[ARQUIVO] O MAL-ESTAR NÃO É UMA ILUSÃO

Originalmente publicado em 26 de novembro de 2010

A) HAMLET, O PRÍNCIPE DA DINAMARCA

“A sorte só pôs o que Deus dispôs.”

“Imaginais, então, que eu sou mais fácil de tocar do que esta flauta?”

“Levarem tanto tempo esses ossos para se formarem, só para virem a servir de bola!”

“Por que não acompanhar a imaginação as nobres cinzas de Alexandre, até encontra-las servindo para tapar um barril?” Do pó ao pó.

“o gato mia; o cachorro também terá seu dia.”

“Já pensei, como os nossos estadistas, que é feio escrever bem”

“igual a ele, só poderá encontrar em seu próprio espelho.”

B) FUTURO DE UMA ILUSÃO

“Alvoreceu a noção, no povo mais bem-dotado da Antiguidade, de que Moira alçava-se acima dos deuses e que mesmo estes tinham os seus próprios destinos.”

“Nosso comportamento, portanto, deveria modelar-se no de um professor sensato que não se opõe a um novo desenvolvimento iminente, mas que procura facilitar-lhe o caminho e mitigar a violência de sua irrupção.”

“o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem permanecer crianças para sempre” “Como honestos arrendatários nesta Terra”

C) O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO (mesmo volume)

“Aquele que tem preocupações, tem também aguardente.” Busch

“nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos.” Goethe

“Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância das outras pessoas.”

“Vale a pena observar que os próprios órgãos sexuais genitais, cuja visão é sempre excitante, dificilmente são julgados belos; a qualidade da beleza, ao contrário, parece ligar-se a certos caracteres sexuais secundários.”

“apesar de todos os progressos evolutivos do homem, ele dificilmente acha repulsivo o odor de suas próprias excreções, mas somente o das outras pessoas (…) Seria incompreensível, também, que o homem empregasse o nome de seu mais fiel amigo no mundo animal—o cão—como termo injurioso, se essa criatura não provocasse seu desprezo através de duas características: ser um animal cujo sentido dominante é o do olfato e não ter horror dos excrementos nem se envergonhar de suas funções sexuais.”

D) OUTROS ESCRITOS

“Os Irmãos Karamazovi são o mais grandioso romance jamais escrito; quanto ao episódio do Grande Inquisidor, um dos pontos culminantes da literatura mundial, dificilmente qualquer valorização será suficiente.” “D. jogou fora a oportunidade de se tornar mestre e libertador da humanidade e se uniu a seus carcereiros.” “na aura da crise epiléptica, um momento de felicidade suprema é experimentado.”

[ARQUIVO] O HOMEM REVOLTADO

Originalmente publicado em 27 de outubro de 2010

Quais fundamentos residem sob essa dita vida? Para mim tudo se resume a uma aberração matemática—o êxito cabe a poucos. “Mas o que é o êxito?”, você dirá. A própria vida do exitoso parece uma peça pregada. Durante apenas algumas horas na semana posso eu realmente me perguntar coisas e me indignar. A sonolência e o cansaço tomam conta de mim. Mas se fosse só isso! Meu humor, eu não consigo estabelecê-lo minimamente. Sou um escravo completo. Não é possível observar o próprio auto-perecimento pelo imperativo do trabalho! Não é possível ter um ponto de vista não-estulto sobre a família. Não acho o sal e o molho shoyo para temperar e suportar os meus dias.

Se não é para ficar pensando na morte da bezerra, eu sou a bezerra! Sim, porque ao menos como o portador sacro de leite eu sou melhor do que como essa bola massacrada de jogos de pingue-pongue sem-fim!

“todo suicídio solitário, quando não há ressentimento, é generoso e desdenhoso.”

“Não se é niilista pela metade.”

“Respirar é julgar. (…) Falar repara (…) A absurdidade perfeita tenta ser muda. (…) A ferida que se coça com tanta solicitude acaba dando prazer.”

“entrar no movimento pelo qual o absurdo supera a si próprio.”

“Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar.” “Antes morrer de pé do que viver de joelhos.”

Revolta como contrário de ressentimento. “o revoltado defende aquilo que ele é”. Já “O ressentimento é sempre ressentimento contra si mesmo”.

31: “Ivan Karamazov” “insurreição metafísica” “Eu me revolto, logo existimos”

“A história da revolta metafísica não pode, portanto, ser confundida com a do ateísmo.” “do dândi ao revolucionário” “justificar a perda da autoridade divina”

43-4: análise do mito prometéico, o primeiro Satã. “Zeus (…) cujos dias estão contados”

“a palavra eterna de Édipo que, cego e desgraçado, irá reconhecer que tudo vai bem.”

Epicuro e Lucrécio, dois revoltados antigos. “De espera em espera consumimos nossa vida e morremos todos no sofrimento” “Como Epicteto e Marco Aurélio, Epicuro vai banir a morte da existência humana.” “morrer significa apenas retornar aos elementos. O ser é a pedra.”

52: o infernal Don Juan de Molière, que despreza o lúgubre Convidado de Pedra em seus dizeres de redenção

53: Sade, teórico precoce da vontade de poder. “Toda ética da solidão implica exercício de poder.”

62: o paradoxo do assassino ou psicopata perfeito: Jason. Matar é eliminar o prazer futuro de tirar a vida de alguém, se este fosse o último ser vivo do recinto. Forçosamente haveria uma auto-aniquilação (paradigma de Majin Boo). Mas Don Juan e serial killers têm opções demais pela frente até a primeira repetição do cardápio, que talvez já nem seja repetição… Nietzsche e o prazer do sexo. Perde-ganha.

“O senhor, por sua vez, aceita ser escravo e talvez até mesmo o deseje. ‘O cadafalso também seria para mim o trono das volúpias.’”

Metamorfose imagética de Satã em Vigny: “Um adolescente ‘jovem, triste e encantador’ substitui a besta fera de chifres.”

69: “essa obstinação com o satanismo” “a metafísica do pior” “o poeta, para ser aceito, deve então ser maldito”

“O dandismo é uma forma degradada da ascese.” “audácias da ‘excentricidade’”

76: Ivan, “quixotismo metafísico” “Com este ‘tudo é permitido’ começa realmente a história do niilismo contemporâneo.’ “a lei do assassinato”

Jamais se admite a—ou se deixa de ficar constrangido diante da—morte legal, i.e., a execução burocrática do Estado. Ride the Lightning

“O Único (…) Stirner ri diante do impasse, Nietzsche se atira contra as paredes.” Stirner, o mais “adolescente” do séc. XIX (que o diga a Ideologia Alemã): “a fraternidade é apenas o ‘modo de ver domingueiro dos comunistas’.” “a guerra dos Únicos”

Já em Nietzsche: “O próprio caos também é uma servidão. (…) Em outras palavras, (…) a revolta desemboca na ascese.” “O amor fati substitui o que era um odium fati.”

Hitler: “A doutrina do super-homem levando à fabricação metódica de subomens”

“Devemos ser advogados de defesa de Nietzsche”

Séc. XX e luta de trincheiras pelo território: “colonização a propósito de Hegel”.

“corrigindo Nietzsche com a ajuda de Marx”

Por que o nome “revolta metafísica”? “Nietzsche (…) antes dele Marx, (…) substituem ambos o além pelo mais tarde.”

Começam as tergiversações camusianas: “marxismo-leninismo” como o protótipo desse casamento entre o social e o esquizóide, o político e o artista, o histórico e o natural. “cesarismo intelectual”

“Depois de Moby Dick, O processo, Zaratustra, Os possuídos, o que imaginar?”

“O melhor, um sono bem embriagado na praia.”

Rimbaud

116: surrealistas que se mataram—Crevel, Rigaut e Vaché. Comparado, o movimento em seus atos gratuitos entrópicos, por Camus, a uma apologia de um sujeito que atualmente chamaríamos de Charles Manson.

“o amor sem objeto, que é o das almas torturadas.”

André Breton, o marxista. “Poder-se-iam contar nos dedos da mão os comunistas que chegaram à revolução pelo estudo do marxismo. Primeiro, a pessoa se converte, em seguida, lê as Escrituras e os Padres.” Ser comunista no começo do séc. XX era como acreditar no amor. Era a última escapatória da modorra da vida. Era como estar namorando, se casar, preencher-se com algum afeto; ou mesmo comer alguém na balada. Simplesmente, coisas que todo homem deveria experimentar. Que deixa mais forte quem nele acredita.

“Uma das teses fundamentais do surrealismo é que realmente não há salvação.” “o estado de sítio pouco a pouco se generaliza”

“ainda não houve revolução na história.” Crítica tácita à idéia trotskista: não pode haver governo revolucionário. “Se houvesse revolução uma única vez, não haveria mais história. Haveria uma feliz unidade e uma morte satisfeita. É por isso que todos os revolucionários visam à unidade do mundo e agem como se acreditassem no fim da história.”

A ESTERILIDADE DA REVOLTA DE ESPÁRTACO: “o exército bate em retirada [de Roma], sem ter combatido (…) Começam então a derrota e o martírio.”

143: Rousseau, germe de Stalin

“Em suas instituições, Saint-Just abolia a carne para menores de 16 anos e sonhava com uma nação vegetariana e revolucionária.” Atmosfera insustentável: “Quem critica é traidor; quem não apóia ostensivamente a república, um suspeito.”

“Rousseau, a quem não faltava bom senso, compreendera efetivamente que a sociedade do Contrato só convinha aos deuses.”

“A bandeira vermelha, símbolo (…) do Executivo”

Espanha, a única nação européia a não perder o Rei após a I Guerra Mundial.

“ninguém se torna deus com tanta facilidade”

E os acontecimentos se tornam esmagadores em velocidade, a ponto de este livre ser anacrônico em 50 anos, apesar das verdades milenares que contém.

“Chega o dia em que a ideologia entra em choque com a psicologia. Não há mais então poder legítimo.” “justificados pela (…) ausência de justificação” “o homem (…) de agora em diante estará fadado às revoluções do séc. XX (…) para finalmente fundar a religião do homem.”

“Se bem que haja infinitamente mais em Hegel do que nos hegelianos de esquerda (…) O vencedor sempre tem razão, esta é uma das lições que se pode tirar do maior sistema alemão do séc. XIX.” “Matar ou escravizar” Hegel

Indiretamente, Hegel fundou a atitude terrorista pessoal e de Estado: o matar e morrer pela transcendência, pela missão. Beco sem-saída.

FEUERBACH: “A Phénoménologie, bíblia que só teria profetizado o passado, colocava um limite nos tempos.” “O endeusamento de Hegel por ele mesmo, após a deificação de Napoleão, a partir de agora inocente porque havia conseguido estabilizar a história, só durou 7 anos. Em vez da afirmação total, o niilismo recobriu o mundo. A filosofia, mesmo a filosofia dos escravos, tem também seu Waterloo.”

“Stendhal via uma primeira diferença dos alemães com os outros povos no fato de se exaltarem pela meditação em vez de se acalmarem.”

184: Raskolnikov, Pisarev e o “assassinato da própria mãe”—curioso prelúdio em O Estrangeiro.

“Aquele que entendeu a realidade não se insurge contra ela, antes se rejubila.”

188: Proudhon e seus flertes com o Satanismo

Bakunin a favor de uma ditadura do proletariado. Outro “inimigo marxista” que é seu complemento ideal. Porém, tece-se, à p. 189, uma espécie de bakuninismo-stalinismo.

“O revolucionário é um homem condenado antecipadamente. Ele não deve ter relações românticas, nem coisas ou seres amados. Ele deveria despojar-se até de seu nome. Nele, tudo deve concentrar-se em uma única paixão: a revolução.” Nechaiev

“Com ele, pela primeira vez a revolução vai separar-se explicitamente do amor e da amizade.”

“se a revolução é o único valor, ela exige tudo e até mesmo a delação; portanto, o sacrifício do amigo.”

Este capítulo sobre os primórdios do niilismo russo é também uma genealogia dos atentados terroristas.

“Em 1883, atentado contra o imperador da Alemanha, cujo assassino foi executado a machadadas.” “assassinato de Carnot” + Operação Valquíria. “O futuro é a única transcendência dos homens sem deus.”

“Quanto a Hitler, sua religião confessa justapunha, sem hesitação, o Deus-Providência e o Walhalla.” “Até mesmo sua forma física, medíocre e banal, não representava para ele um limite, fundia-o com a massa.” “Hitler era a história em estado puro.” “A Alemanha desmoronou por ter travado uma luta imperial com um pensamento político provinciano.”

“Quando o procurador inglês observa que ‘de Minha luta, a estrada levava diretamente às câmaras de gás de Majdanek’, ele toca, pelo contrário, no verdadeiro assunto do julgamento, o das responsabilidades históricas do niilismo ocidental, o único, no entanto, que não foi realmente discutido em Nuremberg, por motivos evidentes. Não se pode conduzir um julgamento anunciando a culpabilidade geral de uma civilização. Julgaram-se apenas os atos que, esses pelo menos, eram gritantes diante do mundo inteiro.”

Impossível não lembrar da “paralisação da História” e da eterna guerra em 1984.

“a mãe grega que foi forçada por um oficial a escolher qual dos três filhos seria fuzilado.”

“Esta primeira tentativa de uma Igreja construída sobre o nada pagou-se com a própria aniquilação.”

“Hitler exemplifica o caso, talvez único na história, de um tirano que não deixou nenhum saldo.” “a negação de tudo é servidão”

O TEMPO GREGO: “Aristóteles (…) não se julgava posterior à guerra de Tróia”

“povos nórdicos, que não têm uma tradição de amizade com o mundo

“Marx é o Jeremias do deus histórico e o Santo Agostinho da revolução.”

DE MAISTRE VS. MARX: “A eternidade os separa no princípio, mas a historicidade acaba reunindo-os numa conclusão realista.” “Maistre odiava a Grécia (que irritava Marx, avesso a qualquer beleza solar)”

“O progresso, paradoxalmente, pode servir para justificar o conservantismo.”

“Marx não dispõe de zombarias suficientes para o otimismo racional dos burgueses.” “O positivismo mostra com muita clareza as repercussões da revolução ideológica do séc. XIX, da qual Marx é um dos representantes, e que consistiu em colocar no fim da história o Paraíso e a Revelação que a tradição colocava na origem do mundo.” “ele [Comte] quis ser o São Paulo dessa nova religião e substituir o catolicismo de Roma pelo catolicismo de Paris.” “sociolatria” “religiões horizontais do nosso tempo”

Comte vs. Marx: o primeiro inaugurava uma transição sem sofrimento: “como querem os desordenados marxistas de nosso tempo” “Sua doutrina, que ele [Marx] considerava realista, era efetivamente realista no tempo da religião da ciência, do evolucionismo darwinista, da máquina a vapor e da indústria têxtil.” “Seria mais correto chamar a posição de Marx de determinismo histórico.” “Marx avança mais do que Hegel e dá a entender que o considera um idealista (coisa que ele não é ou, pelo menos, não mais do que Marx é materialista)”

“O proletariado só pode existir no plano da história mundial… A ação comunista só pode existir como realidade histórica planetária.” “Não se espera pelo poder ou então espera-se por ele indefinidamente. Chega o dia em que é preciso tomá-lo, e é esse dia que continua sendo algo meio nebuloso para os leitores de Marx.”

“Michel Collinet, em La Tragédie du marxisme, assinala em Marx três formas de tomada de poder pelo proletariado: república jacobina, no Manifesto Comunista; ditadura autoritária, em 18 Brumário; e governo federal e libertário em A guerra civil na França.”

