos

80: indiferença quanto ao mito da caverna

“Entre os numerosos méritos atribuídos a Baco, o mais importante é o de se dissipar as preocupações, mas por bem pouco tempo na verdade, porquanto retornam de chofre, como se diz, tão logo se tenha curado a ressaca da bebedeira.”

“Se forem dignidades e bens eclesiásticos que se ambiciona, asnos e animais chegarão antes que um sábio. Se é o prazer amoroso que se procura, a jovem, parte importante do negócio, irá correndo de coração para o louco, mas se afastará com horror do sábio, como do escorpião.”

118: Horácio e Epicuro no mesmo time

[ARQUIVO] UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO—Geoffrey Blainey

Originalmente publicado em 24 de setembro de 2010

“A palavra hebreu significava andarilho ou ‘aquele que atravessa para o outro lado’.”

142: super-exaltação de Gêngis Khan e bando

146: o autocentramento chinês

149: confirmação do mito viking de descoberta da América

“Cristo e João Batista devem ter possuído vozes que se projetavam a longa distância. Aqueles que hoje vivem na era do alto-falante e do microfone não entendem a que distância pode chegar a voz humana ao natural.”

188-9: as “cantatas” calvinistas de Bach e Handel

“Mozart nasceu numa cidade do sal—Salzburg, na verdade, quer dizer ‘cidade de sal’”

253: em poucas palavras, este autor consegue sintetizar sem distorções e leviandades o “espírito” por trás de Freyre e do falador e romancista humanitário Darcy.

O mundo encolheu o mundo encolheu o mundo encolheu é a frase, disparada, que mais leio ultimamente.

Só constatamos que “a vida é uma merda” nas noites em que ela supostamente não é; o que derruba duplamente a tese—ainda que fosse, seria suportável; mas do que estamos falando? A opressão e a calamidade que podem ser narradas já não existem mais…

277: o problema do estado do bem-estar, da apatia e da insegurança—não vamos retroagir para a vida parca de nossos ancestrais camponeses nem operários, mas então o quê?! De repente rangeremos os dentes, abdicando do aporte estatal? Mais fibra, menos moleques evocando Rousseau?

[ARQUIVO] CARTAS DE ÉPOCA (Nietzsche)

Originalmente publicado em 11 de abril de 2010

“O Natal que eu aprecio tanto” N. aos 12—pra você ver como AOS 13 a gente vira mesmo bicho!

“a escolha de uma carreira parece uma loteria em que há um GRANDE número de colunas vazias e pouquíssimos números vencedores.”

“Meu improviso no piano foi um grande sucesso, e meu estado era mais o de uma ebriedade solene.”

Diziam, quando este tinha minha idade [22], que ele tinha “muitos humores”.

“se um homem deseja entender seu tempo e seus contemporâneos, ele deve ser algo como um estudante colorido (?) (multifacetado)(?). Sociedades e associações, ao lado das tendências que representam, geralmente revelam com perfeita exatidão o caráter da próxima geração de homens.” para Von Gersdorff.

Aos 21 anos, crítica acerba ao alcoolismo e à juventude: “materialismo cervejeiro”.

“uma relação mais íntima com um ou dois amigos é uma necessidade”

“Para recreação eu me direciono a três coisas, um maravilhoso entretenimento me provocam meu Schopenhauer, a música de Schumman e, finalmente, caminhadas solitárias”

“Como são diferentes o relâmpago, a tempestade e o trovão—três poderes sem ética! Quão felizes, quão fortes eles são—pura vontade subestimada pela confusa influência do intelecto!”

“é certamente bastante estranho dominarmos as idéias schopenhaueriana, ainda tão jovens, vigorosas e a meio caminho.”

“Tudo gira em torno de nossas atitudes pessoais. Um evento não tem mais valor do que aquele que escolhemos lhe investir.”

Não está imune a dificuldades para escrever.

“Nosso método de trabalho como um todo é horrível. Os cento e um livros empilhados na mesa diante de mim são vários sanguessugas consumindo a vitalidade do nervo do pensamento independente.”

“Estamos condenados a escolher sermos atletas ou eruditos?”

“O bom trabalho ou o pior que produzimos, nós sozinhos devemos pagar por ele.”

“Parece que eu tenho algum talento montando.”

SOBRE OS JUDEUS E O SÁBADO: “os estudantes teriam proposto seis dias de feriado e um de trabalho por semana, e na prática teriam convertido até esse em uma folga.”

Servir ao exército: bom remédio para os céticos.

A complexa fratura a cavalo em junho de 1868. “Depois de três meses inteiros, quando finalmente deixei meu leito, estava naturalmente tão exausto que tive de aprender a andar de novo (…) Não é improvável que eu devo sempre sofrer de alguma fraqueza ao redor do trauma.” “uma operação não foi necessária”—talvez tenha sido um erro médico.

O HILÁRIO caso do terno, contado a Rohde. “O pequeno homem sumiu com minhas roupas.” “examinei um casaco preto e me perguntei se era bom o suficiente para Richard.” “Ele fala muito rápido e de forma eloqüente”

Podia-se falar de outros amigos nas cartas para os amigos.

Abril de 69: maquinando Schopenhauer como Educador.

“O bezerro e o bumbum do bebê, dizem os homens, louvam a Deus mais perfeitamente.”

Relato DETALHADO de um encontro amoroso à mãe! Fran Von Billöw.

“Em suma, estou mais insatisfeito comigo mesmo que com o mundo”

Nietzsche só não combateu na guerra porque seu vínculo com a Universidade da Basiléia o obrigava a assumir uma posição de neutralidade no conflito, como foi o caso da de enfermeiro. “a atmosfera das minhas experiências me trouxe uma grave melancolia, e por algum tempo eu jamais deixei de escutar os lamentos desesperados dos moribundos.”

Não suportava a obrigação de ter um emprego, de dar aulas, e não dispor de tempo livre.

“Uma existência verdadeiramente honesta é impossível aqui [na universidade].”

Para Rohde: “devemos fundar uma nova Academia Grega” “Eu já comecei a limitar minhas necessidades a fim de preservar pequenos vestígios de riqueza pessoal. Devemos ainda tentar nossa sorte em loterias; e, se escrevermos livros, devo esperar para o futuro imediato o máximo de renda possível.”

“Em Leipzig a irritação parece ter prevalecido uma vez mais. Ninguém de lá me escreve uma linha sequer sobre isso, nem Ritschl.”

“Quem pode resistir às caprichosas maneiras do clima, que subitamente se tornou o inverso do que era!”

Estou em abril: “Agora é o belo e puro outono, justamente o tempo para se caminhar por aí.”

“Eu estou absolutamente sozinho aqui e poderia permanecer por semanas, ora repousando ora caminhando.”

Após Nascimento da Tragédia, odiado por outros professores. Compara a academia à Inquisição.

Para Rohde: “Você está a par de um certo alienista que teria provado na mais ‘dignificante das linguagens’ que Wagner é um demente? O mesmo havia sido feito com Schopenhauer.”

Para Meysenbug: sonha com uma edição especial adornada de seu livro.

“Envelhecer e tornar-se solitário são para mim sinônimos, e no fim um homem está de todo sozinho e faz outros se sentirem sozinhos com sua morte.”

“Todos os poderes estão mobilizados contra mim—a polícia, as autoridades, e os colegas.” 1873, quando do rompimento com os Ritschls.

