[ARQUIVO] O VERDADEIRO PROBLEMA DUNGA-GLOBO

Publicado originalmente em 25 de junho de 2010.

 

Com as últimas atitudes, Dunga conquistou os corações de quem não gosta de futebol; o meu, não. Eu não estou ligando para a Globo. O Gato Mestre é uma cria da Globo, mas e daí? Eu estou ligando, sim, para entrevistas coletivas que me fazem ter vergonha de ser brasileiro, de ser atrelado, lá fora, a uma imagem totalmente disparatada. Isso inclui tanto Dunga quanto a referida Rede Globo.

Como se algo fosse mudar por causa do técnico da seleção brasileira, quando nem mesmo um momento como Cid Moreira sendo obrigado judicialmente a ler sobre as manipulações contra o Brizola em horário nobre, no Jornal Nacional, realmente desencadeou frutos (pelo contrário, vimos o domínio da Globo se expandir nas últimas duas décadas).

A história da Rede Globo é a mesma dos tentáculos do maior conglomerado de estúdios norte-americano sendo infiltrados no Brasil precisando de uma fachada tupiniquim, no conveniente período em que os competentes homens de quepe no comando entronizavam a técnica e deixavam “a realidade se fazer por si mesma”, ela e os cidadãos Kane, todos arvorados nas ditaduras militares de seus respectivos países. Fiz um trabalho detalhado sobre isso baseado em livro de Daniel Herz há 3 anos, para quem estiver interessado. Para quem não sabe do que estou falando, este é o contrato da Time-Warner, à época apenas Time-Life, absolutamente ilegal pelas leis ainda em vigor no Brasil quando legislavam Figueiredo e outros, sobre as quais os generais fizeram o santo favor de fazer vista grossa. É uma endemia que não cura com sapos veiculados em cadeia nacional para o povão – quem dirá através do twitter, que amanhã se interessará mais pela nova plástica da Vera Fischer e desviará o foco! A verdade é que ainda que o discurso simplista de ópio do povo prevalecesse, o povo precisa do ópio. Ou não precisa?

Em suma, ver a Globo chafurdando (e dando lugar a algo de QUALIDADE no espectro televisivo, o que AINDA não existe!) é tão utópico quanto imaginar um fim dos oligopólios mundiais das telecomunicações, o que exigiria um colapso irreversível do sistema. Seu nome não é Marx e suponho que você não pertença à intelligentsia dos últimos dois séculos que dedicou a vida a tratar desse problema. De qualquer forma, para que eu seja econômico em palavras, permita-me dizer que não há saída para este labirinto.

Portanto, recomendo-vos, neste início de madrugada de 25 de junho, quando será realizada a partida entre Brasil e Portugal logo mais às 11h, que acompanhem os acontecimentos mediante a transmissão da tão insultada e megalomaníaca Globo, porque a imagem e o som são melhores, e fazer o contrário redundaria em prejuízo apenas para o telespectador e torcedor canarinho. Quem tem TV a cabo dispõe de narradores e comentaristas mais preparados – ou, eu diria, menos fossilizados –, porém ainda tem de lidar com um dos maiores reveses dessa Copa, o delay dos gols, que nos são anunciados pela gritaria da vizinhança. Paciência, deixem os mais pobres estarem em vantagem pelo menos dessa vez!

É, meus amigos, redundaria, sim, em desvantagem exclusivamente para vocês e para quem se erguer contra o colosso. Alguma dúvida do quanto estou penalizado pelo Dunga, que será o novo Barbosa caso não conquiste a Copa? Vocês sabem o que acontece quando alguém aparece tentando puxar o tapete de alguns poderosos – vide a dinamitada popularidade do Obama, que por enquanto não depôs ditadores com armas de destruição em massa invisíveis em nenhum país, nem chupou a genitália de nenhuma secretária ou estagiária, mas que é odiado como nunca! O que me espanta sobretudo é que Dunga não precisou ser negro como Barbosa, goleiro do escrete de 50, ou o Barack destes EUA racistas, para cair na desgraça falimentar do SAG (Sistema de Acusações Globo) – não pela cor da pele, como antes, ou por qualquer outra característica como homossexualidade ou ser um ateu, coisas que ele não é, mas, caros amigos, ele cairá inevitavelmente na malha dos seus inimigos, se tornará o alvo perfeito… Dentro de pouquíssimo tempo!

Aliás, eu havia esquecido o argumento central contra toda essa palhaçada advinda de uma classe média incapaz de, agora, enxergar seu próprio umbigo, de tanto que se encontra o traseiro entalado no sofá, como se este móvel se tratasse de um buraco negro e seus corpos sedentários fossem uma mega-sonda ou um sistema solar inteiro: desligar a Globo e recorrer à TV a cabo, a estratégia dos endinheirados e privilegiados, me desculpe informar, é, ainda, se jogar nos braços acolhedores (no sentido de sempre, que é o da leniência dos profissionais liberais para com os que realmente controlam o país, desde os engenhos de cana subutilizados até essa era nojenta do telemarketing) da REDE BOBO, porque ela é dona das principais operadoras do sistema de cabo-difusão e também satélite-difusão e não-sei-mais-quê-difusão, e possui “n” canais 100% seus, além de meter o dedo, e uma lista considerável de programas, nos canais “teoricamente” independentes. Além disso, pare para pensar sobre a produção cultural escassa deste país e o quanto – bem ou mal – foi ela incrementada pelos recursos dos estúdios do Projac: quantos filmes não retratam o país e quantos deles você não assistiu e assistiria de novo? É possível desvinculá-los da própria imagem que fazemos de nós mesmos?

Sim, é preciso saber quem vocês estão atacando! Cuidado com Narciso e sua piscadinha… no espelho!

Minha opinião pessoal: para dizer a verdade, ninguém merece um hexacampeonato. E se eu fosse dono de emissora eu faria a mesma coisa, buscando entrevistas exclusivas, porque, afinal de contas, a CBF é uma entidade viciada, e eu me aproveitaria disso. A Fátima Bernardes enrolou o Rodrigo Paiva a vida inteira, por que pensaria que com o pouco eloqüente Dunga seria diferente? Pensem a respeito.

E reitero: ninguém que ama futebol merece ver esse espetáculo de meio-campo autômato 4 anos a fio. Que a Globo faça suas materiazinhas (que aliás sairiam melhores com Ronaldinho Gaúcho e a espontaneidade do Neymar), e em troca eu possa assistir o que eu quero assistir, sem ter de torcer para a Holanda em pleno 2014. Um bom jogo a todos os CIENTES de que amanhã… nada vai mudar.

Assinado:

Cordialmente [à moda de nossas elite sub-repticiamente conciliadoras e do eterno Acordão que nos contempla]

Gato Mestre, da África do Sul

[ARQUIVO] A ESPERA PELO SUPRA-HOMEM (10/07/08): RETRORREFLEXÃO

Publicado originalmente em 8 de maio de 2010.

Pela terceira vez venho falar do “supra-homem no devir”:

Não passa pela cabeça dos candidatos a Zaratustra que o supra-homem nunca chega; e este é seu sentido? Que é melhor, e só é possível, ser um anunciador, “esperar”, fazer a apologia do amanhã? Que a cena da fuga sublime da caverna é o ícone máximo do humano? Que humano? Todo e nenhum.

No que essa hipótese é invencível: sempre há fichas sobrando para apostar no amanhã. Um amanhã – uma aurora – terreno. Para todo sol soerguente e a pino, um crepúsculo. Jamais a falsa promessa de conceder todas as vantagens sem as revelias, contrastes e – sim! – castigos.

Ainda há muitas auroras pela frente”

E não importa que debaixo dos pórticos, muitas tarântulas da moral!

[ARQUIVO] AFORISMOS RUBROS

De setembro a novembro de 2009.

Às vezes remexemos teias de aranha e papeladas amarelentas, pastas e armários empoeirados, para encontrar uma coisa – no meio da busca os resultados já são tão admiráveis que nem lembramos se o objetivo original já foi contemplado…

Eu sou o cúmulo do ocioso. Eu, eu estou aqui para nada, esse é meu fado. Quando até para filosofar é preciso ter técnica…

O que você tem contra os beberrões, a Amy Winehouse, o atleta, o cientista? Se eles são chamas que queimam como querem!