“Se está garantido que o reino chegará, que importa o tempo? O sofrimento nunca é provisório para quem não acredita no futuro.” “Nessa Jerusalém estrepitante de máquinas maravilhosas, quem ainda se lembrará do grito do degolado?” “No fundo, que diferença tem de Fourier, que anuncia ‘os desertos férteis, a água do mar potável e com gosto de violeta, a eterna primavera…’?” “Mas todo socialismo é utópico, sobretudo o socialismo científico.” “Quem decidirá quanto à oportunidade senão o oportunista?”

Séc. XIX, o dos erros, do “agora vai!”, do “recebi uma mensagem confirmando o fim para tal dia”. O século da soberba crença no eu.

“Ainda no fim do século IV, um bispo da África proconsular calculava que restavam 101 anos de vida no mundo.”

“Sob um de seus aspectos, a história do socialismo em nosso século pode ser considerada como a luta do movimento proletário contra a classe camponesa.” “A luta das nacionalidades revelou-se pelo menos tão importante para explicar a história quanto a luta de classes.” “Divisão do trabalho e propriedade privada, dizia [Marx], são expressões idênticas. A história demonstrou o contrário.” Equívoco!

250: a derrocada da II Internacional. Basicamente conclusões parecidas com as do(a) autor(a) da unidade I de Sociologia Brasileira (Benedict Anderson?).

“o proletariado não teve outra missão histórica senão a de ser traído.” “A história do niilismo contemporâneo não é mais portanto que um longo esforço para dar ordem, apenas pelas forças humanas e simplesmente pela força, a uma história que não tem mais ordem.” “Não se prega a razão; quando isso acontece, não é mais razão.” “Marx não é mais científico do que La Rochefoucauld” “Em outras palavras, estamos no purgatório e nos prometem que não haverá inferno.” Resumo: as relações materiais guiam o homem. O fim da História representa, portanto, o fim da matéria. Voilà!

“cidade definitiva” “A dialética aplicada corretamente não pode e não deve parar.” “a dialética não é nem pode ser revolucionária. Do nosso ponto de vista, ela é somente niilista, puro movimento que visa negar (sic) tudo que não for ele mesmo.”

“O fim da história não é um valor de exemplo e de aperfeiçoamento. É um princípio arbitrário e terrorista.” “A vontade de poder veio ocupar o lugar da vontade de justiça, fingindo inicialmente identificar-se com ela, relegando-a depois a algum lugar no fim da história, quando já não houver mais nada para ser dominado na terra.”

Stalin estava no fim da vida à publicação desse livro.

“Marx, bom estrategista e filósofo medíocre [!]”

LENIN, MAIS MAQUIAVÉLICO DO QUE SE PENSA: “Ele nega a espontaneidade das massas.” Matou o irmão. Ou melhor: mandou enforcá-lo. “O governo das pessoas é substituído pela administração das coisas…” Se essa afirmação pudesse ser ajustada, diria que já somos coisas. “Lassalle, inventor do socialismo de Estado”

“Não ocorreu a nenhum socialista prometer o advento da fase superior do comunismo” Lenin

A URSS mais parece o III Reich em câmera lenta (tudo ou nada).

“A verdadeira paixão do séc. XX é a servidão.”

Cada vez seria mais capaz de apostar que Sartre só veio a se aproximar do Marxismo por pura birra contra Camus.

ORWELLISMO: “A cada ano, às vezes a cada mês, o Pravda se corrige, sucedem-se as edições retocadas da história oficial, Lenin é censurado, Marx deixa de ser publicado.” “a fabricação da verdade” “o rei está nu” “romantismo da eficácia” E a maquiagem do lado ocidental?

“formigueiro de homens sós” “física das almas” “O pão substituído pelo cupom de racionamento” “O estado de sítio, mesmo estendido aos limites do mundo, não é a reconciliação.”

“No universo do julgamento, finalmente conquistado e acabado, um povo de culpados caminhará sem trégua rumo à inocência impossível, sob o olhar amargo dos Grandes Inquisidores. No séc. XX, o poder é triste.” “Se nossa história é nosso inferno, não saberíamos desviar-lhe o rosto. Tal horror não pode ser escamoteado, ele deve ser assumido para ser superado” “elites desonradas dessa época” “renascer ou morrer” Outro bom título para o livro seria CONTRA A REVOLUÇÃO.

“A história necessária, não suficiente, não passa portanto de uma causa ocasional. Ela não é ausência de valor, nem o próprio valor, nem mesmo o material do valor. Ela é a ocasião, entre outras, em que o homem pode experimentar a existência ainda confusa de um valor que lhe permite julgar a história. A própria revolta nos faz essa promessa. (…) Certamente, a história é um dos limites do homem; neste sentido o revolucionário tem razão. Mas o homem, em sua revolta, coloca por sua vez um limite à história.”

“descobri-la [a revolta] em estado puro na criação artística.” “viver e deixar viver”


IV. REVOLTA E ARTE (última seção)

A arte por enquanto ausente. De tudo! “O niilista Nekrassov, grande e comovente poeta, afirma entretanto que prefere um pedaço de queijo a toda a obra de Pushkin.” “Seguindo os intérpretes revolucionários da Fenomenologia, não haverá arte na sociedade reconciliada.” “a arte posta a serviço da revolução” “O sapateiro russo, a partir do momento em que fica consciente de seu papel revolucionário, é o verdadeiro criador da beleza definitiva. Rafael só criou uma beleza passageira, que será incompreensível para o novo homem.” “Notemos efetivamente que, nessa luta entre Shakespeare e o sapateiro, quem maldiz Shakespeare ou a beleza não é o sapateiro, mas, ao contrário, aquele que continua a ler Shakespeare e não resolve fazer botas, que, aliás, ele nunca conseguiria fazer.”

“a última coisa que um artista pode sentir, diante de sua arte, é o arrependimento.” Só artista entende artista. Eu sei o que é o desprezo às artes! A vida toda, jamais reconhecido por aquilo que realmente se é! Eis o valor de nosso tempo…

Não existe fadiga para o artista. Sempre penso no “Gohan, fique nervoso!” aplicado a minha pessoa. É o baygon de parede que atiça as muriçocas! Esmurre meu olho, conviva comigo, pise no meu calo! Estúpido xará, abra essa boca! Fale do que você não compreende uma vírgula. Assim você me alimenta! Eu transformo em jóias preciosas o adubo da sociedade! Zangar-se é em muitos casos a brecha para a mofa!

“o extremo sofrimento tira o gosto pela leitura.”

“A não ser nos instantes fulgurantes da plenitude, toda realidade é para eles [os homens revoltados] incompleta.” “entender a vida como destino, eis sua verdadeira nostalgia”

Todos os insetos são assim: nunca se insurgem contra você antes que você manifeste sua clara desaprovação primeiro. Depois, só o que sabem ser são marimbondos, como que libertados após mil anos, sem distinguir graça de ridículo, grandeza do que é vil, i.e., eles mesmos. Esses imbecis do banho-maria são o que há de pior! Mas antes uma ferramenta que mostre a desaprovação instantânea da outra pessoa, e que remanesça tudo bem, depois dos pratos limpos, do que todo esse acúmulo de sujeira invisível que só nubla o coração, embora ainda não a visão!

“Parece que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que com o fato de ele não durar. (…) nossas piores torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade.”

“O vergonhoso sofrimento do amante, a partir de agora solitário, não é tanto de não ser mais amado, mas de saber que o outro pode e deve amar ainda. Em última instância, todo homem devorado pelo desejo alucinado de durar e de possuir deseja aos seres que amou a esterilidade ou a morte. Esta é a verdadeira revolta.”

Poor and idiot guy,

You should know that I never decline!

“Dar nome ao desespero é superá-lo. A literatura desesperada é uma contradição em termos.”

“heróis perturbadores” “Julien Sorel” “eles terminam aquilo que nós nunca consumamos” “paliativo de uma realidade falhada” Os protagonistas dos romances são como que terroristas. Parece que sempre há tempo para mudar de idéia e ir fazer outra coisa… Escrever mais uma linha… Arrepender-se de seus crimes…

304: Faulkner e os cínicos americanos. Se fosse pintura, seria modernista, estilizada: “Neste nível mecânico, na verdade, os homens se parecem, explicando-se, desta forma, o curioso universo em que todos os personagens parecem intercambiáveis, mesmo em suas particularidades físicas.”

PROUST: “As moças em flor riem e tagarelam eternamente diante do mar, mas aquele que as contempla perde pouco a pouco o direito a amá-las, assim como as que ele amou perdem o poder de serem amadas.”

Afirmação absoluta ou negação absoluta são igualmente prejudiciais nas artes (realismo e niilismo). Algum outro período histórico em que se tentou um realismo? “a arte dos macacos” “a arte moderna [.ak.a. politizada], em sua quase totalidade, é uma arte de tiranos e de escravos, não de criadores.”

O PROBLEMA FORMA-CONTEÚDO: “A arte é uma exigência de impossível à qual se deu forma. (…) Como o verdadeiro classicismo não é mais que um romantismo domado, o gênio é uma revolta que criou sua própria medida. Por isso, não há gênio, contrariamente ao que se ensina hoje, na negação e no puro desespero.”

COROLÁRIO: “a sociedade capitalista e a sociedade revolucionária são apenas uma, na medida em que se escravizam ao mesmo meio—a produção industrial” “a era do comentário perpétuo e da reportagem agoniza; ela anuncia então a era dos criadores.” Época antropofágica. Deifágica. Amanhã: Leonardo da Vinci vs. Napoleão? “Só como exceção se encontram assassinos entre os artistas.” “Torturadores humanistas” “as vítimas (…) entediam.”

Sangue: mais banal que graxa. A era do “zombie proudness”. A cabeça decapitada ainda é livre.

“Quando Caim mata Abel, ele foge para o deserto.”

Forrest Gump é um cara que “se cansa” das coisas e não vai até a última conseqüência, como nos romances. Ou será que ele se apazigua com seu filho indo para a escola? Se bem que seus afetos são sem-fixos… Brotar-lhe-á um novo amor carnal?

“a música silenciosa que ainda irá transfigurar os infernos terrestres.”

“A física confirma a filosofia”

“O pensamento aproximativo é o único gerador de real.” Ernst Bickel

“a ciência servirá talvez à revolta individual [num futuro próximo]. Esta terrível necessidade marcará a virada decisiva.”

339: Heráclito e Nêmesis, a deusa da medida

No limbo entre cinismo e humanismo. Se eu fosse um jogador seria um meio-campo cerebral, desses que faltam hoje em dia.

342: países do Norte—rei e sindicatos coabitando! Serenidade grega… “justo retorno das coisas” “ideologia alemã (…) i.e., tirania.”

“Nossa civilização vegeta (…) no desejo das pequenas glórias de velhos adolescentes.” Lúcifer pós-rebeldia: seu pecado é a desmedida (alçar-se, invertido, ao lugar daquele que combate por abjeção). A importância do budismo. Epicurêca; Senicuro.

“A revolta é a medida, é ela quem a exige” “palavras de coragem e de inteligência (…) junto ao mar” “as crianças continuarão a morrer sempre injustamente, mesmo na sociedade perfeita.” “O ‘por quê’ de Dimitri Karamazov continuará a ecoar; a arte e a revolta só morrerão com a morte do último homem.” “o segredo da Europa é que ela não ama mais a vida.” Por que Ulisses preferiu Ítaca a se tornar Imortal?

“aqui se encerra o romantismo. (…) é preciso renunciar à época e aos seus furores adolescentes. O arco se verga, a madeira geme.”

[ARQUIVO] MEMÓRIAS DO SUBSOLO

Originalmente publicado em 13 de outubro de 2010


Prefácio de Schnaiderman, Boris: “Gorki deixou uma anotação: ‘Para mim, todo Nietzsche está em Memórias do Subsolo. Neste livro—e até hoje não o sabem ler—se dá para toda a Europa a fundamentação do niiliwsmo e do anarquismo. Nietzsche é mais grosseiro que Dostoiévski’.”


“Existem cidades meditativas e não-medidativas.”

20: determinismo; responsabilidade.

23: o agir; a imoralidade última dos atos; nossa carga pesada; o acúmulo de maldizeres, rugas e expressões e contrações involuntárias da face quando um nome é evocado. O grande prazer incontrolável e tirânico da auto-tortura… Último homem do meu tronco eu sou. Homo ironicus, enfim. Maneiras de se gastar o tempo aprendendo o que já sabemos, processo testado e aprovado elevado até a décima potência.

“Mas que fazer, se a destinação única e direta de todo homem inteligente é apenas a tagarelice”


Estúpido e perfeito como uma barata.

Você é do tipo que para acender um cigarro tem de parar de pensar.

Eu não tenho uma opinião formada sobre nada.

Todas essas bolhas de sabão não são remorsos—é só um jeito; o seu jeito.

O fundamento é o absurdo.

Não, nada disso te machuca. O que é longo prazo para você?


“Cleópatra (…) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das escravas, deleitando-se com seus gritos e convulsões.”

61: o romantismo russo, que é o negativo do romantismo europeu


A cidade nunca é a mesma quando o conto é diferente.


66: o status de mosca. Mosca humana, mosca filosófica.


Dias comuns, em que fazemos coisas gratuitas, inesperadas, e isso vem a mudar nossas vidas.


85: chegar antes que todos na mesa e entabular conversa com o garçom

“Até na aflição a vida é boa”

“Se eu fosse pai e tivesse uma filha, creio que amaria mais a filha do que os filhos; estou certo disso” “Teria ciúme, juro por Deus. Ora, poderia ela beijar um estranho?”

“Sabe que, por amor, pode-se atormentar uma pessoa?”

“Você fala como se estivesse lendo um livro”

“Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e irremediavelmente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pecado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios”

[ARQUIVO] NOITES BRANCAS

 

Originalmente publicado em 12 de outubro de 2010


A familiaridade da sua cidade.


“Caminhava cantando (…) como qualquer homem feliz que não tenha amigos, nem conhecidos, e que nos seus momentos de felicidade não tem com quem compartilhar a sua alegria.”


Será que é isso? Quando a paixão passa do estágio 1, eu como um todo passo a me comportar como minhas mãos quando tenho o que escrever, ou seja, de modo soberano e automático? Porventura nunca eu tinha pisado nesta estranha lua? Inventei-me uma nova casca, tornou-se possível um jeito todo diferente de gostar de alguém? Meio desdenhoso, frio, retardado nas reações? Inveja de alguns casais menos apegados… Inveja, e não ciúme.

Um jeito de sempre ter algo pra falar com alguém é eleger um terceiro funesto, i.e., escolher alguém pra Cristo. Não são poucos os casos da minha vida, em retrospectiva, em que a primeira ou única via para o meu flerte era o mexerico, falar mal de fulano. Risadas e entendimento.

Não há nenhum personagem que não possamos interpretar, independentemente da nossa idade. Ou sexo.


“Dir-se-ia que vivo num sonho, mas mesmo em sonhos nunca acreditei que poderia um dia falar com uma mulher, fosse ela quem fosse…”

“Quando o meu coração fala, a minha boca não se sabe calar.”

“Criei, nos meus sonhos, romances completos!”

“sei que o senhor é inflamável como a pólvora.”

“não é na rua que se deve procurar conselheiro”—atenção às exceções!


Aparentemente, um pré-Homem do Esgoto.


“e ele procede de tão modo que, a pouco e pouco, os seus amigos acabam todos por desaparecer.”