“Meus olhos são o único problema.”

As II Intempestivas foram autocensuradas (amortecidas).

“Por ora eu estou realmente muito, muito cansado de tudo—mais que cansado.”

“Trabalho regular num posto oficial é tão bom porque leva a certo estado obtuso à pessoa, que sofre menos.”

O estranho de ler em inglês é que o texto está sempre musicado. Mas apesar disso—do ar mais poético—o inglês também empresta contornos mais vulgares a qualquer texto.

Para Rohde: “Eu avanço aprendendo sobre seus ombros”

Pensou em escrever 13 Intempestivas: “Imagine o efeito de 50 dessas 4 que já escrevi!”.

“A única coisa que eu ainda espero da vida é uma boa esposa. Todo o resto depende de mim mesmo…”

“É de prévio conhecimento nosso—nossa marca de nascença—que de um jeito ou de outro nós constantemente aparecemos diferentes do que pensamos.”

“Leia Dom Quixote (…) todos os problemas pessoais parecerão se converter em nada e adquirir feições simplesmente risíveis”

“Eu tenho toda a dificuldade do mundo para me entender a mim mesmo—minha cabeça está tão cansada.”

A amizade com Wagner foi idílica: nunca se ofenderam.

“A cultura cai sobre nosso passado quando nossa mãe morre; é depois disso que pela primeira vez nossa meninice e adolescência se tornam não mais do que uma memória.”

“beber o próprio sangue! A vida vira uma questão de não perder a sede de si mesmo”

“Lisbeth, diga que não sabe sobre o que venho escrevendo. As pessoas estarão prontas para te rotular de imoral e sem-vergonha.”

Faz planos de comprar uma máquina de escrever.

Compara Sils-Maria ao México—tranqüilidade do sul.

Bizet comparável a livros de Mérimée e a viagens ao sul da Espanha.

“Em minha opinião toda a música moderna parece estar sofrendo de uma atrofia progressiva do senso de melodia. A melodia, como a última e mais sublime arte das artes, é governada por leis lógicas que nossos anarquistas gostariam de declarar tirania!”

“Não teria o poder de destruição de nervos da música de Wagner arruinado minha saúde? E não levei 6 anos para me recuperar dos golpes? Não, Bayreuth me é impossível!”

1882: formulação da “meta secreta”.

Madame Louise O. (?)—“lembrança charmosa”.

Queria mais dinheiro para a “casa de cão” ideal.

“Durante o inverno, quanto mais ao sul, melhor; para o verão, deve-se aquecer a alma! Mas o norte é tão cruel, por não oferecer nenhum consolo durante o gelo e nem o calor desejável!”

“Epicuro é precisamente o melhor contra-argumento ao meu desafio direcionado a todos os espíritos raros, que devem se isolar das massas e dos compatriotas (…) é uma das ironias do destino que tenhamos que acreditar em um Sêneca chamado na Córsega de vilão.”

A guerra familiar—a Naumburg do ar empestado por maus cristãos (“bons cristãos”, a depender da boca e do seu grau de corrupção).

O dia em que Zaratustra matou Wagner.

A dança com ninfas e a tristeza que a sucede—hora de ir embora—têm absoluta relação com a tentativa de moralização da vida amorosa de F.N. por parte de sua tradicional família, aí incluídas tias e primas distantes.

Nietzsche foi recusado na mesma Leipzig cristã que, mais de uma década atrás, concedera-lhe o doutorado com insuspeita rapidez. “eu sou o mais terrível oponente do Cristianismo, e descobri um modo de ataque do qual nem Voltaire tinha uma pista.”

Alguns sujeitos foram omitidos—“x” ou “_____”.

Para Lisbeth: “O que esses Rées e Lous importam” “Ambos se mostraram originais e não cópias, e foi por isso que estive sob sua companhia, porém ela acabou sendo insípida para mim.” “Schmeitzner [seu editor] disse que eu não tenho amigos, que eu fui deixado na sarjeta por 10 anos!” “Não necessito de outras pedras nas engrenagens do meu relógio.”

Zaratustra como o “acme of perfection” (“depois de Lutero e Goethe, faltou um 3º passo a ser dado”). Ressalta o caráter de compêndio dos humores humanos que é, afinal, este livro messiânico.

Recorrente para Peter Gast: “jardim de Epicuro”.

Quando perdeu algum dinheiro na rua, disse, com espírito: “Tomara que uma velhinha possa ter achado seu presente de Natal no chão”.

“Lasnaland”, a colônia anti-semita paraguaia, que não tardaria a decretar falência.

“A vida é um experimento; alguém pode fazer o que quiser e deve pagar emocionalmente por cada coisa.”

“É terrível ser condenado ao silêncio quando se tem muito o que dizer.”

“Um homem profundo precisa de amigos. Tudo o mais falhando, ele tem ao menos seu deus. Mas eu não tenho nem deus nem amigos.”

Portofino e sua vegetação: “é um pouco reminiscente do Brasil”. Compara-se a Crusoe.

“Política alemã—só outra forma de inverno eterno e terno ruim.”

“Eu escutei por acaso dele como, na Universidade de Tübingen, onde eu passo por ser o mais negativo dos espíritos, meus trabalhos são devorados em segredo.”

Um “terremoto” em Nice causado pelo carnaval dos turistas.

“Eu quero ter minha própria cozinha (…) eu não sou um escolar em suas andanças.”

Precisava, também, de “Alguém que leia em voz alta sem fazer o livro soar idiotizante”.

“Onde quer que eu tenha observado a influência da mulher no homem, noticiei um declínio gradual como resultado; p.ex. no caso do pobre _____.” Possibilidades: Rohde/Wagner. Mas Wagner já era casado quando o conheceu…

“ouvidos não devem estar abertos aos meus pensamentos até muito tarde—certamente não antes de 1901.” (!)

“Uns poucos são suficientes para mim; um é suficiente; mesmo nenhum.” Sêneca

“Eu penso em Taine e Burckhardt como meus únicos leitores. Como três niilistas fundamentais estamos de fato irrevogavelmente condenados uns aos outros”

“Dühring, que teve o bom gosto de apresentar-se em sua autobiografia como o Rousseau do século XIX (Apenas observe como um homem se posiciona quanto a Voltaire e Rousseau). O paradoxo do Romantismo, cujo ícone é Rousseau: quão mais tirânico é o princípio, mais melodramática deve ser a canção.”

Georg Brandes & a pecha de anarquista aristocrático.

“Verdade, minha existência até aqui mostrou-se a si mesma ser o que ela realmente é—uma mera promessa.” Queixa-se da solidão, que casar-se só degradaria sua autonomia e pede os dotes caseiros da irmã de volta: “Para um filósofo, uma irmã é uma excelente instituição filantrópica, particularmente quando ela reluz, é destemida e amável”.

Para Gast: “meio milhão é a primeira premissa da ironia…”

Discussão sobre climas secos—na verdade o contraste sentido entre diferentes climas é que tanto anima e renova o viajante.

“Quando um animal está doente ele rasteja para sua caverna—é isso que faz a besta filosófica.”

“Meus dedos estão azuis”

“Não devo mais escrever nada sobre Wagner: as pessoas fazem muita graça de mim.” Baudelaire


SESSÃO FINAL: DAVID STRAUSS, A PRIMEIRA POLÊMICA

Ganhar uma guerra é indício de exército mais brutal—não de cultura superior, como queriam os alemães.

