A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

O plagiato é necessário. O avanço implica-o.”

13. O caráter fundamentalmente tautológico do espetáculo decorre do simples fato dos seus meios serem ao mesmo tempo a sua finalidade. Ele é o sol que não tem poente no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.”

14 “o fim não é nada, o desenvolvimento é tudo.”

ser-ter-parecer

acumulação isolada não é nada

fruição pública é a piscina do gozo

a fidelidade do casal tem de ser a 3

para soberba e absurdamente

existir enquanto fidelidade

um triângulo tem 4 pontas

mas não é mais sujo por isso

na verdade 6 bilhões de chifres são inocência transparente nada opaca

o celibatário é o único vilão (que) (empaca)do.

espiritualidade puramente telúrica

como numa tumba

o cadáver trancafiado na terra verminosa respira todo o oxigênio

que não há

falta até o

podre

25 “A separação é o alfa e o ômega do espetáculo.”

40 “A abundância das mercadorias não pode ser mais do que a sobrevivência aumentada.”

47 “O valor de troca é o condottiere do valor de uso”

#TítuloLivro A BAIXA TENDENCIAL DO VALOR DA VIDA

49 “O espetáculo é o dinheiro que se olha somente, pois nele é já a totalidade do uso que se trocou com a totalidade da representação abstrata.”

Lá onde estava o ça econômico deve vir o je.”

A aceitação beata daquilo que existe pode juntar-se como uma mesma e única coisa à revolta puramente espetacular”

A condição de vedete é a especialização do viver aparente, o objeto da identificação com a vida aparente sem profundidade, que deve compensar as infinitas subdivisões das especializações produtivas efetivamente vividas.”

Khruchtchev tornara-se general para decidir a batalha de Kursk, não no campo de batalha, mas no 20º aniversário [da batalha de Kursk], quando ele se achava senhor do Estado. Kennedy permanecera orador, ao ponto de pronunciar seu elogio sobre o próprio túmulo, visto que Théodore Sorensen [referenciado por Kennedy como <meu banco de sangue intelectual>] continuava, nesse momento, a redigir para o sucessor os discursos naquele estilo que tanto tinha concorrido para fazer reconhecer a personalidade do desaparecido. As pessoas admiráveis nas quais o sistema se personifica são bem conhecidas por não serem aquilo que são”

recompõe-se a interminável série dos afrontamentos irrisórios, mobilizando um interesse sublúdico, que vai desde desporto competitivo até as eleições. Lá onde se instalou o consumo abundante, uma oposição espetacular principal entre a juventude e os adultos vem no primeiro plano dos papéis falaciosos: porque em parte alguma existe o adulto senhor da sua vida, e a juventude, a mudança do que existe, não é de modo nenhum propriedade destes homens, que são agora jovens, mas do sistema econômico, o dinamismo do capitalismo. São as coisas que reinam e que são jovens; que se deitam fora e se substituem a si próprias.”

Na medida em que cada chinês deve aprender Mao, e assim ser Mao, ele não tem mais nada para ser.”

NOSTÁLGICO: “Cada nova mentira da publicidade é também a confissão da sua mentira precedente.”

O espetáculo é absolutamente dogmático e, ao mesmo tempo, não pode levar a nenhum dogma sólido. Para ele nada pára; é o estado que lhe é natural e, todavia, o mais contrário à sua inclinação.”

a época revolucionária, inaugurada [também] (…) pelo pensamento da história, a dialética, o pensamento que não pára a procura do sentido do sendo, mas que se eleva ao conhecimento da dissolução de tudo o que é; e no movimento dissolve toda a separação.”

76 “Hegel não interpreta o mundo, mas a transformação do mundo. Interpretando somente essa transformação, Hegel não é mais do que o acabamento filosófico da filosofia. (…) Hegel fez, em última instância, o trabalho do filósofo, <a glorificação do que existe>, mas o que existia para ele já não podia ser outra coisa senão a totalidade do movimento histórico. (…) a filosofia que morre no pensamento da história já não pode glorificar seu mundo senão renegando-o, porque para tomar a palavra é-lhe necessário supor acabada esta história total à qual ela tudo reduziu, encerrando a sessão do único tribunal onde pode ser pronunciada a sentença da verdade.”

Marx arruinou a posição separada de Hegel perante o que acontece, e a contemplação dum agente supremo exterior, qualquer que ele seja.” “A crítica da economia política é o primeiro ato deste fim de pré-história

82 “Quanto do papel da história na própria economia – o processo global que modifica os seus próprios dados científicos de base – pôde ser, aliás, negligenciado pelo ponto de vista da observação científica, é o que mostra a vaidade dos cálculos socialistas que acreditavam ter estabelecido a periodicidade exata das crises; e desde que a intervenção constante do Estado logrou compensar o efeito das tendências à crise, o mesmo gênero de raciocínio vê neste equilíbrio uma harmonia econômica definitiva.”

Como o notava Sorel, é segundo o modelo da astronomia que os utópicos pensam descobrir e demonstrar as leis da sociedade.”

<A história não nos deu razão, a nós e a todos os que pensavam como nós. Ela mostrou claramente que o estado do desenvolvimento econômico do continente estava, então, ainda bem longe de estar amadurecido…>, dirá Engels em 1895.”

O amadurecimento das forças produtivas não pode garantir um tal poder, mesmo pelo desvio da despossessão crescente que traz consigo. A tomada jacobina do Estado não pode ser um instrumento seu. Nenhuma ideologia lhe pode servir para disfarçar fins parciais em fins gerais, porque ele não pode conservar nenhuma realidade parcial que seja efetivamente sua.”

Trotsky permaneceu até 1927 fundamentalmente solidário da alta burocracia, procurando mesmo apoderar-se dela para lhe fazer retomar uma ação realmente bolchevique no exterior (sabe-se que, nesse momento, para ajudar a dissimular o famoso <testamento de Lenin>, ele foi ao ponto de desmentir caluniosamente o seu partidário Max Eastman, que o tinha divulgado).”

Lukács era ainda, a par do seu profundo trabalho teórico, um ideólogo, falando em nome do poder mais vulgarmente exterior ao movimento proletário, crendo e fazendo crer que ele próprio se reconhecia, com a sua personalidade total, nesse poder como no seu próprio.”

General Ludd: forma genérica de denominar os niilistas ou inconseqüentes, como o incendiador das minas em O Germinal, que destruíam as fábricas e equipamentos como forma tática de retaliação às misérias do capitalismo. Terroristas espontâneos que começaram a surgir no começo do século XIX na Inglaterra.

125 “O homem (…) é idêntico ao tempo. (…) esta <história natural> não tem outra existência efetiva senão através do processo de uma história humana, da única parte que reencontra este todo histórico, como o telescópio moderno cujo alcance recupera no tempo a fuga das nebulosas na periferia do universo.”

133 “(…) Aqueles para quem o tempo irreversível existiu descobrem ao mesmo tempo o memorável e a ameaça do esquecimento: <Heródoto de Halicarnasso apresenta aqui os resultados do seu inquérito, para que o tempo não possa abolir os trabalhos dos homens…>”

A Grécia, que tinha sonhado a história universal, não conseguiu unir-se face à invasão; nem sequer a unificar os calendários das suas cidades independentes. Na Grécia, o tempo histórico tornou-se consciente, mas não ainda consciente de si mesmo.”

a afirmação agostiniana, arquétipo de todos os satisfecit da ideologia moderna, segundo a qual a Igreja instalada era já desde há muito tempo este reino iminente de Deus de que se falava.”

Não são, como crê mostrar Norman Cohn em La Poursuite du Millénium, as esperanças revolucionárias modernas que são os prolongamentos irracionais da paixão religiosa do milenarismo. Bem pelo contrário, é o milenarismo, luta de classe revolucionária falando pela última vez a língua da religião, que é já uma tendência revolucionária moderna, à qual falta ainda a consciência de não ser senão histórica.”

O seu tempo irreversível é o da acumulação infinita dos conhecimentos, e a consciência histórica, saída da experiência das comunidades democráticas e das forças que as arruínam, vai retomar, com Maquiavel, o raciocínio sobre o poder dessacralizado, isto é, o indizível do Estado.”

A sociedade da mercadoria, descobrindo então que devia reconstruir a passividade que lhe tinha sido necessário abalar, fundamentalmente para estabelecer o seu próprio reino puro, <encontra no cristianismo com o seu culto do homem abstrato… o complemento religioso mais adequado> (O Capital).”

Suas pseudofestas vulgarizadas, paródias do diálogo e do dom, movimentando um excedente de dispêndio econômico, não trazem outra coisa senão a decepção sempre compensada pela promessa de uma nova decepção.”

A publicidade dos seguros de vida insinua que é repreensível morrer sem assegurar a regulação do sistema depois desta perda econômica”

Do ponto de vista da frente do bombardeamento publicitário é terminantemente proibido envelhecer. Esta ausência social da morte é idêntica à ausência social da vida.”

Subproduto da circulação das mercadorias, a circulação humana considerada como consumo, o turismo, reduz-se fundamentalmente à distração de ir ver o que já se tornou banal.”

este campesinato, outrora a inabalável base do <despotismo oriental>, cujo próprio estilhaçamento provocou a centralização burocrática, reaparece como resultado das condições de aumento da burocratização estatal moderna, a sua apatia teve de ser agora historicamente fabricada e alimentada; a ignorância natural cedeu o lugar ao espetáculo organizado do erro.”

Hegel – A Diferença entre os sistemas de Fichte e de Schelling

toda a história conquistadora da cultura pode ser compreendida como a história da revelação da sua insuficiência, como uma marcha para a sua auto-supressão. A cultura é o lugar da procura da unidade perdida.”

A grandeza da arte não começa a aparecer senão no poente da vida.”

A importância, por vezes excessiva, adquirida pelo conceito de barroco na discussão estética contemporânea traduz a tomada de consciência na impossibilidade dum classicismo artístico: os esforços a favor dum classicismo ou neoclassicismo normativos, desde há 3 séculos, não foram senão breves construções fictícias falando a linguagem exterior do Estado, da monarquia absoluta ou da burguesia revolucionária vestida à romana. Do romantismo ao cubismo, é uma arte cada vez mais individualizada da negação, renovando-se perpetuamente até sua redução a migalhas e sua negação acabada da esfera artística (…) O conjunto barroco, que para a criação artística é, em si próprio, uma unidade há muito tempo perdida, reencontra-se de algum modo no consumo atual da totalidade do passado artístico.”

O dadaísmo e o surrealismo são as duas correntes que marcaram o fim da arte moderna. Elas foram contemporâneas do último grande assalto do movimento revolucionário proletário; contudo, o revés deste movimento confinou-as no mesmo campo artístico que proclamou sua caducidade (…) O dadaísmo quis suprimir a arte sem a realizar; e o surrealismo quis realizar a arte sem a suprimir.”

uma escola de neoliteratura tida como nova, simplesmente auto-contempla seus escritos.”

por um lado, a crítica espetacular do espetáculo é empreendida pela sociologia moderna, que estuda a separação com o auxílio de seus instrumentos conceituais e materiais da separação; por outro lado, a apologia do espetáculo constitui-se em pensamento do não-pensamento, em esquecimento registrado da prática histórica, nas diversas disciplinas onde se enraíza o estruturalismo. Porém, o falso desespero da crítica não-dialética e o falso otimismo da pura publicidade do sistema são idênticos enquanto pensamento submisso.”

P. 150: a demolição, em um aforismo, de toda a sociologia norte-americana. Anti-Edsonismo.

Popper e seus blue caps na Áustria: “A afirmação da estabilidade definitiva de um curto período de congelamento do tempo histórico é a base inegável, inconsciente e conscientemente proclamada, da atual tendência a uma sistematização estruturalista.” “O sonho da ditadura de uma estrutura prévia inconsciente sobre toda a práxis social pôde ser abusivamente tirada dos modelos de estruturas elaborados pela lingüística e pela etnologia”

A teoria crítica (…) é a crítica da totalidade (…) Não é um <grau zero da escrita> mas o seu contrário. Não é uma negação do estilo, mas o estilo da negação.” “A inversão do genitivo é a expressão das revoluções históricas”

METALINGUAGEM SECLUSIVA: “O desvio é o contrário da citação. A autoridade teórica sempre é falsificada no momento em que ela se torna citação; fragmento [208, SdE, GD, 196…?] arrancado do seu contexto, do seu movimento, e, finalmente, de sua época, enquanto referência global e opção precisa que ela constituía no interior desta referência. [Já] O desvio é a linguagem fluida da anti-ideologia.”

a pretensão ideológica adquire uma espécie de fastidiosa exatidão positivista (…) Mesmo a parte operante propriamente ideológica ao serviço do sistema já não se concebe senão enquanto uma <base epistemológica> que se pretende além de qualquer fenômeno ideológico. A própria ideologia materializada não tem nome, da mesma forma que não tem qualquer programa histórico enunciável.”

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OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER

DIC:

bailio: comendador ou magistrado

charrua: instrumento agrícola; pequena charrete.

tília: planta para embelezamento, cujo folhado possui propriedades medicinais

trole ou trólebus: bondinho elétrico

“Sou tão feliz, meu amigo, e de tal modo mergulhado no tranqüilo sentimento da minha própria existência, que esqueci a minha arte. Neste momento, ser-me-ia impossível desenhar a coisa mais simples; e, no entanto, nunca fui tão grande pintor.”

“Vejo as moças que saem da vila para buscar água, a mais inocente e mais necessária das tarefas, outrora praticada pelas próprias filhas dos reis. Quando fico sentado naquele lugar, é como se em redor de mim ressurgissem (…) os tempos em que (…) os gênios benfazejos adejavam em torno das fontes e nascentes.”

“As pessoas de condição elevada mantêm habitualmente uma fria reserva para com a gente comum, só pelo temor de diminuir-se com essa aproximação. Além disso, há os imprudentes que só fingem condescendência para melhor ferir, com seus modos arrogantes, a gente humilde.”

“E, no entanto, ser incompreendido é o destino de todos aqueles que se parecem comigo.”

“Mandei que do albergue me transportassem para o local uma cadeira e uma mesa, e ali tomo café lendo o meu Homero.”

beleza fei(t)a

“A razão por que eu não lhe tenho escrito? Pode bem adivinhar que sou feliz (…) Sinto-me contente; serei, portanto, um mau narrador.”

“Devoro o meu pão com manteiga e escrevo ao mesmo tempo… Que maravilha para a minha alma tê-la visto em meio da algazarra das crianças, seu 8 irmãozinhos!”

“fui apeado!”, disse o pica-pau-cavalo.

“Quando eu era mais jovem – disse-me ela –, nada me fascinava tanto como os romances. Só Deus sabe quanto eu me sentia feliz, aos domingo, recolhendo-me a um cantinho para participar, de todo o coração, da felicidade ou do infortúnio de qualquer Srta. Jenny.”

Este minueto já dura vários minutos.

“Dir-se-ia que a dança existe somente para ela e que ela não pensa e não existe senão para dançar”

“preferia fazer-me matar a consentir que ela valsasse com outro”

“Nada desperta em mim uma tão tranqüila e sincera emoção como esses vestígios da vida patriarcal que, sem pedantismo, graças a Deus, consigo misturar à minha existência rotineira.”

“na sua teimosia entrevejo a futura constância e firmeza de caráter; nas suas garotices o bom humor que lhes fará vencer facilmente os perigos deste mundo. E tudo isso de modo tão puro, tão incontaminado!”

“percebi, pelo seu jogo fisionômico, que ele é pouco comunicativo, mais por esquisitice e mau humor do que por mediocridade de espírito.”

“Se é assim, consideremos o mau humor como uma doença e perguntemos se não há remédio para essa doença.” “o mau humor é uma espécie de preguiça, absolutamente como a própria preguiça. Somos muito inclinados à preguiça; entretanto, basta que tenhamos coragem de fazer um grande esforço”

“ela me censurou o interesse apaixonado que tomo por todas as coisas e que acabará por me consumir!”

“Agradar! Tenho por esta palavra um ódio mortal!”

Algo vai muito mal com as traduções (vide verbete OBJETOS em “EU SOU HEATHCLIFF!”, 16 de agosto): “Bien le habría tomado la cabeza entre mis manos para darle un beso si no hubiera sido por el respeto humano” X “Mandei lá o meu criado, apenas para ter junto de mim alguém que se tivesse aproximado dela. E com que impaciência o esperei! Com que alegria o vi regressar! Deu-me vontade de beijá-lo, mas tive vergonha.”

“minha mãe deseja que eu me ocupe de alguma coisa; isso me fez rir. Não estou eu, então, ocupado neste momento? Seja em contar grãos de ervilhas, ou lentilhas, no fundo não é a mesma coisa?”

“Apenas uma coisa eu lhe peço: não ponha muita areia para secar a tinta dos bilhetes que me escrever.”

PROTESTO: Devido à ilegibilidade de grande parte dos trechos nas versões gratuitas em Português (de um livro com direitos autorais vencidos!), sinto-me obrigado a continuar em Inglês…

“Women have a delicate tact in such matters, and it should be so. They cannot always succeed in keeping two rivals on terms with each other; but, when they do, they are the only gainers.”

“He is free from ill-humour, which you know is the fault I detest most.”

“But would you require a wretched being, whose life is slowly wasting under a lingering disease, to despatch himself at once by the stroke of a dagger? Does not the very disorder which consumes his strength deprive him of the courage to effect his deliverance?”

“But why should any one, in speaking of an action, venture to pronounce it mad or wise, or good or bad?”

“I have learned, by my own experience, that all extraordinary men, who have accomplished great and astonishing actions, have ever been decried by the world as drunken or insane.”

Aloilbert: “I was on the point of breaking off the conversation, for nothing puts me so completely out of patience as the utterance of a wretched commonplace when I am talking from my inmost heart.”

“Shame upon him who can look on calmly, and exclaim, <The foolish girl! she should have waited; she should have allowed time to wear off the impression; her despair would have been softened, and she would have found another lover to comfort her.> One might as well say, <The fool, to die of a fever! why did he not wait till his strength was restored, till his blood became calm? all would then have gone well, and he would have been alive now.>”

“If I sometimes invent an incident which I forget upon the next narration, they remind one directly that the story was different before; so that I now endeavour to relate with exactness the same anecdote in the same monotonous tone, which never changes. I find by this, how much an author injures his works by altering them, even though they be improved in a poetical point of view. The first impression is readily received.”

“Now and then the fable of the horse recurs to me. Weary of liberty, he suffered himself to be saddled and bridled, and was ridden to death for his pains.”

“as flores da vida são tudo menos visionárias. Quantas não se vão sem deixar traços”

“Gracious Providence, to whom I owe all my powers, why didst thou not withhold some of those blessings I possess, and substitute in their place a feeling of self-confidence and contentment?” “our happiness or misery depends very much on the objects and persons around us. On this account, nothing is more dangerous than solitude: there our imagination, always disposed to rise, taking a new flight on the wings of fancy, pictures to us a chain of beings of whom we seem the most inferior. All things appear greater than they really are, and all seem superior to us. This operation of the mind is quite natural: we so continually feel our own imperfections, and fancy we perceive in others the qualities we do not possess, attributing to them also all that we enjoy ourselves, that by this process we form the idea of a perfect, happy man,—a man, however, who only exists in our own imagination.”

In the evening I say I will enjoy the next morning’s sunrise, and yet I remain in bed: in the day I promise to ramble by moonlight; and I, nevertheless, remain at home. I know not why I rise, nor why I go to sleep.

“Say what you will of fortitude, but show me the man who can patiently endure the laughter of fools, when they have obtained an advantage over him.”

“A hundred times have I seized a dagger, to give ease to this oppressed heart. Naturalists tell of a noble race of horses that instinctively open a vein with their teeth, when heated and exhausted by a long course, in order to breathe more freely. I am often tempted to open a vein, to procure for myself everlasting liberty.”

“when Ulysses talks of the immeasurable sea and boundless earth, his epithets are true, natural, deeply felt, and mysterious. Of what importance is it that I have learned, with every schoolboy, that the world is round? Man needs but little earth for enjoyment, and still less for his final repose.”

“Her health is destroyed, on account of which she is prevented from having any enjoyment here below. Only such a creature could have cut down my walnut trees! I can never pardon it. Hear her reasons. The falling leaves made the court wet and dirty; the branches obstructed the light; boys threw stones at the nuts when they were ripe, and the noise affected her nerves; and disturbed her profound meditations, when she was weighing the difficulties of Kennicot, Semler, and Michaelis.”

Ossian has superseded Homer in my heart. To what a world does the illustrious bard carry me!”

“would they feel—or how long would they feel the void which my loss would make in their existence? How long! Yes, such is the frailty of man, that even there, where he has the greatest consciousness of his own being, where he makes the strongest and most forcible impression, even in the memory, in the heart, of his beloved, there also he must perish,—vanish,—and that quickly.”

“Witness, Heaven, how often I lie down in my bed with a wish, and even a hope, that I may never awaken again. And in the morning, when I open my eyes, I behold the sun once more, and am wretched. I am alone the cause of my own woe, am I not?”

“What is the destiny of man, but to fill up the measure of his sufferings, and to drink his allotted cup of bitterness? And if that same cup proved bitter to the God of heaven, under a human form, why should I affect a foolish pride, and call it sweet? Why should I be ashamed of shrinking at that fearful moment, when my whole being will tremble between existence and annihilation, when a remembrance of the past, like a flash of lightning, will illuminate the dark gulf of futurity, when everything shall dissolve around me, and the whole world vanish away? Is not this the voice of a creature oppressed beyond all resource, self-deficient, about to plunge into inevitable destruction, and groaning deeply at its inadequate strength, <My God! my God! why hast thou forsaken me?> And should I feel ashamed to utter the same expression? Should I not shudder at a prospect which had its fears, even for him who folds up the heavens like a garment?”

“Happy mortal, who can ascribe your wretchedness to an earthly cause! You do not know, you do not feel, that in your own distracted heart and disordered brain dwells the source of that unhappiness which all the potentates on earth cannot relieve.”

“whilst he fondly dreams that he is grasping at infinity, does he not feel compelled to return to a consciousness of his cold, monotonous existence?”

Whether Werther went or were, his wonts and his whereabouts, and his worries… What does all that mean or in what does that menace the meanest mankind?

I am [the] well; I have no desires to tell.

“No, Charlotte, no! How can I, how can you, be annihilated? We exist. What is annihilation? A mere word, an unmeaning sound that fixes no impression on the mind.”

“Even the prudent and the good have before now hesitated to explain their mutual differences, and have dwelt in silence upon their imaginary grievances, until circumstances have become so entangled, that in that critical juncture, when a calm explanation would have saved all parties, an understanding was impossible.”

“Heaven favours my design, and you, Charlotte, provide me with the fatal instruments. It was my desire to receive my death from your hands, and my wish is gratified. I have made inquiries of my servant. You trembled when you gave him the pistols, but you bade me no adieu. Wretched, wretched that I am—not one farewell! How could you shut your heart against me in that hour which makes you mine for ever?”

“At twelve o’clock Werther breathed his last. The presence of the steward, and the precautions he had adopted, prevented a disturbance; and that night, at the hour of eleven, he caused the body to be interred in the place which Werther had selected for himself. No priest attended.”

12:00AM, 20 de setembro de 2017

“EU SOU HEATHCLIFF!”

Roland Barthes, 1977

DIC – sortija: anel de dedo ou de cabelo; jogo de passar-o-anel, espécie de batata-quente transplantado.

anonadarse: aniquilar-se

asir: agarrar, prender, atingir

colmar: preencher, acalmar

ajetreo: atividade intensa, atarefamento, zigue-zague

esquela: necrológio

pañoleta: lenço, xale

apabullar: aporrinhar

mansalva: a mancheias

candil, plafón: candeia, lustre

guiñar, guiño: brilhar (lampejo); desprezar (indiferença); subentender (latente); talvez gracejar (gracejo).

agujero: buraco

glicina: glicina (Port.), glicocola, aminoácido presente no açúcar

embadurnar: manchar

desgarrador: pungente, lancinante

cordel: barbante

celda: cela

acertijo: adivinhação

descifrar: decifrar

anclar: ancorar

angosto: estreito

oblación/oblação: oferenda

rompecabezas: quebra-cabeça

* * *

Las palabras no son jamás locas, es la sintaxe que es loca.”

<alucinación verbal> (Freud, Lacan): frase trunca que se limita generalmente a su parte sintáctica (<Aunque seas…>, <Si debes aún…>, <Sigue siendo…>)” Quando quero me lembrar de algo esquecido numa lista de afazeres ou simplesmente algo exaustivo que tenho que fechar e soterrar de uma vez. MANTRAS AUTO-COMPLETANTES: TCHEU VÊ…

QUE MAIS? CLAC, CLAC… A BER… ENTONCES… A VECES… POR CIERTO… PERO NI SIEMPRE… !Y AL CABO!… !NO OTRA VEZ!

* * *

índice dos 80 verbetes amorosos

ABISMARSE

ABRAZO

ADORABLE

AFIRMACIÓN

ALTERACIÓN

ANGUSTIA

ANULACIÓN

ASCESIS

ÁTOPOS

AUSENCIA

CARTA

CATÁSTROFE

CELOS

CIRCUNSCRIBIR

COLOCADOS

COMPASIÓN

COMPRENDER

CONDUCTA

CONNIVENCIA

CONTACTOS

CONTINGENCIAS

CORAZÓN

CUERPO

DECLARACIÓN

DEDICATORIA

DEMONIOS

DEPENDENCIA

DESOLLADO

DESPERTAR

DESREALIDAD

DOLIDO

DRAMA

ENCUENTRO

ERRABUNDEO

ESCENA

ESCRIBIR

ESPERA

EXILIO

FADING

FALTAS

FASTIDIOSO

FIESTA

GASTO

GRADIVA

HABLADURÍA

IDENTIFICACIÓN

IMAGEN

INCOGNOSCIBLE

INDUCCIÓN

INDUMENTARIA

INFORMANTE

INSOPORTABLE

LANGUIDEZ

LOCO

LOCUELA

LLORAR

MAGIA

MONSTRUOSO

MORTIFICACIÓN

MUTISMO

NOCHE

NUBES

OBJETOS

OBSCENO

OCULTAR

POR QUÉ

QUERER-ASIR

RAPTO

RECUERDO

RESONANCIA

SACIEDAD O COLMO

SALIDAS

SIGNOS

SOLO

SUICIDIO

TAL

TE AMO

TERNURA

UNIÓN

VERDAD

ABISMARSE. Ataque de anonadamiento que se apodera del sujeto amoroso, por desesperación o plenitud.

la dulzura del abismo (…) felicidad excesiva”

nadie más a quien hablar

hemorragia suave que no mana de ningún parte de mi cuerpo” “Me instalo fugitivamente en un pensamiento falso de la muerte”

SARTRE. Sobre el desvanecimiento y la cólera como huidas, Esquisse d’une théorie des émotions.

ABRAZO. El gesto del abrazo amoroso parece cumplir, por un momento, para el sujeto, el sueño de unión con el ser amado.

ANTI-DELEUZE: “En este incesto prorrogado, nada se agota, nada se quiere: todos los deseos son abolidos, porque parecen definitivamente colmados.” “en medio de este abrazo infantil, lo genital llega infaltablemente a surgir”

la saciedad existe, y no me daré tregua hasta hacer que se repita: a través de todos los meandros de la historia amorosa me obstinaré en querer rencontrar, renovar, la contradicción – la contracción – de los dos abrazos.

ADORABLE. Al no conseguir nombrar la singularidad de su deseo por el ser amado, el sujeto amoroso desemboca en esta palabra un poco tonta: ¡adorable!

el buen humor del deseo. Todo París está a mi disposición, sin que yo quiera asirlo: ni languidez ni codicia. Olvido todo lo real que, en París, excede a su encanto”

DIDEROT. Sobre la teoría del instante fecundo

la correcta traducción de <adorable> sería el ipse latino: es él, es precisamente él en persona.”

De palabra en palabra, me canso de decir de otro modo lo que es propio de mí” “viaje al término del cual mi última filosofía no quede sino ser la de reconocer – y la de practicar – la tautología. Es adorable lo que es adorable. “Lo que clausura así el lenguaje amoroso es aquello mismo que lo ha instituido: la fascinación.” “disco rayado”

AFIRMACIÓN. Contra viento y marea, el sujeto afirma el amor como valor.

PELÉIAS: Que tens? Não me pareces feliz.

(…) Sim, sim, eu sou feliz, mas estou triste.”

indiferença perfeita”

Hago discretamente cosas locas; soy el único testigo de mi locura. Lo que el amor desnuda en mí es la energía. Todo lo que hago tiene un sentido (puedo, pues, vivir, sin quejarme), pero ese sentido es una finalidad inasequible: no es más que el sentido de mi fuerza. Las inflexiones dolientes, culpables, tristes, todo lo reactivo de mi vida cotidiana se revierte. Werther alaba [louva] su propia tensión, que él afirma, frente a la simpleza de Alberto. Nacido de la literatura, no pudiendo hablar sino con la ayuda de esos códigos usados, estoy no obstante solo con mi fuerza, consagrado a mi propia filosofía.”

ALTERACIÓN. Producción breve, en el campo amoroso, de una contraimagen del objeto amado. Al capricho de incidentes ínfimos o de rasgos tenues, el sujeto ve alterarse e invertirse repentinamente la buena Imagen.

había solamente un pequeño punto de la nariz que llevaba una marca ligera, mas una clara marca de corrupción.” Rusbrock

¿Será vulgar el otro, de quien yo alababa su elegancia y originalidad?”

estoy provisionalmente defascinado, no sin dolor.”

la vergüenza viene de la sujeción (…) a merced de un incidente fútil, que sólo mi perspicacia o mi delirio captan”

lo veo de pronto (cuestión de visión) afanándose, enloqueciéndose, o simplemente empeñándose en complacer, en respetar, en plegarse a ritos mundanos gracias a los cuales espera hacerse reconocer.” “imagen mezquina: me mostra al otro preso en la simpleza del mundo social.” “el otro se vuelve gregario.”

Muy a menudo es por el lenguaje que el otro se altera; dice una palabra diferente, y escucho zumbar de una manera amenazante todo otro mundo, que es el mundo del otro.” PIROCO QUEER – Y muy a menudo es cuando está entre sus amigos más viejos, antiguos. Una arqueología abstracta en vivo. DESALTERACIÓN o la reversión perfunctoria del proceso: No era nada. Es diferente. No quiere decir que contigo no me divierto.

el gueto temido de la homosexualidad femenina, de la seducción grosera”

La palabra está hecha de una sustancia química tenue que opera las más violentas alteraciones: el otro, mantenido largo tiempo en el capullo de mi propio discurso, da a entender, por una palabra que se le escapa, los lenguajes a los que puede recurrir y que por consecuencia otros le prestan.”

el otro se me aparece sometido a un deseo. Pero no es un deseo acabado, bien dirigido – en tal caso estaría simplemente celoso – es solamente un deseo nasciente, un impulso de deseo que detecto en el otro, sin que él mismo esté muy consciente de ello: lo veo, en la conversación, agitarse, multiplicarse, sobrepasarse, ponerse en posición de apetencia respecto de un tercero, como suspenso de él para seducirlo.” “verán a ese sujeto enloquecido por aquel otro, impulsado a establecer con él una relación más cálida, más insistente, más empalagosa [melosa, enjoativa]: sorprendo al otro, por así decir, en flagrante delito de inflación de sí mismo.”

Vi la esperma brotar de sus ojos” Sade

y a poco que la persona solicitada responda de la misma manera, la escena se hace irrisoria: tengo la visión de 2 pavorreales desplegando las colas [HAHA], uno ante el otro.”

Gide, cediendo al juego de 3 escolares argelinos, <anhelante, jadeante>, ante su mujer que fingía leer, tenía el aire <de un criminal o de un loco>. ¿Todo deseo no sea el mío no es loco?”

FLAUBERT. Bouvard et Pécuchet

Herido por un propósito que lo sorprende, Werther ve de pronto a Carlota como una parlanchina cualquiera y la incluye en el grupo de las amigas con las cuales parlotea (no es ya la otra, sino otra entre otras), y dice entonces desdeñosamente: <mis mujercitas> (meine Weibchen). Una blasfemia asciende bruscamente a los labios del sujeto y viene a romper irrespetuosamente la bendición del enamorado [O momento da quebra do tabu]: está poseído por un demonio que habla por su boca de donde salen, como en los cuentos de hadas, no ya flores, sino sapos. Horrible reflujo de la Imagen.

(El horror de herir es todavía más fuerte que la angustia de perder.)

A vulgarização da mulher, para o homem hetero, não seria já uma putificação (atestado de promiscuidade)?

ANGUSTIA. El sujeto amoroso, a merced de tal o cual contingencia, se siente asaltado por el miedo a un peligro, a una herida, a un abandono, a una mudanza, sentimiento que expresa con el nombre de angustia.

los muebles, las lámparas, son estúpidos; no hay nada de amistoso donde buscar ánimo.”

el temor clínico al desmoronamiento es el temor a un desmoronamiento que ha sido ya experimentado (primitive agony)”

WINNICOTT – La crainte de l’effondrement

ANULACIÓN. Explosión de lenguaje en el curso del cual el sujeto llega a anular al objeto amado bajo el peso del amor mismo: por una perversión típicamente amorosa, lo que el sujeto ama es el amor y no el objeto.

Carlota es muy insulsa; es el pobre personaje de una escenificación fuerte, atormentada, brillante, montada por el sujeto W.; por una decisión graciosa de este sujeto, un objeto grotesco está ubicado en el centro de la escena“objeto inerte” “es mi deseo lo que deseo, y el ser amado no es más que su agente.” “feliz de elevarme humillando al otro”

Me siento culpable y me reprocho por abandonarlo. Se opera un brusco viraje: trato de desanularlo, me obrigo a sufrir de nuevo.”

ASCESIS. Ya sea que se sienta culpable con respecto al ser amado o que quiera impresionarlo representándole su infortunio, el sujeto amoroso esboza una conducta ascética de autocastigo (régimen de vida, indumentaria, etcétera).

me entregaré al estudio de una ciencia seria y abstracta.”

Seré muy paciente, un poco triste, en una palabra digno, como corresponde al hombre del resentimiento. Remarcaré histéricamente mi duelo (el duelo que presumo) en mi vestimenta, en el corte de pelo, en la regularidad de mis hábitos. Será un retiro apacible; justo ese poco de retiro necesario para el buen funcionamiento de un patético [apaixonado] discreto.”

regresa, mírame, mira lo que haces de mí.”

O enlutado, asceta pleno, diante de si mesmo e do SOCIUS, é isso em escala absoluta: chantageia com o mundo, jamais cede. “Preferiria desaparecer, ser aniquilado, que deixar de sofrer diária e deliberadamente.” “Porque é culpa de vocês, no fundo, será que vocês não reconhecem os monstros que são, a água límpida que sorvem sem pedir licença?”

ÁTOPOS. El ser amado es reconocido por el sujeto amoroso como átopos (calificación dada a Sócrates por sus interlocutores), es decir, como inclasificable, de una originalidad incesantemente imprevisible.

Sobre la atopía de Sócrates, Michel Guérin, Nie., Socrate héroïque.”

intuyo que el verdadero lugar de la originalidad no es ni el otro ni yo, sino nuestra propia relación. Es la originalidad de la relación lo que es preciso conquistar. La mayor parte de las heridas me vienen del estereotipo: estoy obligado a estar celoso, abandonado, frustrado, como todo el mundo.” “los celos, por ejemplo, no tienen ya espacio en esa relación sin lugar”

AUSENCIA. Todo episodio de lenguaje que pone en escena la ausencia del objeto amado – sean cuales fueren la causa y la duración – y tiende a transformar esta ausencia en prueba de abandono.

Es la mujer quien da forma a la ausencia, quien elabora su ficción, puesto que tiene el tiempo para ello” “los Cantos de tejedoras” Los Cantos O(b)scuros o “b” cenos.

en todo hombre que dice la ausencia del otro, lo femenino se declara” “el origen ha pertenecido, el porvenir pertenecerá a los sujetos en quien existe lo femenino.”

destetado detestado sem teto e de vidro e desfigurado apenas verborrágico

No princípio era a Verborragia, no princípio Deus – eu sabia –

sangrava (hemorragia).

Trate de se tratar. Dá para se dar ao respeito. Considere levar-se em consideração.

Soy irregularmente infiel. Es la condición de mi supervivencia” “El enamorado que no olvida a veces, muere por exceso, fatiga y tensión de memorias (como W.).”

muchas veces pasaban los autobuses uno tras otro y ella no aparecía en ninguno.”

Com os cristãos acontece o contrário do que com essa nossa resignação madura? Primeiro a dor da morte inaudita, depois a esperança infinita…

La frustración tendría por figura la Presencia (…) La castración tendría por figura la Intermitencia” “El deseo se estrella contra la necesidad: está ahí el hecho obsesivo del sentimiento amoroso.”

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO EDIPIANO: “como una madre que viene a buscar su hijo, del brillo mundanal, de la infatuación social, que me restituya <la intimidad religiosa, la gravedad> del mundo amoroso.”

camarillas [grupo de lobistas ou influenciadores], ambiciones, promociones, tretas, alianzas, escisiones, funciones, poderes”

en el último momento: cuando hayas deseado la verdad como has deseado el aire, entonces sabrás lo que es.”

CARTA. La figura enfoca la dialéctica particular de la carta de amor; a la vez vacía (codificada) y expresiva (cargada de ganas de significar el deseo).

no tengo nada que decirte, sino que este nada es a ti a quien lo digo”

Gide: Paludes, que es el libro de la Nada.”

<cuando escribe a alguien, es para él y no para usted: debe pues buscar menos decirle lo que piensa que lo que le agrada más.> la marquesa de Merteuil, Liaisons dangereuses – ella no está enamorada; lo que ella postula es una correspondencia, es decir una empresa táctica destinada a defender posiciones, a asegurar conquistas” “(se trata pues de una verdadera correspondencia, en el sentido casi matemático del término) Pero la carta, para el enamorado, no tiene valor táctico: es puramente expresiva – en rigor aduladora”

Atenciosamente,

Aquele que preferia ficar sem uma resposta!

