APOLOGIA DE SÓCRATES – atualizado e ampliado

Conteúdo original em https://seclusao.art.blog/2017/12/08/apologia-de-socrates/ (08/12/17) – Foram acrescentados novos trechos e editadas algumas das traduções de 2 anos atrás.

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for do tradutor Azcárate ou da editora Ana Pérez Vega, um (*) antecederá as aspas.

(*) “Os últimos acusadores de Sócrates foram Anito, que morreu posteriormente apedrejado no Ponto, Lícon, que sustentou a acusação, e Meleto.”

esta é a primeira vez na minha vida que compareço perante um tribunal de justiça, apesar de contar mais de 70 anos. (…) muitos acusadores (…) disseram-vos que há um certo Sócrates, homem sábio que indaga o que se passa nos céus e nas entranhas da terra e que sabe converter uma doutrina má em boa. (…) Por outra parte, estes acusadores são em grande número, e faz muito tempo que estão metidos nesta trama. (…) o mais injusto é que não me é permitido conhecer nem nomear meus acusadores, à exceção de um certo autor de comédias.”

Remontemos, pois, à primeira causa da acusação, sobre a que fui tão desacreditado e que deu a Meleto segurança para me arrastar a este tribunal.”

E nem é porque não considere louvável o poder instruir os homens, como fazem Górgias de Leôncio(*), Pródico de Céos(**) e Hípias de Élide(***). Estes grandes personagens têm o maravilhoso talento, aonde quer que vão, de persuadir os jovens a se unir a eles e abandonar seus concidadãos, quando poderiam estes ser seus mestres sem custar-lhes um óbolo [centavo].

(*) Górgias de Leontinos ou de Leontini [atual Sicília] (em grego, Γοργίας) (circa 485a.C.-circa 380a.C): filósofo do período antropológico da Filosofia grega.

(**) Pródico de Céos (Pródikos; circa 465(50?)a.C.-circa 395a.C.) foi um filósofo grego, que formou parte da primeira geração de sofistas. Nasceu no povoado de Yulis, na ilha egéia de Céos (uma das Cíclades, no mar Egeu).

(***) Hípias de Élide, sofista grego das primeiras gerações, nasceu aproximadamente em meados do século V a.C. e ademais foi um jovem contemporâneo de Protágoras e Sócrates. A maior fonte de conhecimento sobre ele é Platão. Aparece nos diálogos platônicos (Hípias menor e Hípias maior), além de (de forma breve) no Protágoras.”

Cálias III, filho de Hipônico [sogro de Alcibíades, neto de Cálias II], homem que gasta mais com os sofistas que todos os cidadãos juntos”

(*) “Querefonte, segundo Platão, era um cidadão ateniense que perguntou ao oráculo de Delfos se havia alguém mais sábio do que Sócrates, e a Pitonisa contestou-lhe que não havia nenhum grego mais sábio que este.”

ele não mente, a divindade não pode mentir.”

Pode muito bem suceder, que nem ele nem eu saibamos nada do que é belo e do que é bom; mas há esta diferença, que ele crê sabê-lo por mais que nada saiba, e eu, não sabendo nada, admito não saber. Me parece, pois, que nisto eu, ainda que por pouco, era mais sábio, porque não cria saber o que de fato não sabia. (…) fui em busca de outros, conhecendo bem que me fazia odioso, e fazendo-me violência, porque temia os resultados; mas me parecia que devia, sem duvidar, preferir a voz de deus a todas as coisas, e para topar com o verdadeiro sentido do oráculo, ir de porta em porta pelas casas de todos aqueles que gozavam de grande reputação (…) todos aqueles que passavam por ser os mais sábios me pareceram que não eram, ao passo que todos aqueles que não gozavam desta mesma opinião se achavam, em verdade, muito mais próximos de sê-lo.”

Depois destes grandes homens de Estado, fui então aos poetas, tantos aos tragediógrafos quanto aos ditirâmbicos, fora outros, em nada duvidando de que com eles finalmente seria pego no pulo, i.e., descoberto como mais ignorante que eles. Com esse intuito, examinei suas obras, as mais famosas e bem-escritas, e perguntei-lhes o que queriam dizer aqui e ali, e qual era seu objetivo, para que isso me instruísse. (…) Não houve um só de todos os poetas vivos que houvesse abordado que soubesse dizer ou dar razão de seus próprios poemas. Aprendi então que não é a sabedoria que guia os poetas, mas certos movimentos da natureza e um entusiasmo semelhante ao dos profetas e adivinhos; que todos dizem coisas muito boas, sem compreender nada do que dizem. Convenci-me então da presunção dos poetas, que se julgavam os mais sábios num sem-número de matérias. Deixei-os, pois, persuadido de que até eu era superior a eles, pela mesma razão que eu era superior aos políticos.”

Era melhor para mim ser como sou. Desta singela conclusão, atenienses, nasceu contra mim todo o ódio e inimizade que se me dedicam, capaz de produzir todas as calúnias que conheceis, fazendo-me adquirir esta fama injusta de homem sábio.”

Parece-me, atenienses, que somente Deus é o verdadeiro sábio, e que isto quisera dizer por intermédio de seu oráculo, deixando transparecer que toda a sabedoria humana não é grande coisa ou, por melhor dizer, que não é nada; e se o oráculo nomeou a Sócrates, sem dúvida valeu-se de meu nome como um exemplo, e como se dissesse a todos os homens: <O mais sábio de entre vós é aquele que reconhece, como Sócrates, que sua sabedoria nada é>.”

Isto tanto me preocupa que não tenho tempo para me dedicar ao serviço da república nem ao cuidado de meus assuntos pessoais, e vivo numa grande pobreza em virtude deste culto que rendo a deus. Por outro lado, muitos jovens das mais abastadas famílias, em meio a seu tempo ocioso, a mim se juntam de bom grado, e nisso sentem tanto prazer que acabam emulando meu método, e saem por aí questionando os homens auto-intitulados sábios, pondo-os à prova. E não duvideis de que acabam encontrando boa colheita, porque há muitos desses homens vãos pela cidade: tão confiantes quanto são ignorantes.

Todos aqueles que os jovens convencem de que não passam em realidade de uns ignorantes acabam por se voltar contra mim e não contra os próprios jovens, e espalha-se esse rumor de que há um tal Sócrates, malvado e infame, corruptor da juventude; quando se lhes pergunta o que faz Sócrates ou o que ensina Sócrates, não têm o que dizer, e para dissimular a debilidade de sua acusação e a vacuidade de seu argumento soltam estes impropérios de sempre dirigidos aos filósofos, coisa trivial, vós o sabeis. Alegam que Sócrates indaga o que é que se passa nos céus e nas entranhas da terra, que além disso não crê nos deuses, que explica as causas más como sendo boas. E toda essa celeuma só porque não se atrevem a dizer a verdade: que o único que faz Sócrates é pegar esses pseudo-sábios no pulo, descobrindo seu segredo (eles nada sabem).”

Meleto representa os poetas, Anito os políticos e artistas e Lícon os oradores.”

ACUSAÇÃO FORMAL: “Sócrates é réu, porque corrompe os jovens, porque não crê nos deuses do Estado, e porque no lugar destes deuses estabelece novas divindades que chama de demônios ou espíritos ou gênios.”

SÓCRATES – (…) já que encontraste quem corrompe os jovens desta cidade, e já o denunciaste aos magistrados, é necessário que digas quem fará dos jovens pessoas melhores. Fala, vejamos de quem se trata!… Vês, Meleto? Calaste-te. Estás perplexo, não atinas com que responder. Não te parece isto vergonhoso? Não é a prova cabal de que jamais te preocupaste com a educação da juventude? Mas repito, meu excelente Meleto: quem é aquele que pode melhorar os jovens?

MELETO – As leis.

SÓCRATES – Meleto, sabes que não foi esta minha pergunta. Eu te pergunto quem é o homem; porque é evidente que a primeira coisa que este homem deve conhecer são as leis.

MELETO – São, Sócrates, os magistrados aqui reunidos.

SÓCRATES – Como, Meleto?! Estes magistrados ou juízes são capazes de instruir os jovens e fazer deles pessoas melhores?

MELETO – Sim, Sócrates, certamente.

SÓCRATES – Mas são todos estes juízes, ou há entre eles uns que são capazes e outros que não?

MELETO – Todos igualmente.

SOCRATES – Hm, perfeitamente. Por Hera! De um só golpe deste a Atenas um número enorme de bons preceptores! Mas sigamos adiante, Meleto. Estes ouvintes que nos escutam, o júri, podem eles, também, fazer dos jovens melhores, ou não?

MELETO – Podem.

SÓCRATES – E os senadores?

MELETO – O mesmo digo dos senadores.

SÓCRATES – Mas, querido Meleto, todos aqueles que vêm à assembléia do povo corrompem igualmente os jovens ou são capazes de melhorá-los?

MELETO – São todos capazes.

SÓCRATES – Segue-se daí que todos os atenienses podem fazer os jovens melhores, menos eu; só eu os corrompo, não é assim, Meleto?

MELETO – Sim, Sócrates.

SÓCRATES – Ó, sou mesmo um desgraçado! Mas continua a responder-me. Parece-te que sucederá o mesmo com os cavalos? Podem todos os homens aperfeiçoá-los, e é possível que somente um indivíduo possua a capacidade de arruiná-los? (…) Há um só bom domador ou há alguns bons domadores? E o restante dos homens, que não são domadores, será que pioram os cavalos? Não seria assim com todos os animais? Ó, sem dúvida! Anito e tu já conviestes nisto! Porque seria extremamente raro e vantajoso para a juventude que um só houvera capaz de corrompê-la, enquanto todos os demais instruem-na e a conduzem no bom caminho. Mas tu provaste com sobras, Meleto, que a educação da juventude não é coisa que tenha tirado teu sono um só dia, e teus discursos evidenciam com clareza absoluta que tu jamais te ocupaste desta matéria que motiva tua perseguição contra mim.”

SÓCRATES – Existirá alguém que prefira receber dano daqueles com quem trata a tirar vantagem? Responde, porque a lei manda que me respondas neste tribunal. Há alguém em seu juízo perfeito que prefira ser piorado que melhorado, Meleto?

MELETO – Não, não há.

SÓCRATES – Mas então, vejamos: quando me acusas de corromper a juventude e torná-la pior, sustentas que faço-o deliberadamente ou sem querer?

MELETO – Sabes o que fazes, Sócrates.

SÓCRATES – Tu és jovem, eu um ancião. É possível que tua sabedoria seja assim tão superior a minha, que sabendo tu que o contato com os maus causa o mal, e o contato com os bons causa o bem, suponhas-me tão ignorante que não saiba que, se converto aqueles que me rodeiam em maus, exponho-me a receber o mesmo mal em paga? Supões que eu, apesar desta simples consequência lógica, insista e persista no mal, e isso por livre e espontânea vontade, conhecedor dos meus atos? (…) Um de dois: ou eu não corrompo os jovens, ou, corrompendo-os, fá-lo sem saber e contra minha vontade, e de qualquer maneira que seja tu és um caluniador. Se corrompo a juventude a despeito de minhas intenções, a lei não permite que se cite alguém que não pode responder pelos próprios atos no tribunal. Não é culpado aquele que erra involuntariamente; só pode ser réu aquele que peca porque quer. O procedimento nestes casos seria chamar-me e repreender-me, instruindo-me no jeito correto de fazer as coisas. É certo que, se me ensinam aquilo que não sei, não mais errarei. Mas tu, com propósito, e longe de preocupar-te em educar-me, arrastas-me a este tribunal, onde o objetivo da lei é castigar as ofensas, jamais o mero repreender ou prevenir faltas voluntárias.

SÓCRATES – (…) explica-te se me acusas de ensinar que há muitos deuses (e neste caso, se creio que há deuses, não sou ateu, e falta a matéria para que seja eu culpado), ou se estes deuses não são do Estado. (…) Ou bem me acusas de que não admito nenhum deus, e que ensino os demais a que não reconheçam nenhum?

MELETO – Acuso-te de não reconhecer nenhum deus.

SÓCRATES – Oh, maravilhoso Meleto!, por que dizes isso? O quê!! Eu não creio como os demais homens que o sol e a lua são deuses?!

MELETO – Não, por Zeus! Ateniense Sócrates, tu não crês nisto, porque afirmas que o sol é uma pedra e a lua um pedaço de terra.

SÓCRATES – Mas tu estás acusando Anaxágoras em meu lugar, querido Meleto? Creio que menosprezes estes juízes, subestimando sua inteligência, ao pensar que eles ignorem que os livros de Anaxágoras de Clazômenas estão repletos de asserções deste tipo. E que necessidade teriam os jovens de aprender comigo coisas que poderiam aprender no teatro mesmo, por um dracma quando muito?

SÓCRATES – Meleto, tu dizes coisas verdadeiramente incríveis. Nem mesmo te pões de acordo contigo! Me parece, caros atenienses, que este Meleto é um insolente, que forjou esta acusação com o único intuito de insultar-me, com toda a audácia de um imberbe, porque, justamente, só veio ao tribunal a fim de testar-me e propor um enigma, dizendo-se a si próprio: Vejamos se Sócrates, este homem que se passa por tão sábio, reconhece que me contradigo e que digo coisas absurdas, ou se consigo enganá-lo, não só a ele como a todos os presentes! Efetivamente, contradizes-te em tua acusação, porque é como se tu dissesses: Sócrates é réu; primeiro, porque não reconhece deuses; segundo, porque os reconhece! Não seria isto mangar dos outros? Pelo menos eu creio que sim. Atenienses, suplico-vos que não vos irriteis comigo, se falo de forma tão simplória. Responde mais isto, Meleto. Há alguém no mundo que crê na existências de coisas humanas mas não na existência de homens?… Juízes, mandai que ele responda, e que deixe de murmurar tanto!… Há quem acredite haver regras para domar cavalos, e que não haja cavalos? Que há tocadores de flauta e que não há som de flauta? (…) há alguém que ao mesmo tempo creia nas coisas dos demônios, e que, no entanto, creia que não há demônios?

MELETO – Não, sem dúvida.

SÓCRATES – Que trabalho custou-me arrancar-te esta confissão! Respondeste-me, mas não sem que os magistrados a isso te obrigassem!”

SÓCRATES – E estes demônios, não estamos convencidos de que são deuses ou filhos de deuses? É assim, sim ou não?

MELETO – Sim.”

…E se os demônios são filhos dos deuses, filhos bastardos, que seja, pois o que dizem é que são filhos de deuses com ninfas ou de deuses com homens quaisquer, diz-me, quem é o homem capaz de crer que há filhos de deuses, mas que não há deuses? Seria como acreditar que há mulas e jegues mas que não há cavalos nem asnos!”

Talvez alguém objete: Não tens remorso, Sócrates, de te haveres consagrado a um estudo que te põe neste momento em risco de morte?

Meu filho, se vingares a morte de Pátroclo, teu amigo, matando a Heitor, tu morrerás, porque tua morte deve seguir à de Heitor.”

É uma verdade constante, atenienses, que todo homem que escolheu um posto que tenha crido honroso, ou que foi-lhe imposto por seus superiores, deve se manter firme, e não deve temer nem a morte, nem o que há de mais terrível, antecipando-se a todo o horror.

Conduzir-me-ia de uma maneira singular e estranha, atenienses, se depois de ter guardado fielmente todos os postos a que me destinaram nossos generais em Potidéia, em Anfípolis e em Délio(*) [não confundir com Delos] e de ter arriscado minha vida tantas vezes, agora que o deus me ordenou passar meus dias no estudo da filosofia, estudando-me a mim mesmo e estudando os demais, abandonasse este posto por medo da morte ou de qualquer outro perigo. (…) Porque temer a morte, atenienses, não é outra coisa senão se crer sábio sem o ser, e crer conhecer o que não se conhece. Com efeito, ninguém conhece a morte, nem sabe se é o maior dos bens para o homem.

(*) Sócrates se distinguiu por seu valor nos dois primeiros lugares, e na batalha de Délio salvou as vidas de Xenofonte e Alcibíades, seus discípulos.”

Se me dissésseis: Sócrates, em nada estimamos a acusação de Anito, e te declaramos absolvido; mas só à condição de que cessarás de filosofar e de fazer tuas indagações de costume; e se reincidires, e se se chegar a descobri-lo, tu morrerás. Se me désseis a liberdade sob estas condições, responder-vos-ia sem hesitar: Atenienses, respeito-vos e amo-vos; mas obedecerei a deus antes que a vós, e enquanto eu viver não cessarei de filosofar, dando-vos sempre conselhos, retomando minha vida ordinária, e dizendo a cada um de vós quando vos encontrasse: – Bom homem, como, sendo ateniense e cidadão da maior cidade do mundo por sua sabedoria e por seu valor, como é que não te envergonhas de não haveres pensado senão em amontoar riquezas?

Toda minha ocupação se resume em trabalhar para persuadir-vos, jovens e velhos, de que antes do cuidado com o corpo e com as riquezas, antes de qualquer outro cuidado, vem o da alma e seu aperfeiçoamento”

Fazei o que pede Anito, ou não o façais; dai-me a liberdade, ou não ma deis; eu não posso fazer outra coisa, ainda que houvesse de morrer mil vezes… Mas não murmureis, atenienses, e concedei-me a graça que vos pedi ao princípio: escutai-me com calma. Calma que creio não resultar infrutífera; fato é que tenho de dizer-vos outras muitas coisas que, quiçá, far-vos-ão murmurar. Mas não vos deixeis levar pela paixão. Estai persuadidos de que se me fizerdes morrer com base no que acabo de declarar-vos, o mal não será só para mim. Com efeito, nem Anito nem Meleto podem causar-me mal algum, porque o mal nada pode contra o homem de bem. Far-me-ão condenarem-me à morte, é certo, ou quiçá ao desterro, ou à perda dos meus bens e dos meus direitos de cidadão”

condenar-me seria ofender o deus e desconhecer a dádiva que vos foi regalada. Morto eu, atenienses, não encontraríeis facilmente outro cidadão que o deus conceda a esta cidade – sim, sei que esta comparação vos soará ridícula e prepotente –, como se diz de um corcel nobre e generoso, porém entorpecido por sua nobreza, e que tem necessidade da espora, de ser excitado, constrangido e despertado para o bom comportamento. Figura-se-me que sou realmente aquele que deus escolheu para excitar os atenienses e retificá-los, atiçá-los, fustigá-los, espetá-los, cuidar de vós, numa só palavra, jamais abandonar-vos, nem um só instante!”

