[ARQUIVO] A ESTRADA ASSASSINA (Tradução de The Killing Road do Megadeth)

De novo nos cercamos ao palco

Na velocidade do som nós vamos

Alimentando o ímpeto do povo

O gato grande deixou a sua jaula

De novo no ônibus

Pra pegar outro avião

Esse comportamento é doentio

Mas fazemos isso pela fama!

Eu perdi minha cabeça, eu perdi meu dinheiro (!?)

Eu perdi minha vida para a estrada assassina

A estrada nunca vai acabar

Sempre começa de novo

Outro show envolve a tensão

Outro grande amigo perdido

Sem expressão, como a neve

Não tem nada de mais na estrada

É só mais um esforço

É só que é muito comprida, isso é tudo

5 de fevereiro de 2011

[ARQUIVO] CRONOTERAPIA

Originalmente postado em 4 de fevereiro de 2011

Se lhe fosse dado o poder de se transportar para – ou renascer em – uma época futura da humanidade, supondo que seu mundo atual estivesse à beira da destruição e essa fosse a única saída para o colapso, para daqui a quantos anos você programaria essa máquina do tempo irreversível, essa viagem só de ida, estilo Futurama?

Arriscaria 2050 (aposta perigosa, pois, se em 2011 a Terra estivesse mal das pernas – como parece que está…!)?

Não, não. Acho que devemos tratar aqui de séculos, séculos avante, séculos adiante!

2300? 2500?

3000?

4000?

5000?

Mil anos separam o auge do Império Romano da mais obscura Idade Média!

10.000? Correr-se-ia o risco de nascer no breu, no vácuo? Como se vê, 2050 ou o quíntuplo, isso não importa: nada oferece garantias.

Para quem crê numa História cíclica, e que já esgotamos, neste fim de modernidade, todas as possibilidades de acontecimentos, e de surgimento de novas coisas, quem sabe nessa época – em 10 milênios – não se pode ser contemporâneo de Homero? Não vale querer viver como bardo, feito num RPG!

Ou será que não, que o mundo é extremamente rico, materialmente inesgotável, capaz de produzir o inédito durante uma imensidão incomensurável?

1.000.000? Ano 2 bilhões?

Lance os dados, mas saiba! Não há ZERO em nenhuma das faces!

* * *

P.S.

Ikki, a Avê Fênix, na ânsia de fugir das mãos de seu opressor divino, bate as asas até onde consegue – seu cosmo flameja a 1 trilhão de quilômetros. Porém, ao cabo, ele termina na palma da mão de Buda, o sétimo além, o Paraíso dos orientais, mas que parece um tormento – um simples pensamento malévolo ou sacana (tão humano!) pode leva-lo aos reinos menos obres da pós-existência. Tudo bem que o sujeito em questão, em combate com o cavaleiro mais próximo de deus, é tão encardido que as bestas-feras dos submundos da eterna guerra e canibalismo não o suportam, ejetando-o de volta à superfície terrena.

Toda essa visão só me faz imaginar… o quanto é impossível fugir do destino ruim – a ave imortal não pode percorrer uma distância maior, que a livre de alguma condenação. O ano que se escolher para seu túmulo, idem, não o isentará dos fracassos e decepções! Pelo menos você lutou, figurou no álbum dos grandes homens! Mitologizou-se!

* * *

Os EUA não desarmaram as bombas de nêutrons em 1996 porque se tivesse chegado ao “consenso da pax”! Eles o fizeram para não serem explodidos de súbito pelo próprio arsenal! Corrosão da meia-vida. Quem reza essa missa?

O Muro de Berlim caiu, mas a Muralha da China não!

Bush: um “Eu não sei de nada” do tamanho do mundo.

Como partir essa pizza chamada felicidade?

Livro “Os Melhores Tweets de Rafael Aguiar” já nas livrarias!

[ARQUIVO] METALLICA!NDO ou A ODISSÉIA MAGNÉTICA

UMA CRÔNICA RETARDADA [ANA-CRÔNICA], MAS QUEM SABE ISENTA DE FALHAS, NO ESPAÇO-TEMPO: MEU SONHO REALIZADO EM SÃO PAULO

Rafael de Araújo Aguiar, de Brasília, madrugadas de 18 e 19 de janeiro de 2011, praticamente um ano depois do ocorrido:

A) ANTECEDENTES

Não escondo de ninguém que há algum tempo minha banda favorita é o Metallica (ironicamente, roubou o cetro, em minha preferência pessoal, do grupo que muitos consideram seu principal concorrente, o Megadeth). E se torna desnecessário expressar o quanto é significativo e elevado quando se tem a oportunidade de presenciar uma exibição dos seus artistas prediletos. Muitas vezes isso acontece quando eles excursionam pela América do Sul, pelo Brasil, e passam, conseqüentemente, pela sua cidade. Mas com o Metallica seria diferente: exigentes, fariam seus maiores fãs atravessarem o Brasil de Norte a Sul para que pudessem ser vistos. Essa frase não é uma simples alegoria: com shows agendados apenas para o Rio Grande do Sul e São Paulo (nem respeitaram o famoso Eixo Rio-SP de atrações culturais de renome!), aqueles das partes centrais e setentrionais do país que quisessem prestigiar um bom e velho thrash metal ou hard rock (a depender da fase da banda) precisariam desembolsar uma boa grana e energia. Isso, confesso, só aumentava minha vontade de estar lá, para depois narrar o quanto fora difícil e recompensador viver o momento! Só não esperava que depois de tudo não sentiria a necessidade de compartilhar os eventos, pelo menos não de forma imediata. Deixei o tempo correr e, 12 meses depois, o que era música em minha cabeça finalmente merece ser convertido em palavras – estou sereno o bastante para isso! Porque com as palavras, sabe-se, é preciso lidar com cuidado.

Soube da vinda do Metallica aproximadamente em setembro ou outubro de 2009, e comecei a mexer meus pauzinhos. Na realidade havia uma grande expectativa pela inclusão de uma data para Brasília na turnê brasileira do Death Magnetic (nome do último álbum da banda). Após a decepção gerada pelo anúncio oficial de apenas dois shows em território nacional, ambos longe daqui, soube que teria de pedir ajuda a meus pais por não estar trabalhando e não ter como obter o dinheiro para essa aventura. E o pior de tudo não seria o deslocamento, pois quando metaleiros se reúnem para fretar ônibus o custo baixa bastante. Mas as empresas que organizam essa variedade de mega-espetáculos são realmente exploradoras num sentido, eu diria, de capitalismo arcaico, com exceção da alta burocracia e dos lucros envolvidos. Porque tratar o consumidor como gado não é próprio, ou não deveria ser próprio, de um serviço de luxo contemporâneo. De luxo, sim, pois é uma ocasião especial, e nem todos têm as condições de pagar para usufruí-la. É claro que só vai quem quer, e não se pode reclamar de uma viagem até um estádio apinhado numa megalópole onde seria possível conhecer, nem que um pouquinho de longe e mais pelo telão, os lendários três sobreviventes da formação original (ou quase isso) do maior grupo de metal da História: James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich. Os preços não seriam camaradas sequer para o padrão classe média alta, com ingressos premium passando dos 500 reais, sem o valor da meia-entrada. Muito já se discutiu sobre a legalidade da questão das meias-entradas em atrações de música ou semelhantes, e juro que não entrarei nesse mérito, pois isso seria repetir literatura. Só o que preciso informar é que desisti, a princípio, sabendo que não havia mais a meia-entrada para pista premium ou mesmo para a pista comum, e que talvez não valesse a pena vir de Brasília para acompanhar o show das cadeiras do estádio. Agora não me recordo se elas também estavam preenchidas em seus valores de meia-entrada para estudantes. É bem possível. Foi duro ter de abdicar, depois de todas as expectativas geradas, mas ir ao Metallica parecia ter sido mesmo um devaneio temporário, sorte demais para ser realidade.

Semanas depois, entretanto, foi confirmado um segundo show paulista, um dia depois do primeiro, em atendimento à demanda gigantesca inesperada. (Fala a verdade, inesperada? Eu não duvidaria nunca do apelo exagerado de fãs e até de não-fãs por entradas para a volta do Metallica ao Brasil, depois de 11 anos – com direito a um “bolo” no meio do caminho, devido a uma desistência e cancelamento de apresentação em 2003, já depois de iniciada a venda de ingressos!) E a informação era de que as coisas seriam mais calmas dessa vez, pois dificilmente o estádio do Morumbi receberia lotação máxima uma segunda vez. Esperei ansiosamente pela abertura das vendas no portal da internet e novamente foi impossível a compra de uma meia-entrada para o setor mais badalado (entradas premium com desconto esgotadas na pré-venda!). Me contentei com a meia da pista comum. Não haveria excursões rodoviárias rumo a São Paulo, porque o sujeito que mais cuidava dessa parte se encarregou da fretagem de veículo apenas para o primeiro dia, antes que se soubesse de uma segunda data, e não manifestou interesse nem houve muita movimentação relativa ao segundo show. Ficou decidido, portanto, que eu iria de avião, porém como não pertenço a nenhum grupo sólido ou fechado, mesmo no meio do metal brasiliense, não combinei com ninguém em específico, e, quando pude contatar as pessoas mais próximas e que poderiam estar no mesmo hotel que eu quando chegasse a São Paulo – os músicos da banda cover de Metallica de Brasília, Fierce Fire, soube que elas pegariam vôos que seriam uma opção questionável para mim, restando-me apenas o subterfúgio de encontrá-los já em São Paulo; ou seja, ir e vir por minha própria conta e risco (isso se verificaria uma boa idéia, pois fiz uma nova amizade já no vôo de ida, como veremos). Os integrantes da Fierce Fire eram três: Arthur Silva, vocais e guitarra-base; Hara Dessano, o guitarrista principal; e Renato Mendes, baterista, aquele com quem tinha a amizade mais antiga, desde os tempos em que iniciei meu inacabado curso de jornalismo. A banda se encontrava sem baixista no momento.