“neste momento, abriram-se no meu cérebro milhares de válvulas e tenho de deixar as palavras afluírem em torrente, pois, caso contrário, sufocaria.”

“o livro em que distraidamente pegara cai das mãos do meu sonhador, que nem sequer leu até à terceira página.”


O supérfluo que é vital!


Tá comigo,

Tá com Deus,

Deus Morreu,

Deus agora é seu Umbigo


“enquanto não chega essa temível hora, não deseja nada”

“Mas como pode falar de algo que não te aconteceu?” Do mesmo modo que posso silenciar sobre tantas coisas que com efeito me sucederam!

“após as minhas noites fantásticas passei por pavorosos momentos de abatimento!”

“Sabe que me vejo obrigado a celebrar o aniversário dos meus sentimentos”

“gosto de edificar o meu presente de harmonia com o irreversível passado” o antanho mais antanho que volta à baila… “…e, muitas vezes, vagueio como uma sombra, sem objetivo, sombrio e triste, por sítios afastados.”


Agora pense: o mais cruel é ser o segundo eu! Porque decidi vir depois de mim…


“sentia, apesar de tudo [da sensação de déjà vu e de eterna reprise], que a vida era mais fácil e tranqüila, não existindo nela esta idéia negra que agora a mim se apegou; nada desses problemas de consciência, sombrios e severos remorsos, que nem de dia nem de noite me deixam descansado.”


Dias perfeitos são estragados. São ilhas afundadas sem deixar vestígios. E para os martírios, moldura e verniz serão sempre recordados. Feriado desgraçado.

Se o “pai médio” na Rússia guarda(va) qualquer semelhança com o meu pai, não há a menor dúvida de que, desse ângulo, o alcoolismo é uma bênção purificadora.


“Mas, Deus meu, como posso ter acreditado em tal coisa? [que ela—ou que alguém—me amasse]”

“porque (sic) não somos todos uns para os outros como irmãos e irmãs?”

O doce da mulher: essa é uma reflexão infinita.

[ARQUIVO] UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO—Geoffrey Blainey

Originalmente publicado em 24 de setembro de 2010

“A palavra hebreu significava andarilho ou ‘aquele que atravessa para o outro lado’.”

142: super-exaltação de Gêngis Khan e bando

146: o autocentramento chinês

149: confirmação do mito viking de descoberta da América

“Cristo e João Batista devem ter possuído vozes que se projetavam a longa distância. Aqueles que hoje vivem na era do alto-falante e do microfone não entendem a que distância pode chegar a voz humana ao natural.”

188-9: as “cantatas” calvinistas de Bach e Handel

“Mozart nasceu numa cidade do sal—Salzburg, na verdade, quer dizer ‘cidade de sal’”

253: em poucas palavras, este autor consegue sintetizar sem distorções e leviandades o “espírito” por trás de Freyre e do falador e romancista humanitário Darcy.

O mundo encolheu o mundo encolheu o mundo encolheu é a frase, disparada, que mais leio ultimamente.

Só constatamos que “a vida é uma merda” nas noites em que ela supostamente não é; o que derruba duplamente a tese—ainda que fosse, seria suportável; mas do que estamos falando? A opressão e a calamidade que podem ser narradas já não existem mais…

277: o problema do estado do bem-estar, da apatia e da insegurança—não vamos retroagir para a vida parca de nossos ancestrais camponeses nem operários, mas então o quê?! De repente rangeremos os dentes, abdicando do aporte estatal? Mais fibra, menos moleques evocando Rousseau?

[ARQUIVO] CARTAS DE ÉPOCA (Nietzsche)

Originalmente publicado em 11 de abril de 2010

“O Natal que eu aprecio tanto” N. aos 12—pra você ver como AOS 13 a gente vira mesmo bicho!

“a escolha de uma carreira parece uma loteria em que há um GRANDE número de colunas vazias e pouquíssimos números vencedores.”

“Meu improviso no piano foi um grande sucesso, e meu estado era mais o de uma ebriedade solene.”

Diziam, quando este tinha minha idade [22], que ele tinha “muitos humores”.

“se um homem deseja entender seu tempo e seus contemporâneos, ele deve ser algo como um estudante colorido (?) (multifacetado)(?). Sociedades e associações, ao lado das tendências que representam, geralmente revelam com perfeita exatidão o caráter da próxima geração de homens.” para Von Gersdorff.

Aos 21 anos, crítica acerba ao alcoolismo e à juventude: “materialismo cervejeiro”.

“uma relação mais íntima com um ou dois amigos é uma necessidade”

“Para recreação eu me direciono a três coisas, um maravilhoso entretenimento me provocam meu Schopenhauer, a música de Schumman e, finalmente, caminhadas solitárias”

“Como são diferentes o relâmpago, a tempestade e o trovão—três poderes sem ética! Quão felizes, quão fortes eles são—pura vontade subestimada pela confusa influência do intelecto!”

“é certamente bastante estranho dominarmos as idéias schopenhaueriana, ainda tão jovens, vigorosas e a meio caminho.”

“Tudo gira em torno de nossas atitudes pessoais. Um evento não tem mais valor do que aquele que escolhemos lhe investir.”

Não está imune a dificuldades para escrever.

“Nosso método de trabalho como um todo é horrível. Os cento e um livros empilhados na mesa diante de mim são vários sanguessugas consumindo a vitalidade do nervo do pensamento independente.”

“Estamos condenados a escolher sermos atletas ou eruditos?”

“O bom trabalho ou o pior que produzimos, nós sozinhos devemos pagar por ele.”

“Parece que eu tenho algum talento montando.”

SOBRE OS JUDEUS E O SÁBADO: “os estudantes teriam proposto seis dias de feriado e um de trabalho por semana, e na prática teriam convertido até esse em uma folga.”

Servir ao exército: bom remédio para os céticos.

A complexa fratura a cavalo em junho de 1868. “Depois de três meses inteiros, quando finalmente deixei meu leito, estava naturalmente tão exausto que tive de aprender a andar de novo (…) Não é improvável que eu devo sempre sofrer de alguma fraqueza ao redor do trauma.” “uma operação não foi necessária”—talvez tenha sido um erro médico.

O HILÁRIO caso do terno, contado a Rohde. “O pequeno homem sumiu com minhas roupas.” “examinei um casaco preto e me perguntei se era bom o suficiente para Richard.” “Ele fala muito rápido e de forma eloqüente”

Podia-se falar de outros amigos nas cartas para os amigos.

Abril de 69: maquinando Schopenhauer como Educador.

“O bezerro e o bumbum do bebê, dizem os homens, louvam a Deus mais perfeitamente.”

Relato DETALHADO de um encontro amoroso à mãe! Fran Von Billöw.

“Em suma, estou mais insatisfeito comigo mesmo que com o mundo”

Nietzsche só não combateu na guerra porque seu vínculo com a Universidade da Basiléia o obrigava a assumir uma posição de neutralidade no conflito, como foi o caso da de enfermeiro. “a atmosfera das minhas experiências me trouxe uma grave melancolia, e por algum tempo eu jamais deixei de escutar os lamentos desesperados dos moribundos.”

Não suportava a obrigação de ter um emprego, de dar aulas, e não dispor de tempo livre.

“Uma existência verdadeiramente honesta é impossível aqui [na universidade].”

Para Rohde: “devemos fundar uma nova Academia Grega” “Eu já comecei a limitar minhas necessidades a fim de preservar pequenos vestígios de riqueza pessoal. Devemos ainda tentar nossa sorte em loterias; e, se escrevermos livros, devo esperar para o futuro imediato o máximo de renda possível.”

“Em Leipzig a irritação parece ter prevalecido uma vez mais. Ninguém de lá me escreve uma linha sequer sobre isso, nem Ritschl.”

“Quem pode resistir às caprichosas maneiras do clima, que subitamente se tornou o inverso do que era!”

Estou em abril: “Agora é o belo e puro outono, justamente o tempo para se caminhar por aí.”

“Eu estou absolutamente sozinho aqui e poderia permanecer por semanas, ora repousando ora caminhando.”

Após Nascimento da Tragédia, odiado por outros professores. Compara a academia à Inquisição.

Para Rohde: “Você está a par de um certo alienista que teria provado na mais ‘dignificante das linguagens’ que Wagner é um demente? O mesmo havia sido feito com Schopenhauer.”

Para Meysenbug: sonha com uma edição especial adornada de seu livro.

“Envelhecer e tornar-se solitário são para mim sinônimos, e no fim um homem está de todo sozinho e faz outros se sentirem sozinhos com sua morte.”

“Todos os poderes estão mobilizados contra mim—a polícia, as autoridades, e os colegas.” 1873, quando do rompimento com os Ritschls.

“Meus olhos são o único problema.”

As II Intempestivas foram autocensuradas (amortecidas).

“Por ora eu estou realmente muito, muito cansado de tudo—mais que cansado.”

“Trabalho regular num posto oficial é tão bom porque leva a certo estado obtuso à pessoa, que sofre menos.”

O estranho de ler em inglês é que o texto está sempre musicado. Mas apesar disso—do ar mais poético—o inglês também empresta contornos mais vulgares a qualquer texto.

Para Rohde: “Eu avanço aprendendo sobre seus ombros”

Pensou em escrever 13 Intempestivas: “Imagine o efeito de 50 dessas 4 que já escrevi!”.

“A única coisa que eu ainda espero da vida é uma boa esposa. Todo o resto depende de mim mesmo…”

“É de prévio conhecimento nosso—nossa marca de nascença—que de um jeito ou de outro nós constantemente aparecemos diferentes do que pensamos.”

“Leia Dom Quixote (…) todos os problemas pessoais parecerão se converter em nada e adquirir feições simplesmente risíveis”

“Eu tenho toda a dificuldade do mundo para me entender a mim mesmo—minha cabeça está tão cansada.”

A amizade com Wagner foi idílica: nunca se ofenderam.

“A cultura cai sobre nosso passado quando nossa mãe morre; é depois disso que pela primeira vez nossa meninice e adolescência se tornam não mais do que uma memória.”

“beber o próprio sangue! A vida vira uma questão de não perder a sede de si mesmo”

“Lisbeth, diga que não sabe sobre o que venho escrevendo. As pessoas estarão prontas para te rotular de imoral e sem-vergonha.”

Faz planos de comprar uma máquina de escrever.

Compara Sils-Maria ao México—tranqüilidade do sul.

Bizet comparável a livros de Mérimée e a viagens ao sul da Espanha.

“Em minha opinião toda a música moderna parece estar sofrendo de uma atrofia progressiva do senso de melodia. A melodia, como a última e mais sublime arte das artes, é governada por leis lógicas que nossos anarquistas gostariam de declarar tirania!”

“Não teria o poder de destruição de nervos da música de Wagner arruinado minha saúde? E não levei 6 anos para me recuperar dos golpes? Não, Bayreuth me é impossível!”

1882: formulação da “meta secreta”.

Madame Louise O. (?)—“lembrança charmosa”.

Queria mais dinheiro para a “casa de cão” ideal.

“Durante o inverno, quanto mais ao sul, melhor; para o verão, deve-se aquecer a alma! Mas o norte é tão cruel, por não oferecer nenhum consolo durante o gelo e nem o calor desejável!”

“Epicuro é precisamente o melhor contra-argumento ao meu desafio direcionado a todos os espíritos raros, que devem se isolar das massas e dos compatriotas (…) é uma das ironias do destino que tenhamos que acreditar em um Sêneca chamado na Córsega de vilão.”

A guerra familiar—a Naumburg do ar empestado por maus cristãos (“bons cristãos”, a depender da boca e do seu grau de corrupção).

O dia em que Zaratustra matou Wagner.

A dança com ninfas e a tristeza que a sucede—hora de ir embora—têm absoluta relação com a tentativa de moralização da vida amorosa de F.N. por parte de sua tradicional família, aí incluídas tias e primas distantes.

Nietzsche foi recusado na mesma Leipzig cristã que, mais de uma década atrás, concedera-lhe o doutorado com insuspeita rapidez. “eu sou o mais terrível oponente do Cristianismo, e descobri um modo de ataque do qual nem Voltaire tinha uma pista.”

Alguns sujeitos foram omitidos—“x” ou “_____”.

Para Lisbeth: “O que esses Rées e Lous importam” “Ambos se mostraram originais e não cópias, e foi por isso que estive sob sua companhia, porém ela acabou sendo insípida para mim.” “Schmeitzner [seu editor] disse que eu não tenho amigos, que eu fui deixado na sarjeta por 10 anos!” “Não necessito de outras pedras nas engrenagens do meu relógio.”

Zaratustra como o “acme of perfection” (“depois de Lutero e Goethe, faltou um 3º passo a ser dado”). Ressalta o caráter de compêndio dos humores humanos que é, afinal, este livro messiânico.

Recorrente para Peter Gast: “jardim de Epicuro”.

Quando perdeu algum dinheiro na rua, disse, com espírito: “Tomara que uma velhinha possa ter achado seu presente de Natal no chão”.

“Lasnaland”, a colônia anti-semita paraguaia, que não tardaria a decretar falência.

“A vida é um experimento; alguém pode fazer o que quiser e deve pagar emocionalmente por cada coisa.”

“É terrível ser condenado ao silêncio quando se tem muito o que dizer.”

“Um homem profundo precisa de amigos. Tudo o mais falhando, ele tem ao menos seu deus. Mas eu não tenho nem deus nem amigos.”

Portofino e sua vegetação: “é um pouco reminiscente do Brasil”. Compara-se a Crusoe.

“Política alemã—só outra forma de inverno eterno e terno ruim.”

“Eu escutei por acaso dele como, na Universidade de Tübingen, onde eu passo por ser o mais negativo dos espíritos, meus trabalhos são devorados em segredo.”

Um “terremoto” em Nice causado pelo carnaval dos turistas.

“Eu quero ter minha própria cozinha (…) eu não sou um escolar em suas andanças.”

Precisava, também, de “Alguém que leia em voz alta sem fazer o livro soar idiotizante”.

“Onde quer que eu tenha observado a influência da mulher no homem, noticiei um declínio gradual como resultado; p.ex. no caso do pobre _____.” Possibilidades: Rohde/Wagner. Mas Wagner já era casado quando o conheceu…

“ouvidos não devem estar abertos aos meus pensamentos até muito tarde—certamente não antes de 1901.” (!)

“Uns poucos são suficientes para mim; um é suficiente; mesmo nenhum.” Sêneca

“Eu penso em Taine e Burckhardt como meus únicos leitores. Como três niilistas fundamentais estamos de fato irrevogavelmente condenados uns aos outros”

“Dühring, que teve o bom gosto de apresentar-se em sua autobiografia como o Rousseau do século XIX (Apenas observe como um homem se posiciona quanto a Voltaire e Rousseau). O paradoxo do Romantismo, cujo ícone é Rousseau: quão mais tirânico é o princípio, mais melodramática deve ser a canção.”

Georg Brandes & a pecha de anarquista aristocrático.

“Verdade, minha existência até aqui mostrou-se a si mesma ser o que ela realmente é—uma mera promessa.” Queixa-se da solidão, que casar-se só degradaria sua autonomia e pede os dotes caseiros da irmã de volta: “Para um filósofo, uma irmã é uma excelente instituição filantrópica, particularmente quando ela reluz, é destemida e amável”.

Para Gast: “meio milhão é a primeira premissa da ironia…”

Discussão sobre climas secos—na verdade o contraste sentido entre diferentes climas é que tanto anima e renova o viajante.

“Quando um animal está doente ele rasteja para sua caverna—é isso que faz a besta filosófica.”

