PSICOLOGIA E ALQUIMIA — Jung

PREFÁCIO DOS EDITORES

O VOLUME VI ‘Tipos Psicológicos’ e o volume VII – ‘O Eu e o Inconsciente’ e ‘Psicologia do Inconsciente’ – eram considerados básicos e imprescindíveis à compreensão de sua Obra Completa pelo próprio C.G. JUNG. Nesta Obra Completa, o presente volume n° XII, ‘Psicologia e Alquimia’ ocupa um lugar central. O texto é aqui apresentado em sua terceira edição.”

I

INTRODUÇÃO À PROBLEMÁTICA DA PSICOLOGIA RELIGIOSA DA ALQUIMIA

A exigência da ‘imitatio Christi’, isto é, a exigência de seguir seu modelo, tomando-nos semelhantes a ele, deveria conduzir o homem interior ao seu pleno desenvolvimento e exaltação. Mas o fiel, de mentalidade superficial e formalística, transforma esse modelo num objeto externo de culto”

Cristo pode ser imitado até o ponto extremo da estigmatização, sem que seu imitador chegue nem de longe ao modelo e seu significado. Não se trata de uma simples imitação, que não transforma o homem, representando assim um mero artifício. Pelo contrário, trata-se de realizar o modelo segundo os meios próprios de cada um – Deo concedente – na esfera da vida individual.”

A concepção inadequada da ‘imitatio Christi’ apenas exterior é reforçada pelo preconceito europeu que distingue a atitude ocidental da oriental. O homem ocidental sucumbe ao feitiço das ‘dez mil coisas’: distingue o particular, uma vez que está preso ao eu e ao objeto, permanecendo inconsciente no que diz respeito às raízes profundas de todo o ser. Inversamente, o homem oriental vivência o mundo das coisas particulares e o seu próprio eu como um sonho, pelo fato de seu ser encontrar-se enraizado no fundamento originário; este o atrai de forma tão poderosa que relativiza sua relação com o mundo, de um modo muitas vezes incompreensível para nós.”

A atitude oriental (principalmente a hindu) representa o contrário dessa atitude: o mais alto e o mais baixo estão dentro do sujeito (transcendental). Por este motivo o significado do ‘atman’, do si-mesmo, é elevado além de todos os limites.”

O psíquico é só natureza – e por isso se pensa comumente que nada de religioso pode provir dele.”

(Um pouco mais de Meister Eckhart não faria mal a ninguém!)”

Uma projeção exclusivamente religiosa pode privar a alma de seus valores, tomá-la incapaz de prosseguir em seu desenvolvimento, por inanição, retendo-a num estado inconsciente. Ela pode também cair vítima da ilusão de que a causa de todo o mal provém de fora, sem que lhe ocorra indagar como e em que medida ela mesma contribui para isso. A alma parece assim tão insignificante a ponto de ser considerada incapaz do mal e muito menos do bem.”

É verdade que os missionários cristãos pregam o Evangelho aos pobres pagãos nus, mas os pagãos interiores que povoam a Europa ainda não ouviram essa mensagem.”

Todavia, quando demonstro que a alma possui uma função religiosa natural, e quando reafirmo que a tarefa mais nobre de toda a educação (do adulto) é a de transpor para a consciência o arquétipo da imagem de Deus, suas irradiações e efeitos, são justamente os teólogos que me atacam e me acusam de ‘psicologismo’.”

A psicologia, enquanto ciência da alma, deve restringir-se ao seu objeto e precaver-se no sentido de não ultrapassar seus limitas, fazendo afirmações metafísicas ou não importa que profissão de fé.”

Ignoramos em última instância de onde se origina o arquétipo, da mesma forma que ignoramos a origem da alma. A competência da psicologia enquanto ciência empírica não vai além da possibilidade de constatar, à base de uma pesquisa comparativa, se o tipo encontrado na alma pode ou não ser designado como uma ‘imagem de Deus’. Desta forma, nada se afirma de positivo ou de negativo acerca de uma possível existência de Deus, do mesmo modo que o arquétipo do ‘herói’ não pressupõe a sua existência.” Bela saída pela tangente!

Ninguém pode evitar a fé em aceitar como causa primeira Deus, Purusha, Atman ou Tao, eliminando assim a inquietude última do homem. A ciência trabalha com escrúpulo e não pretende tomar o céu de assalto.”

O ponto de vista religioso interpreta o tipo como algo decorrente da ação do impressor; o ponto de vista científico o interpreta como símbolo de um conteúdo desconhecido e inapreensível.”

É impensável que qualquer figura determinada possa exprimir a indeterminação arquetípica. Senti-me impelido por isso a dar o nome psicológico de Si-mesmo (Selbst) ao arquétipo correspondente – suficientemente determinado para dar uma idéia da totalidade humana e insuficientemente determinado para exprimir o caráter indescritível e indefinível da totalidade.”

o símbolo de Cristo é da maior importância para a psicologia, porquanto constitui, ao lado da figura de Buda, talvez o símbolo mais desenvolvido e diferenciado do Si-mesmo. Isto pode ser avaliado pela amplitude e pelo conteúdo dos predicados atribuídos ao Cristo, que correspondem à fenomenologia psicológica do Si-mesmo de um modo incomum, apesar de não incluir todos os aspectos deste arquétipo.”

O Si-mesmo não só é indefinido, como também comporta paradoxalmente o caráter do definido e até mesmo da unicidade.” “A inclusão de uma personalidade humana, única (especialmente quando ligada à natureza divina indefinível), corresponde ao individual absoluto do Si-mesmo, que liga o único ao eterno e o individual ao mais geral.”

