[ARQUIVO] PIAMENTA

Originalmente publicado em 10 de janeiro de 2010.

(…)

Tinha alguma coisa além de cabelo caindo, saindo… Alguma substância, alguma nojeira… Coisas amarelas, líquidos preto e verde… e a torneira aberta, e aquilo se acumulando, entupindo a pia. Talvez até bosta tivesse ali, a água estava realmente abjeta. Houve um momento em que o nível d’água na bancada da torneira estava acima da própria pia, de modo que deveria a água cair em direção ao chão ou então estar acumulada desde o chão do cômodo e já batendo no meu peito, como se fôra uma piscina, no entanto não era o que provocava a minha repulsa – meus membros estavam dormentes. Engraçado, eu olhei ao redor e achei que aquela água estava desrespeitando as leis da física!

(…) eu comia pão com alguma outra coisa apimentada. Mas nunca conseguia colocar pimenta o bastante. Ao meu lado, um amigo de certa ocasião em que virei sem querer o vidro de pimenta sobre uma pobre lingüiça contava esse cômico caso a outra pessoa, um estranho qualquer. Ambos riam, gargalhavam, eu também estava de bom humor e ria junto, porém sentia que ambos não se davam conta de minha presença, eu estava ausente do recinto. Manuseei de novo o vidro, tentei virar seu conteúdo sobre minha mão. Só caíram duas ou três gotículas. Lambi-as.

[ARQUIVO] DIÁRIO DE UMA VIAGEM A FORTALEZA

Originalmente publicado em 10 de janeiro de 2010. Escrito entre 30 de janeiro e 1º de fevereiro de 2008.

30/01/2008

Talvez também sob influência de meu pessimismo contumaz, das minhas mais recentes leituras (num prazo de dois anos) e do desprezo que sinto por interlocutores de pensamento vil é que apresento este fragmento. É necessário deixar claro que o “interlocutor vil” em questão é um magnata cearense de nome Pelé, sem embargo, não conservo a mínima vergonha de meus antecedentes familiares (ele vem a ser meu tio-primo), resquício algum de racismo regional (vulgo xenofobia) ou aversão por cidadãos financeiramente afortunados. O que não tolero é a incapacidade dos ricos em complementar sua educação socratizando-se um pouco que seja – para ser mais atual-televisivo: vestindo as sandálias da humildade. Tampouco apresento, então, a essa altura, qualquer desprezo pela nomenclatura do maior atleta da História deste universo! É só um codinome, e ter chegado a ele tem lá seu método… Seu erro, meu algoz, foi ter aberto a boca demais! Isso e apenas isso…

Eu, tão lento para apreender opiniões concisas acerca de terceiros, descrevê-lo-ia como um sujeito de mediano para bom no entender político, no que dependesse de nosso primeiro encontro. Mas, de segunda, afirmo: és um parvo, um paspalho! Das coisas da vida, da essência invisível, do mundinho paralelo, do faz-de-conta de que I. falou tu nada entendes! Como aquele povaréu de Tianguá, só há uma coisa que mova sua vida: o dinheiro. É inútil encobrir teus anseios com esta capa, homúnculo! Para essas futilidades se é sempre competente, se desejável. De resto você não passa de um velhaco com alma de menino – não, nada de “puro”… Apenas parece distante do olhar filosófico e próximo demais do seu útero-sol, padece de um complexo de Édipo mal-resolvido. Por tabela, é um amoral inconsciente. E não são estas bestas (ou burros de carga) da igreja os mais perigosos? A filha, N., não pode julgá-lo porque não o conhece. Olha para cima ao divisá-lo – aliás, como toda e qualquer Electra. Eu não sofro desse problema, incontornável na terra (não-física) do cabresto, onde ser de elite não significa muito, no meu mundo de (não-)valores.

Sua infantil presunção de que, assim se julga e não esconde nem por um minuto à mesa, se trata de um homem culto quase me comove. Porque homens cultos não podem afirmar a juventude como único período de erro. Sua concepção assoberbada da vida, neste ponto, só já não me assustava pelas prévias revelações de seu caráter fascista.

No momento troco poucas frases com meu tio – menos pretensioso e de raciocínio mais ligeiro que o de Pelé, o pseudo-mecenas da família Ferreira. Mas tais balbuciações já se afiguram como material suficiente, meu caro “Maluco Beleza das Metamorfoses Ambulantes”, para tecer o único elogio à pessoa aqui em evidência: seu correr na praia – ou caminhada, já que é um frágil, mesmo – é meu escrever. Sim, que falta me faz descascá-lo, debulhá-lo nestas folhas como insípido feijão que vem a ser! Enquanto isso (já não sei mais se falo dele ou para você – de você ou para ele; com você ou 2ª pessoa, com tu ou a terceira), nosso nobre magnata precisa de seu retiro existencial bi-semanal. Pode me enganar, vou fingir que no pacote não está inclusa aquela masturbadela na água quentinha do nascer do sol – coisas bem-aceitas para um cara casado que enfrenta a crise da meia-idade.

Mas o papo, comigo, raras vezes esteve ou foi tão prosaico. Parece (ou mais do que parece) que peguei uma raiva excessiva do sujeito. É que realmente usar Darwin para a raça humana é chumbo grosso… E um indivíduo, ou menos, ente, que se auto-define como conhecer e interessado em buscar mais conhecimento, tolerante, bom ouvinte, reflexivo, sempre aberto a novas quebras de paradigmas (e que não sabe por certo o que representa um sintagma, p.ex.), não pode ter 10% do utilitarismo neo-yuppie (ops, embaralhei dois nomes) apresentado na pior festa que freqüentei desde que boêmio sou (o churrasco do enterro e da fossa). Se foi uma ocasião ruim é por dois (e entrelaçados) motivos: não bebi o suficiente e você (de novo minha mistura pronominal, já não dou um dedo mínimo) estava presente. (Mesmo Dostoievsky mistura pessoas na conjugação.)

O que depõe a meu favor neste cenário de aparente sordidez é que, se não bebi e não usufruí dos dotes das convidadas como mais desejaria (além dos regalos alimentícios), ao menos posso lembrar de cada ato falho seu (do Pelé!) sem a mínima distorção. O caro colega, deixe-me ver, acredita no bem e no mal. Nunca ouvira falar de Nietzsche. E nem que o Raul é um dos brasileiros mais escutados e idolatrados fora de palco de todos os últimos 400 anos. O que pode ser mais ridículo que um homem que acredita no diploma universitário como sinônimo de credibilidade irrefutável? Nem Descartes e Kant juntos!

31/01/08

(fim do 1º mês de um ano de até agora agonia gástrica)

Sabe o que é bastante interessante também?”

O quê?

Que em virtude de meu atual patamar…”

Vá às favas, com todo o respeito que seu ar grisalho merece mas que as ligações neurais comprometem!

Eu sob a mais crônica das diarréias certamente tenho, ainda, um pensamento mais ajustado e coerente que o seu! [Neste ponto decidi-me pelo emprego definitivo da interpelação direta, num misto de falta de vontade de escrever “fascista” a cada duas linhas e de excesso de disposição de fantasiar uma repulsa à la genro-sogro – explicando melhor: gosto da alternativa impossível em que sou um desafiante jovem, apontando o dedo de maneira não-acovardada para a cara do tolo pai de uma princesinha metida a roqueira… Em termos mais breves: meus devaneios com o corpo, o sorriso, a ginga e a burrice da distante prima N. — infelizmente distante em vários sentidos – parecem tornar Pelé alguém mais custoso de engolir, até porque a filha já é comida o suficiente]

01/02/08

Torcendo para escapar do Inferno…

#offtopic MEGADETH et al. (A luz no fim do túnel)

(comentando execuções aleatórias no meu MP3 player.)

  1. Train of Consequences

A estória de um assaltante de trem cargueiro e a moral por trás de seus atos me convocam novamente a uma série de questionamentos de natureza recente: o bem, o mal, os subjugados a eles e os acima dos valores. Minha opinião não é escutada por ninguém que não eu mesmo. A teoria dos grupos de influência não precisa ser lembrada aqui porque considero as pessoas suficientemente autônomas para escolherem seus veículos de comunicação, interlocutores e ações por si próprias. Eu sou apenas mais um canal, uma fonte informativa, integrante de um todo mais complexo ou descartável.

Figuras como Deus são ambíguas, duais. E representações como o diabo ou o ladrão são consideradas “puras” no sentido da essência. Mas hoje ouço falar tão pouco no diabo! Ninguém razoável e com mais de 6 anos realmente acredita em uma forma de vida (ou de morte) parecida, pois já incorporou as lições fundamentais do processo de socialização: o mal está no homem, que ejeta os direitos humanos não por outro motivo que a necessidade de controlar seus sórdidos e irrefreáveis (doutro modo) impulsos.

Fazer o certo e fazer o errado. Ser sacana e ter peso na consciência. Receber o castigo merecido. Essas discussões estão enredadas ao passado. Na situação da sociedade dos jogos ou niilista o único valor de si é aquele percebido por si mesmo, imortalizado em alguma imagem auto-louvável. O ladrão de cargas dilapida todas as vidas dos passageiros e trabalhadores do trem ao pilhar seus pertences. Conquanto não se é um deles, seus atos variam da aprovação à indiferença, em cujo trajeto mora a inveja. Às vezes penso como a vida do roubo é fácil: um sujeito se apropriou do meu televisor e do meu micro sem executar nenhuma transação financeira. Usou da violência, da imprevisibilidade física. Mas o complicado é cogitar-se pondo em prática esse “fácil”. Por que eles podem e eu não posso? Questões de berço (não literalmente, mas de uma ótica fatalista – há os furtadores provenientes de berços de ouro maciço).

  1. Killing Yourself to Live (Black Sabbath)

O ano deve ser um dos da irreversível crise do welfare state. “This is not the way the world was meant” e “Take a look around, what do you see? Pain, suffering and misery”. Além, claro, do título da música. Um ambiente de insegurança suportável graças às benesses teatrais da liquidez do dinheiro. Só o que almejo é o mesmo lar doce lar alheio, e com menos papel-moeda. O montante suficiente, que seja.

A onda de violência obriga o indivíduo a desconfiar de todos e se ver seguro – se possível – apenas dentro de seus próprios portões, ou jaula, a dita propriedade privada, capaz de resguardar até certo ponto todos os outros, tudo que já perdeu sua liquidez e não é mais pertencente a nada nem ninguém. Nem ao capital estrangeiro.

  1. Gears of War

Se a cultura não fosse a simples negação da natureza e respeitasse mais os princípios de sua Mãe o ser humano, além de cagar novas vidas e impor-lhes o ônus do trabalho, não fabricaria um arsenal nuclear, terminando, com tal atitude, por mais desestabilizar que “ajudar” (não precisa ser ajudada) sua biosfera. Uma mente tão corrupta olha a Terra com bons olhos só enquanto não coleciona as prometidas colônias espaciais que permitirão nossa continuidade. Vã continuidade. Viagem modorrenta. Muito curioso esse desenvolvimento, no sentido cíclico mesmo. Nada de linhas retas ascendentes. As marchas da guerra [ou equipamentos, armas] não pensam na preservação da espécie. Não há a menor garantia de que uma hora a rachadura não abra de vez. É um empreendimento de incomensurável risco, bem ao gosto do modo de produção ocidental e… está caduco dizer ocidental. No passado foram os muçulmanos, depois os soviéticos, japoneses… Agora qualquer olhos-puxados. O mundo. A família acabou. O Eu a engoliu juntamente com tudo. Os co(o)rporativistas ainda carregam aqueles livros debaixo do braço, mas, tal qual qualquer imbecil adaptado ou jogado de lado, só aguardam uma brecha para aparecer. Cada um com sua colossal melancia, preocupados que estão todos em se mostrar. Saldo final: não há um singular juiz. Os tecnicistas criaram um monstro que pode reduzir toda a filosofia ao nada instantaneamente… É… venceram!

