POLÍTICA 2.0 (revisitação) – Aristóteles (e cotejo com anotações sucintas de uma primeira leitura, em março de 2011)

Estou cada vez mais convencido de que este livro não passa de um rascunho com anotações desordenadas de um imaturo (ou senil?) Aristóteles, que estava destinado a aprimorar sua obra, mas foi interrompido por um “erro divino” e teve de abandonar seu projeto ou, pois não!, já agonizava na demência e nem que vivesse mais 10 anos poderia dar forma e estilo ao que essencialmente não tem conteúdo nem originalidade algumas (conforme veremos, reiteradamente)…

A natureza, com efeito, não age com parcimônia, como os artesãos de Delfos que forjam suas facas para vários fins; fins; ela destina cada coisa a um uso especial (…) Somente entre os bárbaros a mulher e o escravo estão no mesmo nível. (…) Foi isso que fez com que o poeta acreditasse que os gregos tinham, de direito, poder sobre os bárbaros, como se, na natureza, bárbaros e escravos se confundissem.” “O poeta Hesíodo tinha razão ao dizer que era preciso antes de tudo A casa, e depois a mulher e o boi lavrador, já que o boi desempenha o papel do escravo entre os pobres.”

todos os homens que antigamente viveram e ainda vivem sob reis dizem que os deuses vivem da mesma maneira, atribuindo-lhes o governo das sociedades humanas, já que os imaginam sob a forma do homem.”

Bastar-se a si mesma é uma meta a que tende toda a produção da natureza e é também o mais perfeito estado. É, portanto, evidente que toda cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem, segundo Homero(*)

Assim, o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos.”

O Estado, ou sociedade política, é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. O todo existe necessariamente antes da parte. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. (*)Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto.

Por si mesmas, as armas e a força são indiferentes ao bem e ao mal: é o princípio motor que qualifica seu uso. Servir-se delas sem nenhum direito e unicamente para saciar suas paixões rapaces ou lúbricas é atrocidade e perfídia. Seu uso só é lícito para a justiça. O discernimento e o respeito ao direito formam a base da vida social e os juízes são seus primeiros órgãos.”

Chamaremos despotismo o poder do senhor sobre o escravo; marital, o do marido sobre a mulher; paternal, o do pai sobre os filhos (dois poderes para os quais o grego não tem substantivos).”

outros consideram que o poder senhorial não tem nenhum fundamento na natureza e pretendem que esta nos criou a todos livres, e a escravidão só foi introduzida pela lei do mais forte e é, por si mesma, injusta como um puro efeito da violência.”

as propriedades são uma reunião de instrumentos e o escravo, uma propriedade instrumental animada, como um agente preposto a todos os outros meios.”

Se cada instrumento pudesse executar por si mesmo a vontade ou a intenção do agente, como faziam, dizem, as marionetes de Dédalo ou os tripés de Vulcano, que vinham por si mesmos, segundo Homero, aos combates dos deuses, se a lançadeira tecesse sozinha a tela, se o arco tirasse sozinho de uma cítara o som desejado, os arquitetos não mais precisariam de operários, nem os mestres de escravos.”

A vida consiste no uso, não na produção.” “O senhor não é senão o proprietário de seu escravo, mas não lhe pertence; o escravo, pelo contrário, não somente é destinado ao uso do senhor, como também dele é parte. Isto basta para dar uma idéia da escravidão e para fazer conhecer esta condição. O homem que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, é escravo por natureza”

Mas faz a natureza ou não de um homem um escravo? É justa e útil a escravidão ou é contra a natureza? É isto que devemos examinar agora.” “Não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um lado e obediência por outro; e todos os seres, desde o primeiro instante do nascimento, são, por assim dizer, marcados pela natureza, uns para comandar, outros para obedecer.”

A natureza ainda subordinou um dos dois animais ao outro. Em todas as espécies, o macho é evidentemente superior à fêmea: a espécie humana não é exceção.”

o uso dos escravos e dos animais é mais ou menos o mesmo e tiram-se deles os mesmos serviços para as necessidades da vida.” Tal como abanar na rede e ler uma epopéia…

Vemos corpos robustos talhados especialmente para carregar fardos e outros usos igualmente necessários; outros, pelo contrário, mais disciplinados, mas também mais esguios e incapazes de tais trabalhos, são bons apenas para a vida política, isto é, para os exercícios da paz e da guerra. Ocorre muitas vezes, porém, o contrário: brutos têm a forma exterior da liberdade e outros, sem aparentar, só têm a alma de livre.”

A deusa Hera deve ser feia por dentro.

Além da servidão natural, existe aquela que chamamos servidão estabelecida pela lei; esta lei é uma espécie de convenção geral, segundo a qual a presa tomada na guerra pertence ao vencedor.

Será justo? Sobre isso, os jurisconsultos não chegam a um acordo, nem tampouco, aliás, sobre a justiça de muitas outras decisões tomadas nas assembléias populares, contra as quais eles reclamam. Consideram cruel que um homem que sofreu violência se torne escravo do que o violentou e só tem sobre ele a vantagem da força. Este, pelo menos, é um ponto muito controverso para eles e, se têm muitos contraditores, têm também muitos partidários, mesmo entre os filósofos.” “uns não podem separar o direito da benevolência, outros afirmam que é da própria essência do direito que o mais valente comande. (…) A superioridade de coragem não é uma razão para sujeitar os outros.”

Ora, o escravo faz, por assim dizer, parte de seu senhor: embora separado na existência, é como um membro anexado a seu corpo. Ambos têm o mesmo interesse e nada impede que estejam ligados pelo sentimento da amizade, quando foi a conveniência natural que os reuniu.”

O governo doméstico é uma espécie de monarquia: toda casa se governa por uma só pessoa; o governo civil, pelo contrário, pertence a todos os que são livres e iguais.”

em Siracusa, uma espécie de preceptor abriu uma escola de escravidão e exigia dinheiro para preparar as crianças para este estado, com todos os pormenores de suas funções. Pode haver um ensino completo dessa espécie de profissão, assim como existem preceitos para a cozinha e outros gêneros de serviço, ou mais estimados, ou mais necessários, pois também o serviço tem os seus graus.”

Há servos e servos e há senhores e senhores.”

Quanto à ciência do senhor, como não é nem na aquisição, nem na posse, mas no uso de seus escravos que está o seu domínio, ela se reduz a saber fazer uso deles, isto é, a saber ordenar-lhes o que eles devem saber fazer.” APLICAÇÃO DOMÉSTICA RETROATIVA: Meu pai, senhor, não era um bom administrador, por isso perdeu o controle de seus escravos.

(cont.) “Não há aí nenhum trabalho grande ou sublime, e assim os que têm meios de evitar esse estorvo desembaraçam-se dele com algum intendente, quer para se dedicar à política, quer para se dedicar à filosofia.” Para se dedicar ao trabalho (como escravo de outros senhores), o caso do meu progenitor em particular. Com isso, nenhuma vantagem obteve, pois não havia superintendente. Nossos casos são análogos se eu pensar naquilo em que me dedico, tendo escasso tempo para ordenar uma futura humanidade a fazer o que eu quero. Mas como não viverei para fruir de uma eventual decepção, estou em vantagem. Sempre posso acreditar, até a minha morte, que fui um melhor mestre!

O talento para adquirir um bem parece-se mais com a arte militar ou com a caça.” “A arte de adquirir bens será idêntica à ciência do governo doméstico? Faz parte dela ou será apenas um de seus meios?”

É uma primeira questão dizer se a agricultura, que é apenas uma maneira de obter os alimentos necessários à vida, ou alguma outra indústria que também tenha os alimentos como objeto, pertencem à arte de se enriquecer.”

Mas existe também um outro gênero de bens e de meios que comumente chamamos, e com razão, especulativo, e que parece não ter limites.”

Tampouco foi a natureza que produziu o comércio que consiste em comprar para revender mais caro. A troca era um expediente necessário para proporcionar a cada um a satisfação de suas necessidades. Ela não era necessária na sociedade primitiva das famílias, onde tudo era comum.”

Quando uma tribo tem de sobra o que falta a outra, elas permutam o que têm de supérfluo através de trocas recíprocas; vinho por trigo ou outras coisas que lhes podem ser de uso, e nada mais. Trata-se de um gênero de comércio que não está nem fora das intenções da natureza, nem tampouco é uma das maneiras naturais de aumentar seus pertences, mas sim um modo engenhoso de satisfazer as respectivas necessidades.”

Não era cômodo transportar para longe as mercadorias ou outras produções para trazer outras, sem estar certo de encontrar aquilo que se procurava, nem que aquilo que se levava conviria. Podia acontecer que não se precisasse do supérfluo dos outros, ou que não precisassem do vosso. Estabeleceu-se, portanto, dar e receber reciprocamente em troca algo que, além de seu valor intrínseco, apresentasse a comodidade de ser mais manejável e de transporte mais fácil, como o metal, tanto o ferro quanto a prata ou qualquer outro, que primeiramente se determinou pelo volume ou pelo peso e a seguir se marcou com um sinal distintivo de seu valor, a fim de não se precisar medi-lo ou pesá-lo a toda hora.”

Tendo a moeda sido inventada, portanto, para as necessidades de comércio, originou-se dela uma nova maneira de comerciar e adquirir. A princípio, era bastante simples; depois, com o tempo, passou a ser mais refinada, quando se soube de onde e de que maneira se podia tirar dela o maior lucro possível. É este lucro pecuniário que ela postula; ela só se ocupa em procurar de onde vem mais dinheiro: é a mãe das grandes fortunas. De fato, comumente se faz consistir a riqueza na grande quantidade de dinheiro.” “Ora, é absurdo chamar riquezas um metal cuja abundância não impede de se morrer de fome; prova disso é o Midas da fábula, a quem o céu, para puni-lo de sua insaciável avareza, concedera o dom de transformar em ouro tudo o que tocasse.” “As verdadeiras riquezas são as da natureza; apenas elas são objeto da ciência econômica.”

A outra maneira de enriquecer pertence ao comércio, profissão voltada inteiramente para o dinheiro, que sonha com ele, que não tem outro elemento nem outro fim, que não tem limite onde possa deter-se a cupidez.” “O fim a que se propõe o comércio não tem limite determinado. Ele compreende todos os bens que se podem adquirir; mas é menos a sua aquisição do que seu uso o objeto da ciência econômica; esta, portanto, está necessariamente restrita a uma quantidade determinada.”

O dinheiro serve ao comerciante para dois usos análogos e alternativos: um, para comprar as coisas e revendê-las mais caro; outro, para emprestar e retirar, após o prazo estabelecido, seu capital com juros. Estes dois ramos do seu tráfico não diferem, como se vê, senão porque um interpõe as coisas para aumentar o dinheiro, enquanto o outro o faz servir imediatamente ao seu próprio aumento.”

A coragem, por exemplo, não foi dada ao homem pela natureza para acumular bens, mas para proporcionar tranqüilidade. Não é esse tampouco o objeto da profissão militar, nem o da medicina, tendo uma por objeto vencer, e outra curar.” “elas se tornam o único fim da maioria das pessoas que entram nessas carreiras e subordinam tudo à meta que se propuseram.”

para a família gozar de saúde, convém mais o médico do que o chefe de família; assim como para o abastecimento e a abundância, este cuidado pode caber antes aos ministros do Estado.”

O que há de mais odioso, sobretudo, do que o tráfico de dinheiro, que consiste em dar para ter mais e com isso desvia a moeda de sua destinação primitiva?” “em grego demos à moeda o nome de tokos, que significa progenitura, porque as coisas geradas se parecem com as que as geraram.”

Existem escritores que se ocuparam desses diversos assuntos, tais como Carés de Paros, Apolodoro de Lemnos, autores de tratados sobre a cultura dos campos e dos pomares, e outros ainda, sobre outras matérias. Os curiosos devem consultá-los.”

Como censuravam Tales de Mileto pela pobreza e zombavam de sua inútil filosofia, o conhecimento dos astros permitiu-lhe prever que haveria abundância de olivas. Tendo juntado todo o dinheiro que podia, ele alugou, antes do fim do inverno, todas as prensas de óleo de Mileto e de Quios. Conseguiu-as a bom preço, porque ninguém oferecera melhor e ele dera algum adiantamento. Feita a colheita, muitas pessoas apareceram ao mesmo tempo para conseguir as prensas e ele as alugou pelo preço que quis. Tendo ganhado muito dinheiro, mostrou a seus amigos que para os filósofos era muito fácil enriquecer, mas que eles não se importavam com isso. Foi assim que mostrou sua sabedoria. Em geral, o monopólio é um meio rápido de fazer fortuna. Assim, algumas cidades, quando precisam de dinheiro, usam desse recurso. Reservam-se a si mesmas a faculdade de vender certas mercadorias e, por conseguinte, de fixar seus preços como querem.

Na Sicília, um homem que obtivera vários depósitos de dinheiro apoderou-se dos ferros das forjas. Quando os mercadores vieram de todas as partes para obtê-los, só ele pôde vendê-los, contentando-se com o dobro, de maneira que o que lhe custara 50 talentos vendia por 100. Dionísio, o tirano, informado do caso, não confiscou seu lucro, mas ordenou-lhe que saísse de Siracusa por ter imaginado, para enriquecer, um expediente prejudicial aos interesses do chefe de Estado. Aquele homem tivera a mesma idéia que Tales: ambos do monopólio fizeram uma arte.”

É bom que os que governam os Estados conheçam esse recurso, pois é preciso dinheiro para as despesas públicas e para as despesas domésticas, e o Estado está menos do que ninguém em condições de dispensá-lo. Assim, o capítulo das finanças é quase o único a que alguns prestam atenção.”

A autoridade dos pais sobre os filhos é uma espécie de realeza; todos os títulos ali se encontram: o da geração, o da autoridade afetuosa e o da idade. É até mesmo o protótipo da autoridade real; foi o que fez com que Homero dissesse de Zeus:

É o pai imortal dos homens e dos deuses¹

¹ Interessante que é uma paternidade “que não passa”; além do mais, Zeus segue eternamente mais jovem que seus ancestrais. Ele não é o protótipo da realeza, mas do despotismo.

Deve uma mulher ser sábia, corajosa e justa? Deve uma criança ter contenção e sobriedade?”

Se as mesmas qualidades lhes são necessárias, por que então o mando cabe a um e a obediência a outro? A diferença entre os dois não é do mais para o menos, mas sim específica e produz efeitos essencialmente diversos.” Ininteligível.

Todos têm, portanto, virtudes morais, mas a temperança, a força, a justiça não devem ser, como pensava Sócrates, as mesmas num homem e numa mulher. A força de um homem consiste em se impor; a de uma mulher, em vencer a dificuldade de obedecer.”

Mais vale, como Górgias, estabelecer a lista das virtudes do que se deter em semelhantes definições e imitar, no mais, a precisão do poeta que disse que

um modesto silêncio é a honra da mulher,

ao passo que não fica bem no homem.”

um profissional está numa espécie de servidão limitada; mas a natureza que faz os escravos não faz os sapateiros, nem os outros artesãos.”

A educação das mulheres e das crianças deve ser da alçada do Estado, já que importa à felicidade do Estado que as mulheres e as crianças sejam virtuosas.”

O Estado é o sujeito constante da política e do governo; a constituição política não é senão a ordem dos habitantes que o compõem.”

Alguém que é cidadão numa democracia não o é numa oligarquia.” “É cidadão aquele que, no país em que reside, é admitido na jurisdição e na deliberação. É a universalidade deste tipo de gente, com riqueza suficiente para viver de modo independente, que constitui a cidade ou o Estado. O costume é dar o nome de cidadão apenas àquele que nasceu de pais cidadãos. De nada serviria que o pai o fosse, se a mãe não for.”

Operários (artesãos, comerciantes) livres não são cidadãos. As obras da virtude são impraticáveis para quem quer que leve uma vida mecânica e mercenária.” “Em Tebas, o próprio comércio dificulta o acesso à cidadania. Havia uma lei que exigia que se tivesse fechado a loja e deixado de vender há dez anos para ser admitido.”

HOMEM DE BEM X BOM CIDADÃO

  • virtudes absolutas (nobreza)¹ X virtude limitada ou específica (mediania)

  • Todo homem de bem é bom cidadão.

  • Poucos bons cidadãos são também homens de bem.

  • Sempre comanda (porém, via de regra, em Ari., quem sabe comandar também sabe obedecer)¹ X deve sempre saber obedecer e não lhe está vedado saber comandar (ex: o soldado de ontem pode ser o general de amanhã, que é um servo do governo)

¹ Segundo Aristóteles, as mulheres não estão excluídas da classe suprema (homens de bem), mas suas limitações são evidentes (devem mais obedecer que comandar, ser discretas, guardar-se de atos de valentia).

num grupo de dançarinos, é preciso mais talento para o papel de corifeu do que para o de corista. A desigualdade de mérito é, pois, evidente.”

Entre as pessoas que estão em servidão, é preciso contar os trabalhadores manuais que vivem, como indica seu nome, do trabalho de suas mãos e os artesãos que se ocupam dos ofícios sórdidos.” Definição do “idiota político” clássico (ou antigo), que não é nem homem de bem nem cidadão.

Ah, a poluição da palavra!

* * *

Aqueles que se propõem [a] dar aos Estados uma boa constituição prestam atenção principalmente nas virtudes e nos vícios que interessam à sociedade civil, e não há nenhuma dúvida de que a verdadeira cidade (a que não o é somente de nome) deve estimar acima de tudo a virtude.

Sem isso, não será mais do que uma liga ou associação de armas, diferindo das outras ligas apenas pelo lugar, isto é, pela circunstância indiferente da proximidade ou do afastamento respectivo dos membros. Sua lei não é senão uma simples convenção de garantia, capaz, diz o sofista Licofrão, de mantê-los no dever recíproco, mas incapaz de torná-los bons e honestos cidadãos.”

Eles fizeram um pacto de não-agressão no que toca a seus comércios e até prometeram tomar armas para sua mútua defesa, mas não têm outra comunicação a não ser o comércio e seus tratados. Mais uma vez, esta não será uma sociedade civil. Por quê, então?” “A cidade, portanto, NÃO é precisamente uma comunidade de lugar, nem foi instituída simplesmente para se defender contra as injustiças de outrem ou para estabelecer comércio. Tudo isso deve existir antes da formação do Estado, mas não basta para constituí-lo.”

É isto o que chamamos uma vida feliz e honesta. A sociedade civil é, pois, menos uma sociedade de vida comum do que uma sociedade de honra e de virtude.”

PAI & FILHO, CARA & COROA: “Todos vemos que não é pelos bens exteriores que se adquirem e conservam as virtudes, mas sim que é pelos talentos e virtudes que se adquirem e conservam os bens exteriores e que, quer se faça consistir a felicidade no prazer ou na virtude, ou em ambos, os que têm inteligência e costumes excelentes a alcançam mais facilmente com uma fortuna medíocre do que os que têm mais do que o necessário e carecem dos outros bens.” “Os bens da alma não são apenas honestos, mas também úteis, e quanto mais excederem a medida comum, mais terão utilidade.” “A felicidade é muito diferente da boa fortuna. Vêm-nos da fortuna os bens exteriores, mas ninguém é justo ou prudente graças a ela, nem por seu meio.”

Que vida preferir, a que toma parte do governo e dos negócios públicos ou a vida retirada e livre de todos os embaraços do gênero? Não entra no plano da Polítíca determinar o quê pode convir a cada indivíduo, mas sim o que convém à pluralidade. Em nossa Étíca, aliás, tratamos do primeiro ponto.

AS MELHORES CONSTITUIÇÕES APUD GRÉCIA ANTIGA: “Em Esparta e em Creta, a quase totalidade de sua disciplina e de suas numerosas regras é dirigida para a guerra. Em todas as nações que têm o poder de crescer, entre os citas, entre os persas, entre os trácios, entre os celtas, não há nenhuma profissão mais estimada do que a das armas. Em alguns lugares, existem leis para estimular a coragem guerreira. Em Cartago, as pessoas são decoradas com tantos anéis quantas foram as campanhas que fizeram. Na Macedônia, uma lei pretendia que aqueles que não houvessem matado nenhum inimigo tivessem que andar de cabresto. Entre os citas, aquele que estivesse nesse caso sofria a afronta de não beber à roda, na taça das refeições solenes. A Ibéria, nação belicosa, levanta ao redor das tumbas tantos obeliscos quantos inimigos o defunto matou.”

Não é ofício nem do médico nem do piloto persuadir ou fazer violência, um a seus doentes, o outro a seus marinheiros. Mas muitos parecem considerar a dominação como o objeto da política, e aquilo que não cremos nem justo nem útil para nós não temos vergonha de tentar contra os outros.” “Se a natureza estabeleceu esta distinção, pelo menos não se deve tentar dominar a todos, mas apenas aos que só servem para serem submetidos. É assim que não se vai à caça para pegar os homens e comê-los ou matá-los, mas apenas para pegar os animais selvagens que são comestíveis.

não é exato elevar a inação acima da vida ativa, já que a felicidade consiste em ação, e as ações dos homens justos e moderados têm sempre fins honestos.”

Entre semelhantes, a honestidade e a justiça consistem em que cada um tenha a sua vez. Apenas isto conserva a igualdade. A desigualdade entre iguais e as distinções entre semelhantes são contra a natureza e, por conseguinte, contra a honestidade. Se, porém, se encontrasse alguém que ultrapassasse todos os outros em mérito e em poder e tivesse provado seu valor com grandes façanhas, seria belo ceder a ele e justo obedecer-lhe. Mas não basta ter mérito, é preciso ter bastante energia e atividade para estar certo do êxito.”

Como a maioria dos homens tem mania de dominar os outros para obter todas as comodidades, Tíbron e todos os que escreveram sobre o governo de Esparta parecem admirar seu legislador por ter aumentado muito seu império, tendo exercitado a nação nos perigos da guerra. Mas, agora que os espartanos não dominam mais, deixaram de ser felizes, e seu legislador de merecer sua reputação. Não é ridículo que, persistindo sob as leis de Licurgo e não tendo nada que os impedisse de valer-se delas, eles tenham deixado escapar sua felicidade?”

Não é um sinal de sabedoria para o legislador treinar seu povo para vencer seus vizinhos. Disso só podem resultar grandes males, e aquele que for bem-sucedido não vai deixar de investir contra a sua própria pátria e, se puder, de assenhorear-se dela. Essa é a censura que os espartanos fazem ao rei Pausânias, cuja ambição não se contentou com este alto grau de honra.”

Ao fazer a guerra, vários Estados se conservaram, mas, assim que conquistaram a superioridade, entraram em decadência, semelhantes ao ferro que se enferruja pela inação.”

Não há repouso para os escravos, diz o provérbio. Ora, os que não têm coragem para se expor aos perigos tornam-se escravos de seus agressores.”

os que parecem felizes e, semelhantes aos habitantes das Ilhas Afortunadas de que falam os poetas, gozam de tudo o que pode contribuir para a felicidade, precisam mais do que os outros de justiça e de temperança. Quanto mais opulência e lazer tiverem, mais precisarão de filosofia, de moderação e de justiça, e o Estado que quiser ser feliz e florescente deve inculcar-lhes estas virtudes o máximo possível. Se há algo de ignóbil em não saber gozar das riquezas, há bem mais ainda em fazer mau uso delas quando só se tem isso para fazer. É revoltante que homens, aliás, dignos de estima nos trabalhos e nos perigos da guerra se comportem como escravos no descanso e na paz.”

há dois tipos de hábitos, uns apaixonados, ou provindos da sensibilidade, outros intelectuais. E, assim como o corpo é gerado antes da alma, a parte carente de razão o é, igualmente, antes da razoável. Isto se observa pelos rasgos de cólera, pelos desejos e pelas vontades mostradas pelas crianças tão logo nascem.”

deve preocupar-se com a sucessão das crianças; que não haja entre elas e os pais uma distância de idade grande demais, pois neste caso os filhos não podem mostrar seu reconhecimento aos pais na velhice, nem os pais podem ajudar seus filhos tanto quanto preciso.”

O final da procriação ocorre, para os homens, aos 70 anos; para as mulheres, aos 50. Sua união deve começar na mesma proporção. A dos adolescentes não vale nada para a progenitura. Em todas as espécies animais, os frutos prematuros de sujeitos jovens demais, sobretudo se se tratar da fêmea, são imperfeitos, fracos e de pequena estatura. O mesmo ocorre com a espécie humana. Observa-se, com efeito, esta imperfeição em todos os lugares em que as pessoas se casam jovens demais. Só nascem abortos.” Continuando com a proporção 70/50: 20/14, 30/21, 40/28, 50/35…

Aquelas que conhecem cedo demais o uso das familiaridades conjugais são de ordinário mais lascivas. Por outro lado, nada retarda ou detém mais depressa o crescimento dos moços jovens do que se entregar cedo demais ao relacionamento com as mulheres, sem esperar que a natureza tenha neles elaborado completamente o licor prolífico. Há para o crescimento uma época precisa, além da qual não se cresce mais.”

verdadeira idade para casar as moças é aos 18 anos e para os homens aos 37, aproximadamente. Com isso a conjunção dos corpos se fará em pleno vigor, e a geração, depois, terminará num tempo conveniente tanto para um como para outro. Da mesma forma, a sucessão dos filhos a seus pais estará melhor colocada, se nascerem convenientemente no intervalo entre a força da idade e o declínio, que começa por volta dos 70.” [!!!]

Quanto à estação do ano própria à geração, o inverno é a que mais convém, como hoje se observa quase em toda parte.” “os físicos ensinam que ventos são favoráveis ao ato sexual; por exemplo, eles preferem o vento do norte ao do sul.”

Diremos somente que a compleição atlética não é útil nem à saúde, nem à geração, nem aos empregos civis; o mesmo ocorre com os corpos fracos, acostumados ao regime médico.”

Pedonomia: parte da pedagogia que estipula as regras (formas) da aplicação da pedagogia, i.e., do conteúdo em si da educação.

Se o corpo precisa de movimento, o espírito necessita de repouso e de tranqüilidade. No ventre da mãe os filhos recebem, como os frutos da terra, a impressão do bem e do mal.”

Sobre o destino das crianças recém-nascidas, deve haver uma lei que decida os que serão expostos e os que serão criados. Não seja permitido criar nenhuma que nasça mutilada, isto é, sem algum de seus membros; determine-se, pelo menos, para evitar a sobrecarga do número excessivo, se não for permitido pelas leis do país abandoná-los, até que número de filhos se pode ter e se faça abortarem as mães antes que seu fruto tenha sentimento e vida, pois é nisto que se distingue a supressão perdoável da que é atroz.” Até eugênicos antigos têm escrúpulos morais “anteprotestantes”…

Desde os primeiros momentos do nascimento, é bom acostumar as crianças ao frio; isto faz um bem infinito à saúde e dispõe às funções militares.”

Na idade seguinte, até os cinco anos, não é conveniente dar nada para as crianças aprenderem, nem submetê-las a qualquer trabalho. Isto poderia impedir seu crescimento. Basta mantê-las em movimento para preservar seus corpos da preguiça e do peso. Este movimento deve consistir apenas nas funções da vida e nas brincadeiras, tomando cuidado somente para que elas não sejam nem desonestas nem penosas, nem destituídas demais de ação.”

Em certos lugares, comete-se o erro de proibir à criança o choro e os movimentos expansivos. Todos estes atos servem para seu desenvolvimento e fazem parte, por assim dizer, dos exercícios corporais. O ato de reter a respiração dá força aos que trabalham. Isto também ocorre no próprio esforço das crianças para gritar.”

impedir muita conversa e familiaridade, sobretudo com os escravos.”

SIGA SEU MESTRE: “Se proibimos as conversas indecentes, com mais forte razão proibiremos as pinturas e as exibições do mesmo gênero. Os magistrados, portanto, não admitirão nem estátuas, nem pinturas lúbricas, a não ser as de certas divindades cujo culto a lei reserva aos homens adultos, a quem ela permite sacrifícios, tanto por eles quanto por suas mulheres e crianças.”

Também se deve proibir aos jovens os teatros e sobretudo a comédia, até que tenham atingido a idade de participar das refeições públicas e a boa educação os tenha colocado em condições de experimentar impunemente a bebedeira dos banquetes, sem contrair a embriaguez ou os outros vícios que a acompanham. Passaremos rapidamente por esta matéria, para voltar a ela uma outra vez e discutir se este costume deve ser mantido, e como.

Não há de se aprovar, segundo cremos, a partilha que fazem certas pessoas que dividem toda a vida de 7 em 7 anos. Mais vale seguir o ritmo da natureza. Ela apenas esboçou suas obras. A obra da educação, assim como a de todas as artes, deve unicamente completar o que falta ao ser das obras da natureza.”

Como não há senão um fim comum a todo o Estado, só deve haver uma mesma educação para todos os súditos. Ela deve ser feita não em particular, como hoje, quando cada um cuida de seus filhos, que educa segundo sua fantasia e conforme lhe agrada; ela deve ser feita em público. Tudo o que é comum deve ter exercícios comuns. É preciso, ademais, que todo cidadão se convença de que ninguém é de si mesmo, mas todos pertencem ao Estado, de que cada um é parte e que, portanto, o governo de cada parte deve naturalmente ter como modelo o governo do todo.”

Não se sabe se se deve ensinar às crianças as coisas úteis à vida ou as que conduzem à virtude, ou as altas ciências, que se podem dispensar. Cada uma destas opiniões tem seus partidários. Não há nem mesmo nada de certo a respeito da virtude, não sendo o mesmo gênero de virtude apreciado unanimemente. Também se diverge sobre o gênero de exercícios a praticar.”

Não é fora de propósito conceder algum tempo a certas ciências, mas entregar-se a elas por inteiro e querer ser consumado nelas não deixa de ter seus inconvenientes e pode ser nocivo às graças da imaginação.”

Quanto à música, sua utilidade não é igualmente reconhecida. Muitos hoje a aprendem apenas por prazer. Mas os antigos fizeram dela, desde os primeiros tempos, uma parte da educação, pois a natureza não procura apenas dar exatidão às ações, mas também dignidade ao repouso. A música é o princípio de todos os encantos da vida.”

Se possível, é melhor descartar o jogo entre as ocupações. Quem trabalha precisa de descanso: o jogo não foi imaginado senão para isto. O trabalho é acompanhado de fadiga e de esforços. É preciso entremeá-lo convenientemente de recreações, como um remédio.”

Não que ela seja necessária: ela não o é. Não que ela tenha tanta importância quanto a escrita, que serve para o comércio, para a administração doméstica, para as ciências e para a maioria das funções civis, ou quanto a pintura, que nos permite julgar melhor a obra dos artistas, ou quanto a ginástica, que ajuda a saúde e o desenvolvimento das forças; a música não faz nada disso. Mas ela serve pelo menos para passar agradavelmente o lazer. É por isso que ela foi posta na moda. Ela pareceu a seus inventores a diversão mais conveniente às pessoas livres.

Existem povos que não evitam os massacres e são ávidos de carne humana, mas que, quando atacados, são tudo, menos valentes; por exemplo, os aqueus e os heniocos do Ponto Euxino, e outras nações mais distantes que pertencem às terras da mesma região, sendo que as outras preferem a profissão de ladrões.”

Aqueles que expõem em demasia os jovens aos exercícios do ginásio e os deixam sem instrução sobre as coisas mais necessárias, fazem deles, na verdade, apenas reles guarda-costas, que servem no máximo para uma das funções da vida civil, uma função, porém, que, se consultarmos a razão, é a menor de todas. Não é por suas proezas antigas, mas sim pelas do presente que devem ser julgados.”

até a puberdade só se praticarão exercícios leves, sem sujeitar os corpos aos excessos de alimentação, nem aos trabalhos violentos, por temor de que isso impeça o crescimento. A prova do efeito funesto deste regime forçado é que entre os que venceram nos jogos olímpicos em sua juventude dificilmente se encontrarão dois ou três que também venceram numa idade mais avançada. Por que isto? Porque a violência dos exercícios a que se tinham submetido desde a infância esgotara sua força e seu vigor.”

PRÉ-ROUSSEAU: “Com efeito, não se deve atormentar ao mesmo tempo o espírito e o corpo. Desses exercícios, um impede o outro; o do corpo é nocivo ao espírito, e o do espírito ao corpo.”

Se estiver em nosso poder escolhê-la segundo o desejo, a situação da Cidade deve ser próxima do mar e do campo; assim, a ajuda seria fácil de um lugar para outro e de toda parte, assim como a exportação e a importação das mercadorias. Haveria comodidade para transportar a madeira e todos os outros materiais do país.” “a comodidade do mar faz com que se envie para o exterior ou se receba na cidade uma multidão de mercadores, o que é igualmente pernicioso para o Estado.” “Somente a atração do lucro faz com que estabeleça em seu território mercados abertos a todos. Há aí uma avareza condenável, e não é assim que um Estado ou uma cidade devem praticar o comércio.”

Os soldados da marinha, pelo contrário, são livres e, assim como seus oficiais, provêm da infantaria. São eles que comandam os marinheiros [que, diferente dos soldados da marinha, não são cidadãos]. Quanto à tripulação, é completada com camponeses e lavradores dos arredores. É o que se pratica em certos lugares, por exemplo Heracléia, cujas galeras estão sempre bem-tripuladas, embora a cidade seja muito menor do que várias outras.”

se as águas são raras ou de diversas qualidades, deve-se separar, como se faz nas cidades bem-cuidadas, as que são boas para beber das que podem servir para outros usos.”

no que se refere às casas particulares, elas serão bem mais agradáveis e mais cômodas se seu espaço for bem-distribuído, com uma estrutura à maneira moderna, ao gosto de Hipódamos.¹”

¹ Hipódamos de Mileto foi um polímata do século V a.C., tido como fundador da concepção de Planejamento Urbano, que estendia a preocupação da arquitetura para toda a polis em si. Planejou pela primeira vez a simetria geométrica da disposição das ruas e das casas e, ao mesmo tempo, a existência de um centro despovoado e amplamente aberto, i.e., a Ágora. As casas que ele planejou eram mais espaçosas e tinham dois andares.

Não se alinharão todas as ruas de um extremo ao outro, mas apenas certas partes, tanto quanto o permitir a segurança e o exigir a decoração.”

Embora não seja muito honroso opor muros de defesa a guerreiros da mesma têmpera que não têm uma grande vantagem numérica, é possível que os sitiantes consigam um tal acréscimo de forças que todo valor humano, mas com poucas pessoas, não possa resistir-lhes. Portanto, se não se quer morrer, nem se expor ao ultraje, deve-se considerar como uma das medidas mais autorizadas pelas leis da guerra manter suas muralhas no melhor estado de fortificação, principalmente hoje, quando se imaginaram tantos instrumentos e máquinas engenhosas para atacar fortificações. Não querer cercar as cidades com muros é como abrir o país às incursões dos inimigos e retirar os obstáculos de sua frente, ou como se recusar a fechar com muros as casas particulares, de medo que os que nelas habitam se tornem medrosos.”

é claro que num Estado tão perfeitamente constituído que não admita como cidadãos senão pessoas de bem, não apenas sob certos aspectos, mas integralmente virtuosos, não devemos contar entre eles aqueles que exercem profissões mecânicas ou comerciais, sendo esse gênero de vida ignóbil e contrário à virtude” TERCEIRA REPETIÇÃO!

primeiro, na juventude, o comando da força armada para defender o Estado; depois, quando maduros, a autoridade para governá-lo.”

Convém não ligar ao culto divino senão cidadãos, e não se devem educar para o sacerdócio nem lavradores que puxam arado, nem trabalhadores que saem de sua forja. Tendo a universalidade dos cidadãos sido dividida em duas classes, a dos homens de guerra e a dos homens de lei, é aí que se devem tomar os ministros da religião.”

Esta necessidade de dividir o Estado em classes diversas, segundo a variedade das funções, e de separar os homens de guerra dos lavradores não é uma invenção de hoje, nem um segredo recém-descoberto pelos filósofos que se ocupam de política. Tal distinção foi introduzida no Egito pelas leis de Sesóstris e em Creta pelas de Minos.¹ Elas ainda subsistem atualmente nestes lugares.”

¹ Afinal de contas Minos ter existido como homem de carne e osso é hipótese tão verossímil quanto com Licurgo e Sólon?