A vivência dos opostos nada tem a ver com a visão intelectual, nem com a empatia. É mais aquilo a que poderíamos chamar de destino.”

Sabe-se que os números ímpares sempre foram masculinos não só para nós, ocidentais, como também para os chineses; quanto aos números pares, são femininos.”

Como o leitor já percebeu pelo título deste livro, ocupa-se ele com o significado psicológico da alquimia e portanto com um problema que, salvo raríssimas exceções, tem escapado à pesquisa científica até o presente.”

A alquimia constitui como que uma corrente subterrânea em relação ao cristianismo que reina na superfície. A primeira se comporta em relação ao segundo como um sonho em relação à consciência e da mesma forma que o sonho compensa os conflitos do consciente, assim o esforço da alquimia visa preencher as lacunas deixadas pela tensão dos opostos no cristianismo.”

A transformação histórico-universal da consciência para o lado ‘masculino’ é em primeiro lugar compensada pelo inconsciente ctônico-feminino.”

Não se escandalize o leitor se a minha digressão soa como um mito gnóstico. Movemo-nos aqui no terreno psicológico em que está enraizada a gnose. A mensagem do símbolo cristão é gnose, e a compensação do inconsciente o é ainda mais.”

A alquimia trata principalmente do germe da unidade que está oculto no caos de Tiamat e que corresponde à contrapartida da unidade divina.”

O número três não é uma expressão natural da totalidade, ao passo que o número quatro representa o mínimo dos determinantes de um juízo de totalidade.”

O ‘mercúrio’ é sem dúvida ‘quadratus’, mas também uma serpente tricéfala, ou simplesmente uma tri-unidade.”

os temas do sonho sempre reaparecem depois de determinados intervalos, sob certas formas que designam à sua maneira o centro.”

Poderíamos estabelecer um paralelo entre esses processos em espiral e o processo de crescimento das plantas; o tema vegetal (árvore, flor, etc.) também retorna freqüentemente nesses sonhos e fantasias, ou em desenhos espontâneos.” O tema do concurso refeito: voltei ao Colégio Militar por direito, “me emendei”, etc. Há sempre uma festa que é a do meu casamento ou casamento do A. em que bebo tanto que emendo o fim de semana com a segunda de trabalho.

No processo do tratamento psíquico, a relação dialética conduz logicamente ao confronto do paciente com sua sombra, essa metade obscura da alma da qual nos livramos invariavelmente através de projeções, ora carregando o próximo – num sentido mais ou menos lato – de todos os vícios que são nossos, ora transferindo os próprios pecados para um mediador divino através da ‘contritio’ ou da ‘attritio’ mais amena.(*)

(*) Contritio é ‘arrependimento perfeito’. Attritio é ‘arrependimento imperfeito’ (‘contritio imperfecta’ à qual também pertence a ‘contritio naturalis’). A primeira considera o pecado como oposição ao Bem Supremo; a última o rejeita por sua maldade e feiúra e também por medo do castigo.”

Quando a sombra é trazida à consciência pode arrastar consigo, à tona, os conteúdos do inconsciente coletivo. Isto pode exercer uma influência tremenda sobre a consciência, uma vez que a vivificação dos arquétipos molesta o mais frio dos racionalistas, e precisamente a ele.”

O simples conhecimento da estrutura psíquica da neurose também é insuficiente nesses casos; quando o processo atinge a esfera do inconsciente coletivo encontramo-nos diante de material saudável, ou seja, dos fundamentos universais da psique, com suas variações individuais. O que ajuda a compreender essas camadas mais profundas da psique é, por um lado, o conhecimento da mitologia e da psicologia primitiva e, por outro, de um modo muito especial, o conhecimento das etapas históricas preliminares da consciência moderna. A consciência atual foi modelada tanto pelo espírito da Igreja, como pela ciência em cujos primórdios se ocultava muita coisa que não podia ser aceita pela Igreja. Trata-se principalmente de remanescentes do espírito da Antiguidade e do seu sentimento da natureza que não era possível extirpar, tendo encontrado um refúgio na Filosofia Natural da Idade Média. Os antigos deuses dos planetas sobreviveram a muitos séculos de Cristianismo sob a forma de ‘spiritus metallorum’ e componentes astrológicos do destino.”

A alquimia movia-se de fato sempre no limite da heresia e era proibida pela Igreja. Ela desfrutou entretanto da proteção eficaz da obscuridade de seu simbolismo, que a qualquer momento podia ser explicado por uma alegoria inofensiva. Para muitos alquimistas, o aspecto alegórico se achava de tal modo em primeiro plano, que estavam totalmente convencidos de tratar-se apenas de corpos químicos. Outros, entretanto, consideravam o trabalho de laboratório relacionado com o símbolo e seu efeito psíquico. Tal como demonstram os textos, esses alquimistas tinham a consciência do efeito psíquico, a ponto de condenarem os ingênuos fazedores de ouro como mentirosos, trapaceiros ou extraviados.”

A grande preocupação da Igreja é a ‘imitatio Christi’, ao passo que o alquimista, na solidão e na problemática obscura de sua obra, sucumbe sem saber ou mesmo sem querer aos pressupostos inconscientes naturais de seu espírito e de seu ser, por não dispor para se apoiar de modelos claros e inequívocos como o Cristo. Os autores estudados pelo alquimista fornecem-lhe símbolos cujo sentido ele capta a seu modo, embora na realidade toquem e excitem seu inconsciente. Ironizando-se a si mesmos, os alquimistas cunharam a expressão: ‘obscurum per obscurius’ (o obscuro pelo mais obscuro).”

A unidade dos quatro, o ouro filosófico, o ‘lapis angularis’ (pedra angular), a ‘aqua divina’ (água divina) correspondiam na Igreja à cruz de quatro braços na qual o ‘Unigenitus’ foi sacrificado, uma vez na história e por toda a eternidade.”

