AS OPINIÕES E AS CRENÇAS – Gustave Le Bon, 1911.

APRESENTAÇÃO (Nelson Jahr Garcia)

Dificilmente se poderia estudar temas como: teoria do conhecimento, ideologia, religiões, superstições, comportamento das massas, propaganda, persuasão sem estudar e se apoiar em Le Bon.” “É uma obra de incrível atualidade; talvez tenham conseguido aprofundá-la, superar ainda não.” Digamos que seja uma mescla de preciosidades muito relevantes em assuntos como a gênese das crenças com as pérolas mais grotescas sobre movimentos sociais!

LIVRO I. OS PROBLEMAS DA CRENÇA E DO CONHECIMENTO

1. OS CICLOS DA CRENÇA E DO CONHECIMENTO

O domínio da crença sempre pareceu repleto de mistérios. É por isso que os livros sobre as origens da crença são tão pouco numerosos, ao passo que são inúmeros os que se referem ao conhecimento.”

Aceitando a velha opinião de Descartes, os autores repetem que a crença é racional e voluntária. Um dos objetivos desta obra será precisamente mostrar que ela não é voluntária nem racional.”

Por que se observam, simultaneamente, em certos espíritos, ao lado de elevadíssima inteligência, superstições muito ingênuas? Por que é tão fraca a razão para modificar as nossas convicções sentimentais? Sem uma teoria da crença, essas questões e muitas outras ficam insolúveis.”

Se o problema da crença tem sido tão mal-compreendido pelos psicólogos e pelos historiadores, é porque eles têm tentado interpretar com os recursos da lógica racional fenômenos que ela jamais regeu. Veremos que todos os elementos da crença obedecem a regras lógicas muito seguras, porém inteiramente alheias às que são empregadas pelo sábio nas suas investigações.”

Tribos nômades, perdidas no fundo da Arábia, adotam uma religião que um iluminado lhes ensina, e graças a ela fundam, em menos de 50 anos, um império tão vasto quanto o de Alexandre, ilustrado por uma esplêndida manifestação de maravilhosos monumentos.

Poucos séculos antes, povos semibárbaros se convertiam à fé pregada por apóstolos que vinham de obscuros lugares da Galiléia, e sob a luz regeneradora dessa crença, o velho mundo desabava, substituído por uma civilização inteiramente nova, de que cada elemento permanece impregnado da lembrança do Deus que o originou.

Cerca de vinte séculos mais tarde, a antiga fé é abalada, estrelas luminosas surgem no céu do pensamento, um grande povo se subleva, pretendendo romper os elos do passado. A sua fé destruidora, porém possante, confere-lhe, a despeito da anarquia em que essa grande Revolução o submerge, a força necessária para dominar a Europa armada e atravessar vitoriosamente todas as suas capitais.”

Compreende-se, por exemplo, sem dificuldade, que o Cristianismo se haja propagado facilmente entre os escravos e todos os deserdados, aos quais prometia uma felicidade eterna. Mas, que forças secretas podiam determinar um cavalheiro romano, um personagem consular, a despojar-se dos seus bens e afrontar vergonhosos suplícios, para adotar uma religião nova e vedada pelas leis?”

Facilmente concebemos que Newton, Pascal, Descartes, vivendo num meio social saturado de certas convicções, sem discussão aí tenham admitido, como admitiam as leis inelutáveis da natureza. Mas como, nos nossos dias, em meios sobre os quais a ciência projeta tanta luz, não se acham essas mesmas crenças inteiramente desagregadas? Por que as vemos nós, quando por acaso se desagregam, originar outras ficções, maravilhosas, como prova a propagação das doutrinas ocultas, espirituais etc., entre sábios eminentes?”

Tudo quanto é aceito por um simples ato de fé deve ser qualificado de crença. Se a exatidão da crença é verificada mais tarde pela observação e a experiência, cessa de ser uma crença e torna-se um conhecimento.”

Um mistério é a alma ignorada das coisas.”

Claramente se qualifica a civilização, dando-lhe o nome da fé que a inspirou. Civilização búdica, civilização muçulmana, civilização cristã são designações muito justas, porquanto, ao tornar-se um centro de atração, a crença se transforma num centro de deformação.

As únicas verdadeiras revoluções são as que despertam as crenças fundamentais de um povo. Têm sido sempre muito raras. Ordinariamente, só o nome da convicção se transforma; a fé muda de objeto, mas nunca morre.

Não poderia morrer, pois a necessidade de crer constitui um elemento psicológico tão irredutível quanto o prazer ou a dor. A alma humana tem aversão à dúvida e à incerteza. O homem atravessa, por vezes, fases de ceticismo, mas nelas não se detém longamente; sente a ânsia de ser guiado por um credo religioso, político ou moral que o domine e lhe evite o esforço de pensar. Os dogmas, que se dissipam, são sempre substituídos. A razão nada pode contra essas indestrutíveis necessidades.

A idade moderna contém tanta fé quanto tiveram os séculos precedentes. Nos novos templos pregam-se dogmas, tão despóticos quanto os do passado, e eles contam fiéis igualmente numerosos. Os velhos credos religiosos que outrora escravizavam a multidão são substituídos por credos socialistas ou anarquistas, tão imperiosos e tão pouco racionais como aqueles, mas não dominam menos as almas. A igreja é substituída muitas vezes pela taverna, mas aos sermões dos agitadores místicos que aí são ouvidos atribui-se a mesma fé.” O problema: o pós-moderno matou o socialismo e o anarquismo, restou apenas o liberalismo de mãos dadas com a velha e boa religião ecumênica – absorveram a parte religiosa (durkheimiana) do social, e agora essa neo-crença dá sinais de ser realmente indestrutível…

A fé num dogma qualquer é, sem dúvida, de um modo geral, apenas uma ilusão. Cumpre, contudo, não a desdenhar. Graças à sua mágica pujança, o irreal torna-se mais forte do que o real. Uma crença aceita dá a um povo uma comunhão de pensamentos de que se originam a sua unidade e a sua força.”

As opiniões representam geralmente pequenas crenças, mais ou menos transitórias.”

Crença e conhecimento não são opostos, como parece crer o autor. O conhecimento é apenas a crença sedimentada, e ainda não erodida. Resquício positivista, embora seja bem mais cético do que Comte, por exemplo. Tampouco deixam as opiniões de ser conhecimentos – recém-nascidos, é verdade, fetos ou bebês num mundo de alto morticínio.

2. OS MÉTODOS DE ESTUDO DA PSICOLOGIA

O mais antigo método psicológico, o único praticado durante muito tempo, foi o que se denomina de introspecção. Encerrado no seu gabinete de estudos e ignorando voluntariamente o mundo exterior, o pensador refletia em si mesmo e com os resultados das suas meditações fabricava grossos volumes. Hoje, já não acham leitores.” EXCELENTE DESCRIÇÃO DO ERUDITO! PORÉM, os primeiros “psicólogos” eram homens que viviam ao ar livre e não sabiam o que era o papel…

Lady Macbeth é uma alucinada, Otelo um histero-epilético, Hamlet um alcoólico perseguido por fobias, o rei Lear um maníaco melancólico, vítima de loucura intermitente. Cumpre, aliás, reconhecer que, se todos esses ilustres personagens tivessem sido individualidades normais, ao invés de possuírem uma patologia alterada e instável, a literatura e a arte não teriam tido necessidade de ocupar-se deles.”

A psicologia dos animais, mesmo superiores, está ainda no começo. Para compreendê-los, cumpre examiná-los de muito perto, e a essa tarefa ninguém se entrega.

Facilmente aprenderíamos a adivinhá-los, contudo, mediante um exame atento. Consagrei outrora muitos anos à observação dos animais. Os resultados que colhi foram expostos numa memória sobre a psicologia do cavalo, publicada na Revue Philosophique. Dali deduzi regras novas para a educação desse animal. Essas pesquisas foram-me úteis quando redigi o meu livro atinente à Psicologia da Educação.” [!] Tentador, objeto curioso, mas eu não leria tal livro…

A enumeração precedente permite pressentir que nenhum dos métodos psicológicos clássicos, nem os inquéritos, nem a psicofísica, nem as localizações, nem a própria psicopatologia podem revelar a gênese e a evolução das opiniões e das crenças.”

Veremos ilustres físicos afirmarem que desdobraram seres vivos e viveram com fantasmas materializados; um célebre professor de filosofia evocar os mortos e conversar com eles; outro, não menos eminente, declarar que viu um guerreiro, armado de capacete, sair do corpo de uma mulher, com os seus órgãos completos, como provava o estado da sua circulação e o exame dos produtos da sua respiração.” As Paralógicas em Psicologia: desafiando Aristóteles!

Os mais eminentes psicólogos modernos, principalmente William James, viram-se forçados a reconhecer ‘a fragilidade de uma ciência que poreja a crítica metafísica por todas as suas articulações Ainda esperamos o primeiro clarão que deve penetrar na obscuridade das realidades psicológicas fundamentais’.” “a psicologia clássica não contém ‘uma única lei, uma só fórmula de que possamos deduzir uma consequência, como se deduz um efeito da sua causa’.”

LIVRO II. O TERRENO PSICOLÓGICO DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS

1. OS GRANDES FATORES DA ATIVIDADE DOS SERES: O PRAZER E A DOR

Prazer e dor (…) são efeitos, como os sintomas patológicos são as conseqüências de uma moléstia.” Bom, Le Bon! Esse é o caminho…

A fome é a dor mais temida; o amor, o prazer mais procurado, e pode-se repetir o que disse o grande poeta Schiller, isto é, que a máquina do mundo se sustenta pela fome e pelo amor.”

2. CARACTERES DESCONTÍNUOS DO PRAZER E DA DOR

O único prazer um pouco durável é o (…) desejo.”

O tique-taque do relógio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por não ser mais ouvido, e o moleiro não será despertado pelo ruído das rodas do seu moinho, mas pela sua parada.”

A felicidade paradisíaca sonhada pelos crentes deixaria logo de possuir atrativos (…) [em relação ao] inferno.”

A dor de hoje torna-se o prazer de amanhã e inversamente.”

O prazer do operário que bebe e vocifera na taverna sensivelmente difere do prazer do artista, do sábio, do inventor, do poeta, ao comporem as suas obras. O prazer de Newton, ao descobrir as leis da gravitação, foi, sem dúvida, mais vivo do que se ele houvesse herdado as numerosas mulheres do rei Salomão.”

Do pólipo aos homens, todos os seres são movidos pelo desejo. Inspira a vontade, que não pode existir sem ele, e depende da sua intensidade.” Por que separar vontade e desejo? Como que antecipando minha objeção: “Cumpre, no entanto, não confundir vontade e desejo, como fizeram muitos filósofos, tais como Condillac e Schopenhauer. Tudo quanto é querido é, evidentemente, desejado; mas desejamos muitas coisas que, sabemos, não podíamos querer.” Falta CLAREZA!

A vontade traduz deliberação, determinação e execução, estados de consciência que não se observam no desejo. O desejo estabelece a escala dos nossos valores, variável, aliás, com o tempo e as raças. O ideal de cada povo é a fórmula do seu desejo.” Mera questão de semântica. Não entendeu a Vontade schopenhaueriana-nietzschiana.

Não existindo em si mesmo o valor das coisas, ele é apenas determinado pelo desejo e proporcionalmente à intensidade desse desejo. A variável apreciação dos objetos de arte fornece desse fato uma prova diária.”

Somente o grande reformador Buda compreendeu que o desejo é o verdadeiro dominador das coisas, o fator da atividade dos seres. Para libertar a humanidade das suas misérias e conduzi-la ao perpétuo repouso ele tentou suprimir esse grande móvel das nossas ações. A sua lei submeteu milhões de homens, mas não subjugou o desejo.” Perigo: o budismo europeu!

Buda vs Realpolitik

A esperança é filha do desejo, mas não é o desejo.” “Toda gente deseja a fortuna, muito poucos a esperam. Os sábios desejam descobrir a causa primitiva dos fenômenos; eles não têm nenhuma esperança de consegui-lo.”

O desejo aproxima-se algumas vezes da esperança, a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, eu desejo e espero ganhar.

A esperança é uma forma de prazer em expectativa que, na sua atual fase de espera, constitui uma satisfação freqüentemente maior do que o contentamento produzido pela sua realização.”

Ela constitui uma espécie de vara mágica que transforma tudo. Os reformadores nunca fizeram mais do que substituir uma esperança por outra.”

O hábito é o grande regulador da sensibilidade; ele determina a continuidade dos nossos atos, embota o prazer e a dor e nos familiariza com as fadigas e com os mais penosos esforços. O mineiro habitua-se tão bem à sua dura existência que dela se recorda saudoso quando a idade o obriga a abandoná-la e o condena a viver ao sol.”

A dificuldade para um povo consiste, primeiramente, em criar hábitos sociais, depois em não permanecer muito tempo neles. Quando o jugo dos hábitos pesou muito tempo num povo, ele só se liberta desse jugo por meio de revoluções violentas. O repouso na adaptação, em que o hábito consiste, não se deve prolongar.” Por que não?

Povos envelhecidos, [Europa] civilizações adiantadas, indivíduos idosos tendem a sofrer demasiado o jugo do costume, isto é, do hábito.”

A existência de um indivíduo ou de um povo ficaria instantaneamente paralisada se, por um poder sobrenatural, ele se visse subtraído à influência do hábito. É ele que diariamente nos dita o que devemos dizer, fazer e pensar.”

Não é o pensamento, mas a sensibilidade, que nos revela o nosso ‘eu’. Se dissesse: ‘Sinto, logo existo’ ao invés de: ‘Penso, logo existo’, Descartes estaria muito perto da verdade.”

Fornecem uma resposta segura à eterna pergunta tão repetida desde o Eclesiastes: por que tanto trabalho e tantos esforços, já que a morte nos espera e o nosso planeta se resfriará um dia?

Por quê? Porque o presente ignora o futuro e no presente a Natureza nos condena a procurar o prazer e evitar a dor.” Último homem (primeiro homem).

O operário, curvado sob o peso do trabalho, a irmã de caridade, a quem não repugna nenhuma chaga, o missionário torturado pelos selvagens, o sábio que procura a solução de um problema, o obscuro micróbio que se agita no fundo de uma gota d’água, todos obedecem aos mesmos estimulantes de atividade: o atrativo do prazer, o receio da dor.” Uma meia-verdade

Não poderíamos mesmo imaginar móveis diferentes desses. Só os nomes podem variar.” Sim, e o mais correto seria vontade de no lugar de prazer.

2. AS VARIAÇÕES DA SENSIBILIDADE COMO ELEMENTOS DA VIDA INDIVIDUAL E SOCIAL

Para que a sensação aumente em progressão aritmética, cumpre que a excitação cresça em proporção geométrica. Segundo Fechner, a sensação cresce segundo o logaritmo da excitação. Assim, para dobrar a sensação produzida por uma excitação, a de um instrumento de música, por exemplo, seria necessário decuplar o número dos instrumentos; para triplicá-la, dever-se-ia centuplicar esse número.”

A placa fotográfica pode, com uma ‘pose’ suficiente, reproduzir estrelas sempre invisíveis à vista desarmada, precisamente porque a retina não possui a propriedade de acumular as pequenas impressões.”

É vantajoso que assim seja. Se o organismo se achasse constituído de modo a acumular as pequenas dores, a vida tornar-se-ia logo insuportável.” Sobre um acidente de trem com 300 vítimas chocar muito mais que uma doença, por exemplo, que leve essas mesmas 300 pessoas no decorrer de um ano ou, para deixar o exemplo simétrico, 300 pessoas que morrem em acidentes individuais de trem no mesmo período alongado. Torna-se evidente que isso se aplica à pandemia: 400 mortos diários na Itália chocaram os brasileiros; 2 mil mortes diárias em solo nacional, pela centésima vez, 1 ano depois, já não têm o poder de chocar.

Certos fatores das opiniões podem igualmente limitar as oscilações da sensibilidade. Tal é o contágio mental, criador de maneiras susceptíveis de estabilizar um pouco a nossa mobilidade. As sensibilidades coletivas, momentaneamente fixas, traduzem-se, então, em obras diversas, que são o espelho de uma época.”

Comparai, por exemplo, os pesados desenhos de Daumier com esses sóbrios esboços modernos, em que só se guardou o traço saliente dos personagens, deixando à vista o cuidado de completá-los. Do mesmo modo, em literatura, as longas descrições de paisagens são hoje substituídas por algumas linhas breves, porém evocadoras.

Apurando-se, a sensibilidade se embota também. A música simples de Lulli, que encantava nossos pais, nos enfastia. As operações de há 50 anos nos parecem, na maioria, muito envelhecidas. A harmonia tem cada vez mais dominado a melodia, e agora é necessário, para excitar sensibilidades fatigadas, o emprego de certas dissonâncias que os antigos compositores teriam considerado como erros.

Só as obras de uma época, sobretudo, artísticas e literárias, permitem conhecer a sensibilidade dessa época e as suas variações.

É precisamente porque elas são a verdadeira expressão da sensibilidade de uma época que as obras de arte são facilmente datadas. Pela mesma razão, são muito mais instrutivas do que metódicos livros de história. O historiador julga o passado com a sua sensibilidade moderna. A sua interpretação, forçosamente falsa, pouco nos ensina. O menor conto, romance, quadro, monumento da época considerada, encerra um ensinamento mais exato e interessante.”

As sensibilidades não se transportam no espaço nem no tempo. Uma obra arquitetônica formada de uma mescla de elementos de épocas afastadas ou procedentes de raças diversas nos causará, necessariamente, má impressão, porque se origina de sensibilidades dissemelhantes da nossa.

Se, em virtude da evolução da nossa espécie, a nossa sensibilidade se transformasse, todas as obras do passado, as que são mais admiradas hoje: o Partenon, as catedrais góticas, os grandes poemas, as pinturas célebres, seriam consideradas como produções indignas de atrair a atenção.”

Bastaria que a educação persistisse na sua tendência atual especialista e técnica, e continuasse a rápida ascensão ao poder das multidões. Todas as formas da arte representam para elas apenas um luxo desprezível. A Comuna, expressão bastante fiel da alma popular, não hesitou em incendiar os mais belos monumentos de Paris, como a Municipalidade e as Tuileries. Unicamente por acaso o Louvre, com as suas coleções, escapou a esse vandalismo.”

Sem esses elementos de informação, fornecidos pela literatura e pela arte, a sensibilidade de uma época permaneceria tão ignorada quanto a dos habitantes de Júpiter.”

Uma nação sem ideal desaparece rapidamente da história.”

3. AS ESFERAS DAS ATIVIDADES VITAIS E PSICOLÓGICAS: A VIDA CONSCIENTE E A VIDA INCONSCIENTE

É errôneo deixar de lado o exame dos fenômenos vitais como fazem os psicólogos, que o abandonam aos fisiologistas.”

Os sentimentos só entram na consciência após uma elaboração automática praticada nessa obscuríssima zona do inconsciente, qualificada hoje de subconsciente e cuja exploração apenas se acha iniciada.”

MAIS PARA JUNG QUE PARA FREUD: “O inconsciente é em grande parte um resíduo ancestral. A sua força é devida à circunstância de ser o inconsciente a herança de uma longa série de gerações, a que cada uma juntou alguma coisa.

O seu papel, outrora ignorado, tornou-se tão preponderante hoje que certos filósofos, principalmente W. James e Bergson, nele procuraram a explicação da maior parte dos fenômenos psicológicos.”

A prática de um ofício ou de uma arte facilmente se exerce, desde que os dirija o inconsciente, educado de um modo satisfatório. Uma moral sólida é o inconsciente bem-educado.”

Acima do inconsciente orgânico vemos o inconsciente afetivo. É de formação mais recente, é um pouco menos estável, conquanto ainda o seja muito. Por isso, quando podemos mudar o assunto no qual se exercem os nossos sentimentos, a nossa ação nele influi de maneira muito fraca. No alto dessa escala acha-se o inconsciente intelectual, que muito tarde surgiu na história do mundo e não possui profundas raízes ancestrais. Ao passo que o inconsciente orgânico e o afetivo acabaram por criar instintos transmitidos pela hereditariedade, o inconsciente intelectual só se manifesta ainda sob a forma de predisposições e de tendências, e a educação deve completá-lo em cada geração.”

ANTI-JUSSARA PR*DO: “A educação influi grandemente no inconsciente intelectual, precisamente porque ele é menos fixo do que as outras formas do inconsciente. Ela exerce, ao contrário, uma influência diminuta nos sentimentos, que são os elementos fundamentais do nosso caráter, fixos desde muito tempo. O inconsciente afetivo é, freqüentemente, um dominador imperioso, indiferente às decisões da razão. É por isso que tantos homens, muito sensatos nos seus escritos e nos seus discursos, tornam-se, na sua maneira de proceder, simples autômatos, dizendo o que não queriam dizer e fazendo o que não queriam fazer.”

A educação, já disse em outro livro, é a arte de fazer passar o consciente para o inconsciente.”

A biologia moderna baniu, há muito tempo, e com razão, a finalidade do universo; os fatos ocorrem, no entanto, como se ela dominasse o seu encadeamento. Todas as nossas explicações racionais deixam a natureza repleta de manifestações impenetráveis. A julgar pelos seus resultados, poderia parecer que o inconsciente — forma moderna da finalidade — abriga gênios sutis, desejosos de cegar-nos, fazendo-nos sacrificar, incessantemente, os nossos interesses em favor da espécie. Os gênios da finalidade inconsciente são, sem dúvida, simples necessidades selecionadas que o tempo fixou.

Qualquer que seja a razão, o inconsciente muitas vezes nos domina e sempre nos cega. Não o lamentemos demasiado, porquanto uma clara visão da sorte futura tornaria a existência muito triste. O boi não comeria tranqüilamente a erva do caminho que o conduz ao matadouro, e os entes, na sua maioria, estremeceriam de horror perante o seu destino.”

4. O EU AFETIVO E O EU INTELECTUAL

PREFIGURAÇÕES DO FASCISMO: “Legiões de políticos quiseram assentar em raciocínios o que só se pode basear em sentimentos.”

Ilustres filósofos foram vítimas da mesma confusão entre a lógica afetiva e a lógica racional. Kant pretendia edificar a moral sobre a razão. Ora, entre as duas diversas origens, a razão quase nunca figura.”

qualquer ciência seria impossível se não tivéssemos aprendido a criar uma parte descontínua no contínuo.”

O eu afetivo, evolvendo a despeito da nossa vontade e muitas vezes contra nós, torna a vida cheia de contradições.” “Assim, não temos razão quando censuramos alguém por ter mudado. Essa censura subentende a idéia muito falsa de que a inteligência pode modificar um sentimento. Erro completo. Quando o amor, por exemplo, se torna indiferença ou antipatia, a inteligência assiste a essa mudança, mas não é ela que a causa. As razões que são imaginadas para explicar tais transformações não têm relação alguma com os seus verdadeiros motivos. Nós os ignoramos.”

Freqüentemente imagina-se sentir por uma pessoa uma dedicação profunda e sólida (amor, amizade); a ausência ou a necessidade de uma ruptura demonstra a real fragilidade dessa dedicação.” Ribot

É, pois, impossível, como justamente observa o mesmo autor, julgar com o eu intelectual a maneira de agir do eu afetivo.” “Todo o nosso sistema de educação latina é uma prova dessa asserção. A persuasão de que o desenvolvimento da inteligência pela instrução desenvolve também os sentimentos, cuja associação constitui o caráter, é um dos mais perigosos preconceitos da nossa Universidade. Os educadores ingleses sabem há muito tempo que a educação do caráter não se faz por meio dos livros.

Sendo distintos o eu afetivo e o eu intelectual, não pode surpreender que uma inteligência muito elevada coexista com um caráter muito baixo.” “[Como muito bem o demonstra] o ilustre chanceler Bacon. Nenhum homem do seu tempo possuiu uma inteligência mais elevada, mas muito poucos revelaram uma alma tão baixa. Começou, na esperança de obter um emprego da rainha Isabel, por trair o seu único benfeitor, o conde d’Essex, que foi decapitado. Teve de esperar, contudo, o reino de Thiago I [James? Que tradução escrota!], para conseguir, recomendado pelo duque de Buckingham, que ele igualmente logo traiu, o lugar de solicitor geral, depois o de chanceler. Revelou-se nesse ponto cortesão humilde e ladrão impudente. As suas concussões [corrupções ao Erário] foram de tal ordem que se tornou preciso processá-lo. Em vão tentou enternecer os seus juízes por uma humílima confissão escrita, na qual confessava as suas faltas e ‘renunciava a defender-se’. Foi condenado à perda de todos os postos que ocupava e à prisão perpétua.” O que Le Bon omite é que a sentença foi revogada depois de poucos dias, e a multa a que também havia sido condenado foi paga pelo rei! “Subsequently, the disgraced viscount devoted himself to study and writing.” Parece que foi para o nosso bem. Pelo verbete do Wikipédia, não está claro que ele tivesse uma personalidade tão sórdida!

Mas, voltando: premissa irretocável. Conclusão interessante, porém é a partir dela que eu e Le Bon discordamos. Não se trata de uma inteligência muito elevada, quando é esse o caso – apenas na aparência vulgar (ou que o sujeito seja um traste, isso é um engano, se for inteligente)! Popularmente se diz que a sabedoria é individualmente rara, e que o bom caráter é-o mais ainda, ou o contrário: o bom caráter raro, a sabedoria raríssima. Porém, quem avalia a ambos está distante das condições requeridas para fazer uma avaliação correta: ambos são raros em igual medida – assim que se depara com a verdadeira sabedoria, esbarra-se também com o verdadeiro e genuíno caráter elevado. Tão raro como se apresenta, ainda há aqueles que não são reconhecidos como tais em seu próprio tempo por ninguém. Homens sábios e bons (homens sábios; homens bons – é indiferente aqui a escolha do qualificativo) que passam incógnitos pelo mundo. Pode haver a “canonização” póstuma se este homem lega obras ou tem sorte o bastante.

Mme. de Stael observava que entre os alemães o sentimento e a inteligência ‘não têm aparentemente relação alguma; uma não pode admitir limites, o outro se submete a todos os jugos’.” Cada vez mais vejo citações de De Stael. Nação de filisteus: nenhum era realmente sábio, e os estouvados foram engolfados no – quando não autores do – fascismo. É paradoxal e contra-intuitivo, mas deve ser aceita a possibilidade de uma nação burra onde floresce a filosofia. Ademais, via de regra, todo povo é burro; a sabedoria e o bom caráter devem ser procurados sempre nos indivíduos singulares.

a inteligência, variando consideravelmente de um assunto para outro e, não sendo contagiosa como os sentimentos, nunca pode revestir uma forma coletiva. Os indivíduos de uma mesma raça possuem, ao contrário, certos sentimentos comuns, que facilmente se fundem quando se acham agrupados.” A busca pelos privilegiados cosmopolitas…

O eu afetivo constitui o elemento fundamental da personalidade. Mui lentamente elaborado por aquisições ancestrais, ele evolve nos indivíduos e nos povos muito menos depressa que a inteligência.”

Um sentimento primeiramente refreado torna-se preponderante numa época e domina de maneira mais ou menos durável os outros estados afetivos. O homem em sociedade vê-se certamente forçado a submeter os seus sentimentos às sucessivas necessidades que lhe são impostas pelas circunstâncias e, sobretudo, pelo ambiente social.”

A emoção é um sentimento espontâneo, mais ou menos efêmero. Nasce de um fenômeno súbito: acidente, anúncio de uma catástrofe, ameaça, injúria, etc. A cólera, o medo, o terror são emoções.

O sentimento representa um estado afetivo durável, como a bondade, a benevolência, etc.

A paixão é constituída por sentimentos que adquirem grande intensidade e podem momentaneamente anular outros: ódio, amor, etc.”

A transformação em sentimento ou em pensamento de um processo químico-orgânico é agora completamente inexplicável.

Os sentimentos e as emoções variam conforme o estado fisiológico da pessoa ou segundo a influência de diversos excitantes: café, álcool, etc.

O sentimento mais simples é sempre muito complexo; desde, porém, que se torna irredutível a outro pela análise, devemos, para facilidade da linguagem, tratá-lo como se fosse simples. Também o químico denomina corpos simples aqueles que ele não sabe decompor.

Os psicólogos referem-se, por vezes, a sentimentos intelectuais. ‘Esse termo’, diz Ribot, ‘designa estados afetivos agradáveis ou mistos, que acompanham o exercício das operações da inteligência’.

Eu não poderia admitir essa teoria, que confunde uma causa com o seu efeito. Um sentimento pode ser produzido por influências tão diversas quanto a ação de um alimento agradável ou a de uma descoberta científica, mas resta sempre um sentimento. Quando muito poder-se-ia dizer que as nossas idéias têm um equivalente emocional.”

Os psicólogos não conseguiram ainda definir nem classificar as paixões. Spinoza admitia três: o desejo, a alegria e a tristeza, das quais deduzia todas as outras. Descartes admitia seis primitivas: a admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza. São, evidentemente, meras formas de linguagem que nada podem explicar e que não resistem à discussão.”

As paixões que duravam muito tempo são paixões que se reavivam, como, por exemplo, os ódios políticos.”

A inteligência só influi numa paixão quando a representação mental de um sentimento é oposta a outro. A luta existe, então, não entre representações intelectuais e representações afetivas, mas unicamente entre representações afetivas postas em presença pela inteligência.”

A memória dos sentimentos [memória afetiva] existe como a da inteligência, mas num grau muito menor. O tempo muito depressa a enfraquece.” Perfumes e canções como máquinas do tempo voláteis.

Na época em que os livros eram raros e custosos, por exemplo, no século XIII, os estudantes sabiam reter os cursos que lhes eram ditados. Atkinson assegura ‘que se os clássicos chineses viessem a ser hoje destruídos, mais de 1 milhão de chineses poderiam reconstituí-los de memória’.”

Um ódio que não se entretém não subsiste. O ódio dos alemães contra os franceses teria desaparecido desde muito tempo se os jornais germânicos não o atiçassem incessantemente.” Ódio intelectual a pobre, eis tudo que a elite brasileira lega uma geração após a outra… Retórica do intelectualismo mais bárbaro, entretanto.

A aversão que os holandeses votam aos ingleses, que outrora lhes tomaram as colônias, persiste somente porque fatos numerosos, principalmente a guerra contra os colonos holandeses do Transvaál, vêm reavivá-la, e porque a Holanda se julga sempre ameaçada.

A aliança russa e o acordo franco-inglês mostram com que rapidez povos, outrora inimigos, esquecem os ódios que não são alimentados. Quando a Inglaterra se tornou a nossa amiga, nós não nos achávamos longe da terrível humilhação de Fashoda [1898, símbolo do fim da era colonialista].”

Nas associações por semelhança, a impressão atual reaviva as impressões anteriores análogas. Nas associações por contigüidade, a impressão nova faz reviver outras, ressentidas ao mesmo tempo, mas sem analogia entre elas.”

5. OS ELEMENTOS DA PERSONALIDADE: COMBINAÇÕES DE SENTIMENTOS QUE FORMAM O CARÁTER

O caráter é constituído por um agregado de elementos afetivos aos quais se sobrepõem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. São sempre os primeiros que dão ao indivíduo a sua verdadeira personalidade.

Sendo numerosos os elementos afetivos, a sua associação formará os elementos variados: ativos, contemplativos apáticos, sensitivos, etc.

COMO UM GATO LÍQUIDO NUM RECIPIENTE: “Aos agregados sólidos correspondem às individualidades fortes, que se mantêm não obstante as variações de meio e de circunstâncias. Aos agregados mal-cimentados correspondem às mentalidades moles, incertas e mutáveis. Elas se modificariam a cada instante sob as influências mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana não as orientassem, como as margens de um rio canalizam seu curso.

Por mais estável que seja o caráter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos órgãos. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturbação intestinal, transformam o júbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indolência. Napoleão, doente em Warteloo, já não era Napoleão. César, dispéptico, não teria, sem dúvida, transposto o Rubicon.”

Depois de uma conversão, o amor profano se tornará amor divino. O clerical fanático e perseguidor acabará, por vezes, como livre-pensador, igualmente fanático e não menos perseguidor.”

A TSUNAMI CHINESA VEM AÍ: “Admito facilmente, com Faguet, que a Europa, ao tornar-se pacifista, será conquistada ‘pelo último povo que permaneceu militar e ficou relativamente feudal’. Esse povo reduzirá os outros à escravidão e fará trabalhar em seu proveito pacifistas muito inteligentes, mas destituídos da energia que a vontade proporciona.” Interessante também notar como os europeus, nem mesmo na segunda década do século XX, enxergavam os Estados Unidos, tão auto-suficientes se crêem.

Cada povo possui caracteres coletivos, comuns à maioria dos seus membros, o que faz das diversas nações verdadeiras espécies psicológicas.”

Consideremos os ingleses, por exemplo. Os elementos que orientam a sua história podem ser resumidos em poucas linhas: culto do esforço persistente, que impede de recuar diante do obstáculo e de considerar uma desgraça como irremediável; respeito religioso dos costumes e de tudo o que é validado pelo tempo; necessidade de ação e desdém das vãs especulações do pensamento; desprezo da fraqueza, muito intensa compreensão do dever, vigilância de si mesmo julgada como qualidade essencial e entretida cuidadosamente por especial educação.

Certos defeitos de caráter, insuportáveis nos indivíduos, tornam-se virtudes quando são coletivos; por exemplo, o orgulho.” “A inquebrantável coragem dos japoneses, na sua última guerra, provinha de um orgulho idêntico.” Quebrar o orgulho em nível subatômico…

Desde que uma nação se convence da sua superioridade, ela leva ao máximo os esforços necessários para mantê-la. [ou conquistá-la, quando ela se convence de que é superior mas não o é; no entanto, seu esforço apenas acelerará sua própria decadência]”

COMMUNISM IS THE END, WINTER IT WILL SEND: “O amor da família, depois da tribo, da cidade e, enfim, da pátria são adaptações de um sentimento idêntico a agrupamentos diferentes, e não a criação de sentimentos novos. O internacionalismo e o pacifismo representam as últimas extensões desse mesmo sentimento.”

Há apenas um século, o patriotismo alemão era desconhecido, a Alemanha se achava dividida em províncias rivais. Se o pangermanismo atual constitui uma virtude, essa virtude é unicamente a extensão de sentimentos antigos a categorias novas de indivíduos.”

Para adquirir, por exemplo, um pouco — muito pouco — essa forma de altruísmo, qualificada de tolerância, foi preciso, disse justamente o Sr. Lavisse, ‘que morressem mártires por milhares em suplícios e o sangue corresse em ondas nos campos de batalha’.

É um grande perigo para um povo querer criar, por meio da razão, sentimentos contrários aos que a natureza lhe fixou na alma. Semelhante erro pesa sobre o povo desde a Revolução. Ele provocou o desenvolvimento do socialismo, que pretende mudar o curso natural das coisas e refazer a alma das nações.” O mundo pede a criação de um SOCIALISMO IRRACIONAL.

São poderosas essas influências econômicas. A difusão da propriedade, por exemplo, tem como conseqüência a diminuição da natalidade, pois surge o egoísmo familiar do proprietário, pouco desejoso de ver divididos os seus bens. Se todos os cidadãos de um país se tornassem proprietários, a população diminuiria provavelmente em enormes proporções.”

se, atualmente, o futuro se apresenta muito sombrio, é porque os sentimentos das classes populares tendem a sofrer uma nova orientação. Sob o impulso das ilusões socialistas, cada qual, do operário ao professor, se tornou descontente da sua sorte e persuadido de que merece outro destino. Todo o trabalhador julga-se explorado [correção: é explorado] pelas classes dirigentes e ambiciona apoderar-se das suas riquezas por meio de um golpe de força. No domínio do afetivo, as ilusões têm uma força que as torna muito perigosa, porque a razão não as influencia.” Sociologia de época. Não podia ir além dessa compreensão escrevendo nos 1910s… Ou podia, mas ainda era possível ser bem-intencionado e “liberal” ao mesmo tempo, ainda que a História estivesse galgando o caminho da desolação a passos de guepardo…

6. A DESAGREGAÇÃO DO CARÁTER E AS OSCILAÇÕES DA PERSONALIDADE

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR: “A noção de equilíbrio entre o meio em que vivemos e os elementos que nos compõem é capital. Sem que seja absolutamente especial à psicologia, ela domina a química, a física e a biologia. Um ente qualquer, matéria bruta ou matéria viva, resulta de certo estado de equilíbrio entre ele e o seu meio. O primeiro não poderia mudar sem que logo se transformasse o segundo. Uma barra de aço rígida pode, sob a influência de uma modificação conveniente de meio, tornar-se um leve vapor.”

A diminuição de sensibilidade dos caracteres, no tocante à influência de certas ações exteriores por diversos processos, tem o nome, como se sabe, de imunização. O futuro estudo da patologia dos caracteres compreenderá também o da sua imunização.”

Vamos ver o que Le Bon oferece como contraponto (ou em concordância com a?) falida teoria da degenerescência. Provavelmente, ele apenas a ignora em toda a sua obra.

O verdadeiro homem de Estado possui a arte, ainda misteriosa, de saber modificar, se for necessário, o equilíbrio dos elementos do caráter nacional, fazendo predominar os elementos úteis nas necessidades do momento.”

É inútil objetar que a personalidade dos seres parece, em geral, bastante estável. Se ela nunca varia, com efeito, é porque o meio social permanece mais ou menos constante. Se subitamente esse meio se modifica, como em tempo de revolução, a personalidade de um mesmo indivíduo se poderá transformar inteiramente. Foi assim que se viram, durante o Terror, bons burgueses reputados pela sua brandura tornarem-se fanáticos sanguinários. Passada a tormenta e, por conseguinte, representando o antigo meio e o seu império, eles readquiriram sua personalidade pacífica. Desenvolvi, há muito tempo, essa teoria e mostrei que a vida dos personagens da Revolução era incompreensível sem ela.” O que limita muito o poder de análise da teoria é que vivemos numa longa revolução (de coisa de 2 ou 3 séculos), então não existe nenhum contraste com um “mundo exterior estável” em que apoiemos e testemos a validação de nossas conclusões.

Excitações emocionais violentas, certos estados patológicos observáveis nos médiuns, nos extáticos, nos indivíduos hipnotizados, etc., fazem variar essas combinações e, por conseguinte, determinam, pelo menos momentaneamente, no mesmo ente, uma personalidade diversa, inferior ou superior à superioridade ordinária. Todos possuímos possibilidades de ação que ultrapassam a nossa capacidade habitual e que certas circunstâncias virão despertar.”

PUBLIC ENEMY N. 1: “Aquele que se quer diferenciar do seu grupo tem-no inteiramente por inimigo.”

OS COROAS DO GUARÁ, AUTÔMATOS: “Se os homens não tivessem por guia as opiniões e a maneira de proceder daqueles que os cercam, onde achariam a direção mental necessária à maior parte? Graças ao grupo que os enquadra, eles possuem um modo de agir e de reagir quase constante. Graças ainda a ele, naturezas um pouco amorfas são orientadas e sustentadas na vida.”

Assim canalizados, os membros de um grupo social qualquer possuem, com uma personalidade momentânea ou durável, porém bem-definida, uma força de ação que jamais sonharia qualquer dos indivíduos que a compõem. As grandes matanças da Revolução não foram atos individuais. Os seus autores atuavam em grupos: girondinos, dantonistas, hebertistas, robespierristas, termidorianos, etc. Esses grupos, muito mais do que indivíduos, então se combatiam. Deviam, portanto, empregar nas suas lutas a ferocidade furiosa e o fanatismo estreito, característicos das manifestações coletivas violentas.”

Sendo variável o nosso eu, que é dependente das circunstâncias, um homem jamais deve supor que conhece outro. Pode somente afirmar que, não variando as circunstâncias, o procedimento do indivíduo observado não mudará. O chefe de escritório que já redige há 20 anos honestos relatórios, continuará sem dúvida a redigi-los com a mesma honestidade, mas cumpre não o afirmar em demasia. Se surgirem novas circunstâncias, se uma paixão forte lhe invadir a mente, se um perigo lhe ameaçar o lar, o insignificante burocrata poderá tornar-se um celerado ou um herói.

As grandes oscilações da personalidade observam-se quase exclusivamente na esfera dos sentimentos. Na da inteligência, elas são muito fracas. Um imbecil permanecerá sempre imbecil.

As possíveis variações da personalidade, que impedem de conhecer a fundo os nossos semelhantes, também obstam a que cada qual conheça a si próprio. O adágio Nosce te ipsum dos antigos filósofos constitui um conselho irrealizável. O eu exteriorizado representa habitualmente uma personalidade de empréstimo”

Cada qual só se conhece um pouco depois de ter observado a sua maneira de agir em circunstâncias determinadas. Pretender adivinhar como procederemos numa situação dada é muito quimérico. O marechal Ney, quando jurou a Luís XVIII que lhe traria Napoleão numa gaiola de ferro, estava de muito boa fé, mas não se conhecia; um simples olhar do Imperador bastou para mudar a sua resolução; o infortunado marechal pagou com a vida a ignorância da sua própria personalidade. Se estivesse mais familiarizado com as leis da psicologia, Luís XVIII lhe teria provavelmente perdoado.”

Quanto mais se aprofunda o assunto, tanto mais firmemente se reconhece que a educação e as instituições políticas desempenham um papel bastante fraco no destino dos indivíduos e dos povos. Essa doutrina, contrária, aliás, às nossas crenças democráticas, parece, por vezes, contrariada também pelos fatos observados em certos povos modernos, e é isso que sempre a impedirá de ser facilmente admitida.

Na introdução que escreveu para a tradução japonesa das minhas obras, um dos mais eminentes estadistas do Extremo-Oriente, o barão Motono, embaixador em São Petersburgo, me objeta com várias mudanças realizadas na mentalidade japonesa, sob a influência das idéias européias. Não creio, entretanto, que isso prove uma modificação real dessa mentalidade. As idéias européias simplesmente entram na armadura ancestral da alma japonesa, sem modificar as suas partes essenciais. A substituição do canhão pela funda mudaria completamente o destino de um povo, sem transformar por isso os seus caracteres nacionais.”

LIVRO III. AS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA QUE REGEM AS OPINIÕES E AS CRENÇAS

1. CLASSIFICAÇÃO DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA

A lógica tem sido considerada até aqui como a arte de raciocinar e demonstrar. Mas viver é agir e, na maior parte das vezes, não é a demonstração que faz agir.” “Constituindo a ação, no nosso modo de ver, o único critério de uma lógica, consideraremos como diversas as lógicas que conduzem a resultados dessemelhantes.”

Há ações virtuosas ou criminosas, hábeis ou inábeis, não as há ilógicas. Elas procedem, simplesmente, de lógicas distintas e nenhuma pode exclusivamente servir no julgamento das outras.”

Pode-se, julgamos, estabelecer cinco formas de lógica: 1º. lógica biológica; 2º. lógica afetiva; 3º. lógica coletiva; 4º. lógica mística; 5º. lógica racional.”

a lógica biológica (…) não traz nenhum traço de influência das nossas influências, mas produz adaptações, dirigidas em determinado sentido, por forças que não conhecemos. Essas forças parecem agir como se possuíssem uma razão superior à nossa e nada têm de mecânicas, porquanto a sua ação varia a cada instante, conforme o objetivo a satisfazer.

A adjunção às outras formas de lógica da lógica biológica, que domina grandemente a maioria das outras, preencherá uma lacuna dissimulada pelas velhas teorias metafísicas.”

as associações intelectuais podem ser conscientes, ao passo que as dos estados afetivos permanecem inconscientes.”

Mostramos, há já muitos anos, que o homem em multidão procede diferentemente do homem isolado. Ele é, pois, guiado por uma lógica especial [a terceira]”

Para as mentalidades místicas o encadeamento das coisas não oferece nenhuma regularidade, mas depende de seres ou de forças superiores, cujas vontades nos são simplesmente impostas.” A lógica que Freud converteu no seu horrendo conceito de compulsão à repetição, patologizando a nomenclatura inutilmente, doravante.

LÓGICA RACIONAL: “Desde Aristóteles, inumeráveis livros lhe têm sido consagrados.”

A lógica afetiva levava um general, invejoso dos seus rivais, a declarar-lhes a guerra. A lógica mística fazia [com] que ele consultasse os oráculos relativamente à data útil das operações a empreender. A lógica racional guiava a sua tática. Durante todos esses atos, a lógica biológica o fazia viver.” Kira do Death Note é um general que sofre de uma hipertrofia da lógica racional. Frio e calculista (risos). Diria o PSDB que faltou a Kira fazer a sua autocrítica…

A existência das diversas formas de lógica só é demonstrada pelos seus resultados. Elas representam postulados que só se verificam pelas conseqüências decorrentes. As ciências mais exatas, a física, por exemplo, são igualmente obrigadas a colocar na sua base puras hipóteses, transformadas em verdades prováveis quando se demonstra a sua necessidade.” O gato de Schrödinger é um “reconhecimento tácito” de que outras lógicas operam, também nesse nível…

Todas as explicações da luz, do calor, da eletricidade, isto é, a física quase integral, repousam na hipótese do éter. A essa substância totalmente desconhecida foi preciso atribuir propriedades incompreensíveis e mesmo inconciliáveis, como, por exemplo, uma rigidez superior à do aço, conquanto os corpos materiais nela se movam sem dificuldade. Um fenômeno novo obriga os físicos a darem ao éter propriedades novas contrárias às que já estão admitidas. Assim, depois de lhe haver atribuído uma densidade infinitamente mais fraca que a dos gases, agora se lhe concebe uma que é milhões de vezes superior à dos mais pesados metais.” Excelente insight. E Le Bon parece não ter sobrevivido até a refutação final do éter e a fragmentação da física.

O físico não afirma que o éter existe. Diz simplesmente que as coisas se passam como se o éter existisse e que todos os fenômenos ficariam incompreensíveis sem essa suposta existência.”

2. A LÓGICA BIOLÓGICA

o que escrevi sobre esse assunto no meu livro A Evolução da Matéria:

Os edifícios atômicos que células microscópicas conseguem fabricar compreendem não só as mais sábias operações dos nossos laboratórios: eterificação, oxidação, redução, polimerização, etc., como também muitas outras mais difíceis, que não poderíamos imitar. Por meios insuspeitos, as células vitais constroem esses compostos complicados e variados albuminóides, celulose, gorduras, amido, etc., necessários para a conservação da vida. Elas sabem decompor os corpos mais estáveis, como o cloreto de sódio, extrair o azoto dos sais amoniacais, o fósforo dos fosfatos, etc. Todas essas obras tão precisas, tão admiravelmente adaptadas a um objetivo, são dirigidas por forças de que não temos nenhuma idéia e que atuam exatamente como se elas possuíssem uma sagacidade muito superior à nossa razão. A obra que elas executam a cada momento da existência, paira muito acima do que pode realizar a ciência mais adiantada. O sábio capaz de resolver com a sua inteligência os problemas resolvidos a cada instante pelas humildes células de uma ínfima criatura seria de tal modo superior aos outros homens que se poderia considerá-lo como um deus.”

Se um corpo inútil ou perigoso for introduzido no organismo, será neutralizado ou rejeitado. O elemento útil é, ao contrário, expedido a órgãos diferentes e sofre transformações físicas muito sábias. Esses milhares de pequenas operações parciais se emaranham sem se contrariar, porque são orientadas com uma precisão perfeita. Desde que a rigorosa lógica diretriz dos centros nervosos se detém, é a morte.”

Quando uma célula evolve para certa forma, quando o animal regenera inteiramente um órgão amputado, com nervos, músculos e vasos, verificamos que a lógica biológica funda, para esses acidentes imprevistos, uma série de fenômenos que nenhum esforço da lógica racional poderia imitar ou mesmo compreender.” As manifestações mais cruas da Vontade.

As espécies parecem desaparecer quando, muito estabilizadas por uma pesada hereditariedade ancestral, já não se podem adaptar às variações do meio. Essa história do mundo vegetal e animal foi também a de muitos povos. § A infância de uma espécie, de um indivíduo ou de um povo caracteriza-se por uma plasticidade excessiva, que lhe permite adaptar-se a todas as variações de meio.”

Tendo os sentimentos por sustentáculo a vida, concebe-se que a lógica biológica não somente influa na lógica afetiva, como também possa parecer confundir-se, por vezes, com ela. Não permanecem ambas, por isso, menos nitidamente separadas, pois a vida biológica é simplesmente o terreno no qual a vida afetiva vem germinar. § É, portanto, inexplicável que os psicólogos ignorem a lógica biológica. Ela é a mais importante de todas as formas de lógica, por ser a mais imperiosa.”

Bergson tem razão quando separa o instinto da inteligência, mas só parcialmente tem razão nesse ponto. Uma multidão de instintos constituem hábitos intelectuais ou afetivos acumulados pela hereditariedade. Para os fenômenos biológicos, não somente os mais simples, a fome ou o amor, como também os muito complicados, que se observam nos insetos, a separação entre eles e a inteligência parece completa.”

Uma ameba, isto é, um simples glóbulo de protoplasma formado de granulações vivas, quando se quer apoderar de uma presa, executa atos adaptados ao fim que tem em mira, variando segundo as circunstâncias como se esse esboço de ser pudesse ter certos raciocínios. Observando os minuciosos cuidados de certos insetos na proteção dos ovos de que sairão larvas de uma forma muito diferente da sua e que, na maioria dos casos, eles jamais verão, Darwin declarava ‘que é infrutífero especular sobre esse assunto’.”

O seu mecanismo permanece ignorado, mas o sentido do seu esforço é acessível.”

Numerosos naturalistas, Blanchard, Fabre, etc., mostraram a perfeição dos atos dos insetos, como também o seu discernimento e a sua aptidão para mudar de proceder segundo as circunstâncias. Eles sabem, por exemplo, modificar a qualidade das matérias alimentares preparadas para as suas larvas, conforme devem ser machos ou fêmeas. Certos insetos que não são carnívoros, mas cujas larvas só se podem nutrir de presas vivas, paralisam-nas de modo que elas possam esperar, sem decomposição, o nascimento dos seres que as hão de devorar. Determinar uma paralisia semelhante seria uma operação difícil para um anatomista hábil. Ela não embaraça, entretanto, o inseto. Ele sabe atacar os únicos coleópteros cujos centros nervosos se aproximem até tocar-se, o que permite provocar a paralisia com um só golpe de aguilhão. Na considerável quantidade de coleópteros, somente dois grupos, os charanções e os buprestes, satisfazem a essas condições. Fabre reconhece que ao instinto geral do inseto que o dirige nos atos imutáveis da sua espécie se sobrepõe alguma coisa de ‘consciente e de perceptível pela experiência. Não ousando chamar inteligência a essa aptidão rudimentar, pois aquela denominação seria muito elevada para ela. Eu a denominarei’, diz ele discernimento (…) ‘o inseto nos maravilha e nos apavora pela sua alta lucidez’”

Numerosos fatos da mesma ordem, observados nas formigas e nas abelhas por um sábio acadêmico, Gaston Bonnier, conduziram-no a atribuir aos insetos uma faculdade por ele denominada raciocínio coletivo.” “Se, por exemplo, a comissão manda buscar água a uma bacia, em vão se espalhariam ao lado gotas de xarope ou de mel, o inseto não tocará nisso. Aqueles que estão prepostos à colheita do néctar não se ocuparão de recolher o pólen, etc.” “É o ideal do coletivismo realizado.”

Esses fatos, multiplicados pela observação, embaraçam cada vez mais os adeptos da velha psicologia racionalista. Tinha-se, outrora, para interpretá-los, um termo precioso, o instinto; mas é preciso reconhecer que, sob esse vocábulo gasto, se abriga uma ordem completa de fenômenos profundamente desconhecidos.” “Outrora, o instinto era considerado como uma espécie de faculdade imutável, concedida pela natureza aos animais no próprio momento da sua formação, para guiá-los através dos atos da vida, como o pastor conduz o seu rebanho.”

Tendo os animais sido mais bem-estudados, foi preciso reconhecer a variabilidade desses pretensos instintos imutáveis. A abelha, por exemplo, sabe perfeitamente transformar a sua colméia, desde que isso se torne necessário. Numa nota intitulada gradação e aperfeiçoamento do instinto nas vespas solitárias da África, inserta nas atas da Academia das Ciências, de 19 de outubro de 1908, o sr. Roubaud mostra entre as espécies do gênero sinagris ‘diferenças das mais notáveis, a tal ponto que se podem aí seguir as fases principais de uma insuspeita evolução do instinto dos solitários para o das vespas sociais’. Os ninhos, primeiramente solitários, antes de se aproximarem, representam sem dúvidas a forma primitiva das colônias de vespas sociais.”

A seguir, a exposição de que o pássaro não é “tão burro como o homem”: conheceu antes de seu próprio Newton a gravidade! Terá sempre conhecido (princípios antagônicos dos instinto estático x instinto dinâmico)? Pode ser até que não, mas então não era ainda pássaro!

Renunciar às explicações puramente mecânicas como as de Descartes é compreender, ao mesmo tempo, que existe uma esfera imensa da vida física, completamente inexplorada, e de que apenas entrevemos a existência.” “Quando analisarmos os fatores das nossas opiniões e das nossas crenças, não nos deveremos esquecer de que, sob a superfície das coisas, se oculta um mundo de forças inacessíveis à nossa razão, mais pujantes do que essa razão, e que muitas vezes a conduzem.”

Se a sua ação se interrompesse, o nosso planeta se tornaria um triste deserto, submetido às forças cegas da natureza, isto é, às forças ainda não-organizadas.” Abandono da concepção do instinto como força cega da natureza!