“Meus dedos estão azuis”

“Não devo mais escrever nada sobre Wagner: as pessoas fazem muita graça de mim.” Baudelaire


SESSÃO FINAL: DAVID STRAUSS, A PRIMEIRA POLÊMICA

Ganhar uma guerra é indício de exército mais brutal—não de cultura superior, como queriam os alemães.

O pós-modernismo chegou mais cedo à Alemanha.

“Todos têm, a priori, o direito de compilar uma autobiografia após seu 40º ano.”

“O Filisteísmo como fundador da religião do futuro.” Os filisteus amam os clássicos e os destroem, tornam sua vida insuportável. “Nenhum grande escritor alemão é tão popular entre os pequenos escritores alemães quanto Lessing.” Uma Alemanha, também, digna da seguinte peculiaridade: concedia a meros contemporâneos desde já o status de clássicos.

Strauss critica a Nona de Beethoven. E tentava desprezar Schopenhauer. Igualmente, julga Kant mal. Até Darwin soa inteligente perto dele.

“Se eu pudesse conceber jovens com paciência o bastante para ler o livro de Strauss inteiro e avalia-lo, eu renunciaria tristemente a toda esperança no que concerne a seu futuro.”

“Hoje o homem de ciência trabalha tão ardorosamente quanto a quarta casta ou casta escrava: seu estudo deixou de ser uma ocupação para se tornar uma necessidade.”

“Toda coisa realmente produtiva é ofensiva”

Pega pesado: até Kant é traduzível para o latim, Strauss não!

Schopenhauer previa o fim da Literatura alemã para 1900, caso os Clássicos continuassem naquela “evolução”.

“Em terra de cego, caolho é rei”—Strauss é o líder dos filisteus. “Com efeito, concedemos-lhe muito quando lhe atribuímos um olho.” “estilo de jornal” Não deixa de ser uma ode: hoje esse homem só é lembrado, quiçá, devido a esse artigo intempestivo (santa língua machadiana)!

[ARQUIVO] O SUPER-HOMEM CONTRA A DIALÉTICA

 

Originalmente publicado em 3 de maio de 2010


A) DELEUZE—Nietzsche e a Filosofia—CAPÍTULO 5

Diferença entre os designativos:

– Homem-Deus: o homem à la Ivan: “tudo é permitido”.

– Deus-Homem: Cristo—Deus no formato circunstancial de homem {primazia do 1º elemento}.

“Na verdade, para o olho do genealogista, o trabalho do negativo é apenas uma grosseira aproximação dos jogos da vontade de poder.” Hegel como a consciência onisciente dos fins a que conduzem as sucessivas negações das negações… Somente na genealogia há algo novo.

Sobre inversões e manutenções de significado: “Stirner é o dialético que revela o niilismo como verdade da dialética”—poderia ser: Stirner é o niilista que revela a dialética como verdade do niilismo. Não se está saindo do lugar.

AMOR ENQUANTO LUBRIFICANTE DA EXISTÊNCIA: “Só do amor me pode vir a vontade de meu desprezo e de meu pássaro anunciador, não do pântano.” Nietzsche


B) HEIDEGGER—A Sentença Nietzscheana “Gott ist Tot”

“A destituição do supra-sensível desemboca em um nem-nem” “rompantes epocais” “Todo pensamento metafísico é onto-logia ou não é absolutamente nada.” “A obra central planejada nunca foi levada a termo.” Frase antes cunhada por Hegel. E até Pascal.

“também os deuses apodrecem” “A grandeza deste ato não é grande demais para nós?” “O mais sinistro de todos os hóspedes” A grande pergunta desse texto sequer será “qual a gênese”, mas “qual o telos do niilismo?”. “O pessimismo da força” Ele executa o que intentarei: uma hierarquia dos diferentes niilismos. A recriação de Deus/deus (minha fala simplificadora no seminário). Como pode ser que na Rússia o Cristianismo se liquidou primeiro? Porque este sempre fôra o país mais cristão. Mesmo antes de ser cristão. Almas/personas e doutrina se encaixa(va)m. Napoleão como protótipo níti-do.

Por que “a-metafísico”?

“O artista é apenas um estágio prévio.” Nietzsche

“A arte é o valor supremo” Heidegger

Nomenclaturiza as coisas de modo a tornar N. em algo parecido com Descartes! Mais da metade da leitura transcorrida e por enquanto nada de pré-socráticos sendo citados.

“do uso e do abuso da História para a vida”—versão em inglês. “seria (…) equivocado se se quisesse tomar a formulação do princípio valorativo como uma prova de que Nietzsche filosofa existencialmente. Ele nunca fez isto. Mas ele pensou metafisicamente.”

Aristóteles e “o quarto livro de sua Metafísica”. “Kierkegaard não é nenhum pensador, mas um escritor religioso.”

Compreensão errônea do supra-homem. S-H: Querer querer. “a tarefa de assumir o domínio da terra” “Somente quando um pensamento futuro for levado até o ponto de pensar este Livro para todos e para nenhum em conjunto com as Investigações sobre a essência da liberdade humana, de Schelling (1809), e isso significa concomitantemente, em conjunto com a obra hegeliana A fenomenologia do espírito (1807), e isso significa concomitantemente, em conjunto com a Monadologia (1714) de Leibniz, e de pensar essas obras não apenas metafisicamente, mas a partir da essência da metafísica, serão fundados o direito e o dever, assim como o solo e o campo de visão para uma discussão.”

“O grande meio-dia” Sol, horizonte, mar… Hannah Arendt. Não vejo, ao final, nenhum postulado novo; apenas uma introdução amigável. Última linha: “O pensamento só começará ao experimentarmos que a razão há séculos glorificada é a mais tenaz rival do pensamento.”

O “não-posicionamento nietzsch3eano diante da existência ou não de Deus”—utilidade da mentira. Tudo é um como se… Aceitemos a factível existência Dele: infelizmente o homem perdeu o valor para acreditar Nele. Ou felizmente.

[ARQUIVO] ORIGEM DA TRAGÉDIA —OU GRÉCIA E PESSIMISMO—

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

30: a ilusão do eu vs. o caos

38: Rei Midas e Sileno, o tutor de Dioniso

44: A Transfiguração, de Raffaelo Sanzio (capa)

51: lições de perspectivismo

61: “o aniquilamento budista da vontade na Grécia Antiga; Hamlet, o Homem “Ridículo e Envergonhado” do Vontade de Potência.

72: Édipo em Kolonos: o passivo ativo e o ativo passivo

75: Adão, Eva e Prometeu, o Ariano

79: o Platão dionisíaco

82: Eurípides, o discípulo teatrólogo de Sócrates, o envenenador involuntário da Tragédia e do mito

83: “O grande Pan morreu!”

91: o paradigma da participação

101: sabe-se que o protagonista não morrerá—por uma ficção anti-heróica

107: a ciência enquanto ócio criativo e jogo

111: “renascença da tragédia”

142: bazuca agora mira a universidade e o jornalismo

149: o choque fatal da barca de Tristão e Isolda como uma solução mítica, digna de Édipo!

151: mérito, ou “escapatória”: enxergar (ou inserir) finalmente a necessidade do apolíneo, tão trucidado ao longo do texto

155: desde já um ferrenho antagonismo a Aristóteles

163: exortação à guerra ariana


“a morte é o prazer supremo, enquanto significa o reencontro com a origem.” Ciro Mioranza

“Existe um pessimismo da força?”

“um livro que (…) deu satisfação aos ‘melhores de seu tempo’ (…) entretanto, não quero dissimular de modo algum a impressão desagradável que hoje me produz: quão estranho se apresenta a mim dezesseis anos depois” Nietzsche 1888

“Talvez hoje eu fosse mais circunspecto, menos eloqüente para tratar de uma questão psicológica tão complicada como é a busca das origens da tragédia entre os gregos.”

“Há porventura—pergunta para os psicanalistas—uma neurose da saúde?”

“um desejo de nada, de morte, de repouso, até o ‘sabbat dos sabbats’”

“passagem do ‘matador de dragões’ (…) Não é a autêntica e verdadeira profissão de fé do romantismo de 1830 sob a máscara do pessimismo de 1850?”


“Meu amigo, esse é precisamente o trabalho do poeta,

Observar e interpretar seus sonhos

Acredite, a ilusão mais verdadeira do homem

a ele se manifesta no sonho;

Toda arte poética, toda poetização

Nada mais é que tradução verdadeira do sonho.”

Hans Sachs, Mestres Cantores


“Ouvi dizer também que certas pessoas possuíam a faculdade de prolongar a causalidade de um só e mesmo sonho por três e mais noites consecutivas.”

“Eurípides em As Bacantes, o sono nos altos caminhos das montanhas, sob o sol do meio-dia.”

“Se esse mundo tendesse a um fim, esse fim já teria sido alcançado”

“se esquece aquilo que todos sabem”—se esquece que não há indivíduos

METAFÍSICA DO ARTISTA: “Todo o nosso conhecimento da arte é no fundo absolutamente ilusório (…) É somente no ato de criação artística e na medida em que se identifica com esse artista primordial do mundo que o gênio sabe algo da eterna essência da arte; pois, nesse estado, é então, por milagre, semelhante à perturbadora figura da fábula, que tem a faculdade de voltar seus olhos para dentro e se contemplar a si mesma; ele é agora, de uma só vez, sujeito e objeto, de uma só vez poeta, ator e espectador.”

“O conhecimento mata a ação, à ação pertence a miragem da ilusão—este é o ensinamento de Hamlet.”

“em todos os criadores, o instinto é precisamente a força positiva, criadora, e a razão consciente é uma função crítica, desencorajadora”

TODOS OS POSTULADOS DO ETERNO RETORNO E DO NIILISMO JÁ INCLUSOS EM SUA OBRA INICIAL: “Quando, cheio de espanto, vê nesse limite extremo a lógica se enrolar sobre si mesma como uma serpente e morder-se a cauda—então surge diante dele a forma mais nova do conhecimento, o conhecimento trágico, do qual lhe é impossível suportar unicamente o aspecto, sem a proteção e o auxílio da arte.”

CONTINUAÇÃO DO EQUÍVOCO: “reflexo da própria vontade e, portanto, representa, com relação a todo o físico do mundo, o metafísico, e com relação a toda aparência, a coisa em si. De acordo com isso se poderia denominar o mundo (…) música corporificada” Schopenhauer

“O deus ex machina tomou o lugar da consolação metafísica.” HAPPY END—imagine-se Aquiles voltando pra mamãe!

“cultura alexandrina [socrática] ou helênica ou budista.”

“Parece somente que revivemos analogicamente, de algum modo na ordem inversa, as grandes épocas decisivas do helenismo e que remontamos, p.ex., da era alexandrina até a época da tragédia.”

“Com o tirso(*) nas mãos, coroem-se de heras e não se admirem se o tigre e a pantera se deitam a seus pés, acariciando-os. Ousem ser agora homens trágicos: pois, devem ser redimidos. Vocês devem escoltar o cortejo dionisíaco da Índia à Grécia!”

(*) “O tirso era um bastão encimado por uma pinha rodeada de gavinhas de videira e de ramos de hera; era um dos símbolos de Dioniso.”

“Para sair do orgiasmo, não há para um povo senão um caminho, aquele do budismo indiano.”

“Em cada propagação importante de excitações dionisíacas, pode-se sempre notar que a liberação dionisíaca das algemas do indivíduo se manifesta primeiramente numa depreciação dos instintos políticos que chega até a indiferença e mesmo até a hostilidade.”

ANTI-ANTICRISTO: “Colocados entre a Índia e Roma e impelidos a uma escolha tentadora, os gregos conseguiram descobrir, com pureza clássica, uma terceira forma, a qual não foi usada por eles por longo tempo, mas, justamente por causa disso, é imortal.” Falta de vontade ou excesso de vontade: o Cila ou Caribde do macrocosmo cultural.

“os prediletos dos deuses devem morrer cedo”

“com um exame rigoroso cada um (…) [vai] chegar (…) por intermédio de abstrações, a acreditar numa existência real do mito no passado.” “As imagens do mito devem ser os guardas demoníacos, invisíveis e onipresentes, propícios ao desenvolvimento da alma adolescente e cujos sinais anunciam e explicam ao homem sua vida e suas lutas”

“Não escrevo tratados; estes são para asnos e leitores de periódicos”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Parece que de um modo ou de outro eu sou um exímio artista plástico!

Por que desejaríamos o pesadelo?

Eu não sou um indivíduo, eu sou só uma retaliação.

O GATILHO—Assim como Billy Elliot quando dança, quando escrevo já não sou mais eu. Eu, rá, que petulância! Sou só um hospedeiro, e a caneta mais segue a natureza que uma mão humana volitiva!

There’s nothing to worry about…

It’s never YOU, never your fault!

Cause of the click of the forgotten…

Querer ser um artista—o que representa? Vontade de reconhecimento instantâneo, de matar dragões.

As cerimônias do Ocidente foram todas feitas para acentuar o que há de ridículo nas pessoas.

O que os olhos não vêem, o coração não sente, mas especula. E não há anestésico melhor do que a certeza do olho.

Pp. 92-4 (trecho também em O Caso Wagner): Sócrates mata essa personalidade sobrenatural tácita no artista, de modo que subsista tão-somente a capa/máscara, i.e., aquilo que antes deveria ser o corpo e hospedeiro—mas que, por não ter mais nenhuma função metafísica, perde a razão de existir, de estar aí. Esterilização do mundo. Anti-natureza. O homem como desafio, aberração, excrescência. Ilusão de que se pode mudar a História (essa própria reviravolta não passando de uma fatalidade dionisíaca, por Dioniso). Perda “agendada” do Uno de si mesmo.

Gênese do conceito de “sombra” em Nietzsche: quando seu segundo, sua segunda natureza (ou sua primeira) surge e dialoga ou então toma a palavra tiranicamente. Resta ao corpo frágil aparar as arestas ou tornar-se o pára-raio das conseqüências, com os dedos cruzados. Porém, este é um personagem que jamais pode ser chamado. Ele aparece, no nosso melhor humor.

But everything is gonna work out fine

If it don’t, I think I’ll lose my mind, yeah!

A importância apregoada ao sonho do fim da vida de Sócrates: “Sócrates se dedicando à música”. Ele que chegou às culminâncias… Se há uma teleologia do indivíduo, aquele que antes da metade da vida já é adepto do trágica fica então louco!

O que deve ser corrigido na análise: a Música per se não define o triunfo do trágico, porque ela pode ter sido elaborada segundo a dialética socrática; ao mesmo tempo, produções culturais presentes ou vindouras podem se apresentar num formato cênico; porém com elementos trágicos predominantes, i.e., o instinto grego original sendo aquele que conduz as personagens, por trás da trama aparentemente racional.

CONCLUSÃO: Não existe a variável artística proeminente/sobressalente que determine as demais.

Unidade nos fragmentos, seus tolos!

O hiper-defeito de Marx: cego em relação à arte (Ideologia Alemã como panfleto político icônico). Engels, a despeito de entender “a vida como um processo contínuo”, ainda só quer o fim dele. O conceito consciente de comunismo é apenas disfarce. A. e T. estão todos no mesmo rol dos doentes caluniadores da vida. Não há diferença nenhuma entre eles, a rigor, para a análise que se aprofunde 3 milímetros na epiderme.

“Então Prometeu foi CASTIGADO porque…”—tal não existe. O auto-aniquilamento da força—quer viver, POR ISSO, quer também morrer. “Viveu como morreu” filósofo Bart. O herói da era cristã nunca está atrás de promover o injusto! Só “consertar erros”… Existência eternamente falhada. Depois do happy end, todo herói morre. Nós tornamos o mundo imperfeito para que, durante o grande jogo, ele tenha realmente ares de perfeito.