Perpetuos monólogos a propósito de un ser amado, que no son ni rectificados ni alimentados, desenbocan en ideas erróneas sobre las relaciones mutuas, y nos vuelven extraños uno al otro cuando nos encontramos de nuevo” Freud: Correspondance, 49 [A su novia Martha]

CATÁSTROFE. Crisis violenta en cuyo transcurso el sujeto, al experimentar la situación amorosa como un atolladero definitivo, como una trampa de la que no podrá jamás salir, se dedica a una destrucción total de sí mismo.

después de no sé qué incidente, me encierro en mi habitación y rompo en sollozos: me lleva una ola poderosa, asfixiado de dolor (…) veo como en un relámpago claro y frío, la destrucción a la que estoy condenado. Ninguna relación con la humillación insidiosa y en suma civilizada de los amores dificiles; ninguna relación con el pasmo del sujeto abandonado; no me autocompadezco.” Vó Maria sempre em meu imaginário nessas horas: qual é a razão?

(¿Causa [de la Catástrofe]? Nunca solemne, de ningún modo por declaración de ruptura)”

¿No es indecente comparar la situación de un sujeto con mal de amores a la de un recluso de Dachau? ¿Una de las injurias más inimaginables de la Historia puede reencontrarse en un incidente fútil, infantil, sofisticado, oscuro, ocurrido a un sujeto cómodo, que es sólo presa de su Imaginario? Estas dos situaciones tienen, sin embargo, algo de común: son, literalmente, pánicas”

<Pánico> se relaciona con el dios Pan; pero se pueden emplear las etimologías como las palabras y fingir creer que <pánico> viene del adjetivo griego que quiere decir <todo>.”

BETTELHEIM. La fortaleza vacía

CELOS.Sentimiento que nace en el amor y que es producido por la creencia de que la persona amada prefire a otro” (Littré).

El celoso de la novela no es W.; es el señor Schmidt, el novio de Friederike, el hombre del mal humor. (…) Se trata (y ahí está una de las bellezas del libro) de una disposición trágica y no psicológica. W. no odia a Alberto; simplemente, Alberto ocupa una plaza deseada: es un adversario”

W. es capturado por esta imagen: Carlota corta rebanadas de pan y las distribuye a sus hermanos y hermanas. Carlota es un pastel, y ese pastel se reparte: a cada uno su tajada: no soy él único”

¿las diosas del Destino no son también las diosas del Reparto, las Parcas (de las que la última es la Muda, la Muerte)?”

si no acepto la partición del ser amado niego su perfección” “Melite se reparte porque ella es perfecta, e Hiperión sufre por ello [Hölderlin]” “Así, sufro, dos veces: por el reparto mismo, y por mi impotencia para soportar su nobleza.”

Zulayha intentó seducir a José y el marido no se indignó por ello (…) la escena transcurre en Egipto y Egipto está bajo un signo zodiacal que excluye los celos: Géminis. [Djedidi: <José cede ‘en la medida de un ala de mosquito’ para que la leyenda no pueda poner en duda su virilidad.>]”

CIRCUNSCRIBIR. Para reducir su infortúnio, el sujeto pone su esperanza en un método de control que le permita circunscribir los placeres que le da la relación amorosa: por una parte, guardar estes placeres, aprovecharlos plenamente, y, por la otra, cerrar la mente a las amplias zonas depresivas que separan estos placeres: “olvidar” al ser amado fuera de los placeres que da.

Gaudium es el <placer que el alma experimenta cuando considera la posesión de un bien presente o futuro como assegurada…>”

Laetitia es un placer alegre, <un estado en que el placer predomina en nosotros> (en medio de otras sensaciones a veces contradictorias).”

LEIBNIZ. Nouveaux essais sur l’entendement humain

nada, de la imagen, puede ser olvidado; una memoria extenuante impide abandonar a voluntad al amor”

(convertir la escasez de frecuentación en lujo de la relación, a la manera epicúrea; o, mas aún, considerar al otro como perdido, y por lo tanto experimentar, cada vez que él vuelve, el alivio de una resurrección)”

la miseria amorosa es indisoluble (el amor no es ni dialéctico ni reformista).”

COLOCADOS. El sujeto amoroso ve a todos los que lo rodean colocados, y cada uno le parece como provisto de un pequeño sistema práctico y afectivo de vínculos contractuales, de los que se siente excluido; experimenta entonces un sentimiento ambiguo de envidia y de irrisión.

W. quiere una plaza que está ya tomada”

los esposos, los amantes, los tríos, los propios marginados (droga, seducción), bien alojados en su marginalidad: todo el mundo salvo yo.

Cuando el tren atraviesa, por encima, las grandes ciudades de Holanda, la mirada del viajero domina los interiores sin cortinas, bien iluminados, donde cada uno parece consagrarse a su intimidad como si no fuera visto por miles de pasajeros”

COMPASIÓN. El sujeto experimenta un sentimiento de compasión violenta con respecto al objeto amado cada vez que lo ve, lo siente o lo sabe desdichado o amenzado por tal o cual razón, exterior a la relación amorosa misma.

NIETZSCHE. Aurora, I, af. 63.

Si el otro sufre alucinaciones, si teme volverse loco, debería yo mismo alucinar, enloquecer. Ahora bien, sea cual fuere la fuerza del amor esto no se produce: estoy conmovido, angustiado, porque es horrible ver sufrir a la gente que se ama, pero, al mismo tiempo, permanezco seco, impermeable. (…) soy una Madre (el otro me da preocupaciones), pero una Madre insuficiente; me agito demasiado, en proporción incluso de la reserva profunda en que, de hecho, me mantengo. (…) siendo desgraciado por sí mismo, el otro me abandona: si sufre sin que yo sea la causa, es que no cuento para él: su sufrimiento me anula

OVERRESIS: “Sufriré por lo tanto con el otro, pero sin exagerar; sin perderme. A esta conducta, a la vez muy afectiva y muy controlada, muy amorosa y muy pulcra [formosa], se le podría dar un nombre: es la delicadeza, es como la forma <sana> (civilizada, artística) de la compasión.”

COMPRENDER. Al percibir de golpe el episodio amoroso como un nudo de razones inexplicables y de soluciones bloqueadas, el sujeto exclama: “¡Quiero comprender lo que me ocurre!”.

El lugar más sombrio – dice un proverbio chino – está siempre bajo la lámpara.”

COMO TE COMO VEGANO

Comprended vuestra locura: tal era el mandato de Zeus cuando ordenó a Apolo volver los rostros de los Andróginos divididos (…) <para que la vista de su seccionamiento los vuelva menos osados>” “el yo, órgano soberbio de la ignorancia”

no desenmascarar más, no interpretar más, sino hacer de la conciencia misma una droga y a través de ella aceder a la visión sin remanente de lo real, al gran sueño claro, al amor profético.”

(…¿Si se requiriera del análisis no ya destruir la fuerza (ni tampoco corregirla o dirigirla), sino solamente decorarla, como lo haría un artista? ¿Nos imaginamos que la ciencia de los lapsus descubra un día su propio lapsus y que ese lapsus sea: una forma nueva, inaudita, de la conciencia?)”

CONDUCTA. Figura deliberativa: el sujeto amoroso se plantea con angustia problemas con mucha frecuencia fútiles, de conducta: ante tal alternativa ¿qué hacer?, ¿cómo actuar?

hasta que, de tal cascada de alternativas, surja por fin un acto puro – puro de todo pesar, de todo estremecimiento –.”

me ato en el cálculo, me impido gozar.”

(la espontaneidad: gran sueño: paraíso, poder, goce)”

no soy el hombre de los pequeños <acting-out>; mi locura es moderada, no se ve; inmediatamente tengo miedo de las consecuencias, de toda consecuencia: es mi miedo – mi deliberación – el que es <espontáneo>.”

paz; sufro, pero al menos no tengo que decidir nada” “no tengo más que estar ahí [Edson]: el karma (la máquina, el aula) se mueve ante mí, pero sin mí.”

CONNIVENCIA. El sujeto se imagina hablando del ser amado con una persona rival y esta imagen desarrolla extrañamente en él una aceptación de complicidad.

Los celos son una ecuación con tres términos permutables (indecidibles): se está siempre celoso de dos personas a la vez (…) El odiosamato (así se dice <rival> em italiano) es también amado por mí: me interesa, me intriga, me llama (véase El eterno marido de Dostoievski).”

CONTACTOS. La figura refiere a todo discurso interior suscitado por un contacto furtivo con el cuerpo (y más precisamente la piel) del ser deseado.

(como Dios, el Fetiche no responde)”

(Presiones de manos – inmenso expediente novelesco –…)”

CONTINGENCIAS. Pequeños acontecimientos, incidentes, reveses, fruslerías, mezquindades, futilidades, pliegues de la existencia amorosa; todo nudo factual cuya resonancia llega a atravesar las miras de felicidad del sujeto amoroso, como si el azar intrigase contra él.

El incidente es fútil (es siempre fútil), pero va a atraer hacia sí todo mi lenguaje. Lo transformo enseguida en acontecimiento importante, pensado por algo que se parece al destino. (…) Circunstancias innumerables y tenues tejen así el velo negro de la Maya, el tapiz de las ilusiones, de los sentidos, de las palabras.”

En el incidente, no es la causa lo que me retiene y repercute en mí, es la estructura. Toda la estructura de la relación viene a mí como se tiende un mantel [toalha]: sus resaltos, sus trampas, sus callejones [becos] sin salida (…) No recrimino, no sospecho, no busco las causas; veo con pavor la extensión de la situación en la que estoy preso; no soy el hombre del resentimiento, sino el de la fatalidad.”

A veces, histéricamente, mi propio cuerpo produce el incidente: (…) un cólico, una gripe: todos los sustitutos posibles de la afonía histérica [pierda de la voz].”

CORAZÓN. Esta palabra vale para toda clase de movimientos y de deseos, pero lo que es constante es que el corazón se constituya en objeto de donación – aunque sea mal apreciado o rechazado –.”


Com “c” de “confisco”.

¿Qué van a hacer de mi deseo el mundo, el otro?” “el mundo y yo no nos interesamos en la misma cosa”

(sólo los enamorados y el niño tienen el corazón oprimido).”

CUERPO. Todo pensamiento, toda emoción, todo interés suscitados en el sujeto amoroso por el cuerpo amado.

no siendo la fascinación, en suma, más que el extremo del desapego”

Seus dedos ao teclar,

Sua expressão quando está assistindo um vídeo.

DECLARACIÓN. Propensión del sujeto amoroso a conversar abundantemente, con una emoción contenida, con el ser amado, acerca de su amor, de él, de sí mismo, de ellos: la declaración no versa sobre la confesión de amor, sino sobre la forma, infinitamente comentada, de la relación amorosa.

(Hablar amorosamente es desvivirse sin término, sin crisis; es practicar una relación sin orgasmo. Existe tal vez una forma literaria de este coitus reservatus: es el galanteo.)”

DEDICATORIA. Episodio de lenguaje que acompaña todo regalo amoroso, real o proyectado, y, más generalmente, todo gesto, efectivo o interior, por el cual el sujeto dedica alguna cosa al ser amado.

El regalo amoroso es solemne; arrastrado por la metonimia voraz que regula la vida imaginaria, me transporto por entero en él. A través de ese objeto te doy mi Todo, te toco con mi falo; es por eso que estoy loco de excitación, que recorro las tiendas, que me obstino en encontrar el buen fetiche, el fetiche brillante logrado, que se adaptará perfectamente a tu deseo.”

¿el análisis como un regalo de amor?”

<¿Qué voy a hacer con tu regalo?!> se convierte en la frase-farsa del regalo amoroso.”

¡qué es lo que no te doy!”

<Te daré más de lo que me das y así te dominaré> (en los grandes potlatchs amerindios se llegaba así a incendiar aldeas, a degollar esclavos).”

Declarar lo que regalo es seguir el modelo familiar: mira los sacrificios que hacemos por ti; o más aún: nosotros te hemos dado la vida (-Pero ¡qué voy a hacer ya, con la vida!, etc.).”

No se puede regalar lenguaje, pero se lo puede dedicar – puesto que el otro es un pequeño dios –.” “es el principio mismo del Himno. No pudiendo dar nada, dedico la dedicatoria misma”

El canto es el suplemento precioso de un mensaje vacío, enteramente contenido en su intención, puesto que lo que regalo cantando es a la vez mi cuerpo (a través de mi voz) y el mutismo con que lo golpeas.”

No bien el sujeto amoroso crea o elabora una obra cualquiera, se apodera de él una pulsión de dedicatoria. Lo que hace, quiere inmediatamente, incluso por anticipado, regalarlo a quien ama, a aquel por quien ha trabajado, o trabajará.” “lo que sigue a la dedicatoria tiene poca relación con esa dedicatoria.”

por más que escriba tu nombre sobre mi obra, ésta ha sido escrita para <ellos> (los otros, los lectores). Es pues por una fatalidad de la escritura misma que no se puede decir de un texto que es amoroso, sino solamente, como máximo, que ha sido hecho <amorosamente>, como un pastel o una pantufla bordada.”

La escritura es seca, obtusa; sigue su curso, indiferente, sin delicadeza; mataría <padre, madre, amante>, antes que desviarse de su fatalidad (por lo demás enigmática). Cuando escribo, debo rendirme a esta evidencia (que, según mi Imaginario, me desgarra): no hay ninguna benevolencia en la escritura sino más bien un terror: sofoca al otro, que, lejos de percibir en ella la donación, lee una afirmación de dominio, de poder, de goce, de soledad. De ahí la cruel paradoja de la dedicatoria: quiero regalarte a cualquier precio lo que te asfixia.Verdade Fundamental: não gosto de mim. Meus sermões não são chatos como os hipócritas, e – também – servem para mim mesmo.

(Comprobamos a menudo que un sujeto que escribe no posee para nada la escritura de su imagen privada: quien me ama <por mí mismo>, no me ama por mi escritura (y yo sufro por ello). ¡Es indudable que amar a la vez dos significantes en el mismo cuerpo resulta demasiado! Eso lo sabe cualquiera…)”

PASOLINI. Teorema

O que os matemáticos denominam uma catástrofe (a descomposição de um sistema por outro)”

Catástrofe inicial translúcida tranSibéria trans-baudellairiana transuda

TRANSUBIHARDSOFT

.PUNCH

Não posso pois te dar o que cri escrever para ti; a isso devo render-me: (…) (não me contentaria com um cabeçalho mundano, preguiçoso de

dedicar-te uma obra que se nos escapa aos dois). A operação em que se apirisiona o outro não é um cabeçalho. É, mais profundamente, uma inscrição: o outro está inscrito, se inscreveu no texto, deixou aí sua impressão, múltipla. Se, desse livro, tu não fôras mais que quem o dedica, não sairias de tua dura condição de objeto (amado) – de deus –; mas tua presença no texto, já pelo fato de ser ali irreconhecível, não é a de uma figura analógica, a de um fetiche: é a de uma força, que não está, a partir desse momento, segura.”

DEMONIOS. A veces le parece al sujeto amoroso que está poseído por un demonio de lenguaje que lo impulsa a herirse a sí mismo y a expulsarse – según una expresión de Goethe – del paraíso que, en otros momentos, la relación amorosa constituye para él.

El demonio es plural (<mi nombre es Legión>, Lucas 8:30). Cuando se rechaza a un demonio, cuando por fin le impongo silencio, hay otro”

Las burbujas hacen <plop> una tras otra… <Miedo de perder la dignidad> (el más avieso de los demonios)”

sobre todo si son de lenguaje (¿y de qué otra cosa serían?), se combaten por el lenguaje. Puedo pues esperar exorcizar (por mí mismo) la palabra demoniaca que se me sugiere sustituyéndola (si tengo el talento del lenguaje)” “yo creía por fin haber salido de la crisis y he aquí que no ceso de agitarme en el pensamiento, el deseo, el disgusto, la agresión del otro; y agrego a estas heridas el desánimo de comprobar que reincido “farmacopea (veneno por un lado, remedio por el otro)”

DEPENDENCIA. Figura en la cual la opinión ve la condición misma del sujeto amoroso, sojuzgado al objeto amado.

La mecánica del vasallaje amoroso exige una futilidad sin fondo. Puesto que para que la dependencia se manifieste en su pureza es necesario que estalle en las circunstancias más irrisorias, y devenga inconfesable a fuerza de pusilanimidad: esperar un llamado telefónico es de algún modo una dependencia demasiado burda [grosseira]; es necesario que la afine, sin límites” “en el campo amoroso la futilidad no es una <debilidad> o un <ridículo>: es un signo de fuerza

estoy sujeto dos veces: de quien amo y de quien él depende.” círculo da autodependência

não escolhi seus parentes (meus novos parentes)

seus amigos (no mínimo meus novos colegas)

Estoy submetido a ese estadio histórico en que el poder aristocrático comienza a sufrir los primeros golpes de la reivindicación democrática: <No hay razón para que sea yo quien, etc.>.

DESOLLADO [?]. Sensibilidad especial del sujeto amoroso que lo hace vulnerable, ofrecido en carne viva a las heridas más ligeras.

[?] ESFOLADO (Desolado? Porém em Espanhol a palavra é idêntica, sem o segundo “l”!). Alternativamente, em sentido conotativo e coloquial, mas fora de moda, DESCARADO, SEM-VERGONHA.

EMPLUMADO (cheio de si, todo-prosa)

Soy <una masa de sustancia irritable>.”

La carta geográfica de esos puntos sólo yo la conozco” “desearía que se distribuyera preventivamente este mapa de acupuntura moral a mis nuevos conocidos (que, por otra parte, podrían utilizarlo también para hacerme sufrir más).”

EL TRAVIESO PILLO: “Para identificar mis puntos débiles existe un instrumento que semeja un clavo: es la broma; yo la soporto mal. El Imaginario es, en efecto, una materia seria (nada que ver con el <espíritu serio>: el enamorado no es hombre de buena conciencia): el niño que está en la luna no es juguetón [brincalhão]; estoy, del mismo modo, cerrado al juego: no sólo el juego amenaza incesantemente con hacer aflorar uno de mis puntos débiles sino que inclusive todo aquello con lo que el mundo se entretiene me parece siniestro” Os suscetíveis aos bromeros pirracentos?

WINNICOTT. Fragment d’une analyse

sueña poco, no practica el retruécano” tipo de jogo de palavras baseado em inversões. Ex: deves comer para viver e não viver para comer.

basta de novela, basta de Imagen simulada

DESPERTAR. Modos diversos bajo los cuales el sujeto amoroso se vuelve a encontrar, al despertar, sitiado por la inquietud de su pasión.

El desvelo amoroso implica un desgaste que afecta al cuerpo tan duramente como un trabajo físico. <Sufría tanto, dice alguien, luchaba de tal modo durante todo el día con la imagen del ser amado, que, por la noche, dormía muy bien.> Y W., poco antes de suicidarse, se acuesta y dorme prolongadamente.”

despertares pánicos (Octavio se despierta de un desmayo: <De golpe sus desdichas se presentaron ante su pensamiento: no se muere de dolor, o hubiese muerto en ese instante>).”

DESREALIDAD. Sentimiento de ausencia, disminución de realidad experimentado por el sujeto amoroso frente al mundo. // DO SENTIMENTO DE SER RABUGENTO

I. (…) atónito [DIC – assombrado por um raio; atordoado.] como un astro desierto, como una Naturaleza que el hombre no hubiera jamás habitado.

II. Hojeo el álbum de un pintor que amo; no puedo hacerlo más que con indiferencia. (…)

III. En un restaurante atestado, con amigos, sufro (palabra incomprensible para quien no está enamorado). El sufrimiento me viene del gentío, del ruido, del decorado (kitsch). (…)

IV. (…) (El mundo está lleno sin mí, como en La náusea; juega a vivir detrás de un vidrio; el mundo está en un acuario; lo veo muy cerca y sin embargo aislado, hecho de otra sustancia; elijo continuamente fuera de mí mismo, como si estuviera drogado. <¡Oh!, cuando esta magnífica Naturaleza, desplegada ante mí, me parece tan glacial como una miniatura cubierta de barniz…>)”

Eu esvazio o mundo. Eu sou o absurdo sem graça, vacilando na pista de gelo que é o reino do propósito.

Toda conversación general en la que estoy obligado a asistir (si no a participar) me desuella, me deja aterido. Me parece que el lenguaje de los otros, del que estoy excluido, esos otros lo sobremplean irrisoriamente: afirman, contestan, presumen, alardean. ¿Que tengo que ver con Portugal, el cariño a los perros o el último Petit Rapporteur? Vivo el mundo – el otro mundo – como una histeria generalizada.”

salvarme de la desrealidad – para retrasar su llegada – intento comunicarme con el mundo a través del mal humor. Pronuncio discursos contra cualquier cosa” Seria uma boa se fosse “aqui” permitido (escrito muito antes de 21/05/17, quando o digito – já não trabalho com os mesmos colegas, o que era meu supremo suplício)

Pp. 110-111, as mais ricas e pungentes do livro? Nada sobre o amor, mas justamente sua antítese, o social.

<…En el aeropuerto el taxi me pidió 14 mil liras (en lugar de 7 mil) porque era ‘Corpus Christi’. Este país pierde en los 2 planos: elimina la diferencia de los gustos pero no la división de las clases, etc.> Basta, por otra parte, que vaya un poco más lejos para que esta agresividad, que me mantenía vivo, comunicado con el mundo, vuelva al abandono: entro en las aguas taciturnas de la desrealidad. <Piazza del Popolo (es feriado), todo el mundo habla, se encuentra en estado de exhibición (¿no es eso el lenguaje: un estado de exhibición?)…> (…) Estoy de sobra, pero, doble duelo, aquello de lo que soy excluido no me inspira deseos.” Na Internet eu me realizo, pois não faço a apologia, a acepção, de nada nem ninguém. “Respeita os outros! Parece que você tem 12 anos!” Justamente até que se tenha mais de 19 não se entende a “criancice” extravasadora dos adultos.

Sufro la realidad como un sistema de poder. Roma en día feriado, todos me imponen su sistema de ser; son mal criados. ¿La descortesía no es solamente una plenitud? El mundo está completo, la plenitud es su sistema, y, como una última ofensa, ese sistema se presenta como una <naturaleza> con la que debo mantener buenas relaciones: para ser <normal> (exento de amor) [Se quer viver aqui, adeqúe-se às regras!] me sería necesario encontrar divertido a Coluche [grande humorista francês dos anos 70-80, o Didi Mocó avec élegance], bueno el restaurante J., bella la pintura de T. y animada la fiesta del <Corpus Christi>; no solamente sufrir el poder sino incluso entrar en simpatía con él: ¿<amar> la realidad? ¡Qué tedio para el enamorado (por la virtud de lo amoroso)!”

Mientras percibo al mundo como hostil permanezco ligado a él: no estoy loco. Pero, a veces, agotado el mal humor, no tengo ya ningún lenguaje [Vânia, Thaís, Nerize, Ueslei, Jussara, Davi, minha sala, o sapateiro, minha casa, o twitter…]: el mundo no es <irreal> (podría entonces hablarlo: hay artes de lo irreal, y son las mayores), sino desreal: lo real ha huido de él, a ninguna parte, de modo que ya no tengo ningún sentido; no alcanzo a definir mis relaciones con Coluche, el restaurante, el pintor, la Piazza del Popolo. ¿Qué relación puedo tener con un poder si no soy ni su esclavo, ni su cómplice, ni su testigo?”

estereotipado, laboriosamente extravagante. Lo encuentro idiota en segundo grado: idiota por representar al idiota. Mi mirada es implacable, como la de un muerto; no me divierte ningún teatro, así sea risible [o tipo risonho universitário: Thomas, Aloísio, Tucano, Saulo…], no acepto ningún guiño; estoy cerrado a todo <tráfico asociativo>: mi conciencia está separada en dos por el vidrio del café.” película cinzescura dalma Ouço risadas ao longe no Setor Bancário Norte da minha alma.

TÍTULO DE LIVRO (SUGESTÃO): O NADA & O TABU

todo <real> lo perturba” (…) ninguna sustitución imaginaria viene a compensar esta pérdida (…) no <sueño> (…) coagulado, petrificado, inmutable (…) En un primer momento estoy neurótico; en el segundo momento estoy loco“si llego, por alguna habilidad de escritura, a decir esta muerte, comienzo a revivir”

Não estou para A-literalidades…

(un loco que escribe no es jamás completamente loco; es un falsificador: ningún Elogio de la Locura es posible).”

¿Qué es lo pueril? ¿Es <cantar el tedio, los dolores, las tristezas, las melancolías, la muerte, las tinieblas, lo sombrío>, etc. – todo eso que, según se dice, hace el enamorado –?”

DOLIDO. Imaginándose muerto, el sujeto amoroso ve la vida del ser amado continuar como si nada hubiera ocurrido.

hasta qué punto sentirían el vacio que tu pérdida causaría en su destino? ¿Cuánto tiempo?…”

es que a través del luto mismo, que no niego, veo la vida de los otros continuar, sin cambio; los veo perseverar en sus ocupaciones, en sus pasatiempos, en sus problemas, frecuentar los mismos lugares, los mismos amigos; nada cambiaría en el contenido de su existencia. Del amor, asunción demencial de la Dependencia (tengo absoluta necesidad del otro), surge cruelmente la posición adversa: nadie tiene verdaderamente necesidad de mí.”

estar deprimido, se dice, es llevar la figura de la Madre tal como me imagino que me llorará para siempre: imagen inmóvil, muerta, salida de la Nekuia [Nekyia, necromancia: diferente da katabasis greco-dantesca, não inclui a jornada ao Submundo, é mais como um holograma de Guerra nas Estrelas]”

el moribundo es apresado por un papear [*]: Carlota y sus amigos son <buenas mujercitas> que hablan fútilmente de la muerte. Me veo comido de dientes afuera por la palabra de los otros, disuelto en el éter de las Habladurías. Y las habladurías continuarán sin que yo sea ya, desde hace tiempo, el objeto: una energía lingual, fútil e incansable, podrá más que mi recuerdo mismo.

[*] “<Papear (ant. <charlar> o <hablar confusamente>): pappa, papilla; pappare, probar con la punta de la lengua, parlotear y comer.”

DRAMA. El sujeto amoroso puede escribir por sí mismo su novela de amor. Sólo una forma muy arcaica podría recoger el acontecimiento que declama sin poder contarlo.

Los acontecimentos de la vida amorosa son tan fútiles que no acceden a la escritura sino a través de un inmenso esfuerzo: uno se desalienta de escribir lo que, al escribirse, denuncia so propia chatura: <Encontré a X… en compañía de Y…>, <Hoy, X… no me ha telefoneado>, <X… estaba de mal humor>, etc.: ¿quién reconocería en esto una historia? El acontecimiento, ínfimo, no existe más que a través de su repercusión, enorme: Diario de mis repercusiones (de mis heridas, de mis alegrías, de mis interpretaciones, de mis razones, de mis veleidades): ¿quién comprendería algo en él?”

Como Relato, el amor es un programa que debe ser recorrido. Para mí, por el contrario, esta historia ya ha tenido lugar. El enamoramiento es un drama, si devolvemos a esta palabra el sentido arcaico que le dio Nietzsche: <El drama antiguo tenía grandes escenas declamatorias, lo que excluía la acción (ésta se producía antes o tras la escena).> El rapto amoroso (puro momento hipnótico) se produce antes del discurso y tras el proscenio de la conciencia: el <acontecimiento> amoroso es de orden hierático” Tróia, Ulisses de Joyce, etc. – o que Afrodites magérrimas de clitóris arregaçado jamais compreenderiam.

ENCUENTRO. La figura remite al tiempo feliz que siguió inmediatamente al primer rapto, antes que nacieran las dificultades de la relación amorosa.

<exploro> con embriaguez la perfección del ser amado, es decir la adecuación inesperada de un objeto a mi deseo: es la dulzura del comienzo, el tiempo proprio del idilio.”

se opone a la <secuela>: <la secuela> es el largo reguero [regueiro, fio, corrente] de sufrimientos, heridas, angustias, desamparos, resentimientos, desesperaciones, penurias y trampas de que soy presa, viviendo entonces sin cesar bajo la amenaza de una ruina que asolaría a la vez al otro, a mí mismo y al encuentro prestigioso que en un comienzo nos ha descubierto el uno al otro.”

Hay enamorados que no se suicidan: (…) vuelvo a ver el día (…) salida dialéctica (…) vuelva a iniciar la jornada (…) afirmo la afirmación, recomienzo, sin repetir.”

(más tarde, en el recuerdo, el sujeto convertirá en un momento los tres momentos de la jornada amorosa)” 2005, 2016- – tubos

ou: -2017-…

es un descubrimiento progresivo de las afinidades, complicidades e intimidades que podré cultivar eternamente con un otro, en trance de convertirse, desde luego, en <mi otro>: voy integramente hasta este descubrimiento (me estremece sólo persarlo), toda curiosidad intensa por un ser encontrado vale en suma por el amor”

¿Quieres eso? ¡Vaya, yo también! ¿No te gusta esto? ¡A mí tampoco!”

la estupefacción de un azar sobrenatural: el amor pertenece al orden (dionisiaco) del Golpe de dados.” shuffle do reprodutor musical

(<He aqui lo que soy>. Es el goce narrativo, lo que a la vez colma y retarda el saber, reenvida [instiga, incita]. En el encuentro amoroso me reanimo incessantemente, soy ligero.)”

ERRABUNDEO [errância, vagabundagem, vadiagem]. Aunque todo amor sea vivido como único y aunque el sujeto rechace la idea de repetirlo más tarde en otra parte, sorprende a veces en él una suerte de difusión del deseo amoroso; comprende entonces que está condenado a errar hasta la muerte de amor en amor.

una especie de inocencia oculta el fin de esta cosa concebida, afirmada, vivida según la eternidad. que desaparezca o pase a la región Amistad, de todas maneras, no lo veo desvanecerse (…) (el otro no desaparece jamás cuándo y cómo se lo espera). limitación del discurso amoroso: no puedo yo mismo construir hasta el fin mi historia de amor: exactamente igual que mi propia muerte” “a los otros corresponde escribir el relato mítico.”

como si el amor pudiera un día colmarme (…) como si, a través del amor, accediera yo a otra lógica (donde el absoluto no estuviera obligado a ser único)” Recuperação mental em 2015 temporária o suficiente

Desde el momento en que no soy colmado y sin embargo no me mato, el errabundeo amoroso es fatal. W. mismo lo ha conocido – passando de la <pobre Leonor> a Carlota –; si hubiera sobrevivido, W. habría escrito las mismas cartas a otra mujer.”

parece un ballet, más o menos rápido según la velocidad del sujeto infiel, es también una gran ópera. El Holandés maldito está condenado a errar por el mar mientras no haya encontrado una mujer de una fidelidad eterna. Soy el Holandés Errante; vicio desde los tiempos remotos de mi infancia profunda, dios Imaginario, afligiéndome con una compulsión de palabra que me lleva a decir <Te amo> hasta que otro recoja esta palabra y me la devuelva <Tomara que dure…>, <Ah, não era pra ser!> <Sossegue um tempo com alguém.> <Sossegue um tempo solteiro> ad infinit.

todos los <fracasos> amorosos se parecen (y con razón: todos proceden de la misma falla).”

La <mutabilidad perpetua> (in inconstantia constans)”

ESCENA. La figura apunta a toda escena (en el sentido restringido del término) como intercambio de cuestionamientos recíprocos.

la <última palabra>” “ejercicio de un derecho” “jamás tú sin mí” “Los participantes saben que el enfrentamiento al que se entregan y que no los separará es tan inconsecuente como un goce perverso (la escena sería una manera de darse placer sin el riesgo de engendrar niños).”

Es el diálogo lo que ha corrumpido a la Tragedia incluso antes de que llegara súbitamente Sócrates.” “esquizofrenia” “soliloquio amoroso” “el proto-actor, el loco y el enamorado” “la lengua social inspirada por la malvada Eris: la de la neurosis universal.”

el héroe y el corifeo [corifeu; o líder do coro trágico, aquele que fala pelos demais personagens da peça, é tanto um representante, um delegado, quanto um metamorfo, camaleão, podendo se passar por qualquer um da estória]”

la molestia de Carlota excita todavía más a W.”

esticomitis, modelo arcaico de todas las escenas del mundo”

Esta sobrepuja no es jamás otra cosa que el grito de Narciso: ¡Y yo! ¡Y yo!

¿De qué médios podría disponer yo? ¿El silencio? No haría más que avivar la voluntad de la escena; soy pues llevado a responder para enjugar, para suavizar. ¿El razonamiento? Nadie es de un metal tan puro que deje al otro sin voz. ¿El análisis de la propia escena? Pasar de la escena a la metaescena no es nunca sino abrir otra escena. ¿La huida? Es el signo de una defección adquirida: la pareja está ya deshecha: como el amor, la escena es siempre recíproca.” Meu silêncio constrangido, minha retirada estratégica, meu bloqueio das redes sociais, meu fajuto <agir com naturalidade com ela a despeito do que está acontecendo>, todos rigorosamente impotentes.

(Lo que X… tenía de bueno era que no explotaba jamás la frase que le era dada; por una suerte de ascesis rara, no se aprovechaba del lenguaje.)” <Ah, então quer dizer que…>

La escena no es ni práctica ni dialéctica” “en Sade la violencia ya no marca: el cuerpo es instantáneamente restaurado por nuevos desgastes” “así ocurre con el participante de la escena: renace de la escena pasada, como si nada hubiera ocurrido.”

arretado ajetreo

cajetera pelota de rabia

Todo participante de una escena sueña con tener la última palabra. Hablar el último, <concluir>, es dar un destino a todo lo que se ha dicho; en el espacio de la palabra, lo que viene último ocupa un lugar soberano” “todo combate de lenguaje (maché de los antiguos sofistas, disputatio de los escolásticos) se dirige a la posesíon de ese lugar; mediante la última palabra voy a desorganizar, a <liquidar> al adversario, voy a infligirle una herida (narcísica) mortal, voy a reducirlo al silencio, voy a castrarlo de toda palabra. (…) es el último golpe de dados lo que cuenta. La escena, no se parece en nada a un juego de ajedrez sino más bien a un juego de sortija [ainda bem]: no obstante, el juego es aquí revertido, puesto que la victoria corresponde a aquel que logra tener el anillo en su mano en el momento mismo en que el juego se detiene”

<Pronto te verás desembarazada de mí> (…) mediante el anuncio del suicidio W. se convierte imediatamente en el más fuerte de los dos

Qué es un héroe? Aquel que tiene la última réplica. ¿Se ha visto alguna vez un héroe que no hable antes de morir? Renunciar a la última réplica revela pues una moral antiheroica: es la de Abraham: hasta el final del sacrificio que se le ordena, no habla. (…) ese maestro zen que, por toda respuesta a la solemne pregunta: <Quién es Buda?>, se quitó las sandalias, las puso sobre su cabeza y se fue: disolución impecable de la última réplica, dominio del no-dominio.”

ESCRIBIR. Señuelos [animal; artimanha; armadilha], debates y callejones sin salida a los que da lugar el deseo de “expresar” el sentimiento amoroso en una “creación” (especialmente de escritura).

LA PARADOJA: “el mito romántico (produciré una obra inmortal escribiendo mi pasión). Sin embargo, W., que en otro tiempo dibujaba mucho y bien, no puede hacer el retrato de Carlota (…) <He perdido… la fuerza sagrada, vivificante; con que creaba mundos en torno de mí.>”

Esa mañana de verano, en calma la bahía,

me quedé largo rato en la mesa,

sin hacer nada.”

BASHŌ – Haikú

Oscilando entre um Jimi Hendrix engasgado que morreu de cólera (o homem que morreu de raiva) e um blog adolescente: “Por una parte es no decir nada y por la otra es decir demasiado: imposible el ajuste. Mis deseos de expresión oscilan entre el haikú muy apagado, capaz de resumir una situación desmedida, y un gran torrente de trivialidades. Soy a la vez demasiado grande y demasiado débil para la escritura (…) Cierto que el amor tiene parte ligada con mi lenguaje (que lo alimenta), pero no puede alojarse en mi escritura. No puedo escribirme. ¿Cuál es ese yo que se escribiría? (escribir sobre algo es volverlo caduco) – Lo que bloquea la escritura amorosa es la ilusión de expresividad: escritor, o pensándome tal, continúo engañándome sobre los efectos del lenguaje: no sé que la palabra <sufrimiento> no expressa ningún sufrimiento y que, por consiguiente, emplearla, no solamente es no comunicar nada, sino que incluso, muy rápidamente, es provocar irritación (sin hablar del ridículo). Sería necesario que alguien me informara que no se puede escribir sin pagar la deuda de la <sinceridad> (siempre el mito de Orfeo: no volverse a mirar). Lo que la escritura demanda y lo que ningún enamorado puede acordarle sin desgarramiento es sacrificar un poco de su Imaginario y asegurar así a través de su lengua la asunción de un poco de realidad.

Ante la muerte de su hijo-niño, para escribir (no serían más que jirones de escritura), Mallarmé se somete a la división parental:

Madre, llora

Yo, pienso”

soy mi propio niño: soy a la vez padre y madre (de mí, del otro): ¿cómo podría dividir el trabajo?”

Saber que no se escribe para el otro, saber que essas cosas que voy a escribir no me harán jamás amar por quien amo, saber que la escritura no compensa nada, no sublima nada, que es precisamente ahí donde no estás: tal es el comienzo de la escritura.”

ESPERA. Tumulto de angustia suscitado por la espera del ser amado, sometida a la posibilidad de pequeños retrasos (citas, llamadas telefónicas, cartas, atenciones recíprocas).

Espero a gaivota azul.

escenografía de la espera: destaco un trozo de tiempo en que voy a imitar la pérdida del objeto amado y provocar todos los efectos de un pequeño duelo, lo cual se representa, por lo tanto, como una pieza de teatro.”

(miro mi reloj muchas veces); el Prólogo concluye con una acción súbita: decido <preocuparme>, desencadeno la angustia de la espera. Comienza entonces el primer acto; está ocupado por suposiciones: ¿y si hubiera un malentendido sobre la hora, sobre el lugar? Intento recordar el momento en que se concretó la cita, las precisiones que fueron dadas. ¿Qué hacer (angustia de conducta)? ¿Cambiar de café? ¿Hablar por teléfono? ¿Y si el otro llega durante essas ausencias? Si no me ve lo más probable es que se vaya, etc. El segundo acto es el de la cólera; dirijo violentos reproches al ausente: <Siempre igual, él (ella) habría podido perfectamente…>, <Él (ella) sabe muy bien que…>. ¡Ah, si ella (él) pudiera estar allí, para que le pudiera reprochar no estar allí! En el tercer acto, espero (¿obtengo?) la angustia absolutamente pura: la del abandono [e o pior: lendo Kierkegaard!]; acabo de pasar en un instante de la ausencia a la muerte [não existo nessa cidade; acabou meu fim de semana]: explosión de duelo: estoy interiormente lívido. Así es la pieza; puede ser acortada por la llegada del otro; si llega en el primero, la acogida es apacible; si llega en el segundo, hay <escena>; si llega en el tercero, es el reconocimiento, la acción de gracias: respiro largamente, como Pelléas saliendo del túnel y reencontrando la vida, el olor de las rosas.” Quem me recomendou este livro?