3. A LÓGICA AFETIVA E A LÓGICA COLETIVA

Antes de conhecer, todos sentiram.”

E se a transmutação de todos os valores a um além-homem fosse não um upgrade de qualquer forma do Homo sapiens sapiens, mas apenas aquele ponto histórico irreversível (point of no return) em que enquanto coletividade decidimos conscientemente abandonar este que é o mais central de todos os preconceitos, i.e., toda a nossa fonte de amor-próprio: “Não somos aquele que sabe que sabe! Demo-nos de uma vez por todas um outro nome que corresponda melhor a nossa essência!”? Que é o Homem, perguntou Drácula: perguntou, porque ele já não era um Homem!

As Luzes da Emoção

MUITO ALÉM DA LINGUAGEM: “As palavras, por meio das quais tentamos representar os sentimentos, muito mal os traduzem. Só o consentem um pouco por associação. O hábito de ligar os sentimentos ao som de certos vocábulos dá a estes últimos o poder de evocar representações mentais afetivas.” “A música, verdadeira linguagem dos sentimentos, evoca-os melhor do que as palavras, mas, pela falta de precisão, só permite relações muito vagas entre os seres.”

Não podendo as regras da lógica afetiva serem universais como as da lógica racional, um tratado de lógica afetiva, verdadeiro para um indivíduo ou para certa categoria de indivíduos, não o seria para os outros. Um livro de lógica racional possui, ao contrário, um valor invariável para todos.”

Percebe-se, todavia, o caminho percorrido, quando se vê, pelo estudo dos selvagens, o que foram os primitivos dominados pela sentimentalidade pura.” Aqui sou obrigado a refutar qualquer presença de sentimentalidade pura.

A lógica afetiva é um dos sustentáculos da lógica coletiva. Não estudaremos agora esta última, porquanto nos devemos ocupar dela no capítulo consagrado às opiniões e às crenças coletivas.”

4. A LÓGICA MÍSTICA

A lógica mística, de que nos vamos ocupar agora, corresponde a uma fase superior da vida mental. Os animais não a conhecem, conquanto possuam grande número dos nossos sentimentos.” “Semelhante à lógica afetiva, a lógica mística aceita as contradições; não é, porém, inconsciente como a primeira e traduz, freqüentes vezes, uma deliberação.”

Desfazendo alguns mal-entendidos do míope século XIX: “O ateu pode ser tão místico quanto um perfeito devoto; freqüentemente ele o é ainda mais.”

O misticismo muda incessantemente de forma, porém conserva como fundo imutável o papel atribuído a poderes misteriosos. O tempo, que faz variar o objeto do misticismo, mantém a intangibilidade daquele elemento.” O tempo: último misticismo, aliás.

Muitos homens que se qualificam de livres-pensadores porque rejeitam os dogmas religiosos, firmemente crêem nos pressentimentos, nos presságios, na força mágica da corda do enforcado ou do número 13.” “Não há jogador cuja convicção nesse ponto não esteja solidamente estabelecida.” Quem tem cu tem superstição, já diria o outro (Mestre Zagallo).

Os progressos da razão não hão de poder, sem dúvida, abalar o misticismo, porquanto ele terá sempre como refúgio o domínio do além-túmulo, inacessível à ciência. Os espíritos curiosos desse além-túmulo são, naturalmente, inumeráveis.”

A credulidade do verdadeiro crente é geralmente ilimitada, e nenhum milagre o poderia surpreender, porquanto é infinito o poder do Deus que ele invoca. Vê-se na catedral de Orviedo um cofre que, diz a notícia distribuída aos visitantes, foi instantaneamente transportado de Jerusalém através dos ares. Encerra: ‘o leite da mão de Jesus Cristo, os cabelos com que Maria Madalena enxugou os pés do Salvador, a vara com que Moisés separou as águas do mar Vermelho, a carteira de S. Pedro, etc.’.”

A Lógica de Pandora

A época literária chamada romântica é disso uma manifestação. Os artistas têm somente convicções místicas. Os métodos da análise racional são, geralmente, ignorados por eles.” A unio mystica entre mim e o eu-escritor.

PURO ZEITGEIST DE LE BON: “Mas é principalmente em política que se observa a influência do espírito místico. Radicais, anticlericais, maçons e todos os sectários de partidos extremos vivem em pleno misticismo. A classe operária é, igualmente, dominada por um misticismo intenso.” A mania do intelectual de até 100 anos atrás de enxergar o liberalismo como a-místico. Não leu Marx e sua análise do fetichismo econômico.

Lógica mística, lógica sentimental e lógica racional representam 3 formas da atividade mental irredutíveis uma na outra. Seria, portanto, inútil pô-las em conflito.”

5. A LÓGICA INTELECTUAL

A lógica intelectual tem sido o assunto de inúmeros escritos de uma utilidade, aliás, medíocre. Se a ela aludimos aqui, é, primeiramente, porque representa certo papel na gênese das opiniões e, em seguida, para precisar os pontos em que ela difere das outras formas de lógica”

A vontade é a faculdade de resolver-se a praticar um ato; compreende, geralmente, 3 fases: deliberação, determinação, execução. Uma determinação chama-se volição, uma resolução tem também o nome de decisão.”

A vontade é, ao mesmo tempo, de origem afetiva e racional. É de origem afetiva porque todos os móveis dos nossos atos têm um substratum afetivo.”

Descartes, imitado nisso por muitos filósofos modernos, fazia da vontade uma espécie de entidade aposta à inteligência” “Aristóteles se aproximava muito mais do que Descartes das idéias aqui expostas, quando fundava a sua psicologia na distinção entre as faculdades sensitivas e as faculdades intelectuais. Da combinação das duas resultava, no seu juízo, a vontade”

A atenção é o ato pelo qual, sob a ação de um excitante ou da vontade, o espírito se concentra num objeto, com exclusão dos outros, ou na representação mental desse objeto, ou ainda nas idéias que ele suscita.”

A criança e o selvagem possuem muito diminuta atenção voluntária. Quanto mais suscetível de atenção e, por conseguinte, de reflexão, for o homem, tanto mais considerável será a sua força intelectual. Um Newton sem grande capacidade de atenção não é concebível.”

A aptidão para refletir implica sempre a aptidão para a atenção. A capacidade de atenção fácil comporta a faculdade de reflexão medíocre.”

O seu domínio é o da matéria bruta, isto é, momentaneamente estabilizada pela morte ou pelo tempo. Sobre os fenômenos que representam um movimento constante, como a vida, ela projetou luzes muito incertas.”

Para mover, cumpre comover.”

Esse imenso poder [de tudo que não é lógico-racional] é talvez maior ainda do que a ciência o supõe. Nós estamos sujeitos à natureza, mas não se acha ela também submetida, segundo as palavras atribuídas por Ésquilo a Prometeu, acorrentada ao seu rochedo, às necessidades que regem o destino e às quais os próprios deuses devem obedecer?” Mas a necessidade é a natureza.

LIVRO IV. OS CONFLITOS DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA

1. O CONFLITO DOS ELEMENTOS AFETIVOS, MÍSTICOS E INTELECTUAIS

O equilíbrio que acabamos de indicar não é uma fusão, porém uma superposição das diversas formas de lógica, cada uma das quais mantém independente a sua ação.”

Nas suas concepções científicas, esses espíritos são guiados pela lógica racional. Nas suas crenças, obedecem às leis da lógica mística ou da lógica afetiva. § Um sábio passa da esfera do conhecimento à da crença, como mudaria de habitação. O erro de que é vítima muitas vezes consiste em querer aplicar às interpretações das lógicas místicas ou afetiva os métodos da lógica intelectual, a fim de basear cientificamente as suas crenças.

Destruído o equilíbrio entre as várias formas de lógicas, elas entram em luta. Raramente nesse conflito vence a lógica racional, que se deixa facilmente torturar, aliás, a fim de colocar-se ao serviço das concepções mais infantis. Por isso, em matéria de crença religiosa, política ou moral, toda a contestação é inútil. Discutir racionalmente com outrem uma opinião de origem afetiva ou mística só terá como resultado exaltá-lo. Discuti-la consigo mesmo também não a abala, salvo quando ela chegou a um grau de enfraquecimento tal que a sua força inteiramente se dissipou.

Os resultados de uma luta entre a lógica mística e a lógica racional não poderiam ser postas mais em evidência do que pelo exemplo de Pascal, examinado minuciosamente em outro capítulo desta obra.”

Nós nos limitaremos, portanto, no que se vai seguir, a estudar o conflito entre a lógica afetiva e a lógica racional.”

A idéia só é, geralmente, a conclusão de um sentimento, cuja evolução permanece inconsciente e, portanto, ignorada.”

Uma palavra, um gesto, quase insignificantes em determinado momento, podem, com o tempo, transformar a amizade em indiferença e, algumas vezes, mesmo em antipatia.

O verdadeiro papel da inteligência no agregado de sentimentos que formam o caráter consiste em isolar alguns, torná-los mais intensos por meio de uma contínua representação mental, dando-lhes a força necessária para dominar certas impulsões. Ela pode chegar, por esse predomínio de um estado afetivo relativamente a outro, a elevar o indivíduo acima de si mesmo, pelo menos momentaneamente.”

se os sentimentos são muito intensos, a inteligência perde todo o poder. A força de certos sentimentos pode tornar-se tal que, não só a inteligência, como também os interesses mais evidentes do indivíduo perdem a influência.”

Se os sentimentos não se transformam diretamente em idéias, são, contudo, criadores de idéias, evocadoras, por seu turno, de outros sentimentos. Mantendo assim a sua independência, essas duas esferas da atividade mental atuam constantemente uma na outra.”

Como as idéias surgem dos sentimentos, as lutas entre idéias não são, na realidade, mais do que lutas entre sentimentos. Os povos que combatem aparentemente por idéias, lutam por sentimentos dos quais essas idéias se derivam.”

Assim, as funções outrora exercidas pelas nobrezas inglesa e francesa apresentavam qualidades de caráter que desapareceram com a cessação das funções. Tendo essas classes sociais perdido as suas qualidades de ordem moral, sem adquirir a inteligência, que elas não tinham tido ensejo de exercer, tornaram-se inferiores às classes outrora dominadas. Era, pois, inevitável que a influência da nobreza, depois de haver sido destruída em França pela Revolução, ficasse hoje muito abalada na Inglaterra.

Essa lei, ignorada pelos nossos educadores, de que um sentimento não praticado se atrofia, parece ter uma aplicação geral.” “Os nossos instintos guerreiros, tão desenvolvidos na época da Revolução e do Império, acabaram por dar lugar a um pacifismo e a um antimilitarismo cada dia mais divulgados, não somente nas massas, como também entre os intelectuais. Daí resulta este estranho contraste: à medida que as nações se tornam mais pacíficas, os seus governos não cessam de aumentar os armamentos.”

Os indivíduos obedecem ao seu egoísmo pessoal, ao passo que os governantes são obrigados a preocupar-se do interesse coletivo. Mais esclarecidos do que as multidões e os retóricos, eles sabem, por experiências seculares, que toda a nação que se enfraquece é logo invadida e saqueada pelos vizinhos.

As nações modernas não escaparam mais a essa lei do que as suas predecessoras das civilizações antigas. Polacos, turcos, egípcios, sérvios, etc., só evitaram as invasões destruidoras deixando-se despojar do todo ou de parte dos seus territórios.”

Os códigos civis ou religiosos sempre tiveram por objetivo principal exercer uma ação inibidora nas manifestações de certos sentimentos.”

Aprendendo, sob a rigorosa lei das primeiras obrigações sociais, a dominar um pouco as suas impulsões, o primitivo desprendeu-se da animalidade pura e chegou à barbárie. Forçado a refrear-se mais, ele se elevou até à civilização. Esta só se mantém enquanto persiste o domínio do homem sobre si mesmo.”

Os sentimentos nos conduzirão sempre, mas nenhuma sociedade pode subsistir sem que os membros aprendessem a mantê-los nos limites abaixo dos quais começam a anarquia e a decadência.”

2. O CONFLITO DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA NA VIDA DOS POVOS

O seu primeiro sintoma é um rápido acréscimo da criminalidade, tal como o que hoje se observa em França. É favorecido, aliás, pelo desenvolvimento do humanitarismo, que paralisa a repressão e tende, por conseguinte, a destruir todos os freios.

A nossa democracia atual sofre cada vez mais as conseqüências da supressão dessas ações inibidoras, as únicas que podiam contrabalançar os sentimentos antissociais.” Grande paradoxo da democracia.

O ódio das superioridades e a inveja, que se tornaram os flagelos da democracia e ameaçam a sua existência, derivam de sentimentos muito naturais para que não tivessem subsistido sempre.

Tendo adquirido hoje livre impulso, incessantemente alentados por políticos ávidos de popularidade e universitários descontentes da sua sorte, esses sentimentos exercem constantemente a sua desastrosa tirania.” Bolsonarismo e jovem periférico reacionário (o preto que acessou a universidade e depois se tornou antipetista) in a nutshell.

Uma sociedade subsiste graças ao fator de manter a convicção hereditária de que cumpre respeitar religiosamente as leis em que se funda o organismo social. § A força que os códigos possuem para impor a obediência é, sobretudo, moral. Nenhuma potência material conseguiria tornar respeitada uma lei que toda a gente violasse.”

Se um gênio malfazejo quisesse destruir uma sociedade em poucos dias, bastar-lhe-ia sugerir a todos os seus membros a recusa de obedecer às leis. O desastre seria muito maior do que uma invasão a que se seguisse a conquista. Um conquistador limita-se geralmente, com efeito, a mudar o nome dos senhores que dispõem do poder, mas é seu interesse conservar cuidadosamente os quadros sociais cuja ação é sempre mais eficaz do que a dos exércitos.” Alexandre é o melhor exemplo disso. Portugal, um dos piores.

Os monumentos saqueados rapidamente se reconstroem, mas para refazer a alma de um povo, são necessários, em muitos casos, alguns séculos.”

Combatendo a tradição em nome do progresso e sonhando destruir a sociedade para apoderar-se das suas riquezas, como Átila sonhava saquear Roma, os sectários não vêem que a sua vida é um estreito tecido de aquisições ancestrais, sem as quais não viveriam um só dia.”

só a experiência repetida instrui.” Nem isso!

Se só tratarmos dos tempos modernos, não ouvimos repetir, por toda parte, que a Revolução teve por origem as dissertações dos filósofos e que o seu principal objetivo foi obter que triunfassem as ideias racionais?

Em nenhuma época, com efeito, a razão foi tão invocada. Chegou-se mesmo a deificá-la e a construir-lhe um templo. Na realidade, não existe período em que ela haja representado um papel menos importante. Isso se verificará seguramente quando, dissipados os atavismos que nos cegam, for possível escrever uma psicologia da Revolução Francesa.”

Os burgueses, que foram os seus primeiros instigadores, eram, sobretudo, guiados por um sentimento de intensa inveja contra uma classe que eles supunham ter igualado. O povo não pensava, a princípio, em invejar certas situações, tão longe dele que jamais esperaria alcançá-la; acolheu, todavia, com entusiasmo o movimento revolucionário. Sentimento muito natural, pois a destruição legal das peias sociais e as promessas que se fazia luzir aos seus olhos lhe desvendavam a perspectiva de ser igual aos seus antigos senhores e de apoderar-se das suas riquezas. Na divisa revolucionária, recordada nas nossas moedas e nas nossas muralhas, um único vocábulo, igualdade, apaixonou os espíritos, como ainda os apaixona. De fraternidade não se fala mais hoje, pois a luta das classes se tornou a divisa dos novos tempos. Quanto à liberdade, as multidões jamais perceberam seu sentido e sempre a recusaram.”

A guerra de 1870, por exemplo, é repleta de ensinamentos desse gênero. O imperador, doente, e o rei da Prússia, idoso, queriam, a todo o custo, evitar o conflito. Nesse intuito, o rei da Prússia tinha, finalmente, renunciado à candidatura de seu parente ao trono da Espanha, e a paz parecia firme.

Atrás, porém, desses espíritos incertos e de vontade fraca, um cérebro possante, dotado de uma vontade enérgica, tinha nas mãos os fios do destino. Suprimindo habilmente algumas palavras de um telegrama, soube exasperar até ao furor a sentimentalidade de um povo demasiado sensível e obrigou-o a declarar, sem preparo militar, a guerra a inimigos preparados desde muito tempo. Utilizando, em seguida, os sentimentos de cada nação, conseguiu manter a neutralidade que convinha aos seus desígnios. Cega pelos sentimentos que esse profundo psicólogo fizera vibrar, a Inglaterra recusou associar-se a um projeto de congresso, sem prever o que, mais tarde, lhe custaria a formação de uma potência militar preponderante, seu pesadelo atual.”

Do conflito das várias formas da lógica resulta a maior parte das oscilações da história. Quando predomina o elemento místico, são as lutas religiosas com a sua imperiosa violência. Quando sobressai o elemento afetivo, notam-se, conforme o fator sentimental mais evidente, ou os grandes empreendimentos guerreiros ou, ao contrário, a florescência do humanitarismo e do pacifismo, cujas consequências finais não são menos mortíferas.”

Nos nossos dias, as multidões e os seus agitadores mostram-se, como já dissemos, tão saturados de misticismo quanto os seus mais remotos antepassados. Palavras e fórmulas dotadas de um poder mágico herdaram a força atribuída às divindades que nossos pais adoravam.”

Sendo consideráveis os progressos que ela tem realizado nas ciências, tomou-se natural supor que métodos suscetíveis de produzir tais resultados podiam transformar as sociedades e criar a felicidade universal.”

A própria Inglaterra, tradicional, começa a assistir a esse conflito. As instituições políticas que fizeram a sua grandeza estão agora em luta com os ataques racionalistas de partidos adiantados, os quais pretendem reconstruir o edifício em nome da razão, isto é, da sua razão.”

3. A BALANÇA DOS MOTIVOS

Esses móveis de ação podem, algumas vezes, ser razões, mas aos móveis conscientes de ordem intelectual juntam-se, as mais das vezes, os móveis inconscientes já descritos, que pesam grandemente em um dos pratos. Em última análise, os motivos são energias em luta. Vencem os mais fortes. § Quando as energias contrárias têm, mais ou menos, a mesma intensidade, os pratos oscilam muito tempo antes de fixar-se numa posição definitiva. Caracteres incertos, hesitantes.”

Não é com as multidões, cegos joguetes dos seus instintos, que as civilizações progridem, mas com a pequena elite que sabe pensar por elas e orientá-las. Procurando pôr a lógica intelectual ao serviço da lógica coletiva para justificar todos os seus impulsos, a terrível legião dos políticos não fez mais do que criar uma profunda anarquia.”

Uma lógica afetiva demasiada leva a ceder sem reflexão a impulsos freqüentemente funestos. Uma lógica mística excessiva suscita as exigências religiosas, dominadas pela preocupação egoísta da sua salvação, e sem utilidade social. Uma lógica coletiva exagerada promove a predominância dos elementos inferiores de um povo e o conduz à barbárie. Uma lógica racional em demasia provoca a dúvida e a inação.”

LIVRO V. AS OPINIÕES E AS CRENÇAS INDIVIDUAIS

1. OS FATORES INTERNOS DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS: O caráter, o ideal, as necessidades, o interesse, as paixões, etc.

O jornal inglês Comentator escrevia recentemente, a propósito da psicologia política: ‘Nascerá, talvez, um dia, um livro maravilhoso sobre a arte de persuadir. Se supusermos que a psicologia chega a ser uma ciência tão adiantada quanto a geometria e a mecânica, será possível predizer os efeitos de um argumento sobre o espírito do homem tão seguramente quanto podemos agora predizer um eclipse de lua. Uma psicologia desenvolvida até esse ponto possuirá uma série de regras que permitem converter um indivíduo a uma opinião qualquer. O mecanismo de um espírito será, então, comparável a máquina de escrever, em que basta apoiar numa alavanca para ver sair imediatamente a letra desejada. Uma ciência tão pujante e, por conseguinte, tão perigosa, tornar-se-á necessariamente um monopólio do governo’.”

O mais refletido dos filósofos não escapa à sua influência. As suas doutrinas otimistas ou pessimistas resultam muito mais do seu caráter que da sua inteligência. W. James assegura, pois, com razão, que ‘a história da filosofia é, em grande parte, a do conflito dos temperamentos humanos. Essa diferença particular dos temperamentos’, acrescenta ele, ‘sempre entrou em linha de conta no domínio da literatura, da arte, do governo e dos costumes, tanto quanto no da filosofia.’

Compenetrados dessa influência do caráter individual nas opiniões, facilmente conceberemos por que certos homens são conservadores e outros revolucionários. Estes últimos tendem sempre a revoltar-se, unicamente por temperamento, contra o que os cerca, qualquer que seja a ordem das coisas estabelecidas. Encontram-se, geralmente, entre caracteres cuja estabilidade ancestral foi dissociada por influências diversas. Eles já não se acham, por conseguinte, adaptados ao seu meio. Muitos dentre eles pertencem à grande família dos degenerados, que estão sobretudo no domínio da patologia.” HAHAHAHAHA!

O exército dos revolucionários se recruta, principalmente hoje, nessa multidão de degenerados, com que o alcoolismo, a sífilis, o paludismo, o saturnismo, etc., povoam as grandes cidades. É um resíduo cujo número os progressos da civilização diariamente aumentam. Um dos mais temíveis problemas do futuro será subtrair as sociedades aos furiosos ataques desse exército de inadaptados.” Toma sintoma por causa. Filósofo de província.

Semi-alienados [?!] como Pedro o Ermitão [?] e Lutero subverteram o mundo.”

[?] Ou Eremita. Um dos promotores das Primeiras Cruzadas.

Se tantos homens se mostram hoje hesitantes nas suas opiniões, nas suas crenças e obedecem às impulsões mais contrárias é porque, com uma inteligência por vezes muito elevada, possuem um ideal muito fraco.” O problema hoje é o contrário…

A força dos fanáticos reside precisamente na rigorosa obediência ao seu ideal perigoso. É o que se pode observar hoje no tocante ao ideal socialista, o único que ainda seduz as multidões. Ele pesa inteiramente na nossa vida nacional e suscita numerosas leis destruidoras da sua prosperidade.

Um ideal não é, absolutamente, portanto, uma concepção teórica, cuja ação possa ser negligenciada. Quando se generaliza, exerce uma influência preponderante nas minúcias mais insignificantes da vida. Mesmo aqueles que ignoram a sua influência, a elas se submetem.”

Já disse, com razão, que o socialismo é uma questão de estômago.” Ninguém pode dizer que diz com razão: deve apenas dizer, e deixar arrazoamentos para os outros.

A evolução científica da indústria promoveu necessidades novas, que se tornaram logo, como os caminhos de ferro e o telefone, necessidades indispensáveis. Infelizmente, essas necessidades aumentaram mais depressa do que os meios de satisfazê-las. Representam uma das fontes do descontentamento que desenvolve o socialismo.”

O germano de há 50 anos, modesto comedor de ‘choucroute’, era pacífico, porque não tinha desejos. Tendo subitamente crescido as suas necessidades, tornou-se guerreiro e ameaçador. Aumentando, além disso, rapidamente, a sua população e ultrapassando logo o número de indivíduos que o país pode nutrir, aproxima-se o momento em que, sob um pretexto qualquer, e mesmo sem outro pretexto a não ser o direito do mais forte, a Alemanha invadirá, para viver, as nações vizinhas. Só essa razão podia decidi-la a fazer as esmagadoras despesas exigidas pelo aumento da sua marinha e do seu exército.”

2. OS FATORES EXTERNOS DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS: A sugestão, primeiras impressões, necessidade de explicações, palavras e imagens, ilusões, necessidade, etc.

Convencer não é absolutamente sugerir. Uma sugestão faz obedecer. Um raciocínio pode persuadir, mas não obriga a ceder.” Conceituação complicadinha de sugestão, já que exige muito… Uma hipnose!

repetir a afirmação com ardor é levar ao seu máximo a ação sugestiva.” E no entanto aqui está a boa e velha acepção de sugestão…

Os efeitos da sugestão são de uma intensidade muito variável. Ela se estende desde a ação diminuta do vendedor que se procura desfazer de uma mercadoria, até a que é exercida pelo hipnotizador no espírito do neuropata, o qual cegamente obedece a todas as suas vontades. Na política, o hipnotizador se chama agitador; sua influência é considerável.

Os efeitos de uma sugestão dependem do estado mental do indivíduo que a recebe. Sob uma influência pessoal intensa: ódio, amor, etc., que limita o campo da sua consciência, ele será muito sugestionável e as suas opiniões facilmente se transformarão.”

Questões escandalosas, tais como a de Mme. Humbert e de Dupray de la Mahérie, provaram que banqueiros hábeis, advogados e homens de negócios experientes podiam ser sugestionados, a ponto de abandonar a fortuna a vulgares velhacos, que só tinham ao seu favor a força fascinadora.”

O FASCISMO É FASCINANTE… “Essa fascinação é uma irresistível forma de sugestão. O homem a ela se submete como o pássaro diante da cobra.”

Muitos crimes tiveram como origem essa ação fascinadora. A formosa condessa Tarnowska sugeria sem dificuldade assassinatos aos seus adoradores. A sua força era tal que se tornou preciso mudar muitas vezes os carabineiros que a acompanhavam, assim como os guardas da sua prisão.”

Tornando-se cada vez mais preponderante o papel das multidões e sendo estas unicamente influenciadas pela sugestão, a influência dos agitadores cresce dia a dia. Um governo supostamente popular é, na realidade, uma oligarquia de agitadores, cuja influência tirânica se manifesta a cada instante. Eles ordenam as greves, obrigam os ministros a obedecer-lhes e impõem leis absurdas.”

Sendo de ordem afetiva, a sugestão só pela sugestão pode ser combatida. Ceder aos agitadores, como sem cessar se procede, é fortalecer a sua influência.” Dente por dente? Fake News por fake news?

O principal inconveniente das opiniões baseadas em explicações errôneas é que, admitindo-as como definitivas, o homem não procura outras. Supor que se conhece a razão das coisas é um meio seguro de não a descobrir. A ignorância da nossa ignorância tem retardado de longos séculos os progressos das ciências e ainda, aliás, os restringe.”

Certas palavras, como precisamente observou a propósito o sr. Barrès, são dotadas de uma sonoridade mística. Gozam dessa propriedade as expressões favoritas dos políticos: capitalismo, proletariado, etc.” E quem é este senhor Barres?

O inacessível elétron sucedeu ao não menos inacessível átomo. Essas expressões baseadas no desconhecido concedem suficiente satisfação à nossa necessidade de explicações.”

Diante da rápida diminuição dos alistamentos voluntários na cavalaria, um sensato psicólogo militar teve, há alguns anos, a idéia de mandar colar, por toda parte, cartazes ilustrados coloridos que representavam elegantes cavaleiros, fazendo várias sortes de exercícios. Na parte inferior figurava a enumeração das vantagens outorgadas aos que se alistavam pela primeira e pela segunda vez. Os resultados foram tais que, em muitos regimentos, os coronéis recusaram os candidatos por falta de lugar.”

Uma inteligência que possui o poder atribuído aos deuses de abranger, num golpe de vista, o presente e o futuro, a nada mais se interessaria e os seus móveis de ação ficariam paralisados para sempre.”

Conquanto muito breve, a enumeração dos fatores de opiniões e de crenças precedentemente exposta basta para provar como são pesadas as fatalidades de que está carregada a alma humana.” Realmente Le Bon prima pela concisão. Prima até demais.

3. POR QUE DIFEREM AS OPINIÕES E POR QUE A RAZÃO NÃO AS CONSEGUE RETIFICAR

Aperfeiçoando os homens, a civilização não os transformou, portanto, igualmente. Longe de caminharem para a igualdade, como as nossas ilusões democráticas procuram persuadir, eles tendem, ao contrário, para uma desigualdade crescente. A igualdade, que foi a lei dos primeiros tempos, não poderia ser a do presente e ainda menos a do futuro.

Assim, só pelo fato da sua ascensão progressiva, a civilização realizou a façanha de um mágico que ressuscitasse, no mesmo momento, no mesmo solo, homens das cavernas, senhores feudais, artistas da Renascença, operários e sábios modernos.”

A árdua tarefa dos governos modernos é fazer viver, sem excessivo desacordo, todos esses herdeiros de mentalidades tão desigualmente adaptadas ao seu meio. Inútil seria pensar em nivelá-las. Isso não é possível pelas instituições, pelas leis nem pela educação.

Um dos maiores erros do nosso tempo é supor que a educação iguala os homens. Ela os utiliza, mas não os nivela nunca. Numerosos políticos ou universitários, carregados de diplomas, possuem mentalidade de bárbaros e somente podem, portanto, ter por guia na vida uma alma de bárbaro.”

Uma mulher culpada de grave crime, porém cercada de filhos lacrimosos que a reclamem, está certa da indulgência do júri. A mulher formosa que, num acesso de ciúme, matou o amante, pode estar ainda certa disso. Um júri inglês a condenaria à forca; um júri francês a absolve quase sempre.”

Um pouco acima dessa categoria, dominada por mera sentimentalidade, acham-se os juízes dos tribunais de primeira instância. São ainda bastante jovens e os argumentos de ordem afetiva podem-nos comover. O prestígio de um advogado célebre sempre os impressiona. Pode-se, entretanto, exercer influência nos seus espíritos por meio de provas racionais, unicamente, porém, se elas não tiverem de lutar contra interesses pessoais. A esperança de promoção, as pressões políticas, exercem, por vezes, uma influência preponderante nas suas opiniões. Eles formulam julgamentos bastante incertos, porquanto os magistrados do Tribunal de Apelação reformam cerca de um terço desses julgamentos. Eles se iludem, portanto, mais ou menos 1 vez em 3.

Os magistrados de Tribunais de Apelação formam um grau superior ao da classificação precedente. Mais idosos e mais instruídos, são menos subordinados à lógica afetiva do que à lógica racional.

No vértice, finalmente, surgem os juízes do Tribunal Supremo. Envelhecidos, um pouco decrépitos, nada mais tendo a esperar, desprovidos de toda sentimentalidade, tão indiferentes ao interesse individual quando à compaixão, ignoram os casos particulares e permanecem confinados no direito estrito. Nenhum advogado procuraria invocar um ar sentimental diante deles. Só a prova racional os pode impressionar. As meticulosas precauções da lei inteiramente os dominam. Ela tornou-se para eles uma espécie de entidade mística, isolada dos homens. Esse excesso de racionalismo não é destituído de perigo, pois o direito, eqüitável no momento em que acaba de ser fixo, cessa logo de o ser em virtude de evolução social, que rapidamente o excede. É então que se deve interpretá-lo, a fim de preparar a sua transformação, como fazem alguns magistrados cujas sentenças formam uma jurisprudência, [ou um calhamaço de jurisprudências…] filha de novos costumes e mãe de novas leis. O duelo passou, assim, do estado de crime ao de delito não-condenável; o adultério, acarretando outrora anos de prisão para os culpados e julgado pelo código como um crime tão grave que ao marido se desculpava matar a mulher, acabou por ser incluído entre os delitos de tal modo secundários que um novo projeto de lei propôs, como única punição para o adultério, uma insignificante multa.”

Assembléias: “Os votos são unicamente sugeridos pelos interesses do partido ou pelos dos eleitores, aos quais devem agradar.” Se houver resquícios do segundo, dêem-se por satisfeitos!

Sem dúvida, a razão é constantemente invocada nas assembléias parlamentares, mas, na realidade, é o menos importante dentre os fatores suscetíveis de influenciá-la.”

As divergências de opinião não resultam, como por vezes supomos, das desigualdades de instrução daqueles que as manifestam. Elas se notam, com efeito, em indivíduos dotados de inteligência e de instrução equivalentes.” Bourdieu pesquisou temperamentos e caracteres em sua nascida-defasada-teoria social dos gostos? Tudo o que vale para esses mentes-vazias é a erudição e a classe econômica!

A história da Alemanha e a da França nestes últimos 50 anos fornece numerosas provas das vantagens inconvenientes destes dois métodos: a tirania individual e a tirania coletiva.” Infelizmente o conhecimento político de Le Bon parece se limitar ao século XIX de dois ou três países vizinhos, o que é teoricamente um nada.

4. A RETIFICAÇÃO DAS OPINIÕES PELA EXPERIÊNCIA

Todas as nações verificam, desde as origens do mundo, que a anarquia termina pela ditadura. Mas dessa eterna lição elas não tiram nenhum proveito.”

A experiência mostra, igualmente, que, por seguros motivos de ordem psicológica, todo o produto fabricado pelo Estado ultrapassa sempre os preços da indústria particular, não obstante essa prova, os socialistas obrigam o Estado a monopolizar constantemente alguma fabricação nova.” Que coisa! Israel devia terceirizar sua indústria bélica, então!

SIM, ESSE É UM DOGMA DO CAPITALISMO: “Os socialistas aprenderam, assim, experimentalmente, porém à custa dos seus administradores, que as leis econômicas desdenhadas, quando não são compreendidas, tornarão sempre impossível o estabelecimento de uma taxa qualquer numa classe única de cidadãos. Por incidência, ela se reparte logo entre todas as outras classes, e quem paga não é aquele contra o qual o imposto foi votado.”

LIVRO VI. AS OPINIÕES E AS CRENÇAS COLETIVAS

1. AS OPINIÕES FORMADAS SOB INFLUÊNCIAS COLETIVAS: A raça, o meio, o costume, os grupos sociais, etc.

Já não existem hoje raças puras, no sentido antropológico da expressão; mas, quando povos da mesma origem ou origens diversas, sem que sejam muito afastadas, estiveram submetidos durante muitos séculos às mesmas crenças, às mesmas instituições, às mesmas leis, e falam a mesma língua, constituem o que denomino uma raça histórica.” “A alma de um povo não é, portanto, uma concepção metafísica, mas uma realidade palpitante. É formada de uma estratificação atávica, de tradições, modos de pensar e mesmo preconceitos. Da sua solidez depende a força de uma nação.” “Destruir as influências do passado na alma de um povo teve sempre como invariável resultado conduzi-lo à barbárie.” “Os tchecos e os húngaros na Áustria, os irlandeses na Inglaterra, etc., confirmaram a exatidão dessa lei. A pretensão de impor os nossos códigos aos indígenas das nossas colônias prova que ela é mal-compreendida.”

Um povo de mestiços é ingovernável. A anarquia em que vivem as repúblicas latinas da América é uma prova dessa asserção.”

As violentas revoluções por meio das quais os povos procuram então, por vezes, subtrair-se ao jugo opressor de um passado demasiadamente penoso, não têm uma ação durável. Podem destruir as coisas, porém modificam muito pouco as almas. Assim, as opiniões e as crenças da velha França pesam sobre a nova de um modo irresistível. Só as fachadas mudaram.” Tanto criticam a ineficácia das revolução nos séculos XVIII e XIX e se esquecem do advento do Cristianismo: teria mudado o homem? Não, em absoluto!

Um perfeito socialista revolucionário facilmente se torna um conservador intransigente, desde que chegue ao poder. Sabe-se com que facilidade Napoleão transformou em duques, camaristas e barões, os terríveis convencionais que ainda não tinham tido tempo de matar-se uns aos outros.” Pouco se fala, no entanto, do estranho fenômeno dos comunistas na velhice ou maturidade: FhC, Mandetta, Mark Zuckerberg, se bobear até o Musk… Todos xingados de comunistas pelos “cérebros de gelatina” que ajudaram a destruir o Brasil elegendo Bolsonaro.

QUE AZEDO E ULTRAPASSADO! “Imaginando, segundo a afirmação dos seus agitadores, que eles são os criadores únicos da riqueza, não suspeitam absolutamente o papel que o capital e a inteligência representam. Considerando-se muito mais compatriotas dos operários estrangeiros do que dos burgueses franceses, eles se tornaram internacionalistas e antimilitaristas. A sua verdadeira pátria é o grupo de homens do seu ofício, a qualquer nação que pertençam.”

2. OS PROGRESSOS DA INFLUÊNCIA DAS OPINIÕES COLETIVAS E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS

O ponto mais essencial, talvez, da psicologia das multidões é a nula influência que a razão exerceu nelas. (…) Tais verdades deveriam ser banais desde muito tempo, mas a maneira de agir dos políticos de raça latina indica que eles não as compreendem ainda. Eles só se libertarão da anarquia depois de a terem compreendido.” Mas de que adianta compreender, se continuarão sentindo e sendo mistificados, Le Bon?

As mais revolucionárias multidões latinas mantêm um espírito muito conservador, muito tradicionalista. E isso explica por que os regimes que ela destrói são logo restaurados sob novas designações.”

A ação das opiniões populares, que hoje se tornou preponderante, igualmente se exerceu nas diversas épocas da História. Ela não é sempre percebida, porque a crônica das nações não foi, durante muito tempo, mais do que a dos soberanos. Todos os atos dos reinados pareciam resultar meramente da vontade dos reis.”

Quando, depois de haver terminado a história dos soberanos, o cronista se ocupar da história dos povos, claramente se verá que as multidões foram as verdadeiras criadoras de acontecimentos memoráveis: cruzadas, guerra de religião, matança de S. Bartolomeu,¹ revogação do edito de Nantes, restauração monárquica e napoleônica, etc. Nenhum déspota teria jamais tido a força de ordenar a matança de São Bartolomeu e, a despeito do seu poder absoluto, Luís XIV não haveria podido revogar o edito de Nantes.”

¹ wiki: “O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu foi um episódio da história da França na repressão ao protestantismo, engendrado pelos reis franceses, que eram católicos. [Pelos reis, no plural, se foram somente em duas noites?] Esses assassinatos aconteceram em 23 e 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu. Estima-se que entre 5 e 30 mil pessoas tenham sido mortas, dependendo da fonte atribuída.”

Os acontecimentos provocados pelas multidões são, na maioria, os que têm na História o papel mais funesto. As catástrofes de origem popular foram, felizmente, pouco numerosas, graças à ação das elites que, tão fracas hoje, conseguiam, então, na maior parte das vezes, limitar os caprichos e os furores do número.” Que coisa, não? Como envelheceste mal!

Se tudo é permitido para muitos ou quase todos, nada é permitido a ninguém.

Se um povo aspira à liberdade, o que raramente lhe acontece, ou se ele se arremessa à servidão, tendência muito mais freqüente, sempre achará professores e advogados que dêem uma forma intelectual às suas impulsões, por mais perigosas que possam ser.”

As opiniões da multidão ditam sempre hoje aos legisladores leis que eles devem votar e, como essas leis correspondem a efêmeras fantasias e não a necessidades, o seu resultado final é a desorganização da vida industrial, social e econômica do país.” Se assim o é, poderia me explicar como e por que a maconha e o aborto não são ainda legais? E por que não existe um programa de renda mínima consolidado no Brasil?

Que saudades do que não vivi (as greves sendo realmente temidas!)…

Isso é apenas, cumpre notar, um começo. [!!!] Os operários, aos quais são propostas pensões de 200 ou 300 francos já não se contentarão com isso, desde que se certificarem de que, mediante violência, os seus colegas das estradas de ferro obtêm 2 ou 3 mil. Depois do voto do Senado, os pedidos de aposentadorias proporcionais principiaram a aparecer, naturalmente, em avultado número: cantoneiros, operários dos arsenais, da manufatura do fumo reclamaram energicamente. Mas tudo isso é o futuro, um temível futuro, que só as preocupações eleitorais impedem de ver. Que sinistra cegueira!”

Sem os pesquisadores solitários, jamais haveria civilização ou progresso; mas a obra individual somente adquire toda a força pela sua absorção na alma coletiva.”

3. A DISSOLUÇÃO DA ALMA INDIVIDUAL NA ALMA COLETIVA

Essa desagregação de uma sociedade em fragmentos sem elos comuns constitui o que se denominou movimento sindicalista. Longe de permanecer, como o socialismo, um produto de puros teóricos, alheios às realidades, ele representa uma criação espontânea, devida a necessidades econômicas, que por toda a parte se impuseram, como prova a sua generalização, sob formas diversas, em povos de mentalidades distintas. As únicas diferenças são que o sindicalismo, revolucionário em alguns países, é pacífico em outros.” Que distinção absurda é essa???

A evolução industrial, que provocou esse movimento, conduz as grandes pátrias modernas a se subdividirem em pequenas pátrias, que só respeitam as próprias leis e desdenham as da coletividade geral que as contém.” Intui (mas articula mal) o reacionarismo e a fragmentação pós-modernos subseqüentes à falência do socialismo…

Desde que o antigo bloco social tiver sido inteiramente dissolvido em pequenos fragmentos solidamente constituídos, as suas divergências de interesses fatalmente os conduzirão a incessantes lutas. Se cada grupo for, com efeito, composto de elementos homogêneos, dotados de interesse e opiniões semelhantes, ele se achará em conflito com outros grupos, tão pujantes, mas que encerrem interesses nitidamente opostos.

É possível pressentir desde já essas futuras lutas entre interesses contrários, pois assim nos revela a história das antigas repúblicas italianas, principalmente a de Siena e a de Florença. Governadas por sindicatos operários, estes ensangüentaram com as suas dissensões intestinas, durante séculos, todas as cidades em que se exerceu o seu domínio. § Não objetemos que se trata de tempos muito remotos. As grandes leis sociais não são numerosas e sempre se repetem. § As lutas de grupos apenas começam porque o poder central, ainda forte, refreia as suas rivalidades, mas esse poder perde cada vez mais a sua ação. Desde que ele a tiver perdido inteiramente contra ele, [ele contra ele quem?] como em Narbona, depois entre eles, como na Champagne, onde os sindicatos rivais de dois departamentos de interesses contrários encarniçadamente lutaram um contra o outro.” Alusão a fenômenos sociais hoje ininteligíveis para quem não conhece os episódios com muita especificidade!

Nos capítulos consagrados ao estudo das opiniões individuais, tivemos, muitas vezes, dificuldade em precisar, entre os fatores que podiam agir, aqueles que desempenham um papel preponderante. Nada é, porém, mais fácil quando se trata de grupos muito homogêneos, muito circunscritos, tais como aqueles cuja formação acabamos de indicar.

Eles são, efetivamente, compostos de indivíduos que possuem unicamente as opiniões do seu pequeno meio. Para conservar a sua força, o grupo é obrigado a não tolerar nenhuma dissidência. Pela opinião de um dos seus membros, conhece-se a de todos os outros.”

Caiam as sociedades futuras sob o jugo do socialismo, do sindicalismo ou dos déspotas, suscitados pelas anarquias precedentes dessas doutrinas, elas serão, de qualquer modo, mentalmente escravizadas.” HAHAHA!

A evolução moderna tende, como acabamos de ver, a desagregar as sociedades em pequenos grupos distintos, que possuem sentimentos, idéias e opiniões idênticas, isto é, uma alma comum. É inútil discutir o valor dessa evolução, porquanto a razão não altera os fatos. § Mas, sem que os julguemos, é possível, pelo menos, tentar interpretá-los. Ora, é fácil mostrar que essa fusão das almas individuais em almas coletivas constitui um retrocesso a fases extremamente remotas da história, observadas ainda no estado de sobrevivência entre os povos primitivos inferiores.” Interessante. Simplesmente enuncia o conceito de aldeia global ou “tribos urbanas”! “e é por isso que todos os membros de uma mesma tribo são considerados como responsáveis pelos atos de um só.”

Um administrador da Indochina, o Sr. Paul Giran, observa justamente que ‘o direito coletivo desse país parece incompreensível aos magistrados europeus que aí são enviados, porquanto eles consideram como indiscutível evidência que somente o autor de um delito tem a responsabilidade do ato cometido. A idéia de que uma pessoa alheia a um crime possa, pelo fato desse crime, sofrer uma pena qualquer, parece-lhes monstruosa’.

Ela não o é, entretanto, para o anamita.¹ Em numerosos casos, os parentes, que pertencem ao grupo familiar do culpado, são executados. E por quê? Pela razão psicológica acima indicada, isto é, que não estando diferenciados os elementos de cada grupo social, são considerados como tendo apenas uma alma coletiva.” Mas se está falando da individualização do crime?!?

¹ Antigo povo autóctone do território atual do Camarões (melhor resultado na pesquisa)? Ininteligível…

Os próprios europeus empregam esse direito primitivo em tempo de guerra, quando fuzilam os reféns, apoiando-se no princípio da responsabilidade coletiva,”

A não-diferenciação psicológica dos diversos membros de uma tribo, entre os primitivos, é também acompanhada de uma não-diferenciação anatômica. Provei, outrora, por investigações feitas em milhares de crânios, que a homogeneidade anatômica de um povo é tanto maior quanto mais alto se remonta às suas origens, e os crânios dos seus diversos membros se diferenciam gradualmente, à medida que esse povo progride.” Difícil provar algo em arqueologia, amigo!

A alma individual, que só em séculos conseguira desprender-se um pouco da alma coletiva, atualmente se volta para ela.” Oxalá!

LIVRO VII. A PROPAGAÇÃO DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS

1. A AFIRMAÇÃO, A REPETIÇÃO, O EXEMPLO E O PRESTÍGIO

O hábito de louvar a virtude teria acabado, talvez, por tornar virtuoso o próprio Tartufo.”

Mais forte que o hábito é o enjôo, a náusea. É o que vem depois de dois mil anos de “ele morreu por nós”…

Enquanto na Alemanha a mocidade universitária, a mocidade burguesa, inteligente e letrada, outrora atraídas pelo socialismo, hoje se afastam dele e voltam a sentimentos de patriotismo exclusivo e exaltado, a tal ponto que a social-democracia alemã já não obtém, por assim dizer, adeptos entre eles; em França, ao contrário, é moda alistar-se entre os estudantes coletivistas e internacionalistas. O exemplo vem de cima, dos professores de filosofia, dos normalistas. A Escola Normal se transforma numa escola do socialismo.” Que bom, Le Bon: evitastes o fascismo francês – orgueil! Estranho poder místico possuído por esses professores… Os do século XXI não conseguem mais influenciar seus alunos e pensarem por si mesmos!

A autoridade do mestre é hoje soberana, inteiramente como no tempo em que reinava Aristóteles. Ela se torna mesmo cada vez mais onipotente à medida que a ciência mais se especializa.” Defina mestre. Hoje ele é o bobo-da-côrte.

CLOROQUINERS IN A NUTSHELL: “O completo imbecil, entretanto, alcança êxito, algumas vezes, porquanto, não tendo consciência da sua imbecilidade, jamais hesita em afirmar com autoridade.” “O mais vulgar dos ‘camelos’, quando energicamente afirma a imaginária superioridade de um produto, exerce prestígio na multidão que o circunda.” Seja lá o que for camelo, está correto…

2. O CONTÁGIO MENTAL

Minha sensação é que Le Bon – logo ele! – subestima a inteligência da sua própria massa; ignaro em sua própria psicologia! Ele pressupõe que seu público não sabia das verdades imorredouras (as obviedades, melhor dizendo) que ele elenca com sua automática, sua metralhadora verbal. Tudo isso (o que é uma opinião, o que é uma crença, seu poder absoluto) o populacho sempre soube, sempre saberá.

2014- : “Na vida ordinária, o contágio pode ser limitado pela ação inibidora da vontade, mas, se uma causa qualquer — violenta mudança de meio em tempo de revolução, excitações populares, etc. — vêm paralisá-la, o contágio exercerá facilmente a sua influência e poderá transformar seres pacíficos em ousados guerreiros, plácidos burgueses ou terríveis sectários. Sob a sua influência, os mesmos indivíduos passarão de um partido para outro e empregarão tanta energia em reprimir uma revolução quanto em fomentá-la.” PARADOXO DE SININHO, a “esquerdista” que ajudou a acordar o Gigante e derrubar o Partido dos Trabalhadores…

Quanto mais se multiplicam os meios de comunicação tanto mais se penetram e se contagiam. A cada dia estamos mais ligados àqueles que nos cercam. A mentalidade individual facilmente reveste uma forma coletiva.”

UM HOMEM DE ÉPOCA (E PÕE ÉPOCA NISSO!): “Os magistrados são, com efeito, indulgentes em demasia para com todos os criminosos, e bons filantropos, um pouco imbecis, constroem para eles elegantes prisões bem-aquecidas e providas de todo o conforto moderno.”

O contágio criminal produz-se, muitas vezes, assim, graças às narrações de assassinatos profissionais, referidos pelos jornais.” Engraçado que nunca ninguém imitou Pelé! Uma teoria de contágio com partido (se for ruim, é contagiante…). Típica do reacionarismo fim-de-milênio.

O terror do último cometa, que devia, segundo se afirmava, encontrar a Terra, provocou a morte voluntária de muitas pessoas.”

O rol de exemplos eqüestres é invejável! Mas não terei saco para ler sua obra sobre equinos…

Se um dos cães ladra, os outros imediatamente o imitam.” Será mesmo uma imitação, ou apenas um ato contíguo e inédito, impossível de ser distinguido de uma reação instintiva pelo homem?

Tem-se muitas vezes repetido a história dos 15 inválidos que se enforcaram no mesmo gancho de um corredor e a dos soldados que se suicidaram na mesma guarita.” É mesmo? Diga-me o nome de 3 deles, por favor.

O Sr. Stohoukine cita um caso de uma fogueira que devorou 2500 indivíduos que se sacrificavam na esperança de uma vida melhor.”

O contágio mental pode, portanto, escravizar todas os inteligências. À semelhança do contágio pelos micróbios, ele poupa apenas naturezas muito resistentes e pouco numerosas.” Imagina quanta tolice não foi reverberada graças às passagens mais histriônicas do seu livro?

TOUCHÉ: “As opiniões propagadas por contágio só se destroem por meio de opiniões contrárias propagadas do mesmo modo. Aplicada por estadistas, essa regra de ordem psicológica lhes permitiria, graças aos meios de que dispõem, combaterem o contágio pelo contágio.” Meu país sempre será vermelho, etc.

3. A MODA

Com a vida mais rápida, a mulher teve de se masculinizar exteriormente para seguir o homem nas suas vertiginosas corridas pelas grandes estradas. O vestido tailleur, primeiramente reservado a certos esportes, generalizou-se em tudo quanto tinha de cômodo e de adequado. Quanto aos outros vestidos, as mangas largas dos corpetes tornaram-se estreitas para deslizarem facilmente nos paletós. Mas, então, a vista sentiu-se impressionada desagradavelmente pelo busto assim estreito. Para corrigir esse defeito e porque uma transformação determina outra, diminuiu-se a amplitude das saias, para que ficassem mais largas as espáduas e se afinasse a silhueta, modificação que suscitou a supressão dos bolsos e, depois, as saias inferiores. A mulher, na sua necessidade de sentir em torno de si uma atmosfera de desejo, sublinhou essa simplicidade por uma estreiteza excessiva. Ela mostrou tudo quanto era possível e deixou adivinhar o resto. Saias, rendas e roupa branca cederam o lugar às peças inferiores, chamadas combinaisons, que preservam do pó e do frio.”

A moda é tão poderosa entre as mulheres que elas suportam, em obediência aos seus ditames, os mais terríveis enfados, como as obrigações, há alguns anos, de manter constantemente erguido, por uma das mãos, um vestido de cauda, sendo a outra mão ocupada em carregar a bolsa, destinada a encerrar o conteúdo dos bolsos; é análogo o suplício no andar, determinado pelos vestidos chamados entraves e aceito há longos meses. Nesse ponto, as civilizadas rivalizam com as selvagens, que suportam a tortura de um anel espetado no nariz, em obediência à moda.”

A moda não conhece revoltadas; só a extrema pobreza lhe recusa escravas. Nenhum dos deuses do passado foi mais respeitosamente obedecido.”

4. OS JORNAIS E OS LIVROS

Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influência sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais são as obras de Rousseau, verdadeira bíblia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tomás, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secessão na América do Norte.”

A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.”

A simples repetição de uma fórmula breve só é útil para um produto já conhecido. Ela atua, então, por uma espécie de obsessão, mas, para um produto novo, será necessariamente preciso enumerar todas as suas qualidades.”

A dificuldade de lutar contra o hábito, que combate a influência psicológica do anúncio, ficou muito bem provada pela história da adaptação dos pneumáticos aos carros. Tendo os alugadores recusado a compra desse artigo, o inventor o distribuiu gratuitamente a uma pequena companhia. O êxito foi tão rápido que, não somente essa empresa fez fortuna, como, diante das reclamações dos que tomavam carro, todas as outras companhias se viram obrigadas, com grandes despesas, a munir da borracha, primeiramente desdenhada, os seus veículos.”

A batalha de Iena para os alemães, a guerra de 1870 para os franceses, foram necessárias para que criassem correntes de opiniões suscetíveis de impor o serviço militar obrigatório universal.(*) Só uma corrente de opiniões análoga, resultante de decisivos sucessos marítimos, podia permitir ao governo japonês aumentar de mais de um bilhão por ano as despesas da sua marinha de guerra.

(*) O chanceler do Império da Alemanha exprimiu muito bem essa verdade num discurso proferido em março de 1911 no Reichstag, e de que damos um resumo: ‘A questão do desarmamento é, para todo o observador sério, insolúvel enquanto os homens forem homens e os Estados forem Estados. Por mais que façam, os fracos serão sempre a presa dos fortes. O povo que não quer despender com o seu armamento, decai, e um povo mais forte toma o seu lugar’. [Carniça!] Como muito bem disse o mesmo estadista, ‘as disposições de que podem hoje surgir a guerra têm as suas raízes em sentimentos populares, que se deixam facilmente influenciar’.”

