MITOLOGIA – HERÓIS – José Francisco Botelho

ODISSEU

A primeira parada nessa mirabolante travessia foi a Ilha dos Lotófagos. O país tinha esse nome porque seus habitantes se alimentavam do lótus: um fruto mágico que apagava todas as lembranças. Os lotófagos eram criaturas desmemoriadas e felizes: viviam num eterno presente, desconhecendo o passado e sem pensar no futuro. Alguns dos marujos de Odisseu experimentaram a guloseima local: imediatamente, esqueceram-se do lar e resolveram ficar para sempre naquela maravilhosa amnésia. Odisseu teve de arrastá-los à força de volta aos navios – e partiu dali o mais rápido possível. Ele ainda passaria por muitos perigos, mas o primeiro talvez tenha sido o maior deles: as delícias do esquecimento são uma tentação à qual é difícil resistir.”

Como de praxe naqueles tempos, Odisseu levava consigo um presente para oferecer a possíveis anfitriões. Era um vinho fortíssimo e de sabor indescritível, que trouxera da ilha de Ismaura.”

Odisseu pigarreou e deu um passo à frente; falando em palavras açucaradas e suaves, como sempre, lembrou o gigante sobre as leis da hospitalidade, respeitadas por deuses e por mortais. O cíclope soltou uma gargalhada furiosa.

– Eu sou Polifemo, filho de Posêidon! Em minha caverna, não há outra lei além de minha vontade!”

As sinistras refeições tornaram-se rotina. Todos os dias, o cíclope levava seus rebanhos para pastar, deixando a caverna selada; voltava de tardezinha, e matava a fome degustando dois gregos antes de dormir.”

ULISSES & SUA SAGA CONTRA O NADA

– Um presente magnífico – exclamou o gigante em meio a sa bebedeira. – Agora me diga o seu nome, para que eu lhe devolva essa gentileza em espécie.

– O meu nome – respondeu Odisseu – é Ninguém.

– Excelente, meu caro Ninguém! Agora, eis o meu presente para você: vou devorá-lo por último. – E com isso, o Cíclope mergulhou num sono profundo.”

– Polifemo, que mal o aflige? Quem o feriu? – perguntavam os Ciclopes.

– Ninguém! – gritou Polifemo. – Ninguém me feriu! Ninguém está escondido em minha caverna! Ninguém quer me matar!

Os demais Ciclopes foram embora.”

O senhor dos oceanos planejava uma longa e dolorosa vingança.”

Eolo deixou solto apenas o suave Zéfiro, o vento Oeste, que se encarregou de soprar a frota de Odisseu rumo à terra natal. Odisseu passou a viagem encerrado em sua cabine, agarrando com força o saco que continha os ventos; temia que um deles escapasse por engano e soprasse a frota para longe… Quando estava apenas a algumas horas de viagem de Ítaca, o comandante da esquadra caiu no sono. Sua tripulação havia dias vinha arrastando o olho para aquele presente.” “Ítaca afastou-se, afastou-se até desaparecer no encapelado horizonte…”

Navegou até os confins ocidentais do mundo, terras soturnas, cobertas por uma noite eterna – e chegou ao Rio Oceano, um gigantesco anel de águas que envolvia toda a Terra. Lá, desembarcou em um promontório coberto por bosques negros; no fundo da floresta, estava a entrada do Hades.” “o fantasma de Tirésias; o adivinho aproximou-se em meio aos nevoeiros do além, apoiado em seu cajado.”

Nem bem se livraram das Sereias, os viajantes tiveram de enfrentar o mais horripilante obstáculo da jornada: o Estreito de Cila e Caríbdis.” “De todas as coisas funestas que testemunhei, murmurou, nada me causou mais dor do que a visão de meus camaradas gritando meu nome em vão e desaparecendo na neblina sangrenta.”

O pobre herói foi mantido em uma espécie de prisão amorosa na Ilha de Ogígia por nada menos que 7 anos – tendo de atender aos desejos insaciáveis de Calipso noite e dia, sem descanso. Finalmente saciada, ela deixou que Odisseu partisse em uma jangada improvisada.”

<Que grande honra para Nausícaa se, em vez dos verdes garotões feácios, ela tivesse por marido um homem experiente, sofrido e testado nas agruras do mundo…>, o rei disse, como quem não quer nada.”

Estava cansado, infinitamente cansado; para falar a verdade, não sabia que tipo de recepção o esperava em Ítaca – e se sua esposa, Penélope, houvesse cedido aos avanços de outro homem? Afinal de contas, vinte anos haviam-se passado desde que Odisseu partira de casa.”

A última grande façanha de Odisseu em sua jornada pelo mundo foi recusar a mão da doce e inesquecível Nausícaa.”

Vinte anos são vinte anos. Árvores agora cresciam onde antes havia só campinas. Em outros pontos, bosques tinham desaparecido para dar lugar a plantações.”

Ele e Atena eram velhos amigos – mas, nos últimos anos, ela havia desaparecido de sua vida.” “Atena era tão bela e curvilínea quanto todas as deusas olímpicas – mas, ao contrário da maioria de suas parentas, vivia no mais completo celibato.”

<semelhante aos deuses> era o elogio que os heróis gregos mais gostavam de ouvir”

Por mais poderosa que fosse, Atena não era páreo para seu tio, cujas sísmicas oscilações de humor podiam sacudir os alicerces da terra e as profundezas do mar. Por sorte, Posêidon havia partido em uma longa viagem aos confins do mundo – fôra visitar os Hiperbóreos, seus servos mais queridos, que viviam nas últimas margens do Oceano.” Até os deuses viajam.

Era Argos, o cachorro que havia acompanhado Odisseu em muitos passeios e caçadas. Já tinha quase 30 anos – um verdadeiro Matusalém canino.” “Segurando as lágrimas, Odisseu fez uma breve carícia na cabeça esfalfada do amigo. Argos esticou a cabeça, fechou os olhos e morreu.”

Na sala do trono, havia um grande arco que ninguém além de Odisseu jamais conseguira disparar. Quem conseguir puxar este arco e lançar uma flecha com ele – declarou a rainha – terá a minha mão. O desafio era só uma artimanha para ganhar tempo: ela sabia que ninguém conseguiria [Ninguém conseguiria!] usar a arma além do legítimo rei de Ítaca.” referência ao Mahabharata Livro I!

Odisseu, Telêmaco e os dois criados lutaram contra mais de 100 inimigos. Foi uma luta desigual, pois Odisseu tinha do seu lado ninguém menos que Atena.”

PERSEU

O rei de Argos [líder da matilha?] jamais terá filhos; e será morto pelas mão do próprio neto.”

o rei ordenou que seus engenheiros construíssem uma torre de bronze e encerrou a princesa lá em cima. Cercou-a de trancas e paredes metálicas; ao redor da torre, prendeu cachorros furiosos.”

BARROQUIZAÇÃO DOS MITOS COM DIREITO A GOLDEN SHOWER DIVINA: “À noite, já exausta de tanto chorar, ela escorregava para sonhos úmidos em que um herói ou um deus vinha salvá-la de sua virgindade forçada. Zeus, o senhor dos deuses, acabou comovido pelas lágrimas de Dânae (…) no caminho, transformou-se em uma cálida chuva de gotas douradas. Aquela torrente brilhante e luxuriosa escorreu pelas grades das janelas, encharcou o vestido de Dânae, molhando-lhe os seios e as coxas. Meio desperta, meio acordada (sic), ela soltou um grito de prazer havia muito tempo contido no fundo de sua alma. Um deus a possuía, e por isso ela estava livre.

Naquele dia, foi concebido Perseu.”

Acrísio ordenou que a serva fosse estrangulada e tomou uma espada para trespassar o menino, que se agarrava ao pescoço de Dânae. Mas sua mão fraquejou.”

BOCETAS & MULHERES: “Sepultados sob as águas, a princesa e seu filho estavam condenados a morrer de fome e sede. Ou seriam jogados contra os rochedos e recifes do Mar Egeu. Vendo a arca desaparecer no horizonte, em meio às crespas elevações do mar, Acrísio sentiu a alma serena, pela primeira vez em muitos anos.”