A compra foi por volta do dia 20 de dezembro e eu passei o mês de janeiro inteiro dormindo mal, pensando em todos os preparativos para o show, além, claro, de tentar projetar em minha mente cada emoção que invadiria meu corpo durante aquelas 2, somente 2, porém mágicas, horas de som ininterrupto. O último dia do primeiro mês do ano é que abrigaria esse marco. No meio do caminho, dia 16 de janeiro, ainda encarei um aperitivo, Deicide em Brasília! Confesso que uma das minhas maiores preocupações era com relação ao consumo de álcool: deveria aproveitar bastante a viagem e não me poupar de nenhum prazer, mas que isso não significasse perder a linha, prejudicar-me e ter muitas dores de cabeça depois, tendo em vista estar sozinho em uma cidade até então por mim desconhecida, com fama de violenta e caótica, com dinheiro e documentos importantes a resguardar. E seria lamentável se eu por algum motivo me encontrasse fora do ar, me perdesse ou não conservasse na memória algum dos minutos da experiência única que é ver a banda (“a” banda!) entrando no palco e percorrer todo o set list até a saideira (que apesar de perfeitamente previsível não seria nem um pouco monótona)! Então, tomei a precaução de conversar bastante com uma amiga por enquanto só de de internet residente em SP, a Natália “Bowie”; também cansei de analisar mapas da capital no Google Maps, e mesmo do restante do estado (uma vez que eu desembarcaria num aeroporto periférico, o de Guarulhos, em Cumbica, praticamente fora da cidade, e precisaria bolar uma forma de me deslocar para não pagar uma onerosa corrida de táxi, o que incluía aprender de cara a usar o intrincado sistema de metrô sincronizado com bilhetes para ônibus naquela capital). Para um pacato candango que mal sabe direito o que é um metrô, quem dirá um metrô superlotado, isso exigiria um bocado de atenção! Havia também o lado de “curtir as músicas”, na verdade estudá-las, memorizar as que eu conhecia menos, enfim, deliciar-me com a banda para chegar com as melodias na ponta dos cascos, porque a goela não seria perdoada na hora fatal! Obviamente, a etapa de convencimento dos pais já havia sido superada, de forma que entenderam o quanto isso seria relevante para mim e que, ao contrário de muitos filhos da minha idade ou até mais novos, eu nunca tinha feito uma viagem-solo, e seria ótimo para sair um pouco de debaixo desse mesmo teto e da rotina e previsibilidade. É, depois de tantos anos eu merecia um “presentinho de aniversário fora de época”… Eu voaria pela Webjet, chegando um dia antes, o suficiente para conhecer algo em São Paulo além da sede do evento, o Morumbi, e voltaria na manhã consecutiva ao show. Me hospedaria num famoso hotel para universitários e/ou aventureiros econômicos num lugar bem acessível, o Formule One, onde racharia um quarto com mais dois do Fierce Fire. A última coisa que faltava dizer nesse item “A” é que a sede do evento, o Estádio Roberto Pompeu de Toledo, era também o do meu clube de coração¹ e – se não era para ver um jogo da minha equipe – meu grande anseio era que conhecer o “templo” fosse acompanhado de uma emoção e sobressalto pelo menos comparáveis aos de uma final de Libertadores: bingo!

¹ [Nota 2025] À época.

B) EM TERRAS “ESTRANGEIRAS” [Duplo sentido: O METAL É SEMPRE UMA NO MAN’S LAND!]

A princípio pensei que a velha máxima, de que tudo de errado acontece consigo no dia em que o azar menos poderia atacar, estava se concretizando: meu irmão, a pessoa que combinara de me levar ao aeroporto, não aparecia de jeito nenhum em casa. Minha mala tão aprumada e eu, devidamente trajado, estávamos à espera de notícias do motorista da tarde. Não quis usar o telefone até que o relógio marcasse realmente uma hora que me parecesse desesperadora; e foi o que fiz. Diogo atendeu e disse que inesperadamente um amigo seu começou a prendê-lao em determinado local com papos intermináveis e solicitações fúteis, típicas de quem bebeu umas a mais e parece retirar prazer de empatar a vida de alguém que está atrasado para um compromisso sério!! Meu irmão me garantiu que iria livrar-se desse estorvo e dispensar o amigo bebum nesse exato momento em que falava, deixando-o em casa ou algum ponto próximo a ela (segundo o que entendi, esse amigo queria uma carona para um lugar mais distante que, se fosse realmente acontecer, atrasaria completamente meu check-in!). Para o bem desse relato, seja como foi, Diogo cumpriu com o acordado e me deixou não muito cedo no Aeroporto Internacional de Brasília, mas também não muito tarde. Lembro que até trotei, engoli em seco, bufei e tremi, na fila do bilhete eletrônico. Isso é fácil de explicar: nunca havia deixado Brasília sem outras pessoas ao meu lado, e se eu perdesse alguma coisa agora, se deixasse qualquer coisa, como a identidade ou os ingressos, cair do meu bolso, me sentiria frustrado até a morte! Reconheço que eu e a paranóia, exceto por alguns rompimentos esporádicos, convivemos muito bem um ao lado da outra.

Dentro do avião, foi fácil perceber o quanto o show do Metallica mexia com a vida de pessoas do país inteiro: vários ali estavam indo para fazer o mesmo que eu, e logo entabulamos conversa. Em especial, eu e um trio de pessoas aparentemente da minha idade ou um pouco mais novas. Eram da Ceilândia. A única pessoa com quem falei depois desse dia e de cujo nome me lembro é o Philippe “D.R.I.”, como gostava de ser chamado (de Dirty Rotten Imbeciles), que comentou que ainda pretendia voltar a SP para ver o NOFX, dali a um ou dois meses. Como seu amigo estava com uma camisa do Palmeiras, e eu com a do meu clube, o papo logo recaiu para esse lado, e a garota que estava com eles não participou muito. O Philippe era flamenguista. Ambos iriam nas duas datas do Metallica e se hospedariam com um tio. Separamo-nos meia hora depois do desembarque, mas trocamos telefones. Soube que não iria precisar levar a efeito meu complicado cálculo de horários e estações a fim de chegar ao hotel com menos de 10 reais gastos (por causa do sistema de bilhete único!), mas que seria muito mais conveniente pagar 30 reais para pegar um ônibus que me deixaria virtualmente na frente do referido hotel, que passava de 2 em 2h, e dali a 40 minutos reapareceria na frente de Guarulhos. O engraçado é que soube depois que se eu rachasse o táxi com alguém poderia ter gastado ainda menos, o que não correspondia à absurda estimativa da Natália de uma corrida de 100 reais entre Cumbica e o Centro! Telefonei para ela e combinei de ligar outra vez quando me assentasse no hotel: Nanee Bowie seria minha guia turística por uma noite nos bares da Rua Augusta e nos points de relevo da Paulista, me apresentando ao maior número de loucuras possíveis. Ou iríamos desfrutar bem pouco, até o horário dos últimos ônibus do dia, ou viraríamos a noite inteira, e a segunda opção foi afinal de contas a eleita. Preferia perigar me sentir cansado no maior show da minha vida e ter esse convívio com ela e com a vida noturna da cidade esticados do que simplesmente achar depois que perdi grandes oportunidades e que não voltaria a São Paulo tão cedo. Eu sabia que mesmo que não me restasse mais energia eu a tiraria de algum lugar quando as músicas do Metallica começassem, assim mesmo, sem nenhum argumento científico ao qual me remeter, apenas com uma convicção sobrenatural no êxito do meu plano ébrio mirabolante, convicção que, como veremos, não era lá muito infundada…

A primeira pessoa, as primeiras pessoas, que encontrei já no saguão do Formule One foram o guitarrista do Fierce Fire e sua namorada e um amigo da banda que o Renato disse que eu conheceria, e que precisava mesmo conhecer, pois era uma peça, o Kleuber. Subi para meu quarto no segundo andar, e nenhum dos dois que dividiam as diárias comigo estava. O Arthur já tinha se deslocado para o Morumbi, pois veria o Metallica nos dois dias. O Renato logo estaria de volta, havia saído com o pai para comer ou passear em outros lugares. Arrumei as coisas no quarto, liguei para minha mãe e para a Natália, desci, fumei um pouco no pórtico do hotel e vi a gremista radicada em São Paulo que gosta de David Bowie aparecer e gentilmente servir de bengala a este cego que mal podia imaginar o que iria encontrar nas esquinas e botecos desse centro amalucado… Infelizmente não serei muito preciso nessa narrativa, mas garanto que isso não guarda a menor relação com o consumo de álcool: foi uma noite até agora jamais repetida em minha vida em que bebi cerveja por 17 horas consecutivas sem me sentir alcoolizado, embora bastante eufórico, naturalmente, a cada minuto, me sentindo mais como uma criança, por causa das conversas sobre o Metallica e as diferenças da vida urbana paulista e da (ausência de) vida urbana brasiliense. Foram muitos os bares em que abrimos conta, e eu retribuí esse grande favor da Natália de me “amparar” naquele ninho de pessoas e poluição interminável (embora eu não tenha presenciado engarrafamentos, chatices e grosserias dos transeuntes – do que eu sinceramente não esperava me esquivar, quando pensei nos costumes de uma cidade tão grande). O fato é que as pessoas podiam ser relativamente indiferentes a você, pois estavam acostumadas com todo tipo de cidadão, turista ou aberração possível, enfim, a um circo diante de suas caras todo santo dia, cosmopolitas que eram, mas uma vez solicitadas se mostravam polidas e de uma elegância que eu imaginaria ser viável apenas em Buenos Aires ou coisa do tipo. Não recordarei tantos nomes (acho que Augusta e Paulista são, em si, suficientes). Só sei que nada ali podia ser posto no mesmo patamar do sossego (eufemismo para tédio!) candango, onde o medo de ser assaltado por ser o único alvo na rua à noite é o oposto desse lugar que, às quatro da manhã, parecia a muvuca de um recreio de escola, com pessoas indo e vindo num fluxo incessante. Eu só não achei esse continuum mais assustador durante aquele dia porque não tive tempo de raciocinar que era simplesmente uma situação perpétua! Em nenhum dos 365 dias haveria calmaria naquelas ruas. Pode parecer irritante para alguns essa aparente tentativa, por minha parte, de engrandecer uma ligeira visita por um lugar tão prosaico e, para muitos, estúpido, velho, ultrapassado. Mas eu senti como se não tivessem sido 3 dias, ou 1 e meio, a se considerar que cheguei ao fim de uma tarde e me despedi no transcurso de outra manhã, mas vários deles! Após essa maratona de cervejada e os mais variados papos, com pessoas se retirando e voltando, partindo e não mais vindo ou simplesmente aparecendo tarde demais na história, ali estava um Rafael um tanto mais maravilhado com a vida e uns 80 reais mais miserável, de volta ao pórtico do hotel, não bêbado-bêbado, porque de alguma forma o ritmo lento e comedido dos goles e a espécie de ar úmido de São Paulo o impediram de sair de si. Ou talvez fosse o juízo, o intenso zelo com que me propus a atravessar essa viagem sem perrengues e com sensação de dever cumprido ao máximo. A medicina ou meu discurso não explicariam, deixa pra lá! Enquanto o taxista (da minha ida ao aeroporto, dia 1 de fevereiro, pós-show) espirrava, só para citar, reclamando das partículas de poeira, eu sentia minhas narinas desentupidas como nunca antes, como se só então eu me desse conta de que vivendo no cerrado eu estava sempre puxando menos ar do que a capacidade natural dos meus pulmões permitia. Estranho, deveras!