Os sábios do país contam que um certo Italus foi rei na Enótria. Os habitantes tomaram seu nome e, em vez de enotrianos, se chamaram italianos. O nome de Itália ficou também para a costa da Europa entre o golfo de Cilética e o golfo Lamético, distantes meia jornada um do outro. Segundo estes historiadores, foi Italus quem, de pastores errantes, tornou os enotrianos lavradores sedentários. Entre outras leis que lhes deu, estabeleceu pela primeira vez que comessem juntos. Este costume ainda hoje se observa entre alguns de seus descendentes, assim como algumas outras de suas leis. Os ópicos, antigamente chamados ou cognominados ausônios, nome que lhes ficou, habitavam a costa do Tirreno; e os caonianos, descendentes dos enotrianos, a praia chamada Sirtes, entre a Lapígia e a Jônia.”

É bem crível que muitas outras coisas foram inventadas várias vezes, talvez ao infinito, na longa seqüência dos séculos. Ao que parece, inicialmente a necessidade inventou as coisas necessárias; em seguida, por adjunção, as que servem para um maior conforto e para ornamento. O mesmo ocorre com a legislação e as constituições civis. Podemos conjeturar como elas são antigas pelo exemplo dos egípcios, que remontam à mais alta antiguidade e desde sempre tiveram leis e uma constituição. Cabe a nós aproveitar suas boas invenções e lhes acrescentar o que lhes falta.”

Todos concordam que as mesas comuns e as refeições públicas convêm às cidades bem-organizadas politicamente. Isto também nos agrada, mas é preciso que nelas todos os cidadãos sejam recebidos gratuitamente; caso contrário, não será fácil para aqueles que só têm o estrito necessário fornecer a sua parte e ainda arcar com o sustento de sua família.”

* * *

DA CÉLEBRE DIVISÃO ENTRE AS FORMAS DE GOVERNO

MODALIDADES IDEAIS: “Chamamos monarquia (1) o Estado em que o governo que visa a este interesse comum pertence a um só; aristocracia (2), aquele em que ele é confiado a mais de um, denominação tomada ou do fato de que as poucas pessoas a que o governo é confiado são escolhidas entre as mais honestas, ou de que elas só têm em vista o maior bem do Estado e de seus membros [aristo+cracia = governo dos melhores]; república (3), aquele em que a multidão governa para a utilidade pública; este nome também é comum a todos os Estados.

MODALIDADES CORROMPIDAS: “A tirania (4) não é, de fato, senão a monarquia voltada para a utilidade do monarca; a oligarquia (5), a aristocracia voltada para a utilidade dos ricos; a democracia (6), a república voltada para a utilidade dos pobres.”

A oligarquia estabeleceu-se desde os tempos mais remotos em todos os lugares que tinham na cavalaria a sua principal força, como os eretrianos, os de Cálcides, os magnésios do Meandro e vários outros povos asiáticos. Montava-se a cavalo para combater os inimigos dos arredores.”

1. MONARQUIA

No Estado de Esparta,¹ p.ex., há uma monarquia das mais legítimas, mas o poder do rei não é absoluto, a não ser quando o monarca estiver fora de seus Estados e em situação de guerra, pois então ele tem a autoridade suprema sobre seu exército. Além disso, ele tem no interior a superintendência do culto e das coisas sagradas. Esta espécie de monarquia não é, pois, senão um generalato perpétuo, com plenos poderes, sem porém ter o direito de vida e de morte, a não ser em certo domínio ou, nas expedições militares, quando se está combatendo, como era costume antigamente. É o que se chama lei do golpe de mão. Homero refere-se a ela. Segundo ele, Agamêmnon, na Assembléia do povo, tolerava as palavras menos respeitosas. Fora dali, de armas na mão, tinha o poder de morte sobre os soldados delinqüentes.”

¹ Platão e Montesquieu, por exemplo, recusam o status de monarquia a Esparta/Lacedemônia.

O comando militar inamovível é, portanto, um primeiro tipo de monarquia, sendo umas hereditárias e outras eletivas.”

DESACERTO NOS CRITÉRIOS: “Tendo os bárbaros naturalmente a alma mais servil do que os gregos e os asiáticos, eles suportam mais do que os europeus, sem murmúrios, que sejam governados pelos senhores. É por isso que essas monarquias, embora despóticas, não deixam de ser estáveis e sólidas, fundadas que são na lei e transmissíveis de pai para filho. Pela mesma razão, sua guarda é real, e não tirânica, pois os reis são protegidos por cidadãos armados, ao passo que os déspotas recorrem a estrangeiros. Aqueles governam de acordo com a lei súditos de boa vontade; estes, pessoas que só obedecem contrafeitas. Aqueles são protegidos pelos cidadãos; estes, contra os cidadãos. São, portanto, dois tipos diferentes de monarquia.”

Antes do aparecimento da figura de um César, A. prefigura a instituição do ditador da República Romana final, no plano teóricoa, como sendo um governo monárquico não-tirânico, posto que legal. É verdade que matiza este raciocínio depois: “Estes principados são, portanto, ao mesmo tempo despóticos pela maneira com que a autoridade é exercida e reais pela eleição e submissão espontânea do povo.” Este último critério transformaria quase todos os governos atuais da Terra em monarquias constitucionais, quando vemos não passar de tiranias, se é para dicotomizar entre as duas! Hitler como um monarca constitucional seria uma piada de humor negro. Mas é ao que a taxonomia aristotélica conduz…

Os reis dos primeiros séculos tinham autoridade sobre todos os negócios de Estado, tanto dentro quanto fora, e para sempre. A partir daí, quer porque abandonaram por si mesmos uma parte da autoridade, quer porque tenham sido despojados dela pelo povo, foram reduzidos em alguns Estados à simples qualidade de soberanos sacrificadores ou pontífices e, nos lugares onde se conservou o nome de rei, à simples faculdade de comandar os exércitos além das fronteiras.”

2. ARISTOCRACIA

O nome de aristocracia convém perfeitamente ao regime que já mencionamos acima, pois não se deve, com efeito, dar este nome senão à magistratura composta de pessoas de bem sem restrição e não a essas boas pessoas em que toda a retidão se limita ao patriotismo.”

Aristóteles perde a mão em suas classificações, sem uma exceção sequer! “Há um ar de aristocracia em toda parte onde se observa a virtude, embora sejam prezadas também a riqueza e a popularidade, como entre os espartanos, que unem a popularidade às considerações devidas à virtude. São estas duas espécies de aristocracia, além da primeira [essas subdivisões não guardam o menor interesse], as únicas a merecerem o nome de excelente e perfeita República [no sentido lato: todos os seis governos!].”

3. “REPÚBLICA” (é o próprio Aristóteles que coloca o título entre aspas!)

Reservamo-la para o final [meio!] não por ser uma depravação da aristocracia, de que acabamos de falar (pois é normal começar, como fizemos, pelas formas puras e depois ir às formas desviadas), mas porque ela reúne o que há de bom em dois regimes degenerados, a oligarquia e a democracia.

Na oligarquia, a lei não concede aos pobres nenhum salário para administrar a justiça e estabelece penas contra os ricos, caso se recusem a fazer parte de uma assembléia; na democracia, a lei dá um salário aos pobres mas não aplica nenhuma pena aos ricos. A mistura conveniente ao Estado, que ocupa o meio entre estes governos e é composta pelos dois, é conceder o salário aos pobres e aplicar a multa aos ricos.” “É democrático, por exemplo, escolher os magistrados por sorteio; oligárquico, elegê-los; democrático, não considerar a renda”

SÓ PIORA: “É o que se observa em Esparta: muitos, com efeito, a colocam na classe das democracias, porque ela tem muitas instituições dessa natureza. [!!!] Na educação das crianças, a comida é a mesma para os filhos dos ricos e para os dos pobres, a mesma instrução, a mesma severidade no trato; na idade seguinte, o mesmo gênero de vida quando se tornam homens.”

Apenas definições negativas e compósitas de “república”, além de ininteligíveis! Desistam de se apoiar nesses conceitos aristotélico, pelo BEM de todos nós!

4. TIRANIA

Quanto mais a monarquia se aproxima idealmente do governo celeste, mais sua alteração é detestável. A monarquia não passa de um vão nome, se não se distingue pela grande excelência de quem reina. O vício mais diametralmente contrário a sua instituição é a tirania. Portanto, é também o pior dos governos.”

5. OLIGARQUIA

Os postos são concedidos aos mais ricos e nomeiam a si próprios em caso de vacância. Se a escolha se fizesse entre todos, seria aristocrática; o que a torna oligárquica é que ela se faz numa classe determinada. Todavia, não sendo poderosos o suficiente para governar sem leis, transformam em leis a preferência que se arrogam.

Se seu número diminuir e sua riqueza tiver novos aumentos, forma-se um segundo grau de oligarquia, no qual, aproveitando a ascendência que adquiriram por seus postos, fazem com que se ordene por uma nova lei que seus filhos serão seus sucessores.”

Tendo aumentado ainda mais sua riqueza e seu crédito, a potência dos oligarcas aproxima-se da monarquia. Este vício é semelhante tanto à tirania que se introduz nas monarquias quanto à última espécie de democracia, de que falaremos. Chama-se dinastia ou, mais exatamente, politirania.”

6. DEMOCRACIA

INDIRETA A PLATÃO? “Não se deve, como costumavam fazer certas pessoas, definir simplesmente a democracia como o governo em que a maioria domina. Nas próprias oligarquias e em qualquer outra parte, é sempre a maioria que se sobressai.”

Se os poderes se distribuíssem de acordo com a estatura [!], como acontece, segundo certos autores, na Etiópia, ou de acordo com a beleza [Ganimedolândia ou quiçá Ilha dos alcibíadas], haveria oligarquia, porque a beleza e a alta estatura não pertencem à maioria.”

Aristóteles se esquece do espírito de um governo e da tendência das sociedades. Procura uma classificação tirando fotos, ou seja, espúria e ingênua.

Uns e outros abundam em alguns lugares, como os pescadores em Tarento e em Bizâncio, os marinheiros em Atenas, os negociantes na ilha de Egina e em Quios, os barqueiros em Tenedos. Devem-se juntar a eles os trabalhadores manuais e todos os que não são abastados o suficiente para ficar sem fazer nada, os que não nasceram de pai e mãe livres e toda espécie de populaça semelhante.”

Como o Estado não pode existir sem magistrados e precisa de homens capazes de realizar suas funções, precisa também de pessoas que executem suas ordens e estejam encarregadas do serviço, quer para sempre, quer alienadamente.”

A CARICATURA ARISTOTÉLICA (JULGA QUE NÃO HÁ DINÂMICA DE CLASSES OU ESTRATOS, E QUE QUEM ASCENDE AO PODER NÃO ENRIQUECE NEM SE DISTINGUE EM POUCO TEMPO): “A quarta é aquela que se introduziu em último lugar nas Cidades que se tornaram maiores e mais opulentas do que eram nos primeiros tempos. Ela exibe a igualdade absoluta, isto é, a lei coloca os pobres no mesmo nível que os ricos e pretende que uns não tenham mais direito ao governo do que os outros, mas que a condição destes e daqueles seja semelhante. Pois se a alma da democracia consiste, como pensam alguns, na liberdade, sendo todos iguais a este respeito, devem ter a mesma parte nos bens civis e principalmente nos grandes cargos; e, como o povo é superior em número e o que agrada à pluralidade é lei, tal Estado deve necessariamente ser popular. Mas, se todos são indistintamente admitidos no governo, é a massa que se sobressai e, sendo os pobres assalariados, podem deixar o trabalho e permanecer ociosos, não os retendo em casa a preocupação com seus próprios negócios. É, pelo contrário, um obstáculo para os ricos que não assistem às Assembléias nem se preocupam com o papel de juiz. Resulta daí que o Estado cai no domínio da multidão indigente e se vê subtraído ao império das leis. Os demagogos calcam-nas com os pés e fazem predominar os decretos. Tal gentalha é desconhecida nas democracias que a lei governa. Os melhores cidadãos têm ali o primeiro lugar. Mas onde as leis não têm força pululam os demagogos. O povo torna-se tirano. Trata-se de um ser composto de várias cabeças; elas dominam não cada uma separadamente, mas todas juntas. Não se sabe se é desta multidão ou do governo alternado e singular de vários de que fala Homero quando diz que <não é bom ter vários senhores>. De qualquer modo, o povo, tendo sacudido o jugo da lei, quer governar só e se torna déspota. Seu governo não difere em nada da tirania. Os bajuladores são honrados, os homens de bem sujeitados. O mesmo arbítrio reina nos decretos do povo e nas ordens dos tiranos. Trata-se dos mesmos costumes. O que fazem os bajuladores de côrte junto a estes, fazem os demagogos junto ao povo. Gozam do mesmo crédito.”

Se pretendermos que a democracia seja uma das formas de governo, então não se deverá nem mesmo dar este nome a esse caos em que tudo é governado pelos decretos do dia, não sendo então nem universal nem perpétua nenhuma medida.”

* * *

Sobre a divisão dos poderes, existente em qualquer forma de governo, em tempos bem anteriores a Montesquieu e às noções modernas…

1. ???

Devo ter ficado burro, porque me tornei incapaz de entender Aristóteles: “No que se chama democracia, principalmente na de hoje, em que o povo é senhor de tudo, até das leis, seria bom, para se conseguirem boas deliberações, que as Assembléias fossem ordenadas e regulamentadas como os tribunais das oligarquias, ou ainda melhor, se possível. Ali são aplicadas penas aos que são nomeados para a judicatura, a fim de obrigá-los a julgar, ao passo que na democracia é proposto um salário aos pobres. Ora, delibera-se melhor quando todos deliberam em comum, o povo com os nobres e os nobres com a multidão.”

o corpo deliberativo, o verdadeiro soberano do Estado.” Quem é o <corpo deliberativo> (que deveria ser o título deste tópico 1)? Por eliminação (categorias a seguir), seria o poder legislativo. Mas pelo que se lê acima esta categoria ou corpo ou poder é uma composição caótica de tudo que entendemos por poder executivo, legislativo e judiciário hoje

2. O PODER EXECUTIVO

Já é difícil determinar quem são os que devem chamar-se magistrados. A sociedade civil precisa de vários servidores. O nome de magistrados não convém a todos os que são nomeados por eleição ou por sorteio. É o caso dos sacerdotes, sendo seu ministério de natureza diferente da dos ofícios políticos, dos diretores de coro, dos arautos, dos embaixadores, embora também eles sejam eletivos.” “É de pouca utilidade o modo como são chamados, já que sua denominação, que é discutível, ainda não ficou bem decidida. Mas não é de pouca importância bem distinguir os seus atributos.”

O primeiro cuidado do governo é fazer com que se encontrem nos mercados os víveres necessários. Para tanto, deve haver um magistrado que cuide de que tudo seja feito de boa fé e que a decência seja observada.” O Brasil de hoje já não atende ao primeiro requisito de Aristóteles…

O oficio que se segue imediatamente é de primeira necessidade, mas também de enorme dificuldade: é o de executor das sentenças de condenação, o de pregoeiro de bens apreendidos e o de guarda das prisões. É difícil prestar-se a estas funções por causa dos ódios a que elas expõem, e não se aceitam semelhantes trabalhos a menos que sejam muito lucrativos [ou que estejamos falando de indivíduos sádicos]. Quando são aceitos, não se ousa seguir o rigor da lei, que é, porém, algo indispensável. De nada serviria sustentar uma causa e obter uma sentença se não houvesse ninguém para fazer com que ela fosse obedecida. Sem a execução, é impossível que a sociedade subsista.”

Se a mesma pessoa condena e faz executar, é alvo de um duplo ódio. Se se depara com o mesmo executor em toda parte, trata-se de um meio de fazer com que ele seja universalmente odiado.

Em vários lugares, a profissão de carcereiro é separada da de executor, como em Atenas, no tribunal dos Onze. Esta separação é uma atenuação não menos necessária do que a precedente. Tais ofícios têm a desvantagem de serem evitados pelas pessoas de bem tanto quanto possível, e não é seguro confiá-los a malandros. Estes precisam muito mais ser eles próprios vigiados do que vigiarem. Portanto, estas funções não devem pertencer a um cargo fixo, nem estar sempre nas mesmas mãos, mas sim ser realizadas ora por um, ora por outro, principalmente nos lugares em que a guarda da cidade é confiada a companhias de jovens.”

POLÍCIA: “Depois destes ofícios de maior urgência, vêm outros não menos necessários, mas de uma ordem mais elevada e de um maior valor representativo, pois exigem mais experiência e necessitam de maior confiança.” “Nos pequenos [lugares], basta para todos um comandante em chefe. Chamam-se estes chefes Estrategos ou Polemicas, a cavalaria, a infantaria ligeira, os arqueiros, a marinha têm cada qual seus oficiais particulares chamados Navarcas (almirantes), Hiparcas (generais de cavalaria), Taxiarcas (coronéis), e seus oficiais subalternos, Trierarcas, Locagos, Filarcas e outros subordinados, todos ocupados única e exclusivamente com os trabalhos de guerra.”

Embora nem todas as funções de que acabamos de falar participem do manejo do dinheiro público, mas como algumas estão amplamente envolvidas nisso, é preciso que haja acima delas um outro magistrado que, sem que ele mesmo administre coisa alguma, faça com que os outros prestem contas de sua administração e a corrijam. Uns o chamam auditor; outros, inspetor de contas; outros, grande procurador.

Além disso, uma magistratura suprema de que dependam todas as outras é, enfim, necessária. Ela tem ao mesmo tempo o direito ordinário de impor os impostos e de inspecionar a sua percepção. Em toda parte onde o povo é senhor, ela preside às Assembléias (pois é preciso que aqueles que as convocam tenham nelas a principal autoridade). Em alguns lugares, ela é chamada a Probulia, ou Consulta, porque prepara as deliberações. Nas democracias, em que a massa decide soberanamente, dão-lhe o nome de senado.” Realmente é curioso: senado executor!

Recapitulando toda esta exposição, constataremos que todos os ofícios ou ministérios necessários têm por objeto quer as honras devidas ao Ser supremo, quer o serviço militar, quer a administração das finanças, vale dizer, a receita ou a despesa das rendas públicas, quer o abastecimento dos mercados ou a polícia das cidades, dos portos e dos campos, além da administração da justiça, o tabelionato dos contratos, a execução das sentenças, a guarda das prisões, a auditoria e o exame das contas, a reforma dos abusos e das prevaricações, enfim, as deliberações sobre os negócios de Estado.

Os povos que gozam de maior lazer e de uma paz profunda, ou que estão em condições de sentir o secreto encanto do bem-estar e de obtê-lo para si mesmos, têm ofícios próprios, como a Nomofilacia ou guarda das leis, a inspeção do comportamento das mulheres, a disciplina das crianças, o reitorado dos ginásios, a intendência dos exercícios ginásticos, das festas de Baco e outros espetáculos do mesmo gênero.

Destes ofícios, alguns – como a disciplina das mulheres e das crianças – não convêm à democracia, cujo povo quase só é composto de pobres que, não tendo condições de se fazer servir por outros, são forçados a empregar suas mulheres e suas crianças como domésticos.”

Nas cidades pequenas, a falta de gente força a que se confiram vários ofícios à mesma pessoa. Não se encontram pessoas nem para todas as funções, nem para a sucessão de cada uma delas. Às vezes, porém, elas precisam das mesmas magistraturas e da mesma constituição que as grandes, com a única diferença de que umas são com freqüência forçadas a voltar sempre às mesmas pessoas, e as outras só são obrigadas a isto após longos intervalos. É assim que se suspendem em um mesmo lustre várias velas.”

É própria da aristocracia a inspeção das mulheres e das crianças. Tal função não é nem democrática, nem oligárquica. Como, com efeito, impedir as mulheres dos pobres de saírem ou censurar as mulheres dos oligarcas, acostumadas a viver no luxo?”

Estas diversidades podem combinar-se duas a duas, de modo que tais magistrados sejam eleitos por tais cidadãos e os outros por todos; uns escolhidos dentre eles, outros tirados de tal classe; uns escolhidos por sorteio, outros por eleição.”

3. O PODER JUDICIÁRIO

Além destes tribunais [sete], existem juízes para os casos mínimos, tais como os de 1 até 5 dracmas, ou pouco mais, pois, se é preciso julgar estas queixas, elas não merecem ser levadas diante dos grandes tribunais.”

Nada de relevo neste tópico. Aliás, a obra como um todo se mostra fraca, indigna do maior discípulo de Platão.

* * *

Os povos que habitam as regiões frias, principalmente da Europa, são pessoas corajosas, mas de pouca inteligência e poucos talentos. Vivem melhor em liberdade, pouco civilizados, de resto, e incapazes de governar seus vizinhos.

Os asiáticos são mais inteligentes e mais próprios para as artes, mas nem um pouco corajosos, e por isso mesmo são sujeitados por quase todos e estão sempre sob o domínio de algum senhor.” Um preconceito eterno?

Situados entre as duas regiões, os gregos também participam de ambas. (…) Poderiam mandar no mundo inteiro se formassem um só povo e tivessem um só governo.”

PSICOLOGIA AGORA? “O coração é, de fato, a faculdade da alma de que procede a benevolência e pela qual nós amamos; quando, porém, ele se crê desprezado, irrita-se mais contra as pessoas que são conhecidas e com as quais convive do que contra os desconhecidos.”

PSEUDO-OVO DE COLOMBO: “Pois não é suficiente conhecer a melhor forma, é preciso ver, em cada caso particular, qual é aquela que é possível estabelecer”

Corrigir a constituição que existe não é menos incômodo do que instituir outras, assim como é tão difícil perder quanto contrair hábitos.”

UM POLEMISTA DE ÉPOCA: “Ora, como pode conseguir isto se ignorar quantas espécies de governo existem? Nossos atuais políticos, por exemplo, só conhecem uma espécie de democracia e de oligarquia; trata-se, como vimos, de um erro, pois existem várias.”

VIM PARA CONFUNDIR, NÃO PARA ESCLARECER: “Dir-se-á, talvez, que cabe à lei dominar e que não se pode agir de pior maneira do que substituindo-a pela vontade de um homem, sujeito como os demais a suas paixões. Mas, se a própria lei for ditada pelo espírito de oligarquia ou de democracia, de que nos servirá para elucidar a questão proposta?”

há uma enorme afinidade entre a monarquia e a aristocracia, elas têm quase a mesma disciplina e os mesmos costumes e seus chefes não precisam de educação diferente da que forma o homem virtuoso.” “A monarquia é, na nossa opinião, um dos melhores regimes.” Vozes da cabeça de Ari.. De todo modo, ser “um dos melhores” quando existem 4 ou 5 tipos de governo não é lá grande coisa, concordam?!

SÓ FIZ MARIAS, DIGO, SOFISMARIAS: “Querer que o espírito comande equivale a querer que o comando pertença a Deus e às leis. Entregá-lo ao homem é associá-lo ao animal irracional. Com efeito, a paixão transforma todos os homens em irracionais. (…) A lei, pelo contrário, é o espírito desembaraçado de qualquer paixão.”

A amizade supõe igualdade e semelhança.” Não leu o Lísis.

Se antigamente se deixaram governar por reis, é, sem dúvida, porque raramente se encontravam ao mesmo tempo várias pessoas eminentes quanto ao mérito, sobretudo nas pequenas cidades, como eram as dos velhos tempos.”

ISSO É UM DADO HISTÓRICO OU UMA ASSUNÇÃO METAFÍSICA? “Mas, quando os homens de mérito começaram a se multiplicar, não se quis mais aquele governo; procurou-se algo mais conveniente ao interesse comum e se formou uma República.”

Se supusermos, porém, que em geral a monarquia convém mais aos grandes Estados, que partido tomar com relação aos filhos dos reis? Deve ser hereditário o cetro? Ficaremos expostos a cair nas mãos de maus sucessores, como aconteceu algumas vezes. Dir-se-á que o pai terá o poder de não lhe passar a coroa. Mas não devemos esperar por isto: esta renúncia está muito acima da virtude que a natureza humana comporta.”

alguém aconselhou aos siracusanos que regulassem da mesma forma a importância da guarda que lhes pedia Dionísio.” Quem você quer nomear quando não nomeia?

Mas já falei bastante da monarquia” Sim, já falaste bastante de muitas coisas e mal cheguei à metade da obra…

DANCE CONFORME A MÚSICA: “como a harmonia é dividida por alguns em dois modos, o dórico e o frígio, aos quais relacionam todos os demais e dão nome a todas as suas composições musicais, de ordinário se formam, a exemplo desses dois modos, todas as Repúblicas. Mas é melhor só admitir como bem-constituídas uma ou no máximo duas espécies. As outras são como que desvios ou da boa harmonia, ou do bom governo”

A igualdade parece ser a base do direito, e o é efetivamente, mas unicamente para os iguais e não para todos. A desigualdade também o é, mas apenas para os desiguais. Ora uns e outros põem de lado esta restrição e se iludem, já que é sobre eles próprios que sentenciam; pois de maneira bastante ordinária os homens são maus juízes a seu próprio respeito. A igualdade da qual resulta a justiça ocorre, como igualmente o demonstra a nossa Ética, nas pessoas e nas coisas. Concorda-se facilmente sobre a igualdade das coisas.”

Os Estados democráticos ostentam acima de tudo a igualdade. Foi este zelo que fez com que imaginassem o ostracismo. Nenhuma ascendência é tolerada, nem por riqueza, nem por credibilidade, nem por poder, e desde que um homem alcance tal preponderância é banido por um tempo determinado pela lei. A mitologia ensina-nos que foi este o motivo pelo qual os argonautas devolveram Hércules à terra e o abandonaram. Não queria remar com os outros no Argos, acreditando-se muito acima dos marinheiros.”

O ostracismo tem por objeto apenas deter e afastar os que se distinguem demais. Os soberanos agem da mesma forma para com Estados ou nações inteiras. Foi assim que agiram os atenienses para com os de Samos, de Quios e de Lesbos. Tão logo puderam, os rebaixaram, contra a fé dos tratados. Da mesma forma, o rei da Pérsia humilhou e saqueou os medos, os babilônios e outros insolentes que não se cuidaram durante a prosperidade.”

NADA MAIS ERRADO: “o público julga melhor do que ninguém sobre música ou poesia. Uns criticam um trecho, os demais um outro, e todos captam o forte e o fraco do conjunto da obra.”

AH, ZEITGEIST! “Entendemos por médico tanto aquele que pratica a medicina como artista [acepção de formado profissionalmente] como aquele que ordena e aquele que adquiriu conhecimentos na arte tais como se encontram em todos os demais [autodidata]. Estes últimos não são menos competentes para julgar do que os doutores.”

* * *

IGUALDADE E IGUALDADE

Ora, um dos apanágios da liberdade é que todos alternadamente mandem e obedeçam. Desta diferença entre perpetuidade e alternância dependem a disciplina e a instituição. Se houvesse uma raça de homens que superasse tanto os outros quanto imaginamos que os deuses e os heróis o fazem; se essa superioridade se manifestasse primeiramente pelo porte e pela boa aparência, depois pelas qualidades da alma, e fosse indubitável para os inferiores, o melhor sem contestação seria que seu governo fosse perpétuo e que as pessoas se submetessem a ele de uma vez por todas. Mas como, com exceção, segundo Scyllax, dos indianos, de ordinário os reis não apresentam superioridade tão acentuada sobre seus súditos, é preciso que todos os cidadãos mandem e obedeçam alternadamente, e isto por várias razões.”

Aos descontentes se soma a gente do campo, sempre ávida de novidades, e qualquer que seja o número dos altos funcionários não pode ser grande o bastante para que eles sejam os mais fortes.”

Ninguém se zanga ou se sente desonrado por ceder aos mais velhos, na esperança de alcançar as mesmas honras quando tiver a idade conveniente. Pode-se, portanto, dizer que os mesmos mandam e obedecem, mas são, porém, diferentes; assim, a disciplina deve ser em parte a mesma e em parte diferente. Pois, de acordo com o provérbio, para bem comandar é preciso ter antes obedecido.

várias funções que à primeira vista pareceriam servis podem ser executadas honestamente por homens livres. A honestidade e a torpeza residem menos na natureza do ato do que no motivo que faz agir.”

um homem não deve se submeter a ninguém, ou que isto só deve acontecer se houver desforra, conseqüência necessária da liberdade distribuída a todos em igual medida.” Memes de internet são desforra?

PRINCÍPIOS DEMOCRÁTICO-ARISTOTÉLICOS:

(*)“os magistrados devem ser sorteados, ou todos sem exceção, ou pelo menos aqueles cujo cargo não requer nem luzes, nem experiência”

(*)“não se deve ter (…) nenhuma consideração para com a fortuna”

(*)“a mesma magistratura não deve ser conferida mais de uma vez à mesma pessoa, ou pelo menos que isto aconteça raramente e para pouquíssimos cargos, a não ser os militares”

(*)“todos os cargos devem ser de curta duração, ou pelo menos aqueles onde esta breve duração for conveniente”

(*)“todos devem passar pela judicatura, de qualquer classe que sejam, e ter poder para julgar sobre todos os casos em qualquer matéria, mesmo as causas da mais alta importância para o Estado, tais como as contas e a censura, a reforma do governo, assim como as convenções particulares”

(*)Judiciário fraco, legislativo e executivo sumamente poderosos (limite da abordagem pré-Montesquieu).

(*)“os membros do senado não devem ser indistintamente assalariados. Os salários arruínam o poder da magistratura; o povo, ávido de salários, atrai tudo para si”

(*)“Não se deve tolerar nenhuma magistratura perpétua. Portanto, se sobrar alguma magistratura do antigo regime, suas atribuições serão reduzidas e, de eletiva, passará a depender de sorteio. Eis o espírito de todas as democracias.

Sem contestação, o melhor povo é o que se ocupa de agricultura. Existe, pois, disposição natural para a democracia em todos os lugares em que o povo tira sua subsistência da agricultura ou da criação de gado.” “Consideram mais agradável trabalhar do que permanecer sentadas, de braços cruzados, a deliberar sobre o governo ou gerir magistraturas, a menos que haja muito que ganhar neste trabalho, pois a maioria prefere o lucro à honra. A prova de sua despreocupação quando não se desperta sua cupidez é que suportaram muito bem seus antigos déspotas e ainda hoje se acostumam com a oligarquia quando os deixam trabalhar e não tiram seus pertences. Então, eles logo alcançam a riqueza, ou pelo menos a abastança. Se tiverem além disso alguma ambição, ela é mais do que satisfeita pelo direito de voto que lhes dão nas eleições e na auditoria das contas. E mesmo que nem todos tivessem direito de assistir a elas, mas apenas o de ser voz deliberativa nas Assembléias primárias. Com efeito, é preciso considerar isto como uma das formas do governo democrático. Era esta que havia em Mantinéia.”

Esta Constituição deixará contentes os homens de bem e os nobres. Por um lado, terão a vantagem de não serem governados por pessoas baixas; por outro lado, quando chegar a sua vez, tomarão mais cuidado para governar eqüitativamente, pois terão contas a prestar e outras pessoas que os julgarão, pois é bom depender de alguém e não ter toda a liberdade para fazer o que se quer. Esta liberdade indefinida é uma má garantia contra o fundo de maldade que todo homem traz consigo ao nascer. Resulta necessariamente desta precaução a maior vantagem para todo Estado, que é ser governado por pessoas de bem que a responsabilidade torna por assim dizer impecáveis, e isto sem ameaçar a superioridade do povo. É evidente que a melhor de todas as democracias é a que é assim constituída. Por quê? Porque nela o povo tem sua importância.”

Dentre as excelentes leis que existiam antigamente entre vários povos, observamos sobretudo as que não permitiam a ninguém possuir terras ou acima de certa quantidade, ou a uma distância grande demais da cidade onde se mora. Em vários Estados era proibido alienar a herança paterna. Uma lei de Oxilus, cujo efeito é aproximadamente o mesmo, proibia que se hipotecasse parte dela aos credores. Podemos retificá-la por um texto dos afitianos que vem bem a propósito. Esse povo, embora numeroso, possuía um território bastante pequeno; todos eram lavradores, mas nos registros do censo não constava a totalidade de suas propriedades. Dividiam-nas em certo número de partes disponíveis, para que os pobres pudessem adquiri-las em quantidade suficiente para ultrapassar até mesmo os ricos.

Depois dos agricultores, o melhor povo é o que leva a vida pastoril e explora o gado. Tem muitas afinidades com o primeiro. Ambos, habituados ao trabalho corporal, são excelentes para as expedições militares e resistem perfeitamente aos incômodos do bivaque [acampamento e vigília militar].

Quase todos os outros povos que compõem o restante das democracias estão muito abaixo destes dois. Nada de mais vil, nem de mais alheio a todo tipo de virtude do que esta multidão de operários, de mercenários e de gente sem profissão. Esta espécie de indivíduos corre sem parar pela cidade e pelas praças públicas e só fica contente nas Assembléias.”

Vemos como deve ser constituída a primeira e a melhor democracia, e também como podem sê-lo as outras. Basta que nos afastemos gradualmente da primeira e adicionemos aos poucos a populaça, à medida que a democracia for piorando.”

A XENOFOBIA DE VERDADE NASCE QUANDO A XENOFOBIA PASSA A SER COISA DO PASSADO: “Para constituí-la [a última democracia] e firmar o poder do povo, os governantes costumam receber o máximo possível de pessoas e conceder direito de cidadania não apenas aos que têm um nascimento legítimo mas até aos bastardos e aos mestiços de qualquer dos dois lados, paterno ou materno.” “preciso introduzir a atenuante de só admitir recém-chegados na medida em que forem necessários para intimidar os nobres e a classe média, sem jamais ultrapassar este limite. Se isso acontecer, a desordem não tardará a reinar por toda parte. Os nobres, que já têm muita dificuldade para suportar este governo, se irritarão cada vez mais. Esta foi a causa do levante de Cirene. Fecham-se os olhos diante de um pequeno inconveniente, mas quando ele assume certa dimensão, não podemos deixar de vê-lo.”

Deve-se dividir o povo em tribos e cúrias, dissolver os cultos particulares e reconduzi-los à unidade do culto público; numa palavra, imaginar todos os meios possíveis para unir todos os cidadãos e extinguir todas as corporações anteriores; nem mesmo desdenhar certas invenções que, embora de origem tirânica, não deixam de ser populares, como o desregramento dos escravos, que pode ser útil até certo ponto, a emancipação das mulheres e das crianças, a conivência sobre o gênero de vida que agrada a cada um: nada tem melhores efeitos para essa democracia. A dissolução agrada a muito mais gente do que uma conduta regrada.”

* * *

NA PLUTOCRACIA

Na melhor oligarquia: “A divisão pelo censo deve ser tal que aqueles que têm a renda exigida sejam mais numerosos e mais fortes dos que os que não são admissíveis. Mas também é preciso ter sempre a intenção de que aqueles que são associados ao governo venham somente da parte sadia do povo.”

É o número e a abundância de homens que salvam as democracias; sua consistência vem de uma razão diametralmente oposta ao mérito. A oligarquia, pelo contrário, só pode conservar-se pela melhor ordem de suas partes.

Assim como a multidão se compõe principalmente de quatro classes, a saber: 1a os agricultores, 2a os ligados às artes e ofícios, 3a os comerciantes, 4a os trabalhadores manuais,¹ assim também existem quatro tipos de guerreiros, a saber: 1° a cavalaria, 2° os hoplitas ou infantaria armada dos pés à cabeça, 3° a infantaria ligeira, 4° a marinha.”

¹ Curioso como hoje em dia mal se pode distinguir uma da outra!

Os lugares mais propícios à primeira espécie de oligarquias são os chamados bippasimos, isto é, próprios, por suas campinas, à criação de cavalos. Esses lugares são propícios à oligarquia mais poderosa. Seus habitantes são protegidos e conservados pela cavalaria. Ora,

só a classe opulenta pode ter haras.

Quando o lugar só oferece homens e armas, a segunda oligarquia convém-lhe mais. A armadura completa necessária à grande infantaria só pode ser fornecida pelos ricos e ultrapassa os recursos dos pobres.