Meu encanto por alguém como Schuldiner vem de eu ter 21 anos e me sentir em perigo. Minha não-fascinação por Niemeyer e pelo “em fim de carreira” se explica pelo cômodo vizinho ser escuso e eu não encontrar interruptor.

Em mel há moscas! Pior ainda se o açúcar não consegue transbordar…

Me sinto como EricAlex de Elefante: capaz de metralhar um refeitório inteiro só para comer descansado e ouvir os pássaros. Que tal limpar esta quadra? Ou as concessionárias.

[ARQUIVO] O SER E O NADA: Ensaio de Ontologia Fenomenológica, Jean-Paul Sartre

Originalmente publicado em 16 de abril de 2010. Lido entre 30 de abril e 23 de julho de 2009.

Ensaio de ontologia não-ontológica.

INTRODUÇÃO

se nos desvencilharmos do que Nietzsche chamava ‘a ilusão dos trás-mundos’ e não acreditarmos mais no ser-detrás-da-aparição, esta se tornará, ao contrário, plena positividade, e sua essência um ‘parecer’ que já não se opõe ao ser, mas ao contrário, é sua medida”

O fenômeno aqui trabalhado é o relativo-absoluto. Tudo o que é, o que passa, é autêntico, porém o é para o observador.

Série”, “cadeia” em oposição à rigidez e à fixidez de uma “sina” pessoal. A palavra “teimosia” e minha pessoa. Isso é “intuição de essência” em Husserl.

Quando se for mais velho e se puder contemplar a morte de perto, aí então eu saberei o que é a iminência do colapso do universo. Nada espetacular, eu responderia, 15 anos depois.

Não é possível que minha vida vá se resumir a divagar sobre o que é a vida!

Nada mais incompreensível que o princípio da inércia”

PRIMEIRA PARTE – O PROBLEMA DO NADA

CAPÍTULO 1 – A ORIGEM DA NEGAÇÃO

CAPÍTULO 2 – A MÁ-FÉ

SEGUNDA PARTE – O SER-PARA-SI

CAPÍTULO 1 – ESTRUTURAS IMEDIATAS DO PARA-SI

O fenomenismo de Husserl beira a toda hora o idealismo kantiano”

um dos postulados de Husserl, o ‘Eu penso’, é uma viscosa e fascinante ‘armadilha para cotovias’” Heidegger

A realidade humana, por natureza, é consciência infeliz, sem qualquer possibilidade de superar o estado de infelicidade.”

o esgar inconsciente de quem dorme”

o valor pode ser considerado a unidade incondicionada de todos os transcenderes do ser” “é o faltado de todas as faltas, não o faltante”

há uma total contingência do ser-para-o-valor, que recairá imediatamente sobre toda moral para trespassá-la e torná-la relativa – e, ao mesmo tempo, uma livre e absoluta necessidade.”

Denominaremos ‘Circuito da ipseidade’ a relação do Para-si com o possível que ele é, e ‘mundo’, e ‘mundo’ a totalidade de ser na medida em que é atravessada pelo circuito da ipseidade”

CAPÍTULO 2 – A TEMPORALIDADE

Representação e vontade são ídolos inventados pelos psicólogos”

CAPÍTULO 3 – A TRANSCENDÊNCIA

TERCEIRA PARTE – O PARA-OUTRO

CAPÍTULO 1 – A EXISTÊNCIA DO OUTRO

o realismo não deixa qualquer lugar à intuição do outro

Se os animais são máquinas, por que não o seria o homem que vejo passando na rua? Por que não seria válida a hipótese radical dos behavioristas?”

Mas como um instante de meu tempo poderá estar em relação de simultaneidade ou sucessão com um instante do tempo do outro?”

Estava justamente pensando nisso hoje: eu não coexisto com meus pais, no sentido em que o valentão, p.ex., se depara com meu despeito “em fase final da carreira”, décadas e décadas depois de tantos obstáculos, me vê como um literal grão-de-arroz. De minha parte, esse colosso invencível não passa da miragem de uma juventude, prestes a se tornar um borrão num baú. Não existe “neste momento” para eles! Existe o meu-momento-deste-momento-deles.¹

¹ (P.S. 2024) Embora concorde com essa definição (e tenha sempre relembrado desse parágrafo que escrevi), o conteúdo de Sartre é ainda mais profundo que isso. Meu tempo está separado de outros tempos por um abismo intransponível mesmo se falarmos de tempos de coetâneos, ou do tempo da alma gêmea.

Solipsismo: o que eu um dia batizei de “ultra-existencialismo” como atitude corriqueira de desprezo.

o idealista, sem se dar conta, recorre a um ‘terceiro homem’ para fazer surgir esta negação de exterioridade.”

Irracionalismo materialista? VIDISMO! Existencialismo… Apodrecimento de “HUMANISMO, EMPIRISMO, NATURALISMO, MODERNISMO”…

O deus-homem – produto da superação do binômio SOLIPSISMO (esquizofrenia auto-criacionista) & PANTEÍSMO (fusão com deus num sintoma correlato de fraqueza). (Meu duelo de forças! Concepção definitiva do universo.)

Linguajar empolado e desonestidade bibliográfica: não foi o primeiro, não será o último.

A tragédia dos solipsistas é que eles precisam aprender a doutrina de outros solipsistas.

ANTI-HEGEL: “Com efeito, esqueceu sua própria consciência; ele é o Todo, e, nesse sentido, se tão facilmente resolve o problema das consciências, é porque, para ele, nunca houve verdadeiro problema a esse respeito.” “posso, sem dúvida, transcender-me rumo a um todo, mas não me estabelecer nesse todo para me contemplar e contemplar o outro.”

O livro me decepcionou. Eis que os filósofos voltam a “não ter músculos”! Cheiro de Kant, Hegel, poeira e livro velho – quanto a TODOS os hommes de letres do século XX, sei-o. Marinetti está certo…

Com seu modo brusco e algo rude de romper os nós górdios antes de tentar desatá-los, Heidegger responde à questão colocada com uma pura e simples definição.”

O ‘ser-com’ concebido como estrutura de meu ser é algo que isola de modo tão inegável como os argumentos do solipsismo [confradismo alemão]. É porque a a transcendência heideggeriana é um conceito de má-fé.” “o idealismo assim superado não passa de uma forma bastarda de idealismo, uma espécie de psicologismo empiriocriticista.”

seria inútil buscar em Ser e Tempo a superação simultânea de todo idealismo e todo realismo.”

A solidão humana sempre vence.

pelo olhar do outro, tenho a prova concreta de que há um para-além do mundo.”

o olhar, por sua vez, será que não irá se tornar provável pelo fato de que posso constantemente supor estar sendo visto sem sê-lo?” (“MEU ALÉM”, necessidade de “viver para meus entes passados” – simulação)

se ocorre de aparecermos ‘em público’ para interpretar um papel ou dar uma conferência, não esquecemos o fato de que somos vistos e executamos o conjunto dos atos que viemos fazer em presença do olhar, ou melhor, tentamos constituir um ser e um conjunto de objetos para esse olhar. Mas não enumeramos o olhar. Enquanto falamos, atentos apenas às idéias que queremos desenvolver, a presença do outro permanece indiferenciada”

A vergonha é sentimento de pecado original (…) simplesmente pelo fato de [eu] ter ‘caído’ no mundo.”

CAPÍTULO 2 – O CORPO

não vejo minha mão de modo diferente de como vejo esse tinteiro.”

a [teoria da] relatividade não é um ‘relativismo’”

a famosa ‘sensação de esforço’, com que Maine de Biran tentava responder ao desafio de Gume, é um mito psicológico. Jamais temos a sensação de nosso esforço, mas tampouco temos sensações periféricas, musculares, ósseas, tendinosas ou cutâneas, pelas quais tentou-se substituí-la: percebemos a resistência das coisas.”

coeficiente de adversidade dos objetos” Bachelard

A finitude é condição necessária do projeto original do Para-si.”

o corpo é a forma contingente que a necessidade de minha contingência assume.”

sinestesia, cinestesia, cenestesia

“‘esqueço’ minha dor (o que de modo algum significa que esta tenha desaparecido, uma vez que, se venho a conhecê-la em um ato reflexivo posterior, dar-se-á como havendo estado sempre aí).”

