PROVA DA INEXISTÊNCIA DE DEUS!

“Deus” é sinônimo de onipotência, o conceito humano para o uno, ilimitado e intangível, uma chave de acesso ao transcendental via linguagem: quatro letras que encerram a idéia de tudo que está por trás da existência e da possibilidade de se ter qualquer idéia. Como tal, “Deus” cresceu com o homem. É seu mito, sua raiz. A determinado ponto foi sistematizado em escrituras – o que não o desvencilha do paradigma panteísta, não obstante: panteísmo é a crença de Deus sendo tudo e todas as coisas. O universo, a natureza. Aqui está o ponto a que desejava chegar para comprovar a inexistência de Deus, se é que o leitor não preferirá legitimá-lo de uma forma diferente… (vide adiante) Serei lógico; acompanhe:

O caráter de onipotência de Deus é sua definição pura. Significa que para tal entidade inexiste o impossível. A realidade inteira é o desenrolar de sua vontade. Como tal, só pode ser ele mesmo (o que é vontade de Deus é deus, e não há o que não seja): voltamos ao Panteísmo, ainda que sejais cristãos. Se tudo é deus, eu também sou deus. Afirmar deus é negar-me a mim mesmo. Penso que sou livre para escrever que sou livre. Tenho autonomia na decisão. A simples crença na assertiva basta ao leitor a fim de negar Deus. Porém, sigamos adiante, rumo aos limites da argumentação: se se aceita que eu sou Deus para não negá-lo, eu me anulo. Eu existo – o leitor existe – e aceitar-se como Deus representando a própria impossibilidade do Ser de existir é pífio. Existo e por isso automaticamente Deus deve ser negado.

Ainda que eu fosse Deus – esse é o único método, entenda o leitor, de poder afirmá-lo (a legitimação em “forma diferente” supracitada) –, ou tudo sou eu (tudo que acontece é minha vontade – sua liberdade acabou de ser formalmente morta), ou eu sou uma PARTÍCULA de Deus. Mas um poder infinito não se divide: a principal característica divina é a unidade, é ser a arrumação coerente do todo. Não existe, portanto, essa conveniente solução intermediária. Retomando, há dois (ou três) paradigmas: 1) TUDO é Deus (e sua Vontade), sob o alto preço de não existirmos (nossas individualidades não passam de ilusão, falsas consciências de Deus regidas por uma, e só uma, verdadeira consciência); 2) NADA é Deus. Esta possibilidade permanece de pé, pois permite que existamos; 3) O indivíduo é DEUS. Incabível. Porém, interessante observar que “3)” não existe senão como subconjunto de “1)”. Deus não pode ser um subconjunto, nem mesmo possuir um subconjunto! Deus não pode existir se há no universo qualquer consciência que levante o problema. Perdemos um deus no momento em que passamos a acreditar nele.

16/08/2008

POR QUE VOCÊ NÃO LUTA?

A visão de que cada nação possui o governo que merece é ilusória e precisa ser abolida. Sequer há o que se pode chamar de nação, e não porque o Estado-nação não respeite nações, mas porque o próprio conceito de nação está seriamente em xeque. Não existe o povo, por mais que o tópico-frasal da sociologia coaja qualquer sociólogo incipiente a dizer o contrário. O que acontece em um país como o nosso é a tendência auto-implosiva do Capital: uma plutocracia que impede o movimento revolucionário, porquanto este só representa perigo sendo massivo. Uma vez que estão destruídas as condições para que ele o seja (tome como base a mídia brasileira, que impossibilita o menor pensamento transgressor), fica na mão do indivíduo consciente a decisão: dada a impossibilidade democrática de atingir minhas metas e a inviabilidade de qualquer negociação pacífica com o Estado e demais forças, baluartes da moral do Ocidente, diria um Nietzsche, eu devo lutar e arriscar a piorar ainda mais drasticamente minhas condições de existência neste mundo ou eu devo me conformar, manter minha propriedade, minha liberdade, enfim, meus direitos civis, minha relação com a família, meus estudos e meu emprego? Parece que, diante de impasse de tal ordem, sempre escolheremos a segunda opção. Mas, para ser auxiliado por um provérbio simples contudo verdadeiro, “nada é eterno”. O que se depreende disso? Aparentemente, o momento da luta pela ruptura irreversível do sistema é invariavelmente empurrado para frente e jamais concretizado. Não há como imaginarmos, de fato, que poderia haver uma “anarquização” da sociedade moderna a ponto de transformar poderios incalculáveis como o produto nacional bruto e o exército americanos em cenários tão imprevisíveis quanto as Farc no território colombiano ou as milícias mexicanas em guerra de trincheiras com o Estado. A própria constituição do rebelde como exceção é a quase refutação de qualquer esperança. Para a vida dos ainda vivos no momento deste texto, e do seu autor, o cenário é tão ou mais desanimador: escolho minha profissão estável, minha ficha criminal limpa e meu conhecimento socrático-cristão a contragosto, mesmo ciente de que são postulados inversamente proporcionais à “sociedade” como se constitui de fato (não passando de idealismos vis, disfarçáveis para alguns, mas intransponíveis para todos), por julgar que só encurtaria minha vida se lutasse contra tudo e todos, ou reduziria cabalmente meu já ridículo quinhão. Faticamente, assim funcionam as coisas. Onde está, então, a mágica que torna o inimigo invencível do homem um respeitante do ditado de que “nada seja eterno”? Nele próprio. O invencível (figura sem corpo, apenas a idéia que temos enquanto somos escravos do próprio Ideal) é a vítima derradeira de seu próprio sucesso. As contradições do Capitalismo tornam-se mais agudas à medida que seu êxito se torna mais inquestionável. Há um ponto de ruptura nas auto-vitórias do maleável Capital e da casca de todo seu conteúdo, a moral do Ocidente. As fendas já aparecem. Existe um momento em que as condições de existência do regime não podem ser mantidas nem que se o almejasse: contramedidas apenas aceleram o colapso, e por mais que tal lição seja aprendida o colapso, em si, não pode ser evitado. Não procede a crítica de Marx de que “o que um homem vê, os outros vêem, ou o vêem vendo”, apontando para o fato de que, se o homem faz sua História, então ao se corrigir o rumo da História que Marx queria levar a cabo, a história realizada é o Capitalismo (Fim da História, no qual já depositei minhas fichas). Digamos que apenas se espera pelo inevitável. Longe de uma visão de espírito (neo-hegeliana), trata-se da constatação, pelo homem que se enrolou no pólo natureza-cultura, de que ele, o homem, junto de seus produtos, é a natureza. E pulsa. Como vida, não pode se negar a vivê-la excedendo o limite “x”. Esse limite “x” é o dia da derrocada do sistema capitalista em decorrência das próprias ultra-contradições e da soma das vontades individuais da grande maioria de manter o sistema intacto (o que implodirá as últimas ilusões de chances que tais grupos poderiam possuir). Não me encarem como um profeta, mas como um bom leitor. Sigamos…: a saturação da moral do Ocidente se avizinha. O tal dilema da escolha pessoal, lutar ou se conformar, deixará de fazer sentido. Será o momento de cada um agarrar sua oportunidade. Obviamente, muitos se recusarão a agarrá-la, mas cada fracasso terá seu papel: amantes da vida precisam de seres humanos inferiores para exercerem sua dominação (paradigma natural). Não desejo ser mal-interpretado. Significa que o homem moderno não rompe integralmente com seu passado, uma vez que coexistirá (e coexiste, pois há homens modernos hoje, embora não no comando do que quer que seja) com os pseudo-modernos, criaturas que atualmente parecem ditar a História e que no entanto não compreendem ou não podem evitar o problema futuro de ter compreendido hoje que não se tratam de indivíduos modernos, mas entes mais fracos, pré-modernos, pré-históricos. A diferença fundamental é que no leme da embarcação histórica encontraremos, na coexistência reformulada do fim do Capital, os modernos. Lembre-se que, coletivamente, ao olhar ao redor, jamais fomos modernos. Se você é um moderno e guarda seu tesouro, sua vida pré-moderna será transcendida e transvalorada logo. É bem verdade que muitos nessas circunstâncias morreram sem ver a verdadeira Aufklärung sangrenta. E outros vão morrer. Mas isso fazia parte da modernidade deles. Há alguns modernos que vêm antes dos outros. Nem por isso são menos modernos. A História está sendo feita, não há Idealismo em minha convicção: é que os modernos dão suas parcelas de contribuição desde muito antes deste texto, que aliás nasceu de seus esforços; e embora isoladamente esses esforços não consigam vencer o inimigo chamado de “o invencível”, quem está tramando, neste exato minuto, em laboratório, a própria e inaudita morte são os pré-modernos, figuras que já divisam sua extinção no horizonte (nenhuma contramedida pode surtir efeito se se permanece no âmbito da visão progressista autofágica). Se há algo de desesperador na vida, é a vida, aquela mesma que cria o sentimento do desespero (e já é um privilégio usufruí-lo!), que recai no auto-perceptível fatalismo. Alguns andam lendo meu blog e me apelidando de oráculo. Porém, eu sou o oráculo do fim dos oráculos: a única e caprichosa meta-tendência quem traça são vocês. A tendência do auto-expurgo do mundo. O Ocidente é um monstro que se come a si mesmo e quanto mais come mais julga o prato delicioso sendo portanto apenas bom senso e não qualquer dom premonitório que me permite asseverar que ele nunca deixará de se comer até que suas funções vitais sejam desligadas – porque ele acredita piamente que está cada vez mais corpulento, quando seu aspecto ao observador alheio (o moderno, imerso no estômago do monstro e que pode ser ejetado na ocasião oportuna) é o do definhamento. E não há meios de um monstro que só triturou tudo com seus dentes de repente aprender a fazer outra coisa… É a natureza desse bicho que se crê anti-natural e imortal. Mas o que é a imortalidade? Tem-se de estar vivo para não estar morto, ou para pensar nesses dilemas. E a vida não pode ser anti-natural, posto que da natureza provém. Portanto, sem sentido, o monstro explode. Esse bicho acredita no Fim da História. Mas a natureza não acredita em equilíbrios…

27/07/2008

O VICE-CAMPEONATO MAIS ARDIDO DE TODOS OS TEMPOS

Originalmente publicado em 3 de julho de 2008. Auspiciosamente republicado hoje para comemorar uma derrota brasileira no Maracanã!

Na virada do dia 2 para o dia 3 de julho de 2008 o futebol se deparou com um dos resultados mais justos de que já se teve notícia ao cabo de uma competição de suma importância, neste caso a glória máxima das equipes sul-americanas, a única escola que realmente importa quando se fala na modalidade, paradoxal e curiosamente, criada pelos sensaborões ingleses.

O Fluminense sucumbiu diante da Liga Deportiva Universitaria de Quito. Esperou-se ansiosamente para que o mundo da bola voltasse a seu estado de coerência habitual (ainda que este seja permeado de caixinhas e mais caixinhas de surpresas!). Explica-se: a própria galgada do time das Laranjeiras à decisão da Libertadores da América foi a mais infamante injúria, um descaminho que nem cem Sobrenaturais de Almeida poderiam explicar. Não foi apenas sorte, uma cadeia de eventos fortuitos. As leis da termodinâmica precisaram ser estilhaçadas durante vários minutos das rodadas de quartas e semi-finais, o que obviamente favoreceu o time que levaria franca desvantagem nos seguintes confrontos: Os Badalados do Rio de Janeiro X São Paulo FC e Os Badalados do Rio de Janeiro X Boca Juniors. Dissequemos a quase-desgraça que se anunciava e que só deixou de se abater sobre o planeta (ou a América, o Planeta Bola) no último instante, roteiro muito semelhante, aliás, a um drama hollywoodiano, em que o final é inevitavelmente a felicidade geral. (Exclui-se da conta os condoídos da longa noite.)

O CAPITÓLIO DA JUSTIÇA

A mídia não merecia. A imprensa nacional – vendida a interesses escusos, que variam de sediar uma competição de envergadura, tal qual uma Copa do Mundo, algo totalmente descabido para nosso patamar civilizatório, à manipulação de horários de jogos e sabotagem moral de equipes estrangeiras – não merecia. A Globo, sobretudo, não merecia – e quebrou a cara (ou as lentes tão caras de suas câmeras pouco ou nada imparciais, se é que é possível divagar sobre níveis de imparcialidade… Não percamos tempo com a raça dos jornalistas!). O Fluminense – de história microscópica diante de outros Golias brasileiros – não merecia. Renato Gaúcho, o técnico mais prepotente do novo milênio, não merecia. Washington, um atacante com dificuldades visíveis de domínio de bola abençoado em uma série de lances pela eliminação temporária das leis da Física, merecia ainda menos. A Unimed e seu patrocínio desmedido – somas desproporcionais aplicadas em uma instituição duvidosa – tampouco merecia. O presidente do Fluminense, Horcades, envolto em corrupção, não o merecia. O FUTEBOL, Ó DEUS DO CÉU, LOUVADOS SEJAM PELÉ, OS DRIBLES BEM-FEITOS, A SEMPRE BEM-VINDA COMPETÊNCIA, A BOLA REDONDA… NÃO MERECIA VER UM TIME RECALCITRANTE SE SAGRAR CAMPEÃO CONTINENTAL! Se me perguntarem “entre a mídia e o Fluminense, fica com quem?”, respondo que ambos se merecem.