O metrô de 100 saídas; o parque gigantesco, escuro labirinto. O banheiro com uma passagem secreta – onde me é proibido entrar. O parquinho desolado, a casa inachada longe longe de casa, pessoas sem rosto num show, ela faltou à aula hoje, justo quando mais tinha coisas a dizer, etc.

(La angustia de la espera no es continuamente violenta; tiene sus momentos apagados; espero y todo el entorno de mi espera está aquejado de irrealidad: en el café, miro a los demás que entran, charlan, bromean, leen tranquilamente: ellos no esperan.)

La espera es un encantamiento: recibí la orden de no moverme: me privo de salir de la pieza, de ir al lavabo, de hablar por teléfono incluso (para no ocupar el aparato); sufro si me telefonean (por la misma razón); me enloquece pensar que a tal hora cercana será necesario que yo salga, arriesgándome así a perder el llamado bienhechor, el regreso de la Madre.” Verdadeiro purgatório do escritor. Universo em estado de crisálida.

Y si no viene lo alucino: la espera es un delirio.” Me passou um trote! Fui a sua casa… Encontrei a roommate dela. Desconfio que ela desconfia da verdade. “Todavía el teléfono: a cada repiqueteo descuelgo rápido, creo que es el ser amado quien me llama (puesto que debe llamarme); un esfuerzo más y <reconozco> su voz, entablo el diálogo, a riesgo de volverme con ira contra el importuno que me despierta de mi delirio. En el café, toda persona que entra, si posee la menor semejanza de silueta, es de este modo, en un primer movimiento, reconocida. [!!!] Y mucho tiempo después que la relación amorosa se ha apaciguado conservo el hábito de alucinar al ser que he amado: a veces me angustio todavía por un llamado telefónico que tarda y, ante cada importuno, creo reconocer la voz que amaba: soy un mutilado al que continúa doliéndole la pierna amputada.”

recrio no recreio, não creio!

¿Estoy enamorado? – Sí, porque espero. A veces, quiero jugar al que no espera; intento ocuparme de otras cosas, de llegar con retraso; pero siempre pierdo a este juego: cualquier cosa que haga, me encuentro ocioso, exacto, es decir, adelantado.”

Erostartes: “Eu amo, logo espero.”

Más aún: si espero frente a la ventanilla de un banco, en la partida de un avión, establezco enseguida un vínculo agresivo con el empleado, con la azafata [aeromoça, recepcionista], cuya indiferencia descubre e irrita mi sujeción”

Hacer esperar: prerrogativa constante de todo poder, <pasatiempo milenario de la humanidad>.” Coitados dos apaixonados por Cristo…

Un mandarín estaba enamorado de una cortesana: <Seré tuya, dijo ella, cuando hayas pasado cien noches esperándome sentado sobre un banco, en mi jardín, bajo mi ventana.> Pero, en la nonagesimonovena noche, el mandarín se levanta, toma su banco bajo el brazo y se va.”

EXILIO. Al decidir renunciar al estado amoroso, el sujeto se ve con tristeza exiliado de su Imaginario. [AUTOLUTO]

(La pasión amorosa es un delirio; pero el delirio no es extraño; todo el mando [mundo?] habla de él, está ya domesticado. Lo que es enigmático es la pérdida del delirio: ¿se entra en qué?)”

VICTOR HUGO: “El exilio es una especie de largo insomnio” (Pierres, 62).

FREUD: “El duelo mueve al yo a renunciar al objeto declarándoselo muerto y ofreciéndole como premio el permanecer con vida” (Duelo y melancolía, 254).

(¿El punto más sensible de este duelo no es que me hace perder un lenguaje, el lenguaje amoroso? Se acabaron los <Te amo>.)”

Esta tristeza no es una melancolía, o al menos es una melancolía incompleta (de ningún modo clínica), puesto que no me acusa de nada y no estoy postrado.”

Carencia redoblada: no puedo siquiera investir mi desdicha, como en el tiempo en que sufría por estar enamorado. En ese tiempo deseaba, soñaba, luchaba; un bien estaba ante mí, simplemente retardado, atravesado por contratiempos. Ahora ya no hay resonancias; todo es calmo, y es peor.” “el duelo amoroso tiene siempre un remanente: una expresión regresa sin cesar: <¡Qué lástima!>.”

Nunca mais caminharei na passarela a passos largos, autoconfiante e de bermuda. O pôr-do-sol é triste… Mario para crianças… Jogo para crianças, com chifres, sem dinheiro, vencidas como pelo último chefe apelão da máquina… 72 horas: o tempo da crisálida? Isso de você aparecer quando você quer é que é o problema!

Prueba de amor: te sacrifico (…) una guedeja [trança]. De ese modo tal vez accederé al <amor verdadero>. (…) el analista debe despreocuparse de su paciente (a falta de lo cual el análisis amenaza con ser interminable) (…) el ser amado debe entrar en la melancolía de su propia decadencia.”

pero lo Imaginario arde por debajo, como el carbón mal apagado; se inflama de nuevo; lo que había sido abandonado resurge; de la tumba mal cerrada retumba bruscamente un largo grito.” Cenas 2007: “(Celos, angustias, posesiones, discursos, apetitos, signos, de nuevo el deseo amoroso ardía por todas partes. Era como si quisiera estrechar una última vez, con locura, a alguien que iba a morir – a quien yo dispondría a morir –; produje una negativa de separación.)

Esta renuncia puede alcanzar tal intensidad que produzca un extrañamiento de la realidad y una retención del objeto por vía de una psicosis alucinatoria de deseo” Freud

FADING. Prueba dolorosa por la cual el ser amado parece retirarse de todo contacto, sin que siquiera esa indiferencia enigmática sea dirigida contra el sujeto amoroso ni se pronuncie en provecho de quien sea otro, mundo o rival.

si la voz se pierde, es toda la imagen que se desvanece (el amor es monológico, maniaco; el texto es heterológico, perverso).”

El fading del objeto amado es el retorno terrorífico de la Mala Madre, la retracción inexplicable del amor, el desamparo bien conocido de los Místicos: Dios existe, la Madre está presente, pero ellos no aman ya.”

La voz del ser amado no la conozco nunca sino muerta, rememorada, recortada en el interior de mi cabeza, mucho más allá del oído”

la fatiga es el infinito mismo: lo que no termina de acabar.”

A Freud [a nadie, en verdad], al parecer, no le gustaba el teléfono, a él que le gustaba, sin embargo, escuchar. ¿Tal vez sentía, prevía, que el teléfono es siempre una cacofonía, y que lo que deja pasar es la mala voz, la falsa comunicación?”

FREUD, Martin. Freud, mon père

(se dice, las máscaras de la tragedia griega tenían una función mágica: dar a la voz un origen ctónico, deformarla, descentrarla, hacerla venir del más allá subterráneo)”

¿a quién hablar?” “Te voy a dejar, dice cada segundo la voz del teléfono.”

Me asusto de la fatiga del otro: es el más cruel de los objetos rivales. ¿Cómo luchar contra la fatiga?” Pero ¿qué hacer con ese paquete de fatiga depositado ante mí? ¿Qué quiere decir ese regalo? ¿Déjame? ¿Acógeme? Nadie responde, porque lo que se regala es precisamente lo que no responde.” “(En ninguna novela de amor he leído que un personaje esté fatigado.)”

BLANCHOT. Vieja conversación

FALTAS. En tal o cual ocasión ínfima de la vida cotidiana el sujeto cree haber faltado al ser amado y experimenta un sentimiento de culpabilidad.

la observación de los rótulos, el temor de estar retrasado, el hecho de alocarse en una estación, ¿no revelan una manía de viejo, de jubilado?”

A partir de entonces no vio nada, sino la parte trasera, obtusa, del último vagón, a lo lejos. (…) El tren no partía. Sin embargo, no osaba moverse, dejar el andén, aunque fuera absolutamente inútil quedarse ahí. Una especie de obligación simbólica (la obligación muy fuerte de un pequeño simbolismo) lo forzaba a quedarse ahí, mientras el tren estuviera detenido (con X… dentro). Estaba pues quieto, como un estúpido, no viendo nada, sino el tren lejano, no siendo visto por nadie, sobre el andén desierto – impaciente finalmente de que el tren partiera –. Pero hubiera sido una falta partir primero, y tal vez de hacerlo se habría sentido atormentado por mucho tiempo.”

cada vez que, para romper la servidumbre, intento <dominarme> (es el consejo unánime del mundo), me siento culpable. Soy culpable entonces, paradójicamente, de aligerar el peso, de reducir el embarazo exorbitante de mi devoción, en suma de <lograr> (según el mundo); en última instancia es ser fuerte lo que me da miedo, es el dominio (o su simple gesto)”

BANQUETE: Fedro: “si un hombre que ama hubiese cometido una mala acción […] más vergüenza le causaría presentarse ante la persona que ama que ante su padre”

FASTIDIOSO. Sentimiento de celos tenue que se apodera del sujeto amoroso cuando ve el interés del ser amado captado y desviado por personas, objetos u ocupaciones que actúan a sus ojos como otros tantos rivales secundarios.

LoL, estudos, amigos, mesmo a mãe… Ou o sono.

El mundo está lleno de vecinos indiscretos, con los que debo compartir al otro.” “Soy incesantemente perturbado por Fastidiosos: una vaga relación reencontrada por azar y que se sienta a la fuerza junto a nosotros; vecinos de mesa cuya vulgaridad visiblemente fascina al otro, al punto que no escucha si le hablo o no; un objeto, incluso, un libro, por ejemplo, en que el otro se encuentra sumergido (estoy celoso del libro).”

Carlota reparte su naranja por cortesía mundana, o, si se quiere, por bondad; pero esos son motivos que no apaciguan al enamorado: <¿De que sirvió que yo apartara esas naranjas para ella, si ella las regala a otros?>” “Contradicción insoluble: por una parte, es absolutamente preciso que Carlota sea <buena>, porque ella es un objeto perfecto; pero, por otra parte, no es necesario que esta bondad tenga por efecto abolir el privilegio que me constituye. Esa contradicción se vuelve vago resentimiento” “estoy irritado contra los otros, contra el otro, contra mí (de ahí puede surgir una <escena>).” “Não acredito que você está com ciúme disso!…”

FIESTA. El sujeto amoroso vive todo encuentro con el ser amado como una fiesta.

y sea de mí lo que fuere no podré decir no haya saboreado las alegrías, los más puros goces de la vida.” W.

(¿No es acaso nada, para ti, ser la fiesta de alguien?)”

GASTO. Figura mediante la cual el sujeto amoroso titubea y busca a la vez situar el amor en una economía del puro gasto, de la pérdida <por nada>.

Alberto, personaje plano, moral, conforme decreta (siguiendo a tantos otros) que el suicidio es una cobardía. Para W., por el contrario el suicidio no es una debilidad, puesto que procede de una tensión: <Oh! querido mío, si tensar todo el ser es dar prueba de fuerza, ¿por qué una tansión demasiado grande sería debilidad?>.” “(Un lord, después un obispo inglés, reprocharon a Goethe la epidemia de suicidios provocados por Werther. A lo que Goethe respondió en términos propiamente económicos: <Vuestro sistema comercial ha hecho por cierto miles de víctimas; ¿por qué no tolerarle alguns a Werther?>.)”

La exuberancia amorosa es la exuberancia del niño cuyo despliegue narcisista, cuyo goce múltiple, nada (todavía) contiene. Esta exuberancia puede estar atravesada de tristeza, depresiones, movimientos suicidas, porque el discurso amoroso no es un promedio de estados; pero semejante desequilibrio forma parte de esa economía negra que me marca con su aberración, y, por así decirlo, con su lujo intolerable.”

GRADIVA. Este nombre, tomado del libro de Jensen analizado por Freud, designa la imagen del ser amado en cuanto acepta entrar un poco en el delirio del sujeto amoroso a fin de ayudarlo a salir de él. FREUD. El delirio y los sueños en la “Gradiva” de Jensen

El ser amado parece entonces enpeñarse en hundirme en mi delirio, en mantener e irritar la herida amorosa: como esos padres de esquizofrénicos que, según se dice, no cesan de provocar o agravar la locura de su hijo por medio de pequeñas intervenciones conflictuales, el otro intenta volverme loco. (…) ponerme en contradicción conmigo mismo (…) alterna actos de seducción y de frustración a la frialdad, al silencio (…) <quebrar> la conversación, ya sea imponiendo pasar bruscamente de un tema serio (que me importa) a un tema trivial, o bien interesándose visiblemente, mientras hablo, en otra cosa distinta de lo que yo digo.”

una gota de estar-enamorado diluida en una vaga relación amistosa la colorea vivamente, la hace incomparable”

Si el enamorado llega a <amar> es en la medida misma en que se feminiza, en que se une a la clase de las grandes Enamoradas, de las Suficientemente Buenas.”

WINNICOTT. La Madre

Quien son Norbert y Zoe?

Qui sont N. et Z.?

Who are N&Z

Wer sin

HABLADURÍA. Herida experimentada por el sujeto amoroso cuando comprueba que el ser amado está metido en habladurías, y escucha hablar de él de una manera común.

Sobre la ruta a Falera un hombre se aburre; percibe a otro que marcha delante de él, lo alcanza y le pide que le narre el banquete dado por Agatón. Así nace la teoría del amor: de un azar, de un tedio, de un deseo de hablar, o, si se prefiere, de una habladuría de 3 kilómetros de longitud. Aristodemos asistió al famoso banquete; se lo ha contado a Apolodoro que, sobre la ruta a Falera, lo relata a Glauco (hombre, se dice, sin cultura filosófica), y, al hacerlo, por mediación del libro, nos lo cuenta a nosotros que hablamos de él nuevamente.”

conversación (hablamos de una cuestión)” x “habladuría (hablamos entre nosotros de los demás)”

la lingüística oficial sólo se ocupa del mensaje.”

(en El Banquete la disposición de los lechos tiene gran importancia)” O banquete não é numa mesa?

está ya prometido, [W.] no debe caer enamorado, etc. Así las habladurías resumen y anuncian la historia por venir.” “la amiga es un hada mala, que, so capa de disuadir, predice y apela. Cuando la amiga habla, su discurso es insensible (un hada no se apiada jamás): la habladuría es ligera, fría, adquiere asi el status de una especie de objetividad; su voz, en suma, parece doblar la voz de la ciencia. Esas dos voces son reductoras. Cuando la ciencia habla llego a veces a escuchar su discurso como el rumor de una habladuría que propala y critica ligeramente”

El pronombre de tercera persona es un pronombre pobre” “es como si lo viera muerto, reducido” “Para mí, el otro no podría ser un referente: tú no es jamás sino tú, yo no quiero que el Otro hable de ti.”

IDENTIFICACIÓN. El sujeto se identifica dolorosamente con cualquier persona (o con cualquier personaje) que ocupe en la estructura amorosa la misma posición que él.

¡Nada puede salvarte, desdichado! Veo perfectamente que nada puede salvarnos”

La estructura no tiene preferencia por nadie; es pues, terrible (como una burocracia). No se le puede suplicar, decirle: <Vea cómo soy mejor que H…>. Inexorable, responde: <Usted está en el mismo lugar; por lo tanto es H…>. Nadie puede alegar en contra de la estructura.”

Una larga cadena de equivalencias une a todos los enamorados del mundo. En la teoría de la literatura, la <proyección> (del lector en el personaje), hoy, ya no tiene curso: leyendo una novela de amor es poco decir que me proyecto; me uno a la imagen del enamorado (todos saben que esas novelas se leen en estado de secesión, de reclusión, de ausencia y de voluptuosidad: en los cuartos de baño).

IMAGEN. En el campo amoroso, las más vivas heridas provienen más de lo que se ve que de lo que se sabe.

O STALKER PERFEITO: “yo no estoy en la escena: la imagen carece de enigma.”

La imagen es perentoria; ningún conocimiento puede contradecirla, arreglarla, sutilizarla.”

Yo sé que Carlota no me pertenece, dice la razón de W., pero de todos modos, Alberto me la roba, dice la imagen que tiene bajo sus ojos.” Esperança: Kevin não existe, tenho que ver a traição com meus próprios olhos; deixa eu conhecer esse seu novo namoradinho; quem é seu novo amigo, etc.

a veces también soy apresado en la imagen.” “Não é o que você está pensando, eu posso explicar”

me veo como una estatuilla, sentado sobre uno de esos bloques, abandonado para siempre.”

El enamorado es pues artista, y su mundo es un mundo al revés, puesto que toda imagen es su propio fin (nada más allá de la imagen).” A prisão do mundo sem paixão do homem pab.-uéslico.

INCOGNOSCIBLE. Esfuerzos del sujeto amoroso por comprender y definir al ser amado <en si>, como tipo caracterial, psicológico o neurótico, independientemente de los datos particulares de la relación amorosa.

(<Yo te conozco. ¡Nadie más que yo te conoce bien!>)”

¿De dónde viene? ¿Quién es? Me agoto; no lo sabré jamás.”

¿conocer a alguien, no es solamente eso: conocer su deseo?”

el enamorado no es Edipo. No es cierto que cuanto más se ama mejor se comprende” “el otro no es para conocerlo; su opacidad no es en absoluto la pantalla de un secreto sino más bien una especie de evidencia, en la cual se anula el juego de la apariencia y del ser.” “movimiento místico: accedo al conocimiento del no conocimiento.”

INDUCCIÓN. El ser amado es deseado porque otro u otros han mostrado al sujeto que es deseable: por especial que sea, el deseo amoroso se descubre por inducción.

parte de los otros, del lenguaje, de los libros, de los amigos: ningún amor es original.”

todo rival ha sido al comienzo maestro, guía, presentador, mediador.”

INDUMENTARIA. Todo afecto suscitado o mantenido por las prendas que el sujeto viste en el encuentro amoroso o que usa con la intención de seducir al objeto amado.

Quiero ser el otro, quiero que él sea yo, como si estuviéramos unidos”

Es con esa indumentaria (traje azul y chaleco amarillo) que W. quiere ser enterrado y que se lo encuentra en trance de morir en su cuarto.” “Ese vestuario perverso ha sido usado en toda Europa por los fans de la novela, bajo el nombre de <traje à la W.>”

INFORMANTE. Figura amistosa que parece, sin embargo, tener por función constante herir al sujeto amoroso entregándole, como si tal cosa, informaciones sobre el ser amado de carácter anodino [antálgico, paliativo], pero cuyo efecto es el de perturbar la imagen que el sujeto tiene de ese ser.

el Informante, que se afana y dice todo a todo el mundo. El informante, ingenuo o perverso, tiene un papel negativo.” o tipo Pablo – ou eu mesmo? “Estoy por cierto obligado a escucharlo (mundanamente no puedo dejar ver mi irritación), pero me esfuerzo en volver a mi escucha sorda, indiferente, como comprimida.” “Lo que quiero es un pequeño cosmos (con su tiempo, con su lógica), habitado solamente por <nosotros dos> (nombre de una revista sentimental francesa). Todo lo que viene del exterior es una amenaza: ya sea bajo la forma de tedio (estoy obligado a vivir en un mundo del que el otro está ausente) o bien bajo la forma de herida (si ese mundo me endilga sobre el otro un discurso indiscreto).” “es el exterior del otro lo que se me ocultaba. El telón se abre al revés, no a una escena íntima sino a una sala pública. Cualquier cosa que diga, la información me es dolorosa: un trozo sordo, ingrato, de realidad me cae encima. Para la delicadeza amorosa, todo hecho tiene algo de agresivo” El Carnaval, tiempo universal de las ausencias.

INSOPORTABLE. La sensación de una acumulación de sufrimientos amorosos explota en este grito: <Esto no puede continuar>.

es propio de la situación amorosa ser inmediatamente intolerable” “Un demonio niega el tiempo, la maduración, la dialéctica, y dice a cada instante: ¡Esto no puede durar! Sin embargo dura, si no siempre, al menos mucho tiempo. La paciencia amorosa tiene pues por punto de partida su propia negación: no procede ni de una espera, ni de un dominio (…) una desgracia que no se usa, en proporción a su agudeza (…) la repetición (¿cómica?) del gesto por el cual yo me manifiesto que he decidido – ¡valientemente! – poner fin a la repetición; la paciencia de una impaciencia.”

ese grito: manifestándome a mí mismo que es preciso salir de el Insoportable, por cualquier medio que sea, instalo en mí el teatro marcial de la Decisión, de la Acción, de la Salida. La exaltación es como la ganancia secundaria de mi impaciencia; me nutro de ella, me revuelco [derrubo] en ella. Siempre <artista>, hago de la forma misma un contenido. Imaginando una solución dolorosa (renunciar, partir, etc.), hago retumbar en mí el fantasma exaltado de la salida; una gloria de abnegación me invade (renunciar al amor, no a la amistad, etc.), y olvido enseguida lo que debería entonces sacrificar: nada menos que mi locura – que, por definición, no puede constituirse en objeto de sacrificio

Cuando la exaltación ha decaído quedo reducido a la filosofía más simple: la de la resistencia (dimensión natural de las fatigas verdaderas).

un tentetieso [joão sorrisão, pino com peso] sin piernas al que se le dan papirotazos incesantes, pero que finalmente retoma su verticalidad, asegurada por un contrapeso interior (¿pero cuál es mi contrapeso? ¿La fuerza del amor?).”

Así es la vida;

caer 7 veces

y levantarse 8”

Ainda bem que há números infinitos (transcendência)

LANGUIDEZ. Estado sutil del deseo amoroso, experimentado en su carencia, fuera de todo querer-asir.

es como si el deseo no fuera sino esta hemorragia. He aquí la fatiga amorosa: un hambre sin satisfacción.”

la languidez sería ese pasaje extenuante de la libido narcisista a la libido objetal.”

LOCO. El sujeto amoroso es atravesado por la idea de que está o se vuelve loco.

insensato ante mis propios ojos (conozco mi delirio), simplemente irrazonable a los ojos de los demás, a quienes relato muy juiciosamente mi locura: consciente de esta locura, dando exp[l]i[c]aciones acerca de ella.”

Este hombre, en los tiempos en que estaba en el manicomio, era feliz: no sabía nada de sí mismo. W. se reconoce a medias en el loco de las flores: loco de pasión, como él, pero privado de todo acceso a la felicidad (supuesta) de la inconsciencia: sufriente por haber malogrado incluso su locura.” Impressionante como do livro lido em 2006 só retive a cena do suicídio.

Mafalda: “Yo no soy otro: es lo que compruebo con pavor.”

estoy loco puesto que consisto.” Compenso logo insisto.

Conceptos de San Agustín: “Es loco aquel que está limpio de todo poder. – ¿Cómo? ¿Acaso el enamorado no conoce ninguna excitación de poder? El sometimiento es no obstante asunto mío: sometido, queriendo someter, experimento a mi manera la ambición de poder, la libido dominandi: ¿es que no dispongo, como los sistemas políticos, de un discurso bien construido, es decir sólido, ágil, articulado?” (citado por Sainte-Beuve, II, 160) “estoy loco: no porque sea original burdo ardid de la conformidad. Si los demás hombres son siempre, en grados diversos, militantes de algo, yo no soy soldado de nada, ni siquiera de mi propia locura” “(¿Puede reconocerse aquí la escisión muy singular que deslinda, en el Enamorado, la voluntad de dominio de la voluntad de poder?)”

LOCUELA. Esta palabra, sacada de Ignacio de Loyola, designa el flujo de palabras a traves del cual el sujeto argumenta incansablemente en su cabeza los efectos de una herida o las consecuencias de una conducta; forma enfática del <discursear> amoroso.

Trop penser me font amours”

al capricho de un estímulo ínfimo, se desencadena en mi cabeza una fiebre de lenguaje, un desfile de razones, de interpretaciones, de alocuciones. No tengo conciencia sino de una máquina que se alimenta a sí misma de uma zanfonía cuyo manubrio [manivela] gira titubeante un tocador anónimo, y que no se calla nunca. En la locuela, nada impide la repetición.”

SCHUBERT. “Der Leiermann”, Winterreise, com poemas de Müller.

(hallar la palabra adecuada es eufórico); la rumio, me nutro de ella; como los niños o los dementes atacados de mericismo, vuelvo a sorber incesantemente mi herida y la regurgito. (…) y recomienzo (tales sentidos del verbo meruomai: enrollar, devanar, tramar).”

a menudo, el niño autista mira sus propios dedos mientras manosea objetos (pero no mira los objetos mismos): es el twiddling.”

Humboldt llama a la libertad del signo locuacidad. Soy (interiormente) locuaz (…) Si pudiera forzar el signo, sumeterlo a una sanción, podría finalmente encontrar descanso. ¡Que no puedan enyesarse las cabezas, como las piernas! (…) ningún director de escena está ahí para decirme: ¡Corte! (…) nadie me escucha, nadie me mira, pero (como el tocador de zanfonía de Schubert) continúo hablando, girando mi manivela.”

Tengo en mí dos interlocutores, atareados en elevar el tono, de réplica en réplica, como en las antiguas esticomitis (…) algazara final (escena de clowns).” Devaneios & DaVanIaS…

Em vão

Em vãos não-ocupados por nenhum cérebro nem coração

(…IV. <A Los 20 años, dice la señora Desbordes-Valmore, penas profundas me forzaron a renunciar al canto, porque mi voz me hacía llorar>.)” V. Hugo + Macross Plus

LLORAR. Propensión particular del sujeto amoroso a llorar: modos de aparición y función de las lágrimas en ese sujeto.

¿En W. es el enamorado que llora o el romántico?” “se mofa de la censura que mantiene hoy al adulto lejos de las lágrimas” “sigue las órdenes del cuerpo enamorado, que es un cuerpo bañado, en expansión líquida: llorar juntos, fluir juntos”

¿Quién hará la historia de las lágrimas? ¿Desde cuándo los hombres (y no las mujeres) ya no lloran? ¿Por qué la <sensibilidad> en cierto momento se ha vuelto <sensiblería>?” “los Griegos, la gente del siglo XVII, lloraban mucho en el teatro.”

SCHUBERT. Lob der Thränen (“Elogio das lágrimas”), poesia de Schlegel.

cuando lloro me dirijo siempre a alguien: adapto mis modos de llorar al tipo de chantaje que, a través de mis lágrimas, pretendo ejercer en torno mío.” “(<Mira lo que haces de mí>)” “me pongo a llorar para probarme que mi dolor no es uma ilusión.” “produzco un mito del dolor” “<el más verdadero> de los mensajes”

MAGIA. Consultas mágicas, pequeños ritos secretos y acciones votivas no están ausentes de la vida del sujeto amoroso, sea cual fuere la cultura a la que pertenezca.

La dialéctica diría: la hoja no caerá, y después cae; pero entretanto habrás cambiado y no te plantearás ya la pregunta.”

si (tú vuelves…) entonces (cumpliré mi voto).”

MONSTRUOSO. El sujeto se da cuenta bruscamente que constriñe al objeto amado en una red de tiranías: de piadoso se siente devenir monstruoso.

desea secretamente la pérdida de lo que el amado tiene de más querido: padre, madre, parientes, amigos; no quiere para el amado ni hogar ni hijos”

Yo hablo y tú me entiendes, luego existimos” Ponge

yo, que amo, soy indeseable, alineado en las filas de los fastidiosos: los que son pesados, molestan, se inmiscuyen, complican, reclaman, intimidan (o más simplemente: los que hablan).”

(…como en esos sueños horrorosos en que una persona amada se nos aparece con la parte inferior del rostro integramente borrada, privada de su boca (…) el soliloquio hace de mí un monstruo, una enorme lengua.)”

MORTIFICACIÓN. Escena múltiple en la que lo implícito de la relación amorosa actúa como coacción y suscita un embarazo colectivo que no es explícito.

La situación está cargada. Lo pesado es el saber silencioso: yo sé que tú sabes que yo sé”

No hago más que ver lo que se habla, como en el cine mudo. Se produce en mí (contracción en los términos) una suerte de fascinación alerta: estoy metido en la escena y sin embargo bien despierto: mi atención forma parte de lo que se actúa, la escena carece de exterior y no obstante la leo; no hay candilejas [gambiarras], es un teatro extremado. De ahí el malestar – o para algunos, perversos, el goce –.”

MUTISMO. El sujeto amoroso se angustia de que el objeto amado responda parcimoniosamente, o no responda, a las palabras (discursos o cartas) que le dirige.

(…El interlocutor perfecto, el amigo, ¿no es entonces el que construye en torno nuestro la mayor resonancia posible? ¿No puede definirse la amistad como un espacio de sonoridade total?)”

como si mi cualidad excedese la del objeto amado, como si yo estuviera adelantado respecto de él.”

¿debo proseguir, hablar <en el desierto>? Necesitaría una confianza que precisamente la sensibilidad amorosa no permite. ¿Debo detenerme, renunciar? Eso tendría el aspecto de vejarme, de enjuiciar al otro y, a partir de allí, dar la señal de partida de una <escena>.”

La muerte es sobre todo esto: todo lo que ha sido visto, habrá sido visto para nada. Duelo de lo que hemos percibido.” FRANÇOIS WAHL, Chute

FREUD. “Les trois coffrets”, em Essais de Psychanalyse.

NOCHE. Todo estado que suscita en el sujeto la metáfora de la oscuridad (afectiva, intelectiva, existencial) en la que se debate o se sosiega.

No Ser y Ser, saliendo de un fondo único, no se diferencian sino por sus nombres. Ese fondo único se llama Oscuridad. – Oscurecer esta oscuridad [*], he ahí la puerta de toda maravilla” CHU. Tao Te King/Ching [taoísmo]

[*] Intepretação: ignorar?

NUBES. Sentido y uso del ensombrecimiento de humor que se apodera del sujeto amoroso bajo el efecto de circunstancias variadas.

El rostro del señor Schmidt, el prometido de Friederike, se ensombrece paralelamente; rehúsa participar en la conversación. W. enjuicia entonces el malhumor; viene de nuestros celos, de nuestra vanidad, es un descontento de nosotros mismos cuyo peso descargamos sobre los otros, etc. <¡Nómbrenme>, dice W., <el hombre que, estando de mal humor, es lo bastante honesto para disimularlo, para soportarlo completamente solo, sin destruir la alegría en torno suyo!> [A Emoção Anti-Carolíngia][*] Tal hombre es evidentemente inhallable, puesto que el malhumor no es más que un mensaje. No pudiendo estar manifiestamente celoso, sin diversos inconvenientes, de donde proviene el ridículo, desplazo mis celos, les doy un efecto derivado, atemperado, y como inacabado, cuyo motivo verdadero no se expresa abiertamente: incapaz de ocultar la herida y no osando declarar la causa, transijo; hago abortar el contenido sin renunciar a la forma [No (ex-)trabalho: a forma sem conteúdo: “Vocês não têm conteúdo.”]: aquí, usted debe leer (que algo no va bien): pongo simplemente mi pathos sobre la mesa, reservándome desatar el paquete más tarde según las circunstancias: ya sea que me descubra (al grado de llegar a una <explicación>) o bien que me encubra.” “¿El suicidio de amor será un malhumor un poco extremo?)”

Você ficou com ciúmes?”

Não, impressão sua!”

Me explica.”

[*] Você exala ódio pelas narinas! Há quem desabe se não for unanimidade…

Hay sin embargo nubes más sutiles; todas las sombras tenues, de causa ligera, incierta, que pasan por encima de la relación, cambian la luz, el relieve; hay de repente otro paisaje, una ligera embriaguez negra.” “Recorro rápidamente los estados de carencia, a través de los cuales el Zen ha codificado la sensibilidad humana (furyu): la soledad (sabi), la tristeza que me llega de la <increíble naturalidad> de las cosas (wabi), la nostalgia (aware), el sentimiento de lo extraño (yugen).”

OBJETOS. Todo objeto tocado por el cuerpo del ser amado se vuelve parte de ese cuerpo y el sujeto se apega a él apasionadamente.

Del ser amado surge una fuerza que nada puede detener y que impregna todo lo que toca, así sea con la mirada: si W., no pudiendo ir a ver a Carlota, le envía su doméstica, es esta doméstica misma, sobre la que ella ha posado su mirada, la que se convierte para W. en una parte de Carlota (<Bien le habría tomado la cabeza entre mis manos para darle un beso si no hubiera sido por el respeto humano>).”

Tan pronto el objeto metonímico es presencia (engendrando alegría) como ausencia (engendrando desamparo).”

OBSCENO. Desacreditada por la opinión moderna, la sentimentalidad del amor debe ser asumida por el sujeto amoroso como una fuerte transgresión, que lo deja solo y expuesto; por una inversión de valores, es pues esta sentimentalidad lo que constituye hoy lo obsceno del amor.

doy un curso <sobre> el amor; el auditorio es femenino, algo maduro; soy Paul Géraldy.”

los gritos de una eyaculación grandiosa pero insoportable, don extático que el ser hace de si mismo en tanto que víctima desnuda, obscena […] ante las grandes carcajadas de las prostitutas” Bataille

La verdadera música popular, la música de las masas, la música plebeya, está abierta a todos los despliegues de las subjetividades de grupo, no ya a la subjetividad única, a la bela subjetividad sentimental del sujeto aislado…” DANIEL CHARLES. Musique et oubli

THOMAS MANN. La montaña mágica

Di con un intelectual enamorado: para él, <asumir> (no reprimir) la extrema tontería, la tontería desnuda de su discurso, es lo mismo que para el sujeto batailleano desnudarse en un lugar público: es la forma necesaria del imposible y de lo soberano: una abyección tal que ningún discurso de la transgresión puede recuperarla y que se expone sin protección al moralismo de la antimoral.”

El sello distintivo de las almas modernas no es la mentira sino la inocencia, encarnada en el moralismo falso. Hacer en todas partes el descubrimiento de esta inocencia tal vez sea el aspecto más repulsivo de nuestro trabajo.” N. – G. da Mor.

(Inversión histórica: no es ya lo sexual lo que es indecente; es lo sentimental…)”

no sé ordenar mi discurso, graduarlo, disponer los enfoques, las comillas; hablo siempre en primer grado; me mantengo en un delirio prudente, ajustado, discreto, domesticado, trivializado por la literatura.”

Todo lo que es anacrónico es obsceno. Como divinidad (moderna), la Historia es represiva, la Historia nos prohíbe ser inactuales. Del pasado, no soportamos más que la ruina, el monumento, el kitsch o el retro, que es divertido“El sentimiento amoroso está pasado de moda (démodé), pero ese démodé no puede ni siquiera ser recuperado como espectáculo; el amor cae fuera del tiempo interesante; ningún sentido histórico, polémico, puede serle conferido; es en esto que es obsceno.”

Cuando imagino seriamente suicidarme por una llamada telefónica que no llega, se produce una obscenidad tan grande como cuando, en Sade, el Papa sodomiza a un pavo [pavão ou palerma].” “nada puede superar el inconveniente de un sujeto que se hunde porque su otro adopta un aire ausente, <mientras existen todavía tantos hombres en el mundo que mueren de hambre, mientras tantos pueblos luchan duramente por su liberación, etc.>.”

Todo el mundo comprenderá que X… tenga <enormes problemas> con su sexualidad, pero nadie se interesará en los que Y… pueda tener con su sentimentalidad” “(Nous deux – la revista – es más obscena que Sade.)”

(todo obsceno decible como tal no puede ya ser el último grado de lo obsceno; yo mismo diciéndolo, aunque sea a través del parpadeo de una figura, soy ya recuperado)”

OCULTAR. Figura deliberativa: el sujeto amoroso se pregunta no si debe declarar al ser amado que lo ama (ésta es una figura de declaración), sino en qué medida debe ocultarle las perturbaciones> (las turbulencias) de su pasión: sus deseos, sus desamparos, en suma, sus excesos (en lenguaje racineano: su furor).

¿Deberé ocultarle mi perturbación, ya ahora pasada (<¿Cómo estás?>)?” “Una angustia de segundo grado se apodera de mí y es la de tener que decidir el grado de publicidad que daré a mi primera angustia.”

¿El exceso, la locura, no son mi verdad, mi fuerza?”

los sinales de esta pasión amenazan con asfixiar al otro.”

a veces lo veo como objeto, a veces como sujeto; vacilo entre la tiranía y la oblación.”

trampa: estoy condenado a ser un santo o un monstruo: santo no puedo, monstruo no quiero: por consiguiente, tergiverso: muestro un poco de mi pasión.” “<Es indigno de las grandes almas difundir a su alrededor la perturbación que experimentan> (Clotilde de Vaux)” BALZAC. La fausse maîtresse “Sin embargo, ocultar totalmente una pasión (o incluso simplemente su exceso) es inconcebible: porque la pasión está hecha, por esencia, para ser vista: es preciso que el ocultar se vea: sepan que estoy ocultándoles algo, tal es la paradoja activa que debo resolver: no hay oblación amorosa sin teatro final: el signo siempre vence.”

quiero ser a la vez lastimoso y admirable, quiero ser en el mismo momento niño y adulto.” “Puedo modelar mi mensaje a mi gusto, pero no mi voz. En mi voz, diga lo que diga, el otro reconocerá que <tengo algo>. Soy mentiroso (por preterición), no comediante. Mi cuerpo es un niño encaprichado, mi lenguaje es un adulto muy civilizado.”

POR QUÉ. Al mismo tiempo que se pregunta obsesivamente por qué no es amado, el sujeto amoroso vive en la creencia de que en realidad el objeto amado lo ama, pero no se lo dice.

Existe para mí un <valor superior>: mi amor. No me digo jamás: <¿Para qué?>. No soy nihilista. No me planteo la cuestión de los fines. Nunca hay <porqués> en mi discurso monótono, sino uno solo (…) ¿Cómo puede no amarse ese yo que el amor vuelve perfecto (que da tanto, que hace feliz, etc.)?”

O sprich, mein herzallerliebstes Lieb, warum verliessest du mich?”

HEINE. Lyrisches Intermezzo

¿Cómo haces para amar un poco? Vivo bajo el régimen del demasiado o del no bastante; todo lo que no es total me parece parsimonioso; lo que busco es ocupar un lugar desde donde las cantidades no se perciban más. O incluso – puesto que soy nominalista –: ¿por qué no me dices que me amas?”