Crise”: minha projeção das consciências terceiras sobre o que leio – atuando agora! [agora!]¹ –, minhas neuroses antes de passear-fumar-escutar, minha motricidade irritável (dedos, suor, orelhas, caspa). Parte marginal e instigante da obra: e aquelas – essas! – malditas dores espontâneas que irradiam de todos os lugares?² Analogia musical para a dor o latejo ritmado, as notas e o silêncio.

¹ (P.S. 2024) Agora!!

² (P.S. 2024) Ampliei contudo minha consciência mental-corporal. Entendo a origem dessas dores: falta de manutenção. Bem como sei perfeitamente que todos os sinais de irritabilidade (o que, ademais, muito óbvio!) eram parte de uma ansiedade não-tratada e não de uma singularidade atípica do meu ser de 2009.

Esta perpétua captação por meu Para-si de um gosto insípido e sem distância, que me acompanha até em meus esforços para livrar-me dele e que é meu gosto, é o que descrevemos em outro lugar com o nome de Náusea“Longe de tomarmos esse termo náusea como metáfora tomada de nossos mal-estares fisiológicos, é, ao contrário, sobre o fundamento desta náusea que se produzem todas as náuseas concretas e empíricas (náuseas ante a carne putrefata, o sangue fresco, os excrementos, etc.) que nos impelem ao vômito.” O normal é que não sintamos náusea com relação a nosso próprio sangue, somente o alheio. Igualmente, ninguém sente o “fedor” das próprias fezes, mesmo quando o sente!

O que é gosto de si para o outro converte-se para mim em carne do outro.” “e esta apreensão é um tipo particular de náusea.”

A anatomia é o estudo da exterioridade que subentende sempre a facticidade, enquanto tal exterioridade jamais é perceptível, salvo no cadáver. A fisiologia é a reconstituição sintética do vivente a partir dos cadáveres.”

anatomofisiologia” como ciência incapaz de descrever a vida. Em realidade, fala dos livros-textos de biologia (confusão terminológica).

CAPÍTULO 3 – AS RELAÇÕES CONCRETAS COM O OUTRO

o Para-si é perseguidor-perseguido.”

sedução: brincar-de-ser-coisa

É claro que entendemos por linguagem todos os fenômenos de expressão, e não a palavra articulada.”

Cada um quer que o outro o ame, sem se dar conta de que amar é querer ser amado e que, desse modo, querendo que o outro o ame, quer apenas que o outro queira que ele o ame.”

Daí esta psicologia ‘moralista’ que o século XVII francês nos legou.”

encontro-me comprometido em uma busca que perdeu seu sentido (…) exatamente como quando tento reaver a lembrança de um sonho e essa lembrança se liquefaz entre meus dedos, deixando uma vaga e exasperante impressão de conhecimento total e sem objeto; ou exatamente como quando tento explicar o conteúdo de uma falsa reminiscência e a própria explicação faz com que ela se dissolva em translucidez.”

as filosofias existenciais não acreditaram na necessidade de se preocupar com a sexualidade.” Heidegger, o frígido!

O fato de poder dispor de um órgão sexual apto a fecundar e buscar o prazer só representa uma fase e um aspecto de nossa vida sexual.”

O homem comum, por preguiça de espírito e conformismo, também não pode conceber para seu desejo outra meta que não seja a ejaculação.” O homem de 13 a 15 anos no Ocidente, no século XX, no seu final: não há criatura mais patética e previsível. Paradigma American Pie: a vida antes e depois da cópula.

em última instância, o desajeitado é injustificável”

estamos já lançados no mundo diante do outro; nosso surgimento é livre limitação de sua liberdade, e nada, sequer o suicídio, pode modificar esta situação originária; quaisquer que sejam nossos atos, com efeito, cumprimo-los em um mundo onde já há o outro e onde sou supérfluo com relação ao outro.”

a ocasião que solicita a ira é simplesmente o ato do outro que me colocou em estado de padecer sua liberdade. Este ato é humilhante em si mesmo: é humilhante na medida em que é revelação concreta de minha objetividade instrumental diante da liberdade do outro”

numa conversa a três, um está sempre sobrando.”

A essência das relações entre consciência não é o ser-com, mas o conflito.”

Se lemos Heidegger, chama a atenção a insuficiência de suas descrições hermenêuticas.”

QUARTA PARTE – TER, FAZER E SER

CAPÍTULO 1 – SER E FAZER A LIBERDADE

concepção instantaneísta da consciência da qual Husserl não pode sair”

mesmo se eu fosse imrtal, me seria vedado ‘ter minha segunda chance’; é a irreversibilidade da temporalidade que me impede isso.”

Show de obviedades.

CAPÍTULO 2 – FAZER E TER

Todos esses hermeneutas da modernidade, aí incluído Marx, captaram a mesma coisa com palavras diferentes.

o materialista (…) sequer encara mais a possibilidade de sair do mundo, pois deu a si próprio o tipo de existência do rochedo.”

Exemplos de viscosidade: aperto de mão do Tartas. Sexo, depois do auge do tesão; caminhar sob o sol de Brasília sem barba feita, e de preto; coca-cola, pirulito.¹

¹ (P.S. 2024) Hilário!

CONCLUSÃO

acontecerá que o quietismo do bêbado solitário prevalecerá sobre a vã agitação do líder dos povos.”

[ARQUIVO] EDITORIAL AO RAQUÍTICO

Originalmente publicado em 9 de abril de 2010.

O que leitores de carne fraca do meu blog não podem compreender (pois, ao passo que esses, que ladram duas ou três vezes por ano nos comentários – e que jamais mordem, como os cachorros dos meus sonhos –, são quase sempre seres magrelos, lhes parece faltar a condição da correta circulação do sangue – são um tanto anêmicos, não conhecem as próprias emoções; como poderiam avaliar os corações dos outros?) é o preço incorruptível da vontade de me expressar, pela qual aceito todo o ônus. Disposição esta perfeitamente confundível, em meu caso, com a vontade de viver. Nisso tudo se ergue a verdade fundamental deste espaço, que é: o ponto mais forte e o ponto mais fraco do blog são uma e a mesma coisa, quer seja, que ele lida o tempo todo com tabus. Pense-se no quanto é conveniente ser discreto e, ainda assim, se arrogar títulos como: mente perfeitamente sã, desbravador, etc., etc…

Duele comigo no meu terreno! Que não é o dos inautênticos…

Atacar primeiro, eis o meu lema, e com elegância. O revide grosseiro eu deixo para os covardes.

[ARQUIVO] MEDITAÇÕES AO MEIO-DIA…

Originalmente publicado em 6 de abril de 2010.

…o meio-dia de qualquer dia

Já sinto saudades… Queria fincar meus pés no chão

Então tanto faz! Mas há coisas que eu não sei e que o plus sabe… A ameaça de ficar inválido me rodeia. Por que rastejar como um verme? Porque a próxima primavera será melhor! Até que os fios brancos e o acidente fatal não mais permitam essa “saída”… Porque o projeto humano, que digo, o plus!, só faz sentido enquanto plus! Mas até lá… De volta ao tanto faz, mas que não é tanto faz até que se torne o passado.

Álbum de fotos ou bola-de-cristal? Sempre acho que falta uma emoção a mais… Até que achar não será mais suficiente para transmutar o futuro. Desgosto, uma brincadeira de mau gosto, se o momento não chegar! Mas ele não pode ser QUALQUER fim? Podemos mudar de idéia com uma velocidade incrível… O último enjôo.

No fundo sabemos que eu só estou re-acumulando energia…

À vezes é preciso voltar – quando já se sabe tudo. Pode ser apenas um engano dos senhores pregadores da ciência.

[ARQUIVO] AS DESILUSÕES DO JOVEM EDWARDS

Originalmente publicado em 6 de abril de 2010.

