SER E TEMPO – Heidegger (trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback, Ed. Universitária São Francisco)

15ª edição, 2005, Vozes.

APRESENTAÇÃO – Emmnauel Carneiro Leão

Não tanto o rigor sistemático como, sobretudo, o caráter provocador do questionamento fizeram da questão de Ser e Tempo o maior desafio para o pensar do séc. XX. Em ritmo revolucionário, Ser e Tempo se pôs à altura da Fenomenologia do Espírito (…) e do Zaratustra (…)”

tudo é pensável a não ser a condição de possibilidade da própria representação.” Emulação simples de Schopenhauer

Para o pensamento não há lugar preenchido num tempo ocupado.”

Esta imersão nos proporciona, a cada passo, a experiência de sentir a impossibilidade de falar e dizer o que é o ser.”

ainda não chegamos ao <coração intrépido do des-velamento da circularidade perfeita>”

viagem de retraimento de um horizonte que, longe de nos repelir, nos atrai e arrasta.”

atravessar o esquematismo” atravessar o pântano hegeliano!

As peculiaridades e estranhezas da linguagem de Ser e Tempo não provêm de idiossincrasias do autor. São exigências e imposições da própria viagem da questão, pelas vias das línguas.” “A tradução brasileira de Márcia Sá Cavalcanti se sobrecarrega das dificuldades inerentes ao estágio atual da língua portuguesa.” “Sem um mínimo de respeito, sem o menor esforço de naturalização, transplantam-se as palavras técnicas, os termos científicos, as siglas publicitárias das línguas exportadoras de bens, serviços e invenções para as línguas importadoras. … e em conseqüência se esvai a vitalidade no falar e dizer” “O português ainda não explorou nem desenvolveu o suficiente os recursos de seu espírito criador com tentativas renovadas de pensamento filosófico, poético ou inventivo. Por isso não tem [sequer] muita tradição de fracasso na vida do pensamento. E, sem fracasso em tentativas de dizer e escutar o gênio da linguagem nas aventuras do discurso, não se aprende nem a pensar o não-dito da fala e do silêncio, nem a esperar o inesperado nas esperas e esperanças de um povo empenhado pela identidade” Bela prosa cacofônico-poética!

o silêncio do sentido (…) nada criativo” Na verdade o prefaciador perdeu uma excepcional oportunidade: calar-se.

OBSERVAÇÃO PRELIMINAR À 7ª EDIÇÃO, 1953 (25 anos depois…)

O que pode querer dizer um livro inacabado que foi desistido de ser acabado? Heidegger desacredita de sua própria obra ou tinha forçosamente de ser assim, desde o momento mais originário?

remete-se à [He.] Introdução à metafísica

* * *

Será que hoje temos uma resposta para a pergunta sobre o que queremos dizer com a palavra <ente> [coisa]? De forma alguma.”

Será que hoje estamos em aporia por não compreendermos a expressão <ser>? De forma alguma.”

A elaboração concreta da questão sobre o sentido do <ser> é o propósito do presente tratado. A interpretação do tempo como horizonte possível de toda e qualquer compreensão do ser em geral é sua meta provisória.” O leitor está avisado: propor-se-á a questão, sem qualquer rudimento seguro de resposta. Num longo e denso tratado. Ao menos eu o “encolhi” nesta seleção dos trechos fundamentais (explicados e criticados)!

EXPOSIÇÃO DA QUESTÃO SOBRE O SENTIDO DO SER [INTRODUÇÃO]

1. NECESSIDADE, ESTRUTURA E PRIMADO DA QUESTÃO DO SER

O que Aristóteles e Platão conquistaram manteve-se, em muitas distorções e <recauchutagens>, até a Lógica de Hegel. E o que se arrancou aos fenômenos encontra-se trivializado.”

evidência meridiana”

Illud, quod primo cadit sub apprehensione, est ens, cuius intellectus includitur in omnibus, quaecumque quis apprehendit.” Tomás de Aquino

Uma compreensão do ser já está sempre incluída em tudo que se apreende na coisa.”

Unidade da analogia: com essa descoberta, Aristóteles colocou numa base nova o problema do ser, apesar de toda dependência da questão ontológica de Platão. No entanto, ele também não esclareceu a obscuridade desses nexos categoriais. A ontologia medieval discutiu variadamente o problema, sobretudo nas escolas tomista e escotista, sem, no entanto, chegar a uma clareza de princípio. E quando, por fim, Hegel determina o <ser> como o <imediato indeterminado> e coloca essa determinação à base de todas as ulteriores explicações categoriais de sua Lógica, ele ainda permanece na mesma direção da antiga ontologia com a diferença de que abandona o problema já colocado por Aristóteles da unidade do ser face à variedade multiforme das <categorias> reais. Quando se diz, portanto, que o <ser> é o conceito mais universal, isso não pode significar que o conceito de ser seja o mais claro

de fato, o <ser> não pode ser concebido como ente; enti non additur aliqua natura: o <ser> não pode ser determinado acrescentando-lhe um ente. [alternativamente: o ente não acrescenta à compreensão da natureza]Aqui, ente = essência, em si, já dado. Por isso a construção heideggeriana famosa é ser-do-ente, sujeito-implícito-inerente-ao-objeto, e não um absurdo ente-do-ser, posto que o sujeito é uma irredutível.

A impossibilidade de se definir o ser [afirmada por Pascal] não dispensa a questão de seu sentido, ao contrário, justamente por isso a exige.” Questionável.

essa compreensão comum demonstra apenas a incompreensão.”

um enigma já está sempre inserido a priori em todo ater-se e ser para o ente enquanto ente.”

O <evidente> deve ser e permanecer o tema explícito da analítica (<o ofício dos filósofos>).”

Repetir a questão do ser significa, pois, elaborar primeiro, de maneira suficiente, a colocação da questão.”

Questionar é procurar cientemente o ente naquilo que ele é e como ele é. A procura ciente pode transformar-se em <investigação> se o que se questiona for determinado de maneira libertadora.”

Todo questionamento de… é, de algum modo, um interrogatório acerca de…”

tornar transparente” “orientação prévia”

nós nos mantemos numa compreensão do <é>, sem que possamos fixar conceitualmente o que significa esse <é>.”

mero conhecimento verbal”

O que é o inessencial da essência?

O ser-dos-entes não <é> em si mesmo um outro ente.

modo próprio de demonstração”

Na medida em que o ser constitui o questionado e ser diz sempre ser-de-um-ente, o que resulta como interrogado na questão do ser é o próprio ente. Este é como que interrogado em seu ser. (…) o ente já deve se ter feito acessível antes, tal como é em si mesmo.”

Em qual dos entes deve-se ler o sentido do ser? De que ente deve partir a saída para o ser? O ponto de partida é arbitrário ou será que um determinado ente possui primazia na elaboração da questão do ser? Qual é este ente exemplar e em que sentido possui ele uma primazia?”

E qual é o ser-do-sentido? De que adianta portanto apurar o sentido de algo obscuro sempiterno?

Esse ente que cada um de nós somos [se o ser fosse uma mera coisa…] e que, entre outras, possui em seu ser a possibilidade de questionar, nós o designamos com o termo pre-sença. [Dasein ou ser-aí]” Todos são pre-senças, mas cada pre-sença é singular (cada ser tem seu aí).

(*) “Pre-sença não é sinônimo de existência e nem de homem. A palavra Dasein é comumente traduzida por existência [mas quer sim dizer existência particular, e só um tolo interpretaria Existenz e Dasein trocando-os um pelo outro quando se apercebesse do contexto]. Em Ser e Tempo, traduz-se, em geral, para as línguas neolatinas pela expressão <ser-aí>, être-là, esser-ci, etc. Optamos pela tradução de pre-sença pelos seguintes motivos: 1) para que não se fique aprisionado às implicações do binômio metafísico essência-existência; 2) para superar o imobilismo de uma localização estática que o <ser-aí> poderia sugerir. O <pre>¹ remete ao movimento da aproximação, constitutivo da dinâmica do ser, através das localizações; 3) para evitar um desvio de interpretação que o <ex> de <existência>² suscitaria caso permaneça no sentido metafísico de exteriorização, atualização, realização, objetivação e operacionalização de uma essência. O <ex> firma uma exterioridade, mas interior e exterior fundam-se na estruturação da pre-sença e não o contrário³”

Referencia nesta nota de rodapé entrevista de Heidegger ao Der Spiegel, Rev. Tempo Brasileiro, n. 50, jul/set 1977.

¹ Implementação das mais absurdas de um tradutor já vistas: nada significa isolado, tem lugar indefinido e intuitivamente transitório e deveria ter sido privilegiado na transposição ao português.

² No máximo poderíamos dizer: desistência – de ler Heidegger!

³ PRECAUÇÕES DESNECESSÁRIAS! Quem há de entender, entenderia mesmo assim; quem não há de entender, não há de entender mesmo assim…

é sempre estéril recorrer a objeções formais como a acusação de um <círculo vicioso>, facilmente aduzível, no âmbito de uma reflexão sobre os princípios. Essas objeções formais não contribuem em nada para a compreensão do problema”

O ser é pressuposto, mas não como um conceito disponível, não como o que é procurado.”

visualização preliminar do ser”

Não pode haver <círculo vicioso> na colocação da questão sobre o sentido do ser porque não está em jogo, na resposta, uma fundamentação dedutiva, mas uma exposição de-monstrativa das fundações.” O círculo é sempre feliz e completo, virtuoso.

O que se insinuou foi apenas um primado da pre-sença.”

A elaboração do setor em suas estruturas fundamentais já foi, de certo modo, efetuada pela experiência e interpretação pré-científicas da região do ser que delimita o próprio setor de objetos. Os <conceitos fundamentais> assim produzidos constituem, de início, o fio condutor da primeira abertura concreta do setor.”

O <movimento> próprio das ciências se desenrola através da revisão mais ou menos radical e invisível para elas próprias dos conceitos fundamentais. O nível de uma ciência determina-se pela sua capacidade de sofrer uma crise em seus conceitos fundamentais. Nessas crises imanentes da ciência, vacila e se vê abalado o relacionamento das investigações positivas com as próprias coisas em si mesmas.”

BECOS SEM-SAÍDA NÃO IMPORTA O CÁLCULO: “A ciência mais rigorosa e de estrutura mais consistente, a matemática, parece sofrer uma <crise de fundamentos>.” “A teoria da relatividade na física nasceu da tendência de apresentar o nexo próprio da natureza tal como ele <em si> mesmo se constitui. Como teoria das condições de acesso à própria natureza, a teoria da relatividade procura preservar a imutabilidade das leis do movimento através de uma determinação de toda a relatividade [novo absoluto fenomenológico, nova variável empírica de eleição], com isso, coloca-se diante da questão da estrutura do setor de objetos por ela pressuposto, i.e., do problema da matéria.”

a história literária se torna história dos problemas.”

Pouco a pouco a teologia começa a entender de novo a visão de Lutero para quem a sistematização dogmática repousa sobre um questionamento que, em sua origem, não advém de um questionamento da fé, e cuja conceituação, mais do que insuficiente para a problemática teológica, a encobre e até mesmo deturpa.”

Essas investigações devem anteceder às ciências positivas. E isso é possível. O trabalho de Platão e Aristóteles são uma prova.” “A <lógica> é um esforço subseqüente e claudicante que analisa o estado momentâneo de uma ciência em seu <método>.” Ora, nossa lógica é aristotélica.

Assim, o que é primeiro filosoficamente não é uma teoria da conceituação da história, nem a teoria do conhecimento histórico e nem a epistemologia do acontecer histórico enquanto objeto da ciência histórica, mas sim a interpretação daquele ente propriamente histórico em sua historicidade.”

A lógica transcendental [Kant] é uma lógica do objeto a priori, a natureza, enquanto setor ontológico. § O questionamento,¹ porém – a ontologia no sentido mais amplo – independente de correntes e tendências ontológicas –, necessita de um fio condutor. [vocês ainda enjoarão desse binômio!] Sem dúvida, o questionamento ontológico é mais originário do que as pesquisas ônticas das ciências positivas. No entanto, permanecerá ingênuo e opaco, se as suas investigações sobre o ser-dos-entes deixarem sem discussão o sentido do ser em geral.”

¹ Depreende-se que em contraposição à lógica transcendental do Iluminismo He. propõe uma lógica do questionamento como metodologia para a filosofia? Nome um tanto estranho!

A questão do ser visa às condições de possibilidade das próprias ontologias que antecedem e fundam as ciências ônticas.”

Chamamos existência [Existenz] ao próprio ser com o qual a pre-sença pode se comportar dessa ou daquela maneira e com o qual ela sempre se comporta de alguma maneira [simplificando, o universo, a matéria]. Como a determinação essencial desse ente [o próprio universo! obviamente ele só pode ser um ser, um modo, nunca um objeto para nós…] não pode ser efetuada mediante a indicação de um conteúdo qüididativo [o quê? quem?], já que sua essência reside, ao contrário, no fato de dever sempre assumir o próprio ser como seu, escolheu-se o termo pre-sença [SER-AÍ] para designá-lo enquanto pura expressão de ser.”

(*) “A palavra existência resulta da aglutinação da preposição ek e do verbo sistere. (…) Nessa acepção, só o homem existe [tem presença]. Deus é mas não existe. O carro é mas não existe. [ambos só existem em nossa consciência, i.e., somente são em…]Ref. Carta sobre o Humanismo – cheira a uma refutação de Sartre.

Questionamento existenciário [existenziell] como algo banal (mera constatação: toda era tem seu Zeitgeist; por que eu sou isso ou aquilo? por condições históricas determinadas, condições de possibilidade de sê-lo tal qual – basicamente existencialismo 101 mal-aplicado, e muito aplicado, por-aí…), inferior ao questionamento existencial [Existenzialität]. nível ôntico x nível ontológico

(*) “co-pertinência originária de existência, existencial, existenciário nas épocas da pre-sença.”

Assim, a compreensão do ser, própria da pre-sença, inclui, de maneira igualmente originária, a compreensão de <mundo> e a compreensão do ser-dos-entes que se tornam acessíveis dentro do mundo.”

primado ôntico: a pre-sença é um ente determinado em seu ser pela existência.” “primado ontológico: com base em sua determinação da existência, a pre-sença é em si mesma <ontológica>.” “terceiro primado que é a condição ôntico-ontológica da possibilidade de todas as ontologias [missão: determinar a ontologia ou o ente de todos os entes que não têm ser, i.e., que não são (n)o próprio (modo do) ser-aí].”

raízes existenciárias, i.e., ônticas” “Só existe a possibilidade de uma abertura da existencialidade da existência, e com isso a possibilidade de se captar qualquer problemática ontológica suficientemente fundamentada, caso se assuma existenciariamente o próprio questionamento da investigação filosófica como uma possibilidade de ser da pre-sença, sempre existente. Assim esclarece-se também o primado ôntico da questão do ser.” Resumindo: tem-se de começar de algum lugar, e esse lugar é sempre pouco ambicioso…

Já cedo se percebeu o primado ôntico-ontológico da pre-sença, embora não se tenha apreendido a pre-sença em sua estrutura ontológica genuína nem se tenha problematizado a pre-sença nesse sentido.”

A comprovação do privilégio ôntico-ontológico da questão do ser se funda na indicação provisória do primado ôntico-ontológico da pre-sença.”

2. AS DUAS TAREFAS DE UMA ELABORAÇÃO DA QUESTÃO DO SER: O método e o sumário da investigação

Na verdade, a pre-sença não somente está onticamente próxima ou é o mais próximo. Nós mesmos a somos cada vez. Apesar disso, ou justamente por isso, é o que está mais distante do ponto de vista ontológico.” O modo normal do ser-aí em todos os tempos é uma compreensão pré-ontológica de si mesmo. Acontece que agora o Ocidente pede o acabamento de uma metafísica… Momento privilegiado. Entender agora na acepção de vários séculos…

São dificuldades que estão enraizadas no modo de ser do próprio tema e da própria atitude temática e não numa possível insuficiência do aparelhamento de nossa capacidade cognoscitiva ou numa deficiência de conceituação adequada”, o que aliás seria muito conveniente para nós se assim o fosse.

a psicologia filosófica, a antropologia, a ética, a <política>, a poesia, a biografia e historiografia já pesquisaram as atitudes, potências, forças, possibilidades e envios da pre-sença.” “Será que essas interpretações se fizeram de maneira tão originariamente existencial como talvez tenham sido originariamente existenciárias? [Ele faz perguntas para as quais é evidente que responde NÃO.] Ambas as maneiras não precisam coincidir necessariamente, embora também não se excluam.”

Somente depois de se elaborar, de modo suficiente, as estruturas da pre-sença, seguindo uma orientação explícita do problema do ser, é que os resultados obtidos até aqui poderão receber uma justificativa existencial.” E isso apenas no segundo volume.

Da cotidianidade, não se devem extrair estruturas ocasionais e acidentais, mas sim estruturas essenciais. Essenciais são as estruturas que se mantêm ontologicamente determinantes em todo modo de ser de fato da pre-semça.”

Trata-se, sem dúvida, de uma ontologia que se deverá edificar caso uma antropologia <filosófica> se deva apoiar em bases filosóficas suficientes.” “A análise da pre-sença, porém, não é somente incompleta mas também provisória. (…) O que lhe compete é liberar o horizonte para a mais originária das interpretações do ser. Uma vez alcançado esse horizonte, a análise preparatória da pre-sença exige uma repetição em bases ontológicas mais elevadas e autênticas.Estaria de antemão se referindo à parte jamais escrita?

A temporalidade (Zeitlichkeit) será de-monstrada como o sentido da pre-sença.” Mas nada verdadeiro se ganhará com isso, como havemos de ver. Ou ainda melhor: sentido da pre-sença é uma coisa, do ser é outra coisa…

deve-se agora mostrar que o tempo é o ponto de partida do qual a pre-sença sempre compreende e interpreta implicitamente o ser.” O tempo é o horizonte ou norte. O tempo é o próprio espaço subsumido, afinal. Isso é o que Hegel diz. Mas Heidegger refutará esse conceito de tempo mais à frente. Ou dirá: esse é o tempo; o tempo é mero modo ôntico; o modo ontológico do tempo é o(a) temporal/temporalidade.

tempo como ser-do-ser-aí”

o conceito vulgar de tempo (…) consolidad[o] (…) desde Aristóteles até depois de Bergson. Nessa tarefa, deve-se esclarecer que e como esse conceito e sua respectiva compreensão do tempo brotam e derivam da temporalidade. Com isso, restitui-se ao conceito vulgar de tempo sua razão própria em oposição à tese de Bergson para quem o tempo nele indicado é espaço. [praticamente a antítese de Hegel]

<Temporal> diz aqui sendo e estando a cada vez <no tempo>, determinação esta que, sem dúvida, é ainda bastante obscura.”

BORRASCA DO SER: “Também o <não-temporal>, o <atemporal> e o <supratemporal> são, em seu ser, <temporais>.” “Como a expressão <temporal> é usada tanto na linguagem pré-filosófica como na linguagem filosófica no sentido indicado, e como, por outro lado, essa expressão é tomada na presente investigação em outro sentido, denominaremos a determinação originária do sentido do ser e de seus modos e caracteres a partir do tempo de determinação temporária.” É mesmo um dândi. Temporalidade temporariedade

A determinação de historicidade se oferece antes [mais originariamente] daquilo a que se chama de história (acontecimento pertencente à história universal). Historicidade indica a constituição ontológica do <acontecer> próprio da pre-sença como tal. É com base na historicidade que a <história universal>, e tudo que pertence historicamente à história do mundo, se torna possível.” “a pre-sença é sempre como e <o que> ela já foi. Explicitamente ou não, a pre-sença é sempre o seu passado e não apenas no sentido do passado que sempre arrasta <atrás> de si e, desse modo, possui, como propriedades simplesmente dadas, as experiências passadas que, às vezes, agem e influem sobre a pre-sença. Não. A presença <é> o seu passado no modo de seu ser, o que significa, a grosso modo, que ela sempre <acontece> a partir de seu futuro.” “a pre-sença sempre já nasceu e cresceu dentro de uma interpretação de si mesma, herdada da tradição.” “Essa historicidade elementar da pre-sença pode permanecer escondida para ela mesma, mas pode também ser descoberta e se tornar objeto de um cuidado especial.” “A história factual (Historie) ou, mais precisamente, a factualidade historiográfica (Historizität) só é possível como modo de ser da pre-sença que questiona porque, no fundamento de seu ser, a pre-sença se determina e constitui pela historicidade.” “somente apropriando-se positivamente do passado é que ela pode entrar na posse integral das possibilidades mais próprias de seu questionamento.” “a pre-sença também de-cai em sua tradição [além de cair, sempre tendo um já dado para si própria]

TRADIÇÃO vs. SER-AÍ

A tradição até faz esquecer essa proveniência. Cria a convicção de que é inútil compreender simplesmente a necessidade do retorno às origens.” Tradição historiográfica é uma contradição em termos. Historiógrafos: aqueles sem-tradição. Mas existem historiógrafos e historiógrafos: falo do ideal, no sentido oposto ao descrito abaixo por Heidegger (historiografia da má-fé, século XIX, etc.).

A conseqüência é que, com todo o seu interesse pelos fatos historiográficos e em todo o seu empenho por uma interpretação filologicamente <objetiva>, a pre-sença já não é capaz de compreender as condições mais elementares que possibilitam um retorno positivo ao passado, no sentido de sua apropriação produtiva.”

A ontologia grega e sua história, que ainda hoje determina o aparato conceitual da filosofia, através de muitas filiações e distorções, é uma prova de que a pre-sença se compreende a si mesma e o ser em geral a partir do <mundo>.”

transformada em simples material de reelaboração (Hegel).” “Em sua cunhagem escolástica, o essencial da ontologia grega se transpôs, através das Disputationes Metaphysicae de Suárez, para a metafísica e filosofia transcendental da Idade Moderna, chegando ainda a determinar os fundamentos e objetivos da Lógica de Hegel.”

destruição do acervo da antiga ontologia” “A destruição também não tem o sentido negativo de arrasar a tradição ontológica. Ao contrário, ela deve definir e circunscrever a tradição em suas possibilidades positivas e isso quer sempre dizer em seus limites, tais como de fato se dão na colocação do campo de investigação possível. Negativamente, a destruição não se refere ao passado; a sua crítica volta-se para o <hoje> e os modos vigentes de se tratar a história da ontologia, quer esses modos tenham sido impostos pela doxografia, quer pela história da cultura ou pela história dos problemas.” Todo esse raciocínio de He. é plagiado descaradamente de Nietzsche em seus escritos sobre a História, sem citação da fonte.

Kant foi o primeiro e o único a dar um passo no caminho de investigação para a dimensão da temporariedade. Ou melhor, Kant foi o primeiro que se deixou encaminhar, nesse caminho, pela pressão dos próprios fenômenos.”

Ele próprio sabia que estava se aventurando numa região obscura: <Esse esquematismo de nosso entendimento, no tocante aos fenômenos e a sua forma, é uma arte escondida nas profundezas da alma humana, cujos mecanismos verdadeiros dificilmente poderíamos arrancar à natureza para colocá-los a descoberto diante de nossos olhos> [Crítica da razão pura]”

Também se haverá de mostrar por que Kant fracassou na tentativa de penetrar na problemática da temporariedade.” 1) a falta da questão do ser; 2) a falta da ontologia do ser-aí. “Devido a essa dupla influência da tradição, a conexão decisiva entre o <tempo> e o <eu penso> permaneceu envolta na mais completa escuridão, não chegando sequer uma vez a ser problematizada.” “Com o <cogito sum>, Descartes pretende dar à filosofia um fundamento novo e sólido. O que, porém, deixa indeterminado nesse princípio <radical> é o modo de ser da res cogitans ou, mais precisamente, o sentido do ser do <sum>. A elaboração dos fundamentos ontológicos implícitos no <cogito sum> constitui o ponto de parada na segunda estação a caminho de um retorno destrutivo à história da ontologia.”

ens creatum”

Ser criado, no sentido amplo de ser produzido, constitui um momento essencial na estrutura do antigo conceito de ser.” “Com base neste preconceito, a posteridade moderna omitiu uma análise ontológica do <ânimo>, que deveria ser conduzida pela questão do ser e, ao mesmo tempo, como uma discussão crítica da antiga ontologia legada pela tradição.”

Todo conhecedor da Idade Média percebe que Descartes <depende> da escolástica medieval. Essa descoberta, porém, não diz nada, do ponto de vista filosófico, enquanto a influência fundamental exercida pela ontologia medieval na determinação ou na não-determinação posterior da res cogitans permanecer obscura.”

O ente [em Platão] é entendido em seu ser como <vigência>, isto é, a partir de determinado modo do tempo, do <presente>.” “a pre-sença, i.e., o ser-do-homem” “É por isso que a ontologia antiga, elaborada por Platão, torna-se uma <dialética>.” Homem, o animal-que-dialoga-e-desperta-idéias-já-tidas.

Essa interpretação grega do ser foi desenvolvida sem nenhuma consciência explícita do seu fio condutor, sem saber e, sobretudo, sem compreender a função ontológica do tempo e sem penetrar no fundamento de possibilidade dessa função. Ao contrário: o próprio tempo é considerado como um ente entre outros, buscando-se apreender a estrutura do seu ser no horizonte de uma compreensão do ser orientada, implícita e ingenuamente, pelo próprio tempo.”

fundamentos da antiga ontologia – sobretudo em seu grau mais puro e elevado, alcançado por Aristóteles.” “tornar-se-á claro, retrospectivamente, que a concepção kantiana do tempo se move dentro das estruturas apresentadas por Aristóteles. Isso significa que a orientação ontológica fundamental de Kant é grega, não obstante todas as diferenças que uma nova investigação comporta.”

O método fenomenológico permanecerá altamente questionável caso se queira recorrer às ontologias historicamente dadas ou a tentativas congêneres. (…) não se pode seguir o caminho da história das ontologias para se esclarecer o método.” “O uso do termo ontologia não visa a designar uma determinada disciplina filosófica entre outras. Não se pretende, de forma alguma, cumprir a tarefa de uma dada disciplina, previamente dada. Ao contrário, é a partir da necessidade real de determinadas questões e do modo de tratar imposto pelas <coisas em si mesmas> que, em todo caso, uma disciplina pode ser elaborada.” “enquanto se compreender a si mesma, a fenomenologia não é e não pode ser nem um ponto de vista nem uma corrente. [superestima suas possibilidades] A expressão fenomenologia diz, antes de tudo, um conceito de método. Não caracteriza a qüididade [conteúdo, o que são] real dos objetos da investigação filosófica mas o seu modo, como eles o são. Quanto maior a autenticidade de um conceito de método e quanto mais abrangente determinar o movimento dos princípios de uma ciência, tanto maior a originariedade em que ele se radica numa discussão com as coisas em si mesmas e tanto mais se afastará do que chamamos de artifício técnico, tão numerosos em disciplinas teóricas.” “Exteriormente, o termo fenomenologia corresponde, no que respeita a sua formação, à teo-logia, bio-logia, sócio-logia, termos que se traduzem por ciência de Deus, da vida, da sociedade.” “A história da palavra em si, que apareceu, segundo se presume, na Escola de Wolff, não tem aqui importância.”

fenômeno = o que se mostra em si mesmo

estudo das coisas que são tais quais elas são ou parecem ser (raiz grega que combina ilusão e verdade)

aparecer, parecer, aparência

revelar, revelação, auto-revelação, automanifestação

amostra, anunciar-se de… (intermediário, imagem de algo)

Manifestação e aparência se fundam, de maneira diferente, no fenômeno. Essa multiplicidade confusa dos <fenômenos> que se apresenta nas palavras fenômeno, aparência, aparecer, parecer, manifestação, mera manifestação, só pode deixar de nos confundir quando se tiver compreendido, desde o princípio, o conceito de fenômeno: o que se mostra em si mesmo.

Quando dizemos que o significado básico de logos é discurso, essa tradução literal só terá valor completo quando se determinar o que é um discurso.” A voz da razão como perfeito pleonasmo!

Malversações ao longo do tempo: razão, juízo, conceito, definição, fundamento, relação, proporção!

Em Aristóteles: discurso transparente

discurso – deixar ver – diz-curso – dizer o curso das coisas – verbo, voz, imagens

Parece uma etimologia contrária à de fenômeno no sentido da elisão ou encobrimento de algo.

E, novamente, porque o LOGOS é um deixar e fazer ver, por isso é que ele pode ser verdadeiro ou falso.”

Fenomenologia, a seguir esta carreira, poderia até querer dizer explicitação do implícito, etc., dialética de mentira-verdade das coisas, etc.

Quando, hoje em dia, se determina a verdade como o que pertence <propriamente> ao juízo e se faz remontar essa tese a Aristóteles, comete-se um duplo equívoco, pois essa atribuição a Arist. não é correta e, principalmente, deturpa-se o conceito grego de verdade. Em sentido grego, o que é <verdadeiro> (…) é a simples percepção sensível de alguma coisa.” Uma cor é sempre uma cor. “Isto significa: a visão sempre descobre cores, a audição descobre sempre sons.” “o máximo que pode acontecer [em termos de falseamento] é não haver percepção

A ARTE DO DISCURSO: “O que já não possui a forma de exercício de um puro deixar e fazer ver mas que, para de-monstrar, recorre sempre a uma outra coisa e assim deixa e faz ver cada vez algo como algo, assume, junto com esta estrutura sintética, a possibilidade de en-cobrir. A <verdade do juízo>, [falsificação moderna] porém, é somente a contrapartida deste encobrir, i.e., um fenômeno de verdade derivado em muitos aspectos. Tanto o realismo quanto o idealismo se equivocam no que respeita ao sentido grego de verdade. Somente nesse conceito é que se poderá compreender a possibilidade de uma <teoria das idéias>.”

Examinando-se concretamente os resultados da interpretação de <fenômeno> e <logos>, salta aos olhos a íntima conexão que os liga.” “deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo.” “O termo fenomenologia tem, portanto, um sentido diferente das designações como teologia, etc. Estas evocam os objetos de suas respectivas ciências, em seu conteúdo qüididativo. O termo <fenomenologia> nem evoca o objeto de suas pesquisas nem caracteriza o seu conteúdo qü..”

Modo do demonstrar

Estudo o mais direto possível

Descrição de essências (fenômenos em si mesmos)

A ontologia só é possível como fenomenologia.” “<Atrás> dos fenômenos da fenomenologia não há absolutamente nada” “O conceito oposto de <fenômeno> é o conceito de encobrimento.” “Este encobrimento na forma de <desfiguração> é o mais freqüente e o mais perigoso, pois as possibilidades de engano e desorientação são particularmente severas e persistentes.” “Quer no sentido de velamento [ignorância de um fenômeno] ou entulhamento [seu ocultamento posterior à descoberta], quer ainda como desfiguração [troca de imagem para uma falsa aparência], o próprio encobrimento dispõe, por sua vez, de duplas possibilidades.” “A possibilidade de uma petrificação, endurecimento e inapreensão do que se apreendeu originariamente se acha no próprio trabalho concreto da fenomenologia.”

apreender, sentir-se apreensivo, apreensão

Fenomenologia da pre-sença é hermenêutica no sentido originário da palavra em que se designa o ofício de interpretar.” “a hermenêutica da pre-sença como interpretação ontológica de si mesma adquire um terceiro sentido específico [1) interpretação ontológica do ser; 2) interpretação ontológica dos entes ou essências, dos fenômenos destituídos de ser, i.e., ser-aí;] – sentido primário do ponto de vista filosófico – a saber, o sentido de uma analítica da existencialidade da existência. Trata-se de uma hermenêutica que elabora ontologicamente a historicidade da pre-sença como condição ôntica [sine qua non] de possibilidade da história factual.”

O ser é o transcendens pura e simplesmente. A transcendência do ser do ser-aí é privilegiada porque nela reside a possibilidade e a necessidade da individuação mais radical.” “A verdade fenomenológica (abertura do ser) é veritas transcendentalis.”

A filosofia é uma ontologia fenomenológica e universal que parte da hermenêutica do ser-aí, a qual, enquanto analítica da existência, amarra o fio de todo questionamento filosófico no lugar de onde ele brota e para onde retorna.”

As investigações que se seguem são apenas possíveis na base estabelecida por E. Husserl, cujas Investigações Lógicas fizeram nascer a fenomenologia.” “A compreensão da fenomenologia depende unicamente de se apreendê-la como possibilidade.” Rasga elogios à página 70.

<DESCULPEM-ME O LINGUAJAR PESADO>: “Caso seja lícita uma referência a investigações ontológicas anteriores, embora incomparáveis em seu nível, confrontem-se os trechos ontológicos do Parmênides de Platão ou o 4º capítulo do VII livro da Metafísica de Arist. com uma passagem narrativa de Tucídides. Ver-se-á, nas formulações, o inaudito que os filósofos exigiam dos gregos. Quando as forças são essencialmente menores e o setor do ser que se deve abrir é ontologicamente muito mais difícil do que o que foi dado aos gregos, crescerá a dificuldade de formação de conceitos e a dureza das expressões.”

Em si mesma a pre-sença é <histórica>, de maneira que o esclarecimento ontológico próprio deste ente [modo] torna-se sempre e necessariamente uma interpretação <referida a fatos históricos>.”

PRIMEIRA PARTE:

A INTERPRETAÇÃO DA PRE-SENÇA [SER-AÍ] PELA TEMPORALIDADE E A EXPLICAÇÃO DO TEMPO COMO HORIZONTE TRANSCENDENTAL DA QUESTÃO DO SER

A rigor esta é também a última parte desenvolvida por Heidegger. De certo modo, poder-se-ia parar de ler este resumo e seleção aqui, após 16 páginas, sem prejuízo algum, caso já se tenha entendido o autor…

PRIMEIRA SEÇÃO:

ANÁLISE PREPARATÓRIA DOS FUNDAMENTOS DA PRE-SENÇA

O ser-no-mundo é um a priori constituinte do ser-aí.

1. EXPOSIÇÃO DA TAREFA DE UMA ANÁLISE PREPARATÓRIA DA PRE-SENÇA

O ente que temos a tarefa de analisar somos nós mesmos (…) O ser é o que neste ente está sempre em jogo.” Não podemos encarar ser, haja vista esta frase, como outra coisa senão vida, o que já foi realizado na filosofia do XIX.

1. A <essência> deste ente está em ter de ser.”

O conteúdo deste ente depende da existência.

é tarefa ontológica mostrar que, se escolhemos a palavra existência para designar o ser-deste-ente, esta não tem nem pode ter o significado ontológico do termo tradicional existentia. Para a ontologia tradicional, existentia designa o mesmo que ser simplesmente dadoDoravante, existência será atributo exclusivo do ser-aí. (objetos ‘não existem’, segundo essa fenomenologia, existir e ser não se confundem, como já visto mais acima)

Nada está dado, a não ser pela minha consciência, e consciência histórica. Abole-se a coisa-em-si.

As características constitutivas da pre-sença são sempre modos possíveis de ser e somente isso. Toda modalidade-de-ser-deste-ente é primordialmente ser.”

Resgate da idéia (pun!) de que a imagem ou idéia platônica não se aplica, p.ex., às mesas.

o termo <pre-sença> não exprime a sua qüididade como mesa, casa, árvore, mas sim o ser.”

2. O ser é sempre meu. Neste sentido, a pre-sença nunca poderá ser apreendida ontologicamente como caso ou exemplar de um gênero [acepção aristotélica] de entes simplesmente dados. Pois, para os entes simplesmente dados, o seu <ser> é indiferente ou, mais precisamente, eles são de tal maneira que o seu ser não se lhes pode tornar nem indiferente nem não-indiferente.” Vinculação que Heidegger encontrou em Descartes num momento privilegiado da metafísica ocidental.

A pre-sença só pode perder-se ou ainda não se ter ganho porque, segundo seu modo de ser, ela é uma possibilidade própria, ou seja, é chamada a apropriar-se de si mesma.”

A im-propriedade da pre-sença não diz <ser> menos nem em grau <inferior> de ser.”

Denominamos esta indiferença cotidiana da pre-sença de medianidade. § Porque a cotidianidade mediana perfaz o que, em 1º lugar, constitui o ôntico deste ente, sempre se passou por cima dela e sempre se passará, nas explicações da pre-sença.”

Então, que há de mais próximo de mim do que eu mesmo? Decerto, eu trabalho aqui, trabalho em mim mesmo, transformei-me numa terra de dificuldades e de suor copioso”

Sto. Agostinho

no modo impróprio do ser-aí está igualmente em jogo o ser-do-ser-aí – o ser-aí se comporta e se relaciona para com este ser via a cotidianidade mediana, mesmo que seja apenas fugindo e se esquecendo dele.”

(*) “SER SIMPLESMENTE DADO = VORHANDENHEIT

Vor (antes de, no tempo) + Hand (mão). Aprioridade no sentido objetivo do materialismo mecanicista: o tipo de aprioridade externa não afetada pelo indivíduo. Na verdade é uma contradição em termos, já que o que é simplesmente dado nunca é ser.

Existenciais e categorias são as 2 possibilidades fundamentais de caracteres ontológicos. (…) o ente é um quem (existência) ou um que (dado).”

A analítica existencial da pre-sença está antes de toda psicologia, antropologia e, sobretudo, biologia.” “<Do ponto de vista epistemológico>, essas investigações são necessariamente insuficientes já pelo simples fato da estrutura de ciência destas disciplinas – o que nada tem a ver com a <cientificidade> daqueles que trabalham para o seu desenvolvimento – ter-se tornado cada vez mais questionável.”

Uma das primeiras tarefas da analítica será mostrar que o princípio de um eu e sujeito, dados como ponto de partida, deturpa, de modo fundamental, o fenômeno da pre-sença.” “Para que se possa perguntar o que deve ser entendido positivamente ao se falar de um ser não-coisificado do sujeito, da alma, da consciência, do espírito, da pessoa, é preciso já se ter verificado a proveniência ontológica da coisificação.” “Não é, portanto, por capricho terminológico que evitamos o uso desses termos bem como das expressões <vida> e <homem> para designar o ente que nós mesmos somos.” “O que chama atenção é o fato de não se questionar ontologicamente a própria <vida> como um modo de ser.”

Junto com Dilthey e Bergson, participam dessas limitações todas as correntes do <personalismo> por eles determinadas, e todas as tendências para uma antropologia filosófica. Mesmo a interpretação fenomenológica da personalidade, em princípio mais radical e lúcida, não alcança a dimensão da questão do ser da pre-sença.”

o ser-da-pessoa não pode exaurir-se em ser um sujeito de atos racionais, regidos por determinadas leis. (Scheler)” “Desde essa 1ª elaboração, Husserl desenvolveu esse problema de modo ainda mais penetrante e profundo, tendo transmitido partes essenciais desse trabalho em suas preleções de Freiburg.”

Um nível de discussão bem bobinho e trivial, como se a fenomenologia tivesse iniciado a filosofia: “A pessoa não é uma coisa, uma substância, um objeto. Com isso se ressalta e acentua a mesma coisa indicada por Husserl, ao exigir para a unidade da pessoa uma constituição essencialmente diferente das coisas da natureza.”

Atos são sempre algo não-psíquico. Pertence à essência da pessoa apenas existir no exercício de atos intencionais e, portanto, a pessoa em sua essência não é objeto algum.”

ANTI-PSICANÁLISE: “Toda objetivação psíquica, por conseguinte toda apreensão de um ato como algo psíquico, equivale a uma despersonalização [desautenticação, para não confundir com o termo psiquiátrico].”

O que, no entanto, constitui um obstáculo e desvia a questão fundamental do ser da pre-sença é a orientação corrente pela antropologia cristã da Antiguidade.” Citação de Gên 1:26

É PLATÃO IMANENTE? “Mas a idéia de <transcendência>, [a ‘má’ transcendência] segundo a qual o homem é algo que se lança para além de si mesmo, tem suas raízes na dogmática cristã, da qual não se pode querer dizer que tenha chegado sequer uma única vez a questionar ontologicamente o ser do homem.”

Na medida em que as cogitationes permanecem ontologicamente indeterminadas, sendo tomadas implicitamente como algo <evidente> e <dado>, cujo <ser> não suscita nenhuma questão, a problemática antropológica fica indeterminada quanto a seus fundamentos ontológicos decisivos.”

Biologia, a ciência do novo século, o século do ser-aí… Iron-ia de ferro.

O fato de as pesquisas positivas não verem os fundamentos e considerá-los evidentes não constitui uma prova de que eles não se achem à base e que não sejam problemáticos, num sentido mais radical do que poderá ser uma tese das ciências positivas. Abertura do a priori não é construção <apriorística>. Com Husserl, não somente voltamos a compreender o sentido de toda <empiria> filosófica autêntica, como aprendemos a manusear os instrumentos aqui necessários. (…) a pesquisa a priori exige a preparação adequada do solo fenomenal.”

BLUES/REDS: “A interpretação da pre-sença em sua cotidianidade não deve, porém, ser identificada como descrição de uma fase primitiva da pre-sença, cujo conhecimento pudesse ser transmitido empiricamente pela antropologia.” “Ainda não ficou estabelecido que a psicologia do cotidiano ou até a psicologia científica e a sociologia, de que faz uso a etnologia, dêem a garantia científica para uma possibilidade adequada de acesso, interpretação e transmissão dos fenômenos a serem investigados. (…) Mas como as ciências positivas não <podem> nem devem esperar pelo trabalho ontológico da filosofia, o desenvolvimento das pesquisas não há de assumir a forma de um <progresso>, mas sim de uma re-petição e purificação ontológica, mais transparente do que tudo que se descobriu onticamente.”

Cassirer, 1925 (do clube de amiguinhos do Husserl)

A comparação sincrética de tudo com tudo e a redução de tudo a tipos ainda não garante de per si um conhecimento autêntico da essência.”

2. O SER-NO-MUNDO EM GERAL COMO CONSTITUIÇÃO FUNDAMENTAL DA PRE-SENÇA

o que indagamos com a interrogação <quem?>”

o banco <dentro do espaço cósmico>.”

Ser simplesmente dado <dentro> de um dado, o ser simplesmente dado junto com algo dotado do mesmo modo de ser, no sentido de uma determinada relação de lugar, são caracteres ontológicos que chamamos de categorias.”

<eu sou> diz: eu moro, me detenho junto…” “O ser-em é, pois, a expressão formal e existencial do ser da pre-sença que possui a constituição essencial de ser-no-mundo.”

A pobre preposição tem de ser-vir (he-he!) ao ente e ao ser, com o perdão da cacofonia, ó, sujeito!

em princípio, a cadeira não pode tocar a parede mesmo que o espaço entre ambas fosse igual a zero.”

o que está feito, está feito, e não se pode fazer mais nada

até meu filho negar isso, no caso

DE FATO

Em H.: relativo ao ser facticidade

relativo ao ente outros sufixos de fa(c)t–…

ontologicamente a pre-sença é cura.” “o ser da pre-sença para com o mundo é, essencialmente, ocupação. [descurado de si]”

(*) Besorgen é ocupação, Sorge é cura. Fürsorge é preocupação.

A tradução decidiu utilizar o radical latino cura para Sorge, ocupação para Besorgen e preocupação para Fürsorge. Os motivos dessa decisão atêm-se ao fato de o próprio Ser e Tempo ter remetido à fábula latina de Higino sobre a Cura e à inexistência em português de derivados de cura na acepção de um relacionamento específico da pre-sença com os seres simplesmente dados e com os seres existentes.” Cura é o modo ontológico do ser-aí; o modo ôntico (imediato, mais baixo) é cuidado.

Não há solipsismo nem puro relativismo porque todo ser está no mundo. No mesmo mundo.

A formulação <ter um mundo circundante>, tão trivial do ponto de vista ôntico, é, do ponto de vista ontológico, um problema.”

Embora experimentado e conhecido pré-fenomenologicamente, o ser-no-mundo se torna invisível por via de uma interpretação ontologicamente inadequada. (…) Desse modo, esta interpretação torna-se o ponto de partida <evidente> para os problemas da epistemologia ou <metafísica do conhecimento>.” “Esta correlação do sujeito-objeto é um pressuposto necessário.”

a presença é obs-cura

Sujeito e objeto, porém, não coincidem com pre-sença e mundo.” “Mas reina um grande silêncio sobre o que significa positivamente o <interior> da imanência em que o conhecimento está, de início, trancado” “Em seu modo de ser originário, a pre-sença já está sempre <fora>, junto a um ente que lhe vem ao encontro no mundo já descoberto.” “E, mais uma vez, a percepção do que é conhecido não é um retorno para a <cápsula> da consciência com uma presa na mão, após se ter saído em busca de apreender alguma coisa.”

3. A MUNDANIDADE DO MUNDO

A descrição fica presa aos entes. É ôntica.”

A substancialidade é o caráter ontológico das coisas naturais, das substâncias. Esse caráter é o fundamento de tudo.”