Que resultará disso, amigos? Passareis o resto da vida dormentes, profundamente insensíveis, a menos que o deus tenha compaixão de vós e vos envie um outro homem que se pareça comigo. (…) Há um quê de sobre-humano no fato de eu ter abandonado durante tantos anos meus próprios interesses a fim de me consagrar aos vossos, dirigindo-me a cada qual de vós, como se fôra um pai ou um irmão mais velho, como só um destes poderia fazer… exortando-vos sem descanso a que praticásseis a virtude.”

ZARATUSTRA II (OU ZARATUSTRA ZERO): “Talvez pareça absurdo que eu me tenha intrometido a dar lições a cada um em particular, e que jamais me tenha atrevido a me apresentar em vossas assembléias, para dar meus conselhos à pátria. Quem mo impediu, atenienses, foi este demônio familiar, esta voz divina de que tantas vezes vos falei, e que serviu a Meleto para formar admiravelmente um capítulo da acusação. (…) Essa voz é a que sempre se me opôs, quando quis mesclar-me nos negócios da república”

É preciso, de toda necessidade, que aquele que quiser combater pela justiça, por pouco que queira viver, seja tão-somente um simples particular e não um homem público.”

é impossível que eu deixe de ser vítima da injustiça.”

Já sabeis, atenienses, que nunca desempenhei nenhuma magistratura, e que fui tão-somente senador. A tribo de Antioquia, à qual pertenço, ocupava seu turno no Pritaneu quando, contra toda a lei, vos empenhastes em processar um dos dez generais que não haviam enterrado os corpos dos cidadãos mortos no combate naval das Arginusas; injustiça, reconheceis hoje, porque arrependestes-vos.¹ Fui eu o único senador que se atreveu a opor-se a vós a fim de impedir a violação das leis. Protestei contra vosso decreto, e apesar dos oradores que estavam prestes a denunciar-me, apesar de vossas ameaças e vitupérios, preferi correr este perigo ao lado da lei e da justiça que consentir convosco em tão insigne iniqüidade, sem que me impedissem nem os grilhões nem a morte.

Isto se deu quando a cidade era governada pelo povo, porém já depois que se estabeleceu a oligarquia (decadência dos costumes): havendo-nos mandado os Trinta tiranos que outros quatro e eu fôramos a Tholos(*) para um assunto, comunicaram-nos uma ordem: prender Léon de Salamina para a execução. Os Trinta davam este tipo de comando à toa, a muitas pessoas, a fim de comprometer o maior número de cidadãos o possível em seus crimes e calamidades. (…) Mas vede: todo o poder destes Trinta tiranos, por maior que fôra, não me intimidou. Não foi o bastante para turvar meu juízo ou fazer-me desobedecer à lei justa.

Assim que saímos de Tholos, dirigiram-se os outros 4 a Salamina, e mataram León. Eu voltei a minha casa. Não duvideis de que minha morte teria sido ordenada em muito pouco tempo caso naquele momento mesmo não tivesse sido abolido tal governo. Existe um grande número de cidadãos capazes de testemunhar a meu favor.

Credes que eu haveria de viver tantos anos se me mesclara ainda mais do que nestas ocasiões nos negócios da república? Se, como homem de bem, houvera combatido toda e qualquer classe de interesse bastardo, dedicando-me exclusivamente à defesa da suprema justiça? Esperança vã, atenienses! Nem eu nem nenhum outro houvera podido fazê-lo. Mas a única coisa a que me propusera em toda minha vida pública e privada foi jamais ceder ante a injustiça, jamais ceder aos tiranos que meus caluniadores querem agora convencer-vos de que são meus discípulos! (…) como meu ofício não é mercenário, não me recuso a discursar, ainda que sem a menor das retribuições; e estou sempre disposto, seja com ricos ou com pobres, a dedicar todo o tempo àquele cidadão que queira me fazer perguntas, e, se o prefere, a fazer-lhe eu mesmo as perguntas que ele queira responder, ou as que ele deseja que eu pergunte de todo o coração. E se, dentre estes que questionei, há alguns que se tornaram homens de bem ou pícaros, nem por isso devo ser exaltado ou censurado. Porque não sou eu a causa. Nunca prometi ensinar coisa alguma a ninguém.

¹ Atenas, além de ter vencido a batalha de Arginusa contra Esparta, não tinha como enterrar soldados mortos como náufragos, cujos cadáveres afundaram em alto-mar!

(*) “Sala de despacho dos Pritaneus, prítanes ou senadores – P.A. / Vestígios dessa câmara, uma sala redonda, foram escavados por arqueólogos em tempos recentes. – A.P.V.”

Como já vos disse, foi o deus mesmo quem me deu esta ordem, através dos oráculos, sonhos e outros meios de que se vale a divindade quando quer que os homens saibam qual é a sua vontade.”

Não desejo contar com a proteção dos que ‘corrompi’, porque poderiam ter razões para defender-me com unhas e dentes; mas seus pais, que não seduzi e que têm já certa idade, que outra razão podem ter para querer me proteger, senão minha inocência?”

tenho parentes e tenho três filhos, dos quais o maior está na adolescência e os outros dois na infância, e no entanto, não os farei comparecer aqui para vos comprometer a absolver-me.”

muitos que vi, que passavam por grandes personagens, agiam com uma baixeza surpreendente quando se tornavam réus de um julgamento, como que persuadidos de que seria para eles um grande mal se lhes arrancassem a vida, e de que se tornariam imortais caso viesse a sonhada absolvição. Repito que, obrando assim, só poderiam cometer uma afronta a Atenas, pois fariam com que os estrangeiros cressem que os mais virtuosos dentre nós, os favoritos e os mais dignos de louvor, em nada se diferenciavam, no fundo, de mulherzinhas miseráveis. Isso é o que não deveis absolutamente fazer, atenienses, vós que houvestes alcançado tanto renome. Se quiséramos fazê-lo, nós, grandes personagens, estais obrigados, vós magistrados, a impedir-nos, e declarar que condenareis ainda mais depressa àquele que recorrer a estas cenas trágicas para mover os juízes por compaixão, ridicularizando nossa polis. Aquele que esperar tranqüilamente vossa sentença, com efeito, demorará mais a morrer.”

* * *

não esperava ver-me condenado por tão escasso número de votos.”

(*) “A lei permitia ao acusado condenar-se a uma destas três penas: prisão perpétua, multa ou desterro. Sócrates não caiu nesta armadilha.”

Dito isto, de que sou eu merecedor? De um grande bem, sem dúvida, atenienses, se é que recompensais verdadeiramente o mérito. E que é que convém a um homem pobre, vosso benfeitor, e que tem necessidade de uma grande concessão e tolerância a fim de se ocupar exclusivamente em exortar-vos? Nada convém-lhe tanto, atenienses, quanto ser alimentado no Pritaneu, o que é-lhe muito mais devido que àqueles dentre vós que ganharam as corridas de charrete nos jogos olímpicos; porque estes, com suas vitórias, fazem que pareçamos mais felizes; eu, eu os faço, não em aparência, mas verdadeiramente, mais felizes. Acresce que os atletas de renome não carecem deste tipo de socorro – o sustento alheio –; por outro lado, eu dele necessito.”

Se tivésseis uma lei que ordenasse que um julgamento de morte durasse muitos dias, como se pratica noutras partes, estou convencido de que vos convenceria de minha inocência. Mas como hei de destruir tantas calúnias num espaço de tempo tão curto? Tenho a mais absoluta certeza que nada fiz de mal a ninguém. Como hei de fazê-lo a mim mesmo, pois, confessando que mereço ser castigado, impondo-me a mim mesmo uma pena? Por não ter de sofrer necessariamente o suplício a que me condena Metelo, suplício que, verdadeiramente, não sei se é um bem ou um mal, iria eu optar, em detrimento da pena capital, por uma dessas penas ditas ‘menores’, que tenho certeza que são realmente males? Condenar-me-ei eu, inocente, a alguma delas? Seria cabível uma prisão perpétua? E que significa viver, sendo eterno escravo dos Onze?(*) Será justo o confinamento até que pague eu a multa estipulada? Isto equivale à pena de prisão perpétua, pois que não tenho com que pagar a multa. Condenar-me-ei ao desterro? Era preciso que eu fosse obcecado pelo ‘estar vivo’, queridos atenienses, se não percebesse que, se vós, meus concidadãos, não mais suporteis meus hábitos e conversações nem minhas máximas, havendo-vos irritado a ponto de levar vosso ódio e repulsa às últimas conseqüências, com muito mais razão os homens de outros países não poderiam em absoluto suportar-me! Preciosa vida para Sócrates, se a esta idade, expulso de Atenas, se visse errante de cidade em cidade como um vagabundo e como um proscrito! Sei muito bem que, aonde quer que eu vá, os jovens me escutarão, como me escutam os de Atenas; mas se os rechaço eis que rogarão a seus pais que me desterrem; e, se não os rechaço, eis que seus próprios pais e parentes, sem nenhum rogo, se apressarão em arrojar-me da cidade ainda mais depressa!

(*) “O número de magistrados encarregados de vigiar as prisões.”

O quê, Sócrates, se fores banido não poderás manter-te em repouso e guardar silêncio? (…) se vos digo que calar no meu exílio seria o mesmo que desobedecer a Deus, e que por esta razão me é impossível guardar silêncio, não me creríeis, decerto, e entenderíeis isto como ironia!

uma vida sem avaliação moral não é vida”

Verdadeiramente, se fosse eu rico, condenar-me-ia a uma multa tal que pudesse pagá-la, porque isto não me causaria nenhum prejuízo; mas não posso, porque nada tenho, a menos que queirais que a multa seja proporcional a minha indigência, e neste particular poderia ela se estender no máximo a uma mina de prata, pois é a isto que me condeno.”

(Havendo-se Sócrates condenado a si mesmo à multa por obedecer à lei, os juízes deliberaram e o condenaram à morte…)”

E para agravar vossa vergonhosa situação, sabeis que os estrangeiros me chamarão sábio, ainda que eu não o seja! No lugar deste gravame para vós, poderíeis muito bem ter agido com mais paciência, pois minha morte adviria naturalmente. Alcançaríeis da mesma forma vosso objetivo, pois vede: na idade em que estou, já não disto muito da morte.”

Não são as palavras, atenienses, aquilo que me faltara; é a impudência de não vos haver dito aquilo que gostaríeis de ouvir. Teria sido para vós uma grande satisfação o haver-me visto lamentar, suspirar, chorar, suplicar e cometer todas as demais baixezas que estais vendo todos os dias dentre outros acusados.”

Sucede amiúde nos combates que pode-se salvar a própria vida com muita facilidade, depondo as armas e pedindo asilo e clemência ao inimigo, e o mesmo sucede em todos os demais perigos; há mil expedientes utilizáveis para evitar a morte. Quando alguém está em liberdade para escolher suas ações ou seu discurso, é realmente fácil. Ah, atenienses! Não é evitar a morte que é difícil, mas evitar a desonra, que se aproxima muito mais ligeira que a morte!

Ó vós, que me houvestes condenado à morte! Quero predizer-vos o que vos sucederá, porque me vejo naqueles instantes, quando a morte se aproxima, em que os homens são capazes de profetizar o futuro. Vo-lo anuncio: vós que me matais agora, vosso castigo não tardará, quando eu houver finalmente morrido, e será, por Zeus!, mais cruel que o castigo que me impusestes! Ao desfazer-vos de mim, só houvestes tentado em vão descarregar-vos do importuno peso da prestação de contas de vossa existência, mas vos sucederá tudo ao contrário, vo-lo predigo!”

se credes que basta matar alguém para impedir que outros vos denunciem e joguem na cara que viveis pessimamente, vos enganais de forma terrível. Esta maneira de libertar-vos de vossos censores não é decente nem sequer possível. A melhor maneira, ao mesmo tempo decente e muito simples, é, no lugar de calar os homens, fazer-vos pessoas melhores.”

Com respeito a vós que me absolvestes com vossos votos, ó, atenienses! Conversarei convosco com o maior prazer, no intervalo de tempo entre meu encarceramento e os preparativos dos Onze. Concedei-me, suplico-vos, um momento só de atenção, nesta oportunidade, pois nada impedirá que conversemos juntos; haverá tempo de sobra. Quero dizer-vos, como amigos que sois, antes disso, só uma coisa que acaba de suceder-me, e explicar-vos o que significa. Sim, meus juízes (e, chamando-vos desta maneira, não me engano no nome!), sucedeu-me hoje uma coisa muito maravilhosa. A voz divina de meu demônio familiar que me fazia advertências tantas vezes, e que às menores ocasiões não deixava jamais de separar-me de todo o mal que possivelmente viesse a empreender, hoje, que me sucede o que vós vedes, e que a maior parte dos homens tem pelo mal supremo, esta voz não me disse nada, nem esta manhã, enquanto saía de casa, nem quando cheguei ao tribunal, nem após começar a discursar a vós. E todavia muitas vezes me sucedeu ser interrompido em meio a minhas conversações por esta ‘voz’! Hoje a nada meu gênio interior se opôs, em nenhum momento de minha fala ou de minhas ações. Que quer dizer isso? Vou dizê-lo! São fortes indícios de que o que me sucedeu é um grande bem”

É preciso que de duas uma: ou que a morte seja um aniquilamento absoluto e uma privação de todo sentido, ou, como se diz, que seja um trânsito da alma de uma paragem para outra. Se é a privação de todo sentido, um sono pacífico que não é turvado por nenhum sonho, que maior vantagem poderia apresentar a morte? (…) Se a morte é semelhante coisa, chamo-a com razão de um bem; porque então o tempo todo inteiro não é mais que uma longa noite.

Mas se a morte é um trânsito de um lugar para outro, e se, segundo se diz, lá embaixo está o paradeiro de todos os que um dia viveram, que maior bem, outrossim, é possível imaginar, ó meus juízes? Porque se, ao deixar os juízes prevaricadores deste mundo, encontramos no Hades os verdadeiros juízes, que se diz que fazem, ali sim, justiça, Minos, Radamanto, Éaco, Triptólemo e todos os demais semideuses que foram justos em vida, não é esta a mudança mais feliz que há? A que preço não compraríeis a felicidade de conversar com Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero? (…) Que transporte de alegria não teria eu assim que me encontrasse com Palamedes, com Ájax, filho de Telamon, e com todos os demais heróis da antiguidade, que foram vítimas da injustiça? Que prazer o poder comparar minhas aventuras com as suas! Mas ainda seria um prazer infinitamente maior para mim passar ali os dias, interrogando e examinando e avaliando todos estes personagens, para distinguir os verdadeiramente sábios dos que apenas crêem sê-lo e não o são (os torpes). Há alguém, juízes meus, que não daria tudo aquilo que possui neste mundo para poder examinar em pessoa aquele que conduziu um vasto exército contra Tróia? Ou Ulisses, ou Sísifo, ou tantos outros, homens, mulheres, cuja conversação e avaliação moral seriam de um júbilo inexprimível? De fato é uma recompensa que não traz qualquer prejuízo! Ali entraríamos em contato com os mais felizes e os únicos que gozam de fato da imortalidade, se havemos de crer no que diz o vulgo.”

Eis, em suma, por que a voz divina nada me dissera neste dia. Não guardo nenhum rancor contra meus acusadores, nem contra os que me condenaram. (…) Um favor, apenas, peço-vos: Quando meus filhos houverem crescido, suplico-vos que os fustigai, os atormentai, como eu vos atormentei, no caso de que eles prefiram as riquezas à virtude, e de que se creiam algo quando nada são! Não deixeis de vexá-los bastante, se eles deixarem de se aplicar naquilo em que devem se aplicar, imaginando que são aquilo que não são!

Mas já é tempo de que nos retiremos daqui, eu para morrer, vós para viverdes. Entre vós e eu, quem leva a melhor parte? Isto é o que ninguém sabe, exceto Deus.”

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(Pseudo?) CARTAS I & II. Platão a Dionísio, Sabedoria. (2) / Critérios da presente edição (palavras da editora das Obras Completas Mobi/EPub)

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for do tradutor Azcárate ou da editora Ana Pérez Vega, um (*) antecederá as aspas.

Recorda sempre o mau comportamento que tiveste comigo, para que te conduzas melhor com os demais.”

* * *

A natureza quer que a sabedoria e o poder soberano se reúnam, e assim é que se seguem um ao outro, buscam-se e terminam por amalgamar-se.”

Costuma-se celebrar juntos os pares Periandro de Corinto e Tales de Mileto; Péricles e Anaxágoras; ou mesmo trios, como Creso da Lídia, Sólon e Ciro. Os poetas, seguindo este costume, mesclam em seus cantos Creonte e Tirésias, Polinides e Minos, Agamemnon e Nestor, Ulisses e Palamedes, e, se não me engano, os homens nenhuma outra razão tiveram para unir Zeus e Prometeu. Cantam seus heróis, apresentando-no-los seja em relação de amizade, seja em relação arquetípica de inimizade, quando não como seres em perfeita simbiose de amor e ódio (amigos num ponto e adversários em outro).”

É nosso dever preocuparmo-nos com o porvir, porque a natureza quisera que só ao escravo fosse o futuro indiferente, enquanto que o homem livre e bem-nascido deve fazer os maiores esforços para deixar à posteridade uma reputação sem mácula. Isto me demonstra que os mortos conservam algum sentimento de tudo que fizeram e sofreram em vida, subsistindo sua herança e seu legado na terra; as almas boas o pressentem, as más teimam em negá-lo.”

Que coisa há de mais santa e piedosa que proteger a filosofia? E que coisa mais impiedosa que desprezá-la?”

Cheguei à Sicília gozando a reputação de ser o maior filósofo desta era (…) Não era coisa rara sujeitos que espalhavam aos quatro ventos que tu desdenhavas meus conselhos, e que eram outros cuidados os que te ocupavam; vê que era esse, pelo menos, o juízo público siciliano.”