A única concessão a essas entidades, retirando-se, claro, o futebol, é o direito ao choro copioso. Quem diria: botafoguenses, vascaínos (estes sempre na sarjeta) e flamenguistas (acometidos de um terrível desastre no meio do torneio), além de muitas outras torcidas, se é que não todas (exasperadas com o pedantismo sem-fim do sr. Renato), são os que deitam e rolam ao mirar a desolação vizinha. O chororô já deu muito o que falar em 2008, mas ainda não tinha assumido PROPORÇÕES OCEÂNICAS como nesta madrugada! O pior é que para as vítimas ainda não foi decretado o desfecho: este poderá vir de forma sobretudo lancinante, à última rodada do Campeonato Brasileiro. A tabela dirá por mim… As promissórias da ascensão precoce do time de Magno Alves à série A no triênio 99-2000-2001, fiada pelo Diabo, vencem em dezembro.

CASUALIDADES QUE ENCERRAVAM UM “MALDOSO” PROPÓSITO FINAL

Um acidente aos 48 do segundo tempo que de repente assume, nas bocas dos fanfarrões, aspecto de “superioridade técnica e tática inquestionáveis”. Massacres, domínios plenipotentes de um time sobre o outro no transcorrer de etapas inteiras, que redundam na ausência de gols, fosse por chutes tortos, fosse por defesas não mais que estupidamente improváveis de um goleiro sem um pingo de talento. Gols nascidos absolutamente no reino do absurdo, sempre um ou dois ou três minutos em seqüência a gols legítimos, auferidos pelos oponentes, equipes verdadeiramente qualificadas (gols que o Fluminense sofria e que devolvia, em surtos de loucura e histeria indizíveis, o que em circunstâncias normais seria um suicídio tático – ataques infecundos seguidos por contra-ataques mortais). Eis aí ingredientes que, detonados pela pólvora da vontade de ser macho de um indivíduo rabugento no comando de onze panacas, fazem explodir o Maracanã: para variar, no sentido negativo. Esses latinos de “abroad” muito se comprazem em murchar nossas surreais ostentações. O Brasil nunca foi o melhor em nada. Apenas em “colocar a culpa em alguém”. Essa é uma especialidade ibérica que migrou para a “nação da cana”.

A pronunciada “sorte de campeão”, que acompanhava o Fluminense há 5 rodadas (que eu chamo de “ruptura das forças forte, fraca, eletromagnética, gravitacional e do que mais a Física um dia descobrir”), se tornou o mais trucidante azar de vice, confirmando a aura maldita do Mário Filho. Tudo conspirou, afinal, para que a soberba do Renatão grassasse a cada dia, para que o time chegasse inesperadamente aonde chegou… até tudo escapar pelos dedos num chute da marca da cal. O próprio Washington, fonte de piadinhas geográficas endereçadas aos são-paulinos (a escala antes de Tokyo onde acabaram por interromper a viagem), foi quem sepultou, ironia das ironias, o “sonho”. Alguém duvida da incapacidade de sonhos que desrespeitam a Física tornarem-se reais? Não preciso prosseguir com a humilhação. Há silêncios que ferem como adagas. Calar-me-ei até o epílogo do ano, quando duas autênticas potências do futebol se confrontarão em busca de um título do mundo: quem ganhar será um campeão válido! Por ora, o simples desenrolar da realidade já se encarregou de sobrepujar a injustiça das últimas semanas…

A CHAVE UNIVERSAL DAS RELIGIÕES E DO HOMEM

8 de agosto de 2009

Em um dos pólos temos a humanidade terrena frágil, projeto passageiro, que um dia sucumbirá diante do Apocalipse. A alma, no entanto, é eterna, porque assim quer o Espírito Santo. O oposto exato se dá entre os helênicos, como também entre aqueles do Leste, os mais velhos do mundo, antípodas destes crentes-no-além: a vida é linear e chega a um termo, embora as gerações se sucedam e reapareçam na sua estrutura de círculo. Todas as crenças humanas através de cada século e milênio oscilam entre essas duas cosmovisões, maneiras de conceber e criar seus universos.

No meu lastro mais remoto, deuses. No espectro mais distante do horizonte, deidades outrossim. O que ocorre para que eu seja tão débil e de carne? Porque apenas os deuses se inferiorizam diante de minha luz! Hoje também estou no Olimpo e vivo com meus irmãos. Nossos nomes serão alterados, mas nossos feitos preservados.

ACERCA DA AUTO-IMAGEM

Texto recuperado de sábado, 18 de julho de 2009 – com supressões para preservar identidades de terceiros

Sobre o incômodo de ser filmado, fotografado, gravado e exibido por aí. Essa “Síndrome de Glauber Rocha” (que declarou que quem se sentia à vontade à frente de uma câmera segurando um microfone deveria ter sérios distúrbios mentais) sentida na carne por quem, após o momento de aperto, pergunta ao amigo mais próximo: “Como me saí?”.

“Esse constante mal-estar, que é a captação da alienação de meu corpo como irremediável, pode determinar psicoses como a ereutofobia; tais psicoses nada mais são que a captação metafísica e horrorizada da existência de meu corpo para outro.” SARTRE, Jean-Paul, O Ser e o Nada, p. 443 [negrito meu]

Quanto mais amor-próprio, mais náusea (a nomenclatura é sartriana) diante dessas representações “objetivas”. A prova de que eu não estou equivocado é que me gosto ao espelho. Talvez já não me goste no espelho do elevador, acompanhado. Talvez deteste essas minhas extremidades anti-Popeye. Gostava de ser tão maior que minhas namoradas – estilo protetor. Outrossim, o beijo é sempre belo. Não cheguei à louvação do sexo-espelhado de D., no entanto!

Deve ser a natureza da lente viscosa do equipamento, que tira meu brilho e minha luz. O sol é meu amigo! Os lixos se sentem coesos entre si. Mas basta ver uma mulher para saber que ela se detesta quando acorda.

“Diz-se comumente que o tímido se sente ‘embaraçado pelo próprio corpo’. Na verdade, esta expressão é imprópria: eu não poderia ficar embaraçado pelo meu corpo tal como o existo. Meu corpo tal como é para o outro é que poderia me embaraçar.” Ibid.

Ninguém tem vergonha de sua voz idiossincrática. Minha neurose platônica: quem sabe os outros me percebam como eu realmente sou! Desses trastes, quem é que consegue se ler imaginando um ser brônzeo como eu detratando aquilo tudo, aquele castelinho de areia? De pavão a verme num segundo.

Narcisista? Eu diria que esse mundo da super-exposição é o contrário! Álbuns do Orkut: como alguém gostaria de ser visto. L., a magra. T., o sério. Eu, o melhor. Ma., a mulher. B., a sedutora. Me., a misteriosa, psicodélica, elegante. Tai, a audaz. Iza, a mínima. Tc.: ainda mais bela e irresistível. Dh.: suprema e centro do universo. S.: o eterno boêmio. F.: a despojada. Mas eu… eu matei meu alter ego, me tornei o alter ego dos outros. “Que foto horrível!” “Obrigado pelo elogio, sem tonsilas!”. E aí vem a tendência das fotos de banheiro, das fotos de chupeta…

Concluindo: não se trata de uma lei “quão menos satisfeito consigo, mais o sujeito se apreciará em terceira pessoa”; o artista é a refutação disso e é o meu ideal. Ele se exprime bem. Um texto meu é o ápice da beleza. Devo maximizar isso corporalmente. Creio que vim tendo o êxito que é possível. E, aliás, quanto à lei, pelo contrário, eu até exagero nesse desagrado. Uma gorda horrorosa seria realista. São “sem conserto”: a vantagem da graciosa. O fraco: desenvoltura que parece maior na foro (“sou ela!”).

Outra coisa: por que sempre me decepcionava com as fotos dela? Se já a via assim! Fusão de essências?

Explicação do meu ideal e síntese do meu dilema amoroso:

O que se sucede é que meu tipo de arte vai CONTRA toda a estética. Só mulheres esquisitas podem vir a gostar de mim. Mas minha carga já é forte demais para eu ter o mesmo tipo de preferência… Eis o impasse! É como se houvesse dois Rafaéis: o jovem hedonista de 21 e o mestre trágico par excellence. Eu quero a bela, harmônica, simétrica, sensível a minha assimetria.

“jamais encontro meu corpo-Para-outro como obstáculo; ao contrário, é porque nunca está aí, porque permanece inapreensível, que tal corpo pode ser importuno (…) Eis por que o empenho do tímido, após constatar a inutilidade de suas tentativas, consistirá em suprimir seu corpo-Para-outro.” [sublinhado meu]

ADEUS VIDA BOA

Escrito originalmente em 13 de março de 2009

Deve significar alguma coisa o fato de eu morar no quinto andar, ter 20 anos de idade e uma média normal de ascensos e descensos e nunca ter ficado preso no elevador. Qual seria a reação de um aparvalhado que se vê preso em uma caixa de metal? Chamar alguém, apertar botões, resignar-se? O celular deveria ser usado apenas de terça a quinta, se é que se me entende.¹ Não sendo emergência digna do Corpo de Bombeiros, o telefone serviria tão-somente para avisar os pais. Descendo ou subindo? Indo ou voltando? Sozinho e faminto? O fluxo burocrático e estomacal também fazem a diferença. Se acompanhado, do sexo oposto? Quão íntima? O mais curioso é que nesses casos – sempre, aliás – o vizinho é o menos próximo. Sou muito mais vizinho dos mendigos e dos “inganados” (perdão, ingazeiros) que do Aloísio. Perder-se-ia uma prova ou um dia de trabalho? Ou um gol do Ronaldo…

¹ Post-scriptum 11/03/2021: Meus pais nunca estavam por perto entre sexta e segunda-feira.

Quando escrevo, explodo. É a única forma de “dopar” minha acelerada pulsação mental. Doutores indômitos receitariam drogas. Acho que não preciso de drogas receitadas…

Preciso ser contra atletinhas de futebol americano, namoradeiros e namoradeiras incipientes e, sem dúvida, universitários sem noção do ridículo e do vidro blindado. Por que não largo esta caneta soerguida por algo flácido e promovo gastos de energia melhores? Talvez eu devesse ouvir a fase pop do Metallica, ler meu trigésimo quinto livro – nessas férias – ou simplesmente filar alguns salgados… Durante todo o jantar de gala, quem riu de maneira mais franca de meu humor tolo foi a empregada. Aliás, é preciso que essa hesitação em hora de chamar o servo pelo nome seja pontuada. Ter vergonha de ter um subordinado – porque o real embaraço é não saber lavar os pratos.

Quanto ao iPod, ele é o novo cachorro: a equivalência em miniatura do dono, só que um pouco mais esperto.

Acabo de desentalar minha garganta – em tempos de inchaço. Maldita e derradeira estação.

Uma coisa que andei notando é que todos aqueles que precisam ser rivais eternos só não rescindiram o contrato – ou perfuraram o duelo – por ocasiões extraordinárias. Exceções das exceções, a exata probabilidade de complexos de molécula virarem célula, é do que chamo:

  • Meu vizinho e amigo de infância e sua família tão elevada (“eles rezam muito, eu já estou no céu” – e eles têm três carros, eu sou Napoleão!) jamais terem encontrado referências negativas deles mesmos em mim – falo mal pelas costas e sobretudo pela frente, porém, quando mais seria necessário, para o blog leitor não há! Um mundo de malversações que se dissipa sem que o afeto pelo filho seja sequer ameaçado – talvez a mais grave ofensa por mim praticada, a seus olhos lívidos, seja meu cabelo grande. “Vais pegar uma pneumonia!”

  • Meu pai segue inabalável como herói e anti-herói da trama;

  • Aqueles que deviam ser esquecidos e deserdados voltam como bumerangue! E aqueles que, penso, estão no rol dos lembrados, estes são bumerangues falsificados. Luciana “do Bar” e tucano malvado prosseguem no jogo – peões. Mas não a prima do curitibano abobalhado. Priscilas e Patrícias diante das quais o melhor é não fazer nada.

CONSIDERAÇÕES AMBÍGUAS A RESPEITO DAS PERSONALIDADES NA HISTÓRIA (Série RETROCEDER, capítulo VIII) (republicação)

Texto originalmente publicado em 8 de julho de 2009, porém escrito (sem boa parte dos parênteses) em 22 de março de 2009

PERGUNTA: Como a história se divide em dois, ou melhor, como precisamente ela se desenrola, tomando por base os principais autores e idéias dos espectros trágico e cristão que conhecemos? O tempo retilíneo cristão dá sinais, pelo meu intermédio, de que não tem a mínima capacidade de contra-atacar. Uma segunda pergunta é: eu tenho uma repetição na História circular, assim como um antípoda perfeito? Na verdade dir-se-ia que tenho infinitos, mas só preciso de um (dois) exemplo(s), o igual e o imensamente diferente – as sociedades, por mais contingentes, também parecem obedecer tão-somente a uma dupla de deuses, que se revezam no trono (Dioniso e Apolo).

