AS LEIS – Livro II

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

é fácil encontrar no Egito obras de pintura e escultura feitas há 10 mil anos (quando digo 10 mil anos, entende literalmente!) que não são mais nem menos belas que as que se executam hoje, pois que os artistas utilizam as mesmas regras desde sempre.”

Se, como eu dizia, houvesse alguém hábil o bastante para conhecer o que há de perfeito neste gênero, esse alguém deveria decerto elaborar uma lei e ordenar sua execução, persuadido de que o gosto e o sentido do prazer, responsáveis por inclinar os homens, sem cessar, a invenções e inovações na música, não teriam nesta sociedade força o suficiente para abolir os cânones vigentes e os modelos já consagrados, sob o estapafúrdio pretexto de <serem demasiado antigos>.”

ATENIENSE – O efeito natural da alegria, não é causar uma certa comoção, que não permite permanecer em repouso?

CLÍNIAS – Sim.

ATENIENSE – Em tais momentos não se encontram os jovens dispostos a dançar e cantar? Quanto a nós, como somos já avançados em idade, cremos apropriado a nossa dignidade permanecer serenos e tranqüilos, observando e seguindo, não sem prazer, é verdade, os jogos e festejos juvenis, vendo com pesar a debilitação de nossas forças, propondo, para compensá-lo, prêmios para os que despertem com mais vigor em noss’alma as lembranças de nossos bons tempos.”

O abuso contrário, autorizado noutro tempo na Grécia, como hoje o está na Sicília e na Itália, que dá o arbítrio desses concursos culturais somente à multidão reunida na praça pública, despojando os juízes de sua autoridade, e que declara vencedor aquele para quem levantaram-se mais mãos, produziu duas más conseqüências: a primeira é fazer minar a própria qualidade dos autores, que se adaptam ao mau gosto imperante, do que deriva que o povo educa a si mesmo; a segunda é perverter o prazer do teatro, que em vez de depurar o gosto da multidão mais e mais, através da exibição de costumes mais elevados que os do populacho, entre os personagens das peças, promove o exato contrário.”

CLÍNIAS – Estrangeiro, não falas nada mais belo nem mais sólido que a verdade, mas creio ser quase impossível fazer a lei justa penetrar nos espíritos.

ATENIENSE – Pode ser que assim o seja. Porém, se um dia conseguiram que as pessoas cressem na fábula de Sidônio Cadmo, absurda como é, e em mil semelhantes, tudo é possível.

CLÍNIAS – Que fábula, estrangeiro?

ATENIENSE – A que diz que dos dentes dum dragão plantados na terra nasceram homens armados. Não há outra prova tão evidente a um legislador da imensurável credulidade da juventude. A única tarefa do legislador nesse momento¹ deve ser a de encontrar o equilíbrio entre a felicidade do cidadão e o seu grau de comprometimento para com o Estado. Porque não é bom ser um crédulo inveterado nem um cético egoísta, um escravo ou um libertino. Se se encontra uma linguagem uniforme para ser usada nas leis, nos cantos, nos discursos e nas fábulas, e que satisfaça os cidadãos a meio deste caminho de extremos, só se terá a ganhar. A mentira que visa a um fim justo é melhor do que a verdade que visa a um fim injusto.”

¹ O livro d’As Leis é todo ele sobre a fundação concreta (fabulosa de acordo com dados históricos, mas concreta no sentido da ficção platônica) dum novo Estado, sendo o Ateniense uma espécie de conselheiro jurídico da primeira constituição desta polis, ainda por elaborar. Diferente d’A República, em que se descreve o ideal (quiçá) inalcançável da perfeição social humana, aqui os debatedores trabalham com o que têm em mãos (cidadãos corrompidos, tempos de crise e decadência). Muito embora para o leitor contemporâneo as exigências ascéticas de Platão, como veremos, pareçam tão distantes da realização quanto o mais utópico dos Estados…

CLÍNIAS – (…) A idéia de um coro de anciãos consagrado a Dionísio é tão singular que de um primeiro momento não é possível ao espírito se acostumar a ela.”

ATENIENSE – Não é certo que, à medida que se envelhece, vai-se desgostando do canto, e não é fácil ver-se disposto a cantar, de modo que esta ação soa repugnante, e que, quando é de precisão fazê-lo, quanto mais ancião ou virtuoso se é, mais vexante parecerá tudo isso?”

E não proibiremos, mediante lei, o uso do vinho aos jovens até uma idade de 18 anos, fazendo-os compreender que não é conveniente combater fogo com fogo, um fogo que sem a ajuda do álcool já devora seu corpo e sua alma antes da idade do trabalho e das fadigas, temerosos que nós estamos e que nós somos, da exaltação que é o natural da juventude? Permitiremos, pelo menos, chegada a idade prescrita, que bebam moderadamente até a casa dos 30, certificando-nos de que se abstenham de toda classe de libertinagem e excesso. Somente aos 40 anos é que poderão entregar-se ao gozo dos banquetes e convidar Dionísio, para que venha com os demais deuses participar de suas festanças e orgias”

ATENIENSE – Qual seria a música que conviria a homens divinos? Será a dos coros?

CLÍNIAS – Seria pouco recomendável empregar, seja para nós, seja para os cretenses ou espartanos, outros cantos que não os que houverem sido ensinados nos coros, que é aos que estamos acostumados.”

Vossa juventude se assemelha a uma manada de potros, que se deixa conduzir por um guia em comum para pastar ao campo. Os pais não têm entre vós o direito de separar seus filhos da companhia dos demais, mesmo os pais bravios e selvagens; nem de educá-los em casa, contratando um professor particular, nem de conduzir sua educação de modo gentil ou suave, e usando dos demais meios adequados à educação dos filhos.”

Não se deve dar ouvidos aos que avaliam a música pelo critério do prazer; nem devemos julgar digna de consideração esta reflexão: devemos procurar somente o belo.” “Onde está toda a dificuldade de avaliar a música? Ora, de todas as imitações (artes), é a mais elevada. Por isso mesmo é a que exige mais cuidado e atenção. O erro neste assunto seria muito funesto, porque transcende os costumes, ao mesmo tempo que é dificílimo percebê-lo. Os poetas jamais poderão ser tão hábeis em sua arte quanto as próprias Musas.” “Jamais serão as Musas capazes de mesclar gritos de animais, vozes humanas e sons de instrumentos, nem empregar esta confusão de sons a fim de expressar uma coisa única; já nossos poetas, vês, confundem e mesclam todas estas coisas. Sem qualquer critério, gosto ou princípio. A verdade é que mereciam a troça de todos aqueles que, segundo Orfeu, receberam da natureza o sentido da harmonia.”

em tudo isso há a mais completa falta de gosto, sobretudo nessa fixação por acumular sons parecidos com gritos de animais com uma extrema rapidez e sem se deter; não pode ser senão o resultado de uma mania bárbara e de um verdadeiro charlatanismo, tanto empenho em tocar o alaúde e a flauta para tudo, exceto acompanhar a dança e o canto!”

ATENIENSE – (…) Numa assembléia assim, reinará o tumulto, que vai aumentando à medida que se bebe; inconveniente que desde o princípio nos pareceu inevitável nos banquetes de nossos dias, tendo em vista tudo que neles se passa, e que tu bem conheces.

CLÍNIAS – Creio que é absolutamente inevitável!”

Diz o vulgo que Hera, madrasta de Dionísio, privou-o do juízo e da razão; este, para se vingar, inventou as orgias e todos os bailes extravagantes, sem esquecer de nos presentear com o vinho.”

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L’ENCYCLOPÉDIE – AM – compilado (2)

AMÉRIQUE, ou le Nouveau-monde, ou les Indes occidentales, est une des 4 parties du monde, baignée de l’océan, découverte par Christophe Colomb, Génois, en 1491, & appellée Amérique d’Améric-Vespuce Florentin, qui aborda en 1497, à la partie du continent située au sud de la ligne; elle est principalement sous la domination des Espagnols, des François, des Anglois, des Portugais & des Hollandois. Elle est divisée en septentrionale & en méridionale par le golfe de Mexique & par le détroit de Panama. L’Amérique septentrionale connue s’étend depuis le 11e degré de latitude jusqu’au 75e. Ses contrées principales sont le Mexique, la Californie, la Loüisiane, la Virginie, le Canada, Terre-neuve, les îles de Cuba, Saint-Domingue, & les Antilles. L’Amérique méridionale s’étend depuis le 12e degré septentrional, jusqu’au 60e degré méridional; ses contrées sont Terre-ferme, le Pérou, le Paraguai, le Chili, la Terre Magellanique, le Brésil, & le pays des Amazones.” [!!!]

gingembre

AMETHYSTE, s. f. (Hist. nat.) amethystus, pierre précieuse de couleur violette, ou de couleur violette pourprée. On a fait dériver son nom de sa couleur, en disant qu’elle ressembloit à la couleur qu’a le vin, lorsqu’il est mêlé d’eau. Les Auteurs qui ont traité des Pierres précieuses, ont donné plusieurs dénominations des couleurs de l’amethyste; ils disent que les plus belles sont de couleur violette, tirant sur la couleur de rose pourprée, de couleur colombine, ou de fleur de pensée; & qu’elles ont un mélange de rouge, de violet, de gris de lin, &c. Il est bien difficile de trouver des termes pour exprimer les teintes d’une couleur ou les nuances de plusieurs couleurs. Je crois même qu’il est impossible de parvenir par ce moyen à donner une idée juste de la couleur d’une pierre précieuse. C’est pourquoi il vaut mieux donner un objet de comparaison qui exprime la couleur de l’amethyste. On le trouvera dans le spectre solaire que donne le prisme par la refraction des rayons de la lumière. L’espace de ce spectre auquel M. Newton a donné le nom de violet représente la couleur de l’amethyste la plus commune, qui est simplement violette. Si on fait tomber l’extrémité inférieure d’un spectre sur l’extrémité supérieure d’un autre spectre; on mêlera du rouge avec du violet, & on verra la couleur de l’amethyste pourprée. Ce moyen de reconnoître les couleurs de l’amethyste, est certainement le plus sûr.”

AMITIÉ. “Le commerce que nous pouvons avoir avec les hommes, regarde ou l’esprit ou le coeur: le pur commerce de l’esprit s’appelle simplement connoissance; le commerce où le coeur s’intéresse par l’agrément qu’il en tire, est amitié. Je ne vois point de notion plus exacte & plus propre à développer tout ce qu’est en soi l’amitié, & même toutes ses propriétés.” Commercé: palavra tornada infecta dali a menos de 100 anos…

L’amitié suppose la charité, au moins la charité naturelle: mais elle ajoûte une habitude de liaison particuliere, qui fait entre deux personnes un agrément de commerce mutuel. § C’est l’insuffisance de notre être qui fait naître l’amitié, & c’est l’insuffisance de l’amitié même qui la détruit.”

Lorsqu’on entrevoit de loin quelque bien, il fixe d’abord les desirs; lorsqu’on l’atteint, on en sent le néant. (…) on se néglige, on deviant difficile, on exige bientôt comme un tribut les complaisances qu’on avoit d’abord reçûes comme un don. C’est le caractere des hommes de s’approprier peu à peu jusqu’aux graces qu’on leur fait; une longue possession accoûtume naturellement à regarder comme siennes les choses qu’on tient d’autrui: l’habitude persuade qu’on a un droit naturel sur la volonté des amis; on voudroit s’en former un titre pour les gouverner: lorsque ces prétensions sont réciproques, comme il arrive souvent, l’amour propre s’irrite, crie des deux côtés, & produit de l’aigreur, des froideurs, des explications amères, & la rupture.

On se trouve aussi quelquefois des défauts qu’on s’étoit cachés; où l’on tombe dans des passions qui dégoûtent de l’amitié, comme les maladies violentes dégoûtent des plus doux plaisirs. Aussi les hommes extrèmes, capables de donner les plus fortes preuves de dévouement, ne sont pas les plus capables d’une constante amitié: on ne la trouve nulle part si vive & si solide, que dans les esprits timides & sérieux, dont l’ame modérée connoît la vertu; le sentiment doux & paisible de l’amitié soulage leur coeur, détend leur esprit, l’élargit, les rend plus confians & plus vifs, se mêle à leurs amusemens, à leurs affaires, & à leurs plaisirs mystérieux: c’est l’ame de toute leur vie.

Les jeunes gens neufs à tout, sont très-sensibles à l’amitié: mais la vivacité de leurs passions les distrait & les rend volages [voláteis]. La sensibilité & la confiance sont usées dans les vieillards: mais le besoin les rapproche, & la raison est leur lien. Les uns aiment plus tendrement, les autres plus solidement.”

Un ami avec qui l’on n’aura eû d’autre engagement que de simples amusemens de Littérature trouve étrange qu’on n’expose pas son crédit pour lui; l’amitié n’étoit point d’un caractere qui exigeât cette démarche.”

Un Monarque ne peut-il donc avoir des amis? faut-il que pour les avoir, il les cherche en d’autres Monarques, ou qu’il donne à ses autres amis un caractere qui aille de pair avec le pouvoir souverain? Voici le véritable sens de la maxime recûe. § C’est que par rapport aux choses qui forment l’amitié, il doit se trouver entre les deux amis, une liberté de sentiment & de langage aussi grande, que si l’un des deux n’étoit point supérieur, ni l’autre inférieur.

L’amitié ne met pas plus d’égalité que le rapport du sang; la parenté entre des parens d’un rang fort différent ne permet pas certaine familiarité”

Les Anciens ont divinisé l’amitié; mais il ne paroît pas qu’elle ait eu comme les autres Divinités des temples & des autels de pierre, & je n’en suis pas trop fâché. Quoique le tems ne nous ait conservé aucune de ses représentations, Lilio Geraldi prétend dans son ouvrage des Dieux du Paganisme, qu’on la sculptoit sous la figure d’une jeune femme, la tête nue, vêtue d’un habit grossier, & la poitrine découverte jusqu’à l’endroit du coeur, où elle portoit la main; embrassant de l’autre côté un ormeau sec. Cette derniere idée me paroît sublime.”

AMPHIBIE, sub. pris adjectiv. (Hist. nat.) animal qui vit alternativement sur la terre & dans l’eau, c’est-à-dire dans l’air & dans l’eau, comme le castor, le veau de mer, &c.” “Le castor, le loutre, le rat d’eau, l’hippopotame, le crocodile, un grand lésard d’Amérique, le cordyle, la tortue d’eau, la grenouille, le crapaud d’eau, la salamandre d’eau appellée tac ou tassot, le serpent d’eau, &c. Gesner regardoit aussi comme amphibies les oiseaux qui cherchent leur nourriture dans l’eau. Nomenclator aquatilium animantium

AMPHIBOLOGIE. “celui qui compose s’entend, & par cela seul il croit qu’il sera entendu: mais celui qui lit n’est pas dans la même disposition d’esprit; il faut que l’arrangement des mots le force à ne pouvoir donner à la phrase que le sens que celui qui a écrit a voulu lui faire entendre.”

AS LEIS – Livro I

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “A cripteia (derivada do grego para ocultar, κρυπτεία) consistia no seguinte (apud Heráclito e Plutarco): os jovens espartanos se dispersavam sobre o campo, emboscavam-se de dia e saíam de seus esconderijos com o pôr-do-sol, a fim de surpreender e matar ilotas.¹ Por este meio intentava-se, ademais de treinar os soldados, controlar o aumento da população escrava da polis. Segundo o comentário canônico da obra platônica, a cripteia era simplesmente um exercício militar destinado a acostumar o jovem a uma vida repleta de emboscadas e fadigas. Os jovens espartanos que acaso se deixassem apanhar eram severamente castigados nessa <gincana séria>.”

¹ Gente que vivia em Esparte sem direitos, i.e., escravos do regime espartano.

“CLÍNIAS – Assim me parece enquanto falas. Mas crer nas coisas assim de supetão em matérias de suma importância não quadraria melhor aos jovens e aos imprudentes que a nós?”

“ATENIENSE – (…) vossos ginásios e vossos banquetes são superiores à educação e convivência em muitos Estados sob múltiplos pontos de vista, mas possuem graves inconvenientes no que respeita às sedições.”

“qualquer outra união de varões com varões e de fêmeas com fêmeas (fora a reprodutiva) é um atentado contra a natureza¹ (…) Todos acusam os cretenses de haver inventado a fábula de Ganimedes. Imaginando-se Zeus como o autor de suas leis, eles criaram estas coisas sobre este deus, com a segunda intenção de desfrutar deste prazer impunemente; mas abandonemos de uma vez por todas essa ficção!”

¹ Nesta sua última fase, mais prefiguradora do cristianismo e cada vez mais radical, Platão já nem sequer contempla a relação da pederastia helena institucionalizada (erastas-eromenos, amante-amado), que fazia parte da paideia (formação do homem grego). Ele passa a aceitar apenas a cópula heterossexual – e ainda assim estritamente em período fértil com o fito de gerar descendentes –, ou seja, iguala-se, em retrospectiva, ao moralismo ascético da futura Igreja, a que sem dúvida dá um grande impulso iniciador em obras como A República e As Leis.

(*) “Em Atenas, durante as Bacanais, pessoas mascaradas andavam em carros abertos pelas vias da cidade, xingando e lançando impropérios a todos que aparecessem. Agiam como atores num espetáculo, muitas vezes dando vazão a diálogos ou representações dramáticas sem qualquer vinculação pessoal (encarnando terceiros ou entidades). O escólio (conjunto de interpretações eruditas sobre a Grécia) aventa a possibilidade de esse costume ser muito antigo e ter sido, por si mesmo, a fonte da qual brotou o próprio Teatro enquanto arte.”

“Não falo sobre o vinho em si, nem julgo aqui se é de mais valia bebê-lo ou deixar de bebê-lo. Falo do abuso dos bebedores e me pergunto se seria mais conveniente usá-lo como usam os citas, os persas, os cartagineses, os celtas, os iberos e os trácios, nações todas elas belicosas, ou como vós espartanos o usais. Vós, como dissestes, vos abstendes por completo deste licor; já os citas e trácios bebem-no puro, e até suas esposas; e chegam a derramar vinho sobre as vestes, persuadidos de que isso não é em nada extraordinário ou extravagante, mas que, pelo contrário, é o resumo da felicidade na vida. Os persas, em que pese mais moderados que os primeiros, têm pelo vinho um vício em grau suficiente para repugnar qualquer espartano.”

“E não nos sirvamos da história, das batalhas vencidas ou perdidas, como prova decisiva do valor ou falta de valor de uma constituição. Em tempos de guerra, os Estados grandes vencem e subjugam os menores. Assim os siracusanos subjugaram os lócrios, que têm a reputação de povo mais culto da região, assim como os atenienses submeteram os habitantes de Ceos.”

“Segundo o parecer de toda a Grécia, os atenienses amam falar, e falam muito; os espartanos, pelo contrário, têm fama de ser lacônicos; já os cretenses, de ser mais pensadores que faladores.”

“Vê-se com freqüência entre os jovens viajantes que aquela cidade que os acolhe tempo o bastante para neles gerar afeto é tomada a partir daí como uma segunda pátria, pouco menos considerada que a pátria-mãe, que lhes concedeu a existência; pelo menos eu vivenciei isso.”

“é preciso dirigir o gosto e as inclinações da criança por meio de jogos e brincadeiras que lhe são indispensáveis, caso os pais queiram que cumpra seu destino.”

“a espera pela dor se chama propriamente temor; a pelo prazer, esperança. A razão preside a todas essas paixões, e ela declara o que têm de bom e de ruim; e quando o juízo da razão se converte numa decisão geral para o Estado, neste ponto é que adquire o nome de lei.”

“ATENIENSE – A embriaguez faz regredir o homem, quanto à alma, ao mesmo estado de quando era menino.

CLÍNIAS – Perfeito.

ATENIENSE – Sem dúvida que numa tal situação a última coisa que será é dono de si mesmo.

CLÍNIAS – Certamente.

ATENIENSE – Não é muito má a disposição de um homem que se encontra neste estado?

CLÍNIAS – Péssima!

ATENIENSE – Doravante, meu caro, parece que não é só o ancião que volta a ser criança, mas assim o é com todos os bêbados.”

“Qual! Creremos que aqueles que vão à casa do médico para tomar remédios ignoram que estas drogas, desde que são absorvidas pelo corpo, pô-los-ão de cama por muitos dias, numa situação tão torturante que prefeririam antes morrer a ter de passar por isso? Não sabemos, de igual modo, que aqueles que se devotam aos exercícios ginásticos se vêem, nos primeiros dias, dominados pela debilidade?”

“E que faremos nós a fim de inspirar nos outros o temor àquilo que devem com justiça temer? Não os colocaremos frente a frente com a impudência? E, exercitando-se contra ela, não aprenderão, assim, a combater-se a si próprios e triunfar sobre os prazeres? Não é lutando sem cessar contra suas tendências habituais, e reprimindo-as, que se ensina alguém a chegar à perfeição da força? Quem não tem experiência, nem o costume neste gênero de coisas não passará nunca de um meio-virtuoso. Não atingirá a moderação perfeita, caso não tenha combatido uma vastidão de sentimentos voluptuosos e de desejos, que nos conduzem a não mais nos envergonharmos de coisa alguma e a cometer toda classe de injustiças”

“Não tem esta bebida¹ uma virtude completamente oposta à beberagem que acabamos de citar,² alegrando o homem dum só golpe, preenchendo sua alma, à medida que bebe, de mil belas esperanças? Dando-lhe uma idéia mais vantajosa de seu poder e, por último, inspirando-lhe uma plena segurança para falar sobre tudo como se fôra onisciente? Tornando-o de tal feita livre, de tal feita superior a todo temor, que, sem deter-se, diz e faz tudo o que lhe vêm à mente?”

¹ O vinho

² A “beberagem” que o Ateniense acaba de citar na conversa seria uma bebida criada pelo gênio de Platão, que apresentaria efeitos antitéticos aos do vinho: ao invés de tornar os covardes corajosos e firmes, despertaria o medo e o terror em qualquer valente herói, comprometendo sua percepção do presente imediato. Seria um “tônico” invertido e infernal, a bebida do pessimismo irrestrito e desenfreado, emudecendo seu usuário, tamanha a insegurança e impotência que provocaria neste ser imaginário. Uma bebida que ensinaria o mais tolo dos homens a empregar toda a cautela em cada minúcia, ao invés da audácia ignóbil (temeridade, palavra de curiosa e irônica raiz!) que o ébrio etílico exibe diante de perigos colossais, dos quais muito pode se arrepender no futuro próximo.

“A fim de reconhecer um caráter excêntrico e arisco, capaz de mil injustiças, não é muito mais arriscado tratar com ele pessoalmente e a sós do que examiná-lo num festim báquico?”