Se desprezas completamente a filosofia, não há mais que falar; se aprendeste outra ou se tu mesmo descobriste uma melhor que a minha, que seja bem-vinda; mas, se estás satisfeito com as minhas lições, preciso é que me faças a justiça que me é devida; Hoje, como dantes, marcha adiante; eu seguirei teus passos. Honrado por ti, eu te honrarei; privado das honras que me são devidas, guardarei silêncio. Pensa bem nisso; honrando-me a mim honras à filosofia, e obterás, sozinho na vasta multidão, a reputação de filósofo, que é o objeto de tua ambição. Mas se, pelo contrário, eu te honrasse apesar de teu desvario, passaria eu por homem que só ama e busca as riquezas, e já sabemos quão odiosa é semelhante qualificação. Em suma, se tu me honrares, isto será uma glória para ti e para mim; e se eu te honrasse sem ser honrado, seria uma vergonha para ambos.”

tu não estás contente com as razões que eu expusera sobre a natureza do primeiro ser. (…) A alma humana deseja com ardor penetrar estes mistérios, e para chegar a consegui-lo examina tudo aquilo que se parece com ela, mas não encontra absolutamente nada que a satisfaça. Quanto ao rei e ao demais de que eu falara, nada há que se lhes pareça. O que vem abaixo, isto está ao alcance da alma.

Como responder, ó, filho de Dionísio e Dóris!, tua pergunta, qual é a causa do mal em geral? A alma se atormenta com sua ignorância, e enquanto não se vê livre desta ignorância não encontra meios de chegar à verdade. No entanto, um dia, em que passeávamos pelos teus jardins à sombra dos lauréis, disseste-me tu que havias resolvido este problema sem o auxílio de ninguém.”

Fizeste mui bem em enviar-me Arquidemo. Quando ele voltar com minhas respostas a tuas perguntas, surgirão, quiçá, novas dúvidas em teu espírito. Então me reenvia teus questionamentos, e na volta do navio de Arquidemo terás de novo amplas explicações. Se obrigas Arquidemo a empreender esta viagem de ida e volta por duas ou três vezes, e se examinas com cuidado aquilo que eu te comunicar, muito me surpreenderá se tuas dúvidas não se virem substituídas pelas mais claras e corretas noções. Ânimo, pois! e ajusta tua conduta conforme meus preceitos.”

Esta doutrina é preciso que medites muitas e muitas vezes, estudando-a sem cessar. Porque, como o ouro, não se purifica senão depois de muitos anos e grandes trabalhos. Mas escuta o que há nisto de admirável: há homens, demasiados em número, gente de entendimento, inclusive, dotados de boa memória e de juízo seguro e penetrante, avançados em idade e conhecedores desta doutrina há pelo menos 30 anos – estes homens mesmo são os primeiros a confessar que aquilo que noutros tempos lhes parecia incrível e absurdo, é-lhes hoje muito mais digno de fé; e aquilo que lhes parecia indubitável e absoluto já não possui nenhuma credibilidade a seus olhos. Levando isto em conta, não percas a paciência nem te desgostes se até agora não tiveres feito qualquer progresso notável em tuas indagações. Evita sobretudo escrever tuas reflexões, porque é preciso exercitar a memória; e o papel em que fazes apontamentos pode desaparecer. Por esta razão, nunca escrevi nada: não há nem haverá jamais obras de Platão! [!!!] As que se me atribuem são de Sócrates, de quando era bem moço. Adeus, atende meus conselhos; e depois que tiveres lido e relido esta carta, arroja-a ao fogo!

* * *

(*) “Respeitamos em todo o possível a valiosa tradução original de Patrício de Azcárate, apegada ao grego, conquanto influenciada pela tradução latina de Cristoforo Landino e ainda a francesa, de Victor Cousin. Apenas corrigimos imprecisões e arcaísmos do original. Modernizamos também a transcrição de nomes próprios, etc. As notas, salvo quando se indicam expressamente as iniciais P.A., são desta editora. –Ana Pérez Vega

(Pseudo?) CARTA VII. Platão aos parentes e amigos de Díon, Sabedoria.

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

(*) “As epístolas atribuídas a Platão que nos legou a tradição são 18, conquanto 5 delas (as de nº XIV a XVIII) são tão explicitamente falsas que a maioria dos editores nem sequer se dá ao trabalho de publicá-las. O resto permanece questão indecidida, pelo menos desde o Renascimento. Durante a segunda metade do século XIX operou-se uma grande revolução em historiografia da Grécia Antiga, colocando-se em claro vários aspectos da época; de modo geral, detalhes das cartas que se julgavam inexatos ou forjados passaram a ser dignos de crédito. Na questão estilística, a opinião também está mais favorável que antes para uma autêntica autoria de Platão, principalmente quanto à carta sétima. Em estilometria – determinação da coerência interna de um texto com ajuda da estatística –, quanto maior for o fragmento textual, mais fiável costuma ser o juízo. Ainda é perfeitamente possível que todas as cartas, sem excetuar uma só, sejam obras de discípulos de Platão, para fins publicitários (divulgar a Academia). Seja como for, algumas cartas são discrepantes entre si, o que certamente significa que uma ou outra são fabricações, avaliando por eliminação. Isso é especialmente verdadeiro para as oito cartas que tratam sobre a política de Siracusa. (…) Ao mesmo tempo, não se pode negar o fato de que a existência desta tradição de cartas platônicas, ainda que todas fossem apócrifas, remete eventualmente a cartas mais antigas que podem ter perecido fisicamente, mas que teriam sido a fonte bibliográfica deste conteúdo remanescente ou restaurado (por discípulos, hipoteticamente). Se fôssemos eleger a carta autêntica mais provável, seria sem dúvida a de nº VII.”

Se realmente participais das idéias e projetos de Díon, podeis contar comigo; do contrário, tenho necessidade de meditar bastante a respeito. Quais eram essas idéias e projetos?”

Como havia Díon chegado a formar este projeto? É matéria digna de conhecimento, por jovens e idosos indistintamente, e referir-vos-ei desde seu princípio, uma vez que as presentes circunstâncias tornam todo este enredo muito oportuno.

Sendo eu jovem, incorri nos mesmos erros em que incorre a maioria dos jovens. Me lisonjeava a idéia de que o dia que chegasse a ser dono de minhas próprias ações deveria ser o dia da minha entrada na política.”

Os Trinta tomaram o poder soberano. Alguns de meus parentes e amigos eram deste número, e comigo contaram para o desempenho de funções que criam convir a mim e ser-lhes de auxílio. O que então me aconteceu nada tem de estranho, se se tem em conta minha juventude. Julgava que estes homens governariam o Estado, fazendo Atenas sair das vias da injustiça e reingressar nas da justiça. Jamais perdi de vista os protagonistas deste período e suas ações, portanto. Não demorou muito para tudo revirar de ponta-cabeça a partir da tomada de poder dos Trinta. Em contraste, o período anterior, antes tão tumultuado, parecia, agora, uma idade de ouro! Entre outros descalabros, mandaram Sócrates, meu velho amigo Sócrates, a quem não temo proclamar o mais justo dos homens vivos daquela geração, se juntar a alguns outros que deveriam se apoderar pela violência de um cidadão que os Trinta haviam condenado à morte, obsequiando, desta maneira, que Sócrates se fizesse cúmplice deste crime, quisera ele ou não. Mas Sócrates não obedeceu à ordem, preferindo expor-se a todos os perigos a associar-se com esta gente. Tendo este cenário diante dos olhos, afastei-me da coisa pública, indignado, antes que virasse testemunha de maiores desgraças.

Pouco tempo se passou até a queda dos Trinta tiranos, e juntamente com eles a das instituições neste tempo estabelecidas. Ainda que com menos vivacidade, quando veio a paz, despertou-se em mim de novo o desejo de mesclar-me nos negócios da administração. Mas nesta época, como aliás em todo tempo de revolução, ocorreram coisas deploráveis; e não se estranha que, em meio às desordens, o espírito partidário conduzisse a vinganças cruentas. E, no entanto, é preciso confessar que os emigrados restituídos ao país demonstraram, majoritariamente, muita moderação. Eis que, não sei por que nova fatalidade, alguns homens maus se valeram de alguma reputação que tinham para levar Sócrates aos tribunais, acusando-o e caluniando-o com a autoria dos mais horrendos crimes, justamente aqueles de que era menos capaz. Acusaram-no, em suma, de impiedade, e os cidadãos de Atenas condenaram-no, condenaram um homem que se havia negado a tomar parte nos desmandos dos Trinta, e os Trinta, repatriados em sua maioria, e seus amigos o condenaram sem remorso, ele que se negara a coadunar com a sentença de morte de um dos amigos daqueles, por ser sentença viciada, estando estes mesmos amigos do réu exilados e cobertos de desgraça, à época! Considerei estes crimes; considerei os homens que governavam agora, as leis e os costumes regentes, e quanto mais envelhecia, mais impossível me parecia dar aos negócios da praça pública boa direção.”

terminei por concluir que todos os Estados deste tempo estão mal-governados. Suas leis são corrompidas em tal grau que estes governos só subsistem por uma casualidade feliz. Vi-me obrigado a confessar a mim mesmo, em tributo à verdadeira filosofia, que só ela podia distinguir o justo no tocante aos indivíduos e aos povos, e que os males dos homens não teriam fim enquanto verdadeiros filósofos não estivessem à cabeça dos Estados, ou enquanto aqueles que se acham no poder nas cidades não fossem, por graça dos deuses, verdadeiramente filósofos.

Tais foram as reflexões que me levaram à Itália e à Sicília pela primeira vez. À minha chegada, vi, ainda que desgostoso, a vida que se leva ali, e que ousam denominar feliz; os perpétuos festins sicilianos e siracusanos,¹ aqueles dois banquetes suntuosos diários, aquelas noites sempre passadas em bandos, e todos os prazeres análogos. Educado desde a infância em meio a estes costumes tão corrompidos, haverá um só homem sob o céu, admiráveis que sejam suas disposições naturais, que possa fazer-se sábio? Há uma só alma que se possa formar em temperança e dotada das demais virtudes? Há um só Estado que possa encontrar a paz e a estabilidade nas leis, quando seus cidadãos se imaginam dever prodigar loucamente o ouro e a prata, e quando se crê que o melhor que se pode fazer é saborear os prazeres da mesa e levar aos extremos os caprichos do amor? Necessariamente, semelhantes Estados hão de passar por todas as formas de governo, a tirania, a oligarquia, a democracia, sem repouso ou trégua, não podendo os que exercem o poder suportar nem mesmo ouvir os nomes <justiça> e <igualdade>. Eu tinha todas estas idéias presentes ao espírito enquanto percorria Siracusa. Seria talvez obra do azar, mas me parecia que nestes instantes a mão de um deus se ocupava em arrojar as sementes do que depois sucedeu a Díon e aos siracusanos, e do que ainda sucederá a vós mesmos, temo, em caso de que não sigais os conselhos que dou pela segunda vez.”

¹ Siracusa era a capital da Sicília.

seria agora ou nunca a ocasião de eu ver homens que ao mesmo tempo professassem a filosofia e governassem poderosos Estados. (…) Jamais deixei de ter bastantes reservas quanto aos humores e paixões dos jovens, pois nada há de mais inconstante. Lançam-se muitas vezes de um extremo a outro – embora neste caso a gravidade natural e a experiência de Díon me deixassem otimista.”

Se não houvera adotado este partido, tenho certeza que me considerariam o mais magnífico dos charlatães, aquele que se entretém com vãos discursos, mas que nunca age.”

Obedeci aos motivos mais justos e dignos que me mandavam partir, renunciando ao mais estimável dos gêneros de vida para ir viver sob um governo tirânico, que não parecia convir nem a meus princípios nem a minha pessoa. Mas, partindo, deixava Zeus Hospitaleiro satisfeito, assim como a filosofia, em cujas maldições teria incorrido, se me desonrara a ponto de ceder à covardia e ao temor das coisas.”

Dionísio sabia que andávamos em guarda; temeu que nossa excessiva precaução nos levasse a alguma iniciativa atrevida, e por isso nos tratou com benevolência; exortou a mim, animou-me e suplicou-me que permanecesse sempre perto de si. Neste cenário, se fugia, injuriava Dionísio; se permanecia, honrava-o. E nesse raciocínio fundavam-se suas próprias súplicas, que ele fingidamente me dirigia. Sabemos que as súplicas dos tiranos equivalem a ordens. Dionísio soube, desta feita, fazer de minha fuga algo impossível, fazendo com que eu me deixasse conduzir à cidadela, onde deu-me uma habitação que sabia ser bem-vigiada, para que nenhum capitão de navio que embarcasse no porto vindo de fora pudesse buscar-me às escondidas. A verdade é que tudo que entrasse e saísse por aquele porto dependia exclusivamente de ordens formais do tirano. Não havia um só funcionário, dos encarregados de vigiar os embarques, que não se apressaria ao palácio de Dionísio para contar-lhe as novas caso me visse tentando escapar; com efeito, seria estranha tal reação, haja vista que segundo as aparências trabalhadas por Dionísio, ele e eu vivíamos em concórdia, e ele fazia questão de dissimular que <Platão gozava de muito prestígio na côrte>, o que só aumentaria a estranheza de uma saída minha à revelia. Quanto a tais impressões, imagem compartilhada pelo populacho, o que tinham elas de fundamentadas? Dir-vos-ei. Dionísio se deixava seduzir mais e mais pelo encanto de nossas conversas e pela dignidade de minha conduta; queria que eu passara a considerá-lo mais que a Díon, dispensando-lhe mais estima que a este; para lográ-lo não media esforços. Devo dizer que ele, porém, desprezou o meio mais seguro ao alcance, se de algum podia se valer, i.e., a única maneira de exercer real atração sobre mim: aplicando-se e estudando verdadeiramente a filosofia, apropriando-se da sabedoria que tanto procurava em palavras, e unindo-se assim mais estreitamente a mim como fazem aprendiz e mestre; mas Dionísio temia, como diziam os vilões caluniadores que o rodeavam, se deixar comprometer nesse projeto, vendo assim se realizarem, em vez disso, os intentos de seu rival Díon. Eu armei-me de paciência e prossegui com a execução do plano que me havia feito desembarcar em Siracusa, esforçando-me o quanto pude a fim de inspirar em Dionísio o amor à vida filosófica.”

Se um homem está doente e observa um regime funesto à saúde, o médico que for consultado deve começar por prescrever novos hábitos; se o doente obedece, deve o médico continuar lhe dando assistência; mas se o paciente resiste aos seus conselhos, o dever de um bom e verdadeiro médico, digno de quem exerce a medicina, é se retirar, pois aquele que insistisse em tratar um tal homem recalcitrante seria tido, com razão, como despudorado e ignorante.”

Poderia eu impor meus ditames a um escravo, decerto, mas a um pai, a uma mãe? Não se lhes coíbe de ser livres sem incorrer em impiedade, a não ser que estivessem dementes. Se vivem uma vida conforme o próprio gosto e que me desagrade, que farei eu? Não é meu papel estragar a convivência e o respeito mútuo com repreensões inúteis, muito menos permanecer ao lado de tais pessoas todo o tempo, adulando e anuindo complacentemente com seus vícios. Se eles cultivam hábitos a que eu não me consagraria em hipótese alguma, o mais que posso fazer é distanciar-me em indiferença. Eis, em escala reduzida, a conduta que deve ter o sábio perante o Estado: quando vê que a polis é mal-governada, ele deve se manifestar, caso seus conselhos sejam úteis e seu prêmio não seja a morte; mas não tem o direito de fazer violência à pátria a fim de realizar uma revolução política, quando tal revolução só for alcançável mediante matanças e desterros. Seu dever, nesta hipótese, é permanecer quieto, fazendo votos aos deuses pela felicidade de seu país.”

não há prova mais evidente de vício ou de virtude que ter ou não ter a seu redor amigos dignos de confiança.”

toda vez que se cogita responsabilizar os atenienses por este assassinato abominável, é minha obrigação defendê-los. Também era um ateniense, afirmo à viva voz, aquele que se negara a trair Díon a despeito das honras e riquezas que o esperavam caso assentira. E isto foi porque a amizade que os unia não era mera mercadoria, objeto venal, mas sim fundada na comunhão de estudos liberais, que é a única que merece a confiança do sábio, porque esta confiança campeia por cima dos laços de carinho e de sangue. Os assassinos de Díon não podem lançar esta mancha sobre toda uma cidade, afinal nada que emana de gente tão vil e desprezível tem tanto poder.”

um, que rechaçou meus conselhos, vive atualmente em opróbrio; o outro, que os seguiu como ninguém, morreu coberto de honras. Sim, porque àquele que só almeja para si e para sua pátria o que há de melhor nada pode suceder que não seja justo e bom. Ninguém dentre nós é naturalmente imortal, e o que o fôra não seria por isso mais feliz, em contrário à opinião do vulgo.”

A ignorância, raiz e tronco de todos os males, produz os frutos mais amargos; ela é a que pela segunda vez transtornou nossas reformas. Mas agora usemos apenas de boas palavras, para que bons augúrios nos favoreçam nesta terceira tentativa.” “Se algum dentre vós é incapaz de viver à maneira dórica dos antepassados; se está apegado aos mesmos costumes dos assassinos de Díon, os costumes sicilianos, guardai-vos de chamar este alguém para tomar parte no governo”

Não temais nada por parte de Atenas; ali também há homens que sobressaem por sua virtude e que detestam os criminosos que assassinaram seu próprio benfeitor.”

