HISTÓRIA DAS IDÉIAS: INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA HUME-KANTIANA

Ambiciono traçar o papel de David Hume e de Immanuel Kant na filosofia moderna em algumas linhas, recorrendo a certo número de observações que considero não menos pertinentes que originais. Kant pode ser entendido sem Hume (embora ilustrar alguns conceitos kantianos com a ajuda de Hume não seja contra-indicado), mas Hume (e suas limitações), hoje, não pode ser corretamente introduzido sem um bom número de referências a Kant.

MENSURANDO A GRANDEZA DE ALGUNS FILÓSOFOS

Hume está para Kant no século XVIII como Feuerbach está para Marx no XIX. E assim como o Hegelianismo informa em grande medida todas as correntes filosóficas posteriores, atribuo ao conceito de Idéia em Platão uma importância essencial para o desenvolvimento dos pensamentos de Hume e Kant. A diferença crucial neste contraste improvisado é que Hegel viveu na mesma Alemanha de Feuerbach e Marx, com poucos anos de diferença, havendo um contínuo ininterrupto entre eles, como uma perfeita fotografia da evolução do Idealismo alemão, quase frame a frame. Platão, por outro lado, viveu antes de Cristo, o que não o impede de projetar sua poderosa luz e sombra sobre qualquer filósofo posterior de renome; portanto, é sua obra que escolho para “mentora” destes dois ícones do século do Iluminismo.

As analogias não se encerram por aqui: Feuerbach foi exímio hermeneuta e crítico do trabalho de Hegel, consciente de todas as suas limitações; porém, ao filosofar da própria pena, o que seria a continuação natural de seu trabalho inicial de demolição, nada de essencial veio a produzir. Ele foi louvado pelo Marx jovem, mas depois severamente criticado pelo Engels maduro em seu livro sobre Feuerbach – que nada faz senão parafrasear e sintetizar as concepções marxianas acerca de Feuerbach, como o próprio Engels admite no prefácio (na ausência de Marx, que já havia morrido, como uma espécie de última homenagem). Com a visão panorâmica adquirida pelos autores Marx e Engels após décadas de desenvolvimento do materialismo histórico, foi tarefa simples para a dupla verificar que havia progredido tanto a ponto de no final da vida passar a ver Feuerbach – que lhe servira de estímulo durante a fogosa juventude – como um mero retardatário, olvidável na história do pensamento, alguém que envelhecera mal como autor de filosofia. O principal erro ou limitação de Feuerbach foi ter se tornado vítima da própria “ressaca esterilizante” do sistema que tanto ajudou a “refutar” – o Idealismo hegeliano –, não havendo possuído a competência para, partindo de um ponto qualquer do próprio hegelianismo semi-defunto, ensaiar um revigoramento da filosofia, o que Marx lograria logo na seqüência a partir de sua releitura do princípio da negação da negação.

Uma “síndrome” similar desponta em David Hume, conhecido como “o ceticismo encarnado na modernidade” (já que na Antiguidade também temos diversos avatares da escola cética que nada lhe devem). Não digo que, em paralelo ao raciocínio sobre Hegel-Feuerbach, Hume “refutara Platão”. Platão é o “filósofo perfeito”, o mais atemporal de todos eles. Mas Hegel segue hoje de maior estatura que Feuerbach, apesar de seus defeitos, hoje visíveis para o estudante vulgar; e Platão permanece intacto como marco na contemporaneidade, ponto de entrada, parada e até arremate em termos de Filosofia, sendo necessário lê-lo e relê-lo, abandoná-lo só para a ele voltar em seguida. Platão seria Pelé contra um Hume “jogador de destaque num clube mediano”. Isso é o que me autoriza a usar esse contraste tão insólito.

O complemento que o platonismo atualmente exige, a fim de que possa ser recepcionado pelos leitores modernos sem muitas perdas, precisa ser retirado dos escritores que estão mais próximos de nós no tempo, ainda que a prosa poética multifacetada de Platão siga inigualável quando lida na fonte. Não diria que Hume compreendera a filosofia de Platão sob a forma de sistema, pois seria leviano de minha parte achatar os escritos de Platão confinando-o, dessa maneira, a um quadro teórico em que todas as partes teriam de estar coerentemente subordinadas a um todo, o que jamais foi sua intenção e, duvido, um desígnio inconsciente seu que acabou por escapar-lhe e se realizar em suas obras. Houve, decerto, ao longo da história, quem compreendesse o platonismo como um sistema, mas estes, quer fossem platônicos ou não, acabaram, através deste procedimento, por diminuir Platão e gerar mal-entendidos em cadeia entre os intérpretes do mestre. Se se encara o platonismo como sistema fechado de idéias, no sentido moderno (como pode-se falar dos sistemas cartesiano, humeano, kantiano e hegeliano, por exemplo), torna-se tarefa simplória exaltar ou execrar uniformemente seu legado, ao preço de eliminar inadvertidamente detalhes e nuances que fazem de Platão “muitos Platões”, cada um deles utilíssimo para nós. É como o velho provérbio de jogar o bebê fora junto com a água da bacia…

Além de erro meu, seria colocar na boca de Hume algo que ele nunca atestou por palavras, e confessar que ele também errou e foi um destes que acusei de “maus leitores” de Platão. Contudo, a noção essencial que Hume deveria incorporar, a fim de desenvolver a contento seu “ceticismo aplicado”, ele incorporou: trata-se da Idéia de Platão, que para não dar ensejo a mal-entendidos chamarei de axioma da representação nestas páginas. Portanto, poderíamos limitar o Platão desta comparação Hegel-Feuerbach-Marx/Platão-Hume-Kant a dois ou três livros, ou até ao sétimo da República somente, que contém a famosa passagem da alegoria da caverna. Hume soube ler Platão e utilizá-lo a seu favor. Mas estacou não muito além de algumas considerações muito específicas sobre o valor da experiência na vida humana. Quem soube, finalmente, sair de uma aporia que incomodava os racionalistas modernos (todos os filósofos que vieram depois dos Escolásticos e Patrísticos) foi Immanuel Kant, a não mais que algumas centenas de quilômetros de distância do próprio Hume, de quem foi virtualmente coetâneo. Foi ele o primeiro, depois do próprio Platão, a entender corretamente em toda a sua extensão o axioma da representação. Quando se fala de “certo” ou “errado” em Filosofia, vale o lembrete: o que eu chamo de correto é o que está em voga hoje (e nunca para todos, evidentemente). Por conseguinte, Kant, enquanto intérprete de Platão, enquanto crítico de Hume, e em boa parte do que filosofou de forma autoral, é um pensador atual e relevante, nosso legítimo contemporâneo. Kantiano é o substrato da Fenomenologia do século XX, mesmo que os fenomenólogos tenham muitas críticas cabíveis que fazer a Kant. É necessário reconhecer heranças para avaliar contribuições filosóficas duradouras.

AS METAFÍSICAS DE HUME & KANT: UM PANORAMA

A base da epistemologia de Hume (epistemologia numa pergunta: como é possível o conhecimento?) inclui considerações a respeito de 3 degraus de uma escada, nitidamente distinguidos por ele,¹ e que abarcariam a condição humana, além de explicarem por si sós um bom fragmento da história da filosofia: (1) os instintos (chamaremos de escola naturalista a dos filósofos que deram primazia aos instintos na explicação da natureza do conhecimento), (2) os sentidos (de onde o próprio Hume extrai a nomenclatura sistema dos sentidos em sua obra Investigação Sobre o Entendimento Humano), (3) e, por fim, o ceticismo, que é a crítica dos dois degraus anteriores, o que Hume chamaria de sistema aperfeiçoado dos sentidos, seu sistema. Embora naturalistas, “sensualistas” (ou empiricistas) e céticos existam em todas as épocas da filosofia, Hume considera os dois degraus inferiores dessa “escada epistemológica” como um discurso sobre o passado da disciplina: com a escola naturalista esgotada, os filósofos se voltaram para a importância dos sentidos ou da experiência para a obtenção do conhecimento. Embora conhecido hoje como “filósofo apologista da experiência”, o segundo degrau não é onde Hume se auto-situa. Ele usa sua nomenclatura de “sistema dos sentidos” para classificar, ora veja!, uma espécie de “baixo clero” da escola empirista, da qual ele se arroga o título de melhorador. Chegamos ao terceiro estágio, seu método cético. Um cético é essencialmente um filósofo, ou seja, o termo traduz a competência na capacidade de duvidar, que é o principal motor do progresso filosófico.

¹ Não com estas palavras. Essa figura de linguagem para explicar Hume é de minha inteira responsabilidade: em nenhum lugar o autor faz qualquer menção a uma escada com três degraus.

Mas e a razão, onde está a razão? “Inimigo” da razão, ou do mau emprego da razão na explicação da natureza do conhecimento, sempre cauteloso quanto aos exageros típicos de escolas do pensamento, Hume só discorrerá sobre ela enquanto subordinada aos sentidos, daí eu não haver sequer incluído a escola racionalista¹ (Descartes, principalmente) nos degraus da minha escada.

¹ Separar os filósofos em escolas e dar-lhes epítetos é didático, mas generalista e inconveniente num nível mais profundo. O reducionismo de chamar Leibniz de “o filósofo da mônada” ou Spinosa de “o filósofo da substância” ou “panteísta” em nada ajuda a entender esses autores. Até epítetos mais aceitáveis como Schopenhauer, o filósofo da Vontade podem encerrar noções muito vulgares e inadequadas. Por isso previno o leitor: ali onde René Descartes é tratado, em livros-textos, como sinônimo de racionalista, há “peguinhas”. Logo abaixo me refiro a Descartes e sua filosofia como “idealismo”, geralmente equiparável a racionalismo. Mas não estaria errado em enfatizar seu lado sensualista ou empiricista, e isso porque os qualificativos sempre dependem de uma abordagem ou contexto. No caso específico da crítica humeana a Descartes, pode parecer que Descartes é racionalista ou idealista e nada mais. Deixo, pois, os leitores de sobreaviso sobre o perigo de “crer demais” em interpretações consagradas. Tampouco deve-se tentar pensar a alcunha idealismo aplicada a ou por um autor do século XVII ou XVIII, na França ou no Grã-Bretanha, como apresentando qualquer correlação considerável com o idealismo platônico da Grécia pré-cristã ou com o Idealismo romântico alemão de 150 anos depois de Descartes! Todo cuidado é pouco.

Para me aprofundar em Hume e para explicar o kantismo, recorro de agora em diante a citações de Hume, que virão entre aspas. Meus comentários, em azul, guiarão o leitor sobre o contexto das afirmações:

N.B.: Além disso, grifei em verde trechos que são considerados refutados pela filosofia séria de hoje, i.e., conteúdo defasado; e em vermelho trechos de suma importância para a exposição presente.

[A filosofia] não pode mais recorrer ao instinto infalível e irresistível da natureza [naturalismo, mera noção enganosa ou, antes, verificada como impossível de ser alcançada através da ‘equipagem’ do ser humano], pois tal caminho nos conduz a um sistema completamente diferente, que se demonstrou falível e mesmo enganoso.” Refutação do naturalismo e do idealismo cartesiano, duas correntes de pensamento filosóficas – ambas refutáveis já uma pela outra através de ceticismos incompletos ou parciais, segundo Hume. O ceticismo de Hume estabelece-se a si próprio num patamar superior a ambas essas tendências, que são, na história das idéias, afinal, apenas diferentes manifestações do mesmo equívoco epistemológico. Na linguagem de Hume: os naturalistas e os racionalistas erram porque exageram em suas crenças injustificadas. Não duvidam o suficiente.

E justificar esse pretenso sistema filosófico por uma série de argumentos claros e convincentes, ou sequer por algo que se assemelhe a um argumento, é algo que está fora do alcance de toda a capacidade humana.” Descoberta de que a raiz da imperfeição tanto do naturalismo quanto do pseudo-ceticismo cartesiano são a mesma: o racionalismo, ou a fé na razão, que os primeiros filósofos da modernidade elevaram a uma categoria superior aos instintos e aos sentidos, mas que é mera ficção ou arbitrariedade, i.e., a razão apresenta no fim das contas um conteúdo vazio, contaminado pelos próprios instintos e sentidos dos filósofos racionalistas.

Por qual argumento se poderia provar que as percepções da mente [sentidos e raciocínios] devem ser causadas por objetos externos inteiramente distintos delas, embora a elas assemelhados (se isso for possível), e não poderiam provir, seja da energia da própria mente, (I) seja da sugestão de algum espírito invisível e desconhecido, seja de alguma outra causa que ignoramos ainda mais?” (II)

Começo da compreensão da dialética interior-exterior no homem. Sujeito e objeto são díspares, porém categorias os intersecionam num uno: cores e formas. A mente e uma mesa são objetos materiais, vermelhos, marrons, brancos, pouco importa, sólidos, etc. (I) é uma alusão avant la lettre a um tipo de solipsismo: conjetura-se: e se… todos os objetos exteriores que apreendemos forem apenas criações nossas? despidas de materialidade, meras ilusões? Evocação hiperbólica de noções mais atenuadas, como a das sombras na alegoria da caverna, do criticismo kantiano (que, sublinho, Hume não conheceu) e das próprias considerações de uma filosofia ainda mais tardia a Hume e Kant eles mesmos, i.e., a fenomenologia do século XX, em que entendemos o axioma da representação, sob a alcunha de fenômenos, como meras aparências e ao mesmo tempo como nossa realidade relativa. O (II) seria uma alusão direta à Coisa-Em-Si: uma causa que está além do homem, e que incita à metafísica vã, ou seja, a meras especulações, sem jamais poder ser refutada ou provada. Logo voltaremos a citar a Coisa-Em-Si.

Reconhece-se, de fato, que muitas dessas percepções não surgem de nada exterior, como nos sonhos, na loucura e em outras enfermidades. E nada pode ser mais inexplicável que a maneira pela qual um corpo deveria operar sobre a mente para ser capaz de transmitir uma imagem de si mesmo a uma substância que se supõe dotada de uma natureza tão distinta e mesmo oposta.”

Poucas linhas, mas tão prenhas de significado! Trata-se primeiramente de uma crítica do materialismo ou objetualismo mais rasteiro, que concede a prioridade à matéria e ao objeto em detrimento do sujeito, continuando o exemplo acima: a hipótese de que as percepções da mente devam ser causadas por objetos externos. O que Hume quer dizer com isso? E com “objetos inteiramente distintos porém assemelhados” à mente? Significa que para o filósofo grosseiro ou tosco, ou isso ou aquilo deve ser escolhido: ou a realidade advém da própria mente (o mundo todo é ilusório) ou a matéria não-viva comanda nossos corpos. Para o torpe filosofar, que só vê extremos ou duas opções incondicionais, sem matizes, era assim que se colocava a questão. Não pode, para eles, haver um compromisso entre o que é tão “distinto”: é certo que nós, seres com consciência, somos feitos dos mesmos elementos (átomos) das naturezas mortas ou do mundo vegetal ou dos insetos, todos sem consciência, mas uma rocha não pode ser igualada a um ser humano, porque não sente nem raciocina! Nessa formação limitante, caso não se queira enxergar o mundo como ilusão de um Eu, recorre-se ao que é igualmente tachado como disparate por Hume: A pedra é como ela é, então ela possui uma faculdade que nem o mais desenvolvido dos humanos possui: a de demonstrar-se a si mesmo. É a solução do realismo exacerbado, que vê no olho do observador da pedra apenas um escravo da própria pedra. Para se provar que a pedra é real (pois se fosse, de outra forma, condicionada pela mente, a pedra seria apenas uma ficção do sujeito), diz-se que a matéria determina o real, e dá-se (a pedra dá!) de antemão aos sentidos aquilo que eles devem sentir, dá-se à mente o que ela deve pensar. A quem se ri do caráter ridículo dessa hipótese, não é outro o motivo do termo “objetivo” em complemento a “conhecimento”, e “objetividade” em ciência dita pura ou bruta, que estamos fartos de ler e ouvir falar: se se quer um conhecimento preciso, tudo deve ser objeto, ou então subordinado ao objeto! Nós não nos curamos, nem mesmo na linguagem técnica, desses atavismos falaciosos…

Em segundo lugar, esta passagem é a assunção humeana de corpo e mente como instâncias irrevocavelmente separadas. Por mais que isso seja desagradável para o leitor atual, é necessário compreender que Hume devia efetuar essa separação para progredir em seu ceticismo, ou estaríamos efetuando uma análise anacrônica e falsa do seu sistema filosófico: para o homem cético escocês não havia nenhum inconveniente nessa dualidade – antes, haveria na unidade mente-corpo. (Perceba que nisto Hume é muito inferior a Platão, que não cinde mente e corpo.)

O corpo representa, nesta instância, os sentidos. A mente a capacidade de abstração. O que a substancia? A matéria cinzenta, o cérebro, nosso sistema cognitivo. Sentidos e razão não possuem qualquer coincidência entre si. Nenhum pode sobrepor o outro, ambos são sempre contraditos e contradizem o outro, mas isto, esta conjugação paradoxal, é o homem. (Vejam que, se há de haver um sentido de unidade em qualquer parte, Hume vê no ser humano, o invólucro de mente e corpo; mas não admite mais do que isso: não admite a sinestesia ou mistura entre razão e sensação.)

Voltando à dicotomia sujeito-objeto (reino da distorção X reino do “real”): por que é tão difícil reconciliá-los nesse sistema filosófico? Nós sequer possuímos uma “imagem objetiva” de nosso próprio corpo, seja internamente seja externamente. Ex: não sabemos a priori como são nossas entranhas e como funcionam nossos sistemas biológicos como o digestório-excretório, o circulatório, o respiratório, etc., antes de uma investigação racional sobre tais temas. A mente também não pode comunicar conceitos ao corpo, e ela mesma não se conhece fisicamente ou, como queira, no nível espiritual, de forma objetiva, dadas nossas intrínsecas e palpáveis limitações. Não há uma instância maior-que-o-real a que se possa recorrer para a arbitragem imparcial de todo esse impasse: no sonho, basta que se acorde. A causa está fora do sonho, por isso o sonho pode ser objeto de investigação do sujeito acordado. Na loucura, o louco não pode investigar-se, mas pode ser objeto de estudo. O homem, o filósofo, não pode investigar-se e investigar o mundo da mesma forma como o sonhador investiga o sonho e a medicina investiga o paciente (nas Investigações Hume descreve a medicina como ciência abstrata, o que seria impensável hoje!). Neste caso, se é dada primazia ao sujeito, estamos dentro de um sonho, chamado mundo, e somos portadores de monomanias ou loucuras parciais que não podemos exatamente explicar ou esclarecer. Eis o que se pode construir, com segurança, sobre as bases de um ceticismo esclarecido (humeano). São nossos limites epistemológicos. A única alternativa seria recair no problema anterior, o da objetivação integral da realidade, o império do objeto ou da coisa – seres humanos como coisas. Logo, a alternativa não é viável.

PERGUNTA – É uma questão de fato se as percepções dos sentidos são produzidas por objetos externos a elas assemelhadas – como se decidirá esta questão?”

Ainda o mesmo. Nossos olhos enxergam outras matérias porque são matéria também (idênticos, em última instância, ao que observam), ou nossa visão (sentido) cria a matéria tal qual a observamos? Hume encontra-se preso entre os dois extremos e embora não se disponha a escolher de maneira cega entre “o ovo ou a galinha”, sua única solução, que ele reconhece como parcial (duplo sentido), é pender para o lado do sujeito no binômio sujeito-objeto. Parcial porque a filosofia não pode concluir sobre aquilo que não pode experimentar, (1) e parcial porque aquilo que parte de um indivíduo não é “realmente” uma “realidade” (imparcial) (2).

Tal debate parece hoje inocente, mesmo da perspectiva epistemológica. Até por isso é necessário esclarecer o leitor, no entanto, que tampouco fala-se aqui da investigação física sobre o fenômeno da visão, da óptica e das cores (já que usamos presentemente este sentido como exemplo, e não à toa: a visão é dos 5 sentidos de longe o mais explorado pela filosofia ocidental, em detrimento do tato, paladar, audição e olfato), que até a época de Hume não estavam solucionados nas bases atuais (a resposta encontrando-se na luz enquanto onda – para esta questão, podemos ignorar suas características de partícula – em interação tanto com a retina humana quanto com o objeto). Não é este “ângulo cru”, ou de ciências exatas, que interessa neste livro de Hume. Ele está, ao invés, a se perguntar: Que é a verdade, qual é o fundamento do real? (Dimensão epistemológica)

Essas mesmas perguntas, repito, são para nós inocentes, pois a filosofia kantiana decidiu-se sobre esse aspecto, sem recorrer quer ao ovo, quer a galinha, dando o passo que Hume hesitou em dar ou, antes, escolhendo deliberadamente não dar o passo, e justificando esta não-ação, no que ficou conhecida como a síntese kantiana (ou ainda crítica, simplesmente) das correntes filosóficas importantes que o precederam. Em Kant, não é dada primazia à faculdade do olho (uma câmera senciente, por assim dizer, i.e., uma câmera ligada a um sistema nervoso) nem aos objetos. Reconhece-se que este era um falso dilema. A solução é o que eu chamei anteriormente de axioma da representação. Dá-se ênfase ao caráter relativista da apreensão do mundo inerente ao ser humano e ao “fenômeno”, conceito que detalharemos a seguir.

Nem existe nada de que se possa falar que seja externo ao ser (um cogitado real ou coisa-em-si), nem é o sentido do ser que cria ilusões sensórias em detrimento de acessar uma suposta realidade não-sensível, independente (o que poderíamos, hoje, tanto chamar de coisa-em-si – de novo, ou seja, tanto no extremo objetivista quanto no extremo subjetivista deparamo-nos com ela – como de absurdo). O ser é a própria realidade que observa; a pedra, a mesa, a luz, o olho humano são fenômenos (representações, aparências), única forma da realidade regida pelo tempo-espaço. Esse novo binômio agora introduzido, o tempo-espaço, é nosso único modo de vivência. Nosso corpo e mente já não se encontram cingidos à maneira humeana no sistema kantiano, posto que enquanto fenômeno eternamente aparente (ou seja, em modificação) ele é em si a elucidação dos conceitos de espaço e de tempo, conteúdo, forma e sua variação, que estão embutidos em nossos instintos, sentidos e cognição (se desdobra num e noutro desde que existe, até que deixe de existir – agora sensação e razão também são capazes de coexistir).¹ A realidade é relativa ao indivíduo porque dois corpos não podem ser conhecidos ao mesmo tempo da mesma perspectiva, nem ‘no mesmo espaço’, sendo cada apreensão fenomênica um ‘caso isolado’ na perspectiva de um só indivíduo ou de vários. Se Hume ainda falava de um Absoluto, mas ao mesmo tempo defendia haver uma impossibilidade prática de acessá-lo, Kant, na medida em que não trata da coisa-em-si de forma moral (ao menos não até redigir a Crítica da Razão Pura Prática, mas esta obra só nos interessará como contraponto a ser marginalmente criticado, neste artigo), mas apenas a cita (como que em referência à filosofia anterior), dispensa o absoluto, ao tempo em que, justamente, assim procedendo, conserva-o, somente que sob a forma do fenômeno (que não conhece distinção sujeito-objeto), único absoluto de seu sistema.

¹ Leia a nota de rodapé sobre a memória, no próximo parágrafo.

RESPOSTA – Pela experiência.”

Como antecipei, Hume, vacilante, acaba por escolher o sujeito, embora de forma muito mais restrita que os subjetivistas (empiristas) que lhe precederam. E como Hume não segue pela senda kantiana, ele entende que o real (o fenômeno, ou ilusões diáfanas de acordo com seu sistema, trevas que ele tentará diminuir humildemente) possa ser paulatinamente investigado pela experiência (“sentidos acumulados”, “razão orientada pelos sentidos”, “sentidos orientados pela razão” até, como queiram, embora soe herético para os ouvidos de um Hume – e também “memória”).¹ Sucede que, na fenomenologia póstuma chega-se ao veredito: a experiência humana não “acumula” fatores necessários para o entendimento da própria experiência ou do real, como diz Hume, simplesmente porque os fatores necessários são tempo e espaço,¹ que são inerentes ao ser enquanto ser (e a única manifestação do ser é através do devir fenomenológico).² Em outros termos, Hume procura uma solução que já estava solucionada, sendo sua investigação tautológica ou até mesmo pré-tautológica, contraproducente e falsificadora (já que podemos entender o mundo dos fenômenos como, agora sim, a verdadeira tautologia).

¹ Como esta é uma INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA destes dois autores, achei por bem não carregar a cabeça do leitor e complicar demasiado a exposição logo de início com um último fator enunciado por Kant na sua primeira Crítica que completa um “tripé de fundamentos”, fechando o círculo de seu axioma da representação. Se possível gostaria de ter deixado esta parte fora até, mas como Hume, a dado ponto das Investigações cita a própria “memória” e o termo que aqui é conveniente citar, i.e., “aprendizado das causas e efeitos”, vejo-me compelido a citar, ao menos nesta nota de rodapé, o “terceiro elemento” da tríade kantiana, embora a explanação do sistema seja já auto-suficiente recorrendo-se estritamente a tempo e espaço e nenhum prejuízo decorreria de não haver falado neste terceiro aspecto, nem decorre de só dele falar agora. O fator que explica a memória e o acúmulo de experiências, no sistema kantiano, é o princípio inato de apreensão de causa-efeito; se já não fôssemos equipados desta intuição elementar, a própria passagem do tempo ou as mudanças do espaço (que são, em realidade, um único fenômeno que se separa, para nós, na expressão da linguagem) não seriam apreensíveis, o que demoliria todo o sistema. E na verdade quando falamos em espaço e em tempo já intuímos, por assim dizer, noções como a hegemonia de causas e efeitos no real, nos fenômenos. Nosso próprio conceito ou abstração mais ingênuo do que seria nossa memória envolve um recipiente, um contêiner, uma caixa, por exemplo, extensa e tridimensional, finita, capaz de armazenar, em diferentes etapas e períodos, informações, sendo que esta caixa nunca nos parecerá totalmente vazia nem cheia, embora deduzamos que ela tem um limite determinado – ainda que nem evoquemos aqui o esquema tão laborioso e complexo de um cérebro para a neurociência mais em dia, subdividido em inúmeros segmentos, dezenas de bilhões de neurônios, e com todas as regras das sinapses, i.e., das idas e vindas das ‘informações’ enquanto impulsos elétricos de ordem infinitesimal, e sua relação com as terminações nervosas por todo o corpo…, ainda que nem evoquemos tudo isto, esta imagem inocente da caixa já é o suficiente. Este modelo cerebral citado que, antes de dissecar um corpo, um ser humano não conhece em sua aparência nem em qualquer de seus atributos (não é exclusividade do cérebro: o mesmo se poderia dizer do intestino, p.ex.) a não ser através da educação ou instrução, direta ou indireta, comunicada por seres humanos que obtiveram estes dados no passado, i.e., numa palavra, mediante a razão. Em suma, a noção de causa-efeito nada mais é do que a articulação lógica que possibilita nossa compreensão (inata) de tempo e espaço como fundamento do real e articulação unitária regente de todos os fenômenos. De forma ainda mais simples: a dita razão ou conhecimento abstrato (a posteriori) nada mais é do que um tipo de super-conhecimento a priori, com diferença só de grau, mas não de qualidade, posto que não importa quão complicado seja esse conhecimento intelectual, a ele se remonta através de incessantes aplicações do princípio causa-efeito. Este insight kantiano assinala, novamente, a inédita compreensão moderna de outra parte da filosofia platônica: sua doutrina da metempsicose conjugada com a teoria das reminiscências, e o conseqüente postulado epistemológico de que “nada aprendemos, apenas nos lembramos do que sabemos”. Ou seja, para Platão até a sabedoria é um a priori, todavia é óbvio que ele não usa esta expressão.

² Se de alguma coisa eu me orgulho é de poder ter exposto o sistema kantiano sem vários dos termos esdrúxulos utilizados por Kant! Aquele que já se aventurou a lê-lo sabe do que estou falando… Schopenhauer, talvez o maior admirador de Kant que já existiu, Nietzsche e muitos outros não nos pouparam de comentários acerbos sobre como é árida sua leitura, como Kant escreve mal e complicado sem necessidade, etc.! Um dos termos que me guardei de usar no parágrafo acima, mas que já havia usado em negrito no artigo (e na nota ¹ acima), foi o a priori. Qu’est-ce que c’est, l’a priori kantienne? Que vem a ser esse tal a priori kantiano? Nada mais do que a afirmação positiva de Kant, que para ser percebida e enunciada por Hume exigiria que ele abdicasse de seu ceticismo esclarecido num ponto decisivo: como o homem não precisa aprender sobre espaço e tempo, já nasce sabendo-os, diz-se que tempo-espaço são percepções a priori de todo ser. Hume não admite conhecimentos a priori, e esse é o calcanhar-de-Aquiles de seu sistema.

Recorrer à veracidade do Ser supremo para provar a veracidade de nossos sentidos é, certamente, tomar um caminho muito inesperado.” Aqui Hume está se referindo aos filósofos pré-modernos, no meio dos quais é suma autoridade, sendo seu ceticismo completamente equipado para refutar suas doutrinas exotéricas. E, coisa inusitada, o próprio Kant, na Crítica da Razão Pura Prática, continuação moral de sua clássica e inauguradora Crítica da Razão Pura, retrocedeu e recaiu no próprio erro que já havia superado anos antes: atribuiu ao Ser supremo mediado pela ética cristã no mundo fenomênico o fundamento de nossa conduta social! Ele fez isso porque não encontrou outra solução metodológica para o dilema moral que suas conclusões no primeiro livro traziam (ou que ele imaginava que traziam, seria mais apropriado dizer): a queda no niilismo desenfreado, uma vez que os fenômenos são relativos e, portanto, realidades últimas individuais e desconexas umas com as outras. Este novo modo de ver, que hoje chamamos mundano ou imanente, parece de súbito a Kant (crise de meia idade?) despido de algo muito importante, uma comunicação com o que batizamos de transcendência. No velho sentido, transcendência pode se referir a uma coisa-em-si, ou seja, a algo inalcançável para o ser humano; mas em Kant a transcendência ganha o novo sentido de realização moral mundana sob um princípio mais elevado. Talvez ele sentisse que faltava completamente ao homem moderno o senso (ironicamente) a priori de virtude que parece emanar do homem grego. Faltava, segundo ele, a explicação de como era possível a ética, isto é, a ação-no-mundo ao mesmo tempo individual e coletiva, isto é, a ação do homem de forma que fosse possível a vida estável em sociedade, fora da situação hipotética hobbesiana do estado de natureza (todos os homens contra todos os homens ou guerra perpétua ou ainda guerra civil, caso ocorresse numa civilização já constituída) e guiada por e para fins mais nobres do que a própria mundanidade fenomênica. Sua bem-conhecida resposta para esse relativo desespero veio na forma do imperativo categórico. Sua premissa é válida para poucos séculos europeus de civilização cristã, ignorando portanto qualquer desenvolvimento histórico tais quais a manifestação do Estado antes do modelo constitucional moderno, as civilizações anteriores, as civilizações não-européias e as civilizações póstumas, todas elas fenômenos transcendentais (no seu sentido) e estáveis, regidos porém por morais, culturas, religiões e códigos de ética alternativos ao tempo-espaço específico de Kant, i.e., a monarquia constitucional européia do século XVIII. Enquanto o grego antigo da polis achava uma orientação deontológica dentro de si mesmo e da comunidade de seus iguais, o homem kantiano ideal tinha de recorrer novamente ao Deus monoteísta judeo-cristão. Kant retomaria uma epistemologia independente da coisa-em-si, restituindo o transcendental à sua origem fenomênica, no seu terceiro trabalho clássico, a Crítica da Faculdade do Juízo, num campo mais delimitado, contudo: a fim de explicar a possibilidade da Estética.

Este é um tópico, portanto, no qual os céticos mais profundos e mais filosóficos sempre haverão de triunfar quando se propuserem a introduzir uma dúvida universal em todos os objetos de conhecimento e investigação humanos.” No sentido aqui atribuído ao ceticismo, todos os trabalhos filosóficos ainda válidos para nossa própria idade foram efetivamente legados por indivíduos céticos, sem reparos.

É universalmente reconhecido, pelos modernos pesquisadores, que todas as qualidades sensíveis dos objetos, tais como o duro e o mole, o quente e o frio, o branco e o preto, etc., são meramente secundárias e não existem nos objetos eles mesmos, mas são percepções da mente que não representam nenhum arquétipo ou modelo externo. Se isso se admite com relação às qualidades secundárias, o mesmo deve igualmente seguir-se com relação às supostas qualidades primárias de extensão e solidez, as quais não podem ter mais direito a essa denominação que as anteriores. A idéia de extensão é inteiramente adquirida a partir dos sentidos da visão e do tato, e se todas as qualidades percebidas pelos sentidos estão na mente, não no objeto, a mesma conclusão deve alcançar a idéia de extensão, que é inteiramente dependente das idéias sensíveis, ou idéias de qualidades secundárias. Nada pode nos resguardar dessa conclusão a não ser declarar que as idéias dessas qualidades primárias são obtidas por abstração, uma opinião que, examinada cuidadosamente, revelar-se-á ininteligível e mesmo absurda. Uma extensão que não é nem tangível nem visível não pode ser minimamente concebida, e uma extensão visível ou tangível que não é nem dura nem mole, nem preta nem branca [Hume quis dizer: sem cor], está igualmente além do alcance da concepção humana. Que alguém tente conceber um triângulo em geral que não seja nem isósceles nem escaleno, nem tenha qualquer particular comprimento ou proporção entre seus lados, e logo perceberá o absurdo de todas as noções escolásticas referentes à abstração e às idéias gerais. [Em nota] Tomou-se de empréstimo esse argumento ao Dr. Berkeley; e, de fato, a maior parte dos escritos desse autor extraordinariamente habilidoso compõe as melhores lições de ceticismo que se pode encontrar entre os filósofos antigos ou modernos, incluindo Bayle. (…) Ele [Berkeley] declara, entretanto, na folha de rosto (e sem dúvida com grande sinceridade), ter composto seu livro contra os céticos, bem como contra os ateus e os livres-pensadores. Mas todos os seus argumentos, embora visem a outro objetivo, são, na realidade, meramente céticos, o que fica claro ao se observar que não admitem nenhuma resposta e não produzem nenhuma convicção. Seu único efeito é causar aquela perplexidade, indecisão e embaraço momentâneos que são o resultado do ceticismo. [do ceticismo = do filosofar] Aqui Hume estava muito próximo de chegar ao criticismo kantiano, por exemplo. Diríamos que estava “quente”, mas que alguns parágrafos à frente já havia “esfriado” de novo…

Pode parecer muito extravagante que os céticos tentem destruir a razão por meio de argumentos e raciocínios, contudo esse é o grande objetivo de todas as suas disputas e investigações.”

A principal objeção contra todos os raciocínios abstratos deriva das idéias de espaço e tempo; idéias que, na vida ordinária e para um olhar descuidado, passam por muito claras e inteligíveis, mas, quando submetidas ao escrutínio das ciências profundas (e elas são o principal objeto dessas ciências), [Aqui Hume se refere à Escolástica, o que nada tem a ver com nosso conceito de ciência profunda – para ele era a ‘velha metafísica’ somente.] geram princípios que parecem recheados de absurdos e contradições.” Significa, ainda, para além de uma crítica à Escolástica: podemos abstrair inúmeras conclusões físico-matemáticas falsas acerca do espaço e do tempo, o que seria produto de um uso indiscriminado e mal-feito da razão, mas o que há de empírico e sensível no tempo e no espaço é, por sua vez, irrefutável, indiscutível mesmo, ignorando e destruindo qualquer conceito ou abstração impróprios, em última instância. Daí é fácil intuirmos por que o espaço-tempo é a base do kantismo: eis a noção mais imediata e impregnada no Ser, a condição de possibilidade de todos os fenômenos e representações.

Os assuntos ligados à moral e à crítica são menos propriamente objetos do entendimento que do gosto e do sentimento. A beleza, quer moral ou natural, é mais propriamente sentida que percebida. Ou, se raciocinamos sobre ela, e tentamos estabelecer seu padrão, tomamos em consideração um novo fato, a saber, o gosto geral da humanidade ou algum outro fato desse tipo, que possa ser objeto do raciocínio e da investigação.” Longe de mim, ao demonstrar que a epistemologia kantiana é, em síntese, a superação da epistemologia humeana, rebaixar ou relegar Hume a um canto irrelevante da história dos pensadores. Nesta passagem, por exemplo, se vê com assaz clareza que Hume, apenas 13 anos mais velho que seu ainda mais celebrado “rival”, respirando a mesma cultura portanto, poderia muito bem ter sido o autor de todo o criticismo kantiano, se rumasse por veredas não muito distintas de seu próprio método, posto que essas linhas por si só contêm em germe não só as conclusões kantianas mais sublimes (como os postulados da primeira e da terceira Críticas) como até o sensato corretivo dos devaneios kantianos sobre a moral (segunda Crítica)!

Minha idéia de escrever detidamente acerca de Hume e Kant num artigo veio-me como de supetão, lendo Hume. Em caso de que essa “estranha vontade” me ocorra novamente, continuarei a série, esmerilhando outros filósofos, sob o nome mais geral de HISTÓRIA DAS IDÉIAS.

SITUAÇÃO SÓCIO-HISTÓRICA DA MÚSICA NO SÉC. XIX – Capítulo 38 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

Os patronos e os mecenas nobres foram abandonando aos poucos seu tradicional papel, afastados pelos empresários e pelos diversos grupos de músicos, profissionais e amadores, que cada vez mais organizavam eles próprios concertos públicos.”

os historiadores da música empreendiam um trabalho sistemático de pesquisa (…) que permitiu a constituição da musicologia histórica e a reconstituição da vida e da criação de vários grandes compositores, tais como Bach, Palestrina e Schütz.”

Na Áustria, a ópera, sob o regime de Metternich, passava pelo controle da censura e era vigiada de perto pelas autoridades. Mas a democratização irresistível (…) acabou por tornar necessária a abertura de grandes salas de concerto, capazes de receber milhares de ouvintes, bem como a criação de grandes organizações especializadas na programação de concertos.” “Nenhuma arte, nesse tempo, conheceu expansão igual à da música.”

só por volta da metade do séc. teve início a moda dos grandes ‘clássicos’ vienenses – Mozart, Haydn e Beethoven.”

Em Londres, a criação, em 1813, da Philarmonic Society, que se propunha a oferecer música moderna executada da melhor maneira possível, era uma iniciativa normal para uma grande cidade, onde o público de concertos já estava bem-constituído e era numeroso. Graças a ela, a música de Mendelssohn foi introduzida na Inglaterra e a Nona Sinfonia de Beethoven encomendada; para esta mesma sociedade, também Spohr e Dvorák compuseram algumas obras.”

François Habeneck (1781-1849) promoveu, entre 1828 e 1831, a 1ª audição integral (em Paris) das 9 sinfonias de Beethoven e converteu-se em profeta e apóstolo da glória de B. na França.”

Já os ‘clássicos vienenses’ haviam começado a criar obras que não estavam destinadas a uma função imediata e particular, que não foram escritas para um dado conjunto musical ou para serem executadas num determinado lugar.”

A música tencionava ser expressiva, exprimir o sentimento pessoal do música e estabelecer um contato novo com a platéia” Pela 1ª vez o músico deixava de ser cliente.

DA CONTRADITÓRIA DOUTRINA FORMALISTA

Eduardo Hanslick (1825-1904), Von Musikalisch-Schönen (Do belo na música), 1854. Espécie de manifesto.

Hanslick foi o primeiro a ocupar uma cadeira de musicologia numa universidade, a de Viena. Era um antiwagneriano extremado e crítico temido, além de oráculo da opinião musical reinante em Viena no terceiro quartel do século. A partir dele, o ‘formalismo’ musical foi adotado não só por toda uma corrente de músicos, mas também por amplas camadas de ouvintes que se recusavam a procurar ou encontrar, na obra musical, qualquer coisa que fosse extra-música e a considera-la ou escutá-la como uma expressão dos sentimentos ou da psique do compositor.

Hegel seria wagneriano: pregava a unidade de todas as artes. Os formalistas clamavam: a música é especial entre as artes, não pode se misturar.

função x forma (desfuncionalização social, “ato contemplativo”, “ideal da pura contemplação”)

Paradoxo: o concerto, forma de exibição finalmente estabelecida e estabilizada, era ao mesmo tempo a liberdade do novo e um engessamento, posto que funcionando sob rígidas e quase inalteráveis regras, a ponto de hoje olharmos para este formato e esse ambiente achando graça dos inúmeros clichês. Ares de ritual, em que ouvintes e músicos deviam “cumprir seu papel sem fugir do script”.

ERAM OS GREGOS MÚSICOS BÁRBAROS OU BÁRBAROS MÚSICOS? “Os musicólogos e historiadores de música, estudando o passado musical à luz do romantismo e, sob a influência do positivismo, o fenômeno da música em si próprio, tomaram consciência não só do valor da música antiga, considerada pelo Século das Luzes como bárbara, mas também do valor próprio da música enquanto tal.”

A TECNOLOGIA & A SUPREMACIA DO PIANO

À diferença da orquestra barroca, baseada na primazia sonora dos instrumentos de cordas, a orquestra clássica e romântica, graças às novas invenções mecânicas, pôde modificar a qualidade de sua sonoridade. Aos poucos, todos os instrumentos foram se tornando cientificamente calibrados. Ficou possível determinar a produção do som, que se mostraria cada vez mais padronizada Com o aumento do número de instrumentos, a divisão do trabalho na orquestra se refinou. O aprimoramento das técnicas de produção em geral e o conseqüente e gradual processo de industrialização de muitos instrumentos – piano, órgão, os sopros e, particularmente, os metais – tiveram várias conseqüências, entre as quais as primeiras foram o aperfeiçoamento dos instrumentos que já existiam e a criação de outros. Graças às novas técnicas de fabricação, os instrumentos musicais tiveram suas possibilidades aumentadas e sua execução facilitada.”

O séc. XIX foi o séc. de ouro da música instrumental”

A evolução do virtuosismo é contemporânea ao aperfeiçoamento dos instrumentos.” Instrumento de destaque na matéria: o piano.

Foi no início do séc., contudo, antes que esse processo houvesse avançado, que o mais brilhante dos virtuoses – o violinista (e violista) Niccolo Paganini (1782-1840) – fez sua fulgurante carreira. O fascínio que Paganini exercia era de tal ordem que se chegou a suspeitar que tivesse algum pacto com o demônio.”

Aquilo que se pôde chamar de orquestração do piano já aparecia nas últimas sonatas de Beethoven (principalmente na Sonata opus 106, Hammerklavier) e, posteriormente, nas composições de Liszt”

o piano se tornou, no XIX, o preferido da burguesia e por muito tempo manteve a supremacia sobre os outros instrumentos solistas. Nas casas burguesas, o piano passou a ter um lugar de honra, como peça principal de um belo mobiliário.”

COMPOSITORES, ESTRELAS MULTINACIONAIS

Começaram a surgir grandes compositores na “Rússia, Polônia, Boêmia, Morávia, Croácia, Dinamarca, Suécia, Noruega, Espanha e Hungria”. Se há um lado bom no nacionalismo, é que cada uma das nações gerou talentos sui generis, ao contrário de épocas passadas em que o país pioneiro num novo gênero musical alastrava sua estética como uma onda ou epidemia, contaminando o restante da Europa com alguma defasagem temporal, mas havendo em conseqüência uma muito menor variação regional.

Consolidação do próprio “criador musical” em estado bruto, i.e., não necessariamente quem compõe precisa tocar suas obras. Beethoven (mais uma vez) e Schubert foram quase casos isolados, de uma geração passada, a antecipar a tendência.

AS CRÍTICAS

No XVIII, a pena do crítico musical era empunhada por especialistas, músicos competentes ou teóricos. Com o aumento do público e a nova situação geral em que se encontravam a música e os músicos no XIX, quase todo mundo começou a sentir-se com direito de dar palpite nessa área, o que contribuiu para o desenvolvimento de um certo diletantismo e ‘impressionismo crítico. A crítica profissional e a amadora passaram a coexistir. Músicos notáveis, como Schumann e Berlioz, foram críticos. Escritores ‘metidos’ e sem competência específica, como Stendhal e Balzac, formavam um numeroso grupo que também escreveu sobre música.”

o folhetim parisiense, inicialmente consagrado à literatura, logo iria entrar no campo da música, com críticas, observações lúcidas e detalhes de crônicas, tudo num estilo acessível e leve que logo o fez transformar-se num gênero predileto do público.”

Com o aumento da crítica e a divisão do trabalho e complexificação do meio, nasceu também a crítica da crítica, ou seja: não era uma só voz, mas muitas vezes vozes em guerra enaltecendo e difamando cada uma os seus próprios heróis. Uma grande parte da crítica também era desonesta, i.e., não resenhava pela arte, mas visando a outros fins, que não eram expostos na matéria ao leitor.

A ARS NOVA E GUILLAUME DE MACHAUT – Capítulo 7 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

“‘Artesão da antiga e da nova forja’, tal se pretende Guillaume de Machaut, e assim se pode também definir o séc. XIV musical durante o qual se generaliza a prática de novos modos de escrita da música a partir de um material antigo.”

Jean de Murs, Ars nove musice

Philippe de Vitry, Ars nova

Embora retomem em larga escala as formas da música dos séculos precedentes, pretendem esses teóricos que tal música já pertence à Ars Antiqua, também dita Vetus (‘velha’, ‘anterior’). São autores que devem a celebridade sobretudo a suas obras teóricas. Fato é que nenhuma obra nos resta de Jean de Murs e que apenas uma dezena de motetos do Roman de Fauvel e do manuscrito de Ivrea podem ser atribuídos a de Vitry (1291-1361). Bispo de Meaux, mas também brilhante poeta, amigo de Petrarca e dos primeiros humanistas reformadores (como Nicole d’Oresme), de Vitry adquiriu renome europeu.”

ratificaram e generalizaram os procedimentos existentes, conferindo-lhes maior precisão.” “ao sistema ternário (…) veio acrescentar-se um modo de divisão dos valores binários” “Ou seja: quando a longa vale 3 breves, trabalha-se com o modo perfeito; quando ela vale 2 breves, com o modo imperfeito; se a breve se divide em 3 semibreves, é o tempo perfeito; se está dividida em 2, é o tempo imperfeito; finalmente, se a semibreve se divide em 3 mínimas, estamos diante de uma prolação maior, se em 2, diante de uma prolação menor.”

O tratado de Philippe de Vitry nomeia também a semi-minime (semínima), mas trata-se decerto de um acréscimo tardio, pois esse valor quase não era empregado antes do fim do séc. XIV (uma mínima é divisível em 2 semínimas).”

Talea: tal emprego de módulos preestabelecidos e repetidos no decorrer da obra faz pensar, de certo modo, no serialismo do séc. XX.”

dois séculos antes do Concílio de Trento, a Igreja já se dava conta de que a música estava se tornando uma arte e já não era a ciência de dar suportes melódicos à Palavra da Verdade. Uma arte que iria proporcionar, no próprio seio da igreja, em plena celebração dos ofícios, prazeres intelectuais aliados aos prazeres dos sentidos, dispersando com isso a atenção dos fiéis e desviando-os dos mistérios divinos.

O papa João XXII, que ignorava a isorritmia, mas que mesmo assim estava a par dos progressos recentes da técnica musical, escreveu, em sua decretal Docta Sanctorum Patrum (1324), algumas linhas que manifestam uma admirável compreensão desses fenômenos e que são de grande lucidez com relação a suas conseqüências:

Certos discípulos da nova escola, enquanto dedicam toda a sua atenção a medir o tempo, estão empenhados em fazer as notas de uma nova maneira, preferem compor seus próprios cantos em lugar de cantar os antigos, dividem as peças eclesiásticas em semibreves e mínimas; estraçalham o canto com notas de curta duração, despedaçam as melodias com soluços, poluem-nas com discantes e chegam ao ponto de entulhá-las com vozes superiores em língua vulgar. Desconsideram, assim, os princípios do antifonário e do gradual, ignoram os tons que já não mais distinguem, que mesmo confundem… Correm sem fazer uma pausa para repousar, inebriam os ouvidos em lugar de acalmá-los, mimam por gestos o que fazem ouvir. Assim, a devoção que se deveria buscar é ridicularizada, e a lascívia, de que se deveria fugir, é exibida às escâncaras.”

Muito se tem insistido em fazer de Machaut o último dos troveiros, sob o pretexto de que ele retomou algumas das formas líricas tão características destes, e também porque pôs em música uma parte de sua própria obra poética. É não reconhecer nele o homem dos novos tempos, é ignorar a força e o alcance de sua obra, ignorar também que Machaut teve perfeita consciência de ser o primeiro artista, no moderno sentido da palavra.”

Somos anões encarapitados nos ombros de gigantes, disse Bernard de Chartres no séc. XII.” E cada vez o autor original da frase recua mais no tempo!!

Foi ele o maior poeta francês de seu século e o primeiro grande compositor, gênio bifronte que une dois ofícios da mesma forma que sabe unir, de maneira coerente, a cultura sacra e a cultura profana – ele que, clérigo, tonsurado, cônego da catedral de Reims, passou ¾ da vida a serviço dos mais notáveis príncipes do mundo.” “pela primeira vez, a música profana era aceita e reconhecida por um clérigo nos seus efeitos benéficos sobre a alma humana.”

« Oprheüs mist hors Erudice

D’enfer, la cointe, la faitice,

Par sa harpe et par son dous chant.

Harpoit si très joliement

Et si chantoit si doucement

Que les grands arbres s’abaissoient

Et les rivières retournoient

Pour li oïr et escouter;

[…]

…ce sont miracles apertes

Que Musique fait. »

Guillaume de Machaut era originário do povoado de Machault, na Champagne, situado a 50km de Châlons-sur-Marne e a 40km de Reims.”

Com a morte do rei da Boêmia, Machaut entrou para o serviço de Bonne, filha deste, a qual morreria da peste pouco tempo depois. Para evitar a contaminação por uma doença que dizimou a metade da população da Europa, Machaut ficou um ano inteiro fechado dentro de sua casa em Reims, depois do que passou sucessivamente ao serviço de Carlos II, o Mau, rei de Navarra, de Carlos V, de Pedro I de Lusignan, rei de Chipre, do duque de Berry e de Amadeu de Savóia. Terminou seus dias retirado em seu canonicato. O artista sexagenário tinha então um caso com uma admiradora muito jovem, Péronne d’Armentières, que desejava aprender com o mestre a arte dos versos e da composição. O Voir dit (1361-1365) Dito da verdade – narra essas trocas intelectuais e amorosas sob a forma de um romance epistolar, o primeiro da literatura francesa.”

Machaut não inventou nenhuma forma – o que ele fez foi levar à perfeição os gêneros já existentes.”

O compositor tinha predileção pelos motetos. Deixou 23, dos quais 19 a 3 vozes. 6 são religiosos e inteiramente em latim. 2 têm um duplum em latim e um triplum em francês. 3 têm uma voz tenor com texto francês (Fin cuer doulz, Fino e doce coração nº 11, Pourquoi me bat mes maris, Por que me bate meu marido), lassette nº 16, e Je ne suis mie certein, Não tenho a menor certeza nº 20).”

Os cálculos rigorosos da isorritmia fascinavam Machaut, que se divertia com multiplicar as dificuldades, escrevendo uma parte contratenor semelhante à parte tenor, só que de trás para diante (nº 5), como o fez para o cantus e a tenor do rondó cujo incipit, de resto, alude ao procedimento: ‘Ma fin est mon commencement / Et mon commencement ma fin’.”

Escrevia antes de compor, e não para pôr na música composta.

As missas da época, as Messe ditas de Tournai, de Sorbonne, de Besançon, etc., propõem modelos polifônicos a 2 e a 3 vozes, mas isolados uns dos outros e discordantes. Machaut foi o primeiro a ter composto uma missa completa, inclusive com o Ite missa est, e que é, além do mais, uma missa a 4 vozes, o que constitui outra inovação.”

Não é difícil compreender que essas pesquisas intelectuais variadas, inseridas num conjunto de grande coerência, possam ter interessado tanto Stravinski quando este escrevia sua própria missa.

O leitor que nos perdoe esses saltos no tempo, mas a partitura do Hoquet David, escrita sobre um Alleluia-Nativitas de Pérotin, que Machaut talvez tenha desejado completar, com sua voz tenor issorrítmica e suas duas vozes superiores em hoquet, nas quais células de uma passam para a outra, trazem irresistivelmente ao pensamento, por sua economia de meios e sua clareza, a escrita de Anton Webern.”