O pós-modernismo chegou mais cedo à Alemanha.

“Todos têm, a priori, o direito de compilar uma autobiografia após seu 40º ano.”

“O Filisteísmo como fundador da religião do futuro.” Os filisteus amam os clássicos e os destroem, tornam sua vida insuportável. “Nenhum grande escritor alemão é tão popular entre os pequenos escritores alemães quanto Lessing.” Uma Alemanha, também, digna da seguinte peculiaridade: concedia a meros contemporâneos desde já o status de clássicos.

Strauss critica a Nona de Beethoven. E tentava desprezar Schopenhauer. Igualmente, julga Kant mal. Até Darwin soa inteligente perto dele.

“Se eu pudesse conceber jovens com paciência o bastante para ler o livro de Strauss inteiro e avalia-lo, eu renunciaria tristemente a toda esperança no que concerne a seu futuro.”

“Hoje o homem de ciência trabalha tão ardorosamente quanto a quarta casta ou casta escrava: seu estudo deixou de ser uma ocupação para se tornar uma necessidade.”

“Toda coisa realmente produtiva é ofensiva”

Pega pesado: até Kant é traduzível para o latim, Strauss não!

Schopenhauer previa o fim da Literatura alemã para 1900, caso os Clássicos continuassem naquela “evolução”.

“Em terra de cego, caolho é rei”—Strauss é o líder dos filisteus. “Com efeito, concedemos-lhe muito quando lhe atribuímos um olho.” “estilo de jornal” Não deixa de ser uma ode: hoje esse homem só é lembrado, quiçá, devido a esse artigo intempestivo (santa língua machadiana)!

[ARQUIVO] O SUPER-HOMEM CONTRA A DIALÉTICA

 

Originalmente publicado em 3 de maio de 2010


A) DELEUZE—Nietzsche e a Filosofia—CAPÍTULO 5

Diferença entre os designativos:

– Homem-Deus: o homem à la Ivan: “tudo é permitido”.

– Deus-Homem: Cristo—Deus no formato circunstancial de homem {primazia do 1º elemento}.

“Na verdade, para o olho do genealogista, o trabalho do negativo é apenas uma grosseira aproximação dos jogos da vontade de poder.” Hegel como a consciência onisciente dos fins a que conduzem as sucessivas negações das negações… Somente na genealogia há algo novo.

Sobre inversões e manutenções de significado: “Stirner é o dialético que revela o niilismo como verdade da dialética”—poderia ser: Stirner é o niilista que revela a dialética como verdade do niilismo. Não se está saindo do lugar.

AMOR ENQUANTO LUBRIFICANTE DA EXISTÊNCIA: “Só do amor me pode vir a vontade de meu desprezo e de meu pássaro anunciador, não do pântano.” Nietzsche


B) HEIDEGGER—A Sentença Nietzscheana “Gott ist Tot”

“A destituição do supra-sensível desemboca em um nem-nem” “rompantes epocais” “Todo pensamento metafísico é onto-logia ou não é absolutamente nada.” “A obra central planejada nunca foi levada a termo.” Frase antes cunhada por Hegel. E até Pascal.

“também os deuses apodrecem” “A grandeza deste ato não é grande demais para nós?” “O mais sinistro de todos os hóspedes” A grande pergunta desse texto sequer será “qual a gênese”, mas “qual o telos do niilismo?”. “O pessimismo da força” Ele executa o que intentarei: uma hierarquia dos diferentes niilismos. A recriação de Deus/deus (minha fala simplificadora no seminário). Como pode ser que na Rússia o Cristianismo se liquidou primeiro? Porque este sempre fôra o país mais cristão. Mesmo antes de ser cristão. Almas/personas e doutrina se encaixa(va)m. Napoleão como protótipo níti-do.

Por que “a-metafísico”?

“O artista é apenas um estágio prévio.” Nietzsche

“A arte é o valor supremo” Heidegger

Nomenclaturiza as coisas de modo a tornar N. em algo parecido com Descartes! Mais da metade da leitura transcorrida e por enquanto nada de pré-socráticos sendo citados.

“do uso e do abuso da História para a vida”—versão em inglês. “seria (…) equivocado se se quisesse tomar a formulação do princípio valorativo como uma prova de que Nietzsche filosofa existencialmente. Ele nunca fez isto. Mas ele pensou metafisicamente.”

Aristóteles e “o quarto livro de sua Metafísica”. “Kierkegaard não é nenhum pensador, mas um escritor religioso.”

Compreensão errônea do supra-homem. S-H: Querer querer. “a tarefa de assumir o domínio da terra” “Somente quando um pensamento futuro for levado até o ponto de pensar este Livro para todos e para nenhum em conjunto com as Investigações sobre a essência da liberdade humana, de Schelling (1809), e isso significa concomitantemente, em conjunto com a obra hegeliana A fenomenologia do espírito (1807), e isso significa concomitantemente, em conjunto com a Monadologia (1714) de Leibniz, e de pensar essas obras não apenas metafisicamente, mas a partir da essência da metafísica, serão fundados o direito e o dever, assim como o solo e o campo de visão para uma discussão.”

“O grande meio-dia” Sol, horizonte, mar… Hannah Arendt. Não vejo, ao final, nenhum postulado novo; apenas uma introdução amigável. Última linha: “O pensamento só começará ao experimentarmos que a razão há séculos glorificada é a mais tenaz rival do pensamento.”

O “não-posicionamento nietzsch3eano diante da existência ou não de Deus”—utilidade da mentira. Tudo é um como se… Aceitemos a factível existência Dele: infelizmente o homem perdeu o valor para acreditar Nele. Ou felizmente.

[ARQUIVO] ORIGEM DA TRAGÉDIA —OU GRÉCIA E PESSIMISMO—

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

30: a ilusão do eu vs. o caos

38: Rei Midas e Sileno, o tutor de Dioniso

44: A Transfiguração, de Raffaelo Sanzio (capa)

51: lições de perspectivismo

61: “o aniquilamento budista da vontade na Grécia Antiga; Hamlet, o Homem “Ridículo e Envergonhado” do Vontade de Potência.

72: Édipo em Kolonos: o passivo ativo e o ativo passivo

75: Adão, Eva e Prometeu, o Ariano

79: o Platão dionisíaco

82: Eurípides, o discípulo teatrólogo de Sócrates, o envenenador involuntário da Tragédia e do mito

83: “O grande Pan morreu!”

91: o paradigma da participação

101: sabe-se que o protagonista não morrerá—por uma ficção anti-heróica

107: a ciência enquanto ócio criativo e jogo

111: “renascença da tragédia”

142: bazuca agora mira a universidade e o jornalismo

149: o choque fatal da barca de Tristão e Isolda como uma solução mítica, digna de Édipo!

151: mérito, ou “escapatória”: enxergar (ou inserir) finalmente a necessidade do apolíneo, tão trucidado ao longo do texto

155: desde já um ferrenho antagonismo a Aristóteles

163: exortação à guerra ariana


“a morte é o prazer supremo, enquanto significa o reencontro com a origem.” Ciro Mioranza

“Existe um pessimismo da força?”

“um livro que (…) deu satisfação aos ‘melhores de seu tempo’ (…) entretanto, não quero dissimular de modo algum a impressão desagradável que hoje me produz: quão estranho se apresenta a mim dezesseis anos depois” Nietzsche 1888

“Talvez hoje eu fosse mais circunspecto, menos eloqüente para tratar de uma questão psicológica tão complicada como é a busca das origens da tragédia entre os gregos.”