Eduardo tem 22 anos. Encontra-se no limiar do que se pode dizer que é a idade adulta. No limiar inferior. E deixa, com mais um salto sobre um montículo, a adolescência, essa infância amarga. Seu ímpeto volta agora a arder após um longo degelo. Ele realmente gostaria de empreender essas energias que lhe sobram em algo mais que trabalho, poesia, porres e planos. Isso significa a inclinação para a conquista. E ao voraz basta o alimento. Nem precisa ser cozido. Ao fundador de uma nova nação não é certo falar do luxo chamado escolha. A aridez do Himalaia, prados verdíssimos, uma flora exuberante sem solo firme? Ou quiçá aquele chão eterno apesar de rachado? O homem não escolhe local nem clima. Inóspito é só “onde não havia homens ainda”. Nenhum lugar passa em branco, sem ver vidas brotarem, se desenvolverem e serem, na acepção crua da palavra, aquele ambiente. Pois bem: Eduardo chegou a um impasse provisório. Nada de bem-estar, mas sim algo de temeridade, na escolha: o porto um ou o porto dois. A mulher que ele quer contemplar na doce idade do pecado e do erro, ou a firmeza de espírito. Não haverá encanto sobrenatural na segunda, a não ser o encanto de saber que amortecer os encantos é também um encanto, talvez o senhor dos encantos!

O que poderá valer mais? Uma vida com Gabriela, 15 anos, ou o futuro devotado a esta mulher de primavera para outono de 30, Isadora? Sente que vai explodir de paixão por uma das duas a qualquer momento e sente, prenuncia, o derramar das antagonistas, embora o jeito que uma entorne seja absolutamente pacífico e irretocável, um verdadeiro chá das cinco, frente ao outro, tão violento, sacolejante, animado, invejável, imprudente, que espirra lava pelas imediações e até para além delas. O jeito como entornam a água da cumplicidade. O que ele quer? Que tipo de banho Eduardo almeja? Poderia ser que haja essências a desmascarar? Gabriela precisa de proteção. Chora quando a mãe a fustiga, seja por falta de amor-próprio ou por falar demais no telefone. Chora com a menstruação. Chora com as cólicas, mas tem sede de aprender. De aprender que na vida há muito mais pelo que sofrer. Quase uma filha, sete anos mais jovem. Quando for petulante será bem mais má que qualquer mulher mais velha – inocentemente, é claro. Ainda possui aquela pele escorregadia que pode trombar – o que digo? – com outros pênis, outros braços, outros beiços, outro bafo. Crê que poderia ser assim por mais mil anos, sem desgastar sua virgem beleza. O ruim e cansativo na maldade é que ela nos torna assaz bons! É só olhar Isadora! Aprendeu, aprendeu e não pode voltar a ser o que era – e se Eduardo escolhesse Gabriela, escolheria Isadora por tabela. Pagaria toda a fortuna do mundo pelos momentos, pelas efusões mais breves, pelo espetáculo do princípio, a demonstração da gênese, a verificação da beleza mais casual e lívida, coisa autodestrutiva e tão pequenina? Será que vale a pena? A vida vale o ano? O ano não vale a vida, seria fácil demais…

E então, Eduardo quer já o correto ou ainda repisar nos velhos erros? Acho que enquanto puder, ele vai procurar a menina onde puder, mesmo onde já não estiver…

Repisar nos erros é o certo. Isadora não vingou. Virou Poliana e depois Nathália. Nathália era Gabriela. Hoje Gabriela é mais “Rebeca”, nome forte esse, de batalhadora, que não se furta à oportunidade da vanglória. Ou Glória, de duros bastidores, pernas grossas, mas no fundo… Gabriela não é mais Isadora, agora, do que Isadora foi um dia? Não, não chora.

Marina, nome híbrido. Mulher-menina. Menina sabida. Mente, está acima! Dengo de Flamengo. Nina, Nana neném. Tessália, de saia, é a Renata que acertou de primeira…


ímã mar imagemalgemar

amalgamar a margem

geme


Candura ou postura?

Cabisbaixo ou de somenos?

Democrata ou patriarca?

Devagar ou depressa?

Responsabilidade ou co-autoria?

Fria ou debaixo das cobertas ela ainda ardia?

Proibido e escondido ou só apartado, alojado, reservado?

Faz-de-conta ou pega-fogo? Incendiário!


O que faz um homem que não aprendeu a amar a vida toda?

[ARQUIVO] DEBAIXO DO BLOCO

Originalmente publicado em 10 de março de 2010.

Vivia-se mais despreocupadamente. Como que em uma cidade do interior sem nenhuma das intempéries do Nordeste e da magra infância dos pais/primeiros candangos. As bermudas não precisavam ter bolsos, não se carregava dinheiro, documentos, quiçá a chave, para entrar de ponta de pé quando se chegasse em casa – que ultraje! – depois da meia-noite… Telefone é algo imencionável. Não diria que o ritmo era dos mais lentos e morosos, pois as brincadeiras exigiam agilidade. Abordagem muito romântica? Devemos respeitar a ilusão. Improviso, machucados, inconseqüência, carreira e dinheiro… Ninguém se deu conta MESMO?! Hoje há mais com o que se desgastar: borborigmos de estômago, pessoas de quem se depende, namorada exigente, remédios, relógios, traumas… E hoje já nem consigo achar moedas no chão! Não existe uma mão amiga, uma paragem, hospedaria solidária… sem que se deva lavar a sujeira alheia – nada de FIADO! E na verdade esse é o futuro sem futuro. Todos, mesmo os mais destacados, têm de ter um período de banal, de comum, de mais um, de harmonia e encaixe; bem como eu recomendaria a quem não sabe enxergar os panoramas para além da montanha um exílio, um estágio especial, nem que apenas para guardar o vazio num álbum de fotografias, uma história de rodinha sem risos, um “e eu também… embora não goste de lembrar”. Sabe o que faltou ao mestre dos ditirambos? Ser mais ditirâmbico!

[ARQUIVO] METALLICA X NAPSTER: O CAPÍTULO MAIS NEGRO DA HISTÓRIA DA MÚSICA

Originalmente publicado em 6 de março de 2010.

A idéia original era dar curso a uma série intitulada “Os 10 atos mais estúpidos da Música Contemporânea” ou coisa próxima disso, mas por falta de dados bibliográficos e disponibilidade de tempo pude executar apenas “a parte mais nobre” desse “desonroso pódio”, se assim podemos dizer; e minha ansiedade é tanta (talvez do mesmo tamanho que meu amor pelos ofendidos neste artigo!) que decidi publicá-lo logo de cara, sem saber se um dia voltarei à baila com os outros 9 atos “quase tão estúpidos” quanto este no universo da indústria fonográfica.

* * *

Na virada do milênio, uns dinossauros da Música mostraram que realmente estavam caducos e caretas e perpetraram a atitude mais covarde da Música desde o advento do WWW, e que permanecerá no topo desse ranking infame por um bom tempo…

Este comentário é um recorte no tempo, por isso não interessa o que eles fizeram antes nem depois: o grupo de thrash metal / heavy metal / hard rock /pop rock (a depender da década e da taxa de ingestão alcoólica dos membros) mais popular da História (considerando-se que encabeça o Big Four californiano e que possui um leque de ouvintes tão ou até mais variado que outras bandas do estilo metal que se consagraram diante do grande público “exterior”, como o Iron Maiden) iniciou uma guerra perdida contra as novas tecnologias, o “barbarismo digital”. Tudo porque não enxergaram que o formato compact disc havia sido absolutamente suplantado pela disseminação das MP3, fazendo parte hoje apenas de um culto ou uma homenagem que os mais fanáticos sentem a necessidade de prestar aos músicos que tanto causaram impacto em suas vidas. Em outras palavras, tudo o que começa como diversão (4 rapazes sendo “autênticos”) termina com a guerra da única coisa que passa sem deixar nada de significativo no coração humano, mas que outrossim é a única importante no mundo atual: do dinheiro. Direitos autorais, isso o artista tem de saber: são mera convnção, bem anterior ao capitalismo e ao “profissionalismo”, privilégio consensual direcionado aos mais talentosos de uma sociedade, sob diferentes formas de acordo com a era e a religião. Não obstante, aquele que não é mais grato para com seu público perde a honra e o direito de estar sobre um palco, pois não há criação que se sustente sem quem a contemple, não há grandes espíritos sem mediocridade em torno deles e não há como não perder a dádiva dos deuses sendo avarento… Para o trio culpado, James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich, serve a antiquíssima frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. O que veio a seguir é a maior prova, e também está nesse top 10. Mas cansei de falar. Sou jovem e não vivi essa época, por isso trago à tona alguém que esteve lá, com consciência para discernir o que se passava, desde os idos dos anos 80:

Uma grande parte da cena thrash sobreviveu graças à troca de fitas K-7. Os trocadores se comunicavam por seções de pen-pal em revistas norte-americanas de hard rock como Kerrang! e a hoje defunta Sounds. Havia poucos estúdios de gravação preocupados com o metal àquele tempo; trocávamos demos e fitas ao vivo de dúzias de bandas que nunca tinham gravado nada oficialmente. O metal underground era tão legítimo quanto qualquer cena punk, especialmente na Bay Area de São Francisco. Algumas das bandas chegavam eventualmente a um sucesso limitado; poucas ainda estão por aí (destaques especiais para Anthrax, Megadeth e Slayer), mas a maior parte dessas bandas nunca chegou a lançar mais de um álbum ou um single, e a maioria está agora, de fato, esquecida (menções que não podem faltar: Jaguar, Blitzkrieg, Control e Anvil Chorus).

(…)

Em 1982, uma banda em início de carreira chamada Metallica abasteceu alguns amigos trocadores de fitas com uma demo contendo 7 músicas, chamada ‘No Life ‘Til Leather’. Copiada, re-copiada e re-re-copiada, a fita fez seu caminho da Califórnia a Chicago, de Nova Iorque à Inglaterra, à Holanda, à Alemanha. Em meses, a banda tinha fãs espalhados pelo mundo inteiro – sem a ajuda de um só jornalista, de alguém de assessoria ou de qualquer campanha de marketing. Não passam de chutes afirmações sobre quantas pessoas estavam envolvidas nessa rede de troca e multiplicação de fitas, mas um bom número desses fãs de carteirinha (casseteiros) do Metallica era contribuinte amador em vários zines underground da época (e destacamos aqui o Metal Mania, Whiplash, Aardschok, além do Metal Forcer); seu entusiasmo por essa banda desconhecida da costa oeste foi cedo retransmitido para milhares de outros leitores.

O resto, como dizem, é história. Kill ‘em All foi uma sensação; Master of Puppets ficou entre os 40 mais vendidos do planeta; alguns anos depois, o Black Album seria responsável pela venda de 12 milhões de unidades.

(…)

Avançamos rapidamente no tempo para 13 de abril de 2000, e o anúncio de que o Metallica e seus representantes haviam iniciado uma ação judicial contra a companhia de softwares Napster e as Universidades de Southern California, Yale e Indiana nos surpreendeu bastante. Não deixa de ser trágico e irônico vindo de uma banda que se ergueu sobre pirataria de fãs.”

(Fonte original das aspas: Brian Lew, 09/05/2000, Metallica, como você pôde?, traduzido e levemente modificado por mim.)

[ARQUIVO] O PONTUAL

Originalmente publicado em 3 de março de 2010.

Mais uma vez esta reflexão – e reflexão não significa mastigação? – “cinematográfica”: a maioria de nossa vida, de nossos ofícios, é de enfado. Segundos, pílulas de atos incontestes. No grande homem da História ou simplesmente na vida daquele que não era nada, mas sabia ter seus mini-dias perfeitos, de zelo e beleza. Acabei de assistir à majestosa final da Copa do Mundo de 70, exibida na íntegra, em cores e renarrada. Talvez sem tanta realeza para moleques anos 2000, que não aprenderam ainda o gosto clássico. Partida, em geral, morosa, cheia, no entanto, de picos e flashes, de explosões de velocidade e de manobras divinas, tão breves quanto áureas. Linhas de passes dos sonhos… Esse não é um artigo sobre futebol, mas encontrei ao acaso a ilustração perfeita. E o jogador ideal para discorrer sobre minha “pontualidade”: o badalado Pelé. Não estava no seu jogo perfeito, na exibição maior deste mundial – só que suas figurações de luxo foram o bastante para eternizar a(s três) estrela(s). Talvez despontar demais, se outros também davam conta do recado, fosse falta de elegância! Normalmente o aniversariante não é o piadista da festa, o mais desenvolto (até porque não é quem bebe mais, tem obrigações protocolares), nem a pessoa que está mais bem-vestida, mantendo a discrição salutar. Simplicidade calha bem sob os holofotes, durante a tensão da decisão. Pois bem: cada um de nós é um Pelé renascido, inventivo a seu modo. Grande parte desse jogo de 90min ou 90 anos é uma passagem com falhas, impaciências, soros, feiúras, falta de harmonia, insegurança, enfim, aborrecimento, senão ansiedade (“vai, não vai”).

Eu sou pingos. Pingos de textos. Acontecem muitos mal-entendidos e angústias nesses intervalos entre um artigo e outro; sinto-me mortal! A tacada milimétrica vem na hora certa – e desaparece no mesmo instante, pulverizada pelo seu próprio sucesso: foi quase que uma neblina, uma picada de inseto, que não sentimos, não somos nós, éramos outros, focados, jogadores ancestrais e cascudos, não “pensamos”, só executamos aquilo para que viemos a esse mundo. Nosso ofício. Até a casta dos “favorecidos” sabe dessa crueldade da distribuição das apoteoses na natureza. Animais sublimes não perderiam tempo se lamentando! O consolo é o vizinho talentoso… O castelo dele também cai. O castelo de qualquer Napoleão ainda é só de areia. Podemos invocar nossos self olímpicos como uma tequila é entornada: um rasgo mal-sentido; o impacto deve ficar para os expectadores na sala, para o relato do avô – talvez Zeus agisse inconscientemente, castigasse sem temer, sem a pena, tão humana…

A confiança é tanta, em resumo, que o artista se dá ao luxo de desligar seu motor, a parte de seu organismo responsável pela eficácia máxima, hibernar mesmo, a fim de que a máquina não seja depreciada com o banal. É-se nobre o suficiente para aceitar uma magra coleção de vitórias, tal é a representatividade, a integridade, delas. Cobremos menos – e com isso mais! – de nós mesmos…

[ARQUIVO] IMPÉRIO DA EMPÁFIA

Originalmente publicado em 23 de junho de 2009.

Flamenguista é um bicho abusado

quando leva tamancada

fica desnorteado

Admite que o árbitro está certo

se do gol um rubro-negro está perto

Esconde com vergonha o retrospecto

dos vices e fracassos acumulados

Se cria uma fantasia

um time que em finais “exala magia”

Politicagem, aos foliões não interessa

Enquanto houver 3 pontos e Obina

a tristeza não tem pressa

[ARQUIVO] ONE-DIMENSIONAL MAN: Estudos em Ideologia da Sociedade Industrial Avançada, 1964. – Herbert Marcuse

Originalmente publicado em 12 de fevereiro de 2010.

INTRODUÇÃO: A Paralisia da Crítica

Até mesmo a análise mais empírica das alternativas históricas parece especulação irreal, e a adesão a ela uma questão de preferência pessoal (ou grupal).”

  1. AS NOVAS FORMAS DE CONTROLE

Impressões: texto charmoso, períodos curtos e um conhecimento extraordinário: um pastiche de tudo que eu mesmo sei. Não sei se é meu estado de espírito de momento, mas estou rindo das definições do nosso querido Ocidente totalitário.

Como toda a teoria exposta já é minha conhecida (eu diria que é uma arte trezentos sujeitos dizerem a mesma coisa de formas diferentes), vou anotar minhas sensações:

Eu costumo viciar no texto e orientar meu dia por ele – enquanto leio e enquanto a experiência é recente, torturo-me com a perspectiva de “esquecê-lo” e ficar idiota, no que já percebo um auto-deboche, pois não sou eu exatamente, mas o inexorável quadro de humores e superficialidades a que logo somos dragados. E veja: durante o dia 18 conversarei alegremente sobre este livro – hoje, na madrugada do dia 17, eu ainda penso: jamais falarei uma palavra, é “inútil”. Como se minha necessidade fisiológica não estivesse acima dos parâmetros funcionais.