A ARS NOVA ITALIANA

O termo Ars Nova, que designa as formas musicais da Itália no Trecento, poderia fazer-nos pensar numa influência da escrita francesa sobre a que se desenvolvia na península e em qualquer parentesco entre as músicas dos 2 países. Não há nada disso: o movimento italiano caracteriza-se por sua independência, afirmada na adoção de uma notação própria, admirável por sua precisão e cujos princípios se acham expostos no Pomerium artis musicae (Limites da arte da música), de Machetto de Pádua (1321-1326).

Se é fato que os papas Bonifácio VIII, em Roma, e Clemente VI, em Avignon, exerceram o mais brilhante mecenato no domínio das artes visuais, estimulando o gênio de um Giotto ou de um Matteo de Viterbo, por outro, foram os príncipes das grandes cidades do norte da Itália que atraíram os músicos e os protegeram: as côrtes dos Della Scala, em Pádua e em Verona; dos Scaligari, também em Verona; dos Visconti, em Milão; e, enfim – e sobretudo – dos notáveis de Florença.

Por isso mesmo, fazia-se música quase exclusivamente profana, escrita segundo o apelo das circunstâncias, o mais das vezes para convidar aos prazeres ou cantar-lhes a nostalgia.”

Ao inverso da polifonia francesa que se elaborou a partir da voz tenor, a italiana organizava as vozes com base na voz superior, em que se inscreviam as palavras, cujos autores podiam ser Boccaccio, Petrarca, Sachetti. Três gêneros são cultivados na Itália: o Madrigal, a Caccia (caça) e a Ballata.”

A Caccia (que tem por pendant a Chasse francesa), mais rara, é uma composição em cânone, para as 2 vozes superiores, enquanto a voz tenor faz um contraponto não-canônico e sem texto, composto de 2 seções, a 2ª funcionando como ritornelo no estilo do madrigal. (…) com espantosa liberdade de invenção.”

As composições de Jacopo da Bologna são as mais variadas (madrigais a 3 vozes), e a ele se deve a 1ª transposição para música de um soneto de Petrarca: Non al so amante.”

Francesco Landini (1325-97), organista cego, foi o compositor mais importante da Florença do séc. XIV e o que deixou obra mais abundante (11 madrigais, 2 caccie, 141 baladas). (…) também influenciado pela arte de Guillaume de Machaut, seu estilo reveste-se de doçura e elegância.”

A POLIFONIA, DESDE SEUS PRIMÓRDIOS ATÉ O FIM DO SÉC. XIII – Capítulo 6 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

Tanto do ponto de vista do etnólogo como do musicólogo, a superposição de duas ou várias linhas melódicas simultâneas que se desenrolam de maneira homogênea – guardando, cada uma delas, seu caráter particular – é vista como uma tendência espontânea a procurar a consonância de duas ou mais vozes. De acordo com as pesquisas e as conclusões de Marius Schneider, a heterofonia por intervalos de quinta – tal como se define nossa 1ª polifonia – é localizável em 3 regiões muito afastadas umas das outras: na Europa oriental, desde o sul do Cáucaso até a Sicília, na África meridional e em certas partes da Ásia.”

Não estamos, portanto, interessados em fechar um círculo em torno do nascimento da polifonia na música ocidental”

Será preciso esperar a Summa musicae do XIV para encontrar o termo polifonia usado como designação da escrita vertical, uso que só se deverá impor no séc. XVIII. Aparentemente, o princípio da consonância harmônica já era conhecido desde muito. Santo Agostinho faz-lhe alusão em seu Contra academicos; Boécio menciona-o em diversos dos seus escritos.”

Não resta dúvida de que a polifonia só conseguiu se desenvolver verdadeiramente na música erudita ocidental depois de bem-assimilado, pelos cantores, o canto gregoriano imposto por Carlos Magno e uma vez criadas as escolas necessárias à aprendizagem do canto a muitas vozes, ou seja, na época de Carlos, o Calvo. Os primeiros testemunhos de utilização da polifonia figuram nos escritos teóricos do século IX: p.ex., no De institutione musica de Hucbald de Saint-Amand, no manuscrito de Reginon de Prüm (?-915), no De divisione naturae naturae, de Johannes Scotus Erígena (ca. 876-?), e sobretudo na Musica enchiriadis, atribuída a Ogier de Laon

organum: esta palavra designa inicialmente qualquer instrumento de música, para, mais tarde, restringir-se ao instrumento natural que é a voz humana, por ocasião aos outros, ditos ‘artificiais’; e terminar designando o órgão, instrumento de teclado.” “no grego e no latim, uma única e mesma palavra (phone em grego e vox em latim) é usada para designar tanto a voz humana quanto o instrumento que a acompanha.”

a quarta aumentada, o trítono fá-si, o famoso diabolus in musica.”

não chegou até nós nenhuma música polifônica anterior aos raros volumes de tropos que datam do séc. XI, como a coleção de Winchester, estabelecida, sem dúvida, sobre um modelo de Fleury, que contém 50 organa, ou ainda a dos Aleluias de Chartres, onde se observa o emprego de intervalos de terças, na época considerados dissonantes.”

Com o nome de tenor (do latim tenere, sustentar), passa a caber à voz principal o registro grave do canto. (…) voz litúrgica” O início do fim do canto gregoriano.

A Escola de Saint-Martial de Limoges abriu caminho para o amplo movimento musical da Escola de Notre-Dame (…) seus reflexos atingiram fortemente a Inglaterra e sobretudo a Espanha.

O que se vê na Espanha é a flexibilidade e a liberdade de invenção prevalecerem sobre a estreiteza dos quadros teóricos, em Santiago de Compostela, cidade que, juntamente com Roma e Jerusalém, constituía um dos 3 grandes locais de peregrinação da Cristandade.”

a Igreja, outrora tão ardorosa na imposição do canto gregoriano, deixou que se passasse um século antes de se deixar mobilizar por essas formas de escrita que o relegavam ao segundo plano.”

A bela e inteligente cidade de Paris, como também os centros urbanos em seu redor num raio de 150km, estavam destinados a viver conjuntamente 3 grandes surtos de criação: o desenvolvimento do pensamento escolástico (…); a construção das catedrais pelos arquitetos góticos; e a floração das magníficas polifonias dos 2 grandes mestres da Escola de Notre-Dame, Léonin e Pérotin.”

Coussemaker, Anonymus IV (que porra é essa, uma espécie de Vol. 4 cristão?)

Tudo está pronto, a essa altura, para o advento do moteto, o mais complexo, o mais bem-resolvido e o mais surpreendente, também, de todos os gêneros polifônicos.” “Voltou-se a prestigiar o procedimento adotado nos tropos: encaixar palavras (mot petit mot motet) nas melodias preexistentes. Foi assim que nasceu o moteto.”

Todo o esforço consistirá em organizar com clareza a escrita do conjunto das vozes. Resolver-se-á a questão diferenciando-se o ritmo de cada uma delas: lento para a voz tenor, mais rápido para o duplum, acelerado para o triplum. A ‘letra’ do triplum é em geral um terço mais longa que a do duplum. (…) Pode-se acrescentar-lhe ainda um quadruplum [terceira voz de apoio ao tenor].”

Em 1260 começa-se a espalhar uma notação para maior coordenação (nota a nota) das vozes entre si: a franconiana.

Franco de Colônia, Ars cantus mensurabilis

O sistema é ternário: a unidade é constituída pela breve, a que corresponde um tempo. A longa perfeita vale 3 tempos; a imperfeita, 2 – e assim por diante.”

canto de amor” “Jean de Grouchy observa que, enquanto os rondós podem chegar às camadas populares, o mesmo não acontece com os motetos”

As 2 ou 3 vozes acima da voz tenor têm, a essa altura, ‘letras’ em francês, e a voz tenor ora é latina e litúrgica, ora latina e não-litúrgica, ou pode mesmo ter texto francês, como é o caso da famosa voz tenor de um moteto do manuscrito de Montpellier: ‘Fraise nouvelle!’ (São os primeiros morangos!), que é um pregão de Paris.”

yeratica” em latim é “verdadeira”, bem diferente do falso cognato!

Erwin Panofsky, o eminente historiador da imaginação criadora da Id. Média e do Renascimento, demonstrou claramente como a organização tripartida, às vezes quadripartida, torna-se um princípio de edificação tanto do pensamento como da arquitetura.”

a organização do gótico clássico prevê ‘uma nave tripartida, um transepto igualmente tripartido que se funde no antecoro quinquepartido…’”

Por outro lado, um dos grandes aspectos do pensamentos escolástico, que haveria de constituir uma aquisição duradoura na organização do saber, consiste em reunir todos os elementos do conhecimento sobre um mesmo assunto em sumas e, em seguida, distribuí-los, classificando-os por ordem de importância decrescente em capítulos, subcapítulos, seções, subseções, etc.”

Na arquitetura, o princípio da divisão dos elementos é identificável, p.ex., na divisão dos suportes em pilares principais, colunetas maiores, colunetas menores – subdivisíveis, por sua vez – ou ainda na divisão dos mainés em perfis primários, secundários, terciários. Ora, na esfera da notação do ritmo musical, a divisão dos valores de duração em longas, breves, semibreves, mínimas, que surge na mesma época, corresponde a uma preocupação semelhante, manifesta um mesmo hábito mental.”

Substituir a duração indeterminada dos melismas do cantochão por polifonias com tempo contado é introduzir, no templo de Deus, o tempo do mercador. Essa a razão pela qual os cirtercienses e os dominicanos rechaçaram energicamente de seus ofícios as polifonias compassadas.”

Os monges, em seu anonimato desinteressado, deixam de ter o monopólio da arte sacra, e os cavaleiros já não compõem, eles próprios, as obras que idealizam seu modo de viver.” “é o preciso momento em que a música, de ciência, passa a ser uma arte.”

A M.

Une damme elle s’abolit

dans le douceur du jus supreme (awh!)

communes blasphemes

elle sent

éther

en elle-même

au lit.

de repos

le blanc flotte dehors du pennis

la vie très belle, qui-t-on blâme?

Il ne s’en veillit pas

Au creux est né un musicien

silence! bruit!! silence!

vuide

ui ui ui

ouais ouiais ouais

Houaiss

au-man-aqui

ao-homme-ici-

bàs, tché!

tresser track

tréc, bric-à-brac

honnoré de bâl

au rap, nê!

MONOGRAFÍAS MUSICALES: Ensayo sobre Wagner / Mahler (…) (Obra completa vol. 13) – Adorno, 1971 (2008).

ENSAYO SOBRE WAGNER, 1939, 1952 (primera traducción de 1964).

Tras el fracaso de su estreno en provincias, La prohibición de amar, primera ópera de Wagner, cayó inmediatamente en el más profundo olvido, del que ni siquiera consiguió rescatarla el celo filológico en la época del apogeo de Wagner.”

Como primer servidor del gran todo, el dictador Rienzi renuncia al título de rey, como más tarde Lohengrin a la dignidad de duque. A cambio, acepta de antemano los laureles tan gustosamente como que es él mismo quien los dispensa.” “En esta espectacular pieza histórica casi se vislumbra ya una consciencia crítica del verdadero tipo del héroe como autocontemplación. El elogio de sí mismo y la pompa – rasgos de toda la producción wagneriana y existenciales del fascismo – nacen del presentimiento de la precariedad del terror burgués, de la condena a muerte que pesa sobre el heroísmo que se autoproclama. Quien duda de que lo por él creado le sobreviva busca en vida su gloria póstuma y celebra con desfiles festivos sus propias exequias. La muerte y la aniquilación acechan entre los bastidores wagnerianos de la libertad: las ruinas históricas del Capitolio bajo las que yace sepultado el héroe disfrazado de libertad son los modelos de las metafísicas que se desmoronan sobre los dioses despojados de su poder y el mundo culpable del Anillo.” “lo mismo que al final del tercer ato de Sigfrido Brunilda se entrega al amado por <una muerte risueña> en el momento en que cree despertar a la vida, así Isolda siente su muerte física como <supremo deleite>.”

Tal difamación del burgués que, sin embargo, en Los maestros cantores celebra rápidamente el gozoso renacimiento, sirve al mismo fin que en la era totalitaria.” “Wotan parece, sin duda, abogar por la rebelión, pero lo hace en aras de sus planes de imperialismo mundial y dentro de las categorías de libertad de acción – <no me ligan a ti, infame, los términos de un pacto> – y ruptura de pacto – <cuando se agitan las fuerzas de la osadía, yo aconsejo abiertamente la guerra> –.”

no en vano el periodo de su ascenso fue aquel de economía precaria en que la producción de óperas no gozaba ya de la seguridad de la corte ni tampoco todavía de la protección de la ley burguesa que reglamentaba las percepciones por derechos de autor. En un mundo profesional en el que un autor de éxito como Lortzing(*) murió de hambre, Wagner tuvo que ejercitar con virtuosismo la capacidad de alcanzar metas burguesas al precio de su propia dignidad burguesa. Ya pocas semanas después de huir de Dresde debido a su ostensible participación en el levantamiento de Bakunin, [¡] pidió por carta a Liszt que le consiguiese un salario de la gran duquesa de Weimar, el duque de Coburg y la princesa de Prusia.

(*) Gustav Albert L. (1801-51): compositor alemán, autor de 20 óperas mayoritariamente cómicas y sentimentales, ajenas a la tradición romántica y estructuradas en torno a la sucesión de números musicales separados por diálogos hablados.”

Su delito no es que engañe a los burgueses, sino que al apelar a la compasión reconoce a los dominantes y se identifica con ellos. El desenfreno en el mendigar podría sugerir una especial independencia de las normas burguesas. Pero tiene el sentido contrario. El poder del orden sobre el contestatorio es ya tan grande para éste que ni siquiera se produce ya un verdadero aislamiento, ni siquiera resistencias contra el todo” “Es la actitud del zalamero hijo de papá que trata de persuadirse a sí mismo y a los demás de que sus buenos padres no podrían negarle nada precisamente porque no lo hacen.”

¡Pese a todo mi coraje, muchas veces soy el más vil de los cobardes! No obstante tus generosos ofrecimientos, a menudo veo con verdadera angustia de muerte la mengua de mi peculio”

W. a Liszt

El mendicante W. contraviene los tabús de la moral burguesa del trabajo, pero su bendición es provechosa para la salvación del statu quo.” “El pedigüeño impotente se convierte en panegirista trágico. En una fase histórica posterior, estos rasgos cobraron la máxima significación cuando en situaciones difíciles los dictadores amenazaban con el suicidio, sufrían crisis de llanto en público y conferían a su voz un tono lloriqueante. Precisamente los puntos de descomposición del carácter burgués, en el sentido de la propia moral de éste, son preformas de su transformación en la era totalitaria. El Wagner posterior aún muestra la configuración de envidia, sentimentalismo e instinto destructor.”

Aún otro rasgo se nos reveló que, a decir verdad, no sólo valía para este último periodo de su vida. No se le podía ocultar nada; él lo sabía siempre todo. Si la señora Wagner quería sorprenderle con algo, él lo soñaba por la noche y se lo decía a ella por la mañana. (…) Con los extraños esta intuición se producía a menudo de un modo completamente demoníaco: él conocía los flancos débiles de su interlocutor con penetrante agudeza de mirada y así sucedía que, sin con ello querer herir a nadie, tocaba precisamente sus puntos débiles.”

Glasenapp

Los escritores entusiastas liberales gustan de aducir la amistad con Hermann Levi para demostrar lo inocuo del antisemitismo wagneriano. La crónica de Glasenapp, escrita con la intención de resaltar la filantropía y magnanimidad de Wagner, nos informa involuntariamente a este respecto.”

Un impulso sádico a la humillación, un humor conciliador y sentimental y, sobre todo, la voluntad de comprometer afectivamente consigo al maltratado se reúnen en la casuística del comportamiento de Wagner (…) Cada palabra conciliadora se acompaña de un nuevo aguijón hiriente. Es una especie de demonismo del que el mismo W. se acuerda cuando en su autobiografía cuenta cómo él mismo, por lo demás no teniendo totalmente regularizada su matrícula, participó junto a una horda de estudiantes en el saqueo de dos burdeles de Leipzig, sin ni en la narración tardía desprenderse del todo del envoltorio moralista que había cubierto aquel acto de limpieza”

Cuando W. pide compasión como víctima y para ello molesta a los poderosos, está dispuesto a insultar a las demás víctimas. Su juego del gato y el ratón con Levi tiene equivalente en su obra: Wotan apuesta la cabeza de Mime sin que éste lo acepte y contra su voluntad; el enano está a merced del dios como el invitado a la del anfitrión de Wahnfried.”

A quien tiene el dãno qué se le da un baño”

En Nibelheim, Wotan y Loge se ríen de los dolores de Mime. Sigfrido tortura al enano porque <no lo puede sufrir>, sin que el aura de augusto y noble le impida ensañarse con el impotente.”

La música de Wagner se comporta como el buen criado con sus malvados, y la comicidad de su tormento da placer no meramente a quien lo inflige, sino que también ahoga la pregunta por el porqué y proclama la ejecución sumaria como instancia suprema. Este carácter del humor wagneriano escandalizó a Liszt y Nietzsche en el trato personal. De ello da testimonio él mismo: <Wagner le dijo a la hermana de Nie.: ‘Su hermano es como Liszt, al que tampoco le gustan mis chanzas’> (Hildebrandt, Wagner und Nietzsche, 1924). Cuando en una famosa escena W. monta en cólera contra N. y éste se calla, W. le espeta que tiene tan buenos modales que aún llegaría muy lejos en la vida; él, W., toda su vida ha carecido de ellos.” “Hildebrandt, que debe a la escuela de George(*) el recelo hacia el humor, vio en el cinismo wagneriano de la autodenuncia la verdadera causa del conflicto con N.: <Pero hubo entonces una frase de W. que hirió profundamente a N.. Cuando un día – durante la última época de W. y N. juntos, en Sorrento – la conversación versó sobre la tibia acogida de las representaciones en Bayreuth, W., según cuenta la hermana de N., había señalado malhumorado: ahora los alemanes no quieren oír nada de dioses y héroes paganos, quieren ver algo cristiano>.

(*) Referencia a Stefan George (1868-1933), poeta simbolista alemán, opuesto al naturalismo y a la literatura social.” ¡Que se joda ese hombrecito!

todos los repudiados en la obra de W. son caricaturas de judíos.”

W. comparte las ideas antisemitas con otros representantes de lo que Marx llamaba el socialismo alemán en torno a 1848. Pero su antisemitismo se reconoce como idiosincrasia individual que se niega obstinadamente a toda discusión.”

Nuestro oído se ve ante todo afectado de manera sumamente extraña y desagradable por el sonido agudo, chillón, seseante y arrastrado de la pronunciación judía: un empleo de nuestra lengua nacional completamente impropio y una alteración arbitraria de las palabras y de las construcciones de las frases dan más aún a esta pronunciación el carácter de una farfulla confusa e insoportable por la que involuntariamente prestamos más atención a ese cómo desagradable que al qué del discurso judío”

W.

Su propia apariencia física, desproporcionadamente pequeña en relación con la enorme cabeza y el prominente mentón, rayaba en lo anormal y sólo la fama lo protegía del ridículo.”

Pero el hecho de que todos los rumores sobre la propia ascendencia judía de W. se remonten, según la argumentación de Newman [biógrafo de W.], al mismo Nietzsche, que salió al paso del antisemitismo wagneriano, se explica precisamente por lo siguiente. N. conocía el misterio de la idiosincrasia wagneriana y al enunciarlo rompió el sortilegio.”

A quien se une a los verdaderos culpables las relaciones sociales se le aparecen como obra de conspiraciones secretas. Del asco por el judío forma parte imaginarlo como poder mundial. En el artículo sobre el judaísmo en la música W. achacó todas las resistencias a su obra a imaginarias conspiraciones judías, mientras el presunto culpable principal de esas intrigas, Meyerbeer, lo había apoyado activamente hasta que él lo atacó públicamente.”

(*) “J.A. Gobineau (1816-82): diplomático y escritor francés, autor de Ensayo sobre la desigualdad de las razas humanas (1853-5), donde pretende aportar una base física y realista a la teoría de la superioridad de la raza germánica. Su doctrina fue aprovechada por los pangermanistas y el nacionalsocialismo hitleriano.”

Pero cuando luchábamos por la emancipación de los judíos, propiamente hablando, éramos más combatientes por un principio abstracto que por el caso concreto: del mismo modo que todo nuestro liberalismo no era más que un juego intelectual no muy clarividente, pues promovíamos la libertad del pueblo sin conocer a este pueblo y aun evitando todo contacto efectivo con él, nuestro empeño en la igualdad de derechos para los judíos era más el resultado de una excitación producida por una idea general que de una auténtica simpatía; pues, a pesar de todos los discursos y escritos a favor de la emancipación de los judíos, en nuestro contacto efectivo y práctico con judíos siempre sentíamos una repulsión involuntaria hacia ellos.”

El antisemitismo wagneriano reúne en sí todos los ingredientes del posterior. El odio llega tan lejos que, según Glasenapp, la noticia de la muerte de 400 judíos en el incendio del Ringtheater de Viena le inspiró una chanza.”

para un judío convertirse en hombre al mismo tiempo que nosotros significa, ante todo, dejar de ser judío. (…) ¡Participad sin prevención en esta obra de redención regeneradora mediante el autoexterminio y entonces estaremos unidos y seremos indistintos!”

A lenda do judeu errante tem origem provável na Constantinopla do IV d.C.. Seria um Ahasvero, sapateiro da idade de Cristo, que se negou a apoiar a cruz deste no caminho para o Gólgota.

– Anda!

– Também tu andarás até o fim dos tempos!

Nessa bravata panfletária de Wagner confunde0m-se a idéia marxista da emancipação social dos judeus como a emancipação da sociedade com respeito ao benefício que os próprios judeus simbolizam, e a idéia do extermínio judeu.”

Se nossa cultura vai a pique, isso não supõe dano algum em absoluto; mas se vai a pique por causa dos judeus, será uma desonra!”

W.

No sinistro círculo mágico da reação de W. estão gravados os sinais tipográficos que sua obra tomou emprestados de seu caráter.”

Schubert pertenece a los músicos de café-concierto, Chopin al tipo difícil de definir de los <de salón>, Schumann al de la oleografía, Brahms al del profesor de música: es avecindándose al máximo a la parodia como se ha afirmado su fuerza de producción, y su grandeza reside en la escasa distancia que los separa de esos modelos, de los cuales al mismo tiempo extraen sus energías colectivas. No es tan fácil encontrar un modelo de este género para W.. Pero el coro de indignación que respondió a Thomas Mann cuando en relación con el nombre de W. mencionó el del diletante indica que tocó un punto neurálgico. Merece reflexión su relación con las diversas artes con las que creó su <obra de arte total>

a arte de W. é um diletantismo monumentalizado e levado ao genial com uma força de vontade e uma inteligência extremas. A idéia mesma de uma fusão das artes tem algo de diletante e seu autor teria permanecido no estreito campo do diletantismo não fosse o extremo vigor com que submeteu cada campo a um extraordinário gênio expressivo.”

ainda na fase tardia dos Mestres cantores podem-se observar falhas na modulação e no equilíbrio harmônico.”

Não só abraçou a profissão burguesa de diretor de orquestra como escreveu a primeira música de grande estilo para diretor de orquestra.”

Nele, desde o princípio, a alienação do público alia-se ao cálculo do efeito sobre o público”

escrevia para pessoas pouco musicais”

Na Sinfonia fantástica, a idée fixe de Berlioz, modelo imediato para o Leitmotiv, simboliza uma obsessão que mais tarde, com o nome de spleen, aparece no centro da obra de Baudelaire. Aí já não se pode mais abdicar desta idéia. Ante sua hegemonia irracional, o selo do incomparável, o sujeito deixa-se levar. Segundo o programa de Berlioz, a idéia fixa se parece com o intoxicado pelo ópio. É a projeção para fora de um elemento ele mesmo secretamente subjetivo e ao mesmo tempo alheio ao eu, projeção na qual o eu se perde como numa quimera. O Leitmotiv wagneriano segue atado a este origem. Mesmo que não haja um motivo, há uma espécie de livre associação. É que o procedimento wagneriano conta já com aquilo que cem anos mais tarde a psicologia batizou como debilidade do eu.”

Ouvir à maior distância significa o mesmo que ouvir menos atentamente. Tendo como parâmetro a lassidão burguesa em período ocioso, o público de espetáculos monstruosos de várias horas de duração é imaginado distraído e vagante na corrente da música, logo esta música, cujo próprio autor e diretor vai impondo ao público a marteladas, com estrépito e incontáveis repetições.”

No séc. XVII os diretores ainda marcavam o compasso com bastões”

a idéia de orquestra sem diretor não carece de base empírico-crítica. Em W., a primazia do diretor na composição é absoluta.”

Wagner não lia a partitura, tinha de saber toda a composição de cor.

Todo Lohengrin, con excepción de una ínfima parte, está escrito en un tipo de compás binario, como si la igualdad de los tiempos permitiera dominar de un solo vistazo escenas enteras, de manera parecida a como por <reducción> se simplifican quebrados aritméticos.”

Quando se domina completamente de memória uma obra em todos os seus detalhes, se produzem não poucos momentos em que a consciência do tempo desaparece de repente e toda a obra se apresenta simultaneamente na consciência, eu diria que <espacialmente>, tudo com a máxima exatidão.”

Alfred Lorenz, pianista

Não que Wagner vá nisto tão longe quanto Beethoven em suas sinfonias: “De modo que la espacialización de la extensión del tiempo sospechada por Lorenz en Wagner es mera ilusión: solamente por contenidos parciales dependientes, sin relieve, puede la representación de la marcación del compás mantener sin fisuras el dominio total, y la tan censurada debilidad melódica de W. no se basa en una simple falta de <inspiración>, sino en el gesto de marcar el compás que domina su obra.”

A consciência musical de W. se submete a uma curiosa involução: é como se o temor à mímica – que foi fazendo-se cada vez mais forte no decorrer da história da racionalização ocidental e contribuiu não pouco à cristalização de uma lógica da música autônoma, análoga à lógica da linguagem – não tivesse pleno poder sobre Wagner. Seu modo de compor se retrai a um elemento pré-lingüístico” “É nessa regressão que se fundamenta o <histrionismo> wagneriano, o chocante de seu proceder, que com razão Paul Bekker considerou sem ressalvas como o núcleo da obra de arte wagneriana.”

à maneira, por exemplo, como os agitadores substituem com gestos verbais a evolução discursiva do pensamento.”

Decerto que no fundo a música sempre traz esse elemento gestual. Mas no Ocidente isso foi espiritualizado e internalizado como expressão, ao passo que todo o discurso musical se submete à síntese lógica pela construção; a grande música se esforçou pelo nivelamento de ambos os elementos [espírito e aparência; vontade e representação]. Wagner se opõe; sua música, nisso análoga à filosofia de Schopenhauer, não consuma nenhuma história em sua autossuficiência. O momento expressivo potenciado ao máximo mal se contém no espaço interior, na ‘consciência do tempo’, desprendendo-se como gesto. Isto produz essa sensação de desagradável, que não cessa de ferir o ouvinte. Eis a insipidez da morte de uma cultura.”

O diretor wagneriano (que compõe) representa e reprime a exigência do indivíduo burguês de ser ouvido. É o porta-voz da nação e a obriga à obediência. Como a música é a imagem da coisa (da alienação), os gestos são a alma que restou. Mas esses dois elementos não são conciliáveis, eis a íntima contradição – técnica e social – da música de Wagner.”

La secuencia de W. es diametralmente opuesta a la del Beethoven sinfónico. Por principio excluye el trabajo <fragmentario> del clasicismo vienés. (…) La antifonía vienesa había refundido todo lo gestual en principio espiritual del desarrollo, y sólo con violencia pudo W. reinterpretarla como la danza o la <apoteosis> de ésta, del mismo modo que la obertura de la antigua suite, de la que nació la forma sonata, se distinguía de las subsiguientes danzas de la suite precisamente por el hecho de que no se presentaba a sí misma como forma estilizada de danza.”

se no sinfonismo o curso temporal se converte em instante, o gesto de W. é imutável, alheio ao tempo. Em sua repetição impotente, a música se submete ao tempo, que no sinfonismo dominava.”

Talvez o aborrecimento do ouvinte não-iniciado ante uma obra de W. do período maduro não seja somente signo de uma consciência pedestre que capitula ante a pretensão do sublime, senão também de uma incompreensão diante da descontinuidade da experiência temporal no mesmo drama musical.” “Integrada no todo e reificada, a emoção mimética degenera em mera imitação e finalmente em mentira.” “O comportamento compositivo se converte em agente de ideologia já antes de que esta se introduza literariamente nos dramas musicais.” “a emoção expressiva, ao aparecer pela segunda vez, se converte em comentário enfático de si mesma.”

Lorenz llega a comprender la totalidad de Los maestros cantores como un único <gigantesco Bar>.”

Com a lei formal da onda W. tentou superar musicalmente a contradição entre expressão e gesto muito antes de que o racionalizara por meio da filosofia schopenhaueriana. Ele visa a conciliar a falta de desenvolvimento no gesto com a irrepetibilidade da expressão fazendo com que o gesto se retraia a si mesmo. A si mesmo, i.e., ao tempo. Este, se não o domina como Beethoven, tampouco o preenche como Schubert. Revoga-o. A eternidade da música wagneriana, paralela à do poema do Anel, é a do <nada aconteceu>; a de uma invariância que desmente toda a história com a natureza sem linguagem. As filhas do Rin, que no princípio brincam com o ouro e no desfecho recuperam-no para brincar, são a conclusão última da sabedoria e da música de W.. (…) Isto tudo a concepção wagneriana da forma o representa mais penetrantemente que qualquer de suas opiniões filosóficas. Mas o princípio estético da forma, ao contrário de Schopenhauer, é transfigurado e convertido em equilíbrio reconfortante, que é intolerável no mundo social real que a obra de Wagner repele.”

Nota mental: ler Gaia-Ciência ouvindo Wagner.

A compreensão da função do Bar implica a crítica da forma wagneriana. Lorenz, que ataca com veemência a frase reacionariamente formulada de maneira maquinal desde Nietzsche sobre a falta de forma em W., está, todavia, mais interessado na organização das macroformas que no <trabalho temático>. (…) Mas a verdade é que em Wagner não há realmente nada que analisar na microforma. Para dizer melhor, W. só sabe de motivos e macroformas, nada de temas. A repetição faz as vezes de desenvolvimento, a transposição de trabalho temático, e, ao revés, o liricamente irrepetível, a canção, é tratado como se fôra dança.”

(*) “Hans Paul Freiherr von Wolzogen (1848-1938): dramaturgo, crítico musical e redator das Bayreuther Blätter, fiel servidor de W. e provável inventor do conceito de Leitmotiv.”

Enquanto que a música de W. suscita incessantemente aparência, expectativa e exigência do novo, no sentido mais estrito nela nada de novo sucede. É isso que Nietzsche e sucedâneos querem dizer. Esta ausência não provém do caótico, mas da falsa identidade. O idêntico se apresenta como se fosse novo e substitui em conseqüência, pela sucessão temporal abstrata dos compassos, o processo dialético do conteúdo em sua música, sua historicidade interna. O miolo da construção wagneriana da forma está oco: o desdobramento no tempo, a que apesar de tudo aspira, é inautêntico. (…) Não é por acaso que as análises de Lorenz possam-se registrar em tábuas, suporte tão alheio ao tempo como a própria organização wagneriana da forma. Em que pese toda sua meticulosidade, resulta disso um jogo gráfico que não é capaz de descrever a música real.”

Toda música cíclica era decepcionante até o tempo de Adorno? Hoje é sinônimo de puro prazer e deleite!

Sou incapaz de lembrá-lo, mas também não o esqueço” Sachs

O Leitmotiv remonta, muito além de Berlioz, à música programática do séc. XVII, quando ainda não imperava uma lógica da linguagem musical obrigatória, e seria melhor compreender esta origem somente sob o aspecto alegórico do que sob o jogo pueril de efeitos de eco e análogos.”

A necessidade de que a música de W. fosse comentada e resenhada foi desde sempre a declaração da bancarrota da própria estética wagneriana do imediatamente uno. A decadência do Leitmotiv é imanente a este: leva diretamente, passando pela elástica técnica de ilustração de Richard Strauss, à música de cinema, onde o Leitmotiv unicamente anuncia heróis ou situações a fim de que o espectador se oriente mais rapidamente.”

Só mesmo num contexto harmônico articulado pode o motivo responder, pode a mesma técnica da seqüência progressiva produzir este sentido alegórico que exige o leitmotivismo e que em grande medida possui seu esquema na triplicidade do Bar.”

Ao contrário, do amor, a música de cinema já não é assim um elogio…

Diante da décadence wagneriana se anuncia hoje em dia uma decadência, a de que precisamente esta sensibilidade abandonara os músicos e estes inclusive suspiram pelas cadeias em que Wagner tratava de se sacudir.”

O fato de que Wagner desenvolvera este análogo do procedimento impressionista na pintura sem consciência disso assinala a unidade das forças de produção da época não menos que o isolamento dos domínios particulares produzidos pela divisão do trabalho entre si.”

Na atmosfera wagneriana já está latente algo daquela do filisteu furioso que logo lançou o anátema contra todos os <ismos>. Quanto mais progridem a tecnificação da obra de arte, a planificação racional do procedimento e, portanto, o efeito, tanto mais ansiosamente a música medita como deverá parecer espontânea, imediata, natural, e como dissimular-se-á a vontade de estruturação do seu autor. Em contradição com sua práxis, sua ideologia nega o dissolvente, desagregador, analogamente a como logo, logo isto se expressará brutal e primitivamente na recusa sumária de toda nova arte por parte de Cósima na correspondência com o nacional-socialista Chamberlain.

(*) Houston Stewart Chamberlain (1855-1927): escritor germanófilo de origem britânica. Admirador, biógrafo e genro de Wagner, suas teorias racistas, em grande parte devedoras de Gobineau, foram uma importante fonte de inspiração para o nazismo.”

Wagner foi um impressionista apesar de si mesmo, conforme o estado atrasado das forças produtivas humanas e técnicas e portanto também da doutrina estética na Alemanha de meados do séc. XIX.” “Nenhuma comparação de W. com o impressionismo seria pertinente se não se recordara ao mesmo tempo que o credo do simbolismo universal, ao qual estão sujeitas todas as suas conquistas técnicas, pertence a Puvis de Chavannes, e não a Monet.

(*) Pierre Cécil Puvis de Chavannes (1824-98): pintor e desenhista simbolista francês.”

O que leva a totalidade wagneriana ao desastre não é tanto a nulidade do individual como o fato de que o átomo, o motivo caracterizador, deve, precisamente em virtude da característica, sempre aparecer como se fôra algo, exigência esta às vezes não satisfeita. Os temas e motivos se unem para formar uma espécie de pseudo-história.” “Em Beethoven, o individual, a <inspiração>, é ao mesmo tempo sublime e nulo cada vez que a idéia de totalidade tem a preeminência; o motivo se introduz como algo em si totalmente abstrato, exclusivamente como princípio do puro devir, e, posto que o todo se desdobra a partir daí, o individual, que desaparece no todo, é ao mesmo tempo concretado e afirmado também por aquele. Em W., o individual cheio nega a nulidade que não obstante possui enquanto gesto pré-lingüístico.”

Quanto mais triunfalmente se executa a música de W., tanto menos ela vê em si um inimigo a subjugar; o triunfo burguês sempre silenciou, com sua gritaria, a mentira do ato heróico. Precisamente a ausência de um material dialético sobre o qual a arte poderia ratificar o próprio triunfo condena as totalidades wagnerianas à mera duração. O fato de que motivos como o da espada ou da chamada do berrante de Sigfrido não são domináveis por arte da forma alguma é evidente: a censura de carência de inspiração melódica concerne menos a uma falta de capacidade subjetiva que objetiva. (…) De modo que o respeito constante pela eficácia e a inteligibilidade que permite a W. recorrer a motivos semelhantes a sinais produz uma falta de plasticidade e uma inconseqüência técnica no discurso. Isso fica patente logo no prelúdio do Lohengrin. (…) Sua melodia inicial carece de inteligibilidade, pois se obstina em duas notas, mi e fá sustenido, sem que sua repetição se planteie como temática, unívoca.” “Paradoxalmente, nem na teoria nem em seu próprio procedimento, salvo no Tristão, o cromático W. se livrara totalmente de certa apreensão diante da modulação. Sem o contrapeso das partes diatônicas do gênero do antecedente, a riqueza de graus e a condução cromática das vozes criaria aquele esoterismo que W. temia como a própria morte.” “Os passos de semitom <à parte>, sentidos como estímulo, de Tristão, não se distinguem entre si mais que, ao revés, podem-se reter apropriadamente como melos as fanfarras arcaizantes.”

A inspiração é uma categoria musical recente. Durante o XVII e princípios do XVIII se a reconhecia tão pouco quanto os direitos de propriedade sobre canções. A inspiração nada mais é do que pegadas que o compositor, monadologicamente isolado, optava por deixar no material musical como caracteres, i.e., indícios de estilo. Mas eis que a obra de Wagner aspira a destruir, a fazer desaparecer o ‘estilo’ incrustado no material natural. A força do protesto, que equivale à da inspiração, se encontra, nele, anulada, e o ser-em-si alienado de um material, com o qual o compositor acaba por se defrontar tanto mais impotentemente quanto mais aprende a dominá-lo, é elevado à essência como orientação desesperada. A técnica compositiva de Wagner, tanto como seus textos, têm a tendência de dissolver todo o determinado, tudo aquilo que tem um nome no um e no todo, seja na ‘proto’-tríada ou na gama cromática. A hostilidade de W. aos tipos termina absurdamente no anônimo, inespecífico, abstrato; de modo que, p.ex., em Max Reger poder-se-ia acabar transpondo qualquer tema e qualquer compasso de sua obra a qualquer outro, ao passo que já nos seus sucessores neo-alemães Strauss e Pfitzner a fragilidade interna do material motívico se faz manifesta nos extremos de banalidade fanfarrona e de vacuidade sem remédio.”

as seções, comparadas com o fragmento mais simples de Mozart, são em si de uma assombrosa pobreza figurativa. (…) As únicas passagens estritamente contrapontísticas são combinações de temas.”

Os cabos da melodia infinita se mostram com assaz clareza.” “Tanto mais intenso e perdurável, no entanto, foi, em W., o efeito de um meio estilístico estreitamente ligado à melodia infinita: o Sprechgesang (a fala cantada). Este pressupõe que já não se reconheça o desmembramento tradicional da melodia, que o discurso horizontal fique eximido dos controles duma construção regular dos versos e estrofes, e que esta dispensa seja aplicada ao tratamento musical do texto mesmo. (…) Como se sabe, o Sprechgesang wagneriano deriva em geral do recitativo accompagnato, por mais que desde o início W. protestasse contra sua confusão com o recitativo.” “Com gosto, dir-se-ia que compositores de óperas como Rossini e Auber devem precisamente a tais peculiaridades a reputação de engenhosos.”

Na ópera cômica, é mais fácil distinguir as palavras do cantor que “declama”; na ópera clássica pré-romântica, quase impossível: “W. se esforça por fundir a opera buffa e a opera seria como antes o classicismo fez com os estilos <galante> e <douto>.” Dessa perspectiva, a ópera de W. pode ser entendida como uma continuação, e não ruptura, com os cânones já presentes em A flauta mágica, Don Juan e Fidelio.

A opera seria vem da aristocracia feudal; a bufa, da burguesia. “W. conciliou ambas sob o primado da burguesia.”

O W. progressista modificou a forma sujeita da linguagem de tal modo que a entonação musical não se visse perturbada e se dobrasse como a prosa ao pensamento tanto quanto à música; o reacionário agregou-lhe um elemento mágico, realizando um gesto idiomático que finge um estado existente antes da separação em verso e prosa.” “nisso W. se aproxima ao máximo de Mussorgski, a quem não conhecia em absoluto.”

O mesmo W., cujo ponto fraco era a formação de caracteres puramente musicais, se mostra inigualável na tradução em música de caracteres expressivos.”

Para o drama, parece demasiado ideológico: é incapaz de relegar ao espírito com respeito à coisa mesma, de fazê-lo falar unicamente a partir desta, senão que como artista sente-se sempre simultaneamente no papel de apologeta que deve tomar a palavra ele mesmo.”

Esta função das personagens serve para retração do tempo musical. Os grandes relatos de Wotan no segundo ato d’A valquíria, de Sigfrido antes de sua morte, carecem de fundamento dramatúrgico. (…) Mas, em passagens decisivas, como a da negação da vontade por parte de Wotan e o da destruição da única esperança, põem a ação mesma no passado, de igual modo que segundo seu sentido formal o gesto do Bar se retrai a si mesmo sobre o corpo. (…) [Para que o efeito de fusão entre espectador, música, cantor e herói seja satisfatório,] É preciso que o poeta que fala afirme, vestido como <maestro>, a identidade mítica com suas próprias criaturas, que remedeia musicalmente suas figuras como o ator destas. Isso explica a ambigüidade de seu proceder musical, que confunde entre si a reflexão lírica do personagem do drama e a imediatez gestual-afetiva do diretor.”

As contradições que sustentam a estrutura formal e melódica de W. – condição necessária do tecnicamente frágil – se determinam em geral pelo fato de que o regressivamente sempre igual se apresenta como sempre novo, o estático como dinâmico, ou de que, ao revés, segundo o próprio sentido, categorias dinâmicas se identificam com caracteres anti-históricos, pré-subjetivos. O compor de W. só não é inconsistente porque imediatamente se pressente como estático num grau ultimado, o que já ultrapassa o Ser no sentido da ideologia ontológica de meados do séc. XX, como p.ex. em Stravinski. Stravinski, sendo conscientemente ‘pré-histórico’, é um dos antípodas absolutos da estética wagneriana. Stravinski libera a regressão em figuras sempre novas; como na [regressão] fascista, em sua ideologia estética se abjura do conceito de ‘progresso’. Nos cem anos que lhe foram anteriores, que se enraízam no liberalismo, mas nos quais já se manifesta a própria regressão antecipatória dessa raiz, inclusive, quisera-se afirmar o elemento regressivo em si como progressista, a estática como dinâmica, expoente de uma classe que está já objetivamente ameaçada pela tendência histórica sem, não obstante, segundo a própria consciência, experimentar-se, por isso, como historicamente condenada, e que em lugar disso projeta o previsível final da própria dinâmica como catástrofe metafísica sobre o princípio do Ser.”

é o elemento, propriamente falando, produtivo de W. aquele em que o sujeito renuncia à soberania, se entrega passivamente ao arcaico – o fundo instintivo –; ao elemento que, justamente graças a sua emancipação, abandona a pretensão, tornada incumprível, de configurar o decurso temporal como pleno de sentido. Mas este elemento é, em suas duas dimensões, a harmônica e a colorista, o som. Este é quem parece fixar no tempo e no espaço e, assim como enquanto harmonia <preenche> o espaço, o mesmo número de cores, para o qual a teoria da música não conhece outro, se toma emprestado da esfera ótico-espacial.”

se em W. a música regressa ao meio, estranho ao tempo, do som, em troca é precisamente sua própria distância em relação com o tempo o que permite desenvolvê-lo ulteriormente sem nenhuma trava por parte das tendências que uma e outra vez paralisam suas obras na dimensão temporal.”

figuras como o motivo do sonho no Anel parecem fórmulas mágicas, capazes de extrair todos os achados harmônicos posteriores do contínuo das 12 notas. Mais ainda que na tendência à atomização, W. antecipa o impressionismo na harmonia.”

Sigfrido contém uma passagem segundo o efeito, se não segundo a letra harmônica, politonal, oscilante entre dó maior e fá menor, antes das palavras de Mime <tua mãe me deu isto>”

Em todas as coisas alheias a sua mais estrita competência profissional é inquestionável a propensão de W. a adotar o partido dos clássicos autoritários contra os <modernos>: o postulado nietzscheano do extemporâneo foi distorcido no autor do Tristão, ídolo dos simbolistas parisienses até Mallarmé, até se converter em enfatuação maliciosa.”

Ao mesmo tempo, seus achados harmônicos levam mais além do impressionismo, ao menos do impressionismo dos sucessores alemães de W..”

No momento do grande arrebatamento de Wotan, antes das palavras <Oh, sagrada infâmia!>, n’A valquíria, aparece um acorde que contém 6 notas diferentes (dó, fá, lá bemol, ré bemol, dó bemol, mi duplo bemol) e que, por assim dizer, não se resolve”

Na sua origem, a tendência à evolução cromática do período romântico era progressista. Esta adquiriu em W., pela 1ª vez, no emprego total de sensíveis a barulho e sem resistência, algo de nivelador e estacionário. (…) Precisamente quando finalmente total, o cromatismo produz por si mesmo resistências, fortes graus secundários, que de nenhum modo substituem já meramente a tônica e a dominante. Kurth em particular não fez justiça ao fato.”

gratuitos rabiscos de dissonâncias”

(*) “Hugo Riemann (1849-1919): musicólogo e pedagogo alemão, autor de um Dicionário de música e vários livros sobre teoria e história da música.”

no período estilístico de W. as dissonâncias adotaram o caráter de subjetividade autárquica: protestam contra a instância social reguladora. Toda a energia está do lado da dissonância”

(*) “Simon Sechter (1788-1867): compositor, musicólogo e pedagogo austríaco, que teve como alunos em sua cátedra de contraponto em Viena Bruckner e, rapidamente, pouco antes de que esse morrera, em 1828, a Schubert.”

CONTRA A VISÃO “FUNCIONALISTA” NA MÚSICA: “A funcionalidade, a mediação entre tensão e solução, que não admite nenhum excedente, nada que fique de fora, este procedimento não deve se entender demasiado primitivamente, nem literalmente nem a curto prazo. A práxis harmônica de W. de maneira alguma se esgota no conceito de transição.”

No Parsifal, que submete todos os componentes da música meramente decorativos a uma incipiente crítica, em ocasiões as dissonâncias vencem abertamente pela primeira vez na música clássica, e explodem a convenção da solução, erigindo em seu lugar a árida monodia. [ver glossário]” “pôs no centro de sua obra 8 compassos que por toda sua fatura alcançam o umbral da atonalidade.”

Em Beethoven e até no alto-romantismo os valores expressivos harmônicos estão rigidamente fixados: a dissonância representa o negativo e o sofrimento, a consonância a positividade e o cumprimento [ver glossário, em BAR]. Isso em W. muda no sentido da diferenciação subjetiva dos valeurs sentimentais harmônicos. P.ex., o acorde característico cujo subtítulo reza <o mandato da primavera, a doce necessidade>, e que n’Os mestres cantores representa o momento da pulsão erótica e portanto o agens, patentiza sem remendos o sofrimento e a incompletude tanto como o prazer que se dá na tensão, na falta de consunção mesma: é doce e pura necessidade ao mesmo tempo. O fato de que o sofrimento pode ser doce (…) os ouvintes aprenderam dele” Quão nietzscheano!

Poucas coisas seduziram tanto na música de Wagner quanto o gozo do tormento.”

Certamente há por toda parte funções riemannianas, mas não <harmonia funcional> no sentido da teoria de Schönberg” “A aversão natural de W. pela modulação, esse resíduo particularmente conservador que tão facilmente se associa de novo ao procedimento de mera translação mediante sensíveis, priva a harmonia wagneriana de sua melhor possibilidade, a da organização formal em profundidade, tal como, p.ex., concebeu-a tão torpe e superficialmente um aluno de Sechter (Bruckner). Se nalguma ocasião W. se decide pela modulação, como para, no prelúdio d’Os mestres cantores, escapar da vizinhança do demasiadamente obstinado dó maior, então a modulação, que nunca se desprende totalmente da translação, reveste um aspecto peculiarmente arbitrário, e em seu caráter abrupto perde facilmente a compensação formal com as partes compridas que a precedem com suas escalas próprias; mas disso volta a extrair, como pressuposto, estimulantes do efeito. Os limites da configuração formal de W. são também os de sua harmonia.”

Las notas tenidas del bajo pulen la escritura armónica: siempre hay menos notas del bajo que acontecimientos armónicos. De ahí resulta una cierta pesadez, la característica viscosidad del discurso. Ésa es sin duda la herencia de la diletante pobreza de grados del joven W. (…) El W. maduro supo hacer de tal necesidad la virtud de la ambigüedad armónica.”

O Lohengrin o demonstra na visão de Elsa plenamente elaborada com esses 8 compassos citados como paradigma wagneriano, os quais modulam de lá bemol maior a dó bemol maior, si menor, ré maior, ré menor, fá maior-menor até voltar a lá bemol maior. A argúcia consiste na reinterpretação do dó bemol como si. O intercâmbio enarmônico tem aí o efeito do inesperado, do imprévu no sentido berlioziano. Esse efeito de surpresa, p.ex. o do sol bemol por trás da frase <te considero nobre, livre e grande!>, faz ainda saltar, crassamente e sem mediação, a estrutura no Rienzi. (…) Porém, na madurez wagneriana, i.e., no Lohengrin, a enarmonia volta a integrá-lo no conjunto da composição. O novo é ao mesmo tempo o antigo: isto se reconhece e se torna facilmente compreensível no novo. <Soava tão antigo e era, ao contrário, tão novo>: isso poderia constituir a regra da enarmonia wagneriana e, na verdade, a de toda a harmonia wagneriana.”

Escreve-se formulaicamente o que nunca foi.

Estas associações só se fazem completamente inteligíveis a partir do material mais avançado da música contemporânea, a qual já aboliu a continuidade da transição wagneriana.”

Richard Strauss assinala que cada obra de W. tem seu próprio estilo de instrumentação e inclusive sua própria orquestra, e a capacidade de W. para a estilização instrumental está tão desenvolvida que inclusive no interior da unidade estilística do Anel as 4 óperas se distinguem entre si por seu caráter sonoro específico.”

O tratamento distinto dos oboés é, em sentido negativo, uma das inovações mais importantes de W. com respeito aos procedimentos tradicionais. No esquema tradicional da partitura, os oboés se situam sobre os clarinetes e no classicismo vienense a maior parte das vezes se os coloca na mesma sobreposição. (…) já W. só os utilizou de modo solo ou em tutti forte, mas essa sobreposição alternativa já era indiscutivelmente uma fuga do papel de segundo soprano natural da seção de ventos para o oboé.”

Entre flauta e clarinete em uníssono [duplicação criada por W.] se produz uma espécie de som de interferência, flutuante, vibrante. Desaparecem, neste, os caracteres específicos de ambos os instrumentos; se tornam indistinguíveis; um músico desprevenido não poderia relatar a origem do som. Nisso, este novo som emula o órgão [em que, pode-se dizer, há, no movimento forte, o amálgama já da corda acionada pela tecla e da madeira, em que ela bate].” “Se os clarinetes nivelam a arcaica irracionalidade das flautas, o clarinete baixo reforça o baixo, já passado de moda, das madeiras, o fagot.”

Com a introdução de válvulas ganhou-se indiscutivelmente tanto para este instrumento [a trompa] que resulta difícil passar por alto este aperfeiçoamento, ainda que com ele a trompa tenha perdido, inegavelmente, em beleza tímbrica, como também, e em especial, na capacidade para ligar os sons com suavidade. Devido a essa grande perda, sem dúvida o compositor interessado na conservação do autêntico caráter da trompa deveria ter-se abstido do emprego da trompa de válvulas, isso imaginando que esse mesmo compositor não houvera feito a constatação de que, mediante um treinamento particularmente atento, artistas excelentes podem superar as desvantagens indicadas até a quase imperceptibilidade, de modo que, no que se refere ao som e à ligação, mal se pode advertir a diferença.”

W. sobre o Tristão

Quien jamás ha oído una trompa natural junto a una trompa de válvulas no puede preguntarse dónde se ha de buscar el <auténtico carácter> de la trompa cuya pérdida él lloraba. (…) un sonido <suena como trompa> en cuanto se percibe que es tocado por la trompa” “igualmente incuestionable es que el sonido pedalizado del piano se distingue del sonido no pedalizado por el hecho de que de aquél la huella de la producción queda borrada en el instante en que el macillo golpea la cuerda.”

según una expresión de Alban Berg, el instrumentador tiene que comportarse como un carpintero, el cual controla que en su mesa los clavos no asoman y que el olor de la cola no sigue siendo perceptible, así en el jazz las trompetas con sordina pueden sonar como saxofones y viceversa, e incluso la parte vocal susurrante o transmitida por el pabellón se les asemeja. La idea de un continuo eléctrico de todos los colores sonoros posibles llevó esta tendencia a la fórmula radical: la mecánica.”

la famosa <simplicidad> de la instrumentación de Parsifal es, por comparación con Tristán, Los maestros cantores y el Anillo, no meramente reaccionaria, no meramente falsamente sacra, sino que también ejerce una crítica legítima de las componentes ornamentales en el estilo de instrumentación característico de W.. En Parsifal no hay meramente santurrones pasajes para los metales, sino al mismo tiempo un lúgubre amortiguamiento del sonido como el que en las últimas obras de Mahler y luego en la Escuela de Viena se hizo dominante.”