“Há porventura—pergunta para os psicanalistas—uma neurose da saúde?”

“um desejo de nada, de morte, de repouso, até o ‘sabbat dos sabbats’”

“passagem do ‘matador de dragões’ (…) Não é a autêntica e verdadeira profissão de fé do romantismo de 1830 sob a máscara do pessimismo de 1850?”


“Meu amigo, esse é precisamente o trabalho do poeta,

Observar e interpretar seus sonhos

Acredite, a ilusão mais verdadeira do homem

a ele se manifesta no sonho;

Toda arte poética, toda poetização

Nada mais é que tradução verdadeira do sonho.”

Hans Sachs, Mestres Cantores


“Ouvi dizer também que certas pessoas possuíam a faculdade de prolongar a causalidade de um só e mesmo sonho por três e mais noites consecutivas.”

“Eurípides em As Bacantes, o sono nos altos caminhos das montanhas, sob o sol do meio-dia.”

“Se esse mundo tendesse a um fim, esse fim já teria sido alcançado”

“se esquece aquilo que todos sabem”—se esquece que não há indivíduos

METAFÍSICA DO ARTISTA: “Todo o nosso conhecimento da arte é no fundo absolutamente ilusório (…) É somente no ato de criação artística e na medida em que se identifica com esse artista primordial do mundo que o gênio sabe algo da eterna essência da arte; pois, nesse estado, é então, por milagre, semelhante à perturbadora figura da fábula, que tem a faculdade de voltar seus olhos para dentro e se contemplar a si mesma; ele é agora, de uma só vez, sujeito e objeto, de uma só vez poeta, ator e espectador.”

“O conhecimento mata a ação, à ação pertence a miragem da ilusão—este é o ensinamento de Hamlet.”

“em todos os criadores, o instinto é precisamente a força positiva, criadora, e a razão consciente é uma função crítica, desencorajadora”

TODOS OS POSTULADOS DO ETERNO RETORNO E DO NIILISMO JÁ INCLUSOS EM SUA OBRA INICIAL: “Quando, cheio de espanto, vê nesse limite extremo a lógica se enrolar sobre si mesma como uma serpente e morder-se a cauda—então surge diante dele a forma mais nova do conhecimento, o conhecimento trágico, do qual lhe é impossível suportar unicamente o aspecto, sem a proteção e o auxílio da arte.”

CONTINUAÇÃO DO EQUÍVOCO: “reflexo da própria vontade e, portanto, representa, com relação a todo o físico do mundo, o metafísico, e com relação a toda aparência, a coisa em si. De acordo com isso se poderia denominar o mundo (…) música corporificada” Schopenhauer

“O deus ex machina tomou o lugar da consolação metafísica.” HAPPY END—imagine-se Aquiles voltando pra mamãe!

“cultura alexandrina [socrática] ou helênica ou budista.”

“Parece somente que revivemos analogicamente, de algum modo na ordem inversa, as grandes épocas decisivas do helenismo e que remontamos, p.ex., da era alexandrina até a época da tragédia.”

“Com o tirso(*) nas mãos, coroem-se de heras e não se admirem se o tigre e a pantera se deitam a seus pés, acariciando-os. Ousem ser agora homens trágicos: pois, devem ser redimidos. Vocês devem escoltar o cortejo dionisíaco da Índia à Grécia!”

(*) “O tirso era um bastão encimado por uma pinha rodeada de gavinhas de videira e de ramos de hera; era um dos símbolos de Dioniso.”

“Para sair do orgiasmo, não há para um povo senão um caminho, aquele do budismo indiano.”

“Em cada propagação importante de excitações dionisíacas, pode-se sempre notar que a liberação dionisíaca das algemas do indivíduo se manifesta primeiramente numa depreciação dos instintos políticos que chega até a indiferença e mesmo até a hostilidade.”

ANTI-ANTICRISTO: “Colocados entre a Índia e Roma e impelidos a uma escolha tentadora, os gregos conseguiram descobrir, com pureza clássica, uma terceira forma, a qual não foi usada por eles por longo tempo, mas, justamente por causa disso, é imortal.” Falta de vontade ou excesso de vontade: o Cila ou Caribde do macrocosmo cultural.

“os prediletos dos deuses devem morrer cedo”

“com um exame rigoroso cada um (…) [vai] chegar (…) por intermédio de abstrações, a acreditar numa existência real do mito no passado.” “As imagens do mito devem ser os guardas demoníacos, invisíveis e onipresentes, propícios ao desenvolvimento da alma adolescente e cujos sinais anunciam e explicam ao homem sua vida e suas lutas”

“Não escrevo tratados; estes são para asnos e leitores de periódicos”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Parece que de um modo ou de outro eu sou um exímio artista plástico!

Por que desejaríamos o pesadelo?

Eu não sou um indivíduo, eu sou só uma retaliação.

O GATILHO—Assim como Billy Elliot quando dança, quando escrevo já não sou mais eu. Eu, rá, que petulância! Sou só um hospedeiro, e a caneta mais segue a natureza que uma mão humana volitiva!

There’s nothing to worry about…

It’s never YOU, never your fault!

Cause of the click of the forgotten…

Querer ser um artista—o que representa? Vontade de reconhecimento instantâneo, de matar dragões.

As cerimônias do Ocidente foram todas feitas para acentuar o que há de ridículo nas pessoas.

O que os olhos não vêem, o coração não sente, mas especula. E não há anestésico melhor do que a certeza do olho.

Pp. 92-4 (trecho também em O Caso Wagner): Sócrates mata essa personalidade sobrenatural tácita no artista, de modo que subsista tão-somente a capa/máscara, i.e., aquilo que antes deveria ser o corpo e hospedeiro—mas que, por não ter mais nenhuma função metafísica, perde a razão de existir, de estar aí. Esterilização do mundo. Anti-natureza. O homem como desafio, aberração, excrescência. Ilusão de que se pode mudar a História (essa própria reviravolta não passando de uma fatalidade dionisíaca, por Dioniso). Perda “agendada” do Uno de si mesmo.

Gênese do conceito de “sombra” em Nietzsche: quando seu segundo, sua segunda natureza (ou sua primeira) surge e dialoga ou então toma a palavra tiranicamente. Resta ao corpo frágil aparar as arestas ou tornar-se o pára-raio das conseqüências, com os dedos cruzados. Porém, este é um personagem que jamais pode ser chamado. Ele aparece, no nosso melhor humor.

But everything is gonna work out fine

If it don’t, I think I’ll lose my mind, yeah!

A importância apregoada ao sonho do fim da vida de Sócrates: “Sócrates se dedicando à música”. Ele que chegou às culminâncias… Se há uma teleologia do indivíduo, aquele que antes da metade da vida já é adepto do trágica fica então louco!

O que deve ser corrigido na análise: a Música per se não define o triunfo do trágico, porque ela pode ter sido elaborada segundo a dialética socrática; ao mesmo tempo, produções culturais presentes ou vindouras podem se apresentar num formato cênico; porém com elementos trágicos predominantes, i.e., o instinto grego original sendo aquele que conduz as personagens, por trás da trama aparentemente racional.

CONCLUSÃO: Não existe a variável artística proeminente/sobressalente que determine as demais.