Será o <mundo> um caráter do ser da pre-sença? Toda pre-sença não terá sempre seu mundo? Mas com isso <mundo> não seria algo <subjetivo>? Como, então, seria possível um mundo <comum> <em> que nós, sem dúvida, estamos?”

<Mundanidade> é um conceito ontológico e significa a estrutura de um momento constitutivo do ser-no-mundo.”

A tarefa de <descrição> fenomenológica do mundo é tão pouco clara que já a sua determinação suficiente exige esclarecimentos ontológicos essenciais. § A polissemia da palavra <mundo> salta aos olhos em seu uso freqüente, bem como nas considerações tecidas até aqui.”

1. Mundo é usado como um conceito ôntico [direto, empírico], significando, assim, a totalidade dos entes que se podem simplesmente dar dentro do mundo.

2. Mundo funciona como termo ontológico [invisível, essencial] e significa o ser dos entes mencionados no item 1.” Em H., “mundo” (<mundo> na minha transcrição do livro). E justo quando eu imaginava que as aspas em H. eram sempre depreciativas ou relativas ao alheio

3. … [irrelevante]

4. (…) A própria mundanidade pode modificar-se e transformar-se, cada vez, no conjunto de estruturas de <mundos> particulares, embora inclua em si o a priori da mundanidade em geral.” Talvez H. considere este seu “mundo definitivo”, daí excluir o 2 de sua fenomenologia, i.e., colocá-lo entre aspas (conceito incompleto).

você é inmundo, pois está no mundo

O ente simplesmente dado <no> mundo, designamos de intramundano ou pertencente ao mundo.”

Entendida em sentido ontológico-categorial, a natureza é um caso limite do ser de um possível ente intramundano. (…) Esse conhecimento tem o caráter de uma determinada desmundanização do mundo.”

(*) Mundo circundante = Umwelt (literalmente: mundo abrangente)

A CARTILHA DAS COORDENADAS BERGSONIANAS: “Ora, a ontologia tentou justamente interpretar o ser do <mundo> como res extensa, partindo da espacialidade. É em Descartes que se mostra a tendência mais extremada para uma ontologia do <mundo> desta espécie, ontologia edificada em contraposição à res cogitans que, porém, não coincide, nem do ponto de vista ôntico nem do ontológico, com a pre-sença.” Descartes apresenta dois eixos-entes que não se tocam. Sintomático.

A. ANÁLISE DA MUNDANIDADE CIRCUNDANTE E DA MUNDANIDADE EM GERAL

Que ente há de ser pré-tematizado e estabelecido como base pré-fenomenal?”

ao se interpelar o ente como <coisa> já se recorre implicitamente a uma caracterização ontológica prévia.”

Será possível alcançar o caráter ontológico daquilo que vem ao encontro no modo de lidar próprio da ocupação, abstraindo-se da obscuridade da estrutura – ser dotado de valor?”

Designamos o ente que vem ao encontro na ocupação com o termo instrumento [Zeug, o alemão para coisa; raiz latina: instrumentum].”

Em sua essência [seu ser], todo instrumento é <algo para…>.”

(*) SER-PARA: quando ser é o substantivo, Sein-zu (nível ontológico); quando ser é o verbo, no sentido de é-para do mero instrumento, no sentido pragmático e funcional, o termo heideggeriano é Um-zu.

se[r]-para[r]-uma-briga

(*) “MANUALIDADE = ZUHANDENHEIT

No exercício histórico da pre-sença, a mão ocupa um lugar central de concretização e desdobramento. O limite para frente desse exercício é imposto pelos seres simplesmente dados (Vor-handenheit). A doação dos desempenhos e das possibilidades de desempenho proporciona os seres à mão, os seres constituídos pela manualidade (Zu-handen): os instrumentos, os utensílios, os equipamentos, os dispositivos, etc.”

(*) “CIRCUNVISÃO = UMSICHT

[a visão do olho de cima, não-semita, não ‘o olho que tudo vê’, a-Argos]

A construção do mundo cotidiano das ocupações não é cega mas guiada por uma visão de conjunto, a circunVisão, que abarca o material, o usuário, o uso, a obra, em todas as suas ordens.”

quanto menos se olhar de fora a coisa martelo, mais se sabe usá-lo, mais originário se torna o relacionamento com ele e mais desentranhado é o modo em que se dá ao encontro naquilo que ele é” “A visualização puramente <teórica> das coisas carece de uma compreensão da manualidade.” “originariamente, contemplar é ocupação [e] agir possui sua visão. A atitude teórica visualiza meramente, sem circunvisão.”

O que está imediatamente à mão se caracteriza por recolher-se em sua manualidade para, justamente assim, ficar à mão. O modo de lidar cotidiano não se detém diretamente nas ferramentas em si mesmas. Aquilo com que primeiro se ocupa e, conseqüentemente, o que primeiro está à mão é a obra a ser produzida.” A casa nasce antes da pá, do muro, do cimento, do martelo…

A mata é reserva florestal” – fico dividido em dois ditos igualmente verdadeiros: 1) …e cada vez mais; 2) …e cada vez menos.

Manualidade é a determinação categorial dos entes tal como são <em si>.” “está a Manualidade fundada ontologicamente no ser simplesmente dado?”

o haver não se dá, pois não tem nada para dar

deixe-me com meus haveres, dê-me um des-canso

abrir o mundo é totalmente diferente de descobrir o mundo

quando o ser-aí se abre ele volta ao conhecimento inato de si

quando ele descobre o mundo, apenas desvela mais um de seus modos-no-mundo e ocupa algo aparentemente inédito, que ainda não é uma verdadeira abertura

o Brasil foi descoberto, mas não aberto

abrir é tarefa de macaco-velho (quem já conhece muito a terra)

gato ex-cal-dado

O conjunto instrumental não se evidencia como algo nunca visto, mas como um todo já sempre visto antecipadamente na circunvisão. Nesse todo, anuncia-se o mundo.”

O não-anunciar-se do mundo é a condição de possibilidade para que o manual não cause surpresa.”

Uma orientação exclusiva ou primordial pelo que é simplesmente dado não pode esclarecer ontologicamente o <em-si>.”

Tradução: Fiar-se somente ou principalmente no dado (empírico e a priori, no imediato da coisa) não ajuda a responder sobre a essência do em-si, isto é, não ajuda a responder essencialmente sobre a própria essência desses objetos ou coisas. Como se poderia chegar a conhecer ‘x’ (term. kantiana) apenas via observação dos fenômenos?

Ora, nem quando até essencialmente algo aparece como dado a simples descrição das aparências pode dar uma resposta metafísica à altura… Pois – ó! – as aparências enganam…

A possibilidade do conhecimento implica uma onipotência primigênia. [metempsicose]

O ser-do-ente é eterno, ou pelo menos infinitamente recorrível em seus antepassados…

O mundo é algo em que o ser-aí enquanto ente já sempre esteve, para o qual o ser-aí pode apenas retornar em qualquer advento [futuro] de algum modo explícito.” O que aconteceu (e aconteceu) acontecerá de novo.

A ocupação já é o que é, com base numa familiaridade com o mundo.” “O que é isso com que a pre-sença se familiariza e pelo que a [mundanidade das coisas] pode aparecer [alienando toda familiaridade à pre-sença]?”

preocupação – estranhamento – ansiedade (logo H. chegará a essa análise oposta).

hoje, temos a tendência de submeter todos os entes a uma <interpretação> na chave de <relação>. Trata-se de uma interpretação que sempre <dá certo> porque, no fundo, não diz nada, como o esquema de forma e conteúdo, tão facilmente utilizado.”

Recentemente, instalou-se nos veículos uma seta vermelha e móvel, cujo posicionamento mostra, cada vez, p.ex. num cruzamento, qual o caminho que o carro vai seguir. O posicionamento da seta é acionado pelo motorista. Esse sinal é um instrumento que está à mão, não apenas na ocupação (dirigir) do motorista. Também os que não estão no veículo e justamente eles fazem uso desse instrumento, esquivando-se para o lado indicado ou ficando parados. Esse sinal está à mão dentro do mundo na totalidade do conjunto instrumental dos meios de transporte e regras de trânsito. (…) essa <referência> enquanto sinal não é a estrutura ontológica do sinal enquanto instrumento.” Hahahaha. “A <referência> mostrar é a concreção ôntica [fenomênica] do para quê específico. [virar a porra do carro sem bater noutros carros nem atropelar ninguém]” “O uso de sinais permanece inteiramente no âmbito de um ser-no-mundo <imediato> [excluindo assim a sinalética dos sistemas mágicos, não-intramundanos, desta análise de sinais contemporâneos ou funcionais].”

para o homem primitivo, o sinal e o assinalado coincidem.”

Esta interpretação do sinal tinha apenas a finalidade de oferecer um apoio fenomenal para se caracterizar a referência.” Para de encher lingüiça, cara!

O caráter ontológico do manual é a conjuntura.” Marquei em verde pela fealdade da expressão, hoje inutilizável, apropriada pelos “administradores”.

Um plano cartesiano é de longe ou de perto a única coisa que não existe.

O mapa quem faz é o ser-aí, sempre ao centro, com circunvisões de novas periferias o tempo (pun) todo!

(*) “PARA QUÊ = WOZU

Porque o português só conhece onde como advérbio e não como relativo, a tradução construiu uma constelação de expressões e modos de dizer que recebeu ao longo do texto as seguintes correspondências:

Wozu = para quê [literalmente teria de ser para onde]

Woraufhin = perspectiva em que [na direção onde]

Worumwillen = em função de [pertinente aonde]

Wobei = estar-junto [onde é familiar, onde é vizinho]

Womit = estar-com [onde em conjunto]

Worin = no contexto em que [no contexto aonde]

Wohin = destino [lançando-se aonde]

Woher = proveniência [vindo donde]”

(*) CONJUNTURA = BEWANDTNIS

A tradução literal impossível seria deixar-se fazer a volta, i.e., completar um giro ou ciclo, abrir-se para a essência.

Conjuntura é o ser dos entes intramundanos em que cada um deles já, desde sempre, liberou-se.” “um perfeito a priori

O fato de se dar uma conjuntura constitui a determinação ontológica do ser deste ente e não uma afirmação ôntica sobre ele. (…) Com o para quê [sentido] da serventia, pode-se dar, novamente, uma conjuntura própria” Como tornar o martelo aquilo que ele é: construtor de moradias.

Tal familiaridade [originária] com o mundo não exige, necessariamente, uma transparência teórica das remissões que constituem o mundo como mundo.”

A significância é o que constitui a estrutura do mundo em que a pre-sença já é sempre como é.”

Essas <relações> e <relatos> do ser-para, da função, do estar-com de uma conjuntura, em seu conteúdo fenomenal [ôntico], resistem a toda funcionalização matemática” “Conceitos de função dessa espécie só se tornam ontologicamente possíveis remetendo-se a um ente cujo ser possui o caráter de pura substancialidade. Conceitos de função não são outra coisa do que conceitos formalizados de substância.” Matemática calcula (n)o reino da essência.

B. CONTRAPOSIÇÃO DA ANÁLISE DA MUNDANIDADE À INTERPRETAÇÃO DO MUNDO DE DESCARTES

O porquê da escolha do título “Ser e TEMPO”: como antítese ao espaço e às coordenadas cartesianas. ESPAÇO é essencialmente e por excelência aquilo que é incapaz de denotar e conotar o Ser. Ou apenas conotar, se assumirmos que Heidegger empregaria denotar para falar do nível ôntico do ser e conotar para se referir ao nível ontológico.

res cogitans X res corporea espírito X natureza

a falta de clareza de seus fundamentos ontológicos e dos próprios membros da oposição radica-se diretamente nessa distinção efetivada por Descartes.”

O termo para o ser de um ente em si mesmo é substantia. Essa expressão ora designa o ser de um ente como substância, substancialidade, ora o próprio ente, uma substância. Essa ambigüidade de substantia, que já trazia em si o antigo conceito de OUSIA, não é casual.”

O que constitui propriamente o ser em si mesmo da res corporea? Como se pode apreender uma substância como tal? (…) As substâncias são acessíveis em seus <atributos> e cada substância possui uma propriedade principal a partir da qual a essência da substancialidade de uma substância pode ser recolhida. Qual é esta propriedade na res corporea? (…) a extensão em comprimento, altura e largura constitui o ser propriamente dito da substância corpórea que nós chamamos <mundo>. (…) A extensão é a constituição ontológica do ente em causa que deve <ser> antes de quaisquer outras determinações ontológicas a fim de que estas possam <ser> o que são.” “Se os corpos duros, i.e., os que não cedem à pressão, trocassem de lugar com a mesma velocidade com que a mão <corre> em direção aos corpos, então nunca se chegaria a tocá-los, e a dureza nunca seria percebida, e com isso, portanto, nunca seria dureza.”

a extensão, isto é, aquilo que se pode alterar em qualquer modo de divisibilidade, figuração e movimento, o capax mutationum, o que se mantém, remanet, em todas essas alterações.”

permanência constante”

Por substância só podemos entender um ente que é de tal modo que para ser não necessite de nenhum outro ente. O ser de uma <substância> caracteriza-se por uma não-necessidade.”

Ao ser entendido como ens perfectissimum, <Deus> é aqui um título puramente ontológico.” “Todo ente que não for Deus necessita de produção em sentido amplo e de conservação. A produção de algo simplesmente dado, ou também a necessidade de se produzir, constituem o horizonte em que se compreende o <ser>.” “Entre ambos os entes, subsiste uma diferença <infinita> de ser e, apesar disso, chamamos de ente tanto o criado como o criador. Por conseguinte, usamos a palavra ser numa extensão tal, que o seu sentido abrange uma diferença <infinita>. Por isso e com certo direito, podemos chamar também o ente criado de substância. (…) dentro da região dos entes criados, do <mundo> no sentido de ens creatum, existe algo que <não necessita de um outro ente>, no tocante à produção e conservação das criaturas, p.ex. o homem.” O problema está em que, de novo, o homem é res cogitans e res corporea.

Nas afirmações <Deus é> e <o mundo é> predicamos o ser. Essa palavra <é> não pode indicar o ente cada vez referido no mesmo sentido (univoce), já que entre ambos existe uma diferença infinita de ser”

A escolástica apreende o sentido positivo da significação de <ser> como significação <analógica> para distingui-la da significação unívoca ou meramente sinônima. Apoiando-se em Aristóteles, em quem o problema já se delineou no ponto de partida da ontologia grega, fixaram-se vários modos de analogia, segundo os quais também as <Escolas> se distinguiam quanto à apreensão da função significativa de ser. No tocante à elaboração ontológica do problema, Descartes fica muito aquém da escolástica, chegando mesmo a recuar diante da questão.” “Sem dúvida, a ontologia medieval, do mesmo modo que a antiga, questionou muito pouco o que o próprio ser designa. (…) O sentido permaneceu não-esclarecido porque foi tomado por <evidente>.” “Descartes não apenas recua inteiramente diante da questão ontológica da substancialidade, como acentua explicitamente que a substância como tal, i.e., a substancialidade, já é em si mesma, de antemão, inacessível para si mesma. [Diz:] O <ser> ele mesmo não nos <afeta>, não podendo por isso ser percebido. Segundo a sentença de Kant, que apenas repete a frase de Descartes, <o ser não é um predicado real>. Com isso, renuncia-se em princípio à possibilidade de uma problemática pura do ser e busca-se uma saída pela qual se possam obter as determinações acima caracterizadas das substâncias. Porque <ser> de fato não é acessível como os entes, ele passa a ser expresso por determinações ônticas dos entes em questão, isto é, pelos atributos [fenomenológicos]. (…) pressupostos sem discussão.”

É a substância divisível? Então é real e veraz (está no espaço)”, argumenta D. de si para si.

Porque o ôntico é colocado abaixo do ontológico, a expressão substância exerce um significado ora ontológico ora ôntico, funcionando, porém, na maioria das vezes, como significado misturado.”

ENUMERO LOGO ERRO: “Que modo de ser da pre-sença é estabelecido como a via de acesso adequada ao que, enquanto extensio, Descartes identifica com o ser do <mundo>? A única via de acesso autêntica para esse ente é o conhecimento, a intellectio, no sentido do conhecimento físico-matemático. O conhecimento matemático vale como o modo de apreensão dos entes, capaz de propiciar sempre uma posse mais segura do ser dos entes nele apreendidos. (…) Propriamente só é o que sempre permanece. E é isso o que a matemática conhece. (…) Descartes não retira o modo de ser dos entes intramundanos deles mesmos. Com base numa idéia de ser[-constância] (…) prescreve ao mundo o seu ser <próprio>. Não é, portanto, principalmente o apoiar-se numa ciência particular e, por acaso, especialmente estimada, a matemática, o que determina a ontologia do mundo, mas uma orientação fundamentalmente ontológica pelo ser enquanto constância do ser simplesmente dado” “Descartes cumpre, assim, de maneira filosoficamente explícita, a virada das influências da ontologia tradicional sobre a física matemática moderna e os seus fundamentos transcendentais.”

modo de acesso ao ente ainda possível de uma percepção intuitiva”

É duro dizê-lo, mas Descartes não entendeu o conceito de rigidez! Ou melhor: não entendeu a rigidez. O conceito de rigidez nada tem que ver com a rigidez.

Coordenadas não se tocam, como entes poderiam [r]esistir mutuamente?

Divisão e descontinuidade

Com isso veda-se completamente o caminho para se ver o caráter fundado de toda percepção sensível e intelectual e para compreendê-las como uma possibilidade do ser-no-mundo.”

Será que com essas discussões críticas não se estará exigindo de Descartes uma tarefa que se encontra totalmente fora de seu horizonte?” “A discussão deve-se orientar pela tendência real da problemática mesmo que esta não ultrapasse uma compreensão vulgar.” Palavras, palavras, palavras

A análise cartesiana do <mundo> possibilita, pela 1ª vez, uma construção segura da estrutura da manualidade; necessita apenas de uma complementação, facilmente exeqüível, da coisa natural para transformá-la numa perfeita coisa de uso.”

O acréscimo de predicados de valor [não-matemáticos, i.e., qualidades] não é capaz de propiciar em nada uma nova perspectiva sobre o ser dos bens mas apenas pressupõe para estes o modo de ser de puras coisas simplesmente dadas.” “Em última instância, os valores têm sua origem ontológica unicamente no ponto de partida prévio da realidade das coisas como nível fundamental. Já a experiência pré-fenomenológica, no entanto, mostra nos entes entendidos como coisa algo que não pode ser inteiramente compreendido por meio desse caráter.”

Do ponto de vista ontológico, o que significa o ser dos valores, ou seja, <a sua valência>?” Não faz pergunta difícil, H.!

E essa reconstrução de uma coisa de uso inicialmente <descascada> não necessitaria sempre de uma visão prévia e positiva do fenômeno cuja totalidade deve ser reproduzida na reconstrução? Se, porém, a sua própria constituição ontológica não tiver sido explicitada previamente de modo adequado, a reconstrução procederá sem qualquer projeto.” Hic salta Nietzsche.

Perguntas capitais:

1. Por que (…) desde Parmênides (…) passou-se por cima do fenômeno do mundo? De onde provém a repetição contínua desse passar por cima?

2. Por que o ente intramundano se torna tema ontológico para esse fenômeno?

3. Por que este ente encontra-se, de início, na <natureza>?

4. Por que a complementação desta ontologia do mundo, que se sente necessária, cumpre-se em se recorrendo ao fenômeno dos valores?

Somente nas respostas a estas questões é que a problemática do mundo poderá alcançar uma compreensão positiva”

O método cartesiano não é ontologicamente metódico.

Heidegger é bom para perguntar, ruim para responder.

C. O CIRCUNDANTE DO MUNDO CIRCUNDANTE E A ESPACIALIDADE DA PRE-SENÇA

REVIRANDO CARTÉSIO: “O instrumento tem seu local ou então <está-por-aí>, o que se deve distinguir fundamentalmente de uma simples ocorrência numa posição arbitrária do espaço [x, y].” “O lugar é sempre o <aqui> e <lá> determinados a que pertence um instrumento.” “Chamamos de região este para-onde da possível pertinência instrumental”

Esta orientação regional da multiplicidade de locais do que está à mão constitui o circundante” “Nunca nos é dado, de início, uma multiplicidade tridimensional de possíveis posições preenchidas por coisas simplesmente dadas.” “O que continuamente está à mão não tem um local, pois é previamente levado em conta pelo ser-no-mundo da circunvisão.”

o sol cuja luz e calor são usados cotidianamente possui seus locais marcados e descobertos pela circunvisão (…): o nascente, o meio-dia, o poente, a meia-noite.” “indicações privilegiadas” “A casa tem o seu lado do sol e o seu lado da ventilação; por ele se orienta a distribuição dos <cômodos> [ou não, na periferia] e nestes, novamente, a <instalação> de acordo com o seu caráter instrumental.” “Igrejas e sepulturas, p.ex., são dispostas segundo o nascente e o poente, regiões da vida e da morte”

Distanciar diz fazer desaparecer o distante, isto é, a distância de alguma coisa diz proximidade. Em sua essência, a pre-sença é essa possibilidade de dis-tanciar.” “Assim como o intervalo, a distância é uma determinação categorial dos entes destituídos do modo de ser da pre-sença. (…) quaisquer 2 coisas, 2 pontos não estão distantes um do outro, porque nenhum deles é capaz de distanciar em seu modo próprio de ser.”

Será que o sentido da afirmação disseminada que li sobre Heidegger no tocante à Técnica é nessa possibilidade catastrófica iminente da aldeia global comprimir todo o horizonte, achatar as distâncias e tornar tudo circunvizinhança do ser-aí? “Todos os modos de aumentar a velocidade que nós, hoje, de forma mais ou menos forçada, exercemos impõem a superação da distância. Assim, p.ex., com a <radiodifusão>, a pre-sença cumpre hoje o dis-tanciamento do <mundo>, através de uma ampliação e destruição do mundo circundante cotidiano, cujo sentido para a pre-sença ainda não pode ser totalmente aniquilado.”

Mesmo quando nos servimos de medidas precisas e dizemos: <até em casa é meia hora>, essa medição deve ser tomada como uma avaliação, pois aqui <meia hora> não são 30 minutos mas uma duração que não possui <tamanho>, no sentido de extensão quantitativa.”

todo dia os caminhos corriqueiros que levam ao ente dis-tante são diferentemente longos.” “Os intervalos objetivos de coisas simplesmente dadas não coincidem com a distância e o estar próximo do manual intramundano.” “Trata-se de uma <subjetividade> que talvez descubra o mais real da <realidade> do mundo, a qual nada tem a ver com uma arbitrariedade <subjetiva> nem com <apreensões> subjetivistas de um ente <em si> diverso.”

ANTOLHOS (Da sabedoria hindu à Rei de Evangelion): “Para quem usa óculos, p.ex., que, do ponto de vista do intervalo, estão tão próximos que os <trazemos no nariz>, esse instrumento de uso, do ponto de vista do mundo circundante, acha-se mais distante do que o quadro pendurado na parede em frente.” Hoje somos míopes surdos do ventre inchado, sempre com fone e fome.

[Mas] Em seu ser-em, que instala dis-tanciamento, a pre-sença também possui o caráter de direcionamento.” “Sendo, a pre-sença, na qualidade de um ser que distancia e se direciona, possui uma região já desde sempre descoberta.” “A espacialização da pre-sença em sua <corporeidade>, a qual abriga em si uma problemática especial que não será tratada aqui, acha-se também marcada por essas direções.”

manobra”

ma[n-o]b-ra

mão inimiga no peito amigo

b-ra So fort v-in-gador

Pelo puro sentimento da diferença de meus 2 lados nunca poderia localizar-me corretamente no mundo. (Kant)” “O fato de eu já estar sempre num mundo não é menos constitutivo da possibilidade de orientação do que o sentimento de direita e esquerda.”

O CARÁTER DO ASSUNTO TEM LICENÇA POÉTICA PARA A REDUNDÂNCIA MAIS VULGAR: “A interpretação psicológica de que o eu possui algo <na memória>, no fundo, tem em mente a constituição existencial do ser-no-mundo.”

(*) “Todo ser é sempre ser-com mesmo na solidão e isolamento, a pre-sença é sempre co-presença (Mitdasein), o mundo é sempre mundo compartilhado (Mitwelt), o viver é sempre com-vivência (Miteinandersein).”

(*) “Para indicar a ação impessoal de um verbo, a língua alemã dispõe de 2 pronomes: es e man. <Es> indica uma impessoalidade indiferenciada. O sujeito da ação pode ser uma coisa, uma pessoa, uma situação [Es regnet – chove]. O <man> exprime, por sua vez, uma impessoalidade diferenciada, pois diz que ocorreu uma despersonalização de pessoas. [Man frölich ist – É-se feliz ou A gente é feliz].”

(*) “PRÓPRIO = SELBST

O termo <Selbst> e seus derivados, Selbst-sein, Selbstheit, das Selbst, Selbigkeit não designam nem a consciência, nem o inconsciente nem a personalidade, em qualquer sentido ou acepção psicológica e antropológica.”

(*) DE-MONSTRAÇÃO = AUFZEIGUNG; AUFWEISUNG

A palavra portuguesa de-monstração, tomada em sua formação etimológica, corresponde bem aos 2 termos alemães Auf-zeigung e Auf-weisung, pois ambos exprimem o movimento de mostrar, indicar, apontar, sem a conotação de seu uso lógico e matemático.”

(*) “CURIOSIDADE = NEUGIER

A voracidade insaciável de novidades pelo simples fato de ser diferente e diverso integra o mecanismo da despersonalização e descaracterização de toda autonomia e respeito da propriedade. O curioso não se interessa por transformar-se e diferenciar-se.”

CU-RIOSO

NEW-GEAR AUTO-PILOT nóiáguia

A REALLY SAD LOT

ANTI-KANT (ou SCHOPENHAUER, para todos os efeitos): “O espaço n[ão] está no sujeito (…) Ao contrário, o espaço está no mundo na medida em que o ser-no-mundo constitutivo da pre-sença já descobriu sempre um espaço. (…) É o <sujeito>, entendido ontologicamente, a pre-sença, que é espacial em sentido originário. Porque a pre-sença é nesse sentido espacial, o espaço se apresenta como a priori. Este termo não indica a pertinência prévia a um sujeito que de saída seria destituído de mundo e projetaria de si um espaço. Aprioridade significa aqui precedência do encontro com o espaço (como região) em cada encontro do manual no mundo circundante.”

A intuição formal do espaço descobre possibilidades puras de relações espaciais. Estas consistem numa seqüência hierárquica na liberação de um espaço puro e homogêneo, desde a pura morfologia das figuras espaciais, visando a uma análise da posição (situs), até às ciências puramente métricas do espaço.” “O mundo perde a especificidade de suas circundâncias, o mundo circundante transforma-se em mundo da natureza. (…) contexto de coisas extensas simplesmente dadas.” Eis a desmundanização, com seu aspecto de neutro e homogêneo do espaço.

4. O SER-NO-MUNDO COMO SER-COM E SER-PRÓPRIO. O “IMPESSOAL”

O pronome quem é aquilo que, nas mudanças de atitude e vivência, se mantém idêntico e, assim, refere-se a esta multiplicidade. Do ponto de vista ontológico, nós o entendemos como algo simplesmente dado, já sempre constantemente vigente para e numa região fechada e que, num sentido privilegiado, oferece uma base enquanto o subjectum. (…) Por mais que se rejeite a substância da alma ou o caráter de coisa da consciência e da objetividade da pessoa, ontologicamente, já no ponto de partida, fica-se atrelado a algo cujo ser guarda, explícita ou implicitamente, o sentido de ser simplesmente dado. A substancialidade é o guia ontológico da determinação dos entes a partir do qual se responde à pergunta quem.” “Ora, o ser simplesmente dado é o modo de ser de um ente que não possui o caráter da pre-sença.” “Pode ser que o quem da pre-sença cotidiana não seja sempre justamente eu mesmo.” “E se, partindo do dado do eu, a analítica existencial caísse, por assim dizer, nas tramas da própria pre-sença e de sua auto-interpretação mais corriqueira?” “O <eu> só pode ser entendido no sentido de uma indicação formal não-contingente de algo que, em cada contexto ontológico-fenomenal, pode talvez se revelar o <seu contrário>. Nesse caso, o <não-eu> não diz, de forma alguma, um ente em sua essência desprovido de <eu>, mas indica um determinado modo de ser do próprio <eu> como, p.ex., a perda de si próprio.” “a <substância> do homem é a existência e não o espírito enquanto síntese de corpo e alma.”

SER-TU: “Humboldt observou várias línguas que exprimem o <eu> pelo <aqui>, o <tu> pelo <aí>, o <ele> pelo <lá>, portanto, línguas que, numa formulação gramatical, exprimem os pronomes pessoais pelos advérbios locativos. É discutível qual o significado originário das expressões locativas, quer adverbiais, quer pronominais.” “O aqui, lá, aí, não são primariamente mera determinação de lugar dos entes intramundanos, simplesmente dados em posições espaciais, e sim caracteres da espacialidade originária da pre-sença.”

ser-aí-com (= co-pre-sença nesta tradução)

O estar-só é um modo deficiente de ser-com e [justamente] sua possibilidade é a prova disso.” “Esse fenômeno que, de maneira não muito feliz, designa-se de <simpatia> deve, por assim dizer, construir ontologicamente uma ponte entre o próprio sujeito isolado e o outro sujeito, de início, inteiramente fechado.” “<O outro é um duplo de próprio.> É fácil ver que essa reflexão aparentemente evidente apóia-se em bases pouco sólidas. A pressuposição dessa argumentação de que o ser da pre-sença é para si mesmo o ser-para-um-outro não é justa. Enquanto essa pressuposição não se comprovar evidente em sua justa determinação, permanece enigmático de que maneira ela haverá de esclarecer a relação da pre-sença-para-consigo-mesma com referência ao outro-como-outro.”

O quem não é este ou aquele, nem o próprio do impessoal, nem alguns e muito menos a soma de todos. O <quem> é o neutro, o impessoal.” “O impessoal desenvolve sua própria ditadura nesta falta de surpresa e de possibilidade de constatação. Assim, nos divertimos e entretemos como impessoalmente se faz; lemos, vemos e julgamos sobre a literatura e a arte como impessoalmente se vê e julga; também nos retiramos das <grandes multidões> como impessoalmente se retira; achamos <revoltante> o que impessoalmente se considera revoltante. O impessoal, que não é nada determinado mas que todos são, embora não como soma, prescreve o modo de ser da cotidianidade.”

Em seu ser, o impessoal coloca essencialmente em jogo a medianidade. (…) Essa medianidade, designando previamente o que se pode e deve ousar, vigia e controla toda e qualquer exceção que venha impor-se. Toda primazia é silenciosamente esmagada. Tudo que é originário se vê, da noite para o dia, nivelado como algo de há muito conhecido. O que se conquista com muita luta, torna-se banal. Todo segredo perde sua força. O cuidado [ver acima o ‘passivo’ da Cura] da medianidade desentranha também uma tendência essencial da pre-sença, que chamaremos de nivelamento de todas as possibilidades de ser.”

public-idade” limit-ações da trad-ução!

O impessoal encontra-se em toda parte, mas no modo de sempre ter escapulido quando a pre-sença exige uma decisão.” “o impessoal retira a responsabilidade de cada pre-sença.” “Pode assumir tudo com a maior facilidade e responder por tudo, já que não há ninguém que precise responsabilizar-se por alguma coisa. O impessoal sempre <foi> quem… e, no entanto, pode-se dizer que não foi <ninguém>.” “o impessoal conserva e solidifica seu domínio caturro. [grosseiro, superficial]” “o impessoal, enquanto ninguém, não é um nada. Ao contrário, neste modo de ser, a pre-sença é um ens realissimum, caso se entenda <realidade> como um ser dotado do caráter de pre-sença.” “O impessoal também não é uma espécie de <sujeito universal> que paira sobre vários outros. Essa concepção só é possível caso o ser dos <sujeitos> seja compreendido como o que não possui o caráter de pre-sença, e caso se parta da suposição de que os sujeitos são casos factuais simplesmente dados de um gênero.” “Não é de admirar que a lógica tradicional fracasse diante destes fenômenos quando se pensa que a lógica tem seu fundamento numa ontologia-das-coisas-simplesmente-dadas que, além de tudo, é precária. Por mais que se aperfeiçoe e amplie, a lógica não pode, em princípio, tornar-se mais flexível. As reformas da lógica, orientadas pelas <ciências do espírito>, só fazem aumentar a confusão ontológica.” “O próprio da pre-sença cotidiana é o próprio-impessoal que distinguimos do si mesmo em sua propriedade

O EU PRÉ-FILOSÓFICO:De início, <eu> não <sou> no sentido do propriamente si mesmo e sim os outros nos moldes do impessoal. É a partir deste e como este que, de início, eu <sou dado> a mim mesmo. De início, a pre-sença é impessoal e, na maior parte das vezes, assim permanece.”

O ser-no-mundo [finalmente] tornou-se visível em sua cotidianidade e em sua medianidade.”

A interpretação ontológica segue inicialmente esta tendência e entende a pre-sença a partir do mundo, onde a encontra como ente intramundano.”

O ser do que é próprio não repousa num estado excepcional do sujeito que se separou do impessoal. Ele é uma modificação existenciária do impessoal como existencial constitutivo.”

5. O SER-EM COMO TAL

Até aqui, a caracterização fenomenal do ser-no-mundo voltou-se para o momento estrutural mundo e para responder à questão quem deste ente em sua cotidianidade. Entretanto, já nas primeiras caracterizações das tarefas de uma análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, antecipou-se uma orientação sobre o ser-em como tal, que se demonstrou concretamente no modo de conhecer o mundo.”

Em busca do ser-da-cura (devidamente ocupado, em termos heideggerianos).

O fenômeno da igualdade originária dos momentos constitutivos foi, muitas vezes, desconsiderado na ontologia, na medida em que ela pretende, por métodos desabridos, comprovar a proveniência de tudo e de todos a partir de uma <base primordial> única e simples.”

Ser <esclarecido> [dotado de luz] significa: estar em si mesmo iluminado como ser-no-mundo, não através de um outro ente, mas de tal maneira que ele mesmo seja a claridade.”

A. A CONSTITUIÇÃO EXISTENCIAL DO PRE [-AÍ DO SER-AÍ]

Os estados de humor.

O fato de os humores poderem se deteriorar e transformar diz somente que a pre-sença já está sempre de humor.”

naquilo de que o humor faz pouco caso, a pre-sença se descobre entregue à responsabilidade do aí. É no próprio esquivar-se que o aí se abre em seu ser.”

O humor não realiza uma abertura no sentido de observar o estar-lançado [estar-aí] e sim de enviar-se e desviar-se. Na maior parte das vezes, ele faz pouco caso do caráter pesado da pre-sença que nele se revela, e muito menos ainda quando se alivia de um humor. Esse desvio é o que é, no modo da disposição.”

Mesmo que a pre-sença estivesse <segura> na fé de seu <destino> ou pretendesse saber a sua proveniência mediante um esclarecimento racional, nada disso diminuiria o seguinte fenômeno: o humor coloca a pre-sença diante do fato de seu aí que, como tal, se lhe impõe como enigma inexorável.”

O irracionalismo – enquanto o outro lado do racionalismo – fala apenas estrabicamente daquilo para o que o racionalismo é cego.” “Que um ser-aí de fato possa, deva e tenha de assenhorear-se do humor através do saber e da vontade pode, em certas possibilidades da existência, significar uma primazia da vontade e do conhecimento. (…) nunca nos assenhoreamos do humor sem humor, mas sempre a partir de um humor contrário.”

O <mero humor> abre o aí de modo mais originário, embora também o feche de modo ainda mais obstinado do que qualquer não-percepção. Isso é o que mostra o mau-humor. Nele (…) a circunvisão da ocupação se desencaminha.”

O humor se pre-cipita. Ele não vem de <fora> nem de <dentro>.”

Do ponto de vista ontológico-fundamental, devemos em princípio deixar a descoberta primária do mundo ao <simples humor>. Uma intuição pura, mesmo introduzida nas artérias mais interiores de alguma coisa simplesmente dada, jamais chegaria a descobrir algo como ameaça. [sem medo, não se sabe nem o que é destemor; ou, falando de forma mais poética, é impossível agir de modo temerário!]

A primeira investigação metafísica sobre o humor provém da Retórica de Aristóteles. Por que a Retórica e não a Psicologia (Da alma)? Segundo H., porque é a Retórica essencialmente o campo da hermenêutica sistemática do ser-com. O que seria um orador sem humor?! Não um homem…

A partir dos estóicos, o humor se limita e se conforma a ser assunto subsidiário da Filosofia.

É um mérito da pesquisa fenomenológica ter re-criado uma visão mais livre desses fenômenos.” É porque falta a Hegel qualquer consideração nesse sentido e nessa instância (uma pascalização de sua filosofia, p.ex.) que sua filosofia é tão estanque.

O que se teme, o <temível>, é sempre um ente que vem ao encontro dentro do mundo e que possui o modo de ser do manual, ou do ser simplesmente dado ou ainda da co-pre-sença.”

o que é temível em sua temeridade?”

1. dano

2. região de dano

3. o familiar na estranheza dessa região

4. o danoso ainda é ‘meio-distante’, ou já seria outra coisa que temor. Angst

5. é terrível aquilo que até o último instante, por assim dizer, não nos revela se poderá ou não chegar

Nesse aproximar-se, o dano se irradia e seus raios apresentam o caráter de ameaça.” “Não se constata 1º um mal futuro (malum futurum) para a seguir temer. O temer também não constata 1º o que se aproxima mas, em sua temeridade, já o descobriu previamente.” “A circunvisão vê o temível por já estar na disposição do temor. Como possibilidade adormecida no ser-no-mundo disposto, o temer é <temerosidade> e, como tal, já abriu o mundo para que o temível dele possa se aproximar.”

Apenas o ente em que, sendo, está em jogo seu próprio ser, pode temer.” Cães não temem.

Ora, como se poderia temer pelo mundo? Justamente o que não estará nunca dado nem passível de se dar!

Pode-se temer em lugar de, sem sentir temor. (…) O temer em lugar de… de certa forma sabe que não é atingido, embora, na verdade, seja atingido pela co-pre-sença, pela qual se teme. (…) o temer-em-lugar-de não perde sua autenticidade específica quando <propriamente> não teme.”

Na medida em que uma ameaça, em seu <na verdade ainda não, mas a qualquer momento sim>, subitamente se abate sobre o ser-no-mundo da ocupação, o temor se transforma em pavor.” “O referente do pavor é, de início, algo conhecido e familiar. Se, ao contrário, o que ameaça possuir o caráter de algo totalmente não-familiar, o temor transforma-se em horror. E somente quando o que ameaça vem ao encontro com o caráter de horror, possuindo ao mesmo tempo o caráter de pavor, a saber, o súbito, o temor torna-se então, terror. Outras variações do temor nos são conhecidas como timidez, acanhamento, receio e estupor.”

Temeroso na essência.

Toda disposição sempre possui a sua compreensão, mesmo quando a reprime.”

Dizer que a pre-sença existindo é o seu significa, por um lado, que o mundo está <pre-sente>, a sua pre-sença é o ser-em. Este é e está igualmente <presente> como aquilo em função de que a pre-sença é.”

A compreensão é a abertura.

Significância é a perspectiva em função da qual o mundo se abre como tal. Dizer que função e significância se abrem na pre-sença significa que a pre-sença é um ente em que, como ser-no-mundo, ele próprio está em jogo.”

Eu compreendo toda a história do grunge: compreensão no sentido de encapsulamento, abrangência físicos, espácio-temporais de um fenômeno; nasci antes do grunge começar, e até hoje estou vivo conforme antigas bandas grunge e novas bandas post-grunge surgem, o que quer dizer que eu formo um conjunto em que grunge é só um subconjunto completamente contido em mim mesmo. Compreensão em sentido ôntico.

Compreensão como poder-ser. nível ontológico: “A pre-sença é a possibilidade de ser livre para o poder-ser mais próprio.” “A pre-sença é de tal maneira que ela sempre compreendeu ou não compreendeu ser dessa ou daquela maneira. (…) ela <sabe> a quantas ela mesma anda” “Esse <saber> não nasce 1º de uma percepção imanente de si mesma, mas pertence ao ser do aí/pre- do ser-aí/pre-sença que, em sua essência, é compreensão.” “E somente porque o ser-aí é na compreensão de seu aí é que ele pode-se perder e desconhecer. E na medida em que a compreensão está na disposição [humor] e, nessa condição, está lançada existencialmente, o ser-aí já sempre se perdeu e desconheceu. Em seu poder-ser, portanto, o ser-aí já se entregou à possibilidade de se reencontrar em suas possibilidades.”

possibilidade de ser-ventia” maluco genial!

Será por acaso que a questão do ser da natureza visa às <condições de sua possibilidade>?” “por que o ente, destituído do caráter de ser-aí, é compreendido em seu ser quando se abre nas condições de sua possibilidade? Kant pressupõe algo assim, talvez com razão. Mas essa pressuposição não pode mais permanecer sem verificar seu direito.”

compreensão projeto

O projeto é a constituição ontológico-existencial do espaço de articulação do poder-ser de fato.”

a pre-sença se lança no modo de ser do projeto. O projetar-se nada tem que ver com um possível relacionamento frente a um plano previamente concebido, segundo o qual o ser-aí instalaria o seu ser. Como ser-aí, ele já sempre se projetou e só é na medida em que se projeta.”

Enquanto projeto, a compreensão é o modo de ser do ser-aí em que o ser-aí é as suas possibilidades enquanto possibilidades.”

somente porque o ser do aí é tanto o que será quanto o que não será é que o ser-aí pode, ao se compreender, dizer: sé o que tu és!Torna-te aquilo que tu tens a possibilidade aberta de ser.

Sócrates Nietzsche

<Im>-própria não significa que a pre-sença rompa consigo mesma e <só> compreenda o mundo. Mundo pertence ao seu próprio ser como ser-no-mundo.”

Em seu caráter existencial de projeto, a compreensão constitui o que chamamos de visão da pre-sença. (…) Chamamos de transparência a visão que se refere primeira e totalmente à existência.” Ver é converter o simplesmente dado (existenciário) em originário ou existencial, essencial. “A tradição da filosofia, porém, orienta-se desde o princípio, primariamente pelo <ver> [entre aspas, ou seja: ocular, ôntico, vulgar] enquanto modo de acesso para o ente e para o ser.”

O olho que tudo vê na verdade é cego. Aquele que tudo pode não pode-ser. (Ver acima sobre não-ser-judeu no aspecto teleológico do deus todo-poderoso.)

retira-se [assim] da intuição pura a sua primazia que, noeticamente, corresponde à primazia ontológica tradicional do ser simplesmente dado. Intuição e pensamento já são ambos derivados distantes da compreensão. Também a intuição da essência fenomenológica está fundada na compreensão existencial.”

Mas não será que, com a explicação da constituição existencial do ser-do-aí, no sentido do projeto projetado, o ser do ser-aí não se torna ainda mais enigmático?”

fracassar com autenticidade”

Na interpretação, a compreensão se torna ela mesma e não outra coisa. (…) Interpretar não é tomar conhecimento de que se compreendeu, mas elaborar as possibilidades projetadas na compreensão.” “O mundo já compreendido se interpreta.”

Ter simplesmente diante de si uma coisa [abrangê-la situacionalmente] é somente fixá-la como uma não-compreensão.” “O fato de o <como> [modo da interpretação] não ser pronunciado onticamente não deve levar a desconsiderá-lo enquanto constituição existencial a priori da compreensão.”

Tudo o que está à mão sempre já se compreende a partir da totalidade conjuntural.” “A interpretação sempre se funda numa visão préviaO que H. quer dizer com essa linguagem tão espúria é simplesmente: não existe uma situação de zero valor, não-valor, ou que antedate o valor – o valor sempre está-aí, sempre esteve aí para o homem… Desnudar valores é valorar.

Devemos supor tais fenômenos [a supremacia e ubiqüidade do valor, enquanto valor dos valores] como <realidades últimas>?” R: Sim, mas existe mais de um valor-dos-valores, embora sempre deva haver um para uma época.

CRIATÓRIO DE PALAVRAS PARA O QUE JÁ ESTAVA-AÍ (CONCRETAMENTE, NA FILOSOFIA DO XIX!): “Sentido é a perspectiva em função da qual se estrutura o projeto pela posição prévia, visão prévia e concepção prévia.”

O VELHO VÉU DE MAIA: “O ser-aí só <tem> sentido na medida em que a abertura do ser-no-mundo pode ser <preenchida> por um ente que nela se pode descobrir.” E depois: a única fuga do valor é “falsa”, é a incompreensão do valor vigente. Este é o contra-senso ou nonsense. “o <fundamento> só é acessível como sentido mesmo que, em si mesmo, seja o abismo de uma falta de sentido.”