Schreker, discípulo de W., mais wagneriano que o próprio, apologista do tutti e abominador do solo: “Nada soa mais perturbador que, p.ex., uma celesta que se ouve sozinha… Nego… o som demasiado nítido, diferenciável e em favor da ópera não quero reconhecer mais do que um instrumento: a orquestra mesma!”

O direito crítico dessa exigência se tornou bastante rapidamente farisaísmo prosaico, em tempos de perda da arte da instrumentação, que aliás foram apressados sucessores do próprio triunfo da arte da instrumentação, que pouco sobreviveu a W..”

o estilo compositivo mozartiano de nenhuma maneira busca a continuidade: antes justapõe unidades monádicas, equilibra-as, contrasta as seções de cordas e ventos segundo uma maneira concertante mais antiga.”

o insípido som do violino conta-se entre as grandes inovações da época cartesiana.”

Na música, que enquanto arte burguesa era ainda jovem, brotam, com a instrumentação, seus últimos galhos.” “Quem compreendesse por que Haydn dobra em piano [movimento suave] os violinos com uma flauta poderia entrever desde então por que há milhares de anos a humanidade renunciara a comer trigo cru e começara a assar o pão, ou por que alisara e polira seus utensílios.”

Quanto mais obra de arte, menos obra, pois mais metafísica, já-feita desde a eternidade, já dada. Obra de arte dada não é criada. A criada e o mestre. Quanto mais mundana, mais sagrada. Quanto mais sacra, mais anti-arte. Quanto mais arte, menos arte, quanto menos arte, mais mundo.

Isto é um charuto; e se não fôra o homem faria com que fôra! A transparência da cal.

UM BENJAMIN SOPROU EM MEU OUVIDO: “A conversão da obra de arte em mágica conduz a que os homens venerem como sagrado seu próprio trabalho, pois não podem reconhecê-lo como tal.”

Muitos filhos ele tem

Muitos quadros ele compra

Muitos livros ele escreve

Muitos álbuns ele caga

Muitos filmes ele co-leciona

Un arte dañada para un hombre dañado!

As óperas de W. tendem ao espelhismo, tal como Schopenhauer chama o <lado exterior da mercadoria ruim>: à fantasmagoria.” “Até sua autodissolução em Schreker, a escola neo-alemã se ateve à idéia do <som distante> como a do espelhismo acústico; a da sonoridade na qual a música, espacializada, se detém numa imbricação do próximo e do distante tão enganosa como a consoladora Fata Morgana,¹ aproxima-nos as cidades e caravanas desde sua distância como espetáculo natural e de forma mágica transforma plasticamente os modelos sociais na natureza mesma.”

¹ Fenômeno físico: miragem ou ilusão ótica no horizonte que eleva a altura de objetos distantes em decorrência de inversões térmicas.

Entre os instrumentos de madeira da ópera Tannhäuser, predomina a flauta piccolo, de todos eles o mais arcaico, do qual a evolução da técnica instrumental quase não deixou vestígio. É um reino musical de elfos bastante parecido com o esboçado pelo jovem Mendelssohn, a quem o Wagner tardio tinha em alta conta.” “Isso recorda os dispositivos com espelhos daquele teatro de Tanagra que ainda hoje se encontram nos parques de diversão e nos cabarés fronteiriços [?].”

Quando, na parte do Venusberg na obertura os violoncelos e os contrabaixos entram na letra B com o ritardando, assinalam o instante em que o sonhador toma consciência de seu próprio corpo e se distende no sonho. A técnica da redução do som sem baixos confere também uma expressão fantasmagórica a uma passagem do Lohengrin que, de uma maneira menos evidente que no Tannhäuser, determina a obra inteira. É a visão de Elsa, na qual seu sonho arrasta o cavaleiro e por assim dizer toda a ação. (…) As notas graves que aparecem voltam a se confiar a instrumentos sem peso, o clarinete-baixo e a harpa. O som do clarinete-baixo, de uma singular transparência, não decai abaixo do mi bemol 2.”

Quando o último W. brincava com a idéia da metempsicose, para isso quase não necessitava do estímulo das simpatias budistas de Schopenhauer. Na fantasmagoria já estava a dama Vênus, a deusa pagã, simbolicamente integrada à era cristã, cabalmente reencarnada como Kundry, a quem Klingsor conjura enquanto ela dorme à luz azulada: <Tu foste Herodias, e agora? Gundrigia ali, Kundry aqui!>.”

 

A princesa judia Herodias.

O sonhador se encontra impotente com a imagem de si mesmo como um milagre e permanece no inevitável círculo de seu próprio trabalho, como se este círculo fosse eterno; a coisa, de que se esqueceu que ele é o autor, aparece diante dele como fenômeno absoluto.”

O Zaratustra parece ter sido uma resposta satírica ao Tannhäuser: “Pero debo volver al mundo de la tierra, contigo sólo puedo ser un esclavo; anhelo la libertad, tengo sed de libertad” “su despedida de Venus es uno de los auténticos momentos políticos en la obra de W..”

Su traición no consiste en que se entregue a los caballeros, sino en que, ajeno al mundo y presa del sueño, les cante la loa a Venus, la misma loa que por 2ª vez lo inmola precisamente al mundo del que en la fantasmagoría ya una vez huyó. Su misma evasión es ilusoria: lo lleva del Venusberg al torneo de canto, del sueño a la canción, y la huella de lo que le empujó a la rebelión sólo subsiste en el genial canto del pastor que, más allá del sueño y la cautividad, evoca la productividad de la naturaleza misma como obra del mismo poder que al cautivo le parecía mera ausencia de libertad. Lo que salva a Venus son las palabras <Lam dama Holda salió de la montaña> y no el traicionero elogio de Tannhäuser. Para la experiencia socialmente determinada del placer como ausencia de libertad el mismo poder de los instintos se transforma en enfermedad, tal como con el grito <!Ya basta!> ya Tannhäuser percibe en el reino de Venus su propio goce como una debilidad. Toda la obra de W. está impregnada de la experiencia del placer como enfermedad.” “La enfermedad y el deseo se confunden en la opinión de figurarse que a un ser vivo sólo se le mantiene vivo mediante la opresión de su vida.” “En una regresión bien conocida por la educación burguesa y desde hace mucho tiempo interpretada por el psicoanálisis como <sifilofobia>, sexo y enfermedad venérea se asimilan, y no por casualidad en su lucha contra la vivisección a W. le indignaba que sus resultados favorecerían la curación de enfermedades contraídas por <vicio>.”

Assinalou-se que em W. as flautas que ressonam no Venusberg em solo rara vez aparecem como instrumentos desacompanhados. São vítimas da difamação por parte da fantasmagoria do prazer que elas representam na fantasmagoria mesma. Bem o notou Nietzsche: <Por que sofro eu quando sofro pelo destino da música? Pelo fato de que a música se despojou de seu caráter transfigurador do mundo, afirmativo, pelo fato de que é uma música da decadência e já não é a flauta de Dionísio>. A flauta wagneriana é a do caçador de ratos de Hamelín; mas, como tal, logo se converte em tabu.”

A ilusão entranha a desilusão. Na obra de W. ela tem seu modelo muito bem-ocultado: o de D. Quixote, que W. tinha em muito alta conta. A fantasmagoria d’Os Mestres cantores, seu segundo ato, impõe aos heróis o papel de quem luta contra moinhos de vento.”

Enquanto esboço de uma pré-história burguesa, Os Mestes Cantores são a obra central de W.”

quando a Santa Lança [Longinus?] se detém fantasmagoricamente sobre a cabeça de Percival, este se serve dela para maldizer: <Que em ruínas e pó converta o falso esplendor!>. É a maldição daquele rebelde que quando jovem assaltava bordéis não olvidados.”

A fantasmagoria, bem como o ritmo de seu declive, deve desdobrar-se na obra de arte épica extensa (a obra de arte total ou o <drama do futuro>, na boca de W.).”

Ao desembocar em um quid pro quo dos meios estéticos que mediante a perfeição artificial deve ocultar todos os pontos de sutura do artefato, a diferença entre este e a natureza pressupõe precisamente a alienação radical de toda naturalidade que, instaurando-se como segunda natureza, a obra total queria fazer sepultar.”

A ocultação do processo de produção poética em prol de sua intencionalidade, por conseguinte de sua racionalidade, assim como a relação constitutiva da obra de arte com a <vida ordinária> que Ópera e drama não se cansa de recordar, W. as introduz na configuração que define a fantasmagoria.” Um compositor de ópera que precisou explicar sua obra via livros… O contrário do filósofo que faz música transcendental com seus escritos. Vê-se que a obra de arte total não era tão total assim!

Com a <ocultação da intenção> do poema por meio da música, a obra de arte total aspira ao ideal do fenômeno absoluto com o qual a fantasmagoria ilude: <É assim que a forma artística unitária mais completa é definida por mim como aquele em que um vastíssimo conjunto de fenômenos da vida humana – ‘conteúdos’ – é comunicável ao sentimento numa expressão tão perfeitamente inteligível que este conteúdo se manifesta em todos os seus momentos como um conteúdo que estimula perfeitamente, e satisfaz perfeitamente ao sentimento. O conteúdo tem de ser, destarte, um conteúdo constantemente presente na expressão; e esta expressão, uma expressão que constantemente faça presente o conteúdo em toda sua extensão; pois o que não está presente só pode ser captado pelo pensamento, enquanto o [que está] presente [só pode ser captado] pelo sentimento>.” Conteúdo, conteúdo, conteúdo… Você é um vestibulando por acaso, VVaguinho?

eu cap[o]to as sensações

(*) “Hermann Cohen (1842-1918): filósofo alemão neo-kantiano que rechaça a oposição kantiana [?!] entre sensibilidade e entendimento em prol de uma intuição puramente intelectual como único meio de conhecimento.”

O DR. FRANKENSTEIN: “A atualização permanente que a música deve consumar no poema às custas do tempo musical persegue o fim de, dissolvendo-o e vivificando-o, transferir à aparência de uma pura atualidade subjetiva todo o rigidamente objetual do poema e com isso o reflexo do mundo das mercadorias na obra de arte: <A ciência nos mostrou o organismo da linguagem; mas o que nos mostrou era um organismo morto, que só a extrema necessidade do poeta pode devolver à vida, e isso certamente tapando as feridas infligidas pelo escalpelo anatômico ao corpo da linguagem e insuflando-lhe o hálito que o anime ao automovimento. Mas esse hálito é… a música…>

Texto recente sobre a estética do cinema: <tal como a adaptação realizada pelo olho ao acostumar-se a captar a realidade de antemão como uma realidade das coisas, no fundo como uma realidade de mercadorias, o ouvido ainda não realizou nada parecido. O ouvido é, em contraste com a visão, <arcaico>, não acompanhou o desenvolvimento da técnica. Poder-se-ia mesmo dizer que reagir essencialmente pondo o ouvido ‘olvidado’ de si mesmo, em lugar de abrindo olhos vivazes e calculadores, contradiz, de certo modo, a era tardo-industrial… O olho é sempre um órgão DE ESFORÇO, de trabalho, de concentração, que apreende univocamente algo DETERMINADO. Já o ouvido carece de concentração, é PASSIVO. Não há como fazê-lo se acostumar, i.e., ‘se arregalar’ diante de ‘uma tela’, gradativamente… Comparado ao olho, o ouvido é sonolento e apático. Mas sobre esta sonolência paira o tabu que a sociedade fizera pesar sobre a ‘preguiça’ de maneira geral. Desde sempre a música fôra uma tentativa de burlar esse tabu.>(*)

(*) Embora faça parecer que se trate de uma citação acadêmica qualquer do séc. XX, quem sabe até apócrifa, na verdade é uma AUTOCITAÇÃO de Adorno. Cf. Adorno & Eisler, Komposition für der Film, Munique, 1969.” Não pesa tabu algum. Falou, falou, falou, e NADA DISSE. Órgão de CONCENTRAÇÃO é o próprio ouvido.

O inconsciente, cujo conceito W. devia à metafísica de Schopenhauer, é, nele, já ideologia: a música deve dar calor e fazer somar as relações alienadas e reificadas dos homens, como se ainda foram humanas. Tal ressentimento tecnológico é o a priori do drama musical. Reúne as artes a fim de mesclá-las delirantemente. A linguagem voluptuoso-idealista de W. o apresenta sob a metáfora da união sexual: <O que necessariamente se há de dar de si, a semente que a partir de suas forças mais nobres só se condensa na mais ardente excitação amorosa – semente que não procede senão do impulso a se dar, i.e., de se comunicar para fecundar; mais ainda: que em si é a encarnação deste mesmo impulso –, esta semente fecundante é a intenção poética, que aporta na música, mulher esplendorosamente amante, aquilo a que se há de dar a luz.>

Não somente os dramas musicais culminam em fragmentos de delírio, como no canto final de Isolda, a cena de Sigfried e Brunilda ao fim de Sigfrido ou o lamento fúnebre de Brunilda n’O Crepúsculo dos deuses; na promiscuidade de seus elementos, a mesma forma dramático-musical está, a cada instante, aberta ao delírio enquanto <regressão talassal>.¹”

¹ Tálassa, divindade grega, pré-olímpica. Fecundada por Urano, é avó das ninfas ou ainda mãe de Afrodite ou do Amor. Como aquela que habita pela primeira vez todos os oceanos, prefigura-se aqui um ‘sentimento oceânico’ junguiano?!

Figuras e símbolos se fundem mutuamente, até que Sachs se converte em Marke e o Graal no tesouro dos nibelungos, os nibelungos nos wibelungos. [?] Só do extremo de uma espécie de fuga do pensamento, da renúncia a todo o unívoco, da negação de tudo o que leve a marca do individual, de nenhum modo meramente na música, deduz-se a idéia de drama musical.”

Assim como o conceito de obra de arte técnica, também o de <vontade de estilo> teve de vir ao mundo (abortado, mais cedo) com a obra de W..” “a totalidade wagneriana está sempre condenada a quebrar em pedaços.”

Música-cena-palavra unicamente se integram porque o autor – a palavra compositor-poeta não designa mal o monstruoso de sua posição – as trata como se todas convergissem no mesmo. Mas com isso ele violenta e desfigura o todo. Este se converte em tautologia e repetição, sobredeterminação permanente. A música só diz uma vez mais o que as palavras não cessam de dizer, e quanto mais se põe em primeiro plano, tanto mais supérflua se torna com respeito ao sentido que deve expressar. (…) Wagner queria exatamente o contrário quando idealizou o seu Sprechgesang (palavra cantada) como recurso estilístico. Acontece, porém, que na prática a palavra cantada empobrece a música. (…) a própria gesticulação dos atores no palco aparece como caricatura, como se todos não fossem mais que personalizações do próprio diretor de orquestra, o que de fato são, aliás. (…) A ópera anterior, à qual W. reprovava a ausência de unidade estética do ponto de vista da integração dos meios sensíveis, era superior a sua ópera, ao menos no sentido em que não buscava a unidade pela assimilação, senão pela obediência às demandas de cada um dos âmbitos do material. A unidade mozartiana era a da configuração, não da identificação. (…) Enquanto coisa aleatória que de modo usurpador se atribui a si mesma necessidade, a filosofia da história vê tal obra de arte total como algo que deve inevitavelmente naufragar. (…) um só instante de reflexão em meio a todo esse delírio bastaria para destruir a aparência de unidade ideal.”

Dioses, héroes y acción planetaria prometen al anhelo estético la salvación basada en la huida de lo banal; el romanticismo temprano no había tenido necesidad de imágenes de la grandeza porque todavía no se encontraba a cada paso con la amenaza del carácter de mercancía del que luego acaban por adolecer también en W. los modelos heroicos.”

el mundo de las imágenes musicales, al cual se recurre en cuanto reverso metafísico de la mónada solitaria, proviene de la sociedad que éste mundo niega.”

Nadie imparcial que oiga por vez primera el vehemente <motivo de la decisión de morir> de Tristán podrá sustraerse a la impresión de jovialidad trivial.” “También pagó, por tanto, la metafísica wagneriana de la muerte su tributo a la inaccesibilidad del goce vigente desde Beethoven en toda gran música.”

La concepción de la totalidad cerrada en sí y que se despliega a sí misma, de la idea presente en la intuición sensible, es un fruto tardío de los grandes sistemas metafísicos, cuyo impulso, filosóficamente roto desde el Feuerbach conocido por W., se refugió en la forma estética. Se puede creer a W. que cuando finalmente leyó a Schopanhauer se sintió meramente confirmado por éste, que no <influido> en el sentido habitual; el desplazamiento del acento metafísico al arte se prepara en el tercer libro de El mundo como voluntad y representación. Pero así como este desplazamiento está condicionado por el positivismo que tan claramente se anuncia en la determinación de Schopenhauer a negar el <sentido> a toda existencia natural y concedérselo a la ciega voluntad, así también la metafísica inmanente al procedimiento wagneriano va a la par con el desencantamiento del mundo.” “La obra de arte ya no obedece a su definición hegeliana como la apariencia sensible de la idea, sino que lo sensible se dispone para parecer como si dominase a la idea: ésta es la verdadera razón del rasgo alegórico en W., de la invocación de una esencialidad irrecuperable. El delirio tecnológico se prepara por miedo a la harto próxima sobriedad.”

El entusiasmo del joven Nietzsche se equivocaba sobre la obra de arte del porvenir: en ésta se produce el nacimiento del cine a partir del espíritu de la música.” “El 23 de marzo de 1890, mucho antes de la invención del cinematógrafo, Chamberlain escribió a Cósima sobre la Sinfonía Dante de Liszt, representativa de toda esta esfera: <Ejecutad esta sinfonía con una orquestra oculta y en una sala oscura, y haced que por el fondo se pasen imágenes, y veréis entrar en éxtasis a todos los Levi y a todos mis fríos vecinos de hoy, cuya insensibilidad atormentaba el pobre corazón>. Pocas cosas podrían probar más drásticamente hasta qué punto es falso que la cultura de masas le sobreviniera meramente desde el exterior al arte: éste se transformó en su contrario en virtud de su propia emancipación.”

En ninguna parte se muestra lo frágil de la concepción del drama musical más acentuadamente que allí donde más se aproxima a su propia razón de ser, la ocultación del proceso de producción: en la actitud antagonista de W. con respecto a la división del trabajo, la cual luego se convierte en base confesada de la industria cultural.”

El marcador gremial no puede ni entender la canción de concurso ni, atiborrado de reglas de tablatura, realizar tampoco él mismo algo coherente; y Mime, el herrero, es <demasiado hábil> para forjar la única espada que necesita. En ambas figuras insulta W. al entendimiento reflexivo.” “El <cantante> Walther acaba por inclinarse ante el <maestro> Sachs y aprende a no <menospreciar> los <gremios> de especialistas; en lo cual, por supuesto, la reconciliación de lo feudal con el orden burgués desemboca en la colusión con precisamente el mundo reificado al que el hidalgo, con toda razón, teme.”

No pocos de los contrarios a Wagner creyentes en la cultura y hostiles a la civilización, entre ellos Hildebrandt, le reprochan que, a pesar de toda la supuesta <lucha contra el siglo XIX>, adoptara sin escrúpulos sus adelantos técnicos.”

El esbozo de instrumentación – hoy a lo mismo se le llama particella – se fija paralelamente al esbozo de composición: lo sigue siempre a distancia de pocos días. Con ello los dos métodos de trabajo de separan claramente entre sí y se evita que el sonido en sentido berlioziano se autonomice. (…) El efecto mágico es inseparable precisamente del proceso racional de producción que él mismo destierra lejos de sí.”

W. planteaba una exigencia de humanismo real. Esta exigencia se transformó en él en delirio y enceguecimiento, en lugar de apoyar a la libertad con la conducción racional del proceso de trabajo.”

Atualmente não é possível que duas pessoas pensem em fazer possível o drama integral em comum, pois ao discutir esta idéia teriam que confessar perante o público com a necessária franqueza a impossibilidade de sua realização, e este reconhecimento estrangularia, portanto, sua empresa em germe. Só o solitário pode com seu impulso transformar em si a amargura deste reconhecimento em um deleite embriagador que o empurre com coração de bêbado à empresa de fazer possível o impossível; porque só ele recebe o impulso de duas forças artísticas às quais não se pode resistir e pelas quais se deixa voluntariamente levar em auto-sacrifício.”

Por muita verdade que contenham essas frases, sua conseqüência não desemboca na obra de arte total, senão em sua proibição crítica. (…) O que o indivíduo sacrifica no drama musical não é a si mesmo, senão à consistência da obra (…) Para chegar a uma obra de arte total depurada de falsa identidade seria mister um coletivo de especialistas submetidos a um plano.”

Quem ignora que o final d’O crepúsculo dos deuses contém o motivo da Redenção não compreende nem a consumação musical nem a poética. Esse é o preço que o drama musical tem de pagar por ter renunciado à lógica puramente musical da construção na imanência do tempo.”

O mesmo que o homem não se nos representa com certeza mais plena, mais satisfatória, salvo se se manifesta ao mesmo tempo a nossos olhos e ouvidos, assim tampouco o órgão de comunicação do homem interior convence nosso ouvido com a mais completa certeza salvo se se comunica de maneira igualmente satisfatória aos <olhos e ouvidos> deste ouvido.”

Melhor do que eu, ninguém pode saber que a realização do drama que pretendo depende de condições que não se encontram na vontade, nem sequer na capacidade do indivíduo, ainda que esta fosse infinitamente maior que a minha, senão somente numa situação geral e numa colaboração coletiva possibilitada por esta, das quais agora não existe senão precisamente todo o contrário.”

El delirio fantasmagórico expulsa toda política de la ópera; por lo demás, ya en Meyerbeer los temas políticos se neutralizaban como meros objetos de curiosidad, tal como p.ej. sucede en las películas en color o las biografías de personas célebres que hoy en día pone en el mercado la industria cultural.”

Al Anillo se le podría anteponer aquella sentencia de Anaximandro recientemente interpretada por Heidegger, que en cuanto mitólogo del lenguaje guarda semejanzas con W.. En traducción de Nie., dice así: <Allí donde las cosas tienen su nacimiento debe también producirse por necesidad su destrucción, pues deben pagar su culpa y reparar su injusticia conforme al orden del tiempo>. La justicia, que se define como expiación de la injusticia, equivale a ésta y se convierte por tanto ella misma en injusticia, el orden en destrucción (…) La música de W. se pliega al axioma jurídico de que tensión y solución han de corresponderse totalmente, de que nada debe quedar desnivelado, nudo, aislado”

Every tone which is added to a beginning tone makes the meaning of that tone doubtful. If, for instance, G follows after C, the ear may not be sure whether this expresses C major or G major, or even F major or E minor; and the addition of other tones may or may not clarify this problem. In this manner there is produced a state of unrest, of imbalance which grows throughout most of the piece, and is enforced further by similar functions of rhythm. The method by which this balance is restored seems to me the real idea of the composition.

Schönberg, Style and Idea

O DURKHEIM DO TEATRO: “Por verdadeira que seja a censura estética a W. por haver posto a mão, ele, o moderno, sobre o mais antigo, ele, o profano, sobre o mito, a regressão do procedimento estético não depende do arbítrio individual ou do azar psicológico. Ele pertence a uma geração que, pela primeira vez em um mundo completamente socializado, compreendeu a impossibilidade de mudar individualmente o que se consumava por sobre a cabeça dos homens.”

Los maestros cantores coquetean con aquella costumbre de la pintura antigua de poblar espacios y tiempos remotos con figuras de generaciones posteriores y autóctonas.”

A cada cual le parece que es su propiedad exclusiva, mensaje de su infancia olvidada, y a partir del déjà vu de todos cristaliza la fantasmagoría del colectivo.”

Anticipó estéticamente tensiones que teóricamente sólo aparecieron con el conflicto entre Freud y Jung.” “En los instantes de toma de consciencia la forma literaria de W. anticipa la de Nietzsche 30 años antes de Zaratustra: ¡Temor de la madre primordial! ¡Miedo primordial! ¡Abajo! ¡Abajo, al sueño eterno!

La dramaturgia del W. maduro opera siempre con una especie de <teatro épico>. Con la renuncia a la oposición de la música a los mitos se sacrifica de antemano toda idea trágica.”

o temerário é aquele sobre o qual não têm nenhum poder nem a autoridade do pai nem a ordem natural das gerações”

melodía del mediodía

melodia

do

meiodia

Se ao drama musical falta a palavra redentora, em compensação seus personagens não deixam de se declarar redimidos”

Trata-se aqui da astúcia da razão. Qualquer coisa que ocorra em oposição ao <total>, à vontade universal de Wotan, ocorre ao mesmo tempo no sentido deste, ainda que seja meramente porque o espírito absoluto de Wotan não pensa nada além de sua própria destruição.”

Nem terra nem gente ofereço, nem casa nem pátio paternos: unicamente herdei o próprio corpo; vivendo o consumo.”

O crepúsculo dos deuses não é meramente a consunção do veredito metafísico de Schop., senão o abandono de uma filosofia da história em que o antagonismo entre o universal e o particular se destelha sempre enganosamente; privado da articulação dialética pela qual Hegel o domina, mas privado também da esperança de uma situação alterada, na qual o mesmo perene antagonismo se desvaneceria. À produção da resistência pelo todo social corresponde o fim, a identificação da resistência com o domínio: o poder do Anel de interpretar a história tem aí seu limite e se perde na noite da indiferença.” “o todo nada mais é que a má-eternidade da rebelião enquanto anarquia e incansável autodestruição. Entre o deus pai Wotan e Sigfried, seu adversário salvador e seu funesto salvador, a verdade é que não há nenhuma fronteira, e em sua união o Anel celebra o abandono da revolução que não o era.”

A ambigüidade da construção se torna patente nas oscilações da concepção da Tetralogia. Enquanto que na primeira versão Sigfried, ao perecer, salva o Valhalla, na última conduz ao desenlace desesperado em que – para ser mais que só uma vítima e servidor passivo do existente, sem que com isso mudasse nada do próprio existente, do qual é apenas um fruto afinal, como o reconhece a resignação wagneriana –, destruindo-se a si mesmo e à individuação em geral, produz não menos do que a destruição do todo. A resignação do incondicionado, o fracasso da revolução burguesa e a representação do processo universal como destruição universal casam muito mal entre si. Sua relação, ao menos a entre a insurreição fracassada e a metafísica niilista, não deixou de assinalar-se desde Nietzsche.

Finalmente, a franqueza na qual o burguês e o mítico se mascaram mutuamente é desde o Iago de Shakespeare o verdadeiro clima da traição.”

Para W., o anarquismo significa que o único necessário é colocar em movimento uma insurreição mundial para convencer o camponês russo – em quem a bondade natural do homem oprimido foi mantida pela natureza, a despeito de tudo, e na forma mais infantil – de que incendiar os castelos dos senhores, com tudo o que está dentro e nos arredores, é completamente justo em si e mesmo aprazível aos olhos de Deus; e disso deve resultar a destruição de tudo o que, pensando-se detidamente, deve parecer, até mesmo para os mais filosóficos pensadores da Europa civilizada, a real fonte de toda a miséria do mundo moderno.”

Para Lukács, o nivelamento com o universalmente humano e sua <nulidade> passa por alto a verdadeira <essência>, a mesma lei do movimento histórico da sociedade, e reduz a princípio universal a miséria de um período histórico.”

Como um autêntico chefe de polícia secreta, em sua grande biografia Glasenapp redigiu autênticos registros judiciais de todas as pessoas e cachorros que tiveram contato com W., e chega ao ponto de tachar Nietzsche de <rábula> por ocasião de este ter considerado W. seu amigo unicamente por ter W. dito que N. era <seu amigo>.”

Por si mesmo só se cumpre o cumprimento do destino.”

O princípio metafísico da falta de sentido é hipostasiado como sentido da existência empírica sem sentido, de modo não diferente a como mais tarde sucederia nos inícios da filosofia existencial alemã.”

Se Schopenhauer condena a vida como jogo cego da vontade, W. se curva obedientemente a este jogo e o adora como natureza inconcebivelmente sublime.” “Em Sch. a conversão da própria vontade de viver é sinônima da tomada de consciência de si mesma da representação. Esta desiste de sua própria vontade de viver ao se dar conta da injustiça que inevitavelmente comporta a vontade e abre uma brecha no circuito do destino cego – Sch. fala de um círculo de carvões ardentes do qual tem-se de sair – com a esperança de que, imitando tal conduta, o mundo do pecado original mesmo se apazigüe. Para ele o primeiro requisito da renúncia é o ascetismo sexual. Certamente, no Parsifal W. fez deste seu postulado, mas só para comprometê-lo de maneira mais grave segundo os conceitos schopenh. por meio do brilho mundano da comunidade do Graal e a cavalaria do Graal. No Anel, no entanto, e no Tristão, o ideal ascético se confunde com o mesmo instinto sexual. A satisfação do instinto e a negação da vontade de viver se mesclam no delírio, naquela <morte risonha> de Sigfried e Brunilda, na noite de amor que deve produzir o esquecimento da vida: <Recebe-me em teu seio, libera-me do mundo!>. Quando finalmente Tristão maldiz o amor, a maldição se dirige ao insaciável anelo da individuação, que unicamente se pode <saciar> na paz da morte como no prazer.” “Em todas as partes, o mundo tal como é tira proveito da doutrina segundo a qual o mundo é mau em si.”

Schopenhauer erra quando “em lugar da penetrante autoconsciência da vontade em sua suprema objetivação se instala de novo o inconsciente, o delírio e aquela espécie de unio mystica que na obra de W. se oferece em abundância. Em Sch. já se anunciam o mascaramento da morte como redenção e o ribombante conceito da <redenção universal> que em W. constitui a suma ideológica de toda sua obra”. Curiosamente, isso aproxima ambos de Hegel.

W. leva às últimas conseqüências o pessimismo. A negação do mundo burguês, toda a negatividade e toda a positividade se imbricam numa coisa só ou, antes, a negação e a negatividade passam por valor positivo. A destruição do mundo ao final do Anel é ao mesmo tempo um happy end.” “a própria impensabilidade da morte se converte em meio de dourar a vida má.”

(*) “Halvard Solness: protagonista do drama de Ibsen estreado em 1893 Solness o construtor (também encontrado, em espanhol, como El maestro Solness). Na apresentação da montagem do Teatre Nacional de Catalunya, em outubro de 2000, a diretora Carme Portaceli declarou: <Solness é um construtor, um grande arquiteto, que pode se entender como metáfora de Deus. Este homem chegou ao cume de sua trajetória, porém ao preço de sua felicidade e da de todos que o rodeiam.> O ator Lluís Homar: <É uma obra imensa, tão grande como o buraco que esconde o construtor. O texto se debate com a soberba absoluta do artista que, às vezes, converte-o numa espécie de déspota>.”

A velha controvérsia sobre o nihil negativum, o absoluto, e o nihil privativum, o relativo, Sch. a decidiu em favor do último. Para ele, como para seu antípoda Hegel, o nada é só um momento no movimento do ser, que é o todo.”

Não há nada sem despertar.

o cavalo de Brunilda parece conduzir o agora do despertar enquanto sobrevivente da pré-história; da pré-história que, segundo Sch., é cabalmente o nada. Se W. recorda niilisticamente a história na natureza, a natureza é, sem embargo, por sua vez, esse todo ao que o nada pertence como momento dialético parcial e que põe limites ao nada. Em W. não se representa nenhum nada que não prometa a sobrevivência da natureza. Símbolo disso são as filhas do Rin que levam, jubilosas, o anel recuperado às profundezas. Se bem que essas profundezas são o abismo do nada wagneriano.”

Se na má-infinitude de uma sociedade que se reproduz sem meta a imagem da natureza está distorcida e impressa na imagem do nada como única fissura na servidão total, este nada se converte em algo em nome do inferno que se mobiliza contra o enganoso hermetismo do sistema da obra de arte e da sociedade.”

Sigfrígido

o inferno, o reino de Alberish, que projeta tomar por assalto o Walhalla.”

Morrer de amor: isso significa também perceber a fronteira que a ordem da sociedade impõe ao homem mesmo: experimentar que a aspiração ao prazer, se se pensara sempre até o final, faria estalar precisamente aquela pessoa autônoma, que se pertence a si e degrada sua própria vida à coisa, a pessoa que crê cegamente encontrar prazer na posse de si mesma e para quem justamente essa posse é privação do prazer.”

Sem dúvida cabe a pergunta de se o desideratum nietzscheano de saúde vale mais que a consciência crítica que obtém a grandiosa debilidade de W. no trato com as potências inconscientes do próprio desmoronamento.”

O imperialista sonha com a catástrofe do imperialismo; o niilista burguês adivinha o niilismo da época imediatamente posterior.”

Estes encouraçados de grande porte, contra os quais o orgulhoso e magnífico barco à vela não pode mais se enfrentar, oferecem o horrível aspecto e o gosto dos fantasmas. [!]”

W. o pacifista

As partes febris do terceiro ato de Tristão contêm aquela música negra, áspera, dentada, que não tanto dá cor de fundo à visão como a desmascara. A música, a arte mais mágica de todas, aprende a romper a magia com que ela mesma rodeia todas as suas figuras. A maldição do amor por Tristão é mais que o impotente sacrifício do delírio à ascese; é a sublevação, por mais que completamente vã, da música contra a própria imposição do destino, e somente com vistas a sua total determinação por este recupera ela a autorreflexão. (…) Ao expressar a angústia do homem desamparado, poderia, ainda que débil e desfiguradamente, significar uma ajuda para os desamparados e prometer de novo o que o protesto ancestral da música já prometera: viver sem angústia.”

MAHLER. UNA FISONOMÍA MUSICAL

a picante, imaterial agudeza do pianissimo se ouve com precisão, como 70 anos mais tarde nas partituras de velhice de Stravinski, quando o mestre da instrumentação se fartara da instrumentação magistral. Por trás de uma segunda entrada das madeiras, o motivo de quartas descendentes se seqüencia até ficar suspenso num si bemol que roça com o das cordas.”

Se com sua primeira nota toda música promete o que seria diferente, o desgarramento do velo, suas sinfonias quereriam por fim não voltar a fracassar, pô-lo literalmente diante dos olhos; quereriam recuperar musicalmente a fanfarra teatral que soa na cena da masmorra do Fidelio, imitar aquilo que, 4 compassos antes do trio, põe a cesura no Scherzo da Sétima de Beethoven. Assim quiçá desperta a um adolescente às 5 da manhã a audição de um som que se aproxima imponente, cujo retorno nunca deixa já de esperar quem por um segundo o tenha percebido em repouso.”

Isso é o que hoje em dia atrai o ódio sobre Mahler. Se disfarça de probidade contra o enfático: contra a pretensão da obra de arte de encarnar algo que o pensamento meramente acrescenta, sem se realizar. Detrás dessa probidade assoma o rancor contra aquilo mesmo que fica por realizar. O <Não deve ser> de que a música de Mahler se lamenta desesperada é astuciosamente sancionado como mandamento. A insistência em que em música não deva haver nada mais que o que está aqui e agora encobre por igual uma amarga resignação e a comodidade de um ouvinte que se dispensa do trabalho e do esforço do conceito musical enquanto aquilo que devém e aponta para além de si mesmo.” “Mahler enfurece aos coniventes com o mundo porque recorda o que eles devem expulsar de si mesmos.”

Enquanto arte, a música está presa no laço que ela mesma quer cortar, e o reforça mediante sua participação na aparência. Enquanto arte, a música se faz culpável de sua verdade; o mesmo, no entanto, que, faltando à arte, se nega seu próprio conceito. As sinfonias de Mahler tratam progressivamente de se subtrair a este destino.” “Isso é o que a Quarta sinfonia chama de <ruído mundanal>, e que Hegel chamaria de <curso do mundo> invertido, o qual de entrada se enfrenta com a consciência como algo <oposto e vazio>. Mahler é um membro tardio da tradição do wertherismo(*) europeu pelo mundo.

(*) Wertherismo: Weltschmerz; literalmente <dor do mundo>. Em francês, o mal do século.”

A inútil hiperatividade sem autodeterminação é o sempre igual. É o inferno, num primeiro momento ainda não demasiado tórrido musicalmente, há um tabu sobre o novo. É o espaço absoluto. Assim foi sentido já o Scherzo da Segunda sinfonia; de maneira extrema, logo o da Sexta.”

Outrora a atividade do sujeito ativo, engrenagem do trabalho socialmente útil, inspirou o sinfonismo clássico, ao que, por suposto, já em Haydn e ainda mais em Beethoven o humor conferiu um duplo sentido. Atividade não é meramente, como ensina a ideologia, a vida repleta de sentido de seres que se determinam a si mesmos, senão também a fútil agitação da falta de liberdade destes.” “a esperança que ainda em Beethoven dá seu pulso à vida ativa e permitiu ao Hegel da Fenomenologia acabar, não obstante, atribuindo ao curso do mundo a prioridade sobre a individualidade que só no indivíduo se faz real se perdeu para o sujeito retroprojetado sobre si mesmo e ao mesmo tempo impotente. Por isso o sinfonismo de Mahler advoga outra vez contra o curso do mundo. Imita-o para acusá-lo. (…) Em nenhum instante ata a fratura entre sujeito e objeto; prefere quebrar-se a si mesmo que simular como lograda a reconciliação impossível. Num começo, Mahler esboça em música programática a exterioridade do curso do mundo. Mas já de então Mahler não se contentou com o contraste poético demasiado seguro de si mesmo entre a transcendência e o curso do mundo. No curso do incessante movimento a música se faz a si mesma vulgar com toscos conjuntos dos instrumentos de sopro. A justiça hegeliana, porém, puramente pela lógica do discurso compositivo, guia a pluma do compositor de tal modo que comunica ao curso do mundo algo da força que se reproduz, persiste, se resiste à morte, como corretivo do sujeito que protesta imutável (…) o ordinário é desafiado quando o tema chega aos primeiros violinos com seu som e caráter melódicos”

como viu Hegel, o curso do mundo não é tão mau quanto a virtude se imagina.”

Sobre Frederico II não ter confiscado o terreno do moinho barulhento que interrompia suas tardes de trabalho a despeito de não tê-lo conseguido comprar, disse Mahler: “É bom que moinheiro e moinho estejam protegidos e garantidos em seu terreno – se não fosse porque as rodas batucavam de tal forma que sobrepassavam os limites da maneira mais desavergonhada e produziam nos terrenos vizinhos uma quantidade de perturbação e dano que não é de modo algum possível medir.” Só mesmo um artista para entender a suscetibilidade ao som desagradável…

Na quarta sinfonia (…) o estridente violino rústico, afinado um tom inteiro mais alto que os normais, toca desagradavelmente, com um som estranhamente desacostumado, sem que o ouvido compreenda a razão disto e portanto de maneira duplamente irritante. Acidentes cromáticos azedam a harmonia e a melodia; o colorido é solístico, como se faltasse algo: como se a música de câmara se houvesse aninhado de forma parasita na orquestra.”

mesclando a emoção triste com a fuga das imagens que velozmente a atravessam.”

Quinta sinfonia (…) Varreu-se o humor, que se jacta de rir do curso do mundo desde uma distância que este não o permite a ninguém; se desencadeia irresistivelmente com todos os acentos da dor, sem paliativos. Suas proporções, a relação das tempestuosas partes allegro com as proliferantes interpolações lentas da marcha fúnebre, dificultam sobremaneira a execução. Essas proporções não devem se entregar ao acaso do estar-composto-assim de uma vez para sempre, senão que desde o princípio toda a peça há de organizar-se tão claramente até o contraste que não fique emperrada nas partes andante; a alternância é o que configura a forma. É importante também que as partes presto, sem concessão no tempo, se toquem distinta, tematicamente, e não se percam no torvelinho; elas são o contrapeso das melodias da marcha fúnebre.” “Em que pese todo o dinamismo, toda a plasticidade no detalhe, o movimento não conhece nenhuma história, nenhuma meta, propriamente falando nenhum tempo enfático. Sua carência de história o remete à reminiscência.”

Paul Bekker, Gustav Mahlers Sinfonien, 1921

A coda obedece ao que ocorrera: a antiga tempestade se converte em seu eco impotente.“

As palavras da cena final do Fausto, que Mahler pôs mais tarde em música de maneira incomparável, fracassam. A utópica identidade entre arte e realidade fica malograda. (…) Quão mais lograda a obra, tanto mais pobre a esperança, pois esta sobrepujaria a finitude da obra em si congruente.”

Para dotar de violência o coral, se o encomenda aos metais, cuja aparatosidade, desde Wagner até Bruckner, os havia desprovido de dignidade. Mahler foi o último a não se dar conta disto.”

todos os temas fragorosamente lançados pelos metais se assemelham fatalmente e põem em perigo o sinfonicamente mais importante, o ser ele mesmo do individual, e portanto a plasticidade do discurso. Nas obras mais tardias a violência dos metais devém momentânea, angustiosa ou agoniante; já não são o registro fundamental da sonoridade conjunta. Mas a sublimação da irrupção, tal como o exige a técnica, está já implantada teleologicamente na própria irrupção.”

Para a poderosa lógica beethoveniana da conseqüência a música se resumia em identidade hermética, como juízo analítico. A filosofia a que assim se acomodava detectou em seu cume hegeliano o aguilhão de tal idéia.”

Se a música em geral tem mais em comum com a lógica dialética que com a discursiva, então em Mahler ela quer precisamente aquilo que a filosofia, com esforços de Sísifo, incita ao pensamento tradicional, os conceitos petrificados em identidade rígida [a lógica discursiva]. Sua utopia é esse mover-se do lugar do já-tendo-sido e do ainda-não-tendo-sido no devir.” Cita Ciência da Lógica de H., o que também nada tem a ver…

a grande música foi, até Mahler, tautológica. Esta era sua congruência, a do sistema carente de contradições. Mahler derroga este sistema, a ruptura se converte em lei formal.”

Desde que a estética descuida do belo natural, que Kant ainda reservava à categoria do sublime, enquanto que Hegel o despreza já, na arte o conceito de natureza se aceita sem o menor reparo. Até tal ponto se estreitou a rede da socialização que a mera antítese desta última se considera um arcano do qual nem se deve falar. Pois a mesma natureza, contrafigura da tirania humana, está deformada enquanto se a espolia e violenta.”

A natureza, espargida na arte, produz todas as vezes o efeito de não ser natural”

Ao compositor reduzido aos meses de férias, a vida musical oficial, que ele não deixou de menosprezar nem sequer como diretor de Ópera de Viena e diretor estrela de orquestra, nele martelou até à aniquilação física.” “Repugnava-lhe sua própria posição, mas não queria renunciar a ela, pois conhecia demasiado bem o curso do mundo para para não ignorar que a pobreza podia privá-lo daquela margem de liberdade infinitesimal de que seu destino humano necessitava.”

Del mismo modo que ponen en duda la lógica inmanente de la identidad musical, sus sinfonías se oponen también a aquel veredicto histórico que desde el Tristán seguía impulsando unidimensionalmente a la música: la cromatización como descalificación del material. No como reaccionario, pero sí como si temiera el precio del progreso, Mahler persiste en el diatonismo como en un soporte obvio, cuando ya la exigencia de una composición autónoma lo ha llevado a la ruina. (…) El odio contra él, con resonancias antisemitas, no fue muy distinto de aquel contra la nueva música. El shock que produjo se descargó en la risa, en un malicioso no-tomarlo-en-serio”

el gusto siempre depurado de los académicos del arte musical puede probar, sacudiendo la cabeza, lo pueril de las irrupciones mahlerianas.”

Cuando Debussy abandonó protestando el estreno parisino de la Segunda sinfonía, el antidiletante jurado se comportó como un verdadero especialista; es muy posible que la Segunda produjera a sus oídos el mismo efecto que a los ojos los cuadros de Henri Rousseau(*) en medio de los impresionistas del Jeu de Paume.

(*) Henri Rousseau, El aduanero (1844-1910): pintor francés. De formación autodidacta, carecía tanto de conocimiento de las convenciones académicas como de cualquier ambición vanguardista, pero su innato instinto para la composición y el colorido convirtieron su obra en precedente de la pintura naïve y, parcialmente, de la de un Léger, un Picasso o los surrealistas. (N.T.)”

En cuanto a la riqueza de los grados, al menos las primeras sinfonías son menos osadas que Brahms, en cuanto al cromatismo y la enarmonía menos que el W. maduro.”

la partitura califica de ‘estridente’ un pasaje de las maderas en el Scherzo de la Séptima sinfonía, también un timbre del oboe en Rewelge. Pero lo forzado mismo se convierte en expresión. (…) En la Quinta sinfonía, el primer trío de la marcha fúnebre, que ya comienza muy grandiosamente, no responde ya con un lamento líricamente subjetivo a la tristeza objetiva de la fanfarria y la marcha. Gesticula, eleva un grito de espanto ante algo peor que la muerte.” “música de pogrom, del mismo modo que los poetas expresionistas profetizaron la guerra. Tras las partes de marcha retenidas por la forma, tras el enfático do sostenido menor, la extrema intensidad expresiva del pasaje, que se niega a la segunda zona media de la forma, empuja a la obra de arte a convertirse en protocolo, como 50 años más tarde El superviviente de Varsovia de Schönberg.”

Afrontarlo exige una meditación sobre la expresión en música. Ésta no es expresión de algo determinado: no por azar se convirtió espressivo en una indicación universal de ejecución. Persigue una intensidad marcada. (…) En cuanto llena de expresión, la música se comporta mimética, imitativamente, a la manera de gestos que reaccionan a un estímulo al que se igualan en el reflejo. En la música este elemento mimético va poco a poco enfrentándose al racional, al dominio sobre el material; la manera en que se liman uno al otro constituye su historia. No se reconcilian: también en música el principio racional, el de la construcción, tiraniza al mimético. Éste tiene que afirmarse polémicamente, instaurarse a sí mismo; espressivo es la protesta consentida, recibida, de la expresión contra la proscripción que sobre ella cayó.” Tomar um expresso.

cuanto más petrificado el sistema musical de la racionalidad, tanto menor el lugar que reserva a la expresión. Para seguir en general sonando con medios tonales, tiene que resaltar algunos, elevarlos a idea hipertrofiada, endurecerlos como vehículos de expresión tanto como se endureció el sistema circundante. El manierismo es la cicatriz que la expresión deja en un lenguaje que propiamente hablando ya no satisface a la expresión.”

La extrema similitud con el lenguaje es una de las raíces de la simbiosis mahleriana de canción y sinfonía”

En Mahler todas las categorías empiezan a quedar corroídas, ninguna se establece en límites no-problemáticos. Su difuminación no se debe a falta de articulación, sino que revisa ésta.”

incluso allí donde el discurso musical parece decir ‘yo’, su punto de referencia, análogo al latente yo objetivo de la narración literaria, es separado de la persona que escribió la obra por el abismo de lo estético. La herida Mahler no la configuró como contenido expresivo, según hizo W. en el tercer acto del Tristán. (…) Pero (…) el carácter neurótico era al mismo tiempo una herida histórica en la medida en que su obra quería realizar con medios estéticos lo estéticamente ya imposible.”

Uma orquestra toca na consciência musical mais do que esta se projeta sobre uma orquestra. Quiçá essa exterioridade do musicalmente interior capacite a música para aquele logro pelo que a psicanálise gostaria muito bem de explicá-la, para a defesa contra a paranóia, para a mitigação do narcisismo libertino.” “A música de Mahler não expressa a subjetividade, senão que esta toma, nela, posição ante a objetividade.”

Los acordes menores mahlerianos, que desautorizan a las tríadas mayores, son máscaras de disonancias venideras.”

El Mahler temprano desprecia la elemental exigencia escolástica de una vigorosa progresión de los grados.” “Al igual que algo más tarde en Puccini y Debussy, el bajo continuo ya no ejerce sobre él ninguna verdadera autoridad.”

El hecho de que en Mahler la modulatoria, por lo demás con notables excepciones especialmente en las sinfonías Sexta, Séptima y Novena, se mantuviera relativamente subordinada cobra un sentido compositivo.”

Em Mahler o consolo é o reflexo da tristeza. Nisto a música de Mahler conserva ansiosa ese algo mitigador, curativo, que desde tempos imemoriais a tradição atribuíra à música como força para expulsar os demônios, e isto, contudo, empalidece como quimera segundo a medida do desencantamento do mundo. À pergunta de o quê queria chegar a ser um dia, Mahler, desda infância, já havia respondido: mártir. Posto que o que mais lhe aprazeria é sua própria música ser o Paráclito, ela se excede e se torna, aí, inauténtica.”

Sua Nona é sobretudo estranha. Nela, o autor mal se expressa enquanto indivíduo. É como se essa composição devera ter um autor oculto que usara Mahler meramente como porta-voz, como bocal.”Arnold Schönberg, Estilo e Idéia (El estilo y la idea [1963]), NY, 1950.

Logo depois da wagneriana, a mahleriana é a música de diretor de máximo ranking; uma música que se executa a si mesma.” “A situação é análoga à da narrativa literária formal do discurso indireto. Inimiga de toda ilusão, a música de Mahler acentua sua inautenticidade, sublinha a ficção, a fim de se curar da falsidade em que a arte está começando a mergulhar. Nasce assim no campo de forças da forma o que em Mahler se percebe como o caráter da ironia. Qualquer asno ouve em Mahler marcas da música de diretor de orquestra, as marcas do conhecido no novamente produzido.” “O diretor de orquestra metido a compositor não tem no ouvido meramente a sonoridade orquestral, mas também a praxis orquestral, o como da maneira de tocar instrumental, junto com aquelas tensões, debilidades, exagerações e fraquezas que sua intenção vence. (…) ajuda a música a se produzir espontaneamente” “A praxis com a orquestra, na esfera comercial algo funestamente positivo, que ata, desencadeia em Mahler a fantasia compositiva. (…) O fato de Mahler pertencer à cultura musical como maestro empapado de sua linguagem e no entanto estar separado dela ao mesmo tempo se converte no éter de sua linguagem, polida se bem que estranha, estrangeira. (…) Em Mahler o fluido e o reificado formam uma constelação parecida com o alemão de Heine [cujo idioma natal não é o alemão]. Não é lícito criticá-lo pelas fraturas na forma, porque ele tem sua idéia na fracionaridade mesma.”

A reflexão sobre a injustiça social que a linguagem artística inevitavelmente comete com quem não participa do privilégio da cultura se opõe energicamente à lógica musical.”

Seria o caso de confrontá-lo a Bruckner, com quem tão irrefletidamente se o associa nos países ocidentais, como se a mera duração fosse uma categoria qualitativa.”

A música de Mahler sabe e configura objetivamente o fato de que a unidade não se dá a despeito das fraturas, senão unicamente em virtude da fratura.”

A música de Mahler é o sonho do indivíduo num coletivo irresistível. Mas ao mesmo tempo expressa objetivamente que a identificação com este é impossível. Aquele que sabe a nulidade do eu isolado, e que tem erroneamente a si mesmo por absoluto, sabe que este eu não pode presumir ser imediatamente um sujeito coletivo. Não há em tal música nenhum rastro de atitudes objetivistas como as do neoclassicismo; no neoclássico, Mahler é odiado.”

O fato de que o judio Mahler, como Kafka em seu conto sobre a sinagoga, conseguisse sentir o cheiro do fascismo com décadas de antecedência é sem dúvida o que deveras motiva a desesperação do camarada errante, a quem um par de olhos azuis envia para a diáspora.”

Karl Kraus dizia que mais vale um barranco bem pintado que um palácio mal pintado.”

Ainda em vida, Mahler recebeu a crítica, de um famoso resenhista, segundo testemunho de Schönberg, de que suas sinfonias não passavam de ‘pot-pourris gigantescos’.”

Desde Berlioz, o processo de integração sinfônica marchou acompanhado como que por uma sombra, pela irracionalidade do procedimento compositivo.” “Comparada com o procedimento não-esquemático de Mahler, toda a música de seu tempo, a do jovem Schönberg inclusa, era tradicionalista na medida em que era música de especialista.” Resumindo: Mahler grita “foda-se o gosto!”.

Beethoven ainda reconciliava o momento plebeu com o classicista na relação com algo múltiplo que é certamente elaborado como ‘material’, mas que nunca destaca autonomamente, em bruto. Mas a época de Mahler já não conhecia um povo que pudesse perceber-se como brotado da natureza e a que o jogo musical houvera podido com decoro emprestar sua vestimenta. Ao mesmo tempo, tampouco o nível de domínio musical do material alcançado permite absorver o plebeu.”

o que faz aqui a música que tem seu caminho de volta bloqueado é antes tomar alento do que simular um caminho que não existe. (…) O inferior em Mahler é na verdade o negativo da cultura que fracassou.”