 

Se temos Nietzsche e Sócrates, as duas pedras-de-toque do movimento da roda, resta uma indagação: se o alemão está “na base” do círculo, Sócrates está a 360° dali – ou seja, ALI, num novo círculo –, a 180° dali (no ponto mais distante do primeiro no perímetro da roda)…? E uma segunda indagação: se Nietzsche e Sócrates se encontram em opostos, o caminho de um a outro é uma “marcha a ré” ou uma seta de mão única? Se o primeiro for verdadeiro, é um semi-círculo e não uma circunferência. Além disso, os primeiros pensadores que vêm depois de Sócrates são “iguais” aos primeiros depois de Nietzsche (embora de sinal trocado) ou iguais essencialmente aos últimos antes de Nietzsche (decorrência da dúvida do fluxo)?



Obviamente, não existe alguém idêntico a mim depois de Cristo, tão-somente um perfeito anti-eu. Meu próximo eu, assim como meu eu anterior, são impossíveis de encontrar em registros históricos e estão, respectivamente, no fim da próxima era cristã e no começo da era grega (aqui eu ainda não havia desenvolvido o pensamento circular completo!). A questão não aborda, portanto, dois Nietzsches (espaço de 5000 anos, do que nada sabemos), mas um Nietzsche e um Sócrates e como essa dicotomia se constituiu. Se os pós-modernos são sofistas, parece que a roda está girando em sentido contrário (exatamente!). Então, retrocedendo (talvez o leitor mais atento já tenha entendido por que escolhi o termo acima para batizar esta série de resgates de artigos), encontraremos o legado de Sócrates: Marx é Platão, Hegel é Aristóteles. São Tomás é Agostinho.



Operação inversa: se os estóicos e os eudemonistas são os existencialistas, Zenão e Epicuro seriam Camus e Sartre (retificação póstuma: Zenão e Epicuro são posteriores a Sócrates!). Homero seria Shakespeare. Cristo estaria vindo… Ou quem sabe já veio… Quem seria meu antagonista ideal (eu já me fiz essa pergunta infindáveis vezes)? Alguém lutando por ordem antes do surgimento de Sócrates faz mais sentido que depois… Do lugar onde estou não posso analisar, dados os pontos cegos? (Ou talvez eu não queira analisá-los; ou não se pode tirar conclusões; ou as conclusões que se podem tirar são que “as peças não se mexem após esse acréscimo de sabedoria”.)



Inconcluso (intensa pesquisa histórica dos séculos VI a.C. a III a.C.? Se eu tiver descoberto uma lei do cosmo eu terei sido implacável na minha busca pela Verdade. O que um gauche aspirante a professor preocupado com seu futuro de longo prazo teria feito para se resolver?).



Prever quando um gênio irá nascer e o que ele terá para dizer”



Comte ficou datado muito depressa” – corrobora a contra-mão



(Três dias depois desse manuscrito durante uma aula na universidade eu teria a idéia de escrever “Hegel, Marx e Nietzsche: Aristóteles, Platão e Sócrates de cabeça para baixo”, como se anteviu pelo fim do penúltimo parágrafo – vide arquivo –, o que responde algumas das dúvidas listadas acima (já “proto-respondidas”, em negrito). O “pulo do gato” foi ter lido a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, de autoria do jovem Marx.)

REFLEXÕES (SOBRE TOLSTOI, NABOKOV E OUTROS)

Publicado originalmente em 4 de janeiro de 2009

“Exprimia uma vontade de sentar-se debaixo de uma árvore no meio do nada e nunca mais ser encontrado”

Escrever um livro: só quando eu tiver o meu espaço, os meus pensamentos, o controle sobre as coisas e, o principal, poucas coisas.

Pensei em alguém com um colchão e um conhaque em um cômodo – cubículo – de paredes descascadas. Havia ainda um lavabo mínimo e uma “louça de cozinha” – na verdade outra pia simples, no próprio quarto. Seu hábito preferencial é caminhar sem trajeto fixo enquanto fuma e pensa. Pensa cometer um crime. Está desempregado e seu dinheiro se aproxima do fim. Não pensa em pedir auxílio para a família. Retraiu-se, escondeu-se de todos os amigos, desde que está alojado ali. Fará uns bicos por alguns fins de semana. Lavar carros, atuar como garçom. Mas não pensa em converter mais nada em rotina. Pensa na prostração que o levaria à morte por inanição. Mas se julga de índole fraca para isso – acabaria desistindo. Talvez um crime banal e a reclusão com subsistência subvencionada pelo Estado? É branco e sua família acabaria por interceder. Um jovem de berço ligeiramente nobre já não pode pensar em uma vida de cárcere… A não ser que fizesse da fuga sua única constância. Que matasse alguém que não podia matar e tivesse de se considerar um foragido irrecuperável. Matar o pai! Brilhante, porém nada inédito. E agora tudo não passava de idéia mal-resolvida… De sua vida pregressa, nada se sabe OU não se trata de alguém demitido, mas de um professor que declinou do magistério – e que antes disso se envolvia com alunas, estabelecia rixas com seus colegas e adulterava provas. Tinha toda a capacidade normal atribuível a um jovem recém-egresso de um bom curso de sociologia. Dir-se-ia que suas leituras complementares até excederam sua formação superior – ele sentia que sabia até demais. Fosse por relativa insegurança na transmissão do conteúdo em sala, pela falta de sentido disso ou por não encontrar público real para suas palavras, o mérito é de difícil julgamento, recusou-se a respeitar as normas de seu ofício. Uma catarse? Uma vingança! Decidiu não mais simular indiferença em relação às cantadas das garotas. Teriam 15 anos, assim como todos os meninos. E nenhum entendimento da vida que os esperava nos próximos dez. Muitos pegariam em revólveres, fariam supletivo porque haviam largado a escola ou iriam conseguir, eventualmente, uma bolsa para se formarem. Mas não seria comum. Não seria interessante. Melhor pensar que todos os alunos não passavam de imprestáveis, lixos sociais. Teria sido então que seu apreço pelo ser humano havia decaído tanto que automaticamente matou. Acasalou com a pupila e depois sentiu nojo – decidiu ignorar que tivesse pais ou a obrigação de ir à escola no dia seguinte. OU como cometer um crime? São muitos eventos, mas nenhum dignificante para um escasso grande homem. Seu dever autorizaria sua morte, seu ingresso no anel, seu infinito, sem um grande ato? Decidiu amealhar fundos para conseguir exibição nacional: excesso de cocaína e invasão do congresso? Não, bobo demais. Talvez se tornasse um traficante e com isso se comprouvesse. Os objetivos se tornaram pequenos demais. Nada de ser pássaro-apolíneo-solitário.

…Essas idéias são boas, mas o ideal é “normalizar” o personagem e elaborar um elenco que interaja bem.

CONHAQUE E ALL-STAR PRETO: SONHOS DE UM EX-FUTURO PROFESSOR

5 de agosto de 2008

Algo me aflige. E não é como antigamente. Subitamente sinto-me atrofiado: faz tempo que não utilizo polegar e indicador para escrever (a dupla dinâmica). E já há um tempo o ruído do ônibus da madrugada me seduz. NÃO É COMO DAS OUTRAS VEZES!

Não quero mais compartilhar esse excerto – como faria em janeiro, em julho, dia 4 de agosto…

Do que eu preciso? A solidão é a companhia pela qual meu coração neste segundo bate forte. As asas libertadoras da moral dos pais.

Estou farto de não poder caminhar, fumar e ser livre. De escrever o que devia FAZER.

Pouco valor tem a forma. E o conteúdo – se mentira. Passemos à natureza:

Rotina, tempo, submissão – 3 problemas.

Contingência, desamarrar-me, voar.

Neste verbo há algo de encantador: na minha insônia, muito mais. Quero a bem-aventurança – e nada de herança. De que me vale a avareza?

Ninharias. Eu, podendo, atirava fora a TV. Lembrei-me há 10 minutos do Carlos Gomes. A cibercultura –outrossim a Morte de GAIA (o que fazer?).

Quero caminhar até saber o que fazer. Já NÃO DEPENDO DE NENHUMA PARAFERNÁLIA ELETRÔNICA, NEM STRICTO SENSU… Que diabo é o latim?

Eu sou, de fato, MANÍACO?

Vêm meus surtos piorando?

Poderá ser uma virilidade extrema que a sociedade mata. Mas encontro chaveiros esparsos, se as portas estão trancadas!

Ludibrio… com a linguagem.

A resposta da RUA está na CASA.

Uma geladeira dispondo de conhaque; tênis e meias sempre embotados. A esquina, moradia. EU DEMANDO SOLIDÃO. SOLIDÃO INCLUSIVE OBJETAL.

HEGEL, MARX E NIETZSCHE: ARISTÓTELES, PLATÃO E SÓCRATES DE CABEÇA PARA BAIXO

Texto originalmente publicado em 26 de março de 2009

Na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, o Marx jovem lança os postulados da sua futura filosofia iconoclasta trans-moderna. A partir da página 108 (edição de A Questão Judaica que contém o excerto no apêndice) a covardia alemã e o estado de subserviência da cultura teutônica tornam-se palpáveis.

Quais são os principais sinais de que uma cultura começa a evaporar (entra em decadência)? Um inequívoco é a transformação do que foi trágico em Comédia. O Estado alemão do século XIX, comandado por kaisers que tentam ser ingleses, é a sátira do Antigo Regime. Segundo Karl Marx, tendemos a nos despedir de um processo histórico de modo alegre, rememorando suas facetas risíveis. O mesmo se sucede hoje, na Pós-Modernidade: todas as Artes e todas as Ciências são auto-comediantes. Chegou-se ao ponto de as comédias de comédias proliferarem: Guerra nas Estrelas, uma paráfrase cósmica dos combates épico-medievais (George Lucas bebe da fonte de Tolkien), é a série campeã de referências divertidas nos filmes e seriados americanos. No âmbito político, ver Chávez, o Carlitos do Socialismo, o último adeus da alternativa falha ao Capitalismo clássico.

Voltando à Alemanha, inscrevia-se o país em uma situação tão peculiar que se poderia defini-la no entreposto entre o esgotamento do mundo idealista e o não-saber-o-que-fazer. Isso implicava refutar qualquer filosofia e, tacitamente, aceitar o destino fatal, o cumprimento da mesma filosofia (de qualquer modo, a maneira mais ágil de transvalorar, se não fosse a única)! Se tudo por enquanto (anos 1840) fôra teoria (imaginação), amanhã o que faríamos não seria prática, mas tão-somente reflexo do que viemos a ser… Até que o movimento iniciado gere um colapso extraordinário e outro projeto renasça das cinzas – Holocausto? Por colapso sem proporções, certamente quer-se dizer o fracasso e a humilhação alemães, o débito pelo progressivismo tedesco no século em que a Inglaterra não queria guerrear.

A Alemanha havia cumprido sua função intelectual antes do mundo – Hegel é quem disso se apercebe, sendo simultaneamente aquele que arremata esta compreensão, assim como um protagonista de García Márquez fadado a desaparecer lendo um texto sobre si –, mas parou em 1900. Os dois filósofos de mais renome que sucederam Hegel são os pássaros do devir do mundo moderno.

Hegel percebeu que quando o homem se dava conta de que estava preso numa cadeia de fatos já projetados, aí nascia a História. Marx apenas reforçou esse juízo com sua pseudo-inversão. Talvez Nietzsche não tenha reforçado muito mais, porém foi categórico. O que é do futuro do projeto realmente autônomo é de lá e é apenas uma meta do observador daqui, QUE AINDA NÃO SUPEROU A SI MESMO. Marx se engana no derradeiro pingo de seu trabalho, quando, consciente de que o homem que ainda não se superou jamais teria respostas definitivas para problemas como esse (simplesmente o da auto-superação da humanidade!), ainda assim afirma que a chave da transvaloração é o proletário. Nietzsche não cita diretamente nenhuma fórmula capaz de subverter o Cristianismo, o espírito iluminista e os Estados-nações. Não há fórmulas. A fórmula é decidida pela própria existência a cada segundo transcorrido – a única menção mais clara de Friedrich Nietzsche ao atingimento do Übermensch consta do princípio de Vontade de Potência e é um duplo alerta: caso as categorias do niilismo se mostrem invencíveis, justo no momento em que o homem teria mais força e capacidade para ultrapassá-las, tendo chegado tão longe, isto significaria que ou os modos de produção não estão maduros o suficiente ou ainda não se encontrou o modo adequado. Talvez essa seja a linha mais enigmática do legado deste último filósofo, o Sócrates depois de Cristo. Provavelmente as duas coisas vêm juntas, e ainda que não se possa pressenti-las no horizonte o pensador do martelo, morto em 1900, nos envia preces otimistas (especialmente a nós): não importa o dia em que cheguem, os novos valores um dia vão chegar…

NOTA CONCLUDENTE: Por incapacidade total de que me entendam adotarei silêncio rotundo e constante sobre as coisas da vida em conversas. Lembre-se sempre: é melhor para a alma forte ser centrípeta que centrífuga, e aliás é o único pathos que ela conhece para si. Respirar o ar do crepúsculo e sê-lo, ser mais imperioso que qualquer jovem, que quaisquer pés sobre o asfalto. Auto-satisfação comigo mesmo e com minha majestade. A onda do mar navega milhas e milhas antes de arrebentar. Escolherei o pedregal.