Os mais temíveis tiranos nunca foram bastante fortes para lutar muito tempo contra correntes de opiniões. Observa Juvenal que Domiciano pôde matar impunemente personagens ilustres, porém ‘pereceu quando os sapateiros começaram a ter medo dele’.”

Essas explosões de opiniões populares, muito perigosas porque a razão não exerce nelas nenhuma influência, são felizmente pouco duráveis. Resistir-lhes diretamente é excitá-las ainda mais. Entre os diversos fatores das explosões de furor provocadas pela questão Dreyfus, um dos mais ativos foi a obstinação do Estado-maior em afrontar a opinião, contestando a evidência de certos documentos. Um simples erro judiciário não teria produzido mais efeito do que tantos outros, cotidianamente cometidos, e logo se teria cessado de pensar nisso.”

LIVRO VIII. A VIDA DAS CRENÇAS

1. CARACTERES FUNDAMENTAIS DE UMA CRENÇA

Se os romanos aceitaram as divindades de todos os povos estrangeiros, foi porque elas constituíam para eles uma hierarquia de seres poderosos, que cada qual devia atrair em seu favor pela adoração.

Conquanto animado de princípios diferentes, o budismo triunfante não foi mais perseguidor. Ensinando a indiferença ao desejo e considerando os deuses e os entes como vãs ilusões sem importância, ele não tinha nenhuma razão para ser intolerante.”

Os sectários modernos da deusa Razão são tão violentos, tão intolerantes, tão sequiosos de sacrifícios quanto os seus predecessores. A regra de todo o verdadeiro crente será sempre a que foi ensinada na Suma de S. Tomás: ‘A heresia é um pecado pelo qual se merece ser excluído do mundo pela morte’.”

Todos os progressos da civilização procedem, evidentemente, desses espíritos superiores, mas não se pode desejar a sua multiplicação sucessiva. Inapta a adaptar-se imediatamente a progressos rápidos e profundos em demasia, uma sociedade se tornaria logo anárquica. A estabilidade necessária à sua existência é precisamente estabelecida graças ao grupo compacto dos espíritos lentos e medíocres, governados por influências de tradições e de meio.”

A mediocridade de espírito pode, pois, ser benéfica para um povo, sobretudo associada a certas qualidades de caráter. Instintivamente, a Inglaterra o compreendeu, e é por isso que nesse país, embora seja um dos mais liberais do universo, o livre-pensamento sempre foi bastante mal-visto.”

A mentalidade dos mártires de toda a espécie, política, religiosa ou social, é idêntica. Hipnotizados pela fixidez do seu sonho, sacrificam-se alegremente a fim de estabelecer a vitória da sua idéia, sem mesmo nenhuma esperança de recompensa neste mundo ou no outro. A história dos niilistas e dos terroristas russos é abundante em ensinamentos que demonstram este último ponto. Não é sempre a esperança do céu que faz os mártires.” “O estudo dos mártires pertence, sobretudo, ao domínio da patologia mental. Os alucinados das crenças mais variadas apresentam tal analogia que, depois de examinados dois ou três, todos os outros ficam conhecidos.” HAHAHAHAHAAHA!

Eles podem ter como tipo o exemplo de Vivia Perpétua, venerada pelos cristãos sob o nome de santa Perpétua, e que vivia no reinado de Sétimo Severo. Filha de um senador três vezes cônsul, presidente do Senado de Cartago, a bela e rica patrícia, [afinal ela era cartaginesa ou romana?] secretamente convertida ao Cristianismo, preferiu ser exposta nua diante do povo e devorada viva pelos animais ferozes a fazer o simulacro de queimar um pouco de incenso no altar do gênio do Imperador. Os crentes consideraram tais atos como provas do poder dos seus Deuses. É, evidentemente, uma pura ilusão, porquanto os mártires foram igualmente numerosos em todas as religiões e em todas as seitas políticas.”

Os povos jamais sobreviveram muito tempo à morte dos seus deuses.”

2. AS CERTEZAS DERIVADAS DAS CRENÇAS: A natureza das provas com que se contentam os crentes

Lutero tinha certeza de que o papa era o Anti-Cristo, que não existia purgatório e, em nome de verdades dessa ordem, a Europa foi posta a fogo e sangue, durante muitos séculos. Os padres da Inquisição tinham certeza de que Deus queria ver queimados os hereges, e eles despovoaram a Espanha com as suas fogueiras.”

A leitura das obras relativas aos meios de descobrir os feiticeiros, descritos por doutos magistrados outrora qualificados de eminentes, é, nesse ponto de vista, extremamente instrutiva. Os documentos dessa natureza, tanto quanto os livros dos teólogos, mostram o abismo que separa a prova exigida pelo sábio da que satisfaz o espírito encerrado no ciclo da crença.

É inútil dar aqui exemplos. Todos seriam análogos aos que foram revelados no processo que se intentou contra o escritor italiano d’Albano. Provou-se claramente que havia aprendido ‘as 7 artes liberais’ com o auxílio de 7 demônios, por se ter descoberto em sua casa uma garrafa que continha 7 drogas diferentes, cada uma das quais representava um demônio. A despeito dos seus 80 anos, ia ser queimado vivo, quando, protegido sem dúvida pelos 7 demônios captados, morreu subitamente. Os juízes tiveram de limitar-se a desenterrá-lo e a queimar o cadáver numa praça pública.

No reinado de Luís XIV, só excepcionalmente os feiticeiros foram queimados, mas ninguém duvidava do poder que eles possuíam. O processo da feiticeira Voisin revelou que as maiores personalidades da época, o marechal de Luxembourg, o bispo de Langres, primeiro capelão da rainha e outros, tinham recorrido à força mágica que lhe atribuíam. O bispo Simiane de Gorges se dirigira a ela, a fim de obter, por influência do diabo, a fita azul do Espírito Santo!

Se as cartomantes e as pitonisas modernas referissem as visitas que recebem, ver-se-ia que a credulidade humana não tem diminuído. Eu poderia citar um ex-ministro, conhecido pelo seu rígido anticlericalismo, que nunca sai sem ter no bolso o pedaço de uma corda de enforcado. Um dos nossos mais eminentes embaixadores imediatamente se levanta de uma mesa em que se acham 13 convivas. É o fetichismo desses ilustres homens de Estado verdadeiramente superior às crenças religiosas que eles proscrevem com tanto vigor?”

Uma doutrina deve ser julgada verdadeira, dizia ele, desde que todos os homens assim pensam. No juízo de Bossuet, um único ente não poderia ter razão contra a totalidade dos outros. Foram necessários os progressos das ciências modernas para provar que muitas descobertas se realizaram, precisamente porque um único homem teve razão contra todos os outros.”

Uma mentalidade religiosa indestrutível nos fará voltar sempre os olhos para o sobrenatural, mas o estudo atento dos fatos milagrosos sempre mostrará também que eles são apenas alucinações criadas pelo nosso espírito.”

3. PAPEL ATRIBUÍDO À RAZÃO E À VONTADE NA GÊNESE DE UMA CRENÇA

O exemplo de Pascal mostra o que podem ser os resultados dessa luta entre a lógica afetiva e mística de um lado e a lógica racional do outro. O ilustre pensador escrevia numa época em que as verdades religiosas eram aceitas sem contestação, e só um gênio como o seu podia ousar submeter as suas certezas a uma discussão racional. O completo insucesso da sua tentativa demonstra, ainda uma vez, a fraqueza da razão perante a crença.

Pascal era dotado de muita sagacidade para não perceber o ilogismo racional de uma lenda que supõe um Deus a vingar em seu filho uma injúria cometida na origem do mundo por uma das suas criaturas, e não hesita em qualificá-la de ‘tolice’.” “Impressionado pelo receio do inferno (…) ele chega a considerar a vida futura como o objeto de uma temível aposta.” O e se… ético da vida aqui e agora, só que mal-aplicado…

Todo o homem pode fazer o que fez Maomé, porquanto este não fez milagres e não foi predito. Nenhum homem pode fazer o que fez Jesus Cristo.”

4. COMO AS CRENÇAS SE MANTÊM E SE TRANSFORMAM

uma crença que não é continuamente defendida logo se desagrega. A história está repleta de destroços de crenças que, por essa razão, tiveram apenas uma existência efêmera.” Mas pode-se reavivar crenças há séculos perdidas.

Confinado num deserto, privado de qualquer símbolo, o crente mais convicto veria rapidamente declinar a sua fé. Se, entretanto, anacoretas e missionários a conservam, é porque incessantemente relêem os seus livros religiosos e, sobretudo, se sujeitam a uma multidão de ritos e de preces. A obrigação para o padre de recitar diariamente o seu breviário foi imaginada pelos psicólogos que conheciam bem a virtude sugestiva da repetição.”

Os iconoclastas eram guiados por um instinto seguro, quando quebravam as estátuas e os templos das divindades que eles queriam destruir.”

O bramanismo, por exemplo, só tem muito vaga relação com os livros védicos que o inspiraram. O mesmo se diria do budismo.” Não existem dois brâmanes iguais, diria Heráclito.

Uma crença triunfante acaba sempre por fragmentar-se em seitas, cada uma das quais mantém apenas os elementos fundamentais da crença primitiva.”

Considerar a Reforma, como freqüentemente se faz, como uma vitória da liberdade do pensamento é não compreender absolutamente a natureza de uma crença. O protestantismo foi, primeiramente, mais rígido do que o catolicismo, e se ele evolveu, em seguida, para formas por vezes um pouco liberais, não ficou, por isso, menos intolerante. Lutero e os seus sucessores professavam doutrinas muito decisivas, destituídas de todo o espírito filosófico e impregnadas de uma intransigência absoluta. Tendo dividido os homens em eleitos e réprobos, Calvino julgava que os primeiros não devem ter nenhuma consideração para os segundos. Tendo-se tornado senhor de Genebra, impôs à cidade a mais terrível tirania e organizou um tribunal tão sanguinário quanto o Santo Ofício. O seu contraditor, Michel Servet, foi queimado a fogo lento.

Na época da matança de S. Bartolomeu, resultado de todas essas querelas em França, os protestantes foram os massacrados; mas, em todos os países em que eles eram os mais fortes, tornaram-se massacradores. A intolerância era a mesma dos dois lados.

A perpétua subdivisão das crenças é devida à circunstância de que cada qual adota os elementos que o impressionam com mais força e não é influenciado pelos outros. Certos fiéis que possuem o temperamento de apóstolos procuram logo formar uma pequena igreja. Se o conseguem, funda-se um cisma ou uma heresia e o contágio mental logo intervém para propagá-la. A divisão de uma crença em seitas foi sempre favorecida pela extrema imprecisão dos livros sacros. Cada teólogo pode, desde então, interpretá-los ao seu modo.

É útil percorrer obras como as que foram consagradas às discussões sobre a graça, entre tomistas e congruístas, jansenistas e jesuítas, etc., a fim de ver a que grau de aberração podem descer mentalidades influenciadas pela fé.

Os próprios espíritos mais eminentes parecem estar tomados de vertigem, desde que penetram no domínio da crença. Como exemplo, citaríamos as Meditações do célebre Malebranche. O êxito desse livro foi tal que, ao ser publicado em 1684, 4 mil exemplares foram vendidos em uma semana.”

Se há mal no mundo, é porque Deus negligenciou um pouco a sua obra; assim era, aliás, preciso, porquanto o mundo é a morada dos pecadores.”

Os crentes de todos os tempos têm procurado racionalizar a sua fé, sem compreender que a sua força era devida justamente à circunstância de não ser influenciada pelo raciocínio.”

A desagregação de uma crença em seitas rivais perpetuamente em luta não se poderia produzir nas religiões politeístas. Elas também evolveram, mas por simples anexação, depois por fusão de deuses novos, todos considerados como muito poderosos e, conseguintemente, muito respeitados. Eis por que as guerras de religião que devastaram a Europa ficaram mais ou menos ignoradas na antiguidade pagã.

Foi, pois, um grande benefício para os povos terem começado pelo politeísmo. Considero, contrariamente a uma opinião muito generalizada, que eles lucrariam muito se permanecessem nesse terreno. Longe de favorecer o progresso, o monoteísmo os atrasou, pelas lutas sanguinolentas com que encheu o mundo. Moderou durante séculos a evolução das artes, da filosofia e das letras, desenvolvidas pelos gregos politeístas a um ponto tal que eles são tidos como nossos mestres.” “O culto da pátria tinha bastado para dotar os romanos politeístas, na época da sua grandeza, de uma identidade de sentimentos que nunca foi ultrapassada.”

Se, conforme o juízo de tantos historiadores e de meios-filósofos como Renan, o monoteísmo houvesse constituído uma superioridade, seria preciso colocar acima de todas as outras religiões o islamismo, a única mais ou menos monoteísta.

Digo ‘mais ou menos’ porquanto as religiões realmente monoteístas só existiram nos livros. O cristianismo, por exemplo, logo anexou legiões de anjos, santos e demônios, que correspondem exatamente às divindades secundárias do mundo antigo e são venerados ou temidos como aquelas.

Essa multiplicidade de deuses secundários nas crenças monoteístas e a divisão rápida destas últimas em seitas mostram claramente que o monoteísmo é um conceito teórico, que não satisfaz às nossas necessidades afetivas e místicas.”

5. COMO MORREM AS CRENÇAS

Exato no sentido histórico, o título deste capítulo é muito menos preciso no sentido filosófico. Semelhantes à energia física moderna, as crenças se transformam algumas vezes, mas nunca perecem. Mudam, contudo, de nome, e é esse fenômeno que pode ser considerado como a sua morte.”

Essa fase, na qual o ceticismo e a fé se aproximam, produz-se quando o tempo ou outros motivos abalaram as crenças antes que estejam ainda nitidamente formuladas aquelas que as devem substituir. Os últimos defensores dos dogmas desfeitos a eles se prendem desesperadamente, sem que neles acreditem muito. Parece recearem ‘esse incurável tédio’, segundo Bossuet, ‘que constitui o fundo da vida dos homens, desde que perderam o gosto de Deus’.”

Atravessamos precisamente um desses períodos de instabilidade em que os povos se sentem vacilantes entre as influências das divindades antigas e as que se acham em via de formação. A nossa época constitui um dos pontos críticos da história das crenças. Enquanto se espera a adoção de uma grande fé nova, a alma popular flutua entre pequenos dogmas momentâneos, sem duração, mas não sem força. Defendidos por grupos, comissões ou partidos, eles exercem, muitas vezes, um poder considerável.” “Os imperativos categóricos gerais de outrora tornaram-se pequenos imperativos de seitas, tendo de comum apenas um ódio intenso contra a ordem de coisas estabelecidas.”

Robespierre, encarnação típica da estreita mentalidade religiosa do seu tempo, julgava-se um apóstolo que recebera do céu a missão de estabelecer o reino da virtude. Muito deísta, muito conservador e grão-sacerdote infalível de uma nova teocracia, supunha um dever sagrado imolar implacavelmente ‘os inimigos da virtude’ e, como outrora os pontífices da Inquisição, não excluía ninguém. Os seus discursos faziam incessantemente apelo ao Ente Supremo. O seu agente Couthon invocava também a cada instante o Altíssimo.”

O DEUS DO SOCIALISMO É O TRABALHO RESTITUÍDO AO HOMEM: “Se o socialismo possuísse alguma divindade precisa que cumprisse adorar, o seu êxito seria muito mais rápido. Os seus apóstolos reconhecem instintivamente essa necessidade, mas, não ousando oferecer à adoração popular a cabeça do principal teórico da doutrina, o judeu Karl Marx, eles se voltaram para a deusa Razão.” Qual é a necessidade de designá-lo como judeu neste contexto? Eu mesmo respondo: anti-semitismo.

Infelizmente, as divindades abstratas nunca seduziram as multidões, e é por isso que a religião socialista possui dogmas, mas ainda espera o seu deus. Ele não se fará esperar muito tempo. Os deuses surgem quando se tornam necessários.” Erro crasso ou acertou por tabela ao chutar o vento, acertando na Mãe-Rússia?

É inútil recriminar.” Dessa perspectiva, seu livro inteiro foi inútil.

Pilatos, hoje, já não formularia sem dúvida a pergunta, à qual nenhum filósofo jamais respondeu definitivamente. Ele diria que, sendo a verdade o que se crê, toda a crença estabelecida constitui uma verdade.”

LIVRO IX. PESQUISAS EXPERIMENTAIS SOBRE A FORMAÇÃO DAS CRENÇAS E SOBRE FENÔMENOS INCONSCIENTES DE QUE ELAS DERIVAM

1. INTERVENÇÃO DA CRENÇA NO CICLO DO CONHECIMENTO. GÊNESE DAS ILUSÕES CIENTÍFICAS.

Um dos mais flagrantes é a aventura de que foram vítimas, há mais ou menos 40 anos, a quase totalidade dos membros da Academia das Ciências, e que inspirou a Daudet o seu célebre romance O imortal. Acreditando num eminente geômetra, aureolado de grande prestígio, a ilustre assembléia inseriu, como autênticas, nas suas atas, uma centena de cartas atribuídas a Newton, Pascal, Galileu, Cassini, etc. Fabricadas, inteiramente, por um falsário pouco letrado, encerravam numerosos erros e vulgaridades, mas os nomes dos supostos autores e do sábio que as apresentava fizeram aceitar tudo. Os acadêmicos, na sua maioria, e principalmente o secretário perpétuo, não conceberam nenhuma dúvida no tocante à autenticidade desses documentos, até ao dia em que o falsário confessou a fraude. Dissipado o prestígio, declarou-se que era miserável o estilo das cartas, que, ao princípio, se afirmara ser maravilhoso e digno dos escritores de gênio considerados como os seus autores.

RAIOS N: “Durante 2 anos, as atas da Academia de Ciências publicaram inúmeras notas de vários físicos profissionais: Broca, J. Becquerel, Bichot, etc., sobre as propriedades, cada dia mais maravilhosas, desses raios. O Sr. Jean Becquerel anunciava mesmo tê-los cloroformizado. Sábios distintos, notavelmente o sr. D’Arsonval, faziam a respeito deles entusiásticas conferências. A Academia de Ciências, julgando necessário recompensar tão importante descoberta, encarregou vários dos seus membros, entre os quais o físico Marcart, de verificarem na residência do autor a exatidão das suas pesquisas. De lá voltaram maravilhados, e um prêmio de 50 mil francos foi concedido ao inventor.(*)

(*) Esse prêmio devia, primeiramente, ser conferido exclusivamente pelos raios N, mas, no último momento, por um excesso de prudência, que se afigurou excessivo a alguns membros da comissão, no relatório se declarou que o prêmio seria atribuído ao sr. Becquerel pelo conjunto dos seus trabalhos, sem especificação.

Durante esse tempo, sábios estrangeiros, para os quais os físicos franceses são destituídos de prestígio, repetiam em vão as experiências, sem o menor resultado. Muitos se decidiram, então, a ir observá-las na residência do inventor, e rapidamente se certificaram de que este era vítima das mais completas ilusões e continuaram a medir, por exemplo, os desvios dos raios N sob a influência de um prisma, conquanto se houvesse retirado sorrateiramente esse prisma na escuridão, etc.

A Revue Scientifique encetou, então, um vasto inquérito junto a todos os físicos do universo. Os seus resultados foram desastrosos para os raios N. Foi preciso reconhecer que eles constituíam um mero produto da sugestão mental e do contágio, e nunca tinham tido existência.

Dissipada a sugestão, nenhum dos físicos franceses persuadidos de terem visto os raios N conseguiu uma só vez vê-los de novo. As comunicações sobre esse assunto, outrora tão abundantes nas atas da Academia de Ciências, subitamente e totalmente cessaram.”

Nas ciências em via de formação, como é a medicina, [!] na qual são extremamente difíceis as verificações — porquanto jamais se sabe que resultados cumpre atribuir à sugestão e ao remédio —, os erros se perpetuam muito mais. Enumerá-los seria relatar a história da medicina e mostrar que teorias, remédios e raciocínios mudam todos os quartos de século.”

Há 50 anos, mais ou menos, o tratamento da pneumonia pela sangria era considerado como uma das belas conquistas da arte médica. O seu valor parecia fartamente provado por estatísticas, as quais indicavam que, graças a esse tratamento, só morriam 30 doentes em 100. (…) Os médicos matavam, pois, pela sangria, 25 por 100 dos seus doentes.”

2. A FORMAÇÃO MODERNA DE UMA CRENÇA: O ocultismo

Queimados por milhares, os feiticeiros reapareciam sempre. Essa potência rival da Igreja foi vencida pelo tempo muito mais do que pelos suplícios.”

Se inúmeros testemunhos, afirmações obstinadamente repetidas, mesmo à custa da vida, bastassem para estabelecer a existência de um fato, nada seria mais incontestavelmente provado do que a existência do sabbat. Incalculável é, com efeito, o número de indivíduos que confessaram tê-lo visitado através dos ares, montados numa vassoura, e haver tido aí relações sexuais com os demônios.”

O papel da sugestão e do contágio mental aí se manifesta em grande escala. Os testemunhos ouvidos no decurso dos processos de feitiçaria em vários países são concordes, as descrições de satã idênticas, o modo de ir ao sabbat é o mesmo em toda parte. Nenhum interesse pessoal parece ter influenciado a alma desses alucinados. O diabo lhes dava, verdadeiramente, muito pouco em troca da sua salvação eterna”

Raramente havia, aliás, necessidade de recorrer às torturas para obter a confissão dos seus supostos crimes. Os inculpados descreviam, sem resistência alguma, as cenas do sabbat. O diabo aí os esperava sob formas variadas: sapo, gato, cão preto, bode, etc. Oferecia aos seus fiéis refeições geralmente compostas de fragmentos de cadáveres e distrações mui pouco numerosas. Afora as danças e as relações sexuais com feios demônios ou velhas feiticeiras, as mais freqüentes ocupações consistiam em fustigar vigorosamente grandes sapos para que segregassem um líquido esverdeado e pegajoso, destinado a fabricar unguentos e pós mágicos.”

A magia antiga devia, ainda uma vez, reaparecer, mudando de nome sem sofrer notável modificação. Chama-se hoje ocultismo de espiritismo, os áugures se denominam médiuns, os deuses inspiradores de oráculos se intitulam espíritos, as evocações dos mortos têm o nome de materialização. Durante muito tempo a nova crença foi desdenhada pelos sábios; mas, há uns 20 anos que assistimos a este fenômeno muito imprevisto: eminentes professores tornam-se convencidos adeptos de todas as formas de magia.

Assim, reputados antropologistas, como Lombroso, [só um racista de merda] afirmam que evocaram as sombras dos mortos e com elas conversaram; ilustres químicos, tais como Crookes, dizem ter vivido meses com um espírito que diariamente se materializava e desmaterializava, professores de filosofia célebres, como Richet, [enxame de perfeitos anônimos] declaram ter visto um guerreiro de capacete surgir espontaneamente do corpo de uma menina, físicos distintos, como d’Arsonval, referem que um ‘médium pode fazer variar, à vontade e de um modo considerável, o peso de um objeto’. Vemos, enfim, ilustres filósofos, como o sr. Boutroux, dissertarem em brilhantes conferências sobre os espíritos, as comunicações sobrenaturais, e afirmarem que ‘a porta subliminal é a abertura pela qual o divino pode penetrar na alma humana’.”

A palavra materialização significa que um espírito, o de um morto ou mesmo o de uma pessoa viva, pode subtrair ao organismo do médium, o ‘fluido’, isto é, uma substância imponderável, suscetível, entretanto, de condensar-se e tornar-se matéria. Essa substância se agrega em matéria e se apresenta sob formas diversas, conforme a vontade da inteligência que a manipula. Ordinariamente é um corpo análogo a um corpo vivo que essa inteligência fabrica; lembra a forma que tinha, quando vivo, o defunto, se se trata de um morto. Tais corpos têm a denominação de materializados.” “Dr.” Maxwell

Além do nosso corpo material, possuímos em duplicata, um corpo astral, por vezes separável do primeiro depois da morte. Ele se pode materializar, servindo-se dos elementos materiais de um corpo vivo, o do médium, por exemplo.

Naturalmente, as explicações dos espíritas sobre tal assunto são bastante confusas e variam com a imaginação de cada autor. Cumpre unicamente reter que do corpo de um ente vivo poderia instantaneamente surgir outro ser, possuindo os mesmos órgãos e não o seu simples aspecto.

A famosa Katy King, de Williams Crookes, tinha, com efeito, um coração muito regular, e os pulmões do fantasma de capacete, materializado em presença do professor Richet, segregavam ácido carbônico como os de um ente ordinário, como se pode verificar, mediante a insuflação de ar num tubo banhado em água de barita.” HAHAHA?!

O sr. Bottazi e os seus auxiliares estavam persuadidos de que do corpo de Eusápia podiam sair um braço e uma mão invisíveis, que lhe permitiam levantar uma mesa de 22 quilos e deslocar numerosos objetos.”

Outros sábios conhecidos, o Dr. Venzano, o professor Morselli, etc., anunciam ter observado com o mesmo médium fenômenos análogos, principalmente ‘um vulto de mulher que tinha nos braços uma criança de cabelos muito curtos’.”

Os povos de todas as raças adoraram, sob nomes diversos, uma única divindade: a Esperança.” Menos os gregos.

3. MÉTODOS DE EXAME APLICÁVEIS AO ESTUDO EXPERIMENTAL DE CERTAS CRENÇAS E DE DIVERSOS FENÔMENOS SUPOSTAMENTE MARAVILHOSOS

As pessoas um pouco familiarizadas com a psicologia das multidões sabem como é diminuta a utilidade dos inquéritos coletivos. Os observadores transmitem sugestão uns aos outros e perdem inteiramente o espírito crítico; o nível de sua credulidade aumenta e eles chegam apenas a conclusões incertas. Não creio que uma só grande descoberta haja sido feita por uma coletividade.”

Todos os inquéritos relativos ao ocultismo empreendidos na Inglaterra, na França e na Itália, nada adiantaram e amplamente justificaram as reflexões precedentes. Conforme a mentalidade dos assistentes e o seu grau de sugestibilidade, o mesmo médium foi considerado como um vulgar embusteiro ou, ao contrário, como possuidor de poderes tão maravilhosos quanto os que foram outrora atribuídos ao diabo pela feitiçaria.

O mais importante desses inquéritos, tanto pelo tempo e pelo dinheiro despendido quanto pela qualidade dos observadores, foi o que organizou o Instituto Psicológico de Paris. Os resultados não foram brilhantes, apesar dos 25 mil francos sacrificados e das 43 sessões consagradas às experiências.”

Seria preciso imaginar um Mulder que não consegue provar a farsa ou embuste de nenhum autor de fenômenos paranormais!

Não se podia objetar às condições precedentes que os fenômenos de levitação somente se produzem na obscuridade, [os médiuns] tinham renunciado a essa exigência. O sr. Maxwell não cessa de insistir, no seu livro, na possibilidade de obter os fenômenos de levitação em plena luz. O sr. Boirac, reitor da Academia de Dijon, afirma também ter, por várias vezes, à luz, atraído uma mesa, sem tocar. Por que, gozando de tão curiosa propriedade, não quis obter o prêmio de 2 mil francos?

O anúncio desse prêmio valeu-me, naturalmente, a recepção de muitas centenas de cartas, porém somente 5 médiuns se apresentaram para ganhá-lo. Referi-lhes as condições acima indicadas prometendo, aliás, o número de sessões que quisessem. Disseram-me que voltariam. Não os tornei a ver.”

O fenômeno da levitação das mesas representa o ABC do espiritismo. Nesse particular, já não há dúvida possível! A mesa se levanta inteiramente só, sem estratagemas nem embustes, e fica suspensa até 78 segundos… Aqui em Gênova um jovem poeta, excelente médium, imprimiu movimento a uma caixa que pesava 180 quilos.” Prof. Morseff

por que os médiuns, capazes, há 40 anos, de erguer 75 quilogramas, já não podem levantar hoje alguns gramas?”

Um erro muito generalizado é o que consiste em imaginar que um sábio, distinto na sua especialidade, possui por essa única razão uma aptidão particular na observação dos fatos alheios a essa especialidade, principalmente aqueles em que a ilusão e a fraude desempenham um papel preponderante. Vivendo na sinceridade, habituados a crer no testemunho dos seus sentidos, completados pela precisão dos instrumentos, os sábios são, na realidade, os homens mais facilmente iludíveis.”

Os fenômenos do espiritismo não poderiam, portanto, ser eficazmente observados por sábios. Os únicos observadores competentes são os homens habituados a criar ilusões e, por conseguinte, a desvendá-las, isto é, os prestidigitadores. É muito lamentável que o Instituto Psicológico não o tenha compreendido.”

Não sendo os verdadeiros crentes influenciáveis por um raciocínio, seria inútil discutir com eles. Mas, ao lado desses agita-se a imensa legião dos simples curiosos, dos meio-convencidos.” Cético pero no mucho.

4. ESTUDO EXPERIMENTAL DE ALGUNS FENÔMENOS INCONSCIENTES GERADORES DE CRENÇAS

Está hoje mais ou menos demonstrado que as peregrinações, levando milhares de crentes tanto a Meca quanto a Lourdes, ou às margens do Ganges, não lhes foram sempre inúteis. As forças misteriosas do inconsciente, postas em jogo por uma fé ardente, muitas vezes se revelam mais pujantes que os meios de que dispõe a terapêutica.

Julgo que é do mais elevado interesse, porquanto pode desvendar imprevistos horizontes à fisiologia, pôr nitidamente em evidência os limites das influências que consegue determinar no organismo a sugestão produzida pelas preces, pelas relíquias, pelos amuletos, etc.

Sem dúvida, durante muito tempo ainda, esse estudo capital não poderá ser seriamente iniciado. As curas, qualificadas de milagrosas, só foram até aqui examinadas por céticos intransigentes ou crentes irredutíveis. Ora, essas duas formas de mentalidade paralisam, igualmente, a faculdade de observar. E como o cético nesses assuntos se torna facilmente um crente, por vezes sem consciência disso, vê-se que não é fácil chegar a conclusões muito nítidas.”

O QUERIDINHO DE FRAUD, O PRESTIDIGITADOR: “A cura pela fé foi numerosas vezes utilizada nos nossos dias pelo célebre médico Charcot.”

Eusápia, diz o relator, pede ao sr. D’Arsonval que tente erguer uma pequena mesa, o que ele facilmente faz; veda-lhe, em seguida, que o faça o sr. D’Arsonval não consegue deslocar o objeto. ‘Parecia pregado ao solo.’ Eusápia coloca de novo o cotovelo sobre a mesa, e o Sr. D’Arsonval ergue a mesa sem dificuldade. Alguns instantes, após, Eusápia diz ao objeto: ‘Sê leve’ e o Sr. D’Arsonval mais facilmente ainda o levanta. Essa experiência, que os magnetizadores profissionais facilmente conseguem nas feiras, escolhendo os seus ‘motivos’ entre os neuropatas da assistência, demonstra simplesmente o poder sugestionante de certos médiuns.”

É infinitamente provável que o sr. d’Arsonval, supondo, sob a influência da vontade de Eusápia, observar as variações de peso de um corpo, teve uma ilusão análoga à que se deu com os raios N, à qual lhe inspirou uma conferência entusiástica, e à qual afirmou a realidade de todos os fenômenos anunciados.”

OUIJA? “Está desde muito tempo provado que os movimentos dessas mesas são devidos às impulsões inconscientes dos operadores. Mas por que gira a mesa sempre num sentido determinado, sem ser contrariada por impulsões diferentes? Por que, tocando no solo, de um modo que corresponda a certas letras do alfabeto, e colocada sob as mãos dos diversos indivíduos que a cercam, pára a mesa no momento necessário, como se obedecesse a uma vontade única?” A hipótese da “alma coletiva” transitória.

É inútil insistir nesse esboço de explicação. O fenômeno constituído pelo nascimento, pela evolução e pela dissolução de uma alma coletiva é um dos enigmas da psicologia. Ela pode apenas afirmar que essa alma coletiva sempre desempenhou um papel essencial na vida dos povos.”

5. COMO O ESPÍRITO SE FIXA NO CICLO DA CRENÇA: Tem limites a credulidade?

É por essas fases diversas, começando por uma incredulidade total para chegar a uma credulidade completa, que têm passado muitos sábios modernos, tais como o célebre Lombroso. Muito cético no começo das suas investigações, adquiriu, finalmente, uma fé ingênua, de que fornece triste testemunho o seu último livro.”

A ciência se nega a discutir o que ela denomina o incognoscível, e é precisamente nesse incognoscível que a alma humana coloca o seu ideal e as suas esperanças. Com uma paciência que seculares insucessos não puderam fatigar, ela encontra, incessantemente, um obstáculo no mundo sempre inviolado do mistério, a fim de descobrir aí a origem das coisas e o segredo do seu destino. Não tendo aí podido penetrar, acabou por povoá-lo dos seus sonhos.”

o ocultismo, último ramo da fé religiosa, que nunca morre.” O cadáver fétido de Deus.

LADRÕES DE PARABÓLICA, OU: DOS VÁRIOS PARADOXOS QUE CIRCUNDAM O HOMEM BERLUSCONI

Originalmente publicado em 23 de maio de 2007

Mais de meio século depois a depressão econômica deixou a Itália. A Itália é mais uma das duzentas nações pós-modernas do globo terrestre, dominada pela televisão. Tanto que elegeram presidente um dono de canal, Silvio Berlusconi. Nada mais quixotesco, infame, risível. Quixotesco porque, ao verem o erro que haviam cometido, tentaram lutar contra o mau governante usando a mídia, e isso é dar de cabeça no moinho.


Mas, mudando de entrevero, que tal falar da atualização dos famosos “ladrões de bicicleta”, suposta alegoria (e quando podemos dizer que o cinema neorrealista é alegórico?) da situação de penúria na Itália da Segunda Guerra, presente na película homônima de
Vittorio de Sica? Os ladrões de bicicleta roubavam bicicletas e tinham suas bicicletas roubadas. Todos eram pobres. Rico não anda de bicicleta. Se anda, não depende dela para ir trabalhar, nem a obtém roubando dos pobres (não pelos meios clássicos – ele “manda roubar”, ele vende seus suvenires!). Uma bicicleta vai passando de mão em mão até que quebre ou seja jogada no fundo de um lago, porque quase não há dinheiro para compra; quando um pobre a compra é porque vendeu até o cobertor do filho; e logo, logo ela troca de dono, na primeira esquina obscura – das muitas obscuras – da Milão daquele tempo. É o grotesco de ser a vítima e se ver praticando o ato facínora horas depois – e sendo apanhado. Se houvesse justiça, dir-se-ia, seria uma punição injusta.

Porém, assim como não existe uma Verdade – e a queda de Mussolini isso atesta –, também não existe uma Justiça, e fica por isso mesmo. Daí a classificação do dramalhão por trás de Ladrões de Bicicleta de De Sica (por trás, jamais explícito) como “neorrealista”: é a reprodução – não menos artística, por isso – da realidade, sem cargas emotivas. Gerald Thomas diria que tudo é uma GREAT BULLSHIT, que a arte é desligada da realidade e falha em copiá-la. Mas fato é que o teor, a emoção, ou seja, a constatação dos roubos sucessivos de bicicletas como alegoria de um padrão endêmico social, não é obra do autor, é obra do espectador. Nossos olhos fazem Arte, ao diagnosticarem uma crítica social por trás de uma mera narração semi-estática (câmeras paradas pelas ruas, personagens se distanciando, saindo do foco e às vezes do próprio campo de visão), amoral e perfeita em sua singularidade.


A referida atualização dos
Ladrões de Bicicleta aconteceu hoje, dia 23 de maio de 2007, nos mesmos domínios da Bota. E agora não há motivos para um “filme neo-neo-realista” (vulgo noticiário, embora um noticiário seja mil vezes mais sensacionalista que qualquer filme) chocar alguém. A civilização já perdeu seu resquício de moral e seus ideais. Cada um faz o que bem lhe convém, e nisso ele é apoiado pela ditadura de informações e torrente de imagens despejadas sobre si. Opa, Berlusconi aí de novo!


Fato é que passou, vindo das agências de notícias, trafegando pelos meios de reprodução, e aportando nos lares – e ninguém se deu conta. Ninguém se deu conta de que houve a reprise da série de furtos do filme de De Sica, com a diferença de que não é mais um veículo de duas rodas sem motor o objeto do roubo, isto é! Ninguém percebeu – e, se percebesse, daria de ombros. Muitos não perceberam porque não fazem idéia de quem seja De Sica. Outros tantos porque seu cinismo diário, erguido tijolo a tijolo, isolando-o dos sobressaltos característicos do bicho-homem, não tolera reflexão. Fato é que esta manhã, da data já referida na primeira linha do parágrafo anterior, um homem foi preso em flagrante de roubo. Carregava consigo uma
antena parabólica. Seu intuito era assistir à decisão da Liga dos Campeões da Europa, o último suspiro da maior competição de clubes de futebol do planeta. Um dos times que chegou à final é o Milan, onde há jogadores de todas as nacionalidades. Essa globalização nos gramados deve explicar a seguinte cifra: a partida é televisionada todo ano para mais de 1 bilhão de pessoas. Muitos prestigiam o espetáculo sem uma preferência, pelo ideal utópico da contemplação imparcial. Já o homem em questão (o ladrão de parabólica) é milanês, torcedor convicto. O que dificultava seu intuito de acompanhar o time do coração e incentivou terminantemente seu ato desesperado foi o bloqueio estatal (estatal!) dos sinais da TV aberta de todos os moradores de sua cidadezinha. Em outras palavras, qualquer cidadão, dotado do livre acesso à informação e do pleno direito de se expressar perante a constituição, sem poder aquisitivo para instalar uma antena parabólica ou assinar canais a cabo no seu televisor, ficará na mão durante a exibição do jogo!


Na Itália mais neorrealista que já vi, o governo prepara o crime e o proletário – ops, “consumidor latente”, o que seria mais politicamente correto – o comete. Paralelamente ao personagem do filme, que teve sua bicicleta, instrumento de trabalho, usurpada não mais que de repente enquanto colava cartazes e se viu obrigado a repetir a indocilidade num bairro que parecia deserto e cujo único objeto exposto, a uma parede, era uma lustrosa bicicleta, o protagonista do neorrealismo das agências de notícia do dia 23 de maio de 2007 foi prejudicado pela mão do Estado e, quando pôs a própria mão na massa para consertar a situação e se dar bem (sem pensar nos outros, exatamente como cada um de seus pares, nós humanos), o mesmo Estado, na forma dos guardas, lá estava para exibi-lo às televisões (que ironicamente ele trouxe para si, sejam as abertas, as parabólicas ou as a cabo), num estilo grande-irmão, no pior sentido:
“O homem com uma antena na mão”, não é vergonhoso ler uma manchete dessas? Por que um homem roubaria uma antena?! Não estava roubando pão, não era miséria, era canalhice! Ele não tem motivos pra isso – ninguém tem! Quem imaginaria toda essa situação neossurreal?


No desfecho da produção de De Sica, o roubado que se torna ladrão não é preso ou espancado até a morte. Talvez se assim filmasse De Sica fosse taxado de maquiavélico, frio, insensível. Ou o oposto: moralista! Ele odiava juízos de valor, não queria seu dedo na estória. Não queria apenas um enredo com “happy end” invertido. Seu enredo era a
falta de enredo, tomadas tiradas ao acaso de uma família que se vê às voltas nem com o primeiro nem com o último de seus problemas. Pois então, mesmo que fosse até esperado, realisticamente, que depois de ser pego montado na bicicleta que encontrou quase sozinha o homem pudesse ser morto a bordoadas, pela sensação de que aquilo era panfletário demais, De Sica o tratou de evitar. Ao contrário: preferiu inserir ali um filho pequeno e algumas falas pouco boas dos homens, a primeira vez no filme que alguém despeja alguma lição de moral de modo explícito: “Vagabundo! E ainda rouba na frente do seu filho, que exemplo!”. Ao roubado que virou ladrão resta a resignação, e o orgulho para sempre ferido, não por causa de outros adultos que o apanharam em flagrante, mas pelo testemunho da criança, do próprio filho. A prova (se é que se pode dizer prova) de que isso não é “construído” para virar uma fábula, a encerrar uma moral, de que é puro produto do acaso, é que o protagonista podia ter conseguido se safar dos perseguidores. E seu filho poderia ter pegado o bonde que seu pai mandara que ele pegasse minutos antes – e que não o fez por uma margem de segundos, porque o bonde saiu da estação antes que o menino chegasse… Na verdade o roubo poderia nem acontecer. Assim como o próprio filme. A película é, no final, uma daquelas peças com que topamos mais dia, menos dia – e temos o direito de achá-la ou não alegoria de algo maior. O ser humano tem muito disso: gosta de enaltecer as pequenas coisas.


Quer saber? Talvez o Milan ganhe – e talvez nosso ator (o neorrealismo proíbe as denominações “vítima” ou “herói”) anônimo do roubo de uma antena parabólica consiga assistir à vitória: ouvi dizer que na cadeia tem uma parabólica e uma legião de torcedores.

E Berlusconi? Hoje ele não governa mais o país. Seu hobby predileto é, nestes tempos, gerenciar seu clube de futebol: Associazione Calcio Milan.

PSYCHOLOGY OF SPACE EXPLORATION (NASA): Contemporary research in historical perspective – Douglas Vakoch (ed.), 2011.

1. INTRODUCTION: PSYCHOLOGY AND THE U.S. SPACE PROGRAM: Albert Harrison & Edna Fiedler

Looking back over the history of aviation, Grether remarked that despite a few contributions to military aviation in World War I, for roughly 35 years after the Wright brothers’ initial flight at Kitty Hawk, aviation and psychology pretty much went separate ways. Then, beginning with research to benefit civilians in the late 1930s and followed by a powerful military program in World War II, aviation psychology became prominent and influential. <How much different the role of psychology has been in man’s early ventures into space!> Grether wrote (Psychology and the Space Frontier, 1962). Psychological testing, he continued, was prominent in the selection of the initial 7 Mercury astronauts, and beyond selection psychologists were productively engaged in vehicle design, training, task design, and workload management.

Grether pointed to 4 areas for future research: moving about the interior of spacecraft (once they became large enough for this to occur), conducting extravehicular activities (EVAs) or <spacewalks>, performing rendez-vous, and living and working under conditions of prolonged isolation and confinement. Highly optimistic about America’s future in space, Grether foresaw a strong continuing partnership between psychology and space exploration. One of his few notes of pessimism – that it would not be possible to use the science fiction writer’s rocket gun to move from place to place during EVAs – would soon be proven wrong.”

although NASA has been forthright about medical and biological insights gained from previous spaceflights . . . the agency has been hesitant on styudying or releasing information on the psychological experience of its personnel in space. Generally, NASA has limited the access to astronauts by social science researchers, even by its own psychiatrists and psychologists; the agency has failed to capitalize [?] on the data it collected that could improve spaceflight and living for others to follow.” P.H. Harris, “Personal Deployment Systems: Managing People in Polar and Outer Space Environments”, From Antarctica to Outer Space: Life in Isolation and Confinement, ed. A.A. Harrison, Y.A. Clearwater, and C.P. McKay (NY: Springer, 1990)

Margaret Weitekamp points out how interest in high-altitude flight in the 1930s initiated research that evolved into aerospace medicine in the 1940s. Research to support pilots flying very fast and high provided basis for sending astronauts into space. The first conference with <space> in the title was prior to 1950, notes Weitekamp, but some space-oriented research was clandestine or integrated into aviation medicine and psychology in order to avoid the wrath of superiors who thought it wasteful to study Buck Rogers issues.”

In 2001, the National Academy of Sciences issued Safe Passage: Astronaut Care for Exploration Missions, prepared by the Committee on Creating a Vision for Space Medicine During Travel Beyond Earth Orbit of the Institute of Medicine of the N.A.S.. This panel of experts identified some of the medical and behavioral issues that should be resolved quickly in anticipation of a return to the Moon and a mission to Mars. This far-ranging work covers astronaut health in transit to Earth orbit and beyond, health maintenance, emergency and continuing care, the development of a new infrastructure for space medicine, and medical ethics.”

Following Apollo and the race to the Moon, NASA entered new eras in 1981, when the Space Shuttle took flight, and again in 1993, when astronauts joined cosmonauts first on Russia’s Mir space station and then on the International Space Station (ISS) in 2000. Topics such as habitability, loneliness, cultural conflicts, the need to sustain a high level of performance over the long haul, and postflight adjustment gained a degree of immediacy and could no longer be ignored.”

In their discussion of post-Apollo psychological issues, Connors and her associates noted that as missions change, so do behavioral requirements. Perhaps the most conspicuous trench are in the direction of increased crew size, diversity, and mission duration. The first round of US flights, under Project Mercury, were solo but rapidly gave way to 2-person crews with the advent of Project Gemini in 1965, followed by 3-person crews during the Apollo program. After Mercury, note Clay Foushee and Robert Helmreich, the test pilot became a less relevant model than the multi-engine aircraft commander, who not only requires technical skills but also requires human relations skills as the leader of a team. America’s first space station, Skylab, provided a <house in space> for 3-person crews; apart from occasional emergencies or visitors, 3-person crews were also typical for Soviet (1970-89) and then Russian (1990 and onwards) space stations and the ISS. Shuttles are relatively capacious and usually carry 6 to 8 crewmembers. Other than during brief visits from Shuttle crews, the ISS has been home to crews of 2 to 6 people. We suspect that later space stations will house larger crews. Although it is possible to envision huge orbiting platforms and communities on the Moon and Mars, foresseable missions are unlikely to exceed 8 people, so crews will remain within the <small group> range.

A second salient trend is toward increasing diversity of crew composition. The initial vision was for a highly diverse pool of astronaut candidates, including mountain climbers, deep sea divers, and arctic explorers, but it was military pilots who got the nod. The military remains well represented, but over the years, the astronaut corps has been expanded to include people from many different professions and a greater number of women and minorities. Further complexity was added with the Soviet guest cosmonaut program beginning in the 70s, the inclusion of international crewmembers on the Shuttle, and international missions on Mir and the ISS. Already, tourists have entered the mix, and the first industrial workers in commercial space ventures may not be far behind.

Third, initial spaceflights were measured in hours, then days. (Indeed, within each series of flights, successive Mercury and then Gemini flights were longer and longer, to establish that astronauts could withstand the long trip to the Moon.) The third Skylab crew remained on orbit 84 days. Skylab was short-lived, but the Soviets set endurance records in this area; the present record of 366 days was set by a Russian cosmonaut on Mir during a 1987-88 mission. ISS missions have usually lasted about 3 months, but individuals are staying on the Space Station for up to 6 months, as demonstrated in 2007 and 2008 by Sunni Williams and Peggy Whitson. Extended stays can also result from unexpected circumstances, such as the loss of the Shuttle Columbia, which delayed the retrieval of one crew. If and when humans go to Mars, the sheer distance may require a transit time of 2 years.”

Harvey Wichman points out that soon, spaceflight may no longer be a government monopoly and future spacefarers may require departing from the government agency form of organization that has dominated space exploration so far in favor of a private enterprise model of commercial space exploration; it will also require accommodating people who lack the qualifications of today’s astronauts and cosmonauts. In his view, society is at a historical threshold that will require a shift in how engineers, designers, flight managers, and crews perform their tasks. He illustrates some of these points with his industry-sponsored simulation study intended to gauge tourist reactions to spaceflight.

Group dynamics is a focal point for Jason Kring and Megan Kaminski, who explore gender effects on social interaction and the determinants of interpersonal cohesion (commitment to membership in the group) and task cohesion (commitment to the work at hand). Their review of the basic literature on mixed-gender groups, as well as findings from spaceflight and other extreme environments, points to the conclusion that whereas there are many benefits to mixed-gender crews (typically men and women bring different skills to the mix), the issue is multifaceted and complex and poses challenges for spaceflight operations.”

Through studying reminiscences of majority and minority participants in multinational and international missions, they test the hypothesis that multinational flights are a source of frustration and annoyance, that are not evident in the true partnerships of international flights.”

although most of the chapters in this book are authored or coauthored by psychologists and make repeated references to psychology, understanding and managing human behavior in space is an interdisciplinary effort. In essence, <spaceflight psychology> includes contributions from architecture and design, enineering, biology, medicine, anthropology, sociology, communications, and organizational studies, as well as many hybrids (such as cognitive science) and disciplines within psychology (such as environmental, social, and clinical). In a similar vein, the delivery of psychological services to astronauts involve physicians, psychiatrists, social workers, and peers, as well as psychologists.”

Our essays do not provide in-depth tratment of the interface between engineering and psychology, nor do they attend to the interface of biology and behavior, f.ex., the effects of cumulative fatigue and circadian rhythms on performance and risk. With respect to this, we note a recent chapter by Barbara Woolford and Frances Mount that described how, over the past 40 years, research on anthropometrics, biomechanics architecture, and other ergonomics issues slowly shifted from surviving and functioning in microgravity to designing space vehicles and habitats to produce the greatest returns for human knowledge.”

2. BEHAVIORAL HEALTH: Albert Harrison & Edna Fiedler

As early as the late 40s, biological specimens were launched on balloons and sounding rockets. In 1958, the Russians successfully launched a dog, Laika, who survived several days in orbit even though she could not be brought back to Earth.” “In 1958-9, America’s first primate spacefarers, 2 squirrel monkeys named Able and Baker were launched on 15-minute flights reaching an altitude of 300 miles on a 1,500-mile trajectory and were successfully recovered following splashdown.”

During the early 60s, the United States and Soviet Russia were locked in a race to the Moon, and in many ways, the 2 programs paralleled each other. In the United States, solo missions (Mercury) gave way to two-person missions (Gemini) and then to three-person missions (Apollo) that, in July of 1969, brought astronauts to the Moon.” “By the late 70s, the U.S. and Soviet programs were following different paths: Americans awaited the orbiter, or Space Shuttle, and Soviets launched a series of space stations. In 1984, President Ronald Reagan approved the development of a U.S. space station, but construction was delayed almost 15 years. President Bill Clinton approved the station as a multi-national venture, and it became the International Space Station, or ISS. Prior to its construction, American astronauts joined Russian cosmonauts on Mir

Since there were practically no studies of astronauts, researchers relied heavily on studies conducted in Antarctica, submarines and research submersibles, and simulators. Research continues in all three venues; Antarctica took an early lead and remained prominent for many years.” “Other factors that favored Antarctica were the large number of people who ventured there and that, as an international site, it offers opportunities for researchers from many different nations. By picking and choosing research locations, one can find conditions that resemble those of many different kinds of space missions, ranging from relatively luxurious space stations to primitive extraterrestrial camps.”

Compared with earlier formulations (such as mental health), behavioral health is less limited in that it recognizes that effective, positive behavior depends on an interaction with the physical and social environments, as well as an absence of neuropsychiatric dysfunction. [?] Behavioral health is evident not only at the level of the individual, but also at the levels of the group and organization. [Ô, cê jura?]”

GRINGOS: “many people strongly associate psychology with mental illness and long-term psychotherapy.”

The historian Roger Launius points out that, from the moment the astronauts were first introduced to the public in 1959, America was enthralled by the <virtuous, no nonsense, able and professional men> who <put a very human face on the grandest technological endeavor in history> and <represented the very best that we had to offer>. From the beginning, the press was never motivated to dig up dirt on the astronauts; rather, reporters sought confirmation that they embodied America’s deepest virtues. <They wanted to demonstrate to their readers that the Mercury 7 strode the Earth as latter-day saviors whose purity coupled with noble deeds would purge this land of the evils of communism by besting the Soviet Union on the world stage.>

Assim que o Homem pisou na lua não demorou muito para Clark Kent ceder a Xavier, Magneto e Wolverine na preferência mundial (ou ianque).

Michael Collins and his colleagues liked the John Wayne–type image created for the early astronauts and did not want it tarnished. Flying in space was a macho, masculine endeavor, and there were those who made an effort to reserve the term astronaut for men, referring to women who sought to fly in space as astronautrix, astro-nettes, feminauts, and space girls.”

Many kinds of workers, including those in the military and law enforcement, worry about breaches of confidentiality that have adverse repercussions on their careers. Worries about a breach of confidentiality are periodically reinforced by officials who release information despite assurances to the contrary. Efforts to protect the astronauts’ image are evident in the cordon that NASA public relations and legal teams establish to prevent outsiders from obtaining potentially damaging information, the micromanagement of astronauts’ public appearances, and the great care with which most astronauts comport themselves in public.”

A REALIDADE IMITA A ARTE: “By the beginning of the 21st century, cracks began to appear in this image.”

On the debit side of the balance sheet, members of isolated and confined groups frequently report sleep disturbances, somatic complaints (aches, pains, and a constellation of flu-like symptoms sometimes known as the space crud), heart palpitations, anxiety, mood swings including mild depression, inconsistent motivation, and performance decrements. Crewmembers sometimes withdraw from one another, get into conflicts with each other, or get into disputes with Mission Control. Eugene Cernan reports that the conflicts between the Apollo 7 crew and Mission Control were so severe that the astronauts never flew again. [ver bibliografia]” “Burrough writes that Soyuz 21 (1976), Soyuz T-14 (1985), and Soyuz TM-2 (1987) were shortened because of mood, performance, and interpersonal issues.”

After their return, some astronauts reported depression, substance abuse issues, marital discord, and jealousy.”

The Mercury astronauts lobbied aggressively to fly as pilots rather than to ride as mere passengers (<Spam in a can>) whose spacecraft were controlled from the ground.”