A REPÚBLICA – Livro X – OU: DE QUE FORMA PLATÃO PARIU O CRISTIANISMO

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

Terei de dizê-lo, muito embora me penalize dirigir tais palavras contra Homero, por quem desde criança nutro o maior respeito e afeição, o que como que amortece minha língua neste momento; pois sem dúvida que Homero é o mestre e chefe de todos estes belos poetas trágicos, alvos principais de minha crítica. Persisto em meu desígnio, na certeza de que a reputação de um só homem não deve falar mais alto que a consideração que devemos ter para com a verdade.”

Muita vez são os míopes que percebem os objetos antes que os de vista aguda e penetrante.”

– Este maior de todos os artífices possui o talento não só de esculpir todos os móveis como também o de criar as obras da natureza, todos os seres vivos e, como direi, até se faz a si próprio! E não cessa aqui: faz a terra, o céu, os deuses, tudo o que há no céu e sob a terra, no Hades.

– Vejo que discorres sobre um artista verdadeiramente admirável!”

Querido Homero, se é certo que és um artista distanciado em três graus da Verdade, incapaz de fabricar outra coisa senão aparências (porque tal é a definição que demos do imitador); se ocupas, no lugar, a segunda ordem; se conheceste o que pode melhorar ou piorar os Estados e os particulares, diz-nos enfim: que Estado te deve a melhora da própria constituição (Esparta deve-o a Licurgo; numerosos Estados, grandes e pequenos, devem-no a tantos outros)? Que país fala de ti como de um sábio legislador e se vangloria de haver tirado proveito de tuas leis? A Itália e a Sicília evocam Carondas; nós temos Sólon; mas onde está o povo que clama <Homero!>?”

– Distinguiu-se por essas múltiplas invenções úteis nas artes ou nos demais ofícios que são próprios de um homem sábio, como se conta até de Tales de Mileto e do cita Anacársis?¹

– Nada disso se conta de Homero, Sócrates.”

¹ A respeito do segundo: http://remacle.org/bloodwolf/livres/anacharsis/table.htm.

Escuta, para depois julgar. Sabes que até os mais razoáveis, quando ouvimos recitar passagens de Homero ou de qualquer outro poeta trágico, em que se apresenta um herói angustiado, deplorando sua sorte num largo monólogo, prorrompendo em gritos e se dando golpes no peito, sabes, repito!, que naquele ato percebemos um vivo prazer, que deixamos nos embalar inadvertidamente, e exaltamos o talento do poeta que nos transporta com mais força a este estado.

– Sei-o bem; como não?

– E no entanto já pudeste observar que em nossas próprias desgraças presumimos o exato contrário: seria o ideal poder mantermo-nos firmes e tranqüilos, como convém à condição humana, abandonando às mulheres estas mesmas lamentações que aplaudimos no teatro!

– Sim, observei-o muito bem.

– Diz-me: será justo isso? Aprovar com entusiasmo em outros uma condição que não consentiríamos que se desse conosco mesmos? Envergonhando-nos se porventura nos assemelháramos a tais personagens, e, simultaneamente, gozando e celebrando – em vez de sentir repugnância! – quando se dá com terceiros?”

– …depois de haver conservado e até agravado nossa suscetibilidade mediante a contemplação dos maus alheios, é difícil moderar a sensibilidade conosco mesmos.

– Tens razão.

– Não diremos outro tanto acerca do cômico? Se tu manifestas um prazer excessivo em ouvir palhaçadas sobre o que em ti mesmo te envergonharia ao invés de produzir teu riso, mas que tratas como ridículo quando escutas vindo de uma terceira pessoa, deixando neste momento de detestar tais condutas como más, ainda que seja no teatro em vez de em meras conversas privadas acerca de entes conhecidos, todo o processo de identificação que se dá com as emoções patéticas¹ irá, seguro, se repetir. Ao desejo de fazer rir, antes reprimido pela razão, serão soltas as rédeas. Antes temias passar por bufão ou histrião, mas, agora, alimentados esse desejo e essa propensão para a comédia, eles se tornarão predominantes em tua alma! O início é mais hesitante, mas em breve o homem não terá qualquer resquício de pudor diante dos demais, até ver-se convertido num farsante de carteirinha. Um comediante profissional.

– E o pior é que estás coberto de razão, Sócrates!”

¹ Trágicas, sérias, graves, capazes de causar abalo ou comoção. Palavra de origem grega que se perverteu para nós.

em nosso Estado não podemos admitir outras obras de poesia além dos hinos aos deuses e das odes aos heróis”

procuraremos não recair na paixão que por ela (a poesia) sentimos em nossa juventude, e de cuja influência não se livra fácil o comum dos mortais”

– Pode se chamar <grande> aquilo que se passa num pequeno espaço de tempo? O intervalo que separa nossa infância de nossa velhice é bem curto comparado à totalidade do tempo.

– Com efeito pode-se dizer que nada é.

– E não crerias absurdo se um ser imortal se devotasse a contemplar e se preocupar com espaços de tempo tão efêmeros ao invés de dirigir seu olhar à eternidade?

– Crê-lo-ia absurdo. Mas a propósito de quê vem essa afirmação tão súbita?

Não sentes que nossa alma é imortal e que jamais perece?

Ao ouvir estas palavras, olhando-me atônito, disse:

– Não, por Zeus! Podes prová-lo?”

Se encontramos na natureza uma coisa a que um mal pode tornar miserável, embora não possa dissolver nem destruir, desde este instante não é factível assegurar que esta coisa não poderá perecer?” “Mas é evidente que uma coisa que não pode perecer nem por seu próprio mal nem por um mal estranho deve necessariamente existir para sempre!”

se o número de seres imortais se fizesse maior, esses novos seres se formariam daquilo que é mortal e se decompõe”

– Não me concederás também que o homem, querido pelos deuses, só deveria esperar deles bens, mas que às vezes recebe males como expiação de faltas cometidas em vidas passadas (muitas delas não-humanas)?

– Assim o creio.”

E quanto aos injustos, defendo que, ainda quando desde muito tenros já tenham aprendido a dissimular o que são, na sua maior parte acabam por desvelar sua natureza hora ou outra até o final de suas vidas; os injustos, em geral, colhem na velhice o ridículo e o opróbrio que plantaram durante toda a vida (…) afirmo que serão açoitados e submetidos ao tormento; numa palavra, imagina-te que escutas de minha boca todos os gêneros de suplício concebíveis.”

Não vou contar uma estória de Alcínoo, que é comprida e maçante.¹ É a simples história dum homem puro de coração, Er o Armênio, originário da Panfília.² Dez dias após uma batalha cruel e sangrenta, onde encontraram pilhas de cadáveres, o seu era o único intacto pela ação do tempo. Conduzido a seu lar para as cerimônias fúnebres, ao décimo segundo dia, já prestes a ser deposto nas chamas, o destino de todos os defuntos, volveu à vida de repente, e referiu aos circunstantes tudo o que havia visto <do outro lado>. Segundo Er, no momento em que sua alma saiu do corpo, juntou-se a uma infinidade de outras almas em um sítio fantástico; havia duas aberturas na terra e mais duas no céu, neste lugar, estas alinhadas com aquelas, de modo que pareciam possuir alguma relação. Entre os dois pares estavam sentados vários juízes. Assim que pronunciavam sua sentença, os juízes mandavam os justos seguirem por uma das vias que conduziam ao céu, à direita, não sem antes marcar suas costas com uma insígnia que confirmava seus destinos bem-aventurados; os injustos, por sua vez, eram obrigados a seguir à esquerda, por uma das vias telúricas, e também recebiam um selo, desta feita condenatório. Nele, registravam-se todas suas más ações. Quando chegou a vez de Er ser julgado, de súbito os juízes mudaram de idéia, e decidiram que era preciso que alguém retornasse e levasse aos vivos as notícias do que se passava neste além-mundo, e ele fôra o escolhido. Comandaram que passasse mais tempo por ali, escutando e observando atentamente tudo o que acontecia ao seu redor. (…) Er viu que das segundas aberturas (pois, lembre-se, havia duas aberturas para cada destino desta viagem, mas só a primeira de cada par era usada para os que se iam após o julgamento) voltavam outras tantas almas, umas das profundas, outras do paraíso (…) Estas almas que estavam de regresso se detinham no caminho para conversarem calmamente entre si, referindo sua jornada, parecendo peregrinos numa feira, que se reviam depois de uma longa pausa. As que vinham da estrada da terra se exprimiam com gemidos e lamúrias, despertados pela recordação de mil anos, o tempo total que passavam no refúgio subterrâneo. As que vinham do retiro celeste só tinham deleites e prazeres para narrar. (…) Er escutou um diálogo que lhe chamou a atenção: contavam o destino de Ardieu, célebre tirano panfiliano do milênio anterior. Ardieu matara seu próprio pai, já bastante idoso, bem como seu irmão mais velho, sem falar que cometera muitos outros crimes aberrantes e atrozes. <Ele não volta, nem hoje e nem nunca!>, é o que se disse a seu respeito. (…) Acudiram alguns homens selvagens, que pareciam feitos de fogo. De imediato conduziram, por coerção, algumas das almas presentes, as piores dentre elas. Ardieu estava entre elas. Seus pés e suas mãos foram amarrados, e a cabeça imobilizada. Depois de derrubados brutalmente, foram esfolados em castigos contínuos, em seguida arrastados para fora da trilha, sobre urzes, que logo se conspurcaram de sangue. Os <homens de fogo> explicaram às almas que apenas testemunhavam aquele tratamento o porquê deste suplício direcionado às almas criminosas incorrigíveis; contaram também que após esta série de sofrimentos elas seriam arremessadas no Tártaro, o abismo do Hades.”

¹ Odisséia, Capítulos 9 a 12.

² Na Ásia.

A virtude não tem dono. Cada qual participa dela conforme a honra ou a despreza. Cada qual é livre para agir, porque Deus é inocente.”

Diz-se que a alma de Orfeu escolhera reencarnar como cisne devido ao rancor e ódio que nutria pelas mulheres, que o chacinaram na outra vida. Orfeu tinha horror à idéia de ser engendrado de novo em um útero de mulher. Diz-se também que a alma de Tamiras escolheu reencarnar como rouxinol. Diz-se também que uma alma de cisne optou por voltar na forma de humano, bem como muitos outros animais cantores. Outra alma, após o fim da última vida, escolheu a condição de leão na próxima. E sabem quem era esta alma? Ájax, filho de Telamon. Pesaroso das guerras armadas entre os homens, recusou-se obstinadamente a repetir a vida de guerreiro. Dizem também que a alma de Agamêmnon, igualmente dissaborosa quanto à existência humana depois de todas as desgraças que lhe sobrevieram neste mundo, optou por reencarnar como águia.”

(*) “Epeu, filho de Panopeu, foi quem construiu o cavalo de madeira que os aqueus usaram para invadir Tróia.”

Como eu referira, havia almas de animais que foram promovidas a humanos, ou promovidas ou rebaixadas a outras espécies animais, segundo a vida que viveram; os animais injustos reencarnavam como animais selvagens; os justos, como animais domésticos.”

Fim da série de traduções d’A República.

A REPÚBLICA – Livro IX

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

#sonhos #amor #amizade #niilismo #Matemática #OUm

– De que desejos falas?

– Falo dos que são despertados durante o sonho; quando esta parte d’alma, que é racional, pacífica e está constituída a propósito para comandar, encontra-se como que inativa, e a parte animal e feroz, excitada pelo vinho e pela boa comida, se rebela e, rechaçando a dormência e a letargia da parte saudável do organismo, tenta sobressair e satisfazer seus apetites nesse ínterim. Sabes que em tais ocasiões esta parte d’alma se atreve a qualquer coisa, como se houvesse se libertado, através da violência, de todas as leis da conveniência e do pudor; não se priva, em sua fantasia, nem mesmo de dormir com a própria mãe nem com nenhum outro ser, humano, divino ou bestial. Nenhum assassinato, ademais, nenhum alimento indigno, causam-lhe horror; em suma, não há ação, extravagante e infame que seja, que não se sinta preparada a executar.

– Proferes uma grande verdade.

– Mas quando um homem se conduz sóbria e justamente; quando antes de se entregar ao sono reanima a chama da razão, alimentando-a com reflexões saudáveis, conversando consigo mesmo; quando, em que pese sem saciar a parte animal, concede-lhe aquele mínimo que seria impossível recusar, para que se ponha tranqüila e não turve, com sua euforia ou melancolia, a parte inteligente d’alma; quando este homem mantém a parte inteligente d’alma idêntica a seu ser, pura e natural, a fim de continuar suas observações sobre aquilo que ignora acerca do passado, do presente e do futuro; quando este homem apazigua assim dessa maneira a parte em que reside a impetuosidade, recolhe-se tranqüilo e sereno ao leito, sem ressentimento contra criatura alguma; enfim, quando, a despeito da inquietude das outras partes, põe em movimento aquela terceira (a residência do juízo), então vê mais facilmente a verdade e não se sente importunado por fantasmas impuros nem sonhos criminosos.”

Não seria essa a razão de Eros ter sido chamado depois de tirano?

– Me parece que tens razão.

– O homem embriagado, não tem também tendências à tirania?

– Óbvio que as tem.

– Igualmente, um homem demente não imagina acaso que é capaz de mandar nos demais e até nos deuses?

– Não duvido.

– Então, diz-me, que é o homem tirânico? Algo diferente de alguém a quem a natureza, ou a educação, ou ambas, tornaram ébrio, apaixonado e louco?

– De forma alguma.”

– Assim seja. Tudo se tornaria uma grande festa: jogos, festins, bebedeiras e banquetes, cortesãs e toda sorte de prazeres imagináveis, aos quais Eros o tirano arrojará esta classe de homens, i.e., o homem que deixou que Eros penetrasse em sua alma, dirigindo a partir daí todas as suas faculdades.

– Em absoluto.

– E a torrente de desejos, dia e noite, não irá se avolumando, desejos tão indômitos quanto insaciáveis?

– Uma torrente interminável, com efeito.

– E assim as rendas deste homem, se é que as tem, vão-se de pronto desmilingüir nessa busca infrutífera de satisfação.

– Como não?

– E aí tens os empréstimos; sua fortuna estará inteiramente comprometida.

– E que remédio teria ele contra essa inelutável dissipação, Sócrates? Seria sua sina.”

agora que o amor se tornou seu tirano, conduzirá todo homem torpe, cem vezes ao dia, às mesmas ações que raras vezes, antigamente, experimentava, e apenas em sonhos. Nem os assassinatos, nem as terríveis orgias, nem todo tipo de crime terão fim, porque, preenchida de amor tirânico, a alma humana cultivará a licença e o desprezo por todas as leis”

– Este homem já apresentava esse caráter na vida particular muito antes de assumir o governo. Está invariavelmente cercado de uma multidão de aduladores, muito solícitos a seus ímpetos; se não é este o caso, é porque é ele um dos aduladores dessa multidão, bajulando um outro qualquer, rastejando frente a outro de sua laia; mas uma vez que este dissoluto, esteja em posição de protagonista ou de simples lacaio, haja obtido aquilo que a princípio desejava – o poder –, virará as costas a todo bajulador, ídolo ou <amigo>.

– Isso é evidente.

– Ao cabo vês: estes homens passam a vida inteira sem ser amigos de ninguém, sendo donos ou escravos exclusivamente de vontades alheias, porque é um sinal do caráter tirânico o desconhecimento da autêntica liberdade e da autêntica amizade.

– De acordo.”

Está na hora de resumir, pois então, os traços do criminoso perfeito. Há de ser no mundo real tal como o descrevemos em fantasia.”

Se é o pior dos homens, não será também o mais desgraçado, e não o será tanto mais quanto maior for o tempo e maior for a intensidade em que desempenhou a tirania? Porém sabes que o vulgo tem opinião distinta a esse respeito!”

E que tal se supusermos por um momento que nós mesmos podemos julgar o caso, pois vivêramos entre tiranos; precisamos fazer essa encenação, para imaginar alguém que nos respondesse!”

Trancafiado em seu palácio, como uma mulher, o tirano inveja a felicidade dos súditos, pois muitos deles empreendem viagens, e o tirano decerto é alguém que necessita constantemente estimular e excitar sua curiosidade vendo novos objetos exteriores.”

sendo incapaz de dirigir-se a si mesmo, terá de conduzir os demais. Compartilha a condição do doente que, sem ter ele mesmo forças, é compelido a, em vez de repousar, queimar sua vida em combates atléticos.”

SÓCRATES – Semelhante condição não é a mais triste imaginável? Mas ser tirano no lugar dum mero moribundo não multiplica várias vezes esse estado de desgraça, daquele sujeito que considerávamos já o campeão em desgraça e infortúnio?

GLAUCO – Disseste-o bem, Sócrates.

SÓCRATES – Sendo assim, quaisquer que sejam as aparências externas, o tirano não passa de escravo, escravo submetido à mais inclemente servidão, o adulador oficial do que existe de mais abjeto na sociedade. Impossibilitado de chegar à satisfação de seus desejos, sempre lhe faltará muito mais do que ele tem, por mais que seja muito rico e tenha muitas coisas. (…) ele viverá sempre alarmado, vítima de grandes sofrimentos e angústias”

Podemos resumir dizendo que há três caracteres de homens: o filosófico, o ambicioso e o avaro? (…) Se tu perguntasses a cada um desses três em particular: Qual é a vida mais feliz? Já sabes por antecipação o que cada um deles diria. O avaro decerto colocará o prazer do lucro sobre todos os demais, desprezando a sabedoria e as honras, isto é, como fins; porque não se descarta que podem ser meios para a obtenção de mais dinheiro.

Que dirá o ambicioso, por seu turno? Não achará vil e indigno acumular tesouros, e vaidade o estudo, a não ser que obter algum tesouro e adquirir algum conhecimento lhe facultem a glória e a honra, reputação, enfim?

Quanto ao filósofo, o últimos dos três, é seguro que não dá valor a nada que não seja o prazer que lhe proporciona o conhecimento da verdade tal qual é, bem como sua aplicação contínua neste mesmo estudo; quanto aos demais prazeres listados, o filósofo prefere chamá-los necessidades materiais, ou seja, deles ele vai atrás somente naquele quinhão indispensável à subsistência.”

[comentário pessoal] Minha reputação é nula, meu patrimônio inexistente, e quanto ao que eu sei, nem eu mesmo posso medir o quanto eu sei; as traças o saberão melhor depois que eu partir. Fica o meu legado, semi-invisível.

CAMALEOMEM: “desde a infância o filósofo encontra-se em posição de buscar outros prazeres que não os da inteligência, uma vez que todo trabalho tem sua folga”

GLAUCO – (…) avaliador soberano das coisas que é, o homem inteligente exalta sua própria vida.

SÓCRATES – Que tipo de existência e que prazeres deverão estar em segundo na hierarquia?

GLAUCO – Os do guerreiro e do ambicioso, os quais estão tão próximos do filósofo quanto o homem <interessado>, o último da escala, se encontra próximo deles mesmos.

SÓCRATES – Segundo tudo que vês, o avaro corresponderá ao último patamar da existência.”

SÓCRATES – Não existe um estado em que não se experimenta nem prazer nem dor?

GLAUCO – Sim, sem dúvida se o reconhece.

SÓCRATES – Esse estado, que é uma espécie de meio-termo entre dois antípodas extremos, não consiste em certo repouso d’alma com referência ao estado habitual dos outros? Que te parece?

GLAUCO – Me parece adequado que fales assim.

SÓCRATES – És capaz de lembrar o que dizem os doentes em suas crises?

GLAUCO – Não, Sócrates; que é que dizem?

SÓCRATES – Que o maior bem é a saúde, mas que não sabiam disso antes de ficar doentes.

GLAUCO – Ah, sim, perfeitamente.

SÓCRATES – Não ouves de quem sofre de dor que nada há de mais agradável e terno que a cessação dessa mesma dor?

GLAUCO – Sim, ouço.

SÓCRATES – E observarás, creio eu, que em todas as circunstâncias da vida não é o prazer o objetivo dos homens sofredores, mas tão-só a supressão da dor e o repouso.”

Em todas essas aparências não há prazer real; tudo isto não é mais que uma alucinação.”

Seria acaso inquietante que essa gente que nunca experimentou o verdadeiro prazer e que não considera o prazer senão negativamente (pelo contraste entre a dor e a ausência da dor) se engane em seus juízos? Mal comparando, não estariam na mesma situação de alguém que, ao desconhecer a cor branca, pensasse ser o cinza o contrário do preto? Que achas?”

SÓCRATES – Encara agora ao revés esta progressão: se desejarmos averiguar em quantos graus o prazer do rei é mais verdadeiro que o do tirano, resultará, feito o cálculo, que a vida do rei é 729x(*) mais grata que a do tirano, e que a deste último é mais ingrata que a do rei nesta mesma proporção.

GLAUCO – Acabas de encontrar, mediante uma fórmula surpreendente, o intervalo numérico que separa, em termos de prazer e dor, o homem justo do injusto!”

(*) “A felicidade do tirano tem 3x menos realidade que a do oligarca; a do oligarca, 3x menos que a do rei; logo, a felicidade do tirano tem 9x menos realidade que a do rei. O número 9 é plano,¹ sendo o quadrado de 3. Em seguida, Platão, considerando estas duas felicidades (uma real, outra aparente) como dois sólidos de dimensões inteiramente proporcionais entre si, com suas distâncias em relação à realidade – representadas pelos números 1 e 9, respectivamente² – compondo cada uma das dimensões da figura tridimensional (lembrando que se trata do cubo, então as três medidas de cada cubo são idênticas), a fim de encontrar a razão entre ambos os sólidos, procede ao cálculo do volume de cada cubo, em unidade numérica pura, i.e.:

1x1x1=1

e

9x9x9=729

¹ Número plano: que possui uma raiz quadrada racional: 1, 4, 9, 16, 25, 36, 49, 64 (= 4³), 81 (= 9³)…

² Por que 9? Porque é o produto encontrado acima, a conversão no mundo físico (em verdade, aritmético, mas que exige a demonstração geométrica primeiro, etapa que aqui suprimimos dada sua simplicidade para o leitor atual) da distância entre as felicidades do rei e do tirano. Se a pergunta retroagir para “por que 3 é o número que simboliza a distância entre a felicidade de dois políticos de governos considerados vizinhos hierarquicamente (recapitulando: monarquia–oligarquia–tirania do melhor para o pior)?”, a resposta é simples: porque a geometria euclidiana o exige: o espaço possui 3 dimensões.

Já a realidade é Um por definição (igual a si mesma).

– Se alguém soubesse que uma coisa necessariamente acompanha a outra, aumentaria suas riquezas até o infinito para aumentar seus males na mesma proporção?

– Duvido muito.”

– Esse alguém que atingiu a sabedoria terá gosto pelo governo do próprio Estado interior (a alma); mas, quanto ao governo de sua pátria, duvido que lhe apetecesse, a menos que sucedera algo de verdadeiramente divino no mundo exterior.

– Entendo, Sócrates: quando dizes <divino> neste contexto, falas somente em caso de surgimento daquele Estado que cogitáramos durante toda esta nossa conversação e que por ora só existe em nosso pensamento; já disseste que não crês na possibilidade deste Estado sobre a terra.