Unidade nos fragmentos, seus tolos!

O hiper-defeito de Marx: cego em relação à arte (Ideologia Alemã como panfleto político icônico). Engels, a despeito de entender “a vida como um processo contínuo”, ainda só quer o fim dele. O conceito consciente de comunismo é apenas disfarce. A. e T. estão todos no mesmo rol dos doentes caluniadores da vida. Não há diferença nenhuma entre eles, a rigor, para a análise que se aprofunde 3 milímetros na epiderme.

“Então Prometeu foi CASTIGADO porque…”—tal não existe. O auto-aniquilamento da força—quer viver, POR ISSO, quer também morrer. “Viveu como morreu” filósofo Bart. O herói da era cristã nunca está atrás de promover o injusto! Só “consertar erros”… Existência eternamente falhada. Depois do happy end, todo herói morre. Nós tornamos o mundo imperfeito para que, durante o grande jogo, ele tenha realmente ares de perfeito.

É porque 90% dos expectadores de filmes são passivos e não modificam suas vidas, nada aprendem, que eu tinha uma aversão metafísica pelo gênero? Preferia livros, moldadores de caráter? Só assim eu aceito “participar”: música e outros que reflitam nos meus próximos passos. [escolher: meditar o trabalhar—parece que de nenhuma forma se é mais do que um zumbi]


De 30 de março a 4 de abril de 2011

[ARQUIVO] LA ROCHEFOUCAULD

 

1ª PARTE

Mascaramento de imperfeições—exemplo: “Eu não posso. Logo, eu não quero.”

Devidamente transposto no séc. XIX, quando começou a ascender o amor ao nada: “Há no coração humano uma geração perpétua de paixões, de modo que a ruína de uma é quase sempre o estabelecimento de outra.”

“somos muitas vezes firmes por fraqueza e audaciosos por timidez.” (*)

“Os homens odeiam até mesmo aqueles que lhes prestam serviços e deixam de odiar aqueles que os cobriram de ultrajes.”

“a moderação dos homens em seu mais alto grau é desejo de parecer maiores que sua fortuna.” Nem muito feliz nem muito cabisbaixo publicamente: assim espanta-se o mau agouro dos invejosos e a compaixão destrutiva dos piedosos.

“excetuando-se sua enorme vaidade, os heróis são feitos como os outros homens.”

“Nem o sol nem a morte podem ser encarados fixamente.”

(*) Desfecho de Zaratustra: a verdade é que o anfitrião deveria ter sido mais duro com os visitantes desde o início, mas sua reação retardada mostrou ser a melhor de todas. Porque nós, metade tiranos, tiranos do espírito, temos pena dos outros, mas não de nós mesmos. E aí somos cruéis ao máximo com os outros, indiretamente (mas em cheio), assim que ficamos com raiva do nosso próprio sentimento de pena.

MAIS UMA: “O mal que praticamos não atrai tanta perseguição e ódio quanto nossas boas qualidades.”

A diferença entre ciúme e inveja: “merecer” ou não uma coisa. Têm inveja da minha escrita; eu sou enciumado de mestrandos burros.

“Eu quero que você seja feliz!”—quanta maldade nesse desejo!

O mito do amor crescente—talvez os mais nobres sentimentos devessem ficar incomunicáveis.

O orgulho é constante numa vida—o problema é que ele se disfarça em “orgulho silencioso” quando o amor-próprio não é mais exteriorizado, seja porque se o percebeu ofendido e atacado pelos outros, seja porque simplesmente é-se mais virtuoso, e isso encolhe a vaidade e a pavonice: a tranqüilidade da superioridade. Ou seja: palavras viram desprezo. O maior tagarela e prosador torna-se o maior desprezador.

PENA DOS BILIONÁRIOS: “Por diferentes que sejam as fortunas, há, contudo certa compensação de bens e de males que as torna iguais.”

P. 22: o ideal de pobreza dos filósofos; maus do século XVII; do humor.

“Ocorre com o verdadeiro amor o mesmo que com a aparição de fantasmas: todos falam deles, mas poucos já os viram.”

“Um ingrato pode ser menos culpado de sua ingratidão que aquele que lhe fez o bem.”

“É uma espécie de galanteio fazer notar que nunca usamos galanteios.”

Espírito: o enganador. Coração: suas verdadeiras disposições.

“Os defeitos do espírito, como os do rosto, aumentam com a idade.”

“O que mais liberalmente damos são conselhos.”

“fazemos o bem para podermos impunemente fazer o mal.”

“O uso contínuo da astúcia é a marca de um espírito pequeno.”

Talvez possa antecipar a síntese máxima desse livro: que nossa força reside em sermos seres fracos. Sempre obtemos bem mais do que parecemos capazes de fazer. Nós, as pontes, nós os comediantes, nós que tratamos bem a maioria dos interlocutores—não há como não surpreender!

“Há pessoas que jamais teriam se apaixonado se não tivessem ouvido falar do amor.”

“Preferimos falar mal de nós mesmos a não falar de nós.”

“procurar tão insistentemente agradar a si mesmo é um meio equivocado de tentar agradar aos outros ou persuadi-los”

“Um homem de espírito haveria de ficar com freqüência muito embaraçado sem a companhia dos tolos.”

Sob várias formas ao longo do livro: “A natureza faz o mérito e a sorte lhe dá emprego.”

“O que nos leva a apegar-nos a novas amizades não é tanto o cansaço que temos das antigas ou o prazer de mudar, quanto o desgosto de não sermos admirados por aqueles que nos conhecem demais e a esperança de sermos mais admirados por aqueles que não nos conhecem.”

“Esquecemos facilmente nossos erros quando somente nós os conhecemos.”

“Quem vive sem loucura não é tão sensato quanto pensa.”

“A distância diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e acende o fogo.”

“Há maus que seriam menos perigosos se não tivessem nenhuma bondade.”

“Por que é que temos bastante memória para reter até nos mínimos detalhes o que nos aconteceu e que não tenhamos bastante para lembrar quantas vezes os contamos à mesma pessoa?”

“Por vezes supomos odiar a bajulação, mas só odiamos a maneira de bajular.”

“É mais difícil ser fiel à amante quando se é feliz do que quando se é maltratado.”

“As mulheres desconhecem toda a sua afetação.”

“O sotaque da região em que nascemos permanece no espírito e no coração, como na linguagem.” (???) P.S.: Como os gaúchos—as gaúchas—são orgulhos@s (vaidosas?) da sua própria voz! Nisso, já beiram a xenofobia…

“O maior milagre do amor é curar da afetação!”

“É muito difícil romper quando a gente já não se ama.”

“Aborrecem-nos quase sempre aqueles com quem não é permitido se aborrecer.”

“Somente as pessoas que evitam causar ciúmes é que são dignas de que se tenha ciúmes delas.”

“O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele.”

“Sabe-se muito bem que não se deve falar da própria mulher, mas não se sabe suficientemente que menos ainda se deveria falar de si.”

“As violências a que nos submetemos para nos impedir de amar são muitas vezes mais cruéis que os rigores de quem amamos.”

“Quase todos os jovens pensam ser naturais, quando são apenas mal-educados e grosseiros.”

“A inveja é destruída pela verdadeira amizade”

“A violência que nos fazemos para permanecer fiéis a quem amamos não vale mais que uma infidelidade.”

“Ela não era bonita”—a flecha do cupido demora muito até ser retirada.