O espírito, celebrado na grande música tanto mais tiranicamente quanto maior é essa música, despreza o vil trabalho físico dos outros. A música de Mahler não quer participar no jogo segundo essas mesmas regras.”

cada compasso abre os braços em cruz. Mas o que a norma da cultura rechaçara, o detrito freudiano do mundo fenomênico, não se esgota de todo, segundo a idéia de tal sinfonismo, na cumplicidade com a cultura: a doutrina de Freud da cumplicidade entre o isso e o supereu contra o eu está escrita como a medida em Mahler. O detrito deve empurrar a obra para mais além da aparência em que se convertera sob a cultura e reestabelecer algo desta corporeidade por que a música se diferencia de outros meios artísticos.”

O primeiro esboço do tema ‘Todo o morredouro é uma cópia’ da Oitava sinfonia, há décadas na casa de Alban Berg, está anotado em um pedaço de papel higiênico.”

Não seduzido pelo romantismo do autêntico e essencial, Mahler em nenhum caso pretende pôr ante os olhos essa nudez de maneira não-metafórica, como algo que é em si. Daí a fracionaridade.”

Mahler leva a sério seus modelos infantis, à diferença de Stravinski. (…) Ele não se zanga com o velho desvigorado nem com o sujeito impotente. Nos seus tão citados momentos irônicos, o sujeito se acusa da vaidade de seu próprio esforço, ao invés de se rir do mundo de imagens perdido e conjurado. Mahler não sabe conservar a serenidade e a pachorra nesses momentos.”

Se, correndo-se o risco de ser mal-interpretado, se comparasse Mahler e Stravinski a correntes da psicologia, então Stravinski se alinharia com os arquétipos junguianos, enquanto que a consciência ilustrada da música de Mahler recorda o método catártico daquele Freud que, numa fase crítica de sua vida, renunciou à cura da doente por causa da causa [sexual] da histeria, no que por sinal se mostrara muito superior àqueles diáconos que despacharam Baudelaire com o diagnóstico de seu ‘complexo materno’.” Diácono é como o ajudante-do-padre, um zé-ninguém.

A história da música do século XX, na medida em que se orientava pela sensibilidade e pelo cromatismo, havia multiplicado enormemente as tensões e desvalorizado as distensões.”

Ali onde o composto são dois pontos ou uns sinais de interrogação, não cabe respondê-los com um mero sinal de pontuação, mas sempre somente com uma frase. (…) a música diz, de certo modo, voilà. Este momento o herdou logo a seguir Schönberg, cuja frase, a de que a teoria da música sempre trata somente do começo e da conclusão e nunca do que aparece no meio, alude a esse estado de coisas.”

A irrupção é sempre suspensão (…) mas nem toda suspensão é irrupção.” “da dialética não se pode saltar ao incondicionado sem perigo de recaída no inteiramente condicionado: ele evita pronunciar compositivamente o nome de Deus a fim de não entregá-lo a seu adversário.” “as suspensões dizem adeus à imanência da forma sem afirmar positivamente a presença do outro; auto-reflexões do preso em si, e não mais alegorias do absoluto.”

Para sua desconfiança da paz da era imperialista a guerra é o estado normal, e os homens soldados alistados contra a vontade.”

Se a ditadura não houvesse depravado a tal ponto a expressão ‘realismo socialista’, Mahler seria o único a quem ela conviria. Os compositores russos dos anos 60 soam como um Mahler contrafeito. Berg é o legítimo herdeiro desse espírito”

A humanidade de M. é uma massa de deserdados.”

Os relógios se chamam ao darem a hora e vê-se o fundo do tempo” Rilke

Mahler de Arquivo

PUXANDO SACO DO MESTRE: “Sobre sua metamorfose vela uma extrema precisão compositiva. Cada fenômeno, desde o movimento sinfônico inteiro até a frase ilhada, até o motivo e sua transformação, logra exata, univocamente, o que tem de lograr: isto a nova música, Berg sobretudo, copiou de Mahler. Neste as evoluções parecem dizer: isto é uma evolução; as interrupções se produzem de maneira indiscutivelmente brusca; se a música se abre, ouvimos os dois pontos; se se fecha [cumpre], a linha sobrepassa perceptivelmente em intensidade ao precedente e não abandona o nível alcançado. As resoluções claramente fulminam os contornos e a sonoridade. O marcato marca”

A norma de clareza a que ele submeteu rigorosamente sobretudo a instrumentação era resultado da autorreflexão compositiva” “quanto menos a música articula, mais deve se preocupar com essa articulação”

O todo, outrora o fundamento apriorístico da composição, se converte na tarefa de cada um dos movimentos mahlerianos.”

O impulso, o ímpeto sinfônico, era a capacidade da música para adquirir momentum, como sobretudo nos desenvolvimentos de Beethoven.”

Os movimentos de Mahler são rios em que afunda qualquer coisa que neles cai, sem que por isso absorvam jamais o determinado.”

Sua música, tonal, preponderantemente consonante, tem não poucas vezes o clima da dissonância absoluta, a negrura da nova música.”

BLACK METAL? “Tais instantes evocam a doutrina da mística judia que interpreta o mal e o destrutivo como manifestações dispersas da potência divina fragmentada; em conjunto, os rasgos mahlerianos nos quais se dependuraram os clichês de mente panteísta, caberia derivá-los antes de um estrato subterrâneo-místico do que da ominosa crença monista na natureza.”

O material sonoro mahleriano é caracterizado até na fisionomia dos instrumentos que saltam insubmissos do tutti: os emancipados trombones que perturbam o equilíbrio no primeiro movimento da Terceira; retumbantes, fragorosos motivos dos tímpanos na Primeira música noturna e no Scherzo da Sétima

Mahler trata a forma de maneira assistemática não por mera mentalidade do inovador, mas por conhecimento de que, diferente da arquitetura, o tempo musical não permite simples relações de simetria.”

assim tinham de ser os instrumentos infantis que ninguém nunca ouviu.”

Todas as obras de Mahler se comunicam subterraneamente, o mesmo que as de Kafka pelos passadiços intermináveis de seu famoso edifício. Nenhuma obra sua chega a ser uma mônada comparada às outras.”

Na Quarta escreve o contraponto a sério pela primeira vez”

es el intento solitario de comunicación musical con lo déjà vu, de color resistente como la imago del carromato de gitanos o del camarote del buque.”

Resgata a marcha, depreciada então pelos eruditos, ou seja, pela então ‘cultura’.

Como mais tarde ocorreu com o jazz, é provável que durante o séc. XIX um certo tipo de músicos sem pretensões artísticas conquanto qualificados como artesãos passou para a música militar e ali encontrou fórmulas compositivas exatamente apropriadas para uma corrente coletiva subjacente”

Como Eurídice, a música de Mahler foi raptada do reino dos mortos.”

Crianças que dificilmente entenderam corretamente (sic!) a completa e multidimensional música mahleriana, quiçá no terror tenham podido compreender melhor que os adultos a venturosa dor de canções como Andava alegre eu por um verde bosque.”

Pinta o paraíso com traços campesinos e antropomorfos, para anunciar que não existe.”

La increencia que subyace al cristianismo en todos los países convertidos a los que sometió, u en la cual se mezclan inextricablemente restos de una religión natural mítica con inicios de la Ilustración, entra en imágenes musicales de la fe.”

O tema principal, que ao não-inteirado soa como um regresso a Mozart ou a Haydn e que na verdade procede do conseqüente do tema cantável do Allegro moderato da Sonata para piano em si bemol maior, ópera 122 de Schubert, é o mais inautêntico de todos os mahlerianos.”

O chifre maravilhoso do rapaz – que nome!

El poema culmina en una cristología estrambótica, que sirve al Salvador como alimento para la famélica alma e involuntariamente acusa al cristianismo de ser una religión sacrificial mítica”

A teologia de M. é, uma vez mais como a de Kafka, gnóstica; sua sinfonia de conto de fadas é tão triste como as obras tardias.”

Em Strauss a caracterização fracassa porque ele define os significados puramente a partir do sujeito, autonomamente.”

para bem compreender Mahler nunca é necessário nenhum saber abstrato para além da manifestação fenomênica da própria música, nem é preciso recorrer a qualquer engrenagem de associações”

O momento reacionário da música de M. é sua ingenuidade.”

Duma espécie de mero ser-aí musical, aquele folclórico, hão de extrair-se mediações, o único que justificaria e dotaria de sentido. Do ponto de vista da filosofia da história a forma de M. se aproxima da novela. O material musical é pedestre, a execução, sublime. Essa foi a configuração conteúdo-estilo da novela-das-novelas, Madame Bovary.”

Na base da forma musical novelística há uma aversão que devia ser sentida já muito antes de Mahler, mas que ele foi o primeiro a não reprimir. Odeia saber de antemão como continua a música.”

O clássico desconjuntado

Ele podia reivindicar o subtítulo de Assim falou Zaratustra: ‘Música para todos e para ninguém’.”

Desde Kant e Beethoven, a filosofia e a música alemãs foram sistema. O que se lhe escapou, seu corretivo, se refugiou na literatura, na novela e numa tradição semi-apócrifa do drama, até que mais ou menos na virada para o XX a categoria da vida, lixiviada como cultura e já reacionária na maioria dos casos, se fez também acessível à filosofia. Diante disso, a música de Mahler assumiu originalmente o reconhecimento nietzschiano de que o sistema e sua unidade sem fissuras, a aparência de reconciliação, não era sincera. (…) O potencial para isso adveio-lhe da atmosfera austríaca inatacada pelo idealismo alemão, em parte até pré-burguesa, feudal, por outra parte cética à maneira de José II, enquanto M. tinha – ao mesmo tempo – a essência integral da sinfonia bastante presente como para protegê-lo de uma mentalidade formal que faria concessões demasiadas a uma audição atomista no sentido débil do termo.”

El trabajo temático de cuño beethoveniano, ese reflejo lúgubremente grandioso de una agudísima compresión del pensamiento y de una impertérrita consciencia de las metas, no encontró ya ninguna fundamentación interna en el nuevo estilo sinfónico (…) Así es como cayó la rígida temáticamente orgánica técnica de Beethoven, o más bien se convirtió en medio auxiliar de segundo orden.” Bekker

En Beethoven mismo la confianza en la plenitud extensiva y en la posibilidad de descubrir pasivamente una unidad en la multiplicidad contrapesó la idea estilística trágico-clasicista de una música del sujeto activo. Schubert, a quien esta última idea comienza ya a desvanecérsele, se ve tanto más atraído por el tipo épico de Beethoven. (…) De todas las preformas del modo mahleriano de configuración, quizá la más importante sea el primer movimiento de la Sinfonía en si menor de Schubert; Webern lo veneraba como una concepción totalmente fresca de lo sinfónico en general.”

Se não é verdadeiro o pronunciamento de Mahler sobre Bruckner, de que seu amigo seria ‘metade Deus, metade imbecil’, esta anedota foi, pelo menos, muito bem-inventada.”

Por mucho que los oscuros bosques vírgenes de Bruckner parezcan aventajar a la fraccionariedad de Mahler, ésta es superior a la leñosidad de Bruckner, a ese estatismo un poco empedernido que no tiene fundamento más firme que el hecho de que en San Florián Nietzsche todavía no era tema de conversación. Bruckner fue para Mahler lo mismo que Robert Walser fue para Kafka.”

empirismo musical”

O DOGMA VS. A FALTA DE SENTIDO: “La fraccionariedad del tono mahleriano es el eco de aquella aporía objetiva, de la escisión entre dios e imbécil.”

A sustentável gravidade de Mahler

Las obras de Mahler director de orquesta no están contagiadas por el gesto del hombre práctico que al componer en cierto modo chasquea los dedos y se cuida de que todo vaya rodado y, sobre todo, de que ningún oyente se distraiga.” “Tal desconsideración tiránica hacia el contexto de eficacia apoya a la intención épica; la indicación agógica ‘dejar tiempo’ que en ocasiones aparece describe todo su modo de reacción.”

Um tempo em que “la música ya no puede ni ‘narrar’ ni invitar a la danza.”

Es conocida la apasionada relación de Mahler con Dostoyevski, que hacia 1890 todavía representaba algo distinto que en la época de Möller van den Bruck.(*)

(*) Arthur Möller van den Bruck (1876-1930): escritor y politólogo alemán, traductor de Dostoyevski. En 1923 publicó El tercer imperio (Der dritte Reich), cuyo título adoptará como lema el nacionalsocliamo.”

Conta-se que, durante uma excursão com Schönberg e os discípulos deste, Mahler recomendou-lhes estudar menos contraponto e ler mais Dostoyevski, depois do quê ouviu-se a heroicamente tímida resposta de Webern: ‘Vai me perdoar, senhor diretor, mas nós temos Strindberg’. A anedota anônima lança luz sobre a diferença entre a concepção novelística [D.] da música e a expressionista [S.] da geração seguinte, já plenamente emancipada, de compositores.”

o elevar-se a grandes situações, o desmoronar-se em si (Quinta Sinfonia, 2º movimento)”

Realizam-se gestos como o da Natacha de O Idiota, que lança ao fogo os bilhetes de banco; ou como aquele em Balzac, quando o criminoso Jacques Collin, disfarçado de bispo espanhol, dissuade o jovem Lucien Rubempré do suicídio e promove-o a um splendeur em prestações; quiçá também como o de Ester, que se sacrificava pelo amado sem suspeitar de que, àquela altura, a roleta da vida já havia salvado a ambos de qualquer miséria. Como nas novelas, em Mahler a felicidade floresce à margem da catástrofe.”

O mesmo que a filosofia, que a Fenomenologia hegeliana, a música em Mahler é a vida objetal que volta uma vez mais através do sujeito, e a volta dessa vida no espaço interior a transfigura num absoluto espumante. A concreção da leitura de novelas está em outra dimensão que a percepção distinta dos acontecimentos.”

À música épica segue vedado o descrever o mundo a que ela se refere: é tão transparente quanto críptica.” “distanciar-se-ia do mundo se quisera simbolizá-lo ou, sobretudo, reproduzi-lo. Schopenhauer e a estética romântica experimentaram isto ali onde meditaram sobre o que há de imaginário e onírico na música.” “Enquanto realidade sui generis a música se torna essencial mediante a desrealização. Não é como se ela representasse um grau intermediário entre o real e o sonho ou a fantasia.”

M., por duas vezes, escreve ‘imaginário’ como indicação de execução: no Scherzo da Sétima e no primeiro movimento da Nona.” “No espaço musical floresce uma empiria de segundo grau, já não, como a outra, heterônoma à obra de arte. A interioridade da música assimila o exterior no lugar de apresentar, exteriorizar, o interior.” Não há nada oculto: é assim a realidade, quando se pára para ouvi-la.

Se o mundo se equiparasse imediatamente à essência – e, segundo viu Schopenhauer, a música é imediatamente essência –, a música seria a loucura. Toda grande música é um furto de loucura; em cada qual há uma identificação do interior com o externo, mas a loucura não tem nenhum poder sobre ela.”

O fato de que Mahler, que passou a vida toda na ópera e cujo movimento sinfônico corre em muitos aspectos paralelo ao da ópera, não escreveu nenhuma ópera pode explicar-se pela transfiguração do objetal no reino interior das imagens. Sua sinfonia é opera assoluta. Como a ópera, o sinfonismo novelístico de Mahler brota da paixão e flui detrás; a ópera e a novela conhecem, mais que a música absoluta, fragmentos de desfecho como os seus.”

Proust chamou a atenção sobre o fato de que na música às vezes novos temas conquistam o centro como faziam nas novelas figuras secundárias que até então haviam passado inadvertidas.”

A idéia classicista da sinfonia conta com uma multiplicidade definida, cerrada em si, como a Poética aristotélica com as 3 unidades.” “Os componentes temáticos imprevistos destroem a ficção de que a música é um puro contexto dedutivo em que tudo o que sucede se deduz com unívoca necessidade.”

Lamentar as longitudes mahlerianas não é mais digno que aquela mentalidade que vende mais barato versões abreviadas de Fielding, Balzac ou Dostoyevski.”

M. não faz concessão à comodidade do easy listening sem memória nem expectativa.”

Se aos contemporâneos de Beethoven o tempo acelerado de suas sinfonias estremecia-lhes os nervos como se dizia dos primeiros trens, quem sobreviveu 50 anos a Mahler estremece-se com ele igual os habitués de viagens de avião quando viajam de navio. A duração mahleriana recorda-os que eles mesmos perderam duração; talvez temam não viver, em absoluto. Isso eles reprimem com aquela superioridade do homem importante que certifica não ter tempo, e com isso divulga sua própria verdade ignominiosa. É absurdo fazer Mahler e Bruckner consumíveis mediante cortes que, como disse Otto Klemperer, aumentam, em vez de encurtar, seus movimentos.”

A irracionalidade dos textos do Corno maravilhoso, tendente ao absurdo, produzida pela montagem de poemas divergentes, assinalada por Goethe em sua recensão, é reivindicada pelo modo de compor de Mahler”

Enquanto estróficas, as canções mahlerianas têm a objetividade das baladas, ao passo que a lírica subjetiva sacrifica a estrutura estrófica à poética, e à forma musical.”

Que a música disserta sobre si mesma, que se tem a si mesma por conteúdo, que narra sem nada narrar, não é tautologia, tampouco uma metáfora do porte de narrador que inquestionavelmente é muitas vezes o de Mahler.” “Assim como o narrador, a música de Mahler nunca diz duas vezes o mesmo do mesmo modo: assim intervém a subjetividade.”

Rewelge, com a indicação de execução ‘De contínuo’ confirma a exceção à regra total mahleriana, por tratar-se de uma marcha, que nem sequer a morte interrompe.”

Mahler se oponía al piano en cuanto el instrumento ya en su época reificadamente tableteante de la lírica subjetiva, mientras que la orquesta era capaz de dos cosas: registrar exactamente la representación compositiva en un color concreto y, gracias al volumen coral que conserva incluso en pianissimo, producir una especie de grandeza interior.”

Da intemporalidade do sempre igual Mahler faz surgir o tempo histórico. Com isso assume a originária tendência anti-mitológica do epos e portanto, e acima de tudo, da novela. (…) O que esses estilos têm de resolver é a recapitulação. Ou bem a resumem tanto que ela mal é considerada, em contraste, diante da prepotência do desenvolvimento, ou bem modificam-na radicalmente.”

No primeiro movimento da Terceira é chocante a renúncia a todas as categorias de mediação tradicionais. Analogamente ao Schönberg expressionista, não se põe muito cuidado a fim de erigir pontes entre os complexos. Com bárbara insolência, Mahler une-os precisamente com o mero ritmo de percussão, uma palpitação abstrata do tempo.” “M. serve migalhas, não caldo.”

O movimento se estira e estende em todas as dimensões como o corpo de um gigante. A polifonia não lhe interessa. O modelo principal do desenvolvimento, a entrada em si bemol menor, é certamente apresentado durante um par de compassos, como se estivesse prestes a ser fugado, porém, contra todas as regras da fuga, se aferra então a uma nota, e quem esperava a bem-educada resposta fica estalado em seu assento.”

Com grande esforço, por exemplo mediante o estudo ulterior de Bach, tem M. de adquirir o que compositores como Debussy, que estão impregnados de sua cultura, já trazem consigo. Os meios existentes não se adaptam à intenção mahleriana, que tende ao que não existe. Não só tem de aprender, como evitar de incorporar, como o saturado som de Wagner ou o ímpeto do, ainda em seus excessos, amável Strauss, que corre com desenfreio ao total.”

A partir da oposição à maestria dos outros, que havia degenerado em destreza; a partir das torpezas sem afetação e provocativas da Primeira e da Terceira, se restitui uma maestria que acaba por deixar debaixo de si, à mercê da identidade entre o composto e a manifestação fenomênica, o nível técnico da época”

O fato de que cada obra de Mahler critica a precedente faz dele o compositor evolutivo por excelência (…) o que ele melhora sempre se converte em algo distinto; daí a muito pouco bruckneriana policromia da sucessão de suas sinfonias.” “A Bekker não escapara que as últimas peças de quem mal chegou aos 50 são obras tardias no sentido mais explícito: exteriorizam o insensivelmente interior. Mas até que ponto contribuiu a vontade crítica de M. para sua evolução já se pode provar na época intermediária, muito antes disso.” “O salto qualitativo a partir da Quarta é indiscutível. (…) O que antes foi esboçado agora é desenvolvido.”

Analogamente a Wagner, sua obra sonha com um compor sem aparências, sóbria, não-transfiguradora.”

Mahler reagiu violentamente contra a estupidez musical, que no séc. XX se expandiu não menos que no XVIII e no XVII; a repetição infantil repugnava-lhe. E, paradoxalmente, era consciente de que o elemento tectônico, tal como primitivamente o representa a repetição, não pode ser extirpado.”

Qualquer série beethoveniana de variações se poderia comparar a uma canção qualquer de Mahler, como a Canção noturna da sentinela. O que em Beethoven se mantém fixo é (…) a condução das harmonias sobre um baixo contínuo; outros momentos, como as unidades do movimento ou a situação dos componentes motívicos principais, se alteram conseqüentemente de variação em variação. (…) Em Mahler, ao contrário, por todas as partes a estrutura geral se conserva de maneira inconfundível, porém por todas as partes também se introduziram fintas; proporções harmônicas como as de sonoridades em maior e em menor se inverteram com respeito a sua primeira aparição e, portanto, revogou-se a posteriori a formulação inicial do tema, como se esta se houvesse entregue ao capricho improvisatório.”

Se pintor fosse, Mahler seria aquele que pinta primeiro os contornos para depois preenchê-los. Beethoven faz tudo de imediato, de dentro para fora.

Tal largesse no tratamento do material, por sua vez contrária ao princípio de economia beethoveniano-brahmsiano, legitima tecnicamente a grande escala do sinfonismo épico de Mahler.”

O princípio da variante surge na canção estrófica variada na medida em que suas estrofes nunca podem ser profundamente variadas. Tão antipsicológicas como as baladas, retornam formulaicamente como refrões e são, não obstante, tão pouco rígidas como as fórmulas homéricas. O que aconteceu antes e o que virá a acontecer as afeta.”

O núcleo idêntico fixo, embora exista, dificilmente se deixa assinalar com o dedo: como se se subtraíra à escritura mensural.” “Paul Bekker constatou que o tema andante da Sexta Sinfonia, uma melodia perfeitamente fechada, tende, por assim dizer, a ser olvidado durante a peça.” “A propósito de temas que são conservados mas não firmemente coagulados e que emergem de um mundo de imagens coletivo, caberia pensar em Stravinski. Mas Mahler não são ‘cubos irregulares’, ‘montados obliquamente’, ‘desvinculados entre si’. (…) Seu princípio não é a violência.”

O tema minore do primeiro movimento da Nona sinfonia, p.ex., contém um sol sustenido impróprio à escala, o qual determina o caráter dissonante de todo o complexo em si; mas precisamente este sol sustenido ou seu equivalente é logo substituído muitas vezes por um lá, isto é, a quinta justa da tônica de ré menor. Em sua análise Werwin Ratz mostrou detalhadamente a função conformadora justamente da troca de ambas as notas críticas.”

O movimento, que recorre [percorre de novo] imensos lapsos temporais, logra a quadratura do círculo: é de uma só vez dinâmico e tectônico, sem que um princípio anule o outro.”

A recapitulação era a cruz da forma sonata. Revogava o que a partir de Beethoven era o decisivo, o dinamismo do desenvolvimento, de maneira comparável ao efeito de um filme no espectador que, depois do final, permanece sentado e vê uma vez mais o começo. Beethoven solucionou-o mediante um tour de force que para ele se converteu em regra: no frutífero momento do começo da recapitulação, apresenta o resultado do dinamismo do devir, como a confirmação e justificação do já-sido, do que em qualquer caso foi. Esta é sua cumplicidade com a culpa dos grandes sistemas idealistas, com o dialético Hegel, no qual ao fim a quintessência das negações, e portanto do mesmo devir, desemboca na teodicéia do que é. Na recapitulação a música, enquanto ritual da liberdade burguesa, seguia, o mesmo que a sociedade na qual é e que é nela, submetida à servidão mítica. Manipula o contexto natural que gira em si, como se o que retorna fôra, em virtude de seu mero retorno, mais do que é, o sentido metafísico mesmo, a <idéia>. Mas, pelo contrário, uma música sem recapitulação conserva algo de (não meramente desde o ponto de vista culinário) insatisfatório, desproporcionado, abrupto: como se lhe faltasse algo, como se não tivera um final. Com efeito, toda a nova música está atormentada pela questão de como poderia concluir, não só cessar, depois de que o deixaram de conseguir as formações conclusivas cadenciais, as quais têm elas mesmos algo da essência da recapitulação, que, se se quer, transporta em grande escala a fórmula cadencial. Mas a chegada de Mahler à alternativa converge com a das maiores novelas de sua geração. Ali onde, por razões formais, repete algo passado, não canta o elogio disto ou da caducidade mesma. Mediante a variante, sua música recorda desde longe o passado, o semi-esquecido, eleva um protesto contra sua superfluidade absoluta e o determina, todavia, como algo efêmero, irrecuperável. Sua idéia tem essa fidelidade redentora.”

Quando na Nona sinfonia Mahler abandonou a sonata, revelou meramente aquilo a que subcutaneamente se presta toda sua obra.” “Na Primeira a breve exposição allegro era já monotemática; falta o ortodoxo tema cantável.” “Na Terceira a sonata é derrotada, pois segundo os critérios desta a introdução, o tema principal da exposição e o desenvolvimento resultam desproporcionais. Por suposto, o primeiro movimento da Quarta é sonata, mas arcaica, como antes já o primeiro movimento da Oitava de Beethoven; para uma sonata propriamente dita o segundo tema seria uma canção instrumental demasiado independente (…) é só retrospectivamente que os pensamentos contrastantes se convertem numa unidade bastante ramificada no desenvolvimento, o primeiro mahleriano que desdobra didaticamente os componentes da exposição: com ele, arranca verdadeiramente o movimento como história. A coda completa o que a recapitulação ortodoxa omitira no começo. Em que pese tudo isso, este movimento renega também a essência sonatística não só porque tudo está composto ‘entre aspas’, porque a música parece dizer: ‘Era uma vez uma sonata’, como também porque tecnicamente os complexos da exposição se diferem tanto, estão tão energicamente separados, que de antemão se negam a aceitar um veredito.”

De todo modo, a composição épica nunca foi a mera antítese do dramático, mas, como na novela literária, vizinha dele nos impulsos, nas tensões, nas explosões.” “A tragédia rechaça a forma nominalista. A tonalidade, que para sua própria glória sanciona o afundamento do individual, ao qual não resta nenhuma opção ademais de afundar-se, domina indiscutível. A emancipação mahleriana em relação à sonata havia sido mediada pela própria sonata. Ele absorveu sua idéia nas sinfonias intermediárias para no final configurar de tal maneira que cada compasso esteja à mesma distância do centro.”

O tema principal não segue imediatamente, como manda a tradição, a introdução: chega-se a ele através de um breve allegro moderato que modula da tonalidade inicial de dó menor à tonalidade principal de lá menor; dessa versão intermediária do primeiro tema Mahler se recorda mais tarde num dos modelos mais importantes de desenvolvimento.”

Mediante o drástico dualismo de tema principal e secundário, renuncia-se a um grupo conclusivo prolixo ou a um terceiro tema.”

grandes novelistas como Jacobsen puderam omitir períodos inteiros da vida de seus heróis e com súbita resolução iluminar fases críticas de sua vida; o que Jacobsen abraçou expressamente como princípio da ‘má composição’, no grande experimento formal de Mahler se converte também no princípio de uma boa composição.”

Na Sétima, notas acrescidas fazem com que o maior resplandeça como uma espécie de supermaior, como o famoso acorde do Adagio da Nona de Bruckner.”

O nominalismo mahleriano, a crítica das formas por meio do impulso específico, afeta também o tipo de movimento que, herança da suite, se havia mantido desde Haydn com a máxima tenacidade, o minueto e o scherzo; só em Mendelssohn se havia pensado doutro modo.” “Com um esforço que ele mesmo teve de sentir como extraordinário, na Quinta M. concebe o novum do scherzo como desenvolvimento.”

la mayor parte de las veces el concepto de banalidad en Mahler aísla ergotistamente dimensiones individuales, ciego al hecho de que en él sólo la relación entre ellas, y no ninguna singular, define el carácter, la ‘originalidad’.”

A preocupação com uma reprodução correta se converteu em cânon da composição. Compor de tal modo que a execução não possa destruir a música, i.e., eliminá-la já virtualmente, significa, ao mesmo tempo, compor de maneira inteiramente clara, unívoca.”

A integração crescente do procedimento compositivo mahleriano não reduz, como muitas vezes depois dele, a substancialidade das dimensões individuais, senão que é ela somente a que lhes confere autenticamente relevo; o todo robustece retroativamente os momentos que o produziram. No Mahler jovem a harmonia tinha certamente suas peculiaridades, mas não era ainda um meio autônomo.”

Alban Berg chamou a atenção sobre o exemplo mais belo da interdependência entre o melodicismo e a harmonia no jovem Mahler, aquela frase intermediária da donzela na Canção noturna da sentinela, onde uma curva com amplos intervalos e a rítmica alternante entre compassos binários e ternários se reflete em progressões acórdicas e sonoridades de profunda corporeidade, como aquela em que as notas dó-si-ré sustenido-fá sustenido-ré chocam sem que ela, deduzida da condução das vozes, se converta numa mancha na textura harmônica”

De forma análoga à harmonia, o contraponto de Mahler se robustece com a maior densidade da textura sinfônica. A primeira vez em que Mahler dedicou-lhe atenção foi na Quarta, para, então, na Quinta e posteriormente, integrá-lo à forma total como dimensão compositiva.”

Algo bastante excepcional, no Conservatório de Viena se o dispensou do estudo do contraponto com base em suas próprias composições da época escolar. Segundo conta Natalie Bauer-Lechner, Mahler não demoraria a se lamentar por isso: ‘Porque, curiosamente, eu, desde sempre, nunca pude pensar mais que polifonicamente! Mas aqui, hoje, segue-me faltando, provavelmente, o contraponto, a escritura pura, que a qualquer estudante que nele se tenha exercitado pareceria mero jogo. (…) Agora compreendo que Schubert, segundo consta, até pouco antes de morrer quis estudar contraponto! Ele sentia até que ponto lhe fazia falta… E eu posso sentir o mesmo, posto que eu mesmo, desde os tempos de estudante, careço igualmente dessa capacidade e de uma prática correta, 100%, em contraponto. Em mim, de qualquer forma, o intelecto ocupa seu lugar, mas o gasto de forças que isso exige é desproporcionalmente grande.’” “Com ‘polifonia’, Mahler queria dizer, evidentemente, aquela propensão ao que soa caótico-desorganizado, à simultaneidade sem regras, contingente, do ‘mundo’ em cujo eco sua música quer se converter mediante sua organização artística.”

Como seu material estava antiquado, como o novo ainda não estava liberado, em Mahler o antiquado, o que ficara pelo meio do caminho, se converteu no criptograma das sonoridades ainda não ouvidas que chegariam mais tarde. O que lhe falta de imediatez do fenômeno musical é o que, graças a tal negatividade, o vestígio do sofrimento passado em sua linguagem, o faz superior a Bruckner.

Até que ponto a negatividade musicalmente imanente de Mahler se opõe ao entusiasta programa berlioz-lisztiano mostra-o o fato de que as novelas não têm nem veneram heróis como proclamam dois dos títulos de Strauss e incontáveis de Liszt. Inclusive no Finale da Sexta, apesar dos golpes de martelo, que por certo ainda hoje não se ouviram adequadamente e sem dúvida aguardam a realização eletrônica, alguém esperará em vão ao supostamente tocado pelo destino. [?]” Peçamos ao Ministry ou ao Nine Inch Nails esse inusitado ‘cover’!…

Erwin Ratz, Sobre el problema de la forma en Gustav Mahler. Un análisis del Finale de la Sexta sinfonía

em Reger o melodicismo se atomiza até se converter em pequenos intervalos de segundo plano desprovidos de qualquer qualidade, os quais vão colando uma harmonia com a outra. A técnica strauss-berlioziana do imprévu, da interrupção como efeito, da surpresa permanente, trata de paliar esta carência fazendo dela um principium stilisationis. Mahler extraiu a conseqüência inversa, impôs a melodia ali onde esta já não quer estar e com isso conferiu seu cachet às melodias mesmas, de modo remotamente análogo à maneira beethoveniana de represar o fluxo tonal mediante a implantação de sforzati e deixando ali, por assim dizer, as digitais da subjetividade. ‘Como fustigado’, reza em uma ocasião o Scherzo da Sexta. Desde a longa melodia do Finale da Primeira, M. tem com seus temas tão pouca contemplação como com seus cavalos esgotados tem um cocheiro obcecado com a meta.” “Rir-se dessas passagens heréticas de Mahler é sempre também solidário para com este mesmo; o ouvinte põe-se, assim, de seu lado.”

A obra com que sem dúvida a maioria aprendeu a amar Mahler, a Segunda sinfonia, é a que provavelmente se desvanecerá mais depressa em razão da loquacidade do 1º movimento e do Scherzo, de certo primitivismo no Finale da ressurreição.”

sua incapacidade subjetiva para o happy end denuncia este mesmo happy end

DICAS DE INICIAÇÃO

WAGNER

Ouvir primeiro OS MESTRES CANTORES.

MAHLER

A Primeira Sinfonia é experimental. É o antiformalismo encarnado, evade a monumentalidade, que se tornou quase sinônima de “sinfonia” desde a Nona de Beethoven. A Quarta é a primeira do “Mahler maduro”.

DICIONÁRIO POLIGLOTA MUSICAL (E ÀS VEZES ALGO MAIS)

BAR (ALEMÃO): “É o nome que recebe a forma tripartida das canções dos menestréis e mestres cantores alemães. Compõe-se de duas estrofes ascendentes chamadas Stollen e de uma terceira contrastante, o Abgesang, de melodia descendente.” “Que, até o seu renascimento em Wagner, durante toda a era do baixo contínuo mal se escrevessem Abgesänge, isso se explica sem dúvida pelo fato de que, enquanto cumprimento [encerramento] de um contexto musical mediante algo essencialmente novo, colidiam os Abgesänge com a idéia do hermetismo imanente à música moderna, cujo princípio econômico permitia obter tudo como rendimentos de um bem original.” Em outros termos, a música não “necessitava” dos Abgesänge em sua fase clássica final (pré-Mahler).

CANTABILE (ITALIANO): Música instrumental com o intuito de imitar a voz humana.

CROMATISMO: “É uma frase musical formada com notas da escala cromática (formada por 12 semitons). É o uso das notas cromáticas em uma composição tonal, com a intenção de gerar tensão (melódica ou harmônica), prolongando a música (desenvolvimento tonal) e adiando a resolução melódica. À medida que os compositores da segunda metade do XIX expandiram os conceitos da música tonal, com novas combinações de acordes, tonalidades e recursos harmônicos, a escala cromática e os cromatismos se tornaram mais freqüentes. Como elemento expressivo, esta técnica encontrou seu auge no final do período romântico, com Liszt, M. e W..”

ENARMÔNICO: “Diz-se de notas de nomes distintos, mas que, por efeito dos sustenidos e dos bemóis, têm a mesma entonação.”

IMPASTO (ITALIANO, Pintura): “Impasto é uma técnica em que a tinta (em particular a de óleo) é espalhada numa área da tela, ou mesmo na tela inteira, de forma tão espessa que as marcas dos objetos utilizados para pintar (p.ex. pincel, espátula) são visíveis na pintura. A tinta também pode ser misturada diretamente na tela. Quando fica seco, o impasto dá textura e relevo à representação. O termo impasto tem origem italiana e quer dizer <mistura>. O impasto ganhou notoriedade nas pinturas de artistas venezianos, como  Titian e Tintoretto, além de ser possível observá-lo nas paisagens naturalista e romântica do séc. XIX. A técnica foi imposta como uma maneira de ressignificar a superfície das obras, que deveria ter sua própria realidade e profundidade, ao invés de ser apenas uma janela para um mundo imaginativo e ilusionista. Este método também pode ser definido pelo termo pictórico, no qual a aplicação de tinta é feita de forma <solta> ou menos controlada, causando efeitos sensoriais e visuais.” A razão da inclusão deste verbete é que Strauss chama alguns trechos do Lohengrin de impastos das madeiras, associando som, cor e textura à obra de W.. Mas não sei se a expressão tem sentido apenas sinestésico se referindo a um amálgama sensorial ou também ao entalhe dos instrumentos de madeira, uma vez que a palavra impasto também é usada para obturação e preenchimento em português! Cf. p. 71: “As madeiras hão de constituir, por assim dizer, o contrapeso objetivo ao espressivo subjetivo das cordas.” & “Na frase antecedente, as vozes das madeiras, e certamente também em piano (ver abaixo), aparecem totalmente dobradas. A razão imediata é a obrigação de corrigir uma certa heterogeneidade. As flautas são, por um lado, menos resistentes; por outro, mais difíceis de emplastrar/revestir que os clarinetes; são demasiado débeis e, sem embargo, se apartam da cor total.”

MONODIA: “Canção, ordinariamente triste, entoada por uma única voz, sem acompanhamento.”

PIANO (ITALIANO): Uma dentre diversas notações utilizadas na escala musical: p (piano) para indicar um trecho de calmaria ou quietude, ou seja, altura do som baixo (em termos de volume da música mesmo); pp (pianissimo) para indicar o superlativo; além de outras expressões como forte, fortissimo (altura do som alto ou altíssimo), etc. Essas notações integram a parte da Música Clássica chamada de Dinâmica. Um interessante resquício da “música analógica” para se ver e ouvir hoje em dia! Outras indicações:

mp – mezzo-piano

mf – mezzo-forte

ppp – pianississimo

fff – fortississimo

pppppp (!) – usado por Tchaikovski

SCHERZO (ITALIANO): Seção de uma sinfonia ou sonata.

DICIONÁRIO LINGÜÍSTICO PROSAICO

atañer: dizer respeito

campechanía: franqueza, cinismo

Helle: claridade

Hölle: inferno

pintarrajo: rabisco, esboço (desenho)

soltar los gallos: mentir, falhar a voz, sair do tom, embargar o discurso.

CE QUE L’ANTISÉMITISME ENSEIGNE À LA PSYCHANALYSE: Une puissance sombre au commande (doctorat) – Sarah Abitbol, 2018.

INTRODUCTION (futuras leituras)

Poliakov, L’histoire de l’antisémitisme

______, La causalité diabolique

Lanzmann, Shoah

Bensoussan, Auschwitz en héritage

Sternhell, Histoire et lumières

Sartre, Réflexions sur la question juive

PREMIÈRE PARTIE. FREUD

(…)

DEUXIÈME PARTIE. LES DISCIPLES DE FREUD

« Pour Jones, la solution d’un état juif est compliquée pour deux raisons. Premièrement parce que le mouvement sioniste affirme avec plus de détermination que jamais être un peuple distinct et séparé, et entend préserver sa caractéristique nationale comme les autres nations. Cette revendication est juste, mais comme elle est une des causes fondamentale de l’antisémitisme, elle risque de l’exacerber. Deuxièmement, un état juif alors que la majorité des Juifs vivront toujours dans des pays étrangers ne sera jamais accepté par les Gentils; ce sera interprété comme une arrogance. Cette question: pourquoi ne partez-vous pas vivre en Palestine, sera posée de plus en plus souvent. Tout cela est sans doute confirmé, pour Jones, par l’augmentation de l’antisémitisme depuis la montée du sionisme. » Nunca achei que concordaria com Jones em alguma coisa!

« L’assimilation est la solution, pour Jones, qui s’avère être la plus juste. Aucun peuple ne peut garder indéfiniment son identité séparée; et les Juifs sont soumis aux mêmes lois historiques et sociales que les autres peuples. L’argument logique des Juifs d’Allemagne assimilés à la culture environnante, et à qui Hitler a rappelé qu’ils étaient Juifs, n’est pas justifié. Il faut avoir à l’esprit qu’une assimilation ne peut pas se faire en l’espace d’un siècle et seulement grâce à des tentatives individuelles. Il faut des siècles, l’histoire l’a montré, par exemple, avec les Normands d’Angleterre où il a fallu quatre cents ans pour qu’ils se fondent aux Anglais. »

TROISIÈME PARTIE. LACAN

(…)

QUATRIÈME PARTIE. VOIX CONTEMPORAINES

1. L’ANTISÉMITISME DANS LA LANGUE

« Je veux que chaque Juif vive dans la peur, sauf s’il est pro-palestinien… Qu’ils meurent! Ils me font chier. Ça fait 2000 ans qu’ils nous font chier. Il faut les euthanasier. » Siné, 1982

« Je comprends Hitler. Je pense qu’il a fait de mauvaises choses, absolument, mais je peux l’imaginer assis dans son bunker à la fin… je ne suis pas contre les juifs. Je suis avec les juifs bien sûr, mais pas trop… Parce que Israël fait vraiment chier… Je dis que je comprends l’homme. Ce n’est pas vraiment un brave type, mais […] je compatis un peu avec lui… » Lars Von Trier

« Qui peut croire qu’il y a dans les manifestations pour Gaza de l’antisémitisme? » Jean-Luc Mélenchon, 2014

Vejo que a autora dessa tese confunde anti-sionismo com anti-semitismo ortodoxo!

« Stop au génocide palestinien,

Stop au terrorisme juif Hitlérien,

Gaza, la nouvelle Shoah! » Manifestation, 2009

« Je constate qu’après la constitution de leur état, les Juifs, de victimes, sont devenus des bourreaux » Abbé Pierre, 1991

« Si on compare notre époque à celle de l’avant-guerre, on pourrait dire qu’aujourd’hui le musulman, suivi de près par le maghrébin, a remplacé le Juif dans les représentations et la construction d’un bouc émissaire… l’islamophobie a pris la relève de l’antisémitisme, les anti-juifs d’hier sesont convertis à l’islamophobie… » Nonna Mayer, Guy Michelat, Vincent Tiberj, 2012

« Avec l’argent public, on fait 150 films sur la Shoah, moi je demande de faire un film sur la traite des Noirs et on me dit que ce n’est pas un sujet. » Dieudonné, 2005

« Les sionistes ont une sorte d’impunité. Eux, dans une école, il suffit qu’un petit soit traité de sale juif pour que tout le monde se lève. Pour moi, le sionisme, c’est le sida du judaïsme » idem, ib.

« La république n’est pas juste avec ses enfants… il y a des chouchous dans la maison… rien n’est plus abject que l’instrumentalisation politique de la souffrance, comme la pratique de l’état d’Israël. L’antisémitisme ne correspond à aucune réalité sur le terrain. C’est un instrument de chantage politique. » idem, ib.

« On se prostitue avec l’argent des victimes de la Shoah. On en fait un business c’est obscène. » idem, ib.

« L’État Islamique, je vous le dit est une organisation sioniste américaine… méfiez-vous des impérialistes. Ils sont vicieux et collaborent avec les sionistes pour contrôler le monde entier » Leila Khaled, 2015

« À chaque divorce moi je vous le dis, il y a un sioniste derrière » Yahia Gouasmi, 2009

HAHHAHAHAAHA!

« Tout ce qui se passe dans le monde aujourd’hui est la faute des sionistes. Les Juifs Américains sont derrière la crise économique mondiale qui a aussi frappé la Grèce » Mikis Theodorakis, 2011

« Les télés, elles ne parlent pas de nos manifs pour Gaza, pourquoi? de toute façon, Ils contrôlent tout, les Juifs » Manifestation, 2014

« CRS, milice des Juifs!

Juif, casse-toi,

La France n’est pas à toi! » idem

Por que será que onde há milícia há fogo? Digo, onde há fumaça… Ops, mais uma vez: onde há milícia, há fascismo? É uma lei universal!

« Si aujourd’hui on est flingué dans les médias, c’est les grands financiers, l’ultralibéralisme qui tient tout et derrière on retrouve le sionisme en premier. Regarde le nombre de feujs dans les postes-clés dans les médias, dans l’État et les universités. » Enquête sociologique

« Je n’ai pas à choisir entre les Juifs et les nazis, je suis neutre dans cette affaire » Dieudonné

« Mais ce qui est particulier et nouveau dans ces énoncés contemporains et que nous relevons ici, c’est que l’antisémitisme est recouvert par l’antisionisme dans la majorité des énoncés. »

2. VOIX LOGIQUE, VOIX PHILOSOPHIQUE, VOIX PSYCHANALYTIQUE

O ESTADO ISRAELITA (O PRIMEIRO ESTADO-NAÇÃO PARACIVIL DA HISTÓRIA) ALÉM DO BEM E DO MAL: Em vez de procurar significados ocultos, que tal reconhecer o neofascismo? Tarefa difícil! Diria sem medo que não fôra F. e a histeria chamada psicanálise, dificilmente teríamos hoje no discurso popular, se é que há!, antissemitismo disfarçado de anti-sionismo: o que cria a facilidade de usar máscaras e disfarces psicanalíticos é a própria psicanálise que vê disfarces em tudo, ora bolas! Mas e quando há o que se diz e não uma explicação freudo-mirabolante? Se a psicanálise é endeusada na França, não podemos ver que o antissemitismo popular franco não é senão uma resposta à alta judeidade dos altos cargos franceses?!

MOISÉS E O MONOTEÍSMO

Strachey

Essas irregularidades são desconhecidas nos outros trabalhos de Freud, ele próprio as aponta e por elas se desculpa mais de uma vez.” “A totalidade da obra, naturalmente, deve ser encarada como continuação dos primeiros estudos de Freud sobre as origens da organização social humana em Totem e Tabu (1912-13) e Psicologia de Grupo (1921c).”

A escolha parece ser bastante governada pela nacionalidade. Assim, no passado, os egiptólogos ingleses inclinavam-se por Akhnaton, os alemães preferiam Echnaton, os americanos (Breasted) escolheram Ikhnaton e o grande francês (Maspero) decidiu-se por Khouniatonou. Defrontado por essas alternativas sedutoras, o presente tradutor recaiu na versão trivial que por muitos anos tem sido adotada pelo Journal of Egyptian Archaelogy e agora parece ser a que se está tornando mais geralmente aceita, pelo menos nos países de fala inglesa: Akhenaten. Esta mesma autoridade foi geralmente seguida na transcrição de todos os outros nomes egípcios.

Com referência aos nomes do Antigo Testamento, a resposta foi mais simples, e empregaram-se as formas encontradas na Versão Autorizada Inglesa. Deve-se acrescentar, contudo, que o nome imencionável da Divindade recebeu aqui a transcrição normalmente encontrada nas obras dos estudiosos ingleses: Yahweh (Javé ou Iavé).”

1. Moisés, um egípcio

Se viveu, foi no décimo terceiro – embora possa ter sido no décimo quarto – século antes de Cristo. Não possuímos informações sobre ele, exceto as oriundas dos livros sagrados dos judeus e de suas tradições, tal como registradas por escrito. Embora à decisão sobre o assunto falte certeza final, uma esmagadora maioria de historiadores pronunciou-se em favor da opinião de que Moisés foi uma pessoa real e que o Êxodo do Egito a ele associado realmente aconteceu. Argumenta-se que, se essa premissa não fosse aceita, a história posterior do povo de Israel seria incompreensível. Na verdade, a ciência hoje tornou-se em geral muito mais circunspecta, e trata as tradições de modo muito mais indulgente [?] do que nos primeiros dias da crítica histórica.”

em primeiro lugar, é absurdo atribuir a uma princesa egípcia uma derivação do nome a partir do hebraico, e, em segundo, as águas de onde a criança foi tirada muito provavelmente não foram as do Nilo.”

Breasted, History of Egypt: “É importante notar que seu nome, Moisés, era egípcio. Ele é simplesmente a palavra egípcia ‘mose’, que significa ‘criança’, e constitui uma abreviação da forma mais completa de nomes tais como ‘Amon-mose’, significando ‘Amon-uma-criança’, ou ‘Ptah-mose’, significando ‘Ptah-uma-criança’, sendo essas próprias formas, semelhantemente, abreviações da forma completa ‘Amon-(deu)-uma-criança’ ou ‘Ptah-(deu)-uma-criança’. A abreviação ‘criança’ cedo tornou-se uma forma breve e conveniente para designar o complicado nome completo, e o nome Mós ou Més (Mose), ‘criança’, não é incomum nos monumentos egípcios. O pai de Moisés indubitavelmente prefixou ao nome do filho o de um deus egípcio como Amon ou Ptah, e esse nome divino perdeu-se gradativamente no uso corrente, até que o menino foi chamado ‘Mose’. (O s final constitui um acréscimo tirado da tradução grega do Antigo Testamento. Ele não se acha no hebraico, que tem ‘Mosheh’)”

Assim, de modo algum ficamos surpresos por vermos confirmado que o poeta Chamisso era francês de nascimento, que Napoleão Bonaparte, por outro lado, era de origem italiana, e que Benjamim Disraeli era na verdade um judeu italiano, tal como esperaríamos de seu nome.”

A mais antiga das figuras históricas a quem esse mito de nascimento está ligado é Sargão de Agade, fundador de Babilônia (por volta de 2800 a.C.). Para nós, em particular, não deixará de ter interesse citar a descrição desse mito, atribuída a ele próprio:

Sargão, o poderoso Rei, o Rei de Agade, sou eu. Minha mãe era uma vestal, a meu pai não conheci, ao passo que o irmão de meu pai morava nas montanhas. Em minha cidade, Azupirani, que fica à margem do Eufrates, minha mãe, a vestal, concebeu-me. Em segredo ela me teve. Depositou-me num caixote feito de caniços, tampou a abertura com piche, e abandonou-me ao rio, que não me afogou. O rio me conduziu até Akki, o tirador de água. Akki, o tirador de água, na bondade de seu coração, tirou-me para fora. Akki, o tirador de água, criou-me como seu próprio filho. Akki, o tirador de água, fez-me seu jardineiro. Enquanto eu trabalhava como jardineiro, a deusa Ishtar ficou gostando de mim; tornei-me Rei e, por 45 anos, governei regiamente.” Até Hiei, o Andarilho Triclope obedece a esta fórmula mítica.

Os nomes que nos são mais familiares na série que começa com Sargão de Agade são Moisés, Ciro e Rômulo. Mas, além destes, Rank reuniu grande número de outras figuras heróicas da poesia ou da lenda, de quem se conta a mesma história a respeito de sua juventude, quer em sua totalidade quer em fragmentos facilmente reconhecíveis, incluindo Édipo, Karna, Páris, Telefos, Perseu, Héracles, Gilgamesh, Anfion e Zetos, e outros.”

Para os medos, Ciro foi um conquistador estrangeiro, mas, mediante uma lenda de abandono, tornou-se neto de seu rei. A mesma coisa se aplica a Rômulo. Se tal pessoa existiu, deve ter sido um aventureiro de origem desconhecida, um adventício; a lenda, contudo, fê-lo descendente e herdeiro da casa real de Alba Longa.”

Eduard Meyer, e outros que o seguiram, presumiram que, originalmente, a lenda foi diferente. O faraó, segundo eles, fôra advertido por um sonho profético de que um filho nascido de sua filha traria perigo para ele e para seu reino. Dessa maneira, fez com que a criança fosse abandonada no Nilo, depois do nascimento, mas ela foi salva por judeus e criada como filho deles. Por “motivos nacionalistas” (Rank), a lenda teria então recebido a forma modificada segundo a qual a conhecemos.”

2. Se Moisés fosse egípcio…

Na religião egípcia, há uma quantidade quase inumerável de divindades de dignidade e origem variáveis: algumas personificações de grandes forças naturais como o Céu e a Terra, o Sol e a Lua, uma abstração ocasional como Ma’at (Verdade ou Justiça), ou uma caricatura como Bes, semelhante a um anão. A maioria delas, porém, são deuses locais, a datar do período em que o país estava dividido em numerosas províncias, deuses com a forma de animais, como se ainda não tivessem completado sua evolução a partir dos antigos animais totêmicos, sem distinções nítidas entre eles, mas diferindo nas funções que lhes eram atribuídas.” Não, F.: o animal é o deus evoluído!

WE LIVE INSIDE A DREAM: “Os nomes dos deuses são combinados mutuamente, de modo que um deles pode ser quase reduzido a um epíteto do outro. Assim, no apogeu do ‘Novo Reinado’, o principal deus da cidade de Tebas foi chamado de Amen Re’, a primeira parte desse composto representa o deus de cabeça de carneiro da cidade, ao passo que Re’ é o nome do deus solar de cabeça de falcão de On (Heliopolis).”

Osíris, o deus dos mortos, o soberano desse outro mundo, era o mais popular e indiscutido de todos os deuses do Egito. Por outro lado, a antiga religião judaica renunciou inteiramente à imortalidade; a possibilidade de a existência continuar após a morte em parte alguma jamais é mencionada.”

