A REPÚBLICA – Livro X – OU: DE QUE FORMA PLATÃO PARIU O CRISTIANISMO

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

Terei de dizê-lo, muito embora me penalize dirigir tais palavras contra Homero, por quem desde criança nutro o maior respeito e afeição, o que como que amortece minha língua neste momento; pois sem dúvida que Homero é o mestre e chefe de todos estes belos poetas trágicos, alvos principais de minha crítica. Persisto em meu desígnio, na certeza de que a reputação de um só homem não deve falar mais alto que a consideração que devemos ter para com a verdade.”

Muita vez são os míopes que percebem os objetos antes que os de vista aguda e penetrante.”

– Este maior de todos os artífices possui o talento não só de esculpir todos os móveis como também o de criar as obras da natureza, todos os seres vivos e, como direi, até se faz a si próprio! E não cessa aqui: faz a terra, o céu, os deuses, tudo o que há no céu e sob a terra, no Hades.

– Vejo que discorres sobre um artista verdadeiramente admirável!”

Querido Homero, se é certo que és um artista distanciado em três graus da Verdade, incapaz de fabricar outra coisa senão aparências (porque tal é a definição que demos do imitador); se ocupas, no lugar, a segunda ordem; se conheceste o que pode melhorar ou piorar os Estados e os particulares, diz-nos enfim: que Estado te deve a melhora da própria constituição (Esparta deve-o a Licurgo; numerosos Estados, grandes e pequenos, devem-no a tantos outros)? Que país fala de ti como de um sábio legislador e se vangloria de haver tirado proveito de tuas leis? A Itália e a Sicília evocam Carondas; nós temos Sólon; mas onde está o povo que clama <Homero!>?”

– Distinguiu-se por essas múltiplas invenções úteis nas artes ou nos demais ofícios que são próprios de um homem sábio, como se conta até de Tales de Mileto e do cita Anacársis?¹

– Nada disso se conta de Homero, Sócrates.”

¹ A respeito do segundo: http://remacle.org/bloodwolf/livres/anacharsis/table.htm.

Escuta, para depois julgar. Sabes que até os mais razoáveis, quando ouvimos recitar passagens de Homero ou de qualquer outro poeta trágico, em que se apresenta um herói angustiado, deplorando sua sorte num largo monólogo, prorrompendo em gritos e se dando golpes no peito, sabes, repito!, que naquele ato percebemos um vivo prazer, que deixamos nos embalar inadvertidamente, e exaltamos o talento do poeta que nos transporta com mais força a este estado.

– Sei-o bem; como não?

– E no entanto já pudeste observar que em nossas próprias desgraças presumimos o exato contrário: seria o ideal poder mantermo-nos firmes e tranqüilos, como convém à condição humana, abandonando às mulheres estas mesmas lamentações que aplaudimos no teatro!

– Sim, observei-o muito bem.

– Diz-me: será justo isso? Aprovar com entusiasmo em outros uma condição que não consentiríamos que se desse conosco mesmos? Envergonhando-nos se porventura nos assemelháramos a tais personagens, e, simultaneamente, gozando e celebrando – em vez de sentir repugnância! – quando se dá com terceiros?”

– …depois de haver conservado e até agravado nossa suscetibilidade mediante a contemplação dos maus alheios, é difícil moderar a sensibilidade conosco mesmos.

– Tens razão.

– Não diremos outro tanto acerca do cômico? Se tu manifestas um prazer excessivo em ouvir palhaçadas sobre o que em ti mesmo te envergonharia ao invés de produzir teu riso, mas que tratas como ridículo quando escutas vindo de uma terceira pessoa, deixando neste momento de detestar tais condutas como más, ainda que seja no teatro em vez de em meras conversas privadas acerca de entes conhecidos, todo o processo de identificação que se dá com as emoções patéticas¹ irá, seguro, se repetir. Ao desejo de fazer rir, antes reprimido pela razão, serão soltas as rédeas. Antes temias passar por bufão ou histrião, mas, agora, alimentados esse desejo e essa propensão para a comédia, eles se tornarão predominantes em tua alma! O início é mais hesitante, mas em breve o homem não terá qualquer resquício de pudor diante dos demais, até ver-se convertido num farsante de carteirinha. Um comediante profissional.

– E o pior é que estás coberto de razão, Sócrates!”

¹ Trágicas, sérias, graves, capazes de causar abalo ou comoção. Palavra de origem grega que se perverteu para nós.

em nosso Estado não podemos admitir outras obras de poesia além dos hinos aos deuses e das odes aos heróis”

procuraremos não recair na paixão que por ela (a poesia) sentimos em nossa juventude, e de cuja influência não se livra fácil o comum dos mortais”

– Pode se chamar <grande> aquilo que se passa num pequeno espaço de tempo? O intervalo que separa nossa infância de nossa velhice é bem curto comparado à totalidade do tempo.

– Com efeito pode-se dizer que nada é.

– E não crerias absurdo se um ser imortal se devotasse a contemplar e se preocupar com espaços de tempo tão efêmeros ao invés de dirigir seu olhar à eternidade?

– Crê-lo-ia absurdo. Mas a propósito de quê vem essa afirmação tão súbita?

Não sentes que nossa alma é imortal e que jamais perece?

Ao ouvir estas palavras, olhando-me atônito, disse:

– Não, por Zeus! Podes prová-lo?”

Se encontramos na natureza uma coisa a que um mal pode tornar miserável, embora não possa dissolver nem destruir, desde este instante não é factível assegurar que esta coisa não poderá perecer?” “Mas é evidente que uma coisa que não pode perecer nem por seu próprio mal nem por um mal estranho deve necessariamente existir para sempre!”

se o número de seres imortais se fizesse maior, esses novos seres se formariam daquilo que é mortal e se decompõe”

– Não me concederás também que o homem, querido pelos deuses, só deveria esperar deles bens, mas que às vezes recebe males como expiação de faltas cometidas em vidas passadas (muitas delas não-humanas)?

– Assim o creio.”

E quanto aos injustos, defendo que, ainda quando desde muito tenros já tenham aprendido a dissimular o que são, na sua maior parte acabam por desvelar sua natureza hora ou outra até o final de suas vidas; os injustos, em geral, colhem na velhice o ridículo e o opróbrio que plantaram durante toda a vida (…) afirmo que serão açoitados e submetidos ao tormento; numa palavra, imagina-te que escutas de minha boca todos os gêneros de suplício concebíveis.”

Não vou contar uma estória de Alcínoo, que é comprida e maçante.¹ É a simples história dum homem puro de coração, Er o Armênio, originário da Panfília.² Dez dias após uma batalha cruel e sangrenta, onde encontraram pilhas de cadáveres, o seu era o único intacto pela ação do tempo. Conduzido a seu lar para as cerimônias fúnebres, ao décimo segundo dia, já prestes a ser deposto nas chamas, o destino de todos os defuntos, volveu à vida de repente, e referiu aos circunstantes tudo o que havia visto <do outro lado>. Segundo Er, no momento em que sua alma saiu do corpo, juntou-se a uma infinidade de outras almas em um sítio fantástico; havia duas aberturas na terra e mais duas no céu, neste lugar, estas alinhadas com aquelas, de modo que pareciam possuir alguma relação. Entre os dois pares estavam sentados vários juízes. Assim que pronunciavam sua sentença, os juízes mandavam os justos seguirem por uma das vias que conduziam ao céu, à direita, não sem antes marcar suas costas com uma insígnia que confirmava seus destinos bem-aventurados; os injustos, por sua vez, eram obrigados a seguir à esquerda, por uma das vias telúricas, e também recebiam um selo, desta feita condenatório. Nele, registravam-se todas suas más ações. Quando chegou a vez de Er ser julgado, de súbito os juízes mudaram de idéia, e decidiram que era preciso que alguém retornasse e levasse aos vivos as notícias do que se passava neste além-mundo, e ele fôra o escolhido. Comandaram que passasse mais tempo por ali, escutando e observando atentamente tudo o que acontecia ao seu redor. (…) Er viu que das segundas aberturas (pois, lembre-se, havia duas aberturas para cada destino desta viagem, mas só a primeira de cada par era usada para os que se iam após o julgamento) voltavam outras tantas almas, umas das profundas, outras do paraíso (…) Estas almas que estavam de regresso se detinham no caminho para conversarem calmamente entre si, referindo sua jornada, parecendo peregrinos numa feira, que se reviam depois de uma longa pausa. As que vinham da estrada da terra se exprimiam com gemidos e lamúrias, despertados pela recordação de mil anos, o tempo total que passavam no refúgio subterrâneo. As que vinham do retiro celeste só tinham deleites e prazeres para narrar. (…) Er escutou um diálogo que lhe chamou a atenção: contavam o destino de Ardieu, célebre tirano panfiliano do milênio anterior. Ardieu matara seu próprio pai, já bastante idoso, bem como seu irmão mais velho, sem falar que cometera muitos outros crimes aberrantes e atrozes. <Ele não volta, nem hoje e nem nunca!>, é o que se disse a seu respeito. (…) Acudiram alguns homens selvagens, que pareciam feitos de fogo. De imediato conduziram, por coerção, algumas das almas presentes, as piores dentre elas. Ardieu estava entre elas. Seus pés e suas mãos foram amarrados, e a cabeça imobilizada. Depois de derrubados brutalmente, foram esfolados em castigos contínuos, em seguida arrastados para fora da trilha, sobre urzes, que logo se conspurcaram de sangue. Os <homens de fogo> explicaram às almas que apenas testemunhavam aquele tratamento o porquê deste suplício direcionado às almas criminosas incorrigíveis; contaram também que após esta série de sofrimentos elas seriam arremessadas no Tártaro, o abismo do Hades.”

¹ Odisséia, Capítulos 9 a 12.

² Na Ásia.

A virtude não tem dono. Cada qual participa dela conforme a honra ou a despreza. Cada qual é livre para agir, porque Deus é inocente.”

Diz-se que a alma de Orfeu escolhera reencarnar como cisne devido ao rancor e ódio que nutria pelas mulheres, que o chacinaram na outra vida. Orfeu tinha horror à idéia de ser engendrado de novo em um útero de mulher. Diz-se também que a alma de Tamiras escolheu reencarnar como rouxinol. Diz-se também que uma alma de cisne optou por voltar na forma de humano, bem como muitos outros animais cantores. Outra alma, após o fim da última vida, escolheu a condição de leão na próxima. E sabem quem era esta alma? Ájax, filho de Telamon. Pesaroso das guerras armadas entre os homens, recusou-se obstinadamente a repetir a vida de guerreiro. Dizem também que a alma de Agamêmnon, igualmente dissaborosa quanto à existência humana depois de todas as desgraças que lhe sobrevieram neste mundo, optou por reencarnar como águia.”

(*) “Epeu, filho de Panopeu, foi quem construiu o cavalo de madeira que os aqueus usaram para invadir Tróia.”

Como eu referira, havia almas de animais que foram promovidas a humanos, ou promovidas ou rebaixadas a outras espécies animais, segundo a vida que viveram; os animais injustos reencarnavam como animais selvagens; os justos, como animais domésticos.”

Fim da série de traduções d’A República.

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The Shakespeare Theatre Company’s production of Henry V – First Folio – Teacher Curriculum Guide

Directed by David Muse, folio text by Abby Jackson

 

“Before working on it, I had always thought that this play was a rah-rah, pro-Henry, pro-England, pro-war play. I also thought that it was a story about a former wastrel who had reformed himself completely and then marched his way through a play, being a terrific leader and saying all the right things. But as I got to know the play better, I realized that it portrays a Henry and a war that are much more complicated and interesting than they first seem. The play is full of incredibly provocative moments for a leader: Henry has to deal with committing his country to go to war, and then he has to deal with the betrayal of one of his best friends. He has to execute a beloved old companion in the middle of a war in order to send the right message to the rest of his troops. Then he has to deal with the carnage of war and what it means to be on a battlefield full of dead men. And so I began to find the kernel of a really interesting psychological story, especially if the distance between how this man acts publicly and how he feels privately is vast; if this is a man who in public is inspiring, direct, sure of himself and sure of what his country needs to be doing, and then in private is uncertain about the wisdom of the war, exhausted, lonely, anxious and torn apart by the things he must do. But so much of the Henry we see in the play is the politician, the public figure. What we get of the private man comes mostly in a big speech in the fourth act. We’ve been watching this king deal with crisis after crisis and move on in what seems to be a pretty untroubled fashion, and then all of a sudden we see him explode with self doubt. It’s an eruption of internality, of self examination—it’s almost as if Hamlet or Brutus walks onstage in the middle of Henry V and delivers a monologue. It’s amazing, but for me it was a little frustrating that it happens so late in the play. So in this production we’re going to try to find ways to spend moments alone with Henry, to <go into his head> at critical moments, and then return to the play to watch the acts he needs to perform in order to behave like the good king that he knows he needs to be. The speech by the soldier called Williams that prompts Henry’s self reflection is morally one of the most challenging moments for the king and for the audience to negotiate. Its theme is, <How much responsibility for the death of men in war should lie on the leaders who sent them there?>That speech really cuts Henry to the quick, and it sends him into a forceful description of how <uneasy lies the head that wears a crown>. It is in a way a summation of a major theme that’s going on in all of Shakespeare’s history plays, which is, <How does one manage to be a human being and a king at the same time?>. That speech, for me, encapsulates how painful it must be to maintain your humanity while doing the things that are expected of you as the leader of your country.” Muse

 

HISTORICAL EXPLOITATION OF ARTS’ LONELY SUPREMACY

 

“1599: Henry V was originally performed at the Globe Theatre in London, just after it was built. Elizabethan theater-goers easily related to the patriotic themes of the play, as explorers like Sir Francis Drake were establishing an English presence in Europe and the New World, pushing the country to the forefront of global political power.

1744: This production took place during King George’s War, in which England and France once again drew their swords against each other.

1944: Laurence Olivier’s famous film version of Henry V emphasized the positive power of a national hero, debuting at the close of World War II when the English were desperate for encouragement.

1964: The Royal Shakespeare Company focused on the darker aspects of Henry V in this Vietnam War-era production, which included a group of soldiers more weary of war than elated with patriotism.”

 

O CORO

 

“Although we tend to focus on Shakespearean comedies and tragedies, Shakespeare also wrote a handful of plays that bring significant events in English history to life. This type of play, originally called a <chronicle play> and now referred to as a <history play>, was essentially invented by Shakespeare and quickly became popular in Elizabethan England. While Shakespeare based these plays on real historical events and people, he made them theatrically interesting by condensing and simplifying events, taking liberties with chronology and altering characters’ actions and ages to tell a compelling story. (…)

Plagiarism (claiming someone else’s work as one’s own) was not illegal in Elizabethan England and Shakespeare freely used the works of other authors and historians for inspiration and to supplement his own writing. For Henry V, Shakespeare borrowed from several works, including Raphael Holinshed’s Chronicles of England, Scotland, and Ireland (1577) and an anonymous play called The Famous Victories of Henry the Fifth (1580s). Shakespeare used these kinds of works as background research for all of his history plays in order to shape real historical events into tantalizing, stage-worthy stories about power, prestige and politics.

As one of the key history plays, Henry V is the last in a four-work series of plays (also called a tetralogy) known as the Henriad, which includes Richard II, both parts of Henry IV, and culminates in Henry V. Many of the same characters reappear in each of the four plays, creating something like a modern day mini-series that would have had audiences coming back for more. The historical through-line of all four plays is the Hundred Years War (1337-1453) between England and France. In Henry V, we see one of the great climaxes of this war as King Henry V breaks the peace by reclaiming his inheritance of the French throne, momentarily defeats the French at the Battle of Agincourt, and takes Katharine, the daughter of French King Charles VI, as his wife.”

“Shakespeare used his imagination to creatively bring to life the inner motivations and private conversations of historical figures that history books will simply never be able to capture.”

“The choral interludes throughout Henry V are famous for eloquently bridging the action on stage with the reaction of the audience. Although a chorus can serve many purposes, Shakespeare uses the chorus in Henry V mainly to prepare, engage and teach the audience.”

“At the beginning of the play, the chorus apologizes for substituting actors for kings and the theater’s <wooden O> (a reference to the shape of the newly built Globe Theatre) for famous kingdoms.”

“The chorus begins the play with an apology but ends with a reminder that princes are merely actors and each kingdom really is a stage”

REIS E BOBOS

 

Nym, Bardolph, Pistol and Mistress Quickly are the key players in Henry’s motley crew, providing colorful comic relief in the midst of King Henry’s heroic but difficult journey. These characters, along with the infamous knight aristocrat Sir John Falstaff, all appear in at least one of the other plays within the series”

“Henry V was once part of this gang himself as a young, wild prince in Henry IV, Parts 1 and 2, which is why the Dauphin’s <gift> of tennis balls is insulting—it implies that Henry is still the same reckless youth he once was. In responding to the Dauphin’s joke with the threat of cannon balls, however, Henry proves that he has grown up and takes his role as king seriously.”

Proposta de exercício para o aluno de Cênicas: “Henry and History: Research the real life of King Henry V and the life of one political leader from the 20th century. Write a 3-4 page paper comparing and contrasting these two leaders. Be creative and explore both personal and public information, including life events, world events, personality, political endeavors and achievements, and legacy.”

APROFUNDAMENTO

 

Shakespeare Dictionaries

  • Schmidt, Alexander. Shakespeare Lexicon and Quotation Dictionary. Dover, 1971.
  • Onion, C.T. A Shakespeare Glossary. Oxford University Press, 1986.

Fallon, Robert Thomas. A Theatregoer’s Guide to Shakespeare. Ivan M. Dee, 2001.