É a arraia-miúda que compõe a infantaria ligeira e os marinheiros. Em toda parte onde abunda essa turbaperigo de democracia para os ricos. Se acontece alguma divisão, os combates de ordinário terminam desfavoravelmente para eles. Para sanar este inconveniente, é preciso contar com hábeis generais que misturem à cavalaria e à infantaria pesada um número suficiente dessa tropa ligeira; assim apoiada, ela combate com maior desenvoltura. Porém, criar uma força dessa espécie, vinda do seio do povo, é armar-se contra si mesmo e trabalhar para sua própria destruição. Nas sedições, o povo vence os ricos através da infantaria ligeira. Ágil e alerta, ela facilmente domina a cavalaria e a infantaria pesada. Portanto, distinguindo as idades, é preciso encarregar os velhos de fazer com que seus filhos pratiquem os exercícios ligeiros e, ao sair da juventude, tomem os melhores destes alunos para colocá-los à frente dos outros.

Quanto ao restante do povo será admitido, como já se disse, no controle dos negócios públicos, quando atingir a taxa do censo exigido, ou, como entre os tebanos, depois que se tiver abstido das profissões mecânicas durante o número prescrito de anos, ou, como em Marselha, quando, tendo passado pela censura, tiver sido considerado digno do título de cidadãos e das funções cívicas.

Devem-se impor às grandes dignidades pesados encargos, para que o povo renuncie a eles de boa vontade e os deixe aos ricos, como se assim lhe pagassem os juros. Com efeito, os ricos, ao assumir o exercício, oferecerão pomposos sacrifícios, mandarão construir salas de banquetes ou outros edifícios destinados ao público, para que o povo, convidado a estes banquetes e encantado com a magnificência dos edifícios e outras decorações, veja com prazer o governo perpetuar-se.”

Não é isso o que hoje fazem os grandes de nossas oligarquias. Procuram nas dignidades, pelo contrário, não menos o lucro do que a honra. Dir-se-ia que são menos oligarquias do que democracias em transformação.”

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E VIVA O GOVERNO MISTO…

Os que se chamam aristocráticos estabeleceram-se em muitos países por imitação de governos estrangeiros, e se aproximam tanto da República propriamente dita que de agora em diante falaremos destas duas formas como sendo uma só.”

…E VIVA A MEDIOCRIDADE: “O que dissemos de melhor em nossa Ética é que a vida feliz consiste no livre exercício da virtude, e a virtude na mediania; segue-se necessariamente daí que a melhor vida deve ser a vida média, encerrada nos limites de uma abastança que todos possam conseguir.”

UM LOUVOR (ANTIGO!) AO ÚLTIMO HOMEM, ‘INDA TÃO DISTANTE NO ESPECTRO DA (NOSSA) HISTÓRIA: “Em todos os lugares, encontram-se 3 tipos de homens: alguns muito ricos, outros muito pobres, e outros ainda que ocupam uma situação média entre esses dois extremos. É uma verdade reconhecida [por quem, cara pálida e exangue?] que a mediania é boa em tudo.”

Os da primeira classe, favorecidos demais pela natureza ou pela fortuna, poderosos, ricos e rodeados de amigos ou de protegidos, não querem nem sabem obedecer. Desde a infância, são tomados por essa arrogância doméstica e a tal ponto corrompidos pelo luxo que desdenham na escola até mesmo escutar o professor. Os da outra classe, abatidos pela miséria e pelas preocupações, curvam-se diante dos outros de modo que esses últimos, incapazes de comandar, só sabem obedecer servilmente. Os primeiros, pelo contrário, não obedecem a nenhuma ordem, mas mandam despoticamente.” Também é uma verdade, paradoxal que seja, que os melhores filósofos emanam justamente da CLASSE MÉDIA.

Por isso Focílides dizia que uma modesta abastança era o objeto de seus desejos, só pedindo ao céu ser ele próprio medíocre em sua pátria.”

a tirania surge de igual modo da insolente e desenfreada democracia e da oligarquia”

NOMENCLATURAS MONTESQUIEUANAS: Quando os pobres não têm este contrapeso, e começam a prevalecer pelo número, tudo vai mal e a democracia não tarda a cair no aniquilamento.”

Um poderoso argumento a favor da mediocridade é que os melhores legisladores foram cidadãos de média fortuna. Sólon declara-se tal em suas poesias, Licurgo tornou-se tal quando parou de reinar e Carondas também o era, como quase todos os outros.”

jamais ou raramente aconteceu, e entre muito poucos povos, que se tenha optado por uma República média. Entre os príncipes não há um só exemplo desta moderação, em toda a antiguidade; em todas as outras partes, virou costume recusar a igualdade e procurar dominar quando se sai vencedor, ou ceder e obedecer quando se é vencido.”

o árbitro mais conveniente é aquele que, colocado entre dois, não pende mais para um lado do que para o outro” Infelizmente a classe média brasileira pende mais para o tio do pavê e o véio da Havan…

O censo não pode determinar-se pura e simplesmente. É preciso, porém, que o seja com a máxima amplitude possível, para que os participantes sejam mais numerosos do que os não-participantes. Quanto aos pobres, eles se consolam por não participarem e ficam descansados se não os ultrajam e lhes deixam os poucos bens que possuem, o que nem sempre acontece, pois os indivíduos de condição que pretendem os cargos públicos às vezes não são nem corteses, nem humanos. Resulta daí que, se houver guerra, os pobres a evitam, a menos que os sustentem. Mas se os sustentarem, passam a desejá-la.

Em alguns lugares, o governo é formado não apenas por aqueles que portam armas, mas pelos que as portavam. Os malianos escolhiam seu Conselho dentre estes, e seus magistrados dentre os guerreiros em atividade. O primeiro Estado entre os gregos foi organizado com esta espécie de cidadãos, depois da extinção das monarquias; e em primeiro lugar com cavaleiros, pois a força e a superioridade dos exércitos consistiam então na cavalaria. Pois as outras tropas de nada servem se não tiverem disciplina, e antigamente não havia nem disciplina, nem experiência na infantaria, de sorte que a cavalaria sozinha constituía toda a força do Estado.

Mas como os Estados cresceram e ganharam consideração através das outras armas, o governo foi comunicado a um maior número de pessoas. Assim, o que hoje chamamos de República era então chamado de democracia.¹”

¹ Resta saber a quando remonta esse “então” de Aristóteles: poderia estar falando já do tempo de Sócrates, não tão pretérito ao seu? Tem-se aí que Aristóteles já divisava o que a ciência política moderna divisa entre os gregos: sua democracia era com certeza uma oligarquia ou aristocracia, conforme fosse saudável ou decadente (ainda sem contar a chusma de escravos da polis).

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STOP THE REVOLUTION!

Para terminar, é normal examinar de onde vêm as revoluções dos Estados, quantas causas podem provocá-las e quais são elas, a que depravações cada governo em particular está sujeito e quais são os meios de preservação, os remédios gerais e específicos para essas perturbações.”

A excelência do mérito é a única superioridade absoluta, e os homens que se sobressaem quanto ao mérito são os que menos provocam revoltas.”

INCÊNDIO NA BABILÔNIA DEMORA A ESPALHAR: “Do fato de as pessoas habitarem o mesmo lugar não se segue que se trata de uma única e mesma Cidade. Os muros não podem servir de critério, pois todo o Peloponeso poderia ser cercado por uma mesma muralha. Não seria a primeira vez que vastos espaços seriam assim fechados. Assim são todas as grandes cidades, que se parecem menos com cidades do que com uma nação inteira, como a Babilônia. Três dias já se haviam passado, dizem, desde que fôra tomada e em vários bairros ainda de nada se sabia.”

São também questões de política saber se convém que um Estado só contenha uma nação ou várias, se continua a ser o mesmo enquanto conserva o mesmo gênero de habitantes, apesar da morte de uns e do nascimento de outros, como os rios e as fontes, cuja água corre sem cessar para dar lugar à água que sucede.”

permanecendo os mesmos atores, o coro não deixa de mudar quando passa do cômico ao trágico.” “Permanecendo as mesmas vozes e os mesmos instrumentos, o canto não é mais o mesmo quando passa do modo dórico ao modo frígio. Isto posto, é a forma e não a matéria que decide se um Estado permanece o mesmo e se se deve, apesar da identidade de habitantes, chamá-lo de outro nome ou conservar-lhe o nome, embora seus habitantes tenham mudado.”

PRINCÍPIO DA DISTRIBUIÇÃO DE RENDA PAULATINA (COMO NA SOLTURA DE ESCRAVOS): “Os crescimentos desmedidos de uma classe relativamente às outras também são causas de revolução. Assim, os membros que compõem um corpo devem crescer proporcionalmente, para que subsista a mesma comensura. O animal morreria se o pé, por exemplo, crescesse até 4 côvados, não tendo o resto do corpo mais do que 2 palmos”

MEGA-SENA DA VIRADA: “As modificações ocorrem com as democracias, mas são mais raras. Por exemplo, quando a quantidade de pobres aumenta e vários deles se tornam ricos, ou então quando os bens dos ricos aumentam de valor, passa-se à oligarquia, e até à oligarquia concentrada que chamamos politirania.

Às vezes, sem que haja sedição, o governo muda em razão de seu aviltamento, como em Heréia, onde começaram a se envergonhar das eleições e os magistrados foram depois sorteados, por causa da torpeza dos eleitos.”

Algumas vezes a mudança se realiza através de progressos imperceptíveis; no final, fica-se admirado vendo os costumes e as leis mudadas sem que se tenha atentado para as causas ligeiras e silenciosas que preparam as mudanças. Na Ambrácia, por exemplo, depois de ter escolhido magistrados de pequena fortuna, passou-se a admitir pouco a pouco alguns que não possuíam nada. Ora, há pouca ou nenhuma diferença entre nada e muito pouco.”

Todos os que admitiram estrangeiros para residir em sua cidade, foram quase sempre enganados por eles, como os de Trezena, que, em Síbaris, receberam os aqueus. Foram obrigados a ceder-lhes o lugar quando o número deles aumentou, o que causou a desgraça. Os sibaritas retiraram-se para Túrio e ali fizeram a mesma tentativa, mas, querendo dispor do território como senhores, foram vencidos e expulsos. Os bizantinos sofreram algo semelhante da parte de estrangeiros e tiveram subitamente que recorrer às armas para repeli-los. Os antisianos, que de modo semelhante haviam aceitado os banidos de Quios, também se viram obrigados a livrar-se deles pela força. Os zanclianos foram vencidos e expulsos pelos de Samos, que os tinham recebido. Também foram estrangeiros que perturbaram os apoloniatas do Ponto Euxino. Os siracusanos, após a expulsão de seus tiranos, tendo tornado cidadãos alguns soldados e mercenários estrangeiros, tiveram tantos aborrecimentos por causa disso que foi preciso romper com eles. Os de Anfípolis foram quase todos expulsos pelos de Cálcis, por tê-los recebido em sua cidade.”

Às vezes a sedição parece derivar da própria natureza do lugar que foi mal-escolhido para habitação. Em Clazômenas, os habitantes do Centro (ou bairro dos banhos) detestam os da ilha; em Cólofon, a parte do norte odeia a do sul; em Atenas, o pireu é mais democrático do que a cidade. Pois, assim como num exército, um riacho, mesmo bem pequeno, pode romper a falange, assim também, numa cidade, qualquer diferença de habitação basta para quebrar, o entendimento e o acordo entre os habitantes.”

Antigamente, em Siracusa, o Estado foi perturbado por dois jovens magistrados rivais em amor. Durante a ausência de um, o outro conquistou sua amada. O despeito, quando ele voltou, sugeriu-lhe atrair e seduzir a mulher de seu rival. Tendo cada um deles conseguido o apoio de outros magistrados, a discórdia espalhou-se por toda a cidade. Portanto, nunca é cedo demais para abafar as brigas dos altos funcionários e dos grandes. O mal está na origem. Em tudo, o que começou já está feito pela metade. O menor erro cometido no início repercute em tudo que se segue.”

O noivo, por lhe terem predito que a união lhe traria desgraça, hesitou em tomar sua noiva e a deixou sem nada concluir. Os pais da moça, considerando-se insultados, acusaram falsamente o jovem de ter roubado durante a celebração de um sacrifício o dinheiro do tesouro sagrado e o fizeram morrer como sacrílego.”

todos os que, quer na condição privada, quer na magistratura, quer em família, quer em tribo ou qualquer outra associação que possa haver, proporcionaram ao Estado algum acréscimo de potência, sempre ocasionaram certa perturbação, quer começada por invejosos, quer por terem eles próprios, envaidecidos com o sucesso, desdenhado permanecer nos limites da igualdade.”

se uma das duas facções se torna muito superior, a porção média não quer arriscar-se contra quem tem uma superioridade evidente.”

em Atenas os Quatrocentos lograram o povo com a falsa esperança de que o rei da Pérsia ajudaria com seu dinheiro os atenienses a fazerem guerra contra os espartanos, e assim se apossaram do governo.”

o temor diante do perigo comum tem o efeito de reconciliar os maiores inimigos.”

Em Rodes, distribuíram aos soldados todo o dinheiro proveniente dos impostos e impediram que os capitães das galeras recebessem o que lhes era devido, acusando-os de vários delitos. Para evitar, então, a punição, os acusados foram obrigados a conspirar contra a democracia e a derrubaram.”

Antigamente, quando o mesmo personagem era demagogo e general de exército, as democracias não deixavam de se transformar em Estados despóticos. Com toda certeza, os antigos tiranos originaram-se dos demagogos. Isso já não acontece com tanta freqüência quanto antigamente, pois então, não estando ainda exercitados comumente na arte de bem falar, as armas eram o único meio de se obter poder. Hoje que a eloqüência foi levada ao mais alto grau de perfeição e goza da maior estima, são os oradores que governam o povo. (…) Assim, as usurpações da suprema autoridade eram mais freqüentes no passado do que no presente, porque se davam a alguns cidadãos magistraturas de alta importância, como em Mileto a Pritania, e se submetiam à decisão deles os maiores interesses. Aliás, as cidades estavam longe de ser tão grandes, já que o povo preferia morar no campo, ocupando-se com seus trabalhos rústicos. Portanto, se esses magistrados eram guerreiros, apossavam-se do governo. Seu principal recurso era a confiança que obtinham do povo, pelo ódio que demonstravam contra os ricos. Foi assim que Pisístrato obteve a tirania de Atenas; querelando contra os habitantes da planície; Teagênio, a de Mégara, mandando matar o gado dos proprietários, quando o encontrou passando à margem do rio; e Dionísio, a de Siracusa, acusando de traição Dafne e os grandes, artifícios que eram tidos como ímpetos de patriotismo e davam popularidade.”

quando a oligarquia está de acordo consigo mesma, não é fácil destruí-la. Temos um exemplo disto no Estado de Farsala, onde poucos homens mantêm grande número deles na obediência, porque estão em harmonia e se conduzem bem entre si.”

Em tempo de guerra, os magistrados, desconfiando do povo, são obrigados a chamar tropas estrangeiras e não raro aquele a quem confiam o comando se torna seu tirano, como Timófanes em Corinto. Se tal comando é confiado a vários, estes se coalizam numa dinastia, ou então, temerosos de serem pegos no mesmo truque, fazem com que o povo participe do governo, para reconciliarem-se com ele. Em tempo de paz, os oligarcas, desconfiados uns dos outros, entregam a guarda do Estado a seus soldados, sob o comando de algum general neutro, o qual às vezes acaba por se tornar senhor dos dois partidos, como aconteceu em Larissa sob o comando dos Alevadas (Aleuadas) de Samos e em Ábido, no tempo das facções, das quais uma era a de Ifíade.” “Várias oligarquias, como as de Cnido e de Quios, também foram destruídas por serem despóticas demais, e isso por senadores irritados com a insolência dos outros.”

A tirania reúne os vícios da democracia aos da oligarquia. Ela tem em comum com a segunda o fato de propor-se a opulência como fim (sem isso ela não teria condições de manter a guarda e a magnificência), de desconfiar do povo, de desarmá-lo, de oprimi-lo, de expulsá-lo das cidades e dispersá-lo pelos campos ou colônias. Da democracia, ela toma a guerra aos nobres, sua destruição aberta ou clandestina, seu banimento, considerando-os como rivais ou como inimigos de seu governo. De fato, é de ordinário desta classe que procedem as conspirações, querendo alguns deles dominar eles próprios, e outros temendo ser escravos. Assim, vimos Periandro aconselhar Trasíbulo a cortar as espigas mais altas, isto é, desfazer-se dos cidadãos mais eminentes.

Os ofendidos conspiram, na maioria dos casos, para se vingarem, e não em seu próprio proveito. Assim foi a conjuração contra os filhos de Pisístrato; ela teve por causa a injúria feita à irmã de Harmódio e a ofensa que ele próprio sentira na ocasião. Harmódio armou-se para vingar a irmã, Aristogíton para vingar Harmódio. Periandro, tirano de Ambrácia, permitiu que conjurassem contra ele por ter perguntado num banquete a uma de suas amantes se estava grávida de um filho seu. Pausânias matou o rei Filipe porque este desdenhava vingá-lo do ultraje que Átalo lhe fizera. Derdas conspirou contra Amintas, que se vangloriava de ter colhido a flor de sua juventude. Evágoras de Chipre foi morto por Eunucus, cuja esposa fôra raptada pelo filho daquele príncipe.” “Xerxes, bêbado de vinho, encarregara Artábano de crucificar Dario. Artábano, crendo que o príncipe se esqueceria dessa ordem por ter sido dada no auge da embriaguez, não a executou. Quando Xerxes deu mostras de sua cólera por isso, Artábano o matou para evitar sua própria perda.”

O desprezo torna infiéis até mesmo os protegidos. A confiança com que são honrados persuade-os de que poderão de repente tentar um golpe seguro. O pouco caso que têm pelo monarca também torna audaciosos os que ganharam poder e acreditam poder tornar-se senhores do Estado. (…) foi o que fez Ciro contra Astiago, cujos costumes eram desprezíveis e a incapacidade evidente, já que vivia na moleza e seu exército estava irritado com a ociosidade.”

A magnanimidade somada ao poder transforma-se em ousadia.”

Os que conspiram para conseguir um nome são de uma espécie completamente diferente. Não atacam os tiranos pelas honras e pelas riquezas, mas sim para conquistar a glória e fazer com que falem deles. O desejo de um grande nome e da memória da posteridade faz com que arrisquem grandes façanhas, mas pessoas deste tipo são raras. É preciso estar, como Díon, O Bravo, disposto ao sacrifício da própria vida e a perder tudo, se falhar o golpe. A natureza não engendra facilmente almas tão heróicas.”

Os Estados opostos, por exemplo uma democracia vizinha a uma tirania, são tão inimigos quanto os oleiros o são dos oleiros, no dizer de Hesíodo, pois a pior espécie de democracia é ela própria uma tirania. O mesmo ocorre com a monarquia e a aristocracia. Por isso os espartanos e os siracusanos, enquanto foram bem-governados, destruíram várias tiranias.

Algumas vezes a tirania morre por si mesma, quando ocorre uma divisão entre os pretendentes, como outrora a de Gelão e em nossos dias a de Dionísio.”

quase todos os usurpadores conservaram a soberania durante a vida, apesar do ódio público, mas quase todos os seus sucessores perderam-na incontinente. A vida dissoluta que levam faz com que caiam no desprezo e dá mil ocasiões de os exterminar.”

CÓLERA COM “CO” DE “CORAÇÃO PURO”: “A cólera está ligada ao ódio e produz quase os mesmos efeitos, mas é ainda mais enérgica. Os que são animados por ela insurgem-se com mais violência, não podendo, na perturbação da paixão, ouvir os conselhos da razão.” “Ao passo que a cólera é acompanhada de uma dor que não permite raciocinar, a animosidade isenta desse ardor calcula e age silenciosamente.”

vemos hoje muito poucos Estados governados por reis. [!] Se existem ainda alguns, são de preferência monarquias absolutas e tiranias. A realeza é uma dignidade estabelecida voluntariamente, cujo poder se estende às maiores coisas. Ora, como a maioria dos homens se assemelha e raramente se encontra alguém tão perfeito para corresponder à grandeza e à dignidade do cargo, as pessoas não se submetem de bom grado a semelhantes instituições. Se alguém quiser reinar por astúcia ou por violência, não haverá monarquia, mas sim tirania.”

Historicamente, a monarquia tirânica é, juntamente com a oligarquia, a forma de Estado menos duradoura. A mais longa tirania foi a de Ortógoras e de seus descendentes, em Sícion. Durou cem anos. (…) 73 anos e 6 meses reinou a dinastia: Cipselo reinou 30 anos, Periandro, 40, e Psamético, filho de Górdias, 3.” “A terceira [tirania mais longa] foi a dos Pisistrátidas, em Atenas. Mesmo assim, a tirania de Pisístrato se viu duas vezes interrompida por sua expulsão, de modo que, de 33 anos, só reinou de fato por 17 e seus filhos mais 18, o que perfaz no total 35.”

Só se sente o mal quando está consumado. Como ele não acontece de uma vez, seus progressos escapam ao entendimento e se parecem àquele sofisma que do fato de cada parte ser pequena inferir-se que o todo seja também pequeno.”

Assim, aqueles que velam pela sua segurança devem inventar de tempos em tempos alguns perigos e tornar mais próximos os perigos que estão distantes, a fim de que os cidadãos informados estejam sempre alertas, como sentinelas noturnas.”

MUITA HORA NESTA CALMA: “Não valorizar demais quem quer que seja e não distribuir nenhuma honra excessiva, mesmo que breve. Se se acumulam muitos cargos em uma só pessoa, tais cargos devem ser-lhe retirados aos poucos, e não todos de uma vez. Será sobretudo conveniente estabelecer através das leis que ninguém possa adquirir poder, crédito ou riqueza demais, ou que sejam afastados os que tiverem demais.”

O vulgo zanga-se menos por estar excluído do governo do que por ver os magistrados viverem às custas do tesouro público. É até muito cômodo dispor de todo o tempo para cuidar dos negócios particulares. Mas se estiver persuadido de que os titulares dos cargos públicos pilham o Estado, terá a dupla vexação de estar afastado tanto dos cargos públicos quanto dos lucros pecuniários.”

ENTÃO ME PROCESSA! “Aqueles que se preocupam com a segurança do Estado devem, em vez de se apoderar em proveito do povo dos bens dos condenados, consagrá-los à religião. A pena será a mesma e deterá igualmente os crimes, mas o povo terá menos pressa para condenar, pois não tirará nenhum proveito da sentença. Além disso, os legisladores devem fazer com que as acusações públicas se tornem muito raras, estabelecendo penas pesadas contra os que agirem levianamente, pois não são as pessoas do povo, mas sim as dos meios refinados que assim se costumam atacar e humilhar.”

Se houver rendas suficientes, não se deve, como fazem os demagogos, distribuir à arraia-miúda o dinheiro que sobrar. Mal o recebem e já voltam a cair na indigência, pois essas pessoas são tonéis furados a que essa liberalidade não traz nenhum proveito.”

O melhor emprego das rendas públicas, quando a sua percepção está terminada, é auxiliar amplamente os pobres, para colocá-los em condições ou de comprar um pedaço de terra ou os instrumentos para a lavoura, ou de abrir um pequeno comércio. Se não for possível ajudá-los a todos, deve-se pelo menos verter os subsídios na caixa de alguma tribo ou cúria ou de alguma porção do Estado, ora uma, ora outra. Far-se-á com que os ricos contribuam para as despesas das Assembléias necessárias, de preferência a esbanjamentos frívolos e meramente aparatosos. Por meio disso, o governo cartaginês tornou-se popular, empregando sempre alguém do povo nas administrações provinciais, para que aí fizessem fortuna.”

para eleger um general de exército, deve-se considerar mais a experiência militar do que a virtude, pois há menos generais experientes do que homens virtuosos. O caso é totalmente contrário no que diz respeito à administração das finanças, pois aí é preciso mais probidade do que tem o comum dos homens.”

A FEIÚRA DO ESTADO: “Um nariz que se afasta da linha reta, que tende para o aquilino ou é arrebitado, ainda pode agradar; mas se se alongar ou se encurtar demais, primeiro sairá da justa medida e, por fim, cairá tanto no excesso ou na falta que não será mais um nariz. O mesmo ocorre com as outras partes do corpo, e também com os regimes. A oligarquia e a democracia podem subsistir, embora se afastando de seu desígnio e de sua perfeição. Mas se dermos demasiada extensão ao seu princípio, primeiro tornaremos pior o governo, e, no final, chegaremos a tal ponto que ele nem será mais digno deste nome.”

SEJA UM MILIONÁRIO APUD CF88 (SÓ PODIA DAR MERDA): “O mais importante meio para a conservação dos Estados, mas também o mais negligenciado, é fazer combinarem a educação dos cidadãos e a Constituição. Com efeito, de que servem as melhores leis e os mais estimáveis decretos se não se acostumar os súditos a viverem segundo a forma de seu governo? Assim, se a Constituição for popular, é preciso que sejam educados popularmente; se for oligárquica, oligarquicamente; pois se houver desregramento em um só súdito, este desregramento estará então em todo o Estado.”

MANUAL DO TIRANO PRUDENTE (QUASE UMA ANTINOMIA): “Deve-se manter espiões por toda parte, saber tudo o que se faz e tudo o que se diz, destacar agentes e espiões, como fazia Hierão em Siracusa, colocando-os em toda parte onde havia uma reunião ou um conciliábulo. Não se é tão ousado quando se tem algo a temer de tais vigilantes e, quando se é, fica-se sabendo.” “Empobrecer os cidadãos, a fim de que não possam formar uma guarda armada e, absorvidos nos trabalhos de que precisam para viver, não tenham tempo de conspirar. Como exemplo dessas manobras, temos as pirâmides do Egito, os templos dedicados aos deuses pelos Cipsélidas, o de Zeus Olímpico pelos filhos de Pisístrato, as fortificações de Samos por Polícrates, que são todas coisas que tendem aos mesmos fins de ocupação e empobrecimento. Aumentar o peso dos impostos, como em Siracusa no tempo de Dionísio onde, em 5 anos, foram obrigados a dar em contribuições tudo o que valia a terra.” “Fazer uso dos recursos da extrema democracia, como a atribuição do governo doméstico às mulheres, para que elas revelem os segredos de seus maridos, e o afrouxamento da escravidão, para que também os escravos denunciem seus senhores.

SÍNDROME DE ESTOU-CALMO: “Os escravos e as mulheres nada tramam contra os tiranos e até, se tiverem a felicidade de ser bem-tratados por eles, afeiçoam-se necessariamente à tirania, ou à democracia, pois o povo também pode ser um tirano.”

Um prego expulsa outro” “os tiranos declaram guerra a todo homem de bem que tiver coragem. Esta categoria de pessoas é perniciosa a seu regime, por não quererem deixar-se tratar servilmente, serem francos com todos, sobretudo entre eles, e não denunciarem ninguém.” Vale para instituições na “democracia”. Beware where you step, fella.

Sendo senhor do Estado, não deve temer a falta de dinheiro. Mais vale para ele estar sem dinheiro para suas campanhas do que deixar em casa tesouros empilhados; com isto, ficarão menos tentados de abusar desse dinheiro os que, em sua ausência, governarem o Estado, pessoas muito mais temíveis para ele do que os meros cidadãos. Estes marcham com ele para o combate, enquanto que aqueles ficam na retaguarda.”

Que o tirano tenha também uma abordagem fácil e um ar grave, de modo que os que tiverem acesso a ele pareçam menos temê-lo do que respeitá-lo, o que homens desprezíveis não conseguem facilmente. Se não se preocupar com nenhuma outra virtude, que pelo menos seja cortês, tenha a política de passar por virtuoso, e se abstenha não apenas ele mesmo de toda injúria contra seus súditos, de qualquer sexo que for, mas também não tolere que nenhum de seus domésticos ofenda ninguém, e cuide de que suas mulheres se comportem da mesma maneira para com as outras mulheres. Pois há injúrias feitas por mulheres de tiranos que arruínam a tirania.”

Sobre a questão dos prazeres sensuais, que faça o contrário de seus êmulos de hoje, que não se contentam em se entregar a eles da manhã à noite, durante vários dias, mas ainda querem que todos saibam a vida que levam, para serem admirados como seres felizes. Que use moderadamente deste tipo de prazeres; que pelo menos tenha a aparência de não correr atrás deles, e até de procurar furtar-se a eles. Não se surpreende com facilidade e não se despreza um homem sóbrio, mas sim um homem bêbado, nem um homem vigilante, mas sim um homem sonolento.” “Que demonstre principalmente muito zelo pela religião. Teme-se menos injustiça da parte de um príncipe que se crê seja religioso e parece temer aos deuses, e se está menos tentado a conspirar contra ele quando se presume que tem a assistência e o favor do Céu. Mas é preciso que sua piedade não seja afetada, nem supersticiosa.” “Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais e aos juízes as punições.” “A própria punição das faltas deve evitar o ultraje. Só se deve fazer uso dele com uma espécie de jeito paternal.”

* * *

CONSTITUIÇÕES REAIS E IDEAIS, DEVANEIOS DE UM DISCÍPULO!

Em sua República, Platão propõe que as mulheres, as crianças e os bens sejam comuns aos cidadãos. De fato, neste diálogo, Sócrates preconiza a comunidade total.”

A comunidade de mulheres oferece grandes dificuldades, e se fosse preciso estabelecê-la não seria pela razão apresentada por Sócrates. O próprio fim suposto por ele para a associação política torna impossível este estabelecimento, e assim ele nada diz de preciso sobre este assunto.” Desapega!

ARISTÓTELES NÃO COMPREENDEU SEU PRÓPRIO MESTRE: “É, portanto, claro que a unidade, como alguns a apresentam, não pertence à essência de um Estado, e o que chamam de seu maior bem é a sua ruína.”

no serviço doméstico, quanto mais empregados houver, menos o trabalho é bem-feito.”

Haveria alguma dúvida em preferir a mera qualidade de primo em nosso costume à de filho no de Sócrates?” Sim.

ANÁLISE MAIS PERFUNCTÓRIA DO MAIOR LIVRO DA IDADE ANTIGA AINDA NÃO NASCEU: “Outro absurdo da comunidade de crianças é só se ter proibido o comércio amoroso dos dois sexos, e não o amor e suas intimidades de pai para filho, de irmão para irmão, que são o cúmulo da indecência e da torpeza [com referência em que absoluto? Que declaração mais platônica!]. Ora, não é estranho proibir as relações entre os dois sexos, em razão dos perigos da volúpia excessiva, e ser indiferente sobre essas familiaridades entre pai e filho, irmão e irmão?”

O encanto da propriedade é inexprimível. Não é em vão que cada um ama a si mesmo; tal amor é inato; só é repreensível o excesso chamado amor-próprio, que consiste em se amar mais do que convém. Tampouco é proibido amar o dinheiro, nem outra coisa da mesma natureza: todos o fazem.”

LONGO E INÚTIL IMBRÓGLIO, NO QUAL ROUSSEAU JÁ APARECERIA DANDO VOADORA PARA DEFENDER PLATÃO: “também contribui o preconceito existente de que os vícios que grassam em certos regimes procedem da propriedade, como esses eternos processos que sempre renascem entre os cidadãos por ocasião dos contratos, a corrupção de testemunhas e a adulação a que as pessoas se rebaixam diante dos ricos. Mas não é da propriedade dos bens que derivam esses males, mas da improbidade dos homens.” Engraçado como contradiz os capítulos precedentes da própria Política!

SERÁ QUE SE FAZ DE IMBECIL? “basta submeter a uma tentativa a comunidade socrática e se terá a prova de que ela é impraticável.” Dêem o Übermensch ao Último Homem e ele apenas será morto, dizimado, castrado ou ignorado…

De resto, Sócrates não explica e não deixa entrever facilmente qual será a forma de governo entre seus comunistas.” Haha. Bom, qual seria a graça se a República tivesse 80 tomos e não precisássemos pensar em nada?! Para começo de conversa, nem saberíamos quem foi Aristóteles…

Platão ou, se quiserem, Sócrates, que ele faz falar, tampouco trata de uma maneira satisfatória das revoluções ou das transformações de Estado.” Hm, verdade?

É da ordem da natureza que nada seja eterno e tudo mude após certo período de tempo. A mudança ocorre quando o número elementar epiternário, combinado com o número quinário, dá dois acordes e é elevado ao cubo.”

Comete o erro torpe e juvenil de misturar seu sistema completamente arbitrário de formas de governo com um outro, que aliás não entendeu (pois se entendesse, não teria criado o seu): “E por que essa República passaria a ter a forma espartana, se a maior parte das outras se transforma no Estado contrário e não no que se lhes aproxima? Deve haver a mesma razão em toda mudança. Segundo ele, a forma espartana se transformará em oligarquia; a oligarquia, em democracia; a democracia, em tirania, embora também se transformem no sentido contrário, a saber, a democracia em oligarquia, mais até do que em monarquia. Além disso, não fala da tirania e não diz se sofre ou não mutação, nem por que causa, nem em que espécie de República. Deixa este ponto indeterminado, como algo em que a exatidão não seja fácil.¹ Segundo ele, a mudança deveria retornar à primeira e melhor espécie, de tal forma que haveria um circuito contínuo; mas a tirania algumas vezes dá lugar a outra tirania, como em Sícion a de Míron sucedeu à de Clístenes; ou a uma oligarquia, como em Cálcis, a de Antileo; ou uma democracia, como em Siracusa, a de Gelão; ou à aristocracia, como a de Carilau na Lacedemônia, e também em Cartago.²”

¹ Na verdade não precisou falar da tirania pela razão oposta: porque é muito fácil; todo homem sabe o que é e no que consiste a tirania.

² Parabéns, discípulo, fez o dever de casa: mas és filósofo ou historiador? É que estou com a memória ruim hoje…

As leis, que Platão escreveu depois, são aproximadamente do mesmo gênero que A República.” Mas com muito mais homofobia, não é mesmo? Afinal, por que, já tão velho, se dar ao trabalho de escrever tanto?

FIGHT RANÇO WITH RANÇO (A ARTE DAS CAROLINAS): “Todas as palavras que neste livro atribui a Sócrates são cheias de superfluidades pomposas e de novidades problemáticas, cuja apologia talvez fosse difícil fazer.”

O mesmo autor contenta-se com dizer que, assim como a cadeia difere da trama pela lã, deve haver algum atributo que distinga os que mandam e os que obedecem, mas não explicita quais são estas marcas distintivas.” Ele queria que você adivinhasse.

NÃO ERGAS PONTES QUE NÃO TENS O TALENTO DE ERGUER! “Sua forma de governo não é nem uma democracia, nem uma oligarquia, mas um regime médio que ele chama propriamente de ‘republicano’, composto inteiramente de militares. Se propôs esta forma por ser a mais geralmente consagrada em todas as sociedades civis, talvez tenha razão; se foi como a melhor depois da primeira d’A República, ele está enganado. Sem contestação, preferir-se-á o Estado de Esparta ou algum outro mais aristocrático.” Até hoje não se sabe muito bem a relação entre as Leis e a República, falo isso por experiência própria. Na dúvida quanto ao que falar, melhor calar a boca. E olha que eu meti o pau em metade dos livros das Leis nas minhas traduções!

Obrigado pela explicação, mas eu não pedi – e, ademais, achei que você disse a mesma coisa ali em cima, com suas próprias palavras (“o rico deve ser punido pela apatia política, o pobre incentivado”, é mais ou menos a sinopse de tudo), e sem nenhum indício de ironia (há poucos parágrafos, Ari. tinha criticado Sócrates-Platão por NÃO haver estipulado classes na República, mas agora o critica por segregar nitidamente sua polis, nas Leis!): “Na verdade, todos são convocados para as eleições, mas são obrigados a escolher primeiro entre a primeira classe de ricos, depois na segunda e depois na terceira; os da terceira e da quarta classes, porém, não são forçados a dar seu voto, e só é permitido aos da primeira e da segunda eleger entre os da quarta; é preciso apenas que cada classe forneça o mesmo número de eleitos. Portanto, a maioria e os principais sairão do grupo dos mais ricos, não se envolvendo o povo na eleição porque a lei não o força a isso.”

* * *

Faléias de Calcedônia põe os artesãos no grupo dos escravos públicos, sem lhes dar nenhum lugar entre os cidadãos. Quanto aos que se empregam nos trabalhos públicos, vá lá. Mas, mesmo assim, isso deve ser feito como se estabeleceu em Epidamno, ou como Diofante determinou antigamente em Atenas.”