– Mas pelo menos há, talvez, no céu um modelo para quem quiser fitá-lo e fundar, a sua imagem e semelhança, sua cidade interior. Além do mais, pouco importa se existe ou não tal Estado, ou que ele jamais haja de existir sobre a terra; o certo é que o verdadeiramente sábio não consentirá jamais em governar outro Estado senão esse.

– É bastante provável.”

A REPÚBLICA – Livro VIII

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

O primeiro tipo de governo, e também o mais elogiado, é aquele em vigor em Creta e em Esparta. O segundo tipo, que ocupa outrossim o segundo posto em fama e reputação, é a oligarquia, governo exposto a um grande número de vícios. O terceiro tipo, oposto por inteiro ao segundo, é a democracia. Em seguida vem a <gloriosa> tirania, que se sobressai sobre todos os outros três tipos no quesito <enfermidades que podem contaminar um Estado>.”

Procuremos, desta feita, explicar como podem surgir a aristocracia e a timocracia.¹ Não é certo que, em geral, as trocas de todo governo político se originam no próprio partido que governa, assim que nele se suscita alguma cisão, e que, por pequeno que se suponha este partido, enquanto mantenha em seu seio a harmonia, é impossível que inovações possam tomar conta do Estado?”

¹ Timocracia ou timarquia: Trata-se da forma de governo deixada sem nome atribuída logo acima a Creta e Esparta, os melhores tipos “mundanos” de governo (enquanto não se puder atingir a República ideal). Este nome caiu em desuso a despeito da obra platônica, e no dicionário português hoje é considerado depreciativo (governo viciado em honrarias). É difícil diferenciá-lo, ademais, do conceito de aristocracia, se não se recorrer à própria exposição platônica. Atrelar esse tipo de Estado unicamente à disciplina bélica seria um estereótipo inaceitável, quase equiparar esta forma de governo ao que consideramos (muito influenciados pelos helenos, aliás) os governos dos “povos bárbaros”. Como se perdeu a noção de valor não-corrompida pela própria degradação da noção de valor, realmente seria uma contradição caso essa nomenclatura fosse intuitiva e apreendida de forma imediata.

O natural do Estado estabilizado não é o movimento; porém, como tudo o que nasce está destinado a perecer, este, como qualquer outro sistema de governo, não pode durar indefinidamente. Não só a planta que nasce do seio da terra, mas também a alma e o corpo dos animais que vivem sobre essa mesma superfície, sofrem mudanças do estado fértil ao infértil e vice-versa. Cada espécie está submetida a um ciclo ou revolução periódica, terminando e recomeçando sem cessar sua trajetória de vida. O que diferencia uma espécie da outra é tão-somente a duração desse ciclo.(*)”

(*) “Nesta passagem platônica, denominada pelos comentadores como <o discurso das Musas>, ou <discurso do número nupcial>, faz-se referência a um número para o qual parece impossível encontrar qualquer sentido racional, e cuja obscuridade tornou-se até proverbial. Alguns autores calculam-no como sendo 12.960.000, o que corresponderia ao número de dias do <grande ano> astronômico (36 mil anos de 360 dias).

Mesclando-se o ferro com a prata e o bronze com o ouro, resultam a inconveniência, a irregularidade e a desarmonia, defeitos que, onde quer que apareçam, engendram sempre a inimizade e a guerra.”

Uma vez produzida a dissensão, as raças de ferro e de bronze tratavam de enriquecer materialmente e adquirir cada vez mais terras, edificações, ouro e prata, ao passo que as raças de ouro e prata, ricas de natureza, jamais estando desprovidas, buscavam conduzir a alma à virtude e fazer perdurar a constituição primitiva. Depois de muitas lutas e violência recíproca, convieram em dividir as terras e as casas, destinando como escravos ao cuidado de suas terras e casas o restante dos cidadãos, a quem consideravam mais como homens livres, propriamente, espécies de amigos e provedores de seu sustento, continuando eles mesmos a guerra e provendo a segurança comum.”

Do regime anterior, herdarão o respeito aos magistrados, a aversão típica dos guerreiros à agricultura, ofícios manuais e profissões lucrativas, bem como conservarão o costume dos banquetes públicos e o cuidado da prática de exercícios ginásticos e militares.

Aquilo que essa nova configuração teria de próprio não seria, então, o temor de elevar os sábios às primeiras dignidades, porque já não se formarão em seu seio os caracteres de uma virtude simples e pura, senão apenas elementos compósitos? Daí deriva que elegerão para os postos de comando espíritos mais fogosos e simplórios, nascidos sobretudo para a guerra, não para a paz; supervalorizarão as táticas e ardis de combate; andarão sempre armados.”

Entregues em segredo a todos os prazeres, ocultar-se-ão da lei, como um filho pródigo sói ocultar-se do pai; e tudo isto graças a uma educação fundada não na persuasão, mas na força, que despreza a verdadeira Musa, a que preside à dialética e à filosofia, e por haver-se preferido a ginástica à música.”

Terá às vezes por pai um homem de bem, cidadão de um Estado mal-governado, cidadão este que foge das honras, dignidades e magistraturas e de todas as moléstias que os cargos carregam consigo. Enfim, este cidadão prefere perder direitos a sofrer tais males.”

Não devíamos explicar, agora, como a timocracia se converte em oligarquia?”

A cota (o rendimento patrimonial) que se requer a fim de se participar da casta que comanda é mais ou menos elevada, conforme o grau do princípio oligárquico em voga (se muito acentuado ou não), e está proibido àqueles cuja renda não alcance o patamar assinalado aspirar aos cargos públicos.”

Nos Estados oligárquicos a desordem é estimulada, porque uns possuem riquezas imensuráveis enquanto outros se vêem reduzidos à miséria definitiva.”

SÓCRATES – Mas acaso não há a seguinte distinção, meu querido Adimanto: que Deus quisera que os zangões alados houvessem nascido sem ferrão, enquanto que entre os zangões de dois pés alguns o têm, e aliás pungente além do normal?”

Nada é mais veloz e violento no jovem que a transição da ambição à avareza.”

O avaro é aquele que põe as riquezas acima de tudo em questão de acumulação, mas não valoriza proporcionalmente seu dispêndio. Já viste que o avaro usa o mínimo possível de recursos naturais que tem à mão? Priva-se do que é humanamente possível e por intermédio da ganância ilimitada acaba por dominar seus próprios desejos, reputando-os insensatos.”

– Sabes para onde deves dirigir teus olhos a fim de enxergar os desejos maléficos dos homens?

– Onde?

– Para esses conselhos tutelares de órfãos ou qualquer outro lugar ou associação de pessoas onde é-se livre para agir de forma má.

– Tens razão, Sócrates,

– Não é evidente que, se em outros negócios gozam de boa reputação pela aparência de homens justos, os maus sempre contêm seus desejos insidiosos e sua imprudência violenta o quanto a necessidade lhes permite, em caráter temporário, passando a manifestá-los somente onde ninguém pode zelar pela virtude nem pela conduta mais racional nem puni-los com a perda dos bens de que desfrutam em vida?

– Isso é absolutamente certo.

– Mas quando a questão é dissipar os bens de outrem, aí, por Zeus!, nestes homens serás capaz de enxergar distintamente desejos que mais parecem pertencer a zangões.

– Estou convencido a este respeito.

– Um homem assim estará sujeito a fortes rebeliões dentro de si mesmo; como que haverá dentro de si dois homens diferentes, cujos desejos lutarão para prevalecer. De praxe, a parte melhor subjugará a outra.

– Temo que sim.

– E é por isso que vês que, em aparência, estes vilões terão aspecto de moderados e donos de si próprios, mais até que em comparação a muitos homens bons que não conseguem ocultar seus (menores) defeitos. Mas sabe tu que a verdadeira virtude, capaz de produzir a harmonia e a unidade, ainda seguirá longe de habitar na alma destes homens dissimulados.

– De fato.”

Este homem, portanto, aparece no dia-a-dia à maneira oligárquica, isto é, menos poderoso do que pode ser; assim, ele sairá derrotado muitas vezes diante dos olhos do público, mas, como o que nele predomina é a avareza, seguirá sendo rico, e eis o que lhe importa.”

Tudo isto faz com que haja no Estado indivíduos dotados de ferrões, uns oprimidos pela dúvida, outros despojados de seus direitos e alguns padecendo de ambos ao mesmo tempo; mas o que é certo é que todos esses sujeitos-zangões estão em perpétua hostilidade contra aqueles que ficaram ricos pondo a mão em suas fortunas, sem escrúpulos de consciência; em hostilidade também para com o cidadão comum, que é bem diferente dele; o que o zangão quererá, no fim, será promover uma revolução.

– Disseste-o bem.

– E enquanto isso lá se vão os negociantes na rua, de cabeça baixa, pensando só em si mesmos e no próprio lucro; os comerciantes são outros zangões, que ferem com o aguilhão do dinheiro todos que estiverem indefesos a seu alcance; e quanto mais prevalecem os interesses mercantis no Estado, mais se vêem zangões e pobres.”

– Que espécie de lei poderia tentar remediar o mal nesse Estado?

– Na falta de remédio melhor, uma que caberia seria aquela que forçasse o cidadão a preocupar-se com sua virtude. Vê: se os contratos voluntários se celebrassem por conta e risco exclusivos do prestamista,¹ a usura se exerceria com menos descaro e este mal da avareza não proliferaria tanto.”

¹ Platão quer dizer: o Estado nada terá que ver com esta dívida; não usará sua força de polícia, mandando prender, castigar ou executar devedores. A possibilidade do calote será inerente ao ato de empréstimo. O particular que emprestou dinheiro que resolva o problema sozinho, e quem busca fazer justiça com suas mãos deverá se preparar para a legítima defesa de seus alvos.

os ricos, sendo assim, nenhum motivo têm para desprezar os pobres. Pelo contrário: um pobre, adelgaçado e amorenado de tanto se expor ao sol, quando cotejado com o rico, educado, pálido e gordo, em meio à guerra, no momento em que ambos defendem sua polis, parece mais ser digno de inveja do que lastimado, exibindo uma espécie de alegria secreta estimulada pelo sofrimento e pesar, ao passo que o rico ao menor esforço já se encontra exausto!”

O governo se faz democrático quando os pobres, obtendo a vantagem sobre os ricos, degolam alguns deles, desterram outros, repartem com os que foram poupados os cargos da administração; quinhão que, aliás, nestes governos, costuma-se determinar por sorteio.”

– Não serão, antes, homens livres num Estado repleto de liberdade e franqueza, e não terá cada um a liberdade de fazer o que lhe der na veneta?

– Se tu dizes…

– Mas onde quer que impere essa licença, é claro que cada cidadão dispõe de si mesmo e escolhe a seu bel prazer o gênero de vida que mais lhe agrada!

– É evidente.

– Portanto, será este o regime com mais diferenciações de classes.

– Como não?

– E eis que, em verdade, esta forma de governo tem a aparência de ser a mais bela de todas, e não deixa de desencadear um efeito admirável essa diversidade prodigiosa de caracteres, exatamente como as flores bordadas que fazem ressaltar a beleza de uma pintura. Bom, pelo menos será a forma mais bela de governo para aqueles que julgam as coisas como as mulheres e as crianças quando se admiram com as mais tresloucadas misturas de objetos.”

Se quisera alguém formar um plano de Estado, como fizemos até aqui, nada mais teria de fazer senão trasladar-se a qualquer Estado democrático, pois aí se encontra um mercado em que se vendem características de todos os regimes existentes.”

E, julgando à primeira vista, não é bastante cômodo e agradável não ser-se obrigado a desempenhar um cargo público, ainda que se possua os méritos requeridos? Não estar submetido a nenhuma autoridade, em caso de não querer; escolher se vai ou não à guerra; e estar em guerra e discórdia, ainda que os outros estejam em paz, bastando para isso desejá-lo; poder ser juiz e magistrado, por mais que a lei proíba o exercício dessas funções, caso a isso se ambicione?”

– Ah, com que magnífica indiferença se pisoteiam todas essas máximas – sem mesmo se dar ao trabalho de examinar qual foi a educação dos que gerem a coisa pública! E que empenho, na contramão, em acolher e honrar os políticos que lisonjeiam a plebe e se declaram amigos do povo!

– Um nobre regime, sem dúvida, tsc!

– Tais são, e não só!, as características da democracia: um governo extremamente cômodo, sem mando algum”

O desejo por toda sorte de comidas e quitutes e temperos, desejo reprimível, mediante uma boa educação desde a mocidade, desejo daninho ao corpo e à alma, à razão e à temperança, não deve ser compreendido com razão entre os desejos supérfluos?”

Algumas vezes sucede da facção democrática ceder ante a oligárquica, e então certos desejos são em parte destruídos e em parte arrancados d’alma, em decorrência de um pudor que é despertado no jovem, que através desse acidente reentra nas sendas no saber.

E no entanto, devido à má educação que recebeu de seu pai, novos desejos, mais fortes e numerosos, sucedem aos que haviam sido exilados.”

Eis aí quando voltam a se juntar aos comedores de lótus,(*) sem nem ao menos se envergonharem por isso!”

(*) “Ver o episódio dos <lotófagos> na Odisséia: o fruto que faz perder a memória.”

encobre-se a fealdade com os nomes mais preciosos: a insolência vira <boa educação>; anarquia vira <liberdade>; devassidão vira <magnificência>; desfaçatez vira <valor>.”

Carpe diem! O primeiro desejo a aparecer é o primeiro a ser cumprido. Hoje tem desejo de se embriagar ouvindo canções báquicas? Fá-lo. E amanhã lhe ocorre de jejuar e nada beber senão água. Uma hora gasta as energias na ginástica; na outra põe-se ocioso, despreocupado de tudo. Ora é filósofo, ora <homem de Estado>, sobe à tribuna, fala e age sem saber o que fala e o que faz. Num dia inveja a condição dos guerreiros e alista-se soldado; noutro, vira comerciante, porque tinha desenvolvido inveja dos comerciantes. Em suma, sua conduta é totalmente frouxa e inconsistente; e chama a tudo isso de <vida livre e prazenteira, vida feliz>!

– Ó, Sócrates, parece que pintaste com palavras a vida de um amante da igualdade!”

– Vejamos, meu querido, agora, como se forma o governo tirânico; tudo indica que se origina das democracias.

– Decerto.

– A passagem da democracia à tirania não se assemelha um tanto à passagem da oligarquia à democracia?

– Não entendo.

– O que na oligarquia se considera o maior bem, e o que, pode-se dizer, é a origem desta forma de governo, é a riqueza; concordas?

– Sim.

– O que causa sua ruína, porém, não é o próprio desejo de enriquecer tornado insaciável, o que causa uma indiferença letal a todas as outras coisas?

– Tens razão.

– Do mesmo modo, a causa da ruína de uma democracia é o desejo insaciável do que ela vê como seu maior bem.

– E que bem é esse?

– A liberdade. Num Estado democrático ouve-se por todos os cantos que a liberdade é o mais precioso dos bens e, por isso, o homem que nasceu livre sempre escolherá ali fixar sua residência.

– De fato, Sócrates, isso se ouve muito nas ruas.

– Mas não é justamente esse amor desenfreado à liberdade, acompanhado invariavelmente da mais extremada indiferença a tudo o mais, o que leva à decadência inelutável deste regime, despertando, por assim dizer, a tirania?

– Explica esta etapa melhor, Sócrates.

– Quando um Estado democrático, devorado por uma sede ardente de liberdade, é governado por maus escanceadores,¹ que derramam a bebida chamada liberdade pura, enchendo as taças e fazendo todos os convivas beberem copiosamente até a embriaguez. Daí em diante, o bêbado que pede mais e mais, caso não creia que o governante é liberal o suficiente com seu quinhão de liberdade, acusa e castiga qualquer <inimigo da liberdade> que não queira fazê-la jorrar; estes são considerados os maiores traidores da pátria e são tachados de reacionários, que desejam voltar aos tempos de oligarquia e restabelecer privilégios exclusivos.

– Não posso tirar nem pôr de nada do que disseste.

– E com igual desprezo tratam aqueles que ainda mostram algum respeito e submissão aos magistrados, atirando-lhes na cara que os magistrados para nada servem; que, em si, todo servidor público não passa de um escravo voluntário. Neste ponto, o homem típico exalta, seja na vida pública ou na vida privada, a igualdade suprema, quando magistrados não podem estar num patamar superior ao do cidadão comum. Num Estado tal, não deveria ser uma regra a extensão da liberdade total a todo e qualquer um?

– Ora, Sócrates, absolutamente!

– Não penetrará a anarquia no seio das famílias; não se alastrará mesmo até o reino animal?

– Não entendo o que acabaste de dizer!”

¹ Termo em desuso: quem serve vinho; mal e mal poderíamos adaptar para “garçom” ou quiçá “mordomo” nesta frase.

os professores temem e bajulam seus alunos; estes ridicularizam seus mentores e responsáveis. (…) Os velhos, por sua vez, condescendentes com os jovens, tornam-se jocosos e piadistas, a fim de imitar suas maneiras, temendo passar por caracteres demasiado altaneiros e despóticos.

Mas sem dúvida o abuso mais intolerável que a liberdade introduz na democracia é os escravos de ambos os sexos não serem menos livres que aqueles que os compraram. Ah, quase me esquecia de descrever o grau de liberdade e igualdade que alcançam as relações entre o homem e a mulher!”

são os animais domésticos mais livres neste governo que em nenhum outro. As cadelas, como diz o provérbio, ficam parecidas com as donas; e os cavalos e asnos, acostumados a caminhar de cabeça erguida e sem reverência, não seriam os primeiros a dar licença, num caminho estreito.”

não se pode incorrer num excesso sem se arriscar a cair no excesso contrário.”

– É evidente, pois, que é dessa estirpe de protetores (populistas) que nasce o tirano, dela e somente dela.

– Nada mais indiscutível.

– Mas por que o <protetor do povo> começa a se fazer tirano? Não seria porque começa a fazer parecido com o que dizem que se passava na Arcádia, no templo de Zeus Liceu?

– E o que é que dizem que ali se passava?

– Dizem¹ que quem ali comia entranhas humanas, mescladas com os restos de outros sacrifícios animais, se convertia logo em lobo. Nunca ouviste falar disso?

– Já, sim.

– De forma afim, quando o protetor do povo vê que este se encontra completamente submisso a suas vontades, empapa suas mãos no sangue dos seus próprios concidadãos. Utiliza-se de acusações caluniosas para se livrar de seus oponentes nos tribunais corrompidos, fazendo-os ser condenados sem fundamento, banhando sua língua de déspota e sua boca imunda com o sangue de seus irmãos, valendo-se da lei do exílio e das forjas e correntes. Propõe a abolição das dívidas e uma reforma agrária. Não seria uma necessidade, neste caso, para um tal caráter, perecer nas mãos dos inimigos ou, se quiser sobreviver, tornar-se tirano do Estado, convertendo-se no lobo do homem?

¹ Não é somente uma lenda de Platão ou mera crença popular tirada do vazio, ou pelo menos são dados compartilhados por outros autores, como Pausânias, livro 7.

O exilado de hoje é o tirano de amanhã.”

Se nem mesmo a classe no poder inteira consegue banir ou incapacitar seu adversário, muito menos condená-lo à morte, acusando-o como <inimigo do povo>, é natural pensar que atentarão contra sua vida nas sombras.

O homem ambicioso que já houver chegado a tal extremo aproveitará a ocasião para fazer ao povo uma petição. Pedir-lhe-á uma guarda pessoal, destinada, afinal, a proteger o protetor do povo!”

Quando as coisas já chegaram a esse ponto, todo homem que possui grandes riquezas – e que por essa razão passa por inimigo do povo – toma para si o oráculo dirigido a Creso: foge seguindo o rio Hermos, de leito pedregoso, e não teme o rótulo de covarde.(*)”

(*) “Ver Heródoto para mais detalhes.”

o protetor do povo destrói à esquerda e à direita todos aqueles de quem desconfia, para depois se declarar tirano abertamente.”

E não sorri graciosamente a todos que encontra, logo nos primeiros dias de sua dominação? E não diz que, nem de longe, sonha em ser tirano? Não faz as mais pomposas promessas em público e em particular, perdoando todas as dívidas, repartindo a terra entre o povo e os seus favoritos, e tratando todo mundo com benevolência e mansidão?”

– …e tem o cuidado de conservar sempre algumas sementes de guerra para que o povo sinta a necessidade de um chefe.

– É natural.

– Principalmente para que os cidadãos – empobrecidos pelos impostos de guerra – só pensem nas suas necessidades diárias, sem tempo para conspirar contra ele.

– Obviamente.

– E também faz isso, creio eu, para ter um meio seguro de desfazer-se dos de coração demasiado altivo para que se submetam a sua vontade, expondo-os aos ataques do inimigo.”

– O problema é que semelhante conduta só pode torná-lo mais e mais odioso ao cidadão.

– E não me estranha!

– E alguns daqueles que ajudaram em sua ascensão, os dotados de mais autoridade depois dele mesmo, não se dirigirão a ele e não falarão entre si com demasiada liberdade sobre o que se passa, tratando inclusive de censurá-lo? Isto é, penso eu que ao menos os mais atrevidos o farão.

– Imagino que sim.

– E então é preciso que o tirano se livre deles caso queira reinar tranqüilo; sem distinguir amigo de inimigo, ele faz com que desapareçam todos os homens possuidores de algum mérito.

– Isso é evidente.”

Faz justamente o contrário dos médicos, que purgam o corpo excretando o mal para conservar o bem.”

Vês que ele vive premido sem trégua pela necessidade de perecer ou então viver ao lado da canalha, e é inevitável que a canalha o aporrinhe bastante!”

– Ao formar sua guarda pessoal, um expediente que sói usar é recrutar escravos, a quem assegura que serão livres assim que o ajudarem a matar seus senhores.

– E faz muito bem, já que tais escravos lhe seriam inteiramente fiéis.

– Vês como é feliz a condição do tirano, que se vê obrigado a destruir cidadãos e a estabelecer a amizade com escravos, daqui em diante seus fiéis servidores!”

É com razão que se exalta a tragédia como uma escola de sabedoria, particularmente as de Eurípides, não achas? Porque Eurípides cunhou esta profunda máxima: os tiranos se fazem sábios mediante o trato com os sábios. Com isso ele quis dizer que os que compõem sua sociedade são muito espertos!

– Reconheço que Eurípides e os outros poetas qualificam a tirania como <divina> em muitas passagens de suas obras.

– Mas como os poetas trágicos são, eles também, sábios, não perdoarão que em nosso Estado, e em todos aqueles governados segundo os nossos princípios, recuse-se admiti-los no governo, uma vez que não passam de bajuladores!”