É porque 90% dos expectadores de filmes são passivos e não modificam suas vidas, nada aprendem, que eu tinha uma aversão metafísica pelo gênero? Preferia livros, moldadores de caráter? Só assim eu aceito “participar”: música e outros que reflitam nos meus próximos passos. [escolher: meditar o trabalhar—parece que de nenhuma forma se é mais do que um zumbi]


De 30 de março a 4 de abril de 2011

[ARQUIVO] LA ROCHEFOUCAULD

 

1ª PARTE

Mascaramento de imperfeições—exemplo: “Eu não posso. Logo, eu não quero.”

Devidamente transposto no séc. XIX, quando começou a ascender o amor ao nada: “Há no coração humano uma geração perpétua de paixões, de modo que a ruína de uma é quase sempre o estabelecimento de outra.”

“somos muitas vezes firmes por fraqueza e audaciosos por timidez.” (*)

“Os homens odeiam até mesmo aqueles que lhes prestam serviços e deixam de odiar aqueles que os cobriram de ultrajes.”

“a moderação dos homens em seu mais alto grau é desejo de parecer maiores que sua fortuna.” Nem muito feliz nem muito cabisbaixo publicamente: assim espanta-se o mau agouro dos invejosos e a compaixão destrutiva dos piedosos.

“excetuando-se sua enorme vaidade, os heróis são feitos como os outros homens.”

“Nem o sol nem a morte podem ser encarados fixamente.”

(*) Desfecho de Zaratustra: a verdade é que o anfitrião deveria ter sido mais duro com os visitantes desde o início, mas sua reação retardada mostrou ser a melhor de todas. Porque nós, metade tiranos, tiranos do espírito, temos pena dos outros, mas não de nós mesmos. E aí somos cruéis ao máximo com os outros, indiretamente (mas em cheio), assim que ficamos com raiva do nosso próprio sentimento de pena.

MAIS UMA: “O mal que praticamos não atrai tanta perseguição e ódio quanto nossas boas qualidades.”

A diferença entre ciúme e inveja: “merecer” ou não uma coisa. Têm inveja da minha escrita; eu sou enciumado de mestrandos burros.

“Eu quero que você seja feliz!”—quanta maldade nesse desejo!

O mito do amor crescente—talvez os mais nobres sentimentos devessem ficar incomunicáveis.

O orgulho é constante numa vida—o problema é que ele se disfarça em “orgulho silencioso” quando o amor-próprio não é mais exteriorizado, seja porque se o percebeu ofendido e atacado pelos outros, seja porque simplesmente é-se mais virtuoso, e isso encolhe a vaidade e a pavonice: a tranqüilidade da superioridade. Ou seja: palavras viram desprezo. O maior tagarela e prosador torna-se o maior desprezador.

PENA DOS BILIONÁRIOS: “Por diferentes que sejam as fortunas, há, contudo certa compensação de bens e de males que as torna iguais.”

P. 22: o ideal de pobreza dos filósofos; maus do século XVII; do humor.

“Ocorre com o verdadeiro amor o mesmo que com a aparição de fantasmas: todos falam deles, mas poucos já os viram.”

“Um ingrato pode ser menos culpado de sua ingratidão que aquele que lhe fez o bem.”

“É uma espécie de galanteio fazer notar que nunca usamos galanteios.”

Espírito: o enganador. Coração: suas verdadeiras disposições.

“Os defeitos do espírito, como os do rosto, aumentam com a idade.”

“O que mais liberalmente damos são conselhos.”

“fazemos o bem para podermos impunemente fazer o mal.”

“O uso contínuo da astúcia é a marca de um espírito pequeno.”

Talvez possa antecipar a síntese máxima desse livro: que nossa força reside em sermos seres fracos. Sempre obtemos bem mais do que parecemos capazes de fazer. Nós, as pontes, nós os comediantes, nós que tratamos bem a maioria dos interlocutores—não há como não surpreender!

“Há pessoas que jamais teriam se apaixonado se não tivessem ouvido falar do amor.”

“Preferimos falar mal de nós mesmos a não falar de nós.”

“procurar tão insistentemente agradar a si mesmo é um meio equivocado de tentar agradar aos outros ou persuadi-los”

“Um homem de espírito haveria de ficar com freqüência muito embaraçado sem a companhia dos tolos.”

Sob várias formas ao longo do livro: “A natureza faz o mérito e a sorte lhe dá emprego.”

“O que nos leva a apegar-nos a novas amizades não é tanto o cansaço que temos das antigas ou o prazer de mudar, quanto o desgosto de não sermos admirados por aqueles que nos conhecem demais e a esperança de sermos mais admirados por aqueles que não nos conhecem.”

“Esquecemos facilmente nossos erros quando somente nós os conhecemos.”

“Quem vive sem loucura não é tão sensato quanto pensa.”

“A distância diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e acende o fogo.”

“Há maus que seriam menos perigosos se não tivessem nenhuma bondade.”

“Por que é que temos bastante memória para reter até nos mínimos detalhes o que nos aconteceu e que não tenhamos bastante para lembrar quantas vezes os contamos à mesma pessoa?”

“Por vezes supomos odiar a bajulação, mas só odiamos a maneira de bajular.”

“É mais difícil ser fiel à amante quando se é feliz do que quando se é maltratado.”

“As mulheres desconhecem toda a sua afetação.”

“O sotaque da região em que nascemos permanece no espírito e no coração, como na linguagem.” (???) P.S.: Como os gaúchos—as gaúchas—são orgulhos@s (vaidosas?) da sua própria voz! Nisso, já beiram a xenofobia…

“O maior milagre do amor é curar da afetação!”

“É muito difícil romper quando a gente já não se ama.”

“Aborrecem-nos quase sempre aqueles com quem não é permitido se aborrecer.”

“Somente as pessoas que evitam causar ciúmes é que são dignas de que se tenha ciúmes delas.”

“O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele.”

“Sabe-se muito bem que não se deve falar da própria mulher, mas não se sabe suficientemente que menos ainda se deveria falar de si.”

“As violências a que nos submetemos para nos impedir de amar são muitas vezes mais cruéis que os rigores de quem amamos.”

“Quase todos os jovens pensam ser naturais, quando são apenas mal-educados e grosseiros.”

“A inveja é destruída pela verdadeira amizade”

“A violência que nos fazemos para permanecer fiéis a quem amamos não vale mais que uma infidelidade.”

“Ela não era bonita”—a flecha do cupido demora muito até ser retirada.

“Perde-se às vezes o ar burguês no exército, mas nunca na côrte.”—distinguir-se pelo valor, não pela afetação. Talvez fosse o remédio para os mais esdrúxulos dessa classe média candanga, principalmente dessa ralé empertigada dos cursinhos de direito.

“Guarda-se por muito tempo o primeiro amante, enquanto não se arranja um segundo.”

“O que menos se encontra no galanteio é amor.”

A Filosofia é útil para o passado e o futuro, mas não serve para o presente.

Quanto mais distante a perspectiva da qual se observa a vida, menos ela faz sentido. Hoje, aqui, tudo é plenamente coerente.

“As afetadas se sentem honradas com os ciúmes que têm de seus amantes, para esconder que têm inveja das outras mulheres.”

“Poucos sabem ser velhos.”

“As mulheres que amam perdoam mais facilmente as grandes indiscrições que as pequenas infidelidades.”

“Nada impede tanto ser natural que a vontade de sê-lo.”

“É mais fácil conhecer o homem em geral que um homem em particular.”

“Não desejaríamos praticamente nada com ardor, se soubéssemos perfeitamente o que desejamos.”

“Tratamos de nos orgulhar dos defeitos que não queremos corrigir.”

“A velhice é um tirano que proíbe sob pena de morte todos os prazeres da juventude.”

“Nas primeiras paixões as mulheres amam o amante [lato sensu] e nas outras, amam o amor.”

NADA CONSOLADOR: “Por mais raro que seja o verdadeiro amor, é ainda mais raro que a verdadeira amizade.” Eu não usufruí nem de um, nem da outra.

“A vontade de ser lamentado ou admirado constitui muitas vezes a maior parte de nossa confiança.”

CONSOLADOR: “A mesma firmeza que serve para resistir ao amor serve também para torná-lo violento e duradouro e as pessoas fracas, que são sempre agitadas pelas paixões, quase nunca a têm verdadeiramente.”

“A timidez é um defeito perigoso de repreender nas pessoas que queremos livrar dela.”

“Quando temos o coração ainda agitado com o que resta de uma paixão, estamos mais perto de sermos invadidos por uma nova do que quando inteiramente curados dela.”

“Geralmente só se conta o primeiro galanteio das mulheres depois do segundo.”

AFORISMO 500: “Há pessoas tão centradas em si mesmas que, quando estão apaixonadas, encontram meios de se ocupar de sua paixão sem se ocupar da pessoa que amam.”

P. 74: consideração sobre os suicidas e outros. O diário problema da morte. O mais divertido é que a morte em si não existe—mas a reputação é um pós-morte vivido na vida muito importante! Um suicida é, no mínimo, muito mais nobre que qualquer fiel de religião. Porque isso se chama: viver a vida com covardia. Não adianta parasitar um organismo que desejaria ser suprimido dessa maneira anêmica.


2ª PARTE

P. 79: um pouco de História

P. 80: um pouco das possessões e viagens ilustres de La Rochefoucauld

P. 81: sobre a relatividade da beleza—quando as menos belas desbancam as mais belas

As frases da primeira parte ajudam bastante aqui, dados os vocábulos dos quais o autor retira um significado bastante específico e “de época”, como “humor” ou “espírito”; mas, na realidade, é bem provável que estes parágrafos maiores tenham sido escritos antes e aí sim La Rochefoucauld engastou e poliu suas pérolas, já que a arte dos aforismos do sábio é mais bem-elaborada e marcante.

P. 87: a inevitável beleza da espontaneidade infantil

Exatamente o que vinha pensando mais dia, menos dia: o retrato da decadência desta sociedade é que o adulto é sempre feio, não se sente confortável. Educação falha—super-coação dos poucos que tentam prosseguir mais ou menos na mesma marcha harmônica. “Isso é o certo para a sua idade”—padronização extenuante; rejeição das atitudes e hábitos dos bem-nascidos, como intolerância ao seu perguntar incessante, ao seu falar e ao seu contar, risadas a suas observações mais ingênuas. Coação dos próprios moleques já pervertidos a um estilo absolutamente bárbaro e fanfarrão—mesmo Aquiles passaria belos anos de tormenta no mar antes de voltar pintado de ouro, desta socialização que tentou vencê-lo (para não falar de Ulisses). Hoje até os homens são superafetados. “Mantenha a boca fechada, você fica parecendo bobo assim” “Cada um quer ser outro e não ser mais o que é” “Você fica bravo quando escuta música?”—talvez eu lance um CD sampleado com “Vozes do Rebanho—greatest hits”. “Fuleiro buddy” “corta esse cabelo”…

CRÍTICA AO MODERNO: faltam salões amplos.

ILUSÃO DE QUE SE PUDESSE SALVAR ALGUMA COISA: “não temos a força de terminar voluntariamente e, no declínio do amor como no declínio da vida, ninguém pode decidir-se a prevenir os desgostos que deverá ainda experimentar.”

P. 108: homem, o superanimal

P. 119: as semostradeiras e sua paixão por velhos que “já foram alguma coisa”.

“Pode-se ter ao mesmo tempo um ar sério no espírito e dizer muitas vezes coisas agradáveis e alegres” “Os jovens têm usualmente o espírito alegre e zombeteiro, sem o terem sério, e é isso que os torna muitas vezes importunos.”

“Que pessoas teriam começado a se amar se elas se tivessem visto antes como se vêem na seqüência dos anos?”


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] EXTENSÃO DOS COMENTÁRIOS PASSADOS (Zaratustra)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

28: o “homem da morfina”

31: representando uma comédia

38: “deserto”, “dragão”; a solidão do sábio, as agruras e a moral do mundo ocidental.

39: eu já sou a criança

40: a luta do dia a dia. Para o insone. É preciso cair desprotegido, acabar com o ranger de dentes.

43: metafísica antropomorfa

52: escrever com o sangue

83: a constante alegoria da flecha. Estás aqui, há ainda muito por viver…

86: a cidade de “Vaca Malhada”. Uma tarde de sabedoria.

96: desaguar no mar

116: sobre o iminente uso indevido dos postulados de Zaratustra

117: o asno

123: da sensualidade e da dança

125: sobre a perda de amigos

145: da sucessão dos poetas. Sensação de descrever o inefável em vão.

147: preservai os monumentos

156: para se livrar de Hegel

173: o anão e o eterno retorno; o pórtico do “instante”.

174: o jovem e a temerária serpente em sua boca

182: não há teias e fins, mas dados e jogadores

193: Estado e Capital

200: cena digna de Ulisses

219: o grande déspota que manipula o passado

233: do pensamento abissal

235: novo círculo, nova serpente. Velho expediente. Declaração de morte à metafísica.

287: o nojo da elite

291: “Tudo é permitido.”

303: paródia da bíblia. Mas esta é o livro inteiro! Ausência da mulher em qualquer candidato.

322: o homem, emulador de todos os animais

328: a Europa aleijada


Da desilusão histórico-maníaca nietzschiana ou a sucessão ad infinitum de erros humanos no projeto de consecução da transmutação de todos os valores. No final de O Anticristo—mas não só deste livro, e costumeiramente assim que realmente vai se acercando do fim do que ia dizer—é clarividente o tom lamurioso, a oscilação, provocados pela narrativa de momentos cruciais em que o homem moderno ou ainda o homem antigo mais tardio falhou ao intentar a milenar inversão de valores, fosse com a desagregação/implosão do Império Romano; o retrocesso da Renascença; ou as Cruzadas e a expulsão dos mouros. É como se insidiosamente o devir brindasse o homem sedento pela volta da nobreza com uma irônica solene recusa. Cabe todo esse descontentamento? Ele ser considerado válido dentro da habitual lógica nietzschiana? Que outras lições advêm daí? As características da nostalgia e do remorso são realmente chamativas em sua obra. Poderia isso querer dizer, em que pese tudo, que a realidade empírica do homem seja transfigurar-se em seu ideal, que ainda assim o ocaso e soçobramento do niilismo estão fora de questão? O que garante a ocorrência, por fim, desta tal “guerra santa de indivíduos” e o desmantelamento dos Estados-nações? De Sócrates a Lutero, Napoleão, César Augusto e César Bórgia e Maquiavel, ele parece não aceitar a efemeridade do gênio ou a faceta obscura dessas populações privilegiadas. Devemos assumir no mínimo que ninguém está isento de cometer seus errinhos, erros e grandes gafes.

“Zaratustra quis voltar a ser homem”

SOBRE COM QUE PESSOAS NÃO É FUNESTO LIDAR ROTINEIRAMENTE: “Gosto muito também dos pobres de espírito. Favorecem o sono. São bem-aventurados, mormente quando se lhes dá sempre razão”

“Teu Em-si se ri de teu Eu e de seus impulsos arrogantes.” O belo diálogo—ou ordens unilaterais—do instinto (do corpo, da matéria!) com a(à) consciência.

“Mais um século de leitores e o próprio espírito terá mau cheiro.”

“meu demônio (…) o espírito da gravidade”

“amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas estamos habituados a amar.

