12-04-17

I

 

DESCRIÇÃO

Deitado na cama dos meus pais. Namorada ou moça bonita qualquer ao lado (não consigo identificar). Eu estou deitado na cama, na posição da minha mãe. Já a outra pessoa está ou de pé ou sentada, mas do lado direito, fora da cama. Um DVD do Metallica toca na TV.

Deitado na cama dos meus pais, só que do lado esquerdo, onde ficaria o meu pai, o Aloísio, meu melhor amigo de infância, hoje mero borrão. Nós cantamos junto com o James Hetfield, mas a voz dele sai idêntica; a minha não. Além disso, eu hesito, erro e esqueço alguns trechos das letras.

COMENTÁRIOS

Ele se deu – ele se dá – na vida melhor que eu. Mas quem? O Aloísio, ou o meu pai?

O Aloísio foi a pessoa que me apresentou ao Metallica, quando eu tinha 13 anos e ele 14. Recentemente ele se casou. Em breve eu me casarei. No casamento dele, uma mini-orquestra tocou Nothing Else Matters do “Black Album” ou álbum epônimo; creio que ainda seja a banda favorita dele, mas não somos mais pessoas íntimas, então nem tenho interesse em perguntar-lhe ou saber a resposta. Essa música é uma das mais populares da banda, embora muitos “fãs conservadores” do Metallica a detestem. Posso dizer que os gostos musicais do Aloísio e o meu destoam completamente, e que esse é um dos raros pontos de convergência (o Metallica está entre minhas 3 bandas favoritas). Já passei pela fase xiita de odiar tal música; hoje, gosto de todas as fases, e aprendi a apreciar bastante a melancolia passada pelo solo principal, realmente parece que entro na canção. Todavia, mesmo com toda minha evolução pessoal na relação com a banda, ainda estou mais para a apreciação da década de 80 do Metallica (fase áurea endeusada pelos fãs conservadores) e dos momentos mais underground e menos radiofônicos do grupo (o que inclui, paradoxalmente, os 2 últimos trabalhos, mais pesados do que nunca, com faixas de 8 ou 9 minutos que jamais tocariam na programação de uma rádio sem cortes) do que para um fã como o Aloísio (certa vez, ele me disse que a faixa favorita dele era The Outlaw Torn, do contestado Load; e vale lembrar que ele não gosta de nada no heavy metal fora o próprio Metallica).

Assim como nos gostos musicais, na vida eu e o Aloísio não podíamos ser pólos mais opostos. Ele se tornou tudo que eu mais abomino. No entanto, há um componente indisfarçável de inveja na posição que ele ocupa: tendo feito aulas de música e de canto, tendo tido uma banda e sendo um “jovem popular”, ele também cantou em seu casamento; coisa que eu não seria capaz de fazer no meu. Se tornou um advogado, funcionário público, que anda de carrão, pertence literalmente à nata de Brasília. Embora eu quisesse ter sua condição financeira (e esse desejo é retrospectivo: seus pais sempre lhe deram tudo, e eu cresci convivendo com a sovinice do meu pai; ele tinha todos os brinquedos que eu apenas sonhava em ter), confesso que se o preço fosse necessariamente se tornar alguém padrão como ele, não pagaria preço tão alto: a supressão dos traços mais benquistos por mim de minha personalidade. Contestatória, criativa, para resumir em dois termos. O Aloísio é apenas um burguesinho alienado, fã auto-declarado de Jair Bolsonaro e católico que se orgulha da sua educação moral e de suas origens insípidas e medianas (o típico casal pouco inteligente do Plano Piloto, que mima e blinda os filhos). Outra coisa que me deixa fulo com os caminhos que o Destino toma: eu sempre amei o futebol; já trabalhei como jornalista esportivo, sempre escrevi muito sobre o assunto, colecionei figurinhas, vi muitos programas de mesa-redonda na TV, já vi até 55 dos 64 jogos de uma Copa do Mundo (a de 2006)! Mas sou péssimo jogador. O Aloísio tinha um talento para a coisa, e sempre esteve vários e vários degraus acima de mim, tanto que me surpreende que ele não tenha mesmo tentado ou conseguido seguir essa carreira profissional.