Natália se foi (depois de ter ficado um tanto íntima do senhor Kleuber!) – tendo chegado a cogitar comprar a entrada para o show, pois seu primo de 11 anos começava a gostar da banda por causa do Guitar Hero; mas ter de comprar outro ingresso pra ele lhe quebraria as pernas, então ela mudou de idéia, se despediu e desejou um bom show – e então todos pareceram perder o ânimo. Simplesmente todo o pessoal do hotel foi dormir (os que ainda não tinham ido, mas o Renato e outros mais comportados já se encontravam no oitavo sono) e repor as energias. Os últimos a sair foram uns caras de outros quartos que vieram de Manaus (!) para ver o Metallica, que já estavam se dirigindo ao aeroporto, não sem antes descreverem tudo de mais espetacular que viram na noite de sábado (meu show era no domingo). Tão felizes estavam que um deles parecia pouco se importar com o bico desse tamanho que a namorada amuada fazia na hora de entrar no táxi, gabando-se de que ela não sabia o que estava perdendo, se trancava no quarto do hotel e deixava de conhecer as pessoas, não suspeitava de que nós vivíamos uma coisa única, pois o mais provável é que nunca voltaríamos a nos ver de novo, mas que esse diálogo estaria registrado na história do mundo e que não poderia ser deletado. Esse “nós”, claro, era o jeito do amazonense se referir a todo e qualquer fã fervoroso do Metallica que estava vindo de praias distantes (ou mangues distantes!) para aproveitar ao máximo cada minuto, sem recusar encontros e contingências divertidas, mesmo que isso lhe custasse um namoro.

Pois bem! Depois dessa rica apreensão (que eu realmente demorei para mastigar – na hora fiquei pensando se tudo aquilo não ia entrar por um ouvido e sair pelo outro!), eu de repente me vi sozinho empunhando uma latinha na frente do Formule One, numa cidade grande que não pára, apesar de as pessoas dormirem (só mudam os rostos)! Finalmente percebi que também eu não era nenhum Highlander e precisava me recolher, por pouco tempo que fosse, me desligar daquela simbiose entre mim e todo aquele concreto – me pareceu que se dependesse exclusivamente de mim, nunca iríamos parar de circular (eu e São Paulo éramos um só)… E como o tédio até a hora do show iria grassar (principalmente porque um dos lugares que mais gostaria de conhecer, a Galeria do Rock, pelo menos foi o que me disseram, fecha aos domingos), era a hora apropriada para uma sesta. Novamente, ninguém na área ou, antes um Renato bastante abatido, quase sumindo debaixo das cobertas, com inflamação na garganta, que já não sabia se estaria no show de logo mais. Foi ao hospital tomar injeção para ver se melhorava imediatamente (sim, de fato isso ocorreu e ele não se desgraçou), e enquanto isso eu cometi a atrocidade de baixar a temperatura do ar condicionado do nosso quarto para DOZE graus, sem perceber, apagando em seguida. Fui despertado pelo Hara e pelo Kleuber quase dentro de um esquife de gelo! Duas ou três horas, no máximo, foi o que eu dormi, mas encontrei um ambiente diferente. Voltei a me sentir apenas uma pessoa que mal e mal se adaptava ao ambiente, fusão desfeita com aquele circo louco de carros e barrigas esfomeadas. Porque antes parecia que eu poderia rir e beber cervejas até o mundo acabar, e todos do hotel me cumprimentariam com um sorriso. Mas toda farra chega ao fim – claro que a principal sequer havia começado, mas voltei a me centrar na sobriedade da missão (uma farra séria!): o Metallica exigiria um dia menos hedonista, decerto, porque eu vim para testemunhar cada segundo de uma obra artística na qual eu não devia interferir, muito menos “arruinar” com algum entorpecente.

Fui com o Arthur primeiro ao Banco do Brasil e depois a um shopping qualquer da cidade, a pé mesmo, para almoçarmos. Depois todos da banda estavam reunidos num táxi que ficou bem barato. A única ressalva é que todos iriam assistir o Metallica na pista premium menos eu. Uma garoa chata resolveu aparecer antes de sairmos do carro, mas eu achei que não era tão incômoda a ponto de comprar aquelas capinhas descartáveis. Quando me vi do lado de fora do Morumbi exclamei para mim mesmo que estava no meio-termo mais perigoso daquela viagem: entre o tudo e o nada, pois se de repente sumisse meu ingresso seria um desapontamento inigualável, um “quase” bem acre de se engolir! Também imaginava, nas minhas melhores perspectivas, que encontraria uma aglomeração de cabeludos malucos do lado de fora e conversaria bastante antes de entrar, só que o Morumbi era tão gigantesco e a chuva parecia afugentar tanto os outros que eu não encontrei aglomerações e decidi passar de uma vez. Lacrimejei quando olhei para o entorno de dentro, pela primeira vez. Não quis bancar o são-paulino emotivo diante de um público numeroso, contudo, para não dar margens a piadinhas… E eu não cansei de ir e vir de um lado a outro daquela imensa pista ou tablado, lona, colocada em cima do gramado, para me locupletar, esbaforido, com a sensação de ser um jogador cobrindo várias funções na mesma partida, marcando e depois atacando, reconhecendo cada montículo de grama do campo. Ah, sim, a grama! Pude arrancar um tufo quando me aproximei do escudo do São Paulo Futebol Clube, onde terminava a lona (e, se querem que faça mais uma dessas observações rápidas entre parênteses, não levei câmera fotográfica, não registrei nada disso, mas agora vocês vêem que 1 ano não foi suficiente para avariar meu HD, que era o que realmente importava: gravar tudo na retina e depois estocar essas informações no meu precioso disco rígido, que nem milhões de cervejas seriam capazes de formatar!).¹ Eis que, justo quando admirava aquele ícone (o escudo do meu time, de aproximadamente 15 metros quadrados, rente ao solo, próximo a um dos setores de arquibancadas), centenas de vezes visto apenas pela TV, foi que encontrei por pura casualidade um fã de Metallica que foi quem me apresentou à banda, em 2001! Outrora melhor amigo, não mais meu vizinho, não deixa de ser inusitado e ao mesmo tempo justo, perfeito, que o destino nos quisesse fazer esbarrar tão longe de nossas casas. Um cumprimento entre mim e o Aloísio foi sucedido por saudações a seus amigos, todos de capas de chuva e que diziam querer “pular o show do Sepultura”, pois não vieram para isso. Aparentemente, tinha um grupo com quem curtir o show. Mas não queria estar com aquela galera, com quem pouco me identificava, que não parecia curtir o Metallica exatamente do jeito que eu curtia e ainda curto, do modo sujo e agressivo que eu escolhi para apreciá-lo, da maneira deferente e old school com que eu insisto em me referir ao grupo. É, a música preferida do Aloísio é The Outlaw Torn, algo impensável para quem sabe, como os próprios membros da banda, o posto secundário ou mesmo terciário que ocupam os álbuns Load na indústria fonográfica, ou diante do grande público (no fim das contas, essas coisas são a mesma coisa, porque não há populacho sem os barões das gravadoras e eles precisam entusiasmar alguns banguelas meio surdos para vender seu peixe!). Então eu me dirigi ao banheiro, prometendo voltar, mas preferi ir me posicionar no canto oposto ao que eles escolheram para acompanhar o show. E cada vez mais pessoas que vinham chegando impediriam qualquer tentativa de procurar quem quer que fosse, mesmo se eu quisesse! Era quase verdade que para se situar ali o jeito era driblar para um lado e para o outro, como um jogador que encontra todos os companheiros sob cerrada marcação. A parte de não tomar uma cervejinha para ver os shows (pois eu queria muito ver o Sepultura, banda de entrada, também!) não se devia exclusivamente à possibilidade de ficar “bobo demais” de forma indevida, mas a um problema que tenho, e que penso ser mais acentuado em mim do que em qualquer outra pessoa: o de me dirigir ao banheiro a intervalos cada vez mais curtos conforme vou virando a bebida, sem poder mesmo reter a urina, porque isso me deixa quase paralisado de dor, sem poder andar ou pular. Não queria estar desconfortável e pedindo para que o show passasse depressa, isso seria contraditório demais depois de toda a luta para estar ali! Estipulei 1h30 antes da hora marcada para o Metallica, ou um pouco menos que isso (porque não sou inglês) como uma boa margem de segurança, e de resto me limitei a fumar um ou outro cigarro. O Sepultura começava agora a se apresentar, a chuva diminuía até a intermitência de pingos esquizofrênicos, e eu tinha a certeza de aproveitar uma boa banda, ótima banda, brasileira e de respeito, para me elevar em êxtase, ainda de forma tímida, é verdade, sem pressa, ciente de que o ápice viria em hora melhor. Não podia mesmo agitar demais, primeiro porque só agora sentia mais que antes o cansaço por tudo aquilo que havia feito, virando a noite daquele jeito, comendo pouco, tendo deixado de repousar (como se eu fosse conseguir dormir a madrugada inteira trancado no hotel, com a cabeça a mil!), e certo princípio de cãibra nos braços, dores nas juntas, nas pernas, e sabia que ficaria em pé sem ter onde escorar por várias horas.