Há sempre algo de loucura no amor, mas também há sempre algo de razão na loucura.”

“Onde acaba o Estado—Olhai para lá, meus irmãos! Não conseguis ver o arco-íris e as pontes que levam ao super-homem?”

“Teu sonho deve revelar-te o que faz teu amigo quando desperto.”

“Os mais afastados são os que pagam seu amor ao próximo e desde que vos reunis em cinco, um sexto é que vai morrer.”

“Enfim, meus irmãos, evitai ser injustos com os solitários. Como poderia um solitário esquecer? Como poderia tomar medidas?”

“Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?”

“mesmo o mais astuto compra suas mulheres às cegas.”

“Muitas breves loucuras, isso é que chamais amor. (…) casamento (…) tolice prolongada.”

“Solitários de hoje, que viveis marginalizados, algum dia devereis chegar a ser um povo. De vós que vos escolhestes a vós mesmos, deverá surgir e crescer um povo eleito, do qual nascerá o super-homem.”

“Na verdade, vos aconselho: Afastai-vos de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda, envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado!”

“E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o acaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã” “E o sol do conhecimento atingirá seu zênite.”

“Em torno de nós reina o outono”

“Se existissem deuses, como poderia eu suportar não ser um deus? Por conseguinte, não há deuses.”

“Nunca houve até hoje um super-homem”

“Em meus filhos quero remediar o fato de ter sido filho de meus pais. E, no futuro, todo, quero remediar este presente.”

“É difícil viver entre os homens porque é muito difícil calar. Sobretudo para um falador.”

“e aquele que quiser permanecer limpo entre os homens deve aprender a lavar-se em água suja”

“Até acredita em vossas mentiras, se mentis bem a respeito dele, porque no fundo do coração suspira: ‘Quem sou eu?’”

“Bendito seja aquele que endurece!”

“Aquele que foi de minha têmpera tropeçará em seu caminho com aventuras iguais às minhas, de forma que seus primeiros companheiros só poderão ser cadáveres e palhaços.

Seus segundos companheiros, porém, serão chamados seus fiéis: um enxame animado, muito amor, muita loucura, muita veneração juvenil.

A estes fiéis não deverá ligar seu coração aquele que dentre os homens for de minha índole. Nessas primaveras e nesses prados de variadas cores, aquele que conhece não deve dar confiança à fraca e fugitiva espécie humana.”

“Para ti, é uma vergonha rezar!”

“Não consiste precisamente a divindade em haver deuses, e que Deus não exista?”

“Esquece-se o que os homens são quando se vive com eles.”

“Há também outros cantores que não têm a garganta expedita, a mão eloqüente, expressivo o olhar e o coração desperto, senão quando têm a casa cheia. Não me pareço com eles.”

“E algumas invenções são tão boas que, como o seio da mulher, são úteis e agradáveis ao mesmo tempo.”

“A sociedade humana é uma tentativa, assim eu ensino, uma longa investigação, mas uma investigação de quem manda.

Uma tentativa, meus irmãos, e não um ‘contrato’.”

“A todos os momentos a existência principia. Em torno de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. A senda da eternidade é tortuosa.”

“o canto é o que convém a convalescentes”

“Ensinar que há um grande ano de devir, um ano monstruoso que, à semelhança de um relógio de areia, tem sempre que se voltar novamente para correr e se esvaziar outra vez.” “O nós das causas em que me encontro tornará a criar-me! Eu mesmo pertenço às causas do eterno regresso das coisas.”

“Todas as palavras não foram feitas para os que são pesados? Não mentem todas as palavras ao que é leve? Canta! Não fales mais!”

“Não cantes! Silêncio! O mundo é perfeito.”

“Que aconteceria se aquele, cujo pai foi afeiçoado às mulheres, aos vinhos fortes e aos javalis, exigisse de si castidade?”

AS CINDERELAS: “A meia-noite é também meio-dia”

“se algum dia quisestes que uma vez se repetisse, se algum dia dissestes: ‘Agradas-me, felicidade! Instante, momento!’ Então quisestes que tudo retornasse.”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Este sou eu que, na primeira vez em que li esta obra a sério (…) estava sufocado e necessitando me apartar. Hoje o movimento é reverso, também na pureza. Andando em círculos?…

Eu tenho mãos e pés! O que mais eu poderia querer?

Um maldito com uma navalha ensaiou a destruição do cosmo!

Eu estou em busca de um exército! De certa fama “diferente” na cidade. Um respeito mesclado com temor. Como andar sempre no limbo entre o imprestável e o impecável, porque pecaminoso mesmo é fracassar por excesso de uma só coisa, hipertrofia de uma convicção, quer dizer, do olho que agora nada vê. Cornucópia que pretende ser uma armadilha de coelho ou rato para afastar toda a fauna exótica (…) e me distrair de mim mesmo.

Todos são apenas macacos imutáveis—eu sou o único em movimento. Caricaturas de desenvolvimento: (…) Todos estagnados diante da própria essência. Hoje eu sou um ponto, uma estrela, no firmamento de (…) Em breve terei feito os mais velhos comerem poeira cósmica: (…) e o que subsistirá? Os mortos, os clássicos… O insondável.

Não parece estranho que nunca tenha sonhado, ao longo desses anos todos, nem tenha ouvido relatos a respeito, que eu mesmo fosse deus, que de algum modo adquiria a onipotência—mas esse sujeito é aquele que sabe que num instante vai acordar? T.E., o último discípulo viúvo, me persegue nessas representações, como um lado gosmento e sórdido da inconsciência superada.

E aquele que cai doente, sem quem lhe dê de comer?

Os animais antropomorfos de Zaratustra—fiéis escudeiros—a meio caminho?

Que fazer, eu que nem os animais ideais tenho?

Cerveja e masturbação. Há de alguma forma uma pureza em quem passou a vida ao lado de uma única e jamais experimentou entorpecentes ilegais. Eu: alguém que não teve coragem de se servir de uma prostituta. Mas não devemos fazer propaganda, e por dois motivos. Não esquecer também da outra metade da família. TRABALHADORES. DESPREZADORES. Eu que não amo minha ascendência. Por isso é que eu acho: numa briga de vida ou morte com alguém fisicamente mais forte, eu levaria vantagem. O BRAVO. Sou o escriba encarregado de sistematizar as qualidades dos meus últimos parentes?

Imagina teu futuro mais funesto, e lento! Isso será razão para praguejar? Só temos voz para o presente. Se bem que o presente é um elo de uma cadeia, que o comanda, ele mesmo um dos líderes dessa cadeia. Aqui fala um soberano e eleito, elo da cadeia fenomenal chamada humanidade, esta uma das argolas do colar chamado mundo! Aqui não se trata de bijuteria, pois não se pode quebrar, cada peça precisa ser mais maleável que a borracha e mais resistente que o diamante! Então o que eu digo, petulante, hoje? Para ser frase eterna, que seja: já muito eu venci… Justifiquei-o?


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] O ANTICRISTO II

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

48-51: Nietzsche, os dois Budismos. Talvez uma demonstração de que uma vez “nula”, a Europa já não tem muito o que temer…

73: a “boa-nova” do Messias

81: o cristianismo de fechada; o padre perdido.

102: do Gênese à Torre de Babel

119: Manu

126: extrema nostalgia romana

129: ode ao Islã


“A noção cristã de Deus (…) Deus como aranha.”

“Se não se conseguir terminar com o cristianismo, os alemães são a causa disso…”

“E conta-se o tempo a partir do dies nefastus em que essa fatalidade começou—a partir do primeiro dia do cristianismo!—Por que não contá-lo a partir de seu último dia?—A partir de hoje?—Transmutação de todos os valores!”


Anotações de cunho pessoal:

O reino de Deus como um imenso hospital—última visita: pobretões implorando ao Senhor pela pronta recuperação do paciente em estado terminal, porque “Ele pode tudo!”. Como se não estivesse pressuposto desde o começo que mais cedo ou mais tarde—nessa ou noutras gerações desta família—a crença no poder de Deus será reduzida a cinzas. Eu simplesmente não sei me comportar como um doente!

Em simples coisas como o futebol de três décadas atrás se viaja no tempo de forma literal e impactante o suficiente para dizer: como perdemos o gosto; massacramos qualquer cadência! Ação, ação, ação, chazam! Quero um chá, Zâmbia irá me esperar! A música não alenta? Tirar alguma conclusão? Pra que a pressa? Outra hora vem… Ainda que “o dia” fosse amanhã, eu diria: ainda falta muito tempo para o mundo acabar…


9 de março de 2010

[ARQUIVO] SCHOPENHAUER COMO EDUCADOR (A III Intempestiva)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

25: o homem moderno entre um sim e um não

33: Shelley, Prometeu Desacorrentado

37: o problema do ceticismo

61: o castigo do homem tornado a ser animal

68: tartufismo

75: da moda

80-1: o “mata-moscas” do sábio

110: o elogiado filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson

111: as eternas metáforas da bela mulher e da velhota


“Um homem nunca sobe mais alto a não ser quando ignora para onde seu caminho pode levá-lo.”

O prefácio mais lindo e comovente.

“De fato, todo aquele que tiver o furor philosophicus no corpo não terá mais tempo para o furor politicus e se absterá sabiamente de ler jornal todos os dias e especialmente militar num partido, embora não se deva hesitar um instante para tomar seu lugar na hierarquia, desde que um perigo real ameace a pátria.”

Livro essencialmente para tratar daquele que escolheu a carreira de professor no âmbito da modernidade e se vê diante do ESTADO para filosofar… Sobre a honestidade e o caráter de um professor universitário… Há coisas que simplesmente estão fora de pauta. Agregue-se a isso a função de antiquário do moderno.

“E se quiserem ouvir os cantos da solidão, escutem a música de Beethoven.”

“E se for verdade que as florestas devem rarear aos poucos, não chegará um momento em que será necessário usar bibliotecas como nos servimos de lenha, palha e gravetos?”

“Toda filosofia que acreditar afastar ou mesmo resolver com a Judá de um acontecimento político o problema da existência não passa de uma caricatura e de um sucedâneo da filosofia.”

“As águas da religião estão em baixa e deixam atrás delas pântanos e lamaçais (…) Jamais o século foi mais secular, mais pobre de amor e de bondade.”

“No devir, tudo é vazio, mentiroso, chato e miserável”

“a terra perderá seu peso, os acontecimentos e as potências terrestres não serão mais que sonhos, uma transfiguração semelhante àquela das tardes de verão se difundirá em torno dele.”

“A pressa é geral, porque todos querem escapar de si mesmos”

“deveríamos algum dia aprender a odiar algo de mais geral que nossa individualidade (…) será somente então que um novo fim será fixado a nosso amor e a nosso ódio”

“Mas quando alguém se acostumou a traduzir toda espécie de experiência em termos de dialética e num puro problema cerebral, é surpreendente ver com que rapidez se resseca em semelhante atividade, que logo só é capaz de se fazer entender por um estalar de ossos.”

“Em oitavo lugar, (…) Seus consoladores são os livros ou escutar outro pensar de forma diversa da sua, é assim que consegue matar o tempo durante um longo dia.”

“se fixarão por objetivo preparar o surgimento de um novo Schopenhauer, de um gênio filosófico.”

“o fato de ser obrigado a pensar publicamente, em horas previamente determinadas, em coisas previamente fixadas. E diante de jovens! (…) E se acontecesse um dia de sentir que nesse dia não consegue pensar em nada, que nenhuma única idéia lhe vem ao espírito—e que tivesse de se apresentar, no entanto, a fingir de pensar?” “essa maneira de pesquisar em inumeráveis opiniões estranhas e absurdas lhe parece quase o mais repugnante e o menos oportuno dos serviços.” “‘É um bom filólogo, um bom arqueólogo, um bom lingüista, um bom historiador’, mas nunca: ‘É um bom filósofo.’”

“é mais filosófico nada saber do que aprender o que quer que seja”

“em nossos dias precisamente é uma raça fraca que ocupa as cátedras de filosofia e Schopenhauer, se tivesse agora de escrever seu tratado sobre a filosofia universitária, não teria mais necessidade de tomar sua clava: uma vareta lhe bastaria.”

“Aqui e acolá, um dentre eles tenta ainda um pequeno vôo metafísico—com os resultados habituais: vertigem, enxaqueca e sangramento do nariz.”

“é da própria natureza da filosofia nunca se deixar assalariar”


Anotações de cunho pessoal:

Tem-se pelo menos uma certeza: não se atingiu o auge de nada. O que não significa que tenha sido em vão. Ainda que houvesse um “ato em si” reconhecido por todas as épocas como tendo sido o mais grandioso, isso nunca é percebido no tempo presente, é sempre “tarde demais”. Mas o mais comum e salutar e natural é projetá-lo à frente de si… Portanto, não existe “meio-termo” de um homem íntegro. Ou só existem híbridos.


9 de março de 2010

[ARQUIVO] O CASO WAGNER

4ª CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA: WAGNER EM BAYREUTH

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

92: a recorrente puxada de orelha nos alemães e seus estudos históricos

93: a orientalização do mundo, desde Alexandre

98: o problema da arte como única justificativa para a vida

100: a linguagem universal

110: da transição de um talento a outro: Wagner, Goethe, Schiller—da expressão escrita à oral/musical?

112: da árvore que finca raízes; Zaratustra.

126: as músicas de Wagner são versadas

129: as diversas sensações suscitadas no ouvinte pelo desenvolvimento das técnicas musicais

130: para entender Beethoven

131: Wagner e Heráclito


Já não acreditava mais no que escrevia? Última homenagem terna?

“Em toda parte o homem só encontra sua insuficiência pessoal, sua impotência total ou parcial. Que coragem teria para combater se não tivesse recebido previamente a consagração de uma causa que ultrapassa sua personalidade?” “nossa tríplice insuficiência”—“Não podemos estar felizes”; “não podemos ser morais”; “não podemos até mesmo ser sábios” “a arte é a atividade do homem em repouso”, isso quer dizer: “A arte não é o mestre e o mentor da atividade concreta”—porque somos como somos e as personagens não ditam nosso comportamento. Mas adoramos ser múltiplos.

Arte como mapa da vida, a vida como o JOGO DOS JOGOS: “a grandeza e o valor insubstituível da arte consistem precisamente no fato de que evoca a aparência de um mundo mais simples, de uma solução mais rápida para os enigmas da vida. Aquele que a vida fere não pode prescindir dessa aparência, como não pode prescindir do sono.” …AND JUSTICE FOR ALL

“Impedir que o arco se rompa, essa é a razão de ser da arte.”

O erro nietzscheano, se existe algum aqui, consiste na crença na instantaneidade da mudança e em seu marco divisório, que certamente não era este Wagner nem esta Bayreuth!

Elogios alter-biográficos que num espaço de uma década e meia seriam convertidos em autobiográficos: Ecce Homo, ele mesmo! Despojado de seu ídolo, superado…

Um pouco de afetação, aqui e acolá. Alguns anos depois, em que hierarquia situaria seu “primeiro músico absoluto”?


O CASO WAGNER (p.d.)

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

20: Benjamin Constant

22: sobre querer-se fundir com o amante

24: “o nada, a Circe indiana”

38: Wagner e Hegel—“a música como idéia”

44: Nietzsche contra os adolescentes

45: Wagner, o Minotauro. Ou comunista, comedor de criancinhas.

47: os tipos mórbidos de Dostoievsky


Ouvir 20 vezes uma mesma música devia ser algo bastante excepcional, àquele tempo.

Um libelo chauvinista.

Humor picante, sob a égide cesárea (“dizer o sério rindo”).