“Perde-se às vezes o ar burguês no exército, mas nunca na côrte.”—distinguir-se pelo valor, não pela afetação. Talvez fosse o remédio para os mais esdrúxulos dessa classe média candanga, principalmente dessa ralé empertigada dos cursinhos de direito.

“Guarda-se por muito tempo o primeiro amante, enquanto não se arranja um segundo.”

“O que menos se encontra no galanteio é amor.”

A Filosofia é útil para o passado e o futuro, mas não serve para o presente.

Quanto mais distante a perspectiva da qual se observa a vida, menos ela faz sentido. Hoje, aqui, tudo é plenamente coerente.

“As afetadas se sentem honradas com os ciúmes que têm de seus amantes, para esconder que têm inveja das outras mulheres.”

“Poucos sabem ser velhos.”

“As mulheres que amam perdoam mais facilmente as grandes indiscrições que as pequenas infidelidades.”

“Nada impede tanto ser natural que a vontade de sê-lo.”

“É mais fácil conhecer o homem em geral que um homem em particular.”

“Não desejaríamos praticamente nada com ardor, se soubéssemos perfeitamente o que desejamos.”

“Tratamos de nos orgulhar dos defeitos que não queremos corrigir.”

“A velhice é um tirano que proíbe sob pena de morte todos os prazeres da juventude.”

“Nas primeiras paixões as mulheres amam o amante [lato sensu] e nas outras, amam o amor.”

NADA CONSOLADOR: “Por mais raro que seja o verdadeiro amor, é ainda mais raro que a verdadeira amizade.” Eu não usufruí nem de um, nem da outra.

“A vontade de ser lamentado ou admirado constitui muitas vezes a maior parte de nossa confiança.”

CONSOLADOR: “A mesma firmeza que serve para resistir ao amor serve também para torná-lo violento e duradouro e as pessoas fracas, que são sempre agitadas pelas paixões, quase nunca a têm verdadeiramente.”

“A timidez é um defeito perigoso de repreender nas pessoas que queremos livrar dela.”

“Quando temos o coração ainda agitado com o que resta de uma paixão, estamos mais perto de sermos invadidos por uma nova do que quando inteiramente curados dela.”

“Geralmente só se conta o primeiro galanteio das mulheres depois do segundo.”

AFORISMO 500: “Há pessoas tão centradas em si mesmas que, quando estão apaixonadas, encontram meios de se ocupar de sua paixão sem se ocupar da pessoa que amam.”

P. 74: consideração sobre os suicidas e outros. O diário problema da morte. O mais divertido é que a morte em si não existe—mas a reputação é um pós-morte vivido na vida muito importante! Um suicida é, no mínimo, muito mais nobre que qualquer fiel de religião. Porque isso se chama: viver a vida com covardia. Não adianta parasitar um organismo que desejaria ser suprimido dessa maneira anêmica.


2ª PARTE

P. 79: um pouco de História

P. 80: um pouco das possessões e viagens ilustres de La Rochefoucauld

P. 81: sobre a relatividade da beleza—quando as menos belas desbancam as mais belas

As frases da primeira parte ajudam bastante aqui, dados os vocábulos dos quais o autor retira um significado bastante específico e “de época”, como “humor” ou “espírito”; mas, na realidade, é bem provável que estes parágrafos maiores tenham sido escritos antes e aí sim La Rochefoucauld engastou e poliu suas pérolas, já que a arte dos aforismos do sábio é mais bem-elaborada e marcante.

P. 87: a inevitável beleza da espontaneidade infantil

Exatamente o que vinha pensando mais dia, menos dia: o retrato da decadência desta sociedade é que o adulto é sempre feio, não se sente confortável. Educação falha—super-coação dos poucos que tentam prosseguir mais ou menos na mesma marcha harmônica. “Isso é o certo para a sua idade”—padronização extenuante; rejeição das atitudes e hábitos dos bem-nascidos, como intolerância ao seu perguntar incessante, ao seu falar e ao seu contar, risadas a suas observações mais ingênuas. Coação dos próprios moleques já pervertidos a um estilo absolutamente bárbaro e fanfarrão—mesmo Aquiles passaria belos anos de tormenta no mar antes de voltar pintado de ouro, desta socialização que tentou vencê-lo (para não falar de Ulisses). Hoje até os homens são superafetados. “Mantenha a boca fechada, você fica parecendo bobo assim” “Cada um quer ser outro e não ser mais o que é” “Você fica bravo quando escuta música?”—talvez eu lance um CD sampleado com “Vozes do Rebanho—greatest hits”. “Fuleiro buddy” “corta esse cabelo”…

CRÍTICA AO MODERNO: faltam salões amplos.

ILUSÃO DE QUE SE PUDESSE SALVAR ALGUMA COISA: “não temos a força de terminar voluntariamente e, no declínio do amor como no declínio da vida, ninguém pode decidir-se a prevenir os desgostos que deverá ainda experimentar.”

P. 108: homem, o superanimal

P. 119: as semostradeiras e sua paixão por velhos que “já foram alguma coisa”.

“Pode-se ter ao mesmo tempo um ar sério no espírito e dizer muitas vezes coisas agradáveis e alegres” “Os jovens têm usualmente o espírito alegre e zombeteiro, sem o terem sério, e é isso que os torna muitas vezes importunos.”

“Que pessoas teriam começado a se amar se elas se tivessem visto antes como se vêem na seqüência dos anos?”


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] EXTENSÃO DOS COMENTÁRIOS PASSADOS (Zaratustra)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

28: o “homem da morfina”

31: representando uma comédia

38: “deserto”, “dragão”; a solidão do sábio, as agruras e a moral do mundo ocidental.

39: eu já sou a criança

40: a luta do dia a dia. Para o insone. É preciso cair desprotegido, acabar com o ranger de dentes.

43: metafísica antropomorfa

52: escrever com o sangue

83: a constante alegoria da flecha. Estás aqui, há ainda muito por viver…

86: a cidade de “Vaca Malhada”. Uma tarde de sabedoria.

96: desaguar no mar

116: sobre o iminente uso indevido dos postulados de Zaratustra

117: o asno

123: da sensualidade e da dança

125: sobre a perda de amigos

145: da sucessão dos poetas. Sensação de descrever o inefável em vão.

147: preservai os monumentos

156: para se livrar de Hegel

173: o anão e o eterno retorno; o pórtico do “instante”.

174: o jovem e a temerária serpente em sua boca

182: não há teias e fins, mas dados e jogadores

193: Estado e Capital

200: cena digna de Ulisses

219: o grande déspota que manipula o passado

233: do pensamento abissal

235: novo círculo, nova serpente. Velho expediente. Declaração de morte à metafísica.

287: o nojo da elite

291: “Tudo é permitido.”

303: paródia da bíblia. Mas esta é o livro inteiro! Ausência da mulher em qualquer candidato.