MINHA INTEMPESTIVA III: DAS VÁRIAS METÁFORAS QUE EU ENCARNO

Publicado originalmente em 7 de fevereiro de 2009 – editado

“Eu me arrependo de tal coisa.” Essa é uma frase corriqueira em nossas vidas. Mas tão comum quanto perecível. Quando se tem maturidade suficiente para se aperceber dos jogos de ação-e-reação que nos constroem e do papel do sentimento de culpa em cima de nossos atos, enfim, quando o sujeito apreende a “irrevogabilidade do crime” e enceta a direcionar seus erros a seu favor, tem-se finalmente autoridade para proferir a frase: “Todo arrependimento tem uma data de validade”. Se nem todos têm, é melhor embarcar na ilusão de que determinada ferida irá cicatrizar – ou não se consegue viver uma vida. Atente para meu exemplo: pelo menos um ano me arrastando em sonhos para ser readmitido no Colégio Militar. Mas eu engolia o dissabor com meu orgulho de leão (e não de pavão, que é um ser belo porém fraco) e não contava a ninguém – muito menos aos pais. Eis que quando a oportunidade se insinuou, piscou, tremeluziu… eu já me havia apoderado dela. Bingo! Todo arrependimento é vencível – seja pela ação do tempo, seja pela labuta individual (obviamente, essa é uma categorização como todas as outras: falsa, pedagógica).

Eu não me arrependo de descartar amigos. Talvez eu me arrependa de não descartar mais… Tenho de reconhecer que meu lugar jamais foi fora do reino burguês. Apesar de jamais ter sido dentro. É hora de cortar os laços que ainda restam para ser cortados. Não tenho mais amigos ricos e frescos. Sou tão estranho no ninho que ainda que com um bom porte, roupas adequadas e um celular da moda, não me confundiriam com um deles. Portanto, as badaladas do relógio hoje indicam: é tempo de se desfazer de quem te olha com estranheza não por estares de fora, mas por estares intrometido. Como disse, arrepender-se é ou precipitado ou vão. Claro que se trata de figura de linguagem – todo ser humano se arrepende e ponto. Resta saber, contudo, o que se faz a respeito dessa angústia de não poder alterar o passado.

Minha vingança é atroz porque me vingo de mim mesmo. E quando reconheço o erro, resta muito pouco para os idiotinhas fazerem. Quem sabe já se conformar com o prejuízo seja a melhor saída para eles. Um ex-amigo que está indo para o saco nesta temporada chama-se *******, o adolescente de meia-idade, o Peter Pan ébrio e urbanóide que se dedica ao ofício de ser o contrário do que a cara estampa a cada finalzinho de semana, para descontar a frustração existencial. Evidentemente, a cada criancice, o ser humano faz questão de propagar sua moral antípoda: “aprenda com os mais velhos”. Precisa de um Cristo a cada sexta-feira porque a mão está cravejada de calos demais para que dê outros três passos adiante com a cruz nas costas. Talvez a madeira deste Pinóquio esteja tão podre que ele não se vê mais capaz de pressentir o mal que devém. Ele espera que um terremoto o avise, sem embargo o tremor de terra é o próprio mal do qual ele deveria ter sido alertado…

Um pobre diabo desses, quando cair em si, vai notar o bilhete premiado que lhe escapou pelas mãos graças ao vento e que, quando estava prestes a reaver, escorreu pelo bueiro. Por um acaso um bilhete se arrepende de não ter sido de algum vencedor? Se não se está com o bilhete, a vitória é só um sonho perdido. O bilhete faz o vencedor. Nem que passe a ser benquisto, para o próprio gozo de si, o destino de se colocar fora de qualquer alcance no submundo, e deixar a mesquinhez lá em cima se acumular. Se todo o ouro volta ao dono, o único dono é o fluir ininterrupto, porque nesta aventura não há retorno – e se houvesse o dono já não seria o mesmo.

É chegado o momento, em suma, de singrar por novas águas, o que implica a deserção de marujos saudosistas em excesso. Nada de velhacos com manias de meninice, nada de bufões. Daqui em diante, que o capitão prepare o convés, a proa e o casco – e, porventura, se algo der errado, o bote salva-vidas.

Há dois anos que não me apaixono. Quantas recaídas? Vou me sujar de novo? Me sentar naqueles sofás carcomidos por traças?

Aos parasitas: aqui estão as chaves, mas é bom olharem para o chão antes de entrar, porque esqueci de dizer que moro numa imensidão. Uma imensidão que para pequenos praticantes da punga não tem nada de inteligível, é só uma queda no vazio.

Eu sou perigoso. Não ofenda o solitário. Eu não tenho absolutamente nada a perder, em nenhuma transação termodinamicamente cogitável. Um espírito como o meu — possui a sabedoria de cem deuses, e o conhecimento do veneno específico de cada um que tem o azar de me surgir como pusilânime. Principalmente os outrora-outra-coisa. Eu emito sinais claros de que estou prestes a fazer uma “burrada”. Como não se precavem, os vizinhos indômitos levam um caixote: do cimo da onda – domadores do mar! – aos arrecifes. Se ter Napoleão como escada é o ideal, a meta máxima, tombar dessa escada deve ser o que deixa o cotovelo mais roxo: e se alguém nunca está tão elevado quanto quando sobre um lance de escadas, também nunca esteve em maior risco. Eu sou o homem-dos-riscos. De que me importaria o juízo alheio, se só eu me leio?

O trapézio que eu era, o palhaço que eu fui, viraram o fogo dos aros, as facas dos alvos e as luzes do palco. Sem mim vocês não são nada. Mas comigo estarão mortos ou ofuscados.

DESENCANTO E REENCANTO DO MUNDO

Originalmente publicado em 22 de janeiro de 2009

Lendo CartaCapital e a matéria sobre o barulho crescente de São Paulo e juntando isso com o Necrose de Edgar Morin eu cheguei a um importante insight: contrariando – ou, antes, solvendo a dúvida da – minha nota prévia (abaixo) sobre o horror nuclear, o grande fenômeno que parece demarcar o início da derrocada do Ocidente e que sucede imediatamente o ponto máximo da era fabril é mesmo a Segunda Guerra Mundial. Agosto de 1944, para ser mais exato. Neste momento os embriões congelados das criaturas e coisas trágicas começam a fermentar. Este é meu procurado “turning point” da transmutação de todos os valores. É a este momento de sangue semita-japonês que Nietzsche se referia com garbo meio século antes. Apesar de índices enganadores como o neoliberalismo pujante dos anos 80-90, isto já é decadência, pois o fôlego dos Estados representou a espoliação das massas, assim como o poderio soviético nos anos 50-60 é a demonstração de que a assim chamada cultura moderna não consegue sustentar seus ideais, embarca com fé numa nova solução, uma resposta para a crise, a qual irá tombar.

A Liberdade, dilema sempre central – cuja apoteose se deu na Revolução Francesa, durante a qual o homem estava no ponto-médio entre o servilismo feudal e a escravidão humanitário-democrática (julgando-se vitorioso sobre a primeira condição e ignorante da segunda) –, chegou ao paroxismo da sua auto-destruição com vistas a tornar-se soberana: abdiquemos de nossa liberdade individual, como autores de escolhas, e sacrifiquemos o czar, defensor de uma liberdade antiga e ultrapassada, para que as vozes sábias do Partido Comunista nos ordenem como há de ser daqui em diante, sem Deus. Esse era o teor do discurso, se pudéssemos ter ouvido francamente.

É conhecido o cenário vigente de proto-deuses que ainda concorrem para tomar o lugar da falida deidade cristã, do envelhecimento e pacificação da população, da desertificação, da mentira do crédito e da busca pela vivência alternativa, seja ainda parcialmente consumista ou radicalmente eremita, mas sempre mais “Gaia”. A aceleração que é ininterrupta ao expectador é aparência. Não existe expectador, todos estão do lado de dentro do trem-bala. Talvez por isso não percebam, mas a sensação de velocidade se intensifica não porque os trilhos sejam percorridos mais rapidamente, mas porque as edificações do último milênio vão desabando em ruínas como nunca antes. Se Guy Debord soubesse que seu retrato não passa de aparência…

Este escrito é de alguém lúcido, no olho do furacão. Minha única ressalva é: não admito a ingenuidade de que novas catástrofes não ocorrerão e que a transição será tranqüila – vide proliferação nuclear entre nações do Terceiro Mundo. Intentei apenas descrever qual momento histórico era o ápice da contradição, entre tantos episódios, passados e vindouros.

Escrevi em 7 de dezembro (com reformulações na data presente para tornar o manuscrito acessível):

Terão sido as Guerras Mundiais e a Guerra Fria – o século XX – o estopim do processo de loucura niilista por que perpassa a humanidade, ou a a-humanidade, o ocidente decadente? Teremos a tranqüilidade de dizer que doravante o anel exibe sua curva ascensional rumo à idade de ouro trágica? Ou é necessário mais um esforço, um empenho sublime, um contagiante acesso de fúria, uma alta da maré tanto mais feroz para nosso século quanto o que a onda nazista representou para o rochedo outrora tão vacilante, inconsistente? Este, o rochedo da capacidade de assombro humano – o que hoje nos assombraria, para além de duas nuvens de cogumelo? O que será isso, ó Mãe-Natureza? De uma coisa tem-se a certeza: não existe fim de mundo, ou fim da História…

“No princípio, era a ação!” Wolfgang von Goethe

“O sociólogo precisa entender o que é apurar necessidades. Eu trato do que é inevitável a longo alcance.” O Autor

“Existem pessoas centrípetas e centrífugas. Algumas empobrecem sua essência ao longo da vida, dissipam suas energias. Eu reúno o gasto sem propósito ao meu redor para realizar meus projetos” O Autor

A VENDETA E O MAL-ENTENDIDO: O CENTRO, A LENTE E O REBANHO

Originalmente publicado em 13 de janeiro de 2009

Hoje a chamada “instância central” dita o comportamento humano. Porém, não existe qualquer fonte objetiva – mediana social – quando se fala em homem. O indivíduo contemporâneo é apenas uma planta adulterada – o rascunho original está perdido. Com respeito a qualquer grandeza e dignidade na palavra “homem”, elas vêm do próprio ente, não da transferência de responsabilidades ao vazio. A proibição da vingança pessoal é o indício mais claro dessa falência moderna do homem: o Estado é o responsável por julgar, vigiar a condenação, condenação que ele próprio criou… Mas quem é o Estado? Não se trata de um homem maior e mais poderoso – trata-se da covardia dos pequenos reunida. Sentimentos agregados de vergonha jamais fariam frente a um gênio indivisível, ainda que renegado – por isso nem se pode falar em Napoleão, que já em seu tempo foi a esperança do “século”, até sucumbir à máquina burocrática.

Quando o Estado é questionado há cheiro de grandeza – ressurreição? Exceto quando esta revolta é inspirada por outro “centro neutro” ao invés das pessoas. De novo a ingerência do espaço vazio! A lente midiática atua como um segundo detrator da verdadeira assunção de responsabilidade. É um Estado sem sede ou exército – ou talvez essa assertiva seja muito ingênua. A vendeta da televisão é apenas outra cadeira elétrica. Não há aí punição com as próprias mãos. Há apenas uma sujeira anônima – no íntimo, esse anonimato é uma confissão de culpa geral, em uníssono. Uma sociedade que gostaria de ser queimada na fogueira. Quem é o carrasco?

A conversão da imprensa dos magnatas em “cada um emite a sua notícia”, paradoxalmente uma tendência em propulsão graças a um grupelho de bilionários, que começa a falir os jornais e vê a infinitude dos blogs no espectro, é uma resposta inicial de uma mãe-natureza que nunca morre, de uma história que não acaba. Digamos que daqui a duas décadas já esteja bem mais claro o “olho por olho”. Eu quero ser reconhecido por isso! Quem grita mais alto passa a ser ouvido: a atração será a magnitude do próprio eu, nada de cunhadismo – que cunhadismo? Um brasão de família que volte a arder! – ou venalidade. Já há blogueiros que não silenciam barato…

A ÉTICA PROTESTANTE E O “ESPÍRITO” DO CAPITALISMO 2.0

Originalmente publicado em 10 de dezembro de 2008

[Com múltiplas alterações]

GLOSSÁRIO INTRODUTÓRIO

ANABATISTAS

Ana – outra vez; i.e., de novo um batista (protestante). Vertente radical, atiçava camponeses a se revoltarem e pregava um retorno ao cristianismo primitivo, considerado por outras ordens cristãs como pagão. O “ana” foi acrescido pejorativamente pelos rivais, uma vez que esta seita extrema se caracteriza por permitir o batismo de – e só de – adultos. Como um adulto é geralmente um bebê que um dia fôra batizado por um padre católico, tem-se um re-batismo.