* * *

Esses boletins sonoros estão me agradando e podem “intervir” na programação futura (Filosofia – Chauí).¹ Terei cerca de cem possibilidades extras…

¹ Este foi um presente de um primo distante do meu pai pelo qual sou muito grato, especialmente dado meu momento desarticulado em terras estranhas e possuído pelas terríveis marcas da saudade (do quê é que não sei, mas tenho certeza que é a parte de maior desamparo no anthropological blues). Neste preciso momento o amigo atencioso está em seus últimos minutos de praia e já vai retornar a seu meio. Eu não. Acrescento que, para saldar honrosamente meu débito, devo reler esses fragmentos ao chegar em casa e cumprir com o combinado: enviar-lhe por e-mail as ementas solicitadas da área de sociologia da UnB. a Mesmo que seu presente – e o meu futuro – não lhe – me – tenha custado nada, considero a necessidade dessa troca para a continuidade sem turbulências do cotidiano; afinal, humanos, culturalmente, vivem se devendo favores.

a Aposto que me esqueci disso!

Uma de minhas maiores vontades momentâneas é tomar uma cerveja gelada, não obstante meu sistema digestório-excretor precisar de um tempo até se restabelecer. Consolar-me-ei em pensar – e só pensar – no dia em que serei auto-sustentável e terei um novo lar – ainda que eu esteja pensando no aluguel: enquanto se pagar em dia, é todo seu. A independência… Uma cerveja gelada é um pedaço disso, por isso a quero tanto. Porém, conforme venho tentando me ensinar ultimamente, em lembretes mentais esporádicos, vive-se um dia de cada vez e, exilado, é-se plenamente impotente, o inverso de plenipotente. Um exílio implica em um outro exílio ao fim do primeiro, pois a terra natal terá mudado, eu mesmo terei, e será necessária uma readaptação ao local e aos afazeres de origem. E em verdade desconheço se poderei fazê-los todos, esses afazeres. Depende muito das circunstâncias. Ainda assim, ainda se puder, teimosamente deles prorrogarei minha licença, em prol de um só: as leituras atrasadas, que só parecem se agigantar enquanto os prazos encolhem e se tornam onerosos. Pelo menos já me livrei da autofobia e, no horizonte, nem o amor eu vejo. Agora bastam as músicas e as renovações, transferências, trancamentos e reda(reden)ções…

[ARQUIVO] SÓ É BOM PRA QUEM NÃO TEM (O²)

Originalmente publicado em outubro de 2006. Editado em 8 de janeiro de 2010. Editado novamente em 27 de fevereiro de 2024.

A crônica abaixo, assinada com pseudônimo, havia sido publicada em 2006 num “blog de parceria” entre escritores e jornalistas. Em 2010 foi republicado por mim pela primeira vez.

Não existe uma ordem. Possivelmente corroo, outrora – ao ser inalado – proporciono a sustentação biológica. Não sou, porém, justo. Mato e concedo o dom da vida por conveniência. Minhas conveniências mudam rapidamente. Não me mato porque sou imortal, o que não quer dizer que nunca tenha tentado. Apesar de um blog ser exclusivo do reino dos humanos, dentro do próprio gênero Homo existem de amebas a baleias, de briófitas a elefantes, de lagartixas a um filósofo. Sou unilateral, não ligo para o valor, moral, de nenhuma dessas entidades. O² para os íntimos. Um nome mais curto não representa a ausência de rusgas. Você precisa de mim e briga comigo. Você fecha o blog, não me lê mais, não obstante tudo que disse ecoará em sua mente. Até que o Oxigênio não queira mais sustentar vidas – pela escolha dessas vidas.

Sinceramente não sei o nível de metáfora ou literalidade do parágrafo acima, seja para mim, seja para um círculo restrito, seja para o anônimo – aquele para quem EU sou anônimo. Minha primeira reflexão é a seguinte: gostarei do que sou? A resposta da maioria é não. E do que posso vir a ser? “Se alcançasse esse objetivo, finalmente me daria por satisfeito.” Essa noção está errada.

Não tenho (mais) namorada (o que representa muito, posto que é a queda do céu ao inferno). Não sou assalariado. Não que não tenha trabalhado, mas receber aquele quinhão ao final do mês é um privilégio do qual me sinto virgem. Minhas idéias não entram em conformidade com a ordem social – eu gosto da desigualdade, mas me irrito ao ver que na maioria das vezes me encontro do lado de baixo. E então… Projeto-me no corpo de um amigo. Três anos de namoro, vai casar, estágio onde trabalha pouco e é bem-pago – pelo que dele sei, é realizado musicalmente (esqueci de dizer: gostaria de tocar bateria ou cantar, o que me é impossível, por razões genéticas, de humor e de tempo), apolítico, sabe, daqueles que não se esquentam com facilidade… Sente-se bem. Não tem um blog oficial ou outros dez em que “bica” – e eu, que sempre ANOTO MAS NÃO ESCREVO no meu, acabo fazendo o bom trabalho no dos outros! Quis dizer que meu amigo, codinome Plutônio, é a vida que eu projeto para mim mesmo.

Minhas aspirações são essas. Alguém para “comer todo dia” (sendo bem direto), dinheiro para gastar a curto, médio e longo prazo. Uma banda. Despreocupações. As aspirações de Plutônio são… Não tenho a intimidade necessária.

Despreocupação é o que eu não teria sendo Plutônio. Isso porque eu sou eu, mesmo dentro dele. Começaria a me perguntar: “Quando vamos casar?”, “Ela vai terminar comigo?”, “Quando, como porque e onde? O que eu lhe teria feito? Vou sofrer tanto assim – de novo?!”, “E a separação dos bens?”… Os ciúmes, ah, os ciúmes… Afinal, a namorada dele é novinha, mas é bonita. Tenho certeza que Plutônio não pensa nessas coisas. Quanto ao dinheiro, “em que gastar?”, “tê-lo-ei para sempre?”, “E se eu for demitido? Por justa causa?”. Bandas são como relacionamentos, outrossim. Descobri que a vida de Plutônio é tão insatisfatória quanto a minha, afinal – pelo menos “pra mim”!

Ah, Estou bem. E ontem eu fiquei ainda melhor do que numa sexta-feira normal, porque me perguntaram “Para que isso de escrever em blog?” (não foi meu colega de time Sódio). Respondi-lhe: Para ser contra-argumentado. Pelo meu bem, espero que sim. O céu está cinza. O de Plutônio também, embora ele não se dê conta. Não, apaga tudo, o que foi que eu escrevi?! Plutônio, você está bem?!

(Post Scriptum de dezembro de 2006:) Para azular o cinzento… eu já sei! Vou dizer a todas que pensam que eu (ainda) as amo que não é bem assim.

Por Oxigênio

Monica em

EM NOME DA HONRA”

Originalmente publicado em 8 de janeiro de 2010.

Inspirado na fábula da Chapeuzinho Vermelho

Cabelos loiros, lisos e que mal chegavam aos ombros. Nariz afilado e empinado. Lábios finos e rosas. Uma flor delicada. Monica tinha dezesseis anos e começava a ser uma preocupação para os pais. Filha de um poderoso industrial da Wolfstation – pequena vila inglesa – do século XIX, sua beleza aliada a sua riqueza a tornavam um objeto de intensa cobiça por parte dos homens da cidade. Galanteios de meninotes, rapazolas e mesmo dos amigos do pai nunca foram surpresa na vida da colegial. Porém a atenta Sra. Williams percebeu que a filha não mais recusava as investidas de imediato com um firme: “Não desejo um faz-de-conta burguês e ambas as nossas infelicidades”. Na sala de visitas, dava a entender que não cederia, mas já não era tão resoluta como antes. Se não se tratasse de uma moça rica, poder-se-ia pensar que Monica gostaria de prolongar os casos, quem sabe forjar um noivado, unicamente em busca de dinheiro. A Sra. Williams, como qualquer mulher madura, conhecia muito bem aquelas transformações no corpo e mente da adolescente, da menina-adulta. No entanto, sentia-se constrangida diante dos arroubos de sensualidade da criatura fervilhante que se exibia pela primeira vez debaixo de seu teto e diante dos seus olhos. Cantarolava ao espelho, perfumava-se toda. Nunca havia visto sua filha assim. Resolvera esperar até o dia do baile escolar para dar um passo além da simples observação: chamou Monica a um canto, na cozinha, enquanto assava alguns bolinhos, e pediu que não comprometesse a posição da família na alta sociedade com burlas namoradeiras. Monica sabia o que a palavra burla queria dizer.

Manteve-se afastada de bons partidos na escola; reprimiu seus sentimentos até aquela idade, em que já não era possível ocultar os batimentos acelerados e a maçã rubra das faces quando o assunto das garotas adentrava o sexo oposto. Julgava usufruir de uma vida muito mais confinada do que a das amigas, e mais recatada do que o necessário. Mas não ousava afrontar o pai. Não se sabe ao certo se planejava algo, se nutria rancor pela educação severa que recebia, porém tudo indica que o respeito que demonstrava pelo Sr. Williams não devia ser dissimulação. Acontece que toda santa alma um dia se cansa…

Há meses Monica observava, de longe e sem ser notada por nenhum dos colegas, um bando de alunos da série superior. Populares entre a juventude e malvistos pelos professores, constituíam seis ou sete bolsistas da região pobre da cidade. Não provinham de família abastada, mas freqüentavam a mesma escola da filha de Henry Williams. Este, dono de tecelagens por todo o país e bem-informado pelas amizades e pelos jornais, sabia da política acolhedora da instituição de ensino, e espumava de raiva a cada lembrete do tipo de gente que podia sentar-se às carteiras adjacentes à de seu tesourinho.

Talvez se inclinasse a lutar no parlamento por mudanças na aceitação de estudantes pobres, mas adiava a iniciativa, combinando com o advogado os argumentos perfeitos para a sessão plenária (onde pisava quando bem entendesse), além de aguardar que um célebre comerciante, conhecido seu, assumisse a cátedra de diretor, no rodízio previsto pelo regimento da escola, em apenas dois meses. Poder-se-ia dizer que o inconveniente de misturar a rebenta com uns pobretões da zona operária de Wolfstation não era de trato urgente. Enquanto isso, fazia vistas grossas até mesmo às filhotas dos outros industriais, a inculcar em Monica a idéia de comprar novos vestidinhos, tomara-que-caias, que deixavam as rapariguinhas de ombros escandalosamente desnudos, ou saiões com cortes indecentes.¹ Considerava as filhas dos outros capitalistas putas de luxo, sem exceção.

¹ A tomara-que-caia é “invenção” do século XX, mas esse conto se dispensa da obrigatoriedade de fugir de anacronismos.