Toda interpretação que se coloca no movimento de compreender já deve ter compreendido o que se quer interpretar. Esse fato foi sempre observado na interpretação filológica, embora apenas nos setores dos modos derivados de compreensão e interpretação.” Filologia: 2nd hand knowledge

Segundo as regras mais elementares da lógica, no entanto, o círculo é um circulus vitiosus.” “Enquanto não se abolir da compreensão esse círculo, a historiografia deve-se satisfazer com possibilidades de conhecimentos menos rigorosas.” “Mas ver nesse círculo um vício, buscar caminhos para evitá-lo e também <senti-lo> apenas como imperfeição inevitável significa um mal-entendido de princípio acerca do que é compreensão.” “O decisivo não é sair do círculo mas entrar no círculo de modo adequado.” A matemática não é mais rigorosa do que a história. É apenas mais restrita

Mesmo o ouvir-dizer é um ser-no-mundo e um ser-para-o-que se ouviu.”

Validade indica, por um lado, a <forma> da realidade, atribuída ao conteúdo do juízo enquanto o que permanece inalterado frente ao processo <psíquico> de julgamento, esse em contínua transformação.” “Por outro lado, validade também significa que o sentido do juízo de valor vale para o seu <objeto>, assumindo assim o significado de <validade objetiva> e objetividade em geral.” validade universal

Se ainda se defende uma epistemologia <crítica>, para a qual o sujeito propriamente <não sai de si> para alcançar o objeto, então, nesse caso, a validade como objetividade, a validade do objeto, funda-se na existência válida do sentido verdadeiro (!). As 3 acepções explicitadas de <valer>, ser ideal, objetividade, constringência [universalidade – o termo conota contração, achatamento, espécie de castração de possibilidades], não são apenas confusas em si mas se confundem entre si.”

Nós não restringimos previamente o conceito de sentido à acepção de <conteúdo de juízo>, entendendo-o como fenômeno existencial, já caracterizado, [aberto] onde o aparelhamento formal do que se pode abrir na compreensão e articular na interpretação se faz visível.”

o martelo é pesado, o peso é do martelo, o martelo tem a propriedade de ser pesado. A concepção prévia sempre presente em toda proposição permanece, na maior parte das vezes, sem surpresas, pois toda língua já guarda em si uma conceituação elaborada.” “A falta de palavra não pode ser entendida como falta de interpretação.” “Quais são as modificações ontológico-existenciais que fazem com que a interpretação da circunvisão dê origem à proposição [algo dela derivado]?” Nascimento da proposição: quando “o como é forçado a nivelar-se com o ser simplesmente dado.” O martelo do exemplo não mais em relação com o ser-aí, ser-no-mundo, mas como ente a priori martelo objetificado.

como hermenêutico-existencial X como apofântico (ver glossário ao final – limite da lógica formal aristotélica)

A demonstração é, ao mesmo tempo, uma conjunção e uma disjunção. Sem dúvida Aristóteles não levou a questão analítica até o seguinte problema: na estrutura do logos, que fenômeno permite e exige que se caracterize toda proposição como síntese e diairese [separação]?” “O fenômeno da cópula mostra até que ponto esta problemática ontológica influi na interpretação do logos e, inversamente, até que ponto o conceito de <juízo> repercute, numa reação curiosa, na problemática ontológica.” “já de saída se pressupõe [em Aristóteles, i.e., na Lógica] evidentemente a estrutura sintética, mantendo-a, então, numa função decisiva da intepretação do logos.” “O esclarecimento da 3ª acepção de proposição como comunicação (declaração) levou ao conceito de falar e dizer, até aqui propositadamente desconsiderado. O fato de somente agora se tematizar a linguagem deve indicar que este fenômeno se radica na constituição existencial da abertura do ser-aí.”

Eu falo, mas não com palavras.

Aqui vê-se a fragilidade de Deleuze: seu desejo não tem um para ou de

partilha da disposição comum”

No discurso, o ser-aí se pro[jeta]nuncia.” Só se projeta o que já está/é fora.

Escutar é o estar aberto existencial da pre-sença enquanto ser-com os outros.” “É com base nessa possibilidade de escutar, existencialmente primordial, que se torna possível ouvir [‘escuta compreensiva’].” Não se ouve ruído (som sem significado). Esses trechos confirmam o ‘surdo schopenhaueriano’ como o retardado clássico. Cf. https://seclusao.art.blog/2021/11/14/o-mundo-como-vontade-e-como-representacao-a-musica-ouvida-so-uma-vez-nunca-foi-ouvida/.

Somente quem já compreendeu é que poderá escutar.”

Quem silencia no discurso da convivência pode <dar a entender> com maior propriedade [mormente como oposição].”

a incompreensão da trivialidade”

o mudo é a tendência <para falar>.”

Quem nunca diz nada não pode silenciar

Silenciar em sentido próprio só é possível num discurso autêntico.”

Terá [a ágora grega] sido mero acaso?” “Os gregos não dispunham de uma palavra própria para linguagem porque entendiam esse fenômeno <sobretudo> como discurso.”

A tarefa de libertar a gramática da lógica necessita de uma compreensão preliminar e positiva da estrutura a priori do discurso como existencial.” “Também não basta assumir o horizonte filosófico em que Humboldt problematizou a linguagem.”

De que modo é o ser-da-linguagem para que ela possa estar <morta>? (…) Dispomos de uma ciência da linguagem, a lingüística, e, no entanto, o ser daquele ente por ela tematizado é obscuro” “A investigação filosófica deve renunciar a uma <filosofia da linguagem> a fim de poder questionar e investigar <as coisas elas mesmas> e dever colocar-se em condições de trazer uma problemática clara, do ponto de vista dos conceitos.”

B. O SER COTIDIANO DO AÍ E A DE-CADÊNCIA DO SER-AÍ

Quais são os caracteres existenciais da abertura do ser-no-mundo quando o ser-no-mundo cotidiano se detém no modo de ser do impessoal?” “Como ser-lançado-no-mundo, não será que o ser-aí foi jogado de saída na public-idade do pessoal?”

deve-se evidenciar a abertura do impessoal, quer seja, o modo de ser cotidiano do discurso, da visão e da interpretação em determinados fenômenos. Com relação a esses fenômenos, não será supérfluo observar que a interpretação tem um propósito puramente ontológico e se mantém muito distante de qualquer crítica moralizante do ser-aí cotidiano e de qualquer aspiração a uma <filosofia da cultura>.”

APOLOGIA DA FOFOCA: “A expressão <falatório> não deve ser tomada aqui em sentido pejorativo. Terminologicamente, significa um fenômeno positivo que constitui o modo de ser da compreensão e interpretação do ser-aí cotidiano.”

possibilidades da compreensão mediana”

Qual é o ser-da-fofoca? Ela que não é algo dado, pois é linguagem.

…Todos nós pegamos o bonde andando.

O empenho da comunicação é que se fale. O que se diz, o dito e a dicção se empenham agora pela autenticidade e objetividade do discurso e de sua compreensão.”

O falado no falatório arrasta consigo círculos cada vez mais amplos, assumindo um caráter autoritário. As coisas são assim como são porque delas se fala assim. Repetindo e passando adiante a fala, potencia-se a falta de solidez.” Imprensa: a fofoca ultimada.

A FECHADURA DO DISCURSO: “O falatório que qualquer um pode sorver sofregamente [ex: LULA LADRÃO] não apenas dispensa a tarefa de uma compreensão autêntica como também elabora uma compreensibilidade indiferente, da qual nada é excluído.”

Este fechamento [do discurso] é, de novo, potenciado pelo fato de o falatório pretender ter compreendido o referencial com base nessa pretensão de reprimir, postergar e retardar toda e qualquer questão e discussão.” “O predomínio da interpretação pública já decidiu até mesmo sobre as possibilidades de sintonização com o humor, i.e., sobre o modo fundamental em que o ser-aí é tocado pelo mundo.” “O falatório é (…) um contínuo desenraizamento. Do ponto de vista ontológico, isso significa: como ser-no-mundo, a pre-sença que se mantém no falatório rasgou suas remissões ontológicas primordiais, originárias e legítimas com o mundo, com a co-pre-sença e com o próprio ser-em. (…) Mais do que um não-ser, esse desenraizamento perfaz sua <realidade> mais cotidiana e mais persistente.

A estranheza da oscilação em que o ser-aí tende para uma crescente falta de solidez permanece encoberta sob a proteção de auto-evidência e autocerteza que caracterizam a interpretação mediana.”

Aquilo que se pressignou na sentença de Parmênides chega, nessa interpretação, a uma compreensão temática e explícita. O ser é tudo que se mostra numa percepção puramente intuitiva, e somente esse tipo de ver descobre o ser.” O que é esse tipo de ver? A curiosidade heideggeriana. Raiz da ontologia na Grécia.

Da intuição pura a dialética de Hegel retirou o seu moto [por mais que pense superar Kant] e somente à sua base é que se tornou possível.”

OTIUM: “A curiosidade liberada ocupa-se em ver, não para compreender o que vê, para chegar a ele num ser, mas apenas para ver. Ela busca apenas o novo” “abandonar-se ao mundo”

impermanência” (antítese da pre-sença)

não busca o ócio de uma permanência contemplativa e sim a excitação e inquietação mediante o sempre novo e as mudanças do que vem ao encontro.”

possibilidade continua de dispersão.”

A curiosidade não é o espanto inicial do filósofo na Metafísica de Aristóteles.

O falatório também rege os caminhos da curiosidade. É ele que diz o que se deve ter lido e visto.” “responsabilidade do falatório” Se pudéssemos resumir: o falatório é a burrice personificada, a curiosidade inútil, a tolerância em excesso.

Se, na convivência cotidiana, tanto o que é acessível a todo mundo quanto aquilo de que todo mundo pode dizer qualquer coisa vêm igualmente ao encontro, então já não mais se poderá distinguir, na compreensão autêntica, o que se abre do que não se abre.” “Tudo parece ter sido compreendido, captado e discutido autenticamente quando, no fundo, não foi. Ou então parece que não o foi quando, no fundo, foi.” “Não somente todo mundo conhece e discute o que se dá e ocorre, como também todo mundo já sabe discorrer sobre o que vai acontecer, o que ainda não se dá e ocorre, mas que <propriamente> deve ser feito.” “quem autenticamente <está na pista> não fala sobre isso”

DO ‘NÃO FOI GOLPE’: “Supondo que aquilo que impessoalmente se pressentiu e farejou seja, algum dia, transformado em fato, será justamente a ambigüidade quem terá cuidado para que morra imediatamente o interesse pela coisa realizada. Esse <interesse> só subsiste no modo da curiosidade e do falatório, na medida em que se dá como a possibilidade de mero pressentimento em comum, sem nenhum compromisso. Quando e enquanto se está na pista de alguma coisa, o mero estar-junto recua o compromisso do acompanhamento do momento em que se dá início à realização do que se pressentiu.” “isso qualquer um poderia ter feito” O Barão de Coubertin diria: o importante é pressentir. “Em sua ambigüidade, o falatório e a curiosidade cuidam para que aquilo que se criou de autenticamente novo já chegue envelhecido quando se torna público.”

no impessoal a compreensão da pre-sença não a si mesma em seus projetos”

onde cotidianamente tudo e, no fundo, nada acontece.”

De início, o outro <está presente> pelo que se ouviu impessoalmente dele, pelo que se sabe e se fala a seu respeito. O falatório logo se insinua dentre as formas de convivência originária. Todo mundo presta primeiro atenção em como o outro se comporta, no que ele irá dizer. A convivência no impessoal não é, de forma alguma, uma justaposição acabada e indiferente, mas um prestar-atenção-uns-aos-outros, ambíguo e tenso.”

a ambigüidade não nasce primordialmente de uma má-fé e nem é detonada primeiro por um ser-aí singular [determinado].” “o impessoal haverá sempre de objetar que essa interpretação não corresponde ao modo de ser da interpretação do impessoal.”

Por si mesma, em seu próprio poder-ser ela própria mais autêntico, a pre-sença já sempre caiu de si mesma e de-caiu no <mundo>. De-cair no <mundo> indica o empenho na convivência, na medida em que esta é conduzida pelo falatório, curiosidade e ambigüidade.” “Não ser ele mesmo é uma possibilidade positiva dos entes que se empenham essencialmente nas ocupações do mundo. Deve-se conceber esse não-ser como o modo mais próximo de ser da pre-sença em que, na maioria das vezes, ela se mantém.

Assim, a de-cadência da pre-sença também não pode ser apreendida como <queda> de um <estado original>, mais puro e superior. Disso nós não dispomos onticamente [fenomenal, diretamente] de nenhuma experiência e, ontologicamente [essencialmente], de nenhuma possibilidade e guia ontológicos para uma interpretação.” Fare thee well, Christianity!

Seria igualmente um equívoco compreender a estrutura ontológico-existencial da de-cadência, atribuindo-lhe o sentido de uma propriedade ôntica negativa que talvez pudesse vir a ser superada em estágios mais desenvolvidos da cultura humana.” Ou é uma espetada em Nietzsche (que não acerta em cheio e sequer tem nexo, pois Nietzsche não foi citado hora nenhuma até esse ponto do livro), ou de toda forma demonstra uma escolha inapropriada do termo “de-cadência” para ilustrar seu conceito de devir do ser-aí-no-mundo, já que não tem qualquer conotação de queda ou definhamento.

a própria pre-sença prepara para si mesma a tentação constante de de-cair. É que o ser-no-mundo já é em si mesmo tentador.”

A pretensão do impessoal, de nutrir e dirigir toda <vida> autêntica, tranqüiliza a pre-sença, assegurando que tudo <está em ordem> e que todas as portas estão abertas.”

pode nascer a convicção de que a compreensão das culturas mais estranhas e a sua <síntese> com a própria cultura levaria a um esclarecimento verdadeiro e total da pre-sença a seu próprio respeito. A curiosidade multidirecionada e a inquietação de tudo saber dá a ilusão de uma compreensão universal da pre-sença.”

ela busca a mais exagerada <fragmentação de si mesma>.” “A pre-sença se precipita de si mesma para si mesma na falta de solidez e na nulidade de uma cotidianidade imprópria. Mediante a interpretação pública, essa precipitação fica velada para a pre-sença, sendo interpretada como <ascensão> e <vida concreta>.” Quando ele recebeu a crítica de sua suposta magnum opus deve ter tido vontade de reescrevê-la toda para desmentir o desmentido que levou: ora, gostas de flertar com todos esses conceitos metafísicos de seus antecessores a cada página, H.!

Empilhamento de palavras exóticas, sem que se ganhe nada com isso: “turbilhão”

Debatesse com Adorno! Acho que ambos se divertiriam muitíssimo em meio ao tédio chamado séc. XX! “Será que a pre-sença pode ser compreendida como um ente em cujo ser está em jogo o poder-ser, se justamente em sua cotidianidade a pre-sença se perdeu a si mesma e, na de-cadência, <vive> fora de si mesma?”

sistematização do ser-rebanho

Mas nada de corujas e goticismo!”, teria dito Hegel II.

Dizer que a II Guerra não representa uma viragem (em qualquer sentido que se escolher) de uma autenticidade completa para uma inautenticidade completa ou vice-versa (após a guerra) seria duma má-fé excruciante. Seria, porque o livro tem a sorte de ser anterior ao evento histriônico-histórico.

A interpretação ontológico-existencial não se refere, portanto, a um discurso ôntico sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque lhe faltam os recursos necessários, mas também porque a sua problemática antecede qualquer proposição a respeito da corrupção ou da incorruptibilidade.” “Minha interpretação não se refere a um discurso parcial ou imediatista sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque minha interpretação é absolutamente nua e neutra, e cética na medida ideal, como também porque a História não tem qualquer importância para mim, estou acima dessas miudezas.”

6. A CURA COMO SER DA PRE-SENÇA

A visualização preliminar dada no início a respeito do fenômeno perdeu agora o vazio da 1ª caracterização genérica.” “a questão a que aspirava a análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, qual seja: Como se haverá de determinar, do ponto de vista ontológico-existencial, a totalidade do todo estrutural indicado?” = Qual a relação do ser-aí com a unidade existencial-factual (totalidade do real)? Qual é a relação do presente com o eterno vir-a-ser? = Afinal, o que é a Cura?

Faz-se necessária uma confirmação pré-ontológica da interpretação existencial da pre-sença como cura.”

cura mundanidade manualidade realidade

Na problemática ontológica, ser e verdade foram, desde a Antiguidade, correlacionados, embora suas razões originárias permaneçam talvez encobertas.” “Do ponto de vista existenciário, sem dúvida, a propriedade do ser-próprio se acha, na de-cadência, obstruído e fechado. (sic)”

Aquilo com que a angústia se angustia é o ser-no-mundo como tal. (…) Nada do que é simplesmente dado (…) serve para (…) angustiar-se.” “O mundo possui o caráter de total insignificância.”

Está tão próximo que sufoca a respiração, e, no entanto, em lugar algum.”

Mesmo esse nada-ter-a-ver, o único que o discurso cotidiano da circunvisão é capaz de compreender, não é um nada completo.”

é a angústia que pela 1ª vez abre o mundo como mundo.”

Essa estranheza persegue cotidianamente a pre-sença e ameaça, mesmo que implicitamente, com a perda cotidiana no impessoal.” “O ser-no-mundo tranqüilizado e familiarizado é um modo da estranheza da pre-sença e não o contrário. O não sentir-se em casa deve ser compreendido, existencial e ontologicamente, como o fenômeno mais originário.”

A angústia é condicionada fisiologicamente [, mas o] (…) disparo psicológico da angústia só é possível porque a pre-sença, no fundo de seu ser, se angustia.”

A pre-sença já está sempre <além de si mesma>, não como atitude frente aos outros entes que ela mesma não é, mas como ser-para-o-poder-ser que ela mesma é. Designamos a estrutura ontológica do <estar em jogo> como o preceder a si mesma da pre-sença.

Pertence a esse ser-no-mundo o fato de, entregando-se à responsabilidade de si mesmo, já se ter lançado em um mundo.” “Em outras palavras: existir é sempre um fato. Existencialidade determina-se essencialmente pela facticidade.”

CURA ENQUANTO ESSA PRECEDÊNCIA INERENTE: “Fica excluída dessa significação toda tendência ôntica [imediatista] como cuidado ou descuido.” “A expressão <cura de si mesmo>, de acordo com a analogia da ocupação e preocupação, seria uma tautologia.”

no preceder-a-si-mesma, o <si> indica sempre o próprio, no sentido do próprio-impessoal. Mesmo na impropriedade, a pre-sença permanece essencialmente um preceder-a-si-mesma, da mesma forma que a fuga-de-si-mesma-na-de-cadência ainda apresenta a constituição ontológica na qual está em jogo o seu ser.

Enquanto totalidade originária de sua estrutura, a cura se acha, do ponto de vista existencial-a priori, <antes> de toda <atitude> e <situação> da pre-sença, o que sempre significa dizer que ela se acha em toda atitude e situação de fato.”

Sendo em sua totalidade essencialmente indivisível, toda tentativa de reconstrução ou recondução do fenômeno da cura a atos ou impulsos particulares tais como querer ou desejar, propensão ou tendência, converte-se em fracasso.

Tanto o querer como o desejar estão enraizados, com necessidade ontológica, na pre-sença enquanto cura e, do ponto de vista ontológico, não são vivências indiferentes que ocorrem numa <corrente> inteiramente indeterminada quanto ao sentido de seu ser.”

Do ponto de vista ontológico, [sempre bom ressaltar, para os imbecis do big bang] a cura é <anterior> aos fenômenos mencionados [surgimento da vida da perspectiva da física ou da biologia] que, sem dúvida, só podem ser adequadamente <descritos> dentro de certos limites, sem que seja necessário evidenciar ou tornar conhecido o horizonte ontológico em seu todo.” “Para a presente investigação de uma ontologia fundamental, que não aspira a uma ontologia tematicamente completa da pre-sença e muito menos a uma antropologia concreta, basta que se indique como estes fenômenos se fundam existencialmente na cura.”

No querer, só se apreende um ente já compreendido, i.e., um ente já projetado em suas possibilidades como ente a ser tratado na ocupação ou a ser cuidado em seu ser na preocupação.” “Para a possibilidade ontológica do querer são constitutivos: a abertura prévia do em-função-de-que (o preceder a si mesma), a abertura do que se pode ocupar (o mundo como algo em que já se é) e o projeto de compreensão da pre-sença num poder-ser para a possibilidade de um ente <que se quis>.”

Esse nivelamento das possibilidades da pre-sença ao que se oferece, de imediato, no cotidiano realiza, ao mesmo tempo, uma obliteração do possível como tal. A cotidianidade mediana da ocupação se torna cega para as possibilidades e se tranqüiliza com o que é apenas <real>.”

…de maneira a dar a impressão de que algo está acontecendo.”

A MEGA SENA DA MECA DO FUNCIONALISMO: “No desejo, a pre-sença projeta o seu ser para possibilidades as quais não somente não são captadas na ocupação como não se pensa ou se espera, sequer uma vez, a sua realização. Ao contrário, a predominância do preceder-a-si-mesma, no modo do simples desejar, comporta uma incompreensão das possibilidades factuais. O ser-no-mundo, cujo mundo se projeta primariamente como mundo do desejo, perde-se, de modo insustentável, no que se acha disponível, e isso de tal modo que o que está disponível como o único manual jamais é suficiente à luz do que se deseja. Desejar é uma modificação existencial do projetar-se da compreensão que, na de-cadência do estar-lançado, ainda adere pura e simplesmente às possibilidades. Essa adesão fecha as possibilidades; aquilo que está ‘presente’ na adesão do desejo torna-se ‘mundo real’. Ontologicamente, desejar pressupõe a cura.”

É verdade que o desejo — cegueira e antolhos — é sempre a decadência e mundanização de uma pretensa onisciência, possível de ser concebida apenas a posteriori após a ‘decadência’ e ‘mundanização’. Isso é o que torna as pessoas tão pasmadas. O homem é aquele que nunca sacia seu desejo? Falso. Este não é o homem-no-homem! Já está saciado. O homem é aquele que estabelece sua própria prisão em vez de liberdades.

A adesão de-cadente revela a tendência da pre-sença de se <deixar viver> pelo mundo em que ela sempre está.” “[A cura] cega coloca todas as possibilidades a serviço da tendência.”

Enquanto modificação de todo ser-no-mundo, a pre-sença já é sempre cura.” Pois sua fuga redunda em achar-se e com-frontar-se consigo mesma. O ser-aí en-cara de igual para igual no mundo jamais-aplanado.

a idéia de ser é tão pouco <simples> como o ser da pre-sença.”

do ponto de vista ontológico, a <novidade> dessa interpretação é, do ponto de vista ôntico, bastante antiga.” Quer dizer que nada do que H. explica é novo ou inédito, mesmo em face da filosofia clássica dos gregos.

o ser da pre-sença se caracteriza pela historicidade que, de todo modo, só deve ser comprovada ontologicamente. Se, com base em seu ser, a pre-sença é ‘histórica’, então uma proposição oriunda de sua história e que a ela remete, sendo anterior a toda ciência, possui um peso particular, embora, sem dúvida, não seja um peso puramente ontológico.”

A auto-interpretação da pre-sença como <cura> foi apresentada numa antiga fábula.”

Como bom alemão, recorre a Fausto: (*) “Burdach mostra que Goethe extraiu de Herder a fábula que consta como a 220 das Fábulas de Higino, tendo-a trabalhado para a segunda parte de seu Fausto.”

Certa vez, atravessando um rio, Cura viu um pedaço de terra argilosa: tomou um pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. Cura pediu-lhe que desse espírito à forma de argila, o que ele fez de bom grado. Como Cura quis então dar seu nome ao que tinha dado forma, Júpiter a proibiu e exigiu que fosse dado o[utro] nome. Enquanto Cura e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também TELLUS [Terra]¹ querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram SATURNO como árbitro. Saturno pronunciou a seguinte decisão, aparentemente eqüitativa: <Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito e tu, Tellus, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como, porém, foi Cura quem primeiro o formou, ele deve pertencer à Cura enquanto viver. Como, no entanto, sobre o nome há disputa, ele deve se chamar HOMO, pois foi feito de húmus.>²

¹ Anatomy is destiny! Júpiter ou Zeus é Mefistófeles.

² “Substância orgânica e negra, resultante da decomposição parcial de vegetais ou de animais, que se acumula sobre o solo ou a ele se mistura. Etimologia (origem da palavra húmus). Do latim humus.i, terra.” Está decidido: o homem é originariamente preto.

Carl Sagan, Shakespeare. Começa e termina com-poeira. Ca’poeira luta metafísica… Alergia à vida.

essa primazia da cura emerge no contexto da concepção conhecida em que o homem é apreendido como o composto de corpo e espírito.”

O homem é o que está vivo. O homem é originariamente irreligioso, eis sua essência mais recôndita. O animal para a vida do barro e da terra e moral. Zeus nunca é nosso responsável, i.e., nunca pagamos o preço pela venda da alma na fábula (nun-ca-veiramos, hamletianamente). Cristo como o não-homem (uma curiosidade).

Se uma moeda fôssemos, a Cura seria o valor ou o trabalho de oficialização estatal sobre o metal responsável por inseri-la em circulação (em qualquer ponto do ciclo).

origem na margem do rio – veja explicações mais completas deste raciocínio em https://www.recantodasletras.com.br/pensamentos/7485396.

esse ente não é abandonado por essa origem, mas, ao contrário, por ela mantido e dominado enquanto for e estiver no mundo.” Esse o verdadeiro sentido da frase platônica deus é a medida de todas as coisas (do homem). Mas não significa que não foi o homem que atribuiu a medida, só quer dizê-lo objetivamente. Porque o homem não existe. Seria Prometeu acorrentado, mas nós somos livres. Não haverá punição pela transgressão. Tudo menos isso. Temos a chave da própria prisão e devemos usá-la enquanto é tempo. Ou enquanto o tempo é. A chave abre e roda a cunha. E também sela (o destino).

Desde os primórdios já era uma vez.

A menos que um dia a Hindo-China nos negasse, essa seria a interpretação final final e formal.

Questões preliminares:

1. É a coisa real (transcende a consciência do ser)? Resposta condensada: Esse modo de raciocínio é uma tautologia.

2. Se real o mundo externo (inanimado, fora da consciência), essa realidade é passível de prova? Resp.cndsd: Não. Mas é absurdo cobrar a prova.

3. A coisa, no Realismo, possui um ser-em-si (diferente de coisa-em-si ou noumeno, porém igualmente impossível, conforme verificaremos)? Resp.cndsd: Só o que existe é a coisa-para-o-ser, não um ser-para-a-coisa, apesar da nomenclatura enganosa de todas as traduções!

4. O que é a coisa chamada ‘realidade’? Resp.cndsd: A filosofia tradicional (antiga + moderna), que deve ser superada!

Elaboração das respostas condensadas acima (elas se fecham num círculo, e com isso se abrem para o Ser):

1., 2.

Instrumento tradicional de estudo do real: INTUIÇÃO

Instrumento fenomenológico (ontológico originário) de estudo do “real”: “A questão se o mundo é real e se o seu ser pode ser provado, questão que a pre-sença enquanto ser-no-mundo haveria de levantar – e quem mais poderia fazê-lo? – mostra-se destituída de sentido.”

O que é o mundo? A totalidade ou apenas a circunvisão do ser-aí? Não faz sentido falar num mundo da totalidade, pois sem a circunvisão do ser-aí, ele existindo ou não, ficaria fechado ao ser, e não nos interessa em nível ontológico a discussão ou investigação de um mundo tal (ôntico). Ou seja, devemos abandonar a analítica da empiricidade das coisas e da intuição (entidade dos sentidos do fenômeno), o que Heidegger chama por várias vezes de entes já dados ou a priori. (FILOSOFIA ATÉ KANT, incluindo Hegel, pois originariamente falando Hegel vem antes de Kant, retroage em relação à precedência cronológica do primeiro. Além disso, do prisma heideggeriano, a intuição e o espaço-tempo kantianos são ainda empirismo, i.e., realismo, investigação tradicional.)

Essa confusão das questões, o confundir-se do que se quer comprovar com o que se comprova e com a comprovação, mostra-se na <refutação do idealismo> de Kant. Kant chamou de <escândalo da filosofia e da razão humana em geral> o fato de ainda não se dispor de uma prova definitiva, capaz de eliminar todo ceticismo a respeito da <presença (Dasein) das coisas fora de nós>Ou seja, ceticismo a respeito do real, nada a ver com o ser-aí. Schopenhauer sabia, ainda que pelas razões erradas, que o Idealismo era o vencedor na velha contenda Idealismo x Realismo, que pendeu para o lado do realismo durante a proeminência dos filósofos franceses e britânicos e que havia estagnado na época do criticismo kantiano, chegando a seu suposto termo metafísico dada sua solução negativa. Hegel podia até ser idealista, mas sua fé transcendental em algo completamente não-observável (a teleologia) compromete posicioná-lo ao lado de Schopenhauer em alguma coisa, ainda que coincidam em nomenclatura por poucas linhas!

De início, deve-se observar explicitamente que Kant usou o termo <presença> (Dasein) para designar o modo de ser que, na investigação precedente, nós chamamos de <ser simplesmente dado>. <Consciência de minha presença> significa para Kant: consciência de meu ser enquanto ser simplesmente dado no sentido de Descartes.” K. funde ser e ente, ou mais exatamente consciência e objeto (eis o espírito do criticismo).

A PROVA A PRIORI DOS 9: “A prova da <presença das coisas fora de mim> sustenta-se no fato de que transformação e permanência pertencem, de modo igualmente originário, à essência do tempo.”

alguma coisa permanente simplesmente dada” em Kant são espaço, tempo e causa.

Na verdade, a prova não consiste numa conclusão causal e por isso não guarda as suas inconveniências.” “Num primeiro momento, tem-se a impressão de que Kant abandonou o princípio cartesiano da preexistência de um sujeito isolado. (…) O fato de Kant fornecer uma prova da <presença das coisas fora de mim> já mostra que, nessa problemática, ele toma o sujeito, o <em mim>, como ponto de apoio. (…) a experiência do <tempo> que a prova inclui só se faz <em mim>.” Quando eu é/sou o solo, morre-se/morro no abismo, pois o eu é sempre a instância mais fraca na metafísica ocidental.

O que Kant prova é o ser simplesmente dado necessariamente em conjunto de um ente que se transforma e um que permanece. Essa equiparação de 2 seres simplesmente dados ainda não diz o simplesmente-dar-se-em-conjunto-de-sujeito-e-objeto.”

Kant pressupõe a diferença e o nexo entre <em mim> e <fora de mim> – o que é correto do ponto de vista do fato, mas incorreto no sentido a que tende a sua prova. (…) Mas mesmo que se visse o todo da diferença e o nexo entre <dentro> e <fora>, pressuposto na prova, e se concebesse ontologicamente o que nessa pressuposição é pressuposto, ainda ruiria a possibilidade de se considerar como necessária e ainda ausente a prova da <presença das coisas fora de mim>.

O <escândalo da filosofia> não reside no fato dessa prova ainda inexistir e sim no fato de sempre ainda se esperar e buscar essa prova. (…) O modo de ser desse ente que prova e exige provas é que é subdeterminado.” Chega de fora, dentro, exterior e interior! Só o que há é a unidade do ser-aí-no-mundo.

A pre-sença, entendida corretamente, resiste a tais provas porque ela já sempre é, em seu ser, aquilo que as provas posteriores supõem como o que se deve necessariamente demonstrar.”

sujeito desmundanizado ou inseguro acerca de seu mundo.”

3., 4.

O <problema da realidade>, no sentido da questão se um mundo exterior é simplesmente dado e se é passível de comprovação, apresenta-se como um problema impossível. Não porque tenha por conseqüências aporias intransponíveis, mas porque o próprio ente que é tematizado recusa esse modo de colocar a questão. O que se deve não é provar o fato e como um <mundo exterior> é simplesmente dado, e sim de-monstrar por que a pre-sença,¹ enquanto ser-no-mundo, possui a tendência de 1º sepultar epistemologicamente o <mundo exterior> em um nada negativo para então permitir que ele ressuscite mediante provas.” “Se, nessa orientação ontológica, o modo de colocar a questão for <crítico>, encontra então um mero <interior> enquanto o único ser simplesmente dado certo e seguro.”

¹ A presença ainda muito sentida de Kant!

Na medida em que, na proposição existencial, não se nega o ser simplesmente dado dos entes intramundanos, ela concorda – por assim dizer doxograficamente [como que por analogia, pois a ‘opinião’ ou o método dá no mesmo desfecho] – com a tese do realismo. (…) O que a separa do realismo é a incompreensão ontológica de que sofre o realismo. Ele tenta esclarecer a realidade onticamente mediante o contexto efetivo e real entre as coisas reais.

Com relação ao realismo, o idealismo possui uma primazia fundamental, por mais oposto e insustentável que seja no que respeita aos resultados, desde que ele próprio não se compreenda equivocadamente como idealismo <psicológico>. Quando o idealismo acentua que ser e realidade apenas se dão <na consciência>, exprime, com isso, a compreensão de que o ser não deve ser esclarecido pelo ente [mundo, neste contexto]. Na medida, porém, em que não se esclarece o fato de aqui se dar uma compreensão do ser e o que diz ontologicamente essa compreensão, i.e., como lógica da pre-sença, o idealismo constrói no vazio a interpretação da realidade.”

Se o título idealismo significar o mesmo que compreender a impossibilidade de se esclarecer o ser pelo ente mas que, para todo ente, o ser já é o <transcendental>, então é no idealismo que reside a única possibilidade adequada de uma problemática filosófica.” Como já ressaltado, de uma forma um tanto estrambótica é que Kant e Schopenhauer adquiriram este saber. Kant é uma espécie de “mago da filosofia moderna” ao reunir os epítetos de campeão dos céticos (‘o’ criticista) e ao mesmo tempo o de formador da filosofia transcendental (sintética).

Se, porém, idealismo significar a recondução de todo ente a um sujeito ou a uma consciência que, por sua vez, se caracteriza como o que permanece indeterminado em seu ser, sendo, no máximo, caracterizado negativamente como uma <não-coisa>, [PRIVILEGIADO de forma inexplicável – o limite dos idealismos ‘fajutos’ de Fichte e Hegel – apesar da clivagem notável de qualidade e profundidade entre os 2, é precisamente aqui que um é tão raso quanto o outro…] então, do ponto de vista do método, esse idealismo se mostra tão ingênuo quanto o realismo mais grosseiro.” Sch. como que evita ou faz uma administração de danos nesse tocante ao tirar da “cartola ontológica” sua Vontade. Pois não é o indivíduo que rege seu sistema: a Vontade É a coisa-em-si. Nietzsche chega ainda mais longe: descarta a coisa-em-si, ‘aperfeiçoa’ a vontade, ao imanentizá-la ao máximo (limite da metafísica pré-fenomenológica no sentido husserliano?). Heidegger vai com asserção batizar esse método na continuidade deste parágrafo, sem citar o autor: “orientação ‘perspectivista’”.

Scheler como um elo entre o kantismo e o ‘ontologismo’ husserl-heideggeriano: fracassou porque apesar dos pequenos avanços fenomenológicos insistiu em que o problema estava no refino do aparato epistemológico, o que no entanto não é verdade, pois do ponto de vista epistemológico o kantismo já havia de certo modo chegado ao limite da questão nas bases ‘clássicas’.

[Em Dilthey] Realidade é resistência ou, mais precisamente, o conjunto das resistências. A elaboração analítica do fenômeno de resistência constitui o ponto positivo do referido tratado e a melhor confirmação concreta da idéia de uma <psicologia descritiva e classificatória>.” “[Porém] O <princípio da fenomenalidade> impediu Dilthey de chegar a uma interpretação ontológica da consciência.” “…a remissão ontológica da consciência ao próprio real, tudo isso necessita de uma determinação ontológica. [de onde vêm as vontades e seus freios à consciência?]” “Interpretar ontologicamente a pre-sença, porém, não significa uma recondução ôntica a um outro ente.”

A análise ontológica dos fundamentos da <vida> não pode ser acrescentada posteriormente como uma infra-estrutura. É ela que carrega e condiciona a análise da realidade, bem como toda explicação do conjunto das resistências e de suas pressuposições fenomenais.”

abre-se algo pelo que impulso e vontade se empenham.” “O próprio empenho… que se depara com resistência, e é o único que pode se deparar, já se acha junto a uma totalidade con-juntural.” “o <ser-contra> e o <ser oposto> são sustentados pelo ser-no-mundo que já se abriu. § Resistência também não é experimentada num impulso ou vontade que <emergem> por si mesmos. Impulso e vontade mostram-se como modificações da cura.”

Resistência caracteriza o <mundo externo>, no sentido dos entes intramundanos mas nunca no sentido de mundo. <Consciência da realidade> é ela mesma um modo de ser-no-mundo.

Caso o <cogito sum> deva servir como ponto de partida da analítica existencial da pre-sença, então é preciso não apenas revertê-lo mas reconfirmar, de modo ontológico-fenomenal, o seu conteúdo. A 1ª proposição seria: <sum> no sentido de eu-sou-em-um-mundo.” “Descartes diz, ao invés: cogitationes são simplesmente dadas”

* * *

A <natureza> que nos <envolve> é, na verdade, um ente intramundano [coisa] que, no entanto, não apresenta o modo de ser do que está à mão nem de algo simplesmente dado no modo de <coisidade da natureza>.”

realidade não possui primazia no âmbito dos modos de ser dos entes intramundanos, assim como esse modo de ser não pode ser caracterizado adequadamente, do ponto de vista ontológico, como mundo ou pre-sença.”

O fato de a realidade se fundar ontologicamente no ser da pre-sença não pode significar que o real só poderá ser em si mesmo aquilo que é se e enquanto existir a pre-sença.

De fato, apenas enquanto a pre-sença é, ou seja, a possibilidade ôntica de compreensão do ser, <dá-se> ser. Se a pre-sença não existe, também nem <independência> nem <em si> podem <ser>.” Sem o sujeito observador, o real não seria real.

Agora pode-se realmente dizer que, enquanto houver compreensão do ser e com isso compreensão do ser simplesmente dado, então o ente prosseguirá a ser.

A dependência caracterizada, não dos entes, mas do ser em relação à compreensão do ser, i.e., a dependência da realidade [de um modo do real] e não do real em relação à cura, assegura o prosseguimento da analítica da pre-sença de não resvalar numa interpretação não-crítica que, guiada pela idéia de realidade, sempre de novo tenta se impor.” Não existe um sentido indiferente para realidade.

O SER-DO-ENTE É SÓ O INÍCIO: “a compreensão do ser como ente [em si] só é possível se o ente possui o modo de ser da pre-sença.” “A primeira descoberta do ser-dos-entes com Parmênides <identifica> o ser com a compreensão que percebe o ser.” Descrever aquilo que é, como ele é, implica que a coisa tenha um ser. Logo, a preocupação sempiterna dos filósofos com o ser e a verdade eram, precipuamente, a preocupação com a relação ser e coisa.

A investigação toma agora um novo princípio.” “A investigação evidenciará que a questão sobre o modo de ser da verdade pertence necessariamente à questão sobre a <essência> da verdade. Daí se segue o esclarecimento do sentido ontológico da afirmação de que <verdade se dá> e do modo em que necessariamente <se deve pressupor> que <se dá> verdade.”

A VERDADE CLÁSSICA NA ERA TRÁGICA DOS GREGOS: “1. O <lugar> da verdade é a proposição (o juízo). 2. A essência da verdade reside na <concordância> entre o juízo e seu objeto. 3. Aristóteles, o pai da lógica, não só indicou o juízo como o lugar originário da verdade, como também colocou em voga a definição da verdade como <concordância>.”

O mundo é bom. Nós só temos de achar onde.

Isaak Israelis > Avicenna > Tomás de Aquino

A antiga e famosa questão, com a qual se supunha colocar os lógicos em apuros, é a seguinte: O que é verdade? Brentano

Verdade ou aparência não se encontram no objeto na medida em que ele se dá na intuição e sim no juízo a seu respeito, na medida em que é pensado.” Ainda uma questão da justa opinião de Parmênides…

Que caráter ontológico possuem essa opinião e essa coisa?

O que significa o termo <concordância>?”

Assinalar é uma relação entre o sinal e o assinalado mas não uma concordância. Decerto, nem toda concordância significa uma espécie de convenientia, tal como se fixou na definição da verdade. [Aristóteles e escolásticos] O número 6 concorda com 16 – 10. Os números concordam e são iguais, no tocante à quantidade. Igualdade é um modo de concordância. A ela pertence estruturalmente uma espécie de <perspectiva>.”

Em que perspectiva intellectus e res concordam?”

A <concordância> tem o caráter da relação <assim como>.”

APORIA: “Segundo a opinião geral, só o conhecimento é verdadeiro. Conhecer, porém, é julgar. Em todo julgamento, deve-se distinguir a ação de julgar enquanto processo psíquico real e o conteúdo julgado enquanto conteúdo ideal. Deste último, diz-se que é <verdadeiro>. Em contrapartida, o processo psíquico real é simplesmente dado ou não.” “Será um acaso o fato desse problema há mais de 2 milênios não sair do lugar? Ou será que o descaminho da questão consiste em seu ponto de partida, ou seja, na separação ontologicamente não-esclarecida entre real e ideal?” “Não será que a realidade do conhecimento e do juízo se rompe em 2 modos de ser ou <camadas>, cuja sutura jamais chegará a alcançar o modo de ser do conhecimento?” “A definição aparentemente arbitrária, [feita por nós, os fenomenólogos] contudo, apenas traz uma interpretação necessária daquilo que a tradição mais antiga da filosofia pressentiu de maneira originária, e chegou a compreender pré-fenomenologicamente.”

A tradução pela palavra verdade e, sobretudo, as determinações teóricas de seu conceito encobrem o sentido daquilo que os gregos, numa compreensão pré-filosófica, estabeleceram como fundamento <evidente> do uso terminológico de ALETHEIA.

A adução desses testemunhos deve resguardar-se de uma mística desenfreada das palavras; entretanto, o ofício da filosofia é, em última instância, preservar a força das palavras mais elementares, em que a pre-sença se pronuncia a fim de que elas não sejam niveladas à incompreensão do entendimento comum, fonte de pseudoproblemas.”

A <definição> proposta da verdade não é um repúdio da tradição mas uma apropriação originária” “A <definição> da verdade como descoberta e ser-descobridor também não é uma mera explicação de palavras. (…) Ser-verdadeiro enquanto ser-descobridor é um modo de ser da pre-sença. O que possibilita esse descobrir em si mesmo deve ser necessariamente considerado <verdadeiro>, num sentido ainda mais originário.” “A presença [enquanto em modo de ser mais próprio, e não da impropriedade mundana e cotidiana] é e está <na verdade>.” “A verdade da existência é a abertura mais originária e mais própria que o poder-ser da pre-sença pode alcançar.” “Em sua constituição ontológica, a pre-sença é e está na <não-verdade> porque é, em sua essência, de-cadente.” “É por isso que, em sua essência, a pre-sença tem de explicitamente tomar posse do que se descobriu contra a aparência e a distorção e sempre se reassegurar da descoberta.” “A descoberta em seu fato é, ao mesmo tempo, um roubo.” “O fato da deusa-verdade de Parmênides colocá-lo diante de 2 caminhos, um do descobrimento, e outro do velamento, significa simplesmente que a pre-sença já está sempre na verdade e na não-verdade. O caminho do descobrimento só é conquistado na cisão compreensiva entre ambos e no decidir-se por um deles.”

O que se pronuncia [proposições epistemológicas] torna-se, por assim dizer, um manual intramundano que pode ser retomado e propagado.” “A proposição pronunciada é um manual de tal modo que traz em si mesma uma remissão ao ente descoberto, na medida em que preserva a descoberta.” “A própria remissão se dá como algo simplesmente dado.”

O juízo contém algo que vale para os objetos” Kant

Modo impróprio: descoberta conformidade (ouvir-dizer – a pre-sença se fecha no falatório), i.e., concordância

Com isso fica demonstrado o caráter ontologicamente derivado do conceito tradicional de verdade.” Refutação da lógica aristotélica ou não-lógica da pre-sença.

A tese de que o <lugar> genuíno da verdade é o juízo não apenas é erroneamente atribuída a Aristóteles como constitui, no que respeita a seu conteúdo, um desconhecimento da estrutura da verdade.” “A <verdade> mais originária é o <lugar> da proposição e a condição ontológica de possibilidade para que a proposição possa ser verdadeira ou falsa [juízo apofântico].”