– Chamas ao tirano <parricida> e <perverso inimigo da velhice>? Mas eis que essas palavras resumem a tirania! O povo, querendo evitar a servidão dos homens livres, acaba sucumbindo ao despotismo dos próprios escravos. Vê-se, então, que a subserviência mais dura e mais amarga é a conseqüência lógica e natural de uma liberdade excessiva e desordenada: a escravidão sob um bando de escravos.”

HENRY IV

Depois de pacificar a terra arrasada pelos desmandos de Ricardo II, Henrique IV encontra uma série de problemas, dentre os quais, os próprios sobrinho e filho, este último o Príncipe de Gales. Um príncipe, como se há de ver, MinúsculO, com o perdão da expressão, e que porta nas entranhas o próprio pai, curiosa inversão (ele tem um rei na barriga). Mas será situação irreversível e incontornável?

KING HENRY IV

But I have sent for him to answer this;

And for this cause awhile we must neglect

Our holy purpose to Jerusalem.

Cousin, on Wednesday next our council we

Will hold at Windsor; so inform the lords:

But come yourself with speed to us again;

For more is to be said and to be done

Than out of anger can be uttered.

WESTMORELAND

I will, my liege.

PRINCE HENRY

Thou art so fat-witted, with drinking of old sack

and unbuttoning thee after supper and sleeping upon

benches after noon, that thou hast forgotten to

demand that truly which thou wouldst truly know.

What a devil hast thou to do with the time of the

day? Unless hours were cups of sack and minutes

capons and clocks the tongues of bawds and dials the

signs of leaping-houses and the blessed sun himself

a fair hot wench in flame-coloured taffeta, I see no

reason why thou shouldst be so superfluous to demand

the time of the day.”

PRÍNCIPE HENRIQUE

Você é tão destemperado, só pensa nesse vinho envelhecido e em desabotoar a camisa depois do almoço e em fazer a sesta na poltrona; tanto é assim que já esqueceu das coisas que não se esquece, e agora me pergunta coisas óbvias. Que diabos tem você com a hora do dia? Que t’importa isto? Só mesmo se as horas fossem taças de vinho e minutos codornas e relógios prostitutas e ponteiros letreiros de puteiro e o santo sol a própria grande e excitante puta da casa, caliente e num vestido de tafetá cor-de-fogo, só mesmo assim veria eu razão na sua leviandade em perguntar QUE HORAS SÃO?.

Com toda sua graça em forma de manteiga, não se frita nem um ovo!

FALSTAFF [o Fanffarrão]

(…) let us be Diana’s foresters, gentlemen of the shade, minions of the moon; and let men say we be men of good government, being governed, as the sea is, by our noble and chaste mistress the moon, under whose countenance we steal.”

FALSTAFF

By the Lord, thou sayest true, lad. And is not my

hostess of the tavern a most sweet wench?

PRINCE HENRY

As the honey of Hybla, my old lad of the castle. And

is not a buff jerkin a most sweet robe of durance?

FALSTAFF

How now, how now, mad wag! what, in thy quips and

thy quiddities? what a plague have I to do with a

buff jerkin?

PRINCE HENRY

Why, what a pox have I to do with my hostess of the tavern?

FALSTAFF

Well, thou hast called her to a reckoning many a

time and oft.

PRINCE HENRY

Did I ever call for thee to pay thy part?

FALSTAFF

No; I’ll give thee thy due, thou hast paid all there.

PRINCE HENRY

Yea, and elsewhere, so far as my coin would stretch;

and where it would not, I have used my credit.

(…)

FALSTAFF

(…) Do not thou, when thou art king, hang a thief.

PRINCE HENRY

No; thou shalt.

FALSTAFF

Shall I? O rare! By the Lord, I’ll be a brave judge.

PRINCE HENRY

Thou judgest false already: I mean, thou shalt have

the hanging of the thieves and so become a rare hangman.

FALSTAFF

Well, Hal, well; and in some sort it jumps with my

humour as well as waiting in the court, I can tell

you.”

A sabedoria grita nas ruas mas nenhum homem presta atenção.

Coisa espalhafatosa não pode ser boa!

Antes de conhecer você eu não sabia de nada.

Agora, veja você, sou pouco menos que um velhaco!

Mas chega! chega de ser bebum

tenho que tomar um rumo

Vadiar é minha vocação

E não é pecado dedicar-se ao seu talento nato

Portanto, vade ao ar, que serás recompensado!

Ó, se o homem há de ser salvo pelo mérito,

Em que círculo do Inferno caberás tu e tua vilania?

Ainda não cavaram tão profundo!

Incrível como a continuação de uma tragédia (ou pelo menos vendeta) seja, em Shakespeare, sem problemas de transição, uma comédia:

PRINCE HENRY

Good morrow, Ned.

POINS

Good morrow, sweet Hal. What says Monsieur Remorse?

what says Sir John Sack and Sugar? Jack! how

agrees the devil and thee about thy soul, that thou

soldest him on Good-Friday last for a cup of Madeira

and a cold capon’s leg?”

POINS

But, my lads, my lads, to-morrow morning, by four

o’clock, early at Gadshill! there are pilgrims going

to Canterbury with rich offerings, and traders

riding to London with fat purses: I have vizards [disfarces]

for you all; you have horses for yourselves:

Gadshill lies to-night in Rochester: I have bespoke

supper to-morrow night in Eastcheap: we may do it

as secure as sleep. If you will go, I will stuff

your purses full of crowns; if you will not, tarry

at home and be hanged.

FALSTAFF

Hear ye, Yedward; if I tarry at home and go not,

I’ll hang you for going.

POINS

You will, chops?

FALSTAFF

Hal, wilt thou make one?

PRINCE HENRY

Who, I rob? I a thief? not I, by my faith.

FALSTAFF

There’s neither honesty, manhood, nor good

fellowship in thee, nor thou camest not of the blood

royal, if thou darest not stand for ten shillings.

PRINCE HENRY

Well then, once in my days I’ll be a madcap.

FALSTAFF

Why, that’s well said.

PRINCE HENRY

Well, come what will, I’ll tarry at home.

FALSTAFF

By the Lord, I’ll be a traitor then, when thou art king.

PRINCE HENRY

I care not.

POINS

Sir John, I prithee, leave the prince and me alone:

I will lay him down such reasons for this adventure

that he shall go.

FALSTAFF

Well, God give thee the spirit of persuasion and him

the ears of profiting, that what thou speakest may

move and what he hears may be believed, that the

true prince may, for recreation sake, prove a false

thief; for the poor abuses of the time want

countenance. Farewell: you shall find me in Eastcheap.”

POINS [privately to the prince]

Falstaff, Bardolph, Peto and Gadshill

shall rob those men that we have already waylaid:

yourself and I will not be there; and when they

have the booty, if you and I do not rob them, cut

this head off from my shoulders.”

POINS

Tut! our horses they shall not see: I’ll tie them

in the wood; our vizards we will change after we

leave them: and, sirrah, I have cases of buckram [capas de couro]

for the nonce, to immask our noted outward garments.”

Yet herein will I imitate the sun,

Who doth permit the base contagious clouds

To smother up his beauty from the world,

That, when he please again to be himself,

Being wanted, he may be more wonder’d at,

By breaking through the foul and ugly mists

Of vapours that did seem to strangle him.

If all the year were playing holidays,

To sport would be as tedious as to work;

But when they seldom come, they wish’d for come,

And nothing pleaseth but rare accidents.

So, when this loose behavior I throw off

And pay the debt I never promised,

By how much better than my word I am,

By so much shall I falsify men’s hopes;

And like bright metal on a sullen ground,

My reformation, glittering o’er my fault,

Shall show more goodly and attract more eyes

Than that which hath no foil to set it off.

I’ll so offend, to make offence a skill;

Redeeming time when men think least I will.”

SOL & CONTEMPLAÇÃO

Imitarei o sol,

Que dá licença para as vulgares e licenciosas nuvens

Eclipsarem sua beleza para o mundo,

E que, quando deseja de novo ser si mesmo,

Sendo por todos ansiado, é ainda mais festejado

Ao romper por entre o feio e sórdido véu

De vapores que pareciam ter seus raios estrangulado.

Se o ano todo fossem rejubilantes feriados,

Recrear-se seria tedioso como trabalhar;

Mas quando eles vêm raro, são bastante esperados,

E acolhidos como dádiva oportuna.

É assim então que,

Quando eu deitar de lado a folga,

Deixando de ser sempre folgado,

Pagando de modo inesperado

A dívida da qual era o tributário,

Quão melhor não me mostrarei

Que meu próprio hábito,

Tanto me esforcei para frustrar expectativas!

E como metal brilhante em solo esquálido,

Minha redenção, contrastando com minhas faltas,

Parecerá ‘inda melhor e atrairá muito mais fãs

Que as qualidades constantes, sem máscara.

Ofenderei os olhos e o tato com cuidado

Par’enfim converter a ofensa em agrado,

Recuperando o que já davam por perdido.

(Tradução do monólogo do Príncipe Henrique, no final da CENA II, PRIMEIRO ATO.)

KING HENRY IV

Let me not hear you speak of Mortimer:

Send me your prisoners with the speediest means,

Or you shall hear in such a kind from me

As will displease you. My Lord Northumberland,

We licence your departure with your son.

Send us your prisoners, or you will hear of it.”

HOTSPUR [o sobrinho sedioso]

But I will lift the down-trod Mortimer

As high in the air as this unthankful king,

As this ingrate and canker’d Bolingbroke.”

HOTSPUR

He will, forsooth, have all my prisoners;

And when I urged the ransom once again

Of my wife’s brother, then his cheek look’d pale,

And on my face he turn’d an eye of death,

Trembling even at the name of Mortimer.

EARL OF WORCESTER

I cannot blame him: was not he proclaim’d

By Richard that dead is the next of blood?”

HOTSPUR

But soft, I pray you; did King Richard then

Proclaim my brother Edmund Mortimer

Heir to the crown?

NORTHUMBERLAND

He did; myself did hear it.”

HOTSPUR

All studies here I solemnly defy,

Save how to gall and pinch this Bolingbroke:

And that same sword-and-buckler Prince of Wales,

But that I think his father loves him not

And would be glad he met with some mischance,

I would have him poison’d with a pot of ale.”

HOTSPUR

(…)

Why, what a candy deal of courtesy

This fawning greyhound then did proffer me!

Look,<when his infant fortune came to age>,

And <gentle Harry Percy>, and <kind cousin>;

O, the devil take such cozeners! God forgive me!”

EARL OF WORCESTER

Then once more to your Scottish prisoners.

Deliver them up without their ransom straight,

And make the Douglas’ son your only mean

For powers in Scotland; which, for divers reasons

Which I shall send you written, be assured,

Will easily be granted.”

HOTSPUR

Why, it cannot choose but be a noble plot;

And then the power of Scotland and of York,

To join with Mortimer, ha?

EARL OF WORCESTER

And so they shall.

HOTSPUR

In faith, it is exceedingly well aim’d.”

EARL OF WORCESTER

(…)

For, bear ourselves as even as we can,

The king will always think him in our debt,

And think we think ourselves unsatisfied,

Till he hath found a time to pay us home:

And see already how he doth begin

To make us strangers to his looks of love.”

GADSHILL

(…) I am joined with no foot-land rakers, no long-staff 6-penny strikers, none of these mad mustachio purple-hued malt-worms; but with nobility and tranquillity, burgomasters and great oneyers, such as can hold in, such as will strike sooner than speak, and speak sooner than drink, and drink sooner than pray: and yet, zounds, I lie; for they pray continually to their saint, the commonwealth; or rather, not pray to her, but prey on her, for they ride up and down on her and make her their boots.”

FALSTAFF

(…)

a plague upon it when thieves cannot be true one to another!”

LADY PERCY

Out, you mad-headed ape!

A weasel hath not such a deal of spleen

As you are toss’d with. In faith,

I’ll know your business, Harry, that I will.

I fear my brother Mortimer doth stir

About his title, and hath sent for you

To line his enterprise: but if you go,– ”

HOTSPUR

Away,

Away, you trifler! Love! I love thee not,

I care not for thee, Kate: this is no world

To play with mammets and to tilt with lips:

We must have bloody noses and crack’d crowns,

And pass them current too. God’s me, my horse!

What say’st thou, Kate? what would’st thou

have with me?”

ESPORA-QUENTE

Fora,

Fora daqui, intrigueira! Amor?! Eu não te amo,

Me fodo pra você, Kate: isso não é mundo

Para idolatrar pés-de-barros nem titilar com os lábios:

Tem que ter fogo nas ventas, cara feia, não confiar em nada,

Nem ninguém; nem em quem tem ou terá uma coroa sobre a fronte!

Deus sou eu, Eu e meu cavalo! Que diz disso, ó querida Kate?

Que merda ‘cê’inda quer comigo?”

você é constante, a sua maneira,

mas não deixa de ser mulher: em prol do sigilo,

Nada de senhoras por perto; quero crer

Que você não fala nada sobre o que não sabe;

Por isso ainda acredito em você, querida e amável

Esposa do Espora!”

PRINCE HENRY

I am now of all humours that have showed themselves

humours since the old days of goodman Adam to the

pupil age of this present twelve o’clock at midnight.”

FRANCIS

Anon, anon, sir.

Exit

PRINCE HENRY

That ever this fellow should have fewer words than a parrot, and yet the son of a woman! His industry is upstairs and downstairs; his eloquence the parcel of a reckoning. I am not yet of Percy’s mind, the Hotspur of the north; he that kills me some six or seven dozen of Scots at a breakfast, washes his hands, and says to his wife <Fie upon this quiet life! I want work.> <O my sweet Harry,> says she, <how many hast thou killed to-day?> <Give my roan horse a drench,> says he; and answers <Some fourteen,> an hour after; <a trifle, a trifle.> I prithee, call in Falstaff: I’ll play Percy, and that damned brawn shall play Dame Mortimer his wife. <Rivo!> says the drunkard. Call in ribs, call in tallow.”

there is nothing but roguery to be found in villanous man: yet a coward is worse than a cup of sack with lime in it.”

FALSTAFF

I am a rogue, if I were not at half-sword with a

dozen of them two hours together. I have ‘scaped by

miracle. I am eight times thrust through the

doublet, four through the hose; my buckler cut

through and through; my sword hacked like a

hand-saw–ecce signum! I never dealt better since

I was a man: all would not do. A plague of all

cowards! Let them speak: if they speak more or

less than truth, they are villains and the sons of darkness.

PRINCE HENRY

Speak, sirs; how was it?

GADSHILL

We four set upon some dozen–

FALSTAFF

Sixteen at least, my lord.

GADSHILL

And bound them.

PETO

No, no, they were not bound.

FALSTAFF

You rogue, they were bound, every man of them; or I

am a Jew else, an Ebrew Jew.

GADSHILL

As we were sharing, some six or seven fresh men set upon us–

FALSTAFF

And unbound the rest, and then come in the other.

PRINCE HENRY

What, fought you with them all?

FALSTAFF

All! I know not what you call all; but if I fought

not with fifty of them, I am a bunch of radish: if

there were not two or three and fifty upon poor old

Jack, then am I no two-legged creature.

PRINCE HENRY

Pray God you have not murdered some of them.

FALSTAFF

Nay, that’s past praying for: I have peppered two

of them; two I am sure I have paid, two rogues

in buckram suits. I tell thee what, Hal, if I tell

thee a lie, spit in my face, call me horse. Thou

knowest my old ward; here I lay and thus I bore my

point. Four rogues in buckram let drive at me–

PRINCE HENRY

What, four? thou saidst but two even now.

FALSTAFF

Four, Hal; I told thee four.

POINS

Ay, ay, he said four.

FALSTAFF

These four came all a-front, and mainly thrust at

me. I made me no more ado but took all their seven

points in my target, thus.

PRINCE HENRY

Seven? why, there were but four even now.

FALSTAFF

In buckram?

POINS

Ay, four, in buckram suits.

FALSTAFF

Seven, by these hilts, or I am a villain else.

PRINCE HENRY

Prithee, let him alone; we shall have more anon.

FALSTAFF

Dost thou hear me, Hal?

PRINCE HENRY

Ay, and mark thee too, Jack.

FALSTAFF

Do so, for it is worth the listening to. These nine

in buckram that I told thee of–

PRINCE HENRY

So, two more already.

FALSTAFF

Their points being broken,–

POINS

Down fell their hose.

FALSTAFF

Began to give me ground: but I followed me close,

came in foot and hand; and with a thought seven of

the eleven I paid.

PRINCE HENRY

O monstrous! eleven buckram men grown out of two!

FALSTAFF

But, as the devil would have it, three misbegotten

knaves in Kendal green came at my back and let drive

at me; for it was so dark, Hal, that thou couldst

not see thy hand.

PRINCE HENRY

These lies are like their father that begets them;

gross as a mountain, open, palpable. Why, thou

clay-brained guts, thou knotty-pated fool, thou

whoreson, obscene, grease tallow-catch,–

FALSTAFF

What, art thou mad? art thou mad? is not the truth

the truth?

PRINCE HENRY

Why, how couldst thou know these men in Kendal

green, when it was so dark thou couldst not see thy

hand? come, tell us your reason: what sayest thou to this?

POINS

Come, your reason, Jack, your reason.

FALSTAFF

What, upon compulsion? ‘Zounds, an I were at the

strappado, or all the racks in the world, I would

not tell you on compulsion. Give you a reason on

compulsion! If reasons were as plentiful as

blackberries, I would give no man a reason upon

compulsion, I.

PRINCE HENRY

I’ll be no longer guilty of this sin; this sanguine

coward, this bed-presser, this horseback-breaker,

this huge hill of flesh,–

FALSTAFF

Sblood, you starveling, you elf-skin, you dried

neat’s tongue, you bull’s pizzle, you stock-fish! O

for breath to utter what is like thee! you

tailor’s-yard, you sheath, you bowcase; you vile

standing-tuck,–

PRINCE HENRY

Well, breathe awhile, and then to it again: and

when thou hast tired thyself in base comparisons,

hear me speak but this.

POINS

Mark, Jack.

PRINCE HENRY

We two saw you four set on four and bound them, and

were masters of their wealth. Mark now, how a plain

tale shall put you down. Then did we two set on you

four; and, with a word, out-faced you from your

prize, and have it; yea, and can show it you here in

the house: and, Falstaff, you carried your guts

away as nimbly, with as quick dexterity, and roared

for mercy and still run and roared, as ever I heard

bull-calf. What a slave art thou, to hack thy sword

as thou hast done, and then say it was in fight!

What trick, what device, what starting-hole, canst

thou now find out to hide thee from this open and

apparent shame?

POINS

Come, let’s hear, Jack; what trick hast thou now?

FALSTAFF

By the Lord, I knew ye as well as he that made ye.

Why, hear you, my masters: was it for me to kill the

heir-apparent? should I turn upon the true prince?

why, thou knowest I am as valiant as Hercules: but

beware instinct; the lion will not touch the true

prince. Instinct is a great matter; I was now a

coward on instinct. I shall think the better of

myself and thee during my life; I for a valiant

lion, and thou for a true prince. But, by the Lord,

lads, I am glad you have the money. Hostess, clap

to the doors: watch to-night, pray to-morrow.

Gallants, lads, boys, hearts of gold, all the titles

of good fellowship come to you! What, shall we be

merry? shall we have a play extempore?

PRINCE HENRY

Content; and the argument shall be thy running away.

FALSTAFF

Ah, no more of that, Hal, an thou lovest me!”

BARDOLPH

Yea, and to tickle our noses with spear-grass to

make them bleed, and then to beslubber our garments

with it and swear it was the blood of true men. I

did that I did not this seven year before, I blushed

to hear his monstrous devices.

PRINCE HENRY

O villain, thou stolest a cup of sack 18 years

ago, and wert taken with the manner, and ever since

thou hast blushed extempore. Thou hadst fire and

sword on thy side, and yet thou rannest away: what

instinct hadst thou for it?”

PRINCE HENRY

(…)

How long is’t ago, Jack, since thou sawest thine own knee?

FALSTAFF

My own knee! when I was about thy years, Hal, I was

not an eagle’s talon in the waist; I could have

crept into any alderman’s thumb-ring: a plague of

sighing and grief! it blows a man up like a

bladder.”

– Quanto tempo faz, tratante, que não vês mais teu próprio joelho?

– Ah, meu joelhinho! Quando eu tinha sua idade, ‘Riquinho, e minha cintura não media nem a garra duma águia! Eu podia m’enfiar em qualquer anel-médio de gentil-homem, não duvide! Era tão espesso e denso quanto um palito-de-dente. Soprassem e eu sairia voando feito bexiga de ar quente!…”

FALSTAFF

(…) But tell me, Hal,

art not thou horrible afeard? thou being

heir-apparent, could the world pick thee out three

such enemies again as that fiend Douglas, that

spirit Percy, and that devil Glendower? Art thou

not horribly afraid? doth not thy blood thrill at

it?

PRINCE HENRY

Not a whit, I’ faith; I lack some of thy instinct.”

FALSTAFF

Shall I? content: this chair shall be my state,

this dagger my sceptre, and this cushion [almofada] my crown.

PRINCE HENRY

Thy state is taken for a joined-stool, thy golden

sceptre for a leaden dagger, and thy precious rich

crown for a pitiful bald crown!”

Give me a cup of sack to make my eyes look red, that it may be thought I have wept; for I must speak in passion, and I will do it in King Cambyses’ vein.” [O filho de Ciro]

Me dê uma taça de vinho para meus olhos parecerem vermelhos, para que se pense que eu chorei; devo falar apaixonadamente, à maneira do Rei Cambises.”

Juventude não é unha nem barba, que quanto mais se apara mais cresce vigorosa: não, não; quanto mais se desperdiça esse dom, menos desse dom se tem, meu caro! Quanto mais se é jovem, menos se é jovem, compreende-me? Aquele que passa a juventude sem ser um jovem como os outros ainda se sustém jovial por longos anos. Aquele que deita a perder sua juventude a consuma, no pior sentido possível. Quanto mais intensamente o adolescente viveu, mais o prazer ficou para trás, congelado no passado, inacessível à reprise. Tempere essa gastança hormonal!

FALSTAFF [‘rei’presentando]

That thou art my son, I have

partly thy mother’s word, partly my own opinion,

but chiefly a villanous trick of thine eye and a

foolish-hanging of thy nether lip, that doth warrant

me. If then thou be son to me, here lies the point;

why, being son to me, art thou so pointed at? Shall

the blessed sun of heaven prove a micher and eat

blackberries? a question not to be asked. Shall

the sun of England prove a thief and take purses? a

question to be asked. There is a thing, Harry,

which thou hast often heard of and it is known to

many in our land by the name of pitch: this pitch,

as ancient writers do report, doth defile; so doth

the company thou keepest: for, Harry, now I do not

speak to thee in drink but in tears, not in

pleasure but in passion, not in words only, but in

woes also: and yet there is a virtuous man whom I

have often noted in thy company, but I know not his name.”

If then the tree may be

known by the fruit, as the fruit by the tree, then,

peremptorily I speak it, there is virtue in that

Falstaff: him keep with, the rest banish. And tell

me now, thou naughty varlet, tell me, where hast

thou been this month?”