La verdad es que – paradoja exorbitante – no ceso de creer que soy amado. Alucino lo que deseo. Cada herida viene menos de una duda que de una traición: porque no puede traicionar sino quien ama, no puede estar celoso sino quien cree ser amado; el outro, episódicamente, falta a su ser, que es el de amarme; he aqui el origen de mis desgracias. Un delirio, sin embargo, sólo existe si despertamos de él (no hay sino delirios retrospectivos): un día comprendo lo que me ha ocurrido: creía sufrir por no ser amado y sin embargo sufría porque creía serlo; vivía en la complicación de creerme a la vez amado y abandonado. Cualquiera que hubiese entendido mi lenguaje íntimo no habría podido menos que exclamar, como se lo hace de un niño difícil: pero en fin, ¿qué quiere?

FREUD. Complemento metapsicológico à doutrina dos sonhos

metametempsicose

metá-metá

metametemparanoid

(Te amo se vuelve me amas. Un día, X… recibe orquídeas anónimas; enseguida alucina su origen: no pueden venir más que de quien lo ama; y quien lo ama no puede ser más que aquel a quien ama. Sólo después de mucho tiempo de crítica, llega a disociar las dos inferencias…)”

QUERER-ASIR. Comprendiendo que las dificultades de la relación amorosa provienen de que quiere incesantemente apropiarse de una manera o de otra del ser amado, el sujeto toma la decisión de abandonar en adelante a su respecto todo querer-asir.

El N.Q.A. (el no-querer-asir, expresión imitada del Oriente) es un sustituto inverso del suicidio. No matarse (de amor) quiere decir: tomar esa decisión, la de no asir al otro. Es un mismo momento aquel en que W. se mata y habría podido renunciar a asir a Carlota (momento, por lo tanto, solemne).” A plenitude da indiferença. O contrário da chantagem (chanter les gens) do tudo ou nada. A plena carência ou incompletude. O ESTAR-E-ACEITAR. O um pouco ou muito. Mas faltam pedaços. Mas há pedaços. Esperar para abocanhar. Libido com calma para devorar. Nada disso faz sentido, muito menos se matar. O desbunde do budismo. Quero bater uma no escuro, o chuveiro bem ligado.

<El mundo me debe aquello de lo que tengo necesidad. Me son necesarios la belleza, el brillo, la luz, etc.> (leído en un programa de La tetralogía, en Beirut).” Wagner

No quiero sustituir el arrebato cálido de la pasión por <la vida empobrecida, el querer-morir, el gran hastío>.” “por una parte, no me opongo al mundo sensorial; dejo circular en mí el deseo; por otra parte, lo apuntalo contra <mi verdad>; mi verdad es amar absolutamente, a falta de lo cual me retiro”

¿Y si el N.Q.A. era un pensamiento táctico (¡por fin uno!)? ¿Si yo quisiera todavía conquistar al otro fingiendo renunciar a él? ¿Si me alejara para asirlo más seguramente?” “una ficción bien conocida de los sabios (<Mi fuerza está en mi debilidad>)”

No se exhibe y brillará. No se afirma y se impondrá. Cumple su obra, no se apega a ella y puesto que no se apega a ella, su obra quedará” Tao, XXII

<Weil ich niemals dich anhielt, halt ich dich fest> (<Puesto que no te retengo nunca, te tengo firmemente>): verso de 2 melodías de Webern, 1911-12.” Rilke

Posto que nenhuma vez a ti retenho,

firme te tenho

Eu li gado mas entendi múmia.

quietude do quitute. Que tudo!

TAO BRUTAO

Última trampa: renunciando a todo querer-asir, me exalto y quedo encantado con la <buena imagen> que voy a dar de mí. No salgo del sistema” Taoísmo consciente. Heroísmo voluntário a-heróico. Sem querer precipitar-me, chovi. Fugi do céu. Talvez por isso ninguém lembre de mim… Mas há coisas inevitáveis, sabendo-se ou não. Não se pode jogar uma moeda pro alto a vida toda.

O LADO BOM DA HIPOCRISIA: “(<Sentada apaciblemente sin hacer nada la primavera llega y las hierbas crecen por sí mismas>). Y una vez más el Oriente: no querer asir el no-querer-asir; dejar venir (del otro) lo que viene, dejar pasar (del otro) lo que se va; no asir nada, no rechazar nada: recibir, no conservar, producir sin apropiarse, etc. O bien: <El Tao perfecto no ofrece dificultad, salvo que evita elegir>.”

STENDHAL. Armance: “Que el No-Querer-Asir quede pues irrigado de deseo por ese movimiento riesgoso: te amo está en mi cabeza, pero yo lo aprisiono tras de mis labios. No profiero. Digo silenciosamente a quien no es ya o no es todavía el otro: me contengo de amarte.”

alma libre y embriagada, olvidadiza, olvidada, ebria de lo que no bebe ni beberá jamás!” Rusbrock apud Laporte

Esqueçam que esqueci vocês.

RAPTO. Episodio considerado inicial (pero que puede ser reconstruido después), en el curso del cual el sujeto amoroso se encuentra raptado (capturado y encantado) por la imagen del objeto amado (flechazo, prendamiento).

Cada vez que un sujeto <cae> enamorado, prorroga un poco el tiempo arcaico en que los hombres debían raptar a las mujeres (para asegurar la exogamia)”

RAPTOSA: “curiosa contradanza: en el mito antiguo, el raptor es activo, es sujeto del rapto (cuyo objeto es una Mujer, como se sabe, siempre pasiva); en el mito el raptor no quiere nada, no hace nada; está inmóvil, y el objeto raptado es el verdadero sujeto del rapto; el enamorado es siempre implícitamente feminizado.”

AFERIDA: “el <sujeto> es para nosotros (¿desde el cristianismo?) el que sufre; die Wunde! die Wunde! [A ferida! A ferida!] disse Parsifal

nada de mundanidad, de ócio, sólo la lectura de Homero, una suerte de acunamiento [embalamento; to rock (in a cradle), movimento que lembra a inércia] cotidiano un poco vacío, prosaico (se hace cocer guisantes). Esta <maravillosa serenidad> no es más que una espera, un deseo –: no caigo nunca enamorado, si no lo he deseado; la vacancia que he creado en mí (y de la que como W., inocentemente, me enorgullezco) no es otra cosa que ese tiempo, más o menos largo, en que busco con los ojos, en torno mío, sin que lo parezca, a quien amar.

ATHANASIUS KIRCHER. Experimentum mirabile de imaginatione gallinae. In: MILLER, Gérard. Sobre la hipnosis (Ornicar, 4)

Sin embargo, el mito del <flechazo> es tan fuerte que uno se queda estupefacto al oír que alguien decide caer enamorado: como Amador viendo a Florinda en la corte del gobernador de Cataluña: <Después de haberla mirado largo tiempo resuelve amarla.> [Heptamerón] ¿Cómo, voy a decidir si devo volverme loco (el amor sería esta locura que yo quiero)?”

lo que llega bruscamente a tocarme (a raptarme) es la voz, la caída de los hombros, la esbeltez de su silueta, la tibieza de la mano, el sesgo de una sonrisa, etc. Desde ese momento, ¿qué me importa la estética de la imagen? Algo viene a ajustarse exactamente a mi deseo (del que ignoro todo); no haré pues ninguna preferencia de estilo. (…) puedo prendarme de una pose ligeramente vulgar (adoptada por provocación): hay trivialidades sutiles, móviles, que pasan rápidamente sobre el cuerpo del otro: una manera breve (pero excesiva) de separar los dedos, de abrir las piernas, de remover los carnosos labios al comer, de dedicarse a una ocupación muy prosaica, de volver idiota a su cuerpo un segundo, por continencia (lo que fascina en la <trivialidad> del otro es tal vez que, por un momento muy corto, sorprendo en él, separado del resto de su persona, como un gesto de prostitución).”

Y parece que usted está ahí cuando leo pasajes de amor en los libros. – Todo lo que se tacha allí de exagerado usted me lo hace sentir, dijo Friederike. Comprendo, W., que no cansen los panecillos [pãezinhos] de Carlota” FLAUBERT. L’éducation sentimentale

schema, es el cuerpo en movimiento, en situación, en vida.”

(ella corta rebanadas de pan para los niños: escena célebre, frecuentemente comentada): amamos primeramente un cuadro.”

lo que no había sido nunca visto es descubierto en su integridad, y desde entonces devorado con los ojos”

puedo caer enamorado de una frase que se me dice

Grusha, la joven sirvienta, produce una viva impresión en el Hombre de los Lobos: de rodillas, en tierra, está fregando el piso. Puesto que la postura de trabajo me garantiza de algún modo la inocencia de la imagen: cuanto más el otro se ofrece los signos de su ocupación, de su indiferencia (de mi ausencia), más seguro estoy de sorprenderlo, como si, para caer enamorado, me fuera necesario cumplir la formalidad ancestral del rapto, a saber la sorpresa (yo sorprendo al otro y por eso mismo él me sorprende: no esperaba sorprenderlo).”

el flechazo se dice siempre en el pasado simple (el ser de la fotografia no es representar, sino rememorar) no ceso de asombrarme de haber tenido esa oportunidad [*]: someterme de golpe a una imagen desconocida

[*] A garota bunduda e indiferente na quadra de basquete, sozinha.

RECUERDO. Rememoración feliz y/o desgarradora de un objeto, de un gesto, de una escena, vinculados al ser amado, y marcada por la intrusión de lo imperfecto en la gramática del discurso amoroso.

destiempos: es la anamnesis, que no encuentra sino rasgos insignificantes, de ningún modo dramáticos, como si me acordara del tiempo mismo y solamente del tiempo: es un perfume sin soporte, un grado de memoria, una simple fragrancia; algo así como un gesto puro, tal como sólo el haikú japonés ha sabido decirlo, sin recuperarlo en ningún destino.”

E era Abril no hemisfério norte…

<Las estrellas brillaban>. Nunca más esa dicha volverá tal cual.”

A MACIEIRA: “Lo imperfecto es el tiempo de la fascinación: parece estar vivo y sin embargo no se mueve: ni olvido, ni resurreción; Desde el origen ávida de representar un papel, las escenas se ponen en posición de recuerdo: frecuentemente lo siento, lo preveo, en el mismo momento en que se forman. – Este teatro del tiempo es precisamente lo contrario de la búsqueda del tiempo perdido; puesto que yo me acuerdo patética, pontualmente, y no filosófica, discursivamente: me acuerdo para ser infeliz/feliz – no para comprender –. No escribo, no me encierro para escribir la novela enorme del tiempo recobrado.”

Tempo sempre achado

ΔT sempre achato

mas maximizo,

na câmera lenta

desfocada

Apesar da organização alfabética, parece ter sido uma obra escrita ou intensamente revisada cronologicamente, linearmente.

RESONANCIA. Modo fundamental de la subjetividad amorosa: una palabra, una imagen resuenan dolorosamente en la conciencia afectiva del sujeto.

algo tenue y agudo despierta bruscamente a ese cuerpo que, entretanto, se embotaba en el conocimiento razonado de una situación general” O sofrimento tão restrito a essa época e a essa região que eu batizo “O VANISMO”

VAMPIRISMO

VACÚOLO DE IDÉIAS

VVV DE VACILO VICIOSO VINGATIVO

vá de ré! conde

l d Darkula|i lama

Você deve fingir que está doente”

niñería

Remete ao verbete INSOPORTABLE (“Isto não pode continuar!”): “Mi cuerpo interior se pone a vibrar, como sacudido por trompetas que se responden y se superponen: la incitación hace huella [impressão], la huella se amplía y todo es (más o menos rápidamente) devastado. En lo imaginario amoroso nada distingue la provocación más fútil de un hecho realmente consecuente; el tiempo es conmocionado hacia adelante (me suben a la cabeza predicciones catastróficas) y hacia atrás (recuerdo con pavor los <precedentes>): a partir de una pequeñez todo un discurso recuerdo y de la muerte se eleva y me arrastra: es el reino de la memoria, arma de la resonancia del <resentimiento> –.”

meMoiras podem mudar o futuro?

detesto acústicos!

(La resonancia de un <accidente imprevisto que […] cambia súbitamente el estado de los personajes>: es un golpe teatral, el <momento favorable> de una pintura: cuadro patético del sujeto asolado, postrado, etc.)”

En el temor común – el que precede alguna actividad difícil de cumplir –, me veo en el futuro en un estado de fracaso, de impostura, de escándalo. En el temor amoroso, tengo miedo de mi propia destrucción, que entreveo bruscamente”

Si la cosa resuena muy fuertemente, hace tal estrépito en mi cuerpo que estoy obligado a detener toda ocupación; me tendo en mi lecho y dejo transcurrir, sin luchar, la <tempestad interior>; al contrario del monje zen, que se vacía de imágenes, me dejo llenar por ellas, experimento hasta el fin su amargor. La depresión tiene por lo tanto su gesto – puesto en clave –, y es eso sin duda lo que la limita; puesto que basta que en cierto momento pueda sustituirlo por otro gesto (incluso vacío, como levantarme, ir a mi mesa, sin que forzosamente trabaje en ello enseguida) para que la resonancia se amortigüe y deje lugar al hipócrita taciturno. El lecho (diurno) es el lugar de lo Imaginario; la mesa es nuevamente, haga lo que haga, la realidad.” 04/03/2017 Trabalho: onde jamais se deita. “por una parte, recibo en carne viva el propósito del mensaje, me indigna su falsedad, quiero desmentir, etc.; por otra parte, percibo perfectamente el pequeño movimiento de agresividad que ha impulsado a X… – sin que lo sepa demasiado él mismo – a transmitirme una información hiriente. (…) [Trampa:] Ahora bien, ¿qué hago yo? Conjugo las dos lingüísticas, la tradicional y la filología activa: me instalo dolorosamente en la sustancia misma del mensaje (a saber, el contenido del rumor), y amargura la fuerza que lo funda: pierdo en los dos tableros, me hiere por todas partes. Tal es la resonancia: la práctica afanosa de una escucha perfecta: lejos de <flotar> mientras el otro habla, escucho completamente, en estado de conciencia total: no puedo abstenerme de escucharlo todo y es la pureza de esta escucha lo que me resulta doloroso: ¿quién podría soportar sin sufrir un sentido múltiple y sin embargo purificado de todo <ruido>? (…) estrépito inteligible (…) oyente monstruoso (…) inmenso órgano auditivo – como si la escucha misma entrara en estado de enunciación –: en mí, es la oreja la que habla.

SACIEDAD O COLMO. El sujeto plantea, con obstinación, el anhelo y la posibilidad de una satisfacción plena del deseo implicado en la relación amorosa y de un éxito sin falla y como eterno de esta relación: imagen paradisíaca del Soberano Bien, dable y aceptable. [O ACHAMENTO DA CARA-METADE]

en cuanto no estoy en el exceso me siento frustrado”

sobrepaso los límites de la saciedad y, en lugar de encontrar el asco, la náusea, o incluso la embriaguez, descubro… la Coincidencia. La desmesura me ha conducido a la mesura; me ajusto a la imagen, nuestras medidas son las mismas: exactitud, precisión, música; he terminado con el no suficiente.”

la relación amorosa parece reducirse a una larga queja.” “cuando estoy colmado o recuerdo haberlo estado el lenguaje me parece pusilánime: <Se produce un encuentro que es intolerable a causa del gozo y a veces el hombre queda reducido en él a nada; es lo que llamo el transporte. El transporte es el gozo del que no se puede hablar> [Rusbrock].”

creer en el Soberano Bien es tan loco como creer en el Soberano Mal: Heinrich von Ofterdingen [personagem folclórico alemão romancizado por Novalisresponsável pela origem da imagem da flor azul e também pelo Tannhäuser de Wagner] es filosóficamente de la misma naturaleza que la Julieta de Sade.”

(Saciedad quiere decir abolición de las herencias: <El Gozo se quiere él mismo, quiere la eternidad, la repetición de las mismas cosas, quiere que todo permanezca eternamente igual> [Nie.]. El enamorado colmado no tiene ninguna necesidad de escribir…)”

SALIDAS. Señuelos de soluciones, sean cuales fueren, que proporcionan al sujeto amoroso, a despecho de su carácter a menudo catastrófico, un descanso pasajero; manipulación de las salidas posibles de la crisis amorosa.

el discurso amoroso es en cierta forma un a puertas cerradas de las salidas.”

este teatro, de género estoico, me engrandece, me da estatura. Imaginando una solución extrema, produzco una ficción, me convierto en artista, hago un cuadro, pinto mi salida”

DOUBLE BIND: Situación en la que el sujeto pierde siempre: cara, gano yo; cruz, pierdes tú” (Bettelheim, 81)”

Para que haya infortunio es necesario que el propio bien haga mal” Schiller

SIGNOS. Ya sea que quiera probar su amor o que se esfuerce por descifrar si el otro lo ama, el sujeto amoroso no tiene a su disposición ningún sistema de signos seguros.

¿soy amado (no soy ya, lo soy todavía)? Es mi futuro lo que intento leer, descifrando en lo que está inscrito el anuncio de lo que me va a ocurrir, según un procedimento que tendería a la vez a la paleografía y a la adivinación? (…) pido al rostro del otro, incansablemente, la respuesta: cuánto valgo?”

Ella era entendida y sabía que el carácter amoroso se cifra de algún modo en las cosas sin importancia. Una mujer instruida puede leer su porvenir en un simple gesto, así como Cuvier sabía decir viendo el fragmento de una pata: esto pertenece a un animal de tal dimensión, etc.” BALZAC. Les secrets de la princesse de Cadignan

Como el Octavio de Stendhal, no sé nunca lo que es normal; privado (lo sé) de toda razón, quiero refugiarme, para decidir acerca de una interpretación, en el sentido común; pero el sentido común no me suministra más que evidencias contradictorias”

Freud a su prometida: <Lo único que me hace sufrir es estar imposibilitado de probarte mi amor>. Y Gide: <Todo en su comportamiento parecia decir: puesto que no me ama nada me importa. Ahora bien, yo la amaba todavía, e incluso nunca la había amado tanto; pero probárselo me era imposible. Ahí estaba, sin duda, lo más terrible>.

Los signos no son pruebas porque cualquiera puede producirlos falsos o ambiguos. De ahí ese volverse, paradójicamente, sobre la omnipotencia del lenguaje: puesto que nada asegura el lenguaje, tendré al lenguaje por la única y última seguridad: no creeré ya en la interpretación [o que gera mágoas de vez em quando]. De mi otro recibiré toda palabra como un signo de verdad: y cuando sea yo el que hable, no pondré en duda que recibe como verdadero lo que diga. De donde se deduce la importancia de las declaraciones; quiero permanentemente arrancar al otro la fórmula de su sentimiento y le digo incesantemente por mi parte que lo amo: nada es dejado a la sugestión, a la adivinación: para que una cosa sea sabida es necesario que sea dicha

SOLO. La figura remite no a lo que puede ser la soledad humana del sujeto amoroso sino a su soledad filosófica, al no hacerse cargo hoy del amor-pasión ningún sistema importante de pensamento (de discurso).

¿Cómo se llama a ese sujeto que se obstina en un <error>, contra todos, como si tuviera ante él la eternidad para <equivocarse>? – Se lo llama un recalcitrante.” “no dejo de <recaer> en una doctrina interior que nadie comparte conmigo.”

<ningún sacerdote lo acompañó> (es la última frase de la novela). La religión no condena solamente, en W., al suicida, sino también, quizás, al enamorado, al utópico, al desclasado, a aquel que no está <religado> sino a sí mismo.”

En El banquete, Erixímaco comprueba con ironía que ha leído en alguna parte un panegírico de la sal, pero nada sobre Eros; y es porque Eros está censurado como tema de conversación que la pequeña sociedad del Banquete decide hacer de él la materia de su mesa redonda: se dirían intelectuales de hoy aceptando discutir a contracorriente, precisamente del Amor y no de política, del Deseo (amoroso) y no de la Necesidad (social).” “Eros es para cada uno de ellos un sistema. Hoy, sin embargo, no hay ningún sistema del amor: por más que se vuelva hacia tal o cual de los linguajes recibidos, ninguno le responde, si no para alejarlo de lo que ama. El discurso cristiano, si todavía existe, lo exhorta a reprimir y sublimar. El discurso psicoanalítico (que, al menos, describe su estado), lo obliga a privarse a su pesar de su Imaginario. En cuanto al discurso marxista, no dice nada.”

estoy solo para hacer el sistema (tal vez porque soy incesantemente compelido hacia el solipsismo de mi discurso). Paradoja difícil: puedo ser entendido por todo el mundo (el amor viene de los libros, su dialecto es corriente) pero no puedo ser escuchado (recibido <proféticamente>) sino por sujetos que tienen exactamente y presentemente el mismo lenguaje que yo. Los enamorados, dice Alcibíades, son semejantes a aquellos a quienes ha mordido una víbora: <No quieren, se dice, hablar de su accidente a nadie, salvo a los que han sido víctimas de una circunstancia semejante”

no enfrento ni contesto: simplemente no dialogo: no estoy forzosamente <despolitizado>: mi desviación es la de no ser <excitado>.”

Todo el mundo tiene espíritu perspicaz,

sólo yo tengo el espíritu confuso,

(…)

Todo el mundo tiene su fin pre[ci]so,

sólo yo tengo el espíritu obtuso del campesino.

Sólo yo difiero de los otros hombres”

Tao

SUICIDIO. En el campo amoroso, el deseo de suicidio es frecuente: una pequeñez lo provoca.

una especie de álgebra rápida de la que tengo necesidad en ese momento de mi discurso (…) En una frase, solamente una frase, que acaricio sombríamente: <Y el hombre que durante ¾ de hora había pensado en terminar con su vida, subía al instante sobre una silla para buscar en su biblioteca el catálogo de los cristales de Saint-Gobain> [Stendhal].”

La idea de suicidio, entonces, me salva, porque puedo contarla (y no me privo de ello): renazco y coloreo esta idea con los colores de la vida, ya sea que la dirija agresivamente contra el objeto amado (chantaje bien conocido) o que me una fantasmáticamente a él en la muerte”

Después de haberlo discutido los sabios llegaron a la conclusión de que los animales no se suicidan; a lo máximo algunos – caballos, perros – tienen deseos de mutilarse.”

Acabo de releer Werther no sin irritación. Había olvidado que empleaba tanto tiempo en morir {lo que es completamente falso — Barthes}. A las 4 o 5 recuperaciones, lo que se esperaba, su último suspiro, es seguido por otro más último todavía […] las partidas ornamentadas me exasperan” Gide

TAL. Llamado sin cesar a definir el objeto amado, y sufriendo por las incertidumbres de esta definición, el sujeto amoroso sueña con una sabiduría que lo haría tomar al otro tal cual es, eximido de todo adjetivo.

haga lo que haga, por más que me prodigue para él, no renuncia nunca a su propio sistema. Experimento contradictoriamente al otro como una divinidad caprichosa que cambia incesantemente de humor con respecto a mí (…) esta cosa envejecerá tal cual es, y por ello sufro). O también, veo al otro en sus limites. O, en fin, me interrogo: ¿hay un punto, uno solo, sobre el cual el otro podría sorprenderme? Así, curiosamente, la <libertad> del otro de <ser él mismo> la experimento como una obstinación pusilánime. (…) ese tal me es doloroso, puesto que nos separa” Uma divindade que não gosta de animes

cuanto más lo designe menos le hablaré: seré semejante al infans que se contenta con una palabra vacía para mostrar alguna cosa: Ta, Da, Tat (dice el sánscrito). Tal, dirá el enamorado: tú eres así, precisamente así.”

Accedo entonces (fugitivamente) a un lenguaje sin adjetivos. Amo al otro no según sus cualidades (compatibilizadas) sino según su existencia” “Lo que liquido, en ese movimiento, es la categoría misma del mérito: del mismo modo que el mítico se vuelve indiferente a la santidad (que sería de nuevo un atributo), accediendo al tal del otro no opongo ya la oblación al deseo”

(El enemigo negro del tal es la Habladuría, fábrica inmunda de adjetivos…)”

A****** e T*****: “Éramos amigos y nos hemos convertido en extraños uno del otro. Pero es bueno que así sea, y no buscamos disimulárnoslo ni oscurecerlo como si tuviésemos que tener vergüenza de ello. Como dos navíos que prosiguen cada uno su camino tras sus propias metas: así sin duda podemos cruzarnos y celebrar fiestas entre nosotros como ya lo hemos hecho – y entonces los buenos navíos reposaban lado a lado en el mismo puerto, bajo el sol, tan calmos que se hubiera dicho que estuviesen ya en su destino y no hubiesen tenido sino el mismo rumbo –. Pero enseguida el llamado irresistible de nuestra misión nos impulsaba de nuevo lejos uno del otro, cada uno sobre mares, hacia parajes, bajo solos diferentes – tal vez para no vernos nunca, o tal vez para volvernos a ver una vez más, pero sin reconocernos ya –: ¡mares y soles diferentes han debido cambiarnos!” La gaya ciencia af. 279

TE AMO. La figura no remite a la declaración de amor, a la confesión, sino a la proferición repetida del grito de amor.

Pasada la primera declaración de amor, <te amo> no quiere decir nada; no hace sino retomar de una manera enigmática, hasta tal punto parece vacía, el viejo mensaje. Lo repito fuera de toda pertinencia; sale del lenguaje, divaga, ¿dónde? No podría descomponer la expresión sin reír. !Cómo! Estaría <yo> de un lado, <tú> del otro, y en el medio un nexo de afecto razonable (por léxico).” “je-t-aime debe entenderse (y leerse aquí) a la húngara, por ejemplo, en que se dice con una sola palabra, szeretlek” “decir te-amo es hacer como si no hubiese ningún teatro de la palabra, y esta expresión es siempre verdadera (no hay otro referente que su proferición)” “no es metáfora” “(Aunque dicho miles de veces, te-amo está fuera del diccionario; es una figura cuya definición no puede exceder el encabezado.)” “La palabra (la frase-palabra) no tiene sentido sino en el momento en que la pronuncio” te-amo no compete ni a la lingüística ni a la semiología. Su instancia (eso a partir de lo cual se lo puede hablar) sería más bien la Música.” “El goce no se dice: pero habla y dice: te-amo.” “Te amo. – Yo tambien. (…) la forma es aquí claudicante, por el hecho de que no retoma literalmente la proferición – y es propio de la proferición ser literal –. ” “El niño proustiano – al pedir que su madre duerma en su habitación – quiere obtener el yo también” “Fantaseo lo que es empíricamente imposible: que nuestras dos profericiones sean dichas al mismo tiempo, que una no siga a la otra, como si dependiera de ella; sólo le conviene el relámpago único: la abolición de toda contabilidad.” “Te amo, dice Pelléas. – Yo te amo también, dice Mélisande.”

LACAN. Sobre la situación límite y la holofrase: Le séminaire, I, 250.

La Bestia [de RavelLes entretiens de la Belle et de la Bête, Ma Mère l’Oye] – retenida en estado de encantamiento en su fealdad – ama a la Bella; la Bella, evidentemente, no ama a la Bestia, pero, al fin, vencida (poco importa por qué; digamos: por los encuentros que tiene con la Bestia), le dice la palabra mágica: <Yo lo amo, Bestia>; y enseguida, a través de la desgarradura suntuosa de un arpegio de arpa, un sujeto nuevo aparece.”

alguien sufre porque su mujer lo a dejado; quiere que vuelva, quiere – precisamente – que le diga te amo, y corre, él también, tras la palabra; para terminar, ella se la dice, luego de lo cual él se desmaya: es un filme de 1975.”

(el esclavo es aquel que tiene la lengua cortada, que no puede hablar sino por gestos, expresiones, caras)”

TERNURA. Goce, pero también evaluación inquietante de los gestos tiernos del objeto amado, en la medida en que el sujeto comprende que carece de su privilegio.

El gesto tierno dice: pídeme lo que sea que pueda aplacar tu cuerpo, pero tampoco olvides que te deseo un poco, ligeramente, sin querer tomar nada enseguida.” ver Musil – L’homme sans qualités, II, 772.

El placer sexual no es metonímico (*): una vez tomado, se le corta. La ternura, por el contrario, no es más que una metonimia infinita, insaciable; el gesto, el episodio de ternura (el acorde delicioso de una velada) no puede interrumpirse sino con aflicción: todo parece puesto en duda: retorno del ritmo – vritti (para el Budista, es el curso de las olas, el proceso cíclico) –, alejamiento del nirvana.”

(*) Toda puta se arrepende de engolir, o promíscuo mais ainda de soltar.

L… veía con asombro a A… hacerle a la camarera de ese restaurante bávaro, al pedirle su schnitzel [costeleta], los mismos ojos tiernos, la misma mirada angélica que tanto lo commovían cuando esos gestos le estaban dirigidos.”

UNIÓN. Sueño de unión total con el ser amado.

mal dibujante o mediocre utopista, no llego a nada.”

Orfeo, debilitado, no era sino una mujer, y los dioses lo hicieron morir por las mujeres.”

la pareja perfecta es la de Aquiles y Patroclo: no por un prejuicio homosexual sino porque en el interior de un mismo sexo la diferencia permanece inscrita: uno (Patroclo) era el amante, el otro (Aquiles) era el amado.”

<¿Adónde llegaste con X…?>, yo debo responder: ahora exploro nuestros límites”

Sueño de unión total: todo el mundo dice que ese sueño es imposible y sin embargo insiste. No renuncio a él.”

VERDAD. Todo episodio de lenguaje llevado a la sensación de verdad que el sujeto amoroso experimenta pensando en su amor, ya sea que crea ser el único en ver al objeto amado en su verdad o bien que defina la especificidad de su propia exigencia como una verdad sobre la cual no puede ceder.

Me ocurre no comprender como otro la puede amar, tiene el derecho de amarla, cuando que mi amor por ella es tan exclusivo, tan profundo, tan pleno, cuando que no conozco, no me interesa, no tengo nada más que ella.” W.

Un hombre que duda de su propio amor puede, o más bien debe dudar de cualquier cosa menos importante” Freud apud Klein

(Amor ciego: este proverbio es falso. El amor hace clarividente: <Tengo, de ti, sobre ti, el saber absoluto>. Informe del sabio al amo: tú puedes todo sobre mí pero yo lo sé todo sobre ti.)”

Siempre la misma inversión: lo que el mundo tiene por <objetivo> yo lo tengo por artificial y lo que tiene por locura, ilusión, error, yo lo tengo por verdad.”

GRIMM. Periódico para eremitas

G. B. SCHOLEM. La Cábala y su simbolismo, Siglo XXI, 174.

– ¿Cuál es la única y última palabra de la verdad?

– Sí.”

Entiendo que el maestro, oponiendo curiosamente un adverbio a un pronombre, a cuál, responde al lado

* * *

Uma breve lista de livros para ler…

BATAILLE. L’oeil pinéal

BENVENISTE. Problemas de lingüística general

JEAN-LOUIS BOUTTES. Le destructeur d’intensité (manuscrito)

BRECHT. Madre coraje y sus hijos

DJEDIDI. La poésie amoureuse des arabes

MÉLANIE KLEIN. Essais de psychanalyse

LECLAIRE. Psicoanalizar

MANDELBROT. Les objets fractals

MAURICE, PERCHERON. Le Bouddha et le bouddhisme

SAINT-BEUVE. Port-Royal, Hachette, 6 vols.

SEARLES. The effort to drive the other person crazy, Nouvelle Revue de Psychanalyse, 12.

SOLLERS. “Paradis” Tel Quel, 62.

WATTS. Le bouddhisme zen

…e de músicas para escutar e filmes para assistir:

BOUCOURECHLIEV. Thrène

DEBUSSY. Pelléas et Mélisande (especialmente o ato III).

DUPARC. Chanson triste

MOZART. Les noces de Fígaro

RAVEL. Ma mère l’Oye

WAGNER. El buque fantasma

FRIEDRICH. Los restos de la esperanza captados en los espejos [???]

BUÑUEL. El discreto encanto de la burguesía, 1972.

* * *

Uma breve lista de livros para reler:

El Banquete (y Obra Completa de Platón)

Werther

Sociedade do Espetáculo

Obra Completa de Shakespeare e Sófocles

Morro dos Ventos Uivantes

O Mundo como Vontade e Representação

O PRIMO BASÍLIO

DIC – voltaire:

voltaire

(Curiosamente, Voltaire apreciava sentar-se em voltairtes!)        

        causeuse: sofá para dois

        bambinela: cortina do vão da janela

       “lausperene: [Religião católica] Louvor perene;  Exposição permanente do Santíssimo Sacramento.”

      capacho: artefato retangular ou redondo para limpar a sola dos sapatos; cesto para agasalhar os pés enquanto sentado.

        peitilho: parte da camisa que assenta sobre o peito

        farnel: marmita

        galgo: cão esguio e ágil usado para caçar lebres; perdigueiro.

        merino: lã de carneiro

     gaforin[h]a: cabelo em desalinho (tirado de Isabel Gafforini, cantora italiana que se apresentou em Lisboa no começo do XIX)

        cassa: tecido transparente de linho ou algodão

        estanqueiro: dono de estanco (tabacaria)

        tumba: azarado no jogo

        caquexia: enfraquecimento, torpor

        lamechas: piegas

    tipóia: sustento do braço do doente; carruagem caindo aos pedaços; cadeira para transporte de nobres (África, Índia).

        cachimônia: racionalidade, sensatez

        zarzuela: ópera-bufa espanhola

        azeviche: carvão mineral rico em carbono

        récua: bestas de carga

        casabeque: casaco feminino, leve e pequeno

        cacif[r]o: caixa para quinquilharias

        piorra: pião pequeno; cotovia.

        cotovia: ave cinzenta de pintas escuras

        chorão: salgueiro de ramos pendentes

        estearina: princípio dos corpos gordos; óleos.

        gebo: corcunda; maltrapilho; espécie de boi africano e asiático com uma corcunda.

        estore: cortina para janela de carruagem; persiana.

        cupê: carruagem fechada para dois

        choldra: escória; bodega; prisão.

        saloio: camponês; finório; tipo de pão lisboeta.

        albardão: sela rústica

        sinapismo: procedimento médico antigo que visa a deslocar o germe da doença para órgão menos relevante do corpo, cataplasma de mostarda.

        cabaz: caixa de folha para transportar comida; bebida quente à base de café, vinho, açúcar e canela.

        cheta: tostão, vintém

        grulhar: tagarelar

        tombadilho: cobertura do navio entre o mastro e a popa

        em mangas de camisa: com os cotovelos à mostra

        chazada: refeição com chá; esporro; maçada.

        inculcadeira ou inculcador(a): fofoqueira, charlatã; conselheira.

        quizila: inimizade, antipatia, zanga, embirração, teima

        alfenim: melindroso, janota

        derriçar: puxar violentamente; insistir; troçar; namorar.

        landó: landô, landau, carroça de quatro rodas com cabine conversível

        espertina: insônia

        goiva: fruta

        goivar: magoar

        quino: bingo, loto

        ourelo: tecido grosseiro; namoro; cautela.

 

* * *

“Jorge era muito escalorado, admirava Louis Figuier [biólogo], Bastiat [precursor da Escola Austríaca de Economia] e Castilho [escritor e jurista luso], tinha horror a dívidas e sentia-se feliz.”

 

“Era A Dama das Camélias. Lia muitos romances.”

 

“Fôra o seu primeiro namoro, o primo Basílio! Tinha então 18 anos! Ninguém o sabia, nem Jorge, nem Sebastião…” “Basílio estava pobre, partiu para o Brasil. Que saudades!” “Tinham passado 3 anos quando conheceu o Jorge. Ao princípio não lhe agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a primeira barba, fina, rente, muito macia decerto”

 

“Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me sai uma maçada.”

 

“entalado na sua vida mesquinha, Julião Zusarte via os outros, os medíocres, os superficiais, <furar>, <subir>, instalar-se à larga na prosperidade! (…) esperava, com a tenacidade do plebeu sôfrego, uma clientela rica (…) uma mulher loura com dote. (…) e como elas tardavam a chegar ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se prolongavam mais os seus silêncios hostis, roendo as unhas, e nos dias melhores não cessava de ter ditos secos, tiradas azedas – em que a sua voz desagradável caía como um gume gelado.” “Aquele parente, um <medíocre>, que vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no Ministério, com alguns contos de réis em inscrições – parecia-lhe uma injustiça e pesava-lhe como uma humilhação.”

 

“D. Felicidade de Noronha sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens”

 

“As neves que na fronte se acumulam

Terminam por cair no coração…”

 

“O conselheiro Acácio nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir. Dizia sempre <o nosso Garret, o nosso Herculano [historiador e novelista]>. Citava muito. Era autor. E sem família, num terceiro andar da Rua do Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política: tinha composto os Elementos Genéricos da Ciência da Riqueza e Sua Distribuição, segundo os Melhores Autores, e como subtítulo: Leituras do Serão. Havia apenas meses publicara a Relação de Todos os Ministros de Estado desde o Grande Marquês de Pombal até Nossos Dias, com Datas Cuidadosamente Averiguadas de Seus Nascimentos e Óbitos.”

 

“- Ah!, Lisboa sempre é Lisboa! – suspirou D. Felicidade.

– Cidade de mármore e de granito, na frase sublime do nosso grande historiador! – disse solenemente o conselheiro.”

 

“por escrúpulo e por dignidade, abandonou a rabeca (…) Entregou-se de todo à estatística.”

 

“<Esta vida mata-me!> Escrevia todavia por paixão entranhada pela Arte – porque era empregado na Alfândega, com bom vencimento, e tinha quinhentos mil réis de renda das suas inscrições. A Arte mesmo, dizia, obrigava-o a desembolsos: para o ato do baile da Honra e Paixão mandara fazer, à sua custa, botas de verniz para o galã, botas de verniz para o pai-nobre [quem faz o pai na tragédia ou na comédia]!” “Eu peço desculpas, isso é apenas um borrão. A coisa não está ainda com todos os ff e rr. – Fez então voz teatral: – Ágata!… É a mulher”

 

“Se enganou o marido, sou pela morte. No abismo, na sala, na rua, mas que a mate.”

 

“Todo o casal bem organizado, Sebastião, deve ter dois filhos! Deve ter pelo menos um!…”

 

“Parecia estar em Málaga ou em Granada, não sabia: por baixo de um lampião, suspenso a um ramo, um cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; e ao largo dorme uma Andaluzia de romance de zarzuela, quente e sensual.”

 

“<Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só!> Ela suspirou. Também o desejava tanto! Chamar-se-ia Carlos Eduardo.” “E a vida parecia-lhe infindável, de uma doçura igual, atravessada do mesmo enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os cobria.”

 

“- Diz que me não demorasse no médico. É como quem diz: cura-te depressa ou espicha depressa!

Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:

– Todas o mesmo, uma récua!”

 

Pp. 31-33: “As antipatias que a cercavam faziam-na assanhada, como um círculo de espingardas enraivece um lobo.” “veio-lhe a inquietação nervosa dos músculos da face, o tique de franzir o nariz: a pele esverdeou-se-lhe de bílis.