A possessão revela-se quase sempre pelo fato de as pessoas possuídas se identificarem com os conteúdos. Não reconhecendo o papel que lhes é imposto como efeito dos novos conteúdos a serem descobertos, elas os encarnam exemplarmente em suas vidas, tomando-se profetas e reformadoras.” “Jesus tomou-se assim a imagem protetora contra todos os poderes arquetípicos que ameaçavam apoderar-se das pessoas. A boa-nova anunciava: ‘Já aconteceu, e já não vos acontecerá mais se acreditardes em Jesus, o filho de Deus!’” “Por isso sempre houve pessoas que, não se satisfazendo com a dominante da vida consciente, buscaram por debaixo do pano ou por atalhos secundários, para seu bem ou para seu mal, a experiência originária das raízes eternas. Seguindo o fascínio do inconsciente irrequieto, puseram-se a caminho rumo .ao deserto, onde, como Jesus, depararam com o filho das Trevas”

Mas a parte anímica da obra não desapareceu. Ela conquistou novos intérpretes, como vemos por exemplo no Fausto e na relação significativa da psicologia moderna do inconsciente com a simbólica alquímica.”

II.

SÍMBOLOS ONÍRICOS DO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Contribuição para o conhecimento dos processos do inconsciente manifesto nos sonhos

a simbólica da mandala”

O material de que disponho consiste em mais de mil sonhos e impressões visuais de um homem ainda jovem cuja formação científica deve ser sublinhada.” “A não ser uma curta entrevista no início, antes de começar as observações, não encontrei o sonhador durante os oito primeiros meses. Assim, pois, 355 dos 400 sonhos foram sonhados independentemente de qualquer contato pessoal comigo.”

Não contesto de modo algum a possibilidade de sonhos ‘paralelos’, isto é, de sonhos cujo sentido coincida com a atitude da consciência ou venha em apoio desta última. Mas na minha experiência, pelo menos, estes últimos são relativamente raros.”

O chapéu que cinge a cabeça é redondo como o círculo solar da coroa, contendo por isso a primeira alusão à mandala.”

usar o chapéu de outra pessoa

boné capacete

boina

usar o cabelo de outra pessoa

O mar é o símbolo do inconsciente coletivo porque sob sua superfície espelhante se ocultam profundidades insondáveis.”

Tal como a mania de perseguição resulta de um relacionamento envenenado pela desconfiança, assim também uma realidade ilusória vem substituir a animação normal do meio ambiente e, em lugar de pessoas, começam a mover-se sombras aterradoras e fantasmagóricas. Este é o motivo pelo qual o homem primitivo povoava os lugares desertos e solitários de ‘diabos’ e outros fantasmas.” Porões do CMB.

A resistência do consciente contra o inconsciente, bem como a depreciação deste último, é uma necessidade histórica do desenvolvimento da consciência, pois de outro modo ela nunca se teria diferenciado do inconsciente. A consciência do homem moderno porém distanciou-se demasiadamente da realidade do inconsciente.”

país das crianças”

O País das Maravilhas aceita todas as idades, é atemporal

É infantil não apenas aquele que permanece criança por muito tempo, mas aquele que separando-se da infância pensa que ela não existe mais porque não a vê.”

A pré-história psíquica é o espírito da gravidade, que exige degraus e escadas porque não pode voar, a modo do intelecto, sem corpo e sem peso.”

O inconsciente pessoal deve sempre ser resolvido em primeiro lugar, isto é, deve ser integrado na consciência. De outro modo, o acesso ao inconsciente coletivo tomar-se-ia impossível. A viagem com pai e mãe, subindo e descendo muitas escadas, corresponde a esta conscientização de conteúdos infantis ainda não-integrados.”

SONHO 13

O pai grita ansioso: ‘Este é o sétimo!’”

Se for correta a interpretação de que o ‘sétimo’ corresponde ao degrau máximo da iluminação, o processo da integração do inconsciente pessoal deveria em princípio estar concluído.”

Enquanto planeta Mercúrio ele é o mais próximo do sol, o que indica também sua maior afinidade com o ouro. Enquanto metal, o mercúrio dissolve o ouro e apaga seu brilho solar.”

A ‘arte negra’ porém não é tão remota quanto se pensa; o sonhador, como homem culto, devia ter lido o Fausto. Este último é um drama alquímico do começo ao fim, embora o homem culto de hoje tenha apenas uma vaga idéia disto.”

Os monólogos da caveira, no Fausto e em Hamlet, evocam o absurdo aterrador da existência quando é apenas considerada pelo ‘pálido esboço do pensamento’.”

O fenômeno da ‘voz’ sempre tem um caráter definitivo e indiscutível para o sonhador, isto é, a voz enuncia uma verdade ou condição que já não pode ser posta em dúvida.”

Nenhuma mandala é igual a outra, sendo individualmente diferentes. Acrescentou que as mandalas encontradas nos mosteiros e nos templos não têm significado particular, por serem meras representações exteriores. A verdadeira mandala é sempre uma imagem interior, construída pouco a pouco através da imaginação (ativa) somente em períodos de distúrbio do equilíbrio anímico, ou quando se busca ima pensamento difícil de ser encontrado por não figurar na doutrina sagrada.”

ela é sempre um sistema quaternário, uma ‘quadratura circuli’ (quadratura do círculo), cujos conteúdos procedem invariavelmente da dogmática lamaísta.”