PERSÉDIPO: “Se sua intenção é casar-se com Hipodâmia, e não com minha mãe, eu lhe darei qualquer coisa. – Perseu retrucou, impetuoso. – Até a cabeça de uma Górgona.” “Na época, poucos monstros eram mais temidos que as Górgonas. Séculos atrás elas haviam sido 3 jovens e formosas irmãs. Vaidosíssimas, gabaram-se de ser mais lindas que as deusas do Olimpo. A blasfêmia foi castigada de forma exemplar: as 3 irmãs foram convertidas em monstros horrendos. Suas louras madeixas se tornaram ninhos de serpente. Os lábios viraram focinhos e presas de javali brotaram de suas gengivas.” “Medusa era a mais feroz das Górgonas. E também a única mortal.”

três Gréias – criaturas decrépitas e monstruosas que dividiam entre si um único olho e um único dente. Perseu esgueirou-se até a sombria moradia das Gréias, ao pé do Monte Átlas, e roubou seu maior tesouro: o olho e o dente, sem os quais elas não podiam enxergar nem alimentar-se. Cegas e incapazes de atacá-lo, as Gréias tiveram de responder a todas as suas perguntas, revelando o caminho para o Jardim das Hespérides. Por sorte, o local ficava ali perto, à sombra do Monte Átlas. De bom grado, as ninfas entregaram a Perseu 3 artefatos fantásticos: um par de sandálias aladas, que havia pertencido a Hermes, o mensageiro dos deuses; o capacete de Hades, que tornava invisível quem o usasse; e um alforje mágico, em que Perseu poderia guardar a cabeça de Medusa sem que ela apodrecesse. Para completar o arsenal, Atena deu-lhe um escudo de bronze rutilante. A superfície era tão polida que parecia um espelho.” “Calçando as sandálias aladas, Perseu voou em direção à Hiperbórea, uma região nos confins do mundo varrida por ventos gelados e envolta em sombras permanentes. Encontrou as Górgonas adormecidas em meio a um sinistro Jardim, adornado com estátuas de homens e animais.” “o sangue de Medusa jorrou. Suas irmãs imortais, Estênelo e Euríale, despertaram enfurecidas e puseram-se a buscar o assassino. Mas Perseu usava o capacete de Hades – e voou, invisível, para bem longe dali.”

Havia tempos o reino da Etiópia era assolado por um pavoroso monstro marinho, que erguia vagalhões com seus braços, devorava navios inteiros e devastava o litoral com as chicotadas de seu rabo gigantesco. Um oráculo revelava que o levitã só seria aplacado se o rei etíope lhe entregasse a própria filha.” “Semanas depois, Perseu iria pousar na Grécia, carregando Andrômeda – com quem se casara, é claro.”

Anos mais tarde, Perseu participava de uma competição atlética na cidade de Larissa. Seu esporte favorito era o arremesso de discos. No meio de um lançamento, contudo, uma rajada de vento desviou o disco de Perseu na direção da platéia. Um dos espectadores tombou nos degraus da arena, com a cabeça fatalmente rachada. Dânae, que estava do outro lado das arquibancadas, soltou um grito ao ver aquele rosto que manchava de vermelho o mármore branco.

O oráculo se cumprira: Acrísio acabara de ser morto por seu neto.”

HÉRCULES (HÉRACLES)

Perseu foi um dos mais célebres heróis gregos – mas o que se tornou o modelo épico de todos os outros foi seu bisneto, Héracles.”

Zeus, sabendo da exemplar fidelidade de Alcmena, tomara a aparência de Anfitrião para seduzi-la”

Os 12 trabalhos

1. “arrancar o couro do monstruoso Leão da Neméia. A fera, que havia caído da Lua, tinha a pele invulnerável a qualquer arma, e ninguém jamais conseguira feri-la.

Viajando até a Neméia, Héracles encontrou a região quase deserta: o leão havia devorado a maior parte dos habitantes.”

Héracles ficou tão orgulhoso dessa proeza que, daquele dia em diante, passou a usar a pele do Leão da Neméia amarrada ao redordo corpo.”

2. “que decapitasse a Hidra de Lerna”

Héracles enterrou-a sob uma enorme pedra no meio do pântano – e a última cabeça da Hidra está lá até hoje, vivíssima e cheia de um insaciável ódio pela humanidade.”

3. “que trouxesse a famosa corça da Cerínia. A bela criatura, que tinha cascos de prata e chifres de ouro, era conhecida por sua velocidade sobrenatural.” “O herói perseguiu a corça, a pé, durante um ano inteiro, seguindo-a até os confins da terra, sem jamais disparar uma seta – pois não queria ferir um animal tão bonito. Certo dia, a corça adormeceu exausta debaixo de uma árvore, e o herói a apanhou numa rede.”

4. “que o javali de Erimanto fosse levado com vida até Micenas”

5. “que limpasse os célebres e imundos currais do rei Áugias.

Áugias, governante de Élis, possuía os maiores rebanhos do mundo: por graça divina, seus animais eram livres de doenças, além de gozar de uma fertilidade sobrenatural. Mas toda fortuna tem seu lado fétido. Áugias possuía tantos bois, cavalos e ovelhas que nem mesmo um exército de servos seria capaz de limpar diariamente os currais de Élis. Havia 30 anos que o esterco de milhares de animais se acumulava em grotescas e imensas camadas nos pátios e nas paredes. Euristeu divertiu-se imaginando o grandioso Hércules a carregar infinitos baldes de estrume em seus ombros heróicos.”

Em um único dia, e sem sujar as mãos, Héracles realizou a faxina mais célebre da mitologia grega.”

6. “As aves do Estínfale tinham bicos, patas e plumas de bronze. Ao voarem pelo céu, despejavam na terra um dilúvio de penas afiadas como punhais. Héracles [foi] encarregado de livrar a Arcádia daquela praga” “Atena presentou Herácles com 2 címbalos (castanholas de metal), forjadas por Hefesto.”

7. ONDE ESTÁ ARIADNE? “Havia décadas que a ilha de Creta era assolada por um touro selvagem que soltava chamas pelas ventas, incendiando plantações e derrubando casas com os chifres. (…) foi esse mesmo animal quem engendrou o Minotauro. (…) amansado por Héracles, o touro ficou anos perambulando pela Grécia sem causar danos.”

8. “4 éguas incrivelmente ferozes, que viviam atadas a grossas correntes de ferro. (…) Sempre que algum viajante desavisado pedia hospedagem em seu palácio, o sádico Diomedes presenteava suas éguas com um horrendo banquete. (…) Héracles desafiou Diomedes para um duelo e derrubou-o a golpes de clava. Depois, jogou-o na baia das éguas antropófagas, que devoraram seu dono ainda vivo. (…) Amansadas e tornadas herbívoras, as éguas passaram o resto de seus dias pastando em Micenas.”

9. “A região da Frígia (parte da atual Turquia) era ocupada pela belicosa nação das Amazonas. Elas eram súditas de Ares, o deus da guerra (…) Hipólita, a rainha das Amazonas, não usava coroa na cabeça: em vez disso, andava sempre com os belos quadris cingidos por um cinturão de ouro. Admeta, a mimada filha de Euristeu, sonhava em adornar-se com aquele famoso enfeite.”

O filho de Zeus reuniu uma tropa de confrades heróicos, entre os quais se incluía Teseu [Plutarco], rei de Atenas, e zarpou rumo à Frígia. Ancorou seu navio no litoral e enviou uma mensagem a Hipólita, convidando-a para um banquete a 2: pretendia usar seus dotes de sedutor para resolver a questão.”

Seduzida pelo corpo musculoso de Héracles, Hipólita lhe ofereceu de bom grado o cinturão de ouro, como prova de amor. Tudo teria acabado sem derramamento de sangue, não fosse por Hera. Transformando-se em amazona, a deusa correu pelo acampamento e gritou que os gregos haviam raptado a rainha. (…) Comandados por Héracles e Teseu, os gregos conseguiram repelir o ataque e zarparam, levando Hipólita como prisioneira. Héracles apoderou-se do cinturão, deu um rápido beijo em Hipólita e depois a entregou a Teseu. A rainha das Amazonas acabou se apaixonando pelo rei de Atenas, com quem teve um filho, chamado Hipólito.”

10. “Gerião, descendente dos antigos Titãs, era o rei da cidade de Tartessos, nos confins ocidentais do mundo, às margens do Rio Oceano. Nascera com 3 cabeças, 6 braços e 3 troncos unidos pela cintura; sua maior riqueza era um rebanho de belíssimos bois vermelhos, que ficavam a pastar nas bordas do mundo. (…) mirando um dos flancos do monstro, conseguiu trespassar-lhe os 3 corpos com uma única e compridíssima flecha. (…) atravessar toda a Europa com o gado roubado. Héracles passou anos tocando a boiada até chegar a Micenas.

11. “No dia em que se casou com Zeus, Hera recebeu de sua avó, Gaia, um presente deslumbrante: uma árvore que dava refulgentes maçãs de ouro.”

Segundo as profecias do Oráculo de Delfos, nenhum mortal podia colher os frutos da macieira sagrada sem perecer. (…) Chegando ao pé do gigante Átlas, ofereceu-se para aliviar seu fardo por algum tempo – desde que o Titã lhe trouxesse alguns frutos do jardim encantado.”

12. “Os antigos gregos conheciam duas entradas para o reino de Hades: a caverna Aquerúsia, às margens do Mar Negro, e uma fenda nos rochedos do Cabo Tênaros, no Peloponeso.”

Antes de se engalfinhar com o cão infernal, Héracles foi pedir permissão ao dono da fera – Hades. O temido Senhor dos Mortos respondeu que o herói podia levar o monstro, desde que conseguisse capturá-lo sem utilizar nenhuma arma.”

* * *

Após pagar seus pecados cumprindo as 12 tarefas colossais, Hércules continuou perambulando pela Grécia e realizando as mais variadas façanhas – tantas que seriam necessários muitos livros iguais a este para contá-las.” “Dejanira amava loucamente seu marido, mas se ressentia de suas constantes infidelidades (também nisso Héracles havia puxado ao pai).”

