A REPÚBLICA – Livro II

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “Os antigos criam que as serpentes se deixavam hipnotizar pelo canto. Vide Virgílio, Éclogas, 8:71.”

“Diz-se que é um bem em si o cometer a injustiça e um mal o padecê-la. E que resulta um maior mal em padecê-la que um bem em cometê-la. Que os homens cometeram e sofreram a injustiça alternativamente; experimentaram a ambas, e tendo todos os homens conhecido o que é sofrer já por bastante tempo, e não podendo os mais débeis dentre eles evitar os ataques dos mais fortes, nem atacá-los por sua vez, creram que era de interesse comum impedir que se fizesse e que se recebesse qualquer mal. Daqui nasceram as leis e as convenções. Passou-se a chamar justo e legítimo o que foi ordenado pela lei. (…) E chegou-se mesmo a amar a justiça, não porque seja um bem em si mesma, mas em razão da impossibilidade em que nos coloca de cometer a injustiça. Porque aquele que pode cometê-la e é verdadeiramente homem não se põe a negociar tratos para evitar que se cometam ou sofram injustiças, e seria isso uma loucura sua, caso negociasse. Eis aqui, Sócrates, a natureza da justiça.”

“Giges era pastor do rei da Lídia. Depois de uma tempestade seguida de violentos abalos sísmicos, a terra se abriu justo no local em que apascentava o seu gado; assombrado diante desta maravilha natural, desceu pela fenda aberta e, entre tudo o de mais estranho que encontrou, viu um cavalo de bronze, em cujo ventre havia, abertas, portinholas, pelas quais enfiou a cabeça para verificar o conteúdo das entranhas do simulacro de animal. O que encontrou foi um cadáver de porte aparentemente superior ao humano. Este cadáver, ademais, estava nu, e só possuía um adorno, um anel de ouro num dos dedos. Giges o tocou e o retirou da mão do cadáver. Posteriormente, havendo-se todos os pastores se reunido em assembléia da forma costumeira, ao fim do mês, a fim de prestar contas ao rei sobre o estado de seus rebanhos, Giges lá compareceu, usando o anel no dedo e sentando-se em meio aos demais pastores. Quando a pedra preciosa do anel, por acidente, girou para o lado de dentro (da palma da mão de Giges), ele se tornou invisível, e então dele falaram como se estivera ausente. Embasbacado com este novo prodígio, Giges girou a pedra de novo para o lado externo, e na mesma hora se fez visível.”

“Decidido, sabendo agora usar seu objeto, tramou para incluir-se entre os da comitiva de pastores que teriam uma conversação privada com o rei. Chegado ao palácio, corrompeu a rainha e com seu auxílio se desfez do rei e se apoderou do trono. Ora, se existissem dois anéis desta espécie, e se um fosse concedido a um homem justo e outro a um injusto, é consenso geral que provavelmente não haveria um só homem de caráter bastante firme para perseverar na justiça e abster-se de se apropriar dos bens alheios, sendo que poderia fazê-lo impunemente: furtar em praça pública, invadir as casas, abusar de quem fôra, matar alguns, libertar outros dos grilhões e, enfim, fazer tudo o que quisera de posse de um poder semelhante ao dos deuses em meio aos mortais. Em nada difeririam, portanto, as condutas de um e de outro: ambas tenderiam aos mesmos fins, e nada provaria melhor que ninguém é justo deliberadamente, mas tão-só por necessidade”

“O grande mérito da injustiça consiste em parecer justo sem sê-lo. É preciso dotar, portanto, o homem perfeitamente injusto da perfeita injustiça sem nada tirar dela, que, assim, mesmo cometendo os maiores crimes, saberia sempre conservar uma reputação de homem de bem; e quando ele desse um passo em falso, saberia sempre remediá-lo a tempo. Seria um homem tão eloqüente que convenceria de sua inocência aos próprios homens que se tornassem vítimas de suas ações e que fossem os seus acusadores; atrevido e poderoso, ora por si mesmo, ora através das amizades, operaria de modo a sempre conseguir pela força o que não poderia obter de outra forma.”

“O justo, dizem, o que é tal como eu o pintei, será açoitado, atormentado, acorrentado, queimar-se-á seus olhos, e, por fim, depois de terem-no feito sofrer toda a classe de males, será empalado, e assim farão compreender que não adianta tratar de ser justo, mas tão-somente de parecer sê-lo.” “enriquece, faz o bem aos seus íntimos, mal aos inimigos, oferece sacrifícios e presentes magníficos aos deuses, atrai a benevolência dos deuses e dos homens com mais facilidade e segurança do que o justo.”

“SÓCRATES – Os pais aconselham a justiça a seus filhos e os professores a seus alunos. E o fazem tendo em vista a justiça em si? Não, unicamente devido à reputação que vai embutida no conceito, a fim de que a reputação de homens justos propicie-lhes dignidades, uniões auspiciosas e todos os demais bens mencionados por Glauco. Mas vão ainda mais longe, e ensinam sobre os inesgotáveis favores e bênçãos derramados de mãos cheias sobre os justos pelos deuses. E citam Hesíodo e Homero (…) Museu¹ e seu filho vão ainda mais longe e prometem aos justos recompensas maiores ainda. Conduzem-nos para o além, no Hades; sentam-nos à mesa, coroados de flores, assegurando que passarão uma existência inteira em festas e banquetes, como se uma embriaguez eterna fosse a mais bela recompensa pela virtude. Segundo outros, estas recompensas não se limitam aos indivíduos. O homem são e fiel aos semelhantes revive em sua posteridade, que se perpetua de era em era.”

¹ Personagem mitológico. Teria criado os mistérios de Elêusis (esta uma das polis gregas), associados ao surgimento do orfismo (lado místico e oculto da religiosidade helena). Teria morrido de causas naturais (de velhice); talvez isso explique nossa instituição moderna do museu que preserva antiguidades artísticas e o dito popular de quem “quem vive de passado é museu”… Muito do que se sabe hoje sobre Museu foi retirado de Virgílio e Pausânias.

“Um único assunto como o dos ritos de sacrifício foi capaz de produzir uma vastidão de livros, entre cujos autores estão Museu e Orfeu, que os fazem descender, um das Musas, e o outro de Selene; e com estes discursos creia tu que não convencem apenas um ou outro, mas cidades inteiras! Estas, assim, pensam poder expiar qualquer culpa dos vivos e dos mortos através de um pequeno número de vítimas e de jogos regulares. Chamam tudo isso de purificações, estes sacrifícios instituídos para nos livrar dos males da próxima vida; e sustentam que aqueles que se isentam destas práticas estão sujeitos aos mais terríveis tormentos no amanhã.”

“Se se me diz que é árduo ao homem mau ocultar-se por muito tempo, responderei que todas as grandes empresas têm suas dificuldades, e que, suceda o que suceder, se desejo ser bem-sucedido, não tenho outro caminho a seguir que não o traçado pelos discursos que escuto. No mais, para escapar das inquirições, pode-se organizar seitas e irmandades. Mestres há que nos ensinarão a arte de seduzir o povo e os juízes com discursos artificiosos. Empregaremos a eloqüência e, na ausência desta, a força, a fim de escapar da punição de nossos crimes. Mas a força e o engodo nada podem contra os deuses. E na hipótese de que não haja deuses ou que eles não se imiscuam nas coisas deste mundo, ainda mais despreocupados ficamos de ludibria-los! Se há, sim, deuses, e eles participam, sim, dos negócios humanos, o fato é que deles só sabemos por ouvir falar, pelo povo, e pelos retratos dos poetas que descreveram sua genealogia; e precisamente estes mesmos poetas nos dizem que é possível aquietá-los e aplacar sua cólera por meio de sacrifícios, votos e oferendas.” “se alguém combate a injustiça, é que a covardia, a velhice ou qualquer outra debilidade tornam-no impotente para fazer o mal.”

“Muito me surpreendi, agradavelmente, dos discursos de Glauco e de Adimanto. Nunca admirei tanto quanto nesta ocasião seus dotes naturais”

“- (…) É quase impossível que um Estado encontre um ponto da terra em que não sejam necessárias as importações.

– É impossível, de fato.

– Também teria necessidade, nosso Estado, de que alguns se encarreguem de ir aos Estados vizinhos buscar o que falta.”

“- Mas no Estado mesmo, como se comunicarão uns cidadãos com outros sobre o fruto de seu trabalho? Porque esta é a primeira razão que tiveram para viver em sociedade e erigir tal Estado.

– É evidente que será por meio da compra e da venda.

– Logo, necessitar-se-á de um mercado e de uma moeda, signo do valor dos objetos trocados.”

“Quer dizer que nossa cidade não pode existir sem varejistas. Não é este o nome que se dá aos que, permanecendo na praça pública, nada mais fazem que comprar e vender, reservando-se o nome de atacadistas¹ aos que viajam e pululam de um Estado a outro?”

¹ Poder-se-ia usar o termo “traficantes”, mas a frase adquiriria duplo sentido. O sentido exato da sentença original não pode ser alcançado em Português, uma vez que para nós negociante, mercador ou comerciante adquiriram status de sinônimos, na prática. Então a oposição varejo-atacado não é exatamente a intenção original, mas não deixa de ser um substituto razoável – há o feirante ou microempresário sedentário e o verdadeiro ambulante, modesto ou opulento; mas fala-se aqui, efetivamente, do segundo tipo, empreendedor com capital suficiente para estabelecer papel em redes mais complexas de trocas.

“É provável que muitos não se dêem por satisfeitos com o gênero de vida simples que prescrevemos. Ainda acrescentarão camas, mesas, móveis de todas as sortes, refeições bem-condimentadas, perfumes, incensos, cortesãs e guloseimas de todas as classes e em profusão.”

“Será necessário aumentá-lo e fazer nele entrar uma multidão de gentes que o luxo, e não a necessidade, introduz nos Estados, como caçadores de todos os gêneros e aqueles cuja arte consiste na imitação por intermédio de figuras, cores e sons;¹ e ainda mais, os poetas, com todo seu cortejo, i.e., rapsodos, atores, dançarinos, empresários. E também fabricantes de artigos de todos os gêneros, principalmente aqueles que trabalham para o público feminino. Também precisaremos de novos servos: afinal, para tanta gente não farão falta aios e aias, amas e camareiras, cabeleireiros, garotos-de-recados, cozinheiros e mesmo porqueiros? No primeiro Estado não havia que pensar em todas essas coisas; mas neste, como passar sem elas? e sem toda classe de animais destinados a atender ao paladar dos gastrônomos?

– Com efeito: como não?

– Mas, com este gênero de vida, não crês que os médicos não se fazem mais necessários que antes?

– Muito mais importantes.”

¹ Pintores, escultores e músicos.

“SÓCRATES – Em decorrência, Glauco, faremos a guerra ou não? Vês alguma outra postura possível?

GLAUCO – Só esta tua.”

“SÓCRATES – Agora é preciso, querido amigo, dar guarida, em nosso Estado, a um numeroso exército que possa sair de encontro ao inimigo e defender o Estado e tudo o que possui das invasões do mesmo inimigo.

GLAUCO – Mas como?!?… Não poderão os próprios cidadãos atacar e se defender?

SÓCRATES – Não, se o princípio em que convimos ao formar o plano do Estado for autêntico. Convimos, para te lembrar, que era impossível que um mesmo homem desempenhasse vários ofícios.

GLAUCO – É, tens razão.”

“Mas estar ansioso por aprender e ser filósofo não são uma e a mesma coisa?”

“Formemos, pois, nossos homens como se tivéssemos tempo para contar estórias.”

“- Os discursos, em tua opinião, são parte integrante da música?

– Sim, assim os creio.

– E há discursos de duas classes, verdadeiros e falsos.

– Sim.

– Uns e outros entrarão igualmente em nosso plano de educação, começando pelos discursos falsos?

– Não compreendo teu pensamento.

– Não sabes que o primeiro que se faz com as crianças é contar-lhes fábulas, e que ainda quando se ache algo de verdadeiro nelas, não são, ordinariamente, mais que um tecido de falsidades?”

“Escolhamos os mitos convenientes e descartemos os demais. A seguir, comprometeremos as amas e as mães a entreter suas crianças com os mitos autorizados”

“…os de Hesíodo, Homero e demais poetas; porque os poetas, tanto os de hoje quanto os dos tempos antigos, não fazem nada senão divertir o gênero humano com falsas narrativas.”