Na gloriosa XVIII Dinastia, sob a qual o Egito se tornou uma potência mundial, um jovem faraó subiu ao trono, por volta de 1375 a.C. Inicialmente ele foi chamado, tal como seu pai, Amenófis (IV); mais tarde, porém, mudou seu nome, e não apenas seu nome. Esse rei dispôs-se a impor uma religião a seus súditos egípcios, uma religião que ia de encontro às suas tradições de milênios e a todos os hábitos familiares de suas vidas. Ela era um monoteísmo escrito, a primeira tentativa dessa espécie, até onde sabemos, na história do mundo, e, juntamente com a crença num deus único, nasceu inevitavelmente a intolerância, que anteriormente fôra alheia ao mundo antigo e que por tão longo tempo permaneceu depois dele. O reino de Amenófis, contudo, durou apenas 17 anos. Logo após sua morte, em 1358 a.C., a nova religião foi varrida e proscrita a memória do rei herético. O pouco que sabemos dele deriva-se das ruínas da nova capital real que construiu e dedicou a seu deus, e das inscrições nas tumbas de pedra adjacentes a ela.”

Como resultado das façanhas militares do grande conquistador, Tutmósis III, o Egito havia-se tornado uma potência mundial; o império incluía agora a Núbia, ao sul, a Palestina, a Síria e uma parte da Mesopotâmia, ao norte.”

Pouco depois de alterar seu nome, Akhenaten abandonou a cidade de Tebas, dominada por Amun, e construiu para si uma nova capital real rio abaixo, à qual deu o nome de Akhenaten (o horizonte de Aten). Seu sítio em ruínas é hoje conhecido como Tell el’Amarna.”

A gloriosa XVIII Dinastia estava no fim e, simultaneamente, suas conquistas na Núbia e na Ásia foram perdidas. Durante esse sombrio interregno, as antigas religiões do Egito foram restabelecidas. A religião de Aten foi abolida. A cidade real de Akhenaten foi destruída e saqueada, e a memória dele proscrita como a de um criminoso.”

Schema Jisroel Adonai Elohenu Adonai Echod”

Heródoto, o ‘pai da História’, conta-nos que o costume da circuncisão por muito tempo fora indígena no Egito, e suas afirmações são confirmadas pelas descobertas em múmias e, na verdade, por pinturas nas paredes dos túmulos. Nenhum outro povo do Mediterrâneo oriental, até onde sabemos, praticava esse costume, e pode-se com segurança supor que os semitas, os babilônios e os sumérios não eram circuncidados.”

Em total contraste com a tradição bíblica, podemos supor que o Êxodo realizou-se pacificamente e sem perseguição. A autoridade de Moisés tornou isso possível e, àquela época, não havia autoridade central que pudesse ter interferido.

De acordo com essa nossa construção, o Êxodo do Egito teria ocorrido durante o período que vai de 1358 a 1350 a.C., isto é, após a morte de Akhenaten e antes do restabelecimento, por Haremhab, da autoridade estatal. O objetivo da migração só poderia ter sido a terra de Canaã. Após o colapso da dominação egípcia, hordas de belicosos arameus irromperam naquela região, conquistando e saqueando, e demonstraram dessa maneira onde um povo capaz poderia conquistar novas terras para si. Tomamos conhecimento desses guerreiros pelas cartas encontradas, em 1887, na cidade em ruínas de Amarna. Nelas, eles são chamados de ‘habiru’, e o nome foi transferido (não sabemos como) para os invasores judeus posteriores – hebreus –, aos quais as cartas de Amarna não podiam referir-se. Ao sul da Palestina também, em Canaã, viviam as tribos que eram os parentes mais próximos dos judeus que então abriam caminho para fora do Egito.”

Tampouco se pode excluir a possibilidade de que alguns dos traços caracterológicos que os judeus incluíram em sua primitiva representação de seu Deus – descrevendo-o como ciumento, severo e cruel –, possam ter sido, no fundo, derivados de uma rememoração de Moisés, pois, de fato, não fora um Deus invisível, mas sim o varão Moisés que os tirara do Egito.”

Nenhum historiador pode encarar a descrição bíblica de Moisés e do Êxodo como algo mais do que um piedoso fragmento de ficção imaginativa, que moldou uma tradição remota em benefício de seus próprios intuitos tendenciosos.”

Esses historiadores modernos, dos quais podemos tomar Eduard Meyer (1906) como representante, concordam com a história bíblica num ponto decisivo. Também eles acham que as tribos judaicas, que mais tarde se desenvolveram no povo de Israel, adquiriram uma nova religião num determinado ponto do tempo. Contudo, segundo eles isso não se realizou no Egito ou ao sopé de uma montanha na Península de Sinai, mas numa certa localidade conhecida como Meribá-Cades, um oásis distinguido por sua riqueza em fontes e poços, na extensão de terra ao sul da Palestina, entre a saída oriental da Península de Sinai e a fronteira ocidental da Arábia. Aí eles assumiram a adoração de um deus Iavé ou Javé, provavelmente da tribo árabe vizinha dos madianitas. Parece provável que outras tribos da vizinhança também fossem seguidoras desse deus.

Javé era, indiscutivelmente, um deus vulcânico. Ora, como é bem sabido, o Egito não possui vulcões e as montanhas da Península de Sinai nunca foram vulcânicas; por outro lado, existem vulcões que podem ter sido ativos, até tempos recentes, ao longo da fronteira ocidental da Arábia. Assim, uma dessas montanhas deve ter sido Sinai-Horeb, considerado a morada de Javé. Apesar de todas as revisões a que a história bíblica foi submetida, o retrato original do caráter do deus pode ser reconstruído, segundo Eduard Meyer: era um demônio sinistro e sedento de sangue, que vagueava pela noite e evitava a luz do dia.”

Embora Eduard Meyer diga, é verdade, que nunca duvidou de que havia certo âmago histórico na versão da estada no Egito e da catástrofe para os egípcios, evidentemente não sabe como localizar e que uso fazer desse fato que ele reconhece. A única coisa que se mostra pronto a fazer derivar do Egito é o costume da circuncisão.”

O Moisés que conhecemos é o ancestral dos sacerdotes de Cades, isto é, uma figura oriunda de uma lenda genealógica, colocada em relação a um culto, não uma personalidade histórica. Assim (à parte aqueles que aceitam as raízes e ramificações da tradição como verdade histórica), ninguém que o tenha tratado como figura histórica foi capaz de dar-lhe qualquer conteúdo, representá-lo como indivíduo concreto ou apontar o que pode ter feito e qual pode ter sido seu trabalho histórico.”

No Êxodo e na destruição dos egípcios, Moisés não desempenha papel algum; sequer é mencionado. O caráter heróico que a lenda de sua infância pressupõe está totalmente ausente do Moisés posterior; ele é apenas o homem de Deus, um taumaturgo equipado por Javé com poderes sobrenaturais.”

Em 1922, Ernest Sellin fez uma descoberta que influenciou decisivamente nosso problema. Descobriu no profeta Oséias (segunda metade do século VIII a.C.) sinais inequívocos de uma tradição segundo a qual Moisés, o fundador da religião dos judeus, encontrou um final violento num levante de seu povo refratário e obstinado, ao mesmo tempo que a religião por ele introduzida era repudiada. Essa tradição, contudo, não se restringe a Oséias; reaparece na maioria dos profetas posteriores, e, na verdade, segundo Sellin, tornou-se a base de todas as expectativas messiânicas mais tardias. Ao fim do cativeiro babilônico, surgiu entre o povo judeu a esperança de que o homem que fora tão vergonhosamente assassinado retornasse dentre os mortos e conduzisse seu povo cheio de remorso, e talvez não apenas esse povo, para o reino da felicidade duradoura.”

Considerando esse ponto, podemos dizer que a nação surgiu da união de suas partes componentes, e a isso se ajusta o fato de, após breve período de unidade política, ela se ter cindido em dois fragmentos – o reino de Israel e o reino de Judá. A história gosta de reintegrações como essa, onde uma fusão posterior é desfeita e uma separação anterior reemerge. O exemplo mais impressivo disso foi fornecido, como é bem sabido, pela Reforma, a qual, após um intervalo superior a mil anos, trouxe mais uma vez à luz a fronteira existente entre a Alemanha que fora outrora romana e a Alemanha que permanecera independente.”

Um dos maiores enigmas da pré-história judaica é o da origem dos levitas. Eles são remontados a uma das doze tribos de Israel – a de Levi –, mas nenhuma tradição aventurou-se a dizer onde essa tribo estava originalmente localizada, ou qual a parte da terra conquistada de Canaã que lhe foi atribuída. Os levitas preenchiam os ofícios sacerdotais mais importantes, mas eram distintos dos sacerdotes. Um levita não é necessariamente um sacerdote; tampouco é o nome de uma casta.”

Como os seguidores de Moisés davam tanto valor à sua experiência do Êxodo do Egito, esse ato de libertação tinha de ser representado como devido a Javé, e forneceram-se ao evento aperfeiçoamentos que davam prova da terrificante grandeza do deus vulcânico, tais como a nuvem de fumaça que se transformava à noite numa nuvem de fogo e a tempestade que pôs a nu o leito do mar por algum tempo, de maneira que os perseguidores foram afogados pelas águas que retornavam. Esse relato aproximou o Êxodo e a fundação da religião e renegou o longo intervalo ocorrido entre um e outro.”

E começaremos ouvindo o que a pesquisa bíblica crítica pode dizer-nos sobre a história da origem do Hexateuco, os cinco livros de Moisés e o livro de Josué, os quais, somente eles, nos interessam aqui.”

A história do Rei Davi e seu período é, mais provavelmente, obra de um contemporâneo. Trata-se de escrito histórico genuíno, 500 anos antes de Heródoto, o ‘Pai da História’. Torna-se mais fácil compreender essa realização se, segundo as linhas de nossa hipótese, pensarmos na influência egípcia.”

Assim, em quase toda parte ocorreram lacunas observáveis, repetições perturbadoras e contradições óbvias, indicações que nos revelam coisas que não se destinavam a serem comunicadas. Em suas implicações, a deformação de um texto assemelha-se a um assassinato”

Êxodo 4:24-6, segundo a qual, em certa ocasião, Javé ficou irado com Moisés por ele ter negligenciado a circuncisão, e sua esposa madianita salvou-lhe a vida executando rapidamente a operação.”

Com esse objetivo em vista, as lendas dos patriarcas do povo – Abraão, Isaac e Jacó – foram introduzidas. Javé asseverou que ele já era o deus desses antepassados, embora seja verdade que ele próprio teve de admitir que eles não o tinham adorado sob esse nome. Não acrescenta, contudo, qual era o outro nome. E aqui estava a oportunidade para um golpe decisivo contra a origem egípcia do costume da circuncisão: Javé, foi dito, já insistira nela com Abraão e a introduzira como penhor do pacto celebrado entre ele e este último. Mas foi uma invenção particularmente inábil. Como marca destinada a distinguir determinada pessoa das outras e preferir aquela a estas, escolher-se-ia algo que não pudesse ser encontrado em outro povo, e não uma coisa que podia ser exibida,¹ da mesma maneira, por milhões de outras pessoas. Um israelita que se tivesse transplantado para o Egito teria sido obrigado a reconhecer todo egípcio como irmão no pacto, como irmão em Javé.”

¹ Duplo sentido altíssimo: só na brotheragem, ao se cumprimentarem na rua eles baixavam suas calças? Olhe a cabeça cortada de minhas pudendas!

FALA, SÓCIO! “Não devemos esperar que as estruturas míticas da religião dêem demasiada atenção à coerência lógica. De outra maneira, o sentimento popular, justificadamente, poderia ter-se ofendido contra uma divindade que fez um pacto com seus antepassados, com obrigações mútuas, e que depois, por séculos a fio, não mais concedeu atenção a seus sócios humanos, até que, subitamente, lhe ocorreu manifestar-se de novo a seus descendentes. Ainda mais enigmática é a noção de um deus que repentinamente ‘escolhe’ um povo, que o declara como seu e a ele próprio como seu deus. Acredito que este é o único exemplo desse tipo na história das religiões humanas. Comumente, deus e povo estão indissoluvelmente vinculados, são um só desde o próprio início das coisas. Sem dúvida, às vezes ouvimos falar de um povo que adquire um deus diferente, mas nunca de um deus que busca um povo diferente.” Suprema falsificação.

Apelando para os patriarcas, eles estavam, por assim dizer, afirmando seu caráter indígena e defendendo-se contra o ódio que se liga a um conquistador estrangeiro. Foi uma torção hábil declarar que o deus Javé estava apenas devolvendo-lhes o que seus antepassados tinham possuído outrora.”

Nas contribuições posteriores ao texto da Bíblia, colocou-se em efeito a intenção de evitar a menção de Cades. O local em que a religião fora fundada foi definitivamente fixado como sendo o Monte de Deus, o Sinai-Horeb. Não é fácil perceber o motivo para isso; talvez as pessoas não estivessem dispostas a ser lembradas da influência de Madiã. Mas todas as deformações posteriores, especialmente as do período do Código Sacerdotal, tinham outro objetivo em vista. Não havia mais necessidade alguma de alterar descrições de acontecimentos num sentido desejado, pois isso já tinha sido feito havia muito tempo. Mas tomou-se o cuidado de deslocar de volta ordens e instituições da época atual para os tempos primitivos, o cuidado de fundamentá-los, via de regra, na legislação mosaica, de maneira a derivar disso sua reivindicação a serem sagrados e obrigatórios.” Hoje é muito mais fácil mudar a moral cristã, por exemplo: bastam as encíclicas!

Moisés, como Akhenaten, defrontou-se com o mesmo destino que espera todos os déspotas esclarecidos. O povo judeu, sob Moisés, era tão capaz de tolerar uma religião tão altamente espiritualizada e encontrar satisfação de suas necessidades no que ele tinha a oferecer quanto os egípcios da XVIII Dinastia. Em ambos os casos, aconteceu o mesmo: aqueles que tinham sido dominados e mantidos em falta levantaram-se e lançaram fora o fardo da religião que lhes fora imposta. Mas, ao passo que os dóceis egípcios esperaram até que o destino removesse a figura sagrada de seu faraó, os selvagens semitas tomaram o destino nas mãos e livraram-se de seu tirano.” Que judeu é F.!

O ponto fixado seguinte da cronologia é fornecido pela estela do faraó Merenptah (1225-15 a.C.), que se gaba de sua vitória sobre Isiraal (Israel) e da dispersão de sua semente (?).”

Um deus grosseiro, tacanho, local, violento e sedento de sangue prometera a seus seguidores dar-lhes ‘uma terra que mana leite e mel’ e os concitara a exterminar seus habitantes de então ‘ao fio da espada’. É espantoso o quanto resta, apesar de todas as revisões nas narrativas bíblicas, que nos permita reconhecer a natureza original dele. Sequer é certo que sua religião fosse um monoteísmo genuíno, que negasse a divindade das deidades de outros povos. Provavelmente era suficiente que seu povo encarasse seu próprio deus como mais poderoso do que qualquer deus estrangeiro.”

A longo prazo, não fez diferença que o povo tivesse rejeitado o ensinamento de Moisés (provavelmente pouco tempo depois) e o tivesse matado. A tradição desse ensinamento permaneceu e sua influência alcançou (apenas gradativamente, é verdade, no decorrer dos séculos) aquilo que fora negado ao próprio Moisés. O deus Javé conseguira honras imerecidas quando, a partir da época de Cades em diante, fôra creditado com o feito da libertação realizada por Moisés, mas teve de pagar pesadamente por essa usurpação.” “Ninguém pode duvidar de que foi apenas a idéia desse outro deus que capacitou o povo de Israel a sobreviver a todos os golpes do destino e o manteve vivo até nossos dias.” “Mas todo sacrifício e todo cerimonial, no fundo, não eram somente magia e feitiçaria, tais como haviam sido incondicionalmente rejeitados pelo antigo ensinamento mosaico?” Infere-se daqui por que os judeus perderam para o Cristianismo.

foram esses homens, os profetas, que incansavelmente pregaram a antiga doutrina mosaica – a de que a divindade desdenhava o sacrifício e o cerimonial e pedia apenas fé e uma vida na Verdade e na Justiça (Ma’at).” Moisés, o assassinado, matou Jeová, para que Deus-Pai, sem nome, pudesse reinar…

Todo aquele que procurar elaborar a religião mosaica segundo as linhas da religião que encontramos, segundo as crônicas, na vida do povo durante seus primeiros quinhentos anos em Canaã, estará cometendo o mais grave erro metodológico.” Sellin

A história judaica nos é familiar por suas dualidades: dois grupos de pessoas que se reúnem para formar a nação, dois reinos em que essa nação se divide, dois nomes de deuses nas fontes documentárias da Bíblia. A elas, acrescentamos outras duas, novas: a fundação de duas religiões – a primeira reprimida pela segunda, não obstante emergindo depois vitoriosamente, por trás dela, e dois fundadores religiosos, ambos chamados pelo mesmo nome de Moisés e cujas personalidades temos de distinguir uma da outra.”

Continuar meu trabalho segundo linhas como essas seria descobrir um vínculo com as afirmativas que apresentei 25 anos atrás em Totem e Tabu, mas não mais sinto que possua força para fazê-lo.” Strachey é tão burro que inverteu esse comentário no prefácio.

3. Moisés, o seu povo e a religião monoteísta

Descobrimos, para nosso espanto, que o progresso aliou-se à barbárie. Na Rússia Soviética dispuseram-se a melhorar as condições de vida de algumas centenas de milhões de pessoas que eram mantidas firmemente em sujeição. Foram suficientemente precipitados para retirar-lhes o ‘ópio’ da religião e avisados o bastante para conceder-lhes uma razoável quantidade de liberdade sexual; ao mesmo tempo, porém, submeteram-nas à mais cruel coerção e despojaram-nas de qualquer possibilidade de pensamento. Com violência semelhante, o povo italiano está sendo treinado na organização e no sentido de dever. Sentimos como um alívio de uma apreensão opressiva quando vemos, no caso do povo alemão, que uma recaída numa barbárie quase pré-histórica pode ocorrer também sem estar ligada a quaisquer idéias progressistas. De qualquer modo, as coisas revelaram-se tais, que, atualmente, as democracias conservadoras se tornaram as guardiãs do progresso cultural e, estranho é dizê-lo, é precisamente a instituição da Igreja Católica que ergue uma defesa poderosa contra a disseminação desse perigo à civilização – a Igreja que até constituíra o incansável inimigo da liberdade de pensamento e dos progressos no sentido da descoberta da verdade!”

Na data anterior, eu estava vivendo sob a proteção da Igreja Católica, e temia que a publicação de meu trabalho resultasse na perda dessa proteção e conjurasse uma proibição sobre o trabalho dos adeptos e estudiosos da psicanálise na Áustria. Então, subitamente, veio a invasão alemã e o catolicismo mostrou ser, para empregar as palavras da Bíblia, ‘uma cana quebrada’. Na certeza de que seria agora perseguido não apenas por minha linha de pensamento, mas também por minha ‘raça’, acompanhado por muitos de meus amigos abandonei a cidade que, desde minha primeira infância, fora meu lar durante 78 anos.” Ninguém ligava pra você, seu demente, todos estavam preocupados com milhões de destinos e com o mundo inteiro, seu megalomaníaco!

Encontrei a mais amistosa recepção na encantadora, livre e magnânima Inglaterra.” Puxa-saco estatal.

O povo judeu abandonou a religião de Aten que lhes foi dada por Moisés e voltou-se para a adoração de outro deus que pouco diferia dos Baalim dos povos vizinhos. Todos os esforços tendenciosos de épocas posteriores fracassaram em disfarçar esse fato vergonhoso.”

Acredita-se que o século IX ou VIII a.C. viu a origem das duas epopéias homéricas, que hauriram seu material nesse círculo de lendas. (…) poderíamos (…) levanta[r] a questão de saber de onde os gregos conseguiram todo o material legendário elaborado por Homero e os grandes dramaturgos áticos em suas obras-primas. A resposta teria tido de ser a de que esse povo provavelmente experimentara em sua pré-história um período de brilhantismo externo e eflorescência cultural perecido numa catástrofe histórica, do qual uma obscura tradição sobrevivia nessas lendas. As pesquisas arqueológicas de nossos dias confirmaram agora essa suspeita, que no passado certamente teria sido pronunciada como sendo audaciosa demais. Essas pesquisas revelaram as provas da impressionante civilização minóico-miceniana, que provavelmente chegou ao fim na Grécia continental antes de 1250 a.C. Dificilmente uma alusão a ela pode ser encontrada nos historiadores gregos da época posterior; no máximo, uma observação de que houve um tempo em que os cretenses exerciam o comando do mar, e o nome do rei Minos e de seu palácio, o Labirinto. Isso é tudo; além disso nada remanesceu, exceto as tradições de que os poetas se apossaram.

As epopéias nacionais de outros povos – alemães, indianos, finlandeses – também vieram à luz. É tarefa dos historiadores da literatura investigar se podemos presumir em relação à sua origem os mesmos determinantes que os dos gregos. Uma tal investigação renderia, acredito, um resultado positivo. Aqui está o determinante que identificamos: um fragmento de pré-história que, imediatamente depois, estaria sujeito a parecer rico em conteúdo, importante, esplêndido, e sempre, talvez, heróico, mas que jaz tão atrás, em tempos tão remotos, que apenas uma tradição obscura e incompleta informa as gerações posteriores sobre ele. Sentiu-se surpresa por que a epopéia, como forma artística, se tenha extinguido em épocas posteriores. A explicação pode ser que sua causa determinante não existe mais. O velho material foi utilizado e, para todos os eventos posteriores, a escrita histórica tomou o lugar da tradição. Os maiores feitos heróicos de nossos dias não foram capazes de inspirar um poema épico, e mesmo Alexandre, o Grande, tinha direito a se lamentar de não encontrar um Homero.

As eras há muito tempo passadas exercem uma grande e freqüentemente enigmática atração para a imaginação dos homens. Sempre que estão insatisfeitos com seu ambiente atual – e isso acontece quase sempre – se voltam para o passado e esperam ser agora capazes de demonstrar a verdade do imperecível sonho de uma Idade de Ouro.”

Se tudo o que resta do passado são as incompletas e enevoadas lembranças que chamamos de tradição, isso oferece ao artista uma atração peculiar, pois, nesse caso, ele fica livre para preencher as lacunas da memória de acordo com os desejos de sua imaginação e para retratar o período que quer reproduzir segundo suas intenções. Quase se poderia dizer que, quanto mais vaga uma tradição, mais útil ela se torna para um poeta. Não precisamos, portanto, ficar surpresos pela importância da tradição para a escrita imaginativa, e a analogia com a maneira pela qual as epopéias são determinadas nos deixará mais inclinados a aceitar a estranha hipótese de que foi a tradição de Moisés que, para os judeus, alterou a adoração de Javé no sentido da antiga religião mosaica. Contudo, sob outros aspectos, os dois casos ainda são muito diferentes. Por um lado, o resultado é um poema; por outro, é uma religião, e, nesse último caso, presumimos que, sob o acicate da tradição, ele foi reproduzido com uma fidelidade para a qual o exemplo da epopéia naturalmente não pode oferecer contrapartida.” Solução: os semitas eram crédulos até demais.

Num mar de merdas psicanalíticas, F. era às vezes capas de gotas de sabedoria: “[O] domínio mundial. Essa última fantasia de desejo, há muito tempo abandonada pelo povo judeu, ainda sobrevive entre os inimigos desse povo, na crença numa conspiração por parte dos ‘Velhos de Sion’.”

Parece como se um crescente sentimento de culpa se tivesse apoderado do povo judeu, ou, talvez, de todo o mundo civilizado da época (…) até que, por fim, um desses judeus encontrou, ao justificar um agitador político-religioso, ocasião para desligar do judaísmo uma nova religião – a cristã. Paulo, um judeu romano de Tarso, apoderou-se desse sentimento de culpa e o fez remontar corretamente à sua fonte original. Chamou essa fonte de ‘pecado original’; fora um crime contra Deus, e só podia ser expiado pela morte.” “Um filho de Deus se permitira ser morto sem culpa e assim tomara sobre si próprio a culpa de todos os homens. Tinha de ser um filho, visto que fora o assassinato de um pai.”

Paulo, que conduziu o judaísmo à frente, também o destruiu. Fora de dúvida, ele deveu seu sucesso, no primeiro caso, ao fato de, através da idéia do redentor, exorcizar o sentimento de culpa da humanidade, mas deveu-o também à circunstância de ter abandonado o caráter ‘escolhido’ de seu povo e seu sinal visível – a circuncisão –, de maneira que a nova religião podia ser uma religião universal, a abranger todos os homens. Ainda que no fato de Paulo dar esse passo um papel possa ter sido desempenhado por seu desejo pessoal de vingança pela rejeição de sua inovação nos círculos judaicos, ele, contudo, restaurou também uma característica da antiga religião de Aten; afastou uma restrição que essa religião havia adquirido quando fora transmitida a um novo veículo, o povo judeu.” Tudo por medo de cortarem-lhe o piru!

Sob certos aspectos, a nova religião significou uma regressão cultural, comparada com a mais antiga, a judaica, tal como regularmente acontece quando uma nova massa de povo, de um nível mais baixo, consegue ingresso à força ou recebe admissão. A religião cristã não manteve o alto nível em coisas da mente a que o judaísmo se havia alçado. Não era mais estritamente monoteísta, tomou numerosos rituais simbólicos de povos circunvizinhos, restabeleceu a grande deusa-mãe e achou lugar para introduzir muitas das figuras divinas do politeísmo, apenas ligeiramente veladas, ainda que em posições subordinadas. Acima de tudo, como a religião de Aten e a religião mosaica que a seguiu haviam feito, não excluiu o ingresso de elementos surpersticiosos, mágicos e místicos, que deveriam mostrar-se como uma inibição grave sobre o desenvolvimento intelectual dos dois mil anos seguintes.”

É plausível conjecturar que o remorso pelo assassinato de Moisés forneceu o estímulo para a fantasia de desejo do Messias, que deveria retornar e conduzir seu povo à redenção e ao prometido domínio mundial. Se Moisés foi o primeiro Messias, Cristo tornou-se seu substituto e sucessor, e Paulo poderia exclamar para os povos, com certa justificação histórica: ‘Olhai! O Messias realmente veio: ele foi assassinado perante vossos olhos!’

Não são fundamentalmente diferentes, pois não são asiáticos, de uma raça estrangeira, conforme seus inimigos sustentam, mas compostos, na maioria, de remanescentes dos povos mediterrâneos e herdeiros da civilização mediterrânea. São, não obstante, diferentes, com freqüência diferentes de maneira indefinível, especialmente dos povos nórdicos, e a intolerância dos grupos é quase sempre, de modo bastante estranho, exibida mais intensamente contra pequenas diferenças do que contra diferenças fundamentais. O outro ponto possui um efeito ainda maior: a saber, que eles desafiam toda opressão, que as perseguições mais cruéis não conseguiram exterminá-los e que, na verdade, pelo contrário, exibem uma capacidade de manter o que é seu na vida comercial e, onde são admitidos, de efetuar contribuições valiosas a todas as formas de atividade cultural.”

Ainda não superaram um ressentimento contra a nova religião que lhes foi imposta, mas deslocaram esse ressentimento para a fonte de onde o cristianismo os foi buscar. O fato de os Evangelhos contarem uma história que se desenrola entre judeus e que, na verdade, trata apenas de judeus, tornou-lhes fácil esse deslocamento. Seu ódio pelos judeus é, no fundo, um ódio pelos cristãos, e não precisamos surpreender-nos de que, na revolução nacional-socialista alemã, essa relação íntima entre as duas religiões monoteístas encontre expressão tão clara no tratamento hostil que é dado a ambas.” Concordo que aí está toda a justificativa moral do terrorista e assassino Varg Vikernes, por exemplo; embora F. tenha perdido a reconciliação de Hitler com o Catolicismo neste seu comentário, como perderia o fato de que a Igreja Católica foi omissa e conivente com 6 milhões de judeus mortos, quase todos incinerados ou deitados ao gás.

Alá mostrou-se muito mais grato a seu povo escolhido do que Javé ao seu. Mas o desenvolvimento interno da nova religião logo se interrompeu, talvez por lhe faltar a profundidade que, no caso judaico, fora causada pelo assassinato do fundador de sua religião.” F. sempre indo longe demais, sempre caçando Laios para onde quer que aponte sua pena deprimente!

A festa da Páscoa foi introduzida a fim de manter a lembrança desse acontecimento, ou, antes, injetou-se numa festa de antiga criação o conteúdo dessa lembrança: o Êxodo pertencia a um passado enevoado. No presente, os sinais do favor de Deus eram decididamente escassos; a história do povo apontava antes para seu desfavor. Os povos primitivos costumavam depor seus deuses ou até mesmo castigá-los, se deixavam de cumprir seu dever de assegurar-lhes vitória, felicidade e conforto. Em todos os períodos, os reis não foram tratados de modo diferente dos deuses; uma antiga identidade assim se revela: uma origem a partir de uma raiz comum. Assim, também os povos modernos têm o hábito de expulsar seus reis se a glória do reinado deles é conspurcada por derrotas e as perdas correspondentes em território e dinheiro.”

seu Deus, nesse caso, não teria nome nem semblante. Talvez fosse uma nova medida contra abusos mágicos. Mas, se essa proibição fosse aceita, deveria ter um efeito profundo, pois significava que uma percepção sensória recebia um lugar secundário quanto ao que poderia ser chamado de idéia abstrata – um triunfo da intelectualidade sobre a sensualidade, ou, estritamente falando, uma renúncia instintual, com todas as suas seqüências psicológicas necessárias.”

esse afastamento da mãe para o pai aponta, além disso, para uma vitória da intelectualidade sobre a sensualidade” Não cansa de cagar no pau!

Imediatamente após a destruição do Templo em Jerusalém por Tito, o rabino Jochanan ben Zakkai solicitou permissão para abrir a primeira escola de Torá em Jabné. Dessa época em diante, a Escritura Sagrada e o interesse intelectual por ela mantiveram reunido o povo dispersado.”

BÔNUS – AS MENTIRAS QUE OS HOMENS CONTAM

Não deixa de ser simbólico que o maior mentiroso do século XX tenha sido amigo de uma das maiores farsas do fim do séc. XIX (Lou Salomé). Eis um parágrafo mentiroso do fétido necrológio de F. que, quase já ele mesmo uma múmia, sobreviveu à idosa porém mais nova que ele “garotinha da psicanálise e parasita de grandes homens nas horas vagas”:

Sabia-se que, quando moça, ela manteve intensa amizade com Friedrich Nietzsche, baseada em sua profunda compreensão das audazes idéias do filósofo. Esse relacionamento teve um fim abrupto quando ela recusou a proposta de casamento que ele lhe fez. Era bem sabido, também, que, muitos anos depois, ela atuou como Musa e mãe protetora para Rainer Maria Rilke, o grande poeta, que era um pouco desamparado em enfrentar a vida. Além disso, porém, sua personalidade permaneceu obscura.”

PEDOPHILIA AND ADULT-CHILD SEX: A Philosophical Analysis – Stephen Kershnar

INTRODUCTION

Parents value diversity in schools as a way of teaching their children how to interact with people from different racial and ethnic groups. The more diverse the high school, the more students self-segregate by race within the school and the fewer interracial friends they have. That is, more diversity leads to more racial division.” “People assume that racism has to be learned. There is evidence that babies prefer interactions with people of their own race and pre-school children have striking racial preferences. A plausible explanation of this is that there is a genetic preference toward members of the same race. F.E. Aboud, Children and Prejudice (Cambridge, MA: Blackwell, 1989).”

One in a million children is abducted. On average, if one wanted her child to be kidnapped and held overnight by a stranger, she’d have to leave the child outside and unattended for 750,000 years. That is a 5% of the rate of drowning and a 2,5% of the risk of a fatal car accident.”

Even commonly believed dangers turn out to be false. Despite urban myths about poisoned candies and apples with razor blades, no child has ever been killed or seriously injured by Halloween treats.”

Consider concern for ritual or satanic abuse. In the 80s and early 90s, there were many stories and discussions in the media of ritual or satanic abuse of children. There were high-profile prosecutions in California, Minnesota, and Nebraska in the 80s. The most famous was the outrageous McMartin preschool case that was the focus of two different CBS 60 Minutes stories. The concern for such abuse was so widespread that it was respectfully discussed in a number of major magazines and television news shows. It was respectfully discussed in professional psychiatric and psychological journals. It also was the focus of a number of fiction and non-fiction books. The notion that satanic or ritual child abuse took place was a myth and the trials turned out to be witch hunts. A 1994 National Center on Child Abuse and Neglect–sponsored study of allegations of ritualistic sexual abuse found not a single case of group-organized sexual abuse.” “This led to debunking articles in high-profile magazines such as New Yorker, Harper’s, National Review, Vanity Fair, Redbook, Mother Jones, Village Voice, and Playboy.”

SÓ ACONTECE MERDA QUANDO FREUD VOLTA À MODA: “In the 80s, the use of recovered memories to discover sexual abuse of children grew rapidly. More than 20 states changed their laws to better allow the treatment to be used in prosecutions. Later, experts strongly criticized this treatment as unreliable and eventually this criticism was covered in mainstream periodicals such as The New York Times, Time, and Newsweek; news programs such as ABC’s 20/20 and Primetime Live; and a number of books. (…) The treatment eventually looked absurd as patients ‘recovered’ memories of being abducted by alien beings and UFOs.”

Positive and neutral responses to adult-child sex. A significant number of the boy and girl participants in adult-child sex have positive or neutral responses to it, although many had a negative response as well. In discussions of it in the major media, or even around the watercooler, [papos informais, ‘conversa de bebedouro’!] as far as I can tell, this fact about it never comes up.”

Contrary to popular belief, Levine states that the vast majority of criminal-pedophiles do not ravage small children. Rather, they look at child pornography. They’re not even true pedophiles in that their desired objects are adolescents. They are hebephiles.”

If studies about childhood sexuality are strongly counterintuitive and most of us do not have much experience with childhood sexuality (nor have we heard many first-hand accounts), then we do not have much specialized knowledge about children’s sexuality.”

In chapter 1, I argue that a pedophile(*) is a person who has frequent and intense pedophilic desires(**) concerning individuals who appear to be in a pre-pubescent stage. This analysis excludes those who sexually desire children who look like adults and includes those who sexually desire those who are not children but look like them. This definition has several advantages over the clinical definition found in the fourth edition of Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, although the latter’s defects might be the price for an operational definition. This definition allows non-pedophiles to have infrequent or weak pedophilic desires.

(*) A person has pedophilia if and only if he has relatively frequent and intense pedophilic desires.

(**) A pedophilic desire is an inclination in an adult to have sex with a child.”

There are several reasons to believe that pedophilia has an evolutionary explanation.” “If a feature is widespread and persists over evolutionary development, then it probably has some connection or compatibility with fitness-enhancing genes, however indirect. All conditions are present to some degree, although there is less evidence for pedophilia being widespread in our culture than its occurring across humans in other cultures and times and in apes. In the end, there is evidence against its being a dysfunction, but it is not strong.” Todos os termos nesse livro são frouxos e abstratos: several reasons, widespread, probably, indirect, to some degree, not strong… Como são quantitativa e qualitativamente essas palavras? Jamais saberemos.

1. PEDOPHILIA AND ADULT-CHILD SEX

Pedophilic desires are distinct from hebephilia, which is the desire to have sex with pubescent individuals (roughly, ages 13 to 16). The boundaries here are not clear because there is some evidence that men find youthful women to be sexually attractive (roughly age 17) and there is some evidence that many prefer youthful women to women of other ages. Such women are just outside the ordinary range for hebephilic desires and in some cases might not be distinguishable. Because of the widespread nature of this desire and because a similar pattern is found among other primates, it is likely that the desire for young fertile females is at least in part genetic.”

One study found 99% of child molesters are men.” Finalmente algo mais concreto!

a child might be defined in physical (specifically pre-pubescent stage), mental, or chronological terms. For the purposes of pedophilia, a child should be defined in physical terms. Consider a 7-year-old who due to a genetic abnormality looks and sounds like a curvaceous 20-year-old. We would not label an adult a pedophile just because he is attracted to her. The same is true if she also has the mental ability of a 7-year-old. Nor would we think that an adult is a pedophile just because he is attracted to a developmentally disabled (retarded) 20-year-old, even if the woman has the mental age of a 7-year-old.”

Next consider a 20-year-old who due to a genetic abnormality looks and sounds like a 7-year-old. We would think that someone is a pedophile if he is attracted to her and he has relatively frequent and intense similar desires. An interesting portrayal of a woman who appears much younger is found in a Law & Order: Special Victims Unit episode (8×2, 2006) that focuses on a woman with Turner syndrome.”

Under the DSM-IV-TR 302.2, the specific criteria for pedophilia are the following.

1. Over a period of at least 6 months, recurrent, intense sexually arousing fantasies, sexual urges, or behaviors involving sexual activity with a prepubescent child or children (generally age 13 years or younger);

2. The person has acted on these sexual urges, or the sexual urges or fantasies cause marked distress or interpersonal difficulty;

3. The person is at least age 16 years and at least 5 years older than the child or children in the first criterion.”

Unlike the 2nd condition, my definition is compatible with the notion that a pedophile might have neither acted on his pedophilic desires nor does it cause him distress or interpersonal difficulty, and this seems intuitively correct. One can imagine a pedophile who fantasizes about having sex with children but does not act on it for moral reasons or because he fears the harsh punishment that would follow were he caught. Similarly, one can imagine a pedophile, perhaps with a psychopathic personality, for whom the desires cause neither distress nor interpersonal difficulty. We can further imagine a psychopath who has the desire but does not act on it for fear of punishment and yet does not suffer distress or interpersonal difficulty.”

my definition does not allow for mere fantasies with regard to adult-child sex. The fantasy condition is too broad because not all fantasies are sexual and because a fantasy might not involve or be connected to the subject being sexually aroused by adult-child sex. For example, it is at least possible that a person fantasizes about watching adult-child sex with his gay lover because the lover enjoys it and it leads to great sex between the lover and the person having the fantasy.”

Lastly, the 5-year difference is irrelevant. It is possible that a 20-year-old looks and sounds like a 7-year-old. Another 20-year-old who was attracted to her would be a pedophile even though he would not satisfy the 5-years-older requirement. The 16-years-or-older requirement depends on whether individuals become adults at 16. If this is mistaken, then this minimum age requirement is also mistaken.

Consider, for example, Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971), which portrays a prostitute having sex with a young towel boy at a brothel. If the actress playing the prostitute had sex with the boy to make the film more realistic but did not desire him, then this would not have been an instance of pedophilic or hebephilic sex because of the absence of desire.

This account does not require that pedophiles be more aroused by children than adults or that they prefer sex with children rather than adults. That is, it does not require pedophilia to be a primary sexual orientation. Sexual preference for children over adults is required for pedophilia if it is viewed as a type of sexual orientation. The idea here is that our interest is in assessing people who are often sexually aroused by children regardless of what else arouses them.”

For the purposes of this publication the term ‘pedophile’ when used will be defined as a significantly older individual who prefers to have sex with individuals legally considered children. Pedophiles are individuals whose erotic imagery and sexual fantasies focus on children. They do not settle for child victims, but, in fact, clearly prefer to have sex with children. The law, not puberty, will determine who is a child.

The above definition, which comes from the U.S. Department of Justice, has a practical purpose (law enforcement) that likely explains its adoption. This definition makes it arbitrary how the state should define ‘child’. Were the State to define Asian women in their 20s as children, adults who have sexual relations with them would be pedophiles. Also, if the law were to change, then a person could go from being a pedophile to not being one without any change in his intrinsic properties. Both results are absurd.”

Genital contact is not necessary for sex because of the possibility of parallel sexual acts. Consider, for example, cybersex.”

2. PEDOPHILIA AND MENTAL DISORDER

In this chapter, I argue that pedophilia is not a mental disorder. Before looking at the argument, we might consider why this issue matters. The moral status of an act is independent of whether it springs from a disorder. For example, a hypochondriac who steals medicine to treat himself acts wrongly even if the theft was motivated in part by his hypochondria.” Comparação esdrúxula. Atos sexuais pedófilos continuam sendo crime, “pedofilia” continua sendo distúrbio psiquiátrico e impune se se atém à imaginação do paciente.

If pedophilia is a disorder, then it is likely permissible to encourage pedophiles to get treatment for it, assuming effective treatment is available.” Seria bom, né!

Fourth, if pedophilia is a disorder, then we should try to eradicate its causes or ameliorate its effects.” Um pouco mais difícil que a alternativa acima…

(…)

Abandonei por ser uma leitura fraca. Nada de “philosophical analysis”: texto jurídico-formal enfadonho…

HOW TO READ LACAN ou: COMO, ATRAVÉS DA LENTE ZIZEKIANA, EVITAR LER LACAN PARA NÃO PERDER SEU TEMPO (E REFERÊNCIAS SEM FIM AO CINEMA POP) – Slavoj Žižek, 2006.

INTRODUCTION

In 2000, the 100th anniversary of the publication of F.’s The Interpretation of Dreams was accompanied by a new wave of triumphalist acclamations of the death of psychoanalysis (…) it is buried where it always belonged, in the lumber-room of pre-scientific obscurantist quests for hidden meanings, alongside religious confessors and dream-readers. As Todd Dufresne [Killing Freud: 20th century culture and the death of psychoanalysis, 2004] puts it, no figure in the history of human thought was more wrong about all its fundamentals (…) It was only to be expected that in 2005 (…) The Black Book of Psychoanalysis¹ [appeared]”

¹ Em breve no Seclusão.

Lacan did not understand his return as a return to what F. said, but to the core of the Freudian revolution of which F. himself was not aware.” Era a única maneira de manter F. vivo (dizer que ele disse tudo que ele jamais disse)!

each chapter of this book will confront a passage from L. with another fragment from philosophy, art, popular culture and ideology.” Zizek exagera um pouquinho na CARGA POP…

by cutting himself off from the decaying corpse of the IPA, L. kept the Freudian teaching alive.” Protestantismo de merda – o culto nunca morre, sempre sobrevive através de cisões infinitas!

1. EMPTY GESTURES AND PERFORMATIVES: LACAN CONFRONTS THE CIA PLOT

Timeo Danaos, et dano ferentes”

Novelas mexicanas são filmadas em ritmo tão frenético (todo dia um episódio de 25 minutos) que os atores sequer recebem o roteiro a fim de aprender as falas antecipadamente; eles colocam pequenos pontos auriculares para saberem o que devem fazer, e aprendem seu papel a partir do que escutam, instantaneamente (‘Agora dê um sopapo nele e diga-lhe que o odeia! Agora abrace-o!…’). Esse proceder nos oferece uma imagem do quê, de acordo com a percepção comum, Lacan quer dizer com seu ‘grande Outro’.”

O TERCEIRO: “Essa referência onipresente a um Outro é o tema de uma piada de baixo nível sobre um caipira que, vítima de um naufrágio, acha-se confinado numa ilha com, digamos, Cindy Crawford. Depois de fazer sexo com ele, ela pergunta como foi; sua resposta é ‘ótimo!’, mas ele ainda tem um pequeno pedido a fazer para se sentir inteiramente satisfeito – pode ela se vestir como seu melhor amigo, colocando umas calças e pintando um bigode? Ele lhe afiança que não é nenhum tipo de obscuro pervertido, o que ela entenderá assim que cumprir o pequeno favor. Quando ela está pronta, ele se aproxima, dá-lhe uma cutucada nas costelas e dispara, com malícia de macho: ‘Adivinha só? Acabei de comer a Cindy Crawford!’. Esse Terceiro, sempre testemunha, trai a possibilidade de um prazer privado inocente verdadeiro. O sexo é sempre minimamente exibicionista e depende do olhar de mais alguém. Esse Outro só existe enquanto faz-de-conta.” Victor Hugo (um charlatão com que fiz análise) mente.

Sempre pode-se dizer que a única carta que verdadeiramente alcança o destinatário é a carta não-enviada – o endereço não é de carne-e-osso, mas ninguém senão esse grande Outro.”

Escrever uma carta e guardá-la na gaveta é enviá-la.”

Após me envolver numa competição feroz por uma promoção no trabalho com o meu melhor amigo, se eu ganho, o adequado a se fazer é declinar do cargo, fazendo do derrotado o beneficiário; e o adequado para o amigo fazer é rejeitar por sua vez e devolver-me a vaga – dessa forma, quem sabe, a amizade pode ser salva.”

o que escapa do sociopata é o fato de que ‘muitos atos humanos são executados . . . apenas pela interação em si mesma’.” Ele faltou o ensaio da banda, ou da colação de grau.

Cansamos desse tipo de reciprocidade hipócrita. Somos majoritariamente sociopatas sem remorsos!

In a traditional German toilet, the hole in which shit disappears after we flush water is way up front, so that shit is first laid out for us to sniff at and inspect for traces of any illness; in the typical French toilet the hole is far to the back, so that shit may disappear as soon as possible; finally, the American toilet presents a kind of synthesis, a mediation between these two opposed poles – the toilet basin is full of water, so that the shit floats in it, visible, but not to be inspected. No wonder that, in the famous discussion of different European toilets at the beginning of her half-forgotten Fear of Flying, Erica Jong mockingly claims that ‘German toilets are really the key to the horrors of the Third Reich. People who can build toilets like this are capable of anything.’

2. THE INTERPASSIVE SUBJECT: LACAN TURNS A PRAYER WHEEL

The prayer wheels of Tibet: I attach a piece of paper with the prayer written on it to the wheel, turn it around mechanically (or, even more practically, let the wind or water turn it round), and the wheel is praying for me”

the canned laughter on a TV show, when the reaction of laughter to a comic scene is included in the soundtrack itself. Even if I do not laugh, but simply stare at the screen, tired after a hard day’s work, I nonetheless feel relieved after the show, as if the soundtrack has done the laughing for me.

To properly grasp this strange process, one should supplement the fashionable notion of interactivity with its uncanny double, interpassivity.”

Although I do not actually watch the films, the very awareness that the films I love are stored in my video library gives me a profound satisfaction, and occasionally enables me to simply relax and indulge in the exquisite art of far niente – as if the VCR is in a way watching them for me, in my place. VCR stands here for the big Other”

Therein resides the typical strategy of the obsessional neurotic: he is frantically active in order to prevent the real thing from happening.”

People intervene all the time, attempting to ‘do something’, academics participate in meaningless debates; the truly difficult thing is to step back and withdraw from it. Those in power often prefer even a critical participation to silence”

The paradox of Predestination is that the theology which claims that our fate is determined in advance and that our redemption does not depend on our acts served as the legitimization of capitalism, the social system that triggered the most frantic productive activity in the history of humanity.”

As every historian knows, Scottish kilts (in the form they are known today) were invented in the course of the 19th century.”

According to a well-known anthropological anecdote, the primitives to whom certain superstitious beliefs were attributed (that they descended from a fish or from a bird, e.g.), when directly asked about these beliefs, answered: ‘Of course not – I’m not that stupid! But I have been told that some of our ancestors actually did believe that…’

Niels Bohr, who had aptly replied to Einstein’s ‘God doesn’t play dice’ (‘Don’t tell God what to do!’), also provided the perfect example of how a fetishist disavowal of belief works in ideology. Seeing a horseshoe on Bohr’s door, a surprised visitor remarked that he didn’t believe in the superstition that it brought luck. Bohr snapped back: ‘I don’t believe in it either; I have it there because I was told that it also works if one does not believe in it!’

Why are you saying you’re glad to see me, when you’re REALLY glad to see me?”

what is false about ‘reality’ TV shows: the life we get in them is as real as decaf coffee.”

The standard disclaimer in a novel (‘The characters in this text are a fiction; any resemblance to real-life characters is purely accidental’) holds also for the participants of reality soaps”

Richard II is Shakespeare’s ultimate play about hystericization (in contrast to Hamlet, the ultimate play about obsession).” Mas Zizek dirá algumas dúzias de páginas depois que para Lacan histeria e obsessão são tudo a mesma coisa (basicamente matizes de neuroses).

in the Rawls model of a just society, social inequalities are tolerated only in so far as they also help those at the bottom of the social ladder, and in so far as they are not based on inherited hierarchies, but on natural inequalities, which are considered contingent, not signifying merit. What Rawls doesn’t see is how such a society would create the condition for an uncontrolled explosion of resentment: in it, I would know that my inferior status is fully justified, and would be deprived of blaming my failure on social injustice.” “No wonder that even today’s conservatives are ready to endorse Rawls’ notion of justice” “the good thing about success or failure in free-market is that it allows me to perceive my failure as undeserved, contingent.”

Lacan shares with Nietzsche and Freud the idea that justice as equality is founded on envy: our envy of the other who has what we do not have, and who enjoys it. The demand for justice is ultimately the demand that the excessive enjoyment of the other should be curtailed, so that everyone’s access to enjoyment will be equal. The necessary outcome of this demand, of course, is asceticism: since it is not possible to impose equal enjoyment, what one can impose is an equally shared phohibition.”

Enjoy! We are all under the spell of this injunction, with the result that our enjoyment is more hampered than ever – recall the yuppie who combines narcissistic self-fulfillment with the utterly ascetic discipline of jogging and eating health food. This, perhaps, is what Nietzsche had in mind with his notion of the Last Man”

Virtual Reality is experienced as reality without being so.”

3. FROM CHE VUOI?(*) TO FANTASY: LACAN WITH EYES WIDE SHUT

(*) O que desejas?

Zizek diz com todas as palavras: Lacan não passa de um filósofo confinado entre a fenomenologia e o estruturalismo.

What’s bugging you? What is it in you that makes you so unbearable not only for us, but also for yourself, that you yourself obviously do not control?”

There exists a creature that is perfectly harmless; when it passes before your eyes, you hardly notice it and immediately forget it again. But as soon as it somehow, invisibly, gets into your ears, it begins to develop, it hatches, and cases have been known where it has penetrated into the brain and flourished there devastatingly, like the pneumococci in dogs which gain entrance through the nose . . . This creature is Your Neighbor.” Rilke

why the hell did you tell me you liked me? Answer me, because I didn’t like you saying that at all. You can’t just walk up to a woman you barely know and tell her you like her. Y-o-u-c-a-n’t. You don’t know what she’s going through, what she’s feeling. I’m not married, you know. I’m not anything in this world. I’m just not anything.”

a Third has to step in between me and my neighbours so that our relations do not explode in murderous violence.”

In contrast to Althusser, Lacan advocates that we recognize practical anti-humanism, an ethics that goes beyond the dimension of what Nietzsche called ‘human, all too human’, and confronts the inhuman core of humanity. This means an ethics that fearlessly stands up to the latent monstrosity of being human, the diabolic dimension that erupted in the phenomena broadly covered by the label Auschwitz.”

He is not human is not the same as he is inhuman. He is not human means simply that he is external to humanity, animal or divine, while he is inhuman means something thoroughly different, namely the fact that he is neither human nor inhuman, but marked by a terrifying excess which, although it negates what we understand as humanity, is inherent to being human. And perhaps one should risk the hypothesis that this is what changes with the Kantian philosophical revolution: in the pre-Kantian universe, humans were simply humans, beings of reason, fighting the excess of animal lusts and divine madness, while with Kant, the excess to be fought is immanent and concerns the very core of subjectivity itself. (Which is why, in German Idealism, the metaphor for the core of subjectivity is Night, the ‘Night of the World’, in contrast to the Enlightenment notion of the Light of Reason fighting the darkness around.)”

A couple of years ago, Slovene feminists raised a hue and cry against a poster for sun lotion issued by a large cosmetics factory depicting a number of suntanned female rears clad in clinging swimsuits and accompanied by the slogan To each her own factor. Of course, this ad was based on a tacky double entendre: the slogan ostensibly referred to the sun lotion, which was offered to customers with different sun factors so as to suit different skin types; however, its entire effect was based on its obvious male-chauvinist reading: Each woman can be had, if only the man knows her factor, her specific catalyst, what turns her on!

Reds integrates the October Revolution – for Hollywood the most traumatic historical event – into the Hollywood universe by staging it as the metaphorical background for the sexual act between the movie’s main characters, John Reed (played by Warren Beatty) and his lover (Diane Keaton).” “the cries of the crowd serve as a metaphor for the rebirth of passion. The key mythical scenes of the revolution (street demonstrations, the storming of the Winter Palace) alternate with the depiction of the couple’s lovemaking, against the background of the crowd singing the International.” “Here we have the exact opposite of that Soviet socialist realism in which lovers would experience their love as a contribution to the struggle for socialism, making a vow to sacrifice all their private pleasures for the cause of the revolution and to drown themselves in the masses”

In his recently discovered secret diaries, Wittgenstein reports that, while masturbating at the Front during World War I, he was thinking about mathematical problems.”