To get the most information from this final trip in the Apollo program, ground control in Houston had removed virtually all the slack from the astronauts’ schedule of activities and had treated the men as if they were robots. To get everything in, ground control shortened meal times, reduced setup times for experiments, and made no allowance for the fact that previous crews aboard Skylab had stowed equipment in an unsystematic manner. The astronauts’ favorite pastimes—watching the sun and earth—were forbidden.” Weick

Thus, on 27 December 1973, the Skylab 4 astronauts conducted a day-long <sit-down strike>. Cooper described the crew pejoratively as hostile, irritable, and down-right grumpy, while other writers have described the strike as a legitimate reaction to overwork.”

NASA appears to have taken the lesson to heart. In 2002, Space.com’s Todd Halvorson conducted an interview with enthusiastic ISS astronaut Susan Helms. <It’s not that the crew isn’t busy maintaining the station, testing the remote manipulator and conducting science, it’s that there remains enough time to look out the window, do somersaults in weightlessness, watch movies, and sit around chatting.>”

Many of the two dozen or so astronauts and cosmonauts interviewed by Frank White reported <overview effects>, truly transformative experiences including senses of wonder and awe, unity with nature, transcendence, and universal brotherhood.”

Studies of the mental health of cosmonauts conducted 2 or 3 years after their return to Earth found that they had become less anxious, hypochondriacal, depressive, and aggressive.”

By the mid-80s, Oleg Gazenko, head of Soviet space medicine, concluded that the limitations of living in space are not medical, but psychological.”

The Russians have experienced longer spaceflights than their American counterparts and have given considerable attention to ways of maintaining individuals’ psychological health and high morale in space . . . In the Soviet Union, the Group for Psychological Support is an acknowledged and welcomed component of the ground team. Concern over such issues as intragroup compatibility and the effects of boredom on productivity seem to be actively studied by cosmonauts and psychologists alike. There appears to be little if any loss of status associated with confirmation of psychological or social problems associated with confinement in space.”

Thus, Russians had to confront in the 70s issues that became pressing for Americans two decades later. As a result, when looking for models for a psychological support program, NASA turned to the Russian program to support cosmonauts on Mir. It is interesting that America’s international partners in space—European as well as Japanese—share the Russians’ interest in spaceflight psychology.”

NASA, chartered as a civilian space agency, initially intended to select Mercury astronauts from a relatively broad range of explorers: military and commercial aviators; mountain climbers; polar explorers; bathysphere operators [câmaras impermeáveis para mergulhos em altas profundidades oceânicas, baixadas e erguidas via cabos]; and other fit, intelligent, highly motivated individuals who had demonstrated capabilities for venturing into dangerous new areas. Strong pressure from the White House limited the pool to military test pilots.”

Furthermore, because they were under military command, they were used to taking orders and were already cleared for top-secret technology. Mercury candidates had to be under 40 years of age, have graduated from college with a bachelor’s degree in science or engineering, have logged at least 1,500 hours flying jet planes, and have graduated from test pilot school. Of course, they were expected to be free of disease or illness and to demonstrate resistance to the physical stressors of spaceflight, such as temperature extremes and rapid acceleration and deceleration. To fit in the cramped confines of the Mercury capsule, their height could not exceed 5 feet 9 inches [1.75m]. The first astronauts had 5 duties: survive, perform effectively, add reliability to the automated system, complement instrument and satellite observation with scientific human observation, and improve the flight system through human engineering capabilities.” “As Robert Voas and Raymond Zedekar point out, psychological qualifications fell into 2 categories: abilities and personality.” “At that time, of 508 military test pilots, 110 met the general requirements and 69 were considered highly qualified. These were invited to the Pentagon for a briefing and interviews. Then, 32 were sent to the Lovelace clinic for an extraordinary physical exam and, after certification at Lovelace, to Wright Air Development Center in Dayton, Ohio, for tests of performance under stress.”

Two of the more interesting personality and motivation studies seemed like parlor games at first, until it became evident how profound an exercise in Socratic introspection was implied by conscientious answers to the test questions <Who am I?> and <Whom would you assign to the mission if you could not go yourself?>”

After five Mercury flights, NASA officials decided that, given the absence of serious performance deficits to date, there was no need to continue exhaustive testing procedures. Although ongoing research would have provided an excellent basis for refining selection methods, by the end of 1962, NASA had prohibited research teams from collecting data on astronaut job performance, thus making it impossible to validate selection methods. At that point, according to Patricia Santy’s authoritative work, Choosing the Right Stuff: The Psychological Assessment of Astronauts and Cosmonauts, normal reluctance to participate in psychological research was transformed into <outright hostility>. Psychiatric and psychological data from the Mercury program were confiscated, and researchers were told that apart from incomplete information that had already appeared in an obscure interim report, nothing could be published about astronaut psychology. The reasons for this are not entirely clear—for example, confidentiality was a growing concern, and data that could provide a basis for invidious comparisons could work against crew morale—but Santy favors the view that <NASA became fearful that information on the psychological status and performance of their astronauts would be detrimental to the agency.> She also documents the minimal role that psychiatrists and psychologists played in the selection process from Gemini until well into the early Shuttle missions.”

in 1983, no psychological testing was involved. Rather, the approach had evolved into an entirely psychiatric process completed by two psychiatrists who separately interviewed each candidate. Whereas the original examination sought the best-qualified candidates, later procedures simply ensured that each candidate met the minimum qualifications.

Candidates were no longer rated against one another, but they were screened for various psychopathologic conditions that could be detrimental or unsafe in a space environment. (…) Neuroses, personality disorders, fear of flying, disabling phobias, substance abuse, the use of psychotropic medications, or any other psychiatric conditions that would be hazardous to flight safety or mission accomplishment were among the grounds for rejection.

Thus, a selection program that began in 1959 as a model rooted in psychiatry and clinical psychology, and in industrial and organizational psychology, had been reduced to subjective evaluation.”

The development of standardized, semistructured interviews and diagnostic criteria, aided by the work done by the Working Group on Psychiatric and Psychological Selection of Astronauts, resulted in a rewrite of NASA psychiatric standards based on the then-current American Psychiatric Association’s Diagnostic and Statistical Manual III and recommendations for a select-in process.” (1999)

Although these researchers developed a profile of needed knowledge, skills, and abilities, NASA’s prohibition against obtaining in-training or on-the-job performance ratings effectively killed any longitudinal or predictive validation of the proposed astronaut select-in procedures.” “To prevent coaching, the specific tests and interview content are not publicly available. The current selection process resembles the selection procedures for other high-risk jobs and incorporates highly validated tests that are quantitatively scored, along with in-depth, semistructured interviews.”

Well before Apollo astronauts set foot on the Moon, there were political pressures to increase the diversity of the astronaut corps by including women and representatives of different racial and ethnic groups. Accommodating people with different cultural backgrounds became a practical matter in the Apollo-Soyuz rendezvous, in the course of the Russian <guest cosmonaut> program, in Shuttle missions with international crews, and, of course, aboard the ISS.”

Women offered certain potential advantages over men; one of the most notable of these was their smaller size (and reduced life-support requirements), which would make them easier to lift into orbit and keep alive at a time when engineers had to fret every extra pound of weight. After word of the program’s existence leaked, it was abandoned by the Air Force and taken over by Dr. Randall Lovelace, of the same Lovelace Clinic that conducted the physicals for project Mercury. Aviatrix Jackie Cochran and her wealthy philanthropist husband, Floyd Odlum, provided funding [$$$] so that Lovelace could put the women through the same rigorous evaluation. Of the 25 women who took the physical, 13 passed. The next step in the process, which involved centrifuges and jet flights, depended on the availability of military facilities and equipment. Although it appeared that the procedures could be done at the Naval Air Station in Pensacola, Florida, the ability to do so depended on NASA’s officially <requiring> and then reimbursing the testing. Since the program was unofficial (despite widespread perceptions that it was connected with NASA), the space agency did not intervene on the women’s behalf. Some of the women continued to press for further testing and flight training, and, eventually, there was a congressional hearing, but public clamor and aggressive lobbying got no results. Kennedy’s decision to place a man on the Moon before the decade was finished was interpreted by NASA to mean that it could not divert resources to sending women to orbit. But there were other barriers to women’s participation in space exploration, including the inability of some of the people in NASA’s white-male-dominated culture to conceive of women in the <masculine> role of astronaut.”

At a very basic level, it never occurred to American decision makers to seriously consider a woman astronaut. In the late 50s and early 60s, NASA officials and other American space policy makers remained unconscious of the way their calculations implicitly incorporated postwar beliefs about men’s and women’s roles. Within the civilian space agency, the macho ethos of test piloting and military aviation remained intact. The tacit acceptance that military jet test pilots sometimes drank too much (and often drove too fast) complemented the expectation that women wore gloves and high heels—and did not fly spaceships.”

In the congressional report, NASA admitted that as of the end of fiscal year (FY) 1971, of all NASA employees, only 16.6%were women and 4.6% minorities. Only 3% of the supervisors and 2.4% of the engineers were women.”

On 16 January 1978, the first female and black candidates were selected; only a few years later, in 1983, the public wildly acclaimed mission specialist Sally Ride’s orbital flight aboard Challenger.” “Despite the long road that American women and minorities traveled to prove their worth, the U.S. experience has shown that talented women and minorities, given no special treatment because of gender or ethnicity, are as adept as their white, male colleagues in the world of space.”

During the flight stage, in addition to the crew care packages and private weekly videoconferences with families, psychological support services include extensive communication with people on the ground (including Mission Control personnel, relatives, and friends), psychological support hardware and software, special events such as surprise calls from celebrities, and semimonthly videos with a behavioral health clinician. Astronauts in flight have e-mail accessibility and can use an Internet protocol phone on board the ISS to call back to Earth. As in the past, ham radio allows contact between the ISS and schools throughout the world.”

3. FROM EARTH ANALOGS TO SPACE: GETTING THERE FROM HERE: Sheryl L. Bishop

Many of our earliest myths, such as the flight of Daedalus and Icarus too close to the Sun on wings made of wax, expressed our desire to explore beyond the boundaries of Earth as well as our willingness to push current technology to its limits. Considerations by the earliest philosophers and scientists, including Archimedes, Galileo Galilei, Nicolaus Copernicus, Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Jules Verne, H.G. Wells, or Percival Lowell, eventually generated a whole new genre of fictional literature built upon scientific extrapolations, dubbed science fiction, and gave voice to their speculations about the nature of extraterrestrial environments. Modern scientists and pioneers led by the Wright brothers, Robert Goddard, Konstantin Tsiolkovsky, Hermann Oberth, Wernher von Braun, Sergey Korolev, Yuri Gagarin, and Neil Armstrong pushed the boundaries of knowledge about flight and extended human inquiry beyond our terrestrial boundaries into our local and extended galactic neighborhood.”

Since there is no direct equivalent for space, all analog environments are simulations of greater or lesser fidelity along varying dimensions of interest. Some analog environments provide extremely good characterizations of expected challenges in testing equipment or hardware, e.g., environmental chambers such as the Space Shuttle mock-ups of the various decks or the cargo bay in NASA’s Weightless Environmental Training Facility (WET-F), but lack any relevance to assessing how human operators will fare psychologically or as a team.”

The tradition of publishing personal diaries and mission recounts has been similarly observed by the earliest explorers of space. Secondary analyses of historical expeditions have become increasingly popular in recent years.” Ver bibliografia ao final para várias referências.

In real-world groups that have higher degrees of structure and control, such as military teams, the command and control structure is distinctly different from the current scientist-astronaut organizational structure of space missions. Fundamental differences in group structures, such as leadership and authority, represent significant elements in whether findings from terrestrial analogs translate to future space crews.”

the tendency of crews to direct aggression toward personnel at Mission Control.”

A more recent, hybrid approach of situating research facilities within extreme environments offers a good compromise between the artificial conditions of the laboratory and the open-ended, full access of an expeditionary mission. When teams or individuals operate in extreme environments, their responses are more purely a product of either situational drivers or internal personal characteristics. To the extent that an extreme environment is well characterized and known, it gains in fidelity and allows more accurate inferences about key phenomena to be drawn. For these very reasons, Palinkas has strongly argued that the cumulative experience with year-round presence in Antarctica makes it an ideal laboratory for investigating the impact of seasonal variation on behavior, gaining understanding about how biological mechanisms and psychological processes interact, and allowing us to look at a variety of health and adaptation effects.”

One could argue that chronicles such as the Iliad and the Odyssey were early examples of more recent diaries such as those that recounted the historic race to reach the South Pole between modern polar expeditions lead by Roald Amundsen, who reached the South Pole in 1911, and Robert F. Scott, who reached the South Pole in 1912. (…) The first winter-over in Antarctica occurred during 1898–99 on board an icebound ship, the Belgica, on which Amundsen served as a second mate. A continuous presence on our furthermost southern continent has only been in place since the International Geophysical Year of 1956–7.”

Analyses of critical incidents in medical operating rooms indicate that 70% to 80% of medical mishaps are due to team and inter-personal interactions among the operating room team.”

While an emergency on the International Space Station certainly poses difficulties regarding time to rescue, one can argue that the difficulties inherent in a Mars mission or even here on Earth from the Antarctic in midwinter, where weather conditions may absolutely make rescue impossible for long periods, carry a qualitatively different psychological impact. An emergency on a mission to Mars will preclude any chance of rescue and necessitate a high degree of autonomy for the crew in making decisions without any real-time mission support. The degree to which such factors magnify the negative effects of isolation and confinement is critical to assess.”

in a study of Antarctic winter-over personnel, Palinkas found that personnel at Palmer (a small station) spent 60% of their waking hours alone and retreated to their bedrooms extensively for privacy. These behaviors could be considered fission factors as they promote withdrawal, social isolation, and distancing from one’s teammates. On the other hand, if the use of privacy served to control the amount of contact and decreased tensions and group conflict, they would be considered fusion factors. He also found that intermittent communication was a major source of conflict and misunderstanding between crews and external support personnel, a clear source of fission influence. Examples of fusion factors for this group were effective leadership styles, which played a significant role in station and crew functioning, as well as the ability to move furniture and decorate both common and private areas, which facilitated adaptation and adjustment.”

Whereas polar teams evidenced a delay interval with a marked drop in aggression until after the first quarter, with concomitant increase in homesickness, chamber teams displayed a steady gradual increase in coping over time. A number of researchers have noted that it is not the site that seems to matter, but rather it is the differences in the mission profiles, e.g., tasks (daily achievement of a distance goal versus stationkeeping) or duration (short versus long).”

Similarly, an apparently adaptive personality profile has emerged from winter-overers that is characterized by low levels of neuroticism, desire for affection, boredom, and need for order, as well as a high tolerance for lack of achievement, which would fit well in an environment where isolation and confinement prevented accomplishments and the participants experienced frequent short-ages and problems.”

The expedition may be intended to recreate experiences of earlier explorers, such as the Polynesian Kon-Tiki oceanic traverse; set records or discover new territory, e.g., discover a route to India or explore a cave system; achieve personal challenges, such as climbing mountains or skiing to the North Pole; conduct scientific research, e.g., by means of ocean-going research vessels or polar ice drilling teams; or conduct commercial exploration, such as mineral and oil exploration.”

Voyages of scientific discovery began in the late 18th century, an age, Finney points out, that many have argued foreshadowed the space race of the 1960s. The first exploratory voyage to include scientists as crew and mission goals with explicit scientific objectives instead of commercial goals that serendipitously collected science data was the 3-year-long English expedition of the Endeavour to Tahiti, 1768–71, led by Captain James Cook. The on-board scientists were tasked to observe the transit of Venus across the face of the Sun to provide data needed to calculate the distance between Earth and the Sun. The success of the Endeavour’s expedition led to a 2nd expedition, which sailed with a number of scientists, 2 astronomers, and a naturalist, an expedition that, in contrast to the first, was rife with contentious relationships between the seamen and the scientists. Subsequent voyages with scientists on board were similarly plagued by conflicts between those pursuing scientific goals and those tasked with the piloting and maintenance of the ship.”

Not until a hundred years after Cook, in 1872, would the Royal Navy’s Challenger, a 3-masted, square-rigged, wooden vessel with a steam engine, sail around the world with 6 marine scientists and a crew and captain who were totally dedicated to the research.”

Such troubles were not limited to the English. The French followed a similar pattern, beginning in 1766 and continuing through 1800, when scientists sailed with numerous expeditions that were summarily characterized by conflict and contention between the crews and scientists. Finney further notes that such complaints are found in journals of early Russian scientists, as well as American scientists on the 4-year-long United States Exploring Expedition that sailed from Norfolk in 1838 with a contingent of 12 scientists.

Modern development of specialized ships complete with laboratories and equipment dedicated to oceanographic research has been primarily organized and maintained by universities and oceanographic institutes. Yet even aboard these dedicated floating research vessels, conflict between the ship’s crew and the scientists whom they serve has not been eliminated. A dissertation study conducted by a resident at the Scripps Institute of Oceanography during 1973 concluded that tension between the 2 groups was inevitable because they formed two essentially separate and distinct subcultures with different values and goals, as well as different educational backgrounds and class memberships.”

If space research were to be made as routine to the extent that ocean research now is, subcultural differences, and hence tensions, between scientist and those pilots, station-keepers, and others whose job it will be to enable researchers to carry out their tasks in space may become critical considerations. If so, space analogues of the mechanisms that have evolved to accommodate differences between scientists and seamen aboard oceanographic ships may have to be developed.”

An example of how examination of the records from past expeditions contributes to the current state of knowledge and provides the impetus for future studies in space can be seen in a metastudy by Dudley-Rowley et al. that examines written records from a sample of space missions and polar expeditions for similarities and differences in conflicts and perceptions of subjective duration of the mission. Ten missions were compared across a number of dimensions. The metastudy included 3 space missions that represented both long- and short-duration mission profiles: Apollo 11 (1969) and Apollo 13 (1970), ranging from 6 to 8 days apiece, and Salyut 7 (1982), which lasted over 200. Four Antarctic expeditions were included: the western party field trip of the Terra Nova Expedition (1913, 48 days), an International Geophysical Year (IGY) traverse (1957–58, 88 days), the Frozen Sea expedition (1982–84, 480 days), and the International Trans-Antarctic expedition (1990, 224 days). Finally, 3 early Arctic expeditions were also included: the Lady Franklin Bay (1881–84, 1,080 days), Wrangel Island (1921–23, 720 days), and Dominion Explorers’ (1929, 72 days). Seven factors emerged that seemed to coincide with the subjectivization of time and the differentiation of situational reality for the crews from baseline:

1. increasing distance from rescue in case of emergency (lessening chances of <returnability>);

2. increasing proximity to unknown or little-understood phenomena (which could include increasing distance from Earth);

3. increasing reliance on a limited, contained environment (where a breach of environmental seals means death or where a fire inside could rapidly replace atmosphere with toxins);

4. increasing difficulties in communicating with Ground or Base;

5. increasing reliance on a group of companions who come to compose a micro-society as time, confinement, and distance leave the larger society behind, in a situation where innovative norms may emerge in response to the new sociophysical environment;

6. increasing autonomy from Ground’s or Base’s technological aid or advice; and

7. diminishing available resources needed for life and the enjoyment of life.”

The Lady Franklin Bay Expedition [ao Ártico, que durou de 1881 a 1884] suffered 18 deaths of its complement of 25, and the rest were starving when found. The Wrangel Island expedition [idem, porém de 1921 a 23] suffered 4 deaths out of its crew of 5. Apollo 13 was a catastrophe that was remarkable in its recovery of the crew intact. The Salyut 7 mission [espacial, 1982, 200 dias], the Terra Nova western field party [1913, 48 dias na Antártida], and the Apollo 11 mission all had high degrees of risk.”

the presence of similar factors in space and early polar exploration that contributed to perceptions of mission/expedition duration or of how their situational reality deviates from baseline is important to note. These results suggest that as control over their environment decreases, team members’ subjective experiences of time and the situation increasingly differ from their baselines.”

Initially, it was believed that space would represent a significant loss of normal sensory stimulation due to isolation from people, reduction in physical stimulation, and restricted mobility. Thus, sensory deprivation chambers were argued to be good analogs for astronauts. Selection procedures, therefore, included stints in dark, small, enclosed spaces for several hours to observe how potential astronauts handled the confinement and loss of perceptual cues. As Dr. Bernard Harris, the first African American to walk in space, recounts, <They put me in this little box where I couldn’t move or see or hear anything. As I recall, I fell asleep after a while until the test ended.>

The first systematic attempts to investigate psychological adaptation factors to isolation and confinement in simulated operational environments were conducted in the 60s and early 70s by putting volunteers in closed rooms for several days, subjecting them to sleep deprivation and/or various levels of task demands by having them complete repetitive research tasks to evaluate various aspects of performance decrements. Chamber research, as it was to become known, encompassed a variety of artificial, constructed environments whose raison d’être was control over all factors not specifically under study. Later, specially constructed confinement laboratories such as the facility at the Johns Hopkins University School of Medicine or simulators at Marshall Space Flight Center in Huntsville, Alabama; the McDonnell Douglas Corporation in Huntington Beach, California; or Ames Research Center at Moffett Field, California, housed small groups of 3 to 6 individuals in programmed environments for weeks to months of continuous residence to address a variety of space-science-related human biobehavioral issues related to group dynamics”

The epitome example of chamber research may be the series of 4 hyperbaric-chamber studies, sponsored by the European Space Agency and designed to investigate psychosocial functioning, in which groups were confined for periods lasting from 28 to 240 days.” “However, skepticism regarding the verisimilitude of studies in which discontented members can simply quit has continued to raise real concerns as to how generalizable the findings from chamber studies are to space missions.”

Occupying the middle ground between traditional expeditionary missions with moving trajectories and the artificiality of laboratory spaces designated as space station habitats are capsule habitats, sharing the controlled, defined enclosure of the laboratory situated within an extreme unusual environment (EUE). Characterized by a controlled, highly technological habitat that provides protection and life support from an environment that is harsh, dangerous, and life-threatening, capsule habitats occupy a wide range of environments. Some are true operational bases with missions in which biobehavioral research is only secondary. Others run the gamut from fundamental <tuna can> habitats with spartan support capabilities situated in locations of varying access to a full-fidelity Antarctic base constructed solely for the purposes of biobehavioral space analog research.”

Due to their high military relevance, the best-studied of capsule habitats are submarines. As an analog for space, submarines share a number of common characteristics: pressurization concerns (hyperpressurization for submarines and loss of pressurization for space), catastrophic outcomes for loss of power (e.g., the inability to return to the surface for submarines and degraded orbits for space), dependence on atmosphere revitalization and decontamination, radiation effects, and severe space restrictions. Prenuclear submarine environments were limited in the duration of submersions (72 hours), crew size (9 officers and 64 enlisted men), and deployment periods without restocking of fuel and supplies. Structurally, these short-duration mission parameters mimicked those of the early years of space, albeit with vastly larger crews. With the launch of the nuclear-powered Nautilus in 1954, the verisimilitude of the submersible environment as an analog for long-duration space missions was vastly improved. With the nuclear submarine, mission durations were extended to 60 to 90 days, crews were increased to 16 officers and 148 enlisted men, and resupply could be delayed for months.”

An extension of the submersible operational environment of a military submarine is the NASA Extreme Environment Mission Operations program (NEEMO) being conducted in the Aquarius underwater habitat situated off Key Largo, Florida—the only undersea research laboratory in the world. Owned by the U.S. National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) and operated by the National Undersea Research Center (NURC) of the University of North Carolina at Wilmington on behalf of NOAA, Aquarius is the submerged analog to NOAA oceanic research vessels. First deployed in 1988 in the U.S. Virgin Islands and relocated to Key Largo in 1992, the underwater facility has hosted more than 80 missions and 13 crews of astronauts and space researchers since 2001. Aquarius provides a capsule habitat uniquely situated within an environment that replicates many of the closed-loop constraints of the vacuum of space, a hostile, alien environment that requires total dependency on life support; poses significant restrictions to escape or access to immediate help; and is defined by limited, confined habitable space and physical isolation. The complexity of NEEMO missions further parallels space missions in their mission architecture, with similar requirements for extensive planning, training, control, and monitoring via an external mission control entity. However, it has only been the most recent NEEMO missions in which stress, fatigue, and cognitive fitness, as well as individual and intrapersonal mood and interaction, have been the focus of study.”

While there are other polar bases in the Arctic and subarctic, the bulk of sustained psychological research has been conducted in Antarctica. (…) There are 47 stations throughout the Antarctic and sub-Antarctic regions, operated by 20 different nations, with populations running from 14 to 1,100 men and women [!!] in the summer to 10 to 250 during the winter months. The base populations vary from mixed-gendered crews to male-only crews, from intact families (Chile) to unattached singletons, for assignments that last from a few months to 3 years.

In 1958, after the IGY (1956–57) produced the 1st permanent bases in Antarctica, C.S. Mullin, H. Connery, and F. Wouters conducted the first systematic psychological study of 85 men wintering over in Antarctica. Their study was the first of many to identify the Antarctic fugue state later dubbed the <big-eye>, characterized by pronounced absent-mindedness, wandering of attention, and deterioration in situational awareness that surfaced after only a few months in isolation.” “Those that did address psychosocial factors tended to focus on the negative or pathological problems of psychological adjustment to Antarctic isolation and confinement, with persistent findings of depression, hostility, sleep disturbance, and impaired cognition, which quickly came to be classified as the <winter-over syndrome>.”

One of Antarctica’s most prolific researchers, Dr. Larry Palinkas has analyzed 1,100 Americans who wintered over between 1963 and 2003 over four decades of research [uma vida inteira na região mais remota do planeta!] in Antarctica and proposed 4 distinct characteristics to psychosocial adaptation to isolation, confinement, and the extreme environment” “Crews with clique structures report significantly more depression, anxiety, anger, fatigue, and confusion than crews with core-periphery structures.”

Palinkas found that a depressed mood was inversely associated with the severity of station physical environments—that is, the better the environment, the worse the depression—and that the winter-over experience was associated with reduced subsequent rates of hospital admissions.”

Dome C is one of the coldest places on Earth, with temperatures hardly rising above –25°C in summer and falling below –80°C in winter. Situated on top of the Antarctic plateau, the world’s largest desert, it is extraordinarily dry and supports no animals or plants. The first summer campaign lasted 96 days, from 5 November 2005 until 8 February 2006, with 95 persons participating. The 2006 season included 7 crewmembers with 2 medical experiments and the first 2 psychological experiments sponsored by the European Space Agency for which the crew acted as subjects during their stay. The 2 experiments investigated psychological adaptation to the environment and the process of developing group identity, issues that will also be important factors for humans traveling to Mars.”

4. PATTERNS IN CREW-INITIATED PHOTOGRAPHY OF EARTH FROM THE ISS—IS EARTH OBSERVATION A SALUTOGENIC EXPERIENCE? Julie A. Robinson, Kelley J. Slack, Valerie A. Olson, Michael H. Trenchard, Kimberly J. Willis, Pamela J. Baskin & Jennifer E. Boyd

John Glenn, the first U.S. astronaut in orbit, talked NASA into letting him carry a camera on Friendship 7 on 20 February 1962. (…) Glenn proceeded to describe each of the 3 sunrises and sunsets he saw during the flight, and he continues to recount that experience in interviews today. A number of the astronauts who have followed have verbally recounted emotional experiences related to seeing and photographing Earth, and several astronauts have documented in written form their responses to views of Earth linked to their photography activities while in space.”

First of all, there’s the astounding beauty and diversity of the planet itself, scrolling across your view at what appears to be a smooth, stately pace . . . I’m happy to report that no amount of prior study or training can fully prepare anybody for the awe and wonder this inspires.” Kathryn D. Sullivan

All the imagery is archived in a searchable online database maintained by the descendant of the previous programs on the International Space Station, CEO, which provided statistics summarized here. Over 2,500 photographs of Earth were taken by Mercury and Gemini astronauts. Apollo astronauts photographed both Earth and Moon views, with over 11,000 photographs taken, and have been credited with initiating the interest in Earth observations from space. Handheld photography of Earth by astronauts on Skylab accompanied the extensive imagery obtained by an automated multispectral camera system. Over the 3 Skylab missions, crewmembers took around 2,400 images of Earth, and the automated camera systems an additional 38,000 photographs with specialized films.

Building from this experience and the growing interest in Earth observations from space, a program called the Space Shuttle Earth Observations Project (SSEOP) was established in 1982 to support the acquisition and scientific use of Earth photography from Space Shuttle flights.”

Astronauts were trained in geology, geography, meteorology, oceanography, and environmental change for a total of approximately 12 instructional hours prior to flight. Also before flight, about 20 to 30 sites were chosen for the crew to photograph while on orbit. The mission-specific sites were chosen from a list of previously identified environmentally dynamic terrestrial areas visible from the Space Shuttle. Each crew was given a preflight manual consisting of their unique sites that included photographs and scientific information. The decision on when to take photographs was at the astronauts’ discretion. A list of targets was sent to the Shuttle crew on a daily basis during the flight. The main camera used for Earth observation was the 70-millimeter Hasselblad with the 50-, 100-, 110-, and 250-millimeter lenses commonly used, and both color and infrared film was made available per crew preference.” “To date, Shuttle crewmembers have captured over 287,000 images of Earth.”

Although SSEOP was dissolved, individual Shuttle crewmembers on missions to the ISS could still use the on-board cameras to take images of Earth, but without scientific support.”

The digital camera was favored by ISS crews over the film cameras because it allowed them to review their imagery while on orbit. The immediate review of their imagery enabled the crews to view and improve their photographic techniques. Digital images could also be down-linked to the CEO scientists for review, and the scientists in turn could provide feedback to the crew. The issue of film versus digital cameras was settled in 2003 when mission length was extended to about 6 months. The extension of crew time on orbit made film more susceptible to radiation ‘fogging’. While digital cameras are not immune to radiation, they are better able to cope with longer exposures to the space environment, and eliminating the need to return film to Earth was also an important improvement.”

With the use of the 400-millimeter lens and 2× extender available for the digital camera, ISS crews have been able to document dynamic events at a higher resolution than was possible from the Shuttle with the 250-millimeter lens.”

JURO QUE NÃO ENTENDO ESSA OBSESSÃO: “A particular concern is maintaining crew psychological well-being for the duration of a round-trip mission to Mars that could last as long as 3 years.

Positive (or ‘salutogenic’) experiences while in space may promote psychological well-being by enhancing personal growth and may be important for offsetting the challenges of living and working in a confined and isolated environment. In a survey of flown astronauts aimed at identifying the positive or salutogenic effects of spaceflight, Eva Ihle and colleagues identified positive changes in perceptions of Earth as the most important change experienced by astronauts.

If viewing Earth is an important component of positive experiences in spaceflight, then having Earth ‘out of view’ may be an important challenge for crews going to Mars because it could increase the sense of isolation.” De novo isso? Ora, leve cada um uma foto do Blue Planet na ‘carteira’!

Typically, crewmembers have fewer set tasks to accomplish on weekends, so they have increased periods of time in which they can choose their activities.” É fim de semana aqui na lua!

While the term phasing is more general, the term third-quarter effect specifically refers to a period of lowered psychological well-being during the third quarter of an extended confinement.”

The cameras automatically record the date and time when the photograph was taken, as well as specific photographic parameters. The data do not identify the individuals using the camera, as any crewmember may pick up any camera to take pictures, and individuals often stop briefly at a window to take pictures throughout the day. Crews are cross-trained in the use of the imagery equipment. Some crews share the responsibility of taking images of Earth; in other crews, one member might have more interest and thus be the primary photographer. Regardless, crewmembers report photographing areas known to be of interest to fellow crewmembers.” “Occasionally, battery changes and camera resets were conducted on orbit without resetting the date and time on the camera. Because of this, not all camera time stamps were accurate. We screened those data for inaccuracies (such as an incorrect year for a specific expedition), and these records were eliminated from the analyses.”

The use of the 800-millimeter lens was tracked because it represents a significant skill that requires much effort to achieve the best results, and the resulting images provide the most detail (up to 6-meter spatial resolution).” O que isso significa exatamente? Que o zoom com nitidez vai até um pixel representar 6m? Ou que é como se a fotografia fosse tirade da altura de 6m de uma camera comum ou, enfim, semipro? A segunda possibilidade parece ser improvável, então vamos com a 1ª caso o texto não esclareça mais à frente!

Dados estatísticos para o estudo analisados pelo SAS (mesmo programa que estou aprendendo a usar no meu trabalho!).

From December 2001 (Expedition 4) through October 2005 (Expedition 11), crewmembers took 144,180 images that had accurate time and date data automatically recorded by the camera. Of time-stamped photographs, 84.5% were crew-initiated and not in response to CEO requests.”

A crew containing a member, for example, whose childhood home was in a small town in Illinois, would be more likely to take images of that area than of areas not holding personal significance for any member of that crew.”

Foi possível fotografar a Golden Gate Bridge (San Francisco) como se sua largura fosse da espessura da metade do meu dedo mindinho. Mas mais impressionantes ainda são as fotos de picos no Alaska, que parecem laterais e não panorâmicas, provavelmente devido à proximidade do pólo da Terra!

Earth photography is clearly a leisure activity. However, crews are more likely to take self-initiated images as the mission progresses—perhaps due to acclimation and familiarity with life and duties on the Station or a growing realization that their time in space, and thus their ability to photograph Earth from space, is limited. This trend over the duration of the mission was the only mission phasing observed. A more careful examination of figure 3 suggests that the phasing effect might be due more to individual differences pertaining to specific missions or perhaps to an increasing competency with the photographic equipment. It is not clear to what extent this phasing effect might reflect differences in mission profiles or characteristics of the particular crewmembers assigned to the particular missions.”

As we begin to plan for interplanetary missions, it is important to consider what types of activities could be substituted. Perhaps the crewmembers best suited to a Mars transit are those individuals who can get a boost to psychological well-being from scientific observations and astronomical imaging.” Deixe de ver a Terra e então você terá um derrame logo (Desmond Effect)!

5. MANAGING NEGATIVE INTERACTIONS IN SPACE CREWS: THE ROLE OF SIMULATOR RESEARCH – Harvey Wichman

In the 47 years since Yuri Gagarin became the first person in space and the first person to orbit Earth, several hundred cosmonauts and astronauts have successfully flown in space. Clearly, there is no longer any doubt that people can live and work successfully in space in Earth orbit. This ability has been demonstrated in spacecraft as tiny as the Mercury capsules, in Space Shuttles, and in various (and much more spacious) U.S. and Soviet/Russian space stations. Spending up to half a year in space with a small group of others is no longer unusual. However, plans are afoot to return to the Moon and establish a permanent settlement there and then to proceed to Mars. Big challenges are on the horizon, and their likely success is predicated on 3 historical series of events: first, the long series of successes in Earth-orbital flights since the launch of Sputnik on 4 October 1957; second, the 6 successful excursions of Apollo astronauts on the Moon; and third, the success-ful robotic landings to date on Mars.”

is there any chance that space tourism, with a much more fluid social structure and a vastly broader spectrum of participants than in the current space program, will work at all?”

New “extreme environment” since 2020: our houses!

The density intensity hypothesis stated that whatever emotion is extant when crowding occurs will be enhanced by the crowding. Crowding per se is not necessarily aversive. This was a nonintuitive but valuable finding. This phenomenon can be witnessed at most happy social gatherings. A group of people may have a whole house at their disposal, but one would seldom find them uniformly distributed about the premises. It is much more likely that they will be gathered together in 2 or 3 locations, happily interacting in close proximity. The reverse of this is also true, as can be seen in mob behavior, where the crowding amplifies the anger of the members.”

In the early days of the space program, when anecdotal studies of life in extreme environments such as submarines were all we had, these studies proved valuable and served us well. But spaceflight simulators can be used to create situations more specific to spaceflight and do so in a laboratory setting in which extraneous variables can be much better controlled.

Of course, spaceflight simulators on Earth cannot simulate weightlessness. That is unfortunate because the higher the fidelity of the simulator, the better the transfer to real-world situations. We have seen in aviation that extremely high-fidelity flight simulators can be so effective for training that airline pilots transitioning to a new airplane can take all of their training in a simulator and then go out and fly the airplane successfully the first time.”

Since there have been few such studies involving civilian participants, the general public knows little of what goes on in such a study. Therefore, I will describe a study conducted in my laboratory that will demonstrate how simulator studies can address both applied and theoretical research questions.”

McDonnell Douglas Aerospace (now Boeing Space Systems) in Huntington Beach, California, was in the process of developing a new, single-stage-to-orbit rocket to replace the Space Shuttles. This vehicle would take off vertically the way the Shuttles do, but instead of gliding in for a landing, it would land vertically using the thrust of its engines the way the Moon landers did in the Apollo program. The rocket, which was to be called the Delta Clipper, was first conceived of as a cargo vehicle. Soon, engineers began thinking about having both a cargo bay and, interchangeable with it, a passenger compartment. The passenger compartment was to accommodate 6 passengers and a crew of 2 for a 2-day orbital flight. Former astronaut Charles ‘Pete’ Conrad was then a vice-president of McDonnell Douglas Aerospace and a key player in the development of the Delta Clipper. At the time, all of the McDonnell Douglas designers were fully occupied with work under a NASA contract on the design of what would eventually become the International Space Station.”

remember that when orbiting Earth, one is in darkness half the time”

Once the passenger compartment design was satisfactorily completed, there was considerable excitement among the McDonnell Douglas engineers about the idea of taking civilian passengers to space (no one spoke words such as ‘space tourism’ yet at that time). The designers were excited about such ideas as not putting full fuel on board the vehicle for orbital flight but keeping it lighter, adding more passengers, remaining suborbital, and flying from Los Angeles to Tokyo in 40 minutes or Los Angeles to Paris in 38 minutes. However, when the euphoria of the daydreaming was over, the Delta Clipper team was left with the question, can you really take a group of unselected, relatively untrained civilians; coop them up in a cramped spacecraft for 2 days of orbital spaceflight; and expect them to have a good time?”

We accepted the challenge and built a spaceflight simulator in our laboratory that had the same volume per person as the one designed for the Delta Clipper”

Planta do simulador-laboratório

The Delta Clipper team wanted to know whether people such as those we would select could tolerate being enclosed in a simulator for 45 hours, whether this experience could be an enjoyable space vacation adventure, and whether anything could be done prior to a flight to ensure a high quality of interpersonal interactions among the participants during the flight.”

we decided to conduct 2 simulated flights with equivalent groups. The flights would have to be essentially identical except that one group (the experimental group) would get pre-flight training in effective group behavior techniques, and the other group (the control group) would spend the same preflight time in a placebo treatment without group training.”

Participants soon were oblivious to being observed, as was often demonstrated when an observer on the outside would be startled by a participant suddenly using the one-way window as the mirror it appeared to be on the inside.

In an effort to recruit participants who would approximate the kinds of people who might book a spaceflight, we contacted a travel company that booked adventure travel tours such as to Antarctica and got from them the demographics of the people who book such tours. We then advertised in a local paper for volunteers to act as participants in a simulated space ‘vacation’. Those applying would have to commit to participating for 48 hours, from 5p.m. on a Friday evening until 5p.m. on the following Sunday evening. Six passengers were selected for each of the 2 groups: they ranged in age from 34 to 72, half of them were men and half were women, and each group had one married couple. In addition, each group had its own 2-membercrew, a white male and a black female. We knew of no spaceflight simulation study that involved such diversity of age, gender, and ethnicity involving civilians resembling those who might one day be involved in space travel. Participants wore their own light sport clothing and soft slippers or warm socks because, as they were informed, in space, where people will be floating about and might bump into others or delicate equipment, shoes would not be worn. The crewmembers were mature college students who were recruited and trained ahead of time. They wore uniforms similar to NASA-type coveralls. They were unaware of the fact that there were 2 groups and of the variables being studied.

Observers were trained to a high degree of reliability to observe the groups at all times. The analytical system used was the Bales Interaction Analysis technique. Using operationally defined criteria, the observers measured whether interpersonal interactions, both verbal and nonverbal (e.g., postures, gestures, and expressions), were positive, neutral, or negative.

During their duty shifts, the observers each monitored the behavior of 2 participants. An observer would monitor 1 participant for a 1-minute period, assign a score, and then switch to the other participant for a 1-minute period and assign that person a score. Then it was back to the first person for a minute and so on until the end of the shift.”

A simulator is, in a way, equivalent to a stage set. If it looks sufficiently like a spaceship and has the sounds and smells of a spaceship, and if the things that take place within it are those that take place in spaceflight, then the participants, so to speak, ‘buy into it’ and experience the event as a spaceflight. Our spaceflight simulator seems to have worked very well in this respect. Loudspeakers produced sounds mimicking those in Space Shuttles and were kept at amplitudes similar to the Shuttle averages (72 decibels). For lift-off and touchdown, very loud engine exhaust vibration and sound were produced by large, hidden speakers.

Because the participants in the simulator did not float about in weightlessness as they would in orbit, we had to have bunks for them to sleep in.” Bom saber que astronauta não tem cama!

During the simulated lift-off and insertion into orbital flight, the participants remained strapped in their bunks. The participants reported in postflight questionnaires that they felt they really had a sense of what a spaceflight would be like—that they often forgot that this was ‘make believe’ and that they ‘really were living the real experience’, to quote 2 of the participants.”

The passengers had unstrapped from their bunks and were assembled in their seats facing forward toward the window area. Mission Control advised that they were preparing to remotely retract the radiation shield over the window and that everyone would soon have a view of Earth from space. By watching the changing postures of the participants, observers could easily see that tension was mounting during the 10-second countdown. Suddenly, a view of Earth taken from one of the Shuttle flights filled the window (actually a 27-inch television screen). One participant gasped and placed her hand to her mouth while staring at the scene.”

Exit from the simulator was delayed in both flights because the participants took the unplanned-for time to trade telephone numbers and addresses before leaving. People who came to the experiment as strangers left as friends. Participants’ moods during the simulated flights remained positive, and the number of negative interactions in both groups was small. In the year following the study, my lab received so many telephone calls from participants in both groups requesting a reunion that we felt compelled to go back to McDonnell Douglas and request that they sponsor such an event. They did, and it was a very well-attended, robust party.”

For months after the experiment, the lab kept receiving calls from participants requesting answers to all sorts of space questions. It seemed that now that they were perceived by others as authorities on space, people called to ask space-related questions of them. When they could not answer them, they turned to us for the answers. What is important here is that this post-simulation experience gave us the opportunity to see how this simulation had changed the participants’ lives in a positive, space-related way.”

In the postflight questionnaires, the participants of both flights indicated that the discussions with Mission Control while flying were the favorite parts of the trip. Very clearly, the participants enjoyed the spaceflight aspects of the simulation very much. All of the subsystems of the simulator worked as planned. No extraneous variables intruded, such as outside noises. From the standpoint of the equipment, the experiment was uneventful.

Just before entering the simulator, the experimental group received a 2-hour-long program designed to enhance interpersonal prosocial behavior. It was designed much like the type of program corporations provide for their executives in order to develop team building and enhance effective workplace interactions.” Então não serviu pra nada!

In our simulations, the experimental group index of amicability was 44.3. The control group had an index of amicability of 14.8. Thus, using the difference in index of amicability between the 2 groups as a measure of the efficacy of the preflight training, we find a very large improvement in social functioning of 299% from a small investment of 2 hours in a training program.” “We found that our short-duration experimental study corroborated the findings of both the long-duration experimental studies and the anecdotal studies.”

As the history of spaceflight unfolds, I contend that now we are at a transition point between the exploratory and settlement stages of spaceflight that is similar to the opening of the American West in the United States. The early exploration of the West was conducted by a relatively few brave and hardy explorer sorts with an emphasis on daring and pushing back frontiers. There was much ambiguity about the challenges and dangers that lay in uncharted territory. These beginning forays into the unknown were followed by the incursion of hardy trappers, hunters, miners, and various tradesmen. Settlers soon followed, and eventually tourists did as well. In parallel with the western movement of people, technology was improving to facilitate the western expansion—transportation evolved from stage coaches and Conestoga wagons to steamboats and trains.” Comparação grosseira. Um bando de covardes com pólvora, isso que eram os americanos ‘colonizadores territoriais’…

space vehicles are currently very noisy. The noise is due to the fact that warm air does not rise in weightless environments. Without convection currents, any air that is to be moved must be moved mechanically. The large number of fans and bends in ductwork create much of the noise.” “This [72db] is about like driving a car at 100 kilometers per hour (kph) with the windows rolled down. By comparison, a living room on Earth would be about 45db.”

As this paper is being written, the European Space Agency has just issued a worldwide invitation for volunteers to participate in a 520-day simulated Mars mission.” Loucura e estultícia!

6. GENDER COMPOSITION AND CREW COHESION DURING LONG-DURATION SPACE MISSIONS: Jason Kring & Megan Kaminski

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Estou cansado! Já não há nenhuma idéia nova há ALGUNS artigos, e estou somente no sexto! Mau sinal, mau sinal… Só se fala em MARTE, MARTE, MARTE… MARTEla outra tecla, Houston!

7. FLYING WITH STRANGERS: Postmission Reflections of Multinational Space Crews: Peter Suedfeld, Kassia Wilk & Lindi Cassel

Long before technology made real space voyages possible, fictional explorations can be traced to the myth of Daedalus and Icarus and its counterparts in other traditions, to the writings of Cyrano de Bergerac, and eventually to the imaginations of Jules Verne and the multitude of early-20th-century science fiction writers.” Depois disso (principalmente na segunda metade do XX, i.e., desde que existe a Nasa) o ser humano perdeu a criatividade.

The first decades of human spaceflight were a series of competitions between the Soviet Union and the United States: who would be the first to launch an orbiting spacecraft, a piloted spacecraft, a space crew, a Moon rocket, a space station . . . . Flights were scheduled to preempt media publicity from the competition. Temporary victory veered from one bloc to the other, with each claiming—or at least implying—that being momentarily ahead in the race was proof of the superiority of its political and economic system, just as Olympic gold medals were (and are) risibly interpreted as markers of national quality.”

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8. SPACEFLIGHT AND CROSS-CULTURAL PSYCHOLOGY: Juris Draguns & Albert Harrison

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AFTERWORD. FROM THE PAST TO THE FUTURE: Gro Mjeldheim Sandal & Gloria Leon

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BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

Cernan & Davis, The Last Man on the Moon: Astronaut Eugene Cernan and America’s Race to Space (New York: St. Martin’s Press, 1999).

Dunmore, French Explorers of the Pacific, vol. 1 (Oxford: Clarendon Press, 1965).

Greely, Three Years of Arctic Service: An Account of the Lady Franklin Bay Expedition of 1881–1884, and the Attainment of the Farthest North (New York: Scribner, 1886).

Harrison, Spacefaring: The Human Dimention (Berkeley: University of California Press, 2001).

Lebedev, Diary of a Cosmonaut: 211 Days in Space (College Station, TX: Phytoresource Research, Inc., 1988).

Linklater, The Voyage of the Challenger (London: John Murray, 1972).

Lovell & Kluger, Lost Moon: The Perilous Voyage of Apollo 13 (New York: Pocket Books, 1994).

Mears & Cleary, “Anxiety as a Factor in Underwater Performance,” Ergonomics 23, no. 6 (1980): 549.

Pearce, “Marooned in the Arctic: Diary of the Dominion Explorers’ Expedition to the Arctic, August to December 1929,” in: Northern Miner (Winnipeg, MB, 1930).

Petrov, Lomov, & Samsonov, eds., Psychological Problems of Spaceflight (Moscow: Nauka Press, 1979).

Ryan, The Pre-Astronauts: Manned Ballooning on the Threshold of Space (Annapolis, MD: Naval Institute Press, 1995).

Stefansson, The Adventure of Wrangel Island (New York: MacMillan Company, 1925).

Von Chamisso [o mesmo autor de Peter Schlemiel], Reise um die Welt mit der Romanoffischen Entdeckungs Expedition in den Jahren 1815–1818 (Berlin: Weidmann, 1856).

Weitekamp, Right Stuff, Wrong Sex: America’s First Women in Space Program (Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 2004).

THE IMPACT OF MONOLINGUAL AND BILINGUAL SUBTITLES ON VISUAL ATTENTION, COGNITIVE LOAD, AND COMPREHENSION – Sixin Liao, Jan-Louis Kruger and Stephen Doherty

Bilingual subtitles, a unique subtitle mode that presents subtitles in two different languages simultaneously, are gaining popularity around the world, especially in Mainland China (Li 2016). This is partly attributed to the belief that bilingual subtitles could deliver the benefits of both intralingual and interlingual subtitles, with intralingual subtitles providing the written forms of spoken words that can facilitate vocabulary learning and interlingual subtitles providing the meaning (translation) of words that can enhance viewers’ comprehension and absorption of the content (García 2017).

There exists however an inherent risk that subtitles, as a written form of spoken dialogue, generate redundant information that may overburden the visual processing channel and deplete people’s limited cognitive resources that could have been used to process other essential information (Zheng et al. 2016). When watching subtitled videos, viewers have to cope with a rich combination of multimodal and multiple-source information: visual images (visual-nonverbal), spoken dialogue (audio-verbal), subtitles (visual-verbal) and background sounds (audio-nonverbal) (Gottlieb 1998). This could place high demands on viewers’ attentional and cognitive resources because processing too much information simultaneously has been shown to exceed the capacity of working memory and result in cognitive overload (Kalyuga et al. 1999).”

Compared with monolingual subtitles, watching videos with bilingual subtitles could be more cognitively demanding due to the concurrent presence of subtitles in two different languages, which, if the audience understands both languages, is likely to generate more redundancy and impose additional cognitive load on working memory. However, due to the scant research in this field, little is currently known about the actual visual and cognitive processing of bilingual subtitles.”

The conceptualisation of cognitive load has been well-established in CLT (Sweller et al. 2011), one of the most influential theoretical frameworks accounting for cognitive processing during learning (Martin 2014). As this study approaches bilingual subtitles for the purpose of enhancing learning, we argue that CLT is a most appropriate theoretical framework for the current study since it has a well-established empirical basis in educational psychology, instructional design, and educational technology.

Three components of cognitive load have been identified in CLT literature, namely intrinsic cognitive load, extraneous cognitive load and germane cognitive load. Intrinsic cognitive load is created by dealing with the inherent complexity of the task (Van Merriënboer and Sweller 2005; Sweller 2010), while extraneous cognitive load is generated by dealing with instructional features that do not contribute to learning. Germane cognitive load, on the other hand, is created when learners are engaged in processing essential information that contributes to learning (Sweller et al. 1998; Sweller 2010).”

Learners have also been shown to be more likely to experience high extraneous cognitive load when they process redundant information that is unnecessary for learning (Kalyuga and Sweller 2005). More specifically, numerous empirical studies on cognitive load effects have found that presenting the same information in different forms (e.g. presenting verbal information in both written and audio forms) would hinder learning and cause the redundancy effect (Mayer et al. 2001; Diao and Sweller 2007). The redundancy effect is very relevant to subtitling in that subtitles transfer auditory information into a written form and thus could produce verbal redundancy, which is likely to induce extraneous cognitive load. However, subtitles in different linguistic formats generate different degrees of redundancy and could exert a differential impact on cognitive load and, as a consequence, on task performance and learning outcomes within educational settings.”

Based on formal linguistic parameters, subtitles can be categorised into three types, namely intralingual subtitles, interlingual subtitles, and bilingual subtitles (Díaz Cintas and Remael 2007). Intralingual subtitles (or same-language subtitles or bimodal subtitles), which are presented in the same language as the spoken dialogue, are primarily used by deaf and hard-of-hearing viewers, but also in language learning and other educational contexts (Doherty 2016; Kruger and Doherty 2016; Doherty and Kruger 2018). Interlingual subtitles (or standard subtitles or L1 subtitles) refer to subtitles that are displayed in a language different from that of the dialogue, normally in the viewers’ native language (Raine 2012). Different from intralingual and interlingual subtitles, which consist of only one language, bilingual subtitles (also known as dual/double subtitles) present subtitles simultaneously in 2 different languages. This category is mostly used in multilingual countries or regions where two or more languages are spoken, such as Finland, Belgium, Israel, Singapore, Malaysia and Hong Kong (Gottlieb 2004; Kuo 2014; Corrizzato 2015). In Mainland China, for example, bilingual subtitles are gaining currency as China’s dominant TV broadcaster is stepping up its effort to present television programs with subtitles in both English and Chinese in order to attract a wider audience. The increasing usage of bilingual subtitles in online videos is attributed to the efforts of amateur subtitlers who translate foreign language videos online on a voluntary basis (Zhang 2013; Hsiao 2014).”

Thus, our research question aims to identify the effects, if any, of bilingual subtitles on viewers’ distribution of visual attention, cognitive load, and comprehension of audiovisual stimuli.”

This also provides support to previous arguments that ‘the number of lines does not play as big a role in the processing of subtitles as previously thought’ (Kruger and Steyn 2014: 105). However, it is worth noting that adding subtitles in a non-native language may cause a different interaction between the language of the subtitles and the language of the soundtrack, which could consequently impact on the attention allocated to subtitles, as the viewer may automatically try to read along with the narration, in what we could call the karaoke effect. This assumption is being investigated in our other studies.”

It is also possible that in the bilingual condition, with two lines of subtitles presented in different languages, subtitles presented on the first line (i.e. L1 subtitles) can grasp viewers’ attention more easily and viewers may feel less motivated to read L2 subtitles once they have gained sufficient information from L1 subtitles. To sanction this assumption, more empirical research is needed to investigate the impact that subtitle positioning in bilingual subtitles has on the distribution of visual attention. Another possibility is that L2 subtitles render more redundancy than L1 subtitles when L2 audio information is available and therefore are less attended to by participants.”