É essencial conhecer esta valorização máxima do símbolo, porquanto coincide com o significado central dos símbolos mandálicos individuais, caracterizados pelas mesmas qualidades de natureza por assim dizer ‘metafísica’. Se não estivermos completamente enganados, eles representam um centro psíquico da personalidade que não é idêntico ao ‘eu’. Observei tais processos e imagens ao longo de vinte anos, através de um material empírico relativamente abundante.”

Pratica-se a ioga indiana de qualquer escola, seguem-se regimes alimentares, aprende-se de cor a teosofia, rezam-se mecanicamente os textos místicos da literatura universal – tudo isto porque não se consegue mais conviver consigo mesmo e porque falta fé em que algo de útil possa brotar de nossa própria alma.”

Perde-se a culpa, que é substituída por uma inocência infantil; reaparece então o pai mau responsável por isto e a mãe pouco amorosa responsável por aquilo e nesses inegáveis nós causais fica-se preso como uma mosca em teia de aranha, sem perceber que se perdeu a liberdade moral.”

O tipo de veículo, num sonho, ilustra o tipo de movimento, ou a maneira pela qual se avança no tempo – em outras palavras, como se vive sua vida psíquica, individual ou coletivamente, por seus próprios meios ou por meios emprestados, espontaneamente ou mecanicamente. No avião, o sonhador é conduzido por um piloto desconhecido, isto é, por vima intuição de origem inconsciente.” “No sonho de que tratamos agora, ele está num bonde elétrico que pode ser usado por qualquer pessoa; isto significa que ele se movimenta ou se comporta como qualquer pessoa.”

Da mesma forma os filósofos afirmam que o quadrado deve transformar-se em triângulo, isto é, em corpo, espírito e alma, os quais antes do vermelho aparecem em três cores, ou seja, o corpo ou a terra num negro saturnino, o espírito num branco lunar como água, a alma ou o ar, amarelo como o sol. Então o triângulo estará completo, todavia, por sua vez, ele deve transformar-se num círculo, isto é, num vermelho inalterável.”

o intelecto do homem moderno considera tudo isto o maior dos absurdos. No entanto, este juízo de valor não impede que tais associações de idéias existam há muitos séculos, desempenhando um papel de suma importância.” “(Muitos de meus críticos, que se dizem ‘cientistas’, reagem exatamente como aquele bispo que excomungou os besouros por proliferarem desavergonhadamente.)”

A retro-identificação com os ancestrais humanos e animais significa, no plano psicológico, uma integração do inconsciente, um verdadeiro banho de renovação na fonte da vida, onde se é novamente peixe, isto é, inconsciente, como no sono, na embriaguez e na morte; daí o sono de incubação, a consagração orgiástica dionisíaca e a morte ritualística na iniciação. Tais procedimentos realizam-se sempre no lugar sagrado. Podemos transpor facilmente estas idéias para o concretismo freudiano: o temenos [estrutura geralmente quadrangular ou circular que nos rodeia e protege] seria o útero materno, e o rito, uma regressão ao incesto. No entanto, neste caso, trata-se de equívocos de neuróticos, os quais permaneceram parcialmente infantis. Ignoram que essas práticas foram exercidas pelos adultos desde os primórdios, sendo portanto impossível explicá-las como simples regressões ao estágio infantil. Caso contrário, as mais altas conquistas da humanidade não significariam mais do que desejos infantis pervertidos, e a expressão ‘infantil’ perderia a sua razão de ser.”

Se esses ritos de renovação não produzissem resultados efetivos, não só teriam desaparecido na pré-história, como nem mesmo teriam surgido. Nosso caso demonstra que mesmo quando a consciência está a milhas de distância das representações arcaicas dos ritos de renovação, o inconsciente procura reaproximá-los da consciência, mediante os sonhos. Sem dúvida alguma a autonomia e autarquia da consciência representam qualidades sem as quais esta última não existiria; no entanto, tais qualidades podem constituir também um perigo de isolamento e de aridez, por criarem uma alienação insuportável do instinto, resultante da cisão entre consciência e inconsciente.”

Minha experiência, entretanto, testemunha que a consciência só pode pretender a uma posição relativamente central, devendo aceitar o fato de que de certa forma é ultrapassada e cercada pela psique inconsciente por todos os lados. ‘Para trás’, mediante os conteúdos inconscientes, está conectada com as condições fisiológicas e com os pressupostos arquetípicos. Contudo também protende ‘para frente’, através de intuições que por sua vez são parcialmente condicionadas por arquétipos e por percepções subliminares, ligadas à relatividade espácio-temporal do inconsciente. Deixo ao critério do leitor que examine a possibilidade de uma tal hipótese, após uma ponderação cuidadosa sobre esta série de sonhos e sobre a temática por ela levantada.”

As festas carnavalescas medievais e o jogo da péla na igreja foram abolidos relativamente cedo; conseqüentemente, o carnaval foi secularizado, desaparecendo a ebriedade divina do espaço sagrado. Restaram na igreja o luto, a severidade, o rigor e a alegria espiritual temperada. Mas a embriaguez, essa forma de possessão imediata e perigosa, desligou-se dos deuses, envolvendo por isso o mundo dos homens em seu excesso e seu ‘pathos’. As religiões pagãs enfrentavam este perigo, dando lugar no culto a esse êxtase da embriaguez.”

A problemática do três e quatro, do sete e oito, que GOETHE tocou neste ponto, é um dos enigmas da alquimia que remonta historicamente a textos atribuídos a CHRISTIANOS.”

Filho, toma do corpo mais simples e redondo, e não do triangular ou quadrangular, toma do redondo; porque o redondo está mais próximo da simplicidade do que o triangular. Note-se que o corpo simples não tem ângulo algum, pois é o primeiro e o último dentre os planetas, como o sol entre as estrelas”

Os leões, como todos os animais selvagens, indicam afetos latentes. Na alquimia, o papel do leão é importante e tem um significado semelhante. Trata-se de um animal ‘do fogo’, alegoria do diabo, e indica o perigo do sonhador ser tragado pelo inconsciente.”