322: o homem, emulador de todos os animais

328: a Europa aleijada


Da desilusão histórico-maníaca nietzschiana ou a sucessão ad infinitum de erros humanos no projeto de consecução da transmutação de todos os valores. No final de O Anticristo—mas não só deste livro, e costumeiramente assim que realmente vai se acercando do fim do que ia dizer—é clarividente o tom lamurioso, a oscilação, provocados pela narrativa de momentos cruciais em que o homem moderno ou ainda o homem antigo mais tardio falhou ao intentar a milenar inversão de valores, fosse com a desagregação/implosão do Império Romano; o retrocesso da Renascença; ou as Cruzadas e a expulsão dos mouros. É como se insidiosamente o devir brindasse o homem sedento pela volta da nobreza com uma irônica solene recusa. Cabe todo esse descontentamento? Ele ser considerado válido dentro da habitual lógica nietzschiana? Que outras lições advêm daí? As características da nostalgia e do remorso são realmente chamativas em sua obra. Poderia isso querer dizer, em que pese tudo, que a realidade empírica do homem seja transfigurar-se em seu ideal, que ainda assim o ocaso e soçobramento do niilismo estão fora de questão? O que garante a ocorrência, por fim, desta tal “guerra santa de indivíduos” e o desmantelamento dos Estados-nações? De Sócrates a Lutero, Napoleão, César Augusto e César Bórgia e Maquiavel, ele parece não aceitar a efemeridade do gênio ou a faceta obscura dessas populações privilegiadas. Devemos assumir no mínimo que ninguém está isento de cometer seus errinhos, erros e grandes gafes.

“Zaratustra quis voltar a ser homem”

SOBRE COM QUE PESSOAS NÃO É FUNESTO LIDAR ROTINEIRAMENTE: “Gosto muito também dos pobres de espírito. Favorecem o sono. São bem-aventurados, mormente quando se lhes dá sempre razão”

“Teu Em-si se ri de teu Eu e de seus impulsos arrogantes.” O belo diálogo—ou ordens unilaterais—do instinto (do corpo, da matéria!) com a(à) consciência.

“Mais um século de leitores e o próprio espírito terá mau cheiro.”

“meu demônio (…) o espírito da gravidade”

“amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas estamos habituados a amar.

Há sempre algo de loucura no amor, mas também há sempre algo de razão na loucura.”

“Onde acaba o Estado—Olhai para lá, meus irmãos! Não conseguis ver o arco-íris e as pontes que levam ao super-homem?”

“Teu sonho deve revelar-te o que faz teu amigo quando desperto.”

“Os mais afastados são os que pagam seu amor ao próximo e desde que vos reunis em cinco, um sexto é que vai morrer.”

“Enfim, meus irmãos, evitai ser injustos com os solitários. Como poderia um solitário esquecer? Como poderia tomar medidas?”

“Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?”

“mesmo o mais astuto compra suas mulheres às cegas.”

“Muitas breves loucuras, isso é que chamais amor. (…) casamento (…) tolice prolongada.”

“Solitários de hoje, que viveis marginalizados, algum dia devereis chegar a ser um povo. De vós que vos escolhestes a vós mesmos, deverá surgir e crescer um povo eleito, do qual nascerá o super-homem.”

“Na verdade, vos aconselho: Afastai-vos de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda, envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado!”

“E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o acaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã” “E o sol do conhecimento atingirá seu zênite.”

“Em torno de nós reina o outono”

“Se existissem deuses, como poderia eu suportar não ser um deus? Por conseguinte, não há deuses.”

“Nunca houve até hoje um super-homem”

“Em meus filhos quero remediar o fato de ter sido filho de meus pais. E, no futuro, todo, quero remediar este presente.”

“É difícil viver entre os homens porque é muito difícil calar. Sobretudo para um falador.”

“e aquele que quiser permanecer limpo entre os homens deve aprender a lavar-se em água suja”

“Até acredita em vossas mentiras, se mentis bem a respeito dele, porque no fundo do coração suspira: ‘Quem sou eu?’”

“Bendito seja aquele que endurece!”

“Aquele que foi de minha têmpera tropeçará em seu caminho com aventuras iguais às minhas, de forma que seus primeiros companheiros só poderão ser cadáveres e palhaços.

Seus segundos companheiros, porém, serão chamados seus fiéis: um enxame animado, muito amor, muita loucura, muita veneração juvenil.

A estes fiéis não deverá ligar seu coração aquele que dentre os homens for de minha índole. Nessas primaveras e nesses prados de variadas cores, aquele que conhece não deve dar confiança à fraca e fugitiva espécie humana.”

“Para ti, é uma vergonha rezar!”

“Não consiste precisamente a divindade em haver deuses, e que Deus não exista?”

“Esquece-se o que os homens são quando se vive com eles.”

“Há também outros cantores que não têm a garganta expedita, a mão eloqüente, expressivo o olhar e o coração desperto, senão quando têm a casa cheia. Não me pareço com eles.”

“E algumas invenções são tão boas que, como o seio da mulher, são úteis e agradáveis ao mesmo tempo.”

“A sociedade humana é uma tentativa, assim eu ensino, uma longa investigação, mas uma investigação de quem manda.

Uma tentativa, meus irmãos, e não um ‘contrato’.”

“A todos os momentos a existência principia. Em torno de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. A senda da eternidade é tortuosa.”

“o canto é o que convém a convalescentes”

“Ensinar que há um grande ano de devir, um ano monstruoso que, à semelhança de um relógio de areia, tem sempre que se voltar novamente para correr e se esvaziar outra vez.” “O nós das causas em que me encontro tornará a criar-me! Eu mesmo pertenço às causas do eterno regresso das coisas.”

“Todas as palavras não foram feitas para os que são pesados? Não mentem todas as palavras ao que é leve? Canta! Não fales mais!”

“Não cantes! Silêncio! O mundo é perfeito.”

“Que aconteceria se aquele, cujo pai foi afeiçoado às mulheres, aos vinhos fortes e aos javalis, exigisse de si castidade?”

AS CINDERELAS: “A meia-noite é também meio-dia”

“se algum dia quisestes que uma vez se repetisse, se algum dia dissestes: ‘Agradas-me, felicidade! Instante, momento!’ Então quisestes que tudo retornasse.”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Este sou eu que, na primeira vez em que li esta obra a sério (…) estava sufocado e necessitando me apartar. Hoje o movimento é reverso, também na pureza. Andando em círculos?…

Eu tenho mãos e pés! O que mais eu poderia querer?

Um maldito com uma navalha ensaiou a destruição do cosmo!

Eu estou em busca de um exército! De certa fama “diferente” na cidade. Um respeito mesclado com temor. Como andar sempre no limbo entre o imprestável e o impecável, porque pecaminoso mesmo é fracassar por excesso de uma só coisa, hipertrofia de uma convicção, quer dizer, do olho que agora nada vê. Cornucópia que pretende ser uma armadilha de coelho ou rato para afastar toda a fauna exótica (…) e me distrair de mim mesmo.

Todos são apenas macacos imutáveis—eu sou o único em movimento. Caricaturas de desenvolvimento: (…) Todos estagnados diante da própria essência. Hoje eu sou um ponto, uma estrela, no firmamento de (…) Em breve terei feito os mais velhos comerem poeira cósmica: (…) e o que subsistirá? Os mortos, os clássicos… O insondável.

Não parece estranho que nunca tenha sonhado, ao longo desses anos todos, nem tenha ouvido relatos a respeito, que eu mesmo fosse deus, que de algum modo adquiria a onipotência—mas esse sujeito é aquele que sabe que num instante vai acordar? T.E., o último discípulo viúvo, me persegue nessas representações, como um lado gosmento e sórdido da inconsciência superada.

E aquele que cai doente, sem quem lhe dê de comer?

Os animais antropomorfos de Zaratustra—fiéis escudeiros—a meio caminho?