A GUERRA DE TRÓIA

Na época de Platão e Aristóteles, os gregos consideravam a Guerra de Tróia o marco fundador de seu país.”

Como disse Homero, em um dos mais célebres versos da Ilíada: <Os deuses criam sofrimentos e conflitos para que os homens tenham histórias para contar>.”

Quando Helena tinha apenas 12 anos, sua beleza já causava batalhas. Teseu, rei de Atenas, reuniu um exército e invadiu Esparta só para raptá-la. Enfurecidos, Cástor e Pólux convocaram um batalhão de espartanos e devastaram a Ática, região onde ficava Atenas, até encontrar e resgatar a irmã. Nascia ali a rivalidade entre Atenas e Esparta, que se estenderia até os tempos históricos.”

Tíndaro entregou sua cobiçada filha adotiva a Menelau, irmão do riquíssimo Agamênon – o mais abonado dos soberanos gregos, que governava a grande cidade de Micenas. O próprio Agamênon recebeu a mão de Clitemnestra – forjando, assim, um vínculo formidável entre duas das cidades mais poderosas da península grega.”

A belíssima Tétis já atraíra olhares cobiçosos de Zeus; mas o senhor do Olimpo não se atrevera a possuí-la: segundo uma profecia, o filho de Tétis estava destinado a ser muito mais poderoso que seu pai. Por isso, a divina Tétis foi obrigada a casar-se com um mortal. Essa união estava fadada à infelicidade: Tétis ficaria jovem para sempre, enquanto Peleu envelheceria como todos os homens. Ainda assim, as núpcias entre a Nereida e o Argonauta foram uma celebração grandiosa. O festim, organizado pelo centauro Quíron, ocorreu nos prados à sombra do Monte Pélion – e foi ali que, pela última vez, deuses e mortais se sentaram lado a lado, compartilhando a mesa.”

DON JUAN & O REINO DAS 3 MULHERES: “Ouvi dizer que ninguém conhece mais a beleza feminina do que um pastorzinho que vive nas encostas do Monte Ida. O nome dele é Páris.” “Quando estava grávida de Páris, a rainha Hécuba sonhara que dava a luz a uma tocha – e as chamas consumiam toda a cidade. Um adivinho previu que o menino em seu útero seria a ruína de todos os troianos. Por isso, tão logo nasceu, Páris foi entregue a um pastor, que o criou nas encostas do Monte Ida. Naquelas paragens idílicas, o jovem exercitou suas perícias inatas de sedutor: no seu rol de conquistas, estavam não apenas as pastoras e camponesas da vizinhança, mas também ninfas que viviam nos bosques vizinhos.” “Com palavras doces, intimaram o pastor a fazer o mais célebre e funesto julgamento de beleza na história. Páris confessou-se indeciso: todas as candidatas eram deslumbrantes.

– Ajudaria se tirássemos a roupa? – sugeriu uma.

O troiano assentiu com o mais perfeito sorriso de satisfação. Contemplou, num instante, a metafísica nudez de Hera, Atenas e Afrodite (…)

– Não tenho como decidir, são todas lindas.

As candidatas apelaram para uma estratégia tão antiga quanto homens e deuses: o suborno. Hera prometeu-lhe o domínio sobre todos os povos da Ásia. Atena jurou torná-lo o mais sábio dos homens. Mas foi Afrodite quem ofereceu a ele a propina mais sedutora:

– Se me escolher, eu lhe darei o amor de Helena de Esparta, a mais bela de todas as mortais.

O pastor troiano não teve dúvidas: escolheu Afrodite, ganhou o ódio de Hera e Atena.

Ao fazer seu julgamento, Páris era apenas um adolescente, e ainda não sabia de sua origem ilustre.”

Elevado subitamente da pobreza ao fausto, ele tornou-se um dândi na corte troiana: sempre vestido com extravagância, coberto de perfumes e com os cabelos luxuosamente penteados.”

No dia em que Páris tomou o navio para Esparta, sua irmã, Cassandra, começou a chorar convulsivamente.

– Ele nos trará a morte, o fogo e a ruína – ela soluçou; Cassandra tinha o estranho e malfadado talento de ver o futuro com minúcias, mas as pessoas preferiam não ouvir suas previsões. Isso porque, certa vez, a princesa recusara os avanços de Apolo. Como castigo, ele condenara Cassandra a vislumbrar o destino pavoroso de sua família – sem poder fazer coisa alguma para mudá-lo.”

Exemplo de lealdade fraterna, Pólux não aceitou abandonar seu querido irmão àquele destino fantasmagórico. E decidiu dividir sua imortaidade com Cástor: Assim, os dois irmãos passaram a se revezar entre o céu e o inferno: até hoje, cada um deles passa um dia no Olimpo e outro no reino dos mortos. Encontram-se, às vezes, no meio do caminho, e conversam brevemente sobre os tempos em que andavam sobre a Terra. Em honra a eles, Zeus colocou no céu a constelação de Gêmeos – hoje, um símbolo do Zodíaco.”

Os modos de Páris logo atraíram a atenção das espartanas, acostumadas a homens que pensavam apenas em matar e conquistar.” Pouco verossímil… “Helena deixou-se levar, com uma mistura de medo e excitação.”

Naquela época, vivia em Argos um célebre adivinho, de nome Calcante. Foi um dos maiores videntes do mundo antigo, superado apenas por Tirésias. Alguns dizem que Calcante era troiano, mas fugira da cidade natal depois de contemplar, em uma visão do futuro, a ruína total da cidade. O certo é que, alguns anos antes, Calcante fizera uma profecia famosa: os muros de Tróia jamais cairiam, a menos que o filho de Peleu e Tétis estivesse entre os atacantes.”

Aquiles, aos 15 anos, já tinha um insaciável apetite por fama e glória.” “Aquiles também fez questão de levar Pátroclo – seu primo mais velho, que era também seu melhor amigo.”

Alguns soldados começaram a murmurar, impacientes, que os deuses zombavam de Agamênon. Os mais ousados já começavam a ridicularizar o pomposo título do <Rei dos Heróis>.” “os deuses não esquecem – muito menos as deusas. Agora Ártemis o tinha na palma da mão.”

Aquiles, que nada sabia daquela trama, enfureceu-se. Jamais tivera grandes simpatias por Agamênon, e o complô forjado com seu nome o atingiu como uma ofensa mortal. Já sacando a espada, e carregando a lança de carvalho presa às costas, ele correu à tenda de Agamênon, onde Ifigênia estava agora presa.” “- Essa é a vontade dos deuses – disse Ifigênia. – Não deixarei que a Grécia se destrua por minha causa.” “A frota grega finalmente partiu. Mas o entusiasmo dera lugar a um ânimo sombrio. Da amurada dos navios, alguns guerreiros avistaram uma figura vestida de negro que cavalgava para longe. Era Clitemnestra, de luto, retornando a Micenas. Em seu coração destroçado ela levava um único objetivo: vingar-se, um dia, de seu desnaturado esposo, o Rei dos Heróis.”

Egeu – cujas águas tinham cor de vinho, conforme garantem os poetas antigos”

Os encantos de Helena haviam enfeitiçado Tróia. A cidade inteira se apaixonara por ela. Príamo a amava como se fosse uma filha. Na rua, as pessoas soltavam gritos de êxtase ao vê-la passar. Em sua maioria, os troianos esperavam que as ameaças gregas nã passassem de blefe.”

A disputa entre gregos e troianos se transformou em uma verdadeira obsessão para a divina família do Olimpo – cujos membros resolveram acertar suas disputas internas usando o mundo dos mortais como tabuleiro.” DV 1914

Apolo foi outro que decidiu lutar ao lado dos troianos. Já Posêidon tinha protegidos em ambas as trincheiras. As preferências de Zeus também pendiam ora para um lado, ora para outro.”

Heitor, o filho mais velho de Príamo e Hécuba, se tivesse de escolher entre a glória e a felicidade, certamente teria preferido a segunda opção.”

os gregos estavam paralisados pelo medo de uma profecia: acreditava-se que o primeiro soldado a pisar nas areias da Trôade seria morto naquele mesmo dia.

Para dar fim à hesitação geral, Odisseu recorreu a um de seus estratagemas mais traiçoeiros. Jogou seu escudo na praia e pulou sobre ele, tendo o cuidado de não encostar um único dedo na areia troiana. O barco de Protesilau, rei da Filácia, estava junto à embarcação de Ítaca. <Ótimo>, pensou Protesilau, sem reparar no escudo sob os pés de Odisseu, <a profecia cairá sobre ele. Acabaram-se seus ardis, Odisseu!>. No instante seguinte, Protesilau saltou à praia – afundando até os tornozelos nas dunas salgadas. A cavalaria troiana avançou sobre ele. O rei da Filácia derrubou vários inimigos, mas a lança de Heitor acabou por lhe atravessar o peito.”

Que os gregos ficassem lá fora, na planície, espremidos entre as muralhas e o mar. Havia fontes de água potável dentro da cidade, e caminhos secretos ligavam Tróia à região da Dardânia, no Norte. De lá, viriam suprimentos e aliados.” “Nesse impasse, correram 9 anos.”