Hattaway, Michael (Ed.). The Cambridge Companion to Shakespeare’s History Plays. Cambridge, 2002.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O BANQUETE OU DO HOMOSSEXUALISMO SUPREMO

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

ESCLARECIMENTO INICIAL

O sufixo pejorativo –ismo, entenda-se, não é o aqui utilizado. Para o filósofo grego, a condição homossexual é a característica do homem superior, o único apto a chefiar a sociedade. Portanto, é nesse sentido que o “Homossexualismo” do título deverá ser compreendido: como no Aristocratismo a classe dos aristocratas é a líder, no Homossexualismo platônico os homossexuais detêm o poder soberano e prescrevem as Leis a si mesmos e aos demais. Obviamente, a conotação de “doença” ou “enfermidade” subjacente ao homônimo mais infeliz desaparece, assim, por completo – a homoafetividade masculina é, ao contrário da visão deturpada moderna, o suprassumo do são e do saudável. Tampouco o sufixo –idade seria adequado para expressar essa idéia, uma vez que a Homossexualidade como a entendemos hoje no Ocidente é apenas uma “escolha livre e individual”, nem melhor nem pior que as outras preferências de gênero possíveis no amor; ao passo que, em Platão e nos mestres do saber grego que conhecemos, não havia o que “escolher” ou alteridade(s) a respeitar ou considerar: todo o demais (a mulher, o escravo de ambos os sexos – meros objetos – e o homem hetero ou bissexual – “sujeitos”, porém degenerados) estava sempre escalões abaixo. Não havia traço da noção de isonomia compartilhada pelas democracias contemporâneas.

(*) “Fedro fala como um jovem, mas jovem cujas paixões foram purificadas pelo estudo da filosofia; Pausânias como homem maduro, a quem a idade e a filosofia ensinaram aquilo que a juventude não sabe; Erixímaco se aplica como médico; Aristófanes tem a eloqüência do poeta cômico, ocultando, por debaixo de uma forma festiva pensamentos profundos; Agaton/Agatão se expressa como poeta. Por fim, depois de todos os demais da roda, e quando a teoria já se elevara por graus, Sócrates completa-a, expressando-se numa linguagem maravilhosa, própria de um sábio ou inspirado.”

* * *

APOLODORO¹ – (…) Sinto imenso prazer e julgo proveitoso o filosofar e o ouvir filosofar, como nada no mundo; já ouvir-vos tratar de vossos interesses, dos ricos e dos negociantes, me mata de fastio.”

¹ Na verdade, O Banquete é um diálogo entre Apolodoro e seu amigo. Ele, que apenas ouviu o relato do banquete de um dos participantes, reconta o ocorrido, revivendo os personagens daquela noite de apologia discursiva do amor. Esta testemunha ocular é Aristodemo. Não confundir este Aristodemo com o descendente de Hércules e herói mitológico. Trata-se de um filósofo pré-socrático, pouco notório. Nunca é demais lembrar que a denominação “pré-socrático”, embora quase sempre proceda cronologicamente, neste caso nos induz a erro. Pré-socráticos podem ter existido mais jovens que Sócrates e contemporâneos de Platão; poderiam ser filósofos de menor repercussão e que insistiam na interpretação cosmogônica ou cosmológica do mundo. Este Aristodemo, mais jovem ou mais velho que Sócrates (não sabemos), venera-o como a um mestre.

O AMIGO DE APOLODORO – (…) Desconheço por que te deram o apelido de Furioso; conquanto possa ver que algo disso se capta em teus discursos. Sempre te mostras áspero contigo mesmo e com todos, exceto com Sócrates.”

–Aqui inicia o relato do banquete em si e as transcrições das falas das personagens–

SÓCRATES – Aristodemo, vou me banquetear à casa de Agaton. Recusei-me a comparecer à festa que dava ontem para celebrar sua vitória no concurso, por desagradarem-me salões repletos.”

SÓCRATES – Segue-me, então, e invertamos o provérbio, provando que um homem de bem pode comer à casa de outro homem de bem sem ser convidado. Com prazer acusaria Homero de haver na verdade adulterado este ditado, e ademais de ter feito dele pouco caso, quando depois de representar Agamenon como grande guerreiro e Menelau como combatente débil faz com que este esteja no festim daquele, sem ao menos ter sido convidado; ou seja, Homero retrata um homem de condição inferior que sem cerimônia se apresenta à mesa do homem superior.”

lá, já estavam todos à mesa, esperando apenas que fossem servidos.”

Neste momento, um criado anunciou que encontrara Sócrates de pé no umbral de uma casa vizinha, e que, havendo-o convidado ao banquete, este se recusou.”

Começamos a comer, e Sócrates não aparecia. A cada momento Agaton instava algum escravo a ir buscá-lo. Eu o preveni de que Sócrates acabaria por cumprir sua palavra, que não tivesse pressa. Enfim, Sócrates entrou, depois de nos fazer esperar, segundo seu hábito, e nós já havíamos comido metade de nossa refeição. Agaton estava só, sobre uma cama no extremo da mesa, e o convidou a sentar-se junto de si.”

ERIXÍMACO – (…) Uma vez que ninguém aqui deseja exceder-se na bebida, serei menos importuno, ao relatar-vos umas quantas verdades sobre a embriaguez.”

FEDRO – Ó, Erixímaco! não é admirável que, de tantos poetas que compuseram hinos e cânticos em honra da maior parte dos deuses, nenhum fez o elogio do Amor, que, não obstante, é um deus importante? (…) Li um livro, intitulado Elogio do sal, em que o sábio autor exagerava as maravilhosas qualidades do sal e os grandes serviços que ele presta ao homem. Noutros termos, é raro encontrares coisa que não conste dum panegírico.”

ERIXÍMACO – Cada um, pois, improvisará da melhor forma que lhe couber um discurso em honra do Amor. A ordem será da esquerda para a direita. Desta forma, Fedro falará primeiro, ainda mais porque era sua intenção desde o início, e toda a idéia deste jogo foi dele. Escutemo-lo!”

(*) Eumelo e Acusilau, historiadores antigos, segundo refere Clemente de Alexandria, transcreveram em prosa os versos de Hesíodo, publicando-os como obra sua.”

O DISCURSO DE FEDRO

Na Grécia temos o brilhante exemplo da amorosa Alceste, filha de Pélias: só ela quis morrer por seu esposo; até os pais dele se negaram.”

Orfeu, filho de Eagro, foi arrojado dos ínferos sem conseguir o que fôra pedir. No lugar de lhe devolverem sua mulher, apresentaram-lhe um fantasma, mera sombra de Eurídice, porque apesar de músico excepcional, faltava algum valor a Orfeu. Porque, longe de imitar Alceste, morrendo por quem amava, meteu-se a descer vivo ao submundo. Os deuses, indignados diante de tamanha petulância, castigaram-lhe a covardia, fazendo-o ter uma morte vexatória nas mãos de várias mulheres. Já vês que, pelo contrário, Aquiles muito fôra honrado, este filho de Tétis, recompensado com a ida às Ilhas Bem-Aventuradas.¹ Acontece que, mesmo sua mãe prevenindo-o de que, assim que matasse Heitor seria ele também morto, e de que caso não combatesse voltaria são e salvo à casa paterna, vivendo uma vida muito longa e pacífica, Aquiles não hesitou, preferindo vingar Pátroclo, provando que dava mais valor à amizade que a sua própria vida. Escolheu morrer sobre o cadáver do amigo.”

¹ Homero retrata Aquiles apenas no Hades (Odisséia).

Ésquilo está de troça quando afirma que o amado era Pátroclo. Aquiles era mais belo, não apenas que Pátroclo, mas que todos os demais heróis. Não tinha ainda barba e era muito mais jovem, conforme Homero mesmo.” “Quem ama possui um não sei quê de mais divino que quem é amado, porque em sua alma habita um deus”

* * *

O DISCURSO DE PAUSÂNIAS

se não houvesse mais que uma Vênus,¹ não haveria mais que um Amor; mas como há duas Vênus, há necessariamente dois Amores. Quem duvida que existam duas Vênus? Uma, a mais velha, filha do céu, que não tem mãe, que chamaremos simplesmente Vênus Celeste; a outra, mais jovem, filha de Zeus e Dione, que chamaremos de a Vênus popular.”

¹ Azcárate sempre traduz conforme a mitologia romana. Também Afrodite. Nas outras traduções, dei prioridade à nomenclatura grega.

O amor da Vênus popular é popular (vulgar) também, e só inspira ações baixas”

uma vez que a Vênus Celeste não nascera de mulher, mas tão-só de varão, o amor que a acompanha só busca aos jovens. Ligados a uma deusa de mais idade, e que, por conseguinte, não tem a sensualidade fogosa da juventude, os inspirados por este Amor só desejam o sexo masculino, naturalmente mais forte e mais inteligente.”

Seria verdadeiramente desejável uma lei que proibisse amar os demasiado jovens, evitando-se assim gastar tempo com coisa tão incerta; porque quem sabe o que resultará um dia de tão terna juventude? que giro tomarão o corpo e o espírito, e até que ponto se dirigirão? ao vício? à virtude?”

Não é difícil compreender as leis que regem o amor em outros países, por serem precisas e bem simples. Só mesmo os costumes de Atenas e de Esparta necessitam de explicação. Nas Élides, por exemplo, e na Beócia, onde se cultiva pouco a arte da palavra, diz-se, puerilmente, que é bom dar nossos amores a quem nos ama, e ninguém acha-o um mau conselho, jovem ou velho. É preciso crer que nesses países o amor assim é autorizado para resolver as dificuldades e para se fazer amar sem ter de recorrer aos artifícios da língua, desconhecidos para essa gente. Mas na Jônia e em todos os países submetidos à dominação dos bárbaros tem-se este comércio por infame; proíbe-se igualmente tanto a filosofia quanto a ginástica, os tiranos não suportam ver surgirem, entre os súditos, paixões e amizades nem relações vigorosas, que é o que o amor melhor sabe criar. Os tiranos de Atenas já experimentaram esse tipo de lei em tempos antanhos. A paixão de Aristogíton e a fidelidade de Harmódio transtornaram esse estado de coisas. É claro que, nesses Estados em que é vergonhoso amar a quem nos ama, toda esta severidade nasce da iniqüidade dos que a estabeleceram, da pura tirania dos governantes e da covardia dos governados; e que nos países em que simplesmente se diz que é bom corresponder a quem nos ama, esta indulgência é uma prova de grosseria. Tudo isso é bem sabido pelos atenienses. Mas, como já disse, não é fácil compreender nossos princípios nessa matéria. Por um lado, diz-se que é melhor amar às claras que às furtadelas, e que é preciso amar com preferência os mais generosos e virtuosos, por mais que estes se afigurem menos belos.”

o mais estranho é que se quer que os amantes sejam os únicos perjuros que os deuses deixem de castigar, porque, diz-se, os juramentos não obrigam nos assuntos amorosos.”

Há entre nós a crença de que se um homem se submete a servir a um outro com a esperança de aperfeiçoar-se por intermédio dele numa ciência ou em qualquer virtude particular, esta servidão voluntária não é vergonhosa e não se chama adulação.”

* * *

Aqui, tendo feito Pausânias uma pausa (e eis aqui um jogo de palavras que vossos sofistas ensinam), seria a vez de Aristófanes começar, mas este não o pôde em virtude de uma crise de soluços que lhe sobreveio, não sei se por haver comido em excesso, ou outra razão. Então se dirigiu ao médico Erixímaco que estava sentado ao seu lado e lhe disse:

– É preciso, Erixímaco, que ou me livres desse soluço (hic)… ou que fales no meu lugar até que ele tenha cessado.

– Farei um e outro – respondeu Erixímaco –, porque vou falar em teu lugar, e tu falarás no meu, quando tua incomodidade já tiver passado. Passará rápido se, enquanto eu discurso, prenderes a respiração um pouco, e, não tendo curado o soluço, terás de gargarejar com água. Se o soluço, ainda assim, persistir, por ser demasiado violento, apanha qualquer instrumento com que consiga fazer cócegas no nariz; a isto se seguirá o espirro; e se o repetires uma ou duas vezes, o soluço cessará infalivelmente, por mais grave que seja.”

* * *

O DISCURSO DE ERIXÍMACO

Também é belo e necessário ceder ao que há de bom e de são em cada temperamento, e nisto consiste a medicina; pelo contrário, é vergonhoso comprazer ao que há de depravado e de enfermiço, e é preciso combatê-lo, se é que se fala de um médico hábil. Porque, para dizer em poucas palavras, a medicina é a ciência do amor corporal com relação à repleção e evacuação¹”

¹ O encher e esvaziar.

Esculápio¹, nosso patriarca, encontrou um meio de introduzir o amor e a concórdia entre os elementos contrários, e por isso é reputado o inventor da medicina, segundo os poetas e como penso eu mesmo. Me atrevo a assegurar que o Amor preside à medicina, e assim também à ginástica e à agricultura. Sem necessidade de fixar a atenção por muito tempo, descobre-se-o na música, e acho que foi o que Heráclito quis dizer, se bem que não soube colocá-lo em palavras. O que ele falou, em forma de enigma, foi: A unidade que se opõe a si mesma concorda consigo mesma (…) A harmonia é impossível se grave e agudo permanecem sem interagir; a harmonia é uma consonância; a consonância um acordo; e não pode haver um acordo entre partes opostas enquanto no fundo já não forem mais opostas (…) Analogamente, também as sílabas longas e as breves, que são opostas entre si, compõem o ritmo, assim que entram em acordo.”

¹ Lendário fundador da arte médica.

A adivinhação é a criadora da amizade que existe entre os deuses e os homens, pois sabe tudo o que há de santo e de ímpio nas inclinações humanas.”

* * *

– Cabe a ti, Aristófanes, suprir o que eu houver omitido. Portanto, se tens o projeto de honrar ao deus doutra maneira, fá-lo e começa, de contínuo, agora que teu soluço já passou.

Aristófanes respondeu:

– Passou, em efeito. Só me ressinto do espirro. Me admira que para restabelecer a ordem na economia do corpo seja preciso um movimento como este, acompanhado de ruídos e agitações tão ridículas; porque realmente este método da pena foi o único eficaz o bastante comigo.

– Olha como te portas, Aristófanes! Estás a ponto de iniciar teu discurso e parece que já zombas as minhas custas. Agora saibas que não terás paz, pois estou cá atento, de vigia, para ver se não vais é passar o tempo a ridicularizar o amor com piadas.”

* * *

O DISCURSO DE ARISTÓFANES

Quando desejavam caminhar depressa, apoiavam-se sucessivamente sobre seus 8 membros, e avançavam com rapidez mediante um movimento circular, como o que desempenha a roda, com os pés ao vento.”

A solução não carecia de dificuldades; não queriam os deuses aniquilar os homens, como noutros tempos aos titãs, fulminando-os com seus raios, pois aí então desapareceriam o culto e os sacrifícios que os homens lhes prestavam; no entanto, era certo que não deixariam esta insolência passar impune.” “e se depois deste castigo ainda conserveis vossa audácia monstruosa, recusando-vos ao repouso, dividi-los-ei mais uma vez, e ver-vos-ei precisados de andar sobre um só pé, como os que dançam sobre os odres de vinho na festa de Caco.¹”

¹ Caco, Cacus ou Kakos, filho de Vulcano ou Hefesto, deus olímpico. Teria uma aparência monstruosa e força sobre-humana, sendo, ademais, canibal. Arquétipo do ladrão ominoso que aterroriza as populações pastoris. Na mitologia é morto por Hércules durante seus Doze Trabalhos. O próprio Hércules teria iniciado seu tributo anual, construindo um altar, para aplacar a fúria dos deuses pelo seu ato.

Quando uma das duas metades perecia, aquela que sobrevivia buscava outra, à qual se unia novamente, fosse a metade de uma mulher inteira, o que agora se chama propriamente mulher, fosse uma metade de homem; e dessa forma ia-se extinguindo a raça. Zeus, tomado de compaixão, imaginou outro expediente: pôs à frente os órgãos da geração, que antes estavam atrás, gerando-se e derramando-se, outrora, o sêmen, não um no outro, mas no chão, como fazem as cigarras. Com esta providência de Zeus, a concepção passou a ser feita mediante a união do varão e da fêmea. Desde então, o produto da união do homem e da mulher são os filhos; se acaso o varão se unia ao varão, a saciedade os separava logo depois, restituindo-os aos trabalhos e demais cuidados da vida.”

Da mesma forma, os homens atuais, que provêm da separação dos homens primitivos, buscam o sexo masculino. Enquanto são jovens, amam aos homens; se comprazem em dormir com eles e estar em seus braços; são os melhores dentre os adolescentes e os adultos, como que oriundos de uma constituição mais varonil. (…) com a passagem do tempo, revelam-se mais capacitados que os demais para servir ao Estado. Uma vez em idade madura, passam a amar aos jovens (…) Do que eles mais gostam é passar a vida uns com os outros em celibato.”

Quando aquele que ama aos jovens ou outros homens em geral chega a encontrar sua metade, a simpatia, a amizade, o amor os unem de uma maneira tão maravilhosa que ambos não desejam, sob circunstância alguma, separar-se por um momento que seja. Estes mesmos homens, que passam toda a vida juntos, não podem dizer o que anelam, exatamente, um do outro, porque, se sentem tanto prazer ao viver dessa forma, claro está que a causa não são os sentidos corporais. É evidente que é a própria alma de cada qual que deseja algo além, inexprimível, mas que de certa forma pressente e atina. À hipótese de Hefesto em pessoa aparecer justo quando estivessem abraçados, com os instrumentos de sua arte de ferreiro, perguntando-lhes: Ó, meus caros! Que é aquilo que exigis reciprocamente?, e ao não obter nenhuma resposta, perplexo, continuar interpelando-os: O que quereis, afinal, não é encontrar-vos unidos de tal maneira que nem de dia nem de noite estejais segregados um do outro? Se é isso mesmo que quereis, vou fundir-vos e mesclar-vos para que sejais uma só pessoa e não mais duas, tanto na vida como na morte. Apenas dizei-me, e realizá-lo-ei!… Se, dizia eu, nessa hipótese, ouvissem a proposta de Hefesto, é absolutamente certo que os casais não a recusariam jamais”

Originalmente, como já disse, éramos um só; mas depois nossa iniquidade foi castigada e Zeus nos separou, como o foram os arcádios pelos espartanos(*)”

(*) “Os espartanos invadiram a Arcádia, destruíram os muros da Mantinéia e deportaram os habitantes a quatro ou cinco pontos diferentes. Cf. Xenofonte, Helênicas, 5:2.”