É preciso que o partido vencedor, se quer se sustentar, escolha em seu próprio seio os que lhe pareçam os melhores, em idade provecta, e que possuam domicílio, mulher e filhos, uma larga série de ilustres antepassados e uma fortuna conveniente. Numa cidade de 10 mil habitantes, bastam 50 cidadãos com estas qualidades. É preciso atraí-los à base de súplicas e honras, e instá-los, sob juramento, a ditarem leis que estabeleçam uma igualdade perfeita entre os cidadãos sem favorecer mais aos vencedores que aos vencidos. Estabelecidas estas leis, vede do que tudo o mais depende. Se os vencedores se submetem às leis com mais gosto que os próprios vencidos, tanto melhor: estão assegurados o bem-estar e a felicidade; todos os males desaparecerão como que por encanto; de modo que não há a mínima necessidade de chamar-me a mim ou a alguém em absoluto ou em específico para tomar parte no governo, se este mesmo governo faz-se surdo aos bons conselhos. Difere este projeto que ditei bem pouco daquele que concebêramos Díon e eu, movidos por nosso zelo, para Siracusa, e que não era senão o segundo projeto desta ordem. O primeiro consistia em conseguir do próprio Dionísio que governasse para todos os cidadãos. Mas a sorte, mais poderosa que os homens, a isso se opôs. Procurai levar as reformas a termos melhores, com a permissão da fortuna e o auxílio dos deuses. (…) Quanto a minha segunda viagem, vou provar a quem queira ler até o final que fui obrigado pela razão e aconselhado pela prudência. (…) Fiz o quanto pude ante Dionísio para que me deixara partir, e convimos nisso: que quando se fizesse a paz – porque naquele momento a guerra devastava a Sicília – e quando se houvesse afiançado seu poder, Dionísio chamar-nos-ia a ambos, Díon e eu, em sua presença. Mas, até a chegada deste dia, queria que Díon considerasse seu afastamento da pátria não como um desterro, mas como mera viagem. Eu dei minha palavra a Dionísio que voltaria sob estas condições. E, chegada a paz, Dionísio voltou a chamar-me, mas em <súplicas> de que eu fosse primeiro, e que Díon se juntasse a nós dois somente mais tarde, dilatando sua volta por mais um ano (…) Díon mesmo me escreveu rogando a que eu me dirigisse à Sicília sem ele. Corriam rumores de que Dionísio se encontrava cegamente apaixonado pela filosofia. Díon acreditava nas notícias, e alegava que eu não devia titubear e que embarcasse o quanto antes. Não ignorava eu que os jovens às vezes se sentem impelidos pela filosofia; no entanto, cri mais seguro nem aceder às instâncias de Díon nem às de Dionísio. Nisso desagradei a ambos – respondi suas cartas dizendo que já era muito velho para essas viagens e que, ademais, Dionísio faltava com a palavra, pois que o combinado fôra que Díon voltasse imediatamente e se reunisse conosco. Enquanto isso, Arquitas viajou por sua vez a Siracusa e se encontrou com Dionísio. Antes de minha partida quando lá estive a primeira vez, facilitei-lhe o trânsito, deste e de outros filósofos tarentinos, pela côrte. Sem falar que também se encontravam em Siracusa outros que haviam estado presentes nos discursos de Díon, gente mais ou menos versada em matérias filosóficas. (…) Dionísio não era incapaz de entender estes assuntos, sendo dotado de um imenso amor-próprio; comprazia-se muito com esse tipo de discussões, mas temia, por outro lado, acabar por perceber ou deixar que outros percebessem que ele próprio não havia penetrado fundo o bastante nas lições que eu dera; esse temor o inspirou a conhecer mais distintamente a minha filosofia, inflamando mais e mais sua ambição.”

Voltando a me convidar, já pela terceira vez, Dionísio enviou-me um navio para tornar a viagem mais cômoda, bem como colocou na nave Arquidemo, um siciliano a quem Dionísio sabia que eu muito estimava, e com ele outros sicilianos ainda, todos figuras importantes. Todos se dirigiram a mim do mesmo modo, dizendo que o interesse que Dionísio tomara pela filosofia era uma coisa admirável. Não só isso, mas Dionísio enviou-me uma carta muito longa, insistindo em minha forte ligação com Díon, e no quanto este último mesmo desejava meu traslado imediato a Siracusa.”

Se te deixas convencer e vens à Sicília, os negócios de Díon serão resolvidos a teu contento. O que me pedires haverá de ser razoável e to concederei. Mas se resistes, Platão, nada espera de favorável, nem quanto à integridade de Díon nem quanto a seus bens.”

Eu mesmo achava apenas natural que um jovem dotado de belas disposições, depois de haver rechaçado, ao princípio, a filosofia, a ela acabasse por se voltar. Eu devia, portanto, esclarecer suas verdadeiras intenções, e não desperdiçar aquela oportunidade de encontrar um jovem rei que possivelmente se inclinasse à sabedoria para governar; nem me permitiam as circunstâncias que eu me acovardasse, o que mereceria as mais graves censuras de Díon, se ele estivesse correto.”

Cheguei, então, à Sicília pela terceira vez, protegido por Zeus Salvador. Porque se eu salvei minha vida, é sem dúvida a este deus que o devo, assim como ao próprio Dionísio. Quando muitos na côrte queriam minha cabeça, o tirano a isso se opôs, e me tratou sempre com certo respeito.”

Alguns estão persuadidos de que sabem quanto há que saber, e que não necessitam saber um grão a mais. Eis a prova mais clara e mais certa para julgar os homens entregues à preguiça e incapazes de se dedicar ao trabalho árduo.”

Não sucede com esta ciência (a filosofia) o mesmo que com as demais, porque não se transmite pela palavra. Depois de repetidas conversas, depois de muitos dias passados em mútuas meditações acerca destes problemas, é que esta ciência surge, de repente, como a faísca que emana do fogo ardente, e se apresenta como alimento à alma.”

estou convencido de que não é conveniente mostrar estas coisas aos homens; só aos poucos capazes de descobrir estas coisas por si mesmos depois de rápidas alusões. Quanto à multidão, nada mais far-se-ia que inspirar em uns – os tontos – um injusto desprezo por estas coisas; e em outros – aqueles que se crêem em posse dos mais sublimes conhecimentos – soberba, vaidade e presunção.”

Em todo ser a ciência tem necessidade de 3 coisas elementares, que dão azo a 2 resultados, que chamaremos de mais 2 coisas, uma quarta e uma quinta. Começando pelo fim, a quarta coisa é a ciência em si. A quinta é a verdade. A primeira das 3 coisas que a ciência requer? O nome. A segunda? A definição. A terceira? A imagem. Com estas 3 chega-se à quarta. Tomai um objeto qualquer, a fim de compreender melhor o que eu disse; então podereis sem dúvida dizer que o mesmo princípio se aplicará a todos os demais objetos dignos de ser pensados. Seja o círculo, então, nosso objeto. Tem um nome: círculo. Tem uma definição, composta de nomes e de verbos, a saber: aquele cujos extremos estão equidistantes do centro. Tal é a definição não só de círculo, mas de esfera e circunferência. Tem uma imagem, o desenho que se traça e que se apaga, a figura que se fabrica e se destrói. Quanto ao círculo em si, ele não é nem o nome, nem a definição e nem a imagem. Ele é essencialmente diferente de tudo que dissemos. O que se chama ciência, ou conhecimento, é a opinião correta quanto ao círculo. Vede que todas as 5 coisas, ao final, estão interligadas, e formam, se se quiser, uma unidade. Esta unidade não reside nem na linguagem nem na figura do corpo (matéria), mas está impressa na própria alma, o que prova que este novo elemento é de outra natureza que todos os fenômenos, ou seja, que o próprio círculo <formal> ou <real> e que as três coisas de que ele é externamente composto (nome, definição, figura). Pois agora, se acrescentamos a ciência ou conhecimento ou inteligência, a quarta coisa, às três precedentes, vemos que a inteligência é a que tem mais parecença e semelhança em relação à quinta coisa, a verdade. As demais encontram-se infinitamente distantes. O mesmo se aplica às figuras retilíneas ou esféricas, às cores, ao bem, ao belo, ao justo, aos corpos fabricados pela mão do homem ou produzidos pela natureza, o fogo, a água e seus análogos, a toda espécie de animais e aos diversos modos de ser das almas, às ações e paixões de todos os gêneros. Sem as 4 primeiras coisas, não se chega à quinta. O homem não aspira menos a compreender as qualidades das coisas do que a compreender sua própria essência, mesmo que nossa razão pareça insuficiente para tamanha proeza. Pois bem: essa impotência da razão será sempre um obstáculo para que um homem perspicaz e talentoso ordene seus pensamentos em sistema, em sistema imutável, como sucede quando está escrito e fixado com caracteres permanentes. (…)

Cada um dos círculos desenhados ou fabricados, de que nos servimos na prática, está cheio de contradições com o quinto elemento (a verdade), porque em todas as suas partes se encontram a linha reta, quando o círculo verdadeiro não pode ter em si mesmo, nem em pequena nem em grande quantidade, nada que seja contrário a sua natureza. O nome com que designamos estas coisas não tem, tampouco, fixidez nenhuma, e nada impede de se chamar reto ao que chamamos de esférico, nem de chamar esférico ao que chamamos reto, e uma vez feita essa inversão de sentido estranha ao uso habitual o novo nome não seria menos fixo que o primeiro. O mesmo sucede com a definição; composta de nomes e verbos que não são fixos, como poderia sê-lo ela mesma? Há mil provas da incerteza de nossos 4 primeiros elementos, mas a maior está na distinção que acabo de enunciar entre essência e qualidade. Quando a alma tenta conhecer não a qualidade, mas a essência, somente cada um de nossos 4 elementos é que se apresenta, tanto nos raciocínios quanto nas coisas (círculos, rodas, conceitos, palavras como virtude ou política), contradições sensíveis quanto ao que se diz e ao que se mostra; portanto, o espírito de todo homem se entrega a mil dúvidas e mil obscuridades. Esta é a razão porque, nas coisas em que não temos o costume de buscar a verdade, devido a nossa má educação, e nas coisas que nos contentamos em definir como verdadeiras à primeira vista, sem mais reflexão, em nenhum desses casos nos ocorre de considerarmo-nos uns aos outros ridículos, quando assim procedemos, porque podemos sempre discutir e refutar estes quatro princípios. Mas nas coisas em que exigimos rapidamente, e impreterivelmente, o quinto elemento, e que se o demonstre, aquele que sabe refutar os demais não necessita mais que empregar sua arte a fim de vencer aos olhos dos outros, e impressionar quantos ouvintes houver, fazendo-os crer que não sabem absolutamente nada das coisas sobre as quais põem-se rotineiramente a discursar e escrever. E nesse engodo caem todos, porque se ignora muitas vezes que não é o espírito do escritor ou do orador aquilo que se refuta, mas o vício inerente aos 4 princípios. Recorrendo com a razão todos esses elementos, e examinando de um extremo a outro cada um deles, mal se pode chegar à ciência, e isto quando as coisas estão excelentemente dispostas e o próprio espírito do sujeito bem-preparado. Aqueles que não têm uma predisposição natural para as ciências e a virtude, e são muitos os que se encontram neste triste estado, não poderiam ver ainda que tivessem os olhos de Linceu. Em uma palavra, sem afinidade com o objeto que se pretende conhecer, nem a inteligência nem a memória são coisa alguma, porque nada se colhe de um terreno estéril. De sorte que nem aqueles que não têm afinidade natural para o justo e para o belo – ainda que dotados de inteligência e memória –, nem os que têm essa afinidade – mas que se encontram despidos de inteligência e memória –, chegam a conhecer toda a verdade que se pode conhecer no que toca ao vício e à virtude.”

Por tudo isso é que um homem sério que estuda coisas sérias se guardará sempre de escrever para a massa, a fim de não atrair a inveja e outros mil desgostos desnecessários. Donde concluímos, ao encontrarmos um livro de um legislador que comenta as leis, p.ex., que o autor jamais fala a sério, ainda que seja um homem demasiado sério, porque deixou reservada para si mesmo a melhor parte daquilo que tinha a dizer. Se ele realmente tivesse depositado num escrito seus mais graves pensamentos, nada mais restaria a dizer. Não, não são os deuses senão os homens mesmos os que privaram-no da razão!”

Não há risco de se perder estas verdades íntimas, uma vez que o ânimo as compreendeu muito bem; não há coisa que se compreenda mais depressa.”

Me parecia dever acusar não tanto a Dionísio como a mim próprio, e aqueles que me haviam comprometido a cruzar pela terceira vez o estreito de Cila, e de arrostar-me outra vez com a fatal Caribde.”

Não pude persuadir Díon e os seus, e sua obstinação foi a causa de todas as desgraças que sobrevieram; desgraças que não haveriam tido lugar, tanto quanto se pode dizer dos negócios humanos, se Dionísio houvera devolvido a Díon sua fortuna ou, ainda melhor, se se houvera reconciliado com ele, porque, então, haveria eu podido facilmente, com meus conselhos e minha autoridade, conter o ímpeto de Díon.”

Aí tendes como portou-se Díon; preferindo mil vezes sofrer a injustiça que cometê-la, e esforçando-se, contudo, para livrar-se dela se possível, sucumbiu no momento em que ia triunfar sobre seus inimigos, sem que esse resultado possa nos admirar. De que é que o homem virtuoso pode se assegurar, sendo sábio e prudente em meio a malvados? Como poderia ele estar imune ao que pode suceder ao melhor dos pilotos, que, conquanto preveja a tempestade, nem por isso pode sempre fazer frente ao extraordinário furor dos ventos desencadeados tão de repente, violência que pode facilmente produzir vítimas fatais?”

Agora já sabeis os conselhos que devo dar-vos, e nada tenho que acrescentar a esta carta. Me pareceu dever explicar-vos os motivos que me obrigaram a empreender uma segunda viagem à Sicília, diante dos ruidosos e calamitosos sucessos que se deram mais tarde, e que poderiam ser considerados efeitos, enquanto que minha viagem seria a causa.”

MISCELÂNEA PSEUDO-PLATÔNICA – Da Virtude, Da Justiça, Definições & Poesias

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

DA VIRTUDE

(*) “A virtude pode, por sua natureza, ser ensinada? – Não, porque Temístocles, Aristides, Péricles, Tucídides foram incontestavelmente homens de bem, tiveram filhos que aprenderam a música, a equitação e todas as demais coisas, e, se não aprenderam a ser virtuosos, que é de mais valia que todo o precedente, é porque a virtude é impossível de se ensinar.

Será a virtude um dom da natureza, quer dizer, uma qualidade natural? – Não, porque se os homens fossem uns naturalmente bons, outros naturalmente maus, haveria uma arte para os distinguir, como há a respeito dos cavalos e dos cães, que permite conhecer quais são de boa e quais são de má condição.

Mas se a virtude não procede nem do ensino nem da natureza, donde vem? – Dos deuses. A virtude é um presente dos deuses.

DA JUSTIÇA

(*) “Este diálogo não apresenta estilo nem gosto. A sequidão da forma é como a aridez do fundo. Que daimon inspirara a Símon o Socrático a idéia de escrever diálogos para cansar tradutores, uma vez que é o que impera ao se traduzir seus textos, e cansar os leitores, na hipótese de haver algum?”

DEFINIÇÕES

(*) “Alguns aforismos possuem origem estóica ou peripatética. A maior parte pertence à sabedoria vulgar, aos cidadãos que conheciam filósofos, mas não a filosofia. (…) O estilo, sempre mediano, é algumas vezes, além disso, obscuro, até o ponto de impor ao tradutor a necessidade de inventar algum sentido.”

A fortuna é a marcha do desconhecido ao desconhecido; a causa fortuita de um sucesso independente dos homens.”

A alma é o que se move a si mesma. É a causa do movimento vital dos seres vivos.”

O poder é aquilo que produz por sua própria virtude.”

O osso é a medula condensada pelo calor.”

O elemento é o que compõe e decompõe os seres compostos.”

A virtude (…) é o hábito de observar a lei.”

A justiça (…) é o hábito de se conformar às leis.”

A piedade é a justiça perante os deuses; é o culto voluntário que a eles prestamos.”

A apatia é a qualidade de ser inacessível às paixões.”

A preguiça é o entorpecimento da parte irascível da alma.”

A fé é a persuasão fundada de que as coisas são tais como nos parecem; é a firmeza de caráter.”

A oportunidade é o instante favorável para agir ou deixar que ajam.”

A aptidão é uma feliz disposição da alma para aprender rapidamente.”

A voz é um som que sai de nossa boca para expressar nosso pensamento.”

O sofista é aquele que anda à caça de jovens ricos e distintos para tirar proveito deles.”

O depósito é o que se entrega a um terceiro com confiança.”

A dificuldade de aprender é a torpeza do espírito para o estudo.”

O despotismo é um poder irresponsável, mas justo.”

A consternação é o temor da desgraça.”

POESIAS

Astarote, há pouco

estrela da manhã,

brilhavas entre os vivos;

agora, estrela da tarde,

brilhas entre os mortos.”

A uma querida insensível.

Eu te dou esta maçã:

se me amas, recebe-ma

e me concede

tua virgindade.

Se me rechaças,

recebe a maçã também!

e vê quão passageiros são

o rubor e o a maciez de tua pele!”

Laís, que desdenhosa se riu de toda a Grécia,

sempre assediada duma multidão de varões,

Laís, consagra teu espelho a Vênus! E diz:

Porque ver-me tal como sou agora eu não quero;

e tal como era, já não posso.

Que importa que as árvores se cubram de frutos!

Os meus são para mim minha desgraça!”

Sou o companheiro das ninfas

Antes derramava o colorado vinho

Hoje derramo a água cristalina”

Dizeis que há 9 Musas!

Decerto vos enganais;

Eu sei de uma 10ª:

Safo de Lesbos.”

Afrô, minha frô

Tu não és como a escultura de Praxíteles,

nem vens de seu cinzel;

Tu és tal como na antiguidade

Era, enquanto aguardava a resposta

de Páris o Pastor.”

REVIEW OF EXISTENTIAL PSYCHOLOGY AND PSYCHIATRY – Vol. 1, n. 3 (1961)

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DIC:

to stride: cope with

MICHAEL WYSCHOGROD: Sartre, Freedom and the Unconscious

Sartre is the first major existential philosopher who formulates explicit views on existential psychoanalysis. While much of Heidegger’s work can be interpreted as an implicit critique of Freudian analysis, Sartre explicitly contrasts his views with those of Freud, thereby moving into the forefront of the discussion around existential psychoanalysis.” “faithful to the Cartesian origins of French philosophy, he places the phenomenon of consciousness in the center of his thought to a much greater extent than Heidegger.”