Briseis & Criseida

Nos ataques às regiões vizinhas, os gregos não roubavam apenas jóias e armas, mas também mulheres.” “Agamênon, querendo esquecer o ódio que vira nos olhos de Clitemnestra, tomou por concubina uma bonita jovem chamada Criseida. Filha de Crises, um sacerdote de Apolo, ela fôra capturada na cidade de Moésia, a leste do Monte Ida. Durante o saque de Lirnesso, Aquiles capturou a desejável rainha Briseis.” “Por algum tempo, Briseis conseguiu apagar da atormentada mente de Aquiles a lembrança de Ifigênia.”

Naquele momento de cansaço e desânimo generalizado, gregos e troianos poderiam ter feito as pazes. Mas uma série de acontecimentos acabou precipitando uma seqüência de fatos trágicos”

No início da primavera, Crises, o sacerdote de Apolo, veio ao acampamento grego implorar a devolução de sua filha, trazendo um rico resgate. Mas Agamênon o escorraçou aos gritos. Furioso e humihado, Crises ajoelhou-se à beira do mar e invocou a vingança de Apolo. Suas preces chegaram ao Olimpo, e a face dourada de Apolo ficou escura de raiva.” “Empunhando o arco, o deus disparou suas setas contra as hostes gregas. Cada guerreiro alvejado tombava ao chão, com febre, delirando. Durante 9 dias, as flechas de Apolo espalharam uma praga mortal pelo acampamento grego. Piras crepitavam do entardecer à alvorada.”

– Fizemos por merecer a cólera de Apolo – disse Aquiles. – Que o grande Rei devolva sua concubina, e escolha outra. Graças aos nossos esforços, há muitas prisioneiras e muitas riquezas à sua disposição.

A maioria dos guerreiros apoiou a sugestão – e todos sorriram ante a agulhada indireta contra o Rei dos Heróis. Agamênon foi obrigado a ceder, mas a raiva borbulhava em sua alma: há tempos ele ressentia a popularidade de Aquiles entre os soldados.

– Muito bem, Criseida voltará aos braços de seu pai – disse o rei. – Mas com uma condição. Aquiles, você mesmo disse que posso escolher quem eu quiser, entre as nossas prisioneiras. Pois bem, tragam-me Briseis agora mesmo. Ela será a minha concubina! E esta noite o seu leito ficará vazio, filho de Peleu.

Os olhos de Aquiles coruscaram. Sua mão desceu ao cabo da espada – e ele teria decapitado Agamênon ali mesmo, de um único golpe, se não fosse por Atena.” “Invisível aos olhos mortais, ela correu feito uma rajada de vento até Aquiles e sussurrou em seu ouvido:

– Não cometa essa loucura. Aguarde. Os deuses lhe darão glória redobrada, se você obedecer.

Aquiles respirou fundo. Controlando a muito custo seu impulso assassino, o filho de Peleu abriu os braços e gritou:

– Pois então escute meu juramento, Rei dos Heróis! Os troianos jamais me ofenderam. Não roubaram meu gado nem feriram minha família. Foi em busca de glória que cruzei o mar, mas encontrei vergonha. Minha espada não vai se erguer novamente contra Tróia, e os teus soldados serão derrubados um a um pelo grande Heitor. Que desgraça ter de combater um inimigo tão valoroso, em nome de um aliado tão estúpido!”

* * *

Cansado do desprezo que lhe votavam os troianos, Paris estava disposto a provar seu valor. Desafiou os gregos a enviarem contra ele seus maiores campeões.

No mesmo instante, Menelau avançou de espada à mão, sequioso de vingança. Antes que o combate tivesse início, Heitor e Odisseu avançaram para parlamentar. Combinou-se uma trégua. Todos concordavam que aquela guerra já durava tempo demais. Ficou acertado que o vencedor daquele duelo ficaria com Helena – e o conflito chegaria ao fim, sem que mais ninguém tivesse de morrer.

A luta começou. Páris foi o primeiro a arremessar a lança, que foi cravar-se no escudo do grego. Emseguida, o troiano esquivou-se à azagaia do rei de Esparta, que em seguida o golpeou com a espada. A lâmina se partiu contra o elmo de Páris, mas o príncipe perdeu o equilíbrio e caiu para trás. Com um grito de triunfo, Menelau agarrou-o pelo capacete e começou a arrastá-lo em direção às linhas gregas. Com os cordões do elmo estrangulando seu pescoço, Páris desmaiou. A Guerra de Tróia teria acabaodo naquele momento, se não fosse por Afrodite- vendo seu querido súdito à beira da morte, ela desceu ao campo de batalha envolvida em uma nuvem de vapor e arrebatou o príncipe troiano. De repente, Páris descobriu-se em seu quarto, deitado sobre os lençóis perfumados – e, lá fora, a matança recomeçou. Enquanto Menelau procurava inutilmente o inimigo que acabara de derrubar, um arqueiro troiano chamado Pândaro cometeu a tolice de disparar seu arco – Atena o havia inspirado traiçoeiramente a alvejar o rei de Esparta. A flecha acertou a cintura de Menelau – a fivela do cinto evitou uma ferida mortal, mas o sangue escorreu por suas pernas, e um grito de indignação se levantou das linhas gregas. A trégua estava rompida.”

os mirmidões permaneciam ociosos junto aos navios, entretendo-se a tocar lira ou lançar discos, enquanto seu chefe continuava cismando com os olhos fixos no mar.”

Foi graças a Diomedes que a investida troiana foi rechaçada. Num duelo encarniçado, ele quebrou com um pedregulho a perna de Enéias – o guerrero mais hábil entre os troianos, depois de Heitor. Enéias era fruto dos amores entre Afrodite e o mortal Anquises, um nobre da família real troiana. Mais uma vez, a deusa do amor desceu à batalha – agora, para salvar seu amado filho.

Os deuses, sempre que desejavam, podiam ficar invisíveis aos olhos mortais – indo e vindo feito uma brisa ou um pensamento. Naquele dia, contudo, Atena conferiu a Diomedes um dom formidável: o poder de ver os deuses a qualquer momento, em qualquer lugar. Em meio ao furor da batalha, o jovem rei avistou a forma luminosa de Afrodite descendo em direção a Enéias. Diomedes não teve dúvidas: arremessou a lança com toda a força, rasgando o delicado vestido da deusa e perfurando a aromática pele de seu braço. Pelo pulso de Afrodite, escorreu o icor – o néctar dourado que flui nas artérias divinas, assim como o sangue corre pelas veias dos mortais. Com um grito de dor, Afrodite deixou cair Enéias e fugiu em direção ao Olimpo.

Inebriado por sua façanha, Diomedes admirou a bela figura da deusa que fugia, derramando gotas de ouro. Apolo, oculto numa nuvem de poeira, aproveitou o momento para apanhar Enéias nos braços e levá-lo para bem longe dali. Diomedes, sempre tão ponderado, estava naquele dia possuído pelo espírito da ousadia. Num salto, disparou atrás de Apolo, tentando acertar Enéias. Três vezes o golpeou com a espada, e três vezes Apolo repeliu seu ataque. Diomedes erguia a mão para desferir o quarto golpe quando Apolo voou pelos ares e depositou o filho de Afrodite no alto do Monte Pérgamo. Se não fosse por isso, toda a história do mundo teria sido diferente – pois foram os descendentes de Enéias que, muitos séculos depois, fundaram o Império Romano.

Disposto a vingar Afrodite, com quem tinha um antigo caso de amor, Ares lançou-se sobre os gregos brandindo sua acha gigantesca. Avistando o vulto monstruoso, que ceifava homens como se fossem bonecos, Diomedes correu até ele com fúria. Naquele instante, Atena conferiu ao seu braço força redobrada – e a lança de Diomedes enterrou-se no ventre de Ares, no ponto exato em que a couraça terminava. O icor jorrou, e o deus da guerra soltou um grito horrendo; por um instante, ambos os exércitos ficaram paralisados de medo.

Diomedes respirou fundo e piscou os olhos. Ares fugia pelos ares, rumo ao Olimpo. Em uma única tarde, o jovem rei de Argos havia enfrentado três deuses – façanha que os poetas do futuro jamais esqueceriam.”

Naquela mesma tarde, Heitor tentou novamente resolver a guerra com um combate singular. Erguendo a lança de bronze diante das linhas troianas, convocou nova trégua e desafiou os inimigos a enviar seu maior campeão para um duelo. Os gregos tiraram a sorte; e a escolha recaiu sobre o Grande Ájax. Ele avançou com seu famoso escudo, constituído por 7 camadas de couro de boi e uma grossa chapa de bronze. O príncipe de Tróia e o príncipe de Salamina duelaram a golpes de lança, sob os brados de ambos os exércitos, enquanto o sol caía em direção ao horizonte. No início da noite, detiveram-se, arfantes e ensangüentados: o resultado do duelo fôra um justíssimo empate. A luta renhida havia criado um laço de respeito mútuo entre os dois inimigos, que trocaram elogios e presentes. Ájax brindou Heitor com um suntuoso boldrié de cor púrpura [cinturão], enquanto o troiano lhe deu sua espada, uma formidável arma de bronze marchetada em ouro. Separaram-se como amigos, embora soubessem que no dia seguinte a guerra recomeçaria. Não desconfiavam que Moira determinara um papel sombrio para os presentes que haviam garbosamente trocado.”