¹ [Nota 2025] Engraçado como 2010 ainda não era uma época de ubiqüidade de celulares com câmera!

E se o leitor realmente está se perguntando se eu fiz uma boa escolha ao me desfiliar da turma do Aloísio (e como já estava separado do pessoal da Fierce e de qualquer outro, se foi apropriado passar o show sozinho), afirmo que fiz exatamente o que quase sempre faço (no show do Megadeth foi a mesma coisa!), e não poderia imaginar nada melhor do que não parar para conversar com ninguém ou simular algum tipo de reação, positiva ou negativa, em relação a qualquer coisa, que não fosse exatamente aquilo que eu estava sentindo, só para agradar os outros, como tantas vezes acontece! Apesar de ter puxado papo com inúmeros grupos e apurado que um grosso contingente provinha de regiões do interior como Campinas, e que o Morumbi àquela altura tinha mais corinthianos do que qualquer coisa, eu sabia que aquele momento era de mim para mim mesmo e que não cabiam interferências externas. E após o show do Sepultura, com o atraso do Metallica e o escurecimento do céu, esse cansaço crescente foi apertando, de forma que quase me arrependi de todo esse auto-isolamento e achei que não seria uma boa noite. Mas essa ligeira apatia seria pulverizada e convertida em cinzas quando de repente as luzes do local foram totalmente apagadas (e senti muito medo, então, de eventualmente desmaiar e ser pisoteado!) prenunciando a entrada triunfal do quarteto mais importante. Os primeiros acordes não deixavam dúvidas: eu extrairia energias de onde fosse preciso, uma certa anestesia estava já sendo inoculada pelo meu próprio sistema de defesa; e se eu tivesse de pagar alguma coisa por isso, que fosse depois, bem depois de sair dali! Aí sim eu enfrentaria 10 dias seguidos de ressaca de bom grado, quando já estivesse em Brasília e esse momento fosse parte do passado gostoso de lembrar! Não sei mesmo como eu me sentia tão detonado ao fim da primeira música, Creeping Death, que achei que não conseguiria mais erguer o braço direito, e como eu estava incorporado por uma entidade na décima primeira música, de forma que poder-se-ia pensar que descansei a semana toda esperando apenas a hora de One, minha faixa preferida! Ou seja, a cada música que passava eu me sentia mais revigorado, uma espécie de Benjamin Button do Metal! A bateria de batidas de cabeça para o violento trecho final de One excedeu todo o “treino” a que me submeti em casa, foi insano! Retirei meus óculos e não parei de me contorcer para todos os lados ao ritmo do thrash mais encardido do …And Justice for All, e talvez do universo!, sabendo que aquela era a apoteose. E que havia esse tempo todo um tanque energético em stand-by aguardando o gatilho, que foi disparado junto com os sons de metralhadoras e morteiros da introdução da faixa (ainda estou falando do hino anti-bélico One!). Parece-me que o veterano Lars Ulrich não tem o mesmo ímpeto para gastar, mas isso já nem tinha tanta importância… Confesso que me constrangi, tendo de me impedir de me entusiasmar, por uma questão de honra, sendo ainda assim trabalhoso fazê-lo, nas canções mais marqueteiras do Metallica, que agradavam sobretudo os casaizinhos que eu sentia serem muito mais fãs estilo Aloísio do que headbangers, penetras no espetáculo (se bem que ultimamente os verdadeiros metaleiros andam tão escassos que eu devia ser o penetra ali!). Mas que se dane. Fuel e Nothing Else Matters¹ quase se desmancham como episódios inofensivos do que no geral era um impecável massacre, que, afinal, precisava ser intercalado com essas “baladinhas”. That Was Just your Life felizmente mostrou que o Metallica ainda sabe ressuscitar o ímpeto dos anos 80, se os músicos entrarem em acordo, se é isso realmente que eles querem. Sad But True e Welcome Home (Sanitarium) apresentam a sintonia perfeita entre a velha guarda e os que estavam ali por causa da influência assombrosa do Metallica no mundo pop que se deu desde o lançamento do [untitled]/Black Album. Porque Welcome Home, apesar de ser de uma fase pregressa, apresenta já a característica de olhar para os dois lados, vista no álbum negro: o peso, sim, mas o verniz também! Não faltaram os clássicos que seria imperdoável ver de fora, como Ride The Lightning, Fight Fire With Fire, Master of Puppets (que eu homenageava através da minha camisa, sem perceber na hora, porque nada mais me importava além do som e do rosto do James no telão – e dos punhos do Hammett, eventualmente, cabendo ao Trujillo uma leve figuração, ideal para ele, ideal aliás para qualquer baixista)… E até o tradicional cover de Diamond Head, embora fosse com a inesperada Helpless! Esse encontro assimétrico, em que eu venero os que estão lá, mas no qual eles gritam o nome da cidade, e nunca o meu (se bem que eu era São Paulo naquele momento!), só podia mesmo terminar com dois petardos primitivos, Hit the Lights e Seek & Destroy (que me fizeram prometer que, se um segundo encontro acontecesse, seriam objeto do meu tributo, com uma camisa do Kill ‘em All, da próxima vez). E eu já nem sabia como saía do chão com essa história de fazer um escaneamento na cena daquela cidade àquela noite, procurando alguém pra começar uma briga (primeira estrofe), porque achei que o gás final fôra dado em One, lá atrás! Só que a loucura é contagiosa, e eu só via gente energizada ao meu redor, então achei que não seria falta de nobreza roubar um pouquinho da deles. É verdade, também, que, depois, já mergulhado no silêncio (pois ainda estava em êxtase e sequer ouvia os bochichos das pessoas ao meu redor), eu demorava 10 segundos para dar dois passos e precisei remar na contra-mão das pessoas que saíam do estádio, rumo aos banheiros. E que depois não sabia se cantava ou não, junto com os são-paulinos, no túnel, que o Corinthians não tinha nenhuma Libertadores e que por isso não precisava ser levado a sério.² O Metallica merece vários estudos de caso: como pode agradar a tanta gente tão diferente?!

¹ [Nota 2025] Curiosamente hoje eu aprecio muito mais essas músicas dos anos 90!

² [Nota 2025] Não demoraria muito para ter (2 anos e alguns meses, para ser exato).

Estranhamente, me senti em casa. Sim, porque não parava de pensar o quanto eu era uma ilha ali, o quanto era absurdo penar tanto para ver apenas 2h, ou quiçá 1h40, de 4 excêntricos empunhando instrumentos pouco ortodoxos, que não emitiam nada, porque o que emitia alguma coisa eram caixas monstruosas bem longe da banda; os responsáveis por todos os transes eram muito menos místicos do que quereríamos, eram computadores, fios, máquinas, engenharia fina, cálculo frio… Agora se pergunte se o fã não se sente vingado de toda essa impessoalidade quando se vê nas letras…

Dormi pouco, reencontrei o Philippe no aeroporto, também voamos de volta juntos embora não tivéssemos combinado nada disso, e até apertamos a mão do Rodolfo ex-Raimundos e Rodox, que quase passa despercebido em meio àquela gente, sem fãs nem moscas rondando sua cabeça, andando com sua esposa entre as lojas, prestes a embarcar sei lá para onde (outra grande ironia, chegar a conhecê-lo longe da capital de Brasília, onde nós dois crescemos, embora ele seja de uma ou duas gerações anteriores à minha). Até voltei mais rápido do que imaginava à morosidade candanga, a ouvir outras bandas que destoam do padrão Metallica (a meu ver, isso iria demorar, depois da magnitude do concerto!). Mas ficou algo pendente e entalado. Não quis descrever tão pormenorizadamente por muito tempo tudo que vivi. Acho que fiquei com medo de que tudo isso se diluísse com comentários dos outros, que não poderiam imaginar com fidedignidade minha experiência difícil de pôr em palavras… Eu até esqueci de dizer, por exemplo, que a garoa fina cessou completamente logo após o “até a próxima!” do Sepultura… Como se o Metallica controlasse até o clima. É claro que esses detalhes só parecem poesia na visão dos presentes ao espetáculo. Só o tempo é que romantiza de uma forma menos pitoresca essas facetas, e nos permite quebrar o silêncio! I’m not, anymore, trapped under ice!

[ARQUIVO] SEIYA DE PÉGASO EM FARELOS & A MONTANHA MÍOPE MAS MÁGICA

21/12/10

Seiya esmigalhado na casa de Leão. Perde a mão com a Cápsula do Poder – na altura do pulso. (Ao acordar, no mesmo lugar verifico uma picada de muriçoca, ferida ampliada e agravada com certeza pelo meu coçar involuntário.) No mais mísero estado, e apoiado por seus amigos, Seiya segue adiante. Não tem nem pés, talvez, não pode se manter erguido, mas cumprirá sua missão obstinando-se até o fim, última centelha… No meio do caminho a plebe ainda quer troçar do herói, porém ele demonstra muita habilidade com a bola nos pés (!), embora seu cosmo e seu corpo não sejam mais os mesmos. E Athena, poderá reconstituí-lo?