Monica decidiu que se aproximaria dos bolsistas na festa do baile. Sabia que, quando muito, um ou dois valeriam a pena; os outros seriam grosseiros por saberem quem ela era – se tem uma coisa por que os sem-dinheiro zelam é o velho orgulho de classe. Não disfarçar antipatias. Não alimentar falsas esperanças de “subir na vida se casando com uma princesa ao invés de uma plebéia”. Não quando seria de cortar o coração de tão humilhante, e aquele Sr. Henry não era o tipo de pai que deixaria barato em uma entrevista eliminatória. Quando se estuda em escolas assim, além do mais, seria muito mais gratificante descontar essa frustração de berço cuspindo no chão e apontando o dedo para ricaças insinuantes.

A princesa penetra da história já desconfiava do gênio desses rapazes. Mas é provável que a cólera direcionada aos burgueses não fosse uniforme. Um ou dois poderiam pensar diferente, no íntimo. E estava cada vez mais complicado para uma loira vistosa e enfeitada de jóias hipnotizantes ao longo do pescoço, dos pulsos, das orelhas e dos dedos, quando não incrustadas nos vestidos, enfim, para uma baronesa com corpo de sereia, lidar com esses novos impulsos: a necessidade de amigos descolados das tradições, o instinto de buscar o diferente, o exótico, o rebelde. Todos têm a idade desse despertar. Ao mesmo tempo, continuar fiel às amigas. E, para isso, deveria ter alguma proeza para contar. Era a mais inexperiente do grupo, e já gerava risitos incontidos nos falatórios no departamento “homens”. Não tinha opinião formada sobre casamento, sobre o melhor estágio da vida para descobrir o marido ou o grau de liberdade que deve ser tolerado entre casais não-reconhecidos pela Igreja. Tudo veio rápido demais para essa moça. Monica quis apenas se auto-afirmar em seu grupo de amigas, não que isso implicasse em ser uma Williams maculada.

Foi no baile que, surpreendentemente, Monica, sem tomar nenhuma iniciativa, foi cortejada pelos famosos bolsistas da Wolfstation Noble School. Do mesmo jeito que costumava ser, debaixo das vistas da própria mãe, só que agora num amplo salão sem obrigações de sangue a interferir. Sorriu muito com o mais alto, aparentemente o “líder”. Respondeu todas as perguntas com inocência e temeu fazer alguma. Confirmou que era filha de Henry Williams, o famoso cidadão freqüentador número 1 do único banco da cidadezinha. Sabe-se lá o que vai fazer duas vezes por dia, religiosamente, às catorze e às dezoito horas, sempre demorando quinze minutos do lado de dentro. Assentiu também às suspeitas de que o pai era dono inclusive de termelétricas e exploradoras de carvão em Northsville, a cidade mais próxima de Wolfstation. E que aqui ele ainda era dono de uma companhia de bondes, mas adorava seus passeios de charrete. Possuía um cocheiro, três cavalos de elite e um carro pintado de ouro. Se era a tinta ou se era ouro de verdade, sobre isso não especulou. Dúvidas tão tolas as daqueles rapazes. E eles aparentavam segurança e auto-domínio quando conversavam longe de seus ouvidos, no gramado. Pessoalmente, não passavam de molecotes. Havia entre eles uma mulher, que Monica não tardou em julgar ser uma prostituta literal. Tinha aquela pinta perto dos lábios que rapidamente se associa à profissional mais antiga do mundo. E aquele sorriso de canto de boca, naquela noite de gala com um decote que fazia os gorilas do sexo oposto arfarem.

* * *

Dois dias depois de ter trajado aquele vestido vermelho de brilhantes e aquela tiara da mesma cor, com sapatos pontiagudos e de salto, além de uma pesada maquiagem, Monica e Edward, o rapaz alto do bando, já trocavam juras intensas de amor. Um amor infantil, diga-se. Nem mesmo se beijavam, só davam-se as mãos, cruzavam os braços ao caminhar, mal se tocavam. Ela já se sentia à vontade entre os bolsistas, no horário das classes. Ou melhor, nos intervalos, uma vez que as regras da distinta instituição eram rígidas e Monica tinha medo de que as fofocas viajassem alguns quilômetros até o escritório do pai.

A Sra. Williams, dotada daquele clássico sexto sentido feminino e materno, esperava a melhor ocasião para abordar a filha. Não perguntaria: “Está se encontrando com um homem às escondidas?”, mas “Qual o nome dele?”. Justo numa tardinha, quando ambas silenciavam na sala e a mãe tricotava ensaiando o discurso na cabeça, uma carruagem deu sinal à janela. Segundo consta, era o criado de Henry, dizendo que Monica devia seguir com ele até onde estava o pai. “Uma conversa no meio do expediente?”, pensou a madame. Mas se tranqüilizou ao se dar conta de que o pai também notava os pormenores da agitada vida da filha: “Vá, vá conversar com ele!”.

Era de fato o criado, mas no banco de trás estava Edward. Ele havia pagado duas libras para que o condutor enganasse a dona da mansão. Capataz muito confiável, sucumbiu à pomposa gorjeta. É um valor que um bolsista duvidosamente poderia desperdiçar pelos cantos. Monica se sentiu divina com este regalo apaixonado. Ambos foram deixados a sós em um parque, o mais espesso da região. Brincaram, rolaram pelo gramado, se enroscaram pelos troncos. E aí Monica percebeu que toda a sua etiqueta não seria suficiente contra pulsões tão selvagens. Pediu, quase tremendo, de excitação, não de pavor, que só continuasse enquanto ela consentisse. O rapaz balançou a cabeça verticalmente. Ambos se embrenharam nas matas mais altas e no canto mais afastado daquele passeio verde, e Monica tentou fazer silêncio. Quando a afoiteza de Edward já era evidente, aliás, o único que se podia notar nele, ela pediu para seu namorado parar. O garotão não podia se conter diante daquela beleza loira tão frágil e agora corrompida. O sangue, o suor, a água da garoa que caía, tudo se juntou com outro fluido. Como nas garras de alguém com quem não se pode comunicar, Monica apenas rangia os dentes, paralisada pela dor do arrependimento e da genitália azarada. Tudo estava turvo demais para reações precisas como aquelas da polida sala-de-estar de antigamente, e ela sequer soube em qual segundo as coisas tinham passado de uma brincadeira entre dois inconseqüentes para uma outra coisa, uma violação; em que momento ela própria se converteu de aventureira intrépida em vítima de estupro.

Edward a largou de bruços, esgotada, e se retirou, como se nada tivesse acontecido. Depois daquele encontro voraz, Monica regressou a pé para casa, de saltos quebrados nas mãos, trancou-se no quarto durante três dias e só aceitou duas visitas: a mãe e a criada que trazia a comida, ainda que quase não a tocasse. A par do que talvez tivesse ocorrido, desconhecendo contudo os detalhes mais ásperos, a Sra. Williams apenas consolava a filha: “Há homens que não revelam sua natureza lupina logo ao segundo encontro”. O senhor e a senhora da casa julgavam ser uma fatalidade natural, o primeiro desengano amoroso de uma garotinha, e se aliviaram por saber que a preocupação com os desordeiros do colégio e as precipitações de Monica não iriam se repetir, resolvidas ambas de uma cajadada.

O que os amigos de papai iriam dizer?”, foi a frase fixa, o fluxo neurótico que latejava na má-consciência daquela adolescente em prantos e frangalhos. Mas a experiência não fôra tão traumática, a ponto de no quarto dia o bom humor ter instantaneamente se restabelecido. Na escola, pôs as conversas com as antigas amigas, com quem rompera brevemente, em dia, chegando a uma concordata. Não contou nada a ninguém sobre “o bosque”. Na saída, Edward apareceu. Monica se limitou a fitá-lo com uma extraordinária repulsa, curvando-se em meia-circunferência, ainda abalada. Foi agarrada pelo braço esquerdo. Mas quando virou o oleoso pescoço, banhado em suor frio, não era o rosto do rapagote canalha, aquele arquétipo de Don Juan com requintes de maníaco, aquele que enxergou. Era um de seus comparsas, que defendeu o parceiro Eward: “Olha, ele achava que você era um tipo mais arrojado de garota. Ele chorou no meu ombro, disse que confundiu tudo, pensou que sua aflição fazia parte daquele momento de quebra de regras, da nova vida aflorando, de não ser mais uma menininha do papai…”. Uma bofetada na cara seria a reação mais natural, mas Monica apenas baixou ainda mais o rosto, constrangida.

* * *

Passaram-se mais duas semanas sem que ela dirigisse palavra àquela turma. Um dia antes do recesso de fim de ano, decidiu finalmente endereçar uma mensagem a Edward, ao vê-lo desacompanhado. Entregou-lhe um bilhete: “Encaminhe-se ao mesmo local do nosso primeiro encontro. Eu, Monica Williams, por ter sido manchada em meu sangue azul, dou-lhe uma segunda chance, com o ônus de que seja meu pelo resto da eternidade. Contei a meu pai sobre você.” As extremidades do corpo de Edward gelaram. Pensava vertiginosamente em todo o conteúdo do bilhete. Queria saber o que era contar ao pai sobre si, a que nível de profundidade o relato chegara. E conjeturava – se aquilo era mesmo uma proposta de casamento, quão rude não havia sido! Porém, como se esperasse por um acontecimento não muito diferente desse, pôs-se mais uma vez sereno, ajeitou a gola da camisa, pigarreou, socou uma mão na outra, suspirou, relaxou as costas e começou a andar em velocidade até uma casa, de propriedade anônima. Telefonou para a mansão Williams e disse: “Banco Wolfstation. Por favor, transmita o recado. O Sr. Williams precisa falar com o gerente de saldos, ele estará presente apenas às dezoito horas”. Era meio-dia e ele teria tempo para agir.

No reencontro, nenhum movimento suspeito, ainda que num certo breu das árvores. Pelo contrário, rumaram para a casa de Edward, onde a mãe os recebeu com pães de queijo e tagarelices amistosas. No correr da modesta reunião, mudança de planos: “Vamos nos reunir todos, os bolsistas do décimo ano, na casa de Mike”. Lá, um sobrado cinzento, a campainha tocou três vezes até que um risonho Mike desse as caras. Um teto a quatro metros de altura dos convivas, escadas em espiral, sofás fedendo a mofo. Um sítio suntuoso, embora semi-abandonado.

Onde estão os outros? – perguntou Monica.

Não haverá outros. Você está em cativeiro.

Alguém veio por trás e abafou-lhe o grito agudo com um saco grosso de algodão, que agora encobria toda sua cabeça. Monica foi levada para o sótão.

Enquanto isso, a garota soube que seu pai seria conduzido a uma cilada. O mais velho do grupo, ainda um rapaz, entretanto mais robusto e barbudo o suficiente para se passar por um respeitável representante bancário, interceptou o Sr. Williams antes que ele pisasse no banco, pelo fim da tarde. Passeavam pela cidade a quatro rodas enquanto conversavam, mas Henry percebia o tom abstrato do “sermão matemático”.

Conte-me de uma vez, furtaram o meu cofre? E onde está o Sr. Phillips?

Não, mas iremos… – respondeu o adolescente parrudo, ignorando por completo a segunda pergunta, sobre o real gerente do banco.