“Acima de tudo, não é uma falsidade das maiores e das mais graves a de Hesíodo quanto aos atos de Urano, a vingança suscitada em Cronos, as façanhas deste e o péssimo tratamento que recebeu este de seu filho por sua vez? E ainda que tudo isso fôra exato, não são coisas que devam se contar na frente de crianças desprovidas de razão; é preciso condená-las ao silêncio; ou, se for preciso falar delas, só se deve fazê-lo em segredo, diante de uma audiência seleta, com a proibição expressa de revelar seu conteúdo aos de fora, e assim mesmo só depois de haver feito cada membro dessa audiência imolar, não um porco, mas uma vítima preciosa e rara a fim de limitar o número dos iniciados.” Não se deve contar o inato: o Complexo de Édipo.

“Pelo menos não se devem ouvir nunca em nosso Estado. Não quero que se diga na presença de um jovem que, cometendo os maiores crimes e até se vingando cruelmente de seu próprio pai pelas injúrias recebidas, alguém deixará de cometer qualquer coisa de extraordinário e assombroso, posto que há o precedente dos primeiros e maiores deuses, que deram o mau exemplo.”

“tampouco falaremos dos combates dos deuses, ou dos laços que havia entre uns e outros; lembre-se que nada disso é seguro. Menos ainda daremos a conhecer, seja em narrativas, seja através de pinturas e tapeçarias, as guerras dos gigantes e todas as querelas que houve entre os deuses e os heróis com seus parentes e amigos mais chegados.”

“Que jamais se ouça entre nós que Hera foi agrilhoada pelo próprio filho e Hefesto atirado do céu por seu pai, por ter desejado socorrer sua mãe quando este a mal tratava”

“ADIMANTO – Dizes coisas mui sensatas, mas se se nos perguntasse quais são as fábulas admissíveis, que responderíamos?

SÓCRATES – Adimanto, nem tu nem eu somos poetas. Nós fundamos uma república, e neste conceito nos cabe conhecer segundo que modelo devem os poetas compor suas fábulas, além de proibir que se separem fábula e autor um dia; mas não nos cabe compô-las.

ADIMANTO – Tem razão; mas o que as fábulas devem nos ensinar com respeito à divindade?

SÓCRATES – De imediato, é necessário que os poetas nos representem Deus tal qual é de todos os ângulos, seja na epopéia, seja na ode, seja na tragédia.”

“Deus, sendo essencialmente bom, não é causa de todas as coisas, como se diz por aí. E os bens e os males estão de tal maneira repartidos entre os homens que o mal domina, Deus não é causa senão de uma pequena parte do que nos acontece e não o é em tudo o mais (na natureza). A Deus só se devem atribuir os bens; quanto aos males, é preciso buscar outra causa que não seja a divindade.”

“Que não se dê confiança a Homero nem a qualquer outro poeta, insensato o bastante para disparatar sobre os deuses e para dizer, por exemplo, que:

Sobre o umbral do palácio de Zeus há dois tonéis,

um cheio de destinos felizes

e outro de destinos desgraçados,

Se Zeus toma de um e outro para um mortal,

Sua vida será uma mescla de bons e maus dias;

mas se toma só de um ou só de outro sem mescla,

uma terrível miséria o perseguirá sobre a divina terra.

“Não consentiríamos que se dissessem estes versos de Ésquilo¹ diante de nossa juventude:

A divindade faz crescer a culpa entre os homens

quando quer arruinar uma família totalmente.

¹ Níobe

(*) “Ínaco, drama satírico, atribuído alternadamente a Sófocles, Ésquilo e Eurípides.”

“A mentira, falando com propriedade, é a ignorância, que afeta a alma do que é enganado; porque a mentira nas palavras não é mais que uma expressão do sentimento que a alma experimenta; não é uma mentira pura, mas um fantasma filho do erro.”

“Deus é essencialmente reto e veraz em seus ditos e em suas ações, não muda de forma, nem pode enganar os demais, nem mediante fantasmas, nem mediante discursos, nem valendo-se de signos, seja durante o dia e à vigília, seja durante a noite e em sonhos.”

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OBRA COMPLETA DE FREUD – Tomo XI // NO DIVÃ COM CILA

06/06/2016 a 06/10/2016

Org. James Strachey, Anna Freud et al.

GLOSSÁRIO

coupeurs de nattes: pervertidos que sentem prazer em cortar o cabelo das mulheres.

macropsia: percepção que avoluma ou aumenta os corpos e objetos. Comum em hipoglicêmicos.

hebefrenia: loucura adolescente, demência precoce, esquizofrenia [!]

milhafre: ave

paramnésia: perturbação que faz esquecer a significação das palavras escutadas ou lidas

parético: enfraquecimento muscular não-relacionado com Pareto (paresia)!

Sprachwissenschaftliche Abhandlungen: ensaios filológicos

A) 5 LIÇÕES DE PSICANÁLISE (1910)

Entre 1885 e 1886 foi discípulo de Charcot em Paris, e acompanhou, em 1889, em Nancy, as experiências de Bernheim sobre o hipnotismo.” Durval Marcondes

Horácio recomendava esperar 9 anos para se publicar um escrito. Ora…

Há cerca de 40 anos que ele se dedica diariamente a 8, 9, 10, às vezes mesmo 11 análises de 1h cada.” Stephen Zweig, 1931

* * *

Caminharemos por algum tempo ao lado dos médicos, mas logo deles nos apartaremos”

esse enigmático estado que desde o tempo da medicina grega é denominado histeria” “diante da histeria o médico não sabe o que fazer” Para mais detalhes de Anna O., a “primeira histérica moderna”, ver BREUER.

Tomava na mão o cobiçado copo d’água, mas assim que o tocava com os lábios, repelia-o como hidrófoba. Para mitigar a sêde que a martirizava, vivia sòmente de frutas, melões etc. (…) despertou da hipnose com o copo nos lábios. A perturbação desapareceu definitivamente.”

Toda essa cadeia de recordações patogênicas tinha então de ser reproduzida em ordem cronológica e precisamente inversa – as últimas em primeiro lugar e as primeiras por último – sendo completamente impossível chegar ao primeiro trauma, muitas vezes o mais ativo, saltando sobre os que ocorreram posteriormente.”

Numa senhora de cêrca de 40 anos existia um tic (tique) sob a forma de um especial estalar da língua, que se produzia quando a paciente se achava excitada e mesmo sem causa perceptível. Originara-se esse tique em 2 ocasiões nas quais, sendo desígnio dela não fazer nenhum rumor, o silêncio foi rompido contra sua vontade justamente por esse estalido. Uma vez, foi quando com grande trabalho conseguira finalmente fazer adormecer seu filhinho doente, e desejava, no íntimo, ficar quieta para o não despertar; outra vez quando, numa viagem de carro com dois filhos, por ocasião de uma tempestade, os cavalos se assustaram e ela cuidadosamente quisera evitar qualquer ruído para que os animais não se espantassem ainda mais.”

histéricos e neuróticos: não só recordam acontecimentos dolorosos que se deram há muito tempo, como ainda se prendem a eles emocionalmente; não se desembaraçam do passado e alheiam-se por isso da realidade e do presente.” UnB quarto pai Marianna ranço Dilma risada buchicho cristofobia TCC formatura vai ter golpe vozdeus levaratéofimumavezcomeçadoojogo.

Breuer resolveu admitir que os sintomas histéricos apareciam em estados mentais particulares que chamava <hipnóides>. As excitações durante esses estados hipnóides tornam-se facilmente patogênicas porque não encontram neles as condições para a descarga normal do processo de excitação.” Eu não era eu.

Meu pai esteve comigo – quero dizer: contra mim! ao menos se estivera ausente em ALGUMA destas ocasiões! – em todos os meus piores momentos, geralmente como protagonista ou incentivador-da-lenha-na-fogueira:

– Expulsão do colégio militar (VIVA O BOZO!);

– Tome este volante, mesmo que não queira…

– Sociologia, mas que merda!

– Por que não pagam nem passagem no seu estágio gratuito? Na verdade é um estágio oneroso!

– Sua namorada é uma vaca, a sua cunhada me contou (complô de novela mexicana – não pode estar acontecendo comigo, não é possível…)

– Você CUSTA a crescer, come demais!

– Eu não quero que você use um computador, seu nerd!

– HAHAHA! Te humilharam, HAHAHA!

– Como assim você detesta a UnB?

– Para mim você não se formou.

– Você tinha que continuar a dar aula.

– Por que você faz essa terapia idiota e toma esses remédios inúteis?

– Roque pauleira?! Urgh…

– Desenhinho?

– Você devia fazer a prova do Barão de Rio Branco…

– Você gosta de estudar, por que não se doutora?

– Não gosto da sua esposa, não gosto dessa pobraiada carioca, não gosto que você não assuma compromissos e que não pague a taxa de água, inclusive prefiro os outros inquilinos problemáticos a você…

– Finjo que não gostaria que você tivesse um filho justamente quando você pensou que seria pai só para nunca me contradizer, isto é, sempre rebaixá-lo! Agora que sua chance de ser pai é 0, eu gostaria muito de um neto…

– Por que você nunca me ajuda quando eu peço?

– Você não é o FERA em informática? Me ajude a renovar este detector de radares, me ajude a pagar esta multa, me ajude, me ajude com a 2ª via, me ajude!!!… Ingrato!

– Lula isso Lula aquilo, PT me fodeu, comeu meu cu, fodeu meu país, só você não enxerga isso!

– Não consegue dormir? Que mentira é essa?!

– Idiota, não serve nem pra reagir a um assalto!

– Eu sou muito macho, reajo a PMs… Inclusive, revise esse texto em que conto essa estória; vou entregá-la na delegacia.

– Não existe este livro clássico de autor alemão na Alemanha democrática, este homem facínora (socialista, veja você!) foi banido deste país de Primeiro Mundo!

– Por que você demorou tanto na perícia médica, por que você relatou isso ao médico? Vão pensar que você é doido! Seja mais esperto, bata na mesa, resolva, como eu!

– ISSO É FRESCURA! SUA VIDA É UMA FRESCURA! Nos dois sentidos: eu PENEI bem mais. Tenha dó deste moribundo aqui…

– Cuide do seu irmão, pois eu vou morrer e ele precisa ser cuidado – por que não você?! Só porque eu nunca fiz nada do que te peço, não quer dizer que você não tenha que me obedecer, afinal, SOU SEU PAI! EU RESPEITAVA MEU PAI! MEU PAI ERA UM MERDA! Mas não divaguemos sobre aquilo que não nos diz respeito… Porque filosofar é coisa de inútil…

Onde existe um sintoma, existe também uma amnésia, uma lacuna da memória, cujo preenchimento suprime as condições que conduzem à produção do sintoma.”

A teoria de Breuer, dos estados hipnóides, tornou-se aliás embaraçante e supérflua, e foi abandonada pela psicanálise moderna.”

P. 24: “Tornou-se-me logo enfadonho o hipnotismo, como recurso incerto e algo místico; e quando verifiquei que apesar de todos os esforços não conseguia hipnotizar senão parte de meus doentes, decidi abandoná-lo, tornando o procedimento catártico independente dele.

dissociação” – mito ligado à histeria?

Somos todos fujões.

Em lugar do breve conflito, começa então um sofrimento interminável.”

Podemos admitir que seja tanto maior a deformação do elemento procurado quanto mais forte a resistência que o detiver.”

Aceitando a proposta da Escola de Zurique (Bleuler, Jung e outro), convém dar o nome de <complexo> a um grupo de elementos ideacionais interdependentes, catexizados de energia afetiva.”

Uma observação atenta mostra, contudo, que as idéias livres nunca deixam de aparecer.”

Para o psicanalista este método é tão precioso quanto para o químico a análise qualitativa.”

estudo das psicoses, com tanto êxito empreendido pela Escola de Zurique [?]”

O tripé do psicanalista: livre associação – sonho – ato falho. Meu blog é um manancial dos dois primeiros.

Parece-me quase escandaloso apresentar-me neste país de orientação prática como <onirócrita>”

Quando me perguntam como pode uma pessoa fazer-se psicanalista, respondo que é pelo estudo dos próprios sonhos.”

Hora solene de bramir o chicote em cômodos escuros semiconhecidos, dar uma flor até para quem é homem e quem sabe rolar por aí velozmente sem olhar para trás. Cifrões. O que mais me dá raiva é que eu gostaria de matar quem me proporcionava isso na infância.

Por ora continuarei matando edipianamente a aula de inglês, refazendo meus estudos abandonados e esquecendo a bolsa de educação física. E me deixarei dominar pelo pânico e dissabor do instante. Ansiosos não tem pesadelos.