– Me empreste sua armadura! – Pátroclo suplicou. – Ao me verem, os troianos pensarão que o grande Aquiles voltou à luta, e sairão em debandada!

A contragosto, Aquiles assentiu. Não queria roubar do primo a chance de mostrar seu valor. E assim, Pátroclo ajustou ao corpo a legendária armadura de Aquiles, a mesma que Peleu havia recebido no dia de seu casamento: couraça e grevas [caneleiras] banhadas em ouro, reluzentes como o sol refletido nas águas. O capacete escondia seu rosto, deixando de fora apenas os olhos e a boca.” “o deus Apolo, na forma de um nevoeiro, zproximou-se dele pelas costas e desferiu um terrível soco entre suas omoplatas. O elmo voou longe, Pátroclo perdeu o fôlego, cambaleou – e sentiu uma estocada no ventre. Num átimo, Heitor lhe havia atravessado a barriga com o pontiagudo bronze.” “Tétis viajou até as profundezas do Monte Vesúvio e pediu a Hefesto, o ferreiro dos deuses, que forjasse para Aquiles uma nova armadura e um novo escudo. Tão logo recebeu o equipamento divino, Aquiles subiu em seu carro de guerra.” “o herói, transformado em carniceiro, atirou-se nas águas atrás de suas vítimas e degolou-as a todas como se fossem cordeiros.” “Ele era apenas um homem, e teria de enfrentar um semideus em plena fúria.” “Tentou cansar Aquiles, obrigando-o a correr atrás dele, ao redor dos muros; mas por fim se deteve e avançou, de espada em punho, coberto pela armadura que tirara de Pátroclo. Aquiles abaixou-se atrás do escudo de Hefesto, buscando com os olhos algum ponto vulnerável no inimigo. Viu uma fresta entre a couraça e o elmo, e para lá dirigiu sua azagaia, com impulso brutal: a ponta de bronze entrou na garganta e saiu pela nuca. Heitor tombou numa golfada de sangue. E seu espírito despencou vertiginosamente rumo à Mansão dos Mortos, lamentando sua família, sua juventude perdida e a iminente queda de Tróia.”

Certa noite, quando o acampamento grego estava mergulhado no sono, Hermes, o arauto divino, conduziu o rei Príamo à tenda de Aquiles. O soberano de Tróia, devastado por anos de perdas e sofrimentos, viera implorar que lhe entregassem o corpo do filho. De joelhos, fez uma das súplicas mais célebres nas histórias e nas lendas antigas:

– Para que Heitor tenha o funeral que merece, farei agora o que ninguém mais suportaria fazer: vou beijar a mão do homem que matou meu filho.” “Aquiles escoltou Príamo até o território troiano e prometeu-lhe uma trégua de 11 dias para que a cidade celebrasse os funerais do grande Heitor.”

O filho de Peleu e Tétis estava cansado daquela guerra, que lhe parecia sem sentido. Já se arrependia da escolha que fizera anos atrás – seria tarde demais para mudar de idéia e trocar a glória letal por uma tranqüila e vulgar felicidade?

Em vez de combater, ele agora preferia freqüentar o templo de Apolo Timbriano, uma singela construção nos arrabaldes da cidade, que era considerada território neutro. Lá, gregos e troianos às vezes se encontravam quando iam fazer preces e oferendas. Numa dessas ocasiões, Aquiles avistou Polixena, uma das filhas mais novas de Príamo. Foi só então que a lembrança de Ifigênia desapareceu de sua mente. O guerreiro invencível foi sobrepujado por uma paixão incontrolável pela princesa troiana. Era um amor tão avassalador que Aquiles se dispôs a trair os companheiros. Enviou mensageiros a Príamo, garantindo que ajudaria os troianos contra os gregos, se Polixena lhe fosse dada em casamento. O rei de Tróia concordou; mas Polixena e seus irmãos odiavam Aquiles amargamente, e aproveitaram-se daquela paixão para vingar a morte de Heitor. Encontrando-o em segredo no templo de Apolo, Polixena envolveu o grego em seduções e indiretas, até fazê-lo confessar qual era seu único ponto invulnerável – o calcanhar [Sansão, o Plágio]. Depois, pediu que Aquiles voltasse ao templo dali a alguns dias, sozinho e desarmado, para celebrar o matrimônio.

Jamais saberemos se Aquiles desconfiou de alguma coisa. O fato é que cumpriu o desejo de sua amada. Deífobo, irmão de Heitor e Polixena, recebeu-o junto ao altar e lhe deu um abraço, fingindo acolhê-lo como membro da família. Mas, naquele momento, Páris, tocaiado atrás da estátua de Apolo, disparou uma flecha envenenada no único ponto fraco do mais poderoso dos gregos. Outros troianos, que estavam escondidos atrás do altar, saltaram sobre Aquiles. Mesmo ferido e desarmado, ele matou vários inimigos a socos.” Cronologia bastante desrespeitada pelas adaptações.

Após a morte de Aquiles e Ájax, os gregos começaram a se desesperar.”

Filoctetes embarcou rumo às praias de Tróia, com 10 anos de atraso. Sua ferida, com efeito, foi tratada e curada por Macaôn e Podalírio, filhos de Esculápio, deus da medicina – que tinham vindo da Tessália, para se juntar às tropas gregas.

Tão logo sentiu a perna sarar, Filoctetes desafiou Páris a um duelo de arco e flecha. Páris disparou a primeira seta, e errou; Filoctetes atirou 3 projéteis na seqüência, acertando o troiano na perna, no peito e no rosto. E, assim, o maior mulherengo das lendas e dos mitos encontrou seu fim, trespassado de setas e fulminado pelo nefasto sangue da Hidra de Lerna – que, anos depois de sua derrota às mãos de Héracles, continuava fazendo vítimas entre os humanos.

Os gregos haviam queimado o próprio acampamento. Todos os navios tinham zarpado.” “O vidente Calcante anunciou que, se essa estátua fosse levada para o interior de Tróia, o rei Príamo acabaria por derrotar os gregos. Por isso, a estátua fôra construída de tal forma que não pudesse ser transportada pelos portões da cidade.” “Príamo foi massacrado, com grande parte de seus filhos, no pátio do templo de Zeus. Cassandra refugiou-se no templo de Atena, mas o Pequeno Ájax a perseguiu sem piedade, e alguns dizem que ele a violentou ali mesmo, sobre o altar da deusa. Menelau finalmente reencontrou Helena, e estava prestes a degolá-la por sua mortífera infelidade quando a filha de Leda abriu o vestido, mostrando-lhe seus mitológicos seios [HAHA!]. Helena já tinha quase 50 anos à época, mas as gotas de icor em suas veias lhe conservavam o frescor de eterna adolescente. Menelau foi incapaz de destruir tanta beleza e levou-a de volta a Esparta, onde Helena remoeu remorsos, lembranças e saudade até o fim de seus dias.” “Embora odiasse os troianos, Atena ficara enojada com o estupro de Cassandra em seu altar. Quando o navio do Pequeno Ájax se aproximava da Lócrida, ela jogou sobre ele uma tremenda tempestade. O navio afundou, mas Ájax, que era exímio nadador, conseguiu salvar-se com vigorosas braçadas. Escalou um penhasco que se erguia entre as ondas e, lá do alto, gritou:

– Nem mesmo os deuses podem me matar!

Irritado com aquela arrogância, Posêidon ergueu-se do fundo do mar e destroçou o Pequeno Ájax com um golpe de tridente.”

Agamênon retornou a Micenas levando Cassandra como concubina. Mas sua esposa, Clitemnestra, jamais lhe perdoara o sacrifício de Ifigênia. Com a ajuda de um amante, chamado Egisto, a rainha tramou o assassinato do esposo. Durante um banquete, Agamênon foi enveneado e esfaqueado até a morte. Electra e Orestes, filhos do casal, eram pequenos demais quando a irmã Ifigênia fôra morta e mal se lembravam dela. Por isso, ficaram horrorizados com o assassinato do pai. A tragédia completou-se quando Orestes e Electra resolveram vingar a morte de Agamênon, encurralando e matando Egisto e Clitemnestra. A terrível história da família de Agamênon é um dos temas das peças de Ésquilo e Eurípides, dois dos maiores escritores gregos.

OS ARGONAUTAS

O Oráculo de Delfos assim havia determinado: os campos de Orcômenos só voltariam a florescer quando o rei sacrificasse os próprios filhos, o príncipe Frixo e a princesa Hele.”