As leis de Newton, o princípio de contradição, toda verdade em geral só é verdade enquanto a pre-sença é. Antes da pre-sença e depois da pre-sença não havia verdade e não haverá verdade porque, nesse caso, a verdade não pode ser enquanto abertura, descoberta e descobrimento.” “As leis de Newton, antes dele, não eram nem verdadeiras nem falsas. Isso não pode significar que o ente que elas, descobrindo, demonstram não existisse antes delas. As leis se tornam verdadeiras com Newton.” A mesma bastardização evidentecopiada por Latour no fim do mesmo século. “Veja que os micróbios já existiam, só não para a ciência pré-microbiológica!”

O fato de se darem <verdades absolutas> só pode ser comprovado de modo suficiente caso se logre demonstrar que, em toda a eternidade, a pre-sença foi e será. Enquanto não houver essa prova, a sentença será apenas uma afirmação fantástica que não recebe nenhuma legitimidade apenas porque os filósofos geralmente nela <acreditaram>.” Enquanto o homem existir, haverá verdade. Somos o novo absoluto. O homem e o deus-do-homem são a medida inexorável de todas as coisas.

Será que a verdade, compreendida de modo adequado, se vê lesada pelo fato de, onticamente, só ser possível no <sujeito>, e de depender do ser-do-sujeito?”

Não somos nós que pressupomos a <verdade>, mas é ela que torna ontologicamente possível que nós sejamos de modo a <pressupor> alguma coisa. A verdade possibilita pressuposições.

O que diz <pressupor>? Compreender alguma coisa como a base e o fundamento do ser de um outro ente.” “Devemos <fazer> a pressuposição de verdade porque ela já se <fez> com o ser do <nós>.”

<Em si> não se pode perceber por que o ente deve ser descoberto, por que deve haver verdade e pre-sença. A objeção corriqueira do ceticismo, a negação do ser ou da possibilidade de se conhecer a <verdade> estão a meio caminho.” O ceticismo demonstra que “a verdade pertence à[o modo de ser da] proposição”. “Ademais, desconsidera-se o fato de que, mesmo quando ninguém emite um juízo, já se pressupõe a verdade na medida em que a pre-sença é.”

O cético, quando o é de fato, no modo da negação da verdade, não precisa ser refutado. Na medida em que é e se compreendeu nesse ser, ele dissolve a pre-sença e, com isso, a verdade, no desprezo do suicídio.” “a pre-sença não pode ser colocada para si mesma à prova.”

CONTRA O SUJEITO IDEAL: “Não pertence ao a priori do sujeito de fato [empírico], ou seja, à facticidade da pre-sença, a determinação de que ela é e está, de modo igualmente originário, na verdade e na não-verdade?” A partir de qualquer instante, a partir de qualquer local. “A recusa de uma <consciência em geral> não significa a negação do a priori assim como a suposição de um sujeito idealizado não garante a aprioridade da pre-sença fundada no real. § Afirmar <verdades eternas> e confundir a <idealidade> da pre-sença, fundada nos fenômenos, com um sujeito absoluto e idealizado, pertencem aos restos da teologia cristã no seio da problemática filosófica, que de há muito não foram radicalmente expurgados.” [DV]

Mas será que com o fenômeno da Cura se abriu a constituição ontológico-existencial mais originária da pre-sença? Será que a multiplicidade estrutural, que se encontra no fenômeno da Cura, oferece a totalidade mais originária do ser de fato da pre-sença? Será que a investigação feita até aqui já permitiu ver o todo da pre-sença?” Só o tempo nos dirá, mas não no âmbito de Heidegger…

DIC:

apofântico: “[Lógica] Na lógica aristotélica, relativo aos enunciados verbais possíveis de serem falsos ou verdadeiros.” Ao dizer isso, Aristóteles diz que a palavra, isto é, o logos, conhecimento, pode ser verdadeiro ou falso, dependendo do contexto em que o discurso é enunciado ou proposto.

originário (em Heidegger): aquilo que é próprio e autêntico, pertencente ao ser-aí no seu sentido mais profundo e existencial, além de já contemplar a própria existencialidade, i.e., um projeto totalizante da vida. O mal-entendido com a função de “mais antigo” que poderia adquirir para um leitor incauto se deve à noção de “preceder-se a si mesmo” do ser-aí.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

SEGUNDA SEÇÃO:

Pre-sença e temporalidade [de certo modo decepcionante, pálido reflexo da 1ª]

Mas o que significa originariedade de uma interpretação ontológica?”

Toda interpretação possui sua posição prévia, visão prévia e concepção prévia. No momento em que, enquanto interpretação, se torna tarefa explícita de uma pesquisa, então o conjunto dessas <pressuposições>, que denominamos de situação hermenêutica, necessita de um esclarecimento prévio que, numa experiência fundamental, assegure para si o <objeto> a ser explicitado. Uma interpretação ontológica deve liberar o ente na constituição de seu próprio ser.”

Uma interpretação ontológica originária, no entanto, não exige somente uma situação hermenêutica segura e ajustada aos fenômenos, mas deve assegurar-se, explicitamente, de ter levado todo o ente tematizado a sua posição prévia. Também não é suficiente uma descrição preliminar do ser-desse-ente, mesmo que fundada em bases fenomenais. A visão prévia do ser deve respeitar-lhe, sobretudo, a unidade dos momentos estruturais possíveis e pertinentes. Só então é que se pode colocar e responder com segurança fenomenal a questão do sentido da unidade da totalidade ontológica de todo o ente.

Será que a análise existencial da pre-sença, anteriormente realizada, nasceu de uma tal situação hermenêutica, de modo a se ter conquistado uma garantia de originariedade, exigida pela ontologia fundamental?”

a caracterização ontológica da constituição existencial ainda guardou uma falta essencial.” “[Já que investigamos a pre-sença em sua medianidade a fundo apenas,] Enquanto não se incorporar a estrutura existencial do poder-ser próprio à idéia de existência, a visão prévia, orientadora de uma interpretação existencial, ressentir-se-á de originariedade.”

A cotidianidade é justamente o ser <entre> nascimento e morte.” “O ente cuja essência é constituída pela existência resiste, de modo essencial, à sua possível apreensão como ente total. A situação hermenêutica não apenas não assegurou a <posição> de todo o ente como é até questionável se isso, por fim, se pode alcançar e se uma interpretação ontológica originária da pre-sença não estará fadada ao fracasso, considerando-se o modo de ser do próprio ente tematizado.” Confissões, do ex-seminarista Martin Heidegger

O <fim> do ser-no-mundo é a morte.”

conceito existencial da morte”

a morte é um ser-para-a-morte existenciário [ôntico]”

Mas será que a pre-sença pode existir toda ela de modo próprio?”

um poder-ser próprio da pre-sença reside no querer-ter-consciência.” Já sempre quis e já sempre teve (o homem).

Provavelmente um terceiro volume teria de se embrenhar na questão: CURA & TÉCNICA.

A cotidianidade desentranha-se como modo da TEMPORALIDADE.”

a cura deve precisar de <tempo> e, assim, contar com <o tempo>.”

conceito tradicional de tempo”

temporalidade e intratemporalidade “temporalização da temporalidade”;

temporalização ainda mais originária da temporalidade”

O projeto de um sentido do ser em geral pode-se realizar no horizonte do tempo.”

(*) “No séc. XIX, Kierkegaard concebeu, explicitamente, o problema da existência como existenciário, refletindo a seu respeito com profundidade. (…) ele, contudo (…) encontra-se inteiramente sob o domínio de Hegel e da filosofia antiga vista por este último.” Como que de propósito, parece que não haverá uma singular referência ao filósofo que tem a chave potencial da hermenêutica metafísica de Heidegger…

Para aprofundamento em Kierkegaard neste blog: https://seclusao.art.blog/2017/06/14/a-dialetica-da-fe-em-kierkegaard-marieta-pinho-tese-de-mestrado/ ; https://seclusao.art.blog/2017/11/30/diario-de-um-sedutor/ .

1. A POSSIBILIDADE DA PRE-SENÇA SER-TODA E O SER-PARA-A-MORTE

A possibilidade da pre-sença ser-toda contradiz, manifestamente, a cura que, de acordo com seu sentido ontológico, constitui a totalidade do todo estrutural da pre-sença.” Tradução para nosso idioma: A possibilidade do instante em primeira pessoa (o momento presente) ser um todo universal e completo, autônomo, contradiz de forma óbvia a existência do início ao fim do ser, i.e., sua vida em si mesma, que abarca o próprio instante, aliás, milhões de instantes, sendo ela realmente a última instância.

O especial do instante é que no momento primordial da vida, ele já estava lá.

A falta de esperança, p.ex., não retira a pre-sença de suas possibilidades, sendo apenas um modo próprio de ser para essas possibilidades.” “Contudo, esse momento estrutural da cura diz, sem ambigüidades, que, na pre-sença, há sempre algo pendente, que ainda não se tornou <real>, como um poder-ser de si mesma.” E nem irá.

(*) “Reservou-se findar para exprimir o fim próprio da pre-sença [senciência] e finar para o fim dos demais seres vivos.”

(*) “A palavra portuguesa impendente exprime a experiência do que é iminente. [de forma bem ruim, eu diria!] Por conservar a mesma derivação de pendente [e no alemão –stand] traduziu-se Bevorstand por impendente.” Na verdade a tradução se escurou no Inglês, em que impending = iminente.

(*) “SELBST = SI-MESMO

Cf. N34 da 1ª parte, o termo alemão selbst exprime tanto próprio como si-mesmo. Considerando-se que na 2ª parte o que está em questão é o poder-ser todo em sentido próprio da pre-sença, a tradução deixou predominar o termo si-mesmo para diferenciar, no horizonte da identidade, de próprio (eigen).”

(*) “Ruf e todos os seus derivados provêm do verbo rufen cujo sentido é chamar. Os desdobramentos e as nuanças dessa experiência se explicitam através das derivações oriundas do acréscimo de prefixos cujas correspondências em português se procurou construir com as derivações por prefixo do étimo latino clamor.”

(*) “ENTSCHLOSSENHEIT = DE-CISÃO [DESTRANCABILIDADE, retorno à unidade]

A palavra alemã é um derivado do verbo schliessen que significa fechar, trancar. O prefixo ent acrescenta a idéia de um movimento em sentido contrário e daí o significado de destrancar, abrir. Uma das modalidades de exercício da pre-sença é o destrancar-se e abrir-se para… que, no tocante à dinâmica de si-mesma, designa a experiência de determinação, resolução. [de-terminação, re-solução, acabamento] Para exprimir toda essa envergadura de sentido, a tradução se valeu do processo semelhante designado pela palavra de-cidir, de-cisão cujo sentido primordial se constrói em torno do movimento de arrancar, separar (scindere).”

(*) DE VOLTA À ANTROPOLOGIA NIETZSCHE-MAUSSIANA (Ver O desejo de Deleuze):¹ “O sentido originário de Schuld usado por H. explica claramente no texto em que medida é justificada a tradução desse termo por débito.”

¹ https://clubedeautores.com.br/livro/o-desejo-de-deleuze – Livro autoral, cerca de R$40,00 na versão ebook. Ver especialmente pp. 49-50.

(*) “Porque Zukunft [futuro] é uma derivação de zukommen (ad-vir), a tradução guardou o termo porvir.”

(*) “GEWESENHEIT = VIGOR DE TER SIDO [era melhor simplesmente VIGORADO, que já contém a essência da explicação que segue, mantém a brevidade e a terminação de PASSADO!]

A palavra alemã é uma derivação do verbo wesen que significa vigir, vigorar, estar em vigor. Como substantivo, Gewesenheit e seus derivados conotam a dupla experiência de uma força que já se instalou e que continua atuante. Por isso a tradução optou pela expressão vigor de ter sido.”

(*) “GEGENWART = ATUALIDADE

GEGENWÄRTIGEN = ATUALIZAÇÃO

VERGEGENWÄRTIGEN = TORNAR ATUAL

A palavra Gegen-wart se compõe do verbo warten = esperar e da preposição gegen = contra e diante de. A palavra portuguesa presente não exprime, de modo algum, a conotação de adversidade e resistência ativas à espera. Uma vez que o horizonte ontológico de Gegenwart remete primordialmente à ação, a tradução reservou o termo atualidade para exprimir Gegenw.. Atualidade deriva-se do verbo agere = agir e conota a força de impor-se-a-…, guardando pois a dimensão de oposição e resistência.”

(*) “GEWÄRTIGEN = ATENDER

(…) ad-tendere = tender para, empenhar-se por.”

No momento, porém, em que a pre-sença <existe>, de tal modo que nela nada mais esteja de forma alguma pendente, ela também não-mais-está-presente. Retirar-lhe o que há de pendente significa aniquilar o seu ser. [nada de poder-ser nem responsabilidade nem pôr-se em jogo]

E não se estaria, no fundo, supondo, sem nem se dar conta, a pre-sença como ser simplesmente dado, da qual sempre escaparia algo que simplesmente ainda não se deu?” Malandro nietzschiano! “Terá a argumentação apreendido o ainda-não-ser e o <preceder> em sentido genuinamente existencial?” R: Não!

Teria a expressão <morte> um sentido biológico ou ontológico-existencial ou ainda um sentido delimitado de modo seguro e suficiente?” A despeito de que haja cem por cento de certeza que ela irá acontecer, não conte com o fenômeno da sua morte (enquanto em seu ser-aí próprio, para usar a nomenclatura de H.).

HOMEM: O animal que: pode experimentar a morte alheia.

Levando-se ao extremo, o não-mais-ser-no-mundo do morto ainda é também um ser, na acepção do ser simplesmente dado de uma coisa corpórea. (…) O fim de um ente, enquanto pre-sença, é o seu princípio como mero ser simplesmente dado.”

preocupação reverencial”

É a partir do mundo que os que ficam ainda podem ser e estar com ele.”

Esse encaminhamento me surpreendeu: “A indicação da morte dos outros como tema sucedâneo para a análise ontológica da conclusão e totalidade da pre-sença repousa ainda sobre uma pressuposição, que mostra um inteiro desconhecimento do modo de ser da pre-sença.”

Porém… “Mas será, na realidade, essa pressuposição tão desprovida de fundamento?”

O conceito médio de exitus não se identifica com o conceito de finar.” Semelhança acústica desconcertante com êxito. Exeunt.

Estar pendente e faltar são co-pertinentes.”

Estar pendente significa, portanto: o que é co-pertinente ainda não está a-juntado.”

suce-SÃO

Na coisa (ente), faltas ou pendências são determinadas por somas de outras coisas que, na terminologia heideggeriana, “estão à mão”, i.e., simplesmente dadas.

A quarta dimensão do problema do ser é, portanto, o tempo, aquilo que liga o que somos ao que falta sermos, ao que seremos.

Pode-se dizer, p.ex., da lua que o último quarto ainda está pendente até chegar à lua cheia. O ainda-não míngua com o desaparecimento da sombra que oculta.” “Esse ainda-não refere-se unicamente à apreensão perceptiva.” Porque, na lua nova, é impendente o surgimento da lua cheia. (ciclo natural)

O fruto imaturo, p.ex., encaminha-se para o seu amadurecimento.” E lá vai Hegel…

O que alcançou a maturidade quer morrer (desaparecer, regredir, etc. – aquilo que for possível segundo o objeto tratado!).

a pre-sença tem tão pouco necessidade da morte para chegar à maturidade que ela pode ultrapassá-la antes do fim.” Ex: o humano mantido em animação artificial sem sinais vitais no cérebro.

Em que sentido a morte deve ser concebida como findar da pre-sença?”

MORTE QUÂNTICA: “Na morte, a pre-sença nem se completa, nem simplesmente desaparece nem acaba e nem pode estar disponível à mão.”

A morte é um modo de ser que a pre-sença assume no momento em que é. <Para morrer basta estar vivo>.”

A tentativa de se alcançar uma compreensão da totalidade, dotado do caráter de pre-sença, tomando-se como ponto de partida um esclarecimento do ainda-não e passando-se pela caracterização do fim, não logrou sua meta. Ela só mostrou negativamente que o ainda-não, que cada pre-sença é, recusa sua interpretação como o pendente.”

Essa pesquisa ôntico-biológica da morte tem por base uma problemática ontológica. Permanece em questão como a essência da morte se determina a partir da essência ontológica da vida. De certo modo, a investigação ôntica da morte sempre-já se decidiu sobre essa questão.” O século XX seria o século-mor dessa “representação ôntica esclarecida”.

a pre-sença nunca fina.”

a presença nunca afina

agora ela não afina, nem ontem, nem amanhã,

porque ela é grossa e ríspida,

invencível insuperável!

pode te deitar por terra

num instante…

Uma <tipologia> do <morrer>, entendida como caracterização dos estados e dos modos em que se <vivencia> esse deixar de viver, já pressupõe o conceito de morte. Ademais, uma psicologia do <morrer> acaba fornecendo mais soluções sobre a <vida> <dos que morrem> do que propriamente sobre o morrer.”

Mas que bosta pára-normal se tornou esse tratado? “Caso se determine a morte como <fim> da pre-sença, i.e., do ser-no-mundo, ainda não se poderá decidir onticamente¹ se, <depois da morte>, um outro modo de ser, seja superior ou inferior, é ainda possível, se a pre-sença <continua vivendo> ou ainda se ela é <imortal>, sobrevivendo a si mesma.” Embora devamos conceder que quando H. põe entre aspas significa que não sai da “boca dele”. Ainda assim, sinto saudade da assertividade do século XIX, que FIN(D)OU no subseqüente.

¹ Verdade que – ontologicamente – a história é outra…

Por fim, tudo o que se possa discutir sob a rubrica de uma <metafísica da morte> extrapola o âmbito de uma análise existencial da morte.” Existencial, ontológico e metafísico deveriam querer dizer a mesma coisa. Esse embrulho todo não enriquece a Primeira filosofia…

Desde S. Paulo à Meditatio futurae vitae de Calvino, a antropologia elaborada na teologia cristã sempre viu a morte no seio da interpretação da <vida>. W. Dilthey, cujas tendências propriamente filosóficas se encaminham para uma ontologia da <vida>, não podia deixar de reconhecer o seu nexo com a morte.”

Unger, Herder, Novalis und Kleist. Studien über die Entwicklung des Todesproblems im Denken und Dichten von Sturm und Drand zur Romantik, 1922.

Para a pre-sença, enquanto ser-no-mundo, muitas coisas podem ser impendentes.” “o impendente privilegiadoMas impendente é tão feio que usarei sempre iminente destarte.

A iminência dos im-postos e não-postos e expostos e outpostos e sobrepostos e depostos.

A angústia com a morte é angústia <com> o poder-ser mais próprio, irremissível e insuperável. O próprio ser-no-mundo é aquilo com que a angústia se angustia.”

Quem está lançado atinge um alvo.

Vampiros ou deuses ainda são humanos na fenomenologia.

O discurso pronunciado ou, no mais das vezes, <difuso> sobre a morte diz o seguinte: algum dia, por fim, também se morre mas, de imediato, não se é atingido pela morte.” “mas eu não; pois esse impessoal é o ninguém.” “Escapar da morte encobrindo-a domina, com tamanha teimosia, a cotidianidade que, na convivência, os <mais próximos> freqüentemente ainda convencem o <moribundo> que ele haverá de escapar da morte e, assim, retornar à cotidianidade tranqüila de seu mundo de ocupações.”

Em seu conto A Morte de Ivan Illich, Tolstoi expôs o fenômeno do abalo e do colapso desse <morre-se impessoal>.”

No domínio público, <pensar na morte> já é considerado um temor covarde, uma insegurança da pre-sença e uma fuga sinistra do mundo.” É o estóico um covarde? “A cotidianidade pára no momento em que admite ambiguamente a <certeza> da morte a fim de enfraquecê-la e de aliviar o estar-lançado na morte, encobrindo ainda mais o morrer.”

Estar-certo de um ente significa: ter por verdadeiro enquanto verdadeiro.”

Assim como o termo <verdade>, a expressão <certeza> possui um duplo significado.”

O ter-por-verdadeiro, enquanto manter-se-na-verdade, só se torna suficiente quando está fundado no próprio ente descoberto e se faz transparente como um ser-para-o-ente-assim-descoberto” “A suficiência do ter-por-verdadeiro se mede pela pretensão de verdade a que pertence.” “A certeza inadequada mantém encoberto aquilo de que está certa.”

é certo que <a> morte vem.” A morte é o inferno, porque é temática para-os-outros.

Ela permanece necessariamente aquém do maior grau de certeza, da certeza apodítica, alcançada em certas esferas do conhecimento teórico.”

pensar-na-morte cansado e ineficaz”

A indeterminação da morte certa determina as ocupações cotidianas, colocando-lhes à frente as urgências e possibilidades previsíveis do cotidiano mais próximo.”

O escape de-cadante e cotidiano da morte é um ser-para-a-morte impróprio.” “Enquanto não se elaborar e determinar ontologicamente esse ser-para-a-morte em sentido próprio, a interpretação existencial do ser-para-o-fim perpetuará uma falta essencial.”

se, como, quando

É a partir do real e com vistas a ele que o possível é absorvido no real pela espera.”

Como possibilidade a proximidade mais próxima do ser-para-a-morte se acha, face ao real, tão distante quanto possível.”

rei-vindicação

a pre-sença só pode ser propriamente ela mesma quando ela mesma dá a si essa possibilidade.” Quando o instante reflete em si mesmo, i.e., no único, no singular que é estar neste irremissível.

Antecipando, a pre-sença evita recuar para trás de si mesma e da compreensão de seu poder-ser, evitando <tornar-se velha demais para as suas vitórias> (Nietzsche).” Finalmente cita sua inspiração-mor!

Porque a antecipação da possibilidade insuperável inclui em si todas as possibilidades a sua frente, nela reside a possibilidade de se tomar previamente de modo existenciário toda a pre-sença, ou seja, a possibilidade de existir como todo o poder-ser.” Modo complicado de dizer: apreender a finitude da existência. Aprender a ocupar-se se preocupando ao mesmo tempo.

Manter-se nessa verdade, ou seja, estar certo do que se abriu, exige justamente a antecipação.” Ninguém (nenhum “jovem”) tem qualquer abertura cotidiana para o fato de que é possível que morra antes dos 50. Eu sou o único que conheço a seguir esse “prazo”. Obviamente tenho planos para além do prazo, que no caso é a extensão-prorrogação do meu atual projeto. Se isso não se cumprir, não há prejuízo (como se houvesse prejuízos para um morto)… Se isso se cumprir, não há prejuízo, porque me preparo! Digo, minha biografia não será “manchada” ou “diminuída” na 1ª hipótese. Preciso agora cuidar com “pressa não-apressada” do que eu julgo mais importante. O deadline convertido em death-line. #NowPlaying Tribulation – Lady Death

Para se alcançar a coisalidade, ou seja, a indiferença da evidência apodítica, a pre-sença precisa, primeiramente, perder-se na conjuntura das coisas – o que pode até constituir uma tarefa e uma possibilidade da cura.”

O ser ou não ser de Hamlet é uma antecipação exitosa ou falhada?

Talvez que ele só quisesse, como bom esgrimista, saber se iria ven-ser ou não ven-ser (pun intended).

Como a compreensão antecipadora se projeta para um certo poder-ser continuamente possível, de maneira que sempre fique indeterminado quando a absoluta impossibilidade da existência tornar-se-á enfim possível?” Temos que ter um plano B para cada dia após o limite auto-estipulado em que sobrevivermos.

O ser-para-a-morte-próprio é essencialmente angústia.”

SOBRE O SER-PARA-A-MORTE-IMPRÓPRIO: angústia infundada perigo real de morte temor covardia (o “não é possível que isso está acontecendo! agora não! o que farei?”, tão amado pelos filmes de terror hollywoodianos… – A PRÉ-ERA DA ANGÚSTIA)

Com isso, surge também a possibilidade de a pre-sença poder-ser toda em sentido próprio, mas somente como uma possibilidade ontológica.” “Apesar disso, esse ser-para-a-morte existencialmente <possível> permaneceu, do ponto de vista existenciário, uma suposição fantástica.” Um fenômeno fantástico.

(s)urge do nada

A questão sobre um ser todo da pre-sença em sentido próprio e sua constituição existencial só poderá ser colocada em bases fenomenais consistentes quando se conseguir atá-la a uma possível propriedade de seu ser, testemunhada pela própria pre-sença.” No fundo, o livro responde (ou se digna a tentar responder) apenas uma pergunta: quem tem a hegemonia, o impróprio ou o próprio do ser-aí?

2. O TESTEMUNHO SEGUNDO O MODO DE SER DA PRE-SENÇA, DE UM PODER-SER EM SENTIDO PRÓPRIO E A DE-CISÃO

Recuperar a escolha significa escolher essa escolha, decidir-se por um poder-ser a partir de seu próprio si-mesmo.” “A auto-interpretação cotidiana da pre-sença conhece como voz da consciência aquilo que a seguir apresentaremos como testemunho.”

A exigência de uma <prova empírico-indutiva> para o <fato> da consciência e para a legitimidade de sua <voz> significa uma deturpação ontológica desse fenômeno.” O modo de ser da consciência não é empírico.

A análise mais profunda da consciência a desentranha como clamor. O clamor é um modo de discurso.

Você (eu!) me deve uma satisfação!

A interpretação da consciência haverá não apenas de ampliar a análise anterior da abertura do mas, sobretudo, de apreendê-la de forma mais originária com vistas ao ser da pre-sença em sentido próprio.” “a pre-sença <sabe> a quantas ela mesma anda na medida em que se projetou em possibilidades de si mesma ou, afundando-se no impessoal, recebeu da interpretação pública do impessoal as suas possibilidades.”

o próprio do impessoal” X “o próprio de si-mesma”

O meu clamor se deu aos 19-21 anos. Quando eu me tornei eu mesmo.

Devemos lembrar que a verbalização não é essencial nem para o discurso e nem para o clamor.”

sobressalto brusco” “Só é atingido pelo clamor quem se quer recuperar.”

Face a um fenômeno como a consciência, salta logo aos olhos a insuficiência ontológico-antropológica da classificação das faculdades da alma ou dos atos pessoais.”

Além das interpretações da consciência empreendidas por Kant, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche deve-se atentar para: M. Kähler, Das Gewissen, erster geschichtlicher Teil, 1878, e o artigo do mesmo autor na Realenzyklopädie f. prot. Theologie und Kirche. Além disso: A. Ritschl, Über Gewissen, 1876, reeditado nos Gesammelte Aufsätzen, 1896, p. 177s. E, por fim, a monografia há pouco publicada de H.G. Stoker, Das Gewissen (Schriften zur Philosophie und Soziologie, ed. por Max Scheler, tomo II, 1925). (…) [apesar de seus inúmeros defeitos,] A monografia de Stoker significa um avanço considerável frente à interpretação da consciência feita até hoje, mais pelo tratamento abrangente dos fenômenos da consciência e de suas ramificações do que pela de-monstração das raízes ontológicas do fenômeno.”

Para que perspectiva se aclama? Para si-mesmo em sentido próprio. E não para aquilo que vale na convivência pública, não para o que ela pode ou de que se ocupa e, sobretudo, não para aquilo que a toma ou pelo que se engajou e se deixou arrastar.” “o impessoal sucumbe em si mesmo.” “Justamente no ultrapassar, o clamor empurra o impessoal para a insignificância.”

O si-mesmo não é um cientista investigador nem o comum dos mortais movido pela curiosidade (ocupações banais, ônticas).

O que a consciência de-clama para o aclamado? Em sentido rigoroso, nada.”

nada tem para contar”

Não se trata de dialética

É um chamamento. Com toda a incompreensão associada às religiões que isso pode desencadear. Afinal, é uma re-ligação.

O discurso da consciência sempre e apenas se dá em silêncio.”

Ao sair de casa, abandone todas as esperanças (contato com-os-outros), lia-se no pórtico acima da portaria do próprio prédio, mas virado não para os pedestres ou eventuais visitas, e sim para o morador que sai para o trabalho…

O que o clamor abre é, não obstante, unívoco e preciso, mesmo que possa sofrer interpretações diversas, segundo as possibilidades de compreensão de cada pre-sença singular. [umas mais, outras menos burras]”

intramundane divine intervention

o clamor é infalível: o sabor amargo da água é mera culpa do recipiente

Heidegger pensa que está inovando e abrindo novos horizontes filosóficos, mas tudo a que chega é a uma reescritura de Platão, ou seja, esta é uma obra sobre “o que é ser filósofo, afinal?”: “Embora jamais se descaracterize, quem clama também não oferece a menor possibilidade de tornar o clamor familiar para uma compreensão da pre-sença orientada <mundanamente>.”

ele [o indeterminado] não aceita tagarelices a seu respeito.” O falatório, quem diria, é ensimesmado.

DANADINHO: “Na condição de aclamada, a pre-sença não se a-pre-senta diferentemente do que como clamante? Não será o seu poder-ser si-mesmo mais próprio o clamante?”

E a ironia do destino é que o clamor é impessoal! Outro “impessoal” que o heideggeriano…

(em azul, porque essa é minha própria história:) “O clamor <se faz> contra toda espera e mesmo contra toda vontade. Por outro lado, [ou pelo mesmo lado] o clamor, sem dúvida, não provém de um outro que é e está no mundo junto comigo. O clamor provém de mim e, no entanto, por-sobre-mim.” É o demônio de Sócrates, ingênuo Heidegger!

atribui-se [na pre-sença dos burros] essa força instalada a alguém que dela tem posse ou ainda se a toma como uma pessoa que anuncia (Deus).” O erro fatal dos escravos do ser como simplesmente dado.

Embora possa ficar velado para a pre-sença o seu porquê, o fato de ela ser de fato (sic) implica que o próprio <fato> já se tenha aberto para a pre-sença.”

Na maior parte das vezes, porém, o humor fecha o estar-lançado.”

a facilidade da liberdade pretendida pelo próprio-impessoal.” A questão é que para o filósofo o clamor é muito mais fácil do que “a liberdade lá fora”!

o fato <cru> no nada do mundo.”

O que poderia ser mais estranho para o impessoal, perdido no <mundo> das múltiplas ocupações, do que o si-mesmo singularizado na estranheza de si e lançado no nada?”

O que mais retira tão radicalmente da pre-sença a possibilidade de deturpar a compreensão e o conhecimento de si do que a entrega e o abandono de si mesma?”

Estranheza é, na verdade, o modo fundamental mas encoberto de ser-no-mundo.”

A sentença: a pre-sença é, ao mesmo tempo, quem clama e o aclamado, perde agora o seu vazio formal e a sua evidência. A consciência revela-se como clamor da cura

Conclama-se a pre-sença, aclamando-a para sair da de-cadência no impessoal”

Ei, você se precede a si mesmo, escute isso!”

Conhece-te o que és!

Torna-te aquilo que é a ti mesmo!

a mescla de me

voz universalmente obrigatória”

Essa aclamação afirmada nasce da <boa> ou da <má> consciência? Será que a consciência propicia algo positivo ou só funciona criticamente?”

O que a consciência testemunha só poderá adquirir plena determinação caso se delimite, com clareza e suficiência, o caráter que deve ter o ouvir que genuinamente corresponde ao clamor.”

Todas as experiências e interpretações da consciência convêm, de alguma maneira, que a <voz> da consciência fala de <débito>.” Ulisses, tu precisas fechar teu círculo! – demônio Atena

Quem diz que nós somos e estamos em débito e o que significa débito?” Somos Adãos (Adões?) melhorados. Porque nascemos já adultos, mas com um verdadeiro passado infantil, ao contrário do protótipo de homúnculo cristão. Aprendemos a duras penas sobre a responsabilidade, não é comendo maçãs (malus) que lá chegamos… Não há cobra nesse conto. E é uma ascensão. Homem-foguete incircunciso.

eu sou, logo devo (uma vida e uma morte)

MUNDO PRÉ-NIETZSCHIANO: “De imediato, a compreensão cotidiana toma o <ser e estar em débito> no sentido de uma <dívida>, de <ter o rabo preso com alguém>.” Da alma com o corpo. Ou antes o inverso.

ser a causa de alguma coisa”

Jesus é incompleto porque ele ainda se relaciona com o conceito de cura e débito dessa forma: pago pelos outros, sinto-culpa-com-os-outros. Porém, o clamor é apenas de si para si mesmo. A culpa verdadeira é autógena. Aquele que morreu por nós não importa mais: eu sou aquele que morrerá por mim mesmo.

EXISTIR É PESADO E SÓLIDO:

O fundamento não precisa retirar o seu nada do que é por ele fundamentado.”

Existindo, a pre-sença é o fundamento de seu poder-ser porque só pode existir como o ente que está entregue à responsabilidade de ser o ente que ela é. Embora não tendo ela mesma colocado o fundamento, a pre-sença repousa em sua gravidade que, no humor, se revela como carga.”

Ser-fundamento diz, portanto, nunca poder se apoderar do ser mais próprio em seu fundamento. [a existência]”

a própria pre-sença é um nada de si mesma.”

Sem dúvida, a ontologia e a lógica atribuíram coisas demais ao não, tornando extensamente visível a sua possibilidade sem, no entanto, o ter desentranhado ontologicamente.”

Porque toda dialética foge para a negação, sem fundamentar, dialeticamente, a própria negação mesmo que só para fixá-la como problema? Já se problematizou alguma vez a origem ontológica do nada ou, antes disso, já se buscaram as condições desse nada sobre as quais se funda o problema do não, de seu nada e de sua possibilidade?” Sim. Nie..

o bonum e a privatio possuem a mesma proveniência ontológica que a ontologia do ser simplesmente dado, que se aplica igualmente à idéia de <valor> dela <haurida>.”

Não se pode determinar o ser e estar em débito originário pela moralidade porque ela já o pressupõe.”

Conclamação do ser e estar em débito não significaria, portanto, conclamação do mal?” Por que retroagir tanto, pulando o – ou dando as costas ao – século XIX, H.?

Essa interpretação[, a] mais violenta de todas”

Algumas vezes na leitura, Heidegger parece me dizer: Só é necessário provar e comprovar aquilo que é necessário comprovar (em minha pesquisa e investigação). Mas não! Segundo seus próprios pressupostos, nem isso seria “necessário” “comprovar”!

A consciência não tem ouvidos. Ainda bem. Ou melhor: o ouvido não tem consciência.

A cotidianidade toma a pre-sença como um manual de ocupação, ou seja, como gerência e cálculo. A <vida> é um <negócio>, independentemente se ela paga ou não o seu preço.” Já ontologicamente, não há manual algum e <sempre se paga o preço>, sendo filósofo entende-se e estende-se isso para o próprio ser-aí.

METAPHYSICAL DISPLAY OF POWER

com-dicção humana

No fundo, a má consciência é tão pouco uma mera censura retroativa que ela reclama, sobretudo, numa referência antecipadora ao estar-lançado.” “Se já a caracterização da <má> consciência não alcança o fenômeno originário, isso vale ainda mais no que diz respeito à <boa> consciência, mesmo que esta seja considerada uma forma autônoma ou fundada essencialmente sobre a <má>.” “Na medida em que o discurso sobre a <boa> consciência nasce da experiência da consciência feita pela pre-sença cotidiana, isto apenas mostra que ela, mesmo quando se fala de <má> consciência, no fundo, não atinge o fenômeno.” Heidegger é desonesto em sua metodologia: devia simplesmente dizer, nessa seção do livro: eu li o livro Além do bem e do mal e remeto todos os verdadeiramente interessados pela questão do ser a ele.

A teoria do valor, seja fundamentada formal ou materialmente, também abriga uma <metafísica dos costumes>, i.e., uma ontologia da pre-sença e da existência como pressuposto ontológico implícito.” “Recorrer ao âmbito de tudo o que a experiência cotidiana da consciência conhece como única instância para a sua interpretação só pode se legitimar caso reflita, primeiramente, se, neste nível, a própria consciência pode-se fazer acessível.”

A interpretação comum pode pretender [pré-tender, hohoho!] sustentar-se nos <fatos>, limitando, nessa sua compreensão, a abrangência de abertura do clamor.” Eu, estudante universitário, deprimido, cada vez mais desimpessoalizado (na horrível nomenclatura heideggeriana), acumulando saber filosófico, à entrada da casa dos 20 anos, “transmuto-me”, muito influenciado por Nietzsche e Sartre, p.ex.. É claro que historiograficamente, i.e., onticamente, de forma rasa, tenderiam, numa biografia minha, a ver no ISOLAMENTO a causa-mor dessa “iluminação extra-moral”. Como todo incauto intérprete de Nietzsche e associados, me chamariam de louco ou pelo menos diriam “período conturbado”, “neurose criativa”, como o tal Ellenberger! Ora, é óbvio que o tal clamor tem de ter circunstâncias fenomênicas – com que tipo de exegetas infantilizados estamos lidando aqui?! Ocorre que foi indiscutivelmente a instância da abertura do meu ser-aí ao meu ser-no-mundo e ser-para-a-morte. Uma transformação absolutamente interna, tirando esse olhar crítico a posteriori, já que ninguém se deu conta, [meus colegas, professores, família] se estamos falando da compreensão platônica das coisas e não de sintomas vulgares de depressão.

É a partir da expectativa de uma indicação útil das possibilidades de <ação> seguras, disponíveis e calculáveis que se sente a falta de um conteúdo <positivo> no que se clama.” E agora, o que eu vou fazer?! Passeio na calçada entre a UnB e minha casa, tangendo o colégio CEAN. Apenas seguir descascando, ou simplesmente parar e <viver>, se me der na telha, porque a indiferença é minha para quando <eu quiser>. Me aprofundar nessas leituras, como interesse máximo. Me formar e dar aula, como interesses comezinhos, ônticos. O que isso me diz? Errei na carreira, tive uma graduação turbulenta – mas e daí? Isso não fere o projeto ontológico, obviamente. Aqui estou, dando a ele a continuidade pressentida desde sempre. E o fato de eu ter me assegurado <no mundo>, financeiramente, i.e., praticamente, também nada diz sobre <obter um êxito dissimulado> (farisaísmo da boa consciência, como Heidegger coloca). Todas essas externalidades são o realmente indiferente da minha vida. O dispor de mais ou menos tempo para seguir em meu projeto seguem como preocupação secundária “de fundo”, o que mais me importa em relação a minha existência pública ou material! E ainda assim converto algo tão obtuso em escrita, i.e., criação artística.

Com as máximas esperadas e precisamente calculadas, a consciência negaria à existência nada menos do que a possibilidade de agir.” Isso fica para o Rafael imediato, o mais profundo apenas assiste de camarote nessas horas, mas intervém se for o caso. Exemplo: Antecipe sua leitura de Ser e Tempo, está demorando demais!

O querer-ter-consciência [todo esse processo do clamor] transforma-se em presteza para a angústia. [um saber (se) ouvir sabiamente]” “A consciência só clama em silêncio, ou seja, o clamor provém da mudez da estranheza e reclama a pre-sença conclamada para aquietar-se na quietude de si mesma.” O Rafael que desde pequeno era “tagarela demais” teve de se fechar para o outro se abrir: mas o primeiro Rafael ainda existe, com-os-outros, no mundo da impessoalidade.

Chamamos de de-cisão essa abertura privilegiada e própria, testemunhada pela consciência na própria pre-sença, ou seja, o projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito mais próprio.” “Quanto a seu <conteúdo>, o <mundo> à mão não se torna um outro mundo, o círculo dos outros não se modifica, embora, agora, o ser-para o que está à mão, em sua compreensão e ocupação, e o ser-com da preocupação com os outros sejam determinados a partir de seu poder-ser mais próprio.” É o além-homem apenas um filósofo na verdadeira acepção da palavra? Aquele que se desescravizou o homo oeconomicus, a instrumentalidade ultimada?

PRIMEIRA SOCIEDADE (OU COMO SE TORNAR ÉTICO): “A pre-sença de-cidida pode se tornar <consciência>-dos-outros. Somente a partir do ser si-mesma mais próprio da de-cisão é que brota a convivência em sentido próprio.” Ou seja, um querer-compor-um-humanismo.

O decisivo é justamente o projeto e a determinação que, cada vez, abrem as possibilidades de fato. A indeterminação que caracteriza cada poder-ser de fato lançado da pre-sença pertence necessariamente à de-cisão.” “A de-cisão se apropria propriamente da não-verdade. A pre-sença já está e, talvez sempre esteja, na in-de-cisão. Esse termo designa apenas o fenômeno já interpretado como abandono à interpretação predominante do impessoal.” // Parmênides.

Enquanto conceito inverso à de-cisão em sua compreensão existencial, a in-de-cisão não significa uma qualidade ôntica e psíquica, no sentido de sobrecarga de repressões.”

Somente para-a-de-cisão é que pode ocorrer aquilo que chamamos de acaso, ou seja, o que lhe cai a partir do mundo circundante e do mundo compartilhado.” “Em contrapartida, a situação permanece essencialmente fechada, para o impessoal. Ele conhece apenas os <casos gerais> que se perdem nas <ocasiões> mais imediatas e contesta a pre-sença, calculando os <acasos>, os quais, por desconhecê-los, sustenta e professa como sua realização.” Kairos é ainda excessivamente pragmático e utilitarista enquanto conceito, pelo menos para a horda de idiotas que dele poderia querer se apropriar…

Expor os traços fundamentais e as correlações das possibilidades de fato existenciárias bem como interpretá-las em sua estrutura existencial pertencem ao âmbito das tarefas da antropologia existencial.” Cf. Psicologia da Comovisão (tenho certeza que a tradução está diferente) de Jaspers.”¹ H. alerta: esta obra não deve ser usada como um manual tipológico das cosmovisões possíveis.

¹ Psychologie der Weltanschauungen; bem que pode ser esse também: Filosofia da existência: conferências pronunciadas na Academia Alemã de Frankfurt. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1973.

Propriedade da pre-sença agora não é mais uma expressão vazia (…) Todavia, o sentido próprio do ser-para-a-morte enquanto poder-ser todo em sentido próprio, existencialmente deduzido, permanece um projeto puramente existencial, que ainda necessita de um testemunho da pre-sença.” Ou seja, H. procura a de-cisão geral desse ser-para-a-morte (do homem em geral). Digamos que a de-cisão em âmbito individual só diz respeito a nós, os superiores, nós os eleitos, etc. Mas me parece muita pretensão chegar a essa nova re-solução! Além disso, ele não sabe explicar como nós, os privilegiados, chegamos a ser privilegiados. Mas isso é inexplicável.

3. O PODER-SER TODO EM SENTIDO PRÓPRIO DA PRE-SENÇA E A TEMPORALIDADE COMO SENTIDO ONTOLÓGICO DA CURA

Demorou muito para incluir o tempo na problemática do ser, após a promessa na introdução!

Não será que a tentativa de forçar a união entre de-cisão e antecipação não leva a uma construção insuportável, de todo não-fenomenológica, que nem é capaz de reivindicar o caráter de um projeto ontológico com base fenomenal?”

Até aqui as discussões a respeito do método mantiveram-se em segundo plano.”

A determinação do sentido ontológico da cura consiste na liberação da temporalidade.”

A certeza da de-cisão significa: manter-se livre para uma retomada possível e de fato necessária.” “de-cidir com propriedade pela re-petição de si mesmo.” “A de-cisão antecipadora não é, de modo algum, um subterfúgio inventado para <superar> a morte.” “O querer-ter-consciência, determinado como ser-para-a-morte, também não significa um desprendimento do mundo, mas conduz, sem ilusões, à de-cisão do <agir>.” Quem se afasta da curiosidade mesquinha, se afasta também do mau idealismo. Não vive mais cinicamente, tampouco como um idealista sonhador caricato. O herói decidido e conclamado. Espírito-livre nietzschiano.

A filosofia nunca haverá de querer contestar as suas <pressuposições> mas também não quererá admiti-las sem discussão. A filosofia concebe as pressuposições junto com os seus referentes e os submete a um desdobramento mais penetrante.”

do ponto de vista ontológico, o ente que nós mesmos somos é o mais distante.” (DV) Vivemos no aí, sendo necessário um processo complexo de auto-reconhecimento inerente a nossa condição para vislumbrarmo-nos como ser total do nascimento à morte (como entes). É como se nos afastássemos o máximo de nós mesmos e de nossa circunvizinhança para podermos concluí-lo, impessoal, objetivamente. Concluir o quê? Essa simples verdade factual, que independe de qualquer instante, desde que já tenha sido assegurada a primeira vez.

Conquistar o infinito (perder-se indistintamente nele, a única coisa que se pode fazer perante o infinito) é fácil. O difícil é conquistar o próprio finito, sem o quê não existe destino.

tudo que vai volta” tudo que abre, fecha.

Sou, logo irei morrer e não ser.

Já vivi com tanto tato e contato!

…será que esse pre-supor possui o caráter de um projeto que compreende?”

ser-em-círculo-da-pre-sença

O DIZER-EU

O <eu> é uma mera conseqüência que acompanha todos os conceitos. Com ele, <nada se representa a não ser um sujeito transcendental dos pensamentos>.”