Jogo Master System com um amigo. A terceira fase de algum jogo. Algo reseta o aparelho e agora precisamos da password. O modo de obtê-la, não por uma revista de videogame ou um site, é terminando uma ilustração de uma estranha montanha, o que eu me proponho a fazer. Quando terminar de ser colorida ela nos transportará…

22/12/10

Jogando Perfect Dark em multiplayer – controle exagerado, cheio de segmentos horizontais. Menininhas risonhas, muitos amigos de diferentes eras. Fazer trabalhos da faculdade, que ficou parada muito tempo mas vai voltar. Quero molhar minha cara no banheiro mas esqueço que estou de óculos. Inclusive, tiro-os por um tempo e mostro-me cego, praticamente, para as menininhas (acompanhadas, cada uma, de um ou dois marmanjos). Revelo como é difícil ser míope, e aliás um míope tão raro: normalmente as pessoas fazem drama por precisarem usar lentes de 2, 3 graus.

[ARQUIVO] A PRAIA DO CERRADO

23/03/11

Havia um mar aqui no Planalto Central! Na realidade, o que costumava ser a calçada da zona comercial da 308 Norte se convertia em areia (se meu relato não é impreciso) e, poucos metros à frente, onde passariam os carros, apenas água, água até não poder mais, ondas muito agitadas… Aliás, fico inclinado a voltar atrás na minha descrição: não era areia, mas pedras. Lembro de testemunhar arrebentações pouco amistosas. Somente surfistas experimentados ousavam encarar essa parte da natureza brasiliense!

Portanto, para além do paredão de pedra vicejava um novo tipo de vida. Alguns com sua prancha arriscavam ir muito além, até que a borda fosse difícil de se enxergar. Poderia haver tubarões engolidores de pranchas e pernas. Mas o que realmente soava intrigante nisso tudo era uma ilhota a dada distância, uma ilhota de dunas de areia, talvez um pouco salpicada de vegetação, aqui e ali. Parecia um oásis, um lugar especial por alguma razão, e a travessia até lá era bastante complicada. Casais deviam gostar desse isolamento.

Sabrina havia me ensinado ou me motivado, me feito, enfim, chegar à ilhota. Depois que nossa curta relação de amizade foi bruscamente interrompida, perdi qualquer estímulo ou mesmo meios de repetir a façanha, porque a maneira como fiz isso me parecia agora nebulosa, irrecordável. Teria sido a nado, perigosamente podendo cansar antes de atingir as margens opostas? Ou teria sido em alguma embarcação, e de que tipo? Fato é que ela era um porto seguro necessário para arriscar minha vida, sem morrer. Doravante, eu e eu mesmo teríamos de encontrar a solução, ou simplesmente desistir. (Não era vital?)

Sabrina representava mais auto-confiança e mais risco, talvez mais risco do que eu podia tolerar. Eu era do tipo de homem disposto a me jogar no fogo (ou aos tubarões!) por mais uma tentativa desesperada, mas agora a prudência, por mais que parecesse um paralisante para a alma, falava mais alto. Eu tive a pachorra, a coragem e a necessidade, e agora não podia ou devia ter mais?

[ARQUIVO] BURIED DEEP IN THE SAND

07/08/11

Estávamos em uma espécie de viagem.

As pessoas estão na praia. Vanessa dizia a Sandra que a palavra que eu escrevi para ela, a garota do intercâmbio, “intelligentis”, era para vir acompanhada de outras duas, uma antes e uma depois. De repente, Vanessa começava a cavar na areia – antes disso, Vanessa estava de pé com roupa de banho e Sandra sentada sobre uma toalha estendida na areia. As duas estavam de frente uma para a outra e o mar, embora eu não pudesse enxergá-lo, parecia estar às costas de Vanessa. Então Vanessa consegue encontrar a palavra “intelligentis”, como se eu a tivesse escrito na areia com o dedo momentos antes. E há rastros que não são identificáveis por enquanto como letras, tanto à esquerda quanto à direita da primeira palavra. Eis que a Vanessa começa a cavar mais e mais fundo, até achar um objeto: meus óculos, armação negra e lentes um pouco sujas.

Neste momento, Sandra sumia, e eu finalmente surgia. Eu estava muito contente e não sabia como agradecer por terem encontrado uma coisa tão importante para mim, sem a qual eu ficaria completamente incapacitado, refém do mundo. Dizia a Vanessa que não sabia o que faria se não fosse ela em minha vida. De repente, estávamos num quarto (como se fosse um hotel), eu, Vanessa e sua melhor amiga Lorena. Havia cochichos do lado de fora, a partir do corredor. Ou, melhor dizendo, havia murmúrios ou ecos, porque eram distantes demais. Mas eu tinha medo de que outros hóspedes pudessem intervir em hora tão delicada, o que me fez pedir a Lorena que fechasse a porta para eu poder conversar com mais privacidade com Vanessa. Eu queria desabafar, mas não sabia como começar… Minha primeira frase foi claramente: “I want to ask you some questions…”. No exato instante em que acabava de proferir este desejo, percebia que empregava o idioma errado e emendava com um “ops!”. Na seqüência, eu confessava estar apaixonado. Após minha confissão, nossos rostos nos aproximavam…

[ARQUIVO] O JOGO

11/11/10

Sonhei que jogava tênis contra alguém, muito embora a rede fosse tão alta quanto a do vôlei, e não conseguia fazer o meu serviço (sacar) adequadamente. Com efeito, a pontuação era em sets de acordo com a ATP, e a dado ponto eu me sentia o Guga retornado da aposentadoria (não como metáfora, mas como personagem identificável no sonho)! Ocorria o pensamento: “eu não deveria ter feito isso, vou perder!” – correlação com o Schumacher. O placar era algo como 6-1, 5-0 para o meu adversário. Quando eu levantava a bola (que parecia grande e branca) para o saque e eu desistia de bater com a mão quando sua trajetória estava no topo (pois sabia que sairia um saque bem fraco), meu oponente, se não me encorajava, não me desprezava, pois parecia entender a situação, expressando o seguinte enunciado: “Tem que ajeitá-la para o golpe certo, é difícil”. Por que raios eu não sonho com um boliche, onde sou campeão?

[ARQUIVO] CONDENSADO

A vida é uma noite de gala

A criança é o bêbado, dos primeiros goles à euforia total

O adulto é apenas a ressaca, retumbante, semi-eterna

(Talvez o adolesça seja esse moleque briguento, esse todos nós que viram machão, estufam o peito e se metem a socar e bicar mil canelas, mas só fazem trombar e tombar e provocar risadas, quem sabe medo, se não for tão patético!)

E o velho, rá, eu havia dito

que a vida era uma noite

mas como já transgredi

e incluí a ressaca

que tal a UTI

com seus monitores e tubos

lamentos, flores e parentes

nenhum último gole, nenhum último tônus muscular,

só aquele resmungo do velho gagá

ele é o fígado, o rim, o pâncreas, pretos, ele é a morte

E o menininho nem se pergunta – pai, devo sair de casa? Ele sai.

[ARQUIVO] Morrer não é motivo suficiente para parar de sonhar.

17/12/10

Prova disso é que hoje levei um tiro na cabeça de um torcedor de futebol psicopata, senti a “dor” do momento e soube sem adiamentos que aquele seria o fim… e no entanto não foi, veio à baila o que se sucedeu no local após minha suposta morte, como se atiraram para cima do agressor. E de repente me transportavam para uma urna, muito pequena para o comprimento das minhas pernas. Os responsáveis por me trasladarem, um tanto desajeitadamente, é verdade, eram meus familiares… Porém “eu me descobria” vivíssimo da silva, até piscando os olhos (pois tinha morrido de olhos abertos), consciente de que aquilo era uma grande encenação, mas não de nós para nós mesmos ou deles em relação a mim, mas queríamos enganar uma terceira entidade misteriosa. O caixão se transformou em uma caçamba de caminhonete e eu passava a cumprimentar as pessoas que apareciam e se postavam a meu lado – meu irmão dirigia ao longo da W3, quase no centro da cidade, o lugar onde a vida se agita. Repare bem: o caminho é sempre retilíneo. Rumo a algum fim obscuro… Moral: se tudo é lógico mas algo no sonho trai seu senso de realidade, isso é fatal para a continuidade da experiência. Não obstante, na hipótese de todo o montante absurdo permanecer bem-concatenado, e a consciência vigilante não perceber que o que se dá é FANTÁSTICO, a narrativa prossegue. Ora, a morte é perfeitamente factível, e não é motivo forte o bastante para se sentir ludibriado atingi-la, afinal é mesmo natural, o real supremo do ser humano. Perceber por qualquer razão alheia a condição de sono e ficção, por outro lado, aceleram o abaixar das cortinas. Por isso, o personagem principal do meu sonho não precisa ser eu, tudo pode ser uma trama póstuma – ou pior: eu ainda nem ter nascido.

[ARQUIVO] MATRIX, ATIVAR

Aula de Formação Econômica Brasileira, pós-almoço, aquela palestra maçante e aquele sono infernal, juntando criatura famélica com vontade absurda de sentar para um banquete… Estou resistindo bravamente sobre a carteira… Até que penso que capoto profundamente… Babo, inclusive! Presencio a maldita elucidação de uma conspiração, personagens que parecem saídos de uma produção sci-fi de baixo orçamento me convencendo de que ali é o reino do verdadeiro, e não lá fora, aquele mundinho que eu conheço e venero, porém que não passa do mais forte dos ópios! Todos os seres humanos seriam mantidos prisioneiros e precisavam incondicionalmente da minha ajuda, eu não podia SONHAR em voltar…

“…e o Brasil permanecia no ciclo da cana-de-açúcar com poucos auferindo grandes lucros…”

Haviam se passado somente 2 minutos!

