PSICOLOGIA DE MASSAS DO FASCISMO, Ou: A vitória do lumpemproletariado.

REICH. Trad. inglesa de Mary Boyd Higgins & trad port. (direta do alemão) de Maria da Graça Macedo, Martins Fontes, 1988 [1972 (1946)].

PREFÁCIOS

“Se a Psicologia de Massas do Fascismo algum dia vier a ser compreendida e utilizada de algum modo, se a vida <frustrada> alguma vez se libertar, e se palavras como <paz> e <amor> deixarem de ser meros chavões vazios de significados, então o funcionamento da Energia Vital terá de ser aceito e compreendido.” “Para Reich, o fascismo é a expressão da estrutura irracional do caráter do homem médio, cujas necessidades biológicas primárias e cujos impulsos têm sido reprimidos há milênios.”

* * *

“No nível superficial da sua personalidade, o homem médio é comedido, atencioso, compassivo, responsável, consciencioso. Não haveria nenhuma tragédia social do animal humano se este nível superficial da personalidade estivesse em contato direto com o cerne natural profundo.”

“A biofísica orgônica tornou possível a compreensão do inconsciente freudiano, aquilo que é anti-social no homem, como resultado secundário da repressão de exigências biológicas primárias.”

“O cerne biológico do homem não encontra representação social desde o colapso da primitiva forma de organização social segundo a democracia do trabalho. Os aspectos <naturais> e <sublimes> do homem, aquilo que o liga ao cosmos, só encontram expressão autêntica nas grandes obras de arte, especialmente na música e na pintura.” Pelo menos parece que Reich encampa os poetas, escritores e músicos em seu “trabalhador vitalmente necessário”!

“Nos ideais éticos e sociais do liberalismo, vemos representadas as características do nível superficial do caráter: autodomínio e tolerância. O liberalismo enfatiza a sua ética, com o objetivo de reprimir o <monstro no homem>, i.e., o nível das <pulsões secundárias>, o <inconsciente> freudiano>. A sociabilidade natural da camada mais profunda, do cerne, permanece desconhecida para o liberal. Este deplora e combate a perversão do caráter humano por meio de normas éticas, mas as catástrofes sociais do século XX provam que essa tática de nada adianta.”

“Nem o verdadeiro revolucionário, nem o artista, nem o cientista foram até agora capazes de conquistar e liderar as massas, ou, se o fizeram, de mantê-las por muito tempo no domínio dos interesses vitais.”

Se há 3 camadas do caráter em seu sistema, obviamente haveria 3 estruturas políticas possíveis: “O fascismo não representa, na sua essência, nem o nível superficial (1) nem o mais profundo (3) do caráter mas sim o nível intermediário (2), das pulsões secundárias.”

A máquina mística. O demiurgo xiita robotizado.

“O fascismo [por muito tempo foi] considerado como uma característica nacional específica dos alemães ou dos japoneses. É deste primeiro erro que decorrem todos os erros de interpretação posteriores. Em detrimento dos verdadeiros esforços pela liberdade, o fascismo foi e ainda é considerado como a ditadura de uma pequena clique reacionária. A persistência neste erro deve ser atribuída ao medo que temos de reconhecer a situação real: o fascismo é um fenômeno internacional que permeia todos os corpos da sociedade humana de todas as nações.”

“O fascismo como um movimento político distingue-se de outros partidos reacionários pelo fato de ser sustentado e defendido por massas humanas. Estou plenamente consciente da enorme responsabilidade contida nestas afirmações. Desejaria, para o bem deste mundo perturbado, que as massas trabalhadoras estivessem igualmente conscientes da sua responsabilidade pelo fascismo. É necessário fazer uma distinção rigorosa entre o militarismo comum e o fascismo. A Alemanha do imperador Guilherme foi militarista, mas não fascista.”

“Se entendemos por revolucionária a revolta racional contra as situações insuportáveis existentes na sociedade humana, o desejo racional de <ir ao fundo, à raiz de todas as coisas> (<radical>, <raiz>), para melhorá-las, então o fascismo nunca é revolucionário.”

“O sociólogo tacanho, a quem falta coragem para reconhecer o papel fundamental do irracional na história da humanidade, considera a teoria fascista da raça como mero interesse imperialista ou, apenas, como simples <preconceito>. O mesmo acontece com o político irresponsável e palavroso: a extensão da violência e a ampla propagação desses <preconceitos raciais> são prova da sua origem na parte irracional do caráter humano. A teoria racial não é uma criação do fascismo. Pelo contrário, o fascismo é um produto do ódio racial e a sua expressão politicamente organizada. Por conseguinte, existe um fascismo alemão, italiano, espanhol, anglo-saxônico, judeu e árabe. A ideologia da raça é uma grande expressão biopática pura da estrutura do caráter do homem orgasticamente impotente.”

“O fascismo SERIA um retorno ao paganismo e um arqui-inimigo da religião. Mas muito pelo contrário, o fascismo é a expressão máxima do misticismo religioso. (…) O fascismo apóia a religiosidade que provém da perversão sexual e transforma o caráter masoquista da velha religião patriarcal do sofrimento numa religião sádica.

A mentalidade fascista é a mentalidade do <Zé Ninguém>, que é subjugado, sedento de autoridade e, ao mesmo tempo, revoltado. Não é por acaso que todos os ditadores fascistas são oriundos do ambiente reacionário do Zé Ninguém.” Livro de Reich cuja leitura pende…

“O Zé Ninguém observou bem demais o comportamento do grande homem, e o reproduz de modo distorcido e grotesco. O fascista é o segundo sargento do exército gigantesco da nossa civilização industrial gravemente doente. (…) o pequeno sargento excedeu em tudo o general imperialista: na música marcial, no passo de ganso, no comandar e no obedecer, no medo das idéias, na diplomacia, na estratégia e na tática, nos uniformes e nas paradas, nos enfeites e nas condecorações. Um imperador Guilherme foi em tudo isto simples <amador>, se comparado com um Hitler, filho de um pobre funcionário público. Quando um general <proletário> enche o peito de medalhas, trata-se do Zé Ninguém que não quer <ficar atrás> do <verdadeiro> general. É preciso ter estudado minuciosamente e durante anos o caráter do Zé Ninguém, ter um conhecimento íntimo da sua vida atrás dos bastidores, para compreender em que forças o fascismo se apóia.”

“Quando se ouve um indivíduo fascista, de qualquer tendência, insistir em apregoar a <honra da nação> (em vez da honra do homem) ou a <salvação da sagrada família e da raça> (em vez da sociedade de trabalhadores); quando o fascista procura se evidenciar, recorrendo a toda a espécie de chavões, pergunte-se a ele, em público, com calma e serenidade, apenas isto:

O que você faz, na prática, para alimentar esta nação, sem arruinar outras nações? O que você faz, como médico, contra as doenças crônicas; como educador, pelo bem-estar das crianças; como economista, contra a pobreza; como assistente social, contra o cansaço das mães de prole numerosa; como arquiteto, pela promoção da higiene habitacional? E agora, em vez da conversa fiada de costume, dê respostas concretas e práticas, ou, então, cale-se!”

“A queda da nossa civilização é inevitável se os trabalhadores, os cientistas de todos os ramos vivos (e não mortos) do conhecimento e os que dão e recebem o amor natural, não se conscientizarem, a tempo, da sua gigantesca responsabilidade.” Já era então…

“O impulso vital pode existir sem o fascismo, mas o fascismo não pode existir sem o impulso vital. É como um vampiro sugando um corpo vivo”

“quem compreende as funções vitais no animal, na criança recém-nascida, quem conhece o significado do trabalho dedicado, seja ele um mecânico, pesquisador ou artista, deixa de pensar por meio de conceitos que os manipuladores de partido espalharam por este mundo.”

“Depende do grau de insolência do intruso e não de mim ou do meu trabalho, eu ter que usar a força para proteger dos intrusos o meu trabalho sobre a vida.”

A Psicologia de Massas do Fascismo foi pensada entre 1930 e 1933, anos de crise na Alemanha. Foi escrita em 1933 e publicada em setembro de 1933, na Dinamarca,¹ onde foi reeditada em abril de 1934.

[¹ Ver referência no último capítulo.]

Desde então, passaram-se 10 anos. Pela revelação da natureza irracional da ideologia fascista muitas vezes esta obra recebeu aplausos demasiado entusiastas e sem embasamento num verdadeiro conhecimento, vindos de todos os setores políticos, aplausos esses que não levaram a nenhuma ação apropriada. Cópias do livro — às vezes sob pseudônimos — atravessaram, em grande número, as fronteiras alemãs. A obra foi acolhida com júbilo pelo movimento revolucionário ilegal, na Alemanha. Durante anos, serviu como fonte de contato com o movimento antifascista alemão.”

Apenas os partidos socialistas, que viam tudo sob o ângulo da economia, e os funcionários assalariados do partido, que controlavam os órgãos do poder político, não lhe encontraram qualquer utilidade até hoje. Por exemplo, os dirigentes dos partidos comunistas da Dinamarca e Noruega criticaram-na violentamente, considerando-a <contra-revolucionária>. Por outro lado, é significativo que a juventude de orientação revolucionária pertencente a grupos fascistas tenha compreendido a explicação da natureza irracional da teoria racial, dada pela economia sexual.”

“Já não pegava neste livro há muitos anos. Quando, depois, comecei a corrigi-lo e a ampliá-lo, fiquei surpreso com os erros de reflexão que eu havia cometido, 15 anos antes, com as profundas revoluções do pensamento que haviam ocorrido e com as exigências que a superação do fascismo haviam imposto à ciência.” E provavelmente seu livro seria bem diferente hoje…

“É um elogio para a Psicologia de Massas do Fascismo o pedido de reedição, 10 anos depois de ter sido escrita. Disso não se pode gabar nenhum escrito marxista de 1930 cujo autor tenha condenado a economia sexual.”

“As organizações socialistas e comunistas, não obstante os protestos dos seus militantes, proibiram a distribuição das publicações da Editora para Política Sexual (SEXPOL), no ano de 1932, em Berlim. Ameaçaram me matar logo que o marxismo alcançasse o poder na Alemanha.” “A minha expulsão de ambas as organizações baseou-se no fato de eu ter introduzido a sexologia na sociologia, e ter demonstrado como ela afeta a formação da estrutura humana. (…) Os escritos de economia sexual eram apreendidos na fronteira soviética do mesmo modo que os milhares de refugiados que procuraram salvar-se do fascismo alemão; não há argumentos válidos que justifiquem isso.”

“O conhecimento biológico da economia sexual havia sido comprimido dentro da terminologia marxista comum como um elefante numa toca de raposa. Já em 1938, quando revia o meu livro sobre a juventude, observei que, decorridos 8 anos, todos os termos da economia sexual tinham conservado o seu significado, enquanto as palavras de ordem dos partidos, que eu incluíra no livro, se tinham esvaziado de sentido. O mesmo aconteceu com a 3ª ed. de Psicologia de Massas do Fascismo.”

“Os partidos marxistas da Europa fracassaram e conheceram o declínio (não digo isso com prazer), por terem tentado enquadrar um fenômeno essencialmente novo, como é o fascismo do século XX, em conceitos apropriados ao século XIX. Foram derrotados como organização social porque não souberam manter vivas e desenvolver as possibilidades vitais que cada teoria científica encerra.”

“Sendo médico, tive muito mais possibilidade de conhecer o trabalhador internacional e seus problemas do que qualquer político partidário. O político não vê mais do que a <classe operária>, em quem pretende <infundir consciência de classe>. Eu, pelo contrário, via o homem como uma criatura que vinha se sujeitando à dominação das piores condições sociais, condições que ele próprio criara, que já faziam parte integrante do seu caráter, e das quais procurava, em vão, se libertar. O abismo intransponível que separa a visão puramente econômica da visão biossociológica.”

“não existe hoje um único partido que se possa considerar herdeiro e representante vivo do patrimônio científico do marxismo, quando se trata de fatos reais do desenvolvimento sociológico e não de meros chavões que já não correspondem ao seu conteúdo original.”

“Sei, por experiência própria, que serão precisamente os <únicos representantes da classe operária> e os atuais e futuros <dirigentes do proletariado internacional> que combaterão esta ampliação do conceito social de trabalhador, acusando-o de <fascista>, <trotskista>, <contra-revolucionário>, <inimigo do partido>, etc. Organizações de trabalhadores que expulsam negros e praticam o hitlerismo não merecem ser considerados como fundadoras de uma sociedade nova e livre. É quando o <hitlerismo> não é exclusivo do partido nazi ou da Alemanha; ele penetra nas organizações de trabalhadores e nos círculos liberais e democráticos.”

“Assim como o conceito de energia sexual se perdeu dentro da organização psicanalítica, vindo a reaparecer, com uma força nova, na descoberta do orgone, também o conceito do trabalhador internacional perdeu o sentido nas práticas dos partidos marxistas, reaparecendo no âmbito da sociologia da economia sexual.” “A sociologia baseada na economia sexual resolve a contradição que levou a psicanálise a esquecer o fator social e o marxismo a esquecer a origem animal do homem.”Engels ficaria puto com Reich!

“As palavras <proletário> e <proletariado> foram cunhadas há mais de 100 anos para designar uma classe social destituída de direitos e mergulhada na miséria. É certo que ainda hoje existem tais categorias, mas os bisnetos dos proletários do século XIX se tornaram trabalhadores industriais especializados, altamente qualificados, indispensáveis e responsáveis, que têm consciência de sua capacidade. O termo <consciência de classe> é substituído por <consciência profissional> ou <responsabilidade social>.”

“O marxismo do século XIX limitava a <consciência de classe> ao trabalhador manual. Mas os outros trabalhadores, de profissões indispensáveis, eram contrapostos ao <proletariado> e designados como <intelectuais> ou <pequeno-burgueses>. Esta justaposição esquemática, hoje inaplicável, desempenhou um papel muito importante no triunfo do fascismo na Alemanha. (…) Esta [nossa] nova concepção vem preencher uma lacuna que contribuiu largamente para a atomização da sociedade humana trabalhadora e, conseqüentemente, levou ao fascismo tanto preto quanto vermelho.”

“Há capitalistas liberais e trabalhadores reacionários. O caráter não conhece distinções de classe. (…) Esta alteração foi forçada pela peste fascista. O materialismo dialético, cujos princípios foram desenvolvidos por Engels no Anti-Dürhring, transforma-se em funcionalismo energético. (…) A sociologia e a psicologia adquiriram, assim, uma sólida base biológica, o que não pôde deixar de exercer influência sobre o pensamento. (…) Assim, o termo marxista <consciência> foi substituído por <estrutura dinâmica>, <necessidade> por <processos instintivos orgonóticos>, <tradição> por <rigidez biológica e caracterológica>, etc.”

“O conceito marxista de propriedade privada não se aplicava às camisas, calças, máquinas de escrever, papel higiênico, livros, camas, seguros, residências, propriedades rurais, etc. Esse conceito referia-se exclusivamente à propriedade privada dos meios sociais de produção, isto é, aqueles que determinam o curso geral da sociedade; em outras palavras, estradas de ferro, centrais hidráulicas e elétricas, minas de carvão, etc.” “Na Rússia Soviética, tida como bastião do marxismo, nada há que se pareça com a <socialização dos meios de produção>.”

“[O fascismo remonta à tirania milenar] (…) é tão impossível superar a peste fascista com as medidas sociais adotadas nos últimos 300 anos como enfiar um elefante (6 mil anos) numa toca de raposa (300 anos).”

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GLOSSÁRIO

“BIONS. Vesículas que representam as fases de transição entre substância não-viva e substância viva. Desenvolvem-se constantemente na natureza, por um processo de desintegração de matéria orgânica e inorgânica, que pode ser reproduzido experimentalmente. Os bions estão carregados de energia orgânica e transformam-se em protozoários e bactérias.” [!]

“BIOPATIA. Distúrbio resultante da perturbação da pulsação biológica em todo o organismo. Abrange todos os processos de doença que perturbam o aparelho autônomo da vida. O mecanismo central é um distúrbio na descarga da excitação biossexual.”

“ECONOMIA SEXUAL. Este conceito se refere ao modo de regulação da energia biológica ou, o que é praticamente o mesmo, da economia da energia sexual do indivíduo. Economia sexual é o modo como o indivíduo lida com a sua energia biológica — que quantidade reserva e que quantidade descarrega orgasticamente. Os fatores que influenciam este modo de regulação são de natureza sociológica, psicológica e biológica. (…) Este conceito caracteriza o trabalho de Reich desde a época em que refutou a filosofia cultural de Freud até a descoberta do orgone, a partir da qual preferiu o termo <orgonomia>, ciência da Energia Vital.”

“ENERGIA ORGÔNICA. Energia Cósmica Primordial; está presente em tudo e pode ser observada visualmente, [!!] termicamente, eletroscopicamente e por meio de contadores Geiger-Müller. No organismo vivo: Bioenergia, Energia Vital. Descoberta por Wilhelm Reich entre 1936 e 40.”

“SEXPOL. Nome da organização alemã que se ocupava das atividades de política sexual de massas.”

* * *

I. A IDEOLOGIA COMO FORÇA MATERIAL

“o fascismo era um fenômeno que Marx e Engels não conheceram e que Lenin só vislumbrou nos seus princípios.”

“não se levou em conta o papel das classes médias baixas até pouco tempo antes da subida de Hitler ao poder.”

“este marxismo banalizado afirmava que uma crise econômica como a de 1929-33 tinha uma tal proporção que conduziria necessariamente a uma orientação ideológica esquerdista das massas por ela atingidas.” “Disso resultou uma clivagem entre a base econômica, que pendeu para a esquerda, e a ideologia de largas camadas da sociedade, que pendeu para a direita. Esta clivagem foi ignorada, o que impediu que se perguntasse como era possível que as largas massas se tornassem nacionalistas num período de miséria. Palavras como <chauvinismo>, <psicose>, <conseqüências de Versalhes> não explicam a tendência da classe média para a direita radical em períodos de crise, porque não apreendem efetivamente os processos envolvidos nessa tendência.”

“o fascismo, nas suas origens e no começo da sua transformação em movimento de massas, combatia principalmente a classe média alta

“Quem ainda depositava esperanças numa saída revolucionária para a prevista Segunda Guerra Mundial, que a essa altura já havia sido deflagrada, e confiava em que as massas populares utilizariam contra o inimigo interno as armas que lhes entregavam, não seguira atentamente a evolução da nova técnica de guerra. Não se podia simplesmente rejeitar o raciocínio de que o armamento de largas massas seria muito improvável na próxima guerra. [a segunda ou a terceira?] De acordo com esta concepção, a luta seria dirigida contra as massas desarmadas dos grandes centros industriais e conduzida por técnicos de guerra selecionados e de toda confiança.”

“Foram exatamente as massas reduzidas à miséria que contribuíram para a ascensão do fascismo, expoente da reação política.”

“Era a seguinte a composição das classes na Alemanha, de acordo com o estudo de Kunik, Tentativa de Estudo da Estrutura Social da População Alemã, Die Internationale, Lenz (ed.), Internationaler Arbeitërverlag, 1931:”

ALEMANHA em 1928: Perfil demográfico do trabalhador em classe social e gêneroTrabalhadores remunerados (ativos)Remunerados + família (ativos + nº de dependentes econômicos)
Proletários no senso clássico do marxismo (operários industriais)(a)21.789.00040.700.000 – Relação de 1,15:1 (*)
Classe média urbana6.157.00010.700.000 – Relação de 1,35:1 (**)
Classe baixa e média rurais (camponeses)6.598.0009.000.000 – Relação de 2,74:1 (***)
Burguesia (campo + cidade)718.0002.000.000 – Relação de 0,56:1 (****)
Donas-de-casa35.262.000 (*****)N.A.
TOTAL POPULACIONAL62.400.000
Tabela (com alterações didáticas) extraída da página 32 da minha edição de REICH, Psicologia de Massas do Fascismo.

(*) Subentende-se que um só operário do segundo setor mal conseguia sustentar-se a si e à esposa desempregada, e que vivia em situação de miséria caso tivesse filhos sem idade para trabalhar. E que um casal em que ambos trabalhassem teria imensas dificuldades para sustentar uma família de 4 membros (2 adultos ativos + 2 filhos), estando em situação literal de miséria caso possuísse prole maior (3+ filhos).

(**) No estrato da classe dos profissionais liberais ou empregados públicos, p.ex., a situação era menos opressiva, em termos de quantidade de pessoas ativas que sustentavam membros inativos ou desempregados da família, além do nível salarial garantir uma melhor qualidade de vida; mesmo assim, a porcentagem economicamente ativa não superava 54% intra-classe.

(***) No campo o desemprego é bem menor; a renda individual também, relativamente. Parcela populacional em recessão demográfica, não-afetada diretamente pela miséria dos centros urbanos, mas sem poder de mobilização política. Se este número estiver correto, contraria o lugar-comum de que no campo as famílias são mais numerosas. Ou talvez os filhos abandonassem a casa paterna muito cedo.

(****) Primeira relação de muito menos ativos (proprietários, a dizer verdade) que famílias inteiras (ativos + inativos); o desemprego nesta faixa não é de relevo, pois as famílias são folgadamente sustentadas pelo capital dos chefes-de-família ativos. Um pai sustentava bastante bem uma esposa desocupada e 2 filhos sem trabalho, mantendo o luxo e o conforto do lar. No entanto, estamos falando de somente 3% da população.

(*****) Mais da metade da população eram donas-de-casa que precisavam ter uma fonte de renda para complementar a da família (trabalho remunerado em meia-jornada + trabalho servil-doméstico, tradicionalmente reservado à mulher), não importando a classe ou meio (cidade, campo, proletariado, classe média). A burguesa, via de regra, não trabalhava.

(a) Segundo o marxismo ortodoxo, mais de 65% da população alemã pertenciam à classe revolucionária, o que seria basicamente afirmar que, numa sociedade em que 1/33 era explicitamente o explorador da mão-de-obra proletária e o demais 1/3 da população se dividia entre profissionais liberais (não-burgueses, não-pobres) e camponeses (pobres ou relativamente abastados, mas destituídos de consciência revolucionária e fora do jogo de forças políticas), de forma mais ou menos equilibrada (com leve preponderância da classe média urbana), que deveriam, ao fim, ser o fiel da balança, sendo convertidos à causa socialista ou defendendo a burguesia – classe esta que lhes nega formalmente a ascensão social –, era de se esperar, de um marxismo atuante e diligente, que o estado deplorável da economia do país e a preponderância numérica da população proletária (e dos não-proprietários ainda maior) em relação à classe dominante conduziriam em não muito tempo a uma vitória comunista na Alemanha empobrecida pós-Primeira Guerra Mundial.

“Muitos empregados da classe média podem ter votado em partidos de esquerda, e, do mesmo modo, operários podem ter votado em partidos de direita, mas é evidente que os números que calculamos para a distribuição ideológica revelam uma correspondência aproximada com os resultados eleitorais de 1932: comunistas e social-democratas, juntos, receberam de 12 a 13 milhões de votos, enquanto o Partido Nacional-Socialista e os nacionalistas alemães alcançaram, juntos, 19 a 20 milhões de votos. Isto significa que, na prática política, é decisiva a distribuição ideológica e não a econômica. Vê-se, assim, que a classe média baixa desempenha um papel político mais importante do que lhe foi atribuído.

No período de rápido declínio da economia alemã (1929-32), dá-se a grande ascensão do Partido Nacional-Socialista, de 800 mil votos em 1928 para 6.4 milhões no outono de 30, 13 milhões no verão de 32 e 17 milhões em janeiro de 1933. Segundo cálculos de Jaeger (Hitler, Roter Aufbau, 1930), dos 6.400.000 votos recebidos pelos nacional-socialistas, cerca de 3 milhões eram de trabalhadores, dos quais 60% a 70% eram empregados e 30% a 40%, operários.”

“Em meu entender, quem compreendeu com maior clareza a problemática deste processo sociológico foi Karl Radek, que, já em 1930, depois do primeiro sucesso do Partido Nacional-Socialista, escrevia:

Não se conhece nada de semelhante na história da luta política, especialmente num país de diversificação política antiga, em que cada novo partido tem de lutar duramente para ganhar um lugar entre os partidos tradicionais. Nada é tão característico como o fato de nem a literatura burguesa nem a literatura socialista dizerem uma palavra sobre este partido que vem ocupar o segundo lugar na vida política alemã.”

“O que causa essa clivagem entre os 2 fatores, ou seja, o que impede a correspondência entre situação econômica e estrutura psíquica das massas populares?”

“Na realidade, o marxismo comum se recusa a compreender a estrutura e a dinâmica da ideologia, rejeitando-a como <psicologia> que não é considerada <marxista>; deste modo, deixa o tratamento do fator subjetivo — a chamada <vida psíquica> na história — totalmente entregue ao idealismo metafísico da reação política nas mãos de personagens como Gentile e Rosenberg, que responsabilizam exclusivamente a <alma> e o <espírito> pelo curso da história, obtendo, por estranho que pareça, grande sucesso com suas teses.” “O marxismo comum simplesmente nega, em vez de fazer uma crítica construtiva, e considera-se <materialista> ao rejeitar fatos como <pulsão>, <necessidade> ou <processo interno> como sendo <idealistas>.” “quanto mais ele nega a psicologia, mais ele se vê praticando o psicologismo metafísico ou coisas piores, como o coueísmo.¹ Por exemplo, ele tentará explicar uma situação histórica com base na <psicose hitleriana> ou tentará consolar as massas, persuadindo-as a não perder a fé no marxismo, assegurando-lhes que, apesar de tudo, o processo avança, que a revolução não pode ser esmagada, etc.”

¹ Wiki: “Émile Coué (Troyes, França, 26 de fevereiro de 1857 – Nancy, França, 2 de julho de 1926) foi um notável psicólogo, farmacêutico e esperantista que criou um método de psicoterapia baseado na autossugestão.” [!!]

“Quando existe uma especialização no estudo dos processos psíquicos típicos e comuns a uma categoria, classe, grupo profissional, etc., excluindo diferenças individuais, então temos a psicologia de massas.”

“Marx não pôde desenvolver uma sociologia do sexo porque não existia então a sexologia. Trata-se agora de incluir no edifício das ciências sociais não só as condições econômicas, mas também as condições de economia sexual, de modo a eliminar a hegemonia dos místicos e dos metafísicos neste domínio.”

“como é possível uma teoria produzir um efeito revolucionário?”

“a <ideologia> evolui mais lentamente do que a base econômica.” Wilhelm Reich

Eis uma lei sociológica. Com quantos Steve Jobs já não nos brindou o século XX, ao passo que ainda não emergiu nenhuma nova forma política após o fascismo, último avatar anti-capitalista (pós-socialismo)? E nem surgirá – o próprio fascismo estava em Platão, claramente ligado à tirania das massas e dos demagogos. Mas ainda nos depararemos com muitas formas novas de crescimento econômico e consumismo, com que sequer podemos sonhar. Seria mais digno dizer “com que meus netos nem poderiam sonhar, mas que irão utilizar mais tarde”. Eu – eu não poderia nem compreender tal forma, na minha velhice – só poderia transmitir essa idéia com um exemplo atual se me imaginasse um ancião centenário nos anos 1990 que se deparasse com o fenômeno da internet…

Na Rússia a ideologia deu um grande salto entre 1905 e 1917, mas estacionou ali – em 1990 poderíamos dizer que a base econômica, ainda que lerda, já a havia ultrapassado. E, na realidade, o devir sociológico do povo russo regrediu. O Japão parece o perfeito contrário, a síntese da lei de Reich. Não se prevê nem se concebe o dia em que a ideologia do povo japonês poderá alcançar sua robótica pirotécnica, seu nonsense cultural esquizofrênico que é quase uma loucura coletiva intergeracional integrada ao mercado! Lolis na terra dos samurais… Bonecas infláveis que namoram universitários que não têm tempo para se masturbar enquanto se estressam tentando atingir notas de corte, nada do que é retratado em sua ficção-para-exportação. Bonsai que coexistem com prédios de base plástica, molar, que esperam o próximo terremoto de 8 pontos como o brasileiro espera o próximo assalto à lotérica…

“A inibição moral da sexualidade natural na infância, cuja última etapa é o grave dano da sexualidade genital da criança, torna a criança medrosa, tímida, submissa, obediente, <boa> e <dócil>, no sentido autoritário das palavras. Ela tem um efeito de paralisação sobre as forças de rebelião do homem, porque qualquer impulso vital é associado ao medo; e como sexo é um assunto proibido, há uma paralisação geral do pensamento e do espírito crítico. Em resumo, o objetivo da moralidade é a criação do indivíduo submisso que se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação. Assim, a família é o Estado autoritário em miniatura, ao qual a criança deve aprender a se adaptar, como uma preparação para o ajustamento geral que será exigido dela mais tarde. A estrutura autoritária do homem é basicamente produzida — é necessário ter isto presente — através da fixação das inibições e medos sexuais na substância viva dos impulsos sexuais.”

“A inibição moral, anti-sexual, impede a mulher conservadora de tomar consciência da sua situação social, e liga-a tão fortemente à Igreja, quanto mais esta a faz temer o <bolchevismo sexual>.”

“o efeito produzido pelo militarismo baseia-se num mecanismo libidinoso: o efeito sexual do uniforme, o efeito erótico do passo de ganso executado ritmicamente, o caráter exibicionista da parada militar, tudo isto é, na prática, muito mais facilmente compreendido por uma balconista ou secretária do que pelos nossos sábios políticos.”

II. IDEOLOGIA AUTORITÁRIA DA FAMÍLIA NA PSICOLOGIA DE MASSAS DO FASCISMO

“Hitler acentuou em várias passagens da sua obra Mein Kampf que a tática certa, em psicologia de massas, consistia em prescindir da argumentação, apontando às massas apenas o <grandioso objetivo final>.”

“o êxito de Hitler não pode ser explicado pelo seu papel reacionário na história do capitalismo, pois este, se tivesse sido claramente apresentado na propaganda, teria obtido resultados opostos aos desejados.” “Somente quando a estrutura de personalidade do führer corresponde às estruturas de amplos grupos um <führer> pode fazer história.” “Milhões de pessoas apoiaram a sua própria opressão, o que representa uma contradição que só pode ser explicada de um ponto de vista de psicologia de massas, e não de um ponto de vista político ou econômico.”

“na primavera de 1933, quando queria conquistar os trabalhadores da indústria, a propaganda acentuou o caráter revolucionário do movimento nazi, e <festejou-se> o 1° de maio, depois de se ter dado satisfação à aristocracia em Potsdam.”

“por que motivo [as massas] não descobririam que Hitler simultaneamente prometia a expropriação dos meios de produção, quando se dirigia aos trabalhadores, e dava garantias contra a expropriação, quando se dirigia aos capitalistas?”

“A estrutura pessoal e a história de vida de Hitler não são relevantes para a compreensão do nacional-socialismo. Mas é interessante notar que a origem da classe média baixa nas suas idéias coincidia, nos traços essenciais, com as estruturas de massas que avidamente aceitaram essas idéias.”

a grande pequeno-burguesia

“Hitler era filho de um funcionário público. (…) O pai tinha-o destinado à carreira de funcionário público, mas ele se revoltou contra este plano paterno, e decidiu não lhe obedecer <em circunstância alguma>; assim se tornou pintor e empobreceu.”

“A revolta contra a autoridade, acompanhada de respeito e submissão, é uma característica básica das estruturas da classe média, desde a puberdade até a idade adulta”

“Hitler falava da mãe com sentimentalismo. Costumava dizer que a única vez que chorara na vida fôra por ocasião da morte da mãe. A sua rejeição ao sexo e a idolatria neurótica da maternidade são claramente explicadas pela teoria da raça e da sífilis

“No início, Hitler simpatizava com a social-democracia, porque esta conduzia a luta pelo sufrágio universal, e isso podia levar a um enfraquecimento do odiado <domínio dos sifilíticos Habsburgo>. Mas repugnava-lhe a ênfase dada pela social-democracia às diferenças de classe, à negação da nação, da autoridade estatal, do direito de propriedade privada dos meios sociais de produção, da religião e da moral.”

Bismarck tornou-se o seu ídolo, por ter realizado a unificação da nação alemã e por ter lutado contra a dinastia austríaca. O antissemita Lueger e o nacionalista alemão Schönerer contribuíram decisivamente para a evolução posterior de Hitler. A partir daí, seu programa se baseou nos objetivos nacional-imperialistas que ele pensava alcançar por meios diversos, mais adequados do que os empregados pelo velho nacionalismo <burguês>. A escolha desses meios resultou do reconhecimento da força do marxismo organizado e do reconhecimento da importância das massas para qualquer movimento político.”

…Só quando à visão de mundo internacional — dirigida politicamente pelo marxismo organizado — se opuser uma visão de mundo local, organizada e conduzida com igual unidade, implicando uma energia de luta igual de ambas as partes, o sucesso se voltará para o lado da verdade eterna.

Mein Kampf, p. 384.

Uma visão de mundo só pode combater e triunfar sob a forma limitada e, por isso, integradora de uma organização política, e não numa liberdade ilimitada para interpretar uma visão geral.

MK

Os partidos <burgueses>, como a si próprios se designam, nunca mais conquistarão para as suas fileiras as massas <proletárias>, pois trata-se de dois mundos opostos, em parte natural, em parte artificialmente, que só se podem relacionar entre si através da luta. Mas triunfará o mais jovem — que é o marxismo.

…o estado de espírito do povo sempre foi uma simples descarga daquilo que se foi incutindo na opinião pública a partir de cima

“não devemos esquecer que o movimento nacional-socialista, na sua primeira arrancada vitoriosa, apoiou-se em largas camadas das chamadas classes médias, isto é, os milhões de funcionários públicos e privados, comerciantes de classe média e de agricultores de classe média e baixa. Do ponto de vista da sua base social, o nacional-socialismo foi sempre um movimento da classe média baixa, onde quer que tenha surgido: na Itália ou na Hungria, na Argentina ou na Noruega. Esta classe média baixa, que anteriormente estava ao lado das várias democracias burguesas, sofreu, necessariamente, uma transformação interna, responsável pela sua mudança de posição política. A situação social e a correspondente estrutura psicológica da classe média baixa explicam tanto as semelhanças essenciais como as diferenças existentes entre as ideologias dos fascistas e da burguesia liberal.”

“Na mais grave crise econômica jamais atravessada pelo sistema capitalista (1929-32), a classe média, representando a causa do nacional-socialismo, tomou o poder político e impediu a reconstrução revolucionária da sociedade.” “Se não tivesse feito a promessa de lutar contra a grande empresa, Hitler nunca teria ganho o apoio das classes médias. (…) as autoridades foram forçadas a tomar medidas anticapitalistas, que depois tiveram de abandonar, sob a pressão da grande empresa.”

“Aqueles que negam ou não apreciam devidamente a função da base de massas do fascismo surpreendem-se perante o fato de que a classe média, não possuindo os principais meios de produção nem trabalhando neles, não pode ser uma força motriz permanente na história e, por isso, oscila invariavelmente entre o capital e os trabalhadores. Esses mesmos não percebem que a classe média pode ser e é <uma força motriz na história>, se não permanentemente, pelo menos temporariamente como provam o fascismo italiano e o alemão.”

“Entre 1933 e 1942, assistiu-se ao seguinte paradoxo: o fascismo conseguiu superar o internacionalismo revolucionário social como movimento internacional. Os socialistas e os comunistas estavam tão certos do progresso do movimento revolucionário em relação ao progresso da reação política, que cometeram suicídio político, embora motivados pela melhor das intenções.”

DOS AGUIAR AOS VASCONCELOS, SEMPRE COM DEUS NO MEIO: “A classe média tem, em virtude da estrutura do seu caráter, uma força social extraordinária que em muito ultrapassa a sua importância econômica. É a classe que retém e conserva, com todas as suas contradições, nada mais nada menos do que vários milênios de regime patriarcal.”

“A posição social da classe média é determinada: a) pela sua posição no processo de produção capitalista; b) pela sua posição no aparelho de Estado autoritário; e c) pela sua situação familiar especial, que é conseqüência direta da sua posição no processo de produção, constituindo a chave para a compreensão de sua ideologia. A situação econômica dos pequenos agricultores, dos burocratas e dos empresários de classe média não é exatamente a mesma, do ponto de vista econômico, mas caracteriza-se por uma situação familiar idêntica nos seus aspectos essenciais.”

<A classe média nada tem a esperar deste sistema, a não ser a aniquilação. Esta é a questão: ou todos nos afundamos na grande tristeza cinzenta do proletarianismo onde todos teremos o mesmo — isto é, nada — ou então a energia e a aplicação poderão colocar o indivíduo na situação de adquirir propriedade por meio do trabalho árduo. Classe média OU proletariado! Esta é a questão.>

Estas advertências foram feitas pelos nacionalistas alemães antes das eleições para a presidência, em 1932. Os nacional-socialistas não foram tão estúpidos, tiveram o cuidado de não criar um hiato muito grande entre a classe média e os trabalhadores da indústria, na sua propaganda, e esta tática lhes proporcionou um êxito maior.”

Não faremos depender as relações germano-americanas de uma loja de miudezas[,] ligada ao destino das lojas Woolworth¹ em Berlim… a existência de tais empresas encoraja o bolchevismo… Elas destroem muitas pequenas empresas. Por isso não as aprovaremos, mas pode ter a certeza de que as suas empresas na Alemanha² não serão tratadas de modo diverso do que as empresas alemãs do mesmo tipo.

H., em entrevista a jornalista americano

¹ Rede de varejo que sobreviveu com este nome até os  anos 80. Iniciadora das práticas de R$1,99 (five-and-dime) já no séc. XIX. Ou seja, uma multinacional estadunidense encorajaria o comunismo, quando em solo alemão!

² Com certeza se refere às verdadeiras multinacionais, as corporações gigantescas que realmente interessam em escala global. ISSO é capitalismo – para vocês, gringos – e NOSSA PROSPERIDADE, para nós, alemães, queria dizer H.

“Depois da subida ao poder, nos meses de março e abril, verificou-se um saque maciço dos grandes armazéns, que logo foi freado pela direção do Partido Nacional-Socialista (proibição de intervenções autocráticas na economia, dissolução de organizações da classe média, etc.)” Como sempre, só o microempreendedor se fodeu. Nada de adquirir propriedade com trabalho árduo. Classe média é proletariado.

“As dívidas privadas aos países estrangeiros sobrecarregavam muitíssimo a classe média. Mas, enquanto Hitler era a favor do pagamento das dívidas privadas, porque, em política externa, dependia do cumprimento das exigências estrangeiras, os seus adeptos exigiam a anulação dessas dívidas. A classe média baixa revoltou-se, pois, <contra o sistema>, que ela entendia ser o <regime marxista> da social-democracia.” Odeie o mundo, mas primeiro chame-o de “meu loro”, i.e., comunismo.

“Mas, por mais que essas camadas da classe média baixa tentassem se organizar, numa situação de crise, o certo é que a concorrência econômica entre as pequenas empresas impedira que se desenvolvesse um sentimento de solidariedade comparável ao dos trabalhadores das indústrias. (…) Contudo, o movimento fascista provocou a união da classe média baixa.” Todos com a camisa da seleção exaltando o pato da FIESP: os vizinhos, eternamente estranhos e hostis entre si, finalmente se viram como uma grande família unida contra os vermelhos, Lula, a corrupção, enfim, todos os males saídos da caixa de Pandora…

Ladrão que rouba ladrão só aumenta da crise a proporção.

“O funcionário público encontra-se, geralmente, numa posição econômica inferior à do trabalhador industrial especializado; esta posição inferior é parcialmente compensada pelas pequenas perspectivas de fazer carreira e, especialmente no caso do funcionário público, pela pensão vitalícia. Extremamente dependente da autoridade governamental, esta camada desenvolve um comportamento competitivo entre colegas [muito desta verdade se tornou ultrapassada], que é contrário ao desenvolvimento da solidariedade.”

“total identificação com o poder estatal” A suposta doença do func. púb. Restaria tentar entender por que, no nosso caso, alguém gostaria de se identificar com (quem pelo menos prega) o desmame das tetas do Estado, sua seiva, sua pátria-Mãe no sentido mais doméstico e pragmático do termo, seu pão de cada dia, seu leite e nutrição por toda sua eterna existência infantil e, ora ora, parasita (prevista em contrato, ou seja, de certa forma consentida, e não um ludibrio em que se oculta da ‘vítima’ uma verdade futura indesejável – pelo contrário, sabemos tudo sobre as ‘cegonhas’ e os ‘bichos-papões’, e estamos de acordo com todas as falácias que se propagam…). Desde que se diga que somos um parasita necessário e se nos dêem garantias para continuarmos a sê-lo, qual seria o problema, ocos de consciência que somos?! Todo remorso nesse caso é uma perda de tempo e dinheiro.

“Por que motivo não desenvolve o mesmo sentimento de solidariedade que o trabalhador industrial? Isso se deve à sua posição intermediária entre a autoridade e os trabalhadores manuais. Devendo obediência aos superiores, ele é simultaneamente o representante dessa autoridade diante dos que estão abaixo dele e, como tal, goza de uma posição moral (mas não material) privilegiada. O mais perfeito exemplo deste tipo psicológico é o sargento de qualquer exército.” Mais general que soldado, mais pé-rapado que cidadão, dependendo apenas de uma tela fina e dinâmica chamada contexto.

“A força desta identificação com o patrão está patente no caso de empregados de famílias aristocráticas, como mordomos, camareiros, etc., que se transformam completamente, num esforço para esconder sua origem assumindo as atitudes e a filosofia dominantes, aparecendo como caricatura das pessoas a quem servem.” “o indivíduo da classe média baixa acaba criando uma clivagem entre a sua situação econômica e a sua ideologia. A sua vida é modesta, mas tenta aparentar o contrário, chegando, freqüentemente, a tornar-se ridículo.”

“O fraque e a cartola tornam-se símbolos materiais desta estrutura do caráter. E poucas coisas são tão adequadas a uma primeira apreciação de um povo, do ponto de vista da psicologia de massas, do que a observação da sua maneira de vestir.” Brasileiros: uns pornógrafos.

“A adaptação dos hábitos da classe média baixa pelo trabalhador industrial na América confunde estes limites.” Agora explique a Psicologia de Massas do Fascismo do Cone-Sul.

“Descrevi, em outra parte, as dificuldades que o governo soviético teve de enfrentar na época da coletivização da agricultura; não foi apenas o <amor à terra>, mas essencialmente a relação familiar criada pela terra que deu origens a tantas dificuldades.”

A possibilidade de se preservar uma classe camponesa saudável como a base para toda uma nação nunca será suficientemente valorizada. Muitos dos nossos sofrimentos atuais são apenas conseqüências de uma relação pouco saudável entre a população urbana e a população rural. Uma sólida estirpe de pequenos e médios camponeses foi, em todos os tempos, a melhor proteção contra os males sociais que agora nos afetam. E é também a única solução para assegurar à nação o pão de cada dia dentro do circuito interno da economia.

MK

BODEN BODEN

“A propriedade rural era herança inalienável da família camponesa ancestral. Mas a introdução de leis não-nativas veio destruir a base legal desta constituição rural. Apesar disso, o camponês alemão, tendo um senso saudável da concepção básica de vida do seu povo, conservou, em muitas regiões do país, o saudável costume de transmitir, de geração para geração, a propriedade rural intacta.”

“Só o cidadão alemão de sangue alemão pode ser dono de uma propriedade hereditária. Não é de raça alemã quem tiver entre os seus antepassados varões, ou entre os restantes antepassados até a quarta geração, uma pessoa de origem judaica ou de cor. Todo teutônico é de sangue alemão de acordo com esta lei [todo alemão é alemão!]. O posterior matrimônio com pessoa não-pertencente à raça alemã impede os seus descendentes de serem donos de uma propriedade hereditária.”

A mulher significava tão pouco até a geração de Hitler que em 5 gerações uma judia se alemanizava, e em 1000 gerações um homem não se desjudeizaria…

“Que tendências se revelam nesta lei? Ela contrariava os interesses dos grandes proprietários agrícolas, que pretendiam absorver tanto as propriedades pequenas quanto as médias, criando, assim, uma divisão cada vez maior entre os proprietários de terras e o proletariado rural sem-terra. Mas a frustração desse intento foi amplamente compensada por outro poderoso interesse dos grandes proprietários agrícolas: o de conservar a classe média rural, que constituía a base de massas do seu poder. Não é apenas por ser dono de propriedade privada que o pequeno proprietário se identifica com o grande proprietário; isto por si significa muito. O que importa aqui é a preservação do clima ideológico dos pequenos e médios proprietários, isto é, o clima que existe nas pequenas empresas operadas por uma unidade familiar. Esse clima é conhecido por produzir os melhores combatentes nacionalistas e de imbuir as mulheres de fervor nacionalista. Isto explica porque a reação política está sempre falando na <influência do campesinato na preservação da moralidade>.”

“Assim, no seu esforço para se diferenciar do trabalhador, o homem da classe média urbana só pode apoiar-se na sua forma de vida familiar e sexual. Suas privações econômicas têm de ser compensadas por meio do moralismo sexual. No caso do funcionário público, esta motivação é o elemento mais importante de sua identificação com o poder. Uma vez que ele se encontra numa situação inferior à da classe média alta, mas mesmo assim se identifica com ela, é necessário que as ideologias sexuais moralistas compensem a insuficiência da situação econômica.”

“Ao comprar um cavalo, o camponês procura desvalorizá-lo por todos os meios. Mas se decide vendê-lo um ano depois, o mesmo cavalo então já é mais jovem, e melhor que na época da compra. O sentido do <dever> baseia-se em interesses materiais e não em características nacionais. Os bens próprios serão sempre os melhores, os alheios sempre os piores. A desvalorização do concorrente, a maior parte das vezes um ato desonesto, é instrumento importante do <negócio>. O comportamento dos pequenos comerciantes, a sua excessiva cortesia e submissão para com os clientes, são reveladores do jugo impiedoso da sua existência econômica, capaz de deformar o melhor dos caracteres.” “apesar de toda a hipocrisia, o êxtase derivado das noções de <honra> e <dever> é autêntico.”

O povo, na sua esmagadora maioria, tem natureza e atitude tão femininas que os seus pensamentos e ações são determinados muito mais pela emoção e sentimento do que pelo raciocínio. Esse sentimento não é complicado; pelo contrário, [sic] são muito simples e claros, Não há muitas nuanças; há sempre um positivo e um negativo; amor ou ódio, certo ou errado, verdade ou mentira, e nunca situações intermediárias ou parciais.

“Enquanto as mulheres, sob as influências da classe média baixa, criam uma atitude de resignação forçada por uma revolta sexual recalcada, os filhos criam, além da atitude submissa para com a autoridade, uma forte identificação com o pai, que forma a base da identificação emocional com todo tipo de autoridade. Ainda falta muito tempo para descobrir como é possível que a criação das estruturas psíquicas da camada básica da sociedade se adapte tão bem à estrutura econômica e aos objetivos das forças dominantes como as peças de um instrumento de precisão.”

I WIN: “Há, por um lado, a competição entre as crianças e os adultos e, por outro, com conseqüências muito mais abrangentes, a competição entre os filhos de uma família no relacionamento com seus próprios pais.”

“A fraqueza sexual tem como conseqüência uma diminuição da autoconfiança, que em alguns casos é compensada pela brutalização da sexualidade, e, em outros, por uma rigidez do caráter.” “concepções patológicas e altamente emocionais de honra e dever, coragem e autodomínio.”

“O ser humano genitalmente satisfeito é honrado, responsável, corajoso e controlado, sem disso fazer muito alarde. (…) Pelo contrário, o indivíduo genitalmente enfraquecido, afetado por contradições na sua estrutura sexual, tem de estar constantemente atento para controlar a sua sexualidade, para preservar a sua dignidade sexual, para resistir às tentações, etc.”

“Todos os adolescentes e crianças, sem exceção, conhecem a luta contra a tentação da masturbação. No decorrer desta luta, começam a desenvolver-se todos os elementos da estrutura do homem reacionário. É na classe média baixa que essa estrutura se revela mais desenvolvida e mais fortemente enraizada.”

“[nos] trabalhadores [da classe baixa], dado o seu modo de vida diferente do modo de vida da classe média baixa, as forças de afirmação sexual são muito mais pronunciadas e também muito mais conscientes. A consolidação afetiva destas estruturas por meio de uma ansiedade inconsciente e o seu disfarce por traços de caráter aparentemente assexuais tornam impossível atingir esses níveis profundos da personalidade apenas por meio de argumentos racionais.”

“Deve-se ter presente que os tipos de comportamento metafísico, individual e sentimental-familiar não são mais do que aspectos diferentes do mesmo processo de negação sexual, ao passo que o modo de pensar voltado para a realidade, não-místico, se identifica com relações familiares descontraídas e com uma atitude, no mínimo, de indiferença para com a ideologia sexual ascética.”

“É lícito perguntar por que motivo o trabalhador industrial é especialmente receptivo ao internacionalismo, ao passo que o trabalhador da classe média baixa revela tão marcadas tendências para o nacionalismo.” “A estranha recusa dos teóricos marxistas em considerar a existência familiar como fator de igual importância (no que diz respeito à consolidação do sistema social) ou até mesmo decisivo no processo de formação das estruturas humanas só pode ser atribuída às suas próprias ligações familiares. Nunca é demais acentuar o fato de que a relação familiar é a mais intensa e a mais fortemente afetiva.”

“A tendência da família numerosa da classe média baixa para a expansão econômica também reproduz a ideologia imperialista: <A nação precisa de espaço e de alimentos.>

“Quem não conseguiu superar a sua própria ligação à família e à mãe ou, pelo menos, não aclarou nem excluiu tal influência do seu julgamento, deve-se abster de estudar o processo de formação das ideologias. Quem classificar depreciativamente estes fatos como <freudianos> só conseguirá provar a sua cretinice científica. (…) Os erros são possíveis e reparáveis, mas a tacanhice científica é reacionária.”

Alguém bate com um chicote na face da tua mãe, ainda por cima agradeces! É um ser humano? Não, não é um ser humano, é um monstro! Quantas coisas piores não fez e continua a fazer o judeu à nossa mãe Alemanha!

Goebbels

“Especialmente o medo da <liberdade sexual>, que nas concepções do pensamento reacionário se confunde com o caos sexual e a dissipação, tem um efeito inibidor em relação ao desejo de libertação do jugo da exploração econômica.”

“A <proteção à família>, i.e., à família autoritária e numerosa, é o princípio básico de toda a política cultural reacionária. Isto se esconde, fundamentalmente, na expressão <proteção ao Estado, à cultura e à civilização>.”

“A afirmação de que o homem e a mulher são companheiros de trabalho só é válida do ponto de vista deste elemento da classe média baixa. Não se aplica aos operários. E também para o camponês só se aplica formalmente, pois a mulher do camponês é, na realidade, a sua criada.”

“Ele atrai todas as atitudes emocionais que foram num dado momento devidas ao pai, severo mas também protetor e poderoso (poderoso na visão da criança). Muitas vezes, conversando com militantes nacional-socialistas sobre a insustentabilidade e aspecto contraditório do programa do Partido Nacional-Socialista, era comum a resposta de que Hitler compreendia muito melhor tudo isso e <havia de conseguir tudo>. Aqui está claramente expressa a necessidade infantil da proteção do pai. Transpondo isto para a realidade social, é esta necessidade das massas populares da proteção de alguém que torna o ditador <capaz de conseguir tudo>. Esta atitude das massas populares impede a autogestão social, isto é, a autonomia e cooperação nacionais. Nenhuma democracia autêntica poderá ou deverá assentar sobre tal base.” “Esta tendência à identificação constitui a base psicológica do narcisismo nacional, isto é, a autoconfiança que cada homem individualmente retira da <grandeza da nação>. O indivíduo reacionário da classe média baixa descobre-se no führer, no Estado autoritário. A sua situação material e sexual miserável é escamoteada pela exaltação da idéia de pertencer a uma raça dominante e de ter um führer brilhante, de tal modo que deixa de perceber, com o passar do tempo, quão profundamente se deixou reduzir a uma posição insignificante de cega submissão.”

“a consciência internacional da própria capacidade opõe-se ao misticismo e ao nacionalismo. Isto de modo nenhum significa que o trabalhador liberado abandone a sua autoconfiança; é o indivíduo reacionário que, em época de crise, começa a sonhar com os <serviços à comunidade> [milícia limpa-ruas] e com a <prioridade do bem-estar coletivo sobre o bem-estar individual> [hm… hino nacional nas escolas? estou à caça de uma imagem mais forte, mas não encontro…].”

“Quando os psicanalistas pouco versados em sociologia pretendem explicar a revolução social como uma <revolta infantil contra o pai>, eles têm em mente o <revolucionário> que vem dos meios intelectuais; nesse caso, a afirmação é verdadeira. Mas o mesmo já não se aplica aos operários. A opressão das crianças pelo pai, longe de ser menor, é por vezes ainda mais brutal entre a classe trabalhadora do que entre a classe média baixa. Não é esta, portanto, a questão. O que distingue especificamente estas classes reside no seu modo de produção e na atitude em relação ao sexo que deriva desses modos de produção. (…) Na classe média baixa, vemos apenas a repressão da sexualidade.”

“Os pequenos agricultores são muito permeáveis à ideologia e à política reacionárias, em conseqüência da sua economia individualista e do seu grande isolamento familiar. Este é o motivo da clivagem que se verifica entre a situação social e a ideologia. Caracterizada pelo mais rígido sistema patriarcal e por uma moral correspondente, esta camada desenvolve, contudo, formas naturais — embora deformadas — na sua sexualidade. Tal como entre os operários industriais — em contraste com os trabalhadores da classe média baixa —, os jovens desse meio começam a ter relações sexuais bastante cedo. Mas, em conseqüência da severa educação patriarcal, a juventude revela perturbações ou tendências brutais; o sexo é praticado em segredo; é comum a frigidez das mulheres; assassinatos por motivo sexual e um ciúme violento, bem como a escravização da mulher, são fenômenos típicos entre os camponeses. Em parte nenhuma histeria é tão freqüente como no meio rural. O casamento patriarcal é o objetivo máximo da educação, ditado pela economia rural.”

“O operariado industrial do século XX não é o proletariado do século XIX referido por Karl Marx. Adotou, em larga extensão, as convenções e os pontos de vista das camadas burguesas da sociedade. É certo que a democracia burguesa formal não aboliu as fronteiras econômicas entre as classes, tal como não aboliu os preconceitos raciais. Mas as tendências sociais que ela permitiu surgir apagaram as fronteiras ideológicas e estruturais entre as várias classes sociais.”

“O fascismo penetra nos grupos de trabalhadores por 2 vias: o chamado lumpem proletariat (expressão contra a qual todos se insurgem), pela corrupção material direta; e a <aristocracia dos trabalhadores>, também por meio da corrupção material como pela influência ideológica. Na sua falta de escrúpulos políticos, o fascismo alemão prometeu tudo a todos.”

“a roupa melhor para os domingos, o estilo correto de dançar e outras mil banalidades acabam por exercer uma influência incomparavelmente mais reacionária quando repetidos dia após dia do que os efeitos positivos de milhares de discursos e panfletos revolucionários.”

“Os acontecimentos políticos ocorridos nos diversos países do mundo durante os últimos 30 anos mostraram claramente que é mais fácil verificarem-se movimentos revolucionários em países de fraco desenvolvimento industrial, como a China, o México ou a Índia, do que na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Alemanha. Isto apesar dos movimentos de trabalhadores mais bem-treinados e organizados, herdeiros de velhas tradições, que existem nestes países. Pondo de lado a burocratização do movimento de trabalhadores, que é, em si mesma, um sintoma patológico, surge o problema do forte enraizamento do conservantismo na social-democracia e nos sindicatos nos países ocidentais. Do ponto de vista da psicologia de massas, a social-democracia apóia-se nas estruturas conservadoras dos seus adeptos.¹ Tal como no caso do fascismo, também aqui o problema está menos na política perseguida pelas lideranças partidárias do que na base psicológica dos trabalhadores.”

¹ Problema: a social-democracia é nosso último limite lógico e ao mesmo tempo um sistema político-econômico “vivível”, por assim dizer. Se a alternativa for simplesmente “social-democracia ou não”, evidentemente escolheremos a 1ª, pois não há qualquer possibilidade do 2º cenário ser melhor.

O PRETO TIROU SEU DIPLOMA PARA CHICOTEAR O PRÓPRIO LOMBO COM MAIS PRUMO (PTà‘NARO): “Tendo o movimento operário organizado conseguido impor algumas conquistas políticas e sociais, como a limitação do horário de trabalho, direito de voto, sistema de previdência social, isto se refletiu, por um lado, no fortalecimento da classe, mas, por outro lado, iniciou-se um processo oposto: à elevação do nível de vida correspondeu uma assimilação estrutural à classe média. Com a elevação da posição social das pessoas, <o olhar das pessoas voltava-se para cima>. Esta adoção dos hábitos da classe média intensificou-se em épocas de prosperidade mas o conseqüente efeito desta adaptação, em épocas de crise econômica, foi obstruir o desenvolvimento da consciência revolucionária.” Memento pauper.

“Ora, no momento em que o trabalhador social-democrata sofreu a crise econômica que o rebaixou ao status de coolie, o desenvolvimento de seu sentimento revolucionário foi afetado pelas décadas de conservadorismo. Ou permaneceu no terreno da social-democracia, apesar de toda a crítica e rejeição de suas políticas; ou então voltou-se para o Partido Nacional-Socialista, procurando uma melhor colocação.” “A desilusão com a social-democracia, aliada à contradição entre a miséria econômica e uma maneira de pensar conservadora, leva ao fascismo, se não houver organizações revolucionárias.”

“o governo social-democrata norueguês proibira desfiles de unidades militares. Mas, em 39, os fascistas noruegueses eram ainda os únicos que desfilavam nas ruas e faziam exercícios. A traição de Quisling¹ foi grandemente facilitada por esse <liberalismo>.”

¹ O idolozinho do Varg.

Rosa Luxemburgo defendia a opinião de que o combate revolucionário não era possível com coolies (Obras Completas, p. 647 do vol. 4 alemão). É lícito perguntar a que coolies se referia: aos de antes ou aos de depois da estruturação conservadora. Antes, lidávamos com um coolie que tinha uma obtusidade quase impossível de penetrar, mas também uma grande capacidade para a ação revolucionária; depois deparamo-nos com um coolie desiludido. Por quanto tempo poderá o fascismo utilizar em seu benefício a desilusão das massas com a social-democracia, e sua <revolta contra o sistema>?”

III. A TEORIA DA RAÇA

“o progresso e a seleção cessariam se os mais fracos, que são mais numerosos, conseguissem suplantar os seres superiores, que estão em desvantagem numérica.” O que já aconteceu desde que o tempo dos reis passou, sem conotação racial.

“Segundo Hitler, deve-se dividir a humanidade em 3 raças: as fundadoras da civilização, as portadoras da civilização e as destruidoras da civilização. A única raça fundadora de uma civilização seria a ariana, pois dela provêm <os alicerces e as muralhas das criações humanas>. Os povos asiáticos, como os japoneses e os chineses, que são portadores de civilização, ter-se-iam limitado a absorver a civilização ariana, adaptando-a a novas formas. Os judeus seriam, pelo contrário, uma raça destruidora de civilizações.” E por que quem fundou não pode destruir? Não há devir de uma raça?

“A primeira civilização humana foi baseada na utilização de raças humanas inferiores. Antes que fossem os cavalos a puxar a carroça, tinham-no feito os vencidos”

Se você decaiu, o problema é seu – é tarde para querer reascender: “logo que os vencidos começaram a utilizar a língua e a adotar o estilo dos <senhores>, e a nítida demarcação entre senhores e escravos se apagou, o ariano renunciou à pureza do seu sangue e perdeu <o seu lugar no paraíso>.” Não aceitamos trocas nem devoluções. aSSinado: Adão, O FarmaCELTICo

“os homens não sucumbem por perderem guerras, mas por perderem a capacidade de resistência”

“os teóricos da raça, que invocam uma lei biológica como base da sua teoria omitem o fato de que a seleção das raças nos animais é um produto artificial. Não interessa saber se o cão e o gato têm uma aversão instintiva ao cruzamento, mas sim se o cão pastor-alemão e o galgo-eslávico sentem a mesma aversão.

Os teóricos da raça, que são tão antigos quanto o próprio imperialismo, pretendem criar a pureza racial em povos nos quais, em conseqüência da expansão da economia mundial, a mistura das raças se encontra numa fase tão adiantada que tal pureza da raça só é concebível e aceitável por cérebros decadentes.”

“Interessa-nos particularmente o fato de Hitler falar de <incesto> para se referir ao cruzamento de um ariano com um não-ariano, [!!] quando, comumente, a palavra incesto é usada para a relação sexual entre pessoas ligadas pelo sangue. Como tamanho disparate pode ser exposto numa <teoria> que pretendia ser a base de um mundo novo, um <terceiro Reich>?”

“As concepções defendidas pela ditadura têm de ser inicialmente compreendidas a partir da base econômica de que provêm. Assim a teoria racial fascista e a ideologia imperialista têm uma relação concreta com os objetivos imperialistas de uma classe dominante que pretende solucionar dificuldades de natureza econômica.”

“Por vezes, o nacionalismo nem se encontra representado objetivamente no plano social, e muito menos pode ser identificado com pontos de vista raciais. Na antiga Áustria-Hungria, o nacionalismo não se identificava com a raça, mas sim com a <pátria> austro-húngara. Quando, em 1914, Bethmann-Hollweg fez um apelo <ao teutonismo contra o eslavismo>, logicamente deveria ter marchado contra a Áustria, Estado predominantemente eslavo. Disto se conclui que as condições econômicas em que surge uma ideologia explicam a sua base material, mas não proporcionam um conhecimento imediato do seu fundo irracional.”

“…a contaminação das massas pela sífilis, encontramo-la… nos nossos filhos. (…) Nas doenças dos filhos estão patentes os vícios dos pais.”

A moça, descrita por alguns estrangeiros conto sendo magra, delicada e extremamente bonita, apesar da cabeça raspada e do estado em que se encontrava, foi conduzida ao longo da fila de hotéis internacionais das proximidades da estação, através das ruas principais, cuja circulação se encontrava vedada pela multidão, e depois, de restaurante em restaurante. Era escoltada por soldados nazis e seguia-se uma multidão calculada, por observadores fidedignos, em cerca de 2000 pessoas. Tropeçou algumas vezes e os S.A. que a acompanhavam obrigavam-na sempre a voltar a ficar em pé, tendo-a por vezes levantado nos braços, para que os espectadores afastados a pudessem ver; nestas ocasiões, a multidão insultava-a e convidava-a, por zombaria, a fazer um discurso.

(…)

No peito e nas costas foram-lhe colocados cartazes com a seguinte inscrição: Eu, desavergonhada criatura, ousei permanecer sentada enquanto se tocava o canto Horst-Wessel, ofendendo assim as vítimas da revolução nacional-socialista.

Times, ago/33

“A concepção da <alma> e da sua <pureza> é o credo da assexualidade, da <pureza sexual>.”

“Segundo Rosenberg, os gregos teriam sido originariamente os representantes da raça nórdica pura.” “Os deuses do Oriente Próximo contrastam com estes deuses que simbolizam a pureza, o sublime e a religiosidade.” “Dionísio, deus do êxtase, da volúpia, da excitação, representaria a <intrusão da raça estrangeira dos etruscos e o começo da decadência do helenismo>.”

“O grande romantismo alemão sente, com o frêmito da veneração, que véus cada vez mais escuros encobrem os deuses luminosos do céu, e mergulha profundamente no instintivo, no amorfo, no demoníaco, no sexual, no extático, no ctônico, na veneração da mãe.”

“O domínio masculino da era platônica é inteiramente homossexual. O mesmo princípio domina a ideologia fascista da camada dirigente masculina (Blüher, Roehm, etc.).”

“O heterismo é completado pela homossexualidade dos homens que, em conseqüência da vida conjugal que lhes é imposta, recorrem às heteras ou aos efebos, tentando assim restaurar a sua capacidade de vivência sexual.”

“A estreita associação entre essas noções — <comunidade de bens e de mulheres> — desempenha um papel central na luta antirrevolucionária.”

“No capitalismo primitivo e nas grandes civilizações asiáticas de tipo feudal, a classe dominante ainda não está interessada na repressão sexual da classe oprimida.”

“É claro o que se pretende dizer com a expressão <robustez física>: é aquele elemento remanescente da espontaneidade sexual que distingue os membros das classes reprimidas dos membros da classe dominante, e que é gradualmente embotado no decurso da <democratização>, sem contudo se perder inteiramente.”

“Psicologicamente, a serpente Poseidon e o dragão Píton representam a sensualidade genital, simbolizada pelo falo.”

“Não existe ameaça mais séria para um ditador do que a classe média baixa perder sua atitude moralista em relação ao sexual à medida que perde a sua posição econômica intermediária entre o trabalhador industrial e a classe superior.”

IV. O SIMBOLISMO DA SUÁSTICA

“Conversas com partidários do nacional-socialismo, especialmente com membros das S.A., revelavam claramente que a fraseologia revolucionária do nacional-socialismo foi um fator decisivo para conquistar as massas. Podiam-se ouvir nacional-socialistas negando que Hitler representasse o capital. Podiam-se ouvir membros das S.A. advertindo Hitler para que não traísse a causa da <revolução>. Podiam-se ouvir membros das S.A. afirmando que Hitler era o Lenin alemão. Quem passava da social-democracia e dos partidos liberais do centro para o nacional-socialismo eram, sem exceção, as massas com tendências revolucionárias, anteriormente apolíticas ou politicamente indecisas.”

“Os nacional-socialistas sabiam utilizar melodias revolucionárias, aplicando-lhes letras reacionárias.”

Como nacional-socialistas, vemos na nossa bandeira o nosso programa. Vemos no vermelho a idéia social do movimento, no branco a idéia nacionalista, na suástica a nossa missão de luta pela vitória do homem ariano e, pela mesma luta, a vitória da idéia do trabalho criador que, como sempre, tem sido e haverá de ser anti-semita

MK, p. 496

“Judeu e negro não são diferentes na mente do fascista. Isto é verdade também para o americano. Na América a luta racial contra o negro se desenrola predominantemente na esfera da defesa sexual. O negro é concebido como um porco sensual que viola as mulheres brancas.”

a França é e continuará sendo, de longe, o inimigo mais temível. Esse povo que se negrifica cada vez mais constitui, pela sua ligação aos objetivos judeus de dominação mundial, um perigo latente para a existência da raça branca na Europa. A contaminação com sangue negro no Reno, no coração da Europa, serve tanto à sede de vingança sádica e perversa desse ancestral chauvinista do nosso povo como ao frio calculismo dos judeus

“Temos de nos habituar a escutar com atenção o que o fascista diz sem julgarmos imediatamente que se trata de puro disparate ou engodo. Compreendemos melhor o conteúdo emocional desta teoria, próxima de um delírio de perseguição, quando a relacionamos com a teoria do envenenamento da nação.”

“A suástica também foi encontrada entre os semitas, mais precisamente no pátio dos Mirtos do Alhambra de Granada. Herta Heinrich descobriu-a nas ruínas da sinagoga de Edd-Dikke, na Jordânia oriental, nas margens do lago de Genesaré.” “Percy Gardner encontrou-a na Grécia, onde a designavam por Hemera e era o símbolo do Sol, representando, novamente, o princípio masculino. Löwenthal descreve uma suástica do século XIV, que ele encontrou na toalha do altar da igreja Maria zur Wiesa, em Soest; aí ela se encontra combinada com uma vulva e uma cruz de travessa dupla. Neste caso, a suástica é o símbolo do céu anunciando trovoada, e o losango é o símbolo da terra fértil. Smigorski encontrou a suástica na forma da cruz suástica indiana, como relâmpago quadripartido, com três pontos em cada braço”

D. QUIX: “A suástica é, portanto, originariamente um símbolo sexual. No decorrer dos tempos, assumiu vários significados, entre os quais, mais tarde, o de uma roda de moinho, símbolo de trabalho.” “De acordo com Zelenin, os antigos lexicógrafos indianos chamam de suástica tanto à ereção como à volúpia”

“é de supor que este símbolo, representando 2 figuras enlaçadas, provoque uma forte excitação em estratos profundos do organismo, excitação essa que será tanto mais forte quanto mais insatisfeita, quanto mais ardente de desejo sexual estiver a pessoa. Se, apesar disso, este símbolo é apresentado como emblema de respeitabilidade e de fidelidade, satisfaz igualmente as tendências de defesa do ego moralista.”

V. OS PRESSUPOSTOS DA ECONOMIA SEXUAL SOBRE A FAMÍLIA AUTORITÁRIA

“A idealização e o culto da maternidade, que tão flagrantemente contrastam com a brutalidade com que são tratadas na realidade as mães da classe trabalhadora, são essencialmente, meios para não permitir que as mulheres adquiram consciência sexual, ultrapassem o recalcamento sexual imposto e vençam a ansiedade sexual e os sentimentos de culpa sexual. A mulher sexualmente consciente, que se afirma e é reconhecida como tal, significaria o colapso completo da ideologia autoritária.”

“A ideologia da <felicidade da família numerosa> é necessária não apenas para a preservação da família autoritária mas também serve aos interesses do imperialismo bélico; seu objetivo essencial é desvalorizar a função sexual da mulher face a sua função de reprodução.” “Esta noção não é menos reacionária quando é defendida por comunistas como Salkind e Stoliarov.”

“Numa sociedade em que as mulheres têm de estar dispostas a ter filhos, sem qualquer proteção social, sem garantias quanto à educação das crianças, sem mesmo poderem determinar o número de filhos que terão, mas em que mesmo assim têm de ter filhos sem se insurgirem contra isso, é realmente necessário que a maternidade seja idealizada, em oposição à função sexual da mulher.”

ANTIABORTISTA É FASCISTA

A preservação da família numerosa já existente confunde-se com a preservação da forma da família numerosa porque estas duas questões são, na realidade, indissociáveis… A conservação da forma da família numerosa é uma necessidade nacional, cultural e política… (…) A interrupção da gravidez é contrária ao próprio sentido da família, cuja missão é precisamente a educação das novas gerações, além do fato de que essa interrupção significaria a liquidação definitiva da família numerosa.

texto facho, Völkischer Beobachter, 14/10/31

“O argumento do exército de reserva perdeu quase totalmente a sua importância nos anos de crise econômica, quando havia vários milhões de desempregados na Alemanha e cerca de 40 milhões no mundo inteiro, no ano de 1932. Quando a reação política repete sem cessar que a manutenção da lei do aborto é necessária no interesse da família e da <ordem moral>, quando o higienista social Grothjan, que era social-democrata, toma, neste ponto, a mesma atitude que os nacional-socialistas, somos forçados a acreditar como eles que <família autoritária> e <éticas moralistas> são forças reacionárias de importância decisiva.”

“Para o assalariado da civilização moderna família e modo de existência social não são coincidentes.”

“Estas mulheres votaram pelo planejamento familiar, de acordo com os princípios da economia sexual, porque queriam preservar o seu direito à satisfação sexual; mas, simultaneamente, votaram naqueles partidos, não porque desconhecessem as suas intenções reacionárias, mas porque, sem terem consciência dessa contradição, estavam simultaneamente dominadas pela ideologia reacionária da <maternidade pura>, da oposição entre maternidade e sexualidade e, especialmente, pela própria ideologia autoritária. Essas mulheres desconheciam o papel sociológico desempenhado pela família autoritária numa ditadura, e encontravam-se influenciadas pela política sexual reacionária”

“As pessoas passarão a viver a sua vida ao máximo, desenfreadamente, livremente e sem limites. Marido e mulher: não pertencerão mais um ao outro, em vez disso um homem está hoje com uma mulher, amanhã com outra, conforme lhe apetecer. A isto se chama liberdade, amor livre, nova moral sexual. Mas todos estes nomes bonitos não podem ofuscar o fato de que grandes perigos estão espreitando. São conspurcados sob estas práticas os mais belos e mais nobres sentimentos dos homens: o amor, a fidelidade, o sacrifício. É completamente impossível, é contra a lei da natureza, que esse homem ou essa mulher possam amar muitas pessoas ao mesmo tempo. Isso só poderia levar a um embrutecimento imprevisível que destruiria a civilização. Não sei como são estas coisas na União Soviética mas, ou os russos são pessoas especiais, ou não é verdade que eles tenham permitido essa liberdade absoluta, e ainda deve haver certas sanções…”

“Encontrando-se sujeito a uma forte coação, reage com impulsos para a promiscuidade e acaba por se defender contra as duas coisas. A moral representa um pesado fardo, e o instinto aparece como um perigo tremendo. O ser humano que recebeu e conservou uma educação autoritária não conhece as leis naturais da auto-regulação, e não tem confiança em si próprio; tem medo da sua própria sexualidade porque não aprendeu a vivê-la naturalmente. Por isso rejeita a responsabilidade pelos seus atos e tem necessidade de direção e orientação.”

“Em conseqüência desta atitude comunista, toda mulher ou moça tem o dever de satisfazer o impulso sexual do homem. E como isto nem sempre acontece voluntariamente, a violação de mulheres tornou-se uma autêntica praga na União Soviética.

Mentiras deste tipo, forjadas pela reação política, não podem ser descartadas apenas desmascarando-as como mentiras que são; nem é suficiente assegurar, em resposta, que os outros são tão <morais> quanto eles, que a revolução não destrói a família autoritária e o moralismo, etc. O fato é que, na revolução, a vida sexual sofreu uma alteração, e a antiga ordem compulsiva se dissolveu. Não se pode negar este fato, assim como não se pode definir a posição correta em matéria de economia sexual, se tolerarmos, no nosso próprio campo, concepções ascéticas sobre estas questões, deixando-as atuar livremente.”

VI. O MISTICISMO ORGANIZADO COMO ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL ANTI-SEXUAL

“Dado que o contágio místico é o pré-requisito psicológico mais importante para a absorção da ideologia fascista pelas massas, o estudo da ideologia fascista não pode prescindir da investigação dos efeitos psicológicos do misticismo em geral.”

Papen foi o antecessor de Hitler no cargo e mais tarde desempenhou um importante papel como diplomata do governo fascista.”

“A polícia de Hamburgo ordenou aos seus agentes que prestassem particular atenção ao comportamento dos praticantes de esportes aquáticos, que freqüentemente <não observam os princípios naturais da <moral pública>. A polícia de segurança pública faz saber publicamente que intervirá sem hesitação e que internará em campos de concentração os utilizadores de canoa que infringirem as suas ordens, a fim de que aprendam a comportar-se com decência e moralidade.”

“A educação da juventude para apreciar o valor do Estado e da comunidade recebe a sua força interior das verdades do cristianismo… A fidelidade e a responsabilidade para com o povo e a prática têm as suas raízes mais profundas na fé cristã. Por este motivo, será sempre meu especial dever assegurar o direito e a livre propagação da escola cristã e os fundamentos cristãos de toda a educação.”

“O cristianismo do império de Guilherme I é necessariamente diferente do cristianismo do nacional-socialismo.”

“O nacional-socialismo começou por rejeitar o Antigo Testamento, por ser <judeu> — assim fez, pelo menos, na pessoa do seu conhecido representante Rosenberg, que pertencia à sua ala direita. Da mesma maneira, o internacionalismo da Igreja Católica Romana era considerado <judeu>. A Igreja internacional devia ser substituída pela <Igreja nacional alemã>. Após a tomada do poder a Igreja foi, na realidade, colocada na linha. Isto reduziu o seu campo de atuação política mas, em contrapartida, alargou consideravelmente a sua influência ideológica.”

“Era necessário evitar a todo custo uma identificação do Deus judeu com a Santíssima Trindade. O fato de o próprio Jesus Cristo ser judeu era um ponto melindroso. Mas Stapel encontrou rapidamente uma solução: como Jesus era filho de Deus, não podia ser considerado judeu. Os dogmas e tradições judaicos deviam dar lugar à <experiência da consciência individual>; a remissão dos pecados ao <conceito de honra pessoal>.

A crença da transmutação da alma depois da morte é rejeitada como ato de bruxaria típico dos povos das ilhas dos mares do sul. O mesmo acontece em relação à imaculada concepção da Virgem Maria.”

“O grande êxito do misticismo religioso deve-se necessariamente ao fato de se ter baseado essencialmente na teoria do pecado original como ato sexual realizado por prazer. O nacional-socialismo conserva esse tema, mas explora-o com o auxílio de outra ideologia, mais adequada aos seus objetivos”

…E NASCE KONOHA

O crucifixo é o símbolo da doutrina do cordeiro sacrificado, uma imagem que nos faz sentir o esmorecer de todas as forças e que nos deprime também interiormente pela… terrificante representação da dor, tornando-nos humildes como desejam as igrejas ávidas de domínio… Uma igreja alemã substituirá gradualmente a crucificação, nas igrejas que passarem para a sua tutela, pelo instrutivo espírito de fogo que personifica o herói no seu sentido mais sublime.

Rosenberg, Mythus, P. 577

Um dia, o Estado racial étnico do povo ainda deverá descobrir suas raízes mais profundas na religião. Só quando a fé em Deus deixar de estar associada a um acontecimento particular do passado, mas estiver intimamente ligada, através da experiência de vida, à ação e à vida nativas de um povo e de um Estado, então o nosso mundo estará de novo alicerçado em bases sólidas.

Ludwig, Haase, Nationalsozialistiscbe Monatshefte, I, n° 5, p. 213.

“Não se atacou o aumento das receitas pastorais, na Baviera, de 5.87 milhões de marcos em 1914 para 19.7 em 1931 (ano de crise grave!)”

“1. Os eclesiásticos são funcionários do Estado.

2. O Estado admite que a secularização de 1817 (expropriação de bens da Igreja) constituiu uma grave injustiça e deixa à sua consideração reclamar a restituição desses bens ou de uma indenização no montante de 60 milhões de marcos-ouro.

3. O Estado gasta quase 50% dos rendimentos das florestas do Estado bávaro para poder pagar parte das rendas devidas à Igreja; por isso, hipotecou por assim dizer, os seus rendimentos florestais à Igreja.

4. A Igreja tem o direito de cobrar impostos, com base nas listas dos contribuintes civis (imposto da Igreja).

5. A Igreja tem o direito de adquirir e manter, a título de propriedade, novos bens, que são invioláveis e serão defendidos pelo Estado.

6. O Estado compromete-se a indicar e a pagar aos altos dignitários da Igreja uma <residência condigna com a sua situação e dignidade>.

7. A Igreja, os seus padres e os seus 28 mil monges gozam de uma liberdade ilimitada no exercício das suas atividades religiosas e industriais (fabricação de livros, cerveja e aguardente). [!]

8. Tanto a Universidade de Munique como a de Würzburg devem contratar um professor de filosofia e um de história, que sejam da confiança da Igreja e só ensinem de acordo com o seu espírito.

9. O Estado garante o ensino da religião nas escolas primárias, e o bispo e os seus delegados têm o direito de denunciar às autoridades civis, exigindo uma solução para o problema, situações suscetíveis de ofender os alunos católicos na sua prática religiosa pública, e as influências desfavoráveis ou impróprias (!) que daí poderiam resultar.”

Lei de 1925, que continuou vigente no nazismo.

“Não é suficiente que as concepções científicas do mundo progridam, se esse progresso for tão lento que vá sendo cada vez mais ultrapassado pelo contágio místico. A causa disto só pode estar na nossa compreensão incompleta do próprio misticismo. O esclarecimento científico das massas consistiu essencialmente em mostrar as práticas corruptas dos dignitários e funcionários da Igreja. Mas a esmagadora maioria das massas foi deixada nas trevas. O esclarecimento científico apelou apenas para o intelecto das massas — e não para os seus sentimentos. O mais completo desmascaramento de um príncipe da Igreja deixa impassível alguém que tenha uma mentalidade mística, assim como lhe são indiferentes o conhecimento pormenorizado do auxílio financeiro concedido pelo Estado à Igreja, com os tostões dos trabalhadores, como na análise histórica da religião, feita por Marx & Engels.”

“as associações cristãs de jovens congregavam cerca de 30x mais membros do que os Partidos Comunista e Social-democrata juntos: para cerca de 1.5 milhão de jovens cristãos havia, em 1930-32, cerca de 50 mil membros do partido comunista e 60 mil do partido socialista.”

Exigimos que o Estado proteja por todos os meios nossa herança cristã da influência venenosa de uma imprensa suja, de uma literatura obscena e de filmes eróticos, que degradam ou falsificam os sentimentos nacionais…

“Os comunistas esperavam que os jovens cristãos percebessem, por si mesmos, que a Igreja estava desempenhando uma função capitalista. Por que não puderam perceber? Evidentemente porque essa função lhes era desconhecida, e ainda porque sua formação autoritária tornou-os crédulos, sem capacidade de crítica. Também não se pode ignorar o fato de que os representantes da Igreja, nas organizações de jovens, falavam contra o capitalismo, de modo que a antítese entre as posições sociais assumidas por comunistas e padres não era imediatamente perceptível para a juventude cristã. De início, teve-se a impressão de que só no domínio da sexualidade havia uma clara distinção. Parecia que os comunistas tinham uma opinião positiva em relação à sexualidade dos jovens, contrariamente à posição da Igreja. Mas em breve verificou-se que as organizações comunistas não só deixaram completamente de lado este importantíssimo domínio, mas também rapidamente se associaram à Igreja na condenação e na repressão da sexualidade dos jovens.”

“Uma organização de jovens trabalhadores convidou um pastor protestante para uma discussão sobre a crise econômica. Este compareceu, acompanhado e protegido por cerca de 20 jovens cristãos de idade compreendida entre os 18 e os 25 anos. Indicaremos a seguir os principais pontos de vista defendidos na sua conferência, afirmando desde já que a conclusão de maior importância para o nosso estudo é o modo como ele saltava de afirmações parcialmente corretas para pontos de vista místicos. As causas da miséria eram, segundo explicou, a guerra e o plano de Young. A guerra mundial seria uma manifestação da depravação dos homens e da sua baixeza, uma injustiça e um pecado. Também a exploração praticada pelos capitalistas seria um pecado grave. Ficava difícil neutralizar a sua influência uma vez que ele próprio assumia uma posição anticapitalista e ia assim ao encontro dos sentimentos dos jovens cristãos. Capitalismo e socialismo seriam fundamentalmente a mesma coisa. O socialismo da União Soviética seria uma forma de capitalismo, e o crescimento do socialismo implicaria desvantagens para algumas classes, tal como o capitalismo para outras. Era necessário <quebrar os dentes> do capitalismo, qualquer que a sua forma fosse; a luta do bolchevismo contra a religião era um crime, a religião não era responsável pela miséria, pois o mal estava no fato de o capitalismo fazer mau uso da religião. (O pastor era decididamente progressista.) Quais as conseqüências de tudo isto? Como os homens são maus e pecadores, seria impossível eliminar a miséria, sendo pois necessário suportá-la, habituar-se a ela. O próprio capitalista não era feliz. A angústia interior, que está na raiz de toda angústia, não desapareceria, mesmo depois da aplicação do terceiro plano qüinqüenal da União Soviética.” “No fim, chegou-se à conclusão de que era impossível conciliar as posições contrárias e de que ninguém sairia dali com uma convicção diferente daquela com que chegara. Os jovens acompanhantes do pastor bebiam-lhe as palavras; pareciam viver nas mesmas condições de opressão material que os jovens comunistas, mas concordavam com o ponto de vista de que não há remédio contra a miséria, de que é necessário conformar-se com ela e <ter fé em Deus>. Prosseguindo o debate, perguntei a alguns jovens comunistas por que motivo não tinham abordado a questão principal, ou seja, a insistência da Igreja na abstinência sexual. Responderam-me que este assunto teria sido muito melindroso e difícil, que teria tido o efeito de uma bomba e que, enfim, não era costume abordá-lo em discussões de caráter político.”

“A Igreja afirma que o uso de métodos anticoncepcionais é contra a natureza, como o é qualquer entrave à procriação natural. Ora, se a natureza é tão rigorosa e tão sábia, por que razão criou um aparelho sexual que não incita a ter relações sexuais apenas quando se quer ter filhos, mas numa média de 2 a 3 mil vezes na vida?” “Por que motivo Deus teria criado um aparelho sexual com duas glândulas, uma para a excitação sexual e outra para a procriação?” “Por que motivo as crianças manifestam desde a mais tenra idade uma certa sexualidade, muito antes de se ter desenvolvido a função da procriação?”

“As respostas embaraçadas dos representantes da Igreja foram acolhidas com gargalhadas. Quando comecei a explicar o papel desempenhado pela negação da função do prazer, por parte da Igreja e da ciência reacionária, no âmbito da sociedade autoritária, quando expliquei que a repressão da satisfação sexual tem o objetivo de provocar uma atitude de humildade e resignação, também no campo econômico, fui apoiado por toda a sala. Os representantes do misticismo tinham sido derrotados.”

“Ao empregar o termo <bolchevismo>, o místico não tem em mente o partido político fundado por Lenin. São-lhe inteiramente desconhecidas as controvérsias sociológicas ocorridas na passagem do século. As palavras <comunista>, <bolchevique>, <vermelho>, etc., tornaram-se lemas reacionários que nada têm a ver com a política, o partido, a economia, etc. Estas palavras são tão irracionais como a palavra <judeu> na boca de um fascista. (…) Roosevelt é rotulado como <judeu> e <vermelho> pelos fascistas.” “Sempre que aparecer a palavra <bolchevismo>, devemos pensar também em <ansiedade orgástica>.”

“uma educação mística torna-se a base do fascismo sempre que um abalo social põe as massas em movimento.”

“A linha de argumentação do folheto limita-se a resumir, sistematizar e aplicar à guerra atual as idéias provenientes da mitologia Xinto, que os políticos japoneses, sob a chefia de Yosuke Matsuoka, tornaram dogma imperialista para justificar a política de expansão do Japão. (…) Neste sentido, o professor Fujisawa é uma espécie de Wagner e de Nietzsche japonês, e o seu panfleto, o equivalente japonês do Mein Kampf de Hitler. Tal como foi o caso com relação ao Mein Kampf, o mundo prestou pouca atenção a esta tendência do pensamento japonês, que foi encarada como mera fantasia ou relegada ao campo da teologia.”

“É digno de nota que o princípio orientador da Alemanha nacional-socialista e da Itália fascista tenha muito de comum com o princípio Musubi, um dos muitos que distinguem as potências do Eixo das democracias e da União Soviética.”

“Embora todas as crônicas e histórias japonesas admitam que na fundação do império japonês — que o governo japonês data de 2600 a.C. mas que os historiadores datam do princípio da era cristã — os habitantes das ilhas japonesas eram ainda selvagens primitivos, alguns dos quais <homens com cauda> que viviam em árvores, o professor Fujisawa declara brandamente que o Japão é a terra-mãe de toda a raça humana e da sua civilização.”

“De acordo com esta tese professoral, os sumérios — que eram tidos por fundadores da civilização babilônica, da qual floriram as restantes civilizações, incluindo as do Egito, da Grécia e de Roma — são semelhantes aos antigos colonos japoneses de Erdu, o que, diz Fujisawa, explica a correspondência entre os relatos pré-históricos do Japão e o Antigo Testamento. Segundo ele, o mesmo acontece com os chineses, que, acentua, foram civilizados pelos japoneses, e não o contrário. Não obstante, as histórias japonesas indicam que os japoneses só aprenderam a ler e a escrever quando os coreanos e os chineses os ensinaram, por volta de 400 a.C.”

Infelizmente, a ordem mundial, com o Japão funcionando como centro unificador absoluto, ruiu em conseqüência de repetidos terremotos, erupções vulcânicas, enchentes, ondas gigantescas e glaciações. Devido a estes cataclismos tremendos, a humanidade separou-se geográfica e espiritualmente da terra-mãe

“Os contos de terror ouvidos na infância, mais tarde as histórias policiais, a atmosfera misteriosa da igreja, tudo isso prepara o terreno para a posterior suscetibilidade do aparelho biopsíquico às comemorações militares e patrióticas.”

“Em regra, os morfinômanos não têm capacidade de satisfação sexual e por isso tentam satisfazer artificialmente as suas excitações, nunca sendo completamente bem-sucedidos. Geralmente são sádicos, místicos, vaidosos, homossexuais e atormentados por uma ansiedade consumidora, que tentam neutralizar por um comportamento violento.”

De Coster – Till Eulenspieger

“Valeria a pena dedicarmo-nos ao estudo exaustivo das diversas seitas místicas dos Estados Unidos, da ideologia budista na Índia, das várias correntes teosóficas e antroposóficas, etc., como manifestações socialmente importantes da economia sexual patriarcal.”

O REGINADUARTISMO: “O líder reacionário sente o perigo que ameaça a consolidação estrutural do misticismo imperialista (‘cultura’); tem uma visão melhor e mais profunda desse perigo do que o revolucionário tem do seu objetivo, porque este começa por concentrar todas as suas forças e toda a sua inteligência na transformação da ordem social.”

“Na prática do trabalho de massas, o revolucionário esquece facilmente — e às vezes com prazer — que o verdadeiro objetivo não é o trabalho (a liberdade social traz uma diminuição progressiva da jornada de trabalho), mas sim a atividade e a vida sexuais em todas as suas formas, desde o orgasmo até as mais elevadas realizações.” “Se, em conseqüência das suas próprias inibições sexuais, ele não compreende totalmente o objetivo da organização social baseada na liberdade, a sua reação consiste em negar o próprio prazer, tornando-se asceta e perdendo assim todas as possibilidades de se fazer ouvir pela juventude. No filme soviético O Caminho da Vida,¹ que nos outros aspectos é excelente, não é a vida sexual livre que é contraposta à vida sexual do homem dissoluto (na cena da taberna), mas sim o ascetismo e a anti-sexualidade. O problema sexual dos adolescentes é inteiramente omitido; isso está errado e acaba por confundir, em vez de trazer soluções.”

¹ Putyovka v zhizn, 1931.