Na vida onírica a criança prolonga, por assim dizer, sua existência no homem, conservando todas as peculiaridades e aspirações, mesmo as que se tornam mais tarde inúteis.”

A ansiedade é uma das reações do ego contra desejos reprimidos violentos.”

o esquecimento de coisas que deviam saber e que às vezes sabem realmente (p.ex. a fuga temporária dos nomes próprios), os lapsos de linguagem, tão freqüentes até mesmo conosco, na escrita ou na leitura em voz alta; atrapalhações no executar qualquer coisa, perda ou quebra de objetos, etc., bagatelas de cujo determinismo psicológico de ordinário não se cuida, que passam sem reparo como casualidades, como resultado de distrações, desatenções. Juntam-se ainda os atos e gestos que as pessoas executam sem perceber, e sobretudo, sem lhes atribuir importância mental, como sejam trautear melodias, brincar com objetos, com partes da roupa ou do próprio corpo, etc.” Cf. A Psicopatologia da Vida Cotidiana, 1901.

as perturbações do erotismo têm a maior importância entre as influências que levam à moléstia, tanto num como noutro sexo.” “Quando, em 1895, publiquei com o Dr. J. Breuer os Estudos sobre a Histeria, ainda não tinha esta opinião”

aquela mescla de lubricidade a afetado recato é o que governa a maioria dos <povos civilizados> nas coisas da sexualidade.”

Só os fatos da infância explicam a sensibilidade aos traumatismos futuros e só com o descobrimento desses restos de lembranças é que (…) afastamos os sintomas.”

Não é verdade certamente que o instinto sexual, na puberdade, entre no indivíduo como, segundo o Evangelho, os demônios nos porcos.”

F. – The Analysis of a Phobia in a Five-Year-Old Boy

O prazer de chupar o dedo, o gozo da sucção, é um bom exemplo de tal satisfação auto-erótica partida de uma zona erógena. Quem primeiro observou cientificamente esse fenômeno, o pediatra Lindner (1879), de Budapeste, já o tinha interpretado como satisfação dessa natureza e descrito exaustivamente a transição para outras formas mais elevadas de atividade sexual. Outra satisfação da mesma ordem, nessa idade, é a excitação masturbatória dos órgãos genitais, fenômeno que tão grande importância conserva para o resto da vida e que muitos indivíduos não conseguem suplantar jamais.”

Do gozo visual ativo [voyeurs] desenvolve-se mais tarde a sede de saber, como do passivo [exibicionista] o pendor para as representações artísticas e teatrais.”

Os mais profundamente atingidos pela repressão são primeiramente, e sobretudo, os prazeres infantis coprófilos”

o complexo nuclear de cada neurose”

P. 44: Édipo e Hamlet

O homem enérgico e vencedor é aquele que pelo próprio esforço consegue transformar em realidade seus castelos de ar.” E eu que fui longe demais… quixotei-me para salvar-me… Psicanálise como castelo aéreo. Lucy in the divan without diamonds…

Quando a pessoa inimizada com a realidade possui dotes artísticos (psicologicamente ainda enigmáticos [hehe]) podem suas fantasias transmudar-se não em sintomas senão em criações artísticas. Cf. Rank, 1907

VdP: “Conforme as circunstâncias de quantidade e da proporção entre as forças em choque, será o resultado da luta a saúde, a neurose ou a sublimação compensadora.” Categoria residual do que ele não pôde entender.

Nunca acabarão nem a ternura nem a repulsa.

Pp. 47-8: o transfer

B) LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANÇA DA SUA INFÂNCIA [Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci] (1910), trad. brasileira: Walderedo Oliveira

Leonardo, que talvez fosse o mais famoso canhoto da história, jamais tivera um caso de amor.”

(*) “o estudo freudiano sobre mães-deusas andróginas”

Es liebt die Welt das Strahlende zu schwärzen

Und das Erhabene in den Staub zu ziehn.”

O mundo gosta de denegrir o brilhante

E arrastar na lama o sublime.”

Schiller, A Jovem de Orléans

gênio universal cujos traços se podia esboçar, nunca definir” Burckhardt

Desprezava o ofício de escritor. Trattato della Pittura.

O que para você é o Big Bang para mim foi só uma conseqüência.

descobria defeitos em coisas que, aos outros, pareciam milagres.” Solmi (1910)

Von Seidlitz traz uma história das obras de Da Vinci, relatando telas e restaurações…

Desenhou armas para César Bórgia apesar de pacifista.

Não existe nas anotações de Leonardo um único comentário a respeito dos acontecimentos de sua época ou qualquer demonstração de preocupação com êles.”

Leonardo [se absteve de] examinar de perto os mamilos de qualquer mulher em período de amamentação. Se o tivesse feito teria certamente notado que o leite passa através de uma porção de canais excretores separados. Leonardo, no entanto, desenhou um único canal”

Não se tem o direito de amar ou odiar qualquer coisa da qual não se tenha conhecimento profundo.” Botazzi

Solmi, o “bom biógrafo”, segundo Freud: “Tale transfigurazione della scienza della natura in emozione, quasi direi, religiosa, è uno dei tratti caratteristici del manoscritii vinciani”

Terá pesquisado em vez de amar.”

não mais queria estudar pelo amor à arte mas, sim, pelo próprio amor ao estudo.” Solmi

Il sole non si move.” in: Quaderni d’Anatomia

P. 72: as crianças e as perguntas

Quem o tempo todo se reescreve demonstra que não pode passar por correto mesmo durante uma geração. Ou alguém aí já ouviu falar de uma segunda edição do Hamlet? Para nós, o que está dito, está dito. Livro perene de pedra, numa única camada.

Filho de peixe molusco alado é. Filho de molusco alado peixe é.

A tendência a botar o órgão sexual masculino na bôca e a chupá-lo, o que numa sociedade respeitável é considerado uma perversão sexual horrível, encontra-se, no entanto, com muita freqüência entre as mulheres de hoje – e de outros tempos também, como o evidenciam esculturas da antiguidade – e no ardor da paixão isso parece perder completamente o seu caráter repulsivo.” O boquete é instintivo.

Krafft-Ebing – Psycopathia Sexualis

Little Hans virou Joãozinho no Brasil.

O que nos leva a classificar alguém como sendo um invertido (homossexual) não é o seu comportamento real porém a sua atitude emocional.”

Antes do séc. XIX, ninguém podia saber a conotação dos hieróglifos egípcios. Uma civilização tão antiga, uma impressão e um julgamento tão recentes…

Uma característica especial do panteão egípcio era que os deuses individuais não desapareciam quando ocorria um processo de sincretismo.” “Ora, essa deusa-mãe com cabeça de abutre era geralmente representada pelos egípcios com um falo, seu corpo era de mulher, conforme mostram os seus seios, mas possuía também um membro masculino em ereção.”

Neith de Saís – de quem se originou, mais tarde, a Atenéia dos gregos” – cf. https://seclusao.art.blog/2019/06/08/timeu-ou-da-natureza/

podemos encontrar aqui uma das raízes do anti-semitismo que aparece com fôrça tão elementar e se manifesta de modo tão irracional entre as nações do Oeste. A circuncisão é inconscientemente associada à castração.”

Um culto fetichista cujo objeto é o pé ou calçado feminino parece tomar o pé como mero símbolo substitutivo do pênis da mulher, outrora tão reverenciado e depois perdido.”

Sem o saber, os coupeurs de nattes desempenham o papel de pessoas que executam um ato de castração sôbre o órgão genital feminino.” Escola Classe 106 Norte – Érika & A Tesoura Amarela Poucas madeixas. Impulso incontrolável. Diretoria. Morte da lembrança. Hiato. Morte da Infância. Ressurreição. E se…? E se for “inveja da feminilidade”, a antítese da inveja do pênis? E se radica aí minha obsessão metaleira, minha preferência por deixar o cabelo crescer?

e quando a conexão entre a religião oficial e a atividade sexual se tornou oculta da consciência geral, cultos secretos se dedicavam a conservá-la viva entre um certo número de iniciados.”

Pp. 91-2: as mais polêmicas até aqui. Freud defende uma “homossexualidade universal”; só o que há para diferenciar são os graus de intensidade e o caráter mais ou menos passageiro da “coisa”. Todo desenvolvimento sexual não-aberrante incluiria uma fase homossexual na infância.

Em todos os nossos casos de homossexuais masculinos [notável sua ignorância sobre o lesbianismo, derivada da sua ignorância em geral relativa às mulheres], os indivíduos haviam tido uma ligação erótica muito intensa com uma mulher, geralmente sua mãe, durante o primeiro período de sua infância, esquecendo depois êsse fato; essa ligação havia sido despertada ou encorajada por demasiada ternura por parte da própria mãe, e reforçada posteriormente pelo papel secundário desempenhado pelo pai durante sua infância. Sadger chama atenção para o fato de as mães dos seus pacientes homo. serem muitas vezes masculinizadas, mulheres com enérgicos traços de caráter e capazes de deslocar o pai do lugar que lhe corresponde.”

O menino reprime seu amor pela mãe, coloca-se em seu lugar, identifica-se com ela, e toma a si próprio como um modêlo a que devem assemelhar-se os novos objetos de seu amor. Dêsse modo êle transformou-se num homossexual.”

Como escolhia seus alunos pela beleza e não pelo talento, nenhum dêles – Cesare da Sesto, Boltraffio, Andrea Salaino, Francesco Melzi e outros mais – veio a tornar-se um pintor de importância.”

As formas de expressão por que a libido reprimida de L. se tornava manifesta – preocupação e pormenores com referência a dinheiro – estão entre os traços de caráter resultantes do erotismo anal. Ver meu trabalho Character and Anal Erotism (1908b).”

Qualquer pessoa que pense nas pinturas de L. recordar-se-á de um sorriso notável, ao mesmo tempo fascinante e misterioso, que êle punha nos lábios de seus modêlos femininos. É um sorriso imutável, desenhado em lábios longos e curvos; tornou-se uma característica do seu estilo e o têrmo <Leonardiano> tem sido usado para defini-lo.²

² [Nota acrescentada em 1919:] O conhecedor de arte pensará aqui no peculiar sorriso fixo encontrado em esculturas gregas arcaicas – nas de Egina, p.ex.; encontrará também qualquer coisa semelhante nas figuras de Verrocchio, professor de L. e, portanto, se sentirá reticente em aceitar os argumentos que se seguem.”

Voilà 4 siècles bientôt que Mona Lisa fait perdre la tête à tous ceux qui parlent d’elle, après l’avoir longtemps regardée.” Gruyer Apud SEIDLITZ

o contraste entre a reserva e a sedução, e entre a ternura mais delicada e uma sensualidade implacàvelmente exigente” “tendresse et coquetterie, pudeur et sourde volupté” “nel poema del suo sorriso” “toda a hereditariedade da espécie” “a bondade que esconde o propósito cruel”

O Autor como escravo de uma sua obra

<Heilige Anna Selbdritt> quadro da Madona

Assim, como todas as mães frustradas, substituiu o marido pelo filho pequeno.” NiE(l)tzc(in)e

(blow

list of f*cked liszts jew jeu jaws

LISTERINE

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clister

ter-lírica-e-ter-talento

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I

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servem para ser o-bebê-descidas pela go’ela dos sub’jug(ular)ados

úvula

lar dos desterrados

slavejó)

êle já tinha estado tempo demais sob o domínio da inibição para que pudesse voltar a desejar tais carícias dos lábios de outras mulheres”

É apenas um pequeno detalhe e ninguém, a não ser um psicanalista, lhe daria maior importância.”

Criava a obra de arte e depois dela se desinteressava, do mesmo modo que seu pai se desinteressava por êle.”

as raízes da necessidade de religião se encontram no complexo parental.”

estou-no-mundo

Adão era adolescente.

D***-Al*****-Ed***** o Triângulo Maldito dos Mimados para a Psicanálise Clássica. Reformado-Clássico-Proscrito

nos sonhos o desejo de voar representa verdadeiramente a ânsia de ser capaz de realizar o ato sexual.”

¹¹ [1919:] Esta afirmação baseia-se nas pesquisas de Paul Federn (1914) e Mourly Vold (Über den Traum, 1912 [parece não haver tradução para nenhuma língua]), um cientista norueguês que não tinha nenhum contato com a psicanálise.”