Hipódamo de Mileto não deseja que os julgamentos se façam por meio de bolas; pretende que cada um traga uma tabuleta onde inscreva seu assentimento, se simplesmente condenar, ou então indique que condena sobre o principal e absolve quanto ao resto. Condena a forma empregada em nossos tribunais, pela qual, diz ele, os juízes não-raro são forçados a julgar contra a consciência e contra o juramento que prestaram.”

A medicina, por exemplo, a ginástica e todas as artes e talentos ganharam ao reformar suas velhas máximas. Ocupando, pois, a política um lugar entre as ciências, parece que também ela pode admitir o mesmo princípio. De fato, os antigos Estados mudaram muito de feição. O que há de mais ingênuo e de mais grosseiro do que suas leis e costumes primitivos, mesmo as dos gregos, que antigamente andavam cobertos de ferro? O que existe de mais pobre e de mais imbecil do que sua jurisprudência, como em Cumas, onde, para condenar à morte um homem acusado de homicídio, bastava que o acusador apresentasse várias testemunhas tomadas de sua própria família?”

ISSO É SÉRIO, ARI.? “É muito provável que os primeiros homens, tanto os que saíram do seio da terra quanto os que escaparam da calamidade geral da espécie humana [tebanos ou egípcios, em suma], eram tão rudes quanto o vulgo de hoje, como são representados os antigos gigantes; seria uma extravagância limitarmo-nos a seus decretos.” Haha

AGORA, PRESTA UM TÁCITO TRIBUTO À REPÚBLICA DE PLATÃO PELA SUA INTENSA PREOCUPAÇÃO DE “UNISSEXUALIZAR” A POLIS… E DEPOIS ENVOLVE-SE NUMA BARAFUNDA SEM SIM, DEPRECIANDO ESPARTA SEM FUNDAMENTO (E SENDO O AVESSO DO “PLATÃO FINAL” OUTRA VEZ, AO SER HOMÓFILO: “Como o homem e a mulher fazem parte de cada família, é de se esperar que o Estado esteja dividido em dois, metade homens, metade mulheres; donde se segue que todo Estado em que as mulheres não têm leis está na anarquia pela metade. É o que acontece em Esparta. Licurgo, que pretendia enrijecer seu povo com todos os trabalhos penosos, só pensou nos homens e não prestou nenhuma atenção nas mulheres. Elas se entregam a todos os excessos da intemperança e da dissolução; assim, em tal Estado é necessário que as riquezas sejam honradas, principalmente quando as mulheres dominarem, como acontece na maioria das nações guerreiras, com exceção dos celtas e dos povos em que o amor pelos rapazes está publicamente em uso. [PROGRAMA PEDERASTIA PARA TODOS?] Não é sem razão que a fábula associa Marte a Vênus, pois todos os povos guerreiros são dados tanto ao amor dos jovens quanto ao amor das mulheres. [E ESPARTA NÃO? NÃO ENTENDO ISSO.] Este mal manifestou-se ainda mais em Esparta, onde, desde a origem, as mulheres se envolveram em tudo. [COMO, SE LICURGO AS OLVIDOU?] Pois o que importa que as mulheres mandem ou que os que mandam sejam comandados pelas mulheres? É a mesma coisa.”

o legislador permaneceu longe do alvo a que se propunha; fez apenas um Estado pobre e particulares avarentos.”

Um homem do tempo de Aristóteles já não pode julgar a Esparta de Licurgo no seu momento presente, ainda mais levando-se em conta a assimilação da Grécia pela Macadônia!

Logo após falar mal dos éforos: “quer os éforos tenham sido instituídos por Licurgo desde sua primeira legislação, quer sejam de criação mais recente, não foram inúteis à prosperidade da nação.” [!!] Quem é capaz de entender Aristóteles, que sequer segue seu princípio da não-contradição quando se trata de Política?!

As virtudes guerreiras, a que se relaciona toda a Constituição de Licurgo, não são senão uma parte da virtude integral, e são boas apenas para dominar os outros homens. Assim, os espartanos conservaram-se bastante bem enquanto guerreavam, mas quando submeteram a seu domínio todos os seus vizinhos começaram a decair, não sabendo o que fazer de seu ócio, não tendo aprendido nada melhor do que os exercícios militares.”

A ilha de Creta parece ter sido disposta pela natureza para comandar a Grécia, cujos povos, em sua quase totalidade, habitam as costas do mar: por um lado, ela está situada a pouca distância do Peloponeso; por outro lado, ela toca na Ásia, confinando com Triópia e Rodes. Foi graças a esta posição que Minos se tornou senhor do mar, reduziu quase todas as outras ilhas à obediência ou as povoou com suas colônias. Pensava também em se apoderar da Sicília, quando morreu perto de Camico.”

Os que são chamados de éforos na Lacedemônia chamam-se cosmos em Creta, com a única diferença de que são somente 5 na Lacedemônia e 10 em Creta.” Só isso? Bom, na essência eram ministros que atuavam como contrapeso do rei, i.e., poder moderador institucionalizado (não-encarnado num ou dois monarcas).

Em Esparta, o povo que escolhe os éforos tem também a faculdade de escolhê-los dentre aqueles que bem quiser e, por conseguinte, de sua própria classe, assim como de todas as outras, o que faz com que tenha interesse em conservar o Estado. Em Creta, pelo contrário, os cosmos provêm não de todas as classes, mas sim de certas famílias. Dos que foram cosmos, tiram-se os senadores, dos quais se pode dizer tudo o que se disse dos de Esparta. A dispensa da prestação de contas e a perpetuidade são prerrogativas muito acima de seu mérito.” “Cassam-se os cosmos sem processo e, de ordinário, pela insurreição de outros cosmos ou de particulares amotinados. A única graça que lhes concedem é deixar-lhes, antes da expulsão, a faculdade de se demitir.”

O regime de Cartago, em geral, é sabiamente ordenado. A pedra de toque de uma boa Constituição é a perseverança voluntária e livre do povo na ordem estabelecida, sem que jamais tenha ocorrido nem alguma sedição notável de sua parte nem opressão da parte dos que a governam.”

A República de Cartago tem em comum com a de Esparta:¹ 1° o que nesta se chama Fidítias, ou refeições públicas entre pessoas da mesma classe; 2° seu Centunvirato, que corresponde ao colégio dos éforos, com a diferença de ser composto de 140 membros e de ser mais bem-recrutado, isto é, não-escolhido ao acaso e dentre o vulgo, mas sim dentre o que há de mais eminente em matéria de mérito²”

¹ Não disse no começo da obra que Esparta era uma monarquia? O próprio Montesquieu é dessa opinião!

² Mas Aristóteles cita como um mérito dos cargos de éforos espartanos serem abertos à arraia-miúda, quando não o são entre os cartagineses!

ARISTÓTELES NÃO SABE O QUE DIZ OU TODO O TEMPO SE CONTRADIZ! “A maior parte dos pontos que criticamos por se afastarem dos princípios de toda boa Constituição são comuns às três Repúblicas. No entanto, embora todas elas tenham um jeito de aristocracia ou de República, inclinam-se um pouco mais para a democracia, sob certos aspectos, e, sob outros, para a oligarquia.”

De resto, embora a República de Cartago se incline bastante para a oligarquia, ela escapa com bastante agilidade dos seus inconvenientes, através das colônias de pobres que envia para que façam fortuna nas cidades de sua dependência. Este recurso prolonga a duração do Estado, mas é confiar demais no acaso; devem-se abolir pela própria Constituição todas as causas de sedição. Se acontecer alguma calamidade e a massa se revoltar contra a autoridade não haverá leis que possam deter sua audácia, nem remediar a desordem.”

Dentre aqueles que escreveram sobre o governo civil, alguns sempre levaram uma vida privada sem participar em nada dos negócios públicos; passamo-los quase todos em revista, ao menos os que deixaram escritos dignos de atenção; os outros foram legisladores quer em sua própria pátria, quer em outro lugar. Dentre estes, alguns foram simplesmente autores de leis, outros, autores de Constituição, como Licurgo e Sólon. Falamos bastante do primeiro quando tratamos da República espartana. Alguns contam o segundo entre os bons legisladores, por ter destruído a oligarquia imoderada demais dos atenienses, libertado o povo da servidão e estabelecido uma democracia bem-temperada pela mistura das outras formas, aproximadamente tal como era antigamente. O Conselho, ou Senado do Areópago, é de fato oligárquico; a eleição dos magistrados, aristocrática e a administração da justiça, muito popular. O Areópago existia antes dele, assim como o modo de eleição dos magistrados. Ele parece só ter tido o mérito de sua conservação. No entanto, foi com certeza ele quem reergueu o povo, ao determinar que os juízes fossem tirados de todas as classes. Assim, censuram-no por ter ele próprio arruinado um ou outro, ou mesmo os dois outros poderes de sua Constituição, entregando ao sorteio, quanto ao terceiro, a nomeação dos juízes, e pondo todos sob a autoridade deles. Mal esta inovação foi recebida e já fez nascer a raça dos demagogos, que, adulando o povo, como se adulam os tiranos, reduziram o Estado à democracia atual.” Bem-lhe-quer mal-lhe-quer

Sem dúvida, era necessário entregar ao povo, como fez Sólon, a nomeação e a censura dos magistrados, sem o que ele seria escravo e, conseqüentemente, inimigo do Estado. Mas Sólon quis ao mesmo tempo que os magistrados fossem escolhidos dentre os nobres e os ricos: aqueles que possuíssem 500 medinos [?] de renda, os que podiam alimentar um par de bois, ou zeugitas, e enfim os cavaleiros, que formavam a terceira classe. A quarta classe, composta de trabalhadores manuais, não tinha acesso a nenhuma magistratura.” ?!

Alguns tentam fazer crer que Onomacrito de Lócris tenha sido o primeiro a saber fazer leis e que, tendo passado de sua pátria a Creta, ali pôs à prova este talento, embora não tivesse vindo senão para trabalhar como adivinho; dizem também que teve por companheiro Tales, cujos discípulos foram Licurgo e Zaleuco, que, por sua vez, teve Carondas como aluno. Há, porém, muitos anacronismos nessa história.

Filolau, natural de Corinto, da raça dos Baquíadas, também deu leis aos tebanos. Apaixonou-se por Díocles, vencedor nos jogos olímpicos, que, detestando o amor incestuoso de Alcíone, sua mãe, [?] deixou sua cidade e o seguiu até Tebas, onde ambos morreram. Ainda hoje se mostram seus túmulos, um em frente ao outro, mas colocados de tal forma que apenas de um deles se pode ver o istmo de Corinto. Dizem que isto foi assim arranjado por eles próprios, sobretudo por Díocles, em memória de sua desgraça, para subtrair seu sepulcro dos olhares de Corinto, pela interposição do mausoléu de Filolau.” Intercala análises de engenharia constitucional e da biografia dos grandes legisladores com casos comezinhos e romances, tsc…

Platão, a comunidade das mulheres, das crianças e dos bens, além dos banquetes públicos femininos; também é conhecida a sua lei contra a embriaguez, a lei em favor da sobriedade dos presidentes de banquetes e a que diz respeito aos exercícios militares e ao uso das duas mãos, pois ele não podia tolerar que se servissem de uma e a outra permanecesse inútil. Existem também algumas leis de Drácon, que ele acrescentou, por assim dizer, à Constituição existente; distinguem-se pela extrema severidade das penas.”

Pítaco é também mais autor de leis do que fundador de República. Cita-se uma lei sua contra os bêbados, que diz que as brigas entre eles, em estado de embriaguez, serão punidas mais severamente do que se não tivessem bebido.”

* * * PRIMEIRA LEITURA DA REPÚBLICA (CONTEÚDO IMPORTADO – COM EDIÇÕES – DO ANTIGO BLOG DO AUTOR, PRÉ-Seclusão Anagógica) * * *

[PREFÁCIO DA EDIÇÃO – COMENTADOR] Foi, como é fato conhecido, o preceptor de Alexandre, O Grande, mas não por muito tempo: “Romperá com seu real discípulo depois do assassínio de Calístenes” No entanto eis a comprovação de sua imaturidade prática, até maior que a de Platão, que tanto criticou: “Jamais se envolveu com política prática.”

Meu limite: é que o pai que temos determina o raio de nossa genialidade. O meu, infelizmente, é bem curto. Zeus não respeitou seu pai, por que esperaria receber o respeito dos filhos sem o emprego da violência? O fosso etário entre pais e filhos. Profilática: que o filho seja gerado no inverno! Adoro meus “rasgos de cólera”, “Dia de fúria”. Estranhamente encarnado numa fazenda abelhuda…

Muitas de suas obras se perderam. Algumas são atribuídas a si, mas provavelmente provêm de discípulos.

Estudou 158 Constituições de Estados – na época a Grécia estava em dissolução, e a República Romana em ascensão. Havia “zilhões” de pequenos Estados (cidades-Estados) – a geografia política do mundo era bem diferente do que é hoje. Contribuiu com as bases do Direito Moderno, mas foi muito ultrapassado por Montesquieu & al.

ECONOMIA (*)  CREMATÍSTICA

(Modesta e nobre X Supérflua, grotesca e vil)

(*) despida em absoluto do “D” marxista (ciclos D-M)

P. 24: o médico vendido. O professor vendido.

a bondade intrínseca do Estado”

a mulher passaria por atrevida se não fosse mais reservada do que um homem em suas palavras.”

São as primeiras impressões as que mais nos afetam”

a beleza e a estatura não pertencem à maioria.” Ora, veja só, às vezes me acho um não-maldito!

Democracia” não é o governo da maioria, etimologicamente, mas dos pobres.

Uma hora fala em Deus, noutra fala em Zeus.

Pelo fim do serviço militar obrigatório! Vote 25050.” Minha plataforma.

Os homens facilmente se corrompem pela prosperidade, pois nem todos são capazes de suportá-la”

161: bem atual – sobre os parlamentares e seus vencimentos: A idéia aristotélica de se não auferir SALÁRIO ao político profissional. Assim, será uma função por VOCAÇÃO, e não COBIÇA. Só os mais ricos, que já são ricos, estariam aptos, mas eles teriam menos chances de legislar em causa própria; e os pobres não se sentiriam ultrajados como hoje se vê com os sucessivos “auto-aumentos” que se concedem os deputados.

Já cobrava TRANSPARÊNCIA das autoridades em relação às receitas e gastos, mesmo sem um site na internet para publicá-lo.

No caso de algum rico ultrajar [aos mendigos], será punido mais severamente do que se tivesse insultado um igual.”

Da liberdade e da igualdade na Democracia: “sofisma miserável.”

170: “Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais a aos juízes as punições.” Maquiavélico, literalmente. Não seria o caso, aliás, de Maquiavel ser um aristotélico?

178: Aristóteles X Platão-Marx no tocante à propriedade privada.

Recomenda-se também, como medida anti-viciosa, um teto para rendimentos por indivíduo ou família, sem falar na dignidade do pão (banquetes públicos) aos indigentes.

Não se deve exigir que um mesmo homem seja flautista e sapateiro.”

Platão: famoso precursor do feminismo [P.S.: quem diria…]

FILEBO, Ou: Dos prazeres, da inteligência e do Bem

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Os comentaristas ressaltam que o estilo literário e a composição dramática do diálogo foram deixados em segundo plano na comparação com a obra platônica precoce, dando lugar a definições, classificações e uma linguagem técnica mais áspera, própria de uma exposição didática” – A.P.V.

SÓCRATES – Filebo diz que o Bem para todos os seres animados consiste na alegria, no prazer, no recreio e em todas as demais coisas deste gênero. Eu sustento, por outro lado, que não é isto, senão que consiste o Bem na sabedoria, na inteligência, na memória e em tudo o que for da mesma natureza. Todas essas coisas, a justa opinião e os raciocínios verdadeiros são, para todos os que os possuem, melhores e mais apreciáveis que o prazer; e são, ao mesmo tempo, mais vantajosos também, seja para seres presentes ou para seres futuros, capazes de praticá-los.”

SÓCRATES – Que é que resultaria se descobríssemos algum outro meio preferível a estes dois extremos? Não é certo que se descobrirmos nesse terceiro meio mais afinidade com o prazer estaremos, tu e eu, em situação de viver o prazer e a sabedoria simultaneamente, muito embora a vida dirigida aos prazeres exerça, dentro desse terceiro meio, mais influência sobre nós do que aquela voltada exclusivamente à sabedoria?

PROTARCO – Mas é claro que sim, Sócrates.

SÓCRATES – Porém, não seria mentira, também, que esse terceiro meio se aproximaria muito mais da sabedoria que a vida dedicada exclusivamente ao culto dos prazeres… Logo, que tal se tratássemos de descobrir, nesta espécie de união, qual fator, se os prazeres ou a sabedoria, prevalece de maneira mais decisiva? Estais de acordo, meus dois bons jovens, que é possível promover este concurso, a fim de saber quem leva a melhor?

PROTARCO – A mim me parece uma proposta justa e exeqüível.

SÓCRATES – E quanto a ti, Filebo?

FILEBO – Creio e crerei sempre que a vitória se encontra sem dúvida do lado do prazer. Não obstante, já que é assim, numa contenda entre mim e tu Protarco poderá servir de juiz.

PROTARCO – Se tu nos delega esse poder (pois não o farei sem o auxílio de Sócrates), fica atento e só escuta. Não terás o direito de negar nem conceder nada a Sócrates. Eu me encarrego de tudo.

FILEBO – Assim está ótimo, fico nesta disputa, em verdade, como mero expectador; e tomo por testemunha a própria deusa do prazer!”

SÓCRATES – Comecemos, pois, por esta mesma deusa a que se refere Filebo, ninguém menos que Afrodite, que na verdade é apenas um disfarce para seu verdadeiro nome, Prazer.

PROTARCO – Muito bem.

SÓCRATES – Sempre que pronuncio o nome dos deuses, Protarco, sinto um temor, mas não um temor humano, um temor sobre-humano que a tudo ultrapassa, de pronunciar seus nomes em vão: por isso evoco aqui o nome secreto de Afrodite, pois sei que deve ser de seu pleno agrado esse gesto de franqueza. Quanto ao prazer em si mesmo, creio que ele tenha mais de uma forma, sendo necessário apurar suas naturezas. Mas ao falarmos simplesmente em prazer e prazeres, como se o prazer fosse apenas uma palavra e nada mais, como fazem os homens, tomaríamos nosso problema pela coisa mais simples do mundo; mas incorreríamos assim em profundo erro. É preciso aqui pensar em gêneros diferentes de coisas. Sê bastante flexível a fim de que nosso exercício não seja abortado pela impossibilidade de estabelecermos um entendimento em comum. Podemos afirmar que o homem corrompido encontra prazer na libertinagem, e o homem moderado na temperança; que o insensato, cheio de crenças, caprichos, loucuras e esperanças, sente prazer, mas que o sábio também é capaz de senti-lo. (…)

PROTARCO – Concedo, Sócrates, que estes dois tipos de prazeres decorram de origens opostas, mas nem por isto se opõem um ao outro. De resto, como poderia o prazer ser diferente de si mesmo?

SÓCRATES – Então a cor, meu querido, enquanto cor, não difere em nada da cor! Sem embargo, todos sabemos que o preto, além de ser diferente do branco, é-lhe de fato o exato contrário.”

Tu dizes que todas as coisas agradáveis são boas, e ninguém em seu juízo perfeito deixará de saber distinguir o que é agradável do que não o é; mas sendo a maior parte dos prazeres má, e a minoria boa, como estabelecemos, tu dás, não obstante, a todos os tipos de prazeres, não importando sua origem, o nome de <bons>, por mais que reconheças agora que são dissemelhantes entre si, quando se te interroga com mais apuro. Que qualidade comum vês nos prazeres bons e nos prazeres maus, qualidade comum esta suficiente para reconhecer todos os prazeres sob a alcunha de Bem?”

Um prazer não difere de outro prazer: são todos semelhantes. E joguem-se fora os exemplos que antes citei! Voltemos a afirmar as coisas que afirmam aqueles homens que são incapazes de discutir qualquer assunto.”

Não devemos dissimular, caro Protarco, a diferença que há entre meu bem e o teu bem!”

SÓCRATES – (…) Não há nem pode haver um meio mais precioso para as indagações que este que adoto já há longo tempo; mas confesso que ele vem falhando bastante ultimamente, deixando-me sozinho e perplexo.

PROTARCO – Que meio é este?

SÓCRATES – Não é difícil descrevê-lo ou saber sobre ele; o difícil é segui-lo. Todas as descobertas obtidas até agora, que exigem algum conhecimento técnico, derivam deste mesmo método que vou-te apresentar.

(…)

Enquanto permaneço capaz de avaliar, é-me um presente divino. Creio que nos caiu do céu devido ao ato de algum Prometeu, pois emana do fogo sagrado. Os antigos, muito mais valorosos que nós, nos transmitiram a tradição de que todas as coisas às quais se atribui uma existência eterna se compõem de unidades, isto é, de um ou de muitos, e reúnem em sua natureza o finito e o infinito. Já que as coisas são assim, é preciso, na indagação de cada objeto, aspirar sempre à descoberta de uma idéia singular. Efetivamente só pode existir uma idéia para cada existência verdadeira; e uma vez descoberta esta idéia, é preciso examinar se não podemos ainda depurá-la mais, por estarmos diante de um coletivo de coisas existentes, i.e., se não se trata, investigando melhor, de mais de uma idéia, com certas afinidades entre si. Podem ser duas, três, quatro… não importa o número. Das idéias que descobrirmos, vale a pena apurar, de novo e de novo, se estas idéias não abrigam outras idéias em si, ou seja, se elas não passam apenas de imagens de idéias, tendo apenas aparências de unidade. É preciso chegar até o final da depuração, a fim de se descobrir, por fim, se a Idéia mais primitiva seria una, múltipla ou uma infinidade. Veja que não se deve aplicar a uma pluralidade a idéia do infinito, pelo menos não até havermos fixado o número preciso que descreve a quantidade de idéias, maior que 1 e menor que o infinito, necessariamente! Só então é que se pode deixar a cada qual que se encaixe na categoria de <infinito>.¹ Os deuses, como eu disse, nos presentearam com o dom de avaliar, de aprender e nos instruirmos entre nós; mas os sábios de hoje em dia fazem essas coisas como que a esmo, sem método consciente; digamos que eles erram mais do que seria conveniente para uma investigação digna. Ou se demoram demais sobre algo supérfluo ou se demoram de menos em algo fundamental, sem darem por isso. Depois da unidade, estes falsos sábios já passam de repente, sem transição clara, ao infinito, e os números intermediários fogem-lhes de vista. Contudo, estes números intermediários são a chave de nossa discussão, pois encerram a ordem e as leis da dialética, e diferenciam-na das artes que não passam de jogo e disputa não-verdadeira, seja oratória ou retórica ou outro nome qualquer que lhas dêem.”

¹ Podemos estar diante, basicamente, dos parágrafos que iniciam, verdadeiramente, a tradição do Idealismo alemão. Eis o que Azcárate tem a dizer sobre esta passagem: “A unidade é o gênero; o infinito é a coleção dos indivíduos; o número intermediário é o das espécies”. Não sei se mais ajuda ou atrapalha àquele não-familiarizado com o platonismo e a teoria das Idéias! Mas vejamos como poderei “mediar este debate” e traduzir com minhas próprias palavras o teor da longa passagem do discurso de Sócrates: essas considerações, embora não se deva ignorar a repercussão filosófica (metafísica) invisível destas palavras, para um começo de compreensão, não distam muito da estruturação do conhecimento do método científico do Ocidente moderno. Para que algo seja empírico e teorizável, é preciso que se organize num quadro de referências lógicas, enfim, de categorias. Assim o Homem pós-platônico estuda as coisas. Pouco importa, por exemplo, remetendo-nos à Biologia, que haja 7 bilhões de seres humanos na Terra e que não conhecemos todos. Estudamos o Homem pela unidade (gênero Homo sapiens). Não devemos ignorar que o número, por mais quantificável que seja, está sempre sujeito a alterações imediatas, seja pelas mortes ou pelos nascimentos ininterruptos, seja porque no momento somos incapazes de dizer se fora de nosso alcance (planeta Terra, atualmente) não haveria de haver outros homens. Nesse sentido, pode-se chamar a quantidade de homens de infinita, mas isso tampouco prejudica nossa faculdade investigativa. Como usei o homem como exemplo, não posso dividi-lo em sub-espécies, i.e., raças, mas isso (números intermediários) utilizamos sem problemas para os mamíferos, p.ex. Lembrar que poderíamos considerar os homens, mas de uma perspectiva outra que não a biológica, que acabei de eleger: as espécies poderiam ser cada nacionalidade. Continua a haver uma Idéia dentro da outra (homens nascidos em uma nação), mas esta Idéia de nação é concisa o suficiente para se opor à mais abrangente de Humanidade. Cientistas podem debater entre si sobre vários de seus descobrimentos, inúmeros detalhes suscetíveis de controvérsia dentro de seu campo do conhecimento, mas sempre se estabelecem verdades reconhecidas como universais que se tornam o legado das próximas gerações.

SÓCRATES – A voz, que sai da boca, é uma e ao mesmo tempo infinita em número para todos e para cada um.

PROTARCO – Estou conforme.

SÓCRATES – Não somos sábios por havê-lo afirmado; nem porque reconheçamos as naturezas infinita e una da voz. Mas saber quantos são os elementos distintos de cada uma e quais são estes não seria o objeto da Gramática?¹

PROTARCO – De pleno acordo.

SÓCRATES – O mesmo para a Música.

PROTARCO – Hein?

SÓCRATES – A voz considerada em relação a esta arte é una.

PROTARCO – Ó, sem dúvida.

SÓCRATES – Podemos considerá-la de duas maneiras: uma voz grave e uma voz aguda; e um terceiro tom uniforme. Não é assim?

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – Se não sabes mais que isto, porém, jamais serás hábil em música; e se o ignoras, tanto pior, pois nem mesmo atendes ao pré-requisito mais fundamental para entender esta arte.

PROTARCO – Isso é certo!

SÓCRATES – Mas, querido amigo, só quando tiveres aprendido a conhecer o número dos intervalos da voz – tanto para o som agudo quanto para o grave –, a qualidade e os limites destes intervalos, e os sistemas que deles resultam, é que, tal como os antigos fizeram, irás descobrir e ser capaz de transmitir aos vivos as idéias sobre harmonia; através dos ensinamentos dos antigos compreendemos tanto isso como as propriedades análogas que emanam do movimento dos corpos, que, medidos por números, devem se chamar ritmo e medida. Quando perceberes que deves portar-te desta maneira em todo saber (em tudo que é uno e múltiplo), aí então poderás enfim chamar-te a ti mesmo sábio.”

¹ Atual Lingüística.

FILEBO – Eu penso da mesma maneira. Mas que significa tudo isto, e aonde quer nos levar Sócrates?”

Descobrir que a voz é infinita foi a obra de um deus ou de algum homem divino, como se refere no Egito de um certo Tot que foi o primeiro que se apercebeu de que este infinito continha unidades chamadas vogais, distinguindo, então, que era não uma, mas muitas; depois, descobriu outras letras, cuja natureza era distinta das vogais, mas que mesmo assim participavam dos sons, vindo a reconhecer, conforme estudava e refletia, o número destas vozes não-vocálicas, que chamou de consoantes. Distinguiu até uma terceira ordem ou espécie de letras, que são o grupo que hoje chamamos de mudas.¹ Depois, ainda, aperfeiçoou seus conhecimentos e separou uma a uma as letras mudas ou privadas de som; e em seguida fez o mesmo com as vogais e as intermediárias [consoantes], até que, havendo descoberto o número das existentes, deu a todas e a cada uma o nome de elemento. Tot, notando que nenhum homem poderia aprender nenhum desses sons ou letras isoladamente, i.e., que reconhecer que uma implicava ao mesmo tempo em reconhecer todas as outras, imaginou o enlace de uma nova unidade, e ao representar-se isto, deu-lhe o nome Gramática, que então nasceu.”

¹ O lingüista sabe que aqui estamos falando de sílabas ou fonemas, não mais de letras em si, embora esta distinção não importasse no tempo de Sócrates (Gramática antiga). Se refere Sócrates, nesse discurso, a semi-vogais ou semi-consoantes, que há em todos os sistemas lingüísticos.

PROTARCO – (…) Sócrates, depois de mil rodeios, metestes-nos numa questão que não é nada fácil resolver. (…) Está-me parecendo que Sócrates nos pergunta se o prazer tem espécies ou não, quantas e quais são; e espera de nós a mesma resposta também com relação à sabedoria.

SÓCRATES – Mataste a charada, filho de Cálias!”

PROTARCO – (…) Havendo-se a discussão empenhado tanto dum lado como do outro, chegamos a ameaçar-te, em tom desafiador e confiante, de não deixar-te arredar o pé e voltar a tua casa antes de que sanasses esta questão! Tu consentiste finalmente, e estás-te dedicando a nós há vários minutos. Agora dizemos como as crianças que não se pode abandonar a meias aquilo que já está bem-desenvolvido, mais perto de terminar do que de haver começado. Portanto, cessa de enrolar-nos, Sócrates, da forma como estás fazendo, e volta a cumprir o combinado!

SÓCRATES – Mas que é que estou a fazer?

PROTARCO – Pões-nos obstáculos atrás de obstáculos e nos suscitas questões e questiúnculas, às quais não podemos dar uma resposta satisfatória sem muita meditação. Porque não imaginamos que o objeto desta conversação seja o reduzir-nos simplesmente a não saber o que dizer! (…) Já que a situação é esta, fala tu! Delibera tu mesmo e fornece-nos a divisão completa dos prazeres e das sabedorias; a menos que possas deixar isto sem exame e ainda assim possas e queiras tomar outro rumo e explicar-nos as coisas de outro modo até chegarmos a uma solução.

SÓCRATES – Depois do que acabo de ouvir, nada de mal posso temer de vossa parte! Esta frase: <a menos que… …queiras> é o que me tranqüiliza, em verdade. E, de resto, me parece que um deus acaba de visitar-me e iluminar-me a memória com certas luzes!”

Começaste prodigiosamente, Sócrates. Agora termina idem!”

SÓCRATES – Examinemos e avaliemos, pois, a vida do prazer e a vida da sabedoria, considerando cada uma à parte.

PROTARCO – Como é?!

SÓCRATES – Façamos de forma que a sabedoria não invada nunca a vida do prazer, e nem o prazer invada jamais a vida da sabedoria. Porque se um dos dois for o Bem, é preciso que não haja absolutamente nada que se mescle, e se um ou outro nos parece carente dalguma coisa, não seria já o verdadeiro Bem que buscamos.”

SÓCRATES – Consentirias tu, Protarco, em passar o resto de teus dias no gozo dos maiores prazeres?

PROTARCO – Ora, se não!

SÓCRATES – Se nada a ti faltasse, crerias então que tens ainda necessidade dalguma coisa?

PROTARCO – Evidente que não.

SÓCRATES – Examina bem se não terias necessidade de pensar, nem de conceber, nem de raciocinar quando se mostrasse necessário, nem de nada do tipo. Será que nem mesmo precisarias ver?

PROTARCO – Pra quê? Se fruísse para sempre do prazer, já tudo teria!

SÓCRATES – Não é necessário que, vivendo desta maneira, passarias os dias em meio aos maiores prazeres?

PROTARCO – Indubitavelmente.

SÓCRATES – Mas como faltar-te-ia a inteligência, a memória, a ciência, a opinião, estarias privado de toda reflexão, e é uma conseqüência que ignorarias então se sentias prazer ou não.

PROTARCO – Ora, é verdade.

SÓCRATES – Assim como assim, desprovido de memória, decorre daí obrigatoriamente que não poder-te-ias lembrar se já houveras sentido prazer ou não outrora, e que não saberias, portanto, aquilo que sentes no presente imediato. E, ao não possuir qualquer opinião verdadeira, é certo que não crerias em absoluto sentir gozo no instante em que de fato está-lo-ias sentindo! Por estar destituído da razão, serias incapaz, outrossim, de concluir que te regozijarias no futuro. Ou seja: viverias tal qual uma esponja, e não como um homem! Se não como uma esponja, pelo menos como uma espécie de animal marinho que vive encerrado em concha, fechado ao mundo, vá lá. Concordas até este ponto, ou tens algo a dizer sobre em que estado te encontrarias?

PROTARCO – Sócrates, não haveria como formar uma outra idéia melhor.

SÓCRATES – E bem: tal vida é apetecível?

PROTARCO – Sócrates, esta pergunta não faz o menor sentido.”

SÓCRATES – Será que qualquer um de nós três seria capaz de viver possuindo sabedoria, inteligência, ciência, memória, em que pese não fosse apto para sentir o mínimo prazer, nem dor, nem para experimentar qualquer sentimento correlato?

PROTARCO – Tal vida em nada me invejaria, Sócrates. Nem creio mesmo que fosse possível uma única vida assim entre todos os mortais.

SÓCRATES – E se se juntassem estas duas vidas, Protarco? E se não formassem mais que uma só, amalgamando-se prazer e sabedoria na mesma unha e carne?

(…)

PROTARCO – Não haveria ninguém que deixasse de preferir este gênero de vida aos dois extremos que elencaste, Sócrates. Insisto que não seja coisa de preferência de uns ou outros: é um juízo universal, sem exceções.

SÓCRATES – Já podemos, portanto, extrair as conclusões do que acaba de ser dito?

PROTARCO – Sim, meu caro Sócrates. Que dos três gêneros de vida apresentados, dois são insuficientes em si mesmos, e mesmo que o fossem são inapetecíveis para qualquer homem ou ser.”

SÓCRATES – Já demonstramos suficientemente que a deusa de Filebo não deve ser vista como o Bem em si.

FILEBO – Mas tua inteligência, Sócrates, tampouco poderia ser este Bem, porquanto está sujeita às mesmas objeções…

SÓCRATES – A minha sim, Filebo, talvez tenhas razão… Mas quanto à verdadeira e divina Inteligência julgo eu que seja outra coisa completamente diferente. Na vida mista não se contesta a vitória da inteligência, mas é necessário ainda avaliar que opinião adotaremos com relação ao segundo posto hierárquico. Talvez devamos dizer, cada qual: <a inteligência>, eu; <o prazer>, tu; no caso de se nos perguntar qual é a principal causa da felicidade presente na condição mista. Procedendo assim, ainda que esta causa predileta não seja o Bem em si mesmo, pelo menos vemos cada qual nosso fator favorito como causa primeira. E acerca disso estou mais excitado do que nunca para a pugna contra meu rival Filebo! Sou capaz de jurar que qualquer que seja a coisa que faz dessa vida algo apetecível, a inteligência tem, de qualquer modo, mais afinidade e semelhança com tal coisa que o prazer. Vou ainda mais longe, ousado que estou: o prazer não tem sequer o direito de aspirar ao posto de <vice> nesta eleição, e com bastante probabilidade não ocupará nem sequer o pódio ou o bronze! Mas para que eu o demonstre necessito de vossa complacência e paciência, ainda que temporárias. Ou seja, confiai em minha inteligência, por Zeus!”

Ó, Protarco! Creio que ainda temos muita estrada pela frente nesta discussão! Neste momento sinto como nossa empreitada é árdua. Porque se aspiramos ao segundo posto, e minha opinião é de que a inteligência o ocupará, é preferível, a essa altura, dadas as circunstâncias, volvermo-nos a outros métodos. Abandonemos por ora a linha de raciocínio precedente.”

SÓCRATES – Dividamos em duas ou mais partes, p.ex., 3, todos os seres deste universo.

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Repitamos algo do que já tínhamos estabelecido.

PROTARCO – Que coisa?

SÓCRATES – Disséramos, não faz muito, que deus foi quem nos fez conhecer os seres, uns como infinitos, outros como finitos.”

SÓCRATES – (…) Mas vejo que em breve serei visto como ridículo se continuar empregando estas divisões.

PROTARCO – Ora, Sócrates, não entendo-te tão bem.

SÓCRATES – Parece-me que tenho necessidade de um quarto gênero!

PROTARCO – Qual seria esse?

SÓCRATES – Apura com o pensamento a causa da mescla das duas primeiras espécies: põe-na ao lado das três; eis a quarta.