Talvez – talvez – eu esteja ficando maluco e a única medicação que posso tomar é: dosar as leituras em cronogramas diários mais fixos que aqueles que vinha tomando (foda-se O AMANHÃ, pensemos apenas em termos de saúde mental), e bem mais modestos. No máximo 2 capítulos por dia em horário sem sol se o teor deles for tão pesado quanto o deste 1(+INTRO). Logo, para que eu não me sinta mal por estar sendo lerdo ou aquém do que deveria ser na bosta da universidade, me autorizo aqui, expressamente, a demorar… O engraçado é que eu vicio nessa coisa maldita, não consigo passar o dia sem ler. Mas… toda vez que me sentir culpado: “EU NÃO PRECISO MAIS LER NADA NO MUNDO SE NÃO QUISER!”.

  1. O FECHAMENTO DO UNIVERSO POLÍTICO

(…)

  1. A CONQUISTA DA CONSCIÊNCIA INFELIZ: DESSUBLIMAÇÃO REPRESSIVA

Eros e Civilização é considerado a continuação desta obra.

DES-sub… não é perda da OPORTUNIDADE de sublimar, mas é esvaziar o sentido da ação sublimante, quer seja: o onanismo não é mais “proibido”, então como pode constituir alívio quando executado? Banal. Ora, isso (essa liberalização, tolerância) indica a marcha rumo à condição trágica. Sexo como não-vergonha. O sujeito se revoltará menos à medida que a sociedade dá mais vazão a seu inconsciente.

  1. O FECHAMENTO DO UNIVERSO DA LOCUÇÃO

(…)

  1. PENSAMENTO NEGATIVO: A DERROTADA LÓGICA DO PROTESTO

(…)

  1. DO PENSAMENTO NEGATIVO PARA O POSITIVO: RACIONALIDADE TECNOLÓGICA E A LÓGICA DA DOMINAÇÃO

(…)

  1. A VITÓRIA DO PENSAMENTO POSITIVO: FILOSOFIA UNIDIMENSIONAL

Para uma história do positivismo: Saint-Simon, Comte e Fourier.

Wittgenstein: como NÃO filosofar com o martelo.

A limitação da filosofia à descrição degustativa do abacaxi (analítica): não é um problema fundamental, como de onde vem a fruta ou o que se faz para comprá-la, quem dirá “o que é o ser?”.

essa aceitação radical do empírico viola o empírico”

Sim, pode-se falar e pensar daquilo e naquilo que não é”

  1. O COMPROMISSO HISTÓRICO DA FILOSOFIA

(…)

  1. CATÁSTROFE DA LIBERTAÇÃO

(…)

  1. CONCLUSÃO

A verdadeira fisionomia de nossa época se mostra nas novelas de Samuel Beckett”

O protesto social não só não é eficaz como é prejudicial, por iludir a massa de sua eficácia pontual – omitindo a conversão do povo, outrora força revolucionária, em força de coesão.

[ARQUIVO] TURNING POINT PARTE II

Originalmente publicado em 8 de fevereiro de 2010.

Me sinto potente para recomeçar! Demorou para me sentir assim – de novo… A novela da sucessão de erros culminando no ulterior sublime se re-representa… Uma pulsão, momentos e novos planos, ilusórios e hipotéticos, eu sei, mas jogados aqui, encenados aqui, encarnados neste frigorífico aqui! Energia bela e forte o suficiente para justificar e apagar… A borracha da primeira vez tinha sido aniquilada pelo ferro-velho sentimental da segunda onda de rancor. Quando eu fechei aquela ferida horrenda… ou melhor, quando a competente médica a suturou… esqueci-me da injustiça do pior ano da minha vida, me redimi e me considerei merecedor e renovado.

Então essa mesma criatura arrancou os pontos, e se fosse na barriga eu diria: as tripas pularam todas para fora! Só que o ferido de guerra nunca sabe que o último inimigo de pé e as caixas de primeiros socorros estão tão próximos! Cada brisa, cada baque, cada comando conspira a favor – CUIDADOS CHEGARÃO A TEMPO! Quando já se tornava contraproducente ao soldado lembrar a remoer seus tempos abortados de quartel – é como se antes o peso da lista de preocupações tivesse de dobrar, porque o espírito queria recordar todas as dores juntas… e aí as características da reconfortante amnésia das chagas foram dando seus sinais, um a um. Já não tenho que responder pelo que foi quase hoje! Já estou esquecendo, me despedindo de, o que me levou a essa reincidente paragem. É verdade que febres – e textos (e letras ruins!) – fecham ciclos? Na Fortaleza eu quis queimar etapas mas eu ERGUI mais etapas…

Mão amiga, logo ali, porque aprendi a confiar; até naqueles sobre quem deveríamos permanecer mais céticos! A espuma, o ciclone, vai passar? Preciso de um terceiro olho, me deslocar! O horizonte é belo, rumo à próxima ilha. Desencane, dessa vez não serei enganado… com noções de paraíso. A vida é como um rio. Eu me rio.

Estou um caco, que devo fazer? Insista! Há coisas que não são como copos d’água, que é o que menos vicia: apenas mais para cativar, para se domar! Estou procurando essa mulher nada aquosa: aquela que dá por si só a sede!

[ARQUIVO] WHEELS OF CONFUSION

Originalmente publicado em 29 de janeiro de 2010.

Escrever reviews foi minha forma de “burlar” o calendário e a agenda de uma pessoa crescida? Foi uma fuga covarde das responsabilidades e necessidades de novidades? Ou eu apenas vivi bem? A imaturidade para trabalhar é um resquício da vontade de jamais ser, vir a ser, outra coisa? Muito apegado, até aos romances do passado? Tentando cavar sempre alguma coisa insólita? Mas eis que a quebra de um ciclo talvez seja o principal fato gerador da minha persona: até ali eu não era nada; eu era só mais um. Então fui chacoalhado e deixado abandonado. Descobri um cobertor, me enrolei e fui me aquecendo aos poucos. Então, saltei de pára-quedas como um louco… Me esborrachei e acho que o hospital não funcionou muito bem comigo… Mas dois grandes giros depois, aqui estou eu, tatu renovado. Somos ruminantes num vaivém excitante de 4… anos? Eu até acho que essa nova empreitada – e a cada uma eu pareço querer armar escândalo – pode resultar na minha morte! Antes de conhecer muita coisa, mas também “já vai tarde”! Melhor a rotina a qualquer custo, mesmo a um negro custo? Mas aqui estou eu e por ora – e talvez para sempre – este é o único juízo comprovável.

Ei! Não é um mistério perceber depois de tudo que a vida é só um jogo? Que não precisava dar reset, ou que tanto faz, desde que não toque no “desliga”? Talvez haja um defeito de fabricação, ou este novo console acolchoado já não se preocupa com esse layout ultrapassado? E que graça tem vencer?

Was it illusion?

[ARQUIVO] RAPOSA

Originalmente publicado em 28 de janeiro de 2010.


Rainha

de mão-dupla

por que me manejas

com tanta destreza?

Santa, diabólica

sempre na moda

Invisível, chamativa

discrição de um mulherão

Futebol ou desenho animado

Desfile na passarela apenas fotografado

ou

espetáculo que é jogado

Com muito peso ou muito amor

Tão minha vizinha

que posso sentir o seu bafo

Mas ele é tão gelado!

Tão distante

porém nunca pense em obstáculos

que amedrontem um Orfeu

Assim careta ou destilada

Serelepe, quem sabe alta

Risonha, mais calada?

Tão ocupada em seu desleixo

tão desleixada em seus romances

de que secretamente

eu me queixo

Todas as delongas e brevidades

significam que te tenho

mas para sempre

abdico de ti?

Resolva-me o paradoxo,

Criatura única!

Falta de fome, excesso de sede

até quando posso dissecar minha própria sublevação

ou desolação

dessa paixão

duplamente – e por isso nunca –

correspondida?

Porque mesmo que nessa matemática 2 valesse 1 + 1

seria D+ pra qualquer um!