[ARQUIVO] ARRANHA-CÉU XXI

Ando sonhando (hoje mais uma vez, 13/11/11) que escalo (por dentro), em vários lances de escada, cômodos, passagens secretas, elevadores bizarros… Um lugar bastante labiríntico e alto, até uma sala de uma instituição (provavelmente de ensino) para falar com alguém importante (diretor, coordenador) que possa resolver minha situação (há algo pendente que não sei explicar direito). Certas vezes não encontro ninguém, é um espaço vazio, um escritório normal com seus papéis, computadores, mesas e cadeiras, só que abandonado. Outras vezes, há uma enorme fila de pessoas e penso que não serei atendido…

[ARQUIVO] A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER – Milan Kundera

Originalmente publicado em 8 de janeiro de 2011 (digressões abreviadas)

Se a revolução Francesa devesse repetir-se eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre.”

Não se dava conta de que aquilo que julgava irreal (seu trabalho no isolamento das bibliotecas) era sua vida real, enquanto as passeatas que ele julgava reais eram apenas um espetáculo de teatro, uma dança, uma festa, em outras palavras: um sonho.”

As pessoas nunca perdem a ocasião de falar mal dos amigos.”

[kitsch] Esta é uma palavra alemã que apareceu em meados do sentimental século XIX e que, em seguida, se espalhou por todas as línguas. O uso repetido da palavra fez com que se apagasse seu sentido metafísico original: em essência, o kitsch é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal quanto no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.”

É preciso evidentemente que os sentimentos suscitados pelo kitsch possam ser compartilhados pelo maior número possível de pessoas (…) a lembrança do primeiro amor [por exemplo].” “como é bonito ficar emocionado, junto com toda a humanidade, diante de crianças correndo no gramado! Somente isso faz com que o kitsch seja o kitsch.” “Paz, amor e a fraternidade entre todos os homens não poderá nunca ter outra base senão o kitsch.” “O kitsch é o ideal estético de todos os homens políticos, de todos os partidos e movimentos políticos.”

O gulag pode ser considerado como uma fossa sanitária em que o kitsch totalitário joga seus detritos.”

DOS QUATRO TIPOS DE OLHARES-SOBRE-SI (TRÊS NÃO IMPORTAM MUITO): “Por fim, existe a 4ª categoria, a mais rara, a daqueles que vivem sob o olhar imaginário dos ausentes. São os sonhadores. P.ex., Franz. Se chegou até a fronteira do Camboja, foi unicamente por causa de Sabina. O ônibus sacoleja na estrada da Tailândia e ele sente que Sabina tem os olhos pousados nele.”

Odeia-se mais aqueles de cuja opinião já nos livramos com muito custo”

Antes de sermos esquecidos, seremos transformados em kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.”

O amor que se tem por um cachorro escandaliza.”

O homem dominou a natureza – isto é, enrolou cordões de marionete no próprio pescoço.”

Karenin cometeu o erro de sempre: largou seu pedaço de croissant para tentar pegar o pedaço que seu dono segurava na boca. Como sempre, esquecera que Tomas não era cachorro e que tinha mãos. Tomas não largou o pedaço que tinha na boca, e apanhou o pedaço que caíra no chão.”

A nostalgia do Paraíso é o desejo do homem de não ser homem.”

O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução.”

Por isso o homem não pode ser feliz, pois a felicidade é o desejo da repetição.”

Como determinar o instante em que não vale mais a pena viver.”

Missão é uma palavra idiota.”

[ARQUIVO] POEMA DO EX-LOUCO

Originalmente publicado em 7 de outubro de 2010

 

Eu já fui mais louco…

No passado eu era mais alegre, e descompromissado

Eu não precisava desabafar sobre o que acontecia. Eu gargalhava do meu dia!

Fato é que, se já fui mais pinel e insano,

meu temperamento no mundo da escrita ‘inda não mudou tanto!

Já tive amigos mais loucos

Já tive amigos, ainda que poucos

Já falei mais sozinho

Já briguei com o meu vizinho

(de dar soco na cara e unhada, aos sete!)

Já fui ladrão sem motivo

Já fui incontinente urinário,

Já fiz cocô nas calças

Minha vida não passava de um corrimão sem alças!

Sim, uma vez eu gozei invisível!

Risada de vilão! Postura de Tropeço! Porre noventa. Corre dos 90. Dois mil milhões de confusões depois… Maconha sonha com seu estrelato mais que mato. Não comia feijão. Era bêbado sem cair no chão. Decrepitude é: ter saudade de tal idade. Tinha medo de garota que prometia tirar a roupa. Daria aula como o Carlos! Está ágil! Ágio nas operações… Sempre tive um elevado senso de ironia. Mas minha metralhadora machucou muitos que eu não queria!

Estourar bolhas daquele plástico! Sonhar com videogame. Chegou ao consciente o meu geme-geme… solene?! Previsão de morte de alguém toca o sino de…

Loucura é uma filha que parimos tal qual Zeus a sua Athena.

[ARQUIVO] PEQUENA HISTÓRIA IDÍLICA (a amante perfeita de alguém supostamente casto na essência)

Originalmente publicado em 6 de outubro de 2010

Nunca haviam se beijado. Não era necessário. Contavam muito mais confidências e abraços apertados. Foi simétrico e instantâneo, se bem que demorado: ambos já tinham essa opinião sobre a vida e o romance, então foi, digamos, moleza para o casal se entender sobre esse ponto, que escora todos os outros pontos. Boca, zona erógena midiática. Como se livrar? o que apalpar no lugar? Pureza verdadeira não há, mas sujeira pode-se administrar. A escatologia fica para os momentos sozinho, os banheiros, os sonos e as recaídas. Os namorados, eles apenas sugam as seivas um do outro. Quanto maior o número de relacionamentos, maior a secura, mais elevada a quantidade de almas estragadas. Pela boca chupa-se o sopro do ânimo

[ARQUIVO] O DON JUAN DOS DEUSES

Originalmente publicado em 22 de setembro de 2010

Sim, estou começando a desenvolver uma nova resposta: a vida não poderia ser justificável nela mesma (à parte esse debate lógica x estética). Precisamos de algo a mais, algo que encampe, um antes, um depois e um além, para suplantar o vazio. Mas não esse além (de)fraudado milenarmente. Não uma simples doutrina espírita, ou uma crença depositada em um livro dogmático. Antes uma nova idéia que a velha bobeira do pó das estrelas e da alma animal, nas raias do possível-impossível e até do sombrio. Nada muito comuni(tari)sta como quereriam esses jovens fúteis de que vim a me afastar, nenhum projeto Sartre-habermasiano, poder massacrante do clã, da nação, do Ocidente, da civilização! Embora tudo isso esteja contemplado e diluído, sim, nessas “novas considerações”…

O solo – firme mas nem tanto – em que meu fôlego pede para se agarrar no momento é num ecletismo virulento e transitório, no grande amálgama de todas as idéias antevistas, mas de jeito maneira ao ponto da esterilidade ou da ingenuidade, ou da gratuidade. Simplesmente “estamos lá”, de alguma forma, no outro lado da linha, participando dos resultados… Antes qualquer crente tinha motivos de sobra para a ação, e você não. Uma força qualquer que o guiava; não indestrutível, mas se vai se destruir não é você que determina, parece vir de um movimento muito mais ligado às próprias assunções da pessoa que acredita. “Fé”, eis uma palavra muito da chamuscada! “Política”, idem ibidem. Ateísmo, revolta, anarquia, juventude, contudo, não estão atrás! Imbecis estacionários, não pensaram no problema que criaram…

Firmemente me vem à mente um novo enunciado: embora não esteja findado o “sempre mudar e se deslocar”, introduzo estas duas outras palavrinhas na salada: confiar e arriscar. Vou tentar… Nem tudo se resolve aqui e agora. E o existencialismo é uma corrente insuficiente. Não sou dos que se contentam com pouco, uma bela esposa, dois lindos filhos e aquela casa na praia… Apenas não estou desesperado, por não estar, por não ser, conformado. Para resumir: já que vamos morrer, antes, fazer o que temos de fazer. E o que temos de fazer? …

[ARQUIVO] O FEITIÇO VIROU CONTRA A FEITICEIRA

Originalmente publicado em 4 de dezembro de 2010

Noite, noite, noite…

Você me tranqüiliza…

Por que é que não me engole?

de uma vez…

Os dias demoram a passar

Para teu azar

não foram só eles que senti que, afinal,

iriam expirar

(em sua lenta agonia)…

Porque a lança com que me atravessaste,

não sabes,

mas tua imperícia já fez com que a ferida

cicatrizasse…

Acaba de passar,

meu sentimento de te amar

O que chamas de desperdiçar,

se pelo ar oxidam-se as chamas

nada devagar?

Pensar que em vão?

Mas cinzas deixam na lareira,

para recomeçar a fogueira

Assustada e atroz,

a nova, como a primeira?

Me doaria feito uma fênix

à cegueira;

mas já não posso mentir,

a menos que tu queiras

Freiras matreiras guerreiras,

erguei-as!

Não são as de pano preto e bíblia na mão,

essas devotas.

Derrotas dessas são,

na insídia e na falta de enlevo,

enganos do coração santo e são

Adianto que me espanto

diante do tanto que pequei

devido a teu infiel encanto

Antro de perdição,

ou de perdizes,

que me dizes?

Meretrizes pelos cantos,

saindo das filiais e matrizes?

Patifes, vós sois os culpados!

Entrais no salão todos armados,

de um bom bocado de querer-ser-macho

e afastam o lastro dourado

da flor, antiga e específica

simbologia dessa dor,

outrora digna de louvor

[ARQUIVO] NOVOS FILÓSOFOS

Publicado originalmente em 9 de julho de 2010.