VII. A ECONOMIA SEXUAL EM LUTA CONTRA O MISTICISMO

“A escuridão mística das igrejas aumenta os efeitos de uma sensibilidade tomada de modo supra-individual em relação à própria vida interior e aos sons de um sermão, de um coral, etc., planejados para produzir esse efeito.”

“O tratamento de sacerdotes mentalmente doentes revelou que o auge dos estados de êxtase religioso é freqüentemente acompanhado por uma ejaculação involuntária.” “O sentimento religioso é subjetivamente verdadeiro e assenta em bases fisiológicas. A negação da natureza sexual dessa excitação provoca falsidade de caráter.”

“Crianças não acreditam em Deus. A fé em Deus só se inculca nelas quando têm de aprender a reprimir a excitação sexual, que ocorre a par da masturbação. Assim começam a ter medo do prazer e, depois, a acreditar realmente em Deus, a temê-lo. Por um lado, elas o temem como um ser onipresente e onisciente, e, por outro, invocam a sua proteção contra a própria excitação sexual. Tudo isto tem a função de evitar a masturbação. A inculcação das concepções religiosas processa-se, portanto, na primeira infância.”

“Quem não respeita o pai comete um pecado; em outras palavras, quem não teme o pai, quem se entrega ao prazer sexual, é castigado.”

“Lieber Gott, nun schalf ich ein, schicke mir ein Engelein.

Vater, lass die Augen Dein, über meinem Bette sein.

Hab ich Unrecht heut getan, sieh es, lieber Gott, nicht an.

Vater, hab mit mir Geduld und vergib mir meine Schuld.

Alle Menschen, gross und klein, mögen Dir befohlen sein.”

VITÓRIA & FRACASSO

(panfleto puritano nazi)

Começa previsivelmente mal-interpretando e utilizando sem o devido contexto um aforismo de Nietzsche.

“A nossa época é uma época doente. Em tempos passados, exigia-se que Eros se submetesse à disciplina e à responsabilidade. Hoje, pensa-se que o homem moderno já não necessita de disciplina. Esquecemo-nos, no entanto, que o homem de hoje, habitante das grandes cidades, é muito mais nervoso e tem menos força de vontade, precisando, por isso, de mais disciplina.” Não deixa de ser uma passagem verdadeira, conquanto um intróito para idéias erradas e a ignorância acerca da gênese de Eros!

Não há dúvida de que a prática freqüente da masturbação é muito prejudicial à saúde do corpo, e que esse vício ocasiona, mais tarde, perturbações várias, como o nervosismo, incapacidade mental para o trabalho e abatimento físico.

Hartung

É notável que alguns casos de contágio, aparentemente simples, possam provocar males tão graves, de tal modo que por vezes decorrem muitos anos entre o contágio inicial e a manifestação de uma doença nervosa incurável; e que a doença hoje tão comum, a que os leigos chamam amolecimento cerebral, tenha origem, em mais de 60% dos casos, nos primeiros contágios (sic) sexuais.

Binswanger [!]

“do mesmo modo que Jesus amava o pecador e ajudava todos aqueles que aceitavam a sua ajuda, opondo-se no entanto ao próprio pecado com uma santa severidade, assim também nós devemos combater os fenômenos da homossexualidade, que corrompem o nosso povo e a nossa juventude.”

O CONTRASTE COM O VANGUARDISMO DE REICH SÓ NÃO É MAIS GRITANTE QUE UM MUNCH! “Também é urgente fazer uma advertência contra o uso de meios anticoncepcionais. A única proteção verdadeira é guardar castidade até o casamento.”

“É aconselhável tudo o que fortaleça o corpo e facilite a luta contra as práticas imorais: ginástica, esporte, natação, passeios a pé, levantar logo após o despertar.”

“Escolha honestamente! Mundo do Vício ou mundo Superior? Animal ou Ser Espiritual? Vitória ou Fracasso?” Um ato falho revelador: a vitória está com a animalidade e o ‘vício’ fenomênico!

* * *

VENERAÇÃO DA VIRGEM MARIA & O JOVEM – Gehard Kremer, “doutor em Teologia”

“Os símbolos dessa cavalaria já não existem; mas o que é mais grave é que, entre a juventude masculina, enfraquece cada vez mais o respeito tímido pela mulher, dando lugar ao comportamento frívolo e baixo do cavaleiro salteador.”

“Não faça mal a nenhuma moça; lembre-se de que também sua mãe foi moça.”

* * *

“O homem saudável, orgasticamente potente, é capaz de grande veneração por figuras históricas. Mas não há correlação entre a sua apreciação da história primitiva do homem e a sua felicidade sexual. Ele não tem que se tornar místico, reacionário ou escravo da metafísica para avaliar os fenômenos históricos.”

DAVISMO (só andava para todo canto de mãos dadas com a mamãe até os 14 ou 15 anos de idade): “O Antigo e o Novo Testamento podem ser considerados como criações gigantescas do espírito humano, mas não se deve utilizar essa admiração para reprimir a sexualidade. Aprendi, com base na minha experiência de médico, que o adolescente sexualmente doente tem uma visão doente da lenda de Jesus.”

“A diferença entre a reação mística e a reação sexual reside no fato de a primeira não permitir a percepção da excitação sexual e impossibilitar a descarga orgástica, mesmo quando se trata do chamado êxtase religioso.” “A defesa contra o desejo orgástico força o ego a ter concepções compulsivas de <pureza> e <perfeição>. Enquanto a sensualidade e a capacidade de satisfação saudáveis proporcionam uma autoconfiança natural, a experiência mística cria, com base naquelas formações de defesa, uma autoconfiança forçada e deteriorada.” “Isto explica por que motivo o homem educado segundo a <ética> mística ou nacionalista é tão permeável aos lemas reacionários, tais como <honra>, <pureza>, etc. É que ele é permanentemente forçado a comportar-se convenientemente, a ser honrado e puro. O caráter baseado na genitalidade é espontaneamente puro e honrado, não necessitando para isso de constantes advertências.”

VIII. ALGUMAS QUESTÕES DA PRÁTICA DA POLÍTICA SEXUAL

“As conclusões científicas são invariavelmente progressistas, freqüentemente mesmo revolucionárias. Para nós, a construção de pontos de vista teóricos justifica-se pelas necessidades da vida concreta, pela necessidade imperiosa de resolver problemas de ordem prática, e deve ter por objetivo um novo modo de agir, melhor e mais adequado, na resolução de tarefas práticas. Vamos mais longe ao afirmar que uma teoria só tem algum valor para nós quando se comprova na prática e através da prática.”

“Mas agora que os revolucionários estão no poder não são mais revolucionários. Eles criam uma contradição do processo cultural: por um lado, fomentam por todas as formas a investigação científica, porque esta apóia o progresso econômico, mas, por outro lado, servem-se do misticismo como principal instrumento para a repressão dos milhões de assalariados (terceira fase do misticismo).” “A revolução russa permite conduzir o combate contra a religião a um nível muito mais elevado (quarta fase).”

“O primeiro artigo da constituição da Rússia czarista estipulava: <O soberano de todos os russos é um monarca autocrata e absoluto, e é Deus que ordena a submissão voluntária ao poder do seu governo.> (…) Hitler reestruturou a Igreja na Alemanha exatamente da mesma maneira: reforçou a sua autoridade, e conferiu-lhe o direito pernicioso de preparar o espírito das crianças, nas escolas, para absorverem as ideologias reacionárias.”

“Nos seminários e academias eclesiásticas havia disciplinas especialmente destinadas ao combate contra o movimento revolucionário. No dia 09/01/05, apareceu um panfleto eclesiástico em que os operários revoltados eram acusados de estar a serviço dos japoneses. A revolução de fevereiro de 1917 pouco alterou esta situação; as Igrejas foram equiparadas, mas não se confirmou a tão esperada separação entre a Igreja e o Estado, e, à frente da administração da Igreja, foi colocado o príncipe Lvov, grande proprietário. Numa assembléia eclesiástica, em outubro de 17, os bolcheviques foram excomungados [hahaha!]; o patriarca Tikhon declarou-lhes guerra.”

CUIDADO COM O CÃO (BISPO HIDROFÓBICO): “O Partido tenciona eliminar completamente todas as relações entre as classes exploradoras e a organização da propaganda religiosa: está sendo organizada uma ampla propaganda antirreligiosa e de esclarecimento científico que contribuirá decisivamente para libertar as massas trabalhadoras dos preconceitos religiosos. Ao fazê-lo, deve-se evitar cuidadosamente ferir a sensibilidade dos crentes, pois isso só poderia resultar na consolidação do fanatismo religioso.”

“As associações eclesiásticas e religiosas não possuem direito de propriedade e, como tal, não gozam dos direitos de pessoa jurídica (§ 12).”

“Os padres, monges e freiras não têm direito de voto, ativo ou passivo, porque não realizam trabalho produtivo.”

“aos poucos, as igrejas foram convertidas em clubes de trabalhadores e salas de leitura. (…) A fonte sagrada da igreja de S. Sérgio acabou por tornar-se uma simples bomba d’água; a fronte de alguns santos, que só podia ser beijada a troco de dinheiro, mostrou ser um simples pedaço de couro, habilidosamente arranjado. O efeito produzido por este desmascaramento, frente às massas reunidas, foi imediato e radical. É evidente que tanto a cidade como o campo foram inundados de panfletos e jornais de esclarecimento, distribuídos pela propaganda atéia. A construção de museus de ciências naturais antirreligiosos permitiu a confrontação das concepções científicas e supersticiosa do mundo. Apesar disso tudo, ouvi dizer em Moscou, em 29, que os únicos grupos contra-revolucionários organizados e bem-estruturados eram ainda as seitas religiosas.” “A ciência e o ateísmo tinham finalmente adquirido os mesmos direitos sociais que o misticismo. Nenhuma hierarquia religiosa podia, a partir de então, decidir que um cientista natural fosse exilado. Isto é tudo. Mas a Igreja não estava satisfeita. Mais tarde, quando a revolução sexual fracassou (a partir de 34), a Igreja reconquistou as massas.”

“se eu me limitar a dizer a uma mulher cristã, sexualmente frustrada, que o seu sofrimento é de natureza sexual, ela sem dúvida me porá na rua e terá razão para isso. Estamos diante de duas dificuldades: (1) cada pessoa tem em si contradições que devem ser compreendidas individualmente; e (2) os aspectos práticos do problema diferem de região para região, de país para país e, portanto, exigem soluções diferentes.”

“Em resumo, quem conhece a argumentação usada pelos místicos e pelos fascistas nas discussões políticas, e pelos caracterologistas e <humanistas> nas discussões científicas, está habituado a este tipo de atitude, pois trata-se, no fundo, da mesma coisa. É natural que o temor a Deus e a defesa moralista sejam reforçados quando se consegue relaxar um pouco um elemento da repressão sexual.”

“O jovem cristão compreenderá rapidamente, p.ex., que as suas fortes tendências exibicionistas e perversas correspondem, em parte, a um retorno a formas primitivas e infantis da sexualidade e, em parte, à inibição da sexualidade genital. (…) Finalmente, a vegetoterapia possibilita ao paciente uma vida amorosa satisfatória, o que representa o fim do misticismo.”

“[O psicanalista que é também pastor da Igreja] age de modo muito semelhante aos parlamentares alemães social-democratas que, depois de terem entoado entusiasticamente o hino nacional alemão, quando da última sessão parlamentar, não deixaram de ser enviados para campos de concentração, acusados de serem <socialistas>.”

“Não nos interessa discutir a existência ou inexistência de Deus: limitamo-nos a suprimir as repressões sexuais e a romper os laços infantis em relação aos pais.”

“A política demográfica, campo a que se tem limitado a reforma sexual, não é uma política sexual, no sentido estrito da palavra. Ela não diz respeito à regulação das necessidades sexuais, mas sim ao aumento populacional, campo em que se inclui, evidentemente, o ato sexual. Mas, de resto, nada tem a ver com a vida sexual, nos seus aspectos sociais e biológicos. Aliás, as massas não têm o menor interesse pelas questões da política demográfica. A lei do aborto não suscita o interesse das massas devido a questões políticas, mas sim pela aflição pessoal que implica.” “Se um reacionário encarregado da política social tivesse a idéia de dizer às massas: <Vocês se queixam das conseqüências da lei do aborto para a vida humana! Quem manda vocês terem relações sexuais?>, seríamos apanhados desprevenidos, pois até agora só consideramos a política demográfica.”

“No tratamento psicanalítico, são necessários meses, e mesmo anos, de trabalho árduo para tornar o paciente consciente de seus desejos sexuais, estando as inibições morais tão profundamente enraizadas como a necessidade sexual, e ocupando, além disso, o primeiro plano. Como se poderia realizar a tarefa de vencer a repressão sexual das massas, quando não se dispõe de um método comparável ao da análise individual? Esta objeção deve ser levada a sério. Se, no início, tais objeções me tivessem dissuadido de realizar na prática o trabalho de economia sexual entre as massas, deveria ter concordado com aqueles que repelem a economia sexual como sendo uma questão individualista, e esperar pela vinda de um segundo Jesus Cristo para resolver o problema. Pessoas muito próximas chegaram a argumentar que as minhas experiências só contribuíam para um esclarecimento superficial, deixando de lado as forças profundas que estão na base da repressão sexual. Se um psiquiatra pode fazer essa objeção, é sinal de que a dificuldade deve ser examinada atentamente.”

“O homem é um pobre diabo; mas não o sabe. Se o soubesse, que pobre diabo seria!”

“O coolie chinês ou indiano, que inconscientemente suporta a carga do seu destino, resignado e sem questionar, sofre menos do que o coolie que tem consciência da ordem terrível das coisas e que, portanto, se rebela, conscientemente, contra a escravidão.” Queria ser uma Damaris, sem consciência de autocastração!

“Nossa <desumanidade> é o combate por aquilo de que tanto falam os bons e os justos…, para depois se deixarem subjugar à primeira investida da reação fascista.” “…que, apesar de todo o seu <marxismo> e <leninismo>, são reacionários num importante aspecto de suas personalidades…”

“É evidente que essa atmosfera de afirmação da sexualidade só pode ser criada por uma poderosa organização internacional, operando no campo da economia sexual. No entanto, tem sido impossível convencer os dirigentes dos partidos políticos de que aí reside uma das suas principais tarefas. Entretanto, a política foi desmascarada como irracionalismo reacionário; não podemos contar com partidos políticos.”

“Os dois principais pilares do ambiente moralista e antissexual — família e pequena empresa — foram abalados.”

“O ideal da jovem pura, e sobretudo do jovem puro e sexualmente fraco, é agora considerado uma vergonha. (…) Já não se pode falar, atualmente, num regresso à situação largamente dominante antes do fim do século, em que a vida real coincidia com a ideologia ascética.” Nietzsche parece ter vivido há 1800 anos…

“No início do século, teria sido impensável que mulheres cristãs aderissem a associações de planejamento familiar; hoje, isso se torna cada vez mais a regra geral. Este processo não foi interrompido pela subida dos fascistas ao poder; apenas se tornou clandestino. O problema consiste agora em saber como se desenvolverá esse processo, no caso de a barbárie assassina dos fascistas durar mais tempo do que receamos.”

“Outra circunstância objetiva que está estreitamente relacionada com a anterior é o rápido aumento de perturbações neuróticas e biopáticas, como expressão de desequilíbrio sexual, e a intensificação das contradições entre as necessidades sexuais reais, de um lado, e a inibição moral e a educação da criança, de outro.”

“É do conhecimento, em vista da escassez de literatura científica sobre sexo, que o que mais se lê nas bibliotecas públicas são livros pornográficos.”

“A reação política nunca será capaz de contrapor à economia sexual revolucionária um programa reacionário de política sexual que vá além da total repressão e negação da sexualidade; isso afastaria imediatamente as massas, com exceção de um círculo politicamente sem importância de senhoras idosas e de seres humanos irremediavelmente obtusos. É a juventude que importa! E esta, disso estamos certos, já não é permeável, na sua maioria, a uma ideologia de negação da sexualidade.”

“Qualquer jovem que tenha entre 17 e 25 anos de idade [50% do tempo perdido] e que não tenha uma vida sexual satisfatória corre o risco de futuras perturbações da potência sexual e de graves depressões psíquicas que acarretam, invariavelmente, uma perturbação de capacidade de trabalho. Quando um órgão ou uma função natural não são utilizados durante muito tempo, acabam, mais tarde, por ter dificuldades de funcionamento. As conseqüências são, na maior parte dos casos, doenças nervosas e psíquicas, assim como perversões (aberrações sexuais).” Vai na antítese exacerbada de Binswanger…

“Constitui um atentado ao pudor o fato de um jovem dormir numa barraca com a sua namorada?”

“A criança, a não ser que pertença a uma família excepcionalmente progressista, o que é o caso de uma minoria, não distingue os conteúdos da propaganda reacionária daqueles da propaganda revolucionária. O primeiro mandamento do trabalho antifascista consiste em não dissimular a realidade, e por isso afirmamos abertamente que as crianças e os jovens de amanhã desfilarão tão alegremente ao som das fanfarras fascistas como hoje desfilam ao som das liberais.”

“Paradoxalmente, é Marx e Lenin que os adversários do trabalho de economia sexual entre as crianças invocam para se justificar. Aliás, é certo que nem Marx nem Lenin jamais se referiram a problemas de economia sexual. Em contrapartida, considere-se o fato de que as crianças caem em massa nas manobras da reação política. Apesar de todas as dificuldades, há muitas possibilidades imprevistas de desenvolver junto às crianças um trabalho em base da economia sexual, porque se pode contar, de início, com o enorme interesse das crianças.”

“Chegou finalmente o momento de abordar a questão daquilo a que se chama o homem apolítico. Hitler não só assentou desde o início o seu poder entre as massas até então essencialmente apolíticas, como executou <legalmente> o último passo que o levaria à vitória de março de 1933 [o outubro de 2018 deles], através da mobilização de nada mais nada menos do que milhões de pessoas que até então não tinham votado” “No caso do intelectual médio que <não quer ter nada a ver com a política>, podem-se detectar facilmente interesses econômicos imediatos e o receio pela sua própria posição social, que depende da opinião pública, à qual sacrifica grotescamente os seus conhecimentos e convicções.”

“Não é possível captar isso estatisticamente; também não somos partidários de um ilusório rigor estatístico dissociado da realidade da vida, quando é certo que Hitler conquistou o poder negando as estatísticas e explorando as baixezas da miséria sexual.”

IX. AS MASSAS E O ESTADO

“Os grupos de colonos, quando se perdiam nas florestas americanas, tentavam reencontrar o caminho que tinham seguido anteriormente para, partindo de terreno conhecido, voltarem a fazer incursões no desconhecido. Para isso não constituíram partidos políticos; não realizaram debates intermináveis sobre as regiões que não conheciam; não se hostilizaram mutuamente nem exigiram permanentemente, uns dos outros, que elaborassem programas para a sua fixação.” O que Reich diria sobre a “autocrítica do PT” caso fosse um brasileiro contemporâneo?

“Mas os nossos políticos estão muito distantes destas reações naturais. Não seria absurdo dizer que faz parte da natureza do político não aprender nada com a experiência.”

“A monarquia austríaca desencadeou a I Guerra Mundial, em 1914. Na época, combateu de armas na mão os democratas americanos. Em 42, durante a Segunda Guerra, apoiou-se nos estadistas americanos para reivindicar a restauração da dinastia dos Habsburgo, com o fim de <evitar> novas guerras. Isto é um disparate político irracional.” “Na I Guerra Mundial, em 1914, os <italianos> eram inimigos mortais dos <alemães>, por assim dizer, <inimigos hereditários> desde os mais remotos tempos. Na Segunda Guerra, em 40, os <italianos> e os <alemães> eram irmãos de sangue, <novamente com base na hereditariedade>, para, em 1943, voltarem a ser inimigos mortais. Na próxima guerra mundial, suponhamos que em 1963, os <alemães> e os <franceses> terão passado de <ancestrais inimigos raciais> a <ancestrais amigos raciais>.”

“Um Copérnico afirmou, no século XVI, que a Terra gira ao redor do Sol; um de seus discípulos afirmou no século XVII que a Terra não gira ao redor do Sol; e um discípulo deste declarou, no século XVIII, que ela gira ao redor do Sol. Mas, no século XX, os astrônomos afirmam que tanto Copérnico como os seus discípulos tiveram razão, pois que a Terra gira ao redor do Sol mas ao mesmo tempo está parada [?]. No caso de Copérnico, pensou-se logo em recorrer à fogueira. Mas, no caso de um político que faz crer à população mundial os disparates mais inacreditáveis, que em 1940 considera verdadeiro exatamente o contrário daquilo que considerava verdadeiro em 39, acontece que milhões de pessoas perdem seu referencial e concluem que aconteceu um milagre.”

“As formalidades democráticas desiludiram milhões de pessoas na Europa, possibilitando deste modo o advento da ditadura fascista. Os políticos democráticos esquecem de voltar aos pontos de partida dos princípios democráticos, de corrigi-los de acordo com as transformações radicais que têm ocorrido na vida social, de torná-los novamente úteis. No entanto, organizam-se votações sobre formalidades, exatamente as mesmas formalidades que na Europa foram destronadas de modo tão inglório.” Isso me lembra os SUPREMOS do STF comentando que a  CF88 é o norte do respeito e do futuro garantidos, o baluarte daquilo que o próprio texto diz (o texto constrói inelutavelmente o inescapável real, as regras pétreas do jogo), a pedra de toque da redenção universal ad eternum.

“Pretende-se planificar, imaginar e submeter a voto sistemas de paz. É claro que se recua diante dos mesmos sistemas de paz, ainda antes de iniciar sua planificação. (…) Só é possível desenvolver condições de liberdade já existentes e eliminar os obstáculos que se opõem a esse desenvolvimento. Mas isso deve ser feito organicamente. Não se pode dotar um organismo social doente de liberdades garantidas por lei.

O melhor exemplo para estudar as relações entre as massas e o Estado é o caso da União Soviética, pelos seguintes motivos: a revolução social de 17 foi preparada por uma teoria sociológica testada durante dez anos. A revolução russa serviu-se dessa teoria. Muitos milhões de pessoas participaram no processo da revolução social, sofreram-no, beneficiaram-se das suas vantagens e prosseguiram-no. Mas o que aconteceu à teoria sociológica e às massas do <Estado proletário> no decurso de 20 anos?”

“A diferença entre a superação de dificuldades na democracia do trabalho e a politização da democracia formal está claramente expressa na atitude das várias organizações políticas e econômicas em relação à União Soviética.”

“O pensamento democrático de Engels e de Lenin caiu no esquecimento. Era um osso duro de roer, um desafio muito grande para a consciência dos europeus e, como mais tarde se veria, dos políticos e sociólogos russos também.”

“O entusiasmo exclusivamente emocional pelos atos heróicos da Rússia na guerra contra a Alemanha de Hitler não nos conduz a nada, na prática. A motivação desse entusiasmo de 43, o qual não se manifestou entre 1917-23, é de natureza extremamente duvidosa; ele é ditado muito mais por interesses bélicos egoístas do que pela vontade de alcançar a democracia autêntica.”

“A atividade frenética dos politiqueiros nos Estados Unidos impôs a convicção geral, embora não cientificamente comprovada, de que os políticos são um câncer no corpo da sociedade. Na Europa de 35, estava-se ainda muito longe disso. Era ao político que cabia decidir o que era verdadeiro ou não.”

“Era do conhecimento geral, latente, que o fascismo tinha tão pouco a ver com a dominação de classe da <burguesia> como a <democracia soviética> de Stalin com a democracia social de Lenin.”

“A melhor situação era a daqueles que tinham sido sempre <apolíticos>, consagrando-se exclusivamente à sua vida de trabalho. Eram exatamente esses círculos que, na Europa, foram permeáveis a tão importantes conhecimentos sociológicos. (…) É assim que muitos médicos, pedagogos, escritores, assistentes sociais, jovens, operários e outros, adquiriram a profunda convicção de que o irracionalismo político seria um dia derrotado, e de que as exigências do trabalho natural, do amor e do saber se concretizariam um dia na consciência e no modo de agir das massas, sem que para isso fosse necessária qualquer propaganda para vender a teoria.”

“Depois da catástrofe de 33 na Alemanha, a União Soviética enveredou rapidamente por uma via de retrocesso a formas autoritárias e nacionalistas de liderança social. Grande número de cientistas, jornalistas, funcionários, etc., estava ciente de que se tratava de um fenômeno de <nacionalismo>. Mas não se tinha a certeza de que fosse um nacionalismo de cunho fascista.

A palavra fascismo não é um insulto, e nem a palavra capitalismo. Representa um conceito que designa uma forma muito particular de dirigir e influenciar as massas: regime autoritário; sistema de partido único, logo totalitário; o poder à frente dos interesses objetivos; distorção política dos fatos, etc. Deste modo há <judeus fascistas> e <democratas fascistas>.

Mas se estas conclusões tivessem sido divulgadas na época, o governo soviético as teria mencionado como um exemplo de tendências contra-revolucionárias e fascismo trotskista. A grande massa da população soviética gozava ainda, em larga medida, os benefícios da Revolução de 17. Aumentava o consumo, quase não havia desemprego. A população se beneficiava de inovações, como o acesso generalizado ao esporte, ao teatro, à literatura, etc. Aqueles que tinham vivido a catástrofe alemã sabiam que estes benefícios, ditos culturais, a que uma população tem acesso, nada dizem quanto à natureza e desenvolvimento da sociedade. Nada diziam, portanto, de profundo quanto à sociedade soviética. Ir ao cinema e ao teatro, ler livros, praticar esportes, escovar os dentes e freqüentar escolas são coisas importantes, mas não é nelas que reside a diferença entre um estado ditatorial e uma sociedade verdadeiramente democrática. (…) Tem sido um erro básico e característico dos socialistas e comunistas rotular a construção de habitações, o aumento da rede de transportes urbanos ou a construção de uma escola como realizações <socialistas>.” Numa sociedade como a alemã ou a norte-americana, foram os capitalistas que aumentaram a malha de transportes até a virtual totalidade necessária, que resolveram na medida do possível a questão do déficit habitacional e realizaram na prática o mantra iluminista da educação para todos!. Mas e daí? Puseram tudo a perder a seguir… Enquanto os socialistas russos tiveram de ser os financiadores, em atraso, dessas benesses, o que não os redime num juízo crítico. O movimento de expansão do capital tardio (de 1850 a nossos dias) não requereria nada de fundamentalmente diferente, e qualquer sistema teórico oposto ao capitalismo ainda estava submetido a essa lógica simplesmente por ser obrigado a superar os capitalistas em seu próprio jogo como pré-requisito para os passos seguintes…

“Quando alguém julga ter descoberto uma verdade política, é forçado a esperar até que ela se manifeste de modo objetivo e independente. Se isso não acontece, essa verdade não era uma verdade e é preferível que permaneça no domínio das possibilidades. A regressão catastrófica ocorrida na União Soviética foi seguida ansiosamente em toda a Europa.”

“Quando, já em 29, revelavam-se cada vez mais claramente, na União Soviética, atitudes reacionárias em relação à sexualidade, era lícito concluir que estava em curso uma evolução de sentido autoritário e ditatorial na liderança social. Justifiquei amplamente este ponto de vista em A Revolução Sexual. As minhas previsões foram confirmadas pela legislação oficial sobrea sexualidade, em vigor a partir de 34, e pelo restabelecimento de leis reacionárias referentes à questão sexual.” Houve quem preferisse esperar a morte de Stalin para proferir julgamentos!

“O fracasso de uma revolução social autêntica é um sinal de fracasso das massas humanas”

Passou a época em que parecia que as massas da sociedade avançavam com as suas próprias forças, guiadas pela razão e pela compreensão da sua situação. Foi-se o tempo em que as massas tinham uma função na formação da sociedade. Estas revelam-se agora influenciáveis, pouco conscientizadas, capazes de se adaptar a qualquer tipo de poder e infâmias. Não têm uma missão histórica. No século XX, no século dos tanques e dos rádios, essa missão é impossível de ser cumprida. As massas foram excluídas do processo de configuração social.

Willi Schlamm, 1935

“Foi sobretudo Erich Fromm quem veio mais tarde a desconsiderar totalmente o problema sexual das massas humanas e a sua relação com o medo da liberdade e o desejo de autoridade.” Desconfie dos kardecistas demais (Fromm, Jung…)

“Compreendia-se, acima de tudo, a intoxicação fascista das massas pelo racismo. Compreendia-se a impotência dos sociólogos e políticos de orientação exclusivamente econômica diante dos acontecimentos catastróficos da primeira metade do século XX.”

“É tarefa de uma orientação verdadeiramente democrática deixar que as massas superem a si próprias; mas as massas só serão capazes de superar a si próprias se desenvolverem espontaneamente entidades sociais que não pretendam competir com os diplomatas em matéria de álgebra política, mas sim refletir e servir de porta-vozes das massas em tudo aquilo que elas próprias não são capazes de refletir e exprimir, [!] devido à miséria, à ignorância, à submissão e à peste do irracionalismo.¹ Em suma, atribuímos às massas humanas toda a responsabilidade por todos os processos sociais. Exigimos a sua responsabilização e combatemos a sua irresponsabilidade.” Já é pretensioso e pueril demais esperar pelo Overman enquanto entidade anômala – querer isso da massa não passa de um erro ultra-demagógico, devaneio, solilóquio ao vento, paradoxo insosso.

¹ Nunca se poderá insistir o bastante quanto à incompreensão do binômio racionalismo-irracionalismo, ainda hoje.

“Certos grupos de intelectuais defendiam o ponto de vista de que <na União Soviética também se registram indubitavelmente grandes progressos>. Era como se um adepto de Hitler dissesse que <também há judeus decentes>.”

ABATE

debate combate embate no bate-bate do entrave rebate desbasta a abastança

com as abas da taça entre as mãos

fatiaste e enfastiaste o desafio

o fio nad’afiado da fina navalha

“Nas escolas, as primeiras tentativas de autogestão (plano de Dalton, etc.) tinham fracassado e cedido o lugar à velha disciplina escolar autoritária, embora encoberta por organizações escolares formais.”

“Ora, não é culpa de uma liderança social se ocorre uma regressão social. No entanto, essa liderança social consolida a regressão nos casos em que: (1) apresenta a regressão como progresso; (2) proclama a si mesma a redentora do mundo; e (3) fuzila aqueles que a lembram de seus deveres.”

“Nada é mais impressionante do que o fato de que uma população mundial de 2 bilhões de pessoas não consiga a força suficiente para eliminar um punhado de opressores e de assassinos biopáticos.” Sim: o fato de 9 bilhões provavelmente conseguirem ainda menos!

“Os anarquistas (sindicalistas) aspiravam à autogestão social, mas se recusaram a tomar conhecimento dos profundos problemas relacionados com a incapacidade humana para a liberdade e rejeitaram todo e qualquer tipo de orientação social. Eram utópicos e acabaram sofrendo uma derrota na Espanha [década de 1930]. Só tinham olhos para o desejo de liberdade, mas confundiam esse desejo com a capacidade de SER realmente livre, de conseguir viver e trabalhar sem qualquer liderança autoritária. Rejeitaram o sistema de partidos. Mas não souberam adiantar coisa alguma quanto ao modo como as massas humanas escravizadas aprenderiam a governar suas vidas por si próprias. Nada se consegue, se apenas se abomina o Estado; nem com colônias de nudismo [HAHAHA].”

“A social-democracia, resultante da adaptação que Bernstein fez da sociologia marxista, também falhou quanto à questão da estrutura de massa. Tal como a cristandade e o anarquismo, vive da conciliação, por parte das massas, entre a luta pela felicidade e a irresponsabilidade.” “É muito mais sensato usar todas as forças contra a reação fascista enquanto se está no poder do que desenvolver a coragem para fazê-lo depois de se ter abandonado o poder. A social-democracia tinha a seu dispor, em muitos países europeus, toda a força necessária para aniquilar, dentro e fora do homem, o poder patriarcal que veio se acumulando por milhares de anos e acabou festejando os seus triunfos sangrentos na ideologia fascista. (…) Trata-se, evidentemente, de chamberlainismo [Chamberlain, primeiro-ministro inglês incompetente que tentou negociar diplomaticamente com Hitler, e depois capitulou após 8 meses de guerra] no seio do movimento socialista.”

“As democracias burguesas da Europa perderam o seu caráter originariamente revolucionário de 1848 muito mais rápida e totalmente do que o cristianismo. As medidas liberais eram uma espécie de decoro, uma prova de que se era <democrático>. Nenhum desses governos teria sido capaz de dizer como seria possível fazer as massas de pessoas escravizadas saírem de sua condição de aceitação cega e necessidade de autoridade. (…) Considerar o governo austríaco de Dollfuss como modelo de um governo democrático revela uma ignorância completa quanto à questão social. [O queridinho de Freud]”

“A promoção das artes e das ciências estivera nas mãos dos senhores feudais, mais tarde destronados pela burguesia. Mas os capitalistas burgueses interessavam-se muito menos pela arte e pela ciência do que as antigas casas senhoriais. Os filhos dos capitalistas burgueses, em 1848, deram o seu sangue pela defesa dos ideais democráticos, enquanto que os filhos dos capitalistas burgueses, entre 1920 e 30, escarneceram as manifestações democráticas. Iriam constituir, mais tarde, as tropas de elite do chauvinismo fascista. Tinham cumprido a sua missão de abertura econômica do mundo, mas sufocaram sua própria realização, instituindo as tarifas aduaneiras, e não tinham a menor noção do que fazer com o internacionalismo que nascera das suas realizações econômicas. Envelheceram rapidamente e tornaram-se senis como classe social.”

“O fascismo tem a sua origem no conservadorismo dos social-democratas e na senilidade e tacanhice dos capitalistas. Incorporou, não na prática mas na ideologia (esse é o aspecto fundamental para as massas humanas cujas estruturas psíquicas eram dominadas por ilusões), todos os ideais que tinham sido defendidos pelos seus antecessores. Incluiu a mesma reação política brutal que na Idade Média devastara a vida e os bens humanos. Assim, respeitava de um modo místico e violento as chamadas tradições patrióticas que nada têm a ver com o verdadeiro sentimento patriótico e apego à terra. Designava-se a si próprio <socialista> e <revolucionário>, assumindo deste modo as tarefas não executadas pelos socialistas. Ao dominar os dirigentes econômicos, absorveu o capitalismo.” “A ideologia fascista acreditava nisso honestamente. Quem não compreende essa honestidade subjetiva não compreende o fascismo na sua totalidade e a força de atração que ele exerce sobre as massas. Como o problema da estrutura humana nunca foi abordado ou discutido, e muito menos superado, a concepção de uma sociedade não-autoritária, governando-se a si própria, era considerada como fruto da imaginação ou utopia.”

“O ponto de vista de Lenin era o seguinte: a social-democracia fracassou; as massas não podem alcançar a liberdade por si próprias, espontaneamente. Necessitam de uma liderança construída ao longo da linha hierárquica, cuja atuação seja autoritária, na superfície, mas ao mesmo tempo tenha, internamente, uma estrutura absolutamente democrática. O comunismo de Lenin está absolutamente consciente da sua missão: A <ditadura do proletariado> é a forma social que leva de uma sociedade autoritária para uma ordem social não-autoritária, auto-reguladora, que não necessita nem de força policial, nem de moral compulsiva.

A revolução russa de 1917 foi, basicamente, uma revolução político-ideológica, e não uma revolução simplesmente social. Baseou-se em idéias políticas provenientes dos campos da economia e da política, e não das ciências que estudam o homem. É necessário conhecer exatamente a teoria sociológica de Lenin e as suas realizações para compreender qual a lacuna em que mais tarde veio a desembocar a técnica autoritária e totalitária da liderança de massas na Rússia.”

“Mas nenhuma pessoa sensata poderá esperar que a liberdade social e individual seja matéria suscetível de ser planejada e posta em prática nos gabinetes dos pensadores e dos políticos revolucionários. Cada novo esforço social é baseado nos erros e omissões dos sociólogos e líderes revolucionários anteriores. A teoria da <ditadura do proletariado>, de Lenin, reunia já uma série de condições prévias para a instituição da verdadeira democracia social, mas ainda lhe faltavam muitas. O seu objetivo era uma sociedade humana capaz de se autogovernar.”

“Além de criar as condições econômicas necessárias para a democracia social, a ditadura do proletariado tinha a tarefa de efetuar uma mudança básica na estrutura do homem, por meio da completa industrialização e tecnização da produção e do comércio. Lenin não utilizou exatamente estes termos, mas a transformação básica da estrutura do homem era parte integrante e indissociável da sua teoria sociológica.” “Quem quiser compreender o triunfo do fascismo e a evolução nacionalista da União Soviética, deve primeiro compreender a amplitude desse problema.”

“O primeiro ato do programa de Lenin — a construção da <ditadura do proletariado> — foi bem-sucedido. Assim, surgiu um aparelho de Estado constituído totalmente por filhos de trabalhadores e camponeses. Dele eram excluídos todos os descendentes das antigas classes feudais e altas. O segundo e mais importante ato, a substituição do aparelho de Estado proletário pela autogestão social, não chegou a se realizar.”

“Comecemos por resumir as concepções de Marx e de Engels sobre o desenvolvimento de uma <sociedade comunista>. Para isso, recorreremos aos escritos fundamentais do marxismo e às interpretações feitas por Lenin no período decorrido entre março de 1917 e a revolução de outubro, na sua obra O Estado e a Revolução.”

“Ver os relatos de Malinowski sobre a disciplina de trabalho na sociedade matriarcal dos trobriandeses”

“O primeiro ato em que o Estado aparece como representante da sociedade inteira — a apropriação dos meios de produção em nome da sociedade — é simultaneamente o seu último ato independente na qualidade de <Estado>. A partir de agora, <a intervenção do poder do Estado nas relações sociais… vai se tornando supérflua, até desaparecer por si mesma. O governo sobre as pessoas é substituído pela administração dos vários assuntos e pela direção dos processos de produção. O Estado não é ‘abolido’: ‘extingue-se’> (Engels).”

“Nem Marx, nem Engels, nem Lenin dão uma resposta a estas questões. Em 1935, havia uma questão premente e que não podia mais ser evitada: assiste-se, na União Soviética, à extinção do Estado? Se não, por que motivo?” “Disto tudo resultou uma imagem que correspondia à realidade de 1850, mas não à de 1940.”

“faz-se uma clara distinção entre <órgãos representativos> e <parlamento>. Aqueles são aprovados, este é rejeitado, Mas não foi explicado o que representam esses órgãos e de que modo atuam. Veremos a seguir que é nesta lacuna crucial da teoria de Lenin sobre o Estado que o <stalinismo> veio a fundamentar, mais tarde, o seu poder de Estado.”

“os sovietes ainda são, até essa altura, órgãos e corpos mais ou menos distintos do conjunto da sociedade, se bem que tenham surgido no seu seio.” “Os sovietes atuam entre duas forças: um poder que é ainda o poder do Estado, e um novo sistema social de autogestão.”

“as democracias burguesas, e mesmo os <plebiscitos> fascistas, <já apresentaram uma

participação eleitoral de 90% ou mais>.”

“Sonhos de anarquistas! Utopias! Quimeras! E o certo é que os que assim gritavam e ironizavam podiam invocar até mesmo a União Soviética, a declaração de Stalin de que a abolição do Estado estava fora de questão, que, ao contrário, o poder do Estado proletário tinha de ser fortalecido e ampliado.”

“Nós não somos utopistas. Não <sonhamos> com prescindir de repente de toda administração, de toda subordinação. Estes sonhos anarquistas, baseados na incompreensão das tarefas que cabem à ditadura do proletariado, são estranhos à essência do marxismo e não servem, na realidade, senão para adiar a revolução socialista para a época em que os homens tiverem mudado. Mas não; nós temos de fazer a revolução socialista com os homens tal como eles são hoje, com os homens que não dispensam a subordinação, o controle, os <fiscais e os contabilistas>… Mas é ao proletariado, vanguarda armada de todos os explorados e de todos os trabalhadores, que nos devemos subordinar. O que é especificamente <burocrático> no funcionalismo público pode e deve ser substituído pelas funções simples de <fiscais e contabilistas>. Esse trabalho deve começar imediatamente, de um dia para o outro… Organizemos nós próprios, trabalhadores, as grandes indústrias, baseando-nos na nossa própria experiência de trabalho, aproveitando aquilo que o capitalismo já criou, criando uma disciplina férrea, rigorosa, mantida pelo poder do Estado dos trabalhadores armados; reduziremos os funcionários públicos ao papel de simples executantes das nossas instruções, ao papel de <fiscais e contabilistas> responsáveis, substituíveis e modestamente remunerados… É esta a nossa tarefa proletária.Com isso, podemos e devemos iniciar a realização da revolução proletária. Este início, baseado nas grandes indústrias, conduzirá naturalmente à extinção progressiva de toda a forma de burocracia, ao estabelecimento progressivo de uma nova ordem, sem aspas, uma ordem que nada tem a ver com a escravatura assalariada. Criaremos uma ordem na qual as funções de fiscalização e contabilidade, cada vez mais simplificadas, serão desempenhadas alternadamente por todos, até se tornarem hábito e acabarem por desaparecer como funções específicas de uma categoria especial de indivíduos.”

“Lenin não pressentiu os perigos que ameaçavam a nova burocracia estatal. Aparentemente, acreditava que os burocratas proletários não abusariam do seu poder, cultivariam a verdade, ensinariam o povo trabalhador a ser independente. Não contou com a gravíssima biopatia de que sofre a estrutura humana, pelo simples fato de que a desconhecia.”

LULA QUE O DIGA: “não há quaisquer perspectivas de êxito para um programa de liberdade enquanto não for transformada a estrutura sexual biopática dos homens.”

Trechos do programa russo de 1919:

“À medida que for desaparecendo a possibilidade objetiva de haver exploração do homem pelo homem, desaparecerá também a necessidade dessas medidas, e o partido esforçar-se-á pela sua limitação e abolição total.” À medida que isso acontecesse, desapareceria o “partido” e este comunicado (ou um contrário) seriam absolutamente supérfluos, de qualquer modo…

“O governo soviético garante às massas trabalhadoras, em muito mais alto grau que a democracia burguesa ou o parlamentarismo, a possibilidade de elegerem e destituírem deputados, da maneira mais simples e acessível para os operários e camponeses” Se soubessem do programa de um soviete, muitos minions se tornariam comunistas da noite para o dia: Primeiro a gente tira esse, depois a gente tira aquele, não tem problema, não!

“Enquanto a democracia burguesa, apesar das suas declarações em contrário, fez do exército um instrumento ao serviço das classes ricas, dissociando-o e opondo-o às massas trabalhadoras, negando ou dificultando aos soldados a possibilidade de exercerem os seus direitos políticos, o Estado soviético reúne trabalhadores e soldados no seio dos seus órgãos (…) É tarefa do partido defender e aprofundar esta unidade entre os operários e os soldados dentro dos sovietes, consolidando o elo indissolúvel que liga as forças armadas às organizações do proletariado e do semiproletariado.”

“Na nossa Constituição soviética, isto se reflete no fato de que são concedidos certos privilégios ao proletariado industrial, em comparação com as massas pequeno-burguesas do campo, bastante mais dispersas.” A primeira constituição autocrítica, i.e., que não fedia, desde a própria impressão da letra, à má-fé.

“Foi graças à organização soviética do Estado que a revolução conseguiu demolir de um só golpe e arrasar completamente a antiga burguesia, funcionalismo público e o aparelho de Estado judiciário. Contudo, o nível cultural relativamente baixo das massas, a ausência da indispensável prática nos serviços administrativos por parte dos representantes promovidos pelas massas a cargos de responsabilidade, a necessidade, sentida em circunstâncias difíceis, de recorrer rapidamente a especialistas da velha escola, e o afastamento da camada mais desenvolvida dos operários urbanos para o trabalho nas forças armadas; todos estes fatores contribuíram para um ressurgimento parcial da burocracia dentro da ordem soviética.”

* * *

“Garantia real, e não apenas formal, de todos os direitos e liberdades a todas as classes não-capitalistas da população.” Um texto pode dizer o que quiser…

“Não se diz que as massas humanas, tal como são hoje, não podem assumir a atividade estatal e (mais tarde) social. O pensamento político-estatal de hoje foi originalmente criado pelos primeiros representantes hierárquicos do Estado contra as massas.”

“O 8.° Congresso do Partido Comunista da União Soviética instituiu, em 1919, a democracia soviética. Em janeiro de 1935, o 7.° Congresso dos Sovietes anunciou a <instituição da democracia soviética>. O que significa este disparate?”

A ditadura do proletariado foi sempre o único poder real do povo. Até o presente, realizou com êxito as suas duas tarefas principais: a destruição da classe dos exploradores, sua expropriação e supressão, e a educação socialista das massas. A ditadura do proletariado mantém-se inalterada…

PARTIDO COMUNISTA, Rundschau, n. 7, 1935

“Contra quem ou contra o que esse regime é dirigido, se deixou de haver exploradores, e se as massas já foram educadas para assumirem responsabilidade pelas funções sociais? O aparente disparate de tal formulação esconde um significado inacreditável: a ditadura se mantém, já não contra os exploradores de antigamente, mas contra as próprias massas.”

“Nunca se deve esquecer que Hitler sempre se baseou — e com muito êxito! — no ódio justificado das massas humanas às democracias ilusórias e ao sistema parlamentar. Em vista das manobras políticas dos comunistas russos, o poderoso lema fascista <unidade do marxismo e do liberalismo parlamentar burguês>, tinha necessariamente que impressionar muito!”

“A <instituição do sufrágio universal>, em 1935, significa, além de um deslocamento de ênfase política para a massa dos camponeses kolkhoz, a re-instituição da democracia formal. Em essência, isso significava que o aparelho de Estado burocrático, que se tornava cada vez mais poderoso, conferia um direito parlamentar sem significado a uma massa humana que não fôra capaz de destruir esse aparelho e que não aprendera a administrar seus próprios assuntos. Não existe, na União Soviética, um único indício de que o menor esforço esteja sendo feito para preparar as massas trabalhadoras para assumirem a administração da sociedade. Ensinar a ler e a escrever, promover a higiene e transmitir conhecimentos técnicos são coisas necessárias, mas nada têm a ver com a autogestão da sociedade. Tais coisas, Hitler também faz.”

“Seria absurdo atribuir a <culpa> a Stalin ou a qualquer outro. Stalin foi apenas um instrumento das circunstâncias. Só no papel, o processo de desenvolvimento social aparece fácil e alegre como um passeio no bosque. A dura realidade é que ele depara incessantemente com problemas novos, até então desconhecidos. Resultam retrocessos e catástrofes. É necessário aprender a pressenti-los, a conhecê-los e a superá-los. Mas subsiste uma censura: um projeto social promissor deve ser incessantemente examinado com o maior rigor. É preciso decidir honestamente, com objetividade, se o projeto em si estava errado, ou se foi esquecido algum elemento na sua concretização; nesse caso, é sempre possível alterar conscientemente o projeto, aperfeiçoá-lo e controlar melhor o seu desenvolvimento. É necessário mobilizar o pensamento de muitas pessoas, de forma a ultrapassar os entraves a uma evolução para a liberdade. Mas enganar as massas com ilusões é um crime contra a sociedade. Se um dirigente de massas honesto chega a uma situação problemática, para a qual não consegue encontrar solução, o que tem a fazer é demitir-se, cedendo o seu lugar a outro. Caso não seja possível encontrar um substituto, é preciso esclarecer a comunidade sobre as dificuldades surgidas e esperar, junto dessa comunidade, que se apresente uma solução, quer pela força dos acontecimentos, quer por descobertas individuais. Mas o politiqueiro teme essa honestidade.”

“Se, ao apresentar a Nova Política Econômica (NPE), no ano de 23, Lenin tivesse dito: <Passamos de uma fase inferior da ditadura do proletariado para uma fase superior; a instituição da NPE representa um enorme passo à frente no caminho do comunismo>; tal afirmação teria imediatamente destruído toda a confiança no governo soviético. Ao apresentar a NPE, Lenin disse:

É triste, é cruel, mas por enquanto não o podemos evitar. A economia imposta ao comunismo pela guerra causou dificuldades imprevistas. Temos de dar um passo atrás para podermos voltar a avançar com segurança. É certo que restituímos alguma liberdade à empresa privada — não tivemos outra escolha —, mas sabemos muito bem o que estamos fazendo.

Quando a minha amada esposa me der um filho, a primeira palavra que ensinarei a ele será: Stalin.

Jornal comunista, 1935

Reich cita o patriotismo como a “ioimbina dos impotentes” aplicada à política. Mais atual e brasileirinho impossível, vide:

“A ioimbina é um fármaco antagonista seletivo dos receptores alfa-2 adrenérgicos. É utilizado como estimulante sexual, na impotência masculina, apesar de FALTA DE COMPROVAÇÕES CIENTÍFICAS. Melhora o fluxo sangüíneo da região sexual.

Fórmula: C21H26N2O3

Hoje mais usada para emagrecimento entre os dois sexos, a ioimbina apresenta os seguintes efeitos colaterais COMPROVADOS: “aumento da pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos, irritabilidade, vertigens, náuseas, vômitos, dores de cabeça, transpiração excessiva, urticária, vermelhidão na pele e tremores” !!

“Quando as massas humanas começarem a exigir retratos gigantescos dos seus führers, é sinal de que se encontram no caminho da irresponsabilidade. No tempo de Lenin, não havia ainda o culto exagerado ao führer, nem retratos gigantescos do führer do proletariado. Sabe-se que Lenin não aceitava tais manifestações.”

“A tendência a ver tudo em termos de economia é catastrófica. Devem ser feitos todos os esforços para corrigir essa tendência.”

“A organização social-democrata dos trabalhadores vienenses considera a introdução do sistema de trólei pela comunidade social-democrata de Viena como uma realização especificamente social-democrata. Em contrapartida, os trabalhadores comunistas de Moscou, ou seja, os trabalhadores que eram essencialmente hostis ao Partido Social-Democrata, consideraram a construção do metrô de Moscou, levada acabo pela administração comunista da cidade, uma realização especificamente comunista. E os trabalhadores alemães consideraram a projetada rede ferroviária de Bagdá como uma realização especificamente alemã. Estes exemplos ilustram o caráter intoxicador das satisfações ilusórias, no domínio do irracionalismo político.”

“Mas estes trabalhadores de diferentes nacionalidades não dizem uns para os outros: <Estamos ligados uns aos outros pelo mesmo princípio do trabalho e da capacidade produtiva. Conheçamo-nos uns aos outros e reflitamos sobre o modo como podemos ensinar os trabalhadores chineses a aplicarem os nossos princípios>. Não! O trabalhador alemão está profundamente convencido de que a sua rede ferroviária é diferente, e melhor do que a da Rússia. Por este motivo não lhe ocorre ensinar os chineses a construir uma rede idêntica. Pelo contrário, presa da sua satisfação nacionalista ilusória, é capaz de seguir qualquer general pestilento que queira roubar aos chineses a sua rede ferroviária. É deste modo que a peste emocional da política cria a divisão e a hostilidade dentro da mesma classe, assim como a inveja, a fanfarronice, a falta de caráter e a irresponsabilidade.”

“Peço aos agentes da KGB na Europa e na América que tomem conhecimento destes fatos. Matar os que fazem tais afirmações não alterará nem um pouco os fatos, nesse caso.”

“Não hesitaremos em chamar de irracional o comportamento de uma mãe que trata seu filho neurótico de maneira severa e autoritária. Compreendemos que é essa severidade que torna a criança doente, mas não podemos ignorar — e é este o ponto nevrálgico do combate à educação autoritária — que uma criança que se tornou neurótica num meio neurótico só por meios autoritários pode ser disciplinada. Isto quer dizer que a severidade da mãe, embora não seja, na sua essência, racional, tem também um aspecto racional, embora extremamente condicionado e limitado. Somos forçados a admitir essa função racional condicional, se é que alimentamos a esperança de vir a convencer o educador, que por necessidade se apega ao princípio autoritário, de que isso pode ser eliminado, na medida em que se evitar que a criança se torne neurótica.”

“Se não há outra maneira de lidar com assassínios com violação que não a execução do assassino, recorre-se a esse método. Esta é a abordagem seguida pelo Estado autoritário. A democracia do trabalho, no entanto, vai ao núcleo da questão e pergunta: Como se pode eliminar, de uma vez, os fenômenos de violação e assassínio? Só depois de ter compreendido e, ao mesmo tempo, condenado a obrigatoriedade do recurso à execução surge com a devida clareza e acuidade o problema da eliminação.”

“Um dos fatores que contribuíram para levar ao poder o fascismo alemão foi a fragmentação da sociedade alemã em numerosos partidos políticos, diferentes e combatendo-se entre si. A sua rápida e poderosa ascensão constitui uma clara prova de que as massas alemãs consideravam mais importante a prometida unificação da sociedade, com base na idéia de Estado, do que a orientação política dos diferentes partidos.”

“Os fascistas não foram os únicos a sublinhar a necessidade do Estado. Limitaram-se a fazê-lo com maior eficiência e intensidade do que o fizeram o governo social-democrata, os comunistas e os liberais. É esse o segredo do seu triunfo. Assim, é a divisão política de uma sociedade que faz surgir a idéia de Estado, e vice-versa — a idéia de Estado cria a divisão da sociedade. É um círculo vicioso, para o qual só há saída possível se tanto a divisão da sociedade como a idéia de Estado forem examinadas a fundo e reduzidas a um denominador comum.” “Um dos maiores erros na apreciação das ditaduras consistiu em afirmar que o ditador se impõe à sociedade, por assim dizer, de fora, e contra a sua vontade.”

“Este esclarecimento da idéia de Estado à luz da sociologia, realizado pelo industrial e sociólogo alemão Friedrich Engels, retirou o fundamento de todas as filosofias sobre o Estado que, de uma maneira ou de outra, apontavam, em última análise, para uma idéia platônica, abstrata e metafísica de Estado. A teoria de Friedrich Engels, em vez de justificar o aparecimento do aparelho de Estado por valores superiores ou por um misticismo nacionalista, retrata, de maneira simples, a natureza dupla do Estado: ao descrever as bases sociais em que se assenta o aparelho de Estado, realçando ao mesmo tempo a contradição entre o Estado e a sociedade, fornece, tanto ao estadista perspicaz da envergadura de um Masaryk ou de um Roosevelt, como ao simples cidadão trabalhador de todo o mundo, um poderoso meio para compreender a divisão da sociedade e a conseqüente necessidade de um aparelho de Estado… e os meios para eliminá-lo.

“Como as uniões sexuais não são monogâmicas, os jovens trobriandeses de um clã têm relações sexuais com os de outro clã. Se entendermos a relação social entre as pessoas como toda a relação que sirva para a satisfação de uma necessidade biológica fundamental, concluiremos que as relações sexuais têm uma função tão importante como as relações econômicas. Mas, à medida que progride a divisão entre o trabalho e a satisfação das necessidades, e à medida que as próprias necessidades se tornam mais complexas, cada membro isolado da sociedade trabalhadora é cada vez menos capaz de cumprir sozinho as diversas funções que lhe cabem. Assim, transplantemos a sociedade dos trobriandeses, com a sua economia natural, para qualquer região da Europa ou da Ásia. É lícito apresentar esta hipótese, dado que todas as nações desta Terra provêm de tribos, e as tribos, por sua vez, têm a sua origem em clãs. Do mesmo modo, a economia mercantil, baseada no dinheiro, provém, invariavelmente, da economia natural. Suponhamos que, numa daquelas pequenas comunidades de 200 a 300 membros, surja a necessidade de estabelecer relações com a outra comunidade. Essa necessidade ainda é reduzida, pois é apenas um dos 200 membros que sente necessidade de comunicar algo a um membro de outra comunidade. Monta o seu cavalo e dirige-se para a outra localidade para transmitir a notícia. Entretanto, aparece a técnica da escrita, e a necessidade de estabelecer relações sociais com os membros de outras comunidades aumenta lentamente. Até então, cada indivíduo levava sua própria correspondência, mas, a certa altura, pede-se ao cavaleiro que leve e distribua várias cartas. As comunidades crescem, sendo agora constituídas por 2 a 5 mil habitantes. Centenas de membros de uma localidade sentem a necessidade de se corresponder com outras centenas de membros de outra comunidade. Com o desenvolvimento do comércio, a correspondência escrita deixou de ser uma curiosidade. A distribuição de cartas passa a ser uma tarefa diária, indispensável e cada vez mais difícil de ser realizada da maneira antiga. A comunidade discute o problema e decide contratar um carteiro. Para isso, libera um dos seus membros — que até então em nada se distinguira dos seus companheiros —, de todas as outras tarefas, garante-lhe subsistência e encarrega-o da tarefa de distribuir a correspondência de toda a comunidade. Este primeiro carteiro representa a encarnação da relação humana que se processa através da correspondência e sua distribuição. Deste modo surgiu um órgão social que apenas se encarrega de distribuir a correspondência de todos. Este carteiro é um tipo primitivo de administrador social, cujo trabalho indispensável está ainda inteira e rigorosamente ao serviço da comunidade.

Suponhamos agora que as comunidades primitivas, com o correr dos anos, e em grande parte devido à nova função da correspondência e das relações sociais desenvolvidas nessa base, se convertam em pequenas cidades de, digamos, 50 mil habitantes. Um só carteiro já não chega; tornam-se necessários 100 carteiros. Estes 100 carteiros precisam de uma administração própria, sob a forma de um carteiro-principal. Este carteiro-principal é um dos antigos carteiros, que é então liberado da tarefa de distribuir a correspondência. Passa a cumprir a função mais ampla de organizar da maneira mais prática a atividade dos 100 carteiros. Ainda não exerce funções de <supervisão> e não dá ordens. Ainda não sobressai do conjunto dos carteiros. Limita-se a facilitar aos 100 carteiros o seu trabalho, determinando a hora do dia em que as cartas devem ser recolhidas e distribuídas. Ocorre-lhe a idéia de criar selos para simplificar o conjunto daquelas funções.”

“O sistema-postal tornou-se um aparelho da sociedade; nasceu da própria sociedade com a finalidade de aumentar sua coordenação sem ainda se opor a esta sociedade como um poder superior.

Como é então possível que um aparelho administrativo da sociedade tenha se tornado um aparelho repressivo? Não é com base na sua função primitiva que se dá essa transformação. O aparelho administrativo conserva essas funções sociais, mas, gradualmente, desenvolve outras características, além dessa atividade indispensável. (…) Já existem, por exemplo, famílias <aristocráticas>, constituídas a partir dos primitivos chefes de tribo. Por meio da acumulação dos dotes de casamento, essas famílias criaram duas espécies de poder: em primeiro lugar, o poder que decorre da propriedade, e, em segundo lugar, o poder de proibir aos seus próprios filhos o estabelecimento de relações sexuais com as classes menos abastadas da comunidade social. Estas duas funções do poder encontraram-se sempre lado a lado, no desenvolvimento da escravidão econômica e sexual. O patriarca autoritário, cada vez mais poderoso, quer impedir que outros membros mais fracos da comunidade mantenham, sem obstáculos, as suas relações com as outras comunidades. Quer igualmente impedir que as suas filhas troquem correspondência amorosa com os homens que bem entenderem. Está interessado em que as suas filhas se liguem exclusivamente a determinados homens abastados. Ora, os seus interesses de opressão sexual e econômica levam-no naturalmente a apoderar-se daquelas funções sociais autônomas que anteriormente estavam confiadas ao conjunto da sociedade. O nosso patriarca pretende agora, servindo-se da sua crescente influência, impor que o correio deixe de distribuir todas as cartas sem distinção, passando a distribuir algumas cartas e excluir outras, como, por exemplo, as cartas de amor em geral e determinadas cartas de negócios. Para exercer esta função nova, o correio atribui a um dos carteiros a tarefa da <censura da correspondência>. Deste modo, a administração social do serviço postal adquire uma segunda função que o torna um poder autoritário separado e acima da sociedade.” “Pode acontecer, por exemplo, que jesuítas se sirvam da censura da correspondência para os seus próprios fins. Também a política de segurança do Estado pode utilizar a censura já implantada da correspondência para fortalecer o seu poder.”

“Para Lenin e seus contemporâneos, o <Estado capitalista> não passava de instrumento do poder da <classe de capitalistas privados>. A simplicidade desta relação traduziu-se, por exemplo, do seguinte modo, nos filmes russos sobre a revolução:

O proprietário de uma fábrica tenta baixar os salários, enquanto os operários exigem salários mais altos. O capitalista recusa-se a ceder a essa exigência; em resposta, os operários da fábrica entram em greve para impor o cumprimento das suas reivindicações. O capitalista chama então o chefe de polícia, encarregando-o de <restabelecer a ordem>. Aqui, o chefe de polícia atua como um instrumento público do capitalista, revelando claramente que o Estado é um <Estado capitalista>. O chefe de polícia envia os seus contingentes, manda prender os <instigadores>; os operários estão sem líder. Algum tempo depois, começam a sentir o tormento da fome e, voluntária ou involuntariamente, voltam ao trabalho. O capitalista venceu. Há necessidade de uma organização de trabalhadores melhor e mais sólida.

Na opinião dos sociólogos russos que tomaram o partido dos trabalhadores, esse filme refletia a relação entre o Estado e o capitalismo na América. Contudo, 20 anos de gigantescas transformações sociais provocaram alterações que já não coincidem com o esquema simples que descrevemos acima. No sistema de capitalismo privado, começaram a surgir cada vez mais claramente organismos que foram designados globalmente como <capitalistas de Estado>. A sociedade russa substituiu o papel do capitalista privado pelo domínio ilimitado do Estado. Não importa o nome que se dê a ele, mas o certo é que, de um ponto de vista sociológico correto e rigorosamente marxista, o capitalismo privado foi substituído pelo capitalismo de Estado. Como já dissemos, o conceito de capitalismo é determinado, não pela existência de capitalistas individuais, mas pela existência de uma economia de mercado e de trabalho assalariado.”

“Em outras palavras: em consequência dos acontecimentos revolucionários ocorridos na União Soviética e da crise econômica cada vez mais generalizada nas outras sociedades, surgiram graves focos de crise e, consequentemente, a necessidade de mobilizar o aparelho de Estado existente contra um processo de destruição. <O Estado> como poder social autônomo regressava à sua função original de manter a coesão da sociedade, a qualquer preço.”

“Esse processo pôde ser observado claramente na Alemanha: a necessidade de coesão durante a grave crise de 1929-39 foi de tal ordem que a idéia do Estado autoritário e totalitário conseguiu impor-se quase sem resistência. É certo que a sociedade conseguiu manter-se, mas não se verificou a solução dos problemas que tinham precipitado a crise social. Isso é facilmente compreensível dado que a ideologia do Estado é incapaz de lidar, de maneira atual e prática, com interesses opostos.”

“Nas indústrias Göring, o capitalismo privado e o capitalismo de Estado fundem-se em um só. Como entre os operários e empregados alemães as tendências anticapitalistas tinham sido sempre bastante fortes, essa transformação só era viável se acompanhada de métodos de propaganda anticapitalista. Foi exatamente essa contradição que fez da carreira triunfal do fascismo o protótipo do irracionalismo social, difícil de ser apreendido. Como o fascismo prometia simultaneamente a revolução contra o capitalismo privado e o remédio contra a revolução, conforme se dirigisse às massas trabalhadoras ou aos capitalistas privados, todo e qualquer movimento desse tipo tinha de acabar por ser contraditório, incompreensível e infrutífero. Isto explica, em grande parte, a compulsão que levou o aparelho de Estado alemão para a guerra imperialista.”

“Já aprendemos, entretanto, a atribuir a acontecimentos baseados em ilusões uma importância igual, se não maior, que à realidade mais sólida. A atuação da hierarquia da Igreja no decurso de milhares de anos constitui uma sólida prova disso. Mesmo que não tivesse sido resolvida nenhuma das dificuldades concretas da vida social, a unificação estatal, politicamente ilusória, dava a impressão de que alguma coisa fôra conseguida. É evidente que os acontecimentos subseqüentes provaram a inconsistência dessa solução estatal.”

“É o acaso que decide se o funcionário de Estado é um indivíduo de mentalidade democrática ou de tendências autoritárias. E, do ponto de vista da estrutura e da ideologia das massas trabalhadoras, não há na realidade qualquer garantia de que a ditadura não se desenvolverá a partir do capitalismo de Estado.”

“o aparelho de Estado americano formou-se a partir de grupos humanos que se subtraíram aos despotismos europeus e asiáticos, refugiando-se numa região virgem e livre de tradições. Só assim se compreende que, até o momento deste trabalho, não se tenha podido desenvolver nos Estados Unidos nenhum aparelho de Estado totalitário, enquanto, na Europa, todas as revoluções trouxeram invariavelmente consigo novas formas de despotismo, sob a palavra de ordem da liberdade.” Que lástima…

“Os fundadores da revolução americana tiveram de construir a sua democracia em terreno estrangeiro e em bases inteiramente novas, a partir do nada. Os homens que levaram a cabo essa realização eram, na sua maioria, rebeldes contra o despotismo inglês. Pelo contrário, os revolucionários russos foram forçados a assumir os destinos de toda a população russa, e a administrá-la. Os americanos tiveram a possibilidade de começar tudo de novo, ao passo que os russos traziam a reboque tudo o que estava para trás, por mais que lutassem contra isso. Isto talvez também explique por que motivo os americanos, que continuaram a manter viva a recordação da sua própria fuga ao despotismo, atuaram, em relação à tragédia dos novos refugiados de 1940, de um modo muito diferente, mais aberto e mais acessível do que a União Soviética, que fechou as suas portas.”

A SUCUMBIDA: “Resta-nos a esperança de que a democracia americana compreenda a tempo, e em tudo o que isso implica, que o fascismo não é exclusivo de uma nação ou de um partido; e que consiga dominar a tendência que existe nas pessoas para a ditadura. Só o tempo nos dirá se os americanos vão sucumbir ou resistir à compulsão do irracionalismo.”

X. FUNÇÃO BIOSSOCIAL DO TRABALHO

“A União Soviética aboliu a economia de lucro privada, mas não a estatal. Começou pretendendo transformar a <racionalização> capitalista do trabalho numa <racionalização> socialista. Libertou as forças produtivas do país e reduziu o horário de trabalho para todos; deste modo conseguiu atravessar sem desemprego a grave crise econômica de 1923-32. Indubitável que a União Soviética conseguiu satisfazer as exigências da economia planificada, com as suas medidas de racionalização que, de início, foram parcialmente socialistas. No entanto, o problema fundamental de uma verdadeira democracia, de uma democracia de trabalho, é mais do que apenas um problema de racionalização de trabalho. Mais do que qualquer outra coisa, é um problema de alterar a natureza do trabalho, de modo que este deixe de ser um dever fastidioso e se torne a realização gratificante de uma necessidade.”

“a psicologia experimental só considera a questão de saber que métodos permitem alcançar o maior rendimento possível da força de trabalho humana. Ao falar de alegria no trabalho, refere-se às realizações de um cientista ou de um artista que trabalhem independentemente. Também a teoria da psicanálise sobre o trabalho incorre no erro de se orientar sempre pelo padrão do trabalho intelectual. O estudo do trabalho humano, do ponto de vista da psicologia de massas, parte, corretamente, da relação do trabalhador com o produto do seu trabalho.”

“É perfeitamente admissível que o trabalhador possa ter contato com o produto total do trabalho, sem no entanto ser suprimida a divisão do trabalho.” Será?

“O que é feito da eliminação da divisão do trabalho, no paraíso dos trabalhadores que é a União Soviética? O que é feito do prazer no trabalho? O que é feito do sistema de salários e da economia de mercado? Vocês não vêem, a partir dos resultados da revolução operária, como são impossíveis e ilusórias as suas concepções epicuristas sobre o trabalho?”

“O fato de ninguém ainda ter conseguido escalar o monte Everest não constitui prova de que seja impossível fazê-lo. Só faltam os últimos 800 metros!” “Foram precisos séculos para se chegar à idéia de construir as fábricas, não como prisões, mas como lugares plenos de luz, de ventilação, de banheiros, cozinhas, etc. As necessidades da economia de guerra introduziram os aparelhos de rádio nas fábricas. Este processo se desenvolveria ilimitadamente, se os trabalhadores, e não os políticos, estivessem no controle da imprensa.” “Neste ponto, o adversário da democracia do trabalho poderia argumentar triunfalmente que a maior parte destas inovações não pôde ser mantida, que, por exemplo, as discussões sobre a produção degeneraram, com o tempo, em mera formalidade, ou foram totalmente suprimidas. A isto respondemos: os irmãos Wright não tornaram o vôo possível, embora Ícaro e Dédalo, na Antiguidade, e Leonardo da Vinci, na Idade Média, tenham fracassado em seus esforços para voar?”

O diretório tripartido e a autogestão das empresas foram abolidos quando um só diretor assumiu a direção da empresa, assumiu a responsabilidade individual e avançou para uma posição de liderança independente. Esse <diretor> era ainda originário da classe trabalhadora, isto é, dos trabalhadores da empresa em questão. Mas este diretor autônomo da empresa era logo forçado a desenvolver todas as características de um fiscal, de um burocrata ou de um dominador, o qual já não fazia parte das massas de trabalhadores. É esta a origem da <classe dominante> na União Soviética.”

“É sempre mais fácil, para quem se mantém numa atitude passiva, ridicularizar os fracassos de quem tenta avançar. Para o governo soviético, constituiu desde sempre uma grande dificuldade o fato de que justamente os operários especializados e interessados mostraram pouco entusiasmo pela política.”

“O trabalhador que se interessava pelos aspectos técnicos do seu trabalho, se pertencia a um partido político, era obrigado a voltar-se para a problemática política, quando chegava a noite. Os políticos não estavam em condições de adotar posições e pensamentos revolucionários a partir do próprio processo de trabalho; a verdade é que nada sabiam sobre o trabalho.”

“A democracia natural do trabalho elimina a falta de interesse; não a disfarça através de uma identificação ilusória com o <Estado>, a cor do cabelo ou a forma do nariz; elimina a falta de interesse permitindo que os trabalhadores sintam uma responsabilidade real por seu produto e tenham a sensação de que <essa empresa é nossa>.”

“Consideramos <libidinosa>¹ a relação de um homem com o seu trabalho, quando este lhe proporciona prazer; dado que o trabalho e a sexualidade (nos sentidos lato e estrito das palavras) estão estreitamente ligados entre si, a relação do homem com o trabalho é também uma questão pertencente ao domínio da economia sexual das massas humanas.”

¹ Hoje no dicionário: lascivo, dissoluto.

“Ora, quando 33 mil trabalhadores abandonam ao mesmo tempo uma fábrica, exatamente na primavera, não pode haver dúvidas de que a origem do problema está numa condição insatisfatória da economia sexual na União Soviética.”

O HORRÍVEL BUROCRATÊS DE STALIN:

Precisamos agora de uma organização que, sem se propor o objetivo pouco agradável de supervisionar tudo, seja capaz de concentrar toda a sua atenção na tarefa de controlar e verificar a implementação das decisões das instituições centrais. Essa organização só pode ser a Comissão Soviética de Controle do Conselho do Comissariado da União Soviética.

“A autogestão desejada não se desenvolveu, e não podia ter-se desenvolvido, porque o Partido Comunista, embora já tivesse proclamado o princípio da autogestão, não conhecia os meios necessários para concretizá-lo.”

“não é nos sovietes, como representantes dos homens e mulheres trabalhadores, que reside a causa do fracasso, mas sim na manipulação destes sovietes pelos políticos.” “Não se pode censurar o governo soviético por ter voltado aos métodos de controle autoritário e moralista: ele teve de fazê-lo para não pôr em perigo o resto. Pode-se censurá-lo, sim, por ter esquecido a autogestão, por ter dificultado seu desenvolvimento futuro e por não ter criado suas condições prévias.”

“As ilusões servem sempre para impedir a realização daquilo que representam.” “Uma ditadura declarada é muito menos perigosa do que uma democracia aparente.” “Por isso não podemos poupar aos políticos soviéticos a acusação de desonestidade. Prejudicaram, mais do que Hitler, o desenvolvimento da verdadeira democracia.”

“Determinavam-se planos. Os desertores eram expostos ao ridículo público; efetuavam-se manobras: as pessoas eram alarmadas e mobilizadas. A cavalaria ligeira se apossava dos postos avançados de comando em ataques perigosos.”

“Uma vez que a revolução social não se materializou no Ocidente, e que, acima de tudo, a autogestão da sociedade soviética não se desenvolveu, a situação na Rússia soviética era de fato comparável a um estado de guerra. A diplomacia soviética enfrentava então a difícil missão de evitar confrontos militares, especialmente o confronto com o Japão, devido à ferrovia da China Oriental e da Manchúria.”

“Quando uma população de 160 milhões de pessoas é mantida durante anos num clima de guerra, sendo-lhe inculcada uma ideologia militarista, são inevitáveis as influências sobre a formação da estrutura humana, mesmo que tenha sido atingido o objetivo dessa ideologia de guerra.”

“Quando um governo que se sente rodeado por poderes beligerantes exerce, durante anos seguidos, um tipo definido de influência militarista e ideológica sobre as massas, e, envolvido no turbilhão de tarefas imediatas de difícil resolução, acaba esquecendo sua própria tarefa, é facilmente tentado a manter e intensificar essa atmosfera, mesmo depois que, uma vez atingido o seu objetivo, ele tenha se tornado supérfluo.” Não faz sentido, já que a URSS não realizou nenhuma das duas tarefas: superar militar e economicamente seu principal adversário; implementar a autogestão.

“O heroísmo que presidia aos esforços de reconstrução da indústria era notável. Mas em que difere essencialmente esse heroísmo daquele da juventude hitlerista ou daquele de um soldado imperialista?”

“Reinstituiu-se o sistema de bônus. Os trabalhadores eram remunerados de acordo com sua força de trabalho; aqueles que faziam mais recebiam melhor alimentação e moradia. Mas isso não era o pior: foi restabelecida a forma mais rígida do sistema competitivo de salários. Tudo isto foi <necessário>, mas devia ter ficado claro que era diametralmente oposto ao objetivo original.”

“os operários tinham de comprometer-se a permanecer até o fim do plano qüinqüenal. Visto que cerca de 40% da indústria da União Soviética, no tempo do plano qüinqüenal, servia para a produção de material de guerra, tornava-se necessário intensificar consideravelmente o trabalho, para manter num certo nível a indústria de bens de consumo. Assim se organizaram <noites de trabalho>, com o propósito de estimular a ambição. Nessas <noites>, estabeleciam-se competições para ver quem conseguia datilografar mais depressa, embrulhar bombons mais depressa, etc. Em várias fábricas foi instituído o sistema de quadro preto e quadro vermelho. No quadro preto, eram escritos os nomes dos trabalhadores <preguiçosos>; no vermelho, os dos trabalhadores <bons e diligentes>. Ignoraram-se os efeitos produzidos pela exaltação moral de uns e pela humilhação de outros sobre a formação do caráter. Mas, a partir de tudo o que sabemos sobre a aplicação dessas medidas, podemos concluir com segurança que os efeitos sobre a formação da estrutura humana foram desastrosas. Aqueles que viam o seu nome escrito no quadro preto tinham, sem dúvida, sentimentos de vergonha, inveja, inferioridade e mesmo ódio; os que eram inscritos no quadro vermelho podiam vangloriar-se face aos outros concorrentes, podiam sentir-se vitoriosos, podiam dar vazão à sua brutalidade e fazer triunfar a sua ambição. Mas, na realidade, os vencidos em tal concurso não eram necessariamente os <inferiores>. Pelo contrário: temos o direito de supor que alguns dos <negros> eram homens estruturalmente mais livres, mesmo que mais neuróticos.”

“Chamava-se stakhanovistas aos operários que ultrapassavam em muito o nível médio de produtividade das empresas. Stakhanov fora o primeiro operário industrial a estabelecer recordes de produtividade do trabalho.”

wiki: “In 1988, the Soviet newspaper Komsomolskaya Pravda claimed that the widely cited achievements of Stakhanov were puffery. The paper insisted that Stakhanov had used a number of helpers on support works, while the throughput was tallied for him alone. Still, according to the newspaper, Stakhanov’s approach had eventually led to increased productivity by means of a better work organization, including specialization and task sequencing.” Ok, uma continência ao Sr. Ford vermelho!

“A falta de instrumentos de trabalho e de matérias-primas, o alojamento em grande parte miserável e a resistência passiva de muitos trabalhadores, são freqüentemente superiores às forças dos membros dos Komsomols [o equivalente na URSS à Juventude Hitlerista], e houve casos em que aqueles que chegavam com canções entusiásticas voltavam a partir com lágrimas de desespero.”

“Se hoje uma fábrica produz máquinas defeituosas, comete um crime contra o socialismo, contra todos nós que lutamos pela sua construção. Desertar da frente de batalha não é uma falta em relação ao oficial, mas sim uma traição aos camaradas. Desertar da frente do plano qüinqüenal e do socialismo não é fazer greve contra o empresário, mas é um crime contra todos nós.”

“Fazer guerras, criar indústrias, agitar bandeiras, organizar desfiles militares são brincadeiras de criança, se comparadas com atarefa de criar uma humanidade livre.”

…O bolchevismo na Rússia não corresponde àquilo que os entusiastas do comunismo neste país nos levaram a acreditar. Tem-se desviado constantemente para a direita nos últimos 12 meses, o que é evidente de muitas maneiras. Em parte nenhuma vi tanto respeito pelas fileiras do Exército como na Rússia, da base ao topo, o que vai no sentido do capitalismo e da democracia. [!!!] Os uniformes dos oficiais foram, em grande medida, copiados daqueles do tempo do czar, e a imprensa impinge ao povo heróis pré-revolucionários.

General americano protofascistinha

“As afirmações ridículas como a que foi citada acima só são possíveis se a história de um país e sua luta amarga pela libertação da escravidão não forem conhecidas. Rickenbacker aponta a União Soviética de 1943 como um modelo para os Estados Unidos. Fazia-o porque estava irritado com o absenteísmo nas fábricas americanas. Impressionava-o a facilidade com que a ditadura parecia ser capaz de enfrentar as dificuldades sociais. Mas, se é esse o caso, que preocupação é essa com a liberdade, guerra de libertação, mundo novo? Essa tagarelice babilônica é uma conseqüência do <politicalismo>.”

“Se as coisas continuarem como estão, há uma possibilidade muito real de, em breve, os Estados Unidos estarem em guerra com a Rússia. A União Soviética não tolerará nem uma América e nem uma Alemanha verdadeiramente democráticas. Uma das muitas razões para isso será a consciência carregada que pesa intensamente sobre a liderança de um Estado que partiu para conquistar liberdade para o mundo e acabou em um chauvinismo antiquado, contra o qual seus fundadores lutaram tão amargamente.”

XI. DAR RESPONSABILIDADE AO TRABALHO VITALMENTE NECESSÁRIO!

“O processo de reconstrução social na Europa começará com um vazio na vida social, o qual será principalmente caracterizado pelo caos político.”

“A democracia do trabalho não é um sistema ideológico. Também não é um sistema político, que pode ser imposto à sociedade humana através da propaganda de um partido, de políticos isolados ou de qualquer grupo que compartilhe a mesma ideologia. Não existe uma única medida política formal, capaz de <instituir> a democracia do trabalho. Não é possível instituir a democracia do trabalho, como se institui uma república ou uma ditadura totalitária.”

“Não é necessário, e seria mesmo catastrófico, instituir sistemas políticos recentemente concebidos. O que é necessário é coordenar as funções naturais da vida com a regulação dos processos sociais futuros. Não é preciso criar nada de novo; devemos simplesmente remover os obstáculos que se opõem às funções sociais naturais, independentemente das formas que estes obstáculos possam assumir.”

“A democracia natural do trabalho não tem uma orientação política nem de <esquerda> nem de <direita>. Abrange todos aqueles que desempenham um trabalho vitalmente necessário e, por isso, a sua orientação é exclusivamente no sentido do futuro. Não tem, na sua essência, a isenção de ser contra ideologias, nem contra ideologias políticas. Mas, se quer funcionar plenamente, é obrigada, também pela sua essência, a opor-se fortemente a qualquer orientação ideológica e, certamente, a qualquer partido político que impeça o seu caminho, de maneira irracional.” “Em resumo, a democracia do trabalho é uma função — básica, natural e biossociológica — recém-descoberta da sociedade. Não é um programa político. Assumo toda a responsabilidade por este breve resumo e exposição de idéias.”

XII. O ERRO DE CÁLCULO BIOLÓGICO NA LUTA DO HOMEM PELA LIBERDADE

“Nós terminamos uma guerra para pôr fim a todas as guerras; não há, portanto, motivo para inquietação.”

“quando a Liga das Nações e os diplomatas dão provas suficientes de sua incapacidade para lidar com problemas urgentes, quando se desencadeia uma nova guerra — desta vez envolvendo o mundo todo e mais violenta do que todas as guerras que a história conhece —, então todas as atenções se concentram no objetivo de <vencer a guerra>. Então se diz: <Primeiro temos que ganhar a guerra. Não é tempo para verdades profundas. Precisaremos delas quando tivermos ganho a guerra, pois nessa altura teremos também de assegurar a paz>.”

“Só depois de se ganhar a guerra e se concluir a paz (!) é que se pretende assegurar a paz. Ignora-se, assim, que é exatamente durante a guerra que têm lugar as profundas convulsões sociais que destroem as velhas instituições, que transformam o homem, que, em outras palavras, as sementes da paz germinam nas devastações da guerra.”

“O homem aprendeu a construir represas quando passou por inundações.”

“Mas, em vez de aproveitar a tempo os ensinamentos da guerra para construir um mundo novo, adiam-se decisões importantes, a ponto de os diplomatas e estadistas estarem tão ocupados com acordos de paz e indenizações, que já não há tempo para <fatos básicos>. Pois, nos períodos de transição entre o fim das hostilidades e a conclusão de uma paz aparente, diz-se: <Primeiro é preciso reparar os estragos da guerra; a produção de guerra tem de ser convertida em produção de paz; nossas mãos estão ocupadas. Antes de lidarmos com esses fatos básicos, vamos organizar tudo pacificamente.> Entretanto, os ensinamentos da guerra são esquecidos; mais uma vez, tudo foi arranjado de tal maneira que, no decorrer de uma geração, estoura uma nova guerra ainda mais terrível.”

“Se alguém, como eu, passou por esse adiamento de questões essenciais e ouviu esses mesmos argumentos pela 2ª vez, em 45 anos de vida; se reconheceu, na nova catástrofe, todas as características da antiga catástrofe, então tem de admitir, embora relutantemente, que não houve nenhuma mudança essencial desde a primeira catástrofe (a menos que se considere o aperfeiçoamento dos meios de destruição e um desenvolvimento mais difundido do sadismo humano como mudanças essenciais).” Mas criaram-se as bases da internet e da telefonia móvel, dirão os economistas!!

Novo clássico: A ARTE DE PROSSEGUIR EM GUERRA

“Afirma-se que a guerra <purifica> a atmosfera, que tem grandes vantagens — ela <fortalece a juventude>, tornando-a corajosa. E acredita-se, de maneira geral, que sempre houve e sempre haverá guerras. (…) Nunca ouvi dizer que os ursos ou os elefantes tenham o costume de se dividir em dois grupos que se destroem mutuamente.”

Os ecos do adestramento descoberto por Nie.: “as massas humanas, em conseqüência de milênios de distorção social e educacional, tornaram-se biologicamente rígidas e incapazes de liberdade; não são capazes de estabelecer a coexistência pacífica.”

“É ridículo dizer que o general psicopata conseguiu violentar por si só 70 milhões de pessoas.”

Milhões de Reiches.

“O fascismo é o resultado da distorção do homem através de milhares de anos. Poder-se-ia ter desenvolvido em qualquer país ou nação. Não é uma característica especificamente alemã ou italiana. O fascismo se manifesta em cada cidadão do planeta.”

Quem quer ser um Zaratustra? Um milhão de Carmen San Diegos…

“Adiei repetidamente o momento de escrever estas conclusões. Tentei livrar-me do problema, dizendo a mim mesmo que não sou político e que os acontecimentos políticos não me dizem respeito; ou que os meus estudos de biofísica orgânica me davam muito que fazer e que não devia sobrecarregar-me mais ainda com uma questão social básica ingrata e que, provisoriamente, parecia insolúvel. Tentei convencer-me de que era a minha secreta ambição política que me levava a me envolver na confusão das ideologias políticas irracionais; não queria ceder a ambições dessa ordem. Os políticos e estadistas responsáveis fatalmente se ocupariam desses problemas, cedo ou tarde!”

“A estrutura biológica do caráter do homem não é mais do que a fossilização do processo histórico autoritário.”

“Quem, como eu, perdeu, durante a Primeira Guerra Mundial, o lar, a família e os bens, quem viveu durante 3 anos e ½ de uma guerra mortífera, quem viu morrer e desaparecer numerosos amigos, quem assistiu a êxodos em massa e a destruições, etc., compreende o que milhões e milhões de homens e mulheres estão sofrendo hoje. Queremos pôr fim a essa ignomínia! É uma ignomínia que um punhado de malfeitores prussianos e de neuróticos perversos, funcionando como führers de uma coisa ou outra, possam explorar o estado de desamparo social de milhões de homens e mulheres trabalhadores e decentes.”

“Se nos entregássemos à ilusão de que basta eliminar a peste do fascismo para que a liberdade social funcione, prevaleçam a justiça, a verdade e a decência; nesse caso estaríamos sem dúvida condenados a soçobrar.”

“Não será fácil para os que trabalham no campo da biofísica orgânica, da psicologia estrutural e da economia sexual fugir à influência das ilusões e preservar, na forma de um cristal claro e puro, os seus conhecimentos, para as gerações futuras: é necessário que esses conhecimentos sejam ainda utilizáveis, na prática, depois da 6ª, 12ª ou 20ª guerra mundial.”

“Jesus defendeu uma verdade incomensurável para o seu tempo. Essa verdade morreu no mundo cristão quando a Jesus sucederam os papas. O conhecimento profundo da miséria humana, adquirido há 2 mil anos, deu lugar a fórmulas rígidas”

“As verdades da economia de Marx pereceram na Revolução Russa, quando a palavra <sociedade> foi substituída por <Estado> e o conceito de uma <humanidade internacional> foi substituído pelo pacto com Hitler.”

MAQUIAVEL TAMBÉM AUTOGESTIONAVA: “Seria estúpido tentar conquistar as massas com a afirmação de que elas próprias, e não alguns psicopatas, é que são responsáveis pela miséria social, de que elas próprias, e não um dirigente eleito ou aclamado, têm a responsabilidade pelo seu destino, de que elas e só elas são responsáveis por tudo que acontece neste mundo. Isso está em total desacordo com tudo que as massas até agora ouviram e absorveram. Seria estúpido pretender alcançar o poder por meio de tais verdades.”

“É verdade que os nossos conceitos de potência orgástica, couraça de caráter e orgone parecem irrelevantes, se comparados com a barragem de Dneprostroi ou com o blackout ou com Bataan e Tobruk. [??] Isto, evidentemente, a partir de um ponto de vista atual. Mas, afinal, o que restou de Alexandre, o Grande que se possa comparar às leis de Kepler? E de Júlio César, comparado com as leis da mecânica? E das campanhas de Napoleão, comparadas com a descoberta de microrganismos ou do psiquismo inconsciente?”

Aldridge está errado quando censura os chefes dos exércitos democráticos por tentarem poupar a vida humana, ao invés de imitar os robôs humanos. Também está errado quando exige que os combatentes antifascistas aprendam a matar de maneira ainda mais mecânica, mais automática e mais científica do que os autômatos prussianos. Tentar derrotar tais autômatos recorrendo aos seus próprios métodos é como tentar esconjurar o diabo por meio de Belzebu, isto é, quem o tentar, transformará a si mesmo, no processo de aprender a matar melhor e mais cientificamente, num autômato mecânico” Mas e então?

“Nossa concepção de luta antifascista é outra. É um reconhecimento claro e impiedoso das causas históricas e biológicas que determinaram tais assassínios. Só por este processo, e nunca pela imitação, será possível destruir a peste fascista. Não se pode vencer o fascismo imitando-o ou exagerando os seus métodos, sem o perigo de incorrer, voluntária ou involuntariamente, numa degeneração de tipo fascista.” Ainda bem que Reich era um pensador, e não um estratego militar.

“Ora, o homem desenvolveu a idéia peculiar de que não era um animal; ele era um <homem>, e há muito tempo se afastara do <mau> e do <brutal>. O homem tenta distinguir-se do animal por todos os meios, e, para provar que <é melhor>, invoca a civilização e a cultura, que o diferenciam dos animais. Mas todo o seu procedimento, suas <teorias de valor>, suas filosofias morais, suas <tentativas de macaco>, tudo comprova o fato de que ele não quer lembrar-se do fato de que, no fundo, é um animal, e de que tem muito mais em comum com <os animais> do que com aquilo que afirma e sonha ser. A teoria do super-homem alemão baseia-se nisso. Sua perversidade, sua incapacidade de conviver pacificamente com os seus semelhantes e suas guerras comprovam o fato de que o homem se distingue dos outros animais apenas pelo seu sadismo desmedido e pela trindade mecânica da visão de vida autoritária, da ciência mecanicista e da máquina. Quem considerar com atenção os resultados da civilização humana durante longos períodos verificará que as pretensões do homem não só são falsas, como também parecem ter o objetivo exclusivo de fazer o homem esquecer que é um animal.”

“Gozar a vida, com o auxílio da máquina, sempre foi o seu sonho. E na realidade? A máquina foi, é e continuará sendo o seu mais perigoso destruidor, se o homem não se diferenciar dela.”