A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hábito de odiar: odiou sobretudo as patroas, com um ódio irracional e pueril. Cada riso delas era uma ofensa à sua tristeza doentia; cada vestido novo uma afronta ao seu velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos e nas propriedades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o dia em voz de falsete a Carta Adorada!

As boas palavras mesmo, as condescendências, eram perdidas com ela, como gotas de água lançadas no fogo. Resumia as patroas na mesma palavra – uma récua. E detestava as boas pelos vexames que sofrera das más. A ama era para ela o Inimigo, o Tirano. Tinha visto morrer duas – e de cada vez sentira, sem saber por quê, um vago alívio, como se uma porção do vasto peso que a sufocava na vida se tivesse desprendido e evaporado!

(…) Andava à busca de um segredo, de um bom segredo! Se lhe caía um nas mãos!

(…) De comer sempre os restos ganhara o ar aguado, o seu cabelo tomara tons secos, cor de rato.

(…) e Juliana começou a detestar Luísa. pôs-lhe logo um nome: <a Piorrinha>!

(…) Jorge e Luísa tomavam banho todos os dias, e era um trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha: achava despropositada aquela mania de se porem a chafurdar todos os dias que Deus deitava ao mundo: tinha servido vinte anos e nunca vira semelhante despropósito!

(…) O pé era o seu orgulho, a sua mania, a sua despesa. Tinha-o bonito e pequenino.”

 

“Tratam-se por tu! – exclamou. – Tratam-se por tu, Srª Joana!”

 

“Luísa, que nunca tomava café, quis nessa tarde <meia chávena, mas forte, muito forte>”

 

“Também ele passara a manhã deitado no sofá a ler A Mulher de Fogo, de Belot. Tinha lido, ela?

– Não, que é?

– Talvez um pouco picante; não to aconselho!

D. Felicidade andava a ler o Rocambole. Tanto lho tinham apregoado! Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se… E ia deixar, porque tinha percebido que a leitura lhe aumentava a indigestão.” “felicitava-a, porque as doenças de estômago, ultimamente, tinham muito chique. Interessou-se pela dela, pediu pormenores.”

 

“É o primo! – refletiu ela. – E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando ele sai, e é roupa branca e mais roupa branca, e roupão novo, e tipóia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bêbada! Tudo fica na família!”

 

“– É algum romance? – perguntou Luísa.

– Não. É o tratado do Dr. Lee sobre doenças de útero.”

 

“tinha notado que muita gente, num local, causa vertigem aos homens de estudo.”

 

“Em rapaz fui dado à flauta.”

 

“– Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luísa?

– Não! Uma música muito conhecida, já antiga: A Filha do Pescador, de Meyerbeer!”

 

“Sou negrinha, mas meu peito

Sente mais que um peito branco.”

 

“Não te podia levar para o Brasil. Era matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquilo é!”

 

“<Era uma mulher distintíssima, tinha naturalmente o seu amante…>

O adultério aparecia assim um dever aristocrático.”

 

“Mas tinha medo, podiam ver…

– O quê! Num cupê fechado? Com os estores descidos?

Mas então era pior que estar numa sala, era abafar numa boceta!”

 

“Basílio cantou a Medjê, a melodia de [Charles] Gounod, tão sensual e perturbadora.” https://www.youtube.com/watch?v=tocnIIWAGB8

 

“publicamente costumava gloriar-se de uma pobreza que intimamente não cessava de o humilhar.”

 

“Estiveram para casar. Depois o pai faliu, ele foi para o Brasil, e de lá escreveu para romper o casamento.

Julião sorriu, e encostando a cabeça à parede:

– Mas isso é o enredo da Eugênia Grandet, Sebastião! Estás-me a contar o romance de Balzac! (…)

– Ó Julião! Com essas coisas não se brinca!

– (…) Namorou-a solteira, agora quere-a casada! (…) O Primo Basílio tem razão: quer o prazer sem a responsabilidade! (…) Todos os primos raciocinam assim.”

 

“E quando a gente tem pouca saúde não há nada pior que enfrenesiar-se…”

 

“chamava-lhe <sua pomba>, <seu ideal>.”

 

“o amigo de Basílio de Brito, o visconde Reinaldo, achava a temperatura de Lisboa <reles>; e andava saturado de perfumes, por causa <do cheiro ignóbil de Portugal>.”

 

“ -…quando há amante sempre há mais que engomar.

– Deitam mais roupa branca, deitam – observou a Justina.”

 

“Meu marido detesta o bacalhau! Aquele animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e alho!”

 

“Nunca – exclamou –, nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!… Pois podes crer…”

 

“A Traviata lembrou a Luísa A Dama das Camélias; falaram do romance; recordaram episódios…

– Que paixão que eu tive por Armando em rapariga! – disse Leopoldina.

– E eu foi por D’Artagnan – exclamou ingenuamente Luísa.

Riram muito. (…) Aos 13 anos já a gente vai na sua quarta paixão. Todas são mulheres, todas sentem o mesmo!”

 

“nos temperamentos sensíveis as alegrias do coração tendem a completar-se com as sensualidades do luxo.”

 

“Quantas mulheres viviam num amor ilegítimo e eram ilustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E ele amava-a tanto!… Seria tão fiel, tão discreto!”

 

“Estava muito feliz, naquela hesitação entre os impulsos da concupiscência e as prudências da economia.”

 

“Ia, enfim, ter ela própria aquela aventura que lera tantas vezes nos romances amorosos!”

 

“Vaca solta lambe-se toda, Srª Helena”

 

“está preguiçosa como uma freira: quando escreve, são quatro linhas”

 

“Estou na minha! A medicina é uma meia ciência, a fisiologia é outra meia ciência! São ciências conjeturais, porque nos escapa a base, conhecer o princípio da vida!”

 

“Uma teoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos não são as mesmas que governam os corpos vivos é uma heresia grotesca! – exclamava. – E Bichat [o pai da histologia, a ciência que estuda os tecidos humanos, atuante no século XVIII; expoente da corrente do Vitalismo][*], que a proclama, é uma besta!

O estudante, fora de si, bradou que chamar a Bichat uma besta era simplesmente de um alarve.

Mas Julião desprezou a injúria e continuou, exaltado nas suas idéias:

– Que nos importa a nós o princípio da vida? Importa-me tanto quanto a primeira camisa que vesti! O princípio da vida é como outro qualquer princípio: um segredo! Havemos de ignorá-lo eternamente! Não podemos saber nenhum princípio. A vida, a morte, as origens, os fins, mistérios! São causas primárias com que não temos nada a fazer, nada! Podemos batalhar séculos, que não avançamos uma polegada. O fisiologista, o químico, não têm nada com os princípios das coisas; o que lhes importa são os fenômenos! Ora os fenômenos e as suas causas imediatas, meu caro amigo, podem ser determinados com tanto rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos – numa pedra, como num desembargador! E a fisiologia e a medicina são ciências tão exatas como a química! Isto já vem de Descartes!

Travaram então um berreiro sobre Descartes. E imediatamente, sem que Sebastião, atônito, tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se sobre a idéia de Deus.

(…) E começaram a assaltar-se sobre a questão social, como dois galos inimigos.

(…) E depois de citarem com fúria Proudhon, Bastiat, Jouffroy [moralista do XIX], romperam em personalidades.”

 

[*] Obras principais:

Recherches physiologiques sur la vie et la mort (1800)

Anatomie générale (1801)

 

“E sentira-a, porventura, essa felicidade que dão os amores ilegítimos, de que tanto se fala nos romances e nas óperas, que faz esquecer tudo na vida, afrontar a morte, quase fazê-la amar? Nunca!”

 

“É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce começa a morrer. Só os começos são bons. Há então um delírio, um entusiasmo, um bocadinho do Céu. Mas depois!… Seria pois necessário estar sempre a começar, para poder sempre sentir?… Era o que fazia Leopoldina. E aparecia-lhe então nitidamente a explicação daquela existência”

 

“Luísa parou, branca. Aquela triste palavra nunca mais deu-lhe uma saudade, uma comoção. Rompeu a chorar.”

 

“Basílio achava-a irresistível: quem diria que uma burguesinha podia ter tanto chique, tanta queda?”

 

“os suicídios em Lisboa diminuíam consideravelmente: atribuía isso à maneira severa e muito louvável como a imprensa os condenava…”

 

“Onde poria o dinheiro? No banco? Não: no fundo da arca – para estar mais seguro, mais à mão!”

 

“Todos agora, Julião, Ernestinho, o conselheiro, D. Felicidade, lhe pareciam adoráveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que repentinamente tomavam um grande encanto.”

 

“Fugir é bom nos romances!” “Uma mulher que foge deixa de ser a Srª D. Fulana, é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho decerto de ir ao Brasil, onde hás-de tu ficar? Queres ir também, um mês num beliche, arriscar-te à febre-amarela? E se teu marido nos persegue, se formos detidos na fronteira? Achas bonito voltar entre dois polícias e ir passar um ano ao Limoeiro? O teu caso é simplícissimo.” “Enfim, oferece-lhe 300 mil réis, se quiseres. Mas pelo amor de Deus, não faças outra; não estou para pagar as tuas distrações a 300 mil réis cada uma!”

 

“Ao pé, (…) os seus livros – Mademoiselle Giraud ma femme [Belot], La vierge de Mabille [H. Escoffier], Ces Friponnes! [título correto: Estevanille Gonzalez, de Le Sage], Mémoires secretes d’une femme de chambre [Octave Mirbeau], Le chien d’arrêt [Histoire d’un chien[?], Guy de Maupassant], Manuel du chasseur, números do Figaro, a fotografia de Luísa e a fotografia de um cavalo.

E, soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a <situação>! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris com aquele trambolhozinho! Trazer uma pessoa, havia sete anos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás!, embrulhar tudo, porque à menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! No fim, toda aquela aventura desde o começo fôra um erro! Tinha sido uma idéia de burguês inflamado ir desinquietar a prima da Patriarcal. Viera a Lisboa para os seus negócios, era tratá-los, aturar o calor e o boeuf à la mode do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar a Pátria ao Inferno!… Mas não, idiota! Os seus negócios tinham-se concluído – e ele, burro, ficara ali a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipóias para o Largo de Santa Bárbara, para quê? Para uma daquelas! Antes ter trazido a Alphonsine!

A sua fortuna tinha sido feita com negócio de borracha, no alto Paraguai: a grandeza da especulação trouxera a formação de uma companhia, com capitais brasileiros; mas Basílio e alguns engenheiros franceses queriam resgatar as ações brasileiras, <que eram um empecilho>, formar em Paris uma outra companhia e dar ao negócio um movimento mais ousado. Basílio partira para Lisboa entender-se com alguns brasileiros e comprara as ações habilmente. A prolongação daquele incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida prática…”

 

“Pois tu achas isso decente, uma mulher que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a carta nos papéis sujos, que chora, que pede 200 mil réis, que se quer safar – isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu mesmo disseste, usa meias de tear!”

 

“O trem rolou. Era o nº 10… Nunca mais o veria! Tinham palpitado no mesmo amor, tinham cometido a mesma culpa. Ele partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura: ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!”

 

“A senhora ou me dá 600 mil réis, ou eu não largo os papéis! – respondeu empertigando-se.

– 600 mil réis! Onde quer você que eu vá buscar 600 mil réis?

– Ao Inferno! – gritou Juliana – Ou me dá 600 mil réis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido há de ler as cartas!”

 

“E a senhora, são passeios, tipóias, boas sedas, tudo o que lhe apetece – e a negra? A negra a esfalfar-se!”

 

“Receio muito que se repita comigo o caso bíblico da mulher de Putifar. Acredita que há um certo mérito em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindíssima. E tenho medo que suceda algum fracasso à minha pobre virtude…”

 

“Quel giorno più no vi leggiemi avante.”

“E nós não lemos mais em todo o dia!”

 

“La bocca me bacciò tutto tremante”

“A boca me beijou tremendo todo…”

 

“– Ah! – fez D. Felicidade. – É uma novela?

– É o Dante, D. Felicidade – acudiu com seriedade o conselheiro – um poema épico classificado entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso Camões! Mas rival do famoso Milton!

– Que nessas histórias estrangeiras os maridos matam sempre as mulheres! – exclamou ela. E voltando-se para o conselheiro:

– Sim, D. Felicidade, repetem-se lá fora com freqüência essas tragédias domésticas.”

 

“Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo… Mas a liberdade é um bem maior.”

 

“Quem queria negras trazia-as do Brasil!”

 

“Ali anda coisa de cabeça – dizia o Paula, franzindo a testa com o ar profundo – Sabe o que ela tem, Srª Helena? É muita dose de novelas naquela cachimônia. Eu vejo-a de pela manhã até à noite de livro na mão. Põe-se a ler romances e mais romances!… Aí tem o resultado: arrasada!”

 

“Tem anemia, o que todos temos. Que passeie, que se distraia. Distrações e ferro, muito ferro… E água fria, água fria pra cima daquela espinha!”

 

“Dies irae, dies illa,

Solvet saeculum in favilla!”

 

“O Português tem a mania da retórica… – disse Jorge.”

 

“Não vale nada. São muito freqüentes, estas síncopes, nas doenças de coração. Esta é simples. Mas é o diabo, às vezes têm um caráter apoplético, e vem a paralisia; pouco duradoura, sim, porque a efusão de sangue no cérebro é muito pequena, mas, enfim, sempre desagradável. – E acendendo o cigarro: – Essa mulher um dia morre-lhes em casa.” “o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta exclusão da fadiga. Que ela um dia se zangue ou que tenha uma manhã de canseira, e pode ir-se!”

 

“E as meninas solteiras! Muito pequerrucho por essas amas dos arredores tem o direito de lhes chamar mamã! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, refugiam-se nas precauções da libertinagem… Sem contar as senhoras que, em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito suplementar! – Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que ela perdera, e manobravam com habilidade, onde ela, a tola, tivera só a sinceridade! E enquanto elas conservavam as suas relações, convites para soirées, a estima da côrte – ela perdura tudo, era apenas <a Quebrais>!

Aquela conversação enervava Luísa; numa tal generalidade do vício parecia-lhe que o seu caso, como um edifício num nevoeiro, perdia o seu relevo cruel, se esbatia; e, sentindo-o tão pouco visível, quase o julgava já justificado.”

 

“como os burgueses <da sua roda>, avaliava 12 milhões de francesas por 6 prostitutas de café-concerto – que tinha pago caro e enfastiado imenso!”

 

“Sempre tivera uma grande simpatia por ela… Uma grande simpatia!…”

 

“Jesus! O Castro!… Vir a uma casa amiga levar o tiro de 600 mil réis e ser corrido a chicote!… Com o seu próprio chicote!… Oh!, era para estourar!…!

 

“E pensando em tudo o que tinha feito e que tinha sofrido, as infâmias em que chafurdara e as humilhações a que descera, vinha-lhe um tédio de si mesma, um nojo imenso da vida. Não valia a pena lutar por uma vida tão vil.”

 

“Estava farto de medicina, disse depois de um silêncio. Era um beco sem saída. Devia-se ter feito advogado, político, intrigante… Tinha nascido para isso!” “Tudo isto está podre por dentro e por fora! O velho mundo constitucional vai a cair aos pedaços… Necessitam-se homens!” “Este país, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com expedientes. Quando vier a revolução contra os expedientes, o País há-de procurar quem tenha os princípios.” “al hermoso sol português, como se diz nas zarzuelas” “Estúpido país, estúpida vida! – rosnou Julião.”

 

“De resto, acreditava pouco nas febres de desgosto. Julião tinha uma medicina literária. Pensou mesmo que seria mais prudente chamar o velho Dr. Caminha…”

 

“amava-a mais desde que a supunha infiel, mas de um outro amor, carnal e perverso. Releu a carta infinitas vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem cessar. Como tinha sido? Onde era o <Paraíso>? Havia uma cama? Que vestido levava ela? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava?”

 

“Meu Jorge, as rosas da saúde bem cedo reflorirão nas faces da sua virtuosa esposa!…”

 

“Ele teria ajoelhado aos pés dela, acolá, sobre o tapete? Sobretudo o divã tão largo, tão cómodo, desesperava-o; tomou-lhe ódio.”

 

“E que me dizem à novidade? – exclamou. – a peça do Ernesto teve um triunfo!…”

 

“Ora aqui vou eu entre os representantes dos dois grandes movimentos de Portugal desde 1820. A Literatura – e cumprimentou Ernestinho – e o Constitucionalismo – e curvou-se para o conselheiro.”

 

“Como era habituada a enxaquecas, Julião tranqüilizou-os; recomendou um sossego imóvel e sinapismos de mostarda aos pés – até que ele voltasse.”

 

“Se se lhe desse um copo de conhaque?… – lembrou de repente Julião. E vendo o olhar espantado do doutor: – Às vezes estes sintomas de coma não querem dizer que o cérebro esteja desorganizado: podem ser apenas a inação da força nervosa exausta. Se a morte é irremediável, não se perde nada: se é apenas uma depressão do sistema nervoso, pode-se salvar…”

 

“Ultimamente li eu que aos grandes golpes sucedem sempre sonos prolongados. Assim, por exemplo, Napoleão depois de Waterloo”

 

“O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima pestífero. Não há nada mais reles do que um bom clima!…”

 

“a verdade é que não era uma amante chique; andava em tipóias de praça; usava meias de tear; casara com um reles indivíduo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuía relações decentes; jogava naturalmente o quino e andava por casa de sapatos de ourelo; não tinha espírito, não tinha toilette… Que diabo! Era um trambolho!”

 

“Setembro 1876-Setembro 1877.”

 

A DIALÉTICA DA FÉ EM KIERKEGAARD – Marieta Pinho (tese de mestrado)

“O fracasso dos sistemas, o paradoxo e o absurdo, o desespero e a angústia, o abandono do homo naturalis e o compromisso do homo christianus, o sentido do risco e o drama do indivíduo, o valor exclusivo da subjetividade e a incerteza absoluta do <objetivo>: eis os temas de Kierkegaard que, depois, ao lado de certos princípios estabelecidos por outros filósofos, como Nietzsche e Husserl, viriam a ter ressonâncias imprevistas no contexto das novas doutrinas existenciais. <Suas teses passaram a explanar-se num clima que já não é o clima kierkegaardiano>” (JOLIVET, 1961, p. 31).

“Na obra O Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor, Kierkegaard mostra aos seus leitores, com precisão e coerência, um roteiro da evolução do seu pensamento <como num drama em que a sucessão das cenas e dos atos obedece a um plano rigorosamente definido> (KIERKEGAARD, 2002, p.12). Ele mesmo declara que sua obra tem como objetivo precípuo o tornar-se cristão.”

O Corsário – Semanário político, essencialmente liberal, fundado por Meir Aaron Goldschmidt. Ele agredia o regime absolutista, o partido conservador, a censura e tudo quanto em si tivesse o menor sabor reacionário. Goldschmidt era um jovem admirador de Sören Kierkegaard, cuja genialidade logo reconhecera. Poeta, novelista e escritor satírico, poucos contemporâneos livraram-se de suas críticas. Um incidente marcou a vida de Kierkegaard, pois Goldschmidt usou tanto da caricatura como da sátira pessoal, em represália a críticas de Kierkegaard ao jornal. Kierkegaard ficou profundamente abalado, ao ser exposto em situações ridículas e difamatórias aos olhos do povo (MINISTERIO DE RELACIONES EXTERIORES DE DINAMARCA. Peter P. Rohde. Tradução: Daniel Kraemer/Vibeke Pentz-Möler, s/d).”

“A autoria pseudonímica adota principalmente um tipo existencial cujo modelo é o esteta romântico alemão – o dândi irônico, cuja maior preocupação é evitar o tédio e manter um interesse intelectual pela vida e os prazeres sensuais. Ironicamente, o esteta é consumido pela melancolia, considerando sua maior felicidade a própria infelicidade.”

“a ironia funciona como confinium, uma área limítrofe entre a estética e o ético.”

“A categoria <Indivíduo>, eminentemente kierkegaardiana, constitui a categoria cristã por excelência, que designa ao mesmo tempo o <Único e cada um de nós>. (KIERKEGAARD, 2002, p. 13).”

“O cristianismo pede-nos para amar o nosso próximo, isto é, cada homem, não nos manda amar a multidão, caminho que conduz sempre ao poder temporal e a todas as baixezas da lisonja e da falta de compromisso.”

IRONIA AO IRONISTA (A.K.A. DEUS JOGA RPG): “Kierkegaard renuncia publicar o Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor e crê que <a providência guiou esta decisão> (KIERKEGAARD, 2002, p. 18). Somente em 1859, quatro anos após a sua morte, o seu irmão, Peter Christian, bispo de Aalborg, promove a edição do que ele decidira guardar.”

“Sócrates, que, diante da multidão chamada a julgá-lo, recusa defender-se e silencia.”

Oehlenschläger – Aladim ou a Lâmpada Maravilhosa

“Durante o período do seu noivado com Regina Olsen, Kierkegaard ocupou-se em escrever a sua dissertação do mestrado em filosofia, <O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates>, de 1841, que mais tarde a Universidade de Copenhague passou a reconhecer como tese de doutorado, em 1854.

Como usualmente as dissertações acadêmicas tinham de ser escritas e defendidas em latim, Kierkegaard pediu autorização ao rei para escrever a sua em dinamarquês. Só em parte foi atendido, sendo-lhe permitido escrever em dinamarquês, com a condição de condensar o trabalho em uma série de teses em latim, para defendê-las publicamente, também em latim, antes de ser-lhe concedido o grau. Logo após a defesa de sua dissertação, Kierkegaard desfez seu compromisso de noivado.

Empreendeu, então, a primeira das quatro viagens a Berlim – suas únicas viagens ao estrangeiro, sem contar uma breve passagem pela Suécia. Durante essa primeira estada em Berlim, Kierkegaard escreveu a maior parte do primeiro volume de <Ou, Ou – Um fragmento de vida>, de 1843, embora muito do segundo volume já estivesse pronto.”

“A Heiberg era creditada a introdução da filosofia de Hegel na Dinamarca, apesar de algumas conferências sobre Hegel já terem sido feitas pelo filósofo norueguês Henrik Steffens, entre outros. Não obstante, o fato de Heiberg ter publicado trabalhos de Hegel acelerou esta aceitação no curso principal da vida intelectual dinamarquesa.

Pelo fim dos anos de 1830, o hegelianismo já penetrava a filosofia, a teologia e a estética de Copenhague. Isto, obviamente, engendrou alguma resistência, incluindo a dos professores de filosofia de Kierkegaard, F. C. Sibbern e Paul Martin Möller. H. L. Martensen, professor de teologia da Universidade de Copenhague e depois Bispo Primaz da Igreja do povo dinamarquês, apenas cinco anos mais velho que Kierkegaard, estava firmemente estabelecido no grupo literário de Heiberg e antecipou um dos mais caros projetos literários de Kierkegaard – uma análise da figura de Fausto

Em suas revistas, como parte de sua prática em tornar-se um escritor, Kierkegaard ficara fascinado por três grandes figuras literárias da Idade Média, que, em sua concepção, encarnavam um alcance completo dos tipos estéticos modernos. Essas figuras eram Don Juan, Fausto e o Judeu Errante, encarnando, respectivamente, a sensualidade, a dúvida e o desespero.”

“A liberdade da imprensa tinha sido severamente corroída pelo estatuto do Rei Frederico VI, em 1799, e foi ameaçada com total censura pela legislação de 1834. Em 1835, para combater essa possibilidade, formou-se uma associação em prol do uso correto da liberdade de imprensa.”

“A primeira afirmação de Andersen (1805-1879)(*) era que o gênio precisava ser nutrido, ser ajudado, pois podia sucumbir às circunstâncias e desaparecer sem nenhum traço. Já Kierkegaard, discordava disso fortemente, dizendo que a centelha do gênio nunca poderia ser extinta, mas somente aumentada pela adversidade.”

(*) “Um dos mais célebres autores de contos infantis de todo o mundo, como O patinho feio, O soldadinho de chumbo

“Com efeito, o significado de ironia que perpassa o pensamento dos filósofos Sócrates e Platão vem do grego eironeia, cujo sentido de interrogação servia como método de discussão consistente em fingir-se desconhecer o assunto e fazer a interrogação, procurando obter do adversário uma resposta contraditória, para então ridicularizá-lo.”

“A dissertação O conceito de Ironia constantemente referido a Sócrates foi escrita por Kierkegaard quando ainda jovem, com menos de trinta anos, já apresentando uma inteligência brilhante e medindo forças com o grande mestre Hegel, admirado e respeitado como professor. Nessa dissertação, coloca-se em relevo <a grande abertura da obra kierkegaardiana, inaugurada com um mergulho em Platão e em Hegel, resumindo dez anos de investigação sobre Sócrates e Platão, Kant, Fichte, Solger e Hegel> (KIERKEGAARD, 2005, p. 10).”

“como toda filosofia inicia pela dúvida, assim também inicia pela ironia toda vida que se chamará digna do homem”

“A investigação conduz à concepção de Sócrates por seus contemporâneos Xenofonte, Platão e Aristófanes. Ele nos diz que Xenofonte compreendeu mal Sócrates, por ater-se ao que nele é exterior e imediato. Já Platão e Aristófanes percorreram o caminho externo para atingir aquela <infinitude que é incomensurável com os múltiplos acontecimentos de sua vida> (KIERKEGAARD, 2005a, p. 27).”

“Não há vestígio da ironia no Sócrates de Xenofonte, mas a sofística que, segundo ele, <é precisamente o duelo infindável do conhecimento com o fenômeno, a serviço do egoísmo> (KIERKEGAARD, 2005a, p. 35), não pode conduzir a uma vitória, porque o fenômeno voltaria a levantar-se tão logo fosse abatido.”

“o pensamento só se compreende a si mesmo, quando é assumido no ser do outro”

“Em <O Banquete> e <Fédon>, encontramos tudo aquilo que Sócrates diz aos amigos nos últimos dias e o que lhe aconteceu, e apresentando, por isso, um caráter histórico.”

“o negativo segundo Hegel é um momento necessário no próprio pensamento, é uma determinação ad intra (para dentro) e em Platão o negativo se torna visível e é colocado, fora do objeto no sujeito interrogante”

“lá onde a investigação deveria começar, ela termina. O amor é nostalgia, busca, não é nenhuma determinação.”

“um resultado negativo precisa sempre ser um resultado, um resultado negativo em seu estado mais puro e sem mistura só a ironia é que pode proporcionar [sobre Protágoras]

“Em Sócrates e Platão encontramos uma diferença essencial: para um, o conversar era necessário, enquanto para o outro, não se dialoga, não mais se conversa e também a ironia desaparece.”

“foi com a categoria o <Indivíduo> que os pseudônimos visaram, no seu tempo, o Sistema, quando tudo na Dinamarca era invariavelmente Sistema”

 

“Diferentemente de Comte, Feuerbach e Marx, em que surgia o conceito genérico de homem, e a pessoa humana não passava de uma abstração, convertendo-se naquilo em que cada indivíduo se devia dissolver e transformar. Kierkegaard opõe-se a todas as escamoteações da pessoa humana (…) K. sentia que o caráter sagrado da pessoa humana cedo seria considerado uma noção extinta por sistemas filosófico-políticos. Sua principal preocupação, por conseguinte, era realçar que o fundamento do caráter sagrado da pessoa é, antes, a relação desta com Deus.”

<A existência jamais poderá ser apreendida a não ser sob a forma de uma história>, como Kierkegaard repetia, ou, segundo a expressão de Heidegger, <como temporalidade> (JOLIVET, 1961, p. 19).”

“Somente mais de um século após sua morte, surge, em Paris, o filósofo Jean-Paul Sartre, que desperta para <o problema da existência> com suas características – alienação, angústia, absurdo – diretamente ligado ao pensamento de Kierkegaard. Sartre ressalta ser o desespero parte da condição humana, como já havia afirmado K. em sua obra <Doença Mortal> (1849)

“O que distingue Kierkegaard de Hegel é a importância atribuída ao Indivíduo como eixo condutor do seu pensamento, pois o importante não é tanto conhecer a verdade, mas viver uma ideia concreta que seja para o Indivíduo o ideal de uma existência vivida. Contudo, o desafio do pensamento de K. será a ousadia de sermos Indivíduo; isso, no entanto, apesar do esforço e da responsabilidade, só será possível diante de Deus.”

“os grandes mestres do Idealismo alemão, sobretudo Kant, Fichte e Schelling. A arquitetura e a escritura do texto [de Hegel] surpreendem por não serem uma meditação no estilo cartesiano, nem uma construção medida e rigorosa como a <Crítica da Razão Pura>, nem tampouco um tratado didático como a <Doutrina da Ciência>, de Fichte.”

MINIBIOGRAFIA DE H.: Aos 13 conheceu Schelling e Hölderlin no seminário. Aos 23, desistiu da carreira. Passou algum tempo sendo preceptor de aristocratas, até assumir a cadeira de Fichte em Berlim.

“o saber filosófico voltou a buscar o absoluto, próprio da religião, e a religião voltou a procurar a racionalidade, própria do saber filosófico, como havia sucedido no apogeu da Idade Média.”

“A visão concreta da realidade é, portanto, o exato oposto do pensamento analítico, que recorta as partes do todo ao qual elas pertencem, tornando-as, nessa operação mecânica, completamente ininteligíveis” (COMPARATO, 2006, p. 307).

“E o Espírito Absoluto é por si arte; para si, religião revelada (Cristianismo); em si e para si, a filosofia. A religião é parte do Espírito Absoluto, na medida em que ela possui o objeto Absoluto. Todavia, ela não possui a forma absoluta que, na concepção de Hegel, é o conceito.”

“sendo assim a Fenomenologia a dedução do conceito da Ciência pura”

“De Fichte a Hegel, os artífices dos grandes sistemas do Idealismo alemão tomam sobre si a tarefa preliminar de superação do dualismo entre Natureza e Liberdade implicado nas premissas kantianas, que o próprio Kant tentara atenuar na Crítica do Juízo, mas sem questionar seus fundamentos críticos.”

As Obras Completas de Fichte, em oito volumes, foram primeiramente editadas por seu filho I. H. Fichte (Berlim, 1845-1846). O pensamento de Fichte, seja em sua dimensão especulativa, seja sobretudo em sua dimensão ético-política, é objeto atualmente de renovado interesse, alimentado pela edição crítica das suas obras e pela produção de muitos estudiosos.”

“Friedrich W. J. Schelling (1775-1854), nascido em Leonberg, filósofo mestre do idealismo alemão. Professor em Iena, entrou em conflito com Fichte e discordou frontalmente de Hegel.”

“O Eu fichtiano termina por abranger assim o horizonte universal do Ser, o que leva o filósofo a pensá-lo cada vez mais como um Eu supraindividual e, finalmente, a assumir como ponto de partida do Sistema o próprio Absoluto ou Deus” (VAZ, 2002, p. 369).

WIKIFriedrich Heinrich Jacobi (25 January 1743 – 10 March 1819) was an influential German philosopherliterary figuresocialite [ui!], and the younger brother of poet Johann Georg Jacobi. He is notable for popularizing the term nihilism (coined by Obereit in 1787) and promoting it as the prime fault of Enlightenment thought particularly in the philosophical systems of Baruch SpinozaImmanuel KantJohann Fichte and Friedrich Schelling.

“Na vida de Kierkegaard, duas figuras são dominantes: seu pai Michael Pedersen e Regina Olsen, “a que amava e não conseguiu tomar por esposa em conseqüência do sentimento de culpa e de melancolia de que se tornou vítima” (GILES, 1975, p. 6).

Sofrendo a forte influência da dominação paterna em sua formação cristã, desenvolveu um temperamento tristonho, oprimido pelo escrúpulo do pecado e dos temas relativos à sexualidade. Viveu em um ambiente impregnado de uma religiosidade sombria, envolta em um clima de maldição que pesava sobre a consciência paterna e que lhe fôra transmitida por herança.”

“o hegelianismo significava um retrocesso em direção ao paganismo, vendo na evolução do mundo o resultado de um processo lógico, como aquele que chamava dialético e necessário, do qual o cristianismo seria apenas um elo sem muita importância. Se o sistema de Hegel fosse anticristão, não teria causado tanta indignação a Kierkegaard, mas precisamente por aceitar o cristianismo e incluí-lo como um componente a mais, Kierkegaard considerou-o muito perigoso. Por essa razão, em 1846, ele publicou uma obra com o curioso título <Post-Scriptum não-científico concludente às Migalhas Filosóficas>, em que desafia o sistema de Hegel.”

“a existência é uma tensão em direção não a uma totalidade pensada, mas, sim, em direção ao Individuo, categoria essencial da existência” Giles

“Compreender que Hegel elaborou o conceito filosófico de Absoluto e assimilou a crítica filosófica pós-cartesiana às determinações metafísicas do Absoluto, conservando a pretensão da metafísica clássica de conhecer a coisa-em-si, é o empenho que Marcelo F. de Aquino nos propõe. O conceito filosófico de Absoluto, segundo Hegel, repousa no conceito de espírito, e <o Espírito é saber absoluto na dimensão fenomenológica, é ideia absoluta na dimensão lógica e é espírito absoluto na dimensão noológica> (AQUINO, 2002, p. 178).”

ETERNAL ECHOES OF A REMORSELESS MIND: Se o mundo fosse atingir um fim…Hegel aborda o Espírito Absoluto, assinalando a necessidade de se ultrapassar dialeticamente o plano da História universal, que é o momento mais alto atingido pela dialética do Espírito Objetivo.”

Apoteose não passa de após-tese.

Mais furada que a bola da criança travessa.

Decadêndia?

9…8…7…POW, POW, TUMMM…

Assistência!

RÁ! tchim

<fato absoluto só pode ser um equívoco, uma distração do filósofo, já que um fato não pode ser absoluto, e se é o absoluto não se reduzirá jamais ao fático> (VALLS, 2003, p. 241).”

Migalhas Filosóficas (1844 [um ano por si só marcante!]): a obra anti-sistemas na Filosofia [assinado por Clímacus] Fragmentos de uma mosca

“Se aquele fato é um fato absoluto, então seria uma contradição que o tempo pudesse diferenciar a relação dos homens para com aquele fato, pois o que é essencialmente diferençável no tempo eo ipso não pode ser absoluto, pois daí seguiria ser o absoluto um casus na vida, um status relativo a outras coisas. Mas o fato absoluto é também ao mesmo tempo um fato histórico. O fato absoluto é um fato histórico e, como tal, objeto da fé.” (KIERKEGAARD, 2008, p. 142)

“Podemos considerar que em Migalhas Filosóficas está desenvolvida a idéia kierkegaardiana de paradoxo, já insinuada em Temor e Tremor, de 1843, significando que o eterno pode aparecer no tempo, coisa inconcebível para todo cérebro humano: a questão não é compreender o paradoxo, mas estar diante dele.”

epicúreo telefone do hotel usado para pedir vinho e fatias de torta de chocolate gelada

“O conceito de Angústia (1844), e O Desespero Humano (1849) – talvez as duas obras mais difíceis de Kierkegaard” “a angústia como a situação-limite, o desespero ou a enfermidade mortal.” “brusca comoção existencial.” periferia da transmutação – eixo quebrado

“O homem estético vive como expulso de si mesmo, confundido com o exterior e prisioneiro de seus instintos, de suas funções, de seus hábitos, de sua relação, do mundo que o distrai. Esse homem imediato vive sua existência no estado imediato da vida, ou <estádio estético>, entendido como conceito de imediatez. Já o homem relacional vive a relação ou o estágio ético que supera o estético, como bem demonstrou Kierkegaard no desenvolvimento dos estádios”

“poeta de la existencia personal, el primer filósofo poeta existencial, y ello sin haber escrito un solo verso.” (CAÑAS, 2003, p. 16)

“Em Temor e Tremor, o homem relacional será o Cavaleiro da fé”

DE SEDUTOR A SETA

“Nesse método dialético de Kierkegaard, os estádios não toleram mediação ou síntese, como em Hegel, e somente pelo <salto> será possível atingir o estádio seguinte”

Minhas 3 amantes, Vertigem, Náusea e Angústia. Há ainda a quarta, Melancolia. Monotonia-tédio, o caso-trans.

ME SINTO COMO UM ELÉTRON ESPERANDO A PROMOÇÃO A UMA CASA MAIS PERIFÉRICA E UMA “EXISTÊNCIA” MAIS CENTRÍFUGA: “Ainda que toda pessoa esteja instalada em um dos modos ou estádios da vida, em cada etapa de sua existência sempre será possível ascender de um nível a outro, conservando e assumindo o positivo [próton] do nível anterior, como um Aufhebung existencial, dando a entender que o ético e o religioso não anulam o estético”

 

Ab surdo

até o surdo

tem vez

manancial ancestral da humanidade: não ao humanitarismo

“a denúncia de Kierkegaard, ao longo de sua vida, contra o cristianismo luterano oficial de sua época, que a seu ver permanecia no estádio estético.”

“contra Deus estamos sempre errados.”

Cuidado para não dar tantos saltos que você nunca possa testar as novas molas do seu tênis. Impacto: necessário.

“A fé cristã – se possível precisá-la – é esse mergulhar no paradoxo que é a imanência do transcendente.”

“a angústia <ex-siste>. O desespero <in-siste> (RICOEUR, 1996, p. 20-21).”

Para compreendermos <O Desespero Humano ou A Doença mortal> é necessário ler primeiramente Temor e Tremor, ensaio que coloca o significado do pecado e da fé para além da ética.” Projeto de relê-lo.

O ANTI-FREUD: “Sofrer um mal desses coloca-nos acima do animal, progresso que nos distingue muito mais do que o caminhar de pé, sinal da nossa verticalidade infinita ou da nossa espiritualidade sublime (KIERKEGAARD, 2004, p, 21).”

“Por outro lado, quanto ao cristão e ao homem natural, a vantagem coloca-se no fato de termos consciência do desespero e de podermos superá-lo, o que mais uma vez nos distingue do animal.”

Muito Além do Câncer ou dos Rótulos de Cigarro do Ministério da Saúde

“O maior paradoxo do pensamento é querer descobrir algo que ele próprio não possa pensar” (KIERKEGAARD, 2008, p. 62)

CADA TÍTERE NO SEU PALCO: “A lógica de que o Deus eterno, infinito, transcendente, podia simultaneamente encarnar-se como um ser humano finito no tempo, para morrer na cruz, constitui uma ofensa à razão. De acordo com Clímacus, essa ideia é absurda demais para que os homens a tenham inventado, donde a conclusão de que só poderia advir de uma origem transcendente. A fim de que os homens encontrem a verdade transcendente, eterna, outra que não seja através da memória, a condição para a recepção daquela verdade deve também vir de fora. Não pode haver ascensão desta verdade pela razão e lógica, contrariando Hegel, que tenta demonstrar que a ciência universal filosófica revelaria por fim <o Absoluto>.”