Que Erixímaco não critique estas minhas últimas palavras, como se fizessem alusão a Pausânias e a Agaton, porque quiçá estes dois são deste pequeno número, e pertencem ambos à natureza originalmente masculina.”

* * *

ainda não discursaram Agaton nem Sócrates.”

FEDRO – Meu querido Agaton, se continuas respondendo a Sócrates, isto não acabará; ele, quando tem com quem conversar, fica contente ao máximo e não pensa em nada mais – sobretudo se seu interlocutor é formoso.”

* * *

O DISCURSO DE AGATON

Estando de acordo com Fedro acerca de todo o demais, não posso convir com ele quanto a que o Amor seja mais antigo que Cronos e Jápeto.¹ Sustento, pelo contrário, que é o mais jovem dos deuses, e que sempre se conserva jovem. Essas velhas querelas dos deuses, que nos remetem a Hesíodo e Parmênides, se é que têm algo de verdadeiro, tiveram lugar no império da Necessidade, e não sob o reino do Amor; porque não teria havido qualquer desentendimento entre os deuses, castrações e mutilações, correntes, violências que-tais, se o Amor presidisse desde o início. A paz e a amizade, como sucede no presente, são a ordem do dia. É certo que o Amor é jovem e extremamente delicado, mas foi necessário um poeta – como Homero – para expressar a delicadeza deste deus sublime. Homero refere que Ate é deusa e delicada. Seus pés, diz ele, são tão leves que nunca os pousa em terra, mas pisa sobre a cabeça dos homens.”

¹ Titã primordial – filho de Urano e Gaia (como o próprio Cronos) e pai dos titãs Átlas e Prometeu, entre outros.

Só por livre e espontânea vontade se submete alguém ao Amor. Bem como a todo tipo de acordo, destes que não nascem da violência: quando a lei é justa. E o Amor não só é justo como moderado no mais alto grau, porque consiste a temperança em triunfar dos prazeres e das paixões; e há prazer superior ao Amor? Se todos os prazeres e todas as paixões estão abaixo do Amor, é que ele os domina; e se os domina, é de precisão que esteja dotado de um equilíbrio incomparável. Quanto à força, Marte não pode igualá-lo. Não é Marte que possui ao Amor, mas o Amor que possui a Marte, o Amor de Vênus, como dizem os poetas; porque aquele que possui é mais forte que o objeto possuído; e superar o que supera aos demais, não seria ser o mais forte de todos?”

o Amor é um poeta tão entendido que converte em poeta àquele que quer; e isto sucede até aos que são estranhos às Musas, logo que se sentem inspirados pelo Amor; o que prova que o Amor é notável nisto de consumar as obras que são da competência das Musas; afinal, não se ensina aquilo que não se conhece, bem como não se dá aquilo que não se tem”

Antes do Amor, como disse ao princípio, aconteceram entre os deuses muitas coisas deploráveis, durante o reinado da Necessidade.”

* * *

Sinto-me tão incapaz de dizer algo tão belo que, repleto de vergonha, de bom grado abandonaria o posto, se realmente pudera, porque a eloquência de Agaton me recordou a de Górgias, até se passar comigo o que diz Homero: temia eu que Agaton, ao arrematar, lançasse sobre meu discurso a cabeça de Górgias, este orador terrível, petrificando minha língua!”

Permita-me ainda, Fedro, proceder a algumas perguntas a Agaton, a fim de que com seu auxílio possa falar com mais segurança.”

desejo possuir no futuro aquilo que tenho neste instante.

(…)

E não seria isso amar o que não se tem certeza de possuir, aquilo que ainda não se possui, e desejar conservar para o dia de amanhã aquilo que se possui no momento presente?”

* * *

(*) “Por um artifício de composição que parece uma espécie de protesto implícito contra o papel tão inferior que a mulher desempenhou até este momento na conversação sobre o amor, Platão expõe suas opiniões pela boca de uma, a estrangeira de Mantinéia, que faz o prólogo¹ de Sócrates no famoso discurso.”

¹ Um prólogo tão extenso que chega a ser a metade do discurso socrático na obra!

* * *

SÓCRATES – Que é afinal o Amor, Diotima, se não é mortal nem tampouco imortal?

DIOTIMA – Um grande demônio,¹ Sócrates; porque todo demônio ocupa um lugar intermédio entre os deuses e os homens.”

¹ Daimon

DIOTIMA – (…) Como a natureza divina nunca entra em comunicação direta com o homem, ela se vale de demônios para se relacionar e conversar conosco, seja enquanto estamos acordados ou sonhando. (…) Os demônios são muitos e de muitas classes, e o Amor é um deles.”

DIOTIMA – Quando do nascimento de Vênus, houve entre os deuses um banquete, no qual se encontrava Poros,¹ filho de Métis,² em particular. Depois da refeição, Pênia³ pôs-se à porta, para mendigar migalhas e sobras. Nesta hora, Poros, embriagado pelo néctar dos deuses (ainda não haviam inventado o vinho) saiu da sala, entrando no jardim de Zeus, onde o sono não tardou a fechar suas pálpebras cada vez mais pesadas. Pênia, premida por seu estado de miséria, aproveitou para conceber um filho de Poros. Deitou-se com ele enquanto estava inconsciente, e como resultado dessa união nasceu o Amor. É por esta razão que o Amor se tornou o companheiro e serviçal número 1 de Vênus, porque foi concebido no mesmo dia de seu nascimento; sem falar que o Amor ama naturalmente a beleza, e Vênus é bela.”

¹ A Abundância.

² A Prudência.

³ A Penúria.

Tudo o que adquire, dissipa sem cessar, de sorte que nunca é rico nem pobre. Ocupa um posto intermediário entre a sabedoria e a ignorância, porque nenhum deus filosofa, nem deseja fazer-se sábio, posto que a natureza divina já contém a sabedoria. Sabeis, pois, que o sábio não filosofa. Idem para os ignaros: nenhum deles filosofa nem deseja fazer-se sábio, porque a ignorância produz precisamente o péssimo efeito de persuadir os feios, os maus e os estúpidos de que são belos, bons e sábios. E ninguém deseja as coisas de que já se crê portador.” “A sabedoria é uma das coisas mais belas do mundo, e, como o Amor ama o que é belo, é preciso concluir que o Amor é amante da sabedoria, i.e., filósofo”

DIOTIMA – distinguimos uma espécie particular de amor, e chamamo-la amor, usando o nome que corresponderia na verdade ao gênero inteiro; enquanto isso, para as demais espécies empregamos termos diferentes.”

é preciso unir ao desejo do bom o desejo da imortalidade, posto que o amor consiste em aspirar a que o bom nos pertença sempre.”

DIOTIMA – Os que são fecundos com relação ao corpo amam as mulheres, e se inclinam com preferência a elas, crendo assegurar, mediante a procriação dos filhos, a imortalidade e a perpetuidade do seu nome, e a felicidade que se imaginam no curso dos tempos. Mas aqueles que são fecundos com relação ao espírito…”

Sólon mesmo é honrado por vós como pai das leis, assim como outros grandes homens o são também em diversos países, seja na Grécia, seja entre os bárbaros, porque produziram uma infinidade de obras admiráveis e criaram toda classe de virtudes. Estes filhos lhes valeram templos, enquanto que os filhos carnais dos homens, aqueles que saem das entranhas da mulher, jamais engrandeceram ninguém.”

o caminho reto do amor, já se guie por si mesmo, já seja guiado por outro, é começar pelas belezas inferiores e elevar-se até a beleza suprema, passando, por assim dizer, por todos os graus da escala de um só corpo belo a dois, de dois a todos os demais, dos corpos belos às ocupações belas e às ciências belas, até que, de ciência em ciência, chegue-se à ciência por excelência, a ciência do belo mesmo, finalizando-se por conhecer esta ciência tal como ela é em si.”

* * *

(*) “Depois do discurso de Sócrates, parece que nada resta a dizer sobre o amor, e que o Banquete deve ser concluído. Mas Platão achou conveniente ressaltar, quando menos se esperava, a elevação moral de sua teoria mediante o contraste que apresenta frente à baixeza das inclinações ordinárias dos homens. É por esta razão que, neste instante, aparecem de improviso Alcibíades¹, embriagado, com a cabeça coroada de hera e violetas, acompanhado de tocadores de flauta e de uma porção de seus companheiros de bebedeira. Que representa essa orgia em meio a estes filósofos? Não faz saltar à vista a eterna diferença, para usar o próprio jargão platônico, entre a Vênus popular e a Vênus celeste? Mas o engenhoso autor do Banquete faz derivar daí outro resultado importante. A orgia, que ameaçava tornar-se contagiosa, cessa como por encanto no momento em que Alcibíades reconhece Sócrates entre os convivas.

¹ A eterna chacota de Platão. Como péssimo aluno de Sócrates, que se tornou um político tirânico e traidor da polis, nada mais justo que sempre figure assim nos diálogos que foram preservados para a posteridade.

* * *

Um instante após, ouvimos no pátio a voz de Alcibíades, meio ébrio e gritando”

ALCIBÍADES – Rides de mim porque estou bêbado? Ride o quanto quiserdes! Sei que digo a verdade. Mas vejamos, respondeis: entrarei sob esta condição ou não entrarei? Bebereis comigo ou não?”

ALCIBÍADES – Por Hércules! Que é isto? Sócrates, vejo-te cá à espera a fim de surpreender-me, segundo teus costumes, aparecendo de repente quando menos te esperava! Que vieste fazer aqui hoje?! Por que ocupas este lugar no banquete? Como é que, em vez de te pores ao lado de Aristófanes ou de qualquer outro mais complacente contigo, ou que ao menos se esforce em sê-lo, tu soubeste colocar-te tão bem que te encontro, afinal, junto do mais formoso da reunião?

SÓCRATES – Imploro teu socorro, Agaton. O amor deste homem não é para mim um embaraço pequeno. Desde a época em que comecei a amá-lo, eu não posso mais contemplar ou conversar com nenhum outro jovem, sem que, agitado e ciumento, ele se entregue a incríveis excessos, enchendo-me de injúrias, e por pouco é que não transforma em agressões físicas suas ameaças! Tendes cuidado, convivas, para que não vos deixeis levar por um arrebatamento do gênero nesta hora tão delicada; procura, Agaton, assegurar meu sossego, ou protege-me, enfim, se estás disposto a alguma violência; receio este seu amor e seus ciúmes furiosos!”

ALCIBÍADES – Pois bem, amigos, que fazemos? Me pareceis excessivamente comedidos e nisso não posso consentir; é preciso beber; este é o trato que fizemos! (…) Agaton, por favor, que me tragam uma taça grande, se a tiveres; senão, ó escravo!, dá-me cá aquele cântaro! Porque aquele cântaro já leva bem uns dois litros.”

ALCIBÍADES – Que não levem para o lado malicioso aquilo que vou fazer na seqüência, porque Sócrates poderá beber o quanto queira, e nem por isso vós o vereis embriagado!

O cântaro preenchido pelo escravo, Sócrates o bebeu. Então Erixímaco, tomando a palavra:

ERIXÍMACO – Que faremos, Alcibíades? Seguiremos bebendo, sem falar nem cantar, e nos contentaremos com o mesmo que os beberrões que só sabem matar a sede?

ALCIBÍADES – Saúde, Erixímaco, digno filho do melhor e mais sábio dos pais!

ERIXÍMACO – Também te saúdo. Mas: que faremos?

(…)

ERIXÍMACO – Então escuta! Antes de tua chegada tínhamos convindo em que cada um de nós, seguindo um turno rigoroso, faria elogios ao Amor, o melhor que pudesse, começando pela direita. Todos cumprimos com nossa obrigação, e é, pois, justo que tu, que nada disseste e que não por isso bebeste menos, cumpras por tua vez com tua parte do negócio. Quando houveres concluído, elegerás um tema a Sócrates, de tua preferência; este a teu vizinho da direita, e assim sucessivamente.

ALCIBÍADES – (…) querer que um bêbado dispute em eloquência com gente comedida e de sangue frio é desigual em demasia!”

* * *

O DISCURSO DE ALCIBÍADES

Que outro fale, ainda que seja o orador mais hábil, e não causará impressão alguma sobre nós; mas tu, Sócrates – ou alguém que repita teus dizeres, por pouco versado que seja na arte da palavra –, fazes todos os ouvintes, homens, mulheres, crianças, se sentirem convencidos e hipnotizados.”

Ao ouvir Péricles e tantos de nossos grandes oradores, apreendi que são eloqüentes, mas nada de semelhante me fizeram experimentar. Minha alma não se turbava nem se indignava contra si mesma devido a sua escravidão. Mas, quando escuto esse Marsias,¹ a vida que levo me parece de repente insuportável!”

¹ Sátiro mitológico, um encantador nato. Punido por Apolo por sua vaidade, acaba, na posteridade, dando seu nome a um rio da Frígia.

vejo-me obrigado a dele fugir tapando meus ouvidos, como se se tratasse das sereias. Não fosse esse proceder, creio que permaneceria sentado a seu lado até o fim dos meus dias. Este homem desperta em mim um sentimento de que não se me creria capaz, isto é, o do pudor. É verdade, apenas Sócrates consegue me ruborizar, porque estou bem ciente de nada poder opor a seus conselhos! (…) Fujo-lhe, procuro evitá-lo; mas, quando volto a vê-lo, me envergonho, em sua presença, de haver desmentido minhas palavras com minha conduta; às vezes preferiria que ele não existisse; no entanto, se isso acontecera, estou convencido de que seria eu ainda mais desgraçado; de maneira que este homem é para mim um enigma!

Tamanha é a impressão que ele produz sobre minha pessoa, e a que a flauta deste sátiro produz sobre os outros! Mas talvez minhas palavras não dêem o termo exato do poder extraordinário que este homem exerce sobre quem o escuta; estejais convencidos de que nenhum de nós compreende a Sócrates. Já que comecei, continuo…

Sabeis do ardor que manifesta Sócrates pelos jovens formosos; com que empenho os busca, e até que ponto deles está enamorado; vedes, outrossim, o quanto a sociedade como um todo o menospreza, que ele nada sabe, ou, pelo menos, dissimula não saber. Tudo isso não é coisa de um Sileno¹?

Até mesmo na aparência ele lembra a fisionomia das estátuas de Sileno. Mas, convivas de banquete, abri-o, e que tesouros não vereis dentro dele! Sabei que a beleza de um homem é para ele o aspecto mais indiferente. É inconcebível imaginar até que ponto a desdenha, bem como a riqueza e as demais vantagens cobiçadas pelo vulgo. Sócrates as enxerga sem qualquer valor, e a nós mesmos, aliás, como se nada fôramos. Passa toda sua existência a zombar e a debochar de todo mundo! Porém, quando fala a sério e deixa ver seu interior–ignoro mesmo se outros chegaram a ver o que vi, vista tão divina, preciosa, majestosa, encantadora! Sócrates é simplesmente irresistível! Crendo ao princípio que ele se apaixonava por minha beleza, me vangloriava de minha grande sorte, e pensava em sua conquista como um meio certo a fim de receber em troca toda sua sabedoria! Sim, sempre me admirei muito ao espelho… Manifestei meus desejos a meu aio, que logo providenciou um encontro nosso, a sós. Agora é preciso que eu conte tudo, portanto atenção! E tu, Sócrates, se acaso incorro em erro, me adverte. A sós com Sócrates, esperava sempre que a conversação chegasse àqueles temas que só são desenvolvidos quando o amante não encontra testemunhas que possam atrapalhar seu discurso com o objeto amado! Nesta expectativa me auto-lisonjeava e somente dela já usufruía prazer. Mas minhas esperanças foram morrendo pouco a pouco. Sócrates passou o dia inteiro conversando comigo da sua forma usual, e depois se recolheu ao leito. Depois disso, desafiei-lhe a fazer exercícios ginásticos, esperando, por este método, ganhar algum terreno. Exercitamo-nos e lutamos muitas vezes, sem testemunhas. Que poderei atestar-lhes? Que nem assim obtive qualquer avanço! Sem poder conquistá-lo dessa forma velada, decidi-me ao ataque franco. Uma vez tendo começado, não seria lícito abandoná-lo sem ir às últimas conseqüências! Convidei-o para comer, como fazem os amantes que estendem um laço àqueles que amam; de chofre recusou, mas aos poucos foi cedendo e enfim resolveu-se por aceitar. Veio e comeu; mas quando terminou, fez menção de ir-se. Uma espécie de pudor me impediu de retê-lo. Mas logo lancei-lhe mais um laço; e depois de mais uma vez banquetearmos juntos, prolonguei desta vez a conversação até avançada a noite; e quando quis ir embora, intimei-o a dormir sob meu teto, sob o pretexto de que já era muito tarde. Deitou-se no mesmo banco em que comera; este banco estava próximo ao meu, e éramos só nós dois na casa.”

¹ Discípulo mitológico do deus Dionísio. Wikipédia: “Sileno era descrito como o mais velho, o mais sábio e o mais beberrão dos seguidores de Dioniso, e era descrito como tutor do jovem deus nos hinos órficos.”

as crianças e os bêbados dizem a verdade”

estou mordido e ferido pelos raciocínios da filosofia, cujos tiros são mais inclementes e afiados que o dardo duma víbora, assim que atingem uma alma jovem e bem-nascida. Fazem-na, enfim, dizer ou fazer mil coisas extravagantes; e vendo aqui neste banquete o ferro que me acutilou tantas vezes, Agaton, Erixímaco, Pausânias, Aristodemo, Aristófanes, deixando Sócrates de lado, e os demais, atacados todos como eu dessa mania e desse frenesi filosóficos, me dou por vencido e, mesmo que pouco inclinado a prosseguir minha história, diante de tantos ouvidos e olhares, fá-lo-ei, porque sabereis excusar minhas ações de então, e minhas palavras de agora. Mas quanto aos escravos e a todo profano sem cultura, ponde-os daqui para fora, e cerrem-lhes três portas para que nada ouçam!

Continuando, amigos: logo que acabou a luz do crepúsculo, e se retiraram os escravos de minha habitação, cri que não devia mais dar rodeios com Sócrates, e devia ser o mais direto possível. Toquei-o e disse-lhe:

– Sócrates, dormes tu?