Que fazer, eu que nem os animais ideais tenho?

Cerveja e masturbação. Há de alguma forma uma pureza em quem passou a vida ao lado de uma única e jamais experimentou entorpecentes ilegais. Eu: alguém que não teve coragem de se servir de uma prostituta. Mas não devemos fazer propaganda, e por dois motivos. Não esquecer também da outra metade da família. TRABALHADORES. DESPREZADORES. Eu que não amo minha ascendência. Por isso é que eu acho: numa briga de vida ou morte com alguém fisicamente mais forte, eu levaria vantagem. O BRAVO. Sou o escriba encarregado de sistematizar as qualidades dos meus últimos parentes?

Imagina teu futuro mais funesto, e lento! Isso será razão para praguejar? Só temos voz para o presente. Se bem que o presente é um elo de uma cadeia, que o comanda, ele mesmo um dos líderes dessa cadeia. Aqui fala um soberano e eleito, elo da cadeia fenomenal chamada humanidade, esta uma das argolas do colar chamado mundo! Aqui não se trata de bijuteria, pois não se pode quebrar, cada peça precisa ser mais maleável que a borracha e mais resistente que o diamante! Então o que eu digo, petulante, hoje? Para ser frase eterna, que seja: já muito eu venci… Justifiquei-o?


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] O ANTICRISTO II

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

48-51: Nietzsche, os dois Budismos. Talvez uma demonstração de que uma vez “nula”, a Europa já não tem muito o que temer…

73: a “boa-nova” do Messias

81: o cristianismo de fechada; o padre perdido.

102: do Gênese à Torre de Babel

119: Manu

126: extrema nostalgia romana

129: ode ao Islã


“A noção cristã de Deus (…) Deus como aranha.”

“Se não se conseguir terminar com o cristianismo, os alemães são a causa disso…”

“E conta-se o tempo a partir do dies nefastus em que essa fatalidade começou—a partir do primeiro dia do cristianismo!—Por que não contá-lo a partir de seu último dia?—A partir de hoje?—Transmutação de todos os valores!”


Anotações de cunho pessoal:

O reino de Deus como um imenso hospital—última visita: pobretões implorando ao Senhor pela pronta recuperação do paciente em estado terminal, porque “Ele pode tudo!”. Como se não estivesse pressuposto desde o começo que mais cedo ou mais tarde—nessa ou noutras gerações desta família—a crença no poder de Deus será reduzida a cinzas. Eu simplesmente não sei me comportar como um doente!

Em simples coisas como o futebol de três décadas atrás se viaja no tempo de forma literal e impactante o suficiente para dizer: como perdemos o gosto; massacramos qualquer cadência! Ação, ação, ação, chazam! Quero um chá, Zâmbia irá me esperar! A música não alenta? Tirar alguma conclusão? Pra que a pressa? Outra hora vem… Ainda que “o dia” fosse amanhã, eu diria: ainda falta muito tempo para o mundo acabar…


9 de março de 2010

[ARQUIVO] SCHOPENHAUER COMO EDUCADOR (A III Intempestiva)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

25: o homem moderno entre um sim e um não

33: Shelley, Prometeu Desacorrentado

37: o problema do ceticismo

61: o castigo do homem tornado a ser animal

68: tartufismo

75: da moda

80-1: o “mata-moscas” do sábio

110: o elogiado filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson

111: as eternas metáforas da bela mulher e da velhota


“Um homem nunca sobe mais alto a não ser quando ignora para onde seu caminho pode levá-lo.”

O prefácio mais lindo e comovente.

“De fato, todo aquele que tiver o furor philosophicus no corpo não terá mais tempo para o furor politicus e se absterá sabiamente de ler jornal todos os dias e especialmente militar num partido, embora não se deva hesitar um instante para tomar seu lugar na hierarquia, desde que um perigo real ameace a pátria.”

Livro essencialmente para tratar daquele que escolheu a carreira de professor no âmbito da modernidade e se vê diante do ESTADO para filosofar… Sobre a honestidade e o caráter de um professor universitário… Há coisas que simplesmente estão fora de pauta. Agregue-se a isso a função de antiquário do moderno.

“E se quiserem ouvir os cantos da solidão, escutem a música de Beethoven.”

“E se for verdade que as florestas devem rarear aos poucos, não chegará um momento em que será necessário usar bibliotecas como nos servimos de lenha, palha e gravetos?”

“Toda filosofia que acreditar afastar ou mesmo resolver com a Judá de um acontecimento político o problema da existência não passa de uma caricatura e de um sucedâneo da filosofia.”

“As águas da religião estão em baixa e deixam atrás delas pântanos e lamaçais (…) Jamais o século foi mais secular, mais pobre de amor e de bondade.”

“No devir, tudo é vazio, mentiroso, chato e miserável”

“a terra perderá seu peso, os acontecimentos e as potências terrestres não serão mais que sonhos, uma transfiguração semelhante àquela das tardes de verão se difundirá em torno dele.”

“A pressa é geral, porque todos querem escapar de si mesmos”

“deveríamos algum dia aprender a odiar algo de mais geral que nossa individualidade (…) será somente então que um novo fim será fixado a nosso amor e a nosso ódio”

“Mas quando alguém se acostumou a traduzir toda espécie de experiência em termos de dialética e num puro problema cerebral, é surpreendente ver com que rapidez se resseca em semelhante atividade, que logo só é capaz de se fazer entender por um estalar de ossos.”

“Em oitavo lugar, (…) Seus consoladores são os livros ou escutar outro pensar de forma diversa da sua, é assim que consegue matar o tempo durante um longo dia.”

“se fixarão por objetivo preparar o surgimento de um novo Schopenhauer, de um gênio filosófico.”

“o fato de ser obrigado a pensar publicamente, em horas previamente determinadas, em coisas previamente fixadas. E diante de jovens! (…) E se acontecesse um dia de sentir que nesse dia não consegue pensar em nada, que nenhuma única idéia lhe vem ao espírito—e que tivesse de se apresentar, no entanto, a fingir de pensar?” “essa maneira de pesquisar em inumeráveis opiniões estranhas e absurdas lhe parece quase o mais repugnante e o menos oportuno dos serviços.” “‘É um bom filólogo, um bom arqueólogo, um bom lingüista, um bom historiador’, mas nunca: ‘É um bom filósofo.’”

“é mais filosófico nada saber do que aprender o que quer que seja”

“em nossos dias precisamente é uma raça fraca que ocupa as cátedras de filosofia e Schopenhauer, se tivesse agora de escrever seu tratado sobre a filosofia universitária, não teria mais necessidade de tomar sua clava: uma vareta lhe bastaria.”

“Aqui e acolá, um dentre eles tenta ainda um pequeno vôo metafísico—com os resultados habituais: vertigem, enxaqueca e sangramento do nariz.”

“é da própria natureza da filosofia nunca se deixar assalariar”


Anotações de cunho pessoal:

Tem-se pelo menos uma certeza: não se atingiu o auge de nada. O que não significa que tenha sido em vão. Ainda que houvesse um “ato em si” reconhecido por todas as épocas como tendo sido o mais grandioso, isso nunca é percebido no tempo presente, é sempre “tarde demais”. Mas o mais comum e salutar e natural é projetá-lo à frente de si… Portanto, não existe “meio-termo” de um homem íntegro. Ou só existem híbridos.


9 de março de 2010