P. 115: o mito da “felicidade na infância”

Goku, o Fodedor

Tornou-se impacientissimo al pennello [pincel]”

C) AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPÊUTICA PSICANALÍTICA [Die Zukünftigen Chancen der Psychoanalytischen Therapie] (1910), trad. brasileira David Mussa

<trepar> [em alemão <steigen>]¹ se usa como equivalente direto do ato sexual. Falamos de um homem como um <Steiger> [trepador] e de <nachsteigen> [correr atrás de, literalmente trepar]. Em francês os degraus de uma escada chamam-se <marches> e <un vieux marcheur> tem o mesmo sentido que o nosso <ein alter Steiger> [um velho devasso].”

¹ Curiosamente o bastante, escada em alemão é Treppe.

8 “[Nota do tradutor] Freud nem sempre estava igualmente convencido da possibilidade de auto-análises adequadas para aspirantes a analistas. Mais tarde, êle insistiu na necessidade de análises didáticas conduzidas por alguma outra pessoa.” Cause the world is full (fool!) of creepers (creeps, bisonhos, trepadeiras, tarados)!

Os senhores não podem exagerar a intensidade de carência interior de decisão das pessoas e de exigência de autoridade. O aumento extraordinário das neuroses desde que decaiu o poder das religiões pode dar-lhes uma medida disso.”

Uma operação, por certo, se destina a produzir reações; em cirurgia, estamos acostumados a isso, há muito tempo.”

os senhores devem pensar na posição de um ginecologista, na Turquia e no Ocidente. Na Turquia, tudo o que ele pode fazer é sentir o pulso de um braço, que se lhe estende através de um buraco na parede.”

A sugestão social é favorável, no presente, a tratar os pacientes nervosos pela hidropatia, dieta e eletroterapia, mas isso não capacita que tais recursos possam vencer as neuroses.”

O sucesso que o tratamento pode ter com o indivíduo deve ocorrer, igualmente, com a comunidade.”

a sua ansiosa superternura que tem em mira ocultar-lhes o ódio, a sua agorafobia que se relaciona com a ambição frustrada, as suas atitudes obsessivas que representam auto-censuras por más intenções e precauções contra as mesmas.”

essa necessidade de encobrimento [sintomas, provavelmente orgânicos, ou psicológicos ainda mais graves, que disfarçam a neurose – <ele é esquisito porque é tuberculose, porque tem pressão baixa, porque tem dores de cabeça e de barriga o tempo inteiro, porque sua coluna dói, porque herdou muitos genes ruins dos parentes…] destrói as vantagens de ser doente.” “Certo nº de pessoas, ao defrontar-se, em suas vidas, com conflitos que constataram muito difíceis de resolver, fogem para a neurose e, dêsse modo, retiram da doença vantagem inequívoca, embora, com o tempo, acarrete bastante prejuízo.” “Um bom nº daqueles que, hoje, fogem para a enfermidade não suportariam o conflito”

Lembremo-nos, no entanto, que nossa atitude perante a vida não deve ser a do fanático por higiene ou terapia.”

D) A SIGNIFICAÇÃO ANTITÉTICA DAS PALAVRAS PRIMITIVAS (prefiro ‘O contra-senso inerente aos conceitos’) [Über den Gegensinn der Urworte] (1910), trad. brasileira Clotilde da Silva Costa

Por que os sonhos funcionam sob o mecanismo da inversão da representação do desejo.

O nosso ofício de ironista.

Karl Abel (filósofo contemporâneo de F.): “Se a palavra egípcia <ken> devia significar <forte>, seu som que fosse alfabèticamente escrito seguia-se da figura de um homem em pé, armado; se a mesma palavra tinha de expressar <fraco>, as letras que representam o som se seguiam da figura de um corcunda, coxo.”

macio macilento

Em latim <altus> significa <alto> e <profundo>, <sacer> <sagrado> e <maldito> (…) <clamare> (gritar) – <clam> (suavamente, secretamente); <siccus> (sêco) – <succus> (suco). Em alemão <Boden> ainda significa o mais alto bem como o mais baixo da casa (sótão ou chão). Nosso <bös> (mau) se casa com a palavra <bass> (melhor [boss! boçal!]); em saxão antigo <bat> (bom [o homem-mocego é bom!]) corresponde ao inglês <bad> e o inglês <to lock> (trancar) ao alemão <Lücke>, <Loch> (vazio, buraco).”

<stumm> (mudo), <Stimme> (voz)”

5 “[Nota da tradutora] Diz-se que <lucus> (bosque em latim) se deriva de <lucere> (brilhar) porque nêle não há claridade. (Atribuído a Quintiliano.)” lusco-fusco

Mesmo hoje o homem inglês para exprimir <ohne> (sem) diz <without> (<mitohne>, i.e., com-sem), e o prussiano oriental faz o mesmo. A própria palavra <with>, que hoje corresponde ao <mit>, originàriamente significava ao mesmo tempo <sem> e <com>, como se pode reconhecer no inglês <withdraw> (retirar) e <withhold> (reter). A mesma transformação pode ser vista em <wider> (contra) e <wieder> (junto com).”

Topf – pot (DEU/ENG)

boat – tub (ENG/ENG)

wait – täwwen (ENG/DEU)

reck – care (ENG/ENG)

Balken – Klobe (DEU/DEU – viga, cepo)

capere – packen (LAT/DEU – tomar, agarrar respect.)

ren – Niere (LAT/DEU – rim)

leaf – folha (ENG/POR)

me  him

her  their

Leafar (li e fui longe, so far…)

Folha, Vento, folhas ao vento, oxigênio…

escrever&respirar

rayo

sucede a água

Arauto do Ar²

Taurus ²5

Sure-ata

seus réus

céus! rois reis en Romme

sóis brilhem me libertem, só. é.

fair lady não ria é uma bela moça cheia da lábia

Até um idiota como Stephen Hawking diria que no sono regular o ser humano rebobina a fita…

E) UM TIPO ESPECIAL DE ESCOLHA DE OBJETO FEITA PELOS HOMENS (Contribuições à Psicologia do Amor I) – Über einen besonderen Tipus der Objektwahl beim Manne (Beiträge zur Psichologie des Liebeslebens I) (1910 [überproduktiv!]), trad. brasileira Clotilde da Silva Costa

a precondição de que deva existir <uma terceira pessoa prejudicada>” “a pessoa em questão nunca escolherá uma mulher sem compromisso, i.e., uma moça solteira ou uma mulher casada livre” [???] “a segunda precondição consiste no sentido de que a mulher casta e de reputação irrepreensível nunca exerce atração que a possa levar à condição de objeto amoroso, mas apenas a mulher que é, de uma ou outra forma, sexualmente de má reputação, cuja fidelidade e integridade estão expostas a alguma dúvida.” “se torna alvo desse ciúme não o possuidor legítimo da pessoa amada, mas estranhos que fazem seu aparecimento pela primeira vez”

Don Juan: o primeiro afoito?

Para Freud a série tendente ao infinito das perguntas das crianças se resumiriam na matriz “como nascem as crianças?”. O que não faz sentido é a – súbita ou gradual – perda de interesse na questão antes de um esboço de resolução.

O que faria o macho alfa mais orgulhoso: desvirginar a donzela ou “ligar” o órgão da puta? Arrombar ou lacrar? Violar ou cicatrizar?

PRIMEIRA CITAÇÃO DO C.E. ENCONTRADA EM FREUD: “Ele começa a desejar a mãe para si mesmo, no sentido com o qual, há pouco, acabou de se inteirar, e a odiar de nova forma o pai como um rival que impede esse desejo; passa, como dizemos, ao controle do complexo de Édipo.”

Não perdoa a mãe por ter concedido o privilégio da relação sexual, não a ele, mas a seu pai, e considera o fato como um ato de infidelidade. Se esses impulsos não desaparecerem rapidamente, não há outra saída para os mesmos, senão seguir seu curso através de fantasias que têm por tema as atividades sexuais da mãe (ou primeiro amor), nas mais diversas circunstâncias; e a tensão conseqüente leva, de maneira particularmente rápida, a buscar alívio na masturbação.”

Quando a criança ouve dizer que deve sua vida aos pais, ou que sua mãe lhe deu a vida, seus sentimentos de ternura aliam-se a impulsos que lutam pelo poder e pela independência, e geram o desejo de retribuir essa dádiva aos pais e de compensá-los com outra de igual valor.”

<Não quero nada de meu pai; devolver-lhe-ei tudo quanto gastou comigo.> [!!!]” “a fantasia de salvar o pai de perigo” “o sentido desafiador é de longe o mais importante” “salvar a mãe adquire o significado de lhe dar uma criança – é supérfluo dizer, uma igual a ele.”

a experiência do nascimento, provavelmente, nos legou a expressão de afeto que chamamos de ansiedade. Macduff,¹ da lenda escocesa, que não nasceu de sua mãe mas lhe foi arrancado do ventre, por esse motivo não conhecia a ansiedade.²”

¹ Em Macbeth.

² Aprofundamento da questão parto-ansiedade em Inibições, Sintomas e Ansiedade.

F) SOBRE A TENDÊNCIA UNIVERSAL À DEPRECIAÇÃO NA ESFERA DO AMOR (Contribuições à Psicologia do Amor II) – Über die Allgemeinste Erniedrigung des Liebeslebens (Beiträge zur Psichologie des Liebeslebens II) (1912), trad. brasileira Jayme Salomão

Se o psicanalista clínico indagar a si mesmo qual perturbação leva as pessoas com maior freqüência a procurarem-no em busca de auxílio, ele será compelido a responder que consiste nas diversas formas de ansiedade.”

Artigo sobre a impotência sexual ligada a mulheres parecidas com a mãe no sentido freudiano, ou seja, ligada a mulheres que se escolheu amar.

Gênese 2:24

a impotência total que, talvez, mais tarde se reforce pelo início simultâneo de um real debilitamento dos órgãos que realizam o ato sexual.”

psicanestésicos, homens que nunca falham no ato, mas que o realizam sem dele derivar qualquer prazer especial”

mulheres frígidas” “Esta é a origem do empenho realizado por muitas mulheres de manter secretas, por certo tempo, mesmo suas relações legítimas”

o homem quase sempre sente respeito pela mulher que atua com restrição a sua atividade sexual, e só desenvolve potência completa quando se acha com um objeto sexual depreciado; e isto por sua vez é causado, em parte, pela entrada de componentes perversos em seus objetivos sexuais, os quais não ousa satisfazer com a mulher que ele respeita.” “Também é possível que a tendência a escolher uma mulher de classe mais baixa para sua amante permanente ou mesmo para sua esposa, tão freqüentemente observada nos homens de classes mais altas da sociedade, nada mais seja que sua necessidade de um objeto sexual depreciado” “[tais homens] consideram o ato sexual, basicamente, algo degradante, que conspurca e polui mais do que simplesmente o corpo.”

É, naturalmente, tão desvantajoso para a mulher se o homem a procura sem sua potência plena como o é se a supervalorização inicial dela, quando enamorado, dá lugar a uma subvalorização depois de possuí-la.”

Pode-se verificar, facilmente, que o valor psíquico das necessidades eróticas se reduz, tão logo se tornem fáceis suas satisfações. Para intensificar a libido, se requer um obstáculo” “Nas épocas em que não havia dificuldades que impedissem a satisfação sexual, como, talvez, durante o declínio das antigas civilizações, o amor tornava-se sem valor e a vida vazia”

os componentes instintivos coprófilos, que demonstraram ser incompatíveis com nossos padrões estéticos de cultura, provavelmente porque, em conseqüência de havermos adotado a postura ereta, erguemos do chão nosso órgão do olfato. (…) o excrementício está todo, muito íntima e inseparàvelmente ligado ao sexual; a posição dos órgãos genitais – inter urinas et faeces – permanece sendo o fator decisivo e imutável. Poder-se-ia dizer neste ponto, modificando um dito muito conhecido do grande Napoleão: <A anatomia é o destino.> Os órgãos genitais propriamente ditos não participaram do desenvolvimento do corpo humano visando à beleza: permaneceram animais (…) é absolutamente impossível harmonizar os clamores de nosso instinto sexual com as exigências da civilização.”

G) O TABU DA VIRGINDADE (Contribuições à Psicologia do Amor III) – Das Tabu der Virginität (Beiträge zur Psichologie des Liebeslebens III) (1918)

a prática da ruptura do hímen dessa maneira, fora do casamento subseqüente, é muito disseminada entre as raças primitivas que vivem ainda hoje. Como diz Crawley, <Essa cerimônia do casamento consiste na perfuração do hímen por uma pessoa designada que não o marido; é muito comum nos estágios mais baixos de cultura, especialmente na Austrália.> (Crawley, 1902, 347)”

Nas tribos Portland e Glenelg isto é feito à noiva por uma mulher idosa; e, às vezes, com essa finalidade são solicitados homens brancos, para deflorar as moças púberes (Brough Smith, 1878).”