Moreover, the fact that viewers spent time reading subtitles in both languages in spite of their redundancy provides evidence for the automatic subtitle reading behaviour hypothesis as originally proposed by d’Ydewalle et al. (1991).”

we propose that adding bilingual subtitles that contain both L1 and L2 subtitles makes the video easier to understand and allows for more available cognitive resources than not providing viewers with any written text as linguistic support. This finding also supports the growing body of evidence that processing subtitles is cognitively effective and does not cause cognitive overload if optimised spatio-temporally (Kruger, Hefer and Matthew 2013; Lång 2016; Perego et al. 2010).”

INVESTIGATING THE RELATION BETWEEN THE SUBTITLING OF SENSITIVE AUDIOVISUAL MATERIAL AND SUBTITLERS’ PERFORMANCE: An empirical study – Katerina Perdikaki and Nadia Georgiou

This fast-paced consumption, which characterises today’s media culture, is enabled, among others, by the expansion of video streaming services and video-on-demand platforms. In turn, the abundance of audiovisual products and the necessity to make them accessible to all audiences increases the demand for audiovisual translation (AVT) which needs to be prompt, while maintaining all other quality requirements.

In this environment, AVT professionals need to develop a skill-set which goes beyond the acquisition of technological literacy and linguistic aptitude to embrace adaptability, which may be hard to achieve when the audiovisual programme deals with sensitive and/or controversial topics because of the emotional impact inflicted upon the translator.”

To look into this issue, we designed an online questionnaire which was completed by 170 professional and amateur subtitlers.”

Schäffner (1997) examines sensitive texts from the perspective of the reaction they prompt in a reader (or viewer, in the case of audiovisual texts) and argues that any text causing irritation or confusion can be considered sensitive.” Exemplos recentes meus: Infância (Graciliano Ramos), Rayuela (Cortázar)…

It should be noted that the study focuses on negative emotions, as these are assumed to have the most drastic impact on subtitling performance.”

In areas such as public service interpreting (PSI), healthcare interpreting and, more specifically, mental health interpreting, professionals often face emotionally demanding situations and are affected when relaying traumatic experiences (Hsieh and Nicodemus 2015; Doherty et al. 2010). Similar observations can be made when it comes to emotionally-loaded cases involving interpreting, as in the Nuremberg trials, where simultaneous interpreting first appeared, and in the interpreting conducted in Nazi concentration camps during World War II (Tryuk 2016). The fact that interpreters experience distress and anxiety at some point in their careers has been affirmed in related studies (Loutan et al. 1999; Valero-Garcés 2005; Doherty et al. 2010).”

meaning that individuals with higher EI tend to be more creative.” Jussara’s EI or QE: 0.

the emotional potential of audiovisual texts is relatively greater than that of a literary text because of the different layers of information involved.”

In addition, given the tight deadlines governing the subtitling industry (Georgakopoulou 2009), rarely is there the luxury of time to first watch the programme and then translate it. Therefore, subtitlers often need to switch between the different hats of viewer and translator while experiencing the text for the first time, which arguably allows them less time to crystallise the viewing experience and to follow a more clinical approach in subtitling.”

Out of the 16 amateur subtitlers in the sample, only three answered that their performance is affected by their emotions.” Típico.

It is possible that the participants misunderstood the option of humour as referring to a linguistic challenge in subtitling, and not to a potentially emotion-eliciting aspect of the audiovisual text. Taking this into account, the fact that humour was the option with the most responses (80 – 47%) can be interpreted in two ways: either humour is one of the most challenging elements to relay in subtitling, as has been confirmed in the relevant literature (Díaz Cintas and Remael 2007; Chiaro 2010), or humour embedded in sensitive material, e.g. jokes that can be considered obscene, profane, racist or sexist, elicits a more intense emotional reaction.”

This sentiment of desensitisation may also be evident in the fact that 36 participants (21%) chose not to answer this question, making it the question with the lowest response rate in the questionnaire. Another interpretation for the low response rate would be that the participants, as language professionals, are comfortable with such aspects of language and their non-responsiveness to sensitive language is a meditated stance they adopt to demonstrate their professionalism.”

Out of these 133 participants, 24 of them proceeded to report an example where their performance was shown to be affected in one way or another. More specifically, they acknowledged that they sometimes have physical reactions to the material (e.g. crying, feeling nauseated) and, thus, have to take frequent breaks while subtitling, or they avoid looking at the screen, focus solely on the audio, and work quickly through the material. Others defer part of the project to other subtitlers and refuse to take on similar projects in the future. In fact, these participants’ narratives are similar to those that answered that their performance was affected by their emotions.”

The fact that some participants answered that their performance is not affected by their emotions and yet showed evidence of such effect in their free-text responses suggests that some may initially misperceive the extent of the emotional impact experienced when subtitling sensitive material. Alternatively, as it was noted above, a reluctance to admit the impact of emotions on subtitling performance may be connected to the subtitlers’ sense of professionalism and the attitude it entails. Notably, 10 out of the 133 participants that gave a negative response highlighted the subtitler’s responsibility to remain impartial and persevere with the translation, thus demonstrating how norms of the field of translation are often internalised by its agents.”

I don’t linger much on the translation. I don’t think how to render it best. I just want […] to get it over with” !!!

Overall, 16 participants (9%) remark that they tend to take frequent breaks in order to cope with the emotional impact, which results in their being less productive and needing more time to complete the job. This may also cause them to ask for an extension to the deadline, if circumstances allow it, or resort to a last-minute translation, as happens with the subtitlers that delay working on the sensitive material. Six participants (3%), all professional subtitlers, note that they refuse work that they know will have such a strong emotional impact on them. Admittedly, this presupposes an established presence in the subtitling industry and a good rapport with one’s clients, so that there is the professional, and financial, flexibility to turn down work. Indeed, the participants that made this point have more than 10 years of subtitling experience.”

Given that the subtitles co-exist with, and heavily depend on, the visual channel, it is obvious that an obscured image may negatively impact the translation. Furthermore, templates usually contain an abbreviated version of the dialogue, and thus do not correspond to the full onscreen content. As a participant attests, when working through torture scenes, they ‘avoid watching, which makes [their] work prone to error’” Não entendo: como pode trabalhar com isso?

Twelve of these participants reported that they may consciously tone down language that they find too offensive, particularly in regard to racial discrimination and swearing. The participants’ responses indicate that this also occurs when the depicted images are especially emotive (e.g. images of slaughterhouses or active war zones). Therefore, although language in isolation seems to leave many participants emotionally unaffected, perhaps because translators are trained and expected to be able to handle abusive, offensive, and colourful language, coping with images is arguably more challenging.”

Eleven participants (6%) highlighted that their performance improved because they felt an even greater responsibility to convey the intended message to the target viewers. As the participants noted, despite the intense emotional impact they experienced, they persevered in order to do justice to the ST, either to match its high cinematographic quality, in the case of fictional films/TV series, or to raise awareness of the issues involved, in the case of documentaries. One participant points out that they took extra care ‘to convey the speakers’ message to the target audience’ when subtitling a documentary about Ugandan child soldiers, in order to communicate their life stories as accurately as possible. Similarly, another participant notes that the emotions of sadness and helplessness they experienced when working on a documentary about cancer patients helped them produce more natural subtitles because they felt that they were the patients’ voice for the target audience. The same participant highlights that in cases where they are overwhelmed with emotion, their empathy with the depicted characters is strengthened, which, in their opinion, ultimately has a positive effect on their subtitling performance.”

The emotions that the subtitlers in our study experience most commonly are sadness, anger, and disgust, and the topic that emotionally affects them the most is abuse. In terms of imagery, scenes of rape, torture, and animal abuse appear to be particularly sensitive for most participants. In contrast, language usage (e.g. swearing) does not seem to have a significant emotional impact on the majority of the participants.”

Given that an emotional impact can either hinder or enhance subtitling performance, as discussed above, it seems necessary that subtitlers learn how to process and cope with the elicited emotions first so that they can reap the potential benefits of emotional impact.”

Further research can also examine relevant training practices that could benefit subtitlers, either in an institutionalised academic context or in the professional environment.”

FILM LANGUAGE, FILM EMOTIONS AND THE EXPERIENCE OF BLIND AND PARTIALLY SIGHTED VIEWERS: A RECEPTION STUDY – Floriane Bardini

blind and partially sighted (BPS)”

To many, expressions like in close-up, pan across, mid-shot, crane-shot etc., may not mean anything but it is important to try to understand why a director has chosen to film a sequence in a particular way and to describe it in terms which will be understood by the majority, if there is room to do so.”

The length of the three ADs is comparable and the final word counts are 388 words for the conventional AD (100%), 427 words for the cinematic AD (110%), and 400 words for the narrative AD (103%). The cinematic version is inevitably longer because cinematic terms are added to the iconic content being described.

The conventional AD is denotative, while the cinematic and narrative ADs are interpretative. The latter ones offer an interpretation of film language to render its meaning and feeling into words, instead of omitting or describing denotatively how cinematic techniques are used onscreen. Interpretative AD styles imply that the describer uses her subjectivity to describe what is shown and how it is shown, so it is a delicate approach that requires ethics and professionalism to ensure that an informed interpretation is provided, and not a personal vision of things.”

Cinematic terminology comes into play most particularly to describe elements that are specific to film, such as camera movements and editing techniques (Casetti and di Chio 1991).”

Narrative AD style (AD3) concentrates on interpreting film language and integrating the visual information into a coherent and flowing narration, which incorporates film dialogue and can be read as a single piece of text. It is an interpretative AD style, which does not always depict the images in full detail or in the exact moment they are shown but instead offers a narrative recreation of the feelings raised and of the meaning channelled through film language. Here too, the aim is to offer an immersive experience that is as similar as possible to that of sighted viewers.” Acho que eu iria preferir o 3.

[AD1 – CONVENTIONAL] Handwritten and slanted: ‘Nuit Blanche’. In black and white. At night, it’s full moon. The zinc roofs of a big city, with smoking chimneys. A three-storey building with large windows and light inside. Over the main door, made of glass, a company name.

[AD2 – CINEMATIC] ‘Nuit Blanche’ appears onscreen in film noir style. In black and white on a full moon night, chimneys smoke on the zinc roofs of a big city. The frame goes down the front face of a three-storey office building, with large windows and light inside.

[AD3 – NARRATIVE] ‘Nuit Blanche’. The city spreads out in black and white under the full moon. Chimneys smoke on zinc roofs. Men and women walk in the street, wrapped up in coats, passing by a three-storey office building with large windows and light inside.”

there are so many shades of grey between black and white that you can create extremely rich images. Because black and white photography is inherently pure, it’s a great way to tell a visual story and express emotion”

Forty-five blind and partially sighted participants were recruited with the help of two user organisations to listen to the ADs, answer the questionnaire and participate in focus group interviews. We contacted thirty-nine through the Department of Culture and Sport of the Territorial Delegation of ONCE (National Organization of the Spanish Blind) in Catalonia and five local ONCE offices located in Girona, Lleida, Manresa, Reus and Vic. Six further participants were recruited through ACIC, the Catalan Association for the Integration of the Blind, based in Barcelona. There were 28 men and 17 women, aged between 24 and 86 (M=54), of whom 11 were blind from birth. Six participants held a university degree, 14 had A-Levels and/or vocational training, 15 had no degree and 10 did not specify.”

[AD1 – CONVENTIONAL] Surrounded by pieces of glass that reflect light, they walk towards each other. She slightly reaches out her arms; he has no hat and briefcase. When they get closer, they shut their eyes and their lips come closer.

[AD2 – CINEMATIC] Surrounded by pieces of glass that shine like sparks, they walk towards each other decidedly. She slightly reaches out her arms. When they are getting closer, they look at each other’s lips and close their eyes as they are about to kiss. The frame closes in on their lips.

[AD3 – NARRATIVE] Surrounded by pieces of glass that shine like sparks, they walk towards each other decidedly, like two wax dolls set apart from reality. Getting closer, they look at each other’s lips and close their eyes as they are about to kiss.”

Our results are in line with those of Fryer and Freeman (2013), Szarkowska (2013), and Walczak (2017a) insofar as the consumers of an alternative AD, which goes beyond the mere denotative description of images, report a better film experience. Whether it is the naming and/or interpretation of the film techniques (cinematic AD), the interpretative and narrative approach (narrative AD), the extensive use of cinematic terminology (Fryer and Freeman 2013), the adoption of the director’s view (Szarkowska 2013), or the integration of the camera work and colloquial language into the AD (Walczak 2017a), studies seem to point to the need to approach AD from a filmic point of view and integrate film language into AD so as to offer blind and partially sighted viewers a better film experience.”

DOES THE DUBBING EFFECT APPLY TO VOICE-OVER? A CONCEPTUAL REPLICATION STUDY ON VISUAL ATTENTION AND IMMERSION – Gabriela Flis, Adam Sikorski and Agnieszka Szarkowska

The original study by Romero-Fresco (2016) was replicated by Di Giovanni and Romero-Fresco (2019) on a group of Italian and English viewers watching a fragment of Grand Budapest Hotel (Wes Anderson 2014). While the original study focused on close-ups, Di Giovanni and Romero-Fresco (2019) examined a different language combination (English to Italian dubbing) and different types of shots in the film.”

As opposed to Spain, where the predominant audiovisual translation (AVT) mode is dubbing, and the UK, where the vast majority of audiovisual content is available in the original English version, Poland is generally considered a stronghold of voice-over (VO) (Gottlieb 1998). Casablanca has never been dubbed into Polish and only the voiced-over and subtitled versions exist.” [!!]

Voice-over translation is an audiovisual translation technique in which, unlike in dubbing, actor voices are recorded over the original audio track which can be heard in the background.”

In contrast to dubbing, where every attempt is made to synchronise the translation with the lip movements of the original actors (Chaume 2014), in voice-over there is no requirement for lip synchrony (Sepielak and Matamala 1999). Neither does the translation need to be of the same duration as the original – a requirement known as isochrony (Chaume 2014). In VO, the original soundtrack remains audible but its volume is lowered, and the translation tends to be shorter than the original, typically allowing viewers to hear the beginning and end of the original utterances. The translation is read by one voice talent, usually male.”

Assuming that a lack of synchrony between the characters’ lip movements and the translation may lead to viewers avoiding looking at the mouth, we wondered whether a similar effect may take place when watching Polish VO, where the lack of synchrony between the original utterance and its translation is part and parcel of this AVT mode. Have Polish viewers also developed similar strategies in their process of habituation to VO? Given the fact that all the translated utterances, whether pronounced by female or male actors, are read out by a single male voice talent, we thought that the viewers’ potential avoidance of looking at characters’ mouths may be particularly discernible in scenes with female characters speaking.”

Although film viewing may seem like a passive activity, when watching films viewers are, in fact, busy processing the sequences of images and sounds, understanding the action, and construing the narrative. From previous research we know that viewer gaze behaviour shows certain commonalities (Smith 2013).” “Attentional synchrony, or “the tendency for observers to be looking in the same place at the same time” (Foulsham and Sanderson 2013: 926), is greater when sound is present than during moments of silence (ibid.: 939).”

One might think that perceptual quality would be extremely low in cases of, for example, science-fiction movies or animated short stories; however, this is not the case. In Hall’s experiment, participants who watched Jurassic Park (Steven Spielberg 1993) still perceived dinosaurs as real, even though they had become extinct millions of years ago, because they felt real in the context of the film.”

Even though it might sound similar to transportation, character identification is limited to particular characters depicted in a movie, whereas transportation ‘is a more general experience created by the narrative as a whole’ (Tal-Or and Cohen 2010: 404).”

Experiment 1 reports on the results of the eye-tracking study conducted on VO with Polish viewers, using the same 6-minute excerpt from Casablanca as Romero-Fresco (2016, 2020). We used a mixed study design with the area of the face (eyes/mouth) as an independent within-subject variable, and participants’ immersive tendency and English proficiency as factors. The dependent variables were the percentage of gaze distribution, immersion levels, comprehension and enjoyment. In Experiment 2, we compared our results with those obtained by Romero-Fresco (2016, 2020).”

To the best of our knowledge, no work on the dubbing effect in voiced-over films, and especially Polish VO, has been done before.”

In general, our sample consisted of young adults whose proficiency in English was relatively high, which may be important as they could understand the original English audio in the background of the Polish voiced-over version.”

Our percentages on eyes and mouth did not add up to 100%, as was the case in the original study, because we also took into account other areas on the screen where people looked, including the nose, hat, hair, background, etc.”

when the actors were speaking, participants looked at the eyes twice as much as at the mouth but, when the characters were not speaking, participants looked at the eyes four times more than at the mouth.”

We therefore compared the percentage of gaze distribution on Ilsa’s mouth with that on Rick’s mouth. Indeed, a statistically significant main effect of actors’ gender was found on gaze distribution on the mouth in dialogue scenes, F(1, 17) = 4.516, p = .049, partial eta2 = .21. Contrary to our predictions, [sabia!] however, viewers looked more at Ilsa’s mouth (M = 24.94, SD = 12.36) than Rick’s (M = 17.94, SD = 13.34).

We were also interested in finding out whether gaze distribution was in any way related to the participant’s immersive tendency and English proficiency, but neither of these factors was found to be significant.”

The largest discrepancy between the declarative and the actual time spent was found in the case of Spanish participants looking at the mouth, which may show that the dubbing effect is largely unconscious.

It needs to be noted that asking people to report on a 1-5 scale the time they think they spent on eyes and mouth is problematic for a number of reasons, including the fact that while watching they were unaware of the nature of the experiment and were not focussed on their gaze behaviour and its distribution.”

In answer to our main research question, we found that when watching the voiced-over fragment of Casablanca, Polish viewers did not avoid looking at the characters’ mouths. Our participants spent – proportionally – about 60% of the time looking at the eyes and about 40% at the mouth in scenes with dialogue, while for the English this proportion was about 75% and 25% and for the Spanish 95% and 5%. This means that we did not find what could be potentially called ‘the voice-over effect’.”

Interestingly, the percentage gaze distribution of Polish viewers was closer to that of the English viewers watching the original clip than to the Spanish group watching the dubbed version. Statistically, there were no differences in gaze distribution between Polish and English people in the sense that more time was spent looking at eyes in scenes with no dialogue than in dialogue scenes and, analogically, at mouth in dialogue scenes in comparison with those where the character remained silent. For Spanish, the trend was reversed. Such results make us wonder whether voice-over may in fact provide an experience more similar to the one we may have while watching a film originally recorded in our native language, an aspect that could be investigated in further studies.” A questão não é essa, mas que o áudio original estava presente!

In the presence of noise, where speech is less intelligible, the significance of visual speech information increases. If we consider VO as a sort of ‘noise’, making the perception of the original more difficult by the co-presence of the VO translation, then it may explain why Polish viewers focused so much on the mouth compared to the other two groups.”

Indeed, when directing films starring Ingrid Bergman, Alfred Hitchcock increased the use of close-ups ‘to concentrate expression in the micromovements’ of Bergman’s face. In the scene used in the study, Bergman is also framed in a close-up, placing her face and full mouth in a particularly prominent position, which may explain the larger focus on Ilsa’s face and mouth than on Rick’s.

It has been suggested that the reasons for the scarcity of replication in modern science include the negative perception of replication as research that is unoriginal and lacking in novelty; the unfavourable attitude of some editors and the consequent difficulty in publishing such studies; the potential hostility towards the original researchers and the fact that replications may be associated with controversy (Koole and Lakens 2012; Nosek et al. 2012; Coyne et al. 2016).”

In our study, direct replication was not possible since dubbing is rare in Poland and the clip used in the original study has never been dubbed into Polish. Furthermore, as we were operating with the institutional confines of our university lab, we had to work with a different eye tracker (SMI) than that used in the original study (Tobii).”

Given the departures from the original study, conceptual replications ‘do not constitute an unequivocal test of the validity of prior findings’ (Coyne et al. 2016: 245) and can be used ‘only to confirm […] the original result, not to disconfirm it’ (Nosek et al. 2012: 619). Therefore, the fact that the dubbing effect has not been found in the Polish context does not necessarily disconfirm its existence in a typical dubbing country such as Spain. Last but not least, as stated by Earp and Trafimow (2015: 9), ‘even carefully-designed replications, carried out in good faith by expert investigators, will never be conclusive on their own.’ What is needed is a series of replications, conducted independently of one another by different research teams and labs.

Replicating a study may be in some ways more challenging than conducting an original study from scratch. The replication team needs to make sure that they follow exactly the same protocol as the original team did. Yet, current reporting practices are sometimes insufficient for the replicating team to be able to follow the experimental protocol to the letter. This relates to, for instance, using identical areas of interest, identical pre-processing of eye-tracking data in terms of minimum and maximum fixation duration as cut-off points, or using exactly the same eye-tracking measures, such as fixation time or dwell time.”

Our study has shown that the visual attention distribution of Polish participants was similar to that of English people watching the film in the original, which suggests that for viewers accustomed to VO, watching a voiced-over film may be an experience comparable with watching the original, at least in terms of visual attention distribution. This may come as a surprise, since VO is often considered ‘the worst possible method (which can) in no sense maintain or do justice to the quality of the original version’ (Dries 1995: 6).”

INVESTIGAÇÕES SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO & SOBRE OS PRINCÍPIOS DA MORAL – Hume (trad. José Oscar de Almeida Marques)

Continuador da tradição empirista inaugurada por Bacon e desenvolvida por Locke e Berkeley, levou-a a sua mais extrema conclusão, culminando em um sistema que tem sido injustamente acusado de ser excessivamente cético e de privar a ciência e a moral de qualquer justificação racional. Os dois textos aqui apresentados têm uma origem comum, sendo ambos condensações e reelaborações de partes de uma obra mais vasta, o Tratado da natureza humana, que David Hume (1711-1776) redigiu em sua juventude (1737)”

Convencido de que o problema não estava no conteúdo de seu Tratado mas no estilo de sua exposição, Hume decidiu, alguns anos mais tarde, extrair dele duas obras mais curtas, nas quais procurou dar um tom acessível ao texto, eliminar a prolixidade argumentativa, suprimir os tópicos não-essenciais para a condução de seu argumento central e cuidar ao máximo da clareza da expressão.¹ São essas as duas Investigações reunidas no presente volume: a Investigação sobre o entendimento humano e a Investigação sobre os princípios da moral, extraídas do primeiro e do terceiro livros do Tratado e publicadas respectivamente em 1748 e 1751. Uma terceira obra, a Dissertação sobre as paixões, extrato do Livro II do Tratado e publicada em 1757, carece de maior relevância. De fato, os tópicos de maior interesse filosófico do Livro II, como a discussão da liberdade e da necessidade, já haviam sido incluídos na primeira Investigacão.”

¹ Se ao menos metade dos filósofos clássicos tivesse se preocupado em fazê-lo…

Acrescento algumas palavras sobre as presentes traduções. As duas Investigações já haviam sido anteriormente publicadas no Brasil – a primeira (em duas traduções distintas) na coleção Os Pensadores, e a segunda, traduzida por mim para a Editora da Unicamp, em 1995, tomando-se como base, em todos esses casos, a clássica edição de L.A. Selby-Bigge, à época a edição mais respeitada desses textos de Hume. O aparecimento, em 1998 e 1999, das novas edições preparadas por Tom L. Beauchamp para a série Oxford Philosophical Texts, da Oxford University Press, estabeleceu um novo standard acadêmico e abriu a oportunidade para o preparo de novas traduções brasileiras, o que fui feito quase imediatamente no caso da Investigação sobre o entendimento humano, publicada já em 1999 pela Editora UNESP.”

* * *

UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO

SEÇÃO 1. DAS DIFERENTES ESPÉCIES DE FILOSOFIA

P. 19: crítica da filosofia moral até sua época (encarnada nos pragmatistas); chamemo-la de Filosofia A, doravante.

P. 20: crítica do racionalismo cartesiano (encarnada pelos pensantes), a Filosofia B doravante.

Hume efetuará a sua síntese entre ambas.

Um prefácio digno de um britânico fleumático: “É certo que, para o grosso da humanidade, a filosofia simples e acessível [A] terá sempre preferência sobre a filosofia exata e abstrusa, [B] e será louvada por muitos não apenas como mais agradável, mas também como mais útil que a outra.”

É fácil para um filósofo profundo cometer um engano em seus sutis raciocínios, e um engano é necessariamente o gerador de outro; ele, entretanto, segue todas as conseqüências e não hesita em endossar qualquer conclusão a que chegue, por mais inusitada ou conflitante com a opinião popular.” Podemos dizer que Schopenhauer foi o representante da filosofia B de maior calibre, e que errou exatamente desta maneira. Os “filósofos A”, enquanto pregadores morais, estão mais para “ensaístas”, concatenam idéias provisoriamente apenas, sem compromisso. Ex: La Rochefoucauld.

Ruim de chute (é impossível sepultar escolas filosóficas, elas sempre voltam à moda): “A fama de Cícero floresce no presente, mas a de Aristóteles está completamente arruinada. La Bruyère atravessa os mares e ainda mantém sua reputação, mas a glória de Malebranche está confinada à sua própria nação e à sua própria época. E Addison, talvez, ainda será lido com prazer quando Locke estiver inteiramente esquecido.”

O filósofo puro é um personagem que em geral não é muito bem-aceito pelo mundo, pois supõe-se que ele em nada contribui para o proveito ou deleite da sociedade, ao viver longe do contato com os seres humanos e envolvido com princípios e idéias não menos distantes da compreensão destes. Por outro lado, o mero ignorante é ainda mais desprezado; e, em uma época e nação em que florescem as ciências, não há sinal mais seguro de estreiteza de espírito que o de não se sentir minimamente atraído por esses nobres afazeres.”

chega[mos] mesmo à absoluta rejeição de todos os raciocínios mais aprofundados (…) [da] metafísica

O anatomista põe-nos diante dos olhos os objetos mais horrendos e desagradáveis, mas sua ciência é útil ao pintor para delinear até mesmo uma Vênus ou uma Helena.”

Um otimista incubado: “E embora um filósofo possa viver afastado dos assuntos práticos, o espírito característico da filosofia, se muitos o cultivarem cuidadosamente, não poderá deixar de se difundir gradualmente por toda a sociedade e conferir uma similar exatidão a todo ofício e vocação.” “A estabilidade dos governos modernos, em comparação aos antigos, e a precisão da moderna filosofia têm-se aperfeiçoado e provavelmente irão ainda se aperfeiçoar por gradações similares.”

E embora essas pesquisas possam parecer penosas e fatigantes, ocorre com algumas mentes o mesmo que com alguns corpos, os quais, tendo sido dotados de uma saúde vigorosa e exuberante, requerem severo exercício e colhem prazer daquilo que parece árduo e laborioso à humanidade em geral.”

Todo gênio audaz continuará lançando-se ao árduo prêmio e considerar-se-á antes estimulado que desencorajado pelos fracassos de seus predecessores, esperando que a glória de alcançar sucesso em tão difícil empreitada esteja reservada apenas para si.”

devemos dedicar algum cuidado ao cultivo da verdadeira metafísica a fim de destruir aquela que é falsa e adulterada.”

Constitui, assim, uma parte nada desprezível da ciência a mera tarefa de reconhecer as diferentes operações da mente, distingui-las umas das outras, classificá-las sob os títulos adequados e corrigir toda aquela aparente desordem na qual mergulham quando tomadas como objetos de pesquisa e reflexão.”

Tampouco pode restar alguma suspeita de que essa ciência seja incerta ou quimérica, a menos que alimentemos um ceticismo tão completo que subverta inteiramente toda especulação e, mais ainda, toda a ação.”

E deveríamos porventura considerar digno do trabalho de um filósofo fornecer-nos o verdadeiro sistema dos planetas e conciliar a posição e a ordem desses corpos longínquos, ao mesmo tempo que simulamos desconhecer aqueles que com tanto sucesso delineiam as partes da mente que de tão perto nos dizem respeito?” “Os astrônomos por muito tempo se contentaram em deduzir dos fenômenos visíveis os verdadeiros movimentos, ordem e magnitude dos corpos celestes, até surgir finalmente um filósofo que, pelos mais afortunados raciocínios, parece ter determinado também as leis e forças que governam e dirigem as revoluções dos planetas.”

Renunciar imediatamente a todas as expectativas dessa espécie pode ser com razão classificado como mais brusco, precipitado e dogmático que a mais ousada e afirmativa filosofia que já tenha tentado impor suas rudes doutrinas e princípios à humanidade.”

SEÇÃO 2. DA ORIGEM DAS IDÉIAS

Diga a um racionalista: Filosofe sobre a tortura, se queres tanto filosofar!

Entendo pelo termo impressão, portanto, todas as nossas percepções mais vívidas, sempre que ouvimos, ou vemos, ou sentimos, ou amamos, ou odiamos, ou desejamos ou exercemos nossa vontade. E impressões são distintas das idéias, que são as percepções menos vívidas, das quais estamos conscientes quando refletimos sobre quaisquer umas das sensações ou atividades já mencionadas.”

…e nada há que esteja fora do alcance do pensamento, exceto aquilo que implica uma absoluta contradição.” Ainda sob a sombra da opaca lógica aristotélica. Veremos isso com muito mais detalhes a seguir. Mas é curioso que a última página (e o limite teórico, por igual) da maior obra de Schopenhauer também seja inteiramente dominada pela mesma “sombra”…

INTUIÇÃO + MATEMÁTICA: “A idéia de Deus, no sentido de um Ser infinitamente inteligente, sábio e bondoso, surge da reflexão sobre as operações de nossa própria mente e do aumento ilimitado dessas qualidades de bondade e sabedoria.”

um lapão ou um negro não têm idéia do sabor do vinho.”

Portanto, sempre que alimentamos alguma suspeita de que um termo filosófico esteja sendo empregado sem nenhum significado ou idéia associada (como freqüentemente ocorre), precisaremos apenas indagar: de que impressão deriva esta suposta idéia?

a palavra idéia parece ter sido tomada usualmente num sentido muito amplo por Locke e outros, como significando qualquer uma de nossas percepções, nossas sensações e paixões, bem como pensamentos.” “L. caiu na armadilha dos escolásticos, os quais, ao fazerem uso de termos não-definidos, alongam tediosamente suas disputas sem jamais tocar no ponto em questão.”

SEÇÃO 3. DA ASSOCIAÇÃO DE IDÉIAS

Pelo menos 250 anos de antecipação a Freud: “Mesmo em nossos devaneios mais desenfreados e errantes – e não somente neles, mas até em nossos próprios sonhos – descobrimos, se refletirmos, que a imaginação não correu inteiramente à solta, mas houve uma ligação entre as diferentes idéias que se sucederam umas às outras.”

Embora o fato de que diferentes idéias estejam conectadas seja demasiado óbvio para escapar à observação, não é de meu conhecimento que algum filósofo tenha tentado enumerar ou classificar todos os princípios de associação; um assunto que, entretanto, parece digno de investigação. De minha parte, parece haver apenas 3 princípios de conexão entre as idéias, a saber, semelhança, contigüidade no tempo ou no espaço, e causa ou efeito.”

Como o homem é um ser dotado de razão e está continuamente em busca de uma felicidade…”

Como essa regra não admite nenhuma exceção, segue-se que, em composições narrativas, os acontecimentos ou ações que o escritor relata devem estar conectados por algum vínculo ou liame.”

Ovídio baseou seu plano no princípio de conexão por semelhança.”

Um analista ou historiador que se propusesse a escrever a história da Europa em um determinado século seria influenciado pela conexão de contigüidade”

Mas a espécie mais usual de conexão entre os diferentes acontecimentos que figuram em qualquer composição narrativa é a de causa e efeito”

Parece também que mesmo um biógrafo que fosse escrever a vida de Aquiles iria conectar os acontecimentos, mostrando suas relações e dependências mútuas, tanto quanto um poeta que fosse fazer da ira desse herói o assunto de sua narrativa, contrariamente a Aristóteles, Poética.” Talvez Ar. tenha sido enganado pelo procedimento de Homero na Ilíada. A propósito do quê H. não esquecerá de comentar: “Surge daí o artifício da narrativa oblíqua, empregada na Odisséia e na Eneida, em que o herói é inicialmente apresentado próximo à consecução de seus desígnios e posteriormente nos revela, como que em perspectiva, as causas e eventos mais distantes. Com esse método excita-se de imediato a curiosidade do leitor: os eventos seguem-se com rapidez e em estreita conexão, a atenção mantém-se viva e, por meio da relação próxima dos objetos, cresce continuamente do começo ao fim da narrativa.”

A mesma regra vale para a poesia dramática, não se permitindo, em uma composição regular, a introdução de um ator que tenha pouca ou nenhuma relação com os personagens principais do enredo.”

Pode-se objetar a Milton que ele foi muito longe no traçado de suas causas, e que a rebelião dos anjos produz a queda do homem por uma sucessão de eventos que é ao mesmo tempo muito longa e muito fortuita, para não mencionar que a criação do mundo, da qual ele dá um extenso relato, não é a causa dessa catástrofe mais do que da batalha de Farsália ou de qualquer outro evento já ocorrido. Mas se considerarmos que esses eventos todos: a rebelião dos anjos, a criação do mundo e a queda do homem assemelham-se uns aos outros por serem miraculosos e estarem fora do curso ordinário da natureza; que eles são considerados contíguos no tempo; e que, estando desconectados de todos os outros eventos e sendo os únicos fatos originais dados a conhecer pela revelação, chamam de imediato a atenção e evocam-se naturalmente uns aos outros no pensamento e na imaginação (…) [é] uma unidade suficiente”

A explicação completa deste princípio e de todas as suas conseqüências levar-nos-ia a raciocínios demasiado vastos e profundos para esta investigação.”

SEÇÃO 4. DÚVIDAS CÉTICAS SOBRE AS OPERAÇÕES DO ENTENDIMENTO

Parte 1

O ANTI-KANT: “Arrisco-me a afirmar, a título de uma proposta geral que não admite exceções, que o conhecimento dessa relação [de qualquer relação de fatos] não é, em nenhum caso, alcançado por meio de raciocínios a priori, mas provém inteiramente da experiência”

O mesmo conteúdo que em Schopenhauer: “Quanto às causas dessas causas gerais, entretanto, será em vão que procuremos descobri-las; e nenhuma explicação particular delas será jamais capaz de nos satisfazer. Esses móveis princípios fundamentais estão totalmente vedados à curiosidade e à investigação humanas. Elasticidade, gravidade, coesão de partes, comunicação de movimento por impulso – essas são provavelmente as últimas causas e princípios que será dado descobrir na natureza” Todos o afirmariam antes da eletricidade.

o resultado de toda filosofia é a constatação da cegueira e debilidade humanas”

Mesmo a geometria, quando chamada a auxiliar a filosofia natural, é incapaz de corrigir esse defeito ou de nos levar ao conhecimento das causas últimas”

Parte 2

Se houver qualquer suspeita de que o curso da natureza possa vir a modificar-se, e que o passado possa não ser uma regra para o futuro, toda a experiência se tornará inútil e incapaz de dar origem a qualquer inferência ou conclusão. (…) Por mais regular que se admita ter sido até agora o curso das coisas, isso, isoladamente, sem algum novo argumento ou inferência, não prova que, no futuro, ele continuará a sê-lo. (…) sua natureza secreta e, conseqüentemente, todos os seus efeitos e influências podem modificar-se sem que suas qualidades sensíveis alterem-se minimamente.”

SEÇÃO 5. SOLUÇÃO CÉTICA DESSAS DÚVIDAS

Parte 1

É certo que, ao buscarmos atingir a elevação e a firmeza espiritual do sábio filósofo e esforçarmo-nos para confinar nossos prazeres exclusivamente ao campo de nossas próprias mentes, poderemos acabar tornando nossa filosofia semelhante à de Epicteto e outros estóicos, ou seja, simplesmente um sistema mais refinado de egoísmo

Há no entanto uma espécie de filosofia que parece pouco sujeita a esse inconveniente, pois não se harmoniza com nenhuma paixão desordenada da mente humana, nem se mistura, ela própria, a nenhuma afecção ou inclinação naturais; essa é a filosofia acadêmica ou cética.” “uma filosofia como essa é o que há de mais contrário à indolência acomodada da mente, sua arrogância irrefletida, suas grandiosas pretensões e sua credulidade supersticiosa.” “Surpreende que essa filosofia – que em quase todas as ocasiões deve mostrar-se inofensiva e inocente – seja objeto de tantas censuras e reprovações infundadas.”

Parte 2

Segue-se uma clássica crítica do catolicismo por parte de um inglês protestante do século XVIII.

nossas emoções são mais fortemente despertadas quando vemos os locais que se diz terem sido freqüentados por homens ilustres do que quando ouvimos contar seus feitos ou lemos seus escritos. É assim que me sinto agora. Vem-me à mente Platão, de quem se diz ter sido o primeiro a entreter discussões neste lugar [a Academia de Atenas], e de fato o pequeno jardim acolá não apenas traz sua memória mas põe, por assim dizer, o próprio homem diante de meus olhos. E aqui está Espêusipo, aqui Xenócrates e seu discípulo Polemo, que costumava ocupar o próprio assento que ali vemos. E mesmo nosso edifício do Senado (refiro-me à Cúria Hostília, não ao novo edifício, que me parece ter-se tornado menor depois da ampliação)¹ trazia-me ao pensamento os vultos de Cipião, Catão, Lélio e principalmente de meu avô. Tal é o poder de evocação que reside nos locais, e não é sem razão que neles se baseia a arte da mnemônica.” Marco Piso

¹ Os homens são rabugentos e apegados ao passado em todas as eras.

Suponhamos que nos fosse apresentado o filho de um amigo há muito tempo morto ou ausente; é claro que esse objeto faria instantaneamente reviver sua idéia correlativa e traria a nossos pensamentos todas as lembranças dos momentos íntimos e familiares do passado, em cores mais vívidas do que de outro modo nos teriam aparecido. Eis aqui outro fenômeno que parece comprovar o princípio já mencionado.”

A influência do retrato supõe que acreditemos que nosso amigo tenha alguma vez existido. A contiguidade ao lar não poderia excitar as idéias que temos dele a menos que acreditemos que realmente exista.”

Não é verdade que, quando uma espada é empunhada contra meu peito, a idéia do ferimento e da dor me afeta mais fortemente do que quando me é oferecida uma taça de vinho, mesmo que tal idéia viesse por acidente a ocorrer-me quando do aparecimento desse último objeto?” Aonde você quer chegar, meu caro?

Assim como a natureza ensinou-nos o uso de nossos membros sem nos dar o conhecimento dos músculos e nervos que os comandam, [?] do mesmo modo ela implantou em nós um instinto que leva adiante o pensamento em um curso corresponde ao que ela estabeleceu para os objetos externos, [??] embora ignoremos os poderes e as forças dos quais esse curso e sucessão regulares de objetos totalmente depende. [!]”

[?] E quem é esta natureza, ente transcendental de seu sistema?

[??] “Implantaram-nos” instintos (voz passiva) que levam adiante pensamentos relativos a objetos exteriores? Características inatas cujo objetivo mesmo é lidar com o contingente? Mal-formulado!

[!] Finalmente uma afirmação competente no parágrafo – porém só mostra a vaidade da “filosofia cética”…

SEÇÃO 6. DA PROBABILIDADE

Embora não haja no mundo isso que se denominou acaso

SEÇÃO 7. DA IDÉIA DE CONEXÃO NECESSÁRIA

Parte 1

Na realidade, dificilmente se encontrará em Euclides uma proposição tão simples que não contenha mais partes do que se pode encontrar em qualquer raciocínio moral que não enverede pela fantasia e presunção.” “Como a filosofia moral [A] parece ter recebido até agora menos aperfeiçoamentos que a geometria ou a física, podemos concluir que, se há alguma diferença a esse respeito entre essas ciências, as dificuldades que atravancam o progresso da 1ª requerem maior cuidado e aptidão para serem sobrepujadas.

Não há, entre as idéias que ocorrem na metafísica, [B] outras mais incertas e obscuras que as de poder, força, energia ou conexão necessária, das quais nos é forçoso tratar a cada instante em todas as nossas investigações.” E no entanto, nada há de mais certo que a existência e ubiqüidade mesmo desse poder.

O cenário do universo está em contínua mutação, e os objetos seguem-se uns aos outros em sucessão ininterrupta, mas o poder ou força que põe toda essa máquina em movimento está completamente oculto de nossa vista e nunca se manifesta em nenhuma das qualidades sensíveis dos corpos.”

Pode-se dizer que a todo instante estamos conscientes de um poder interno, quando sentimos que, pelo simples comando de nossa vontade, podemos mover os órgãos de nosso corpo ou direcionar as faculdades de nosso espírito. Um ato de volição produz movimento em nossos membros ou faz surgir uma nova idéia em nossa imaginação. Essa influência da vontade nos é dada a conhecer pela consciência. Dela adquirimos a idéia de poder ou energia, e ficamos certos de que nós próprios e todos os outros seres inteligentes estamos dotados de poder. Essa idéia, então, é uma idéia de reflexão, dado que a obtemos refletindo sobre as operações de nossa própria mente e sobre o comando que a vontade exerce tanto sobre os órgãos do corpo como sobre as faculdades da alma.”

Essa influência, observa-se, é um fato que, como todos os outros acontecimentos naturais, pode ser conhecido apenas pela experiência” “a energia pela qual a vontade executa uma tão extraordinária operação, tudo isso está tão longe de nossa consciência imediata que deve para sempre escapar às nossas mais diligentes investigações.” Touché!

Se estivesse em nosso poder remover montanhas por um recôndito desejo, ou controlar os planetas em suas órbitas, essa vasta autoridade não seria mais extraordinária nem estaria mais distante de nossa compreensão.”

deveríamos conhecer a união secreta entre a alma e o corpo e a natureza dessas 2 substâncias que torna uma delas capaz de operar sobre a outra em um número tão grande de casos.”

Por que a vontade tem uma influência sobre a língua e os dedos, mas não sobre o coração e o fígado?” Curiosidade de colegial…

aprendemos em anatomia que o objeto imediato do poder no movimento voluntário não é o próprio membro movido, mas certos músculos, nervos, e espíritos animais, [?] ou talvez algo ainda mais minúsculo e mais desconhecido, através dos quais o movimento sucessivamente se propaga antes de atingir propriamente o membro cujo movimento é o objeto imediato da volição.” Então estávamos ou estamos inclusive hoje, antes das próximos descobertas, experimentando tudo errado, senhor?

O que ocorre aqui é que a mente executa um ato da vontade que tem como objeto um certo acontecimento e imediatamente se produz um outro acontecimento que nos é desconhecido e difere totalmente daquele que se tencionava produzir. E esse acontecimento produz outro, também desconhecido, até que, por fim, após uma longa sucessão, produz-se o acontecimento desejado.”

nossa idéia de poder não é copiada de nenhum sentimento ou consciência de poder que porventura experimentemos em nosso interior ao darmos início ao movimento animal ou empregarmos nossos membros nos usos e afazeres que lhes são próprios.” “Este nisus, ou esforço intenso do qual estamos conscientes, é a impressão original da qual essa idéia é copiada. Mas, em 1º lugar, atribuímos poderes a um vasto número de objetos com referência aos quais não é lícito supor a ocorrência de tal resistência ou exercício de força: ao Ser Supremo, que nunca depara com nenhuma resistência (…) Em segundo lugar, esse sentimento de um esforço para sobrepujar uma resistência não tem conexão conhecida com nenhum acontecimento (…) não poderíamos sabê-lo a priori.” “O que se tem aqui é uma genuína criação: a produção de alguma coisa a partir do nada”

Nossa autoridade sobre os nossos sentimentos e paixões é muito mais tênue que sobre nossas idéias, e mesmo esta última autoridade está circunscrita a limites bem estreitos. Quem pretenderá indicar a razão última?” Hume já sente a ponta do iceberg do niilismo…

Dominamos melhor nossos pensamentos pela manhã do que à noite”

IN COVID TIMES… “É só com a descoberta de fenômenos extraordinários como terremotos, peste e prodígios de qualquer outro tipo que a gente comum se sente incapaz de indicar uma causa adequada e de explicar o modo pelo qual o efeito é produzido por ela. É comum que pessoas em tais dificuldades recorram a algum princípio inteligente invisível (deus ex machina) como causa imediata do acontecimento que as surpreende e que elas julgam não mais poder ser explicado pelos poderes usuais da natureza.”

Aqui, então, muitos filósofos sentem-se obrigados pela razão a recorrer, em todas as ocasiões, ao mesmo princípio que o vulgo não emprega a não ser em casos que parecem miraculosos ou sobrenaturais.”

Nossa linha é demasiado curta para sondar abismos tão imensos.”

Nunca foi intenção de sir Isaac Newton destituir as causas segundas¹ de toda sua força ou energia, embora alguns de seus seguidores tenham se esforçado para estabelecer essa teoria valendo-se de sua autoridade. Pelo contrário, aquele grande filósofo [hm] lançou mão de um fluido ativo etéreo para explicar sua atração universal, embora tenha sido suficientemente cauteloso e modesto para admitir que se tratava de mera hipótese sobre a qual não se deveria insistir sem mais experimentos.² (…) Descartes sugeriu aquela doutrina da eficácia única e universal da Divindade, sem nela insistir. Malebranche e outros cartesianos tornaram-na o fundamento de toda sua filosofia.”

¹ Lei de causalidade, gravitação, etc.!

² O que desagradou os positivistas de então é que ele recuou demais: escolasticamente, atribuiu tudo a Deus! Laplace (da geração seguinte a Hume) refutaria o deísmo newtoniano com leis mais abrangentes sobre o sistema solar inteiro (avanço da matemática no período).

Parte 2

Todos os acontecimentos parecem inteiramente soltos e separados. Um acontecimento segue outro, mas jamais nos é dado observar qualquer liame entre eles. Eles parecem conjugados, mas nunca conectados. E como não podemos ter nenhuma idéia de uma coisa que nunca se apresentou ao nosso sentido exterior ou sentimento interior, a conclusão inevitável parece ser que não temos absolutamente nenhuma idéia de conexão ou de poder, e que essas palavras acham-se totalmente desprovidas de significado quando empregadas tanto no raciocínio filosófico quanto na vida ordinária.” “ele agora sente que esses acontecimentos estão conectados em sua imaginação”

SEÇÃO 8. DA LIBERDADE E NECESSIDADE

Parte 1

Espero tornar evidente que todos os homens sempre concordaram tanto sobre a doutrina da necessidade quanto sobre a da liberdade, em qualquer sentido razoável que se possa dar a esses termos, e que toda a controvérsia girou até agora meramente em torno de palavras.”

Quer-se conhecer os sentimentos, inclinações e modo de vida dos gregos e romanos? Estude-se bem o temperamento e a as ações dos franceses e ingleses” Far-fetched!

a terra, a água e outros elementos examinados por Ar. e Hipócrates não se assemelham mais aos que estão presentemente dados à nossa observação do que os homens descritos por Políbio e Tácito assemelham-se aos que agora governam o mundo.”

A veracidade de Quinto Cúrcio é tão suspeita quando descreve a coragem sobrenatural de Alexandre que o impelia a atacar sozinho multidões, como quando descreve sua força e atuação sobrenaturais que o tornavam capaz de resistir a essas mesmas multidões.”

A necessidade de qualquer ação, quer da matéria quer da mente, não é, propriamente, uma qualidade que esteja no agente, mas em um ser qualquer, dotado de pensamento e intelecto, que possa observar a ação; e consiste principalmente no fato de seus pensamentos estarem determinados a inferir a existência daquela ação a partir de alguns objetos precedentes”

sentimos que a vontade se move facilmente em todas as direções e produz uma imagem de si própria (ou uma veleidade, como se diz nas escolas) mesmo naquele lado no qual não veio a se fixar.”

Parte 2

(…)

SEÇÃO 9. DA RAZÃO DOS ANIMAIS

E não é igualmente a experiência que o faz até mesmo responder a seu nome e inferir, a partir desse som arbitrário, que referimo-nos a ele e não a algum outro de seus companheiros, e que o estamos chamando quando pronunciamos esse som de uma certa maneira e com um certo tom e inflexão?”

Formular máximas gerais a partir de observações particulares é uma operação muito delicada, e nada é mais usual do que enganar-se nessa atividade, pela pressa ou por uma estreiteza da mente que não examina a questão sob todos os seus ângulos.” Procedimento muito corriqueiro na Filosofia A.

SEÇÃO 10. DOS MILAGRES

Parte 1

a evidência que temos para a veracidade da religião cristã é menor que a evidência para a veracidade de nossos sentidos, porque já não era maior que esta nem mesmo nos primeiros autores de nossa religião, devendo certamente diminuir ao passar deles para seus discípulos, e ninguém pode depositar nos relatos destes tanta confiança quanto no objeto imediato de seus sentidos.” “Nada é tão convincente quanto um argumento conclusivo dessa espécie, que deve no mínimo silenciar o fanatismo e a superstição mais arrogantes e livrar-nos de suas exigências descabidas.”

Não fosse a memória dotada de um certo grau de obstinação, não se inclinassem comumente os homens à verdade e a um princípio de probidade, não fossem eles sensíveis à vergonha de serem apanhados mentindo, se estas qualidades, eu digo, não fossem reveladas pela experiência como inerentes à natureza humana, então não teríamos por que depositar a menor confiança no testemunho humano. Um homem que delira, ou é famoso pela sua falsidade e baixeza, não tem perante nós a menor autoridade.” Vivo no século do vil delírio.

A razão pela qual damos algum crédito a testemunhas e historiadores não deriva de qualquer conexão que percebamos a priori entre o testemunho e a realidade, mas de estarmos acostumados a encontrar uma concordância entre essas coisas.”

Eu não acreditaria em tal história, ainda que ela me fosse contada pelo próprio Catão, era um dito proverbial em Roma.”

Raciocinava corretamente o príncipe indiano que se recusou a acreditar nos primeiros relatos acerca dos efeitos do congelamento; e seria naturalmente necessário um testemunho muito poderoso para fazê-lo admitir fatos que decorrem de uma condição da natureza com a qual ele não estava familiarizado e que apresentavam tão pouca analogia com os acontecimentos dos quais tinha tido experiência constante e uniforme.”

Parte 2

não se encontra em toda a história nenhum milagre atestado por um número suficiente de homens de bom senso, educação e saber tão inquestionáveis que nos garantam contra toda possibilidade de estarem eles próprios enganados; de integridade tão indubitável que os coloque acima de qualquer suspeita de pretenderem iludir outros; de tal crédito e reputação aos olhos da humanidade que tenham muito a perder no caso de serem apanhados em qualquer falsidade; e, ao mesmo tempo, que atestem fatos realizados de maneira tão pública e em uma parte do mundo tão conhecida que não se pudesse evitar o desmascaramento.”

os efeitos que com muita dificuldade um Túlio ou um Demóstenes poderia obter sobre uma platéia romana ou ateniense, qualquer capuchinho, qualquer mestre itinerante ou estabelecido pode alcançar sobre o grosso da humanidade, e num grau mais elevado, manipulando essas paixões rudes e vulgares.”

nem bem 2 jovens de mesma condição vêem-se por duas vezes e a vizinhança inteira já os une imediatamente por casamento.”

Quando examinamos as histórias primevas de todas as nações, sentimo-nos como que transportados a algum mundo novo, no qual todo o arcabouço da natureza se acha desarticulado, e cada elemento realiza suas operações de uma maneira diferente da que o faz presentemente.”

nem sempre ocorre que todo Alexandre depare com um Luciano pronto a denunciar e desmascarar suas imposturas.” Personagens desconhecidos.

Um dos mais bem-atestados milagres em toda a história profana é aquele que Tácito conta de Vespasiano, que curou um cego em Alexandria por meio de sua saliva e um coxo com o simples toque de seu pé, em obediência a uma visão que estes tiveram do deus Serápis, o qual lhes ordenara recorrer ao imperador para obter essas curas milagrosas. Além disso, Suetônio oferece quase o mesmo relato em sua Vida de Vespasiano.” “Tácito era um autor contemporâneo aos fatos, famoso pela sinceridade e fidedignidade e, além disso, o maior e mais penetrante gênio, talvez, de toda a Antiguidade” “as testemunhas oculares do fato continuaram a confirmar seu depoimento depois que a família dos Flávios foi despojada do império e não poderia mais oferecer recompensas em troca de uma mentira.”

A sabedoria, inteligência e honradez dos cavalheiros e a austeridade das freiras de Port-Royal têm sido muito louvadas por toda a Europa. E, contudo, todos eles depõem em favor de um milagre acontecido à sobrinha do famoso Pascal, cuja santidade de vida e extraordinária capacidade são bem-conhecidas. [A sobrinha de Pascal escreveu-lhe a biografia] O famoso Racine relata esse milagre em sua famosa história de Port-Royal, e a reforça com todas as provas que uma multidão de freiras, padres, médicos e homens da sociedade – todos eles de crédito inquestionável – puderam conferir a ele. Diversos homens de letras, particularmente o bispo de Tournay, consideraram esse milagre tão genuíno a ponto de empregá-lo na refutação de ateístas e livres-pensadores. A rainha-regente da França, que alimentava imensa hostilidade contra Port-Royal, enviou seu médico particular para investigar o milagre, o qual retornou absolutamente convertido. Em resumo, a cura sobrenatural era tão incontestável que salvou por um tempo o famoso monastério da ruína com a qual os jesuítas o ameaçavam. Se tivesse sido um logro [e não um autologro], teria sido certamente detectado por antagonistas tão sagazes e poderosos, e deveria ter apressado a ruína dos perpetradores. Nossos teólogos, capazes de construir um castelo formidável com materiais tão insignificantes, que prodigiosa estrutura não teriam erguido com todas essas circunstâncias e muitas outras que não mencionei! Quão freqüentemente teriam os grandes nomes de Pascal, Racine, Arnaud, Nicole ressoado em nossos ouvidos? Mas, se forem sábios, é melhor que adotem o milagre por ser mil vezes mais valioso que todo o restante de sua coleção.” Hume já estava tão cansado de contar ‘causos’ numa nota de rodapé que ocupa 4 páginas que até abandonou o relato a meio caminho!