PRINCE HARRY [HENRY] [agora no papel de seu próprio pai]

Thou art violently carried away from grace:

there is a devil haunts thee in the likeness of an

old fat man; a tun of man is thy companion. Why

dost thou converse with that trunk of humours, that

bolting-hutch of beastliness, that swollen parcel

of dropsies, that huge bombard of sack, that stuffed

cloak-bag of guts, that roasted Manningtree ox with

the pudding in his belly, that reverend vice, that

grey iniquity, that father ruffian, that vanity in

years? Wherein is he good, but to taste sack and

drink it? wherein neat and cleanly, but to carve a

capon and eat it? wherein cunning, but in craft?

wherein crafty, but in villany? wherein villanous,

but in all things? wherein worthy, but in nothing?

FALSTAFF

I would your grace would take me with you: whom

means your grace?”

If sack and sugar be a fault,

God help the wicked! if to be old and merry be a

sin, then many an old host that I know is damned: if

to be fat be to be hated, then Pharaoh’s lean kine

are to be loved. No, my good lord; banish Peto,

banish Bardolph, banish Poins: but for sweet Jack

Falstaff, kind Jack Falstaff, true Jack Falstaff,

valiant Jack Falstaff, and therefore more valiant,

being, as he is, old Jack Falstaff, banish not him

thy Harry’s company, banish not him thy Harry’s

company: banish plump Jack, and banish all the world.”

Sheriff

One of them is well known, my gracious lord,

A gross fat man.

Carrier

As fat as butter.

PRINCE HENRY

The man, I do assure you, is not here;

For I myself at this time have employ’d him.

And, sheriff, I will engage my word to thee

That I will, by to-morrow dinner-time,

Send him to answer thee, or any man,

For any thing he shall be charged withal:

And so let me entreat you leave the house.”

Sheriff

Good night, my noble lord.

PRINCE HENRY

I think it is good morrow, is it not?

Sheriff

Indeed, my lord, I think it be two o’clock.”

GLENDOWER

I say the earth did shake when I was born.

HOTSPUR

And I say the earth was not of my mind,

If you suppose as fearing you it shook.

GLENDOWER

The heavens were all on fire, the earth did tremble.

HOTSPUR

O, then the earth shook to see the heavens on fire,

And not in fear of your nativity.

Diseased nature oftentimes breaks forth

In strange eruptions; oft the teeming earth

Is with a kind of colic pinch’d and vex’d

By the imprisoning of unruly wind

Within her womb; which, for enlargement striving,

Shakes the old beldam earth and topples down

Steeples and moss-grown towers. At your birth

Our grandam earth, having this distemperature,

In passion shook.

GLENDOWER

Cousin, of many men

I do not bear these crossings. Give me leave

To tell you once again that at my birth

The front of heaven was full of fiery shapes,

The goats ran from the mountains, and the herds

Were strangely clamorous to the frighted fields.

These signs have mark’d me extraordinary;

And all the courses of my life do show

I am not in the roll of common men.

Where is he living, clipp’d in with the sea

That chides the banks of England, Scotland, Wales,

Which calls me pupil, or hath read to me?

And bring him out that is but woman’s son

Can trace me in the tedious ways of art

And hold me pace in deep experiments.

HOTSPUR

I think there’s no man speaks better Welsh.

I’ll to dinner.”

GLENDOWER

I can call spirits from the vasty deep.

HOTSPUR

Why, so can I, or so can any man;

But will they come when you do call for them?

GLENDOWER

Why, I can teach you, cousin, to command

The devil.

HOTSPUR

And I can teach thee, coz, to shame the devil

By telling truth: tell truth and shame the devil.

If thou have power to raise him, bring him hither,

And I’ll be sworn I have power to shame him hence.

O, while you live, tell truth and shame the devil!

MORTIMER

Come, come, no more of this unprofitable chat.”

MORTIMER

(…)

England, from Trent and Severn hitherto,

By south and east is to my part assign’d:

All westward, Wales beyond the Severn shore,

And all the fertile land within that bound,

To Owen Glendower: and, dear coz, to you

The remnant northward, lying off from Trent.

And our indentures tripartite are drawn;

Which being sealed interchangeably,

A business that this night may execute,

To-morrow, cousin Percy, you and I

And my good Lord of Worcester will set forth

To meet your father and the Scottish power,

As is appointed us, at Shrewsbury.

My father Glendower is not ready yet,

Not shall we need his help these fourteen days.

Within that space you may have drawn together

Your tenants, friends and neighbouring gentlemen.”

HOTSPUR

Methinks my moiety, north from Burton here,

In quantity equals not one of yours:

See how this river comes me cranking in,

And cuts me from the best of all my land

A huge half-moon, a monstrous cantle out.

I’ll have the current in this place damm’d up;

And here the smug and silver Trent shall run

In a new channel, fair and evenly;

It shall not wind with such a deep indent,

To rob me of so rich a bottom here.

GLENDOWER

Not wind? it shall, it must; you see it doth.

MORTIMER

Yea, but

Mark how he bears his course, and runs me up

With like advantage on the other side;

Gelding the opposed continent as much

As on the other side it takes from you.”

HOTSPUR

Will not you?

GLENDOWER

No, nor you shall not.

HOTSPUR

Who shall say me nay?

GLENDOWER

Why, that will I.

HOTSPUR

Let me not understand you, then; speak it in Welsh.

GLENDOWER

I can speak English, lord, as well as you;

For I was train’d up in the English court;

Where, being but young, I framed to the harp

Many an English ditty lovely well

And gave the tongue a helpful ornament,

A virtue that was never seen in you.

HOTSPUR

Marry,

And I am glad of it with all my heart:

I had rather be a kitten and cry mew

Than one of these same metre ballad-mongers;

I had rather hear a brazen canstick turn’d,

Or a dry wheel grate on the axle-tree;

And that would set my teeth nothing on edge,

Nothing so much as mincing poetry:

Tis like the forced gait of a shuffling nag.”

HOTSPUR

E que sorte a minha!

Agradeço de todo coração não ter o dom;

Preferia mil vezes ser um gatinho que faz miau

Que recitar baladinhas num sarau

Decassilábicas e paraxítonas

Preferia mesmo ouvir rodar uma girândola,

Uma roda sem óleo raspando no seu eixo,

Do que esses mimos pegajosos

Chamados poesia!

É como o trote forçado de um pangaré aleijado!”

Exit GLENDOWER

MORTIMER

Fie, cousin Percy! how you cross my father!

HOTSPUR

I cannot choose: sometime he angers me

With telling me of the mouldwarp and the ant,

Of the dreamer Merlin and his prophecies,

And of a dragon and a finless fish,

A clip-wing’d griffin and a moulten raven,

A couching lion and a ramping cat,

And such a deal of skimble-skamble stuff

As puts me from my faith. I tell you what;

He held me last night at least nine hours

In reckoning up the several devils’ names

That were his lackeys: I cried <hum>, and <well, go to>,

But mark’d him not a word. O, he is as tedious

As a tired horse, a railing wife;

Worse than a smoky house: I had rather live

With cheese and garlic in a windmill, far,

Than feed on cates [gostosuras] and have him talk to me

In any summer-house in Christendom.

MORTIMER

In faith, he is a worthy gentleman,

Exceedingly well read, and profited

In strange concealments, valiant as a lion

And as wondrous affable and as bountiful

As mines of India. Shall I tell you, cousin?

He holds your temper in a high respect

And curbs himself even of his natural scope

When you come ‘cross his humour; faith, he does:

I warrant you, that man is not alive

Might so have tempted him as you have done,

Without the taste of danger and reproof:

But do not use it oft, let me entreat you.”

MORTIMER

This is the deadly spite that angers me;

My wife can speak no English, I no Welsh.”

Glendower speaks to her in Welsh, and she answers him in the same

GLENDOWER

She is desperate here; a peevish self-wind harlotry,

one that no persuasion can do good upon.

The lady speaks in Welsh

MORTIMER

I understand thy looks: that pretty Welsh

Which thou pour’st down from these swelling heavens

I am too perfect in; and, but for shame,

In such a parley should I answer thee.

The lady speaks again in Welsh

I understand thy kisses and thou mine,

And that’s a feeling disputation:

But I will never be a truant, love,

Till I have learned thy language; for thy tongue

Makes Welsh as sweet as ditties highly penn’d,

Sung by a fair queen in a summer’s bower,

With ravishing division, to her lute.

GLENDOWER

Nay, if you melt, then will she run mad.

The lady speaks again in Welsh

MORTIMER

O, I am ignorance itself in this!”

The music plays

HOTSPUR

Now I perceive the devil understands Welsh;

And ‘tis no marvel he is so humorous.

By’r lady, he is a good musician.”

Você jura como a mulher dum confeiteiro”

KING HENRY IV

For all the world

As thou art to this hour was Richard then

When I from France set foot at Ravenspurgh,

And even as I was then is Percy now.

Now, by my sceptre and my soul to boot,

He hath more worthy interest to the state

Than thou the shadow of succession;

For of no right, nor colour like to right,

He doth fill fields with harness in the realm,

Turns head against the lion’s armed jaws,

And, being no more in debt to years than thou,

Leads ancient lords and reverend bishops on

To bloody battles and to bruising arms.

What never-dying honour hath he got

Against renowned Douglas! whose high deeds,

Whose hot incursions and great name in arms

Holds from all soldiers chief majority

And military title capital

Through all the kingdoms that acknowledge Christ:

Thrice hath this Hotspur, Mars in swathling clothes,

This infant warrior, in his enterprises

Discomfited great Douglas, ta’en him once,

Enlarged him and made a friend of him,

To fill the mouth of deep defiance up

And shake the peace and safety of our throne.

And what say you to this? Percy, Northumberland,

The Archbishop’s grace of York, Douglas, Mortimer,

Capitulate against us and are up.

But wherefore do I tell these news to thee?

Why, Harry, do I tell thee of my foes,

Which art my near’st and dearest enemy?

Thou that art like enough, through vassal fear,

Base inclination and the start of spleen

To fight against me under Percy’s pay,

To dog his heels and curtsy at his frowns,

To show how much thou art degenerate.”

FALSTAFF

Why, there is it: come sing me a bawdy song; make

me merry. I was as virtuously given as a gentleman

need to be; virtuous enough; swore little; diced not

above seven times a week; went to a bawdy-house once

in a quarter–of an hour; paid money that I

borrowed, three of four times; lived well and in

good compass: and now I live out of all order, out

of all compass.

BARDOLPH

Why, you are so fat, Sir John, that you must needs

be out of all compass, out of all reasonable

compass, Sir John.”

Yet all goes well, yet all our joints are whole.”

HOTSPUR

Forty let it be:

My father and Glendower being both away,

The powers of us may serve so great a day

Come, let us take a muster speedily:

Doomsday is near; die all, die merrily.

EARL OF DOUGLAS

Talk not of dying: I am out of fear

Of death or death’s hand for this one-half year.

Exeunt

FALSTAFF

Tut, never fear me: I am as vigilant as a cat to

steal cream.

PRINCE HENRY

I think, to steal cream indeed, for thy theft hath

already made thee butter. But tell me, Jack, whose

fellows are these that come after?

FALSTAFF

Mine, Hal, mine.

PRINCE HENRY

I did never see such pitiful rascals.

FALSTAFF

Tut, tut; good enough to toss; food for powder, food

for powder; they’ll fill a pit as well as better:

tush, man, mortal men, mortal men.

WESTMORELAND

Ay, but, Sir John, methinks they are exceeding poor

and bare, too beggarly.

FALSTAFF

Faith, for their poverty, I know not where they had

that; and for their bareness, I am sure they never

learned that of me.

PRINCE HENRY

No I’ll be sworn; unless you call three fingers on

the ribs bare. But, sirrah, make haste: Percy is

already in the field.”

EARL OF WORCESTER

Good cousin [Deafspur], be advised; stir not tonight.

VERNON

Do not, my lord.

EARL OF DOUGLAS

You do not counsel well:

You speak it out of fear and cold heart.”

VERNON

Come, come it nay not be. I wonder much,

Being men of such great leading as you are,

That you foresee not what impediments

Drag back our expedition: certain horse

Of my cousin Vernon’s are not yet come up:

Your uncle Worcester’s horse came but today;

And now their pride and mettle is asleep,

Their courage with hard labour tame and dull,

That not a horse is half the half of himself.”

Atualmente os cavalos não são nem a metade da metade de si mesmos.

SIR WALTER BLUNT

I come with gracious offers from the king,

if you vouchsafe me hearing and respect.

HOTSPUR

Welcome, Sir Walter Blunt; and would to God

You were of our determination!

Some of us love you well; and even those some

Envy your great deservings and good name,

Because you are not of our quality,

But stand against us like an enemy.”

HOTSPUR

The king is kind; and well we know the king

Knows at what time to promise, when to pay.

My father and my uncle and myself

Did give him that same royalty he wears;

And when he was not six and twenty strong,

Sick in the world’s regard, wretched and low,

A poor unminded outlaw sneaking home,

My father gave him welcome to the shore;

And when he heard him swear and vow to God

He came but to be Duke of Lancaster,

To sue his livery and beg his peace,

With tears of innocency and terms of zeal,

My father, in kind heart and pity moved,

Swore him assistance and perform’d it too.

Now when the lords and barons of the realm

Perceived Northumberland did lean to him,

The more and less came in with cap and knee;

Met him in boroughs, cities, villages,

Attended him on bridges, stood in lanes,

Laid gifts before him, proffer’d him their oaths,

Gave him their heirs, as pages follow’d him

Even at the heels in golden multitudes.

He presently, as greatness knows itself,

Steps me a little higher than his vow

Made to my father, while his blood was poor,

Upon the naked shore at Ravenspurgh;

And now, forsooth, takes on him to reform

Some certain edicts and some strait decrees

That lie too heavy on the commonwealth,

Cries out upon abuses, seems to weep

Over his country’s wrongs; and by this face,

This seeming brow of justice, did he win

The hearts of all that he did angle for;

Proceeded further; cut me off the heads

Of all the favourites that the absent king

In deputation left behind him here,

When he was personal in the Irish war.

SIR WALTER BLUNT

Tut, I came not to hear this.”

EARL OF WORCESTER

It pleased your majesty to turn your looks

Of favour from myself and all our house;

And yet I must remember you, my lord,

We were the first and dearest of your friends.

For you my staff of office did I break

In Richard’s time; and posted day and night

to meet you on the way, and kiss your hand,

When yet you were in place and in account

Nothing so strong and fortunate as I.

It was myself, my brother and his son,

That brought you home and boldly did outdare

The dangers of the time. You swore to us,

And you did swear that oath at Doncaster,

That you did nothing purpose ‘gainst the state;

Nor claim no further than your new-fall’n right,

The seat of Gaunt, dukedom of Lancaster:

To this we swore our aid. But in short space

It rain’d down fortune showering on your head;

And such a flood of greatness fell on you,

What with our help, what with the absent king,

What with the injuries of a wanton time,

The seeming sufferances that you had borne,

And the contrarious winds that held the king

So long in his unlucky Irish wars

That all in England did repute him dead:

And from this swarm of fair advantages

You took occasion to be quickly woo’d

To gripe the general sway into your hand;

Forget your oath to us at Doncaster;

And being fed by us you used us so

As that ungentle hull, the cuckoo’s bird,

Useth the sparrow; did oppress our nest;

Grew by our feeding to so great a bulk

That even our love durst not come near your sight

For fear of swallowing; but with nimble wing

We were enforced, for safety sake, to fly

Out of sight and raise this present head;

Whereby we stand opposed by such means

As you yourself have forged against yourself

By unkind usage, dangerous countenance,

And violation of all faith and troth

Sworn to us in your younger enterprise.”

Both he and they and you, every man

Shall be my friend again and I’ll be his:

So tell your cousin, and bring me word

What he will do: but if he will not yield,

Rebuke and dread correction wait on us

And they shall do their office. So, be gone;

We will not now be troubled with reply:

We offer fair; take it advisedly.”

FALSTAFF

Hal, if thou see me down in the battle and bestride

me, so; ‘tis a point of friendship.

PRINCE HENRY

Nothing but a colossus can do thee that friendship.

Say thy prayers, and farewell.

FALSTAFF

I would ‘twere bed-time, Hal, and all well.

PRINCE HENRY

Why, thou owest God a death.”

Well, ‘tis no matter; honour pricks

me on. Yea, but how if honour prick me off when I

come on? how then? Can honour set to a leg? no: or

an arm? no: or take away the grief of a wound? no.

Honour hath no skill in surgery, then? no. What is

honour? a word. What is in that word honour? what

is that honour? air. A trim reckoning! Who hath it?

he that died o’ Wednesday. Doth he feel it? no.

Doth he hear it? no. ‘Tis insensible, then. Yea,

to the dead. But will it not live with the living?

no. Why? detraction will not suffer it. Therefore

I’ll none of it. Honour is a mere scutcheon: and so

ends my catechism.

Exit

The king should keep his word in loving us;

He will suspect us still and find a time

To punish this offence in other faults:

Suspicion all our lives shall be stuck full of eyes;

For treason is but trusted like the fox,

Who, ne’er so tame, so cherish’d and lock’d up,

Will have a wild trick of his ancestors.

Look how we can, or sad or merrily,

Interpretation will misquote our looks,

And we shall feed like oxen at a stall,

The better cherish’d, still the nearer death.

My nephew’s trespass may be well forgot;

it hath the excuse of youth and heat of blood,

And an adopted name of privilege,

A hair-brain’d Hotspur, govern’d by a spleen:

All his offences live upon my head

And on his father’s; we did train him on,

And, his corruption being ta’en from us,

We, as the spring of all, shall pay for all.

Therefore, good cousin, let not Harry know,

In any case, the offer of the king.”

EARL OF WORCESTER

The Prince of Wales stepp’d forth before the king,

And, nephew, challenged you to single fight.

HOTSPUR

O, would the quarrel lay upon our heads,

And that no man might draw short breath today

But I and Harry Monmouth! Tell me, tell me,

How show’d his tasking? seem’d it in contempt?

VERNON

No, by my soul; I never in my life

Did hear a challenge urged more modestly,

Unless a brother should a brother dare

To gentle exercise and proof of arms.

He gave you all the duties of a man;

Trimm’d up your praises with a princely tongue,

Spoke to your deservings like a chronicle,

Making you ever better than his praise

By still dispraising praise valued in you;

And, which became him like a prince indeed,

He made a blushing cital of himself;

And chid his truant youth with such a grace

As if he master’d there a double spirit.

Of teaching and of learning instantly.

There did he pause: but let me tell the world,

If he outlive the envy of this day,

England did never owe so sweet a hope,

So much misconstrued in his wantonness.

HOTSPUR

Cousin, I think thou art enamoured

On his follies: never did I hear

Of any prince so wild a libertine.

But be he as he will, yet once ere night

I will embrace him with a soldier’s arm,

That he shall shrink under my courtesy.

Arm, arm with speed: and, fellows, soldiers, friends,

Better consider what you have to do

Than I, that have not well the gift of tongue,

Can lift your blood up with persuasion.”

An if we live, we live to tread on kings;

If die, brave death, when princes die with us!”

They fight. DOUGLAS kills SIR WALTER BLUNT. Enter HOTSPUR”

HOTSPUR

This, Douglas? no: I know this face full well:

A gallant knight he was, his name was Blunt;

Semblably furnish’d like the king himself.

EARL OF DOUGLAS

A fool go with thy soul, whither it goes!

A borrow’d title hast thou bought too dear:

Why didst thou tell me that thou wert a king?

HOTSPUR

The king hath many marching in his coats.

EARL OF DOUGLAS

Now, by my sword, I will kill all his coats;

I’ll murder all his wardrobe, piece by piece,

Until I meet the king.

HOTSPUR

Up, and away!

Our soldiers stand full fairly for the day.

Exeunt

FALSTAFF

(…) I am as hot as moulten

lead, and as heavy too: God keep lead out of me! I

need no more weight than mine own bowels. I have

led my ragamuffins where they are peppered: there’s

not three of my hundred and fifty left alive; and

they are for the town’s end, to beg during life.

But who comes here?”

PRINCE HENRY

Give it to me: what, is it in the case?

FALSTAFF

Ay, Hal; ‘tis hot, ‘tis hot; there’s that will sack a city.

PRINCE HENRY draws it out, and finds it to be a bottle of sack

PRINCE HENRY

What, is it a time to jest and dally now?

He throws the bottle at him. Exit

For God’s sake, gimme some sack!

Enter DOUGLAS

EARL OF DOUGLAS

Another king! they grow like Hydra’s heads:

I am the Douglas, fatal to all those

That wear those colours on them: what art thou,

That counterfeit’st the person of a king?

KING HENRY IV

The king himself; who, Douglas, grieves at heart

So many of his shadows thou hast met

And not the very king. I have two boys

Seek Percy and thyself about the field:

But, seeing thou fall’st on me so luckily,

I will assay thee: so, defend thyself.”

They fight. KING HENRY being in danger, PRINCE HENRY enters”

KING HENRY IV

Stay, and breathe awhile:

Thou hast redeem’d thy lost opinion,

And show’d thou makest some tender of my life,

In this fair rescue thou hast brought to me.”

Enter HOTSPUR

HOTSPUR

If I mistake not, thou art Harry Monmouth.

PRINCE HENRY

Thou speak’st as if I would deny my name.

HOTSPUR

My name is Harry Percy.

PRINCE HENRY

Why, then I see

A very valiant rebel of the name.

I am the Prince of Wales; and think not, Percy,

To share with me in glory any more:

Two stars keep not their motion in one sphere;

Nor can one England brook a double reign,

Of Harry Percy and the Prince of Wales.”

They fight

Enter FALSTAFF

FALSTAFF

Well said, Hal! to it Hal! Nay, you shall find no

boy’s play here, I can tell you.

Re-enter DOUGLAS; he fights with FALSTAFF, who falls down as if he were dead, and exit DOUGLAS. HOTSPUR is wounded, and falls

HOTPUR’S LAST DISCOURSE

“…But thought’s the slave of life, and life time’s fool”

Mas pensamentos são os escravos da vida, e os tolos de uma vida vivida.

When that this body did contain a spirit,

A kingdom for it was too small a bound;

But now two paces of the vilest earth

Is room enough: this earth that bears thee dead

Bears not alive so stout a gentleman.

If thou wert sensible of courtesy,

I should not make so dear a show of zeal:

But let my favours hide thy mangled face;

And, even in thy behalf, I’ll thank myself

For doing these fair rites of tenderness.

Adieu, and take thy praise with thee to heaven!

Thy ignominy sleep with thee in the grave,

But not remember’d in thy epitaph!

He spieth FALSTAFF on the ground

What, old acquaintance! could not all this flesh

Keep in a little life? Poor Jack, farewell!

I could have better spared a better man:

O, I should have a heavy miss of thee,

If I were much in love with vanity!