Repetição, 1843.

In Vino Veritas, 1845.

“Embora Kierkegaard entenda que o desespero seja universal, ele afirma que cada indivíduo é responsável por seu próprio desespero.”

“Se a síntese não estivesse na correta relação, o desespero seria ontológico e não seria desespero.”

“O objeto da angústia é o nada, por isso ela difere do temor, que tem um objeto fixo.” “A angústia assemelha-se à sensação que experimentamos diante de um abismo, como algo que repele e atrai, ao mesmo tempo.”

“quando, ao querer o espírito instituir a síntese [corpo e alma], a liberdade mergulha o olhar no abismo das suas possibilidades e se agarra à finitude para não cair”

Preciso urgentemente me atualizar sobre velharias…

Posso, sem pressa, me dar ao luxo de esquecer das novidades e desligar o aparelho quando passa o telejornal noturno…

“A angústia descreve a nossa caminhada até o abismo, mas não pode explicar o salto em si.”

“há uma correspondência entre a sensualidade e a angústia. (…) a situação de Eva como derivada de Adão, condição essa que a faz acumular mais sensualidade e, consequentemente, mais angústia.”

Kierkegaard “inaugura uma nova era de pensamento, depois

do idealismo alemão: a era da pós-filosofia” (RICOEUR, 1996, p. 30).

“Com Hegel o discurso filosófico aparentemente se completara, mas logo depois ressurge, encorajado pelos ataques de Kierkegaard, Marx e Nietzsche contra o idealismo. Essas três grandes tendências surgem no pensamento moderno e representam o fim da filosofia: o indivíduo isolado diante de Deus, a realização da filosofia como práxis revolucionária, a transmutação de valores e o niilismo europeu.”

        Paul Ricoeur coloca dúvidas sobre a que devemos o fim da filosofia e se houve realmente um fim. Para ele, os pensadores Kierkegaard, Nietzsche e Marx são modernos e pertencem à era de Hegel; dessa forma, uma nova leitura de Kierkegaard requer uma nova leitura de Fichte, Schelling e do próprio Hegel. Sobre Kierkegaard ele diz: <não somos mais constrangidos a separar seu destino do destino do idealismo alemão e a torná-lo tributário do existencialismo>” (RICOEUR, 1996, p. 32).” “O dândi de Copenhague, o estranho noivo de Régine, o celibatário com o aguilhão na carne, o insuportável censor do bispo Mynster, a dolorosa vítima do Corsário, o agonizante do hospital público – nenhum desses personagens pode ser repetido nem mesmo corretamente compreendido” (RICOEUR, 1996, p. 32)

“Paul Ricoeur, ao sugerir que se dê maior atenção a Fichte e Schelling para uma nova leitura de Kierkegaard, baseia-se em algumas premissas. No tocante ao primeiro, leva em conta a distinção fichtiana entre ato e fato para uma teoria da ação, uma ética que não se reduza a uma simples teoria do dever. A estrutura da problemática fichtiana determina o campo onde a experiência kierkegaardiana pode ser inserida.

O <idealismo> alemão, representado também por Schelling, enfocou o problema da realidade enfatizando que a distinção entre ideal e real é, ela mesma, puramente ideal. <O problema não é mais emocional, patético, vale dizer poético: é o problema filosófico da realidade finita> (RICOEUR, 1996, p. 38)”

“Na visão dos adeptos de Hegel, Kierkegaard poderia ser situado como parte do sistema hegeliano e o seu discurso como proveniente de uma <consciência infeliz> colocado em posição menor, <nem sequer no final, mas no início da Fenomenologia do Espírito> (RICOEUR, 1996, p. 39)”

“Para Hegel, toda filosofia que recorre à oposição entre o céu e a terra, entre Deus e o mundo, entre transcendência e imanência é ainda uma visão ética do mundo e deve ser superada: nesse sentido, o <diante de Deus> de Kierkegaard procede ainda da visão ética do mundo e deve ser superado; o pensador hegeliano acrescentará a essa crítica um reconhecimento: se Kierkegaard supera sua própria visão ética do mundo, é porque introduz uma nova idéia, a de contemporaneidade entre aquele que crê e o Cristo; mas é uma relação poética que põe em curto-circuito o discurso; ela só poderia ser pensada como interiorização do <diante de Deus> pela qual a filosofia da transcendência é superada numa filosofia do amor; mas se esta última pode ainda ser dita, ela deve também ser pensada” (RICOEUR, 1996, p. 41)

“Nessa vertigem a liberdade soçobra. Eis até aonde chega a psicologia.”

“o pecado se autopressupõe não antes de ser instaurado (o que corresponderia a uma predestinação), mas desde que o foi” K.

Angústia Zero & Angústia Crescente Infinita

 

“Para Kierkegaard, Temor e Tremor (Frygt og baeven), a obra que ele mais estimava e considerava suficiente para torná-lo um imortal, era a manifestação da visão trágica do cristianismo e a recusa em aceitar uma religião como prolongamento da ética (Kant), ou como uma das expressões do espírito Absoluto, conforme entendia Hegel.”

<Estádios no caminho da vida>, uma grande produção literária e, talvez, o melhor expoente do pensamento kierkegaardiano, além de ser uma das obras-primas da literatura dinamarquesa.”

“Enquanto a reminiscência platônica fundava o conhecimento segundo a essência, privilegiando sempre o passado anterior, o cristianismo favorece o futuro, a abertura ao incógnito que é a fé.”

“A ironia é a zona-limite entre o estético e o ético; o humor, a zona-limite entre o ético e o religioso”

“A idéia de dividir a evolução histórica ou o desenvolvimento humano individual em estágios é uma característica muito comum na história da filosofia. Kierkegaard empregou pela primeira vez esse conceito de estágios, basicamente no nível histórico, em sua tese de 1841, O conceito de Ironia constantemente referido a Sócrates. Mais tarde, entretanto, ele concluiu que os estágios históricos poderiam ser todos combinados num único, que chamou de <estágio estético>.”

“Para seus contemporâneos, era estranho que o estágio mais baixo, o estético, pudesse incluir mesmo <as mais importantes conquistas intelectuais> (GOUVÊA, 2000, p. 212).”

“Sua vida não tem <continuidade>, faltam-lhe estabilidade e objetivo, ele muda de rumo conforme o humor ou as circunstâncias” “a pessoa pode ser ponderada, calculista e agir muitas vezes com um espírito puramente <experimental>. (…) preservando a possibilidade de desistir caso se entedie ou se canse” “ocorrem crises na consciência estética que reclamam a adoção de uma nova forma de vida”

“um <eu ideal>, que é <o retrato da imagem segundo a qual ele quer se formar>”

“[Temor e Tremor é] ou uma peça autocontraditória e irracionalista que gira em volta de um raciocínio circular, ou uma sofisticada polêmica contra racionalistas e também contra irracionalistas; os primeiros por ter posto muita fé na razão e por terem compreendido mal a natureza da fé cristã; e os outros por terem posto muito pouco valor na razão, e por também terem compreendido mal a fé cristã (GOUVÊA, 2002, p.69).”

“Kierkegaard tem um estilo próprio de escrever. Seus escritos não partem de premissas cuidadosamente formuladas para se chegar a conclusões definitivas. Há um contraste evidente não apenas com os métodos adotados pelos teóricos sistemáticos, mas também com o modo de fazer filosofia dos autores de orientação empirista, como Locke e Berkeley.”

[São João Clímaco] Johannes Clímacus ou João das Escadas, João Clímax, ou ainda como prefere Patrick Gardiner, João Alpinista. Estas seriam as possíveis traduções para Johannes Clímacus. O fato é que Sören Kierkegaard toma emprestado este nome de um autor místico medieval, que teria escrito a obra A Escada da Ascensão Divina [favoritos].

“Existe uma expressão proveniente da reflexão kierkegaardiana, <cristicidade> ou <crístico>, usada pelos alemães e que vai aparecer em Nietzsche, expressão que está muito além do significado de cristianismo e de cristandade.”

“Reduzir o ser-cristão à cristandade é inaceitável”

O livro-texto de uma época.

marca-texto melhor que marca-testa.

“As técnicas literárias de Kierkegaard apoiavam-se em recursos desenvolvidos no romantismo alemão e faziam dele um devedor de Goethe, em cujo personagem Wilhelm Meister se inspirou para nomear o heterônimo Juiz Vilhelm.”

* * *

ANEXO

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega:

“Numa primeira tentativa, a frota helênica não conseguiu chegar a Tróada, porque, dispersados por tremenda borrasca, os chefes aqueus tiveram de regressar a seus respectivos reinos. […] Oito anos depois reuniram-se novamente em Áulis, cidade e porto da Beócia, de onde partiriam para vingar a afronta a Menelau.

O mar, todavia, repentinamente se tornou inacessível aos navegantes, mercê de uma estranha calmaria. Consultado o adivinho Calcas, este explicou que o fenômeno se devia à cólera da irascível Ártemis, porque Agamenon, numa caçada, tendo matado uma corça, afirmara que nem a deusa o faria melhor que ele […] A única maneira de apaziguar a deusa e ter ventos favoráveis, prognosticara Calcas, era sacrificar-lhe Ifigênia, filha mais velha dos reis de Micenas.”

Eurípides – Ifigênia em Áulide

“Uma mensagem mentirosa foi mandada à esposa (Clitemnestra): que enviasse Ifigênia a Áulis para desposar Aquiles, o mais renomado dos heróis aqueus. Aguardavam-na, todavia, as núpcias da morte…”

O PESSIMISMO DE ARTHUR SCHOPENHAUER

OS ENSAIOS DE ARTHUR SCHOPENHAUER;

ESTUDOS SOBRE O PESSIMISMO

Uma seleção criteriosa dos melhores trechos, traduzidos do Inglês para o Português por Rafael “Cila” de Araújo Aguiar, para que outras pessoas venham a ter contato com esta supina filosofia. Com comentários de próprio cunho em verde, quando sem relação direta com a obra mesma, ou na mesma cor do texto, entre colchetes ou como nota de parágrafo, quando diretamente relacionados.

Uma não-pequena parte do tormento da existência reside nisso, que o Tempo está continuamente nos pressionando, nunca nos deixando respirar, mas sempre a nos perseguir, como um capataz com um chicote. Se em algum momento o Tempo <dá um tempo>, só pode ser quando estamos entregues à miséria do tédio.”

Na juventude precoce, quando contemplamos nossa vida por vir, somos como crianças no teatro antes da cortina levantar, ali sentadas eufóricas e na expectativa pelo começo da peça. É uma bênção que não saibamos o que realmente vai acontecer. Pudéssemos antevê-lo, há ocasiões em que crianças seriam vistas como prisioneiros sem culpa, condenados, não à morte, mas à vida, e ainda plenamente ignorantes do que suas sentenças significam. E no entanto todo homem quer chegar à velhice; em outras palavras, um estado da vida do qual talvez se diga: <Está ruim hoje, e vai estar pior amanhã; e assim vai até o pior dos dias.>”

ainda que as coisas para você tenham dado razoavelmente certo, quanto mais você viver mais claramente você vai sentir que, em geral, a vida é um desapontamento, melhor ainda, uma fraude.”

Aquele que vive o bastante para ver duas ou três gerações é como um homem que senta algum tempo à tenda do feiticeiro durante a feira, e testemunha a performance duas ou três vezes em sucessão. Os truques foram feitos para ser vistos só uma vez; e quando não são mais novidade e deixam de enganar, seu efeito está findo.”

o homem culto desenvolve sua suscetibilidade à felicidade e à miséria num grau tal que, num só instante, ele é transportado a um estado de deleite que pode inclusive se mostrar fatal, e, já em outro, às profundezas do desespero e suicídio.”

honra e vergonha; para ser mais direto, o que ele pensa sobre a opinião que outras pessoas têm dele. Sob milhares de formas, amiúde bem estranhas, isso se torna o objeto de quase todos os esforços que ele produz que não tenham suas raízes no prazer ou dor físicos.”

O tédio é uma forma de sofrimento desconhecida aos brutos de qualquer espécie em seu estado natural”

So what if… to love is to suffer?

quanto mais ansiamos por algo, menos satisfação achamos quando a coisa acontece”

É justamente esse modo característico como o bruto se abandona inteiramente ao momento presente que tanto contribui para o contentamento que tiramos de nossos animais domésticos.” No presente não estou neste avião – estou dormindo; meditando na terça-feira trabalhando na segunda usando o cartão para despesas emeuroem2019

O pássaro que foi feito tal que perambula sobre metade do mundo, o homem o confina ao espaço de 30cm³” “E quando eu vejo como o homem maltrata o cachorro, seu melhor amigo; como ele aprisiona esse animal inteligente com correntes, eu sinto a maior das simpatias pela indignação ardente e bruta contra seu mestre.

Devemos ver adiante como ao tomar um ponto de vista muito distante é possível justificar os sofrimentos da humanidade. Mas essa justificação não funciona para os animais, cujos sofrimentos, enquanto que em grande medida trazidos pelo homem, são amiúde consideráveis mesmo nossa agência estando à parte.” Nenhum Hegel com cara de cavalo invertera sua condição invariável de escravos.

a vontade de viver, que subsiste em todo o mundo dos fenômenos, deve, no caso dos animais, satisfazer sua fome insaciável alimentando-se de si mesma. Isso ela faz formando uma gradação de fenômenos, cada um dos quais existe às expensas de outro. Eu mostrei, no entanto, que a capacidade para sofrer é menor em animais do que no homem. Qualquer explanação adicional que pudesse ser dada para seu destino seria de natureza hipotética, se é que não mítica em caráter; então eu devo deixar o leitor especular sobre a matéria por si mesmo.

Brahma teria criado o mundo por causa de uma queda ou erro; e para se redimir de sua tolice, ele está destinado a permanecer nele até conseguir sua própria redenção. Como um conto da origem das coisas, isso é admirável! De acordo com as doutrinas do Budismo, o mundo veio a ser graças a um inexplicável desequilíbrio na calma paradisíaca do Nirvana, esse estado abençoado obtido pela expiação, que durou tão longo tempo

Subseqüentemente, por uma série de erros morais, o mundo foi ficando gradualmente pior e pior – o que é verdadeiro também dos ângulos da Física – até assumir o aspecto deprimente que o reveste hoje. Excelente! Os Gregos viam o mundo e os deuses como o trabalho de uma inescrutável necessidade. Uma explicação tolerável: podemos nos contentar com ela até termos uma melhor. Mais uma vez, Ormuzd e Ahriman são poderes rivais, continuamente em guerra. Nada mal. Mas que um deus como Jeová tenha criado esse mundo de miséria e pesar, por puro capricho, e porque ele se comprouve em fazê-lo, e tenha aplaudido o feito em louvor da própria obra, e declarado que tudo era muito bom – esse relato não vai colar! Em sua explanação da origem do mundo, o Judaísmo é inferior a qualquer outra forma de doutrina religiosa professada por uma nação civilizada; e é positivamente devido a essa crença que ele é o único credo sem traços da fé na imortalidade da alma.”

duas coisas nos impedem de considerar o mundo uma obra perfeita de um ser simultaneamente onipotente, onisciente e infinitamente benévolo: 1) a miséria que abunda em todo lugar; 2) a óbvia imperfeição de sua criatura mais elevada, o homem, que é uma paródia do que devera ser. (…) ver o mundo como o produto de nossas próprias malfeitorias; logo, como algo que jamais deveria ter sido. De acordo com a primeira hipótese, formula-se uma acusação amarga contra o Criador, alimentando, assim, tão-só o sarcasmo; conquanto, de acordo com a segunda, auto-impomo-nos uma severa lição de humildade, voltamo-nos contra nossa própria vontade. Ambas as hipóteses nos ensinam que, como as crianças de uma libertina, já vimos ao mundo esmagados pelo peso do pecado; e é apenas por ter de suportar a cada segundo esse imenso peso que nossa existência é tão miserável, e que seu fim é a morte.”

Igualmente, a única coisa que me reconcilia com o Velho Testamento é a estória da Queda. Ao meu ver, é a única verdade metafísica neste livro, ainda que apareça sob a forma de alegoria. Não me parece haver melhor explanação de nossa existência que a de que ela é o resultado de um passo em falso, pecado cuja parcela estamos pagando. Não posso me eximir de recomendar ao leitor reflexivo um tratado popular, mas ao mesmo tempo profundo, na matéria, de Claudius[*], que manifesta a espiritualidade essencialmente pessimista do Cristianismo. Ele se intitula: Amaldiçoado é o chão para o teu bem [Cursed is the ground for thy sake].

[*] Nota do Tradutor Inglês – Matthias Claudius (1740-1815), poeta popular, e amigo de Klopstock, Herder e Leasing [Lessing?]. Ele editava as Wandsbecker Bote, em cuja quarta parte foi publicado o ensaio mencionado acima. Ele geralmente escrevia sob o pseudônimo de Asmus, e Schopenhauer costuma se referir a ele por esse nome.

Entre a ética dos Gregos e a ética dos Hindus, há um contraste evidente. No primeiro caso (com a exceção, confesse-se, de Platão), o objeto da ética é possibilitar a um homem levar uma vida feliz; no segundo, é libertá-lo e redimi-lo da vida como um todo – como é diretamente declarado logo nas primeiras palavras do Sankhya Karika [escrito que está entre as raízes do Budismo contemporâneo – seu suposto autor é o sábio Krishna].”

O contraste que o Novo Testamento apresenta quando comparado ao Antigo Testamento, de acordo com a visão eclesiástica do problema, é apenas aquele existente entre meu sistema ético e a filosofia moral da Europa. O Antigo Testamento apresenta o homem como sob o domínio da Lei, através da qual, entretanto, não há redenção. O Novo Testamento declara a Lei como algo que falhou, liberta o homem de seu jugo[*], e em prol dele prega o reino da graça, a ser ganho pela fé, amor ao próximo e o inteiro sacrifício do eu. Essa é a passagem da redenção do mal do mundo. O espírito do Novo Testamento é indubitavelmente o asceticismo, muito embora seus protestantes e racionalistas distorçam-no para exprimir seus propósitos. O asceticismo é a negação da vontade de viver; e a transição do Antigo ao Novo Testamento, do domínio da Lei ao da Fé, da justificação por obras à redenção pelo Mediador, do domínio do pecado e da morte à vida eterna em Cristo, significa, quando tomamos seu significado real, a transição das virtudes meramente morais à negação da vontade de viver. Minha filosofia (…) é realmente una com o espírito do Novo Testamento, enquanto todos os outros sistemas estão assentados no espírito do Antigo; isto é, tanto teórica quanto praticamente, seu resultado é o Judaísmo – teísmo despótico e nada mais. Nesse sentido, então, minha doutrina deveria ser chamada a única verdadeira filosofia cristã – em que pese soe esta afirmação tão paradoxal para pessoas que consideram só a superfície das coisas no lugar de penetrar na matéria de coração.”

[*] Veja Romanos VII; Gálatas II e III.

Entre os Padres Cristãos, Orígenes, com louvável coragem, assumiu essa visão[*], que é adiante justificada por algumas teorias objetivas da vida. Eu me refiro, não à minha filosofia somente, mas à sabedoria de todas as eras, como expressa no Bramanismo e no Budismo, e nos ditos dos filósofos gregos tais quais Empédocles e Pitágoras; ou ainda por Cícero, em sua observação de que os sábios de outrora soíam ensinar que nós vimos ao mundo para pagar a pena de crimes cometidos em outro estado da existência – uma doutrina que faz parte da iniciação nos mistérios[**]. E Vanini – que seus contemporâneos queimaram, achando-o mais fácil do que refutá-lo – diz o mesmo de forma bastante convincente. O homem, ele diz, está tão repleto de todos os tipos de miséria que, não fosse repugnante à religião cristã, eu deveria me aventurar a afirmar que se espíritos malignos existem de fato, eles se transfiguraram em humanos e estão agora expiando seus pecados[***].

[*] Cf. Santo Agostinho, Cidade de Deus, 50:11:23.

[**] Cf. Fragmenta de philosophia.

[***] Cf. De admirandis naturae arcanis; diálogo 50; p. 35.”

tudo é como devera ser, num mundo em que cada um de nós cumpre a pena da existência em sua maneira toda particular. Entre os males de uma colônia penal está a sociedade daqueles que a formaram; e se o leitor é digno de melhor companhia, não necessitará de palavras minhas para lembrá-lo aquilo que ele deve suportar no presente. Se ele tem uma alma superior à média, ou se é um homem de gênio, sentir-se-á ocasionalmente como algum nobre prisioneiro de Estado, condenado a trabalhar nas galés com os criminosos comuns; e ele seguirá seu exemplo e tentará se isolar ao máximo.”

Perdão é a palavra para tudo! [Pardon’s the word to all!][*] Quaisquer que sejam as asneiras cometidas pelos homens, sejam quais forem suas fraquezas e vícios, exercitemos a tolerância; recordando que quando essas faltas aparecem nos outros, são as nossas asneiras e os nossos vícios que nós enxergamos. São os defeitos da humanidade, à qual pertencemos; cujas falhas, uma e todas juntas, nós dividimos; sim, mesmo essas falhas que reverberamos tão indignados, só porque ainda não apareceram em nós mesmos. São falhas que não residem na superfície.

[*] <Cymbeline>, Ato V, Seção V.”

De fato, a convicção de que o mundo e o homem são algo que não deveriam ter existido é dum tipo que nos enche de indulgência um para com o outro. Aliás, desse ponto de vista, podíamos muito bem considerar que a forma adequada de se dirigir a alguém seria, não Monsieur, Sir, mein Herr, Senhor, mas my fellow-sufferer, Socî malorum, compagnon de misères, meu companheiro sofredor!”

acima de tudo a coisa mais necessária na vida – a tolerância, a paciência, a consideração, e o amor ao próximo, dos quais todos estão igualmente carentes, e os quais, portanto, todo homem deve ao seu conviva.”

* * *

O tempo é aquilo em que todas as coisas vão embora; é meramente a forma sob a qual a vontade de viver – a coisa-em-si e portanto imperecível – se revelou um esforço em vão”

Aquilo que foi não existe mais; existe tão pouco quanto aquilo que nunca foi. Mas de tudo o que existe você deve dizer, no instante seguinte, que aquilo já foi. Daí que algo de suma importância agora já passado é inferior a qualquer insignificância vigente, já que a última é uma realidade, e é comparável ao primeiro como algo se compara ao nada.

Um homem se acha, para seu grande espanto, de repente existindo, depois de milhares e milhares de anos de não-existência: ele vive uma pequenitude; e depois, de novo, vem um período igualmente longo em que ele deve deixar de existir. O coração se rebela contra isso, e sente que não pode ser verdade. O intelecto mais cru não pode especular neste assunto sem ter um pressentimento de que o Tempo é algo ideal em sua própria natureza. Essa idealidade do Tempo e Espaço é a chave para qualquer verdadeiro sistema de metafísica; porque subsidia uma outra ordem das coisas da qual não suspeitaríamos estando simplesmente no puro domínio da natureza. Essa é a razão de Kant ser tão grandioso.”

nas profundezas mais profundas de nosso ser estamos secretamente conscientes de nosso naco na inextinguível primavera da eternidade, de modo que sempre podemos esperar achar vida nova.

Considerações do naipe desta acima, com efeito, nos levam a aderir à crença de que a maior sabedoria consiste em fazer do saboreio do presente o supremo objetivo da vida; porque essa é a única realidade, tudo o mais sendo meramente o teatro do pensamento. Por outro lado, tal postura poderia ainda ser chamada de a maior das tolices: uma vez que aquilo que no momento seguinte já não existe mais, e desaparece sem volta, como um sonho, nunca poderia ser levado a sério.”

Somos como um homem correndo ladeira abaixo, que não pode se manter sobre as próprias pernas a não ser que continue correndo, e vai inevitavelmente cair se parar” “como um acrobata sobre a corda – em um mundo tal, a felicidade é inconcebível.” “E depois, dá na mesma se ele foi feliz ou miserável”

POR TRÁS DO TRAMPOLIM

embora estejamos sempre vivendo na expectativa de coisas melhores, ao mesmo tempo não nos arrependemos com menos freqüência, almejando apenas ter o passado de volta. Olhamos para o presente como algo a ser sofrido enquanto tiver que durar, presente que serve unicamente de rota até nosso objetivo final” “O primeiro objetivo é ganhar algo; o segundo, banir o sentimento de que esse algo foi ganho; doutra forma, tornar-se-ia um peso.”

ECLÉTICO VAZIO: “o que é o tédio, senão a sensação da vacuidade da vida?”

O anseio pelo que é estranho e incomum – uma tendência inata e inerradicável da natureza humana – mostra o quão agradecidos estamos por qualquer interrupção do curso natural das coisas, que é sempre tão tedioso.”

Quão ridículo tudo parece! É como uma gota d’água vista ao microscópio; uma simples gota fervilhante com infusoria [vida primitiva; celenterados]; ou um pontinho de queijo cheio de ácaros invisíveis a olho nu. Como rimos quando eles perambulam agitados, chocando-se uns contra os outros, num espaço tão reduzido!”

* * *

Até onde eu sei, ninguém a não ser os devotos de religiões monoteístas, isto é, judias, olha para o suicídio como um crime. Isso é ainda mais surpreendente quando nem no Antigo nem no Novo Testamento há qualquer proibição ou desaprovação positiva do ato; tanto que professores religiosos são obrigados a basear sua condenação do suicídio em dogmas filosóficos de seu próprio punho.”

Eles nos dizem que o suicídio é o maior exemplo de covardia; que só um louco poderia cometê-lo; e outras insipidezes de correlato calibre; ou então fazem aquela observação disparatada de que o suicídio é errado; quando é bem óbvio que não há nada no mundo com mais autoridade sobre sua vida que o próprio sujeito.

O suicídio, como eu afirmei, é reputado um crime; e um crime que, especialmente sob a intolerância vulgar prevalecente na Inglaterra, é seguido por um enterro ignominioso e o confisco da propriedade do falecido; por essa razão, num caso de suicídio, o júri quase certamente conclui pelo veredito da insanidade.”

Pense na impressão causada pela notícia de que um conhecido seu cometeu o crime, vamos dizer, de assassinato ou roubo, ou que foi culpado por algum ato de crueldade ou engodo; compare agora com seus sentimentos quando ouve que ele conheceu uma morte voluntária. Ao passo que no primeiro caso um vivo sentido de indignação e de extremo ressentimento irá desabrochar, e que você irá clamar em alto e bom som por punição ou vingança, no segundo caso você será abatido pelo pesar e a simpatia; e embrenhada em seus pensamentos estará a admiração pela sua coragem, ao invés da desaprovação moral que logo sucede a uma má ação.”

O principal dos remédios para uma mente aturdida é a sensação de que, entre as bênçãos que a Natureza concede ao homem, nenhuma há maior do que uma morte oportuna; e o melhor de tudo é que qualquer um pode se a proporcionar.” Plínio – História Natural, cap. 28; §1.

Nem a Deus tudo é possível; porque a ele não cabe se matar, mesmo que quisesse morrer e, mesmo em meio a todas as misérias de nossa vida mundana, esse é o maior presente que ele nos deu.” Plínio – História Natural, cap. 2; §1.

Em Massilia e na ilha de Ceos, o homem que pudesse dar razões válidas para abandonar a própria vida recebia uma taça de cicuta do magistrado; tudo isso era feito em público.” Cf. Valerius Maximus, Heráclides Pôntico e Estrabão.

O homem bom deve fugir da vida quando suas desgraças se tornarem demasiadas; o homem mau, também, quando se tornar muito próspero.” Estobeu

E encontramos que os Estóicos elogiavam o suicídio como uma ação nobre e heróica, como centenas de passagens nos mostram”

Como é bem sabido, os hindus enxergam o suicídio como um ato religioso, especialmente quando vem sob a forma da auto-imolação das viúvas; mas também quando consiste em jogar-se debaixo das rodas da charrete do deus na Jamanta, ou ser devorado por crocodilos no Ganges, ou afogar-se nos tanques sagrados nos templos, e assim por diante.”

Em O Órfão da China (L’Orphelin de la Chine)[*], uma celebrada peça chinesa, quase todos os personagens nobres se suicidam; sem o menor indício em lugar nenhum, ou qualquer impressão causada no expectador, do cometimento de um crime. Nos nossos próprios teatros é igual – Palmira, por exemplo, em Mahomet, ou Mortimer em Maria Stuart, Othello, a Condessa Terzky[**]. É o monólogo de Hamlet a meditação de um criminoso?

[*] Tradução francesa de Saint Julien, 1834.

[**] N.T.I. – Palmira: escrava na peça Maomé de Goethe; Mortimer: um pretendente amoroso de Mary, que realiza a façanha de resgatá-la em Maria Stuart de Schiller. Condessa Terzky: uma das protagonistas de A Morte de Wallenstein [fecho de uma trilogia também de Schiller].”

Hume escreveu um Ensaio sobre o Suicídio[*], mas a obra não atraiu atenções até depois da morte do autor, quando foi imediatamente suprimida, devido à abominável tirania eclesiástica e à escandalosa intolerância preponderantes na Inglaterra de outrora; pouquíssimas cópias, desde então, foram vendidas, sob total segredo e a preços elevados.

[*] Essays on Suicide and the Immortality of the Soul [Ensaios sobre o Suicídio e a Imortalidade da Alma], do velho David Hume, Basiléia, 1799, ed. James Decker.”

Ver meu tratado, denominado Dos Fundamentos da Moral.”

A poupa mais entranhada das verdades do Cristianismo, o seu mais profundo ensinamento, é que o sofrimento – a Cruz – é o verdadeiro fim e objetivo da vida. É por isso que o Cristianismo condena o suicídio, por frustrar esse fim; ao mesmo tempo, o mundo antigo, tomando um ponto de vista menos elevado, aprovava o suicídio, aliás, honrava-o mesmo[*]. Mas se tiver de ser enumerada uma razão válida contra o suicídio, ela envolve o reconhecimento do asceticismo; ou seja, ela é válida somente sob um ponto de referência ético muito mais elevado do que qualquer um jamais adotado pelos filósofos morais da Europa. Se abandonarmos estes cumes, não há qualquer sustentabilidade, moralmente falando, para a condenação do suicídio. A energia e o zelo extraordinários com os quais o clero das religiões monásticas ataca o suicídio não são ancorados seja por qualquer passagem da Bíblia seja por qualquer consideração de peso; a ponto de que parece haver alguma razão secreta para sua contenda. Não seria essa – que a desistência voluntária da vida é um péssimo cumprimento àquele que disse que todas as coisas eram maravilhosas? Se assim for, eis outro exemplo do crasso otimismo dessas religiões, – revelado ao condenarem o suicídio antes que ele mesmo pudesse condená-las.

[*] N.T.I. – Schopenhauer se refere ao parágrafo 69 do primeiro volume de O Mundo como Vontade e Representação, onde o leitor se deparará com o mesmo argumento defendido de forma mais pormenorizada. De acordo com Schopenhauer, a liberdade moral – a maior meta ética – só poderia ser adquirida pela via da negação da vontade de viver. Mas longe de se apresentar como uma negação, o suicídio é uma asserção enfática dessa vontade. Porque a negação consiste em fugir dos prazeres, e não dos sofrimentos da vida. Quando um homem destrói sua existência como um indivíduo, não está de forma alguma destruindo sua vontade de viver. Ao contrário, ele até gostaria de continuar a viver se pudesse vir a fazê-lo com auto-satisfação, se pudesse asseverar sua vontade contra o poder da circunstância; mas a circunstância é forte demais para ele.

Será geralmente aceito que, assim que os horrores da vida tiverem atingido o ponto em que ultrapassam os horrores da morte, um homem aceitará pôr fim a sua vida. Mas os terrores da morte oferecem considerável resistência; pairam como uma sentinela diante do portão que conduz para fora desse mundo. Talvez que não existisse homem vivo que não tivesse já colocado um fim a sua vida, se esse fim tivesse puramente um caráter negativo, uma parada súbita da existência. Há algo de positivo nele; é a destruição do corpo; e um homem estremece diante dessa possibilidade, porque seu corpo é a manifestação da vontade de viver.

Entretanto, a luta com esta sentinela é, via de regra, menos difícil do que poderia parecer de uma distância ainda muito longa, principalmente em decorrência do antagonismo entre os males do corpo e os males da mente. Se estamos em grande dor corporal, ou a dor perdura por um longo período, tornamo-nos indiferentes a outros problemas; tudo no que pensamos é em melhorar. Da mesma forma, grande sofrimento mental nos torna insensíveis à dor física; desprezamo-la; aliás, se esta ultrapassar a outra, até distrai nossos pensamentos, e a saudamos como uma pausa bem-vinda ao nosso sofrimento mental. É essa sensação que torna o suicídio fácil; a dor corporal que o acompanha perde toda significância aos olhos daquele torturado por um excesso de conturbação mental. Isso é especialmente evidente no caso daqueles levados ao suicídio por um mau-humor puramente mórbido e exagerado. Nenhum esforço especial para superar seus sentimentos é necessário, nem precisam essas pessoas de incentivo para se decidirem; assim que o protetor delas encarregado se ausenta por poucos minutos, dão rapidamente cabo da vida.

Quando, num sonho pavoroso e horripilante, atingimos o ápice do terror, automaticamente despertamos; isso basta para banir todas as formas hediondas que nasceram da noite. E a vida é um sonho”

O suicídio também deve ser contemplado como um experimento – uma questão que o homem coloca à Natureza, tentando forçá-la a responder.”

* * *

IMORTALIDADE: UM DIÁLOGO

N.T.I. – A palavra imortalidade – Unsterblichkeit – não consta do original; nem encontraria lugar, em sua forma usual, no vocabulário de Schopenhauer. A palavra por ele usada é Unzerstörbarkeit – indestructibility, indestrutibilidade. Mas preferi imortalidade, já que esta palavra está intimamente associada com a matéria tratada neste pequeno debate.”

[Abaixo, alguns trechos significativos da paródia de diálogo platônico entre dois doutrinários, Trasímaco e Filaletes. Note-se que em nenhum dos trechos significativos assinalados temos a citação da palavra imortal ou indestrutível ou qualquer uma de suas derivações.]

TRASÍMACO. (…) “Mas basta dessa ladainha kantiana: está antiquada e não se aplica às idéias modernas. Ultimamente tivemos incríveis linhagens de espíritos eminentes na metrópole chamada Pensamento Alemão—”

TRASÍMACO. “O imponente Schleiermacher, por exemplo, e aquele intelecto gigantesco, Hegel; e a essa hora da razão abandonamos todos esses disparates. Diria, inclusive, que estamos tão além deles que não podemos nem mais agüentar voltar a essas coisas.” (…)

FILALETES. (…) “Seu verdadeiro eu não conhece nem tempo, nem começo, nem fim, nem os limites de qualquer indivíduo dado. (…) Isso é o que eu quis dizer quando disse que depois da morte você seria tudo e nada. (…) Você vê o que acontece quando tentamos transportar o transcendental para os limites do conhecimento imanente.” (…)

FILALETES. (…) “Quando você está morto, tanto faz 3 meses no mundo da consciência, ou 10 mil anos. Num caso como noutro, trata-se afinal de contas de acreditar na resposta que lhe dão quando você desperta.” (…)

FILALETES. “Pense no que você está fazendo! Quando você insiste nesse eu, eu, eu quero existir, não é você sozinho que fala assim. Tudo o repete, absolutamente tudo com o traço mais vago de consciência. Segue daí que esse desejo seu é só a parte de você que não é individual – a parte que é comum a todas as coisas sem distinção. É o grito, não do indivíduo, mas da existência em si mesma; é o elemento intrínseco em tudo que existe, aliás, é a causa de qualquer existência. Esse desejo clama por, então é satisfeito por, nada menos que a existência em geral – não qualquer existência individual definida. Não! não é seu objetivo. Parece ser somente porque esse desejo – essa Vontade – alcança consciência só no individual, e por isso parece estar relacionada apenas com o indivíduo. (…) se ele refletir, poderá quebrar os grilhões e se libertar (…) De tudo que discutimos fica claro que a individualidade não é uma forma de perfeição, mas, ao contrário, de limitação; livrar-se dela não é uma perda, e sim um ganho. Não perca mais seu tempo com o problema. Depois da completa compreensão do quê você é, o que é realmente sua existência, a saber, a vontade universal de viver, tudo o mais se torna infantil, o sumo do ridículo!”

TRASÍMACO. “Você é que é infantil e o sumo do ridículo, como todos os filósofos! e se um homem da minha idade se deixa levar por 15 minutos por uns papos tolos como estes, a única razão é que isso me diverte, ajuda a passar o tempo. Tenho mais o que fazer, então adeus.”

* * *

Há uma propriedade inconsciente na forma como, em todas as línguas européias, a palavra pessoa [person] é comumente usada para denotar um ser humano. O real significado de persona é uma máscara, como as que os atores estavam acostumados a vestir no palco antigo; e é bem verdade que ninguém se mostra como realmente é, mas veste sua máscara e encena suas partes. De fato, o todo de nossos arranjos sociais poderia ser comparado a uma perpétua comédia; e é por isso que um homem que valha alguma coisa considera a sociedade tão insípida, enquanto um tonto se sente em casa ao estar nela.”

a razão é um excelente freio em momentos nos quais nos sentimos possuídos por paixões instintuais, um impulso de ira, algum desejo ávido, qualquer coisa que nos levasse a cometer loucuras de que depois nos arrependeríamos.”

POR QUE DESPREZAR É UMA CONTRADIÇÃO EM TERMOS

O ódio vem do coração; o desprezo da cabeça; e nenhum dos dois sentimentos está basicamente sob nosso controle. Não podemos modificar nosso coração; seu núcleo é determinado por motivos, estímulos; e nossa cabeça lida com fatos objetivos, e a eles aplicamos regras imutáveis. Dado indivíduo é a união toda única de um coração particular com uma cabeça particular.