O eu-penso é a forma da apercepção [pré-percepção ou percepção ágrafa – o sine qua non kantiano] que precede e adere a toda experiência.” K.

Denominar este eu de <sujeito lógico> não significa que o eu em geral seja, meramente, um conceito obtido por via lógica.” Até porque, como vimos acima, o eu-penso é um não-conceito ou percepção ilógica, pré-lógica.

O <eu penso> significa <eu combino>.” Tem de haver um eu para que os conceitos se liguem, e o mundo exista.

Isso significa que [para K.] o eu penso não é algo representado e sim a estrutura formal do representar como tal, através do que, só então, se torna possível todo e qualquer representado.”

eu = eidos = base dos conceitos + conceitos

Determinar ontologicamente o eu como sujeito significa já sempre supor o eu como algo simplesmente dado. O ser-do-eu é compreendido como realidade da res cogitans.” Por isso em H. o ser-do-eu tem de se tornar ser-do-ente. (A síntese que K. pensara ter realizado se realiza.)

OBRA DE KANT: Um sistema em que a ética é um módulo do sistema, e não um componente orgânico impossível de isolar desse mesmo sistema é um sistema, falho e não-ético ou anti-ético.

CRÍTICA ULTIMADA AO CRITICISMO: “Não é preciso pensar <materialistamente> nem <racionalistamente> para se ficar, de todo, prisioneiro da ontologia da <substância> [o eu cartesiano, o simplesmente dado] de maneira ainda mais perniciosa por ser, aparentemente, evidente.”

Scheler, Der Formalismus in der Ethik und die materiale Wertethik

Kant não viu o fenômeno do mundo e foi suficientemente conseqüente ao afastar as <representações> do conteúdo a priori do <eu penso>.”

De ser-no-MUNDO a SER-NO-mundo.

Heidegger chama, desnecessariamente, o discurso mediano ao se referir a si de eu-eu ou dizer-eu-eu.

No silêncio, o ser-si-mesmo em sentido próprio justamente não diz <eu-eu> porque, na silenciosidade, ele <é> o ente-lançado que, como tal, ele propriamente pode-ser.”

Não deve ser coincidência que solidão, sozinho e solo, chão, sejam semelhantes desde o latim. Sustentáculo da alma e da ação.

O que significa sentido?” Hahaha.

sentido é o contexto no qual se mantém a possibilidade de compreensão de alguma coisa, sem que ele mesmo seja explicitado ou, tematicamente, visualizado. Sentido significa a perspectiva do projeto primordial a partir do qual alguma coisa pode ser concebida em sua possibilidade como aquilo que ela é. O projetar abre possibilidades, i.e., o que possibilita.” “Expor o sentido da cura significa portanto: perseguir o projeto orientador e fundamental da interpretação existencial originária da pre-sença para que se torne visível a perspectiva do projetado.”

Toda experiência ôntica de um ente, tanto a avaliação do que está à mão numa circunvisão como o conhecimento científico de algo simplesmente dado, está sempre fundada em projetos mais ou menos transparentes do ser do respectivo ente.”

Ex1: Rafael-escritor como ente: ter uma carreira de escritor.

Ex2: A lingüística como ente: entender diacrônica e sincronicamente o objeto de estudo, i.e., a língua (as línguas).

Este deixar-se-vir-a-si, que na possibilidade privilegiada a sustém, é o fenômeno originário do porvir.”

Somente enquanto a pre-sença é no vigor de ter sido [vigorado, passado irrevogável e pertencente ao ser do ser-aí, passado vigente, para mim] é que ela, enquanto porvir, pode vir-a-si de maneira a vir de volta.” Sempre se lembrar do projeto, da decisão e do clamor.

A de-cisão só pode ser o que é como a atualidade [presente do ser-aí, gerúndio].”

a de-cisão se atualiza na situação.”

Chamamos de temporalidade este fenômeno unificador do porvir que atualiza o vigorado.” “Temporalidade [é] (…) o sentido da cura“O uso terminológico dessa expressão deve, de início, manter distantes todos os significados impostos pelo conceito vulgar de tempo como futuro, passado e presente.”

temporalidade imprópria”

Nesse campo de investigação, violência não é arbitrariedade mas uma necessidade fundada nas coisas elas mesmas.”

JÁ & AÍ

Quando decaímos no mundo é que passa a existir o tempo.

A temporalidade possibilita a unidade de existência, facticidade e de-cadência, constituindo, assim, originariamente, a totalidade da estrutura de cura.”

A temporalidade não <é>, de forma alguma, um ente.”

A temporalidade temporaliza”

São os modos possíveis da temporalidade que possibilitam a pluralidade dos modos de ser da pre-sença, sobretudo os modos do próprio e impróprio.”

Temporalidade é o <fora de si> em si e para si mesmo originário. Chamaremos, pois, os fenômenos caracterizados de porvir, vigorado e atualidade, de ekstases¹ da temporalidade.”

¹ estase e êxtase – estase conforme o dicionário português: “parada, paralisação” – neste caso: do tempo no tempo. êxtase cf. o dic. port.: ‘fora de si’ (mesmo estando em si, modo privilegiado), dotado de vários humores, talvez todos em concatenação, incluindo a ânsia. pasmo (momento da de-cisão – a partir dele, pode-se revivê-lo sempre). Do grego “mover-se para fora”.

Sou eu, a despeito das aparências, porque se olho com des-cuido, agora não sou o que fui e o que serei, embora realmente o seja.

O característico do <tempo> acessível à compreensão vulgar consiste, entre outras coisas, justamente no fato de que, no tempo, o caráter ekstático da temporalidade originária é nivelado a uma pura seqüência de agoras, sem começo nem fim.”

4: O tempo original se desdobra em 3.

eterno-vir-a-ser (única realidade): passado-instante ou nada-futuro (inautenticidade)

autenticidade própria (limite da possibilidade do meu eu): inautenticidade do mundo que me precede e me sucede ou está invisível a mim enquanto vijo no sentido newtoniano de tempo.

Finitude não diz primordialmente término. (…) O porvir originário e próprio é o para-si, um para-si que existe como a possibilidade insuperável do nada.”

A tentação de se passar por cima da finitude do porvir originário e próprio e, com isso, da temporalidade, considerando-a <a priori> impossível, nasce da contínua imposição da compreensão vulgar do tempo.” “Somente porque o tempo originário é finito é que o tempo <derivado> pode se temporalizar como in-finito.”

autoconsistência da existência”

consistência x inconsistência

historicidade da pre-sença” (a partir da inautenticidade do mundo podemos chegar à autenticidade unitária do ser)

A civilização que matou o tempo.

Mentira, recuperou-o.

Devolveu-o ao trono.

No jogo, sempre se olha o cronômetro com muita atenção. Dele é que tudo depende. O campo é uma outra coisa…

Desgastando-se a pre-sença gasta a si mesma, ou seja, gasta o seu tempo. Gastando tempo ela conta com ele.” Quem conta, conta-com, ouvi alguém dizer. “Contar com o tempo é constitutivo do ser-no-mundo.” Duplo sentido: ser-dependente-do-tempo, não poder viver sem o tempo, e ao mesmo tempo mensurar o, criar uma unidade de, tempo.

TEMPO ÔNTICO, BE BORN! “Chamamos de intratemporalidade a determinação temporal dos entes intramundanos.” Segundo H., o limite da fenomenologia bergsoniana.

4. TEMPORALIDADE E COTIDIANIDADE

A origem ontológica do ser da pre-sença não é <inferior> ao que dela surge. A origem ontológica já o sobrepuja em poder e, no âmbito ontológico, tudo o que <surge> é degeneração. Para o senso comum, a tendência ontológica para a <origem> nunca se transforma em evidência ôntica.”

Enquanto descoberta que compreende o incompreensível, toda explicação tem suas raízes na compreensão primordial da pre-sença.”

A existência pode tornar-se digna de questionamento. Para que este <questionamento> seja possível, é necessária uma abertura.”

Sem dúvida, de início e na maior parte das vezes, a pre-sença fica in-de-cisa, ou seja, fica fechada em seu poder-ser mais próprio no qual ela só se empenha singularizando-se.” “Essa inconstância não significa, porém, que a temporalidade careça, por vezes, de porvir, mas sim que a temporalização do porvir está sujeita a mutações.”

O termo, do ponto de vista formal indiferente, para o porvir encontra-se na designação do 1º momento estrutural da cura, i.e., no preceder-se. De fato, a pre-sença continuamente se precede, mas nem sempre se antecipa

O atender [espécie de compreender ôntico] sempre já deve ter aberto o horizonte e o âmbito a partir do que algo pode ser esperado. Esperar é o modo do porvir fundado no atender que, em sentido próprio, se temporaliza como antecipação.”

Chamamos de in-stante a atualidade própria, i.e., a atualidade mantida na temporalidade própria.” “Em princípio, o fenômeno do in-stante não pode ser esclarecido pelo agora. O agora é um fenômeno temporal que pertence ao tempo da intratemporalidade (…) <No in-stante>, nada pode ocorrer. Ao contrário, enquanto atualidade em sentido próprio, é o in-stante que deixa vir ao encontro o que, estando à mão ou sendo simplesmente dado, pode ser e estar <em um tempo>.”

Foi, sem dúvida, Kierkegaard quem viu com a maior profundidade o fenômeno existenciário do in-stante, o que não significa que ele tenha logrado uma correspondente interpretação existencial.” “Quando Ki. fala de <temporalidade>, ele quer referir-se ao <ser-e-estar-no-tempo> do homem. O tempo como intratemporalidade conhece apenas o agora e nunca o in-stante.”

Por oposição ao in-stante, no sentido de atualidade própria, chamamos de atualização a atualidade imprópria. (…) in-de-cisa”

A compreensão imprópria se temporaliza como um atender atualizante a cuja unidade ekstática pertence necessariamente um vigorado, que lhe corresponde.” Chega de tecnicismos!

Chamamos de re-petição o ser o vigorado em sentido próprio.”

A ekstase (retração) do esquecimento tem o caráter de uma extração, fechada para si mesma, do vigorado em sentido mais próprio, de tal maneira que esse extrair-se de… fecha, ekstaticamente, aquilo de que se extrai e, com isso, a si mesmo.” “o esquecimento é o sentido temporal (…) que (…) na maior parte das vezes (…) eu (…) sou.”

atender esperar

esquecer recordar

Mas o que pode haver de comum entre os humores e o <tempo>?”

A recolocação não produz o vigorado, mas a disposição sempre revela, para a análise existencial, um modo do vigorado.” “A interpretação temporal limitar-se-á aos fenômenos já analisados do temor e da angústia.” “Só no atendimento é que o que ameaça pode estar de volta para o ente que eu sou e, dessa forma, a pre-sença só pode ser ameaçada caso já se tenha aberto, ekstaticamente, o endereço da volta.” “voltar para um estar-lançado mas de tal maneira que ele se fecha”

quem teme não-mais-se-reconhece no mundo circundante.”

atualização conturbada”

esquecimento de si inerente ao temor”

É sabido que o habitante de uma casa em chamas, p.ex., freqüentemente, quer <salvar> as coisas mais indiferentes por estarem mais imediatamente à mão.”

Tudo o que, além disso, pertence ao fenômeno fica sendo um <sentimento de prazer e desprazer>.”

o mundo não está me atendendo neste momento, pois está ocupado

Ela recoloca o fato puro do estar-lançado mais próprio e singular.” “Mas a angústia também não implica em uma retomada re-petitiva da existência na de-cisão.”

a angústia não pode se perder em ocupações. Quando algo assim parece ocorrer numa disposição, então se trata do temor que o entendimento cotidiano confunde com a angústia.”

A angústia só conduz para o humor de uma de-cisão possível.”

Como se pode encontrar um sentido temporal na morna ausência de humores que domina o <cotidiano cinzento>?”

e os afetos como esperança, alegria, encantamento e jovialidade?”

tédio, tristeza, melancolia e desespero”

ter esperança = ter-esperança-para-si

ter-se-conquistado”

indiferença x equanimidade (humor privilegiado da pre-sença)

Permanece um problema independente o modo em que se deve delimitar, ontologicamente, estímulo e contato dos sentidos em algo apenas-vivo, [?] e o modo, p.ex., como e onde o ser dos animais é constituído por um <tempo>.” Bem-lembrado.

má curiosidade (curiosidade sem método) dispersão desamparo: “Este modo da atualidade é o fenômeno que mais explicitamente se opõe ao in-stante.”

O desamparado está aí sem estar aí.

tentação, tranqüilização, alienação, auto-aprisionamento

O retrair-se da existência na atualização [atender, nível ôntico] não significa que a pre-sença se desligue de seu eu e de seu si-mesmo.”

A curiosidade não é <provocada> pela visibilidade sem fim do que ainda não se viu, mas pelo modo de-cadente de temporalização da atualidade que surge. Mesmo que tenha visto tudo, a curiosidade sempre inventa algo novo.”

abrir a situação-limite originária do ser-para-a-morte.”

Os tempos não surgem porque o discurso <também> se pronuncia a respeito de processos <temporais>, i.e., que vêm ao encontro <no tempo>. Seu fundamento também não é o fato de que a fala transcorre <num tempo psíquico>.”

Com a ajuda do conceito vulgar e tradicional do tempo, de que se vale forçosamente a ciência lingüística, nunca se pode colocar o problema da estrutura existencial e temporal dos tipos de ação.” Cf. Wackernagel, Vorlesungen über Syntax, vol. I, 1920.

[Só através da minha analítica] se poderá delimitar o sentido ontológico do <é>, que uma teoria artificial da sentença e do juízo desfigurou, reduzindo-o à <cópula>. O <aparecimento> do <significado> e a possibilidade de uma elaboração conceitual só podem se esclarecer e compreender, ontologicamente, com base na temporalidade do discurso, da pre-sença em geral.”

a compreensão é sempre atualidade [nível ontológico do presente] do vigorado.”

[já] a disposição se temporaliza num porvir <atualizante>. Não obstante, a atualidade <surge> ou se sustenta num porvir do vigorado.” Repete-se à exaustão.

Temporalização não significa <sucessão> de ekstases. O porvir não vem depois do vigorado e este não vem antes da atualidade.”

A unidade ekstática da temporalidade, i.e., a unidade do <fora de si> nas retrações de porvir, vigorado e atualidade é a condição de possibilidade para que um ente possa existir como o seu <aí>. O ente que carrega o título de pre-sença se <iluminou>. A luz que constitui a luminosidade da pre-sença não é uma força ou fonte ôntica simplesmente dada de uma clareza cintilante que, por vezes, ocorre neste ente. Antes de toda interpretação <temporal>, determinou-se como cura o que ilumina essencialmente esse ente, i.e., aquilo que o torna <aberto> e também <claro> para si mesmo.”

Na intenção de proteger o fenômeno das tendências de fragmentação mais evidentes e, por isso, mais fatais, interpretou-se, com maior detalhamento, o modo mais imediato e cotidiano do ser-no-mundo, a saber, o ser que se ocupa junto ao que está à mão dentro do mundo. Agora que a própria cura foi, ontologicamente, delimitada e reconduzida ao seu fundamento existencial, à temporalidade, a ocupação pode, por sua vez, ser explicitamente concebida a partir da cura e da temporalidade.”

De que modo algo como mundo é possível? Em que sentido mundo é? [DV] O que o mundo transcende e como transcende?” “A exposição ontológica destas questões ainda não é a sua resposta.”

A falta da estrutura fenomenal daquilo com que se lida tem como conseqüência um desconhecimento da constituição existencial do modo de lidar.”

nexo instrumental”

Todo <trabalhar> e pôr mãos à obra não significa vir de um nada e deparar-se com um instrumento isolado, preliminarmente dado.”

deve-se buscar a condição de possibilidade do deixar e fazer em conjunto num modo de temporalização da temporalidade.” H. quase apertando a mão de Marx.

surpresa, importunidade, impertinência

É preciso que o próprio afazer se veja perturbado para que possa vir ao encontro algo que não pode ser manuseado.”

o teste e o afastamento”

Mas como é possível <constatar> o que falta, ou seja, o que não está à mão e não apenas o que está à mão mas não é manuseável?”

o dar pela falta”

É o não-atender da atualização perdida que abre o espaço <horizontal> de jogo em que o espantoso pode sobrevir à pre-sença.”

não contar com…”

levar em conta outra coisa

Somente porque se descobre o que opõe resistência com base na temporalidade ekstática da ocupação é que a pre-sença pode, de fato, se compreender em seu abandono a um <mundo>, que ela nunca domina.”

Quais as condições de possibilidade, inerentes à constituição ontológica da pre-sença e existencialmente necessárias, para que a pre-sença possa existir no modo da pesquisa científica?” Duvido que algo mais elaborado que “desenvolvimento do capitalismo” possa ser apontado… Em outros termos, busca-se o ser-da-ciência.

Fenomenologia versus semiótica

O decisivo para o <aparecimento> do comportamento teórico residiria no desaparecimento da práxis. É justamente quando se toma a ocupação <prática> como o modo primário e predominante de ser da pre-sença que a <teoria> deve sua possibilidade ontológica à falta da práxis, ou seja, a uma privação.” “Pelo contrário (…) Abster-se do uso instrumental significa tão pouco <teoria> que, na <observação> demorada, a circunvisão permanece inteiramente atada ao instrumento ocupado e à mão. O lidar <prático> possui seus modos próprios de demorar-se.”

A observação no microscópio depende da produção de <preparados>. A escavação arqueológica, que precede à interpretação do <achado>, exige as mais intensas manipulações. E mesmo a elaboração mais <abstrata> de problemas e a fixação do que foi obtido manipulam instrumentos de escrever, p.ex..” “Para poder se tornar <objeto> de uma ciência, o que está à mão não precisa perder o seu caráter instrumental. A modificação da compreensão ontológica não parece ser um constitutivo necessário da gênese do comportamento teórico <frente às coisas>.”

Na proposição <física>, <o martelo é pesado>, não apenas se deixa ver o caráter de ferramenta deste ente que vem ao encontro, mas também o que pertence a todo instrumento à mão, a saber, o seu local. Este se torna indiferente. (…) O local se transforma em posição no espaço e no tempo, em um <ponto do mundo>, que não se distingue de nenhum outro. Isto implica que a multiplicidade de locais delimitados no mundo circundante, própria do instrumento à mão, não se transforma apenas em puro sistema de posições, mas sim que se aboliram os limites do próprio ente do mundo circundante.”

in-tegração

O exemplo clássico do desenvolvimento histórico de uma ciência, e também da gênese ontológica, é o aparecimento da física-matemática.” “projeto matemático da própria natureza”

matéria (base não-numérica) movimento, força, lugar, tempo (enumerar a matéria em suas regiões)

A fundamentação das ciências dos fatos só foi, portanto, possível na medida em que o pesquisador compreendeu que, em princípio, não existem meros fatos.” “E assim, o caráter exemplar da ciência matemática da natureza também não reside em sua exatidão específica e na obrigatoriedade para <todos>, mas no fato de que, nela, o ente temático é descoberto da única maneira em que pode ser descoberto, a saber, no projeto prévio de sua constituição ontológica.”

Chamamos de tematização a totalidade desse projeto ao qual pertencem as articulações da compreensão ontológica, a delimitação dela derivada do setor de objetos e o prelineamento da conceitualização adequada ao ente. A tematização visa liberar os entes que vêm ao encontro dentro do mundo de modo a que eles possam ser <projetados para> uma pura descoberta, i.e., que eles possam se tornar objetos. A tematização [portanto] cria objetos”

atualização privilegiada”

Agora começo a vislumbrar como e por que “ouvi dizer por aí” que Heidegger fala que o objetivo da humanidade, através da Técnica, é o “domínio do planeta”. E creio que essas vozes de falatório compreenderam mal: ele descreve o atual panorama do desenvolvimento tecnológico-histórico, mas não está abençoando este sentido.

A compreensão de ser pode permanecer neutra. Manualidade e ser simplesmente dado ainda não se diferenciam e, sobretudo, ainda não são concebidos ontologicamente.”

Como é, ontologicamente, possível a unidade de mundo e ser-aí? De que modo o mundo deve ser, para que o ser-aí possa existir enquanto ser-no-mundo?”

A condição existencial e temporal da possibilidade do mundo reside no fato de a temporalidade, enquanto unidade ekstática, possuir um horizonte.” Eu-sou-meu-mundo

Chamamos de esquema horizontal esse para-onde da ekstase.”

O fato destes entes [simplesmente dados] se descobrirem junto com o próprio aí da existência não está à mercê do ser-aí. Somente o quê, cada vez, se descobre e se abre, em que direção se faz, até onde e como se faz é que são tarefas de sua liberdade, embora sempre nos limites de seu estar-lançado.”

O mundo já está, por assim dizer, <muito mais fora> [de-cidido, ontologizado] do que qualquer objeto pode estar. Por isto, o <problema da transcendência> não pode ser reduzido à questão de como um sujeito sai de dentro de si e chega a um objeto fora de si [sem o enquadramento material e histórico no mundo]

Concebendo o <sujeito> como ser-aí que existe e cujo ser está fundado na temporalidade, deve-se então dizer: mundo é <subjetivo>. Mas do ponto de vista transcendente e temporal, este mundo <subjetivo> é mais <objetivo> do que qualquer <objeto> possível.” Porque assim interessa ao ser-no-mundo.

Contudo, a comprovação de que a espacialidade só é existencialmente possível através da temporalidade não pode pretender reduzir o espaço do tempo ou dissolvê-lo em puro tempo.”

A pre-sença introjeta – em sentido literal – o espaço.” Não seria projeta?

Existindo, ela já-sempre arrumou para si um espaço.”

a introjeção do espaço é tão pouco idêntica a uma <representação> do espacial que é esta que pressupõe aquela.”

É até mesmo questionável se a explicação até agora desenvolvida da temporalidade é suficiente para delimitar o sentido existencial da cotidianidade.”

RESUMO DA VIDA DO FILÓSOFO: “<De início> significa o modo em que a pre-sença <se revela> na convivência da public-idade, mesmo que, existenciariamente, ela tenha <no fundo> superado a cotidianidade. <Na maior parte das vezes> significa o modo em que a pre-sença nem sempre, mas <via de regra>, se mostra para todo mundo.”

A monotonia da cotidianidade considera como mudança justamente aquilo que o dia traz. A cotidianidade determina a pre-sença mesmo quando ela não escolheu para <herói> o impessoal.”

Na cotidianidade, a pre-sença pode <sofrer> de estupidez, pode mergulhar na sua estupidez ou dela escapar, buscando uma nova dispersão para fazer frente à dispersão dos negócios e tarefas.”

Mas, no fundo, o termo cotidianidade nada mais pretende indicar do que a temporalidade que possibilita o ser da pre-sença.” A totalidade orgânica do ser-aí.

5. TEMPORALIDADE E HISTORICIDADE

A pre-sença só se fez tema existindo, por assim dizer, <para frente>, deixando, com isso, <para trás> de si todo o vigorado. (…) se desconsiderou (…) a ex-tensão da pre-sença entre nascimento e morte.” “Haverá algo mais <simples> do que caracterizar o <contexto da vida> entre nascimento e morte?”

vivência e permanência

No fundo, a concepção vulgar do <contexto da vida> também não pensa numa moldura que, estando <fora> da pre-sença, a abrangesse, mas procura, com razão, esta moldura na própria pre-sença.” Torna-se patente o quanto Sartre não entendeu este livro.

De forma alguma a pre-sença só <é> real num ponto do tempo, de maneira que, além disso, estaria <cercada> pela não-realidade de seu nascimento e de sua morte.”

O SIGNIFICADO DE CURA: “De fato, a pre-sença só existe nascendo e é nascendo que ela já morre, no sentido do ser-para-a-morte.”

O ENTRE: “Chamamos de acontecer da pre-sença a movimentação específica deste estender-se na ex-tensão. A questão sobre o contexto da pre-sença é o problema ontológico de seu acontecer. Liberar a estrutura do acontecer e suas condições existenciais e temporais de possibilidade significa conquistar uma compreensão ontológica da historicidade.”

quem? consistência

Não é na ciência historiográfica que se deve buscar a história. Mesmo que o modo científico e teórico de tratar o problema da <história> não vise apenas a um esclarecimento <epistemológico> (Simmel) da apreensão histórica, nem a uma lógica da construção conceitual da exposição histórica (Rickert), mas também se oriente pelo <lado do objeto>, mesmo assim, nesse tipo de questionamento, a história só se faz acessível, em princípio, como objeto de uma ciência.” “A tematização, a abertura historiográfica da história é a pressuposição de uma possível <construção do mundo histórico pelas ciências do espírito>.”

temporalidade história, e não história temporalidade

a origem do tempo da intratemporalidade a partir da temporalidade. [sua base]” “Quanto mais o problema da história se aproximar de seu enraizamento originário, mais agudamente aparecerá a indigência dos meios <categoriais> disponíveis e a insegurança dos horizontes ontológicos primários.”

No fundo, a presente análise trata unicamente da preparação de um caminho para que a atual geração possa apropriar-se das pesquisas de Dilthey, com as quais ela ainda deve se confrontar.”

A ambigüidade do termo <história> mais imediata e freqüentemente observada, embora não seja de forma alguma <fortuita>, anuncia-se no fato de que esse termo significa tanto a <realidade histórica> como a sua possível ciência.” Primeiro passo: história =/= historiografia

o passado das coisas

passado que ‘morreu’ (definição negativa)

passado que ‘segue em nós’ (pré-vigorado) (definição positiva)

passente

ascensão-queda

autoria

passividade

marcar época

con-junto de influências

inimiga da Natureza

Darwin e o ticket de entrada do natural na própria história, revivendo com nova pujança o termo “História natural”

Será que a pre-sença de fato é primeiro <algo simplesmente dado> para depois, oportunamente, entrar <numa história>?” “uma caracterização mais precisa do curioso primado do <passado> no conceito de história é que deve preparar a exposição da constituição fundamental da historicidade.”

O que foram as coisas que hoje não são mais?”

O que passou?” “mundo”

O mundo começa com a mão.

Será a pre-sença o vigorado apenas no sentido do que vigora por ter sido pre-sente [por ter-estado-aí] ou será ela o vigorado enquanto algo atualizante e por vir [presente e futuro], ou seja, na temporalização de sua temporalidade?”

O ente não fica <mais histórico> mediante uma recondução regressiva a um passado sempre mais distante, no sentido de que o mais antigo fosse o que é mais propriamente histórico.”

A compreensão existenciária própria escapa tão pouco da interpretação legada que, no de-cisivo, ela sempre retira a possibilidade escolhida dessa interpretação, contra ela mas sempre a seu favor.” O que Heidegger quer dizer nesse trecho é que meu ser-aí, e meu ser-no-mundo, apesar de ser este mundo, sempre chega à de-cisão e vive cotidianamente, sem percebê-lo, no 2º caso, influenciado por coisas históricas que ainda não feneceram, i.e., pelo legado dos antepassados, dos mortos, de toda a cultura prévia a minha própria existência. Todos esses dados estão de tal forma embrenhados e mesclados com a ‘minha realidade contemporânea’ que se tornam indissociáveis – então, por mais que eu seja para o presente, sempre me alimento do passado, não só na minha vida mais instrumentalizada mas também no momento da ascensão filosófica. Prova disso é que fui ajudado principalmente por figuras como Nietzsche e Marx para chegar ao meu clamor. Sou um devorador de livros antigos, cujo conteúdo perpetuamente se atualiza em minha existência e realidade próprias.

Se todo bem é uma herança e se o caráter dos bens reside em possibilitar uma existência própria, então é na de-cisão que se constitui a transmissão de uma herança.” Escolho aquilo que não me serve mais e o que ainda me serve, mesmo tendo saído do seio dos meus pais.

meta incondicional”

simplificar, se apropriar e se esquivar

A pre-sença só pode sofrer golpes do destino porque, no fundo, ela é destino.” Já o in-de-ciso não tem destino.

O envio comum [nível ontológico da convivência] não se compõe de destinos singulares da mesma forma que a convivência não pode ser concebida como a ocorrência conjunta de vários sujeitos.”

SEMI-SOLIPSISMO/REPUBLICANISMO PLATÔNICO: Só alguns são homens, só alguns têm alma, só alguns vivem, os outros são matéria bruta dada para seus destinos e aconteceres.

O envio comum dos destinos da pre-sença em e com a sua <geração> constitui o acontecer pleno e próprio da pre-sença.” Para este conceito de geração, cf. Dilthey, Über das Studium der Geschichte der Wissenschaften von Menschen, der Gesselschaft und dem Staat (1875).

Não obstante impotente, o destino é a potência maior sempre pronta a enfrentar as contrariedades do projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito, em sentido próprio”

Não é necessário que a de-cisão saiba explicitamente a proveniência das possibilidades para as quais ela se projeta.”

A re-petição é a transmissão explícita, ou seja, o retorno às possibilidades da pre-sença, que vigora por ter sido pre-sente.”

o fato de a existência escolher seus heróis funda-se na de-cisão antecipadora”

MANDANDO A ÁRVORE GENEALÓGICA ÀS FAVAS: “Surgindo de um projeto de-cidido, a re-petição não se deixa persuadir pelo <passado> a fim de deixá-lo apenas retornar como o que alguma vez foi real.”

A re-petição nem se abandona ao passado nem almeja um progresso.” (isso seria retirar toda a autenticidade do ser-aí)

No in-stante, o ser-aí sai de si e do tempo vulgar para ser agora sim si-mesmo, i.e., a responsabilidade implica que não fui causado e nem perpetuo, mas inovo, ao mesmo tempo que também não carrego uma carga ou débito para todas as gerações futuras, que terão a sua própria cura para com que lidar.

Hamlet é toda a História.

Havia filósofos mesmo antes das obras da ciência histórica. A constituição do saber historiográfico é um fator apenas secundário. Embora eu saiba de onde advém o eterno-retorno, lá sei eu e Nietzsche lá sabia se isso não adviria, p.ex., de qualquer conto contado ou inclinação de algum de seus amigos ou familiares, ou dos pais deles?! Portanto a transmissão do saber foi indireta, tendo sido ele o primeiro a assumi-lo (até onde sabemos), mas sem que para isso ele houvesse de se deter e investigar o passado (hipótese assaz provável).

Segundo o que entendi até o momento, o envio comum seria por exemplo: a Alemanha escolheu o nazismo como seu destino (aplicado a nações).

HISTORICIDADE IMPRÓPRIA DA PRE-SENÇA

O mundo é ao mesmo tempo, solo e palco” Shakespeare o sabia.

DELEUZE EJACULA: “Será então o acontecer da história apenas o transcurso isolado de <fluxos vivenciais> em sujeitos singulares?”

História da compreensão humana da natureza enquanto ente histórico: sugestão de pesquisa.

O que <acontece> com o instrumento e a obra como tais [seres destituídos de pre-sença] possui um caráter próprio de movimentação que permanece, até agora, inteiramente obscuro.” Que nos importa que seja exato que erupções vulcânicas nos preservaram os fósseis de criaturas chamadas dinossauros? Este não é um passado ou vigorado, pois não importa ao homem ontologicamente, no sentido de que sempre-esteve-aí. Como o apagar do sol não é. Poderíamos dizer ser-para-o-apagar-do-sol, exagerando. Se há de existir um envio comum próprio e autêntico, teríamos a formulação: humanidade-para-o-apagar-do-sol. A cura do mundo, ele vive apenas como Gaia. O que acontece no sistema solar ou ainda mais perifericamente “não interessa ao mundo”. Cf. Gotti, Die Grenzen der Geschichte, 1904.

O único terremoto de interesse para a historicidade é o terremoto humano, Nietzsche, por exemplo.

CONTRA OS AMANTES DA HISTÓRIA À LA MARCOS (O homem vulgar é altamente imagético, precisa “aprender” “história” através de filmes de Hollywood – e por que não Bollywood? Hipocrisia.): “E, por fim, porque o sentido de ser vale como o absolutamente evidente, a questão do modo de ser da história e do mundo e da movimentação do acontecer em geral, <propriamente>, não passa de superstição verbal, infrutífera e prolixa.”

O QUE VIGORA AGORA? SÓ COISAS INVISÍVEIS QUE O PROJETO TEM DE SER SENSÍVEL A FIM DE APURAR. DISTORCER O INAPREENSÍVEL A NOSSO FAVOR (saber mentir): compreender o Império Romano no meu projeto, não como <tal qual fôra>, o que seria de todo modo uma falsificação, e sem relevância ontológica.

Um exemplo máximo de envio comum impróprio é o Brasil. A efervescência cotidiana deste país não pode nublar a consciência do filósofo.

Podemos ficar sem chão? O que é chão? Montanha é chão? Raízes de uma árvore do mundo são chão?

O ser histórico ideal é aquele que foge-da-morte, o ser-curioso-para-ninharias, como advento do comunismo sobre a Terra num futuro ultradistante (exemplo).

A historicidade própria compreende a história como o <retorno> do possível”

Pode-se, não obstante, ousar um projeto da gênese ontológica da ciência historiográfica, partindo-se da historicidade da pre-sença. Este projeto serve de preparação para o esclarecimento da tarefa de uma destruição historiográfica da filosofia, a ser posteriormente realizada.”

GENEALOGIA DA HISTORIOGRAFIA A PARTIR DA HISTORICIDADE DA PRE-SENÇA

O tema da historiografia não é nem o que aconteceu singularmente e nem um universal que paira sobre a singularidade, mas a possibilidade que de fato vigorou na existência.” E quanto mais exata é a História, mais improvável ela é.

Esta não se repete como tal [como simplesmente dada], ou seja, não é compreendida de modo propriamente historiográfico, mesmo quando distorcida pela palidez de um padrão supratemporal.”

A seleção do que deve se tornar objeto possível da historiografia já foi feita na escolha existenciária e factual da historicidade da pre-sença, onde somente a historiografia surge e unicamente é.”

Em nenhuma ciência, a <validade universal> dos parâmetros e as exigências de <universalidade>, imposta pelo impessoal e por sua compreensibilidade, são menos critérios possíveis de <verdade> do que na historiografia própria.” “Comprometendo-se previamente com a concepção de mundo de uma época, o historiógrafo ainda não comprova ter compreendido o seu objeto num modo propriamente histórico e não apenas estético.”

a historicidade própria de um <tempo> também não se comprova pelo interesse historiográfico altamente diferenciado, que abrange até mesmo as culturas mais primitivas e distantes. Ter aparecido o problema do historicismo é o sinal mais claro de que a historiografia pretende alienar o ser-aí da sua historicidade própria. (…) Épocas sem historiografia não são, em si mesmas, sem história.”

UHU, DE QUEM TERÁ PUXADO A INSPIRAÇÃO?!… “A possibilidade de a historiografia em geral poder ser tanto uma <utilidade> como uma <desvantagem> <para a vida> funda-se no fato de esta ser, em sua raiz, histórica e, portanto, enquanto existindo de fato, sempre já se ter decidido por uma historicidade própria ou imprópria. Na Segunda Consideração Intempestiva (1874), Nietzsche reconheceu o essencial a respeito da <utilidade e desvantagem da historiografia para a vida>, tendo-se pronunciado de maneira precisa e penetrante. Ele distingue 3 espécies de historiografia: a monumental, a antiquária e a crítica, sem, no entanto, de-monstrar, explicitamente, a necessidade dessa tríade e o fundamento de sua unidade. A tríade da historiografia está prelineada na historicidade do ser-aí. É ela também que permite compreender em que medida a historiografia própria deve ser a unidade concreta e factual dessas 3 possibilidades. A divisão feita por Nietzsche não é acidental. O início de sua <consideração> deixa entrever que ele compreendeu bem mais do que chegou a exprimir.” Substrato da alegoria tríplice da criança, do leão e do camelo do Zaratustra. Neste meio poético pode-se dizer que N. efetuou ou explicitou a necessidade da tríade e fundamentou sua unidade.

1. monumental

exaltar fatos isolados e grandiosos do passado, de forma a dar indicações de uma possibilidade de transvaloração do sujeito ‘histórico’. dizer-sim com dizer-não feitos corretamente, com cinismo e inocência, da criança no seu jogo.

2. antiquária

também não está contente com o mundo contemporâneo, mas se afasta dele por se afastar, não para se projetar numa reação ao niilismo. o dizer-sim de algo que já passou (a selva), burro, instintivo, do leão.

3. crítica

tragicamente a maior apologista do atual, o tipo moderno por excelência, que tentará se afastar dum passado inafastável. sem poder criador. é verdade que, sendo ‘realista’, não podemos achar um amanhã realmente novo sem atravessar esse hoje sórdido, [o dizer-não do camelo no deserto, que não sabe dizer-sim quando seria a hora] e por isso precisamos ser diplomáticos com este hoje, por mais cinza que seja.

* * *

Conde Yorck von Wartenburg (o continuador-contemporâneo de Dilthey), Briefwechsel zwischen Wilhelm Dilthey und dem Grafen Paul Yorck von Wartenburg, 1887-1897, 1923. Realmente a melhor época para se trocar cartas na Europa… São efetivamente esses 20 anos de correspondência a única forma de checar o pensamento deste quase-personagem shakespeariano (cof, cof, York)…

O trabalho de pesquisa de Dilthey [<O PRIMEIRO HERMENEUTA>] pode ser dividido, esquematicamente, em 3 campos: estudos sobre a teoria das ciências do espírito e sua delimitação frente às ciências da natureza; pesquisas sobre a história das ciências do homem, da sociedade e do Estado; investigação sobre uma psicologia que deve expor <todo o fato homem>.” “Yorck acha que as investigações de Dilthey <salientam pouco a diferença genérica entre o ôntico e o histórico (p. 191, grifo do autor).”

GOLPE DE PUNHAL NO VENTRE DA ANTROPOLOGIA: “Toda comparação é estética, está sempre presa à figura.” “para Windelband, história é uma série de imagens, de figuras singulares, uma exigência estética.”

Com seu agudo instinto, Yorck quis dizer que a história tradicional ainda se atém muito às <determinações puramente oculares>, que visam ao que é corporal e figurável.” Em suma, chega de ôntico!

Ranke é um grande ocular, para quem não pode se tornar realidade o que desapareceu. De maneira bem própria a R., também se esclarece a restrição da matéria histórica ao que é exclusivamente político. Somente este constitui o dramático.”

P. 208: Primeira ocorrência, talvez, de “inessencial”, em sentido próprio (tum dum!) no livro.

NIETZSCHE CONTRA A FILOLOGIA, PELO PORTA-VOZ YORCK: “O autêntico filólogo tem um conceito de história como de um baú de antiguidades. Eles não chegam ao que não se pode apalpar – aonde só se chega através de uma transposição psíquica viva. No fundo, eles são cientistas da natureza, que se tornam ainda mais céticos quando lhes falta o experimento. Devemos nos afastar inteiramente de todas essas tralhas, como, por exemplo, de quantas vezes Platão esteve na Magna Grécia ou em Siracusa. Pois aí não há vida alguma. Tais maneirismo exteriores, que só posso ver criticamente, tornam-se por fim, um grande ponto de interrogação, reduzindo-se a uma vergonha quando comparados com as grandes realidades que são Homero, Platão e o Novo Testamento. Tudo o que é verdadeiramente real se transforma em esquemas quando não-vivenciado e apenas considerado como <coisa em si>.”

Os cientistas se comportam face às forças do tempo à semelhança da sociedade francesa mais erudita e refinada frente ao movimento revolucionário. Tanto aqui como lá, trata-se apenas de formalismo, do culto da forma. Determinar relações é a última palavra da sabedoria.”

o conhecimento progrediu no sentido da superação dele próprio, o homem retraiu-se para tão longe de si mesmo que não é mais capaz de ver a si.”

Toda história viva é uma crítica”

O esforço se assemelha à luta de Jacó, a vitória é certa para quem luta.”

É pelo conhecimento do caráter ontológico da própria presença humana e não por uma epistemologia ligada ao objeto da consideração histórica que Yorck alcança a compreensão penetrante e clara do caráter fundamental da história enquanto <virtualidade>.”

O ponto nevrálgico dos dados psicofísicos não é (é = ser simplesmente dado na natureza. Observação do autor), mas vive. E uma reflexão sobre si mesmo, que não se dirige a um eu abstrato mas à plenitude do meu si-mesmo, é que haverá de me encontrar historicamente determinado tal como a física me reconhece cosmologicamente determinado. Tanto quanto natureza, eu sou história…” Por esse trecho, vemos o quanto Heidegger está informado – até no vocabulário! – por Yorck!

E Yorck, que via com profundidade toda a inautenticidade da <determinação de relações> e toda a <falta de solidez> dos relativismos, não hesita em tirar as últimas conseqüências desta visão profunda da historicidade da pre-sença: <Mas, por outro lado, para a historicidade interior da autoconsciência é, metodologicamente, inadequada uma sistemática separada da história. Assim como a psicologia não pode abstrair da física, também a filosofia – e justamente quando é crítica – não pode abstrair da historicidade…A atitude consigo mesmo e a historicidade são como a respiração e a pressão do ar e – por mais paradoxal que possa parecer – no aspecto metodológico, a não-historização me parece um resto metafísico>

Em minha opinião, existe uma filosofia da história – não se assuste – porque filosofar é viver – quem poderia escrevê-la! Decerto, não no sentido em que até agora se concebeu e buscou, contra o que o senhor irrefutavelmente se pronunciou. Falso, até impossível, embora não seja o único, tem sido o questionamento até hoje existente. Por isso já não há nenhum filosofar real que não seja histórico. A separação entre filosofia sistemática e exposição histórica é, essencialmente, incorreta” Vejamos o que devia querer dizer com filosofia sistemática, hoje impossível. Claro que a filosofia sincrônica, da qual até rimos…

Off-topic, mas caberia perfeitamente como prefácio da República ou em Jaeger: “O poder tornar-se prática é, sem dúvida, o fundamento próprio e justo de toda ciência. Mas a práxis matemática não é a única. A finalidade prática de nosso ponto de vista [humanidades] é a pedagógica, no sentido mais amplo e profundo do termo. Ela é a alma de toda verdadeira filosofia e a verdade de Platão e Aristóteles.”

O senhor sabe o que eu acho a respeito da possibilidade de uma ciência da ética. Apesar disso, sempre se pode fazer algo melhor. Para quem são propriamente esses livros? Arquivos e arquivos! O único valor digno de nota é o élan de passar da física para a ética.”

O que penetra até o fundo da vida furta-se a uma exposição exotérica e, por isso, a terminologia não é compreendida pelo senso comum, sendo, inevitavelmente, simbólica. É da especificidade do pensamento filosófico que decorre a especificidade de sua expressão verbal.”

A tarefa pedagógica do Estado seria desfazer a opinião pública elementar e possibilitar, tanto quanto possível, a formação da individualidade no ver e no perceber. Ao invés do que se chama de consciência moral – essa alienação radical – voltamos a consciências singulares, que paradoxalmente fortaleceriam a consciência moral”

A curiosa dualidade utilizada pelo autor, ôntico x histórico, precisaria de uma fundamentação mais originária, pois H. diz: como se entenderia esse ‘histórico’, sem defini-lo pelo ôntico, e na verdade pressupondo que uma unidade serve de base a essa distinção mesma? I.e.: não é uma falsa dicotomia entre aparência-espírito, o que já havia sido tentado na história da filosofia, mas a remissão, neste caso, justamente à historicidade da pre-sença (somente meio século depois de Yorck, evidentemente, chegou-se a essas palavras).

Não é por acaso que Yorck chama o ente não-histórico de ôntico simplesmente. Isso apenas reflete o predomínio ininterrupto da ontologia tradicional que, provindo do antigo questionamento do ser, mantém a problemática ontológica numa estreiteza de princípio. [corpo e alma, blábláblá…]”

Chegou a hora de consumar Dilthey-Yorck, é o que está nos dizendo H..

6. TEMPORALIDADE E INTRATEMPORALIDADE COMO ORIGEM DO CONCEITO VULGAR DE TEMPO

RECUO? “O tempo <em que> os entes intramundanos vêm ao encontro deve, ainda mais necessariamente, receber uma análise de princípio, porque, além da história, também os processos naturais se determinam <no tempo>.”

De onde a pre-sença toma o tempo? Como esse tempo se comporta frente à temporalidade?”

Na interpretação hegeliana do tempo, tanto a possibilidade de interpretar o tempo de forma subjetiva quanto objetiva são, de certa forma, superadas.” “Em seu resultado, a presente interpretação da temporalidade da pre-sença e da pertença do tempo do mundo à temporalidade parece concordar com Hegel. (…) porém (…) faz-se necessária uma breve exposição da concepção hegeliana da relação entre tempo e espírito”

Tempo como ser e ente

agora-agora”

Chamamos de <tempo> a atualização que interpreta a si mesma, ou seja, o que é interpretado e interpelado no <agora>.”

lapso de tempo”

A temporalidade é o fundamento do relógio. Enquanto condição de possibilidade da necessidade factual do relógio, a temporalidade condiciona, igualmente, a possibilidade de sua descoberta. Pois somente a atualização, que atende e retém o transcurso do sol, que vem ao encontro junto com a descoberta dos entes intramundanos, é que possibilita e exige a datação que interpreta a si mesma, a partir do que está publicamente à mão, no mundo circundante.” Destaquei em verde dada a banalidade desse meio-parágrafo já às portas do fim do volume, exasperando o leitor.