“Quando, finalmente, o homem ousou descobrir os seus próprios órgãos, de maneira lenta, cautelosa e muitas vezes ameaçado de morte pelos seus semelhantes, interpretou então as suas próprias funções com base nas máquinas que, séculos antes, começara a construir (…) Mas o funcionamento da vida é inteiramente diferente; não é mecanicista. A energia biológica específica, que é o orgone, obedece a leis que não são nem mecânicas nem elétricas. (…) O homem sonha com poder construir um dia um homúnculo como Frankenstein, ou pelo menos um coração ou uma proteína artificiais. As idéias que a fantasia humana teceu em torno do homúnculo convertem-no num monstro violento, de aparência semelhante à do homem, mas de uma estupidez mecânica e de uma força bruta que, uma vez liberada, é impossível de controlar, e automaticamente provoca devastação. Walt Disney captou isso brilhantemente no seu filme Fantasia. (…) Por outro lado, nota-se claramente que o homem atribui aos animais que retrata exatamente aquelas características de que sente falta em si próprio, as quais, porém, não atribui ao homúnculo. Isso também se revela muito bem nos filmes de Disney sobre animais.”

Naruto é o animal místico mais poderoso, só por isso ele traz a paz duradoura. Goku é um gorila destrutivo e imparável. Gon é uma besta que, uma vez acordada, perde toda a capacidade de raciocínio, o exato oposto da quimera-formiga-rei Meruem, o pacifista. Netero reconhece que a malícia humana é infinitamente mais ampla e profunda que a de qualquer besta mágica. Os Houyhnhnms são tudo que quereríamos ser, até um padre o conhece, e não Darwin, o demasiado humano. Os aborígenes – os selvagens! – são mais humanos que o homem cultivado. O demônio enfeado no inferno é mais convincente como figura histórica que um amorfo Jesus de Nazaré…

“Os bebês recém-nascidos têm que tomar uma quantidade determinada de leite a intervalos determinados e têm que dormir um número também determinado de horas. A sua dieta tem que conter x gramas de gordura, y gramas de proteínas e z gramas de carboidratos. O homem não tem pulsão sexual até o dia do casamento; a partir desse dia, exatamente, passa a tê-lo. Deus criou a Terra em exatamente 6 dias e, ao sétimo, descansou, tal como o homem descansa das máquinas. As crianças têm que estudar x horas de matemática, y horas de química, z horas de zoologia; todas têm exatamente o mesmo número de aulas e têm de absorver a mesma quantidade de conhecimentos. A inteligência brilhante equivale a 100 pontos, a inteligência média a 80 pontos e a estupidez a 40 pontos. Com 90 pontos obtém-se o grau de doutor, mas não com 89.”

“A vida psíquica continua sendo para o homem alguma coisa nebulosa e misteriosa ou, na melhor das hipóteses, uma secreção do cérebro que é, por assim dizer, cuidadosamente conservada em compartimentos. Não tem maior significado do que as fezes, excretadas pelo intestino.” “(Nos meus estudos experimentais sobre o orgone, ainda continuo espantado com o fato de milhares de extraordinários pesquisadores terem-no ignorado.)” Mau sinal

“Não à animalidade! Não à sexualidade! — estes são os princípios da formação de todas as ideologias humanas, disfarçados quer sob a forma fascista de <super-homem> de raça pura, a forma comunista de honra da classe operária, a forma cristã de <natureza espiritual e moral> do homem ou a forma liberal de <valores humanos superiores>.”

“Quantas desgraças não tem provocado a filosofia platônica do Estado! São evidentes os motivos por que o homem conhece melhor os políticos do que os cientistas: não quer que lhe recordem que é, no fundo, um animal sexual: não quer ser um animal.” Ponto de vista imbecil e parvo de quem não entendeu Platão. Nem a união da eidos de Política, Arte, Cultura e Ciência.

“Um ministro da educação esclarecido poderia promulgar os decretos necessários à reformulação da educação. Os erros estariam corrigidos em uma ou duas gerações. Afirmações insensatas como esta foram também feitas por homens sensatos na época da Revolução Russa, entre 1917 e 23.”

“Não é por acaso que a noção platônica do Estado nasceu na sociedade grega escravagista.” You are utterly wrong! Or am I?

O que diabos é Baku? Este livro envelheceu mal!

O homem é o animal que sofre. Porém dir-se-ia que ele está tornando seus animais favoritos, lentamente, companheiros sofredores (cães, gatos e cavalos deprimidos, etc.).

“Por mais imóveis que sejam sua pélvis e suas costas, por mais rígidos que estejam seu pescoço e seus ombros, por mais tensos que sejam seus músculos abdominais — ou por mais que erga o peito de orgulho ou de medo —, o homem sente, no profundo cerne das suas sensações, que ele é apenas um pedaço de natureza viva e organizada.”

“As massas humanas, sob a influência dos políticos, costumam atribuir a responsabilidade pelas guerras àqueles que detêm o poder numa determinada época. Na Primeira Guerra Mundial, foram os industriais de material bélico; na Segunda Guerra Mundial foram os generais psicopatas.”

amor livre é um conceito que se degradou e perdeu o sentido que lhe fôra conferido pelos velhos lutadores pela liberdade. Nos filmes, ser criminoso e ter uma sexualidade intensa são representados como sendo a mesma coisa.”

“Existe um perigo enorme de que a própria organização social democrática formal venha a degenerar numa organização ditatorial quando tiver de defender-se da ditadura autoritária sobre a sua vida.”

“não se pode contar com o retorno do velho”

A massa são os tentáculos da sociedade, diria o hentai japonês.

“lutando com dificuldade para obter um lugar ao sol, a planta acaba ficando retorcida. Quando libertamos um desses brotos das ervas daninhas, verificamos que ele se desenvolve melhor a partir de então; mas os efeitos anteriores da erva daninha não podem ser eliminados. Há um crescimento deficiente, atrofiamento dos ramos, mau desenvolvimento das agulhas. Mas as sementes novas que caem em terreno livre de ervas daninhas desenvolvem-se, desde o início, livre e plenamente.”

Eu achava que vivíamos no deserto, mas vivemos numa superfloresta amazônica…

“todos os dias nascem novos seres humanos e, dentro de 30 anos, a raça humana estará biologicamente renovada; virá ao mundo sem quaisquer marcas de deformação fascista.” Infelizmente isso foi afirmado em 1950…

“O fascismo alemão é fruto da rigidez biológica e da deformidade da geração alemã anterior. O militarismo prussiano, com sua disciplina mecânica, seu <passo-de-ganso> e seu <peito para fora, barriga para dentro>, foi uma expressão extrema dessa rigidez.” Barriga de chopp, porra!

“Fórmulas gerais, como <liberdade de imprensa, de reunião e de expressão>, etc., são imprescindíveis, mas nem de longe suficientes. É que, segundo essas leis, o homem irracional desfruta exatamente dos mesmos direitos que o homem amante da liberdade. E, como a erva daninha cresce com mais facilidade e maior rapidez que uma árvore forte, é inevitável que o hitlerismo acabe por triunfar.” Sim, liberdade de expressão apenas para os petistas: ditadura do proletariado é o único meio.

“Quem quer guiar um automóvel, precisa passar por um exame de motorista. Quem ocupa uma casa que está além de suas possibilidades, tem que alugar uma casa menor. Quem pretende abrir uma sapataria, tem de provar que está habilitado para isso. Mas não existe no século XX nenhuma lei que proteja os recém-nascidos da incapacidade educacional e das influências neuróticas dos pais. Um sem número de novos seres podem, e devem, segundo a ideologia fascista, ser colocados no mundo; mas ninguém pergunta se esses novos seres poderão ser alimentados adequadamente e educados de acordo com os tão louvados ideais. O lema sentimental da família numerosa é tipicamente fascista, seja quem for que o propague. (Surgiu lamentavelmente também no Plano Beveridge, de características progressistas, em 1942, na Inglaterra.)”

“Do ponto de vista médico e educacional, é indispensável pôr fim ao fato deplorável de centenas de milhares de médicos e professores poderem dirigir os destinos de cada nova geração, sem terem adquirido o mínimo conhecimento sobre as leis que regulam o desenvolvimento biossexual da criança. E isso ainda ocorre 40 anos após a descoberta da sexualidade infantil. A mentalidade fascista é inculcada dia após dia, hora após hora, em milhões de jovens e de crianças, devido a essa ignorância dos educadores e dos médicos. Isso nos leva a formular de imediato duas exigências. Primeira: todo o médico, educador, assistente social, etc., que lida com jovens e crianças terá que provar que ele próprio é saudável do ponto de vista da economia sexual e que adquiriu conhecimentos detalhados sobre a vida sexual das pessoas de 1 a 18 anos de idade.” “Segunda: o amor natural à vida, por parte da criança e do adolescente, deve ser protegido por leis claramente definidas. Esta exigência parece radical e revolucionária. Mas o fascismo, que se desenvolveu com base na repressão da sexualidade das crianças e adolescentes, teve, como todos reconhecerão, efeito muito mais radical e revolucionário, no sentido negativo das palavras, do que jamais poderá ser, de um ponto de vista positivo, a proteção da sociedade aos impulsos naturais.”

“A democracia do trabalho não pode ser organizada, do mesmo modo que a liberdade não pode ser organizada. Não se pode organizar o crescimento de uma árvore, de um animal ou de um homem. O crescimento de um organismo é livre, no mais rigoroso sentido do termo, pela própria função biológica. Igualmente livre é o crescimento natural de uma sociedade. Regula a si próprio e não necessita de legislação. Mas pode ser impedido ou desviado.”

Bombas de flor, flores de bomba. Bombons floridos, flores & bobinas…

MAL SABE VOCÊ QUE ESTÁ APENAS REPETINDO PLATÃO 2300 ANOS DEPOIS: “Não dizemos àqueles que trabalham conosco como ou o que eles devem pensar. Não <organizamos> seu pensamento. Mas exigimos que todos aqueles que trabalham no nosso setor se libertem das maneiras falsas de pensar e de agir que lhes foram impostas pela educação que receberam. Deste modo, as suas reações espontâneas libertam-se de maneira racional.” A diferença seria que Platão via esse modelo educacional, p.ex., em Esparta – algo muito longe e muito acima de qualquer estado degenerado das civilizações européias – e achava que o que estava funcionando não precisaria de mudanças radicais…

“É ridículo discutir com um assassino o seu direito de assassinar. Mas comete-se sempre esse erro em relação aos fascistas. Em vez de se considerar o fascismo como a irracionalidade e a infâmia organizada pelo Estado, vê-se nele uma <forma de Estado> em pé de igualdade com as outras. Isto acontece porque todos têm o fascismo em si mesmos. É evidente que também o fascismo <às vezes tem razão>. Do mesmo modo que o doente mental. O problema é que ele não sabe quando tem razão.”

“Não existe contrapeso significativo para compensar as influências biologicamente destruidoras da tecnologia da máquina.”

MESSIAH!

“A resposta para este doloroso dilema surgiu espontaneamente quando me interroguei sobre o modo como eu mesmo chegara às formulações funcionais nos domínios da psiquiatria, sociologia e biologia, chegando desse modo a esclarecer e substituir a mecanização e o misticismo naqueles três domínios. Não me considero um super-homem. Não sou muito diferente da média das pessoas. Como é que consegui então encontrar uma solução que a todos os outros se mantivera vedada? Gradualmente, comecei a compreender que a minha prática profissional de dezenas de anos, em que me ocupei do problema da energia biológica, me obrigara a libertar-me dos métodos e concepções mecanicistas e místicas, para poder me dedicar exclusivamente ao meu trabalho nos organismos vivos. Isto significa que foi o meu trabalho que me obrigou a aprender a pensar funcionalmente. Se eu tivesse me limitado a seguir a estrutura mecânica e mística que herdei da minha educação, não teria descoberto um único fato da biofísica orgônica. Comecei a trilhar a via até então oculta que me levaria à descoberta do orgone quando entrei no domínio do proibido das palpitações orgásticas do plasma. Olhando para trás, percebi claramente que a minha evolução tinha passado por muitos pontos críticos em que teria sido possível recuar da minha visão funcional¹ e viva das coisas para uma visão mecânica e mística. Nem eu sei como escapei a esse perigo. Mas tenho a certeza de que a visão funcional da vida, que contém tantas respostas essenciais para o caos atual, se alimentou do meu trabalho coma energia biológica, a energia orgônica.”

¹ Hoje essa palavra soa ofensiva acompanhada de “viva”!

“o orgone cósmico — a energia especificamente biológica que existe no Universo — não funciona de modo mecanicista e não é de natureza mística. Esta energia orgônica é regida pelas suas próprias leis funcionais específicas as quais não podem ser compreendidas de modo rígido, material, mecanicista ou em conceitos de eletricidade positiva ou negativa. Obedece a leis funcionais, como a da atração, dissociação, expansão, contração, irradiação, pulsação, etc. Duvido que a energia orgônica se preste a qualquer tipo de assassinato e, portanto, a qualquer técnica mecanicista de extermínio.”

Tudo o que é vivo morre, mas o que vida, não!

“As radiações orgônicas são a contribuição importante que a economia sexual oferece para a continuação do gênero humano. Mais cedo ou mais tarde, círculos e grupos cada vez mais vastos de pessoas familiarizar-se-ão com as funções do orgone.” Ainda à espera do desmentido.

“Peço que esta conclusão não seja tomada por uma proclamação messiânica. Considero-me, como por várias vezes tive ocasião de salientar nos meus escritos, um <verme no Universo>, um simples instrumento de uma determinada lógica científica. Faltam-me inteiramente certas características como a megalomania que levou o general pestilento a executar os seus atos criminosos.”

XIII. SOBRE A DEMOCRACIA NATURAL DO TRABALHO

“No ano de 1937, portanto 2 anos antes do início da II Guerra, foi publicado na Dinamarca um folheto intitulado A organização natural do trabalho na democracia do trabalho. Esse estudo não era assinado. Dizia-se apenas que era da autoria de um trabalhador de laboratório, e escrito com a concordância de outros homens e mulheres que executavam trabalhos práticos no mesmo setor. Foi publicado em alemão, simplesmente mimeografado e, mais tarde, traduzido para o inglês. A sua circulação foi reduzida, pois não era promovido por nenhum aparelho de propaganda política e não tinha pretensões políticas. Mas recebeu manifestações de adesão em toda a parte em que foi lido. Teve acesso a pequenos círculos, em Paris, na Holanda, na Escandinávia, na Suíça, na Palestina. Algumas dúzias de exemplares conseguiram atravessar clandestinamente a fronteira alemã. Só um semanário socialista alemão publicado em Paris lhe fez referência; de resto, não causou a menor sensação. Longe de desempenhar um papel revolucionário nos acontecimentos políticos da época, logo se perdeu no turbilhão. Não se tratava, aliás, de um panfleto político; muito pelo contrário, era um panfleto contra a política, elaborado por um trabalhador.”

“Nos 6 anos de guerra que se seguiram, não se ouviu mais falar desse panfleto. Mas, em 1941, surgiu uma continuação do primeiro escrito, intitulada Problemas adicionais da democracia do trabalho. Também foi transportada ilegalmente para vários países europeus, chegando a ser ‘interceptada’ pela polícia secreta americana, o FBI.” Antes de se preocupar em causar mutação genética nos outros, o Tio Sam queria é imitar nazi…

“Um estudante de medicina, antes de ter licença para praticar medicina, tem de comprovar rigorosamente os seus conhecimentos práticos e teóricos. Pelo contrário, um político que se propõe determinar o destino não de centenas, como o médico, mas de muitos milhões de homens e mulheres trabalhadores, não é submetido a uma prova semelhante na nossa sociedade.”

“São outros trabalhadores, com anos de prática, que decidem, de modo mais ou menos fundamentado, se o aprendiz está qualificado para exercer um trabalho profissional. É isso que se exige, embora as coisas muitas vezes não ocorram assim. Mas, ao menos, existe uma orientação. Nos Estados Unidos essa exigência é levada ao ponto de uma balconista, numa grande loja de departamentos, ser obrigada ater estudos universitários. Por mais exagerada e socialmente injusta que possa ser essa exigência, ela revela claramente a pressão social que se exerce mesmo sobre o trabalho mais simples. Qualquer sapateiro, carpinteiro, torneiro, mecânico, eletricista, pedreiro, servente de obra, etc., tem de preencher determinados requisitos.”

“Nos últimos 25 anos, temos testemunhado como um jornalista medíocre foi capaz de brutalizar os 50 milhões de pessoas da forte nação italiana, reduzindo-as, finalmente, a um estado de miséria.” “…até que, certo dia, o feitiço desapareceu silenciosamente, de tal modo que se teve a sensação de que nada acontecera!” “Um aprendiz de pintor, inteiramente fracassado do ponto de vista profissional, anda na boca de toda a sociedade humana durante 20 anos, sem que tenha realizado uma única ação útil, de valor prático. Também neste caso se assiste a uma enorme confusão que, de repente, se dissolve na constatação de que <nada aconteceu>. O mundo do trabalho prossegue o seu ritmo calmo, silencioso, indispensável à vida. Da grande confusão nada subsiste, além de um capítulo nos manuais de história, de orientação falsa, que impingem aos nossos filhos.”

“Não é nossa tarefa investigar aqui o modo como o atual sistema de partidos políticos se desenvolveu a partir dos primeiros sistemas de governo patriarcal e hierárquico da Europa e da Ásia. O que é essencial aqui é estudar o efeito do sistema de partidos políticos no desenvolvimento da sociedade. O leitor já terá adivinhado que a democracia natural do trabalho é um sistema social que já existe, e não um sistema ainda por instituir, o qual é tão inconciliável com o sistema de partidos políticos como a água com o fogo.”

“Designemos por homem científico, sem nos prendermos a detalhes, o ser humano que desempenha algum tipo de trabalho vitalmente necessário que exija uma compreensão dos fatos. Neste sentido, o torneiro numa fábrica é um trabalhador científico, visto que o seu produto se baseia nos frutos do seu próprio trabalho e da pesquisa, e no trabalho e pesquisa de outros.” “Não precisa de poder, pois não é por meio do poder que se constroem motores, que se produzem medicamentos, que se educam as crianças, etc. O homem científico e trabalhador vive e atua sem armas.”

“Prometem, dos seus gabinetes ministeriais, que trarão Deus, o Diabo e o paraíso à Terra, podendo estar certos de que ninguém os chamará a prestar contas por fraude. As suas afirmações estão protegidas pelo direito democrático inviolável da liberdade de expressão. Mas, se refletirmos atentamente sobre o assunto, concluiremos que há algo errado no conceito de <liberdade de expressão>, se é possível um pintor malogrado usar esse direito para conquistar, de um modo absolutamente legal e no decorrer de poucos anos, uma posição no mundo que jamais foi concedida a nenhum dos grandes pioneiros da ciência, da arte, da educação e da técnica, na história da humanidade.”

“Quero deixar bem claro que sou e sempre fui a favor do sufrágio universal. Mas isso em nada altera o fato inegável de que a instituição social do sufrágio universal da democracia parlamentar de modo nenhum corresponde às 3 funções essenciais da existência social [AMOR, TRABALHO E CONHECIMENTO].”

“Não existe na legislação da democracia parlamentar uma única disposição que garanta ao amor, ao trabalho e ao conhecimento prerrogativas especiais na condução dos destinos da sociedade.”

“O sistema de partidos políticos não satisfaz, de maneira nenhuma, as condições, as tarefas e os objetivos da sociedade humana. Isso está claramente patente, por exemplo, no fato de que um sapateiro não pode simplesmente decidir transformar-se em alfaiate, nem um médico em engenheiro de minas, nem o professor em carpinteiro. Por outro lado, um republicano pode tornar-se democrata, nos Estados Unidos, de um dia para o outro, sem uma mudança objetiva em suas idéias” Por um lado, a comparação com profissões é chula, porque cada um tem o direito de mudar de profissão sem mudar de identidade. Por outro, caro Reich, você está seguindo Platão, ao pé-da-letra ou não…

“na Alemanha antes de Hitler, um comunista podia facilmente se tornar um fascista, um fascista um comunista, um liberal um comunista ou social-democrata, e um social-democrata um nacionalista alemão ou socialista-cristão. Essas mudanças podem fortalecer ou enfraquecer a ideologia do programa de qualquer um dos respectivos partidos; podem, em resumo, determinar, do modo mais inconsciente, o destino de uma nação inteira.”

ON MERKELISM: “As chamadas coligações entre partidos nada mais são do que recursos de emergência por falta de uma orientação objetiva, e contornar as dificuldades sem resolver nenhuma delas realmente. É que não se podem resolver problemas reais e palpáveis com opiniões, que se mudam como se troca de camisa.”

“pelo fato de atacar a política, como princípio e como sistema, será de esperar que este trabalho seja atacado por meio de ideologias políticas. Será interessante e fundamental observar de que modo a sociologia da democracia do trabalho resistirá na prática. A democracia do trabalho, tal como eu a entendo, opõe às ideologias políticas o ponto de vista da função social e do desenvolvimento social, isto é, opõe-lhe fatos e possibilidades. É uma abordagem semelhante à que ocorre no domínio da moralidade: a economia sexual lida com os estragos causados pela moralidade compulsiva, não por meio de outro tipo de moralidade, como é costume em política, mas por meio de conhecimentos concretos sobre a função natural da sexualidade.”

“A afirmação de que um trabalho positivo nunca é contra mas sempre a favor de alguma coisa pode parecer improvável e exagerada. Isso resulta do fato de que a nossa vida de trabalho está repleta de expressões de opiniões motivadas irracionalmente, que não se distinguem das avaliações objetivas. Por exemplo, o agricultor é contra o trabalhador e o trabalhador é contra o engenheiro, etc. Um médico é contra este ou aquele medicamento. Pode-se dizer que faz parte da livre expressão democrática ser <a favor> ou <contra>. Eu, por outro lado, afirmo que esta concepção formalista e não objetiva do conceito de liberdade de expressão é o principal responsável pelo fracasso das democracias européias. Exemplifiquemos: um médico é contra o uso de determinado medicamento. Pode sê-lo por dois motivos:

Ou o medicamento é efetivamente prejudicial e o médico é consciencioso: neste caso, o fabricante do medicamento trabalhou mal. O seu trabalho não teve êxito e, evidentemente, não foi motivado por um forte interesse objetivo em fabricar um medicamento eficaz e inofensivo. A motivação do fabricante baseou-se não na função do medicamento, mas, digamos, no interesse do lucro; é, portanto, uma motivação irracional, porque não é compatível com o fim em vista. Neste caso, o médico atua racionalmente, no interesse da saúde humana, isto é, ele é automaticamente contra o mau medicamento, porque é a favor da saúde.”

“Um músico não pode criticar um mineiro, assim como um médico não pode criticar um geólogo.” Na boa? Vai se fuder!

YIN-YANG DIFICILMENTE EXISTENTE FORA DA CABEÇA DE REICH: “Ora, se a tal <natureza humana>, considerada imutável, corresponde à peste emocional, e esta, por sua vez, ao somatório de todas as funções vitais irracionais do homem; e se as funções do trabalho são, em si mesmas e independentemente do homem, racionais, então estamos diante de 2 importantíssimos setores de atividade humana que se opõem mortalmente: de um lado o trabalho vitalmente necessário, como função vital racional; de outro lado, a peste emocional, como função vital irracional.”

“Não importa absolutamente que um arquiteto, um médico, um professor, um torneiro, um educador, etc., seja fascista, comunista, liberal ou cristão, quando se trata de construir uma escola, de curar doentes, de tornear esferas ou de tratar de crianças. Nenhum desses trabalhadores pode fazer grandes discursos ou promessas fantásticas; ele tem que fazer um trabalho prático e palpável de colocar tijolo sobre tijolo, depois de ter refletido e feito projetos para decidir quantos compartimentos terá a escola, onde será colocada a ventilação, as portas e as janelas, e onde ficarão a administração e a cozinha.” Há controvérsias, sobretudo no tocante ao professor.

“Um grupo político, muito depois de levar um país à falência, continua seus velhos debates ideológicos em outro país.”

“Se, em 1933, quando comecei a adivinhar a existência de uma energia biológica universal, tivesse afirmado alto e bom som que essa energia realmente existia, que ela era capaz de destruir tumores cancerosos, eu apenas teria confirmado o diagnóstico de esquizofrenia feito por psicanalistas precipitados e seria metido num manicômio. Em conseqüência das minhas investigações no domínio da biologia, eu poderia ter criado uma série de ideologias e poderia ter fundado um partido político, um partido libertário, defensor da democracia do trabalho. Não há dúvida de que eu o poderia ter feito tão bem quanto outros que tinham menos experiência prática. Por meio da influência que eu tenho sobre as pessoas, teria sido fácil eu me cercar da minha própria SS e fazer com que milhares de homens usassem emblemas da democracia do trabalho. No entanto, isso não me teria aproximado nem um passo a mais do problema do câncer nem da compreensão das sensações cósmicas ou oceânicas do animal humano. Teria formulado solidamente a ideologia da democracia do trabalho, mas o processo da democracia do trabalho, desconhecido mas existente na natureza, continuaria sem ter sido descoberto.” “Tive de ler livros, dissecar cobaias, tratar diversos materiais de centenas de maneiras diferentes, até realmente descobrir o orgone e conseguir concentrá-lo em acumuladores, tornando-o visível.”

“Uma criança tem de aprender a ler antes de poder entender o quê as pessoas dizem em seus escritos. [VERDADE] Um médico tem de estudar anatomia antes de compreender a patologia. [FALSO!]” Não sou eu que opino assim, George Beard, neurologista do XIX, falou-o textualmente: seria melhor que o estudante de medicina iniciasse na prática, pois calhamaços repetidos não lhe inculcam o conhecimento e muitas vezes atrapalham sua clínica vindoura.

Há muito que se refletir, criticar e analisar sobre isso: “Não tenho uma ideologia que me obrigue a ser racional, por motivos éticos ou quaisquer outros. O comportamento racional me é naturalmente imposto pelo meu trabalho, de modo objetivo. Acabaria morrendo de fome se não me esforçasse por proceder racionalmente. O meu trabalho me corrige imediatamente, cada vez que eu tento encobrir as dificuldades com ilusões, pois não posso eliminar a paralisia biopática com ilusões, do mesmo modo que um maquinista, um arquiteto, um agricultor ou um professor não podem produzir, por meio de ilusões, o trabalho que lhes compete.”

Infelizmente, desmistificar o fascismo é só a parte mais fácil de tudo…

“Este ponto de vista é novo, tanto em psicologia como em sociologia; é novo em sociologia porque esta, até agora, considerou racionais os atos irracionais da coletividade, e é novo em psicologia porque esta não duvida da racionalidade da sociedade.” Um ponto de vista novo ligado à imanência não significa nada. E a via de acesso à transcendência se encontra bloqueada para nós.

“Consideraremos trabalho vitalmente necessário todo tipo de trabalho indispensável à manutenção da vida humana e ao funcionamento da sociedade.” Agora entendi. Finalmente iremos falar sobre álbuns de black metal!

“A contradição entre trabalho e política aplica-se tanto ao capitalista como ao trabalhador assalariado. Do mesmo modo que um pedreiro pode ser fascista, também um capitalista pode ser socialista. Em resumo, temos de compreender que não é possível orientar-se no caos social baseando-se em ideologias políticas.” Socialistas de fábricas de iphone são muito poderosos.

“Henry Ford poderá ter adotado esta ou aquela opinião política; poderá ter sido, ideologicamente, um anjo ou uma pessoa perniciosa; mas o que é inegável é que foi o primeiro americano a construir um automóvel, tendo contribuído para alterar radicalmente o aspecto técnico dos Estados Unidos. Edison foi sem dúvida um capitalista, do ponto de vista da ideologia e da política, mas não existe nenhum funcionário político de qualquer movimento de trabalhadores que não tenha utilizado a lâmpada concebida por Edison, ou que tenha a coragem de afirmar que ele foi um parasita da sociedade.”

“precisamente na época em que eu escrevia estas páginas, estava diante do problema de fazer placas e anúncios para o Orgonon [clínica e escola no Maine]. Como não sou carpinteiro, não sei fazer as placas. Como também não sou pintor, não sou capaz de fazer inscrições bem feitas. Mas precisávamos de placas para o nosso laboratório. Assim, fui obrigado a procurar um carpinteiro e um pintor, e resolver com eles, em pé de igualdade, sobre a melhor maneira de realizar aquelas tarefas. Sem os seus conselhos práticos e experientes, teria sido impossível para mim a realização da tarefa. Nessa ocasião, era absolutamente indiferente que eu me julgasse ou não um sábio acadêmico ou um cientista natural; assim como eram inteiramente indiferentes as <opiniões> do carpinteiro ou do pintor sobre o fascismo ou sobre o New Deal. O carpinteiro não podia considerar-me como <lacaio do proletariado revolucionário>, nem o pintor poderia ver em mim um <intelectual> supérfluo. O próprio processo de trabalho levou-nos a trocar nossos conhecimentos e experiência prática. Assim, o pintor, para poder trabalhar de modo não-mecânico, teve de compreender o símbolo do nosso método funcional de pesquisa [?] e, ao consegui-lo, entusiasmou-se pelo trabalho. Eu, por outro lado, aprendi com o carpinteiro e com o pintor coisas que desconhecia sobre a disposição das letras e das placas mais adequada à execução correta da função de um estabelecimento de ensino.” U-A-U!

“Sem o auxílio do fabricante de lentes e do engenheiro eletrotécnico, eu não poderia ter avançado nem um passo na investigação do orgone; por sua vez, o engenheiro e o fabricante de lentes enfrentavam alguns problemas não-resolvidos da teoria sobre a luz e a eletricidade, para alguns dos quais existe esperança de solução através da descoberta do orgone.” sub judice

“Karl Marx, quando começou a sua crítica da economia política, não era político, e nem membro de nenhum partido. Era economista e sociólogo. Foi precisamente a peste emocional das massas humanas que impediu que os seus ensinamentos fossem ouvidos; foi a peste emocional que fez com que Marx morresse na miséria; foi a peste emocional que o obrigou a fundar uma organização política, a famosa Aliança Comunista, que ele próprio dissolveu depois de pouco tempo; foi a peste emocional que converteu o marxismo científico¹ no marxismo político e partidário, que nada tem a ver com o marxismo científico, e que é, em parte, responsável pelo advento do fascismo.² A afirmação de Marx de que ele <não era um marxista> traduz exatamente esse fato. Marx não teria recorrido à solução de fundar uma organização política, se o pensamento das massas humanas fosse, em regra, racional, e não irracional. É certo que a máquina política foi muitas vezes necessária, mas foi uma medida compulsiva, devido ao irracionalismo humano.

¹ Nada mais que filosofia continental. Isso contradiz a questão da democracia natural do trabalho…

² Culpa do PT!

“Durante cerca de uma década, nada se assemelhou à política dos ditadores europeus. Para compreender a essência da política, basta atentar para o fato de que uma personagem como Hitler pôde manter o mundo inteiro com a respiração suspensa durante anos e anos. O fato de Hitler ter sido um gênio político serviu para desmascarar, mais do que nada, a natureza da política em geral. Com Hitler, a política atingiu o seu desenvolvimento máximo. Sabemos quais foram os seus resultados e qual foi a reação do mundo. Em resumo, acredito que o séc. XX, com as incomparáveis catástrofes que o marcaram, assinala o começo de uma nova era social, livre da política.” Só mais uma versão pseudo-a-ideológica do Fim da História…

novo sistema de classificação

#Livrode1estrela – abominação ilegível; publicação para fins tão-só pedagógicos e/ou humorísticos

#Livrode2estrelas – perda de tempo

#Livrode3estrelas – medíocre com citações relevantes (não leria de novo)

#Livrode4estrelas – de valor

#Livrode5 estrelas – clássico

GULLIVER’S TRAVELS INTO SEVERAL REMOTE NATIONS OF THE WORLD – Trechos traduzidos por Rafael Aguiar

AS VIAGENS DE GULLIVER A VÁRIAS NAÇÕES REMOTAS DO MUNDO

Jonathan Swift, deão de São Patrício em Dublin, primeiro publicado no verão 1726-7 e agora finalmente trazido para os modernos conhecedores do Idioma Português, nesta pandemia de 2020!

PARTE I – VIAGEM A LILLIPUT

“Meu pai tinha algumas poucas posses em Nottinghamshire: eu era o terceiro de 5 filhos.” (Incrível semelhança com Robinson Crusoe! – https://seclusao.art.blog/2018/06/06/a-vida-e-as-aventuras-de-robinson-crusoe-em-291-293-paragrafos-traducao-inedita-para-o-portugues-com-a-adicao-de-comentarios-e-notas-de-rafael-a-aguiar/)

“Meu pai costumava me remeter esporadicamente algumas somas de dinheiro que bastavam para minhas módicas despesas; eu as aplicava aprendendo a Náutica, bem como outros segmentos da Matemática úteis àqueles que desejam empregar seus dias viajando. Algo me dizia que, quer queira, quer não, mais cedo ou mais tarde, eu estaria destinado a este ofício! (…) Estudei Física 2 anos e 7 meses, conhecendo sua utilidade ao percorrer longos trajetos.”

“aconselhado a abandonar o celibato, casei-me com a senhorita Mary Burton, segunda filha do senhor Edmund Burton, tecelão e dono de armazém na rua de Newgate, de quem recebi, como dote,  8 mil xelins.”

“Fui cirurgião em dois navios subsecutivamente, vindo a fazer diversas viagens ao longo de 6 anos, às Índias Orientais e Ocidentais, excursões que também acresceram minha fortuna. Minhas horas de ócio eu empregava lendo os melhores autores, antigos ou modernos, nunca me encontrando nalgum lugar sem uma penca de livros; a bordo, ao poder observar os hábitos e os costumes de outros povos, aprendia sobre sua cultura, aproveitando para aprender também sua língua. Creio que eu nasci predisposto a esse tipo de aprendizado, pois minha prodigiosa memória me poupava dos mais ásperos esforços.”

“Acabei por aceitar uma proposta muito vantajosa do capitão William Prichard, regente do navio Antílope, que excursionaria em breve rumo aos mares do Sul. Partimos de Bristol dia 4 de maio de 1699, e posso dizer que no começo nossa jornada foi bastante próspera.”

“Na medição, encontrávamo-nos na latitude de 30 graus e 2 minutos sul. Doze de nossos tripulantes já haviam morrido de excesso de fadiga e escassez de víveres.”

“Nadei a esmo, conforme a fortuna me ditou, e de algum modo avancei graças ao vento e à maré. Constantemente deixava minhas pernas caírem, e não era capaz de sentir nenhum fundo. Mas, quando já não podia me agüentar, percebi que estava incrivelmente perto da praia, a uma profundidade propícia para um homem atravessar andando. Nesse momento a tempestade já havia enfraquecido deveras. O declive do solo neste litoral era tão pequeno que caminhei, ainda com as pernas submersas, mais de um quilômetro até me achar finalmente em terra seca. Calculei que devia ser umas 8 da noite.”

“Dentro em pouco senti algo vivo se movendo pela minha perna esquerda, deslizando e subindo suavemente, escalando até meu peito, e depois quase alcançando uma de minhas bochechas. Ao baixar minha vista para resolver o mistério – que será? –, vejo uma criatura humana de 6 polegadas, armada de arco-e-flecha, com uma aljava às costas. Não tive tempo de raciocinar antes que sentisse mais umas 40 criaturinhas semelhantes formigando por minha cútis! Claro, estão seguindo a primeira, conjeturei. Meu espanto carecia de expressão”

Hekinahdegul!, os outros repetiram as mesmas palavras diversas vezes, e nesse ponto da estória eu não sabia o que isso queria dizer.”

“Tolgophonac”

“Langrodehulsan”

“Peplomselan”

“Essas pessoinhas são exímios matemáticos, e atingiram a perfeição em engenharia, muito devido à industriosidade e empenho do imperador, um grande mecenas do conhecimento, se me é permitido o trocadilho.”

“Passei algumas horas bastante premido pelas necessidades da natureza; é de admirar que eu tenha agüentado tanto, já que fazia já 2 dias que eu não evacuava. Meu caso era grave: ao mesmo tempo que se insinuava essa emergência corporal, meu sentimento de decência me refreava. A melhor solução que encontrei, enfim, foi enfiar-me o mais fundo que pudesse no que me deram como moradia; segui, portanto, até a corrente que me prendia não me permitir ir mais longe, e detrás de bem-fechados portões descarreguei aquele excesso desconfortável de dentro de mim. Mas juro que essa foi a única ocasião em minha vida que me tornei culpável por uma ação tão abjeta!”

“Deste dia em diante, meu hábito passou a ser, assim que acordava, praticar ‘o ato’ a céu aberto, no limite do alcance de minha corrente. Além disso, graças a minha prevenção e também ao susto do incidente anterior, todo o cuidado era tomado pelo governo para que, antes de qualquer trânsito de pessoas pela rua, dois servos especialmente designados removessem a matéria ofensiva com a ajuda de carrinhos de mão. Eu não perderia tanto tempo da narrativa com detalhes tão escatológicos, à primeira vista absolutamente inoportunos, se não cresse imprescindível justificar minha conduta, meu asseio e minha higiene perante a boa sociedade”

“Ele era pelo menos uma unha (minha) mais alto que todo o restante da côrte, o que, por si só, é de saltar às vistas, naquele mundinho em miniatura!” “Ele já estava na metade descendente da vida, nos seus 28 anos e 9 meses, dos quais ele reinou por 7 na mais plena tranqüilidade e prosperidade.” “Seus trajes eram simples, diria que a moda de seu povo se situava entre a asiática e a européia; porém, à cabeça usava um portentoso elmo dourado, todo cravado de jóias, encimado por uma pluma.”

“tentava me comunicar com eles em quantas línguas eu sabia e em quantas eu não sabia (qualquer palavra decorada já me servia de auxílio), as quais eu enumeraria como as seguintes: o Holandês erudito e o vulgar, Latim, Francês, Espanhol, Italiano e a língua franca; mas não se espantem quando eu disser que nada dessa minha poliglotia servia para eu me fazer entender.”

“Eles perceberam o quanto seria oneroso eu ser mantido pela tribo. Que minha dieta custar-lhes-ia o suor de muitos e muitos homúnculos, eventualmente causando até fome e miséria em seu país. Então a dado ponto eles me submeteram praticamente a uma greve de fome ou jejum compulsório. Mas não era uma solução definitiva. Então um dia me flecharam na face e nas mãos com setas envenenadas, esperando, senão matar-me (porque o veneno seria reduzido comparado a meu volume relativo de rios de sangue), ao menos livrarem-se de mim (esperando que eu fugisse). Na verdade só posso considerar este como o plano desde o início, ao pensar melhor, pois a própria possibilidade da minha morte e da transformação do meu corpo em cadáver seria o bastante para desencadear uma grave crise: uma porção imensurável de carne putrefata, um odor pestífero que logo se alastraria, e que talvez iniciasse uma epidemia capaz de dizimar aquela civilização na micro-metrópole de Lilliput! O melhor para eles é que eu me fosse embora, voluntariamente.”

“Foi ordenada uma comissão de 6 habitantes, que ganhariam salários, para serem meus domésticos; foram-lhes erguidas moradias equidistantes e ao redor da minha própria<casa>. Foi também estipulado que 300 alfaiates se encarregariam de me confeccionar alguns vestuários conforme a moda local”

“em cerca de 3 semanas eu fiz grandes progressos no aprendizado da língua nativa”

Imprimis: no bolso direito da jaqueta do grande homem-montanha (pelo menos é assim que eu decifro a expressão quinbusflestrin), após a mais meticulosa busca, nada encontramos além de uma flanela gigante, gigante o bastante para servir de carpete da maior sala do palácio real. (…) Obrigamo-lo então a revelar o que se encontrava no extremo da corrente; pareceu-nos uma espécie de globo. Meio-prata e meio-translúcido, embora esta segunda parte também fosse de um material metálico; nessa metade transparente constatamos algumas estranhas figuras desenhadas em círculo; muito embora fôssemos capazes de <tocá-las>, era apenas uma ilusão de perspectiva, pois o tato nos revelava que tocávamos com os dedos apenas a superfície transparente do hemisfério do globo, e não os desenhos inscritos por debaixo daquele domo. Ele aproximou este globo de nossos tímpanos, queria que verificássemos uma coisa – o estranho mecanismo não parava de emitir um certo som como o de um moinho de vento, a intervalos regulares! Conjeturamos: será um animal desconhecido? Ou o deus que o homem-montanha venera? Achamos mais provável esta última opção, pois ele mesmo nos afiançou (se compreendemo-lo bem, pois ele não domina nossa língua e o conceito parecia um tanto abstrato) que rara era a ocasião em que ele fazia qualquer coisa sem consultar seu objeto ou talismã primeiro. Ele o chamou de <seu oráculo>, e declarou que tal globo ou entidade era o responsável por indicar-lhe precisamente o tempo destinado a cada ação do seu ciclo de existência.”

“a pólvora eu havia deixado amarrada, impermeável, dentro da algibeira, precaução de todo bom marinheiro quando infelizmente tem de se jogar no mar”

“Ele ficou espantado diante do barulho contínuo que o cilindro produzia, e também do rastro da bala no ar, que ele podia claramente discernir (a vista dos liliputianos é muito mais perfeita que a nossa)”

“Minha cimitarra, minhas pistolas e algibeira foram todas estocadas em carruagens nos depósitos de sua majestade; o resto dos meus pertences, ao menos, foi-me devolvido.

Eu tinha um bolso bem escondido em minhas vestes, que escapou a toda inspeção minuciosa deste povo singular. Nele eu guardava um par de óculos (porque algumas vezes eu tinha fraqueza nos olhos), um monóculo portátil e outras bagatelas que, não sendo de maior consequência para o imperador, bem julguei que não valesse a pena revelar-lhe a existência. Além do quê, cogitei que, de tanto manusearem esses instrumentos delicados, podiam acabar quebrando alguma lente.”

“Algumas vezes eu me deitava, de mãos espalmadas, e deixava que 5 ou 6 liliputianos dançassem sobre elas; com o passar do tempo, foram-se acostumando a mim e até os garotos e garotas da vila se aventuravam a conhecer-me de perto e tocar-me. As crianças gostavam de jogar esconde-esconde em minha cabeleira.”

“essa gente excelia qualquer nação que eu jamais conhecera em destreza e magnificência.”

“Quando um cargo de relevo fica vago, por morte ou desgraça (e desgraças acontecem), 5 ou 6 candidatos pleiteavam ao imperador sua posse na função renomada, através de um teste bem fora do comum: sua majestade e o restante da côrte deviam testemunhar uma dança sobre a corda!” “Não raro os próprios ministros em atividade eram convocados a demonstrar sua perícia equilibrista, a fim de convencer o imperador de que ainda possuíam a mesma habilidade que os levara ao cargo no passado.”

“Mas não pense que esses espetáculos nunca terminassem em acidentes fatais – isso era o mais comum, inclusive. Os documentos do governo registraram uma infinidade desses casos. Eu vi pessoalmente 2 ou 3 dos candidatos fraturarem algum membro. Mas o maior perigo se apresenta, mesmo, nas danças dos ministros; ciosos de superar os pretendentes aos novos cargos e de superarem a própria reputação já auferida, e buscando sobressair-se em relação a todos os demais funcionários, eles se aplicam até os limites de seus talentos corporais; nessa situação, raríssimo era o ministro que durante toda sua vida não sofria nenhuma queda da corda; está certo que nem todas as quedas matavam ou deixavam aleijado, pois vi muitos homens com a saúde perfeita que relatavam já haver tombado 2 ou 3 vezes…”

“Golbasto Momarem Evlame Gurdilo Shefin Mully Ully Gue, Todo-Poderoso Imperador de Lilliput, júbilo e terror supremos do universo, cujos domínios se estendem por 5 mil blustrugs (eu diria que coisa de 10km de raio), até os extremos do globo; monarca dos monarcas, mais alto que os filhos dos homens; cujo pé empurra para baixo e submete tudo com a gravidade, até o mais fundo; cuja cabeça altiva ameaça até o sol.

(…)

Art. 6º. Que ele deverá ser nosso aliado contra os inimigos da ilha de Blefuscu, e devotar-se ao máximo a fim de dizimar sua frota, que agora se organiza para invadir-nos.

(…)

Art. 8º.  Que o supracitado homem-montanha deverá, dentro de no máximo 2 luas a contar da promulgação desta Lei, fornecer uma medição precisa da circunferência de nossos domínios mediante o cômputo dos seus passos como unidade de medida, circunscrevendo a costa.

Último artigo. O homem-montanha prestará juramento solene de que observará todos os artigos desta constituição. Sua retribuição por seus serviços será uma ração diária de carne e bebida o suficiente para nutrirem 1.724 (hum mil setecentos e vinte e quatro) liliputianos médios, com livre acesso à presença de nossa pessoa real, bem como outros privilégios e distinções.

Redigida em nosso palácio de Belfaborac, ao décimo segundo dia da 91ª lua de nosso reino.”

“O leitor talvez queira observar que, no último artigo da constituição que regulamenta a retomada de minha liberdade, o imperador estipula uma quantidade de carne e de bebida para minha pessoa equivalente à que seria destinada a alimentar 1724 indivíduos liliputianos. Algum tempo depois, perguntando a um de meus amigos da côrte como foi que eles chegaram a esta medição tão exata, fui relatado que os matemáticos a serviço de sua majestade, utilizando minha altura como parâmetro e com o auxílio do quadrante, chegaram à conclusão de que eles próprios estavam em proporção a mim como o número 1 está para o número 12; e, havendo analogia orgânica e estrutural entre nossos corpos, intuíram que o meu deveria possuir uma massa de 1724 homenzinhos e, conseqüentemente, meu metabolismo deveria queimar energia nas mesmas bases.”

“Eu ultrapassei o grande portão ocidental e avancei bastante sutilmente, esgueirando-me por entre as duas principais vias, não vestindo mais do que meu colete, um tanto justo, por medo de danificar, se usasse um tecido mais longo, os telhados e esquinas das casas.”

“nós lutamos contra dois grandes males: uma violenta facção em nosso lar e a constante ameaça do invasor do lado de fora, inimigo este que nos é superior militarmente. Quanto ao primeiro mal, vós deveis compreender que, há já 70 luas nesta nação há dois partidos que racham a unidade do império, sob as alcunhas de Tramecksan e Slamecksan, distinguindo-se os partidários dum e doutro conforme calçam cano-alto ou sapatos rasos. Alega-se que os de cano-alto ou coturno são a facção mais agradável posto que fiel às nossas maiores tradições e leis mais arcaicas; seja como for, sua majestade determinou compor seu quadro apenas dos sapatos-comuns, ficando a facção mais ortodoxa como mera expectadora dos eventos da Coroa. (…) (drurr é uma unidade de medida correspondente mais ou menos a 1/14 de uma polegada) (…) Os Tramecksan ou canos-altos são de fato a maioria; mas nós concentramos o poder. (…) Quanto ao que afirmas, que há outros reinos e Estados neste mundo, habitados por seres humanos tão grandes quanto tu, nossos filósofos estão muito céticos; sua opinião é de que caíste da lua, ou de uma das estrelas; porque, com certeza, se 100 mortais tão grandes quanto tu existissem, todos os víveres, toda a fauna de sua majestade extinguir-se-iam num piscar de olhos. Ademais, nossa História de 6 mil luas de idade não faz menção de nenhuma outra região para além dos impérios de Lilliput e Blefuscu. (…) A contenda principal é: o modo primitivo de quebrar os ovos, antes de comê-los, é pelo lado mais largo; mas quando o avô da majestade vigente, em sua infância, prestes a comer um ovo, e quebrando-o conforme o costume antigo, cortou um de seus dedos, seu pai, isto é, o bisavô de sua majestade vigente, decretou, prevendo pesadas punições para os infratores, que os ovos deviam, doravante, ser quebrados pelo seu lado mais estreito. O povo ficou descontente com os novos usos, tendo havido 6 rebeliões originadas pela promulgação desta lei; como resultado, um rei perdeu sua vida, e outro sua coroa. Essas comoções civis foram fomentadas muito visivelmente pela nobreza de Blefuscu, que não vacilou uma só vez em receber todos os refugiados e hereges de Lilliput, para reforçar seus exércitos. Foram computados 11 mil mortos, que preferiram a punição a quebrar os ovos pela parte mais estreita. Centenas de calhamaços foram então publicados na matéria. Os livros dos ‘coturnos’ ou ‘larguistas’, foram completamente proibidos, e os partidários desta crença foram declarados inaptos para a assunção de cargos. Durante todas essas instabilidades os imperadores de Blefuscu sempre maquinaram mediante seus embaixadores, acusando-nos de cisma religioso, alegando grave ofensa a uma doutrina fundamental do grande profeta Lustrog, exposta no capítulo XLIV do Blundecral (que é o Alcorão dos liliputianos). Mas esses versos parecem estar corrompidos ou sujeitos no mínimo a uma má-interpretação, uma vez que as palavras são estas: <todo verdadeiro crente deverá quebrar seus ovos do lado conveniente.>. E qual seria esse lado conveniente? Na minha humilde opinião, este problema deveria ser deixado à consciência de cada cidadão, ou pelo menos dos magistrados, que têm toda a competência para eleger um lado favorito.”

“O império de Blefuscu é uma ilha a nordeste de Lilliput, do qual jaz separado por um canal que não ultrapassa as 800 jardas.”

“Tão triviais são todos os serviços prestados a um príncipe, quando no outro prato da balança ele situa aquela única ocasião em que nos recusamos a satisfazer um capricho seu!”

Burglum! Burglum! Burglum! O palácio real estava em chamas e fui acordado no meio da noite. (…) Por puro golpe do destino, na noite anterior aconteceu de eu ter tomado uma generosa quantidade de um deliciosíssimo vinho chamado por nós de glimigrim, e pelos blefuscudianos de flunec, do qual porém nos orgulhávamos de cultivar as melhores safras e os melhores vinhedos. Bebida muito diurética, esta! O acaso mais feliz é que eu não havia, até o momento, despejado nenhuma gota desta substância pelo meu canal uretral, até ser chamado pelos meus desesperados convivas a ajudar no combate ao incêndio. E o vívido contato com o calor daquelas chamas, após o fatigante trabalho de carregar tonéis de água que pudessem debelar o mal (para mim tais tonéis não passavam de tampas), finalmente acendeu em mim a vontade de desopilar! Dei vazão a meus instintos: urinei em tal quantidade, em tal abundância, e apliquei o jato tão adequadamente nos focos do incêndio, que em 3 minutos o fogo estava completamente extinto, e o resto dos escombros reais, que levaram tantas luas para serem erguidos, foram preservados da destruição.”

“Havia, sem embargo, uma questão: era interdito a qualquer pessoa, de qualquer condição, sangue-azul ou plebeu, aliviar-se nas dependências do palácio. Nisto, fiquei apreensivo: seria eu condenado à morte por tal blasfêmia sem tamanho? Mas sua majestade me tranqüilizou com o recado de que daria pessoalmente ordem ao grande-inquisidor para me anistiar formalmente por qualquer ofensa ao código neste caso tão excepcional.”

“Assim como a estatura média dos habitantes é ligeiramente inferior a 6 polegadas, também cada animal e planta existe em miniatura e nas mesmas proporções que em nosso mundo.”

“Sua maneira de escrever é um tanto peculiar, não sendo nem da esquerda para a direita, como com os europeus, nem da direita para esquerda, como os árabes fazem, nem de cima para baixo, como é o caso dos chineses, mas obliquamente, duma diagonal à outra, cruzando o papel, como as madames na Inglaterra.

Eles enterram seus mortos de ponta-cabeça, na vertical, porque eles acreditam que em 11 mil luas todos os mortos reviverão, e neste dia a terra (que eles crêem ser plana) virará do avesso, e por esse método eles procuram que, à ressurreição, os liliputianos acordem já sobre seus pés, prontos para caminharem para fora de suas tumbas. É verdade que os mais eruditos dentre os liliputianos confessam a absurdez dessa doutrina; mas a prática remanesce, havendo complacência com a sabedoria popular.”

“o símbolo da Justiça, presente nas côrtes de judicatura, é uma figura de 6 olhos, 2 à frente, 2 às costas e mais 1 de cada lado, significando circunspecção; com um saco de ouro aberto em sua mão direita, e uma espada embainhada à sinistra, o símbolo quereria dizer com isso que seu papel é mais recompensar do que punir.”

“não é concebível, entre os liliputianos, que uma criança esteja obrigada a obedecer ao pai biológico pelo simples fato de trazê-la ao mundo, tampouco à mãe (…) sua opinião é que os pais são os menos confiáveis para decidir sobre a educação da criança”

“As crianças são vestidas pelos adultos até os 4 anos; depois disso devem se vestir sozinhas, não importa se é um menino ou menina da aristocracia; as atendentes do sexo feminino, cuja idade é mais ou menos, proporcionalmente, a de 50 para nossos anos solares, só executam algumas tarefas consideradas mais vis, muito limitadas em número.”

“Os pais só podem ver seus filhos duas vezes ao ano; cada visita deve durar uma hora; pode-se dar um beijo à chegada e outro beijo à saída; mas um guardião do Estado, que deverá testemunhar esses encontros, não permitirá cochichos nem expressões de ternura exageradas e afetadas, nem troca de presentes, brinquedos espalhafatosos, guloseimas e que-tais.”

“Se for percebido que alguma dessas babás se atreve a entreter ou assustar as mocinhas com estórias tolas ou aberrantes, ou qualquer tipo de tolice, como as que soem praticar pela Inglaterra, a culpada será açoitada em praça pública, não só numa mas em três sessões separadas, em diferentes pontos da cidade, além de encarcerada por um ano, ao fim do qual é devolvida à liberdade, conquanto banida da sociedade para viver nas partes mais remotas. Esse sistema faz das donzelas tão ou mais embaraçadas diante de demonstrações de covardia e asneirice que os próprios homens, de modo que também detestam ornamentos corporais, indecentes e contrários ao asseio: com efeito, crescer homem ou mulher em Lilliput é absolutamente idêntico, a não ser, talvez, por uma suavização tênue nos exercícios físicos das mulheres (…) a esposa deve ser companhia prudente e agradável, já que nem sempre será jovem. Aos 12 anos as garotas atingem à maioridade (lembrando que sua escala de tempo é diferente da nossa); seus pais ou guardiães trazem-na para casa, demonstrando gratidão aos professores (um dos quais é o guardião estatal a que me referi nos reencontros semestrais entre pais e filhos durante a infância destes), mas sem choro de mulheres e coisas assim.”

“Como Sua Majestade é excepcionalmente benévola, e em consideração a teus incomensuráveis serviços à Coroa, ela está decidida a poupar-te a vida, sendo o bastante que arranquemos ambos os teus olhos, humilde punição que te quitará com a lei. (…) Claro que a extração de tuas córneas não fará de ti um homem fraco; mesmo um cego como tu, posto que gigante, poderá ser de utilidade para Sua Alteza. Aquele que, mesmo cego, serve ao rei demonstra redobrada valentia, e cremos mesmo que a falta de visão seja uma vantagem, por acrescer certa valentia interna ao ser; o medo que tiveste de que acontecesse algo a teus olhos foi a maior dificuldade que tivemos para capturar a frota rival. Ademais, para ti está de bom tamanho que vejas pelos olhos dos ministros, pois sabemos que assim são os príncipes (em metáfora, é claro).”

“O rei tem boas razões para crer que és um larguista no fundo de teu coração. E, como a traição principia no coração, antes de manifestar-se nos atos, sua majestade acusou-te como traidor da pátria com fundamento sólido, e insistiu em condenar-te à morte.”

“Foi decidido meticulosa e rigorosamente que o projeto de matar-te por inanição gradual permanecesse um segredo de Estado”

“Foi um costume introduzido pelo monarca atual e seu ministério (que contrasta vivamente com o uso dos antigos) que, após a côrte pronunciar qualquer sentença capital, fosse para bajular o ressentimento do rei ou excitar a malícia de um ou outro cortesão favorito, o imperador deveria proceder a um discurso perante seu conselho, expressando hipocritamente sua misericórdia e ternura infinitas, qualidades altamente reputadas e veneradas em todo o mundo. E este discurso era, posteriormente à transcrição do escriba, publicado em todo o reino; e nada amedrontava tanto as pessoas quanto esses encômios autodirigidos à benevolência de Sua Majestade! Quanto mais pomposas eram estas palavras, verificava-se a cada execução, mais inumana e cruel se mostrava a punição, e não raras eram as vezes em que o réu não passava de um inocente. Confesso, não havendo nascido para a côrte, nem sido educado para compor a mesma, ser tão mau juiz e árbitro das coisas que não encontrei em canto algum da sentença essa leniência e esse favor tão aventados! Considerei então (talvez erroneamente) que havia nesta peça mais rigor que gentileza!”

“Ruminava sobre meu futuro, e estava propenso a resistir a minha punição, uma vez que, de fato, não estando eu despojado do movimento em meus membros, minha força era suficiente para derrubar todo esse império. Bastaria arremessar algumas pedras e a capital estaria completamente arruinada. Mas meu remorso começou a crescer dia a dia e desisti desta resolução inicial, relembrando meu juramento para com o imperador, e todas as honras que dele recebi, incluindo meu título de nardac (o mais nobre da nação).”

“Devo admitir que a preservação de meus olhos – e minha conseqüente liberdade – deveu-se a meu caráter um tanto afoito e minha completa falta de experiência. Porque se eu conhecesse bem, àquela altura, a natureza de príncipes e ministros, que hoje eu posso me jactar de conhecer após visitar muitas outras côrtes, seus métodos de tratar criminosos menos detestáveis do que eu, ah, se de tudo isso fizesse idéiaentão!…creio mesmo que, cheio de alacridade e circunspecção, resignar-me-ia a minha dura sentença.”

“e o embaixador declarou que, a fim de manter a paz e a amizade entre os dois impérios, o imperador de Lilliput esperava que seu irmão de Blefuscu ordenasse minha extradição de volta ao país liliputiano, de pernas e braços bem-amarrados, para ser devidamente punido pela minha traição.”

“o acaso, bom ou mau isso eu não sei, atirou em minha direção um barco, em que eu não hesitaria em embarcar, oceano adentro. Não quis continuar a ser um objeto de disputas entre dois ilustres monarcas! O mesmo imperador que me mantinha como hóspede não se mostrou de todo insatisfeito com minha decisão. Na verdade, por acidente, acabei por apurar que ele estava, ao contrário, muito contente, assim como a maioria absoluta de seus ministros.

Essa descoberta me fez apressar minha partida. A côrte, já manifestamente impaciente pela minha ida, muito me auxiliou na empreitada. Quinhentos operários foram designados para confeccionar velas para meu barco, seguindo minhas meticulosas instruções; cada vela era o produto de 13 dobraduras do seu linho mais forte e resistente!

“Um mês depois do começo dos trabalhos, com tudo ajeitado, comuniquei oficialmente a Sua Majestade de Blefuscu minha partida imediata. (…) O monarca me regalou com 40 bolsas contendo 200 sprugs – a moeda blefuscudiana – cada, com um quadro enorme (para seus padrões) seu, o qual eu pus dentro de uma de minhas luvas para manter seco.”

“Abasteci a embarcação com carcaças de 100 bois e 300 ovelhas, além da mesma proporção em pão e bebida, quantidade que um blefuscudiano demoraria 400 refeições normais para consumir. Fiz questão de levar, ainda, 6 vacas e 2 touros vivos, bem como os mesmos números em ovelhas e carneiros, respectivamente, com o fito de exibi-los em minha terra natal e, quem sabe, proceder à criação desta micro-espécie. Para alimentá-los enquanto estivessem a bordo trouxe comigo um bom naco de feno, e uma saca de milho.”

“Lancei-me ao mar em 24 de setembro de 1701.”

“Meu propósito era atingir, se possível, uma das ilhas que, eu cria, se localizavam a nordeste da Terra de Van Diemen.¹ Mas não me deparei com terra nesse dia; no próximo, contudo, lá pelas 3 da tarde, após, pelos meus cálculos, navegar 24 ligas marítimas desde Blefuscu, avistei velas a sudeste (eu seguia sentido oeste-leste).”

¹ Cujo nome foi mudado para Ilha da Tasmânia na década de 1850. Fica próxima da Austrália.

“Era um navio mercante de minha terra, regressando do Japão pelos mares setentrional e meridional. O capitão, Senhor John Biddel, de Deptford, era bastante cortês e excepcional marinheiro.

Estávamos agora a 30 graus sul de latitude; havia 50 homens no navio. Aqui encontrei um velho camarada, Peter Williams, o que só aumentou minha estima pelo capitão John. Este camarada me tratou com a maior consideração. Ele logo desejou saber de que lugar eu vinha, e se fôra feito prisioneiro; eu não hesitei em resumi-lo minhas aventuras em breves palavras, mas ele obviamente pensou que eu delirava. Natural que um marinheiro perceba num discurso incrível sintomas de alguém que passou pelas piores atribulações em alto-mar, e não dê crédito. Porém, para comprovar tudo, retirei do bolso meu gado e rebanho, o que, por fim, após um grande espanto e turbação causados ao camarada, serviram para convencê-lo da autenticidade do meu relato.” “Dei-lhe duas bolsas de 200 sprugs. Afiancei-lhe que, chegados à Inglaterra, dar-lhe-ia também uma de minhas vaquinhas e uma de minhas ovelhinhas adultas, junto com as crias, quando já as tivessem.”

“Ancoramos em Downs dia 13 de abril de 1702. Minha única infelicidade foi que os ratos do navio levaram uma de minhas ovelhas.”

“Durante minha curta nova estada em meu lar, lucrei algum dinheiro exibindo meu gado-miniatura a pessoas distintas. Antes que começasse minha segunda viagem, consegui vendê-los, por fim, a 600 libras. Ao regressar mais tarde eu contemplaria o crescimento exponencial dos espécimes, especialmente dos carneiros, o que, penso eu, contribuirá muito para o progresso da manufatura de lã do país, dado que realmente a lã destas micro-ovelhas é de altíssima procedência!

Para resumir, fiquei parado apenas por mais 2 meses, ao lado de esposa e família, pois meu insaciável desejo de conhecer novos povos não me permitiria continuar por mais tempo. Deixei 1500 libras nas mãos de minha mulher, comprando também uma casa para todos se instalarem com conforto em Redriff. O resto de meu dinheiro levei comigo, parte em espécie, parte em bens, com o intento de voltar a multiplicar minha fortuna. Meu tio mais velho, John, morrera e deixara, em herança, terras nas proximidades de Epping, que geravam um lucro de aproximadamente 30 libras ao ano. (…) Meu filho Johnny, batizado em homenagem a esse tio, estava no primário, mas eu já podia ver o quanto o menino era adiantado. Minha filha Betty (hoje, enquanto escrevo, uma mulher casada e com filhos) começava a desempenhar seu ofício de costureira. Despedi-me, então, de minha esposa, da garota e do garoto, com lágrimas nos olhos, de ambas as partes, e embarquei para novas aventuras, num navio mercante de 300 toneladas, com destino ao Surat, grande entreposto comercial das Índias Ocidentais, capitaneado por John Nicholas, de Liverpool.”

* * *

PARTE II – VIAGEM A BROBDINGNAG

“Tivemos ventos muito favoráveis até chegarmos ao Cabo da Boa Esperança, onde desembarcamos para coletar água doce; porém, descobrindo um vazamento, desembarcamos também todos os nossos pertences e a carga e acampamos por ali; com o capitão padecendo de febre, não pudemos seguir nosso curso até o fim de março.”

“Nossa trajetória era leste-nordeste, o vento seguia o rumo sudoeste-nordeste.”

“fomos levados, pelos meus cálculos, 500 ligas além da conta para leste, desorientados a ponto de o marinheiro mais experiente a bordo nada saber de nosso paradeiro. Nossas provisões ainda estavam em boa quantidade, nosso navio seguia firme e inabalado, a tripulação compartilhava um bom estado, mas o problema foi que a água se tornou terrivelmente escassa. Preferimos seguir no mesmo curso, ao invés de dirigirmo-nos mais para o norte, o que podia nos levar à costa noroeste da Grande Tartária, ou quem sabe ao mar congelado. No dia 16 de junho de 1703, o garoto no topo do mastro avistou terra.

“Quando aportamos em terra não vimos água corrente nem nenhuma fonte, muito menos sinais de povoação.”

“para mim era impossível escalar esse lance de escadas, porque cada degrau tinha quase 2m de altura e o topo da pedra estava lá pelo sexto metro de altura do chão.”

“avistei um dos habitantes, nas planícies das proximidades, avançando em nossa direção, do mesmo tamanho do colosso que flagrei perseguindo nosso barco! Ele tinha a altura dum campanário gótico e sua passada percorria 5m, pelo menos! Meu espanto não tinha dimensões, de modo que corri até o pé-de-milho mais próximo para me esconder. O gigante se ergueu sobre aquela enorme montanha de pedra, para nós, que para ele não passava de um escabelo ou plataforma, mirando ao longe, nos campos do lado oposto, com a mão direita em concha sobre os olhos. Eu ouvi seu chamado numa voz muitas e muitas vezes mais elevada que uma trombeta militar; o som ecoou de modo tão grave e assustador pelo ar que demorei a entender que não se tratava de um trovão. Imediatamente, 7 monstros da sua estatura se aproximaram portando gadanhas, o gancho de cada uma tão largo quanto 6 foices humanas inteiras!”

“Eu chorei minha viúva desolada e meus filhos órfãos de pai. Lamentei profundamente minha loucura e meu capricho, depois de tantos apuros arriscando-me numa segunda viagem, contra o conselho de meus mais próximos. Nessa terrível agitação, podia menos ainda suportar lembrar de Lilliput, onde os nativos me olhavam como o maior prodígio aparecido naquele mundo; lá eu mesmo podia encerrar toda a tropa imperial em minhas mãos, afora inúmeras outras ações que estarão para sempre gravadas nas crônicas daquela civilização de milhares de luares de duração, a ponto de provavelmente haver no futuro discussões entre as velhas e as novas gerações – porque decerto que uns chamarão todos os relatos historiográficos oficiais de mitologia e contos de fadas impressionáveis, mas outra corrente sempre acreditará em sua realidade efetiva!”

“Considerando a criatura humana mais selvagem e mais cruel em proporção a seu tamanho, o que poderia eu esperar senão tornar-me o pão do dia de um desses enormes bárbaros, o primeiro que me avistasse e me apanhasse? Pela primeira vez acreditei de corpo e alma nos filósofos, que dizem: nada é grande ou pequeno, a não ser relativamente. A natureza sabia o que fazia quando colocou liliputianos e blefuscudianos como vizinhos – imagine se os micro-homens tivessem de se haver com estes gigantes, gigantes para o único <gigante> que eles mesmos conheceram! E não duvido que um dia pudessem encontrar, os liliputianos, outros liliputianos deles mesmos: uma civilização menor ainda, que meu olho demasiado humano sequer pudesse distinguir em meio à relva! Mas o que me parecia mais estranho era que, houvesse gigantes para estes gigantes, não sei que continente terrestre poderia abrigá-los!… Sem dúvida o mundo era uma vastidão ainda longe de ser completamente conhecida pelo gênero humano, de qualquer tamanho ou espécie, pensei eu — tudo isso eu pensei, não organizada nem pachorrentamente, como aparece agora no papel, num curto intervalo de tempo, em meio aos temores mais macabros e à maior incerteza sobre os próximos eventos!”

“O gigante agiu com cautela, a mesma do caçador que não ignora que um animal, ainda que pequeno, pode vir a arranhá-lo ou mordê-lo. Na Inglaterra eu sabia caçar doninhas como poucos! Por fim, o homem-montanha me espreitou pelas costas, e envolveu meu tão largo lombo suavemente, entre seu indicador e polegar, depositando-me depois a cerca de 3m de seus olhos, para estudar minha fisionomia com mais precisão.”

“Ele <falava> bastante comigo; mas o som de sua voz feria meus tímpanos, chacoalhava meu organismo como se fôra todo o núcleo de um engenho ou moinho trabalhando a todo vapor. Apesar de tudo, eu conseguia distinguir as sílabas que ele emitia. Eu respondia o mais alto que conseguia, tentando em várias línguas, no que meu dono aproximava sua orelha de mim menos de 2m, o que para ele devia ser quase contato epidérmico; mas sempre em vão, porque não parecíamos dois seres inteligíveis. Parecíamos dois animais incapazes da comunicação entre nós.”

“Ele chamou sua mulher, e me exibiu a ela. Ela gritou e correu para longe, como a dona de casa inglesa ao ver um sapo ou uma aranha. Porém, depois de contemplar meu comportamento por algum tempo, e como eu parecia entender a reagir aos sinais de seu marido, ela passou a se acostumar a mim gradualmente, até considerar-me com bastante afeto, eu diria.”

“Eu segurei com bastante dificuldade o vaso com as duas mãos, e demonstrando grande respeito bebi à saúde da senhora, pronunciando o mais alto que pude as palavras em Inglês, o que fez todos os presentes rirem do fundo do coração. E essas gargalhadas quase me ensurdeceram. Esse licor tinha gosto de sidra, e estava longe de ser ruim.”

“lembrando quão naturalmente malvadas são nossas crianças com papagaios, coelhos, gatinhos e cães ainda filhotes, prostrei-me de joelhos e, apontando para o garoto, fiz com que meu mestre entendesse, tão bem quanto podia, que eu perdoava a ação de seu filho. O pai entendeu e concordou, e o garoto pôde se sentar à mesa novamente”

“como sempre me contaram, e por experiência própria confirmei em minhas viagens, fugir ou demonstrar medo diante dum animal feroz sempre o faz persegui-lo e ter mais motivos para atacá-lo, resolvi, então, nessa hora crítica, dissimular indiferença.”

“Tive muito menos apreensão dos cachorros, que se atulhavam na sala, como é usual em chácaras, em 3 ou 4; um era um mastim, que para mim tinha o tamanho de uns quatro elefantes, e havia também um galgo, algo mais alto que o mastim, mas muito mais esbelto.

Quando o jantar estava por terminar, a babá apareceu com um bebê de um ano de idade, que imediatamente me espiou e começou a guinchar e lamuriar na típica linguagem da idade duma forma que tenho certeza ouvir-se-ia da ponte de Londres a Chelsea, tal era seu desejo de brincar comigo.”

“Devo confessar que nada me causava mais horror que a vista de seus monstruosos seios, que não sei no momento com o quê comparar a fim de transmitir ao leitor curioso a correta proporção de seu vulto, de sua forma e de sua cor. Cada um era da altura de um homem da nossa civilização, e em circunferência creio que beirava os 5 metros. O mamilo era metade da minha cabeça, e sua cor, como a dos demais detalhes da teta, com pintas, cravos e sardas monstruosos, eram-me nauseantes. (…) Isso me fez refletir acerca da maciez da pele de nossas senhoras inglesas, que tão belas nos parecem, mas, no fim das contas, só porque estão adaptadas ao nosso próprio tamanho! Os defeitos da nossa mulher só poderiam ser assim apreciados com a ajuda de lentes de aumento.”

“Lembro de, em Lilliput, ter considerado a compleição daqueles micro-habitantes talvez a coisa mais linda sob o sol. Ao falar sobre isso com um sábio da nação, com quem estabeleci amizade, ele me disse que meu rosto parecia muito mais bonito e jovem quando me observava desde o solo, e que eu já não parecia o mesmo quando se me observava em close, nas vezes em que eu pegava meu interlocutor pela palma da mão a fim de aproximá-lo dos meus ouvidos. Ele confessou, com sinceridade, que se espantara quando vira meu rosto de perto pela primeira vez. Ele percebia enormes buracos, e dizia que cada fio de minha barba parecia mais rígido que as cerdas de um javali, e minha compleição, composta de um sem-número de cores, era um caleidoscópio doloroso aos olhos e, enfim, repulsivo. Devo dizer ao leitor que, na Inglaterra, eu sou dono de uma beleza mediana quando o assunto é o meu sexo, e que minha pele tem poucas imperfeições e queimaduras de sol, a despeito de tantas andanças e viagens!”

“A filha de meu dono se afeiçoou muito a mim, e me confeccionou 7 camisas e algumas outras roupas de linho, dos melhores tecidos disponíveis, que para o meu tato eram mais ásperos que roupas de juta. (…) Ela também foi minha professora do idioma local. (…) Eu fui batizado por ela de Grildrig, o que a família acolheu de forma voluntariosa. Em pouco tempo eu seria conhecido por todo o reino. Essa palavra carrega o mesmo significado do latim nanunculus, italiano homunceletino, inglês mannikin, isto é, <pigmeu>. Se não fosse essa mulher creio que pereceria em minha estada nesse país. Ela sempre me mantinha consigo e a salvo em suas peregrinações – eu a chamava de minha Glumdalclitch, ou <pequena babá>.”

“A vizinhança já andava dizendo que meu dono havia encontrado um estranho animal no mato, do tamanho de um splacnuck, embora constituído em toda sua compleição como um ser humano (como um ser-montanha!). E não escapava às observações que em tudo eu me comportava humanamente também, fosse inerentemente ou por imitação. E notaram que eu tinha uma linguagem totalmente própria e que me alfabetizava rapidamente na língua deles, andava ereto sobre duas pernas, era educado e gentil, aparecia quando era chamado, obedecia qualquer instrução, tinha membros muito hábeis e elegantes, e que meu pequeno rosto era mais formoso que o de qualquer menina aristocrata de três anos de idade.”

“Minha mestra me considerava humilíssimo, não desprovido de honra e amor-próprio, e que era-me degradante ser exposto no mercado por dinheiro para os tipos mais vulgares. Ela me afiançou que conseguiu de seu papai e de sua mamãe a promessa de que Grildrig seria dela e só dela; mas em breve ela percebeu que queriam fazer como fizeram com seu carneirinho do ano passado. De início seu mascote, ele foi engordado e logo vendido para o açougueiro.”

“o cavalo avançava mais de 10 metros a cada passo e trotava tão alto que a sensação não era outra senão a de ver-se solto num navio na mais agitada das tempestades. Nossa jornada era algo mais extensa do que seria o percurso de Londres a Saint Alban.”

“quase não me deixavam descansar nesse tempo, a não ser às quartas-feiras, que eram o Sabbath nessa região.”

“Cruzamos 6 ou 7 rios, no mínimo muito mais profundos e largos que o Nilo e o Ganges. Devo admitir que raramente havia regaço menor que o Tâmisa, nosso rio de pouco menos de 400km de comprimento. Já havia 10 semanas que estávamos nessa jornada; eu fui exibido em 18 grandes cidades do império, afora cidadezinhas e vilarejos ou famílias campesinas à parte. Em 26 de outubro chegamos à capital, chamada Lorbrulgrud, <Orgulho do Universo>.”

“Eu já era basicamente um usuário fluente da língua, podendo entender cada palavra dos interlocutores.”

“Minha ama trazia consigo um livrinho de bolso, não muito maior que um átlas de Sanson. Tratava-se de um manual muito disseminado entre as jovenzinhas desta nação, uma espécie de sinopse dos preceitos e da história da religião ali adotada. Ela utilizou este volume para alfabetizar-me.”

“Eles concluíram pela análise minuciosa de meus dentes que eu era um animal carnívoro. Mas, ao mesmo tempo, eles não podiam imaginar como eu podia me sustentar, uma vez que mesmo os quadrúpedes mais inofensivos e menores, como ratos, eram demasiado perigosos para minha acanhada existência. Cogitaram se eu não tinha de recorrer a lesmas e demais insetos.”

“Eles jamais se dignariam a classificar-me como um de seus iguais, um exemplar de sua espécie que teve sua maturação interrompida precocemente, i.e., um anão, porque minha pequenez estava muito abaixo de qualquer grau de aceitação do que devia ser um anão para eles. O menor indivíduo de todo o reino, o bobo favorito da rainha, tinha, ao que me parece, 9,14m. Após muitos debates, eles chegaram portanto a um consenso, o de que eu era um mero relplumscalcath, literalmente um lusus naturae conforme à moderna filosofia européia, definição vazia que não deixa de ser apenas um arremedo dos escolásticos aristotélicos para disfarçar sua extrema ignorância das coisas: queriam dizer, em suma, que eu era uma dessas aberrações de circo, e nada mais.”

“a rainha (mulher de estômago fraco!) se serviu, duma garfada, dum monte de comida equivalente à massa que uma dúzia de fazendeiros ingleses poderiam consumir num banquete suntuoso. Depois de ver essa cena, confesso que a cada nova lembrança voltava a me sentir enjoado como na ocasião. Isso se repetiria ainda por muitos dias”

“Confesso que, após falar copiosamente de minha terra-natal Grã-Bretanha, de descrever nossos comércios e guerras através de tantos mares e terras, e como os negócios de Estado estavam divididos em partidos assim e assado, de nossos cismas religiosos, dos preconceitos pedagógicos, etc., etc., Sua Alteza, não resistindo ao charme da crônica, fez-me subir a sua destra espalmada e me transportou, muito delicadamente, até bem perto de seu rosto real. Então, afetuosamente me afagando às costas e à cabeça como se fosse seu cachorrinho, e após uma sincera gargalhada, perguntou-me: Tu és um whig ou um tory?

“Quão desprezível não é a grandeza humana, capaz de ser emulada em todos os seus ínfimos detalhes por insetos diminutos como tu e teus semelhantes! Imagino que vós levais bem a sério a questão das distinções honoríficas. E tal como em nosso reino vós construís casas e cidades, que para nós não seriam mais que uma toca de coelho! Aposto que a aristocracia se admira ao espelho com vestimentas aprumadas e adornos mil; ama e peleja; contende, trai, engana, vilipendia!”

“E o rei continuava, enquanto eu, desconfortável, ora empalidecia, ora ruborizava, fosse de vexação ou pura indignação. Não era fácil ouvir falar assim tão galhofeiramente do nosso nobre país, da nossa invencível marinha e de nossa perícia e indústria sem iguais. Segundo a visão deste homem, a França era ainda mais digna de pena, quando lhe disse que nossa rival era apenas a segunda dentre as nações; e para ele a Europa não passava de um amontoado de arbitrariedades sem propósito. O que poderiam significar, nesse contexto tão irrelevante, virtude, piedade, honra, verdade, altivez e a ambição de conquistar o mundo inteiro? Nosso ridículo papel no jogo do universo era manifesto, e eu não fui poupado de ouvi-lo com todas as sílabas.”

“Nada me mortificava e me indignava tanto quanto este anão da rainha. Como eu disse, ele tinha <apenas> 9,14m, ou seja, era com toda a certeza o campeão dentre os pigmeus do reino – ninguém de sua própria espécie conseguia ser mais baixo do que ele. E parece que à minha vista ele também se sentia terrivelmente mortificado, interpretava minha existência como um insulto – uma ofensa direta à sorte que lhe cabia de ser o primeiro em alguma coisa. Sua inveja e ciúmes se tornaram evidentes. Pois eu duvido que vocês encontrem um bobo da côrte mais presumido do que este em todos os mundos nos quais pisarem!”

“ela costumava me perguntar se as pessoas do meu país eram tão covardes quanto eu.”

“A totalidade da extensão dos domínios do príncipe girava em torno dos 9500km em longitude e dos 4800km aos 8000km (especulava-se, sem muita certeza) em latitude. Isso me leva a crer que os geógrafos europeus encontram-se muito equivocados em seus cálculos ao supor que nada há entre o Japão e a Califórnia senão o oceano! Eu, particularmente, sempre acreditei que devia haver uma quantidade de terra equivalente para compensar, nas coordenadas opostas do globo, os desertos da Tartária. Proponho, doravante, uma reformulação dos mapas e cartas atuais, acrescentando este vasto continente dos gigantes na circunvizinhança da porção noroeste da América. Ofereço meus préstimos para o que se fizer necessário.”

“desnecessário dizer que essa gente se encontra excluída de todo comércio com qualquer outra nação do mundo.”

“a natureza, ao produzir as plantas e animais deste espaço, de dimensões tão extraordinárias, formou um ecossistema perfeitamente fechado, limitado a este continente, mantendo outras zonas terráqueas sem qualquer interferência ou comunicação com este espaço que padece de gigantismo. Parece que isso ocorre em benefício tanto desta terra dos gigantes quanto do resto do mundo, de forma que nenhuma das fisionomias da natureza sai prejudicada. Se há uma moral por trás destes fatos, deixo para os filósofos descobrirem.”

“As madames da côrte amiúde convidavam Glumdalclitch a seus apartamentos, e encorajavam-na a levar-me consigo, a fim de me contemplar e me tocar. Essas mulheres se compraziam em deixar-me pelado e inserir-me por inteiro entre os seus dois seios; eu tinha tremenda repulsa dessa gracinha, até porque o cheiro da pele das gigantes me era nauseabundo. Não digo isso para depreciar a honra dessas – no demais – prestigiosas damas, mas, como já deixei claro em minha narrativa, o fato de eu ser muito menor que elas me fazia exageradamente sensível para estas coisas. Qualquer cheiro, aparência ou som inexistentes ou desprezíveis para esta raça me eram muito notáveis e chamativos; numa palavra, ofensivos. Essas ilustres pessoas não deviam ser menos agradáveis para seus pares do que as melhores cortesãs inglesas, mas eu não podia participar deste encanto. Além do mais, qualquer aroma natural era menos traumatizante do que perfumes e loções, que estas aristocratas usavam em abundância e que me davam alergia ou simplesmente me faziam perder a consciência.”

“A mais adorável de todas estas damas da côrte, uma espirituosa adolescente de 16 anos, costumava me deixar sentado sobre um de seus mamilos, e cada vez inventava uma nova brincadeira ou um jeito inusitado de se entreter as minhas custas – estripulias dessas de moças, sem maiores conseqüências… mas que o leitor me escusará de eu não publicar neste recatado tratado. Estas coisas me deixavam tão inquieto e apreensivo que um certo dia pedi a Glumdalclitch que me arranjasse uma desculpa que me desobrigasse dali em diante de comparecer a essas <reuniões íntimas de comadres> de uma vez por todas.”

“Certa vez, um dos servos, cuja atribuição era encher-me o cantil com água fresca a cada 3 dias, se distraiu e deixou que um sapo enorme pulasse no balde e lá ficasse, sem de nada se dar conta. Ele abasteceu meu cantil derramando o bebê junto com a água, quer dizer, derramando o sapo junto com minha água, aposto, sem olhar o que estava fazendo, e se retirou. Eu tinha um barco próprio para velejar em uma banheira que este povo gentilmente construiu-me, como se se tratasse de um veleiro de brinquedo. Velejar consistia num dos meus melhores passatempos. O sapo adentrou a banheira, subiu ao barco, e eu só fui percebê-lo quando comecei a navegar. O sapo, com seu peso descomunal comparado ao do barco, fê-lo se inclinar em excesso para um dos lados, no que fui forçado a servir de contrapeso na parte oposta. Depois o sapo saltou até o meio do navio e, em seguida, sobre minha cabeça, e não parou de saltitar para frente e para trás, emporcalhando minha cara e minhas vestes com um lodo odioso. A largura horizontal deste bicho só o fez parecer, para mim, àquela altura, o animal mais deformado que podia existir. Mas, orgulhoso, mesmo Glumdalclitch tendo notado meu apuro, pedi para cuidar disso sozinho. Eu peguei um dos meus remos e dei-lhe umas boas pancadas, até ele finalmente achar melhor saltar de meu barquinho.”

“o macaco, sendo muito ágil e olhando em todas as direções, ótimo para detectar movimentos e encontrar meu paradeiro, deixou-me em tal estado de aflição que eu tirei sabe-se lá daonde firmeza de espírito e força mental para me esconder debaixo da cama e não dar um sinal de vida. Fato é que, depois de espreitar irrequieto uns instantes, urrando e fazendo caretas, ele conseguiu detectar minha presença. E enfiando uma de suas mãos pela porta da minha casa-miniatura, como um gato faria ao brincar com um rato, embora eu tentasse ludibriá-lo mudando de lugar rapidamente, ele por fim agarrou-me pelo cordão do capuz do meu casaco e me arrancou da casa de brinquedo.”

“Eu creio piamente que ele me tomou por um filhote de sua própria espécie, sempre acariciando simiescamente minha cara com sua outra mãozorra.”

“o macaco foi avistado por centenas na côrte, sentado num telhado, segurando-me como se fôra seu bebê, me alimentando, inserindo em minha boca certos víveres que ele havia amassado após retirá-lo das provisões que um dos macacos de seu bando carregava. Ele me fazia carinho e exortações se eu me recusava a comer. Os gigantes lá embaixo começaram a rir da cena. E não posso culpá-los: a cena deve ter parecido das mais ridículas e engraçadas, menos para mim mesmo, é claro. Seja como for, alguns jogaram pedras, esperando com isso fazer o macaco descer. Mas outros logo proibiram que se fizesse isso, porque se uma só dessas pedras me acertasse, era provável que meu próprio cérebro virasse uma papinha.”

“Eu quase morri engasgado com a comida amassada que o macaco insistia em enfiar minha goela abaixo. Minha querida <pequena babá> usou uma agulha para tirar tudo do fundo de minha garganta, no que comecei a vomitar, o que muito me aliviou. Mas eu me encontrava tão fraco a essa altura, e tão machucado nas costelas, de tanto ser abraçado pelo símio, que fiquei de cama umas boas duas semanas.”

“O macaco que me seqüestrou foi executado, e uma ordem expedida de que nenhum animal da espécie deveria ser deixado circulando nas dependências do palácio.”

“O rei me perguntou: O que tu te punhas a pensar enquanto no colo do macaco? Agradou-te a comida? Como ele fez para alimentar-te? O ar fresco dos cimos do telhado causou-te algum tipo de alteração no estômago? O que tu terias feito se isto te tivesse acontecido em teu próprio país? Sobre essa última pergunta, eu contei a Sua Majestade, com simplicidade, que na Europa quase não tínhamos macacos, só mesmo aqueles trazidos por curiosidade de outros países distantes, mas que estes eram tão pequenos que eu sozinho poderia lidar sem problemas com uma dúzia deles.”

“O fato é que a cada dia que passava eu alimentava a côrte com mais uma história burlesca e ridícula. Glumdalclitch, muito embora se afeiçoasse muito a mim, maliciosamente informava à rainha cada uma dessas ocorrências – porque ela não podia perder a oportunidade de tanto agradar a realeza.”

“Tinha um cocô de vaca no caminho, e eu tive de exercer minhas faculdades atléticas tentando saltá-lo. Peguei muito impulso, mas infelizmente o salto saiu fraco e eu afundei até os joelhos na substância. Eu percorri aquele monte de esterco como se fôra um terrível mangue, e um dos soldados me limpou tão bem quanto pôde com seu lenço. Deve-se imaginar o meu estado. Glumdalclitch me confinou a minha caixa até que voltássemos para casa. Obviamente a rainha foi logo informada do ocorrido, e o próprio soldado que me limpou espalhou o conto jocosamente por todo o reino. Todas as gargalhadas da cidade foram tiradas as minhas expensas por uma sucessão de dias.”

“Um dia o rei me posicionou para ouvir uma execução da banda real, mas eu duvido que todas as baterias e trombetas da Inglaterra poderiam ter feito um som tão ofensivo a meus ouvidos.”

“Quando criança eu aprendi a tocar a espineta. Glumdalclitch tinha uma em seu quarto e recebia aulas de um professor da aristocracia duas vezes por semana. Bom, pelo menos eu chamava o instrumento de espineta, porque me lembrava uma. Uma idéia surgiu em minha mente: de que eu pudesse entreter o rei e a rainha com uma canção inglesa com a ajuda deste instrumento. Mas, pensando bem, não passava de devaneio: a espineta tinha pelo menos uns 20m.”

“Um dia, talvez imprudentemente, tomei a liberdade de dizer ao rei que o desprezo com o qual ele aprendeu a imaginar a Europa, além do resto do mundo, é claro, não parecia condizente com toda sua sabedoria e caráter virtuoso; que a razão não aumenta com o tamanho do corpo; que, ao contrário, na Europa os mais altos eram geralmente os mais desprovidos de inteligência. Que, dentre os animais, os mais distintos por sua indústria e sagacidade eram as abelhas e formigas. E que, por mais que ele me tivesse em conta como um mero bobo da côrte, eu esperava poder viver para honrá-lo com algum serviço extraordinário. O rei me ouviu atentamente e começou a conceber uma opinião muito melhor de minha pessoa. Ele me pediu então uma minuciosa descrição do governo britânico, a mais minuciosa que eu pudesse fornecer. Acredito que, por mais orgulhosos de seu próprio reino, todos os príncipes gostam de ouvir sobre costumes de outras terras, para ver o que se pode melhorar na sua própria.

O leitor pode imaginar vivamente como eu desejava, nestas horas, ter o talento oratório de um Demóstenes ou Cícero, que me daria a chance de celebrar minha querida terra natal e exaltá-la ao grau máximo, num estilo condizente com seus méritos e sua prosperidade.

Seja como for, iniciei meu longo colóquio informando Sua Majestade da geografia da Inglaterra: disse que nosso país eram duas ilhas, que em seu todo constituíam 3 importantes reinados, unificados, porém, sob um só monarca; isso sem falar de nossas colônias na distante América. (…) Discorri então sobre a constituição inglesa e o funcionamento do nosso parlamento; detalhei portanto nosso ilustre corpo da Câmara dos Lordes, onde só exerciam mando os mais distinguidos dentre os sangue-azul, os mais tradicionais de berço e as famílias com mais patrimônio. Descrevi nosso sistema educacional e nossa imensa preocupação em incutir nos jovens o ensino das artes, da técnica e do combate militar. Apenas os melhores podiam se tornar conselheiros do rei. E demonstrei que se tornar legislador ou juiz era uma das maiores honras que se podia almejar. Enfim, esses eram os heróis de nossa pátria.”

“Outras pessoas, consideradas sagradas, também compunham aquela assembléia, os bispos, cujo ofício era zelar pela religião, bem como por todos os de hierarquia inferior no corpo eclesiástico. O rei e os mais sábios conselheiros se encarregavam de nomear os bispos dentre os mais compenetrados e santos dentre os padres. Os padres eram os mais espirituais do povo e da nação, o sustentáculo do clero.