Henry Williams nunca havia levado um tiro. Ao ler romances e estórias de detetive sempre se indagava como seria a dor da bala perfurando a pele e a carne após disparo à queima-roupa. Era um ardor ou trauma semelhante a uma mordida brutal. A mordida de um urso, por exemplo. Foi na tíbia direita, pouco acima do osso do tornozelo. A perna inteira parecia ter sido tragada por uma fogueira. Mas fogueiras não fazem sangrar. O vermelho que grassava e se espalhava agora pelo chão da carroça mudou também o tom da dor, agora um repuxar insuportável dos músculos. O atirador puxou o homem pela camisa, imperativo: “Estamos com sua filha; se quiser que os jornais de amanhã contem o que está acontecendo na casa onde ela está, senhor industrial, não faça nada, e nos mande pra cadeia, inclusive. Não vai nos matar porque somos muitos”. “Tu…do bem.” E prosseguiu: “Nós queremos que na sua próxima visita ao banco peça ao gerente, o gerente de verdade, que aumente seu limite de transferências e deposite o lucro do ano anterior da sua tecelagem Wearing Co., que eu conheço pelas notas da imprensa, nestas quinze contas. Vai dizer que essa bala partiu de um ex-cliente furioso que não pôde identificar e que está fazendo isso para sua segurança legítima, pela integridade de seus bens e de seus familiares”. Depositou então um papelote no bolso do sobretudo daquele grisalho outrora imponente. “Não vai perguntar sobre sua filhinha, não é mesmo?… O que importa é… Bem, ela lhe será entregue assim que confirmarmos as transferências; esteja neste mesmo lugar.” Chutou-o para fora da charrete de ouro: “Esteja aqui, não chame a polícia! Nós temos tudo que a força da guarda desta cidade não tem!”. E não era mero blefe. O Sr. Williams mal se mexeu por duas horas, reclinado sobre um tronco, recusando até mesmo a assistência vespertina de uns andrajosos que passavam por perto. Até que percebeu que, pelos dizeres do malfeitor, deveria caminhar de contínuo até o banco, não longe dali, ferido como estava, para realizar o protocolo. Estava atrasado, atrasaria ao todo em mais de meia hora em relação ao combinado. Os cuidados médicos poderiam esperar.

Em torno de oito e meia da noite, com a conta da Wearing esvaziada e o referendo da matriz do banco em Londres (a soma era vultosa), chegava àquela clareira do parque público o reluzente carro do próprio Henry Williams em que um tiro havia soado, dessa vez com três capangas e Monica, toda encolhida. A filha parecia feliz e aliviada ao ver seu progenitor. Abraçaram-se, e ele perguntou:

Aconteceu alguma coisa?

Nada, papai… Claro que não houve nada!…

[ARQUIVO] A TEIA DE ESCOLHAS E DETERMINISMO NAS TEMPORADAS MAIS RECENTES DE LOST

Originalmente publicado em 11 de maio de 2009.

A despeito da atratividade da idéia de que se pode viajar para o passado, o autor dessa série escolheu o fatalismo, a irrevogabilidade das culpas: o passado refeito é exatamente o passado que havia sido feito! Um círculo histórico fechado.

Paradoxo do avô – mato meu avô quando meu pai sequer havia nascido. Mas e então? Resposta: não matei, eis o impossível. O que está no passado é imutável. Significa que qualquer viagem no tempo “já houve” nesta época para onde se viajou. Você já esteve diante do seu jovem avô, apontou-lhe a arma, a bala pegou de raspão, você voltou à máquina e quando perguntou a seu pai se o pai dele já havia sofrido um atentado à vida, ouviu falar do maluco que era você.

APLICAÇÃO NA ILHA Nunca começa, mas eis o universo. Os viajantes que “aparecem do nada” e assumem cargos. Normal do ângulo dos nativos. Ah, o Ben sabia que um avião viria a cair ali… A primeira rixa, do ângulo do Ben, entre ele e Sayid foi: “Sim, sou um assassino!” – tiros no peito. “Por que aquele homem, dos outros, me agrediu?” Sem embargo, como mostrou o desenrolar do capítulo sua memória infantil foi extirpada. Todos os “novos dharma” estarão envolvidos na questão do massacre, mas é de se pensar quantos anos ainda faltam. Mais reflexões poderão ser ensaiadas por essa mente balbuciante assim que flashes do futuro forem exibidos (Locke x Ben; Sun, a esposa do desaparecido Jin, etc.).

* * *

Originalmente publicado em 8 de junho de 2009.

A viagem nº 1 de Desmond não foi como a de todos os outros. Ele foi para o futuro, mas se estava lá não podia morrer no passado. Daniel sofreu na carne ao subestimar, com seu novo corpo, sua sina.

[ARQUIVO] SAÚDE NOS MAUS HÁBITOS

Originalmente postado em 8 de janeiro de 2010. de novembro de 2009. Atualizado em 25 de dezembro de 2023.

Excluindo-se uma piora sensível da saúde, parece concludente que não consigo suportar mais do que 5 dias sem ao menos um cigarro.

Se é verdade que o ser humano viciado tem livre-arbítrio, a escolha é entre:

– sustentá-lo;

– explodir de outras maneiras.

Como as condições vigentes não me permitem exercer as atividades de artista quando eu bem quiser (posso passar imensos períodos lidando apenas com procedimentos burocráticos), isso significa eminentemente: duelos familiares. Muitas acusações e nenhum resultado.

Portanto, sei que minha garganta se condói, e o calor é infernal, mas a carteira deve estar sempre à mão. Horas em que morar sozinho não é só ilusão de autonomia…

Ciclo semanal (esse que só eu percebo):

inviabilização do fumo principalmente na dolorosa terça-feira. Prerrogativas, prerrogativas… Canário que não sou…

De resto, parece um paliativo ao efeito Diogo. Mal-aproveitado até aqui. Fumar com música e fumar em silêncio: ambos me agradam.

Apenas não esquecer que até os doentes têm uma saída…

[ARQUIVO] HOMEM-BORRACHA hombre borracho

Originalmente postado em 4 de novembro de 2009. Retocado em 25 de dezembro de 2023.


Especialização: que papinho ridículo de porteiro semi-letrado-afilhado!

O mestre-psicólogo com bacharel em sociologia: brindado com o descrédito, o tabu, portas na cara.

Cara bonita, letra bonita.

Você vai atender os loucos? Engana-se quem pensa no anti-boêmio.


RIR & RECEBER

Salário

Já estou pago

Ora, vim ao mundo nu

Paraíso das almas de mendigo

Sou um Sócrates

Um maduro

Mas não farto

Faltam alguns

(desobrigados) partos.


Quantos alimentos minhas paredes podem suportar

Antes de dissolver com a própria comida vermífuga

(sim, porque essa carne exótica os mata, Dr. Benway!)


Rendered useless to mankind

destroy the logic volume

in the confines of the mind.

I saw tomorrow becoming today

Pântano de lixo curioso e danoso

O mundo é uma bola jocosa


7 anos debaixo dos panos

101 110 160 o quanto o motor

bitolado agüenta

gasto de folhas

cigarra fanha festa celulóide

Meu próprio enigma –

[ARQUIVO] CONSTANTINO SEVERINO, O FUMANTE

Originalmente postado em 5 de novembro de 2009. Retocado em 25 de dezembro de 2023.

Constantemente tragando através de um terceiro olho. Na verdade de uma chupeta. Bem o que uma criança deve fazer.

Mais um blasé

Música quadrada Prodigy não podia faltar

A aposta entre deus e o diabo – humano campo neutro

O olho do gato

Carros velhos retorcidos orcs

O seu destino é o meu destino?

Ele se sente tão cansado quanto eu. Apuro para essas novas coisas.

Híbridos vomitados neste mundo e o rebotalho espertalhão

O filho rebelde do filho rebelde é o santo

Que a casa transtorna

Mosc’azul blockbust’encial

Wasteland

Alguém é blasé só até conhecermos melhor? Idade dos homens-capa. Desembrulhei todos até agora.

como andar de bicicleta” – eu tenho certeza que ressuscitei num corpo novo.

the black guy

O lamacento presidiário italiano de Prison Break

Como você efetuou suas escolhas profissionais?

[ARQUIVO] PARTICIPAÇÃO EM SUBLEVAÇÕES II

Originalmente postado em 7 de janeiro de 2010.

Ah, se apenas me afetasse!

Lembro do bloqueio do trânsito (da reflexão? Modo de ficar bêbado de cara limpa.) da W3 no 1º mês do CEUB: aquela censura poderia num curto espaço de tempo redirecionar minha carreira…

Vejamos se fosse hoje e com um texto realmente meu: eu me limitaria a assistir e a agradecer àquele bando de jovens, torceria mesmo para outros se juntarem. Além do mais havia ali outra incumbência: a de “noticiar” (até “participar”!) do representante de turma… Eu via muitos burgueses, não esse tipo de playboy sujismundo artificial da UnB.

Para não discutirmos acerca de duas medidas, o que é que geraria um efeito parecido?

R: Se suprimissem a licenciatura, a-rá!

Há muita coisa pela qual eu faria isso – mas dançando…

Que aula mais monológica!

[ARQUIVO] IMPOSSÍVEL SER CLÁSSICO (no senso nietzschiano)

Originalmente postado em 2 de janeiro de 2010. Atualizado em 25 de dezembro de 2023.

Já abdiquei desse intuito nostálgico. O metal e seu caráter iconoclasta não poderiam existir sem que se estivesse “perdendo o jogo”, e os gregos não o estavam… Minha condição de duplo gauche não é por acaso. Há ainda o cigarro, as pernas fracas que não me permitem sonhar sequer com caminhadas homéricas montanha acima ou simples trilhas cachoeiras abaixo. Sou um simplório, mas um grande simplório! Não estou em busca de uma nova arte sublime, mas estou interessado tão-somente em chegar às culminâncias entrópicas do desenvolvimento de uma das mais antigas, uma bem judia… Para isso eu não preciso ser um anjo, aliás, pairar tão além do bem e do mal a ponto de subverter a ascese pela própria ascese!

[ARQUIVO] O ÓRFÃO

Originalmente postado em 30 de dezembro de 2009. Atualizado em 24 de dezembro de 2023, incluindo a revelação, via tratamento artístico, da inspiração ficcional que percorre o texto – a conhecida opressão dos saiyajins pelo monstro Freeza (o que não quer dizer que meu pai não seja um tirano) e seu melancólico final…

Querer o mal de um filho é muito mais cruel e insidioso do que desejar o mesmo para um pai? E quando essas não são as intenções declaradas, mas há a verificação desse prejuízo, de igual modo? Dolo ou culpa importa aqui? Não posso carregar o mundo nas costas!

Aquele que se volta contra quem o pôs no mundo, o lugar de onde afinal saiu, desencadeia um contra-senso fisiológico, mas se auto-golpear-se é possível e até mesmo bem razoável, essa cena trágica se mostra quase que uma regra, com regularidade na História. Há aí um despeito provocado por antecedentes, coisas que não dizem respeito ao ente desafiante. Assim parece ser com todos os homens desde Adão, a erguer a vista para os céus e indagar: “Por quê, Deus-Pai?”. Postura compreensível, se bem que o fim seja tristonho. A humanidade ainda não é forte e estabelecida o suficiente para sair do quintal de casa? Prefere ser tiranizada pelo dono do barro que a moldou? Fim da adolescência: momento de passos hesitantes, será que dá pra ir?, e se quiser voltar? Insustentável… “É terrível! Ele foi cortado em dois!” As histórias de rebeldia juvenil, escravização intra-genos/clã e tentativa de parricídio me atraem…

O sujeito que decide atacar, menospreza em demasia ou fere de fato a própria criatura que inseriu no mundo – essa é uma maldade genuinamente nascida ali, sem antecedentes, gerada numa realidade em corte, independente das situações antigas… porque aí recairíamos no problema do rabo da cobra! Que espécie de covardia louca é essa? Há mais tempo no mundo, muito mais chances de vencer! Provocar um inimigo que a gente sabe que vai derrubar. Existe algum mérito nisso? Em última instância, o filho está sempre num beco sem-saídas… a menos que haja um deus ex machina – mas se Deus é o inimigo! O ódio do filho contra o pai é sempre mais inocente, porque foi estimulado pela faísca pervertida do mais poderoso! Em nenhuma época uma classe mais alta cedeu caminho voluntariamente à mais baixa. A passagem de cetro é traumática. E se cada família, ou determinado número de famílias, for essa história do universo em microcosmo? Mas o filho não mata o pai! Ele furta o lugar do pai: “a cabeceira da mesa é minha!”. O último filho… é um sortudo ou um azarado? Às vezes o ar rabugento e despretensioso do dia a dia acaba levando à esterilidade do próprio sistema reprodutor, da própria extensão do sistema reprodutor! O egoísmo e a cegueira que fatiam inclusive o derradeiro tablete de carne, fazem respingar o último filete de sangue! Uma raça que já sofreu deveras!