Como no Ecce Homo, tratado encharcado de citações em francês.

Siegfried//Shakespeare—tanto Siegfried e Brunilda quanto Romeu e Julieta “só podem se amar no Além”: logo, o “depois” é mais importante que o REAL.

“Wagner resume a modernidade. Não adianta, deve-se começar por ser wagneriano…”

“Um ser esgotado é atraído por aquilo que é nocivo: um vegetariano o é pelos legumes.”

Mais para o final da vida, começou a citar jornais em seus textos.

“Quando não se é rico, é preciso ser suficientemente digno para se ser pobre!…”

Só no epílogo, a crítica mais contundente e clara: uso dos mitos que sustentavam uma moral aristocrática para posar e se refestelar sobre a massa cristã. Ainda ensina: não se CONVENCE alguém ou uma época a favor ou contra uma crença.


Anotações de cunho pessoal:

De repente, acordamos pensando horrores daqueles por quem guardávamos uma alta estima!


NIETZSCHE CONTRA WAGNER

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

58: tiradas sarcásticas com direito até a merchand!

62-3: no parágrafo sobre a música como eco tardio de uma outra época, a previsão do gênero folk!

67: lamenta a França igualmente perdida… e já lamantara a Itália, no prefácio


“Ninguém leva ao teatro o sentido mais refinado de sua arte, muito menos quando se é artista que trabalha para o teatro—a solidão faz falta, a perfeição não tolera testemunhas… No teatro, nos tornamos plebe, rebanho, mulher, fariseu, gado eleitoral, patrono de igreja, idiota—wagneriano: é ali que a consciência mais pessoal se submete ao encanto nivelador da maioria, é ali que reina o próximo, ali é que nos tornamos próximo…”

“Foi assim que, progressivamente, passei a compreender Epicuro, antítese de um grego dionisíaco, e igualmente o cristão que, de fato, não passa de uma espécie de epicurista e se conforma a seu axioma ‘a fé torna feliz’.”

“A doença é sempre a resposta se queremos duvidar de nosso direito à nossa missão, se começamos a tornar as coisas mais fáceis para nós em qualquer sentido. Estranho e assustador ao mesmo tempo! São nossas facilitações que devemos expiar mais duramente! E se, depois disso, quisermos recuperar a saúde, não há mais escolha: temos de nos carregar mais pesadamente do que estávamos antes…”


De 5 a 8 de março de 2010

[ARQUIVO] A FILOSOFIA NA ÉPOCA TRÁGICA DOS GREGOS

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

47: o reinado do agon

130: Eurípides, o socrático

133: os Cínicos, super-socráticos


Sobre o tempo, para além da História (Homem)

“Com três historietas é possível compor o retrato de um homem”

“é significativo que seja Sócrates o primeiro grande grego a ser feio”


Anotações de cunho pessoal:

Existe o suicídio por felicidade incontível? Creio que nesse momento eu me proporia a isso: seria uma das mortes mais invejadas em todas as salas de cinema.

Ficção contemporânea e seu maior erro: os mortos como seres fracassados. O protagonista clássico nunca morre (anti-Aquiles, este ainda assim capturado de ângulo romântico).

[ARQUIVO] O LIVRO DO FILÓSOFO

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

16: o problema milenar de ter começado a se preocupar com o de fora, mero reflexo do que é “de dentro”. Hipertrofia teutônica.

20: elogios a Kant

22: a necessária—anti-Marcuse—marginalização da Filosofia

60: a sinestesia da criança

67: em certos aspectos me parece que estes esboços são a prévia direta de VdP, que veio para realizar um projeto antigo

69: “impossibilidade da metafísica” reiteradas vezes

72: do filósofo-legislador ou do iconoclasta

108: sobre a efemeridade do Helenismo

110: o imenso perigo da centralização política

119: ANEXO transbordante (“SOBRE OS HUMORES”). A luta entre o lembrar e o esquecer, o osciloscópio da mente e do coração. Aqueles que não amo mais, aqueles que ainda vou amar… Aquilo que amo…

“O filósofo como freio da roda do tempo.

É nas épocas de grande perigo que os filósofos aparecem—no momento em que a roda gira cada vez mais depressa—eles e a arte tomam o lugar do mito que desaparece. Mas eles se lançam muito à frente, pois a atenção dos contemporâneos só se volta lentamente para eles.”

Antes dos 30, já desfia as categorias de niilismo.

“o filósofo trágico não é um cético”

Todo ídolo nasce do nada.

“Íntimo parentesco entre os filósofos e os fundadores de religião.”—O Judeu maometano e minha aparência de “tabuador”.

“A arte repousa na imprecisão da vista.”

Sobre o “metafísico em Nietzsche” (mais particularmente, eu diria: “sobre o sentido da vida”): “Vocês não devem se refugiar numa metafísica, mas sacrificar-se à civilização do devir! É por isso que me oponho absolutamente ao idealismo do sonho.” Sua metafísica é real.

“Que sentido tem o homem dizer não! Com toda a franqueza, enquanto todos os seus sentidos e todos os seus nervos dizem sim! E que cada fibra, cada célula se opõe.”

“Não autorizamos mais a ficção conceitual. Somente na obra de arte.”

Sobre meu mandamento 4 (vide em 03/03/10 neste blog (e também o hilário excerto do dia 4!): “Vocês praticam a filosofia com jovens sem experiência: seus anciãos se voltam para a história. Vocês não têm de modo algum filosofia popular, mas em compensação têm conferências populares vergonhosamente uniformes. Temas de composição propostos pelas universidades aos estudantes, sobre Schopenhauer! Discursos populares sobre Schopenhauer! Isso é falta de toda dignidade!”

“o povo tem necessidade das anomalias, a obra de arte é prova disso (…) O filósofo como médico da civilização.”

“A falsa oposição entre a vida prática e a vida contemplativa é asiática. Os gregos compreendiam melhor as coisas.”


Anotações de cunho pessoal:

Se o filósofo congela o tempo e as rodas da confusão, ele é o doente por excelência, porque na vida de um pensador e de muitas outras pessoas é a doença que cumpre esse papel de calmaria e reassentamento.

Eu estou tão alto que poderia rasgar o céu. Subi. Eu subi tanto: confesso que já nem sei mais como descer da árvore.

Não é coincidência eu não ter (mais) primos-irmãos? No máximo primos de primas?

Maço é sempre de papel

mas eu quero o mais cruel

Você não está vendo? O mundo vai virar areia…

Três pratos de tigres para três dias tristes…


De 3 a 4 de março de 2010

[ARQUIVO] DA UTILIDADE & DO INCONVENIENTE DA HISTÓRIA PARA A VIDA —A II Intempestiva de Nietzsche—

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

35: o deus ex machina; a “história monumental” como a perfeita para o supra-homem, ou aquele com ânsia de ser clássico. Uma “estrutura do herói” muito antes do nazismo de Campbell.

44: bricolage. Lévi-Strauss devia ser um fóssil vivo com seu hábito exclusivo de releituras de cartas.

50: o novo amigo do homem moderno, a irracionalidade

51: o descompasso entre teoria e prática

52: o “sentido não-histórico” dos gregos; forma vs. conteúdo; gregos são auto-suficientes. Não são colonizadores; o fosso bem antes: “aumentamos, até a insensibilidade com relação à barbárie, o perigoso abismo que separa o conteúdo da forma.”

54: só um povo tão sério quanto os teutônicos poderia provocar tanto riso; quando uma sociedade importa seu vestuário de outras, ela é decadente. A despeito de muitos pensarem em vias públicas, a realidade é que não entendemos o conceito de clima tropical!

61: Dom Quixote

63: “Faça o que eu digo…”

65: quando o didatismo apaga a “hierarquia filosófica” e cada “sistema” e cada indivíduo de qualquer época e país se torna tão relevante quanto os milhares de outros. Nivela-se, para se ter idéia, um pré-socrático e um medieval, um grande poeta torna-se tão prosaico quanto e tão parecido com um filólogo ou um jurista. É como um almanaque isométrico, ou ainda um álbum de figurinhas sem protagonistas ou estrelas de brilho mais intenso. Meras curiosidades, afinal ninguém está certo sozinho, o que mais parece dizer que se trata de uma coleção de erros ou de adultos engraçados que tinham vidas pacatas e que se preocupavam mais com o invisível que com que tipo de roupa saíam à rua.

66: o problema da crítica; história crítica.

69: a “justiça”

78: para o passado—oráculos.

87: sobre a divisão do trabalho

97: Hegel e a Ideologia Alemã

99: “A moral é, p.ex., ofendida por ver que um Rafael tenha tido de morrer aos 36 anos.”; a cena da idolatria ao bode.

100: ponte para alguma coisa; a ironia pós-moderna.

107: São estas as páginas seguidas mais hilárias desse homem! “a partir de amanhã, o tempo não existirá mais e todos os jornais deixarão de circular”

109: “da ausência de toda diversidade entre o homem e o animal—doutrinas que tenho por verdadeiras, mas por mortais” presente eterno, egoísmo, felicidade

116: para todos e ninguém


O primeiro parágrafo já toca nos animais! A tentativa de diálogo entre um homem e um animal: “Isso acontece porque esqueço sempre o que pretendo responder”, assim o animal gostaria de se justificar às súplicas do homem que fala sozinho, se não esquecesse o que tinha em mente um segundo depois… Mas… como pode então o cão latir pelo seu dono (tutor)? O animal = a criança.

“a natureza mais poderosa e mais formidável”

Todos os enunciados já estão aqui; aliás, poder-se-ia dizer que ele sempre foi assim, que ele não visava a nada, não perseguia o rabo de nenhuma cobra (Ivan!): “A negação do homem supra-histórico [estrutural] não vê a salvação no desenvolvimento, mas, pelo contrário, considera que o mundo acabou e atingiu seu fim em cada momento particular.” Em outras palavras, vencemos o niilismo extremo.

“No fundo, o que foi possível outrora não poderia se reproduzir uma segunda vez, a menos que os pitagóricos tivessem razão em acreditar que uma mesma constelação dos corpos celestes produzisse até nos mínimos detalhes os mesmos acontecimentos na terra, de modo que quando as estrelas ocuparem a mesma posição uma com relação às outras, um estóico se uniria a um epicurista, César seria assassinado e, de novo, em outras condições, Colombo descobriria a América.”

Perigo de hipertrofia de qualquer uma das 3 categorias de história.

“O crítico sem angústia, o antiquado sem compaixão, aquele que conhece o sublime sem poder realizar o sublime: essas são plantas que se tornaram estranhas a seu solo nativo e que, por causa disso, degeneraram e se transformaram em joio.”

Utiliza expressões que se consagrariam em títulos de obras posteriores.

História antiquada: a monumental tornada linear, uniforme, homogênea; ou seja, os personagens e costumes possuindo o mesmo valor.

A França como uma referência cultural “menos degradada”. Em busca da unidade superior.

“É assim que [o grande homem] abandona a alegria divina de criador (…) para ficar oprimido sob a profunda compreensão de seu destino. E acaba o curso da vida como iniciado solitário, como sábio saturado. Esse é o espetáculo mais doloroso que se possa ver. (…) É necessário que essa cisão entre o ser íntimo e o exterior desapareça sob os golpes do martelo da angústia. (…) É preciso que expresse o que compreendeu, que o defenda (…) Essa necessidade violenta produzirá um dia a ação vigorosa.”

Como se deve ler o suicídio de Werther: “Seja homem e não me siga!”

“Por que devemos ouvir incessantemente a hipérbole das hipérboles, a palavra universo, quando cada um só deveria sinceramente falar do homem?”

“Mede o que sabes do nível do que podes”

Exatamente a assunção da vítima das três categorias do fazer-história: “este tratado, com sua crítica imoderada, com o verdor de sua humanidade, com seus saltos freqüentes da ironia ao cinismo, do orgulho ao ceticismo, mostra muito bem, não gostaria de escondê-lo, que carrega a marca moderna, o caráter da personalidade fraca.” “É necessário ser jovem para compreender esse protesto”


Anotações de cunho pessoal:

Síndrome dos jogos de futebol (dos livros eu até entendo): por que eles são tão bons para pensar na vida?

Talvez eu precise, mais do que a colega tuiteira a meu lado, dotar a vida de plurissentidos numa taxa que assustaria o estranho ao ninho.

Ilhas de despreocupação no inferno.

Nunca mais vou deixar de olhar aquela pequena conversa com o Marco Antônio depois da aula como um marco divisor.

“Um dia a menos para a vida passar” é um pensamento idiota.


De 28 de janeiro a 4 de fevereiro de 2010

[ARQUIVO] CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS — OU COMO FILOSOFAR A MARTELADAS

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

17: filósofo, o animal-deus

21: sobre as mulheres insinuantes, em vestes tropicais para climas frios. Dormir nu, ao sereno: tem-se de estar serenado.

22: “Quando a mulher possui virtudes masculinas, não há quem resista a ela; quando não possui virtudes masculinas, é ela que não resiste.”

23-4: os intrigantes 4 casos de consciência. Sobre o apartamento e a misantropia. Como somos sui generis.

29: da feiúra de Sócrates

36: “monótono-teísmo”

39: “Temo que jamais nos livraremos de Deus, porquanto acreditamos ainda na gramática…”

41-2: espécie de resumo da ópera (cronologia das obras de N.). Meio-dia.

45: o problema do aniquilamento

46: nas entrelinhas: o que é perfeito quer…

50: o problema do “homem mais forte do mundo” que morreu centenário, agora entendido sob o prisma nutricional correto: ele recomendava que se comessem vegetais para se viver longamente; porém ele comia vegetais unicamente porque seu metabolismo era mais lento. Suicídio intelectual em nossa época: dieta pobre em proteínas. Ver citação abaixo.

58: “somos um pedaço de destino.”

60: o “animal louro”

61: “Como o Novo Testamento é pobre ao lado do Manu, como cheira mal!”

66: sempre o bordão “A Alemanha, a Alemanha acima de tudo.”; o problema dos jovens filósofos beberrões. Strauss entre eles.

71: a importância da digestão dos pensamentos (sozinho e em grupo)

76: muitas escritoras que utilizavam pseudônimos masculinos

81: músculos e música

84: a astúcia como artifício do fraco; a diferença entre o psicólogo e o político.

93: receita de Júlio César para o corpo: “grandes caminhadas, estilo de vida o mais simples possível, permanência ininterrupta ao ar livre [contradiz o preceito nietzschiano das ‘grandes galerias ao abrigo do sol e da chuva’], fadigas contínuas.”

94: quando o “ideal” é o real

95: as farinhas do mesmo saco sacristão

97: saber morrer

99: crítica a suas minguadas resenhas em jornais

103: incompreensível fé na Mãe-Rússia!

109: “Dostoievski, o único psicólogo, diga-se de passagem, de quem aprendi alguma coisa.”

117: palestra “no antiquário” (complemento a Ecce Homo): Salústio, Horácio, Fontenelle, Tucídides.

118: de como o “ser grego” está absolutamente fora da meta (impossível ser clássico na modernidade…). Romanos: os perfeitos intermediários entre as duas culturas. Extrema dualidade em relação a Platão.


O livro das frases mais célebres.

“O que não me faz morrer me torna mais forte.”

“Sem música a vida seria um erro”

“com a dialética, a plebe chega ao alto”

“Um sábio de nossos [e fala de um tempo que hoje soa ainda clássico, pasmacento] dias, com seu consumo de força nervosa, se fosse submetido ao regime de Cornaro, arruinaria sua saúde completamente.” Diria que até os genuínos Cornaros morrem cedo na era do fast food.