De vez em quando aparecem mandalas ‘perturbadas’. Elas consistem de todas as formas derivadas do círculo, do quadrado ou da cruz regular; bem como as formas baseadas não no número quatro, mas no três ou no cinco. Os números seis e doze constituem neste caso uma certa exceção. O doze pode ter relação com o quatro ou o três. Os doze meses e os doze signos do Zodíaco são símbolos circulares, colocados à nossa disposição. Da mesma forma, o seis é um conhecido símbolo do círculo. O três sugere a predominância da idéia e da vontade (trindade) e o cinco, o homem físico (materialismo).” // CANA NA CASA & O 6 IMPOSSÍVEL

A ‘voz’ tem em geral um caráter indiscutível de autoridade e costuma comparecer nos momentos decisivos.”

Sem o círculo vertical azul a mandala dourada permanece incorpórea e bidimensional, mera imagem abstrata. Somente a interferência do tempo e do espaço no aqui e agora cria a realidade. A totalidade se concretiza apenas no instante, naquele instante que Fausto buscou pela vida afora.”

A visão do ‘relógio do mundo’ não é o último estágio, nem o ponto culminante no desenvolvimento dos símbolos da psique objetiva. No entanto ela é mais ou menos o desfecho da terça parte inicial do material que abrange cerca de quatrocentos sonhos e visões.”

Não quero contudo insinuar que me julgo capaz de fazer afirmações concludentes acerca de um tema tão complexo. Não é a primeira vez que trato de uma série de manifestações espontâneas do inconsciente. Já o fiz em meu livro Símbolos da Transformação; neste se tratava do problema de uma neurose (da puberdade), ao passo que aqui a problemática se prolonga até a individuação. Além disso, há uma diferença considerável entre as duas personalidades em questão. O primeiro caso, do qual aliás nunca tratei pessoalmente, terminou numa catástrofe psíquica (psicose); o segundo, aqui em questão, apresenta um desenvolvimento normal, tal como tenho observado freqüentemente em pessoas de elevado nível intelectual.”

É como se normalmente existisse uma nítida insistência no quatro, ou como se houvesse estatisticamente uma probabilidade maior em relação ao quatro. Não posso silenciar a seguinte observação: o fato de o principal elemento químico constitutivo do organismo físico ser o carbono – caracterizado por quatro valências – é sem dúvida um ‘lusus naturae’ (um jogo da natureza) bastante estranho”

III.

AS IDÉIAS DE SALVAÇÃO NA ALQUIMIA

Uma contribuição à história das idéias na alquimia

LENTAMENTE, no decurso do século XVIII, a alquimia pereceu em sua própria obscuridade. Seu método de explicação – ‘obscurum per obscurius, ignotum per ignotius’ (o obscuro pelo mais obscuro, o desconhecido pelo mais desconhecido) – era incompatível com o espírito do iluminismo e particularmente com o alvorecer da ciência química, no final do século. Mas estas duas novas forças intelectuais apenas eram o tiro de misericórdia na alquimia. Sua decadência interna começara pelo menos um século antes, no tempo de JAKOB BÖHME, quando muitos alquimistas abandonaram seus alambiques e cadinhos, devotando-se inteiramente à filosofia (hermética).”

Sobre este aspecto da alquimia, especialmente quanto a seu significado psicológico, o livro de HERBERT SILBERER Probleme der Mystik und ihrer Symbolik (1914) fornece uma informação abundante. O simbolismo fantástico relacionado com o aspecto psicológico é graficamente descrito num trabalho de BERNOULLI: Seelische Entwicklung im Spiegel der Alchemie. Podemos encontrar em EVOLA um relato detalhado da filosofia hermética: La tradizione ermetica. Mas um estudo abrangente das idéias contidas nos textos, e da sua história, ainda está faltando, embora sejamos devedores a REITZENSTEIN por sua importante obra preparatória neste campo.”

Quatro estágios são assinalados, caracterizados pelas cores originárias já mencionadas em HERÁCLITO: melanosis (o enegrecimento), leukosis (embranquecimento), xanthosis (amarelecimento), iosis (enrubescimento).” “Mais tarde, por volta dos séculos XV e XVI, as cores foram reduzidas a três, e a xanthosis, também chamada ‘citrinitas’, caiu gradualmente em desuso, ou então era raramente mencionada. Em seu lugar a ‘viriditas’ (o verde) aparece raras vezes após a melanosis ou ‘nigredo’.”

A partir da ‘nigredo’, a lavagem (ablutio, baptisma) conduz diretamente ao embranquecimento, ou então ocorre que a alma (anima) liberta pela morte é reunida ao corpo morto e cumpre sua ressurreição; pode dar-se finalmente que as múltiplas cores (omnes colores) – a ‘cauda pavonis’ (cauda do pavão) – conduzam à cor branca e una, que contém todas as cores. Neste ponto, a primeira meta importante do processo é alcançada: trata-se da ‘albedo’, ‘tinctura alba’, ‘terra alba foliata’, ‘lapis albus’, etc., altamente valorizada por muitos alquimistas como se fosse a última meta. É o estado lunar ou de prata, que ainda deve alçar-se ao estado solar. A ‘albedo’ é, por assim dizer, a aurora; mas só a ‘rubedo’ é o nascer do sol. A transição para a ‘rubedo’ constitui o amarelecimento (citrinitas), se bem que como já observamos este é suprimido posteriormente.”