A outra parte do parlamento era composta pela Câmera dos Comuns, gentis-homens livremente escolhidos pelas próprias pessoas do povo, baseadas principalmente na habilidade e no patriotismo de seus principais cidadãos. Contei então que a Câmara dos Comuns junta da Câmara dos Lordes constituíam a mais augusta assembléia de toda a Europa; este, que era o parlamento, em conjunção com o rei, decidia todos os mais importantes negócios de Estado e vigiava a aplicação da Lei.

Falei também das nossas côrtes de justiça, presididas pelos mais doutos e eruditos conhecedores do Direito, árbitros dos litígios civis, penais, morais… Relatei como era prudente e meticulosa nossa administração contábil e orçamentária. Estimei o valor e as glórias de nossas forças, da marinha e da infantaria. Fiz um censo tão bem quanto me lembrava de nossa população, quantos milhões se declaravam de uma confissão ou de outra, quantos se declaravam conservadores ou liberais. Não omiti sequer nossos desportes e passatempos favoritos, nem nenhuma outra particularidade que julguei que aumentaria a estima deste rei pelo meu país. Finalizei esses meus discursos com uma história resumida da Inglaterra nos últimos 100 anos.

Foram ao todo 5 audiências, cada uma delas de várias horas. O rei raramente me interrompia e parecia hipnotizado e concentrado em minha narrativa; às vezes ele se punha a anotar certas coisas; bem como anotava perguntas para me lançar no dia subseqüente.”

“Quais métodos são usados para aperfeiçoar as mentes e corpos de vossa jovem nobreza? Em que tipo de negócios os rebentos desta casta despendem seu tempo, seja na primeira infância ou na juventude mesma? Quando uma família da aristocracia se extingue, que medida é tomada e como se seleciona uma nova família para a Câmara dos Lordes? Qualé o pré-requisito para ser nomeado Lorde: conquistar a confiança do príncipe? Uma soma de dinheiro, talvez? Ou demonstrar engenhosidade e estrategismo políticos? As inovações, procurando sempre melhorar os costumes, chegam a causar algum tipo de perturbação ou ameaça de revolução? O interesse público é o último fim visado pelo monarca, ou há outros mais importantes? Quanto um lorde médio sabe sobre as Leis, e como vem a saber o que porventura sabe? Como um juiz faz para saber o que decidir numa questão vital sobre as propriedades de alguém em litígio? Está tua sociedade livre de vícios como a avareza, o partidarismo, a miséria? Poderia ser que a aristocracia esteja sujeita a se corromper por subornos, negociatas ou qualquer tática suja do ser humano sedicioso? Os bispos, eles são sempre nomeados com base na autenticidade de sua reputação e a honestidade de suas vidas, na extensão de seus conhecimentos em religião? Nunca houve um só que se tornasse um conspirador depois de ascender ao topo, mesmo que tivesse sido um bom padre? A fé é forte em todos os padres? As idéias são prostituídas entre aqueles que não querem perder suas ligações com a aristocracia, ou impera a sinceridade acima de tudo? Como são escolhidos os tais ‘comuns’? Um forasteiro eventualmente muito rico poderia vir a comprar votos ou exercer influência sobre a população? Por que todos estão inclinados a fazer parte desta assembléia, se é um trabalho tão duro e encerra tantas responsabilidades,e mesmo sem receber pensões ou salários, correndo o risco de levar a própria família à ruína?!? Os nobres estão sempre dispostos a tirar de seu próprio bolso a fim de auxiliar os outros? Mesmo se for um príncipe cheio de vícios e de pulso fraco?”

Enfim, eu senti que sua majestade duvidava do exaltado patamar de virtude e do espírito de abnegação de meu povo! Ele não cessava de multiplicar suas perguntas. Cada resposta gerava novas perguntas, e eu não sabia mais de onde peneirar tantas respostas! Suas objeções eram tamanhas, e tão impudentes, que me reservo ao direito de não incluí-las todas neste relato!”

“Quanto tempo leva para determinar o que é justo e o que é injusto? Quanto esforço, dinheiro e tudo o mais é gasto nesta operação? Advogados e oradores têm liberdade irrestrita de expressão ainda em casos de notórios assassinos ou maus-exemplos, cujos réus sejam indignos ou cuja defesa comprometa sua própria honra? (…) Quais são as possibilidades de reformar as Leis já instituídas? E como evitar que um juiz interprete uma Lei a seu bel prazer?”

“Quem são os credores dos ingleses? De onde tirais vós os recursos para pagá-los? – ele queria muito me ouvir falar dessas tais caríssimas e pesadas guerras. Deveis ser supinamente belicosos, ou então estais acostumados a viver em meio a inúmeros vizinhos de nações guerreiras e de mau temperamento! Não posso imaginar que vossos generais não sejam mais ricos ainda que vossos reis! … E que tipo de comércio ou empresa vós executais fora de suas ilhas, ademais dos naturalíssimos escambos e escoltas marítimas de rotina para manter-vos em paz?”

“Se nós fôssemos governados por nosso próprio consentimento, i.e., se meu povo fosse livre e o soberano de si mesmo, que elege seus próprios representantes, acho que nada nem ninguém teríamos, e não concebo do que os ingleses possam ter medo! E afinal de onde vêm todos esses inimigos de que falas?! Uma simples residência, não é ela muito mais bem-defendida pelo seu dono, seus filhos e família, enfim, que por meia dúzia de patifes recrutados nas ruas a baixos soldos, que lucrariam 100x mais cortando as próprias gargantas?”

“E essa coisa chamada jogo de cartas, a que idade começa-se a praticá-lo? E quando se pára? Quanto tempo é dedicado a isso a cada semana?! Essas apostas são perigosas – interferem no tamanho da fortuna de uma família?! Pessoas de caráter duvidoso podem se aproveitar de seu talento no jogo para amontoar riquezas? O título de nobre é comprável? Os vossos aristocratas conseguem viver em meio a rufiões ou não suportam essa perspectiva?”

“Teu último século e o de teu país, ó inglesinho, não passou de uma seqüência vertiginosa de conspirações, rebeliões, assassinatos a sangue frio, massacres, revoluções, exílios e banimentos, uma seleção das piores conseqüências dos mais graves vícios tais quais a avareza, a sedição, a hipocrisia, a perfídia, a crueldade, a fúria, a loucura, o ressentimento, a inveja, a luxúria, a malícia, a ambição!”

“Meu pequeno amigo Grildrig, fizeste um excelente panegírico de teu país. Provaste-me que a ignorância, a preguiça, o vício são os ingredientes mais aptos para formar os legisladores! Que as leis são mais bem-explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujos interesses e habilidades estão em perverter, confundir, enganar. Vejo em vós as linhas de uma instituição que, em sua origem, pode ter beirado o tolerável, mas que agora, metade apagada, em suas melhores partes, está agora infectada pela corrupção!”

“E quanto a ti, Grildrig, que passaste a maior parte de tua vida viajando, tenho muitas esperanças de que tu mesmo não cultivas muitos destes abomináveis vícios de tua nação!”

“Não posso concluir outra coisa senão que a grande maioria de teus conterrâneos é constituinte da raça mais perniciosa de pequenos e odientos vermes que a natureza jamais deu-se ao trabalho de perpetrar sobre a superfície da terra!”

“este monarca se mostrou tão cioso e inquisitivo em conhecer cada particular de minha vida e de meu povo que algumas informações e demandas não poderiam soar mais do que como ingratidão e descortesia, seja da parte dele ou da minha, ao me negar a responder ou dar satisfação de alguns detalhes. Às vezes não era por discrição: eu simplesmente desconhecia a resposta.”

“Se bem que devemos ser tolerantes com um rei que vive tão secluso do resto de todas as nações, e portanto nada deve saber em termos de maneiras e costumes ordinários para estrangeiros: nunca seu preconceito será aniquilado uma vez que há essa ignorância, e será sempre natural qualquer estreiteza conceitual, mais ou menos grave conforme o contexto. Creio que nós e o restante da Europa estamos, pelo menos, isentos deste defeito. Seria realmente bizarro se os padrões de vícios e virtudes adotados por um príncipe tão remoto e isolado tivessem utilidade universal!”

“Ele ficara abismado como um inseto rastejante tão impotente como eu (aqui uso suas expressões, literalmente) podia dar vazão a idéias tão desumanas, ainda mais sem o menor pudor na forma de dizê-lo, parecendo alheio a tantas cenas de violência e desolação que eu mesmo pintara como as conseqüências evidentes do uso dessas máquinas destrutivas. Algum gênio mau deve ter invadido vossa civilização, ele disse. Quanto a ele próprio, declarou que, embora poucas coisas o comovessem tanto quanto novas descobertas na arte e na natureza, ele preferiria perder metade de seu reino que ficar a par desses segredos sórdidos. E me recomendou dali em diante jamais voltar a esse assunto. Estranho caráter, estreitos princípios e visão tão limitada!”

“Eu tenho para mim que assim é essa gente porque ela não chegou ainda ao estágio em que se reduz a política a uma ciência. Uma vez eu lhe disse que <há dezenas de milhares de livros sobre a arte do governo entre nós>, o que, ao contrário do que eu projetava, gerou-lhe grande repulsa, uma péssima opinião de nós e muitos mal-entendidos!”

“A educação dos gigantes é muito precária, pois considera apenas a ética, a história, a poesia e a matemática, na qual, por sinal, eles são como que obrigados a exceler. Só que toda essa matemática é aplicada apenas em coisas práticas da vida cotidiana, p.ex., o aperfeiçoamento da agricultura e de outras artes mecânicas ou que chamaríamos de artesanato. Dentre nós creio que esta educação teria valor zero. Nunca vira povo tão pouco filosófico: idéias, entidades, abstrações e qualquer noção que fosse de transcendência eram-lhes particularmente impossíveis!”

“Desde épocas imemoriais eles já haviam descoberto a imprensa, como os chineses fizeram entre nós. Mas suas bibliotecas são até hoje acanhadíssimas. Mesmo a do rei, que é tida como a mais suntuosa, não possui mais do que mil volumes, distribuídos por uma galeria da coisa de uns 350 metros de extensão. Ganhei permissão real para pegar emprestado o livro que eu quisesse.”

“nada é mais alvejado pelos autores deste país que evitar qualquer palavra desnecessária ao discurso, ou mesmo a criação de sinônimos, porque se uma palavra comunica algo, essa palavra basta e eis tudo. Eu peregrinei minhas vistas por inúmeros de seus livros, principalmente os de história e moral.”

“seria bem razoável imaginar, homenzinho, que as espécies de hominídeos eram originalmente muito maiores, mas que pessoas do nosso tamanho e também da tua diminuta estatura sempre existiram em paralelo. Não só a tradição e os mitos nos falam de gigantes incomparáveis, não só alguma parcela de nossa história escrita, mas também provas fósseis, casualmente escavadas em diferentes porções de nosso reino; falo de esqueletos muito maiores que os dos homens atuais, que tu chamas de homens-montanhas.”

“Um cavaleiro montado num belo corcel chegava aos 30 metros de altura.”

“Eu estava bastante curioso para saber como esse príncipe, cujos domínios eram praticamente inacessíveis para qualquer outro país, sem falar que seriam inexpugnáveis por quaisquer de nossas forças armadas<diminutas>, avaliava os exércitos ou a falta de um, isto é, se ele estaria propenso, caso a necessidade se apresentasse, a ser um competente general de guerra ou se não passava de um rematado pacifista, desses que jamais veríamos dentre os líderes das nossas nações conhecidas.Será que ele ensinava a seus súditos a disciplina das batalhas e as treinava para enfrentar emergências?Essa minha ânsia, afinal, não durou muito, haja vista eu ter sido informado, tanto pelos livros de História quanto por alguns interlocutores, que, no decorrer das eras, houve na terra dos gigantes muitas pestes e doenças contagiosas, como essas que ajudaram a conter, assolar e subjugar aspopulaçõesna Europa, não muito tempo atrás. Também fiquei sabendo que – exatamente como em nosso Velho Continente – a nobreza dos gigantes vivia sempre sediciosa e ávida por mais poder ou por manter seus privilégios, enquanto que as massas contendiam o tempo todo arriscando a vida pela própria liberdade, e o rei, à parte, pelo domínio absoluto e nada mais.”

“O navio em que embarquei foi o primeiro jamais visto naquela costa, e o rei deu ordens estritas de que, a qualquer tempo que uma nova nau fosse contemplada no horizonte, outras embarcações dali em diante fossem capturadas e trazidas à terra firme, com todos os passageiros e tripulação intactos, que deviam ser transportados a Lorbrulgrud em carroças de duas rodas. O rei estava muito convencido nos últimos tempos da idéia de providenciar-me uma fêmea de meu tamanho, a fim de propagar minha nanica espécie – mas, sinceramente, de minha parte, preferia morrer que ser forçado a perpetuar uma espécie que passaria sua existência confinada em gaiolas como canários adestrados e, com o tempo, provavelmente vendida nos mercados para consumidores curiosos. Eu fui tratado com toda a deferência no reino; era o cortesão favorito do rei e da rainha, o deleite de uma côrte inteira. Mas considero isso um simples acaso individual, e a raça humana que de mim derivasse, creio, não teria a mesma sorte.”

“Já fazia 2 anos que estava entre os gigantes. Certa feita eu e Glumdalclitch fomos convocados a comparecer a uma audiência diante do rei e da rainha.”

“Eu olhava através das minhas janelas, mas nada podia ver além das nuvens e do céu. (…) alguma águia agarrou a argola de minha gaiola pelo bico, com o provável intento de deixá-la se quebrar numa rocha, como faria quando captura uma tartaruga, a fim de quebrar seu casco. E aí essa ave coletaria meu cadáver dos destroços, ou antes o devoraria sem pestanejar ali mesmo! A esperteza e o olfato desse animal permitem-no descobrir comida a centenas ou milhares de metros de distância, muito embora eu mesmo estivesse oculto ao olhar também muito agudo da criatura, por estar confinado nesta gaiola, que às vezes eu também chamava simplesmente de <minha caixa> ou <minha casa>; enfim, eu estava tão invisível para esse predador do mundo dos gigantes quanto estaria um homúnculo ou inseto bem-escondido num compartimento de 5cm³.”

“Percebi então que havia caído em alto-mar.”

“Ah, quantas vezes não desejei voltar a estar ao lado de minha querida Glumdalclitch! E pensar que cada hora separado desta minha babá era uma eternidade durante minha estada neste país! E além da situação lamentável em que estava não pude deixar de me entristecer também por Glumdalclitch, pensando o que ela estaria sentindo e pensando naqueles exatos instantes, de que forma ela lidaria com o luto de minha perda, o pesar da rainha, essas circunstâncias todas…”

“Ou, se eu escapasse desses perigos por um ou dois dias, o que sobraria para mim a não ser a morte mais miserável de frio e fome? Meu estresse máximo e perigo real de morrer a qualquer instante duraram 4 horas; eu esperava, não, eu desejava que cada segundo fosse literalmente o meu último.”

“Se há qualquer corpo aí embaixo, deixem que fale.”

“Alguns deles, ouvindo-me gritar tão selvagemente, pensaram logo que eu estava louco; outros ainda puseram-se a rir; de fato, a ficha demorou a cair: eu estava agora com pessoas da minha própria estatura e do mesmo nível de força que o meu!”

“Os marinheiros estavam todos admirados, me fazendo mil perguntas, às quais, para ser sincero, eu não desejava responder. Eu estava confuso à vista de tantos pigmeus ao mesmo tempo, porque era só o que pensava que eles poderiam ser: pigmeus da terra dos gigantes! Meus olhos estavam desacostumados com objetos e corpos pequenos.”

“Um deles disse:

– Eu distingui 3 águias voando rumo ao norte; mas confesso que não reparei se eram gigantescas ou do tamanho normal. Isso nem veio a minha mente.

Imagino que isso se deva à grande altura nas quais as águias se encontravam. Mas duvido que este homem entendesse as razões para minha pergunta.”

“como grandes criminosos, noutras nações, haviam sido forçados a embarcar em barcos pouco confiáveis e com provisão alimentícia muito minguada… Embora o capitão estivesse tão pesaroso da situação de racionar os bens, também se compadecia da miséria deste homem desgraçado e doente que caíra em seu navio, e prometia cumprir sua palavra e me levar a salvo para terra firme, nem que fosse no primeiro porto que tivesse a oportunidade de atracar, nem que fosse muito distante da Inglaterra, ou mesmo da Europa.”

“serão os olhos deste homem maiores que sua barriga? Não sei, meus caros, não sei, e não vejo mal nisso, ainda que fossem, porque este homem passou um dia inteiro sem comer!”

“Eu propus deixar todos os meus pertences como fiança de todos os favores de que me proveram. Porém o capitão se recusava a aceitar um tostão furado.¹ Despedimo-nos amavelmente, e fi-lo prometer que me visitaria em Redriff. Contratei um cavalo e um cocheiro por 5 xelins, que tomei emprestado do capitão.

Na estrada, observando a pequeneza das casas, das árvores, do gado e mesmo das pessoas, alucinei que estava ainda em Lilliput. Tinha verdadeiro receio de tropeçar e machucar qualquer viajante que encontrava, e não-raro gritava para que eles me dessem licença, como se falasse com pigmeus. Não menos de duas vezes quiseram quebrar minha cabeça pela minha atitude impertinente.”

¹ Outra situação idêntica a uma das cenas de Robinson Crusoe!

“Admoestei minha esposa dizendo que ela fôra frugal demais nos gastos, a ponto de pôr a si e a nossa filha quase em estado de penúria. Mas eu parecia tão fora de mim mesmo que elas opinaram omesmo que o capitão assim que me resgatara: achavam que eu tinha ficado louco. Digo isso porque o hábito e o preconceito parecem exercer uma extraordinária impressão sobre nós!”

“Minha esposa me aconselhou a jamais embarcar novamente, muito embora meu destino não estivesse alinhado com este plano de vida. Mas disso o leitor será informado a seu tempo!”

* * *

PARTE III – VIAGEM A LAPUTA, BALNIBARBI, LUGGNAGG, GLUBBDUBDRIB E AO JAPÃO

“Não pude recusar essa proposta. Minha ânsia por conhecer o mundo, a despeito de meus infortúnios passados, continuava violenta como sempre.”

“Tripulando a chalupa de 14 homens, 3 deles ingleses, ele me nomeou capitão da expedição”

“Ao décimo dia fomos perseguidos por dois piratas, que logo nos alcançaram; minha chalupa estava tão pesada com suprimentos que não conseguia velejar a contento; tampouco tínhamos aparato militar para defendermo-nos.”

“Lamento encontrar mais misericórdia num pagão que num irmão em Cristo, eu confessei ao holandês.”

“Considerei quão impraticável seria preservar minha vida num lugar tão desolado, e quão miseráveis não seriam meus últimos dias”

“O leitor jamais há de conceber meu espanto ao descobrir uma ilha flutuante, habitada por homens, que eram capazes (ao que parece) de levitar e afundar de novo sua ilha-nave e movê-la como bem desejassem”

“nunca na vida eu contemplara uma tal sorte de mortais, seres absolutamente singulares em suas formas, hábitos e tabus. Suas cabeças eram totalmente reclinadas, fosse para a direita, fosse para a esquerda; um de seus olhos apontava para dentro, isto é, para a parte de baixo do corpo e para o chão, e o outro para o zênite (o cume do firmamento)! Era um costume muito assíduo que a aristocracia do lugar conservasse sempre junto a si, em caráter imprescindível para a comunicação com o <mundo externo>, dois servos ou escravos, empregados faz-tudo.”

“Enquanto ascendíamos, inúmeras vezes perdiam o fio da conversação, de modo que eu tinha de relembrá-los. Às vezes de nada adiantava, e eu tinha de esperar que eles voltassem a si sozinhos. Mesmo diante de uma raça alienígena (o que eu era para eles), não podiam manifestar nada além da mais completa indiferença. Eu podia notar que lidava com indivíduos da aristocracia desse país, porque outros da mesma espécie, que eu chamaria de plebeus ou gente vulgar, tinham pensamentos mais ansiosos e contínuos, e viviam a gritar, mas os primeiros não lhes davam qualquer atenção.”

“Sua Majestade sequer pareceu me notar, ou a comitiva inteira, mesmo que nossa entrada tenha sido algo barulhenta. Ele estava ensimesmado num problema: como conseqüência, tivemos de esperar uma hora pelo seu <retorno>. De cada lado do rei havia um pajem ou servo; quando eles percebiam que o rei estava <de volta ao mundo real>, voltavam a se comunicar com ele. Um dos pajens servia-lhe de boca, o outro de ouvido. Assim ele se comunicava com o mundo exterior. Quando o rei percebeu nossa chegada, teve um sobressalto.”

“O rei me direcionou uma série de perguntas, de modo que eu (não pela primeira, nem pela última vez) tentei dar-lhe satisfação em várias línguas que conhecia. (…) esse rei era especialmente distinguido, reputado acima de seus predecessores no trono como excelente anfitrião de estrangeiros.”

“Tivemos duas refeições, de três pratos cada. Na primeira, havia uma paleta de cordeiro cortada em formato de triângulo equilátero, um pedaço de bife em rombóide (paralelogramo), e um pudim em ciclóide. A segunda refeição consistia em patos amarrados em forma de violino; salsichas e pudim idênticos a flautas e oboés, afora um peito de vitela imitando uma harpa”

“Em poucos minutos aprendi, na língua deles, a pedir pão e algo para beber, ou alguns outros petiscos.”

“Ele me trouxe pena, tinta e papel, além de 3 ou 4 livros, dando a entender pela linguagem de sinais que fôra enviado para ensinar-me as letras. Ficamos em labuta por 4 horas, tempo que me foi o bastante para redigir uma imensidão de palavras em colunas, com as respectivas traduções; também me esforcei para aprender as principais expressões curtas de uso cotidiano; meu tutor me ensinou como dar ordens aos meus serventes, tais quais pegar isso ou aquilo, ir embora, se apresentar, fazer reverência, sentar-se, erguer-se, andar, etc.

“Em poucos dias, com a ajuda de uma memória em que podia depositar minha inteira confiança, podia me expressar razoavelmente bem neste idioma.”

Lap, na antiga língua obsoleta, significa alto; e untuh, governador; daí é que dizem ter derivado o nome Laputa, antes Lapuntuh. Terra alta ou terra da altura, mais-alto-governo, como queiram.”

“O rei deu instruções para a locomoção leste-nordeste, rumo ao ponto vertical acima de Lagado, a metrópole de todo este alto-reino, localizada mais abaixo. Isso era a 145km de distância de onde estávamos; nossa viagem durou 4 dias e meio.”

“Ele me confidenciou que os residentes da ilha tinham os ouvidos adaptados para ouvir <a música das esferas, que toca inelutavelmente de período em período, de modo que a côrte está agora preparada para realizar sua parte, cada qual no instrumento em que mais excele>.”

“A facilidade que eu tinha com matemática me capacitou a absorver um pouco de sua fraseologia altamente avançada, que, por assim dizer, tinha a aritmética e a geometria como bases sólidas; a música também. (…) Suas idéias sempre percorrem figuras geométricas ou linhas cartesianas. Para elogiar, p.ex., a beleza de uma mulher, ou de algum animal, descrevem-na em losangos, círculos, trapézios, elipses e qualquer termo de especialista afim. Quando figuras imagéticas não são o suficiente, recorrem a metáforas musicais.”

“Suas casas não são nada bem-construídas; as paredes são sinuosas, nenhuma forma um ângulo reto ou simular ao das outras quinas em cômodo algum! Isso deriva do extremo desprezo desse povo pela geometria prática, que consideram coisa vulgar e de operário ou gente bruta, arte mecânica, enfim. Suas instruções, portanto, de engenheiros e arquitetos, abstratas e refinadas demais para os simples pedreiros, acarretam inúmeras falhas. Tanto quanto eles são destros e habilidosos num pedaço de papel, com o lápis, o compasso e os esquadros, são incompetentes e lassos no trato social, na ação concreta, no bê-á-bá da vida. Jamais vira nem veria dali em diante um povo tão estranho, anti-social e destrambelhado. Qualquer conceito estranho a sua sabedoria milenar consolidada deixava-os perplexos e sem reação. Se não fosse matemática ou música, era melhor que esquecêssemos!Eles são muito fáceis de contrariar, suscetíveis e teimosos, conservando o bom senso apenas quando têm a razão de seu lado; e numa discussão eles nunca cedem, então o melhor a fazer para se poupar é sempre dizer que eles têm razão. Eles desconhecem imaginação criativa, devaneio, invenção! Sequer pode-se nomear tais coisas em sua língua.”

“Mas, para não exagerar na crítica desse povo, o que mais me admirou neles foi sua forte disposição para novidades em política, sempre preocupados com o bem-estar social e os negócios da ilha; cada cidadão possuía suas opiniões e juízos particulares sobre negócios de Estado, e havia muitas facções que apreciavam o debate apaixonado. Na realidade já observara a mesma inclinação entre os matemáticos que conhecera na Europa, embora jamais atinasse com qualquer analogia entre as exatas e a ciência política! A não ser que essas pessoas imaginem que, como os menores círculos possuem tantos graus quanto os maiores, a regulação e a administração do mundo inteiro não requeiram nem menos nem mais habilidade que pôr um globo terrestre em movimento!”

“Essas pessoas se encontram perpetuamente angustiadas, jamais atingindo a tranqüilidade de espírito por mais do que alguns minutos. Suas perturbações derivam de causas que quase não afetam a vida do restante dos mortais. Suas apreensões despertam à causa de inúmeras mudanças dos corpos celestes que elas observam e temem. Por exemplo: temem que a Terra, devido à contínua aproximação do sol, seja, ao longo do tempo, absorvida ou engolida; que o disco solar vá gradativamente desmilingüindo por conta do próprio calor produzido em seu núcleo, até apagar-se por completo; e contam assustados como a Terra, que há pouco escapou, de forma miraculosa, de uma colisão fatal com o último cometa que adentrou o sistema solar,pode virar cinzas siderais à próxima visita de um desses corpos celestes de movimento inopinado! Não inopinado a ponto de escapar a seus meticulosos cálculos, é claro:afirma-se que em exatos 31 anos terrestres um novo cometa nos destruirá irrevogavelmente.”

“o sol, gastando diariamente seus nutrientes emitindo raios, sem reposição alguma, será inapelavelmente consumido e aniquilado (…) enfim, não queria ser tão repetitivo, mas estes meus novos amigos vivem tão alarmados e apreensivos sobre essas coisas tão distantes e remotas, senão improváveis, afora muitas outras calamidades sequer citadas, que são todos uns insones que não aproveitam os pequenos prazeres da vida. Quando cumprimentam um conhecido pela manhã, a primeira pergunta é sobre o estado do sol, como ele parecia estar ao se pôr no dia de ontem e se houve percepção de mudança no seu nascer hoje, e quão esperançosos podem ser os habitantes da ilha de evitar a catástrofe iminente! Esse tipo de diálogo é levado a cabo com a mesma desenvoltura de dois garotos que compartilham contos de terror, estórias de fantasmas e duendes. Como no caso dos garotos, eles se comprazem imensamente durante a conversa e manifestam extrema curiosidade – mas depois se arrependem e não conseguem dormir no escuro ou ir à cozinha de madrugada beber água.

As mulheres da ilha, verdadeiras Xantipas!, são muito, muito vivazes: não param de brigar com seus maridos e se afeiçoam facilmente a forasteiros, sendo esta ocasião tudo menos rara, pois muitas vezes a ilha pousa nos continentes telúricos. E muitas vezes visitantes são autorizados a subir a bordo e visitar a côrte, como eu. Não só issomas visitam as cidades e corporações sob os menores pretextos. Se bem que, coletivamente, são todos desprezados, por parecerem sempre querer o mesmo tipo de coisa – são utilitaristas, não há dúvida!”

ah, mas os maridos… os maridos estão sempre tão absortos em especulações que a mulher e seu amante podem se dar ao luxo de proceder às maiores amabilidades e familiaridades inclusive no mesmo cômodo, bem debaixo de seus narizes, contanto que eles estejam com papel, caneta e livros ao alcance das mãos, i.e., devidamente distraídos – e desacompanhados de seus dedicados servos, é claro!

As esposas e filhas sem dúvida lamentam muito seu confinamento à ilha, embora eu, particularmente, julgue-a o pedaço de terra mais magnífico do planeta! Embora vivam aqui em meio à maior abundância e magnificência, e com permissão para circular sem restrições pelo habitat flutuante, elas anseiam ver o mundo lá de baixo e conhecer o tipo de entretenimento presente em Lagado, a capital baixa do império (…) me relataram que uma senhora distinta da côrte, repleta de filhos, desceu a Lagado sob o pretexto de tratar da saúde, mas que lá viveu ocultamente vários e vários meses.” “Essa senhora, mesmo com marido tão gentil e abnegado, e por mais que ele a tenha recebido de volta sem o menor indício de reprovação, pouco tempo depois conseguiu empreender nova fuga, com todas as suas jóias, e foi viver com o mesmo indivíduo, e dessa vez nunca mais voltou — seu paradeiro segue desconhecido na côrte.

Imagino que essa história toda pareça uma alegoria para retratar as famílias britânicas desestruturadas, o que seria mais fácil imaginar – que eu sou um autor de ficção, que não precisaria ter viajado a um país tão remoto para redigir esse tipo de coisa! Mas ao leitor que assim pensar eu alerto: o sexo feminino não difere em clima ou nação algum, consistindo num espécime muito mais uniforme do que se pode esperar!”

“Sua majestade não tinha o menor interesse em indagar sobre as leis, o governo, a história, a religião, os costumes dos países em que estive; suas perguntas se resumiam ao estado em que se encontrava nossa Matemática, mas mesmo assim minha resposta era recebida com desprezo e indiferença”

“A ilha flutuante, creio ser desnecessário até mencionar, é perfeitamente circular, possui um diâmetro de 7,166153km, possuindo, portanto, uma superfície de 10 mil acres.”

“É jurisdição do monarca elevar a ilha acima da região das nuvens e vapores, garantindo assim que só haja orvalho ou chuva quando ele bem entender.”

“Quando a pedra é posicionada paralela ao horizonte, a ilha fica estacionária; suas extremidades ficando a uma altitude isonômica da terra, a força gravitacional age em equivalência com a força normal, anulando qualquer possibilidade de aceleração.

Essa preciosa pedra, espécie de ímã-volante de toda a ilha, leme tão excepcional, é guardada por certos astrônomos que, de tempos em tempos, mudam sua posição conforme as prescrições do monarca. Estes especialistas passam a maior parte da vida observando os corpos celestes, assistidos por lentes telescópicas ‘n’ vezes mais avançadas que as européias!”

“Em seus catálogos científicos constam 10 mil estrelas fixas, enquanto que nossos mais vastos registros não contabilizam 1/3 deste número. Eles também descobriram duas estrelas-menores, ou satélites, rodopiando Marte; o que traslada mais próximo do planeta vermelho está distante de seu centro geométrico cerca de 3x a extensão de seu próprio diâmetro; o satélite externo, 5x.” “Eles conhecem 93 cometas e sabem seus períodos de passagem pelo nosso sistema com grandíssima exatidão.”

“Este rei seria o rei dos reis do universo, se ele pudesse unicamente reunir homens de igual capacidade em seus ministérios! Mas eu ousaria dizer que não há na ilha ninguém como este homem, nem que chegue perto do intelecto e da visão deste homem; os segundos certamente estão em nossa terra, em nossa altitude habitual, e eu duvido que um rei precavido aceitasse jamais como subordinados tão poderosos e influentes pessoas estranhas, arriscando a escravidão de seu país!”

“o rei, quando se põe animoso e, portanto, decidido a exterminar uma de suas cidades, ordena com fleuma a descida da ilha, dissimulando uma visita benevolente aos cidadãos do lugar escolhido para extermínio; mas tudo isso é por medo de quebrar o fundo da ilha, adamantino, duro como o diamante.”

“Diz a lei do lugar que nem o rei, nem ninguém do reino, nem qualquer de seus dois filhos mais velhos, estão permitidos a sair da ilha. Nem a rainha, até o término de sua infância.”

“Após conhecer todas as singularidades da ilha, eu desejava muito partir. Essas pessoas se tornaram muito cansativas para mim. Eram excelentes em duas ciências pelas quais nutro grande estima, e nas quais confesso ser algo versado; mas, ao mesmo tempo, eram consciências tão abstratas e especulativas, que com o passar do tempo creio que não poderia encontrar companhias mais desalentadoras! Passei a conversar apenas com as mulheres, com comerciantes, servos e pajens. Assim foram meus últimos 2 meses. Não podendo mais ocultar meu desprezo por tal gente, passei a me conduzir de forma impertinente, mas minha mudança só podia ser detectada por essas mesmas pessoas em quem eu ainda encontrava qualquer tipo de aprovação ou reciprocidade!”

“Ele me ouviu com bastante atenção e remeteu-me diversas observações sapientes, relacionadas ao meu discurso. Ele possuía, como sempre nesta classe, 2 servos, mas quase nunca os utilizava – só mesmo em visitas à côrte e em cerimônias. Quando estávamos a sós, ele apenas comandava que se retirassem do aposento.”

“Dia 16 de fevereiro eu me despedi de Sua Majestade e da côrte. O rei me presenteou com o que eu converteria para 200 libras esterlinas, sendo que meu protetor e seus apaniguados também me deram somas em dinheiro, que remontavam mais ou menos ao mesmo valor na somatória. Também levaria comigo uma carta de recomendação para um seu amigo em Lagado, a referida metrópole do reino, mais mundana. A ilha revolvendo cada vez mais baixo e em torno de duas montanhas, uns 3km mais abaixo, fui conduzido ao mundo telúrico da mesma forma como me fizeram subir da primeira vez.” “Encontrei rapidamente a casa da pessoa a quem fui recomendado na carta, e fui recebido, claro, devido à chancela real, com as maiores honrarias.”

“À manhã seguinte ele me levou em passeio de charrete para conhecer a capital, que seria, diria, metade de Londres em tamanho. As casas são esquisitíssimas, e maioria necessitando reparos urgentes! As pessoas nas ruas andam rápido, parecem bárbaras, olhos fixos, geralmente maltrapilhas. Atravessamos um dos portões da cidade e avançamos coisa de 5km campo adentro, onde testemunhei o trabalho de vários camponeses utilizando um sem-fim de utensílios, embora não tenha entendido a função de um deles sequer.”

“não podia atinar com tantas cabeças, mãos e rostos ocupados, no campo ou na cidade! Não entendia o conceito de produtividade dessa nação. Para falar a verdade, nunca vira um solo mais mal-cultivado, casas tão precárias e degradadas, nem pessoas de aspecto mais miserável e necessitado.

O senhor Munodi era um aristocrata, ex-governante de Lagado, mas soube que devido a uma insurreição dos ministros fôra demitido por alegada incompetência. Ainda assim, o rei o recebia com muita ternura e gentileza, como um homem benfazejo, cujo único defeito era a falta de entendimento.”

“Em nossa jornada ele me mostrou diversos métodos empregados por fazendeiros na administração de suas terras, os quais para mim eram todos imprestáveis; raro era o terreno em que eu distinguia um pé de milho ou pedaço de grama. Em 3h de viagem, entretanto, o cenário mudou completamente: chegamos a um meio rural muito bonito, a casas camponesas, umas próximas das outras, todas muito bem-erigidas, os campos compactos e repletos de vinhas e de milharais, além de campos para pastagem. Na verdade nunca vira uma paisagem tal na Inglaterra! (…) os camponeses de Lagado desprezavam e ridicularizavam o jeito do senhor Munodi fazer as coisas em suas propriedades, crendo-o um péssimo exemplo para o reino. Esse tipo de contra-exemplo (a produtividade no campo!) era também seguido por umas raras exceções, reputadas como os excêntricos, velhacos, teimosos, velhos rabugentos e fracos de espírito do lugar.

Chegamos enfim a seu lar, uma mansão bastante nobre e brilhantemente estruturada. Encontro nas leis deste projeto arquitetônico o que de melhor os antigos nos deixaram. As fontes, os jardins, as passarelas, avenidas e pomares eram distribuídos de forma justa e regular e sem dúvida havia bom gosto em sua disposição.”

“ele me contou com um ar melancólico que até consideraria seriamente a idéia de derrubar suas edificações e restaurá-las ao gosto dos atuais cidadãos de Lagado; de destruir todas as suas plantations e adotar as <modernizações> em voga, para seu próprio prejuízo, mas temia que tudo isto não fosse apreendido pelos demais senão como orgulho, afetação, ignorância e capricho, manchando ainda mais sua reputação em relação a Sua Majestade.”

“Cerca de 40 anos atrás, muitos subiram a Laputa, ou a negócio ou a lazer, e, depois de 5 meses de estada, voltaram cheios de novas concepções e invencionices matemáticas, o que na verdade eu chamo de preconcepções absurdas e desconhecimento – essas pessoas se tornaram muito voláteis, provavelmente em virtude de haverem respirado o ar rarefeito e elevado demais daquela região. Foi aí que os habitantes de Lagado começaram a tomar gosto pela falta total de administração de seus negócios, i.e., passaram a desprezar toda e qualquer coisa <material> e <mundana>. Tudo em que pensavam era na reforma imediata das técnicas, artes, ciências e linguagens. Eles providenciaram uma patente real a fim de erigir em Lagado uma academia de projetistas (mal consigo usar a palavra <engenheiros>). As idiossincrasias prevalecem em tal medida nessa gente extravagante da capital que não há, na atualidade, uma só província que não tenha sucumbido a seu amalucado exemplo. Nessas novas escolas os professores ensinam regras e métodos inauditos em agricultura e engenharia civil, concebem novos instrumentos e ferramentas para todos os negócios e manufaturas; dizem eles que assim, devido à revolução que acabarão por promover, um homem trabalhará por 10, um palácio será erguido numa semana, e será feito de materiais tão duráveis que jamais carecerá de reparos. Que todos os frutos da terra chegarão à maturidade em qualquer estação e terão dimensões 100x maiores que as atuais. Isso e muito mais eles prometem. O único inconveniente é que nenhum desses projetos jamais chegou à perfeição ou a qualquer resultado satisfatório. E enquanto esse dia não chega, o país vive na miséria e desperdiça seu potencial, as casas permanecem ruinosas e as pessoas sem quase o que comer ou vestir. Mas isso, ao invés de desencorajá-las, torna-as 50x mais agressivas e obstinadas. Não sei o que mais as move, se a esperança ou o desespero. Quanto a mim, senhor Gulliver, sou despido desse tal ‘novo espírito de empreender’! Hei de viver como vivi desde que nasci, como meus antepassados viveram, e não pretendo mudar. Mas a verdade é que os poucos de nós contrários às inovações são vistos como inimigos do povo, das artes, uns plebeus ignorantes! O que dizem de nós é que somos preguiçosos que preferem se ater a envelhecidas fórmulas de sucesso e que nos falta o ímpeto do sacrifício coletivo!”

“A um quilômetro de sua casa esse homem tinha um engenho movido pela correnteza de um grande rio que por ali passava. Essa construção atendia as suas necessidades, as de sua família e as de muitos outros amigos. Mas há exatos 7 anos os tais projetistas acadêmicos o procuraram com propostas de destruir o moinho e construir um outro na região montanhosa, em que pretendiam erguer um grande canal bem no meio dos desfiladeiros, enchendo-os com água, abastecendo-os de motores, sistemas condutores e certas engenhocas.Alegavam que os ventos e o ar, a grandes alturas, agitavam a água e, quanto mais ela pudesse ser movimentada, e de quão mais alto ela viesse, mais energia seria produzida. Munodi, não vendo saída, em desprestígio com a coroa e pressionado por muitos de seus vizinhos, cedeu. Apesar de terem aplicado 100 homens no projeto ao longo de 2 anos, o trabalho descarrilhou, tudo deu errado e os projetistas foram-se embora, culpando o próprio Munodi! Agora esses acadêmicos andam por aí procurando outras almas como o benévolo Munodi, a fim de engabelá-las por seu turno, prometendo sempre os melhores resultados e as mais altas probabilidades de êxito, com o mínimo esforço. Mas, na prática, tudo acontece ao revés.”

“Essa academia não se resume a um simples prédio, mas é mais como um condomínio ou um campus, com prédios dos dois lados de uma rua que, barata e desvalorizada, foi comprada para servir de sede aos projetistas.”

“O primeiro homem que vi era um senhor muito raquítico, de cara e mãos muito sujas; seu cabelo e barba eram compridos, esfrangalhados e chamuscados em vários lugares. Suas roupas, sua camisa e sua cara, enfim, eram para mim da mesmíssima cor. Ele se encontrava há 8 anos entretido num só projeto: extrair a luz solar de pepinos, os quais eram inseridos em frascos hermeticamente selados, e depositados ao ar livre em pleno verão, debaixo do sol mais inclemente. Ele me contou que, sem dúvida, em no máximo mais uns 8 anos, já terá podido iluminar todos os jardins do governador, e isso a custos irrisórios.”

“O projetista dessa cela era o estudante mais antigo da academia. Seu rosto e barba eram de um amarelo pálido, suas mãos e roupas eram recobertas por uma camada de poeira. Quando fomos apresentados ele me deu um entusiástico abraço, um cumprimento que em outra ocasião eu bem poderia ter desculpado! Desde sua entrada na academia, ele estava envolvido numa operação a fim de reduzir os excrementos humanos à comida original, separando as partes, removendo a tintura emprestada às fezes pela bile, dissipando o mau cheiro e drenando o suco gástrico. Ele contava com parcos recursos da sociedade de cientistas, dentre eles uma remessa semanal de um recipiente abastecido de bosta, mais ou menos das dimensões de um barril de chope de Bristol.

Também vi um professor tentando calcinar o gelo até virar pólvora; este último me mostrou um tratado que redigira, sobre a maleabilidade do fogo, o qual ainda não se encontrava publicado.

Havia um arquiteto dos mais engenhosos, que descobrira um novo método de construir casas, começando pelo teto e descendo progressivamente à base. Sua justificativa? Ele me contou que devíamos copiar os insetos peritos em construção, isto é, as abelhas e as aranhas!”

“ora, empregando aranhas o trabalho de tingir a seda será todo poupado.”

“Ele me exibiu uma vasta quantidade de moscas das cores mais belas, com as quais alimentava suas aranhas, garantindo que as teias sairiam com a mesma tintura das moscas. Como ele tinha um repertório de todas as cores de moscas, ele esperava assim conquistar a aprovação universal, ao menos a partir do momento em que encontrasse alimento apropriado para todas as variedades de moscas, constituído de certas gomas, óleos e matérias viscosas, a fim de dar a consistência e a força necessárias aos fios.”

“Eu me queixava no momento de uma pequena crise de cólica, quando meu guia me conduziu à sala de um renomado físico, que conseguia curar essa inconveniência através de operações contrárias de um mesmo instrumento. Havia um par de berrantes enormes, com o bocal muito alongado e estreito feito de marfim. Ele inseria essa parte (de uns 20cm!) no ânus do paciente. Fazendo ventar para aquelas partes, ele garantia poder tornar o intestino tão murcho e isento de gases quanto uma bexiga depois de estourada! O problema era que quando o mal era mais crônico e violento ele precisava retirar os berrantes várias vezes para repetir o procedimento de ventilação. Nesse intervalo em que retirava o berrante para reintroduzi-lo, o doutor precisava tapar o orifício do reto do paciente com seu dedo polegar, para não deixar nada escapar; depois que isso era feito 3 ou 4 vezes, no mais grave dos casos, o <vento adventício> podia finalmente ser liberado com todos os gases (funcionava exatamente como uma bomba d’água). O paciente recebia alta. Eu vi este homem fazer o experimento com um cão, mas não pude perceber qualquer resultado na primeira aplicação do berrante. Com a repetição da operação, vendo que o caso era grave, o doutor aplicou tanto vento no animal,e logo ele peidou tão feio, que foi impossível permanecer na sala… O cachorro morreu no ato! – mas o doutor iria tentar a ressuscitação do animal aplicando a mesma técnica… eu não fiquei para ver o resultado e segui adiante em minha visita…

Com efeito eu visitei muitos outros apartamentos de projetistas-especialistas, mas não vou desperdiçar o tempo do meu leitor com as curiosidades que acabei por observar, preferindo um relato mais breve da aventura.”

“A invenção mais brilhante que encontrei foi um dispositivo que pretendia reunir todo o conhecimento universal da humanidade mediante o registro de todas as palavras concebíveis e de sua repetição na mesma proporção em que ocorrem nos livros conforme sua classe gramatical (advérbios, preposições, conjunções, verbos, adjetivos, substantivos…), e tudo isso de uma forma dinâmica, um aparato gigantesco operado por muitos auxiliares. Achei meu colega, o inventor deste mecanismo (veja a imagem), tão aplicado e original que prometi que, se um dia eu voltasse ao Velho Continente, tornaria público o fato de que ele, e somente ele, era o inventor genuíno desta grandiosa máquina revolucionária. E eu disse a ele, encorajando-o: <Embora seja o costume do europeu o furtar, por assim dizer, invenções uns dos outros, nosso sistema tem, ao menos, essa vantagem: sempre fica dúbio, no final, quem fôra o descobridor do Ovo de Colombo…>, mas – complementei –<…agirei com tanta precaução que você pode estar certo de ficar como detentor derradeiro dos direitos sobre sua invenção, sem um rival sequer!>

“A seguir nós nos dirigimos à faculdade de letras, onde 3 professores estavam em debate, cujo tema era: como aperfeiçoar o idioma natal? O primeiro projeto proposto foi o de diminuir o discurso, cortando polissílabos, e eliminando verbos e particípios, uma vez que coisas imaginadas não são senão normas. O segundo projeto era um esquema extremista em que se aboliam de vez todas as palavras; argumentou-se que seria uma ação altamente valiosa tanto no campo da saúde quanto no da objetividade científica. E para isso evidenciou-se que cada palavra que pronunciamos representa uma ligeira diminuição de nossa capacidade pulmonar por corrosão e que, por extensão, a língua contribui para o encurtamento da vida humana. Pregou-se uma solução: <Uma vez que as palavras são apenas nomes para as coisas, seria mais conveniente que cada homem carregasse consigo todas as coisas necessárias a fim de expressar idéias particulares.> Essa invenção, alegou-se, já teria sido possível e já seria uma realidade, se as mulheres e a gente vulgar e iletrada não ameaçasse, sempre, rebelião quando esta era a pauta do dia. Aquilo que nossos avós e pais faziam, é-nos muito difícil de abdicar. São esta gente os inimigos maiores do fazer-ciência. (…) Entrando em mais detalhes sobre esta curiosa proposta, à objeção levantada de um homem cuja profissão fosse muito abrangente, abarcando muitos tipos de objetos, este homem teria, proporcionalmente aos campos que domina, numa lei de igualdade compensatória, de carregar mais coisas nas costas, a não ser que fosse rico o bastante para ter um ou dois servos que o ajudassem nesse tocante. Eu vi dois dos sábios defensores desta proposta quase que afundando sob o solo dado o enorme peso de sua bagagem, como os nossos mascates. Aí, então, a pessoa que carregasse todos os objetos de que necessita para <falar>, quando encontrasse um conhecido seu na rua, depositaria sua sacola no chão, retiraria seus objetos e poderia, assim, dialogar mudamente por cerca de uma hora! A ajuda de terceiros com implementos ou o camaradismo a fim de que todos e cada um lograssem carregar sem maiores dificuldades toda sua <mercadoria de fala> em peso (com o perdão do trocadilho!) seriam aspectos indispensáveis desse novo e promissor modo de vida. (…) Como seria de se imaginar, a casa ou escritório de alguém nesta sociedade seria atulhado de coisas para que diálogos fossem sempre possíveis. Essa operação não é coisa simples: a habilidade no rápido e coordenado manejo de objetos sendo essencial, diria que é uma verdadeira ARTE da conversação!

Mas mais uma vantagem aludida com o emprego dessa nova técnica seria que finalmente cumpriríamos os desígnios de Babel: teríamos atingido a língua universal! Em nenhuma nação que adotasse esse método qualquer forasteiro que jamais estudou os costumes locais deixaria de ser plenamente compreendido! (…) Embaixadores tratariam com quantas autoridades internacionais pudesse haver, sem maiores inconvenientes.”

“nada há de tão extravagante e irracional que alguns filósofos não tenham proclamado como verdadeiro.”

“Propôs então o doutor: <Na assembléia do senado, alguns médicos deveriam comparecer nos seus três primeiros dias, e, à hora da saída, medir o pulso de cada um dos debatedores. Após o quê, considerando com sabedoria e consultando sobre os sintomas das mais variadas doenças, bem como seus métodos de cura, ao quarto dia, retornariam em companhia de seus apotecários munidos dos medicamentos adequados. Antes mesmo desta quarta reunião, eles administrariam todos os lenitivos, aperitivos, abstergentes, abrasivos, corrosivos, restringentes, detergentes, paliativos, laxativos, analgésicos, anti-cefalóides, anti-ictéricos, anti-apopléticos, acústicos, etc., na dosagem e na qualidade que o quadro de saúde de cada paciente demandasse. Conforme esses remédios sanassem ou não a doença, e em que grau, os médicos e farmacêuticos regressariam, ainda, para repetir, alterar ou omitir o tratamento.>

“Como sucede de os favoritos do príncipe sofrerem, em geral, de curta e péssima memória, o mesmo doutor ainda prescrevera: <Quem quer que se encontre com o primeiro-ministro, após relatar o assunto, da forma mais lacônica e simples possível, deveria, no instante de despedir-se, dar um beliscão no nariz do sumo ouvinte, ou senão um chute no estômago, ou dar-lhe um pisão, ou puxar ambas as suas orelhas por no mínimo três vezes, ou então enfiar-lhe uma agulha no traseiro, ou deixar hematomas no seu braço, tudo pela melhor das causas: prevenir seu esquecimento. E, se se tratar de uma sucessão de muitos encontros, deveria repetir a operação a cada um deles, até que o negócio esteja fechado, i.e., que o primeiro-ministro dê, enfim, seu sim ou seu não e conclua a questão.>

“O mesmo médico propôs uma bela medida contra as dissensões agudas e violentas entre os partidos. O método de fazer a reconciliação era o seguinte: reúnem-se 100 líderes de cada partido; eles são dispostos dois a dois entre aqueles com cabeças de tamanho mais próximo; dois cirurgiões qualificados serram o occipúcio de cada par da dupla simultaneamente. Os occipúcios extraídos são intercambiados, vindo a pertencer agora à cabeça de um antigo rival. Parece absolutamente um trabalho que exige a mais milimétrica precisão ou algo pode dar muito errado! Porém, o médico-cirurgião afiançou que <se a dupla-cirurgia for realizada com êxito, a cura é inescapável. Com as duas metades antagônicas de um cérebro pós-cirúrgico deixadas à vontade para debater o tema em questão, dentro do mesmo crânio, não poderiam deixar de se entender logo, porquanto não há outra saída, e produziriam nos pacientes assim operados aquela moderação e regularidade de pensamento, justo neles, que, previamente à intervenção da medicina, julgavam que sua existência neste mundo decorria tão-somente do eterno movimento praticado pelos corpos celestes e que por isso julgavam que seus defeitos eram predestinados e que não valia a pena esforçarem-se por minorá-los!>.”

“O método mais justo seria impor um imposto sobre os vícios e tolices; a soma fixada para cada homem seria estabelecida de forma eqüitativa por um júri composto de seus vizinhos.”

“As mulheres deveriam ser taxadas segundo sua beleza e destreza no vestirem-se, no que elas deveriam ter os mesmos privilégios que o homem, em valores a ser determinados por seu próprio juízo. Mas a constância, a castidade, o bom-senso e a gentileza não poderiam ser mensurados, porque daria muito trabalho e ademais os impostos seriam tão altos que quebrariam a economia.”

“Outro professor mostrou-me um artigo muito extenso com instruções para descobrir intrigas e conspirações contra o governo. Seu aconselhamento era, em síntese, o de que o governante devia prestar atenção na dieta dos suspeitos; as horas das refeições; em que posição dormiam; com qual das duas mãos coçavam o traseiro; analisar detidamente seus excrementos, de modo a retirar opiniões conclusivas de sua cor, odor, gosto, consistência, nível avançado ou inicial da digestão, enfim, tudo o que, segundo este nobre autor, permite que leiamos nas entrelinhas os pensamentos e intenções mais profundos daqueles que conspiram; é de fato sabido por todas as civilizações (que possuem vaso sanitário) que um homem nunca se põe tão sério, grave e deliberativo como quando está no trono. Após longos experimentos, este doutor conseguiu descobrir que aqueles que se punham a pensar, enquanto defecavam, na melhor maneira de matar o rei tinham as fezes esverdeadas; porém, se o caso fosse apenas o de levantar uma insurreição ou incendiar a metrópole, aí então as cores resultavam bem díspares, etc.”

“Pois saiba o senhor que na Tribnia,¹ dentre os nativos chamados Langdon,² na qual habitei muitos de meus anos em meio a minhas intermináveis viagens, o grosso da população consiste, no fim das contas, em grandes descobridores, inventores, investigadores, testemunhas, informantes, acusadores, procuradores, provadores, conjuradores, incitadores, sempre no uso de seus instrumentos subalternos, i.e., outros langdoninos. E todos, sem exceção, estão sempre, quaisquer que sejam sua índole e conduta, submetidos à vontade dos ministros de Estado e aos congressistas, senão outras marionetes ou avatares destes primeiros. As intrigas, nesse reino, são obra daqueles que querem se tornar proeminentes e marcar a história como grandes personalidades, o velho desejo de ser um GRANDE POLÍTICO. Se não é isso que os conspiradores querem, só posso cogitar alguns outros motivos: revigorar uma administração que se tornara louca? sufocar ou dividir minorias de descontentes (ou seja, conspirar apenas como isca para apanhar conspiradores)? encher seus cofres? piorar ou melhorar a imagem do império em face das outras nações (aquele dos dois que for mais vantajoso no momento para a fortuna individual)? E não duvide de que as coisas são tão bem encenadas na Tribnia que muitos até decidem mutuamente seus papéis antes da peça: talvez tirem no palitinho ou dalguma outra forma quem serão os bodes expiatórios da vez, aqueles que serão acusados e condenados pelo poder público; medidas formais são tomadas para confiscar seus pertences e rastrear suas cartas e correspondências; e, enfim, se os prende. Os papéis encontrados que sirvam de prova da conspiração são distribuídos para uma caterva de artistas, muito hábeis em decifrar significados misteriosos em palavras esdrúxulas e quase arbitrárias, prestando entonação às menores sílabas. Há uma interpretação de tudo quanto for informação num sentido bem elaborado – p.ex.: uma referência a uma latrina fechada numa carta de comadres pode ser o símbolo para conselho privado; uma revoada de gansos, símbolo do senado; um cachorro furibundo, um invasor; a peste, um exército à espreita; um abutre, o primeiro-ministro; a gota, o sumo-pontífice; o patíbulo, o secretário de Estado; uma retrete, um comitê de especialistas; uma peneira, uma dama da côrte; uma vassoura, a revolução; uma ratoeira, uma estratégia; um abismo sem fundo, o Tesouro; um naufrágio ou escolhos, a própria côrte; um chapéu de bobo com sinos nas pontas, um favorito; uma cana quebrada, a côrte de justiça; um tonel oco, o general; uma ferida aberta, a própria administração.(*)

(*) Este parágrafo é a versão revisada do dr. Hawksworth (1766); na edição original de 1726, a introdução era: Pois saiba o senhor que, vivesse eu num país em perpétua crise e rebuliço…Portanto, não havia ainda este código dual Tribnia-Langdon nem tampouco a figura do vaso sanitário fechado na enumeração simbólico-irônica que vem a seguir.”

¹ Forma velada de o autor se referir à Bretanha.

² Os londrinos – referência aos habitantes da capital Londres ou London no original.

“Se falhar esse jogo de associações na interpretação da linguagem empregada entre os comparsas, há nesta terra ainda dois métodos efetivos que os mais versados possuem de desbaratar conspirações: os acrósticos e os anagramas. Quanto ao primeiro método: todas as iniciais podem conter sentidos políticos. N pode querer dizer uma trama;¹ B, aludir à cavalaria; L, uma esquadra no mar… Quanto ao segundo método: transpondo as letras do alfabeto em qualquer <documento suspeito>, as verdades mais ocultas e impensadas podem vir à tona, principalmente o descontentamento do partido vencido. Então, p.ex., se eu dissesse, numa carta, a um amigo, em tom de desabafo, <O FLAGELO FERIDO TEM UM PESO!>, um decifrador competente poderia deslindar a seguinte sentença subjacente na primeira: <O REI SEM LEGADO É MOFO, PLUFT!>,² o que parece insinuar que quereriam assassinar ou desaparecer com o rei, que julgavam nada estar deixando para a glória futura do país, sendo mera relíquia de um passado desinteressante.”

¹ Não é nenhuma palavra com “n” em inglês; aqui, Swift escreve plot, deliberadamente para o efeito cômico da explicação, e assim nos dois próximos exemplos nonsense.

² “Our brother Tom has just got the piles” e “Resist—, a plot is brought home – The Thour” no original.

“O professor me agradeceu muitíssimo meu relato detalhado, e garantiu que na versão final de seu artigo eu ganharia diversas citações.

A verdade é que nada vi nesse país que me convencesse a uma estadia longa, então comecei a planejar meu retorno à Inglaterra.”

“O continente, do qual esse reino ocupa apenas uma parte, se estende, pelo menos creio, a oriente, até aquela obscura borda da América conhecida como costa oeste ou Califórnia. Ao norte, o limite de seus domínios é o Oceano Pacífico, que não dista mais de 250km da capital Lagado no centro. Nesta costa setentrional há um grande porto e bastante comércio com a grande ilha de Luggnagg, mais ou menos a noroeste de onde eu me encontrava então, aos 29° de latitude e aos 140° de longitude. Essa ilha chamada Luggnagg situa-se, portanto, a sudeste do Japão, mais ou menos a 800km. Há uma aliança restrita entre o imperador japonês e o rei de Luggnagg; com isso, viagens entre ambos os arquipélagos se tornam mais fáceis. Foi assim que decidi tomar meu rumo para a Europa por esta via.”

“Dessa vez, por incrível que pareça, minha jornada não contou com acidentes ou aventuras extraordinários que valham a pena narrar. Chegando ao porto de Maldonada nenhum navio estava ancorado na parte reservada para as embarcações de Luggnagg, nem havia qualquer aparência de que esperavam a chegada de alguma nau. Esta cidade em que desembarquei era mais ou menos do tamanho de Portsmouth. (…) Um gentleman me disse: <Como navios para Luggnagg não sairão no próximo mês, seria uma honra, se o senhor concordar, ser o guia do senhor numa excursão pelo pequeno arquipélago de Glubbdubdrib, que dista daqui não mais que 5 ligas marítimas a sudoeste.>

“Glubbdubdrib, tanto quanto eu posso interpretar, significa ‘Ilha dos magos e feiticeiros’. Tem mais ou menos um terço do tamanho da ilha de Wight,¹ é de vegetação bastante frutífera e de prospectos excepcionais, governada por uma tribo inteiramente composta de magos. Nessa tribo todos os casamentos são endógamos, sendo que a sucessão cabe ao filho mais velho. Seu palácio mais seus jardins dão uma área de 3 mil acres,² toda cercada de uma muralha de pedra polida de 6 metros de altura.”

¹ Ou seja, tem por volta de 127km².

² O acre vale um número diferente em metros quadrados em cada notação, e são diversas as existentes. Não deve ser a mais comum delas, em que 1 acre = 4km², pois sendo assim 3 mil acres x 4km² dariam 12 mil km², o que seria o mesmo que dizer que o próprio palácio do rei da ilha e adjacências são CERCA DE 100X MAIORES QUE A PRÓPRIA ILHA (nota 1)! Ou a notação é uma que me é inacessível ou trata-se de um imenso efeito cômico (burlesco, aliás) do autor!

“Mestre da necromancia, o governante deste lugar pode chamar dentre os mortos qualquer um que desejar, contanto que os serviços do finado não durem mais do que 24h. Também há a limitação de não se poder chamar a mesma pessoa de novo num espaço de 3 meses, a não ser em circunstâncias extraordinárias.”

“Este rei entendia a língua de Balnibarbi, embora não fosse o idioma desta ilha. Ele me solicitou, portanto, relatos de minhas viagens e, para provar-me que eu seria tratado sem cerimônia nem etiqueta excessivas, dispensou todos os atendentes da côrte num simples voltear de seu dedo. Ao concretizar esse gesto – não falo por metáforas! – todos os seus súditos sumiram, escafederam, como vapor ou imagens oníricas, num só instante! (…) Sentindo-me encorajado, comecei uma breve narração que incluía uma seleção de minhas melhores aventuras até então. (…) Logo me pus tão familiar à aparição de espíritos que, depois da terceira ou quarta vez já não me sobressaltava com os visitantes! Mesmo que um ou outro me parecesse ainda assustador em um aspecto ou outro, minha curiosidade ultrapassava em muito esse ligeiro mal-estar. Sua alteza determinou, então, que eu tinha inteira liberdade para fazê-lo convocar qualquer personalidade morta que eu quisesse, e aliás que eu continuasse a fazê-lo até me contentar de todo, não importasse o número daqueles que eu gostaria de entrevistar nesta minha curta estada por tão poderosa côrte! Podia ser qualquer nome, desde o início dos tempos até os dias atuais, e eu teria liberdade irrestrita no interrogatório. Mas ele me fez observar que as perguntas que eu dirigisse deveriam estar confinadas ao tempo de existência do sujeito, sob pena de não obter nenhuma resposta que fizesse sentido. Além disso, o rei me assegurou: <Tu ouvirás a verdade e nada menos que a verdade, posto que mentir não é talento que possua qualquer valor no submundo>.”

“O primeiro que decidi convocar foi Alexandre o Grande, encabeçando seu exército da batalha de Arbela:¹ após um leve volver de dedo no ar pelo governante, este excelso imperador imediatamente se materializou, em meio a uma vasta planície, visível através da janela que se abria a nossa frente. Alexandre foi chamado a sentar-se diante de nós. Foi com muita dificuldade que compreendi seu grego, e eu mesmo não falo mais do que o básico neste idioma. Ele me jurou: <Não fui envenenado, morri de febre decorrente do excesso de bebedeira.>

¹ Que terminou com a derrota de Dario III e representou a conquista dos persas pelo mundo helênico, tentada desde a formação da nação grega. Alexandre tinha muito menos soldados que seu adversário.

“Em seguida eu vi Aníbal cruzando os Alpes, dizendo: <Eu não tenho uma gota sequer de vinagre em meus campos>.¹”

¹ Uma anedota popular diz que o conquistador Aníbal conseguiu desintegrar enormes rochas que bloqueavam o caminho de suas tropas usando fogo e vinagre (ou azeite) como catalisador das chamas. Ou seja: entrevistando as personalidades históricas, Gulliver sempre se depara com desmentidos.

“Vi (não fui, ele que veio; nem venci, mas afianço que eu vi!) César e Pompeu na dianteira de suas tropas, prontos para qualquer assalto. O primeiro deles estava na forma física de seu último grande triunfo. Eu desejava também a convocação do senado romano para diante de nós. E num amplo salão eu pude ver todas as ilustres figuras daquele senado republicano, além de, ao seu lado, uma assembléia dos tempos mais recentes de Roma, do Império corrompido. Os componentes do primeiro salão pareciam heróis, semi-deuses; a outra turba parecia um amontoado de mascates, batedores de carteira, andarilhos e fanfarrões!

O rei necromante, a minha instância, fez sinal para que César e Bruto se adiantassem. Fui presa de verdadeira veneração ao contemplar este homem Bruto! Pude distinguir nele a mais resoluta das virtudes, um caráter intrépido e uma mente firme, um sincero amor pela sua nação e grande humanidade e benevolência em cada gesto seu. E percebi também que ambos se davam muito bem. César me confessou: <As maiores ações que perpetrei nem sequer igualam, em vários graus, a glória de quem as suprimiu deste mundo!>. Instado por esse comentário, conversei bastante com Bruto. E dele ouvi: <Meu ancestral Junius, Sócrates, Epaminondas, Cato o Jovem, Thomas More e eu andamos sempre juntos no Hades>. Um sextunvirato, decerto, a que nenhuma idade poderia acrescentar um sétimo elemento!

Mas seria tedioso fazer o leitor repassar por todos os meus encontros e conversações daquela ocasião, que foram saciando minha sede por ver e conhecer as pessoas mais renomadas dos séculos dos antigos! Também não poupei meus olhos da vista dos maiores destruidores e tiranos e usurpadores de nossa História; bem como surgiram diante de mim grandes restauradores da liberdade e da paz a nações antes subjugadas…”

“Propus então que aparecessem Homero e Aristóteles, seguidos de sua horda de comentadores. Mas os comentadores eram tão numerosos que algumas centenas tiveram de se pôr em fila, fora das dependências do palácio, aguardando sua vez. Assim que o bando apareceu, de longe, já podia distinguir Homero e Aristóteles dos demais, e até mesmo entre um e outro. Homero era mais alto e cavalheiresco, andava muito ereto para um velho, e seus olhos, ao contrário da crença comum, eram alguns dos mais perspicazes e fulminantes de que já se teve notícia! Aristóteles andava muito encurvado, necessitando do auxílio de um cajado. Sua vista era débil e cansada, seu cabelo ralo e fino, sua voz minguada. Percebi num átimo o quanto cada um deles era desconhecido pela própria turba de comentadores que os seguiam! E também percebi que nem no além estes dois travaram contato com quaisquer daqueles. Recebi um cochicho no ouvido de um fantasma, cuja identidade preservarei: <Acontece que estes comentadores ficam o mais distantes possível dos seus mestres, tamanha a vergonha e a culpa que carregam – enfim se deram conta de quão mal interpretaram seus ensinamentos e distorceram tudo quanto estes homens nos legaram, prejudicando incontáveis gerações de novos homens!>. Introduzi, destarte, Dídimo¹ e Eustácio a Homero, e consegui que ele os tratasse, quiçá, melhor do que mereciam. Homero, muito atento, logo percebeu que estes coitados não tinham gênio de poeta! Já Aristóteles não foi tão benevolente nem contido: pôs-se furioso quando contei-lhe sobre Scotus² e Ramus,³ ao mesmo tempo que lhe apresentava seus espectros, emanando daquela multidão. Aristóteles, sem meias-palavras, indagou se todos os demais eram tão asnáticos quanto aqueles dois!”

¹ Há muitos Dídimos na História, nenhum especialmente vinculado apenas à obra de Homero, então é difícil dizer a qual deles Swift se refere. O mesmo vale para Eustácio.

² Duns Scotus, frade franciscano do XIII. Um dos poucos filósofos da idade média ainda relevantes e talvez a única figura de destaque destes séculos que sirva como contraponto metafísico a Tomás de Aquino, foi um dos prefiguradores isolados e muito prematuros do existencialismo, cf. Heidegger. Beatificado em 1993.

³ Lógico francês do XVI. Na sua época inovou sobre Aristóteles e foi moda, mas logo caiu em esquecimento e suas teses foram consideradas esdrúxulas.

“Neste ponto, solicitei ao rei que trouxesse Descartes e Gassendi das trevas. Com Aristóteles ainda presente, pus-me como intermediário para explicar seus sistemas ao Peripatético. Diante do que ouviu, Aristóteles, cheio de humildade, reconheceu seus erros e imperfeições em filosofia natural, e que isto não lhe era nem um pouco degradante, pois em muitos pontos ele raciocinou por conjeturas. Ele também disse, implacável e austero, que a ética de Gassendi, que parecia um epicurista de primeira linha, e os vórtices de Descartes, por exemplo, um dia seriam também completamente refutados pelos filósofos da posteridade. Ele deu o mesmo diagnóstico para a lei da atração, que os eruditos da contemporaneidade defendem com todo o zelo. Em suas próprias palavras, Aristóteles deixou bem claro: <Novos sistemas da natureza são como novas modas, sendo que cada idade tem a sua; mesmo aqueles que alegam poder demonstrar suas teorias por axiomas matemáticos não prevalecem mais que por uma porção de tempo determinada, brevíssima considerando a infinita sucessão dos homens>.

Eu passei 5 dias inteiros conversando com muitos outros sábios antigos. Vi a maioria dos primeiros imperadores de Roma. Pedi ao necromante que nos mandasse servir um jantar feito pelos cozinheiros de Heliogábalo, o imperador mais hedonista de todos os tempos. Porém, seus dotes culinários não ficaram atestados, porque nas dependências do palácio não havia tantos ingredientes quanto eles desejavam. Um hilota (escravo espartano) de Agesilau nos preparou, também, um ensopado, mas, urgh!, não consegui dar uma segunda colherada.

Os dois gentlemen que me acompanhavam na visita à ilhota tinham necessidade, por razões particulares, de regressar dentro de mais 3 dias, após esses primeiros 5, então eu decidi empregar o tempo que ainda me restava com a idade moderna, o que ainda não tinha feito. Decidi me limitar a nossa Europa de 300 anos para cá. Sendo um conhecedor e admirador das famílias mais tradicionais, pedi logo que se apresentassem uma ou duas dúzias de reis, acompanhadas de seus ancestrais até a oitava ou nona geração, se possível. Minha decepção foi imensa e aterradora. Ao invés de semblantes superiores com diademas reais, o que vi foi, numa família, rabequistas, dândis afetados, prelados (profissão muito comum entre os italianos); noutra, barbeiros, um abade, dois cardeais, e assim por diante. Não conseguia suportar essa frustração histórica, haja vista minha mais alta reverência por cabeças coroadas. Quanto a condes, marqueses, duques, barões e que-tais, não fui tão escrupuloso, e confesso que me locupletei com a baixeza de suas árvores genealógicas! Percebi, após analisar muitos traços, de que famílias alguns dos meus contemporâneos descendem com mais probabilidade. E até conseguia fazer a mesma analogia e adivinhar mais ou menos de que raças de antigos e de que personalidades específicas estes nobres de algumas gerações passadas devem ter descendido.”

Nec vir fortis, necfoemina casta [Nem homem viril, nem mulher casta] (Virgílio); é incrível como a crueldade, a covardia e a falsidade se tornaram tão evidentes que são praticamente sinônimas das características mais enraizadas duma família, dizendo muito mais que seus escudos e brasões. Era fácil ver como um celerado, um tratante, vinha como a sífilis e logo contaminava toda uma nobre casa, cujos descendentes não passavam de escrofulosos tumoríferos!”

“Me preocupava muito com os destinos de nossa história moderna. Analisando todos os rostos dos grandes das côrtes, percebi como o mundo foi tirado dos eixos por escritores venais, prostitutos bajuladores, que teciam loas a grandes espoliadores, amantes da guerra e covardes! Percebi logo como fui enganado pelos nossos historiadores a respeito de tantos tolos pintados como sábios, tantos mentirosos pintados como almas pias; vi até que a tal virtude romana não passava de traição da pátria. A piedade decerto não se encontrava nestes ateus que diziam pregá-la acima de tudo! A castidade era defendida na minha frente pelos mais desabridos sodomitas! A verdade era espezinhada na boca de alguns fofoqueiros. Ó, quantos indivíduos de excelência e perfeitamente inocentes não foram condenados à morte ou ao exílio perpétuo pela prática corrupta de juizecos e pela malícia de intermináveis facções!”

“Com que baixa opinião eu não saí a respeito da suposta ‘sabedoria humana’, da integridade, disso e daquilo, quando me dei conta da raiz e das motivações vis por trás de tão robustas e tão nobres empresas e revoluções registradas em nossos anais! É realmente miserável de se ver como as melhores coisas, maioria das vezes, se produziam da forma mais aleatória e acidental, em meio a um sem-fim de patifaria!

Sobretudo, veio-me um asco por todos aqueles que adoram escrever anedotas com um fundo moral, isto é, os vilões que imaginam escrever a ‘história secreta’ dos povos. Quanta trapaça e ignorância não há em suas sentenças! Poder-se-iam empilhar os reis enterrados por envenenamento… E esses escrevinhadores se comprazem nesses relatos mórbidos; replicam falas exatas e riquíssimas de príncipes e ministros sem que sequer tenha havido qualquer testemunho dessas frases; desvendam como que por mágica os pensamentos e procederes de embaixadores e secretários de Estado que nunca soubemos, nem mediante seus diários íntimos! Ah, sim, quem faz e quem escreve a história está sempre e invariavelmente incorrendo em erro! Descobri a causa de muitos eventos que pareceram surpreendentes quando grassaram no mundo: como uma puta governou por trás das cortinas um conselho inteiro; como generais conseguiram vitórias principalmente devido a seu caráter acanhado e às decisões mais estapafúrdias! (…) todos estes homens mais ‘elevados’ me mostraram da forma mais crua como é impossível um homem ocupar um trono real sem estar infectado de corrupção até a medula, porque o caráter reflexivo, sóbrio, confiante e otimista não combina em nada com os negócios públicos; inclusive poder-se-ia dizer que o bom caráter do monarca seria a principal pedra no sapato e empecilho do ‘comezinho transcorrer das coisas’!… O rei incita o irrealismo.”

“Minha nova viagem durou um mês. Sofremos numa violenta tempestade, de modo que foi preciso seguir o rumo oeste a fim de pegar ventos propícios. Por 60 ligas marítimas esse vento embalaria nossa embarcação. Em 21 de abril de 1708, chegamos ao rio de Clumegnig, uma cidade-porto, a sudeste de Luggnagg.”

“Senti-me premido a ocultar minha procedência e sustentei ser holandês. Como minha intenção era seguir posteriormente ao Japão, esse era o certo a fazer, uma vez que os Países Baixos são a única nação européia com permissão para visitar este império.”

“Toda minha ‘comitiva’ era esse pobre rapaz como intérprete, que persuadi a me acompanhar de forma remunerada; ganhamos cada qual uma mula para a cavalgada.”

“Há um costume que não posso aprovar: quando dá na veneta do rei condenar um de seus nobres à morte, e de maneira indulgente, manda que o chão seja espargido com determinado pó amarronzado, venenoso, que, ao ser lambido, mata infalivelmente em 24 horas. Contudo, para fazer jus à imensa clemência do príncipe regente, bem como à prestatividade deste para com a vida de seus súditos (no que devia, aliás, ser emulado pelos monarcas europeus), devo mencionar, honradamente, que ordens estritas são emitidas para que as partes infectadas do chão sejam bem-lavadas ao término de cada execução, coisa que, se seus domésticos negligenciam, pode resultar na pena de morte ou algum castigo mais brando para todos os encarregados da limpeza. Eu vi pessoalmente como sua majestade mandou chicotear um pajem que estava em sua vez de lavar o chão, mas que, maliciosamente, após uma execução, omitiu seus deveres! Devido a sua indolência, um jovem barão muito promissor, visitando o palácio para uma audiência, foi sem querer envenenado, por mais benquisto fosse pelo rei! Vê-se, porém, como era benevolente o príncipe, ao perdoar tão gritante falta de seu servo, desde que ele prometesse nunca mais agir assim.”

“Inckpling gloffthrobb squut serummblhiop mlashnalt zwin tnodbalkuffh slhiophad gurdlubh asht. Esses são os cumprimentos, expostos na lei local, devidos a qualquer pessoa admitida à presença do rei. Seria mais ou menos o seguinte em inglês: <Que Vossa Alteza Celestial sobreviva ao Sol, onze luas e meia!> A essa fórmula de etiqueta o rei respondia alguma outra coisa ritual, que não pude entender, havendo aprendido apenas a recitar minha parte. Então eu devia proceder à tréplica (não sei o significado – apenas decorei as sílabas): Fluft drin yalerick dwuldom prastrad mir push. Eu disse que não sei o significado porque eu não sei interpretar o que quer dizer, embora saiba traduzir: <Minha língua está na boca de meu amigo>. Mas acho que isso tinha alguma coisa a ver com chamar meu intérprete para junto da conversa, para assim podermos proceder à conversação! Com a ajuda do rapaz que contratei, pude responder todas as perguntas que Sua Alteza me dirigiu, o que durou mais de hora. Eu falei na língua balnibarbiana; meu guia convertia tudo no idioma luggnagguês.”

“Permaneci 3 meses ali. O rei adquiriu muita simpatia por mim, fazendo-me diversas propostas de cargos na côrte. Eu, porém, julguei mais prudente e justo passar o restante de meus dias em companhia de minha esposa e família.”

“Um dia, num círculo da aristocracia, fui questionado por um dos nobres:

– Você já viu um de nossos struldbugs ou imortais?

– Nunca; mas muito anseio por que me expliquem o que é isso que designam por esta apelação, que decerto é aplicada a uma criatura mortal como todos nós!

– Às vezes, por muito raro que seja, uma criança nasce, numa família aleatória, com um sinal vermelho na testa, logo acima da sobrancelha esquerda, uma marca infalível de que aquele ser jamais morrerá. Esse sinal tem estas dimensões [ele fez um gesto com os dedos, e pude compreender que se tratava mais ou menos do tamanho de uma moeda de prata de 3 pêni¹] quando a criança acaba de nascer. Com o tempo, ele vai ficando maior, e inclusive mudando de cor. Até os 12 anos, já se tornou verde. Aos 25 se torna azul escuro. Aos 45, preto-carvão, e já grande assim [ele fez com os dedos uma mímica que eu aproximo ao xelim]. A partir desse ponto, porém, o sinal não muda sua coloração nem seu tamanho. Amigo, estes seres são tão raros que se houver mais de 1100 struldbrugs (contando homens e mulheres), isso muito me surpreenderá! Creio que uns 50 vivam na metrópole. Fora da capital, houve a notícia de um último struldbrug nascido 3 anos atrás, do sexo feminino. Não há qualquer chance de um struldbrug ser mais freqüente em umas famílias que em outras, não há qualquer correlação! Tampouco qualquer struldbrug, ao ter filhos, teve filhos que fossem iguais a si mesmo…”

¹ Pense numa moeda de 50 centavos, tanto com referência ao tamanho quanto com o valor aproximado de 3 pêni ou threepence àquela altura.

“Nação ditosa, em que toda criança tem pelo menos uma chance ínfima de ser imortal!”

“Dizia ainda ele que Sua Majestade, sendo tão judiciosa, jamais deixaria de escolher, dentre os struldbrugs, um bom número para compor seu conselho. Se bem que uma côrte é algo tão mundano, impuro e estulto para a alta sabedoria de um struldbrug envelhecido que se nenhum é visto por lá atualmente, isso não é culpa do rei. Comecei a mudar de idéia quanto aos planos de ficar ou não neste país. Me parecia um futuro promissor poder gastar meus anos conversando com sábios struldbrugs!”

“Após um breve silêncio, o mesmo interlocutor deu prosseguimento:

– Mas é impressionante! Nunca vi alguém com seu otimismo com respeito à vida eterna! Diga-me no que consistiria sua vida, caso você tivesse tido o privilégio de nascer um struldbrug?”

“Ora, se eu fosse bem-aventurado para tanto, assim que soubesse, pelos meus conterrâneos, ser um imortal, isto é, aprendendo a diferença entre a vida e a morte, a primeira coisa que procuraria seria me tornar rico. Sendo econômico e previdente, creio que em cerca de 200 anos eu já teria atingido a meta de ser o homem mais rico da nação. Em segundo lugar, desde minha juventude me aplicaria ao estudo das artes e ciências, o que me garantiria ser o número 1 em cada uma após algum cultivo. Em terceiro e último lugar, tomaria o cuidado de registrar todas as minhas ações e eventos biográficos de conseqüência num diário, sem deixar, evidentemente, de redigir uma história a mais imparcial possível dos meus próprios reis e ministros, com notas e opiniões pessoais a cada ponto. Não deixaria de catalogar todas as mudanças culturais, lingüísticas, dietéticas, estéticas e variedades tais. Seria eu um tesouro vivo de conhecimento e sabedoria acumulados, e certamente me fariam exercer o cargo de oráculo do país!

Depois dos 60, creio que não voltaria a me casar, vivendo de maneira celibatária, mas não reclusa. Me comprazeria muito ser o mentor de jovens mentes brilhantes, convencendo-os, de acordo com minha vasta experiência, a ser virtuosos na vida pessoal e na vida pública. Meus amigos íntimos, entretanto, seriam unicamente outros de minha raça e condição; e mesmo dentre eles eu seria seletivo: procuraria me acercar apenas da dúzia mais anciã de todas, e dificilmente procuraria contato com os struldbrugs mais jovens que eu mesmo.”

“Como um homem mortal se distrai contemplando a sucessão anual das rosas e tulipas de seu jardim, sem nunca lamentar pelas rosas e tulipas mortas da estação passada, assim eu viveria!”

“rios famosos que com o tempo se tornam modestos córregos; o oceano, que em seu perpétuo movimento acaba por recuar e aumentar uma de suas margens, só para engolir completamente uma outra; a descoberta de muitos países até agora ignorados; a barbárie avançando e ultrapassando as nações mais eruditas e cultivadas; a arte de medir, o moto perpétuo, a medicina universal, e muitas outras invenções e ciências eu veria chegarem à perfeição!

Quantas belíssimas coisas não descobriríamos na astronomia, só pelo fato de sobrevivermos até podermos confirmar nossas predições? Observando o progresso e o retorno dos cometas, as mudanças de movimento do sol, da lua e das estrelas, ah!…

Incorri numa infinidade de outros tópicos, todos a que o desejo natural pela vida eterna e pela felicidade sublunar poderia me incitar. Quando terminei meu discurso, e o essencial do que eu disse foi devidamente transcodificado e retransmitido pelo meu intérprete a todos os ouvintes, houve uns bons minutos de discussão entre os pares na língua do país; sem entender uma palavra, me era possível, entretanto, ver que eu me passava por ridículo, porque era evidente que riam as minhas expensas! Enfim aquele que havia sido meu intérprete fez o favor de explicar-me tudo que se havia conversado. Toda essa gente desejava, em suma, retificar alguns erros crassos acerca da idéia que eu fazia da imortalidade terrena. Não que fosse culpa minha, por assim dizer, mas da imbecilidade universal da espécie humana, que não tem como perceber o erro de seus raciocínios abstratos a menos que seja confrontada com a dura realidade. Tendo essa nação convivido com imortais por muitos séculos, estas pessoas se sentiam no direito de censurar-me, uma vez que tinham muito mais experiência no assunto em questão. Os struldbrugs, ao que tudo indica, são exclusivos deste recanto do mundo, e nenhum outro povo conhece as peculiaridades desta condição. Nem em Balnibarbi nem no Japão, vizinhos que às vezes recebiam struldbrugs como embaixadores, tinha-se uma perspectiva acertada a esse respeito. Na verdade, poucos criam na possibilidade mesma de que estivessem tratando com imortais, julgando que fosse uma espécie de mito, lenda ou que se desejava pregar uma boa peça. E julgaram que eu não me portei diferentemente, pois notaram como a princípio eu acolhi com muito espanto e ressalvas a possibilidade de alguém viver anos infindáveis; e que se agora eu acreditava na existência dos struldbrugs, sem dúvida isso se devia a minha credulidade incomum. E assim seria com todas as nações que não conhecem indivíduos da raça imortal, pelo menos não tão bem, isto é, em toda sua vida, mas apenas, quando muito, como embaixadores que não residem muito tempo no exterior, logo se aposentando de suas funções: todos os povos compostos apenas por mortais manifestam um grande anseio pela imortalidade. Toda pessoa velha, decrépita, com um pé na cova, dentre as nações desprovidas de struldbrugs, teme a morte, e não hesita em fugir da morte, tentando inutilmente afastar o outro pé, aquele que ainda não está na cova, diante do destino inevitável de todo ser vivo que não recebeu a marca da imortalidade na testa logo que nasceu. Dizem que os velhos, por mais doentes e senis, nunca deixam de nutrir as esperanças de dias melhores, e sempre querer viver um dia a mais, não importando o dia de hoje. Para os mortais, a morte é o maior mal, e por mais que ela seja inerente à natureza é um fato horroroso. Só na ilha de Luggnagg, lugar privilegiado, esse apetite insaciável pela infinidade dos anos havia sido abolido, pelo menos nas mentes de todos que bem conheciam histórias de struldbrugs.

Alegaram que meu sistema de vida eterna era injusto e irracional, pois supunha, em primeiro lugar, uma juventude eterna, uma saúde sem-fim, um vigor inacabável, o que não passa de quimera e tolice. E me corrigiram, dizendo que a questão não era se seria desejável viver para sempre na flor dos anos e na primavera da vida, próspero e feliz. Mas sim como é que seria desejável para qualquer um viver para sempre, com todas as inconveniências naturais do envelhecimento. Os luggnagguianos confessaram, enfim, que nunca viram alguém partir desta vida de bom grado em Balnibarbi ou no Japão, exceto aqueles que já estivessem à mercê das mais cruentas misérias ou vivendo sob tortura. O intérprete me perguntou, já certo da resposta, se, nos países que eu já havia visitado, assim como na minha terra natal, os homens se comportavam de maneira diferente ou análoga.

Depois deste longo prefácio, ele finalmente me relatou como é verdadeiramente a vida de um struldbrug. Ele disse que um struldbrug vive como qualquer mortal até seus 30 anos de idade; aos poucos, porém, eles se tornam cada vez mais melancólicos e apáticos. Progridem até os 80 anos num ritmo constante, isto é, cada vez mais melancólicos e apáticos conforme a idade. Isso era conhecido não só por observação mas da boca dos próprios struldbrugs. Claro que, nunca havendo, numa só geração de mortais, mais do que 2 ou 3 struldbrugs, seria difícil generalizar e chegar a conclusões confiáveis para todos os struldbrugs de todos os tempos. Mas, o que é mais espantoso, assim que um struldbrug supera seus 80 anos, que é mais ou menos reconhecido como o termo da vida do homem mortal, marca além da qual poucos chegam,ainda mais provido de lucidez, percebe-se que, independentemente do dom recebido da imortalidade, este ser sofre de todas as doenças e abastardamento mental comuns à terceira idade. Não só isso, mas um struldbrug, justamente por saber-se eterno, parece sofrer ainda mais que qualquer mortal de idade avançada que sabe que um dia irá morrer. Os que ainda se comunicam tornam-se obstinados e recalcitrantes, rabugentos, invejosos, indolentes, vãos, tagarelas, maus ouvintes, incapazes de cultivar a amizade. Logo, pelo menos metaforicamente, mortos às afeições humanas, tornam-se incapazes de sentir ternura por qualquer descendente seu mais jovem que seus próprios netos ou bisnetos. Tornam-se apenas vultos, por assim dizer, fontes que emanam unicamente desejos e paixões impotentes. E as duas coisas que eles mais passam a odiar são os vícios comuns à juventude e a morte dos velhos. Vendo como vivem os mais jovens, eles se vêem alijados de há muito dos prazeres da existência; e sempre que ocorre um funeral, lamentam profundamente que alguém tenha ido para um lugar de repouso e sossego, enquanto eles ali continuam. E é curioso observar que eles não guardam memória das coisas que acontecem em seu tempo de velhice; eles teimam em recordar apenas aquilo que viveram durante a juventude e a meia-idade. Se bem que cada vez menos, quanto mais envelhecem. Sendo que ninguém mais confia no juízo de um struldbrug muito ancião, preferindo dar crédito às tradições, ao ouvir-dizer popular, do que a qualquer entrevista que se possa ter com um struldbrug milenar. Os menos desagradáveis dos struldbrugs são os que atingem um estado de perfeita senilidade e se recolhem em si mesmos, perdendo qualquer lembrança ou sociabilidade; estes, confessava meu intérprete, ainda são vistos com piedade e condescendência pelos mortais, porque, afinal, não incomodam ninguém.

Mas se um struldbrug, por exemplo, casa com outro struldbrug, a lei do país, muito sensata, dissolve o casamento, assim que o mais jovem do casal completa seus 80. Porque a lei entende que um struldbrug é o que é, e não tem culpa de ter nascido sem poder morrer. E seria crueldade aumentar o peso dessa velhice eterna, se se permitisse que um imortal, ainda por cima, tivesse sempre um cônjuge!

Como já se vislumbrou, um struldbrug de 80 anos é só um pária não mais contemplado pela lei. Seus herdeiros passam a ter desde então direito à herança; é claro que a caridade ainda é fomentada, e eles continuam de posse de um naco de seus bens, que lhes permita seguir vivendo comodamente; mas tudo o que seria supérfluo é-lhes imediatamente retirado. Os struldbrugs que porventura cheguem pobres aos 80 anos são custeados por pensões estatais. A essa idade, ninguém lhes confia emprego algum, pelo menos não um trabalho útil. Proíbe-se-lhes comprar ou arrendar terras; ser testemunha nos tribunais – seja a causa cível ou criminal –, etc. A verdade é que nem como jurados de pequenas causas eles seriam de qualquer proveito.

Aos 90, eles já perderam todos os dentes e fios de cabelo da cabeça. Já não têm paladar, se bem que comem e bebem indiscriminadamente o que lhes puserem à mesa, sem gula nem muito menos satisfação. As doenças de que padeciam de há muito não os abandonam, mas chegam a um ‘equilíbrio’, e param de se agravar. Começam a esquecer os nomes mais óbvios, os nomes das pessoas, mesmo dos antigos melhores amigos ou chegados. E, por isso, ler não é mais um hábito que faça sentido para eles, porque sua memória já não pode conduzi-los do início ao fim de uma frase sem que eles exclamem:<O quê? Nada compreendo disso!>. Nessa amnésia eterna, portanto, eles perdem a capacidade de se engajar em qualquer distração construtiva.

Como é sabido, em todos os lugares e inclusive em Luggnagg, a língua, como os costumes, vai mudando com o tempo, de modo que um struldbrug, ainda que pudesse dialogar com outro struldbrug muito mais velho ou mais novo, não poderia entendê-lo, nem fazer-se entender, porque cada qual aprendeu um idioma um tanto diferente. Aliás, a menor e mais banal conversação se torna materialmente impossível aos 200 anos. É verdade que eles ainda podem balbuciar palavras soltas, como bebês fariam. É assim que, embora sustentados pelo Estado, eles passam a viver como estrangeiros em seu próprio lar.