Assim como havia ninfas dos rios, das florestas e das montanhas, também havia ninfas das nuvens – e Nefele era uma delas. Naqueles tempos, aliás, o céu era habitado por uma ampla variedade de criaturas voadoras. Nefele desfrutava a amizade do famoso Carneiro Dourado. Filho de Posêidon e da mortal Teofane, o animal tinha lãs de ouro, era inteligente como um ser humano e capaz de voar como um pássaro.” “Segundos depois, Frixo e Hele cruzavam o céu, agarrados à lã dourada. Lá embaixo, terras e mares sucediam-se loucamente, e o vôo do divino animal os arrebatava para longe da Grécia. Encantada por aquela visão, Hele inclinou-se demais, perdeu o equilíbrio e despencou pelos ares. A princesa tombou e afundou nas águas de um estreito entre o Mar Negro e o Mar Egeu. E o local passou a ser conhecido como Helesponto, ou Mar de Hele (hoje o nome do estreito é <Dardanelos>).” “Eram os picos do Cáucaso, no limite entre a Europa e a Ásia. E o Carneiro pousou.

Exausto, o fantástico animal soltou o último suspiro. Mas seu espírito disparou rumo às alturas, e subiu e subiu até ultrapassar as nuvens e chegar às estrelas, onde está até hoje – o Carneiro do Zodíaco. Já sua lã dourada ficou aqui embaixo – com ela, Frixo confeccionou o Velocino de Ouro.”

DIC – velocino: diminutivo de tosão, velo

O homem destinado a roubar o Velocino era Jasao, filho de Éson, rei da cidade de Iolcos, na Tessália. Quando Jasão era ainda criança, Éson foi destronado pelo irmão, Pélias. O usurpador trancafiou o rei no calabouço e enviou soldados para capturar o bebê. Mas Alcimede, mãe de Jasão, conseguiu enviar o filho, em segredo, para fora da cidade. O príncipe sem reino foi entregue ao centauro Quíron, que o educou no costumeiro curriculo dos heróis gregos.”

Pélias não queria matar um parente – pois poderia incorrer na vingança das Erínias [Fúrias], que punem todos aqueles que vertem o sangue da própria família. (…)

– Eu lhe entregarei o trono – disse – se você viajar até a Cólquida e me trouxer o Velocino de Ouro.” “Em seguida, Jasão enviou emissários a todas as côrtes da Grécia, convocando voluntários para aquela missão. A fama do Velocino de Ouro e a perspectiva de gloriosas aventuras atraíram alguns dos maiores heróis da época. O primeiro a atender a seu chamado foi Argus, um célebre construtor naval. Ele projetou o maior navio dos tempos mitológicos: uma galera com 50 remos – batizada de Argo, em honra ao seu construtor. E 50 guerreiros foram escolhidos para tripular o navio – dali por diante conhecidos como Argonautas.

O grande Héracles fez uma pausa em seus 12 Trabalhos, trazendo consigo Hilas, seu filho com a ninfa Melite. Cástor e Pólux, irmãos de Helena, foram os representantes de Esparta. De Atenas, vieram Zetes e Calais – marinheiros alados, filhos da princesa Orítia e de Bóreas, o tormentoso Vento Norte. Do pai, haviam herdado as asas majestosas e rápidas. Outro Argonauta célebre foi Orfeu, o maior poeta e músico dos mitos gregos. Seu talento era sublime: quando dedilhava sua harpa na solidão das florestas, as árvores moviam-se lentamente em suas raízes, ao ritmo da música, e os animais selvagens vinham deitar-se a seus pés.

(…) Eufemo, timoneiro do Argo, que por ser filho de Posêidon caminhava sobre as águas; os irmãos Peleu e Telamon, que teriam filhos famosos – Peleu é o pai de Aquiles e Telamon, do Grande Ájax. Era a maior aventura marítima que o mundo já vira.”

Para os gregos, a Cólquida [atual Geórgia] era um desses lugares tão remotos que sua localização se perdia nas fronteiras da fábula.” “Depois de várias semanas de viagem, fizeram uma parada em Quios.”

De súbito, Hilas sentiu que muitas mãos frias e suaves o prendiam em um abraço irresistível – eram as náiades, ninfas das águas, que haviam se apaixonado pelo belo filho de Héracles. Incapaz de resistir, o rapaz deslizou para o fundo do rio, acariciado pelos dedos gélidos da correnteza.” “Os dias se passaram. O Argos estava pronto para zarpar. Jasão esperou o máximo que pôde – mas finalmente percebeu que Héracles não voltaria. E assim a expedição partiu, deixando para trás seu mais poderoso tripulante.

Depois de Quios, os Argonautas deram voltas e mais voltas pelas águas – sua navegação completa é narrada no poema Argonâutica de Apolônio de Rodes.

Ilha de Salmidesso, no Mar Negro. Lá vivia, solitário e esfomeado, um adivinho chamado Fineu – que certa vez havia enfurecido Zeus com a atrevida precisão de suas adivinhações. Achando que Fineu já havia revelado muitos planos divinos aos mortais, o senhor do Olimpo o amaldiçoou com a cegueira e o jogou naquela ilha deserta – onde o desditado adivinho era constantemente atormentado pelas Harpias. Sempre que Fineu conseguia juntar, às apalpadelas, algumas frutas ou nozes para comer, gritos esganiçados rasgavam o céu, e lá do alto desciam duas criaturas horrendas, que misturavam no mesmo corpo a cabeça de mulher com as asas e garras de pássaro.

As Harpias arrancavam a comida às fracas mãos de Fineu, que era obrigado a alimentar-se de migalhas.

O adivinho amaldiçoado implorou ajuda ao grupo de viajantes. Jasão conferenciou com Zetes e Calais, e depois ordenou que os tripulantes preparassem uma fogueira para assar carnes. Quando o cheiro de comida começou a se espalhar, duas sombras se precipitaram das nuvens e vieram em vôo rasante atacar o banquete. Nisso, os filhos do Vento Norte sacaram as espadas e abriram as asas. Lâminas de bronze engancharam-se nas ferozes garras, e penas ensangüentadas caíram. Por fim, as Harpias debandaram. Zetes e Calais as perseguiram até que os monstros tombaram exaustos no mar, de onde jamais emergiram.”

Medéia & Jasão

A neta do Sol amava as sombras. Sem medo de monstros ou fantasmas, ela embrenhava-se nos recantos mais obscuros e selvagens colhendo raízes e ervas – para suas poções e feitiços, pois Medéia era sacerdotisa de Hécate, a terrível deusa das bruxas. Com a ajuda de sua infernal protetora, a princesa da Cólquida podia conversar com os animais, invocar o repelir tempestades acalmar ou enfurecer os mares.”

Afrodite, a deusa do amor, jogou seus laços irresistíveis sobre o espírito da princesa bruxa.” “diante do altar de Hécate, decidiu trair a própria família e ajudar Jasão.

– Mas, antes, você deve jurar que me amará para sempre – ela disse. E, agora, não havia doçura em sua voz, apenas a sombra de uma ameaça.

Jasão estendeu os dedos para tocar a pedra do altar.

– Por Hécate, eu juro.”

Jasão trazia não apenas o legendário artefato, mas também a bela e misteriosa princesa da Cólquida. Mesmo assim, Pélias recusou-se a ceder o trono – na verdade, nem sequer permitiu que Jasão entrasse em Iolcos. Numa barulhenta assembléia, os Argonautas se dispuseram a invadir a cidade. Mais uma vez contudo, foi Medéia quem salvou Jasão.” “Medéia reuniu as filhas de Pélias e fez uma demonstração de seus poderes mágicos: degolou um carneiro velho, desmembrou-o e jogou os pedaços dentro de um caldeirão com ervas e raízes. De lá, emergiu um imaculado cordeirinho.

Ante os olhos assombrados das princesas, Medéia garantiu que podia também rejuvenescer o velho rei.

– Para isso – ela acrescentou – vocês precisam fazer com ele o mesmo que fiz àquele carneiro.

As filhas de Pélias caíram na armadilha: degolaram o próprio pai enquanto ele dormia, cortaram-no em pedaços e o levaram ao caldeirão de Medéia. Mas a feiticeira não colocou no caldo borbulhante os ingredientes corretos – Pélias continuou morto, e suas filhas enlouqueceram de culpa.”

Jasão sentia mais medo que afeto por aquela que tanto o ajudara. O povo de Iolcos, horrorizado com o assassinato de Pélias, recusou-se a receber Jasão na cidade.

Os Argonautas se dispersaram – e Jasão foi embora com Medéia, para nunca mais voltar ali.”

No código das bruxas, as coisas eram simples: Hécate as livrava de qualquer peso na consciência. Para Medéia, o remorso e as recriminações de seu marido eram pura hipocrisia.

Depois de perambular pela Grécia, o casal se refugiou em Corinto, cujo rei, Creonte, era amigo de Jasão. Lá, ele e Medéia tiveram dois filhos, Mêrmeros e Feres. Apesar disso, Medéia percebeu que o marido se tornava cada vez mais distante. Agora, ele a tratava como um fardo. Na côrte de Creonte, todos a olhavam com desconfiança. (…) Na penumbra do quarto, Medéia ouviu de seu amado e ingrato Jasão as terríveis palavras:

– Você precisa ir embora.