Tal é superficialmente e em suas linhas gerais a estrutura da alquimia, como é conhecida por todos. Do ponto de vista do nosso conhecimento moderno da química, ela nos diz pouco ou nada e se nos voltarmos para os textos, com seus mil e um processos e receitas legados pela Idade Média e pela antiguidade, encontraremos poucos dentre eles, relativamente, de significado identificável pelo químico. É provável acharmos a maioria sem sentido; é indubitável que jamais foi produzida uma verdadeira tintura ou ouro artificial durante todos esses séculos de intenso labor. Podemos então perguntar com toda a razão o que induzia os velhos alquimistas a prosseguir trabalhando ou ‘operando’ (como diziam) de modo constante, escrevendo todos aqueles tratados sobre a ‘divina’ arte, se toda a sua ação era tão desprovida de esperança? Para fazer-lhes justiça devemos acrescentar que todos os conhecimentos essenciais da química e suas limitações eram-lhes desconhecidos e assim podiam ter esperança como aqueles que sonhavam com o vôo e cujos sucessores fizeram tal sonho tornar-se realidade. Nem poderíamos subestimar o sentido da satisfação que nasce do empreendimento, da aventura: o ‘quaerere’ (buscar) e o ‘invenire’ (achar). Estes permanecem, na medida em que os métodos empregados parecem ter sentido. Nada havia naquele tempo que pudesse convencer o alquimista da falta de sentido de suas operações químicas; e o que é mais, ele contava com uma longa tradição de não poucos que haviam obtido o maravilhoso resultado.”

Se admitimos que o alquimista usa o processo químico só simbolicamente, então por que trabalha num laboratório com cadinhos e alambiques? E se, como ele constantemente afirma, está descrevendo processos químicos, por que os desfigura com seu simbolismo mitológico até torná-los irreconhecíveis?”

A constituição espiritual do homem pertencente aos ciclos pré-modernos da cultura era tal, que cada percepção física tinha simultaneamente um componente psíquico que o ‘animava’, conferindo à imagem um ‘significado’ adicional e ao mesmo tempo uma tonalidade emotiva particular e poderosa. Assim sendo, a física antiga era ao mesmo tempo uma teologia e uma psicologia transcendental: pelo fato de receber os lampejos das essências metafísicas na matéria dos sentidos corporais. A ciência natural era ao mesmo tempo uma ciência espiritual e os múltiplos sentidos dos símbolos reuniam os diversos aspectos em um único conhecimento.” EVOLA

Fazer segredo pode ser um mero blefe com o propósito óbvio de explorar os crédulos. Mas toda tentativa de explicar a alquimia unicamente sob este ponto de vista é, na minha opinião, desmentida pelo fato de que vim bom número de tratados detalhados, eruditos e conscienciosos foram escritos e impressos anonimamente, não podendo portanto ter representado uma vantagem ilegítima para alguém.”

Na tentativa de explicar o mistério da matéria, projetava outro mistério, isto é, projetava seu próprio fundo psíquico desconhecido no que pretendia explicar”

O alquimista não pratica sua arte por acreditar teoricamente numa correspondência, mas tem uma teoria das correspondências pelo fato de vivenciar a presença da idéia na matéria (physis).”

A astrologia é uma experiência primordial, como a alquimia. Projeções deste tipo repetem-se todas as vezes que o homem tenta explorar uma escuridão vazia, preenchendo-a involuntariamente com formas vivas.”

As exposições de HOGHELANDE vêm provar, tal como os dois textos anteriores, que durante as experiências de laboratório ocorrem alucinações ou visões, as quais só podem ser projeções de conteúdos inconscientes.” Neste momento ouvindo CATHEDRAL, trilha perfeita.

A fim de podermos compreender tais afirmações temos que livrar-nos de todas as idéias modernas sobre a constituição de um gás, e concebê-las como puramente psicológicas. Trata-se nesse caso da projeção de pares de opostos, tais como leve – pesado, visível – invisível, etc. Acontece que a identidade dos opostos é a característica de todo fato psíquico no estado inconsciente. Assim sendo, uma ‘anima corporalis’ é simultaneamente ‘spiritualis’ e o núcleo do ar sólido e pesado é ao mesmo tempo o ‘spiritus creator’ que paira sobre as águas.”

Assim por exemplo o sábio MICHAEL MAIER censura GEBER – autoridade clássica – de ser o mais obscuro de todos, afirmando que seria preciso um Édipo para decifrar o enigma da ‘Gebrina Sphinx’. BERNARDUS TREVISANUS, outro alquimista famoso, acusa GEBER de obscurantista, comparando-o a um Proteu que promete a fruta e dá cascas.”

Mercurius encontra-se no início e no fim da obra. É a ‘prima materia’, o ‘caput corvi’, a ‘nigredo’, Como dragão, devora-se a si mesmo e como dragão morre para ressuscitar sob a forma do lapis. É o jogo de cores da ‘cauda pavonis’ (cauda do pavão) e a separação nos quatro elementos. É o hermafrodita, o ser primordial, o qual se divide, formando o par clássico de irmão-irmã, e se unifica na ‘coniunctio’, a fim de aparecer de novo ao fim sob a forma radiante do ‘lumen novum’ (nova luz), do lapis. É metal e não obstante líquido, matéria e no entanto espírito, frio porém ígneo, veneno que é medicamento, um símbolo unificador de opostos.”