Fazer mal inconscientemente não é desculpa. Parece que esse sempre foi o problema: títulos e fachadas. O mundo seria menos bárbaro se houvesse menos santos. No momento em que vem à tona o que a divindade fez… ela tem que se emendar! Se Ele resolve dissimular a tranqüilidade de um dia após o outro rumo ao infinito e não presta contas dos próprios atos, não pode haver mais mundo, senhor de que inteligência? Tombo, amargura e leito de morte. Os dinossauros se extinguiram por ambíguas imprudência e frieza glacial.

Vou narrar a história de um filho adotivo e orgulhoso de sua origem supostamente real, em algum confim do universo… Seu pai – o único de que se recorda – era um homem muito rico que odiava compartilhar as suas posses. Seu filho foi educado para construir seu próprio império a sua maneira, única forma de demonstrar seu valor e pedigree. Mas ai! O mundo muda! Se torna mais duro e impressionante, sob o preço de enfraquecer seus habitantes! O que o mais antigo fez, o novo e ainda valente já não podia! Pois cortam suas asas… O príncipe era sistematicamente humilhado pelo Rei na frente de seus humildes servos e também diante de seus asseclas, os nobres da côrte.

E sob as vistas, outrossim, dos amigos daquele. E como tais rapazes eram em parte afetados pela depreciação e pelas grosserias perpetradas pelo todo-poderoso, se solidarizavam. Assim ocorre com os mais fracos – se juntam para sofrer em bando. Foram formuladas as promessas de um destino melhor: ter, conquistar o império. E não devia haver mais impérios, aquele era o único, já englobava tudo! Para isso, o eterno empecilho teria que ser afastado! Isso era uma labuta incalculável. A muito custo, só se podia amealhar parcas migalhas… ah, mas se se era tenaz, e sangue daquele sangue… O mais perigoso era, ainda antes da idade, crer que descobriu um atalho. Não há atalhos para o Grande Poder! E nem satisfaz ser o segundo em Roma.

Foi aí que aconteceu de encontrar, em meio às peregrinações pelas províncias, um outro aventureiro-solo bastante combativo. Talvez fosse outro deserdado, a crescer longe dos auspícios do pai. Fato é que tinha muita sede de alguma coisa. O príncipe e seu bando viraram inimigos desse guerreiro e salteador anônimo. Pensando bem, tudo que esse tipo devia querer eram boas histórias para contar aos netos. E o bando principesco foi aniquilado por este inusitado personagem até o protagonista de nossa lenda se encontrar terrivelmente solitário.

Sem poder vencer seu adversário, mas tendo, em contrapartida, eliminado muitas vidas e deixado o algoz alquebrado, partiu em debandada. Orgulho ferido e, ambivalentemente, ampliado – era só cicatrizar as feridas. Tinha rompido com o pai, não pretendia mais se sujeitar aos caprichos e despotismos do Rei, mas precisava de seus médicos. Felizmente, descobriu que ele estava em viagem ao chegar ao seu palácio e, como fosse muito querido ali, dele cuidaram em segredo. O que de sua cabeça tomava conta era um misto de sensações estranhas… Do cumprimento final de seus planos à simples realização da vingança contra o último verme que se lhe opôs e o deixou nesse estado. Até que desse choque de idéias brotou uma conveniência.

Uma iluminação! Reordenar os peões, convocar os traidores, promover fissuras nas fileiras do exército paterno, torná-lo vulnerável a ameaças externas, ver o céu azul transmutar num verdadeiro caos de deposição de governo! Tudo isso graças ao forasteiro petulante! Iria pedir uma trégua. Seu sangue azul se enojava, mas era por nobre causa! Finalmente se aproximava, o dia com que tanto sonhara!

O príncipe e o forte guerreiro em farrapos e sem status, que só podia contar com a bravura, estabeleceram aliança. Um novo equilíbrio de forças era necessário para matar o Rei. Cheio de artimanhas e de astúcia, o príncipe agiu nos bastidores o quanto pôde e minou as forças da base de sustentação da Coroa de seu padrasto. O resto teria de ser em um duelo franco, mas se imaginava que um capitão resfriado já não podia com uma nau prestes a virar! Assim latejava o pulso do príncipe-escravo, à beira da planejada assinatura da alforria… Tantos anos pela frente para praticar o que quisesse, sem a “intervenção divina”!

O seu auxiliar, que com ele dividiria a vitória, não era problema para agora. Não havia espaço em seu coração mutilado pelo fado do berço! Na batalha final, o cruzamento crepuscular entre as hostes insurgentes e a cavalaria oficial, a exibição cavalar e inesperada de um poder que se mantinha latente só para enganar os jovens e os de memória desafortunada… Era assombroso o que o Rei era capaz de fazer. Depois de tantos anos, esmagaria o ingrato do filho adotivo, junto com aquela raça de depravados e taberneiros que levava consigo. A abelhinha e o enxame. Mas não podiam fazer muito mal. Eram insetos contra o “homem mais rico” – é ganancioso. A crueldade monstruosa vem sempre do mesmo lado. Do lado de quem está ganhando. E a justiça é medida em atos: quem morre merece morrer.

Por isso, meus irmãos, é que eu disse que inexistem atalhos. E o penetra plebeu não é alvo de nosso conto nuclear e de intrigas entre gerações, por isso não nos importa o que lhe aconteceu. Resta que o espectador saiba: o filho fracassou por subestimar aquele ímpeto oculto de alguém que ainda se mantém de pernas fortes e que já foi filho um dia. Na decisão, a diferença de forças flagrante paralisou os músculos do príncipe. Um ex-herdeiro angustiado, derramando suas primeiras lágrimas, em prantos, ou nem isso, pois perdeu a vontade de tudo. A marreta desce-lhe cachola abaixo. Estatelado, ainda grita encolerizado para o reino do nada o seu estribilho de oprimido. A última cólera. Que lhe estiola a alma, exaure o naco reserva de energia para soerguer-se e tentar lutar. Pouco importa. Nenhuma quantidade de esforço empregado surtiria efeito, o outro lado resistirá incólume. Esse é o superlativo da anemia e do fracasso, e da náusea, para quem lê. Uma vítima – desenhada desde os tempos antigos? A estrela não brilhou para este Édipo pela metade. Não era hora de arriscar.

Não agora, não ainda!

Por que montanhas levam milênios para se porem duras – e o caráter leva um pouco menos…

E a vida do Rei não perdeu o sentido, porque na posteridade haveria uma legião de descontentes de quem cuidar – talvez nos dois sentidos, bajular, absorver, converter, depois estar pronto para quando a cria resolver se desvencilhar, contra-atacar, arremessa-lo de encontro às pedras! –, muitos noviços e imprudentes, impacientes para tomar o lugar deste Júlio César de outras galáxias! E o hábito afia o tirano!

Consolo: no tempo apropriado, até o juízo de reis vacila, cambaleia, a justiça trai a pujança ancestral. A digestão do ódio não é imediata!

[ARQUIVO] QUE FIM VENCEU QUEM LEVOU A MOSCA NÃO SABE A SOPA

Originalmente postado em 19 de dezembro de 2009.

 

O que acontece com os irmãos? O que acontece com a namorada? O que acontece ao amigo? O agon

 

QUEM VENCEU?

 

O barroco.

 

Eu fui belo.

Espetáculo inconsciente infantil.

 

Uma estória de um vencedor? Só que podia ter tomado uns descaminhos e não ter sido assim…

Às vezes é melhor deixar sem conclusão.

Porque a morte não sabe à conclusão.

A vida não é longa, a vida é

Majestade agora

            Não tão amplo sacrifício

Esse é o auge e percebi

 

 

[ARQUIVO] DO PARADOXO DO PARTO

Originalmente publicado em 17 de dezembro de 2007. Alterado e ampliado nas datas 15 de junho de 2008 e 17 de dezembro de 2009.

I. DO PARADOXO DO PARTO

Nasceu. A criatura sem dono e cuja descendência é ainda um mistério. Promovedora da iconoclastia, cultuada ou combatido pelos homens póstumos atingirá seu objetivo final invariavelmente. Ser desgraçado, que parece não-socializado, ignora ou aparenta nada além de desdenhar toda a coação vigente. Parece ter vindo do alto da montanha. Mas sua serenidade, seu ascetismo inoculado por uma estranha empáfia, fenecem se comparados, em caráter temporário, à brutalidade de ações pontuais. Ações outras que evocam uma furiosa correnteza, que desvirtua qualquer posição emérita entre estes que, ele sim – e somente –, denomina fracos. Ele, o denominador (e destruidor), o rebento anti-civilização. A figura marginal que pouco ameaçava, agora no papel de protagonista. Todas as certezas ocidentais, se é que ainda mereceriam tal designação, de repente soltas no vácuo, se assimilam ao próprio nada em que trafegam. Cada vez mais. Os contornos dos valores erigidos em milênios ficam difusos. Confundem-se contornos de dois ou mais objetos antigamente rijos; bem como contornos conjuntamente alinhados ou contrapostos e o fundo inócuo, onde se deveriam assentar todas as justificativas…

Quem é essa criatura, potencialmente a inutilizadora futura de quem dela trata, uma vez que a linguagem corre sério risco? A encarnação niilista e quase amorfa – ainda é feita do que o conclamado saber instrumental chamaria de carne – da História do mundo, ela própria fragmentada em multimundos pede, ou exige, o tombamento de todas as ideologias. Artigos de luxo e vindouras exposições e simulacros. A forma perfeita de entender, pela abstração laboratorial, a vitória irrevogável da própria ausência de qualquer entendimento. Alguém ainda respirará abaixo dos escombros após tempo suficiente? Talvez os bárbaros sucedâneos. Mas que visão impossível é a sociedade dos bizarros, clones (mal-feitos, o que significa que a intenção original fôra cumprida) do primeiro, justamente no que constitui uma não-sociedade, o esmagamento da interação discursiva mais simplória. Um ser, na hora apropriada, rui cem por cento dos pressupostos e exibe, glorioso, a coroação do pastiche? Por quê? Que fragilidade “inauditamente projetada” houve nas estradas, cidades, portões e desertos? Tecnicamente, a presença do ser, carnudo, jamais pôde ser exposta doutro modo que não uma descrição desonesta para com a própria falta de relevância?