A ruptura, às vezes, ocorre na infância”

Esse defloramento é efetuado pelo pai da noiva entre os Sakais (Malásia), os Battas (Sumatra) e os Alfoers das Celebes (Ploss e Bartels, 1891).” “Nas Filipinas haviam (sic) determinados homens cuja profissão era deflorar noivas, caso o hímen não houvesse sido perfurado na infância por uma mulher idosa, às vezes contratada para esse fim (Featherman, 1885-91).”

A perfuração ritual não acarreta necessàriamente a relação sexual. Freud critica o acanhamento e superficialidade dos primeiros etnógrafos.

8 “Em numerosos exemplos, não pode haver dúvidas de que outras pessoas além do noivo, p.ex., seus convidados e companheiros (nossos tradicionais <padrinhos do noivo> [<Kranzelherrn>]) têm livre acesso à noiva.”

a circuncisão de meninos e seu equivalente ainda mais cruel nas meninas (excisão do clitóris e dos pequenos lábios)”

em algumas ocasiões especiais, a sexualidade do homem primitivo pode sobrepujar todas as inibições; mas de maneira geral, parece ser mais fortemente dominada por proibições do que o é nas camadas mais altas da civilização.”

não se permite a um sexo pronunciar em voz alta os nomes próprios dos membros do outro sexo e as mulheres criam uma linguagem com um vocabulário especial.” “em algumas tribos, mesmo os encontros entre marido e mulher têm de se realizar fora de casa e às escondidas.”

SUPER MALLEVS MALEFICARVM: “Ele não separa o perigo material do psíquico, nem o real do imaginário. Em sua concepção animista do universo consistentemente aplicada, todo perigo decorre da intenção hostil de algum ser dotado de alma como ele próprio”

A frigidez inclui-se, assim, entre os determinantes genéticos das neuroses.”

<noites de Tobias> (o costume da continência durante as três primeiras noites do casamento)”

P. 190: “Por trás dessa inveja do pênis, manifesta-se a amarga hostilidade da mulher contra o homem, que nunca desaparece completamente nas relações entre os sexos e que está claramente indicada nas lutas e na produção literária das mulheres <emancipadas>. Em uma especulação paleobiológica, Ferenczi atribuiu a origem dessa hostilidade das mulheres à época em que os sexos se tornavam diferenciados. A princípio, a cópula realizou-se entre dois indivíduos semelhantes, um dos quais, no entanto, transformou-se no mais forte e forçou o mais fraco a se submeter à união sexual. Os sentimentos de amargura decorrentes dessa sujeição ainda persistem na disposição das mulheres hoje em dia.”

Arthur Schitzler – Das Schicksal des Freiherrn

Uma comédia da autoria de Anzengruber mostra como um simples camponês é dissuadido de casar com sua noiva pretendida porque ela é <uma rapariga que lhe cobrará primeiro a vida>. Por esse motivo ele concorda em que ela case com outro homem e está disposto a aceitá-la quando ficar viúva e não for mais perigosa. O título da peça, Das Jungferngift (<O Veneno da Virgem>), traz-nos à lembrança o hábito dos encantadores de serpentes que, primeiro, fazem as cobras venenosas morderem um pedaço de pano a fim de, depois, lidarem com elas sem perigo.”

Hebbel – Judite e Holofernes: “Quando o general assírio está cercando sua cidade, ela concebe o plano de seduzi-lo com sua beleza e de destruí-lo, usando assim um motivo patriótico, para esconder outro, sexual. Depois de haver sido deflorada por esse homem poderoso, que se gaba de seu vigor e de sua insensibilidade, ela encontra forças em sua fúria para lhe cortar a cabeça, tornando-se assim a libertadora de seu povo. (…) É claro que Hebbel sexualizou intencionalmente a narrativa patriótica do Apócrifo do Velho Testamento, pois, nela, Judite pode se gabar, depois ao voltar, que não foi violada, e nem existe no texto bíblico qualquer menção de sua misteriosa noite nupcial. Mas provavelmente, com a fina percepção de poeta, ele percebeu o velho motivo, que se havia perdido na narrativa tendenciosa [infantil Apud Groddeck].”

H) A CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA DA PERTURBAÇÃO PSICOGÊNICA DA VISÃO – Die Psychogene Sehstörung in Psychoanalytischen Auffassung (1910), trad. brasileira Paulo Dias Corrêa

nos pacientes predispostos à histeria, há uma tendência inerente à dissociação – a uma desagregação das conexões em seu campo psíquico”

FREUD, O PAI DO SEXO: “Foi Jung, e não eu, que fêz da libido um equivalente da fôrça instintiva da tôdas as faculdades psíquicas, e que contesta a natureza sexual da libido. (…) Da minha concepção você extrai a natureza sexual da libido e da conclusão de Jung seu significado generalizado. É assim que se cria na imaginação dos críticos um pan-sexualismo que não existe nos meus conceitos nem nos de Jung. (…) Nunca afirmei que tôdos os sonhos expressassem a satisfação de um desejo sexual, mas muitas vêzes acentuei o contrário. Porém isto não produz nenhum efeito, e as pessoas continuam a repetir a mesma coisa.

Com meus agradecimentos cordiais e cumprimentos sinceros,

Seu, Freud.”

os dedos de pessoas que renunciaram à masturbação se recusam a aprender os movimentos delicados indispensáveis para tocar piano ou violino.”

como se uma voz punitiva estivesse falando de dentro do indivíduo e dizendo: <Como você tentou utilizar mal seu órgão da visão para prazeres sensuais perversos, é justo que você nunca mais veja nada> (…) A idéia da pena de talião está implícita nisto (…) A bela lenda de Lady Godiva nos conta como todos os habitantes da cidade se esconderam por trás de suas venezianas fechadas, a fim de tornar mais fácil a tarefa da senhora de cavalgar nua pelas ruas, em pleno dia, e como o único homem que espreitou pelas venezianas os seus encantos descobertos foi punido com a cegueira.”

I) PSICANÁLISE “SILVESTRE” – Über “Wilde” Psychoanlyse (1910), trad. brasileira Paulo Dias Corrêa

<neuroses atuais>, tais como a neurastenia típica e a neurose de angústia simples” “condições com uma causação puramente física e contemporânea” [???] “[F.] sugere dever considerar-se a hipocondria uma terceira <neurose atual>”

Dificuldade de distinguir entre neurastenia e hipocondria.

Psicanálise “silvestre”: amadora, sem método.

Pp. 211-2: “É idéia há muito superada, e que se funda em aparências superficiais, a de que o paciente sofre de uma espécie de ignorância, e que se alguém consegue remover esta ignorância dando a êle a informação (acêrca da conexão causal de sua doença com sua vida, acerca de suas experiências de meninice, e assim por diante) êle deve recuperar-se. (…) Se o conhecimento acêrca do inconsciente fôsse tão importante para o paciente como as pessoas sem experiência de psicanálise imaginam, ouvir conferências ou ler livros seria suficiente para curá-lo. Tais medidas, porém, têm tanta influência sôbre os sintomas da doença nervosa [uma vez que já houve a somatização, é tarde demais para se cuidar de forma amadora…] como a distribuição de cardápios numa época de escassez de víveres tem sôbre a fome. A analogia vai mesmo além de sua aplicação imediata; pois, informar o paciente sôbre seu inconsciente redunda, em regra, numa intensificação do conflito nêle e numa exacerbação de seus distúrbios. [- Você é narcista. – Obrigado, agora entendi! Deixo de me apaixonar pelo meu reflexo n’água quando puder…] (…) isto não se poderá fazer antes que 2 condições tenham sido satisfeitas. (…) o paciente deve (…) ter alcançado êle próprio a proximidade daquilo que êle reprimiu [digamos que ver NARCISISTAS lidando diariamente com seus problemas não ajuda muito… Automaticamente, não ser o que me torna mórbido torna-se errado – <humilde> e <sem estudos formais> é sardinha para piranhas na CAPES] e, segundo, êle deve ter formado uma ligação suficiente com o médico [permaneceram-me todos até aqui tipos ordinários, estranhos ao meu mundo] (…) A intervenção psicanalítica, portanto, requer de maneira absoluta um período bastante longo de contato com o paciente. (…) A psicanálise fornece essas regras técnicas definidas para substituir o indefinível <tato médico> que se considera como um dom especial. [ausência de Freuds e Groddecks em Brasília…] (…) Tenho amiúde encontrado que um procedimento inepto dêsses, mesmo se a princípio produzia uma exacerbação da condição do paciente, conduzia a uma recuperação ao final. Nem sempre, mas muito amiúde. Quando êle já insultou bastante o médico e se sente suficientemente distanciado de sua influência, seus sintomas cedem, ou êle se decide a tomar alguma iniciativa que vai no caminho da recuperação. A melhoria final então advém por si ou é atribuída a certo tratamento totalmente neutro por algum outro doutor para quem o paciente tenha mais tarde se voltado.”

J) ZUR SELBSTMORD-DISKUSSION

não estais inclinados a dar fácil crédito à acusação de que as escolas impelem seus alunos ao suicídio. Não nos deixemos levar demasiado longe, no entanto, por nossa simpatia”

Se é o caso que o suicídio de jovens ocorre não só entre os alunos de escolas secundárias, mas também entre aprendizes e outros, êste fato não absolve as escolas secundárias.”

A escola nunca deve esquecer que ela tem de lidar com indivíduos imaturos a quem não pode ser negado o direito de se demorarem em certos estágios do desenvolvimento e mesmo em alguns um pouco desagradáveis. A escola não pode adjudicar-se o caráter de vida: ela não deve pretender ser mais do que uma maneira de vida.”

Nem chegamos a uma compreensão psicanalítica do afeto crônico do luto.” Minha vida sempre num espeto. Me comporto como se fosse meu próprio bisneto a me lamentar: que desperdício de potencial!

F. – Certas Reflexões Sôbre a Psicologia do Rapaz em Idade Escolar (1914)

K) ANTHROPOPHYTEIA

Subscrevo-me, prezado Dr. Krauss, muito cordialmente,”

A Anthropophyteia foi um periódico, fundado e editado pelo Dr. F.S. Krauss, que tratava principalmente de material antropológico de natureza sexual.”

Bourke – Scatologic Rites of All Nations

L) DUAS FANTASIAS – Beispiele de Verrats pathogener Phantasien bei Neurotikern

(apenas contribuições ao glossário do cabeçalho)

M) CARTAS A UMA MULHER NEURÓTICA – Briefe am nervöse Frauen bei Dr. Neutra

a psicanálise não se pode satisfatoriamente combinar com a técnica da <persuasão> de Oppenheim

A REPÚBLICA – Livro I

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “Segundo Cícero, a República de Platão é o primeiro livro da filosofia grega. Aristóxeno¹ acusa Platão de plágio devido às similaridades entre ela e o Antilogikoi ou Peri politeias de Trasímaco.²”

¹ Aristóxeno ou Aristóxenes de Tarento (360-300a.C., datas aproximadas), discípulo de Aristóteles e teórico musical. Pela opinião expressa acima, nada entendia de filosofia política…

² Personagem da própria República, como veremos logo mais. Tudo indica que estes escritos sofistas não se salvaram.

(*) “Desgraçadamente, tudo isto não é mais que um sonho. Levando à exageração a realização da unidade nacional, apesar da violência que se faz aos mais imperiosos instintos e aos melhores sentimentos da natureza humana, Platão destruiu sua obra com as próprias mãos. Aquele que defendeu com tanta razão, como princípio, que nada se encontra no Estado que já não se encontre no homem mesmo não viu que, sufocando todo sentimento particular e suprimindo todo interesse privado, destruía também todo sentimento e todo interesse público? A família e a propriedade são os elementos essenciais sem os quais o Estado não tem já razão de ser; e reduzi-los a nomes vãos é reduzir o próprio Estado a uma abstração.” Embora traduza aqui este comentário de Azcárate, sou avesso a ele. Como comentarista, ele teria muito a aprender de autores pregressos como Jaeger.

(*) “uma índole ou caráter que não encontra a cultura que lhe convém se altera e se corrompe tanto mais quanto mais é vigorosa. A má educação, a falsidade das idéias derramadas na sociedade acerca do que seriam o bem e o mal, os discursos sofísticos e os maus exemplos dos mestres encarregados de educar a juventude, os pais, os amigos, não conspira tudo, no estado atual da sociedade, para arrancar uma alma excelente da vocação filosófica e para fazer dela, por causa justamente de sua excelência, inferior mesmo às almas medianas?”