PROTARCO – Não seria possível, procedendo assim, também um quinto gênero, com o que poderias separar os seres mais a gosto?

SÓCRATES – Ó, sim! Mas neste momento da argumentação não acho conveniente. Em todo caso, se no decorrer de nossa exposição se fizer necessário um quinto, por que não?!

PROTARCO – De acordo.

SÓCRATES – Bem, destas quatro espécies ponhamos 3 à parte; procuremos, em seguida, examinar as duas primeiras, que têm muitas ramificações e divisões; depois compreendamos cada uma sob uma só idéia; e tratemos, finalmente, de descobrir como numa e noutra se dão o Um e o Muito.

PROTARCO – Se te explicas com mais clareza, talvez eu te possa seguir, Sócrates, mas isto no momento é impossível!

SÓCRATES – As duas espécies a que me refiro são a infinita e a finita. Esforçar-me-ei por provar que a infinita é, de certa maneira, múltipla. Quanto à finita, peço que aguarde um juízo, por ora.

PROTARCO – Creio que a espécie finita não fugirá, Sócrates. Temos tempo.”

SÓCRATES – O mais e o menos, dizíamos, encontram-se sempre no mais quente e no mais frio.

PROTARCO – Com certeza.

SÓCRATES – Por conseguinte, a razão sempre nos faz entender que estas duas coisas não têm fim; e, ao não terem fim, são, por isso, infinitas.

PROTARCO – Agora definiste a coisa com exuberância!

SÓCRATES – Creio que agora fui mais didático, não, Protarco?! Por falar em exuberância e exuberante, eis aí um termo que possui seu oposto em pobre ou escasso, não di-lo-ias? E não dirias que este binômio exuberante-escasso funciona sobre as mesmas bases que o mais e o menos? Em qualquer ponto em que se encontrem, não consentem jamais que a coisa tenha uma quantidade determinada, senão que, passando sempre do mais exuberante ao mais escasso, e reciprocamente, fazem com que nasça o mais e o menos, obrigando o quantum a desaparecer. Com efeito, como já dissemos, caso essas classificações de extremo a extremo acerca de uma coisa não fizessem desaparecer o <quanto?>, deixando-o ocupar o lugar do mais e do menos, do exuberante e do pobre, sendo um intermediário polimórfico, estas coisas mesmas correriam o risco de desaparecer, pois já não faria sentido falar em exuberância, em escassez, em quente, em frio ou em algo que fosse mais e em algo que fosse menos. Ficaria tudo embaralhado, afinal um número nada é, ou pelo menos não pode ser tudo em simultâneo! Porque se se admite o quantum tem-se que a coisa não é mais quente ou mais fria, porque o mais quente cresce indefinidamente, não havendo fenômeno que o desminta; coisa igual acontece com o mais frio. Essas escalas ou retas são infinitas e inserem as coisas em transições sem começo nem final. Mas um ponto fixo será sempre um ponto fixo, não concordas? Desde que cesse o movimento, aí tens alguma propriedade bem-definida no lugar de um quantum. Convimos, portanto, que o mais quente e o mais frio são infinitos.”

Parece que faremos melhor se abrangermos na categoria do finito o que não admite essas qualidades mas sim suas contrárias, ou seja, em primeiro lugar o igual e a igualdade; em seguida o dobro; repara que sempre que tivermos um número, poderemos equivalê-lo à metade de outro número, por exemplo.”

SÓCRATES – Como é que representaremos a terceira espécie que resulta das duas anteriores?

PROTARCO – Aguardo tua lição, Sócrates, pois estou no escuro quanto a isso.

SÓCRATES – Não, não serei eu, Protarco, será um deus, se algum se digna a ouvir minhas súplicas!

PROTARCO – Suplica, então; e medita no problema.

SÓCRATES – Medito, medito… E me parece, caro Protarco… que alguma divindade nos foi favorável em nossos rogos!”

Entendo a espécie do igual, do dobro, como aquilo que faz cessar a inimizade entre contrários, produzindo entre eles a proporção e o acordo, numericamente representáveis.”

SÓCRATES – Tu opinas que limitar o prazer é destruí-lo, e eu sustento, pelo contrário, que limitar o prazer é conservá-lo!

PROTARCO – Nisso não mentes, Sócrates.

SÓCRATES – Expliquei as 3 primeiras espécies. Até agora, compreendeste minhas palavras.

PROTARCO – Sim, creio que compreendi, a maior parte. Distingues, na natureza das coisas, uma espécie que é o infinito; uma segunda espécie, que é o finito; porém, Sócrates, com respeito a essa terceira, não concebo muito bem como a defines em tua cabeça.”

SÓCRATES – (…) Compreendo numa terceira espécie tudo aquilo que é produzido pela mescla das duas primeiras, e que a medida que acompanha o finito produz as condições para a geração da essência da coisa.(*)

PROTARCO – Positivo.

SÓCRATES – Mas para além destes 3 gêneros, é preciso ver qual é aquele que eu disse ser o 4o. Façamos juntos esta apuração!”

(*) “Pela geração da essência, Platão entende neste caso a transição rumo a existência física do objeto.” – P.A. – Modo análogo de dizer: o mundo observável está contido entre as fronteiras inexpugnáveis e apenas inferíveis do finito e do infinito.

O que produz não precede sempre, por sua natureza; e o que é produzido não vem sempre depois, sendo considerado efeito?

(…)

Disso advém que são duas coisas e não uma só; causa-e-efeito (o que causa e o que obedece à causa em seu trânsito rumo à existência).

(…)

Porém, as coisas produzidas e as coisas que produzem geram, por assim dizer, 3 espécies de ser.

(…)

Digamos, então, que a causa produtora de todos esses seres constitui uma 4ª espécie, e que está suficientemente demonstrado que ela difere das outras 3.”

Portanto, vai esta suma: a primeira espécie é o infinito; a segunda, o finito; a terceira, a essência,¹ que é produzida pela mescla das duas primeiras; a quarta é a causa mesma dessa mescla e produção.²”

¹ O “fenômeno” ou “aparência” na linguagem técnica de hoje. A existência em si, poder-se-ia da mesma forma dizer, já que a <essência> do texto é um conceito bastante ardiloso, quase antagônico ao que Platão quer de fato expressar.

² O protótipo ideal ou Deus.

SÓCRATES – E tua pura vida de prazer, Filebo, em qual espécie está situada?

(…)

O prazer e a dor têm limites, ou são das coisas suscetíveis do mais e do menos?

FILEBO – São da segunda espécie, são infinitas, Sócrates. Porque o prazer não seria o soberano bem se por sua própria natureza não fosse infinito em número e em magnitude.

SÓCRATES – E portanto a dor não seria o soberano mal. Por isso é preciso contemplar as coisas de um outro ângulo, saindo da espécie do infinito, a fim de descobrirmos quê é que comunica ao prazer uma parte do bem. Conviríamos acaso que esta coisa emanasse da própria espécie do infinito? Ora, que o prazer nela esteja, se fazeis tanta questão! Mas ainda persistiria o seguinte problema: em que classe estão a sabedoria, a ciência, a inteligência, meus queridos Protarco e Filebo? Não sejamos ímpios! Parece-me que corremos grandes riscos ao ensaiar uma resposta para esta última pergunta.

FILEBO – Ó Sócrates! Será que não superestimas tua deusa?”

Diremos, Protarco, que um poder, desprovido de razão, temerário e que obra ao acaso, governa todas as coisas que formam o que chamamos universo? Ou, ao contrário, há, como disseram os antigos, uma inteligência, uma sabedoria admirável, que preside o governo do mundo?”

Com relação à natureza dos corpos de todos os animais, vemos que o fogo, a água, o ar e a terra, como dizem os velhos marinheiros, entram em sua composição.”

SÓCRATES – Não temos mais que uma pequena e desprezível parte de cada um, que não é pura de nenhuma maneira, de modo que a força que esta parte desemboca em nós não responde satisfatoriamente a sua natureza original. Tomemos um elemento em particular, com seus atributos derivados, e apliquemo-lo a todos os demais. Por exemplo, há fogo em nós, e o há, por igual, no universo.

PROTARCO – Sem dúvida assim o é.

SÓCRATES – O fogo que nós temos, não seria diminuto em quantidade, ao grau da debilidade e do desprezível, ao passo que o fogo do universo não é admirável em quantidade, beleza e força?

PROTARCO – Incontestavelmente.”

SÓCRATES – (…) Não é à reunião de todos os elementos que acabo de elencar que demos o nome de corpos?

PROTARCO – Exato.

SÓCRATES – Vê, pois, que o mesmo sucede com aquilo que chamamos de universo, porque, compondo-se este dos mesmos elementos, é o universo, por analogia, também um corpo.

PROTARCO – Disseste muito bem.”

SÓCRATES – Mas como? Não diremos que nosso corpo tem uma alma?

PROTARCO – É claro que diremos!

SÓCRATES – De onde a tiraste, querido Protarco, se o próprio corpo do universo não é animado, sendo que ele tem tudo que nossos corpos têm, e em ainda maior abundância?

(…)

E tudo isso, meu caro Protarco, porque não reparáramos até aqui que desses quatro gêneros, o finito, o infinito, o misto e a causa, este quarto e último, existindo em tudo, é que nos concede uma alma, que sustenta os corpos, que, quando enfermo, adoece a saúde, e que se combina de mil maneiras a fim de criar milhares de milhares de objetos, recebendo o nome de sabedoria absoluta e universal! Este quarto gênero está sempre presente sob uma infinda variedade de formas; o gênero mais belo e excelente se encontra na extensa região dos céus, onde sem dúvida tudo o que há são os mesmos elementos que nos constituem, conquanto em muito maior proporção, dispondo de beleza incomparável e de uma pureza sem igual.”

SÓCRATES – (…) neste universo há muito de infinito e uma quantidade suficiente de finito, mas todos são governados por uma causa, que nada tem de desprezível ou avara, pois que ajusta e ordena os anos, as estações, os meses, e merece com razão o nome de sabedoria ou inteligência.

PROTARCO – Ó Sócrates, tens toda a razão do mundo!

SÓCRATES – Mas não pode haver sabedoria e inteligência ali onde não há alma!

PROTARCO – Isso é verdade.

SÓCRATES – (…) Na natureza de Zeus, enquanto causa, há uma alma real, uma inteligência real, e na natureza dos outros deuses há muitas belas qualidades, pelo menos uma das quais cada deus gosta que se lhe atribua em especial.”

Algumas vezes o estilo festivo é uma forma de levar adiante as indagações mais sérias.”

SÓCRATES – A fome, p.ex., é uma dissolução e uma dor.

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – Comer, ao contrário, é uma repleção e um prazer.

PROTARCO – De acordo.

SÓCRATES – A sede é, de novo, dor e dissolução. Mas a qualidade do úmido, que preenche o que seca, origina um prazer. O mesmo pode ser dito da sensação de um calor excessivo e que seja anti-natural, causando segregação, dor, enfim; o restabelecimento do estado normal e o refrigério do corpo, neste caso, é encarado como um prazer.

(…)

O frio, que enregela o úmido presente no animal até o ponto de ser contra a natureza, quando excessivo, é considerado dolorido; os humores, cada um seguindo seu curso, quando em conformidade com a natureza, equivalem à sensação do prazer. (…) quando o animal se corrompe, a corrupção é uma dor; já o retrocesso de cada coisa a sua constituição primeva é um prazer.”

Eis um terceiro estado, diferente do prazer e da dor. Neste ponto é necessário um esforço intelectivo para me acompanhar. Sem compreender este estado, não resolveremos esta nossa questão. Mas continuo apenas com tua bênção.

(…)

Sabes que nada impede que viva desta maneira aquele que assumiu para si o estilo de vida do sábio?”

PROTARCO – Mas Sócrates, se estás correto isso seria indício de que os deuses não estariam sujeitos quer à alegria quer à tristeza.”

SÓCRATES – Parece-me que é preciso explicar antes o que é a memória, e antes da memória o que é a sensação, se é que pretendemos levar isso às últimas conseqüências.

PROTARCO – Não te entendo.

SÓCRATES – Dá por estabelecido, amigo, que entre as afeições que nosso corpo experimenta de ordinário algumas se estendem ao corpo sem tocar a alma, não impingindo-lhe nenhum sentimento; outras afeições são transmitidas do corpo à alma, e produzem uma espécie de comoção, que pode ser caracterizada como singular, pois que o corpo a interpreta duma maneira, a alma doutra, ainda que reste algo que seja comum às duas instâncias.”

SÓCRATES – (…) o esquecimento é a perda da memória, e no caso presente nem há que se falar propriamente de memória; seria um absurdo dizer que se pode perder aquilo que sequer existe, nem existiu jamais, não pões-te de acordo?

PROTARCO – E como não, Sócrates?

SÓCRATES – Modifica, pois, os termos um pouquinho.

PROTARCO – Ã?

SÓCRATES – Em vez de dizer que quando a alma não sente as comoções de que padece o corpo e estas comoções lhe escapam por completo há esquecimento, melhor seria dizer que há insensibilidade.

PROTARCO – Ah, agora está claro.

SÓCRATES – Mas nota que quando a afecção ou afeição é comum à alma e ao corpo, e ambos sentem-se comovidos, não te enganarás se chamares a este movimento de sensação.

PROTARCO – Continua, Sócrates, pois sigo de acordo.

(…)

SÓCRATES – Mas se se diz que a memória é a conservação da sensação, tem-se aqui uma boa definição, a meu ver.

PROTARCO – A meu ver também é uma boa definição.

SÓCRATES – Não dizíamos que a reminiscência é diferente da memória?

PROTARCO – Quem sabe…

SÓCRATES – Não consiste essa diferença no seguinte–

PROTARCO – No quê??

SÓCRATES – –que quando a alma, em condições de isolamento e julgamento equilibrado, afastada do corpo, entregue, por assim dizer, somente a si mesma, recorda o que experimentara noutro tempo, a isto chamamos reminiscência. Alguma objeção?¹

PROTARCO – De modo algum.

SÓCRATES – E quando, tendo perdido a recordação, seja de uma sensação, seja de um conhecimento, reprodu-lo em si própria, chamamos este processo reminiscência e memória, isto é, toda memória é uma reminiscência, mas jamais o contrário.”

¹ A memória diz respeito principalmente à vida fenomênica do sujeito, diria um filósofo contemporâneo. A reminiscência ajuda a explicar e fundamentar lembranças atávicas da alma, i.e., coisas vivenciadas pelo Ser antes de ser o eu atual, única explicação possível, no platonismo, para a capacidade que se tem, na vida fenomênica, de se chegar à Verdade e à Idéia das coisas. Há um quê de misticismo, por um lado, que associa Platão à Pitágoras, mas, no fundo, esta é a base da fenomenologia ocidental mais aplicada, lógica e abstrata, que não dá lugar ao inconsiderado (sobrenatural). Nossa essência, nosso Ser, diria um Heidegger, dependem desta discriminação aparentemente tão inocente entre uma simples memória e uma autêntica reminiscência.

PROTARCO – Examinemos então o desejo, como tu pedes, pois nisto nada perderemos, tendo em vista o fim que temos.

SÓCRATES – Sim, Protarco: ao encontrarmos o que tanto buscamos, desaparecerão imediatamente nossas dúvidas acerca de todos estes objetos, e parecerá que ganhamos tempo, ao invés de perdê-lo!

PROTARCO – Tua réplica é a mais justa de todas, mas de pouco adianta nos determos aqui com belas palavras, Sócrates.”

SÓCRATES – Que há de comum entre afecções tão diferentes, a ponto de denominá-las por uma mesma palavra?

PROTARCO – Por Zeus! Se eu soubesse, talvez não estivéssemos enredados em todo este imbróglio, Sócrates… É preciso, não obstante, achar algo que dizer.

SÓCRATES – Nada melhor que o ponto de partida ser o aqui e o agora.

PROTARCO – Explica isso melhor.

SÓCRATES – Não se diz, de ordinário, que tem-se sede?

PROTARCO – Ora, sim.

SÓCRATES – Ter sede, não é dar-se conta de um vazio em si?

PROTARCO – Decerto.

SÓCRATES – A sede não é um desejo?

PROTARCO – Sim, um desejo de bebida.

SÓCRATES – De bebida, ou de ver-se saciado pela bebida?

PROTARCO – Mais exatamente isto; ver-se saciado.

SÓCRATES – Então posso concluir que deseja-se o contrário daquilo que é? De maneira que quem sente-se vazio quer-se saciar.

PROTARCO – Permito-te esta conclusão.

SÓCRATES – E é possível que um homem que se encontra afetado por este vazio, pela primeira vez em sua vida chegue – seja através da sensação, seja através da memória – a preencher este vazio com algo imaginário e inaudito?

PROTARCO – Mas como poderia suceder tal loucura, Sócrates?

SÓCRATES – Todo homem que deseja, não deseja alguma coisa? É o que se diz.

PROTARCO – Conforme…

SÓCRATES – Não deseja o que ele experimenta, porque ele tem sede; a sede é um vazio e deseja suprimi-lo. Com efeito, seria contraditório dizer que ele experimenta algo e tem desejo desse algo ao mesmo tempo.

PROTARCO – Agora que o disseste…

SÓCRATES – É preciso que aquele que sente sede chegue a uma repleção exterior ou então a satisfaça com seu próprio ser.

PROTARCO – Entendo-te a meias, Sócrates.

SÓCRATES – Bem, posso-te adiantar que é impossível que com o corpo o corpo livre-se da sede, posto que é o corpo que se encontra de algum modo esvaziado.

PROTARCO – Claro…

SÓCRATES – Resta, portanto, que a alma chegue à repleção, e isto só se poderia dar mediante a memória!

PROTARCO – Isto é claro como a luz.

SÓCRATES – Por qual outro método este homem haveria de consegui-lo?

PROTARCO – Sou incapaz de conceber qualquer outro.

(…)

SÓCRATES – Esta reflexão nos faz ver, Protarco, que não há desejo do corpo.

PROTARCO – ???

SÓCRATES – O esforço de todo organismo animal se dirige sempre no sentido de atingir o estado contrário ao que experimenta no presente.

(…)

Este apetite, que arrasta dum extremo a outro através da experiência (sensações), prova que há nele uma memória congênita das coisas opostas às paixões do corpo, não vês?

(…)

Só pode ser a memória aquilo que leva o animal à realização de seu desejo e, portanto, todo desejo tem sua sede na alma, com o perdão do trocadilho.¹ A alma comanda o animal.²”

¹ Esta parte da tradução foi inovação minha: ambos conversavam sobre a <sêde> (vazio, dor ou sintomas da desidratação), e agora Sócrates fala da fonte, residência ou causa deste desejo de matar a sede (<séde>). A grafia das palavras, diferente da pronúncia, em nada difere.

² O animal deve ser entendido aqui como o homem, sob pena de comprometer-se todo o raciocínio caso estendamos esta compreensão às bestas ou criaturas irracionais, o <animal> no sentido da Biologia.

SÓCRATES – (…) Parece-me que chegamos ao ponto em que descobrimos uma espécie particular de vida.

PROTARCO – Que vida?!

SÓCRATES – Descobrimos esta vida que consiste no esvaziamento e na repleção; ou seja, tudo aquilo que se relaciona à conservação e à alteração do estado atual. É fácil notar que podemos sentir dor ou prazer independentemente do estado em que nos encontramos, não sendo o <vazio> ou o <cheio> o incômodo em si.

PROTARCO – Começo a entender onde queres chegar…

SÓCRATES – Que sucede quando nos achamos a meio caminho entre estas duas situações extremas de carência e de consumação?

PROTARCO – Agora explica isso de <meio caminho>.

SÓCRATES – Meio caminho ou ponto médio. Quando se sente dor em virtude da forma como o corpo está sendo afetado por algo, recordando-se sensações agradáveis, parece que a dor já cessa um pouco. Podes conceber que um homem sedento console-se de achar água, mesmo não achando, e consiga enganar a sede? Quem tem esperança de preencher o vazio, já não está num ponto médio entre a mais terrível sede e a realização plena do desejo de não ter mais sede?

(…)

E pensa que há algum ponto em que o homem é pura alegria? Ou pura dor?

PROTARCO – Refletindo bastante, penso que não. (…)

SÓCRATES – (…) Compreendes então que há um <duplo> invisível deste vazio ou falta de vazio, certo? Tanto quanto podemos conceber um homem esperançoso em preencher-se, há também o homem desesperado que não vê como poderia escapar de um agravamento desta sede.

PROTARCO – Consinto.”

SÓCRATES – Não seria estranho dizer que o homem e os demais animais experimentam simultaneamente dor e alegria.”

Devemos renunciar absolutamente a todos os rodeios e discussões que ainda nos separam de nosso objetivo final.”

Não é certo que aquele que forma uma opinião, seja fundada ou infundada, nem pela chance de estar errado deixa por isso de formar uma opinião?

(…)

Igualmente, não é evidente que aquele que goza uma alegria, haja ou não motivo para regozijar-se, nem por isso deixa de regozijar-se realmente?

(…)

Como seria possível que estejamos sujeitos a ter opiniões, tanto verdadeiras quanto falsas, e que nossos prazeres sejam sempre verdadeiros, como alegas, enquanto que os atos de formar uma opinião e regozijar-se existem de forma análoga e espelhada?”

SÓCRATES – Neste caso, nossa alma é parecida com um livro.

PROTARCO – Em que particularidade?

SÓCRATES – A memória e os sentidos, concorrendo ao mesmo objeto com as afecções que deles dependem, inscrevem, já que usei esta metáfora, em nossas almas, certos silogismos ou raciocínios, e quando aparece ali escrita esta verdade, nasce em todos nós uma opinião verdadeira derivada de raciocínios verdadeiros, bem como opiniões falsificadas, quando nosso secretário interior escreveu com base em opiniões fajutas, i.e., silogismos.”

SÓCRATES – As grandes e súbitas mudanças excitam-nos sentimentos de dor e prazer; já as mudanças mais matizadas ou insignificantes são incapazes de nos propiciar dor ou prazer.

(…)

Mas eis aí que o gênero de vida de que tratávamos faz sua reaparição!

(…)

Estou falando daquele gênero de vida normalmente isento da dor e do prazer.

(…)

admitamos 3 classes de vida: uma de prazer, outra de dor, e uma terceira que não é de um nem do outro. Que opinas sobre isso?

PROTARCO – Penso, como tu, que é preciso admitir estas 3 classes de vida.

SÓCRATES – Portanto, estar isento de dor nunca pode ser o mesmo que sentir prazer.

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Vejo, ó Protarco, que tu não conheces os inimigos de Filebo!

PROTARCO – E quem seriam?

SÓCRATES – Homens que passam por mui sábios sobre as coisas da natureza, capazes de sustentar, p.ex., que não há absolutamente prazer.(*)

PROTARCO – Hein?!

SÓCRATES – É isso mesmo que ouviste! Dizem que aquilo que os partidários de Filebo denominam prazer nada é senão a carência da dor.

PROTARCO – Mas e quanto a ti, Sócrates? Aconselhas-nos a seguir seu ditame?

SÓCRATES – De maneira alguma! Mas quero que os ouçamos como se fossem adivinhos ou oniscientes. Mortais assim, se existissem, ao dar-se-lhes crédito, seríamos obrigados a reconhecer que odiariam ou desprezariam o que chamamos nós de prazer. Aquilo que lhes agrada, tomam por ilusão, não algo existente. É dessa perspectiva que desejo que mireis o problema, a fim de ganharmos em conhecimento, ainda que eles não estejam certos.

(*) “Referência a Antístenes e os Cínicos.” – P.A.

Se desejássemos conhecer a natureza do que quer que seja, p.ex., da rigidez, não seria viável conhecê-la melhor fixando-nos no que há de mais rígido ao invés de entretermo-nos nas coisas mais ou menos rígidas? Anda Protarco, é necessário dar satisfação a estes homens cavilosos, como também a mim.”

Quem se encontra atormentado pela febre e outras enfermidades que-tais não sente mais sede, frio e outras afecções que o comum? Não se encontram com mais necessidades, e quando as satisfazem não experimentam certo grau de prazer? Deixaremos de confessar estas verdades?”

Não percebes na vida corrompida, senão um maior número, prazeres maiores e mais consideráveis, havendo sempre a necessidade de veemência e vivacidade por parte dessas pessoas, pelo menos muito mais do que na vida de uma pessoa moderada?”

SÓCRATES – Acaso ignoras que na comédia nossa alma se vê afetada por uma mescla de dor e prazer?

PROTARCO – Ainda não percebo muito bem esta característica.

SÓCRATES – Confesso, Protarco, que não estás de todo fora do tom: é um tipo de sentimento difícil de distinguir a princípio.

PROTARCO – Sinto que é.

(…)

SÓCRATES – Encaras como dor da alma isso que chamam de inveja?

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – E no entanto, vemos que o invejoso se regozija com o mal do próximo.

PROTARCO – E não é pouco!”

PROTARCO – Quais são os prazeres, Sócrates, que com mais razão podemos tomar por verdadeiros?

SÓCRATES – São aqueles que têm por objeto as cores belas e as belas figuras, a maior parte dos que nascem dos odores e sons, e todos aqueles, em suma, cuja privação não é sensível, nem dolorosa, e cujo gozo vai acompanhado de uma sensação agradável, sem mescla alguma de dor.¹”

¹ Platão acaba de resumir os fundamentos da ciência da Estética.

Por <beleza das figuras> não entendo o que muitos poderão imaginar: corpos formosos, pinturas de qualidade; entendo aquilo que é reto e circular, plano, sólido, obras desse gênero, trabalhadas em suas singularidades. Falo dessas figuras que poderíamos reproduzir com régua e esquadro. Será que penetras meu pensamento? A meu ver essas figuras não são como as outras, belas por comparação (relativamente belas), mas sempre e absolutamente belas, em si mesmas, naturalmente belas. (…) Outro tanto digo eu das belas cores que possuem uma beleza correlata à anterior, e de todos os prazeres que guardam relação com o que eu descrevi.

(…)

Quanto aos sons, digo que os fluidos e nítidos, componentes de uma melodia pura, são mais do que relativamente belos, são belos por si mesmos.

(…)

Já a espécie de prazer que resulta dos odores tem algo de menos divino, reconheço-o; mas os prazeres em que não se mescla nenhuma dor por necessidade devem ser classificados no gênero oposto ao dos prazeres de que falamos antes, por isso não posso me contradizer. Em suma, amigo Protarco, chegamos à definição de dois tipos diferentes de prazeres.

(…)

Não nos esqueçamos também dos prazeres que acompanham a ciência, se é que pressupomos que há qualquer coisa de gratuito no ato de conhecer, nada ligado ao desejo ou compulsão de aprender visando a outro fim, e que essa sede de ciência espontânea e como fim em si não causa qualquer tipo de dor.

(…)

Doeria na alma se, plena de conhecimento, chegasse a perder alguns por esquecimento?

(…)

Como bem concluíste, enquanto o conhecedor não refletir sobre isso, abandonando a naturalidade da questão, ele jamais sentirá qualquer dor ou pesar, enquanto não lembrar que esqueceu.

(…)

Resulta de tudo isso que os prazeres da ciência são puros e despidos de dor, e que não estão destinados a todo mundo.

(…)

Agora que já separamos com segurança os prazeres puros daqueles que não o são, acrescentemos que os prazeres violentos são desmedidos, e que os demais são comedidos. Afirmemos também que aqueles, maiores e mais fortes, fazendo-se sentir, não importa, uma ou múltiplas vezes, fato é que pertencem à classe do infinito, que atua com mais ou menos vivacidade sobre corpo e alma; estes (os comedidos) são da espécie finita.”

SÓCRATES – Como e em que consiste a pureza da brancura? Na magnitude e na quantidade? Ou no aparecer sem mescla, sem vestígio algum de outras cores?

PROTARCO – É evidente que na última característica, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem! Não diremos, pois, que esta brancura é a mais verdadeira e ao mesmo tempo a mais bela de todas as brancuras, e não a que é maior em quantidade nem em tamanho?”

Todo prazer que não carrega consigo uma dor, ainda que pequena e desprezível, é mais agradável, mais autêntico e mais belo que aqueles que a carregam, ainda que alguns prazeres que carreguem dores apareçam como mais vivos, numerosos e majestosos.”

SÓCRATES – Não ouvimos dizerem com contumácia que o prazer está sempre no caminho da gestação e nunca exatamente no estado da existência? Muitos oradores dos mais hábeis já tentaram demonstrá-lo. Nada mais poderíamos fazer senão agradecê-los!

PROTARCO – Por quê, Sócrates?

(…)

SÓCRATES – Não há duas classes de coisas, uma das que existem por si mesmas e outra das que aspiram sem cessar a ser outra coisa?” “Uma é naturalmente nobre, e a outra inferior àquela em dignidade.”

jovens formosos que tinham por amantes a homens cheios de valor.”

PROTARCO – Falaste algumas coisas que me soaram obscuras, Sócrates.

SÓCRATES – Não é bom que façamos mil recapitulações e digressões, assim não acabamos nunca. Mas, Protarco, eu não consigo evitar: a própria discussão parece ter gosto em me entorpecer! Ela quer nos fazer entender que, duas coisas consideradas, uma é sempre meio e a outra fim.

PROTARCO – Mesmo que repitas uma e duas vezes, isso não me entra na cabeça.”

SÓCRATES – Partamos de outro ponto então. Consideremos duas coisas novas…

PROTARCO – Quais?

SÓCRATES – Uma, o fenômeno; a outra, o ser.

PROTARCO – Pois bem, isto está conforme: o ser e o fenômeno.

SÓCRATES – Muito bem. Qual das duas diremos que foi feita para a outra? O fenômeno existe para a existência, ou a existência é que é causa do fenômeno?

PROTARCO – Me perguntas realmente isso: se a existência existe porque existe a aparência?

SÓCRATES – Exato!

PROTARCO – Que diabo de pergunta é essa?

SÓCRATES – Protarco, a construção dos navios se faz em nome dos navios, ou os navios em nome da construção? (…)

PROTARCO – Por que não te respondes a ti mesmo, Sócrates?

SÓCRATES – Não haveria inconveniente nisso, mas não quero falar só!

PROTARCO – Então com prazer…

SÓCRATES – Digo, então, que os ingredientes, os instrumentos, os materiais de todas as coisas servem a fenômenos; e que todo fenômeno serve a tipos de existências; e a totalidade dos fenômenos serve à totalidade da existência, que é o fim último.

PROTARCO – Perfeito.

SÓCRATES – E que, portanto, se o prazer é um fenômeno, é indispensável que seja o meio para alguma existência.

PROTARCO – Convenho totalmente.

SÓCRATES – Mas a coisa que é sempre fim para outra coisa que é sempre o meio, não deve ser esta coisa chamada de Bem? Logo, vemos que as coisas estão em classes diferentes.

PROTARCO – É óbvio.

SÓCRATES – Logo, se o prazer é um fenômeno, não diríamos que está subordinado ao Bem?

PROTARCO – Tens razão.

SÓCRATES – Desta forma, como disse no começo, precisamos ser gratos àqueles que nos fizeram conhecer que o prazer é um fenômeno e que não tem absolutamente existência em si mesmo¹”

¹ Platão volta a falar dos céticos.

SÓCRATES – Estes homens mesmos se rirão, sem dúvida, daqueles que fazem consistir sua felicidade no fenômeno.

PROTARCO – Mas de que maneira exatamente, e de quem falas?

SÓCRATES – Falo daqueles que, matando a fome e a sede e outras necessidades análogas, satisfazem-se no fenômeno. Está claro que se regozijam do prazer que lhes causa a repleção. Alegam que não gostariam de viver se não estivessem sujeitos à sede, à fome e outras tantas faltas, verificadas mediante sensações.

PROTARCO – Sim, de acordo.

SÓCRATES – Não conviremos todos em que a alteração dum fenômeno é o contrário de sua geração?

PROTARCO – Sim, conviremos.

SÓCRATES – O que elege a vida dos prazeres, elege a geração e a alteração, mas não um terceiro estado no qual não teriam lugar os prazeres, nem a dor, tão-somente a mais pura sabedoria.

PROTARCO – Agora entendo, Sócrates, que é o mais rematado absurdo eleger o prazer como o sumo Bem!”

SÓCRATES – (…) Não seria igualmente absurdo dizer que quem não experimenta o prazer e a dor é mau durante todo o tempo que sofre, ainda que estejamos falando do homem mais virtuoso do mundo? E não seria disparatado afirmar que quem experimenta o prazer é por esta mesma razão virtuoso, mais virtuoso quão maior for o prazer que experimenta?

PROTARCO – Sócrates, nada mais absurdo e disparatado que isso tudo!”

SÓCRATES – Não se dividem as ciências em dois ramos, um as artes mecânicas, o outro a educação, seja da alma ou do corpo?

PROTARCO – De acordo.”

SÓCRATES – Separemos, então, as artes que estão acima das outras.

PROTARCO – Quais seriam, e qual critério utilizaremos?

SÓCRATES – P.ex., se excluirmos dentre as diversas artes as de contar, medir e pesar, restará bem pouca coisa, não crês?

(…)

Depois, nada nos resta senão pedir socorro às probabilidades, exercitar os sentidos mediante a experiência e nos submeter a uma certa rotina, valendo-nos do talento para conjeturar, ao que muitos dão o nome de arte, pelo menos quando já se desenvolveu a um grau sublime pela reflexão e pelo trabalho nela desempenhado (aperfeiçoando o talento para conjeturas).

PROTARCO – Dizes algo irrefutável.

SÓCRATES – Não está neste último caso a música, pois que não se calcula sua harmonia, mas avança-se por conjeturas e ao azar, que depois são tornados familiares pelo hábito do tocador? Assim como a parte instrumental desta arte tampouco se submete a uma justa medida ao pôr-se em movimento cada corda, de maneira que na música há muitas coisas desconhecidas e algumas poucas seguras e certas?

PROTARCO – Nada mais verdadeiro.

SÓCRATES – Aplicando o raciocínio, veremos que é também o caso da medicina, da agricultura, da navegação e até da arte militar.

PROTARCO – Ó, sem dúvida!

SÓCRATES – E que, ao contrário, a arquitetura faz uso, a meu entender, de muitas medidas e cálculos, e instrumentos, que lhe dão grande firmeza e rigidez, fazendo-a exata, ou pelo menos mais exata que grande parte das ciências.¹”

¹ Está claro que hoje não pensamos mais assim.

Sigamos: separaremos as artes em duas ordens. Umas, dependentes da música, são mais imprecisas; outras, dependentes dos princípios arquitetônicos, são mais precisas.

PROTARCO – Assim seja.

SÓCRATES – Coloquemos entre as artes mais exatas aquelas de que primeiro faláramos.

PROTARCO – Se não me engano, falas da aritmética e das suas mais aparentadas.”

Veja a aritmética: não estamos conformes que há uma vulgar e outra própria dos filósofos?”

o vulgo faz entrar na mesma conta unidades desiguais, como dois exércitos, dois bois, duas unidades muita pequenas ou muito grandes. Os filósofos, ao contrário, jamais darão ouvidos a quem se nega a admitir que, entre todas as unidades, não há uma unidade que não difira absolutamente em nada de qualquer outra unidade.”

A arte de calcular e de medir – que empregam os arquitetos e os mercadores –, não difere ela da geometria e dos cálculos racionais dos filósofos? Diremos que é a mesma arte, ou a dividiremos em duas?”

SÓCRATES – Protarco, compreendes por que entramos neste mérito?

PROTARCO – Talvez…”

SÓCRATES – Há duas aritméticas e duas geometrias, e dependendo de quais outras múltiplas artes consideremos, por mais que vulgarmente se as compreenda sob um mesmo nome, pode muito bem haver várias artes ou ciências duplas.”

SÓCRATES – A dialética nos acusará, Protarco, de termos dado a preferência a outra ciência em detrimento dela.

PROTARCO – Que entendes por dialética, Sócrates?

SÓCRATES – É a ciência das ciências, que conhece todas as outras ciências. É o conhecimento mais verdadeiro e sem comparação, pois tem por objeto o ser mesmo, aquilo que realmente existe, e cuja natureza é inalterável. Que pensas da dialética, Protarco?