A metáfora enfática usada por NIETZSCHE no Zarathustra: ‘Para mim uma imagem dorme na pedra’, parece dizer o mesmo, mas em uma ordem inversa. Na antigüidade, o mundo da matéria era preenchido pela projeção de um segredo anímico que, desde então, aparecia como o segredo da matéria, assim permanecendo até a decadência da alquimia no século XVIIl. A intuição estática de NIETZSCHE porém queria arrancar da pedra o segredo do super-homem, onde ele até então dormia. À semelhança dessa imagem, NIETZSCHE queria criar o super-homem, o qual segundo a linguagem dos antigos poderia ser considerado o homem divino. Os velhos alquimistas, pelo contrário, procuravam a pedra miraculosa que contivesse uma essência pneumática a fim de extrair dela a substância que penetra em todos os corpos (pois ela é o ‘espírito’ que penetrou na pedra), transformando todas as substâncias vis em matéria nobre mediante a tintura. Esta ‘matéria-espírito’ é como o mercúrio que se encontra invisivelmente dentro dos minérios e que deve em primeiro lugar ser expulso afim de ser recuperado ‘in substantia’. Mas assim que se possui esse mercúrio penetrante é possível ‘projetá-lo’ em outros corpos, fazendo-os passar do estado imperfeito para o estado perfeito.”

Na medida em que o ponto de vista da psicologia complexa é realista, isto é, fundamentado na hipótese de que os conteúdos psíquicos são existências, os atributos mencionados caracterizam uma parcela inconsciente da personalidade, dotada de uma consciência superior que ultrapassa o humano comum. Empiricamente, tais figuras exprimem sempre ‘insights’ ou qualidades superiores, ainda não conscientes, podendo-se até mesmo perguntar se elas podem ser atribuídas ou não ao ego propriamente dito. Tal problema, que o leigo pode considerar um sofisma, se reveste de um enorme significado na prática. Uma atribuição incorreta pode provocar inflações perigosas, que o leigo só considera sem importância por desconhecer os desastres anímicos e exteriores que podem ser causados por tais inflações.”

Assim como no cristianismo a divindade se oculta na figura do servo, na ‘filosofia’ ela se oculta na pedra insignificante.”

Poderíamos ser tentados a explicar o simbolismo alquímico da transformação como sendo uma caricatura da Missa, se sua origem não fosse pagã e portanto muito mais antiga.”

Os alquimistas são, de fato, pessoas solitárias; cada qual diz o que tem a dizer à sua maneira. Raramente têm discípulos e parece que transmitiam bem pouca coisa por tradição direta; nem temos provas da existência de quaisquer sociedades secretas. Cada qual trabalhava sozinho no laboratório e sofria com a sua solidão.”

não é correto afirmar que os alquimistas nunca definiram a ‘materia prima’; muito pelo contrário, foram tantas as definições dadas que estas acabaram por contradizer-se repetidamente.”

Voltai-vos para mim de todo o coração e não me rejeiteis, por eu ser preta e escura, pois o sol assim me queimou; e as profundezas cobriram o meu rosto e a terra foi deteriorada e maculada em minhas obras, pois havia escuridão sobre ela, por eu ter afundado no lodo da profundeza e minha substância não foi explorada. Por isso clamo da profundeza e do abismo da Terra minha voz se dirige a todos vós que passais pelo caminho: Tende cuidado e olhai para mim, se jamais um dentre vós encontrou alguém que comigo se parecesse, eu lhe porei nas mãos a estrela matutina.”

Não podemos esquecer que o alquimista não faz a menor questão de se torturar com escrúpulos morais, sob pretexto de o homem ser um nada pecador que vai ao encontro da obra de redenção de Deus através de uma conduta ética irrepreensível. O alquimista está no papel de um ‘redentor’ cujo ‘opus divinum’ é mais uma continuação da obra divina de redenção do que uma medida de prevenção contra uma eventual danação por ocasião do Juízo Final.”

Uma vez que o incesto se dá a conselho dos filósofos, a morte do filho do rei é algo de desagradável e perigoso. A consciência coloca-se numa situação perigosa pela descida ao inconsciente; aparentemente, é como se ela se extinguisse. A situação é a do herói dos primórdios devorado pelo dragão. Em se tratando de um decréscimo ou extinção da consciência, tal ‘abaissement du niveau mental’ equivale ao ‘peril of the soul’ tão temido pelos primitivos (medo dos espíritos).”

Quando a própria mãe se une a seu filho maritalmente, não se considera este ato como incestuoso. Pois é a natureza que assim ordena e assim exige a sagrada lei do destino, e o fato não desagrada a Deus.”

O mito gnóstico originário sofreu estranhas transformações: o ‘nous’ e a ‘physis’ constituem uma unidade indistinta na ‘prima materia’, tomando-se uma ‘natura abscondita’.”

O alquimista ressalta incessantemente a sua ‘humilitas’ (humildade) e sempre inicia seus tratados invocando Deus. Não pensa em identificar-se com Cristo; muito pelo contrário, a alquimia estabelece um paralelo entre a substância procurada, o ‘lapis’, e o Cristo. Não se trata assim propriamente de uma identificação, mas do ‘sicut’ (assim como) hermenêutico, que indica a analogia.”

O homem moderno deve quase considerar-se feliz pelo fato de que, no momento da colisão com o pensamento e a vivência orientais, seu empobrecimento espiritual chegou a tal ponto que mal percebeu contra o que estava colidindo. Seu confronto com o Oriente desenrola-se agora no nível totalmente inadequado e inócuo do intelecto”

As raízes do gnosticismo não radicam no cristianismo; aliás seria mais verdadeiro afirmar que este último assimilou idéias do gnosticismo.”

WEI PO-YANG, An Ancient Chinese Treatise on Alchemy

nos escritos dos padres da Igreja o vento sul é uma alegoria do Espírito Santo, provavelmente devido à natureza quente e seca desse vento. Por este motivo, o processo de sublimação é denominado na alquimia árabe ‘o grande vento do sul’, referindo-se ao aquecimento da retorta e do seu conteúdo. O Espírito Santo é ígneo e provoca a exaltação.”