Creonte havia oferecido a mão de sua filha, Creúsa, ao príncipe destronado de Iolcos. Mas impusera uma condição: Medéia tinha de partir. A feiticeira ouviu tudo em silêncio. Quando falou, sua voz era calma e fria como o vento que sopra à meia-noite. Relembrou tudo o que havia feito por Jasão: a ele entregara sua virgindade; por ele, abandonara seu país e renegara sua família. Se não fosse por ela, Jasão não seria ninguém.

– Não foi você quem me ajudou – o herói respondeu bruscamente, lembrando as palavras de Fineu. – É a Afrodite que devo agradecer.”

Ante aquela réplica, Medéia se calou. E assentiu, em silêncio. Jasão se surpreendeu: a inflexível Medéia havia cedido. A feiticeira parecia realmente conformada com seu destino – chegou mesmo a oferecer à princesa Creúsa um maravilhoso vestido para o casamento.

No dia da cerimônia, Creúsa entrou no templo usando a veste que Medéia lhe dera. (…) [PARASITE EVE (MITO-CÔNDRIA):] Um esgar de pânico distorceu as belas feições de Creúsa. O tecido de sua túnica se converteu em línguas de fogo.

Queria matar Medéia, sim, apagá-la da face da terra – mas, ao mesmo tempo, recordava aquele entardecer no bosque de Hécate, e o corpo nu da princesa da Cólquida sobre a relva. Lembrava também a noite em que haviam fugido, a bordo do Argo, com o luminoso Velocino nas mãos – ele e Medéia triunfantes, apaixonados. Tudo aquilo parecia ter acontecido havia muito tempo, havia séculos ou milênios.

A porta da casa se abre. Jasão estaca, incapaz de se mover. O que vê está além dos pesadelos mais sádicos. Os olhos de Medéia ressaltam em um rosto ensangüentado. Uma gargalhada sacode a feiticeira. E suas mãos vermelhas seguram o corpo dos filhos. Feridas horrendas rasgam suas carnes. A mãe ri; ri sem loucura, ri no gozo da vingança. Jasão cai de joelhos, definitivamente derrotado por aquela que mais o amou.

Um clarão o ofusca. Hélios, o deus do Sol, enviou sua carruagem, puxada por serpentes, para resgatar sua neta Medéia. Antes que os soldados de Creonte a alcancem, a feiticeira sobe ao carro dourado com o corpo dos filhos nos braços. As serpentes solares sibilam, e Jasão vê o rosto de Medéia pela última vez, enquanto ela sobe vertiginosamente ao céu.

(…) Hécate, a deusa das sombras, não esquece juras quebradas. Por ter repudiado Medéia, o herói é amaldiçoado pela senhora das feiticeiras. E vaga pela Grécia, sem que ninguém ouse acolhê-lo – solitário, esquecido e miserável.” Judeu Holandês, Errante Voador

Quem não se mata em Esparta?

Quem, aqueu, não mata bem?

Grego apaixonado, agonal e patético: vontade trágica visceral do cego. Você tem honra, mas seu ego é gratuito…

BIBLIOGRAFIA

APOLODORO. Biblioteca Mitológica

APOLÔNIO DE RODES. Argonáutica

ÉSQUILO. A Oréstia

EURÍPIDES. Ifigênia em Áulis

EURÍPIDES. Medéia

HIGINO. Fábulas

SÓFOCLES. Ájax

SÓFOCLES. Filoctetes

12-04-17

I

 

DESCRIÇÃO

Deitado na cama dos meus pais. Namorada ou moça bonita qualquer ao lado (não consigo identificar). Eu estou deitado na cama, na posição da minha mãe. Já a outra pessoa está ou de pé ou sentada, mas do lado direito, fora da cama. Um DVD do Metallica toca na TV.

Deitado na cama dos meus pais, só que do lado esquerdo, onde ficaria o meu pai, o Aloísio, meu melhor amigo de infância, hoje mero borrão. Nós cantamos junto com o James Hetfield, mas a voz dele sai idêntica; a minha não. Além disso, eu hesito, erro e esqueço alguns trechos das letras.

COMENTÁRIOS

Ele se deu – ele se dá – na vida melhor que eu. Mas quem? O Aloísio, ou o meu pai?

O Aloísio foi a pessoa que me apresentou ao Metallica, quando eu tinha 13 anos e ele 14. Recentemente ele se casou. Em breve eu me casarei. No casamento dele, uma mini-orquestra tocou Nothing Else Matters do “Black Album” ou álbum epônimo; creio que ainda seja a banda favorita dele, mas não somos mais pessoas íntimas, então nem tenho interesse em perguntar-lhe ou saber a resposta. Essa música é uma das mais populares da banda, embora muitos “fãs conservadores” do Metallica a detestem. Posso dizer que os gostos musicais do Aloísio e o meu destoam completamente, e que esse é um dos raros pontos de convergência (o Metallica está entre minhas 3 bandas favoritas). Já passei pela fase xiita de odiar tal música; hoje, gosto de todas as fases, e aprendi a apreciar bastante a melancolia passada pelo solo principal, realmente parece que entro na canção. Todavia, mesmo com toda minha evolução pessoal na relação com a banda, ainda estou mais para a apreciação da década de 80 do Metallica (fase áurea endeusada pelos fãs conservadores) e dos momentos mais underground e menos radiofônicos do grupo (o que inclui, paradoxalmente, os 2 últimos trabalhos, mais pesados do que nunca, com faixas de 8 ou 9 minutos que jamais tocariam na programação de uma rádio sem cortes) do que para um fã como o Aloísio (certa vez, ele me disse que a faixa favorita dele era The Outlaw Torn, do contestado Load; e vale lembrar que ele não gosta de nada no heavy metal fora o próprio Metallica).

Assim como nos gostos musicais, na vida eu e o Aloísio não podíamos ser pólos mais opostos. Ele se tornou tudo que eu mais abomino. No entanto, há um componente indisfarçável de inveja na posição que ele ocupa: tendo feito aulas de música e de canto, tendo tido uma banda e sendo um “jovem popular”, ele também cantou em seu casamento; coisa que eu não seria capaz de fazer no meu. Se tornou um advogado, funcionário público, que anda de carrão, pertence literalmente à nata de Brasília. Embora eu quisesse ter sua condição financeira (e esse desejo é retrospectivo: seus pais sempre lhe deram tudo, e eu cresci convivendo com a sovinice do meu pai; ele tinha todos os brinquedos que eu apenas sonhava em ter), confesso que se o preço fosse necessariamente se tornar alguém padrão como ele, não pagaria preço tão alto: a supressão dos traços mais benquistos por mim de minha personalidade. Contestatória, criativa, para resumir em dois termos. O Aloísio é apenas um burguesinho alienado, fã auto-declarado de Jair Bolsonaro e católico que se orgulha da sua educação moral e de suas origens insípidas e medianas (o típico casal pouco inteligente do Plano Piloto, que mima e blinda os filhos). Outra coisa que me deixa fulo com os caminhos que o Destino toma: eu sempre amei o futebol; já trabalhei como jornalista esportivo, sempre escrevi muito sobre o assunto, colecionei figurinhas, vi muitos programas de mesa-redonda na TV, já vi até 55 dos 64 jogos de uma Copa do Mundo (a de 2006)! Mas sou péssimo jogador. O Aloísio tinha um talento para a coisa, e sempre esteve vários e vários degraus acima de mim, tanto que me surpreende que ele não tenha mesmo tentado ou conseguido seguir essa carreira profissional.

Meu pai é outra pessoa que eu tenho, na minha concepção de mundo e de vida, como um contra-exemplo absoluto, alguém que não devo seguir sob nenhum pretexto, em nenhum aspecto, alguém que se possível deve ser invertido ao invés de copiado. Funcionário público aposentado; com talento para o comércio e a administração de empresas. Nasceu no interior do Ceará. Pode-se dizer que ganhou bem a vida, materialmente. Por golpe do destino, trabalhamos no mesmo órgão do governo: ele foi concursado da CAPES no cargo de Analista em C&T entre 79 e 2002. Eu sou atualmente Analista em C&T da CAPES desde 05/2014; depois de ter fracassado nas minhas duas primeiras escolhas profissionais (jornalista; professor).

Certa feita meu pai me perguntou o que eu estava lendo. Era o ano de 2008. Eu estava no segundo semestre do curso de Ciências Sociais. Respondi: Max Weber. Uma leitura muito prazerosa. Ele declarou que aquilo seria a última coisa que ele leria por gosto. Que na Administração foi obrigado a degluti-lo, mas que felizmente esses anos já se haviam passado. E é verdade: somos pessoas antônimas. De certa forma, ele e o Aloísio representam o sucesso material e mundano que eu penso que nunca atingirei. Como funcionário público que detesta suas funções, que não tem muito talento para nada aplicado ou pragmático, enfim, lucrativo, e escritor ainda-não-lido-por-quase-ninguém… Acho que a representação onírica “I” condensa toda essa celeuma muito bem.