“Toda educação superior não pertence senão às exceções: é preciso ser privilegiado para ter direito a um privilégio tão superior. Todas as coisas grandes e belas não podem jamais ser um bem comum: pulchrum est paucorum hominum (o belo é de poucos homens). O que é que ocasiona o rebaixamento da cultura alemã? O fato da ‘educação superior’ não ser mais um privilégio—o democratismo da ‘cultura’ tornada obrigatória, comum.”

“Que não se cometa a infantilidade de me objetar Rafael ou qualquer cristão homeopático do século XIX. Rafael dizia sim, Rafael criava a afirmação, logo Rafael não era um cristão…”

“Não temos em mãos um meio que possa nos impedir de nascer: mas podemos reparar essa falta—pois às vezes é uma falta. O fato de suprimir-se é o mais estimável de todos os atos: quase dá direito a viver…”

“Meu conceito de gênio (…) histórica e fisiologicamente, sua condição primeira é sempre a longa espera de sua vinda, uma preparação, um arqueamento sobre si mesmo—isto é, que durante muito tempo não se tenha produzido nenhuma explosão. Quando a tensão na massa se tornou muito grande, a mais fortuita irritação basta para recorrer no mundo ao ‘gênio’, à ‘ação’, ao grande destino. Que importam então o meio, a época, o ‘espírito do século’, a ‘opinião pública’! (…) a esterilidade os segue passo a passo. O grande homem é um final; a grande época, o Renascimento, por exemplo, é um final. (…) Esse é o agradecimento da humanidade: entende seus benfeitores em sentido contrário [como tiranos da moral, déspotas de si mesmos, quando tudo o que fazem é involuntário].”

“Aproximam-se tempos—posso assegurar—em que o sacerdote será considerado como o ser mais baixo, mais mentiroso e mais indecente, como nosso chandala (…) Catilina—a forma preexistente de todo César.” Precisamos nós, os imoralistas, odiar o mundo antes de perdoá-lo.

“O progresso na minha opinião—Também eu falo de um ‘retorno à natureza’, [vis à vis Rousseau e Goethe], embora não se trate propriamente de um retorno para trás, mas uma caminhada para frente e para o alto, para a natureza sublime, livre e mesmo terrível, que brinca, que tem o direito de brincar com os grandes destinos. (…) Napoleão foi um exemplo desse ‘retorno à natureza’ como o entendo (…) Mas Rousseau (…) Esse aborto que acampou no umbral dos nossos tempos, também ele queria o ‘retorno à natureza’ – (…) aonde queria realmente chegar? – Odeio ainda Rousseau na revolução que é a expressão histórica desse ser de duas caras, idealista e canalha. (…) Só conheço um que a sentiu como deveria ser sentida, com aversão—Goethe…”

“seria desconhecer os grandes homens se estes forem considerados sob a perspectiva miserável de uma utilidade pública.”

“meu orgulho é dizer em dez frases o que qualquer outro diz num volume—o que outro não diz num volume…” “Ofereci à humanidade o livro mais profundo que ela possui, meu Zaratustra”


Anotações de cunho pessoal:

Vulgar Display of Power seria uma bela denominação para as coisas do mundo.

12 de julho de 2011

[ARQUIVO] GENEALOGIA DA MORAL

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

31: a democracia odeia a História

36-7: o projeto judaico, a longa trajetória da escravidão até o poder (o poder escravo) (Páginas cheias para o anti-semita que quisesse deturpar… Ou acusar N. falsamente.)

40: dizer-sim e dizer-não. O sim que sobrepuja todos os nãos.

41: o “sabbat”, repouso do ressentido com a vida

42: o nobre que explode—ele não suporta estocar rancor!; Mirabeau

46: nazismo

47: niilismo. “Estamos cansados do homem”

49: o erro do átomo

51: para Homero, a vingança é mais doce que o mel

52: o portal do Paraíso; Dante; Tomás de Aquino e a catarse dos “absolvidos”.

56: os judeus ganham a guerra do milênio, ou duomilinar

57: a última vitória do espírito clássico-romano sobre o espírito judeo-moderno: Napoleão Bonaparte.

59: a interdisciplinaridade sonhada pelo autor; prescrições para a filosofia do futuro.

65: o ser que promete

70: livre-arbítrio debaixo dos escombros do martelador

73: este é o livro que mais cita os livros anteriores de Nietzsche; o Dom Quixote tornou-se menos cômico e mais cruel com o tempo (Processo Civilizatório).

75: sobre o hedonismo; sobre o querer testemunhas para si.

76: a festa e o divino

77: a origem da palavra homem

78: a verdadeira origem da justiça; o verdadeiro e imoral conceito de justiça.

81: personalidade reativa/vingativa como indício de fraqueza

84: o problema da causa e finalidade

85: supra-homem; ataque a Darwin.

90: o mundo inocente; Spinoza.

94: anti-Hobbes

95: “instinto de liberdade” ou simplesmente “vontade de poder”

99: a “segunda inocência” do ateu

100: zerando as contas do niilismo

110: antes querer o nada a não querer

118: sexualidade e arte – caráter de Rafael; “a roda de Ixion está imóvel”, tirado de Schopenhauer.

120: filósofos ilustres e seu celibato; “Um filósofo casado é motivo de comédia”.

121: Buda e o lar com a família como “local de impureza”; a retirada para o deserto.

122: desfecho da elucidação do paradoxo do asceta

124: o filósofo e sua mania noturna; “o instinto maternal”.

125: a velha polêmica—sexo “antes da grande partida” atrapalha?; a incipiente fisiologia da estética.

127: a teia-de-aranha de Deus

129: “todo aquele que constrói um ‘novo céu’ encontrou a força em seu próprio inferno…”

136: niilismo como o casamento do desgosto e da compaixão

137: “onanistas morais”

145: “a aberração dos vegetarianos”

146: a “concepção pan-indiana” de ascese

158: ranking nietzscheano das doenças européias: 1. o ideal ascético; 2. o álcool; 3. a sífilis.

162: a subordinação da ciência moderna ao ideal cristão, formulada da maneira mais clara. O mesmo dir-se-ia do Estado. Tudo se afunila para o Um.

164: Karamázov, Ivan

166: Arte e arte

167: a tábua de Copérnico

168: Tolstoi

169: “regime alimentar exclusivamente composto de jornais, política, cerveja e música de Wagner acrescido daquilo que é o pressuposto dessa dieta”


“o esquecimento ativo (…) espécie de porteiro vigilante encarregado de manter a ordem psíquica, a tranqüilidade, a etiqueta” Meu porteiro está em sono profundo.

“Sem crueldade, não há festa”

Um dos livros mais cifrados e ruminantes do filósofo, embora possua parágrafos extensos. Mas posso dizer que 4 anos de noites mal-dormidas já são o suficiente para chegar à clarividência de todos os problemas…

Há dois tipos de ateu: o ateu passivo e o ateu honesto; o ateu cristão e o ateu transmutador!

“Eu não posso carregar o mundo nas costas; não suporto carregar sequer dois destinos.”

Esse será doravante o livro que eu mandarei ler primeiro àquele que me solicitar que eu o introduza a Nietzsche.

“oh amigos desconhecidos! (porque não conheço ainda a nenhum amigo) (…) A vontade de verdade, uma vez que seja consciente de si mesma, será a morte do mal: é o espetáculo grandioso reservado aos dois próximos séculos da história européia; espetáculo terrível entre os terríveis, mas talvez fecundo de magníficas esperanças.”


Anotações de cunho pessoal:

Posso te dizer uma coisa: não há nada como dormir… Nada. Essa capacidade prodigiosa de estar em novos e excitantes contextos despreocupadamente, em aparente—e para a consciência é suficiente o aparente—dissociação com o passado. Por isso sair, aventurar-se pelo desconhecido, embebedar-se ou mesmo perder-se na melodia de uma música também é imprescindível, inigualável. Sociólogo: o invejado ápice da consciência alerta. Ligada em todos os movimentos e em todos os rastros. Viva-se com uma herança dessas! Viva-se DENTRO DE CASA desse modo! Viva-se onisciente mas nihil-potente! Insuportável… Me deparo com esse tipo de trecho em minhas mensagens grafadas a cada janeiro. E o relógio me faz pensar que foi um exagero.

A cada hora, a direção da minha angústia aponta para algo diferente… Eu só não consigo esquecer meu caráter de “personalidade indesejada” em certo grau.

E por que toda essa maldita “conspiração”? Parece que estou sempre lendo uma página feita para que eu a lesse exatamente nesse dia… Sentir-se especial… Mas não grandioso: o maior dos vermes amargos. MEU paradoxo: só posso me enfraquecer ao promover a única queixa possível contra o enfraquecimento; é assim que funciono. Aquela máquina que todos no escritório se perguntam: “Quando é que finalmente vai quebrar?”. Do que me adianta todo o enternecimento post mortem?

Genealogia, genealogia, genealogia… Como é insalubre a profissão do escavador!

Minha maior desvantagem: além de escutar tudo que uma natureza excepcional precisa aprender a escutar, eu tenho que escutar tudo que um homem comum precisa escutar (porque a maior parte do tempo eu não me revelo!)—e isso é o mais ofensivo! Como se eu fosse mesmo aquele estagiário-padrão, aquele aluno que precisa de orientações, o eterno-subalterno! E eu ainda tenho que ouvir a minha própria consciência… prensada!

Pessoas morrendo—pessoas morrindo

Rimos de céu, inferno, gárgulas e Jesus.

O bebê é o que mais chora, o velho é o que mais ri.

De 7 a 23 de janeiro de 2010

[ARQUIVO] BRINCADEIRA DO OBITUÁRIO

Baseada nos perfis dos militares brasileiros publicados pela Revista VEJA, mortos no terremoto haitiano do começo de 2010:

Rafael de Araújo Aguiar, de 21 anos, soldado, Brasília-DF. Mais jovem de toda a expedição de paz, Rafael também era o único que provinha da capital do país e de uma família de classe média alta, que em tese não deseja para os filhos uma carreira militar que principie na base (postos como o de soldado em detrimento de exames que podem qualificar alguém já para as patentes de sargento ou tenente). Seus pais são civis. Seu falecido avô, pai de sua mãe, havia se reformado pela Marinha. Amigos não sabem como ele foi parar na América Central ao certo, já que Rafael sempre havia manifestado repúdio pelas rígidas hierarquia e disciplina do Colégio Militar, onde havia estudado por 4 anos e meio, além de manifestar especial interesse por autores da filosofia e escritores clássicos e ser conhecido na cena punk e metaleira local como assíduo freqüentador de concertos de bandas com letras anti-militaristas e por ostentar uma invejável cabeleira. Por fim, era muito míope e havia sido dispensado do serviço militar obrigatório. Algo no ano de 2009 o fez mudar de idéia: provavelmente necessitava com urgência de renda própria para realizar seus planos. Não constam informações de que estivesse comprometido; havia trancado o curso de sociologia no quarto semestre e rumado sem mais explicações ao Haiti, ao ser aprovado em novo teste físico no quartel. Os mais próximos alegam que tal decisão foi o ápice de uma tendência crescente de se afastar das outras pessoas e de emudecer cada vez mais sua personalidade comunicativa.

[ARQUIVO] METALLICA À VENDA? (Ian Christe)

De 29 de junho a 19 de julho de 2011

“Mais uma vez, os fãs tornaram-se ratos escondidos pelos cantos. À medida que o metal sofria à vista do público, o Metallica fazia pouco para ajudar a contornar a situação. Por anos eles puseram o mundo do heavy metal em primeiro lugar, mas agora pulando irreconhecivelmente na frente dos holofotes em toda cerimônia de premiação ou sessão de vídeo, a banda viajou com os grupos alternativos Hole e Veruca Salt em setembro de 1995 para tocar em um festival patrocinado pela cerveja Molson Ice na vila ártica de Tuktoyaktuk. A banda que havia se recusado por mais de sete anos a até mesmo fazer um videoclipe estava agora aceitando eventos promocionais.”

“I put my cock into the carcass

My climax can wait no longer

Expectorate my seed of hate

Onto her mutilated corpse”

“‘Eu não usei cuecas nos últimos quinze anos’, Lars Ulrich contou à Melody Maker, ‘mas nove meses atrás decidi que não iria mais usar jeans novamente. Porque como eu não sou circuncidado, diferente da maioria dos norte-americanos, haveria uma quantidade considerável de urina espalhada pela minha calça cara por causa do consumo excessivo de álcool. Então minha esposa sugeriu que eu usasse cuecas para que eu não mijasse nas minhas lindas e caras calças de estilistas famosos o tempo todo.’”

“‘O Metallica pode fazer o que quiser agora’, disse Shawn Crahan, do Slipknot. ‘Eles venceram. Eles conquistaram o direito de fazer o que quiserem hoje em dia.’”

“Zombification ejaculation over mutilation

On the Mother’s body hacked into pieces

The sludges from my cock gives her life once again

Sewing the remains of the child deep within her”

“She’s already dead, I masturbate with her severed head

My lubrication, her decomposition

Spending my life molesting dead children”

“Conforme seus cabelos lentamente voltavam a crescer, o Metallica redescobria sua origem metal. Para a turnê norte-americana de 1997, prepararam um show com um palco sofisticado que representava a realidade maliciosa na qual a banda então vivia. Inspirados no dramático acidente com James Hetfield em Montreal, todas as noites, na metade do show, uma parte falsa da iluminação explodia, para deixar a figura de um técnico em chamas balançando pelos ares, preso por um cabo de segurança. Para dar seqüência ao tema de destruição já iniciado, torres de iluminação caíam até uma posição predeterminada, e roadies corriam para apagar o fogo. O técnico de iluminação era levado em uma maca para uma ambulância que estava à espera ao lado do palco, enquanto a mesa de som lançava loops de ruídos de estática. § Com o equipamento supostamente destruído, os membros da banda fingiam então buscar uma solução para a catástrofe. Reuniam-se em um canto remoto do palco onde havia apenas dois conjuntos de guitarra e amplificador e algumas lâmpadas que pendiam do teto, e rapidamente improvisavam um medley ‘caseiro’ de ‘Four horsemen’ e outras músicas antigas de Kill ‘em all. Devagar, o operador de som reforçava até um volume digno de estádio. Foi um evento extraordinário que brincava com desastres para contar a hoje lendária origem da banda. Com logística mais complexa do que qualquer palco gigantesco do Iron Maiden nos anos 80, a produção foi genialidade pura do Metallica e fingiu zombar das convenções do rock, até mesmo ao entregar-se de corpo e alma a elas. Naturalmente, a empresa de efeitos especiais recebeu o prêmio Designer do Ano da revista Stagecraft industry.”


FISSURAS E INTEGRIDADE NO MUNDO DA MÚSICA

Ou: Em busca do riff perdido atrás do arco-íris captável somente através dos ouvidos

As bandas e os gêneros floresciam e morriam, florescem e ainda morrem, rápido demais. As brechas deixadas por colossos como Black Sabbath e Metallica na incompletude e periferia de cada álbum, e nos hiatos entre as gravações, e nas inevitáveis negações perpetradas pelas escolhas (afirmações) naturais, talvez tudo isso se desenrole por décadas e não se tenha perdido uma (várias) oportunidade(s) para sempre. Não são os próprios músicos que vivenciaram os atalhos geniais de suas obras-primas que devem chegar lá, mas o legado vivo por eles plantado. Um gigante veterano tateando atrás de seu novo melhor álbum de todos os tempos não passa de comédia?