In other words, psychoanalysis allows us to formulate a paradoxical phenomenology without a subject – phenomena arise that are not phenomena of a subject, appearing to a subject.”

For standard [?] feminism it is an axiom that rape is a violence imposed from without: even if a woman fantasizes about being raped or brutally mistreated, this is either a male fantasy about women, or a woman does it in so far as she has ‘internalized’ the patriarchal libidinal economy and endorsed her victimization” “So the moment one mentions that a woman may fantasize about being raped, one hears it objected that ‘This is like saying that Jews fantasize about being gassed in the camps, or that African-Americans fantasize about being lynched!’” “The practical conclusion from this is that while (some) women really may daydream about being raped, this fact not only in no way legitimizes the actual rape, but renders it all the more violent.” “the core of our fantasy is unbearable to us.”

it is not that dreams are for those who cannot endure reality, reality itself is for those who cannot endure their dreams.”

The scenario was as follows: when the smoke disturbed his sleep, the father quickly constructed a dream that incorporated the disturbing element (smoke-fire) in order to prolong his sleep; however, what he confronted in the dream was a trauma (of his responsibility for the son’s death) much stronger than reality, so he awakened into reality in order to avoid the Real.”

After Tom Cruise confesses his night’s adventure to Nicole Kidman and they are both confronted with the excess of their fantasizing, Kidman – upon ascertaining that now they are fully awake, back into the day, and that, if not for ever, at least for a long time, they will stay there, keeping the fantasy at bay – tells him that they must do something as soon as possible. ‘What’ he asks, and her answer is: ‘Fuck.’ End of the film, the final credits roll. The nature of the passage à l’acte as the false exit, the way to avoid confronting the horror of the phantasmatic netherworld, was never so bluntly stated in a film: far from providing them with a real-life bodily satisfaction that will supersede empty fantasizing, the passage to the act is presented as a stopgap, as a desperate preventive measure aimed at keeping at bay the spectral netherworld of fantasies. It is as if her message is Let’s fuck right now, and then we can stifle our teeming fantasies, before they overwhelm us again.Ou tudo era só uma piada metalingüística de Kubrick sobre Tom Cruise e Nicole Kidman realmente irem foder na vida real, sem luz e câmera, mas com muita ou pouca ação… Além disso, como easter-egg ou sobremesa, ofereceu a predição (muito simples de fazer para grandes estrelas, aliás) de que o casal se divorciaria eventualmente.

4. TROUBLES WITH THE REAL: LACAN AS A VIEWER OF ALIEN

Every word has a weight here, in this deceptively poetic [and boring] description of the mythic creature called by Lacan the ‘lamella’ (which can vaguely be translated as ‘manlet’, a condensation of ‘man’ and ‘omelet’), an organ that gives body to libido. Lacan imagines the lamella as a version of what F. called ‘partial object’ [he never ever wrote that expression!]”

A lamella is indivisible, indestructible and immortal – more precisely, undead in the sense this term has in horror fiction”

Esforço sobre-humano (talvez inhuman!) para salvar o conceito de death drive freudiano…

Andersen’s The Red Shoes, the story of a girl who puts on magic shoes that move on their own and compel her to dance on and on. The shoes stand for the girl’s unconditional drive, which persists, ignoring all human limitations, so that the only way the poor girl can get rid of them is to cut off her legs.”

MR. OBVIOUS: “For those used to dismissing Lacan as just another ‘postmodern’ relativist, this may come as a surprise: Lacan is resolutely anti-postmodern, opposed to any notion of science as just another story we are telling ourselves about ourselves, a narrative whose apparent supremacy over other – mythic, artistic – narratives is grounded only in the historically contingent Western ‘regime of truth’.”

De página em página dizendo “esse conceito de Lacan é muito complexo!”, “é mais complexo do que se imagina!”, “ao contrário do que muitos pensam, não é tão simples de entender!”… Pff.

não tem nada a ver com a coisa-em-si de Kant” E quem foi que disse que tem?

If there is a notion of the real, it is extremely complex and, because of this, incomprehensible, it cannot be comprehended in a way that would make an All out of it. How, then, are we to find our way and introduce some clarity into this conundrum of the Reals?”

Tive que abortar a leitura desse capítulo quando começou a falar do sonho da injeção de Irma. Não SUPORTO mais qualquer referência a essa fabricação!

5. EGO IDEAL AND SUPEREGO: LACAN AS A VIEWER OF CASABLANCA

F. hipostaseou uma entidade chamada “superego”. Lacan vai além e divide o que já não existe em mais TRÊS entidades!

6. “GOD IS DEAD, BUT HE DOESN’T KNOW IT”: LACAN PLAYS WITH BOBOK

Alguns fragmentos de Lacan são peças de um quebra-cabeça que temos de resolver” Não me diga, Einstein!

if God exists, then everything is permitted – is this not the most succinct definition of the religious fundamentalist’s predicament?” Eu só fico puto porque um autor precisa usar Lacan de muleta para abordar um tema desses…

suck, sink

How are we to account for this paradox? Think of the situation known to most of us from our youth: the unfortunate child who, on Sunday afternoon, has to visit his grandmother instead of being allowed to play with friends. The old-fashioned authoritarian father’s message to the reluctant boy would have been: ‘I don’t care how you feel. Just do your duty, go to your grandma’s and behave yourself there!’ (…) although forced to do something he clearly doesn’t want to, he will retain his inner freedom and the ability to (later) rebel against the paternal authority. Much more tricky would have been the message of a ‘postmodern’ non-authoritarian father: ‘You know how much your grandmother loves you! But, nonetheless, I do not want to force you to visit her – go there only if you really want to!’ Every child who is not stupid (which is to say most children) will immediately recognize the trap of this permissive attitude: beneath the appearance of free choice there is an even more oppressive demand than the one formulated by the traditional authoritarian father, namely an implicit injunction not only to visit Grandma, but to do it voluntarily, out of the child’s free will. Such a false free choice is the obscene superego injunction: it deprives the child even of his inner freedom, instructing him not only what to do, but what to want to do.”

For decades, a classic joke has circulated among Lacanians to exemplify the key role of the Other’s knowledge: a man who believes himself to be a grain of seed is taken to a mental institution where the doctors do their best to convince him that he is not a seed but a man. When he is cured (convinced that he is not a grain of seed but a man) and is allowed to leave the hospital, he immediately comes back trembling. There is a chicken outside the door and he is afraid that it will eat him. ‘My dear fellow’, says his doctor, ‘you know very well that you are not a grain of seed but a man.’ ‘Of course I know that’, replies the patient, ‘but does the chicken know it?’

In other words, when a Marxist encounters a bourgeois subject immersed in commodity fetishism, the Marxist’s reproach to him is not: ‘The commodity may seem to you to be a magical object endowed with special powers, but it really is just a reified expression of relations between people’, but rather: ‘You may think that the commodity appears to you as a simple embodiment of social relations (that, e.g., money is just a kind of voucher entitling you to a part of the social product), but this is not how things really seem to you. In your social reality, by means of your participation in social exchange, you bear witness to the uncanny fact that a commodity really appears to you as a bourgeois object endowed with special powers.’” O reaça pensa que o comuna não tem direito a sentir o que é decorrência necessária do social, por isso a piadinha (que ele leva a sério – eis o único problema) do iphone.

Above all, things like money, stock-exchange, the foreign currency administration, type-writer, are for Kafka thoroughly mystical (what they effectively are, only not for us, the others).” Milena Jesenska

K. was able to experience directly these phantasmatic beliefs that we ‘normal’ people disavow.”

Dostoievsky provided the most radical version of the idea that If God doesn’t exist, then everything is permitted in Bobok, his weirdest short story, which even today continues the perplex interpreters. Is this bizarre ‘morbid fantasy’ simply a product of the author’s own mental sickness? Or is it a cynical sacrilege, an abominable attempt to parody the truth of the divine Revelation as disclosed in the Holy Bible?”

The great thing is that we have 2 or 3 months more of life and then – bobok! I propose to spend these 2 months as agreeably as possible, and so to arrange everything on a new basis. Gentlemen! I propose to cast aside all shame.”

(All passages are from www.kiosk.com/dostoevsky/livrary/bobok.txt)” É claro que já está off-line! Dez anos é um tempo mais macarrônico, labiríntico e improvável na world wide web do que seriam mil anos numa biblioteca mofada… É assim que finalmente esqueceremos toda a literatura mundial dentro em breve…

No fim, a crítica literária zizekiana é tão bobinha e ingênua… Cada vez mais eu acho que Dostoievsky diminui de estatura, também, para mim… Relendo-o aos poucos chego à conclusão de que seu realismo era mais unidimensional do que um dia já cri…

7. THE PERVERSE SUBJECT OF POLITICS: LACAN AS A READER OF MOHAMMAD BOUYERI

A true Stalinist politician loves mankind, yet carries out horrible purges and executions – his heart is breaking while he does it, but he cannot help it, it is his Duty towards the Progress of Humanity.” “In her Eichmann in Jerusalem, Hannah Arendt provided a precise description of this sidestep that Nazi executioners accomplished in order to be able to endure the horrible acts they performed. Most of them were not simply evil, they were well aware that they were doing things that brought humiliation, suffering and death to their victims. The way out of this predicament was that ‘instead of saying: What horrible things I did to people!, the murderers would be able to say: What horrible things I had to watch in the pursuance of my duties, how heavily the task weighed upon my shoulders!’”

When, on 2 November 2004, the Dutch documentary filmmaker Theo van Gogh was murdered in Amsterdan by the Islamist extremist Mohammad Bouyeri, a letter was found stuck into a knife wound in his belly, addressed to his friend Hirshi Ali, a female Somali member of the Dutch parliament known as a fierce fighter for the rights of Muslim women. If there ever was a ‘fundamentalist’ document, this is one: (…) Since your appearance in the Dutch political arena you have been constantly busy criticizing Muslims and terrorizing Islam with your statements.

from If you are truthful, you should not fear death, a pervert passes to If you wish death, you are truthful.” Zaratustra deturpado – mas mais ou menos?! Qual a escala da deturpação?!

This brings us to Lacan’s depiction of the pervert (…)” É esse tipo de link forçado que estraga completamente a leitura!

The late Pope John Paul II propagated the Catholic ‘culture of Life’ as our only hope against today’s nihilist ‘culture of death’”

a man can only pretend to be a woman; only a woman can pretend to be a man who is pretending to be a woman, because only a woman can pretend to be what she isEsse estilo de discurso essencialista de Zizek em pleno 2006 soa muitíssimo ultrapassado – ainda presa da má consciência sartreana.

NOTES

Signifier is a technical term, coined by Saussure, which Lacan uses in a very precise way” Bela forma de dizer que Lacan usa uma palavra arbitrária e/ou erradamente.

O “a” de pequeno objeto a decorre de autre. E Lacan não o diz em nenhuma de suas talvez mais de 20 mil páginas… Então, bom (ou mau?) saber!

One of the ridiculous excesses of this joint venture of religious fundamentalism and the scientific approach is taking place today in Israel, where a religious group convinced of the literal truth of the Old Testament prophecy that the Messiah will come when a calf that is totally red is born, is expending huge amounts of time and energy to produce such a calf, through genetic engineering.”

LUDWIG FEUERBACH AND THE END OF CLASSICAL GERMAN PHILOSOPHY (1886) – Engels + apêndice de Marx

FOREWORD

We abandoned the manuscript to the gnawing criticism of the mice¹ all the more willingly as we had achieved our main purpose—self-clarification.

Since then more than 40 years have elapsed and Marx died without either of us having had an opportunity of returning to the subject. We have expressed ourselves in various places regarding our relation to Hegel, but nowhere in a comprehensive, connected account. To Feuerbach, who after all in many respects forms an intermediate link between Hegelian philosophy and our conception, we never returned.”

¹ É incrível como o homem alemão do século XIX pudesse ser censurado em trabalhos de caráter extremamente “especulativo” (pelo menos assim deveria ser encarado o materialismo dialético na mesma geração de seu surgimento)!

and even in Germany itself people appear to be getting tired of the pauper’s broth of eclecticism which is ladled out in the universities there under the name of philosophy.”

Equally, a full acknowledgement of the influence which Feuerbach, more than any other post-Hegelian philosopher, had upon us during our period of storm and stress, appeared to me to be an undischarged debt of honour. I therefore willingly seized the opportunity when the editors of the Neue Zeit asked me for a critical review of Starcke’s book on Feuerbach. My contribution was published in that journal in the fourth and fifth numbers of 1886 and appears here in revised form as a separate publication.”

On the other hand, in an old notebook of Marx’s I have found the eleven theses on Feuerbach printed here as an appendix. These are notes hurriedly scribbled down for later elaboration, absolutely not intended for publication, but invaluable as the first document in which is deposited the brilliant germ of the new world outlook.

London, February 21, 1888

Frederick Engels”

I

The volume before us [o livro de Starcke citado no prefácio] carries us back to a period which, although in time no more than a generation behind us, has become as foreign to the present generation in Germany as if it were already 100 years old. Yet it was the period of Germany’s preparation for the Revolution of 1848; and all that had happened since then in our country has been merely a continuation of 1848, merely the execution of the last will and testament of the revolution.

Just as in France in the 18th century, so in Germany in the 19th, a philosophical revolution ushered in the political collapse.”

O SISTEMA TERMINAL DE TODO DESENVOLVIMENTO – O SISTEMA HEGELIANO: “The French were in open combat against all official science, against the church and often also against the state; their writings were printed across the frontier, in Holland or England, while they themselves were often in jeopardy of imprisonment in the Bastille. On the other hand, the Germans were professors, state-appointed instructors of youth; their writings were recognised textbooks, and the terminating system of the whole development—the Hegelian system—was even raised, as it were, to the rank of a royal Prussian philosophy of state! Was it possible that a revolution could hide behind these professors, behind their obscure, pedantic phrases, their ponderous, wearisome sentences? Were not precisely those people who were then regarded as the representatives of the revolution, the liberals, the bitterest opponents of this brain-confusing philosophy? But what neither the government nor the liberals saw was seen at least by one man as early as 1833, and this man was indeed none other than Heinrich Heine.¹”

¹ Engels se referia ao livro On the History of Religion and Philosophy in Germany.

Aplicação da frase “tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional” ao Estado alemão: “The Prussians of that day had the government that they deserved.”

Se se passa fome no Brasil em 2021, digamos que a responsabilidade é do “brasileiro metafísico”: “and if [the State] nevertheless appears to be evil, but still, in spite of its evil character, continues to exist, then the evil character of the government is justified by the corresponding evil character of its subjects.” Há um momento, entretanto, em que há a intervenção do irreal e do irracional na ‘política’: “The Roman Republic was real, but so was the Roman Empire, which superseded it. In 1789 the French monarchy had become so unreal, that is to say, so robbed of all necessity, so irrational, that it had to be destroyed by the Great Revolution, of which Hegel always speaks with the greatest enthusiasm.”

A transvaloração de todos os valores é uma necessidade.

Truth, the cognition of which is the business of philosophy, was in the hands of Hegel no longer an aggregate of finished dogmatic statements, which, once discovered, had merely to be learned by heart. Truth lay now in the process of cognition itself, in the long historical development of science, which mounts from lower to ever higher levels of knowledge without ever reaching, by discovering so-called absolute truth, a point at which it can proceed no further, where it would have nothing more to do than to fold its hands and gaze with wonder at the absolute truth to which it had attained.” “Just as knowledge is unable to reach a complete conclusion in a perfect, ideal condition of humanity, so is history unable to do so” “The conservatism of this mode of outlook is relative; its revolutionary character is absolute—the only absolute dialectical philosophy admits.”

DECADÊNCIA: “At any rate we still find ourselves a considerable distance from the turning-point at which the historical course of society becomes one of descent, and we cannot expect Hegelian philosophy to be concerned with a subject which natural science,¹ in its time, had not at all placed upon the agenda as yet.”

¹ Referência a Darwin, realmente? Mas então ou o socialismo estava errado ou a teoria da distância em relação à decadência o estava: a Europa dos sécs. XVIII e XIX já era expressão da decadência e desagregação sociais. Forçosamente devemos reconhecer que essa desagregação apenas continua até o dia de hoje.

he was compelled to make a system and, in accordance with traditional requirements, a system of philosophy must conclude with some sort of absolute truth. Therefore, however much Hegel, especially in his Logic, emphasised that this eternal truth is nothing but the logical, or, the historical, process itself, he nevertheless finds himself compelled to supply this process with an end, just because he has to bring his system to a termination at some point or other.”

But at the end of the whole philosophy a similar return to the beginning is possible only in one way. Namely, by conceiving of the end of history as follows: mankind arrives at the cognition of this self-same absolute idea, and declares that this cognition of the absolute idea is reached in Hegelian philosophy. In this way, however, the whole dogmatic content of the Hegelian system is declared to be absolute truth, in contradiction to his dialectical method, which dissolves all dogmatism.”

And so we find at the conclusion of the Philosophy of Right that the absolute idea is to be realized in that monarchy based on social estates which Frederick William III so persistently but vainly promised to his subjects, that is, in a limited, moderate, indirect rule of the possessing classes suited to the petty-bourgeois German conditions of that time; and, moreover, the necessity of the nobility is demonstrated to us in a speculative fashion.”

O CAVALO DE RAÇA QUE SE CONTENTOU COM DAR UMA VOLTINHA DE SPARRING E NÃO COMPETIU PELO OURO OLÍMPICO: “The inner necessities of the system are, therefore, of themselves sufficient to explain why a thoroughly revolutionary method of thinking produced an extremely tame political conclusion.”

As a matter of fact the specific form of this conclusion springs from this, that Hegel was a German, and like his contemporary Goethe had a bit of the philistine’s queue dangling behind. Each of them was an Olympian Zeus in his own sphere, yet neither of them ever quite freed himself from German philistinism.”

As conclusões tão timoratas do sistema hegeliano resultam disso: que Hegel era alemão, e como seu contemporâneo Goethe tinha um quê da tendência filistéia, fio que lhes conduzia os pensamentos. Cada um deles era um Zeus Olímpico em sua própria esfera, mas nenhum conseguiu livrar-se do filisteísmo germânico.”

The phenomenology of mind (which one may call a parallel of the embryology and palaeontology of the mind, a development of individual consciousness through its different stages, set in the form of an abbreviated reproduction of the stages through which the consciousness of man has passed in the course of history), logic, natural philosophy, philosophy of mind, and the latter worked out in its separate, historical subdivisions: philosophy of history, of right, of religion, history of philosophy, aesthetics, etc.—in all these different historical fields Hegel laboured to discover and demonstrate the pervading thread of development. And as he was not only a creative genius but also a man of encyclopaedic erudition, he played an epoch-making role in every sphere.”

A fenomenologia da mente (que pode também ser chamada de uma embriologia e paleontologia paralelas da mente, um desenvolvimento da consciência individual por seus diferentes estágios, disposta na forma de uma reprodução abreviada dos estágios que a consciência do homem atravessara no decurso da história), a lógica, a filosofia natural, a filosofia da mente, cada uma desdobrada em suas distintas subdivisões históricas: filosofia da história, do direito, da religião, história da filosofia, estética, etc. – em todos esses diferentes campos históricos Hegel esforçou-se por descobrir e demonstrar as difusas correntes do desenvolvimento. E desde que ele não era apenas um gênio criativo mas também um homem de erudição enciclopédica, ele desempenhou um papel que marcou época em cada uma dessas esferas.”

Porém, tudo isso não passa de um verdadeiro prólogo, de uma estrutura ou esqueleto de sua filosofia. E se não nos limitarmos, como os pigmeus de antes, a meramente repisar sobre essas estruturas, sem avançar um só passo, mas nos aventurarmos mais longe nesta imensa edificação preparada, encontraremos inúmeros tesouros que ainda em nossa época possuem um valor não-deteriorado. Com todos os filósofos é justamente o ‘sistema’ o que é perecível; e tudo isso pela simples razão de que tais ‘sistemas’ emergem de um desejo imperecível da mente humana – o desejo de superar todas as contradições. Mas se todas as contradições forem superadas, atingiremos a verdade absoluta – e a história do mundo acaba. Porém, é mister que ela continue, embora não reste propósito algum para ela – eis, pois, uma nova e insolúvel contradição. Assim que nos damos conta – e, a longo prazo, ninguém nos ajudou a darmo-nos conta melhor do que o próprio Hegel – de que a tarefa da filosofia acima descrita nada significa além da constatação de que um único filósofo deve completar aquilo que só pode ser completado por toda a humanidade em seu desenvolvimento progressivo; assim que nos damos conta de que há um fim para toda a filosofia no sentido que nos foi aqui prescrito, a ‘verdade absoluta’ se torna obsoleta, posto ser inalcançável por essa via, ou por qualquer indivíduo em separado. Por outra parte, o filósofo isolado persegue verdades relativas alcançáveis percorrendo a via das ciências positivas, e a consunção de seus esforços mediante o método dialético. Seja como for, com Hegel a filosofia atinge um fim, por uma dupla razão: por uma parte, porque em seu sistema ele consumou todo o seu desenvolvimento da maneira mais esplêndida; e, por outra, porque, embora inconscientemente, ele nos indicou o caminho para fora do labirinto dos sistemas rumo ao conhecimento positivo real do mundo.”

And in the theoretical Germany of that time, two things above all were practical: religion and politics. Whoever placed the chief emphasis on the Hegelian system could be fairly conservative in both spheres; whoever regarded the dialectical method as the main thing could belong to the most extreme opposition, both in politics and religion. Hegel himself, despite the fairly frequent outbursts of revolutionary wrath in his works, seemed on the whole to be more inclined to the conservative side. Indeed, his system had cost him much more ‘hard mental plugging’¹ than his method.”

¹ Esforços de conciliação

The Left wing, the so-called Young Hegelians, [ainda burgueses liberais, e não os socialistas] in their fight with the pietist orthodox and the feudal reactionaries, abandoned bit by bit that philosophical-genteel reserve in regard to the burning questions of the day which up to that time had secured state toleration and even protection for their teachings. And when in 1840, orthodox pietism and absolutist feudal reaction ascended the throne with Frederick William IV, open partisanship became unavoidable. The fight was still carried on with philosophical weapons, but no longer for abstract philosophical aims. It turned directly on the destruction of traditional religion and of the existing state. (…) in the Rheinische Zeitung of 1842 the Young Hegelian school revealed itself directly as the philosophy of the aspiring radical bourgeoisie and used the meagre cloak of philosophy only to deceive the censorship.”

Strauss’ Life of Jesus, published in 1835, had provided the first impulse. The theory therein developed of the formation of the gospel myths was combated later by Bruno Bauer with proof that a whole series of evangelic stories had been fabricated by the authors themselves. The controversy between these two was carried out in the philosophical disguise of a battle between ‘self-consciousness’ and ‘substance’. The question whether the miracle stories of the gospels came into being through unconscious-traditional myth-creation within the bosom of the community or whether they were fabricated by the evangelists themselves was magnified into the question whether, in world history, ‘substance’ or ‘self-consciousness’ was the decisive operative force. Finally came Stirner, the prophet of contemporary anarchism—Bakunin has taken a great deal from him—and capped the sovereign ‘self-consciousness’ by his sovereign ‘I’.”

Then came Feuerbach’s Essence of Christianity. With one blow it pulverised the contradiction, in that without circumlocutions it placed materialism on the throne again.” “Nothing exists outside nature and man, and the higher beings our religious fantasies have created are only the fantastic reflection of our own essence.” “One must himself have experienced the liberating effect of this book to get an idea of it. Enthusiasm was general; we all became at once Feuerbachians. How enthusiastically Marx greeted the new conception and how much—in spite of all critical reservations—he was influenced by it, one may read in The Holy Family. § Even the shortcomings of the book contributed to its immediate effect. Its literary, sometimes even high-flown, style secured for it a large public and was at any rate refreshing after long years of abstract and abstruse Hegelianising. The same is true of its extravagant deification of love, which, coming after the now intolerable sovereign rule of ‘pure reason’, had its excuse, if not justification. But what we must not forget is that it was precisely these two weaknesses of Feuerbach that ‘true Socialism’, which had been spreading like a plague in ‘educated’ Germany since 1844, took as its starting-point, putting literary phrases in the place of scientific knowledge, the liberation of mankind by means of ‘love’ in place of the emancipation of the proletariat through the economic transformation of production”

the Hegelian school disintegrated, but Hegelian philosophy was not overcome through criticism; Strauss and Bauer each took one of its sides and set it polemically against the other. Feuerbach smashed the system and simply discarded it. But a philosophy is not disposed of by the mere assertion that it is false. And so powerful a work as Hegelian philosophy, which had exercised so enormous an influence on the intellectual development of the nation, could not be disposed of by simply being ignored. It had to be ‘sublated’ in its own sense, that is, in the sense that while its form had to be annihilated through criticism, the new content which had been won through it had to be saved.”

But in the meantime the Revolution of 1848 thrust the whole of philosophy aside as unceremoniously as Feuerbach had thrust aside Hegel. And in the process Feuerbach himself was also pushed into the background.” O que sempre aprendemos da Revolução de 1848 é que já integra o socialismo científico, pelo menos de parte da literatura histórica didática. Talvez porque Marx já fosse vivo e um adulto então?!

II

(*) “Among savages and lower barbarians the idea is still universal that the human forms which appear in dreams are souls which have temporarily left their bodies; the real man is, therefore, held responsible for acts committed by his dream apparition against the dreamer. Thus Imthurn found this belief current, for example, among the Indians of Guiana in 1884. (Note by Engels.)

The quandary arising from the common universal ignorance of what to do with this soul, once its existence had been accepted, after the death of the body, and not religious desire for consolation, led in a general way to the tedious notion of personal immortality. In an exactly similar manner the first gods arose through the personification of natural forces. And these gods in the further development of religions assumed more and more extramundane form, until finally by a process of abstraction, I might almost say of distillation, occurring naturally in the course of man’s intellectual development, out of the many more or less limited and mutually limiting gods there arose in the minds of men the idea of the one exclusive God of the monotheistic religions.”

The question of the position of thinking in relation to being, a question which, by the way, had played a great part also in the scholasticism of the Middle Ages, the question: which is primary, spirit or nature—that question, in relation to the church, was sharpened into this: Did God create the world or has the world been in existence eternally?

The answers which the philosophers gave to this question split them into two great camps. Those who asserted the primacy of spirit to nature and, therefore, in the last instance, assumed world creation in some form or other—and among the philosophers, Hegel, for example, this creation often becomes still more intricate and impossible than in Christianity—comprised the camp of idealism. The others, who regarded nature as primary, belong to the various schools of materialism. § These two expressions, idealism and materialism, originally signify nothing else but this; and here too they are not used in any other sense. What confusion arises when some other meaning is put into them will be seen below.”

What is decisive in the refutation of the views of Hume and Kant has already been said by Hegel, in so far as this was possible from an idealist standpoint. The materialistic additions made by Feuerbach are more ingenious than profound. The most telling refutation of this as of all other philosophical crotchets is practice, namely, experiment and industry. If we are able to prove the correctness of our conception of a natural process by making it ourselves, bringing it into being out of its conditions and making it serve our own purposes into the bargain, then there is an end to the Kantian ungraspable ‘thing-in-itself’.”

The chemical substances produced in the bodies of plants and animals remained just such ‘things-in-themselves’ until organic chemistry began to produce them one after another, whereupon the ‘thing-in-itself’ became a thing for us, as, for instance, alizarin, the colouring matter of the madder [garança, planta que dá extratos vermelhos e púrpura], which we no longer trouble to grow in the madder roots in the field, but produce much more cheaply and simply from coal tar [piche]. For 300 years the Copernican solar system was a hypothesis with 100, 1,000 or 10,000 chances to 1 in its favour, but still always a hypothesis. But when Leverrier, by means of the data provided by this system, not only deduced the necessity of the existence of an unknown planet, but also calculated the position in the heavens which this planet must necessarily occupy, and when Galle really found this planet,(*) the Copernican system was proved. If, nevertheless, the neo-Kantians are attempting to resurrect the Kantian conception in Germany and the agnostics that of Hume in England (where in fact it never became extinct), this is, in view of their theoretical and practical refutation accomplished long ago, scientifically a regression and practically merely a shamefaced way of surreptitiously accepting materialism, while denying it before the world.

(*) The planet referred to is Neptune, discovered in 1846 by Johann Galle, an astronomer at the Berlin Observatory.”

But during this long period from Descartes to Hegel and from Hobbes to Feuerbach, the philosophers were by no means impelled, as they thought they were, solely by the force of pure reason. On the contrary, what really pushed them forward most was the powerful and ever more rapidly onrushing progress of natural science and industry.” O que me faz pensar: viveremos uns 300 anos sem filosofia verdadeira com a estagnação das ciências da natureza a despeito do desenvolvimento tecnológico?

Thus, ultimately, the Hegelian system represents merely a materialism idealistically turned upside down in method and content.”

The course of evolution of Feuerbach is that of a Hegelian—a never quite orthodox Hegelian, it is true—into a materialist; an evolution which at a definite stage necessitates a complete rupture with the idealist system of his predecessor.” “Matter is not a product of mind, but mind itself is merely the highest product of matter. This is, of course, pure materialism. But, having got so far, Feuerbach stops short.”

To me materialism is the foundation of the edifice of human essence and knowledge; but to me it is not what it is to the physiologist, to the natural scientist in the narrower sense, for example, to Moleschott, and necessarily is from their standpoint and profession, namely, the edifice itself. Backwards I fully agree with the materialists; but not forwards.”

he lumps [the word] with the shallow, vulgarised form in which the materialism of the 18th century continues to exist today in the heads of naturalists and physicians, the form which was preached on their tours in the 50s by Büchner, Vogt and Moleschott. But just as idealism underwent a series of stages of development, so also did materialism.”

The materialism of the last century was predominantly mechanical, because at that time, of all natural sciences, only mechanics, and indeed only the mechanics of solid bodies—celestial and terrestrial—in short, the mechanics of gravity, had come to any definite close. Chemistry at that time existed only in its infantile, phlogistic(*) form. Biology still lay in swaddling clothes; vegetable and animal organisms had been only roughly examined and were explained by purely mechanical causes.” Nem sei o que dizer da atual era de replicantes

(*) “Phlogistic Theory: The theory prevailing in chemistry during the 17th and 18th centuries that combustion takes place due to the presence in certain bodies of a special substance named phlogiston.—Ed.

What the animal was to Descartes, man was to the materialists of the 18th century—a machine.”


“The second specific limitation of this materialism lay in its inability to comprehend the universe as a process, as matter undergoing uninterrupted historical development. This was in accordance with the level of the natural science of that time, and with the metaphysical, that is, anti-dialectical manner of philosophising connected with it.
Nature, so much was known, was in eternal motion. But according to the ideas of that time, this motion turned, also eternally, in a circle and therefore never moved from the spot; it produced the same results over and over again.¹ This conception was at that time inevitable. The Kantian theory of the origin of the solar system(*) had been put forward but recently and was still regarded merely as a curiosity. The history of the development of the earth, geology, was still totally unknown, and the conception that the animate natural beings of today are the result of a long sequence of development from the simple to the complex could not at that time scientifically be put forward at all.

(*) The theory which holds that the sun and the planets originated from incandescent rotating nebulous masses.—Ed.

¹ Seria o “meu pensamento-mor”, ao contrário de vanguardista em conexão com o eterno retorno, só uma regressão fetichista a esse tipo de sistema cíclico e esférico da natureza ideal? Outra pergunta: se é um ou outro ou nenhum dos dois, realmente importa em algo?! Se dinossauros nunca coexistiram com o homem, e o mundo é o homem, do princípio ao fim, dinossauros sendo eternos fósseis ou tendo vivido e sido abolidos em acontecimentos pré-históricos dedutíveis por nós não seriam uma e a mesma coisa?

This absurdity of a development in space, but outside of time—the fundamental condition of all development—Hegel imposes upon nature just at the very time when geology, embryology, the physiology of plants and animals, and organic chemistry were being built up, and when everywhere on the basis of these new sciences brilliant foreshadowings of the later theory of evolution were appearing (for instance, Goethe and Lamarck).”

The Middle Ages were regarded as a mere interruption of history by a thousand years of universal barbarism.” “history served at best as a collection of examples and illustrations for the use of philosophers. [paradigma Montaigne]”

Though idealism was at the end of its tether and was dealt a death-blow by the Revolution of 1848, it had the satisfaction of seeing that materialism had for the moment fallen lower still.”

It is true that Feuerbach had lived to see all three of the decisive discoveries—that of the cell, the transformation of energy and the theory of evolution named after Darwin. But how could the lonely philosopher, living in rural solitude, be able sufficiently to follow scientific developments in order to appreciate at their full value discoveries which natural scientists themselves at that time either still contested or did not know how to make adequate use of? The blame for this falls solely upon the wretched conditions in Germany, in consequence of which cobweb-spinning eclectic flea-crackers had taken possession of the chairs of philosophy, while Feuerbach, who towered above them all, had to rusticate and grow sour in a little village.”

It was therefore a question of bringing the science of society, that is, the sum total of the so-called historical and philosophical sciences, into harmony with the materialist foundation, and of reconstructing it thereupon. But it did not fall to Feuerbach’s lot to do this. In spite of the ‘foundation’, he remained here bound by the traditional idealist fetters, a fact which he recognises in these words: ‘Backwards I agree with the materialists, but not forwards!’

The superstition that philosophical idealism is pivoted round a belief in ethical, that is, social, ideals, arose outside philosophy, among the German philistines, who learned by heart from Schiller’s poems the few morsels of philosophical culture they needed. No one has criticized more severely the impotent ‘categorical imperative’ of Kant—impotent because it demands the impossible, and therefore never attains to any reality—no one has more cruelly derided the philistine sentimental enthusiasm for unrealizable ideals purveyed by Schiller than precisely the complete idealist Hegel (see, for example, his Phenomenology).”

the conviction that humanity, at least at the present moment, moves on the whole in a progressive direction has absolutely nothing to do with the antagonism between materialism and idealism. The French materialists no less than the deists Voltaire and Rousseau held this conviction to an almost fanatical degree, and often enough made the greatest personal sacrifices for it. If ever anybody dedicated his whole life to the ‘enthusiasm for truth and justice’—using this phrase in the good sense—it was Diderot, for instance. If, therefore, Starcke declares all this to be idealism, this merely proves that the word materialism, and the whole antagonism between the two trends, has lost all meaning for him here.”

By the word materialism the philistine understands gluttony, drunkenness, lust of the eye, lust of the flesh, arrogance, cupidity, avarice, covetousness, profit-hunting and stock-exchange swindling—in short, all the filthy vices in which he himself indulges in private. By the word idealism he understands the belief in virtue, universal philanthropy and in a general way a ‘better world’, of which he boasts before others but in which he himself at the utmost believes only so long as he is having the blues or is going through the bankruptcy consequent upon his customary ‘materialist’ excesses. It is then that he sings his favourite song, What is man?—Half beast, half angel.

For the rest, Starcke takes great pains to defend Feuerbach against the attacks and doctrines of the vociferous assistant professors who today go by the name of philosophers in Germany. For people who are interested in this afterbirth of classical German philosophy this is, of course, a matter of importance; for Starcke himself it may have appeared necessary. We, however, will spare the reader this.”

III

The existing positive religions have limited themselves to the bestowal of a higher consecration upon state-regulated sex love, that is, upon the marriage laws, and they could all disappear tomorrow without changing in the slightest the practice of love and friendship. Thus the Christian religion in France, as a matter of fact, so completely disappeared in the years 1793-98 that even Napoleon could not re-introduce it without opposition and difficulty; and this without any need for a substitute, in Feuerbach’s sense, making itself felt in the interval.”

The chief thing for him is not that these purely human relations exist, but that they shall be conceived of as the new, true religion. They are to have full value only after they have been marked with a religious stamp. Religion is derived from religare and meant originally a bond. Therefore, every bond between two people is a religion. Such etymological tricks are the last resort of idealist philosophy.” “And so sex love and the intercourse between the sexes is apotheosised to a religion, merely in order that the word religion, which is so dear to idealistic memories, may not disappear from the language. The Parisian reformers of the Louis Blanc trend used to speak in precisely the same way in the 1840s.” “If Feuerbach wishes to establish a true religion upon the basis of an essentially materialist conception of nature, that is the same as regarding modern chemistry as true alchemy. If religion can exist without its god, alchemy can exist without its philosopher’s stone.”

Already here it becomes evident how far today we have moved beyond Feuerbach. His ‘finest passages’ in glorification of his new religion of love are totally unreadable today.” “Feuerbach, who on every page preaches sensuousness, absorption in the concrete, in actuality, becomes thoroughly abstract as soon as he begins to talk of any other than mere sex relations between human beings.”

In form he is realistic since he takes his start from man; but there is absolutely no mention of the world in which this man lives; hence, this man remains always the same abstract man who occupied the field in the philosophy of religion.” “In his philosophy of religion we still had men and women, but in his ethics even this last distinction disappears.”

One believes one is saying something great if one says that ‘man is naturally good’. But one forgets that one says something far greater when one says ‘man is naturally evil’. –Hegel

This contains the twofold meaning that, on the one hand, each new advance necessarily appears as a sacrilege against things hallowed, as a rebellion against conditions, though old and moribund, yet sanctified by custom; and that, on the other hand, it is precisely the wicked passions of man—greed and lust for power—which, since the emergence of class antagonisms, serve as levers of historical development—a fact of which the history of feudalism and of the bourgeoisie, for example, constitutes a single continual proof.”

after the debauch come the ‘blues’, and habitual excess is followed by illness.”

Only very exceptionally, and by no means to his and other people’s profit, can an individual satisfy his urge towards happiness by preoccupation with himself.”

Feuerbach nega-se a si mesmo: “Man thinks differently in a palace and in a hut. If because of hunger, of misery, you have no stuff in your body, you likewise have no stuff for morality in your head, in your mind or heart.”

(*) “The schoolmaster of Sadowa: An expression currently used by German bourgeois publicists after the victory of the Prussians at Sadowa (in the Austro-Prussian War of 1866), the implication being that the Prussian victory was to be attributed to the superiority of the Prussian system of public education.—Ed.” Em infantaria: 7 a 1. Mas, em educação: de novo 7 a 1!

If my urge towards happiness leads me to the Stock Exchange, and if there I correctly gauge the consequences of my actions so that only agreeable results and no disadvantages ensue, that is, if I always win, then I am fulfilling Feuerbach’s precept.” “In other words, Feuerbach’s morality is cut exactly to the pattern of modern capitalist society, little as Feuerbach himself might desire or imagine it.” “In short, the Feuerbachian theory of morals fares like all its predecessors. It is designed to suit all periods, all peoples and all conditions, and precisely for that reason it is never and nowhere applicable.” “Now how was it possible that the powerful impetus given by Feuerbach turned out to be so unfruitful for himself? For the simple reason that Feuerbach himself never contrives to escape from the realm of abstraction—for which he has a deadly hatred—into that of living reality.” “And that is what Feuerbach resisted, and therefore the year 1848, which he did not understand, meant to him merely the final break with the real world, retirement into solitude.”

The cult of abstract man, which formed the kernel of Feuerbach’s new religion, had to be replaced by the science of real men and of their historical development. This further development of Feuerbach’s standpoint beyond Feuerbach was inaugurated by Marx in 1845 in The Holy Family.”

IV

(*) “Lately repeated reference has been made to my share in this theory, and so I can hardly avoid saying a few words here to settle this point. I cannot deny that both before and during my 40 years’ collaboration with Marx I had a certain independent share in laying the foundations of the theory, and more particularly in its elaboration. But the greater part of its leading basic principles, especially in the realm of economics and history, and, above all, their final trenchant formulation, belong to Marx. What I contributed—at any rate with the exception of my work in a few special fields—Marx could very well have done without me. What Marx accomplished I would not have achieved. Marx stood higher, saw further, and took a wider and quicker view than all the rest of us. Marx was a genius; we others were at best talented. Without him the theory would not be by far what it is today. It therefore rightly bears his name.”

And this materialist dialectic, which for years has been our best working tool and our sharpest weapon, was, remarkably enough, discovered not only by us but also, independently of us and even of Hegel, by a German worker, Joseph Dietzgen.”

today natural philosophy is finally disposed of. Every attempt at resurrecting it would be not only superfluous but a step backwards.”

In the history of society, on the contrary, the actors are all endowed with consciousness, are men acting with deliberation or passion, working towards definite goals; nothing happens without a conscious purpose, without an intended aim.” Eis o aspecto que supervalorizaram! Conquanto o materialismo histórico antevia bem esse tipo de dificuldade em seu “determinismo dialético”: “Thus the conflicts of innumerable individual wills and individual actions in the domain of history produce a state of affairs entirely analogous to that prevailing in the realm of unconscious nature.” Weber sabia de onde retirar sua “teoria trágica da ação”, se podemos assim denominá-la.

it follows for the old materialism that nothing very edifying is to be got from the study of history, and for us that in the realm of history the old materialism becomes untrue to itself because it takes the ideal driving forces which operate there as ultimate causes, instead of investigating what is behind them, what are the driving forces of these driving forces.” De certa forma esse é o parecer mais correto sobre a história.

Instead of explaining the history of ancient Greece out of its own inner interconnections, Hegel simply maintains that it is nothing more than the working out of ‘forms of beautiful individuality’, the realisation of a ‘work of art’ as such.”

The workers have by no means become reconciled to capitalist machine industry, even though they no longer simply break the machines to pieces as they still did in 1848 on the Rhine.” Me pergunto o que Engels diria dos entregadores de aplicativo de hoje em dia…

Since the establishment of large-scale industry, that is, at least since the European peace of 1815, it has been no longer a secret to any man in England that the whole political struggle there pivoted on the claims to supremacy of two classes: the landed aristocracy and the bourgeoisie (middle class). In France, with the return of the Bourbons, the same fact was perceived, the historians of the Restoration period, from Thierry to Guisot, Mignet and Thiers, speak of it everywhere as the key to the understanding of all French history since the Middle Ages. And since 1830 the working class, the proletariat, has been recognised in both countries as a third competitor for power. Conditions had become so simplified that one would have had to close one’s eyes deliberately not to see in the fight of these three great classes and in the conflict of their interests the driving force of modern history—at least in the two most advanced countries.

But how did these classes come into existence? If it was possible at first glance still to ascribe the origin of the great, formerly feudal landed property—at least in the first instance—to political causes, to taking possession by force, this could not be done in regard to the bourgeoisie and the proletariat.”

Overproduction and mass misery, each the cause of the other—that is the absurd contradiction which is its outcome, and which of necessity calls for the liberation of the productive forces by means of a change in the mode of production. § In modern history at least it is, therefore, proved that all political struggles are class struggles, and all class struggles for emancipation, despite their necessarily political form—for every class struggle is a political struggle—turn ultimately on the question of economic emancipation.”

The traditional conception, to which Hegel, too, pays homage, saw in the state the determining element, and in civil society the element determined by it. Appearances correspond to this.” “If the state even today, in the era of big industry and of railways, is on the whole only a reflection, in concentrated form, of the economic needs of the class controlling production, then this must have been much more so in an epoch when each generation of men was forced to spend a far greater part of its aggregate lifetime in satisfying material needs, and was therefore much more dependent on them than we are today.” “The state presents itself to us as the first ideological power over man. Society creates for itself an organ for the safeguarding of its common interests against internal and external attacks.”

The consciousness of the interconnection between this political struggle and its economic basis becomes dulled and can be lost altogether. While this is not wholly the case with the participants, it almost always happens with the historians. Of the ancient sources on the struggles within the Roman Republic only Appian tells us clearly and distinctly what was at issue in the last resort—namely, landed property.”

It is indeed among professional politicians, theorists of public law and jurists of private law that the connection with economic facts gets lost for fair. Since in each particular case the economic facts must assume the form of juristic motives in order to receive legal sanction; and since, in so doing, consideration of course has to be given to the whole legal system already in operation, the juristic form is, in consequence, made everything and the economic content nothing.”

Still higher ideologies, [than law] that is, such as are still further removed from the material, economic basis, take the form of philosophy and religion.”

Just as the whole Renaissance period, from the middle of the 15th century, was an essential product of the towns and, therefore, of the burghers, so also was the subsequently newly-awakened philosophy. Its content was in essence only the philosophical expression of the thoughts corresponding to the development of the small and middle burghers into a big bourgeoisie.”

ideology, that is, occupation with thoughts as with independent entities, developing independently and subject only to their own laws.”

But a new world religion is not to be made in this fashion, by imperial decree. The new world religion, Christianity, had already quietly come into being, out of a mixture of generalised Oriental, particularly Jewish, theology, and vulgarised Greek, particularly Stoic, philosophy.”

The fact that already after 250 years it became the state religion suffices to show that it was the religion in correspondence with the conditions of the time. In the Middle Ages, in the same measure as feudalism developed, Christianity grew into the religious counterpart to it, with a corresponding feudal hierarchy. And when the burghers began to thrive, there developed, in opposition to feudal Catholicism, the Protestant heresy, which first appeared in Southern France, among the Albigenses,(*) at the time the cities there reached the highest point of their florescence.

(*) Albigenses: A religious sect which during the 12th and 13th centuries directed a movement against the Roman Catholic Church. The name is derived from the town of Albi, in the south of France. —Ed.

The ineradicability of the Protestant heresy corresponded to the invincibility of the rising burghers.” “Thenceforward Germany disappears for three centuries from the ranks of countries playing an independent active part in history. But beside the German Luther appeared the Frenchman Calvin. With true French acuity he put the bourgeois character of the Reformation in the forefront, republicanised and democratised the Church. While the Lutheran Reformation in Germany degenerated and reduced the country to rack and ruin, the Calvinist Reformation served as a banner for the republicans in Geneva, in Holland and in Scotland, freed Holland from Spain and from the German Empire and provided the ideological costume for the 2nd act of the bourgeois revolution, which was taking place in England. Here Calvinism justified itself as the true religious disguise of the interests of the bourgeoisie of that time, and on this account did not attain full recognition when the revolution ended in 1689 in a compromise between one part of the nobility and the bourgeoisie. The English state Church was re-established; but not in its earlier form of a Catholicism which had the king for its pope, being, instead, strongly Calvinised. The old state Church had celebrated the merry Catholic Sunday and had fought against the dull Calvinist one. The new, bourgeoisified Church introduced the latter, which adorns England to this day. § In France, the Calvinist minority was suppressed in 1685 and either Catholicised or driven out of the country. But what was the good? Already at that time the freethinker Pierre Bayle¹ was at the height of his activity, and in 1694 Voltaire was born.”

¹ Em breve no Seclusão.

For philosophy, which has been expelled from nature and history, there remains only the realm of pure thought, so far as it is left: the theory of the laws of the thought process itself, logic and dialectics.”

With the Revolution of 1848, ‘educated’ Germany said farewell to theory and went over to the field of practice.” “The new little German Empire(*) abolished at least the most crying of the abuses with which this development had been obstructed by the system of petty states, the relics of feudalism, and bureaucratic management.

(*) This term is applied to the German Empire (without Austria) that arose in 1871 under Prussia’s hegemony.—Ed.

educated Germany lost the great aptitude for theory which had been the glory of Germany in the days of its deepest political humiliation” “Official German natural science, it is true, maintained its position in the front rank, particularly in the field of specialized research. But even the American journal Science rightly remarks that the decisive advances in the sphere of the comprehensive correlation of particular facts and their generalisation into laws are now being made much more in England, instead of, as formerly, in Germany. And in the sphere of the historical sciences, philosophy included, the old fearless zeal for theory has now disappeared completely, along with classical philosophy. Inane eclecticism and an anxious concern for career and income, descending to the most vulgar job-hunting, occupy its place. The official representatives of these sciences have become the undisguised ideologists of the bourgeoisie and the existing state—but at a time when both stand in open antagonism to the working class.” “The German working-class movement is the inheritor of German classical philosophy.” Não é que estejamos órfãos, só não tivemos filhos…

* * *

APPENDIX – THESES ON FEUERBACH (1845)

Thus, for instance, once the earthly family is discovered to be the secret of the holy family, the former must then itself be criticised in theory and revolutionised in practice.”

The standpoint of the old materialism is ‘civil’ society; the standpoint of the new is human society, or socialized humanity.”

HEIDEGGER AND CARNAP ON THE OVERCOMING OF METAPHYSICS

In his ‘Überwindung der Metaphysik durch logische Analyse der Sprache’ (1931), Carnap chooses, as examples of metaphysical nonsense, certain sentences from Heidegger’s Was ist Metaphysik? (Heidegger, 1969). This has not normally been taken as a serious encounter with Heidegger’s thought. I wish to argue, on the contrary, that Carnap indeed has a serious understanding and criticism of Heidegger. To this end I will show, first, that both Heidegger and Carnap are reacting against Husserl’s philosophical system, in similar ways and for similar reasons. And I will claim, furthermore, that Carnap understands this, and that he therefore criticizes Heidegger for carrying out their common project incorrectly.”

Husserl solves certain problems in Kant’s theoretical philosophy by in effect reconstituting pre-Kantian metaphysics within the framework of Kantian epistemology. This horrified them, and for exactly the reason it would have horrified Kant: because, namely, it meant shoring up the theoretical philosophy’s demonstration of the possibility of science at the expense of the practical philosophy’s demonstration of the possibility of freedom. Each, in response, put forward a new and improved version of the original Kantian strategy: a new explanation of how science is possible which would once and for all rule out the return of traditional metaphysics, and thereby once and for all protect the possibility of ethics.”

Metaphysics is, in a sense, simply the special science of the most prior sphere—i.e., ‘first philosophy’.” “Metaphysical knowledge, finally, because it is transcendental knowledge, is also knowledge of the possibility of science: of each special science individually, and of science in general as a unified whole.”

Kant, as is well known, comes to this traditional system as an all-destroyer. The objects of our knowledge, he says, must be given to us in intuition. But we human beings have only sensible, not intellectual, intuition. Hence the objects of theoretical knowledge may be physical (objects of outer sense) or psychological (objects of inner sense), but they cannot be noumenal (purely intelligible).”

Phenomenal beings, in other words, are transcendentally ideal: the form of our cognitive faculties is for them the principle and cause of being as such. Thus we can have the part of metaphysics which concerns itself with nature (with the metaphysical principles and causes—Anfangsgründe— of natural science). But this metaphysics is based, ultimately, on showing the possibility of an objective consciousness (of an object for us), rather than the possibility of an object per se (an sich), and it therefore is not based on and does not form a part of a more general discipline which could claim the proud name of an ontology—a discipline which would know the first principles and causes of all beings in general.”

human freedom (…) is at least thinkable without contradiction.”

We can take Kant’s procedure as paradigmatic of what it means to ‘overcome’ metaphysics.”

Kant’s successors, however, mostly agreed that his solution leaves something to be desired, in two respects. First, the idea of an in-principle unknowable realm of Dinge an sich seemed to them absurd. Second, metaphysics of nature is allegedly possible for us because it is concerned merely with the form of our own cognitive faculties. But what are these ‘faculties’, and why doesn’t our knowledge of them itself require justification?

Husserl is one of many philosophers who face this post-Kantian problem situation. Like many of them, he tries to solve both the above problems at once by in some way identifying our knowledge about our own faculties with our understanding of the way appearances depend on Dinge an sich. His strategy is distinctive, however, in that he literally restores a sphere of necessary, supersensible being as the subject matter of first philosophy.” “It follows that the principles and causes of all beings as such are the states of pure consciousness (Erlebnisse) in which such intentional interpretations take place. Phenomenology, the science of essence in the region of pure consciousness, is therefore the one science by which all special sciences are unified and by which their possibility is absolutely demonstrated, i.e. by which they are ‘absolutely grounded’.”

Husserl, 1956 (Erste Philosophie) is based on the manuscript of Husserl’s lectures in Freiburg during the Winter semester of 1923/24 (see the editor’s introduction, p. xii). It was published only posthumously, but it is very likely that Carnap was exposed to some of it, since he was living near Freiburg at the time and attended Husserl’s advanced seminars on phenomenology there during 1924 and 1925 (Schuhmann, 1977, 281). Heidegger at this time was already in Marburg, but was still in close contact with Husserl and presumably also familiar with his ongoing projects.”

As Kant himself would have predicted, however, this solution to the problems in his theoretical philosophy plays havoc with the basis of the practical philosophy. Husserl does allow for an objective science of ethics: just as mere things (bloße Sachen) gain objective existence by being rationally posited on the basis of an interpretation of sense data, so too can things be objectively valuable, or actions objectively desirable, insofar as they are rationally so posited on the basis of emotional and volitional data (§85, p. 173; §117, p. 244). By this very analogy, however, it is clear that ethics so understood is just another special science, albeit of spirit (Geist), rather than of nature. By means of this science I can understand human beings (including my own self when I regard myself as a human being) as subject to duties which possibly go against their inclinations. But human beings are not thereby free in the strict Kantian sense of being autonomous.”