Where Heidegger had distinguished between the Dasein and the non-Dasein, between existentialities and categories, Sartre’s fundamental distinction is between being-in-itself and being-for-itself” Não continua sendo uma dicotomia fenômeno-essência essência-fenômeno?

Basing himself on Husserl’s notion of intentionality, Sartre finds that all consciousness is consciousness of something.”

Eu sou parte da doença do Ocidente que multiplica as páginas sem nada acrescentar de efetivo: “being-for-itself [Ser-Para-Si], which is characterized, in Sartre, by consciousness and [pseudo-]transcendence [jornada imanente do ser em perpétuo autodesvelamento, negação do afirmado e afirmação do negado, em contradição consigo próprio – condição do homem –; devir, mundo das aparências, corpo{*}], and the being-in-itself [Ser-Em-Si], characterized by ontological solidity [consistência] and non-transcendence [imanência de facto, homem enquanto coisa, noção de unidade e auto-semelhança; ser clássico, mundo dos conceitos, autossuficiência da mente{**}].”

{*} Em certo sentido, sede da liberdade, e por isso berço da ansiedade. Prisão universal do cotidiano e suas vicissitudes.

{**} Berço da indiferença glacial e do tédio. Morada do sábio desde a Grécia Antiga. Topo da pirâmide, instância “estratificada”.

O MAIOR PROBLEMA DA FILOSOFIA?

a man who judges himself to be <lazy>.”

I am lazy”

Quem acha quem lerdo? Quem é lerdo? Quem apenas sabe que alguém é lerdo?

Intelecção da lerdice.

It sucks to be me.

But too much people live only to suck.

Who sucks, sucks some-1-or-some-thing.

Died trying to suck his own.

Made a FOOL circle.

LeClerc sonhou a vida toda em ser Le Cirque.

O Homem é o cristal que falhou.

SUPREMA IRONIA: “The lazy man can, therefore, never rest in his laziness and carry it as a table carries its being-a-table or a stone its being-a-stone.”

Viajar para não mais precisar empreender a única viagem que é de precisão empreender. Empreender-o-nada (viver hoje).

Distrair-se para escapar do fado de ser-mais-que-o-colega-ao-lado…

Por mais petrificados, nunca atingiremos nem mesmo o nível reptiliano de uma tartaruga. I’m a rolling stone, but never a still stone, what a fuckin’ tragedy!

Jegement (autojulgamento)

autojjuízzo compreensivo compressive compre-sisos

ex-traindo suas convicções

e ex-pondo numa parede seus desenhos e rabiscos mais íntimos

Jazz-gernaut

the-journey-of-the-lazy-boy-in-his-way-not-to-be-a-lazy-boy-anymo-no-no-no-nomore

Faith no more

Faith not now still

o-poeta-roqueiro-divorciado

assim que me sinto

não por mim, em Absoluto!

Mas este é o abscôndito juízo dos falantes banais! Afinal o que eles falam é o que eles mais escondem-mostram por glimpses

glee-y-Ipse

i am the chasm i am all this

im bliss im fuzz im bus im light-years ahead and in no-place

A RESPIRAÇÃO

Normally, we feel that we are as incapable of choosing to commit suicide as we are of choosing to fly to the moon or of lifting the Rock of Gibraltar.”

Paulo Patrick me julga bem ou mal

Merda! Não me julgue, melhor que ser julgado santo, herói, papa, invencível, invulnerável, ídolo, modelo de ações!

o homem golfo

Guerra do Goffman

Be-avis and although but-yea

The next alternative then is that the unconscious is unconscious only in the sense that it is not known to my conscious. In and by itself, the unconscious is every bit as conscious as the conscious, the only difference being that it is unknown by the conscious and, therefore, unconscious to it.”

The man I’ll (ill) choose to be maddeningly sterile in all his to-be-attempts.

I can prove It!

Ressuscitar 2 zumbis com uma coelhinha da Playboy só

Picasso não sublimava

Habita que a carpo

Meu censor é muito sem-cor

If we are to remain with one person rather than with three, we must avoid hypostatizing the levels of consciousness to the extent that we find ourselves dealing with three persons who, while interacting, are, nevertheless, distinct.”

Steckel (1954): “Every time that I have been able to carry my investigations far enough, I have established that the crux of the psychosis was conscious.”

the more sincerity there is to begin with, the more profound and interesting the bad faith is.” A má-fé da mulher é pouco interessante.

Édipo empoderado: eu decido quais meus traumas, embora não possa decidir não ter traumas ou ter todos os traumas!

Hoje sonhei que eu tinha um Neo Geo e um Turbografx.

in a very important sense, psychology is the greatest enemy of human freedom ever invented by the mind of man. To the extent to which psychology considers itself a science in the sense in which physics and chemistry are sciences, it commits itself to searching for regularities in human thought and conduct that it can then express in the form o[‘]f[-]laws.”

Nothing prevents our conceiving a priori of a <human reality> which would not be expressed by the will to power, for which the libido would not constitute the original undifferentiated project.” J.-P.S.

HENRY ELKIN: Comment on Sartre from the Standpoint of Existential Psychotherapy

Comecei a ler O Ser e o Nada de Sartre com imensas expectativas, senão entusiasmo e fervor mesmo, dada sua visível preocupação com a estrutura do consciente. Toda a fundamentação conceitual das psicologias profundas não-existenciais¹ está viciada pela incompreensão e negligência generalizadas dessa matéria, que se liga diretamente à essência da mente ou alma humana. Porém, meu esforço o mais das vezes fútil no sentido de capturar as intrincadas sutilezas da lógica sartreana, lógica essa prolongada numa diarréia verbal de intelectualismo compulsivo, me levou repetidas vezes à exasperação. Sou gratíssimo ao Dr. Wyschogrod [autor do artigo anterior] por me apresentar a principal linha de pensamento de Sartre de modo claro e convincente. Compreendo-a como um delineamento marcadamente acurado do problema da psicologia humana, levado a cabo por uma mente brilhante e profunda, conquanto de um intelectualismo estreito. Meu objetivo neste artigo é, através de algumas observações, tornar evidente ao leitor o porquê desse meu juízo sobre Sartre, ao mesmo tempo em que enxerto um pouco de carne e sangue, se vale a metáfora, no esqueleto conceitual sartreano.”

¹ Minha primeira hipótese é que se referia especìficamente aos comportamentalistas; depois revi a nomenclatura atrelada à Psicanálise; por fim, pode ser também uma generalização de ambas as “escolas”, quando não incluir ainda outras vertentes.

At the outset, let me say that his fundamental distinction between being-for-itself and being-in-itself, although relevant to ontology, is misleading for psychology.”

how consciousness acquires its definitive elemental character. (…) this process belongs to the 2nd half of the 1st year of life, and involves what Melanie Klein calls the <depressive position> and René Spitz and others the <8th-month depression>. It is directly induced by the child’s hatred of the mother as countered by the fear to express it because of dependence on her bounties. This is the universal situation of original choice

Onde termina o Nadir começa o Rafael.

Depending on the strength of this ego, the child will choose daringly to express his hatred along with his peremptory desires. At some variable point, however, he will inevitably meet with failure in this heroic course. Insofar as the mother then fails intuitively to understand her child and respond with keen sympathy to his discomfiture, the communion between them is broken; and to that extent, the child, prey to stifled fear and hatred, and unrequited need for love, falls into depression.”

O PRIMEIRO MEGAZORD, MANIPULADO PELA CHAVE DE LOKI, O TRICKSTER ORIGINAL: “This original submission to physical power, which is the prototype of moral infirmity, proves, however, to have an inverse yet prodigious spiritual power: it transforms the physically all-powerful mother into an amiable puppet. Thus the child becomes aware of his seductive charm whose veiled power, moreover, allows for the release of his suppressed hatred in safe disguise. And so arises what I’ve called the autistic ego (or part of the ego) which is founded on fear and hatred, and functions by hidden cunning, artifice, and guile.” Guile tongue. Lânguida linguagem maternal.

The child then inevitably projects his own conscious diabolism on the mother (where it generally befits her own unconscious variety). Hence her endearments especially provoke in him acute paranoid anxiety.” O carinho e o afeto da mamãe gera no bebê cada vez mais consciencioso ansiedade paranóide aguda.

O ideal é converter (o) isso em ansiedade esquizóide crônica – ainda melhor que a opção do tédio – na idade adulta…

TRAGIC COLLATERAL EFFECT/CYCLE: “O conseqüente pânico infantil tende a intensificar a proximidade e os carinhos da mãe.” “breaking point” “blissful state of collective-erotic fusion or identity with the mother. This (the social collectivization) is the psychical foundation of what Sartre calls bad faith. He speaks of it, however, as a free, conscious choice, whereas I portray it as the result of an hypnosis. [in adulthood?]”

A náusea do abismo quiçá seja a nostalgia suprema: nostalgia do ato voluntário de Adão.

A verdadeira questão dessa formação paradoxal da consciência na criança foi, no entanto, enfàticamente posta por Kierkegaard como sendo a escolha entre ser (indivíduo) ou não ser (continuar coletivo, <fusionado> à mãe).”

The choice in favor of one’s collective being, or choosing not to be oneself, perpetuates the mental, spiritual dissolution of the psyche or soul in Bad Faith.” Produção serial de aloísios.

But the choice in favor of personal freedom and integrity, or good faith, involves the great risk of fully liberating the autistic ego from its collectivized state. The danger that may ensue is shown in full degree by those unfortunate persons who are thrown wholly into personal being without choice [?] – by not having been inducted [induzido ou tentado – por Eva?!] or by being rejected or cast out from a state of collective identity.” A conseqüência seria o autismo na história do desenvolvimento do ego. “insanidade ou criminalidade”

Bá, a psicoterapia existencial é muito fraquinha! Descarta as vantagens da Psicanálise e insiste em suas maiores falhas e estereótipos.

The public images of the Hollywood stars well reflect the life of personal freedom as envisioned by modern collectivized man.”

But even when this tension brings forth creative works, the person may still remain in psychic jeopardy as witness the many creative geniuses who behaved psychopathically or succumbed to insanity.”

Bem-vinda! Eu sou o seu tarado da língua!

Não só a psicoterapia, geralmente, fracassa no tratamento do núcleo psicótico do sujeito, como ela estabelece como alvo, em sua teoria e sua técnica, esconder e trancafiar este núcleo, nem que apenas possa fazê-lo ao não atinar com – e, logo, respeitar – os seus significados encobertos. Tal terapia jamais curará o psicótico ou o psicótico borderline, o viciado ou o homossexual, fora que as curas relativamente superficiais atingíveis com pacientes neuróticos trazem consigo repercussões ambivalentes. Porque embora a sensação de liberdade deste paciente possa ter sido ampliada na esfera social, essa vida mesma ainda será fundamentalmente (ou pelo menos quase fundamentalmente) vivida com base em afetos e identificações (coletivas socialmente)” Em outras palavras: ele continuará tropeçando e se estabacando se não agir conforme o tamanho real de suas pernas… A besta continuará atrás das grades da jaula!

A filosofia existencial de Sartre parece querer implicar que talvez os problemas de socialização do indivíduo possam ser resolvidos ùnicamente pela razão e força de vontade. Eu acredito que seu paradigma reflita certas peculiaridades do povo francês.” Neurótico à francesa. Dentro do Hexágono deve ser delicioso viver. Mas e dentro do Pentagrama? Eis por que não incineramos carros.

Existem 2 países no mundo: a Europa e a América.

[/claquete]

Já podem rir.

AMERICAN WAY OF INNER PSYCHE: LOVE, PASSION & CONFORMISM

Falar Francês requer ação muscular vigorosa e coordenada, envolvendo a região da boca, os lábios, a mandíbula, o nariz e a garganta.”

Que coisa, não? Uncle Sam tem um primo distante que costuma aconselhá-lo: Do it Yourself! Lasser aller n’est pas beau, mignon!

Piadas do século XXIV: “Entram num bar: um leproso radioativo, Deus e a Má Fé…”

PSICOTERAPEUTA: Entre a sedução e a autoridade.

Técnica empírica (em fase de testes)

Conhecimento EXPERIMENTAL (aqui e agora, mano velho)

C. Whitaker and T. Malone in their Roots of Psychotherapy which, to my knowledge, offers the most thorough account of the process of psychotherapy that is consistent with the principles of existential theory (always bearing in mind the dangers that must arise when these principles and procedures are taken over by therapists with non- or anti-therapeutic personalities).” Peixotos

I have also at times found most valuable, though ancillary [auxiliares], some of the simpler physical techniques used in <bio-energetic therapy> [!] whose impressive theoretical foundation is presented in A. Lowen’s Physical Dynamics of Character Structure.” Não achei que leria isso aqui.

BERNARD BOELEN: Martin Heidegger’s approach to will, decision and responsibility

It would be truer to say that anxiety is pervaded by a particular kind of peace” H.

O SER HUMANO COMO CHAFARIZ NA ERA DA DESPEJABILIDADE TÉCNICA: “From the very beginning, however, Heidegger has emphasized that man is not authentically man, and that he does not truly dwell on earth by conquering the world, but by guarding its Being. The authentic will, according to Heidegger (1947 [Sobre o Humanismo], p. 29), is not the will of man as the <superman> but the will of man as <the shepherd of Being>.” Engraçada contradição com tudo o que nele li sobre o papel da Técnica. (E)L(U)CID(ATIVO), se assim for.

eu-uma-doença-cujo-único-d-e-feito-é-não-parar

O ESPASMO DA SIMPLICIDADE

simplesmente-é

plasmando

atos

solto

no

céu

domundo

ADRIAN VAN KAAM: Clinical implications of Heidegger’s concepts of will, decision and responsibility

psicologia psicanalítica” é um termo que devia ser abolido da história do mundo.

Existential psychology as psychology, therefore, does not deal primordially with ontological and epistemological problems which are studied in existential philosophy. The psychologist can speak only about human experience as it appears in concrete behavior and behavioral products in concrete situations; he abstains from every absolute judgment regarding the ontological reality of his object. For the psychologist can speak only about what he has observed and in so far as he has observed it.” O ruim de julgar uma classe pela sua mediana é que mesmo os melhores psicólogos (estamos falando de autores que publicam num jornal científico conceituado) não parecem ter noção do que fazem os melhores filósofos: exatamente o que eles pretendem fazer (ser empíricos). A metafísica-de-araque de um batalhão de filósofos perverte a noção que se tem do “exo-metafísico” do que é a metafísica para um metafisicista, se posso esclarecer a questão (para mim mesmo, no máximo, aparentemente) através de neologismos ou so-called.

The prime result of therapy is to enable the patient to be a spontaneous participant in life rather than a compulsive or withdrawn outsider who tries to do the impossible, that is, to take a vantage point [panorama] outside himself from which he strives to control all that transpires in his life.” “O primeiro resultado que deve aparecer na terapia existencial é capacitor o paciente a ser um participante espontâneo em sua vida [!] em vez de um alienígena retirado [idéia: uma Antropologia do Eu – utopia, logo, redundância da terapia!] ou compulsivo que tenta executar o impossível, isto é, adotar uma visão panorâmica, impessoal, a partir da qual almeja controlar tudo que transparece em sua própria vida.” Participação espontânea e original no processo meramente reprodutivo, exasperante e/ou tedioso do trabalho! Uma fórmula para o sucesso, com efeito! Sifudência ativa. E o que é mais: quem vai me ensinar isso é um estranho compartimentalizado (burocratizado), numa janelinha de tempo dele em que está pseudo-inteiro à minha disposição (digo, do meu bolso)!

Você não ouviu o seu celular tocar?!?”

Engraçado como auto-realização no nosso sentido CORRENTE (de auto-ajuda) é self-actualization. O falso cognato seria exatamente seu oposto: a suprema reificação do funcionário-padrão.

A tênue linha entre a misantropia e a neurose.

realidade sórdida

Man is always to a degree unauthentic in so far as he always has to participate to a degree in what his culture imposes.”

Whose dream is this? Whose dream am I? Whose doctorate I’m impersonating? Whose functions am I replicating? Whose sickness perpetuation I symbolize? Whose grandsons are my not-even-born-sons? Who is this alien called brother? To relieve is to repress… But never to suppress.

Man becomes willfully unauthentic, however, when he <wills> no longer [between 2009 and 2015 I was a machine nearing its own midnight/also known as termination/expiration/cancellation/human rac… lay to waste], is no longer open for the possibilities and meanings that transcend what the impersonal <one> praises as being good for him.”

Que se passem 300 anos sem que ocorra um holocausto nuclear exige a existência de uma maioria robótica. Nobreza nesse momento só aniquilaria o universo. Vivemos o tempo em que é dado ao último homem sua inautenticidade de continuar vivendo e gozando. Viver a cada dia como se fôssemos em breve apontados como coveiro e carrasco número 1 da assim chamada humanidade…

Peter Pan is a Robin Hood that steals adulthood from adults and throws them all’way… Maybe they are becoming to the fish!!

Therefore, Heidegger’s analysis is of great importance for the general theoretical psychologist who develops a comprehensive frame of reference for his science [em outros termos, a filosofia continental vai comer o cu do psicólogo curioso]. For the psychotherapist [psicólogo PROPRIAMENTE DITO], however, the Existenzerhellung, the illumination of individual existence or the study of the individuation of the common structure in single patients is crucial too.”

It is this personal immediate feel of reality that is so weak in depressed or catatonic patients. This openness or primordial will of the healthy person increases his sensitivity to the differentiated manifestation of reality within himself and his environment. The patient, on the contrary, is selectively insensitive to reality.”

When a patient in the course of treatment opens up and dares to accept and own affective manifestations of reality in himself which he had suppressed formerly, he is faced with a whole new gamut [leque] of moods and feelings.” Já que não é possível dar aula, vamos nos contentar com pequenas subidas de degrau, microvitórias – acostumar-nos a ser ‘gente’ e pegar um metrô no horário de pico serenos e tranqüilos. Natal em família ainda é coisa para veterano de guerra após 2016…

Many sessions follow during which the patient faces the new feelings which arise on the basis of his enlarged openness for his reality. His new liberated sensitivity for reality differentiates itself during the sessions in particular sentiments of joy, anger, sadness, hostility, enthusiasm, which correspond with the aspects of reality in which he is involved and engaged.”