Foi isso que me contaram desta raça dos struldbrugs!Depois desse extenso relato tive a oportunidade de conhecer pessoalmente 5 ou 6 destes seres, o caçula ainda não bicentenário. Como eu fiz muitos amigos na ilha, eles sempre viajavam com struldbrugs para trazê-los a mim. Muito embora dissessem aos struldbrugs trazidos que eu era um grande viajante que viu inumeráveis partes do globo, eles naturalmente não demonstravam a mínima curiosidade nem me dirigiam perguntas; só o que pediam era um pouco de slumskudask, i.e., uma lembrancinha do estrangeiro. Na verdade não se enganem: nem esse ato era desinteressado, e descobri que essa era uma forma de burlar a lei e pedir esmolas, o que era diretamente proibido. Como eu disse, struldbrugs, quando envelhecem, são mantidos pelo Estado, e sua pensão não é lá muito elevada…

Eles são, em suma, desprezados e mesmo odiados por todos os tipos de habitantes locais. Quando um nasce, já recai sobre todos a certeza de um acontecimento ominoso, em nenhum grau mais evitável pelo fato de que seria uma desgraça sentida somente a longo prazo. Por isso é que eles registram nos cartórios com muito esmero a data de nascimento de um struldbrug, para que qualquer cidadão possa descobrir a idade de um só de olhar nos registros: quanto mais velho um struldbrug, mais longe dele se deve passar! Esse registro é arcano, mas a prática não retrocede a mais de 1000 anos ou, até onde pude entender, registros mais antigos que um milênio de idade já haviam sido destruídos ou tornados ilegíveis por intempéries climáticas, alguma catástrofe natural ou simples desorganização administrativa. Tirante esse registro do parto, há também uma forma mais simples e informal de se inteirar da idade de um struldbrug: pergunta-se-lhes de que reis ou grandes nomes da História ele se lembra; naturalmente que, muitas vezes, é necessário seguir essa entrevista de uma consulta aos livros de História. É um dogma que o último monarca lembrado por um struldbrug subira ao trono invariavelmente antes de seu octogésimo aniversário, prestando grande confiabilidade a esse método.

Honestamente, os struldbrugs foram a visão mais mortificante que tive em minha vida. E a mulher era sempre mais horrenda que o homem. Além das deformidades verificáveis em qualquer idoso mortal, havia uma aura infecta indefinível que envolvia cada struldbrug, mais e mais, conforme o avanço etário. Isso era tão palpável, embora tão difícil de descrever, que, batendo o olho,eu conseguia descobrir, sem hesitação, qual era o mais velho dos seis que eu vim a conhecer. E digo isso ressaltando que entre este e o segundo mais idoso não havia uma diferença espetacular, mas coisa de entre 100 e 200 anos!

O leitor facilmente adivinhará que, diante de tudo que aprendi e vi com meus próprios olhos, minha ânsia pela imortalidade terrena sofreu o mais duro golpe. Desde então, nunca deixei de guardar uma profunda vergonha dos antigos pensamentos fantásticos que eu nutria a respeito dessa possibilidade quimérica!”

“O rei soube de tudo que se passara comigo e meus recém-amigados, além de toda minha obsessão inicial pela imortalidade e sua súbita conversão em repulsa e desalento. De forma espirituosa ele me disse que desejava que eu levasse comigo, na volta, 2 ou 3 exemplares de struldbrugs para exibição em minha terra natal. Ele disse que assim toda minha nação seria devidamente ensinada a jamais temer a morte. Mas o rei só estava brincando: eu soube que, segundo as severas leis do reino, era interdita a exportação de struldbrugs. E esta era uma cláusula pétrea de sua avançada constituição. Confesso que, não fôra isso, a repelência (e as despesas!) de tê-los por perto durante uma longa viagem por mar seria vencida pelo meu altruísmo educador, e eu mostraria os struldbrugs de bom grado aos ingleses!”

“Sendo a avareza inseparável amiga da velhice, creio que, no tempo devido, dando-se-lhes o direito, os imortais chegariam a ser os grandes proprietários de toda a nação, depauperando os poderes civis em igual proporção. Por isso, concordo em absoluto com a lei que considera os struldbrugs avançados em idade meros párias.”

“Em seis dias encontrei um navio apto a zarpar comigo para o Japão, viagem que durou 15 dias.” “No porto, mostrei aos oficiais da alfândega a carta do rei de Luggnagg endereçada à Sua Majestade Imperial. Eles estavam habituados àquele selo; era, para falar a verdade, uma insígnia do tamanho da minha mão. Uma inscrição acompanhava o símbolo, dizendo: Um Rei que ergue um mendigo ignoto da terra. O magistrado daquela cidade costeira, ao ficar sabendo de meu documento real, recebeu-me como um verdadeiro ministro de Estado. Deram-me carruagens e servos para minha expedição, e encarregaram-se também de expedir minha bagagem para Edo. Em Edo fui convidado a uma audiência pública e ali me devolveram a carta do rei. Abriram-na de uma forma imensamente ritualística e cerimoniosa; trataram de explicar seu conteúdo ao Imperador via intérprete, e ele finalmente se dignou a me receber. Assim pronunciou: <Peça o que quiser e será atendido, em nome de Seu Real Irmão de Luggnagg!> – é claro que diz-se<Irmão> não por consangüinidade, mas pelo vínculo de suprema autoridade entre as duas nações vizinhas.”

<Você é o primeiro holandês escrupuloso quanto a isso; você é mesmo um holandês?! Você não se porta como um destes, como é que se diz?, protestantes…>De qualquer maneira, ele não quis me interrogar mais seriamente – acredito que por consideração a Seu Amigo-Rei. Na verdade, o que pedi era muito incomum naquela côrte, mas o Rei é Soberano Absoluto, e muito Misericordioso e Benevolente! Ele ressalvou:<Se essa informação se torna pública entre os holandeses, esteja prevenido, nenhuma amizade entre nações evitará que cortem-lhe a garganta ainda no meio da sua viagem!>

“Em 9 de junho de 1709 cheguei a Nagasaki; a viagem não foi breve nem muito menos sossegada. Aconteceu de eu estabelecer relações com alguns marinheiros de uma robusta embarcação de 450 toneladas, que eram justamente holandeses,de Amboyna, Amsterdã. Vivi muitos anos nos Países Baixos, estudando em Leyden, e meu Holandês não era menos que impecável, então consegui disfarçar minha identidade de súdito da rainha da Inglaterra. Seja como for, estes homens foram logo informados de que eu era um viajante crônico, e se mostraram muito curiosos sobre que aventuras eu vivi. Condensei os detalhes o mais que pude e ocultei o essencial, i.e., a maior parte dos acontecimentos. Eu conhecia muitos indivíduos holandeses. Podia facilmente inventar nomes de família para meus pais, que, alegava eu, eram gente simples da província de Gelderland. Eu pagaria de bom grado o exigido pelo meu traslado pelo capitão do navio (um tal Theodorus Vangrult, a propósito); porém, descobrindo que eu era cirurgião, este homem aceitou baixar a taxa pela metade, desde que eu servisse como médico. O fato é que nos dias de preparativos para incursão em alto-mar fui incessantemente interrogado pela tripulação sobre se eu ‘participara da cerimônia ou não’, pergunta que, dependendo da resposta, podia custar minha vida…Que cerimônia? Aquela em que se pede algo de todo súdito que deseja atestar Sua Lealdade Absoluta exceto no caso do simples comerciante holandês: lamber o piso da sala do Imperador do Japão!

“Ah, nada aconteceu durante esta viagem que mereça ser citado. O vento foi favorável até o Cabo da Boa Esperança, onde paramos só para nos guarnecer de mais água potável. Em 10 de abril de 1710 chegamos sãos e salvos a Amsterdã, tendo perdido apenas 3 homens de doença, e um quarto que caíra do mastro nas águas, mais ou menos próximo da costa da Guiné. De Amsterdã foi um pulo para voltar à Inglaterra, num barco menor, saído daquela mesma cidade.

Dia 16 de abril lá estava eu de volta a Downs. Eu estive ausente de minha terrinha por 5 anos e 6 meses. Fui incontinenti a Redriff, lá chegando em 17 de abril, às 2 da tarde, e me reencontrei com minha esposa e família, todos na mais perfeita saúde.”

PARTE IV – VIAGEM AO PAÍS DOS HOUYHNHNMS

“Por mais 5 meses incompletos segui em casa, ao lado de mulher e filhos,feliz, devo dizer, e não sairia desse estado se já tivesse aprendido a lição, i.e.,sabido desde já no que consiste realmente a felicidade. Porque aí então no fim deste curto período eu deixei mais uma vez minha mulher, com a barriga bem visível,esperando mais um descendente meu, tendo eu resolvido aceitar uma oferta, que eu julgava aliás irrecusável, do capitão do Adventurer, um grande navio mercante de 350 toneladas. Bom navegante, e muito mais experiente agora, além de enjoado de exercer a medicina, que, se me desse na telha, eu poderia voltar a predicar por breves instantes, levei conosco um colega médico, Robert Purefoy, para ser o responsável pela saúde dos meus homens – eu ia, portanto, apenas como mercador e a fim de lucrar e de desvendar o desconhecido!¹ Desancoramos de Portsmouth no 7º dia de setembro de 1710; dia 14 cruzamos com o Capitão Pocock, de Bristol, no Teneriffe, cujo destino era a baía de Campechy, onde iriam atrás de madeira. Dois dias depois, acabamos nos separando por conta de uma tempestade. Dali a muito tempo, quando retornarianovamente ao lar, fiquei sabendo, afinal, que sua embarcação naufragara, e só um garoto, pajem, sobrevivera. É, o Capitão Pocock era um homem honesto, e bom capitão, mas um pouco otimista demais e obstinado em seguir uma rota sem nunca improvisar, mesmo diante de circunstâncias ruins. Foi isso que precipitara sua morte e a de quase toda sua tripulação, o que não foi a primeira nem será a última vez nos sete mares! Se ele tivesse seguido meu conselho, estaria hoje confortavelmente instalado diante da lareira de sua sala de estar, ao ladodos parentes, tão bem quanto eu – tão bem quanto eu chegaria a estar um dia–, mas agora não é a hora!

[¹ As semelhanças com Robinson Crusoe não param!]

Quanto a minha viagem, muitos colegas morreram da febre dos trópicos, ocasionada pela insolação; isso me levou, como capitão de meu próprio navio, a decidir nossa sorte, para o bem ou para o mal, recrutando gente de Barbados e das Ilhas Leeward, onde afinal desembarquei. Eu depressa me arrependeria de minha escolha: muitos destes sujeitos já haviam sido piratas e não eram confiáveis. Havia 50 mãos a bordo. Minhas ordens eram: comerciar com autóctones dos mares austraise coletar o máximo de informações. Bem, esses mercenários que contratei corromperam meus marujos fiéis e todos, ensandecidos, conspiraram para tomar o navio. E assim se deu:uma bela manhã, arrombaram a porta de minha cabine e completarem seus planos com facilidade; começaram por imobilizar meus pés e mãos atando-os.”

“Eles me davam, como um favor!, das minhas próprias carnes, e goles das minhas bebidas, enquanto lá fora se tornavam os donos do navio e deles mesmos. Seu objetivo era voltar ao ofício de piratas e render um navio espanhol.Para realizar esta façanha, porém, eles ainda precisavam recrutar mais homens.”

“Eles velejaramsemanas a fio. Negociaram com indígenas. Eu, contudo, ignorava quais podiam ser as coordenadas, tendo sido mantido prisioneiro em minha cabine, sem maiores expectativas além de ser morto a qualquer momento, já que ameaças não faltavam.

A 9 de maio de 1711, um James Welch baixou ao meu calabouço e relatou que tinha ordens do ‘capitão’ para me deixar na costa. Eu tentei barganhar com eles um destino melhor, mas sem sucesso. Ele nem mesmo aceitou revelar o nome do novo capitão do navio, o líder da rebelião. Me forçaram a subir no barco, concedendo-me ao menos o direito de vestir minhas melhores roupas, que eram de fato como se fossem novas, além de levar comigo um novelo de linho; porém, nada de armas, exceto um gancho de cabide. Não nego que tivessem alguma honra: não revistaram meus bolsos, onde por acaso eu guardara todo o dinheiro que levava na viagem, junto de alguns pequenos itens de sobrevivência. O barco seguiu por uma liga marítima, até que estivesse raso o bastante para eu descer à praia. Eu ainda supliquei para que me dissessem que lugar era aquele; mas a resposta que obtive foi <não sabemos mais do que você>. Completaram: <O capitão estava resolvido, após a venda da carga, a livrar-se de mim ao aparecimento da primeira terra firme>.”

“Após me hidratar e espairecer, comecei a explorar o sítio, decidido a entregar-me aos primeiros selvagens que surgissem. Quem sabe eu não conseguisse comprar minha vida com alguns braceletes, anéis de vidro ou outros desses itens insignificantes, que os grandes navegantes sempre levavam, expressamente para o escambo com os mui admirados nativos de países remotos…”

“Eu cheguei a uma estrada batida, onde percebivárias pegadas humanas, e também bovinas mas, sobretudo, eqüinas, a maioria delas. Foi então que contemplei diversos animais num campo mais aberto, e sempre um ou dois do bandoassentados em cada árvore. Suas formas eram muito singulares e deformadas, o que me desconcertou a princípio, e me fez, por prudência, conservar distância e seguir observando pordetrás da moita.”

“Sua cabeça e busto eram cobertos por uma espessa pelugem, alguns a tinham cacheada, outros lisa. Eles possuíam barbas como bodes, e uma espécie de crina muito avantajada descendo lombo abaixo, além de pêlos nas pernas e nos pés; mas o restante de seus corpos era nu e deixava transparecer uma pele de um marrom lustroso, quase cáqui. Eles subiam nas árvores com a agilidade de esquilos, e pude notar que possuíam garras muito compridas nas quatro patas, pontiagudas, em forma de gancho. Eles saltavam com agilidade igualmente prodigiosa. As fêmeas eram menores. Levavam compridas cabeleiras escorridas, embora sem nenhum pêlo facial, e sem pêlos noutras partes que eram peludas nos machos, exceto nas pudendas e no ânus. Suas tetas ficavam dependuradas entre suas patas dianteiras e ficavam rentes ao solo,enquanto caminhavam de quatro! Os pêlos de ambos os sexos, ao contrário da uniformidade da cor da pele, eram multicoloridos, podiam ser castanhos, mas também ruivos, negros ou loiros. Eu jamais vira, em todas as minhas andanças, animal tão repelente, ou não exatamente repelente, mas capaz de me inspirar a mais arraigada e preconcebida antipatia e aversão! Tanto que, julgando que játinha visto o bastante, imerso em nojo e desprezo, ergui-me e retornei à estrada batida, na esperança de chegar a alguma cabana com seres humanos. Eu não tinha caminhado muito quando uma dessas criaturas se encontrou frente a frente comigo, e se aproximou parecendo reconhecer-me, sem desviar o olhar. O monstro horrendo, ao ver-me melhor, entretanto, contorceu suas feições, diria que todos os músculos da face, e sua vista petrificou, como que de súbito, tanto elese espantara diante de algo que provavelmente nunca vira. Movendo-se novamente, chegando mais e mais perto, ergueu uma de suas patas, ou em ato de inocente curiosidade ou em sinal de animosidade, não sei dizer ao certo. Eu imediatamente saquei meu cabide-gancho e com o lado não-perfurante dei-lhe uma boa bordoada. Quem sabe de quem seria esse animal? Eu não ousava feri-lo gravemente. Quando a besta sentiu a pancada, recuou, mas grunhiu tão alto que quarenta membros de sua manada vieram acudi-lo, parecendo que uivavam, instigando-me com suascaretas medonhas. Eu corri até o tronco de uma árvore, nele apoiei as costas e mantive os quadrúpedes à distância empunhando e balançando meu gancho no ar. Alguns dessa horda demoníaca se apoiaram nos galhos da árvore e a escalaram facilmente, no que –verticalmente alinhados comigo –, começaram a expelir seus excrementos em minha cabeça! Eu minimizei os danos procurando ficar o mais rente possível ao caule; o problema é que aquele odor e material pestilentos foram me sufocando, pois em poucos segundos eu fiquei conspurcado de fezes…

Em meio a este pandemônio, notei todavia que muitos deles partiram em disparadao mais depressa que puderam, no que me aproveitei para abandonar a vizinhançadaquela árvore e correr estrada afora, enquanto tentava refletir no quê é que poderia tê-los assustado tanto. Ao perceber um vulto à esquerda, voltei-me e contemplei um cavalo que caminhava sossegadamente pelo campo. Percebi bem rápido que era dele que os outros haviam corrido. O cavalo hesitou, espantado, diante da minha figura. Aproximando-se, no entanto, parecendo manifestar muito mais auto-controle e prenda que o meu horrendo rival de ainda há pouco, fitou-me fundo nos olhos com sinais de admiração no focinho. Ele dirigiu a vista para minhas mãos e pés, rodeou-me para investigar melhor – e não escassas vezes! Eu seguiria viagem, evidentemente, mas ele fez questão de bloquear a estrada, embora parecesse sereno e nada ameaçador. Seguimos nos fitando um bom naco. Criando coragem, levei minhas mãos à altura do pescoço do animal a fim de afagá-lo, como fazem os jóqueis quando estabelecem um primeiro contato com sua montaria. O animal pareceu receber meu gesto com um infinito desdém, afastou a cabeça e como que franziu o sobrolho – se tivesse sobrolho! –, erguendo – suavemente – a pata dianteira direita a fim deapartar meu braço. Ele relinchou 3 ou 4 vezes, mas numa cadência tão única que eu comecei a delirar que ele falava comigo numa língua de cavalo!

Enquanto essa bizarra cena transcorria, outro cavalo se achegou. Dirigindo-se ao primeiro em postura que julguei um tanto formal, ambos tocaram-se mutuamente pela sola de seus cascos da pata posterior direita, relinchando em seqüências estranhas, e um se alternando com o outro! Eu mais uma vez testemunhei a diferença na modulação dos sons, que pareciam sílabas. Esses animais articulam a fala?! Eles se afastaram de mim alguns passos, como se fosse para conferenciarem mais à vontade (eu não podia dar crédito a minhas alucinações, aquilo era demais para mim!). Eles seguiram trotando a passos apascentados, um ao lado do outro, como se fossem dois seres humanos deliberando algo deveras importante! E às vezes voltavam a cabeça e me espiavam, como se estivessem a me vigiar. Eu não acreditava nessas ações provindas de tais bestas, animais brutos e silvestres! Comecei a refletir: se os habitantes deste lugar forem proporcionalmente tão inteligentes quanto seus animais, creio que cheguei ao povo mais sábio da Terra, é isto! Essa conclusão me tranqüilizou de tal maneira que eu decidi juntar-me a eles na caminhada, até que vislumbrasse alguma casinha ou vilarejo nohorizonte. Onde estão os humanos deste lugar?! Na verdade não era minha intenção seguir de perfil com os cavalos –deixai cada qual com seu cada qual, eu iria apressar o passo e fazê-los comer a poeira de meus passos. Mas foi aí que o primeiro cavalo, de um cinza sarapintado, muito atento aos meus movimentos, relinchou de forma tão expressiva que eu tive a nítida sensação de que ele me chamava!”

“A perplexidade em torno de meus sapatos, meias e calças era extraordinária; eles não paravam de relinchar uns aos outros toda vez que dirigiam o olhar para os meus acessórios. Eles também usavam linguagem gestual, e diria que em nada ficavam a dever ao filósofo europeu, quando este se punha concentrado a fim de resolver um problema elaborado!

No geral, o comportamento destes animais era tão ordeiro e racional, tão sensível e judicioso, que por fim concluí que eles deviam ser magos, que se autometamorfosearam por alguma razão e, encontrando um estranho enquanto assim permaneciam, resolveram dar lastro à brincadeira por mais algum tempo. Ou, talvez, estes animais estivessem apenas imensamente maravilhados com um homem da civilização como eu, com minhas roupas e feições e posturas mais delicadas que as de qualquer nativo vivendo num habitat tão remoto! Cada vez mais convicto de uma dessas hipóteses, resolvi, portanto, dirigir-me a eles da seguinte maneira:

– Respeitáveis gentlemen, se fordes feiticeiros, no que tenho motivos para acreditar, podeis então entender minha língua! Destarte eu exorto sua senhoria a reconhecer minha proveniência: eu sou um pobre e desgraçado homem das Ilhas Britânicas, dirigido por suas desventuras a este porto remoto. Eu solicito, mui educadamente, portanto, que um dentre vós me deixe cavalgar em suas costas, como se fôra cavalo de verdade, até que eu encontre alguma vila povoada neste país, onde possa encontrar abrigo e sustento. Se concordardes, presentear-vos-ei com esta faca e bracelete…,

no que logo os tirei de meu bolso. As duas criaturas daquela primeira cena após o tumulto na árvore ficaram paralisadas ouvindo todo o meu discurso, com parecença de ouvir e sorver cada sílaba do que eu dizia. Quando terminei, eles não pararam de ‘conversar em cavalês entre si’, como eu agora o chamo, cansado de comparar seus relinchos hiper-delicados com os dos cavalos ingleses. O debate parecia muito sério. Eu não pude deixar de notar que sua linguagem averbal e no entanto melodiosa expressava as paixões com bastante precisão; eu poderia, me dedicando por mais tempo, decerto, catalogar os diferentes fonemas e até registrar o alfabeto destes seres curiosos! Acho até que seria mais fácil que aprender chinês…

Prova disso é que toda hora eu distinguia a palavra Yahoosaindo de suas bocas dentuças, pronunciada por cada um da companhia, e sem parcimônia. Embora fosse vão tentar conjeturar sobre seu significado, enquanto os dois primeiros cavalos conferenciavam em particular, eu comecei então, para testar sua reação, a articular esta mesma palavra. Assim que se calaram eu pronunciei Yahoo forte e claramente, não sem tentar imitar, não nego, o mais que podia, o ‘sotaque’ de meus convivas, isto é, gritei relinchando! Nisso eles ficaram ainda mais sobressaltados. O cinza repetiu a mesma palavra duas vezes, como se quisesse ‘aperfeiçoar meu acento’. Eu cavalheirescamente anuí, tentando melhorar a pronúncia, o que julgo ter realizado, inclusive melhor e melhor à medida que tentava de novo e de novo. Mas reconheço que não poderia, mesmo depois de alguma prática, ser acusticamente confundido com um cavalo, ainda. O exemplar loiro jogou uma segunda palavra para eu tentar efetuar o mesmo. Essa era mais difícil. Transcrevendo-a para a ortografia inglesa, creio que equivalesse a Houyhnhnm. Minha competência foi menor, mas depois de algumas teimosas tentativas, creio que finalmente ‘os agradei’. Os dois estavam simplesmente maravilhados.

Depois de mais debate entre eles, que só podia se referir a mim, os dois amigos deram sinais de partir um em relação ao outro, da mesma forma que se haviam cumprimentado momentos antes: tocando-se os cascos. O cinza fez sinais de que queria que eu o seguisse, ou que o conduzisse, deveria dizer, posto que eu sou o mestre e ele a montaria! Bom, a mim não restava alternativa até finalmente encontrar o que eu desejava. Quando eu afrouxei meu passo, de fadiga, ele gritou hhuunhhuun.”

“um povo que podia civilizar animais brutos desta maneira esplêndida só podia exceler em todos os campos e ser a nação mais sábia e próspera desta terra! O cinza se pôs à frente e indicou que não toleraria comportamentos abusivos para comigo. Ele relinchou bastante em público, parecendo ter grande autoridade sobre os cavalos dessa cidade-estrebaria, e era correspondido com assentimentos subservientes e timoratos.”

“Comecei a achar que essa casa devia pertencer a alguém muito importante, porque havia grande cerimônia antes de eu poder entrar. Mas, enfim, que um homem pudesse ser inteiramente atendido e hospedado por cavalos, isso escapava completamente de minha concepção. Começava a temer que meu cérebro era o pivô da história toda: tão maltratado pelas agruras da viagem, começava a interpretar mal todas as percepções dos sentidos! Eu me recompus, portanto, e comecei a examinar os objetos do cômodo em que me haviam hospedado, sozinho: este estava mobilhado como o primeiro, apenas que mais elegantemente. Eu esfreguei os olhos muitas vezes, mas não podia ser miragem por desidratação ou cansaço! Belisquei meus braços e meus flancos, quem sabe assim eu acordaria… E nada.”

“Percebi que logo eu morreria de fome, a menos que encontrasse urgentemente alguém de minha própria espécie. Porque quanto a esses imundos Yahooscom que deparara antes no campo, embora houvesse, creio, àquela altura, no mundo inteiro, poucos que amassem a humanidade tanto quanto eu a amava, confesso que jamais vira um ser vivo senciente mais abominável em todos os aspectos! De algo que remetesse aos seres humanos, mais que os Houyhnhnms, pelo menos, isso era evidente, eles só tinham a capa, pois quanto mais eu me aproximava de um Yahoo, e quanto mais de perto eu os analisava, e quanto mais aprendia sobre eles, mais detestável essa raça se me tornava! Tal sensação nunca me abandonou de todo enquanto estive neste país. Isso o mestre-cavalo apreendeu quase instantaneamente, no meu primeiro encontro com estes bichos após ter sido conduzido à vila, graças aminhas atitudesum tanto enérgicas e minha incapacidade de disfarçar tamanha aversão. Ao notar que eu não os suportava de modo algum, e que seus hábitos alimentares me repugnavam ao extremo, ao contrário do que ele esperara inicialmente,o mestre-cavalo mandou os Yahoos de volta para o canil e, então, levou seu casco dianteiro à boca, o que muito me estupidificou, dada a imensa naturalidade com que ele desempenhou essa operação!Ele parecia querer se comunicar comigo, tentando entender que tipo de alimento mais me aprazaria. Porém, nada do que eu dissesse ou gesticulasse fazia-o entender o que é que eu queria comer. E mesmo que ele compreendesse, duvido muito que isso me ajudaria nalguma coisa, porque o problema era justamente achar os gêneros alimentícios de que eu tinha tanta precisão! Íamos nessa toada, eu inconsolável, ele sem entender, quando avistei uma vaca pastando ao longe, no que apontei para ela e demonstrei meu intenso desejo de beber de seu leite. Finalmente isso produziu seu efeito: o mestre-cavalo me conduziu de volta para seu estábulo e relinchou a uma serva-égua algo como <Abra o depósito!>, no que um cômodo foi aberto pela súdita e eu vi quehavia ali muitos vasos de barro e de madeira repletos de leite! Pareceu-me um aposento demasiado limpo e organizado, devo admitir. A serva-égua deu-me uma tigela cheia, e eu sorvi o líquido sem cerimônia. Finalmenteme refresquei um pouco desde o momento em que pisei nesta ilha!”

“Mandaram-me reproduzir as poucas palavras do vernáculo eqüino que eu já havia sido capaz de assimilar. Enquanto todos pastavam – isto é, jantavam – o mestre-cavalo me ensinou nomes para aveia, leite, fogo, água e alguns outros substantivos básicos, o que eu mui rapidamente pude sair repetindo, copiando sua pronúncia. Como já disse várias vezes, eu tenho um talento nato para aprender idiomas!”

“Aveia entre eles chama-se hlunnh. Pronunciei-o duas ou três vezes. Apesar de ter recusado os grãos de aveia quando primeiro mos ofereceram, logo mudei de opinião, considerando que isso podia servir-me de substituto para o pão, por ora. Com aveias, portanto, mais o leite, eu poderia manter minha saúde até achar um jeito de escapar deste lugar”

“Às vezes eu me embrenhava na mata atrás de uma lebre ou de um pássaro. Eu usava elásticos feitos de cabelo de Yahoo para compor minhas armadilhas. Também aprendi a apanhar as ervas mais benignas, que eu fervia e comia com a aveia, à guisa de salada. Aqui e acolá conseguia fazer minha própria manteiga e bebia seu soro. No começo sofri muito pela falta de sal, mas não há nada como o costume e a repetição para o paladar! Hoje, creio que a frequência com que comemos sal na Europa é um hábito caprichoso de nababo, do qual se perdeu a origem: imagino que a intenção dos primeiros que serviam sal nos repastos fosse somente a de provocar a sede, a menos que falemos da função de conservação da carne em longas viagens!”

“Mas o leitor já teve detalhes suficientes sobre minha dieta entre os Houyhnhnms. Uma coisa que detesto nos livros de viagem é quantas páginas os autores desperdiçam narrando seus hábitos culinários, como se quem lê se importasse realmente se quem escreve passa bem ou passa mal! Mas foi necessário fornecer essas descrições, ou nossas nações civilizadas achariam pouco crível que eu tenha conseguido me manter por 3 longos anos nestes confins, ao ladode companhia tão atípica, e vivendo quase só de vegetais!”

“Meus maiores esforços consistiram em aprender de uma vez esse idioma, que meu mestre (de agora em diante vou me referir a ele sem o uso do <cavalo>) e seus filhos, e todos os servos da casa, aliás, se mostravam desejosos de ensinar-me. Eles nunca deixaram de considerar uma espécie de prodígio que um animal selvagem como eu pudesse dar tantos sinais de racionalidade! Eu apontava todo e qualquer objeto, e perguntava qual era seu nome, que eu redigia em meu diário de navegador assim que  me punha só. E eu corrigia meu sotaque solicitando que todos os membros daquela família pronunciassem as palavras.”

“Eles falavam pelas narinas e pela garganta, e sua língua é mais aparentada ao Alto-Holandês e ao Alemão do que aos outros idiomas europeus – mas um tanto mais gracioso e expressivo, devo dizer. O imperador Carlos V, por sinal, fez a mesma observação, certa feita: <Se fosse para conversar com meu cavalo, certamente falaríamos em Alto-Holandês>.

A curiosidade e a impaciência de meu mestre eram tamanhas que ele dispendia várias horas de seu dia para me instruir.”

“O que mais o deixava perplexo eram minhas roupas. Creio que ele mesmo não entendia se elas eram ou não parte do meu corpo, isso porque eu jamais as retirava antes de ir para a cama, e já as vestia antes do café da manhã. Meu mestre me perguntou várias coisas: de onde eu vinha, como eu cheguei a desenvolver esses lampejos de quase-razão que eu demonstrava em minhas ações, e ele queria sobretudo ouvir minha biografia de minha própria boca, o que ele estava esperançoso de conseguir em pouco tempo, dada minha enorme proficiência no aprendizado do idioma houyhnhnmês. A fim de auxiliar minha memória, compilei tudo que aprendi no alfabeto britânicocom sua tradução logo ao lado. Em dado momento, passei a fazer isso não só no meu quarto, mas na frente do meu mestre. Me deu muito trabalho explicar que diabos eu estava fazendo. Creio ser desnecessário explicar que os habitantes deste lugar não conheciam livros nem Literatura.

Em dez semanas eu já entendia quase todas as suas perguntas. Em 3 meses, dava respostas satisfatórias para várias de suas perguntas. Uma das coisas que ele queria muito saber era de que parte do país eu procedia, e quem me ensinou a imitar os Houyhnhnms. Porque, segundo ele, os Yahoos (que tinham a mesma cabeça e mãos que eu – e outras partes do corpo ele não poderia saber, porque eu as ocultava com minhas roupas) eram criaturas cheias de malícia, mal-dispostas, e impróprias para domesticar. Eu respondi que eu vim d’além-mar, de um lugar remoto, onde havia muitos como eu, transportado por um <vaso oco> (eles não tinham palavra para navio) feito do tronco das árvores; e que meus próprios companheiros me forçaram a desembarcar nesta praia, abandonado a mim mesmo.”

“Ele redargüiu que sem dúvida eu cometia um engano, isto é, que eu falava a coisa que não era. Acontece que eles não têm palavra para indicar mentira, falsidade ou erro. Ele alegava ser impossívelhaver um país além-mar (que isso era a coisa que não havia), ou que animais brutos, fossem quantos fossem, pudessem mover um vaso de madeira por onde quisessem sobre as águas. Ele tinha certeza que nenhum Houyhnhnm vivo seria capaz de construir tal meio de transporte, e com muito maior razão nenhum Yahoo seria capaz de pilotá-lo.

A palavra Houyhnhnm significa cavalo e, na etimologia local, perfeição de natureza. Eu disse ao meu mestre que <me falta a forma de me exprimir, mas melhorarei depressa e espero, num dia não tão distante, contar-lhe as maiores maravilhas>. Ele instava sua fêmea, seu potro e sua potra e todos os servos, de boa vontade, a ajudar na aceleração do meu aprendizado. Desnecessário dizer que, por 2 ou 3 horas, todos os dias, ele mesmo se encarregava da tarefa. Não só isso, mas muitos garanhões e éguas da vizinhança visitavam a residência de meu mestre, curiosos com <o grande Yahoo que podia até falar como um Houyhnhnm e que aparentava, em suas palavras e atos, poder chegar até a alguns vislumbres da razão!>. Estes residentes locais tinham um imenso prazer em conversar comigo e, não menos que meu mestre, me dirigiam pergunta atrás de pergunta. Eu não conseguia responder tudo, mas boa parte sim. Com todo esse convívio, fui fazendo progressos ainda mais notáveis. Em 5 meses, já escutava como um nativo e já falava como quem está um pouco aquém disso.”

“Já narrei ao leitor que, toda noite, uma vez que todos estivessem deitados, era meu costume desnudar-me e usar minhas roupas como coberta. Aconteceu, certa manhã bem cedo, de meu mestre mandar o pangaré acastanhado, um alazão mordomo da família, vir me ver. Quando o mordomo entrou eu ainda estava dormindo, e por um acaso minhas roupas tinham caído para o lado. Acordei com o relincho que este mordomo produziu, e escutei como ele voltou para contar ao mestre o que viu, todo atabalhoado. Vesti-me rapidamente e fui à sala. Meu mestre perguntou qual era o significado do que seu vassalo acabara de contar-lhe, i.e., que eu não era a mesma coisa quando eu dormia do que eu era quando estava acordado. O mordomo relatou-lhe assombrado que uma parte do meu corpo era branca, outra amarela, ou ao menos um pouco menos branca, e algumas partes marrons.

Eu vinha até ali guardando segredo sobre ‘isso das minhas vestes’, a fim de distinguir-me o mais possível dos aberrantes Yahoos. Mas vira que doravante este cuidado se tornara vão.”

“De onde eu vim, todos da minha espécie recobrem seus corpos com as peles de alguns animais, preparadas expressamente para isso por determinadas técnicas, tanto para fins de decência quanto para evitar as inclemências do ar.”

“ele simplesmente não podia entender por que a natureza deveria ensinar-nos a ocultar o que a natureza mesma nos deu”

“Meu mestre não deixou de me observar com o olhar mais atento. Seu rosto expressava grande curiosidade e admiração. Ele apanhou toda a minha roupa em sua quartela, peça por peça, para examinar com diligência. Então ele apalpou muito delicadamente meu corpo nu, e rodeou-me, embasbacado, umas tantas vezes. A primeira coisa que ele disse, após esse intervalo de exame silencioso, foi que sem dúvida alguma eu era um Yahoo. Mas que eu me distinguia, com efeito, de minha espécie, pois minha carne era mais macia, branca e minha pele bem mais branda. E que, além disso, ao contrário dos outros eu não tinha pêlos em muitas porções de meu corpo e que o formato de minhas garras era diferente, e elas eram menores. Que eu era o único exemplar que tinha essa afetação de caminhar continuamente sobre minhas duas patas traseiras. E que ele já tinha saciado sua curiosidade, dando-me permissão para voltar a vestir-me, uma vez que, ele bem observou, eu estava tremendo de frio.

Eu desabafei que me sentia desconfortável em ser comparado sempre a um Yahoo, animal odioso, que eu desprezava do fundo da minha alma: eu implorei que ele restringisse essa apelação somente aos demais, e que estendesse esse meu rogo a todos os seus entes e amigos que ele permitia que o visitassem. Também solicitei que meu segredo, o de levar uma cobertura falsa sobre meu corpo, não fosse compartilhado com mais ninguém, ao menos enquanto minhas roupas durassem. Expus que, pelo comportamento do seu valete, seria prudente de sua parte fazê-lo.

Meu mestre, muito consciencioso, logo anuiu a minha proposta. O segredo manteve-se guardado até que o tecido começou a se desfazer. Como alternativa para meus trapos, fui obrigado a usar de alguns expedientes, que mais tarde narrarei. Então ele me encorajou a continuar a aprender seu idioma, porque ele achava muito mais espantoso o fato de eu saber falar e raciocinar do que o aspecto do meu corpo, trajado ou nu.”

“Seria tedioso continuar entrando em detalhes sobre meu progresso no idioma. Reproduzirei, apenas, o relato mais completo que pude dar de mim mesmo nesta terra:

<Vim de um país muito distante, com uns 50 de minha própria espécie. Viajávamos sobre os mares dentro de um grande vaso oco feito de madeira, maior que sua casa. Descrevi-lhe então o navio da melhor forma que me coube, com a ajuda de meu lenço, para mostrar como a embarcação era impelida pelo vento. Numa briga entre nós eu fui deixado no litoral deste país, comecei a explorar o continente, sem nada dele conhecer, até você me encontrar e me livrar da perseguição daqueles execráveis Yahoos.>

Ele quis saber quem fez o navio e como era possível que os Houyhnhnms de minha nação legassem aos brutos tal empresa. Eu respondi:

<Só continuarei se você me der sua palavra de que não se sentirá ofendido. Se você der sua palavra, poderei contar todas as maravilhas que prometi!>

Ele empenhou sua palavra. Eu prossegui:

<O navio foi feito por criaturas como eu. Por todos os países aos quais já viajei, exatamente como em minha terra natal, seres a minha imagem e semelhança são os únicos animais racionais. Ao chegar a este país, fiquei tão espantado em ver Houyhnhnms agindo como homens dotados de razão quanto você mesmo e seus amigos ficaram ao ver-me e constatar minhas ações, sendo eu parecidocom um Yahoo. Mesmo que minha aparência seja a de um Yahoo, eu não enxergo homens quando olho para eles, só degenerescência e bruteza. Se a fortuna me agraciar com a volta a minha terra, quando relatar minhas aventuras, o que eu quero fazer, todos os animais racionais de lá dirão que eu disse a coisa que não era, que eu inventei tudo. Nenhum inglês diria que era a coisa (acreditaria possível) que um Houyhnhnm fosse o mestre de outro país, enquanto os Yahoos não passavam de selvagens.>”

“duvidar ou simplesmente não-acreditar são tão desconhecidos neste país que os habitantes não sabem como se portar em circunstâncias como as que eu suscitei entre eles.”

“O uso da língua é a mútua compreensão, receber a informação dos fatos. Se alguém diz a coisa que não é, a língua não tem uso. Quem escuta quem fala a coisa que não é não entendequem fala a coisa que não é! Porque o entendimento da coisa que não é é coisa que não é! Receber a coisa que não é é mais distante de receber uma informação doque permanecer em ignorância. Eu acreditaria uma coisa ser preta, quando a coisa é branca, e pequena, quando é grande.”

“Há Houyhnhnms entre vocês? Qual papel eles desempenham em sociedade?”

“Um grande número. No verão eles pastam nos campos, e no inverno são guardados nas estrebarias com muito feno e aveia, onde Yahoos servos dos donos dos Houyhnhnms devem escová-los, cuidar de seus cascos, servir-lhes comida, preparar seus leitos…”

“Entendo. Está evidente, segundo seu discurso, que qualquer chispa de razão que os Yahoos aparentam possuir não oculta o fato de os Houyhnhnms serem os verdadeiros mestres em sua sociedade. Eu desejaria de coração que nossos Yahoos fossem tão dóceis!”

“Mestre, se você deseja que eu continue o relato terá de escusar minhas palavras, que decerto o ofenderão.”

“Eu insisto, amigo, e escuso-o – eu quero saber o pior e o melhor de sua sociedade.”

“Não tenho escolha senão obedecê-lo. Os Houyhnhnms de minha sociedade, chamados cavalos, são dos animais mais formosos e afáveis que conhecemos. São também excepcionais em força e agilidade. Quando pertencem a pessoas de qualidade, são empregados em viagens, corridas ou para levar carruagens. São tratados com a maior ternura e o maior cuidado, até adoecerem fatalmente ou tornarem-se irreversivelmente mancos e inválidos. Ainda assim, os seus donos vendem os cavalos já doentes ou aleijados, que desempenham todo tipo de lide para seus novos donos, até a morte. Depois de morrer, um cavalo ainda oferece sua pele, que é esfolada e vendida para diversos fins. O cadáver é deixado para cães e aves de rapina. Falo dos cavalos mais nobres. A maioria dos cavalos não tem tanta sorte. São os cavalos dos camponeses e carroceiros, ou de outro cidadão de baixa extração qualquer. Estes não são poupados dos mais árduos serviços, e são mal-alimentados.”

“Não deixei de descrever, tão bem quanto pude, a arte da equitação; tudo sobre as rédeas, a sela, a espora, o chicote, o arreio e as rodas. Acrescentei: <Amarramos placas de uma substância rígida chamada ferro debaixo de suas patas a fim de resguardar seus cascos contra o atrito com os caminhos pedregosos de hábito percorridos.>

“Como pode ser uma coisa que é, montar às costas de um Houyhnhnm! Tenho certeza que o servo mais débil de minha casa tem força o bastante para derrubar de seu corpo o Yahoo mais forte de todos. Se se jogasse no chão, este meu servo poderia rolar sobre si mesmo e matar qualquer ser primata!”

“Nossos cavalos são treinados, desde os 3 ou 4 anos de idade, para se acostumarem aos maiores suplícios e às condições mais severas, de modo que não se rebelem em relação ao trabalho que lhes está destinado. Se um cavalo se mostra intoleravelmente arredio ainda na infância acabam sendo empregados em carruagens, sendo severamente fustigados a cada má conduta. Os machos, geralmente usados para simples cavalgadas ou a coisa que é luta entre seres que são (meu jeito de dizer ‘fins militares’), são castrados logo aos 2 anos, para que seu espírito de garanhão se torne submisso, dócil e adestrável. Os cavalos são inteligentes e aprendem após ser recompensados ou castigados. Porém, mestre, saiba que os cavalos, de onde eu venho, não demonstram tinturas de razão, não mais do que os Yahoos de sua terra!”

“Era penoso explicar essas noções ao meu mestre, de modo que eu adentrava em circunlóquios em houyhnhnmês. Se suas carências são menores, suponho que sua linguagem terá menos vocábulos.”

“Se a coisa que é é um país no mundo com Yahoos inteligentes, só e somente só os Yahoos dentre todos os animais, é natural que Yahoos sejam os mestres. A sutileza da razão, aliada ao tempo e seus efeitos consolidadores, falará sempre mais alto que a força bruta. Mas o físico yahoo, especialmente do Yahoo de sua sociedade, se você for bom exemplo, é o pior físico de coisa que é para viver a vida que é.”

“Nasci de bons pais numa ilha chamada Inglaterra. A distância da Inglaterra para este país, em dias de jornada de um Houyhnhnm forte e saudável que trotasse do raiar ou pôr-do-sol na mesma direção, é, mais ou menos, um ano. Eu me eduquei cirurgião, profissão dos que curam feridas e machucados no corpo, decorrentes de acidentes ou violência. Meu país é governado por um Yahoo-fêmea, que denominamos rainha. Eu o evadi para conquistar riquezas, com as quais pudesse manter minha família e eu por muitos anos, ao meu retorno. Em minha última viagem eu era comandante do navio, chefiando cerca de 4 dúzias de Yahoos, muitos dos quais morreram afogados ou desidratados ou adoentados. Eu fui obrigado a reabastecer a tripulação com marujos de outras nações nas quais desembarcamos no caminho. Duas vezes quase naufragamos. A primeira vez por culpa de uma feroz tempestade; a segunda, em virtude da colisão com um penhasco.”

“Durante meu discurso meu mestre não se fez de rogado e me interrompeu inúmeras vezes. Necessitei gastar muitas palavras e frases até descrever de modo minimamente concebível a natureza dos crimes dos tripulantes que recrutei que haviam sido exilados de seus países de origem. Na verdade, só o consegui a duras penas, após dias e dias de conversação. Mas meu mestre finalmente me compreendeu. Era-lhe imensamente complicado captar qual seria a utilidade de agir de forma viciosa. Só pude fazê-lo conceber tal imagem dando muitos exemplos de cobiças e ambições dentre nós; fornecendo ilustrações das terríveis conseqüências da luxúria, intemperança, malícia e inveja (nomes que evidentemente não existem no vocabulário houyhnhnm. Foi praticamente o trabalho de um filósofo que conceitua estas coisas pela primeira vez, hipostasiando casos concretos e enfileirando suposições.” “Poder, governo, administração, guerra, lei, punição, castigo e mil outras coisas também tinham de ser expressas pela primeira vez no vernáculo.”

“O que me deixa aflito é que eu jamais poderei fazer justiça, em meras palavras, aos argumentos e raciocínios de meu mestre, pois minha incapacidade intelectiva forçosamente empobrece sua descrição. Nem falar de uma tradução ao nosso bárbaro Inglês, que vilipendia e muito o idioma original!”

“Obedecendo ao meu mestre, relatei-lhe a Revolução durante o Principado de Orange, a longa guerra com a França, iniciada pelo próprio Príncipe de Orange, continuada por seu sucessor ao trono, a rainha atual, não sem o consentimento dos maiores poderes da Cristandade, de modo que a guerra subsistia até o momento.A sua instância, enumerei: <Estima-se em mais de 1 milhão os Yahoos mortos no decorrer de todo este conflito; mais de uma centena de cidades foi sitiada e no mínimo 500 embarcações foram incendiadas ou afundaram.>

“Divergências de opinião espoliaram milhões de vidas. P.ex., se carne é pão ou se pão é carne; se o suco de um dado fruto é sangue ou vinho; se assoviar é vício ou virtude; se é melhor beijar uma carta ou queimá-la; qual a melhor cor para uma casaca – preto, branco, vermelho, cinza…?; qual é o melhor comprimento e forma para ela – longa, curta, justa, folgada; e quanto à condição – suja ou limpa? E muitas questões mais!”

“Às vezes o desentendimento entre dois príncipes acarreta a deposição de um terceiro alheio à questão – na verdade quando acaba assim, o vencedor sempre espolia um príncipe vizinho mais fraco, mas diz que foi pela força das circunstâncias, pois não é seu direito natural o fazê-lo. Algumas vezes um príncipe só entra em guerra com outro por medo de que o outro entre em guerra consigo. Às vezes uma guerra é iniciada porque o inimigo é muito forte; às vezes, porque ele é muito fraco. (…) É um pretexto legítimo para a guerra invadir um país depois de sua população ter sido reduzida à miséria, destruída pela peste ou rachada em facções. É igualmente justificável entrar em guerra contra nosso mais valioso aliado, se acharmos que uma de suas cidades é altamente conveniente para nós; cidade, sim, mas pode ser também um território maior; por exemplo, se esse pedaço nos der acesso à faixa litorânea ou a estradas de comércio importantes. É um direito de um povo ter um território completo. Se um rei manda atacar uma nação de gentalha pobre e ignorante, não é ilegítimo matar metade desses pobres coitados nem escravizar a metade que sobrou. A razão disso é o imperativo de civilizar e educar os povos, e reduzir o grau de barbárie da face da terra. É não só permitido como é uma prática assaz honorável quando um rei deseja o auxílio de outro a fim de proteger-se melhor de um invasor; e que este ajudante, em consequência de ter expulsado o inimigo, tome para si todo o governo da nação amiga que salvou, podendo prender ou exilar o primeiro príncipe, afinal passou a ter crédito! A aliança de sangue, ou o que chamamos de casamento, é uma causa freqüente de guerras entre príncipes; quão mais próximos forem os laços familiares, mais encarniçado será o confronto. As nações mais pobres são famélicas, as ricas são altivas; e o orgulho e a fome estarão sempre se digladiando e alterando humores. E é por isso que a profissão de soldado é tida como a mais honrosa de todas. Um soldado é basicamente um Yahoo contratado para matar, a sangue frio, o máximo de outros Yahoos que ele nunca viu na vida.

Há uma certa quantidade de príncipes mendicantes na Europa, destes que não têm recursos para fazer a guerra eles próprios, mas que ao menos tem pequenos exércitos que lhes podem ser úteis. O que eles fazem é alugar seus homens para as nações ricas que estão a pelejar, normalmente estipulando um salário por dia por cada cabeça. Desta quantia recebidaa título de aluguel, o que não vai para o bolso destes soldados, que chamamos de ‘mercenários’, por empréstimo – assumindo que algum soldado consiga voltar para casa são (ou mesmo não são!) e salvo –, ¾ ficam para eles próprios (os monarcas que cederam mercenários), e digo que estes príncipes mendicantes subsistem das guerras alheias! Muitas nações assim há na parte norte da Europa.”

“Afortunadamente a vergonha ainda é maior que o perigo entre vocês Yahoos estrangeiros! Assim a natureza obrou para que vocês não causassem ainda mais desgraças. Suas bocas sendo planas e vocês não tendo focinho, é mais difícil que vocês se agridam com mordidas. Quanto às garras de suas patas traseiras e dianteiras, estas são tão diminutas e inofensivas que um só Yahoo de nossa terra derrubaria uma dúzia dos seus!”

“Sendo de certa forma um especialista na arte da guerra, eu me ri da ignorância do meu mestre nestes assuntos. Então eu forneci-lhe uma descrição algo exata de nossos artifícios bélicos: canhões, colubrinas, mosquetes, carabinas, pistolas, balas, pólvora, espadas, baionetas, formações de batalhas, o que são os cercos, fugas e recuadas, ofensivas de manual, a tática de estender o conflito num aparente empate estagnado até esgotar os suprimentos dos rivais, o contra-ataque a este tipo de tática, bombardeios remotos, batalhas navais, navios que mesmo com uma tripulação de 4 casas (mil homens) são inclementemente destroçados, batalhas em que 20 mil morrem facilmente de cada lado, os terríveis gemidos e uivos de dor dos que caem sem salvação no campo, membros e outras partes do corpo cortando o ar, fumaça, poeira, todos os barulhos infernais, a confusão, aqueles que morrem esmagados por cavalos descontrolados, já disse fugas?, perseguições, extermínios e vitórias!”

“Eu entraria de bom grado em mais particulares, mas meu mestre me pediu silêncio. Ele disse:

<Quem quer que entenda a natureza yahoo pode conceber até onde chega a vileza de um tal animal, i.e., provado que sua astúcia e sua força igualem sua malícia.>

Como, porém, meu discurso só repugnou-o ainda mais acerca de minha espécie, ele se sentiu terrivelmente perturbado e precisava de tempo para absorver todos estes horrores. Ele pensou sinceramente que se seus tímpanos continuassem expostos a estas palavras abomináveis num ritmo tal, logo, logo ele as admitiria com menos repulsa. E completou que, embora odiasse os Yahoos de seu país, ele não mais os culparia por suas qualidades inferiores, tanto quanto pudesse, comparando-os agora a meros gnnayh (uma ave de rapina), animal também cruel, ou então a uma simples pedra pontiaguda que calha de ferir-lhe o casco.”

“Meu mestre afirmou resolutamente que em detrimento de razão, nós éramos movidos ou possuídos por alguma qualidade inerente que expandia mais e mais nossos vícios naturais e garantia nossa sobrevivência. E que, como tudo que é distorcido e ruim em pequena escala, nossa civilização só podia ser uma ampliação defeituosa da natureza individual do Yahoo.”

“ele muito refletiu mas nunca chegou a uma opinião segura sobre a razão de que a lei, que foi feita para a preservação de todos e de cada um, devesse conduzir tantos indivíduos à ruína.”

“Há uma sociedade de homens entre nós criada desde a mocidade para convencer das coisas que não são, pela palavra. Estes homens conseguem fazer os outros verem que o branco é preto, e o preto é branco, tanto melhor quanto mais bem-pagos eles são! A esse tipo de sociedade dentro da sociedade os outros homens são escravos. Por exemplo: se meu vizinho cobiça minha vaca, ele contrata um destes, um advogado, para arrancar minha vaca de mim! Eu tenho, então, de contratar um outro advogado, para defender meu direito de continuar com minha vaca. É contra todo o Direito estabelecido (contra todo o fundamento de todas as leis) que qualquer homem advogue em causa própria. Continuando neste exemplo, eu, que sou o legítimo proprietário da vaca, estou em uma dupla desvantagem: primeiro, meu advogado, sendo treinado praticamente desde o berço a santificar a falsidade, não se sente confortável de ter de defender um cliente justo, o que é anômalo em seu campo do saber. Advogados que se submetem a essa tarefa fora de sua rotina diária acabam fazendo o serviço mal-feito ou de má-fé! A segunda desvantagem, meu mestre, é que meu advogado deve agir com muita cautela, ou será vítima de reprimendas pelos juízes, sendo malvisto por todos os seus colegas como um advogado que avilta os cânones de sua profissão. Sendo assim, eu fico com apenas 2 métodos de preservar minha vaca: o primeiro é pagando ao advogado de meu acusador uma taxa acima do que é publicamente a norma, fazendo-o trair seu próprio cliente ao insinuar, por meio de minha tática astuciosa, que a justiça estava do lado deste cliente que o procurou! A segunda maneira de vencer a causa é se meu advogado conseguir dar a meu pleito a aparência mais injusta possível; p.ex., concedendo que a vaca na verdade seria do meu vizinho. Se isso for adequadamente executado, é óbvio que o juiz ficará convencido do meu lado da história!”

“É uma máxima entre os advogados que o que já foi feito antes pode ser feito legalmente outra vez: então, a coisa que eles mais fazem é registrar todas as decisões anteriormente proferidas contra o bom senso da espécie humana. Sob o nome de <precedentes>, eles mostram tais provas às autoridades competentes e justificam, assim, as opiniões mais iníquas. Os juízes jamais deixarão de acatar estas novas verdades, uma vez que se tratam de provas, que são inquestionáveis.”

“É de se observar que esta sociedade cultiva um jargão peculiar, i.e., um jeito próprio de dizer as coisas, que nenhum outro mortal é capaz de compreender. Sob estas regras é que todas as suas leis são escritas. No estágio em que se encontram as leis hoje, depois de muitas gerações desta prática, falsidade e verdade ficaram tão embaralhadas que nem o mais sábio e honesto dos homens poderia dizer a diferença. É comum que leve 30 anos para se decidir se o pedaço de terra que ganhei de herança e que meus pais e avós por sua vez também ganharam de herança, ascendendo à sexta geração dos meus ancestrais, pertencem de fato a mim ou a algum estranho que vive a 500 quilômetros de distância!”

“Os advogados e juristas, em tudo aquilo que não se refere a suas próprias tratativas, são dos mais ignorantes e estúpidos dentre nós Yahoos europeus. Os mais fúteis em conversações, inimigos jurados do conhecimento, da sabedoria e da educação, e tão estultos quanto perversos quando o assunto é insultar e deformar a razão humana milenar, num esforço contínuo por destruir a obra de tantas gerações das outras classes de Yahoos com quem convivem.”

“eu não sei como consegui descrevê-lo o uso do dinheiro…” “o rico se apropria do fruto do trabalho dos pobres, sendo que estes últimos, em verdade, existem numa proporção de 1000 para cada rico”

“meu mestre insistia que todos os animais tinham direito a sua parte na distribuição dos produtos da terra”

“…toda esta vasta planície, digo, o triplo disto, deve ser devastado para que nossa melhor Yahoo-fêmea tenha seu excelente café-da-manhã, além dos utensílios de mesa necessários para consumi-lo.”

“Desta forma, deve haver países muito pobres que não têm condições de alimentar seus habitantes! Mas me diga uma coisa: como porções tão gigantescas de seu continente não possuem um só vaso de água fresca, sendo preciso enviar Yahoos pelos mares só para acharem de que beber?!”

“A Inglaterra em particular, segundo nossos cálculos, produz três vezes a quantidade de comida que seus habitantes são capazes de consumir; bem como muito licor extraído de grãos ou prensado das frutas de algumas árvores, que dão beberagens das mais deliciosas, e na mesma proporção superabundante. Diria que tudo ali, não só comida e bebida, é produzido muito acima da necessidade da população. Mas, para alimentar a luxúria e a intemperança das Yahoos-fêmeas, exportamos uma vasta proporção desses bens para outras nações, ainda que isso deixe parte de nossos habitantescarente, para, em troca, recebermos fontes de doenças, tolices mil, vícios sem conta, que distribuímos igualitariamente entre todos nós!!”

“O vinho não é importado para suplantar a sede nem para substituir alguma outra bebida, mestre. Este é um líquido especial que nos produz certo contentamento ao nos fazer evadir de nós mesmos, privando-nos de nossos sentidos por um tempo. Toda a melancolia que sentimos é temporariamente deixada de lado, e cedemos às mais caprichosas e extravagantes fantasias alojadas no cérebro, de repente não somos nada temerários, temos esperança ilimitada no amanhã, durante esse período não precisamos trabalhar, e, alterados até perder o império sobre nossas próprias pernas, acabamos, assim, ficando entorpecidos, até dormirmos profundamente. O lado ruim é que acordamos sempre doentes após tais ocasiões, fatigados e inclinados ao ócio. E é verdade, outrossim, que o uso desse licor, em abundância e a longo prazo, torna nossa vida cada vez mais desconfortável e repleta de enfermidades, quando não encurta esta mesma vida de forma anti-natural.”

“Nossa dieta engloba milhares de alimentos que são contraditórios entre si. Além disso, comemos quando não estamos com fome e bebemos sem sede. Sentamos e bebemos licores fortíssimos a noite inteira, sem nem mesmo forrar o estômago, o que nos predispõe à preguiça e a contrair diversas inflamações, precipitando ou arruinando a digestão. Yahoos-fêmeas prostituídas transmitem certa doença, capaz de apodrecer os ossos do Yahoo-macho que aceitaro seuabraço. Mas essa infecção e muitas outras são propagadas mui naturalmente de pai para filho. Muitos já nascem desfigurados e defeituosos. Seria interminável catalogar todas as doenças que nos afligem, mestre. Eu creio que esse número ultrapassa as 500 ou 600. Não há junta ou membro que não tenha seu mau estado particular.”

“A pretensão desses que chamamos de médicos – curandeiros em seu vernáculo – é a de que todas as doenças vêm da repleção (barriga cheia). Daí concluírem que uma grande evacuação do corpo é necessária, seja pela passagem natural ou pelo caminho de onde veio (a boca). Esses médicos conhecem inúmeras ervas, minerais, gomas, óleos, cascas, sais, sucos, algas, excrementos, extratos de cascas de árvore, serpentes, sapos, carne e ossos de homens mortos, pássaros, animais selvagens, peixes, etc., que utilizam para produzir os medicamentos de cheiro e gosto mais atrozes, abomináveis, nauseantes de que se tem notícia, tipo de composição que o estômago imediatamente ejetará – isso se chama vômito. Vindos do mesmo lugar, que chamamos de farmácia, além de outros venenos, os médicos nos prescrevem mais substâncias para engolir ou inserir pelo orifício traseiro (dependerá do humor do médico saber por qual buraco ele quer que entre a medicação), remédios esses não mais nem menos daninhos que os anteriores. Nossas entranhas se abalam da mesma forma com estes laxativos. Produzindo um relaxamento artificial dos músculos do nosso sistema digestório, levam junto, como faz a forte correnteza de um rio, tudo que pode estar impedindo o bom funcionamento do organismo. Isso os médicos chamam de purgação ou clister. Tendo a natureza prescrito somente o orifício superior para a intromissão de sólidos e líquidos, e o inferior para ejeções, fazia-se necessária uma arte engenhosa como a deles para agir conforme a doença – isto é, espelhar o mau funcionamento que ela provoca no organismo: ao forçarmos sólidos e líquidos pelo ânus e evacuar pela boca, podemos restabelecer o equilíbrio corporal.”

“Em política, um mau sinal é quando você passa a receber promessas, especialmente essas que demandam um juramento formal. Deste dia em diante o Yahoo mais inteligente sabe que está perdido.

Há 3 métodos de um homem chegar a ser chefe de Estado. O primeiro é o caminho da prudência, formando uma família, constituindo casamento, tendo uma filha, ou pelo menos uma irmã apta ao casório – a família é a base de tudo em nossa civilização! O segundo jeito é traindo e superando o predecessor no cargo. O terceiro modo é, com um zelo furioso, nas assembléias, engajar-se contra a corrupção generalizada da côrte. Um príncipe competente prefere, sem dúvida, empregar este terceiro tipo de homem. Este tipo de homem zeloso é quase sempre também o mais obsequioso e subserviente à vontade e aos caprichos de seu patrono.

Seja como for, esses ministros de Estado, portanto, tendo toda a máquina da nação a seu dispor, têm todas as condições necessárias para se conservarem no poder, chantageando ou aliciando maiorias no senado ou nos conselhos ou ainda empregando o expediente a que chamam de anistia(que expliquei-lhe em detalhes). Dessa forma eles se previnem contra atos de ressentimento ou vingança e auferem de sua carreira pública as maiores riquezas.

O palácio do chefe de Estado é um seminário para criação de lacaios: pajens, mordomos, porteiros, que macaqueiam seu superior em tudo que podem, se é que desejam, por sua vez,se elegerem delegados em seus distritos de origem. Esses vocacionados para a vida política devem exceler em 3 categorias: insolência, mentira e chantagem. Cada um deles, quando bem-sucedido ou bem-sucedida, terá uma côrte inteira a ele ou ela devotada, composta pelas pessoas de mais refinada linhagem. Algum desses lacaios (sub-prefeitos, prefeitos, ministro disso ou ministro daquilo) pode, a depender da sorte, da destreza pessoal e mesmo do seu nível de impudência, chegar a atingir o posto máximo na carreira e vir a ser o sucessor do próprio chefe de Estado que uma vez tanto bajulou!”

“Entre os nossos Houyhnhnms, o branco, o castanho-alaranjado e o cinzento não são tão bem-constituídos quanto o castanho-rubro, o cinza sarapintado e o negro, nem exibem os mesmos talentos ou inteligência, nem parecem melhores para se adestrar. Sendo assim, aqueles quase sempre são empregados nos ofícios subalternos, sem qualquerexpectativa de que excedam o destinomédio de sua própria raça. Essa hierarquia das raças eqüinas baseada na aparência exterior que se vêem toda a Europa seria considerada monstruosa e anômala aqui em seu país, meu mestre!”

“Quanto a mim, mestre, por mais que você me enalteça quanto ao que esperava de meu biótipo, a verdade é que sou de origens mais para humildes que para nobres, tendo sido eu criado por um par de europeus modestos porém mui dignos, cujo esforço e perseverança me proporcionaram uma educação tolerável, i.e., quase acima das expectativas para gente da minha condição. Mas ‘nobreza’ entre nós significa outra coisa que para um Houyhnhnm, posso assegurar-lhe. Prova disso é que os nobres são acostumados desde a mais tenra idade ao ócio e ao luxo, tornando-se moles e cansados com a idade e cheios de doenças venéreas que contraem com fêmeas promíscuas. E quando suas antigas fortunas são dissipadas, casam-se com uma mulherzinha de árvore genealógica qualquer, de um caráter qualquer, falto de inteligência ademais de incompatível com o próprio caráter, tudo pensando-se só no dinheiro. Como resultado, os casais se odeiam e desprezam. O produto de tais uniões? A escrófula, o raquitismo, a deformidade – em forma de novos seres! Dessa forma a família, vê-se bem, muito raramente chega aos netos (à terceira geração); a não ser que uma das filhas consiga um mui bom partido, i.e., um macho saudável para procriar fora do matrimônio, dentre seus vizinhos e serviçais, o que garantirá a continuação sem piora ou até mesmo a melhora da raça. (…) uma fisionomia saudável e robusta é tão inconveniente num homem de berço aristocrata que não resta remédio ao mundo diante de um tipo desses senão considerar que se trata de um bastardo, filho de cavalariço ou cocheiro.”

“Não havia passado um ano dentre os Houyhnhnms e já contraíra tal amor e veneração pelo seu povo que cheguei a tomar a resolução de nunca expatriar-me, na contemplação e na prática de todas as virtudes, nesta terra onde eu não tinha qualquer exemplo ou incitação ao vício. Mas o destino, ah, o destino!, esse meu inimigo mortal, determinaria a impossibilidade desse final feliz.”

“Os Yahoos são conhecidos por odiar-se uns aos outros, até mais do que odeiam as outras espécies. A razão para isso é que o caráter odiento de sua forma, que se pode contemplar nos outros indivíduos como se fôra um outro eu, torna cada Yahoo indisposto para com seu próximo. Eu duvido que cada indivíduo, egoísta como é, não se ache, em realidade, diferente dos demais.”

“De acordo com o que dissera meu mestre, ele havia achado excelente o costume dos Yahoos europeus de vestirem-se. Dessa forma ocultavam muitas de suas deformidades, de um e de todos, o que seria insuportável às vistas gerais. Porém, meu mestre reconheceu que dissera então a coisa que não era, porque cotejando meu relato dos Yahoos com o comportamento dos Yahoos locais, ele concluiu que a causa primeira da dissensão entre irmãos Yahoos, tanto num caso como noutro, devia ser a condição natural do Yahoo, tal qual ele aprendeu de minha boca. <Porque se você dá a 5 Yahoos comida que bastaria para 50, em vez de comerem em paz eles se pegarão pelas orelhas, cada um desejando tudo somente para si.>

“Havia uma espécie de raiz, muito suculenta, mas algo rara e escondida, de que os Yahoos muito gostavam e que, quando a encontravam, chupavam-na sem moderação. Essa raiz produzia-lhes os mesmos efeitos do vinho no europeu. Algumas vezes isso os levava a se abraçarem e se amigarem, mas podia com a mesma facilidade metê-los em ranhenta discórdia. Eles uivavam, gargalhavam, se punham barulhentos, perdiam o equilíbrio, tropeçavam e rolavam pelo chão e terminavam adormecidos na lama.

Observei também que os Yahoos eram a única espécie animal deste país sujeita a doenças, conquanto esta ocorrência fosse bem mais rara entre eles que entre nossos cavalos, p.ex. A causa não era maus-tratos pelos Houyhnhnms, mas a própria sordidez daquele bicho. Em hoyuhnhnmês só havia uma mesma palavra para falar de todo o conjunto de enfermidades, hnea-yahoo, isto é, <mal de Yahoo>. A cura prescrita pelos pseudo-curandeiros Yahoos para eles próprios, segundo me pareceu, era uma mistura de cocô e xixi, forçada goela abaixo do doente. Não se trata de um gracejo, pois eu observei que o doente realmente fica bom logo depois. Eu recomendaria sem restrições essa mesma receita para meus conterrâneos, portanto, visando ao bem coletivo. Toda disenteria de comermos demais, todos os banquetes que nos empanturram, deixariam de ser problemáticos.”

“os machos brigam com as fêmeas com tanta brutalidade como a que usariam entre si.”

“Eles sabem nadar de nascença, igual girinos, podem passar muito tempo debaixo d’água, e utilizam essa vantagem para caçar peixes; as fêmeas levem o produto da caçada submarina para os filhotes.”

“quando explicava ao meu mestre alguns de nossos sistemas de filosofia natural, ele sempre ria e dizia algo como: <Uma criatura que se presume arrazoada avaliar-se a si mesma sobre o conhecimento fundado na conjetura de outras pessoas, e usar essa avaliação em coisas nas quais, por mais que este conhecimento fosse seguro, não há a menor utilidade!>.Meu mestre mostrou simpatizar com a personalidade do Sócrates platônico. Nada poderia honrar mais o príncipe dos filósofos. Não pude deixar de refletir desde então que destruição essa doutrina, se bem-compreendida, não poderia produzir nas bibliotecas de toda a Europa! Quantos caminhos fáceis dos homens eruditos não seriam para sempre interditados quando compreendessem Platão!”

“Em seus casamentos, os Houyhnhnms escolhem pela cor, para que nenhuma mistura desagradável se produza na prole. A força é o atributo mais valorizado no macho, e o decoro na fêmea. Não contraem matrimônio por amor, mas pensando no futuro da raça. Se a fêmea excede em força, seu consorte geralmente é o macho mais decoroso.”

“A violação da fidelidade conjugal, ou qualquer outra demonstração de promiscuidade, nunca existiu no país dos Houyhnhnms. O par unido passa o resto de suas existências em constante amizade e benevolência recíproca, que por sinal é a mesma camaradagem, guardadas as devidas proporções, que todo Houyhnhnm tem com outros Houyhnhnms. Não há inveja, ciúme, empáfia, fofoca, altercações nem descontentamentos.”

“Uma das questões polêmicas neste lugar é se dever-se-ia proceder ao extermínio dos Yahoos. Um dos favoráveis demonstrou argumentos de muito valor, como <Não bastasse serem os mais sujos, barulhentos e deformados animais que a natureza já produziu, os Yahoos são, ainda, rebeldes, intratáveis, indomesticáveis, astuciosos e malignos. Aqueles que conseguem mamam os úberes das vacas leiteiras dos Houyhnhnms escondido, matam e devoram gatos, esmagam e pisoteiam as plantações de aveia e o capim destinado ao pasto ao menor sinal de fraqueza na vigilância. As maldades e extravagâncias que eles são capazes de cometer é sem fim.> Ele ainda observou sagazmente uma peculiaridade sobre as origens dos Yahoos, a de que <eles não existem desde o sempre neste país; muitas idades atrás, dois desses inclassificáveis apareceram sobre uma montanha. Se eles nasceram devido ao sol inclemente sobre a lama e o calor daí decorrente ou do lodo podre, ou devido à estranha interação do lodo do continente com a escuma marítima, ou de qualquer outra forma, isso jamais saberemos. Mas esse casal de Yahoos engendrou novas vidas; e em pouco tempo sua espécie se tornou tão populosa que infestou a nação inteira. Para se livrarem das más conseqüências, os Houyhnhnms antepassados aprisionaram dois bebês Yahoos num canil, tratando de domesticá-los ao máximo. Este máximo não é de todo satisfatório, mas ao menos os bichos originais e todos os seus descendentes servem para ajudar nos serviços mais pesados>. Este Houyhnhnm garantiu que havia muita plausibilidade nessa tradição oral do seu povo sobre a gênese dos Yahoos e que acreditava piamente que eles não eram animais autóctones (yinhniamshy em houyhnhnmês), principalmente pelo ódio manifesto e inato aos Houyhnhnms. Além disso, todos os outros animais da ilha aborrecem a convivência com Yahoos. Embora suas disposições malignas provoquem naturalmente a repulsa, seria impossível que essa repelência de todos os outros animais do país a eles chegasse a tais extremos se eles fossem oriundos de lá, é o que se argumentava com muita lógica. Fosse isso verdade, seria como dizer que a natureza falhou nesta região, e esta raça já estaria extinta, pois geraria um imenso desequilíbrio na fauna. Seja como for, graças à misteriosa existência dessas excrescências odiosas diante das próprias criações da natureza, os Houyhnhnms puderam dispensar os serviços das mulas e outros indivíduos estéreis, que afinal são animais muito tratáveis e dignos! Mas, disse também este nobre Houyhnhnm, chegaria o dia em que seria mais vantajoso voltar a criar mulas, que são dóceis e boas serviçais, e higiênicas, do que continuar confiando trabalhos importantes do cotidiano a uma raça tão degenerada! Mulas e burros não fedem, são mais fortes, só um pouco menos ágeis que os Yahoos, fora que o zurro de um burro é ‘n’ vezes menos desagradável que o horrífico urro yahoo!”

“a andorinha (ou ao menos é assim que eu traduzo lyhannh, embora seja uma variedade de andorinha gigante se comparada às da Europa)”

“Eles mensuram o ano pelas revoluções do sol e da lua, mas não empregam subdivisões hebdomadárias. Eles têm um perfeito conhecimento astronômico destes dois corpos, conhecendo o fenômeno do eclipse. Eu diria que a isto se limita sua astronomia.

Na poesia, creio que superam todos os outros mortais do mundo; seja pela justeza de suas analogias, o caráter apropriado e exato de suas descrições, enfim, digo que a poesia houyhnhnmiana é inimitável. Seus versos o mais das vezes exaltam o valor da amizade e da benevolência comum e fazem odes aos ganhadores de competições de corrida e outros exercícios que soem praticar.”

“Os Houyhnhnms usam o intervalo entre a quartela e o casco de suas pernas dianteiras como mãos, e com destreza inimaginável para qualquer homem branco. Eu vi uma égua branca de nossa família costurar com uma agulha (que eu a emprestei de propósito) perfeitamente. Eles são perfeitamente capazes de ordenhar, colher aveia e, enfim, desempenhar qualquer trabalho cotidiano que entre nós requeira o uso das mãos. Eles foram capazes de fabricar uma espécie de pederneira que, atritada com outras pedras, constrói todo tipo de utensílio, equivalente às nossas cunhas, machados, martelos, etc. Assim eles conseguem instrumentos afiados para cortar o feno, apanhar a aveia, cultivar qualquer plantação que a natureza lhes permite. Os Yahoos transportam os feixes carpidos conduzindo carruagens, bem como os cavalos mais humildes amontoam a colheita em espécies de choupanas, onde o grão é extraído e levado aos depósitos. Como eu já disse, eles dominam o artesanato rústico da madeira e a olaria, sabendo coser vasos ao sol.”

“A expectativa de vida de um Houyhnhnm é de 70 a 75, mas alguns atingem os 80 anos.”

“A essa altura não sei se seria redundante observar: os Houyhnhnms não possuem palavra em seu idioma para expressar o <mal> nem nada que a ele se relacione. Na verdade, quando querem falar de algo de qualidade ruim, tomam de empréstimo as qualidades que enxergam nos Yahoos. Dessa maneira, a estupidez de um servo, a omissão de uma criança, uma pedra que fira seus cascos, um clima obstinadamente fechado e ruim para a agricultura, tudo isso são yahooíces, por assim dizer. Quando traduzo seus discursos com palavras como <maligno> ou <pérfido>, estou apenas retomando nosso léxico. Ou seja, se algo é mau ou ruim neste país, é hhnm Yahoo, mwhnaholm Yahoo, ynlhmndwihlma Yahoo… Uma casa mal-construída seria uma ynholmhnmrohlnw Yahoo.

Não me seria incômodo enumerar mais e mais dos costumes e virtudes desse excelente povo. Mas, almejando publicar brevemente um volume com minhas aventuras neste continente, não este aqui, mas um especialmente para descrever a civilização Houyhnhnm em sua completude, devo me interditar este enorme prazer e encaminhar o leitor interessado a esta outra publicação.¹ Nas páginas que me restam, doravante, nada me resta a não ser narrar minha própria tragédia.”

¹ Tudo indica que nosso amado Gulliver não cumpriu esta promessa – que pena!

“Era hábito meu pegar mel do oco das árvores, que eu misturava com a água ou comia no meu pão. Nenhum homem mais que eu mesmo podia atestar a verdade dessas duas máximas: A natureza se satisfaz com bem pouco; A necessidade é a mãe da invenção. Nesse tempo eu gozava de saúde perfeita e serenidade mental. Nem mesmo o caráter traiçoeiro e inconstante de um amigo me eram sensíveis nesta ilha. Quanto mais as injúrias de um inimigo tácito ou manifesto! Não havia a menor ocasião para desavença, lisonja ou mexerico. Não havia personalidades de renome que agradar ou assecla que temer. Não era necessário se precaver contra a fraude ou a opressão. (…) Nada de chacota, polêmica, censura, reproches, vendetas, parasitas, aproveitadores de meia-tigela, incendiários, inconvenientes, advogados, prostitutas, bufões, viciados, bêbados, políticos, vigaristas, velhos ranzinzas, tagarelas enfadonhos, jornalistas, brutamontes, assassinos, ladrõezinhos, eruditos, convencidos, moralistas; nenhum líder, nem seguidores, nenhum partido, nem facções; nem encorajadores de vícios, bons retóricos ou maus exemplos; nada de prisões, armas brancas, ou pólvora, algemas, pelourinho ou cadafalso; nada de mercados e feiras, nem regateios ou engabelações; nada de orgulho, vaidade ou afetação; nada de dândis efeminados nem valentões; vadiagem; a sífilis; esposas, gastadeiras, temperamentais e lascivas! nada de pedantes tão altivos quanto estúpidos! nenhuma importunação, atrito insuportável, barulho, muvuca, companheiro cheio de palavras e modos e sem nada na cabeça; zero canalhas exaltados pelo que têm de pior! nenhuma nobreza que dita as regras de etiqueta que ela mesma inventou; nenhum senhor, falsificador, grande proprietário, juiz, rabequista, professor de dança, mestre de esgrima!… Não, não, nada disso!!!”

“Eu não falava se não fôra perguntado; e quando o fazia, respondia com pesar, porque parecia que eu prejudicava a harmonia destes habitantes no vão intuito de me melhorarem. Mas eu era todo ouvidos nas conversas entre Houyhnhnms. Nenhuma sílaba era inútil ou profana, toda comunicação era sucinta e pragmática, nenhuma palavra supérflua ou desgastada! (…) ninguém falava a contragosto ou em tom de reclamação, todos eram fonte de prazer para seus companheiros (…) Eles têm uma noção de que quando pessoas estão reunidas, um pouco de silêncio ocasional é muito mais saudável a fim de melhorar o nível da conversação do que um falatório constante. Isso eu provei na pele, e entendi que, nesses interstícios, evocava com naturalidade idéias frescas e altamente propícias para a continuidade do discurso!”

“Sem falsa modéstia, devo acrescentar que tão-só minha presença já era um estimulante para inúmeras conversas. Meu mestre sempre inteirava seus convivas dos detalhes de minha história que ele havia recentemente aprendido, e relatava as coisas que aprendera sobre minha terra natal. Todos se compraziam em discorrer sobre esse mar de novidades, necessariamente com resultados pouco lisonjeiros para a Europa. Serei pudico o bastante para não reproduzir aqui essas conversas.”

“Quando sucedia de eu fitar meu reflexo na superfície dum lago ou duma fonte, virava o rosto por reflexo, enojado, detestando meu próprio aspecto. Por outro lado, isso foi me fazendo tolerar um pouco mais o aspecto dos Yahoos da ilha. De tanto conversar com os Houyhnhnms e apreciá-los com os olhos, admirado de sua nobreza e superioridade, fui adquirindo seus maneirismos. Primeiro era simples emulação, depois se cristalizou em hábito. Meus amigos me dizem, hoje em dia, de forma bastante áspera, Você trota como um cavalo!, o que eu, no entanto, tomo como elogio. Tampouco desminto que ocasionalmente, no meio da fala, emito de repente sons guturais de Houyhnhnms, sem dar por mim. Os Yahoos europeus me ridicularizam, mas isso em nada me mortifica.”

“na última assembléia geral, quando o assunto dos Yahoos foi abordado, você estando ausente por motivos óbvios, os representantes do plano de extermínio Yahoo se expressaram ofendidos de que eu criasse um Yahoo em meio à própria família, e aliás, mais como Houyhnhnm que como um animal selvagem. Disseram que eu era sempre visto dialogando com você, o que aos olhos dos locais parecia significar que eu extraía prazer e edificação dessas conversações. Que, enfim, sua companhia me era extremamente agradável. Reiteraram que essa prática é inaceitável de acordo com a razão e a natureza, nem fôra jamais ouvida de antanho. A assembléia, sendo assim, exortou-me a ou tratá-lo como os demais de sua espécie, ou providenciar para que você fosse mandado embora, nadando, de volta ao lugar de onde veio. O assunto foi votado entre todos. O primeiro expediente foi rejeitado de pronto por todos os Houyhnhnms que já o viram em minha casa e que com você trataram durante esse tempo. A rejeição se baseava nestas razões elementares: como Yahoo capaz de demonstrar uma proto-razão, você me distinguia nitidamente dos outros Yahoos, depravados inatos; misturá-los seria correr o risco de que você os seduzisse com seus talentos para constituir uma nação isolada entre os bosques e montanhas da ilha, e, preparando um exército, invadisse e pilhasse nosso vilarejo durante a madrugada. Porque é óbvio que uma raça que abomina o trabalho preferiria roubar nossos rebanhos que se dar trabalho de criar algum. Meu mestre acrescentou: Sou constantemente cobrado por meus concidadãos e vizinhos, portanto, para cumprir o segundo desígnio daquela reunião. Infelizmente não posso procrastinar mais esta partida, meu amigo! Creio que, como você mesmo explicou, é-lhe impossível nadar até outro país. Por isso, é razoável iniciar os preparativos para construir-se um veículo capaz de fazê-lo singrar pelas águas até sua terra! Você já descreveu como se faz um navio, então nós podemos fazer isso!”

“Enorme tristeza e pesar recaíram sobre mim ao terminar de ouvir o discurso de meu mestre. Incapaz de suportar este sofrimento, desabei sobre seus pés. Quando readquiri consciência dos meus atos, ele continuou: Eu pensei que você havia morrido. Isso porque nenhum Houyhnhnm está sujeito a esses surtos de imbecilidade. Respondi, ainda com voz embargada: Ó, preferira mesmo a morte! Não posso culpar os habitantes do lugar nem a votação da assembléia, nem a disposição solícita de todos os nossos amigos mais próximos. Não obstante, no meu corrupto e débil juízo, considero que seria mais razoável ter havido menos rigor nesta sentença. Pois é de conhecimento de todos que eu não conseguiria nadar nem sequer 10km, sendo que o pedaço de terra habitado mais próximo deve distar mais do cêntuplo desta distância. Além disso, muitos dos materiais necessários para construir um barco (navio pequeno) estão simplesmente em falta neste país! Ainda assim, em obediência e gratidão a você, mestre, e a sua hospitalidade, eu irei tentar, até o fim, esta construção – embora tema ser a coisa que não era, não é e nem será! Por isso, mestre, não me considere ainda mais vil se lhe parecer que eu me comporto como alguém já condenado à destruição!”

“em 6 semanas, com a ajuda do servo acastanhado, que para ser franco executou as partes mais árduas, eu concluí o que posso chamar de uma vertente indiana de canoa, embora maior do que qualquer uma que eu tenha conhecido, tendo feito um teto de peles de Yahoo, firmemente amarradas com fios de cânhamo que eu mesmo extraí da vegetação e preparei.”

“quando me dispus a prostrar-me, para beijar seu casco, ele gentilmente ergueu sua pata alguns centímetros até minha boca. Eu não ignoro quão gravemente fui censurado entre meus colegas Yahoos europeus por citar essa parte de minhas viagens. Digam o que disserem os detratores, que é improvável tudo isso, i.e., que tão ilustre indivíduo, autêntico garanhão, tenha se prestado a rebaixar-se ao meu nível, não se incomodando de ser visto numa posição humilhante com uma criatura inferior, etc., etc.! Eu mesmo já li muita literatura de viagem: sei o quanto os viajantes adoram se jactar de enormes favores que receberam de estrangeiros!”

“Comecei minha desalentada viagem dia 15 de fevereiro de 1714, ou teria sido 1715? 9AM.”

“Eu ouvi, ainda, de alguma distância, o serviçal acastanhado, que nutria por mim uma grande estima, e que gritava: Hnuyillanyha, majah Yahoo! (Cuide-se, o nobre Yahoo!).

Meu intuito, agora que estava em alto-mar, era, se possível, descobrir qualquer ilhota desabitada mas que fôra propícia para, com meu suor, me servir de abrigo para as necessidades mais básicas da vida. Àquele momento eu acharia este módico fim muito mais feliz do que me tornar primeiro-ministro na nação mais culta. Na verdade eu estava com pavor de voltar aos homens, i.e., aos Yahoos organizados!”

“Baseado em nada além de conjeturas, deu em mim de rumar para leste, imaginando poder assim atingir as ilhas da costa sudoeste da Nova Holanda¹”

¹ Nada mais, nada menos que o então recém-descoberto continente australiano!

“Em 8 horas eu havia chegado ao litoral sudeste da Nova Holanda. Isso confirmou minhas já antigas suspeitas de que mapas e cartas geográficas situam este país ao menos 3 graus mais a leste do que ele realmente está localizado; eu já comuniquei este pensamento há muitos anos para meu grande amigo o Senhor Herman Moll,¹ dando justificativas plausíveis, muito embora este emérito estudioso tenha optado por outro viés baseado em outros autores.”

¹ Cartógrafo do XVII e XVIII. Sua data de nascimento e nacionalidade não estão bem-consolidados, mas seria holandês (radicado em Londres). Nessa época o oceano Atlântico ainda era chamado de “Mar do Império Britânico”. Um mapa de Moll serviu de pretexto para os franceses alegarem possessão de uma certa colônia, contra os ingleses, argumento que foi refutado pelas expedições de James Cook. Defoe (o autor mais parecido com Swift que existe!) era amigo pessoal de Moll. Outro detalhe curioso: no séc. XIX (ou seja, muito depois de Swift), um homônimo Herman Moll, alemão, foi preso e condenado a passar seus dias numa penitenciária na… AUSTRÁLIA! Esse degredo, ao contrário do que poderia parecer, não teve a ver com homicídio, mas apenas com questões de contravenção comercial (roubou dinheiro do patrão, comerciante de tabaco). Cumprido apenas ¼ da pena de 10 anos, ele foi solto e pôde lecionar em York.

Um globo terrestre fabricado e comercializado por Herman Moll.

“Não encontrei moradores na costa. Sem carregar nenhuma arma, tive receio de explorar o interior. Encontrei alguns crustáceos na areia e os comi crus, pois se acendesse fogo podia ser que nativos hostis me detectassem. Prossegui por 3 dias me alimentando de ostras e lapas ou outro molusco qualquer. Dessa forma eu não gastava minhas próprias provisões do barco. Encontrei uma excelente fonte de água doce, o que muito me reconfortou!

No quarto dia, me arriscando de manhãzinha um pouco imprudentemente, divisei de 20 a 30 aborígenes a não mais do que meio quilômetro de distância. Eram índios completamente nus, havia homens, mulheres e crianças no bando, estavam em volta duma fogueira; não vi fogo, mas vi fumaça. Um deles, incontinente, reparou em mim e logo avisou seus amigos. Cinco vieram correndo em minha direção, deixando as mulheres e crianças para trás. Eu também corri para salvar minha vida. Pulei na canoa e parti. Os selvagens, notando que não daria tempo de me alcançarem, atiraram flechas; uma me atingiu profundamente na parte interna do joelho esquerdo: tenho a cicatriz até hoje. Temendo o pior – que a flecha ainda por cima tivesse sido embebida em curare –, remei intensamente até fugir do alcance de qualquer projétil (era um lindo dia, o mar estava calmo). Quando me senti fora de perigo imediato, comecei a chupar a ferida para tirar o eventual veneno, e tratar a hemorragia com o que tinha em mãos.”

“Entre todos os meus impulsos, meu ódio pelos Yahoos foi o que falou mais alto: virei minha canoa e velejei e remei no rumo sul, atingindo o mesmo córrego que atravessara pela manhã, calculando que seria menos pior lidar com esses selvagens do que viver entre os europeus mais uma vez.”

“Os marinheiros, quando aportaram, notaram na minha canoa e, inspecionando-a, conjeturaram logo de cara que o dono não podia estar muito longe. Quatro deles, bem-armados, começaram a busca, revirando qualquer fenda ou buraco que achassem. Me encontraram totalmente vulnerável atrás da rocha. A primeira reação deles foi de espanto, com meus trajes tão bárbaros. Meu casaco era de peles, as solas dos meus sapatos de madeira, minha calça de pêlos. Eles, porém, adivinharam rapidamente que eu não era um nativo, pois que todos ali viviam pelados. Um dos homens da tripulação, um português, mandou que eu me erguesse e perguntou quem era eu. Eu compreendia seu idioma, então obedeci e comecei: Sou um pobre Yahoo banido de entre os Houyhnhnms. Por favor, deixai-me partir! Eles ficaram ainda mais atônitos ouvindo minha resposta em português fluente e, estudando melhor minhas feições, também arrazoaram que eu era um europeu como eles. Porém, não podiam compreender nada disso de Yahoos e Houyhnhnms. Caíram na risada, não nego, diante do meu acento um tanto… gutural. Disseram na minha cara que eu parecia um cavalo relinchando! Na hora eu senti grande indignação misturada com medo, e pus-me a tremer. Eu pedi novamente para ser deixado em paz e abandonado, e sem esperar resposta fui tranqüilamente caminhando para minha canoa. Eles me impediram e perguntaram: De que país vens tu? Na verdade eles perguntaram muitas coisas que eu não posso me lembrar. Eu disse que nascera na Inglaterra, de onde saíra 5 anos atrás – naquele ano Portugal e os ingleses se entendiam muito bem. Então eu voltei a demonstrar confiança e a esperar a concórdia que existe entre pessoas de duas nações civilizadas, desejando ir embora. Em minha pressa eu expliquei que era um Yahoo miserável procurando qualquer lugar desolado para passar o resto de minha desafortunada vida.

Quando eles começaram a discutir entre si eu senti que nada do que eu escutava ou contemplava podia ser mais anti-natural. Para mim era como ver cachorros raciocinando e falando! Vacas falando inglês, Yahoos inteligentes no País dos Houyhnhnms!”

“Eles tinham certeza que o capitão aceitaria levar-me de graça (como dizem em Português) para Lisboa, de onde eu poderia me virar e voltar sozinho à Inglaterra. Informaram que 2 da companhia voltariam agora ao navio para relatar do achado ao capitão e saber de sua decisão. Nesse meio-tempo, a menos que eu jurasse solenemente que não fugiria, disseram que iam me manter sob custódia. Eu achei melhor ceder a estes apelos. Eles estavam bastante curiosos para saber toda minha história, mas eu não pude satisfazê-los. Creio que isso os fez pensar que eu sofri alguma desgraça que comprometeu o meu juízo.”

“O cheiro deles quase me fazia desmaiar. Por fim, não mais agüentando de fome, eu pedi licença para apanhar algo de minha própria canoa. Mas o capitão, querendo ser gentil, ordenou que me trouxessem galinha e um bom vinho, além de preparar uma cama para mim numa cabine asseada. Eu não queria de maneira alguma tirar meus trajos, nem quando estava só. Enrolei-me na coberta, portanto, e em meia hora, imaginando que a tripulação estivesse comendo, saí de minha cabine – planejava pular no mar, por uma das laterais do navio, e nadar de volta para a ilha. Qualquer coisa a viver entre Yahoos! No entanto, tive a infelicidade de que um dos marinheiros detectou-me e preveniu meu ato. Informando o capitão, foi acorrentado na cabine.