Ódio e desprezo são diametralmente opostos e mutuamente exclusivos. Não são poucos os casos em que o ódio a alguém radica na forçosa estima por suas qualidades. Além do mais, se um homem decide odiar todas as miseráveis criaturas que encontra pela frente, não terá muita energia para mais nada; no lugar, ele poderia desprezar cada uma, uma e todas, com a maior facilidade. O autêntico e genuíno desprezo é tão-somente o inverso do autêntico e genuíno orgulho; mantém-se quase sempre quieto e não emite sinais de sua existência. Porque se um homem mostra que o despreza, ele deixa entrever o quanto se preocupa com o outro, ele quer que ao menos seja visto quão pouco você é apreciado; seu sentimento é ditado pelo ódio, que não pode conviver com o desprezo real. Ao contrário, se for genuíno, esse desprezo é simplesmente a convicção de que o objeto desprezado é um homem sem qualquer valor. Desprezo não é incompatível com indulgência e tratamento gentil, e, visando à própria paz e segurança, aqueles não deveriam ser omitidos; prevenirá irritação; lembrando que não há ninguém incapaz de prejudicar, se devidamente provocado. O problema é que se esse desprezo puro, frio e sincero se revelar uma vez que seja, será confrontado com o mais truculento ódio; já que a pessoa desprezada não está na posição de enfrentar o desprezo com suas próprias armas [um desprezo superior, que seria invisível].”

Melancolia é uma coisa bem diferente de mau-humor, e das duas, não é a mais distante de um temperamento alegre e contente. A melancolia atrai, enquanto o mau-humor repele.

A hipocondria é uma espécie de tormento que não só nos faz cruzar desarrazoadamente com as coisas do presente; não só nos enche de ansiedade infundada no relativo a desgraças futuras que partem inteiramente de nossa imaginação; mas leva, ainda, a uma não-merecida auto-censura pelo que fizemos no passado.

A hipocondria se mostra numa perpétua caça atrás de coisas que vexem e importunem, tratando em seguida de ruminar sobre elas [consolo: ter sempre falsas esperanças também seria uma merda!]. A causa disso é um descontentamento mórbido inato, freqüentemente coexistindo com um temperamento naturalmente incansável. Na forma extrema, esse descontentamento e essa incansabilidade levam ao suicídio.

Por que é que comum é uma expressão que designa desprezo? e que incomum, extraordinário, distinguido, denotam aprovação? Por que tudo que é comum é desprezível?

Comum em seu significado original denota aquilo que é peculiar a todos os homens, i.e., compartilhado igualmente por toda a espécie, e conseqüentemente uma parte inerente de sua natureza. De acordo, se um indivíduo não possui qualidades além daquelas que se atribui à humanidade em geral, ele é um homem comum. Ordinário é uma palavra ainda mais modesta, e se refere ao caráter intelectual; enquanto comum tem aplicação eminentemente moral.

Que valor pode ter uma criatura que não é uma vírgula diferente de milhões de seus semelhantes? Milhões, digo eu? uma infinitude de criaturas que, século após século, numa torrente sem-fim, a Natureza envia borbulhando de suas fontes inesgotáveis; tão generosa com elas quanto o ferreiro com as faíscas inúteis que saltam de sua bigorna.

É obviamente acertado que uma criatura que não tem qualidades a não ser as da espécie deveria se limitar a levar uma existência inteiramente confinada aos limites da espécie, e a viver uma vida condicionada por esses limites.

(…) ao passo que um animal inferior não possui nada a mais do que o caráter genérico de sua espécie, o homem é o único animal que pode reivindicar possui um caráter individual. Mas na maioria deles esse caráter individual é muito pouco, quase nada (…) eles são de um caráter trivial, cotidiano, comum, e existem aos milhares. Você pode dizer de antemão o que eles vão dizer e fazer[*]. Eles não têm carimbo ou marca especiais que os distingam; são como bens manufaturados, todos advindos de um mesmo tecido.

[*] Nota do Tradutor para o Português (eu, Rafael C.!) – O tipo Th.-Ne. Com efeito, até as fotos no Instagram são plenamente previsíveis!

(…) Qualquer coisa que é elevada ou grandiosa ou nobre deve, pois, por sua própria natureza, manter-se sozinha num mundo em que nenhuma expressão pode retratar melhor o que é baixo e desprezível como a que eu citei no início do capítulo, de uso universal: comum.”

o que coloca um sobre o outro e cria diferenças entre homem e homem é o intelecto e o conhecimento; portanto, em qualquer manifestação do eu deveríamos, tanto quanto possível, dar vazão puramente ao intelecto; afinal, como vimos, a vontade é a parte comum a todos nós. Toda exibição violenta da vontade é comum e vulgar; em outros termos, ela nos reduz ao nível da espécie, e nos torna mero tipo, exemplar, amostra; nisso, estamos mostrando apenas o caráter da espécie. Qualquer rompante de fúria não passa de algo comum – qualquer demonstração desenfreada de júbilo, ou ódio, ou medo – em suma, toda forma de emoção (…)

Ao ser complacentes com emoções desse tipo violento, os maiores gênios se rebaixam ao mesmo nível do mais vulgar filho da terra. Contrariamente, se um homem deseja ser absolutamente incomum, ou seja, grande, ele nunca deve permitir que sua consciência seja dominada pelo movimento de sua vontade, não importa o quanto seja premido a isso. Por exemplo, ele deve ser capaz de observar que outras pessoas são mal-intencionadas quanto a ele, sem sentir qualquer ódio por elas ele mesmo; não há nenhum indício mais seguro de uma mente grandiosa do que sua recusa a dar importância a expressões incômodas e insultuosas, atribuindo-as aliás, como essa mente atribui incontáveis outros erros, ao conhecimento deficitário do interlocutor, sem sentir nada em decorrência de sua observação. Esse é o sentido daquele comentário de [Baltasar] Gracián, de que nada é mais indigno dum homem que deixar que vejam que ele é umo maior desdouro de um homem é dar mostras de que é homem[*].

[*] N.T.P. – Preferi traduzir a própria citação do original, que estava em Espanhol, também em itálico, uma vez que não corresponde literalmente à tradução de Schopenhauer imediatamente anterior.

(…) os trabalhos dos escritores trágicos franceses, que não vislumbram nada além da delineação das paixões; e ao deixarem-se cair por um momento num tipo de pathos vaporoso que os torna ridículos, e incorrerem num outro em chistes epigramáticos, tentam esconder a vulgaridade de seu discurso. (…) o verdadeiro sentimento trágico, do qual, de fato, os franceses não têm a menor noção. (…) a natureza italiana, embora em muitos respeitos tão diferente da alemã, compartilha com ela sua apreciação pelo que é profundo, sério e verdadeiro na Arte (…)

O elemento nobre, ou seja, incomum, no drama – o que nele é sublime – não é atingido a menos que o intelecto seja posto para trabalhar, em oposição à vontade; até o intelecto sobrevoar livremente todos esses movimentos apaixonados da vontade, e subjugá-los a sua contemplação. Shakespeare, em particular, mostra que esse é o método geral, sobretudo no Hamlet. E só quando o intelecto emerge ao ponto em que a vaidade de qualquer esforço é manifesta, e a vontade procede a um ato de auto-anulação, é que o drama é trágico na verdadeira acepção da palavra”

todo homem que quer atingir alguma coisa, seja na vida prática, na literatura, ou na arte, deve seguir as regras sem conhecê-las.”

Homens de grande capacidade acharão, em regra, a companhia de pessoas muito estúpidas preferível àquela do homem médio; pela mesma razão que o tirano e as massas e o avô e os netos são aliados naturais.”

Que o homem comum está centrado inteiramente no prazer e bem-estar físico não é provado só pelo seu modo de vida e as coisas que diz, mas essa verdade se mostra também no jeito como olha, na expressão de sua fisiognomonia, seus passos e gestos [(So-) Ma(-rria)niac (, flor do dia!)]. Tudo nele[a] grita: in terram prona [terra de ninguém]!

Não é a ele, é só às naturezas mais nobres e bem-dotadas – homens que realmente pensam e percebem os seus arredores, e formam espécimes excepcionais da humanidade – que as linhas seguintes se aplicam:

Os homini sublime dedit coelumque tueri Jussit et erectos ad sidera tollere vultus.” [“Deus deu ao homem uma postura ereta para investigar os céus e contemplar as estrelas” – Ovídio – Metamorfoses]

Ninguém conhece a própria capacidade para agir e sofrer que guarda dentro de si mesmo, até algo vir e despertar sua atividade (…) Quando a água é tão fria como o gelo, não se faz idéia do calor latente nela contido.”

Por que é que, a despeito de todos os espelhos do mundo, ninguém sabe como realmente é e aparenta ser?

Um homem poderia lembrar o rosto de um amigo, mas não o próprio. Aqui, pois, jaz uma dificuldade inicial na aplicação da máxima, Conhece-te a ti mesmo. [A frase é atribuída a 11 filósofos gregos diferentes.]

Isso se atribui, em parte, sem dúvida, à impossibilidade dum homem se ver refletido exceto com o rosto voltado rigorosamente para a superfície de vidro, e desde que em perfeita imobilidade; porquanto nesta postura a expressão dos olhos, que conta tanto, e dá todo o caráter à face, está quase toda perdida. (…) Um homem não pode olhar seu próprio reflexo como se a pessoa apresentada ali fosse um estranho a ele; todavia, isso seria necessário se se quisesse tomar uma visão objetiva. (…) algo advindo de sua própria natureza egotística cochicha: lembre-se que não é estranho nenhum, é você mesmo para quem você está olhando; e isso opera como um noli me tangere[*], e o previne de tomar uma visão objetiva.”

[*] N.T.P. – “Não me segures” ou “Não me detenhas”, conforme a tradução do Novo Testamento, João 20:17, Cristo a Madalena depois de ressuscitar.

Conforme a energia mental de um homem é exortada ou relaxada, a vida parecerá a ele ou curta demais, e petulante, e passageira, a ponto de nada poder suceder que merecesse sua consideração ou desgaste emocional; daí ele concluir que nada realmente importa, prazer ou riquezas, ou mesmo fama, e que qualquer que tenha sido o fracasso de um homem, ele não perdeu muito – ou, partindo para o lado oposto, a vida parecerá tão longa, tão relevante, tão integral e minuciosa, tão momentosa e cheia de dificuldades, que temos de mergulhar nela com toda nossa alma se quisermos obter um naco de seus bens, ter certeza de ser recompensado e concretizar nossos planos. Essa última é a visão imanente e mais comum da vida (…) A primeira é a visão transcendente, mais bem-expressa pela citação ovídica non est tanti [não é pra tanto] (…) Essa condição da mente é proporcionada pelo intelecto tomando a rédea da consciência, quando, liberta do serviço da vontade, esta consciência analisa o fenômeno da vida objetivamente (…)

Um homem é grande ou pequeno conforme ele se incline para a primeira ou a segunda dessas perspectivas.

Pessoas dotadas de brilhantes habilidades desvalorizam o ato de admitir seus erros e fraquezas, ou de deixar os outros os perceberem. Eles consideram esses mesmos erros algo pelo que já pagaram devidamente; e ao invés de simularem que esses defeitos são uma desgraça para eles, vêem-nos como honrosos. Isso é especialmente verdadeiro quando os erros são visíveis sempre acompanhados de suas maiores qualidades – conditiones sine quibus non [sem um, sem o outro, se um vem, o outro também!] – ou, como George Sand dizia, les défausts de ses vertus [os defeitos de suas virtudes].

Contrariamente, há pessoas de bom caráter e capacidade intelectual irreprochável que, longe de admitir suas poucas debilidades, escondem-nas com zelo, e se mostram bastante sensíveis a qualquer sugestão de sua existência; e isso porque todo seu mérito consiste em ser livres de erros e fraquezas. Se essas pessoas forem flagradas cometendo alguma falha, sua reputação decai de imediato.”

Nas pessoas de habilidade moderada, a modéstia é mera honestidade; mas nos de grande talento, hipocrisia.”

Não freqüentar o teatro é como fazer a toalete sem um espelho[*]. Mas é ainda pior tomar uma decisão sem consultar um amigo. Porque um homem pode ter o juízo mais perfeito em outros assuntos, e ainda assim se precipitar quando se trata de si mesmo”

[*] N.T.P. – Essa frase envelheceu tanto de um século e meio para cá que eu diria, para recontextualizá-la: Não ir ao cinema é como sair com os amigos e não tirar selfies.

deve ser admitido que muitos homens têm um grau de existência pelo menos 10x mais elevado que outros – em outras palavras, existem 10x mais. (…)

(no norte da Europa a ansiedade produzida pelos meses de inverno torna as pessoas mais pensativas e portanto reflexivas) (…)

Os homens comuns nunca refletem sobre sua vida como um todo interconectado, quanto mais sobre a existência em geral; até certa medida, pode-se dizer que existem sem realmente saber disso. [Dg.] (…) Observe o pobre[, e como ele é o feliz inconsciente]. § Depois, passando por esse tipo de homem, considere, em seguida, o mercador, sóbrio e sensato (…) § Depois olhe para o homem culto, que investiga, quem sabe, a história do passado. Ele terá chegado ao ponto em que um homem se torna consciente da existência como um todo, enxerga além do período de sua própria vida, além de seus próprios interesses, meditando acerca do curso inteiro da história do mundo. § Por fim, dê uma olhada no poeta e no filósofo, em quem a reflexão atingiu tal dimensão que, ao invés de estar inclinado à investigação de fenômenos particulares, ele paira absorto diante da existência ela mesma, essa grande esfinge, e faz disso seu problema. (…) Se, portanto, o grau de consciência é o grau de realidade, esse homem, dir-se-á, existe mais do que tudo, existe mais que os demais, e fará sentido e terá um significado descrevê-lo assim.

Entre os dois extremos aqui esboçados, e os seus estágios intermediários, cada leitor saberá achar o seu lugar.”

Schopenhauer rules. Over nothing, but he rules.

Um inglês, por exemplo, considera um insulto mortal dizerem que ele não é um gentleman; ou, pior ainda, que ele é um mentiroso; um francês terá o mesmo sentimento ao ser chamado de covarde, e um alemão se você chamá-lo de estúpido.

(…) sentimos que a imaginação é ativa na exata proporção em que nossos sentidos não são excitados por objetos externos. Um longo período de solidão, ou na prisão ou numa ala de hospital; quietude, crepúsculo, escuridão – são essas as coisas que produzem a atividade mental; e sob sua influência a imaginação cresce espontaneamente. Por outro lado, quando uma grande quantidade de materiais é apresentada às nossas faculdades de observação, como acontece numa viagem, ou no vaivém do mundo, ou, ainda, por oposição, à luz do dia, a imaginação é pueril, e, por mais que se a convoque, ela se recusa a tornar-se ativa, como se entendesse que não é a hora mais indicada.

(…) A fantasia é alimentada praticamente do mesmo jeito que o corpo, que é menos capaz de qualquer trabalho e prefere não fazer nada no exato momento em que recebe sua comida, que tem que digerir.[*]

[*] N.T.P.Reflexões pessoais: O tédio e a falta de brinquedos; infância-adolescência-madurez: de expectador a criador de games, RPGs, canções e obras. Televisão só serve pra isso: pra desligar nossa tevê interna. A festa é o dia do lixo do artista. Pé na jaca da sociedade. O diplomata é o tipo do eterno-passivo. Artista de caravana: será tão artista assim? Nada mais movimentado do que o gabinete do escritor… Guarda noturno e seus fantasmas… Quão mais doente, mais filósofo. Certamente o celibatário Kant nunca precisou pedir mais tempo ou espaço para alguém! Flor sobrecar-regada. Hoje não vou à academia, porque ontem filosofei a noite toda. Gandaia da gaia-ciência. Uma nota ao pé-de-página (pede mas não dou) da partitura: você não pode errar do samba desses versos a cadência.

Devido a um processo de contradição, a distância no espaço faz as coisas parecerem pequenas, e conseqüentemente livres de defeitos. É por isso que uma paisagem parece tão melhor num espelho contraído ou numa camera obscura, do que na realidade. O mesmo efeito é produzido pela distância no tempo.”

nossa memória de alegrias e tristezas é sempre imperfeita, e se torna um problema de indiferença para nós assim que elas acabam. Explica-se, assim, a vaidade da tentativa, que fazemos às vezes, de reviver os prazeres e as dores do passado. (…) a vontade, como tal, é desprovida de memória, que é função do intelecto”

uma boa imaginação deixa mais fácil aprender línguas; já que com seu auxílio a nova palavra é de uma vez incorporada ao objeto referente; ao passo que, sem imaginação, é colocada puramente em paralelo com a palavra equivalente na língua-mãe.

Mnemônicos deviam não somente ser a arte de guardar coisas indiretamente na memória através de trocadilhos explícitos ou tiradas; deviam ser aplicados a uma teoria sistemática da memória, e explicar seus diversos atributos com referência tanto a sua natureza real quanto à relação desses atributos uns com os outros.”

Não podemos atribuir nenhuma razão nem explicar o porquê de esse momento em especial, dentre tantos milhares de momentos parecidos, ser rememorado. Parece mais uma questão de acaso, tanto quanto quando alguns meros espécimes duma espécie animal agora extinta são descobertos nas camadas de uma rocha; ou quando, ao abrir um livro, nos deparamos com um inseto acidentalmente esmagado pelas folhas. Memórias desse tipo são sempre doces e prazerosas.”

Acontece ocasionalmente, sem razão em particular, que cenas há muito esquecidas se iluminam de súbito na memória. Isso pode ser atribuído em muitos casos à intervenção de odores de difícil percepção, que acompanhavam essas cenas e agora ressurgem idênticos. É muito sabido que o sentido do olfato é excepcionalmente eficaz no despertar de memórias, e em geral não se requer muito esforço para a partir de uma só lembrança trazer à baila toda uma cadeia de idéias.” Se bem se comece a ficar louco pelos tímpanos…

enquanto a intoxicação aperfeiçoa a memória do que passou, atrofia nossa capacidade de recuperar o presente.”

Os homens necessitam de algum tipo de atividade externa quando são inativos interiormente. Contrariamente, quando são interiormente ativos, não consideram ser arrastados para fora de si mesmos; na verdade os atrapalharia e impediria sua cadeia de pensamentos duma forma que amiúde é desastrosa para eles.”

Os animais inferiores nunca riem, sozinhos ou em companhia. Myson, o misantropo, foi certa vez surpreendido por uma dessas pessoas enquanto ria sozinho. Por que você ri? ele foi perguntado; não há ninguém com você! É exatamente por isso que estou rindo, respondeu Myson.”

a gesticulação tem alguma analogia com a lógica e a gramática, uma vez que tem a ver com a forma, ao invés de com o conteúdo da conversação [D*** o eloqüente], mas, na outra mão, aquela é distinguível destas por ser mais moral do que intelectual; em outras palavras, reflete os movimentos da vontade. Como acompanhamento de uma conversação, é o baixo de uma melodia; e se, como na música, ela se mantiver condizente com o progresso do soprano, intensificará o efeito.

(…) qualquer que seja o assunto, com uma recorrência da forma, o mesmo gesto é inevitavelmente repetido. Então se acontecer de eu ver – da minha janela, digamos – duas pessoas tendo uma vívida conversação, sem poder pescar uma palavra sequer, eu poderei, não obstante, compreender a natureza geral do diálogo perfeitamente bem; melhor dizendo, o tipo de coisa que está sendo dita e a forma que ela exibe. (…)

Os ingleses nutrem um desprezo peculiar pelos gestos, considerando-os vulgares e indignos. Isso me parece um preconceito tolo de sua parte, e o resultado de tamanha rigidez nas coisas.”

* * *

após um longo caminho [escolar] de aprendizagem e leituras, entramos no mundo em nossa mocidade, parte com uma ignorância desafetada das coisas, parte com noções equívocas sobre elas; é aí que nossa conduta saboreia ora uma ansiedade nervosa, ora uma confiança infundada. A razão é simples: nossa cabeça está prenhe de conceitos que nos empenhamos em aplicar ao real, procedimento que quase nunca surte o efeito desejado. Esse é o resultado quando se age na direção oposta ao desenvolvimento natural da mente, tratando de fazê-la obter primeiro as idéias gerais, depois as observações particulares. (…) Os pontos de vista equivocados na vida, que nascem de uma falsa aplicação dos conceitos, têm de ser, em seguida, corrigidos por longos anos da experiência; e não-raro esses pontos de vista acabam mesmo sendo inteiramente corrigidos. Eis a razão de tão poucos homens cultos possuírem o senso comum num grau semelhante ao de pessoas sem qualquer instrução.” Dedicado ao Imperativista Categórico Luan.

Ninguém pode olhar dentro de sua própria cabeça sem observar que foi só depois de atingir uma idade muito madura, e em alguns casos quando menos se esperava, que se chegou a um entendimento correto ou a uma visão clara de tantos problemas da vida, que, afinal, não eram assim tão difíceis ou complicados.”

um cuidado especial teria de ser tomado para prevenir as crianças de usar palavras sem claramente entender seu significado e aplicação. A tendência fatal em se satisfazer com palavras ao invés de tentando entender as coisas – a tendência a aprender as frases por decoreba, de modo que sirvam de refúgio em tempos de necessidade, é uma regra, mesmo para a infância”

preconceitos, que ao cabo se tornam idéias fixas.”

Ao invés de nos apressarmos em depositar livros, e livros tão-só, em suas mãos, deveríamos familiarizar os jovens, passo a passo, com as coisas

Desaprender o mal foi a resposta que, de acordo com Diógenes Laércio, Antístenes deu, quando perguntado qual o ramo do conhecimento mais necessário; podemos entender o que ele quis dizer.

Nenhuma criança abaixo dos 15 deveria receber instrução em assuntos que podem ser o veículo de sério erro, como a filosofia, a religião, ou qualquer outro ramo do conhecimento em que seja necessário adotar pontos de vista abrangentes; porque noções equivocadas assimiladas desde cedo podem com freqüência ser arrancadas fora, mas de todas as faculdades intelectuais o julgamento é a última a chegar à maturidade. A criança deveria dedicar sua atenção ou a matérias em que o erro não é de fato possível, como na matemática, ou àquelas em que errar não representa perigo, como nas línguas, ciências naturais, história e assim por diante.

Em compensação, a memória deveria ser bastante usada na infância, visto que é nessa fase da vida que ela se mostra mais forte e tenaz. Acontece que a escolha das coisas com que a memória deverá se comprometer nessa idade deve ser a mais cuidadosa e previdente possível; já que lições no tempo da infância jamais são esquecidas.”

O conhecimento que derivamos de nossa própria observação é usualmente distinto daquele que adquirimos através de idéias abstratas; aquele vem de forma natural, esse do que outras pessoas nos dizem e da seqüência da instrução que recebemos, seja ela boa ou má. O resultado é que na juventude há geralmente muito pouca concordância ou correspondência entre nossas idéias abstratas, que são meras frases em nossa cabeça, e o autêntico conhecimento que tenhamos obtido graças a nossa própria observação. (…)

Essa maturidade ou perfeição do conhecimento é algo relativamente independente de outro tipo de perfeição, que pode ser de um grau alto ou baixo – estou falando da perfeição a que um homem pode conduzir suas faculdades individuais; ela é mensurada não por qualquer correspondência entre os dois tipos de conhecimento, mas pelo grau de intensidade que cada tipo obtém.”

Na aquisição do conhecimento do mundo, é enquanto é-se um novato, expressamente na infância ou adolescência, que as primeiras e mais difíceis lições são-nos imputadas; mas acontece quase sempre de mesmo em anos tardios haver ainda um bom naco que aprender.

O estudo já é difícil o bastante por si mesmo; mas a dificuldade é duplicada pelos romances, que representam um estado de coisas na vida e no mundo que simplesmente não existe. A juventude é crédula, e aceita esses pontos de vista, que depois se tornam parte e parcela da mente; em vez de uma condição de ignorância meramente negativa, você tem o erro positivo – um tecido inteiro de falsas noções para começar; numa data vindoura, esse tecido virá de fato a arruinar o próprio aprendizado pela experiência, e erigirá construções defeituosas nas lições que ela puder ensinar. (…) expectativas foram alimentadas que jamais serão atingidas. Isso geralmente produz uma influência nefasta por toda uma vida. Nesse respeito, aqueles cuja juventude não lhes permitiu a leitura de romances – esses que trabalham com suas mãos e por aí vai – estão uma posição de decidida vantagem. São poucos os romances para os quais essa repreensão não pode ser dirigida – que aliás têm um efeito o contrário ao mau. Primeiro de tudo, para exemplificar, Gil Blas, e os demais trabalhos de Le Sage [Alain-René Lesage – o sábio?] (ou, melhor ainda, seus hispânicos originais); além dele, The Vicar of Wakefield [Oliver Goldsmith], e, até certo ponto, os romances de Sir Walter Scott. Dom Quixote poderia ser visto como uma exibição satírica dos erros aos quais venho me referindo.”

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[Victor-Joseph Étienne de] Jouy: Sem mulheres, o começo de nossa vida seria desamparado; o meio, despido de prazer; e o final, sem consolo.

Mulheres são feitas para ser as enfermeiras e professoras de nossa tenra infância pelo fato de serem elas mesmas infantis, frívolas e inconseqüentes.”

Com as donzelas a Natureza parece ter tido em mente o que, na linguagem do drama, se chama um efeito de choque; por poucos anos ela as dota com tal riqueza de beleza e as enche do dom do charme, às custas de todo o resto de suas vidas; assim, durante esses anos elas talvez cativem a fantasia de algum homem num grau o bastante para que ele se apresse em garantir seu honorável cuidado e sustento, de um jeito ou de outro, enquanto viverem – um passo para o qual não pareceria haver garantias suficientes se só a razão governasse seus pensamentos.”

exatamente como a formiga-fêmea, depois da fecundação, perde suas asas, que se tornam então supérfluas, aliás, um perigo para o negócio do acasalamento; ao dar a luz a uma ou duas crianças, uma mulher geralmente perde sua beleza; provavelmente por razões similares.

Encontramos que jovenzinhas, em seus corações, vêem os afazeres domésticos ou o trabalho sob qualquer aspecto como de importância secundária, senão como mera pilhéria. O único assunto que clama sua atenção mais sincera é o amor, o que inclui a conquista e qualquer coisa com ela relacionada – vestidos, danças, etc.

Quanto mais uma coisa é nobre e perfeita, mais tarde e mais devagar essa coisa aparece na maturidade do sujeito. Dificilmente um homem atinge a maturidade de seus poderes de raciocínio e de suas faculdades mentais antes da idade de 28; uma mulher, dos 18. (…) Esse é o porquê de as mulheres permanecerem crianças o resto de suas vidas; nunca vendo nada a não ser o que está realmente próximo delas, apegando-se ao momento presente, tomando a aparência por realidade, e preferindo bagatelas a problemas de primeira importância. É em virtude de sua faculdade de raciocinar que o homem não vive apenas no presente, como o bruto, mas percebe em redor de si e considera o passado e o futuro; e essa é a origem da prudência, bem como daquele zelo e ansiedade que tantas pessoas exibem. (…) é assim que as coisas que estão ausentes, ou passaram, ou estão por vir, têm muito menos efeito sobre as mulheres que sobre os homens. Esta é a razão por que as mulheres estão mais inclinadas à extravagância, e às vezes levam essa inclinação a extremos que beiram a loucura [M*******]. Em seu íntimo, as mulheres acham que é papel do homem ganhar dinheiro e o seu gastá-lo. – se possível durante a vida do marido, mas, em última instância, após sua morte. O próprio fato de o marido dar-lhes parte de seus ganhos para a administração do lar reforça essa crença.”

Não é de forma alguma uma má idéia consultar mulheres sobre grandes dificuldades, como os alemães costumavam fazer em tempos antanhos; porque sua maneira de ver as coisas é consideravelmente divergente do nosso, principalmente pelo fato de elas preferirem adotar o caminho mais curto até suas metas, e, em geral, fitar a vista no que está logo à frente; enquanto que nós, via de regra, vemos muito além, ignorando o que está imediatamente diante do nariz. Nesses casos, conselhos femininos nos trazem de volta a uma perspectiva acertada, recuperando-nos a visão simples e aproximada dos problemas.

As mulheres são decididamente mais sóbrias em seus julgamentos do que nós; (…) caso nossas paixões sejam despertadas, tendemos a ver tudo de maneira exagerada, ou então imaginar o que não existe.

As debilidades de suas faculdades racionais explicam, ainda, por que as mulheres exibem mais simpatia pelos desafortunados, tratando-os com mais afabilidade e interesse; e esse é ainda o motivo de, em contrapartida, vermos as mulheres serem inferiores ao homem no tocante à justiça, sendo menos honoráveis e conscienciosas[*].

[*] A esse respeito, elas podem ser comparadas a um organismo animal que contém um fígado mas não uma vesícula biliar. Deixe-me referenciar o que relatei no meu tratado Sobre os Fundamentos da Moral, §17.

Destarte, será concluído que o defeito fundamental do caráter feminil é que ele não possui senso de justiça. (…) Elas são dependentes, não da força, mas do artifício; vem daí sua capacidade instintiva para a artimanha, e sua tendência inerradicável para contar mentiras. Assim como leões são providos de garras e presas, e elefantes e javalis estão dotados de dentes enormes, touros com chifres, e alguns moluscos com nuvens de fluido preto, assim também a Natureza equipou as mulheres, para sua defesa e proteção, com as artes da dissimulação. (…) a dissimulação é inata na mulher, e uma qualidade presente tanto na estúpida quanto na esperta. (…) Donde: uma mulher perfeitamente confiável e não dada à dissimulação é talvez uma impossibilidade, e justamente por isso ela é tão célere para enxergar a dissimulação nas outras, a ponto de ser tolice tentar a mesma tática contra ela. (…) O perjúrio numa côrte de justiça é muito mais amiúde cometido por mulheres que por homens. Deveria ser, inclusive, questionado se as mulheres poderiam fazer juramento! De tempos em tempos acham-se casos repetidos, em todo lugar, de senhoras, que não passam necessidade alguma, que subtraem itens de prateleiras no mercado quando ninguém está olhando, ausentando-se rapidamente em seguida.

A regra inata que governa a conduta das mulheres, embora secreta e jamais formulada, ou melhor, inconsciente em seu funcionamento, é essa: Estamos justificadas ao ludibriar aqueles que pensam que têm o direito de dominar a espécie ao dedicar pouca atenção ao individual, isto é, a nós. A constituição, por conseguinte o bem-estar, da espécie foram depositados em nossas mãos e atribuídos aos nossos cuidados, através do controle que adquirimos da próxima geração, que vem de nosso ventre; deixem-nos cumprir nossas obrigações escrupulosamente. Mas as mulheres não possuem o conhecimento abstrato desse princípio-mor; estão conscientes dele apenas como fato concreto; e elas não possuem outro método de dar expressão a ele do que seu modo de agir quando a oportunidade surge. Sua consciência não as incomoda tanto quanto pensamos; porque nos recessos mais escuros de seu coração elas estão cientes de que ao falharem em suas obrigações para com o indivíduo, elas estão cumprindo sua missão perante a espécie, o que é infinitamente superior.

(…) Essa característica dota sua vida e seu ser de uma certa frivolidade; a inclinação geral de seu caráter está para uma direção fundamentalmente diferente do do homem; e é isso que produz aquela discórdia na vida em casal que é tão freqüente, quase o estado normal.

O sentimento natural entre os homens é mera indiferença, mas entre as mulheres é de fato inimizade. A razão é aquele ciúme recíproco – odium figulinum – que, no caso dos homens, não excede os confins de suas ocupações particulares; com as mulheres, ele envolve todo o sexo; pois elas só têm um objetivo na vida. Até mesmo quando cruzam na rua, as mulheres se vêem como Guelfos e Gibelinos. E é um fato patente que quando duas mulheres são apresentadas uma a outra agem com mais constrangimento e dissimulação do que dois homens na mesma situação; advém daí o caráter ridículo de uma troca de comprimentos entre duas mulheres. Além do mais, enquanto um homem vai, como regra geral, preservar sempre um certo nível de consideração e humanidade ao se dirigir a outros, mesmo àqueles em posição tremendamente baixa, é intolerável ver o modo arrogante e desdenhoso como uma dama de sociedade se porta frente uma fêmea de mais baixa extração (e eu sequer estou falando de uma sua serviçal) (…) enquanto que uma centena de considerações importam para nós, no caso mulher-mulher só uma consideração é feita: com que homem se deram bem (…)

É só o homem cujo intelecto foi obscurecido por seus impulsos sexuais que poderia dar o nome de o belo sexo a essa raça nanica, de ombros estreitos, quadris largos e pernas curtas, uma vez que toda a beleza do sexo está ligada a este impulso. Em vez de chamarmo-las de bonitas, haveria mais precisão em descrever mulheres como o sexo antiestético. Nem por meio de música, poesia ou quadro algum fazem elas verdadeiramente sentido ou têm elas suscetibilidade; é mera zombaria se elas têm a pretensão de fazê-lo ou tê-la em seus esforços para agradar. Como resultado, elas são incapazes de mostrar um interesse puramente objetivo no que quer que seja. Um homem tenta adquirir maestria direta sobre as coisas, ou ao compreendê-las ou subjugando-as a sua vontade. Mas a mulher está sempre e em todo canto limitada à maestria indireta das coisas, isto é, pelo homem (…) até Rousseau declarou: As mulheres não demonstram, em regra, amor por nenhuma arte; elas não aprendem nenhuma; e não possuem gênio. [Na Carta a d’Alembert, nota 20.]

Ninguém que veja um pouco abaixo da superfície pode deixar de notar o mesmo. Basta observar como as mulheres prestam atenção a um concerto, à ópera ou a uma peça – a simplicidade infantil com que insistem em papagaiar mesmo durante as melhores passagens das maiores obras-primas. Se é verdade que os Gregos excluíam totalmente a mulher dos teatros, estavam certos ao fazê-lo; de qualquer lugar você iria poder escutar as falas do palco. Nos nossos dias seria mais proveitoso, no lugar de dizer Que a vossa mulher esteja calada na igreja[*], Que a vossa mulher esteja calada na peça! Poderia estar assim escrito em letras grandes nas cortinas!

[*] N.T.P. – Cf. o igualitário Apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 14:34.

E não se pode esperar nada a mais das mulheres se se considerar que as mais distinguidas intelectuais dentre todo este sexo jamais chegaram a produzir qualquer obra de respeito, genuína e original; nem regalaram o mundo com qualquer trabalho de valor permanente em qualquer esfera. Isso é especialmente notável na Pintura, em que a maestria da técnica está ao alcance de suas mãos ao menos tanto quanto está das nossas – percebe-se que elas são diligentes em cultivar esse talento; e mesmo assim não há nenhum quadro ou imagem de que possam jactar-se; não é questão de técnica, mas deficiência no juízo objetivo, indispensável na Pintura. O ponto de vista subjetivo é o seu limite.

(…) Mas, além do mais, é só por elas serem umas filistéias que a sociedade moderna, onde elas tomam a liderança e escolhem o tom, vai tão mal. O dito de Napoleão – que as mulheres não possuem pedigree – deveria ser adotado como o ponto de referência para determinar o lugar da mulher na sociedade; e, sobre suas demais qualidades, Chamfort[*] bem observa: Elas são feitas para barganhar com nossas fraquezas e tolices, mas não com nossa razão. As afinidades que existem entre elas e os homens são tão profundas quanto a pele, e não penetram a mente ou os sentimentos ou o caráter. Elas formam o sexus sequior – o segundo sexo, inferior em qualquer respeito ao primeiro; suas fragilidades deviam ser tratadas com consideração; já mostrar-lhes grande reverência é extremamente ridículo, e inclusive nos rebaixa a seus próprios olhos. (…)

[*] Conselhos e Máximas

Essa é precisamente a visão que os antigos tinham da mulher, e a visão que os povos orientais conservam até hoje; e seu julgamento acerca da posição que cabe à mulher é muito mais correto que o nosso, nós e nossas noções francesas arcaicas de galanteria e nosso sistema ilógico de reverência – esse produto-mor da estupidez teutônico-cristã. Essas noções serviram apenas para tornar a mulher mais arrogante e autoritária; ao ponto de sermos lembrados ocasionalmente dos macacos sagrados de Benares, que ao estarem conscientes de sua santidade e posição inviolável acham que podem fazer exatamente o que entenderem.

(…) É apenas por existirem pessoas como as ladies da Europa que as mulheres de classes mais baixas, a grande maioria do sexo, são muito mais infelizes do que seriam no Oriente.”

Lord Byron diz: Observação sobre o estado das mulheres sob os gregos antigos – conveniente o bastante. Estado presente, um reminiscente do barbarismo da cavalaria e da era feudal – artificial e inatural. (…) [recomenda-se-lhes] que não leiam poesia nem política – nada a não ser livros devotos e culinários. Música – desenho – dança – também um pouco de jardinagem e lavragem aqui e ali.

Quando a lei equiparou os direitos de homens e mulheres, devia ter presenteado as últimas com um intelecto masculino. Mas o fato é que, na exata proporção em que as honras e privilégios concedidos pela nova lei excedem o que a natureza dotou, há uma diminuição no número de mulheres que realmente participa desses mesmos privilégios; e todas as restantes são excluídas de seus direitos naturais no mesmo montante que é dado a umas poucas escolhidas, muito além de seu merecimento.”

Enquanto em nações polígamas toda mulher é sustentada, onde a monogamia prevalece o número de mulheres casadas é limitado; e uma larga margem de mulheres fica sem qualquer suporte: nas classes altas, vegetam como solteironas inúteis, e nas baixas sucumbem ao trabalho pesado, para o qual não nasceram; ou quem sabe se tornam filles de joie [garotas de programa][*], cuja vida é tão destituída de prazer quanto o é de honra.”

[*] N.T.P. – Literalmente, o termo para prostitutas corrente em toda a Europa na época de Schopenhauer teria de ser traduzido, do Francês, como “filhas (ou servas) do prazer”, dando ensejo ao comentário irônico na seqüência.

Apenas em Londres existem 80.000 prostitutas.”

não há qualquer boa razão para um homem cuja esposa sofre de doença crônica ou esterilidade, ou que se tornou gradativamente velha demais para ele, não tomar uma segunda.”

N.T.I. – Em troca de desistirem da poligamia, os Mormons ganharam uma colônia na América.”

a condição humana é tal que prestamos atenção à opinião dos outros numa proporção totalmente descabida para com seu real valor.”

É inútil argumentar contra a poligamia; ela deve ser assumida como existente de facto em todo canto, e a única questão é como deveria ser regulada. Onde há, então, monogamistas reais? Todos nós vivemos, em algum grau, por algum tempo, e aliás maioria de nós sempre, em poligamia. Uma vez que todo homem necessita de várias mulheres, nada há de mais justo que permitir-lhe, aliás, obrigá-lo mesmo, o acesso a muitas mulheres.”

Na Índia não há mulher independente; de acordo com a lei de Manu [Cap. V, v.148], ela deve permanecer sob o controle de seu pai, seu marido, seu irmão ou seu filho.”