The therapist is non-directive precisely in order to enable the patient to find himself instead of the self of the therapist.”

COMO NÃO SER UM TERRORISTA: “in the course of this process he may have to rebel temporarily against his environment in order to experience the difference between his real self and the functional self imposed by his culture.”

ZARATUSTRA TRANSCENDIDO: “But gradually he discovers that he can be reasonably social and at the same time be himself because the primordial will or human openness is embedded in collective, everyday social life but at the same time transcends everydayness. The patient in his process of self-discovery becomes aware of the fact that his fundamental human, incarnated structure subjects him to the time-space limitations of a certain contemporary society within which he has to actualize himself [autorrealizar-se] in a socially acceptable manner.”

But for the patient for whom frequently the first meeting with reality as represented by parents or other significant adults was an event that evoked more than normal anxiety, every awareness of contingency or of the possibility of non-being may arouse overwhelming anxiety.”

A FAMOSA CONSCIÊNCIA DA RESSACA ANTES DE ENCHER A CARA: “Normal anxiety makes the person realistically aware of his contingency and relative dependency. His awareness enables him to structure his life in a way that takes into account realistically this aspect of the human predicament.”

The patients who come to us in contemporary culture are frequently permeated by the positivistic and rationalistic distortions of the concept of the human will, which is considered as a positive <thing> that can control, like a super scientist or engineer, all other <things> in the person without respect for their subtle complexity.”

A vida é um whack-a-mole e, adivinha, você não está segurando um martelo…

UNDERSTANDING & ENT-IN-DIMENTO (ou IN-Tendimento ou ENTEND(I)ME(N)TO): “One can try, with scientifically neat arguments, to reason the patient into an understanding of his own predicament. But this process does not work so long as the primordial mood of the patient is not tuned in and his primordial will or openness is not awakened. As soon, however, as the patient overcomes, in the therapeutic relationship, the anxiety which inhibited his primordial will or open engagement in reality, he is more and more able to understand his reality personally and spontaneously without repression.” “There is no such thing as final self-insight or a final analysis. Therapy aims primordially at the emergence or the recreation of the primordial will, of the freedom of engagement in reality, at the fundamental readiness to face reality as it reveals itself.” “But then the time comes that the patient experiences that he dares to maintain his radical openness even without the secure, understanding presence of the therapist.”

This never finished dialogue with reality which the therapeutic relationship facilitated in the patient leads us to the third structural characteristic of the will, namely Rede, or discoursiveness.”

In a certain sense therapy is respectfully listening together. This willing openness which makes the patient listen to the multifarious manifestation of reality is at the same time a willingness to respond in differentiated actions, judgments and choices which correspond with the differentiation of reality discovered in this openness.”

When the end of therapy is near, the patient manifests more and more that he knows how to handle his situation theoretically and practically. In the beginning of therapy, the therapist may be impressed by the inadequate way in which the patient handles his life situations.”

response-ability

The split person is less and less able to respond intuitively to reality and more and more inclined to conform blindly to the collectivity.” Ou espiralar na revolta silenciosa.

He develops a quasi-autonomous collective mode of ex-sistence that is less and less in touch with his primordial will and becomes therefore organized around a secondary, unauthentic functional will.” Al*****

For instance, the outcomes of the research in psychotherapy under the auspices of Carl Rogers and Gene Gendlin at the University of Wisconsin, of John M. Butler and Laura N. Rice at the University of Chicago, and of Alice K. Wagstaff at Duquesne University do not seem to contradict these theoretical postulates.”

Falou muito mas disse quase tanto quanto o Tite numa coletiva.

MAURICE FRIEDMAN: Will, decision and responsibility in the thought of Martin Buber

The It is the eternal chrysalis, the Thou the eternal butterfly.”

The unfree person is so defined by public opinion, social status, or his neurosis that he does not respond spontaneously and openly to what meets him but only reacts.”

the belief in fate – <the abdication of man before the exuberant world of It.>”

If there were a devil it would not be one who decided against God, but one who, in eternity, came to no decision. (Buber, 1958b)”

Oh, so dual: ser diabólico na essência seria completar com sucesso o “desafio” ao Absoluto? Se sim, hesitar é o ápice. Mas se o demônio é a negatividade personalizada, o mais temível e único-que-se-deve-evitar, o Ser exige a decisão. A revolta como erro redentor. Um desafio que chega aos termos consigo próprio (despeito resolvido, leve). Mas é impossível nunca se decidir por uma ou duas eternidades…

Man becomes aware of possibility, writes Buber, <in a period of evolution which generally coincides with puberty without being tied to it.> This possibility takes the form of possible actions which threaten to submerge him in their swirling chaos. To escape from this dizzy whirl the soul either sets out upon the difficult path of bringing itself toward unity or it clutches at any object past which the vortex happens to carry it and casts its passion upon it.” “enters into a pathless maze of pseudo-decision, a <flight into delusion and ultimately into mania.>”

But when the will to affirm oneself asserts itself, man calls himself in question. For Buber’s philosophical anthropology man is the creature of possibility who needs confirmation by others and by himself in order that he may be and become the unique person that he is. Through the 2 basic movements of distancing and entering into relation man is able to recognize himself and others as independent selves between whom dialogue may again and again arise.”

When a person’s self-knowledge demands inner rejection, he either falls into a pathologically fragile and intricate relationship to himself, re-adjusts self-knowledge through that extreme effort of unification called <conversion>, or displaces his knowledge of himself by an absolute self-affirmation.”

They are recognizable, those who dominate their own self-knowledge, by the spastic pressure of the lips, the spastic tension of the muscles of the hand and the spastic tread of the foot.”

QUEDA DA MÁSCARA, DAS LUVAS E DAS BOTAS: “Estes que deram o primeiro passo [ou seja, se encontram em transição] em direção à liberdade individual, isto é, rumo à auto-afirmação incondicional, são reconhecíveis pela tensão espasmódica dos lábios, a tensão espasmódica dos músculos da mão e, igualmente, as passadas trêmulas.” Ver Náusea – “quando a mão pára de tremer”

When the man who has direction comes to a crossroads, he makes his choice with immediate decision as out of a deep command. The <orienting man> places all happening in formulas, rules, and connections; the <realizing man>, in contrast, relates each event to nothing but its own intrinsic value.” [?] Nada parece bom aqui

Freud’s sublimation takes place within man, Buber’s direction between man and man.”

Life lived in freedom is personal responsibility or it is a pathetic farce.”

PLATÃO RECUA A PROTÁGORAS: “Buber changes Kierkegaard’s category of the Single One from the <knight of faith> who lives in lonely relation with God to the man who lives in responsibility.”

As pessoas devem seguir os comuns” Heráclito

Aldous Huxley’s counsel to the use of the mescalin drug, writes Buber, is the attempt to escape from the responsibility of the essential We into a chemical paradise of situationless-ness in which one has no relation to other persons. (Buber, 1958c; cf. Buber, 1957c)”

O aconselhamento de Aldous Huxley a usar mescalina (peiote) não passa de um escapismo da responsabilidade do ‘Nós essencial’, rumo a um suposto paraíso químico zero-situacional, onde o sujeito não se relaciona com os outros.”

LESLIE H. FARBER: Will and willfulness in hysteria

Early in Freud’s career as psychoanalyst he suffered a spell of rapture in which he boasted to Fliess that he could cure every case of hysteria. (It is my impression that most psychoanalysts have passed through this phase of development, although it must be admitted a few have lingered here unconscionably long.) For Freud, at least, little time passed before he inflicted such drainage on an abscess of hysteria only to discover his patient shared neither his enthusiasm nor his optimism. In fact, after only a few weeks, she ended this treatment, never to return. His account of this therapeutic disaster contains one of the most anguished statements in the literature of psychology, a cri du coeur which must have helped him to leave his medical youth behind him.”

Her breaking off so unexpectedly, just when my hopes of a successful termination of the treatment were at their highest, and her thus bringing those hopes to nothing, this was an unmistakable act of vengeance on her part. (…) a portion of the factors that are encountered under the form of resistance remains unknown (…)”

In other words, regardless of the inventiveness and accuracy with which he and Dora have traced the origins and meanings of her disorder, there is a force in her which says No to this mutual creation. To this force he gave the name allotted it by history, namely Will. (…) But did this mean that henceforth the Will, as it has been understood by the ages, was to be excluded from his psychological considerations?”

I did not succeed in mastering the transference in good time. . . . In this way the transference took me unaware, and, because of the unknown quantity in me which reminded Dora of Herr K., she took her revenge on me as she wanted to take her revenge on him. . . . If cruel impulses and revengeful motives, which have already been used in the patient’s ordinary life for maintaining her symptoms, become transferred on to the physician during treatment, before he has had time to detach them from himself by tracing them back to their sources, then it is not to be wondered at if the patient’s condition is unaffected by his therapeutic efforts.”

However, tracing … cruel impulses and revengeful motives … back to their sources is not quite the same as considering the psychology of will itself.”

I was further anxious to show that sexuality … provides the motive power for every single symptom, and for every single manifestation of a symptom. The symptoms of the disease are nothing else than the patient’s sexual activity”

A motive cannot explain an act; the act ultimately must be judged in its own terms.”

TEIMOSIA HISTÉRICA

My thesis is that hysteria is a particular disorder of will whose principal expression is willfulness. By willfulness I do not mean mere intentionality or determination, which are older definitions of the term. I am using here the dictionary’s more contemporary definition, namely <governed by will, without yielding to reason; obstinate; perverse; stubborn; as a willful man or horse.>‘”

Má fé: ações e palavras cada vez mais distanciadas.

RETRATO DO SENIL SR. MEU “PAI”: “And with distension of will which is relatively unrelieved, intellect is bound to suffer. I mean, of course, intellect in the large sense, including not only will’s usual adversary, which is reason, but also imagination, humor, discretion, judgment.”

Com a recalcitrância que cada vez surte menos efeitos socialmente (os fracassos reais seriam pesados demais para a consciência suportar), o mecanismo de defesa do indivíduo obdurate como pedra é tornar-se mais e mais estulto. Mais e mais recalcitrante e cego à própria recalcitrância. Pragmático, realista, porém autista. Seu mundo é a lei. De mau humor simplesmente intragável, incapaz de considerar as necessidades dos outros. Sem juízo. Uma máquina kamikaze de rancor. Um trator fumacento. Uma locomotiva do século XIX que insiste em funcionar, e enquanto funcionar atropelará cada pobre transeunte em seu caminho.

hypnosis is one of hysteria’s necessary and characteristic inventions.”

So little, really, has the form of hypnosis changed that it would seem to be lifted bodily from the pages of a gothic novel of the period.” Um tipo de idiota que sempre se repete no tempo, em todas as épocas.

The romantic, wrote Tate, ranged over nature in the effort to impose his volitional ego as an absolute on the world.”

Qualities suggesting the <merely human>, such as self-consciousness, doubt, humor, in either the hypnotist or subject, are inimical to the pact of hypnosis”

In Melville’s sense, each participant should be a Confidence Man: i.e., a man who has confidence.”

Hypnosis becomes one willful way of overriding the despair of the young psychiatrist, qualified neither by age nor humanity to give counsel.” “Once the hypnotist begins to lose his belief, it will not be long before the spectacle strikes him as comic, for retrospectively at least outbursts of will are apt to appear more comic than pathetic because of the unadorned combination of presumption and ignorance.”

While willfulness may seize other categories, under its dominion these categories lose their original substance, serving only as illusions of themselves.”

You undoubtedly recall that Freud first took quite literally his hysterical patients’ tales of early seduction, later discovering that these episodes were more in the realm of fantasy.”

Another common assumption, equally mistaken, was the belief that with sexual emancipation, hysteria would disappear.”

Before sexual emancipation willfulness in sex was restricted to whether the person would or wouldn’t. With emancipation willfulness shifted from the fact of participation to an absorption with the details of the sexual act itself.”

They suggest a repertoire of personal decoration, gesture, intonation, even vocabulary, whose flourish puts more modest or commonplace devices of expressiveness to shame, and is disproportionate to the spoken or written message. (…) When this dramatic insistence becomes too overpowering, whatever intellectual substance there may be is blurred for the listener, whose attention finds itself split in a manner not unlike the division in the hysteric. In such fragmentation listening, in any honorable sense, is no longer possible. Instead, mannerisms of body and voice, formerly inconspicuous, acquire a new and crude existence, widely separated

from what is said. (…) Inevitably, now, he compels himself, whether in agreement or disagreement, to address himself to the hysteric’s manner. Thus does it happen that will responds to will and dialogue can be no more than illusion.”

EXPERIMENTO “EM CACOS”: “hysterical drama may be said to be bad drama.”

He is acted upon by Nature who works her will on him. So long as both wills his and Nature’s reside within his person, there can be no defeat; victory is his, whatever the outcome.”

In an age to some extent characterized by <the tyranny of the orgasm>, the choice is no longer between sex or no sex; instead the will joins itself to those particles of sexual behavior, whose sum it is hoped will constitute the sexual act.”

in hysteria much of what is called by such names as <impulsivity> or <acting out> are more serious – even catastrophic – adventures invented by the will, alcohol being one of its most faithful accomplices in these escapades: it performs the double service of inflating the will at the same time as it dulls discrimination.”

Something calls to us from beyond or within and our only answer is a sigh, and a sweet sad sense of loss. What is the loss? Few of us, I imagine, wish to experience infancy again.”

A single self is, for us, always an invention of our will. In extremity the self is the will, but it is no longer that shadowy, elusive creature, flickering over the surface of consciousness, that we traditionally call the self. Thanks to the work of will, the self emerges whole into the bright light of the world: suddenly it has acquired shape and dimension and substance it has been concretized by the will. The faint resemblance this imposing apparition bears to the true nature of the self testifies both to the formidable powers of the will and to the urgency of the need we all share to experience wholeness.”

In point of fact, no state of mind so deadens and injures our faculties as our belief in this illusion of wholeness. The more dependent a person becomes on this illusion, the less able is he to experience true wholeness in dialogue, and at the point where he is no longer capable of dialogue he can be said to be addicted to his will.”

O estado mental daquele que se crê sempre dotado de razão (e da razão, na discussão – o popular <dono da razão>), essa ilusão perfeita de autossuficiência, é a condição que mais pode machucar e mortificar nossas faculdades intelectuais e sociais. Quão mais dependente desse falso ponto de vista se torna a pessoa, menos apta a experienciar a verdadeira suficiência – através do diálogo – ela está. Quando a pessoa já chegou a tal ponto que é absolutamente incapaz de dialogar, podemos chamá-la de viciada no próprio querer.”

More important, will’s solitary and inflated sovereignty as willfulness actively opposes the acquisition of precisely those intellectual faculties with which we perceive the total meanings of actual moral situations.”

Mais importante: a soberania inflada e solitária da vontade, a teimosia, oprime ativamente a aquisição das faculdades intelectuais com as quais apercebemo-nos dos significados totalizantes do que vem a ser situações morais.”

através do rancor, o histérico agravado não pôde aprender nada com seus pais ou professores a respeito dos temas controversos. A franca admissão do <eu não sei a resposta> é uma pré-condição essencial do aprender. Mas, para o histérico, <eu não sei>, a não ser quando usado como estratégia no debate, representa um fracasso do querer. Conforme as lacunas do conhecimento se acumulam, o <eu não sei> é transformado numa espécie de <sabedoria de vida> expressa por um leque de gestos ou manias adquiridos, físicos e verbais, que convencem a si mesmo, e pretendem convencer o interlocutor, não só de que o histérico <entende muito bem daquilo> como também <possui muito mais conhecimento do que meras palavras poderiam expressar>.”

O que não passava de dificuldades para somar e subtrair na segunda série agora faz o histérico esconder as mãos enquanto conta nos dedos. Mas mais aberrante que o déficit aritmético em si é a probabilidade de ele ser o índice de uma incapacidade geral para abstrair os fundamentos da Lógica, que afinal permeiam o mundo a seu redor.”

E o que na sua terceira série não passava de ligeiros problemas em gramática agora subsiste como uma pobreza na linguagem tornando o intelecto do histérico cego às discriminações mais sutis que denominamos humor, ironia, ambigüidade e paradoxo.”

VOLTA PRA ESCOLA, BABACA: “Essa teimosia deveria ser acessível e tratável pela psicoterapia, mas as parcas capacidades intelectuais do histérico adulto, que acumulou falhas sobre falhas por anos, dificilmente responderão à análise de motivações ou a algum insight ou mesmo à relação terapêutica, muito embora essa metodologia possa, de alguma forma, constituir um começo para se aprender essas discriminações tão usuais e que faltam ao histérico. Ao passo que compreendemos finalmente que a histeria consiste numa falha dupla nos reinos da vontade e da inteligência, não é mais mistério algum (como na época do Freud jovem) que reconheçamos que o tratamento à histeria é ardoroso e de longo prazo, calcado na insistência. Nem é estranho o diagnóstico de que tal tratamento, idealmente falando, deva consistir numa combinação de psicoterapia com educação propriamente dita, no melhor sentido da palavra, gradual e compreensiva, dividida por disciplinas.”

Se considerações éticas escapam às limitações da histeria, poderemos fazer alguma generalização tocante à natureza do discurso histérico? O modo do histérico se dirigir a e entender seus pares e o mundo que o rodeia poderia ser classificado como estético. Porém, como essa é uma estética que carece de imaginação e inteligência, não é do tipo honorável que habitualmente associamos ao termo.” “Estou falando com um machão?”

Nesse sentido, o histérico recepciona a análise de motivos da psicanálise como um criticismo do seu estilo e vê nisso uma oportunidade para aperfeiçoar seus maneirismos.”

Esse esteticismo é próprio dos atos suicidas do tipo histérico, cujas auto-mutilações atendem ao desígnio de supressão da vida apenas tangencialmente: o corte superficial dos pulsos são sintomas de conversão no sentido de que o histérico imprime sua vontade sobre o próprio corpo. Mas, diferentemente dos sintomas de conversão clássicos, em que as funções corporais são danificadas, o que este suicida faz é desfigurar ou abalar a <intactabilidade> corporal. É mais uma repercussão estética que ética, portanto.”