ANGLICANOS

Hibridismo entre a Igreja Católica e o protestantismo (os pastores têm autoridade sobre o rebanho, como o padre). Criticados pelos demais protestantes graças à suntuosidade cerimonial recorrente.

ARIANOS

De Arius (séc. III d.C.), que era contra o dogma da Santíssima Trindade. Jesus não era Filho de Deus, mas um homem mortal que não ressuscitou. Testa-de-ferro do antissemitismo (utilizada por outras seitas que não queriam essa mancha). Curiosamente, um judeu diria o mesmo sobre o Espírito Santo, Maria e Jesus… A diferença está somente em que cada qual pensa que é o povo eleito. Mas não percamos tempo tentando adivinhar ou interpretar o porquê de tantas sutilezas absurdas… O cristianismo não é coerente, como nenhuma religião apresenta elevada coerência interna fundamental.

BATISTAS

Bastante descentralizados em suas paróquias. Seguem o texto da Confissão de Westminster (1647). Alcunhas: “os independentes”, “congregacionalistas”.

CALVINISMO

Predeterminação do destino da alma. Calvino condena a grande maioria ao inferno de antemão.

CONFISSÃO DE AUGSBURGO

Rompimento formal com o papado.

CONFISSÃO DE WESTMINSTER

Melhor síntese da fé calvinista.

LUTERANOS

Pouco tratados em Weber. Um traço essencial que os distingue dos calvinistas: são mais ecumênicos e hierárquicos, estando mais próximos do catolicismo. Após o séc. XVI os luteranos recusaram em geral o epíteto de “reformadores” ou de “religião reformada”.

METODISTAS

Luteranos dissidentes dos luteranos ortodoxos. Americanos.

O PROBLEMA DA TEODICÉIA OU DIREITO DIVINO

A tentativa de explicar a injustiça do mundo, que emana de um Deus Bom e Todo-poderoso. Cerne da contradição lógica das religiões monoteístas. Recorre-se à retração da onipotência de Deus para que o livre-arbítrio torne-se possível, o que gera outros problemas derivados.

PIETISTAS

Surgidos do luteranismo, um século depois. Maior ênfase na interpretação da Bíblia, para a qual tendem a chegar a conclusões (não deixar versículos com significação ambígua em aberto). Ultra-moralistas.

PRESBITERIANOS

Ingleses que, diferentemente dos anglicanos, não são organizados em hierarquia.

PURITANOS

Não admitem qualquer igreja. De certo modo os calvinistas são um subconjunto dos puritanos. Outros puritanos – como os quakers – são ainda mais extremistas neste critério. Ultra-moralistas idem. Sobre a relação controversa entre puritanismo e calvinismo: “Para Weber, o puritanismo é cria do calvinismo, [embora] nem sempre [de forma] direta”. Weber, por praticidade, pode se referir ao conjunto dos protestantes, quando não com esta palavra, por “puritanos”, englobando todos os cismáticos (luteranos, calvinistas e todas as seitas aqui enumeradas).

QUAKERS

Protestantes radicais. São contra a igreja física e a instituição do batismo. Advogam que a consciência é a única ferramenta do fiel em sua dúvida quanto à salvação. Reúnem características pragmáticas que os filiam ao que há de mais capitalista e ocidental. Fortemente individualistas; presença na política ianque (origens do Partido Republicano).

RABINISMO

Judaísmo tardio.

SEPTUAGINTA

Uma seleção limitada dos livros do Antigo Testamento considerados canônicos, traduzidos por 70 sacerdotes do hebraico para o grego, em Alexandria.

* * *

Lutero é produto do misticismo panteísta alemão de circa 1300. Exalta a natureza, enxerga a obra de Deus em todos os detalhes. Beira a heresia. Aqui vê-se por que Lutero foi preterido na obra: a unio mystica é o contraponto da ascese espiritual. O homem religioso europeu pós-Reforma é um vitral em pedaços.

PARTE I – O PROBLEMA

1. CONFISSÃO RELIGIOSA E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

O “Espírito” do título é o mundo desencantado, sem Deus, e por isso sem indivíduo também.

Pode-se dizer que Lutero foi o assassino de Deus, ao torná-lo transparente mediante a tradução das Escrituras ao alemão vulgar. A transcendência se tornou universal, o portão para o Paraíso muito largo. Lutero quase suprimiu a dialética do senhor e do escravo, convulsionando a Europa. Perto de Lutero, Calvino não só é menos revolucionário como aristocrático e elitista.

Os judeus são ricos porque são párias onde vão, o que fá-los voltar-se com muito privilégio para o sustento material.

Weber não dá crédito à tese dos “países mais ricos” estarem ligados ao Protestantismo. Caso contrário, a França seria mais pobre que países como a Polônia. Na Polônia a elite financeira era de reformados. Os huguenotes franceses também eram protestantes.

2. O “ESPÍRITO” DO CAPITALISMO

A Filosofia da avareza do “quaker” Benjamin Franklin: cada 50 centavos gastos num café deixariam de ser 100 libras no futuro. Comprar um café é o mesmo que atirar vultuosas notas ao mar.

O Norte americano não tinha intuitos comerciais, apenas pregadores: logo se tornou “próspero. O Sul, de finalidade mercantil, estagnou.

Jesuítas: protestantes disfarçados no campo católico.

3. O CONCEITO DE VOCAÇÃO EM LUTERO. O OBJETO DA PESQUISA

Se alguém foi chamado já circunciso, não dissimule sua falta de prepúcio. Foi alguém chamado com prepúcio? Não se faça circuncidar.”

CONFISSÃO DIARISTA: Dia 17 de outubro, na biblioteca, compreendi eu ser o centro, não sendo-o. Essa dissimulação eterna entre unidade e caos. Me veio à tona um passado que eu não pude escolher que me tornou o que eu quis. Consonância cósmica. Há metafísica e não há.

Pascal, esse Janos da religião e da ética.

PARTE II – A ÉTICA PROFISSIONAL DO PROTESTANTISMO ASCÉTICO

1. OS FUNDAMENTOS RELIGIOSOS DA ASCESE IMANENTE

o virtuose religioso pode certificar-se do seu estado de graça, quer se sentindo como receptáculo, quer como ferramenta da potência divina. No primeiro caso, sua vida religiosa tende para a cultura mística do sentimento; no segundo, para a ação ascética. Do primeiro tipo estava mais perto Lutero; o calvinismo pertencia ao segundo.”

O fim de semana é uma religião dos magos!

os adeptos de Nietzsche reivindicam para a idéia de eterno retorno uma significação ética positiva. Só que se trata aqui da responsabilidade por uma vida futura com a qual o sujeito da ação não guarda nenhuma relação de continuidade de consciência [?!], enquanto para o puritano o futuro queria dizer: tua res agitur (Problema seu!).”

Se a certitudo salutis podia aparecer antes, então ou neste momento o indivíduo se desligava da ascese; ou se tornava um ultra-calvinista, porque sua certeza de salvação fazia de si um santo em vida.

grosso modo, grau ascendente de “puritanismo” pós-Reforma:

LUTERANISTA PIETISTA (menos o alemão) METODISTA¹ CALVINISTA² (descreve idealmente a ética ascética weberiana)

¹ Os metodistas eram mais pragmáticos que os pietistas e bastante mais conscientes de sua mudança de Weltanschauung da predestinação do que os luteranos, mas além de menos ascéticos que os calvinistas só surgiram temporalmente depois como seita organizada e descritível.

² Incluindo batistas, anabatistas, quakers e menonitas.

Quase todas as seitas resultam de cismas protestantes; a grande exceção são os batistas, que formaram voluntariamente um grupo à parte. Anabatistas são radicais “ermitãos trabalhadores”.

A ascese cristã, que de início fugira do mundo para se retirar na solidão, a partir do claustro havia dominado eclesiasticamente o mundo, enquanto a ele renunciava. Ao fazer isso, no entanto, deixou de modo geral intacta a vida cotidiana no mundo com seu caráter naturalmente espontâneo. Agora (séc. XVI-XVII) ela ingressa no mercado da vida, fecha atrás de si as portas do mosteiro e se põe a impregnar com sua metódica justamente a vida mundana de todo dia, a transformá-la numa vida racional no mundo, (mas) não deste mundo nem para este mundo.”

O NOIVADO ENTRE RELIGIÃO CAROLA & CIÊNCIA: A ética pedagógico-protestante dá preferência à física, a disciplina racional que “desencanta o mundo”.

Religião ou economia, qual é a infraestrutura e qual é mero epifenômeno? Qual é o absoluto e incondicional e qual é a superestrutura? Debate superficial e seletivo. Marx e Weber eram inteligentes o bastante para não separar a justaposição indefinível destes dois aspectos humanos. A necessidade de separar em palavras era para fins didáticos ou polêmicos. Ambos são concordes, não rivais epistemológicos.

As democracias mais fracas do séc. XX vêm de tradição católica. O nazismo teria de advir do país da revolução luterana (o calvinismo incompleto, “místico”, apegado ao Pai-Führer).

Anedota: entre os quakers o ataque às imagens e rituais foi tão aberrante que gestos de etiqueta como “tirar o chapéu” se tornaram sinônimo de submissão espiritual – e portanto sinal ou sintoma ante-tempore de não-eleição, não-salvação no Fim dos Dias. Quaker = o caipira americano.

2. ASCESE E CAPITALISMO

O calvinismo evolui a uma heterodoxia (ou neo-ortodoxia fragmentada?): Baxter, o Puritano; Spener, o Pietista; Barclay, o Quacker.

Perder tempo é o pior dos pecados.” Baxter

Daí a “tempo é dinheiro” não cu$ta muito (cof, cof)…

O repouso só é tolerável nos domingos.

Tomás de Aquino não tem ainda essa percepção sobre o trabalho.

Para Baxter, os ricos devem trabalhar tanto quanto os pobres; não é questão de dispor de capital que torne o desempenho de uma vocação facultativo, mas de cumprir um dever ineludível.

Baxter evoca esboços de conceitos que seriam desenvolvidos por Adam Smith. Ex: vantagem comparativa. Os trabalhadores devem se especializar. O artesão como “vadio”. Idade de ouro da carreira profissional.

Não o trabalho em si, mas o trabalho profissional racional, é isso exatamente que Deus exige”

ENGENHARIA ESCRITURAL: Os trechos do Antigo e Novo Testamento propícios para seus sermões eram cuidadosamente pinçados; qualquer versículo cuja interpretação fosse contrária à ascese laboral era logo rechaçado. Guerra contra a magia e a transcendência.

Carlos I, Book of Sports

O primeiro estadista do “bem-estar social”.

O corpo continua sendo abjeto, porém, como é por meio dele que se restabelece a “graça para com Deus”, ele deve ser preservado pelo bem maior.

As seitas calvinistas eram originalmente inimigas do esporte, “prática francamente irracional”, incorrendo em desperdício de energia física, atividade vizinha das festas, da embriaguez e das apostas. Até mesmo banhos quentes deveriam ser evitados.

Os homens deviam usar roupas padronizadas, isto é, uniformes, para mostrar que não diferiam enquanto ovelhas do rebanho.

a ascese era a força ‘que sempre quer o bem e sempre faz o mal’”

Resultado imediato: acumulação de capital mediante estímulo ao trabalho e concomitante coerção ascética à poupança.

A história inteira das regras das ordens monásticas é em certo sentido uma luta perpetuamente renovada com o problema do efeito secularizante dos haveres” “O mesmo também vale em maior escala para a ascese imanente do puritanismo” Os mais críticos em relação a esse trabalho de Sísifo acabaram por estruturar a seita metodista.

robinsonada”: Qualquer raciocínio caricato que define o Homo oeconomicus. Robinson Crusoe promoveu uma divisão de trabalho esquizofrênica em sua ilha deserta a fim de “enriquecer” e aproveitar melhor o tempo. Curiosamente esta idéia lhe veio após ler a Bíblia.

O que fazer com os franciscanos, p.ex.? Eles tinham sua utilidade: enquanto houvesse quem pedisse esmolas, haveria o crente enriquecido que as dava, respeitando seus próprios mandamentos, aliviando a consciência. Na Inglaterra é notório o aumento da miséria (o bem que traz o mal).

Solução do dilema”: o capitalista que obtém lucro e reinveste no próprio negócio amplia a glória divina; o empregado, sem os meios, edifica sua existência ao vender sua força de trabalho.