Sinto vontade de viver

sem lógicas e bê-á-bás… –

Bá!

Sotaque gaúcho não vai me ajudar

…dor, torpor, piranha, mordida, ferida

TREvas e relâmpagos e fé

moleca-mulher

tomar a iniciativa?

És de fato muito ativa

Será dessa categoria que precisas?

Por outro lado

quão galante

é uma garo(t)a

Paulista

Sereia do mar

faltam praias!

e redes sem furos!

Amiga, amiga

elegia

Fim da aristocracia!

[ARQUIVO] ON THE ROAD

Originalmente publicado em 14 de janeiro de 2010 (anotações de 02/02 a 05/02/09); conteúdo condensado em março de 2024.

as garotas mais gostosas do mundo moram em Des Moines”

“’Ei, rapazes, vocês estão indo para algum lugar específico ou estão apenas indo?’ Não entendemos bem a pergunta. Era uma pergunta boa pra cacete.”

uma melancolia profunda que só mesmo as rodoviárias poderiam possuir”

fase ruim e desgastante que sempre pinta para a rapaziada por volta dos 20 anos”

fiz amor com ela sob a tarântula. O que aquela tarântula estava fazendo ali?”

Disse que éramos um bando de árabes chegando para explodir Nova Iorque”


Wardell Gray

Wardell Gray (February 13, 1921 – May 25, 1955) was an American jazz tenor saxophonist who straddled the swing and bebop periods.”

The Hunt, The Chase and the Steeplechase (1952)

+ wardellgray.org/


nove linhas de crime e uma de aborrecimento” L.-F. Céline

Hoje em dia já não há mais segurança em andar nesse país sem uma arma” Hoje em dia já não há mais segurança em andar nesse país com uma arma.

Quando começam a separar pessoas de seus rios, o que é que nos resta?”

Jack London foi escritor contemporâneo de Nietzsche, de San Francisco. Extremamente pobre, preferiu a vida nômade a trabalhar tanto por tão pouco. Era especialista em saltar em trens cargueiros, como o Dean de OTR. O Filho do Lobo (1900). Teve dezenas de empregos, tal qual Bull Lee. Dialeticamente, a antítese de figuras como Hemingway e Fitzgerald no tocante à postura de desprendimento individual. Suicidou-se em sua fazenda aos 40 anos, de overdose.

Estamos todos perdendo nossos dedos – ha, ha, ha”


Era isso que Dean era, o ESTÚPIDO SAGRADO. Um santo.”

Um BEATo. Beatitude.


Fomos aconselhados a não beber água da torneira agora que havíamos cruzado a fronteira.”

Podemos seguir até a América do Sul, se houver estrada”

Demos todos uma prensa e exalamos nossos cogumelos atômicos praticamente ao mesmo tempo”

Deus jamais brindou a América com uma polícia tão encantadora como essa”

Não sabiam que havia uma bomba capaz de destruir todas as estradas e pontes, reduzindo-as a escombros fumegantes”


MINIGLOSSÁRIO:

bagana: guimba, ponta já fumada

[ARQUIVO] CEM ANOS APÓS O PROJETO VONTADE DE POTÊNCIA OU ESCOMBROS MUSICAIS

Originalmente publicado em 13 de janeiro de 2010 (anotações de 26/01 a 01/02/09); conteúdo condensado e observações enxertadas em março de 2024.

I. Da Vontade de Poder para a Gênese e Interpretação da Filosofia do Poder de Nietzsche

You’re reaching your nadir

Your will has disappeared

Como babacas com a bunda colada a suas poltronas poderiam entender o meta-alcance trágico do Nietzsche e Marx? Referência à velocidade relativa do trem-bala:¹ jamais será possível aos passageiros fazer essa verificação.

¹ (P.S. 2024) Cfr. DESENCANTO E REENCANTO DO MUNDO, 22 de janeiro de 2009, https://seclusao.org/2021/01/01/desencanto-e-reencanto-do-mundo/.

Se, porém, libertarmos a vontade schopenhaueriana do seu fundamento metafísico, o que resta é apenas uma vontade de existência

A única coisa que inexiste – e cuja inexistência está demonstrada – é a autoconservação do sistema, o mítico ponto de equilíbrio.

A “sociedade do poder” é aquela configuração mais poderosa já vista: age com poder sobre seu entorno, diminuindo ao máximo a imprevisibilidade. Efeitos colaterais: desastres naturais são fenômenos cada vez mais freqüêntes, “regulando o sistema”, readicionando a imprevisibilidade que o sistema político pensou exterminar. E na vida urbana o sedentarismo seguro dá lugar aos desastres contumazes de automóvel, boa parte letal.

II. A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos: Da Sabedoria dos Filósofos Trágicos à Inversão do Socratismo

(…)

III. Espinosa e Nietzsche: A Vontade de Poder

(…)

IV. Nietzsche e Kant: Em Torno do Niilismo

(…)

V. A Corporeidade como Esquematismo da Razão em Kant e Nietzsche

(…)

VI. Hegel e Nietzsche, Hermeneutas da Modernidade

Levar o mal da Europa para fora.

POR QUE AS GUITARRAS ELÉTRICAS VIERAM DEPOIS DE HIROSHIMA? A música clássica é sabidamente música romântica, para além do nome. O Classicismo chega atrasado nessa arte das artes. No século XX temos Stravinsky, um Baudelaire atrasado. Qual é a realidade representada pelo espelho da Bay Area nos anos 1980? Disposable Heroes se parece com o Vietnã. Peace Sells com o arrocho dos regimes comunistas orientais. The System has Failed com a (primeira) Guerra do Golfo somente (14 anos de hiato). United Abominations cheira a apartheid. O indie me recorda a fossa econômica das massas no reaganismo. O rap anos 90 é tão Martin Luther King…

ONE PIECE: Não deixar a academia me intoxicar. Ela fala de um século perdido (século vazio). E chega de reformadores! Eu realmente mexo com IT: Idade Trágica! Depois de sorrir no enterro, eu irei presenciar jovens que choram no parto de seus filhos… O lado insuportável da egomania: os millennials, meus coetâneos!

VII. O Papel da Idéia de Eterno Retorno na Gênese do Projeto de Transmutação de Valores

Aos olhos de Nietzsche a crítica de todos os valores estava concluída no momento em que, no início de janeiro de 1889, a sua consciência se afundou no silêncio”

Quando se vem a conhecer aquilo que se é já é tarde demais para ser o que em tese se gostaria de ser.

O que faz o cristianismo? Condena o passado, sempre, qualquer que seja a vertente. E insiste na promessa do futuro. Já o desprezo do passado (característico do supra-homem) não equivale a nenhuma malversação. É como se ele fosse uma ponte permanente para algo mais.

FROM THE PAST COMES THE STORMS: Desprezar não é nem passar uma borracha, nem endeusar. O futuro pune em ambos os casos. O inaceitável é que a agressão e o trauma não sirvam de estímulo, mas de paralisante. A nuvem negra do cristão é achar que a vida vai melhorar – que é desejável que ela melhore.

VIII. Nietzsche e a Modernidade: Considerações em Torno da II Intempestiva

De onde vem a distância necessária para se falar sobre a época, estando dentro dela?”

não significa que a destruição total não seja possível (…) mas ser possível quer dizer ter já ocorrido na imaginação”

IX. Pragmatismo e Perspectivismo

Citações de Rorty e Peirce.

X. Nietzsche e Pessoa

(…)

[ARQUIVO] O POODLE PRETO DE HANA, A RAIVA DOS AMIGOS

Originalmente publicado em 4 de fevereiro de 2009.

Eu matava Max Cavalera com um tiro no meio de um show – continuava no local e horas depois conseguiam me identificar na gravação da câmera de segurança. Acho que não era linchado só porque a representação terminava antes disso!

Não me lembro de sentir tanto remorso por uma coisa em toda minha vida real. Só conseguia pensar: “minha sede de sangue destruiu meu futuro” (curiosamente, o segundo sonho que vou contar não está destacado deste, pois eu tenho lembranças de estar no mesmo local acompanhando mais shows até que tarde da noite ia embora para casa a pé e…).