SANGUE-RUIM: “a teimosia é sempre consciente, o histérico a percebe; não é um traço caracterológico inconsciente. O que pode suceder é que essa compreensão seja póstuma, i.e., adiada em relação ao diálogo ou ocorrência. Daí que o histérico é um remordido e culpado constante. (…) Como a histeria é uma questão em torno da vontade, sua apreensão não precisa ser imediata, como acontece com a sensação da dor.”

A SÍNDROME DA MESA DE BAR: “This feverish figure, endlessly assaulting the company, seeking to wrench the moment to some pretense of dialogue, is the image

of the eternal stranger: that condition of man in which he is forever separated from his fellows, unknown and unaddressed it is the figure of man’s separated will posing as his total self. Though always a stranger to those he moves among, this figure is no stranger to our imagination; who is he but ourselves, you and I and everyman as we have been over and over in the past and shall be again? This condition of willfulness which at once drives us to grasp for wholeness and prevents our attainment of it is no rare disease; even by its harsher, clinical term, hysteria, it is, in varying degree, the lot of each of us.”

hysteria loathes passion as a potential usurper of its usurped domain.”

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM PAI, TINHA UM PAI NO MEIO DO CAMINHO: “It is true that we must live with hysteria, but we need not, I think, honor it. In fact, if we give it its rightful identification as the sworn enemy of our capacity to be fully human we may give ourselves a crucial advantage in the struggle we must constantly engage in to transcend it.” Síntese do desumanizador.

LOUIS E. DE ROSIS: Discussion of the Papers of Drs. Friedman and Farber

The evil urge is undirected passion, ignored or suppressed.”

Shall we equate Id with <evil urge>?

In my view, based on both experiential and logical grounds, a truly central agency, or self, will not entertain the makings of its own dividedness.”

Being with a neurotically involved person is like raising one’s voice in the fiords of Norway, with the sounds ricocheting endlessly, never realizing their mark, never permitting the demarcation of the boundary of one word from the next.”

By forcing himself to experience the ideal as already attained, he changes ideals into idealization, and so he is lost to himself, lost to the sense that he is the author of his own existence. Along with this, he loses his capacity of intentionality.”

I would like now to raise the question whether we can equate Buber’s <evil passion> with my formulation of the compulsive drive.”

<Unneurotic Man>: I feel this man would have no awareness of the compulsive elements in the patient, for he would be free of the compulsive in himself. No personal analysis for this analyst! It is precisely because of the compulsive in himself that the doctor must alert himself for it in the other.”

This brings to mind a patient of an eminent psychiatrist with whom the latter sat for 3 months. This patient was a mute, catatonic schizophrenic, whom the doctor was seeing at the special request of the family with whom he was friendly. The doctor spent all his time reading as he sat for the hour with the patient. One day the patient sat up and asked, <What the hell do you find so interesting in that book?>. The doctor related that following this episode, the patient gradually recovered, an outcome he had never expected.” “This gave the patient the freedom to find the borders of his non-being and when he did, he was ready to cross the divide to respond to the doctor who, by reading, was being an authentically interested-in-a-book self!”

It takes as much courage as there is compulsion for the patient to make this excursion, no more and no less.”

Quem tem compulsão, tem coragem.

Imagine your fear if your physician found cancer in you. The psychiatric patient feels an even greater terror when he finds a compulsion in himself.”

In a sense, this consciousness is to be likened to a girl who is wrenching her way through a gang of men who would rape her and rend her clothes and skin, until what emerges no longer resembles the person who gave impetus to her spontaneous impulse in the first place.”

The self-starved person seizes freedom as the famished man seizes food, only to have to spew it out, not being able to contain it in a self that is poorly developed for the heavy burden of responsibility which freedom brings. This self retreats in horror and nausea, filled with the dread of being.

It is for this reason that I do not believe the hysteric can be said to be conscious of his willfulness until he experiences the compulsively objectifying tendency in himself.” Não tem mais má-fé quem esqueceu a má-fé? “When this occurs, we have the beginnings of the moral crisis, the evolution of which will spell the dissolution and resolution of his anxiety-laden compulsive drives, with the concomitant emergence of the self in the doctor-patient relation.”

ROLLO MAY: Will, Decision and Responsibility: Summary remarks (in MAY, Existential Psychology. 1961)

Possível incompreensão da <coisa-toda>: “Now it was against precisely these trends [o freudismo exacerbado, o groddeckismo ou somatismo, não-sei-mais-que-fatalismos] that the existentialists like Kierkegaard and Nietzsche took their strongest, most vehement stand.” Primeiro que parece que figuras dos 1800 estão reagindo a figuras dos 1900… Segundo que NÃO É BEM ASSIM QUE A MELODIA TOCA para os EXISTENCIALISTAS, que aliás passam longe de estar em uníssono. Psicologia existencial? Hm, vejamos.

CALEIDOSCÓPIO SEM CRITÉRIO: “And it is in the light of modern man’s broken will that the existential emphases of Schopenhauer with his world as Will and idea, Bergson with his élan vital [e Cioran também!], William James with his <will to believe> are to be understood.”

indeed, talking about sex is perhaps the easiest way of avoiding really making any decisions about love and sexual relatedness”

vontade decisão compulsão repetição

We cannot work on the assumption that ultimately the patient <somehow happens> to make a decision, or slides¹ into a decision by ennui, default, or mutual fatigue² with the therapist, or acts from sensing that the therapist (now the benevolent parent) will approve of him if he does take such and such steps.” Oh well, but he really does… It is a necessity.

¹ Um ótimo termo, por sinal. DIMITRI & O ETERNO BILHETE DA QUEDA…

² Falando nisso, quem será que cansa primeiro de quem, o mundo de mim ou eu do mundo?

Você deve assumir a responsabilidade por não entender o conceito: “The word will, associated as it is with will power, is dubious to say the least and perhaps no longer helpful or even available.” “<Will power> expresses the arrogant efforts of Victorian man to manipulate nature and to rule nature with an iron hand (via industrialism and capitalism)”

Victorian man sought, as Schachtel has put it, to deny that he ever had been a child, to repress his irrational tendencies and so-called infantile wishes as unacceptable to his concept of himself as a grown-up and responsible man.” “If I may speak epigrammatically, the more such an individual succeeds in developing his will-power, that is the more he becomes able to make up his mind, the less sure we are that he has any mind to make up. Woodrow Wilson once remarked speaking of this type of post-puritan man, <I take leave to believe that the man who sets out to develop his own character will develop only that which will make him intolerable to other men.> And we could add, intolerable to himself.”

Despite the fact that the word decision lost much of its usefulness for those of us in New York when Billy Graham [pastorzão midiático] came to town, it nevertheless remains in many ways the most useful and viable term for the uniting of wish and will.”

The process of therapy with individual patients involves bringing together these 3 dimensions of wish, will and decision. As the patient moves from one dimension to the next in his integration, the previous level is incorporated and remains present in the next. We shall now show more fully the meaning of our problem by describing practical therapy on 3 levels.”

CAREFUL WHAT YOU WISH: “The experiencing of infantile wishes, bodily needs and desires, sexuality and hunger and all the infinite and inexhaustible gamut of wishes which occur in any individual, seems to be a central part of practically all therapy from that of Rogers on one wing to the most classical Freudian on the other.”

The second level in the relating of wish to will in therapy is the transmuting of awareness into self-consciousness. This level is correlated with the distinctive form of awareness in human beings, consciousness. (The term consciousness, coming etymologically from con plus scire, <knowing-with>, is used here as synonymous with self-consciousness.)”

Thus the previous alternatives of repressing wishes because one cannot stand the lack of their gratification on one hand, or being compulsively pushed to the blind gratification of the wishes and desires on the other, are replaced by the experience of the fact that I myself am involved in these relationships of pleasure, love, beauty, trust and I hopefully then have the possibility of changing my own behavior to make these more possible.”

The third level in the process of therapy is that of decision and responsibility. I use these 2 terms together to indicate that decision is not simply synonymous with will Responsibility involves being responsive, responding. As consciousness is the distinctively human form of awareness, so decision and responsibility are the distinctive forms of consciousness in the human being who is moving toward self-realization, integration, maturity.” “This sounds like an ethical statement, and is in the sense that ethics have their psychological base in these capacities of the human being to transcend the concrete situation of immediate self-oriented desire and to live in the dimensions of past and future and in terms of the welfare of the persons and groups upon which one’s own fulfillment intimately depends.”

One cannot give over oneself to the dream; but not to be aware of what it is telling one is just the way to turn it into a compulsive drive. The decision hopefully will be made responsive to these inner tendencies as well as responsive to one’s conscious relationship to the other persons involved and the future welfare of one’s self and them.”

Let us turn our attention for a brief caveat to the concepts of <ego> and what is called ego psychology, since it is often argued that the problems of will, decision and responsibility are encompassed in psychoanalytic ego psychology [redundância]. In the last few years, in response to contemporary man’s great need for autonomy and a sense of identity, considerable interest has swung to <ego psychology> in the psychoanalytic movement. But what has resulted has been the handing over to the ego of the functions of autonomy, sense of identity, synthesis of experience and other functions, more or less arbitrarily arrived at, which were suddenly discovered as functions the human being had to have. The result in the orthodox analytic movement is that many <egos> now appear.

Karl Menninger speaks of the <observing ego>, the <regressive ego>, the <reality ego>, the <healthy ego>, et cetera (1928). A Freudian colleague and friend of mine congratulated me after a speech in which I had attacked this concept of a horde of egos by remarking that I had a good <synthetic ego>! Some psychoanalysts now speak of <multiple egos in the same personality>, referring not to neurotic personalities but to the so-called normal ones. To my mind, <multiple egos> is a precise description of a neurotic personality.”

If it is countered that this picture of the multitude of egos reflects the fragmentation of contemporary man, I would rejoin that any concept of fragmentation presupposes some unity of which it is a fragmentation. Rapaport writes an essay entitled The Autonomy of the Ego as part of the recent development we are referring to; Jung has a chapter in one of his books entitled The Autonomy of the Unconscious; and someone could write an essay, following Cannon’s Wisdom of the Body, entitled The Autonomy of the Body. Each would have a partial truth; but would not each be fundamentally wrong? For neither the <ego> nor the <unconscious> nor the body can be autonomous. Autonomy by its very nature can be located only in the centered self.” Claro, porque “centered self” é um conceito de quem fala (Rollo May)! Cada pescador puxa a sardinha para sua vara… Desculpe o humor freudiano…

At this point our European colleagues would use some form of the term <being>, which unfortunately remains still almost unusable in English.”

SUGESTÕES DE LEITURA

BUBER, Daniel (1913).

STANLEY FRIEDMAN, Melville, Dostoevsky, Kafka and Our Image of Modern Man.

(Pseudo) HIPARCO OU DO AMOR À GANÂNCIA

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Na série que envolve as obras provavelmente inautênticas (identificadas pelo prefixo (Pseudo) no título), dou minha opinião pessoal ao final, contextualizando o escrito face à obra platônica canônica.

(*) “O nome do diálogo deriva de Hiparco, filho de Pisístrato, tirano do século VI a.C., estranhamente exaltado por Sócrates.”

(*) “Tal é a mesquinha substância desta composição, breve e superficial, atribuída por alguns críticos a Símon o Socrático, e que entende-se perfeitamente por que possui origem tão obscura e incerta.”

SÓCRATES – (…) Desde então cessaram de se admirar os sábios preceitos de Delfos: Conhece-te a ti mesmo, nada em demasia e outros semelhantes; porque acharam que o que Hiparco dizia era mais sábio. Os transeuntes que liam essas inscrições recobraram o gosto perdido pela filosofia; havia quem viesse dos campos para aprender mais sobre esta arte graças a este célebre político. As inscrições, por sinal, eram duplas: do lado esquerdo da coluna situada entre a cidade e tal ou qual distrito estava gravado o nome de Hermes, e do lado direito lia-se: Monumento de Hiparco: Caminha pela senda da justiça. Muitas outras inscrições, belíssimas, eram encontradas em outras colunas. Na da via Heriaca, p.ex., lia-se: Monumento de Hiparco: Não enganes teu amigo. (…) Depois de sua morte, os atenienses sofreram durante 3 anos a tirania de seu irmão Hípias; mas a tradição me diz que foram estes os únicos três anos em que Atenas sofreu deste mal, porque antes pouco faltou para que os atenienses cressem estar vivendo num novo reinado de Cronos (Saturno).¹ Conforme os testemunhos mais dignos de fé, a causa da morte de Hiparco não foi, como se divulga, o afronte feito à irmã de Harmódio.(*) Isto é uma falácia! Eis a verdade: Harmódio era o amado de Aristógito, sendo correspondido. Mas este, orgulhoso de sua conquista amorosa, creu ter em Hiparco um grande rival e obstáculo. Fato é que após um tempo Harmódio se apaixonou por um dos mais belos e nobres jovens da época, cujo nome eu ouvira falar, mas no momento se me olvida. Este jovem entrou em contato com Harmódio e Aristógito em conversações filosóficas, muito admirando-lhes a sabedoria; com o decorrer dos acontecimentos, entretanto, tendo sido o coração deste jovem conquistado, por sua vez, por Hiparco, para suprema ironia do destino, o rei foi assassinado, pelo ódio que seu feito instilou tanto em Harmódio quanto em Aristógito.

O AMIGO – Todavia, Sócrates, me parece que não me consideras teu amigo, ou que, se assim me consideras, não obedeces ao preceito de Hiparco. Porque não posso deixar de pensar que de uma forma ou de outra tu me enganas neste particular.”

¹ Era de ouro da idade mitológica.

(*) “Motivação preferida pela historiografia. Tucídides corrobora esta <versão falaciosa>, segundo este Sócrates de Pseudo-Platão. E ainda afirma que Hípias teria sucedido diretamente a Pisístrato, tendo Hiparco morrido sem que reinasse um só dia sobre os atenienses (Livro VI, 54-ss.).”

SÓCRATES – Pois bem, te concedo esta proposição. Quero que tal ganância seja um bem, e tal ganância um mal. A ganância boa não é mais ganância que a ganância má, correto?”

SÓCRATES – Aquele possuído por uma ganância honesta não lucra mais que aquele possuído por uma ganância culpável, porque um não é mais ganancioso que o outro, segundo convimos.

O AMIGO – De fato.”

SÓCRATES – (…) Quando dizes que a boa ganância e a má ganância são ganâncias por igual, que é que vês nelas que seja semelhante e que te autorize a chamar ambas de ganância? E, se não tens contigo uma resposta de imediato, escuta o que vou dizer. A ganância, não é ela aquilo que se adquire sem gastar nada, ou então gastando muito pouco, recebendo, em contrapartida, sempre bem mais do que aquilo que se investiu?

O AMIGO – Eis a minha própria definição de ganância, justamente o que disseste.”

SÓCRATES – Logo, o valor é o que constitui a ganância, independentemente da quantidade, seja grande ou pequena, e o que não tem valor não é de nenhum proveito.”

JULGAMENTO DA AUTENTICIDADE DA OBRA

Nada a acrescentar às observações antecedidas por (*), que resolvem a questão, a não ser um leve endosso: se se tratasse de um diálogo efetivamente edificante e de nível platônico, já sabemos que talvez a posteridade ainda assim o censurasse – e a obra quiçá se perdesse para nós – devido ao trecho explícito sobre pederastia como prática lícita.

(Pseudo?) EPÍNOMIS OU O FILÓSOFO // Popularmente conhecido como “Leis XIII” // “DA ASTRONOMIA” ou “A ASCENDÊNCIA DO SÁBIO” seriam minhas sugestões de título.

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Na série que envolve as obras provavelmente inautênticas (identificadas pelo prefixo (Pseudo) no título), dou minha opinião pessoal ao final, contextualizando o escrito face à obra platônica canônica.

CLÍNIAS – Cá estamos reunidos novamente nós três, como havíamos disposto, tu, Estrangeiro, Megilo e eu, a fim de examinar de que maneira trataremos o tema da prudência, que, em nossa opinião, prepararia perfeitamente o homem que a houvesse adquirido para obter toda a sabedoria de que a natureza humana é capaz. Os demais pontos da legislação, nos parece que já os tratamos suficientemente. Esta questão remanescente, por outro lado, talvez seja a mais importante. Resumindo, o problema seria: que ciências podem fazer do homem mortal sábio?¹ Isto ainda não conseguimos esclarecer. Dediquemo-nos a sua resolução no dia de hoje. Do contrário, deixaríamos esta obra – a constituição da nova polis – imperfeita. Ademais, a nada se destinava nossa conversação anterior senão à compreensão cabal dos altos valores, tais quais a própria prudência.

ATENIENSE – (…) A maior parte dos que têm experiência de vida está conforme em dizer que o gênero humano não pode chegar à verdadeira felicidade. Escutai-me, e vede se neste ponto penso como esta maioria. Convenho em que é absolutamente impossível aos homens o ser verdadeiramente feliz, com a exceção de uma casta privilegiada, se bem que a verdade desta proposição me parece limitada à vida presente, e sustento que todo homem tem uma esperança legítima de gozar, depois da morte, daqueles bens, pelos quais, afinal, esforçara-se tanto sobre a terra em seguir uma vida virtuosa até o fim.

¹ Para resumir de forma ainda mais direta a pergunta-mote: Como um sábio se torna um sábio? Infelizmente diria que a resposta CERTA a esta pergunta não está em lugar algum de nossos milênios de filosofia.

a sabedoria se afasta de nós à medida que nos aproximamos do que chamam artes, conhecimentos e todas as demais ciências parelhas que tomamos falsamente por ciências, porque nenhum dos conhecimentos que têm por objeto as coisas humanas merece este nome.”

O primeiro passo é enumerar todas as ciências que levam vulgarmente este nome, ainda que não comuniquem a sabedoria”

se aquele que as possuiu pôde passar-se por sábio em tempos mui recuados, hoje, longe de ser um título de sabedoria, possuir conhecimento nestas pretensas ciências é um motivo de críticas amargas e injuriosas.”

A primeira arte, se havemos de crer na tradição, é a que fez com que os primeiros homens deixassem de se alimentar de carne humana, ensinando-os a se servir da carne dos animais. Perdoem-me os homens destes séculos remotos; mas não são estes os sábios que buscamos.”