O TEMPO-NO-TEMPO E O MUNDO-NO-MUNDO: “o mundo das ocupações é datável, se dá num lapso de tempo, é público e, por ser assim estruturado, pertence ao próprio mundo.”

ENTRE O MEIO-DIA E A MEIA-NOITE

quando as sombras alcançarem tantos pés, nos encontraremos lá”

O que significa ler o tempo?”

Não caberia aqui aprofundar o problema da medição do tempo característica da teoria da relatividade.” Seguido de uma explicação do completo encerramento da física, quântica, especial ou qualquer outra, no mero nível ôntico de vivência.

As relações entre os números históricos, o tempo calculado astronomicamente e a temporalidade e historicidade da pre-sença necessitam de uma ampla investigação.” “As duas obras fundamentais sobre a formação da cronologia histórica são: Josephus Justus Scaliger, De emendatione temporum, 1583, e Dionysius Petavius, SJ, Opus de doctrina temporum, 1627. Sobre a antiga medição do tempo, vide G. Bilfinger, Die antiken Stundenangaben, 1888; Der Bürgerliche Tag. Untersuchungen über den Beginn des Kalendertages im klassischen Altertum und im christlichen Mittelalter, 1888; H. Diels, Antike Technik, 2ed., 1920 (capítulo Die antike Uhr).”

Resposta a Hegel: “O tempo do mundo [ôntico] é <mais objetivo> do que qualquer objeto possível porque, enquanto condição de possibilidade dos entes intramundanos, ele já se <objetivou> junto com a abertura de mundo, ekstática e horizontalmente. Apesar da opinião de Kant (…) De início, o <tempo> se mostra justamente no céu, lá onde, impessoalmente se encontra quando se é orientado por ele de forma natural [e não apenas psiquicamente]

Mas o tempo do mundo também é <mais subjetivo> do que qualquer sujeito possível porque, no sentido entendido de cura como ser do si-mesmo que de fato existe, ele também possibilita esse ser.”

Assim como todos os entes não-dotados de caráter de pre-sença, ele [o temporal, ontológico] é atemporal, quer ocorra, se origine e decorra <realmente>, quer subsista <idealmente>.”

Nunca se superestima o Estagirita o suficiente, pelo visto: “Esta nada mais é do que a interpretação ontológico-existencial da definição do tempo dada por Aristóteles.” Tudo por causa dessa reles frasezinha: “O tempo é isso, a saber, o que é contado no movimento que se dá ao encontro no horizonte do anterior e do posterior”.

Sua interpretação do tempo movimenta-se, sobretudo, na direção da compreensão ontológica <natural>. Mas como esta compreensão e o ser nela compreendido tornam-se um problema de princípio para a presente investigação, a análise aristotélica do tempo só poderá ser tematicamente interpretada após resolver-se a questão do ser.” “Toda a discussão seguinte a respeito do conceito de tempo atém-se fundamentalmente à definição aristotélica, ou seja, tematiza o tempo tal como ele se mostra na ocupação, guiada por uma circunvisão.”

Embora não se diga explicitamente que os agora são, como as coisas, simplesmente dados, do ponto de vista ontológico, eles são <vistos> no horizonte da idéia do ser simplesmente dado.” “Enquanto tempo-agora, a interpretação vulgar do tempo do mundo não dispõe de horizonte para, assim, poder tornar acessíveis para si mundo, significância e possibilidade de datação.”

já Platão teve de chamar o tempo de imagem derivada da eternidade” Na parte do Timeu em que Deus criou o céu: ou seja, Heidegger não disse, até agora, nada de novo… Dois mil e tantos anos de falsa jactância…

Não é a partir da ex-tensão horizontal da unidade ekstática da temporalidade, publicada na ocupação do tempo, que se compreende o esticar-se num lapso de tempo.”

A principal tese da interpretação vulgar do tempo – de que ele é <infinito> – revela, ainda mais profundamente, o nivelamento e o encobrimento do tempo do mundo, inseridos nessa interpretação, e, com isso, da temporalidade em geral.” “Como esse pensar o tempo até o fim ainda deve sempre pensar o tempo, costuma-se concluir que o tempo é infinito.” (demonstrado com suficiência por Kant e Hegel) “o impessoal nunca pode morrer. Nunca morrendo e compreendendo equivocadamente o ser-para-o-fim, o impessoal dá uma interpretação característica à fuga da morte. Até o fim, ele <sempre ainda tem tempo>.”

Por que dizemos: o tempo passa, e não acentuamos igualmente: ele aparece (vem)?” “No discurso do passar do tempo, a pre-sença acaba compreendendo mais do tempo do que gostaria, ou seja, apesar de todo encobrimento, a temporalidade, em que o tempo do mundo se temporaliza, não está inteiramente fechada.”

vontade de deter o tempo”

No discurso acentuado do passar do tempo reside o reflexo público do porvir finito da temporalidade da pre-sença.”

Não necessita de uma discussão ampla o fato de o conceito tradicional de eternidade ter haurido o seu significado de <agora permanente> (nunc stans) da compreensão vulgar do tempo e de ter sido definido pela idéia do ser simplesmente dado <contínuo>.”

Desse modo, em princípio, a interpretação da pre-sença como temporalidade não se acha fora do horizonte do conceito vulgar de tempo. Hegel já fez a tentativa explícita de elaborar o nexo entre tempo, vulgarmente compreendido, e o espírito. Em contraste, para Kant, o tempo, não obstante <subjetivo>, está desligado, colocando-se <ao lado> do <eu penso>.”

Hegel, todavia, não se contenta em expor a intratemporalidade do espírito como um fato, mas ele busca a possibilidade de compreender que o espírito cai no tempo, o qual é <o sensível, o totalmente abstrato>.”

1. Como Hegel delimita a essência do tempo? 2. O que pertence à essência do espírito para que ele possa <cair no tempo>?” Como instância máxima e seu Absoluto, é inexplicável tal necessidade subordinativa, por assim dizer.

o conceito hegeliano de tempo expõe a elaboração conceitual mais radical e bem pouco considerada da compreensão vulgar do tempo.”

Fiel à tradição [aristotélica], a análise hegeliana do tempo tem seu lugar na 2ª parte da Enciclopédia das ciências filosóficas, intitulada: Filosofia da Natureza.”

<O espaço é tempo, ou seja, o tempo é a verdade do espaço.>

Na negação da negação (i.e., na pontualidade), o ponto se coloca para-si, emergindo, portanto, da indiferença em que subsiste.” A sucessão de pontos se torna análoga à sucessão de agoras.

Tempo é o devir <intuicionado>, ou seja, a passagem que não é pensada” Ainda o tempo kantiano em H.

A caracterização hegeliana do tempo a partir do agora pressupõe que o agora permaneça encoberto e nivelado em toda a sua estrutura, a fim de poder ser intuicionado como algo simplesmente dado, embora ideal.”

Mas, por vezes, ele também caracteriza o tempo como a <abstração do desgaste>, fornecendo, assim, a fórmula mais radical [ainda demasiado humana e cristã] da experiência e interpretação vulgares do tempo.” “na caracterização do tempo como devir, Hegel também compreende o devir em sentido <abstrato>, que ultrapassa a representação de <fluxo> do tempo.” “É somente partindo deste conceito dialético-formal do tempo que Hegel pode expor o nexo entre tempo e espírito.”

Na passagem de Kant para o sistema elaborado de Hegel, cumpre-se ainda uma vez a irrupção decisiva da ontologia e da lógica aristotélicas. Isso é um fato de há muito conhecido. Mas ainda permanecem obscuros o caminho, o tipo e os limites da influência. Uma interpretação filosófica e concretamente comparativa da Lógica de Jena de H. [não é a Lógica que conhecemos, mas um tratado de juventude] e da Física e Metafísica de Ar. trará uma nova luz.” “a concepção de Bergson concorda, em seus resultados, com a tese de Hegel de que espaço é tempo.” E no entanto eu observei o outro lado da moeda, bem mais acima: ora, Hegel subsume o espaço NO tempo; Bergson o oposto.

[Em Hegel] <Progredir> é sempre um saber-que-se-sabe-em-sua-meta, sendo, por isso, sabido.” “Porque a inquietação do desenvolvimento do espírito, que se leva para seu conceito, é a negação da negação, resta-lhe como próprio, em se realizando, cair <no tempo>, no sentido de negação imediata da negação. Pois <o tempo é o próprio conceito que existe e se representa para a consciência como intuição vazia; por isso, o espírito se manifesta necessariamente no tempo e tanto mais quanto menos ele apreende seu conceito puro, ou seja, tanto menos ele elimina o tempo.>”

<A história universal é, por conseguinte, a interpretação do espírito no tempo assim como a idéia se interpreta no espaço como natureza>

Enquanto simplesmente dado e, com isso, exterior ao espírito, o tempo não possui poder algum sobre o conceito, mas, ao contrário, o conceito <é o poder do tempo>.”

Não se poderá discutir aqui se a interpretação hegeliana de tempo e espírito e de seu nexo é legítima e se ela se baseia em fundamentos ontologicamente originários.” Covarde!

O <espírito> não cai 1º no tempo, mas ele existe como temporalização originária da temporalidade.”

O <espírito> não cai no tempo, mas a existência de fato <cai> da temporalidade própria e originária na de-cadente.”

Se faz de humilde no final para despistar que sua obra é incompleta e está aquém da ontologia nietzschiana de quase 100 anos antes, que já propunha um escape do Ocidente, enquanto que a proposição heideggeriana é exatamente como seu clamor (que no entanto é filosoficamente autêntico, mesmo se inteiramente baseado em Nietzsche): vazia, silenciosa. “A elaboração da constituição ontológica da pre-sença é, porém, apenas um caminho. A meta é elaborar a questão do ser em geral.” “[A conclusão de minha presente pesquisa] Não é algo com que a filosofia possa se tranquilizar.” Ó!

Por nem sequer ter sido desencadeado, o combate em torno da interpretação do ser não se pode dar por terminado.”

Final patético: “Como se há de interpretar esse modo de temporalização da temporalidade? Haverá um caminho que conduza do tempo originário para o sentido do ser? Será que o próprio tempo se revela como horizonte do ser?”

SPEECH AND WRITING ACCORDING TO HEGEL – Derrida, 1971 (in: W.F. Hegel, Critical Assessments, ed. Robert Stern, 1993).

INTRODUCTION TO HEGEL’S SEMIOLOGY

For the moment let us see here the indication or the incitation to recognise that the essential place of semiology is at the centre, not on the margin or as an appendix to Logic.”

metaphysics could only consider the sign as a passage, a place of passage, a passage-way (passerelle) between two moments of presence, the provisional reference from one presence to the other. The passage-way can be lifted.” Suspensa ou levantada, um dos problemas centrais da tradução da terminologia hegeliana para o Português: de preferência deve-se usar suspensão; ao mesmo tempo que um elemento “des-aparece”, isso não implica que ele suma da representação fenomênica ou seja aniquilado para não-mais-voltar. A suspensão mantém o vetor de lift (elevador, idéia de ascensão, subida, erguida, alavancagem) e ao mesmo tempo a noção do objeto da representação que fica em suspenso, i.e., desaparece para depois eventualmente re-aparecer (ascende, mas pode descender na seqüência, após momentos da representação).

time itself is but the referring of presence to itself. As such signification, the sign procedure is, to be sure, the moment of presence lost; but it is a presence lost by the very time that engages it in the movement of its reappropriation.” A suspensão é um momento necessário da dialética hegeliana.

The ‘in view’ designates the theoretical pre-eminence of the gaze, as well as the authority of the final aim, the telos of reappropriation of full presence, the ordination of the theory of signs to the light of parousia.” Parousia (grego): presença, aterrissagem (descida, chegada, retorno no sentido de reapropriação, no sentido mítico de Ulisses voltando à sua casa e também do passageiro que parte em viagem mas retorna, arrive back home, o contrário de arise, erguer-se, levantar-se, partir, que bem podia ser usado no lugar de lift). Ousia, sem par-, é Ser.

It could be shown that this very general necessity governs metaphysics in its essence and in its totality – which is one with its history, and, I would even go so far as to say: with history as such.

We should then expect Hegelianism, which is so generally said to represent the completion of metaphysics, both in the sense of accomplishment and in the sense of end, to give the most systematic and powerful, the most ingathered, ingathering, assembled, assembling form to this metaphysical gesture. We should find a primary index of this in an architectonic reading that aims to locate the place Hegel assigns to the theory of signs in the system. For such an architectonic reading it would doubtless be best to consult here the Encyclopaedia of Philosophical Sciences (1817).”

The theory of signs is inscribed in the 3rd part of the Encyclopaedia, that is in the Philosophy of Mind, following the Science of Logic (Lesser Logic) and the Philosophy of Nature. What does this division answer to? To briefly collect its meaning it is enough that we refer to what Hegel himself says at the end of the Introduction to the Encyclopaedia, § 18: [Os parentêses na citação são de Derrida]

As the whole science, and only the whole, can exhibit what the Idea or system of reason is, it is impossible to give in a preliminary way (or precursorily) a general impression of a philosophy. Nor can a division ( distribution) of philosophy into its parts be intelligible, except in connection with the system. A preliminary division, like the limited conception from which it comes, can only be an anticipation (something anticipated). Here, however, it is premised that the Idea turns out to be the thought which is completely (simply) identical with itself, and not identical simply in the abstract, but also in its action of setting itself over against itself, so as to gain a being of its own, and yet a being in full possession of itself while it is in this other.¹”

¹ Não só em potência, essência (em-si) mas também em ato, aparência (para-si), e conseqüentemente ao mesmo tempo em e para si, unidade sujeito-objeto (consciência em Hegel).

Em seguida H. divide a Filosofia em 3 momentos, esclarecendo que é uma divisão didática e nunca um momento subsiste ):

1. Lógica, o conhecimento da essência isolada, em-si, a Idéia.

2. Filosofia da Natureza, o conhecimento da aparência isolada, para-si, o Outro. (momento provisório da separação sujeito-mundo)

3. Filosofia da Mente (consciência), o conhecimento da descida ou chegada da Idéia ou essência ao se manifestar (do em si que se acopla ao para si, da etapa ou processo consumado descrito acima). Identidade final da diferença (Idéia e Outro no Um).

Grosso modo: ESSÊNCIA CARENTE OUTRO SER (ESSÊNCIA PERFEITA ou O ABSOLUTO).

A Filosofia da Mente pode ser subdividida em 3 momentos:

3.1. A mente subjetiva: abstração da auto-relação, a liberdade absoluta da Idéia consigo mesma (no arbitrário), mas falsa, pois “fora do mundo”.

3.2. A mente objetiva: a abstração da objetividade material do mundo, enquanto algo alheio à Idéia. A liberdade é entendida como necessidade, pura causalidade cega.

3.3 A menta absoluta: a unidade realmente existente, concreta, da consciência como objetividade e idealidade, a liberdade como tal. A “verdade” em sua dinamicidade, como compreendida por Hegel.

Por que o momento 3.1 está negritado acima? Porque Derrida entende a teoria do signo lingüístico como o equivalente a esta etapa. Um “modo” ou “determinação finita”, “transição ou etapa necessária da auto-superação”. Derrida chama o 3.1 ou signo de “transição da transição”. A Idéia auto-suficiente é negada, suprimida pelo Outro (próxima etapa afirmativa).

Derrida subdividirá, ainda, o 3.1, seu objeto de interesse neste texto, em:

3.1.1. O imediato: o Espírito-na-natureza (Naturgeist), o objeto do ponto de vista da Antropologia (do tempo de Hegel, mero modo de expressar a relação de alteridade homem vs. natureza, não a Antropologia científica que estuda a diferença cultural entre culturas ou homens diferentes – está muito mais para ciência exata que para um campo social, pois abarca até a fisiologia humana, como teremos a oportunidade de ver mais abaixo).

3.1.2. O mediato: reflexão no sentido comum. A consciência abstraída, tratando-se como objeto exterior (o objeto do ponto de vista da Fenomenologia da Mente).

3.1.3. Objeto-de-si-mesmo: o objeto do ponto de vista da Psicologia (hegeliana), reconhecendo-se idêntico ao que era outro (reincorporando-se).

Para Derrida, a teoria do signo pertence em sua delimitação, mais precisamente, ao momento da Psicologia (3.1.3), “definida como ciência da Mente determinando a si mesma em si mesma como objeto para si mesma”.

A semiologia, como parte da ciência do objeto para si mesmo, não pertence à ciência da consciência, isto é, à fenomenologia [3.1.2].” “Esta psicologia está divorciada da natureza. Estamos não só referidos aqui a todas as tentativas semiológicas do séc. XVIII, que eram todas psicologizantes, mas referidos, em última instância, a Aristóteles, o patrono que Hegel invoca em sua Psicologia da Mente quando, na Introdução acima, descreve:

Os livros de Aristóteles Da Alma (Peri Psychis) … são por isso e ainda, de longe, o trabalho especulativo de valor mais admirável, talvez o único de valor, neste tópico. A principal meta de uma filosofia da mente só pode ser reintroduzir o conceito no conhecimento-da-mente, o que quer dizer redescobrir a lição destes livros de Aristóteles.

Define Aristóteles, em outro livro:

A palavra falada (ta en tiphoni) é o símbolo de afecções ou estados da alma, e a palavra escrita é o símbolo da palavra falada. Assim como nem todo homem tem a mesma escrita, nem todo homem tem o mesmo som da voz, mas os estados da alma, de que essas expressões são o signo imediato ou primário (semeia protos) são os mesmos para todos, assim como as coisas, de que esses estados são apenas a imagem.”

Mas quando afirmo [Derrida] que é tradicional fazer da semiologia dependente da psicologia, não penso apenas no Hegelianismo do passado, mas no que se revela como além do Hegelianismo, isto é, superação do Hegelianismo, e não só algo derivativo e compreendido no Hegelianismo. Porque essa é uma tradição metafísica, ininterrompida pelas ciências humanas contemporâneas. Nos seus Cursos de Lingüística Geral, Saussure traça duas vezes o plano para uma semiologia geral juridicamente [?] dependente da psicologia.”

A Lingüística é só uma parte da ciência geral da semiologia; as leis descobertas pela semiologia serão aplicáveis à lingüística, e esta última será circunscrita em limites bem-definidos dentro da massa de fatos antropológicos.” Saussure

Uma observação: hoje entendo a Lingüística como uma Semiologia no sentido saussureano, e a lingüística de Saussure como uma subdivisão desta. Isto é, entendo que nunca houve esta expansão desejada por Ferdinand de Saussure.

Hjelmslev, apesar de reconhecer a importância da herança saussureana, levantou a questão da crítica aos pressupostos dessa mesma herança, i.e., criticou a autoridade atribuída à psicologia e o privilégio acordado à ‘substância expressiva’ sonora ou fônica.” Nesse tocante, creio que Saussure ainda siga atual e não procede a crítica hjelmsleviana: a lingüística segue sendo o estudo do signo psíquico, em clara antecipação à consideração de que surdos-mudos aprendem a língua sem prejuízo (o processo mental incorpora a questão da escuta e da fala, não havendo quebra epistemológica dos pressupostos de Saussure).¹ Por outro lado, a fala continua sendo a instância privilegiada em detrimento da escrita, como se vê no princípio da arbitrariedade das mudanças lingüísticas (sobre as quais a literatura não têm nenhum controle, uma vez que a língua se desenvolve organicamente no cotidiano do universo dos falantes totais daquela língua).

¹ Muitos estudantes de lingüística de nosso tempo querem desqualificar Saussure no trecho em que ele se refere ao ‘signo acústico’, porém o sentido mais correto do que ele quis expressar em sua época teria de ser retraduzido nas atuais edições de sua obra clássica como ‘psíquico’ no lugar de acústico, porque se refere a um processo interior, mental.

Veremos como a excelência psíquica e a preeminência fônica andam juntas também em Hegel, por razões que são histórica e essencialmente metafísicas.”

A psicologia estuda as faculdades ou modos gerais da atividade mental enquanto atividade mental – intuição, representação, rememoração, etc., desejos, etc.” H.

A teoria dos signos, consistindo essencialmente numa teoria da fala e da escrita, está contida em duas notas de rodapé bastante extensas de H., notas estas mais longas que os próprios parágrafos aos quais estão subordinadas, no sub-tópico intitulado ‘Imaginação’ [na Enciclopédia]. A Semiologia seria, portanto, um desenvolvimento pertencente à teoria da imaginação, e mais especificamente, à Fantasiologia ou Fantástica¹ [Phantasiology ou Phantastics] hegeliana.”

¹ Ainda não li o original (a Enciclopédia). Talvez Fantasística ou mesmo Phantasística, com ‘ph’, sejam traduções mais acertadas.

O que é imaginação? Representação (Vorstellung) é intuição relembrada-interiorizada (erinnerte). Pertence à inteligência (Intelligenz), que consiste em interiorizar a imediatidade sensível, ‘para apresentar a si mesmo como possuidor da intuição de si mesmo’ (in sich selbst anschauend zu setzen) – para suspender e conservar, no duplo movimento da negação (Aufhebung), a subjetividade pertencente à interioridade,¹ para que seja exteriorizada em si mesma e ‘esteja em si mesma em sua própria exterioridade’ (in ihrer eigenen Ausserlickhkeit in sich zu sein). Na lembrança temos o movimento decisivo da representação em que a inteligência é chamada de volta a si, e está em si mesma em sua exterioridade. Na lembrança o conteúdo da intuição se torna uma imagem – está livre da imediatidade e individualidade a fim de permitir a transição para a representação conceitual objetiva. E a imagem lembrada e interiorizada na memória não é mais uma ‘existência’, i.e., presente, na memória, mas depositada fora da consciência (bewusstlos aufbewahrt), retida numa morada inconsciente. A inteligência pode ser concebida como essa reserva, essa capa escura no fundo da qual as imagens enterradas são escavadas.² Hegel também chama essa instância ou reserva de ‘abismo noturno’ ou ‘abismo inconsciente’.”

¹ O texto em inglês de Derrida traz “inferiority”, inferioridade. Pode ser um jogo semântico de Hegel sobre ascender e baixar, também; mas como está em oposição a exterioridade aqui, acho mais provável que seja só erro de digitação.

² Fuck Freud!

Que a rota que vamos percorrer seja circular e que esse abismo seja em verdade uma pirâmide é um enigma sobre o qual devemos perguntar se ele deve ser suspendido como uma verdade que estava no fundo de um poço e devemos trazer à luz ou então decifrado como inscrição que adorna o monumento.” Os próprios verbos interiorizar e recordar em alemão têm a mesma raiz. Sobre a pergunta retórica de Derrida, veremos que é um pouco dos dois.

A síntese dessa imagem interna com a existência relembrada é ela mesma o conceito de representação: mediante esta síntese o interno agora tem a qualificação para aparecer diante da inteligência e existir propriamente, estar-aí (Dasein)” H. § 454

Esta explicação de H. serve para a memória re-produtiva, passiva, que não cria suas próprias memórias, apenas recebe dados do exterior. É só a primeira etapa da explicação da faculdade da memória.

O que é produzido e exteriorizado no momento seguinte (a segunda etapa da faculdade da memória) e espelhado (simétrico, contrário) é o signo. Ele é emitido pela imaginação produtiva ou criativa. Nossa capacidade de fantasiar, no sentido hegeliano.

Uma existência imaginada é uma imagem existenciada.

O que é internalizado se torna universal para si mesmo, e logo é expelido como intuição concreta (“an affirmation that may appear abusive or unintelligible”, D.) ou coisa. Nesse esquema H. não omite que é tributário de Kant.

Finalmente, notemos que a imaginação transcendental é também o movimento de temporalização que Heidegger repetiu tão admiravelmente em seu Kant e o Problema da Metafísica

A união dos contrários e a semio-poiesis. “Productive imagination is the MittelpunktH.

Ao final do texto vamos finalmente entender o que significam essas aspas!

O signo em si mesmo não é nada.

A imaginação, quando percebida como a agência dessa unificação, é razão (Vernunft), mas só razão formal, porque a matéria ou o tema que encapsula é para a imaginação enquanto (qua) imaginação uma matéria indiferente; ao passo que a razão enquanto (qua) razão determina também o conteúdo com vistas à verdade.” § 457

O signo só é um ponto-médio do caminho para a verdade da consciência (fica a meio caminho), e no entanto ele não é um acidente (arbitrário), no sentido de ser um momento, embora abstrato (nisso, ele é arbitrário), necessário no desenvolvimento da racionalidade e da aparição da verdade.

Por que a verdade independe do, ou melhor, depende da ausência do, signo?”

Por que o signo é só um momento inferior, um conceito metafísico menor?” (Neste sentido talvez o ‘interior’ lá em cima fosse mesmo inferior!)

Por que a verdade não se expressa (em signos)?”

Then ‘Why’ (Pourquoi) here no longer indicates a question about the in-view-of-what? (pour quoi), about the telos or the eschaton of the movement of signification; nor does it indicate a question about an origin: ‘Why?’ taken as ‘because of what?’ ‘Starting with what?’ etc. ‘Why’ is then the still metaphysical name for a question about the metaphysical system that links the sign to the concept and to truth. But this question can break through and penetrate only in freeing itself from even this Why-form, undetermined as it may seem.”

O signo só é o que é hoje no campo do conhecimento porque a metafísica foi encerrada ou arrematada – ele se beneficiou disso.”

O signo é, na definição de Hegel, portanto, a unidade de uma ‘representação independente’ e de uma ‘intuição’. Porém, na identidade da representação e da intuição, algo excepcional sucede: essa intuição não é uma simples intuição, como a intuição em geral. Um ser é dado, uma coisa é apresentada, apresentada para imediata recepção no presente. Exemplo: a cor dum chapéu está-lá para a intuição. Porém, como é indissociável da representação (Vorstellung) essa presença representa, i.e., reapresenta algo que não é em si mesmo, ou não é o mesmo, mesmidade, mas diferença. É colocada (a cor) no lugar de algo outro (etwas anderes vorstellend), um representativo representacional de algo mais (aqui Vorstellung não é só apresentação, é representação no sentido literal, pois indica o papel de mediação). O quê representa? Do quê o significante apresentado à intuição é significante? Como H. determina o representado ou o significado? É claramente uma idealidade contrastada com a real corpo-realidade (ou corporeidade) do significante. H. chama esse significado do signo, o Bedeutung (geralmente traduzido como ‘significação’; eu, por outro lado, prefiro traduzir como content de vouloir-dire).¹”

¹ O conteúdo-significado; seguindo a estranha expressão francesa, o conteúdo do querer-dizer.

Corpo-significante e alma/idealidade-significado

O signo é, pois, uma encarnação.” “Isso segue válido em Saussure e Husserl. Para este último o signo é animado pela intenção de significações como corpo (Körper) tornando-se ou devindo corpo-próprio (Leib) animado por Geist (alma, espírito). Para Husserl a palavra viva é uma espiritualidade corporificada.”

Mas Hegel enfatiza não só a aquisição do corpo-próprio, mas o lado inerte e inanimado, tumba.” Há um trocadilho em grego, usado por Platão, entre soma e sema (corpo e tumba, o corpo é uma prisão da alma).

O corpo do signo é aquele monumento no qual a alma vai ser silenciada e confinada, guardada, mantida, conservada, tornada presente.” pirâmide-embalsamamento-monumento-inscrição

trabalho da morte”

H. usa deliberadamente o signo pirâmide, ou diríamos o símbolo piramidal, para designar ou para significar o signo.” “H. vê no hieróglifo egípcio uma espécie de paralisia da dialética.”

O “algo mais” acima é justamente o negativo. Todas as cores que não são a cor do chapéu. A intuição-do-ausente.

A alma consignada na pirâmide é estrangeira. Se a alma é transposta, transferida, transplantada no monumento-significado, é de outra ordem que a pedra-significante, do intuitivo dado. E essa heterogeneidade é, primeiro, a irredutibilidade da alma e do corpo, do inteligível e sensível, do conceito (idealidade-significado) e do corpo sensível do significante. (representação) H.

Há um abismo ou alteridade intransponível aí. Para H., essa é a distinção entre signo e SÍMBOLO. Um símbolo simboliza naturalmente algo que se lhe assemelha. Um signo é totalmente convencionado, não há ligação natural entre significante e significado.

Essa teoria da natureza arbitrária do signo e essa distinção entre signo e símbolo é retomada em extenso e de modo mais claro na Introdução à primeira seção da Estética (‘Do símbolo em geral’).”

Se ainda havia alguma dúvida de que todo o sistema conceitual que domina a assim chamada revolução da lingüística – quero dizer, a lingüística saussureana – usa como modelo explícito a metafísica, precisamente a metafísica que opõe conceitos entre si, a da semiologia hegeliana, creio que agora essa dúvida não pode mais se colocar.”

A palavra símbolo foi utilizada por vários autores para designar o signo lingüístico, ou mais especificamente o que aqui se chama significante. O princípio da arbitrariedade do signo que acabo de explicitar é totalmente contrário à persistência desse uso. Uma característica do símbolo é que ele nunca é inteiramente arbitrário; não é inócuo, porque há indícios de uma conexão natural entre significante e significado. O símbolo da justiça, um par de balanças, não pode ser substituído impunemente, p.ex., por um tanque.” Saussure

the production of arbitrary signs manifests the freedom of mind.” O telos da Psicologia hegeliana, a aquisição da liberdade.

Na atribuição de significados, portanto, a inteligência manifesta uma liberdade e uma maestria incomparáveis no uso de intuições que não são nunca manifestas nas simbolizações.” H., § 458

Aí vemos concluída a pirâmide de Hegel.” É como se o ‘espaço arquitetônico’ escolhido por H. para representar a aquisição de, por um lado, uma razão vazia (ainda uma razão incompleta) e, por outro, uma liberdade irrestrita pela consciência, em uma de suas etapas, fosse exatamente a parte que cabe deixar oca nas construções, para que a distensão dos metais e outros sólidos não comprometesse todo o esqueleto da construção.

This sign-creating activity may be distinctively named ‘<productive> memory’ (produktive Gedächtnis) (the primarily abstract ‘Mnemosyne’); and since ‘memory’ (Gedächtnis), which in ordinary life is often used as interchangeable and synonymous with ‘remembrance’ (recollection) (Erinnerung), and even with ‘conception’ and ‘imagination’, has always to do with signs only.” (Remark, § 458)

In his fine essay on Proust, G. Deleuze has shown very well that the Remembrance of Things Past was less an exercise of memory than a semiotic activity or experience. You see that Hegel does not distinguish between the two, and that there is here another occasion to underline an affinity between Proust and Hegel.”

ONDE GERALMENTE OS MATEMÁTICOS PARAM DE TENTAR DESAFIAR HEGEL: “É a minha tese [Derrida] a do privilégio do sistema lingüístico – que é fônico – sobre todos os demais sistemas semióticos. Um privilégio, destarte, também da fala sobre a escrita; e da escrita fonética sobre qualquer outro sistema de notação ou qualquer outro tipo de inscrição, em particular os hieróglifos ou a escrita ideográfica. Mas também da escrita fonética perante a escrita matemática formal (qualquer que seja ela), a álgebra, a pasigrafia [uma espécie de Esperanto taquigráfico] e outros projetos de escritura universal do tipo leibniziano (fracassados), sobre o qual Leibniz gabou-se de ‘não necessitar, por princípio, referir-se à voz (vox) ou à palavra’.”

That is if one accepts, and in the measure that one accepts considering Hegelianism as the completion of Western metaphysics, the pre-eminence of the phoni is one with the essence of metaphysics. And thus whatever in certain modern sciences – for example in a certain work of glossematics carried out by Hjelmslev, but this is but one example – scientifically questions this privilege of the vox, both as voice and as word, in some measure trangresses the metaphysical closure itself.”

no signo a intuição sensível-espacial é sublimada temporariamente” Mas o que entra no lugar do espaço ao ser negado é o tempo, que em si é (o lado oculto do) espaço. O signo como temporalização em Heidegger (acima).

a fase mais verdadeira da intuição usada como signo é a existência no tempo (Dasein – o sendo-aí em intuição – in der Zeit: uma fórmula que devemos considerar ao mesmo tempo como dizendo que o tempo é o Dasein do conceito).” “Por que é a da intuição sublimada a sua fase mais verdadeira? Porque o tempo é o espaço sublimado.” O MEIO É A MENSAGEM: É a única forma do corpo (significante) desaparecer conservando-se a si mesmo na forma da idealidade (significado, conceito), ou seja, como outro. “But what is the signifying substance, what glossematicians call the expressive substance, most proper to be thus produced as time itself? It is sound, sound lifted from its naturalness and bound to the mind’s relation with itself, to the psychi as subject for itself and auto-affecting itself – the animated sound, the phonic sound, the voice, the Ton.” O homem é o único animal que vive-no-tempo porque ele fala (e compreende a fala).

The voice is what unites the anthropological naturalness of the (natural) sound with the psychic-semiotic ideality, what consequently joins the Philosophy of Mind to the Philosophy of Nature, and within the Philosophy of Mind joins anthropology to psychology between which, I recall, phenomenology, the science of consciousness, is inscribed.”

This means, in Hegelian language, that it is the essence of time as existence of the concept. But at the same time (so to speak) language, inasmuch as it interiorises and temporalises Dasein as it was in the given of sensible-spatial intuition, elevates existence itself, sublates (relève) it in its truth, at its highest level. It makes the sensible existence pass to representational or intellectual existence, to the existence of the concept. And this transition is precisely the moment of articulation that transforms the sound into voice and noise into language – a theme that would also merit a whole comparison with De Saussure.” O pensamento se materializa e a vida (fenomênica) fica em suspenso. Pode-se dizer que é a versão hegeliana da Idéia de Platão: acima do reino da Representação, no reino da representação, ao mesmo tempo, sem contradição, ou suportando a contradição (um em- como se não fosse em-, e sim num ‘além-tempo’: uma transcendência imanente).

But he contents himself with this systematics or architectonics. He does not fill out the field whose limits and topography he delineates. There are, none the less, indications of the lineaments of such a linguistics. For example, he admits that linguistics must be distinguished into a formal (grammatical) element and a material (lexicological) element.”

Ideality in general is, in Hegelian terms, ‘the negation of the real, which is none the less at the same time conserved, virtually retained (virtualiter erhalten), even if it does not exist’. But ideality as an element of language since the sign is the sublation (relève) of the sensible intuition of the real – has its own sense organs, its own elements of sensibility. Two senses share physical ideality between them: the sense for light and the sense for sound. These two elements have a privilege to which Hegel devotes numerous and splendid analyses in the Encyclopaedia and in the Aesthetics.

In so far as sound is concerned, it is noteworthy that linguistics refers us from psychology to anthropology (psycho-physiology), and that this latter refers us to physics. It is the reverse route of the teleology and movement according to which the Idea is reappropriated to itself as mind by rising from and sublating the nature [en (se) relevant (de) la nature] in which it was lost while being betokened therein. But at the beginning of the Physics light is posited as the first but abstract manifestation, an undifferentiated identity of qualified prime matter. It is through the light that nature refers to itself, manifests itself to itself. As is said in the Aesthetics, ‘light is the first ideality, the first auto-affirmation of nature. In light nature for the first time becomes subjective.’E fez-se Luz, e fez-se o Verbo (a Voz).

Signs, Hegel reflects, are not consumed. And this is to be related to the fact that the signifying matter is for Hegel always sound or light. We should have to ask if there is no other, and even whether audible or visible signs are not in some way eaten or consumed.

In any case, if sight is ideal, hearing, Hegel notes, is even more so; it as it were sublates (relève) sight.” Espaço Tempo. As artes visuais em geral, e os túmulos e inscrições egípcias em particular, negam a negação, tentam paralisar a dialética.

Há uma interseção astuciosa entre consumar (a metafísica) e consumir (a luz e o som) aqui (pois comer, devorar é acabar, completar). Afinal essa construção hegeliana é eterna ou está sofrendo erosão? Derrida encerra o ensaio falando da possibilidade de outra metafísica se – e somente se – alguém for pelo caminho da diferença (e não pelo da indiferença totalizante hegeliana), ou seja, alguma tentativa no sentido do que Hjelmslev empreendeu por volta dos anos 50.

HEGEL & O ESPÍRITO DA MÚSICA (Como que para comprovar que, procurando bem, todos os grandes filósofos, mesmo se odiando e discordando uns dos outros, chegam a conclusões fundamentais em comum – sobre a música, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche são o consenso em contínuo – uma faixa de música alemã bastante longa): “since the calm, disinterested contemplation of works of art, far from seeking to suppress objects, lets them subsist as they are and where they are, what is conceived by sight is not the ideal in itself, but on the contrary perseveres in its sensible experience. But the ear, on the contrary, without practically (praktisch) turning to objects, perceives the result of the interior trembling (innern Erzitterns) of the body by which not the calm material figure, but a first ideality coming from the soul is manifested and revealed. As, on the other hand, the negativity in which the vibrant matter (schwingende Materia) enters constitutes a sublation (Aufheben of the spatial state, which sublation is in its turn sublated by the reaction of the body, the exteriorisation of this double negation, the sound (Ton) is an exteriorisation which is in its upsurge annihilated again by its own being-there, and vanishes by itself. By this double negation of exteriority inherent in the principle of sound, sound corresponds to the internal subjectivity in that sonority (Klingen), which of itself already is more ideal than real corporeality, renounces even this ideal existence and thus becomes a mode of expression of pure interiority.”²

¹ Entender sublimação do modo mais físico-químico possível – sem a interferência da hedionda psicanálise! Por isso eu prefiro sempre traduzir sublimação como simples negação quando posso – já que em Hegel a negação é sempre transitória (toda evaporação de matéria sólida é cíclica – cf. o motto marxista mais famoso!).ª De fato quando se diz que o tempo é o espaço sublimado, é o espaço negado, sem mais, nem menos do que isso.

ª Nada obsta o capitalismo (o real mais real) evaporar no ar!

² Aqui de novo o texto traz inferiority: agora estou certo de que era erro tipográfico: há a simetria corporeidade real (espaço puro) – pura interioridade (negação total do espaço).

This decisive concept of vibration, of trembling (Erzittern) as a physical transition from space to time, as sublation of the visible in the audible, the real in the ideal, this teleological concept of sound as a movement of idealisation and of Aufhebung of natural exteriority, is also explicated in the Encyclopaedia in the Physics (§ 300). We must then come back to it if we wish to account for the material part of language, that is lexicology.”

Thus in the linguistic part of semiology Hegel can make the move he advises against in general semiology: he can make of the question of writing an accessory question treated as an appendix, an excursus, a supplement. This move, we know, was made by Plato and Rousseau; it will also be made by De Saussure.”

It is from the province of immediate spatial intuition to which written language proceeds that it takes and produces the signs.” H.

Alphabetic writing is in and for itself the most intelligent’, says Hegel. Inasmuch as it respects, conveys and transcribes the voice as idealisation and movement of mind relating itself to its own interiority, phonetic writing is the most historical element of culture, most open to infinite development. ‘Learning to write an alphabetic writing must be considered a means of infinite culture (unendliche Bildungsmittel).’Um meio de imagem infinito, ‘diz’-nos a língua alemã! Sobre o negrito: de fato nós definimos nossa História pela escrita (mesmo quando esquecemos de definir que é a escrita fonética): antes da escrita, era a pré-História. Resta a pergunta: abriremos mão da cultura, ou ainda viveremos dentro da História? Mesma pergunta, em roupagem diferente, sobre o fim da Metafísica em H..

History as history of mind, the development of the concept as logos, the onto-theological deployment of parousia, is not hindered, limited, interrupted by alphabetical writing, which, on the contrary, inasmuch as it better effaces its own spacing, is the highest, the most sublating mediation.” Através do registro escrito (e amplio: da notação musical) podemos trazer de volta à memória qualquer momento sublime, ou idealidade, negação do real, do espaço ao menos, enquanto sobrevivemos na nossa forma fundamental que é o tempo, e vivenciar o Absoluto (em Hegel). Podemos, em suma, transcender a mundanidade. A pós-modernidade não vem destruindo a cultura, mas apenas jogando no mesmo terreno. Agora entendo por que Jean Baudrillard levanta a hipótese de que essa condição pode durar indefinidamente…

In effect, as everyone knows, and as Hegel recognises with a lucidity very rare in this domain, there is no purely phonetic writing; the alphabetical system we use is not and cannot be completely phonetic. A writing can never be penetrated and sublated completely by the voice. And the non-phonetic functions, the so to speak – silences, of alphabetic writing are not factual accidents or by-products one might hope to eliminate (punctuation, numbers, spacing). Hegel recognises this in passing in a parenthesis he quickly closes, and in which we read, concerning hieroglyphic writing: ‘(and hieroglyphics are used even where there is alphabetic writing, as in our signs for the numbers, the planets, the chemical elements etc.)’.”

Speaking of the hieroglyphic or Chinese writing, Hegel notes (as he does in other texts, notably in the Logic): ‘this feature of hieroglyphic – the analytic designation of representations – which misled Leibniz to regard it as preferable to alphabetic writing is rather in antagonism with the fundamental desideratum of language – the name’.

In assigning limits to universal, that is mute writing, writing not bound to the voice and to natural languages, in assigning limits to the function of the mathematical symbolism and calculus, considered as the work of the formal understanding, Hegel wishes to show that such a reduction of speech would interrupt the movement of Aufhebung, which is the movement of idealisation, of the history of mind and the reappropriation of logos in the presence to itself and infinite parousia. What is most written, most spaced, least vocal and internal in writing is what resists dialectics and history. We then cannot question the Hegelian concept of writing without questioning the whole history of metaphysics. For it is not a question of returning to Leibniz, concerning whom I have endeavoured elsewhere to show that his project remained metaphysical, and is fundamentally accessory to the system on the basis of which Hegel addresses his objections to him.

The writing from which metaphysics is to be questioned in its closure is then not writing such as metaphysics had itself determined it, that is such as our history and our culture enable us to think it, in the most familiar evidence of what is obvious. This writing in which the outside of metaphysics is announced could have, among other names, that of difference.”

A PROVISIONAL PARTIAL DECODING OF THE VOYNICH SCRIPT – Stephen Bax, 2014.

there was more than one individual involved, and (…) there is more than one ‘language’ involved” (Currier 1976:np). “In fact, to anyone familiar with scribal practice in mediaeval manuscripts, all of Currier’s examples can be explained straightforwardly as no more than idiosyncratic scribal differences when writing the same language, of a kind and a degree typical of the period.

The variation Currier identified in the VM, in other words, is commonplace in medieval manuscripts with languages which were not yet standardized. For example, in one mediaeval English manuscript no fewer than 6 different scribes using 6 different dialects have been identified, each using idiosyncratic conventions of spelling and grammar, yet all in the same language, namely English (Runde 2010). (…) for example in some Chaucerian manuscripts where the same page written by the same scribe contains diverse spellings such as dreem/dremes, seith/sey/seyn, blak/blake and so on (Yule 2001 and cf. Hans 1999).”

the single word ‘though’ has survived from Middle English texts in no fewer than 500 variants (Markus 2000).”

Taiz and Taiz have recently offered a convincing argument that the ‘Biological’ or ‘Balneological’ section (folios 75r-84v) possibly offers an account of mediaeval plant physiology following the philosophy of Aristotle and Nicolaus Damascenus (Taiz & Taiz 2011). Another recent insight was provided at the seminar to commemorate the 100th anniversary of Voynich’s rediscovery of the manuscript, when Johannes Albus presented a convincing argument that the last page of the manuscript is written in Latin and German, with two ‘Voynichese’ words, and contains a medical prescription (Albus 2012). Such advances are encouraging; however, none has yet resulted in a convincing decoding of a single word of the manuscript, without which further progress will inevitably be limited.”

This failure to decode any part of the text has led, perhaps inevitably, to rather defeatist suggestions that the whole manuscript is an elaborate 15th century hoax. Despite the fact that different scribes seem to have been involved in its construction, which would seem curious in a hoax, such theorists have pointed to a number of statistical and other properties of the Voynich text which they claim could not be found in natural languages, and argue that the best explanation is that of a ‘a tidy-minded hoaxer’, possibly using mechanical tools to reproduce sets of apparently realistic scripts in order to fool readers for malicious or monetary reasons (Rugg 2004, Rugg 2013, Schinner 2007).

However, as the same authors go on to explain, several natural language do in fact exhibit ‘narrow binomial distribution of word lengths’, in particular languages such as Arabic which use ‘Abjad’ scripts which omit most vowels, as will be discussed further below.