Depois do jantar, Dom Pedro veio a mim, desejando saber a razão do meu desespero, capaz de conceber um plano tão absurdo. Ele garantiu que só queria meu bem e fazer por mim o que estivesse a seu alcance nessa situação. Ele se expressou de uma forma tão terna que me comoveu, a ponto de eu conseguir tratá-lo, a partir desse momento, como um animal capaz de alguma faísca de razão! Eu elaborei um resumo conciso de minha última aventura. Contei da conspiração de meus homens a bordo. Do país misterioso em que me deixaram e dos meus 5 anos de vida ali. Mas ele reagiu como se eu não tivesse narrado mais do que um delírio ou sonho. Não pude esconder minha reprovação. Pois estava agora fora de minha natureza o dom de mentir, tão peculiar aos Yahoos! Não importa a nação, um Yahoo nunca muda sua conduta – eles estão sempre resguardados contra o discurso dos outros, sabendo que, como eles próprios, outros Yahoos são bem capazes de mentir por qualquer coisa. Eu perguntei a Dom Pedro: É costume, em Portugal, falar a coisa que não é? Isso de que qualificas minha história é algo que tenho de refletir muito para lembrar que existe, falsidade, conto, falácia, ilusão!… Se eu tivesse vivido mil anos no País dos Houyhnhnms ainda assim não teria escutado uma só mentira do mais estropiado dos serviçais! Eu não dou valor ao fato de ser acreditado ou não; tu estás me ajudando muito, então não concederei qualquer importância à corrupção de tua natureza interior. Me prontifico a responder qualquer questionamento teu! A verdade existe para quem queira compreendê-la!

O capitão Dom Pedro, homem vivido, depois de muito me testar e confrontar minhas respostas a diferentes perguntas, típico procedimento para apanhar alguém na mentira, começou, enfim, depois de um tempo, a considerar que minha veracidade fosse-lhe plausível. Já que tu dizes que tens um apego inviolável pela verdade, tu deves dar-me palavra, Gulliver, palavra de honra, palavra de homem, de que me farás companhia nessa viagem, até o final, sem atentar, outra vez, contra tua própria vida; porque se tu fizeres o que fizeste de novo, e fores apanhado, ou se não concordares com meus termos, passarás todo o trajeto até Lisboa confinado, tratado como prisioneiro. Eu prometi que seguiria com ele até o fim da viagem, embora protestando e antecipando meu futuro: Sofrerei as mais amargas inclemências, para mim está bem! Mas não volto a viver entre Yahoos!

Nossa viagem transcorreu sem nenhum imprevisto. Em gratidão ao capitão pela simpatia que demonstrou para comigo, por mais que achasse repelente lidar com Yahoos, sentei ao seu lado e tentei ser sociável. Mas às vezes eu não podia esconder que aquilo tudo ofendia meu ser. Mas ele, eu via bem, fingia que não notava. Além do mais, a maior parte do dia eu ficava sozinho na cabine. Eu não gostava de ver Yahoos o tempo todo. O capitão tentou me convencer por diversas vezes a tirar minhas roupas rústicas e ofereceu as melhores roupas que tinha no armário. Eu jamais cederia. Sinceramente, me causava nojo pensar em revestir meu corpo com algo que já foi vestido por um Yahoo! Eu na verdade, devido à insistência do capitão, tolerei apenas que me arranjasse duas peças limpas, nunca usadas, as mais simples. Ou, se não fosse possível, ao menos que houvessem sido lavadas. Pensei que isso não denegriria, apesar de não ser o ideal. Toda noite eu retirava a roupa usada ao longo do dia e me encarregava eu mesmo de lavá-la cuidadosamente.

Chegamos em Lisboa em 5 de novembro de 1715. Quando desembarcamos, o capitão obrigou-me a colocar sua capa por cima de minha roupa andrajosa, para evitar aglomerações e rebuliço. Ele me alojou em sua própria casa. Ao meu próprio pedido, deixou-me ficar no cômodo mais afastado, no sótão e nos fundos. Eu implorei que ele ocultasse de todos os demais Yahoos tudo que confiei-lhe a respeito dos Houyhnhnms. Imaginei que qualquer detalhe dessa história causasse um sem-número de Yahoos vindo atrás de mim, além de ser uma coisa tão difícil para as mentes limitadas dos Yahoos compreenderem que com certeza eu poderia ser acusado de ir contra a moral e ser preso, se é que não queimado pela Inquisição! O capitão assentiu e me convenceu, por seu turno, a aceitar vestes limpas e novas. Eu cedi, mas não aceitei que o costureiro tomasse minhas medidas. Dom Pedro, sendo por acaso aproximadamente da mesma altura e peso que eu, não obstante, as roupas ficaram ótimas em mim. Ele providenciou tudo que melhorasse minha condição; mas eu não aceitava entrar em contato com nenhum objeto antes que ele se desempesteasse dos germes yahoos após pelo menos 24h ao ar livre!

O capitão não era casado, nem tinha mais do que 3 discretos empregados. Eu roguei que nenhum deles fosse visto durante nossas refeições. Devo confessar que a postura do capitão foi tão digna e honrada, sua camaradagem tão desinteressada e rara, seu entendimento humano tão elevado, que eu comecei a tolerar sua companhia, de verdade, não apenas por obrigação! Ele foi me conquistando e me socializando de tal maneira que eu já começava a olhar pela janela do meu cubículo. Gradativamente fui passando para outros quartos e, tomando coragem, depois de muito observar alguns pedestres, dei os primeiros passos na rua. Meu pavor estava bem diminuído. Mas meu desprezo e descontentamento pelo Yahoo em geral, esses creio que jamais se embotarão. E quanto mais nos engajamos em interações sociais, digo-vos, mais tende a aumentar esse ódio! Enfim, eu aceitava dar passeios, sempre em sua companhia. Mas o que mais ofendia minha sensibilidade continuava a ser o cheiro horrível dessas criaturas, de modo que eu precisava deixar meu olfato insensível com arruda ou até mesmo tabaco antes dessas ocasiões!

Depois de dez dias, Dom Pedro, a quem também prestei algumas informações sobre minha vida européia prévia, deu sua palavra que não se sentiria de consciência leve enquanto eu não retornasse a meu próprio país e vivesse em meu lar com minha esposa e meus filhos. Ele me relatou que havia um navio mercante inglês no porto, prestes a seguir viagem, e que ele me daria tudo que fosse necessário para empreender essa pequena viagem. Ah, seria tedioso repetir item por item todos os seus argumentos, e todas as minhas objeções, uma e a uma! Dom Pedro disse: É inviável achar uma ilha tão deserta e remota como este lugar em que tu desejas te confinar! Mas usa tua prudência e sabedoria, confina-te em tua própria casa, passa teu tempo de maneira reclusa como mais te aprouver!

Sem remédio, tive de aceitar sua proposta. Deixei Lisboa dia 24 de novembro, no navio mercante britânico. Nunca perguntei quem era o capitão da embarcação. Dom Pedro me acompanhou até a nave e me emprestou 20 libras. Se despediu muito cortesmente e até me abraçou, o que tolerei tão bem quanto pude. Nesta última viagem eu não travei contato nem com capitão nem com contra-mestre. Simulando estar doente, enclausurei-me na cabine. No quinto dia de dezembro de 1715, ancoramos em Downs, às 9 da manhã, aproximadamente. Às 3 da tarde eu estava no umbral de minha própria casa em Rotherhith.(*)

(*) A edição original e a de Hawkworth trazem este nome. Como o leitor pôde perceber, entretanto, Redriff era a casa de Gulliver na estória, de modo que pode ser uma simples omissão do autor.

Minha mulher e meus filhos me receberam com a mais cândida surpresa e euforia – eles imaginavam, e com razão, que eu já estava sete palmos sob a terra. Devo confessar, contudo, que à primeira vista eu senti esse contato com eles como repelente, quando muito indiferente. Embora eu tivesse jurado e me obrigado, desde que abandonei os Houyhnhnms, a ser tolerante e condescendente com os defeitos yahoos, tendo ademais resolvido honrar a promessa que fiz a Dom Pedro de Mendez, minha memória e imaginação estará perpetuamente embebida na virtude e nos elevados conceitos houyhnhnmianos. Vencendo essa minha resistência pouco a pouco, acabei por copular com outro de minha degradante raça yahoo (isto é, com minha esposa) e dei origem a novos espécimes, já na metade declinante da vida. Ainda hoje, quando paro para pensar, me encho de vergonha, confusão e um certo horror atenuado por ajudar a propagar essa espécie…

Voltando ao momento em que adentrei meu lar após tanto tempo, minha esposa me abraçou, beijou, etc., e eu, não estando acostumado ao toque desse animal odioso, como que desfaleci, e meus parentes foram me reanimando aos poucos ao longo de cerca de uma hora. Neste momento em que escrevo, já faz 5 anos que voltei. Durante o primeiro desses anos, não suportava a constante presença de minha esposa e das crianças. Seu cheiro era pestilento! Muito menos comer no mesmo aposento que eles!! Até hoje, devido a minhas interdições daquela época, eles mal ousam tocar o meu pão, ou beber do meu copo. Ainda é muito difícil pegar na mão de qualquer pessoa que seja.

Na minha nova vida, a primeira coisa em que gastei dinheiro foi num par de cavalos de raça que criei muito confortavelmente num estábulo próximo de casa. Depois do aroma destes dois animais, o cheiro que mais me agrada é o do meu cocheiro. Sinto que remoço com o cheiro que aquele estábulo exala e deixa em quem passa muito tempo ali!

Meus cavalos me entendem. Eu converso com eles 4 horas por dia. Eles nunca viram rédeas nem sela. Vivem em grande companheirismo comigo mesmo, e em intensa harmonia um com o outro.”

“Caro leitor, confiei-lhe a mais verídica história possível de um viajante nato, que dedicou 16 anos e 7 meses de sua módica existência a explorar novos recantos do globo. Meu estilo é tão rústico quanto a verdade o exige: minha intenção é comunicar um sentimento, não ornar palavras vãs! Ao contrário dos autores deste gênero literário tão questionável, eu poderia lançar mão de recursos narrativos fabulosos para cativar a atenção do público, coisa que não fiz. Narrei com simplicidade apenas os fatos, da forma mais direta que me coube, num estilo sem afetação. A informação, a meu ver, tem de vir antes do entretenimento.”

“Eu desejaria a promulgação de uma lei que estabelecesse que o viajante, antes de poder publicar suas memórias ou diário de viagem, seria obrigado a jurar, diante da Suprema Côrte, que tudo aquilo que ele manda imprimir é a absoluta verdade ou pelo menos aquilo que há de mais veemente e sincero partindo de seu coração e de seu conhecimento e experiência. Uma medida simples e que deixaria o mundo um lugar muito menos traiçoeiro. Muitos escritores, com fins populistas, impõem as piores malversações e forjas de fatos que sempre engabelam o tipo do leitor desatento. Com muito desgosto, fucei de cabo a rabo inúmeros livros de viagem antes de escrever minha obra. Confesso que, quando nem tinha isso em mente, esses volumes me causavam prazer – à minha juventude, plena de tolice. Tendo eu mesmo conhecido de perto quase todo país e quase todos os costumes, tendo tido o privilégio de contradizer pessoalmente muitas das fábulas que chegara a ler, posso afirmar minha autoridade e minha distância destes autores. Não poderia indicar um só, além de mim mesmo, que não me desperte aversão e que não se apoie impudentemente na incrível credulidade humana.”

“Nec si miserum Fortuna Sinonem

Finxit, vanumetiam,

mendacemque improba finget.¹

Sei muito bem quão vil a longo prazo é a reputação de quem escreve sem gênio ou erudição, sem nem, aliás, talento algum, exceto uma boa memória ou uma precisão de publicista ou de capitão de navio. Também sei que escritores de viagem, como autores de dicionários, acabam chafurdando sob o peso dos inúmeros novos exemplares que são preparados todos os anos neste mesmo ramo, sendo o sucesso de uns o mesmo que o esquecimento de tantos outros. Sei o quanto tudo isso são correntes e modas passageiras. É até bastante provável, inclusive, que os viajantes que venham a visitar os mesmos locais por que passei e descrevi, detectando erros e omissões minhas (se houver), e complementando com novas descobertas de autoria própria, obliterem minha fama deste mundo, tornando-me no mínimo dispensável, no máximo completamente ignoto. Mas essa ‘mortificação’ seria o melhor dos mundos para mim, se eu escrevesse apenas por vaidade: mas quem escreve pelo bem coletivo não poderá reclamar de ser ultrapassado no futuro após dar sua parcela de contribuição! (…) Não vou preencher uma linha com os costumes dos Yahoos dessas nações remotas e corrompidas – diria que os menos corrompidos de todos são os brobdingnaguianos. As máximas que coletei em meio a este povo, em moral e política, sobrepassam tudo que se vê na Europa.”

¹ Mesmo se a Fortuna fez Sinona miserável, Ela não o tornou mendaz e improbo.

a Teve papel ativo na invasão, pelos gregos, da cidade de Tróia.

“Foi-me solicitado, assim que minha fama se espalhou, após meu retorno, como cidadão inglês, o relato preciso, a um secretário de Estado, de minhas expedições. A principal alegação para esta abordagem formal é que <se o primeiro que travou contato com estas civilizações é um inglês, então é justa a reivindicação da posse destas terras pela Coroa>. Porém, sem medo de ser censurado, declaro que tenho minhas dúvidas acerca de se a colonização dos lugares que visitei pode trazer qualquer progresso ou mesmo se ela é possível. Nem todos são índios americanos e nem todos são Fernando Cortez! Os liliputianos, para começo de conversa, mal pagariam o investimento: uma esquadra para submetê-los seria uma inútil despesa para o Tesouro. Já quanto aos brobdingnaguianos, minha pergunta é se qualquer tentativa nesse sentido é minimamente prudente ou segura! Além disso, será a marinha inglesa páreo para as Ilhas Flutuantes sobre nossas cabeças?! Não sentiríamos vertigens mesmo que <os conquistássemos>? Os Houyhnhnms me parecem os menos preparados para se defender militarmente. No entanto, fosse eu ministro de Estado, jamais aconselharia uma tal expedição – invadi-los!!! Sua prudência, consenso interno, coesão social e adaptação ao meio, despojo das preocupações fúteis e falta de temor, seu amor pátrio, seriam talvez substitutos mais do que perfeitos para a inocência na arte militar. Imaginem 20 mil deles colidindo de frente com uma armada britânica! Furando nossas fileiras, capotando nossas carruagens, esmagando os crânios de nossos infantes com seus sólidos cascos até serem transformados em papa! De fato penso que os Houyhnhnms merecem o adágio atribuído a Augusto César: Recalcitrat undique tutus (Recalcitrância onipresente é segurança).

Ao invés de propostas insolentes de colonização deste paraíso na terra, eu desejaria a inclinação da Coroa por enviar uma delegação diplomática solicitando que os Houyhnhnms, quem sabe, se dispusessem a perder alguns de seus indivíduos mais pacientes para nos ensinar e nos civilizar, para transformar a Europa e ensiná-la, finalmente, pela primeira vez, as bases da honra, justiça, verdade, temperança, espírito público, resiliência, bravura, castidade, amizade, benevolência e fidelidade. Todas as virtudes que nomeamos em todas as nossas línguas que se podem encontrar na literatura moderna ou também na antiga, em todas essas os Houyhnhnms se sobressaem. Com minha parca erudição, é o que posso com certeza afirmar.”

“eles matam duas ou três dúzias de nativos, trazem outras tantas nos navios, obviamente na base da violência, como amostra grátis; ao voltar para casa são perdoados. E a colônia conquistada ganha a bênção e o direito divino. Naves são novamente despachadas à primeira oportunidade. Os autóctones são, então, conduzidos à destruição inexorável. Seus monarcas são torturados até revelarem a localização de seu ouro; o monopólio sobre as riquezas daquela extinta nação é imediatamente concedido para que nos banhemos no sangue de inocentes, lição de crueldade e luxúria incomparável!”

“Mesmo assim, a descrição desse processo escravizador e desumano não parece afetar a auto-estima britânica, que deveria ser o exemplo do mundo em termos de sabedoria, delicadeza e imparcialidade ao implantar Colônias! Seus dons liberais no avanço da religião e da educação; seus devotos cabeças na propagação da cristandade; sua precaução em habitar a terra de vidas pacatas e tementes a Deus. Enfim, deveria partir deste Reino, deste Império-Mãe da humanidade, a iniciativa no emprego da justiça e na exportação de um modelo de administração civil impecável para todas as colônias incivilizadas do globo terrestre, sem se deixar conspurcar ou corromper pelos barbarismos estrangeiros. Para corar, por assim dizer, oportunamente, todo este estado de coisas, a Grã-Bretanha deveria delegar aos homens mais judiciosos de todos, interessados exclusivamente na felicidade geral, a missão de ser os representantes da Rainha e do Rei nestas paragens remotas, nestes recantos tão distantes da metrópole!”

“E no entanto, se aqueles que realmente cuidam destes assuntos julgarem que cometo uma irresponsabilidade, estou disposto a me render, baixar a cabeça e sofrer o jugo de sua Lei. Mas jamais direi uma mentira: nenhum europeu pisou nestes países antes de mim. Se os habitantes de cada um destes reinos tiver voz, eles confirmarão o que digo. Claro que essa primazia quiçá possa ser também atribuída aos dois Yahoos lendários que foram vistos no topo de uma montanha no País dos Houyhnhnms. Eis a única exceção que eu admito.”

“Semana passada comecei a autorizar minha mulher a sentar comigo para jantar, mas na outra ponta da mesa, por enquanto. E dei-lhe a devida vênia para responder (com concisão) as perguntas que eu a dirigir, se estiver no humor.”

DO EDITOR AO PÚBLICO (POSFÁCIO: Problemas de família!) (tal qual na 1ª edição da obra)

“O autor destas Viagens, o Senhor Lemuel Gulliver, é meu mais antigo e íntimo amigo. Há algum parentesco entre nós do lado materno, inclusive. Cerca de 3 anos atrás, o Senhor Gulliver, cansado de receber curiosos em sua habitação, em Redriff, comprou um pequeno naco de terra, com uma casa não-luxuosa, mas confortável, nas proximidades de Newark, Nottinghamshire, seu condado de nascença. Agora o Senhor Lemuel vive mais afastado dos homens do que nunca, pelo menos enquanto não esteve em suas viagens. Apesar desse retraimento social, meu primo algo distante não é por isso menos querido pelos seus vizinhos.”

“Antes de deixar Redriff, ele deixou-me em posse dos referidos papéis, um relato de suas viagens pelo mundo, dando-me a liberdade para fazer com eles o que eu bem entendesse. Eu li suas memórias com esmero, três vezes.” “Há um indistinto ar de verdade por toda a obra. O próprio autor foi tão reconhecido por seus iguais como sendo uma pessoa veraz que se tornara uma espécie de provérbio entre seus vizinhos de Redriff, quando qualquer um afirmava alguma coisa, que tal coisa era tão verdadeira como se o Senhor Gulliver a tivesse dito.”

“Esse volume seria pelo menos duas vezes maior, se eu não tivesse tomado a iniciativa de suprimir trechos inteiros, inúmeras passagens, diria eu, referentes a ventos e marés e todas essas coisas chatas… Ninguém quer saber que clima fazia durante o trajeto, ou qual o ângulo do navio em relação a não sei que objeto! Como nos diários de bordo dos capitães, redigiu-se, nos manuscritos originais, com precisão milimétrica, cada procedimento, como o que se faz diante da ocorrência de uma tempestade, naquele linguajar técnico dos navegadores. Longitudes, latitudes, graus isso, graus aquilo, abundam. Temo que o Senhor Gulliver possa ter se arrependido de conceder-me liberdade para mexer em sua papelada, mas, enfim, sigo minha consciência.”

“Se minha ignorância em assuntos marítimos pode ter me levado a cometer erros e omissões, digo, pois, que me responsabilizo abertamente por essas deficiências. Se qualquer viajante vier a apresentar a curiosidade pela versão integral desses relatos, como haviam sido deixados pela pena do escritor, sem minha intervenção, eu terei a bondade de atender essas pessoas.”

Richard Sympson

CARTA DO CAPITÃO GULLIVER A SEU “PRIMO” SYMPSON

“Espero que você esteja pronto para admitir publicamente, quando de oportunidade, que por seu imenso e assíduo sentimento de urgência você me convenceu a publicar um relato muito vago e impreciso de minhas viagens, com, entretanto, a promessa de que minha falta de estilo seria consertada por jovens senhores acadêmicos, assim como fizera meu outro primo Dampier, após aconselhamento meu, em sua obra intitulada Viagem ao redor do mundo.¹ Porém, diferente do que você diz no começo do posfácio, não lembro de ter-lhe dado poder total para omitir trechos de minha narrativa, e muito menos para fazer interpolações. Sendo assim, quanto às últimas, eu abdico formalmente mediante esta comunicação de qualquer responsabilidade de autoria nos casos em que foi o editor quem escreveu pela minha pena! Devo citar, ilustrativamente, um parágrafo inteiro sobre sua majestade, a Rainha Ana, cujo nome é sinônimo da mais pia glória: embora a reverencie e a estime mais do que qualquer ser humano, vejo que o editor se excedeu ao enaltecer tanto um bípede, em cotejo ao meu mestre Houyhnhnm. (…) Sendo assim, você me fez falar a coisa que não era. E também faço referência à academia dos projetistas, e a inúmeras outras passagens – parece que no último quarto do livro é pior! – dos meus diálogos com o mestre Houyhnhnm. Ou você omitiu circunstâncias materiais importantes ou fez questão de mutilar meus pensamentos ou desfigurá-los de tal forma que o desiderato tornou-se irreconhecível até para mim mesmo.”

¹ Mais um exemplo do que poderíamos chamar de proto-derrubadas da quarta parede promovidas por Swift, ao trazer fatos do mundo real para prestar ainda mais realismo a sua prosa: Dampier completou a circunavegação do globo pelo menos 3x e realmente registrou seus achados numa obra com este título.

“Você poderia fazer o favor de explicar como uma coisa que eu disse, tantos anos atrás, a cerca de 5 mil ligas de distância, em outro reino, poderia se aplicar livremente a qualquer dos Yahoos, que, diz-se, em seu conjunto governam o rebanho. Tanto mais que, àquela ocasião, eu mal temia ou mal pensava na possibilidade infeliz de voltar a estar entre eles! Não tenho eu muitas razões de queixa, quando vejo esses mesmos Yahoos sendo puxados por Houyhnhnms em veículos, como se estes não passassem de brutos, e aqueles chegassem a criaturas racionais? Para evitar visão tão monstruosa e mesquinha, entre outros motivos, é que eu decidi me recolher ao campo!”

“Favor considerar, tanto quanto eu já lhe pedi que considerasse, em prol, como você mesmo diz, do <bem comum>, que os Yahoos não passam de uma espécie de animais completamente incapazes de reabilitação ou de aperfeiçoamento via preceitos morais: assim está provado. Porque vê-se que, em vez de um brusco cessar de todos os abusos e corrupções, ao menos nesta pequena Ilha, como eu teria meus motivos para suspeitar, vê-se, dizia eu, após 6 meses do escândalo que foi a publicização do meu livro, que nada mudou; não veio ao meu conhecimento uma só notícia de <efeito favorável> após a divulgação de minhas boas intenções. Como estou retirado no campo, portanto, peço-lhe que me envie, por carta, o informe do fim dos partidos e facções, da justiça imparcial dos juízes, da modéstia e honestidade dos advogados – com tinturas de bom senso –, da transformação desse sórdido bairro londrino chamado Smithfield numa praça para piqueniques, com muitas árvores e uma biblioteca cheia de livros de boas leis em detrimento do pelourinho de execuções hipocritamente ladeado por igrejas góticas, que é o que lá se encontra hoje, da verdadeira nobreza na formação de nossos nobres sem-caráter, do banimento dos atuais médicos, da virtude, honra, sinceridade e bom senso das Yahoos-fêmeas, das côrtes daninhas e torrentes de ministros varridos para sempre, da inteligência, presença de espírito e mérito finalmente recompensados da forma que merecem, da condenação à morte por inanição de todos esses espalhadores de desgraças em prosa chamados jornalistas (mande-lhes comer seu próprio algodão se estiverem famintos! mande-lhes secar seus potes de tinta, se estiverem com sede!);  deixe-me saber de todas essas coisas, se um dia elas vierem a ocorrer!… (…) 7 meses, creio eu, seria tempo mais que suficiente para corrigir todo vício e tolice a que os Yahoos são sujeitos, se, e somente se, sua natureza fosse de fato minimamente capaz de aprendizado e inclinada à sabedoria!”

“Leio, ainda, que sou acusado de refletir sobre pessoas de altos cargos sobre quem eu não teria nada a dizer; acusado de degradar a natureza humana! – que natureza humana?, sou aqui obrigado a contestar –, e de difamar o sexo frágil!! Conquanto essas críticas não me venham em uníssono, afinal o bando dos escritores é sempre desunido e cheio de desavenças de opinião, e alguns deles, em vez de me atacarem por dizer o que digo, preferem se negar a acreditar que este livro é de minha pena, i.e., que eu tenha sido o autor de minhas próprias viagens! Para estes, eu achei ou roubei estes escritos de alguém ou algum outro lugar. Mas, de acordo com uns terceiros, eu não só escrevi As Viagens de Lemuel Gulliver como eu escrevi uma outra horda de livros, que eles inclusive se dão ao trabalho de elencar!

Digo que seu tipógrafo foi tão negligente que confundiu a cronologia, havendo trocado as datas de muitas das minhas partidas e regressos! Às vezes nem sequer o ano ele imprimiu corretamente, quem dirá o mês. Seria pedir demais que ele acertasse O DIA! Ouvi dizer que o manuscrito original foi, infelizmente, destruído e que desde a publicação da primeira tiragem não temos mais acesso a seu conteúdo veraz. Eu não me dei ao trabalho de produzir uma cópia antes de enviar-lhe este manuscrito, e portanto ele era o único no mundo. Sem embargo, ainda diante de tamanhos desconsolos, eu lhe enviei uma variedade de correções, as mais importantes, para que você gentilmente insira nos lugares corretos – se, é claro, vier a existir uma segunda edição!”

“Nas minhas primeiras viagens, enquanto ainda jovem, fui ensinado pelos mais experientes marinheiros, e portanto aprendi a redigir como eles. Desde então, contudo, verifiquei que os Yahoos marítimos da nova geração são tão aptos quanto os telúricos para inventar gírias e maneirismos de linguagem, de forma que as expressões que eles empregam mudam de ano a ano.”

“Se a censura dos Yahoos pudesse afetar-me em algum grau, teria eu imensas razões para reclamar. Alguns são tão convencidos e opiniosos que consideram meu livro de viagens como mera ficção ou delírio mental, e foram longe o bastante a ponto de teorizar que os Houyhnhnms e os Yahoos são tão ‘reais’ quanto os habitantes da ilha de Utopia de Thomas More!

Quanto aos povos de Lilliput, de BrobdingRag (como é a correta grafia da palavra, e não Brobdingnag como consta da 1ª edição!) e de Laputa, confesso que nunca me deparei com um Yahoo presunçoso a ponto de questionar suas existências, nem as informações sobre suas culturas que eu tornei públicas. Isso, claro, porque a veracidade tem um poder de convencimento imediato sobre o leitor. Quanto ao meu relato dos Houyhnhnms e Yahoos, se há menos plausibilidade, a culpa não é minha: vejo milhões neste mesmo continente desta última espécie! Nossas diferenças para com os Yahoos do país dos Houyhnhnms podem se resumir a duas: uma é que os urros que eles utilizam à guisa de linguagem soam estranhos a nossos ouvidos; a outra é que não andamos pelados (ou será que eles é que não andam pelados, já que a pelugem deles recobre todo o corpo, enquanto nós precisamos de tecidos para esse mesmo fim?). Eu escrevi sobre os povos que conheci, e sobretudo sobre os Yahoos, para emendar os nossos Yahoos, e não para bajulá-los! Enaltecer com palavras inócuas toda nossa espécie seria mais inconseqüente, para mim, do que os relinchos dos dois Houyhnhnms ‘degenerados’ que eu crio em meu estábulo. Porque estes, a despeito de decaídos em relação aos seus ancestrais, eu ainda consigo educar e corrigir-lhes os vícios até um certo ponto!”

“Concluo que eu jamais deveria ter concebido um projeto tão absurdo como o da reforma da raça Yahoo deste reino. Mas deixe estar, isso era coisa de meu eu idealista de outrora: já deixei estes esquemas visionários para trás, em definitivo.

2 de Abril de 1727.”

AUTHORING VIRILE BODIES: Self-cultivation and textual production in Early China – Ori Tavor, 2016.

“The Warring States period (453–211 BCE) is often described as the age of the ‘Hundred Schools of Thought.’ Motivated by the decline of the centralized Zhou regime and the increasing brutality of everyday life, early Chinese thinkers took it as their mission to offer possible solutions to this state of chaos. Their new ideas about the self and its relationships with social and political institutions subsequently found articulation in a growing corpus of literature. This intellectual awakening also produced a growingly sophisticated discourse on the topic of the human body and its cultivation, prompting some scholars to designate the 4th century BCE as China’s ‘discovery of the body’ and as the ‘bodily turn’ in the development of classical Chinese thought.”

“In the Mengzi 孟子, for instance, we find a brief reference to the circulation of flood-like qi as a component of an overarching regimen of moral self-cultivation, but the author’s description of this practice is lacking in detail. Another Warring States text, the Zhuangzi 莊子, contains references to practices that seem meditative in nature: ‘sitting and forgetting’ (zuo wang 坐忘) and ‘the purification of the mind’ (xin zhai 心齋). Both techniques envolve dimming sense perception and discarding emotions and desires in order to achieve an altered state of consciousness, but again, their particulars are not entirely clear. The most detailed account of seated meditation practices can be found in several chapters from the Guanzi 管子, an eclectic text traditionally believed to have been compiled in the state of Qi 齊 in the late Warring States period, most famously in an essay called the Inward Training (Neiye 內業). While not a meditation manual per se, the Neiye does include multiple references to body alignment, breathing exercises, and emptying one’s mind. This has led some scholars, most notably Harold Roth, to argue that the text was a product of a single lineage that held spiritual self-cultivation through corporal practices as its main goal.” “Fortunately, recent archaeological excavations have unearthed a large number of manuscripts that belong to a different literary genre – technical literature. These include medical recipes, prognostication and divination manuals, demon-quelling techniques, ritual instructions, and self-cultivation regimens, which offer us a glimpse into the realm of religious adepts, astrologers, physicians, and diviners, whose writings played a significant role in the shaping of Warring States and Qin-Han intellectual culture.

Two archaeological sites in particular contain a plethora of excavated manuscripts pertaining to the cultivation of the human body. Excavated in the 1970s and 1980s, the tombs in Mawangdui 馬王堆 in modern-day Hunan Province and Zhangjiashan 張家 山 in modern-day Hubei, held multiple technical manuals. Sealed in the early decades of the Han Dynasty (168 and 186 BCE respectively), the dating and authorship of the Mawangdui and Zhangjiashan self-cultivation manuscripts are a matter of scholarly debate. Chemical analysis reveals that the tombs were both sealed in the first half of the second century BCE, but an examination of various linguistic components suggests that the manuscripts might have been produced earlier and copied in different times by different scribes.”

“Widely recognized as a turning point in the study of early China, some scholars have gone so far as to argue that the information contained within the excavated manuscripts requires us to reassess everything we know about early Chinese intellectual history.”

“Authorship, for example, is a highly controversial topic in the study of early Chinese texts. While the provenance and approximate dating of excavated sources can be determined with some degree of accuracy, especially when they are compared with transmitted texts, in most cases these materials do not contain their author’s name.14 Faced with these challenges, contemporary scholars adopt two main approaches. The first, utilized by many of the individuals mentioned above, treats these sources as repositories of ideas, and reads them against the received literature in order to offer a richer account of Chinese philosophy, religion and medicine. The second approach involves putting a greater emphasis on the materiality of excavated manuscripts in an attempt to determine the reasons for their production and the identity of their authors, as well as readers.”

“The term ‘religio-medical marketplace,’ which is currently used to explain the intricate context in which various techniques of healing and self-cultivation were produced, exchanged, and discussed in early medieval China, was first put into use by C. Pierce Salguero in his study of the translation of early Buddhist scripture.”

Michael Stanley-Baker picks up this term, which he then describes as a field of ‘discursive and economic competition’ comprised of diverse actors attempting to assert the supremacy of their own technologies of cure and salvation over that of their rivals, to analyze the role of therapeutics in the formation of Daoist beliefs and practices in the early medieval period. Stanley-Baker’s work endeavors to go beyond well-heeled categories such as the religion–science dichotomy or the classification of Daoist religion into distinct sects, and to instead investigate the various strategies employed by individual actors to ‘negotiate their ideological, institutional, social and physiological concerns.’”

“Some texts, such as the Lunyu 論語 (The Analects), Mozi 墨子, and the Mengzi, were written almost entirely in dialogue. Others, such as Xunzi 荀子 and the Zhuangzi, embed dialogues between exemplary figures within their philosophical arguments to lend them an aura of authority.”

“The same pattern recurs in the first 4 dialogues of the Shiwen, which all feature the Yellow Emperor asking various advisors general questions about the nature of life and death and the physiological make-up of humans. While his conversation partner in the third dialogue, Cao Ao 曹熬, is not attested in the received literature, the remaining 3 are well-known figures. Various received sources identify the protagonist of the 2nd dialogue, Great Perfection (Dacheng 大成) as the teacher of the mythical Yu the Great, the flood-tamer, including the Lüshi Chunqiu 呂氏春秋(The Spring and Autumn Annals of Master Lü).”

“In the first chapter, ‘Discourse on the Divine Perfection of High Antiquity’ (Shanggu Tianzhen Lun 上古天真論), the Yellow Emperor asks the Heavenly Teacher about the difference in the physiological make-up between the people of antiquity and people today. The following lines refer to the respondent as Qi Bo 岐 伯, leading the Tang dynasty commentator Wang Bing 王冰 to claim that the Heavenly Teacher is simply his title. The close relationship between the Yellow Emperor and Qi Bo, as well as their association with the technical arts, is further attested in the bibliographical ‘Yiwen Zhi 藝文志’ chapter of the Hanshu 漢書 (History of the Han), in the form of a reference to a now-lost text called the Massage [Techniques] of the Yellow Emperor and Qi Bo 黃帝岐伯按摩 and the designation of Qi Bo as one of high antiquity’s foremost masters of recipes and techniques (fangzhi 方技).”

“The use of mythical figures was a common literary technique in early Chinese literature. By presenting their ideas through dialogues between such familiar figures as the Yellow Emperor, Yao and Shun, Rong Cheng, and Ancestor Peng, the compilers of the Shiwen would have made their text more palatable to some educated elite readers. In addition to lending their manuscript a sense of familiarity, this literary device also associated a self-cultivation technique with established figures of authority, some of them already identified in the third and second century cultural milieu with issues of longevity, manipulation of time, and health. This allowed them to pursue their main goal – the construction of a new mode of discourse on the human body that presented the common problems of their target audience, aging men, as treatable conditions.”

PURA ESPECULAÇÃO: “Applying Stark and Finke’s model, I would argue, allows us to see the late Warring States ‘bodily turn,’ namely the emergence of a theoretical discourse on the human body, not as a response to a shift in demand but as a conscious attempt by the technical masters to instigate a shift in supply and break into one of the most lucrative and prestigious market niches – educated affluent male elites.”

“The fact that technical manuscripts were not preserved in the canon, leaves the impression that this was a wholly philosophical discourse. The discovery of the Mawangdui, Zhangjiashan, and other excavated sources, however, allows us to better ascertain the role of masters of techniques in the development of early theories of the human body and its cultivation.”

Wangzi Qiaofu asked Ancestor Peng:

‘Of the qi of man, which is the most essential?’

Ancestor Peng replied:

‘Of the qi of man, none can compare with penile essence. When penile qi is congested and clogged, the 100 vessels produce illness. When penile qi is insufficient, you cannot procreate. Thus, the key for obtaining longevity lies entirely with the penis.’

“Focusing on the male sexual potency and identifying the male sex organ as the key component in the quest of longevity and health can be construed as a calculated move by the authors” Não diga!

The Yellow Spirit asked the Left Spirit:¹

‘Why is it that the yin [the penis] is born together with the 9 apertures and 12 joints, yet it alone dies prematurely?’

The Left Spirit replied:

‘It is not utilized in strenuous activity; when there is sorrow and joy it is not used; it is not involved in drinking and eating. It dwells in deepest darkness and does not see the light of day, yet it is employed in a sudden and abrupt fashion, with no regard to its state of arousal. Unable to withstand the double hotness,² it is therefore severely hurt. Its name is avoided and its body concealed, yet it is employed very frequently and unceremoniously. Therefore it is born together with the body, yet it alone dies prematurely.’

If you are unable to utilize the 8 proliferations and eliminate the 7 diminutions, then, at the age of 40, your yin qi will half itself; at 50, your mobility will decline; at 60, your hearing will no longer be acute and your vision will no longer be clear; at 70, your lower body will wither and your upper body will unravel, your yin qi [virility] will be rendered useless, and mucus and tears will flow out.

¹ “The Yellow Spirit is probably an alternative title for the Yellow Emperor. As for the Left Spirit, received literature does not mention this figure. The title ‘left,’ however, often refers to the senior of a double appointment (outranking ‘right’). The Left Spirit is thus probably a member in the celestial ranks, an advisor to the Yellow Emperor.”

² “The meaning of the term ‘double hotness’ 兩熱 is unclear. Harper [abaixo] believes this refers to the hotness emanating from the two partners during intercourse.

O MESMO PURITANISMO DE SEMPRE: “Drinking and eating as he pleases, the pores and interstices of his skin are glossy and taut, his qi and blood are full and replete, and his body is light and lithe. But if he has intercourse impulsively, he will [be] unable to guide his qi and will fall ill. Sweating and panting, his insides will become feverish and his qi disordered.”

“Why do some age faster than others? Why do some retain their vigor and age gracefully while others wither away rapidly?”

I have heard that there are some things that even sages are unable to understand, only those who have obtained the Way. The culminant essence of Heaven and Earth is born in the indefinite, grows in the formless, and is perfected in the bodiless. He who obtains it can obtain longevity, he who loses it dies young

“In the last few decades, in the hope of capturing the attention of a potentially profitable segment of the population in many countries around the globe, medical experts and pharmaceutical companies began constructing a new discourse of masculinity, portraying the once natural process of aging and its accompanying byproducts as pathological ailments that fall under medical jurisdiction and can be pharmaceutically solved. Age-related decline in testosterone levels, for example, was ‘rebranded’ as andropause, a pathology that requires medical intervention through testosterone supplementation. The same can be said about the new category of erectile dysfunction (ED). Prompted by the initial slow sale of Viagra, Pfizer Pharmaceuticals launched a massive campaign based on the direct-to-consumer model, expanding the original target market share of aging men to include men of all ages by presenting it as a ‘technology of the gendered body,’ a way to transcend our natural biological limitations through bio-medical enhancement.”

“While we know that affluent elites hired scribes to copy manuscripts for their own use, real commercial book trade only began to emerge in the first century AD. The dissemination of the Mawangdui and Zhangjiashan texts was, in fact, highly regulated. According to Harper, receiving such books ‘constituted an initiation which bound the disciple to the physician and sanctified the books, confirming the exclusiveness of the knowledge they contained.’ This is further supported by the fact that the manuals themselves offer very terse instructions, often revealing only half the story. From this we can assume that these texts were meant to be read together with a master in order to be understood and used in everyday practice.”

The reason why people of low social status contract disease is due to hard manual labor, hunger, and thirst. Sweating profusely, they plunge themselves into water and proceed to lie down on the cold earth, not realizing that they should put on clothes.

“In recent years there has been a growing interest in the study of the interaction of China’s religious traditions and the role of Buddhism, Daoism and popular religion in the shaping of medieval concepts of the human body and the development of healing practices. Comparatively little work has been done on the impact of early Chinese religious ideas and practices on this field.” “unlike Buddhism and Daoism, early Chinese religion is a particularly amorphous entity that does not conform to contemporary definitions of religion, as it lacks many of the features modern scholars view as fundamental, such as a canonical set of sacred scriptures, organized clergy or a fixed pantheon. In fact, the label ‘early Chinese religion’ does not refer to a specific empirical singularity. It is mainly used as a heuristic device, a term coined by later scholars to help make sense of a collection of phenomena.” “Fortunately, the discovery and steady publication of excavated manuscripts from the Warring States and Qin-Han periods is expanding our knowledge of early Chinese religion, helping us to construct a richer picture than the one reflected in the received literary tradition.”

Notes

“Harper juxtaposes these individuals, whom he refers to as ‘natural experts and occultists,’ to the masters of philosophy (zi, 子). See Harper, Early Chinese Medical Literature, 10. I have chosen the appellation ‘masters of techniques’ in order to simultaneously stress their close association to the philosophical masters while also emphasizing the diferences between them. I would like to emphasize that by designating these hypothetical agents as ‘technical masters,’ I am not identifying them with the fangshi 方士, translated as ‘masters of esoterica’ or ‘masters of methods,’ who are often mentioned in Han sources. While modern scholars have identified the crucial role of the ideas and practices espoused by the fangshi in the development of Daoist religion, there is no conclusive evidence that links the authors of the Mawangdui and Zhangjiashan manuscripts to the fangshi. For more information, see Raz, The Emergence of Daoism, 39–42, and Arthur, Early Daoist Dietary Practices, 4. For an opposing view, see Nathan Sivin, who argues that this term does not denote ‘a social grouping toward which people align themselves’ but a ‘catchall phrase’ used by authors and bibliographers in a somewhat derogatory manner, attached to agents who did not align themselves with the goals of the state orthodoxy. Sivin, ‘Taoism and Science’

“The content of the Mawangdui texts suggest that despite their emphasis on coupled practices, they were mainly geared toward male practitioners.”

“The 9 apertures are the eyes (2), ears (2), nostrils (2), mouth, anus, and urethra. The 6 palaces are the large intestine, small intestine, stomach, bladder, gall bladder and a somewhat unclear 6th organ often translated as the ‘triple burner.’ See Unschuld, Huang Di Nei Jing Su Wen, 130.”

Indications (entre ‘’ – artigos)

“For calisthenics, see Kohn, Chinese Healing Exercises: The Tradition of Daoyin and Despeux, ‘La Gymnastique Daoyin dans la Chine Ancienne’. For the role of dietary regimens in self-cultivation, see Arthur, Early Daoist Dietary Practices. For sexual cultivation, see Wile, Art of the Bedchamber.”

Boltz, ‘The Composite Nature of Early Chinese Texts

Billeter, ‘Étude sur sept dialogues du Zhuangzi’; Cua, ‘The Logic of Confucian Dialogues”.

Pines, ‘Political Mythology and Dynastic Legitimacy’

Liexian Zhuan 列仙傳 (Collected Biographies of Immortals)

Pregadio, Encyclopedia of Taoism

Conrad, The Medicalization of Society

Valussi, ‘Female Alchemy: an Introduction’ Mollier, Buddhism and Taoism Face to Face

Os segredos por trás da Ilha

LOST é uma alegoria do mal representado pelo desenvolvimento tecnológico. A série retrata quem levaria a melhor caso um embate entre duas forças antagônicas acontecesse em dado tempo e lugar: a força do progresso cego da técnica versus o potencial da humanidade de se redimir dos males que ela mesma criou. Em Lost, essa luta é encarnada por semi-deuses e homens.

O princípio da técnica pura e levada a seus extremos (dominação diabólica da natureza) é representado pelo monstro da fumaça. O princípio do homem harmonizado com a natureza é representado pelo invisível Jacob. Esses são apenas dois dos avatares sob os quais essas “formas de vida” surgem na tela ao longo de vários episódios e temporadas. O que causou muita dissensão e desinteresse do público que acompanhava a série em seus começos é a famosa “trilha de mistérios”, que se acumulava e complexificava, e parecia não levar o espectador a lugar algum. Os mais céticos chegaram a pensar que a série não passaria de uma bola de neve que arrolaria mistério pós-mistério sem coerência ou inter-relação, com o fito de prender a audiência o máximo possível, sem resolver qualquer enigma satisfatoriamente, até ficar escancarado, ao final, que tudo não passava de uma “pegadinha gigante” ou do maior golpe de marketing da história recente de Hollywood.

De fato, a paciência é uma virtude quando se trata de absorver o que Lost tem a oferecer. Podemos dizer que a compreensão de todas as 4 primeiras temporadas só advém posteriormente a ver e rever a quinta e a sexta, onde os eventos mais arcaicos, os catalisadores de todos os outros, que envolvem os personagens mais consagrados e os favoritos do público, são finalmente revelados.


Por mais versátil e aberto a interpretações que permaneça até os dias de hoje, Lost, que encerrou em 2010, não transcende, na essência, a dualidade com que eu abri este ensaio: yin-yang, branco x preto, bem x mal (num sentido muito menos maniqueísta do que o apreciador de séries ocasional gostaria de digerir)…

As duas entidades em conflito, cuja infância é mostrada quase no “sopro final” das mais de 100 horas de teledramaturgia, são dois irmãos gêmeos nascidos em tempos imemoriais na mesma Ilha onde tudo em Lost acontece (e para onde convergem todas as ações até de quem ainda não chegou à Ilha, mas cujo destino está atrelado a ela). Um é Jacob e representa a luz; o segundo não foi batizado (no sentido estritamente lingüístico do termo), talvez porque quem DEU-LHE A LUZ não o esperava, e representa as trevas, embora seus papéis ainda não estejam CLAROS até os incidentes de suas vidas adultas que irão antagonizá-los de uma vez por todas. É clara a evocação do relato bíblico de Esaú e Jacó, embora este Esaú não tenha nome. Eles têm uma mãe, adotiva, cujo favorito é sem dúvida “Esaú”. Mas ele perderá os seus direitos de primogenitura assim que der vazão a seu excesso de curiosidade pelo mundo exterior e se tornar obcecado por uma só idéia: escapar da Ilha.

O santuário paradisíaco-mágico que contém uma espécie de manancial de energia de potencial ilimitado (conhecida pelos espectadores mais simplesmente como a “luz dourada”), sendo o núcleo aparente do milagre da vida na Terra, que é o lar destes dois irmãos, só ocasional e involuntariamente recebe visitas. Quando um navio cheio de arquitetos e engenheiros naufraga na Ilha, o homem de preto, alcunha usada para “Esaú” na série, a eles se alia e tenta construir uma espécie de Torre de Babel, até ser frustrado pela própria mãe adotiva, que já o havia prevenido. Ela incendeia toda a construção; o homem de preto se vinga matando-a. Jacob, pouco antes, havia dela recebido o dom da imortalidade ao beber da água que ficava próxima da fonte principal da luz dourada, o “coração da Ilha”. Ao descobrir o matricídio do irmão, ele quebra o tabu que lhes fôra imposto, o de não pisar neste coração, que ao mesmo tempo que é sagrado está ligado a uma maldição. Na verdade, irado com seu gêmeo, Jacob faz algo ainda mais insidioso: joga seu irmão inconsciente no córrego que transporta o corpo ao Coração. Desse modo, ele faz seu irmão cometer o interdito, e não ele próprio, assim como pune-o pela ofensa de sangue que ele cometera, sem sujar as mãos da mesma maneira. O homem de preto também obtém, por esse método, a imortalidade, mas ele dificilmente se teria sentido abençoado: ele ficou preso no que os visitantes póstumos da Ilha chamam de monstro da fumaça, ou em cadáveres, por uma dada quantidade de tempo, que ele tem a faculdade de reanimar, incorporando também as lembranças do falecido. É esta a maldição para quem cai no poço da água dourada.

Podemos interpretar os acontecimentos da juventude de Jacob e do “monstro” como a continuidade, em ares mais sérios, de seus jogos de infância. Havia um jogo de tabuleiro, de pedras brancas e pretas, que eles sempre jogavam, obviamente com Jacob representado pelas peças brancas e seu irmão sombrio pelas peças negras. Não fica claro se eles conheciam as regras e se realmente sua primeira partida já teve um fim – provavelmente não. Como semi-deuses (ou seres que, embora não onipotentes, não podem morrer), eles podem “criar o próprio jogo”, estabelecer regras que devem ser iguais para ambos, a fim de determinar um vencedor justo. Como tampouco eles podem se ferir mutuamente, tiveram de imaginar soluções para esse impasse, para que sua desavença não fosse eterna. Os fiéis da balança seriam os seres exteriores. A eles caberia decidir a cor das peças vitoriosas. Ficou estabelecido que qualquer um de fora poderia matar Jacob. Que, em compensação, o monstro da fumaça não poderia matar os “candidatos” (tanto quanto eles não podem causar qualquer dano ao monstro). Que a única forma do monstro ganhar o jogo seria se os “candidatos”, trazidos à Ilha para escolher-se o sucessor de Jacob, acabassem, em conseqüência de suas próprias ações, se matando, até não sobrar mais nenhum. Jacob estaria proibido de explicar essas regras a qualquer candidato até bem perto do fim. O monstro da fumaça só poderia realizar seus objetivos – assassinar um por um dos forasteiros de sua Ilha – de modo indireto, falando pela boca dos outros, alimentando complôs, mostrando-se convincente. Mais do que um jogo entre as duas deidades, é acima de tudo uma aposta: Jacob acredita que, apesar de todas as suas debilidades, o homem seja capaz de se responsabilizar por seus atos e de agir heroicamente, sem pedir nada em troca, quando a situação o exigir; o monstro da fumaça acha que o ser humano tem a natureza corrompida e está por isso condenado à extinção; e tudo o que o homem de preto enfeitiçado quer é desabitar a Ilha e privá-la de sucessores em potencial para o cargo de guardião da luz. O que ele faria do lado de fora, uma vez liberto, nunca é mais do que aludido na série, mas essa possibilidade é de alguma forma encarada por personagens-chave como o fim prático da civilização ou o Apocalipse.

A aposta dos irmãos prossegue sem grandes novidades até os séculos XX e XXI. Embora a Ilha sempre receba visitas, nenhuma delas até lá pertence à geração dos “candidatos”, e aqueles que pisam no santuário ou se tornam parte permanente do povo que habita a Ilha e serve a Jacob, ou acabam por satisfazer a sede de sangue do monstro, que adora aparecer diante de quem se perde na selva.


Um resumo da quinta temporada poderia ser o seguinte:

Na era dos satélites, na Guerra Fria, os americanos mapeiam a superfície terrestre e conseguem encontrar a Ilha, em algum lugar não-especificado do Pacífico Sul. O exército americano a utiliza como armazém para descarte de material nuclear, incluindo uma bomba de hidrogênio. O lugar também se torna a sede de um experimento social de vanguarda chamado Iniciativa Dharma, patrocinado por magnatas de ideário utópico. Eles chegam a compreender a singularidade do local e reunir cientistas da mais alta estirpe, gente que acredita em fontes de energia limpa e eternamente renovável (muitas décadas à frente de seu tempo!), em propriedades medicinais do eletromagnetismo e também no conceito (mais do que manjado para a ficção científica de nosso tempo) chamado “viagem no tempo”. A aparição súbita de alguns indivíduos “estranhos”, que não surgiram como os outros – sorteados e trazidos do “mundo civilizado” para viver uma “vida alternativa” -, mas que pareciam ter se infiltrado na Dharma com uma agenda própria, desencadeia a explosão do artefato da bomba H que estava aterrado no acampamento do “povo do Jacob”, que não se confunde com a Iniciativa Dharma. Esses “estranhos” eram alguns dos “candidatos”, que na realidade, propriamente falando, ainda estavam a 27 anos de pisar pela primeira vez na Ilha (por intermédio das “ocorrências fabulosas” explicadas a seguir) – Ilha que cada um deles só pôde conhecer porque quisera o destino que ali caísse um avião, no meio do vôo comercial nº 815 da Oceanic Airlines, que ia de Sidney a Los Angeles, em 2004.

Nenhuma explosão de bomba nuclear aconteceu de fato, mas desencadeou-se um gatilho energético para que os candidatos, perdidos no tempo, pudessem voltar à época presente – todo o plano fôra teorizado por um físico brilhante, que, em meio aos descaminhos da vida, fôra parar na mesma Ilha, poucos meses depois do desastre aéreo, ainda em 2004, como membro de uma “expedição científica”, tendo ele, que não era um dos candidatos de Jacob, viajado no tempo junto com o grupo. A teoria desse físico, Daniel Faraday (o Daniel Faraday de LOST, não o Daniel Faraday da Física real), mostrou-se parcialmente correta: embora aqueles que se encontravam fora de seu fluxo temporal tenham sido devolvidos à “linha do tempo de origem (já em 2007)”, sua concepção de que “a explosão por fusão liberaria tanta energia que cancelaria todos os eventos que haviam levado à queda do Oceanic 815, tornando possível que a viagem terminasse no aeroporto de Los Angeles com todos a salvo, apagando da história do universo as memórias e lembranças de qualquer laço criado entre aqueles passageiros a partir da queda do avião” estava crassamente equivocada. Não só não “se cancelou nada”, porque a linha do tempo é uma só, e tudo que os candidatos fizeram na década de 70 realmente impactou no estado das coisas de 2004-2007, sendo inclusive determinante para sua própria queda na Ilha, como Faraday pagou pelo erro de cálculo com a própria vida de uma maneira um tanto sofocliana: morrera nos braços de uma versão bastante jovem da própria mãe, Heloise Hawking, proferindo a frase: “Você sabia!… Você sabia e mesmo assim você me mandou… para morrer aqui!”.

Heloise e Charles Widmore eram dois jovens ingleses que haviam se incorporado aos discípulos de Jacob. Seu conhecimento da “aposta” devia ser algo limitado, mas eles sabiam que deviam dedicar suas vidas à causa de Jacob, que contava com o auxílio de pessoas abnegadas para realizar sua sucessão na hora certa. Heloise estava grávida quando matou a versão envelhecida de seu filho Daniel, que para ela não passava de um estranho quando fôra baleado. Daniel trazia consigo um diário. Este diário explicava todos os princípios da viagem no tempo e continha anotações pessoais dos últimos anos da vida de Daniel. Sem dúvida a viagem no tempo era real, e aquele era o filho de Heloise e Charles. Através do diário, de forma privilegiada, o casal veio a conhecer partes do plano de Jacob que ainda não haviam se consumado, até 2004. Dentre as informações coletadas, havia uma intrigante: “Se algo der errado, Desmond é a minha constante”.


Por razões que não são inteiramente descobertas, Heloise e Charles se separam. Desde a “explosão” da bomba H, nenhuma gravidez na Ilha conseguia ser levada até o fim. Heloise volta à Inglaterra para dar a luz a Daniel. Algum tempo depois, Benjamin Linus (que também havia crescido na Ilha, tornando-se um dos seguidores de Jacob de mais alta hierarquia) expulsa Charles, seu desafeto, da Ilha. Apesar disso, tanto Heloise quanto Charles continuam, cada um a sua maneira, se devotando ao futuro da Ilha e aplainando o terreno para a chegada dos candidatos. Isso incluía, naturalmente, a educação do próprio filho de ambos, Daniel. Desde muito novo ele, que possuía talento musical, foi forçado a estudar para desenvolver seu gênio matemático e em seguida se formar com excelência em Física na Universidade de Oxford. Heloise comprou-lhe um diário, idêntico ao diário que Daniel lhe havia deixado quando morreu. Daniel lecionou por alguns anos na cadeira de física da universidade. Foi num desses dias que ele recebeu a visita de um homem chamado Desmond Hume, que alegava estar transitando entre dois tempos, ora na mente do seu eu-atual, ora na mente de uma versão dele mesmo envelhecida cerca de dez anos. A princípio, Daniel pensou que fosse um trote aplicado por alguns de seus alunos descrentes de suas teorias, até que ele pôde comprovar a veracidade do que Desmond dizia e ajudá-lo a sair de seu transe, que acabaria levando-o a um derrame cerebral se durasse mais tempo. Daniel nunca mais viu Desmond no mundo exterior. Charles, tornado um bilionário, financiou anonimamente a carreira do filho, recrutando-o para se juntar à população da Ilha em 2004. Embora fosse um ato doloroso e estapafúrdio, Heloise e Charles compreenderam que o mundo dependia de que tudo sucedera, dali em diante, de forma que a viagem no tempo dos candidatos e de seu próprio filho fosse tornada possível, para que os eventos que eles viveram no passado ocorressem tais e quais. A razão é que sem uma coisa não poderia haver a outra, e os candidatos de Jacob morreriam presos em viagens temporais e deixados à mercê das maquinações do monstro da fumaça.

Outra coisa que o industrial Widmore sabia era que uma hora ele e um homem chamado Desmond cruzariam seus destinos. Desmond se tornou o namorado de Penelope, a filha de Charles de um segundo casamento. Ele procurou Widmore para pedir a mão de sua filha em casamento. Sabendo que uma questão bem maior estava em jogo, Charles tratou Desmond friamente, induzindo-o a abandonar Penelope (Penny), até que ele provasse a seu sogro, a sua amada e a ele mesmo que ele, um reles desempregado, era digno da fortuna de Penny Widmore. Sem falar que Desmond, enquanto ainda se preparava para oficializar seu noivado com Penny, antes de ter sido completamente desencorajado por Charles e de tomar sua drástica resolução, foi surpreendido por uma enigmática e soturna Heloise, recepcionista de joalheria, que lhe predicou: “Seu destino não é ficar com ela, é ir parar numa Ilha onde apertará um botão para salvar o mundo”. Ele intuía o peso da veracidade dessas palavras, embora isso não tornasse seu conteúdo menos absurdo. Sua sensação de culpa se intensificou, e isso ajudou Desmond a dar seu salto de fé: terminar o relacionamento com Penny para “se provar” diante dos olhos do mundo, e provar para si mesmo que poderia alterar o seu destino, que até ali tinha sido o de “um homem covarde”.

Levado a pensar que a enorme disparidade de classes era o real motivo da aversão de Charles a si mesmo, Desmond não tinha elementos para desconfiar que seu quase-sogro agira teatralmente. Quem acompanha LOST também só conhece os reais fundamentos desta “profunda antipatia” nos últimos capítulos. Os conglomerados empresariais de Widmore patrocinam uma corrida de regatas ao redor do mundo. Desmond se prepara para participar da competição com o objetivo de vencê-la para pedir a mão de Penny e ser aceito. Ele consegue que lhe doem um veleiro e começa a treinar. Não surpreendentemente, dadas as circunstâncias, ele acaba ficando à deriva durante uma tempestade e vai parar na Ilha.

Ele acorda dentro de uma escotilha e é avisado pelo seu salvador que fôra encontrado na areia, que “o mundo acabou” e que só sobrou este pedaço de terra em que estavam. Que ele devia tomar regularmente uma vacina, pois infelizmente foi exposto por alguns minutos às toxinas do ar da superfície, que se tornou irrespirável. Toda vez que um dos dois precisasse sair – o que só acontecia de 3 em 3 meses, para reabastecer os suprimentos da despensa, lançados de pára-quedas num ponto muito próximo à escotilha, por um avião, que sobrevoava aquela área, pontualmente e todas as vezes, conforme o cronograma do reabastecimento de suprimentos -, deveria usar uma roupa própria para evitar ser infectado. Para evitar o acúmulo e a descarga do excedente de energia eletromagnética represada num bolsão, era necessário digitar um código numérico a cada 108 minutos num terminal de computador. Como a tarefa é ingrata e sempre interrompe o sono do digitador, ela era feita em duplas, até que o parceiro anterior do homem que resgatou Desmond, Radzinsky, se suicidou. Radzinsky fizera parte da Iniciativa Dharma e testemunhara “o incidente”: após perfurações mal-feitas, esse reservatório energético de eletromagnetismo se tornou permanentemente instável, e no mesmo dia em que estruturas começaram a desabar e implodir, uma bomba H foi detonada, sem que se detectasse uma explosão. Além disso, vários dos envolvidos, que descobriram ser clandestinos no projeto Dharma, desapareceram por completo após a detonação. De alguma forma, a bomba H ajudou a estabilizar a situação e a escotilha para administrar a liberação em pequenas doses da energia eletromagnética pôde ser construída antes de um novo desastre.

Com o passar do tempo, os seguidores de Jacob terminaram o expurgo dos membros da Dharma, mas Radzinsky e seu parceiro, que deviam cuidar desta estação eletromagnética em especial, continuaram trancados executando seu serviço, saindo apenas para repor a despensa. Radzinsky ficou louco e atirou na própria cabeça enquanto seu colega dormia. Este homem, que depois de anos conseguia um substituto para seu colega morto, ensinou mais uma coisa a Desmond: “Se você não quiser passar a vida inteira apertando botões, e também não quiser que o mundo desapareça por sua causa, existe uma alternativa: girar a chave de segurança que cessará a instabilidade do bolsão, mas desintegrará aquele que girar a chave”. O homem tinha dito a Desmond que “não havia veleiro”, que ele devia ter sido feito em pedaços, pois Desmond foi encontrado já na praia. Secretamente, porém, ele se ausentava durante os turnos em que Desmond digitava o código no computador para continuar reparando o veleiro, que ele usaria em pouco tempo para tentar escapar da Ilha. Um dia Desmond viu um rasgão na roupa de quarentena de seu companheiro e decidiu segui-lo, descobrindo o segredo. Os dois brigaram do lado de fora da escotilha. Desmond se sentia enganado ao constatar que não havia contaminação do ar nem quarentena. Mas Desmond empurrou o colega, que bateu a cabeça num rochedo pontiagudo, matando-o acidentalmente. Sem tempo para chorar a morte de seu único companheiro ou enterrá-lo, Desmond correu de volta à escotilha para digitar o código no prazo de 108 minutos, que estava no fim; ele cumpriu a operação com retardo de alguns segundos. O acúmulo de energia começou a torcer as estruturas metálicas, mas a inserção do código foi lida pelo computador e a distribuição da energia pelo bolsão foi normalizada. A sobrecarga foi aliviada; no entanto, o acúmulo de energia por aqueles breves segundos foi o suficiente para derrubar um avião que sobrevoava a Ilha no exato instante da anomalia energética: o vôo da Oceanic 815.

Desmond ainda permanece digitando o código sozinho por algumas semanas; quando está prestes a sucumbir e suicidar-se, abre o livro de Dickens que levava sempre consigo, e que devia ser sua última leitura antes de morrer, e encontra uma carta de Penny, que nunca lera antes, em que se lia: “Para seguir vivendo, alguém só precisa ter uma pessoa no mundo que o ame”. Ele desiste de tirar a própria vida. Mais algum tempo passa e os sobreviventes da queda do vôo 815 conseguem abrir a escotilha, que não tem portas por fora, usando dinamites. Desmond se aproveita para fugir, ensinando o código para seus “sucessores”; ele embarca em seu veleiro, que ainda o aguardava na costa, mas algumas semanas depois reaparece no mesmo litoral. Ele diz aos sobreviventes acampados na praia que navegou o tempo todo numa só direção. O que corroboraria a visão de seu ex-companheiro de escotilha de que o mundo já havia acabado, e que a única coisa sobre as águas era a Ilha.

Enquanto se embriagava, desconsolável, na noite em que voltara à terra firme, Desmond é interrogado por John Locke, um dos candidatos e tripulante do vôo. John acha que toda a história de apertar o botão para salvar o mundo era um experimento psicológico da Iniciativa Dharma. Desmond aceita ir com ele até a escotilha no dia seguinte, render o homem que havia ficado para digitar o código e esperar a contagem regressiva zerar para ver o que aconteceria. Nos segundos finais, lembrando o que aconteceu no dia em que o avião caiu, Desmond desiste do plano de John; mas John destrói o computador que era usado para inserir o código. Desmond sabe que existe um bolsão eletromagnético que irá explodir e que a única forma de salvar os demais será se sacrificando: ele gira a chave de segurança, que guardava dentro de seu livro de Dickens, o céu muda de cor, depois um intenso clarão e um zunido de alta freqüência deixam todos na Ilha desorientados e incapacitados por alguns instantes. Desmond não morre, apesar de ter suas roupas desintegradas e de a escotilha ser totalmente implodida, deixando uma enorme depressão no solo, como se uma construção jamais tivesse existido naquele lugar. O que nem Desmond percebeu naquela hora é que ao girar a chave ele se tornara uma verdadeira chave de segurança humana, o único ser humano imune aos efeitos de radiação eletromagnética, não importa a intensidade – exatamente o plano de Jacob desde o início (e conseqüentemente o de Heloise Hawking e Charles Widmore também) -, além de adquirir com isso um senso singular da coexistência de seu passado, presente e futuro fundidos a sua consciência, “dom” que seria potencializado a cada nova exposição a correntes magnéticas.


E embora este ensaio não se destine a resumir todo o enredo e saturar o leitor com todos os spoilers imagináveis, faz-se necessário, ainda, contar apenas alguns eventos imediatamente subseqüentes, para aparar as arestas do tema viagem no tempo.

A velha rixa pessoal entre Benjamin Linus e Charles Widmore sobre quem seria o líder humano do time de Jacob estoura no momento em que o segundo desvenda as coordenadas da Ilha e ancora um navio nas suas proximidades. Enquanto isso, os sobreviventes do vôo 815 se preparam para sua chegada, dividindo-se em dois grupos: o daqueles que crêem que quem está no navio são assassinos que querem exterminar a população da ilha (capitaneados por John Locke, influenciado por Benjamin) e o daqueles que querem desesperadamente ser resgatados e acreditam que, bem-intencionados ou não, os tripulantes do navio são sua melhor chance de escapar da Ilha desde a queda do avião (liderados por Jack Shephard, que apesar de não ter nome de filósofo ou cientista tem um sobrenome bem sugestivo). Nêmese ou resgate? Na realidade, nenhum dos extremos: o único objetivo da expedição dos mercenários pagos por Widmore era arrancar Benjamin Linus da Ilha; mas seus meios não eram nem um pouco comedidos. Encurralado, Benjamin decide usar um último recurso ensinado por Jacob: “girar o eixo da Ilha”, um mecanismo imemorial instalado num poço capaz de transportar a Ilha para novas coordenadas, a fim de ocultá-la novamente dos radares do mundo exterior. O preço a pagar é que quem gira a “manivela subterrânea” é automaticamente exilado, ressurgindo num dos portais que servem como saídas, espalhados pelos continentes da Terra. Benjamin desloca a Ilha e volta ao mundo exterior, mas nesse momento ela começa a viajar temporalmente também (além de fisicamente), como um cavalo fora de controle ou um disco que quica sobre a vitrola e que não se permite ser lido, o que deixa todos os seus habitantes num estado pânico de viajantes do tempo à deriva, sem um referencial que os possa salvar. Assim como Desmond era a constante de Faraday (que veio no navio de Widmore, embora nada tivesse a ver com o esquadrão armado cuja missão era procurar e trazer Benjamin sob custódia) – e Penny a de Desmond -, a menos que cada um encontrasse sua própria constante (uma referência situada no mundo exterior que realocasse sua consciência no espaço-tempo devido ou de origem, o único em que se poderia sobreviver), após um certo número de viagens no tempo estaria fadado a morrer. O intervalo das viagens se tornava cada vez mais curto, inviabilizando qualquer tentativa dos “viajantes à deriva” manterem a calma ou entenderem o que se passava, muito menos de acessar uma suposta constante. Sobrou a John Locke, o único que sabia o que Benjamin havia feito, a última cartada, da qual no entanto ele não estava muito seguro: girar a manivela da Ilha uma vez mais. Ele também acaba exilado, e a Ilha, por fim, pára de saltar para trás e para frente no tempo, i.e., fixa seus “passageiros” num tempo; este tempo, porém, é a Guerra Fria, 1977, durante as experiências da Iniciativa Dharma…

versações L O S T tergi

Naturalmente, contém spoilers…

Nada mais é que um compêndio de cabeças-duras e obstinações, longas neuroses em processo de cura…

A parricida que se torna mãe dedicada e é salva pelo cavalo preto da vida -Yin-Yang- versus o cavalo branco da Redroom de TP;
A vítima vingativa que se torna herói altruísta;
O javali preto que…
O protagonista que tem de aprender a ser só mais uma peça no tabuleiro;
A peça no tabuleiro – o rei, eu diria, a peça mais especial – que tem de se conformar em ser o bode expiatório marginal do jogo, sem decidir diretamente o ganhador (versus o jogo de xadrez de TP);
E, em contraposição ao objeto que cumpre um destino, o azarado que faz a própria sorte. Mas que também peleja até aprender a fazê-la.
O homem que morre tantas vezes e ainda encontra um significado no autossacrifício…

NOTAS DE LITERATURA I/III – Adorno (trad. Jorge de Almeida), ed. 34, 2003. Org. alemã Rolf Tiedemann

“Quem se propõe a traduzir os ensaios de Theodor Adorno tem de enfrentar o desafio de transpor para outra língua um texto que, para os próprios leitores alemães, muitas vezes soa quase como língua estrangeira.”

“o <estilo atonal> de Adorno não é uma simples idiossincrasia, mas uma tentativa de solucionar o antigo impasse histórico da dialética, desde que Hegel a definiu, em uma célebre conversa com Goethe, como o <espírito de contradição organizado>.” ???

“Dois dos ensaios deste 1º volume de Notas de literatura já constavam com excelentes traduções em português, realizadas na década de 70 por Modesto Carone (Posição do narrador no romance contemporâneo) e Rubens Rodrigues Torres Filho (Lírica e sociedade).”

* * *

O ENSAIO COMO FORMA (1954-8)

Ou: o melhor inimigo da filosofia

A forma do ensaio ainda não conseguiu deixar para trás o caminho que leva à autonomia, um caminho que sua irmã, a literatura, já percorreu há muito tempo, desenvolvendo-se a partir de uma primitiva e indiferenciada unidade com a ciência, a moral e a arte.

Lukács

“Ainda hoje, elogiar alguém como écrivain é o suficiente para excluir do âmbito acadêmico aquele que está sendo elogiado.” E não é assim mesmo?

O ensaio sempre fala de algo já formado ou, na melhor das hipóteses, de algo que já tenha existido; é parte de sua essência que ele não destaque coisas novas a partir de um nada vazio, mas se limite a ordenar de uma nova maneira as coisas que em algum momento já foram vivas.

Lukács

“Ser um homem com os pés no chão ou com a cabeça nas nuvens, eis a alternativa.”

“como seria possível, afinal, falar do estético de modo não-estético, sem qualquer proximidade com o objeto, e não sucumbir à vulgaridade intelectual nem se desviar do próprio assunto?”

“Na alergia contra as formas, consideradas como atributos meramente acidentais, o espírito científico acadêmico aproxima-se do obtuso espírito dogmático. …e a reflexão sobre as coisas do espírito torna-se privilégio dos desprovidos de espírito.”

“Esse processo se manifesta de modo mais evidente em Stefan Zweig, que conseguiu em sua juventude escrever alguns ensaios bastante originais, mas que acabou regredindo, em seu livro sobre Balzac, ao estudo psicológico da personalidade criativa. (…) Ensaios desse tipo acabam se confundindo com o estilo de folhetim que os inimigos da forma ensaística costumam confundir com o ensaio.”

“ensaios ruins não são menos conformistas do que dissertações ruins.”

“Com a objetivação do mundo, resultado da desmitologização, a ciência e a arte se separaram; é impossível restabelecer com um golpe de mágica uma consciência para a qual intuição e conceito, imagem e signo constituam uma unidade.”

“Onde a filosofia, mediante empréstimos da literatura, imagina-se capaz de abolir o pensamento objetivante e sua história, enunciada pela terminologia habitual como a antítese entre sujeito e objeto, e espera até mesmo que o próprio Ser ganhe voz em uma poesia que junta Parmênides e Max Jungnickel, ela acaba se aproximando da desgastada conversa fiada sobre cultura.”

“A ambiciosa transcendência da linguagem para além do sentido acaba desembocando em um vazio de sentido, que facilmente pode ser capturado pelo mesmo positivismo diante do qual essa linguagem se julga superior.”

“se a arte pretende tornar-se imediatamente ciência, adequando-se aos parâmetros científicos, então ela sanciona a manipulação pré-artística da matéria, tão carente de sentido quanto o Seyn (Ser) dos seminários filosóficos.”

“A obra de Marcel Proust, tão permeada de elementos científicos positivistas quanto a de Bergson, é uma tentativa única de expressar conhecimentos necessários e conclusivos sobre os homens e as relações sociais, conhecimentos que não poderiam sem mais nem menos ser acolhidos pela ciência, embora sua pretensão à objetividade não seja diminuída nem reduzida a uma vaga plausibilidade.” “Sob a pressão do espírito científico de seus postulados, onipresente até mesmo no artista, ainda que de modo latente, Proust se serviu de uma técnica que copiava o modelo das ciências, para realizar uma espécie de reordenação experimental, com o objetivo de salvar ou restabelecer aquilo que, nos dias do individualismo burguês, quando a consciência individual ainda confiava em si mesma e não se intimidava diante da censura rigidamente classificatória, era valorizado como os conhecimentos de um homem experiente, conforme o tipo do extinto homme de lettres, que Proust invocou novamente como a mais alta forma do diletante.”

“O jovem escritor que queira aprender na universidade o que seja uma obra de arte, uma forma da linguagem, a qualidade estética, e mesmo a técnica estética, terá apenas, na maioria dos casos, algumas indicações esparsas sobre o assunto, ou então receberá informações tomadas já prontas da filosofia em circulação naquele momento, que serão aplicadas de modo mais ou menos arbitrário ao teor das obras em questão. Caso ele se volte para a estética filosófica, será entulhado com proposições tão abstratas que nada dizem sobre as obras que ele deseja compreender, nem se identificam, na verdade, com o conteúdo que, bem ou mal, ele está buscando.”

“Mesmo as doutrinas empiristas, que atribuem à experiência aberta e não antecipável a primazia sobre a rígida ordem conceitual, permanecem sistemáticas na medida em que definem condições para o conhecimento, concebidas de um modo mais ou menos constante, e desenvolvem essas condições em um contexto o mais homogêneo possível. Desde Bacon – ele próprio um ensaísta – o empirismo tem sido um <método>.”

“Nos processos do pensamento, a dúvida quanto ao direito incondicional do método foi levantada quase tão-somente pelo ensaio.”

O grande Sieur de Montaigne talvez tenha sentido algo semelhante quando deu a seus escrito o admiravelmente belo e adequado título de Essais.” Lukács

“É por isso que o ensaio não se deixa intimidar pelo depravado pensamento profundo, que contrapõe verdade e história como opostos irreconciliáveis. (…) O ensaio desafia a noção de que o historicamente produzido deve ser menosprezado como objeto da teoria. A distinção entre uma filosofia primeira e uma mera filosofia da cultura, que pressuporia aquela e se desenvolveria a partir de seus fundamentos, é uma tentativa de racionalizar teoricamente o tabu sobre o ensaio, mas essa distinção não é sustentável.”

“Enquanto o movimento que surge com Kant, voltado contra os resíduos escolásticos no pensamento moderno, substitui as definições verbais pela concepção dos conceitos a partir do processo em que são gerados, as ciências particulares ainda insistem, para preservar a imperturbável segurança de suas operações, na obrigação pré-crítica de definir os conceitos.”

“Embora o pensamento tradicional também se alimente dos impulsos dessa experiência, ele acaba eliminando, em virtude de sua forma, a memória desse processo. (…) o ensaio procede, por assim dizer, metodicamente sem método.”

“é mera superstição da ciência propedêutica pensar os conceitos como intrinsecamente indeterminados, como algo que precisa de definição”

“A fenomenologia transforma em fetiche a relação dos conceitos com a linguagem. O ensaio é tão cético diante do procedimento fenomenológico da análise de significados quanto diante da definição pura e simples.”

“Mas o ensaio não pode nem dispensar os conceitos universais – mesmo a linguagem que não fetichiza o conceito é incapaz de dispensá-los –, nem proceder com eles de maneira arbitrária. (…) Nisso, Benjamin foi o mestre insuperável. [!]”

“O ensaio deveria ser interpretado como um protesto contra as 4 regras estabelecidas pelo Discours de la méthode

A SÉRIE INFINITA DOS ESTUDOS PRELIMINARES: “A ingenuidade do estudante que não se contenta senão com o difícil e o formidável é mais sábia do que o pedantismo maduro, cujo dedo em riste adverte o pensamento de que seria melhor entender o mais simples antes de ousar enfrentar o mais complexo, a única coisa que o atrai. Essa postergação do pensamento serve apenas para impedi-lo.”

“O ensaio continua sendo o que foi desde o início, a forma crítica par excellence; mais precisamente, enquanto crítica imanente de configurações espirituais e confrontação daquilo que elas são com o seu conceito, o ensaio é crítica da ideologia.”

“O pensamento não é poupado pela rebelião baudelairiana da poesia contra a natureza enquanto reserva social.”

“o ensaio é mais dialético do que a dialética, quando esta discorre sobre si mesma. Ele toma a lógica hegeliana ao pé da letra” “a relação entre natureza e cultura é o seu verdadeiro tema. (…) Mas a cultura não é, para o ensaio, um epifenômeno que se sobrepõe ao Ser [aqui, Adorno está tacitamente contrapondo a Escola de Frankfurt a Husserl-Heidegger ou a auto-intitulada pós-filosofia continental] e deve, portanto, ser destruído”

“O ensaio não glorifica a preocupação com o primordial como se esta fosse mais primordial do que a preocupação com o mediado, pois a própria primordialidade é, para ele, objeto de reflexão, algo negativo.”

“Astuciosamente, o ensaio apega-se aos textos como se estes simplesmente existissem e tivessem autoridade. (…) algo comparável à antiga exegese teológica das Escrituras.”

Tudo que é sólido se torna tubo de ensaio.

“o ensaio salva um momento da sofística.”

“A hostilidade do pensamento crítico oficial em relação à felicidade é perceptível sobretudo na dialética transcendental de Kant, que gostaria de eternizar as fronteiras traçadas entre o entendimento e a especulação, a fim de impedir <o divagar por mundos inteligíveis>.” Esse trecho, verdadeiro que seja, está transbordando de ironias!!

Todo ente em repouso perde a referência da sua posição e situação, apesar da sublime tranqüilidade momentânea ou aparente.

Recuperando a fé na escrita? “O ensaio coordena os elementos, em vez de subordiná-los; e só a quintessência de seu teor, não o seu modo de exposição, é comensurável por critérios lógicos.”

“A atualidade do ensaio é a do anacrônico. A hora lhe é mais desfavorável do que nunca. Ele se vê esmagado entre uma ciência organizada na qual todos se arrogam o direito de controlar a tudo e a todos e uma filosofia tornada acomodada”

“Ele escapa à ditadura dos atributos que, desde a definição do Banquete, foram prescritos às idéias como <existindo eternamente, não se modificando ou desaparecendo, nem se alterando ou restringindo> (…) e entretanto o ensaio permanece sendo <idéia>, na medida em que não capitula diante do peso do existente, nem se curva diante do que apenas é.”

Hoje dizer sim, amanhã talvez…

Não sei o porquê, hoje, 19/08, li duas citações muito antigas, que devo ter conhecido em 2008, 2009, ambas figurando Nietzsche, em duas fontes diferentes (este ensaio de Adorno e a biografia de Freud por Roazen, citando o próprio Freud em História do movimento psicanalítico): a primeira (às 19h, no metrô) a famosa declaração de Segismundo alegando que não lia Nietzsche deliberadamente para se furtar ao prazer de descobrir nele o que ele mesmo vinha descobrindo pela psicanálise; a segunda (0h, à meia-noite da eternidade, embarcando no dia 20) aquela famosíssima (fragmento póstumo), direta de Nietzsche, de que dizer sim a um momento é dizer sim a todos os momentos do universo (estranho arremate para um ensaio sobre o ensaio, para um meta-ensaio, evocar tão extemporaneamente o eterno retorno!). Mais estranha ainda esta coincidência brutal que me aconteceu…

Afirmar o presente é negar o passado – viva, viva, VIVA?!

Negar o presente é-se aborrecer em vão do eixo porta que separa!…

“Apenas a infração à ortodoxia do pensamento torna visível, na coisa, aquilo que a finalidade objetiva da ortodoxia procurava, secretamente, manter invisível.”

SOBRE A INGENUIDADE ÉPICA (1943), esboço para Dialética do Esclarecimento

“Tal como a vista da terra distante é agradável aos náufragos,

quando, em mar alto, o navio de boa feitura Posido

faz soçobrar, sob o impulso dos ventos e de ondas furiosas;

e ledos pisam a praia, enfim tendo da Morte escapado;

do mesmo modo a Penélope a vista do esposo era cara

sem que pudesse dos cândidos braços, enfim, desprendê-lo.”

Homero, Odisséia, XXIII, 234ss. – trad. Carlos Alberto Nunes

Und wie erfreulich das Land herschwimmenden Männern erscheinet,

Welchen Poseidons Macht das rüstige Schiff in der Meerflut

Schmetterte, duch die Gewalt des Orkans und geschwollener Brandung;

[…] Freudig anjetzt ersteigen sie Land, dem Verderben entronnen,

So war ihr auch erfreulich der Anblick ihres Gemahls,

Und fest hielt um den Hals sie die Lilienarme geschlungen“

trad. Voss

„O narrador foi desde sempre aquele que resistia à fungibilidade universal, mas o que ele tinha para relatar, historicamente e até mesmo hoje, já era sempre algo fungível.”

“A epopéia imita o fascínio do mito, mas para amenizá-lo. Karl Theodor Preuss chamou essa atitude de <estupidez primordial> (Urdummheit)

Murray, Five stages of Greek religion, 1925

“o narrador passa a controlar o medo”

“O elogio a essa estupidez ingênua da forma acabou transformando a narrativa épica em ideologia, cujo último resíduo está à venda na falsa concretude da antropologia filosófica atual.”

“Ao apegar-se, em sua limitação, ao que aconteceu apenas uma vez, o mito adquire um traço característico que transcende essa limitação.”

“Na ingenuidade épica vive a crítica da razão burguesa.”

“Assim como é fácil ridicularizar a simplicidade homérica, que era já o contrário da simplicidade, ou evocá-la maliciosamente como argumento contra o espírito analítico, assim também seria fácil mostrar o acanhamento de Martin Salander, o último romance de Gottfried Keller” “Nessa recordação daquilo que no fundo não se deixa mais recordar, Keller expressa em sua descrição dos 2 advogados trapaceiros, irmãos gêmeos e duplos um do outro, um quê de verdade, justamente a verdade sobre a fungibilidade hostil à memória, que só seria alcançada por uma teoria que determinasse de forma transparente, a partir da experiência da sociedade, a perda da experiência.”

“A precisão da linguagem descritiva busca compensar a inverdade de todo discurso. O impulso que leva Homero a descrever um escudo como uma paisagem [Ilíada], elaborando uma metáfora para a ação até o ponto em que, tornada autônoma, ela rasga a trama da narrativa [o velho artifício do objeto divino onisciente e simbólico: nele está desenhada a própria batalha que ora se trava], é o mesmo impulso que levou Goethe, Stifter e Keller, os maiores narradores alemães do XIX, a desenhar e pintar em vez de escrever, e os estudos arqueológicos de Flaubert podem muito bem ter sido inspirados por este mesmo impulso.”

A estupidez e cegueira do narrador – não é por acaso que a tradição concebe Homero como um cego”

“As últimas novelas de Stifter testemunham com extrema clareza a passagem da fidelidade ao objeto à obsessão maníaca, e nenhuma narrativa jamais participou da verdade sem ter encarado o abismo no qual mergulha a linguagem, quando esta pretende se transformar em nome e imagem.”

“Enquanto a linguagem, para continuar sendo de fato linguagem, ainda pretende nessas expressões [partículas de coordenação] ser a síntese judiciosa dos nexos entre as coisas, ela renuncia ao juízo quando usa palavras que dissolvem justamente esse nexo. [Poesia] Na concatenação épica, onde a condução do pensamento enfim encontra repouso, a linguagem abre mão de seu direito ao juízo, embora ao mesmo tempo continue sendo, inevitavelmente, juízo.”

Beide, da über der Freier entsetzlichen Mord sie geratschlagt,

Kamen zur prangenden Stadt der Ithaker; nämlich (o saber criticado por Adorno)

Odysseus]

Folgete nach; ihm voraus war Telemachos früher gegangen.“

Odisséia, XXIV, 135ss.

No verde vale, lá onde a fresca fonte

Desce a montanha, murmurando a cada dia,

E a amável sempre-viva no outono me floresce,

Nessa tranqüila paz, querida, pretendo

Te buscar, ou quando, à meia-noite,

A vida invisível ressoa na floresta,

E sobre mim as flores sempre felizes,

As estrelas, desabrocham brilhando”

Hölderlin, À Esperança (An die Hoffnung)

Im grünen Tale, dort, wo der frische Qwell

Vom Berge täglich rauscht und die liebliche

Zeitlose mir am Herbsttag aufblüht,

Dort, in der Stille, du holde, will ich

Dich suchen, oder wenn in der Mitternacht

Das unsichtbare Leben im Haine wallt,

Und über mir die immerfrohen

Blumen, die blühenden Sterne glänzen“

Thomson, Studies in the Odyssey, 1914

„A imagem desenvolvida pela linguagem acaba esquecendo seu próprio significado, para incorporar na imagem a própria linguagem, em vez de tornar a imagem transparente ao sentido lógico do contexto.”

“A conversão objetiva da pura exposição, alheia ao significado, em alegoria objetiva é o que se manifesta tanto na desintegração lógica da linguagem épica quanto no descolamento da metáfora em meio ao curso da ação literal.”

POSIÇÃO DO NARRADOR NO ROMANCE CONTEMPORÂNEO, originalmente conferência falada depois transposta em ensaio em 1954.

“Assim como a pintura perdeu muitas de suas funções tradicionais para a fotografia, o romance as perdeu para a reportagem e para os meios da indústria cultural, sobretudo para o cinema. O romance precisaria se concentrar naquilo de que não é possível dar conta por meio do relato. Só que, em contraste com a pintura, e emancipação do romance em relação ao objeto foi limitada pela linguagem, já que esta ainda o constrange à ficção do relato: Joyce foi coerente ao vincular a rebelião do romance contra o realismo a uma revolta contra a linguagem discursiva.”

“Noções como a de <sentar-se e ler um bom livro> são arcaicas. Isso não se deve meramente à falta de concentração dos leitores, mas sim à matéria comunicada e a sua forma. Pois contar algo significa ter algo especial a dizer, e justamente isso é impedido pelo mundo administrado, pela estandardização e pela mesmice. (…) a disseminada subliteratura biográfica é um produto da desagregação do romance.”

“numa época em que os jornalistas se embriagavam sem parar com os feitos psicológicos de Dostoiévski, a ciência, sobretudo a psicanálise freudiana, há muito tinha deixado para trás aqueles achados do romancista. (…) se porventura existe psicologia em suas obras, ela é uma psicologia do caráter inteligível, da essência, e não do ser empírico, dos homens que andam por aí. E exatamente nisso Dostoiévski é avançado.”

Se o romance quiser permanecer fiel a sua herança realista e dizer como realmente as coisas são, então ele precisa renunciar a um realismo que, na medida em que reproduz a fachada, apenas a auxilia na produção do engodo.”

“quanto mais se alienam uns dos outros os homens, os indivíduos e as coletividades, tanto mais enigmáticos eles se tornam uns para os outros.”

“Em matéria de suscetibilidade contra a forma do relato, ninguém superou Marcel Proust. Sua obra pertence à tradição do romance realista e psicológico, na linha da extrema dissolução subjetivista do romance, uma tradição que leva, sem qualquer continuidade histórica em relação ao autor francês, a obras como Niels Lyhne de Jacobsen e Malte Laurids Brigge de Rilke. Quanto mais firme o apego ao realismo da exterioridade, ao gesto do <foi assim>, tanto mais cada palavra se torna um mero <como se>”

“a precisão de Proust, impelida ao quimérico, sua técnica micrológica, sob a qual a unidade do ser vivo acaba se esfacelando em átomos, nada mais é do que um esforço da sensibilidade estética para produzir essa prova, sem ultrapassar os limites do círculo mágico da forma.”

“seu ciclo de romances se inicia com a lembrança do modo como uma criança adormece, e todo o primeiro livro não é senão um desdobramento das dificuldades que o menino enfrenta para adormecer, quando sua querida mãe não lhe dá o beijo de boa-noite.”

“O romance tradicional, cuja idéia talvez se encarne de modo mais autêntico em Flaubert, deve ser comparado ao palco italiano do teatro burguês. Essa técnica era uma técnica de ilusão. O narrador ergue uma cortina e o leitor deve participar do que acontece, como se estivesse presente em carne e osso. A subjetividade do narrador se afirma na força que produz essa ilusão e na pureza da linguagem que, através da espiritualização, é ao mesmo tempo subtraída do âmbito da empiria, com o qual ela está comprometida. Um pesado tabu paira sobre a reflexão: ela se torna o pecado capital contra a pureza objetiva. Hoje em dia, esse tabu, com o caráter ilusório do que é representado, também perde sua força.”

“A nova reflexão é uma tomada de partido contra a mentira da representação, e na verdade contra o próprio narrador, que busca, como um atento comentador dos acontecimentos, corrigir sua inevitável perspectiva.”