Death hath not struck so fat a deer to-day,

Though many dearer, in this bloody fray.

Embowell”d will I see thee by and by:

Till then in blood by noble Percy lie.

Exit PRINCE HENRY

Counterfeit? I lie, I am no counterfeit: to die,

is to be a counterfeit; for he is but the

counterfeit of a man who hath not the life of a man:

but to counterfeit dying, when a man thereby

liveth, is to be no counterfeit, but the true and

perfect image of life indeed. The better part of

valour is discretion; in the which better part I

have saved my life. ‘Zounds, I am afraid of this

gunpowder Percy, though he be dead: how, if he

should counterfeit too and rise? by my faith, I am

afraid he would prove the better counterfeit.

Therefore I’ll make him sure; yea, and I’ll swear I

killed him. Why may not he rise as well as I?

Nothing confutes me but eyes, and nobody sees me.

Therefore, sirrah,

Stabbing him

with a new wound in your thigh, come you along with me.

Takes up HOTSPUR on his back

Re-enter PRINCE HENRY and LORD JOHN OF LANCASTER

PRINCE HENRY

Come, brother John; full bravely hast thou flesh’d

Thy maiden sword.

LANCASTER

But, soft! whom have we here?

Did you not tell me this fat man was dead?

PRINCE HENRY

I did; I saw him dead,

Breathless and bleeding on the ground. Art

thou alive?

Or is it fantasy that plays upon our eyesight?

I prithee, speak; we will not trust our eyes

Without our ears: thou art not what thou seem’st.

FALSTAFF

No, that’s certain; I am not a double man: but if I

be not Jack Falstaff, then am I a Jack. There is Percy:

Throwing the body down

if your father will do me any honour, so; if not, let

him kill the next Percy himself. I look to be either

earl or duke, I can assure you.

PRINCE HENRY

Why, Percy I killed myself and saw thee dead.

FALSTAFF

Didst thou? Lord, Lord, how this world is given to

lying! I grant you I was down and out of breath;

and so was he: but we rose both at an instant and

fought a long hour by Shrewsbury clock. If I may be

believed, so; if not, let them that should reward

valour bear the sin upon their own heads. I’ll take

it upon my death, I gave him this wound in the

thigh: if the man were alive and would deny it,

zounds, I would make him eat a piece of my sword.

LANCASTER

This is the strangest tale that ever I heard.

PRINCE HENRY

This is the strangest fellow, brother John.

Come, bring your luggage nobly on your back:

For my part, if a lie may do thee grace,

I’ll gild it with the happiest terms I have.

A retreat is sounded

He that rewards me, God reward him! If I do grow great,

I’ll grow less; for I’ll purge, and leave sack, and

live cleanly as a nobleman should do.”

The noble Scot, Lord Douglas, when he saw

The fortune of the day quite turn’d from him,

The noble Percy slain, and all his men

Upon the foot of fear, fled with the rest;

And falling from a hill, he was so bruised

That the pursuers took him. At my tent

The Douglas is; and I beseech your grace

I may dispose of him.”

Rebellion in this land shall lose his sway,

Meeting the cheque of such another day:

And since this business so fair is done,

Let us not leave till all our own be won.

Exeunt

RUMOUR

Open your ears; for which of you will stop

The vent of hearing when loud Rumour speaks?

I, from the orient to the drooping west,

Making the wind my post-horse, still unfold

The acts commenced on this ball of earth:

Upon my tongues continual slanders ride,

The which in every language I pronounce,

Stuffing the ears of men with false reports.

I speak of peace, while covert enmity

Under the smile of safety wounds the world:

And who but Rumour, who but only I,

Make fearful musters and prepared defence,

Whiles the big year, swoln with some other grief,

Is thought with child by the stern tyrant war,

And no such matter? Rumour is a pipe

Blown by surmises, jealousies, conjectures

And of so easy and so plain a stop

That the blunt monster with uncounted heads,

The still-discordant wavering multitude,

Can play upon it. But what need I thus

My well-known body to anatomize

Among my household? Why is Rumour here?

I run before King Harry’s victory;

Who in a bloody field by Shrewsbury

Hath beaten down young Hotspur and his troops,

Quenching the flame of bold rebellion

Even with the rebel’s blood. But what mean I

To speak so true at first? my office is

To noise abroad that Harry Monmouth fell

Under the wrath of noble Hotspur’s sword,

And that the king before the Douglas’ rage

Stoop’d his anointed head as low as death.

This have I rumour’d through the peasant towns

Between that royal field of Shrewsbury

And this worm-eaten hold of ragged stone,

Where Hotspur’s father, old Northumberland,

Lies crafty-sick: the posts come tiring on,

And not a man of them brings other news

Than they have learn’d of me: from Rumour’s tongues

They bring smooth comforts false, worse than

true wrongs.

Exit

LORD BARDOLPH

As good as heart can wish:

The king is almost wounded to the death;

And, in the fortune of my lord your son,

Prince Harry slain outright; and both the Blunts

Kill’d by the hand of Douglas; young Prince John

And Westmoreland and Stafford fled the field;

And Harry Monmouth’s brawn, the hulk Sir John,

Is prisoner to your son: O, such a day,

So fought, so follow’d and so fairly won,

Came not till now to dignify the times,

Since Caesar’s fortunes!

NORTHUMBERLAND

How is this derived?

Saw you the field? came you from Shrewsbury?

LORD BARDOLPH

I spake with one, my lord, that came from thence,

A gentleman well bred and of good name,

That freely render’d me these news for true.

NORTHUMBERLAND

Here comes my servant Travers, whom I sent

On Tuesday last to listen after news.

Enter TRAVERS

I did demand what news from Shrewsbury:

He told me that rebellion had bad luck

And that young Harry Percy’s spur was cold.

With that, he gave his able horse the head,

And bending forward struck his armed heels

Against the panting sides of his poor jade

Up to the rowel-head, and starting so

He seem’d in running to devour the way,

Staying no longer question.

NORTHUMBERLAND

Ha! Again:

Said he young Harry Percy’s spur was cold?

Of Hotspur Coldspur? that rebellion

Had met ill luck?”

NORTHUMBERLAND

How doth my son and brother?

Thou tremblest; and the whiteness in thy cheek

Is apter than thy tongue to tell thy errand.

Even such a man, so faint, so spiritless,

So dull, so dead in look, so woe-begone,

Drew Priam’s curtain in the dead of night,

And would have told him half his Troy was burnt;

But Priam found the fire ere he his tongue,

And I my Percy’s death ere thou report’st it.

This thou wouldst say, <Your son did thus and thus;

Your brother thus: so fought the noble Douglas:>

Stopping my greedy ear with their bold deeds:

But in the end, to stop my ear indeed,

Thou hast a sigh to blow away this praise,

Ending with <Brother, son, and all are dead.>

MORTON

Douglas is living, and your brother, yet;

But, for my lord your son–”

And as the thing that’s heavy in itself,

Upon enforcement flies with greatest speed,

So did our men, heavy in Hotspur’s loss,

Lend to this weight such lightness with their fear

That arrows fled not swifter toward their aim

Than did our soldiers, aiming at their safety,

Fly from the field.

NORTHUMBERLAND

For this I shall have time enough to mourn.

In poison there is physic; and these news,

Having been well, that would have made me sick,

Being sick, have in some measure made me well:

And as the wretch, whose fever-weaken’d joints,

Like strengthless hinges, buckle under life,

Impatient of his fit, breaks like a fire

Out of his keeper’s arms, even so my limbs,

Weaken’d with grief, being now enraged with grief,

Are thrice themselves. Hence, therefore, thou nice crutch!

A scaly gauntlet now with joints of steel

Must glove this hand: and hence, thou sickly quoif!

Thou art a guard too wanton for the head

Which princes, flesh’d with conquest, aim to hit.

Now bind my brows with iron; and approach

The ragged’st hour that time and spite dare bring

To frown upon the enraged Northumberland!

Let heaven kiss earth! now let not Nature’s hand

Keep the wild flood confined! let order die!

And let this world no longer be a stage

To feed contention in a lingering act;

But let one spirit of the first-born Cain

Reign in all bosoms, that, each heart being set

On bloody courses, the rude scene may end,

And darkness be the burier of the dead!

TRAVERS

This strained passion doth you wrong, my lord.

MORTON

(…)

You cast the event of war, my noble lord,

And summ’d the account of chance, before you said

<Let us make head.> It was your presurmise,

That, in the dole of blows, your son might drop:

You knew he walk’d o’er perils, on an edge,

More likely to fall in than to get o’er;

You were advised his flesh was capable

Of wounds and scars and that his forward spirit

Would lift him where most trade of danger ranged:

Yet did you say <Go forth;> and none of this,

Though strongly apprehended, could restrain

The stiff-borne action: what hath then befallen,

Or what hath this bold enterprise brought forth,

More than that being which was like to be?

LORD BARDOLPH

We all that are engaged to this loss

Knew that we ventured on such dangerous seas

That if we wrought our life ‘twas ten to one;

And yet we ventured, for the gain proposed

Choked the respect of likely peril fear’d;

And since we are o’erset, venture again.

Come, we will all put forth, body and goods.”

MORTON

(…)

For that same word, rebellion, did divide

The action of their bodies from their souls;

And they did fight with queasiness, constrain’d,

As men drink potions, that their weapons only

Seem’d on our side; but, for their spirits and souls,

This word, rebellion, it had froze them up,

As fish are in a pond. But now the bishop

Turns insurrection to religion:

Supposed sincere and holy in his thoughts,

He’s followed both with body and with mind;

And doth enlarge his rising with the blood

Of fair King Richard, scraped from Pomfret stones;

Derives from heaven his quarrel and his cause;

Tells them he doth bestride a bleeding land,

Gasping for life under great Bolingbroke;

And more and less do flock to follow him.”

FALSTAFF

(…) the brain of this foolish-compounded clay, man, is not able to invent anything that tends to laughter, more than I invent or is invented on me: I am not only witty in myself, but the cause that wit is in other men.”

I will sooner have a beard grow in the palm of my hand than he shall get one on his cheek”

I looked a’ should have sent me two-and-twenty yards of satin, as I am a true knight, and he sends me security. Well, he may sleep in security; for he hath the horn of abundance, and the lightness of his wife shines through it”

Servant

Sir John Falstaff!

FALSTAFF

Boy, tell him I am deaf.

Page

You must speak louder; my master is deaf.

Lord Chief-Justice

I am sure he is, to the hearing of any thing good. Go, pluck him by the elbow; I must speak with him.

Servant

Sir John!

FALSTAFF

What! a young knave, and begging! Is there not wars? is there not employment? doth not the king lack subjects? do not the rebels need soldiers? Though it be a shame to be on any side but one, it is worse shame to beg than to be on the worst side, were it worse than the name of rebellion can tell how to make it.

Servant

You mistake me, sir.

FALSTAFF

Why, sir, did I say you were an honest man? setting my knighthood and my soldiership aside, I had lied in my throat, if I had said so.

Servant

I pray you, sir, then set your knighthood and our soldiership aside; and give me leave to tell you, you lie in your throat, if you say I am any other than an honest man.

FALSTAFF

I give thee leave to tell me so! I lay aside that which grows to me! if thou gettest any leave of me, hang me; if thou takest leave, thou wert better be hanged. You hunt counter: hence! avaunt!

Servant

Sir, my lord would speak with you.

Lord Chief-Justice

Sir John Falstaff, a word with you.

FALSTAFF

My good lord! God give your lordship good time of day. I am glad to see your lordship abroad: I heard say your lordship was sick: I hope your lordship goes abroad by advice. Your lordship, though not clean past your youth, hath yet some smack of age in you, some relish of the saltness of time; and I must humbly beseech your lordship to have a reverent care of your health.

Lord Chief-Justice

Sir John, I sent for you before your expedition to Shrewsbury.

FALSTAFF

An’t please your lordship, I hear his majesty is returned with some discomfort from Wales.

Lord Chief-Justice

I talk not of his majesty: you would not come when I sent for you.

FALSTAFF

And I hear, moreover, his highness is fallen into this same whoreson apoplexy.

Lord Chief-Justice

Well, God mend him! I pray you, let me speak with you.

FALSTAFF

This apoplexy is, as I take it, a kind of lethargy, an’t please your lordship; a kind of sleeping in the

blood, a whoreson tingling.

Lord Chief-Justice

What tell you me of it? be it as it is.

FALSTAFF

It hath its original from much grief, from study and perturbation of the brain: I have read the cause of his effects in Galen: it is a kind of deafness.

Lord Chief-Justice

I think you are fallen into the disease; for you hear not what I say to you.

FALSTAFF

Very well, my lord, very well: rather, an’t please you, it is the disease of not listening, the malady of not marking, that I am troubled withal.

Lord Chief-Justice

To punish you by the heels would amend the attention of your ears; and I care not if I do become your physician.

FALSTAFF

I am as poor as Job, my lord, but not so patient: your lordship may minister the potion of imprisonment to me in respect of poverty; but how should I be your patient to follow your prescriptions, the wise may make some dram of a scruple, or indeed a scruple itself.

Lord Chief-Justice

I sent for you, when there were matters against you for your life, to come speak with me.

FALSTAFF

As I was then advised by my learned counsel in the laws of this land-service, I did not come.

Lord Chief-Justice

Well, the truth is, Sir John, you live in great infamy.

FALSTAFF

He that buckles him in my belt cannot live in less.

Lord Chief-Justice

Your means are very slender, and your waste is great.

FALSTAFF

I would it were otherwise; I would my means were greater, and my waist slenderer.

Lord Chief-Justice

You have misled the youthful prince.

FALSTAFF

The young prince hath misled me: I am the fellow with the great belly, and he my dog.

Lord Chief-Justice

Well, I am loath to gall a new-healed wound: your day’s service at Shrewsbury hath a little gilded over your night’s exploit on Gadshill: you may thank the unquiet time for your quiet o’er-posting that action.

FALSTAFF

My lord?

Lord Chief-Justice

But since all is well, keep it so: wake not a sleeping wolf.

FALSTAFF

To wake a wolf is as bad as to smell a fox.

Lord Chief-Justice

What! you are as a candle, the better part burnt out.

FALSTAFF

A wassail candle, my lord, all tallow: if I did say of wax, my growth would approve the truth.

Lord Chief-Justice

There is not a white hair on your face but should have his effect of gravity.

FALSTAFF

His effect of gravy, gravy, gravy [recompense, suco da carne].

Lord Chief-Justice

You follow the young prince up and down, like his ill angel.

FALSTAFF

Not so, my lord; your ill angel is light; but I hope he that looks upon me will take me without weighing: and yet, in some respects, I grant, I cannot go: I cannot tell. Virtue is of so little regard in these costermonger times that true valour is turned bear-herd: pregnancy is made a tapster, and hath his quick wit wasted in giving reckonings: all the other gifts appertinent to man, as the malice of this age shapes them, are not worth a gooseberry. You that are old consider not the capacities of us that are young; you do measure the heat of our livers with the bitterness of your galls: and we that are in the vaward of our youth, I must confess, are wags too.

Lord Chief-Justice

Do you set down your name in the scroll of youth, that are written down old with all the characters of age? Have you not a moist eye? a dry hand? a yellow cheek? a white beard? a decreasing leg? an increasing belly? is not your voice broken? your wind short? your chin double? your wit single? and every part about you blasted with antiquity? and will you yet call yourself young? Fie, fie, fie, Sir John!

FALSTAFF

My lord, I was born about three of the clock in the afternoon, with a white head and something a round belly. For my voice, I have lost it with halloing and singing of anthems. To approve my youth further, I will not: the truth is, I am only old in judgment and understanding; and he that will caper with me for a thousand marks, let him lend me the money, and have at him! For the box of the ear that the prince gave you, he gave it like a rude prince, and you took it like a sensible lord. I have chequed him for it, and the young lion repents; marry, not in ashes and sackcloth, but in new silk and old sack.

Lord Chief-Justice

Well, God send the prince a better companion!

FALSTAFF

God send the companion a better prince! I cannot rid my hands of him.

Lord Chief-Justice

Well, the king hath severed you and Prince Harry: I hear you are going with Lord John of Lancaster against the Archbishop and the Earl of Northumberland.

FALSTAFF

Yea; I thank your pretty sweet wit for it. But look you pray, all you that kiss my lady Peace at home, that our armies join not in a hot day; for, by the Lord, I take but two shirts out with me, and I mean not to sweat extraordinarily: if it be a hot day, and I brandish any thing but a bottle, I would I might never spit white again. There is not a dangerous action can peep out his head but I am thrust upon it: well, I cannot last ever: but it was alway yet the trick of our English nation, if they have a good thing, to make it too common. If ye will needs say I am an old man, you should give me rest. I would to God my name were not so terrible to the enemy as it is: I were better to be eaten to death with a rust than to be scoured to nothing with perpetual motion.

Lord Chief-Justice

Well, be honest, be honest; and God bless your expedition!

FALSTAFF

Will your lordship lend me a thousand pound to furnish me forth?

Lord Chief-Justice

Not a penny, not a penny; you are too impatient to bear crosses. Fare you well: commend me to my cousin Westmoreland.

Exeunt Chief-Justice and Servant

FALSTAFF

If I do, fillip me with a three-man beetle. A man can no more separate age and covetousness than a’ can part young limbs and lechery: but the gout galls the one, and the pox pinches the other; and so both the degrees prevent my curses. Boy!

Page

Sir?

FALSTAFF

What money is in my purse?

Page

Seven groats and two pence.

FALSTAFF

I can get no remedy against this consumption of the purse: borrowing only lingers and lingers it out, but the disease is incurable. Go bear this letter to my Lord of Lancaster; this to the prince; this to the Earl of Westmoreland; and this to old Mistress Ursula, whom I have weekly sworn to marry since I perceived the first white hair on my chin. About it: you know where to find me.

Exit Page

A pox of this gout! or, a gout of this pox! for the one or the other plays the rogue with my great toe. ‘Tis no matter if I do halt; I have the wars for my colour, and my pension shall seem the more reasonable. A good wit will make use of any thing: I will turn diseases to commodity.”

Exit

Não há um só perigo que brote em que no meio dele não me joguem! Oh, ok, ok, eu não posso durar para sempre, não é mesmo? Mas seria melhor se a Inglaterra, se é que a Inglaterra tem alguma qualidade, tivesse a qualidade e a prudência de não tornar comum essa coisa de gerar perigos! Ora, se vocês da côrte insistem que sou um velho, deveriam dar-me repouso! Eu peço a Deus que meu nome não permaneça tão terrível a meus adversários, tanto quanto o é agora! Seria melhor ser devorado pela morte por inação e ferrugem dos membros que ser reduzido a nada por esse perpétuo movimento!”

HASTINGS

Our present musters grow upon the file

To five and twenty thousand men of choice;

And our supplies live largely in the hope

Of great Northumberland, whose bosom burns

With an incensed fire of injuries.

LORD BARDOLPH

The question then, Lord Hastings, standeth thus;

Whether our present five and twenty thousand

May hold up head without Northumberland?

HASTINGS

With him, we may.

LORD BARDOLPH

Yea, marry, there’s the point:

But if without him we be thought too feeble,

My judgment is, we should not step too far

Till we had his assistance by the hand;

For in a theme so bloody-faced as this

Conjecture, expectation, and surmise

Of aids incertain should not be admitted.”

LORD BARDOLPH

(…) [THE ROSEBUDS OF WAR]

We see the appearing buds; which to prove fruit,

Hope gives not so much warrant as despair

That frosts will bite them. When we mean to build,

We first survey the plot, then draw the model;

And when we see the figure of the house,

Then must we rate the cost of the erection;

Which if we find outweighs ability,

What do we then but draw anew the model

In fewer offices, or at last desist

To build at all? Much more, in this great work,

Which is almost to pluck a kingdom down

And set another up, should we survey

The plot of situation and the model,

Consent upon a sure foundation,

Question surveyors, know our own estate,

How able such a work to undergo,

To weigh against his opposite; or else

We fortify in paper and in figures,

Using the names of men instead of men:

Like one that draws the model of a house

Beyond his power to build it; who, half through,

Gives o’er and leaves his part-created cost

A naked subject to the weeping clouds

And waste for churlish winter’s tyranny.”

LORD BARDOLPH

What, is the king but five and twenty thousand?

HASTINGS

To us no more; nay, not so much, Lord Bardolph.

For his divisions, as the times do brawl,

Are in three heads: one power against the French,

And one against Glendower; perforce a third

Must take up us: so is the unfirm king

In three divided; and his coffers sound

With hollow poverty and emptiness.”

ARCHBISHOP OF YORK

That he should draw his several strengths together

And come against us in full puissance,

Need not be dreaded.

HASTINGS

If he should do so,

He leaves his back unarm’d, the French and Welsh

Baying him at the heels: never fear that.

LORD BARDOLPH

Who is it like should lead his forces hither?

HASTINGS

The Duke of Lancaster and Westmoreland;

Against the Welsh, himself and Harry Monmouth:

But who is substituted ‘gainst the French,

I have no certain notice.”

ARCHBISHOP OF YORK

(…)

So, so, thou common dog, didst thou disgorge

Thy glutton bosom of the royal Richard;

And now thou wouldst eat thy dead vomit up,

And howl’st to find it. What trust is in

these times?

They that, when Richard lived, would have him die,

Are now become enamour’d on his grave:

Thou, that threw’st dust upon his goodly head

When through proud London he came sighing on

After the admired heels of Bolingbroke,

Criest now <O earth, yield us that king again,

And take thou this!> O thoughts of men accursed!

Past and to come seems best; things present worst.”

FANG

Snare, we must arrest Sir John Falstaff.

MISTRESS QUICKLY

Yea, good Master Snare; I have entered him and all.

SNARE

It may chance cost some of us our lives, for he will stab.

MISTRESS QUICKLY

Alas the day! take heed of him; he stabbed me in

mine own house, and that most beastly: in good

faith, he cares not what mischief he does. If his

weapon be out: he will foin like any devil; he will

spare neither man, woman, nor child.

FANG

If I can close with him, I care not for his thrust.

MISTRESS QUICKLY

No, nor I neither: I’ll be at your elbow.

FANG

An I but fist him once; an a’ come but within my vice,–

MISTRESS QUICKLY

I am undone by his going; I warrant you, he’s an

infinitive thing upon my score. Good Master Fang,

hold him sure: good Master Snare, let him not

scape.”

It is more than for some, my lord; it is for all,

all I have. He hath eaten me out of house and home;

he hath put all my substance into that fat belly of

his: but I will have some of it out again, or I

will ride thee o’ nights like the mare.”

thou didst swear to me then, as I was

washing thy wound, to marry me and make me my lady

thy wife. Canst thou deny it? Did not goodwife

Keech, the butcher’s wife, come in then and call me

gossip Quickly? coming in to borrow a mess of

vinegar; telling us she had a good dish of prawns;

whereby thou didst desire to eat some; whereby I

told thee they were ill for a green wound? And

didst thou not, when she was gone down stairs,

desire me to be no more so familiarity with such

poor people; saying that ere long they should call

me madam? And didst thou not kiss me and bid me

fetch thee thirty shillings? I put thee now to thy

book-oath: deny it, if thou canst.”