PROTARCO – Não nego, Sócrates, que ouvi muitas vezes Górgias dizer que a arte da persuasão leva vantagem sobre todas as demais. Fica tudo submetido à persuasão do orador, não pela força, mas pela vontade. Em suma, não haveria nada mais excelente. Me sinto desconfortável, portanto: não quero contradizer meu mestre Górgias, nem tampouco a ti, querido.

SÓCRATES – Me parece que no momento de alvejar tua flecha contra mim, vacilaste.

PROTARCO – Se assim o queres, digo que tu podes tratar como bem entender, nesta conversação, o estatuto destas duas ciências.

SÓCRATES – Mas é culpa minha se não entendes o que digo exatamente?

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Não te perguntei, meu querido, qual é a arte ou a ciência que se encontra no topo das outras em termos de importância, excelência e vantagens que possa conceder ao usuário, mas qual é a ciência cujo objeto é o mais claro, exato e verdadeiro, seja ou não de grande utilidade. Eis o que agora buscamos. Se ages com prudência, não cais em desgraça com Górgias, nem tampouco me afrentas.”

SÓCRATES – (…) quando alguém diz estudar a natureza, já sabes que se ocupa a vida inteira em averiguar as causas, ou seja, como veio a se produzir o universo; pois todo efeito, que se apura agora, provém de determinadas causas. Ou não?

PROTARCO – Mas é claro que sim, Sócrates.

SÓCRATES – O objeto do naturalista não é necessariamente aquilo que existe sempre? O que é, o que foi e o que será?

PROTARCO – Em última instância, é isto mesmo.

SÓCRATES – Podemos dizer que é auto-demonstrável o objeto que procuramos, que nunca existiu, nem existe, nem existirá de forma dessemelhante? Ou bem a única coisa que podemos afirmar, com base na investigação dos fenômenos, seria: nada há que permanece idêntico e estável?!

PROTARCO – O segundo, Sócrates, porque o fenômeno é o meio, mas–

SÓCRATES – …Já sei o que irás dizer! Está claro que se trata de fenômenos, mas como chegar à misteriosa causa, já que este fim é invisível e só vemos o meio?

PROTARCO – Pois creio que ficaremos eternamente no escuro quanto a isso.

SÓCRATES – Portanto, a verdade pura não se encontra na inteligência nem no conhecimento possível sobre os objetos.

PROTARCO – Com efeito.

SÓCRATES – E então é preciso que deixemos de lado tudo isso, tu, eu, Górgias e Filebo: seguindo tão-só a razão, devemos afirmar o que segue…–

PROTARCO – O quê, Sócrates?

SÓCRATES – …que a estabilidade, a pureza, a verdade e o que nós chamamos de sinceridade, não se encontram senão no que subsiste eternamente, no mesmo estado, da mesma maneira, sem mescla; e onde mais se encontra de forma menos mesclada, isto é, em segundo lugar? Podemos chegar lá? Creio que todo o demais deve ser rebaixado em nossa hierarquia de valores.

PROTARCO – Concordo plenamente.”

SÓCRATES – Não são os nomes mais preciosos os da inteligência e sabedoria?

PROTARCO – Parece que sim.”

SÓCRATES – Sigo uma velha máxima, que nunca é má: Nunca é demais indagar duas, três ou mais vezes, se preciso, sobre o quê é o Bem.

PROTARCO – Convenho, convenho.

SÓCRATES – Em nome de Zeus, muita atenção agora! Vamos recordar como começamos todo este debate, a fim de podermos rematá-lo!

(…)

Filebo sustentava que o prazer é o fim legítimo de todos os seres animados e o objeto a que se devem consagrar sem exceção; que o prazer é o supremo Bem e que estas duas palavras, bom e agradável, pertencem, no fim de contas, a uma mesma natureza. Sócrates, ao contrário, sustentava que, como bom e agradável são duas palavras distintas, expressavam igualmente duas coisas de natureza distinta, e que a sabedoria participava mais da condição do Bem que o prazer. Não começamos assim, Protarco?

PROTARCO – Sim, Sócrates, foste verdadeiro.

SÓCRATES – E, dando continuidade: convimos que o ser animado que esteja em possessão plena e integral, ininterrupta, durante toda sua vida, do Bem, não tem ele necessidade de nada mais, porque aquilo já lhe basta. Que dizes?

PROTARCO – Mais uma vez, foste impecável ao rememorar nossos passos.”

SÓCRATES – Nem o prazer nem a sabedoria são esse Bem perfeito, o bem que apetece a todos, o soberano Bem!

PROTARCO – Agora vejo que não!

SÓCRATES – Destarte, é preciso descobrir o Bem ou em si mesmo ou nalguma imagem, para ver, como já dissemos, a quem devemos adjudicar o segundo posto.”

Não cabe buscar o bem numa vida sem mescla, pois que ele reside na vida mesclada ou intermediária.”

SÓCRATES – Seja: Conseguiríamos atingir nosso objeto mesclando toda sorte de prazeres com toda sorte de sabedorias?

PROTARCO – Hm, talvez…

SÓCRATES – Não, este meio não é confiável. Vou te propor um novo método de mesclar as coisas sem tantos riscos.

(…)

Há, segundo entendo, alguns prazeres muito mais meritórios que outros; e artes mais exatas que outras.”

Segue daí que devemos mesclar só as porções mais autênticas de uma e outra parte, e cabe-nos examinar se há uma mescla verossímil o suficiente para que a classifiquemos de vida mais apetecível.”

SÓCRATES – Será preciso incluir a música, que, conforme vimos, está repleta de conjeturas e de imitação, e carente, por isso mesmo, de pureza?

PROTARCO – Isso me parece necessário, a fim de tornar a vida suportável.

SÓCRATES – Em outras palavras, queres que eu seja um porteiro relaxado e deixe que um tropel de arraias-miúdas arrombe o portão e invada, com todas as ciências e mesclas possíveis e imagináveis?

PROTARCO – Sócrates, não vejo como pode ser um mal que um homem possua em si todas as ciências, contanto que possua as principais.

SÓCRATES – Sigo, então, tua prescrição, e deixo com que todas passem pelo meu portão, para invadirem o jardim poético de Homero.”

Porém, quanto aos prazeres, ainda resta por decidir: quais classes de prazeres deixaremos entrar impunemente? Só caberão neste jardim os verdadeiros, ou aceitaremos todos sem distinção?”

A essência do Bem nos escapa novamente! Foi-se refugiar dentro da essência do Belo, porque em todo lugar e por todas as partes a justa medida e a proporção são uma beleza e uma virtude.

(…)

Mas não esqueçamos que a verdade tem de entrar com as outras coisas neste mescla.

(…)

Portanto, se não podemos abarcar o Bem sob uma só idéia, fá-lo-emos sob 3, a saber: a da Beleza, a da Proporção e a da Verdade. Digamos que, se essas 3 coisas pudessem ser 1 só, formariam assim a causa verdadeira da excelência desta mescla do tipo de vida perfeita e alcançável pelo homem. Se a causa é boa, a mescla só pode ser boa.”

PROTARCO – (…) o prazer é a coisa mais mentirosa do mundo. Assim se diz por aí. E também que os deuses perdoam todo perjúrio cometido em meio aos prazeres do amor, ou da carne, que passam por ser os mais elevados de todos; isso me faz pensar que os prazeres, tal como as crianças, não têm a menor faísca de sabedoria!”

o primeiro Bem é a medida, o justo meio, a oportunidade e todas as qualidades semelhantes, que devem ser tomadas como condições imprescindíveis de uma natureza imutável.” “o segundo Bem é a proporção, o belo, o perfeito, o que se basta a si mesmo, e tudo o mais que for deste gênero.” “E aí tens o posto da sabedoria e da inteligência: fazem parte da verdade, como terceiro Bem.”

Não situaremos em quarto lugar as ciências, as artes, as opiniões justas, que afirmamos pertencer a uma alma só, se está certo dizer que estas coisas têm um laço mais íntimo com o bem e com o prazer?”

Em quinto lugar colocaremos os prazeres, mas apenas aqueles isentos de dor, chamando-os conhecimentos puros da alma.”

SÓCRATES – À sexta geração, diz Orfeu, ponde fim a vossos cantos. Me parece que poremos fim também a este discurso com este sexto lugar. Já nada nos resta senão condensar e arredondar tudo o que descobrimos.

PROTARCO – Sem dúvida, Sócrates, não há mais remédio senão pararmos por aqui e finalizarmos com dignidade.

SÓCRATES – Voltemos, então, pela terceira vez, salvo engano, ao mesmo discurso, e demos as graças a Zeus o Conservador.

PROTARCO – Como o efetuarás, Sócrates?

SÓCRATES – Filebo qualificava o prazer perfeito e pleno como o Bem (…)”

Bem, vimos que nem um nem o outro desses bens inicialmente inferidos por nós dois é suficiente por si mesmo!” “Tendo-se apresentado diate de nós uma terceira forma de bem, superior aos outros dois, nos pareceu, também, que a inteligência tinha com a essência dessa terceira forma mais afinidade (mil vezes mais afinidade!) que o prazer mais gozoso. Mas vimos que o prazer mais puro não ocupa lugar melhor que o quinto em nossa escala de valores. Mas os bois, cavalos e demais bestas, sem exceção, não seriam a refutação do que dissemos? A maior parte dos homens, referindo-se a elas, como dizem os intérpretes do canto dos pássaros, julga que os prazeres são a principal fonte da felicidade da vida, e crê que o instinto das bestas é uma garantia mais segura e verdadeira que os discursos inspirados pela Musa.”

PROTARCO – Convimos, sem qualquer restrição, Sócrates, que tudo o que disseste é perfeitamente verdadeiro.

SÓCRATES – Então me permitireis partir!”

HÍPIAS MENOR ou DA MENTIRA

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

 

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

 

(*) MOTE DO DIÁLOGO: “qual dos dois personagens célebres da mitologia, Aquiles ou Ulisses, é superior?” – A.P.V.

(*) “Como sói acontecer nos diálogos desta fase de Platão, a conversa culmina numa aporia: os personagens chegam a um fim sem apresentar soluções ao problema e encerram a obra reconhecendo sua ignorância.” – A.P.V.

“SÓCRATES – Muito bem, Eudico. Com muito prazer é que perguntaria a Hípias sobre algumas das coisas que ele afirmara com respeito a Homero. Ouvi dizer, da parte de teu pai Apemantes, que a Ilíada de Homero era um poema melhor que a Odisséia, sendo aquele mais belo que este, tanto quanto é Aquiles superior a Ulisses. (…) Desejaria, pois, saber de Hípias, se não se aborrece, claro, o que pensa destes heróis e qual dos dois prefere, levando em conta que já discursara sobre tantas matérias e acerca de tantos poetas, particularmente o Pai de todos, Homero.

EUDICO – Esteja certo de que qualquer pergunta que fizeres a Hípias será respondida sem demora. Não é isso mesmo, Hípias?

HÍPIAS – Incorreria eu em grave falta se, acostumado como estou em ir da Élide, minha pátria, a Olímpia, participar das assembleias gerais do povo grego durante os jogos, aberto a todo tipo de questão e debate, me negasse agora a fazer o mesmo com Sócrates!

SÓCRATES – Ó Hípias! Ditoso de ti se a cada Olimpíada te apresentas no templo com a alma tão confiante em tua sabedoria! Muito me espantaria deparar com um atleta que exibisse tua mesma segurança, que confiasse nas próprias forças do corpo tanto quanto tu confias no poder de teu espírito.

HÍPIAS – Se penso bem de mim mesmo, não é em vão, Sócrates; desde que comecei a freqüentar os jogos olímpicos nunca encontrei adversário a minha altura.

SÓCRATES – Decerto, Hípias, teu renome é um monumento reluzente de sabedoria para teus concidadãos da Élide, e ainda mais para os que te geraram!”

“HÍPIAS – (…) Homero fez de Aquiles o mais valente de quantos guerrearam em Tróia; de Nestor, o mais prudente; e de Ulisses o mais astuto.

SÓCRATES – Pelos deuses, Hípias! Concordarias em conceder-me um desejo? Não é difícil: é não troçar de mim, quando verificar que eu compreendo apenas com bastante esforço o que tu dizes, e se me mostro tão importuno ao perguntar aquilo que ignoro. Por favor, te peço que respondas com doçura e complacência a minhas dúvidas!

HÍPIAS – Seria indelicado de minha parte, Sócrates, agir desta maneira, sendo eu um professor. Seria ilícito que eu que recebo a paga por ensinar tantas pessoas e estou acostumado ao ofício e tenho tato para a coisa não te oferecesse a indulgência e a polidez que são de ordem.”

“SÓCRATES – (…) Não é Aquiles representado igualmente como astuto?

HÍPIAS – De jeito nenhum, Sócrates. Ele é representado como o homem mais sincero. Quando o poeta escreve o diálogo de ambas as figuras, assim se expressa Aquiles:

– Ó nobre filho de Laerte, o sagaz Ulisses, é preciso que te diga sem rodeios o que penso e o que estou disposto a fazer, porque me é adverso tanto quanto são as portas do Hades o ver gente que dissimula e esconde suas reais intenções. Por conseguinte, dir-te-ei sem delongas tudo que tenciono fazer.

            Percebeste o quanto este trecho demonstra a sinceridade de Aquiles e o caráter astuto e dissimulador de Ulisses?”

“Por astuto me parece que subentendes <mentiroso>.”

“SÓCRATES – Homero cria que o homem veraz e o mentiroso são dois homens, nunca o mesmo.

HÍPIAS – E como haveria de ser de outra maneira, Sócrates?

SÓCRATES – Logo, tu pensas igual.

HÍPIAS – Decerto que sim, e seria bem estranho discordar neste tocante! Esta era o título, entre os antigos, do nono livro da Ilíada.

SÓCRATES – Procedamos assim: abandonemos por ora a Homero, tanto mais quanto não nos é permitido consultar a opinião oculta de alguém que já morreu. Sem embargo, já que comungas com ele no essencial, responde-me a um só tempo por ele e por ti.”

“SÓCRATES – Crês que os homens mentirosos são homens incapazes de fazer alguma coisa, como por exemplo os doentes, ou consideras que os mentirosos são capazes de fazer algo?

HÍPIAS – Tenho-os por bastante capazes; e dentre suas capacidades está a de enganar os demais.

SÓCRATES – Segundo o que dizes, os astutos são igualmente capazes; não é isso mesmo?

HÍPIAS – Não erras.

SÓCRATES – Os astutos e os mentirosos são tais por imbecilidade e defeito natural, ou por malícia guiada pela inteligência?

HÍPIAS – Por malícia.

SÓCRATES – Logo, são inteligentes, conforme todos os indícios?

HÍPIAS – Por Zeus, Sócrates! E muito!

SÓCRATES – Sendo inteligentes, sabem ou não sabem o que fazem?

HÍPIAS – Sabem-no perfeitamente bem, e porque o sabem fazem mal.

SÓCRATES – Sabendo o que sabem, são ignorantes ou instruídos?

HÍPIAS – Instruídos, na arte de enganar.

(…)

SÓCRATES – Os homens sinceros e os mentirosos diferem entre si, e são ao mesmo tempo o oposto um do outro.

HÍPIAS – Ora, evidente.”

“Portanto, o homem incapaz e ignorante neste gênero não é mentiroso.”

“Se se te perguntasse quanto é 3×700, não responderias querendo, com maior certeza e maior ânsia que qualquer um, a verdade?

HÍPIAS – Com certeza.

SÓCRATES – E isto fá-lo-ias, posto que és sábio e muito competente em matemática.

HÍPIAS – Decerto.”

“Agora responde-me, com firmeza: se te perguntassem quanto é 3×700, não serias tu capaz de mentir como ninguém mais o é, e não serias igualmente capaz de dar uma resposta falsa contanto que fizesse parte de tua intenção mentir e eludir a verdade? Poderia o ignorante em cálculos mentir melhor do que tu, ainda que quisesse mentir?”

“SÓCRATES – O mentiroso é mentiroso em outras coisas e não nos números, e não poderá mentir ao contar?

HÍPIAS – Por Zeus! O mentiroso pode mentir nos números ou em qualquer outra coisa, Sócrates.”

“SÓCRATES – Estou vendo que o mesmo homem é capaz tanto de mentir quanto de ser veraz sobre o cálculo, e este homem é o que é melhor no seu tipo de arte, isto é, o melhor calculador.

HÍPIAS – Concedo-te.”

“SÓCRATES – Ânimo, Hípias! Vê todas as ciências em panorama, e me testifica se em alguma delas ocorre algo diferente do que relatei. És sem paralelo o mais instruído dos homens na maioria das artes, o que já ouvi da tua boca mesmo, numa ocasião em que o afirmaste com jactância. Foi na praça pública onde te ouvi enumerar teus conhecimentos. (…) Relataste saber forjar anéis, alegando seres o fabricador do anel que vestias. O mesmo disseste com referência a um selo, uma esponja de banho e um recipiente de azeite. Tudo era obra tua. Acrescentavas, inclusive, que havias feito tu mesmo o calçado que calçavas e os trajes que trajava. (…) Ademais, contavas que levava contigo poemas, versos heróicos, tragédias, ditirambos e muitos outros gêneros de textos em prosa sobre uma variedade de temas (…) e também és mestre na ciência do ritmo, da harmonia e da gramática, sem contar muitas outras, que me seria penoso lembrar. E no entanto omiti ou só agora me veio à mente tua excelente memória, que é aquilo de que mais te vanglorias. Mas isto seria sem fim, Hípias, porque sempre um ou outro talento seu ficaria de fora de minha lista, nunca exaustiva…”

“HÍPIAS – Sócrates, confesso que não adivinho aonde queres chegar…

SÓCRATES – Se é verdade o que dizes, deve ser porque neste instante não estás empregando tua portentosa memória artificial, crendo que ela não seria necessária para o caso. Pôr-te-ei, portanto, no caminho sem demora: Lembras-te de haver dito que Aquiles era sincero e de que Ulisses era um embusteiro e mentiroso?

HÍPIAS – Claro que sim.

SÓCRATES – (…) Donde se segue que se Ulisses é mentiroso é ao mesmo tempo veraz; e que se Aquiles é veraz é igualmente mentiroso; logo, não são dois homens distintos, nem opostos entre si, mas bastante semelhantes.

HÍPIAS – Sócrates, tu tens sempre o talento de embaraçar uma discussão. Te apoderas do mais espinhoso que há no discurso, e te apegas a ele, perscrutando e examinando parte por parte; qualquer que seja o assunto, jamais em tuas impugnações tu observa o todo, o conjunto. Eu demonstrarei com provas e testemunhas cabais que Homero compôs Aquiles como o protótipo da franqueza e nesse tocante superior a Ulisses, e Ulisses como um embusteiro em mil ocasiões, e neste aspecto inferior a Aquiles. Se continuas a discordar, dá-me tuas razões a fim de provar que Ulisses tem mais valor do que penso que tem. (…)

SÓCRATES – Hípias, mui distante estou de negar que tu sejas mais sábio que eu. Mas quando alguém fala tenho sempre o costume de me pôr atento, crendo eu que quem fala é homem bastante hábil; e como anseio deveras por compreender tudo o que diz o sábio, examino ponto por ponto, e cotejo suas palavras umas com as outras, a fim de aperfeiçoar meu juízo. Já, ao contrário, se converso com um espírito vulgar nada lhe pergunto, pois o que ele dirá não me interessa!

“Com efeito, depois de haver começado pelos versos que tu referiste, …me é adverso tanto quanto são as portas do Hades o ver gente que dissimula e esconde suas reais intenções, acrescenta Aquiles um pouco depois a seu discurso que nem Ulisses nem Agamêmnon fá-lo-ão dobrar nunca os joelhos, e que abandonará com certeza o cerco de Tróia.”

“Depois de ter falado desta maneira, tanto diante do exército como em particular com os de sua confiança, nunca na Ilíada ficamos sabendo de Aquiles reunindo sua bagagem para fazer a viagem, nem que tenha desancorado algum navio do porto. Muito pelo contrário: durante toda a saga nunca dá nenhum passo rumo a sua pátria, e fica patente que ele também é, por isso, um dissimulador.”

“HÍPIAS – Tudo consiste em que não examinas bem as coisas, Sócrates. Nas circunstâncias em que Aquiles mente, não há desígnio premeditado de fazê-lo, senão que a derrota do exército forçou-o a isso, pois a despeito da sua intenção original ele se viu premido a regressar ao campo de batalha para salvar seus companheiros. Mas Ulisses mente desde o início deliberadamente, com insídia.

SÓCRATES – Tu enganas muito bem teus contendores, querido Hípias: imitas perfeitamente a Ulisses!

HÍPIAS – Nada disso, Sócrates. Em que foi que eu te enganei? Que queres dizer?

SÓCRATES – Quando supões que Aquiles não mente com deliberação; um homem tão charlatão, tão insidioso, que além de ser falso em suas palavras, se é que nos ateremos ao que está em Homero, demonstra ainda dominar a arte da dissimulação e do engodo, de uma maneira ainda não pressentida sequer por Ulisses! Mesmo diante do próprio Ulisses atreveu-se ele a listar as vantagens e desvantagens de cada atitude a tomar (continuar ou não a guerra), e nem Ulisses, o maroto, se apercebeu de que estava bancando o joguete do herói. Ou Ulisses cai de propósito, se assim for, e não emite sinais de que tenha compreendido que Aquiles enganava-o.

HÍPIAS – Em que trecho da Ilíada?

SÓCRATES – Não tomarei parte nos combates sangrentos enquanto Heitor, filho de Príamo, não houver chegado às tendas e às naves dos Mirmidões, após empreender uma carnificina entre os Argivos e queimado toda a sua frota! Quando este dia chegar, saiba que porei Heitor em seu devido lugar. Crês tu, Hípias, que o filho de Tétis, o discípulo do sapientíssimo Quíron, tinha memória de peixe, para, assim, depois de despejar terríveis torrentes de palavras sobre seus próprios companheiros de armas, dizer a Ulisses, por um lado, que iria partir, e a Ájax, por outro, que permaneceria no campo de batalha?

HÍPIAS – Não preciso crer que fosse defeito ou limitação de memória, Sócrates. Mas a razão que Aquiles teve para dizer isso a Ájax foi pela bondade inata de seu caráter, que o fez mudar rapidamente de resolução. Quanto a Ulisses, entretanto, pouco importa que ele minta ou seja honesto, pois é sempre frio e calculista.”

“SÓCRATES – Mas Hípias, considera! Não acabamos de concordar que os que mentem voluntariamente são superiores aos que mentem sem querer?!?

HÍPIAS – Como seria possível, Sócrates, que os que cometem uma injustiça, tramam teias e nós cegos, e que causam o mal premeditadamente, justo eles, são melhores que outros, que incorrem em tais faltas contra sua própria vontade, sendo por isso mesmo dignos de compaixão? Porque aquele que comete um crime culposo é absolvido; mas a lei diz outra coisa sobre quem comete um crime com dolo!”

“sempre que dialogo com algum de vós, tão creditados por sua sabedoria e em quem todos os gregos depositam sua fé, descubro que nada sei!”

“sou como sou, para não dizer coisa pior.”

“vejo que quem fere outrem, comete ação injusta, mente, engana e incorre em falta voluntária, mas não involuntária, é melhor que quem age com inocência…”

(A Hípias) Por favor, suplico: não te negues a curar minh’alma! Far-me-ias um grande serviço, livrando-me assim da ignorância, como farias também a meu corpo, livrando-o duma doença. Se tens a intenção de pronunciar um longo discurso, declaro-te desde já que assim não me curarás, porque não poderei acompanhar-te! Mas se desejas me responder como o fizeste até agora, ser-me-ás de enorme auxílio, e creio que disso nenhum mal a ti derivaria.

(A Eudico) Tenho o direito de pedir este socorro a ti, ó filho de Apemantes, posto que tu me comprometeste a ter este diálogo com Hípias! Se este se nega a me responder, faz-me o favor de suplicar-lhe em meu lugar.”

“HÍPIAS – (…) Esse Sócrates tudo engabela, distorce e desvirtua numa discussão! Tudo me leva a crer que ele não almeja outra coisa senão criar discórdia…

SÓCRATES – Meu querido Hípias, se eu o faço, é a despeito meu! Porque se fôra eu capaz de engabelar, distorcer e desvirtuar de propósito, significa que seria eu, segundo tu mesmo, sábio e hábil; coisa que não sou. Faço essas coisas por acidente, podes ter certeza. Escuta: exerce agora teu próprio ditado. Tu me disseste que é preciso ser indulgente com os que fazem o mal sem querer.”

“SÓCRATES – O bom corredor não é o que corre bem e o mau corredor o que corre mal?

HÍPIAS – Correto.

SÓCRATES – E não corre mal aquele que corre lentamente, ao passo que corre bem aquele que corre ligeiro?

(…)

SÓCRATES – (…) A velocidade é um bem e a lentidão um mal?

HÍPIAS – Sem dúvida.

SÓCRATES – De 2 homens que correm lentamente, um com intenção e fingimento e o outro porque é apenas devagar, qual é o melhor corredor?

HÍPIAS – O que corre lentamente porque quer.

SÓCRATES – Correr não é agir?

HÍPIAS – Claro que sim.

SÓCRATES – Se é agir, não é fazer alguma coisa?

HÍPIAS – Concedo.

SÓCRATES – Logo, aquele que corre mal faz uma coisa má e feia quando o assunto é a corrida.

HÍPIAS – Exato, exato.

SÓCRATES – Aquele que corre devagar, não corre mal?

HÍPIAS – Sim.

SÓCRATES – O bom corredor faz esta coisa má e feia porque quer; e o mau fá-la porque é só o que sabe fazer.

HÍPIAS – Assim parece.

SÓCRATES – Na corrida, por conseguinte, o que faz o mal sem querer é mais mau.

HÍPIAS – Sim, Sócrates, é pior na corrida.

SÓCRATES – Na luta: de 2 lutadores que perdem, um deliberadamente, outro porque foi realmente derrotado, qual deles é o melhor?

HÍPIAS – O primeiro, ao que parece.

(…)

SÓCRATES – Destarte, aquele que faz uma coisa má e feia por vontade própria é melhor lutador que o outro.

HÍPIAS – Sim, Sócrates, perfeitamente.”

“HÍPIAS – Seria assaz estranho, Sócrates, se o homem voluntariamente injusto fôra melhor que o que o é involuntariamente.

SÓCRATES – E no entanto parece ser a conclusão de nosso raciocínio. Não acho que seja realmente assim! Pelo menos para mim, fica um sabor amargo ao dizer essas palavras… Mas responde-me de novo: a justiça é exclusivamente uma capacidade ou uma ciência? Ou uma ou outra, sem poder ser ambas ou nenhuma das duas?

HÍPIAS – É uma necessidade que seja apenas uma das duas, Sócrates.”

(Pseudo?) HÍPIAS MAIOR OU “O QUE É O BELO?”

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

Na série que envolve as obras provavelmente inautênticas (identificadas pelo prefixo (Pseudo?) no título), dou minha opinião pessoal ao final, contextualizando o escrito face à obra platônica canônica.

(*) “A autoria do Hípias Maior permanece há tempos em disputa” – A.P.V

SÓCRATES – (…) podes precisar-me, Hípias, por que todos estes antigos filósofos cuja sabedoria muito se exalta, como Pítaco¹, Brias, Tales de Mileto e outros mais recentes, até o tempo de Anaxágoras, todos ou quase todos eles, se negaram a envolver-se nos negócios públicos?

HÍPIAS – A explicação, Sócrates, é que o juízo limitado destes homens fazia-os incapazes de abraçar duas coisas ao mesmo tempo (os negócios particulares e os do Estado).

SÓCRATES – Por Zeus, Hípias! Crês tu, se é verdade que as artes se aperfeiçoaram com o passar do tempo, e se nossos artistas excelem em muito aos artistas dos séculos passados, como muitos querem–, crês tu, Hípias, que vossa arte – falo da Sofística – se fez progressivamente mais perfeita, de sorte que, ao compararmos os sofistas de hoje com os filósofos de ontem (quando ainda não existia a Sofística) – que era o tipo de sábios que podia então existir–, dizia eu, crês tu que, na comparação, os sábios antigos são ignorantes perto de vós?

HÍPIAS – Com toda a certeza, caro Sócrates.

SÓCRATES – De forma que, se Brias voltasse a este mundo, seria um homem ridículo a vossos olhos, como Dédalo, que, no dizer de nossos grandes escultores, se trabalhasse agora em suas obras, que noutro tempo lhe granjearam tanta reputação, seria alvo das mais descaradas zombarias?

HÍPIAS – Dizes a plena verdade, Sócrates. Sem embargo, não deixo eu de preferir os antigos aos modernos, e de fazer deles os maiores enaltecimentos, a fim de evitar a má opinião dos vivos e, ao mesmo tempo, a indignação dos mortos.”

¹ Historiograficamente, esta informação é imprecisa, já que Pítaco de Mitilene, um dos Sete Sábios da Grécia, atuante nos séculos VII e VI a.C., fôra general em sua cidade, embora tenha abdicado do cargo depois de uma década, de livre e espontânea vontade, recusando-se a agir como tirano.

No que toca aos sábios antigos, jamais nenhum deles quis precificar a própria sabedoria, vendendo-a no mercado, nem fazer valer seus conhecimentos para tirar vantagem na vida pública, adquirindo assim privilégios inacessíveis aos comuns dos cidadãos. Tão ingênuos e ignorantes com respeito ao dinheiro, não achas?!”

HÍPIAS – (…) Só na Sicília, onde Protágoras se havia estabelecido com grande renome, eu consegui juntar 150 minas de ouro, e isso sendo eu mais jovem. Só na aldeia chamada Ínico obtive mais de 20 minas! Ao voltar da Sicília, entreguei todo o dinheiro a meu pai.”

SÓCRATES – (…) Anaxágoras, na contra-mão dos demais, governou-se tão mal na vida que, metendo-se a filosofar o dia inteiro, esqueceu-se do restante: após haver herdado um patrimônio colossal, perdeu-o pela cláusula do abandono e prescrição do direito. (…) O povo acha a mesma coisa: diz que o sábio deve ser acima de tudo sábio para si mesmo, e que o objetivo central da filosofia deve ser justamente enriquecer. (…) Por falar nisso, Hípias, deves ter viajado a Esparta muitas e muitas vezes, segundo creio?

HÍPIAS – De forma alguma, Sócrates!

SÓCRATES – Que dizes?! Nunca lucraste em Esparta?

HÍPIAS – Nem um só óbolo.

SÓCRATES – Verdadeiramente, isso que dizes muito me espanta! Mas diz-me, Hípias, tua sabedoria não faz mais virtuosos todos aqueles que conversam e aprendem contigo?”

HÍPIAS – Sim, Sócrates, é preciso confessá-lo.”

SÓCRATES – Posto que amam a sabedoria, têm dinheiro e tu lhes podes ser útil… Que anomalia sucede que não vens de Esparta transbordando de dinheiro?! Queres que digamos que os espartanos instruem melhor seus filhos que poderias tu mesmo fazê-lo? Achas isto?

HÍPIAS – Discordo, Sócrates.”

SÓCRATES – Não seria principalmente na Tessália, onde se tem tanta fixação por engalanar cavalos, onde seria mais bem-recebido um mestre de hípica? E não seria este o profissional capaz de prometer mais utilidades, melhor na arte de lidar com cavalos que nenhum outro?”

SÓCRATES – Que dizes? Existe em Esparta o costume de agir mal, e de nunca praticar o bem?

HÍPIAS – Não chegaria a esses extremos, Sócrates.

SÓCRATES – Não obram bem, em dar a seus filhos uma educação acima da média?

HÍPIAS – Certamente que sim, Sócrates. Mas suas leis são refratárias a qualquer educação estrangeira. Se não fosse por isto, nenhum preceptor haveria de ganhar tanto quanto eu instruindo os jovens espartanos, porque sabes, Sócrates, é incrível o prazer com que me escutavam e os elogios que me teciam; mas, como já te disse, a lei impede de pagar preceptores estrangeiros.”

SÓCRATES – Quem é esse tal <cidadão comum>? Referes-te aos hábeis ou aos ignorantes?

HÍPIAS – O comum!

SÓCRATES – Chamas o <comum das gentes> aos que conhecem a verdade?

HÍPIAS – Não, Sócrates.”

SÓCRATES – Os espartanos, segundo tu, fariam melhor atendendo teus próprios interesses – pagando-te, tu, um estrangeiro, para educá-los – ao invés de adotar uma educação cem por cento nacional para seus jovens?

HÍPIAS – Afirmo-o sem medo, Sócrates.”

SÓCRATES – (…) Mas Hípias – em que ocasião é que os espartanos te exaltam e têm tanto prazer em escutar-te? Seria acaso quando dás lições de astronomia e explica as revoluções celestes, ciência esta que dominas?

HÍPIAS – Não, Sócrates, este tipo de matéria não agrada ao espartano.

SÓCRATES – Talvez eles gostem, então, de geometria, que tu também dominas?

HÍPIAS – Menos ainda. A maior parte deles mal sabe contar!

SÓCRATES – Não vês neles sequer alguma inclinação para estudos aritméticos?

HÍPIAS – Por Zeus, Sócrates! Tudo menos isso.

SÓCRATES – Já vejo que ensinas-lhes então gramática ou música, que seriam outras disciplinas ainda não citadas e nas quais tu és não só um mestre mas o primeiro entre todos?

(…)

HÍPIAS – Eles me escutam com gosto, Sócrates, quando refiro-lhes a genealogia dos heróis e dos grandes homens; a origem e a fundação das cidades; enfim, a História antiga, porque parece que só nisso fixam a atenção. Para comprazê-los, apliquei-me com esmero no estudo de todas essas velharias.

SÓCRATES – Que sorte a tua, Hípias! Seria muito aborrecido ensinar História aos atenienses, pois que exigiriam que relatasses na sequência exata todos os nomes dos arcontes desde Sólon! Porque só para memorizar tantos nomes, acho que tu terias perdido muito de teu precioso tempo.

HÍPIAS – Nem tanto quanto imaginas, Sócrates. Sei repetir 50 nomes só de ouvi-los uma única vez!

SÓCRATES – Deveras? Não me havia apercebido de que eras mestre também em mnemotécnica! Confesso agora que os espartanos tinham muita razão em ouvir-te com prazer; parece que se apegaram a ti, como as crianças pequenas se apegam às velhas, sempre pedindo que contem as mais variadas estórias.

HÍPIAS – Por Zeus, Sócrates! Acabo de ser aplaudido por um discurso sobre as belas ocupações que convêm aos jovens. Este discurso, que compus com dedicação, se destaca sobretudo pela elegância de estilo. Lê comigo este começo e a expressão desta idéia: Depois da queda de Tróia, Pirro pergunta a Nestor no que é que se deve aplicar um jovem a fim de obter um dia grande reputação. Nestor responde com numerosos exemplos e preceitos muito belos. Li este discurso em Esparta; e, sob demanda de Êudico, filho de Apemanto, voltarei a recitá-lo, aqui em Atenas, dentro de 3 dias, na escola de Fidóstrato, não, claro, sem acrescentar outros discursos dignos da curiosidade das pessoas cultas. Desejo muito que compareças a esta reunião, Sócrates, e que leves contigo os amigos que consideres os mais inteligentes.”

SÓCRATES – (…) Quem te ensinou, Sócrates, o que é belo e o que é feio? Poderás dizer-me o que é o belo? Confesso que fiquei paralisado diante destas perguntas. Minha estupidez não me permitiu responder a este homem, então me retirei pensativo. Permaneci incomodado comigo mesmo e disposto a não sair deste estado enquanto não solucionasse este problema. Censurei em mim mesmo tamanha tolice e fiz uma promessa: me aproveitar da primeira ocasião em que encontrasse algum sofista, sábio como sois, a fim de ser instruído a fundo neste assunto. Assim, da próxima vez que encontrar este meu interlocutor, terei uma resposta na ponta da língua para dar-lhe. Por conseguinte, meu caro Hípias, este meu encontro contigo é um acontecimento muito bem-aventurado e fortuito! Ensina-me, suplico-te o que é o belo. Mas me explica com clareza, de forma que este homem questionador não se ponha a rir de minha fala um tanto ridícula à próxima vez que nos virmos!”