“Só hoje a ironia enigmática de Thomas Mann, que não pode ser reduzida a um sarcasmo derivado do conteúdo, torna-se inteiramente compreensível”

“o leitor é ora deixado do lado de fora, ora guiado pelo comentário até o palco, os bastidores e a casa de máquinas. O procedimento de Kafka, que encolhe completamente a distância, pode ser incluído entre os casos extremos, nos quais é possível aprender mais sobre o romance contemporâneo do que em qualquer das assim chamadas situações médias <típicas>. (…) Seus romances, se é que de fato eles ainda cabem nesse conceito, são a resposta antecipada a uma constituição do mundo na qual a atitude contemplativa tornou-se um sarcasmo sangrento

“O sujeito literário, quando se declara livre das convenções da representação do objeto, reconhece ao mesmo tempo a própria impotência, a supremacia do mundo das coisas, que reaparece em meio ao monólogo.”

“uma linguagem de coisa, deterioradamente associativa, como a que entremeia o monólogo não apenas do romancista, mas também dos inúmeros alienados da linguagem primeira, que constituem a massa.”

“40 anos atrás, em sua Teoria do romance, Lukács perguntava se os romances de Dostoiévski seriam as pedras basilares das épicas futuras, caso eles mesmos já não fossem essa épica. De fato, os romances que hoje contam assemelham-se a epopéias negativas.”

“Nenhuma obra de arte moderna que valha alguma coisa deixa de encontrar prazer na dissonância e no abandono.”

“Essas obras estão acima da controvérsia entre arte engajada e arte pela arte, acima da alternativa, entre a vulgaridade da arte tendenciosa e a vulgaridade da arte desfrutável.”

PALESTRA SOBRE LÍRICA E SOCIEDADE, idem anterior, porém publicada como texto em 1957.

“Quem seria capaz de falar de lírica e sociedade, perguntarão, senão alguém totalmente desamparado pelas musas?”

“Mas dizer de grandes obras de arte que elas são ideologia não é simplesmente fazer injustiça ao próprio teor de verdade dessas obras, é também falsear o conceito de ideologia.”

“A idiossincrasia do espírito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação à coisificação do mundo, à dominação das mercadorias sobre os homens, que se propagou desde o início da Era Moderna e que, desde a Revolução Industrial, desdobrou-se em força dominante da vida.”

“Aqueles grandes poetas do passado remoto que são classificados pelos conceitos histórico-literários como representantes da lírica, p.ex. Píndaro e Alceu, mas também boa parte da obra de Walther von der Vogelweide, estão a uma distância descomunal de nossa mais primária representação do que seja a lírica.”

“O eu-lírico acabou perdendo essa unidade com a natureza, e agora se empenha em restabelecê-la, pelo animismo ou pelo mergulho no próprio eu.”

“os segundos que antecedem a bem-aventurança do sono são os mesmos que separam da morte a curta vida. Essa sublime ironia, depois de Goethe, decaiu em sarcasmo.”

“Mas a linguagem também não deve ser absolutizada enquanto voz do Ser, oposta ao sujeito lírico, como agradaria a muitas das teorias ontológicas da linguagem em voga atualmente.”

“A obra de Baudelaire foi a 1ª a registrar esse processo de consumação ou ultimação da ascendência da sociedade sobre o sujeito, na medida em que, como a mais alta conseqüência do Weltschmerz (dor do mundo) europeu, não se contentou com os sofrimentos do indivíduo, mas escolheu como tema de sua acusação a própria modernidade, enquanto negação completa do lírico, extraindo dela suas faíscas poéticas, por força de uma linguagem heroicamente estilizada.”

In ein freundliches Städtchen tret ich ein,

In den Strassen liegt roter Abendschein.

Aus einem offnen Fenster eben,

Über den reichsten Blumenflor

Hinweg, hört man Goldglockkentöne schweben,

Und eine Stimme scheint ein Nachtigallenchor,

Dass die Blüten beben,

Dass die Lüfte leben,

Dass in höherem Rot die Rosen leuchten vor.

Lang hielt ich staunend, lustbeklommen.

Wie ich hinaus vors Tor gekommen,

Ich weiss es wahrlich selber nicht.

Ach hier, wie liegt die Welt so licht!

Der Himmel wogt in purpurnem Gewühle,

Rückwärts die Stadt in goldnem Rauch;

Wie rauscht der Erlenbach,wie rauscht im Grund die Mühle!

Ich bin wie trunken, irrgeführt –

O Muse, du hast mein Herz berührt

Mit einem Liebeshauch!

Mörike

O POEMA DO BEUBO POLIGLOTA

Die Welt ist eine Mühle

Quão ensolarado é o mundo sombrio!

amigável cidadinha

entardecer vermelho espectral

hic!

como cheghic!i aqui?ic

Autotola!foolaDummKopfffff

halo-do-diabo

hálito amável cidade amigável

separação cidade campo litigiosa

cândida pocilga

onde há fumaça doirada

há ouro!

“os ritmos evocam estrofes gregas sem rima” o tradutor brasileiro CAGOU pq RIMOU!

“Os traços supostamente doentios de Mörike, identificados e relatados pelos psicólogos, e mesmo o estancamento de sua produção no último período, são o aspecto negativo de sua extrema compreensão do que é possível. Os poemas desse pároco hipocondríaco de Cleversulzbach, que costuma ser incluído no rol dos artistas ingênuos, são peças de virtuosismo jamais superadas por nenhum mestre de l’art pour l’art.” Não exagera, vai.

In windes-weben

War meine frage

Nur träumerei.

Nur lächeln war

Was du gegeben.

Aus nasser nacht

Ein glanz entfacht —-

Nun drängt der mai

Nun muss ich gar

Um dein aug und haar

Alle tage

In sehnen leben.“

Stefan George

„a atitude aristocrática“ „Ela não é a pose que exaspera o burguês, incapaz de manusear esses poemas, mas o eu-lírico é fruto da dialética que nega a si mesmo a identificação com o status quo enquanto esse mesmo sujeito segue intimamente ligado à realidade vigente” “a forma é medieval de um modo quase imperceptível” “a neo-romântica ausência de qualquer arcaísmo grosseiro eleva a canção acima de toda ficção desesperada, que ela entretanto oferece”

SAID BUT THROUGH… AMMY U.!

“mágica brutal de uma varinha de condão”

“A harmonia da canção é extorquida de uma extrema dissonância: ela se baseia naquilo que Valéry denominava refus, uma implacável recusa a todos os meios pelos quais a convenção lírica imagina capturar a aura das coisas.” “o ouvido do discípulo de Mallarmé ouve sua própria língua como se fosse estrangeira.”

Paradoxo típico de tradutor, o poeta precisa se trair para não trair a si mesmo.

“Assim como, p.ex., as mais sublimes obras musicais não se esgotam puramente na sua construção, mas a transcendem com um par de notas ou compassos supérfluos, o mesmo ocorre nesse poema com o <gar>, uma goetheana <sedimentação do absurdo>, pela qual a língua escapa da intenção subjetiva que trouxe a palavra ao texto.”

EM MEMÓRIA DE EICHENDORFF, idem, e textualizada em 58.

“O ritmo do tempo está abalado. Enquanto as vielas da filosofia ecoam a metafísica do tempo, o próprio tempo, antes medido pelo andamento contínuo do transcorrer de uma vida, alienou-se do humano; precisamente por isso ele é objeto de acirradas discussões.”

“Grandes artistas de vanguarda, como Schoenberg, não precisavam provar para si mesmos, demonstrando raiva em relação aos predecessores, o quanto haviam conseguido escapar da autoridade do passado.”

“A tradição só é negada por aqueles que jamais a romperão”

Um poeta lírico que virou cancionero popular, ideal como acompanhamento de música clássica: “o ciclo Die schöne Müllerin (A bela moleira), de Schubert, só é inteiramente acessível a quem alguma vez cantou, no coro da escola, o arranjo vulgar de Das Wandern ist des Müllers Lust (Passear é o prazer do moleiro).” Devo desistir antes de tentar, então?

“Quem bebe é mais esperto,

Já sente da idéia o gostinho,

Sem nenhum guia por perto,

Sobe aos céus bem rapidinho.”


“Quando agora a noite me encontra

E tudo escurece em severa pompa.”

“Ele não foi um poeta da pátria (Heimat), mas sim um poeta da nostalgia (Heimweh), no sentido de Novalis, de quem se sabia próximo.”

“Enquanto hoje, após a decadência da tradição, o conservadorismo, como um arbitrário elogio aos <vínculos>, serve apenas para justificar um estado de coisas ruim, houve um tempo em que ele queria algo bastante diverso, que só pode ser considerado em relação a seu contrário, a barbárie emergente.”

“Sua superioridade em relação a todos os reacionários que hoje lançam mão de sua obra é comprovada pelo fato de que ele, como também a grande filosofia de sua época, compreendia a necessidade da revolução, que tanto o assustava: ele encarna algo da verdade crítica da consciência daqueles que devem pagar o preço do passo adiante dado pelo Weltgeist.”

Uma atmosfera de tempestade pairava sobre o país inteiro, todos sentiam que algo grandioso estava para acontecer, ma expectativa calada e temerosa, ninguém do quê, havia invadido todos os ânimos, em maior ou menor grau. Nessa atmosfera sufocante apareceram, como sempre ocorre em catástrofes anunciadas, personagens estranhos e aventureiros inacreditáveis, como o Conde Saint-Germain, Cagliostro e outros ‘emissários do futuro’, por assim dizer”

“quanto menos a ordem pré-capitalista pode ser restaurada, mais obstinadamente a ideologia se aferra a sua essência, imaginando-a como sendo a-histórica e absolutamente garantida.”

O toi que la nuit rend si belle

“Eichendorff participa secretamente dessa corrente subterrânea da literatura alemã, que vai do Sturm und Drang e do jovem Goethe até Wedeking, Brecht e o expressionismo, passando por Büchner e muitas obras de Hauptmann.”

“Genialmente falsa é a metáfora do riacho, que murmura <para lá e para cá>, pois o movimento dos rios tem um único sentido, mas esse lá e cá espelha a insensatez daquilo que o murmúrio tem a dizer ao eu, que o escuta, em vez de localizá-lo; expressões como essa antecipam características do Impressionismo.”

Wolken ziehen wie schwere Träume


Se tens uma corça preferida,

Não a deixes pastar sozinha

“Nos contos de fada recolhidos pelos irmãos Grimm, nenhuma floresta é jamais descrita, ou mesmo caracterizada; e que floresta seria mais floresta do que as dos contos de fada?”

SÄNGERLEBEN

Schläft ein Lied in allen Dingen,

Die da träumen fort und fort,

Und die Welt hebt an zu singen,

Triffst du nur das Zauberwort

„Nenhuma das imagens de Eichendorff é apenas aquilo que é, mas nenhuma pode ser levada ao próprio conceito: essa flutuação vacilante do momento alegórico é seu meio poético.”

“Há mais de 50 anos, o esquecido esteta alemão Theodor Meyer desenvolveu, em seu livro Das Stilgesetz der Poesie, uma teoria tão modestamente exposta quanto astuciosamente concebida, contra toda a tradição do Laocoonte de Lessing e certamente sem conhecer Mallarmé.”

Und muss ich, wie im Strome dort die Welle,

Ungehört verrauschen an des Frülings Schwelle

„o murmúrio não é som mas sim ruído”

e cada vez mais rápido, sem parar para descansar, precipitou-se pelos jardins e vinhedos em direção à pacata cidade; pois até o murmúrio das árvores ele ouviu como um sussurro claro e compreensível, e os altos e fantasmagóricos choupos lhe pareciam 3x maiores, com suas longas sombras esticadas”

“exprime um estranhamento que não pode ser superado por nenhum pensamento, apenas pelo puro som.” O grito de Laura Palmer

Dass das weiche Wasser in Bewegung mit der Zeit den Stein besiegt. Du verstehst

Brecht sobre Lao-Tsé Tung (Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Tu me entendes)

EU LA(R)GO DAS PALAVRAS

“O que poderia ser dito de menos interessante sobre uma paisagem noturna, além de que ela é tranqüila? Seria possível imaginar um lugar-comum mais fatal do que a trompa do postilhão? [Mais ou menos equivalente hoje ao carteiro que toca a campainha]”

Um grito no meio da rua numa noite de cidade pequena apaga luzes, não as acende!

Onde a floresta murmura suave”

“Como na recapitulação musical, o poema se fecha em círculo.”

estriBRILHO

“Há mais substância na poesia de Eichendorff do que na dos inauguradores do Romantismo alemão, que ele considerava parte da história e não compreendia tão bem. Se o Romantismo, nas palavras de outro de seus representantes tardios, Kierkegaard, consuma em cada experiência o batismo do esquecimento, consagrando-a à eternidade da lembrança, certamente essa lembrança era necessária para fazer justiça à idéia do Romantismo, em contradição com sua própria imediatidade e presença.”

CODA (dá mais corda)

“O Liederkreis opus 39 de Schumann, sobre poemas de Eichendorff, é um dos grandes ciclos líricos da história da música.”

“da melancolia do primeiro Lied, em sustenido menor, ao êxtase do último, em sustenido maior.” “o último do ciclo, em fá sustenido maior, conduz essa progressão ainda uma quinta acima.” “o quarto desce a sol maior, uma terça em relação ao Lied anterior”

“A peça Wehmut é formalmente um intermezzo, como antes a Waldgespräch, mas agora um intermezzo inteiramente lírico, um momento de <auto-reflexão> do ciclo.”

Nicht schnell

“deve-se pensar em tranqüilas mínimas, não em semínimas.”

“tom maior pálido”

Waldgespräch é uma daquelas composições modelares de Schumman das quais surgiu Brahms.” “Musicalmente, a originalidade está nos acordes discrepantes, alterados cromaticamente, que expressam a ameaçadora atração.” “Sobre a palavra wissen há um acorde de subdominante que, com a formação de um duplo retardo, assume o timbre de um triângulo.”

“a claridade que se transforma em som”

“Pelo modo como esse acorde de nona é disposto e resolvido figurativamente, esse acorde evita a opulência que tantas vezes assume em Wagner, Strauss e compositores mais recentes.”

“o ouvido persegue esses intervalos no infinito”

“Nenhum ouvido atento pode resistir à extensão rítmica das palavras finais, Als flöge sie nach Haus (Como se ele voasse para casa), onde dois compassos 3/8 se transformam em um único.”

“Também aqui a estrofe final é essencialmente um Abgesang, mas o Lied como um todo se abstém de simetrias criadas por repetição”

“arrojadas dissonâncias, provavelmente únicas em Schumann e na 1ª metade do XIX (…) como se a modernidade dessa harmonização quisesse salvar o poema de seu envelhecimento”

legato de vozes harmônicas instrumentais”

Zwielicht, talvez a mais grandiosa peça do ciclo, quanto à forma uma simples canção estrófica, é extremamente contrapontística, em forte contraste com a anterior, trazendo aquela interpretação de Bach, infinitamente produtiva, que escandaliza o historicismo, embora mantenha Bach vivo, em constante metamorfose.”

7 NOTAS

O SER EM SI

DO LADO DE LÁ

CHEGA DÁ DÓ

ANDA DE RÉ

ANTES DE MIM

O FÁDO DO SOL

NA MINHA CABEÇA


cravo bem-temperado de molho pro cozido

“submergindo toda a música em sua profundidade”

“torna mais denso o tecido contrapontístico”

“o constante retorno da oposição entre ritardando e a tempo

“O senso formal de Schumman triunfa no fato de que, para compensar os momentos obstinadamente retardantes, ele escreve um Abgesang que flui quase sem resistência, chegando por isso mesmo a ser extremamente assombroso, embora o ritmo da trompa seja sempre marcado, até as duas últimas notas da parte vocal.”

“O núcleo da melodia da Mondnacht é um acorde de 7ª transposto.” “A aflição intensifica-se quando, antes das palavras Mit dem Mondesglanz herein, omite-se um acento no compasso.” VTNC!

A FERIDA HEINE, conferência textualizada em 56.

“Os nacional-socialistas não foram os primeiros a difamá-lo. Na verdade, eles quase o honraram quando atribuíram seu poema Die Loreley a um hoje célebre <poeta desconhecido>, sancionando inesperadamente como canção folclórica esses versos dissimuladamente cintilantes, que lembram figurinos de ninfas renanas parisienses de uma ópera perdida de Offenbach.”

“O veredicto da Escola de George[?] pode ser atribuído ao nacionalismo, mas o de Karl Kraus não se deixa apagar.”

“Evitam o escândalo aqueles que se limitam ao Heine prosador, cuja estatura é algo que salta aos olhos, em meio ao nível completamente desolador do período entre Goethe e Nietzsche.”

“uma força polêmica não-inibida por nenhum servilismo, algo sempre raro na Alemanha.”

August von Platen, p.ex., teve a oportunidade de experimentar essa força quando redigiu um ataque anti-semita a Heine, sofrendo uma derrota que hoje em dia seria possível chamar de existencial, se o conceito de <existencial> não estivesse sendo tão cuidadosamente preservado do contágio com a existência real dos homens.”

“Desde que Leibniz virou as costas para Spinoza, todo o Iluminismo alemão de certa forma fracassou”

“Politicamente, Heine foi um companheiro inconstante: mesmo em relação ao socialismo. Mas, em contraste com esse movimento, Heine manteve-se fiel, na sua imagem de uma sociedade justa, à idéia de uma felicidade irrestrita, facilmente posta de lado pelo ditado <quem não trabalha não come>. Sua aversão à pureza e ao rigor revolucionários indica a desconfiança diante dos elementos rançosos e ascéticos que, além de permearem vários dos primeiros documentos do socialismo, mais tarde contribuíram para as tendências trágicas de seu desenvolvimento. Mas Heine, o individualista, e em tão alta medida que só ouviu de Hegel a voz do individualismo, não se curvou ao conceito individualista de interioridade. Sua idéia de satisfação dos sentidos compreendia a satisfação com o mundo exterior, uma sociedade sem coerção nem privações.”

“A violência da sociedade capitalista em desenvolvimento já havia se tornado tão grande que a lírica não podia mais ignorá-la, se não quisesse afundar em um intimismo provinciano. Com isso, Heine se equipara a Baudelaire como ponto alto do modernismo do séc. XIX.”

“O hein romântico, que vivia dessa felicidade da autonomia, foi desmascarado pelo Heine iluminista, que trouxa à tona o caráter de mercadoria, até então latente, de suas obras.”

“A essência de Heine não se revelou inteiramente na música daqueles que compuseram suas canções, mas somente 40 anos após sua morte, na obra de Gustav Mahler

REVENDO O SURREALISMO (1956)

“Se o Surrealismo fosse simplesmente uma coletânea de ilustrações literárias e gráficas de Jung ou mesmo de Freud, ele não apenas realizaria uma mera duplicação supérflua daquilo que a própria teoria já exprime, em vez de recorrer a metáforas, como também seria tão inofensivo que não deixaria nenhum espaço para o escândalo”

“Aquilo que é pensado como mero sonho, e isso Cocteau já havia percebido, não afeta a realidade, mesmo que sua imagem possa ser afetada.”

“a espontaneidade, mesmo nos processos psicanalíticos de associação, não é de modo algum espontânea. Todo analista sabe o quanto é trabalhoso e difícil, quanta vontade é requerida para a expressão espontânea, que ocorre na situação analítica graças justamente a esse esforço, um esforço que, certamente, também configura a situação artística pregada pelos surrealistas.”

“Depois da catástrofe européia, os choques surrealistas perderam toda sua força. É como se tivessem salvado Paris preparando a cidade para o medo: o declínio da metrópole foi um de seus temas centrais.”

“quando éramos crianças, as antigas ilustrações devem ter nos excitado como agora as imagens surrealistas.” “O ovo gigante, do qual a cada momento o monstro do juízo final ameaça nascer, parecia tão grande porque, quando pela primeira vez olhamos um ovo e nos assustamos, éramos muito pequenos.”

“A tensão no surrealismo, que se descarrega no choque, está a meio caminho entre a esquizofrenia e a reificação, e justamente por isso não pode ser confundida com uma inspiração psicológica.”

“É difícil supor que algum dos surrealistas conhecesse a Fenomenologia hegeliana, mas uma frase dessa obra, que deve ser pensada em conjunto com a idéia mais geral da história enquanto progresso na consciência da liberdade, define o teor das obras surrealistas.”

“Suas montagens são as verdadeiras naturezas-mortas.”

“As obras pornográficas seriam os melhores modelos do surrealismo. O que acontece nas colagens, o que nelas está contido de modo espasmódico, assemelha-se às alterações que ocorrem em uma imagem pornô no instante da satisfação do voyeur. Nas colagens, os seios cortados, as pernas de manequins em meias de seda, são monumentos aos objetos do instinto pervertido, que outrora despertavam a libido.”

“Como um instantâneo do momento em que se desperta, o surrealismo é parente da fotografia.”

“O surrealismo recolhe o que a Neue Sachlichkeit recusa aos homens; as deformações testemunham o efeito da proibição no que um dia foi desejado. Através das deformações, o surrealismo salva o antiquado, um álbum de idiossincrasias, no qual se desgasta a promessa de felicidade (…) Mas se hoje o surrealismo parece obsoleto, isso ocorre porque os homens já renunciaram a essa consciência da renúncia, capturada no negativo fotográfico do surrealismo.”

SINAIS DE PONTUAÇÃO (1956)

“O ! não se assemelha a um ameaçador dedo em riste? Os ?? não se parecem com luzes de alerta ou com uma piscadela? Os :, segundo Karl Kraus, abrem a boca: coitado do escritor que não souber saciá-los. Visualmente, o ; lembra um bigode caído; é ainda mais forte, para mim, a sensação de seu sabor rústico. Marotas e satisfeitas, as «» lambem os lábios.”

!

:

“Em nenhum de seus elementos a linguagem é tão semelhante à música quanto nos sinais de pontuação. A , e o . correspondem à cadência interrompida e à cadência autêntica. ! são como silenciosos golpes de pratos, ? são acentuações de frases musicais no contratempo, : são acordes de sétima da dominante; e a diferença entre , e ; só será sentida corretamente por quem percebe o diferente peso de um fraseado forte e fraco na forma musical. Mas talvez a idiossincrasia contra os sinais de pontuação, surgida há 50 anos [há 150 anos] e da qual nenhuma pessoa atenta pôde escapar, seja menos a revolta contra um elemento ornamental do que a expressão da forte divergência entre música e linguagem.”

‘ = ponto e vírgula grego

“mas talvez os sinais gregos só tenham sido inventados pelos humanistas do séc. XVI.”

“! tornaram-se insuportáveis como gestos de autoridade, com os quais o escritor pretende introduzir, de fora, uma ênfase que a própria coisa não é capaz de exercer, enquanto a contrapartida musical da exclamação, o sforzato, é ainda hoje tão imprescindível quanto no tempo de Beethoven, quando marcava a irrupção da vontade subjetiva na trama musical. Os !!, porém, degeneraram em usurpadores da autoridade, asserções de importância.”

“Nos textos expressionistas, os !! se assemelham às cifras milionárias das cédulas do período da inflação alemã.”

“O – ainda serve apenas para preparar surpresas traiçoeiras que, justamente por terem sido preparadas, já não mais surpreendem.”

* * *…

“Dispostos como estrofe, os versos destruiriam barbaramente o equilíbrio da linguagem, mas se fossem reproduzidos simplesmente como prosa causariam um efeito ridículo, porque a métrica e a rima soariam como um jogo de palavras feito ao acaso, daí a /. O travessão moderno é demasiado brusco para realizar o que deve ser feito nesses casos. A capacidade de perceber fisiognomicamente tais diferenças é, no entanto, o pressuposto para todo uso adequado dos sinais de pontuação.”

“Mas se aqueles …, tomados da repetição de frações decimais na aritmética, são reduzidos a .., como fez a Escola de George, então o que se pretende é continuar impunemente a reivindicar a infinitude fictícia, na medida em que se apresenta como sendo exato algo que, segundo seu próprio sentido, quer ser inexato.!”

“A pontuação utilizada pelo escrevinhador sem-vergonha não é melhor do que a do escritor envergonhado.”

“As abundantes “” irônicas usadas por Marx e Engels são sombras lançadas pelo procedimento totalitário sobre seus escritos, que tinham em vista justamente o contrário:”

“Quando a sintaxe e a pontuação abdicam do direito de articular e moldar os fatos, de criticá-los, a linguagem está prestes a capitular ao que meramente existe, antes mesmo que o pensamento tenha tempo de realizar outra vez, fervorosamente e por si mesmo, essa capitulação. Isso começa com a perda do ;, e termina com a ratificação da imbecilidade por uma racionalidade depurada de qualquer mistura.”

“O cauteloso se inclinará a colocar as inserções PARENTÉTICAS entre ––, e não entre (), pois estes retiram da frase aquele material, criando o que poderíamos chamar de <enclaves>, ao passo que, na boa prosa, nada deve ser imprescindível para o todo da estrutura. Ao confessar que são prescindíveis, os () renunciam implicitamente à pretensão de integridade da forma lingüística”

“Proust, a quem dificilmente se poderia chamar de filisteu, e cujo pendatismo nada mais é que um aspecto de sua grandiosa força micrológica, não hesitou em utilizar ().”

“(a ilusão de continuidade da narrativa é rompida, e o narrador a-social está disposto a se esgueirar através de todas as suas janelas para iluminar, com a lanterna cega de uma memória de nenhum modo involuntária, o obscuro temps durée.)”

“Diante dos sinais de pontuação, o escritor encontra-se em permanente perigo; se fosse possível, quando se escreve, ter o controle sobre si mesmo, seria perceptível a impossibilidade de usar corretamente qualquer sinal de pontuação, e se desistiria de escrever.”

“Ele não pode confiar nas regras – freqüentemente rígidas e grosseiras, mas também não pode ignorá-las, se não quiser cair em uma espécie de excentricidade ou ferir a essência do que não é aparente, ao sublinhá-lo – e essa não-aparência é o elemento vital da pontuação.”

“O conflito deve ser suportado a cada vez, e é preciso muita força ou muita estupidez para não perder a coragem.”

“Cada sinal cuidadosamente evitado é uma reverência feita pela escrita ao som que ela sufoca.”

O ARTISTA COMO REPRESENTANTE, conferência, texto em 1953.

“a poésie pure de Valéry, o discípulo de Mallarmé, impiedosamente fechada a qualquer comunicação com um suposto público leitor.”

“não é possível pensar o material histórico da literatura alemã sem Baudelaire, apesar –OU JUSTAMENTE POR CAUSA- da intransigência de George, seu grande tradutor.”

“Se a coletânea de poemas de Valéry esboçada por Rilke jamais alcançou o peso das grandes traduções de George, ou das traduções de Swinburne por Borchardt, isso não se deve apenas aos melindres do objeto. Rilke violou a lei fundamental de toda tradução legítima, a fidelidade ao texto

Valéry, Degas, dança, desenho, trad. 2003.

Assim como um leitor meio distraído rabisca nas margens de uma obra e produz, ao sabor da ausência ou do lápis, pequenos seres ou vagas ramagens, ladeando as massas legíveis, farei o mesmo, segundo o capricho da mente, em torno desses poucos estudos de Edgar Degas.”

“Sem dúvida, haveria razões para se escandalizar, quando se vê um filósofo falando de um livro escrito por um poeta esotérico, sobre um pintor obcecado pelo trabalho manual.”

“De um modo geral, as grandes intuições sobre arte ocorrem ou em uma absoluta distância, por uma dedução conceitual não-afetada pela chamada <compreensão artística>, como em Kant ou Hegel, ou nessa absoluta proximidade, a atitude de quem não se confunde com o público, pois se encontra nos bastidores, acompanhando a realização da obra sob o aspecto da fatura, da técnica.”

O que chamo de ‘a grande arte’ é simplesmente a arte que exige que todas as faculdades de um homem sejam nela utilizadas, e cujas obras são tais que todas as faculdades de um outro homem sejam invocadas no interesse de compreendê-las…”

Um amador, um connaisseur do tempo de Júlio II ou de Luís XIV, ficaria muito espantado se lhe contassem que quase tudo o que ele considerava essencial na pintura é hoje não somente negligenciado como está radicalmente ausente das preocupações do pintor e das exigências do público.”

O homem completo está morrendo”

É preciso ter uma idéia elevada, não do que se faz, mas do que se poderá fazer um dia; sem o quê não vale a pena trabalhar

Edgar Degas

Como o jogador perseguido por combinações de partidas, assombrado à noite pelo espectro do tabuleiro de xadrez ou do feltro onde as cartas são lançadas, obcecado por imagens táticas e soluções mais vivas que reais, assim o artista é essencialmente artista.” V.

“a teoria da obra de arte engajada, tal como ela hoje se propagou, simplesmente passa por cima do fato que domina de modo irrevogável a sociedade de troca: a alienação entre os homens e também entre o espírito objetivo e a sociedade que ele exprime e julga. Essa teoria deseja que a arte fale imediatamente aos homens, como se o imediato, em um mundo de mediação universal, pudesse ser realizado imediatamente!”

Mais um desses ermitões que sabem o horário dos trens” Degas

Por vezes me ocorre o pensamento de que o trabalho do artista é um trabalho de tipo muito antigo; o próprio artista é uma sobrevivência, um operário ou um artesão de uma espécie em via de desaparecer, que trabalha em seu próprio quarto, usa procedimentos muito pessoais e muito empíricos, vive na desordem e na intimidade de suas ferramentas, vê o que quer e não o que o cerca, usa potes quebrados, sucata doméstica, objetos condenados … Talvez essas condições estejam mudando, ao aspecto dessas ferramentas improvisadas e do ser singular que com elas se acomoda veremos opor-se o quadro do laboratório pictórico de um homem rigorosamente vestido de branco, com luvas de borracha, obedecendo a um horário muito preciso, armado de aparelhos e de instrumentos estritamente especializados, cada qual com seu lugar e com uma oportunidade exata de uso?” V.

“O artista deve transformar a si mesmo em instrumento: tornar-se até mesmo coisa, se não quiser sucumbir à maldição do anacronismo em meio ao mundo reificado.”

a grande música consiste no cumprimento de “obligations”, de obrigações que o compositor subscreve desde a primeira nota.

Schoenberg, Style and Idea

A arte moderna tende a explorar quase exclusivamente a SENSIBILIDADE SENSORIAL, em prejuízo da sensibilidade geral ou afetiva, e de nossas faculdades de construção, de adição das durações e de transformações pelo espírito. Sabe maravilhosamente bem excitar a atenção e usa todos os meios para excitá-la: intensidades, contrastes, enigmas, surpresas. Captura por vezes, pela sutileza de seus meios ou pela audácia da execução, algumas presas bastante preciosas: estados muito complexos ou muito efêmeros, valores irracionais, sensações em estado nascente, ressonâncias, correspondências, pressentimentos de uma instável profundidade … Mas há um preço a ser pago por estas vantagens” V.

“Não se tornar estúpido, não se deixar enganar, não ser cúmplice: estes são os modos de comportamento social sedimentados na obra de Valéry (…) Para ele, construir obras de arte significa recusar o ópio no qual se transformou a grande arte sensível, desde Wagner, Baudelaire e Manet

“Além disso, pode-se perguntar se, apesar da guinada objetiva que ele confere à interpretação da obra de arte, ele não acaba impondo, como Nietzsche, uma metafísica do artista. Não me atrevo a decidir se Valéry, ou também Nie., superestimaram a arte.”

“contra toda a entronização do gênio, profundamente arraigada, sobretudo na estética alemã, desde Kant e Schelling.”

SOBRE O AUTOR

Adorno doutorou-se em filosofia aos 21 anos com um trabalho sobre Husserl! Sempre nos voltamos contra aquilo que proferimos na hubris da juventude!

“A amizade com Benjamin afeta decisivamente os rumos da reflexão filosófica de Adorno nesse período [do exílio na Inglaterra, e posteriormente EUA].” Em 1949 retorna a Frankfurt. Minima moralia é de 1951.

“No confronto com as correntes positivistas e heideggerianas da época, Adorno publica diversos livros de ensaios, entre eles Prismas, Intervenções e Palavras e sinais.” “Segue escrevendo sobre música, com diversos livros de ensaios e duas grandes monografias, uma sobre Mahler e outra sobre Alban Berg [seu professor]. Em 1966 conclui sua obra filosófica mais ambiciosa, Dialética negativa, e se concentra na realização de uma Teoria estética, que seria publicada postumamente em 1971. Abalado pelo confronto com alunos, nas revoltas estudantis de 1969, Adorno morre de infarto em 6 de agosto do mesmo ano, quando passava férias na cidade de Visp, Suiça.”

+recomendações de A.:

Cartas (Benjamin, Horkheimer, Thomas Mann…)

Dissonâncias. Música no mundo administrado.

Filosofia da Nova Música

Introdução à sociologia da música

Kierkegaard. Construção do estético

Para a metacrítica da teoria do conhecimento. Estudos sobre Husserl e as antinomias filosóficas, 1956 (complemento póstumo ao doutorado precoce?).

Três estudos sobre Hegel

sobre:

Rodrigo Duarte, Adornos, 1997.

Barbara Freitag, A teoria crítica: ontem e hoje, 1986.

Flávio Kothe, Benjamin & Adorno: confrontos, 1979.

Álvaro Valls, Estudos de estética e filosofia da arte: numa perspectiva adorniana, 2002.

DICIONÁRIO

beben: vibrar, chacoalhar

leuchten: brilhar

Nachdichten: recriação poética

Rauch: fumaça

rauschen: murmurar

HENRY VIII

–Curiosa peça de bons costumes–

“…think you see them great,
And follow’d with the general throng and sweat

Of thousand friends; then in a moment, see
How soon this mightiness meets misery:
And, if you can be merry then, I’ll say
A man may weep upon his wedding-day.”

“To-day the French,
All clinquant, all in gold, like heathen gods,
Shone down the English; and, to-morrow, they
Made Britain India: every man that stood
Show’d like a mine. Their dwarfish pages were
As cherubins, all guilt: the madams too,
Not used to toil, did almost sweat to bear
The pride upon them, that their very labour
Was to them as a painting”

ABERGAVENNY

…the devil is a niggard,
Or has given all before, and he begins
A new hell in himself.”

NORFOLK

Grievingly I think,
The peace between the French and us not values
The cost that did conclude it.”

“For France hath flaw’d the league, and hath attach’d
Our merchants’ goods at Bourdeaux.”

“…You know his nature,
That he’s revengeful, and I know his sword
Hath a sharp edge: it’s long and, ‘t may be said,
It reaches far, and where ‘twill not extend,
Thither he darts it. Bosom up my counsel,
You’ll find it wholesome. Lo, where comes that rock
That I advise your shunning.

Enter CARDINAL WOLSEY, the purse borne before him”

“A beggar’s book outworths a noble’s blood.”

NORFOLK

Be advised;
Heat not a furnace for your foe so hot
That it do singe yourself: we may outrun,
By violent swiftness, that which we run at,
And lose by over-running. Know you not,
The fire that mounts the liquor til run o’er,
In seeming to augment it wastes it? Be advised:
I say again, there is no English soul
More stronger to direct you than yourself,
If with the sap of reason you would quench,
Or but allay, the fire of passion.”

“…This holy fox,
Or wolf, or both,–for he is equal ravenous
As he is subtle, and as prone to mischief
As able to perform’t; his mind and place
Infecting one another, yea, reciprocally–
Only to show his pomp as well in France
As here at home, suggests the king our master
To this last costly treaty…”

Sergeant

Sir,
My lord the Duke of Buckingham, and Earl
Of Hereford, Stafford, and Northampton, I
Arrest thee of high treason, in the name
Of our most sovereign king.”

KING HENRY VIII

…Sixth part of each?
A trembling contribution! Why, we take
From every tree lop, bark, and part o’ the timber;
And, though we leave it with a root, thus hack’d,
The air will drink the sap. To every county
Where this is question’d send our letters, with
Free pardon to each man that has denied
The force of this commission: pray, look to ’t;
I put it to your care.”

CARDINAL WOLSEY

Stand forth, and with bold spirit relate what you,
Most like a careful subject, have collected
Out of the Duke of Buckingham.

KING HENRY VIII

Speak freely.

Surveyor

First, it was usual with him, every day
It would infect his speech, that if the king
Should without issue die, he’ll carry it so
To make the sceptre his: these very words
I’ve heard him utter to his son-in-law,
Lord Abergavenny; to whom by oath he menaced
Revenge upon the cardinal.

CARDINAL WOLSEY

Please your highness, note
This dangerous conception in this point.
Not friended-by by his wish, to your high person
His will is most malignant; and it stretches
Beyond you, to your friends.”

KING HENRY VIII

Speak on:
How grounded he his title to the crown,
Upon our fail? to this point hast thou heard him
At any time speak aught?

Surveyor

He was brought to this
By a vain prophecy of Nicholas Hopkins.

KING HENRY VIII

What was that Hopkins?

Surveyor

Sir, a Chartreux friar,
His confessor, who fed him every minute
With words of sovereignty.

KING HENRY VIII

How know’st thou this?

Surveyor

Not long before your highness sped to France,
The duke being at the Rose, within the parish
Saint Lawrence Poultney, did of me demand
What was the speech among the Londoners
Concerning the French journey: I replied,
Men fear’d the French would prove perfidious,
To the king’s danger.”

QUEEN KATHARINE

If I know you well,
You were the duke’s surveyor, and lost your office
On the complaint o’ the tenants: take good heed
You charge not in your spleen a noble person
And spoil your nobler soul: I say, take heed;
Yes, heartily beseech you.”

“If, quoth he, I for this had been committed,

As, to the Tower, I thought, I would have play’d

The part my father meant to act upon

The usurper Richard; who, being at Salisbury,

Made suit to come in’s presence; which if granted,

As he made semblance of his duty, would

Have put his knife to him.”

CARDINAL WOLSEY

Now, madam, may his highness live in freedom,
and this man out of prison?

QUEEN KATHARINE

God mend all!”

KING HENRY VIII

There’s his period,
To sheathe his knife in us. He is attach’d;
Call him to present trial: if he may
Find mercy in the law, ‘tis his: if none,
Let him not seek ‘t of us: by day and night,
He’s traitor to the height.

Exeunt”

“Two women placed together makes cold weather”

“Duas mulheres lado a lado fazem do lugar gelado”

“Você ajudará a passar as horas;

Sente no meio destas senhoras.”

SANDS

By my faith,

And thank your lordship. By your leave, sweet ladies:

If I chance to talk a little wild, forgive me;

I had it from my father.

ANNE

Was he mad, sir?

SANDS

O, very mad, exceeding mad, in love too:

But he would bite none; just as I do now,

He would kiss you twenty with a breath.

Kisses her”

BUCKINGHAM

(…)

You few that loved me,

And dare be bold to weep for Buckingham,

His noble friends and fellows, whom to leave

Is only bitter to him, only dying,

Go with me, like good angels, to my end;

And, as the long divorce of steel falls on me,

Make of your prayers one sweet sacrifice,

And lift my soul to heaven. Lead on, o’ God’s name.”

“Nay, Sir Nicholas,

Let it alone; my state now will but mock me.

When I came hither, I was lord high constable

And Duke of Buckingham; now, poor Edward Bohun:

Yet I am richer than my base accusers,

That never knew what truth meant: I now seal it;

And with that blood will make ‘em one day groan for’t.

My noble father, Henry of Buckingham,

Who first raised head against usurping Richard,

Flying for succor to his servant Banister,

Being distress’d, was by that wretch betray’d,

And without trial fell; God’s peace be with him!

Henry the Seventh succeeding, truly pitying

My father’s loss, like a most royal prince,

Restored me to my honours, and, out of ruins,

Made my name once more noble. Now his son,

Henry the Eighth, life, honour, name and all

That made me happy at one stroke has taken

For ever from the world. I had my trial,

And, must needs say, a noble one; which makes me,

A little happier than my wretched father:

Yet thus far we are one in fortunes: both

Fell by our servants, by those men we loved most;

A most unnatural and faithless service!

Heaven has an end in all: yet, you that hear me,

This from a dying man receive as certain:

Where you are liberal of your loves and counsels

Be sure you be not loose; for those you make friends

And give your hearts to, when they once perceive

The least rub in your fortunes, fall away

Like water from ye, never found again

But where they mean to sink ye.”

Chamberlain

I left him private,

Full of sad thoughts and troubles.

NORFOLK

What’s the cause?

Chamberlain

It seems the marriage with his brother’s wife

Has crept too near his conscience.

SUFFOLK

No, his conscience

Has crept too near another lady.

NORFOLK

‘Tis so:

This is the cardinal’s doing, the king-cardinal:

That blind priest, like the eldest son of fortune,

Turns what he list. The king will know him one day.”

NORFOLK

How holily he works in all his business!

And with what zeal! for, now he has crack’d the league

Between us and the emperor, the queen’s great nephew,

He dives into the king’s soul, and there scatters

Dangers, doubts, wringing of the conscience,

Fears, and despairs; and all these for his marriage:

And out of all these to restore the king,

He counsels a divorce; a loss of her

That, like a jewel, has hung twenty years

About his neck, yet never lost her lustre;

Of her that loves him with that excellence

That angels love good men with…”

“…his curses and his blessings

Touch me alike, they’re breath I not believe in.

I knew him, and I know him; so I leave him

To him that made him proud, the pope.”

KING HENRY VIII

Who’s there, ha?

NORFOLK

Pray God he be not angry.

KING HENRY VIII

Who’s there, I say? How dare you thrust yourselves

Into my private meditations?

Who am I? ha?”

CARDINAL WOLSEY

…All the clerks,

I mean the learned ones, in Christian kingdoms

Have their free voices: Rome, the nurse of judgment,

Invited by your noble self, hath sent

One general tongue unto us, this good man,

This just and learned priest, Cardinal Campeius;

Whom once more I present unto your highness.”

CARDINAL WOLSEY

[Aside to GARDINER] Give me your hand much joy and

favour to you;

You are the king’s now.

GARDINER

[Aside to CARDINAL WOLSEY]

But to be commanded

For ever by your grace, whose hand has raised me.”

“O, my lord,

Would it not grieve an able man to leave

So sweet a bedfellow? But, conscience, conscience!

O, ‘tis a tender place; and I must leave her.

Exeunt”

ANNE

O, God’s will! much better
She ne’er had known pomp: though’t be temporal,
Yet, if that quarrel, fortune, do divorce
It from the bearer, ‘tis a sufferance panging
As soul and body’s severing.

Old Lady

Alas, poor lady!
She’s a stranger now again.”

ANNE

By my troth and maidenhead,
I would not be a queen.

Old Lady

Beshrew me, I would,
And venture maidenhead for’t; and so would you,
For all this spice of your hypocrisy:
You, that have so fair parts of woman on you,
Have too a woman’s heart; which ever yet
Affected eminence, wealth, sovereignty;
Which, to say sooth, are blessings…”

CHAMBERLAIN, Aside

I have perused her well;
Beauty and honour in her are so mingled
That they have caught the king: and who knows yet
But from this lady may proceed a gem
To lighten all this isle? I’ll to the king,
And say I spoke with you.
Exit Chamberlain

Old Lady

How tastes it? is it bitter? forty pence, no.
There was a lady once, ‘tis an old story,
That would not be a queen, that would she not,
For all the mud in Egypt: have you heard it?

ANNE

Come, you are pleasant.

Old Lady

With your theme, I could
O’ermount the lark. The Marchioness of Pembroke!
A thousand pounds a year for pure respect!
No other obligation! By my life,
That promises moe thousands: honour’s train
Is longer than his foreskirt. By this time
I know your back will bear a duchess: say,
Are you not stronger than you were?”

A descrição cenográfica mais completa que já li em Shakespeare:

SCENE IV. A hall in Black-Friars.

Trumpets, sennet, and cornets. Enter two Vergers, with short silver wands; next them, two Scribes, in the habit of doctors; after them, CANTERBURY alone; after him, LINCOLN, Ely, Rochester, and Saint Asaph; next them, with some small distance, follows a Gentleman bearing the purse, with the great seal, and a cardinal’s hat; then two Priests, bearing each a silver cross; then a Gentleman-usher bare-headed, accompanied with a Sergeant-at-arms bearing a silver mace; then two Gentlemen bearing two great silver pillars; after them, side by side, CARDINAL WOLSEY and CARDINAL CAMPEIUS; two Noblemen with the sword and mace. KING HENRY VIII takes place under the cloth of state; CARDINAL WOLSEY and CARDINAL CAMPEIUS sit under him as judges. QUEEN KATHARINE takes place some distance from KING HENRY VIII. The Bishops place themselves on each side the court, in manner of a consistory; below them, the Scribes. The Lords sit next the Bishops. The rest of the Attendants stand in convenient order about the stage”

QUEEN KATHARINE

…  Alas, sir,
In what have I offended you? what cause
Hath my behavior given to your displeasure,
That thus you should proceed to put me off,
And take your good grace from me? Heaven witness,
I have been to you a true and humble wife,
At all times to your will conformable;
Ever in fear to kindle your dislike,
Yea, subject to your countenance, glad or sorry
As I saw it inclined: when was the hour
I ever contradicted your desire,
Or made it not mine too? Or which of your friends
Have I not strove to love, although I knew
He were mine enemy? what friend of mine
That had to him derived your anger, did I
Continue in my liking? nay, gave notice
He was from thence discharged. Sir, call to mind
That I have been your wife, in this obedience,
Upward of twenty years, and have been blest
With many children by you: if, in the course
And process of this time, you can report,
And prove it too, against mine honour aught,
My bond to wedlock, or my love and duty,
Against your sacred person, in God’s name,
Turn me away; and let the foul’st contempt
Shut door upon me, and so give me up
To the sharp’st kind of justice. Please you sir,
The king, your father, was reputed for
A prince most prudent, of an excellent
And unmatch’d wit and judgment: Ferdinand,
My father, king of Spain, was reckon’d one
The wisest prince that there had reign’d by many
A year before: it is not to be question’d
That they had gather’d a wise council to them
Of every realm, that did debate this business,
Who deem’d our marriage lawful: wherefore I humbly
Beseech you, sir, to spare me, till I may
Be by my friends in Spain advised; whose counsel
I will implore: if not, i’ the name of God,
Your pleasure be fulfill’d!”

QUEEN KATHARINE

I will, when you are humble; nay, before,
Or God will punish me. I do believe,
Induced by potent circumstances, that
You are mine enemy, and make my challenge
You shall not be my judge: for it is you
Have blown this coal betwixt my lord and me;
Which God’s dew quench! Therefore I say again,
I utterly abhor, yea, from my soul
Refuse you for my judge; whom, yet once more,
I hold my most malicious foe, and think not
At all a friend to truth.

CARDINAL WOLSEY

I do profess
You speak not like yourself; who ever yet
Have stood to charity, and display’d the effects
Of disposition gentle, and of wisdom
O’ertopping woman’s power. Madam, you do me wrong:
I have no spleen against you; nor injustice
For you or any: how far I have proceeded,
Or how far further shall, is warranted
By a commission from the consistory,
Yea, the whole consistory of Rome.”

QUEEN KATHARINE

My lord, my lord,
I am a simple woman, much too weak
To oppose your cunning. You’re meek and
humble-mouth’d;
You sign your place and calling, in full seeming,
With meekness and humility; but your heart
Is cramm’d with arrogancy, spleen, and pride.
You have, by fortune and his highness’ favours,
Gone slightly o’er low steps and now are mounted
Where powers are your retainers, and your words,
Domestics to you, serve your will as’t please
Yourself pronounce their office. I must tell you,
You tender more your person’s honour than
Your high profession spiritual: that again
I do refuse you for my judge; and here,
Before you all, appeal unto the pope,
To bring my whole cause ‘fore his holiness,
And to be judged by him.

She curtsies to KING HENRY VIII, and offers to depart

Crier

Katharine Queen of England, come into the court.

GRIFFITH

Madam, you are call’d back.

QUEEN KATHARINE

What need you note it? pray you, keep your way:
When you are call’d, return. Now, the Lord help,
They vex me past my patience! Pray you, pass on:
I will not tarry; no, nor ever more
Upon this business my appearance make
In any of their courts.

Exeunt QUEEN KATHARINE and her Attendants

KING HENRY VIII

Go thy ways, Kate:
That man i’ the world who shall report he has
A better wife, let him in nought be trusted,
For speaking false in that: thou art, alone,
If thy rare qualities, sweet gentleness,
Thy meekness saint-like, wife-like government,
Obeying in commanding, and thy parts
Sovereign and pious else, could speak thee out,
The queen of earthly queens: she’s noble born;
And, like her true nobility, she has
Carried herself towards me.”

CARDINAL CAMPEIUS

So please your highness,
The queen being absent, ‘tis a needful fitness
That we adjourn this court till further day:
Meanwhile must be an earnest motion
Made to the queen, to call back her appeal
She intends unto his holiness.

KING HENRY VIII

(Aside) I may perceive
These cardinals trifle with me: I abhor
This dilatory sloth and tricks of Rome.
My learn’d and well-beloved servant, Cranmer,
Prithee, return: with thy approach, I know,
My comfort comes along. Break up the court:
I say, set on.

Exeunt in manner as they entered”

QUEEN KATHARINE

O, good my lord, no Latin;
I am not such a truant since my coming,
As not to know the language I have lived in:
A strange tongue makes my cause more strange,
suspicious;
Pray, speak in English: here are some will thank you,
If you speak truth, for their poor mistress’ sake;
Believe me, she has had much wrong: lord cardinal,
The willing’st sin I ever yet committed
May be absolved in English.”

CARDINAL CAMPEIUS

Most honour’d madam,
My Lord of York, out of his noble nature,
Zeal and obedience he still bore your grace,
Forgetting, like a good man your late censure
Both of his truth and him, which was too far,
Offers, as I do, in a sign of peace,
His service and his counsel.”

“Ye have angels’ faces, but heaven knows your hearts.
What will become of me now, wretched lady!
I am the most unhappy woman living.
Alas, poor wenches, where are now your fortunes!
Shipwreck’d upon a kingdom, where no pity,
No friend, no hope; no kindred weep for me;
Almost no grave allow’d me: like the lily,
That once was mistress of the field and flourish’d,
I’ll hang my head and perish.”

SUFFOLK

The cardinal’s letters to the pope miscarried,
And came to the eye o’ the king: wherein was read,
How that the cardinal did entreat his holiness
To stay the judgment o’ the divorce; for if
It did take place, ‘I do,’ quoth he, ‘perceive
My king is tangled in affection to
A creature of the queen’s, Lady Anne Bullen.’

SURREY

Has the king this?

SUFFOLK

Believe it.

SURREY

Will this work?

Chamberlain

The king in this perceives him, how he coasts
And hedges his own way. But in this point
All his tricks founder, and he brings his physic
After his patient’s death: the king already
Hath married the fair lady.”

“…Katharine no more
Shall be call’d queen, but princess dowager
And widow to Prince Arthur.”

CARDINAL WOLSEY

The packet, Cromwell.
Gave’t you the king?

CROMWELL

To his own hand, in’s bedchamber.

CARDINAL WOLSEY

Look’d he o’ the inside of the paper?

CROMWELL

Presently
He did unseal them: and the first he view’d,
He did it with a serious mind; a heed
Was in his countenance. You he bade
Attend him here this morning.”

CARDINAL WOLSEY [Aside]

…There’s more in’t than fair visage. Bullen!
No, we’ll no Bullens. Speedily I wish
To hear from Rome. The Marchioness of Pembroke!

NORFOLK

He’s discontented.

SUFFOLK

May be, he hears the king
Does whet his anger to him.”

“…yet I know her for
A spleeny Lutheran; and not wholesome to
Our cause, that she should lie i’ the bosom of
Our hard-ruled king. Again, there is sprung up
An heretic, an arch one, Cranmer; one
Hath crawl’d into the favour of the king,
And is his oracle.

NORFOLK

He is vex’d at something.”

HENRY VIII

(…)

My father loved you:
His said he did; and with his deed did crown
His word upon you. Since I had my office,
I have kept you next my heart; have not alone
Employ’d you where high profits might come home,
But pared my present havings, to bestow
My bounties upon you.

CARDINAL WOLSEY

[Aside] What should this mean?”

“He parted frowning from me, as if ruin
Leap’d from his eyes: so looks the chafed lion
Upon the daring huntsman that has gall’d him;
Then makes him nothing. I must read this paper;
I fear, the story of his anger. ‘Tis so;
This paper has undone me: ‘tis the account
Of all that world of wealth I have drawn together
For mine own ends; indeed, to gain the popedom,
And fee my friends in Rome. O negligence!
Fit for a fool to fall by: what cross devil
Made me put this main secret in the packet
I sent the king? Is there no way to cure this?
No new device to beat this from his brains?
I know ‘twill stir him strongly; yet I know
A way, if it take right, in spite of fortune
Will bring me off again. What’s this? ‘To the Pope!’”

“Vain pomp and glory of this world, I hate ye:
I feel my heart new open’d. O, how wretched
Is that poor man that hangs on princes’ favours!
There is, betwixt that smile we would aspire to,
That sweet aspect of princes, and their ruin,
More pangs and fears than wars or women have:
And when he falls, he falls like Lucifer,
Never to hope again.”

“I feel within me
A peace above all earthly dignities,
A still and quiet conscience. The king has cured me,
I humbly thank his grace; and from these shoulders,
These ruin’d pillars, out of pity, taken
A load would sink a navy, too much honour:
O, ‘tis a burthen, Cromwell, ‘tis a burthen
Too heavy for a man that hopes for heaven!”

CROMWELL

O my lord,
Must I, then, leave you? must I needs forego
So good, so noble and so true a master?
Bear witness, all that have not hearts of iron,
With what a sorrow Cromwell leaves his lord.
The king shall have my service: but my prayers
For ever and for ever shall be yours.

(…)

Had I but served my God with half the zeal
I served my king, he would not in mine age
Have left me naked to mine enemies.”

“But, I beseech you, what’s become of Katharine,
The princess dowager? how goes her business?

First Gentleman

That I can tell you too. The Archbishop
Of Canterbury, accompanied with other
Learned and reverend fathers of his order,
Held a late court at Dunstable, six miles off
From Ampthill where the princess lay; to which
She was often cited by them, but appear’d not:
And, to be short, for not appearance and
The king’s late scruple, by the main assent
Of all these learned men she was divorced,
And the late marriage made of none effect
Since which she was removed to Kimbolton,
Where she remains now sick.”

CAPUCIUS

Madam, in good health.

KATHARINE

So may he ever do! and ever flourish,
When I shal l dwell with worms, and my poor name
Banish’d the kingdom! Patience, is that letter,
I caused you write, yet sent away?

PATIENCE

No, madam.

Giving it to KATHARINE

KATHARINE

Sir, I most humbly pray you to deliver
This to my lord the king.”

HENRY VIII

(…)

You take a precipice for no leap of danger,
And woo your own destruction.

CRANMER

God and your majesty
Protect mine innocence, or I fall into
The trap is laid for me!”

“…Look, the good man weeps!
He’s honest, on mine honour. God’s blest mother!
I swear he is true–hearted; and a soul
None better in my kingdom. Get you gone,
And do as I have bid you.
Exit CRANMER

He has strangled
His language in his tears.”

Old Lady

Ay, ay, my liege;
And of a lovely boy: the God of heaven
Both now and ever bless her! ‘tis a girl,
Promises boys hereafter. Sir, your queen
Desires your visitation, and to be
Acquainted with this stranger ‘tis as like you
As cherry is to cherry.”

Chancellor

My good lord archbishop, I’m very sorry
To sit here at this present, and behold
That chair stand empty: but we all are men,
In our own natures frail, and capable
Of our flesh; few are angels: out of which frailty
And want of wisdom, you, that best should teach us,
Have misdemean’d yourself, and not a little,
Toward the king first, then his laws, in filling
The whole realm, by your teaching and your chaplains,
For so we are inform’d, with new opinions,
Divers and dangerous; which are heresies,
And, not reform’d, may prove pernicious.”

CRANMER

Is there no other way of mercy,
But I must needs to the Tower, my lords?

GARDINER

What other
Would you expect? you are strangely troublesome.
Let some o’ the guard be ready there.”

KING HENRY VIII

No, sir, it does not please me.
I had thought I had had men of some understanding
And wisdom of my council; but I find none.
Was it discretion, lords, to let this man,
This good man,–few of you deserve that title,–
This honest man, wait like a lousy footboy
At chamber–door? and one as great as you are?
Why, what a shame was this! Did my commission
Bid ye so far forget yourselves? I gave ye
Power as he was a counsellor to try him,
Not as a groom: there’s some of ye, I see,
More out of malice than integrity,
Would try him to the utmost, had ye mean;
Which ye shall never have while I live.”

Garter

Heaven, from thy endless goodness, send prosperous
life, long, and ever happy, to the high and mighty
princess of England, Elizabeth!”

KING HENRY VIII

Thank you, good lord archbishop:
What is her name?

CRANMER

Elizabeth.

KING HENRY VIII

Stand up, lord.

KING HENRY VIII kisses the child

With this kiss take my blessing: God protect thee!
Into whose hand I give thy life.”

“This royal infant–heaven still move about her!–
Though in her cradle, yet now promises
Upon this land a thousand thousand blessings,
Which time shall bring to ripeness: she shall be–
But few now living can behold that goodness–
A pattern to all princes living with her,
And all that shall succeed: Saba was never
More covetous of wisdom and fair virtue
Than this pure soul shall be: all princely graces,
That mould up such a mighty piece as this is,
With all the virtues that attend the good,
Shall still be doubled on her: truth shall nurse her,
Holy and heavenly thoughts still counsel her:
She shall be loved and fear’d: her own shall bless her;
Her foes shake like a field of beaten corn,
And hang their heads with sorrow: good grows with her:
In her days every man shall eat in safety,
Under his own vine, what he plants; and sing
The merry songs of peace to all his neighbours:
God shall be truly known; and those about her
From her shall read the perfect ways of honour,
And by those claim their greatness, not by blood.
Nor shall this peace sleep with her: but as when
The bird of wonder dies, the maiden phoenix,
Her ashes new create another heir,
As great in admiration as herself;
So shall she leave her blessedness to one,
When heaven shall call her from this cloud of darkness,
Who from the sacred ashes of her honour
Shall star-like rise, as great in fame as she was,
And so stand fix’d: peace, plenty, love, truth, terror,
That were the servants to this chosen infant,
Shall then be his, and like a vine grow to him:
Wherever the bright sun of heaven shall shine,
His honour and the greatness of his name
Shall be, and make new nations: he shall flourish,
And, like a mountain cedar, reach his branches
To all the plains about him: our children’s children
Shall see this, and bless heaven.”

CRANMER

She shall be, to the happiness of England,
An aged princess; many days shall see her,
And yet no day without a deed to crown it.
Would I had known no more! but she must die,
She must, the saints must have her; yet a virgin,
A most unspotted lily shall she pass
To the ground, and all the world shall mourn her.”

EPILOGUE
‘Tis ten to one this play can never please
All that are here: some come to take their ease,
And sleep an act or two; but those, we fear,
We have frighted with our trumpets; so, ‘tis clear,
They’ll say ‘tis naught: others, to hear the city
Abused extremely, and to cry ‘That’s witty!’
Which we have not done neither: that, I fear,
All the expected good we’re like to hear
For this play at this time, is only in
The merciful construction of good women;
For such a one we show’d ‘em: if they smile,
And say ‘twill do, I know, within a while
All the best men are ours; for ‘tis ill hap,
If they hold when their ladies bid ‘em clap.”

CASO SUZANNE URBAN – Binswanger (trad. Tadeu Costa Andrade)

Fonte: https://www.yumpu.com/pt/document/read/12536208/o-caso-suzanne-urban-psicopatologia-fenomenologica-

DIC:

Beeindruckbarkeit: impressionabilidade

Besessenheit: obsessão; possessão (demoníaca).

In der Wirklichkeitstehen: estar com os pés no chão (terra; realidade)

lazareto: hospital de leprosos, espaço destinado à quarentena

mit-teilsam: com-unicativo

Selbst-Verblendung: autocegamento

Verantwortlichkeit: responsabilidade


Da ist eine Fliege in meiner Suppe”

ins Dasein kommen” vir-a-ser

Desde que eu me entendo por gente

Caso Ilse: o <ponto de partida> era o amor passional pelo pai e o sofrimento constante pelos maus-tratos que ele dispensava à mãe.”

“Enquanto, no Caso Ilse, o Dasein estaba sob uma alta-tensão que durou muitos anos e <deu vazão> a si mesma primeiramente no sacrifício da queimadura, depois no delírio de perseguição e no delírio amoroso, a alta-tensão sob a qual está o Dasein no caso Suzanne Urban mostra-se não apenas em um amor <idólatra> pelos pais, mas também em um culto amoroso hipocondríaco <quase anormal> aos pais e ao esposo. Esse culto é afetado profundamente e é colocado sob a máxima prova quando o esposo (um primo) contrai câncer na bexiga.” “Além disso, ressalte-se que não se trata de um delírio de perseguição singular <residual> que se liga a uma vivência de desabamento do mundo, como no caso Schreber-Flechsig, mas, como nos casos Lola e Ilse, de um delírio de perseguição anônimo ou plural.”

(Nota: os títulos a seguir foram insertos por mim de forma arbitrária, não correspondendo nem à posição dos capítulos e tópicos do livro nem coincidindo em nomenclatura.)

1. A FAMÍLIA RELATA O CASO

“nenhuma amizade autêntica.”

“Sobretudo nos últimos anos, colocou que o ideal haveria sido não ter se casado, mas ter feito carreira no teatro. Natureza muito erótica (…) gostava de contar ao velho pai piadinhas eróticas.”

Quem não vira artista fica doido; mas e o artista, anormal, fica o quê?

“Quando menina, era notavelmente bonita. (…) Não agia como uma coquette” “Tornou-se noiva de um primo muito rapidamente”

“Aos 27 anos começaram ataques de espirro paroxísticos [?] que permaneceram fechados à influência terapêutica. A organoterapia junto a renomados laringologistas falhou completamente.”

“O marido era dominado pela esposa, cedia a ela constantemente”“só tinha interesse pelo câncer do marido, não suportava qualquer outro assunto. Indignava-se se alguém risse em sua frente. Queria acima de tudo matar o marido ela mesma e suicidar-se depois. Desejava um acidente que trouxesse a morte para os dois.” “Insultava os médicos porque eles não matavam o marido.”

“A paciente ingressou num hospital psiquiátrico (…) desde o começo, acreditava que estava sendo observada, perseguida pela polícia, radiografada; segundo ela, a família (…) estava tomando seus bens; no parque havia fios elétricos que registravam os passos de todos, ela teria sido infectada com sífilis, além de ter câncer, e todas as doenças possíveis. Recusava comida, acreditando que estava envenenada. À noite, vozes entravam-lhe na cabeça e mandavam-na repetir tudo que havia de mau; tudo seria impresso e divulgado por meio de gravadores especiais. Havia fios por toda parte. Mesmo no banho, haveria aparatos que a fotografavam nua para expô-la publicamente. Julgava que misturados aos remédios tomava sêmen de rãs e lagartos, queria vomitar tudo.”

“As idéias persecutórias pioravam cada vez mais. Gritava da janela (…) haviam cortado fora o nariz, as orelhas, os braços da mãe. Os familiares estavam enfiados em meio a fezes, batiam neles com barras de ferro, etc.”

“alta após 4 semanas”

“Nos últimos tempos, envelheceu muito, os cabelos esbranquiçaram rapidamente.”

2. COMO SUZANNE SE VÊ

“[Internada na clínica de Binswanger,] escreveu em poucos dias 2 cadernos completos, em alemão, embora esse não fosse seu idioma natal. (…) A partir dos escritos, pode-se perceber o quão exatamente as informações dadas pela paciente concordam com as dadas pelos familiares do ponto de vista do tempo e dos fatos”

Visto que a doença piorava cada vez mais, que meu marido começou a sofrer de insônia total apesar da medicação e que só comia se o forçavam e se alimentava principalmente de sangue prensado com creme, ovos e carne, os médicos sugeriram, uma vez que não se podia obter o novo medicamento (mesotório) onde morávamos, que fôssemos a Paris, ao que meus familiares também me encorajavam, dizendo que eu devia de toda maneira, embora estivesse arrasada, inconsolável, tentar também isso, a fim de nunca poder me culpar por [não] ter tentado fazer todo o possível para, se não salvar, ao menos prolongar a vida do homem. Essa estadia de 2 meses em P. foi o inferno para o pobre homem; alguns médicos queriam mandar operar meu marido, proposta, contudo, veementemente rejeitado por outros médicos.”

Enquanto eu estou andando pelo parque, eu escuto minhas expressões um tanto triviais serem repetidas por algumas mulheres que estão andando o mais perto possível de mim, a fim de me mostrar que elas ouviram tudo. Isso me deixa frenética. Até mesmo meus pensamentos são repetidos por outras pessoas. Eu digo para minha irmã ‘Nós estamos aqui entre espiões, o que eles querem de mim?’, mas ela apenas ri”

eu pressinto uma corrente elétrica”

tornei-me assassina de toda a família; não isso apenas; eu mando despedaçar a tumba do meu pai. Esses pensamentos me vêm na língua …, que eu nunca usei em casa. (…) e eu, assassina, estou deitada aqui na cama, estou sendo alimentada, estão me dando banho enquanto meus inocentes familiares atormentam-se.”

nós somos mendigas, eu caluniei vocês todos por meio do poder do diabo.”

Agora estou vivendo com a única esperança de escrever um pedido (petição) de que fuzilem as pobres pessoas sofridas ao invés de martirizarem-nas por tanto tempo.”

3. ANOTAÇÕES DE BINSWANGER

“Teriam-na mandado dizer que seu sobrinho é um socialista. Sente depois, com toda a exatidão, que estão arrancando os olhos dele.”

“tão logo conta uma piada, faz mais uma vez censuras a si mesma. (…) Conta com muito gosto as piadas mais sujas. Pergunta quem lhe tirou o entendimento.”

“Em 4 de setembro de 1920 é retirada do hospital psiquiátrico pela irmã imprudente, depois da assinatura de uma declaração rigorosa (…) Desde então, não ouvimos sequer mais uma palavra a seu respeito, e todas as buscas ficaram sem resultado devido aos caos da I e II Guerras Mundiais.”

“Até o último momento, a letra era tão precisa e pequena que a paciente podia colocar toda a história de seu sofrimento em um cartão postal”

4. ANÁLISE DO DASEIN

O médico disse-lhe que havia uma parte da bexiga que estava ferida, mas, quando ele virou as costas, fez para mim uma cara tão terrivelmente desesperançosa que fiquei completamente paralisada (…) de modo que o médico agarrou minha mão para me indicar que eu não devia mostrar a ele nenhuma das minhas sensações. Essa mímica foi uma coisa pavorosa! Meu marido também percebeu algo, talvez, mas exibiu uma expressão completamente amigável e apenas perguntou ao médico de onde isto poderia ter vindo; ele respondeu que isso frequentemente está no sangue, sem que se saiba sua origem.”

“horror mudo”

“Suzanne Urban leu no rosto e na mímica do médico não apenas a sentença de morte do marido, mas também a perspectiva das dores tormentosas que o aguardavam.”

“Todo o Dasein estava agora sob o domínio do tema de que foi encarregado na <cena original>, o tema do <câncer do marido>. Como algo de que alguém é encarregado <a partir de fora>, esse tema implica um encargo, o encargo, propriamente, de <levar a cabo> esse tema de alguma maneira, de não sucumbir a ele, mas vencê-lo.”

“Suzanne Urban agora fala consigo mesma, ouve a si mesma, escuta exclusivamente a si mesma. Se o dito de que todo monólogo é um diálogo (Vossler) é correto, isso também se aplica neste caso.”

“Enquanto o si-mesmo aberto (aberto à verdadeira comunidade) atenua a carga de tal tema falando a respeito dele com um amigo, o si-mesmo que se enclausura com o tema procura carregá-la <exclusivamente> em seus próprios ombros, sem ver que esses ombros se tornaram fracos demais para isso há muito. A essa altura estamos diante do 1º passo desse Dasein em direção ao cegamento do si-mesmo ou à extravagância.”

Vacas não-malhadas e gatos no telhado: “Nachts sind alle Kühe grau”

“Como é regra nos delírios de perseguição plurais, aqui o pretenso fundador da <desgraça de toda a família> [o psiquiatra da internação] vai depressa para o 2º plano para temporariamente dar lugar a uma pessoa completamente diferente (<a prostituta de rua>, a enfermeira) e somente ser mencionado de novo ocasionalmente. O Dr. R. figura aí como aquele que a separou de seu marido (…) o carrasco da família” “Apesar de tudo isso, não parece fora de questão que o Dr. R. deva seu significado de desgraça ou de pavor a uma <identificação atmosférica> com o urologista que <martirizou> o marido com seu exame e lhe revelou o diagnóstico de câncer tão <pavorosamente>. Pois o verdadeiro carrasco, aquele com quem <a desgraça de toda a família> começou, é decerto o médico da cena original

Te peguei pela nota de rodapé.

Tu te tornas eternamente citável pelo artigo que publicas.

“Também a autosseculusão frente aos outros é uma forma desse ser compartilhado (…) Todavia, com isso ainda estamos na superfície, completamente à parte do fato de que a passividade sempre implica uma forma de atividade e vice-versa.”

Mundchen, a boquinha de Munique.

É fitar e começar: start and resume (pressing start): starren: é ver pra crer: que fita, pode crer!

Select your destinyfreedom!

Pausar qualquer progresso.

Engessar qualquer um que deu um pau na máquina que deu pau.

Congelar, reter, dar crise de pânico e resetar.

Meu torpor seguro onde cristalizaram as emoções já faz um tempo.

Já faz um tempo que as pessoas agem como se portas-afora fossem.

Ágora é que são elas, cuspindo na cara dos carnavais.

Parcas fora do baralho, só estão no mundo real –

Presente de hilota e pelego!

Recebo, não nego, dadivoso logro quando hipomaníaco eu estiver.

Rancorosa Lola Corre do Tempo que Assedia a Moça de Somas Bonitas.

Poxa que rosa sua coxa, recorro aos meus pensamentos para encerrar o coro

Com uma mensagem que não escoe pelo ralo: uma ponte entre nossas

Aspirações.

Abismo cheio de miasma, conhecido como el mismo.

Cacarejou a cara do novo dia normal e malogrado.

O Apanhador de Sentidos no Campo do Nonsense.

Em termos de sentido da vida, a única coisa que se apanha, em muitas pessoas, é seu eu-criança. Isso é falta de apanhar, K.! Preguiça mental!

Entorpecido em suas sólidas crenças morais.

Fagulhas de luz negra em seu olhar gasoso, de névoa desinteressada.

História da Moral: Não conte.

Wish-to-do-list:

Ator: doar um

Um ator, atordoar

fina morte morna de morfina

“Em lugar da simesmação autentica do Dasein no sentido da existência, entra a errância sem-fim para o <mundo pavoroso>, para a <odisséia pavorosa>.”

“A notável idiossincrasia das narrações delirantes dos esquizofrênicos está correlacionada ao fato de que o <como> da narração, a representação linguística, pode ser extremamente sucinta e precisa – tão precisa que um leigo, em regra, dará crédito às declarações delirantes da paciente prontamente se elas não forem abstrusas demais –, enquanto o <o quê>, o conteúdo de suas narrativas, é em regra notavelmente impreciso, vago, ambíguo, até mesmo <aventuroso>.”

me sinto como se…”

“Quanto mais evidente é a sinistra entrega de Suzanne à publicidade, mais os órgãos executores dela (aqui como em outros lugares) se subtraem a uma verificação exata. Todos procedem de maneira mais ou menos secreta. (…) está cercada de espiões, contudo não consegue vê-los e identificá-los; ela escuta <um apitar policial>, mas não vê nenhum policial. (…) A despeito do sentimento de ódio para com o Dr. R e para com a <prostituta de rua>, Suzanne, ao contrário do presidente do senado Schreber, não implica com uma pessoa determinada, ao redor da qual circula amor & ódio. Não foi <ele> nem <ela> que armou, mas simplesmente <armaram> uma <armadilha pavorosa>” Bem weberiano!

“Lidamos com duas <linguagens> da paciente ao mesmo tempo: uma linguagem do pavor e uma linguagem da verificação calma e da reflexão. Delírio e reflexão sóbria não se excluem mutuamente”

“Suzanne ouve dia e noite um uivo pavoroso, como o dos lobos. <Tossem> e <cospem> alto diante da janela dela, ela vê grandes facas de cozinha que estão numa janela e grita alto ao ver algumas gotas de sangue sobre o chão, etc.”

“a criada do hospital está vestindo os aventais dela, para <mostrar-lhe> que estão fazendo <revistas> (policiais) em seu quarto. As declarações de uma senhora de que se deveria deixar o gato <dar uma boa mastigada no pássaro>, certos movimentos manuais e o ato de puxar o nariz, tudo isso tem o mesmo sentido, que algumas vezes ela escuta expresso por palavras: <a cabecinha precisa cair>.”

“Depois de pensar como seria bom se quisessem decapitar ela própria (em lugar de seus familiares), ela vê <diante de si> um menino que tem um sabre de brinquedo fazer o movimento da decapitação. Ao capinara grama <mostram> a foice significativamente: <Eu, contudo, entendi o sentido da foice>.”

zombam dela, até mesmo da doença do marido: Câncer, câncer, pelo amor de Deus! Por que não lagosta?”

“O que torna o <paciente que sofre de delírio> alheio a nós, o que o faz parecer alienado não são percepções ou idéias isoladas, mas o fato de seu enclausuramento em um esboço de mundo dominado por um único ou alguns poucos temas, ou seja, enormemente estreito.”

“há os pensamentos que mandam-na pensar!”

“obrigam-na a pensar que os familiares são cobertos com chumbo e piche.”

“O mais tormentoso de todos os tormentos é, na verdade, a obrigação, que parte de um poder diabólico, de caluniar seus familiares <em pensamentos> ou com palavras e, desse modo, de fazer-se culpável pelos martírios e pela decadência tormentosa deles, portanto, de ser uma criminosa, por assim dizer, uma criminosa a contragosto.”

1) ‘voz’ inquisidora; 2) poder caluniador dos pensamentos e das palavras; 3) instância transcendente que reflete o jogo de perguntas e respostas, sendo aceita como destino pela ‘voz’, que no entanto ‘corrige’ as respostas quando necessário.

“Aí vemos que O Dasein ainda consegue resistir à publicização dos <pensamentos> ou, ao menos, ainda consegue encará-la de frente se ela estiver em extrema contradição com o si-mesmo. No entanto, é claro que as acusações caluniadores surgem a partir do próprio Dasein.”

Detalhe curioso: a ‘voz’ diz-lhe injustamente o tempo todo que seu marido, inocente, é um falso-moedeiro. “Em Kreuzlingen [segunda internação, na Suíça], ela sempre ouve o martelar de uma forja <nos ouvidos>, que indica que ali mora a mulher do falsificador de dinheiro!”

“E se alguém designa todos esses pensamentos como idéias delirantes, declara ela energicamente: Não são idéias delirantes, são idéias verdadeiras! E logo após Suzanne faz de novo um relato completamente objetivo sobre o novo medicamento que foi inventado contra o câncer em Munique e que seu irmão buscará.”

“a intenção de matar o marido com veneno (arsênico) agora é colocada como a causa de sua internação no 1º hospital”

A paciente passa a se arranhar (no lugar da enfermeira), a se masturbar sem consideração com quem a assiste ao invés de ter vergonha de qualquer atitude em seclusão, uma vez que é sempre, de alguma forma, filmada e gravada: “O mundo compartilhado, que normalmente tem o papel principal no delírio, aqui afunda em direção à completa insignificância. O Dasein retorna à vida no próprio corpo e ao gozo do próprio corpo, agora não mais na seclusão do mundo com-partilhado, mas <diante dos olhos dele>.”

ESPACIALIZAÇÃO DO DASEIN ou TEATRO DA PERSEGUIÇÃO: “Ellen West designava seu Dasein como uma prisão, uma rede e, sobretudo, um palco, cujas saídas estão ocupadas por homens armados <de espadas sacadas>

Jemandem auf den Leibrücken

“Mesmo os pensamentos são <coisas> que são como que tiradas de um recipiente e inseridas nele.”

“mundo sinistro marionético” “Essa consciência de ser uma simples marionete nas mãos de manipuladores desconhecidos está relacionada ao que há de mais pavoroso nos pavores” “Também o predomínio da tecnologia e do maquinário tecnológico está correlacionado à redução do mundo desse delírio a um simples mundo do contato.”

Minkowski – Les notions de distance vécue

E agora, que devir poderá dar uma condição de possibilidade de me salvar? EEEEuuuuuuu

Já conhecemos da <experiência natural> o papel da polícia como um poder sinistro-anônimo. É preciso ler somente O Processo de Kafka para ter uma idéia do tipo, da dimensão e do efeito desse poder. Além da polícia, agora entram em ação também seus companheiros, seja a mando dela, seja por conta própria.” “o médico encaminhador ou ‘carrasco’, os enfermeiros, os outros pacientes, os companheiros de viagem, etc.” “órgãos executores do pavoroso

“Em todos os casos, trata-se das formas do pegar ou ser-pego por algo relacionados ao mundo compartilhado, no sentido da impressionabilidade.

“Acima desses <ramos> dos órgãos executores do pavoroso e, especialmente, acima da polícia, encontramos – como contratantes – o partido (anti-socialista), o exército de ocupação (vive-se então a Primeira Guerra Mundial) ou mesmo o Estado. E sobre tudo isso está simplesmente o poder diabólico do pavoroso, que ora é apenas pressentido, ora é ouvido como uma ‘voz’ terrível.”

“Apesar de ele assumir uma voz, não se chega manifestamente à personificação propriamente dita do poder do pavoroso na forma de um diabo ou um demônio, como muitas vezes podemos constatar em outros casos. Em todo caso, também não ouvimos dizer nada sore visões diabólicas.”

Szilasi – Potência e impotência do espírito

5.O PALCO: CASO ELLEN WEST X CASO URBAN. QUANDO A PEÇA ENCENADA E MUITO CONVINCENTE TORNA-SE POR FIM O REAL (TEATRO DO PAVOR). REFERÊNCIA À TRAGÉDIA GREGA CLÁSSICA.

“o Dasein que adentrou o símile do palco de Ellen West está de uma vez por todas cercado por cortinas que não podem ser deslocadas, por inimigos insuperáveis.”

Resignação como a “ajuda que vem do próprio Dasein”.

“Uma vez que a possibilidade de ser da impressionabilidade se autonomize completamente e, com isso, se torne desmedida e ilimitada, e, consequentemente, o Dasein se limite ao recebimento de impressões, fala-se de alucinação. Se essa receptividade estiver sob a supremacia do pavoroso e obtiver instruções dele, trata-se necessariamente de alucinações pavorosas. O mesmo vale para os pensamentos.”

“O <palco> inteiro está posto em cena por um único <diretor>, por um único poder que confere sentido e dá uma direção. É apenas a partir desse poder que todos os atos que conferem e cumprem sentidos recebem sua diretiva e seu cumprimento intencional.”

Mergulho na viscosa piscina do delírio. Fácil entrar, difícil sair.

“Enquanto o delírio é uma das formas da sujeição do Dasein a esse poder do pavoroso, o mito e a religião, a poesia e a filosofia representam, pelo contrário, formas da superação dele.” “O pavoroso diz respeito ao Dasein em seu isolamento no autismo

Partida bem disputada antes da partida bem acenada

como se…” símile, analogia, erga mínimo distanciamento, abstração, consideração fria de uma autoimagem – diferente de quando se passa ao delírio (psicose) p.d.

“O ser-espiritual é exatamente esse retorno, esse recuperar-a-si-mesmo do tumulto do mundo, a possibilidade da capacidade de ser no espírito.”

passa-se à voz passiva do ente

“O próprio pavoroso-aflitivo se transformou aqui: em lugar do marido, encontramos toda a família ameaçada pelo martírio e pela morte, no lugar do martírio por uma doença incurável, entraram os martírios feitos pela polícia, etc.”

“Daí resulta que, para a compreensão do delírio, não podemos recorrer nem a um distúrbio do juízo em termos de um equívoco, nem a um distúrbio de percepção sensorial, de ilusão por meio de alucinações. Ambos são já consequências da transformação da estrutura do ser-no-mundo como um todo, no sentido do ser-no-mundo deliróide.”

“Ele não se porta de maneira diferente de uma pessoa a quem aconteceu uma injustiça real. Não tem somente a necessidade de <dizer o que sofre>, mas também de defender a si mesmo e os outros dos sofrimentos. (…) o contato com o mundo compartilhado não está de nenhuma maneira interrompido.”

Quem tem inimigos sempre tem testemunhas e objetos neutros no universo. Não houvesse isso, seria apenas uma câmara de yin-yang e partir-se-ia para o confronto direto. No entanto, o inimigo é covarde, é astuto e “mais sujo” do que nós (os personagens delirantes), precisa recorrer a subterfúgios e a táticas infames para “ganhar de nós”. Como ainda cremos, apesar de tudo, numa justiça como princípio das coisas, olhamos em todos os recantos atrás de alguém que simpatize com nossa causa e perceba a vileza e a má-fé de nossos oponentes-perseguidores.

Desse ponto de vista, aquele que sofre de delírio de perseguição não é de forma alguma autista.” Ele sofre de hiper-realidade. Ele pensa que cometeu o crime perfeito e agora sofre uma retaliação não menos impecável…

O perseguido é um secreto exibicionista.

“a <conversão> dos acontecimentos em <ação> vai muito mais longe do que onde já se chegou ou pode se chegar na tragédia e também no mais arrepiante drama barroco. (…) o delírio (…) supera a (…) tragédia (…) [porque] (…) também os pensamentos [são] recebidos [de fora e incluídos] na ação.”

“aqui, como na tragédia, não há <rua sem-saída>, mas tudo vai a qualquer lugar e vem de qualquer lugar e claramente <se refere a um centro>”, o que, como já ressaltamos, exclui o acaso. (…) [Mas,] enquanto na tragédia o poeta é quem <transforma a matéria-prima com sua força>, no delírio o poder formador (…) é cego, e isso implica DESTRUIR A FORMA” Édipo é o autor dessa mímica infernal.

6. CONTINUAÇÃO DO TÓPICO ANTERIOR. REFERÊNCIA À POESIA DE BAUDELAIRE.

Para usar o idioleto idiótico de Einstein, no delírio de perseguição, deus joga todos os dados que tem à mão!

À procura da batida perfeita, quer dizer da cena perfeita, quer dizer, da cena original.O protótipo de todos os males.

O SONETO DA DESTRUIÇÃO AUTÔMATO-SANGRENTA

Sem cessar, ao meu lado, se agita o Demônio,

Ele nada em torno de mim como um ar impalpável

Eu o trago e sinto que queima meu pulmão

E o enche de um desejo eterno e culpável.

Por vezes ele toma, sabendo meu grande amor pela Arte,

A forma da mais sedutora das mulheres

E, sob pretextos especiosos da tristeza,

Acostuma meu lábio a filtros infames.

Ele me conduz assim, longe do olhar de Deus,

Arquejando e quebrado de fadiga, em meio

Às planícies do Tédio,¹ profundas e desertas.

E lança aos meus olhos cheios² de confusão

Vestimentas sujas, feridas abertas,

É a máquina sangrenta da Destruição!”

Baudelaire

¹ Tártaro

² de cisne

νος

Nada no ar

Ar que queima

Fogo que chamusca,

soterra

Terra que cobre

Tudo de novo.

Imagina se esse eidos pega n’olho

Você vê resultados nos testes de Rorschach?

7. A PARANÓIA DE ROUSSEAU

“nos ocuparemos de um caso especialmente famoso e bem-documentado da literatura mundial, o de Jean-Jacques Rousseau.”

“Esse caso é muito apropriado ao que nos interessa, pois a língua francesa é extraordinariamente rica em expressões metafóricas, que são aquilo de que se trata aqui.”

“Rousseau sofria de um delírio de perseguição completamente não-sangrento, puramente social ou reputacional, em termos de uma difamação levada ao extremo, e, no entanto, nele encontramos um vasto número de expressões da esfera do maquinário e da tecnologia a serviço da destruição.” UnB murky atmosphere

Rousseau, Dialogues (vol. XVIII[!] das Obras completas)

Barbarus hic ego sum quia non intelligor illis”

Ovídio

Aqui sou um bárbaro, pois não me entendem”

agrupamentos, cochichos, risos desrespeitosos, olhares cruéis e selvagens, escárnio… atentados… o inimigo sabe exatamente aquilo que mais nos pode ferir, como que magicamente… somos nós que temos rivais finalmente à nossa altura, ou nossa mente nos prega essa peça tão pesada (nosso maior inimigo é nossa própria inteligência tão sutil em seu masoquismo autoacusatório?)?

esse corredor polonês assintótico, entre a certeza absoluta de ser o bode expiatório e a certeza de ser só um ser-num-mundo-ruim, eternamente em dúvida entre os dois pólos perfeitos, eternamente num julgamento impreciso sobre todos os eventos e circunstâncias em pingue-pongue

Eles encontraram a arte de me fazer sofrer uma morte lenta me mantendo enterrado vivo”

R.

“lama”

“apunhalam-me impunemente”

“tudo é uma armadilha”

“maldade diabólica”

não soa, é!

a ameaça de um vago processo…

ocafka da Kapes

a vingança é impessoal

Imaginem pessoas que começam a colocar cada um uma boa máscara, bem ajustada, que se armam com ferro até os dentes, que surpreendem seu inimigo em seguida, o acertam por trás, colocam-no nu, atam-lhe o corpo, os braços, as mãos, os pés, a cabeça, de modo que ele não possa se mover, colocam-lhe uma mordaça na boca, furam-lhe os olhos, o estendem sobre a terra e passam, enfim, sua nobre vida a massacrá-lo de pavor docemente, de modo que, morrendo por suas feridas, ele não cesse de senti-las tão cedo … a vista cruel deles fere seus olhos por todas as partes … o espetáculo do ódio o aflige e o dilacera ainda mais [na mente que no corpo]”

…estes Senhores conjurados em um complô anônimo para difamar-me, inclusive em face do amanhã…” “o grupo parte de 2 rivais, cujo número rapidamente aumenta para 10, mas gradualmente passa a abranger o mundo inteiro (l’univers)”

neurose de transferência do inimigo mortal zena-carolina (nevrose à 4)

cassaram-lhe a aposentadoria integral

invejavam seu carrão

não o valorizavam o suficiente

obviamente falavam mal dele as suas costas (((sem provas)))

UnB – tornar-se um adulto – emular o progenitor

pessoas falam mal de mim às costas

fazem cartazes, infringem normas do Orkut (sim, com provas!)

desvalorizam-me a olhos vistos (a imbecil que desistiu do curso para cursar medicina diz que Heisenberg não pode ser citado numa aula de Introdução à sociologia, pois “não tem nada a ver”, física nada tem a ver com este mundo compartilhado em que pisamos – e mesmo se tivesse, vc fez uma analogia idiota!!)

o calouro que tomou pinho-sol (como se tivesse sido um litro, foi um gole de desafio, mas isso não importa, é a última coisa que importaria, o que importa é a mofa e a troça, passar adiante este relato mui cômico… e ele não tem direito de se enfezar com essa história, afinal, quem mandou ele… inclusive quebrar o dente numa escada numa festa… que ridículo! que ridículo ele descontar hipócrita e dissimuladamente em seu blog intelectual – ele não tem esse direito! – ele me chamou de chato lá… disse que eu dou sono, eu atrapalho, que NÓS SOMOS BURROS, inadmissível, alguém que tomou um gole de pinho-sol ser superior a nós, ovelhas de rebanho, em qualquer coisa que seja!…apague seu blog, viva de acordo com meus preceitos, seu… doido… retifico… seu menos-que-doido pois eu li em Foucault que doidos são seres complexos e honrados vc é um menos-que-nada-e-além-do-mais-vc-é-um-playboyzinho-que-estudou-no-CEUB, meu pai arquiteto que gosta de ornar a casa com colunas gregas jamais teria dinheiro para pagar 700 reais por mês numa FACULDADE para mim, embora ele custeie minha vida numa cidade longe de Fortaleza num apartamento NO CENTRO DA CIDADE, o que pelas minhas contas, para o ano de 2007, excede com facilidade as 2 mil pratas… ó!)

O curso inteiro virou meu inimigo

Mas tinha começado com um núcleo duro…

Logo me afastei até mesmo dos meus amigos mais próximos, que decerto não compactuavam com nada dessa marmotada toda…

Virei um desconfiado de carteirinha. Estava sendo observado na biblioteca, na cantina…

E depois? Ninguém me deus os parabéns, era mera obrigação… Então, a OBRIGAÇÃO de honrar os pais eu a cancelo, porque eu sou livre. Sua obrigação é sofrer seu destino.

Meu destino foi sofrer meu estágio probatório. E rir no meio de uma pandemia, rir, gargalhar, galhofar cada vez mais alto e espalhafatoso, até o dia que por acidente (pois já não mais me perseguem, as pessoas estão paranoicas com outras coisas muito mais importantes, sem dúvida! estou curado!) – por acidente eu disse! – toparem com seus nomes nodoados num post numa entrada miserável na internet e tudo recomeçar?… MAS ESTE É UM PROCESSO SEM-FIM E AUTORRETROALIMENTADO, não se esqueça! Ele faz e paga e sofre e recebe o que pagou e assim por diante incessante infinitamente até que alunos e professores todos se esmaguem num abraço coletivo cheio de ruído e cólera e, não foi nada demais… insignificante.

No fim, eles têm de admitir: eu sou marcante. Eu tenho digitais, eu marco aquilo que toco. Se transformo em ouro ou cinzas, não interessa, o Dasein não tem – para emitir diagnósticos – qualquer resquício de pressa

A vítima de racismo que comeu uma banana e deixou o agressor com cara de tacho é uma história que me lembra muito a minha!

Eu lavei minha boca e troquei a dentadura, para poder falar (com) coisas(-pessoas) melhores.

Eu sou viciado nessa história porque apesar da dor que me causou e que ainda me causa marginalmente, eu viveria todos estes capítulos de novo e de novo… Se sou doente de alguma coisa, essa é minha doença e ela é com toda certeza absolutamente intencional e culpa minha!

A provocação tem 1000 vozes. É próprio da provocação misturar os gêneros, multiplicar os vocábulos, fazer literatura, e esta integridade da matéria dura que nos provoca vai ser atacada, não somente pela mão armada, mas pelos olhos ardentes, pelas injúrias. O ardor combativo, o neikos, é polivalente.”