Meu pai é outra pessoa que eu tenho, na minha concepção de mundo e de vida, como um contra-exemplo absoluto, alguém que não devo seguir sob nenhum pretexto, em nenhum aspecto, alguém que se possível deve ser invertido ao invés de copiado. Funcionário público aposentado; com talento para o comércio e a administração de empresas. Nasceu no interior do Ceará. Pode-se dizer que ganhou bem a vida, materialmente. Por golpe do destino, trabalhamos no mesmo órgão do governo: ele foi concursado da CAPES no cargo de Analista em C&T entre 79 e 2002. Eu sou atualmente Analista em C&T da CAPES desde 05/2014; depois de ter fracassado nas minhas duas primeiras escolhas profissionais (jornalista; professor).

Certa feita meu pai me perguntou o que eu estava lendo. Era o ano de 2008. Eu estava no segundo semestre do curso de Ciências Sociais. Respondi: Max Weber. Uma leitura muito prazerosa. Ele declarou que aquilo seria a última coisa que ele leria por gosto. Que na Administração foi obrigado a degluti-lo, mas que felizmente esses anos já se haviam passado. E é verdade: somos pessoas antônimas. De certa forma, ele e o Aloísio representam o sucesso material e mundano que eu penso que nunca atingirei. Como funcionário público que detesta suas funções, que não tem muito talento para nada aplicado ou pragmático, enfim, lucrativo, e escritor ainda-não-lido-por-quase-ninguém… Acho que a representação onírica “I” condensa toda essa celeuma muito bem.

II

 

DESCRIÇÃO
Leio um grosso volume, um livro que parece um fascículo de enciclopédia, de capa-dura cor vinho. A ordem é a mesma do mangá: da direita para a esquerda. Parecem listas de recomendação de outras pessoas em termos de livros e CDs de música, mas eu não reconheço um item sequer! Leio o perfil biográfico das pessoas que estão indicando as obras: uma é uma mulher de 38 anos, outra uma adolescente de 16. Intercalados com essas informações, em algumas das páginas, anúncios de jogos de videogame, que me permitem classificar a impressão desse livro no tempo. Uma das propagandas é sobre Starcraft I, edição digital/remasterizada (não lembro). Meu irmão chega em casa e me impede de terminar a leitura. É tarde da noite e eu quero que pensem que estou dormindo. Corro para o banheiro do quarto de empregada com o livro em mãos e me tranco.

CURIOSIDADE PITORESCA
Nunca joguei Starcraft, mas um dos primeiros que joguei foi o Warcraft II, jogo da mesma produtora, a Blizzard, de ambientação medieval e fantástica ao invés de espacial e futurista, como a de Starcraft. Seja como for, Starcraft é um jogo de real-time strategy bastante conhecido dos PCs (e alguns outros consoles). Sua primeira aparição foi na segunda metade dos anos 90. Dei uma googlada e, que coisa!, soube agora que lançarão um Starcraft Remastered esse ano (2017)!

III

 

DESCRIÇÃO

Enquanto urino, percebo que não é mais o meu banheiro. Estou morando no Guará. Esta é a casa do meu tio Nilo, dos meus primos André e Adriano. Parece estar tudo em obras. Não tem piso, azulejo, nada, e o plano é reclinado. Eu lembro com alguma nostalgia: há muito tempo costumava ter nojo desse lugar; agora ele é natural para mim.