Nos primórdios das novas religiões, os sábios e instruídos comumente julgam que o assunto é demasiado insignificante para merecer seu cuidado e atenção. E quando mais tarde se interessam em desmascarar a fraude para abrir os olhos à multidão iludida, a hora certa já passou e os registros e testemunhas, que poderiam esclarecer a questão, estão para sempre perdidos.”

A autoridade do testemunho humano provém apenas da experiência, mas é essa mesma experiência que nos assegura sobre as leis da natureza. Quando, portanto, esses 2 tipos de experiência se opõem, nada nos resta a fazer senão subtrair um do outro, e abraçar uma opinião, seja de um lado, seja de outro, com a confiança que o resíduo pode produzir. Mas, de acordo com o princípio aqui explicado, essa subtração, no que diz respeito a todas as religiões populares, equivale a uma completa aniquilação, e podemos estabelecer, portanto, como uma máxima, que nenhum testemunho humano pode ter força suficiente para provar um milagre e torná-lo uma genuína fundação para qualquer sistema religioso dessa espécie.”

Embora o Ser ao qual o milagre é atribuído seja Todo-poderoso, o fato não se torna por isso minimamente mais provável, dado que nos é impossível conhecer os atributos ou ações de um tal Ser, a não ser pela experiência que temos de suas operações no curso usual da natureza.”

Devemos fazer uma coleção ou história particular de todos os monstros e produções ou nascimentos prodigiosos, e, em suma, de todas as coisas novas, raras e extraordinárias na natureza. Mas esse exame deve ser feito com o máximo rigor, para não nos afastarmos da verdade. Acima de tudo, todos os relatos que dependem em algum grau da religião devem ser considerados suspeitos, como os prodígios de Lívio. E no mesmo grau todas as coisas que se encontram nos escritos de magia natural ou alquimia, ou em autores que parecem todos dotados de insaciável apetite por mentiras e fábulas.” Bacon, Novum Organum, II

Para isso, teremos então de considerar inicialmente um livro que recebemos de um povo bárbaro e ignorante, escrito numa época em que eram ainda mais bárbaros e, muito provavelmente, longo tempo depois dos fatos nele narrados, um livro que não conta com a corroboração de nenhum testemunho concordante e que se assemelha aos relatos fabulosos que todas as nações fazem de suas origens.”

todo aquele que aceita a religião cristã movido pela está consciente de um permanente milagre em sua própria pessoa, milagre esse que subverte todos os princípios de seu entendimento e o faz acreditar no que há de mais oposto ao costume e à experiência.” Tão kierkegaardiano!

SEÇÃO 11. DE UMA PROVIDÊNCIA PARTICULAR E DE UM ESTADO VINDOURO

exceto pelo banimento de Protágoras e a morte de Sócrates – este último evento resultou parcialmente de outros motivos –, dificilmente se encontram, na história antiga, exemplos desse zelo fanático que tanto infesta a época presente. Epicuro viveu em Atenas até idade provecta, gozando de paz e tranqüilidade, e os epicuristas foram mesmo admitidos ao sacerdócio e oficiaram, diante do altar, os ritos mais sagrados da religião estabelecida. E o encorajamento público dos estipêndios e remunerações foi concedido igualmente, pelos mais sábios dos imperadores romanos, aos seguidores de todas as seitas filosóficas.” Cf. Luciano, O Banquete, Os Lápitas e O Eunuco. Este é o mesmo Luciano acima que “desmistificou” o homem Alexandre, O Grande?

SEÇÃO 12. DA FILOSOFIA ACADÊMICA OU CÉTICA

Parte 1

Não há maior número de raciocínios filosóficos desenvolvidos sobre um assunto qualquer do que aqueles que provam a existência de uma Divindade e refutam as falácias dos ateístas; e, contudo, os filósofos religiosos continuam debatendo se algum homem pode ser tão cego a ponto de ser um ateísta especulativo. Como poderíamos reconciliar essas contradições?”

que se entende por um cético?”

A dúvida cartesiana, portanto, se fosse alguma vez capaz de ser atingida por qualquer criatura humana (o que obviamente não é), seria totalmente incurável, e nenhum raciocínio poderia jamais levar-nos a um estado de segurança e convencimento acerca de qualquer assunto.

Deve-se confessar, contudo, que essa espécie de ceticismo, quando exercida com mais moderação, pode ser entendida em um sentido muito razoável, e constitui um preparativo necessário para o estudo da filosofia”

Com efeito: ironicamente, Descartes foi muito mais cético que Hume, “o cético”!

Até mesmo nossos próprios sentidos são postos em questão por uma certa espécie de filósofos, e as máximas da vida ordinária são sujeitas à mesma dúvida que os mais profundos princípios ou conclusões da metafísica e teologia. Como essas doutrinas paradoxais podem ser encontradas em alguns filósofos, e sua refutação em diversos outros, elas naturalmente excitam nossa curiosidade”

* * *

[POST SEPARADO] INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA HUME-KANTIANA

HUME ESTÁ PARA KANT COMO FEUERBACH ESTÁ PARA MARX: “sempre supomos um universo externo que não depende de nossa percepção, mas existiria ainda que nós a todas as outras criaturas sensíveis estivéssemos ausentes ou fôssemos aniquilados.”

Ainda com mais detalhes: Hegel Feuerbach (compreende Hegel, incapaz de prosseguir) Marx (compreende Hegel, compreende as falhas de Fuerbach, prossegue); Platão Hume (compreende a Idéia ou Representação, incapaz de prosseguir) Kant (criticismo kantiano ao estabelecer o a priori do espaço-tempo que leva em conta Platão e corrige as falhas de Hume).

Base de Hume:

instintos (naturalismo)

sentidos – sistema dos sentidos

ceticismo – crítica dos instintos e dos sentidos, sistema aperfeiçoado dos sentidos

[A filosofia] não pode mais recorrer ao instinto infalível e irresistível da natureza (naturalismo, mera noção enganosa ou antes verificada como impossível de ser alcançada através da ‘equipagem’ do ser humano no mundo), pois tal caminho nos conduz a um sistema completamente diferente, que se demonstrou falível e mesmo enganoso.” Refutação do naturalismo e do idealismo cartesiano, duas correntes de pensamento filosóficas – ambas refutáveis já por suas contrárias através de ceticismos incompletos ou parciais. “E justificar esse pretenso sistema filosófico por uma série de argumentos claros e convincentes, ou sequer por algo que se assemelhe a um argumento, é algo que está fora do alcance de toda a capacidade humana.” Descoberta de que a raiz da imperfeição tanto do naturalismo quanto do pseudo-ceticismo cartesiano são a mesma: o racionalismo, ou a fé na razão, que os primeiros filósofos da modernidade elevaram a uma categoria superior aos instintos e aos sentidos, mas que é mera ficção ou arbitrariedade, i.e., apresenta um conteúdo vazio, contaminado pelos próprios instintos e sentidos de maneira inconsciente (nestes filósofos, cujo ceticismo, grande ferramenta da filosofia, deixava a desejar).

Por qual argumento se poderia provar que as percepções da mente [sentidos e raciocínios] devem ser causadas por objetos externos inteiramente distintos delas, embora a elas assemelhados (se isso for possível), e não poderiam provir, seja da energia da própria mente, (I) seja da sugestão de algum espírito invisível e desconhecido, seja de alguma outra causa que ignoramos ainda mais?” (II) Começo da compreensão da dialética interior-exterior. Sujeito e objeto são díspares. Porém categorias os intersecionam num uno: cores e formas. A mente e uma mesa são objetos materiais, vermelhos, marrons, brancos, pouco importa, sólidos, etc. (I) é uma alusão avant la lettre a um tipo de solipsismo: conjetura-se: e se… todos os objetos exteriores que apreendemos são apenas criações nossas? Despidas de materialidade, apenas ilusões. Evocação do mito da caverna, do ainda-por-vir criticismo kantiano e das próprias considerações de uma filosofia ainda mais tardia a Hume e Kant eles mesmos, i.e., a fenomenologia do século XX, em que – com a ajuda manifesta de Kant – entendemos os fenômenos como aparências e ao mesmo tempo como nossa realidade relativa (posto descartar-se um absoluto). O (II) seria uma alusão direta à Coisa-Em-Si de Kant. Uma causa que está além do homem, e que incita à metafísica, ou seja, a meras especulações, sem poder ser refutada ou provada. “Reconhece-se, de fato, que muitas dessas percepções não surgem de nada exterior, como nos sonhos, na loucura e em outras enfermidades. E nada pode ser mais inexplicável que a maneira pela qual um corpo deveria operar sobre a mente para ser capaz de transmitir uma imagem de si mesmo a uma substância que se supõe dotada de uma natureza tão distinta e mesmo oposta.” Assunção humeana de corpo e mente como instâncias irrevocavelmente separadas. O corpo representa, nesta instância, os sentidos. A mente a capacidade de abstração. Que a substância? A matéria cinzenta, o cérebro, nosso sistema cognitivo. Sentidos e razão não possuem qualquer coincidência entre si. Nenhum pode sobrepor o outro, ambos são sempre contraditos e contradizem o outro, mas isto, esta conjugação paradoxal, é o homem. Nós sequer possuímos uma “imagem objetiva” de nosso próprio corpo, seja internamente seja externamente. Ex: não sabemos a priori como são nossas entranhas e como funcionam nossos sistemas biológicos como o digestório-excretório, o circulatório, o respiratório, etc., antes de uma investigação racional sobre tais temas. A mente também não pode comunicar conceitos ao corpo, e ela mesma não se conhece fisicamente ou, como queira, no nível espiritual, de forma objetiva, dadas nossas limitações. Não há uma instância maior-que-o-real a que se possa recorrer para arbitragem imparcial de todo esse impasse: no sonho, basta que se acorde. A causa está fora do sonho, por isso o sonho pode ser objeto de investigação. Na loucura, o louco não pode investigar-se, mas pode ser objeto de estudo. O homem, o filósofo, não pode investigar-se e investigar o mundo da mesma forma como o sonhador investiga o sonho e a medicina investiga o paciente. Neste caso, estamos dentro de um sonho, chamado mundo, e somos portadores de monomanias ou loucuras parciais que não podemos exatamente explicar ou esclarecer. Eis o que se pode construir contra todo ceticismo esclarecido. Nossos limites epistemológicos.

PERGUNTA – É uma questão de fato se as percepções dos sentidos são produzidas por objetos externos a elas assemelhadas – como se decidirá esta questão?”

Nossos olhos enxergam outras matérias porque são matéria também (idênticas, em última instância, ao que observam), ou nossa visão (sentido) cria a matéria tal qual a observamos? Neste estágio, Hume está em um problema de “o ovo ou a galinha”, a que não tem certeza a qual concede prioridade causal. Tal debate parece hoje inocente, mesmo da perspectiva epistemológica. Até por isso é necessário esclarecer o leitor, no entanto, que tampouco fala-se aqui da investigação física sobre o fenômeno da visão (já que usamos presentemente este sentido, aquele que é mais explorado pela filosofia ocidental, em detrimento do tato, paladar, audição e olfato), que até a época de Hume não estava esclarecido na base atual (a resposta encontrando-se na luz em interação tanto com a retina humana quanto com o objeto). Não é este “ângulo cru” que interessa neste livro de Hume. Ele está, ao invés, a se perguntar: que é a verdade, qual é o fundamento do real? Essas mesmas perguntas, repito, são para nós inocentes, pois a filosofia pós-kantiana decidiu-se sobre esse aspecto, sem recorrer quer ao ovo, quer a galinha, no que ficou conhecida como a síntese kantiana (ou ainda crítica, simplesmente) das correntes filosóficas importantes que o precederam. Não é dada primazia à faculdade do olho (uma câmera senciente, por assim dizer, i.e., uma câmera ligada a um sistema nervoso) nem à dos objetos, mas sim ao caráter relativista da apreensão do mundo inerente ao ser humano e ao ‘fenômeno’, conceito que detalharemos mais a seguir.

Nem existe nada de que se possa falar que seja externo ao ser (um cogitado real ou coisa-em-si), nem é o sentido do ser que cria ilusões sensórias em detrimento de acessar uma suposta realidade não-sensível, independente (o que poderíamos, hoje, tanto chamar de coisa-em-si – de novo – como de absurdo). O ser é a própria realidade que observa; a mesa, a luz, o olho humano são fenômenos (aparências), única forma da realidade regida pelo tempo-espaço, nosso único modo de vivência. Nosso corpo e mente não se encontram cingidos à maneira humeana no sistema kantiano, posto que enquanto fenômeno eternamente aparente (ou seja, em modificação) ele é em si a elucidação dos conceitos de espaço e de tempo, conteúdo e forma e sua variação, que estão embutidos em nossos instintos, sentidos e cognição (se desdobra num e noutro desde que existe, até que deixe de existir). A realidade é relativa ao indivíduo porque dois corpos não podem ser conhecidos ao mesmo tempo da mesma perspectiva, nem ‘no mesmo espaço’, sendo cada apreensão fenomênica um ‘caso isolado’ na perspectiva de um só indivíduo ou de vários. Se Hume ainda falava de um Absoluto, mas ao mesmo tempo defendia haver uma impossibilidade prática de acessá-lo, Kant, na medida em que não trata da coisa-em-si de forma moral (na Crítica da Razão Pura Prática, abordagem que não nos interessa nesta epistemologia humeana), dispensa o absoluto, ao tempo em que, justamente, o conserva, somente que sob a forma do fenômeno (que não conhece distinção sujeito-objeto), único absoluto de seu sistema.

RESPOSTA – Pela experiência.”

Como Hume não segue pela senda kantiana, ele entende que o real (o fenômeno) possa ser paulatinamente investigado pela experiência (“sentidos acumulados”, “sentidos orientados pela razão”, “razão orientada pelos sentidos” até, como queiram – também “memória”).¹ Sucede que, na fenomenologia póstuma chega-se ao veredito: a experiência humana não “acumula” fatores necessários para o entendimento da própria experiência ou do real, como diz Hume, simplesmente porque os fatores necessários são tempo e espaço,¹ que é inerente ao ser enquanto ser (e a única manifestação do ser é através do devir fenomenológico). Em outros termos, Hume procura uma solução que já estava solucionada, sendo sua investigação tautológica ou até mesmo pré-tautológica, contraproducente e falsificadora (já que podemos entender o mundo dos fenômenos como a tautologia ela mesma).

¹ Como esta é uma INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA destes dois autores, achei por bem não complicar a exposição logo de início com um último fator enunciado por Kant na sua primeira Crítica que completa um “tripé de fundamentos”. Se possível gostaria de ter deixado esta parte fora, mas como Hume, a dado ponto das Investigações cita a própria “memória” e o termo que aqui é conveniente citar, i.e., “aprendizado das causas e efeitos”, vejo que ao menos dessa nota de rodapé o “terceiro elemento” da tríade kantiana deve constar, embora a explanação seja auto-suficiente recorrendo-se estritamente a tempo e espaço. O fator que explica a memória e o acúmulo de experiências, no sistema kantiano, é o princípio inato de apreensão de causa-efeito; se já não fôssemos equipados desta intuição elementar, a própria passagem do tempo ou as mudanças do espaço (que são, em realidade, um único fenômeno que se separa na expressão da linguagem) não seriam apreensíveis, o que demoliria todo o sistema. E na verdade quando falamos em espaço e em tempo já intuímos, por assim dizer, noções como e hegemonia de causas e efeitos no real ou nos fenômenos. Nosso próprio conceito ou abstração do que seria nossa memória envolve um recipiente, um contêiner, uma caixa, por exemplo, extensa e tridimensional, finita, capaz de armazenar, em diferentes etapas e períodos, informações, sendo que esta caixa nunca nos parecerá totalmente vazia nem cheia, embora intuamos naturalmente suas limitações – ainda que nem evoquemos aqui o esquema de um cérebro esta imagem inocente da caixa já é o suficiente; o cérebro que, antes de dissecar um corpo, um ser humano não conhece em sua aparência nem em outros atributos (o mesmo que se poderia dizer do intestino, p.ex.) a não ser pela educação ou instrução, direta ou indireta, por seres humanos que obtiveram estes dados no passado, i.e., numa palavra, pela razão. Em suma, a noção de causa-efeito nada mais é do que a articulação lógica que possibilita nossa compreensão (inata) de tempo e espaço como fundamentos do real e articulados em unidade regendo todos os fenômenos.

Recorrer à veracidade do Ser supremo para provar a veracidade de nossos sentidos é, certamente, tomar um caminho muito inesperado.” Desta vez Hume está certo, e o próprio Kant, na Crítica da Razão Pura Prática, continuação moral de sua clássica e inauguradora Crítica da Razão Pura, retrocedeu e recaiu no próprio erro que já havia superado anos antes: atribuiu ao Ser supremo mediado pela ética cristã no mundo fenomênico o fundamento de nossa conduta social. Ele fez isso porque não encontrou outra solução metodológica para o dilema moral que suas conclusões no primeiro livro traziam: a queda no niilismo desenfreado, uma vez que os fenômenos são relativos e, portanto, realidades últimas individualmente falando. Faltava a explicação de como é possível a ética, isto é, a ação-no-mundo de forma que fosse possível a vida estabilizada em sociedade, fora da situação hipotética hobbesiana do estado de natureza (todos os homens contra todos os homens) e guiada por fins mais nobres do que a própria mundanidade fenomênica. Sua resposta bem conhecida é o enunciado do imperativo categórico. Sua premissa é válida para poucos séculos europeus de civilização cristã, ignorando portanto qualquer desenvolvimento histórico (a manifestação do Estado antes do modelo constitucional moderno, as civilizações anteriores, as civilizações não-européias e as civilizações póstumas, todas elas fenômenos transcendentais e estáveis, porém regidos por morais, culturas, religiões e códigos de ética alternativos ao tempo-espaço de Kant, i.e., o Estado de Direito cristão europeu do século XVIII). Kant retomaria uma epistemologia independente da coisa-em-si no seu terceiro trabalho clássico, a Crítica da Faculdade do Juízo, para explicar a possibilidade da Estética.

Este é um tópico, portanto, no qual os céticos mais profundos e mais filosóficos sempre haverão de triunfar quando se propuserem a introduzir uma dúvida universal em todos os objetos de conhecimento e investigação humanos.” No sentido aqui atribuído ao ceticismo, todos os trabalhos filosóficos ainda válidos para nossa própria idade foram efetivamente legados por indivíduos céticos, sem reparos.

É universalmente reconhecido, pelos modernos pesquisadores, que todas as qualidades sensíveis dos objetos, tais como o duro e o mole, o quente e o frio, o branco e o preto, etc., são meramente secundárias e não existem nos objetos eles mesmos, mas são percepções da mente que não representam nenhum arquétipo ou modelo externo. Se isso se admite com relação às qualidades secundárias, o mesmo deve igualmente seguir-se com relação às supostas qualidades primárias de extensão e solidez, as quais não podem ter mais direito a essa denominação que as anteriores. A idéia de extensão é inteiramente adquirida a partir dos sentidos da visão e do tato, e se todas as qualidades percebidas pelos sentidos estão na mente, não no objeto, a mesma conclusão deve alcançar a idéia de extensão, que é inteiramente dependente das idéias sensíveis, ou idéias de qualidades secundárias. Nada pode nos resguardar dessa conclusão a não ser declarar que as idéias dessas qualidades primárias são obtidas por abstração, uma opinião que, examinada cuidadosamente, revelar-se-á ininteligível e mesmo absurda. Uma extensão que não é nem tangível nem visível não pode ser minimamente concebida, e uma extensão visível ou tangível que não é nem dura nem mole, nem preta nem branca [Hume quis dizer: sem cor], está igualmente além do alcance da concepção humana. Que alguém tente conceber um triângulo em geral que não seja nem isósceles nem escaleno, nem tenha qualquer particular comprimento ou proporção entre seus lados, e logo perceberá o absurdo de todas as noções escolásticas referentes à abstração e às idéias gerais. (Em nota) Tomou-se de empréstimo esse argumento ao Dr. Berkeley; e, de fato, a maior parte dos escritos desse autor extraordinariamente habilidoso compõe as melhores lições de ceticismo que se pode encontrar entre os filósofos antigos ou modernos, incluindo Bayle. (…) Ele declara, entretanto, na folha de rosto (e sem dúvida com grande sinceridade), ter composto seu livro contra os céticos, bem como contra os ateus e os livres-pensadores. Mas todos os seus argumentos, embora visem a outro objetivo, são, na realidade, meramente céticos, o que fica claro ao se observar que não admitem nenhuma resposta e não produzem nenhuma convicção. Seu único efeito é causar aquela perplexidade, indecisão e embaraço momentâneos que são o resultado do ceticismo. [do filosofar]” Aqui Hume estava muito próximo de chegar ao criticismo kantiano, por exemplo. Diríamos que estava “quente”, mas que alguns parágrafos à frente “esfriou” de novo…

Parte 2

Pode parecer muito extravagante que os céticos tentem destruir a razão por meio de argumentos e raciocínios, contudo esse é o grande objetivo de todas as suas disputas e investigações.”

A principal objeção contra todos os raciocínios abstratos deriva das idéias de espaço e tempo; idéias que, na vida ordinária e para um olhar descuidado, passam por muito claras e inteligíveis, mas, quando submetidas ao escrutínio das ciências profundas (e elas são o principal objeto dessas ciências), geram princípios que parecem recheados de absurdos e contradições.” Significa: podemos abstrair inúmeras conclusões físico-matemática falsas acerca do espaço e do tempo, o que é o uso indiscriminado e mal-feito da razão, mas o que há de empírico e sensível no tempo e no espaço é irrefutável, indiscutível mesmo, ignorando e destruindo qualquer conceito ou abstração em última instância; daí ser fácil intuirmos por que espaço-tempo seja a base do kantismo: eis as noções mais imediatas e impregnadas no Ser, a condição de possibilidade de todos os fenômenos e representações.

Em mais algumas passagens de considerável extensão (!), Hume antecipa a eclosão, em um não-curto prazo, como a História verificou, dos famosos paradoxos das ciências exatas, principalmente na matemática pós-euclidiana, decorrente do próprio hiper-desenvolvimento e exaustão do modelo da geometria clássica, bem como podemos chamar já a matemática analítica (a álgebra), nascida aproximadamente com Descartes, do espelhamento desta situação, já adiantado, relativo à aritmética.

* * *

A grande destruidora do pirronismo, ou ceticismo de princípios excessivos, é a ação, e os afazeres e ocupações da vida cotidiana.”

Um seguidor de Copérnico, ou um de Ptolomeu, defendendo cada qual seu diferente sistema de astronomia, pode esperar produzir em sua audiência uma convicção que permanecerá constante e duradoura. Um estóico ou um epicurista expõem princípios que não apenas podem ser duradouros, mas também têm uma influência na conduta e nas maneiras. Mas um pirrônico não pode esperar que sua filosofia venha a ter alguma influência constante na mente humana; ou, se tiver, que essa influência seja benéfica para a sociedade. Ao contrário, ele deverá reconhecer – se puder – que toda vida humana seria aniquilada se seus princípios fossem adotados de forma constante e universal.” “Quando desperta de seu sonho, ele é o primeiro a rir-se de si mesmo e a confessar que suas objeções são puro entretenimento, e só tendem a mostrar a estranha condição da humanidade, que está obrigada a agir, a raciocinar e a acreditar sem ser capaz, mesmo pelas mais diligentes investigações, de convencer-se quanto às bases dessas operações ou de afastar as objeções que podem ser levantadas contra elas.”

Parte 3

Existe, com efeito, um ceticismo mais mitigado, ou filosofia acadêmica, que pode ser tanto útil quanto duradouro” O famoso ‘pra que arrumar a cama se vou dormir de novo ainda hoje?’.

Aqueles que têm propensão para a filosofia prosseguirão em suas pesquisas, porque ponderam que, em adição ao prazer imediato que acompanha essa ocupação, as decisões filosóficas nada mais são que as reflexões da vida ordinária, sistematizadas e corrigidas.”

Parece-me que os únicos objetos das ciências abstratas, ou objetos de demonstração, são a quantidade e o número, e que todas as tentativas para estender essa espécie mais perfeita de conhecimento além desses limites não passam de sofística e ilusionismo.”

Que o quadrado da hipotenusa é igual aos quadrados dos 2 outros lados, isso não pode ser conhecido, por mais exatamente que estejam definidos os termos, sem um processo de raciocínio e investigação.”

A ímpia máxima da filosofia antiga Ex nihilo, nihil fit (Do nada, nada procede), pela qual se negava a criação da matéria, deixa de ser uma máxima, de acordo com a presente filosofia.”

Os assuntos ligados à moral e à crítica são menos propriamente objetos do entendimento que do gosto e do sentimento. A beleza, quer moral ou natural, é mais propriamente sentida que percebida. Ou, se raciocinamos sobre ela, e tentamos estabelecer seu padrão, tomamos em consideração um novo fato, a saber, o gosto geral da humanidade ou algum outro fato desse tipo, que possa ser objeto do raciocínio e da investigação.” Longe de mim, ao demonstrar que a epistemologia kantiana é em síntese a superação da epistemologia humeana, rebaixar ou relegar Hume a um canto irrelevante da história dos pensadores. Nesta passagem, por exemplo, se vê com assaz clareza que Hume, apenas 13 anos mais velho que seu ainda mais celebrado “rival”, respirando a mesma cultura portanto, poderia muito bem ter sido o autor de todo o criticismo kantiano, se rumasse por veredas não muito distintas de seu próprio método, posto que essas linhas por si só contêm em germe não só as conclusões kantianas mais sublimes, como os postulados da primeira e da terceira Críticas, como até o sensato corretivo dos devaneios kantianos sobre a moral (segunda Crítica).

Quando percorrermos as bibliotecas, convencidos destes princípios, que devastação não deveremos produzir! Se tomarmos em nossas mãos um volume qualquer, de teologia ou metafísica escolástica, p.ex., façamos a pergunta: Contém ele qualquer raciocínio abstrato referente a números e quantidades? Não. Contém qualquer raciocínio experimental referente a questões de fato e de existência? Não. Às chamas com ele, então, pois não pode conter senão sofismas e ilusão.”

UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE OS PRINCÍPIOS DA MORAL

SEÇÃO 1. DOS PRINCÍPIOS GERAIS DA MORAL

é inútil esperar que qualquer lógica – que não se dirige aos afetos – seja jamais capaz de levá-los a abraçar princípios mais sadios.”

Por mais insensível que seja um homem, ele será freqüentemente tocado pelas imagens do certo e do errado, e, por mais obstinados que sejam seus preconceitos, ele deve certamente observar que outras pessoas são suscetíveis às mesmas impressões. O único modo, portanto, de converter um antagonista dessa espécie é deixá-lo sozinho.”

Os filósofos da Antiguidade, embora afirmem muitas vezes que a virtude nada mais é que a conformidade com a razão, parecem em geral considerar que a moral deriva sua existência do gosto e do sentimento.”

Extingam-se todos os cálidos sentimentos e propensões em favor da virtude, e toda repugnância ou aversão ao vício; tornem-se os homens totalmente indiferentes a essas distinções, e a moralidade não mais será um estudo prático nem terá nenhuma tendência a regular nossa vida e ações.”

Mas em muitas espécies de beleza, particularmente no caso das belas-artes, é preciso empregar muito raciocínio para experimentar o sentimento adequado, e um falso deleite pode muitas vezes ser corrigido por argumentos e reflexão. Há boas razões para se concluir que a beleza moral tem muitos traços em comum com esta última espécie, e exige a assistência de nossas faculdades intelectuais para adquirir uma influência apropriada sobre a mente humana.”

Dado que essa é uma questão factual e não um assunto de ciência abstrata, só podemos esperar obter sucesso seguindo o método experimental e deduzindo máximas gerais a partir de uma comparação de casos particulares.” Larochefoucauldismo

Os homens estão hoje curados de sua paixão por hipóteses e sistemas em filosofia natural, e não darão ouvidos a argumentos que não sejam derivados da experiência.” Que otimismo!

Já é tempo de que façam uma reforma semelhante em todas as investigações morais e rejeitem todos os sistemas éticos, por mais sutis e engenhosos, que não estejam fundados em fatos e na observação.”

SEÇÃO 2. DA BENEVOLÊNCIA

Parte 1

Os epítetos ‘sociável’, ‘de boa índole’, ‘humano’, ‘compassivo’, ‘grato’, ‘amistoso’, ‘generoso’, ‘benfazejo’, ou seus equivalentes, são conhecidos em todas as linguagens e expressam universalmente o mais alto mérito que a natureza humana é capaz de atingir.”

Uma elevada aptidão, uma coragem indomável, um sucesso florescente só podem expor um herói ou um político à inveja e má vontade do público; mas tão logo se acrescentem os louvores de humanitário e beneficente, tão logo sejam dadas demonstrações de brandura, enternecimento e amizade, a própria inveja se cala ou junta-se ao coro geral de aprovação e aplauso.”

Em homens de talentos e capacidades mais ordinários, as virtudes sociais (se é que isto é possível) são requeridas de forma ainda mais essencial, já que não há, nesses casos, nada que se sobressaia para compensar sua ausência ou para preservar a pessoa da mais profunda aversão ou desprezo.”

Deve-se de fato reconhecer que é apenas pela prática do bem que um homem pode verdadeiramente gozar das vantagens de ser eminente. Sua posição elevada, por si só, apenas o deixa mais exposto ao perigo e à tempestade.”

Parte 2

Plantar uma árvore, cultivar um campo, gerar filhos: atos meritórios, segundo a religião de Zoroastro.” Faltou um quarto ato: ler meu blog.

O ato de dar esmolas a pedintes vulgares é compreensivelmente elogiado, pois parece trazer alívio aos aflitos e indigentes; mas, quando observamos o encorajamento que isso dá à ociosidade e à devassidão, passamos a considerar essa espécie de caridade antes como uma fraqueza que uma virtude.”

O tiranicídio, ou assassinato de usurpadores e príncipes opressivos, foi sumamente enaltecido em tempos antigos porque livrou a humanidade desses monstros e parecia, além disso, impor o temor a outros que a espada ou o punhal não podiam alcançar. Mas como a história e a experiência desde então nos convenceram de que essa prática aumenta a suspeita e a crueldade dos príncipes, um Timoleão e um Bruto, embora tratados com indulgência em vista das predisposições de sua época, são hoje considerados como modelos muito impróprios para imitação.”

O luxo, ou refinamento nos prazeres e confortos da vida, foi durante muito tempo tomado como a origem de toda a corrupção no governo, e como a causa imediata de discórdia, rebelião, guerras civis e perda total de liberdade.”

SEÇÃO 3. DA JUSTIÇA

Parte 1

A água e o ar, embora sejam as mais necessárias de todas as coisas, não são disputados como propriedades de indivíduos, e ninguém comete injustiça por mais prodigamente que se sirva e desfrute dessas bênçãos.” Como Hume envelheceu mal nesses 250 anos!

Para quê erigir marcos limítrofes entre meu campo e o de meu vizinho se meu coração não fez nenhuma divisão entre nossos interesses, mas compartilha todas as suas alegrias e tristezas com a mesma força e vivacidade que experimentaria caso fossem originalmente as minhas próprias?”

O ANTI-HOBBES I: “Esta ficção poética de uma idade de ouro está, sob certos aspectos, em pé de igualdade com a ficção filosófica de um estado de natureza (…) Essa ficção de um estado de natureza como um estado de guerra não se iniciou com Thomas Hobbes, como se costuma imaginar (Leviatã, capítulo 13). Platão esforça-se para refutar uma hipótese muito semelhante a essa nos 2º, 3º e 4º livros da República. Cícero, ao contrário, toma-a como certa e universalmente admitida [Cícero é péssimo!]”

Pode-se com razão duvidar de que uma tal condição da natureza humana tenha jamais existido, ou, se existiu, que tenha durado por tanto tempo a ponto de merecer a denominação de um estado.”

Hume não pôde prever um direito dos animais (p. 125 do PDF, 251 da edição); mais, aliás: não pôde prever nem direitos dos povos autóctones! “A grande superioridade dos europeus civilizados em relação aos índios selvagens inclinou-nos a imaginar que estamos, perante eles, em idêntica situação [àquela dos homens com os animais], e fez com que nos desembaraçássemos de todas as restrições derivadas da justiça e mesmo de considerações humanitárias.” Em seguida, sobre a situação isenta de esperança da mulher! Segundo Hume, pela força bruta, o homem jamais perderia seus direitos exclusivos à propriedade, p.ex.; ocorre que o charme da mulher ‘democratizou’ tais relações. Nada, portanto, mais etno-antropo-androcêntrico que este parágrafo!

Parte 2

Fanáticos podem supor que o poder se funda na graça, e que somente os santos herdarão a terra, mas o magistrado civil muito corretamente põe esses sublimes teóricos em pé de igualdade com os assaltantes comuns e lhes ensina pela disciplina mais severa que uma regra que, do ponto de vista especulativo, parece talvez a mais vantajosa para a sociedade, pode revelar-se, na prática, totalmente perniciosa e destrutiva.”

PREFIGURAÇÕES DO SOCIALISMO: “Talvez os ‘Levellers’, que reclamavam uma distribuição igualitária da propriedade, tenham sido um tipo de fanáticos políticos que brotaram da espécie religiosa e confessavam mais abertamente suas pretensões, como tendo uma aparência mais plausível de poderem ser postas em prática e serem de utilidade para a sociedade humana.”

a mínima gratificação de um frívolo capricho de um indivíduo custa freqüentemente mais do que o pão de muitas famílias, e até de muitas províncias.” Cita Esparta como a república que teria realizado o ideal da igualdade sobre a terra. E em seguida: “Sem mencionar que as leis agrárias, tão freqüentemente reivindicadas em Roma e postas em prática em muitas cidades gregas, procederam todas elas de uma concepção geral da utilidade desse princípio.” Claro que, como bom liberal do XVII, H. vai dizer que essas idéias não são mais exeqüíveis nem desejáveis, de forma alguma. Uma das razões é que tal disposição geraria a necessidade de uma justiça draconiana, praticamente uma comissão inquisitorial. Não deixa de ser verdade que Esparta e Roma foram assim, mas que, em Esparta pelo menos, isso não era sentido como peso devido à arete dos cidadãos.

Quem não vê (…) que a propriedade deve passar por herança para os filhos e parentes, tendo em vista o mesmo útil propósito?”

um sistema [o de Montesquieu!] que, em minha opinião, jamais poderá ser reconciliado com a verdadeira filosofia.” Posso entender por que Hume deve ter exercido influência do mais alto grau em mentes como Smith e Stuart-Mill! Aliás, Smith foi contemporâneo tanto de Montesquieu quanto de Hume, e conterrâneo de Hume (escocês)!

Um sírio morreria de fome antes de saborear um pombo, um egípcio não se aproximaria de um pedaço de toucinho” “Uma ave na quinta-feira é um alimento lícito, na sexta-feira torna-se abominável; ovos são permitidos nesta casa e nesta diocese durante a Quaresma, cem passos adiante, comê-los é um pecado mortal; este terreno ou edifício ontem era profano, hoje, após serem murmuradas certas palavras, tornou-se pio e sagrado.”

Adoro o Hume antirreligioso: “Se os interesses da sociedade não estivessem de nenhum modo envolvidos, a razão pela qual a articulação de certos sons implicando consentimento por parte de uma pessoa deveria alterar a natureza de minhas ações com respeito a um objeto particular seria tão ininteligível quanto a razão pela qual uma fórmula litúrgica recitada por um padre, com um certo hábito e numa certa postura, deveria consagrar uma pilha de madeira e tijolos e torná-la desde então sagrada para todo o sempre.”

MALDITOS JESUÍTAS, ESSES “SUPERESCOLÁSTICOS”: “ver no Dicionário de Bayle o verbete ‘Loyola’.”

As sutilezas casuísticas podem não ser maiores que as sutilezas dos advogados aqui mencionadas, mas como as primeiras são perniciosas e as últimas inocentes e mesmo necessárias, compreende-se a razão das recepções bastante diferentes que encontraram no mundo. § É uma doutrina da Igreja de Roma que o sacerdote, por um direcionamento secreto de sua intenção, pode invalidar qualquer sacramento.”

E estas próprias palavras, herança e contrato, representam idéias infinitamente complicadas, e uma centena de volumes de legislação mais um milhar de volumes de comentários não se mostraram suficientes para defini-las com exatidão. Poderia a natureza, cujos instintos nos seres humanos são de todo simples, abarcar objetos tão complicados e artificiosos, e criar uma criatura racional sem nada consignar à operação de sua razão?” “Teríamos então idéias inatas originárias acerca de pretores, chanceleres e júris? Quem não vê que todas essas instituições surgem simplesmente das necessidades da sociedade humana?” Sedutor, mas errado.

O Zeitgeist é tão forte que mesmo um “anti-Iluminista” como Hume acaba chegando às mesmas conclusões que os baluartes do Esclarecimento: “A vantagem, ou antes a necessidade, que leva à justiça é tão universal e conduz em todas as partes de modo tão pronunciado às mesmas regras que o hábito toma assento em todas as sociedades e só com algum esforço investigativo somos capazes de descobrir sua verdadeira origem.”

SEÇÃO 4. DA SOCIEDADE POLÍTICA

Alianças e tratados são formalizados todos os dias entre Estados independentes, o que constituiria desperdício de pergaminho se a experiência não tivesse mostrado que eles têm alguma influência e autoridade.”

No caso de confederações como a antiga república dos aqueus ou, modernamente, os Cantões Suíços e as Províncias Unidas,(*) como a aliança tem, nesses casos, uma peculiar utilidade, as condições de união têm um caráter particularmente sagrado e impositivo, e uma violação delas será considerada tão ou mais criminosa que qualquer dano ou injustiça de caráter privado.

(*) Os Países Baixos, constituídos em 1579 pelo tratado de Utrecht. (N.T.)”

A única solução que Platão oferece a todas as objeções que poderiam ser levantadas contra a posse em comum das mulheres estabelecida em sua comunidade imaginária é ‘pois sempre houve e haverá boa razão para se afirmar que o útil é belo, e o nocivo é feio’ (Rep., V).”

Odeio um companheiro de bebedeiras que nunca esquece, diz o provérbio grego. As loucuras da última esbórnia devem ser sepultadas em eterno olvido a fim de abrir o máximo espaço para as loucuras da próxima.”

ÉTICA DO CARONEIRO PARTE II! (PREQUEL): “Que o veículo mais leve ceda passagem ao mais pesado, e, em veículos de mesmo porte, que o que está vazio dê preferência ao carregado são regras fundadas na conveniência. Que aqueles que estão se dirigindo para a capital têm precedência sobre os que estão retornando parece fundar-se em alguma representação da dignidade da grande cidade, e a uma preferência do futuro sobre o passado. Por análogas razões, entre pedestres, a mão direita dá direito a caminhar junto à parede e evita os esbarrões que as pessoas pacíficas acham muito desagradáveis e inconvenientes.”

SEÇÃO 5. POR QUE A UTILIDADE AGRADA

Parte 1

Se a natureza não tivesse feito essa distinção com base na constituição original da mente, as palavras ‘honroso’ e ‘vergonhoso’, ‘estimável’ e ‘odioso’, ‘nobre’ e ‘desprezível’ não existiriam em nenhuma linguagem; e mesmo que os políticos viessem a inventar esses termos, jamais seriam capazes de torná-los inteligíveis ou fazê-los veicular alguma idéia aos ouvintes. Nada mais superficial, portanto, que esse paradoxo dos céticos

Essa dedução da moral a partir do amor de si mesmo, ou de uma atenção aos interesses privados, é uma idéia óbvia” “Mas (…) a voz da natureza e da experiência parecem se opor claramente à teoria egoísta.”

O descumprimento das obrigações para com os pais é desaprovado por todos os homens” Mas Políbio vê que essas considerações são também egoístas: <quando eu tiver filhos…>

Que tem isso a ver comigo? Há poucas ocasiões em que essa pergunta não é pertinente”

Um homem trazido à beira de um precipício não pode olhar para baixo sem tremer, e o sentimento de um perigo imaginário atua sobre ele em oposição à opinião e crença de uma segurança real.” Poderíamos inverter os vocábulos imaginário e real nesta frase e ela manteria o mesmo sentido, se é que não faria ainda mais sentido…

Parte 2

Poucos gêneros poéticos trazem mais entretenimento do que o gênero pastoral

A leitura atenta da história parece ser um entretenimento tranqüilo, mas não seria de nenhum modo um entretenimento se nossos corações não batessem em movimentos correspondentes aos que são descritos pelo historiador.”

Tucídides e Guicciardini mantêm com dificuldade nossa atenção quando o 1º descreve os triviais confrontos das pequenas cidades da Grécia e o 2º as guerras inofensivas de Pisa. (…) Mas a profunda aflição do numeroso exército ateniense diante de Siracusa e o perigo que tão de perto ameaçava Veneza, esses despertam compaixão, esses incitam o terror e a ansiedade.” Hoje tudo isso para nós está unido sob uma única alcunha: passado remoto; igualmente indiferente, igualmente apaixonante, dependendo da circunstância e do receptor.

Se admitíssemos que a crueldade de Nero era inteiramente voluntária e não antes o efeito de um constante temor e ressentimento, é evidente que Tigelino, de preferência a Sêneca e Burro, deveria ter gozado de sua constante e invariável aprovação.”

NACIONALISMO: FÓSSIL: “Dedicamos sempre uma consideração mais apaixonada a um estadista ou patriota que serve nosso próprio país em nossa própria época do que a um outro cuja influência benéfica operou em eras remotas ou em nações distantes, nas quais o bem resultante de sua generosa benevolência, estando menos relacionado conosco, parece-nos mais obscuro, afeta-nos com uma simpatia menos vívida.” Essa regra só se aplicaria aos seres humanos que conhecemos em nossa vida diária: os fascistas com quem convivo me inspiram aversão infinitamente maior que qualquer traste que eu venha a conhecer lendo a história do Nazismo.

SEÇÃO 6. DAS QUALIDADES ÚTEIS A NÓS MESMOS

Parte 1

Para um Cromwell, talvez, ou para um De Retz, a discrição pode parecer uma virtude típica de vereador, no dizer do Dr. Swift; e, sendo incompatível com aqueles vastos desígnios inspirados por sua coragem e ambição, poderia neles constituir realmente um defeito ou imperfeição.”

Um dos extremos da frugalidade é a avareza, que, ao privar um homem de todo uso de suas riquezas e simultaneamente impedir a hospitalidade e qualquer prazer sociável, sofre, com razão, uma dupla censura.”

Mas, em épocas antigas, quando ninguém podia sobressair-se sem o dom da oratória e a audiência era demasiado refinada para suportar as arengas cruas e mal-digeridas com que nossos improvisados oradores se dirigem às assembléias públicas, a faculdade da memória tinha então a mais alta importância e era, em conseqüência, muito mais valorizada do que no presente.”

Parte 2

As justas proporções de um cavalo descritas por Xenofonte e Virgílio são as mesmas hoje aceitas pelos que lidam com esses animais, porque seu fundamento é o mesmo, a saber, a experiência do que é prejudicial ou útil nesses animais.”

Quanto escárnio e desdém, por parte de ambos os sexos, acompanham a impotência! O infeliz indivíduo é visto como privado de um prazer essencial na vida e, ao mesmo tempo, incapaz de proporcioná-lo a outros.”

SEÇÃO 7. DAS QUALIDADES IMEDIATAMENTE AGRADÁVEIS A NÓS MESMOS

DÊNIS & CABELINHO: “A chama se propaga a todo o círculo, e mesmo os mais rabugentos e taciturnos são contagiados por ela. Embora Horácio o tenha afirmado, tenho certa dificuldade em admitir que as pessoas tristes detestam as alegres, porque sempre observei que, quando a jovialidade é moderada e decente, as pessoas sérias são as que mais se deliciam, já que ela dissipa as trevas que comumente as oprimem e proporciona-lhes uma rara diversão.” “surge uma cordial emoção dirigida para a pessoa que transmite tanta satisfação. Ela constitui um espetáculo mais tonificante, sua presença difunde sobre nós uma satisfação e um contentamento mais serenos; nossa imaginação, penetrando em seus sentimentos e disposições, é afetada de uma maneira mais agradável do que se nos tivesse sido apresentado um temperamento triste, abatido, sombrio e angustiado.”

Não há ninguém que não seja afetado, em certas ocasiões, pelas desagradáveis paixões do medo, cólera, abatimento, aflição, tristeza, ansiedade, etc. Mas essas paixões, por serem naturais e universais, não fazem nenhuma diferença entre uma pessoa e outra, e não podem jamais constituir motivo de censura. É apenas quando a disposição produz uma propensão a uma dessas desagradáveis paixões que desfiguram o caráter e, ao produzir desconforto, transmitem o sentimento de desaprovação ao espectador.”

Poucos invejariam o caráter que César atribui a Cássio:

He loves no play,

As thou do’st, Anthony: he hears no music:

Seldom he smiles; and smiles in such a sort,

As if he mock’d himself, and scorn’d his spirit

That could be mov’d to smile at any thing.”

Shakespeare, Júlio César, ato I, cena II,203-207, trecho tão comentado por Deleuze no Anti-Édipo!

Ide!, exclamou o mesmo herói a seus soldados quando estes se recusaram a segui-lo até as Índias, ide e dizei a vossos compatriotas que deixastes Alexandre completando a conquista do mundo! E o Príncipe de Condé, grande admirador dessa passagem, complementa: Alexandre, abandonado por seus soldados entre bárbaros ainda não totalmente subjugados, sentia em si uma tamanha dignidade e direito de comando que não podia acreditar ser possível que alguém se recusasse a obedecer-lhe. Na Europa ou na Ásia, entre gregos ou persas, pouco lhe importava: onde quer que encontrasse homens, imaginava que haveria de encontrar súditos.”

RUBENEUS ADRIANUS: “E se, como freqüentemente acontece, a mesma pessoa que rasteja diante de seus superiores é insolente com seus subordinados, essa contradição em seu comportamento, longe de corrigir o vício anterior, agrava-o extraordinariamente pelo acréscimo de um vício ainda mais odioso.”

Contemplei Filipe, contra quem lutastes, expondo-se resolutamente, em sua busca de poder e domínio, a todos os ferimentos; o olho coberto de uma crosta de sangue, o pescoço contorcido, o braço e coxa trespassados, pronto a abandonar de bom grado qualquer parte de seu corpo que a fortuna agarrasse desde que pudesse, com o restante, viver com honra e renome. Quem diria que, nascido em Pela, lugar até então vil e ignóbil, ele tenha sido inspirado por tão grande ambição e sede de celebridade, ao passo que vós, atenienses, . . . .” Demóstenes

Os suevos arranjavam seus cabelos com um louvável intento; não para amar ou serem amados: eles se adornavam apenas para seus inimigos e para parecerem mais terríveis.” – Tácito. O penteado coque-samurai dos bárbaros germânicos massacrados por César – acabei de ler a mesma citação na History of The Romans Under the Empire de Merivale (em breve no Seclusão)!

Os citas, de acordo com Heródoto em seu Livro 4, após escalpelarem seus inimigos, tratavam a pele como um couro e usavam-na como uma toalha, e quem possuísse o maior número dessas toalhas era o mais merecedor de apreço entre eles.”

E esse [a ética da coragem guerreira] também, até muito recentemente, foi o sistema ético predominante em muitas das regiões bárbaras da Irlanda, se podemos dar crédito a Spenser em seu judicioso relato do estado daquele reino: ‘É comum que os filhos das boas famílias, tão logo sejam capazes de usar suas armas, reúnam-se imediatamente a 3 ou 4 vagabundos ou mercenários os quais vagueiam à toa durante algum tempo pelo país, apoderando-se apenas de comida, até que afinal se lhe ofereça alguma má aventura, a qual, logo que se torna conhecida, faz com que ele seja considerado daí em diante como um homem de valor, em quem há coragem.

A serenidade filosófica pode, na verdade, ser considerada simplesmente como um ramo da grandeza de espírito.”

Epicteto não tinha sequer uma porta no casebre em que morava, e por isso logo perdeu seu lampião de ferro, o único de seus objetos que valia a pena ser furtado. E tendo decidido frustrar todos os futuros ladrões, substituiu-o por um lampião de barro, que manteve pacificamente desde então em sua posse.”

sofremos por contágio e simpatia, e não podemos manter-nos como espectadores indiferentes, mesmo estando certos de que nenhuma conseqüência danosa nos advirá dessas ameaçadoras paixões.”

A coragem excessiva e a resoluta inflexibilidade de Carlos XII arruinaram seu país e assolaram todos os vizinhos, mas exibem um tal esplendor (…) que poderiam ser até (…) aprovadas (…) se não traíssem (…) sintomas (…) evidentes de loucura”

SEÇÃO 8. DAS QUALIDADES IMEDIATAMENTE AGRADÁVEIS AOS OUTROS

Um espanhol sai de sua casa à frente de seu hóspede, significando com isso que o deixa como senhor dela. Em outros países, o dono da casa sai em último lugar, como um sinal usual de respeito e consideração.”

pouca satisfação é obtida pelo contador de longas histórias ou pelo declamador empertigado.”

Há um tipo inofensivo de mentirosos, comumente encontrados nas reuniões, que se comprazem muitíssimo com relatos fantásticos. Em geral sua intenção é agradar, mas, como as pessoas se encantam mais com aquilo que supõem verdadeiro, esses indivíduos se equivocam redondamente sobre as formas de entreter e incorrem em uma censura universal.”

As pessoas têm, em geral, uma propensão muito maior para se sobrevalorizarem do que para se menosprezarem, não obstante a opinião de Aristóteles sobre o assunto em Ética a Nicômaco.”

Ninguém poderá censurar Maurício, príncipe de Orange, por sua resposta de caráter bem-humorado e velado quando lhe perguntaram quem ele considerava o maior general de sua época: O marquês de Spinola é o segundo.”

A magnífica obstinação de Sócrates, como Cícero a denominava, tem sido grandemente celebrada em todas as épocas, e, quando conjugada à usual modéstia de seu comportamento, compõe um caráter luminoso. (…) Em suma, um generoso temperamento e amor-próprio, quando bem-fundamentados, disfarçados com decoro e corajosamente defendidos contra as calúnias e vicissitudes, é uma grande virtude e parece derivar seu mérito da nobre elevação de seu sentimento, ou do fato de ser imediatamente agradável a seu possuidor.”

Por que essa ansiedade em relatar que estivemos em companhia de pessoas ilustres e que recebemos referências elogiosas, como se essas não fossem coisas corriqueiras que todos poderiam imaginar sem que lhes fossem contadas?”

SEÇÃO 9. CONCLUSÃO

Parte 1

O ANTI-SCHOPENHAUER: “Celibato, jejum, penitência, mortificação, negação de si próprio, submissão, silêncio, solidão e todo o séquito das virtudes monásticas – por que razão são elas em toda parte rejeitadas pelas pessoas sensatas a não ser porque não servem a nenhum propósito; não aumentam a fortuna de um homem nem o tornam um membro mais valioso da sociedade; não o qualificam para as alegrias da convivência social nem o tornam mais capaz de satisfazer-se consigo mesmo?” “Um fanático sombrio e ignorante pode, após sua morte, ganhar uma data no calendário, mas dificilmente seria admitido, enquanto vivo, à intimidade e ao convívio social, exceto por aqueles tão transtornados e lúgubres quanto ele.”

O ANTI-HOBBES II: “aqueles pensadores que sinceramente sustentam o predominante egoísmo do ser humano não se escandalizarão em absoluto ao ouvir falar desses tênues sentimentos de virtude implantados em nossa natureza.”

Quando um homem chama outro de seu inimigo, seu rival, seu antagonista, seu adversário, entende-se que ele está falando a linguagem do amor de si mesmo e expressando sentimentos que lhe são próprios e que decorrem das situações e circunstâncias particulares em que está envolvido. Mas, quando atribui a alguém os epítetos de corrupto, odioso ou depravado, já está falando outra linguagem e expressando sentimentos que ele espera que serão compartilhados por toda sua audiência.”

Quando o coração está cheio de ira, nunca lhe faltam pretextos dessa natureza, embora sejam às vezes tão ridículos como os de Horácio que, ao ser quase esmagado pela queda de uma árvore, pretendeu acusar de parricídio quem a havia plantado (Odes, livro 2, ode 13).” [!!!]

NOVAMENTE ME ESPANTO QUE HUME NÃO TENHA VIVIDO APÓS LAPLACE! “quando reflito que, embora se tenha medido e delineado o tamanho e a forma da Terra, explicado os movimentos das marés, submetido a ordem e organização dos corpos celestes a leis apropriadas, e reduzido o próprio infinito a um cálculo, ainda persistem as disputas relativas ao fundamento de seus deveres morais (…) recaio na desconfiança e no ceticismo, [não diga! logo você, sr. Hume?!] e suspeito que, se fosse verdadeira (…) esta hipótese tão óbvia (…) teria já há muito tempo recebido o sufrágio e a aceitação unânimes da humanidade.”

Parte 2

(…)

APÊNDICE 1. Sobre o sentimento moral

(…)

APÊNDICE 2.

(…)

APÊNDICE 3.

(…)

APÊNDICE 4.