Hoax theorists also note that the VM often has the same or similar words repeated in one line, a feature noted earlier by D’Imperio (1978). However, this property could equally be used as evidence against a hoax, since any ‘tidy-minded hoaxer’ seeking to sell the manuscript would surely avoid such obvious and odd repetitions.”

In its entry on linguistic reduplication, the Encyclopedia Britannica cites the Turkic word ‘kara’ meaning ‘black’, which can be repeated to form an ‘intensive adjective’ meaning ‘pitch black’. (Encyclopedia Brittanica 2012b). In short, hoax theorists appear to neglect features of genuine natural languages which may be present in the VM.”

A further reason to set aside hoax theories is methodological. Not only is the hoax interpretation a sterile one, since logically it would stop all further research on the text completely, it also falls foul of a crucial scientific maxim in theory-building, namely to avoid multiplying complexities unnecessarily. Hoax theories typically contravene this by depending on many rather fantastical scenarios, devices and characters to explain why such a hoax might have been fabricated.”

all features of the VM script so far mentioned can be fully explained in terms of natural languages encoded in scripts devised for communication rather than obfuscation.

Indeed, a major methodological danger of starting with such a ‘big-theory’ approach is that the analyst inevitably feels obliged to select and even massage some of the facts to fit the theory, in an attempt to persuade and convince, rather than letting the evidence speak for itself in a more neutral way.”

using computers to find large patterns in the text as a whole (e.g. Stolfi 2000). In this article by contrast I adopt what we could call a ‘small data’ or ‘bottom-up’ approach, identifying individual linguistic patterns piece by piece, and gradually building up our decoding of the text sign by sign. One reason for this is because previous examples through history of significant decipherment have successfully adopted a similar ‘bottom-up’ approach, while few if any have ever succeeded through the use of computers alone.”

Young and Champollion’s decipherment of Egyptian hieroglyphs, and also Ventris’ decipherment of Cretan Linear B with the help of Chadwick, both made successful use of essentially the same systematic ‘bottom-up’ approach: finding individual proper names in the data and gradually building up from them a set of letter-sound correspondences, then finally identifying the underlying languages as Coptic and Greek respectively.

By contrast, earlier attempts to decode Linear B using ‘big data’ computational techniques were unproductive, Chadwick having tried ‘techniques he had learnt while working on military codes’ (Singh 1999, page 238). One possible reason for this failure of top-down computational techniques in the case of Linear B is that the script in question did not present a one-to-one correspondence of sound to letter, because it used syllables, among other things. This might arguably be a reason why computational approaches have likewise failed with the VM, i.e. because the sound-letter correspondence is partially unsystematic, as indeed it is in most natural languages and scripts. In the case of Egyptian hieroglyphs this was clearly the case as well: it became apparent to Champollion that ‘the scribes were not fond of using vowels, and would often omit them; the scribes assumed that readers would have no problem filling in the missing vowels’ (Singh 1999:214), the relative paucity of vowels being a common feature also of Abjad scripts such as Arabic.

Champollion discovered this through the successful identification of the known proper names of Pharaohs, and on that foundation gradually worked out the full details of the symbol-sound system piece by piece, in effect filling in the vowels himself. In the case of Linear B also, although each symbol represented not a single phoneme but a syllable, Michael Ventris similarly worked from known proper names, in this case of prominent towns in Crete such as Knossos (ko-no-so), and through a systematic and intuitive process of elimination and comparison, used what he found as the basis for reconstructing the script’s full symbol-sound relationship (Singh 1999:235). The 19th century explorer and linguist Henry Rawlinson likewise described the importance of identifying proper names in deciphering the cuneiform inscriptions at Behistun (Rawlinson 1846:6). In all 3 cases, then, this focus on proper names and sound-symbol matching, in a step-by-step comparison and elimination process, was the crucial basis for the final leap, which came with the identification of Coptic, Greek and Old Persian as the respective underlying languages.”

Although unfortunately the VM does not seem to offer us the proper names of pharaohs or towns, it does instead include a host of plants, for example, from which we could arguably make progress if only we could succeed in first identifying any plants and plant names with confidence, and then matching them with words in the corresponding VM text”

In order to succeed with this approach it is important to study herbal manuals contemporary with the VM, and to analyse the names used historically for the plants they identify. Although numerous writers have examined the plants in the VM, many have dismissed them as inventions, even deriding them as of poor quality, ‘crudely executed … and stylized’ (Taiz & Taiz 2011:19). With the notable exception of Zandbergen (2012), it is surprising how few scholars have seriously researched herbal manuscripts contemporary with the VM, and most significantly, none has made any progress in identifying plant names in any language to match any of the pictures convincingly. One reason for this – a suggestion which I aim to substantiate in this paper – is that scholars have tended to focus almost exclusively on European herbals and European languages, and ignored the potential value of herbal manuscripts from other cultures, for example in the Near East.”

herbals very frequently draw on the work of classical writers such as the famous herbalist Dioscorides, often copying text and pictures directly from earlier authorities rather than from life. For this reason the plants are sometimes very difficult to identify and also vary widely in different herbals”

In the analysis which follows I aim to demonstrate, then, that in the Voynich manuscript the first word of a number of the plant pages typically encodes the name of the plant on that same or the adjacent page, and that the text discusses the plant in question, and probably gives the aetiology as well. I identify 5 plants with some confidence, with their accompanying names as the first word on the same page, and make tentative identification of 2 more.”

A question still unresolved is why the writers of the VM used this script at all instead of another which might have been available to them (such as Latin or Arabic), and then how this particular script was devised. A common reason for devising a new script, if it is not for purely economic reasons, is to support a new national and/or religious identity or to support new cultural elements in a society, as in the case of Armenian for example (Parsumean-Tatoyean 2011).”

Another fascinating example is that of the Glagolitic Slavic alphabet created in the 9th century. In this case a script was devised for a language which had no script by a small group of people, supposedly two brothers, using signs adapted from Greek, Hebrew, Coptic, Armenian and Samaritan (Sussex, Cubberley 2006, Auty 1968). The most famous document in this invented script, the Kiev Missal, was probably written in Bohemia in the 10th century but was then found in the 19th century as far away as Jerusalem (Vlasto 1970). On the basis of examples such as these, it is well within the bounds of possibility that the VM script could similarly have been developed from a mix of existing scripts by a small group of individuals, aiming to encode an existing language which had no previous script, the manuscript then being transported long distances by circumstance.”

When the Greeks borrowed their writing system from the Phoenicians, it was an Abjad, meaning that it encoded consonants only and perhaps some long vowels, leaving the reader to fill in the remaining vowels from prior knowledge of the word. The Greeks’ significant contribution was then to devise a fuller vowelling system in their developed script, from which we get the vowels in Latin and in many other European scripts.”

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In fact, recent statistical analysis of the manuscript has explicitly suggested that the letter and word quantities and distribution do indicate an Abjad (e.g. Reddy, Knight 2011, Jaskiewicz 2011); this paper will argue that some plant names clearly use the Abjad principle in part, with the reader required to provide some of the vowels – an approach which directly imitates the practice in contemporary Arabic herbal manuscripts. In addition, some elements will be seen possibly to resemble Abugida script principles, in which the consonant is understood to have an inclusive vowel, often ‘a’

It should also be remembered that a ‘script’ and a ‘language’ are not the same thing. In theory any script could be used, with adaptation, to write any language. An interesting example is ‘Arebica’, which for historical reasons used Arabic script to write (Serbo-Croatian) Bosnian. Such examples alert us to the fact that although the script of the language in the VM could be borrowed in part from Indo-European languages such as Latin, and could be acting in part as an Abjad, like Arabic and other Semitic scripts, the underlying language could nevertheless be from a completely different language family again, such as Turkic.”

Through analysis of a number of illustrations in the manuscript including one constellation (Taurus) and 7 plants, and drawing on mediaeval manuscripts and contemporary nomenclature so as to match the illustrations with proper names within the text, I propose the identification of a total of 10 words in the manuscript consisting of 14 of the Voynich symbols and clusters, some more tentatively than others.”

In 2012 I prepared an informal paper for circulation to a few Voynich specialists in which I discussed the pattern in the manuscript transcribed as OROR (as transcribed in the EVA transcription system developed by Zandbergen and Landini). I proposed that OROR could be a possible plant name, and could represent the word ‘arar’, perhaps borrowed from the Arabic/Hebrew word ‘arar’ for Juniper or Juniper Berry.¹”

¹ “Baga de zimbro” seria uma tradução para o Português. Dessa planta vêm o gosto do gim, algumas essências de perfume e condimentos como pimenta.

Note that the letter A in this transcription from Arabic/Hebrew stands for the semitic guttural consonant AYIN, and not a vowel. Of course the Arabic and Hebrew are read from right to left, unlike the Voynich script.”

My argument in that paper drew in part on the distribution of the pattern OROR throughout the VM, but mainly on the identification of the plant on page 16r as Juniperus oxycedrus.(*) On the facing pages 15v and 16r of the VM, the pattern OROR appears twice, once as part of the first word (on the far left) and again as part of the first word of the last paragraph (on the right hand page) (…) This is interesting, since it has long been thought that the name of the plant might be the first word of the accompanying text (Zandbergen 2004-2013), but no-one has so far been able to substantiate the idea.

(*) a plant common throughout the Mediterranean west to the Apennines and east to Iran. The plant is distinctive for its spiky leaves and red berries, which both appear clearly in the VM picture. Sara Peterson, an art historian specialising in plants, was invited to consider whether the picture might represent Juniperus oxycedrus and agreed that it could be possible. At the same time she drew attention to the depiction of Juniperus oxycedrus in Koehler’s classic book on medicinal herbs, remarking that ‘the plant in Koehler shares the same shrubby, branching habit around the central stem as the Voynich version. It’s also interesting that the Voynich depiction seems to show the soft, sappy immature leaves before they become spiky.’

Uses.—Oil of cade has been used locally, by the peasantry, in the treatment of the cutaneous diseases of domestic animals almost from time immemorial. More recently it has been largely employed in the treatment of chronic eczema, psoriasis, and other skin diseases of man …

This medicinal use of Juniper in mediaeval times as a treatment for skin disease is of special interest because the word OROR also occurs on the very last page of the VM (page f116v), which – as was noted above – has been convincingly analysed as a Latin/German recipe or prescription for wet rot, a skin complaint (Albus 2012).”

Despite the apparently convincing identification of the VM image as a species of Juniper, along with the linguistic evidence of the name ‘arar’, and the use of Juniper as a medicine, there are a number of problems with the interpretation. Although POROR is the first word of page 15v, the plant depicted there – unlike its neighbour on the facing page – looks nothing like any known form of Juniper, rather resembling a species of Orchis. The fact that OROR occurs here and on the next page with a prefixed P and T also renders the interpretation uncertain, since they could arguably be different words altogether, even though it has also long been felt that the symbols transcribed as P and T might be merely decorative, or prefixes in some way. These and other reservations were noted by readers of my 2012 paper, for example Rich SantaColoma

In languages such as Arabic, it is common for the same letter to have different shapes depending on their position in the word, but this might be a variant – unusually – owing to the position of the word in the sentence. In other words it could be merely a variant of R, in line-final or sense-final position. Statistical analysis of OROM in the VM tends to confirm this possibility, revealing 8 instances, all of which are isolates, or in line final position, or apparently decorative” “The fact that OROM occurs always as an isolate, as a decorative, or at the end of a line, suggests that it might indeed be the equivalent of OROR, but in an isolate, decorative or sense-ending position. This is an intriguing possibility, since it would give us an additional mention of OROR on the page depicting the possible Juniperus Oxycedrus plant.”

It was noted at the beginning of this article that no word of the VM has been convincingly translated or glossed, but in fact there is one word which has received a degree of consensus. On page 68r, in a dramatic diagram apparently showing the moon in the heavens, a set of 7 stars has been suggested to show the ‘Pleiades’, sometimes known as the Seven Sisters, in the constellation of Taurus and the accompanying word has sometimes be interpreted to indicate TAURUS (Zandbergen 2004-2013).

Historically the word Taurus is thought to derive from Proto-Indo-European *tau-ro, *tawros, *tehwros. meaning bull (http://www.etymonline.com); it is also linked with Semitic variants such as the Arabic word ‘thaur’, which signifies both ‘bull’ and also the constellation.”

We could posit the idea that the initial letter, shaped somewhat like the numeral 8, represent some sort of alveolar or dental sound in the region of /t/, /d/ and /θ/ (as in the first sound of thing, which is approximately the Arabic sound in ‘thaur’), and indeed it resembles the Greek ‘theta’ to some extent.” “Of course, although this reading seems to support and be supported by, the reading of OROR as /arar/, it should still at this stage be treated as speculative.”

The reason for the final /n/ at the end is not entirely clear, although it could represent or be borrowed from the Arabic/semitic vowelling called ‘nunation’ in the nominative singular of the word meaning ‘bull’ and the Constellation Taurus”

In isolation, each of the above readings of /arar/ and /taərn/ is insubstantial and must be considered speculative; it will only be possible to verify them if they fit in with a larger emerging pattern which explains other words, for example the names of other plants. The process can be compared to doing a crossword puzzle: at first we might doubt one possible answer in the crossword, but gradually, as we solve other words around it which serve to confirm letters we have already placed, we gradually gain more confidence in our first answer until eventually we are confident of the solution as a whole.

In order therefore to obtain more evidence, I will now proceed to identify and discuss 4 further plants with their proposed plant names in the text. In methodological terms, however, in order to avoid the danger of ‘subjective interpretation’ which Kennedy and Churchill rightly critique in previous attempts at decoding (Kennedy & Churchill 2004), it is important to follow a systematic procedure” “Wherever possible, I will draw on independent identification of the plant by another analyst to ensure greater objectivity.”

The reason for focusing on the first word of the herbal page in particular is that it is too easy to find any word on a page of text and to ‘imagine’ some relevant reading. For this reason the analysis below will focus strictly on the first word of plant pages, which, as was noted above, was frequently where the plant was named in mediaeval herbal manuscripts.”

A HIPÓTESE DO CORIANDRO: “While examining the plant pages I noted a curious feature of folio 41v, which depicts the plant which you can see below, a feature which seems not to have been mentioned in the literature previously. This is the fact that above the first word of the text appears to be an extra word written as a marginal gloss. This is rare, if not unique, in the VM, but in many mediaeval herbal manuscripts such marginalia do appear, most commonly giving an alternative name of the plant, perhaps in or from another language (see examples from the Harley herbal 1585, and also e.g. the Vienna Dioscorides, which has marginalia in Greek, Arabic and Hebrew naming the plants).”

Step 1 (plant identification): The plant itself in f41v has been convincingly identified by Sherwood as Coriander/Cilantro (Coriandrum sativum), for example with reference to the leaves at the base of the plant being ‘broadly lobed becoming more feathery higher up, with umbels of white to pale pink flowers at the top of the stem’ (Sherwood 2013, np), though bluish flowers are also common, as in the VM example.

Step 2 (nomenclature): The plant has a wide range of names in different languages. Even those related etymologically to the word ‘coriander’ (deriving from the Greek ‘korion’) are very varied in their range of vowels and consonants, including the following sample:

Cilantro (English et al.)

Coentro (Portuguese)

Coriander (English et al.)

Coriandolo (Italian)

Coriandre (French)

Coriandro (Italian, Spanish et al.)

Koendoro (Japanese)

Kolendra (Polish)

Koljandra (Russian)

Korander (Dutch)

Koriander (Danish, German)

Koriandr (Russian)

Koriannon (Greek)

Korijander (Croatian)

Korion (Greek)

Koriyun (Greek)

Koryander (Polish)

Kothambri (Kannada)

Coriandru (Romanian)

Culantro (Spanish)

Koriandrze (Polish)

Silantro (Spanish – Peru)

This selection demonstrates the wide variety of pronunciations and spelling typical of plant names across languages – the list does not even contain the many names of coriander in other language families, for example those related to Dhania in Hindi. (…) In particular there is a regular alternation between the liquid sounds /r/ and /l/, a common alternation across many languages, and also between the (alveolar) dentals /d/ and /t/ (both exemplified in ciLanTro v. coRianDer).”

Drawing from the readings of /arar/ and /taərn/ discussed previously, I suggest that the marginal note above the first word of the text on page 41v could represent the name of the plant in the picture, and be related to the word Coriander. Drawing on our previous identification of 3 of the signs, R A and T, in the middle part of the word, we can then provisionally reconstruct the start of the word as KOO or similar, and thereby tentatively read the word as approximately KOORATU?” “Curiously, if this reading is correct, its closest correlate is arguably the Cretan Linear B Greek version discovered following Ventris’ decipherment, i.e. ko-ri-ja-da-na, which is considered to be the earliest of all known versions of the word ‘coriander’.”

The next plant to be considered is that on page f2r”

Step 1 (plant identification): The plant on page 2r of the VM has been identified by Sherwood and others, apparently uncontroversially, as belonging to the genus Centaurea (Velinska 2013, Sherwood 2013). Sherwood identifies it more specifically as Centaurea diffusa:

Diffuse Knapweed (Centaurea diffusa), is native of Greece and Asia Minor. This weed has a long taproot, and pale-green alternate leaves that are deeply divided into lobes, measuring 1 to 3 inches in length. The single, upright stem produces several spreading branches that end with pink or white thistle-like flowers. During the Middle Ages knapweed had a reputation for curing wounds and was an ingredient in a 14th century ointment called ‘salve’. This folio could also be represented by spotted knapweed (Centaurea biebersteinii), also native to Eurasia.’

As Sherwood notes, the genus contains a large number of common species in Europe, the Caucasus, Turkey and Iran, including knapweed and cornflower.”

Step 2 (nomenclature): The genus Centaurea is named after the Centaur Chiron (Greek Χείρων), who was reputed to have discovered its medicinal value.

In the history of the mythologic founders of medicine, Chiron was considered the discoverer of the medicinal properties of many herbs, who mastered the soft-handed lore of drugs and passed it on to his pupils. His name became part of the pharmaco-botanical nomenclature; we still have the genus Centaurea. According to Pliny the panacea Centaurion was discovered by Chiron, as was another panacea, Chironium.’ (Sigerist 1987:50)

This mythology concerning Chiron was well-known in medieval times, and is mentioned and depicted frequently in herbals. An attractive example can be found in the Egerton herbal

Cf. Vienna Dioscorides: http://exhibits.hsl.virginia.edu/hist-images/herbs/kentaureion.jpg

the Arabic version of the name is given as Qnturiyun, a direct borrowing from the Greek”

In fact, the Voynich manuscript has many examples of what looks like ‘ai’ and ‘aii’. If we consider the lettering which represents the words Centaura major as written in a 15th century herbal in the Wellcome Library close to the age of the VM, we note that single vertical lines in various combinations could rather confusingly be used to form all of the four letters n, u, m and i. In particular the combination ‘a’ plus one vertical line stood for ‘ai’ and with two stood for ‘au’. It seems possible, at least, that the similar Voynich clusters of letters were borrowed from contemporary Latin calligraphy, and likewise represent vowel clusters or diphthongs in the same way. Since this also fits well with the reading of KNT/ə/IRN as Kantaron/Centaurea, we will therefore provisionally read the Voynich ‘ai’ symbol as /əi/ and the aii symbol as /əu/.

To those unfamiliar with Abjad scripts it might seem objectionable that this reading begins with 3 consonants together (K + N + T) with no intervening vowel. However, this is precisely the way in which Arabic, for example, or other Abjad scripts, would write this word even today.” “For readers in many languages this is not problematic, and it strongly suggests that the writers of the VM were using a script which in this respect resembled an Abjad, with some vowel omission. We recall that at first this feature of Egyptian hieroglyphs confused Champollion, and it has perhaps hindered decoding of the VM up to now as well.”

Step 1 (plant identification): Sherwood identifies this plant as Dungwort or Bear’s foot (Helleborus foetidus), referring to its ‘thick, succulent stem; palmately compound leaves; drooping green, cup-shaped flowers; and short rhyzomes for roots’ (Sherwood 2013). Whilst her specific identification of Helleborus foetidus may be overconfident, it does seem plausible that it is a species of the genus Helleborus.

Two sorts of hellebore were commonly identified in antiquity for medicinal purposes, called black and white respectively on account of their roots. Dioscorides recommended the black hellebore as a cure for melancholia, and as a purge, while white Hellebore was used as an emetic [inductor de vômito] (Leyel 2007:223) and also used as a sneezing agent. Although the white hellebore is now considered a different genus and species altogether (Veratrum album) the visual resemblance of the two is still plain to see. However, given that the black hellebore was far more prominent in ancient herbal remedies and mediaeval herbal manuscripts, the VM picture could well represent Helleborus niger.” “A much earlier Greek herbal, the 6th-7th century Naples Dioscorides depicts the black hellebore with similarly distinctive jagged leaves and a reddish flower”

In mediaeval Arabic herbal manuscripts the hellebore is called Kharbaq, with both white and black varieties commonly cited and discussed. To my mind an illustration which, although stylized, has several features similar to those of the VM picture, is that in the Princeton Arabic herbal. In this image we see not only clear purple flowers/pods just as in the VM, but also oddly jagged leaves themselves resembling bears’ feet. Another Arabic version, also with similarly purple-blue flowers and jagged leaves, is found in the Leiden Dioscorides.”

Step 2 (nomenclature): (…) it can be seen that the first word of the page appears to be repeated again near the end of the same line, apparently with a prefix.” “If we adopted a European perspective and anticipated some form of the word ‘hellebore’, we would be disappointed, since the first word on page f3v in the Voynich manuscript looks nothing like any known version of the Greek word.” “I directly translated the word according to my scheme so far, and read it as KA/ə/UR, a word unfamiliar to me. In order to test out whether this reading could possibly be correct I simply typed ‘Kaur Hellebore’ into the Google search engine. To my surprise and gratification, this immediately offered a possible solution, since it returned numerous references to the name ‘Kaur’ as a name for the black hellebore, many in Indian herbal guides. When I did this in July 2012, the first result which Google produced was the book by Panda on Indian medicinal herbs (Panda 2000:311)”

This shows clearly that the word Kaur is used for Hellebore in Kashmir, and that cognate names are also used in a variety of other languages, many including the pattern K + vowels + R, or the possibly cognate K + vowel + L, and KH (/x/) + vowel + R/L. Salient among these in Panda’s spelling are: Khartu(*) and Kuer-Beck in Arabic, Kharabekhindi in Persian/Farsi, Khorasani-kuti in Hindi and so on. Other works on Indian plants report similar nomenclatures, most frequently Kaur in the Punjab.

(*) Panda’s reference to an Arabic word Khartu for hellebore may be in error. No corroboration can be found for it in Arabic sources.

This gives immediate and graphic support to the possibility that the first word on the VM page f3v is indeed some form of the name KAUR, meaning hellebore, as my analysis predicted. This in turn supports the larger analysis above regarding other plants and names, and lends further support to the method as a whole.”

The earliest available instance of the pattern ‘K + vowels + R’ meaning hellebore appears to be the Sumerian KUR.KUR (Campbell Thompson 1949:151). In his earlier research Campbell Thomson took this form definitively to refer to black hellebore, saying that ‘…KUR.KUR thus coincides very closely in almost every way with the ancient black hellebore’, though he added the caveat that ‘even in Assyrian times it is possible that white and black were confused.’ (Campbell Thomson 1924:671). In his later authoritative Dictionary of Assyrian Botany, he was less sure, associating the name rather with White hellebore (Veratrum Alba L.), linking it also with the delightfully onomatopoeic synonym a-ti-šu referring to white hellebore’s use as a sneezing powder.

In the same discussion Campbell Thomson cites the Akkadian ‘qarbuhu’ which can be seen also to contain a variant of the pattern ‘K + vowel + R’, this time with the guttural semitic consonant transcribed as Q. He compares this with the Arabic arbaq (or kharbaq) and the Syriac urbakhnâ (both beginning with the sound /x/ like the last sound of the Scottish word ‘loch’). The Arabic form kharbaq was the standard mediaeval Arabic base word for hellebore, with the adjectives ‘white’ and ‘black’ added to distinguish the two; for example, the Princeton Arabic herbal (…) shows the plant called kharbaq aswad, black hellebore”

The second part of the Arabic word, i.e. -baq would appear to derive from the Persian word beḵẖ meaning ‘root’, indicating again that the first part, ‘khar’, is a separable lexeme for the plant itself. This analysis is supported, curiously, by two Georgian loanwords for hellebore, namely arbaqi and arisjira, both beginning with the /x/ or ‘kh’ sound. The first of these is cognate with the Arabic and Persian ‘kharbaq’, while the second literally means root (jira) of the ar, (Apridonidze et al. 2006). This once again supports the analysis that the ‘K + vowels + R’ pattern is a separate lexeme indicating one variety or other of the plant hellebore, in this case with the KH variant: KHAR.

From this trail of evidence, then, the appearance of the pattern K + vowel + R in modern Indian herbals can be explained not necessarily as a native Indian form, but as a probable early borrowing from Sumerian and Akkadian, transmitted eastwards perhaps via Arabic and/or Persian, in some cases retaining the pronunciation kaur with the harder /k/ sound (as in Punjabi kaur) in preference to the Arabic/Persian khar with /x/ (kh).

Subsequently it appears to have been associated with, or confused with, a native Indian plant whose formal species name even today retains the K + vowel + R pattern: Picrorhiza kurrooa.”

Baden-Powell offers an insightful account of how the process of transmission and re-identification probably occurred, referring to a number of drugs which, in his analysis, ‘…were introduced by the Mahomedan hakims (wise men) who had studied from the Arabian school of medicine who, themselves, derived their knowledge from the Greeks.’ (Baden-Powell 1868:318).”

A final irony is that, as we saw in Panda’s list above, one current Farsi/Persian word for black hellebore is Kharabekhindi, literally ‘Indian Khar-root’. This implies a retransmission of the plant and its name back westwards to Persia, but now with new Indian ‘branding’.

In summary, there is therefore strong evidence for the idea that the pattern ‘K + vowel + R’ represents an even older word for hellebore than the Greek version, and was known in one form or another for centuries across a wide area as the name of that plant. The name appears in the Caucasus (with the two forms seen above in Georgian, and also a form of kharbaq in Armenian, according to Kouyoumdjian 1981), across the Middle East and into India, with slight variations in the realization of the first consonant and the vowelling, in a manner which is normal across such a wide geographical and historical range. It sometimes also has the suffix ‘baq’ or similar, meaning ‘root’. For example, we noted its appearance in mediaeval Arabic herbals as kharbaq for black hellebore.”

Continuing the attempt to examine the first word of plant pages and matching them with the plants depicted, let us consider the case of page f29v:

Step 1 (plant identification): This plant can be identified with relative confidence as Nigella sativa, largely because of the distinctive seed pods and leaves, which can be seen in images from Katzer’s website. Both Velinska (2013) and Sherwood agree on the identification, the latter offering also the following description:

Roman coriander (Nigella sativa), is an annual plant in the ranunculus family, native to Southern Europe, North Africa, and Southwest Asia. It has finely divided, linear leaves and pale blue or white flowers with 5 to 10 petals. The fruit is a balloon-like capsule containing numerous seeds. The seeds are frequently referred to as black cumin … (Sherwood 2013)

As seen from the name, which derives from the Latin niger (black) the defining feature of this plant has always, and across different cultures, been the black colour of the seeds, which have a long history of use in cookery and medicine, being found even in the tomb of Tutankhamen (Peter 2004). However, they have frequently been confused with the seeds of other plants such as Bunium bulbocastanum and also Caroway (Carum carvi), all of which have been called ‘black cumin’.

Step 2 (nomenclature): (…) the first word on that page is the same as the word already analysed as KA/ə/UR, for hellebore. This at first appears anomalous, but when read with the second word it can be interpreted as KA/ə/UR CHAR”

it is not clear whether, in the construction K A /ə/ UR CH/X A R the origin of both words derives from the idea of blackness, through different routes, or whether the second means ‘seed’, related to the Persian ‘zireh’, which was also adapted eastwards with /j/ and /tʃ/ as the first consonant”

To summarise, the precise meaning of each part of the first two words of f29v, which is taken to name the plant Nigella Sativa pictured alongside, is not entirely clear; it would seem to read either ‘Kaur black’ or ‘Black Seed’. However, the important point for this paper is that both interpretations allow a plausible link between the words and the illustration, and both support the overall analysis of the sounds and letters in this paper. In short, further analysis will help to elucidate precisely what those words signify, but in either case the argument for the sound-letter analysis presented so far is strengthened.”

However, as also noted above, I do not underestimate the difficulty of the next steps. Many of the first words on the plant pages contain what are known as ‘Gallows’ characters, with elaborate decorative swirls. It is not clear whether these are letters identical in sound to other non-decorative letters, or different letters entirely, or merely ornamentation. Some of them overlay, and overlap with, other signs in a manner also obscure. Many of the plant illustrations are odd and insubstantial.”

These concern the plants on pages f31r and f27r respectively. Unlike the plants discussed above, it has not been possible to research these in detail as yet, and – as will be apparent – their identification and naming still require verification.”

It will be seen that, drawing on signs which we have seen before, the word can arguably be read as ‘KOOTON’, and it is tempting to see this as indicating ‘cotton’. The word cotton came into English from the Old French coton (12c.), and ultimately (via Provençal, Italian, or Old Spanish) from Arabic qutn, and is perhaps ultimately of Egyptian origin. The name for this plant with the basic structure ‘K/Q + T + N’, which we still have in English, was known from Western Europe (thanks to the Arabic influence in Spain) through into many parts of Asia well before the date of the VM.”

However, it is not clear that the plant depicted on this page of the VM is in any way similar to known cotton plants. In the first place it is unusual to have cotton in a mediaeval herbal manuscript. Secondly, it would be curious if anyone wishing to depict cotton neglected to show the crucially important white cotton buds themselves, which do not appear in the VM illustration. Even so, this might not in itself rule out the identification with cotton, since plant illustrators have been known to depict cotton with scant reference to the cotton bud itself.”

Likewise, the main plant in f27r is difficult to identify with any certainty. However, the first word of the page appears, on the basis of the analysis above, potentially to read K ? A R.” “There is no supporting evidence as yet for identifying the unknown sign, but if it were read speculatively as indicating the sound /s/, on the basis of its shape, a reading could be KSAR, which is reminiscent of a common Indian name for the Crocus¹ (i.e. kesar), from which saffron is obtained. However – as is typical of the obstacles involved in analysing the Voynich plants – the leaves of the VM plant in the picture are unlike the grassy leaves of Crocus sativus, the most common variety, and the source of saffron itself. For this reason it is tempting to identify the VM plant with another variety, such as Colchicum Autumnale, often also called Kesar, which could be a closer match.”

¹ Família do açafrão.

Even so, as with cotton, it seems odd that an illustrator who has seen the crocus would illustrate it without showing its best known features, namely the flowers or stamen.”

We can now turn to more general discussion, summarising the findings so far and considering the implications for the language of the Voynich manuscript, and its possible provenance and authorship.”

for the first time we can claim with some confidence to have successfully read a number of words in this mysterious document. In particular, the naming of the constellation Taurus, the plant Centaury, the centaur Chiron and the plant ‘Kaur’ for hellebore, seem to me to be most persuasive.”

LISTA DE CONCLUSÕES PRELIMINARES

The script is not an elaborate cipher, but resembles normal human scripts, with more or less regular sign-sound correspondences;

The content of the manuscript, at least on the plant pages, seems to be completely in accordance with its outward appearance, namely information about the plants and perhaps their medicinal and other uses. If we look back at the earlier description of typical features of mediaeval herbals, every one of them is evidenced in the analysis in this paper. In other words, the manuscript is probably not a trick document disguising secrets behind a different genre.

(…)

On the evidence of this paper there is no reason to believe that the script encodes more than one language. As regards which language it might be, this is still unknown.

(…)

On balance, then, the analysis in this paper confirms a European element to the manuscript. However, with regard to the linguistic elements and plant names considered in this paper, e.g. ‘Kaur’ for hellebore, the underlying language is probably not European.

(…)

Echoes of illustrated Arabic herbal manuscripts also suggest a possible element of interaction with Arabic cultural traditions. However, at this stage it is not possible to identify the underlying language as a whole with any known Near East language, and indeed these words could be simply borrowings. Several of the plants discussed also appear to have a Near Eastern connection.

(…)

Not only do several countries in the Caucasus have early herbal and script traditions, including Georgia and Armenia, along with Christian links which would fit elements of the manuscript, but some of the local languages also show evidence of the words discussed in this paper (…)

Some of the plant names discussed in this paper appear to have an Indian subcontinent resonance, the most salient being ‘kaur’, still used in the Punjab for hellebore (…)

One of the largest language families to be considered as possibly influencing the VM is the Turkic, which includes languages as diverse as Turkish, Azeri, and Mongol. Although the evidence for Turkic influence in this paper is slender, the form of the word Kantaron for Centaury appears on Turkish and Azeri, as does the form ‘kara’ for ‘black’. Although the agglutinative nature of Turkic languages seems not to resemble the VM word patterns, a Turkic influence cannot be ruled out;

In summary, the language of the Voynich manuscript is probably not European, but is more likely to be Near Eastern, Caucasian or Asian. We need further evidence to see whether it is of Indo-European, Semitic, Turkic, Kartvelian (e.g. related to Georgian) or from another language family.”

Nada se prova, nada se confuta. Me parece ainda mais fabuloso que um herbanário da idade média seja praticamente um híbrido de todos os continentes então conhecidos em sua composição!

It is feasible that the script is a deliberately constructed cipher designed to hide information of some sort. However, given the fact that the plant pages seem in practice to concern the plants depicted, presumably offering knowledge which was available to others already, it is more likely that the script is not aimed at concealment, but was instead constructed simply to write a language which had not previously been written down. To put it another way, if the underlying language already had a script (such as Georgian, or Arabic, or Greek), it seems highly unlikely that anyone would invent a whole new one merely to encode information about plants and nature which was already known.”

Given that the 15th century was a time of upheaval, in Europe in the Balkans, in the Near East with Timurid expansion as far as Turkey and the Black Sea, and also with the fall of Constantinople to the Ottomans in 1453, it is plausible to consider this ‘cultural extinction’ to be a possibility, with the group in question developing a script and literacy, only for it to be extinguished. Other examples of script which have been devised, only for those who can read it to die out include the interesting Rongorongo script from Easter Island, which again attests to the viability of the theory.”

Thanks also to the Beineke Library at Yale for allowing use of the images of the Voynich manuscript, and I also acknowledge the copyright holders of other images in this paper.”

Francamente! Não se pode usar nem imagens de um manuscrito xexelento que ninguém sabe o que significa porque ele tem direitos autorais?! Não se sabe nem remotamente quem pode ter sido o autor, o que é mais triste – e vem uma universidade e capitaliza com isso!

[+] (citados no artigo ou simplesmente interessantes)

Brumbaugh, R. 1977, The World’s Most Mysterious Manuscript, Weidenfeld & Nicolson, London.

Daniels, P. & Bright, W. (eds) 1996, The world’s writing systems, Oxford University Press, New York, Oxford.

Kennedy, G. & Churchill, R. 2004, The Voynich manuscript: the unsolved riddle of an extraordinary book which has defied interpretation for centuries, Orion, London.

Parsumean-Tatoyean, S. 2011, The Armenians in the medieval Islamic world: paradigms of interaction: seventh to fourteenth centuries, Transaction Publishers, New Brunswick, N.J.

Rawlinson, H.C. 1846, The Persian cuneiform inscription at Behistun: decyphered and translated; with a memoir on Persian cuneiform inscriptions in general, and on that of Behistun in particular, J.W. Parker, London.

Sherwood, E. 2013, The Voynich Botanical plants. Available at: http://www.edithsherwood.com/voynich_botanical_plants/.

Sigerist, H.E. 1987, A history of medicine: Vol. 2: early Greek, hindu, and persian medicine, Oxford University Press, New York.

Sussex, R. & Cubberley, P.V. 2006, The Slavic languages, Cambridge University Press, Cambridge.

Vlasto, A.P. 1970, The entry of the Slavs into Christendom: an introduction to the medieval history of the Slavs, Cambridge University Press, London.

THE IMPACT OF MONOLINGUAL AND BILINGUAL SUBTITLES ON VISUAL ATTENTION, COGNITIVE LOAD, AND COMPREHENSION – Sixin Liao, Jan-Louis Kruger and Stephen Doherty

Bilingual subtitles, a unique subtitle mode that presents subtitles in two different languages simultaneously, are gaining popularity around the world, especially in Mainland China (Li 2016). This is partly attributed to the belief that bilingual subtitles could deliver the benefits of both intralingual and interlingual subtitles, with intralingual subtitles providing the written forms of spoken words that can facilitate vocabulary learning and interlingual subtitles providing the meaning (translation) of words that can enhance viewers’ comprehension and absorption of the content (García 2017).

There exists however an inherent risk that subtitles, as a written form of spoken dialogue, generate redundant information that may overburden the visual processing channel and deplete people’s limited cognitive resources that could have been used to process other essential information (Zheng et al. 2016). When watching subtitled videos, viewers have to cope with a rich combination of multimodal and multiple-source information: visual images (visual-nonverbal), spoken dialogue (audio-verbal), subtitles (visual-verbal) and background sounds (audio-nonverbal) (Gottlieb 1998). This could place high demands on viewers’ attentional and cognitive resources because processing too much information simultaneously has been shown to exceed the capacity of working memory and result in cognitive overload (Kalyuga et al. 1999).”

Compared with monolingual subtitles, watching videos with bilingual subtitles could be more cognitively demanding due to the concurrent presence of subtitles in two different languages, which, if the audience understands both languages, is likely to generate more redundancy and impose additional cognitive load on working memory. However, due to the scant research in this field, little is currently known about the actual visual and cognitive processing of bilingual subtitles.”

The conceptualisation of cognitive load has been well-established in CLT (Sweller et al. 2011), one of the most influential theoretical frameworks accounting for cognitive processing during learning (Martin 2014). As this study approaches bilingual subtitles for the purpose of enhancing learning, we argue that CLT is a most appropriate theoretical framework for the current study since it has a well-established empirical basis in educational psychology, instructional design, and educational technology.

Three components of cognitive load have been identified in CLT literature, namely intrinsic cognitive load, extraneous cognitive load and germane cognitive load. Intrinsic cognitive load is created by dealing with the inherent complexity of the task (Van Merriënboer and Sweller 2005; Sweller 2010), while extraneous cognitive load is generated by dealing with instructional features that do not contribute to learning. Germane cognitive load, on the other hand, is created when learners are engaged in processing essential information that contributes to learning (Sweller et al. 1998; Sweller 2010).”

Learners have also been shown to be more likely to experience high extraneous cognitive load when they process redundant information that is unnecessary for learning (Kalyuga and Sweller 2005). More specifically, numerous empirical studies on cognitive load effects have found that presenting the same information in different forms (e.g. presenting verbal information in both written and audio forms) would hinder learning and cause the redundancy effect (Mayer et al. 2001; Diao and Sweller 2007). The redundancy effect is very relevant to subtitling in that subtitles transfer auditory information into a written form and thus could produce verbal redundancy, which is likely to induce extraneous cognitive load. However, subtitles in different linguistic formats generate different degrees of redundancy and could exert a differential impact on cognitive load and, as a consequence, on task performance and learning outcomes within educational settings.”

Based on formal linguistic parameters, subtitles can be categorised into three types, namely intralingual subtitles, interlingual subtitles, and bilingual subtitles (Díaz Cintas and Remael 2007). Intralingual subtitles (or same-language subtitles or bimodal subtitles), which are presented in the same language as the spoken dialogue, are primarily used by deaf and hard-of-hearing viewers, but also in language learning and other educational contexts (Doherty 2016; Kruger and Doherty 2016; Doherty and Kruger 2018). Interlingual subtitles (or standard subtitles or L1 subtitles) refer to subtitles that are displayed in a language different from that of the dialogue, normally in the viewers’ native language (Raine 2012). Different from intralingual and interlingual subtitles, which consist of only one language, bilingual subtitles (also known as dual/double subtitles) present subtitles simultaneously in 2 different languages. This category is mostly used in multilingual countries or regions where two or more languages are spoken, such as Finland, Belgium, Israel, Singapore, Malaysia and Hong Kong (Gottlieb 2004; Kuo 2014; Corrizzato 2015). In Mainland China, for example, bilingual subtitles are gaining currency as China’s dominant TV broadcaster is stepping up its effort to present television programs with subtitles in both English and Chinese in order to attract a wider audience. The increasing usage of bilingual subtitles in online videos is attributed to the efforts of amateur subtitlers who translate foreign language videos online on a voluntary basis (Zhang 2013; Hsiao 2014).”

Thus, our research question aims to identify the effects, if any, of bilingual subtitles on viewers’ distribution of visual attention, cognitive load, and comprehension of audiovisual stimuli.”

This also provides support to previous arguments that ‘the number of lines does not play as big a role in the processing of subtitles as previously thought’ (Kruger and Steyn 2014: 105). However, it is worth noting that adding subtitles in a non-native language may cause a different interaction between the language of the subtitles and the language of the soundtrack, which could consequently impact on the attention allocated to subtitles, as the viewer may automatically try to read along with the narration, in what we could call the karaoke effect. This assumption is being investigated in our other studies.”

It is also possible that in the bilingual condition, with two lines of subtitles presented in different languages, subtitles presented on the first line (i.e. L1 subtitles) can grasp viewers’ attention more easily and viewers may feel less motivated to read L2 subtitles once they have gained sufficient information from L1 subtitles. To sanction this assumption, more empirical research is needed to investigate the impact that subtitle positioning in bilingual subtitles has on the distribution of visual attention. Another possibility is that L2 subtitles render more redundancy than L1 subtitles when L2 audio information is available and therefore are less attended to by participants.”

Moreover, the fact that viewers spent time reading subtitles in both languages in spite of their redundancy provides evidence for the automatic subtitle reading behaviour hypothesis as originally proposed by d’Ydewalle et al. (1991).”

we propose that adding bilingual subtitles that contain both L1 and L2 subtitles makes the video easier to understand and allows for more available cognitive resources than not providing viewers with any written text as linguistic support. This finding also supports the growing body of evidence that processing subtitles is cognitively effective and does not cause cognitive overload if optimised spatio-temporally (Kruger, Hefer and Matthew 2013; Lång 2016; Perego et al. 2010).”

INVESTIGATING THE RELATION BETWEEN THE SUBTITLING OF SENSITIVE AUDIOVISUAL MATERIAL AND SUBTITLERS’ PERFORMANCE: An empirical study – Katerina Perdikaki and Nadia Georgiou

This fast-paced consumption, which characterises today’s media culture, is enabled, among others, by the expansion of video streaming services and video-on-demand platforms. In turn, the abundance of audiovisual products and the necessity to make them accessible to all audiences increases the demand for audiovisual translation (AVT) which needs to be prompt, while maintaining all other quality requirements.

In this environment, AVT professionals need to develop a skill-set which goes beyond the acquisition of technological literacy and linguistic aptitude to embrace adaptability, which may be hard to achieve when the audiovisual programme deals with sensitive and/or controversial topics because of the emotional impact inflicted upon the translator.”

To look into this issue, we designed an online questionnaire which was completed by 170 professional and amateur subtitlers.”

Schäffner (1997) examines sensitive texts from the perspective of the reaction they prompt in a reader (or viewer, in the case of audiovisual texts) and argues that any text causing irritation or confusion can be considered sensitive.” Exemplos recentes meus: Infância (Graciliano Ramos), Rayuela (Cortázar)…

It should be noted that the study focuses on negative emotions, as these are assumed to have the most drastic impact on subtitling performance.”

In areas such as public service interpreting (PSI), healthcare interpreting and, more specifically, mental health interpreting, professionals often face emotionally demanding situations and are affected when relaying traumatic experiences (Hsieh and Nicodemus 2015; Doherty et al. 2010). Similar observations can be made when it comes to emotionally-loaded cases involving interpreting, as in the Nuremberg trials, where simultaneous interpreting first appeared, and in the interpreting conducted in Nazi concentration camps during World War II (Tryuk 2016). The fact that interpreters experience distress and anxiety at some point in their careers has been affirmed in related studies (Loutan et al. 1999; Valero-Garcés 2005; Doherty et al. 2010).”

meaning that individuals with higher EI tend to be more creative.” Jussara’s EI or QE: 0.

the emotional potential of audiovisual texts is relatively greater than that of a literary text because of the different layers of information involved.”

In addition, given the tight deadlines governing the subtitling industry (Georgakopoulou 2009), rarely is there the luxury of time to first watch the programme and then translate it. Therefore, subtitlers often need to switch between the different hats of viewer and translator while experiencing the text for the first time, which arguably allows them less time to crystallise the viewing experience and to follow a more clinical approach in subtitling.”

Out of the 16 amateur subtitlers in the sample, only three answered that their performance is affected by their emotions.” Típico.