O produto de um louco. Terrivelmente louco, para o pêsame de seus desafetos

A Alemanha tem um destino: chega sempre tarde! Olhar grave, mutismo. Meu sonho transformou-se exatamente numa realidade. Misticismo quase pascaliano. Até neste belo mundo há infelizes. Infinita é a procura da verdade. Não será sua crítica futura à Ciência a vingança inconsciente por haver aquela um dia lhe roubado a crença? O devenir eterno não terá um fim? Comumente a filosofia se me representa como uma Torre de Babel… Tem dezenove anos quando entra na universidade. Conhece a mais dolorosa das solidões, a solidão dos vencidos. Ele é poeta; tem necessidade de lirismo. Ambiciona o heroísmo. Não dorme mais de 4 horas por dia. As vagas do mar são mais ou menos alumiadas, mas não se tem poder sobre elas – eis aí tudo. Sua alma de artista cansa da vida de quartel. E quando voltarmos assumiremos mais uma vez nossas taras profissionais. Aos vinte e quatro anos é convidado para professor. Estamos outra vez no crepúsculo da paz. Estamos talvez no começo do fim! Desaparece totalmente sua repugnância às multidões. Uma impossibilidade de viver de acordo com o Estado. A vida científica, filosófica, artística, pareceu-me um absurdo. O valor metafísico da arte não pode se manifestar aos homens pobres. Mas isso é um erro de todos. Jura absoluta fidelidade a si mesmo. Vontade de morrer! Não compreendem Sísifo… Povoar o mundo das cores que faltavam. Nobre missão. O duque é um dique. Todo trágico é auto-reflexivo. Um vão sem fim separa o estático do extático. Se Epicuro lembra Ásia, não é dionisíaco (paradoxal) que Ásia lembre Buda? Ora, se sonhos não são Música! O cósmico que está atrás da consciência. É em todas as ‘vivências’ que o homem irá encontrar quão digno é viver a vida, porque só o vivido tem suportado o tempo. Viver é desconhecer. O pensamento volve-se contra o pensador… A memória luta contra o tempo. Pensador inatual. Lua-de-mel-e-fel. Silêncio. Freud: comi minha mãe, capítulo final do Ocidente? Culminância-centro-enceto. Periferia. Sendas independentes. Aparência romântica. Beatriz-de-mão-gelada, essa irmã gêmea do não-ser. Ah, Funérea! A felicidade de quem encontra um novo caminho. Lá onde habitam as águias… Infante, infante, infante! A beatitude pela fé. Na terra, devemos fundar o reino dos céus. Raul Seixas, um homem à frente, e às costas, de seu tempo. Mas não foi ele que disse “coração dilacerado” numa canção. Demiurgo-artista. Suprema voluptuosidade estética. Federico Fellini. Roberto Benigni. O Oscar! Não alfabetize esses bastardos inglórios! Ultra – eu sou um superlativo. 2005: um poeta à beira do riacho meditava acerca da queda das folhas. A não é sempre A. B não é sempre B. Eleição por meio de diferentes afetos. Conhecer é tumulto. Cristalização do espírito. Inércia. Fantasia: a cura. De não-Schopenhauers. Crime imperdoável. A consciência de uma lei pela qual os resultados são sempre inferiores aos esforços desprendidos. Átomo? Prefiro Demócrito. Pletora neurastênica. Jogo de tons musicais. Ânsia de simplificação. Mas isto não é, em princípio, acomodação! Do oriente vem a noite. Contraste isto com o teu. O próprio número é uma invenção. Gato-zumbi. Cada dia, um dia novo. Teratologia. Catarse, aquela moedeira falsa. O homem afasta-se de si mesmo quando afasta-se do inconsciente. Auto-medicação. Batalha noturna. A humanidade ainda não existe como totalidade ôntico-ecumênica. Só depois da morte! Deus? Culto do devir. Até o maior dos deuses estacionários é nanico perto do pior homem em evolução. Céu – a janela voyeurista. Treino. Escolher nascer depois de vivo. A decadência é sempre a morte. De onde tiram as aspas de Jesus, este ignoto? Até a erosão move montanhas… O herói solar conhece, em cada madrugada, a sua ressurreição. Necessidade eugênica de vida. Nihilismus in twitter. O homem deve conhecer a maldade que se obstina, daquele que quer, daquele que tem de vencer. Segunda pele. As grandes guerras ideológicas iminentes. Amanhã talvez pensemos diferente… Não tememos discrepar de nós mesmos… Os velhos temas voltarão mais uma vez. O riso. Mordacidade causticante. Chicote. Sim-turão! A hora do afastamento. É isso? Metáfora do Dom Quixote. Melhor o Quasimodo que o clone do Príncipe. Que desfaçatez! Rir dos palhaços em um momento anterior da exegese nietzscheana e de suas banais existências. Porque eu… Não estou aqui para ser um megafone. Tear, tear, tear… Não a bucólica. Mais a incendiária. Gente inteligente faz bem pra alma. Gente vaidosa, gente serelepe. Não gente tartamuda, aqueles eletrocardiogramas ambulantes… Fim dos casais, mas não fim dos dualismos ocidentais. Originalidade. Todos nós temos antípodas. Eu sou o coerente comigo mesmo, não lhes devo satisfações. Ele viveu a vida toda dele assim… Como pode ser o rei de tudo se de palpável não há nada? Macaco de Zaratustra, cênico, você reitera tudo e é a apologia do pleonasmo, vive para dizer que as pessoas devem viver, seu papagaio! Dizer isso é deixar quem tem valor escamoteado. E vide, escamotear o universo inteiro! Sou outrossim da macacatinga e exijo polissemia. Palavras de ponta dupla como meus cabelos. O que nos trai, nós de nossa espécie, é tão-somente nossa própria esperteza, a cama de gato da própria sombra. Infra-destroços caricaturais. Tu és música para meus ouvidos. A Alemanha dá vida aos cadáveres (Funérea!). Dizem que sou louco… Sou Napoleão… Não sou feliz… Mein Kampf!!! Abovina acima de tudo. Na guerra não existe verdade. Eu me rumino, e assim me alimento ao me devorar. Questão em aberto. Antegozar quixotescamente. A embriaguez de um instante. Se tornou escravo de sua própria projeção. Que ressaca está disposto a pagar pelos seus cumes? Ebriez tacanha. Não há fé bastante para crer num jogo de possibilidades. Tecno. O atalho inválido do rio seco. Tático ou serpenteando a esmo, só sei que venturoso. Nada mais temporal que uns contratempos. Nada mais afirmativo que as negatividades. O espelho quebrado no Narciso jornalista. Encruzilhada de tudo com todos. Feio e falador. Real e prestigiador. Pré-pronto: esse texto está acabado. O sangue individual. Gelosia da realidade, He-he. Banquete espiralar da vida. A guiar. Tens papéis abomináveis. Fora-da-máquina, mas que emana de si, de si… Poder embutido secreto. O Fim da História é o ópio dos povos. LuaNão, sol eu sim. O penetra na conversa. Jesus remanescente. Postergando… Pré-cisamos, pré-cindimos, pré-ponderamos. Prenhe de algo. Pelo sim, pelo não… Futurosofia. O bebê que nasceu rindo. O medo de altura pode até matar. Craques não envelhecem. Habitamos mundos diferentes. A amizade perfeita não é possível entre alienígenas. Um dom inestimável. Doente de seu próprio convívio. Com quem desabafar? Refluxo do baú de memórias. Listas, borrachas. Anela. Sim, meu amigo! Monotonia que não cansa. A solidão é sempre maior nas horas crepusculares. Caminhar primeiro, escrever depois. Chumbo do peito demovido. Alegria da estafa. Reedição. Ensofismado depois de golpeado. Como pode ser? Transformava suas amarguras em poemas. Deu branco. O milagre da retribuição. Fonte, cachoeira. Nasceu para jorrar sem parar. Esclarecido, o vingativo! Ver se efetivando o que eu realizei. Ver que se realizou o que eu efetivo… Eu mesmo em terceira pessoa sou o astro atrasado do filme meu. É o instante do desejo veemente! O primeiro niilista perfeito da Europa.

[ARQUIVO] O MESMO ERRO AD INFINITUM

Publicado originalmente em 6 de julho de 2010.

Se o novo técnico da seleção brasileira for o Leonardo, abdico de torcer pelo futebol do meu país até Ricardo Teixeira bater as botas. É inaceitável o projeto que esse mesmo homem expôs num programa em estúdio na Soccer City, África do Sul (alguém aí sabe por que chamamos “soccer” um esporte inventado pelos ingleses como football, e que só os norte-americanos, em teoria, teriam motivos para não chamar assim?). R.T., presidente da Confederação Brasileira de Sóquer, em uma bancada dividida com Renato Maurício Prado, Paulo César Vasconcelos e Arnaldo César Coelho, e orquestrada por Galvão Bueno, disse que o time de 2014 começa a ser montado já no amistoso com os EUA no fim do ano, o primeiro depois da Copa. Segundo o chefão, alçado ao posto por ser apadrinhado (na verdade genro!) de João Havelange, precisamos de jogadores novos, de 18 a 22 anos, para que cheguem experientes ao Mundial do Brasil, e em idade para disputar o torneio com fôlego de sobra! Ótimo…

Prevalece o velho argumento. O mesmo erro de sempre: fecha-se o time antes, e ele, entrópico, naufraga. As últimas Copas vencidas pelo Brasil receberam reforços de última hora: Romário (Parreira), Ronaldo, Rivaldo, Kléberson, Kaká… (Felipão) Os últimos retumbantes fracassos eram times que já estavam prontos, só faltava o “gesto de Bellini”: Parreira (quadrado mágico), Dunga (o papa-Eliminatórias e Copa das Confederações). Leonardo, o Cão Fiel, o terceiro cão fiel consecutivo, recomeçará a tragicomédia… Neymar, Ganso… Ciclos de 4 anos são longos, longos… Sobretudo quando a seleção vira um clube privê… Sobretudo quando TODAS as recentes contratações da CBF para o cargo de técnico são preenchidas por CHATÕES de 1994.