Ora, nasceu também o relato. Uma peça elaborada, galgada no mundo já embebido, em sua essência, pela soma das lápides. Que quer dizer então? O indizível. A alegoria da caverna de Platão tampouco melhora as coisas…

II. DOS MAIS DIVERSOS RAIOS DE LUZ QUE OFUSCAM: ECCE CIÊNCIA PRAGMÁTICA!

O fim encetou pelo primeiro cerco. Balbucios arautos da verdade. A verdade do jogo, ou seja, uma cópia eternamente imperfeita da sede, grega ou cinematográfica. Estática ou com rotações digitais. Há a intriga, cotidiana, há o combate paulatino, existe a rebelião única e também já foi visto o projeto monumental da conversão da luz exterior em nova sombra das paredes. Destas todas, o homem se dá sobretudo pior com a luz irritante, porque onipresente mas sequer intensa, dos interesses diários, entre os quais, inclusive em vida, a mínima metafísica ou teleologia é deixada de lado e os prejuízos são imprevisíveis mesmo para o mais amoral (e não falo do ser). Claro, porque – ativada a linguagem – a noção de prejuízo é forte em demasia perante os corações – ou os olhos.

III. DA SUPERAÇÃO, VIA CORPO

Cingir a realidade não é o caminho. As ganas de conhecer fora-de-si são vontade de ser pedra. Institucionalizo essa condição para a correspondente volição. As pantomimas na tal luz encontram subsídio. Desejo a experiência máxima? A verdade é real; encontra-se no corpo. A verdade não é. O verdadeiro sempre corre, conquanto não foge de alcance ao bom usufruidor. O impulso de deus sombreou. Na estalactite da caverna a dor, sem ter como alegar que para além da cruz esbarra-se com o antídoto. Deterioram-se as panacéias débeis. Questão de tempo que o entardecer ensine à carne depauperada a dialética da não-contradição: torna-te aquilo que tu és.

IV. DO INAUDITO

Somente sei que o que jorra agora é o sangue, e a gargalhada parece o correr de um rio. Não há mais pingue-pongue. É a vida embebida na imortalidade dolorosa da carne. Benévola, livre, a criatura se refestela. Já não é a verdade que se isola, que não ecoa para outro senão para si. O homem se reconciliou com seus pais: a volição e a matéria.

[ARQUIVO] OITO DE DEZEMBRO COMEÇADO DEITADO

Originalmente publicado em 8 de dezembro de 2009

Perdi o gosto por comer. Perdi o gosto por ler. Perdi o gosto por reclamar. O que acontece quando se perde o gosto até pela obrigatoriedade de cagar? Hoje parece cada vez mais nítido que é demandado que eu não leia a fim de ainda viver respeitosamente. Comer, não precisamos estar tão a fim, podemos até nos empanturrar de cara feia. Eu até acho que cheguei ao absurdo do insípido e da indiferença: tanto faz meu pai ser um tolo. O que me move adiante é a inércia da reação automática e o princípio da equivalência. O conformismo é um pragmatismo ou “o”, porque o não-cumprimento é uma implosão. Dor de estômago crônica, parte já de mim, garganta ferrada… quanto tempo até expelir pus, complicar de fato? Sobreviver também é “secundário”; a missão, outra coisa que não importa, relativamente, vem à frente. Viver o presente. A riqueza e a beleza dum momento interminável indecifrável impoetizável. E a dor muscular e aquela vontade de fenecer, nem sei se respeito minha própria fadiga, minha própria necessidade fisiológica de sexo, meu remoto interesse por remoer sonhos. Que há? Nunca vi desbotado tão colorido. É o fim-meio de uma estações. Penso também na leveza pós-opressão. Na deposição dessa carcaça chamada curso. Aliás, de vivos e mortos, e de latrinas ambulantes. Melhor do que ver que já esqueceram da minha presença é saber que eu ainda me antecipo e os supero na má educação. Resignar-se até a uma das constatações mais duras, a da ausência de um amor, rompimentos que geram rompimentos, saber que as primeiras foram as últimas e matar a esperança de fome – pra ter indícios de que ainda vale a pena, pois ninguém me sufoca. A preocupação máxima é estilística: se vocês vão gostar, se vão parar.

[ARQUIVO] O PEN-XA DO FLA: Nelson Rodrigues virado no Jiraiya

Originalmente publicado em 7 de dezembro de 2009

Jasão, versão portuguesa do nome Jason, é o herói grego que mata o tio para se sagrar o rei da Tessália e rejeita a feiticeira Medéia, por ele apaixonada, depois que esta foi a principal colaboradora da conspiração que lhe devolveu o trono. Jasão é também o primeiro marinheiro de que se tem registro na História. Audacioso e precursor, apesar de ter sido morto posteriormente devido aos ciúmes da própria Medéia (o que é que as mulheres ressentidas não são capazes de fazer?), pode-se dizer que Jasão ficou imortalizado para a humanidade, tanto é que suas façanhas ecoam ainda no terceiro milênio da era cristã (que esperamos seja o último)…

O nome de Jasão atravessou várias léguas submarinas até chegar à terra do futebol, onde batiza um clube que estabeleceu hegemonia nos torneios nacionais nos últimos anos: o São Paulo Futebol Clube. Não é um vexame ver esse elenco de argonautas em terceiro na classificação final, até porque ele repetiu a dobradinha da zaga de prata no prêmio da ESPN/Placar.

Terceira posição que aliás é o tema central de uma música dos são-paulinos¹ do Ultraje a Rigor:

Não botaram fé porque não ia dar pé

Não ia dar pé porque não botaram fé

De qualquer forma eu pego um bronze

porque eu gosto da cor

Por isso eu sempre sou

Terceiro!

¹ [P.S. 2023: Naturalmente fascistas.]

Claro que não foi o cenário ideal dos vitoriosos, nem foi tão decepcionante a ponto de um torcedor fazer piada com essa música, afinal os caras terminaram fuzilando o rebaixado Sport Recife e soterrando as esperanças do rival Palmeiras de conquistar o título (caso os dois primeiros na tabela também falhassem na última rodada). Mas colei esses versos porque eles vêm muito bem a calhar para o Seu Dunga, que ano passado levou a seleção da CBF a um “honroso” bronze olímpico!

Tirada de sarro fora de hora? Talvez… Fica o alerta, porém: quando a competição é importante e realmente ambicionada pela Amarelinha, que já ganhou quase tudo que dá para ganhar, não se tolera ser um profissional (?) conformado ou, mais precisamente, um cavalo paraguaio.

O Paraguai que, se é que esteve encarnado em um clube brasileiro em 2009, certamente foi lembrado pelo Atlético. Precisamos de mais pesquisas para saber o que se passa na cabeça da calorosa torcida do Galo – talvez eles apenas estejam com febre, há pelo menos uns 30 anos, ou tenham se entusiasmado com as facilidades do microondas para aprontar comidinha… Mas sobre os pipoqueiros eu volto a falar mais tarde!

Jason, Freddy… O campeonato está cheio de bizarrices saídas de um halloween que ainda não terminou… E as cartas marcadas que tentaram roubar um pouco da luz dessas criaturas cinematográficas? Washington, ex-Fluminense, fez 5 gols nos últimos 2 jogos, bem mais que seu colega de profissão Fred Flueger. Quem é melhor? Pergunta que ofende quem está sem paciência (eu o tempo todo). Talvez para os entendidos e que não agüentam mais floreios, é mais sensato questionar: afinal, o Washington joga bola ou não joga? Assim, seco e de primeira (como uma boa assistência ou toquinho à la Romário direto para as redes), sem comparações exageradas…

(Ligeiro tempo para pensar numa resposta. Mas tem que ser mais ligeiro que o Magno Alves no auge!)

Independentemente da sua resposta, o sujeito grandão e desengonçado que desagrada uns e outros mas que guarda lá os seus já tem uma nova meta a perseguir nos seus anos finais… Foi contrato pelo São Paulo para 2010. E o SPFC caiu no grupo do Once Caldas, seu carrasco de 2004, na Libertadores da América de 2010: Once Caldas, once goles?


EXTRA! EXTRA! KLÉBER TIRA PALMEIRAS DA LIBERTADORES!

E a Mancha Verde já está correndo atrás dele para agredi-lo. Belluzzo é um dos marginais que grita palavras de ordem com um pau na mão.


Por falar no time que estava verde demais para atingir qualquer objetivo nesse campeonato, estou começando a comprovar minha antiga “teoria da camisa trocada”: se os mesmos jogadores atuarem com uma camisa mais “campeã”, renderão mais, terão tranqüilidade e não peidarão na farofa – já imaginou o Obina com a camisa do São Paulo? Não é à toa que disseram que o casaco da S.E. Palmeiras ficava muito frouxo no Muricy…

Se o Muricy Ramalho terminou o campeonato pianinho depois de vomitar [verd]ad[es] cegas sobre a imprensa e se o Vanderlei não foi menos fracassado e suas entrevistas acabaram ainda mais vazias de conteúdo (futebolístico não-publicitário)¹ do que de costume, será que pode baixar a baixada do santo do professor arrogante no Mário Sérgio (de modo mais simples: baixar o santo… da humildade… só cuidado para não se embananar e acabar rebaixando o Santos)?

¹ [P.S. 2023: É fantástico, quimérico e mitológico que essa criatura tenha continuado a habitar o folclore tupiniquim NESTE ANO em que escrevo esta nota! Sempre tem espaço para um boi-tatá, para um Joel Santana, gordo ou magro, casual ou de terno, no nosso futebol…]

No Santos (falando no diabo entre parênteses): nova idade média (e não falo de um levantamento etário do elenco)? O sujeito do terninho mais perdeu do que ganhou na Vila ou foi impressão minha? O time da Baixada (rs) se sustém na Série A com base em um ********¹ que aparece a cada 3 décadas?² De volta ao marasmo não-competitivo?

¹ [P.S. 2023: Usei um vocábulo que em 14 anos se tornou racista, mesmo quando não aplicado a um indivíduo não-branco.]

² [P.S. 2023: Duas, se contarmos com o Neymídia.]

* * *

Imprensa: ímpia.

Os comentaristas da ESPN me lembram o homem machista: assim como este diz “Mas nem todo homem…”, as Oddities do canal enchem o peito para falar “Mas nem toda a mídia… o que é ‘a mídia’? Informação é nosso esp… e blá-blá-blá”.

Já, já complemento o juízo tão breve (ímpia).

* * *

Tu és… time de armação

Mala, horror e extorsão

Rouba, Mengo!

Só uma brincadeira de um cara que já ouviu muita farra de flamenguista de ontem pra hoje, mas que reconhece, sim, o título conquistado dentro de campo – seja hexa, penta ou o que for que este caneco represente… A CBF não sabe da própria seleção, vai saber contar título de clube?!

Para ilustrar o que 17 anos não fazem com um time, e o quanto o São Paulo está “acostumado” aos títulos e o Clube de Regatas não está, vale a cena na sala de estar da casa de são-paulinos onde vi o jogo final, que contava com um intruso: o torcedor rubro-negro não sabia o que fazer diante da tela; do outro lado da membrana o Maracanã em polvorosa. Depois de nos mandar, a todos, “chupar” (sem o complemento apropriado),¹ se prostrou no sofá, ameaçou beijar o escudo, continuou olhando o entorno de olhos marejados… Ficha em queda livre… Tentamos resgatar nosso amigo “perdido no tempo e no espaço”, com a piadinha do bem-sucedido a longo prazo: “Bacana, né? Você vai ver que esse negócio de ser campeão do Brasil na era dos pontos corridos nem é tão difícil quando chegar no terceiro”.² Bem-vindos ao clube, rubro-negros! (e o Inter, tri-vice, sempre bate à porta, e ninguém deixa entrar… o corinthiano se mantém com um trabuco e uma liminar…³ o santista com um pôster do Robinho… o cruzeirense com um do Alex…)

¹ [P.S. 2023: Um canavial de rola.]