Bachelard

Mas e Rousseau?

8.DESCONTINUIDADE TEMPORAL

“No pavor abismal relativo ao diagnóstico de câncer e no congelamento de todo o Dasein, <o tempo> estava, por assim dizer, em repouso, não se desdobrou em seus êxtases e, portanto, o Dasein não existia mais no sentido pleno da palavra.”

ab –ismo (até o exagero)

Mitwelt

mundo.com

niilismo&vc.td.a.ver.

“Enquanto no quarto estudo, o Caso Lola Voss, tivemos que nos contentar essencialmente com a verificação e a descrição dessa transformação, esperamos, neste quinto estudo, ter dado um passo a mais na compreensão daseinanalítica [hm] dela. Temos consciência que ainda estamos longe da meta.”

“A palavra physis vem do verbo phyo (nascer, originar-se).”

Um grau além da citação cruzada ou autocitação: a citação de um livro que é dedicado à própria teoria! Grosso modo: “Como diz Binswanger apud Szilasi …” Binswanger [!!!]

“com a evolução da esquizofrenia crônica, acontece pouca coisa, e sempre menos, na medida em que os pacientes esquizofrênicos não têm experiências novas no sentido da experiência natural, i.e., que <adicionem algo novo> às antigas, mas apenas experiências em termos da monotonia do velho estribilho. Permanece-se fundamentalmente na experiência do elemento geral único, e, assim, <não acontece muita coisa>”

“uma longura que se diferencia da lentidão da depressão.”

“no delírio de perseguição, tem-se uma imensidão de <<novas>> experiências

“A temporalização da longura nunca conduz à temporalização do tédio

“Vale notar que o termo utilizado para <andamento musical> em alemão é Tempo

Adorno riria desse esforço: “Binswanger está tentando distinguir na etimologia de longura e lentidão vestígios de formas diferentes de lidar com o tempo. Infelizmente não é possível manter essas relações etimológicas em português.”

“A palavra para tédio é Langweile, formada pelo adjetivo lang e o substantivo Weile (momento, intervalo de tempo).”

“Se alguém, no convívio da vida e do trabalho, for irritado repetidamente da mesma maneira pela mesma pessoa, <ele não vai suportar para sempre>. Em verdade, aqui se experiencia a generalidade da irritação novamente em cada particularidade, mas não de maneira que (como no delírio) o particular represente o geral e exista somente pela graça dele, mas de modo que o geral se particularize de fato em toda sua dimensão, i.e., experiencie sua plena concreção em cada <ensejo> particular (…) É isso que, frente ao irritante, não suportamos para sempre.”

9. A CONSUMAÇÃO DO PAVOR

Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie

“Só se repare de passagem que eu, a despeito de minha convicção da importância filosófica e científica imperecível do método puramente fenomenológico, não estou no campo do <intuicionismo absoluto> da maneira que Husserl o advoga, razão pela qual ainda sou aberto a contemplações e reflexões, como disse Hans Kunz em O problema do espírito na Psicologia Profunda (art.).”

Dormimos todos juntos sobre vulcões”

Goethe

Naquilo que é teu, também vejo o que é meu”

Ulisses no Ájax de Sófocles

é 1000, tio! run!

é 100&cia.

10. TENTATIVAS DE DIAGNÓSTICO

“quando o clínico fala de pessoa ou personalidade, ele já deixou o campo da análise do Dasein.”

estamos demasiado acostumados a agir como se a doença invadisse uma pessoa saudável como se fosse alguém estranho!”

Tiling, Tipificação e Distúrbio Individual do Espírito, 1904.

“Eu vejo em T., a despeito de seus esquemas psicológicos historicamente condicionados, um predecessor da psiquiatria clínica moderna.”

“Suzanne Urban nunca perdeu sua <orientação> e nunca exibiu os distúrbios de pensamento esquizofrênicos formais. Isso também é importante para o tipo de ocorrência delirante de forma de delírio de nosso caso. Pois, ainda que se diferencie dos casos Strindberg e Rousseau pelo <afeto> melancólico em alto grau, tem em comum com eles a forma do delírio.”

“A alguém que leia o histórico da doença pode surgir a suspeita de que, no caso de Suzanne Urban, se tratasse de um delírio puramente depressivo (<afetivo>, <holotímico> ou <sintímico>). Esta suspeita se funda no fato de que de acordo com a família a doença começou com um <transtorno triste de humor>, que o humor permaneceu até o final depressivo e [que] os delírios [são de tipo] melancólico.”

O delírio de culpabilidade leva a acreditar que se cometeram os crimes mais graves sem que haja razão para tanto, ou transforma más ações pequenas e reais em pecados imperdoáveis. Por causa do crime, não somente o paciente é castigado de maneira atroz nessa e na outra vida, mas também todos [os] seus familiares, o mundo inteiro”

Bleuler

7 x 77: a Bíblia é um manual psiquiátrico de primeira grandeza!

“Aqui não se fala de um pecado imperdoável e de seu castigo atroz.” Suzanne sente-se injustiçada. Além disso ela foi uma “criminosa” completamente passiva (de acordo consigo mesma).

hunter x hunter

paranoid x depressed

sense vs. sense

Muito Além da Melancolia (de Ken?)

Delírio de referência: sistematizado e independente do ciclo crime-culpa-e-castigo. Perto disso, a pura mel-ancolia é uma doce brisa.

“há uma perda das inibições morais que não é conciliável com o diagnóstico de melancolia.”

“Com isso, chegamos ao terreno espinhoso da paranoidia, da parafrenia e da paranóia. Já dizemos de antemão que, juntamente com Kolle, Bleuler, Mayer-Gross e outros, somos da opinião de que, hoje em dia, tanto a paranóia (psicótica) quanto a parafrenia devem ser classificadas como esquizofrenia.”

“Do ponto de vista puramente sintomatológico, o caso S.U. poderia ser classificado como a paraphrenia systematica de Kraepelin, já que se trata aqui de um desenvolvimento sorrateiro de um delírio de perseguição constantemente em avanço sem degeneração da personalidade.” Sublinhados: discordantes do caso S.U.

Este sujeito é incurrável, disse o doktor alemal. Ele não pode ser comido!

“o fosso de lama, semelhantemente à caverna, é uma forma particular especialmente feia, fétida e pútrida de profundeza da terra.”

“Uma vez que o diagnóstico de esquizofrenia parece confirmado, e visto que, <onde idéias delirantes e alucinações … estão em primeiro plano>, fala-se (como em Bleuler) de paranoidia, precisamos incluir o caso nesse subgrupo esquizofrênico e, quanto à orientação delirante, classificá-lo como delírio de perseguição paranóide.” Ainda assim: “não vemos sintomas catatônicos, negativismos, estereotipias, excentricidades, maneirismos e também neologismos ou propriedades lingüísticas esquizofrênicas”.

“paralisia das pernas”: histeria

delírio de perseguição singular (portanto necessariamente identitário, vinculado a um sujeito) x delírio de perseguição plural identitário (teoricamente possível, mas que sempre tenderia a alargar seus inimigos, tendendo ao próximo) x delírio de perseguição plural anônimo (caso S.U.)

INFERÊNCIA DA DESCONFIANÇA

Aquele que não desconfia de ninguém… talvez desconfie de si mesmo.

Aquele que não desconfia de ninguém, nem de si mesmo… talvez simplesmente não exista!

Aquele que desconfia de si mesmo, talvez não desconfie de mais ninguém. Saudável desconfiado! Homem invejável!

Aquele que desconfia de um, mas que não desconfia de si mesmo, pode desafortunadamente desconfiar de muitos.

Mas, amigos, aquele que desconfia de muitos, esse desconfia de todos os homens, mais cedo ou mais tarde!

Schreber, por exemplo, o típico delirante singular, vai sucumbindo ao delírio em degraus – imagem perfeita, porque uma escada não é uma rampa. Há uma descontinuidade, mas a ocorrência de ataques ou surtos agudos, que, pelo menos até o segundo, são visivelmente mais importantes do ponto de vista clínico e do ponto de vista do aprofundamento do delírio. Após o segundo, Schreber já está convencido de que ele está no centro de uma trama que envolve o destino do mundo inteiro. E no entanto é só uma figura que emite a voz. Seu pai ou deus. Há posteriormente certa contração (relaxamento), que podemos chamar de descida da escada.

Suzanne, ao contrário, ignora a escada, dá um drible da vaca no real, mesmo no real do delírio, enquanto o delirante for um Schreber. Quem são os inimigos de Suzanne? A sociedade anônima. Enfermeiras, doutores, bedéis, a polícia inteira da cidade ou do país, todos os fascistas e capitalistas, em última instância. Porque de repente os Urban são um bando de socialistas. O mundo não vai ser salvo nem acabar de maneira alguma, mas esse terremoto com Suzanne no centro de seu palco seria suficiente para liquefazer toda a ordem do seu dia. Ela, a vítima. Não deixarão constar nas manchetes de jornais nem nos livros de história a verdadeira história: que Suzanne é inocente. O Grande Irmão a apanhou. E ele tem infinitos avatares intercambiáveis. O que é que fazem com os perseguidos políticos? Podem muito bem metralhar. Mas se não metralham? Talvez não metralham porque existe o risco de se tornarem mártires! Aí então são mais cosméticos e cirúrgicos: basta com exilá-los, torná-los párias inofensivos, eternas personae non gratae. Se Suzanne está viva, só pode ser esse o tratamento a ela dispensada pelos inimigos ocultos!

O dia em que cri que o apresentador do canal de esportes se dirigia a mim, porque sabia que eu estava na pior. A mim!

A internet escamoteia Cila ou Caribde.

Ou eu bem gostaria que fosse verdade, para vender mais livros…

Quem cai na boca do trombone e é o centro das fofocas quer se matar –

Porque não pode se identificar

Com o lunático solitário que só queria ser falado e criticado!

Ou vice-versa.

Schreber x Professor Flechsig

ódio concentrado, advindo do amor pelo pai

Suzanne x “autoridades”

culpa sem relação interpessoal específica, difundida por todos os sentidos alucinados

culpa totalizante, culpa da própria nulidade social

o delírio seria a vingança da moral contra um eu torpe, que se torna mera coisa, títere no teatro. e sua punição deve ser universalmente contemplada, como num reality show ou grande panóptico avant la lettre, seu corpo nu, sua micção, defecação, o ato de comer, transpirar, assoar o nariz, gozar… menos exibicionismo a contragosto que um voyeurismo de si, um sadomasoquismo em que se é boneco, personagem trágico, platéia, direção e os próprios antagonistas.

Schuld em alemão significa tanto culpa quanto dívida.”

“Uma vez que o conceito de autismo é usado ora no sentido daseinanalítico, ora no psicológico, caracterológico, psicopatológico ou psicanalítico, ele se tornou cientificamente quase inutilizável hoje em dia.”

novo demais pra ser demente, velho demais pra ser bobão.

“Nós vimos que nossa própria paciente se encontra na menopausa e os cabelos esbranquiçaram rapidamente nos últimos tempos.”

“Lembramos que Bleuler notou muito freqüentemente nos paranóides uma <sexualidade fraca>, bem como a falta de desejo por filhos. (…) um autoerotismo <forte> dificilmente pode ser concebido como um sinal de sexualidade forte.” “sem a predisposição sadomasoquista, o exame e o adoecimento do marido não teriam esse papel proeminente na doença.”

“seguimos Bleuler quando ele diz <de acordo com nossos conceitos, a constituição hipo-paranóica é uma subforma da psicopatia esquizóide, assim como a paranóia involutiva é uma subforma da esquizofrenia paranóide.>

11. DE VOLTA A HEIDEGGER& ARREMATE

“Aqui o medo não mantém o Dasein <no nada>, desse modo, ele não deixa o mundo naufragar na insignificância, antes confere a ele uma significância distinta e absolutizada, a do pavoroso e, assim, do significado pavoroso de toda singularidade.

“Vemos no conceito de necessidade de delírio o quanto a investigação do delírio (para o mal do conhecimento psiquiátrico) acabou sendo levada a reboque pela investigação normal-psicológica.”

Diretamente relacionado com as polêmicas Freud//Adler: “Bleuler observa com muita agudeza mais uma vez [péla-saco] que se alguém fala de desejo ou necessidade de estar doente, de interesse pela doença, de meta, de ganho da doença, de fuga para as doenças, de intenção e organização, é necessário ter claro em mente, por causa das conseqüências práticas, que essas expressões e conceitos são tirados das idéias de um leigo sobre a psique [!] normal e, na verdade, não deveriam ser de forma alguma empregados em relação a estados mórbidos.”

Nunca vou entender como os autores cinicamente (acordo tácito?), após ridicularizarem Freud num parágrafo, sem citar, nas suas linhas, ‘F.’ e ‘psicanálise’, procedem, logo a seguir, a uma exaltação fabulosa do <legado>: “Em F., o conceito é muito mais profundo do que naquilo que se costuma falar [mais ainda?] sobre o processo de cura, uma vez que ele está firmemente baseado na teoria (construída com muita fineza) da libido, do recalque, do retorno do recalcado e da projeção.”

Projeção continua, a meu ver, o conceito mais problemático da psicologia em geral.

“A partir desse caso de Schwab, pode-se encontrar facilmente um caminho para o <demônio diabólico> de Suzanne Urban e de muitos outros pacientes que sofrem de delírio”

“nos afastamos de Bleuler e de Jung quando eles querem desqualificar a teoria do delírio primário com a assunção e freqüente evidenciamento de motivos inconscientes

“Hans Kunz acreditava que era necessário ver a vivência de desabamento do mundo (cf. Schreber) <como o conteúdo> do delírio primário <mais adequado à ocorrência>, contudo essa vivência (como nosso caso mostra) não é de forma alguma um pressuposto necessário para o delírio primário.”

Heidenhain, J.J. Rousseaus Persönlichkeit, Philosophie und Psychose

“Vê-se quão pouco o critério da recorrência pode, do ponto de vista da <deflagração do delírio>, ser utilizado no diagnóstico diferencial de paranóia e esquizofrenia.”“Mesmo o <esquizofrênico> que chega imediatamente à certeza delirante tem, como nosso caso mostra também, experiências sempre novas que confirmam as antigas.”

“Hoje não podemos mais dizer que as idéias persecutórias se misturam ao quadro da doença <em razão de ilusões sensoriais>, como se podia ler na avaliação do hospital psiquiátrico Sonnenberg sobre o presidente do senado Schreber e infelizmente ainda se pode ler freqüentemente. Antes temos que perceber de uma vez por todas que as alucinações não são distúrbios isolados, como ressaltam Schröder e Meyer-Gross. Mas o precursor nesse tema foi Minkowski em Le Temps vécu, 1923.”

Um louco não faz mais do que perceber a condição humana a sua maneira”

Sartre

As alucinações não se originam de um distúrbio do sensório – compreendendo-se essas funções no sentido psicológico –, também não se originam de um distúrbio das funções da percepção, do pensamento, do juízo, mas partem de um distúrbio e uma variação das funções simpáticas da sensação. Visto que essas funções estão alteradas, o paciente vive outra comunicação com o mundo; mas uma vez que os modos de ser-no-mundo são fundamentais para todas as vivências, as alucinações não são distúrbios isolados”

Erwin Straus, Do Sentido dos Sentidos, 1935

“No conto Na Colônia Penal de Kafka, um viajante, ao ver um delinquente, pergunta ao oficial se ele sabia sua sentença. <Não>, diz o oficial, <seria inútil anunciá-la a ele. Ele já a sente sobre seu corpo>. Dessa maneira, Suzanne Urban não vem a saber de sua sentença, mas de seu sofrimento <sobre seu corpo>, e, por isso, é <inútil> <anunciar> ou explicar a sentença a ela, ou esclarecê-la. E quando Kafka continua: <não é fácil decifrar a escrita (da sentença) com os olhos; nosso homem a decifra, mas com suas feridas>, também nossa pobre S.U. decifra a escrita de seu <destino> não com os olhos (da compreensão), mas com suas <feridas> e as de seus familiares, com os <sofrimentos infligidos> a ela e a eles. (…) O Dasein zomba de qualquer outra experiência; pois esta é a mais <impressionante> no sentido duplo da palavra.” (íntimo e doloroso)

“Por mais que a clínica não consiga evitar todas as tentativas psicológicas, caracterológicas e biológicas de responder o porquê dessa questão em termos de um conhecimento objetificante, a tarefa da psiquiatria como ciência não se esgota nisso.”

“As capacidades anímicas, as propriedades anímicas, a alma (no sentido da psicologia e da psicopatologia), o caráter, a pessoa, a personalidade, o impulso, etc., tudo isso está ontologicamente no limbo, ou seja, não tem fundamento ontológico. Encontramos esse fundamento na analítica do Dasein de Heidegger.”

Jaeger, Paideia II [!!], Die griechische Medizin als Paideia

“o terrível não pode mais se tornar algo impessoal e extramundano contra o qual se pode invocar o destino, mas ele se tornou um ente intramundo que ainda é acessível sob o aspecto da hostilidade.”

Não existe satisfação compensatória: não é uma expiação que demande “x” de tempo ou energia, até haver a quitação. Em tese Suzanne poderia sofrer de seu delírio um tempo infinito (enquanto viver), sem tendência à cura. Realmente o poema de Baudelaire caía bem: uma máquina infernal!

Não importa o conteúdo do delírio: o médico deve analisar a vida pregressa desse tipo de paciente esquizofrênico.

Situação de partida > Autonomização delirante (a paciente perde o foco da ‘angústia original’, quando ainda tinha um ser-no-mundo autêntico)

AS ESTRELAS DESCEM À TERRA:(*) A coluna de astrologia do Los Angeles Times. Um estudo sobre superstição secundária. – Theodor Adorno (trad. Pedro Rocha de Oliveira), Unesp, 2008.

(*) COM OS PÉS NO CHÃO seria uma tradução muito mais adequada a DOWN TO EARTH.

As estrelas descem à Terra é um texto de posição sui generis no conjunto da obra de Theodor W. Adorno: por um lado, tem uma conexão direta com o núcleo duro do pensamento do filósofo, já que aborda temas como a interpenetração entre o racional e o irracional, o processo de dominação característico do capitalismo tardio, a cultura de massas etc. Por outro lado, trata-se de uma obra cm que as ideias propriamente filosóficas de Adorno não ressaltam tão claramente como em outros de seus livros mais conhecidos como Dialética negativa, Teoria estética, Minima moralia ou mesmo Dialética do esclarecimento

o que dizer de uma pesquisa feita apenas a partir da análise das edições de aproximadamente três meses da coluna de astrologia de um jornal conservador norte-americano?”

o leitor pode se perguntar — com razão — o que teria a ver a pequena burguesia alemã dos anos 1920-1930, submetida a um implacável processo inflacionário e temerosa quanto ao seu futuro econômico e político, com a massa de leitores da coluna de astrologia de um diário conservador californiano na década de 1950. A resposta talvez possa ser encontrada em certos resultados da pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia em Berkeley, com a participação de Adorno, a qual resultou no livro A personalidade autoritária. A pesquisa tinha como objetivo aferir o potencial de adesão a projetos políticos autoritários (no limite: totalitários) em amplos setores da população daquele país que se considerava (e ainda se considera) a maior democracia do mundo: os Estados Unidos da América. Em outras palavras, tratava-se de investigar até que ponto a nação que derrotou o regime nazista estava livre do tipo de ideologia que resultou nessa tirania. (…) essa investigação ocasionou certo escândalo nos Estados Unidos ao apontar para o fato de que em amplas camadas da população norte-americana havia indivíduos altamente pontuados na escala F, ou seja, com acentuada tendência fascista latente, e essa característica estava sempre associada ao que se considerava uma evidente fraqueza de ego.”

depois da desmoralização das ridículas personalizações e exteriorizações políticas das figuras paternas perdidas — dos Hitlers, dos Mussolinis, dos Stálins —, o sistema de dominação se despersonalizou ainda mais,¹ até o ponto em que os Big Brothers (aliás: gênero de reality show plenamente globalizado) hoje não passam de pequenos oportunistas à procura de um pé-de-meia e/ou de uma chance no show business.²”

¹ Será?

² Comparação esdrúxula

a libidinização dos aparelhos domésticos é indiretamente narcisista, à medida que ela alimenta o controle da natureza do ego: estes aparelhos proporcionam ao sujeito memórias de sentimentos primitivos de onipotência”

Enquanto as imagens querem despertar aquilo que se encontra soterrado no espectador e o que lhe é semelhante, as imagens intermitentes e fugidias do filme e da televisão se aproximam da escrita. Elas são concebidas, não consideradas. O olho é arrastado pelas tiras como pelas linhas e no suave solavanco da mudança de cena, a página se passa a si mesma.”

A natureza específica do nosso estudo não é uma psicanálise direta do oculto, do tipo iniciado pelo famoso ensaio de Freud O estranho, e desenvolvido por numerosos esforços científicos, agora reunidos pelo dr. Devereux em Psychoanalysis and the Occult. Não queremos examinar experiências ocultas ou crenças supersticiosas individuais de qualquer tipo como expressões do inconsciente. Na verdade, o oculto como tal possui apenas uma função marginal em sistemas como o da astrologia organizada. Sua esfera tem muito pouco em comum com aquela do espiritualista que vê e ouve fantasmas, ou com a telepatia. Em analogia com a diferenciação sociológica dos grupos primários e secundários, podemos definir nossa área de interesse como a da <superstição secundária>. Com isso, queremos dizer que a experiência primária do indivíduo com o oculto, qualquer que seja seu significado psicológico e as raízes de sua validade, raramente — ou talvez nunca — entra nos fenômenos sociais aos quais dedicamos nossa atenção. Ao contrário, o oculto aparece, aqui, institucionalizado, objetivado e amplamente socializado.”

O tipo de pessoa relevante para nosso estudo toma a astrologia como algo certo, da mesma forma que a psiquiatria, os concertos sinfônicos ou os partidos políticos. A astrologia é aceita porque existe, sem muita reflexão, bastando que as exigências psicológicas do indivíduo correspondam àquilo que é oferecido.” “Na coluna de jornal sobre a qual se debruçou majoritariamente a presente monografia, a mecânica do sistema astrológico nunca é divulgada.” Kleper Tantan

A ausência de uma <seriedade> fundamental, que, diga-se de passagem, de forma alguma torna tais fenômenos menos sérios no que diz respeito às suas implicações sociais, é um traço tão característico de nosso tempo quanto a difusão do ocultismo secundário per se.”

A frase mais amada por Adorno: “Como sempre é o caso em se tratando de argumentos que pretendem desacreditar qualquer interesse na modernidade específica dos fenômenos, insistindo em que não há nada novo sob o sol, esta objeção [de que a vidência, privilégio de um especialista, esteve sempre presente como logro social] é ao mesmo tempo verdadeira e falsa.”

Horóscopo me lembra telão de rodoviária, que me lembra gente sebosa e nojeira. Cheiro de fritura, camelô e gente com máscara no queixo gritando como se o último passageiro amealhado na fila do baú significasse sua panacéia das finanças.

Vai explicar Olavo de Carvalho! “Em um mundo no qual, através da literatura científica popular, e em particular da ficção científica, qualquer garoto em idade escolar sabe da existência de bilhões de galáxias, da insignificância cósmica da Terra e das leis mecânicas governando os movimentos dos sistemas estelares, a visão geocêntrica e antropocêntrica implicada pela astrologia é completamente anacrônica.”

O planeta que pediu demissão porque estava cansado de ser cornetado – ou cometado, he-he.

DIY: faça seu mapa astral, não deixe os outros lhe dizerem o que você deve fazer ou o que lhe vai acontecer, faça isso você mesmo (mas com a bênção impessoal dos planetinhas)!

O presente estudo consiste em uma análise de conteúdo. Cerca de três meses da coluna diária Previsões Astrológicas, escrita por Caroll Righter no Los Angeles Times, de novembro de 1952 até fevereiro de 1953, foram submetidos à interpretação.”

Entre as várias escolas ocultistas, a astrologia provavelmente tem o maior número de seguidores na população. A astrologia por certo não é um dos ramos extremos do ocultismo, mas constrói fachadas de pseudo-racionalidade que a tornam mais fácil de aceitar do que, por exemplo, o espiritualismo. Não há aparição de fantasmas, e as previsões são pretensamente derivadas de fatos astronômicos. Assim, a astrologia pode não evidenciar mecanismos psicóticos tão claros quanto aquelas outras tendências mais obviamente lunáticas da superstição, o que pode dificultar nosso estudo no que diz respeito à compreensão das camadas inconscientes mais profundas do neo-ocultismo.”

A coluna Previsões Astrológicas, escrita por Carroll Righter, aparece no Los Angeles Times, um jornal conservador bastante inclinado para a ala de direita do Partido Republicano. O sr. Righter [e não Lefter!] é bem conhecido no meio cinematográfico, e se supõe que ofereça aconselhamento astrológico privado para uma das mais famosas <estrelas> do cinema.”

a filosofia subjacente à astrologia está na linha do que poderia ser chamado de sobrenaturalismo naturalista. Esse aspecto <despersonalizado> e impiedoso da fonte supostamente transcendente tem forte relação com a ameaça latente assinalada pela astrologia.”

HAHAHAHAHA! “O envolvimento com a astrologia pode oferecer àqueles que se deixam levar por ela um substituto para o prazer sexual de natureza passiva.”

JÚPITER É PAN: “A comunhão com os astros é um substituto quase irreconhecível — e, por isso, tolerável — para a relação proibida com uma figura paterna onipotente.”

O material das revistas pode ser disposto segundo numerosos matizes, desde publicações bastante inofensivas, embora absolutamente primitivas, como a World Astrology, passando por publicações mais radicais, como a True Astrology e a Everyday Astrology, até publicações paranóicas, como a American Astrology.

E desnecessário dizer que tais revistas, dirigidas para um núcleo de seguidores da astrologia, e não para o público em geral, contêm material astrológico mais <técnico> e tentam impressionar os leitores tanto com um conhecimento <esotérico> quanto com uma sofisticação <científica>. Termos como <casa>, <quadrante>, <oposição> etc, ocorrem frequentemente. A astrologia não é tida como certa, mas tenta, com certa violência, defender seu status. Assim, o número da revista do qual retiramos nossos exemplos contém uma polêmica contra um cientista que criticou a astrologia como superstição, comparando-a com a leitura da sorte nas entranhas de animais ou no vôo dos pássaros. As revistas parecem particularmente sensíveis a tal comparação. As acusações do cientista são negadas pela observação um tanto tautológica de que a astrologia nunca lida com entranhas ou com pássaros.”

Os astrólogos reiteram continuamente que não são deterministas, e se encaixam no padrão da cultura de massa moderna que protesta tanto mais fanaticamente em nome dos princípios do individualismo e do livre-arbítrio, quanto mais a verdadeira liberdade de ação desaparece. A astrologia tenta se afastar de um fatalismo não-refinado e impopular, estabelecendo forças externas que operam na decisão do indivíduo, incluindo seu próprio caráter, deixando a escolha fundamental em suas mãos. Isso tem significativas implicações sociopsicológicas. A astrologia encoraja as pessoas a tomar decisões constantemente, independentemente do quão inconsequentes essas decisões possam ser.”

O semi-erudito tem uma vontade vaga de entender, e também é levado pelo desejo narcísico de se mostrar superior às pessoas simples, mas não está em uma posição tal que lhe permita empreender operações intelectuais complicadas e distanciadas. Para ele, a astrologia — da mesma forma que outras crenças irracionais, como o racismo — oferece um atalho, reduzindo o que é complexo a uma fórmula prática, e oferecendo, simultaneamente, uma agradável gratificação: o indivíduo que se sente excluído dos privilégios educacionais pode, ainda assim, pertencer a uma minoria que está <por dentro>.”

PODE SER QUE SIM, PODE SER QUE NÃO… “Como era de esperar, há frequentes sugestões sinistras de que uma nova era está por vir, sinalizando uma grande catástrofe mundial e insinuando uma guerra entre os Estados Unidos e a Rússia em 1953, sem, entretanto, comprometer-se em definitivo a esse respeito.”

O editor não se responsabiliza pela opinião dos coMunistas desta revista!!

Diversas vezes, embora sempre de forma mais ou menos vaga, a revista faz acusações contra minorias incômodas que nunca são claramente identificadas. Algumas das imagens empregadas lembram as utilizadas por agitadores fascistas e anti-semitas de perfil pseudo-religioso. Assim, faz-se referência à batalha apocalíptica do Armagedon que desempenhou um grande papel nos discursos de um sacerdote radialista que causou muita agitação nos anos 30 (Charles Edward Coughlin (1891-1979)).”

Qual é o 1 que não é 1 mas é o 9 antes do 10?

Resposta: o I. (IX – X); nona letra do alfabeto.

Como dispositivo psicológico adotado pelo indivíduo, a astrologia, em certos aspectos, lembra os sintomas do neurótico fóbico que aparentemente canaliza, focaliza e absorve sua ansiedade flutuante em termos de objetos da realidade.” “O interesse de um indivíduo pela astrologia, como o sintoma fóbico, pode absorver todos os demais objetos da angústia, tornando-se, em última instância, um interesse obsessivo do indivíduo ou grupo afligido.”

o que ele diz deve soar como se ele tivesse conhecimento concreto de que problemas incomodam cada um de seus supostos seguidores nascidos sob determinado signo e em determinada hora; ao mesmo tempo, ele tem de permanecer reservado o suficiente para não ser facilmente desacreditado.”

na maior parte das vezes, trata-se de uma psicologia do ego pré-freudiana, encoberta por aquilo que Theodor Reik chamou de <psicanalês> de assistente social.”

A cada linha que passa, mais aproxima Freud da canonização.

Assim, uma das ameaças realistas mais difundidas, o risco da demissão, aparece apenas de forma diluída, isto é, na forma de conflitos com superiores, reprimendas, e outras situações desagradáveis. O termo <demissão> não é utilizado nem uma única vez. Uma ameaça favorita, entretanto, é a dos acidentes de trânsito. Também aqui é possível visualizar como diversas facetas da abordagem estão misturadas: o perigo de acidentes de trânsito está sempre presente na congestionada região de Los Angeles.”

Adorno não conheceu o Brasil: “a opinião pública não estigmatiza como criminosas as pessoas que cometem erros de direção.”

Um documentário em que o protagonista viva seus dias de acordo com seu horóscopo o mais estritamente possível durante um mês, como em Supersize Me (o zodíaco do McDonald’s prevê que você engordará).

Um sociólogo num livro “marxista” falando uma BESTEIRA DESSAS! “Alguns revisionistas, tais como Fromm e, particularmente, Horney, trataram a questão de forma excessivamente simplificada, reduzindo traços neuróticos como o que está sendo discutido aqui — a dependência — a realidades sociais como “nossa moderna sociedade competitiva”.” Freud, o menos social dos psicanalistas, é o mais prezado por Adorno, que condena a visão anti-edipiana de que o neurótico é aquele que adoece, e a sociedade o terrorista biológico que o adoece (//a famosa frase: a sociedade prepara o crime, o criminoso o comete). Em suma, para um autodeclarado exímio analista do capitalismo tardio, é um atestado de falsário.

Seus problemas serão resolvidos ou automaticamente, ou com auxílio dos outros, particularmente daqueles amigos misteriosos cuja imagem é recorrente na coluna — contanto que se mantenha a confiança nas estrelas.”

A semi-irracionalidade da expressão <tudo vai ficar bem> deriva do fato de que a sociedade americana moderna, a despeito de todos os seus conflitos e dificuldades, tem sucesso na reprodução da vida daqueles que abraça.”

O adágio <seja você mesmo> assume um significado irônico.” Qual dos dois, o rato ou o homem?

Um exemplo desse mecanismo é o caso de um autor talentoso que queria escrever um livro que, em sua opinião, alcançaria um lugar entre os mais importantes da literatura mundial. Tudo que ele fazia era pensar sobre o livro, deixando-se levar por fantasias a respeito das repercussões sensacionais que seu livro geraria, e sempre dizendo a seus amigos que estava quase terminando. Assim, embora já tivesse <trabalhado> no livro por 7 anos, ainda não tinha escrito uma única linha. A medida que vão ficando mais velhos, indivíduos deste tipo precisam agarrar-se cada vez com mais força à ilusão de que o tempo vai tomar conta das coisas. Muitos, quando alcançam certa idade — normalmente, no início dos 40 —, ou conseguem tornar-se mais sóbrios, abandonando a ilusão e esforçando-se para utilizar os meios de que dispõem; ou então têm um colapso neurótico, porque a vida sem a ilusão consoladora do tempo como benfeitor torna-se intolerável.” Fromm, Sentimento de impotência

Por motivos obsessivos, certo paciente não conseguia escovar os dentes e, passado algum tempo, batia em si mesmo, ralhava consigo mesmo.” Fenichel, Teoria psicanalítica das neuroses

Henri Bergson apontou, em O riso, que as calcificações psicológicas que tornam um indivíduo cômico em sentido estético indicam alguma falha em sua maturidade, e estão ligadas à sua incapacidade de lidar com mudanças nas situações sociais, chegando inclusive a afirmar que, de certa forma, o conceito de <caráter> que denota um padrão de personalidade enrijecido, impassível de ser afetado pela experiência da vida, é em si mesmo cômico.”

Deve-se enfatizar que é exatamente este psicólogo [Jung], o qual alegou ter aumentado a profundidade de conceitos psicanalíticos (…) rasos, o mais (…) propenso a ser adotado por uma popularização comercial.” Com ou sem razão, só o fala porque ama anal e oralmente Freud! Os (…) são empregados para eliminar os advérbios inutilmente empregados assiduamente por Adorno.

Você vai se sentir a ponto de explodir na parte da manhã, sem qualquer motivo aparente. Os planetas estão testando seu autocontrole. Mantenha a calma.

(31 de dezembro de 1952, Câncer)”

<Seja agradável> refere-se às briguinhas típicas de mulheres ranzinzas da classe média baixa; <não se atormente>, ao hábito psicológico de <ruminar>, típico de indivíduos obsessivo-compulsivos.”

A difamação do <ego inflado> é muito frequente na literatura de psicologia popular, incluindo as obras da falecida srta. Horney.” Karen Horney, a psicanalista modinha dos 30 aos 50 que teve relações amorosas com um de seus pacientes.

Adorno devia ser um dos que mais se afligia no cotidiano: “O mundo está certo; o estranho está errado. Assim, da mesma forma que com o padrão muito semelhante do antiintelectualismo, promove-se um nivelamento geral. Em conformidade com essa ideologia, ninguém deve realmente acreditar em si mesmo e em suas qualidades intrínsecas, mas, ao contrário, necessita colocar-se à prova junto com todos os demais por meio do funcionamento em meio às condições já dadas.”

As origens históricas do conceito de intuição coincidem com os grandes sistemas extremos da filosofia racionalista do século XVII. Assim, para Spinoza, a intuição é o tipo mais alto de conhecimento, embora o termo seja usado por ele em um sentido um pouco diferente do atual. Em Leibniz, o conceito de inconsciente é introduzido por meio de reflexões matemáticas sobre o conhecimento subliminal, sob o epíteto de petites perceptions. A história da intuição é a face noturna do racionalismo ocidental.”

Sempre que o tradutor avisa que só intervém com notas quando sumamente necessário, saiba que haverá uma suma necessidade a cada página…

A ênfase incessante nesses aspectos [corte o cabelo, vá ao salão hoje…] sugere a exaltação da limpeza e da saúde ao nível de ideais, um traço bem conhecido da síndrome anal.” HAHAHA!

O sintoma psicótico de dar atenção demais ao próprio corpo, que, ironicamente, parece estar alienado de si mesmo, também é pertinente. Pessoas muito cuidadosas e tendem tanto à astrologia como aos movimentos por uma alimentação saudável, a medicina natural e panaceias similares.” R***** S****** M****** BELA GIL M******* Pedro P******

O valor sociológico da limpeza está ligado à herança cultural do puritanismo, uma fusão do ideal de pureza sexual com aquele do corpo asseado — mens sana in corpore sano. No fundo, está a repressão do sentido do olfato.”

Além do aconselhamento constante no sentido de <chegar a um acordo>, <aumentar suas posses> e <planejar>, o colunista estimula a ideia de que o leitor só pode avançar na hierarquia dos negócios se trapacear, usar suas ligações pessoais e uma espécie de diplomacia furtiva, em vez de empregar atividades estritamente ligadas ao trabalho. Isso tem implicações bastante malignas. Dentro do padrão das ilusões modernas de massa, a ideia da conspiração — que, sem dúvida, é de natureza projetiva — está sempre presente. O encorajamento de atividades <por trás dos panos> é uma maneira imperceptível de promover uma aproximação a tais tendências, que normalmente são projetadas sobre grupos que se imagina estar às margens da sociedade. Aqueles que persistentemente acusam os outros de estarem conspirando têm uma forte tendência a conspirar, e isso é aproveitado e explorado pela coluna. Em face do caráter um tanto arriscado desse conselho, a abordagem bifásica, aqui, é especialmente valiosa para a coluna. A sugestão da trapaça é compensada — anulada, no sentido psicanalítico — por apelos intercalados a agir de maneira obediente à lei, e a se manter sempre dentro do reino do permissível, um conselho condizente com a atitude externa da coluna, convencionalista e conformista.”

tudo é permitido desde que ninguém seja flagrado” Dostoievsky 2.0

A imagem do inventor morrendo de fome é bem conhecida. Sob as condições atuais, o slogan <seja moderno> tende a deteriorar-se em mera fraude.”

O avanço tecnológico real é deixado para especialistas tecnológicos que frequentemente estão distantes do esquema dos negócios, enquanto que aquele que quer entrar em uma organização de negócios de grande porte precisa, geralmente, ser <conservador> — talvez não tanto, hoje em dia, por medo da falência, mas por medo de chamar para si, como empregado, a imagem de excentricidade, de alguém que está transgredindo seu lugar na hierarquia, caso venha continuamente a empreender ou defender inovações.”

Enquanto a gigantesca oferta atual de bens exige pessoas de mentalidade moderna, preparadas para comprar qualquer novidade, a mentalidade do comprador construída dessa maneira corrói as reservas, ameaça aqueles para quem comprar torna-se uma compulsão, e é com frequência apresentada como se, potencialmente, colocasse em perigo a estrutura econômica, solapando a própria capacidade de compra. De maneira a corrigir tudo isso, sempre de forma verdadeiramente conformista, a coluna tem de promover vendas e resistência às vendas, uma tarefa ingrata que só se torna possível periodizando o aconselhamento.”

Na astrologia e no ocultismo como um todo, conforme foi indicado anteriormente, percebe-se uma forte ansiedade para se superar a desconfiança de que são alvo as práticas mágicas no âmbito de uma cultura marcada pelo empreendimento racionalizado. A ciência é a má consciência do ocultismo, e quanto mais irracional a justificativa de suas pretensões, maior a ênfase no fato de que não há charlatanismo envolvido. Se, por um lado, a coluna evita controvérsias sobre os méritos da astrologia, mas, por boas razões psicológicas, assume sua autoridade como um dado, ela segue indiretamente aquele impulso, curvando-se de forma estudada à ciência em geral.”

o termo <outro mundo>, que antes tinha um significado metafísico, é trazido para o nível da astronomia, onde ecoa com um timbre empírico. Os fantasmas e outras terríveis ameaças, os quais muitas vezes revivem entidades bizarras mais antigas, são tratados como objetos naturais e científicos que vêm do espaço, de outro sistema planetário ou, preferencialmente, de outra galáxia, ainda que o mais avançado conhecimento biológico de que dispomos — a <lei de convergência> — aponte para desenvolvimentos mais semelhantes aos da Terra, mesmo em estrelas distantes, do que os figurados nas secularizações da demonologia com que se entretém o leitor de ficção científica. A coisificação e mecanização do próprio homem são projetadas sobre a realidade na difundida literatura sobre robôs. Aliás, a ficção científica consome uma longa tradição de literatura norte-americana que lida com o irracional ao mesmo tempo que nega sua irracionalidade. Sob vários aspectos, Edgar Allan Poe é o inventor da ficção científica, bem como das histórias de detetives.” Não há nada no google sobre lei de convergência (se excetuarmos artigos sobre reforma da lei de pensão e psicologia social, haha!).

Quando se considera que o leitor está sendo magoado por alguém, ele é levado a considerar que não deve retribuir o golpe, mas sim assumir uma atitude que indique sua própria superioridade, e ceder. O padrão psiquiatricamente bem conhecido da <identificação com o agressor> parece ser uma das ideias positivas básicas a respeito dos relacionamentos humanos.”

Uma vez que a esposa é aquela que, em última análise, precisa administrar a receita doméstica, o leitor é ensinado a discutir com ela suas questões financeiras. Contudo, a esposa raramente aparece mencionada como tal, mas sempre por meio da expressão mais abstrata <a família>”

De qualquer forma, a ideia vigente é a de que a família ainda é a única <equipe> unida em torno de fortes interesses comuns, em que todos podem contar uns com os outros praticamente sem reservas e fazer planos conjuntos para enfrentar com sucesso um mundo ameaçador e potencialmente hostil.”

A esse respeito, a família muitas vezes aparece como um tipo de clã arcaico e ameaçador cujo veredito prevalece sobre o sujeito dependente.”

As recriminações da esposa, sem que ela se dê conta, são um protesto contra uma situação que é muitas vezes agravada porque o homem, que tem de <se controlar> durante as horas de trabalho e reprimir suas agressões, está inclinado a liberá-las contra aqueles que lhe são próximos, mas que têm menos poder do que ele. A sabedoria popular da coluna está muito ciente de tudo isso, bem como do fato de que em tais conflitos as mulheres são normalmente mais ingênuas do que os homens, e que apelos à <razão> deste último podem ajudar a suavizar embates inevitáveis.”

…tenha muita consideração em casa, onde as coisas vão ficar tensas se você se mostrar nervoso…

(19 de novembro de 1952, Touro)” HAHAHA!

O pior que pode acontecer é eu chutar uma quina ou quebrar um eletrodoméstico…

A inevitabilidade, cujas razões sociais foram apontadas acima, é dissolvida no elemento abstrato do tempo, como se os problemas só passassem a existir em determinadas tardes ou noites, de modo que tudo se resume ao exercício de autocontrole por parte do leitor, com a finalidade de evitar um conflito de maiores proporções. É claro que isso reflete, também, a irracionalidade dos motivos que frequentemente levam a explosões familiares, detonadas por eventos inteiramente insignificantes. Além dessa política de apaziguamento, o leitor é encorajado a <sair com sua família> ou a <divertir-se muito> com ela e os amigos, uma sugestão que figura frequentemente nos feriados, quando o leitor provavelmente faria algo do gênero, de qualquer maneira. Tal sugestão faz recordar as tentativas substitutivas de institucionalizar o prazer e a proximidade, algo na linha do Dia dos Namorados, Dia das Mães e Dia dos Pais. [ASPECTO DO CAPITALISMO VERDADEIRAMENTE REPUGNANTE] Correta ou erroneamente, sente-se que o calor e a proximidade da família estão em declínio, mas uma vez que a família é mantida por razões tanto realistas como ideológicas, o elemento emocional de calor e intimidade é alvo de um incentivo racionalizado como meio adicional de acalmar as coisas e manter o casal unido, enquanto a base real de sua joie de vivre comum parece ter desaparecido.”

A ordem dada ao subordinado por seu superior é interpretada como se pretendesse unicamente ajudar o subordinado em suas falhas e fraquezas — uma personalização infantil dos relacionamentos objetivados.”

É digno de nota, entretanto, que não existam traços de xenofobia na coluna, ao contrário do que acontece com as revistas astrológicas, em que tais traços são muito comuns. Isso pode ser explicado por sua <moderação>. Somente o dispositivo do contexto familiar sugere inclinações desse tipo.” “Há uma distinção contínua entre <velhos> e <novos> amigos, e o acento positivo é, surpreendentemente, colocado regularmente nos novos. Aqueles a quem o leitor ainda não se acostumou têm algo do estrangeiro, e às vezes são diretamente identificados com ele. No mínimo, são pessoas estimulantes que de alguma maneira prometem prazer. Em um ambiente de padronização e uniformidade ameaçadoras, a ideia do incomum é positivamente catexizada por si mesma. Mas, sobretudo, essas pessoas estão no presente. Os velhos amigos são, ao contrário, pelo menos ocasionalmente, apresentados como um peso, como pessoas que fazem todo tipo de exigências injustificadas em nome de um relacionamento que, na verdade, pertence ao passado. O leitor pode tolerá-los como <colegas> nos dias melhores, mas nunca deve levá-los muito a sério, ou levar-se a um envolvimento muito profundo com eles.”

tão bom como se nunca tivesse existido” Mefistófeles

Apesar de sua moralidade convencional, a coluna basicamente rejeita a lealdade: o que não parece útil aqui e agora deve ser abandonado. Aplicando esse método aos <velhos amigos>, a fase hostil do relacionamento com os amigos é racionalizada e canalizada de um modo adequado ao padrão geral da coluna de ajustamento aperfeiçoado. Os amigos bons são aqueles que ajudam o leitor ou, pelo menos, juntam-se a ele para buscar algum objetivo positivo; os outros são relíquias do passado, que exploram situações que já não são válidas e, assim, devem ser punidos de forma moralista e abandonados.”

O <especialista> está situado em algum lugar entre o superior (ou a sociedade como um todo) e a proximidade do amigo.”

É como se a noção de neofeudalismo que habita o fundo da mente do colunista carregasse consigo a associação dos servos que pagam tributo ao senhor”

Quando Deus dá uma tarefa, também dá a inteligência”

nos jornais alemães, os signos do zodíaco sob os quais uma pessoa nasceu são com frequência mencionados em colunas que promovem encontros entre solitários.”

Paradoxalmente, uma quantidade maior de discernimento pode resultar em uma reversão para atitudes que prevaleciam muito antes da alvorada do capitalismo moderno. Pois, ainda que as pessoas reconheçam sua dependência e manifestem, até com certa frequência, a opinião de que são meros fantoches, lhes é extremamente difícil encarar essa dependência de frente.”

Em outras palavras, a astrologia não pode simplesmente ser interpretada como uma expressão de dependência, mas precisa ser considerada uma ideologia para a dependência, uma tentativa de fortalecer e, de alguma forma, justificar condições penosas que parecem mais toleráveis quando se tornam alvo de uma atitude afirmativa.”

A intenção original do autor: “Isso é muito bem refletido pela astrologia, assim como pelos dois tipos [?] de Estados totalitários que também afirmam ter uma chave para tudo, conhecer todas as respostas e reduzir o que é complexo a inferências simples e mecânicas, afastando tudo que é estranho e desconhecido, sendo, ao mesmo tempo, incapazes de explicar qualquer coisa. O sistema assim caracterizado, o verwaltete Welt [mundo administrado], tem, por si mesmo, um aspecto ameaçador.”

A sensação de que há uma crise encoberta nunca desapareceu desde a I Guerra Mundial, e a maioria das pessoas se dá conta, ainda que de maneira pouco clara, de que a continuidade do processo social e sua capacidade de reproduzir sua própria vida, não se devem mais a processos econômicos normais, mas a fatores como o rearmamento universal que, por si mesmos, geram a destruição ao mesmo tempo que são os únicos meios de autoconservação. Essa sensação de ameaça é bastante real, e alguma de suas expressões, como as bombas A e H, estão a ponto de superar os mais desvairados medos neuróticos e fantasias destrutivas. É provável que, quanto mais as pessoas professem um otimismo oficial, mais profundamente sejam afetadas por essa sensação de calamidade — a ideia, correta ou errônea, de que o estado de coisas atual de alguma forma leva à explosão total, e que o indivíduo pode fazer muito pouco a respeito disso.”

Lições de assepsia adverbial.

A <onda do futuro> parece consumir os próprios medos produzidos pelas condições do presente. A astrologia cuida dessa sensação, traduzindo-a em uma forma pseudo-racional, de modo a enfocar as angústias sem objeto (free-floating anxieties) a um simbolismo bem-definido, mas também proporcionando um conforto vago e difuso, com o que dá àquilo que não tem sentido a aparência de um sentido oculto e grandioso, simultaneamente reafirmando que este não pode ser buscado nem no domínio do que é humano nem tampouco pode ser propriamente compreendido por nós.”

O culto de Deus foi substituído pelo culto dos fatos, da mesma forma que as entidades fatais da astrologia, as estrelas, são, em si mesmas, vistas como fatos, coisas governadas por leis mecânicas.”

O postulado de Auguste Comte de que o positivismo deveria ser um tipo de religião é realizado de forma irônica: a ciência é hipostasiada como uma verdade última e absoluta. (…) só os empiristas filosóficos [jornalistas, podemos resumir] parecem mais suscetíveis à superstição secundária [acreditar em coisas como astrologia] do que os pensadores especulativos [os ‘metafísicos’ ou pensadores relativistas]: o empirismo extremo, que ensina uma obediência absoluta da mente àquilo que é dado, aos <fatos> [os fatos sociais são coisas seria o adágio – fracassado – da própria sociologia], não dispõe de um princípio — tal como a ideia da razão — que lhe permitiria distinguir o possível do impossível. Assim, o desenvolvimento do esclarecimento vai além de si mesmo e produz uma mentalidade que, muitas vezes, não é capaz de resistir às tentações mitológicas.” Você acredita nos deuses gregos, ex-ateu adolescente?

No lugar de um processo intelectual complicado, extenuante e difícil, que poderia superar a sensação de insipidez pela compreensão do que é que torna o mundo tão insípido,¹ busca-se um atalho desesperado que oferece um entendimento espúrio e uma fuga para um reino supostamente superior. A astrologia lembra, nessa dimensão, mais do que em qualquer outra, outros tipos de meios de comunicação de massa tais como os filmes: sua mensagem aparece como algo metafisicamente significativo, como meio de recuperar a espontaneidade da vida, enquanto, na verdade, ela só faz repetir as mesmas condições coisificadas que parecem ser renunciadas por um apelo ao <absoluto>. A comparação da astrologia com o misticismo religioso, duvidosa em mais de um aspecto, é particularmente inválida à medida que o mistério celebrado pela astrologia é vazio — os movimentos das estrelas, que supostamente explicam tudo, não explicam nada, e mesmo se a hipótese total fosse verdadeira, ainda haveria de se explicar por que e como as estrelas determinam a vida humana, uma explicação que nem mesmo foi tentada pela astrologia.”

¹ Conquanto impossível, mas sonhar é grátis.

É, afinal, a própria falta de relação, a irracionalidade das relações entre a astronomia e a psicologia, para as quais não existe um denominador comum, uma <base lógica> que dá à astrologia a aparência de justificação em sua pretensão de ser, ela mesma, um conhecimento misterioso e irracional. A opacidade da astrologia não é nada além da opacidade que prevalece entre diversos campos científicos que não podem ser significativamente reunidos. Assim, pode-se dizer que a própria irracionalidade brota do princípio de racionalização que evoluiu em nome da maior eficiência, a divisão do trabalho. Aqueles que Spengler chamava de homens das cavernas modernos residem, por assim dizer, na cavidade formada entre as ciências organizadas, as quais não são capazes de cobrir a universalidade da existência”

Foi apontado anteriormente que a astrologia, da mesma forma que o racismo e outras seitas intelectuais, pressupõe um estado de semi-erudição. Ao avaliar a astrologia como um sintoma do declínio da erudição, entretanto, há que se resguardar da postura superficial do pessimismo cultural oficial.” O neo-racismo é astrológico (cada vez mais espúrio). Ironia, não? Cavalo pangaré.

Os sujeitos que lêem jornais: “De um lado, existe uma riqueza de material e de conhecimentos, mas a relação é muito mais formal e classificatória do que passível de proporcionar uma abertura de fatos supostamente inflexíveis por meio da interpretação e da compreensão.” O atalho de Michele.

Falando em termos gerais, a ideologia astrológica assemelha-se, em todas as suas principais características, à mentalidade daqueles que obtiveram <alta pontuação> na pesquisa empreendida por The Authoritarian Personality [livro de Horkheimer].”

Creio que ainda não havia pensado na correlação entre crendice astrológica e fascismo. Posso imaginar, agora, uma versão alternativa do meu tio reaça Nilson, um hippie “mae Diná” cheio de manias, falando “bicho”, fumando seu beque e levando uma vida good vibes, voz arrastada, se aproximando apenas dos parentes que emanam “energia positiva” (a sua é sempre positiva, vale lembrar). Negativos são os outros.

A bandeirinha canarinho não suporta outra década de exposição dessa maneira. Terão de voltar com a bola de cristal, nem que ela seja LCD…

ALOISIUS: “Assim como aqueles que podem ler os sinais das estrelas acreditam que estão por dentro de informações preciosas, os seguidores dos partidos totalitários acreditam que suas panaceias especiais são universalmente válidas, o que funciona como justificativa para impô-las como regra geral. A ideia paradoxal do Estado com um partido só — enquanto a ideia de <partido>, derivada de <parte>, em si mesma indica uma pluralidade — é a consumação de uma tendência que se encontra em estado dormente na atitude inacessível e obstinada do adepto da astrologia que defende tenazmente sua crença sem nunca entrar em uma discussão real, usando hipóteses auxiliares para defender-se mesmo quando suas posições são evidentemente errôneas e com quem, em última instância, não se pode falar: uma pessoa que nunca pode ser alcançada, e vive em um tipo de ilha narcísica [Northwest Island].”

Deve-se tomar muito cuidado para não simplificar demasiadamente o relacionamento entre astrologia e psicose.” Falou o imbecil que tipifica tudo como “catexia anal”. Por falar nessa carniça:

o liberalismo do século XIX, com sua ideia do pequeno empreendedor independente que acumula riqueza economizando, provavelmente induziu mais formações de caráter do tipo anal do que, digamos, o século XVIII, no qual o ideal do ego era mais determinado pela imagem caracterológica feudal que, em termos freudianos, é chamada de <genital>”

Não sou eu que forço uma caricatura, ela já está toda desenhada no livro!

Hitler era certamente psicologicamente anormal, mas foi exatamente essa sua anormalidade que criou o fascínio que permitiu seu sucesso junto às massas alemãs. Pode-se dizer que é precisamente o elemento da loucura que paralisa e atrai seguidores para os movimentos de massa de todos os tipos; e o corolário dessa estrutura é que as pessoas nunca acreditam inteiramente no que fingem acreditar e, assim, excedem suas próprias crenças, e estão logo inclinadas a traduzi-las em ação violenta.”

Pode-se comparar a função dessas confissões às confissões forçadas dos supostos traidores na Rússia e nos Estados-satélites atrás da Cortina de Ferro, as quais, longe de desiludir os seguidores do comunismo no mundo livre, muitas vezes parecem lançar uma espécie de feitiço que garante uma credulidade integral. A astrologia tem de ser vista como um pequeno modelo dessa estimulação muito mais ampla de disposições paranóicas.”

14 citações de Freud (+ Jung, Horney, Anna F., Erich Fromm, Reik…), só 1 de Weber. “Sociologia adorniana.”

LYSIAS’ SELECTED SPEECHES (edição bilíngüe) (Greek Series for Colleges and Schools) – Eds. Weir Smyth & Darwin Adams, 1905.

DIC:

hoplita: soldado grego de infantaria, com pesada armadura equipada

meteco: ver “metecs” 3 parágrafos abaixo e também “metics”

Introductions

In Lysias we have the first really successful application of rhetorical theory to practical speech. The more vehement and showy style of Demosthenes, imitated by Cicero, and through him passed on to the modern world, long dominated English oratory.”

SPEECH XII. AGAINST ERATOSTHENES

Introdução e Considerações sobre o Discurso

It is an attack upon Eratosthenes (probably from the autumn of 403 BC), one of the Thirty, and involves the discussion of the whole administration of that body, and to some extent of that of the 400, the oligarchy of 411 BC.

Early in the administration of the Thirty Eratosthenes had set forth with others of their number to arrest certain rich metecs [estrangeiros domiciliados em Atenas, caso da família de Lísias]. It fell to him to seize Polemarchus, Lysias’s brother, who was immediately put to death. When, after the battle at Munychia (Spring, 403), most of the Thirty retired to Eleusis, Eratosthenes, with one other of their number, remained in Athens, though not as a member of the new governing board of Ten. In the final amnesty between the 2 parties it was provided that any one of the Thirty who was willing to risk a judicial examination of his conduct as a member of the late administration might remain in the city. Otherwise all were obliged to settle at Eleusis or remain permanently in exile. Eratosthenes, believing himself to be less compromised than the others of the Thirty, ventured to remain and submit to his <accounting>.”

The more moderate democrats, notably Thrasybulus, the hero of the Return, were totally opposed to any attempt to strike back at the city party. (…) The task then which Lysias undertook was difficult. He had to convince the jury that the one man of the Thirty who was commonly believed least responsible for their crimes was so guilty that he was not to be forgiven, at a time when the watchword of the leaders of both parties was <Forgive and forget>.” “The real question of the day was as to the power of the democracy to regain the confidence and support of the great conservative middle class, men who had formerly been represented by Theramenes, and later by Eratosthenes. If these men could be convinced that the restored democracy would use its power moderately, foregoing revenge for the past, turning its back upon the demagogue and the political blackmailer, there was hope for the future.”

No one could blame the Sicilian Lysias for seeking his personal revenge [hehehe] (…) It is this larger political aspect of the case which gives to the speech against Eratosthenes its historical interest. (…) To distinguish between those of the Thirty who had sought to establish personal tyranny and those who had honestly striven for a reformed, conservative democracy was of first importance.”

DIVISÃO DA EXPOSIÇÃO:

1. EXÓRDIO. Apresentação do caso.

2. NARRATIVA. Contextualização da procedência de Lísias e do crime dos Trinta contra esta família.

3. DIGRESSÃO. Denúncia formal do réu.

4. PROPOSIÇÃO

5. ARGUMENTAÇÃO

A. Argumentos imediatos.

i. Eratóstenes agiu de forma contraditória.

ii. Por que a tese de que Eratóstenes foi compelido ao ato é sem base.

iii. O caso pode gerar precedentes perigosos para cidadãos e estrangeiros de Atenas.

iv. É contraditório executar os generais de Arginusa e perdoar os Trinta Tiranos.

v. Reiteração.

B. Argumentos sobre a biografia de Eratóstenes. O passado reputado de Eratóstenes não entraria em jogo na acusação presente.

i. A conduta de Eratóstenes no período dos 400.

ii. A conduta de Eratóstenes no estabelecimento do governo dos Trinta.

iii. A conduta de Eratóstenes enquanto um dos Trinta.

iv. A conduta de Eratóstenes no período dos Dez.

C. Argumento-réplica sobre Eratóstenes ser amigo e apoiador de Teramenes. Ataque à carreira de Teramenes.

i. A conduta de Teramenes e suas conexões com os 400.

ii. A conduta de Teramenes depois do governo dos 400.

iii. A conduta de Teramenes na negociação da paz.

iv. A conduta de Teramenes quando do estabelecimento dos 30.

v. Conclusão: A amizade com Teramenes não é suficiente como prova de lealdade.

D. Conclusões gerais.

6. PERORAÇÃO

A. A pior pena existente ainda seria exígua perante o montante de crimes cometidos.

B. Ataque ao advogado do réu.

C. O perdão seria equivalente a aprovar a conduta dos réus.

D. Apelo aos partidos (júri).

i. Aos aristocratas

ii. Aos democratas

E. Conclusão: Sumário dos crimes; apelo ao júri para executar a vingança dos mortos.

The speaker can pass at once to the narrative of the conduct upon which he bases his attack. And here Lysias is at his best. In the simplest language he describes the life of his own family and their sufferings (…) the sentences become very short, significant details of the story follow rapidly, and the hearer is made to see the events as if passing before his eyes.”

The term digression applies to this section only as an interruption of the strictly logical order, which would require the presentation of the arguments before the attempt to move the feelings of the jury by denunciation.”

5.

B.

In the review of Eratosthenes’s conduct as one of the Thirty (§§48-52), Lysias can bring no specific charge beyond that of the arrest of Polemarchus. He tries to forestall the plea of Eratosthenes that he actively opposed certain of the crimes of the Thirty by the shrewd claim that this would only prove that he could safely have opposed them all. He finally (§§53-61) tries to give the impression that Eratosthenes was connected with the bad administration of the Board of Ten, a charge that seems to be entirely without foundation.

To a jury already prejudiced by the affecting narrative of the arrest, and hurried on from one point to another, this whole attack was convincing; but the modern reader finds little of real proof, and an abundance of sophistry.”

C.

Lysias comes now to the refutation of the main argument of the defense, that Eratosthenes was a member of that honorable minority among the Thirty who opposed the crimes of Critias’ faction, and whose leader, Theramenes, lost his life in the attempt to bring the administration to an honest course.

Whatever we may think of the real motives of Theramenes, there can be no question that at the time of this trial the people were already coming to think of him as a martyr for popular rights. All knew Eratosthenes was his friend and supporter. Lysias saw therefore that he must blacken the character of Theramenes. He accordingly turns to a rapid review of his career. In a few clear-cut sentences he pictures Theramenes at each crisis, always the same shrewd, self-seeking, unscrupulous man, always pretending to serve the state, always ready to shift to the popular side, always serving his own interests.

The attack is a masterpiece. There is no intemperate language, no hurling of epithets. <He accuses by narrating. The dramatically troubled time from 411 to 403 rises before us in impressive pictures. At every turn Theramenes appears as the evil genius of the Athenians. His wicked egoism stands out in every fact.> Bruns, Das literarische Porträt der Griechen, p. 493.

(…) but is this picture of Theramenes true to the facts? In his narrative Lysias selects those acts only upon which he can put a bad construction. He fails to tell us what appears so clearly in the narrative of Thucydides, and in the defense put into the mouth of Theramenes by Xenophon in his answer to Critias before the Senate, that his opposition to the extreme faction of the 400 was, whatever may have been his motive, an efficient cause of their overthrow, at a time when there was reason to fear that they were on the point of betraying the city to the Peloponnesians. (…) He misrepresents Theramenes’ responsibility for the hard terms of the Peace, and he ignores the fact that the final opposition to Critias which cost him his life was in every particular what would have been demanded of the most patriotic citizen. (…) Thucydides’ praise of the administration after the 400 is rather a praise of the form of government than of its leader.”

In the next generation opinions were sharply divided as to the character of Theramenes. Aristotle, to whom he stood as the representative of the ideal government by the upper class, places him among the great men of Athens.” “The best of the statesmen at Athens, after those of early times, seem to have been Nicias, Thucydides, and Theramenes. As to Nicias and Th., nearly every one agrees that they were not merely men of birth and character, but also statesmen, and that they acted in all their public life in a manner worthy of their ancestry. On the merits of Theramenes opinion is divided, because it so happened that in his time public affairs were in a very stormy state. But those who give their opinion deliberately find him not, as his critics falsely assert, overthrowing every kind of constitution, but supporting every kind so long as it did not transgress the laws; thus showing that he was able, as every good citizen, to live under any form of constitution, while he refused to countenance illegality and was its constant enemy. (Kenyon’s trans.) “Para um resumo das discussões modernas sobre o caráter de Teramenes, ver Busolt, História Grega, III. ii. 1463 [original em alemão].”

By a phrase here, a single invidious word there, he shrewdly colors the medium through which we see the events. Every statement is so turned as to become an argument. (…) even antitheses are only sparingly used.”

The study of the style of this speech is especially interesting because it is the only extant speech which Lysias wrote for his own delivery, and one of the first in his career as a practical speech writer. In preparing each of his other speeches he had to adapt the speech to the man who was to deliver it; in this he was free to follow his judgement of what a speech should be.”

* * *

At first, indeed, they behaved with moderation towards the citizens and pretended to administer the state according to the ancient constitution … and they destroyed the professional accusers and those mischievous and evil-minded persons who, to the great detriment of the democracy, had attached themselves to it in order to curry favor with it. With all of this the city was much pleased, and thought the Thirty did it with the best of motives. But so soon as they had got a firmer hold on the city, they spared no class of citizens, but put to death any persons who were eminent for wealth or birth or character” Arist. “Xenophon gives similar testimony” “The Tholus, a building near the senate-house, was the headquarters and dining-hall of the Prytanes. It was thus the natural center of the administration of the Thirty, who used the subservient Senate to give a form of legality to their own acts.”

when the Thirty took control they found the treasury exhausted by the expenses of the Peloponnesian War. They had not only to provide for the ordinary expenses of the government but to pay their Spartan garrison on the Acropolis. Xenophon says that the despoiling of the metics [a família de Lísias inclusa] was to meet the latter expense.”

This entrance into Lysias’ house was, in spirit, a violation of the principle that a man’s house is his sanctuary, a principle as jealously maintained in Athens as in modern states.”

Gardner, The Greek House, in: Journal of Hellenic Studies, 21 (1901), 293ss.

Gardner & Jevons, Greek Antiquities

One of the most common charges against them is that they condemned citizens to death without a trial, whereas the right of every citizen to trial with full opportunity for defense was one of the fundamental principles of the democracy. This right was extended to metics also.”

the doubling of words merely for rhetorical effect is as rare in the simple style of Lysias as it is common in the rhetorical style of Demosthenes” (vide anexo ao fim)

the ceremonial impurity of a murderer was so great that the accused was, after indictment, forbidden entrance to the sanctuaries or the Agora while awaiting trial. The trial itself was held in the open air, in order, as Antiphon (5:11) tells us, <that the jurors might not come into the same inclosure with those whose hands were defiled, nor the prosecutor come under the same roof with the murderer.>

whom in the world WILL you punish? KAÍ is used as an emphatic particle in questions, implying the inability of the speaker to answer his own question, or his impatience at the circumstances that raise the question. Its only English equivalent is a peculiar emphasis.” “In English we prefer the indefinite expression of place, in the world.”

We infer that some of the states friendly to Athens had made formal proclamation excluding members of the late oligarchy from taking refuge with them. While Eleusis had been set apart as an asylum for the Thirty and their supporters, it is not unlikely that some, fearing that the democracy would not keep its promise of immunity, sought refuge in other states.”

In the summer of 406 the Athenian fleet under Conon was shut up in the harbor of Mytilene by the Lacedaemonians [Spartans]. Desperate efforts were made for their rescue; a new fleet was hastily equipped and manned by a general call to arms. Seldom had an expedition enlisted so many citizens of every class. The new fleet met the enemy off the Arginusae islands, and, in the greatest naval battle ever fought between Greek fleets, won a glorious victory. The generals, wishing to push on in pursuit of the enemy, detailed 47 ships under subordinate officers to rescue the Athenian wounded from the wreckage. A sudden storm made both pursuit and rescue impossible, and more than 4,000 men, probably half of them Athenian citizens, were lost. The blow fell upon so many homes in Athens that public indignation against the generals passed all bounds, and the generals were condemned to death. Not only was the sentence in itself unjust, but it was carried by a vote against the accused in a body, in violation of the law’s guaranty of a separate vote upon the case of every accused citizen. A reaction in feeling followed, a part of the general reaction against the abuses of the democracy. That the popular repentance was not as general or as permanent as it ought to have been is clear from the fact that now, 3 years after the event, Lysias dares appeal to this precedent as ground for righteous severity in the present case; he is evidently not afraid that it will be a warning to them to beware of overseverity when acting under passion. Yet he shows his consciousness that he is on dangerous ground, for he takes pains to state the defense of the generals and the ground on which it was overruled.”

an exaggeration, as it is in §83, where he says that the death of these men and that of their children would not be sufficient punishment for them. No one ever seriously proposed at Athens to put sons to death for their fathers’ crimes, but lesser penalties were put upon them; loss of civil rights was often visited upon the sons of a man condemned, and the common penalty of death and confiscation of property brought heavy suffering to the family (so in the case of the family for which Lysias pleads in Speech XIX). Yet even here the treatment was not inhuman; Demosthenes (27:65) says, Even when you condemn any one, you do not take away everything, but you are merciful to wife or children, and leave some part for them.

For the seizure of the arms of all citizens outside the 3,000 supporters of the Thirty, see Xen. Hell., 2. 3. 20. (…) The seizure of these arms, which many of the citizens had carried through all the years of the Peloponnesian War, was one the most outrageous acts of the Thirty.”

the accused had opportunity for defense before the Senate, and, in the more serious cases, before the Ecclesia or a law court which had final jurisdiction. Under the Thirty the accused lost these privileges of defense.”

They deposed the Thirty, and they elected ten citizens, with full power, to put a stop to the war. [proto-cesarianos] Arist.

Eratosthenes was not one of the new board. The fact that he dared to remain in the city is a strong argument in his favor, which Lysias tries to counteract by throwing upon him the odium of connection with Phidon.”

There was a large conservative element in the city who were dismayed at seeing the radicals with Critias in control; they now took the lead, but were again disappointed in that the new board of Ten fell under sympathy with the Thirty at Eleusis, actively cooperated with them and continued their war policy. It was an instance, not infrequent in modern times, of the better element in a city rising up under a sudden impulse and apparently overthrowing a political machine, only to find the machine still in control after the excitement was over.”

Antiphon was the moving spirit in planning the revolution of 411; Pisander was the most prominent man in its execution; Phrynichus the most daring; and Theramenes, the son of Hagnon, was a prime mover in the abolition of the democracy, a man not without ability as a speaker and thinker.” Thucyd., 8:68

Sophocles, when asked by Pisander whether he, like the other probouloi, approved of the establishment of the 400, said, <Yes.> <But what? Did that not seem to you a bad business?> <Yes,> said he, <for there was nothing better to do.> Arist., Retórica

the people had been persuaded to accept the new form of government in the hope of ending the war through Alcibiades with Persian support; this hope had now failed”

After the deposition of the 400, Antiphon and Archeptolemus were put to death on the charge of having plotted with others of the oligarchs to betray the city to Sparta. Theramenes was at the head of the government, under a moderate constitution, from September 411 to about July 410.”

The English, and usually the Greek, more logically uses for, as giving the grounds for the general statement.”

Xenophon says that the Spartans had already announced the destruction of 10 stadia [2km] of the Long Walls as a condition of peace, and that what Theramenes offered to do was to find out from Lysander whether this was intended as a preliminary to the enslavement of the city, or only as a means of guaranteeing their faithful obedience to the other terms of peace. After remaining 3 months with Lysander he returned to Athens with the report that Lysander had no power in the matter, and that it must be determined by the government at Sparta.” “Ordinarily the Areopagus had no jurisdiction in political or military affairs, but this crisis was so extreme, involving the very existence of the city, that extraordinary action by the Areopagus is not unlikely.” “on the first mission, that to Lysander, Theramenes went alone, but had no authority to negotiate; on the second, he had authority, but it was shared with 9 fellow-ambassadors. Lysias purposely represents it as resting entirely with him.”

Os atenienses levaram meses para destruir as muralhas externas, cumprindo as condições da paz com Esparta. Tal qual a construção de um bom estádio candango, a demolição desses estádios de muro na Antiguidade estourou o prazo que havia sido fixado!…

Dracontides doubtless presented the general plan, and the Thirty were chosen to draft a constitution which should carry it out in detail.”

for the change of this word from an originally good meaning // cp. [compare] the history of English simple and silly.” RUDE SIMPLÓRIO SIMPLES HUMILDE SEM-PECADO IMBECIL DISTORCIDO ABSURDO DESORIENTADO TONTO TOLO AHHHH

THE FREE DICTIONARY.COM:

sil•ly

adj. -li•er, -li•est, adj.

1. weak-minded or lacking good sense; stupid or foolish.

2. absurd; ridiculous; nonsensical.

3. stunned; dazed: He knocked me silly.

4. Archaic. rustic; plain; homely.

5. Archaic. weak; helpless.

6. Obs. lowly in rank or state; humble.

n.

7. Informal. a silly or foolish person.

(1375–1425; Middle English sely, orig., blessed, happy, guileless, Old English gesaelig happy, derivative of sael happiness; c. Dutch zalig, German selig)

silli•ly, adv.

silli•ness, n.”

It was the plan of Sparta and her Athenian supporters to see to it that the fleet should never be restored. This was the more acceptable to the Thirty as the fleet had always been the center of democratic power. We are not surprised, then, to read in Isocrates (7:66) that the dockyards, which had cost not less than 1000 t., were sold by the Thirty for 3 t. to be broken up. But apparently the work was not completed, for 4 years after the Thirty Lysias (30:22) speaks of the dockyards as then falling into decay.”

PATERfação da MAEteria

* * *

SPEECH XVI. FOR MANTITHEUS

Introdução e Considerações sobre o Discurso

The charge was brought against Mantitheus that he had been a member of the cavalry which had supported the Thirty, and that he was therefore not a fit candidate for the office of senator.”

Before the Peloponnesian War Athens had made very little use of cavalry, but from the beginning of that war to the close of the next century a force of a thousand horsemen was maintained.”

An enrolment which thus offered opportunity for display in time of peace, and a less dangerous and less irksome form of service in war, attracted the more ambitious and proud young men of the aristocracy.”

Xenophon gives a striking testimony to the hatred of the democracy toward the cavalry corps in his statement that when, 4 years after the Return, the Spartans called upon Athens to furnish cavalry to help in the campaign in Asia Minor, the Athenians sent them 300 of those who had served as cavalrymen under the Thirty <thinking it a good thing for the Demos if they should go abroad and die there> (Hell. 3.I.4), a statement which betrays Xenophon’s own feeling toward the people.”

It must have seemed to many of the returned exiles that the men who had so actively supported the lost cause ought to be more than content with permission to live retired lives as private citizens, and that for them to come forward now, seeking public office or any political influence whatever, was the height of presumption”

Aristotle gives the following description of the examination of candidates for the archonship, which probably did not differ materially from the examination for the senatorship, with the exception of the demand on taxes below: <When they are examined, they are asked, first, ‘Who is your father, and of what demo? Who is your father’s father? Who is your mother? Who is your mother’s father, and of what demo?’ Then the candidate is asked whether he has an ancestral Apollo and a household Zeus, and where their sanctuaries are; next, if he possesses a family tomb, and where; then, if he treats his parents well, and pays his taxes, and has served on the required military expeditions.>

He had, in short, to write the speech which the young man would himself have written if he had possessed Lysias’ knowledge of law and politics, and Lysias’ training in argumentation.”

Lysias knew the Athenian audience too well to suppose that plausible proof or valid proof would carry the case.”

This omission of the usual appeal to the feelings of the hearers is quite in keeping with the confident tone of the whole speech. The omission of the peroration is also wise from the rhetorical point of view. Throughout the speech Lysias has repressed everything that could suggest artificial or studied speech; it is in keeping with this that he omits that part of the plea in which rhetorical art was usually most displayed.”

No speech of Lysias offered a better opportunity for his peculiar skill in fitting the speech to the man”

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the Athenians did not venture to make universal their general principle of appointment to office by lot. The lot applied to officials whose work did not absolutely demand political or military experience or technical knowledge.”

30 mines was an average sum in a family of moderate means.”

The son of Alcibiades was alleged to have lost his property at dice.”

Thrasybulus was at first the idol of the people under the restored democracy; but his moderate and conservative policy, sternly opposed to every violation of the amnesty and every indulgence of revenge, grew vexatious to the more radical element. (…) The defeat of the expedition to Corinth in 394 was a blow to his reputation. (…) in the full tide of enthusiasm for the new navy and its commander Conon the people forgot their allegiance to Thrasybulus.”

the Homeric custom of wearing the hair long prevailed always at Sparta, but at Athens from about the time of the Persian Wars only boys wore long hair. When they became of age their hair was cut as a sign of their entering into manhood, and from that time on they wore hair about as short as modern custom prescribes; only the athletes made a point of wearing it close-cut. But there was a certain aristocratic set of young Spartomaniacs who affected Spartan appearance along with their pro-Spartan sentiments, and who were proud of wearing long hair, to the disgust of their fellow-citizens. These were the men who largely made up the cavalry corps.”

SPEECH XIX. ON THE STATE OF ARISTOPHANES [um homônimo do comediante, ao que tudo indica]

Introdução e Considerações sobre o Discurso

O reclamante da fala é supostamente o filho deste Aristófanes (mas o comentário diz que pode ter sido seu cunhado), morto sem julgamento e espoliado por Atenas, em busca da devolução de seus bens familiares ou de parte deles.

The events which led to this speech were connected with two dangerous tendencies in the political life of the 4th century, the enrichment of naval commanders through their office, and the hasty and unreasonable punishment of public officers in response to a fickle public sentiment.”

The city was attempting to take her old place in international affairs, with no sufficient revenue; the people saw in each new confiscation relief for the treasury.”

The case of Nicophemus and Aristophanes is but one among many between 388-386, when these prosecutions were at their height.”

Lísias defendia vários casos de ambos os lados: como promotor de Atenas, acusando a corrupção de homens da marinha e pedindo sua execução e confisco de suas riquezas; e neste, como advogado contra o Tribunal.

Speech against Epicrates: “In my opinion, Athenians, if you should put these men to death without giving them trial or opportunity of defense, they could not be said to have perished <without trial>, but rather to have received the justice that is their due.”

Speech againt Ergocles: “Why should you spare men when you see the fleets that they commanded scattering and going to pieces for lack of funds, and these men, who set sail poor and needy, so quickly become the richest of all the citizens?”

No other proem of Lysias is so long or developed in such detail. The reason is to be found in the fact that the speaker is addressing a jury who are thoroughly prejudiced against his case. Nicophemus and Aristophanes are believed to have been guilty of the gravest crimes, and now the defendant is believed to be concealing their property to the damage of the state. The prosecution have said everything possible to intensify this feeling.

The proem falls into two parts, one general, the other based on the facts peculiar to this case. It is surprising to find that for the first part Lysias has taken a ready-made proem from some book on rhetoric, and used it with slight changes. We discover this fact by comparing §§1-6 with the proem of Andocides’ speech On the Mysteries, delivered 12 years earlier, and the proem of Isocrates’ speech XV, published 34 years after that of Lysias. Andocides has divided the section, inserting a passage applicable to his peculiar case, but the 2 parts agree closely with Lysias’ proem. Isocrates had used a small part of the same material, but much more freely, changing the order and the phraseology, and amplifying the selected parts to fit his own style.” “Blass, arguing from certain phrases of Andocides, attributes the original proem to Antiphon.” “It was possible to compose them in such general terms that any one of them would fit a large class of cases. We hear of such collections by Thrasymachus, Antiphon, and Critias, and the mss. of Demosthenes have preserved to us a large collection of proems of his composition, 5 of which we find actually used in extant speeches of his.”

This adaptation of the language to the personality of the speaker (ethos) is perfected by delicate touches here and there.”

And here lies much of the power of Lysias. We often feel that his arguments are inconclusive; he fails to appeal strongly to the passions; in a case like this, where strong appeal might be made to our pity for the widow and little children, he seems cold. But the personality of the speaker and his friends is so real and their charm so irresistible, that at the close we find ourselves on their side.”

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OS 3 FEDROS DA ATENAS SOCRÁTICA: “the Pheaedrus whom we know through Plato as a young friend of Socrates (Banquete), one of the group who listened to the Sophist Hippias (Protágoras), and the friend and enthusiastic admirer of Lysias, delicately portrayed in Plato’s Phaedrus. It was not strange that when the proposition was made to confiscate the property of Aristophanes, his widow (a de Fedro) turned for help to the friend of her first husband, now at the height of his fame as an advocate, nor that when the present suit against her father’s estate came on Lysias again wrote the defense.”

we have 65 acres at about $70 an acre. This is the only passage in Greek authors which, by giving both the contents and the price of land, enables us to reckon land value. As we know neither the situation nor the nature of this land, even this information is of little worth.”

This avoidance of the common oaths of everyday impassioned speech is as fitting to the calm and simple style of Lysias as is their constant use to the vehement style of Demosthenes.”

of the 15 t. expended in the 4 or 5 years in question, the speaker has reckoned 5 t. for house and land, and 10 t. for the various public services; of this sum 2.83 t. was for ordinary liturgies of a rich citizen (service as choragus and trierarch) and for direct war taxes – an average of a little less than half a talent a year. A still more important source of information as to the public services of rich Athenian citizens is the account which Lysias gives in XXI of the public expenditures of his client for the 1st seven years after he attained his majority; the items are as follows:

1st year.

Choragus (tragic chorus) 3000 dracmae

Choragus (men’s chorus) 2000 dr.

2nd year.

Choragus (Pyrrhic) 800

Choragus (men’s chorus) 5000

3rd year.

Choragus (cyclic chorus) 300

7th year.

Gymnasiarch 1200

Choragus (boys’ chorus) 1500

Trierarch, 7 years 6 talents

War tax 3000 dr.

War tax 4000

TOTAL 9 t. 2800+ dr.

This gives an average contribution of about 1.325 t. a year. But these years were the final years of the Peloponnesian War, when public burdens were extraordinarily heavy; the same man gives smaller sums for the time immediately following. Moreover, the speaker says that the law would have required of him less than ¼ this amount. Unfortunately we have neither in this case nor in that of Aristophanes any knowledge of the total property or income from which these contributions were made, so that we have no sufficient basis for comparison with modern times. We lack the same data in the case of the speaker’s father, whose services of this kind amounted to 9 t. 2000 dr. in a period of 50 years [0.18 t./ano]. We only know that at his death the estate amounted to between 4 and 5 talents”

Callias the 2nd was reputed to be the richest Athenian of his time. Hipponicus the 3rd inherited this wealth. He had 600 slaves let out in the mines; ha gave his daughter, on her marriage to Alcibiades, the unheard-of dowry of 10 talents. His son, the Callias of our text, finally dissipated the family wealth. He affected the new learning, and we have in Plato’s Protagoras (VI-ff.) a humorous description of his house infested by foreign sophists. His lavish expenditures upon flatterers and prostitutes still further wasted his property, and he died in actual want.”

Aristophanes’ attack on Socrates in the Clouds gains much of its force in the picture of the son, corrupted and made impudent by his new learning, contradicting and correcting his old father.”

the minimum of property which subjected a citizen to the liturgies was 3 t.”

SPEECH XXII. AGAINST THE GRAIN DEALERS

Introdução e Considerações sobre o Discurso

This speech was written for a senator who was leading the prosecution of certain retail grain dealers, on the charge that, by buying up a larger stock of grain than the law permitted, they had injured the importers, and raised the price of grain to the consumers. It was probably delivered early in 386.

The successful expedition of Thrasybulus in 389-8 had brought the Hellespont under Athenian control, and thus secured the safety of the grain trade, which had been harassed by hostile fleets. But his death and the transfer of the command into less competent hands made the control of the Hellespont insecure again. At the same time the Spartans, having dislodged the Athenians from Aegina, were able constantly to endanger the grain ships at the home end of the route. The result was a period of unusual disturbance in the grain trade in the winter of 388-7.”

the dealers were forbidden by law to store up more than 1/3 of any cargo; 2/3 had to be thrown upon the market immediately. If then, a sufficient combination could be made among the retail dealers, they could hold the price down effectively.”

instead of passing the grain on to the consumers at a fair profit, the retailers used the low price to increase the stock of grain in their own storerooms, and put the retail price up according to the war rumors of the hour.”

The Senate had final jurisdiction only in case of penalties not greater than a fine of 500 dracmas (Demosthenes 47); in all other judicial cases their findings had to be passed on to a law court for final action.” Aristotle

Only one senator pressed the case against the dealers. The threatening of suits against rich men had become so common on the part of professional blackmailers that reputable men were loath to have anything to do with a case like this. The Senate found the charges sustained, and sent the case to a court under the presidency of the Thesmothetae.

The senator who had become so prominent in the prosecution felt obliged to carry the case through – otherwise he would have been believed to have been bought by the <ring of dealers>. He accordingly employed Lysias to prepare a speech for him to deliver in court. A study of this case involves a knowledge of the Athenian laws relating to commerce.

The small area of the Attic territory in proportion to population, and the poor adaptedness of the soil to grain production as compared with that of olives and figs, left the people largely dependent upon foreign sources for their grain. More than half of the supply came from foreign ports; the greater part from the Hellespont and the Euxine.”

to prevent the accumulation of grains in the retailers’ storerooms, and their consequent control of prices, it was provided by law, under penalty of death, that no retailer should buy more than 50 baskets at a time (but as to how much the standard grain basket held we have no knowledge).” “The whole retail grain trade was supervised by a board of Grain Commissioners; of their appointment and duties we learn as follows from Aristotle:

There were formerly ten, appointed by lot, 5 for the Piraeus, and 5 for the city, but now there are 20 for the city and 15 for the Piraeus.

Thus, the government followed the grain at every step from its reception in the Piraeus to the home of the consumer.” “At the first meeting of the Ecclesia in every prytany a part of the routine business was the consideration of the grain supply.”

The issue was so simple, the case so prejudiced in favor of the prosecution by the preliminary action of the Senate, and the odium of the act so certain, that Lysias was content to present every fact of the prosecution with the utmost simplicity and brevity.”

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it is uncertain whether this was the Anytus who shared in the prosecution of Socrates. That Anytus, a rich tanner, was a leading democrat, associated with Thrasybulus in the Return. [But] this activity in protecting the poor man’s food supply would be quite in keeping with his democratic rôle.”

Neste tipo de caso (economia alimentar), metecos podiam integrar o júri.

SPEECH XXIV. FOR THE CRIPPLE

Introdução e Considerações sobre o Discurso

Lysias wrote this speech in support of the plea of a crippled artisan for the retention of his name on the list of disabled paupers who received a dole of an obol a day from the public treasury.” “An allowance of 2 obols/day from the treasury was all that saved many people from starvation during the last third of the Peloponnesian War.”

A system of military pensions for men who had been disabled and for the sons and dependent parents of men who had died goes back to the time of Solon and Pisistratus: the soldiers’ pension under Pisistratus, after the example of Solon in the case of a single disabled veteran (Heraclides, cited by Plutarch) support and education of sons, introduced by Solon (Diogenes Laert.). The pension of dependent parents (Plato, Menexeno) presumably goes back to the same time.”

It is to be remembered that the jury pay, available to all who cared to sit in court, and the pay for sitting in the Ecclesia offered no small relief to the poor citizens.”

The ascription of the speech to Lysias seems to have been questioned in antiquity, and has recently been vigorously attacked by Bruns. The first objection raised by Bruns is that the tone and extent of the attack on the complainant are at variance with Lysias’ uniform calmness and restraint in attack; Lysias’ defendants confine their attacks on the prosecutors to their acts in the case itself, and are far from giving a general characterization of the men; the extent of the attack is always well proportioned to the gravity of the case. But in our speech we have a bitter and scornful attack on the whole character of the opponent, and it is as vehement as though the issue were some great thing – not an obol a day. Bruns sees a 2nd violation of the Lysian manner in the failure of the defendant to press the real points at issue –his physical disability and his poverty – and the comical pose in which he is made to give, instead of argument, a picture of himself.”

We may suppose that the complainant had called attention to the horseback riding, something that only the richer citizens could afford, as indicating that the cripple had rich friends who could and would support him; the cripple pretends that the argument was that he was physically sound enough to jump unto a horse and ride it!”

The parody on the common pleas of the day is carried out in the absurd appeal based on the past life of the speaker: he has been no sycophant; he, the cripple, has not been violent; he, the pauper, refrained from sharing in the government of the aristocratic Thirty!”

SPEECH XXV. DEFENSE AGAINST THE CHARGE OF HAVING SUPPORTED THE GOVERNMENT OF THE THIRTY

Introdução e Considerações sobre o Discurso

This speech was written for a citizen who had been one of the 3,000 admitted by the Thirty to a nominal share in their government. The speaker has now, under the restored democracy, been chosen (by vote or lot) to some office.”

his eligibility is challenged on the ground that he was a supporter of the Thirty. The complainants have brought no charge of specific acts, basing their attack upon the principle that former members of the oligarchical party cannot be trusted in office under the democracy. The defense must attack this principle, and it is this fact which raises the speech above the plane of personal questions, and makes it one of the most interesting documents in the history of the period immediately after the Return.

The oath of amnesty provided for the exclusion from the city of certain specified leaders of the oligarchy; to all other citizens it guaranteed oblivion of the past. Under any fair interpretation of this agreement the former supporters of the Thirty, even senators, office holders and soldiers under them, were perfectly eligible to office under the restored democracy. But to keep their pledges in the full spirit of them proved to be a severe test of the self-control of the party of the Return.

The wiser democratic leaders fully recognized the critical nature of the situation. An attempt by one of the returned exiles to violate the agreement and take vengeance on one of the city party was met by the summary seizure of the complainant and his execution by the Senate without trial (Aristotle). This made it clear that there was to be no policy of bloody reprisals; but the feeling of hostility remained.

Then, less than 3 years after the Return, came the attempt of the survivors of the Thirty, settled at Eleusis, to organize an attack by force. The prompt march of the citizen forces, together with their treacherous seizure of the oligarchical leaders, soon put down the movement. But now more than ever it seemed to the democratic masses intolerable that members of the city party should have equal privileges with themselves. Their spokesmen began to say that the aristocrats might consider the people generous indeed in allowing their former enemies to vote in the Ecclesia and to sit on juries; that to ask for more than this was an impertinence (Lys. 26. 2, 3).

Those who had been conspicuous supporters of the Thirty, or personally connected with their crimes of bloodshed and robbery, naturally refrained from thrusting themselves into prominence; indeed, few of these had probably remained in the city. But the first test came when men whose support of the Thirty had been only passive, and against whose personal character no charge could be raised, ventured to become candidates for office.”

This speech was written by Lysias for one of the first cases of this sort – it may have been the very first. The issue was vital. If a man like the speaker, of proved ability and personal character, untainted by crime under all the opportunities offered during the rule of the Thirty, was now to be excluded from office, the reconciliation must soon break down.”

The speech cannot be placed much later than 400, for the speaker, with all his pleas based on his good conduct before and during the rule of the Thirty, says nothing of his conduct since the Return (October, 394), nor does he cite cases of other men of his party holding office. Moreover, his warnings show that there are fugitives of the oligarchical party who still hope for a reaction and a counter blow against the democracy, and are not yet sure what will be the treatment of the former supporters of the Thirty, whil