Em tempos mais recentes, toda espécie de filosofia e em especial a ética têm estado mais estreitamente unidas à teologia do que jamais estiveram entre os pagãos; e como essa última ciência não faz quaisquer concessões às demais, mas verga todos os ramos do conhecimento para seus propósitos particulares, sem dar muita atenção aos fenômenos da natureza ou a sentimentos mentais livres de preconceitos, segue-se que o raciocínio e mesmo a linguagem foram desviados de seu curso natural, e fez-se um esforço para estabelecer distinções em situações em que a diferença entre os objetos era quase imperceptível. Filósofos, ou antes teólogos sob esse disfarce, ao tratar toda a moral em pé de igualdade com as leis civis, protegidas pelas sanções de recompensa ou punição, foram necessariamente levados a fazer da característica do voluntário ou involuntário o fundamento de toda a sua teoria.”

Que temos um dever em relação a nós mesmos é algo que até o mais vulgar sistema de moral reconhece”

UM DIÁLOGO

Parece que Alcheic tinha sido muito belo em sua juventude, tinha sido cortejado por muitos amantes, mas concedera seus favores especialmente ao sábio Elcouf, a quem se supunha que ele devia o espantoso progresso que fizera em filosofia e na virtude.

Surpreendeu-me também o fato de que a esposa de Alcheic (que, aliás, era também sua irmã) não se mostrasse minimamente escandalizada com essa espécie de infidelidade.

Mais ou menos à mesma época descobri (…) que Alcheic era um assassino e um parricida, e que mandara para a morte uma pessoa inocente, que lhe era estreitamente aparentada e a quem estava obrigado a proteger e defender por todos os laços da natureza”

Recebi recentemente uma carta de um correspondente em Fourli, pela qual fiquei sabendo que, após minha partida, Alcheic apropriadamente se enforcou, e morreu universalmente lamentado e aplaudido em todo o país.”

mal poderíeis distinguir se ele estava zombando ou falando sério.”

Cuidado, gritou ele, tende cuidado! Não percebeis que estais blasfemando e insultando os vossos favoritos, os gregos, especialmente os atenienses, que eu ocultei o tempo todo sob os nomes bizarros que empreguei?”

Mas não dissestes que Usbek era um usurpador!”

Não o fiz, para que não descobrísseis o paralelo que tinha em mente. Mas, mesmo acrescentando essa circunstância, não deveríamos hesitar, de acordo com nosso sentimento de moral, em classificar Bruto e Cássio como traidores ingratos e assassinos, embora saibais que são talvez as mais altas personalidades de toda a Antiguidade, e que os atenienses erigiram-lhes estátuas, [?] colocadas próximas às de Harmódio e Aristogiton, seus próprios libertadores.”

Creio que com justiça mostrei que um ateniense de mérito poderia ser alguém que entre nós passaria hoje por incestuoso, parricida, assassino, ingrato, pérfido traidor e outra coisa demasiado abominável para ser nomeada; [gay] sem contar sua rusticidade”

Geometria, física, astronomia, anatomia, botânica, geografia, navegação: em todas estas reivindicamos com razão a superioridade. Mas que temos a opor a seus moralistas? Vossa representação das coisas é falaciosa.”

Ser-me-ia permitido informar aos atenienses de que houve uma nação em que o adultério, tanto ativo quanto passivo, gozava da mais alta popularidade e estima? Na qual cada homem educado escolhia para sua amante uma mulher casada, talvez a esposa de seu amigo e companheiro, e vangloriava-se dessas infames conquistas tanto quanto se tivesse sido várias vezes vencedor no boxe ou na luta nos Jogos Olímpicos? Na qual cada homem também se orgulhava de sua mansidão (…) com relação a sua própria mulher, e alegrava-se de fazer amigos e obter vantagens permitindo que ela prostituísse seus encantos; e que dava-lhe plena liberdade e indulgência? Pergunto, então, que sentimentos os atenienses experimentariam por um tal povo”

Ser-me-ia preciso acrescentar que esse mesmo povo era tão orgulhoso de sua escravidão e dependência como os atenienses de sua liberdade, e embora um homem desse povo estivesse oprimido, desgraçado, empobrecido, insultado ou aprisionado pelo tirano, ainda consideraria altamente meritório amá-lo, servi-lo e obedecer-lhe?”

E se um homem que lhes é absolutamente estranho desejasse que, sob ameaça de morte, cortassem a garganta de um velho amigo, eles imediatamente obedeceriam e se julgariam altamente favorecidos e honrados por essa comissão.”

Mas embora estejam tão prontos a sacar sua espada contra seus amigos, nenhuma desgraça, dor ou miséria jamais levará essas pessoas a apontarem-na contra seu próprio peito. Um homem de posição irá remar nas galés, mendigar seu pão, definhar na prisão, sofrer todas as torturas, conquanto conserve sua ignóbil existência.”

É também muito usual entre esse povo construir prisões nas quais todas as artes de afligir e atormentar os infelizes prisioneiros são cuidadosamente estudadas e praticadas. E é comum que pais voluntariamente encerrem vários de seus filhos nessas prisões, a fim de que um outro filho, que admitem não ter mais mérito, ou até tê-lo menos, que os outros, possa gozar integralmente de sua fortuna e chafurdar em toda espécie de voluptuosidade e prazeres.”

Mas o mais singular nessa caprichosa nação é que vossos folguedos durante as saturnais, quando os escravos são servidos por seus senhores, são seriamente estendidos por eles de modo a cobrir o ano inteiro e todo o tempo de sua vida, acompanhados ainda de algumas circunstâncias que aumentam o absurdo e o ridículo. (…) em todo o tempo a superioridade das mulheres é prontamente reconhecida e aceita por todos (…) Dificilmente um crime seria mais universalmente condenado do que uma infração a essa regra.”

Também os franceses, sem dúvida, são um povo muito civilizado e inteligente; no entanto, seus homens de mérito poderiam, entre os atenienses, ser objetos do maior desprezo e ridículo, e mesmo de ódio. O que torna a questão mais extraordinária é que esses dois povos são considerados os mais similares em seu caráter nacional entre todos os povos antigos e modernos! E enquanto os ingleses se gabam de assemelhar-se aos romanos, seus vizinhos no continente traçam um paralelo entre os cultivados gregos e si próprios.”

Os amores gregos (…) provêm de uma causa muito inocente, a freqüência dos exercícios de ginástica entre esse povo, e eram recomendados, embora absurdamente, como uma fonte de amizade, simpatia, apego mútuo e fidelidade”

Como se poderia recuperar a liberdade pública das mãos de um usurpador ou tirano, se seu poder o protege da rebelião pública e de nossos escrúpulos da vingança privada?”

reconheço que há uma dificuldade quase tão grande de justificar a galanteria francesa quanto a grega, exceto, talvez, que a 1ª é muito mais natural e agradável.”

Certamente nada pode ser mais absurdo e bárbaro que a prática do duelo”

Horácio enalteceu uma testa baixa, e Anacreonte sobrancelhas unidas; mas o Apolo e a Vênus da Antiguidade são ainda nossos modelos de beleza masculina e feminina”

De todas as nações do mundo nas quais não se permitia a poligamia, os gregos parecem ter sido os mais reservados em suas relações com o belo sexo”

vemos que, exceto pelas fabulosas histórias de Helena e Clitemnestra, quase não há nenhum acontecimento na história grega que decorra das intrigas femininas. Nos tempos modernos, entretanto, particularmente em uma nação vizinha, as mulheres participam de todas as transações e arranjos da Igreja e do Estado (…) Henrique III pôs em perigo sua coroa e perdeu sua vida por ter incorrido no desagrado das mulheres”

quem poderia imaginar que os romanos tivessem um tão grande desinteresse pela música e considerassem a dança aviltante; ao passo que os gregos passassem todo o tempo a tocar flauta, cantar e dançar?”

Hoje, quando a filosofia perdeu a atração da novidade, não tem mais uma influência tão extensa, mas parece confinar-se principalmente a especulações de gabinete, da mesma maneira como a antiga religião estava limitada a sacrifícios no templo. Seu lugar está agora ocupado pela moderna religião, que inspeciona por inteiro nossa conduta e prescreve uma regra universal a nossas ações, a nossas palavras, a nossos próprios pensamentos e inclinações”

Diógenes é o modelo mais célebre de filosofia extravagante. Procuremos um seu paralelo nos tempos modernos. Não devemos desonrar nenhum autor filosófico comparando-o com os Domingos ou Loyolas, [dominicanos e jesuítas] ou algum padre ou monge canonizado. [No lugar disso,] comparemos Diógenes a Pascal”O filósofo antigo se sustentava por sua magnanimidade, exibição, orgulho, e pela idéia de sua própria superioridade perante seus conterrâneos. O filósofo moderno professava constantemente humildade e aviltamento, desprezo e ódio de si mesmo, e esforçava-se por alcançar essas supostas virtudes, tanto quanto fosse possível alcançá-las. As austeridades do grego visavam habituá-lo aos desconfortos e impedir que jamais viesse a sofrer. As do francês eram adotadas meramente por elas próprias, com o fito de fazê-lo sofrer o máximo possível. O filósofo entregava-se aos prazeres mais bestiais, mesmo em público; [quanto escândalo, ui, ui!] o santo recusava a si próprio os mais inocentes deles, mesmo em privado. O primeiro julgava seu dever amar seus amigos, ralhar com eles, censurá-los, descompô-los. O último esforçava-se por tornar-se absolutamente indiferente às pessoas que lhe eram mais próximas, e amar e falar bem de seus inimigos. O grande alvo dos sarcasmos de Diógenes era a superstição de qualquer tipo (…) A mortalidade da alma era seu princípio-padrão (…) As mais ridículas superstições dirigiam a fé e os atos de Pascal, e um extremo desprezo desta vida em comparação com uma vida futura era o principal fundamento de sua conduta.”

Onde está, então, o padrão universal da moral de que falais?”

Dos dois diálogos hipostasiados por David Hume apreendi que: para vencer uma discussão tens de ser o último a falar!

FREUD, BIOLOGIST OF THE MIND: Beyond the psychoanalytic legend – Frank Sulloway, 1983.

PREFACE

To humanists, Freud is an epic poet and a hero of literature. Moreover, his theories are deliberately segregated from the sciences under a variety of labels, such as ‘hermeneutics’ and ‘Geisteswissenschaft’. Freud himself helped to cultivate this kind of image when he elected to exclude from his Gesammelte Werke almost all of his numerous publications on the fields of neurology and neuroanatomy.”

A central message is that F., through the years, has become a crypto-, or covert, biologist, and that psychoanalysis has become, accordingly, a crypto-biology.”

Henri Ellenberger, in his impressively erudite if also much-disputed Discovery of the Unconscious (1970), has done more than any student of Freud’s life to question these myths in a systematic matter and to sketch out their general proportions.”

PART I: FREUD AND NINETEENTH CENTURY PSYCHOPHYSICS

1. THE NATURE AND ORIGINS OF PSYCHOANALYSIS

A renowned Viennese physiologist, Ernst Brücke, along with Émil du Bois-Reymond, Hermann Helmholtz, and Carl Ludwig, had succeeded in revolutionizing German physiology during the preceding quarter century [1848-1873, tomando como ponto de chegada o ano de entrada de Freud na faculdade de Medicina, quando teve Brücke como seu terceiro mestre – ao que tudo indica, os alunos naquela época e naquele modelo de ensino possuíam um professor por ano]. As youthful students of that Science in the early 1840s, the first 3 of these 4 men had banded together and pledged their mutual dedication to overthrowing the then-dominant position of vitalistic biologists like Johannes Müller – their common teacher; Ludwig, who was not a Müller student, joined the movement in 1847.”

no other forces than the common physical-chemical ones are active within the organism. In those cases which cannot at the time be explained by these forces one has either to find the specific way or form of their action by means of the physical-mathematical method, or to assume new forces equal in dignity to the chemical-physical forces inherent in matter, reducible to the force of attraction and repulsion.” Du Boys-Reymond, trad. Bernfeld. Vemos o quanto a HISTÓRIA DA MATEMÁTICA interfere na epistemologia médica do século XIX! Cf. https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/.

Young Freud thus acquired his first scientific training within what has often been referred to, after its most famous member, as the ‘Helmholtz school of medicine’.”

Freud published 5 scientific papers during the next 6 years (1876-82): 2 on the neuroanatomy of Ammocoetes (Petromyzon planeri) – a primitive form of fish; 1 on the gonadal structure of the eel; an announcement of a new chemical method for preparing nerve tissues for microscopic examination; and a study of the nerve cells of the crayfish.”

F. subsequently named his third son after Brücke”

F.’s last major publication from this neuroanatomical phase of his career appeared in 1897” Daí pra frente (ou eu diria: já antes!) é só ladeira abaixo…

As late as 1936 the Swiss neurologist Rudolf Brun commented upon the unrivalled status of this monograph, calling it ‘the most thorough and complete that has yet been written on the cerebral paralyses of children’

2. SIGMUND F. AND JOSEF BREUER: TOWARD A PSYCHOPHYSICAL THEORY OF HYSTERIA (1880-95)

Meynert soon invited F. to work in his Laboratory for Cerebral Anatomy, which Freud did from 1883 to 1886.”

SEMPRE LIGADO À MORTE: “It was also while working as Sekundararzt in Meynert’s Psychiatric Clinic that F. finally decided, in September 1883, to become a neurologist. The immediate inspiration for this decision was the tragic suicide of Nathan Weiss, an extremely brilliant and eccentric young neurologist whom F. hoped to succeed in the medical community.”

Jean-Martin Charcot (1825-93) was then at the height of the varied medical career that had led him to the study of neurology, and his stature in French medicine was equalled only by that of the great Louis Pasteur.” “With the possible exception of Guillain (1955), no adequate biographical treatment of Charcot yet exists. This surprising lacuna in the history of medicine is perhaps related to the sharp reversal of medical opinions after Charcot’s death regarding the reliability of his famous researches on hypnotism and hysteria. The following account of his life and work relies heavily upon Ellenberger”

Charcot’s paper created a sensation. It also brought about a complete reversal within France of the negative attitude in official science toward mesmerism or ‘animal magnetism’ – a subject that the Académie des Sciences itself had twice formally condemned.” “It is no wonder, then, that the neurologist whose work on hypnotism and hysteria in the 1880s enthralled both the French medical community and a generation of novelists and playwrights eventually received the nickname ‘Napoleon of Neuroses’.”

Charcot was the first to teach us that to explain hysterical neurosis we must apply to psychology”

Charcot had further fixed the ratio of male to female hysteria at roughly 1:20.”

MITO OU VERDADE? F. (ou Charcot) descobriu a histeria masculina.

MITO. A questão já era debatida um século antes na Alemanha.

P. 38: “Thus, the existence of male hysterie per se (as a non-traumatic clinical entity) was by no means a controversial medical issue of this period, but had long been accepted, in fact, by most European and American physicians.”

The chairman of the meeting, Heinrich von Bamberger (one of the 4 professors on the committee that awarded F. his traveling stipend), responded to F.’s presentation with the words: ‘In spite of my great admiration for Charcot and my high interest for the subject, I was unable to find anything new in the report of Dr. F. because all that has been said has already long been known’ (Schnitzler, 1886).” Acontece que em seus escritos autobiográficos F. dissera que Bamberger respondeu: “Isso que você nos apresentou é inacreditável, a ciência não respalda!”.

As Ellenberger observes, the ‘critical’ reception of F.’s own paper was clearly a routine affair amidst such a learned society of medical experts.”

Three points of interest emerge from a survey of the responses to F.’s paper. First, F. was apparently unaware, before he delivered his paper, of just how well-known Charchot’s ideas already were to his own superiors in Vienna. (…) Second, F. obviously returned from Paris with an idealized picture of Charcot (…) It is now generally recognized that Charcot formulated his theories of hypnotism and hysteria on the basis of experiments performed repeatedly with a few dozen subjects, most of whom lived on the wards of the Salpêtrière, and many of whom, unknown to Charcot, had been rehearsed beforehand in the various responses expected of them.” Hahaha! “One patient, Blanche Wittmann, earned herself the title ‘Queen of the Hysterics’ for her ability to produce both the 3 stages of hypnosis and a complete hysterical crisis à la Charcot.”

The Belgian physician Joseph Delboeuf, who visited Paris contemporaneously with F., was appalled by the laxity of Charcot’s experimental procedures and, upon returning home, issued a highly critical account of them (1886).”

The third and last point about this incident is F.’s tactical blunder in attributing as unique to Charcot certain ideas and discoveries that were common medical knowledge in Vienna at the time. F.’s student contemporary and acquaintance, the psychiatrist and subsequent Nobel Prize laureate Julius Wagner-Jauregg (1847-1940), was also present at this meeting, and he later recorded in his autobiography how F. had affronted his superiors when he ‘spoke only of Ch. and praised him in the highest fashion’.” Como um aluno qualquer apresentando seminário.

F. was the only one at the Society of Physicians meeting even to bring up the old uterine theory of hysteria, which only a handful of physicians (particularly gynaecologists) took seriously any longer”

All in all, the reception of F.’s paper tells us more about his ambitious expectations as a young man of science (and about his overly sensitive attitude toward criticism) than it does about the supposedly backward state of affairs in Viennese medical circles in 1886.”

Briquet’s Traité presented the results of over 400 investigations of hysterical patients. On the basis of these researches, which required approximately 10 years to complete, he was able to dismiss altogether the prevailing notions that hysteria was related to unsatisfied sexual impulses (he found that prostitutes suffered more than nuns), to disturbances of the womb, or to an exclusive etiology in the female sex. Briquet estimated the same ratio between female and male cases later reported by Ch..”

Further, it is not true thar F. ceased on this account to attend the various local medical societies, as he also claims in his Autobiography. (…) a year and a half after his ill-fated talk he was duly elected to the society [of Physicians, de Viena]’s membership! He remained a member in good standing until he was forced by the Nazis to leave Vienna in ‘38. (…) See Sablik (1968)

Soon after F.’s return to Vienna, Meynert had begun to take a dim view of F.’s new allegiance to the views of Charcot, apparently considering it to be disloyal both to himself and to his own more somatically oriented views of disease.” Rupturas são com ele mesmo!

He even went so far as to label the growing hypnotism movement a ‘psychical epidemic among doctors’ – precisely the same epithet used 20 years later by a critic of the nascent psychoanalytic movement. Finally, Meynert firmly believed that most hypnotic ‘cures’ were the result either of fraudulence or of self-delusion on the part of doctors and patients.” “Meynert cited in this connection the experiences of one candid physician who confessed that he had more than once experienced involuntary pollutions after having been placed in a state of hypnosis. To this same subcortical liberation of sexual impulses, Meynert was also inclined to ascribe the well-known state of ‘euphoria’ so often experienced by subjects under hypnosis.” Ironicamente, F. iria se alimentar do fel do seu novo rival.

Liébault (mestre de Bernheim), Du sommeil et des états analogues, livro à frente da sua época sobre o hipnotismo.

Bernheim’s 1884 revival of Lié. suggestion therapy was subsequently expanded in 1886 into a larger textbook (De la suggestion et de ses applications à la thérapeutique), which F. himself had presumably read by the end of December 1887, since he was already under contract by that date, as he informed his friend Fliess, to translate this work into German. Bernheim reiterated his basic theme that (…) suggestibility (…) was a capacity shared by all human beings, not just hysterics and neuropaths. [como acreditava Charcot]”

As it has turned out, Bernheim was right [sobre a exclusividade do psiquismo no hipnotismo], and F., who later retracted his support for Charcot on this point, was wrong.” “In short, by 1893, the work of Bernheim and others had succeeded in convincing F. that much of Ch.’s evidence for the physiological nature of hypnosis was completely bogus.”

Breuer’s physiological researches provided a conceptual foundation for the pioneering theory of hysteria that he and F. later proposed.” “Breuer’s first important discovery – while still working as a medical student under Ewald Hering – was of the self-regulating mechanism of breathing as controlled by the vagus nerve (the so-called Hering-Breuer reflex). (…) his demonstration furnished conclusive evidence for one of the first biological feedback mechanisms to be documented in mammals. Breuer’s second major contribution to physiology was his discovery in 1873, essentially simultaneously with the great Ernst Mach and the Edinburgh chemist A. Crum Brown, of the function played by the semicircular canals in the ear. The inner ear is a double organ – for both hearing and balance. Breuer, in his own work on this problem, skillfully elucidated the delicate series of reflex mechanisms by which the sensory receptors within the inner-ear labyrinth succeed in regulating posture, equilibrium and movement. He also called attention to the importance of the more obscure otolith system, an aspect of the problem that had been overlooked by Mach and Brown. See Cranefield (1970a) and Hirschmüller (1978)” “The first Austrian Nobel Laureate, Robert Bárány, won the Physiology and Medicine Prize in 1914 for his work on the equilibrium organs of the inner ear. In 1916 he was denied academic advancement by the Senate of the University of Vienna because he had given insufficient credit to prior researchers on this subject, principally Josef Breuer. Although Bárány indeed admitted to having forgotten Breuer’s 1874 paper, Breuer himself made light of the whole episode and actually came to Bárány’s defense in the priority proceedings (Hirscmüller).”

On the strength of these early and impressive findings in physiology, Breuer was appointed in 1875 to the rank of Privatdozent at the University of Vienna. Subsequent difficulties in gaining patients for teaching purposes apparently caused him to resign his position 10 years later. At this time he also refused the offer of Theodor Billroth, the famous surgeon, to propose him for the title ‘Extraordinary Professor’, retiring instead into the full-time private practice that became his principal medical devotion.

The calibre of Breuer’s continued scientific reputation is nevertheless well illustrated by the fact the he was elected to the Viennese Academy of Sciences in 1894 upon the nominations of Ernst Mach, Ewald Hering, and Sigmund Exner, 3 of that body’s most accomplished and internationally known members. Although it is often assumed that Breuer published relatively little in his lifetime, a bibliography of his purely physiological publications includes nearly 20 articles totaling some 500 printed pages of meticulously conducted and carefully described research (Cranefield). Among Breuer’s many patients were the families of Brücke, Exner, Billroth, Chrobak, and many other prominent members of the Viennese scientific community.”

Breuer maintained an extensive correspondence with the philosopher-psychologist Franz Brentano as well as with the poetess Marie von Ebner-Eschenbach.”

In 1881, Breuer’s tutelage included regular monthly loans, and F.’s financial debt to him eventually was substantial – a debt that became a sore burden to F. a decade later, when B. tried to refuse its repayment during the period when the 2 men were growing estranged.”

B. immediately recognized Anna O. as one of hysterical double personality. He discovered at one point that, merely by showing her an orange, he could induce a transition from her normal personality to what she called her ‘bad self’. More remarkable still, at the height of her illness, the patient regularly hallucinated the various events in her life that had actually taken place 365 days earlier. B. documented this aspect of the case history from a diary of the illness kept by Anna O.’s mother.” “He found that if he repeated to his patient each evening, when she entered a state of autohypnosis, the frightened words she had uttered during her daytime absences (fr.), she was able to recall the forgotten details of her terrifying hallucinations. Therapeutically, this process relieved both her symptoms and her often agitated state of mind by the end of each day.” A limpeza de chaminé que, convenhamos, F. nunca soube reproduzir.

The medical cure was nothing short of stupendous, given the almost unheard-of time and patience Breuer spent in treating this one patient. According to Breuer, he listened to stories of the circumstances, people, places, and often exact dates (for Anna O. had a remarkable memory) associated with 303 separate instances in which the patient had previously experienced dysfunctions in her hearing alone. The systematic Breuer carefully recorded them all and even managed to group them under 7 different contextual subheadings!”

Juan Dalma has pointed out that Jacob Bernays, the uncle of F.’s future wife, had long been concerned with the Aristotelian concept of dramatic catharsis. (…) According to Hirschmüller, by 1880 Bernays’s ideas had inspired some 70 German-language publications on catharsis, a number that more than doubled by 1890. It seems very possible that an intelligent girl like Anna O. might have been acquainted with the subject and have unconsciously incorporated this knowledge into the dramatic plot of her illness.” Por que demorou mais de uma década para os Estudos em Histeria saírem? Porque o livro haveria de ser incrementado com algumas pacientes de F., as ‘famosas’ Elisabeth von R., Emmy von N., etc. Se é que todas existiram e tal e qual foram retratadas…

F. was slow to apply to B.’s new therapeutic technique himself after returning from Paris, probably because his initial clientele presented him with many strictly neurological disorders and, as a specialist in neurology, his own interests were still largely focused upon physiological aspects of the neuroses.”

The mysterious clinical diminution of hysteria in the course of the 20th century makes Breuer and Freud’s Studies on Hysteria an unusual book in the history of science; for while it marks a turning point in psychiatric theory, it deals with a disease many present-day neurological specialists see only once or twice in a lifetime of medical practice. Although no one has succeeded in satisfactorily explaining why hysterical afflictions have become as rare as they have in Europe and America, an interesting discussion of this problem from a social historian’s point of view has been provided by Carroll Smith-Rosenberg (1972). In a quasi-Adlerian analysis of the problem, Smith-Rosenberg has tentatively related the passing of this primarily female affliction to the increased opportunity that women have in modern life to control their own destinies, especially when faced with the sort of oppressive or intolerable circumstances that formerly allowed only one principal form of escape – flight into illness (and the role of the invalid).” Ou “flight into marrying”, rigorously the same!

Is it phantasy or just a fantasy?

É claro que dos “4 casos clássicos” do livro, o de Breuer é o único sem nada sexual envolvido…

The economic aspect is embodied in Breuer and F.’s theoretical attribution of hysterical symptoms to a certain ‘quantity’ of excitation, affect, or mental energy. In healthy individuals, this quantity is dissipated along the nervous pathways of everyday mental and physical activity. But in hysteria, B. and F. believed, a certain quota of affect succeeds in becoming pathologically ‘converted’ into inappropriate somatic channels (Strachey).”

The nervous system endeavours to keep constant something in its functional relations that we may describe as the ‘sum of excitation’. It puts this precondition of health into effect by disposing associatively of every sensible accretion of excitation or by discharging it by an appropriate motor reaction”

supersuscetível e insensível ao mesmo tempo

strangulation of affect: (…) when a strong affect is not permitted immediate or adequate conscious discharge – as with known clinical instances of hysteria arising from severe insults endured in silence”

The first published instance of the term das Unbewusste (‘the unconscious’) by either B. or F. occurs in B.’s discussion of the case history of Anna O. (S.E.).” “B., by his unusual diligence, perspicacity, and extreme patience as a physician, provided the initial discoveries that hysterical symptoms can arise from unconscious ideas and that they can be made to disappear if they are brought back into consciousness. (…) he also coined the term catharsis and possibly the term ab-reaction and was responsible for the notions of hypnoid hysteria and retention hysteria. F. was responsible, first and foremost, for reviving B.’s dormant interest in his famous patient” Graaaande papel.

According to the extreme form of this particular myth, F. was subjected to 2 conflicting forces, namely his allegiance to mechanistic and molecular explanation, i.e., the Helmholtz school’s¹ influence, and his desire to forge a new way of looking at the mind, a psychological way free from the entanglements of narrow and naïve materialism.” Cranefield

¹ “See Bernfeld (1944, 1949), who coined the phrase ‘the School of Helmholtz’.”

In the first place, Helmholtz himself was by no means ever considered to be the head of a ‘school’ in medicine, even among the original group of 4 – du Bois-Reymond (the group’s real leader), Brücke, Ludwig, and Helmholtz himself – who together initiated what Cranefield has more appropriately termed ‘the 1847 biophysics program’. (The year 1847 was when Ludwig joined the group.) Furthermore, Helmholtz was actually an isolated figure in science compared with the other 3; he had few students or close associates, even within the fields of mathematics and physics where he did his major and most valuable scientific work. Secondly, the members of this movement were at no time typical, as both Bernfeld and Jones have implied, of the extreme brand of 19th-century mechanism-materialism that was espoused by men like Karl Vogt and Ludwig Büchner. Carl Ludwig, for example, treated the subject of dreams (…) in what is certainly the language of psychology”

Finally, by the time F. began his medical training in the 1870s, the 1847 biophysics program had been in manifest retreat for many years. Indeed, by the 1870s, most of the movement’s original members had frankly acknowledged the prematurity of their initial visions that physiology was soon to become nothing but physics and chemistry.

On the other hand, the mechanistic thrust of Helmholtz and his biophysics confreres did enter psychoanalysis indirectly from the field of psychology through Gustav Theodor Fechner (1801-87). It was Fechner who not only introduced into psychology the principle of the conservation of energy (formulated in 1842 by the physician Robert Mayer and further developed by Helmholtz in 1845), but also derived a sophisticated equivalent of F.’s pleasure-unpleasure principle from this notion.”

Fechner’s famous law describing the mathematical relationship between the intensity of stimulation and the resultant sensation is mentioned by F. (…) in the Project for a Scientific Psychology.” “Josef Breuer, for his own, greatly admired Fechner, who, along with Goethe, were his two favourite authors (Jones). Fechner likewise exerted considerable influence upon F.’s teacher Theodor Meynert (Dorer).

Thus, perhaps most directly, the Breuer-Freud theory of hysteria reflects the ‘Fechnerian school’ of psychophysics far more than it does the long-since defunct ‘Helmholtz school’ of biophysics.”

Herbart’s influence may also be traced in the psychological writings of Fechner, as well as in those of the psychiatrist Wilhelm Griesinger (1817-69), both of whose ideas were in turn important sources of inspiration to F.’s teacher Meynert (Dorer).”

In the course of his Theoretical contribution to the Studies, B. specifically cited the works of men like Paul Möbius (1888, 1894), Adolf von Strümpell (1892), Pierre Janet (1889, 1893a, 1894), Joseph Delboeuf (1889) and Moritz Benedikt (1894) for their many anticipations of (…) the basic ideas advocated by himself and F..

Although the Frenchman Janet’s researches are now perhaps the best known of this group of psychotherapists, Viennese neurologist Moritz Benedikt’s views were the closest to those of B&F. As early as 1868, Benedikt had insisted, in opposition to Charcot’s predecessor Pierre Briquet, that hysteria often depends upon functional disorders of the libido. In subsequent publications, he continued to elaborate this doctrine on the basis of clinical evidence suggesting that most hysterics fall ill owing to their excessive preoccupation with a ‘secret life’ of phantasies or frustrated desires, frequently of a sexual nature.”

what perhaps serves most of all to distinguish the work of B&F from that of their many contemporaries in the scientific study of hysteria is their unusually detailed clinical documentation of case histories”

3. SEXUALITY AND THE ETIOLOGY OF NEUROSIS: THE ESTRANGEMENT OF BREUER AND F.

A técnica da pressão na testa foi inventada por Bernheim e por ele comunicada a F..

It is to Ellenberger’s (1972) even more recent and detective-like research efforts that we owe the unexpected rediscovery of a contemporaneous, 21-page case history of Bertha Pappenheim prepared by Josef Breuer in 1882, for the Sanatorium Bellevue, Kreuzlingen, Switzerland. (Where Anna O. was transferred to in July of that year.) Ell. also uncovered a brief follow-up report written by one of the physicians at the San. Bell. for the period of Anna O.’s 3-and-½-month sojourn there. (…) Albrecht Hirschmüller (1978), who has published the German texts of the various documents discovered by Ell., has found other equally relevant materials at the Sanatorium Bellevue. (…) So much for the myth about ‘timid’ B., retreating from the distasteful implications of his own momentous discoveries!”

In his painstaking work on the semicircular canals of the inner ear, B. did not stop until he had generalized his findings to fish, reptiles, birds, and mammals. If, prior to F.’s confirmation of B.’s initial findings, the latter was reluctant to publish his discoveries in the case of Anna O., this was simply because he did not believe that the isolated and possibly atypical results in this one case were grounds for formal (theoretical) publication on a subject of such complexity.” “In sharp contrast to B., F. saw far less need for copious replications of the cathartic procedure before making it known to the medical world.”

Even as late as 1895, when B&F finally published Studies on Hysteria, Bertha Pap.’s identity as A.O. became immediately evident to many Viennese readers of that book.”

In earlier times all hysteria was sexual; afterwards we felt we were insulting our patients if we included any sexual feeling in their aetiology; and now that the true state of things has once more come to light, the pendulum swings to the other side. (…) it is merely (…) the law of the swing of the pendulum, which governs all intellectual development.” B.

To sum up, B.’s collaboration with F. came to an end when F. began to insist sexuality was the essential cause of every hysteria as well as of most other neuroses.”

O bichinho da prepotência mordeu F. dentro da Salpêtrière.

In a word, F. feared mediocrity and others’ anticipation of his ideas more than he feared error in science, and he fully accepted the risks inherent in this particular choice of values.” Mas depois chorava suas pitangas.

B.’s position is plain enough from several subsequently published accounts detailing his 4 November 1895 public defense of F.’s views before the Wiener medicinisches Doctorencollegium (Vienna College of Physicians). F. had given 3 lectures on hysteria before this society on the evenings of 14, 21 and 28 October 1895.”

No physician has any idea what sort of symptoms an erection calls forth in women, because the young women refuse to speak of the matter and the old ones have already forgotten about it” B., 1895.

Thus, B.’s ‘inability’ to follow F. completely on this issue is simply a measure of F.’s own growing fanaticism about it.”

A Viena fim de século era mais promíscua que Gotham City, Paris no auge da opulência e que essas capitais da África setentrional e do Oriente Médio cheias de pederastas todas juntas. Por ali, tudo devia acabar em segredinhos sujos e mulheres histéricas.

F. clearly took his reductionist metapsychology literally when it came to the phenomenon of sex. B., on the other hand, was inclined to be more cautious in generalizing the various mechanical analogies in their model of hysteria. In Studies on Hysteria he treated this model as a psychological heuristic and thus saw no need to make sexuality any more ‘indispensable’ to hysterical symptom formation than affects like fright or anger.”

Eis-tudo da raiva.

Any theory of causation in mental pathology [why not general pathology too?] must take account of the straightforward medical consideration that disease can have only 2 logical sources, acting singly or together: (1) harmful experiences and/or agents originating in the external environment; and (2) endogenous (generally hereditary) factors. Ultimately, however, medical science must also seek to explain what contributes to disease-prone heredity, either in terms of inherited residues of noxious, ancestral experiences – the now-discredited Lamarckian position that F. himself endorsed – or in terms of some other form of genetic anomaly.”

DESCONFIE DOS ESQUEMAS REDONDAMENTE SIMÉTRICOS: “F.’s 4-part logic of disease brings to mind Aristotle’s well-known and similar fourfold analysis of causality into material, efficient, formal and final causes. Thus it is of particular interest that, at the University of Vienna, F. took 5 separate courses in philosophy with Franz Brentano, a specialist on Aristotle who also emphasized that Greek philosopher’s relevance to modern psychology. Two of Freud’s 5 courses with Brentano were devoted to Aristotle and to logic, respectively. See Bernfeld (1951) and, especially, Ramzy (1956), who discusses a number of more general parallels between the doctrines of Aristotle and F..”

The standard English expression ‘free association’ is a misleading approximation of F.’s own choice of the German words freier Einfall for his technique. F.’s term conveys much more of the intended impression of an uncontrollable ‘intrusion’ (Einfall) of preconscious ideas upon conscious thinking, a process that his fundamental rule of analysis – that the patient should report everything that comes to mind – was further designed to lay bare to the physician.”

4. F.’S 3 MAJOR PSYCHOANALYTIC PROBLEMS AND THE PROJECT FOR A SCIENTIFIC PSYCHOLOGY (1895)

I am particularly indebted to Stewart’s comprehensive analysis of the aspect of the choice-of-neurosis in F.’s neurological career in the 1890s (Psychoanalysis: The First 10 Years).”

The development of F.’s ideas on the actual neuroses can be followed in the Fl. correspondence from manuscript Drafts A and B in late 1892 and early 1893, to their far more refined formulations in Drafts E and G (mid-1894 and January 1895), and finally to their various published treatments in the 1890s (1895b, 1895f, 1898a). F.’s general approach to the problem, as stated in his earliest manuscript drafts, was purely ‘toxicological’. In other words, sufferers from the actual neuroses were somehow being neurologically poisoned by their own abnormal deployment of a sexual substance emanating from the reproductive organs.” O cérebro do neurastênico é inimigo do neurastênico, grande descoberta/hipótese que não mudava nada: mas quando é que F. não foi um inútil fataliste?!

AS INSPIRAÇÕES DE REICH: “At this point a totally uninhibited organism would take steps through vigorous motoric activity to place the sexual object in a favorable position. If successful, orgasmic reflex action discharges the accumulated tension in the end organ, thus triggering the simultaneous sensation of voluptuous feelings in the psychical sexual group.”

The 4-part analysis offered here is mine, not F.’s, although it is fully implicit in his psychophysicalist logic about the neuroses.”

He later called such anxiety neuroses ‘the somatic counterpart of hysteria’” “the symptoms of melancholia – a sort of psychopathological ‘mourning over loss of libido’ – were simply an unconscious neurotic counterpart to normal mourning.” “Two forms of actual neurosis were to be distinguished from one another in F.’s scheme: neurasthenia (characterized by lassitude, headaches, indigestion, perceptual sensitivities and a wide variety of other complaints) and anxiety neurosis. Neurasthenia was invariably the result of excessive adolescent masturbation (Freud 1895b), and it generally appeared with the onset of puberty.” Os sintomas de esgotamento, letargia e de fechamento ao mundo exterior não combinam com a puberdade. A energia sexual está em franco crescimento, pouco importando as vicissitudes do indivíduo e ele vive a fase mais expansiva de sua vida psíquica.

neurose atualíssima:

tão atual que só começa a acontecer amanhã!

F. via o afeto como impulsos somáticos que catexizam [descarregam] idéias no processo de obtenção de expressão psíquica.”

The paranoid individual, F. maintained in his 1896 publication, is one who differs from other psychoneurotics by fully accepting the existence of the incompatible idea. [Sem mecanismo de defesa ‘clássico’] Defense is nevertheless achieved in paranoia and entails projection of that incompatible idea onto the external world, whence comes the paranoid’s sense of persecution, his delusions, and his extreme distrust of other people.”

The Project is sufficiently complex that a summary of its contents cannot do it full justice. But a brief list of the topics treated by F. will perhaps suffice to convey the ambitious nature of this undertaking.

No other document in the history of psychoanalysis has provoked such a large body of discussion with such a minimum of agreement as has Freud’s Project. (…) [it] has even prompted some students of F.’s ideas to make elaborate comparisons between it and more recent achievements in the kindred field of cybernetics. Specifically, comparisons have been made to the electronic models of brain functioning developed by Donald Hebb, Karl Lashley, Norbert Wiener and others” “F. soon altogether abandoned the Project itself. As Jones observes, F. never even requested the return of the 2 notebooks that had cost him so much mental effort; and so it was that these notebooks¹ only became known to the world 2 decades after Fliess’ death and a full decade after F.’s own.”

¹ Mas não estamos falando do mesmo livro que tanto inspirou Reich enquanto ainda estava ligado a F.? Estranho…

Holt (1865a) has repeatedly insisted that many of the most important and often seemingly arbitrary aspects of psychoanalytic theory have their origin in ‘hidden biological assumptions’ derived from F.’s pre-psychoanalytic career. According to Holt, F.’s apparently psychological description of the psychical apparatus in the famous 7th chapter of The Interpretation of Dreams (1900a) was no more than a ‘convenient fiction’ – one that ‘had the paradoxical effect of preserving these biological assumptions by hiding their original nature, and by transferring the operations of the apparatus into a conceptual realm where they were insulated from correction by progress in neurophysiology and brain anatomy’ (1968a). Peter Amacher (1965) concurs with this judgment; and it is upon his careful historical documentation of the Project’s various intellectual roots that Robert Holt has based his own historical claims.”

Did F. (…) simply retain old-fashioned neurological terms (e.g. ‘cathexis’) while giving them a new and independent psychoanalytic meaning in The Interpretation (…)? [Mostly so!] Or, are the outmoded 19th-century neurological constructs so evident in the Project still holding up the creaking scaffolding of present-day psychoanalysis, as Holt insists, and has their cryptic nature insulated psa. from a much-needed rejuvenation within the fertile field of neurophysiology (…)? [Both!]”

According to Freudians, the Project represents F.’s ‘last desperate effort to cling to the safety of cerebral anatomy’ and is therefore a conceptual hangover from his earlier neurological education within the famous Helmholtz school of medicine (Jones). Complementing this 1st misunderstanding is the 2nd, namely, that F. abandoned the Project as an abject failure shortly after having written it. As I have already discussed the specific Helmholtz aspect of these claims, stressing its several implicit fallacies, here I shall address the view that the Project was only a ‘neurological’ document.”

F. was convinced that psychology must have a physical basis, and he logically hoped that psychological laws might turn out to exhibit many of the same fundamental principles as the neurophysiological events upon which they are causally dependent (Wollheim 1971).” “Even Jones (…) admits that F. had come upon the meaning of dreams more from an a priori physicalist than from a purely empirical point of view (Amacher 1965). (…) Kanzer’s attempt to reduce F.’s P. metapsychology to purely clinical inductions is, to me, patently unconvincing and only seems to substitute one unfortunate historical extreme for another.”

in seeking to legitimate his hypothetical distinctions between perceptual and psychical-mnemic neurones, F. had momentarily considered what he termed ‘a Darwinian line of thought’ before ultimately settling upon a mechanical solution to that problem.” Tradução: Quando convinha, F. usava o modelo estático da neurologia incipiente do século XIX; quando a explicação era insuficiente, recorria à biologia. Abandonava novamente a biologia quando seus conhecimentos em neuroanatomia pareciam não deixar contradições teóricas.

He formally enunciated 2 such rules, those of attention and primary defense, when his mechanical paradigm proved insufficient to master the psychological problems of intentionality and foresight. So it transpired that, when necessary, F. was able to renounce in the Project the concepts of a reductionist physiologist in favour of concepts proper to an organismic and evolutionary biologist. The importance of this conceptual step cannot be overestimated.”

In this way, and in this way alone [Darwinism], F.’s Project model of mind was made applicable to more than just amoeba-like behaviour. Thus in the Project, his 2 biological models – the purely mechanical and the organismic-evolutionary – were at times decided rivals for his supposedly ‘neurological’ loyalties.” “one remarkably well-integrated psychobiological system.”

This psychology is really an incubus… All I was trying to do was to explain defence, but I found myself explaining something from the very heart of nature. (…) Now I want to hear no more of it” F. a Fl.

F.’s unrelenting difficulties with the problems of defense and pathological repression in the P. bring up the important but far too little emphasized fact that he never finished this work. Furthermore, it was its most critical part – ‘The Psychopathology of Repression’ in the 3rd, and now lost, notebook – that he failed to complete to his personal satisfaction and thus withheld from Fl. [and burnt].”

From that point (completion of the first 2 notebooks) I had to start from scratch again, and I have been alternately proud and happy and abashed and miserable, until now, after an excess of mental torment, I just apathetically tell myself that it does not hang together yet and perhaps never will. What does not hang together yet is not the general mechanism (…) but the mechanical explanation of repression, clinical knowledge of which has incidentally made great strides.” Daí todo o seu pavor medonho de que Marie Bonaparte expusesse sua charlatanice ainda em vida, de posse das cartas a Fl..

The principal difficulty (…) was to provide a mechanical explanation for defense against unpleasure without having to assume the existence of an ‘observing’ ego.” Nascimento da tópica esdrúxula e fim de qualquer utilidade do Fraudismo.

chemical measure of unpleasure”

SEM FLIESS, SEM PSICANÁLISE: “It was to Fl. ultimately that F., in his candid desperation, increasingly looked for help in attempting to solve the problem of pathological repression in biological terms. ‘I am in a rather gloomy state,’ Fr. wrote to his friend on 30 June 1896, 9 months after drafting the Project for a Scientific Psychology, ‘and all I can say is that I am looking forward to our next congress. . . . I have run into some doubts about my repression theory which a suggestion from you . . . may resolve. Anxiety, chemical factors, etc. – perhaps you may supply me with solid ground on which I shall be able to give up explaining things psychologically and start finding a firm basis in physiology!’.” Mal posso acreditar que isso passou pela censura e pente-fino de Kris e Anna F. para publicação, pela 1ª vez, dos extratos das cartas F./Fl. (Origins of Psychoanalysis, p. 169)!

It is often assumed, erroneously, that there is only one form of reductionism in science – to the laws of physics and chemistry. But in certain sciences, particularly the life sciences, there are 2 major forms of reductionism – physical-chemical and historical-evolutionary; each supplements the other and explains attributes of living organisms that the other cannot (Mayr 1961).”

PART II: PSYCHOANALYSIS: THE BIRTH OF A GENETIC PSYCHOBIOLOGY

5. WILHELM FLIESS AND THE MATHEMATICS OF HUMAN SEXUAL BIOLOGY

A correspondence between the 2 began shortly after their first meeting, and by 1892 the formal Sie in their letters had given way to the informal du.”

Unfortunately even the availability of a complete edition of F.’s letters to Fl. would hardly solve many of the most important enigmas that have come to surround the intellectual relationship of these 2 men. Part of the historian’s problem stems from the fact that they exchanged many of their scientific ideas orally.”

Your praise is nectar and ambrosia to me”

Fl.’s Christmas present to F. in ‘98 was, appropriately, a two-volume set of Helmholtz’ lectures (Kris 1954). Physics, chemistry, and, for Fl., particularly mathematics were to be the foundations of the mature sort of scientific explanation that both men sought to achieve in their medical theories. It was Fl., significantly, who encouraged F. to continue with the Project for a Scientific Psychology when he began to bog down under the manifold frustrations of the ambitious undertaking.”

The standard and, indeed, the virtually unanimous judgment of posterity regarding Fl.’s scientific ideas is that they constitute a remarkably well-developed form of pseudoscience.”

Fl., Gardner explains, analysed all his periodicity data in terms of the general formula x*23 +- y*28. Unfortunately Fl.’s mathematical abilities must have been limited to elementary arithmetic, Gardner asserts, for what Fl. did not seem to realize was that any 2 positive integers that possess, like 23 and 28, no common divisor, can be used with his general formula (above) to derive any positive number whatsoever! Thus, there was no positive integer that Fl.’s formula could not produce, given the right juggling of the values of x and y. (Gardner, Fads an Fallacies in the Name of Science, 1957; 1966)”

If one eliminates these as well as 4 other numbers within plus or minus 3 of 28, one is left with only 2 candidates for Fl.’s formula: 23 and 33. It is interesting that modern Fliessians (and to this day Fl.’s theories boast a considerable following in Germany, Switzerland, Japan and US) have added a 33-day cycle to Fl.’s original 2-cycle system. One of Fl.’s most ardent disciples, Bruno Saaler, also found such a 33-day period in his own periodicity researches while Fl. was still alive, and asked his mentor about it.” Qualquer bom matemático ‘imparcial’ pode provar a existência de Deus para os crédulos! Como qualquer satanista ou esotérico pode usar os números a seu favour, ad infinitum

Fl. replied that he, too, had found considerable evidence for such a period, but he had finally concluded that it was really to be explained as the difference between 2*28 – that is, 56 – and 23[*1] (Saaler, 1921).

Freud intended to name one of his 2 youngest children after Fliess, but, as Jones dryly remarks, ‘fortunately they were both girls.’

F. even permitted Fliess to operate repeatedly upon his own nose and sinuses – Fl. surgically removed and cauterized part of F.’s turbinate bone – in the hope of dispelling certain neurotic symptoms!”

Two voices, albeit lone ones, have managed to find a few good words to say about Fl. – words that go beyond the standard attribution of menial functions that he supposedly served in F.’s life. (…) [e.g.] Eissler: [que começou a rever suas posições tarde demais, na velhice da velhice…] (…) an unsolved enigma still surrounds the relationship of these 2 men”

Precisely what that ‘unsolved enigma’ might be is a subject to which the psychiatrist and historian of medicine Iago Galdston (1956) long ago devoted an outspoken, heterodox, and thought-provoking essay.”

DO ESOTÉRICO AO EXOTÉRICO, PERCORRENDO TODO O HORÓSCOPO E TODO O CALEIDOSCÓPIO: “Virtually all of Fl.’s major ideas – periodicity, bisexuality, polarity, and man’s dependence upon the world process – were part of a Romantic tradition in medicine” “among other figures [than proto-biologists, naturalists and physicians], Galdston specifically cites Leibniz, Kant, Fichte, Schelling, Goethe, Carus, Oken, Novalis and Bachofen

In fact, I have absolutely no hesitation in asserting that, along with Brücke, Charcot and Breuer, Wilhelm Fliess is the 4th, the last, and perhaps the most important of the quaternary of personal friends and scientific contemporaries who most influenced F.’s psychoanalytic thinking during the crucial years of discovery.”

Surprising as it may seem, Fl. was hardly alone during the early 1890s in suspecting a physiological connection between the nose and the female sexual organs.”

Speaking in 1898 at a major medical conference in Montreal, Mackenzie expressed nothing but praise for Fl.’s researches (…): ‘Fliess’ elaborate monograph, written in apparent ignorance of the work done by me in this special field before him, is a model of painstaking labour, and is valuable as an independent contribution to the study of this important subject’”

To render the relationship to which I wish to call attention more intelligible, it is necessary to recall the anatomical fact that in man, covering . . . the septum of the nose is a structure which is essentially the anatomical analogue of the erectile tissue of the penis”

Indeed, the genitalia, the nipples, and the nose are the only parts of the body to possess such erectile tissue. Also, there generally occurs during sexual arousal a simultaneous erection of all such tissues throughout the body. According to Mackenzie, this last circumstance explains why some individuals suffer from chronic nasal disturbances (nosebleeding, sneezing, and simple occlusion) during moments of intense sexual excitation.”

Mackenzie believed that all such afflictions of the nasal mucous membranes were probably ‘the connecting link between the sense of smell and erethism of the reproductive organs exhibited in the lower animals’.”

In this connection Mackenzie testified that masturbators frequently suffer from concurrent nasal disease, olfactory disturbances and nosebleeding.” “Nor was Mackenzie surprised by Fl.’s report of several cases of accidental abortion due to galvanocaustic operations on the nose, for analogous medical observations had been known to Pliny in ancient times.”

Mackenzie’s early findings (1884) had received a prompt and favourable discussion from F.’s noted colleague at the University of Vienna, Richard von Krafft-Ebing.” “Krafft-Ebing drew attention to the relevance of the nasogenital relationship to certain enigmatic problems of sexual pathology, and he cited patients plagued by olfactory hallucinations apparently induced through excessive masturbation.” “Indeed, so closely linked with sexuality did Krafft-Ebing believe the olfactory sense to be that he envisioned the two functions as controlled by proximal areas within the cerebral cortex.”

For a more complete review of the history of this field, see Semon (1900), who credits the Freiburg otolaryngologist Wilhelm Hack (1884) with developing the notion of nasal reflex neuroses independently of the Mackenzie-Fliess theory of nasogenital disorders.”

By the late 1890s, the area of research pioneered by Mackenzie in 1884 in America and shortly thereafter by Fl. in Germany had come to be a common topic of discussion among rhinologists. To cite one illustration, in the same periodical (the much-respected Journal of Laryngology, Rhinology and Otology) and year in which Mackenzie issued his 1898 review article on this subject, there appeared a paper discussing the frequent association between nasal catarrh and enuresis (bed-wetting) among children.”

some 20 years earlier (…) illustrious biologist and ardent Darwinian, Ernst Haeckel (…) had theorized in his Anthropogenie oder Entwickelungsgeschichte des Menschen (Anthropology or Evolutionary History of Man) that ‘erotic chemotropisms’ – that is to say, chemically based sex stimulants affecting taste and smell were (…) the ‘primal source’ of all sexual attraction in nature (1874a).” “When sexologist Iwan Bloch published his 2-volume Beiträge zur Aetiologie der Psychopathia sexualis (1902-3), he duly cited Haeckel’s evolutionary hypothesis immediately before discussing both Fl.’s researches and their more recent confirmation in 47 clinical histories by Arthur Schiff (1901).”

(*) “Bloch, Haeckel and Fliess were all 3 to become founding members of the Berlin Ärtzliche Gesellschaft für Sexualwissenschaft und Eugenik in 1913. This organization in turn provided a prominent forum for the discussion and dissemination of Fl.’s theories. For a general review of late-19th-century literature on sexuality and olfaction, see Kern, 1975

What Benedikt and other critics contested was Fl.’s general theory of ‘nasal reflex neuroses’ and, in particular, the clinical frequency that he persisted in claiming for such disorders (1901). Yet (…) Even the ever-cautious Josef Breuer, after some initial hesitation, appears to have accepted the whole of Fl.’s nasal theory by the mid-90s, while Richard von Krafft-Ebing’s enthusiastic endorsement of the Mackenzie-Fl. doctrine stands in considerable contrast to the ‘benevolent scepticism’ with which he tended to view many of F.’s psychoanalytic claims about this same time.

As late as 1914, almost 20 years after their formulation, Fl.’s ideas on nasogenital disorders were still being openly discussed and zealously defended on an evolutionary as well as on a clinico-medical basis. One lively focal point for these later debates was the experimental research by Koblanck and Roeder in 1912, which showed that young rabbits that had had Fliess’ ‘genital spots’ surgically removed from their noses uniformly suffered an inhibition of development in their genital organs.” “How, his supporters apparently wondered, could Fl.’s detractors be so blind to the biological validity and importance of his nasal discoveries? § It is against this background of biological and medical debate over Fl.’s theories that the clinical support of his numerous co-workers must also be considered, for a surprising number of them found that his methods of cocaine application and nasal cauterization actually worked!”