² [P.S. 2023: Malditas palavras proféticas!]

³ [P.S. 2023: Palavras suicidas e cruéis, vindas dum futuro convertido ao corinthianismo!]

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Sou tricolor de coração

Sou do clube tantas vezes campeão

Esse hino me comove há anos (coisa de irmandade tricolor?), mas reprimia isso, especialmente ano passado, conforme alguns argonautas americanos lembrarão…¹

P.S. 2023: Eu comecei essa crônica citando o argonauta da mitologia grega Jasão, mas a referência aqui é a outra crônica, O VICE-CAMPEONATO MAIS ARDIDO DE TODOS OS TEMPOS, publicada no primeiro volume do meu livro Cila ou Caribde, que você pode ler gratuitamente no Seclusão: https://seclusao.art.blog/2021/07/11/o-vice-campeonato-mais-ardido-de-todos-os-tempos/. O assunto, ali, era o tropeço homérico do Fluminense Foot-ball Club diante da LDU… Este 2023 está realmente revirando as coisas, quando não confirma tendências: o Internacional de Porto Alegre segue sendo o time grande há mais tempo sem levantar um caneco nacional, mais anos até que o pobre Botafogo… que está desfalecendo neste momento em que redijo… de forma ainda mais vergonhosa e contundente que o Palmeiras 2009 e que o São Paulo 2020/2021… “Diniz, de 45 anos, chega ao São Paulo um mês depois de ter sido demitido do Fluminense, que ele deixou na zona de rebaixamento.” – trecho de uma antiga reportagem da ESPN Brasil, de 2019… As voltas que o mundo dá… Autodemonstrando que não é plano. Lembre-se: ainda na flat earth dos negacionistas, a única certeza em termos de futebol brasileiro é a seguinte: o plano é não ter planos, quem tem plano acaba afundando… Longa nota de rodapé, certo, rapaziada? Só faltou falar que isso de “reprimir” no futebol é uma coisa muito comum… quando se trata dos meus próprios sentimentos, ao menos… Em 2008 eu odiava mortalmente o Fluminense… Em 2009 fui-lhe simpático… Por décadas confundi amor pelo Corinthians com ódio e desprezo]

* * *

Como prometido, de volta à imprensa: alguns figurões já amanheceram dando uma bronca nos “chorões” que não souberam reconhecer os méritos flamenguistas na temporada. “O título do Flamengo é autêntico.” Tudo bem que seja – mas se é legítimo, não é porque babacas microfonados como o Calçade resolveram ratificar. Afinal, a mídia DEVE ratificar o título do campeão, seja ele quem for, caso contrário as ruas serão tomadas por vândalos como os de Curitiba.¹ Exemplo máximo é o de 2005: hoje os jornalistas mais corajosos até admitem a farsa corintianesca, mas na época era um imperativo ético colocar aquele “primeiro lugar” acima de qualquer suspeita!² Não acredite nos jornalistas. Acredite no bom senso. E lembre-se: se quiser vida fácil, saiba que esta é uma “carreira” que não necessita de diploma…³

¹ [P.S. 2023: Sempre os de Curitiba, já notaram?]

² [P.S. 2023: Ao meu eu do passado e a quem ainda não aceitou, só posso dizer: PÕE NO DVD!]

³ [P.S. 2023: Para quem não sabe, já fui jornalista esportivo. Abandonei o curso 2 anos e 3 experiências em veículos de imprensa depois de “ingressar nessa vida”. Pouquíssimo tempo depois, quando eu cursava o 2º ou o 3º semestre de sociologia, foi divulgado que o diploma de comunicação social tinha deixado de ser obrigatório para profissionais da área. Houve muitos protestos de alunos e certa resistência dos próprios jornais, que permanece até hoje, tornando a não-obrigação, na prática, nula.]

O pau quebrou lá no sul, e aqueles 10 minutos de “mídia passando o que a mídia quer coibir” (atos de violência brutal – nunca entendi essa lógica!) foram melhores que os 90 minutos de qualquer partida da 38ª rodada!

Agora imagina só uma humilhação parecida no Centenário do Corinthians! Se num ano comum eles já fizeram três vezes pior no Morumbi (massacre do River, eliminação na Libertadores) que os gorduchos sulinos do Couto Pereira ontem, quem dirá o que pode acontecer se o freio de mão puxado pelo Mano (das quebrada”) não for desativado a tempo para o ano que vem? Cuidado!¹

¹ [P.S. 2023: Estou batizado, Rafael do passado! E estamos de novo com o Mano Menezes, trafegando perto da zona – sem aflição e desespero! É o que tem pra hoje.]

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Para fechar: Pernambuco: por um dia (ou por um ano), pior que o Maranhão? Os pernambucanos estão na mesma ressaca do Imperador, que não foi buscar sua Bola de Ouro no programa da ESPN, adivinha por quê…¹

¹ [P.S. 2023: Não lembro o motivo de alguns desses trocadilhos por trás dos nomes dos estados, mas nós já tivemos muitos Juninhos Pernambucanos e jogadores com “apodo” Maranhão, então suponho que se referia a algo nessa linha. Já Adriano o Imperador… que sabemos que não estava na cidade de Imperatriz-MA… esse comemorou bastante o título do pen-xa do Fla – muita cachaça na cabeça!]

[ARQUIVO] O MESSIAS & O HOMEM RURAL: Uma novela pós-apocalíptica.

Originalmente publicado em 3 de dezembro de 2009. 

Não foi preciso uma legião de bombas atômicas. O Estado nos abandonou. Polícia? Se não pagam impostos, são menos que lixo! O modelo de organização do Ocidente, uma vez adotado na China, o velho reacionarismo europeu… Tudo isso prejudicou ainda mais a situação americana. Não existem informações sobre a África. O número de pessoas impossível, a desertificação… A inflação… Ninguém mais tinha carteira assinada ou dinheiro para bens industriais. É uma escravidão sem senhor… Conseguem comida aqueles que dispõem de cavalos… Em uma antiga capital de país de terceiro mundo faz muito calor – e ainda tentam dar sentido e dignidade à existência.

Se há algo que não decaiu é o volume de arquivos. Toda a literatura está lá, embora envolta em pó e de utilidade duvidosa. O onanismo é o último remédio. Alguns foram viver entre os bichos. Há insistentes que se organizam em células de autossuficiência. Uma delas, localizada da forma mais ordinária, chama a atenção das chaminés, nuvens ácidas e do intenso sol. Não há nada que seja ilegal, embora a ausência de leis tenha findado a distinção. Alguém de alma jovem ainda caça novos valores. O que é um valor? No mundo sem mídia sequer se propaga o ideal do amor… Que animal político tem um intento, sórdido que seja? Esta é uma história que nenhum almanaque poderia conter… Seu registro estará apenas na brasa do fogo de um neo-Prometeu qualquer, que remeta à condição uma vez humana. De uma vez por todas chegou o ano (206X? A contagem tornou-se imprecisa.) da responsabilidade. Esta coisa estorvada que sempre pairou um pouco acima do solo sem sentir o seco, sem oprimir ninguém. Uma ventura sem rebanho! É demandado fazer-se deus.

Mostrar-se-á a degradação em pormenores e também o momento culminante da guerra dos indivíduos… Quando o exército de desabrigados, caravana ou bandeirantes da desolação, surge para implodir o que já estava semi-soterrado: a propriedade privada. Em busca de valores, cada um se apegava a seus apartamentos – ou ao que deles sobrou… As intempéries são piores à noite, mas não tem um indizível sabor achar-se o último, desobrigado de tudo e por isso mesmo soberano? Tempo é de incerteza e amor à vida. Este momento não tem comparação: somente é igual a ele mesmo…


Esboço de capítulos

O primeiro sábio sem nome

O artista supremo

A vida como ela é!

Todos os males vêm para o bem… Porque os males vêm para e por si mesmos.

Ulisses nunca termina de viajar, eis apenas um episódio…

Penélope Charmosa, rainha da costura

Diretrizes para a imortalidade…


RE-ESCRAVIZAÇÃO DOS FRACOS (que são os fortes de hoje)

Nada de ágoras ou interrupção da hereditariedade. Porém é certo que “pai” será apenas associação afetiva bem posterior ao nascimento, porque origem genética e fidelidade do casal são impossíveis de se verificar como padrão. Uma espécie de fluxo incessante entre transeuntes de povoação em povoação.

Valorização da sorte e das infinitas ou múltiplas alternativas. Não existem leis, todos criam e destroem e têm qualidades diferentes – e um poderio, em variável absoluta, quiçá maior porém sempre temporário e revogável.

Interiorização da ética artística, fusão de ética e estética, cristãos mantidos sob controle, embora se cace adeptos e se expurgue os indolentes que porventura nascerem entre os poderosos. GRANDES COMPETIÇÕES E EXPEDIÇÕES!

[ARQUIVO] O INCOMUNICÁVEL

Publicado originalmente em 1º de dezembro de 2009.

Um dia de saldo zero que vai ficar para mim. Quatro cigarros fumados, um não achado. Pingos e pingos e pingos. Aquela chuva capaz de humilhar um homem, pois é fraca demais para que se seja visto de guarda-chuva em punho, mas é irritante o suficiente para afundar o moral, molhar os papéis em embaçar a vista de um míope. Do que me servem os papéis, se sempre tenho de refazê-los? Eu sou o homem-projeto, tudo o que eu não tenho é um projeto. Estou sempre em primeiro, mas isso parece ser estar em último. Estou sem identidade. Talvez devesse ficar assim.

Eu gosto de estar com febre (a febre do ânimo).

Férias?

No dia em que a hesitação oral se me escapou, em que me senti professor pela primeira vez, vi meu sonho chafurdar com pancadas insolentes, num recinto fechado, escuro e úmido, no subsolo de um campus semi-abandonado. Greve de fome para contornar as caganeiras. O que para mim é o impossível e inconcretizável, mistério, interrogação, loucura e crepúsculo feliz de um menino doente, é para os outros a obrigação sem gosto, ou o facilmente evitável, suplantável, por novas metas. O “pesadelo” deles é o meu sonho. Qualquer um pode sonhar com Freddy Krueger, cometer pecados e ir para o inferno. Mas o eldorado, o eldorado terreno que eu escolhi, esse é meu além. O dia em que eu morrerei de fome, farei trabalho braçal ou escorrerá sangue do meu peito, e eu estatelado na quina daquela passarela como um Vincent conformado, esse dia há de ser um dos meus milhares. Só mais uma sessão de jazz mortífero de um precoce guitarrista dos limites da distorção…

Todo começo de mês parece excepcional…

[ARQUIVO] OS NATUREBAS E OS DIGITAIS: L’ART, O PORNÔ, O GAUCHE E O BLASÉ… O que ser?

Publicado originalmente em 19 de novembro de 2009.