SÓCRATES – (…) em matéria de objeções, sou muito bom e um adversário à altura de qualquer empresa; então, se não te desgosta o procedimento, far-te-ei guerra com as palavras e representarei o papel do próprio homem que é meu adversário nessa contenda, a fim de extrair-te esta verdade por mim tão cobiçada.

HÍPIAS – Faz o que tu queres, Sócrates. Esta questão, como eu já disse, não é grande coisa. Ensinar-te-ei como responder perguntas ainda mais difíceis que estas, até o ponto em que serás irrefutável.”

SÓCRATES – Estrangeiro, prosseguirá nosso homem, diz-me agora: que é o belo?

HÍPIAS – Sua curiosidade não fica saciada com saber as coisas que são belas?

SÓCRATES – A mim não me soa suficiente, Hípias. Ele exige e quer saber que é o belo!”

HÍPIAS – (…) o belo é uma jovem formosa.

SÓCRATES – Pelos céus, Hípias! Tua resposta é excelente! Incomparável!! Se eu fosse direto com esta definição responder ao meu homem, crês que ele se poria satisfeito de todo e que não teria com que me retrucar?

HÍPIAS – Que poderia este miserável retrucar-te, Sócrates? Nada lhe sobraria que fizesse parte do senso comum e que merecesse a aprovação de qualquer testemunha!”

SÓCRATES – Quão complacente és, Sócrates!, o homem dir-me-ia. Uma égua formosa não é também uma coisa bela? O oráculo de Apolo mesmo reconhece-lhe esta qualidade.

SÓCRATES – (…) uma panela bonita não é uma coisa bela?

HÍPIAS – Ah, Sócrates! Não é factível que um homem seja tão grosseiro a ponto de usar termos tão chulos numa discussão estética!

SÓCRATES – Assim é, Hípias, mas não esperes deste homem qualquer indício de cultura e etiqueta; é um grosseirão que não liga para mais nada a não ser ficar buscando a verdade em todas as coisas. (…) Se uma panela fosse feita por um oleiro entendido, fosse bem redondinha, lisa e cozida, como destas que se vêem adornadas de duas asas na feira, mui elegantes, e viesse acompanhada de meia dúzia de louças, e o homem descreve tal peça, será forçoso admitir que é uma obra bela”

HÍPIAS – Sou capaz de acreditar. Inegável que um vaso bem trabalhado é belo, mas não convém compará-lo a uma égua, muito menos com uma bela jovem nem com as demais coisas belas; isso não merece ser chamado propriamente de belo!

SÓCRATES – (…) Ignoras acaso a palavra de Heráclito: o mais belo dos macacos é feio comparado ao mais feio da espécie humana?”

SÓCRATES – (…) Mas como! Se se comparam as jovens gregas e as deusas, não se poderá objetar a mesma coisa da comparação entre panelas, éguas e mulheres? (…) não se diz também, à guisa e semelhança, que o mais formoso e perfeito dos homens não é senão um símio comparado a um deus?”

SÓCRATES – Se condescendermos neste ponto, se rirá e me dirá: Lembras-te, ó Sócrates, do que te havia perguntado?; Ó sim, me recordo muito bem, eu responderia; tu me perguntaste o que é o belo; Isso mesmo, ele por sua vez responderia. E no lugar de me responderes tu citas como belas coisas que tu mesmo tiraste da tua imaginação, mas que ora são coisas belas ora são coisas feias, nunca sendo só belas ou só feias!

SÓCRATES – Por que, ele insistirá, Fídias não fez de marfim as pupilas da estátua de Atenas, como o resto da escultura, no lugar de inserir pedras preciosas, as que mais se aproximam, dentre as jóias, da brancura do marfim? E uma bela pedra, não é uma coisa bela? Que me dizes, Hípias?”

Das duas colheres, a de madeira e a de ouro, qual mais convém à panela? Creio que a de madeira, porque dá um bom odor às verduras, e com ela não se quebram as vasilhas, o que seria uma desgraça, porque toda a substância se derramaria, o fogo se apagaria e aos convidados do banquete só restariam os boas-noites. A colher de ouro causaria todos estes desastres, e por esta razão me parece que em tal caso deveríamos optar pela colher de madeira, a não ser que sejas tu doutra opinião.”

HÍPIAS – Sócrates, queres tu que eu te dê de uma vez por todas a conhecer uma definição do belo, que encerre esses discursos longos e enfadonhos?”

rir, quando não se tem o que dizer, é rir de si mesmo e expor-se ao ridículo do público.”

Crês, Sócrates, que não merece chibatadas o homem que em vez de responder àquilo que se lhe é perguntado põe-se a cantar como um ditirambo o que nada tem a ver com a questão? A essa interpelação do meu homem questionador, eu diria:

Como?!

– Não te faças de dissimulado: não lembras que te perguntei ao princípio QUE É O BELO?, aquilo que faz belas todas as coisas que são chamadas belas, seja uma pedra, um pedaço de madeira, um homem, um deus, uma ação, uma ciência qualquer?? É isto que questiono faz tempo e, no entanto, tu ages como se o que ouviste de minha boca houvesse sido uma exortação para que cantasses. Teus ouvidos estão tão bons quanto os de um moinho de pedra. Ou parece que tu não tens nem ouvidos nem inteligência.”

O conveniente ou decoroso é o que torna as coisas belas? Ou aqueles não tornam as coisas belas, apenas emprestam-lhes esta aparência, embora não o sejam? Ou nem isso?”

se o que faz algo ser belo é sua conveniência, é este então o belo que buscamos, Hípias! E não algo que, por ser belo, torna algo conveniente, isto é, faz parecer conveniente, embora não o seja (…) porque, raciocina comigo: uma mesma coisa não pode ser simultaneamente causa da ilusão e da verdade!”

SÓCRATES – Fala baixo, Hípias, para não irritar e espantar o belo que tanto buscamos! Vês que até agora essa busca já nos custou bastantes sacrifícios; o belo nos abandonará e se nos escapará por entre nossas mãos se procedermos com alarde. Não é que eu queira ser cético quanto às esperanças que me concedes, ó Hípias, pois estou convicto de que uma vez que tu te ponhas a pensar sozinho sobre algo imediatamente encontrarás a resposta. Mas suplico-te que penses e busques o belo aqui, diante de mim. Portanto, se me permites, vamos juntos atrás desta solução, e procedamos juntos à indagação. Se obtemos êxito, será uma grande fortuna para mim. Senão, ora, é preciso ter paciência, porque eu não sou tu, não tenho teus dons: sei que quando te queres aplicar em algo, o encontras naturalmente, sem a ajuda de ninguém. Acontece que tanto desejo eu saber o que é o belo que não gostaria de perder uma oportunidade tão ilustre! Se fazes isso por mim, não mais te importunarei uma outra vez.”

SÓCRATES – Mas a causa não é a mesma coisa que aquilo que ela causa, porque jamais uma causa pode ser causa de si própria. Por exemplo: estás de acordo em que a causa é aquilo que faz ou que produz?

HÍPIAS – Em absoluto.”

SÓCRATES – (…) de forma que, conforme nossa linha de raciocínio, o belo é como o <pai do bom>.

HÍPIAS – Ó Sócrates, que bela conclusão!”

SÓCRATES – Por conseguinte, não aspiremos a que o belo seja simultaneamente o útil, nem o vantajoso, nem aquilo que causa um bem; esta opinião é ainda mais ridícula que aquela segundo a qual vínhamos concluindo, precipitadamente, que o belo é uma jovem formosa e todas as outras belas coisas, como panelas e que-tais.

HÍPIAS – Concordo contigo, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem, Hípias! Porém, sei eu onde estou?! A cada passo encontro mil dificuldades e dúvidas. Não te ocorre nada que possa nos tirar deste beco?”

Não é garantido que a beleza do homem, da pintura, dos ornamentos, regozijam a vista? Por outro lado, os cantos harmoniosos, vozes agradáveis, enfim, a música, a boa conversação e os discursos bem-feitos, não nos causam, igualmente, prazer?”

SÓCRATES – As belas leis, as belas instituições… são belas porque agradam aos olhos e aos ouvidos, ou por alguma outra beleza?

HÍPIAS – Isso não seria impossível, caro Sócrates, mas tenho certeza que coisa tão difícil não poderá discernir nosso homem tão questionador!

SÓCRATES – Por Cérbero que guarda o Hades, Hípias!! Não se ocultará algo assim a um homem de quem vivo a receber lições; quem sempre me censura quando falo algo impróprio ou incoerente, sempre que dou prova de minha ignorância em qualquer assunto, embora pensasse estar proferindo uma verdade.

HÍPIAS – Mas quem é este nosso homem afinal, Sócrates?

SÓCRATES – É Sócrates, filho de Sofronisco, que não permitiria que esta proposição ligeira arrematasse um problema tão magnânimo. Ele jamais será levado a crer que eu saiba algo que eu não sei.

VOZ INTERIOR DE SÓCRATES – Donde é que nasce, Hípias e Sócrates, isso de dardes o nome de belo ao que é agradável aos olhos e ouvidos, e isso de recusardes, ao mesmo tempo, este mesmo nome àquilo que é agradável aos demais sentidos – p.ex. ao vinho, às carnes e ao prazer do amor? (…) Por que não chamá-los belos também?”

Que responderíamos, Hípias? Talvez que as gentes fariam troça de nós se disséramos levianamente que o comer é uma coisa bela, ao invés de dizer que é simplesmente agradável; que o odor dos perfumes é belo, e não agradável. E não é sensível que os prazeres do amor, muito embora sejam muito doces, são tão vergonhosos que as pessoas só aceitam deles gozar às escondidas? Mas eis, Hípias, que nosso interlocutor retrucará: Entendo o que dizeis. O pudor impede-vos chamar belos a todos estes prazeres, porque o mundo inteiro o repugnaria. Mas eu não vos perguntei o que é que os homens pensam do belo, eu vos perguntei O QUÊ É, AFINAL DE CONTAS, O BELO?

Não satisfeito, ele prosseguirá: O que agrada à vista agrada à vista e ao ouvido? O que agrada ao ouvido agrada ao ouvido e à vista? Responderemos: O que agrada a um destes dois sentidos não agrada os dois ao mesmo tempo, i.e., afirmamos que cada um destes prazeres é, separadamente, agradável por si mesmo e que ambos juntos são agradáveis (se há uma bela figura e um belo som ocorrendo na mesma cena).

Ele insistirá: O prazer, enquanto prazer, difere do prazer? Com isso não quero saber de vós qual dos dois é o maior prazer, se é que algum dos dois o é, mas se, dentre tantos prazeres, podemos dizer que eles se distinguem entre si, de modo que podemos chamar uns prazeres de <prazeres> e outros prazeres de <não-prazeres>, já que aos primeiros se opõem. Nós diremos, obviamente, que não. Não é isso mesmo?”

Não nego que meu espírito é capaz de me representar muitos destes objetos. Mas desconfio de mim mesmo, bem o sabes. Porque ao mesmo tempo que os vejo tão distintamente, tu mesmo não os vês. Tu que és rico graças à sabedoria que acumulaste, como ninguém de nossa época. Por que eu vejo esses objetos sem ter ganho jamais um óbolo, miserável e ignorante que sou? Temo, querido Hípias, que troces de mim e que até te comprazas em ludibriar-me; será que não mentes que nada enxergas? Porque esses objetos são claríssimos para mim!”

SÓCRATES – (…) Creio (…) que o que nós, tu e eu, somos juntos, não o somos no particular, nem um, nem o outro.

HÍPIAS – Sócrates, me parece que te comprazes em estabelecer paradoxos mais e mais chocantes à medida que conversamos. Este é o maior que já me apresentaste!”

HÍPIAS – Teu defeito, Sócrates, e o de todos os que têm o costume de disputar comigo, consiste em deixar de considerar as coisas no seu conjunto. (…)

SÓCRATES – Não se faz o que se quer, querido Hípias, mas o que se pode, diz o provérbio.”

Era tão escassa nossa capacidade antes de tuas palavras iluminarem nosso espírito, que críamos, ó Hípias, que cada um de nós é um, e que os dois juntos não somos o que é cada um, isto é, que os dois juntos somos 2, e não 1! A que ponto chegava nossa tolice! Mas tu acabas de demonstrar-me, Hípias, que se tu e eu juntos somos 2, necessariamente cada 1 de nós tem que ser 2; e se cada 1 de nós é 1, os 2 juntos temos que ser igualmente 1.”

SÓCRATES – (…) Cada um de nós é mais que um, e tem consciência de que é mais que um?

HÍPIAS – Não.

SÓCRATES – Se não é mais que um, é ímpar; não pensas que é impar?

HÍPIAS – Sim.

SÓCRATES – E juntos, ambos, somos ímpares?

HÍPIAS – Não, Sócrates.

SÓCRATES – Então somos pares; não é certo?

HÍPIAS – Pares.

SÓCRATES – Se os dois juntos somos pares, cada um de nós separadamente é par?

HÍPIAS – Não.”

SÓCRATES – Estes dois prazeres são belos porque são prazeres, já se os tome junta, já se os tome separadamente? E, neste conceito, todos os demais prazeres, os dos outros sentidos, não são belos como estes, posto que reconhecêramos, há pouco, que não deixam de ser prazeres.

HÍPIAS – Sim, Sócrates, conforme conviéramos.

SÓCRATES – Mas disséramos que eram belos, porque goza-se mediante os olhos e os ouvidos.”

…e, por conseguinte, pode-se, com razão, chamar de belos a estes 2 prazeres juntos, mas não se pode dizer que cada um seja belo em particular!”

SÓCRATES – Diremos, então, que os dois juntos são belos, e que cada um em particular não o é?

HÍPIAS – Por que não?”

eu não concebo que nós dois juntos sejamos belos, e que nem um nem outro o sejamos tratados no particular! Ou, pelo contrário, que um e outro sejamos particularmente belos, mas que não o sejamos em conjunto!”

Já que errais, dizei-me, ao menos, QUE É O BELO, dentro desta perspectiva limitada que tomastes de que o belo concirna tão-só aos prazeres da vista e dos ouvidos, se é que sois dignos de tal resposta.”

Dizeis-me, pois, que o belo é um prazer vantajoso.”

Não é o vantajoso o que produz o bem? Mas o efeito e a causa que produz o efeito são dois, como já vimos. Eis-nos aqui subsumidos mais uma vez em nosso primeiro liame. Porque o bem não seria o belo, nem o belo seria o bem, posto que são duas coisas distintas.”

HÍPIAS – Que são todos esses raciocínios miseráveis, Sócrates, além de pequenezas e sutilezas, como já indicaste? Queres saber em que consiste a verdadeira beleza, a que é digna deste nome? Consiste ela em falar com eloqüência na assembléia, diante de um tribunal ou de um magistrado qualquer, até produzir a convicção e conseguir uma recompensa, e que não seja pequena, e sim a maior de todas, quer seja, o prazer de salvar sua vida, sua fortuna e a de seus amigos. Nisto é que te deves aplicar com seriedade, Sócrates, e não em bagatelas e ninharias, ocupação néscia e pobre, que só te faz passar por insensato.

SÓCRATES – Ah, quão feliz és, Hípias! É raro este privilégio de saber de antemão com o quê um homem de bem deve ocupar-se. E mais feliz ainda quando tu pudeste desde muito cedo na vida consagrar-te justamente a estas coisas. Esta é a história de tua vida! Quanto a mim, uma fatalidade me condena a contínuas incertezas, e quando chego a revelar estas dificuldades a vós, sábios, tudo o que ganho são justas palavras de desprezo. Jogais-me na cara, exatamente como tu agora, que só me ocupo de ninharias, de tolices e misérias. É verdade! E justamente por ser verdade e estardes corretos, tento falar como vós, para quem elaborar belos discursos, falar com elegância e brilhantismo perante numerosas pessoas ou ante os juízes ou qualquer assembléia é uma coisa fácil, e que resulta em inúmeras vantagens! No momento, alguns de meus amigos, principalmente este homem que me critica sem tréguas, me persegue e me ataca com suas repreensões e tenho os ouvidos esgotados de tantas que são suas queixas – porque ele está sempre por perto e vivemos juntos. Quando estamos em casa, por exemplo, e ele me ouve falar dessa maneira, me pergunta se não me constranjo de indagar sobre tão belas ocupações, logo eu, que a olhos vistos não tem qualquer conhecimento do belo. Como é que podes julgar, diz ele, se uma disputa, uma ação ou qualquer coisa é bela, sem saber O QUE É O BELO? Se não mudas de opinião, crês que a morte não seria preferível a uma vida tal? (…) Mas quiçá seja necessário que eu sofra todas estas provações, e não seria impossível que disso resultara alguma utilidade, afinal. Pelo menos, a polêmica que sustentei com vós dois, hoje, valeu-me algo, Hípias, que era compreender enfim um provérbio popular, que diz:

As coisas belas são difíceis!

JULGAMENTO DA AUTENTICIDADE DA OBRA

Embora apodítico – sem uma solução satisfatória –, este diálogo carrega toda a genialidade de Platão e o método socrático ou maiêutico, levando-o ao extremo sem ser jocoso (a não ser para ridicularizar o presunçoso Hípias). Destaque para a voz interior ou o gênio ou o demônio socrático, que intervém na conversa, em itálico, nos momentos-chave: na aparência, sempre contra o próprio Sócrates; mas, na realidade efetiva, contra as falácias de Hípias. Para mim é preocupação de segunda ou de terceira ordem que algum erudito ou escoliasta duvide da originalidade da autoria deste Hípias.

LAQUES OU DO VALOR // Ou: Da prevalência da virtude sobre a valentia – Platão

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Lisímaco e Melesias pedem conselhos a Laques e Nícias sobre se seus filhos deveriam se alistar no exército e tomar aulas particulares na arte da esgrima. Depois de conversarem um pouco, pedem a ajuda de Sócrates. (…) Sócrates discute com Laques e Nícias sobre o significado exato da valentia ou coragem, chamada neste diálogo de valor” – A.P.V

(*) “O valor [valentia ou bravura guerreiras] ainda não foi definido, posto que todas as definições propostas estão, ou por excesso ou por carência, em desacordo com a idéia mesma de valor. Este é um diálogo do jovem Platão, apodítico (não chega a uma conclusão satisfatória).” – P.A.

Cada um de nós tem um filho; eles estão conosco: este é filho de Melesias, e leva o nome de seu avô, Tucídides; aquele é o meu, e leva o nome de meu pai, Aristides. Estamos determinados a educá-los da melhor maneira, ao invés de proceder como a maioria dos pais, que desde que seus filhos estejam na puberdade deixam-nos viver aos próprios caprichos e prazeres.”

Sabeis que Melesias e eu não temos mais que uma mesa em comum e que nossos filhos comem sempre conosco. (…) Tanto este como eu conversamos com nossos filhos, narrando-lhes as muitas proezas de nossos pais, tanto na paz quanto na guerra, enquanto eram cidadãos de Atenas e de suas aliadas. A desgraça é que nem temos o quê relatar de nós próprios, de modo que ruborizamos em sua presença, sem ter remédio senão culpar nossos próprios pais; porque, desde que éramos já homens formados, deram-nos total liberdade para viver na preguiça e na licença, e assim é que nossa educação foi desperdiçada. Nossos pais, ao contrário, sempre estavam a serviço da comunidade. Por isso é que não cessamos de admoestar nossos filhos, dizendo-lhes que se se abandonam e não nos obedecem se desonram a si próprios; mas se se aplicam talvez se tornem dignos dos nomes que carregam. Eles respondem que nos obedecerão em tudo; tendo em vista tal promessa, andamos indagando o que deveriam aprender e a educação que deveríamos dar-lhes para que se façam homens de bem, tanto quanto seja possível. Alguém disse que <nada melhor para um jovem que aprender a esgrima>, estimando um homem que anda por cá em Atenas como de valor imensurável, que atinge o firmamento. Com efeito, vimo-lo manejando sua arma e desempenhando sua arte, e esta exibição quase nos convenceu a levarmos nossos filhos para que seja ele seu mestre. Antes, nós quatro julgamos melhor vir diante de vós, não só para uma visita amistosa e uma conversa agradável, como sempre cabe entre pessoas de bem, mas para que nos auxilieis com vossa sabedoria de vida, lançando-nos uma luz sobre este caso. Que credes ser o melhor para nossos filhos, amigos?”

LAQUES – (…) Falaste de forma admirável, Lisímaco; mas o que me surpreende é que decidistes pedir ajuda justamente a nós dois acerca disso, quando não o fizestes primeiro a Sócrates, que, ademais de ser de teu próprio povo, consagra-se de forma integral a estas matérias relacionadas à educação dos jovens. Se houvésseis perguntado primeiro a Sócrates sobre quais ciências são mais necessárias à instrução dos jovens, e quais são as ocupações mais honrosas, o conselho recebido haveria de valer muito mais.

LISÍMACO – Como, Laques? Disseste que Sócrates se dedica à educação da juventude?

LAQUES – To asseguro, Lisímaco.

NÍCIAS – Também posso-o assegurar. Não faz mais de 4 dias que deu a meu filho um professor de música, Dámon, discípulo de Agatocles, e que, superior em sua arte, tem todas as demais qualidades que podes desejar de um homem que é elegido a dirigir a conduta de jovens desta idade.”

tu, ó filho de Sofronisco! Se tens algum bom conselho que dar-me, a mim que sou de teu povo, não mo negues (…) Teu pai Sofronisco e eu fôramos amigos de infância, e não deixamos de cultivar a amizade até sua morte, sem o menor desentendimento. Agora recordo que mil vezes estes jovens, falando-se em casa, repetem a todo instante o nome de Sócrates, a quem enaltecem de mil jeitos diferentes, e eu jamais me apercebi, esse tempo todo, de que falavam justamente do Sócrates filho de Sofronisco! Mas, ó meus filhos, dizei-me agora: é este o Sócrates de que ouvi tantas vezes falardes?”

LISÍMACO – Por Hera! Estou altamente satisfeito, meu querido Sócrates, ao ver quão bem susténs a reputação de teu pai, que era o melhor dos homens.”

LAQUES – (…) Na derrota de Délio, retirou-se comigo, e posso-te assegurar que se todos os demais houvessem cumprido seu dever como Sócrates o fez nossa cidade ter-se-ia sustentado e não haveria experimentado o amargo sabor da desgraça.”

LISÍMACO – (…) Merece este exercício da esgrima ser aprendido pelos jovens?

(…)

NÍCIAS – (…) Este e o de montar a cavalo são os mais próprios para jovens livres, porque devido às guerras que temos ou que possamos ter não existem exercícios superiores a estes que se praticam armados. São de imenso auxílio nos combates, seja na tática em fila, seja, uma vez rompida a fila, no corpo-a-corpo; seja perseguindo o inimigo que de ora em ora retrocede para golpear, seja em fuga e na necessidade de livrar-se dos perseguidores que nos alcançam com o raio de sua espada. Aquele habituado a este tipo de exercício não teme nem o mano-a-mano nem o combate com múltiplos inimigos, e sempre se sagrará o vencedor. Por outro lado, tais exercícios são capazes de inspirar uma verdadeira paixão por outros ainda mais sérios e compenetrados. Dou por estabelecido que todo homem que se exercita na esgrima se enamora cedo ou tarde também da tática militar; e quando atingiu esse grau, cheio de ambição e ansioso pelas glórias, instrui-se em tudo que possa alimentar essa idéia, e trabalha em aperfeiçoar-se de degrau em degrau nos conhecimentos de um general de exército. (…) esta ciência da esgrima faz os homens mais valentes e mais atrevidos na peleja”

LAQUES – (…) se é a esgrima uma ciência, como pretendem aqueles que a ensinam, como Nícias pronunciou, estou conforme em que se a deve aprender; mas se não é uma ciência e os que se dizem mestres de esgrima nos enganam ao superestimá-la, ou, ainda que seja uma ciência, se é de pouco interesse, para quê a ela nos consagraríamos? O que me insta a falar assim é o estar persuadido de que, se a esgrima fôra uma ciência que merecera a pena, não teriam os lacedemônios deixado de cultivá-la, sendo estes os maiores cultivadores da arte militar! (…) Porque todo homem que reconhece em si o talento para redigir tragédias não se dirige à Ática, batendo de cidade em cidade a fim de representar suas peças; ele vem direto a Atenas, o centro das tragédias por excelência.”

Em todas as demais artes sempre há, dentre seus praticantes, quem sobressaia e adquira renome; mas quanto aos mestres de esgrima, uma estranha fatalidade os persegue. Porque este mesmo Estesilau que oferece espetáculos aos atenienses, como acabamos de assistir, e que se tem a si mesmo em tão alta conta, vi-o eu em determinada ocasião sendo o protagonista de um espetáculo exatamente o contrário, lastimável que fôra a cena! Estando num navio que perseguiu e alvejou outro, um navio mercador inimigo, Estesilau combatia com sua lança comprida com um ferro cortante na ponta, arma a meu ver tão ridícula quanto fôra sua performance entre os combatentes. As <proezas> de que foi capaz então sequer merecem ser relatadas! O resultado que obteve com essa tresloucada estratégia guerreira merece, entretanto, especial menção tendo em vista o assunto que nos consome. Como nosso homem manejava essa arma pouco prática, sucedeu-lhe, desgraçadamente, que se enredara numa estrutura do navio inimigo, de forma que, por mais que se esforçara a fim de desenredar sua desajeitada arma da embarcação que a prendia, não o lograva.”

LISÍMACO – (…) Se Nícias e Laques fossem do mesmo parecer, poderíamos evitar-te o incômodo, ó Sócrates! Mas vês tu que dissentem por inteiro. É necessário, pois, ouvir teus ditames, a fim de ver qual das duas teses merece tua aprovação.

SÓCRATES – Como, Lisímaco? Então tu segues o princípio da maioria?

LISÍMACO – Mas que de melhor se poderia tentar?

SÓCRATES – Tu também, Melesias? Em matéria de eleger os exercícios que convirão a teu filho, ater-te-ás antes ao princípio democrático da maioria que à opinião de um só homem, contanto que ele se revele bem-educado e formado pelos melhores professores?

MELESIAS – Quanto a mim, Sócrates, meu critério favorito é sem dúvida o segundo.”

eu creio que, para bem julgar, é preciso julgar pela razão e não pelo número.”

Explico-me melhor. Parece-me que ao princípio não nos pusemos de acordo sobre a coisa que deveria ser matéria de deliberação, a fim de saber quem de nós é o mais hábil e que fôra formado pelos melhores mestres.”

No que toca a mim, Lisímaco e Melesias, sou o primeiro a confessar que jamais tive mestre nesta arte, ainda que a amasse desde meus anos de juventude; o caso é que eu não era rico o bastante para pagar sofistas que ma ensinassem, eles que se jactam de ser os únicos capazes de criar homens de bem; então pelo menos no meu caso nunca houve professor nesta arte. Se Nícias e Laques sabem nomear mestres da esgrima, isso em nada me surpreenderá; porque, sendo mais ricos que eu, puderam com certeza pagar professores, e, aliás, sendo também mais velhos que eu, conhecem mais coisas e pessoas no mundo, e mesmo na hipótese de ser muito difícil e muito raro achá-lo, podem ter encontrado tal mestre. Destarte, creio que eles possam ser de mais ajuda que eu para a educação dos jovens.”

Mas o que mais me surpreende é que estejam tão conformes em seus pareceres. Rogo-te, Lisímaco, que assim como Laques te suplicara que não me deixasses sair, e que me obrigasses a dar meu próprio parecer, tenhas tu agora a bondade de impedir que Laques e Nícias se vão antes de solucionar o dilema, dizendo-lhes: Sócrates dá fé de nada entender sobre estas matérias, e é portanto incapaz de decidir quem de vós dois está mais arrazoado em seu discurso, porque não teve nenhum mestre, nem encontrou a ciência da esgrima por si mesmo

NÍCIAS – Vê-se bem, caro Lisímaco, que conheces Sócrates tão-só enquanto filho de Sofronisco, teu amigo, mas que nunca viste sua conduta de perto; sem dúvida só deve tê-lo apreciado durante sua primeira infância, tendo-o contemplado enquanto pai e filho faziam libações nos templos ou quando Sofronisco trazia-o à assembleia de teu distrito; porque depois que se fez homem, Sócrates se tornou uma figura peculiar de que não é fácil fazer juízo assim à primeira vista.

LISÍMACO – Por que dizes isso, ó Nícias?

NÍCIAS – Porque ignoras por completo que Sócrates encara de forma diferente todo aquele que conversa consigo, e desde o instante que a conversação começa, por mais que o assunto seja algo de absolutamente indiferente ou a mais reles ninharia, Sócrates adora avaliar os outros e tomar ciência de sua conduta e caráter, dirigindo pouco a pouco o fio do discurso para seus próprios propósitos. Logo estar-te-ás interrogando como vives e como viveste. Quando o diálogo tiver chegado ao ponto desejado por Sócrates, em que suas teias, como as de uma aranha, já enredaram o interlocutor de modo que sua avaliação se torna agora algo inextricável ao perscrutado, ser-te-á impossível dispensares Sócrates antes que ele termine seu procedimento, que ele chama de parto das idéias. Pois bem: Sócrates só dará a conversa por terminada assim que já tiver aprendido a conhecer a alma e o gênio de seu homem a fundo, depois de haver sabido tudo de bom e mau que ele fez. Eu já até me acostumei a este modo de se conduzir de Sócrates. Ora, é uma necessidade que passes por esta alfândega, querido amigo. Eu confesso que não me lisonjeio de hoje estar liberto da teia de Sócrates! Foi um procedimento doloroso, mas, olhando retrospectivamente, estou grato pelo resultado da análise. Com o tempo esta avaliação, que era desagradável, adquiriu até um ar prazenteiro, e sempre sinto um contentamento singular nas minhas conversações com Sócrates desde então. Por mais que seja insólito no começo, nunca é um mal grande demais para ninguém que um bom conselheiro te advirta sobre tuas faltas, passadas e futuras, com base em quem tu és. Se um homem quer-se fazer sábio, que não tema de forma alguma este exame tão sincero, a menos que, segundo a máxima de Sólon, negue-se a ver as coisas como elas são, i.e., que todo dia é preciso aprender alguma coisa. Não penses de modo néscio que a sabedoria nos atinge como que de repente, com a idade. Diante de tudo que te relatei, ó Lisímaco, não será para mim inaudito nem muito menos desagradável ver-me agora colocado por Sócrates no banco dos réus uma vez mais. Na verdade, supusera desde sua entrada neste cômodo que, no fim das contas, não seriam nossos filhos os alvos de toda esta nossa discussão sobre o melhor método de educá-los, mas nós mesmos é que seríamos os julgados! De minha parte, uma vez que já conheço Sócrates há longos anos, voluntario-me a ser dissecado moralmente por ele a partir de agora.”

LAQUES – (…) Quando ouço qualquer homem que fale sobre a virtude e o saber, e que é um homem na acepção da palavra, digno de suas próprias convicções, encanta-me: para mim é um prazer indescritível constatar que suas palavras e ações se encontram em perfeito acordo. Figura-se-me que este é o único músico que sustenta uma harmonia perfeita, não com uma lira, nem com qualquer outro instrumento, mas segundo o tom de sua própria vida; porque todas as suas ações concordam com todas as suas palavras, não segundo o compasso lídio, frígio ou jônico, mas segundo o dórico,(*) único merecedor do título de <harmonia grega>. Quando um homem destas disposições fala, como disse, encanta-me, enche-me de gozo e ninguém há que não creia que me transportei e fiquei louco ao ouvir seus discursos; tal é a avidez com que escuto suas palavras. Mas aquele que faz tudo ao contrário muito me aflige, me aflige cruelmente. Quanto melhor esses homens desarmônicos parecem explicar-se, tanto maior é minha aversão a suas palavras.

(…)

Sigo, sim, o ditado de Sólon, pois creio que é preciso estar aberto a novas lições todos os dias, por mais velhos que sejamos. Só acrescento à máxima o seguinte: tudo que aprendermos deve se restringir à boca dos homens de bem.

(…) no mais, que seja o meu mestre mais jovem do que eu, que careça de reputação e renome e que-tais, a mim isso não me importa.

(…) Diz-me, sendo assim, aquilo que te aprouver, sem que minha idade avançada detenha-te de qualquer maneira.”

(*) “Os gregos dividiam o tom em 4 classes: o lídio, lúgubre, próprio para as lamentações; o frígio, veemente e próprio para excitar as paixões; o jônico, afeminado e dissoluto; e o dórico, varonil. Por isto Sócrates prefere este àqueles. Na República III Platão volta a condenar em absoluto os estilos lídio e jônico.”

LISÍMACO – (…) quanto a mim, falta-me memória, por conta de meus muitos anos; esqueço a maior parte das perguntas que queria fazer enquanto ouço longos discursos, e não me recordo, depois de um tempo, de muitos dos detalhes, sobretudo quando o tema principal da discussão é interrompido e entrecortado por novos assuntos.”

SÓCRATES – Tratemos sem mais delongas, Laques, de definir com exatidão o que é o valor; depois examinaremos os meios de comunicá-lo aos jovens.”

LAQUES – (…) O homem que conserva seu posto de batalha, que não foge, que rechaça o inimigo – tens aqui o homem valente.

SÓCRATES – Muito bem, Laques. Mas talvez por haver eu me explicado mal tenhas respondido uma coisa diferente daquilo que eu perguntei!”

SÓCRATES – (…) os citas, p.ex., não deixam de atacar por combaterem fugindo; como Homero mesmo disse¹ quanto aos cavalos de Enéias, eles vão e voltam no campo de batalha, sem parar num ponto, hábeis tanto em evadir quanto em desferir o golpe fatal.”

¹ Ilíada VIII

os espartanos, como ouvi referirem sobre a batalha de Platéia, quando atacaram os persas, que formavam um muro com seus broquéis, perceberam que não lhes conviria manter-se firmes em seus postos; sendo assim, logo empreenderam a fuga. Quando as fileiras dos persas se romperam, perseguindo os espartanos, estes deram meia-volta, infantes e cavaleiros, e mediante esta manobra estratégica massacraram seus inimigos.”

SÓCRATES – Todos estes homens são valentes. Uns provam seu valor contra os prazeres, outros contra as tristezas, estes contra os desejos, aqueles contra os temores, e em meio a todos estes acidentes podem ainda outros, na via contrária, dar provas de covardia.”

LAQUES – Parece-me que o valor é uma inclinação da alma a manifestar constância em todas as coisas.”

SÓCRATES – (…) mas me parece que não tomas por valor toda a constância da alma, e infiro-o porque pelo que compreendi tu situas o valor no número das coisas belas.”

SÓCRATES – E quando se tropeça com a insensatez, não é covardia em vez de valentia? Não é coisa má e perniciosa?

LAQUES – Sem contradição.”

SÓCRATES – A paciência, ou constância, unida à razão, é, em tua opinião, o verdadeiro valor?

LAQUES – Assim creio eu.

SÓCRATES – Vejamos (…)”

SÓCRATES – De maneira, Laques, que estas pessoas, que não têm nenhuma experiência, e atiram-se de cabeça no perigo de forma muito mais imprudente que os que se expõem com alguma técnica e razão?

LAQUES – Sim, sem dúvida.

SÓCRATES – Mas a audácia insensata e a paciência irracional nos pareceram antes vergonhosas e prejudiciais.

LAQUES – Isso também é correto.

SÓCRATES – E o valor nos pareceu uma coisa que é bela!

LAQUES – Convenho sem restrições.

SÓCRATES – Pois bem, agora sucede tudo ao contrário! Damos o nome de valor a uma audácia insensata

LAQUES – Confesso que sim…”

SÓCRATES – (…) nem tu nem eu nos ajustamos ao tom dórico, ao que parece, porque nossas ações não correspondem a nossas palavras.”

SÓCRATES – (…) Lembra-te que, segundo nossos princípios, ser paciente é ser valente.

LAQUES – Estou concorde com esta definição, Sócrates, e acuso o golpe, isto é, não simulo não o haver sentido com qualquer desculpa estranha, ainda que seja novato nesse tipo de desporto (tua avaliação de caráter e definição das coisas a teu modo); mas, confesso-te, me deixa desgostoso o fato de não poder exprimir em palavras aquilo que penso, e que penso que é justo, porque me parece que concebo com perfeição o que é o valor; mas, incrivelmente, na hora de expressá-lo, se me escapa a idéia…

SÓCRATES – Mas Laques, o dever de um bom caçador não consiste em não se cansar e não se ver jamais ludibriado e vencido?