(*) “Desta lastimosa separação entre filosofia e sociedade, seria o filósofo responsável? Não; e seria profundamente injusto fazê-lo o responsável por sua própria inutilidade.”

(*) “Esta revolução saudável se realizará, quando por qualquer conjetura favorável, que não é difícil prever, ou por uma inspiração dos deuses, um filósofo ou um chefe de governo se vir na feliz necessidade de remediar os males que arruínam os Estados.”

(*) “Uma vez estabelecida a filosofia no Estado, a este último cabe assegurar a soberania no porvir da primeira. Tal deve ser o fim da educação reservada à classe dos cidadãos que um dia devem governar, i.e., os magistrados.”

* * *

(*) “Pompa era uma procissão prevista no calendário grego em que levavam as estátuas dos deuses.”

“CÉFALO – À medida que os prazeres do corpo me abandonam, encontro eu maior encanto na conversação. (…)

SÓCRATES – Eu, Céfalo, me comprazo ao infinito em conversar com os anciãos. Como se encontram no final de uma jornada a qual nós provavelmente percorreremos também, parece-me natural indagar-lhes sobre se o caminho é penoso ou fácil; já que te encontras agora nesta idade que os poetas chamam de umbral da velhice, me agradaria muito se puderas dizer-me se consideras tal situação de vida como a mais penosa, ou então como a qualifica no lugar.”

(*) “Cícero traduziu quase todo o diálogo de Sócrates com Céfalo em seu tratado Da Velhice, fazendo o personagem Catão relatá-lo.”

“A velhice, com efeito, é um estado de repouso e de liberdade face aos sentidos.” “Com sensatez e bom humor, a velhice torna-se suportável; mas pelo caráter oposto tanto a velhice quanto a primavera são desgraçadas.”

“O que me obrigou a fazer-te esta pergunta foi haver observado que não nutres muito apego pelas riquezas, coisa aliás muito freqüente dentre os que não amealharam sua própria fortuna, herdando-a; enquanto que aqueles que a devem a sua própria indústria estão duplamente apegados a ela”

“SÓCRATES – Então Simônides chama de justiça o beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos.”

“- O homem justo é inútil em tempos de paz?

– Eu não o creio.”

“- Quando se quer jogar as fichas, a quem convém associar-se: a um homem justo ou a um apostador profissional?

– A um apostador, naturalmente.

– E para a colocação de ladrilhos e pedras, vale mais procurar um homem justo ou um arquiteto?

– O segundo.

– Ora, assim como para aprender a música me dirigirei ao músico, antes de qualquer outro, virtuoso que seja, sabes me apontar em que caso dirigir-me-ei de preferência ao homem justo antes de a qualquer outro, músico, artesão, etc.?”

“- Disso conclui-se que a justiça me será útil quando meu dinheiro não me sirva para nada.

– Ao que parece.

– Logo, a justiça me servirá quando seja preciso conservar [ser dono de] um podão¹ em comum com outros ou só para mim mesmo; mas se quero não só possuir mas utilizar um podão, melhor seria procurar um jardineiro.

– Exatamente.”

¹ Tesoura para poda.

“- Se o justo convém para guardar o dinheiro, ele também convirá para dissipá-lo.

– Isso seria ao menos uma conseqüência daquilo que acabamos de dizer.”

“- Não diremos, igualmente, que os homens a quem se causa o mal se fazem piores na virtude, por assim dizer, humana?

– Sem dúvida.

– Não é a <justiça> o nome dessa virtude própria do homem?

– Forçosamente.

– Sendo assim, meu querido amigo, necessariamente os homens a quem se causa o mal hão de causar mais mal, não é isto?”

“- Tampouco o efeito do bom é danificar; este é o efeito do seu contrário.

– Exato.

– Mas… o homem justo é bom?

– Certamente.

– Disso se depreende, Polemarco, que não é próprio do homem justo prejudicar seja seu amigo seja qualquer outro, mas isto é o próprio de seu contrário, isto é, do homem injusto.”

(*) “Era crença popular que o homem a quem um lobo fixava a vista perdia a palavra, e que o modo de evitar essa desgraça era fitar o lobo antes que este o fizesse com o homem. No diálogo, Sócrates insinua que Trasímaco é um lobo (<fera>).”

“nenhum profissional se engana, porque não se engana senão enquanto seu saber se ausenta, mas neste lapso já não é profissional.”

“Não há disciplina que examine ou ordene aquilo que é conveniente para o mais forte, só aquilo que é conveniente para o inferior e subjugado.”

“Então, Trasímaco, quer dizer que nenhum homem que governa, enquanto governante, qualquer que seja a natureza de sua autoridade, examina nem ordena jamais o conveniente para ele mesmo, mas sempre para o governado, aquele que lhe está sujeito. É a este ponto que ele se dirige, e em busca daquilo que lhe é mais vantajoso ele diz tudo o que diz e faz tudo o que faz.”

“Na administração do Estado, o primeiro, porque é justo, no lugar de enriquecer às custas do Estado, deixará que se percam seus negócios domésticos, devido ao abandono em que os legará. Dar-se-á por contente caso isto seja o pior que lhe aconteça. Far-se-á, inclusive, odioso a seus amigos e parentes, porque não quererá fazer por eles nada que não seja justo. O injusto alcançará uma sorte inteiramente contrária, porque tendo, como se disse, um grande poder, valer-se-á dele para dominar constantemente aos demais. É preciso fixar-se sobre um homem desta condição para compreender quão mais vantajosa é a injustiça que a justiça. (…) Falo da tirania, que se vale da fraude e da violência com o fito de apoderar-se, não pouco a pouco, e nem como que acidentalmente, dos bens alheios, mas de um só golpe, sem respeito ao sagrado ou ao profano, deitando a mão sem cerimônia sobre fortunas privadas e a do Estado. Os delinqüentes comuns, quando pegos em flagrante, são castigados com o pior dos suplícios e se os trata com as qualificações mais odiosas. Segundo a natureza da injustiça que cometeram, serão sacrílegos, seqüestradores, salteadores, caloteiros ou ladrões; porém, se se trata de alguém que se fez dono dos bens e das próprias pessoas, antes cidadãos, no lugar de dar-lhe estes epítetos detestáveis, vê-se-o como o mais feliz dos homens, tanto segundo aqueles que ele reduziu à escravidão quanto segundo aqueles que têm conhecimento de seus crimes”

“Tu, Trasímaco, nos disseste que o pastor, enquanto pastor, não cuida de seu rebanho pelo rebanho mesmo, mas como um glutão ansioso pelo banquete, ou seja, pensando em si mesmo ou então para vendê-lo no mercado, o que dá no mesmo, pois aí seria um comerciante e não um pastor.”

“Trasímaco, não é possível que não observaste, quanto aos outros cargos públicos, que ninguém os quer exercer pelo que eles são, mas pelo salário que exige a natureza desse tipo de ofício! A utilidade vem para aqueles em nome de quem são exercidas essas funções, não para os executores mesmo. Mas diga-me, to suplico: as artes não se distinguem umas das outras pelos seus diferentes efeitos?”

“SÓCRATES – Se existe uma utilidade comum a todos os praticantes de uma arte, é evidente que só pode proceder de algo idêntico que todos eles agregam à arte que executam. Ou não?

TRASÍMACO – Por óbvio.

SÓCRATES – Digamos, então, que o salário que recebem os artistas o adquirem na qualidade de mercenários.

Ainda que contrariado, Trasímaco assentiu.

SÓCRATES – Logo, não é sua arte o que dá origem a este salário, mas, para dizer com exatidão: o objetivo da medicina é a saúde, e o do mercenário, lucrar, e o da arquitetura, erguer casas; e se o arquiteto recebe um salário, é porque é mercenário. E o mesmo em todas as artes.”

“SÓCRATES – (…) se alguém deseja exercer sua arte como é devido, não trabalha para si mesmo, mas sim em proveito do governado. Por isso, para comprometer os homens a exercerem o mando, foi necessária alguma recompensa, como dinheiro, honras ou um castigo, em caso de recusa.

GLAUCO – Como entendes isto, Sócrates? Digo, conheço bem o bastante os dois primeiros tipos de recompensa, mas não tal castigo, cuja ausência propões como terceiro tipo de recompensa.

SÓCRATES – (…) Não sabes que ser interesseiro ou ambicioso é coisa reconhecidamente vergonhosa?

GLAUCO – Sim, o sei.

SÓCRATES – Por isso é que os sábios nunca querem tomar parte nos negócios com o fito de enriquecer nem angariar louvores, porque temeriam que se lhes vissem como mercenários se exigissem manifestamente algum salário pelo mando, ou como ladrões, se usassem os fundos públicos em proveito próprio. Tampouco têm em conta as honras, porque não são ambiciosos. É preciso, então, que se lhes obrigue a tomar parte no governo sob pena de algum castigo. E por essa razão é que se vê como coisa grosseira o encarregar-se voluntariamente da administração pública sem se ver compelido a isso. Porque o maior castigo para o homem de bem, quando recusa governar os demais, é o ver-se governado por outro menos digno; e este temor é aquilo que obriga os sábios a encarregarem-se do governo, não pelo seu interesse nem por gosto, mas por se verem precisados por culpa dos outros, tão ou mais dignos de governar; de sorte que, se se encontrasse um Estado composto unicamente de homens de bem, solicitar-se-ia o afastamento dos cargos públicos com o mesmo calor com que hoje se os solicitam; num Estado desse gênero, ver-se-ia claramente que o verdadeiro magistrado não contempla seu próprio interesse, mas o dos administrados; e cada cidadão, convencido desta verdade, preferiria ser feliz mediante os cuidados de outro do que trabalhar ele mesmo pela felicidade dos demais. Não concedo a Trasímaco, portanto, que a justiça seja o interesse do mais forte, mas examinaremos esse ponto com mais detalhes mais tarde. O que acrescentara Trasímaco, a respeito do homem mau, o qual, segundo ele, vive condição mais ditosa que o homem justo, é um ponto ainda mais urgente. Que opinas disso, Glauco?”

“Se opusermos este longo discurso com um outro discurso igualmente longo em favor da justiça, e logo outro ele e outro nós de novo, será precisa contar e pesar as vantagens de uma e de outra parte, e, ademais, seriam precisos juízes para pronunciar a sentença; enquanto que, tratando o ponto amistosamente, como fazemos, até chegar a um consenso sobre o que parece verdadeiro ou falso, seremos juízes e advogados numa só tacada, o que é mais simples.

– Concordo.

– E qual destes dois métodos te agrada mais?

– O segundo.”

“- Então os homens injustos são bons e sábios em tua opinião?

– Bom, pelo menos os que o são em sumo grau, e que são fortes o bastante para submeter as cidades e os povos. Talvez creias que eu queira falar dos batedores de carteira. Não é que este ofício não tenha lá suas vantagens, veja bem, enquanto se conte com a impunidade; mas estas vantagens nada são cotejadas com as que acabo de citar!”

“Isso é muito duro, amigo, e já não sei que caminho tomar para te refutar. Se dissesses simplesmente, como tantos outros, que a injustiça, ainda que útil, é uma coisa embaraçosa e má em si, poderia responder-te aquilo que de ordinário se responde. Mas toda vez que chegas até o ponto de chamar injustiça de virtude e sabedoria, não hesitarás nem um átimo em atribuir-lhe a força, a beleza e todos os demais títulos que se atribuem comumente à justiça.”

“- (…) O homem justo gostaria de ter vantagem em algo sobre o homem injusto?

– Não, assim creio verdadeiramente; de outra maneira, não seria nem tão encantador nem tão cândido como é.

– Mas como? Nem quanto a uma ação justa?

– Nem quanto a ela.

– Não gostaria, pelo menos, de sobrepujar o homem injusto, e não creria poder fazê-lo justamente?

– Creria e gostaria, mas seus esforços seriam inúteis.”

“- Quererá, por conseguinte, o injusto ter vantagem sobre o homem e a ação injustos e se esforçará para tê-la sobre todos?

– Assim o é.”

“- Portanto, aquele que é bom e sábio não quer ter vantagem sobre seu semelhante, somente sobre seu contrário.

– É ao que nosso diálogo conduz.

– Enquanto que aquele que é mau e ignorante quer ter vantagens tanto sobre um quanto sobre outro.

– Absolutamente.”

“Suava muito, ainda mais por ser verão; neste instante vi que pela primeira vez Trasímaco se ruborizava.”