Outro tanto deve-se dizer, pouco mais ou menos, de toda classe de agricultura.”

A construção de casas e a arquitetura, a arte de trabalhar toda classe de móveis em metal, madeira, barro, tecidos, de fabricar ferramentas de todo gênero; todos estes procedimentos são, sem dúvida, úteis à sociedade, mas nada têm que ver com a virtude.

Igualmente, a arte da caça, que abraça tantos objetos e supõe tanto trabalho, não dá nem grandeza de alma nem sabedoria; tampouco a arte da adivinhação e da interpretação dos augúrios, as quais concebem unicamente o sentido das palavras, mas ignoram a verdade última das próprias palavras.”

Passemos a examinar as artes de puro entretenimento, que são imitativas na maior parte e que nada têm de sério. Imitam por meio de uma infinidade de instrumentos, e dão ao corpo diferentes atitudes, que não são de todo decentes. Por exemplo a prosa ou qualquer modalidade de escrita em versos; outras artes são filhas do desenho e expressam uma infinidade de figuras diferentes, com materiais secos ou brandos.”

Depois de todas essas artes, temos outras cujo fim é ser úteis ao homem numa infinidade de ocasiões. Delas, a mais importante e variada é a arte da guerra.” “Sem dúvida que a arte que leva o nome de medicina nos presta grande auxílio contra os estragos que as estações, o frio, e o calor extemporâneos, bem como outros acidentes, causam aos seres animados.” “O mesmo sucede com os que se dedicam a defender os direitos dos outros ante os tribunais, mediante o talento com as palavras. Todo seu mérito consiste em possuir memória e conhecer certa rotina; são capazes de discernir o que a praça pública chama de ‘justo’.”

Seria preciso descobrirmos alguma ciência que dê a quem a possui uma sabedoria real e não apenas aparente.”

Chame-se-o mundo, Olimpo ou céu, pouco importa, contanto que, elevando-se à verdadeira contemplação deste deus, observe-se como ele se apresenta sob mil disfarces.” Este trecho é fundamental para compreender o restante do diálogo, principalmente o conceito de “oitavo planeta”, “oitavo céu” ou ainda de “mundo superior”.

se o número fosse retirado da humanidade, a prudência far-se-lhe-ia impossível.”

e todo aquele que não tem sabedoria, que é a parte principal de toda virtude, não podendo fazer-se perfeitamente bom, não pode pelo mesmo motivo chegar à felicidade.”

não é dado a todo mundo compreender toda a virtude e eficácia da essência dos números. É evidente, p.ex., que a música em seu conjunto não pode existir sem movimentos e sem sons medidos pelo número. O mais admirável é que esta ciência, ao mesmo tempo que é origem de todos os bens, não é origem de nenhum mal, coisa de que é fácil se convencer.”

Dizei-me: donde provém nosso conhecimento acerca da unidade e do número dois? Nós, que somos os únicos seres do universo dotados naturalmente da capacidade de refletir?” “o céu não cessa de ensinar aos homens o que é 1 e o que são 2, até que mesmo o mais estúpido tenha aprendido a contar; porque esta mesma série de dias e noites ensina a cada um de nós o que são 3, 4 e muitos.”

são cinco os corpos elementares: o fogo e a água; o terceiro o ar, o quarto a terra, e o quinto o éter.” Cheirado.

Tomemos pela primeira unidade a espécie terrestre, que compreende todos os homens, todos os animais, de muitos pés e sem nenhum, todos os que se movem e os que são imóveis e estão presos por raízes.”

Na segunda espécie, coloquemos outros animais, cuja natureza consiste em ao mesmo tempo serem produzidos e estarem submetidos pelo sentido da visão. Estes participam principalmente do fogo, mas neles também entram pequenas porções de terra, de ar e de outros elementos. Desta mescla resulta uma infinidade de animais que são diferentes entre si, todos visíveis. É preciso crer que estes animais são os que vemos na abóbada celeste, e cuja reunião forma a espécie divina dos astros.”

A espécie terrestre se move sem nenhuma regra; a espécie ígnea, ao contrário, tem seus movimentos definidos por uma ordem admirável. Mas tudo o que se move sem ordem alguma deve ser considerado como desprovido de razão; e neste caso se encontram, com efeito, quase todos os animais terrestres.”

A necessidade que domina a alma inteligente é a mais forte de todas as necessidades, posto que é por suas leis, e não pelas de outros, que semelhante alma se governa”

O diamante mesmo não tem mais solidez e consistência, e pode-se dizer com sinceridade que as três Parcas mantêm e garantem a execução perfeita do que cada um dos deuses resolvera baseado na mais sábia das deliberações.”

Mas, por incrível que pareça, alguns homens, ao perceber que os astros fazem sempre as mesmas coisas, e da mesma forma, creram, por esta mesma razão, que os astros não possuíam alma!” “o que se deve reconhecer como dotado de inteligência é precisamente aquilo que faz sempre as mesmas coisas”

ZEUS & OS DEMÔNIOS NA TERRA DO SOL

Para demonstrar que temos razão em sustentar que os corpos celestes estão animados, basta que fixemos nossa atenção em sua magnitude; porque não é certo que sejam tão pequenos como nos parecem; antes, pelo contrário, sua massa é de uma densidade prodigiosa, o que ninguém pode negar, porque isso se apóia em numerosas provas. Assim, não haverá equívoco em supor o corpo do sol maior que o da terra. Sem falar que os outros corpos celestes têm também uma magnitude que a simples imaginação do homem é incapaz de graduar. Agora, dizei-me, por favor: que natureza poderia imprimir a massas tão gigantescas um movimento circular, que há tantos séculos é exatamente o mesmo de hoje?“não é falar de forma inteligível o atribuir a causa desses movimentos a não sei que força inerente aos corpos, a certas propriedades ou a outras coisas semelhantes.”

Depois do fogo, insiramos o éter e digamos que a alma forma com ele uma espécie que, semelhante neste ponto às outras espécies, participa principalmente do elemento de que está formada, entrando os outros elementos em quantidade bem menor, e só na medida em que são necessários para unir todas as partes. Depois do éter vem o ar, do qual a alma forma outra espécie de animais. Enfim, a terceira espécie se forma da água.”

Com respeito aos deuses conhecidos com os nomes de Zeus e Hera, e todos os outros, podem ocupar o ponto que se queira, contanto que não se altere por isso a ordem que acabamos de estabelecer, e que não se nos desminta. É preciso, pois, afirmar que os astros e todos os demais seres que julgamos através dos sentidos, que foram inclusive formados com e por eles, são, entre os deuses visíveis, os primeiros, os maiores, os mais dignos de honra, e aqueles cuja visão é mais perspicaz. Imediatamente após, situam-se os demônios, espécie aérea, ocupantes do terceiro lugar, mediano, servindo de intérpretes aos homens. (…) Estas duas espécies de seres animados, uns de natureza etérea, outros de natureza aérea, não são visíveis para nós, e por mais que estejam próximos de nós não conseguimos percebê-los.”

Só Deus, que reúne em si a perfeição da divindade, está isento de todo sentimento de alegria e de tristeza; dele são próprias a sabedoria e a inteligência supremas.”

A água é o elemento da quinta espécie de animais que podemos citar como pertencentes à linhagem dos semi-deuses. Algumas vezes se revelam a nós, outras se ocultam; mal vemos traços de sua existência e a visão espectral que deles obtemos vem sempre acompanhada de uma indisfarçável surpresa.” Um velho hábito de endeusar jubartes e monstros que-tais…

PLATÃO CONTRA O FILHO CRISTIANISMO

A razão [de a palavra planeta não ter nome na língua grega] é que o primeiro a descobri-los foi um bárbaro. Os primeiros nomes que se empregaram nesse estudo provêm de civilizações mais antigas que a nossa e favorecidas pela beleza do estio, isto é, pela clareza e transparência do firmamento no verão em seus países. Falo do Egito e da Síria, onde os sábios podiam monitorar livremente todos os astros, que não se escondiam atrás de véus. As nuvens e as chuvas davam sempre trégua nessa estação. Suas longas e insistentes observações, acumuladas durante uma série infinita de anos, são um conhecimento hoje assimilado por quase todos os povos, particularmente pelos gregos. Por isso é que podemos aceitar suas lições com confiança, como aceitamos outras leis que nós mesmos descobrimos. Pretender, aliás, que o que é divino não mereça nossa veneração, ou que os astros não sejam divinos, é uma extravagância manifesta.”

a estrela da manhã, que também é, em verdade, a estrela da tarde,¹ parece chamar-se Vênus,(*) nome que, de acordo com o sírio que a nomeou, é o que mais convém a este astro. O segundo astro, que caminha conforme o sol e Vênus, chama-se Mercúrio. Há ainda três poderes que se movem da esquerda para a direita, como o sol e a lua. Com respeito ao oitavo,² deve-se compreendê-lo sob um só nome, e nenhum é melhor que o de mundo superior,³ que segue um movimento oposto ao das demais estrelas, arrastando-as em sua esfera de ação,4 pelo menos assim julgamos, com nossos parcos conhecimentos neste ponto.”

(*) “Vênus foi conhecida e reverenciada pelos povos orientais com diferentes nomes: Astarte (Astarote), Milita, Alita, Derceto, Atargátide, Ishtar. Ver Heródoto, 1:105 e Luciano, De dea Syria, 100:22.”

¹ É notável que já a geração de Platão reconheça sem controvérsia que as supostas “estrela da manhã” e “estrela da tarde” não eram 2 corpos celestes, senão um e o mesmo, descoberta atribuída a Pitágoras, do século anterior ao platônico.

² A terra, com letra minúscula, inclusive, em nossa notação (os gregos não diferenciavam minúscula e maiúscula), não era considerada um “planeta”. Mas temos então a lista para formar os 7 astros que enumera Pseudo-Platão, antes, naturalmente, de explicar do que se trataria o misterioso oitavo, na nota nº 3 (e é bom que não discriminemos, como astrônomos modernos que somos, planetas, estrelas e satélites, o que então não se fazia): o sol (1), a lua (2), a Estrela d’Alva ou Vênus (3), Mercúrio (4), e os “3 poderes” que Ps.-Platão cita em seguida. De fato, além de Marte (Ares), Júpiter (Zeus) e Saturno (Cronos), dentre os planetas do sistema solar que estão mais longe do sol que a Terra (no cinturão exterior), não havia outros que pudessem ser percebidos a olho nu. A rigor, Urano o pode, em condições extremamente favoráveis, mas sua descoberta enquanto planeta se deu só com a ajuda do telescópio, já no séc. XVIII.

³ Até o trecho mais adiante, em que Pseudo-Platão finalmente enumera os três corpos dos quais ainda não havia falado, o leitor contemporâneo leigo fica na dúvida, deixado em suspenso, se o Ateniense descreve realmente um “planeta”, que entende ter um movimento circular e “na contra-mão” dos outros. Mas o leitor familiarizado de Platão já sabe que ele não nomeará nenhum planeta: descreve poética e filosoficamente, de forma sem sombra de dúvida derivada da escola pitagórica, a simples abóbada celeste como este misterioso “mundo superior”, uma vez que, como bem sabemos através da obra canônica de Platão, muito se valorizava a questão da harmonia e perfeição do céu que serviria para validar sua Idéia e Divindade, então ele criou este artifício explicativo, até para contemplar o número 8 e associá-lo à escala musical e à figura tridimensional por excelência (o cubo).

A abóbada celeste também evoca o Um de Parmênides, posto que o firmamento ou “todo o céu visível” seria a quimera conceitual de Platão a fim de evocar o real perfeito e acabado, fechado em si mesmo. A redoma definitiva e inultrapassável pela mera intuição do homem.

Auxiliarmente, podemos dizer que a idéia de céu e firmamento sempre nos remete a Urano, o avô de Zeus na mitologia, mas não levar isso seriamente e tentar ligar os pontos no âmbito da Astronomia! Eis um planeta que foi batizado por causa da influência universal do mito grego e não por terem os astrônomos gregos conseguido identificá-lo nalgum momento sob qualquer forma – hipótese esta completamente descartada por nossa historiografia e teoria do conhecimento.

4 Possível vislumbre da força da gravidade?

Temos, pois, que falar ainda de 3 astros, dentre os quais o mais lento no céu é chamado por alguns de Saturno, assim como o segundo em velocidade é chamado de Júpiter; Marte é o mais veloz, e o de cor vermelha e mais intensa.”

Também é indispensável que todo grego saiba que o clima da Grécia é, com bastante probabilidade, o mais saudável de todos para a formação da virtude. Sua principal vantagem consiste em que sua temperatura é um meio-termo entre o frio do inverno e o calor do verão. Não obstante, como nosso verão não é tão sereno como o dos países que comentei, não fomos propiciados senão muito mais tarde com o conhecimento da ordem destes deuses no céu. Por outro lado, tenhamos em conta que os gregos trataram de aperfeiçoar tudo o que receberam dos bárbaros; e sobre o objeto que tratamos (a prudência), devemos nos persuadir de que, se foi difícil descobrir tudo isto com segurança, devemos nos prometer, entre nós gregos, que o ensino de tal objeto, bem como o devido culto a todos os deuses da forma mais racional possível, com o auxílio do oráculo de Delfos, fiel na observância das leis, hão de ser proporcionados às futuras gerações. E que culto e reverência mais perfeitos que o próprio estudo da Astronomia? Assim nos distanciaremos das tradições irracionais dos bárbaros. E que nenhum grego tema ou censure, tampouco, indagações mortais sobre as coisas divinas, crendo que seria um tabu questionar-se ou até mesmo pronunciar-se sobre estas coisas. Afinal, Deus sendo previdente, dotado de razão e em nada ignorante da extensão da inteligência humana, por que haveria Ele de duvidar, quando é Ele mesmo quem ensina, que os homens estão aptos a aprender sobre o assunto? (…) Se Deus desconhecesse o potencial da razão humana, seria o mais insensato de todos os seres, porque neste caso Se desconheceria a Si próprio, ofendendo-Se ao julgar que o homem não deveria se dedicar a aprender o que Ele sabe, ou seja, julgando que o homem não pudesse ser de fato homem! Porque seria um ser invejoso se testemunhasse os esforços humanos para se aperfeiçoar com o auxílio da própria sabedoria divina, e nisso não Se regozijasse!”

Com efeito, necessita-se certo temperamento, uma mescla de lassidão e vivacidade, para que uma alma se mostre ao mesmo tempo suave, dócil, digna e receptiva às lições da temperança. Também é necessário que a essas qualidades se una, para a prática das ciências, uma boa memória, que faça o sujeito derivar prazer do próprio estudo; do contrário, ele jamais se consagraria a esta profissão. (…) é uma necessidade para as pessoas desta feliz condição aprenderem a sabedoria, como é para mim o ensiná-la.¹ Tratemos, portanto, de explicar, aplicando nossas luzes, e segundo a capacidade das pessoas para quem me dirijo, qual é esta ciência própria para inspirar a piedade com respeito aos deuses, e como se a deve aprender. (…) Ignorais acaso que é indispensável que o verdadeiro astrônomo seja também muito sábio? Não falo daquele que observa os astros segundo o método de Hesíodo ou de autores semelhantes, limitando-se a estudá-los quando nascem e se põem, senão daquele que, dentre as 8 revoluções, compreendeu pelo menos as revoluções dos 7 planetas,² cada um dos quais descreve sua órbita de uma maneira diferente, coisa que não é possível ao homem comum conhecer”

¹ Para mim, esta frase sozinha serve como prova de que Platão não é o autor do escrito. Quem leu O Banquete sabe muito bem…

² Como dito, os gregos conheciam 5 planetas, com exclusão da Terra: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Urano, Netuno e Plutão, este último rebaixado a menos-que-planeta no século XXI, são descobertas modernas, relativamente recentes. Portanto, a contagem “7 planetas” na verdade inclui o sol e a lua, pois na idade de Platão pensava-se que o sol orbitava a terra e que era uma esfera sólida como os demais corpos visíveis no firmamento.

Mas por que venho falando do firmamento como esta “oitava revolução”, se não há qualquer menção explícita a isso nesta obra? Porque ao comentar que há oito revoluções mas que só sete são “de planetas”, o Ateniense ou Estrangeiro confirma mais uma vez que a oitava revolução é a da abóbada celeste, que governa todos os astros. É como se o Ateniense, pedantemente, dissesse: “Filósofos (logo, políticos e legisladores da República perfeita) há que compreenderiam as revoluções dos 7 planetas, e isso já nos basta para termos a melhor polis. Se o critério a fim de formar os governantes desta cidade fosse ainda mais rigoroso, é mesmo possível que apenas alguns homens muito privilegiados e eu mesmo pudéssemos ocupar a posição, o que inviabilizaria este projeto.”

JULGAMENTO DA AUTENTICIDADE DA OBRA

Epínomis possui uma indisfarçável estilística platônica, mas sua dialética é tão irregular e contraditória, beirando a escolástica, que mais me parece um esboço que resultaria na versão definitiva d’A República VII, sendo otimista e condescendente. Sendo mais pragmático, entendo este livro como uma falsificação, posterior à vida de Platão. Para acompanhar meu raciocínio, recomendo apreciar o capítulo 7 da magnum opus citada em seus melhores momentos: https://seclusao.art.blog/2019/07/21/a-republica-livro-vii/.

A Astronomia jamais seria a ciência mais importante na República perfeita. Mas entende-se por que o vulgo batizou a obra de Leis 13: o Ateniense terminava aquele extenso diálogo (Leis 12) afirmando que a ciência política (a ciência do conhecer-se, no fundo) não era exata (ao ponto disso se ter tornado um enorme pleonasmo hoje em dia, embora não o fosse na época de Platão). Sendo assim, interpretaram esse dito como se o político devesse se dedicar a conhecimentos mais exatos ao invés de depender da sorte. Mas foi uma interpretação realmente ingênua! A política só pode ser feita arriscando-se, e entre homens, e será sempre uma coisa incerta, seja Grande Política ou política mesquinha… Nunca se fará através das estrelas! Platão jamais incorreria num erro tão lastimável… Fosse este o pensamento de Platão, e Aristófanes ser-lhe-ia um pensador infinitamente superior (ler As Nuvens)!