– Não – respondeu.

– Pois bem, sabes o que eu penso?

– O quê?

– Que tu és o único amado digno de mim, e me parece que não te atreves a revelar teus sentimentos. E eu me julgaria sem razão se, a partir de minha descoberta, não procurasse comprazer-te em todas as ocasiões que pudesse. Faço isso porque só tenho a ganhar em nobreza, e assim também meus amigos, indiretamente. Neste momento nenhum pensamento me fustiga tanto quanto o de me aperfeiçoar o quanto puder, e ninguém vejo que pudesse ser de mais auxílio do que tu. Temeria mil vezes mais o ser criticado pelos sábios ao recusar algo a um homem como tu, que sê-lo pelo vulgo e pelos ignaros ao conceder-te tudo.

A tudo isto que eu disse, Sócrates respondeu com sua ironia habitual”

SÓCRATES – (…) Os olhos do espírito não começam a se fazer proféticos até que os do corpo comecem a se debilitar, e tu ainda não estás neste estágio.”

no fim, vedes que Sócrates nada me dedicou, senão desdém e desprezo a minha beleza, não fazendo mais do que insultá-la; e pensava eu que ela tinha bastante mérito, amigos! Sim, sede juízes da insolência de Sócrates; os deuses e as deusas serão testemunhas; àquela noite, saí de seu lado, no leito, como se despertasse após dormir com meu pai ou com meu irmãos mais novo!”

Mais submisso a esse homem do que um escravo o pode estar a seu dono, andava eu errante aqui e ali, sem saber que rumo tomar. Essas foram minhas primeiras relações com Sócrates. Depois nos encontramos de novo, no exército, na expedição contra a Potidéia, e fomos companheiros de quarto. Nos combates, vi Sócrates sobressair, não só a mim, mas também a todos os demais. Ele tinha a maior paciência para suportar todas as fadigas. Se faltava comida, coisa comum em campanha, Sócrates não dava sinais de sofrer de fome e de sede. Se nos encontrávamos na abundância, sabia desfrutar dela mais que qualquer um. Sem sequer apreciar a bebida, bebia mais que os demais se lhe estendiam a taça! (…) Naquele país o inverno é muito rigoroso, e a maneira como Sócrates resistia ao frio não era menos do que prodigiosa. Em tempos de grandes geadas, quando ninguém se atrevia a sair, ou, pelo menos, ninguém saía sem ir-se bem encasacado e calçado, e com os pés envoltos em feltro e peles de cordeiro, ele ia e vinha com a mesma capa que soía levar, caminhava com os pés nus com a facilidade típica de quem usava botas, ao ponto dos soldados olharem-no com despeito, achando-se por isso humilhados. Assim se conduzia Sócrates no exército.”

Mas o que faz de meu Sócrates digno de uma admiração particular é que não se acha outro que se lhe pareça, nem entre os antigos, nem entre nossos contemporâneos. Poder-se-ia, p.ex., comparar-se Brásidas¹ com Aquiles, Péricles com Nestor ou Antenor; e há ainda personagens que, contrastados, dão azo a semelhanças. Mas, repito, ninguém, antigo ou moderno, se aproxima, nem remotamente, a este homem, ou a seus discursos, nem a sua originalidade, a não ser que se comparassem ele e seus discursos não a um homem, como já o disse, mas aos silenos e aos sátiros; porque até esqueci de dizer, quando principiei meu discurso, que os discursos deste homem se parecem também, perfeitamente, com os dos silenos quando se expandem. Com efeito, apesar do desejo que se tem de ouvir Sócrates, o que disse parece, à primeira vista, inteiramente grotesco. As expressões com que ele veste seu pensamento são grosseiras, como a pele de um sátiro impudente. Não vos fala mais que de asnos com selas, de ferreiros, sapateiros, peliceiros, e aparenta sempre dizer uma mesma coisa nos mesmos termos; de sorte que não há ignorante ou néscio que não sinta a tentação de rir-se. Mas, como eu venho dizendo, abri seus discursos e examinai seu interior: encontrar-se-á de imediato que não há nada mais coerente e cheio de sentido; concedais só um pouco mais, e logo direis que são de natureza divina, encerrando em si as imagens mais nobres da virtude; numa só palavra, tudo quanto aquele que quer fazer-se um homem de bem deve ter em vista. (…) E não falo só por mim; outros recusados por Sócrates são Cármides, filho de Glauco; Eutidemo, filho de Díocles, e tantos mais, a quem enganou, simulando querer ser seu amante, quando não representou para com eles senão o papel da pessoa muito amada. Sendo assim, Agaton, aproveita-te destes exemplos e não te deixes enganar por este homem! Que minha triste experiência te ilumine, e não imites o insensato que, segundo o provérbio, não se faz sábio senão as suas custas.”

¹ General espartano na época da Guerra do Peloponeso.

* * *

Havendo cessado Alcibíades seu discurso, todos começaram a rir ao testemunhar sua franqueza, e percebendo que ainda estava muito apaixonado por Sócrates.

Este, tomando a palavra, disse então:

SÓCRATES – Imagino que hoje estiveste pouco expansivo, meu caro Alcibíades; doutra forma, não poderias, artificiosamente, e com amplo vocábulo e talento verbal, haver ocultado o verdadeiro motivo do teu discurso, o que só revelaste justo ao final, fazendo parecer que não era teu único objetivo colocar Agaton e eu em maus lençóis! Tens a pretensão de que eu devo amar-te, e não amar a mais ninguém, e que Agaton deve ser amado exclusivamente por ti. Mas teu artifício não passou despercebido; logo intuímos aonde ia a fábula dos sátiros e dos silenos; assim, meu querido Agaton, desfaçamos o projeto de Alcibíades, e faz de sorte que ninguém possa nos separar um do outro.

AGATON – Ó, creio que tens razão, Sócrates; estou certo de que seu esquema de se interpor entre mim e tu foi todo pensando com vistas a nossa separação! Mas de nada serviu, porque agora mesmo irei pôr-me a teu lado!

SÓCRATES – Ótimo, senta-te a minha direita!

ALCIBÍADES – Por Zeus! Quanto não me faz sofrer este homem! Imagina-se no direito de dar-me sua lei em tudo! Permite-me, pelo menos, ó maravilho Sócrates, que Agaton se ponha entre nós dois (a sua esquerda).”

SÓCRATES – Impossível! Tu acabas de fazer minha apologia, e agora me toca fazer a do meu vizinho da direita. (…) Deixa que venha este jovem, Alcibíades, e não o invejes as lisonjas que com impaciência desejo prestar-lhe!

AGATON – Não há modo de que eu permaneça aqui, Alcibíades. Quero resolutamente mudar de sítio, para ser elogiado por Sócrates!

ALCIBÍADES – Isto é o que sempre sucede! Onde quer que esteja Sócrates, somente ele tem lugar garantido ao lado dos jovens formosos. E agora mesmo, vede que pretexto simples e plausível encontrara a fim de que Agaton sentasse a seu lado!”

(*) “Após Alcibíades arrematar sua fala, a taça começa a circular entre os convidados, até que não resta um que não sucumbe por seu turno à embriaguez. Sócrates, único impassível, pois seu pensamento, estranho às desordens, faz seu corpo imune a elas, conversa sobre diversas temáticas com os restantes, os que resistem até os primeiros albores do dia. Finalmente, quando todos ali se entregam ao sono, abandona a casa do anfitrião do banquete Agaton, para ir dedicar-se a suas ocupações rotineiras: última manifestação desta alma forte, que a filosofia tinha tornado invulnerável às paixões.”

que o mesmo homem deve ser poeta trágico e poeta cômico, e que, quando se sabe tratar a tragédia segundo as regras da arte, deve-se saber por igual tratar a comédia. Obrigados a convir com as afirmações de Sócrates, e estando como que embotados pela longa noite de discussões, começaram a sentir sono. Aristófanes adormeceu primeiro, depois Agaton, com o sol já bastante alto; Sócrates, vendo ambos já inconscientes, levantou-se e saiu acompanhado, como de costume, por Aristodemo; dali foi-se ao Liceu, banhou-se, e passou o restante do dia em suas ocupações habituais, de modo que não regressou a sua casa até de tarde, quando enfim foi descansar.”

WINTER’S TALE ou CONTO DE UMA NOITE DE INVERNO

TEMPO, o Coro

LEONTES, o Rei Anfitrião

CAMILLO, um siciliano (súdito do anfitrião, depois do Rei da Boêmia, depois outra vez do rei siciliano!)

ARCHIDAMUS, um boêmio

ANTIGONUS, um siciliano, um dos primeiros da côrte de Leontes

jovem príncipe MAMILLIUS da Sicília, filho de Leontes, trágica criança!

POLIXENES, Rei da Boêmia, amigo de infância de Leontes

HERMIONE, (por algum tempo) Rainha da S.

PAULINA, uma confidente da Rainha, esposa de Antigonus

CLEOMENES, siciliano a serviço do oráculo (1)

DION, siciliano a serviço do oráculo (2)

PERDITA, a princesa desgraçada do reino da Sicília, seu nome a descreve bem

PASTOR boêmio, pai adotivo de Perdita

PALHAÇO, filho do Pastor

príncipe FLORIZEL, filho de Polixenes, apaixonado perditamente

AUTOLYCUS, ladrão astuto

MOPSA, o par romântico do Palhaço

DORCAS, humilde serva do Pastor

* * *

If the king had no son, they would desire to live on crutches [muletas, andador] till he had one.”

HERMIONE

(…)

Verily,

You shall not go: a lady’s ‘Verily’ ‘s

As potent as a lord’s. Will you go yet?

Force me to keep you as a prisoner,

Not like a guest; so you shall pay your fees

When you depart, and save your thanks. How say you?

My prisoner? or my guest? by your dread ‘Verily,’

One of them you shall be.”

LEONTES, papai coruja

(…)

Looking on the lines

Of my boy’s face, methoughts I did recoil

Twenty-three years, and saw myself unbreech’d,

In my green velvet coat, my dagger muzzled,

Lest it should bite its master, and so prove,

As ornaments oft do, too dangerous:

How like, methought, I then was to this kernel,

This squash, this gentleman.”

Go, play, boy, play: thy mother plays, and I

Play too, but so disgraced a part, whose issue

Will hiss me to my grave: contempt and clamour

Will be my knell. Go, play, boy, play.”

Estou pescando agora, embora não percebam!

Uma pesca delirante

E os convivas são os peixes

CAMILLO

Stays here longer.

LEONTES

Ay, but why?

CAMILLO

To satisfy your highness and the entreaties

Of our most gracious mistress.

LEONTES

Satisfy!

The entreaties of your mistress! satisfy!

Let that suffice.”

Enquanto aqui falo, neste exato momento

Muitos e muitos homens devem estar a segurar

sua mulherzinha nos braços;

E nem desconfiam que ela escorreu de suas mãos

na sua ausência,

E seu peixão foi fisgado pelo vizinho ao lado,

pelo Senhor Sorriso, seu vizinho: ah, isto é

até um consolo: Ver que não só comigo,

Mas os portões de outros abriram contra

sua vontade. Se todos os homens desesperassem

da fidelidade de suas esposas, um décimo da humanidade

se mataria enforcada. Médico pra isso não há!

É um mundo obsceno, que mais se mostra

Onde é predominante; e forte é essa obscenidade

De leste a oeste, de norte a sul:

Não há muralhas para uma barriga!

O inimigo poderá transitar a bel-prazer

Com mala e sacola: aos milhares, se pensarmos

Que tantos têm a doença, mas não sentem os sintomas.”

Viver em sussurros não é nada?

Beijinho na bochecha? Encontro de narizes?

Mandar beijo às escondidas? Parar de repente no ar

a gargalhada, e encerrâ-la num suspiro?–sinal infalível

de falta de honestidade—cavalgar lado a lado?

Trombadelas em esquinas escuras ao acaso?

Desejar que as horas passassem mais devagar?

Cada hora, cada minuto, nele se deliciar?

Estar desperta e lúcida tanto ao meio-dia

quanto à meia-noite? Todos cegos a essa agulha

diminuta e essas teias invisíveis que eles tecem,

mancomunados como estão? É seu ninho de amor,

essa teia-de-aranha! Isso tudo não é nada?

Porque se for, o mundo e tudo nele não é nada;

O azul do céu nada é; Boêmia não está de pé;

Minha esposa não existe; nada têm esses nadas,

Se isso é nada!”

Se seu fígado estivesse comprometido como está sua integridade, ela não teria mais um dia de vida!”

Um pajem vê mais do quarto de sua ama do que da terra vê do céu um deus;

ah tu, mordomo e garçom, que trazes e levas os copos,

por que é que tu não trazes uma bebida especial para aquele ali,

um boa-noite cinderela para toda a eternidade,

um afogamento que me deixaria realizado?”

LEONTES

I will seem friendly, as thou hast advised me.

Exit”

CAMILLO

(…)

I must

Forsake the court: to do’t, or no, is certain

To me a break-neck. Happy star, reign now!

Here comes Bohemia.

Re-enter POLIXENES

POLIXENES

The king hath on him such a countenance

As he had lost some province and a region

Loved as he loves himself: even now I met him

With customary compliment; when he,

Wafting his eyes to the contrary and falling

A lip of much contempt, speeds from me and

So leaves me to consider what is breeding

That changeth thus his manners.

CAMILLO

I dare not know, my lord.”

Você não ousa saber ou não sabe?

O que você sabe, você sabe,

não tem que ousar ou não.”

Good Camillo,

Your changed complexions are to me a mirror

Which shows me mine changed too; for I must be

A party in this alteration, finding

Myself thus alter’d with ‘t.”

POLIXENES

A sickness caught of me, and yet I well!

(…)

What incidency thou dost guess of harm

Is creeping toward me; how far off, how near;

Which way to be prevented, if to be;

If not, how best to bear it.”

Minha reputação agora fede até para coveiros!

I am sure ‘tis safer to

Avoid what’s grown than question how ‘tis born.”

Decerto é mais seguro evitar o que se tornou ameaçador do que descobrir como se tornou.”

This jealousy

Is for a precious creature: as she’s rare,

Must it be great, and as his person’s mighty,

Must it be violent, and as he does conceive

He is dishonour’d by a man which ever

Profess’d to him, why, his revenges must

In that be made more bitter. Fear o’ershades me:

Good expedition be my friend, and comfort

The gracious queen, part of his theme”

MAMILLIUS

A sad tale’s best for winter: I have one

Of sprites and goblins.”

All’s true that is mistrusted”

I have said

She’s an adulteress; I have said with whom:

More, she’s a traitor and Camillo is

A federary with her”

every inch of woman in the world, ay, every dram of woman’s flesh is false, If she be.”

ANTIGONUS

(…)

Be she honour-flaw’d,

I have three daughters; the eldest is eleven

The second and the third, nine, and some five;

If this prove true, they’ll pay for’t:

by mine honour,

I’ll geld ‘em all; fourteen they shall not see,

To bring false generations: they are co-heirs;

And I had rather glib myself than they

Should not produce fair issue.”

LEONTES

Though I am satisfied and need no more

Than what I know, yet shall the oracle

Give rest to the minds of others, such as he

Whose ignorant credulity will not

Come up to the truth. So have we thought it good

From our free person she should be confined,

Lest that the treachery of the two fled hence

Be left her to perform.”

(…)

She is something before her time deliver’d.

PAULINA

A boy?

EMILIA

A daughter, and a goodly babe,

Lusty and like to live: the queen receives

Much comfort in’t; says <My poor prisoner,

I am innocent as you.>”

We do not know

How he may soften at the sight o’ the child:

The silence often of pure innocence

Persuades when speaking fails.”

I am as ignorant in that as you

In so entitling me, and no less honest

Than you are mad; which is enough, I’ll warrant,

As this world goes, to pass for honest.”

The root of his opinion, which is rotten

As ever oak or stone was sound.”

It is an heretic that makes the fire,

Not she which burns in’t. I’ll not call you tyrant;

But this most cruel usage of your queen,

Not able to produce more accusation

Than your own weak-hinged fancy, something savours

Of tyranny and will ignoble make you,

Yea, scandalous to the world.”

Eu não sou tirano! E para prová-la, lançá-la-ei à fogueira!

Shall I live on to see this bastard kneel

And call me father? better burn it now

Than curse it then. But be it; let it live.

It shall not neither. “

We enjoin thee,

As thou art liege-man to us, that thou carry

This female bastard hence and that thou bear it

To some remote and desert place quite out

Of our dominions, and that there thou leave it,

Without more mercy, to its own protection

And favour of the climate. As by strange fortune

It came to us, I do in justice charge thee,

On thy soul’s peril and thy body’s torture,

That thou commend it strangely to some place

Where chance may nurse or end it. Take it up.”

LEONTES

Your actions are my dreams;

You had a bastard by Polixenes,

And I but dream’d it.”

Officer

You here shall swear upon this sword of justice,

That you, Cleomenes and Dion, have

Been both at Delphos, and from thence have brought

The seal’d-up oracle, by the hand deliver’d

Of great Apollo’s priest; and that, since then,

You have not dared to break the holy seal

Nor read the secrets in’t.”

Officer

[Reads] Hermione is chaste;

Polixenes blameless; Camillo a true subject; Leontes

a jealous tyrant; his innocent babe truly begotten;

and the king shall live without an heir, if that

which is lost be not found.

Lords

Now blessed be the great Apollo!

HERMIONE

Praised!

LEONTES

Hast thou read truth?

Officer

Ay, my lord; even so

As it is here set down.

LEONTES

There is no truth at all i’ the oracle:

The sessions shall proceed: this is mere falsehood.”

LEONTES

(…)

Apollo, pardon

My great profaneness ‘gainst thine oracle!

I’ll reconcile me to Polixenes,

New woo my queen, recall the good Camillo,

Whom I proclaim a man of truth, of mercy;

For, being transported by my jealousies

To bloody thoughts and to revenge, I chose

Camillo for the minister to poison

My friend Polixenes: which had been done,

But that the good mind of Camillo tardied

My swift command, though I with death and with

Reward did threaten and encourage him,

Not doing ‘t and being done: he, most humane

And fill’d with honour, to my kingly guest

Unclasp’d my practise, quit his fortunes here,

Which you knew great, and to the hazard

Of all encertainties himself commended,

No richer than his honour: how he glisters

Thorough my rust! and how his pity

Does my deeds make the blacker!”