De passagem, podemos afirmar que Freud se enganou (além de tudo o mais!) em sua simbologia fezes = dinheiro. O correto seria leite = dinheiro. Mammon, mamonismo, mamona, mamão, peito, mamilo e leite. Sanguessuga e parasita. Seiva da árvore da vida, lobo do homem. Matar para comer. Lentamente. Os mais próximos, sem tabu. Bezerro de ouro contra Moisés. A brancura que escorre junto com o sangue. Alguns são simplesmente alérgicos a ele, é de nascença. Sucção, palpitação. Vacas magras. Safra gorda. Desmame traumático. A queda. Não é possível a auto-suficiência.

Estética da mudança: os ingleses e o insípido canto coral. “o que se ouve o mais das vezes a título de ‘canto coral’ é uma gritaria insuportável para ouvidos alemães”

A Holanda em seus últimos anos de supremacia no mercado mundial: “os pregadores ingleses evocavam o exército holandês quando queriam ilustrar a confusão babélica das línguas.”

em Shakespeare, ódio e desprezo pelos puritanos não perdem a chance de se manifestar a cada passo de sua obra” “Ainda em 1777 a cidade de Birmingham denegou autorização para a abertura de um teatro sob o pretexto de que iria fomentar o ‘ócio’, sendo portanto prejudicial ao comércio.”

o Quaker era a ‘lei da utilidade marginal’ ambulante.”

Quem se diverte em esclarecer uma idéia seguindo-a até suas últimas consequências, lembre-se daquela teoria de certos milionários americanos segundo a qual não se deve deixar para os filhos os milhões adquiridos só para não privá-los do benefício moral que só a obrigação de trabalhar e lucrar por sua própria conta e risco pode dar: hoje, evidentemente, isso não passa de uma bolha de sabão ‘teórica’.”

Consumação de uma tragédia (outro sintoma): os reformados ianques tinham horror à obesidade. Hoje são obesos e ociosos.

Quis o destino que o manto do santo se convertesse numa rígida gaiola de ferro!”

O rosto corado e alegre do Iluminismo não parece menos fadado a empalidecer e embotar, e a idéia do ‘dever profissional’ ronda nossa vida como um fantasma das crenças religiosas do passado.”

Todo funcionário público é ateu – minha alma só serena e encontra sua salvação ao mergulhar nas perturbações da minha vocação de escritor.

Uma das passagens mais brilhantes e memoráveis da “sociologia” (totalmente tributária de Nietzsche e da crítica econômica que nunca coadunou com a utopia positivistóide desta ‘ciência’):

Ninguém sabe ainda quem no futuro vai viver nesta gaiola, e se ao cabo desse desenvolvimento-monstro (I) hão de surgir profetas inteiramente novos, (II) ou um vigoroso renascer de velhas idéias e antigos ideais, (III) ou se o que vai restar não será uma petrificação chinesa, arrematada com uma espécie convulsiva de auto-suficiência. Então, para os ‘últimos homens’ desse desenvolvimento cultural, bem poderiam tornar-se verdade as palavras: ‘Especialistas sem espírito, trocistas sem coração: esse Nada imagina ter chegado a um grau de humanidade nunca antes alcançado!’.”

Chega mesmo a arrepiar.

(I) Zaratustra ainda não está maduro.

(II) Ainda não.

(III) Talvez Zaratustra morra ainda em botão, ‘velhas tradições’ nunca se revigorem, e nosso destino seja a prisão de aço inoxidável e vidro blindado do “budismo chinês”, ocidentalizado. O último homem é o prisioneiro inconsciente. Voltamos a Platão. Não avançamos sequer um passo. Volta a esperança pelo número I. A contradição: só num estado de Nirvana auto-suficiência, petrificação e agitação poderiam coexistir.

Recomendação: Para mais sobre a “igreja invisível”, ler artigo de W., As seitas protestantes e o Espírito (…). Ainda é difícil encontrar esse artigo traduzido. Talvez no original ou em inglês.

DA CULPA E DA AUTORIA DOS ATOS E TEXTOS

Republicação de ensaio de outubro de 2008.

Venho aqui tratar da gênese do sentimento de culpa. Defendo a tese, escorado em autores denominados imoralistas, de que a relação do indivíduo moderno com a culpa se assemelha à caça de uma longa e sinuosa serpente. A analogia ganha sentido quando se pensa que ao buscar incessantemente o rabo, e com ele jamais se deparar, o caçador apanha, tateando cego, de súbito, o que pensa ser uma das extremidades. E de fato: acaba de segurar a cobra pela cabeça. Ainda não era a cauda. A cauda é um enigma que, nesta minha história, jamais é desvendado. A pessoa inscrita na sociedade que busca “culpar alguém por alguma coisa” é um caçador de serpentes que acredita a todo tempo estar a ponto de se deparar com uma rabiça que chocalha. Há uma complexa relação entre “cena do crime” e “criminoso” que gostaria de desenvolver ao longo deste singelo ensaio.

Apurar um culpado é partir em busca da resposta: “quem fez?”, “de que consciência emanou a ação?”. Porém, tendo em vista conceitos lapidados ao longo de séculos como “indivíduo”, “volição”, “infração”, “acaso”, “antecedentes”, “conseqüências”, “testemunhos” e “confissões em júri”, torna-se impossível atingir um culpado ou uma penalização sobre os quais não recaia boa dose de incredulidade, mesmo revolta. O culpado e a penalização “ideais” ou “perfeitos” são o que se poderia chamar de cauda da serpente. Buscar a causa de uma cena e imputá-la a um sujeito é a prática mais corriqueira do propalado contrato social elaborado pelo homem branco europeu e hoje hegemônico no globo. Inicialmente, tal contrato era tácito, verbal ou hereditário. Filósofos então se acercaram do problema, evidenciaram-no, registraram-no, disseminaram a questão em diversos idiomas para que pessoas de épocas a partir dali pudessem consultá-la e quem sabe nela tomar parte. Houve até quem começasse a questionar a validade do contrato, sua engenharia, seus postulados, a natureza do homem. Pois se se necessita de um contrato, parece haver uma condição pré-contrato insustentável e que no entanto era o “previsível” ou “esperável”, o normal ou natural a suceder-se. Avessos ao contrato social renegam a moral cultivada pelo mundo ocidental e buscam novos valores para o homem, no que são vistos pelos compactuantes (assinantes do contrato) como imorais, apólogos do desrespeito ao contrato.

Contratos, de letras ou mais que isso, sempre podem ser quebrados. Diz-se que avalizam o ser com garantias, mas elas nunca são totalmente certas. Claro que se pode defender que é o suficiente e, ademais, o cume do possível. Infratores são prejudicados consensualmente; vítimas pontuais de infratores, algo sempre “fatal”, trágico, repentino, já que não podem ser evitadas, são aceitas e inscritas como “bodes expiatórios” insubstituíveis. Entra aqui uma expressão que gostaria de estender mais adiante ao autor da quebra de contrato, no ato de sua punição.

Assino o contrato. Acho que todos assinam o contrato ao nascerem em circunstâncias como as minhas. Mas sou contra o contrato. Enquanto não revogo minha assinatura, me limito ao que o leitor batiza de “plano teórico”, embora quem me conheça espere que eu não lance mão da dicotomia prática-teoria, por considerá-la uma barca furada. Fato é que enquanto não revogar minha assinatura e minha posição em acordo com o contrato social, caso ajam de modo ilegal contra mim serão punidos, o mesmo válido para mim. Não há escapatória: esqueci de dizer que quem não assina o contrato não existe. Não existe categoricamente neste mundo e não lhe pode ser agraciada nenhuma vantagem. Em um mar de milhões de pessoas e de coerção ultimada, significa que o indivíduo está condenado ao ostracismo mais cruel, provavelmente à inanição. Mesmo gangsters possuem um forte contrato social intra-grupo. Sou ciente do caráter absurdo de minha reivindicação aqui. Prossigo.

Assinar o contrato é proteger elementos para a própria existência esperando que uma instância que se põe à disposição de todos regule com sentenças negativas aqueles que ameaçarem a existência alheia. Assinar o contrato implica que caso aconteça uma ilegalidade (quebra de contrato), haverá um culpado pronto a indenizar, seja a vítima em si, seja a tal instância central-mediadora (aqui, o Estado, sistema de justiça). Portanto, assinar o contrato é reservar à disposição, quando necessário, um caçador de cauda de cobra. E se digo que é impossível obtê-la? Já o disse. O leitor o sabe. O leitor pode também alegar que há uma “proximidade do rabo suficiente para tornar as coisas justas”, ou ponderar que inexiste “medida melhor”. Discordarei até o final, mas reconheço que minha voz não é estridente o bastante para calar as ontologias dessas preferências, as motivações singulares de cada um. Adoraria um mundo em que houvesse mais e mais vozes desafiantes como a minha… Atenção!

Há uma confusão muito grande entre dois pares de coisas que me faz preferir a rasura da minha assinatura do contrato. Eis os pares: condicionamento/incondicionamento, sujeito/predicado. Há razões lingüísticas e históricas para crer que o mundo moderno erra ao propor dicotomias o tempo inteiro. A idéia de que há alguém para ser responsabilizado por uma “cena” precisa ser afastada. Tradicionalmente, devido à individualização das relações sociais, há sempre um autor para uma ação, sempre um sujeito para um predicado. É até difícil de engolir, para uma proporção extremamente elevada desta “realidade competitiva” que se diga que a distinção entre eu e outros e entre pessoa e meio não é correta! Não existem pessoas. Pessoas são palavras. Houve enormes equívocos na relação entre ser (sujeito) e objeto (entenda como mundo) que amalgamaram a vivência. Os “autores do contrato” (não cairei no erro de buscar um rabo de cobra, mas preciso ser sintético) são gerações sucessivas de filósofos que partiram de pressupostos convenientes ao dogma cristão, por sua vez associado a condições que surgiram no falecimento do mundo grego… Percebe como eu poderia seguir para trás até chegar a lugar algum? Esta foi uma caçada sinuosa a um apetitoso rabo. Pois bem, nos atenhamos na parte frontal do comboio: considero filósofos como Platão, Kant, os existencialistas do século XX e alguns outros no decorrer da linha do tempo como contribuintes deste modo de pensar. Porém não os quero prender, nem mesmo malograr! Queria mostrar a gênese do sentimento de culpa.

Tais pensadores propõem o pensamento, a razão humana, como algo incomensuravelmente único, pertencente ao sujeito, inalienável. Através dessa razão efetuam-se inter-relação ser-ser e ser-objeto. Efetuam-se predicados advindos de um ser. Não há predicado sem ser. O cristianismo coloca coisas inexplicáveis a cargo de uma entidade chamada deus. O homem moderno deixa deus um pouco de lado (para intervir somente quando cômodo) e convoca o Estado e mecanismos de “impessoalidade” para representar um grande número de pessoas como se fossem uma só (o Brasil como uma pessoa de 200 milhões de “rostos”). O autor do mundo é deus. O mundo é o predicado de um sujeito. O crime é o predicado do criminoso. Alguém comete, alguém é responsável. O ser tem a primazia. Mas o que é o ser?

Este debate está ficando muito extenso! Nunca vou resolvê-lo com propriedade magnânima se não estiver da espessura de um livro, mas eu disse que seria um ensaio singelo. Singelo no sentido de que não deve ser muito longo, embora não seja breve para o que um leitor gostaria de ler. Nunca se tem tempo para ler. Um blog de uma pessoa nada ilustre, então…

Eu falei de Deus. Ou deus. Existe também um par que ingressa agora no jogo, o condicionado/incondicionado. Tudo que é cobra, ou filamento de cobra, evento envolvido num emaranhado de outros, sendo causa de uns tantos e causador de outros mais, é condicionado. Só se pensa existir um autor para uma quebra de contrato porque alguém promove uma ação. Ações sempre estão ligadas a sujeitos delimitados, no mundo moderno. Pode parecer estranho, mas nem sempre foi assim. No mundo grego talvez não se dissesse “somos três pessoas”. Poder-se-ia contá-las, mas não no sentido que conhecemos. Seríamos parte de um todo indivisível. O incondicionado respeita essa idéia. O mundo é o caos. Qualquer tentativa lógica de pintar suas motivações redunda em fracasso, insuficiência. Nada está em relação com nada na medida em que tudo está em relação com tudo. Digamos que o grego ainda assuma que a teia de eventos e fatos seja uma cobra, uma cobra das grandes, mas que o homem grego não age como caçador de cauda. Se se pensa que tudo tem uma origem, há o problema da origem em si: o primeiro fato, a primeira ação, o primeiro ser, quem os trouxe ali? Deus serve para preencher essa lacuna como ninguém no mundo moderno. Pasmem aqueles que não sabiam muito sobre os gregos: eles não precisam de um deus!

Deus é tratado como todo-poderoso, onipotente, essa é sua razão de nos ser afigurável (paradoxo?!). Ele é incondicionado porque está além de qualquer causalismo, é independente e autônomo. Porém, como explicar que proviemos do incondicionado e somos condicionados? Mesmo os extensos poderes da criatura não depõem a seu favor. Na Grécia Arcaica aceita-se o mundo como eu penso que ele seja, um amontoado de caracteres incondicionados. Esbarraremos em perguntas por parte do leitor como “mas então de onde você acha que veio tudo?”. Não ficarei devendo esta resposta, mas devemos continuar até ela ser respondida!