Nessa época floresceram as sociedades secretas, sobretudo os Rosa-cruzes – a melhor prova da exaustão do segredo da alquimia! A existência de uma ordem secreta tem sua razão de ser quando é necessário proteger um segredo que perdeu sua vitalidade e que só poderá perdurar de um modo formal.”

Na tradição medieval associa-se o unicórnio ao leão ‘porque este animal é como o leão, forte, feroz e cruel’. ‘Por esta razão’, diz BACCIUS, ‘este animal chama-se Lycornu na França e na Itália’, o que parece significar um derivado de ‘lion’.” “Conta-se do unicórnio coisas semelhantes às do dragão, que em sua qualidade de animal subterrâneo habita cavernas e gargantas; que eles (os unicórnios) se escondem e habitam os desertos e as altas montanhas e as grutas mais profundas e estranhas e as tocas dos animais selvagens, entre sapos e outros vermes nojentos e imundos”

No Rig-Veda, ele é chamado de ‘Pai Manu’ e conta-se que com sua filha gerou os homens. É o fundador da ordem social e moral. É o primeiro sacrificador e sacerdote. Transmitiu aos homens a doutrina dos Upanishades.”

O leão, sendo um animal perigoso, é semelhante ao dragão. Este tem que ser morto; quanto ao leão, tem pelo menos que ter as patas cortadas. O unicórnio também deve ser domado; por ser um monstro, possui um significado simbólico superior e sua natureza é mais espiritual do que a do leão.”

Segundo o Li-ki há quatro animais benévolos ou espirituais: o unicórnio (K’i-lin), a fénix, a tartaruga e o dragão. O unicórnio é o maior dos quadrúpedes. Seu corpo é de cervo, tem rabo de boi e cascos de cavalo. Suas costas têm cinco diferentes cores e seu ventre é amarelo. É benévolo em relação aos outros animais. Dizem que aparece por ocasião do nascimento dos bons imperadores ou dos grandes sábios. Se é ferido, isto significa maus presságios. Apareceu pela primeira vez no jardim do Imperador Amarelo. Mais tarde, dois unicórnios viviam em P’ing-yang, capital do imperador Yao. Um unicórnio apareceu à mãe de Confúcio, estando ela grávida. Antes da morte de Confúcio houve um presságio que ela ocorreria: um cocheiro feriu um unicórnio.”

Este apanhado do simbolismo do unicórnio não passa de uma amostra, exemplificando as conexões intimamente entretecidas e emaranhadas que há entre a filosofia natural pagã, o gnosticismo, a alquimia e a tradição da Igreja, a qual, por sua vez, influenciou profundamente a cosmovisão da alquimia medieval. Espero que este exemplo tenha esclarecido meu leitor até que ponto a alquimia representava um movimento filosófico-religioso ou ‘místico’.”

EPÍLOGO

NUNCA ficou muito claro o que os antigos filósofos entendiam por ‘lapis’. Esta questão só será respondida satisfatoriamente depois de sabermos que conteúdos eles projetavam de seu inconsciente. Somente a Psicologia do Inconsciente poderá resolver tal enigma. Sabemos que um conteúdo do inconsciente, enquanto projetado, é inacessível.”

Identificando-se com Paris, Fausto traz a ‘coniunctio’ da projeção para a esfera da vivência pessoal psicológica e portanto para a consciência. Este passo decisivo significa nada mais nada menos do que a solução do enigma alquímico, e também o resgate de uma parte da personalidade até então inconsciente. Todo acréscimo de consciência porém traz consigo o perigo da inflação. Isto fica demonstrado claramente no aspecto de super-homem em Fausto. A morte deste, necessidade que se deve às exigências da época, não constitui de modo algum uma resposta satisfatória. O nascimento e transformação que se seguem à ‘coniunctio’ se dão no além, isto é, no inconsciente, deixando o problema em aberto. Este foi retomado por NIETZSCHE, como sabemos, no Zarathustra: o da transformação em super-homem, que ele aproximou perigosamente do homem terrestre. Isto provocou inevitavelmente o ressentimento anticristão, pois o seu super-homem é uma hybris da consciência individual, que se choca necessariamente com o poder coletivo do cristianismo – levando à destruição catastrófica do indivíduo. É sabido o modo pelo qual e de que formas características isto aconteceu ‘tam ethice quam physice’ (tanto moral como fisicamente) com o próprio NIETZSCHE. E que resposta os tempos subseqüentes deram ao individualismo do super-homem nietzscheano? Responderam com o coletivismo, com a organização coletivista e o amontoamento de massas ‘tam ethice quam physice’, escarnecendo de tudo o que existira até então.”

O fogo esfriou, transformando-se em ar, o ar tornou-se o vento de Zarathustra e causou uma inflação de consciência. Esta, pelo visto, só pôde ser dominada pelas mais aterradoras catástrofes da civilização, ou seja, pelo dilúvio que os deuses enviaram à humanidade pouco hospitaleira.” Jung criou uma estorinha de gibi na própria cabeça.

Este estado de possessão inconsciente prosseguirá até o dia em que o europeu se ‘assuste com sua semelhança a Deus’.”

O termo científico ‘individuação’ não significa de modo algum que se trate de fatos inteiramente conhecidos e esclarecidos. Ele apenas designa um domínio obscuro de pesquisa ainda em curso dos processos psíquicos através dos quais a personalidade em formação atinge seu centro no inconsciente. Trata-se de processos vitais, que, por seu caráter numinoso, serviram desde os primórdios de estímulo fundamental para a formação dos símbolos.”