PAULINA

(…) O lords,

When I have said, cry ‘woe!’ the queen, the queen,

The sweet’st, dear’st creature’s dead,

and vengeance for’t

Not dropp’d down yet.”

But, O thou tyrant!

Do not repent these things, for they are heavier

Than all thy woes can stir; therefore betake thee

To nothing but despair. A thousand knees

Ten thousand years together, naked, fasting,

Upon a barren mountain and still winter

In storm perpetual, could not move the gods

To look that way thou wert.”

HERMIONE’s ghost

(…)

for the babe

Is counted lost for ever, Perdita,

I prithee, call’t.”

Pastor

Quisera não haver idade entre 16 e 23,

ou que a juventude passasse esses 7 malditos

anos dormindo. Não há nada entre um extremo

e outro, deste intervalo suntuoso, a não ser

barrigas de bebê, anciãos ludibriados, roubos,

combates—Ah, quisera que enxergassem!

Se ao menos um desses cérebros de geléia e paçoca,

de 19 e 22 anos, não saísse para caçar nesse tempo ruinoso?

Estes descerebrados espantaram duas das minhas

melhores ovelhas, que, temo, serão primeiro achadas

pelo lobo que pelo mestre: creio que o único lugar

em que vivas ainda podem estar, seria no litoral,

à procura de hera.

Ó! Zeus meu, se não é uma grande fortuna o que

vejo agora com meus olhos! É uma manjedoura,

e há algo ali, bela manjedoura é! Ó!

Menino, menina? Enrolado, enrolada em trapos.

Ó, linda menina!”

when you do dance, I wish you a wave o’ the sea, that you might ever do nothing but that”

I am put to sea

With her whom here I cannot hold on shore;

And most opportune to our need I have

A vessel rides fast by, but not prepared

For this design. What course I mean to hold

Shall nothing benefit your knowledge, nor

Concern me the reporting.”

CAMILLO

(…)

If your more ponderous and settled project

May suffer alteration, on mine honour,

I’ll point you where you shall have such receiving

As shall become your highness; where you may

Enjoy your mistress, from the whom, I see,

There’s no disjunction to be made, but by–

As heavens forefend!–your ruin; marry her,

And, with my best endeavours in your absence,

Your discontenting father strive to qualify

And bring him up to liking.”

FLORIZEL and AUTOLYCUS exchange garments

Fortunate mistress,–let my prophecy

Come home to ye!–you must retire yourself

Into some covert: take your sweetheart’s hat

And pluck it o’er your brows, muffle your face,

Dismantle you, and, as you can, disliken

The truth of your own seeming; that you may–

For I do fear eyes over–to shipboard

Get undescried.”

What an exchange had this been without boot! What

a boot is here with this exchange! Sure the gods do

this year connive at us, and we may do any thing

extempore. The prince himself is about a piece of

iniquity, stealing away from his father with his

clog at his heels: if I thought it were a piece of

honesty to acquaint the king withal, I would not

do’t: I hold it the more knavery to conceal it;

and therein am I constant to my profession.”

CLOWN

She being none of your flesh and blood, your flesh

and blood has not offended the king; and so your

flesh and blood is not to be punished by him. Show

those things you found about her, those secret

things, all but what she has with her: this being

done, let the law go whistle: I warrant you.”

AUTOLYCUS

[Aside] Though I am not naturally honest, I am so

sometimes by chance: let me pocket up my pedlar’s excrement.

Takes off his false beard

How now, rustics! whither are you bound?

Shepherd

To the palace, an it like your worship.”

Clown

We are but plain fellows, sir.

AUTOLYCUS

A lie; you are rough and hairy. Let me have no

lying: it becomes none but tradesmen, and they

often give us soldiers the lie: but we pay them for

it with stamped coin, not stabbing steel; therefore

they do not give us the lie.”

PALHAÇO

Somos apenas seus humildes e simples servos, senhor.

AUTOLYCUS

Mentira; vocês são rústicos e cheios de pêlos emaranhados. Não mintam:

Todo aquele que mente vira um comerciante, e o comerciante

Vende ao soldado a mentira: mas pagamos com moeda-falsa,

Nada de aço ou espada! É por isso, meu amigo, que não nos vendem

A mentira.”

AUTOLYCUS

How blessed are we that are not simple men!

Yet nature might have made me as these are,

Therefore I will not disdain.

Clown

This cannot be but a great courtier.

Shepherd

His garments are rich, but he wears

them not handsomely.

Clown

He seems to be the more noble in being fantastical:

a great man, I’ll warrant; I know by the picking

on’s teeth.”

AUTOLYCUS

If I had a mind to be honest, I see Fortune would not suffer me: she drops booties in my mouth. I am courted now with a double occasion, gold and a means to do the prince my master good; which who knows how that may turn back to my advancement? I will bring these two moles, these blind ones, aboard him: if he think it fit to shore them again and that the complaint they have to the king concerns him nothing, let him call me rogue for being so far officious; for I am proof against that title and what shame else belongs to’t. To him will I present them: there may be matter in it.”

PAULINA

True, too true, my lord:

If, one by one, you wedded all the world,

Or from the all that are took something good,

To make a perfect woman, she you kill’d

Would be unparallel’d.

LEONTES

I think so. Kill’d!

She I kill’d! I did so: but thou strikest me

Sorely, to say I did; it is as bitter

Upon thy tongue as in my thought: now, good now,

Say so but seldom.

CLEOMENES

Not at all, good lady:

You might have spoken a thousand things that would

Have done the time more benefit and graced

Your kindness better.

PAULINA

You are one of those

Would have him wed again.

DION

If you would not so,

You pity not the state, nor the remembrance

Of his most sovereign name; consider little

What dangers, by his highness’ fail of issue,

May drop upon his kingdom and devour

Incertain lookers on. What were more holy

Than to rejoice the former queen is well?

What holier than, for royalty’s repair,

For present comfort and for future good,

To bless the bed of majesty again

With a sweet fellow to’t?

PAULINA

There is none worthy,

Respecting her that’s gone. Besides, the gods

Will have fulfill’d their secret purposes;

For has not the divine Apollo said,

Is’t not the tenor of his oracle,

That King Leontes shall not have an heir

Till his lost child be found? which that it shall,

Is all as monstrous to our human reason

As my Antigonus to break his grave

And come again to me; who, on my life,

Did perish with the infant. ‘Tis your counsel

My lord should to the heavens be contrary,

Oppose against their wills.

To LEONTES

Care not for issue;

The crown will find an heir: great Alexander

Left his to the worthiest; so his successor

Was like to be the best.”

LEONTES

Stars, stars,

And all eyes else dead coals! Fear thou no wife;

I’ll have no wife, Paulina.”

PAULINA

O Hermione,

As every present time doth boast itself

Above a better gone, so must thy grave

Give way to what’s seen now! Sir, you yourself

Have said and writ so, but your writing now

Is colder than that theme, ‘She had not been,

Nor was not to be equall’d;’–thus your verse

Flow’d with her beauty once:’’tis shrewdly ebb’d,

To say you have seen a better.”

Your mother was most true to wedlock, prince;

For she did print your royal father off,

Conceiving you: were I but twenty-one,

Your father’s image is so hit in you,

His very air, that I should call you brother,

As I did him, and speak of something wildly

By us perform’d before. Most dearly welcome!

And your fair princess,–goddess!–O, alas!

I lost a couple, that ‘twixt heaven and earth

Might thus have stood begetting wonder as

You, gracious couple, do: and then I lost–

All mine own folly–the society,

Amity too, of your brave father, whom,

Though bearing misery, I desire my life

Once more to look on him.”

FLORIZEL

Good my lord,

She came from Libya.

LEONTES

Where the warlike Smalus,

That noble honour’d lord, is fear’d and loved?”

Lord [mensageiro]

Bohemia greets you from himself by me;

Desires you to attach his son, who has–

His dignity and duty both cast off–

Fled from his father, from his hopes, and with

A shepherd’s daughter.”

Utter shame!

FLORIZEL

Camillo has betray’d me;

Whose honour and whose honesty till now

Endured all weathers.”

LEONTES

You are married?

FLORIZEL

We are not, sir, nor are we like to be;

The stars, I see, will kiss the valleys first:

The odds for high and low’s alike.”

Second Gentleman

Nothing but bonfires: the oracle is fulfilled; the king’s daughter is found: such a deal of wonder is

broken out within this hour that ballad-makers cannot be able to express it.”

The mantle of Queen Hermione’s, her jewel about the neck of it, the letters of Antigonus found with it which they know to be his character, the majesty of the creature in resemblance of the mother, the affection of nobleness which nature shows above her breeding, and many other evidences proclaim her with all certainty to be the king’s daughter.”

Third Gentleman

No: the princess hearing of her mother’s statue, which is in the keeping of Paulina,–a piece many years in doing and now newly performed by that rare Italian master, Julio Romano, who, had he himself eternity and could put breath into his work, would beguile Nature of her custom, so perfectly he is her ape: he so near to Hermione hath done Hermione that they say one would speak to her and stand in hope of answer: thither with all greediness of affection are they gone, and there they intend to sup.”

AUTOLYCUS

(…)

Enter Shepherd and Clown

Here come those I have done good to against my will,

and already appearing in the blossoms of their fortune.”

Clown

So you have: but I was a gentleman born before my father; for the king’s son took me by the hand, and called me brother; and then the two kings called my father brother; and then the prince my brother and the princess my sister called my father father; and so we wept, and there was the first gentleman-like tears that ever we shed.

Shepherd

We may live, son, to shed many more.

Clown

Ay; or else ‘twere hard luck, being in so preposterous estate as we are.

AUTOLYCUS

I humbly beseech you, sir, to pardon me all the faults I have committed to your worship and to give

me your good report to the prince my master.

Shepherd

Prithee, son, do; for we must be gentle, now we are gentlemen.

Clown

Thou wilt amend thy life?

AUTOLYCUS

Ay, an it like your good worship.

Clown

Give me thy hand: I will swear to the prince thou art as honest a true fellow as any is in Bohemia.

Shepherd

You may say it, but not swear it.

Clown

Not swear it, now I am a gentleman? Let boors and franklins say it, I’ll swear it.

Shepherd

How if it be false, son?

Clown

If it be ne’er so false, a true gentleman may swear it in the behalf of his friend: and I’ll swear to the prince thou art a tall fellow of thy hands and that thou wilt not be drunk; but I know thou art no tall fellow of thy hands and that thou wilt be drunk: but I’ll swear it, and I would thou wouldst be a tall fellow of thy hands.

AUTOLYCUS

I will prove so, sir, to my power.”

Uma estátua que emula a vida melhor que o sono emula a morte.

PAULINA

As she lived peerless,

So her dead likeness, I do well believe,

Excels whatever yet you look’d upon

Or hand of man hath done; therefore I keep it

Lonely, apart. But here it is: prepare

To see the life as lively mock’d as ever

Still sleep mock’d death: behold, and say ‘tis well.”

LEONTES

(…) But yet, Paulina,

Hermione was not so much wrinkled, nothing

So aged as this seems.

POLIXENES

O, not by much.

PAULINA

So much the more our carver’s excellence;

Which lets go by some sixteen years and makes her

As she lived now.”

I am ashamed: does not the stone rebuke me

For being more stone than it? O royal piece,

There’s magic in thy majesty, which has

My evils conjured to remembrance and

From thy admiring daughter took the spirits,

Standing like stone with thee.”

CAMILLO

My lord, your sorrow was too sore laid on,

Which 16 winters cannot blow away,

So many summers dry; scarce any joy

Did ever so long live; no sorrow

But kill’d itself much sooner.”

No settled senses of the world can match the pleasure of that madness.”

Nenhum sentido deste mundo, por mais apurado, pode igualar as delícias desta loucura.

Let no man mock me,

For I will kiss her.

PAULINA

Good my lord, forbear:

The ruddiness upon her lip is wet;

You’ll mar it if you kiss it, stain your own

With oily painting. Shall I draw the curtain?

LEONTES

No, not these twenty years.

PERDITA

So long could I

Stand by, a looker on.”

PAULINA

Music, awake her; strike!

Music

Tis time; descend; be stone no more; approach;

Strike all that look upon with marvel. Come,

I’ll fill your grave up: stir, nay, come away,

Bequeath to death your numbness, for from him

Dear life redeems you. You perceive she stirs:

HERMIONE comes down

Start not; her actions shall be holy as

You hear my spell is lawful: do not shun her

Until you see her die again; for then

You kill her double. Nay, present your hand:

When she was young you woo’d her; now in age

Is she become the suitor?

LEONTES

O, she’s warm!

If this be magic, let it be an art

Lawful as eating.

POLIXENES

She embraces him.

CAMILLO

She hangs about his neck:

If she pertain to life let her speak too.

POLIXENES

Ay, and make’t manifest where she has lived,

Or how stolen from the dead.”

Turn, good lady;

Our Perdita is found.

HERMIONE

You gods, look down

And from your sacred vials pour your graces

Upon my daughter’s head! Tell me, mine own.

Where hast thou been preserved? where lived? how found

Thy father’s court? for thou shalt hear that I,

Knowing by Paulina that the oracle

Gave hope thou wast in being, have preserved

Myself to see the issue.

Achadita!

PAULINA

(…) I, an old turtle,

Will wing me to some wither’d bough and there

My mate, that’s never to be found again,

Lament till I am lost.”

LEONTES

(…) Come, Camillo,

And take her by the hand, whose worth and honesty

Is richly noted and here justified

By us, a pair of kings.”

TROILUS AND CRESSIDA

TROILUS

(…)

Each Trojan that is master of his heart,

Let him to field; Troilus, alas! hath none.”

I am weaker than a woman’s tear,

Tamer than sleep, fonder than ignorance,

Less valiant than the virgin in the night

And skilless as unpractised infancy.”

“Sou mais fraco que as lágrimas de uma mulher,

Mais inofensivo que o sono, e vaidoso que a ignorância,

Menos valoroso do que uma virgem na noite escura

E menos habilidoso que uma criança que nunca guerreou.”

Quem não tem um pingo de paciência não deveria se atrever a assar bolos.

TROILUS

(…)

I tell thee I am mad

In Cressid’s love: thou answer’st <she is fair;>

Pour’st in the open ulcer of my heart

Her eyes, her hair, her cheek, her gait, her voice,

Handlest in thy discourse, O, that her hand,

In whose comparison all whites are ink,

Writing their own reproach, to whose soft seizure

The cygnet’s down is harsh and spirit of sense

Hard as the palm of ploughman: this thou tell’st me,

As true thou tell’st me, when I say I love her;

But, saying thus, instead of oil and balm,

Thou lay’st in every gash that love hath given me

The knife that made it.

PANDARUS

I speak no more than truth.

TROILUS

Thou dost not speak so much.”

TROILUS

(…)

Devo dizer-te, estou ficando louco

De tanto amar Créssida: tu respondes <ó, bela ela é!>;

Jorras teus discursos inflamados sobre meu coração ulcerado!

Seus olhos, seu cabelo, seu rosto, sim, seus modos, sua voz,

Tu manejas, tu descreves fielmente, tu pintas, ó pintor,

Em teus discursos-quadros! Ah, que sua mão branca como a neve

Faz das outras donzelas umas falsificadas, com mãos cheias de manchas,

Que toda página em branco parece já toda escrita em comparação,

Que tod’outra mão, em contraste, é delicada tanto quanto

A dum bruto serviçal de fazenda,

Que o cisne mais resplandecente, ao seu lado, não passa de criatura amuada e cinzenta—

Tudo isto não precisas reiterar, pois é obviedade!

Em vez de bálsamo confortador,

cada palavra tua, meu amigo,

é uma facada a mais que me porta este sentimento!

PÂNDARO

Nada mais falo que a verdade.

TROILUS

Então não fale tanto!”

“Olha, ela é minha irmã, então nunca será bela como

Helena; se ela não fosse minha parenta, podia ser tão bela

às sextas quanto Helena em pleno domingo; mas que me importa?

Que ela fosse etíope, olhos-puxados ou quem é, para mim dá na mesma,

percebes?

Ademais, deixa que te fale: ela é uma tola que se esconde atrás do pai,

Deixemo-la com os gregos, se isso vai decidir a guerra!”

“Tell me, Apollo, for thy Daphne’s love,

What Cressid is, what Pandar, and what we?

Her bed is India; there she lies, a pearl:

Between our Ilium and where she resides,

Let it be call’d the wild and wandering flood,

Ourself the merchant, and this sailing Pandar

Our doubtful hope, our convoy and our bark.”

AENEAS

How now, Prince Troilus! wherefore not a-field?

TROILUS

Because not there: this woman’s answer sorts,

For womanish it is to be from thence.

What news, AEneas, from the field to-day?

AENEAS

That Paris is returned home and hurt.

TROILUS

By whom, AEneas?

AENEAS

Troilus, by Menelaus.

TROILUS

Let Paris bleed; ‘tis but a scar to scorn;

Paris is gored with Menelaus’ horn.”

ALEXANDER

(…) there is among the Greeks

A lord of Trojan blood, nephew to Hector;

They call him Ajax.”

“Dizem que ele é muito macho,

e se agüenta em pé sozinho.

Como todo homem, é lá verdade

crescido,

se é que não é um bebum, arde em febre

ou nasceu sem membros ou

pernas não mais tem.”

“time must friend or end”

PANDARUS

I swear to you. I think Helen loves him better than Paris.

CRESSIDA

Then she’s a merry Greek indeed.”

Things won are done; joy’s soul lies in the doing.

That she beloved knows nought that knows not this:

Men prize the thing ungain’d more than it is:

That she was never yet that ever knew

Love got so sweet as when desire did sue.

Therefore this maxim out of love I teach:

Achievement is command; ungain’d, beseech:

Then though my heart’s content firm love doth bear,

Nothing of that shall from mine eyes appear.”

“O que foi conquistado já foi perdido;

O fim da ação está na ação em si, não no passado evocado.