O mundo moderno quer o condicionamento, mas como é complexo e na verdade impossível atingir o rabo da cobra, ele adiciona uma cláusula de incondicionamento ao contrato. Tudo isso para salvar a plausibilidade do binômio sujeito/predicado. Afinal, alguém tem de pagar por ter matado ou roubado alguém, ou antes, as pessoas precisam ser incutidas do medo para se sentirem seguras. Que belo vaivém!

Viu-se que são binômios assimétricos, deficientes. Não andam direito, não estão em compasso. Na Grécia está presente a idéia do incondicionado em sua totalidade, e agora não precisamos nos preocupar com cobras, autores, punições. O que parece punição, ao ocidental contemporâneo, o que faz vezes de castigo, não passa de “fato”, evento desligado de outros antes e depois de sua ocorrência. Chama-se a isso de ética trágica, um substituto do contrato social. Mente quem para me desmoralizar trata seres humanos que não pensam num contrato social como incapazes de viver, de estabelecer existências a longo prazo, viáveis. Além disso, “viável” é diferente aqui e acolá. A ética trágica preconiza que ninguém pode evitar desgraças, porém as desgraças são a chave da existência grandiosa, de quem quer ser lembrado em todos os tempos. Na Grécia clássica (pré-socrática), homem feliz é aquele que está “vencendo todo dia”. Pois, sem contrato, sua exposição a perigos permite que a sucessão de seus dias seja um contraste entre o perder e o ganhar. E o ganhar do grego, o prazer, só pode nascer do perder e do desprazer que lhe são anteriores. Dizem que o mundo ocidental tem um pouco disso: a ética da quantidade de vitórias! Mas isso é uma tendência que só pode se acentuar no futuro. Presentemente, é benquisto deitar-se e acalmar-se, dar-se a si mesmo uma vitória que permaneça. Outra vez já disse que a natureza não gosta de equilíbrios, e isso depõe contra a prática do contrato. Contratos são feitos para serem quebrados, parece saber o advogado, embora neste exato momento ele se acanhe. Parecemos viver em uma ânsia por cometer um crime. Essa vontade é a vontade de ser grego. Penso que minha antipatia pelo contrato já ganhou novos contornos! Pude explicar por um texto que não sou louco, mas apenas um “nostálgico”…

Complementarmente, para evitar buracos neste texto, me adensarei em alguns pontos. Se quiser, pode me abandonar. Intuo que eu esteja sendo interessante e você não vai partir.

Kant e seu imperativo categórico são as maiores salvaguardas da ética não-trágica, quer seja, da culpa e do contrato. Diz esse imperativo ele que a felicidade está em Deus ter fundado o mundo para que respeitemos uns aos outros, vivamos em comunhão. Persisto em que essa é uma prática maléfica que humilha o homem…

Eu diria que o mundo grego não é mais fraco por não ter um Deus. Antes, ele tem vários deuses. Mas esses deuses não são morais, não se preocupam com imputar autoria de ações a ninguém, tampouco se ocupam minutos que sejam com aquelas letrinhas pequenas de contratos… É uma liga poderosa. Já o Ocidente possui uma perna só. Para mim, o único alicerce da construção chamada “nosso mundo” é a palavra culpa. Se ela fenecer, todos os contratos serão cancelados.

Vou tentar convencê-lo a se juntar a mim e me encaminhar para a intrincada resposta que prometi (“mas então, de onde veio tudo?”). Mas para isso preciso fugir um pouco do assunto: conheci um homem – não pessoalmente – que antecipou todas as descobertas das ciências naturais no século XX, mesmo pertencendo ao século XIX e sendo um filósofo. Seu nome era Friedrich Wilhelm Nietzsche. Ele não é muito reconhecido pelos seus feitos. Sua principal descoberta foi que a natureza não existe, tal como pensamos, de forma absoluta. Ela não é o que ela é. O que vemos não pode ser, não existe a verdade, fixa, se quisermos chegar à VERDADE DAS COISAS. Nietzsche desvendou como ninguém as armadilhas da verdade. Podemos dizer que se trata de uma cobra. Quando dizemos que alguém é um criminoso pensamos estar enunciando uma verdade. Nietzsche resgatou o espírito grego e foi capaz de perceber que a verdade não pode nem QUER ser apanhada. Este é o problema: para que o rabo? Na verdade, antes que seja um desconsolo, seu enunciado é um consolo: “O único motivo da existência é não seguir qualquer motivo”. Não sei como imaginar uma vida que caminha para um propósito rijo no horizonte. Pode o indivíduo que lê se pensar como condicionado, realmente? A sociologia faz isso, tem essa missão. Ciência das mais recentes, sua principal sobrevivência é negar o livre-arbítrio individual, porque ela se escora na existência de uma sociedade onde tudo é “causado”. O velho papo do rabo… Anulando-se a individualidade em plena sociedade que valoriza supremamente o indivíduo, chega-se a uma crise irreversível. E pensar que o sujeito está sozinho é naufragar. O melhor é ser grego e entender que não existe indivíduo ou não-indivíduo. Está tudo misturado. De quem é a culpa, se a sociologia se encarrega de buscar as razões pela ocorrência de crimes? O leitor tem esperanças de que eu admita a captura da cauda da serpente? Não! A sociologia não se resolveu com essa culpa, com esse “bode expiatório”. Ou se resolveu, a sua maneira: se tudo está entrelaçado e o criminoso cometeu a ilegalidade devido a circunstâncias sociais, e estas nasceram de outras, que por sua vez nasceram da natureza em evolução, que por sua vez principiou-se do cosmos, que nasceu a dado momento de algum ato, o único culpado é este ato 1. O ato 1 é a criação do universo por Deus. Agora descortinei este deus: aparenta todo-poder, é todo-desgraça. O ocidental, o homem moderno, culpa a existência por um ato criminoso. Se o sujeito supremo é deus, todos os predicados são seus crimes. E o pior é que a autonomia do indivíduo se subjuga a ser predicado, ou seja, ao zero. É uma engenharia completamente falha. A vida no contrato social parece um teatro horroroso do qual não se pode escapar: cadê o autor da peça? O homem não é mais digno no momento em que se revolta contra o autor do contrato que julga ser imprescindível sem saber quem ele é e sem saber por onde começar a rasgar a peça jurídica; e caso ele entenda tudo o que eu disse, tem vergonha por seus pares, que não o farão, impossibilitando que ele mesmo seja um perfeito grego. Ser grego é ser deus, neste aspecto. Se tudo se imbrica, que se assuma a responsabilidade por tudo e por nada ao mesmo tempo!

Essencialmente, na natureza não existe nada que não se contradiga. Um criminoso é uma figura sempre ambígua. Um átomo é ambíguo. Nada é preciso. A vida é uma dança, um enigma, que nunca quer ser descoberto. Uma cobra não sibila reta. O fenômeno não existe em si. O próprio fenômeno é uma perspectiva. O mundo é muito mais rico do que aparenta. Não significa que nada seja real, mas que existe uma realidade para cada observador, e elas se sobrepõem, formando uma cornucópia impensável para o melhor dos criadores. Por isso o mundo não possui um autor. Como por trás de uma perspectiva há sempre uma criação ou ensaio de sentido, o Ocidente disso se aproveita para instalar a culpa. O Júri é uma instância observacional tão rica quanto qualquer pessoa, mas se diz acima de todas elas para julgar o ato como foi. Ora, não existe ato como foi! Além do mais, atos são atos e não podem ser negados. Tudo no cosmo se afirma. Crimes (que só recebem esse nome porque há sujeito – sem o ser, tudo são atos, apenas criminosos, apenas não-criminosos ou tão-somente atos puros, sem distinção, de qualquer forma) são atos. Irreversíveis. Apesar de existir o que se possa chamar de vingança, a vingança é um ato recomeçado. Não pode existir um centro de onde emana uma “punição”. Esta instância central está cometendo aí um crime, mas o homem não precisa se eximir de cometê-los e assistir o cometimento de ilegalidades de forma indireta. É uma prisão, uma revolta gerada pelo contrato e pelo conceito do Deus uno.

Para encerrar, um adágio em homenagem aos gregos, que acertaram, porque ao não pensar num contrato atingiram a imortalidade: “algo para ser eterno tem de acontecer só uma vez”. O universo é um anel, não uma cobra! Sua cauda é sua cabeça, sua origem é a mesma coisa que o seu desfecho. Este o enigma supremo do universo, porém eu não o descobri: enunciar uma verdade é perdê-la no instante em que ela sai das entranhas, para ser adotada de diferentes prismas, sempre em mutação, sempre em passos de dança. Agora a resposta “de onde veio tudo”: não acredito num deus que nos criou, em Kant, no contrato e na covardia. Eu acredito em uma economia invertida, em que o máximo esforço gera os menores resultados, e em que todos fazem o máximo de esforço. Há que haver riqueza. Quem possui mesmo a riqueza, riqueza de vida, tem o bastante para dar sem pedir nada em troca. Eu acredito que o universo jamais começou a começar e jamais cessará de terminar, embora ele comece e termine nalgum dia, para os que nele estão. Ele reverbera indefinidamente… Creio que a natureza seja traiçoeira e magnífica o suficiente para se ter engendrado isso: assim, jamais foi o “nada” e jamais rumará para um fim fixo, apenas se auto-afirmará perpetuamente… No anel, posso inverter o espaço-tempo, não existe antes e depois, e dizer que eu nasci porque neste momento de minha vida, aos 20 anos, decidi que devia nascer…

A INDIFERENÇA VOTACIONAL E O PROBLEMA DA UNIVERSIDADE (PÚBLICA OU OUTRO MODELO QUALQUER)

Republicação de artigo de 19/09/2008. Alterações apenas cosméticas nos grifos.

Ouso afirmar que o dilema do ensino superior no Brasil (Terceiro Mundo)¹ não reside em pontos abordáveis por qualquer campanha partidária e que o jovem que não vota pouco tem a ver com isso: antes, diria que aquele que se compraz em votar intensifica o problema!

¹ Não autorizo a interpretação de que “elogio” sistemas de “Primeiro Mundo” ao fazer desde o primeiro parágrafo uma crítica tão-somente ao “nosso mundo”, mas, como veremos abaixo, ao menos nestes lugares há uma maior qualidade no atendimento de serviços básicos, até para o cidadão que pode contribuir com muito pouco. De qualquer modo, ao avançar em minha argumentação deixo claro que não salvo países, muito pelo contrário: condeno todos os Estados.

Apesar da democracia se apresentar como o sistema menos inadequado de gestão do povo – ou de instituições –, sua controvérsia por excelência (eu diria “pouca vergonha”) é que constrange o indivíduo à participação, por uma rede de meios.

Em uma democracia de último tipo é absolutamente incorruptível o direito do cidadão ao alheamento. Vê-se que os direitos ativos são prometidos e não mais que parcialmente cumpridos: todos, constitucionalmente, teriam acesso à informação; não é o que acontece. Além disso, posso questionar o valor da informação em uma sociedade do espetáculo de massa. Poderia questionar qualquer tipo de serviço do Estado. Há dúvida em se o esgoto é melhor do que a falta de saneamento. Em uma grande cidade, certamente é uma bela solução provisória; mas o problema dos detalhes hiberna e ressuscita à frente. Paralelamente, posso apontar pequenas povoações em que a ausência de encanamentos representa facilidade de vida e bem-estar, porque o lixo de poucas casas não chega a agredir o meio ambiente. Aliás, povoados mais isolados e que não sucumbiram à tara da industrialização não possuem o que se pode chamar de lixo. Ilustrativamente, o tão danoso plástico é algo industrial. Nenhum indígena poderia “poluir” a natureza, no sentido que nós mesmos criamos para nossas porcarias… Nada essencial para o aborígene fica mil anos em deterioração como uma lata de Coca. E, cá entre nós, quer lugar mais imundo que o subterrâneo citadino? Porém, interrompamos esta última parte da digressão!

Eu me referia ao direito ao alheamento: a priori, é mais simples de fazê-lo valer do que a demagogia ou falácia da “benesse para todos” (os exemplos citados da televisão e jornais e do sistema de esgoto). Isso porque não há dependência econômica, não se lida com recursos escassos. O indivíduo que não incomoda a liberdade do próximo para desfrutar a sua, dando predileção à TV desligada, ao jornal na lixeira (não que o problema do excesso de lixo seja seu!) e à indiferença quanto à prestação de serviços pelo governo (“eles não recolhem meu lixo, em contrapartida eu não pago impostos”), é o modelo preciso do cidadão que quer e pode, segundo a lei, “alienar-se” do coletivo. Vê-se que, em verdade, apesar de uma ou outra baixa na receita, gostos voltados para a misantropia são apreciáveis da ótica do Estado. Basta não o olhar, o dispêndio zero, e a administração quita com suas obrigações para com o sujeito; o sujeito adora esta situação, está de acordo. Há reciprocidade, mutualidade. A democracia permite acordos tácitos em que “ninguém se mexe para não perturbar e não ser perturbado”. Assim como, não esqueçamos, jamais veda o caminho de quem quer participar, custe o que custar. O mundo perfeito!