Me divido atualmente entre dois grandes vícios. Quis dizer: a humanidade se divide atualmente em duas grandes necessidades: atender à demanda irresistível pelo novo, diferente e mais bem-acabado tecnologicamente, ampliando o abraço orgiástico de todos com todos na malha digital; manter a fisiologia sã nos imprescindíveis momentos de (auto-)desligamento (desse gigante mecânico-biótipo, maníaco-depressivo, ambivalente, dentro e fora de nós), com práticas contraditórias como fumar, beber, repousar, contemplar, dançar, dissipar ou simplesmente se esconder. O perfeito blasé se acha um idiota no espelho. A crise do palhaço, começar o discurso (de que se vai arrepender depois), é intrínseca a esse comportamento, uma reação ao embotamento das sensações. À superexcitação, a máquina sofre solavancos que sabemos não serem fatais, embora desgastantes e, retroativamente falando, “evitáveis”.

Ou correto – ou impossível – está em idealizar o natural ou o digital? Em contra-atacar improficuamente com a alopatia ou a homeopatia? É sempre ineficaz. Mas ainda assim, somos artilheiros. Atacar com o quê? Isolar-se e adoecer encolhido diante do verme familial, tentando tecer um futuro finalmente não-monótono nem embaraçoso (de quantas drogas fazemos uso sem sequer nos darmos conta?)? Não dar atenção a ninguém – mas contar com o melindre embutido de que eles também o apagaram do mapa. Ou ter possibilidades, só que completamente amarradas pelo exército com ilimitadas reposições das pessoinhas? Desativado ou excessivamente ligado? Não se destrói afetos, mas é preferível concentrá-los diante dos punhos ou insistir em pisar em baratas? De qualquer jeito, com este arranjo, somos sempre abertos apesar de sermos entrópicos. Ninguém nunca sabe com quem vai topar amanhã na calçada enquanto divagava de cabeça baixa. Desgoverno como chance de governo? E a intolerância pesa no momento em que a troca seria o mais válido. Dar. Cooptar? O que levar aos olhos? O que chega aos meus ouvidos? Tateio alguma coisa.

Em suma, não preciso de tantas perguntas. Tendo perdido um bocado de viagens, efetuado várias recapitulações, saldo – finjamos – meio que zerado… Embarcar ou não?

Nossa alma é grande e cabe um pouco de tudo. Até um meio-termo.

[ARQUIVO] 15 MINUTOS DE FAMA (DOS NINFOMANÍACOS DA UNB)

Publicado originalmente em 18 de novembro de 2009.

Abaixei as calças, deixei-me fotografar, tornei-me uma celebridade. A vida andava meio… entediante. Mas salvei o dia! Amanhã eu penso em outra traquinagem boa o suficiente para interessar a um jornalista. Tarefa essa cada vez mais capciosa, uma vez que os jovens estão “botando pra quebrar”. E há jovens de todas as idades…¹

Terei eu logrado a eternidade, com um pequeno espaço no pior papel do mundo (aquele que desmancha quando chove)? Me impressiona as pessoas ainda terem olhos para penetrar nesse preto borrado depois de três séculos! (Me refiro aos jornais.) Borrado por borrado, prefiro pagar para lerem meu destino no fundo da xícara de café.

E não somos uns carolas reacionários puritanos? Até aqueles à flor da pele acham histriônica a idéia da nudez. Uns ridículos de reitoria desfazendo os anos 60…

Pergunta: por que só tem mulher horrorosa nesses “atos”? (Sobre o ATO – como vulgarizar peças de teATrO: chamando o burburinho dos rebeldes sem-causa de AÇÃO. Muito fácil ser ator!)¹

Unindo o útil ao agradável: quem luta pensa que “sofre pelos outros”. Sofrendo estou eu, nesse calor, com vontade de tirar a roupa mas guardando lá minha dignidade e inocência – quando fico pelado, não é para causar sensação, mas para lembrar que ainda sou gente.

¹ P.S. Essa crítica a um protesto cujo motivo agora me escapa (provando que não possuía qualquer importância, além de errarem no método), realizado no Minhocão por estudantes da UnB à época, contando com nudismo e striptease, quando circulei o manuscrito pela sala de aula, fez até com que uma senhora de 60 e poucos anos do curso de ciências sociais – que declarou seu amor ao professor de Teorias Sociológicas Contemporâneas no meio da aula da dita matéria!a –, minha veterana, parasse de falar comigo pelo restante do semestre (na prática, para sempre), sem sequer explicar seus motivos (me deixando 3 dias no escuro sobre a bizarrice de seu súbito mutismo após eu lhe haver perguntado, na fila da cantina, sobre os ingredientes de um salgado que estava na estufa, e ela se recusar a me responder, fitando-me o tempo todo!). Obs.: Eu não sabia que ela tinha participado do ato, daí minha sincera surpresa – ter acertado o cuco com uma paulada aleatória! A referência a “jovens de todas as idades” no fim do 1º parágrafo não procurava provocar ninguém em específico, já que havia outras pessoas mais velhas no ato.

a Em conseqüência dessa anedota um tanto engraçada que não tinha por que estar neste artigo ou panfleto satírico, ouvi o fora mais patético e despropositado de toda a minha vida, por isso o registro é mais do que merecido! Ao ouvir da aluna “experiente” que ela queria que ele fosse seu namorado, o ranzinza e estrambótico professor de Teorias Sociológicas Contemporâneas, de quem omito a identidade para não constrangê-lo no pudico e cerimonioso ambiente da Academia perante seus pares que tudo ouvem e tudo vêem (num departamento de Universidade, todos aqueles que se bicam têm sentidos anormalmente agudos para esse tipo de fofoca mesquinha a fim de arruinar reputações do dia para a noite e beliscar algum cargo ou, enfim, apenas rir da mancha no Lattes do desafeto!), assim se dirigiu à pretendente: “Isto não está posto!”, e seguiu dando sua (insossa) aula. Terá sido um pretexto para ensiná-la em privado sobre fenomenologia husserliana?! Os patronos da sociologia, onde quer que estejam, saberão – e ninguém mais!

[ARQUIVO] “EXISTENCIALISMO AOS 7” – AS ABELHAS, OS HOMENS E A ESPINHA METAFÍSICA

Publicado originalmente em 20 de outubro de 2009. Revisado.

Hoje minha mãe me apresentou uma pequena reflexão minha – de quando eu nem sabia o que era reflexão, e leria a palavra sexo como se lê “seixo” – na altura da 1ª série, sobre a vida. Apresentar-me é bem o termo, já que a gente se esquece com facilidade. Talvez tenha sido o passo inicial desta minha verve literária; impossível saber, mas é o que a arqueologia nos permite resgatar. Dizia mais ou menos assim: “Vida – Eu tenho 7 anos, meu irmão mais velho tem 14 anos, uns são mais novos, outros mais velhos, e assim a vida vai… A mulher mais velha tem 124 anos, a criança quando sai da barriga da mãe é a pessoa mais nova e tem 1 segundo”. Deve ser a segunda vez em período recente que minha mãe remexe em suas caixas repletas de recordações e vem me mostrar – como eu disse, a gente esquece, até as coisas de ontem –, não só esse tipo de protofilosofia como cartõezinhos de dia das mães e meus dentes-de-leite…

Não parece estranho que nossa vida comece aos 7? O que é o primeiro segundo? Talvez condiga em importância com os seis primeiros anos inteiros, a infância clássica. Que ela deve haver, disso não há dúvida. Que hoje reproduzimos aqueles sonhos, ou melhor, rememoramos o grande sonho, ainda mais certo. Os anos de jardim de infância são inconscientes. O pediatra moderno é um fraco. A força da criança reside na impossibilidade de abraçá-la no humano – ela é tão autêntica como um inseto. Azar dos homens, que hoje são menos do que insetos… Uma mosca ou uma abelha, por mais filosóficas que sejam, não possuem uma morte impactante. Seu pathos voador passa fulminante. Um cisco de poder que facilmente perde a autonomia. Uma palma da mão enfezada transforma uma perspectiva no zero, puro tecido em decomposição, nada de drama em câmera lenta. Considerar a infância sagrada é já um sinal… O bom velho é o menino…

A dor ou o prazer, seu antípoda o anestésico, nada representam para o precoce. O importante é seu reflexo no consciente mais tarde. O trauma torna-se desumano e criminoso quando a história do indivíduo realmente começa e ele toma suas escolhas baseado naquilo que ele nunca foi, a fim de ser o que é agora! O inconsciente. O inconsciente e a abelha verde. Esses foram meus principais amigos dos meus anos pré-existenciais. Talvez fossem as duas únicas entidades conhecidas! Todas as vezes que ia brincar no parquinho da escola, perto da gangorra ou do carrossel, ou da amarelinha pintada no chão, eu via uma abelha verde. Ela batia as asas como um beija-flor, deixava um rastro para meu olho incompetente adivinhar o que seria. Um bicho que nunca se cansa; e as abelhas verdes estão sempre no mesmo lugar. Aqui em Brasília posso encontrar diversas delas. Todas as vezes cruzo com uma, na ida e na volta, desde que faço o caminho para a Universidade. Retorno. Àquele tempo eu sabia – premeditava com bastante frieza – que chegaria o dia (utópico?) em que essa abelha seria o tema de um texto. Quem sabe não é a mesma abelha? Qual é a magnânima resistência de um ser vivo desses? Se a persistência com que se sustém no ar for a mesma com que enfrenta cada primavera… Ah, claro: primavera, época de flores (embora as estações não sejam bem-definidas no Cerrado), ela aparece bem mais. Parece que, para uma abelha, 50 dias são 50 anos. Elas começam a viver no 7º dia também? Não, a abelha não se perde como o homem…

Na nossa Odisséia, o significativo é a volta. A guerra o tornou herói, mas parece que não foi você. Está na hora de protagonizar de fato o roteiro. Hoje tenho o triplo daquela idade (1995-2009). [Hoje, que retranscrevo minhas palavras de 2009, o quíntuplo da idade!] O quanto o número 14 é emblemático para mim? [Intervalo 2009-2023] O quanto eu desejaria viver 1[2]4 anos? A escola parece eterna. A substância cotidiana permanece intacta. Imaculada rotina, transfigurada em novo linguajar. Consciente. Dolorosa. Mas sensível. Sempre pensei no meu inconsciente como um deus caprichoso. Direitos Humanos se preocupando com a saúde divina, quanta perda de tempo! Não é que não se deva mexer com crianças porque elas são sagradas; tabus mundanos… O sagrado é imexível, os costumes só existem para ser quebrados. Invertendo o axioma, elas são sagradas, daí que não seja possível a mediação humana. Atena não poderia ser prejudicada por Ulisses. Tolices!

A jogatina de dados de Deus deu no que deu(s)! Mortes inconscientes são não-mortes. 0 a 5 anos, latência. Esquecimento, imprescindível ferramenta. O fundamento do mundo é coisa para ficar debaixo do tapete. Aí inventarão as câmeras; e monitorarão todos os passos. Aí partirão numa máquina do tempo, só para testemunhar o 1º momento. Que revelação, voltar e pisar… na mesma sala! A vida é a máquina do tempo… Você foi primeiro, antes disso foi só o que seu consciente ainda não conscientizou e vai pegar de empréstimo – só para ter o gosto sem-fim de esquecer.

Abelhas não saem na chuva. A chuva dissipa os pensamentos. Sol sim; trovão não (o cachorro late ao raio – sabedoria ancestral?). Tenho a soberana impressão de que os céus são a extensão do meu estômago. Lubrificação aquosa. Palavras são águas… amanhã… Uma idéia que escapa é só uma idéia que ainda não estava pronta… O mais importante é a trama. Homo somnambuli? Non sapiens? A trama acaba como a teia de uma aranha de um recinto reaberto e devidamente higienizado…

Assinado,

A Mosca Filosófica