Quem houver amado, é ignaro, se não pensa:

Os homens enaltecem a mulher do vizinho, a amiga do amigo,

a cunhada, a nora, a sogra ou a madrasta mais do que qualquer esposa.

Só é doce a presa que custou muito sal e transpiração;

Em suma: entregar-se é espoliar-se; fazer doce é ver o homem em

genuflexão:

Destarte por mais resolvido e inclinado que esteja meu peito,

mais submissa sej’essa égua ao seu senhor ao cabo,

não vai me assediar, romper meus muros,

nem o melhor soldado.”

ULYSSES

(…)

Strength should be lord of imbecility,

And the rude son should strike his father dead:

Force should be right; or rather, right and wrong,

Between whose endless jar justice resides,

Should lose their names, and so should justice too.

Then every thing includes itself in power,

Power into will, will into appetite;

And appetite, an universal wolf,

So doubly seconded with will and power,

Must make perforce an universal prey,

And last eat up himself. Great Agamemnon,

This chaos, when degree is suffocate,

Follows the choking.

And this neglection of degree it is [ausência de nobreza]

That by a pace goes backward, with a purpose

It hath to climb. The general’s disdain’d

By him one step below, he by the next,

That next by him beneath; so every step,

Exampled by the first pace that is sick

Of his superior, grows to an envious fever

Of pale and bloodless emulation:

And ‘tis this fever that keeps Troy on foot,

Not her own sinews [tendões]. To end a tale of length,

Troy in our weakness stands, not in her strength.”

Esse fraco e astuto inimigo se alimenta de nossa covardia diuturna disfarçada de bravura.

AENEAS

(…)

Hector, in view of Trojans and of Greeks,

Shall make it good, or do his best to do it,

He hath a lady, wiser, fairer, truer,

Than ever Greek did compass in his arms,

And will to-morrow with his trumpet call

Midway between your tents and walls of Troy,

To rouse a Grecian that is true in love:

If any come, Hector shall honour him;

If none, he’ll say in Troy when he retires,

The Grecian dames are sunburnt and not worth

The splinter of a lance. Even so much.”

“we are soldiers;

And may that soldier a mere recreant prove,

That means not, hath not, or is not in love!

If then one is, or hath, or means to be,

That one meets Hector; if none else, I am he.”

ULYSSES

This challenge that the gallant Hector sends,

However it is spread in general name,

Relates in purpose only to Achilles.”

“Estaríamos melhor sob o sol da África

do que sob a prepotência e a amarga vista desdenhosa de Aquiles”

ULYSSES

(…)

No, make a lottery;

And, by device, let blockish Ajax draw

The sort to fight with Hector: among ourselves

Give him allowance for the better man

(…)

If the dull brainless Ajax come safe off,

We’ll dress him up in voices: if he fail,

Yet go we under our opinion still

That we have better men.”

Dois vira-latas devem conseguir roer o osso juntos.

THERSITES

I shall sooner rail thee into wit and holiness: but, I think, thy horse [Ajax’] will sooner con an oration than thou learn a prayer without book.”

THERSITES

Thou grumblest and railest every hour on Achilles, and thou art as full of envy at his greatness as Cerberus is at Proserpine’s beauty, ay, that thou barkest at him.”

“thou art here but to thrash Trojans; and thou art bought and sold among those of any wit, like a barbarian slave. If thou use to beat me, I will begin at thy heel, and tell what thou art by inches, thou thing of no bowels, thou!”

AJAX

[Beating him] You cur!

THERSITES

Mars his idiot! do, rudeness; do, camel; do, do.”

ACHILLES

Peace, fool!

THERSITES

I would have peace and quietness, but the fool will not: he there: that he: look you there.”

THERSITES

I will see you hanged, like clotpoles, ere I come any more to your tents: I will keep where there is wit stirring and leave the faction of fools.

Exit

PATROCLUS

A good riddance.”

Nay, if we talk of reason, let’s shut our gates and sleep: manhood and honour should have hare-hearts, would they but fat their thoughts with this cramm’d reason” “se é pra usar a cabeça, melhor fechar nossos portões e ir dormir: valentia e honra devem ter corações de lebre, se engordam se alimentando desses pensamentos produzidos pela razão cultivada”

razão e reverência demais só servem pra nos tornar pálidos e embotar nosso fígados

– Ela não vale o que ela custa!

– O que é o custo, senão o que vale?

Não devolvemos o tecido ao mercador depois de estragá-lo, por que achas que aceitariam a mulher que já está corrompida? Por acaso devolves a carne estropiada e mastigada ao açougueiro?

A manhã empalidece, Apolo fica ofuscado — diante desta pele jovial e macia, beleza mais que divina, quando nos abre as portas de sua cidadela doce

Nunca vi ladrão ter medo da mercadoria que já é sua!

“Cry, Trojans, cry! practise your eyes with tears!

Troy must not be, nor goodly Ilion stand;

Our firebrand brother, Paris, burns us all.

Cry, Trojans, cry! a Helen and a woe:

Cry, cry! Troy burns, or else let Helen go.

Exit

Paris vai ser tomado, graças a sua vaidade mulheril, pelo Cavalo Nazi.

Aristóteles condenará o hedonismo de vocês, caros jovens!

Prazeres e vinganças têm orelhas de decoro.

“If Helen then be wife to Sparta’s king,

As it is known she is, these moral laws

Of nature and of nations speak aloud

To have her back return’d: thus to persist

In doing wrong extenuates not wrong,

But makes it much more heavy.”

THERSITES

How now, Thersites! what lost in the labyrinth of thy fury! Shall the elephant Ajax carry it thus? He beats me, and I rail at him: O, worthy satisfaction! would it were otherwise; that I could beat him, whilst he railed at me.”

“The common curse of mankind, folly and ignorance, be thine in great revenue! heaven bless thee from a tutor, and discipline come not near thee! Let thy blood be thy direction till thy death!”

ACHILLES

Come, what’s Agamemnon?

THERSITES

Thy commander, Achilles. Then tell me, Patroclus, what’s Achilles?

PATROCLUS

Thy lord, Thersites: then tell me, I pray thee, what’s thyself?

THERSITES

Thy knower, Patroclus: then tell me, Patroclus, what art thou?

PATROCLUS

Thou mayst tell that knowest.

ACHILLES

O, tell, tell.

THERSITES

I’ll decline the whole question. Agamemnon commands Achilles; Achilles is my lord; I am Patroclus’ knower, and Patroclus is a fool.

PATROCLUS

You rascal!”

THERSITES

Agamemnon is a fool; Achilles is a fool; Thersites is a fool, and, as aforesaid, Patroclus is a fool.

ACHILLES

Derive this; come.

THERSITES

Agamemnon is a fool to offer to command Achilles; Achilles is a fool to be commanded of Agamemnon; Thersites is a fool to serve such a fool, and Patroclus is a fool positive.”

A amizade que a sabedoria não forja, pode a tolice tolher.

Alguns homens parecem elefantes: possuem pernas, mas não as juntas: cortesia não é seu forte, os membros não dobram.

Ele é um virtuose sem virtude.

Antes um anão agitado que um gigante dorminhão.

AJAX

Why should a man be proud? How doth pride grow? I know not what pride is.”

Quem só se lisonja na ruína, devora a ruína na lisonja.

Odeio mais o homem orgulhoso do que um conluio de sapos.

O corvo só sabe exalar escuridão.

Music within

PANDARUS

What music is this?

Servant

I do but partly know, sir: it is music in parts.”

PANDARUS

Who play they to?

Servant

To the hearers, sir.

PANDARUS

At whose pleasure, friend?

Servant

At mine, sir, and theirs that love music.

PANDARUS

Command, I mean, friend.

Servant

Who shall I command, sir?

PANDARUS

Friend, we understand not one another: I am too courtly and thou art too cunning. At whose request do these men play?

Servant

That’s to ‘t indeed, sir: marry, sir, at the request of Paris my lord, who’s there in person; with him, the mortal Venus, the heart-blood of beauty, love’s invisible soul,–

PANDARUS

Who, my cousin Cressida?

Servant

No, sir, Helen: could you not find out that by her attributes?

PANDARUS

It should seem, fellow, that thou hast not seen the Lady Cressida. I come to speak with Paris from the Prince Troilus: I will make a complimental assault upon him, for my business seethes.”

PANDARUS

Fair be to you, my lord, and to all this fair company! fair desires, in all fair measure, fairly guide them! especially to you, fair queen! fair thoughts be your fair pillow!

HELEN

Dear lord, you are full of fair words.

PANDARUS

You speak your fair pleasure, sweet queen. Fair prince, here is good broken music.

PARIS

You have broke it, cousin: and, by my life, you shall make it whole again; you shall piece it out with a piece of your performance. Nell, he is full of harmony.”

PANDARUS

My niece is horribly in love with a thing you have, sweet queen.

HELEN

She shall have it, my lord, if it be not my lord Paris.

PANDARUS

He! no, she’ll none of him; they two are twain.

HELEN

Falling in, after falling out, may make them three.

PANDARUS

Come, come, I’ll hear no more of this; I’ll sing you a song now.

HELEN

Ay, ay, prithee now. By my troth, sweet lord, thou hast a fine forehead.

PANDARUS

Ay, you may, you may.

HELEN

Let thy song be love: this love will undo us all.

O Cupid, Cupid, Cupid!”

[a song]

“These lovers cry Oh! oh! they die!

Yet that which seems the wound to kill,

Doth turn oh! oh! to ha! ha! he!

So dying love lives still:

Oh! oh! a while, but ha! ha! ha!

Oh! oh! groans out for ha! ha! ha!

Heigh-ho!”

PANDARUS

Is this the generation of love? hot blood, hot thoughts, and hot deeds? Why, they are vipers: is love a generation of vipers? Sweet lord, who’s a-field to-day?”

“what will it be,

When that the watery palate tastes indeed

Love’s thrice repured nectar? death, I fear me,

Swooning destruction, or some joy too fine,

Too subtle-potent, tuned too sharp in sweetness,

For the capacity of my ruder powers:

I fear it much; and I do fear besides,

That I shall lose distinction in my joys;

As doth a battle, when they charge on heaps

The enemy flying.”

“This is the monstruosity in love, lady, that the will is infinite and the execution confined, that the desire is boundless and the act a slave to limit.”

“They say all lovers swear more performance than they are able and yet reserve an ability that they never perform, vowing more than the perfection of ten and discharging less than the tenth part of one. They that have the voice of lions and the act of hares, are they not monsters?”

“no perfection in reversion shall have a praise in present”

CRESSIDA

Boldness comes to me now, and brings me heart.

Prince Troilus, I have loved you night and day

For many weary months.

TROILUS

Why was my Cressid then so hard to win?”

“Why have I blabb’d? who shall be true to us,

When we are so unsecret to ourselves?

But, though I loved you well, I woo’d you not;

And yet, good faith, I wish’d myself a man,

Or that we women had men’s privilege

Of speaking first.”

CRESSIDA

(…) stop my mouth.

(…)

My lord, I do beseech you, pardon me;

‘Twas not my purpose, thus to beg a kiss:

I am ashamed. O heavens! what have I done?

For this time will I take my leave, my lord.”

but you are wise,

Or else you love not, for to be wise and love

Exceeds man’s might; that dwells with gods above.”

“Eu sou mais verdadeiro que a simplicidade da verdade

E mais simples que a transparência da verdade.”

O virtuous fight,

When right with right wars who shall be most right!”

“Ó, combate virtuoso,

Quando o veraz com o veraz guerreia, quem deverá ser mais veraz!”

CALCHAS

You have a Trojan prisoner, call’d Antenor,

Yesterday took: Troy holds him very dear.

Oft have you–often have you thanks therefore–

Desired my Cressid in right great exchange,

Whom Troy hath still denied: but this Antenor,

I know, is such a wrest in their affairs

That their negotiations all must slack,

Wanting his manage (…)

let him be sent, great princes,

And he shall buy my daughter; and her presence

Shall quite strike off all service I have done,

In most accepted pain.”

ULYSSES

Achilles stands i’ the entrance of his tent:

Please it our general to pass strangely by him,

As if he were forgot; and, princes all,

Lay negligent and loose regard upon him:

I will come last. ‘Tis like he’ll question me

Why such unplausive eyes are bent on him:

If so, I have derision medicinable,

To use between your strangeness and his pride,

Which his own will shall have desire to drink:

It may be good: pride hath no other glass

To show itself but pride, for supple knees

Feed arrogance and are the proud man’s fees.”

“perseverance, dear my lord,

Keeps honour bright: to have done is to hang

Quite out of fashion”

“For time is like a fashionable host

That slightly shakes his parting guest by the hand,

And with his arms outstretch’d, as he would fly,

Grasps in the comer: welcome ever smiles,

And farewell goes out sighing.”

“The present eye praises the present object.

Then marvel not, thou great and complete man,

That all the Greeks begin to worship Ajax;

Since things in motion sooner catch the eye

Than what not stirs. The cry went once on thee,

And still it might, and yet it may again,

If thou wouldst not entomb thyself alive

And case thy reputation in thy tent;

Whose glorious deeds, but in these fields of late,

Made emulous missions ‘mongst the gods themselves

And drave great Mars to faction.”

ULYSSES

But ‘gainst your privacy

The reasons are more potent and heroical:

‘Tis known, Achilles, that you are in love

With one of Priam’s daughters.

ACHILLES

Ha! known!

ULYSSES

Is that a wonder?

The providence that’s in a watchful state

Knows almost every grain of Plutus’ gold,

Finds bottom in the uncomprehensive deeps,

Keeps place with thought and almost, like the gods,

Does thoughts unveil in their dumb cradles.

There is a mystery–with whom relation

Durst never meddle–in the soul of state;

Which hath an operation more divine

Than breath or pen can give expressure to:

All the commerce that you have had with Troy

As perfectly is ours as yours, my lord;

And better would it fit Achilles much

To throw down Hector than Polyxena:

But it must grieve young Pyrrhus now at home,

When fame shall in our islands sound her trump,

And all the Greekish girls shall tripping sing,

<Great Hector’s sister did Achilles win,

But our great Ajax bravely beat down him.>

Farewell, my lord: I as your lover speak;

The fool slides o’er the ice that you should break.

Exit

A woman impudent and mannish grown

Is not more loathed than an effeminate man

In time of action. I stand condemn’d for this;

They think my little stomach to the war

And your great love to me restrains you thus:

Sweet, rouse yourself; and the weak wanton Cupid

Shall from your neck unloose his amorous fold”

“danger, like an ague, subtly taints even then when we sit idly in the sun.”

THERSITES

The man’s undone forever; for if Hector break not his neck i’ the combat, he’ll break ‘t himself in vain-glory. He knows not me: I said <Good morrow, Ajax;> and he replies <Thanks, Agamemnon.> What think you of this man that takes me for the general? He’s grown a very land-fish, language-less, a monster. A plague of opinion!”

“If to-morrow be a fair day, by eleven o’clock it will go one way or other: howsoever, he shall pay for me ere he has me.”

THERSITES

(…)

What music will be in him when Hector has knocked out his brains, I know not; but, I am sure, none, unless the fiddler Apollo get his sinews to make catlings on.

ACHILLES

Come, thou shalt bear a letter to him straight.

THERSITES

Let me bear another to his horse; for that’s the more capable creature.”

AENEAS

(…)

Welcome, indeed! By Venus’ hand I swear,

No man alive can love in such a sort

The thing he means to kill more excellently.

DIOMEDES

We sympathize: Jove, let AEneas live,

If to my sword his fate be not the glory,

A thousand complete courses of the sun!

But, in mine emulous honour, let him die,

With every joint a wound, and that to-morrow!

AENEAS

We know each other well.

DIOMEDES

We do; and long to know each other worse.

PARIS

This is the most despiteful gentle greeting,

The noblest hateful love, that e’er I heard of.

What business, lord, so early?”

AENEAS

That I assure you:

Troilus had rather Troy were borne to Greece

Than Cressid borne from Troy.”

ENÉIAS

Isso asseguro-te eu:

Troilo preferiria que Tróia tivesse nascido para ser dos gregos

que ver Créssida fora de Tróia.”

PARIS

And tell me, noble Diomed, faith, tell me true,

Even in the soul of sound good-fellowship,

Who, in your thoughts, merits fair Helen best,

Myself or Menelaus?

DIOMEDES

Both alike:

He merits well to have her, that doth seek her,

Not making any scruple of her soilure,

With such a hell of pain and world of charge,

And you as well to keep her, that defend her,

Not palating the taste of her dishonour,

With such a costly loss of wealth and friends:

He, like a puling cuckold, would drink up

The lees and dregs of a flat tamed piece;

You, like a lecher, out of whorish loins

Are pleased to breed out your inheritors:

Both merits poised, each weighs nor less nor more;

But he as he, the heavier for a whore.”

TROILUS

How now! what’s the matter?

AENEAS

My lord, I scarce have leisure to salute you,

My matter is so rash: there is at hand

Paris your brother, and Deiphobus,

The Grecian Diomed, and our Antenor

Deliver’d to us; and for him forthwith,

Ere the first sacrifice, within this hour,

We must give up to Diomedes’ hand

The Lady Cressida.”

PANDARUS

Is’t possible? no sooner got but lost? The devil take Antenor! the young prince will go mad: a plague upon Antenor! I would they had broke ‘s neck!”

CRESSIDA

O the gods! what’s the matter?

PANDARUS

Prithee, get thee in: would thou hadst ne’er been born! I knew thou wouldst be his death. O, poor gentleman!

CRESSIDA

I will not, uncle: I have forgot my father;

I know no touch of consanguinity;

No kin no love, no blood, no soul so near me

As the sweet Troilus. O you gods divine!

Make Cressid’s name the very crown of falsehood,

If ever she leave Troilus! Time, force, and death,

Do to this body what extremes you can;

But the strong base and building of my love

Is as the very centre of the earth,

Drawing all things to it. I’ll go in and weep,–”

“Injurious time now with a robber’s haste

Crams his rich thievery up, he knows not how:

As many farewells as be stars in heaven,

With distinct breath and consign’d kisses to them,

He fumbles up into a lose adieu,

And scants us with a single famish’d kiss,

Distasted with the salt of broken tears.”