NÃO DIFERE MUITO DE FICHTE: “the pure ego occupies the place reserved for God in traditional metaphysics, its freedom is divine, rather than human; its motives (if any) cannot be on a par with human inclinations or ethical principles.”

Husserl’s system, in other words, saves the theoretical philosophy (and thus heads off the threat of theoretical skepticism) only by giving up on what Kant thought of as its primary purpose: namely, to show that the possibility of science does not contradict the possibility of freedom. From a Kantian point of view, then, the emergence of Husserl’s system is a sign that metaphysics must still be overcome.”

what constitutes a responsible and therefore clear and significant use of language?” “Their obscurity, in other words, is largely essential to their positions.”

At this point we may feel a tendency to giggle. The transition either from ‘Nothing grounds and unifies the sciences’ or from ‘Science studies beings, and beyond that nothing’ to ‘How stands it with this nothing?’ sounds suspiciously like a joke. It sounds, in fact, like a particular kind of joke—a pun, or a related type of wordplay.”

Heidegger’s method, even if it succeeds, doesn’t lead to a relaxed sense of being once again at home with our own language, but rather produces (as, in a way, does a pun) a sense of our alienation from it (of our distance from its true meaning).”

What threatens, in Angst, to sink into insignificance, is not any particular being or region of beings, but all beings as a whole. And it is this general threat of insignificance which makes science possible: without it, there could not be the ‘beyond that, nothing’ of the theoretical attitude, by which a being is encountered merely as itself, rather than as valuable or significant for us”

Whereas for Kant, in other words, the limitation of metaphysics was at the same time a limitation of science, for Heidegger, metaphysics is limited, but science is not. Science will answer every question we have about beings. It follows that we were wrong to think of metaphysics as a kind of science or theoretical discipline which is ‘about’ nothing in the sense of having nothing as its subject matter. Since the nothing is not a being, metaphysics, which is about nothing, is not a science.”

In Sein und Zeit, Heidegger seems so clearly, and at such length, to treat of practical issues, that that book has often been mistaken for a moralizing book of (‘existentialist’) ethics. Here in Was ist Metaphysik? he is much briefer, but the nature and standpoint of the ethical concern is clearer. The overcoming of metaphysics is necessary to establish the very possibility of freedom, thus of morality, for a being like us”

Sichhineinhalten is a (very unusual) verb which means literally ‘to hold oneself out into’.”

(com-)portar-se (dentro do = no) exterior

alienar-se é ser

That metaphysics is about nothing means: that the possibility and unity of science is demonstrated only in Dasein’s encounter with its own un-faculty [inessencialidade], with its own possible inability to take up a Haltung [o ser-aí não pode jogar-se para for a de si] (in which, as Heidegger puts it, it finds that it sich an nichts halten kann): that is, with its own possible insignificance to itself. But to know oneself as possibly insignificant to oneself is at the same time to know oneself as ultimately responsible for one’s own significance. Knowing ourselves as finite, as beings among beings, we also know ourselves as having a finite interest, in pursuit of which we have already spoken carelessly (have taken no responsibility for our word).” “What metaphysics offers is not a theory, but a demand, and the demand itself is the demonstration of our freedom” “our own language, our own self-legislation as rational (i.e., speaking) beings; to abide by ourselves out into the nothing; to comply with our own finite nature.”

I’m o(w)n my (o)w(n).

I am an owl.

I, a man, oh!

Se Nietzsche é metafísico, Husserl parece um escritor de fábulas (o estereótipo do filósofo sistemático elevado à última potência).

Is our knowledge of space analytic, synthetic a priori, or empirical? Carnap answers, in effect: it depends on what you mean by ‘space’.”

Our knowledge of ‘formal space’, Carnap says, is analytic, i.e. derives from ‘formal ontology in Husserl’s sense’, but our knowledge of the ‘intuitive space’ in which sensible objects are necessarily found is synthetic a priori, i.e. material-essential (and here again he mentions Husserl explicitly)”

Carnap’s initial realm of the ‘autopsychological’ clearly corresponds (as he explicitly points out, 1974, §64, p. 86) to Husserl’s region of pure consciousness” Então pra que se dar ao trabalho? ‘O conceito não é meu, mas estou dando um novo nome…’ Tsc.

the objectification of thi(n)g(h)s

Theoretically speaking, although every level of the constitutional system defines a new type of object (in Russell’s sense), these types are equivalent to Husserl’s formal (syntactic) categories” Russell é o homônimo mais idiota de todos os tempos – ou o idiota mais homônimo de todos os tempos (e ESPAÇOS)?

Logic is therefore a dangerous ally for Carnap, as it is for Heidegger. Unless he is careful, an appeal to logic may end up being an appeal to Husserlian phenomenology, after all—or rather: constitution theory, which is supposed to use logic to demonstrate the unity of the sciences, may itself end up being (a branch of) phenomenology.”

Logical analysis, according to him, can only be a project of translating one language into another one: into a logically correct language, which, though stricter, is not deeper (or more ‘primordial’: cf. Der Raum, 65). Thus logical analysis can purify our language of (practical) error, but it can never reveal more about its structure than does ordinary (‘surface’) grammar. This will be important to keep in mind in what follows (and may also help throw light on the differences between Carnap and Wittgenstein).”

Dörpfeld [avô de Carnap], a follower of Herbart (i.e., a certain kind of quasi-Kantian), claimed that both orthodox and liberal theology had made the same mistake, thanks to lingering Scholasticism and ‘Spinozan-Schellingian-Hegelian metaphysics’: the mistake of subordinating ethics to dogmatics (see his 1895).” Uau. Finalmente algo de valia.

Carnap’s statement that ‘the future belongs to our attitude’, similarly, is ‘outside the borders of theory’: it is no theoretical prediction, but a choice of fundamental deportment, or, to say it carefully, a statement of Kantian rational faith. Even more carefully: of Nietzschean rational faith. For the point is that we, we scientific philosophers, are philosophers of the future. That Nietzsche’s ambiguous talk about ‘philosophers of the future’ is aimed at securing our (untimely) autonomy in the present is most explicit in its earliest form (see Nietzsche, 1981, 226–7), but it is clear enough in later versions, as well. (The general idea is: we give ourselves a law by assigning to ourselves the task of producing our own masters.)”

Whatever else one may say about Quine’s understanding, or lack thereof, of Carnap, he seems to have understood very well what was, for Carnap, the most important point: that language is both an ordinary empirical object and the object of autonomous choice.”

Language is indeed flexible; linguistic innovation is indeed possible. If we knew nothing about Heidegger’s linguistic methods, it would certainly be hard to rule out that that is what he intends here, and if we supposed that Carnap knows nothing about those methods, then it would be hard to defend him against the charge that he is reading Heidegger ‘uncharitably’. In reality, however, nothing could be more uncharitable than to defend Heidegger’s use of ‘nothing’ here as a linguistic innovation. [Ora, o nada só pode significar nada neste contexto, não existe sinônimo ou substituto.] As we have seen, Heidegger’s method rests precisely on showing us what our language already says. So, whatever role there might be for linguistic innovation in philosophy generally, Carnap and Heidegger are (rightly or wrongly) in agreement that it does not crop up here.”

[Heidegger] implicit point is that Husserl goes astray by using the term [phenomenology] without accountability to those original Greek meanings—i.e., by using it in a linguistically innovative manner; by taking advantage of the fact that language, in the mouth of das Man, so easily accommodates new terms and definitions.”

like it or not, Heidegger has in fact placed a limit on the reach of science: he has himself ‘come to the determination that his questions and answers are not unitable with the mode of thinking of science’ (Carnap, 1931, 232). And it is due to that mistake that he remains, as Carnap says, merely one of ‘the numerous metaphysicians of the present or the past’ (229 n. 1)—rather, that is, than becoming, as he might have, a rare philosopher of the future.”

First, it is a criticism to which, as I understand it, Heidegger seriously and repeatedly responded. Second, it is a criticism which finds echoes in later members of Heidegger’s own, Continental, philosophical tradition (e.g. in Levinas). This, I think, is enough to establish what I set out to here: not an attack on or defense of either Carnap or Heidegger, but simply a case for taking the one as a serious reader of the other.”

PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA DO FUTURO – Feuerbach (trad. Artur Morão)

#2 “O modo religioso ou prático desta humanização [progressiva da religião] foi o Protestantismo. O Deus que é o homem, portanto o Deus humano, isto é, Cristo — é apenas o Deus do Protestantismo. O Protestantismo já não se preocupa, como o Catolicismo, com o que Deus é em si mesmo, mas apenas com o que Ele é para o homem; por isso, já não tem como aquele nenhuma tendência especulativa ou contemplativa; já não é teologia — é essencialmente só cristologia, isto é, antropologia religiosa.”

#3 “Mas o além da religião é o lado de cá da filosofia”

#5 “A filosofia especulativa é a teologia verdadeira

#6

a necessidade do Ser divino na antiga metafísica ou ontoteologia só tem sentido e intelecto, verdade e realidade, na determinação psicológica ou antropológica de Deus como ser inteligente. (…) no ser necessário, a razão prova e ostenta apenas a sua própria necessidade e realidade.”

o ser pensante (…) é o seu próprio objeto, tem a sua essência em si mesmo, é o que é, graças a si próprio.”

#7

O que no teísmo é objeto é, na filosofia especulativa, sujeito

A necessidade interna de que Deus, de um objeto do homem, se transforme em sujeito, em eu pensante do homem, deriva d[e] (…): Deus é objeto do homem e só do homem, não do animal.”

Aquele para quem o Ser supremo é objeto é ele próprio o ser supremo.”

#8 “na teologia ordinária, Deus é uma contradição consigo mesmo; deve ser um ser não-humano, um ser supra-humano; mas, efetivamente, é um ser humano segundo todas as suas determinações.” “A contradição violenta com que a filosofia especulativa deparou deve-se apenas ao fato de ela ter feito do Deus que no teísmo é apenas um ser da fantasia, um ser longínquo, indeterminado e nebuloso, um ser presente e determinado, e ter assim destruído o encantamento ilusório que um ser longínquo possui na bruma azulada da representação.”

#10

O começo da filosofia cartesiana, a abstração da sensibilidade e da matéria, é o começo da filosofia especulativa moderna.”

Leibniz e Descartes são idealistas só no universal, mas na ordem do particular são materialistas.”

Leibniz, é pois um idealista parcial, mitigado, e só Deus é um idealista integral, só Deus o ‘sábio perfeito’, como expressamente Wolf o chamou” Wolff?

segundo Leibniz, o limite do entendimento humano reside em ele estar afeto ao materialismo, isto é, a representações obscuras; por seu turno, as representações obscuras surgem apenas em virtude de o ser humano se encontrar em relação com os outros seres, com o mundo em geral.”

Mas o que em Leibniz era apenas idéia tornou-se verdade e realidade efetiva na filosofia ulterior. O idealismo absoluto nada mais é do que o entendimento divino realizado do teísmo leibniziano, o entendimento puro, sistematicamente levado a efeito, que despoja todas as coisas da sua sensibilidade, as transforma em puros seres inteligíveis, em coisas imaginárias, que não se contamina com algo de estranho e apenas se ocupa de si mesmo enquanto ser dos seres.”

#11

Assim, por exemplo, na lógica hegeliana, os objetos do pensar não são diferentes da essência do pensar.”

As coisas tal como são em Deus não são como são fora de Deus; pelo contrário, são tão diversas das coisas reais como as coisas, enquanto objeto da lógica, se distinguem das coisas enquanto objeto da intuição real. A que se reduz, pois, a diferença entre o pensar divino e o pensar metafísico? Apenas a uma diferença de imaginação, à diferença entre o pensar apenas representado e o pensar real.”

#12

A diferença (…) entre o saber ou o pensar de Deus que, como arquétipo, precede as coisas e as cria e o saber do homem que, como cópia, se segue às coisas, nada mais é do que a diferença entre saber a priori (…) e a posteriori.”

No teísmo, o mundo é um produto temporal de Deus — o mundo existe desde há alguns milhares de anos e, antes de ele ser gerado, Deus existia; pelo contrário, na teologia especulativa, o mundo ou a natureza existe depois de Deus, só segundo a ordem, segundo a importância: o acidente pressupõe a substância, a natureza pressupõe a lógica; segundo o conceito, mas não segundo a existência sensível, portanto não segundo o tempo.”

Deus é Onisciente’, diz S. Tomás de Aquino, ‘porque conhece as mínimas coisas’ — o saber que não abarca indistintamente, num tufo, os cabelos da cabeça de um homem, mas os conta e os conhece a todos um a um. Mas este saber divino que, na teologia, é apenas uma representação, uma fantasia, tornou-se um saber racional efetivo, um saber telescópico e microscópico da ciência natural. A ciência contou as estrelas do céu, os ovos nos corpos dos peixes e das borboletas, os pontos nas asas dos insetos para os distinguir uns dos outros; só na lagarta do bicho-da-seda dos salgueiros ela demonstrou anatomicamente a existência de 288 músculos na cabeça, de 1647 músculos no corpo, 2186 músculos no estômago e nos intestinos. Que mais se pretende ainda? Temos, pois, aqui um exemplo concreto da verdade de que a representação humana de Deus é a representação que um indivíduo humano para si faz do seu gênero, de que Deus, enquanto totalidade de todas as realidades ou perfeições, nada mais é do que a totalidade sinoticamente compendiada para uso do indivíduo limitado, das propriedades do gênero repartidas entre os homens e que se realizam no decurso da história mundial. O domínio das ciências naturais é, segundo o seu âmbito quantitativo, de todo inabarcável para um homem isolado. Quem pode ao mesmo tempo contar as estrelas do céu e os músculos e nervos do corpo da lagarta? Lyonet perdeu a vista à força de estudar a anatomia da lagarta do salgueiro. Quem pode ao mesmo tempo observar as diferenças que existem entre os cumes e os abismos da Lua e as diferenças que existem entre as inúmeras amonitas e terebrátulas? Mas o que o homem isolado não sabe nem pode, sabem-no e conseguem-no os homens em conjunto. Assim, o saber divino que conhece ao mesmo tempo todas as singularidades tem a sua realidade no saber da espécie.”

Tomemos como exemplo uma só ciência, a História, e decomponhamos pelo pensamento a história mundial na história dos países particulares, esta na história de cada província e, por seu turno, esta nas crônicas das cidades e as crônicas das cidades nas histórias das famílias, nas biografias. Como é que alguma vez um homem singular chegaria ao ponto em que pudesse clamar: eis-me aqui no termo do saber histórico da humanidade! Assim também o tempo da nossa vida, tanto o passado como o futuro possível, por mais que conseguíssemos prolongá-lo, nos aparece, à luz da imaginação, extraordinariamente curto e é por isso que, nos momentos de tal imaginação, nos sentimos forçados a completar esta brevidade evanescente aos olhos da nossa imaginação por uma vida imensa e sem fim após a morte. Mas como pode ser longo, na realidade, um só dia e até uma só hora! Donde provém esta diferença? Nasce do fato de o tempo da representação ser o tempo vazio, portanto, nada entre o ponto inicial e o ponto final do nosso cálculo; mas o tempo da vida real é o tempo cheio, onde montanhas de dificuldades de toda a espécie separam o agora do instante seguinte.”

#13

A absoluta ausência de pressupostos — o início da filosofia especulativa — nada mais é do que a ausência de pressupostos e de começo, a asseidade [autossuficiência na Escolástica]do ser divino.”

GENEALOGIA DA FENOMENOLOGIA: “A filosofia nada pressupõe — isto quer simplesmente dizer: abstrai de todos os objetos imediatos, isto é, fornecidos pelos sentidos, distintos do pensamento, em suma, de tudo aquilo de que se pode abstrair sem cessar de pensar, e faz deste ato de abstração de toda a objetalidade o seu próprio começo. Mas que outra coisa é, então, o Ser absoluto senão o ser a que nada se pressupõe, a que nenhuma coisa é dada e necessária fora dele, o ser abstraído de todos os objetos, de todas as coisas sensíveis dele distintas e inseparáveis, portanto o ser que o homem pode tomar como objeto só mediante a abstração destas mesmas coisas?” A rigor, só nos interessa realmente de Hegel em diante em filosofia.

Por conseguinte, que é o Eu de Fichte que diz — ‘sou simplesmente porque sou’ —, que é o pensamento puro e sem pressupostos de Hegel senão o ser divino da antiga teologia e metafísica, transformado em essência atual, ativa e pensante do homem?”

#14

O teísmo que, enquanto posição de Deus, é ao mesmo tempo a negação de Deus ou, inversamente, enquanto negação de Deus é simultaneamente a sua afirmação, é o panteísmo. O teísmo genuíno ou teológico, porém, nada mais é do que o panteísmo imaginário, e este nada mais é do que o teísmo verdadeiro e real.”

O teísmo é a contradição entre a aparência e a essência, a representação e a verdade; o panteísmo é a unidade de ambos — o panteísmo é a verdade nua do teísmo. Quando se olham de frente e se tomam a sério, quando se levam até ao fim e se realizam, todas as representações do teísmo conduzem necessariamente ao panteísmo.”

Se nenhumas coisas tivermos exteriores ao entendimento de Deus, também depressa nenhumas coisas teremos exteriores à sua essência e, por fim, também nenhumas exteriores à existência de Deus — todas as coisas existem em Deus e, claro, de fato e na realidade, não apenas na representação; pois, onde elas existem só na representação — tanto de Deus como do homem —, por conseguinte, onde existem tão-só no modo ideal ou, antes, imaginário em Deus, existem ao mesmo tempo fora da representação; fora de Deus. Se fora de Deus não tivermos mais coisas nem mundo, também não temos nenhum Deus exterior ao mundo — também não temos um ser apenas ideal, representado, mas um ser real; temos então, em suma, o espinosismo ou o panteísmo.” “A matéria é, para ele, uma existência puramente inexplicável, ou seja, ela é o limite, o fim da teologia. Contra ela embate, tanto no pensamento como na vida. Por conseguinte, como é que eu, a partir da teologia, sem a negar, posso deduzir o fim e a negação da teologia? Como obter um princípio da explicação e uma informação onde se lhe esvai o entendimento?”

Quem não se envergonha de fazer sapatos também não se envergonha de ser e de se chamar sapateiro. Hans Sachs era ao mesmo tempo sapateiro e poeta, mas os sapatos eram obra das suas mãos e as suas poesias obra da sua cabeça.” Quantos Hans Sachs famosos existiram? Ok, o psicanalista é Hanns, um tulpa.

Deus é um ser material ou, na linguagem de Espinosa, um ser extenso.”

#15

Só não se sabe mais de Deus e das coisas divinas se, a seu respeito, nada mais se quer saber. Quantas coisas se sabiam de Deus, quantas do Diabo e quantas dos Anjos, quando estes seres suprassensíveis eram ainda objeto de uma fé efetiva!”

Os místicos e os escolásticos da Idade Média não tinham nenhuma aptidão e habilidade para a ciência natural porque não tinham qualquer interesse pela natureza.”

Espinosa é o Moisés dos livres pensadores e materialistas modernos.”

#16

Se, por exemplo, a simpatia e a misericórdia não são propriedades de Deus, então estou só para mim na minha dor — Deus não está aí como meu consolador.” “Só se Deus pensa em mim — assim conclui o religioso — é que tenho também fundamento e motivo para nele pensar; apenas no seu ser-para-mim reside o fundamento do meu ser-para-ele.”

Como é, pois, ridículo querer reprimir o ‘ateísmo’ da filosofia sem, ao mesmo tempo, reprimir o empirismo da empiria!” “E, contudo, como é rica, em tais ridicularias, a História! Repetem-se em todas as épocas críticas.”

#17

O idealismo kantiano, onde as coisas se regulam pelo entendimento e não o entendimento pelas coisas, nada mais é, pois, do que a realização da representação teológica do entendimento divino, o qual não é determinado pelas coisas, mas antes as determina. Como é, pois, insensato aceitar o idealismo no céu, o idealismo da imaginação, como uma verdade divina e rejeitar o idealismo da terra, isto é, o idealismo da razão, como um erro humano! Negais o idealismo? Então negai também Deus!”

Mas o idealismo kantiano é ainda um idealismo limitado — o idealismo do ponto de vista do empirismo. (…) Deus (…) é uma coisa-em-si, mas já não é uma coisa para o empirismo“Muitas vezes, já há muito que, na prática, nos libertamos de uma coisa, de uma doutrina, de uma idéia, mas não estamos ainda livres dela na cabeça” “Quantos não são republicanos de coração, de disposição anímica, mas na cabeça não conseguem ir além da monarquia; o seu coração republicano naufraga nas objeções e dificuldades que o entendimento suscita. Assim, pois, acontece também com o teísmo de Kant.” “O Kant liberto do limite do teísmo é Fichte — o ‘Messias da razão especulativa’.” “Mas o idealismo fichteano é unicamente a negação e a realização do teísmo abstrato e formal, do monoteísmo; não do teísmo religioso, material, cheio de conteúdo, do teísmo trinitário, cuja realização é primeiramente o idealismo ‘absoluto’, o de Hegel.”

#18 “a intuição que Schelling, em oposição a Fichte, uniu ao entendimento é pura fantasia e nenhuma verdade, portanto, não se toma em consideração.”

#19 “A consumação da filosofia moderna é a filosofia de Hegel.”

#20 “A nova filosofia é a realização da filosofia hegeliana, da filosofia anterior em geral — mas uma realização que é ao mesmo tempo a sua negação e, claro está, uma negação livre de contradição.”

#21

A matéria (…) é a autoalienação do espírito.” “A matéria permanece em contradição com o ser pressuposto pela filosofia como o verdadeiro ser.” “só a negação da negação é, segundo Hegel, a verdadeira posição [de Deus, da teologia…]. Ao fim e ao cabo, eis-nos novamente no ponto de onde tínhamos partido — no seio da teologia cristã.”

A teologia é que constitui o começo e o fim; no meio, encontra-se a filosofia, enquanto negação da primeira posição; mas a negação da negação é a teologia. Primeiro, põe-se tudo ao contrário, mas em seguida restabelece-se tudo no seu antigo lugar, como em Descartes. A filosofia hegeliana é a última grandiosa tentativa para restaurar o Cristianismo, já perdido e morto, por meio da filosofia e, claro está, mediante a identificação, tal como em geral acontecia nos tempos modernos, [?] da negação do Cristianismo com o próprio Cristianismo.”

#22 “Mas que contradição [Kant] separar a verdade da realidade e a realidade da verdade!”

#23 “Sem dúvida, a filosofia não tem de se preocupar com as representações que o uso ou o abuso comum associa a um nome; mas tem de se vincular à natureza determinada das coisas, cujos signos são nomes.”

#24 “O ser permanece um além. A filosofia absoluta transformou, sem dúvida, o além da teologia num aquém, mas, em compensação, transformou para nós o aquém do mundo real num além.”

#25 “No pensar, sou um sujeito absoluto (…) sou intolerante. Pelo contrário, na atividade dos sentidos, sou liberal”

#26 “O homem entende por ser, segundo os fatos e a razão, o ser-aí, o ser-para-si, a realidade, a existência, a efetividade e a objetividade. Todas estas determinações ou nomes exprimem uma só e mesma coisa a partir de diversos pontos de vista. O ser no pensamento, o ser sem objetividade, sem efetividade, sem ser-para-si é, certamente, nada; mas neste nada, expresso apenas a nulidade da minha abstração.

#27

Se eu abstrair do conteúdo do ser e, claro está, de todo o conteúdo, pois tudo é conteúdo do ser, então nada me resta a não ser o pensamento do nada.”

A linguagem já identifica ser e essência. Só na vida humana é que o ser se separa da essência, mas também apenas em casos anormais e infelizes — acontece que não se tem a sua essência no sítio onde se tem o ser”

#28

A filosofia hegeliana não foi além da contradição do pensar e do ser. O ser com que começa a Fenomenologia não está menos radicalmente em contradição com o ser real do que o ser com que inicia a Lógica.”

A questão do ser é justamente uma questão prática, uma questão na qual o nosso ser está implicado, é uma questão de vida e de morte. E se no direito nos agarramos ao nosso ser, não queremos que também ele nos seja tirado pela lógica. É preciso que ele seja igualmente reconhecido pela lógica, se esta não quiser persistir em contradição com o ser real.”

#29

A antiga filosofia deixava subsistir algo fora do pensar — um resíduo por assim dizer supérfluo, que não entrava no pensar. (…) A razão tinha na matéria a sua fronteira. A antiga filosofia vivia ainda na distinção do pensar e do ser; não considerava ainda o pensar, o espírito, a idéia, como o que tudo engloba, isto é, a realidade única, exclusiva e absoluta.” Errado: esta descrição se identifica tanto com o Um de Parmênides quanto com o Ser de Platão.

Em contrapartida, para os neoplatônicos, a matéria, o mundo material e real em geral, já não constitui qualquer instância, qualquer realidade.” “o homem (…) põe no lugar do mundo real o mundo imaginário e inteligível” Mundo-verdade como tulpa maligno…

Quanto mais abstrato ele é, tanto mais negativo é perante o sensível real, tanto mais sensível é justamente no abstrato.”

Deus o Huno

Átila o Uno

Assim se torna concreta a razão, a idéia: isto é, o que a intuição deve dar atribui-se ao pensar; o que é função e tarefa do sentido, da sensação e da vida transforma-se em função e tarefa do pensar.”

O que nos neoplatônicos é representação e fantasia foi por Hegel transformado e racionalizado apenas em conceitos. Hegel não é o ‘Aristóteles alemão ou cristão’ — é o Proclo alemão. A ‘filosofia absoluta’ é a ressurreição da filosofia alexandrina. Segundo a determinação expressa de Hegel, não é a filosofia aristotélica, a antiga filosofia pagã em geral, mas a filosofia alexandrina, que é a filosofia absoluta — a filosofia cristã, mesclada ainda com ingredientes pagãos — que permanece ainda, porém, no elemento da abstração da autoconsciência concreta.”

a meta da sua atividade é deixar de ser (…) O êxtase e o arroubo constituem, para o neoplatônico, o supremo estado psicológico do homem.”

Deus procede apenas do homem, mas não ao invés, pelo menos originariamente“À miséria da necessidade e da dor corresponde também a representação e o sentimento da beatitude. Só em oposição à infelicidade é que a beatitude é uma realidade. Só na miséria do homem tem Deus o seu lugar de nascimento.” “Aqui reside também a diferença dos neoplatônicos relativamente aos estóicos, epicuristas e céticos. A impassibilidade, a beatitude, a ausência de necessidades, a liberdade e a autonomia eram também o objetivo destes filósofos, mas só enquanto virtudes do homem”

nos neoplatônicos, embora a virtude pagã fosse ainda para eles a verdade — daí a sua diferença quanto à teologia cristã, que punha no além a beatitude, a perfeição e a semelhança do homem com Deus — este predicado tornou-se sujeito, um adjetivo do homem tornou-se substantivo, ser real. Justamente por isso, o homem real tornou-se também um simples abstrato sem carne e sem sangue, uma figura alegórica do ser divino. Plotino envergonhava-se, pelo menos segundo o relato do seu biógrafo, de ter um corpo.”

#30 “Hegel nega o pensar, a saber, o pensar abstrato; mas nega-o precisamente no pensar abstrativo, de maneira que a negação da abstração é de novo uma abstração.”

#31

Hegel é a história da teologia transformada num processo lógico.”

Faz-se ao pensamento a exigência de se realizar e de se tornar sensível apenas porque se pressupõe inconscientemente que a realidade e a sensibilidade independentes do pensamento constituem a sua verdade.”

#32 “O conceito do objeto originariamente nada mais é do que o conceito de um outro eu — é assim que o homem na infância concebe todas as coisas como seres com ação livre e arbítrio — por conseguinte, o conceito de objeto em geral é mediatizado pelo conceito do tu, do eu objetivo. (…) Mas é só pelos sentidos que o eu é não-eu. (…) O mistério da ação recíproca resolve-se apenas na sensibilidade.”

— Se se encerrasse aqui, este livro seria avaliado por mim com 4 estrelas. O terço final é supérfluo. —

#33

A nova filosofia considera e aborda o ser, tal como é para nós, enquanto seres não só pensantes, mas também realmente existentes (…) O ser é, por conseguinte, um segredo da intuição, da sensação, do amor.”

Só no amor é que o Deus que conta os cabelos da cabeça é verdade e realidade. O próprio Deus cristão é apenas uma abstração do amor humano, apenas uma imagem do mesmo.”

Feuerb. estava avançando sofregamente, quicando de Hegel a Kant, a Espinosa e Descartes, de volta a Hegel, etc. Quando se pensa que emitirá um construto similar à dialética marxista, após a parte crítica de seu tratado, dá um salto quântico difícil de entender. O que virá a seguir a isto, o Sermão da Montanha? Reparem que estamos no aforismo 33! “Só existe o que é — real ou possível — objeto da paixão.” Se isto é a Filosofia do Futuro, voltemos ao Banquete e nada mais.

A dor do amor consiste em não existir na realidade o que existe na representação.”

Logo recai nas patavinas corriqueiras sobre dor-prazer…

#35

Terá Hitler amado?

#36 “filosofia sincera”, “com alegria”, etc.!

#38

Tenho a autêntica sensação de que o primeiro autor morreu por volta da metade do livro e seu filho pequeno tentou terminá-lo…

Agora falando um pouco mais sério: todo filósofo médio da geração posterior sabe o que falta aos filósofos precedentes, porém propor algo da mesma estatura é outra história. Feuerbach conhece muito bem os defeitos hegelianos, e só.

O gênio é o saber imediato e sensível. O que o talento tem apenas na cabeça, tem-no o gênio na carne e no sangue; isto é, o que para o talento é ainda um objeto do pensar, constitui para o gênio um objeto dos sentidos.” Isto é adequado, mas está no lugar inadequado: deveria constar dum tratado de estética!

#40

E esta intuição é não só o começo, mas também a meta — por conseguinte, a essência do Cristianismo.”

Que tem que ver o cristianismo com tua nova filosofia, ó arauto?!

#41

Claudicante. Seria a palavra com que definiria Feuer., se me pedissem para defini-lo numa só!

percepcionamos pelos ouvidos não só o murmúrio da água e o rumorejo das folhas, mas também a voz ardorosa do amor e da sabedora (sic); vemos não só superfícies refletoras e fantasmas coloridos, vemos também o olhar do homem. (…) Tudo é, pois, perceptível aos sentidos, se não imediatamente, pelo menos de um modo mediato; se não aos plebeus, aos brutos, pelo menos aos de sentidos educados; se não aos olhos do anatomista ou do químico, pelo menos aos olhos do filósofo.” Horrível!

Não é sozinho, mas apenas a dois que se chega aos conceitos, à razão em geral.” Você por um acaso reparou que Platão escreveu DIÁLOGOS?!?

#43

MAR DA GENERALIDADE PURA: “A tarefa da filosofia e da ciência em geral consiste, pois, não em se afastar das coisas sensíveis, isto é, efetivas, mas em ir até elas — não em transformar os objetos em pensamentos e em representações, mas em tornar visível, objetivo, o que é invisível para os olhos comuns.”

É grotesco inclusive como volta a falar com inocência de uma coisa-em-si, da qual tinha se afastado, enquanto criticava Kant, com tanta prudência!

Só nos tempos modernos é que a humanidade, como outrora na Grécia, após o prelúdio do mundo onírico dos orientais, é que regressou à intuição sensível,¹ isto é, não-falsificada e objetiva do sensível, do real, chegando assim ao mesmo tempo também a si mesma; com efeito, um homem que se ocupa apenas com a essência da imaginação ou do pensamento abstrato, é ele próprio unicamente um ser abstrato ou fantasmal, e não um ser real, verdadeiramente humano.”

¹ Vamos devagar: só ao voltar é que voltei! Talvez seja uma tradução pobre?! Só nos tempos modernos é que o homem voltou a ser como o homem antigo? Infeliz conjugação da tentativa de dizer que está-se diante de um pioneirismo com a conexão, na mesma frase, da consciência de que o homem grego e o homem oriental já pisaram sobre o mesmo terreno… E o resto do parágrafo é dissertação juvenil, mesmo que nada possua de abstruso!

#44

Estou aqui — eis o primeiro sinal de um ser real e vivo. O índex é o guia do nada para o ser. Aqui está o primeiro limite, a primeira separação.” “Onde estou eu? Eis a pergunta da consciência que desperta, a primeira pergunta da sabedoria mundana. A limitação no espaço e no tempo é a primeira virtude, a diferença de lugar é a primeira diferença entre o conveniente e o inconveniente, que ensinamos à criança e ao homem grosseiro.”

Não pôr no texto o que pertence à nota, não pôr no começo o que incumbe apenas ao fim, numa palavra, a distinção e a limitação espaciais fazem também parte da sabedoria do escritor.” Não escrever livros ruins também!

#47 “Se eu pudesse unir em mim, ao mesmo tempo, as determinações opostas, elas neutralizar-se-iam e esbater-se-iam como os contrários do processo químico que, nele presentes simultaneamente, perdem a sua diferença num produto neutro.”

#48 “O círculo é o símbolo e o brasão da filosofia especulativa, do pensamento que apenas se apóia em si mesmo; também a filosofia hegeliana é, como se sabe, um círculo de círculos, [???] embora ela, em relação aos planetas, mas só a tal determinada pela empiria, explique a órbita circular como ‘a trajetória de um movimento uniforme’; a elipse, pelo contrário, é o símbolo e o brasão da filosofia sensível, do pensamento que se apoia na intuição.” [?????]

#52 “a nova filosofia já não pode ser relapsa: o que ao mesmo tempo morreu no corpo e na alma já nem sequer pode regressar como fantasma.” Booooohh… Desce do picadeiro, ô palhaço!

#53

O homem não é um ser particular como o animal, mas um ser universal, por conseguinte, não é um ser limitado e cativo, mas um ser ilimitado e livre; com efeito, a universalidade, a ilimitação e a liberdade são inseparáveis.”

O homem não tem o faro de um cão de caça, de um corvo; mas apenas porque o seu olfato pode abranger todas as espécies de odores, pelo que é um sentido livre e indiferente a respeito de odores particulares.” O homem com covid é um nada!

O olfato e o gosto das coisas são objetos da ciência da natureza. Até mesmo o estômago do homem, por mais desdenhosamente que o olhemos, não é um ser animal, mas humano, porque é universal, não confinado a espécies determinadas de alimentos. (…) Quem faz terminar a humanidade no estômago, rejeita o estômago para a classe dos animais, autoriza o homem a comer como uma besta.” Que porra é essa?

#58 “A verdade é unicamente a totalidade da vida e da essência humanas.”

#60 “o homem com o homem — a unidade do eu e do tu — é Deus.”

#63 “A Trindade era o mistério supremo, o ponto central da filosofia e da religião absolutas. Mas o seu segredo, como se provou histórica e filosoficamente em A Essência do Cristianismo,¹ é o segredo da vida comum e social — o segredo da necessidade do tu para o eu a verdade de que nenhum ser, quer seja ou se chame homem ou Deus, espírito ou eu, é apenas por si mesmo um ser verdadeiro, perfeito e absoluto, e que só a ligação, a unidade de seres de idêntica essência constitui a verdade e a perfeição.”

¹ É mesmo? Se provou mesmo? Que coincidência casual ser o SEU livro!!

LES OEUVRES COMPLÈTES D’HIPPOCRATE – Tome Premier (trad. clássica de Littré)

GLOSSÁRIO

astragale: tornozelo

hellébore: planta

ionisme: relativo à Jônia

PREFÁCIO – O PAPEL DO TRADUTOR

« Mon but a été de mettre les oeuvres hippocratiques complètement à la portée des médecins de notre temps, et j’ai voulu qu’elles pussent être lues et comprises comme un livre contemporain. Deux difficultés principales s’y opposaient: la première gisait dans des théories antiques, qui, depuis longtemps, ont cessé d’être familières aux esprits, et dont l’intelligence est nécessaire pour l’intelligence d’une foule de passages; la seconde était dans l’emploi d’une ancienne langue médicale où les mots ont quelquefois une acception mal déterminée, et quelquefois aussi une acception trompeuse, attendu qu’ils ont changé de signification en passant dans le langage moderne. » Littré, 1839

Meu objetivo foi colocar as obras hipocráticas completamente à disposição dos médicos de nosso tempo, e quis que elas pudessem ser lidas e compreendidas como um livro contemporâneo. Duas dificuldades principais se opunham: a primeira repousava nas teorias antigas, que, depois de tanto tempo, deixaram de ser familiares aos espíritos, e às quais é necessário empregar a inteligência a fim de iluminar uma multidão de passagens obscuras; a segunda dizia respeito ao emprego de uma língua médica ancestral em que os vocábulos estão dotados de uma acepção freqüentemente pouco determinável de acordo com os padrões vigentes, e às vezes é muito fácil incorrer em enganos, devido ao fato de palavras parecidas terem sofrido mudança de significação ao migrar para o léxico moderno.”

« On pourra demander à quoi servent des versions’en langue vulgaire, puisqu’on en a tant en latin. Mais qu’on se rappelle que la version latine est rédigée à son tour en une langue morte, qu’ainsi elle est doublement difficile à entendre, et qu’elle n’en reste pas moins une traduction…. En effet, elle est souvent plus obscure que l’original même; chaque nouveau traducteur porte, dans le latin, qu’il ne sait que comme langue morte ses idiotismes particuliers, de sorte qu’il nous faudrait presque apprendre sa langue maternelle pour comprendre suffisamment son latin. C’est une des raisons pour lesquelles Calvus, Föes et Vander Linden traduisent différemment dans beaucoup de cas où cependant leur texte n’est pas différent. C’est encore pour cela que l’on accuse certains auteurs de l’antiquité de renfermer bien du fatras; car en se laissant montrer le vieux médecin grec à travers un latin qu’on n’entend qu’à demi, on a à lutter à la fois contre l’obscurité de l’original et de la traduction. » Grimm, no Prefácio de sua tradução de Hipócrates ao Alemão

Pode-se perguntar qual a utilidade das versões de língua vulgar (modernas), uma vez que já há tantas em Latim. Mas deve-se lembrar que a versão latina foi redigida, por sua vez, numa língua morta, de forma que ela é duplamente difícil de entender, e que ela não conserva, assim, o status de tradução… Com efeito, ela é muitas vezes mais obscura que o próprio original; cada novo tradutor transcreve, no Latim, que ele não conhece mais do que como língua morta, seus idiotismos¹ particulares, de sorte que nos é necessário quase que aprender a língua maternal do tradutor a fim de compreender seu Latim. Eis uma das razões por que Calvus, Föes e Vander Linden traduziram de forma diferente vários trechos sendo que seus fragmentos de consulta não diferiam. Também é por isso que acusam-se certos autores da antiguidade de ser bem confusos; porque ao se apresentar o velho médico grego através dum Latim que se entende pela metade, tem-se, ao mesmo tempo, que enfrentar a obscuridade do original e da tradução.”

¹ Aqui, é necessário distinguir o que a própria Medicina de Littré entenderia por “idiotismo” e o que o lingüista Littré, muito provavelmente, quer dizer neste contexto:

(…) 3. [Medicina] Atraso mental congênito grave, equivalente a uma idade mental não superior a três anos, caracterizado por um quociente de inteligência inferior a 20 e linguagem muito rudimentar. = IDIOTIA

4. [Linguística] Maneirismo, expressões idiomáticas, convenções absorvidas ou simplesmente o estilo individual do escritor/tradutor. Bem distante, portanto, de significar algo pejorativo.”

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, https://www.priberam.pt/dlpo/idiotismo [consultado em 24-05-2018].

« tel passage, que l’on juge clair et bien compris tant qu’on ne fait que le lire, devient obscur et embarrassé quand on se met à le traduire. Rendre la clarté à ces morceaux, lumineux pour les anciens, obscurs pour les modernes, est une des difficultés les plus réelles et les moins soupçonnées de toute version d’un livre antique, et mainte traduction, qui a d’ailleurs du mérite, vient échouer contre cet écueil. »

a passagem tal e tal, que se julga clara e óbvia enquanto apenas se a lê, torna-se obscura e problemática assim que se a tenta traduzir. Restituir a clareza a esses fragmentos, luminosos à época dos antigos, obscuros hoje em dia, é uma das dificuldades mais palpáveis e menos suspeitadas de qualquer versão de livro antigo, e um sem-número de traduções vem a colidir com este obstáculo.”

« J’ai essayé, dans une Introduction¹, de discuter les principales questions que soulève la critique des ouvrages d’Hippocrate; cette Introduction est devenue un livre, et il ne m’est plus resté, dans le premier volume, qu’un petit nombre de pages disponibles pour recevoir le commencement de l’édition que j’ai entrepris de donner au public. Le lecteur s’étonnera peut-être qu’un travail purement préliminaire occupe, tant d’espace; mais la nature même des choses l’a commandé.

¹ Cette introduction doit beaucoup aux observations critiques, pleines de goût et de justesse, de mon frère, Barthélémy Littré, qu’une mort prématurée et cruelle vient de m’enlever au moment où je corrigeais ces dernières feuilles. »

Tentei, numa Introdução,¹ discutir as principais questões que a crítica das obras de Hipócrates levanta; essa Introdução acabou se tornando um livro inteiro, e não me restaram, num primeiro volume, mais do que poucas páginas para inserir os primeiros escritos hipocráticos que objetivo trazer a público. O leitor talvez se maravilhe de que um trabalho puramente preliminar ocupe tamanho espaço, mas a natureza mesma das coisas o exigiu.²

¹ Essa introdução deve consideravelmente às observações críticas, plenas de gosto e de justeza, do meu irmão, Bartolomeu Littré, de quem uma morte prematura e cruel me privou exatamente no momento de corrigir as últimas folhas deste volume. – Nota do tradutor francês

² Essa edição das Obras Completas de Hipócrates terminou no décimo volume. – Nota do tradutor brasileiro, eu!”

Ayant découvert, dans la Bibliothèque Royale de Paris, une traduction latine inédite du traité des Semaines, j’ai reconnu que la plus grande partie de la 8e section des Aphorismes y avait été prise; j’ai reconnu de plus qu’un long morceau de ce traité avait été inséré dans la compilation intitulée des Jours critiques. En conséquence, j’ai pu supprimer, de mon édition, la 8e section des Aphorismes et l’opuscule des Jours critiques, et rendre au traité des Semaines tout ce qui en avait été distrait.

Un travail comparatif d’un autre genre m’a appris que le traité de la Nature des Os n’était pas autre chose, non plus, que la réunion de fragments disparates, qui même n’étaient pas tous pris à la Collection hippocratique. J’ai donc encore supprimé cette compilation, dont les diverses parties se retrouvent en leur lieu et place.”

J’ai séparé le 1er et le 3e livre des Épidémies des 5 autres, parce qu’ils ont un caractère différent, et que les critiques anciens se sont accordés pour les attribuer à Hippocrate.”

Enfin j’ai distribué les 4 livres des Maladies, autrement qu’ils ne le sont dans les éditions, parce que, malgré les numéros qu’ils portent, ils ne se suivent ni se rapportent, tous les 4, les uns aux autres. J’ai séparé aussi le premier livre des Prorrhétiques [Prescrições], attendu qu’ils n’ont rien de commun que le titre.

Néanmoins j’ai conservé les dénominations anciennes, afin de ne porter aucun désordre dans les désignations et les citations.”

L’intérêt et l’avantage que procure un livre venu de l’antiquité, sont toujours dans le rapprochement que l’esprit fait entre la science moderne et la science antique. Or, ce rapprochement ne peut naître qu’à certaines conditions, qui se trouvent ou dans le lecteur lui-même, ou dans la manière dont le livre ancien se présente à lui: dans le lecteur, quand ses études lui ont ouvert l’entrée des doctrines de l’antiquité; dans le livre même, quand ces doctrines y ont reçu une élaboration qui les mette en harmonie avec la pensée moderne, de sorte qu’on puisse y pénétrer, pour ainsi dire, de plain pied. C’est sous la direction de cette idée que j’ai exécuté mon travail sur Hippocrate; car il s’agit de faire saisir le lien entre le présent et le passé, et de rendre, par le rapport qui s’établit entre l’un et l’autre, les choses antiques aussi intelligibles que les choses modernes”

O agradável e o útil de buscar livros vindos da antiguidade estão invariavelmente na aproximação que o espírito faz entre a ciência moderna e a ciência antiga. Ora, essa aproximação não pode nascer senão em determinadas condições, que se acham ou no próprio leitor, ou na forma como o livro antigo se apresenta a ele: no leitor, quando seus estudos abriram-lhe a porta das doutrinas da antiguidade; no livro em si, quando essas doutrinas receberam uma elaboração que as colocam em harmonia com o pensamento moderno, de sorte que nelas se possa penetrar, por assim dizer, de corpo inteiro. É sob a direção dessa idéia que executei meu trabalho sobre Hipócrates; trata-se de capturar o fio condutor entre o presente e o passado, e de tornar, pela associação que passa a haver entre um e outro, as coisas antigas tão inteligíveis quanto as coisas modernas”

INTRODUÇÃO GERAL À OBRA COMPLETA DE HIPÓCRATES

« Enfin, que sait-on de positif sur la biographie d’Hippocrate lui-même, au milieu de toutes les fables dont sa vie a été le texte? »

« Lorsqu’on recherche l’histoire de la médecine et les commencements de la science, le premier corps de doctrine que l’on rencontré, est la collection d’écrits connue sous le nom d’oeuvres d’Hippocrate. La science remonte directement à cette origine et s’y arrête. Ce n’est pas qu’elle n’eût été cultivée antérieurement, et qu’elle n’eût donné lieu à des productions même nombreuses; mais tout ce qui avait été fait avant le médecin de Cos a péri. Il ne nous en reste que des fragments, épars et sans coordination; seuls, les ouvrages hippocratiques ont échappé à la destruction; et, par une circonstance assez singulière, il existe une grande lacune après eux, comme il en exisitait une avant eux: les travaux des médecins, d’Hippocrate à l’établissement de l’école d’Alexandrie, ceux de cette école même ont péri complètement, à part des citations et des passages conservés dans des écrivains postérieurs; de telle sorte que les écrits hippocratiques demeurent isolés au milieu des débris de l’antique littérature médicale. Cet isolement les agrandit encore et leur donne un lustre et un intérêt particuliers; ils en ressortent davantage aux yeux du spectateur qui contemple les ruines de l’intelligence: comparables aux édifices qui restent seuls debout au milieu des cités anéanties, et qui paraissent d’autant plus grands et plus majestueux que les rues et les places qui les entouraient ont disparu. »

« Ils ont été placés trop près de l’origine des choses, pour ne pas avoir un type qui n’a plus dû se reproduire dans le cours du temps; ils ont exercé une trop grande influence sur les destinées de la médecine pour ne pas receler des sources de savoir qui ne sont pas encore épuisées; ils ont été trop étudiés pour ne pas mériter d’être étudiés encore. Moins que jamais, il est permis à la médecine d’oublier son passé; de s’enfermer exclusivement dans le domaine de l’observation contemporaine; de sacrifier au présent les expériences qui ont été faites, les enseignements qui ont été donnés, les pensées générales qui ont été disséminées dans les oeuvres des génies éminents »

« Les sources de la médecine grecque dans l’âge qui a été immédiatement antérieur au célèbre médecin, sont au nombre de trois. La première est dans les collèges des prêtres-médecins [I] qui desservaient les temples d’Esculape, et que l’on désignait sous le nom d’Asclépiades; la seconde, dans les philosophes ou physiologistes [II] qui s’occupaient de l’étude de la nature, et qui avaient fait entrer dans le cadre de leurs recherches l’organisation des corps et l’origine des maladies; la troisième est dans les gymnases [III] où les chefs de ces établissements avaient donné une grande attention aux effets, sur la santé, des exercices et des aliments. »

I

« Le dieu de la médecine était Esculape, venu, comme tous les dieux de l’Olympe grec, des régions de l’Orient. La mythologie le faisait fils du Soleil. Cette généalogie, sans doute, n’est pas moins symbolique que la personne même du dieu, et Pausanias raconte qu’un Sidonien, qu’il rencontra dans le temple d’Esculape à Aegium, lui dit que ce dieu est la personnification de l’air nécessaire à l’entretien de la santé de tous les êtres, et qu’Apollon, qui représente de son côté le soleil, est dit, avec raison, le père d’Esculape, puisque son cours détermine les différentes saisons et communique à l’atmosphère sa salubrité. Le culte d’Esculape remonte dans la Grèce à une haute antiquité; ses fils Podalire et Machaon sont comptés, par Homère, parmi les héros qui assiégèrent la ville de Troie; et c’est à ces deux personnages qu’on attribuait l’introduction du culte d’Esculape dans la Grèce, Les mythologues prétendent que Machaon le porta dans le Péloponèse, et Podalire dans l’Asie-Mineure. Le plus ancien temple passait pour être celui de Titane près de Sicyone, et Xénophon rapport que, selon un antique usage, des médecins suivaient l’armée lacédémonienne en campagne, et se tenaient auprès du roi sur le champ de bataille. Ces médecins ne pouvaient être que des serviteurs d’un des temples d’Esculape que possédait Lacédémone. »

« Les écoles de Rhodes et de Cyrène s’éclipsèrent de bonne heure, et il ne reste aucun monument médical que l’on puisse y rapporter. Mais celles de Cos et de Cnide acquirent beaucoup d’illustration, et elles ont joué un grand rôle dans la médecine.

L’école de Cnide doit être nommée d’abord; car c’est d’elle qu’est sorti le premier livre que nous puissions attribuer avec quelque sûreté aux Asclépiades; et l’un des plus importants écrits d’Hippocrate est dirigé contre ce livre, intitulé: Sentences cnidiennes.

Le plus ancien des Asclépiades cnidiens que l’on connaisse est Euryphon, contemporain d’Hippocrate, mais plus âgé que lui. Regardé comme l’auteur des Sentences cnidiennes, il est cité par Platon le Comique; ce poète, introduisant Cinésias au sortir d’une pleurésie, le représente maigre comme un squelette; la poitrine pleine de pus, les jambes, comme un roseau, et tout le corps chargé des eschares qu’Euryphon lui avait faites en le brûlant. »

« Dès le temps d’Hippocrate il y avait eu deux éditions des Sentences cnidiennes; ce qui prouve les méditations de l’auteur et le progrès du travail. Le fond du livre avait été conservé, mais il y avait eu des retranchements, des additions et des changements. » 

« Les médecins cnidiens avaient publié, dit Galien, de secondes Sentences cnidiennes, et c’est de ce livre qu’Hippocrate dit qu’il avait un caractère plus médical. »

« À part les aïeux de ce médecin que l’on dit avoir pratiqué la médecine dans l’île, on ne rencontre mentionné que le nom d’un médecin de Cos; il s’appelait Apollonidès. Cet Apollonidès se trouvait à la cour du roi de Perse, Artaxerce Ier. Mégabyze, un des grands seigneurs de cette cour, ayant été grièvement blessé dans un combat, fut sauvé à force de soins par ce médecin.” “il lia une intrigue amoureuse avec une princesse persane, sous prétexte de la guérir; celle-ci, sur le point de mourir, révéla tout à Amistris, sa mère, et mère d’Artaxerce, laquelle, après avoir tourmenté Apollonidès pendant 2 mois, le fit enterrer vivant le jour où sa fille expira. »

Vários autores – Prénotions Coaques

« il parcourut comme médecin périodeute ou ambulant différentes parties de la Grèce, et il y exerça la médecine » « Platon [le Tragique !] parle souvent des asclépiades athéniens, et il le fait en termes qui prouvent qu’ils s’étaient acquis une réputation d’élégance et de bon goût dans la ville de Minerve. » « on en a une preuve manifeste dans le Protagoras de Platon. Socrate demande à un des interlocuteurs de ce dialogue ce qu’il se proposerait s’il allait étudier la médecine sous Hippocrate de Cos; l’autre répond que ce serait pour se faire médecin. On devenait donc médecin dans les écoles des asclépiades, sans tenir à aucune famille sacerdotale. D’ailleurs, comment aurait-il pu se faire que le nombre très considérable d’Asclépions répandus dans tous les pays de langue grecque fussent desservis par les membres d’une seule famille? »

« Isidore dit: <Esculape ayant été tué d’un coup de foudre, on rapporte que la médecine fut interdite, l’enseignement en cessa avec son auteur, et elle resta cachée pendant près de 500 ans, jusqu’au temps d’Artaxerce, roi des Perses. Alors elle fut remise en lumière par Hippocrate descendu d’Esculape, et né dans l’île de Cos.> »

« traces d’un double système, l’un qui consistait à noter tous les symptômes, et à en faire presque autant de maladies distinctes; l’autre qui recherchait ce que les symptômes avaient de commun comme indices de l’état des forces et du cours de la maladie. »

II

OS PRIMEIROS MÉDICOS-FILÓSOFOS:

Em prosa: Mélissus, Gorgias, Prodicus.