“faça-me o favor de dizer se um Estado, um exército ou uma quadrilha de bandidos e ladrões, ou qualquer outra sociedade deste gênero, poderiam triunfar em suas empresas injustas se os membros que as compõem atuassem, uns para com os outros, com injustiça.”

“- É tal, pois, o poder da injustiça, encontre-se ela no Estado ou na família, no exército ou em qualquer outro lugar, que, logo de cara, fá-lo absolutamente impotente para empreender qualquer coisa devido às querelas e sedições que provoca; num segundo instante, também é verdade que a injustiça torna-se inimiga de si mesma, e de tudo que é a ela contrário, isto é, do homem de bem. Não é assim?

– Totalmente.”

“- Mas os deuses, amigo, não são também justos?

– Que seja!

– Logo, o injusto será inimigo dos deuses, Trasímaco, e o justo será seu amigo.

– Sócrates, desfruta de tua argumentação o quanto queiras; não me oporei a ela, gastando saliva para no final enredar-me contigo e com todos os que nos escutam da mesma forma.”

“É evidente que conservam entre eles um resto de justiça que os impede de prejudicar-se uns aos outros, ao mesmo tempo que prejudicam os demais, e que através da justiça é como levam a cabo suas empresas. Na verdade, a injustiça é que os faz idealizar empresas criminosas; mas só são maus pela metade, porque os que são injustos a toda prova estão também na impossibilidade absoluta de agir.”

“- (…) Poderiam os olhos desempenhar suas funções se não tivessem a virtude que lhes é própria, ou se, no lugar desta virtude, tivessem o vício contrário?

– E como poderiam? Porque tu falas, sem dúvida, dum caso em que a cegueira substituiria a faculdade de ver!”

“- (…) Não tem a alma sua função, que nenhuma outra coisa que não seja ela mesma pode realizar (p.ex. tomar responsabilidades, governar, deliberar, etc.)? Pode-se atribuir estas funções a algo outro? Não temos o direito de dizer que são coisas próprias da alma?

– Não se pode atribuir essas funções a outra coisa.

(…)

– A alma não tem também sua virtude particular?

– Isso eu concedo.

– A alma, privada de sua própria virtude, poderia, acaso, Trasímaco, desempenhar bem suas funções, ou ser-lha-ia impossível?

– Impossível.

– Logo, é uma necessidade que a alma má assuma responsabilidades e governe mal; ao contrário, a boa fará bem todas essas coisas.

– É uma necessidade.”

TEMPORALIDADE E ESPACIALIDADE NA ESTRUTURA DO SELF NAS ABORDAGENS SEMIÓTICA E DIALÓGICA – Mariane Lima de Souza & William B. Gomes (in: Psicologia em Estudo, vol. 14, n. 2, abr.-jun., 2009, pp. 365-73, UEM.)

#Epistemologia #Filosofia #Psicologia #Antropologia #Sociologia #Geografia #História #Linguistica #Ética

Wiley é citado em David Harvey, daí o interesse desencadeado. Estudos em compressão do espaço-tempo na pós-modernidade.

O pensamento enquanto processo reflexivo direcionado do presente (Eu) para o passado (Mim) de Mead é combinado ao pensamento enquanto processo interpretativo, direcionado do presente (Eu) para o futuro (Você) de Peirce. Tem-se, então, um processo semiótico mais abrangente, representado na conversação triádica Eu-Mim-Você. (Wiley, 1994)”

Os hóspedes de Goethe ou os visitantes de Wiley são constituídos de pessoas próximas, com as quais se desfruta maior (permanentes) ou menor (temporários) convivência. A instância inconsciente recobre os estados não conscientes e os estados limítrofes, como devaneios ou fantasias da imaginação. Segundo o autor, ela foi incluída apenas como artifício para dramatizar o problema de localizá-la na conversação interna e não com a finalidade de trazer um entendimento acabado sobre o inconsciente.”

Os visitantes temporários pertencem à segunda pessoa e à conjugação presente, são subjetivos e objetivos. Eles são mais livres que os visitantes permanentes e menos aliados ao outro generalizado que os visitantes permanentes. São disponíveis para o Eu como cossujeito. Os visitantes permanentes pertencem à segunda pessoa e à conjugação presente. Eles são objetivos e não livres, aliados e constitutivos do outro generalizado. São disponíveis para o Eu como cossujeito, mas sedimentados no outro generalizado. Por fim, o inconsciente é uma instância de terceira pessoa, atemporal, de todos os casos (objetivo, subjetivo, bem como objetivo e subjetivo, simultaneamente), determinado, livre da relação com o outro e está oculto do eu por barreiras lingüísticas semiporosas.”

As perspectivas dialógica e semiótica de self concordam com relação à definição do self como um signo. A perspectiva semiótica afirma que o senso de self humano é um processo semiótico de autoprodução (Pickering, 1999, p. 70), por ser racional, simbólico e linguístico (Wiley, 1994).”

A noção de diálogo na perspectiva dialógica do self, resultante do esforço de traduzir a distinção de James entre Eu e Mim <em um arcabouço narrativo e no arcabouço conceitual do romance polifônico em particular> (Hermans & Kempen, 1993, p. 44), também é semiótica. Contudo, a distinção de James entre Eu-Mim traduzida na distinção narrativa entre autor-ator, no tipo especial de relação sugerido por Bakhtin (1929/1973), aponta para uma semiótica diádica.”

O pragmatismo americano fornece a base para uma teoria do self tanto quanto ele o faz na perspectiva dialógica, porém, no lugar de uma distinção entre Eu e Mim de James, a perspectiva teórica semiótica descreve uma integração do eu-você de Peirce e do eu-mim de Mead”

A natureza espacial do self, na teoria dialógica, é expressa nos termos posição e posicionamento. De acordo com os autores Hermans, Kempen e Van Loon (1992), estes termos são mais dinâmicos e flexíveis que o tradicional termo papel (role). O self é definido como uma multiplicidade de posições do Eu que dialogam entre si, mas em um espaço comum, onde a simultaneidade das vozes envolvidas no diálogo é a expressão da descentralização do self.”

A espacialização do tempo é uma forma de responder à fraqueza das concepções tradicionais de narrativa e de autonarrativa, as quais são excessivamente pautadas por um viés temporal.”

A fraqueza que eu vejo na formulação corrente da abordagem teórica de Hermans é a pressuposição de que um indivíduo pode adotar uma instância narrativa ou autoral, de alguma forma acima das personagens que compõem o self polifônico e dialógico, e pode mover a narrativa da posição do eu livremente, de uma personagem a outra, para dar a cada uma a sua própria voz.” Barresi, 2002

Se o self pode assumir tal instância autoral, então a relação dialógica fica comprometida, uma vez que esse eu, acima dos outros caracteres, fica sozinho e sem interlocutores. Na concepção semiótica de self este problema é evitado, uma vez que a narrativa é sempre uma expressão comunicativa do eu, no tempo presente, em primeira pessoa.”

A perspectiva dialógica de Hermans se diferencia da perspectiva pós-moderna, que entende o self como uma ilusão produzida ideologicamente a partir de uma fragmentação e pluralidade de identidades. Nesse sentido, o self dialógico está completamente em acordo com a posição de Wiley (1994) sobre o self semiótico”

Conforme Grant (2004), a comunicação deve ser conceitualizada em termos da impenetrabilidade da mente do outro, isto é, as pretensões transcendentais devem ser abandonadas em favor de pretensões destranscendentalizadas. (…) Para o autor, o que marca a comunicação é a contingência e a complexidade e não a intersubjetividade.”

A dialogicidade é, portanto, a qualidade essencial desse processo, que é tanto interno ou reflexivo (a consciência voltando sobre si mesma) quanto externo ou flexivo (a consciência dirigindo-se a outras consciências). Nesse sentido, segue-se a linha de Morin (1993), que define como sinônimos os conceitos de fala interna, diálogo interno e fala consigo ou fala do self (self-talk); de Blachowicz (1997), quando argumenta que a fala interna é genuinamente um diálogo e não um monólogo; de Bertau (1999), ao sugerir que o pensamento verbalizado ou audível (índice mais aproximado que se pode obter da fala interna) funciona como um processo dialógico e de Bakhtin (1929/1973), que define as relações dialógicas como ato comunicativo.”

A perspectiva dialógica volta-se à aplicabilidade do conceito recortando um contexto de pesquisa aplicada direcionada para a psicologia clínica e para as relações interpessoais; em contraste, a perspectiva semiótica volta-se para a funcionalidade do fenômeno, recortando um contexto de pesquisa inserido na psicologia dos processos básicos e da ética. Por conseguinte, a argumentação do self semiótico parece trazer uma fundamentação ontológica mais elegante. O conceito faz uma distinção entre a função evolucionária e a função cultural do self. A função evolucionária, comum a todos os seres humanos em todos os tempos e lugares, é a propriedade básica de geração de signos, sem a qual não haveria humanidade. Como gerador de signos, o self é uma estrutura, dialógica e a-histórica. Como especificador de signos, o self é um conteúdo emergente ou sedimentado com matizes culturais e históricas.”

Um provocativo debate entre as duas abordagens pode ser encontrado no número inaugural do International Journal for Dialogical Science, publicado em 2006.

Bakhtin, M. (1973). Problems of Dostoevsky’s poetics (R. W. Rotsel, Trad). Ann Arbor: Ardis (Original publicado em 1929).

Barresi, J. (2002). From ‘the Thought is the Thinker’ to ‘the Voice is the Speaker’. Theory & Psychology, 12, 237-250.

Bertau, M.-C. (1999). Spuren des Gesprachs in innerer Sprache. Versuch einer Analyse der dialogischen Anteile des lautes Denkens. [Marcas da fala em conversação interna. Uma análise da arte dialógica do pensamento em voz alta], Zeitchrift für Sprache & Kognition 18 (1/2), 4-19.

Blachowicz, J. (1997). The dialogue of the soul with itself. Journal of Consciousness Studies 4, 485-508.

Grant, C. B. (2004). Complex communication and the self at the edge. Theory & Psychology, 14, 221-237.

James, W. (1990). The principles of psychology. Chicago: Encyclopaedia Britannica (Original publicado em 1890).

Mead, G. H. (1934). Mind, self and society. Chicago: University of Chicago Press.

Morin, A. (1993). Self-talk and self-awareness: on the nature of the relation. The Journal of Mind and Behavior 14, 223-234.

Peirce, C. S. (1958). Collected Papers of C. S. Peirce. Vol. I-VIII, C. Hartshorne, P. Weiss & A. Burks (Eds.). Cambridge, Mass: Harvard University Press.

Pickering, J. (1999). The self is a semiotic process. In S. Gallagher & J. Shear (Eds.), Models of self (pp. 63-79). Exeter, UK: Imprint Academic.

Schutz, A. (1967), The phenomenology of the social world (G. Walsh & F. Lehnert, Trans.). Evanston, IL: Northwestern University Press (Original publicado em 1932).

Vico, G. (1999). A ciência nova (M. Lucchesi, Trad.) Rio de Janeiro: Record (Original publicado em 1744).

Wiley, N. (1994). The semiotic self. Chicago: The Univ. Chicago Press. [Em português: Wiley, N (1996). O self semiótico (L. P. Rouanet, Trad. – tradução com ressalvas de acordo com o artigo). São Paulo: Edições Loyola.

“THE MOST MYSTERIOUS MS.” STILL AN ENIGMA – Elizabeth Smith Friedman

A FRAUD? “<The most mysterious manuscript in the world.>, so named 40 years ago [1922] by the late Prof. John M. Manly of the University of Chicago, is now for sale in New York for $160,000, although not one cipher word on the 135 pages has ever been deciphered. The owner, Hans P. Kraus, the rare book dealer of Vienna and New York, upon being reproached for asking such a price, said that when deciphered the manuscript would be worth $1 million.

The existence of the manuscript has been known in the U.S. for 50 years, In 1912 it was purchased by a New York rare book dealer, the late Wilfred M. Voynich at a place never before disclosed but now identified by Kraus as the Mondragone Monastery in Frascati, near Rome. The age of the ms. is nor certain” “Accompanying the ms. was a letter of transmittal written in 1665 by Johannes Marcus Marci at the court of the Emperor Rudolph in Prague. Marci sent the ms. as a present to Athanasius Kircher, a celebrated Jesuit scholar and scientist in Rome who had written a work on ciphers. Marci challenged Kircher to solve the mystery; Kircher’s fame was such that his failure to do so probably discouraged other scholars, perhaps for centuries, from attempting the task.