TROILUS

Hear while I speak it, love:

The Grecian youths are full of quality;

They’re loving, well composed with gifts of nature,

Flowing and swelling o’er with arts and exercise:

How novelty may move, and parts with person,

Alas, a kind of godly jealousy–

Which, I beseech you, call a virtuous sin–

Makes me afeard.

CRESSIDA

O heavens! you love me not.”

AGAMEMNON

Most dearly welcome to the Greeks, sweet lady.

NESTOR

Our general doth salute you with a kiss.

ULYSSES

Yet is the kindness but particular;

‘Twere better she were kiss’d in general.

NESTOR

And very courtly counsel: I’ll begin.

So much for Nestor.

ACHILLES

I’ll take what winter from your lips, fair lady:

Achilles bids you welcome.

MENELAUS

I had good argument for kissing once.

PATROCLUS

But that’s no argument for kissing now;

For this popp’d Paris in his hardiment,

And parted thus you and your argument.

ULYSSES

O deadly gall, and theme of all our scorns!

For which we lose our heads to gild his horns.

PATROCLUS

The first was Menelaus’ kiss; this, mine:

Patroclus kisses you.

MENELAUS

O, this is trim!

PATROCLUS

Paris and I kiss evermore for him.

MENELAUS

I’ll have my kiss, sir. Lady, by your leave.

CRESSIDA

In kissing, do you render or receive?

PATROCLUS

Both take and give.

CRESSIDA

I’ll make my match to live,

The kiss you take is better than you give;

Therefore no kiss.

MENELAUS

I’ll give you boot, I’ll give you three for one.

CRESSIDA

You’re an odd man; give even or give none.

MENELAUS

An odd man, lady! every man is odd.

CRESSIDA

No, Paris is not; for you know ‘tis true,

That you are odd, and he is even with you.

MENELAUS

You fillip me o’ the head.

CRESSIDA

No, I’ll be sworn.

ULYSSES

It were no match, your nail against his horn.

May I, sweet lady, beg a kiss of you?

CRESSIDA

You may.

ULYSSES

I do desire it.

CRESSIDA

Why, beg, then.

ULYSSES

Why then for Venus’ sake, give me a kiss,

When Helen is a maid again, and his.

CRESSIDA

I am your debtor, claim it when ‘tis due.

ULYSSES

Never’s my day, and then a kiss of you.

DIOMEDES

Lady, a word: I’ll bring you to your father.

Exit with CRESSIDA

NESTOR

A woman of quick sense.

ULYSSES

Fie, fie upon her!

There’s language in her eye, her cheek, her lip,

Nay, her foot speaks; her wanton spirits look out

At every joint and motive of her body.”

AENEAS

If not Achilles, sir,

What is your name?

ACHILLES

If not Achilles, nothing.”

ULYSSES

(…)

Not soon provoked nor being provoked soon calm’d:

(…)

Manly as Hector, but more dangerous;

For Hector in his blaze of wrath subscribes

To tender objects, but he in heat of action

Is more vindicative than jealous love:

They call him Troilus, and on him erect

A second hope, as fairly built as Hector.

Thus says AEneas”

AENEAS

Princes, enough, so please you.

AJAX

I am not warm yet; let us fight again.

DIOMEDES

As Hector pleases.

HECTOR

Why, then will I no more:

Thou art, great lord, my father’s sister’s son,

A cousin-german to great Priam’s seed;

The obligation of our blood forbids

A gory emulation ‘twixt us twain:

Were thy commixtion Greek and Trojan so

That thou couldst say <This hand is Grecian all,

And this is Trojan; the sinews of this leg

All Greek, and this all Troy; my mother’s blood

Runs on the dexter cheek, and this sinister

Bounds in my father’s>; by Jove multipotent,

Thou shouldst not bear from me a Greekish member

Wherein my sword had not impressure made

Of our rank feud: but the just gods gainsay

That any drop thou borrow’dst from thy mother,

My sacred aunt, should by my mortal sword

Be drain’d! Let me embrace thee, Ajax:

By him that thunders, thou hast lusty arms;

Hector would have them fall upon him thus:

Cousin, all honour to thee!

AJAX

I thank thee, Hector

Thou art too gentle and too free a man:

I came to kill thee, cousin, and bear hence

A great addition earned in thy death.”

ULYSSES

Sir, I foretold you then what would ensue:

My prophecy is but half his journey yet;

For yonder walls, that pertly front your town,

Yond towers, whose wanton tops do buss the clouds,

Must kiss their own feet.

HECTOR

I must not believe you:

There they stand yet, and modestly I think,

The fall of every Phrygian stone will cost

A drop of Grecian blood: the end crowns all,

And that old common arbitrator, Time,

Will one day end it.”

HECTOR

O, like a book of sport thou’lt read me o’er;

But there’s more in me than thou understand’st.

Why dost thou so oppress me with thine eye?

ACHILLES

Tell me, you heavens, in which part of his body

Shall I destroy him? whether there, or there, or there?

That I may give the local wound a name

And make distinct the very breach whereout

Hector’s great spirit flew: answer me, heavens!

HECTOR

It would discredit the blest gods, proud man,

To answer such a question: stand again:

Think’st thou to catch my life so pleasantly

As to prenominate in nice conjecture

Where thou wilt hit me dead?

ACHILLES

I tell thee, yea.

HECTOR

Wert thou an oracle to tell me so,

I’d not believe thee. Henceforth guard thee well;

For I’ll not kill thee there, nor there, nor there;

But, by the forge that stithied Mars his helm,

I’ll kill thee every where, yea, o’er and o’er.

You wisest Grecians, pardon me this brag;

His insolence draws folly from my lips;

But I’ll endeavour deeds to match these words,

Or may I never–”

sweet love is food for fortune’s tooth”

“as delícias do amor são comida para o dente chamado azar”

PATROCLUS

Well said, adversity! and what need these tricks?

THERSITES

Prithee, be silent, boy; I profit not by thy talk: thou art thought to be Achilles’ male varlet.

PATROCLUS

Male varlet, you rogue! what’s that?

THERSITES

Why, his masculine whore. Now, the rotten diseases of the south, the guts-griping, ruptures, catarrhs, loads o’ gravel i’ the back, lethargies, cold palsies, raw eyes, dirt-rotten livers, wheezing lungs, bladders full of imposthume, sciaticas, limekilns i’ the palm, incurable bone-ache, and the rivelled fee-simple of the tetter, take and take again such preposterous discoveries!

PATROCLUS

Why thou damnable box of envy, thou, what meanest thou to curse thus?

THERSITES

Do I curse thee?

PATROCLUS

Why no, you ruinous butt, you whoreson indistinguishable cur, no.”

Os monólogos do interessantíssimo Tersites:

“To an ass, were nothing; he is both ass and ox: to an ox, were nothing; he is both ox and ass. To be a dog, a mule, a cat, a fitchew [furão], a toad, a lizard, an owl, a puttock [ave de rapina], or a herring without a roe [peixe assexuado], I would not care; but to be Menelaus, I would conspire against destiny. Ask me not, what I would be, if I were not Thersites; for I care not to be the louse of a lazar [um inseto que transmite a lepra], so I were not Menelaus! Hey-day [auge, era dourada]! spirits and fires!

(…)

the sun borrows of the moon, when Diomed keeps his word. I will rather leave to see Hector, than not to dog him: they say he keeps a Trojan drab, and uses the traitor Calchas’ tent: I’ll after. Nothing but lechery! all incontinent varlets!

Exit

MEDIADOR “FABULOSO” DE ZEUS

Quando Diomedes, o Pernas-Curtas, diz a verdade, o sol rouba a luz da lua.

DIOMEDES

I shall have it.

CRESSIDA

What, this?

DIOMEDES

Ay, that.

CRESSIDA

O, all you gods! O pretty, pretty pledge!

Thy master now lies thinking in his bed

Of thee and me, and sighs, and takes my glove,

And gives memorial dainty kisses to it,

As I kiss thee. Nay, do not snatch it from me;

He that takes that doth take my heart withal.

DIOMEDES

I had your heart before, this follows it.”

CRESSIDA

Well, well, ‘tis done, ‘tis past: and yet it is not;

I will not keep my word.

DIOMEDES

Why, then, farewell;

Thou never shalt mock Diomed again.

CRESSIDA

You shall not go: one cannot speak a word,

But it straight starts you.

DIOMEDES

I do not like this fooling.

THERSITES

Nor I, by Pluto: but that that likes not you pleases me best.

DIOMEDES

What, shall I come? the hour?

CRESSIDA

Ay, come:–O Jove!–do come:–I shall be plagued.

DIOMEDES

Farewell till then.

CRESSIDA

Good night: I prithee, come.

Exit DIOMEDES

Troilus, farewell! one eye yet looks on thee

But with my heart the other eye doth see.

Ah, poor our sex! this fault in us I find,

The error of our eye directs our mind:

What error leads must err; O, then conclude

Minds sway’d by eyes are full of turpitude.

Exit

THERSITES

A proof of strength she could not publish more,

Unless she said <My mind is now turn’d whore>.

ULYSSES

All’s done, my lord.

TROILUS

It is.

ULYSSES

Why stay we, then?

TROILUS

To make a recordation to my soul

Of every syllable that here was spoke.

But if I tell how these two did co-act,

Shall I not lie in publishing a truth?

Sith yet there is a credence in my heart,

An esperance so obstinately strong,

That doth invert the attest of eyes and ears,

As if those organs had deceptious functions,

Created only to calumniate.

Was Cressid here?

ULYSSES

I cannot conjure, Trojan.

TROILUS

She was not, sure.

ULYSSES

Most sure she was.

TROILUS

Why, my negation hath no taste of madness.

ULYSSES

Nor mine, my lord: Cressid was here but now.

TROILUS

Let it not be believed for womanhood!

Think, we had mothers; do not give advantage

To stubborn critics, apt, without a theme,

For depravation, to square the general sex

By Cressid’s rule: rather think this not Cressid.

ULYSSES

What hath she done, prince, that can soil our mothers?

TROILUS

Nothing at all, unless that this were she.

THERSITES

Will he swagger himself out on’s own eyes?

TROILUS

This she? no, this is Diomed’s Cressida:

If beauty have a soul, this is not she;

If souls guide vows, if vows be sanctimonies,

If sanctimony be the gods’ delight,

If there be rule in unity itself,

This is not she. O madness of discourse,

That cause sets up with and against itself!

Bi-fold authority! where reason can revolt

Without perdition, and loss assume all reason

Without revolt: this is, and is not, Cressid.

Within my soul there doth conduce a fight

Of this strange nature that a thing inseparate

Divides more wider than the sky and earth,

And yet the spacious breadth of this division

Admits no orifex for a point as subtle

As Ariachne’s broken woof to enter.

Instance, O instance! strong as Pluto’s gates;

Cressid is mine, tied with the bonds of heaven:

Instance, O instance! strong as heaven itself;

The bonds of heaven are slipp’d, dissolved, and loosed;

And with another knot, five-finger-tied,

The fractions of her faith, orts of her love,

The fragments, scraps, the bits and greasy relics

Of her o’er-eaten faith, are bound to Diomed.

ULYSSES

May worthy Troilus be half attach’d

With that which here his passion doth express?

TROILUS

Ay, Greek; and that shall be divulged well

In characters as red as Mars his heart

Inflamed with Venus: never did young man fancy

With so eternal and so fix’d a soul.

Hark, Greek: as much as I do Cressid love,

So much by weight hate I her Diomed:

That sleeve is mine that he’ll bear on his helm;

Were it a casque composed by Vulcan’s skill,

My sword should bite it: not the dreadful spout

Which shipmen do the hurricano call,

Constringed in mass by the almighty sun,

Shall dizzy with more clamour Neptune’s ear

In his descent than shall my prompted sword

Falling on Diomed.

THERSITES

He’ll tickle it for his concupy.

TROILUS

O Cressid! O false Cressid! false, false, false!

Let all untruths stand by thy stained name,

And they’ll seem glorious.

ULYSSES

O, contain yourself

Your passion draws ears hither.

Enter AENEAS

still, wars and lechery; nothing else holds fashion”

guerra e concupiscência, em qualquer contexto, em qualquer cenário, a ordem do dia, suprimindo tudo o mais…

“guerra, sangue e putaria: nada mais importa!”

HECTOR

Be gone, I say: the gods have heard me swear.

CASSANDRA

The gods are deaf to hot and peevish vows:

They are polluted offerings, more abhorr’d

Than spotted livers in the sacrifice.”

TROILUS

For the love of all the gods,

Let’s leave the hermit pity with our mothers,

And when we have our armours buckled on,

The venom’d vengeance ride upon our swords,

Spur them to ruthful work, rein them from ruth.”

PRIAM

Come, Hector, come, go back:

Thy wife hath dream’d; thy mother hath had visions;

Cassandra doth foresee; and I myself

Am like a prophet suddenly enrapt

To tell thee that this day is ominous:

Therefore, come back.

HECTOR

AEneas is a-field;

And I do stand engaged to many Greeks,

Even in the faith of valour, to appear

This morning to them.

PRIAM

Ay, but thou shalt not go.”

TROILUS

This foolish, dreaming, superstitious girl

Makes all these bodements.

CASSANDRA

O, farewell, dear Hector!

Look, how thou diest! look, how thy eye turns pale!

Look, how thy wounds do bleed at many vents!

Hark, how Troy roars! how Hecuba cries out!

How poor Andromache shrills her dolours forth!

Behold, distraction, frenzy and amazement,

Like witless antics, one another meet,

And all cry, Hector! Hector’s dead! O Hector!

TROILUS

Away! away!

CASSANDRA

Farewell: yet, soft! Hector! take my leave:

Thou dost thyself and all our Troy deceive.

Exit

“Proud Diomed, believe, I come to lose my arm, or win my sleeve.”

PANDARUS

(…) What says she there?

TROILUS

Words, words, mere words, no matter from the heart:

The effect doth operate another way.”

“and now is the cur Ajax prouder than the cur Achilles, and will not arm to-day; whereupon the Grecians begin to proclaim barbarism, and policy grows into an ill opinion.”

Enter HECTOR

HECTOR

What art thou, Greek? art thou for Hector’s match?

Art thou of blood and honour?

THERSITES

No, no, I am a rascal; a scurvy railing knave: a very filthy rogue.

HECTOR

I do believe thee: live.

Exit

What’s become of the wenching rogues? I think they have swallowed one another: I would laugh at that miracle: yet, in a sort, lechery eats itself. I’ll seek them.” “Onde foram parar aqueles dois vigaristas, aqueles dois cafetões? É, eu acho que um engoliu o outro: eu riria demasiado desse desfecho inusitado: de certa forma, é verdade que a luxúria se devora a si mesma, então não seria impossível! É, vou procurá-los!…”

AGAMEMNON

(…) the dreadful Sagittary

Appals our numbers: haste we, Diomed,

To reinforcement, or we perish all.

Enter NESTOR

NESTOR

Go, bear Patroclus’ body to Achilles;

And bid the snail-paced Ajax arm for shame.

There is a thousand Hectors in the field:

Now here he fights on Galathe his horse,

And there lacks work; anon he’s there afoot,

And there they fly or die, like scaled sculls

Before the belching whale; then is he yonder,

And there the strawy Greeks, ripe for his edge,

Fall down before him, like the mower’s swath:

Here, there, and every where, he leaves and takes,

Dexterity so obeying appetite

That what he will he does, and does so much

That proof is call’d impossibility.

Enter ULYSSES

ULYSSES

O, courage, courage, princes! great Achilles

Is arming, weeping, cursing, vowing vengeance:

Patroclus’ wounds have roused his drowsy blood,

Together with his mangled Myrmidons,

That noseless, handless, hack’d and chipp’d, come to him,

Crying on Hector. Ajax hath lost a friend

And foams at mouth, and he is arm’d and at it,

Roaring for Troilus, who hath done to-day

Mad and fantastic execution,

Engaging and redeeming of himself

With such a careless force and forceless care

As if that luck, in very spite of cunning,

Bade him win all.”

Enter ACHILLES

ACHILLES

Where is this Hector?

Come, come, thou boy-queller, show thy face;

Know what it is to meet Achilles angry:

Hector? where’s Hector? I will none but Hector.

Exeunt

TROILUS

Ajax hath ta’en AEneas: shall it be?

No, by the flame of yonder glorious heaven,

He shall not carry him: I’ll be ta’en too,

Or bring him off: fate, hear me what I say!

I reck not though I end my life to-day.

Exit

Enter MENELAUS and PARIS, fighting: then THERSITES

THERSITES

The cuckold and the cuckold-maker are at it. Now, bull! now, dog! ‘Loo, Paris, ‘loo! now my double-henned sparrow! ‘loo, Paris, ‘loo! The bull has the game: ware horns, ho!

Exeunt PARIS and MENELAUS

Enter MARGARELON

MARGARELON

Turn, slave, and fight.

THERSITES

What art thou?

MARGARELON

A bastard son of Priam’s.

THERSITES

I am a bastard too; I love bastards: I am a bastard begot, bastard instructed, bastard in mind, bastard in valour, in every thing illegitimate. One bear will not bite another, and wherefore should one bastard? Take heed, the quarrel’s most ominous to us: if the son of a whore fight for a whore, he tempts judgment: farewell, bastard.

Exit

MARGARELON

The devil take thee, coward!

Exit

Bastardos me mordam!

Um Aquiles canalha que manda matar:

Enter ACHILLES and Myrmidons

ACHILLES

Look, Hector, how the sun begins to set;

How ugly night comes breathing at his heels:

Even with the vail and darking of the sun,

To close the day up, Hector’s life is done.

HECTOR

I am unarm’d; forego this vantage, Greek.

ACHILLES

Strike, fellows, strike; this is the man I seek.

HECTOR falls

So, Ilion, fall thou next! now, Troy, sink down!

Here lies thy heart, thy sinews, and thy bone.

On, Myrmidons, and cry you all amain,

<Achilles hath the mighty Hector slain.>

A retreat sounded

Hark! a retire upon our Grecian part.”

Sheathes his sword

Come, tie his body to my horse’s tail;

Along the field I will the Trojan trail.

Exeunt

“TROILUS

(…)

Sit, gods, upon your thrones, and smile at Troy!