It is possible that the participants misunderstood the option of humour as referring to a linguistic challenge in subtitling, and not to a potentially emotion-eliciting aspect of the audiovisual text. Taking this into account, the fact that humour was the option with the most responses (80 – 47%) can be interpreted in two ways: either humour is one of the most challenging elements to relay in subtitling, as has been confirmed in the relevant literature (Díaz Cintas and Remael 2007; Chiaro 2010), or humour embedded in sensitive material, e.g. jokes that can be considered obscene, profane, racist or sexist, elicits a more intense emotional reaction.”

This sentiment of desensitisation may also be evident in the fact that 36 participants (21%) chose not to answer this question, making it the question with the lowest response rate in the questionnaire. Another interpretation for the low response rate would be that the participants, as language professionals, are comfortable with such aspects of language and their non-responsiveness to sensitive language is a meditated stance they adopt to demonstrate their professionalism.”

Out of these 133 participants, 24 of them proceeded to report an example where their performance was shown to be affected in one way or another. More specifically, they acknowledged that they sometimes have physical reactions to the material (e.g. crying, feeling nauseated) and, thus, have to take frequent breaks while subtitling, or they avoid looking at the screen, focus solely on the audio, and work quickly through the material. Others defer part of the project to other subtitlers and refuse to take on similar projects in the future. In fact, these participants’ narratives are similar to those that answered that their performance was affected by their emotions.”

The fact that some participants answered that their performance is not affected by their emotions and yet showed evidence of such effect in their free-text responses suggests that some may initially misperceive the extent of the emotional impact experienced when subtitling sensitive material. Alternatively, as it was noted above, a reluctance to admit the impact of emotions on subtitling performance may be connected to the subtitlers’ sense of professionalism and the attitude it entails. Notably, 10 out of the 133 participants that gave a negative response highlighted the subtitler’s responsibility to remain impartial and persevere with the translation, thus demonstrating how norms of the field of translation are often internalised by its agents.”

I don’t linger much on the translation. I don’t think how to render it best. I just want […] to get it over with” !!!

Overall, 16 participants (9%) remark that they tend to take frequent breaks in order to cope with the emotional impact, which results in their being less productive and needing more time to complete the job. This may also cause them to ask for an extension to the deadline, if circumstances allow it, or resort to a last-minute translation, as happens with the subtitlers that delay working on the sensitive material. Six participants (3%), all professional subtitlers, note that they refuse work that they know will have such a strong emotional impact on them. Admittedly, this presupposes an established presence in the subtitling industry and a good rapport with one’s clients, so that there is the professional, and financial, flexibility to turn down work. Indeed, the participants that made this point have more than 10 years of subtitling experience.”

Given that the subtitles co-exist with, and heavily depend on, the visual channel, it is obvious that an obscured image may negatively impact the translation. Furthermore, templates usually contain an abbreviated version of the dialogue, and thus do not correspond to the full onscreen content. As a participant attests, when working through torture scenes, they ‘avoid watching, which makes [their] work prone to error’” Não entendo: como pode trabalhar com isso?

Twelve of these participants reported that they may consciously tone down language that they find too offensive, particularly in regard to racial discrimination and swearing. The participants’ responses indicate that this also occurs when the depicted images are especially emotive (e.g. images of slaughterhouses or active war zones). Therefore, although language in isolation seems to leave many participants emotionally unaffected, perhaps because translators are trained and expected to be able to handle abusive, offensive, and colourful language, coping with images is arguably more challenging.”

Eleven participants (6%) highlighted that their performance improved because they felt an even greater responsibility to convey the intended message to the target viewers. As the participants noted, despite the intense emotional impact they experienced, they persevered in order to do justice to the ST, either to match its high cinematographic quality, in the case of fictional films/TV series, or to raise awareness of the issues involved, in the case of documentaries. One participant points out that they took extra care ‘to convey the speakers’ message to the target audience’ when subtitling a documentary about Ugandan child soldiers, in order to communicate their life stories as accurately as possible. Similarly, another participant notes that the emotions of sadness and helplessness they experienced when working on a documentary about cancer patients helped them produce more natural subtitles because they felt that they were the patients’ voice for the target audience. The same participant highlights that in cases where they are overwhelmed with emotion, their empathy with the depicted characters is strengthened, which, in their opinion, ultimately has a positive effect on their subtitling performance.”

The emotions that the subtitlers in our study experience most commonly are sadness, anger, and disgust, and the topic that emotionally affects them the most is abuse. In terms of imagery, scenes of rape, torture, and animal abuse appear to be particularly sensitive for most participants. In contrast, language usage (e.g. swearing) does not seem to have a significant emotional impact on the majority of the participants.”

Given that an emotional impact can either hinder or enhance subtitling performance, as discussed above, it seems necessary that subtitlers learn how to process and cope with the elicited emotions first so that they can reap the potential benefits of emotional impact.”

Further research can also examine relevant training practices that could benefit subtitlers, either in an institutionalised academic context or in the professional environment.”

FILM LANGUAGE, FILM EMOTIONS AND THE EXPERIENCE OF BLIND AND PARTIALLY SIGHTED VIEWERS: A RECEPTION STUDY – Floriane Bardini

blind and partially sighted (BPS)”

To many, expressions like in close-up, pan across, mid-shot, crane-shot etc., may not mean anything but it is important to try to understand why a director has chosen to film a sequence in a particular way and to describe it in terms which will be understood by the majority, if there is room to do so.”

The length of the three ADs is comparable and the final word counts are 388 words for the conventional AD (100%), 427 words for the cinematic AD (110%), and 400 words for the narrative AD (103%). The cinematic version is inevitably longer because cinematic terms are added to the iconic content being described.

The conventional AD is denotative, while the cinematic and narrative ADs are interpretative. The latter ones offer an interpretation of film language to render its meaning and feeling into words, instead of omitting or describing denotatively how cinematic techniques are used onscreen. Interpretative AD styles imply that the describer uses her subjectivity to describe what is shown and how it is shown, so it is a delicate approach that requires ethics and professionalism to ensure that an informed interpretation is provided, and not a personal vision of things.”

Cinematic terminology comes into play most particularly to describe elements that are specific to film, such as camera movements and editing techniques (Casetti and di Chio 1991).”

Narrative AD style (AD3) concentrates on interpreting film language and integrating the visual information into a coherent and flowing narration, which incorporates film dialogue and can be read as a single piece of text. It is an interpretative AD style, which does not always depict the images in full detail or in the exact moment they are shown but instead offers a narrative recreation of the feelings raised and of the meaning channelled through film language. Here too, the aim is to offer an immersive experience that is as similar as possible to that of sighted viewers.” Acho que eu iria preferir o 3.

[AD1 – CONVENTIONAL] Handwritten and slanted: ‘Nuit Blanche’. In black and white. At night, it’s full moon. The zinc roofs of a big city, with smoking chimneys. A three-storey building with large windows and light inside. Over the main door, made of glass, a company name.

[AD2 – CINEMATIC] ‘Nuit Blanche’ appears onscreen in film noir style. In black and white on a full moon night, chimneys smoke on the zinc roofs of a big city. The frame goes down the front face of a three-storey office building, with large windows and light inside.

[AD3 – NARRATIVE] ‘Nuit Blanche’. The city spreads out in black and white under the full moon. Chimneys smoke on zinc roofs. Men and women walk in the street, wrapped up in coats, passing by a three-storey office building with large windows and light inside.”

there are so many shades of grey between black and white that you can create extremely rich images. Because black and white photography is inherently pure, it’s a great way to tell a visual story and express emotion”

Forty-five blind and partially sighted participants were recruited with the help of two user organisations to listen to the ADs, answer the questionnaire and participate in focus group interviews. We contacted thirty-nine through the Department of Culture and Sport of the Territorial Delegation of ONCE (National Organization of the Spanish Blind) in Catalonia and five local ONCE offices located in Girona, Lleida, Manresa, Reus and Vic. Six further participants were recruited through ACIC, the Catalan Association for the Integration of the Blind, based in Barcelona. There were 28 men and 17 women, aged between 24 and 86 (M=54), of whom 11 were blind from birth. Six participants held a university degree, 14 had A-Levels and/or vocational training, 15 had no degree and 10 did not specify.”

[AD1 – CONVENTIONAL] Surrounded by pieces of glass that reflect light, they walk towards each other. She slightly reaches out her arms; he has no hat and briefcase. When they get closer, they shut their eyes and their lips come closer.

[AD2 – CINEMATIC] Surrounded by pieces of glass that shine like sparks, they walk towards each other decidedly. She slightly reaches out her arms. When they are getting closer, they look at each other’s lips and close their eyes as they are about to kiss. The frame closes in on their lips.

[AD3 – NARRATIVE] Surrounded by pieces of glass that shine like sparks, they walk towards each other decidedly, like two wax dolls set apart from reality. Getting closer, they look at each other’s lips and close their eyes as they are about to kiss.”

Our results are in line with those of Fryer and Freeman (2013), Szarkowska (2013), and Walczak (2017a) insofar as the consumers of an alternative AD, which goes beyond the mere denotative description of images, report a better film experience. Whether it is the naming and/or interpretation of the film techniques (cinematic AD), the interpretative and narrative approach (narrative AD), the extensive use of cinematic terminology (Fryer and Freeman 2013), the adoption of the director’s view (Szarkowska 2013), or the integration of the camera work and colloquial language into the AD (Walczak 2017a), studies seem to point to the need to approach AD from a filmic point of view and integrate film language into AD so as to offer blind and partially sighted viewers a better film experience.”

THE DUBBING EFFECT: AN EYE-TRACKING STUDY ON HOW VIEWERS MAKE DUBBING WORK – Pablo Romero-Fresco

Despite being, perhaps along with voiceover, the most criticised (and even vilified) audiovisual translation (AVT) mode, there is little doubt that, generally speaking and from different viewpoints, dubbing works. It is still the preferred form of access to foreign-language audiovisual content for millions of viewers in countries such as Spain, Italy, France and Germany and the preferred choice to translate cartoons and children’s films in subtitling countries (Chaume 2013). Its success is not only commercial, as recent research shows that dubbing is also a very effective translation mode from a cognitive point of view (Wissmath et al. 2009; Perego et al. 2016). Despite the artifice involved in replacing the original actors’ voices for other voices in another language, it seems that (habituated) dubbing viewers still manage to suspend disbelief and become immersed in the fiction of film (Palencia 2002).”

How do we watch a dubbed film? How do we manage to suspend disbelief without being distracted by its artificial nature and by the mismatch between audio and visual elements? In short, what cognitive mechanisms do we activate to make dubbing work?

The aim of this paper is to answer these questions by analysing, with the help of eye-tracking technology, the viewing patterns of spectators watching dubbed and original films. This analysis is complemented by a discussion of other aspects that may be relevant to the perception and overall reception of dubbing, including cultural arguments concerning habituation, psychological and cognitive notions of suspension of disbelief and perceptual phenomena such as the McGurk effect (McGurk and MacDonald 1976).”

When they are first exposed to film, children normally have no knowledge of the artifice involved in cinematic fiction, which means that they go straight from wonder into habituation and automatism. By the time they learn about the prefabricated nature of cinema, film viewing has already settled as an unconscious experience whose enjoyment requires not questioning the reality of what they are seeing, that is, suspending disbelief. Crucially, dubbing audiences are exposed to both original and dubbed films from an early age. They are astounded by the magic of cinema (wonder), regardless of whether or not it is dubbed. The artifice of dubbing (the mismatch between audio and visuals, the almost inevitable lack of total synchrony, even in high-quality dubbing, etc.) is overlooked along with the artifice of cinematic fiction, as they go from wonder to habituation and unconscious automatism. By the time dubbing audiences learn about dubbing (just as when they learn about film), they have already internalised how to watch it without questioning it. In other words, getting used to dubbing, when it happens at an early age, is simply part of the (unconscious) process of getting used to film.”

Even if a particular audience is used to dubbing, there is a tolerance threshold that must be respected with regard to at least two of the key dubbing constraints: synchrony and the naturalness of the dialogue. According to Rowe (1960: 117), this tolerance threshold may vary across countries:

American and English audiences are the least tolerant, followed closely by the Germans. […] The French, staunch defenders of their belle langue and accustomed to the dubbing process since those early days when rudimentary techniques made synchronization a somewhat haphazard achievement, are far more annoyed by slipshod dialogue than imperfect labial illusions. To the Italians, the play’s the thing and techniques take the hindmost, as artistically they should.”

The notion of suspension of disbelief was originally coined in 1817 by the poet and philosopher Samuel Taylor Coleridge (in Parrish 1985: 106), who suggested that if a writer could provide a fantastic tale with a ‘human interest and a semblance of truth’, the reader would suspend judgement concerning the plausibility of the narrative. This term has since been used for film (Allison et al. 2013) and AVT (Bucaria 2008). Pedersen (2011: 22) applies it to subtitling, calling it a ‘contract of illusion’ or tacit agreement between the subtitler and the viewers where the latter agree to believe ‘that the subtitles are the dialogue, that what you read is actually what people say.’”

The McGurk effect (1976) is generally regarded as one of the most powerful perceptual phenomena demonstrating the interaction between hearing and vision in speech perception. It is described by Smith et al. (2013) as ‘an auditory illusion that occurs when the perception of a phoneme’s auditory identity is changed by a concurrently played video of a mouth articulating a different phoneme.’ A typical example would involve the audio of a given phoneme (such as /ba/) dubbed over a speaker whose mouth is visually articulating another phoneme (such as /ga/). Most subjects will report hearing /da/ even though the only sound that is heard is /ba/. Discovered by Harry McGurk and John MacDonald in 1976, this phenomenon shows that speech perception is multimodal and that vision can often be more important than audio in the perception of sounds. From a neurological standpoint, the McGurk effect shows that information from the visual cortex instructs the auditory cortex which phoneme to ‘hear’ before an auditory stimulus is received (Smith et al. 2013). This is generally regarded as a robust effect, i.e. knowledge about it does not seem to eliminate its illusion. The effect has been shown to apply under very different conditions, including different viewers’ profiles (Rouger et al. 2008), audiovisual cross-dressing (combination of female faces and male voices) (Green et al. 1991), cross-cultural comparisons (Rosenblum 2010) and even speakers standing on their heads (Green 1994).”

Could it be that dubbing viewers are amongst the few individuals who have managed to switch off the McGurk effect so as not to be distracted by the asynchronous combination of sound and image? Have they found a way to avoid being put off by the mismatch between lips and audio or do they simply not look at the lips? Should the latter be true, is this an unconscious mechanism and can the above-mentioned early-acquired habit of viewing dubbed films and the ability to suspend disbelief account for this?”

Early studies (Buswell 1935; Yarbus 1965/1967) and also more recent research on face processing and the perception of gaze (Langton et al. 2000; Birmingham and Kingstone 2009) have shown that we tend to focus on faces and, more specifically, on eyes, when looking at other human beings. This may be partly explained by the visual saliency and social importance of eyes (Senju and Hasegawa 2005; Senju et al. 2005). However, most of this research has focused on static images, rather than dynamic viewing. Recent research performed on dynamic face viewing suggests that this attention bias may be task-dependent and not exclusive to the eyes (Gosselin and Schyns 2001). Buchan et al. (2007) found that their participants’ gaze was directed to the eyes when asked to perform emotion judgements and to the mouth when asked to recognise speech. In a recent study aiming to identify what controls gaze allocation during face perception, Võ et al. (2012: 12) concluded that there is no such thing as a general bias to look at someone’s eyes and that, at least during dynamic face viewing, ‘gaze follows function’. In other words, we seem to adjust our gaze allocation dynamically ‘for the purpose of seeking information on an event-to-event basis’ (ibid.: 11). In their study, conducted with 88 participants watching videos with close-ups of different people speaking, the mouth attracted as much as 34% of the gaze allocation. This is in line with the findings obtained by Foulsham and Sanderson (2013), who found a distribution of 71% on the eyes and 29% on the mouth in dynamic face viewing with speaking faces. The percentage of time fixating the mouth has been shown to increase when there is background noise (Buchan et al. 2012), low linguistic competence (Robinson et al. 2015) or poorly synched lips (Smith et al. 2013), which is not too dissimilar to what happens in dubbing.

In contrast with the intense scholarly activity devoted to the analysis of static and dynamic face viewing, the application of eye tracking to dubbing is still in its infancy. Vilaró and Smith (2011) compared the gaze behaviour of viewers watching an animated film in the original English audio condition, a Spanish language version with English subtitles, an English language version with Spanish subtitles and a final version dubbed into Spanish without subtitles. The participants were English speakers who did not know Spanish. The results of the study show evidence of subtitle reading in all conditions (even when they were in Spanish and therefore unhelpful for the participants) and a great deal of similarity in the exploration of peripheral objects.”

Their results confirm the cognitive efficiency and positive reception of both AVT modalities but also that complex audiovisual material may require extra effort from the viewers so as to accelerate their reading process. To our knowledge, no research has yet analysed and compared how viewers watch faces in original and dubbed films. This is the aim of the experiment presented in this article, whose findings, along with the above-included discussions on habituation, suspension of disbelief and engagement, intend to provide a picture of how viewers make dubbing work.”

However, excessive focus on the characters’ mouths may also put off dubbing viewers, making it difficult for them to suspend disbelief and engage with the film. As a result, the hypothesis for this experiment is that given our tendency to (a) lip read and be confused by asynchrony as per the McGurk effect and (b) look at both eyes and mouth in moving faces, we have adopted an unconscious strategy not to look at mouths in dubbing (because there is no useful information to obtained from there) in an attempt, aided by an early acquired and subconsciously internalised dubbing viewing habit, to suspend disbelief and be engaged with the dubbed fiction.”

The first stimulus video was the 6-minute final scene (from 1:36:00 to 1:42:29) of Casablanca (Michael Curtiz, 1942) dubbed into Spanish, of which 2 minutes (from 1:36:12 to 1:38:12) were closely analysed to detect eye movements in close-ups. A second stimulus video consisted of the original English version of the same excerpt, which was used with the control group of native English participants. Finally, the third stimulus video, used to analyse native Spanish viewers’ eye movements when watching an original film in Spanish, was a 6-minute scene (from 0:29:15 to 0:35:23) from Todo sobre mi madre (Pedro Almodóvar, 1999), of which 2 minutes (from 0:30:01 to 0:32:01) were closely analysed to detect eye movements in close-ups. Drawing on Perego et al. (2016), the videos were compared regarding their audiovisual complexity. Despite the significant difference in production year (1942 and 1999) and format (black and white vs. colour), the videos proved to be remarkably comparable regarding duration, speech rate (measured in words per minute), type-token ratio (degree of lexical variation), lexical density, syntactical complexity and number of close-ups”

Participant’s eye movements were recorded using the standalone Tobii T120 eye tracker (Tobii Technology AB, Stockholm, Sweden) integrated in a 17-inch monitor with a 1024×768 resolution that allowed the maximisation of the stimulus display to cover the entire screen. Both the eye-tracking server and the client display application ran on Windows PCs connected via 1GB Ethernet. This eye tracker, which operates at a sampling rate of 60Hz with an accuracy of 0.5°, is unobtrusive, as it allows for a large degree of head movement and ensures natural behaviour, which is important in order to obtain ecologically valid results. During the recording time, the Tobii T120 eye tracker collects raw gaze movement data every 16.6 ms, using a filter to parse the coordinates of the movements into fixations and saccades. For the analysis, two areas of interest were drawn on those shots of the videos that featured close-ups, one covering the characters’ eyes and the other covering their mouths. When using the eye-tracking data to test the above-mentioned hypotheses, the focus was placed on 3 types of measurements that are relevant to gain knowledge of visual attention distribution: number of fixations, mean fixation duration and percentage amount of time spent on the defined areas of interest. A distinction was made between close-ups with dialogue and silent close-ups in order to ascertain whether the presence of dialogue has any impact on the viewers’ eye movements.”

This study involved 42 participants (31 female and 11 male), mostly postgraduate students and young professionals. None of them received course credits or payment for participation. Of those 42 participants, 18 were native English and 24 were native Spanish. All of them had normal or corrected-to-normal vision. A total of 31 participants reported that they did not wear corrective lenses of any sort, seven reported that they wore contacts, and four reported that they wore glasses. Due to poor calibration and other data collection issues, the data from seven participants were discarded from the final analysis, bringing the total down to 35 (15 native English and 20 native Spanish) and dropping the number of males and females to 8 and 27, respectively. The ages of participants ranged from 25 to 60 (M = 28.00; SD = 8.55).”

Participants sat in front of the eye tracker at a distance of 60-70 cm, the eye tracker camera’s focal length. Calibration was performed once for each participant before viewing the first video and required following nine dot targets displayed sequentially on the screen, each shrinking in diameter from 30 to 2 pixels.”

Spanish participants watching Casablanca spent a significantly greater percentage of time looking at eyes than English participants watching Casablanca and that the same group of Spanish participants watching Todo sobre mi madre.”

No effects were observed regarding gender or age. Comprehension was on average very high (5/5 for Casablanca in English, 4.9/5 for Casablanca in Spanish and 4.6/5 for Todo sobre mi madre) and the sense of presence may be regarded medium-high (3.6/5 for Casablanca in English, 3.7/5 for Casablanca in Spanish and 3.8/5 for Todo sobre mi madre).”

the viewing patterns of the Spanish participants watching Casablanca dubbed into Spanish are significantly different: 95% on eyes and 5% on mouths. This extreme focus on the eyes/negative mouth bias is unlike anything found so far in the literature and very different to the way in which the Spanish participants view faces in the original Spanish film used in the experiment, where, after watching the dubbed clip, they show the same distribution (76% vs 24%) found in the literature and in the English group watching the original version of Casablanca.”

these results, which have subsequently been supported by those obtained in Di Giovanni and Romero (2018) with Italian participants, point to the potential existence of a dubbing effect, an unconscious eye movement strategy performed by dubbing viewers to avoid looking at mouths in dubbing, which prevails over the natural way in which they watch original films and real-life scenes, and which arguably allows them to suspend disbelief and be transported into the fictional world. Although not conscious, this mechanism seems to be activated only with dubbed films and is then turned off when watching an original film, where the viewing pattern is aligned with eye movements in real life.”

NOTAS

It is worth noting that eye tracking can only detect the central vision obtained by the fovea (Slaghuis and Thompson 2003). Foveal vision allows us to obtain detailed information typically within six degrees of our field vision, that is, spanning five words in a row when reading printed text at ordinary size at about 50 centimeters from the eyes. Parafoveal or peripheral vision, which can span up to 120 degrees, is thus not detected by eye trackers.” Ora, amigo, isso muda toda a conclusão do estudo! É óbvio que as pessoas simplesmente olham para a face inteira das pessoas na tela!

However, even though peripheral vision can be used to differentiate movement from stillness and even certain types of rhythms and contrast, it cannot help to distinguish colours, shapes or details (Wästlund et al. 2017).” HMM… O que você está dizendo é que NÃO existe visão periférica? Como conseguimos assistir em 16:9 gigantes?

CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL III

CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL II (módulo parcial): https://seclusao.art.blog/2018/04/16/saussureal/ Podemos retomar, portanto, da página 148 (SEGUNDA PARTE, cap. VI), salvo o que já houver sido explorado ainda antes, no

CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL I: https://rafazardly.wordpress.com/2020/11/16/curso-de-linguistica-geral-saussure/

O curso I foi “redigido” com base num exemplar físico, cuja editora me escapa no momento;

O curso II foi “redigido” (e imagens foram aproveitadas) com base no PDF da edição Cultrix, com prefácio de Isaac Nicolau Salum (USP). Trad.: Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. ISBN 978-85-316-0102-6, 34ed., 2013.

Sou proprietário de um exemplar da obra e informo que os trechos por aqui veiculados têm intuitos tão-somente educativos.

PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA (PRINCÍPIO DA DÉCADA DE 70) – Isaac Salum

A 1ª edição do Cours é de 1916, e é, como se sabe, ‘obra póstuma’, pois Saussure faleceu a 22 de fevereiro de 1913. A versão portuguesa sai com ‘apenas’ 54 anos de atraso. Mas nesse ponto não somos só nós que estamos atrasados. O Cours de linguistique générale não foi um best-seller, mas foi em francês mesmo que ele se tomou conhecido na Europa e na América. A 1ª edição francesa, de 1916, tinha 337 paginas; as seguintes, de 1922, 1931, 1949, 1955, 1962… e 1969, têm 331 paginas. Note-se, porém, como crescem os intervalos entre as edições até a 4ª, de 1949, e depois se reduzem à constante de 7 anos, o que mostra que até a edição francesa teve a sua popularidade aumentada nestas duas ultimas décadas.

Uma vista de olhos sobre as traduções é bastante elucidativa. A primeira foi a versão japonesa de Kobayashi, de 1928, reeditada em 1940, 1941 e 1950. Vem depois a alemã de Lommel, em 1931, depois a russa, de H.M. Suhotin, em 1933. Uma divulgou-o no Oriente, e a outra no mundo germânico ( e nórdico) e a terceira no mundo eslavo. A versão espanhola, de Amado Alonso, enriquecida com um excelente prefácio de 23 páginas, saiu em 1945, sucedendo-se as edições de 1955, 1959, 1961, 1965 e 1967, numa cerrada competição com as edições francesas.” “A versão inglesa de Wade Baskin, saída em Nova Iorque, Toronto e Londres, de 1959. A polonesa é de 1961, e a húngara, de 1967. Em 1967 saiu a notável versão italiana de Tullio De Mauro, tradução segura e fiel, mas especialmente notável pelas 23 páginas introdutórias e por mais 202 páginas que se seguem ao texto, de maior rendimento, em virtude do corpo do tipo usado, ostentando extraordinária riqueza de informações sobre Saussure e sobre a sorte do Cours, com 305 notas ao texto e uma bibliografia de 15 páginas (cerca de 400 títulos).”

Mas a freqüência das reedições e traduções do Cours nesta década de 60 que acaba de expirar mostra que já era tempo de fazer sair uma versão portuguesa dessa obra cujo interesse cresce com o extraordinário impulso que vêm tomando os estudos lingüísticos entre nós e em todo o mundo. Já se tem dito, e com razão, que a Lingüística é hoje a ‘vedette’ das ciências humanas. Acresce que o desenvolvimento dos currículos do nosso estudo médio nestes últimos anos impede que uma boa percentagem de colegiais e estudantes do curso superior possam ler Saussure em francês.” Retiraram o Francês da grade curricular do ensino médio. Malditos milicos!

O Cours é um clássico. Não é uma ‘bíblia’ da Lingüística moderna, que dê a ultima palavra sobre os fatos, mas é ainda o ponto de partida de uma problemática que continua na ordem do dia.”

É bem certo que a Lingüística americana moderna surgiu sem especial contribuição de Saussure; não deixa, porém, de causar espécie a onda de silêncio da quase totalidade dos lingüistas americanos com relação ao Cours. Bloomfield, fazendo em 1922 a recensão da Language de Sapir, chama o Cours ‘um fundamento teórico da mais recente tendência dos estudos lingüísticos’, repete esse juízo ao fazer a recensão do próprio Cours. em 1924, fala em 1926, do seu ‘débito ideal’ a Sapir e a Saussure, mas não inclui o Cours na bibliografia de sua Language, em 1933.”

hoje não se pode deixar de reconhecer que o Cours levanta uma série intérmina de problemas. Porque, no que toca a eles, Saussure – como Sócrates e Jesus – é recebido ‘de segunda mão’. Conhecemos Sócrates pelo que Xenofonte e Platão escreveram como sendo dele. O primeiro era muito pouco filósofo para entendê-lo, e o segundo, filósofo demais para não ir além dele, ambos distorcendo-o. Jesus nada escreveu senão na areia: seus ensinos são os que nos transmitiram os seus discípulos, alguns dos quais não foram testemunhas oculares.”

COINCIDÊNCIA OU DESTINO? “foram três os Cursos de Lingüística Geral que ele ministrou na Universidade de Genebra” “Saussure várias vezes se mostra insatisfeito com os pontos de vista a que tinha chegado.” “Os editores do CoursCharles Bally, Albert Sechehaye, com a colaboração de A. Riedlinger – só tiveram em mãos as anotações de L. Caille, L. Gautier, Paul Regard, Mme. A. Sechehaye, George Dégallier, Francis Joseph, e as notas de Riedlinger. E, tal qual ele foi editado, com a sistematização e organização dos 3 ilustres discípulos de Saussure, apresenta vários problemas críticos.”

Godel, Les sources manuscrites du Cours de linguistique générale de Ferdinand de Saussure, Genebra-Paris, Droz, 1957.

Benveniste, Saussure après um demi-siècle

Vejo-me diante de um dilema: ou expor o assunta em toda a sua complexidade e confessar todas as minhas dúvidas, o que não pode convir para um curso que deve ser matéria de exame, ou fazer algo simplificado, mais bem-adaptado a um auditório¹ de estudantes que não são lingüistas. Mas a cada passo me vejo retido por escrúpulos.”

¹ Falando assim nem parece que seus cursos agora clássicos jamais ultrapassaram a dúzia de estudantes simultâneos!

Ajunte-se como traço anedótico que a frase final do Cours tão citada – a Lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua encarada em si mesma e por si mesma – não é de Saussure, mas dos editores.

Aí está um problema crítico com tríplice complicação. Problema crítico grave como o da exegese platônica ou o problema sinótico dos Evangelhos. Naturalmente, as notas dos discípulos de Saussure foram apanhadas ao vivo na hora, como cada um podia anotar.”

Saussure destruía os seus rascunhos apressados em que ia traçando dia a dia o esboço da sua exposição.”

Godel não se mostra muito entusiasta com essas pesquisas. Eis o que ele diz: ‘Na época em que Saussure se ocupava de mitologia gêrmânica, apaixonou-se também por pesquisas singulares. (…) Os cadernos e os quadros em que ele consignou os resultados dessa longa e estéril investigação formam a parte mais considerável dos manuscritos que ele deixou” “É curioso notar que Tullio De Mauro, tão rico de informações, e que cita e usa tanto o Recueil como Les sources manuscrites, não os tenha incluído no seu inventário bibliográfico final, de cerca de 400 títulos.”

“Os Souvenirs de F. de Saussure concernant sa jeunesse et ses études atrás mencionados (Ms. fr. 3957) são ricos de informações acerca das suas relações com os lingüistas alemães e sobre a famosa Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européenes, Leipzig, Teubner, 1879, 302 pp., escrita aos 21 anos.”

Se a isso se acrescentar o conjunto de obras editadas em 1922 por Charles Bally e Léopold Gautier sob o título de Recueil des publications scientifiques de Ferdinand de Saussure, num grosso volume de 8 tomos e 641pp., teremos tudo o que Saussure publicou ou esboçou ou escreveu.”

O estudo sincrônico dum estado atual de língua, especialmente na sua manifestação oral, atenua, quase dispensando, o trabalho filológico. Mas, paradoxalmente, a obra do lingüista que insistiu na sincronia constitui-se agora um notável problema filológico: o do estabelecimento do seu texto.

A edição crítica saiu em 1968 (ed. Rudolf Engler), num primeiro volume de grande formato, 31×22 cm, e de 515+515 páginas. É uma edição sinó(p)tica [simultânea, global, contextual], que dá as fontes lado a lado em 6 colunas. A primeira coluna reproduz o texto do Cours, da 1ª edição de 1916, com as variantes introduzidas na 2ª e na 3ª (de 1922 e 31). As colunas 2, 3 e 4 trazem as fontes usadas por Charles Bally e Albert Sechehaye. As colunas 5 e 6 trazem as fontes descobertas e publicadas por Robert Godel”

Assim como “a Synopse des quatre évangiles en français de Benoit e Boismard, o famoso livro de Saussure ‘que ele não escreveu’ poderá ter também o seu interesse pedagógico: será uma fotografia fiel de como é apreendido diversamente aquilo que é transmitido via oral.”

A edição a ser oferecida a um público mais amplo só pode ser a que consagrou a obra: a edição crítica, de leitura pesada, será obra de consulta de grande utilidade para os especialistas e para os mais aficionados.” Poooxa…

Mas êste prefácio já se alongou demais. Além disso, os trabalhos de análise da Lingüística moderna como As grandes correntes da Lingüística Moderna, de Leroy, As novas tendências da Lingüística, de Malmberg, Lingüística Románica, de lorgu Iordan, em versão espanhola de Manuel Alvar (pp. 509-601), os estudos de Meillet em Linguistique historique et linguistique générale II (pp. 174-183) e no Bullettin de la Société de Linguistique de Paris, o de Benveniste em Problèmes de linguistique générale (pp. 32-45), o de Lepschy, em La linguistique structurale (pp. 45-56), o prólogo da edição de Amado Alonso, a excelente edição de Tullio De Mauro, são guias de grande valor para o interessado. A estes acrescente-se o excelente trabalho de divulgação de Georges Mounin, Saussure ou le structuraliste sans le savoir – présentation, choix de textes, bibliographie, que, a nosso ver, tem [de] defeituoso apenas o título, pois Saussure foi antes ‘estruturalista antes do termo’, que Mounin poderia dizer à francesa le structuraliste avant la lettre.”

S., (tese de doutorado) De l’emploi du genitif absolu en sanskrit

PREFÁCIO À 1a EDIÇÃO

Lecionou três cursos de Lingüística Geral, em 1906-1907, 1908-1909 e 1910-1911; é verdade que as necessidades do programa o obrigaram a consagrar a metade de cada um desses cursos a uma exposição relativa às línguas indo-européias, sua história e sua descrição, pelo que a parte essencial do seu tema ficou singularmente reduzida.”

Que iríamos fazer desse material? Um trabalho crítico preliminar se impunha: era mister, para cada curso, e para cada pormenor de curso, comparando todas as versões, chegar até o pensamento do qual tínhamos apenas ecos, por vezes discordantes. Para os dois primeiros cursos, recorremos à colaboração do Sr. A. Riedlinger, um dos discípulos que acompanharam o pensamento do mestre com o maior interesse; seu trabalho, nesse ponto, nos foi muito útil. No que respeita ao terceira curso, A. Sechehaye levou a cabo o mesmo trabalho minucioso de colação e arranjo.”

A ausência de uma Lingüística da fala é mais sensível. Prometida aos ouvintes do 3º curso, esse estudo teria tido, sem dúvida, lugar de honra nos seguintes; sabe-se muito bem por que tal promessa não pôde ser cumprida. Limitamo-nos a recolher a situar em seu lugar natural as indicações fugitivas desse programa apenas esboçado: não poderíamos ir mais longe.”

* * *

INTRODUÇÃO. I. VISÃO GERAL DA HISTÓRIA DA LINGÜÍSTICA

os trabalhos de Ritschl acerca de Plauto podem ser chamados lingüísticos; mas nesse domínio a crítica filológica é falha num particular: apega-se muito servilmente à língua escrita e esquece a língua falada; aliás, a Antiguidade grega e latina a absorve quase completamente.”

Bopp não tem, pois, o mérito da descoberta de que o sânscrito é parente de certos idiomas da Europa e da Ásia, mas foi ele quem compreendeu que as relações entre línguas afins podiam tornar-se matéria duma ciência autônoma.”

Curtius, Princípios de Etimologia Grega, 1879

Schleicher, Breviário de Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas, 1816

(modelo seminal da escola comparatista)

A Lingüística propriamente dita, que deu à comparação o lugar que exatamente lhe cabe, nasceu do estudo das línguas românicas e das línguas germânicas. Os estudos românicos, inaugurados por Diez – sua Gramática das Línguas Românicas data de 1836-38 –, contribuíram particularmente para aproximar a Lingüística do seu verdadeiro objeto. Os romanistas se achavam em condições privilegiadas, desconhecidas dos indo-europeístas; conhecia-se o latim, protótipo das línguas românicas; além disso, a abundância de documentos permitia acompanhar pormenorizadamente a evolução dos idiomas. Essas duas circunstâncias limitavam o campo das conjecturas e davam a toda a pesquisa uma fisionomia particularmente concreta. Os germanistas se achavam em situação idêntica; sem dúvida, o protogermânico não é conhecido diretamente, mas a história das línguas que dele derivam pode ser acompanhada com a ajuda de numerosos documentes, através de uma longa seqüência de séculos. Também os germanistas, mais próximos da realidade, chegaram a concepções diferentes das dos primeiros indo-europeístas.”

Graças aos neogramáticos, não se viu mais na língua um organismo que se desenvolve por si, mas um produto do espirito coletivo dos grupos lingüísticos. Ao mesmo tempo, compreende-se quão errôneas e insuficientes eram as idéias da Filologia e da Gramatica comparada.”

INTRODUÇÃO. VII. A FONOLOGIA

os primeiros lingüistas, que nada sabiam da fisiologia dos sons articulados, caiam a todo instante nessas ciladas; desapegar-se da letra era, para eles, perder o pé; para nós, constitui o primeiro passo rumo à verdade, pois é o estudo dos sons através dos próprios sons que nos proporciona o apoio que buscamos. Os lingüistas da época atual terminaram por compreendê-lo; retomando, por sua própria conta, pesquisas iniciadas por outros (fisiologistas, teóricos do canto etc.), dotaram a Lingüística de uma ciência auxiliar que a libertou da palavra escrita.”

A Fonética é uma ciência histórica; analisa acontecimentos, transformações e se move no tempo. A Fonologia se coloca fora do tempo, já que o mecanismo da articulação permanece sempre igual a si mesmo.”

O lingüista exige, antes de tudo, que lhe seja fornecido um meio de representar os sons articulados que suprima qualquer equívoco. De fato, inúmeros sistemas gráficos foram propostos.”

Haveria razões para substituir por um alfabeto fonológico a ortografia usual? Essa questão tão interessante pode apenas ser aflorada aqui; para nós, a escrita fonológica deve servir apenas aos lingüistas. Antes de tudo, como fazer ingleses, alemães, franceses etc., adotarem um sistema uniforme! Além disso, um alfabeto aplicável a todos os idiomas correria o risco de atravancar-se de signas diacríticos; sem falar do aspecto desolador que apresentaria uma página de um texto que tal, é evidente que, à força de precisar, semelhante escrita obscureceria o que quisesse esclarecer e atrapalharia o leitor. Esses inconvenientes não seriam compensados por vantagens suficientes. Fora da Ciência, a exatidão fonológica não é muito desejável.”

os gramáticos gregos designavam as sonoras (como b, d, g) pelo nome de consoantes ‘médias’ (mesai) e as surdas (como p, t, k) pelo nome de psilai, que os latinos traduziam por tenues.”

não sabemos exatamente qual era o valor do ç sânscrito, mas como ele é continuação do k palatal indo-europeu, esse dado delimita claramente o campo das suposições.”

Os textos poéticos são documentos preciosos para o conhecimento da pronúncia: conforme o sistema de versificação se baseie no nº de sílabas, na quantidade, ou na conformidade dos sons (aliteração, assonância, rima), tais monumentos nos fornecem informações sobre esses diversos pontos. Se o grego distingue certas longas pela grafia, em outras descura tal precisão; é nos poetas que devemos buscar informações sobre a quantidade de a, i e u. No antigo francês, a rima permite conhecer, p.ex., até que época eram diferentes as consoantes finais de gras e faz (latim facio, ‘eu faço’) e a partir de que momento se aproximaram e se confundiram. A rima e a assonância nos ensinam ainda que no francês antigo os ee provenientes dum a latino (p.ex.: père de patrem, tel de talem, mer de marem) tinham um som totalmente diverso dos outros ee. Jamais esses termos rimam ou fazem assonância com ele (de illa), vert (de viridem), belle (de bella), etc.”

em gótico, kawtsjo nos informa a pronúncia de cautio em baixo latim.”

APÊNDICE À INTRODUÇÃO – PRINCÍPIOS DE FONOLOGIA

Muitos fonologistas se aplicam quase exclusivamente ao ato de fonação, vale dizer, à produção dos sons pelos órgãos (laringe, boca etc.), e negligenciam o lado acústico. Esse método não é correto: não somente a impressão produzida no ouvido nos é dada tão diretamente quanto a imagem motriz dos órgãos, como também é ela a base de toda teoria.

O dado acústico existe já inconscientemente quando se abordam as unidades fonológicas; pelo ouvido, sabemos o que é um b, um t etc. Se se pudessem reproduzir por meio do cinematógrafo todos os movimentos da boca e da laringe ao executarem uma seqüência de sons, seria impossível descobrir subdivisões nessa seqüência de movimentos articulatórios; não se sabe onde um som termina e outro se inicia. Como afirmar, sem a impressão acústica, que em fal, por exemplo, existem três unidades, e não duas ou quatro? É na cadeia da fala ouvida que se pode perceber imediatamente se um som permanece ou não igual a si próprio; enquanto se tenha a impressão de algo homogêneo, este som é único. O que importa não é sua duração em colcheias e semicolcheias, mas a qualidade de impressão. A cadeia acústica não se divide em tempos iguais, mas em tempos homogêneos, caracterizados pela unidade de impressão, e esse é o ponto de partida natural para o estudo fonológico. Nesse sentido, o alfabeto grego primitivo merece nossa admiração. Cada som simples é nele representado por um único signo gráfico, e, reciprocamente, cada signo corresponde a um som simples, sempre o mesmo. É uma descoberta de gênio, que os latinos herdaram. Na escrita da palavra bárbaros, ‘bárbaro’, cada letra corresponde a um tempo homogêneo (…) No alfabeto grego primitivo, não se encontram grafias complexas coma o ‘ch’ francês p[ara uma modalidade do ‘s’], nem representações duplas de um som único como no francês o ‘s’+‘s’ por ‘s’, nem um signo simples para um som duplo, como o u ‘x’ por ks. Esse princípio, necessário e suficiente para uma boa escrita fonológica, os gregos o realizaram quase integralmente.

É verdade que escreviam [caracteres específicos] por kh, th, ph (…) mas é uma inovação posterior (…) As mesmas inscrições oferecem dois signos para o k, o kappa e o koppa, mas o fato é diferente: tratava-se de consignar dois matizes reais da pronúncia, pois o k era umas vezes palatal, outras velar; além disso, o koppa desapareceu mais tarde. Enfim – ponto mais delicado –, as inscrições primitivas gregas e latinas costumam consignar freqüentemente uma consoante dupla com uma letra simples; assim a palavra latina fuisse era escrita FUISE; portanto, infração do princípio, pois esse duplo s dura dois tempos que, como veremos, não são homogêneos e dão impressões distintas; erro desculpável, porém, pois esses dois sons, sem se confundirem, apresentam uma característica comum.”

Os semitas só assinalavam as consoantes: um termo como bárbaros teria sido escrito por eles BRBRS.”

o fonema é a soma das impressões acústicas e dos movimentas articulatórios da unidade ouvida e da unidade falada, das quais uma condiciona a outra; portanto, trata-se já de uma unidade complexa, que tem um pé em cada cadeia.”

A glote, formada por dois músculos paralelos ou cordas vocais, se abre ou se fecha conforme elas se separam ou se juntam. A oclusão completa não entra, por assim dizer, em linha de conta; quanto à abertura, ela pode ser mais larga ou mais estreita. No primeiro caso, o ar passa livremente e as cordas vocais não vibram; no segundo, a passagem do ar determina as vibrações sonoras. Não há outra alternativa na emissão normal dos sons.

A cavidade nasal é um órgão completamente imóvel; a passagem do ar pode ser impedida pelo levantamento da úvula, nada mais; é uma porta aberta ou fechada.”

a expiração, elemento positivo, mas que intervém em todo ato fonat6rio, não tem valor diferenciador; ao passo que a ausência de ressonância nasal, fator negativo, servira, do mesmo modo que sua presença, para caracterizar os fonemas.”

Excerto p. 55 – A matéria de fonologia é muito técnica e fisiológica para que eu me detenha apenas em parágrafos. “[]” denota ausência do fator na fala. Não existe fala sem expiração ou articulação bucal (o que não significa que inexista som). A letra c faz referência à intervenção da laringe, que ocorre nos cenários II e IV. A letra d diz respeito à ressonância nasal, que interfere no som emitido nos cenários III e IV. Essas são todas as combinações possíveis grosso modo (já que ainda falta comentar sobre as ‘n’ possibilidades de articulações bucais; a expiração é uniforme e não possui variações).

ESCALA DE OCLUSÃO-ABERTURA DA ARTICULAÇÃO:

(fechada) 0 (mín.) 1 2 3 4 5 6 (máx.)

0. OCLUSIVAS

3 subtipos: labial (p, b, m); dental (t, d, n); gutural (k, g, n com notação de ponto em cima).

1. FRICATIVAS OU EXPIRANTES

genericamente podemos subdividir este ponto da escala em palatais e velares conforme capta o ouvido humano na maioria das línguas.

Ex (cada exemplo exige movimento diferente da língua): Ing – thing, then; Fr – si, rose, chant, génie; Ale – ich, Bach; Alemão do Norte – liegen, Tage.

ouve-se um