Não obstante, essa é apenas a descrição normativa básica do paradigma democrático: não se sustenta após observações. O quadro real apresenta incongruências nos dois pólos: o cidadão ativo é submisso ao Estado e dele não recebe “recompensas” o suficiente (o que, aliás, produz em muitos a vontade de tornarem-se passivos); o cidadão passivo não consegue “não agir”. Disserto aqui sobre este segundo malefício, limitação congênita de democracias até onde as conheço. Em suma, pedimos ao poder central para não participarmos, aceitando as conseqüências (por mais que nos digam que tal atitude é prejudicial, fazemos um balanço interno e consideramo-la uma postura vantajosa!), no entanto a “máquina” não aceita nossa escolha. A falha clamorosa é que o Estado declara respeitar essa vontade de omissão; mas, na prática, pune o omisso (para não falar do ativo). Portanto, a afronta à liberdade é clara e venho por meio deste manuscrito denunciá-la. É verdade que esse meu ato se afigura como “luta ativa”, mas direciono-o tão-somente ao círculo mais próximo com o intuito de explicitar os motivos irrefutáveis de minha não-participação nas eleições da UnB, evidenciando uma crível superioridade da passividade em relação à atividade.

a) Findo este PRELÚDIO, adentremos o concreto.

De volta à universidade subdesenvolvida e votantes e não-votantes, observo que ontem, no campus Darcy Ribeiro, dia 18 de setembro de 2008, no último dia do primeiro turno para eleição do novo reitor, havia uma forte pressão, proveniente dos fiscais ou ativistas das chapas concorrentes (dir-se-ia, antigamente, “massa de manobra da inteligência”; dir-se-ia, por estarmos onde estamos, que eles SÃO a intelligentsia; mas me recuso – são ovelhas!), para quem ainda não havia votado e não demonstrava ímpeto para tal, votar. Uma pressão indevida e onipresente nos corredores do Minhocão: dificilmente se é indulgente ao ponto de vista de que “alienar-se” do processo eleitoral é já, em si, uma escolha. Argumenta-se, do lado de lá, que “sempre é melhor exercer seu voto”. Eu não compartilho desta tese. Todavia, exceto por esta carta, não tento demover quem pensa diferentemente de mim. Aí está o intenso paroxismo do “espírito democrático”.

b) Razões menos abstratas de “por que não voto” e da situação periclitante da universidade em relação profunda com a ruína do Ocidente² (e com a mediocridade da população, resultado dos impulsos democráticos):

² Ocidente, neste contexto: modelo desenvolvimentista, mundo moderno, crença no Iluminismo e preponderância do espírito apolíneo na condução das vidas (Idealismo, a vida fora da vida!).

O problema mais profundo é o SISTEMA ELEITORAL. É o MEIO URBANO. É a SOCIEDADE OCIDENTAL em todos os seus pressupostos. Devo dizer que enquanto perdurarmos neste modo infecundo de viver não VOTAREI. NUNCA votarei, pois o correto é não votar. A seguir exponho razões individuais para não ter votado ontem:

Meu peso é nulo – em escala de Brasil, DF, UnB e mesmo em uma sala – geralmente defendo o indefensável para a moral que vigora; penso que se fossem somente eu e mais dois, eu seria provavelmente a minoria. Mas independentemente de uma personalidade avessa à mediania ou não, há total irrelevância do cidadão que vota. Note-se que eu sou um. Nunca vi uma eleição ser definida por um voto. Qualquer votante fervoroso sabe que não muda o menor estilhaço do espectro político. Corneteiros, que querem transformar seu voto em cem votos, pelas mãos e cabeças dos outros, são uma figura proibida na eleição politicamente correta (pois é dela que trato aqui – não preciso citar quem fere as liberdades individuais, quem age por interesses segundos, sempre a serviço de um poderoso, ou do candidato que mexe pauzinhos para se auto-eleger… Essas condutas são óbvias, qualquer um constata, e já demonstram per se a falência do ideal democrata… E eu aqui bancando o SALVACIONISTA… Nem deveria discutir com vocês!). Porém, mesmo para a eleição definida por UM voto, sua responsabilidade é nula, acredite. Como alguém poderia dizer “se eu votasse na legenda adversária, o resultado seria integralmente diferente”, todos os demais o poderiam! Isso implica que a responsabilidade é indizivelmente dividida. Não sobra nada. Nunca se é responsável, é a conclusão. A democracia é uma fuga da responsabilidade! Parece que não se vive, é um desperdício votar… Se ainda não se convenceu, devo explicar o mecanismo “democrático” da Universidade de Brasília: o mais votado pelos estudantes/professores/funcionários (e é muito mais sadio pensar que professores escolhem um reitor ao invés de jovens inconseqüentes em curto estágio por estas bandas) não é automaticamente eleito. Na verdade, longe disso. Mesmo os dois candidatos de segundo turno podem ficar alijados da cadeira de reitor. As eleições servem apenas para que seja submetida uma lista tríplice ao Ministério da Educação, que adotará os próprios critérios. Anula-se ainda mais um peso individual que tangia ao zero! Em suma, eu, pelo menos, tenho coisas muito mais terríveis e homéricas com as quais me preocupar – uma delas é o que fazer no domingo eleitoral se não tem futebol na tevê nem se vota para vereador ou prefeito em Brasília…

Há obscuridade e interesses vis em cada um dos candidatos. Pouco pude conhecer destes renomáveis senhores e seus vices, nas páginas de jornais internos. Mas não só pode haver parcialidade por parte do jornalista como fica clara a vacuidade de cada programa. Todos bastante homogêneos entre si, parece ser o detalhe de uma barba grisalha ou de um sorriso ameaçador os fatores decisivos na escolha do aluno. E pelo que pude perceber, todas as candidaturas eram irregulares! Panfletagem em locais proibidos e posse de empresas privadas, coisas inconstitucionais… Não se vota em ladrão! O mais grave mesmo é o amontoado de santinhos e filipetas, que poderia ir para o lixão e ser tratado (reciclado), mas que devido ao recomeço da estação de chuvas escorreu em grosso para os esgotos, amplificando o problema já tratado mais acima.

Uma universidade não pode primar pela democracia, é um lugar para relações hierárquicas. A universidade não é uma coisa engraçada? O conceito de uma instituição superior de ensino em si já muito me assusta, e ainda mais a micro-democracia em algo que exige tamanha verticalidade (professor x aluno). Tenho pena de quem panfletou em nome do 70 e alguma coisa… A universidade não tem lugar em meu cardápio de estimas porque está imbricada em uma legião de equívocos: “mercado de trabalho”, “boletins de desempenho” e “intenso convívio com PADRÕES” são aviltamentos indizíveis à vida!

Proponho eu a varredura completa. A universidade terá sempre, nestes moldes, um limite baixo de recursos. Os “revolucionárias da reitoria” não o desfrutarão: o capital inundará as engenharias. Por mais que seja reconstruído por pessoas diferentes (José Geraldo?), seu sucateamento é inevitável. Vivemos em uma nação herdeira de uma filosofia perfeita de “como tornar almas miseráveis”. A UnB não muda sem que mude primeiro o sistema-mundo. Mas num sistema-mundo transcendido (adequadamente!) inexistem universidades… Não quero melhorar a UnB porque quero destruí-la – eis a minha essência. Sou um verme latente. Uma larva que hiberna antes de amadurecer e inocular seus filhotes nos bebedouros – todos beberão e serão arruinados, se fracos. Haverá também muito veneno do esgoto, este mundo de porcalha próprio dos ocidentais!

POR QUE A PROSTITUIÇÃO JAMAIS ESTEVE TÃO PRESENTE APÓS A CRISE DA INSTITUIÇÃO DO CASAMENTO NO OCIDENTE HODIERNO

Este texto foi originalmente redigido e publicado em meu primeiro (e extinto) blog, em 07/10/08. Eu tinha 20 anos. Hoje, mesmo que ainda concorde com maioria do que foi dito, não me expressaria da mesma forma.


Artigo dedicado a

colegas de discussão, em especial o Thomas

qualquer um que discorde dos métodos do professor Luiz Gusmão

os fãs de artigos bem-escritos

e, finalmente, às corajosas namoradas de quem primeiro ler (obviamente, homens)


Na página 8 de Filosofia do Amor, Georg Simmel nos brinda com a seguinte passagem: “(…) é fatal que um aumento de cultura acarrete uma necessidade maior de prostituição”, no que foi desqualificado peremptoriamente pelo cânone do magistério de Sociologia da UnB, Gusmão, em sala de aula repleta de alunos. O professor defende que a variável “flexibilidade da moral”, em 100 anos, tornou a afirmação obsoleta. Não é verdade. Ela jamais foi tão válida e referendada pelo quadro social. O “empirismo neo-platônico” gusmoniano falhou mais uma vez. Em sua decadência que recrudesce, o Ocidente continua sendo unidimensional neste aspecto. Jessé Souza, autor da Introdução a Simmel e a Modernidade, me inspirou a contra-atacar  minha cátedra, pois palpavelmente compartilha de meu ponto de vista.

Até que haja rupturas galopantes da moral (“bons costumes”) e da justiça (e respectivos “tribunais imparciais”) haverá crescimento de prostituição e elevação de crimes.

Há visivelmente um paralelo que elucida a compreensão da massificação da sujidade feminina, que é a correspondente explosão da criminalidade, sobretudo de crimes periféricos, como é o caso do roubo de um pote de margarina. Há crimes brandos e crimes graves; bem como há a prostituta clássica e a fêmea de hoje em dia (uma “mulher da vida em doses homeopáticas”).

Quando Simmel fala que homicídios eram tributados com módicas multas, subentende-se que “crimes não eram valorizados em uma sociedade arcaica”. Essa leitura ocidental despreocupada com a desconstrução de categorias é nefasta, erro crasso. Matar não era considerado crime, eis o sensato. Todo crime tribal é hediondo. Quem praticar o incesto ou cozinhar um animal-totem será castigado com a morte. O crime era sempre grave. Mas era episódico. Hoje um ato ilegal é coibido de maneira mais macia – o que não evita a pecha de marginal – e sua prática se alastrou bastante.

Hoje, aceita-se muitas “depravações leves”, contra o quadro anterior¹ em que poucas ações (ou se se quiser mulheres) eram depravadas porém estas eram notórias e suportavam a carga apenas entre elas. Houve então uma “democratização” da vadiagem, o que está longe de simbolizar o afrouxamento moral.

¹ Sociedades ágrafas, Antiguidade e idade média.

O tabu é tão vigoroso que na sala de aula é benquisto ao professor homem disfarçar suas opiniões sobre o assunto. A mulher negará até o último momento ou mesmo não compreende o panorama.

Quanto mais fervilha a economia especulativa, mais se enxergam essas vicissitudes. A questão dos relacionamentos sexuais precoces que serviriam para evitar que o mancebo recorresse a prostitutas antes do casamento é um incidente que não atrapalha a teoria – muito pelo contrário: com a instituição do matrimônio em crise irreversível, sobra má-fama para todas. Inexiste qualquer pureza de espírito na mulher contemporânea em sua infinidade de sub-moldes.

Antes, a fogueira como punição da desonra. Hoje, cochichos. Quanto mais dinheiro, maior a força da propriedade. Mais sórdido é o caráter da exclusão social – os status de marginal/trombadinha e mulher que se vende tornam-se insuportáveis. Acirra-se o contraste. E ao mesmo tempo é impossível para cada homem não ser ladrão de vez em quando ou para cada mulher não agir feito puta. Isso não sou eu quem inventou: está nas ruas. Nunca a palavra de quatro letras foi tão empregada. Na sociedade das prostitutas, a mãe daquela que esqueceu por segundos de ser pudica é fortemente coagida pelo verbo. A proliferação da categoria das fêmeas que rodam a bolsa as está tornando sinônimo do grupo social, mais abrangente, “mulher” – engolindo o gênero feminino tal qual buraco negro. A castidade passou a ser encarada como mito. Houve a ampliação descomunal do conceito. O pote de margarina, banal, disseminado, me evoca a não menos freqüente menina-sabão. “Menina” que é de nítido caráter inocente, conjugado com o instrumento básico de limpeza nos lares e cuja função é escorregar, de mão em mão se for preciso. A limpeza vira sujeira quando se ensaboa os homens. Estranha palavra híbrida ocidental pós-moderna…

Se nem todas chegam a tanto (ser uma “menina-sabão”), pelo menos se diz que “tem cara de”, “se parece com uma”, “está agindo feito uma”, ou é insinuante em algo, se veste de maneira que provoca. Seja como for, algum pecado a moça tem! Obviamente, ele é produzido pelas relações de dinheiro. Certo é que o fenômeno não desapareceu, mas se fortaleceu. Quanto mais dinheiro, mais os valores da dignidade humana se degradam.