The method becoming more generally known made friends out of scoffers, and many a man who began to experiment with it in the hope of discrediting it and exposing its fallacy wound up as a disciple and an apostle. Wherever the method was subjected to impartial tests it has achieved an amazing number of successes, and the experience of the last 6 years has procured for it many friends who would be loath to part with it if not forced thereto by very weighty reasons” Ries, 1903

Yet, numerous experimenters who took careful steps to preclude suggestion found that this particular factor could not explain why cocaine solutions worked and water did not, why the cocaine solutions uniformly took 8 minutes to act – instead of having a more immediate effect, as they should have done if suggestion was involved – or why cauterization of the nose often produced permanent results. (…) Only Fl.’s more ambitious and peculiar theory of the ‘nasal reflex’, together with his method of therapeutic treatment, eventually proved ephemeral.”

(*) “The specific use of cocaine in the treatment of nasal disorders remains one of the few success stories in the history of this otherwise problematic drug. According to Henderson and Johns (1977), this drug is unrivalled in nasal therapy today for its fast action, its prolonged duration, and its strong vasoconstricting and decongestive effects. ‘Cocaine finds its most extensive use in nasal surgery. In a recent survey of 4000 otolaryngologists, 94% said that they utilize cocaine routinely for anesthesia in nasal surgery’.”

the study of vital periodicity had passed through a long and honourable history before Fl. turned to it in the 1890s. The lengthy list of previous researchers into the biomedical implications of vital periodicity includes, among others, Charles Darwin, who in The Descent of Man had addressed himself to ‘that mysterious law’ common to both man and lower animals ‘which causes certain normal processes, such as gestation, as well as the maturation and duration of various diseases, to follow lunar periods’ (1871).

D. recognized not only the biological significance of the 28-day lunar cycle in most living creatures, but also the existence of regular weekly cycles, together with their even multiples, in virtually all temporal aspects of growth, reproduction, and disease known to life science. Darwin’s explanation for such weekly periodic processes assumed that man and his vertebrate relations must be descended from an ever lower, originally tidal-dependent, marine organism similar to the present-day ascidians.

The ascidians, or sea squirts, appear in adult form to be potato-sized sea plants. They are exclusively found, fixed to firm supports, in tidal zones. In the mid-1860s, the remarkable discovery was made by Russia’s leading 19th-century embryologist, Aleksandr Kovalevsky (1840-1901), that the larval form of the ascidian, which resembles a microscopic tadpole, possesses a rudimentary notochord and is therefore related to the most primitive of all true vertebrates (see also Adams 1973). The ascidians were consequently recognized as animals, not plants, and were considered by many to be a ‘missing link’ between invertebrates and the lowest true vertebrates.(*)

(*) The honor of being the lowest true vertebrate had previously fallen to the lancelot or amphioxus, a primitive fish that was once mistakenly classified with the worms. For a more general historical review of the receptions and controversies that greeted the famous ascidian hypothesis of vertebrate descent, see Russell 1916).”

“… animals living either about the mean high-water mark, or about the mean low-water mark, pass through a complete cycle of tidal changes in a fortnight [14 dias]. Consequently, their food supply will undergo marked changes week by week. The vital functions of such animals, living under these conditions for many generations, can hardly fail to run their course in regular weekly periods. Now it is a mysterious fact that in the higher and now terrestrial Vertebrata, as well as in other classes, many normal and abnormal processes have one or more whole weeks as their periods; this would be rendered intelligible if the Vertebrata are descended from an animal allied to the existing tidal Ascidians. (Darwin, 1874, expanded from the 1871 ed.).

As striking illustrations of both the prevalence and the indelible nature of this law, D. went on to cite that the eggs of the pigeon hatch in precisely 2 weeks, those of the hen in 3, those of the duck in 4, those of the goose in 5, and those of the ostrich in 7 whole weeks.

But why, asked D., had such weekly periods survived so uniformly in higher organisms? He attributed this rhythmic persistence to natural selection, which must have favoured in gestation and other periodic biological functions only those temporal alterations that harmonized with the original pre-existing cycles of the ancestors. Such ‘pre-adaptive’ transmutations, D. reasoned, would have been those occurring ‘abruptly by a whole week’. This conclusion, if sound, is highly remarkable; for the period of gestation in each mammal, and the hatching of each bird’s eggs, and many other vital processes, thus betray to us the primordial birthplace of these animals.

Darwin’s interest in vital periodicity was apparently aroused by the researches of his fellow countryman Thomas Laycock, who had treated the subject in a provocative series of 11 separate studies published in the early 1840. D. must have been familiar as well with his grandfather Erasmus Darwin’s stimulating treatment of solar and lunar influences upon biological processes. See Erasmus D.’s discussion of The Periods of Disease in Zoonomia (1794-6).

A neurophysiologist and neurologist like F., Thomas Laycock (1812-76) was a prolific scientific writer and published some 300 articles and 6 books in his lifetime. His widely read Treatise on the Nervous Diseases of Women: Comprising an Inquiry into the Nature, Causes, and Treatment of Spinal and Hysterical Disorders recognized hysteria in the male, attributed hysteria in the female primarily to sexual causes, and, on more Fl. lines, argued that menstruation does not cease during pregnancy (1840). More important for the history of psychology, Laycock was one of the earliest to develop a theory of the reflex action of the brain. He later combined this doctrine with a remarkably Freudian view of unconscious mental activity in order to explain dreaming, states of delirium, and various other mental disorders. He was one of the first neurologists to apply the theory of evolution to explaining the comparative structure and function of the nervous system in man and other vertebrates (see Laycock 1860). Through his famous pupil John Hughlings Jackson, Laycock’s views on the ‘evolution and dissolution’ of nervous functioning were later to have a major influence on F..”

Like Fl. half a century later, Laycock believed that temporal cycles govern the duration of many stages in the development of organisms. He drew much of his evidence on this score from the life cycles of insects, showing that the sequence of principal stages (ovum, larva and its moults, pupa, imago or ‘puberty’ stage, and adult life-span) often follows multiples of 7 whole days.”

In this last connection [cycles of 3 ½ days and its multiples for diseases] he pointed to the remarkable coincidence between such views and the famous ‘critical days’ of Hippocratic medicine – that is, the 7th, 14th, 21st, and 28th days. Setting forth one last anticipation of Fl.’s theories, Laycock suggested that twins, siblings, and perhaps even successive generations might all share identical constitutional periodicities in their vital cycles.”

Krafft-Ebing mentions Laycock’s Nervous Diseases (…) for its observations on the sexually stimulating effect exerted by musk [uma planta] upon women (Psychopathia Sexualis, 1886).”

Havelock Ellis, one of the great turn-of-the-century pioneers in the scientific study of sexuality, mentioned both men prominently and devoted a large portion of the 2nd volume of his Studies in the Psychology of Sex to ‘the phenomena of sexual periodicity’ (1900).” “Following the Italian anthropologist Mantegazza rather than D., Ellis attributed the 28-day menstrual cycle in the human species to a (…) residue of the favourable opportunities for courting, long provided by the light of the full moon (1900).”

In the late 1890s, the Nobel Prize of 1902 Arrhenius had claimed the discovery of 2 separate periods of air-electrical activity in Stockholm, following intervals of 25.93 and 27.32 days, respectively. On the basis of these meteorological findings, he went on to refer the 26.68-day menstrual cycle average in that city to the mean effect of these 2 electrical periodicities – themselves averaging 26.62 days, a difference of only .06 days [~1h26] (Arrhenius 1898).”

Krafft-Ebing had previously recognized equivalent phenomena in the male sex – for example, regular monthly homosexual urges and the case of a microcephalic imbecile whose sexual impulses were manifested ‘periodically and intensively, as in animals’ (1899).”

Like the relationship between the nose and the genitals, the subject of vital periodicity had become a hot topic for scientific research around this time. Indeed, not a few contemporary researches believed with Fl. that vital periodicity, together with its manifest links to biochemistry, might soon provide a major scientific breakthrough on the level of D.’s momentous achievements half a century before.”

Gravitation and evolution had to run the gantlet [encruzilhada, convergência] of ‘ist’ and ‘ism’, but are now undeniable laws. The medical man has now, so to speak, to devote himself to the astronomy of microscopic bodies” (Green 1897) – “vital law” never took place!

W.Fl.’s 3rd major scientific interest: bisexuality in man.”

To men like Richard von Krafft-Ebing, the idea of constitutional bisexuality provided one of the most promising solutions to the enigmas of homosexuality and other forms of psychosexual hermaphroditism.”

The original bisexuality [o sentido hoje seria ‘unissexualidade’, terceiro sexo, ou sexo uno, ou sexo zero, na realidade – pré-diferenciação sexual não-análoga ao hermafroditismo] of the ancestors of the race, shown in the rudimentary female organs of the male, could not fail to occasion functional, if not organic reversions, when mental or physical manifestations were interfered with by disease or congenital defect . . . . It seems certain that a femininely functionating brain can occupy a male body and vice versa(Kiernan 1888)

Krafft-Ebing presented in Psychopathia Sexualis the instructive case history of a woman who underwent a spontaneous sexual transformation at the age of 30. In June of 1891 this woman suddenly grew a full beard, developed hair on her abdomen and chest, and experienced a drastic voice change from that of a ‘soprano’ to that of a ‘lieutenant’. Temperamentally the patient assumed a psychically aggressive demeanor, and she even showed signs of a progressive ‘masculinization’ of the external genitalia. (…) In support of the probably organic and atavistic, or reversionary, nature of such pathological phenomena, Krafft-Ebing cited the researches of zoologist Carl Claus, an expert on both hermaphroditism and sexual alternation of generations in lower animals. K.-E. was particularly impressed by Claus’s discovery that certain forms of Crustacea live the 1st part of their lives as males and the 2nd as females (see Claus 1891).”

Impressed by his young student, Claus twice obtained for F., in March and September 1876, traveling grants to his newly founded marine laboratory in Trieste. While F. was at the Trieste laboratory, Claus personally directed his first piece of scientific research – a study of the male sex organs of the eel (Freud 1877b).”

Sobre o Segundo e mais conhecido trabalho de graduação de F., com Brücke (op. cit.): “Not only is Petromyzon itself bisexual, but, more important, it is virtually the closest zoological relative to the primitive amphioxus and hence, hypothetically, to the remarkable little Ascidians that had prompted to much lively biological controversy during F.’s student days. (…) Thus, when Fl. brought the theory of bisexuality to F.’s attention in the mid-90s, he found in the latter a biologically prepared listener who not only had trained with a leader in this field but also had conducted first-hand research himself on a bisexual progenitor of man.”

I should like to emphasize that Fl.’s only really new idea was the controversial claim to have discovered a 23-day physiological cycle in man. But even here he was forced to share the honors of simultaneous discovery with another of his biological contemporaries, Edinburgh University Professor of Comparative Embryology and Vertebrate Morphology, John Beard.” “23 days is the average interval between the termination of one menstruation and the beginning of the next.” “Beard sought to demonstrate that the time required from the last day of menstruation to the completion of the next ovulation in women, approximately 23 days, is of far greater biological significance than the full 28-day cycle.”

In the embryological development of every species, there comes a point at which the embryo is finally recognizable in all its essential parts. In man, this point, defined by Beard as ‘the critical period’, comes between the 46th and 47th day of embryonic life. Why, he asked, do some organisms come into the world only long after this critical period is reached? In other words, why are not all organisms born, as are most species of marsupials, when the critical period is attained, and when the primitive yolk-sac placenta of these marsupials is no longer able to nourish the young? Beard’s answer was that the post-marsupial evolution of an allantoic placenta had allowed gradual prolongation of gestation (with all of its well-known evolutionary benefits). But in marsupials, which lack this innovation, the embryo must be born when its parts are roughly complete, and when its source of uterine nourishment is gone.”

Something of a masterpiece in hypothetico-deductive reasoning, Beard’s monography was empirically supported by considerable quantitative data from comparative embryology and reproductive biology. His information showed that such whole multiples were indeed to be found in the mouse, rabbit, dog, cat, cavy, pig, sheep, cow, horse, and even man!

These findings bring us to Beard’s analysis of the relationship between menstrual and ovulatory cycles in human beings. In the human female, B. reasoned, menstruation represents the abortion of an unfertilized egg. It also represents the abortion of a missing 23-day-old embryo, one that would have been half the age at which such embryos now reach their critical period and technically become ‘fetuses’. According to Beard’s theory, 23 days must have been the original length of gestation in man’s ancestors; afterward it doubled to the present critical period and then was augmented, again by whole multiples, until it reached the present gestation span of 276-80 days. The aboriginal period of gestation has nevertheless been preserved, B. argued, in the present period of ovulation, which is triggered anew by each abortive ‘birth’ (menstruation) of an unfertilized embryo. In B.’s interpretation, then, the period of evolution is to be seen as extending from the very end of one menstruation to the very beginning of the next (1897). Menstruation itself is merely a superadded phenomenon – and peculiarly long in the human female on account of the highly evolved nature of placental reproduction in our species.

One important implication of Beard’s theory was that in man the usual length of gestation (276-80 days) could be understood as precisely 12 times the average ovulation cycle (23-23,33 days) and 6 times the critical period (46-47 days), and not, as most physicians then commonly believed, 10x the 28-day menstrual cycle. In corroboration of his theory, Beard presented considerable statistical evidence showing that spontaneous abortions tend to be most frequent at multiples of the 23-day ovulation cycle (1897).”

Although Fl. reached essentially the same conclusion as B. regarding the independent existence of a 23-day sexual cycle in man, he seems to have done so from a more physicalist point of view.” “It should be noted that much of Fl.’s scientific work on this subject originated from observations on himself and his family. Fl.’s wife became pregnant with her first child in March 1895 and delivered in 29 December, precisely the interval in which Fl. developed his ideas on the 23-day masculine cycle. What is more, during her pregnancy his wife’s periods varied from a lower limit of 23 days to an upper limit of 33 (Kris). (…) He was well aware that during pregnancy menstruation appears to cease only superficially. That is because the most characteristic feature of the female cycle, the last 4 or 5 days of uterine bleeding, is biologically suppressed (Fliess 1897).” “[This is the reason] this 2nd rhythm could be seen in Fl.’s bioenergetics terms as the really active and procreative component of the human sexual cycle.”

QUANDO DOIS MACHISTAS COADUNAM: “So, too, when his friend F. later came to the conclusion that libido, which the latter always conceived as inherently ‘active’, must be predominantly masculine and therefore corresponds to Fl.’s 23-day substance”

The normal ratio between the sexes at birth is roughly 105 or 106 males to every 100 females. On the basis of his theory of bisexual periods, Fliess predicted that this ratio should be 121.7 per 100 (=28/23). But males are known to show a much higher intrauterine, as well as postnatal, mortality rate than females. Citing data from Carl Düsing’s (1884) authoritative monograph on the regulation of the sex ratio in man, animals and plants, Fl. noted that the human dead-born sexual ratio was 129 males to 100 females (based on a figure of 10 million dead-born foetuses). Numerically, this finding is intriguing for Fl.’s theory, because:

129 dead-born males / 106 live-born males = 1.217 = 28/23 (exactly)!

In other words, the higher intrauterine death rate among males appeared to be somehow related to Fl.’s 2 periodic cycles.”

Fl. even produced independent biological statistics from Düsing (1884) to show that roughly 2 fetuses die in utero for every 51 born alive – precisely the figure required by his theory:

1+1 / 28+23 = 2 dead-born foetuses / 51 live-born foetuses”

There are (…) misunderstandings about Fl.’s theories that we are finally in a position to correct (…) in order to convey the full and rational nature of his influence upon F. (…) First, Fl. definitely did not chose the number 23 in his general formula 23x +- 28y because it allowed him to derive, in conjunction with 28, any and all positive integers, as critics from his own time up to ours (e.g. Gardner 1966) have suggested.(*) Fl. was simply not that stupid, either biologically or mathematically. [desmente trecho acima] Indeed, he was fully aware of such mathematical criticism and devoted 2 whole chapters in Der Ablauf des Lebens (1906b) to refuting it!

(*) According to Kris (1954), Fl.’s scientific ideas were never discussed outside Germany. This claim is patently false. See Ellis (1928), Mackenzie (1898) and Ries (1903) for further English and American citations of Fl.’s theories. See also Henning (1910).”

All in all, it would not be going too far to say that the remarkable mathematical versatility of 23 and 28 in Fl.’s basic formula was purely an unforeseen consequence of his prior biological train of thought. Only later did he apparently realize this mathematical versatility, which proved to be a veritable nuisance in his efforts to win converts to his biological conceptions.”

To cite perhaps the most glaring example of this historical disregard by the Freudians, Fl. has long been held responsible for predicting, on the basis of his biorhythm theory, that F. would die at 51 (the sum of 23 and 28).(*) And yet periods of years had absolutely no significance in Fl.’s theory.(**) In actuality, F. himself made this superstitious prediction in a letter he wrote Fl. a full year before his friend had even begun to speak about a 23-day cycle. F. founded this famous prediction upon his own knowledge of several colleagues who had died suddenly at this critical age (1900a). He was also obsessed at various times with the fear that he would die at 41 and 42, 61 and 62, and 81½ – ages that were as little significant to Fliess’s theory as was 51. Thus, the ‘death-at-51’ story, long a symbol of Fliess’s ‘number mysticism’ and ‘Teutonic crackpottery’, is largely a myth – one that tells us something about Sigmund Freud and his subsequent biographers, but nothing about Fliess.

(*) Consequently, Jones, Bakan, Lauzon, Gardner, Costigan, Schur and Strachey were all wrong.

(**) The only one who has ever noticed this inconsistency is the English-language translator, Patrick Evans, of Lauzon’s French biography of F. (1963), in a translator’s footnote to p. 47.

This conclusion brings us to the second and perhaps the more important of the 2 major historical misunderstandings about Fl.’s theory of vital periodicity.”

(*) “Discovery of the 33-day ‘intellectual’ cycle was announced in the 1920s by Alfred Teltscher, a doctor of engineering and teacher at Innsbruck who collected information on the performance of high school and university students. A series of Swiss investigators subsequently combined Fl.’s 2 cycles with the Teltscher cycle to create the present 3-cycle system. See Wernli 1959; Thommen 1964.”

Fl. was fully aware that the 28-day menstrual cycle does not confine itself to producing just 4 or 5 days’ symptoms every 23rd through 28th day or, for that matter, at regular 14-day intervals (…) Nor did Fl. expect all the phenomena of life, any more than those pertaining to menstruation, to follow entirely like clockwork at uninterrupted intervals of 23 and 28 days.” “What Fl. did expect was that different vital and pathological manifestations would intermittently occur in various bodily organs throughout each cycle and that the presence of recurring patterns would reveal itself by phenomena like migraine, Nebenmenstruation [sangramentos esporádicos fora dos dias habituais de menstruação], and other organic symptoms following one another at intervals of 23 and 28 days.”

Thus, Fliess was, above all, a victim of his own prior expectations; and as the latter had a substantial biological foundation, it was all the easier to find confirmations of his theory. After all, much of his data was derived from entirely bona fide 28-day, and even some 23-day manifestations of his female patients. (…) his ultimate scientific self-deception on the basis of prior biological assumptions was hardly the sort of totally ‘psychopathological’ affair that Freud’s biographers have so often proclaimed it.” “Some even interpreted resistance to his discoveries as a sign that he, like the long-unappreciated Gregor Mendel, was simply too far ahead of his times.”

From now on, we may definitely delete the word ‘chance’ from the biological sphere of events.”

6. F.’S PSYCHOANALYTIC TRANSFORMATION OF THE FLIESSIAN UNCONSCIOUS

Yet what a truly remarkable fact it is that not a single word has been uttered in the voluminous secondary literature on F. concerning Fl.’s discoveries on this most Freudian of topics (childhood sexuality). (…) Fl. published his ideas on infantile sexuality for all to see in his scientific monograph of 1897. (…) Kern, who mentions Fl.’s observations on sensual thumb-sucking in childhood seems not to have appreciated that they were part of a far more comprehensive conception of childhood sexuality and, more important still, that this conception was integral to his overall theory of human development and exerted a considerable influence upon F..”

Growth to Fl. was just another form by which sexual chemistry expresses itself in a wider, asexual mode of biological reproduction.” “his pansexualist unification of biorhythms, sexual chemistry and a theory of the entire human life cycle seemed to contradict contemporary scientific belief in the absence of sexual phenomena before puberty.”

Among children, in whom development proceeds in the same periodic thrusts (as found in adults), subtle indications from among the cluster of anxiety symptoms¹ betray the fact that these thrusts are essentially of a sexual nature. Such symptoms are singultus (attacks of sobbing) and diarrhea (‘teething diarrhea’). (…) it finds (…) symptomology (…) with little boys, in direct erections of the penis (…) (even as early as the first months of life!).”

¹ Referência a F.

Fl. set forth his provocative views on spontaneous infantile sexuality at a time when F., obsessed by his faith in a traumatic seduction theory of psychoneuroses, was intent on minimizing just such a possibility.”

Like F., Fl. was concerned with what is commonly known in psychoanalytic parlance as erotogenic zones – those parts of the body (including the nose) that are capable of contributing to sexual excitement in its wider, non-genital sense.”

I would just like to point out that the sucking movements that small children make with their lips and tongue on periodic days . . ., the so-called ‘Ludeln’,(*) as well as thumb-sucking, must be considered as an equivalent of masturbation. Such activity (…) brings on anxiety, sometimes combined with neurasthenia, just as does true masturbation. It comes on impulsively and is, on this account, so difficult to wean children from. . . . The role which the word ‘sweet’ (suss) later plays in the language of love has its initial physiological root here. With lips and tongue the child first tastes lactose (Milchzucker) at his mother’s breast, and they provide him with his earliest experience of satisfaction. Süss is related to the French sucer (to suck) and to Zucker, suggar, sugere.”

(*) “English possesses no real equivalent for the German nursery terms Ludeln and Lutschen (‘thumb-sucking’) used by Fl.. Both terms were later employed by F., along with wonnesaugen (‘to suck sensually’), to describe sexual manifestations of the so-called oral phase of childhood development. (…) see Strachey’s footnote to F.’s Three Essays. See also Lindner (1879), who had previously used all 3 terms in his study of childhood thumb-sucking.”

Compare Fl.’s etymological analysis of the German word suss with F.’s similar observations on this subject in his case history of the ‘Wolf Man’ some 20 years later

The enuresis and urticarial of children also appears only at periodic intervals. Childhood enuresis resembles the urge to urinate by which so many women are tormented and which also in fact occurs at periodic intervals among adults. Its relationship with sexual processes was apparently already known to the ancients (castus raro mingit, ‘the chaste rarely urinate’). But only if one knows its exact periodic relationship, can one understand why among older people, following the extinction of the sexual function, the bladder becomes less ‘retentive’ and how it might come to be that in some men, directly after castration and in an often mysterious way, that incessant impulse to urinate suddenly disappears, which at times can make life miserable for those with prostate disorders.” PARA ALÉM DA VASECTOMIA! DEVERÍAMOS NOS AUTOCASTRARMOS (EM BUSCA DO AUTOADESTRAMENTO)? O eunuco é o “cão comportado” cultural.

Fl. stood on Freudian ground when he drew a connection in his sexual theory between haemorrhoids in adults and those ‘reflex-neuroses’ associated with the reproductive system.”

Ernest Jones, who apparently misread a remark by F., has erroneously attributed to Fl. the origins of the specific term sublimation. Actually, both the term and the concept were already in common circulation in F.’s day, and they may be traced to Novalis, Schopenhauer and Nietzsche, among others. Although Krafft-Ebing did not employ this term, he believed, like Nie. and the others, that civilization, ethics and the highest poetic arts were all founded in human sexual feeling (Psychopathia Sexualis, 1886 and later editions).” Ernest Jones errar ou se enganar é pleonasmo.

(*) “Breuer’s teacher Ewald Hering (1870) and Ernst Haeckel (1876) had already proposed that heredity was merely ‘memory’ stored in the form of molecular vibrations or periods of motions (Gould, 1977).”

#offtopic Se Adão viveu 1000 anos, quando vocês acham que começou a adolescência dele e quando a pipa dele parou de subir?

Such a sharp student of etymologies as Fl. could hardly have overlooked the fact that the German language specifically relates ‘shame’ (Scham) to the genital organs: e.g., Schamteile (‘genitals’), Schamgegend (‘pubic region’), Schamglied (‘penis’), Schamgang (‘vagina’), and so forth”

F.’s use of the German expression schubweise in the preceding passage [of Interpretation of Dreams] is particularly worthy of commentary. Schub (‘push’, ‘shove’, ‘thrust’, etc.) and schubweise (‘by thrusts’) were developmental terms Fl. used throughout his monograph of 1897 in order to express the periodic ebb and flow that he personally attributed to all developmental processes in human beings. As such, these terms were unique to his writings in this scientific and biophysical context. F. adopted these terms from Fl. and introduced them into his correspondence with his friend soon after reading the latter’s monograph. In English translation, this linguistic tie between Fl. and F. has largely been lost. Thus, Eric Mosbacher’s English rendition of these terms in F.’s letters to Fl. (e.g., Entwicklungsschübe as ‘progressive steps of development’ and Schübe as ‘steps’ of development) has unfortunately obliterated both the precise scientific meaning of these terms in German, where Schub is specifically used in physics to mean ‘thrust’, and their peculiarly Fliessian, biorhythmic significance. (…) In the SE, translator Strachey’s choice of the words ‘successive waves (of development)’ as an English equivalent for Entwicklungsschübe and ‘by successive waves’ for schubweise is considerably more accurate but still not entirely adequate.”

Fl.’s 1st child (Robert) and F.’s 6th and last child (Anna) were born the same month (December 1895). Just how far F.’s scientific cooperation with Fl.’s researches proceeded may be gathered from the following anonymous, but surely Freudian, observation subsequently attributed to ‘a friendly colleague’ by Fl., who cited his anonymous friend ‘word for word’:

My wife felt the 1st movements of the child on July 10th 1895. On the 3rd December came the beginning of labor and birth. On the 29th day of February her period resumed again. My wife has always been regular since puberty. Her period runs somewhat over 29 days. Now, from the 3rd Dec. to the 29th Feb. exactly 88 = 3 * 29.33 days elapsed and from the 10th of July to the 3rd Dec. 146 = 5 * 29.2 days passed. For a period of somewhat over 29 days the birth therefore ensued right on time and the first movements of the child fall on the 5th menstrual date.”

That these observations were made by Freud and dealt with his wife and youngest child seems more than likely on the basis of the following 5 points of indirect evidence. First, A. was indeed born on 3 Dec. 1895. Second, she was Frau F.’s 6th delivery. Third, the written summary of evidence provided by Fl.’s anonymous ‘colleague’ required familiarity with Fl.’s unpublished theoretical expectations. Thus, the information could only have come from someone like F. who was in close scientific contact with Fl. in the early summer of ‘95. Fourth, the particular expression befreundeter College employed by Fl. in referring to his collaborator is one that F. and Fl. had previously agreed upon for just such discreet acknowledgments of mutual scientific debt. Fifth, Fl. later used birth information on all the F. children in his larger book Der Ablauf des Lebens (1906c).”

Uma doença em uma imagem

An universal medical diagnosis in the 1870s and 1880s, the attribution of neuroses and even insanity to ‘masturbatory excesses’ had virtually vanished by the 1930s and early 1940s. This change was effected largely by the pioneering medical efforts of Ellis, Moll and other contemporary sexologists, who, by systematically collecting information on the problem, found healthy and mentally disturbed individuals to differ little in their autoerotic practices.” “Freud and Fliess were united in their endorsement of the harmful consequences of such onanistic activities by their toxicological conception of the whole problem. (…) In spite of many emendations, [A psicanálise pode ser vista como UMA ÚNICA E GIGANTESCA AUTORRETIFICAÇÃO INTERMINÁVEL, TAL QUAL AS ANÁLISES!] F.’s mature theory of the neuroses continued to support this toxicological-bioenergetic conception of sexual pathology that had bound him to Fl. in the ‘90s.”

as late as 1899, Hermann Rohleder, in a scholarly medical monograph on masturbation (…) was able to assert that 16 months was the earliest age at which an erection had ever been reported in the medical literature. In contrast, Fl. was claiming such spontaneous erections as a regular phenomenon in the first few weeks of life – probably on the basis of first-hand observations of his son Robert. (…) See Chodoff 1966

Jung later recalled how surprised he was in 1907 to discover that F.’s wife knew ‘absolutely nothing’ about her husband’s psychoanalytic work (Billinsky 1969).”

F. wrote to his friend in February 1897 in connection with a request for information on early childhood attitudes toward excrement: ‘Because with 12 and ½ hours’ work I have no time, and because the womenfolk do not back me in my investigations’“Fliess had even informed Freud that his son Robert, now in the 2nd year of life, had become sexually aroused by the sight of his mother’s naked body – the same and supposedly revolutionary revelation later occurred to Freud”

Elenore Fliess, in a biography of her husband Robert, has briefly described the home life that allowed his father and mother to utilize him and his siblings as objects of psychosexual research. According to Elenore Fliess, Wilhelm Fliess was a man ‘who however charming to patients and acquaintances was a tyrant at home. His children were 2nd-class citizens, from diet to schooling. The mother, intelligent and quite efficient, would appear to have been more impressed with her husband’s off-beat (and quite unsubstantiable) physiologic theories than with his parental responsibilities’ (1974). It is not without significance that the principal subject of W.Fl.’s pioneering infant studies should have become a psychoanalyst who had little good to say about his own father. Yet prior to the ‘30s, Robert Fliess actively supported his father’s controversial periodicity theories (Schlieper 1928). His father’s death in 1928 and especially Robert’s subsequent training as an analyst during his late thirties seem to have precipitated a considerable re-evaluation of his father and his father’s theories (R. Fliess 1956). When George Thommen, an American Neo-Fliessian, contacted R.Fl. in the early 60s, Fl. refused to speak to him on the telephone; and Thommen was told by a second party that ‘the doctor did not wish to be involved’ Irmão da Anna por procuração. pRocura$ão.

Although F. was apparently unaware of Laycock’s views, the intimate biological link between sexuality and dentition was certainly known to him from more contemporary sources. Charles Darwin, in particular, covered much of this same ground when, in The Descent of Man, he listed tusks and enlarged canines among the most important mammalian secondary sexual characteristics, commented upon the regularly ‘inverse relationship’ between the development of horns and the length of canine teeth, and emphasized the inhibitory effect that castration generally exerts upon the development of horns and antlers in mammals (1871, 1874).”

The perversions regularly lead into zoophilia, and have an animal character. They are not to be explained by the functioning of erotogenic zones which have later been abandoned (in normal individuals), but by the operation of erotogenic sensations which have subsequently lost their force (in normal individuals). In this connection it will be remembered that the principal sense in animals (for sexual purposes as well as others) is that of smell, which has been deposed from that position in human beings. So long as the sense of smell (and of taste) is dominant, hair, faeces, and the whole surface of the body – and blood as well – have a sexually exciting effect. The increase in the sense of smell in hysteria (a state of repressed perversion) is no doubt connected with this.”

At any event, what F. does not state, but nevertheless seems to have had in mind in relating abandoned erotogenic zones to repression and the sense of smell, is Ernst Haeckel’s biogenetic law – better known as the theory that ‘ontogeny is the short and rapid recapitulation of phylogeny’ (1866) (…) then, according to Haeckel’s law, the child must necessarily recapitulate both the process by which the zones were gradually extinguished in man and the concomitant acquisition of olfactory ‘disgust’ toward these zones.” O que é falso, já que a repulsa ao material fecal não é “inata à maturidade”, mas um fator da socialização.

At what age, Freud asked Fliess, is disgust toward excrement first sensed by infants?”

At Aussee (for our planned meeting in August), I know a wonderful wood full of ferns and mushrooms, where you shall reveal to me the secrets of the world of the lower animals and the world of children. [grifo de Sulloway] I am agape [boquiaberto] as never before for what you have to say – and I hope that the world will not hear it before me, and that instead of a short article you’ll give us within a year a small book which will reveal organic secrets of development in periods of 28 and 23”

There can, in short, be little question, as subsequent letters to Fl. make even more evident, that the famed biogenetic law was of major hypothetico-deductive influence upon F.’s thinking throughout the 1986-7 period.”

Fetos do porco, da vaca, do coelho e do homem

Freud then remarked that sexual development in the female, as opposed to the male, seems to require an additional step in organic repression at the time of puberty – one that extinguishes the clitoral, or masculine, zone and thereby prepares the way for the subsequent innervation of the vaginal zone. Feminists will be inclined to see in this last, and surprisingly influential, psychoanalytic idea both a typical reflection of F.’s sexism and a clear sign of his ignorance about the female sex.”

Neurosis always has a feminine character . . . Whatever is of the libido has a masculine character, and whatever is repression is of a feminine character”

Experiences in childhood which merely affect the genitals never produce neuroses in males (or masculine females) but only compulsive masturbation and libido.”

P. 204: F. acreditou (ou, enfim, forjou, já que com charlatões nunca se sabe ao certo) sua ‘teoria da sedução’ principalmente porque não seguiu o trabalho de Fl. nessa parte, recusando-se, nesse ponto de sua ‘vida intelectual’, a atribuir sexualidade (ativa) às crianças pequenas, como algumas passagens de Sulloway já deixavam claro mais acima.

Ou seja, do ponto de vista do ‘teórico honesto’ (supondo que ele não tinha qualquer interesse supracientífico!), assim Sulloway explica o nascimento da ‘principal descoberta da psicanálise’ e que todos os imbecis e descuidados reputam ser de Freud, o primeiro do mundo a proclamar: “it only remained for Freud to take the next logical step in order to see how such repressed sexual impulses might generate phantasies” Além disso, não fosse dessa forma, não demoraria até 1905 para que ele publicasse um trabalho como os Três ensaios.

Was Freud himself consciously aware of any overlap between Fliess’ biochemical, developmental vision of libidinal impulses and his own growing insight into the etiology of neurotic phantasies? Judging from the Fl. correspondence, I believe he was.”

Nuremberg kept me going for 2 months.” Awn, que bonitos são 2 homens apaixonados! Trecho censurado pela família, hahahaha!… Sulloway só pôde citá-lo graças ao “furo” de Schur – quanta ironia!

Até mesmo Ellenberger, o destruidor dos mitos, caiu no conto do vigário mais potentemente que defensores escrachados como Schur e Jones, localizando (crendo haver já é chocante o bastante!) uma autoanálise a partir de 1895, enquanto esses outros babaquinhas atribuíam a “data oficial” como sendo algum mês de 1897.

F. frankly acknowledges the first essay, ‘The Sexual Aberrations’, to be a general compendium of current information from the writings of Krafft-Ebing, Havelock Ellis, Albert Moll and other sexologists.”

in 1910 and ‘15, F. ascribed homosexuality, in part, to ‘narcissistic object-choice and a retention of the erotic significance of the anal zone’

[In the 3rd essay] Adolescence also presents each individual with the critical task of finding an appropriate sexual object. At first such sexual objects are taken in phantasy life only – a process that inevitably revives the incestuous libidinal ties of childhood. These phantasies must be overcome if a normal sexual life is to ensue. Most individuals accomplish this feat by gradually detaching themselves from the parental authority that they accepted so unquestioningly in childhood. Psychoneurosis becomes the individual’s unhappy fate if there instead occurs a repudiation of the demands of normal sexuality, followed by an unconscious return to the incestuous object choice of childhood.”

In spite of the considerable credence given to these various explanations of the estrangement, I must question them all. To begin with, they all rest upon the (…) incorrect assumption that F. (…) was the one who terminated the relationship (e.g., Schur 1972).”

FREUD’S NEUROSES

From about 1894 to about 1900, F. suffered the symptoms of a psychosomatic illness. His complaints included highly depressed moods, disquieting self-doubts, an obsessive preoccupation with his own death, and various gastrointestinal and cardiac disturbances.”

The collapse of his seduction theory (his would-be discovery of ‘the source of the Nile’) effectively smashed his hopes for quick fame and recognition as a neurologist. Moreover, his scientific mistake, already published in several scientific papers, was professionally embarrassing. Indeed, it was fully seven years before F. finally admitted his error in print to the highly sceptical medical community that had never really believed him in the first place!” Isso que dá sair correndo para a caixa de correio com a tinta ainda fresca… Aprendesse com seu ex-mentor Breuer, poxa vida!

The characteristics of a creative illness are polymorphous, according to Ellenberger. They include depression; symptoms of a severe neurosis or even psychosis; excessive preoccupation with obscure intellectual problems; a sense of utter isolation, of ordeal, and of searching for ‘an elusive truth’; continual doubts about one’s ability to reach that great and secret principle; and an euphoric return to health once the discovery, or series of discoveries, has finally been made [or so the author convinces himself of].” Se essa foi a ‘doença’, acho que também já a tive! (2008-10) Todo pensador de pensamento único (Heidegger), aliás. Nietzsche hat mich kaputt gemacht!

E todo este meu depoimento sem que eu tivesse lido as linhas subsecutivas antes! “Such illnesses, Ellenberger maintains, are to be seen among shamans, mystics, creative writers, and many philosophers. Mesmer, Fechner, Nietzsche, Freud and Jung all suffered from a creative illness at some time in their lives. In F.’s case, Ellenberger believes, Fl. took on the role of ‘the shaman master before the shaman apprentice’ and thus facilitated F.’s passage through his creative illness. This is a variant of the traditional ‘transference’ hypothesis about Fl..

Whereas Ellenberger, Jones and most other F. scholars tend to stress the creative derivatives of F.’s neurotic illness, I prefer to concentrate upon its causes. F. was not only an ambitious and creative thinker but also a man obsessed with being creative – a self-styled ‘conquistador’ in the world of science. Eissler (1971), speaking of the medical-student period of F.’s life (1882-86), has reached a similar conclusion in relating F.’s ‘wild and probably pathological ambition’, together with his fear of accepting ‘a subordinate position in the history of ideas’, to many psychical conflicts he experienced during this earlier period. Eissler believes that F. has learned to master such conflicts by the time he visited Charcot in Paris. I, on the other hand, prefer to think more in terms of a ‘return of the repressed’ [HAHAHA] during the late 1890s.” A exata ironia que se deve usar contra os psicanalistas, uma vez que tudo eles rebatem com essas feias ferramentas escolásticas!

“‘We share like the two beggars, one of whom allotted himself the province of Posen; you take the biological, I the psychological.’ Then, with the abandonment of the seduction theory in September 1897, all this suddenly changed as F. also abandoned his extreme environmentalism and in its stead began to speak of ‘big, general framework factors’ in human development”

Biologically dream-life seems to me to proceed directly from the residue of the prehistoric stage of life (1 to 3 years), which is the source of the unconscious and alone contains the aetiology of all the psychoneuroses; the stage which is normally obscured by an amnesia similar to hysteria.”

But Fl. meanwhile had been busy extending his own theories – both along with, and independently of, F. – into the overlapping provinces of psychology, human psychosexual development, and neuropathology. (The absence of Fl.’s replies to F.’s letters should not fool one into thinking him as just a passive or disinterested observer of F.’s psychoanalytic transformation of his ideas.)”

In short, F. wanted to use Fl.’s ideas and suggestions – in his own psychoanalytically transformed terms.”

Contrary to his unconscious wish ‘to survive Fl.’, F. received no indication from the publication of The Interpretation of Dreams that his ambition was to be realized in a purely intellectual sense.”

I am deeply impoverished. I have had to demolish all my castles in the air, and I have just plucked up enough courage to start rebuilding them . . . In your company . . . your fine and positive biological discoveries would rouse my innermost envy. (…) [Veja os sinais do delírio de grandeza:] No one can help me in what oppresses me, it is my cross, which I must bear”

No critic . . . can see more clearly than I the disproportion there is between the problems and my answers to them” Ecoa o “Essas correspondências traem o que há de mais íntimo em minha vida” a Marie Bonaparte…

It’s just as well that we’re friends. Otherwise I should burst with envy if I heard that anyone was making such discoveries in Berlin!”

The result of the situation at Achensee in the summer of 1900 was that I quietly withdrew from F. and dropped our regular correspondence. Since that time F. has heard no more from me about my scientific findings.” Fl., 1906a

F. continued to believe in Fl.’s theory of biological periodicity long after they had parted intellectual company.”

FEDERN does not see the contradiction that has just been mentioned by F.. Tabular comparisons he made from this Fliessian point of view reveal that in some cases the periodic influence comes clearly to the fore as soon as during the course of treatment the psychogenic repetition of symptoms subsides. . . .

HITSCHMANN, too, is of the opinion that the influence exerted by psychic factors is no evidence against periodicity.” Minutes, 1913

F.’s disciples must surely have sensed more than a rational scientific objection in his aversion to combining Fliessian periodicity theory with the psychoanalytic point of view.”

Now for bisexuality! I am sure you are right about it. And I am accustoming myself to the idea of regarding every sexual act as a process in which 4 persons are involved. We shall have a lot to discuss about that” 1899

At first F. could not believe that Fl. would allow such a valuable friendship to come to an end. When he finally realized that Fl. was serious, [meio lerdinho, né gente] he still thought he could placate his friend by recognizing bisexuality theory ‘once and for all’ in connection with his famous ‘Dora’ case history, where, however, Fl. is NOT credited for this notion. Then, in an effort of DUBIOUS TACT, F. sought to win back Fl.’s friendship in late 1901 with the announcement that his next book would be called Bisexuality in Men, for which he would need Fl.’s considerable help!“Fl. also turned down F.’s subsequent plea for a reunion in January 1902.”

Legenda hilária de foto à p. 224: “Otto Weininger about 1900. At 23, he stunned the world with his book Sex and Character (1903) and then committed suicide the same year.”

The success of Weininger’s book may be judged by its having reached a 26th edition in 1925. A Danish translation appeared in 1905, an English translation in 1906, and a Polish translation in 1921. See also Ellenberger. Abrahamsen’s The Mind and Death of a Genius (1946) presents the best account of Weininger’s life and work and also contains 2 letters to the author from F. discussing his relations with Weininger.”

Até Jones confessa que no caso do plágio F. foi frouxo e covarde: “Obviously what Oskar Rie (Fliess’ brother-in-law and F.’s old collaborator on the subject of childhood cerebral paralyses) told me, in all innocence, when I mentioned Weininger, was incorrect. He said that Weininger had been to you with his manuscript and you, after examining it, had advised him against publication, because the contents were rubbish. In that case, I would have thought that you would have warned both him and myself of the theft.” Fl.

Jones, speaking from personal experience, was later to point up Freud’s annoying inability to keep confidential matters to himself.”

Meanwhile the whole episode had taken on a new complexion. When the psychotic Weininger had committed suicide in 1903, he left his library and all his papers to his friend Swoboda (Brome 1967), who in 1904 published a book on the periods of the human organism in their psychological and biological significance.” Não se pode confiar num lacaniano como Porge nem para saber desses detalhes direito!

UNFORTUNATELY Swoboda also tried to claim that he had made these discoveries independently of Fl., and that he had been, moreover, the 1st to document such periodic processes in the psyche.”

Actually we have to do with the fantasy of an ambitious man who in his loneliness has lost the capacity to judge what is right and what is permissible” F. sobre Fl. após o escândalo detonar, em carta para um anuário de sexualidade infanto-juvenil – ou seria sobre ele mesmo?!?

According to Bernfeld, Swoboda lost the case because his Viennese lawyer was sadly ignorant of German libel laws”

Both Pfennig and Fl. attempted to argue that Weininger’s knowledge of biology was so poor that he could not possibly have reached such an insight by himself. But Weininger’s 133-page Appendix (Zusätze und Nachweise) contradicts this claim and shows that he was widely read in the works of Darwin, Weismann, Haeckel, Naegeli, Claus, the Hertwig brothers, de Vries and many other contemporary biologists.” Em suma, este morto aos 23 anos não viveu!

In this Appendix (which is not included in the English translation), Weininger noted that the idea of bisexual complementarity in sexual attraction had previously been suggested by two men – Arthur Schopenhauer (1844) and Albert Moll (1897). Nevertheless, Weininger claimed to have reached his similar insight independently of these two sources.”

Sincerely convinced, like Weininger, that he was the originator of new and profound insights about an admittedly old idea, Fl. did what he thought necessary to protect his priorities. Such a response can hardly be considered ‘paranoid’, as Eissler and others have labelled it.” “Did not Fl., after nearly 15 years of intimate friendship and scientific collaboration, deserve better from F.?”

As late as 1910, he was disturbed by a dream repeated over a series of nights – a dream that had as its basic content a possible reconciliation with his old friend.” Que ironia que o grande manipulador da História no século XX fosse um “mago dos sonhos” e gostasse de se autodissecar, de forma que até essa sua intimidade pôde ser, enfim, exposta após sua morte!

Um dos desmaios de F. com J. foi quando este se recusou a omitir o nome de Fliess de qualquer artigo do Zentralblatt! “It seems that their final argument during the Achensee congress in 1900 took place in this same dining room.” Se não me engano, Roazen atribui cada um dos episódios de desmaio ao sentimento de inveja dirigido a Jung.

Recently, and in spite of their repeated refutation, these theories have attracted a following in Japan, where, according to Neo-Fliessian George Thommen (1973), they have been adopted by over 5,000 companies in an effort to improve safety and production. In America, the 3-cycle system has been promoted into a $1000-a-week business [?] by George Thommen and has also been applied to sports forecasting (see Gittelson 1977). Needless to say, Fliessian biorhythms work best when the application is retrospective, or when a knowledge of the theory alters the subjects’ behavioural patterns.”

7. THE DARWINIAN REVOLUTION’S LEGACY TO PSYCHOLOGY AND PSYCHOANALYSIS

When Charles Darwin, in his celebrated book On the Origin of Species (1859), announced to a disbelieving world that the supposed Organic Creation was no ‘creation’ at all but rather the result of a natural evolutionary process; when, in the guise of his theory of natural selection, he presented the world with a convincing new rationale for such heterodox views; and when, in The Descent of Man (1871), he finally included man himself in this evolutionary vision – in short, when he accomplished all these feats, he probably did more than any other individual to pave the way for F. and the psyc. revolution.”

Educated men and women read about Darwinian ideas first-hand, second-hand, third-hand, and nth-hand” Onde eu me incluo, pois até a data nunca li D. mas provavelmente já absorvi por tabela tudo o que ele disse sobre a tese central de seus dois livros imortais.

Lamarck, whose work finally gained acceptance through D.’s own achievements; those who were influenced by D., Wallace, and other early Darwinians (…) and those, like Herbert Spencer in England and Ernst Hackel in Germany, who played an important role in popularizing D.’s theories [os Sagans da época]”

that D.’s personal interest in psychology was ‘fundamental to his system’ has been convincingly maintained by Ghiselin (1973).”

D. successfully convinced his hesitant father that an oceanic voyage as a ship’s naturalist would not be demeaning to his intended profession as a clergyman. For 5 years Darwin circumnavigated the globe, spending most of this time in the vicinity of the South American continent, where he conducted detailed studies of the geology and the natural history of this great land mass and its neighboring islands.”

D.’s M and N notebooks have been transcribed and published with valuable commentary by Howard Gruber and Paul Barrett in Darwin on Man (1974). (…) Gruber’s chapter ‘D. as Psychologist’ has been of particular assistance in my own treatment of this theme.”

Metaphysics must flourish. – He who understands baboon would do more toward metaphysics than Locke” Notebook M – Não sei se isso ficou ultrapassado ou nós é que ainda estamos muito atrasados para “superar lockismos”…

D.’s researches on facial expression and other manifestations of the emotions were later published as The Expression of the Emotions in Man and Animals (1872). Although he had originally intended to use this material as part of The Descent of Man, he found the subject so extensive that it required a book of its own.”

D.’s notebooks touch repeatedly upon unconscious mental processes and conflicts; upon psychopathology (including double consciousness, mania, delirium, senility, intoxication, and a variety of other psychosomatic phenomena); upon the psychopathology of everyday life (forgetting and involuntary recall); upon dreaming (D. records 3 of his own dreams and subjects them to partial psychological analysis); upon the psychology of love and the phenomena of sexual excitation (‘We need not feel so much surprise at male animals smelling vagina of females. – when it is recollected that smell of one’s own pudenda is not disagreeable’

The Devil under form of Baboon is our grandfather!”

One of the earliest known attempts of its kind, D.’s ‘A Biographical Sketch of an Infant’ (1877)

Taine believed that children would eventually create a language of their own if not otherwise supplied one by adults.”

In the early 1880s, while F. was still a student, and aging D. had put the bulk of his unpublished researches in psychology at the disposal of Romanes. After D.’s death in 1882, Romanes published much of this unknown manuscript material, including an essay by D. on the subject of instinct, as part of his Mental Evolution in Animals (1883). Five years later, Romanes followed this work with a companion study on child development entitled Mental Evolution in Man (1888), which was read and carefully annotated by F. – probably during the early 90s. This book is, in fact, the most annotated work of those that comprise the 1,200-item F. acquisition of the Health Sciences Library, Columbia University.” “It is strange that F. does not refer to this work in any of his published writings – for example, in the list of books on child psychology that he said were known to him in his Three Essays.”

D.’s inference was anticipated by his grandfather Erasmus D., who was also an evolutionist and had already argued in Zoonomia that the infant’s pleasurable sensations while breast-feeding later find mature expression in man’s highest aesthetic undertakings (see Ellenberger 1970).”

Enfim, a cada página que se lê, fica mais claro que Freud tem mais precursores que o Flamengo tinha torcedores no Maracanã nos anos 70.

In America, Groos’ Die Spiele der Thiere (The Play of Animals) and Die Spiele der Menschen were translated by Elizabeth L. Baldwin, the wife of American psychologist and evolutionary theorist James Mark Baldwin.” “F. was familiar with the works of Baldwin (1895), Groos (1899), Sully (1896) and Preyer (1882)“To sum up, by the ‘90s the post-Darwinian rush to child psychology had reached the point at which even F. was wondering in private how much room for originality remained.”

The history of psychology in the 19th century may be viewed as essentially a development away from philosophy and toward biology (Young 1970).”

It is not generally recognized that D.’s The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex [the whole title of the book] was really 2-books-in-1, with roughly 2/3 of it being devoted to the subject matter announced in the latter half of the title! In fact, the major message was the claim that a phenomenon called sexual selection can and does act independently of the Darwinian principle of natural selection. But D. was saying even more – namely, that the ultimate test of biological success lies in reproduction, not in ‘the survival of the fittest’.” Ainda não fugimos de Schopenhauer…

TAVA DEMORANDO, ALIÁS! “Schopenhauer’s famous work Die Welt als Wille und Vorstellung emphasized the unconscious and irrational aspects of the will. Behind the operation of the will were 2 instincts, the conservative [feeding] and the sexual; and Sch. considered the sexual to be by far the more important of the 2.”

The sexual act is the unceasing thought of the unchaste and the involuntary, the ever recurring daydream of the chaste, the key of all intimations, an ever ready matter for fun, an inexhaustible source of jokes” Provavelmente já traduzi esse trecho!

Mann once wrote that F.’s theories were Sch.’s doctrines ‘translated from metaphysics to psychology’. F. later claimed that he read Sch. very late in life” Sempre essa mesma baboseira de escusa. Veja as cores e cheire a merda (merdanálise!).

Havelock Ellis, who later prided himself on his early (1898b) acceptance of the Breuer-F. theory of hysteria, nevertheless recalled in the year of his death that Thomas Clouston had endorsed a sexual interpretation of this disease ahead of all of them (1939a).”

To biologists before D., the many useless rudimentary organs in nature – like wisdom teeth and the appendix in adult man, and the gill slits [brânquias – como se fôssemos capazes de respirar na água caso o feto se desenvolvesse de forma diferente…] and tail in the early stages of human embryological development – often seemed like arbitrary quirks of Creative Fiat. D. demonstrated the historical meaning of such organs”

Wilhelm Bölsche [vik?] (1861-1939), a popular science writer as well as novelist, was also known in lay intellectual circles for his biographies of D. and Haeckel.” “His rambling and highly lyrical Das Liebesleben was an unabashed part of this attempt [in materialistic biology], extolling the many marvels of sex while cataloguing in prosaic detail the remarkable diversity in nature’s modes of sexual union.”

Penis and vagina appeared with the crocodiles as a means of introducing greater efficiency into the awkward process of ‘anus pressed against anus’” Bölsche (1931)

By the mid-19th century, the notion of anatomical fixations (or ‘arrests in development’) was well established in the fields of embryology, teratology (the study of monstrous births), and medical pathology.”

James’ laws were applied by Moll to developmental disorders of the ‘libido sexualis’ in a work that F. carefully read in 1897.”

F. owned, and from the evidence of his annotations, read with care the 1896 German translation of Ellis’s Sexual Inversion.”

F. scholars have long pointed out that F. was indebted for this general concept of regression to the English neurologist John Hughlings Jackson (1935-1911) and his notion of ‘dissolution’. Jackson, in turn, derived his ideas on the ‘evolution’ and the ‘dissolution’ of the nervous system from the evolutionary philosophy of Herbert Spencer.” “Pagel (1954) has traced the notion of pathological regressions to a number of early 19th-century medical thinkers.”

#offtopic Eu sou uma cadeira e odeio ser um encosto!

8. F. AND THE SEXOLOGISTS

Terms and constructs like libido, component instincts, erotogenic zones, autoerotism, and narcissism – all generally associated in 20th century consciousness with F.’s name alone – were actually brought into scientific circulation between 1880 and 1900 by other contemporary students of sexology.” “Unknown to Ellis, Näcke and F., Alfred Binet (1887) precede them all by comparing certain fetishists who take themselves as their preferred sexual object to the famous fable of Narcissus.”

Stephen Kern (1973, 1975), who has presented by far the most detailed historical survey to date on the subject of childhood sexuality, lists over a dozen publications between 1867 and 1905 in which F.’s views were clearly presaged (…) Not only did many of these writers, like Henry M