LAQUES – De acordo.

SÓCRATES – Queres que entre em nossa disputa, ou partida de caça, Nícias, para ver se ele se torna um atleta mais ditoso?

LAQUES – Quero-o, por que não haveria de querer?

SÓCRATES – Então junta-te a nós neste exercício, Nícias! Vem e socorre teus prezados amigos, que vêem-se agora embaraçados e que não sabem que rumo tomar!”

NÍCIAS – Ouvindo-vos, faz muito tempo, me parecia, estáveis a definir esta virtude – o valor – de forma muito ruim. Ah, Sócrates! Que ocorre que, desta vez, não te vejo valendo-te do método com que tantas vezes e com tanta perícia empregaste?”

SÓCRATES – (…) o valor é uma ciência.

LAQUES – Ciência de quê, Sócrates?

(…)

SÓCRATES – (…) não será, indubitavelmente, a ciência do tocador de flauta…

NÍCIAS – Não.

SÓCRATES – Nem a do tocador de lira?

NÍCIAS – Tampouco.

SÓCRATES – Qual é, e sobre que versa esta ciência?

(…)

NÍCIAS – Digo, Laques, que é a ciência das coisas que são de temer e das que não são de temer, seja na guerra, seja em todas as demais ocasiões da vida.

LAQUES – Estranha definição essa, Sócrates!

SÓCRATES – Mas por que a achas estranha, Laques?

LAQUES – Por quê?! Porque a ciência e o valor são duas coisas distintas!

SÓCRATES – Nícias discorda de ti.”

LAQUES – (…) Os médicos não conhecem por acaso o que há que temer nas doenças? E, neste caso, crês tu que os homens valentes são os que conhecem o que se deve temer? Ou não chamas os médicos de homens valentes?

NÍCIAS – Não, não os chamo de homens valentes!

LAQUES – O mesmo para os labradores. E no entanto, os labradores conhecem perfeitamente o que há que temer com respeito a seu ofício! O mesmo sucede, então, com todos os demais artistas ou artesãos. Conhecem todos muito bem o que se há de temer na sua respectiva profissão e aquilo que não se deve de forma alguma temer, e não são, por isso, mais valentes, Sócrates.”

NÍCIAS – (…) Mas atrever-te-ás a dizer que é bom viver sempre, e que não há por aí muitas pessoas para quem é mais vantajoso, em certas condições, morrer do que viver?

LAQUES – Não nego que isso deverá ocorrer amiúde.

NÍCIAS – E crês que as coisas que soam temíveis àqueles que têm por vantajoso o continuar vivendo se pareçam com as coisas temíveis para aqueles que julgam que às vezes é preferível a morte honrosa que o viver desonroso?

LAQUES – Não, sem dúvida as coisas para cada classe de gentes são dessemelhantes!”

LAQUES – Posso até entender que, conforme se diz, não há outros homens valentes senão os adivinhos; porque que outro homem senão o adivinho pode conhecer se é mais vantajoso morrer ou viver? (…)

NÍCIAS – Mas como?! Pensas que seja negócio de adivinho conhecer as coisas que são temíveis e as que não são de se temer?

LAQUES – Sem dúvida. Se não for assim, a quem caberia?

NÍCIAS – A quem?! A quem eu digo, meu querido Laques, ao homem valente! Porque o ofício de um adivinho é conhecer somente os sinais das coisas que devem suceder, sejam mortes, doenças, as perdas de bens, as derrotas e vitórias nas guerras. Porém, crês tu, verdadeiramente, que convém mais a um adivinho que a um outro tipo de homem o decidir quais destes acidentes são ou não vantajosos?”

LAQUES – (…) Nícias não tem valor para confessar que não sabe o que diz; não faz mais que arengar e se contorcer a fim de disfarçar seu embaraço. Podíamos, por exemplo, tu e eu, Sócrates, continuar indefinidamente neste tipo de disputa sofística, ocultando cada qual ao adversário as próprias contradições em que nós mesmos incorremos sem cessar. Se falássemos diante dos juízes, esta conduta até que seria desculpável, mas numa conversação íntima entre amigos, que significa querer triunfar a qualquer custo com palavras vãs?

SÓCRATES – Sustentas, igualmente, que esta ciência não é dada a toda classe de homens, posto que não é conhecida ou monopolizada nem pelos médicos, nem pelos adivinhos, e que, portanto, não podem estes homens ser valentes, a menos que tenham adquirido por seus próprios meios esta ciência? É isto que queres dizer, não é?

NÍCIAS – Sim, Sócrates, foste ao cerne da questão.”

NÍCIAS – (…) A meu ver, não ter medo e ser valente são duas coisas muito diferentes. (…)”

SÓCRATES – Laques, vejo que não te apercebeste com clareza de que Nícias aprendeu belas lições de nosso amigo Dámon, e que Dámon é o melhor aluno de Pródico, o mais hábil de todos os sofistas neste tipo de discussão!¹

LAQUES – Ó, Sócrates! É bem típico dos sofistas, deveras, fazer essas vãs ostentações de suas cultivadas sutilezas, mas não quadra bem, esse tipo de conduta, a Nícias, que os atenienses escolheram, afinal, para cabeça da república!”

¹ Este não é o mesmo Dámon citado mais acima (um músico).

SÓCRATES – Eis aqui nossa opinião, Nícias. Por coisas temíveis entendemos os males do porvir, e por coisas não-temíveis entendemos as coisas do porvir que, por algum motivo, ou parece que são boas ou, ao menos, não nos parecem ser más. Admites nossa definição como válida?

NÍCIAS – Posso admiti-la com segurança, Sócrates.

SÓCRATES – E a ciência destas coisas é o que tu chamas de valor?

NÍCIAS – Exato!

SÓCRATES – Passemos então a um terceiro ponto, para verificar se seguimos de acordo. Dizemos Laques e eu que, em todas as coisas, a ciência tem um caráter universal e absoluto; não é uma para as coisas passadas e outra para as coisas futuras, porque a ciência é sempre a mesma. Por exemplo: quanto à saúde, sempre é a mesma ciência a medicina, pois vê o que foi, o que é e o que será são e enfermo. Na agricultura, sabe-se o que foi, o que é e o que será no plantio da terra. Na guerra, a ciência do general se estende a tudo, desde o remoto passado, percorrendo o presente até as coisas que não são ainda; nenhuma necessidade tem o general da arte da adivinhação! Antes, o contrário: manda o general no adivinho, como quem sabe muito mais o que acontecerá do que o próprio oráculo!

SÓCRATES – Não é correto, então, que o valor seja considerado unicamente como a ciência das coisas temíveis e não-temíveis, porque isso corresponderia a dizer que se distingue passado e futuro, e isto não é uma ciência. E depois, como se haveria de temer o passado?

NÍCIAS – Estou de acordo.

SÓCRATES – Tu mesmo nos definiste a terceira parte do valor, porém sem percorrer os dois primeiros passos. O que fizemos Laques e eu foi abranger o raciocínio para conhecer a unidade e a natureza total do valor. Agora me parece que, finalmente, segundo teus princípios, Nícias, chegamos à definição do valor enquanto ciência: não só o conhecimento das coisas temíveis, como também o de todos os bens e males em geral. Ou terás neste meio-tempo mudado de opinião, meu querido?”

SÓCRATES – O valor, então, é uma parte da virtude ou é ela por inteiro?

NÍCIAS – Me parece que o segundo, Sócrates.

SÓCRATES – Não obstante, nós havíamos dito que o valor não era mais que uma parte da virtude!

NÍCIAS – Com efeito, e havíamos errado, ao que tudo indica.

SÓCRATES – E então?

NÍCIAS – Sócrates, confesso que estou confuso e que sei agora menos do que sabia antes.

SÓCRATES – Destarte, depois de todos os rodeios, não averiguamos ainda com exatidão no que consiste o valor.

NÍCIAS – É a única coisa de que estou certo no dia de hoje!

LAQUES – Ah, Nícias! Cria que tu indagarias melhor do que eu ou do que qualquer outro, depois de ver com que desdém te manifestaste, ao ver-me dialogar com Sócrates! E confesso que estava a nutrir grandes esperanças de que vós chegásseis a um resultado melhor, escorados na sabedoria de Dámon!”

LAQUES – (…) de minha parte, aconselho Lisímaco e Melesias a não nos consultarem mais sobre a educação de seus filhos: é benquisto que se entendam sobre este assunto unicamente com Sócrates (…)”

NÍCIAS – Ah! Neste ponto estou conforme contigo, Laques! Se Sócrates decidir pelo futuro de nossos filhos, não há necessidade de preocupação ulterior. Estou disposto a entregar meu próprio rebento Nicérato a ele, se tem a bondade de se encarregar dele. Mas todos os dias, quando proponho este plano a Sócrates, ele desconversa e me indica outros mestres, recusando a proposta! Vê, Lisímaco, se tens mais influência sobre ele do que eu!”

LISÍMACO – (…) Pois então, Sócrates, que nos diz? Abrandar-te-ás e aceitarás encarregar-te destes jovens a fim de fazê-los melhores?”

por que preferir-me a mim?! Me parece que nenhum de nós merece a preferência!”

THE “UNCANNY” (Do insólito que subitamente faz sentido; de uma ‘protonáusea’ ou ‘nostalgia ruim’, enfim.) – Sigmund Freud

Translated by Alix Strachey, 1919.

the <uncanny> is that class of the terrifying which leads back to something long known to us, once very familiar.”

The Italian and the Portuguese seem to content themselves with words which we should describe as circumlocutions.”

BICAR-O-OLHO: “This fantastic tale begins with the childhoodrecollections of the student Nathaniel: in spite of his presente happiness, he cannot banish the memories associated with the mysterious and terrifying death of the father he loved. On certain evenings his mother used to send the children to bed early, warning them that <the Sand-Man was coming>; and sure enough Nathaniel would not fail to hear the heavy tread of a visitor with whom his father would then be occupied that evening. When questioned about the Sand-Man, his mother, it is true, denied that such a person existed except as a form of speech; but his nurse could give him more definite information: <He is a wicked man who comes when children won’t go to bed, and throws handfuls of sand in their eyes so that they jump out of their heads all bleeding. Then he puts the eyes in a sack and carries them off to the moon to feed his children. They sit up there in their nest, and their beaks are hooked like owls’ beaks, and they use them to peck up naughty boys’ and girls’ eyes with.>”

The grains of sand that are to be thrown into the child’s eyes turn into red-hot grains of coal out of the flames; and in both cases they are meant to make his eyes jump out. In the course of another visit of the Sand-Man’s, a year later, his father was killed in his study by an explosion. The lawyer Coppelius vanished from the place without leaving a trace behind.”

Uncertainty whether an object is living or inanimate, which we must admit in regard to the doll Olympia, is quite irrelevant in connection with this other, more striking instance of uncanniness. It is true that the writer creates a kind of uncertainty in us in the beginning by not letting us know, no doubt purposely, whether he is taking us into the real world or into a purely fantastic one of his own creation. He has admitted the right to do either; and if he chooses to stage his action in a world peopled with spirits, demons and ghosts, as Shakespeare does in Hamlet, in Macbeth and, in a different sense, in The Tempest and A Midsummer-Night’s Dream, we must bow to his decision and treat his setting as though it were real for as long as we put ourselves into his hands.”

The theory of <intellectual uncertainty> is thus incapable of explaining that impression.”

We know from psychoanalytic experience, however, that this fear of damaging or losing one’s eyes is a terrible fear of childhood.” Um dia alguém me disse que tocar na pupila gerava cegueira. Outro dia ouvi dizer que não podia me aproximar de sapos nem de borboletas. E em 1994 presenciei um eclipse solar que se repete de 50 em 50 anos – se eu olhasse para o Sol meus olhos se queimariam instantaneamente, a luz estaria para sempre banida de meus sentidos. Eu tinha 6 anos quando isso aconteceu, e me perguntei como eu faria para ir ao trabalho, aos 56 anos, dirigindo – seria o pára-sol prevenção suficiente?!

Imagina se… “Many adults still retain their apprehensiveness in this respect, and no bodily injury is so much dreaded by them as an injury to the eye.”

A study of dreams, phantasies and myths has taught us that a morbid anxiety connected with the eyes and with going blind is often enough a substitute for the dread of castration.” A única existência inútil – realmente pior que a morte.

In blinding himself, Oedipus, that mythical law-breaker, was simply carrying out a mitigated form of the punishment of castration—the only punishment that according to the lex talionis was fitted for him.”

EGO SUM: eye think, ay! therefore, eye M.!

For why does Hoffmann bring the anxiety about eyes into such intimate connection with the father’s death? And why does the Sand-Man appear each time in order to interfere with love?”

the Professor is even called the father of Olympia.” Zeus, o Pai

She, the automatic doll, can be nothing else than a personification of Nathaniel’s feminine attitude towards his father in his infancy. (…) Now Spalaazani’s otherwise incomprehensible statement that the optician has stolen Nathaniel’s eyes so as to set them in the doll becomes significant and supplies fresh evidence for the identity of Olympia and Nathaniel. (…) We may with justice call such love narcissistic, and can understand why he who has fallen victim to it should relinquish his real, external object of love. The psychological truth of the situation in which the young man, fixated upon his father by his castration-complex, is incapable of loving a woman, is amply proved by numerous analyses of patients whose story, though less fantastic, is hardly less tragic than that of the student Nathaniel.”

A TOY OE-TYPICAL STORY: “Now, dolls happen to be rather closely connected with infantile life. We remember that in their early games children do not distinguish at all sharply between living and lifeless objects, and that they are especially fond of treating their dolls like live people. In fact I have occasionally heard a woman patient declare that even at the age of 8 she had still been convinced that her dolls would be certain to come to life if she were to look at them in a particular way, with as concentrated a gaze as possible.” Os bichos de pelúcia de grua que dormiam comigo quando minha casa estava em reforma – como que me lembravam do meu próprio quarto.

Hoffmann is in literature the unrivalled master of conjuring up the uncanny. His Elixire des Teufels (The Devil’s Elixir) contains a mass of themes to which one is tempted to ascribe the uncanny effect of the narrative; but it is too obscure and intricate a story to venture to summarize.”

The theme of the <double> has been very thoroughly treated by Otto Rank (Del Doppelgänger). He has gone into the connections the <double> has with reflections in mirrors, with shadows, guardian spirits, with the belief in the soul and the fear of death; but he also lets in a flood of light on the astonishing evolution of this idea. For the <double> was originally an insurance against destruction to the ego, an <energetic denial of the power of death>, as Rank says; and probably the

<imortal> soul was the first <double> of the body. This invention of doubling as a preservation against extinction has its counterpart in the language of dreams, which is fond of representing castration by a doubling or multiplication of the genital symbol; the same desire spurred on the ancient Egyptians to the art of making images of the dead in some lasting material. Such ideas, however, have sprung from the soil of unbounded self-love, from the primary narcissism which holds sway in the mind of the child as in that of primitive man; and when this stage has been left behind the double takes on a different aspect. From having been an assurance of immortality, he becomes the ghastly harbinger of death.”

A faculdade da auto-crítica talvez seja uma secreta vingança contra um Outro que conhecemos desde a primeira infância muito bem: nosso Duplo.

an involuntary return to the same situation, but which differ radically from it in other respects, also result in the same feeling of helplessness and of something uncanny.”

Perder-se numa superquadra da asa norte, dentro de uma grande mansão que já havíamos visitado, em corredores do minhocão ou em estações do metrô quando esquecemos que a nossa já passou. Que horas são?

if we come across the number 62 several times in a single day, or if we begin to notice that everything which has a number—addresses, hotel-rooms, compartments in railway-trains—always has the same one, or one which at least contains the same figures.”

Aquela música. Essa música. Eu já ouvi tocar. Mas quando, onde?!?

O rosto dum estranho estranhamente familiar. O desconfortado suscitado pelo Efeito Mandela. O livro que eu estava relendo e não sabia – até chegar à metade do livro e finalmente me lembrar. O fato de eu ter perdido a folha de número 33 das minhas anotações sobre a Bíblia justamente quando tinha começado a abordar o Novo Testamento. Uma folha que eu perdi dentro de casa, e parecia inexplicável que o papel tivesse simplesmente se dissolvido no ar…

They are never surprised when they invariably run up against the person they have just been thinking of, perhaps for the first time for many months. If they say one day <I haven’t had news of so-and-so for a long time>, they will be sure to get a letter from him the next morning. And an accident or a death will rarely take place without having cast its shadow before on their minds. They are in the habit of mentioning this state of affairs in the most modest manner, saying that they have <presentiments> which <usually> come true.”

if this is indeed the secret nature of the uncanny, we can understand why the usage of speech has extended das Heimliche into its opposite das Unheimliche; 18 for this uncanny is in reality nothing new or foreign, but something familiar and old (…) This reference to the factor of repression enables us, furthermore, to understand Schelling’s definition of the uncanny as something which ought to have been kept concealed but which has nevertheless come to light.”

Many people experience the feeling in the highest degree in relation to death and dead bodies, to the return of the dead, and to spirits and ghosts. As we have seen, many languages in use today can only render the German expression. <an unheimliches house> by <a haunted house>.”

Most likely our fear still contains the old belief that the deceased becomes the enemy of his survivor and wants to carry him off to share his new life with him.”

All so-called educated people have ceased to believe, officially at any rate, that the dead can become visible as spirits, and have hedged round any such appearances with improbable and remote circumstances; their emotional attitude towards their dead, moreover, once a highly dubious and ambivalent one, has been toned down in the higher strata of the mind into a simple feeling of reverence.”

Sie ahnt, dass ich ganz sicher em Genie,

Vielleicht sogar der Teufel bin.”

To many people the idea of being buried alive while appearing to be dead is the most uncanny thing of all. (…) phantasy, I mean, of intra-uterine existence.”

I read a story about a young married couple, who move into a furnished flat in which there is a curiously shaped table with carvings of crocodiles on it. Towards evening they begin to smell an intolerable and very typical odour that pervades the whole flat; things begin to get in their way and trip them up in the darkness; they seem to see a vague form gliding up the stairs—in short, we are given to understand that the presence of the table causes ghostly crocodiles to haunt the place, or that the wooden monsters come to life in the dark, or something of that sort.”

whenever a man dreams of a place or a country and says to himself, still in the dream, <this place is familiar to me, I have been there before>, we may interpret the place as being his mother’s genitals or her body. In this case, too, the unheimlich is what was once heimisch, homelike, familiar; the prefix un is the token of repression.”

Who would be so bold as to call it an uncanny moment, for instance, when Snow-White opens her eyes once more?”

In fairy-tales, for instance, the world of reality is left behind from the very start, and the animistic system of beliefs is frankly adopted. Wish-fulfillments, secret powers, omnipotence of thoughts, animation of lifeless objects, all the elements so common in fairy-stories, can exert no uncanny influence here; for, as we have learnt, that feeling cannot arise unless there is a conflict of judgement whether things which have been <surmounted> and are regarded as incredible are not, after all, possible; and this problem is excluded from the beginning by the setting of the story. And thus we see that such stories as have furnished us with most of the contradictions to our hypothesis of the uncanny confirm the first part of our proposition—that in the realm of fiction many things are not uncanny which would be so if they happened in real life.”

The story-teller can also choose a setting which, though less imaginary than the world of fairy tales, does yet differ from the real world by admitting superior spiritual entities such as daemonic influences or departed spirits. So long as they remain within their setting of poetic reality their usual attribute of uncanniness fails to attach to such beings. The souls in Dante’s Inferno, or the ghostly apparitions in Hamlet, Macbeth or Julius Caesar, may be gloomy and terrible enough, but they are no more really uncanny than is Homer’s jovial world of gods.” “The situation is altered as soon as the writer pretends to move in the world of common reality. In this case he accepts all the conditions operating to produce uncanny feelings in real life; and everything that would have an uncanny effect in reality has it in his story. But in this case, too, he can increase his effect and multiply it far beyond what could happen in reality, by bringing about events which never or very rarely happen in fact. He takes advantage, as it were, of our supposedly surmounted superstitiousness; he deceives us into thinking that he is giving us the sober truth, and then after all oversteps the bounds of possibility. We react to his inventions as we should have reacted to real experiences; by the time we have seen through his trick it is already too late and the author has achieved his object; but it must be added that his success is not unalloyed. We retain a feeling of dissatisfaction, a kind of grudge against the attempted deceit; I have noticed this particularly after reading Schnitzler’s Die Weissagung and similar stories which flirt with the supernatural. The writer has then one more means he can use to escape our rising vexation and at the same time to improve his chances of success. It is this, that he should keep us in the dark for a long time about the precise nature of the conditions he has selected for the world he writes about, or that he should cunningly and ingeniously avoid any definite information on the point at all throughout the book. Strictly speaking, all these complications relate only to that class of the uncanny which proceeds from forms of thought that have been surmounted. The class which proceeds from repressed complexes is more irrefragable and remains as powerful in fiction as in real experience, except in one point. The uncanny belonging to the first class—that proceeding from forms of thought that have been surmounted—retains this quality in fiction as in experience so long as the setting is one of physical reality; but as soon as it is given an arbitrary and unrealistic setting in fiction, it is apt to lose its quality of the uncanny.”

Concerning the factors of silence, solitude and darkness, we can only say that they are actually elements in the production of that infantile morbid anxiety from which the majority of human beings have never become quite free.”

TEAGES OU DA CIÊNCIA – Platão

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Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “O diálogo Teages é citado por Nietzsche em Vontade de Potência: <No Teages de Platão está escrito: ‘Cada um de nós desejaria ser o senhor de todos os homens, se possível, e o melhor de todos os deuses.’ Essa atitude deve voltar a existir>”¹ – A.P.V.

¹ Quanta ingenuidade! Como se não fossem esses os pequenos e últimos homens que tornam a Terra quase inabitável hoje! Quanta imbecilidade nos seria poupada se todos os idiotas pelo menos pudessem se envergonhar diante da própria idiotice – quantos projetos de poder não seriam abortados e quantas abominações e atrocidades lamentáveis não se nos pouparia essa humildade não fingida mas necessária do fraco-com-vontade-direcionada-para-o-poder-político! Todo filósofo na verdadeira acepção fugiria de ocupar um cargo público verdadeiramente influente e poderoso. Nietzsche demonstra sua inocência ao sublinhar as palavras do imberbe do diálogo; ou finge-se de tolo com segundas intenções.

(*) “Sócrates de nada sabe; nada ensina; mas pelo menos recebeu dos Céus o dom maravilhoso de discernir em que jovens se encontram disposições de caráter excelentes. O que Sócrates chama seu gênio ou daimon, voz interior da consciência, adverte-lhe quando deve aceder à comunicação com alguns seletos indivíduos, ou quando é preciso se recusar, pois antecipa que não será proveitoso para ambas as partes o discursarem e evidenciar exemplos de virtude, que não serão de qualquer maneira seguidos, por fatalidade do destino (inerência do caráter dos indivíduos em questão).” – P.A.

DEMÓDOCO – (…) Sem dúvida alguns de seus camaradas e alguns jovens de nosso povo, que vêm a Atenas, relatam certas conversações de que foram ouvintes, e que lhes transtornam a cabeça. Cheio do sentimento de emulação, meu filho Teages não cessa de atormentar-me, suplicando-me com insistência que zele por sua educação, pagando a um sofista. Não é o gasto o que me detém, Sócrates, mas temo que tamanha paixão ponha este garoto a perder!”

SÓCRATES – Diz-me: como devemos chamar a Bácis,(*) Sibila e nosso Anfílito?

TEAGES – Adivinhos, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem. Diz-me agora outra coisa: que nome deve-se dar a Hípias e Periandro com relação ao governo que ambos exerceram?

TEAGES – O de tiranos, Sócrates. Que outro nome mereceriam?

SÓCRATES – Logo, todo homem que deseja mandar como eles em todos os habitantes da cidade deseja adquirir um império tirânico, convertendo-se em tirano.

TEAGES – Convenho.

SÓCRATES – Pois aí tens a ciência por que tanto estás apaixonado!

TEAGES – Isso é uma conseqüência natural do que eu disse.

SÓCRATES – Ah, maroto! Tu desejas fazer-te nosso tirano, e tens o atrevimento de queixar-te, e já faz muito tempo, de que teu pai não te paga um professor que te treine no ofício de tirano! E tu, Demódoco, conhecendo a ambição de teu filho, e sabendo precisamente a quem enviá-lo a fim de torná-lo hábil na magnífica ciência que deseja, por um acaso não pões-te envergonhado ao saber que por longo intervalo priva-o já desta imensa felicidade, não tendo procurado até agora um mestre para Teages? E uma vez que se queixa de ti a mim, como bem vês, vejamos juntos aonde poderemos enviá-lo, e se conhecemos alguém que possa torná-lo um bom tirano!

(*) Bácis era um oráculo que, muito antes da invasão de Xerxes à Grécia, predissera a incursão militar deste imperador persa.”

SÓCRATES – Teages, se faláramos com Eurípides, quem uma vez disse: Os tiranos hábeis são formados pelos hábeis; e lhe perguntáramos: Eurípides, no que é que os tiranos se fazem hábeis ao aprenderem o ofício dos hábeis? E ele, no lugar de objetar diretamente, dissera: Os lavradores hábeis são formados pelos hábeis; e, acompanhando seu raciocínio, quiséssemos, pois, saber em que os lavradores se fizeram hábeis?; não é verdade, então, que Eurípides nos responderia: <Ora, na agricultura>?”

TEAGES – Não responderia senão isso, Sócrates.

(…)

SÓCRATES – Sendo assim, uma vez que ele afirma que os tiranos hábeis são formados pelos hábeis, se lhe perguntáramos: Eurípides, no que é que esses tiranos se tornaram hábeis? No quê pode consistir sua ciência?… O que pensas que Eurípides responderia, caro Teages?

TEAGES – Por Zeus! Não entendo, Sócrates!

SÓCRATES – Então queres que te diga?

TEAGES – Sim, se não for incômodo.

SÓCRATES – É a ciência que, segundo Anacreonte,¹ ensinava Calícrates, filha de Ciana.² Não recordas nada de Anacreonte sobre isso?

TEAGES – Sim, me recordo.

SÓCRATES – E então, Teages, não desejas que te ponham nas mãos de um homem que exerça a mesma profissão desta antiga Calícrates, filha de Ciana, para saberes, tal qual ela sabia, nas palavras do poeta, a arte de formar tiranos, até que sejas tu mesmo tirano, e quem sabe um dia sejas o tirano de Atenas ou quem sabe de toda a Grécia?

TEAGES – Sócrates, já há vários minutos te estás mofando de mim!

SÓCRATES – Eu?!? Não dizes tu mesmo que a ciência que queres que te ensinem é a de governar todos os cidadãos? Podes governá-los sem fazer-te tirano, homem?!

TEAGES – Desejaria de todo o coração fazer-me o tirano de todos os homens, ou pelo menos da maior parte deles. Mas creio que tu mesmo, Sócrates, tens a mesma ambição, como todos os homens a têm! E quiçá, não satisfeito em ser tirano, preferirias até ser um deus. Mas eu não te disse, literalmente, que era isso o que eu tanto desejava.

SÓCRATES – Adianta-te pois: que é que desejas? Não é governar teus concidadãos?

TEAGES – Mas não é governá-los pela força como fazem os tiranos, mas com seu beneplácito, como fizeram os grandes homens que já tivemos em Atenas.

SÓCRATES – Te referes a Temístocles, Péricles, Címon e outros desta estirpe?

TEAGES – Exatamente.

¹ Anacreonte de Téos, poeta que viveu nos séculos VI e V a.C. Vivia como conselheiro político de tiranos gregos.

² Não confundir com o célebre arquiteto, também contemporâneo de Anacreonte, que projetou o Partenon.

SÓCRATES – (…) Acreditas poder adquirir esta habilidade, dirigindo-te a outros que não estes profundos políticos nesta ciência, que sabem conduzir não apenas sua polis, mas muitas, seja de gregos, seja de bárbaros? Ou pensas acaso que, conversando com outros além destes, far-te-ás tão hábil como eles?

TEAGES – Sócrates, ouvi de discursos alheios que tu já disseste noutras ocasiões(*) que os filhos destes grandes políticos não valiam mais que os filhos de um sapateiro velho e, tanto quanto concebo, parece-me que disseste uma verdade inconteste. Seria eu muito insensato se crera que algum destes grandes políticos poder-me-ia comunicar uma ciência, se não a puderam comunicar a seus próprios filhos, o que decerto teriam feito se fosse isso possível, preferindo ensinar um descendente seu que um mero estranho.

SÓCRATES – Que é que tu farias, Teages, se tiveras um filho, que andara atrás de ti o dia inteiro, incitando-te a caçar um mestre para si, a fim de se tornar um grande pintor? Tu, pai deste indivíduo hipotético, não deverias medir esforços a fim de satisfazer seu desejo, conquanto, por outro lado, encontrar-te-ias num impasse ou aporia, visto que teu filho já houvera deixado claro que desprezava os melhores pintores e professores de pintura existentes, resistindo a qualquer estágio em suas escolas!

(*) Ver Mênon e Górgias.” PS: Górgias já foi traduzido; Mênon está pendente.

Como podes crer surpreendente ou arengar e queixar-te de que teu pai não saiba que procedimento tomar a teu respeito, muito menos aonde enviar-te-ia a fim de que tu te fizeras realmente hábil? Porque nós, se é que o desejas, podemos neste instante mesmo colocar-te em mãos de nossos melhores e mais sábios professores de política; tu nada tens a fazer senão eleger um; nenhum deles te pedirá nada, esta parte é conosco. Tua família investirá seu patrimônio e tu adquirirás, por meio de seus ensinamentos, mais reputação perante o povo, muito mais do que poderias angariar em tuas relações e amizades habituais.”

Demódoco, tu tens mais idade que eu; desempenhaste os cargos mais importantes, és uma das pessoas mais admiradas em teu distrito de Anajira, e ninguém é mais estimado e honrado do que tu no resto da cidade; e nem teu filho nem tu podeis ver em mim nenhuma destas vantagens que possuis. Se teu filho despreza o trato com nossos políticos e busca os sofistas, que prometem educar bem à juventude, temos disponíveis na cidade Pródico de Céos, Górgias de Leôncio, Pólo de Agrigento, e tantos outros, todos hábeis; de tempos em tempos eles perambulam por todas as cidades da Grécia, atraindo jovens das casas mais ricas e nobres; jovens que poderiam ser ensinados, é verdade, sem que se lhes custasse um único óbolo, caso elegessem um concidadão como seu professor, ao invés dum estrangeiro. (…) Amaria de todo coração saber todas essas ciências, mas fiz profissão de confessar que nada sei, por assim dizer, além, é claro, duma só ciência, de pouco interesse, não obstante: a do amor.(*) De modo que lisonjeio-me verdadeiramente de ser mais profundo nesta última ciência que todos aqueles que me precederam e que vivem em nosso século.

(*) O Banquete [já traduzido]

SÓCRATES – (…) Por concessão divina, possuo um dom admirável que nunca me abandonara desde meu nascimento, quer seja: uma voz que, quando se deixa escutar, me aparta sempre do que vou fazer, mas que nunca me impele, por exemplo, a agir. (…) Sem dúvida conheceis o precioso Cármides, filho de Glauco: um dia ele me inteirou de seu projeto de combater nos jogos nemésios.(*) Mal me confidenciou isso, ouvi meu gênio interior. Tratei então de convencê-lo a abandonar seu projeto, dizendo-lhe: Mal abriste a boca, Cármides, ouvi a voz do deus, que pronunciava: Não vás à Neméia, Cármides! Me respondeu Cármides: Esta voz te adverte, talvez, que eu não serei campeão nem estarei no pódio, mas, se não obtenho a grande vitória, não importa; pois ter-me-ei exercitado, terei lutado e com isso me dou por satisfeito. Dito isto, separou-se de mim e foi à Neméia, onde combateu. Podeis vós saber que é que sucedeu, porque é coisa amplamente conhecida… Cármides morreu. Mas não só esta previsão me foi dada: Clitômaco, irmão de Timarco, poderá referir a vós as últimas palavras deste último, morto por haver desprezado as advertências dos deuses. Evatlo, atleta e corredor célebre, também conhece a história, pois que hospedava Timarco à época. Enfim, qualquer dos dois dir-vos-á que Timarco assim se pronunciou…

TEAGES – Que é que Timarco disse a Clitômaco à hora da morte, te imploro que digas!

SÓCRATES – Expiro neste momento porque não quis crer em Sócrates, irmão!, foi o que disse Timarco. Se quiserdes saber o que quis ele dizer, não adiarei a explicação: quando Timarco levantou-se da mesa com Filêmon, filho de Filemônides, com o intuito de irem matar Nícias, filho de Heroscamandro, em virtude de uma conspiração política, assim se dirigiu a mim, que estava no mesmo banquete que ele: E então, Sócrates? Segui vós aqui a beber; eu tenho necessidade de sair agora para tratar um assunto. Em um momento estarei de volta, se os deuses quiserem. Neste instante mesmo ouvi a voz de minha consciência. Chamei-lhe a atenção: Não saias, to suplico! A voz me assinalou o mal. Ele se deteve. Porém, passados mais alguns minutos, voltou a se levantar, dizendo-me: Sócrates, vou-me, sem demora. De novo, a voz repetiu sua mensagem em minha cabeça e eu o impedi. À terceira vez,¹ para livrar-se de mim sem inconvenientes, levantou-se sem me dirigir a palavra, e, aproveitando-se da ocasião de que meu espírito se concentrava noutra coisa, evadiu o banquete, indo realizar as ações que o levariam à morte. (…) Também podeis saber por inúmeros de nossos concidadãos o que eu disse à ocasião da expedição para a Sicília; e como se deu a derrota de nosso exército.

(*) Um dos 4 grandes jogos da Grécia; celebravam-se a cada 3 anos, perto da Neméia, no Peloponeso, em honra de Arquemoros.”

¹ Evento bíblico? Hehe.

Por que disse tudo isso? Para dar a entender a vós que até quando se trata daqueles que mais anelam estabelecer relações comigo, tudo depende, ao cabo, deste gênio que me governa; aqueles a quem ele se mostra contrário jamais poderão retirar de mim, Sócrates, qualquer bem ou utilidade; nem me é possível ir contra esta vontade divina. Muitos outros o gênio trata com indiferença, isto é, nada me comunica, mas mesmo que entre em conversação com estes sobre a virtude, ao fim eles nada realizam de bom; porém, aqueles que verdadeiramente mantêm relações comigo, com a aprovação explícita do gênio, são os mesmos de quem me falavas ainda agora, aqueles que em pouquíssimo tempo efetuam notáveis progressos morais – só que estes progressos não são firmes nem permanentes em uma parcela destes homens: esta classe de homens tira proveito de minha companhia enquanto me encontro a seu lado, de forma até surpreendente, mas basta que nos separemos por alguma casualidade e voltam a seu primeiro caráter, sem se diferenciarem em nada dos homens comuns. Foi isto que aconteceu a Aristides, filho de Lisímaco e neto de Aristides.(*)

(*) Rival político de Péricles.”

Tenho de contar-te, Sócrates, uma coisa incrível, porém tão incrível e fabulosa quanto segura e verdadeira. Nunca pude aprender nada de ti, como sabes muito bem. No entanto, jamais deixei de desfrutar de nossas conversações enquanto convivíamos, fosse a sós em minha casa, fosse na rua ou nos banquetes. E ainda assim há diversos graus: se estivéssemos na mesma casa, havia progressos em meu entendimento moral; mas se compartilhávamos a existência no mesmo cômodo, havia progressos ainda mais notáveis neste ponto. E enquanto estivesses apenas presente, mas calado, um era o ritmo do meu progresso; mas quando falavas e eu escutava atentamente, o ritmo era ainda mais rápido. E se eu fixava os olhos em ti, isto aumentava ainda mais a qualidade e a velocidade de minha instrução, comparado a quando eu apenas fitava outro elemento qualquer, a parede, uma cadeira, o chão. E este progresso era muito mais sensível se eu sentava a teu lado e estava em contato direto contigo. Esta minha capacidade, Sócrates, depois de que viajei e nos separamos, está, em suma, desaparecida.”