II

 

DESCRIÇÃO
Leio um grosso volume, um livro que parece um fascículo de enciclopédia, de capa-dura cor vinho. A ordem é a mesma do mangá: da direita para a esquerda. Parecem listas de recomendação de outras pessoas em termos de livros e CDs de música, mas eu não reconheço um item sequer! Leio o perfil biográfico das pessoas que estão indicando as obras: uma é uma mulher de 38 anos, outra uma adolescente de 16. Intercalados com essas informações, em algumas das páginas, anúncios de jogos de videogame, que me permitem classificar a impressão desse livro no tempo. Uma das propagandas é sobre Starcraft I, edição digital/remasterizada (não lembro). Meu irmão chega em casa e me impede de terminar a leitura. É tarde da noite e eu quero que pensem que estou dormindo. Corro para o banheiro do quarto de empregada com o livro em mãos e me tranco.

CURIOSIDADE PITORESCA
Nunca joguei Starcraft, mas um dos primeiros que joguei foi o Warcraft II, jogo da mesma produtora, a Blizzard, de ambientação medieval e fantástica ao invés de espacial e futurista, como a de Starcraft. Seja como for, Starcraft é um jogo de real-time strategy bastante conhecido dos PCs (e alguns outros consoles). Sua primeira aparição foi na segunda metade dos anos 90. Dei uma googlada e, que coisa!, soube agora que lançarão um Starcraft Remastered esse ano (2017)!

III

 

DESCRIÇÃO

Enquanto urino, percebo que não é mais o meu banheiro. Estou morando no Guará. Esta é a casa do meu tio Nilo, dos meus primos André e Adriano. Parece estar tudo em obras. Não tem piso, azulejo, nada, e o plano é reclinado. Eu lembro com alguma nostalgia: há muito tempo costumava ter nojo desse lugar; agora ele é natural para mim.

Antes que eu termine de urinar aparece um gato branco com manchas marrons ou beges, estranho, deformado. Cara feia, alongado, “torto”, fisicamente absurdo. Pego um cabo de vassoura para enxotá-lo de minha casa (agora o banheiro não é mais um cômodo minúsculo, e parece haver muitos outros aposentos, que em nada lembram minha casa), mas me falta força na mão (sonho muitas vezes que quero socar alguém, e o soco não sai forte – nunca briguei na vida real). O gato é mais rápido do que eu. Há outro bichano, todo branco, mas na perseguição ao primeiro acabo ignorando-o.

COMENTÁRIOS

Meu tio Nilo é pobre. Significa que eu sou pobre agora? Que estou preparado para a pobreza? Meu poder aquisitivo não é o mesmo do meu pai. Ainda moro com ele, mas minha mudança está próxima. Será que é alguma apreensão nesse sentido? Atualmente estou sufocado por gastos [só na releitura percebi a semelhança fonética], principalmente de ordem médica, e tenho insegurança quanto a poder juntar dinheiro daqui para frente. Sobretudo, como detesto meu trabalho, tenho insegurança sobre meu próprio sustento, e o de minha futura família, devido ao meu quadro clínico.

Sobre o gato, ou bichos de estimação ou animais: não está claro o que eles simbolizam para mim, dada a frequência com que aparecem nos meus sonhos. Nunca tive gato ou cachorro. Conheço muitas pessoas que têm gato, que veneram gatos [o Aloísio venera gastos]. A Brenda, minha noiva, não é uma delas. Inclusive, ela tem alergia a pêlo de gato. No entanto, uma vez um gato de rua entrou na casa dela e pareceu se afeiçoar a todos os presentes (só queria comida, no fundo). A amiga da Brenda, Fernanda, tem um gato esquisito, o Nelson, que na verdade é do sexo feminino. Era semelhante ao gato branco de manchas marrons do sonho. Mais do que representar minha superioridade diante de alguém (certamente eu não conseguiria humilhar o Aloísio ou o meu pai num sonho, pois eles têm algo que eu queria ter, por mais que os despreze) – pois o gato não tem como se defender de mim –, uma hipótese que eu avento é: simplesmente vejo fotos e gifs de gatinhos demais ao longo do dia na Internet!

EXCERTOS AGRADÁVEIS DE SEMANÁRIOS

ou …E VIVA O ÓCIO! Vol. II

planeta #525 outubro/2016 ano 44

fleursdeprovence

FESTA PARA OS SENTIDOS

Das praias da Côte d’Azur aos Alpes, a Provença, no sul da França, tem uma formidável galeria de paisagens para encantar os visitantes, enriquecida pelos perfumes da lavanda e pelos sabores únicos de sua culinária e de seus vinhos

Por Luis Pellegrini

É fácil entender por que tantas pessoas, de imperadores romanos a estrelas de Hollywood, deixaram-se seduzir pela Provença (Provence, em francês) a ponto de abandonar tudo e compulsivamente comprar uma casa nessa região do sul da França. São em geral pessoas de temperamento artístico, cuja alma sensível ficou intoxicada pela beleza da paisagem e pelos muitos charmes desse jardim do Éden que começa nas praias da Côte d’Azur mediterrânea e vai até o sopé das montanhas dos Alpes.

(…)

REGIÃO DISPUTADA

A Provença foi a primeira província romana fora da Itália, e essa é a origem do seu nome. Após a queda de Roma, ela foi disputada por vários povos conquistadores, francos, sarracenos, senhores feudais, sendo finalmente dividida entre o reino da França e o papado. (…) o vaivém da política, dos exércitos e das guerras deu a esse povo a convicção de que não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe. (…)

          Avignon foi sede da Igreja Católica Romana de 1309 a 1377, depois que o papa Clemente V deixou Roma devido às lutas pelo poder no seio da Igreja. Seu Palácio dos Papas é uma cidade dentro da cidade. Leva-se um dia inteiro para visitá-lo sem pressa, e fazê-lo é mergulhar em ambientes da Idade Média que chegaram intactos até os nossos dias.

(…) Edificadas ao longo da Idade Média, são cidadelas quase inexpugnáveis, onde as construções se espremem aproveitando cada espaço disponível, muitas vezes à beira de precipícios espantosos.

(…)

          Jogo de desafio e de honra, de prática exclusivamente masculina, a pétanque é uma partida de arremesso de bolas metálicas similar à bocha italiana. Os torneios são realizados em toda parte, ao ar livre, diante de um público gozador que não perde o menor lance para arremessar chistes, piadas e impropérios aos jogadores menos afortunados.

          Aos domingos, depois da pétanque, começa o ritual do almoço provençal. O aioli é o prato oficial dessas reuniões de amigos e familiares, sobretudo no verão. É feito de peixes, frutos do mar e legumes cozidos e comidos com um molho cremoso à base de alho, azeite de oliva e várias especiarias regionais. O aioli pode ser substituído [Bela Gil mode on?] pela adola, a carne de panela à provençal, outro prato muito popular. Ou pela bouillabaisse, sopa que se prepara com peixes de água doce e temperados com azeite de oliva, cebola, alho-poró, alho, tomates sem pele e sem sementes, plantas aromáticas e especiarias (foto).

(…)

bouilla

RESPEITO À TERRA

Há dicionários inteiros dedicados aos vinhos provençais. Só a lista dos melhores Côtes de Provence, Côtes du Rhône, Château-neuf-du-Pape e do supercélebre Bandol ocuparia muitas páginas. (…)”

* * *

O TRABALHO REVISTO

Trabalhar precisa ser duro e penoso ou deve ser um suporte para a realização pessoal? Esse debate estava presente no texto a seguir, parte de um exercício de futurologia do francês Patrick Ravignant sobre grandes problemas da humanidade publicado em PLANETA 3, de 1972

(…)

meramenteilustrativo

Retomando a idéia do pecado original, que condena o homem a trabalhar com o suor do seu rosto, a sociedade industrial erigiu, ou tenta erigir, o trabalho como objetivo supremo da existência e lança contra a ociosidade a pior das condenações. A maior parte das pessoas considera hoje que o trabalho é o destino natural do homem, e esse trabalho deve ser duro, cansativo, penoso.

(…) Não é, como se pretendeu muitas vezes, o aspecto monótono do trabalho que gasta e consome o indivíduo. O trabalho é destruidor no plano psicológico quando utiliza uma pequeníssima parte das faculdades humanas, isto é, quando o indivíduo, incapaz de explorar o conjunto de suas aptidões, termina por atrofiá-las e destruí-las. O artista ou cientista, que nos seus trabalhos exerce a maior parte de suas faculdades, raramente considera suas tarefas penosas ou cansativas. Os momentos mais difíceis são também os mais estimulantes.

(…) De fato, todo homem procura uma atividade que lhe permita desenvolver o conjunto de suas funções psicofisiológicas. Se essa atividade coincide com um meio de subsistência, tanto melhor. O essencial, porém, não é a subsistência, mas a realização do indivíduo. (…)

Todos os homens, mesmo os mais iletrados, ao contemplarem um crepúsculo ou sonhar diante de um céu estrelado, interrogam-se sobre a finalidade da existência. (…) Os dirigentes atuais, contudo, não tomam nenhuma providência para que o lazer, no futuro, não se torne um fator geral de padronização, ou de tédio mortal, fonte de todas as neuroses.”