Lord Chief-Justice

Sir John, Sir John, I am well acquainted with your

manner of wrenching the true cause the false way. It

is not a confident brow, nor the throng of words

that come with such more than impudent sauciness

from you, can thrust me from a level consideration:

you have, as it appears to me, practised upon the

easy-yielding spirit of this woman, and made her

serve your uses both in purse and in person.”

Come, an ‘twere not for thy humours, there’s not a better wench in England.”

PRINCE HENRY

(…) my heart bleeds inwardly that my father is so

sick: and keeping such vile company as thou art

hath in reason taken from me all ostentation of sorrow.

POINS

The reason?

PRINCE HENRY

What wouldst thou think of me, if I should weep?

POINS

I would think thee a most princely hypocrite.”

PRINCE HENRY

From a God to a bull? a heavy decension! it was

Jove’s case. From a prince to a prentice? a low

transformation! that shall be mine; for in every

thing the purpose must weigh with the folly.”

Viúva LADY PERCY

In military rules, humours of blood,

He was the mark and glass, copy and book,

That fashion’d others. And him, O wondrous him!

O miracle of men! him did you leave,

Second to none, unseconded by you,

To look upon the hideous god of war

In disadvantage; to abide a field

Where nothing but the sound of Hotspur’s name

Did seem defensible: so you left him.

Never, O never, do his ghost the wrong

To hold your honour more precise and nice

With others than with him! let them alone:

The marshal and the archbishop are strong:

Had my sweet Harry had but half their numbers,

To-day might I, hanging on Hotspur’s neck,

Have talk’d of Monmouth’s grave.”

“…so came I a widow;

And never shall have length of life enough

To rain upon remembrance with mine eyes,

That it may grow and sprout as high as heaven,

For recordation to my noble husband.”

NORTHUMBERLAND

(…)

Fain would I go to meet the archbishop,

But many thousand reasons hold me back.

I will resolve for Scotland: there am I,

Till time and vantage crave my company.

Exeunt

FALSTAFF

You make fat rascals, Mistress Doll.

DOLL TEARSHEET

I make them! gluttony and diseases make them; I

make them not.

FALSTAFF

If the cook help to make the gluttony, you help to

make the diseases, Doll: we catch of you, Doll, we

catch of you; grant that, my poor virtue grant that.”

PISTOL

God save you, Sir John!

FALSTAFF

Welcome, Ancient Pistol. Here, Pistol, I charge

you with a cup of sack: do you discharge upon mine hostess.

PISTOL

I will discharge upon her, Sir John, with two bullets.

FALSTAFF

She is Pistol-proof, sir; you shall hardly offend

her.

MISTRESS QUICKLY

Come, I’ll drink no proofs nor no bullets: I’ll

drink no more than will do me good, for no man’s

pleasure, I.

PISTOL

Then to you, Mistress Dorothy; I will charge you.

DOLL TEARSHEET

Charge me! I scorn you, scurvy companion. What!

you poor, base, rascally, cheating, lack-linen

mate! Away, you mouldy rogue, away! I am meat for

your master.

PISTOL

I know you, Mistress Dorothy.”

Si fortune me tormente, sperato me contento.”

DOLL TEARSHEET

Ah, you sweet little rogue, you! alas, poor ape,

how thou sweatest! come, let me wipe thy face;

come on, you whoreson chops: ah, rogue! I’ faith, I

love thee: thou art as valorous as Hector of Troy,

worth five of Agamemnon, and ten times better than

the Nine Worthies: ah, villain!

FALSTAFF

A rascally slave! I will toss the rogue in a blanket.”

FALSTAFF

Kiss me, Doll.

PRINCE HENRY

Saturn and Venus this year in conjunction! what

says the almanac to that?

POINS

And look, whether the fiery Trigon, his man, be not

lisping to his master’s old tables, his note-book,

his counsel-keeper.”

FALSTAFF

(…) I shall receive

money o’ Thursday: shalt have a cap to-morrow. A

merry song, come: it grows late; we’ll to bed.

Thou’lt forget me when I am gone.

DOLL TEARSHEET

By my troth, thou’lt set me a-weeping, an thou

sayest so: prove that ever I dress myself handsome

till thy return: well, harken at the end.

FALSTAFF

Some sack, Francis.

PRINCE HENRY / POINS

Anon, anon, sir.

Coming forward

FALSTAFF

I dispraised him before the wicked, that the wicked might not fall in love with him; in which doing, I have done the part of a careful friend and a true subject, and thy father is to give me thanks for it. No abuse, Hal: none, Ned, none: no, faith, boys, none.”

You see, my good wenches, how men of merit are sought after: the undeserver may sleep, when the man of action is called on. Farewell good wenches: if I be not sent away post, I will see you again ere I go.”

O ELOGIO REAL AO SONO

How many thousand of my poorest subjects

Are at this hour asleep! O sleep, O gentle sleep,

Nature’s soft nurse, how have I frighted thee,

That thou no more wilt weigh my eyelids down

And steep my senses in forgetfulness?

Why rather, sleep, liest thou in smoky cribs,

Upon uneasy pallets stretching thee

And hush’d with buzzing night-flies to thy slumber,

Than in the perfumed chambers of the great,

Under the canopies of costly state,

And lull’d with sound of sweetest melody?

O thou dull god, why liest thou with the vile

In loathsome beds, and leavest the kingly couch

A watch-case or a common ‘larum-bell?

Wilt thou upon the high and giddy mast

Seal up the ship-boy’s eyes, and rock his brains

In cradle of the rude imperious surge

And in the visitation of the winds,

Who take the ruffian billows by the top,

Curling their monstrous heads and hanging them

With deafening clamour in the slippery clouds,

That, with the hurly, death itself awakes?

Canst thou, O partial sleep, give thy repose

To the wet sea-boy in an hour so rude,

And in the calmest and most stillest night,

With all appliances and means to boot,

Deny it to a king? Then happy low, lie down!

Uneasy lies the head that wears a crown.”

Ah, quantos milhares de meus mais míseros súditos não desfrutam agora

Do mais aconchegante dos sonos noturnos! Ah sono, meu doce sono!

A gentil ama da mãe-natureza: como pude espantar este aio?

A ponto de não esperar mais que pese sobre meus cílios

Banhando meus sentidos em puro esquecimento?

Por que preferes visitar com constância as choças dos labregos?

Espreguiças-te na mais precária palha, não dormes comigo em meu leito real

Estiras-te, ao contrário, onde carapanãs roem tudo o que respira!

Não sentes este perfume do palácio dos senhores

Sob tetos imponentes e opulentos

Nem queres ser embalado e embalar-me por refinadas árias

Divindade tola, tens prazer em freqüentar só os vilões?

Camas sujas, deixando um vácuo nos canapés reais?

Preferes cubículos mofados a espaços bem-cuidados e arejados?

Vais então como sereia acalentar o reles marujinho que assiste do alto do mastro os mares

E deveria guardar-se, vigilante, de ter seus nervos apatetados

Tornando sua dura cama de madeira num berço confortável?

O vento que deveria servir-lhe de alerta-mor é que embalará essa cadeirinha de balanço extemporânea

Mal sabe o vigia enganado que assim entregue ao sono estará pior que enforcado

Voltando a si por demais tarde, quando as nuvens negras anunciarem

Em alto e bom som o estrondo da própria Morte!

Não podes tu, sono, deixar de tomar partido?

Deixar de lado essa gente corsária e voltar pra mim?

Na noite mais silenciosa e tranqüila

Que se mostra a mais propícia

Trairás teu próprio Rei?

Ora, se tão vil és, suma, pois!

Digo que a cabeça que sustenta uma coroa

Jamais dorme sossegada!

Warwick

Que vossa majestade ainda veja muitos sóis como este!

Sick King

Este sol cinza que escurece?

– Bom dia!

– Bom dia pra quem?

– Bom dia pra quem já comeu alguém/a queen!

– Então estou na noite…, e não é de núpcias.

KING HENRY IV

Then you perceive the body of our kingdom

How foul it is; what rank diseases grow

And with what danger, near the heart of it.

WARWICK

It is but as a body yet distemper’d;

Which to his former strength may be restored

With good advice and little medicine:

My Lord Northumberland will soon be cool’d.

KING HENRY IV

O God! that one might read the book of fate,

And see the revolution of the times

Make mountains level, and the continent,

Weary of solid firmness, melt itself

Into the sea! and, other times, to see

The beachy girdle of the ocean

Too wide for Neptune’s hips; how chances mock,

And changes fill the cup of alteration

With divers liquors! O, if this were seen,

The happiest youth, viewing his progress through,

What perils past, what crosses to ensue,

Would shut the book, and sit him down and die.

Tis not ‘ten years gone

Since Richard and Northumberland, great friends,

Did feast together, and in two years after

Were they at wars: it is but eight years since

This Percy was the man nearest my soul,

Who like a brother toil’d in my affairs

And laid his love and life under my foot,

Yea, for my sake, even to the eyes of Richard

Gave him defiance. But which of you was by–

You, cousin Nevil, as I may remember–

To WARWICK

When Richard, with his eye brimful of tears,

Then cheque’d and rated by Northumberland,

Did speak these words, now proved a prophecy?

<Northumberland, thou ladder by the which

My cousin Bolingbroke ascends my throne;>

Though then, God knows, I had no such intent,

But that necessity so bow’d the state

That I and greatness were compell’d to kiss:

<The time shall come,> thus did he follow it,

<The time will come, that foul sin, gathering head,

Shall break into corruption:> so went on,

Foretelling this same time’s condition

And the division of our amity.

WARWICK

There is a history in all men’s lives,

Figuring the nature of the times deceased;

The which observed, a man may prophesy,

With a near aim, of the main chance of things

As yet not come to life, which in their seeds

And weak beginnings lie intreasured.

Such things become the hatch and brood of time;

And by the necessary form of this

King Richard might create a perfect guess

That great Northumberland, then false to him,

Would of that seed grow to a greater falseness;

Which should not find a ground to root upon,

Unless on you.”

-ASCENSÃO & QUEDA DE HENRIQUE NO QUARTO-

REI HENRIQUE

Infeliz daquele que tem acesso ao livro que conta do futuro

E testemunha da revolução dos tempos

Montanhas viram vales, o continente, cansado da secura, derrete-se em mar e sal.

Os oceanos, as calças de Poseidon, se tornam muito largas e as vestes desistem do deus

Tudo se esvai em água!

Se esse livro fosse lido

Nem o jovem mais iludido

Animado o fecharia,

Diante de tantas tribulações para trás e,

O que é mais inconsolável,

Para frente, para frente, sem solenidade

Campeãs da impertinência!

Nem bem dez anos faz

Que Ricardo II e Nortumbelino, grandes meus amigos,

Almoçavam comigo!

Só setecentos dias e uma mudança completa se havia operado!

Um em guerra contra o outro; e Percy me jurou lealdade,

Era o mais fidalgo e meu companheiro de armas mais leal.

Como um irmão, sem esperar recompensa, deu-se aos trabalhos

Mais ásperos, humilhando-se debaixo do amor fraternal,

Arriscando a própria vida e deixando de temer o próprio olhar furioso do então

Rei Ricardo

Nevil Pavio, primo, tu viste tudo de que te falo.

Estavas lá quando Ricardo com o olho umedecido,

Vencido pelo ex-companheiro, profetizou então esta negra revelação.

Nortumbelino, pela escada que erigiste

Meu primo Bolingbroke ascenderá ao trono!

Deus sabe que não tinha essa tenção

Mas o estado das coisas dobrou o Estado

Eu e a grandeza estávamos destinados um ao outro, promissoras núpcias.

Mas Ricardo disse ainda: Chegará o dia em que o pecado abominável explodirá em corrupção.

Então ele já contava

Dos tempos atuais e da nossa divisão.

PAVIOCURTO

Todo homem tem uma história,

E alguns vêem na sua própria

Toda a ruína coletiva.

Não é dom tampouco sorte,

Apenas questão de sutileza, estudo,

Probabilidade! Ele anuncia o que vê

que pode acontecer; e de fato acontece!

Porque ele sabia que as sementes que plantara

Germinariam, e sabia muito bem de que planta se tratava!

Sim, Ricardo ainda vive, através de seus palpites, entre nós

Fazendo esta infame porém necessária Colheita dos Tempos:

Nortumbelino, que o traíra, não perderia ocasião

De fazê-lo de novo, árvore sempre crescente,

Cada vez um carvalho mais velho e falso!

E, meu Rei, este carvalho, que já abrigou na sombra um tal Percy, agora anda necessitado

De solo rico o bastante para suas raízes tão sedentas, a fim de não se ver podado.

E esse solo, que ironia, só pode ser Vossa Majestade!

SCENE II. Gloucestershire. Before SHALLOW’S house.

Enter SHALLOW and SILENCE, meeting; MOULDY, SHADOW, WART, FEEBLE, BULLCALF, a Servant or two with them

FESTA DO SONIC?

Entram Supérfluo e Silêncio, entrecruzando-se; Embolorado, Sombra, Verruga, Fracote, Novilho, um servo ou dois com todos eles.

Desairoso Janota

S[HAL]LOW

(…) Then was Jack Falstaff, now Sir John, a boy, and page to Thomas Mowbray, Duke of Norfolk.”

You R.I.P. what you shallow.

Jesu, Jesu, the mad days that I have spent! and to see how many of my old acquaintance are dead!”

SHALLOW

Death is certain. Is old Double of your town living yet?

SILENCE

Dead, sir.” Dobrado no caixão, sô.

Enter BARDOLPH and one with him

BARDOLPH

Good morrow, honest gentlemen: I beseech you, which

is Justice Shallow?

SHALLOW

I am Robert Shallow, sir; a poor esquire of this

county, and one of the king’s justices of the peace:

What is your good pleasure with me?

BARDOLPH

My captain, sir, commends him to you; my captain,

Sir John Falstaff, a tall gentleman, by heaven, and

a most gallant leader.

SHALLOW

He greets me well, sir. I knew him a good backsword

man. How doth the good knight? may I ask how my

lady his wife doth?

BARDOLPH

Sir, pardon; a soldier is better accommodated than

with a wife.

SHALLOW

It is well said, in faith, sir; and it is well said

indeed too. Better accommodated! it is good; yea,

indeed, is it: good phrases are surely, and ever

were, very commendable. Accommodated! it comes of

<accommodo> very good; a good phrase.

BARDOLPH

Pardon me, sir; I have heard the word. Phrase call

you it? by this good day, I know not the phrase;

but I will maintain the word with my sword to be a

soldier-like word, and a word of exceeding good

command, by heaven. Accommodated; that is, when a

man is, as they say, accommodated; or when a man is,

being, whereby a’ may be thought to be accommodated;

which is an excellent thing.

SHALLOW

It is very just.

Enter FALSTAFF

FALSTAFF

(…) where is Mouldy?

MOULDY [Embotado]

Here, an’t please you.

SHALLOW

What think you, Sir John? a good-limbed fellow;

young, strong, and of good friends.

FALSTAFF

Is thy name Mouldy?

MOULDY

Yea, an’t please you.

FALSTAFF

Tis the more time thou wert used.

SHALLOW

Ha, ha, ha! most excellent, I’ faith! Things that

are mouldy lack use: very singular good! in faith,

well said, Sir John, very well said.”

SHALLOW

Where’s Shadow?

SHADOW

Here, sir.

FALSTAFF

Shadow, whose son art thou?

SHADOW

My mother’s son, sir.

FALSTAFF

Thy mother’s son! like enough, and thy father’s

shadow: so the son of the female is the shadow of

the male: it is often so, indeed; but much of the

father’s substance!”

SHALLOW

Ha, ha, ha! you can do it, sir; you can do it: I

commend you well. Francis Feeble!

FEEBLE

Here, sir.

FALSTAFF

What trade art thou, Feeble?

FEEBLE

A woman’s tailor, sir.

SHALLOW

Shall I prick him, sir?

FALSTAFF

You may: but if he had been a man’s tailor, he’ld

ha’ pricked you. Wilt thou make as many holes in

an enemy’s battle as thou hast done in a woman’s petticoat?

FEEBLE

I will do my good will, sir; you can have no more.”

thou wilt be as valiant as the wrathful dove or most magnanimous mouse.”

FEEBLE

I would Wart might have gone, sir.

FALSTAFF

I would thou wert a man’s tailor, that thou mightst

mend him and make him fit to go. I cannot put him

to a private soldier that is the leader of so many

thousands: let that suffice, most forcible Feeble.”

FALSTAFF

I am bound to thee, reverend Feeble. Who is next?

SHALLOW

Peter Bullcalf o’ the green!

FALSTAFF

Yea, marry, let’s see Bullcalf.

BULLCALF

Here, sir.

FALSTAFF

Fore God, a likely fellow! Come, prick me Bullcalf

till he roar again.

BULLCALF

O Lord! good my lord captain,–

FALSTAFF

What, dost thou roar before thou art pricked?

BULLCALF

O Lord, sir! I am a diseased man.

FALSTAFF

What disease hast thou?

BULLCALF

A whoreson cold, sir, a cough, sir, which I caught

with ringing in the king’s affairs upon his

coronation-day, sir.

FALSTAFF

Come, thou shalt go to the wars in a gown; we wilt

have away thy cold; and I will take such order that

my friends shall ring for thee. Is here all?”

Já faz 55 anos, sor.”

Exeunt FALSTAFF and Justices

BULLCALF

Good Master Corporate Bardolph, stand my friend;

and here’s 4 Harry 10 shillings in French crowns

for you. In very truth, sir, I had as lief be

hanged, sir, as go: and yet, for mine own part, sir,

I do not care; but rather, because I am unwilling,

and, for mine own part, have a desire to stay with

my friends; else, sir, I did not care, for mine own

part, so much.

BARDOLPH

Go to; stand aside.

MOULDY

And, good master corporal captain, for my old

dame’s sake, stand my friend: she has nobody to do

any thing about her when I am gone; and she is old,

and cannot help herself: You shall have 40, sir.

BARDOLPH

Go to; stand aside.

FEEBLE

By my troth, I care not; a man can die but once: we

owe God a death: I’ll ne’er bear a base mind:

an’t be my destiny, so; an’t be not, so: no man is

too good to serve’s prince; and let it go which way

it will, he that dies this year is quit for the next.

BARDOLPH

Well said; thou’rt a good fellow.

FEEBLE

Faith, I’ll bear no base mind.

Re-enter FALSTAFF and the Justices

– Como será o pgto., sr.?

– Em 4 xelins e ducados.

– Ah, sim, suponho que todos tenham ido à escola como se deve.

– Não se arrependerá de confiar nas propriedades morais dele, sr.!

MAMÃE EU QUERIA (E VOU) (SERVIR O EXÉRCITO)

Ó, que m’importa! Um homem tem de morrer, e só se morre uma vez, nem mais, nem menos.

Sim, morre-se uma vez! Não há escapatória!

Devemos esta morte a Deus Todo-Poderoso, com certeza. Nunca me esquecerei disso.

Se for coisa do destino, decreto dos céus, que seja!

Se não for, ora, que não seja! Não terá sido dessa vez. Ninguém é bom demais para ser

súdito do Rei! Digo, bom demais

para não ser súdito do Rei, se é que m’entendem! Ninguém é grande pra não ser pequeno.

Pelo menos eu acho. Enfim, só penso:

quem morre esse ano não morre no próximo, já está zerado e saldado! É o qu’eu sempre digo:

Antes cedo do que cinco!

BARDOLPH

Sir, a word with you: I have 3 pound to free

Mouldy and Bullcalf.

FALSTAFF

Go to; well.

SHALLOW

Come, Sir John, which 4 will you have?

FALSTAFF

Do you choose for me.

SHALLOW

Marry, then, Mouldy, Bullcalf, Feeble and Shadow.

FALSTAFF

Mouldy and Bullcalf: for you, Mouldy, stay at home

till you are past service: and for your part,

Bullcalf, grow till you come unto it: I will none of you.”

Here’s Wart; you see what a

ragged appearance it is; a’ shall charge you and

discharge you with the motion of a pewterer’s

hammer, come off and on swifter than he that gibbets

on the brewer’s bucket. And this same half-faced

fellow, Shadow; give me this man: he presents no

mark to the enemy; the foeman may with as great aim

level at the edge of a penknife. And for a retreat;

how swiftly will this Feeble the woman’s tailor run

off! O, give me the spare men, and spare me the

great ones. Put me a caliver into Wart’s hand, Bardolph.”

Ele não é o mestre de seu ofício.”

FALSTAFF

These fellows will do well, Master Shallow. God keep you, Master Silence: I will not use many words with you.”

SHALLOW

Sir John, the Lord bless you! God prosper your

affairs! God send us peace! At your return visit

our house; let our old acquaintance be renewed;

peradventure I will with ye to the court.

FALSTAFF

Fore God, I would you would, Master Shallow.

SHALLOW

Go to; I have spoke at a word. God keep you.

FALSTAFF

Fare you well, gentle gentlemen.”

(…) Lord, Lord, how

subject we old men are to this vice of lying! This

same starved justice hath done nothing but prate to

me of the wildness of his youth, and the feats he

hath done about Turnbull Street: and every third

word a lie, duer paid to the hearer than the Turk’s

tribute. I do remember him at Clement’s Inn like a

man made after supper of a cheese-paring: when a’

was naked, he was, for all the world, like a forked

radish [rabanete espetado], with a head fantastically carved upon it

with a knife: a’ was so forlorn, that his

dimensions to any thick sight were invincible: a’

was the very genius of famine; yet lecherous as a

monkey, and the whores called him mandrake: a’ came

ever in the rearward of the fashion, and sung those

tunes to the overscutched huswives that he heard the

carmen whistle, and swear they were his fancies or

his good-nights. And now is this Vice’s dagger

become a squire, and talks as familiarly of John a

Gaunt as if he had been sworn brother to him; and

I’ll be sworn a’ ne’er saw him but once in the

Tilt-yard; and then he burst his head for crowding

among the marshal’s men. I saw it, and told John a

Gaunt he beat his own name; for you might have

thrust him and all his apparel into an eel-skin; the

case of a treble hautboy [poderia jurar que uma caixinha de anel serviria de mansão para esse frangote!] was a mansion for him, a

court: and now has he land and beefs. Well, I’ll

be acquainted with him, if I return; and it shall

go hard but I will make him a philosopher’s two

stones to me: if the young dace be a bait for the

old pike [se a tilapinha server de isca pro dardo velho… por que não perfurá-lo, não é mesmo? Este é só o começo do bacalhau!], I see no reason in the law of nature but I

may snap at him. Let time shape, and there an end.

Exit

Ó, a adaga do Vício se tornou gentil-homem – mas quando? E por quê?! Cruzes!