…Hana me dava sua mão. Não nos víamos há meses. Ela tinha um cão do tamanho de uma van que babava um copo d’água nosso a cada gota de si. Uma coisa enorme que manipulava a dona como um doce brinquedo – tal qual o frango do Ralph, um outro cão que conheço. Parecia brincalhão, manso. A dado ponto Hana não estava mais a meu lado, mas eu cuidava de sua cadelinha preta (um segundo cão). Passava por um quintal repleto de cães raivosos e dois nanicos começavam a persegui-la. Eu estava lá pela 707 norte, naquelas ruelas entre residências baratas e comércios… Acabava matando a dupla de tanto espreme-los nas mãos, mas por engano também assassinava aquela que queria proteger.

Não consegui salvar a amizade…

[ARQUIVO] GÊNIO PRECOCE? GENEALOGIA DE UM MAL, VISLUMBRE DA CURA.

Original – e PROFETICAMENTE – publicado em 14 de outubro de 2006! Com trechos censurados, por motivos óbvios.

Sou Rafael e Araújo Aguiar, 18 anos, cursando jornalismo (2º semestre, turno noturno) pelo UniCEUB-DF. Estou no projeto Abrigo Polar¹ por intermédio de B., o qual conheci por M., antigo vizinho e estudante do Colégio Militar de Brasília, onde estive detido por quatro anos e meio.

¹ (P.S. 2024) Era um blog com mais três pessoas, nenhuma delas do curso de jornalismo.

Como bicho solto, vejo o mundo de uma forma ainda pior e mais ácida. Minha cefaléia deve decorrer das relações invariavelmente atritantes com pessoas de intelecto inferior (porém, em oposição à capacidade cerebral, insinuantes demais), que proliferam no meio em que me encontro.

Sempre tive uma rotina de postar em blogs, de traduzir matérias do inglês, de divulga-las entre amigos, no MSN Messenger e mais recentemente no Orkut, além do finado IRC, é claro. Às vezes me cansa ser tão atarefado. Mas pela primeira vez em muito tempo pareço sentir aquela lesão por esforço repetitivo nos meus dedos ao digitar este excerto, e uma fadiga muscular generalizada. (…)

Sinteticamente, eu não sei quando farei meu regresso com matérias palatáveis. Meu estado físico-mental é muito mais lastimável do que a descrição permite imaginar. Não tenho certeza do meu futuro como jornalista, muito embora esteja virtualmente certo de que vá me formar. O curso em si me agrada, não obstante os estágios nas redações me dêem calafrios. Todos são deveras burros, seu eufemismos: burros. Talvez seja coisa de jornalista esportivo. Talvez seja coisa de jornaleco da capital. Não gosto de apurar matérias na rua ou falar ao telefone. Gosto de “googlar”. (…) até ter um espaço de livre emissão de opinião um profissional do ramo sofre muitas perdas, para as quais não me julgo preparado. Ou, se assim me julgo, meu sistema nervoso me faria ser demitido antes do tempo.

Recentemente briguei com o staff do horariodebrasilia.com e larguei o “projeto” (“pôjéto do pôfêxô”, como diria Vanderlei Luxemburgo). Veja que o Abrigo Polar é PROJETO, sem aspas.¹ É que no HdB são todos muito burros. Sem exceção. Nem hipérboles. Não são “iniciantes”, “caras com falhas”. São arrogantes, prepotentes, cínicos, despreparados gramatical e intelectualmente, e se julgam no direito de oprimir – os mais fortes –, quanta petulância! Não têm coisas produtivas a dizer, e tudo que explicitam o fazem de modo incrivelmente abestado. Abestado, um adjetivo bem nordestino; gosto de remontar a minhas origens (…) Eles mudavam meus textos, depois de enviados, sem que me avisassem dessas insidiosas alterações. “Manipulação do repórter.” Ah, se eu não tivesse olhos de águia (envoltos por lentes de 7 graus e meio de miopia)…

¹ (P.S. 2024) Embora tenha durado tanto quanto as calotas polares estão destinadas a durar frente às protelações na redução da emissão de CO2 pelos países ricos, dentre outras medidas.

Eu vou dar a volta por cima. Eu vou colocar todos os burros em seus devidos lugares. Eu juro. Nem que seja como professor de sociologia, distribuindo conceitos II e MI. Nem que seja como funcionário público que trabalha pouco, ganha bem e dedica seu tempo ao ócio cibernético. Como jornalista minhas chances serão menores, sem embargo permitam-me assim denominar-me ao menos pelos próximos 4 anos.

Eu grito com as pessoas quando não gosto. Alto. Se é pela internet, dizem que é ainda pior – e eu não uso microfone.

Sou Rafael de Araújo Aguiar do Abrigo Polar. Em meu iglu vou aguardar, até a dor de cabeça passar.

[ARQUIVO] DO ÚTERO ÀS ESTRELAS…Into The Void

Originalmente publicado em 24 de outubro de 2009.

Fábula mental dividida em 4 episódios insanos, narrados na ordem em que foram lembrados, em suas minúcias, cerca de 5 minutos após a consciência cumprimentar o nascer de um novo dia…

Dormia com B. tentando desvirgina-la; acordava com P. (…) estava atrás de baixar algo com o PC ligado a um sem-número de cabos sem função aparente. B. tinha desaparecido roubando coisas minhas, e P. havia deixado a porta do forno do fogão aberta e o gás ligado a madrugada inteira. Depois descobri que B. não havia roubado o monitor LCD como pensara, mas que ele, da cor negra, se confundia com a bancada de granito na mesma cor, virado de cabeça para baixo que estava. No entanto, eu seguia caminhando pelo apartamento sentindo certa opressão pela falta de vários objetos… Matutava comigo: essa cena não pode ser real!

Anteriormente, escutava todas as faixas de um álbum do Black Sabbath … Sonhava com o dia em que poria à prova meu talento nos vocais, com o suporte da Fierce Fire, mas temia esquecer a letra na hora “H”. O Megadeth tinha duas canções chamadas “Mastodon”, uma de 6, e a outra de 11 minutos. Eu também ouvia, a provava, todos os vinis do Sepultura.

Eu e A. jogávamos a Star Cup no modo Grand Prix de Mario Kart 64. Eu escolhia o Luigi e estava na tela de baixo. Vencia a 1ª corrida, Wario’s Stadium, com meu rival chegando em segundo. Após as 4 pistas, eu tinha somado um número ridículo de pontos e perdido a disputa, imaginando: quando éramos crianças, fazíamos 33 ou 36 pontos (100% de aproveitamento) sem dificuldades! Decadência da estrela…

Eu passei a viver num quarto modesto que era toda a minha casa. … Recebia várias correspondências. Minha mãe as entregava. Eu as depositava sobre a cama; muitas cartas eram contas e avisos, coisa de gente grande. Eu as ordenava conforme algum critério agora indefinido e vago. … havia uma mensalidade pendente do curso de jornalismo. De repente recebia uma ligação do estrangeiro, de alguém muito idoso, provavelmente do Japão. Meu irmão foi “o secretário” que me passou o telefone. Calmamente pedi que esse homem, que tinha a voz de P., aguardasse na linha enquanto eu tirava minha roupa e tomava uma ducha reconfortante. De volta à linha, ele me solicitava a resolução de várias pendências burocráticas. Passei a possuir entre as mãos uma curiosa seqüência de pagamentos ou recibos de extrato, algo seguramente emitido por um banco, com datas de 2005 e 2006; de uma delas, aliás, eu ainda me recordo textualmente: “06.abr.2005, dia das crianças” – era o que constava no papel, não estou mentindo.

Finda a novela financeira, recebia uma linda visita, C., magra e sorridente; não disfarçava seu encanto instantâneo por mim. Ela trajava um sensualíssimo vestido carmesim, e meias-calças negras. Demonstrou inveja por ter um cabelo mais curto que o meu – e isso era impressionante, porque o dela já atingia o meio das costas! Não importavam mais as questões sérias, nós dois só queríamos arranjar um pretexto qualquer para nos agarrarmos e nos beijarmos ali mesmo, porém minha família se encontrava na casa, talvez no quarto ao lado.

Despertei.