Em verso: Parménide, Empédocle, Alcméon.

« Suivant Philolaüs [Theologumena arithmetices], pythagoricien qui a composé un Traité sur la nature, il est 4 organes principaux: le cerveau, le coeur, l’ombilic et les parties génitales. À la tête appartient l’intelligence, au coeur l’âme sensible, à l’ombilic l’enracinement et la germination, aux parties génitales l’émission de la semence et la génération. Le cerveau est le principe de l’homme, le coeur celui de l’animal, le nombril celui du végétal, les parties génitales celui de toutes choses. » « Il serait facile de voir dans ce fragment de Philolaüs un germe de la grande idée des anatomistes modernes qui cherchent à démontrer l’uniformité d’un plan dans le règne animal. »

« Hérodote, qui, exilé dans la Grande Grèce, composa son histoire à Thurium, dans le voisinage de Crotone, nous apprend que, de son temps, l’école médicale de cette ville était la plus célèbre. Il place au second rang celle de Cyrène, en Afrique, de laquelle nous ne savons rien autre chose; et qui n’a rien produit ou dont il n’est rien resté. » « De l’école de Crotone était sorti le médecin Démocède, qui, pris par les Perses à Samos, guérit Darius d’une entorse dangereuse, et se concilia la faveur de ce prince, inutilement traité par les médecins égyptiens. »

« Empédocle (504 a.C.-?) découvrit le labyrinthe de l’oreille qu’il regarde comme l’organe essentiel de l’audition. [Plutarco] »

« La secte empirique, née long-temps après Hippocrate, a voulu se rattacher à Acron. Suivant Suidas, il avait composé en dialecte dorien un livre sur la nourriture salubre. »

« Diogène avait cultivé l’anatomie, et Aristote nous a conservé un long fragment de son Traité de la nature, dans lequel on trouve une description de l’origine et de la distribution des veines. » « Un point non moins important des doctrines de Diogène pour l’histoire de la médecine à cette époque, c’est l’influence qu’il attribue à l’air dans sa théorie sur les êtres animés. Suivant lui, c’est l’air qui est la cause de l’intelligence chez l’homme, en se répandant dans le sang par les veines de tout le corps (Simplicius); suivant lui encore, il est nécessaire à l’existence de tous les animaux, et les poissons même le respirent avec l’eau; idée fort juste, et qu’Aristote combat à tort. Toutes ces opinions sur l’air se retrouvent dans le livre hippocratique qui porte le titre des Airs. [início do 2º tomo] »

« Si nous possédions les livres de Démocrite, nous nous ferions une idée très exacte de ce que fut la médecine du temps et en dehors d’Hippocrate. Quelques termes médicaux qu’il employait sont venus jusqu’à nous. Le nom d’ulcère phagédénique se trouvait dans ses écrits. » « Démocrite attribuait ces grandes épidémies à une cause singulière, la destruction des corps célestes et la chute des atômes qui les composaient, et qui étaient ennemis de la nature humaine. » « Un livre sur l’Eléphantiasis, et un autre sur les maladies convulsives. Ces ouvrages lui sont attribués par Coelius Aurelianus. »

III

« Ils s’habituèrent à traiter les fractures et les luxations qui survenaient fréquemment dans les palestres. Iccus de Tarente donna une attention particulière au régime alimentaire; et cette partie, étudiée avec soin, prit un grand développement. »

« Herodicus, qui était lui-même maître de gymnastique et d’une constitution maladive, entreprit de se fortifier par l’application régulière des exercices. Il faisait faire de très longues courses à ses malades; par exemple, il les faisait aller d’Athènes à Mégare et revenir sans se reposer. C’était surtout au traitement des maladies chroniques qu’il se consacra. Il paraît que les asclépiades ne traitaient guère que les plaies et les maladies aiguës. C’est du moins ce que dit Platon; et en reprochant à Herodicus de prolonger la vie des gens valétudinaires et de leur faire ainsi une longue maladie, au lieu de les laisser à la nature qui les délivrerait promptement de leurs maux par la mort [República III], il lui adressa un blâme là où nous ne pouvons voir qu’un éloge. Cette application de la gymnastique au traitement des maladies eut une grande influence sur la médecine antique. Beaucoup de malades désertèrent les Asclépions et allèrent se faire soigner dans les gymnases; et les médecins grecs prirent l’habitude d’étudier les effets des exercices, de les admettre dans le cercle de leur thérapeutique, et de les prescrire d’une manière conforme à l’art dans une foule de cas. »

« Dans ce concours est tout le fond de la médecine telle qu’elle se développa sous Hippocrate, ses contemporains et ses disciples. » « Une illusion, causée par l’éloignement des temps, a fait souvent regarder Hippocrate comme le fondateur de la médecine; il n’en a été que le continuateur, comme on le voit par ce qui précède, mais un continuateur capable de féconder ce qui existait avant lui. » « Sans doute l’empirisme des Asclépions et la philosophie des sages venaient d’une source commune et sortaient l’un et l’autre de l’antique Orient; mais ces deux éléments ne s’étaient pas encore rencontrés de la même façon. Sans doute les doctrines primitives des plus anciens philosophes grecs tiraient leur origine des mêmes temples qui avaient donné le modèle de la médecine sacerdotale des asclépiades; mais en Egypte tout était resté séparé et immobile, en Grèce tout se mêla et devint vivant. » « L’intervalle où cette métamorphose s’opéra est important non seulement dans l’histoire de la médecine, mais aussi dans l’histoire de l’humanité tout entière; car, à vrai dire c’est là que le temps antique finit, et que le temps moderne commence; l’ère de l’antiquité se ferme quand les choses sortent des castes et des temples. »

DIFICULDADES DA GENEALOGIA

« On n’a plus su ni à quelle occasion, ni dans quel lieu, ni à quel âge il les a composés, ni quel titre il leur a donné. Tous les documents ont manqué; et quand la collection qui porte son nom, et qui est arrivée jusqu’à nous, a été examinée par les critiques de l’antiquité, ils n’ont pu s’empêcher de reconnaître qu’elle était évidemment mêlée, et que tout ne pouvait pas appartenir à Hippocrate. Les critiques modernes ont ratifié cette sentence; mais le triage, déjà difficile dans l’antiquité, l’était devenu bien davantage; car, dans l’intervalle, une multitude de monuments qui jetaient quelques lumières sur les points obscurs de la critique hippocratique avaient été détruits. Ainsi dans l’histoire du médecin de Cos il y a deux parties à considérer: l’histoire de sa vie et celle de ses écrits. » « on aimerait sans aucun doute à savoir où cet illustre médecin a pratiqué son art, à quels malades il a porté secours, quels élèves ont écouté ses leçons, quel caractère il déployait, soit comme praticien, soit comme professeur. Sur tout cela, nul détail n’a été conservé, et la biographie manque complètement. » « Pour prouver l’existence d’un homme qui a vécu dans un temps si éloigné, il faut des témoignages contemporains, ou du moins une tradition indubitable de témoignages qui remontent jusque-là par une chaîne non interrompue. A cet égard, nous avons sur Hippocrate tout ce que nous pouvons désirer, témoignages contemporains et tradition de témoignages. » « Ainsi quelques lignes de Platon constituent le témoignage capital parmi ceux qui nous restent sur la personne d’Hippocrate; cela est peu, sans doute, mais cela n’en est pas moins fort précieux dans une question que le laps du temps a couverte d’une obscurité si profonde. » « Hippocrate a été médecin célèbre, professeur renommé, à qui on allait de loin demander des leçons, écrivain plein d’autorité, à qui Platon ne dédaignait pas d’emprunter des pensées et des arguments. La collection hippocratique que l’antiquité nous a transmise comme renfermant des livres attribués, avec des garanties très diverses, à Hippocrate, tient donc réellement à un homme qui a été praticien, professeur, auteur en médecine. »

« MNESILOQUE: Jure-moi de me sauver par tous les moyens, s’il m’arrive quelque mal.

EURIPIDE: Je le jure par l’éther, habitation de Jupiter.

MN.: Quel meilleur sérment que celui de la confrérie d’Hippocrate?

EU.: Eh bien! j’en jure par tous les dieux. »

Aristophane

« Le nom d’Hippocrate a été très commun en Grèce. Il ne faut confondre avec le médecin de Cos, ni l’Hippocrate dont les enfants servirent de but aux railleries d’Aristophane, dans les Nuées, et d’Eupolis dans les Tribus; ni l’Hippocrate contre lequel l’orateur Antiphon prononça un discours (Photius); ni Hippocrate de Chios, mathématicien célèbre qui, le premier, parvint à carrer une portion de cercle (ménisque ou lunule). »

« Outre des fragments disséminés dans différents auteurs, nous avons trois biographies d’Hippocrate; l’une qui porte le nom de Soranus, et qui sans doute est un extrait de celle de Soranus d’Éphèse; l’autre se trouve dans Suidas; et la troisième dans Tzetzès. Ces écrivains, qui par eux-mêmes n’ont aucune autorité, ont puisé leurs renseignements dans des écrivains antérieurs. Ce sont Ératosthène, Phérécyde, Apollodore, Arius de Tarse, Soranus de Cos, Histomaque et Andréas de Caryste. » « Ce Phérécyde est tout à fait inconnu; on n’en trouve pas mention ailleurs que dans la biographie d’Hippocrate; Arius de Tarse l’est également, à moins que ce ne soit celui dont Galien parle em divers endroits; mais, dans ce cas, il serait très postérieur aux faits qu’il raconta. Apollodore a vécu vers le milieu du deuxième siècle avant J.-C. C’est donc encore une autorité tout à fait incompétente. Ératosthène mérite beaucoup plus d’attention; c’était un savant astronome qui fleurit à Alexandrie vers l’an 260 avant J.-C., environ 200 ans après Hippocrate. (…) il était astronome, chronologiste, et trouvait, à la grande bibliothèque d’Alexandrie, une foule de documents depuis long-temps anéantis. » « Il y a eu plusieurs médecins du nom de Soranus. II est incertain si Soranus d’Ephèse, qui vécut sous Trajan, a écrit quelque chose sur Hippocrate. Un autre Soranus d’Ephèse, plus récent que le précédent, avait écrit la biographie des médecins; et c’est de lui que Tzetzès dit avoir emprunté les détails qu’il donne sur Hippocrate. La biographie que nous possédons sous le nom de Soranus, cite un troisième Soranus, qui était de Cos, et qui avait fouillé les bibliothèques de cette île pour recueillir des renseignements sur Hippocrate; c’est la seule mention que je connaisse d’un Soranus de Cos. Enfin Suidas cite encore un autre Soranus qui était de Cilicie et sur lequel on n’a aucun détail. Le témoignage de Soranus est trop récent pour avoir en soi quelque authenticité. »

« Histomaque place la naissance d’Hippocrate dans la première année de la 80e Olympiade (460 ans avant J.-C.). Soranus de Cos, qui avait examiné les bibliothèques de cette île, précise la date davantage, et dit qu’il naquit l’année indiquée ci-dessus, sous le règne d’Abriades, le 26 du mois Agrianus, et il ajoute que les habitants de Cos font à cette époque des sacrifices à Hippocrate. Ce mois Agrianus est le seul que l’on connaisse du calendrier des habitants de Cos, et l’on ne sait à quelle saison il répond. Cette date n’est sujette à aucune contestation. On le dit fils d’Héraclide et de Phénarète, petit-fils d’un autre Hippocrate; cela est sans doute vrai; mais la généalogie qui le rattache à Podalire de la guerre de Troie, à Esculape, à Hercule, est évidemment

controuvée. »

« Esculape, père de Podalire, père de Hippolochus, père de Sostrate, père de Dardanus, père de Crisamis, père de Cléomyttadès, père de Théodore, père de Sostrate II, père de Crisamis II, père de Théodore II, père de Sostrate III, père de Nébrus, père de Gnosidicus, père d’Hippocrate I, père d’Héraclide, père d’Hippocrate II, qui est le célèbre médecin. »

Tzetzès

« Si on compte 33 ans par génération, on aura pour 17 générations 561 ans; mais il en faut retrancher 33 pour la vie d’Esculape; ce qui réduit le compte à 528 ans, lesquels ajoutés à 460, époque de la naissance d’Hippocrate, donnent pour la prise de Troie ou pour l’époque de Podalire, 988 ans avant J.-C. Cette date est plus récente que celle qu’admettaient la plupart des chronologistes grecs. La seconde liste donnerait pour la prise de Troie 1064 ans avant J.-C. Ces listes ne concordent ni l’une ni l’autre avec la généalogie des Hèraclides qui régnaient à Sparte. Suivant la tradition, Léonidas, qui mourut aux Thermopyles, fut le 21e descendant d’Hercule; et il était encore antérieur à Hippocrate de plus d’une génération. » « une liste copiée par Ératosthène a dû avoir de l’authenticité; et, le témoignage de Platon prouvant qu’Hippocrate était un asclépiade, il faut croire qu’elle a été conservée, d’une façon ou d’autre, comme appartenant à une famille illustre de Cos, qui desservait l’Asclépion de cette île, et qui, comme toutes les familles sacerdotales anciennes, se disait issue du dieu lui-même. Par sa descendance prétendue d’Hercule, Hippocrate était supposé avoir des liens avec les rois de Macédoine.

Il [Hippocrate II, “O MÉDICO”] eut pour fils Thessalus et Dracon I, pour gendre Polybe. Thessalus, médecin du roi de Macédoine Archélaus, eut pour fils Gorgias [apenas homônimo do sofista da época socrática], Hippocrate III et Dracon II. Dracon II eut pour fils Hippocrate IV qui fut médecin de Roxane, femme d’Alexandre le Grand, et qui mourut sous Cassandre, fils d’Antipater; cet Hippocrate IV eut pour fils Dracon III, qui fut aussi médecin de Roxane. Ici, ce semble, il y a de la confusion dans les dires de Suidas qui nous a conservé tous ces noms des descendants du célèbre médecin de Cos. Il faut ajouter que, suivant Galien, Dracon I eut un fils appelé Hippocrate; ce qui complique encore cette généalogie. (…) ce Thymbrée eut deux fils, tous deux appelés Hippocrate (ce qui semble bizarre), et qui font le cinquième et le sixième Hippocrate de sa liste. Praxianax est encore nommé par lui comme étant du même lignage, et comme ayant eu un fils qui est Hippocrate VII. Les listes généalogiques avant et après Hippocrate prouvent qu’il était resté des traces authentiques de sa famille. »

« Les critiques anciens ne nous ont pas fourni les moyens de découvrir si c’est sur des preuves écrites ou simplement par tradition qu’ils ont admis que les descendants d’Hippocrate avaient publié des ouvrages médicaux. Aucune trace de ces livres ne se trouve dans la littérature grecque; les titres n’en existent nulle part. Les auteurs qui leur attribuent de telles compositions, ne disent pas que ces compositions aient été citées par quelqu’un des médecins qui ont vécu ou du temps de ces descendants d’Hippocrate ou peu après eux. La plupart des écrits composés dans cette période ont, il est vrai, péri, et ceux qui ont péri contenaient peut-être des détails sur les livres des descendants d’Hippocrate; mais cela devient douteux quand on songe que les écrivains postérieurs qui ont tenu les oeuvres de Dioclès, de Praxagore, de Philotimus, de Dieuchès, tous contemporains de l’un ou de l’autre de ces hippocratiques, ne s’appuient jamais d’aucune de ces autorités, qui ici seraient décisives. »

« On dit qu’Hippocrate mourut dans la ville de Larisse, en Thessalie, à l’âge de 85 ans, de 90 ans, de 104 ans, de 109 ans. Il est probable que cette progression croissante d’un âge qui reste incertain, est due à la tradition qui, à mesure qu’elle s’est éloignée, a attribué une vie de plus en plus longue à un aussi illustre médecin. Il fut enterré entre Gyrton et Larisse dans un endroit où des écrivains postérieurs ont assuré qu’on montrait encore son tombeau; et l’esprit inventeur des Grecs se plut à dire que long-temps ce tombeau avait été le séjour d’un essaim d’abeilles dont le miel avait des vertus pour guérir les aphthes des enfants. »

« Ce qui est très douteux, c’est qu’il ait été appelé par Perdiccas II, roi de Macédoine, et qu’il ait joui auprès de ce prince, d’une grande faveur. Perdiccas mourut em 414 avant J.-C. Hippocrate avait alors 46 ans; ce n’est donc pas dans les dates qu’est la difficulté. Mais on le fait venir avec Euryphon le médecin cnidien, et cette association, comme le dit M. Hecker, dans son Histoire de la médecine, tient déjà du roman. »

« Varron et Pline sont très antérieurs à l’auteur de la vie d’Hippocrate, et, comme lui, ils ont dû emprunter ces détails au Discours qui est attribué à Thessalus, fils du médecin de Cos, et qui figure, dans la collection Hippocratique, à côté des Lettres d’Artaxerce, des Abdéritains, et de Démocrite. Cette légende, car on ne peut pas lui donner d’autre nom, fait partir Hippocrate de Thessalie, réprimant la peste sur son passage, chez les Doriens, chez les Phocéens, chez les Béotiens; de là il arrive à Athènes, où il arrête les ravages du fléau. »

« Thucydide, qui a donné une admirable description de la peste d’Athènes, ne fait aucune mention d’Hippocrate, ni de ses services; il dit même formellement que tout l’art des médecins échoua contre la violence du mal, et qu’ils en furent les premières victimes. Ce silence de Thucydide sur Hippocrate dans une maladie qui fut un événement historique, est décisif, et prouve que le médecin de Cos ne fit rien de ce qu’on lui attribue en cette circonstance. Mais le récit porte en lui-même les preuves de sa propre fausseté. Hippocrate est né en 460, la peste éclata à Athènes en 428, il n’avait donc que 32 ans. A cet âge il ne pouvait avoir encore acquis la réputation que la légende lui suppose, et surtout il ne pouvait avoir ni fils, ni gendre, à envoyer dans les différentes villes de la Grèce. De plus la légende intervertit complètement la marche de l’épidémie; elle la fait venir par l’Illyrie, la Thessalie, et la Béotie jusque dans l’Attique. Or Thucydide dit formellement qu’elle se déclara d’abord dans le Pirée, et qu’elle venait de l’Ethiopie. Il y a là contradiction évidente avec le fait; mais quand même nous n’aurions pas ces preuves pour démontrer la fausseté d’un pareil récit, le caractère même des épidémies nous empêcherait de l’admettre. Nous savons par une expérience récente que ces grands fléaux ne se laissent pas détourner par l’art humain; et les feux allumés dans Athènes ne pouvaient pas avoir plu de puissance contre l’épidémie, venue de loin, qui la désola, que la médecine contemporaine n’en a eu à Paris contre le choléra, parti des bords du Gange. Tout récit où l’on attribue à l’art médical le pouvoir d’arrêter de tels ravages, nécessairement est mensonger. »

« Strabon, le géographe, nous a conservé une tradition qui est bien plus concordante avec tous les faits connus d’ailleurs, et qui a tous les caractères de là probabilité. <On rapporte, dit-il, qu’Hippocrate s’exerça particulièrement sur le régime dans les maladies en étudiant les histoires de traitement qui étaient déposées dans le temple de Cos.> [Geografia XIV] »

ÁRDUA EXEGESE E CANONIZAÇÃO DA OBRA (HIPÓCRATES VS. PSEUDO-HIPÓCRATES)

« dès l’époque même où on les commentait dans l’école d’Alexandrie, on disputait déjà sur leur authenticité. Si les difficultés étaient déjà si grandes et les doutes si autorisés dans l’antiquité, que doit-il en être de nos jours, et pour nous qui, depuis le temps des commentateurs alexandrins et de Galien, avons fait tant de pertes en livres de tout genre? Beaucoup de travaux ont eu pour objet l’histoire littéraire des écrits hippocratiques; beaucoup, d’hommes éminents se sont livrés aux recherches que cette histoire réclame; et cependant maintes questions restent encore indécises, et des divergences très considérables entre les critiques, sur l’authenticité d’un même écrit, montrent que l’on manque d’un point stable de départ, et de documents qui soient autre chose que des conjectures. »

« Prouvons avant toute chose que la Collection hippocratique renferme des fragments qui y figurent dès les premiers temps, mais qui, incontestablement, ne sont pas d’Hippocrate. J’en ai un exemple irrécusable relatif à un passage sur l’anatomie des veines qu’on lit dans le Traité de la nature de l’homme. Ce traité a été cité par tous les commentateurs comme faisant partie de la Collection hippocratique. Le passage en question est textuellement rapporté par Aristote (Histoire des animaux, liv. iii, chap. 4); et Aristote dit que ce morceau est de Polybe. Or, en ce point, l’autorité d’Aristote prévaut sur toute autre, et manifestement sur celle d’Érotien et de Galien. Polybe, gendre d’Hippocrate, devait être exactement le contemporain de Platon, par consequent vieux quand Aristote, était jeune. » « D’où vient ce silence? et comment Aristote a-t-il seul connu cette particularité? En traitant, dans le chapitre VII, de la formation de la Collection, j’expliquerai ce point important de l’histoire des livres hippocratiques. »

« il relève une foule d’erreurs touchant l’ostéologie ou le traitement des luxations. On voit par toutes ces citations combien la médecine était pratiquée, combien d’hommes s’en occupaient, et combien les écrivains qui forment la Collection hippocratique, faisaient attention à la pratique de leurs confrères, soit pour l’approuver, soit pour la blâmer. »

« Il est plusieurs fois question des philosophes qui se livraient à l’étude de la nature; il est parlé d’écrits sur cet objet, où l’on prétendait que le cerveau était l’organe qui résonnait dans l’audition; il est parlé encore de l’opinion des anciens sur le chaud et l’éther. Il faut remarquer que cette qualification d’anciens revient plusieurs fois, ce qui prouve que la littérature médicale existait déjà depuis long-temps. Deux philosophes seulement y sont nommés; l’un est Mélissus de l’école éléatique, cité dans le Traité de la nature de l’homme, l’autre est Empédocle, dans le Livre de l’ancienne médecine. Un vers d’Homère est rapporté dans le Livre des articulations; et ce vers ne se retrouve plus dans les oeuvres de ce poète telles que nous les possédons aujourd’hui. Un seul livre est cité par son titre: c’est celui des Sentences cnidiennes. » « L’étude, sous ce point de vue, de la Collection hippocratique, nous a donné quelques aperçus sur l’état de la science et sur le public médical qui la cultivait, et surtout elle a grandement changé l’idée qu’on se fait ordinairement de la position d’Hippocrate dans la médecine grecque. En consultant les écrits hippocratiques, seuls dignes de foi en cela, et corroborés en outre par les témoignages des écrivains contemporains, on le voit placé au miueu d’un mouvement scientifique qui a commencé avant lui, auquel il prend une part active, et qui se développe avec vigueur et plénitude long-temps encore après sa mort. »

« les ouvrages dont les titres sont cités dans la Collection, et d’autres sans doute qui ne le sont pas, n’ont eu qu’une existence éphémère, et il leur est arrivé, ce qui est arrivé si souvent aux livres de l’antiquité, d’être détruits avant d’avoir été multipliés par les copies. Pour ces ouvrages hippocratiques, il ne faut pas en accuser l’incendie de la bibliothèque d’Alexandrie; ils n’existaient déjà plus au moment où cette bibliothèque fut établie »

« L’auteur du Traité des affections, faisant, de son côté, de fréquents retours sur ses propres compositions, nous apprend quels étaient les sujets qui occupaient la médecine d’alors. Il avait composé des traités spéciaux sur les collections purulentes du poumon, sur les phthisiques, sur les maladies des femmes, sur les yeux, sur la fièvre tierce et la fièvre quarte. Mais le livre qu’il cite le plus souvent, et auquel il renvoie incessamment ses lecteurs, est un livre de pharmacologie. À la plupart des maladies qu’il énumère, il ajoute qu’il faut donner le remède comme il est prescrit dans le Traité des remèdes. De pareils traités ont toujours été nécessaires à l’exercice de la médecine; et ils ne manquaient pas à cette époque. L’auteur du Traité des affections internes fait aussi quelques allusions à un livre semblable. »

« On voit combien est longue cette liste de traités disparus avant que la Collection hippocratique ne fût formée, à combien d’objets divers l’étude avait été appliquée, et combien peu il a été conservé de cette littérature, même en la restreignant à l’école de Cos, école dont il est le plus resté. Galien, en commentant le Traité des articulations, fut frappé, lui aussi, de ces pertes nombreuses: <Hippocrate a annoncé, dans ce traité, plusieurs ouvrages qui n’existent plus aujourd’hui. Ou il ne les a pas composés, ou ils ont péri ainsi qu’il est arrivé à beaucoup d’autres livres anciens. [?] Plusieurs auteurs ont écrit sur ces pertes.> »

« les asclépiades d’Asie étaient divisés en deux branches après l’extinction de la branche de Rhodes. A cette lutte honorable prenaient part aussi les médecins de l’Italie, Philistion, Empédocle, Pausanias et leurs disciples; de telle sorte que 3 écoles admirables se disputaient la prééminence dans la médecine. Celle de Cos se trouva avoir les disciples les plus nombreux et les meilleurs; celle de Cnide la suivit de près; et l’école d’Italie ne fut pas non plus sans gloire. » Galien

« Un faussaire n’aurait pu songer à cette variété de citations; il n’y aurait pas vu un moyen de donner plus de créance à ses suppositions; et s’il avait cru utile de recourir à cet artifice, il aurait bien plutôt cité des ouvrages existants, afin que ces renvois de l’un à l’autre fortifiassent l’authenticité des ouvrages qu’il attribuait à Hippocrate. Et en effet, le faussaire qui a composé la correspondance du médecin de Cos avec Artaxerce et Démocrite n’y a pas manqué. Il cite le Pronostic, le Livre du régime dans les maladies aiguës, le Prorrhétique, et il essaie par ce moyen de donner à ses fraudes un caractère de vérité »

O “CASO NIETZSCHE/SAUSSURE” DO DIÁRIO-DO-MÉDICO-FILÓSOFO (DISCÍPULOS SÃO UMA DESGRAÇA): « Admettra-t-on que la même main qui avait tracé les livres si clairs, si corrects, si élégants sur le Pronostic et sur les airs, les eaux et les lieux, se soit complue à accumuler une série incohérente de phrases sans construction régulière et achevée, accumulation que l’on s’explique si l’on n’y voit que des notes? C’est l’opinion que la plupart des critiques de l’antiquité ont professée à cet égard. Ils se sont accordés à dire, que les livres en question n’avaient jamais dû être publiés sous cette forme, mais que les disciples ou les descendants de celui qui avait ainsi jeté sans ordre ses réflexions, avaient, après sa mort, publié l’oeuvre posthume telle qu’ils l’avaient trouvée. »

« Un grand nombre de noms de malades est rapporté; leurs habitations sont souvent décrites; l’endroit où ils demeurent est spécifié; en un mot, leur adresse est véritablement donnée. De tels détails impriment aux histoires des maladies un caractère évident de bonne foi et d’authenticité; mais il n’est guère possible d’en tirer aucun fruit pour distinguer le temps de la composition des livres, et pour en reconnaître les auteurs. Une date, l’indication d’une olympiade, ou de quelqu’un des magistrats des États Grecs, nous auraient été bien plus utiles pour toutes ces questions que l’adresse de tel malade qui demeurait à la porte de Thrace à Abdère. »

« On aperçoit la contrariété des doctrines, la différence des styles; on reconnaît des emprunts de ces livres l’un sur l’autre. Ces emprunts sont en trop grand nombre pour être énumérés ici; et, au point où nous sommes arrivés en ce moment, nous n’avons pas les moyens de distinguer quel est l’emprunteur, quel est le prêteur, et dans quel cas un même auteur répète et reproduit ses propres idées. § De ce point de vue, la Collection hippocratique est un chaos; au milieu apparaissent des parties d’une conservation parfaite, tandis que d’autres ne sont que ruine et fragments. »

ALGUMAS OBSERVAÇÕES QUANTO AO SUPOSTO “ABISMO” DE CITAÇÕES DA OBRA DE HIPÓCRATES POR MAIS DE UM SÉCULO ATÉ O ESTABELECIMENTO DA ESCOLA DE ALEXANDRIA

« Ces témoignages s’étendent de Platon au commencement des écoles alexandrines, et comprennent ainsi un espace d’au moins 120 ans. Ils sont au nombre de dix. Ce sont ceux de Platon, Ctésias, Dioclès, Aristote, Hérophile, Dexippe [ou Dioxippe], Apollonius, Érasistrate, Xénophon de Cos, et Mnésithée. Les cinq premiers ont nommé Hippocrate; Dexippe et Apollonius ont été ou se sont dits ses disciples; on conclut, par des raisonnements, qu’Érasistrate, Xénophon de Cos et Mnésithée l’ont cité. »

« L’idée qu’un excès de santé est voisin de la maladie, se trouvait depuis long-temps dans le domaine commun de la pensée grecque. Eschyle, avant Platon et avant même Hippocrate, avait dit: <Le point d’une santé exubérante n’est jamais durable; et toujours la maladie est voisine.> »

« Ctésias, plus jeune qu’Hippocrate, était un asclépiade de Cnide; il accompagna l’expédition de Cyrus-le-Jeune, et resta prisonnier 17 ans en Perse; ses connaissances médicales lui acquirent la faveur d’Artaxerce. Il a écrit une histoire de la Perse et un livre sur l’Inde. »

« Quelques critiques ont prétendu que le mot muscle qui se trouve dans certains livres hippocratiques est une preuve que ces livres sont apocryphes, attendu qu’il appartient à l’école d’Alexandrie, et que les anciens désignaient les muscles sous le nom de chairs. L’argument est mauvais; car Ctésias s’est servi de ce mot en racontant la mort de Cambyse, qui, dit-il, se blessa à la cuisse dans le muscle. »

« Ctésias, quoique bien plus jeune qu’Hippocrate, a été son contemporain; il a pu le voir et le connaître; car Cnide est très voisine de Cos; il a appartenu à une école rivale; et le seul mot que nous connaissions de lui est une critique d’Hippocrate. »

« Il y a eu, dans l’intervalle de temps que j’explore en ce moment, un médecin fameux, que l’on a appelé le second Hippocrate. C’est Dioclès de Caryste. La date où il a fleuri n’est pas donnée d’une manière très précise; mais les anciens le nomment toujours immédiatement après le médecin de Cos; secundus oetate famâque, dit Pline. »

« Dioclès, combattant un aphorisme dans lequel Hippocrate dit qu’une maladie est d’autant moins grave que la saison y est plus conforme, par exemple la fièvre ardente dans l’été, nomme le médecin de Cos par son nom. »

« La remarque faite au sujet de Platon s’applique également à Aristote. Celui-ci a connu Hippocrate; on le sait par la citation de la Politique. Si, partant de cette base, on recherche les ressemblances entre les livres aristotéliques et les livres hippocratiques, on en trouve une multitude. Je n’en rapporterai qu’un exemple. Il est dit dans l’Histoire des animaux, liv. III, chap. 11, que là où la peau est seule, elle ne se réunit pas si elle vient à être coupée, par exemple à la partie mince de la mâchoire [a porção fina da mandíbula], au prépuce, à la paupière. Aristote donne pour raison que la peau est là dépourvue de chair. »

« Il faut encore compter parmi les principaux témoins d’Hippocrate, Hérophile. Ce médecin, illustre par ses découvertes anatomiques, et chef d’une secte qui porta son nom, forme l’anneau entre les temps anciens et les temps nouveaux qui s’ouvrirent pour la médecine à Alexandrie. » « Ses livres sont perdus; mais d’autres écrivains, Galien, Étienne, nous ont appris qu’il avait commenté un des traités d’Hippocrate. »

« Érasistrate n’ait nommé le médecin de Cos dans quelqu’un de ses ouvrages. Ces ouvrages sont perdus; mais malgré son inimitié pour les doctrines hippocratiques, malgré tous ses efforts pour faire prévaloir les siennes, on trouve, même dans les courts fragments qui nous en ont été conservés, des traces de la connaissance des livres hippocratiques. »

« J’ajouterai que le Traité de l’ancienne médecine reproduit avec une fidélité fort grande les opinions d’Alcméon, philosophe pythagoricien, dont l’époque est très reculée. Ainsi, toutes les citations faites dans les écrits hippocratiques sont prises à une littérature antérieure. »

A TRANSMISSÃO DO LEGADO HIPOCRÁTICO

« Les conquêtes d’Alexandre, les communications multipliées qui s’établirent entre la Grèce et l’Orient, la fondation d’Alexandrie en Egypte, la formation des grandes bibliothèques, dans cette ville et à Pergame, produisirent, dans les relations littéraires, une révolution comparable, quoique sur une moindre échelle, à la révolution causée par la découverte de l’imprimerie. » « ce qui manque surtout à ces livres, dans la période comprise entre Hippocrate et la fondation d’Alexandrie, c’est une publicité véritable et étendue. » « De là aussi les chances de destruction, si nombreuses pour des livres dont il existait si peu de copies; de là la perte de tant d’ouvrages de l’école de Cos, dont j’ai relevé les mentions dans la Collection hippocratique, et qui ont péri avant d’être multipliés et répandus; de là enfin les facilités qu’ont trouvées les vendeurs de livres, lorsque les rois d’Egypte et de Pergame payèrent au poids de l’or les manuscrits précieux, à intituler, comme ils le voulurent, un écrit bien antérieur sans doute à la vente même, mais n’ayant reçu encore aucune publicité, et a y mettre un nom qui en augmentait considérablement la valeur.” “La Collection hippocratique (car c’est uniquement d’elle qu’il est ici question) se trouva, par les travaux des commentateurs, fixée, et fermée à toute invasion de traités qui n’auraient pas reçu, à ce moment, le certificat de leur origine. Dès lors la transmission en fut régulière; les commentateurs se suivirent sans interruption. C’est cette transmission des textes et cette série de commentateurs qu’il faut étudier. »

« S’il était vrai que Dioclès de Caryste eût commenté un des écrits d’Hippocrate, ce serait le plus ancien des auteurs qui ont écrit sur ce sujet. Ackermann, dans l’excellente notice qui fait partie de la Bibliothèque grecque de Fabricius, donne Dioclès, Mantias et Philotimus comme les commentateurs du Traité de l’officine du médecin. » « les passages de Galien, sur lesquels Ackermann s’appuie, ont été mal interprétés; ce médecin dit seulement que Dioclès, Philotimus, Mantias avaient composé un livre sur le même sujet et portant à peu près le même titre. » « On peut affirmer que Dioclès n’a pas été commentateur d’Hippocrate; car ses commentaires, s’ils avaient existé, auraient été cités par quelques-uns des commentateurs postérieurs. Mais il avait écrit plusieurs livres qui avaient des conformités, soit pour le style, soit pour le sujet, avec quelques livres de la Collection hippocratique: tels sont le Traité de l’officine du médecin et celui des bandages, qui présentaient de grandes ressemblances avec le livre hippocratique Des articulations; tel est encore un Traité du

pronostic, qui avait aussi beaucoup emprunté au livre d’Hippocrate sur le même sujet. »

« Le plus ancien commentateur que l’on connaisse est donc Hérophile, qui fut disciple de Praxagore, et qui fleurit à Alexandrie vers l’an 300 avant J.-C. »

« Dès cette époque reculée, les grammairiens ont travaillé comme les médecins à expliquer les mots des livres hippocratiques. Xénocrite de Cos, compatriote d’Hippocrate, est, au dire de Callimaque l’hérophilien, d’Héraclide de Tarente et d’Apollonius de Cittium, le premier grammairien qui ait entreprisée travail d’interprétation. » « Il est fâcheux que les travaux de ces grammairiens aient complètement péri; nous y aurions probablement trouvé des ressources abondantes, sinon pour éclaircir toutes les difficultés que présentent les livres hippocratiques, du moins pour en épurer le texte. J’ai réuni dans ce paragraphe tous les grammairiens, bien que quelques-uns soient très postérieurs, afin que l’on vît d’un seul coup-d’oeil l’intérêt qu’avait jadis inspiré la Collection hippocratique. »

« Deux commentateurs seulement, dit Galien, avaient compris, dans leur travail, la totalité des oeuvres hippocratiques: c’étaient Zeuxis et Héraclide de Tarente, tous deux de la secte empirique. Nous venons de voir, en effet, que Hérophile et Bacchius n’avaient commenté que certains traités; que Xénocrite, Bacchius, Philinus et Glaucias n’avaient composé que des lexiques interprétatifs des mots difficiles » « Héraclide se livra à des travaux d’érudition sur Hippocrate, et il avait composé un commentaire en plusieurs livres, qui s’étendait à tous les écrits portant le nom du médecin de Cos. La perte de ce commentaire est très regrettable »

A FLECHA DIALÉTICA QUE NÃO CHEGA A SEU TERMO: « Zénon, de la secte hérophilienne, passait pour un médecin habile, mais pour un mauvais écrivain. Il composa un commentaire sur le 3e livre des Épidémies, il consacra aussi un livre tout entier à l’interprétation des Caractères de ce même 3e livre. Apollonius, empirique, y répondit par un livre plus gros encore. Zénon ne se tint pas pour battu, et répliqua par un nouvel ouvrage. Cette querelle continua même après la mort de Zénon; et Apollonius Biblas composa, sur le même sujet, un nouveau traité, où il assurait que, ni l’exemplaire trouvé dans la bibliothèque royale d’Alexandrie, ni celui qui venait des vaisseaux, [cf. adiante] ni l’édition donnée par Bacchius ne portaient les Caractères tels que Zénon les avait indiqués. Ainsi, l’interprétation de caractères énigmatiques et d’une origine douteuse occupa long-temps les médecins alexandrins qui se livraient à la critique littéraire. »

« le poete-médecin, Nicandre de Colophon en Ionie, prêtre du temple d’Apollon à Claros, et qui vivait dans le second siècle avant J.-C; il avait paraphrasé en vers le Pronostic d’Hippocrate, et sans doute gâté, dans ses hexamètres, la précision du langage hippocratique sans y avoir substitué aucun talent poétique. Rien ne nous est parvenu de ce poëme didactique: et nous y avons peu perdu [haha]. »

« Le temps arrivait où la médecine allait subir l’influence d’un système qui prétendait mettre à néant toutes les anciennes doctrines. L’auteur de ce système, Asclépiade, s’occupa des écrits hippocratiques, non pas seulement pour les critiquer, mais aussi pour les interpréter en érudit. Ce médecin, dit de Bithynie, de Pruse, et quelquefois de Kios, parce que Pruse avait aussi porté ce nom, vécut à Rome du temps de Crassus l’ancien et de Pompée. Il avait composé un grand nombre d’écrits, aujourd’hui tous perdus, dont deux seulement étaient relatifs à un travail d’érudition sur Hippocrate. »

« Dans cette énumération, déjà longue, nous rencontrons un second écrit destiné à éclaircir les écrits hippocratiques, et échappé à la ruine commune. C’est le Glossaire d’Érotien. Cet écrivain, dont le nom est tantôt écrit Hérotien, Erotion, Erotinon, et même

Hérodien, a vécu du temps de Néron, et il a dédié son ouvrage à l’archiatre Andromaque » « D’Érotien à Galien, il est-à-dire de l’an 50 à l’an 150 après J.-C., nous rentrons dans une période où les commentateurs d’Hippocrate ont complètement péri. »

VÍRGULA PROFUNDA É A SUA MÃE!

– É impressão minha ou você ficou louco após a forte batida de carro e esses anos todos inconsciente?

– COMA SIM, cara?!

« Aulu-Gelle nous apprend que Sabinus avait aussi commenté le Traité de l’aliment, et, à ce propos, il fait l’éloge de ce médecin. Il le cite au sujet du passage obscur: la naissance à huit mois est et n’est pas. Sabinus expliquait cela en disant: <Elle est, car le produit de l’avortement paraît comme animal; elle n’est pas, car il meurt dans la suite. C’est une naissance en apparence pour le moment; mais ce n’est pas une naissance effective.> »

« C’est une opinion exprimée, en divers endroits et sous diverses formes, dans la Collection hippocratique, que la constitution atmosphérique étant connue, on peut en déduire quelles seront les maladies régnantes. »

ar(r)i(vi)stas, empiristas, metodistas

avant la lettre

pneumáticos do carro-céu

« Son parent, Dioscoride, qu’il ne faut pas confondre avec l’auteur du Traité de matière médicale, plus ancien que lui, publia aussi une édition complète des oeuvres d’Hippocrate, qui paraît avoir eu une grande conformité avec celle d’Artémidore, et à laquelle Galien distribuée peu près le même blâme et le même éloge. » « Dioscoride, que Galien, pour le distinguer des autres Dioscoride, appelle le jeune, celui qui a vécu du temps de nos pères, avait composé un glossaire des mots hippocratiques. Mais quoique cet ouvrage fût formé de plusieurs livres, il ne contenait pas l’explication du tiers ou même du quart de ces mots. » « Il avait en outre exposé les noms des villes les plus connues, des astres les plus remarquables que, dit Galien, un enfant même n’ignore pas. Au reste, malgré toutes ses critiques, Galien, ainsi qu’on le voit par son Glossaire, a souvent consulté Dioscoride. »

« Pélops, disciple de Numésianus, avait composé un écrit intitulé: Introductions hippocratiques, qui était au moins en 2 livres, et où il avait soutenu très vivement que le cerveau est l’origine non seulement des nerfs, mais encore des veines et des artères. C’était défendre l’opinion qui se trouve exprimée dans l’appendice du Traité de la nature de l’homme. Galien regarde cette assertion de Pélops comme la plus surprenante et la plus incroyable; d’autant plus que Pélops, dans son Troisième livre de l’anatomie des veines, les fasait venir du foie. »

« Le maître de Galien disait que la vie humaine se divise en 5 parties, l’oisive, la laborieuse, la virile, la sénile, et la décrépite. L’oisive est celle delà première enfance où l’intelligence n’est pas développée; la laborieuse, celle où commencent les exercices et les travaux de la jeunesse; la virile, celle qui se distingue par la force de l’âge; la sénile, celle où l’on voit le déclin de la vigueur; la décrépite, qui est dite bonne ou mauvaise, comme la fin de toute chose. »

REDEFININDO O CONCEITO “VIVER EM FUNÇÃO DE OUTREM”: « Le dernier commentateur, avant Galien, qui me reste à nommer est un médecin d’Alexandrie nommé Julien, qui avait composé 48 [!!] livres contre les Aphorismes d’Hippocrate. Nous avons de Galien un petit écrit polémique contre le deuxième livre de Julien, lequel livre était tout entier consacré à la réfutation du second aphorisme de la première section. » [!!!]

« On peut juger, après une si longue énumération, s’il est vrai que l’étude d’Hippocrate était négligée du temps de Galien, et que ce médecin ait eu le mérite de tirer de l’oubli, où ils étaient tombés, les écrits de l’asclépiade, de Cos. »

« il ajoute, le passage en question ne peut être expliqué que médicalement, et l’interpréter ainsi, mot à mot, c’est se borner à lire les livres des anciens médecins comme ceux des historiens, Hérodote et Ctésias, et renoncer à y chercher des enseignements utiles à l’art.

Ailleurs il dit: <J’admire les commentateurs, ils prétendent seuls comprendre des passages énigmatiques que personne ne comprend; quant aux propositions qui sont claires pour tout le monde, ce sont les seules qu’ils ne comprenent pas.>

« Nous avons complètement perdu les commentaires sur le livre des Ulcères; sur le livre des Plaies de la tête; sur le livre des Maladies, et sur celui des Affections; un Traité sur l’anatomie d’Hippocrate, en six livres; un Traité pour expliquer les caractères qui se trouvent dans le troisième livre des Épidémies, promis, sinon exécuté; un Traité sur le dialecte d’Hippocrate; enfin un livre sur les véritables écrits du médecin de Cos. » « Il ne nous reste donc de ses commentaires que la partie médicale. Quoique son but ait été presque uniquement d’en faire un enseignement de la médecine, cependant il a été forcé, par la nature même de son sujet, d’entrer dans des détails philologiques à propos des différentes leçons que présentaient, de son temps, les manuscrits, et des différentes interprétations qu’avaient données ses prédécesseurs. En cela, il s’est montré généralement critique habile et sensé. <La, règle qui m’a paru préférable à suivre, a été de conserver la leçon ancienne, et de m’efforcer de l’expliquer; je n’ai essayé d’y introduire une correction plausible, que lorsqu’il m’a été impossible d’en tirer un sens. Je préfère les leçons anciennes, même lorsqu’elles paraissent obscures et d’une explication difficile, car c’est une raison de croire qu’elles sont véritables: les anciens commentateurs les admettent; et, s’ils avaient osé les changer, ils n’auraient pas manqué de leur donner un sens plus clair.> » « On ne peut trop faire usage des conseils, des corrections et des explications d’un homme qui se donnait le soin de consulter les manuscrits, qui avait à sa disposition d’antiques bibliothèques, maintenant anéanties, qui possédait de très grandes connaissances dans la philosophie et les sciences, et qui est resté un maître dans la médecine. » « néglige-t-il, dans ces écrits, les théories qui ne concordent pas avec les siennes, et il exalte outre mesure celles qui, comme la doctrine des quatre humeurs, forment la base de son propre système. »

« Galien répète à diverses reprises, qu’Hippocrate ne s’est pas occupé des maladies en historien, comme Thucydide de la peste d’Athènes. Il assure que l’auteur athénien n’a écrit que pour le vulgaire, et n’a dit que des choses sans portée scientifique. Je ne puis nullement partager l’opinion de Galien. La description de Thucydide est tellement bonne qu’elle suffit pleinement pour nous faire comprendre ce que cette ancienne maladie a été; et il est fort à regretter que des médecins tels qu’Hippocrate et Galien n’aient rien écrit sur les grandes épidémies, dont ils ont été les spectateurs. Hippocrate a été témoin de cette peste racontée par Thucydide, et il ne nous en pas laissé de description. Galien vit également la fièvre éruptive qui désola le monde sous Marc-Aurèle, et qu’il appelle lui-même la longue peste. »

« Galien est le dernier des grands médecins de l’antiquité; il s’en trouve après lui d’estimables, mais ils ne sont plus créateurs, et les meilleurs d’entr’eux luttent en vain contre la décadence de la science. » « les livres disparaissent par les incendies, par les guerres; on néglige de les recopier tous; les sources deviennent moins abondantes, les documents moins authentiques; de sorte que nous trouvons dans les commentateurs récents peu de renseignements qui ne soient pas déjà dans les commentateurs anciens »

« Ailleurs Philagrius, arrivé à l’aphorisme où il est question de la guérison de l’ophthalmie par le vin pris à l’intérieur, s’étend longuement sur les qualités que doit avoir le vin employé contre les inflammations de l’oeil, indique qu’on se servira de vin blanc doux, jeune, et ajoute que, si le malade a la tête susceptible, on coupera le vin avec de l’eau »

« J’ai vu, dit-il, une femme, qui, étant enceinte, eut des rapports avec son mari au sixième mois de sa grossesse; au neuvième mois elle accoucha d’un premier enfant, et, six mois après cet accouchement, elle em mit un autre au monde. » Hip.!

Testemunhei o caso de uma mulher que, estando grávida, teve relações sexuais com seu marido ao 6º mês da gravidez; ao 9º mês ela deu a luz a um primeiro filho, e, 6 meses depois do parto, ela deu a luz a uma outra criança.”

« La fièvre prend son origine dans le coeur, le délire est produit par la fièvre, donc l’intelligence est dans le coeur » Asclépius

« Jean d’Alexandrie commet l’erreur chronologique de placer Hippocrate après Platon »

« Étienne est certainement le plus important de tous ces commentateurs modernes d’Hippocrate. Nous possédons de lui un commentaire sur les Aphorismes, et un autre sur le Pronostic. » « M. Dietz a rendu un véritable service à l’érudition médicale en donnant une édition de cet auteur. Au reste, ce qui ajoute encore à l’incertitude sur Étienne, c’est que des commentaires qui sont identiques dans une grande étendue avec les siens portent le nom de Mélétius. Est-ce Mélétius ou Étienne qui en est l’auteur? »

« Comme nous savons qu’Hippocrate ne s’est jamais trompé, nous ajouterons, pour corriger Galien, que ce phénomène [a sangria contumaz do seio feminino significando sintoma de loucura iminente] a été observé, mais rarement, par Hippocrate. Quant à nous, nous n’en avons jamais vu d’exemple. » Théophile/Philothée

DIVERGÊNCIAS SOBRE OS TÍTULOS E CAPÍTULOS DAS OBRAS DE HIPÓCRATES

« Les noms des fils d’Hippocrate et de ses descendants, que Suidas et d’autres rapportent avec l’indication peu précise qu’ils avaient écrit sur la médecine, ont été pris sans doute dans la liste d’Ératosthène. Mais Eratosthène lui-même, ou les tenait de la tradition, ou les avait puisés dans quelque document aujourd’hui détruit. »

« un manuscrit latin (n° 7028) que j’ai déjà cité dit que parmi les descendants d’Hippocrate il y eut Thessalus, Dracon, Hippocrate le jeune, desquels les livres n’ont pas été connus (quorum libri non apparverunt). » « Je veux dire qu’on peut admettre avec sûreté que des descendants et des élèves d’Hippocrate ont certaines de leurs oeuvres cachées sous le nom de leur maître au milieu de la Collection, mais qu’on ne peut de même admettre que tel ou tel écrit appartient plus particulièrement à Dracon, à Thessalus, ou à tout autre membre de la famille. »

« Suivant Galien, le 5e livre des Epidémies est, non du célèbre Hippocrate, fils d’Héraclide, mais d’un Hippocrate plus récent, fils de Dracon; le 2e, le 4e et le 6e sont, dit-il, d’après les uns, de Thessalus, d’après les autres, du grand Hippocrate lui-même, mais seulement un recueil de notes non rédigées, que Thessalus, voulant que rien ne se perdît, réunit, toutes ensemble, et publia après la mort de son père. » « Le traité de la Nature de l’enfant a été attribué à Polybe, disciple d’Hippocrate. L’opuscule du Régime des gens en santé a été attribué à Polybe, à Euryphon, à Phaon, à Philistion, à Ariston, et à Phérécyde, tous auteurs ou plus anciens qu’Hippocrate ou ses contemporains. »

« Glaucias, et Artémidore Capiton pensaient que le traité des Humeurs, qu’Héraclide de Tarente et Zeuxis rejetaient complètement du catalogue des oeuvres hippocratiques, était d’un des Hippocrates postérieurs. »

« Galien dit en différents endroits que les notes, les livres hypomnématiques, pour me servir de l’expression ancienne, ayant été trouvés après la mort d’Hippocrate par son fils Thessalus, celui-ci les réunit, les coordonna, et les publia en y ajoutant du sien. »

« Théopompe, historien célèbre dont les livres ont malheureusement péri, a vécu du temps de Démosthène et d’Aristote; il avait 45 ans vers l’époque de la mort d’Alexandre. Il est donc peu éloigné d’Hippocrate lui-même. Or dans son douzième livre il avait, en parlant des médecins de Cos et de Cnide, expliqué comment ils étaient asclépiades, et comment les premiers descendants de Podalire étaient venus de Syrnos. » « de telle sorte que Platon, Ctésias et Théopompe forment une chaîne, sans interruption, de témoignages qui, commençant à Hippocrate lui-même, vont jusqu’à Alexandre-Ie-Grand, et certifient, pour toute cette période, l’existence des asclépiades, médecins de Cos, et la place qu’occupe Hippocrate dans cette famille. »

« s’il nous était possible d’étudier ces monuments plus anciens qu’Hippocrate lui-même, nous y trouverions très-certainement des termes de comparaison et des rapprochements, nous comprendrions ce qui a été imité par les hippocratiques, et nous arriverions à fixer avec beaucoup de précision une généalogie des observations et des théories médicales telles qu’elles se comportent dans la Collection. »

« Si vous voulez connaître les opinions des anciens médecins, dit Galien, vous n’avez qu’à lire les livres de la Collection médicale attribués à Aristote, mais qui sont reconnus pour avoir été composés par Ménon, son disciple; aussi quelques-uns leur donnent-ils le nom de Livres ménoniens. » « Le sujet même du livre de Ménon irait droit à notre but et nous fournirait les plus précieux matériaux pour une histoire de la médecine jusqu’au temps d’Aristote, c’est-à-dire, pour une de celles où les documents sont les plus rares et les plus incertains. » « Les anciens critiques ne nous ont pas appris quel usage ils ont fait de ces éléments de discussion; mais j’ai tenu à les réunir sous un seul coup-d’oeil, afin d’assurer la critique antique avant de passer à la critique moderne, qui, pouvant peut-être plus que son aînée, ne peut cependant rien que par elle. » « Quoique ce point nous manque, rappelons-nous qu’il a existé pour eux, et cette considération, digne de toute l’attention de la critique moderne, jettera une certaine lumière sur des questions obscures. »