WESTMORELAND [MAISTERRAAOESTE]

(…) You, lord archbishop,

Whose see is by a civil peace maintained,

Whose beard the silver hand of peace hath touch’d,

Whose learning and good letters peace hath tutor’d,

Whose white investments figure innocence,

The dove and very blessed spirit of peace,

Wherefore do you so ill translate ourself

Out of the speech of peace that bears such grace,

Into the harsh and boisterous tongue of war;

Turning your books to graves, your ink to blood,

Your pens to lances and your tongue divine

To a trumpet and a point of war?

ARCHBISHOP OF YORK

(…) we are all diseased,

And with our surfeiting and wanton hours

Have brought ourselves into a burning fever,

And we must bleed for it; of which disease

Our late king, Richard, being infected, died.

But, my most noble Lord of Westmoreland,

I take not on me here as a physician,

Nor do I as an enemy to peace

Troop in the throngs of military men;

But rather show awhile like fearful war,

To diet rank minds sick of happiness

And purge the obstructions which begin to stop

Our very veins of life. Hear me more plainly.

I have in equal balance justly weigh’d

What wrongs our arms may do, what wrongs we suffer,

And find our griefs heavier than our offences.

We see which way the stream of time doth run,

And are enforced from our most quiet there

By the rough torrent of occasion;

And have the summary of all our griefs,

When time shall serve, to show in articles;

Which long ere this we offer’d to the king,

And might by no suit gain our audience:

When we are wrong’d and would unfold our griefs,

We are denied access unto his person

Even by those men that most have done us wrong.

The dangers of the days but newly gone,

Whose memory is written on the earth

With yet appearing blood, and the examples

Of every minute’s instance, present now,

Hath put us in these ill-beseeming arms,

Not to break peace or any branch of it,

But to establish here a peace indeed,

Concurring both in name and quality.

WESTMORELAND

When ever yet was your appeal denied?

Wherein have you been galled by the king?

What peer hath been suborn’d to grate on you,

That you should seal this lawless bloody book

Of forged rebellion with a seal divine

And consecrate commotion’s bitter edge?

ARCHBISHOP OF YORK

My brother general, the commonwealth,

To brother born an household cruelty,

I make my quarrel in particular.

WESTMORELAND

There is no need of any such redress;

Or if there were, it not belongs to you.

MOWBRAY

Why not to him in part, and to us all

That feel the bruises of the days before,

And suffer the condition of these times

To lay a heavy and unequal hand

Upon our honours?

WESTMORELAND

O, my good Lord Mowbray,

Construe the times to their necessities,

And you shall say indeed, it is the time,

And not the king, that doth you injuries.

Yet for your part, it not appears to me

Either from the king or in the present time

That you should have an inch of any ground

To build a grief on: were you not restored

To all the Duke of Norfolk’s signories,

Your noble and right well remember’d father’s?”

WESTMORELAND

You speak, Lord Mowbray, now you know not what.

The Earl of Hereford was reputed then

In England the most valiant gentlemen:

Who knows on whom fortune would then have smiled?

But if your father had been victor there,

He ne’er had borne it out of Coventry:

For all the country in a general voice

Cried hate upon him; and all their prayers and love

Were set on Hereford, whom they doted on

And bless’d and graced indeed, more than the king.

But this is mere digression from my purpose.

Here come I from our princely general

To know your griefs; to tell you from his grace

That he will give you audience; and wherein

It shall appear that your demands are just,

You shall enjoy them, every thing set off

That might so much as think you enemies.”

WESTMORELAND

(…)

Our battle is more full of names than yours,

Our men more perfect in the use of arms,

Our armour all as strong, our cause the best;

Then reason will our heart should be as good

Say you not then our offer is compell’d.

MOWBRAY

Well, by my will we shall admit no parley.

WESTMORELAND

That argues but the shame of your offence:

A rotten case abides no handling.”

HASTINGS

Besides, the king hath wasted all his rods

On late offenders, that he now doth lack

The very instruments of chastisement:

So that his power, like to a fangless lion,

May offer, but not hold.”

LANCASTER [PRINCE HENRY]

You are too shallow, Hastings, much too shallow,

To sound the bottom of the after-times.”

HASTINGS

Go, captain, and deliver to the army

This news of peace: let them have pay, and part:

I know it will well please them. Hie thee, captain.

Exit Officer

ARCHBISHOP OF YORK

To you, my noble Lord of Westmoreland.

WESTMORELAND

I pledge your grace; and, if you knew what pains

I have bestow’d to breed this present peace,

You would drink freely: but my love to ye

Shall show itself more openly hereafter.

ARCHBISHOP OF YORK

I do not doubt you.

WESTMORELAND

I am glad of it.

Health to my lord and gentle cousin, Mowbray.

MOWBRAY

You wish me health in very happy season;

For I am, on the sudden, something ill.

ARCHBISHOP OF YORK

Against ill chances men are ever merry;

But heaviness foreruns the good event.

WESTMORELAND

Therefore be merry, coz; since sudden sorrow

Serves to say thus, <some good thing comes

to-morrow.>

A paz é da mesma natureza da conquista: os dois partidos, nobremente submetidos, não se sentem, nenhum deles, vencidos.”

HASTINGS

My lord, our army is dispersed already;

Like youthful steers unyoked, they take their courses

East, west, north, south; or, like a school broke up,

Each hurries toward his home and sporting-place.

WESTMORELAND

Good tidings, my Lord Hastings; for the which

I do arrest thee, traitor, of high treason:

And you, lord archbishop, and you, Lord Mowbray,

Of capitol treason I attach you both.”

MOWBRAY

Is this proceeding just and honourable?

WESTMORELAND

Is your assembly so?

ARCHBISHOP OF YORK

Will you thus break your faith?

LANCASTER

I pawn’d thee none:

I promised you redress of these same grievances

Whereof you did complain; which, by mine honour,

I will perform with a most Christian care.

But for you, rebels, look to taste the due

Meet for rebellion and such acts as yours.

Most shallowly did you these arms commence,

Fondly brought here and foolishly sent hence.

Strike up our drums, pursue the scatter’d stray:

God, and not we, hath safely fought to-day.

Some guard these traitors to the block of death,

Treason’s true bed and yielder up of breath.

Exeunt

FALSTAFF

I have a whole school of tongues in this belly of

mine, and not a tongue of them all speaks any other

word but my name. An I had but a belly of any

indifference, I were simply the most active fellow

in Europe: my womb, my womb, my womb, undoes me.

Here comes our general.”

LANCASTER

(…)

Now, Falstaff, where have you been all this while?

When every thing is ended, then you come:

These tardy tricks of yours will, on my life,

One time or other break some gallows’ back.”

O que pensas que sou, uma andorinha, uma flecha ou uma bala? Teria eu em meus movimentos miseráveis e velhos-velhacos agilidade de pensamento e predição? Vim o mais rápido que pude!”

I came, saw and overcame”

LANCASTER

And now dispatch we toward the court, my lords:

I hear the king my father is sore sick:

Our news shall go before us to his majesty,

Which, cousin, you shall bear to comfort him,

And we with sober speed will follow you.”

FALSTAFF

I would you had but the wit: ‘twere better than

your dukedom. Good faith, this same young soberblooded

boy doth not love me; nor a man cannot make

him laugh; but that’s no marvel, he drinks no wine.

There’s never none of these demure boys come to any

proof; for thin drink doth so over-cool their blood,

and making many fish-meals, that they fall into a

kind of male green-sickness; and then when they

marry, they get wenches: they are generally fools

and cowards; which some of us should be too, but for

inflammation. A good sherris sack hath a two-fold

operation in it. It ascends me into the brain;

dries me there all the foolish and dull and curdy

vapours which environ it; makes it apprehensive,

quick, forgetive, full of nimble fiery and

delectable shapes, which, delivered o’er to the

voice, the tongue, which is the birth, becomes

excellent wit. The second property of your

excellent sherris is, the warming of the blood;

which, before cold and settled, left the liver

white and pale, which is the badge of pusillanimity

and cowardice; but the sherris warms it and makes

it course from the inwards to the parts extreme:

it illumineth the face, which as a beacon gives

warning to all the rest of this little kingdom,

man, to arm; and then the vital commoners and

inland petty spirits muster me all to their captain,

the heart, who, great and puffed up with this

retinue, doth any deed of courage; and this valour

comes of sherris. So that skill in the weapon is

nothing without sack, for that sets it a-work; and

learning a mere hoard of gold kept by a devil, till

sack commences it and sets it in act and use.

Hereof comes it that Prince Harry is valiant; for

the cold blood he did naturally inherit of his

father, he hath, like lean, sterile and bare land,

manured, husbanded and tilled with excellent

endeavour of drinking good and good store of fertile

sherris, that he is become very hot and valiant. If

I had a thousand sons, the first humane principle I

would teach them should be, to forswear thin

potations and to addict themselves to sack.”

Filhos se eu tivesse dez

A todos ensinaria

Encher a pança de tonéis!

KING HENRY IV

Humphrey, my son of Gloucester,

Where is the prince your brother?

GLOUCESTER

I think he’s gone to hunt, my lord, at Windsor.

KING HENRY IV

And how accompanied?

GLOUCESTER

I do not know, my lord.

KING HENRY IV

Is not his brother, Thomas of Clarence, with him?

GLOUCESTER

No, my good lord; he is in presence here.

CLARENCE

What would my lord and father?

KING HENRY IV

Nothing but well to thee, Thomas of Clarence.

How chance thou art not with the prince thy brother?

He loves thee, and thou dost neglect him, Thomas;

Thou hast a better place in his affection

Than all thy brothers: cherish it, my boy,

And noble offices thou mayst effect

Of mediation, after I am dead,

Between his greatness and thy other brethren:

Therefore omit him not; blunt not his love,

Nor lose the good advantage of his grace

By seeming cold or careless of his will;

For he is gracious, if he be observed:

He hath a tear for pity and a hand

Open as day for melting charity:

Yet notwithstanding, being incensed, he’s flint,

As humorous as winter and as sudden

As flaws congealed in the spring of day.

His temper, therefore, must be well observed:

Chide him for faults, and do it reverently,

When thou perceive his blood inclined to mirth;

But, being moody, give him line and scope,

Till that his passions, like a whale on ground,

Confound themselves with working. Learn this, Thomas,

And thou shalt prove a shelter to thy friends,

A hoop of gold to bind thy brothers in,

That the united vessel of their blood,

Mingled with venom of suggestion–

As, force perforce, the age will pour it in–

Shall never leak, though it do work as strong

As aconitum or rash gunpowder.”

WARWICK

My gracious lord, you look beyond him quite:

The prince but studies his companions

Like a strange tongue, wherein, to gain the language,

Tis needful that the most immodest word

Be look’d upon and learn’d; which once attain’d,

Your highness knows, comes to no further use

But to be known and hated. So, like gross terms,

The prince will in the perfectness of time

Cast off his followers; and their memory

Shall as a pattern or a measure live,

By which his grace must mete the lives of others,

Turning past evils to advantages.

KING HENRY IV

Tis seldom when the bee doth leave her comb

In the dead carrion.”

Ó, amigo, muitas vezes a abelha sai de seu favo só quando não há mais mel nenhum…

Tu és para mim uma andorinha de verão que canta as belezas tropicais no mais nevoento inverno…

Os anos passam e mudam seus humores exatamente como as estações do mesmo círculo do sol.

Will fortune never come with both hands full,

But write her fair words still in foulest letters?

She either gives a stomach and no food;

Such are the poor, in health; or else a feast

And takes away the stomach; such are the rich,

That have abundance and enjoy it not.”

A felicidade acaso nunca virá de mancheias e perfeita?

Só escrevendo por linhas tortas nessa comédia de tolos?

Ou temos um estômago sem comida,

Que é a vida do pobre, quando tem saúde;

Ou temos um banquete sem estômago,

Que é a vida do rico, que não desfruta sua abundância.”

My due from thee is this imperial crown,

Which, as immediate as thy place and blood,

Derives itself to me. Lo, here it sits,

Which God shall guard: and put the world’s whole strength

Into one giant arm, it shall not force

This lineal honour from me: this from thee

Will I to mine leave, as ‘tis left to me.

Exit

KING HENRY IV

Where is the crown? who took it from my pillow?

WARWICK

When we withdrew, my liege, we left it here.

KING HENRY IV

The prince hath ta’en it hence: go, seek him out.

Is he so hasty that he doth suppose

My sleep my death?

Find him, my Lord of Warwick; chide him hither.

(…)

How quickly nature falls into revolt

When gold becomes her object!

For this the foolish over-careful fathers

Have broke their sleep with thoughts, their brains with care,

Their bones with industry;

For this they have engrossed and piled up

The canker’d heaps of strange-achieved gold;

For this they have been thoughtful to invest

Their sons with arts and martial exercises:

When, like the bee, culling from every flower

The virtuous sweets,

Our thighs pack’d with wax, our mouths with honey,

We bring it to the hive, and, like the bees,

Are murdered for our pains. This bitter taste

Yield his engrossments to the ending father.”

I stay too long by thee, I weary thee.

Dost thou so hunger for mine empty chair

That thou wilt needs invest thee with my honours

Before thy hour be ripe? O foolish youth!

Thou seek’st the greatness that will o’erwhelm thee.

Stay but a little; for my cloud of dignity

Is held from falling with so weak a wind

That it will quickly drop: my day is dim.

Thou hast stolen that which after some few hours

Were thine without offence; and at my death

Thou hast seal’d up my expectation:

Thy life did manifest thou lovedst me not,

And thou wilt have me die assured of it.

Thou hidest a thousand daggers in thy thoughts,

Which thou hast whetted on thy stony heart,

To stab at half an hour of my life.

What! canst thou not forbear me half an hour?

Then get thee gone and dig my grave thyself,

And bid the merry bells ring to thine ear

That thou art crowned, not that I am dead.

Let all the tears that should bedew my hearse

Be drops of balm to sanctify thy head:

Only compound me with forgotten dust

Give that which gave thee life unto the worms.

Pluck down my officers, break my decrees;

For now a time is come to mock at form:

Harry the Fifth is crown’d: up, vanity!”

Aí seria outra peça, Mel Rey da Co(l)mé(d)ia Humana!

Be happy, he will trouble you no more;

England shall double gild his treble guilt,

England shall give him office, honour, might;

For the fifth Harry from curb’d licence plucks

The muzzle of restraint, and the wild dog

Shall flesh his tooth on every innocent.

O my poor kingdom, sick with civil blows!

When that my care could not withhold thy riots,

What wilt thou do when riot is thy care?

O, thou wilt be a wilderness again,

Peopled with wolves, thy old inhabitants!”

Que dia teremos a minha coração?

Com todo o PESO que isso exige?

Inexoravelmente

Mesmo vindo de coroa enferrujada

pela senilidade do dinheiro?

God witness with me, when I here came in,

And found no course of breath within your majesty,

How cold it struck my heart! If I do feign, [ME: How could it struck my heart?]

O, let me in my present wildness die

And never live to show the incredulous world

The noble change that I have purposed!

Coming to look on you, thinking you dead,

And dead almost, my liege, to think you were,

I spake unto this crown as having sense,

And thus upbraided it: <The care on thee depending

Hath fed upon the body of my father;

Therefore, thou best of gold art worst of gold:

Other, less fine in carat, is more precious,

Preserving life in medicine potable;

But thou, most fine, most honour’d: most renown’d,

Hast eat thy bearer up.> Thus, my most royal liege,

Accusing it, I put it on my head,

To try with it, as with an enemy

That had before my face murder’d my father,

The quarrel of a true inheritor.”

300bD295

Coroa

Cabeça de

Caveira

Não seria estar à

Beira

do Abismo

Começar a falar

Com os mortos ainda estando

Vivo?

Continua…

O my son,

God put it in thy mind to take it hence,

That thou mightst win the more thy father’s love,

Pleading so wisely in excuse of it!

Come hither, Harry, sit thou by my bed;

And hear, I think, the very latest counsel

That ever I shall breathe. God knows, my son,

By what by-paths and indirect crook’d ways

I met this crown; and I myself know well

How troublesome it sat upon my head.

To thee it shall descend with bitter quiet,

Better opinion, better confirmation;

For all the soil of the achievement goes

With me into the earth. It seem’d in me

But as an honour snatch’d with boisterous hand,

And I had many living to upbraid

My gain of it by their assistances;

Which daily grew to quarrel and to bloodshed,

Wounding supposed peace: all these bold fears

Thou see’st with peril I have answered;

For all my reign hath been but as a scene

Acting that argument: and now my death

Changes the mode; for what in me was purchased,

Falls upon thee in a more fairer sort;

So thou the garland wear’st successively.

Yet, though thou stand’st more sure than I could do,

Thou art not firm enough, since griefs are green;

And all my friends, which thou must make thy friends,

Have but their stings and teeth newly ta’en out;

By whose fell working I was first advanced

And by whose power I well might lodge a fear

To be again displaced: which to avoid,

I cut them off; and had a purpose now

To lead out many to the Holy Land,

Lest rest and lying still might make them look

Too near unto my state. Therefore, my Harry,

Be it thy course to busy giddy minds

With foreign quarrels; that action, hence borne out,

May waste the memory of the former days.

Leve esses hereges para o Velho Oeste.

Não faça Cruzadas

No deserto

Com esses comedores de areia

que não bebem vinho

Esqueça!

Puros são

os descendentes morenos

de Rousseau!

her eggs and the hereges

My gracious liege,

You won it, wore it, kept it, gave it me”

KING HENRY IV

Doth any name particular belong

Unto the lodging where I first did swoon?

WARWICK

Tis call’d Jerusalem, my noble lord.

KING HENRY IV

Laud be to God! even there my life must end.

It hath been prophesied to me many years,

I should not die but in Jerusalem;

Which vainly I supposed the Holy Land:

But bear me to that chamber; there I’ll lie;

In that Jerusalem shall Harry die.”

Da Ilha ao Exílio

a friend i’ the court is better than a penny in purse.”

LANCASTER

Good morrow, cousin Warwick, good morrow.

GLOUCESTER CLARENCE

Good morrow, cousin.

LANCASTER

We meet like men that had forgot to speak.

WARWICK

We do remember; but our argument

Is all too heavy to admit much talk.”

KING HENRY V

This new and gorgeous garment, majesty,

Sits not so easy on me as you think.

Brothers, you mix your sadness with some fear:

This is the English, not the Turkish court;

Not Amurath an Amurath succeeds,

But Harry Harry. Yet be sad, good brothers,

For, by my faith, it very well becomes you:

Sorrow so royally in you appears

That I will deeply put the fashion on

And wear it in my heart: why then, be sad;

But entertain no more of it, good brothers,

Than a joint burden laid upon us all.

For me, by heaven, I bid you be assured,

I’ll be your father and your brother too;

Let me but bear your love, I’ll bear your cares:

Yet weep that Harry’s dead; and so will I;

But Harry lives, that shall convert those tears

By number into hours of happiness.

Princes

We hope no other from your majesty.

KING HENRY V

You all look strangely on me: and you most;

You are, I think, assured I love you not.

Lord Chief-Justice

I am assured, if I be measured rightly,

Your majesty hath no just cause to hate me.

KING HENRY V

No!

How might a prince of my great hopes forget

So great indignities you laid upon me?

What! rate, rebuke, and roughly send to prison

The immediate heir of England! Was this easy?

May this be wash’d in Lethe, and forgotten?”

And I do wish your honours may increase,

Till you do live to see a son of mine

Offend you and obey you, as I did.

So shall I live to speak my father’s words:

<Happy am I, that have a man so bold,

That dares do justice on my proper son;

And not less happy, having such a son,

That would deliver up his greatness so

Into the hands of justice.> You did commit me:

For which, I do commit into your hand

The unstained sword that you have used to bear;

With this remembrance, that you use the same

With the like bold, just and impartial spirit

As you have done ‘gainst me. There is my hand.

You shall be as a father to my youth:

My voice shall sound as you do prompt mine ear,

And I will stoop and humble my intents

To your well-practised wise directions.

And, princes all, believe me, I beseech you;

My father is gone wild into his grave,

For in his tomb lie my affections;

And with his spirit sadly I survive,

To mock the expectation of the world,

To frustrate prophecies and to raze out

Rotten opinion, who hath writ me down

After my seeming.”

PISTOL

Under which king, Besonian? speak, or die.

SHALLOW

Under King Harry.

PISTOL

Harry the Fourth? or Fifth?

SHALLOW

Harry the Fourth.

PISTOL

A foutre for thine office!

Sir John, thy tender lambkin now is king;

Harry the Fifth’s the man. I speak the truth:

When Pistol lies, do this; and fig me, like

The bragging Spaniard.

FALSTAFF

What, is the old king dead?

PISTOL

As nail in door: the things I speak are just.”

the laws of England are at

my commandment. Blessed are they that have been my

friends; and woe to my lord chief-justice!”

FALSTAFF

God save thee, my sweet boy!

KING HENRY IV

My lord chief-justice, speak to that vain man.

Lord Chief-Justice

Have you your wits? know you what ‘tis to speak?

FALSTAFF

My king! my Jove! I speak to thee, my heart!

KING HENRY IV

I know thee not, old man: fall to thy prayers;

How ill white hairs become a fool and jester!

I have long dream’d of such a kind of man,

So surfeit-swell’d, so old and so profane;

But, being awaked, I do despise my dream.

Make less thy body hence, and more thy grace;

Leave gormandizing; know the grave doth gape

For thee thrice wider than for other men.

Reply not to me with a fool-born jest:

Presume not that I am the thing I was;

For God doth know, so shall the world perceive,

That I have turn’d away my former self;

So will I those that kept me company.

When thou dost hear I am as I have been,

Approach me, and thou shalt be as thou wast,

The tutor and the feeder of my riots:

Till then, I banish thee, on pain of death,

As I have done the rest of my misleaders,

Not to come near our person by ten mile.

For competence of life I will allow you,

That lack of means enforce you not to evil:

And, as we hear you do reform yourselves,

We will, according to your strengths and qualities,

Give you advancement. Be it your charge, my lord,

To see perform’d the tenor of our word. Set on.

Exeunt KING HENRY V, & c

FALSTAFF

That can hardly be, Master Shallow. Do not you

grieve at this; I shall be sent for in private to

him: look you, he must seem thus to the world:

fear not your advancements; I will be the man yet

that shall make you great.”

LANCASTER

I will lay odds that, ere this year expire,

We bear our civil swords and native fire

As far as France: I beard a bird so sing,

Whose music, to my thinking, pleased the king.

Come, will you hence?

Exeunt

Dancer

(…)

One word more, I beseech you. If you be not too

much cloyed with fat meat, our humble author will

continue the story, with Sir John in it, and make

you merry with fair Katharine of France: where, for

any thing I know, Falstaff shall die of a sweat,

unless already a’ be killed with your hard

opinions; for Oldcastle died a martyr, and this is

not the man. My tongue is weary; when my legs are

too, I will bid you good night: and so kneel down

before you; but, indeed, to pray for the queen.”