Leonardo foi outro jogador raçudo e brigador. Bonitinho mas ordinário: expulso nas oitavas-de-final da Copa, jogo Brasil x EUA no território ianque, na absurda tarde calorenta de 4 de julho. Guardadas as devidas proporções, o Felipe Melo daquele escrete canarinho. Tinha tudo para resultar em eliminação. O Brasil empatava por 0 a 0. Conseguiu passar com um milagre de Bebeto. Dunga e Jorginho estavam em campo. Ricardo Teixeira já era o presidente da CBF. Sabe-se lá de onde esses caras aprenderam a cultivar uma fixação incurável pela conquista do Tetra. Começo a desconfiar de várias coisas, embarcar nas maiores neuras soviéticas: e se o Romário virou técnico com o Eurico Miranda (no Vasco em 2008) como parte do doutrinamento para a seleção? Não está na cara que um daqueles pertencentes ao clube dos vencedores vai ser o próximo? Tem algo realmente podre nisso tudo. A punheta quadrienal – a ejaculação é precoce. No sexo em si, o pau não sobe, o time fica aviadado, enfia as travas da chuteira na perna do oponente caído, o cotovelo no focinho do gringo desprevenido, a bola pra dentro (epa, Júlio César! pro lado errado…) e a meia (do Roberto Carlos) no CU…

Estou começando a achar que a presença do Baixinho Infernal naquele Mundial 24 anos depois do ponto máximo na carreira de Pelé, a falta super-bem-cobrada pelo Branco no finzinho do jogo e até aquele pênalti do Baggio pra fora… era melhor que nada disso tivesse acontecido! Vencer é um detalhe, no que não sou inédito ao afirmar. Não existe esse instinto de vencedor ou perdedor nas veias. Ronaldo foi os dois, Cafu foi um e foi outro, perebas sortudos já ganharam, Zico só perdeu… E o que isso prova? Invertendo-se um famoso ditado, a sede afobada de vencer é o atalho mais certeiro do perder. Não é 100% garantido, não é um dogma, estamos falando de futebol (ainda magia)! Mas quem quer produzir axiomas é a cartolagem. Eu pude prever, graças a isso, a nossa derrota de 2010 com 40 dias de antecedência. E agora com 4 anos… É, o Ricardo Teixeira facilita as coisas…

[ARQUIVO] O VERDADEIRO PROBLEMA DUNGA-GLOBO

Publicado originalmente em 25 de junho de 2010.

 

Com as últimas atitudes, Dunga conquistou os corações de quem não gosta de futebol; o meu, não. Eu não estou ligando para a Globo. O Gato Mestre é uma cria da Globo, mas e daí? Eu estou ligando, sim, para entrevistas coletivas que me fazem ter vergonha de ser brasileiro, de ser atrelado, lá fora, a uma imagem totalmente disparatada. Isso inclui tanto Dunga quanto a referida Rede Globo.

Como se algo fosse mudar por causa do técnico da seleção brasileira, quando nem mesmo um momento como Cid Moreira sendo obrigado judicialmente a ler sobre as manipulações contra o Brizola em horário nobre, no Jornal Nacional, realmente desencadeou frutos (pelo contrário, vimos o domínio da Globo se expandir nas últimas duas décadas).

A história da Rede Globo é a mesma dos tentáculos do maior conglomerado de estúdios norte-americano sendo infiltrados no Brasil precisando de uma fachada tupiniquim, no conveniente período em que os competentes homens de quepe no comando entronizavam a técnica e deixavam “a realidade se fazer por si mesma”, ela e os cidadãos Kane, todos arvorados nas ditaduras militares de seus respectivos países. Fiz um trabalho detalhado sobre isso baseado em livro de Daniel Herz há 3 anos, para quem estiver interessado. Para quem não sabe do que estou falando, este é o contrato da Time-Warner, à época apenas Time-Life, absolutamente ilegal pelas leis ainda em vigor no Brasil quando legislavam Figueiredo e outros, sobre as quais os generais fizeram o santo favor de fazer vista grossa. É uma endemia que não cura com sapos veiculados em cadeia nacional para o povão – quem dirá através do twitter, que amanhã se interessará mais pela nova plástica da Vera Fischer e desviará o foco! A verdade é que ainda que o discurso simplista de ópio do povo prevalecesse, o povo precisa do ópio. Ou não precisa?

Em suma, ver a Globo chafurdando (e dando lugar a algo de QUALIDADE no espectro televisivo, o que AINDA não existe!) é tão utópico quanto imaginar um fim dos oligopólios mundiais das telecomunicações, o que exigiria um colapso irreversível do sistema. Seu nome não é Marx e suponho que você não pertença à intelligentsia dos últimos dois séculos que dedicou a vida a tratar desse problema. De qualquer forma, para que eu seja econômico em palavras, permita-me dizer que não há saída para este labirinto.

Portanto, recomendo-vos, neste início de madrugada de 25 de junho, quando será realizada a partida entre Brasil e Portugal logo mais às 11h, que acompanhem os acontecimentos mediante a transmissão da tão insultada e megalomaníaca Globo, porque a imagem e o som são melhores, e fazer o contrário redundaria em prejuízo apenas para o telespectador e torcedor canarinho. Quem tem TV a cabo dispõe de narradores e comentaristas mais preparados – ou, eu diria, menos fossilizados –, porém ainda tem de lidar com um dos maiores reveses dessa Copa, o delay dos gols, que nos são anunciados pela gritaria da vizinhança. Paciência, deixem os mais pobres estarem em vantagem pelo menos dessa vez!

É, meus amigos, redundaria, sim, em desvantagem exclusivamente para vocês e para quem se erguer contra o colosso. Alguma dúvida do quanto estou penalizado pelo Dunga, que será o novo Barbosa caso não conquiste a Copa? Vocês sabem o que acontece quando alguém aparece tentando puxar o tapete de alguns poderosos – vide a dinamitada popularidade do Obama, que por enquanto não depôs ditadores com armas de destruição em massa invisíveis em nenhum país, nem chupou a genitália de nenhuma secretária ou estagiária, mas que é odiado como nunca! O que me espanta sobretudo é que Dunga não precisou ser negro como Barbosa, goleiro do escrete de 50, ou o Barack destes EUA racistas, para cair na desgraça falimentar do SAG (Sistema de Acusações Globo) – não pela cor da pele, como antes, ou por qualquer outra característica como homossexualidade ou ser um ateu, coisas que ele não é, mas, caros amigos, ele cairá inevitavelmente na malha dos seus inimigos, se tornará o alvo perfeito… Dentro de pouquíssimo tempo!

Aliás, eu havia esquecido o argumento central contra toda essa palhaçada advinda de uma classe média incapaz de, agora, enxergar seu próprio umbigo, de tanto que se encontra o traseiro entalado no sofá, como se este móvel se tratasse de um buraco negro e seus corpos sedentários fossem uma mega-sonda ou um sistema solar inteiro: desligar a Globo e recorrer à TV a cabo, a estratégia dos endinheirados e privilegiados, me desculpe informar, é, ainda, se jogar nos braços acolhedores (no sentido de sempre, que é o da leniência dos profissionais liberais para com os que realmente controlam o país, desde os engenhos de cana subutilizados até essa era nojenta do telemarketing) da REDE BOBO, porque ela é dona das principais operadoras do sistema de cabo-difusão e também satélite-difusão e não-sei-mais-quê-difusão, e possui “n” canais 100% seus, além de meter o dedo, e uma lista considerável de programas, nos canais “teoricamente” independentes. Além disso, pare para pensar sobre a produção cultural escassa deste país e o quanto – bem ou mal – foi ela incrementada pelos recursos dos estúdios do Projac: quantos filmes não retratam o país e quantos deles você não assistiu e assistiria de novo? É possível desvinculá-los da própria imagem que fazemos de nós mesmos?

Sim, é preciso saber quem vocês estão atacando! Cuidado com Narciso e sua piscadinha… no espelho!

Minha opinião pessoal: para dizer a verdade, ninguém merece um hexacampeonato. E se eu fosse dono de emissora eu faria a mesma coisa, buscando entrevistas exclusivas, porque, afinal de contas, a CBF é uma entidade viciada, e eu me aproveitaria disso. A Fátima Bernardes enrolou o Rodrigo Paiva a vida inteira, por que pensaria que com o pouco eloqüente Dunga seria diferente? Pensem a respeito.

E reitero: ninguém que ama futebol merece ver esse espetáculo de meio-campo autômato 4 anos a fio. Que a Globo faça suas materiazinhas (que aliás sairiam melhores com Ronaldinho Gaúcho e a espontaneidade do Neymar), e em troca eu possa assistir o que eu quero assistir, sem ter de torcer para a Holanda em pleno 2014. Um bom jogo a todos os CIENTES de que amanhã… nada vai mudar.

Assinado:

Cordialmente [à moda de nossas elite sub-repticiamente conciliadoras e do eterno Acordão que nos contempla]

Gato Mestre, da África do Sul

[ARQUIVO] A ESPERA PELO SUPRA-HOMEM (10/07/08): RETRORREFLEXÃO

Publicado originalmente em 8 de maio de 2010.

Pela terceira vez venho falar do “supra-homem no devir”:

Não passa pela cabeça dos candidatos a Zaratustra que o supra-homem nunca chega; e este é seu sentido? Que é melhor, e só é possível, ser um anunciador, “esperar”, fazer a apologia do amanhã? Que a cena da fuga sublime da caverna é o ícone máximo do humano? Que humano? Todo e nenhum.

No que essa hipótese é invencível: sempre há fichas sobrando para apostar no amanhã. Um amanhã – uma aurora – terreno. Para todo sol soerguente e a pino, um crepúsculo. Jamais a falsa promessa de conceder todas as vantagens sem as revelias, contrastes e – sim! – castigos.

Ainda há muitas auroras pela frente”

E não importa que debaixo dos pórticos, muitas tarântulas da moral!