Antes que eu termine de urinar aparece um gato branco com manchas marrons ou beges, estranho, deformado. Cara feia, alongado, “torto”, fisicamente absurdo. Pego um cabo de vassoura para enxotá-lo de minha casa (agora o banheiro não é mais um cômodo minúsculo, e parece haver muitos outros aposentos, que em nada lembram minha casa), mas me falta força na mão (sonho muitas vezes que quero socar alguém, e o soco não sai forte – nunca briguei na vida real). O gato é mais rápido do que eu. Há outro bichano, todo branco, mas na perseguição ao primeiro acabo ignorando-o.

COMENTÁRIOS

Meu tio Nilo é pobre. Significa que eu sou pobre agora? Que estou preparado para a pobreza? Meu poder aquisitivo não é o mesmo do meu pai. Ainda moro com ele, mas minha mudança está próxima. Será que é alguma apreensão nesse sentido? Atualmente estou sufocado por gastos [só na releitura percebi a semelhança fonética], principalmente de ordem médica, e tenho insegurança quanto a poder juntar dinheiro daqui para frente. Sobretudo, como detesto meu trabalho, tenho insegurança sobre meu próprio sustento, e o de minha futura família, devido ao meu quadro clínico.

Sobre o gato, ou bichos de estimação ou animais: não está claro o que eles simbolizam para mim, dada a frequência com que aparecem nos meus sonhos. Nunca tive gato ou cachorro. Conheço muitas pessoas que têm gato, que veneram gatos [o Aloísio venera gastos]. A Brenda, minha noiva, não é uma delas. Inclusive, ela tem alergia a pêlo de gato. No entanto, uma vez um gato de rua entrou na casa dela e pareceu se afeiçoar a todos os presentes (só queria comida, no fundo). A amiga da Brenda, Fernanda, tem um gato esquisito, o Nelson, que na verdade é do sexo feminino. Era semelhante ao gato branco de manchas marrons do sonho. Mais do que representar minha superioridade diante de alguém (certamente eu não conseguiria humilhar o Aloísio ou o meu pai num sonho, pois eles têm algo que eu queria ter, por mais que os despreze) – pois o gato não tem como se defender de mim –, uma hipótese que eu avento é: simplesmente vejo fotos e gifs de gatinhos demais ao longo do dia na Internet!

AUTODESVELO, DOS 3 AOS 6

Sonhei que descrevia um sonho: eu tinha 6 anos e descrevia como no sonho possuía 3, estava com a boca ensangüentada e com os dentes quebrados, com enorme dificuldade para falar; e descobria que tinha um irmão mais velho que até então ignorava. Seja porque meus pais o ocultaram de mim, seja porque algum acidente me o fez lembrar. E o mais irônico é que eu passava a contar o sonho que tive, em detalhes, para minha mãe. E dizia que somente ao me tornar adulto é que eu me lembraria deste meu irmão, como se isso não fosse absolutamente contraditório. Minha mãe se mostrava incrédula e confusa; eu não conseguia explicar que ao mesmo tempo “vim de ser adulto”; seja porque viajei no tempo, na verdade minha alma viajou no tempo, vindo se instalar no corpo de criança, ou porque era uma espécie de profeta e já havia previsto meu destino, e fosse capaz de vivê-lo simultaneamente, sincronicamente, como o próprio presente. No sonho, eu constatava, apesar de usar uma linguagem infantil, própria das crianças dessa idade, que a fonte de todos os meus males de humor e dos meus sentimentos depressivos se ligava à existência dessa quimera, esse meu irmão imaginário. Noutro segmento do sonho eu estava na escola, de posse desse conhecimento. Todos eram jovens experimentados, ou eram adultos infantilizados… E não é isso o adolescente? De alguma forma esse meu “novo velho” irmão estava lá comigo… Eu “sabia que” não devia me comportar de maneira bagunceira mas “não podia” controlar meu corpo. E eu contornava mal e mal um desenho (na carteira? no caderno?), com bastante peso no lápis, pensando: “somos sempre iguais, somos sempre os mesmos, não importa o que fazemos, o que já fomos, como mudamos, a essência perdura, não podemos fugir desse simples fato”…