O primeiro amor da mãe por sua cria é, seja nos animais inferiores ou no homem, de um caráter puramente instintivo, então ele acaba quando a criança já não é mais fisicamente indefesa. Depois desse primeiro amor, um outro baseado no hábito e na razão aflorará; mas esse segundo amor amiúde não aparece, sobretudo quando a mãe não ama o pai. O amor do pai pela sua criança é de uma ordem diferente, e mais propício a continuar; porque tem seu fundamento no fato de reconhecer-se a si mesmo na criança; ou seja, seu amor por ela é metafísico de origem.

Em quase todas as nações, dos mundos antigo ou moderno, até entre os Hotentotes[*], a propriedade é herdada apenas pelos descendentes masculinos; é só na Europa que uma ruptura se deu; mas atenção: não dentro da nobreza.

[*] Leroy – Lettres philosophiques sur l’intelligence et la perfectibilité des animaux, avec quelques lettres sur l’homme, p. 298.”

Entre os homens, a vaidade com freqüência conduz a vantagens imateriais, como intelecto, aprendizado, coragem.”

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A demonstração superabundante de vitalidade, que toma a forma de bater, martelar e rolar as coisas por aí, constituiu-se para mim um tormento diário durante toda a minha vida. Há pessoas, é bem verdade – aliás, um grande número de pessoas –, que riem dessas coisas, porque não são sensíveis ao barulho; mas são as mesmas pessoas que também não são sensíveis a argumentos, pensamentos, à poesia, ou à arte; numa palavra, a qualquer tipo de influência intelectual. A razão é que o tecido de seus cérebros é de uma qualidade áspera e inferior. Já para os intelectuais, o barulho é uma tortura. Nas biografias de quase todos os maiores escritores, ou onde quer que seja que suas notas pessoais fiquem registradas, eu encontro reclamações sobre o barulho; no caso de Kant, por exemplo, e Goethe, Lichtenberg, Jean Paul; e se acontece de qualquer escritor omitir a exprimir-se dessa maneira, é unicamente por falta de oportunidade.”

um grande intelecto afunda até o nível de um ordinário, assim que interrompido e assaltado, sua atenção distraída e repelida do objeto em questão; sua superioridade depende de seu poder de concentração – de trazer toda sua força para se escorar num só tema, da mesma forma que um espelho côncavo coleta num só ponto todos os raios de luz que incidem sobre si. A interrupção barulhenta é um incômodo para essa concentração. Eis por que mentes distinguidas sempre demonstraram um excessivo desgosto pela perturbação sob qualquer aspecto, como algo que surge de súbito e arranca-lhes seu pensar. (…) A gente ordinária não sucumbe a nada do tipo. A mais sensível e inteligente das nações européias não foge à regra, Não interromperás! sendo seu décimo primeiro mandamento. (…) Mas é óbvio: onde nada há para interromper, o barulho não será particularmente doloroso. (…) Tudo o que sinto é um contínuo crescimento no trabalho do pensar – como se estivesse tentando caminhar com um peso nos pés. (…) O mais indesculpável e o mais desgraçado dos barulhos é o estalar de chicotes – uma coisa verdadeiramente infernal quando é desempenhado nas estreitas e reverberantes ruas de uma cidade. Eu denuncio esse estalar como algo que faz da vida pacata impossível; aborta todo pensamento tranqüilo. Que o estalar de chicotes seja permitido em qualquer circunstância me parece demonstrar da forma mais prístina como a natureza da humanidade é tão insensível e disparatada. (…) Toda vez que esse barulho é produzido, deve irritar uma centena de pessoas que estão concentradas nalgum negócio, não interessa o quão trivial ele seja (…) Nenhum som, por mais estridente, penetra de forma tão aguda os recôncavos do cérebro como esse maldito estalar de chicotes; você sente a ferroada do açoite diretamente dentro da cabeça”

Marteladas, o latido de cães, e o choro de crianças são horríveis de ouvir; mas o único e genuíno assassino de pensamentos como tal é o estalar do chicote (…) Esse maldito estalar de chicotes não só é desnecessário, como inútil mesmo. (…) O cavalo não acelera nem um pouco por causa dele. A maior demonstração disso é que o cocheiro precisa chicoteá-lo sem parar, e mesmo assim ele segue devagar o seu trote de sempre. (…) Supondo, no entanto, que fosse absolutamente necessário estalar o chicote a fim de manter o cavalo ciente de que deve manter um ritmo, um centésimo do barulho que escutamos já seria o suficiente. É um fato bem-conhecido que, em termos de visão e audição, os animais são ultra-sensíveis aos menores sinais; eles estão alertas para coisas que escassamente percebemos. Canários e cães treinados são a prova. (…) Que tamanha infâmia seja tolerada na cidade é um pedaço de barbárie e iniqüidade, ainda mais quando uma simples notificação policial podia resolver o problema, obrigando cada chicote a ter um nó em sua extremidade. (…) Um sujeito que cavalga pelos becos e vielas duma cidade com um cavalo de aluguel ou de carga improdutivo, e que continua a fustigá-lo por várias jardas com toda a força, mereceria aqui e ali ser desmontado e levar umas 5 boas varadas com um pau.

Todos os filantropos do mundo, todos os legisladores, num encontro para advogar e decretar a total abolição da punição corporal, não poderiam jamais me persuadir do contrário! (…) O corpo de um homem e as suas necessidades são agora, em toda parte, tratados com uma terna indulgência. É a mente pensadora, pois então, a única que nunca obterá a menor medida de consideração ou proteção, isso para não falar de respeito? (…) Quantos pensamentos grandes e esplêndidos, gostaria eu de saber, foram perdidos pelo mundo graças ao estalar de chicotes?”

Torçamos agora para que as mais inteligentes e refinadas das nações tomem uma iniciativa na matéria, e que enfim os alemães copiem o exemplo[*].

[*] De acordo com uma notícia veiculada pela Sociedade para a Proteção dos Animais de Munique, o chicoteamento supérfluo e o estalar de chicotes foram, em dezembro de 1858, positivamente proibidos em Nuremberg.”

Quem não se perturba enquanto lê ou pensa, é simplesmente porque não lê nem pensa; só fuma, o que é o substitutivo contemporâneo do pensar. A tolerância geral a ruídos desnecessários – as batidas de portas, por exemplo, coisa mal-educada e chula – é evidência direta de que os hábitos mentais em voga são o torpor e a vacuidade.”

Recomendo uma epístola poética in terzo rimo do famoso pintor Bronzino, intitulada De’ Romori: a Messer Luca Martini. Ela dá uma descrição detalhada da tortura a que as pessoas se submetem diante dos vários barulhos de uma pequena cidade italiana. Escrita num estilo tragicômico, é deleitante! A epístola poderá ser encontrada em Opere burlesche del Berni, Aretino et altri, Vol. II, p. 258

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Há alguns panoramas realmente bonitos no mundo, mas as figuras humanas neles são pobres, e seria melhor não contemplá-los.”

A mosca devia ser empregada como o símbolo da impertinência e audácia; enquanto todos os demais animais evitam o homem mais do que qualquer coisa, e disparam em retirada mesmo antes dele se achegar, a mosca pousa sobre o seu nariz.”

Dois chineses peregrinando pela Europa foram ao teatro pela primeira vez. Um deles não fez nada a não ser estudar todo o maquinário, e teve êxito em entender como ele funcionava. O outro tentou compreender o significado da peça a despeito de sua ignorância da língua. Aqui você tem o Astrônomo e o Filósofo.”

Enquanto criança, enquanto jovem, amiúde mesmo como um adulto, aliás, sua vida toda, ele segue acompanhado de seus amigos, parecendo-se com eles e assemelhando ser tão desimportante quanto cada um deles. Deixe-o sozinho; ele não irá morrer. O tempo virá e trará aqueles que sabem como valorizá-lo.”

O homem que sobe num balão não sente como se ascendesse; ele só observa a terra afundando debaixo de si.

Há um mistério que só esses que dele sentem a verdade irão entender.”

Bebemos intensamente da beleza das obras antes de entrarmos na vida nós mesmos; e quando, depois disso, comparecemos pessoalmente para testemunhar os trabalhos da Natureza, o verniz se foi: os artistas abusarem dele e aproveitamos dele cedo demais. É assim que o mundo com tanta freqüência parece tão duro e desprovido de charme, repulsivo, inclusive. (…) não deveríamos ter pinturas acabadas, poemas perfeitos”

mayance

A Catedral de Mayence [gravura] é tão coberta pelas casas que foram construídas ao seu redor que não há nenhum ponto do qual se possa observá-la inteira. Isso é simbólico de toda coisa grande ou bela no mundo. Deveria existir por si mesma, mas antes que decorra muito tempo é desapropriada, usada para fins estranhos. Pessoas vêm de todos os cantos desejando encontrar apoio e acolhimento; mas há obstáculos no caminho que estragam seus efeitos.”

Todo herói é um Sansão. Os homens fortes sucumbem à intriga dos fracos e inúmeros; e se no final ele perde a paciência, esmaga ambos, os outros e a si. Ou então ele é como Gulliver em Lilliput, soterrado por um número enorme de homens pequenos.”

O DILEMA DO OURIÇO

Do mesmo jeito que a necessidade do social leva todos os porcos-espinhos humanos a se aproximarem, repelem-se no instante seguinte, devido às muitas qualidades indesejáveis e espinhosas de suas naturezas. A distância moderada que finalmente descobrem ser a única condição tolerável de intercurso é o código da polidez e das boas-maneiras; e aqueles que o transgridem são asperamente censurados – na frase inglesa – to keep their distance [a manter a distância]. (…) Um homem que tenha algum calor interno prefere permanecer do lado de fora, onde ele não vai espetar outras pessoas nem ser espetado.”

A produção industrial de Tânatos: a construção de modelos de corpo e de sexualidade e sua relação com o consumo à luz da última Teoria das Pulsões – Guilherme di Angellis da Silva Alves (mestrado em Comunicação)

 

“O nascimento da sexualidade tem a ver com a dissociação do objeto sexual do objeto da função vital, separando a necessidade do desejo, que é um fluxo psíquico de retorno da experiência de satisfação.”

“O tabu da menstruação seria derivado do recalque orgânico, uma <defesa contra uma fase do desenvolvimento que foi superada>.” “A educação é definida por Freud como sendo fundamentalmente um processo de recalcamento dos estímulos sexuais olfativos anteriores à bipedia.”

“A excitação sexual se torna contínua e não mais cíclica. Essa mudança diz respeito à passagem do funcionamento instintivo para o pulsional, determinante para o desenvolvimento da cultura. A instituição da família, que representa o início da civilização humana, não seria possível sem esta mudança do instinto para a pulsão, definida por Freud como força constante.”

“É na perspectiva do desejo que se pode falar em angústia. Lacan nos ensina que esta é o melhor remédio para aquele, pois reintroduz a referência à falta originária da estrutura. A angústia, diz Lacan, é um afeto – e um afeto que não engana, já que possui relação estrutural com o que constitui o sujeito, isto é, a falta, a incompletude.”

T&T: “O violento pai primevo fôra sem dúvida o modelo de cada um do grupo de irmãos: e, pelo ato de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um deles adquirindo uma parte de sua força. A refeição totêmica, que é talvez o mais antigo festival da humanidade, seria assim uma repetição e uma comemoração desse ato memorável e criminoso, que foi o começo de tantas coisas: da organização social, das restrições morais e da religião.”

“Para ilustrar essa assertiva, há um mito grego que diz que Afrodite e Ares tiveram vários filhos, entre eles Eros, deus do amor. Diferente dos outros filhos do casal, Eros não crescia. Era um bebê pequeno, frágil, rosado, de asas transparentes e covinhas no rosto. Preocupada com a saúde do filho, Afrodite consultou Têmis, deusa guardiã da lei, que respondeu que seu filho era assim porque o Amor não podia crescer sem Paixão.”

“O amor se atém à passagem do que cessa de não se escrever para o que não cessa de se escrever. É nessa região de intercessão entre os regimes simbólico e imaginário que o amor se inscreve, e, sendo assim, o amor é essencialmente produção de sentido. Por isso, o amor é não só produtor de um discurso fragmentado, porque infinitizado, como também constitui um legítimo estilo literário, a correspondência amorosa: o amor exige reciprocidade, exige correspondência, o que leva Lacan a afirmar que <amar é querer ser amado>”

“Cada uma das três artes gregas de conduta – a Dietética, a Econômica e a Erótica – propõem modelos específicos de comportamento em relação ao sexo. A Dietética trata da temperança por meio do uso moderado dos atos de prazeres, chamado pelos gregos de aphrodisia – os atos de Afrodite. O exercício dessa moderação exigia um cuidado com os momentos específicos em que esses atos deveriam ser praticados, manifestando preocupação com a sobrevivência do indivíduo e com a manutenção da espécie. Já a Econômica não dizia respeito ao uso comedido e oportuno dos atos de prazer, mas à manutenção, por parte do marido, da estrutura hierárquica dentro de sua casa. O problema a ser apreendido neste campo é como assegurar o privilégio e o poder que o homem mantém em relação à esposa e aos escravos. O marido deve temer qualquer excesso e praticar o domínio de si sobre os outros para garantir essa permanência. Por fim, o cuidado solicitado pela Erótica diz respeito à virilidade do adolescente e ao seu status futuro de homem livre. Não se trata apenas do homem ser senhor do seu prazer, mas de compreender de que maneiras ele pode dar lugar à liberdade do outro no domínio que exerce sobre si mesmo. No pensamento grego clássico, a relação com os rapazes é o núcleo mais delicado e ativo de reflexão e elaboração.”

“A exigência de moderação e austeridade não se apresenta como lei a qual todos deveriam se submeter. Está mais para um princípio de conduta para aqueles que querem dar à existência uma forma mais elevada.” “O amor não era compartilhado com as mulheres, mas entre seus iguais. Já a relação sexual era sempre feita com o homem ocupando o papal ativo, que representava seu caráter dominante sobre os demais. O papel ativo é um princípio norteador dessa moral, demonstrado especialmente na pederastia, a relação de amor e de aprendizado entre o erasta e o erômano, o amante e o amado, o homem livre e o rapaz em formação. O excesso e a passividade são, para o homem grego, as duas principais formas de imoralidade.”

“A temperança é a palavra-chave. A maneira como se considerava esses atos, os questionamentos que são feitos, os regimes a serem adotados, tudo tinha como norte esse princípio. Não se trata de não ter desejos, portanto, mas de não deixar que esses desejos impeçam os homens de serem senhores de si.”

“É somente a esposa que pode dar filhos legítimos e garantir a continuidade da instituição familiar. Dessa forma, a relação entre os esposos não tinha outra função diferente da de produzir uma descendência. Toda a atividade sexual das mulheres deve se situar dentro da relação conjugal, o marido como parceiro exclusivo. Elas se encontram sempre a seu poder. Em caso de adultério, as sanções são tanto de ordem privada como pública. Já o homem tem por obrigação respeitar uma mulher casada ou que está sob a guarda paterna, mas a ofensa nestes casos é voltada ao homem que detém o controle da mulher.”

“A aphrodisia em relação aos rapazes constitui, para o pensamento grego, objeto de grande inquietação. Não há uma oposição excludente entre amar alguém de seu próprio sexo e amar alguém do sexo oposto. As linhas que demarcavam a sexualidade não eram tão radicais assim. Do ponto de vista da moral, a oposição entre o homem temperante, senhor de si, e aquele que se entregava desmedidamente aos prazeres era muito mais grave.” “o desejo que visa o próprio ato e que se realiza ao acaso poderia ser destinado tanto às mulheres quanto aos rapazes, mas o amor mais nobre e mais racional só é direcionado aos homens.” “Havia o encanto da conquista, do cortejo, da juventude, da beleza, do exercício do poder. Mas ao mesmo tempo em que os rapazes eram objetos de desejo, também eram homens livres em formação, daí a necessidade de formá-los. Além de uma relação de desejo, a pederastia tinha um papel pedagógico importante”

“havia um desprezo pelos jovens que cediam facilmente ou que se demonstravam muito interessados, os homens efeminados eram desqualificados etc.” “Com o rapaz, o cortejo se dava em espaços públicos, às vistas de todos. Além disso, o jovem era livre para escolher o amante que quisesse, o que fortalecia os jogos de conquista. À medida que os jovens amadureciam, as relações deixavam de ser tornar interessantes.”

“Podia-se até atribuir aos rapazes a forma mais elevada de amor, mas a abstenção também era solicitava para que se pudesse preservar o valor espiritual da relação. Essa idade de transição, tão frágil, era uma oportunidade para provar seu valor, se formar, se medir. Quem aceitasse o papel passivo na relação podia perder seus direitos de cidadão. Após esse período de formação, ele estava apto a constituir família e exercer a sua condição de domínio sobre outros.”

FORMAÇÃO DO CARÁTER E A HORA DE PASSAR O BASTÃO: “entre um homem e um rapaz, que estão em posição de independência recíproca, e entre os quais não existe constrição institucional, mas um jogo aberto (com preferência, escolha, liberdade de movimento, desfecho incerto), o princípio de regulação das condutas deve ser buscado na própria relação, na natureza do movimento que os leva um para o outro, e da afeição que os liga reciprocamente.” “as jovens mulheres é que posteriormente passam a ter tais cuidados, proteções e cortejos”

desprezar o desprazer, dás o que prezar?

“a imagem do jovem quadro sobrecarregado de tarefas e responsabilidades é estranha ao espírito grego, como lhe são estranhas as virtudes positivas que o mundo industrial inclui nas palavras produtividade e rendimento. Na ética do grego de outrora, a guerra é um meio de aquisição muito mais defensável do que o comércio.” Amouretti

“A educação era constituída da alfabetização básica e da aritmética, do ensino da música e da educação física.”

“Um senhor poderia fazer sexo com um escravo, desde que ocupasse o papel ativo na relação. A postura dominante era realmente o fundamental, independente do tipo de relação.”

FLERTANDO COM O PERIGO: NAS CERCANIAS DA TOCA DA RAPOSA: “a abordagem de um erastes (o parceiro ativo e mais velho) era um meio pelo qual um rapaz jovem podia sentir-se querido e valorizado por si mesmo. (…) O amor de uma mulher, membro dependente da sociedade, talvez não fosse tão valoroso quanto o de um homem, em especial se fosse mais velho, rico, bonito e influente. Mesmo assim, o eromenos (o rapaz que o erastes tentava conquistar) só chegava até certo ponto. Permitir a penetração anal era, para um grego, ser tratado como uma mulher e, portanto, uma humilhação degradante. É interessante notar que os cidadãos atenienses eram privados da cidadania, se condenados por prostituição masculina. Em Atenas, tal atividade podia ser deixada com segurança à prática dos não-atenienses.” Jones

“É importante salientar que a arte grega demorou até o século IV a.C para representar a figura feminina também como ideal de beleza.”

“o conceito de cidadania era restrito apenas aos homens que tivessem mães e pais atenienses. (…) Quando o marido trazia amigos para jantar em sua casa, a mulher e os filhos se retiravam. Cabia a elas todo o serviço doméstico. Não tinham direitos à educação formal e nem podiam participar da política. Seus atributos deveriam ser a castidade, a obediência, o conhecimento das tarefas domésticas e a economia dos gastos.”

“O homem podia repudiar a esposa sem qualquer motivo. Isto era direito legal; a mulher só podia fazê-lo em casos de provocação extrema por parte do marido. Alguns direitos à mulher autorizavam-na a freqüentar o teatro e o festival destinado às mulheres. Contudo, para os homens ela continuava a ser apenas gyne – portadora dos filhos.” CABRAL, Juçara.

“Havia o dildo, um objeto no formato do pênis que era esculpido em madeira, que era lubrificado em azeite para ser usado pelas mulheres para se satisfazerem sexualmente. A homossexualidade feminina é bem documentada, talvez num misto de sexualidade reprimida e sentimento de solidariedade entre elas.”

Se a mulher era tão “objetal”, como uma só conseguiu desencadear a Guerra de Tróia?

O penetra, o superior das festas.

“O fim dessa moral romana é claro: a subordinação da pessoa à cidade, que necessitava de habitantes dispostos a se sacrificar por ela nas guerras.”

“Este desejo de glória, de renome eterno, é sem dúvida a vingança do indivíduo que a sociedade reprimia, em vida, de mil maneiras: magistrado, não podia prosseguir a sua obra para além de um ano, chefe militar, se não tinha a sorte de obter qualquer vitória decisiva durante o seu comando, cabia ao sucessor a colheita dos louros. É perante a morte que volta a ser ele próprio, que a vida adquire valor exemplar na medida em que respeitou a disciplina em todas as suas formas: virtus, pietas e fides.” Grimal

“Na Grécia, os (…) esportes eram um exercício com um fim em si, uma arte. Em Roma, essa prática de ginástica pura foi ignorada. Os exercícios dos jovens eram uma preparação para a guerra, sem arte, sem preocupação estética.”

“As mulheres tinham uma paixão tão exagerada pelo luxo a ponto de alguns historiadores terem atribuído a isso o declínio do império, devido ao enorme gasto com importações. Elas se contentavam com isso frente ao fato de não terem direitos plenos e de ficarem basicamente restritas ao lar.”

“A forma mais comum do matrimônio era a de usus, que só tornava a união legal depois de um ano de convivência. Enquanto isso, a mulher continuava pertencendo ao pai. Essa espécie de estágio probatório era benéfica aos dois cônjuges. Outro tipo de matrimônio era o coemptio, em que se comprava a mulher pagando em dinheiro ao pai da noiva.

           O exagero prevalecia entre os homens livres. Era uma forma de se extrapolar a repressão e as exigências da vida pública, cheia de moralidades e demandas por virtude e severidade. Se na vida pública, havia uma série de restrições, no sexo tudo era permitido.

           <O conto do romano casto, corrompido pelos ‘maus vizinhos’ – os gregos – realmente é um conto. Deleitar-se em fartura de comida, de bebida e orgias não significa ‘viver à grega’, pois alugar, comprar mulheres e viver entregue aos prazeres era costume comum entre os romanos.> Cabral

           Gregos e romanos consideravam a prostituição uma peça importante na ordem social. Garantia a segurança das mulheres casadas e era vista como uma necessidade à higiene pública. Contando que os homens e as mulheres que se prostituíssem não fossem de nascimento livre, tudo era permitido, como comprar, alugar, raptar. Até as crianças que fossem escravas poderiam servir para a prostituição.”

“As orgias [de] que os romanos participavam – e que contavam com pessoas de todas as classes – ajudavam a diminuir [a] tensão da severidade que era exigida. Tudo era feito com muito exagero e[,] além do sexo, havia comida e principalmente muita bebida. Terminava com vômitos; como que para limpar a alma e se preparar novamente para as obrigações da vida pública.”

“Os novos tempos de recessão exigiam que o comportamento dos romanos também se modificasse. Antes epicuristas, os romanos passaram adotar uma moral mais austera, mais exigente. Já não se podia mais esbanjar luxo e exagero na vida social e na vida sexual. O estoicismo grego ganhava forças ao privilegiar a negação dos prazeres mundanos. Em tempos de pobreza e recessão, até a economia dos corpos se faz necessária.” Estoicismo compulsório não é estoicismo.

“Dentre as diversas religiões que sobreviviam clandestinamente em Roma, o imperador Constantino viu no cristianismo a que mais se adequava ao novo modelo econômico, que agora exigia temperança em todos os aspectos da vida.”

“A imposição das leis do Estado eram substituídas pelas ameaças do inferno e pela promessa de uma vida eterna e feliz.” Cabral

“O cristianismo não introduziu um pensamento novo. Seu grande feito foi ter dado ar sacro e metafísico a um moral que já existia, mas sob a forma pagã. Ele nasce como um socialismo primitivo, para confortar pobres e oprimidos em sua pobreza e opressão.”

João Crisóstomo e Metódi[c]o admitiam que, se os casais limitassem as carícias e a paixão, teriam chances de salvação eterna. Era consenso de toda a igreja a permissão de um só casamento, pois diziam os padres: o segundo será considerado adultério, o terceiro, fornicação[,] e o quarto, ignóbil” Cabral

A vergonha está abaixo do pecado. E eu pensando que as vergonhas eram o próprio pecado!

“O verdadeiro prazer está no mundo metafísico.”

“Santo Agostinho havia afirmado que o sexo precisava ser feito de forma pura e sem prazer para não ser pecaminoso.”

“As classes médias começavam a substituir a aristocracia na estrutura do poder.” ???

“As mulheres da era vitoriana, período compreendido entre 1840 e 1900, eram seres apáticos e de uma moralidade exagerada. O desconhecimento do próprio corpo era sinal de pureza.”

“no espaço social, como no coração de cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e fecundo: o quarto dos pais. Ao que sobra só resta encobrir-se; o decoro das atitudes esconde os corpos, a decência das palavras limpa os discursos” Foucault

fecundidade do cu

“O exagero da moralidade chegava ao ponto de se proibir consultas ginecológicas a não ser em extrema necessidade.”

“Com a transformação das esposas em guardiãs da moralidade, os homens apelavam para a prostituição, que cresceu vertiginosamente no período vitoriano. Não demorou muito para uma onda de doenças venéreas invadir novamente o mundo cristão – como havia acontecido no século XV. Com medo da infecção em massa, os governos adotaram diversas medidas para coibir a prostituição. Os maridos tiveram de voltar ao lar matrimonial.”

“Com o estudo do mundo antigo, é possível perceber que não foi por falta de capacidade técnica que o desenvolvimento da indústria se deu muito aquém do possível. Ramos cita Tales de Mileto, que desviou o curso do rio Halys, Eupalinos, que escavou um túnel de um quilômetro de comprimento na montanha de Castro, e muitos outros.”

“Vale lembrar que a etimologia da palavra trabalho é tripalium, três paus, um instrumento que subjugava escravos e animais e os forçava a produzir.”

“Os monges passam a adotar em sua vida monástica uma série de procedimentos de rotina, de sistematização, de aumento da produção e de investimento científico na agricultura, na pecuária, na botânica. Desse período surge uma série de importantes invenções para a agricultura e para a economia, como a luneta, a roda dentada, os óculos, o moinho hidráulico, o moinho de vento e tantas outras.”

“É no mosteiro medieval que as categorias de tempo e de espaço se modificam radicalmente, o relógio e o sino – elementos fundamentais no período industrial – os novos reguladores. Lá, as horas canônicas são disciplinadas pela mecânica do tempo, com as atividades sempre realizadas em intervalos regulares. Ramos destaca que é dentro da etapa medieval que transcorre uma história secreta da revolução industrial.”

“Entre as invenções mais importantes no período anterior à Primeira Guerra estão a luz incandescente, o cinema, a aviação, os raios-X, a psicanálise, a física quântica. Esses inventos proporcionaram um admirável mundo novo. O homem realiza o sonho de Ícaro, se comunica a distância, guarda o som em uma caixa de cera, vê a fotografia em movimento.

           Mas talvez a mais revolucionária e impactante invenção tenha sido o automóvel. Ele é mais que um meio de transporte: origina um novo mercado e reestrutura a organização do trabalho, modifica as bases econômicas e sociais e dá origem a novos comportamentos e costumes. No início, sua produção era artesanal e escassa, até o desenvolvimento do modelo T da Ford, em 1908, marco da história automobilística. É um veículo barato, seguro, simples de dirigir e que funcionava a base de qualquer produto que produzisse combustão. (…) Ford queria adaptar a organização do trabalho ao processo reverso de se abater e desmantelar o animal.”

“Só depois que as mulheres começarem a navegar pelo oceano e empurrar o arado; quando elas gostarem de ser acossadas e cercadas por todos os tipos de homem nas vias públicas do comércio e do mundo dos negócios; quando elas amarem a traição e o torvelinho da política; quando elas amarem a devassidão do campo de luta, o fumo dos ribombos e o sangue da batalha, mais do que amam os afetos e as alegrias do lar e da família, então será tempo de falarmos sobre as tornarmos eleitoras.” George H. Williams, senador norte-americano, 1866

“O Brasil teve sua primeira eleitora em 1927 e sua primeira prefeita em 1928, na cidade de Lajes, Rio Grande do Norte.”

“Foi Hollywood, desde os dias em que sua popularidade se disseminou – nos anos 20 – até a televisão solapar sua influência nos anos 50, que da maneira mais consistente, conscienciosa e na moda, sustentou a imagem do casamento como o objetivo natural da mulher, a culminação romântica de sua vida. Muitas mensagens foram vendidas ao público, antes e desde então, mas nunca nenhuma o foi tão efetivamente como a mensagem hollywoodiana do glamour, romance e casamento. Muito depois que a <mulher moderna> se libertou das idéias e hábitos de sua avó vitoriana, Hollywood continua a condicioná-la à crença de que o lugar e o destino da mulher estavam no lar. Não porque, como no passado, inexistissem opções para ela, mas porque essa mulher estava atada lá, pelo mágico poder do amor.” Tannahill

“O folhetim no lugar do romance, o teatro de revista no lugar do teatro”

“Surge entre os veículos de comunicação, por exemplo, o pennypress, jornal de custo irrisório, que contém notícias sobre celebridades, escândalos com homens públicos, tragédias, folhetins e faits divers. Ele não tem por objetivo informar a população acerca dos temas mais relevantes, e sim de divertir, entreter.”

“A primeira exibição feita pelos irmãos Lumière em dezembro de 1895 choca os presentes, que veem não só a descoberta científica, mas a capacidade que ela tem para espantar e surpreender.” “O cinema diverte multidões a preços baixíssimos (no século XX, ao menos) e proporciona um distanciamento da realidade. (…) Ele se projeta no outro para que não lembre de si, e no dia seguinte retorne ao trabalho – seja uma fábrica ou uma repartição pública – bem disposto.”

OS IRRECONCILIÁVEIS BENJAMIN E ADORNO: “Divertir-se significa concordar; (…) significa sempre: não ter de pensar, esquecer a dor, inclusive quando ela é mostrada. Em sua base está a impotência. Com efeito, é uma fuga: não, como se pretende, fuga da terrível realidade, mas do último pensamento de resistência que a realidade ainda pode ter deixado.” T.A. apud Wolf

Squizo-jazz of a lost soul

“Como uma droga, o prazer que advém da fuga, da diversão, vicia. Em uma estrutura social em que o tempo livre se torna cada vez mais escasso, o divertimento acaba por se tornar uma necessidade fisiológica.”

Cazuza de Massa

“Importante ressaltar que tanto na publicidade voltada para o público masculino quanto na direcionada às mulheres, é o corpo feminino que é erotizado. No primeiro caso, numa incitação da libido; no segundo, uma incitação nascisística e identificatória.”

O SUZANAVIEIRISMO: “O que conta, diz Morin, não é mais a experiência acumulada, mas a adesão ao movimento.”

“Historicamente, ela [a devoção ao belo] acelera o vir-a-ser, ele mesmo acelerado, de uma civilização. Sociologicamente, ela contribui para o rejuvenescimento da sociedade. Antropologicamente, ela verifica a lei do retardamento contínuo do bolk [termo pejorativo para designar pessoa velha e ultrapassada, caretona, ou o ato de vomitar voluntariamente, se em verbo – “to bolk”], prolongando a infância e a juventude junto ao adulto. Metafisicamente, ela é um protesto ilimitado contra o mal irremediável da velhice” Morin

“É do período pós-guerra o baby-boom, a reafirmação do papel histórico de parideira, só que desta vez com adjetivos como rainha do lar, dona de casa. Foi só na década de 60 que as mulheres começaram a perceber que a conquista do voto foi apenas simbólica.”

“No lugar da eterna alegria, havia tédio, tédio infindável.”

“Os relatórios de Alfred Kinsey mostravam que 40% dos homens eram infiéis e que 70% tinham visitado prostitutas [??]. Além disso, um sexto dos homens do campo já havia tido relações zoofílicas.”

“Nos Estados Unidos de 65, havia um divórcio para cada quatro casamentos. Em 77, um divórcio para cada dois casamentos.”

O que é uma pequena e maleável ética que se veste todo dia antes de sair à rua? Uma etiqueta.

“O final de semana é redentor. Todo feriado é santo, na medida em que salva a existência de uma morte por asfixia.”

“Foi-se o tempo da temperança. Dá-se ao consumo um valor instintivo. Ao conseguir atribuir esse valor, o consumo vira consumismo, uma necessidade do corpo que precisa ser saciada, tal a angústia que se cria quando não a alimentamos”

SAFETY COURSE

A linha de chegada é muito chata, me deixe enrolar nesta corrida circular sem ineditismos ou saídas do script.

* * *

A metodologia é o cerne da chatice. Trabalho achatado na clínica de Pasteur.

“A palavra revista vem do inglês magazine, de origem árabe, cujo significado é depósito de mercadorias. Foi no inglês que a palavra adquiriu o significado de <publicação periódica, de caráter literário, contendo leituras amenas e instrutivas, e adornada de estampas>.” NIMER, Miguel. Influências Orientais na Língua Portuguesa: os vocábulos árabes, arabizados, persas e turcos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.

“Em 1937, é lançada a revista Marie-Claire. Com um preço popular e uma tiragem de 800 mil exemplares, a revista introduz às classes menos abastadas os tratamentos cosméticos e os cuidados com moda e comportamento. Esses processos são interrompidos durante a segunda guerra, mas retornam logo após, acompanhando e estruturando as mudanças sociais. A Marie-Claire é publicada em mais de 30 edições internacionais, cada uma seguindo um modelo diferente, de acordo com a cultura do país. No Brasil, é publicada desde 1991.

“Na Itália, a imprensa feminina é o segmento mais sólido da indústria cultural. Em alguns casos, a publicidade chega a significar mais de metade do conteúdo das revistas. Entre 53 e 63, o número chega ao triplo na relação publicidade/reportagens. Além disso, nota-se um oligopólio na produção desses conteúdos, já que quatro empresas controlam ¾ da produção editorial.”

“O primeiro periódico brasileiro voltado ao público feminino foi a revista Espelho Diamantino, editada no Rio de Janeiro em 1827. Editada por homens, versava sobre literatura, política, arte e moda. Ainda nessa época de imprensa artenasal (sic!), surgiram as revistas Espelho das Brasileiras, de 1831, Jornal das Senhoras, de 1852, a primeira publicação a conter artigos de cunho feminista. Em 1875, aparece o periódico O Sexo Feminino, que contava com 800 assinaturas, feito considerável para a época. A revista possuía um olhar crítico sobre a dominação masculina através do casamento, contendo vários artigos que manifestavam apoio ao divórcio e à maior participação das mulheres no mercado de trabalho.”

Capricho, de 1952, é a revista feminina mais antiga ainda em circulação. Com suas fotonovelas, chegou a vender 500 mil exemplares por mês. Em 61, surge Cláudia. Em 1973, a editora Abril lança a revista Nova, a primeira publicação feminina a abordar temas mais polêmicos, como sexo, relacionamento e vida profissional.”

“Já Men’s Health surge nos Estados Unidos em 1987, com a proposta de criar um estilo de vida para os homens, com matérias sobre fitness, nutrição, moda e sexualidade. No Brasil, a primeira publicação de Men’s Health é de maio de 2006. Apesar de existirem no mercado diversas outras revistas voltadas ao público masculino, Men’s Health é a primeira que aborda temas que se relacionam diretamente com o conteúdo das revistas femininas, marcando uma nova etapa na construção do ideal de masculino e feminino.”

“Para as mulheres, o cuidado com o corpo antecede a exigência de um bom desempenho sexual e de se afirmar por meio dele. Para os homens, o desempenho estético do corpo é que é mais recente. Ambas as publicações reforçam e dão mais ênfase aos elementos menos consolidados nesse ideal de masculinidade hegemônica e de feminilidade enfatizada, o que explica por que em Nova o sexo é o tema mais recorrente e em Men’s Health é o cuidado com o corpo.” “Enquanto em Nova o tom autoritário prevalece, em Men’s Health ele é muito mais fraternal. A revista se propondo, como define no site e em vários de seus editoriais, a ser um mentor disposto a liberar todo o potencial do leitor.” “A ansiedade preenche o espaço entre a imagem vista no espelho e na capa da revista, e ela é um excelente motivador, pois as respostas (aparentes) para as inseguranças dos leitores também estão impressas nas mesmas revistas.”

Repetitio ad infinitum!

“Não é na depressão que devemos pensar aqui, mas na afanise, no ascetismo, na anorexia de viver. É este o verdadeiro sentido de Além do princípio do prazer. A metáfora do retorno à matéria inanimada é mais forte que se pensa, pois esta petrificação do Eu visa a anestesia e a inércia na morte psíquica. É apenas uma aporia, mas é uma que permite compreender o objetivo e o sentido do narcisismo de morte” Green

“o homem enfermo retira suas catexias libidinais de volta para seu próprio ego, e as põe para fora novamente quando se recupera.” Freud – A História do Movimento Psicanalítico

“o narcisismo primário estaria do lado deste aquém do recalcamento, do lado de um mundo não-ordenado, ilimitado, onde o Eu se confundiria com o cosmo de onde decorre sua qualificação ego-cósmica. Ora, como dissemos, a característica do narcisismo primário absoluto é a procura de um nível zero da excitação.” Stephen Hawking e o Bilhete de Suicídio do Universo (Alergia a Nozes)

“A inveja do objeto alcança seu ápice quando se supõe que este goza sem conflito. O pênis narcisista projetado (não importa qual sexo) é aquele que pode gozar sem inibição, sem culpa e sem vergonha.” Green

“Green faz o retrato de Narciso e é quase impossível separá-lo dos olimpianos de Morin.”

Torna-te quem tu és? Conhece-te a ti mesmo? Que nada: sê feliz! “Ontologicamente, o modelo da capa é a representação da realização de todos os desejos e do fim de todas as angústias, o que para as revistas se resume em pilares de posse e de consumo. Isso representa, na verdade, o instinto de morte, é Tânatos sendo produzido em escala industrial. Vende-se a solução para angústias e necessidades ontológicas, impossíveis, portanto, de serem solucionadas. A indústria cultural faz isso em essência, mudando apenas as máscaras que a encobrem. É esta a sua metafísica: é a salvação que está em jogo, que é prometida, mas ela não precisa mais esperar a morte para redimir seus crentes. Ela se encontra aqui na Terra, em valores individuais, precários e transitórios. Mas a redenção só existe para quem acredita que precisa ser redimido – e é por isso que o mal-estar exerce um papel tão fundamental na construção desses modelos de comportamento.”

“Surge a repulsa do próprio corpo e do próprio ser. O próximo passo seria a esperança.”

Algumas citações são repercutidas 2, 3 vezes. No total, temos 220 páginas. Custa tão barato iludir e tornar-se um mestre?