The Marci letter said that the manuscript once belonged to the Emperor Rudolph and was thought to be the work of Roger Bacon, a statement which Voynich accepted as true. He later established that the ms. was in existence at least as early as 1608 when, after chemical treatment of a faded page, there appeared in the margin the signature Jacobi de Tepenecz. The title de Tepenecz was bestowed on this botanist and alchemist in 1609 [Roger Bacon viveu no séc. XIII].”

As to why Bacon had written in cipher, Voynich said that since Bacon had written dissertations in plain language on the subject of ciphers, it was logical to assume that he would have put his own precepts into practice.”

Newbold [criptógrafo do séc. XX] said his decipherments proved that the 13th century scientist had possessed both a telescope and a microscope, whose invention history places several centuries later; that the ms. included a drawing of what was undoubtedly the great spiral nebula in Andromeda, of whose existence Newbold had been entirely unaware, and that he had deciphered the date of a falling comet and other facts likewise unknown to him before then.”

Some sick souls believed that Newbold had learned the secrets of black magic, and one deluded woman traveled hundreds of miles to beseech him to cast out the demons that had taken possession of her.”

All the scholars competent to judge the ms. were – and still are [1962] – agreed that it is definitely not a hoax or the doodlings of a psychotic”

from a Vatican manuscript partly in cipher, they [Manly and William Friedman] obtained, by the straightforward methods of solving simple ciphers, a medieval recipe for making home brew; Newbold, using his complicated methods, produced a totally different result.”

The complex method used by Newbold was reducible to 9 steps. The first and last of these, without any consideration of the intermediate abstruse and confusing processes, are utterly devoid of precision and are incapable of yielding one and only one plain-language text – a rigid requirement of any legitimate cipher method.”

PÓS-II GUERRA: “The group comprised specialists in philology, paleography, ancient, classical and medieval languages and literature; Egyptologists, mathematicians and authorities in other sciences depicted in the manuscript. Under Friedman’s direction, they agreed to meet after working hours and concentrate their talents on an attempt to master the document.” “The scientists disbanded and returned to their universities or research projects. Their considered opinions as to the age, authorship and general nature of the ms., based on their extracurricular work, are still valid today”

a symbol often resembling our hand-written small letter <m> just as often looks as though it is composed of 3 separate symbols.”

The first impression is that here is a simple substitution cipher. However, the decipherer is doomed to utter frustration when no solution based on such a theory is reached.”

1. The number of basically different symbols employed in the manuscript is quite small – perhaps 20, or even fewer. However, tiny variations and affixes may make multiple forms of a basic character, which might suggest counting them as different symbols.

2. (…) the number of different <words> is quite limited.

3. (…) rarely are they over 7 or 8 symbols in length.

4. There is a very large number of repetitions of single <words> and groups of <words>.

(…)

7. The text is homogeneous, the same <words> appearing in all sections whether botanical, astrological, biological or astronomical.

(…)

10. Certain symbols appear so infrequently as to suggest that they are extraneous to the text or are errors, made perhaps by the author himself or by some scribe who transcribed the original.”

Unlike most unsolved ancient writings – the Mayan hieroglyphics, f.ex., where most scholars believe there is insufficient material and too little repetition – this manuscript presents exactly the opposite characteristics.”

There can be no question that the same scribe wrote the text and made the drawings”

Although a well-known American botanist, Dr. Hugh O’Neill, believes that he has identified 2 American plants in the illustrations, no other scholar has corroborated this, all agreeing that none of the plants depicted is indigenous to America.”

Egyptian hieroglyphic writing intrigued scholars for centuries. All attempts at solution were unsuccessful until Rosetta Stone was found in 1799. Even with the trilingual writing on that stone, and with one of the versions in the well-known language Greek, the decipherment took 30 years.”

WHAT WE KNOW ABOUT THE VOYNICH MANUSCRIPT – Sravana Reddy & Kevin Knight

The Voynich manuscript, also referred to as the VMS, is an illustrated medieval folio written in an undeciphered script.”

Since even the basic structure of the text is unknown, it provides a perfect opportunity for the application of unsupervised learning algorithms. Furthermore, while the manuscript has been examined by various scholars, it has much to benefit from attention by a community with the right tools and knowledge of linguistics, text analysis, and machine learning.”

Carbon-dating at the University of Arizona has found that the vellum was created in the 15th century, and the McCrone Research Institute has asserted that the ink was added shortly afterwards.”

We use a machine-readable transcription based on the alphabet proposed by Currier (1976), edited by D’Imperio (1980) and others, made available by the members of the Voynich Manuscript Mailing List (Gillogly and Reeds, 2005) at http://www.voynich.net/reeds/gillogly/voynich.now. The Currier transcription maps the characters to the ASCII symbols A-Z, 0-9, and *.”

Currier (1976) observed from letter and substring frequencies that the text is comprised of two distinct ‘languages’, A and B. Interestingly, the Biological and Stars sections are mainly written in the B language, and the rest mainly in A.”

A more likely explanation is that the script is an abjad, like the scripts of Semitic languages, where all or most vowels are omitted. Indeed, we find that a 2-state HMM on Arabic without diacritics and English without vowels learns a similar

grammar, a*b+.” “The similarity with devoweled scripts, especially Arabic, reinforces the hypothesis that the VMS script may be an abjad.”

mr lkl xplntn s tht th scrpt s n bjd l kth scrpts f smtc lnggs whr ll r mst vwls r mttd ndd w fnd tht tw stt hmm n rbc wtht dcrtcs nd nglsh wtht vwls lrns smlr grmmr

there is most likely no punctuation”

The word frequency distribution follows Zipf’s law, which is a necessary (though not sufficient) test of linguistic plausibility.”

VMS letters are more predictable than other languages, with the predictability increasing sharply given the preceding contexts, similarly to Pinyin [Chinese dialect].”

Several hypotheses about VMS word structure have been proposed. Tiltman (1967) proposed a template consisting of roots and suffixes. Stolfi (2005) breaks down the morphology into ‘prefix-midfix-suffix’, where the letters in the midfixes are more or less disjoint from the letters in the suffixes and prefixes. Stolfi later modified this to a ‘core-mantel-crust’ model, where words are composed of three nested layers.”

order new word

older would phew

dew dare you show

the text has very few repeated word bigrams or trigrams, which is surprising given that the unigram word entropy is comparable to other languages.”

Currier (1976) observed that the distinction between the A and B languages corresponds to two different types of handwriting, implying at least two authors. He claimed that based on finer handwriting analysis, there may have been as many as eight scribes.”

Claims of decipherment of the VMS script have been surfacing for several years, none of which are convincing. Newbold (1928) believed that microscopic irregularities of glyph edges correspond to anagrammed Latin. Feely in 1943 proposed that the script is a code for abbreviated Latin (D’Imperio, 1980). Sherwood (2008) believes that the words are coded anagrams of Italian. Others have hypothesized that the script is an encoding of Ukrainian (Stojko, 1978), English (Strong, 1945; Brumbaugh, 1976), or a Flemish Creole (Levitov, 1987). The word length distribution and other properties have invoked decodings into East Asian languages like Manchu (Banasik, 2004). These theories tend to rely on arbitrary anagramming and substitutions, and are not falsifiable or well-defined.

The mysterious properties of the text and its resistance to decoding have led some to conclude that it is a hoax – a nonsensical string made to look vaguely language-like. Rugg (2004) claims that words might have been generated using a ‘Cardan Grille’ – a way to deterministically generate words from a table of morphemes. However, it seems that the Grille emulates a restricted finite state grammar of words over prefixes, midfixes, and suffixes. Such a grammar underlies many affixal languages, including English. Martin (2008) proposes a method of generating VMS text from anagrams of number sequences. Like the previous paper, it only shows that this method can create VMS-like words – not that it is the most plausible way of generating the manuscript. It is also likely that the proposed scheme can be used to generate any natural language text.”

We have detailed various known properties of the Voynich manuscript text. Some features – the lack of repeated bigrams and the distributions of letters at line-edges – are linguistically aberrant, which others – the word length and frequency distributions, the apparent presence of morphology, and most notably, the presence of page-level topics – conform to natural language-like text.”

CRÍTIAS OU DE ATLÂNTIDA

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “O preâmbulo, do qual nenhum diálogo de Platão carece, inexiste em Crítias. Seria porque trata-se de um manuscrito inacabado? Ou seria porque não é outra coisa senão a continuação da conversa dos mesmos interlocutores do Timeu, sem intervalo de tempo narrativo?”

“O estudo e a história das coisas antigas se introduziram pelo ócio das cidades, quando certo número de concidadãos, tendo as coisas necessárias para a vida asseguradas, não tiveram depois de preocupar-se com sua subsistência. E eis como os nomes dos antigos heróis se conservaram sem a lembrança de suas ações.”

“Nessa época as mulheres guerreavam junto com os homens, e por isso é que Atena era representada nas imagens e estátuas de armadura; era como uma advertência, a indicar que desde o momento em que o varão e a fêmea estão destinados a viver juntos devem também, de acordo com a natureza, exercer indistintamente todos os trabalhos da espécie.”

“A Ática está de certa forma desanexada do continente, parecendo-se um promontório, muito mais em conexão com o mar. Fica como uma vasilha envolta por um mar bastante profundo. Em meio às numerosas e terríveis inundações que tiveram lugar durante 9 mil anos, porque 9 mil anos se passaram desde aquela época, as terras, que as revoluções faziam deslizar das maiores alturas, não se amontoavam no solo, como nos demais países, mas, escorrendo pelo litoral, acabavam por perder-se nas profundezas do mar. Assim, como sucede nas ilhas pouco extensas, nosso país, comparado com o que era então, parece-se agora com um corpo exaurido pela enfermidade. A terra com vegetação foi toda para o fundo do mar e ficou apenas um corpo esfolado e estéril.”

“As chuvas enviadas por Zeus a cada ano não se perdiam inutilmente, como hoje; pelo contrário, a terra, retendo as águas abundantes, as conservava em seu seio, as tinha em reserva entre camadas de argila; deixava-as correr das planícies aos vales, e por toda parte viam-se milhares de fontes, rios e canais. Os monumentos sagrados, que naquela época estavam todos perto dos leitos dos rios, atestam a veracidade de minhas palavras.”

“a Acrópole estava muito distante de ter o aspecto atual. Numa só noite torrentes de chuva arrastaram a vegetação deste sítio e desnudaram-no e despojaram-no, em meio a tremores de terra e à inundação repleta, a terceira antes do dilúvio de Deucalião.”

“O filho mais velho, o rei, de quem a ilha e este mar, chamado Atlântico, tomaram seu nome, tendo sido o primeiro a ali reinar, era chamado Átlas.”

“Tal era a imensidão de riquezas que possuíam que nenhuma família real jamais possuiu nem possuirá volume semelhante.” “Cobriram de bronze, como verniz, o muro do cerco exterior em toda sua extensão; de estanho o segundo recinto; e a Acrópole em si de oricalco,¹ que reluzia como fogo.”

¹ Metal precioso fictício, invenção grega.

“Duas fontes, uma quente e outra fria, abundantes e inesgotáveis, graças à suavidade e à virtude de suas águas, satisfaziam admiravelmente todas as necessidades”

“Notai que a terra dava duas colheitas por ano, porque era regada no inverno pelas chuvas de Zeus, e no verão era fecundada pela água dos estanques.”

“Quanto ao governo geral e às relações dos reis entre eles, as ordens de Poseidon eram sua regra. Estas ordens lhes foram transmitidas pela lei soberana; os primeiros reis as gravaram numa coluna de oricalco, levantada no centro da ilha no templo de Poseidon.” “Além das leis, estava inscrito nesta coluna um juramento terrível, e imprecações contra aquele que as violasse. Verificado o sacrifício e consagrados os membros do touro segundo as leis, os reis derramavam gota a gota o sangue das vítimas numa taça, atiravam os demais restos no fogo e purificavam a coluna. Retirando em seguida o sangue da taça com um copo d’ouro, e derrubando parte de seu conteúdo nas chamas, juravam julgar segundo as leis escritas na coluna, castigar a quem as houvesse infringido, fazer observar as mesmas leis dali em diante com todo seu poder, e não governar eles mesmos nem obedecer ao que governasse em desconformidade com as leis de seus pais.”

“Aqueles que sabem penetrar nas coisas compreenderam que se haviam feito maus e perdido os mais preciosos de todos os bens; e os que não eram capazes de ver o que constitui verdadeiramente a vida ditosa creram que haviam atingido o auge da virtude e da felicidade, justo quando se encontravam dominados por uma paixão frenética, a de aumentar suas riquezas e seu poder.”