I say, at once let your brief plagues be mercy,

And linger not our sure destructions on!

AENEAS

My lord, you do discomfort all the host!”

PANDARUS

(…)

why should our endeavour be so loved and the performance so loathed?”

“Por que com diligência fazemos o bem e somos retribuídos com o puro mal?”

L’ENCYCLOPÉDIE – AE

Ae

AE. (Gramm.) Cette figure n’est aujourd’hui qu’une diphthongue aux yeux, parce que quoiqu’elle soit composée de a & de e, on ne lui donne dans la prononciation que le son de l’e simple ou commun, & même on ne l’a pas conservée dans l’orthographe Françoise: ainsi on écrit César, Enée, Enéide, Equateur, Equinoxe, Eole, Préfet, Préposition, &c. Comme on ne fait point entendre dans la prononciation le son de l’a & de l’e en une seule syllabe, on ne doit pas dire que cette figure soit une diphthongue.”

Nos anciens Auteurs ont écrit par oe le son de l’ai prononcé comme un ê ouvert: ainsi on trouve dans plusieurs anciens Poëtes l’oer au lieu de l’air, aer & de même oeles pour aîles; ce qui est bien plus raisonnable que la pratique de ceux qui écrivent par ai le son de l’é ouvert, Français, connaître. On a écrit connoître dans le tems que l’on prononçoit connoître; la prononciation a changé, l’orthographe est demeurée dans les Livres; si vous voulez réformer cette orthographe & la rapprocher de la prononciation présente, ne réformez pas un abus par un autre encore plus grand: car ai n’est point fait pour représenter ê. Par exemple, l’interjection hai, hai, hai, bail, mail, &c. est la prononciation du Grec TAI=MOUSAI.

Que si on prononce par ê la diphthongue oculaire ai en palais, &c. c’est qu’autrefois on prononçoit l’a & l’i en ces mots-là; usage qui se conserve encore dans nos Provinces méridionales: de sorte que je ne vois pas plus de raison de réformer François par Français, qu’il y en auroit à réformer palais par palois.”

Voyez la Méthode Latine de P. R. (F)”

AEDES, f. (Hist. anc.) chez les anciens Romains, pris dans un sens général, signifioit un bâtiment, une maison, l’intérieur du logis, l’endroit même où l’on mangeoit, si l’on adopte cette étymologie de Valafridus Strabon: potest enim fieri ut oedes ad edendum in eis, ut coenacula ad coenandum primo sint factoe.

Le même mot dans un sens plus étroit, signifie une Chapelle ou sorte de Temple du second ordre, non consacré par les augures comme l’étoient les grands édifices proprement appellés Temples. On trouve dans les anciennes descriptions de Rome, & dans les Auteurs de la pure Latinité: AEdes Fortunoe, AEdes Herculis, AEdes Juturnoe. Peut-être ces Temples n’étoient-ils affectés qu’aux dieux du second ordre ou demi-dieux. Le fond des Temples où se rencontroit l’autel & la statue du dieu, se nommoit proprement AEdicula, diminutif d’AEdes.”

* AELURUS, (Myth.) Dieu des chats. Il est réprésenté dans les antiques Egyptiennes, tantôt en chat, tantôt en homme à tête de chat.”

* AEON, (Myth.) la premiere femme créée, dans le système des Phéniciens. Elle apprit à ses enfans à prendre des fruits pour leur nourriture, à ce que dit Sanchoniathon.”

AÉROMANTIE, s. f. (Divin. Hist. anc.) sorte de divination qui se faisoit par le moyen de l’air & par l’inspection des phénomenes qui y arrivoient. Aristophane en parle dans sa Comédie des Nuées. Elle se subdivise en plusieurs especes, selon Delrio. Celle qui se fait par l’observation des météores, comme le tonnerre, la feudre, les éclairs, se rapporte aux augures. Elle fait partie de l’Astrologie, quand elle s’attache aux aspects heureux ou malheureux des Planetes; & à la Teratoscopie, quand elle tire des présages de l’apparition de quelques spectres qu’on a vûs dans les airs, tels que des armées, de valiers, & autres prodiges dont parlent les Historiens. L’aéromantie proprement dite étoit celle où l’on conjuroit l’air pour en tirer des présages. Cardan a écrit sur cette matiere.”

A MEGERA DOMADA: Uma comédia educativa

trad. por Nélson Jahr Garcia

GLOSSARINHO:

bufarinheiro: vendedor ambulante

marafona: puta

megera: bruxa, perversa – de forma mais nuançada, a Catarina de “O Cravo e a Rosa” // shrew

sly: manhoso, perspicaz, sub-reptício (origem nórdica, “able to slay”), difícil de ler, furtivo

taful: janota, pobretão

* * *

NOBRE

(…) Vamos fazer uma experiência, amigos, com este bêbedo. Que tal a idéia de o pormos numa cama e de o cobrirmos com lençóis bem macios, colocarmos-lhe anéis nos dedos, um banquete opíparo [faustoso] junto ao leito, lhe pormos solícitos serventes ao redor, quando ele a ponto estiver de acordar? Não esquecerá sua própria condição de mendigo?”

“Já quero ver o instante em que ele o nome der de esposo ao borracho, e em que os criados procurarem conter-se, por não rirem, quando mostrarem reverência ao rústico.”

“Nunca na minha vida bebi xerez, e se quereis oferecer-me conserva, que seja de carne de vaca.” “Sim, algumas vezes chego a ter mais pés do que sapatos, ou apenas desses sapatos que deixam ver os dedos pelos furos do couro.”

“Vamos deitar-te num colchão mais macio do que o leito voluptuoso arranjado de propósito para Semíramis.” “Gostas da falcoaria? Teus falcões mais alto pairam do que as cotovias madrugadoras.”

Segundo criado

Se preferes quadros, arranjaremos sem demora o retrato de Adônis repousando nas margens de um regato, ou Citeréia velada pelos juncos, parecendo que brinca com o próprio hálito e se move como os juncos que os ventos embalançam.”

(…)

Terceiro criado

Ou Dafne a errar por entre os espinheiros, as pernas a arranhar de fazer sangue, a cuja vista Apolo chora, tal o primor com que pintadas foram as lágrimas e o sangue.”

Terceiro criado

Não conheceis, senhor, essa taberna, nem criada nenhuma desse nome, como não conheceis ninguém chamado Estêvão Sly, Henrique Pimpernell, Pedro Turf e João Naps, o velho grego e outros 20 sujeitos desse tipo.

SLY

Graças a Deus, agora estou curado.

“Madame esposa, acabam de contar-me que eu dormi e sonhei mais de 15 anos.”

Expediente freqüente da metalinguagem: “Da loucura sendo a melancolia a nutridora, acharam bom que ouvísseis uma peça que a dor expulsa e a vida deixa longa.”

* * *

“O mundo que escorregue, que com isso mais moços nós ficamos.”

“O filho de Vicêncio, que educado foi em Florença, às esperanças deve do pai dar cumprimento, ornamentando sua fortuna com virtuosos feitos.” “Que pensas? Para Pádua vim de Pisa como alguém que deixasse uma lagoa não muito funda, para projetar-se no mar, sequioso de estancar a sede.”

“não devemos virar estóicos – penso – ou mesmo estacas, nem ficar tão devotos de Aristóteles que a Ovídio reneguemos como a réprobo. Com vossas relações falai de lógica mas na prática usual sede retórico. Animai-vos com música e poesia; quanto pedir o estômago, servi-vos de matemática ou de metafísica. Onde não há prazer não há proveito.”

Hortênsio, Petrucchio, Batista, Bianca e Catarina inspiraram O Cravo e a Rosa.

“HORTÊNSIO – De uma demônia dessas, Deus nos livre!

GRÊMIO – E a mim também, bom Deus!”

“Bonequinha mimada! Melhor fôra nos olhos dela enfiar os dedos logo. Saberia por quê.”

“Como eu sei que a maior delícia dela consiste em música, instrumentos, versos, vou chamar professores que lhe possam instruir a mocidade. Signior Grêmio, ou vós, Hortênsio, caso conheçais algum, mandai que me procure logo. Sou sempre amigo das pessoas cultas, nada poupando para dar às filhas gentil educação.”

“Ora, Grêmio! há muitos rapazes bons no mundo – a dificuldade está em sabermos encontrá-los”

“entre batatas podres não há o que escolher.”

3 para 1

0 para 1

“ó Trânio! abraso-me, definho, morro, Trânio, se não casar com esta meiga jovem.”

“não é com ralhos que a afeição se expulsa.”

Redime te captum, quam queas minimo

Melhor comprar um escravo que deixá-lo morrer de fome.

Ame e sofra, mas sorva do amor!

“Acordai, meu caro amo! O caso é este: a irmã mais velha é tão maligna e bruta que enquanto o pai não se vir livre dela, mestre, solteira vossa amada fica. Por isso ele a trancou a 7 chaves, porque dos importunos se livrasse.”

“Basta; tenho um plano. Não fomos vistos em nenhuma casa; pelo rosto ninguém nos reconhece como patrão e criado. Assim faremos: vais ter criados e casa, como eu próprio; vou ser outra pessoa, um florentino, napolitano ou cidadão de Pisa. Já está chocado o plano, vai ser isso. (…)

(Trocam as respectivas roupas.)

TRÂNIO

apraz-me ser Lucêncio, por amor de Lucêncio.”

“passarei a ser escravo, para vir a alcançar essa donzela que me feriu os olhos extasiados.”

Uma peça dentro de uma peça dentro de uma peça que é uma peça tão pequena que não pode ser vista.

* * *

(Saem. Falam as personagens do prólogo.)

PRIMEIRO CRIADO

Estais cochilando, senhor; não estais prestando atenção à peça.”

* * *

“HORTÊNSIO – Alla nostra casa ben venuto, molto honorato signior mio Petrucchio.

“PETRUCCHIO – (…) Resumindo, signior Hortênsio, a coisa é como segue: morreu meu pai, Antônio, tendo agora saído eu sem destino, tencionando casar bem e vencer do melhor modo. Ouro tenho na bolsa; bens, na pátria. Assim, viajo para ver o mundo.”

“PETRUCCHIO – Entre amigos, signior Hortênsio, não se fala muito. Se conheces alguém bastante rica para que esposa de Petrucchio seja – pois o ouro tilintar na dança deve do casamento dele – embora seja tão feia como a amada de Florêncio, velha como a Sibila, tão maligna e impertinente como a própria esposa de Sócrates, Xantipa, ou mesmo pior: não poderá deixar-me transformado nem embotar de meu afeto o gume, embora seja como o mar Adriático, quando se altera. Vim para casar-me, para uma noiva rica achar em Pádua; sendo rica, feliz serei em Pádua.

“Seu único defeito – e que defeito! – é ser intoleravelmente brava, teimosa e cabeçuda sem medida, a tal ponto que, embora meus haveres fossem menores, não a desposara por uma mina de ouro.”

“GRÚMIO – (…) Ela poderá, talvez, chamá-lo umas 10x de biltre ou coisa assim. Não lhe fará mossa nenhuma. Uma vez entrado na dança, ele recorrerá ao vocabulário próprio. Vou dizer-vos uma coisa, senhor: por pouco que ela lhe resista, ele lhe marcará o rosto com uma figura que a deixará tão desfigurada como um gato sem olhos. Não o conheceis, senhor.”

“HORTÊNSIO – (…) Por julgar impossível – em virtude dos defeitos há pouco relatados – que a Catarina alguém escolher possa, determinou Batista deste modo: que ninguém tenha acesso à bela Bianca sem que venha a casar-se Catarina.

GRÚMIO – Catarina goela: o pior nome para uma donzela.”

“Não há nenhuma velhacaria nisso. Vede como os moços sabem juntar as cabeças para enganarem os velhos.”

GRÚMIO & GRÊMIO

“GRÊMIO – Oh! que coisa é a ciência!

GRÚMIO – Oh! que animal é esta galinhola!”

Morreu meu pai; mas vive meu dinheiro; viver pretendo agora prazenteiro.”

“Ora! Espantalho é só para criança.”

“A filha da formosa Leda teve um milhão de pretendentes. Logo, mais um vai ter a bela Bianca. Assim será. Lucêncio não desiste, mesmo que venha Páris, lança em riste.”

“PETRUCCHIO – A primeira, senhor, soltai; é minha.

GRÊMIO – Pois não; deixo o trabalho para esse Hércules; que lhe seja maior que os outros 12.”

“Como advogados procedamos nisso, os quais, embora com calor discutam, depois comem e bebem como amigos.”

Batista, das tuas filhas tenho a lista. Por favor, não as peça que se vista’, simplesmente não insista!

(Entra Grêmio, com Lucêncio vestido pobremente, Petrucchio, com Hortênsio, como professor de música, e Trânio, com Biondello, que traz um alaúde e livros.)”

“Ao se encontrarem, duas chamas violentas aniquilam quanto a fúria lhes tenha alimentado. Conquanto o fogo brando se embraveça com pouco vento, os furacões terríveis levam diante de si o fogo e tudo.”

“CATARINA – Muito leve para ser apanhada por um rústico. Sou tão pesada quanto devo sê-lo.

PETRUCCHIO – Pesada, não; preada.

CATARINA – Ave de preia só conheço gavião.

PETRUCCHIO – Ó vagarosa rolinha, um gavião irá apanhar-te?

CATARINA – Bruto seria para uma rolinha.

PETRUCCHIO – Vamos, vespa; ferina sois bastante.

CATARINA – Sendo eu vespa, cuidado com o ferrão.

PETRUCCHIO – Há remédio para isso: arranco-o logo.

CATARINA – Sim, no caso de o tolo vir a achá-lo.

PETRUCCHIO – Quem não sabe onde as vespas o têm sempre? No corpinho.

CATARINA – Na língua.

PETRUCCHIO – Como! língua? Língua de quem?

CATARINA – Na vossa, se em corpinho vindes falar-me. Adeus.

PETRUCCHIO – Como! Com minha língua em vosso corpinho? Não, Quetinha; voltai; sou um cavalheiro.

CATARINA – Vou ver isso. (Bate-lhe)

PETRUCCHIO – Se me bateres novamente, juro que te darei um murro.

CATARINA – Nesse caso, perderíeis as armas; pois, batendo-me, não seríeis em nada cavalheiro, e, não o sendo, não teríeis armas.”

“PETRUCCHIO – Nem um pouquinho; acho-vos mui gentil. Tinham-me dito que éreis selvagem, áspera e estouvada; e ora vejo que o boato é mentiroso, pois és muito cortês, encantadora, de gênio divertido; um pouco tarda para falar, mas suave como as flores da primavera. Os lábios tu não mordes, tal como as raparigas irritadas. Não contradizes nunca outras pessoas; é sempre branda que manténs conversa com teus cortejadores, sempre afável, com gentis ademanes. Por que o mundo diz que Quetinha é manca? Oh mundo infame! Quetinha é reta e esbelta como galho de aveleira, de tez amorenada como a avelã, tão doce quanto a fruta. Oh! anda um pouco; sei que não claudicas.

CATARINA – Vai dar ordem, cretino, aos teus criados.”

eu nasci para domar-te, para transformar a Quetinha rezingueira numa Quetinha mansa, e tão amável como as Quetinhas donas de seus lares.”

“Em paciência é Griselda rediviva; a romana Lucrécia, em castidade.”

“Oh! sois noviços. É uma maravilha verificar, quando a mulher e o homem ficam sós, como pode um mariquinhas dominar a megera mais rebelde. Quetinha, dá-me a mão. Vou a Veneza comprar a roupa para o casamento.”

“- Sai desmiolado! Brilha a meia-idade.

– Mas às jovens apraz a mocidade.”

“BATISTA – (…) De vós ambos o que firmar a minha filha dote mais opulento, o amor terá de Bianca. Dizei-me, signior Grêmio, que importância podeis assegurar-lhe?”

“Não nego que já sou um tanto idoso. Se eu morrer amanhã tudo isso é dela, caso, enquanto eu viver, ela for minha.”

“2 mil ducados anuais de terra? Minhas terras não dão tamanha renda. Mas prometo também que será dela minha carraca [grande navio] que ancorada se acha no porto de Marselha.”

“- Isso é um sofisma; ele está velho; eu, moço.

– E não morrem os moços como os velhos?”

“Não há motivo – não o vejo – para que um Lucêncio falso não tenha um pai Vicêncio também falso. Eis o estranho do caso: os pais, de regra, dão vida aos filhos; mas neste noivado pelo filho vai ser o pai gerado.”

“Asno atrasado, que não leu bastante para entender por que é que existe música: não é para aliviar o entendimento depois do estudo e do trabalho diário? Deixai-me ler, assim, filosofia, e, ao descansar, servi vossa harmonia.”

“BIANCA – Traduzi.

LUCÊNCIO – Hac ibat, como já voz disse, Simois, eu me chamo Lucêncio, hic est, filho de Vicêncio de Pisa, Sigeia teilus, disfarçado para alcançar vosso amor. Hic steterat e o Lucêncio que se apresentou para vos fazer a côrte, Priami, é meu criado Trânio, regia, que tomou o meu nome, celsa senis, para melhor enganarmos o velho pantalão.”

“BIONDELLO – Ora, Petrucchio vem vindo aí com um chapéu novo e um casaco velho; uns calções de 3x revirados; um par de botas que já serviram de candelabro, uma de fivela e a outra de amarrar com cordão; uma espada enferrujada e sem bainha, tirada do arsenal da cidade, com o punho quebrado e com as duas correias arrebentadas. O cavalo em que ele vem é manco e traz uma sela bichada e velha, com estribos desaparelhados, além de sofrer de mormo e gosma, de sarna, de escorbuto; está cheio de tumores nas juntas, de esparavão caloso; a icterícia o deixou listado, tem escrófula a mais não poder, vive morto de apoplexia, comido de lombrigas; a espinha, arrebentada; as pás, fora do lugar; as pernas da frente são mais curtas, o freio, de um lado só, com cabeçada de couro de carneiro que de tanto ser puxado para impedi-lo de tropeçar, já arrebentou em muitas partes, ficando cheio de nós. A silha é de 6 variedades de pano; o selim é de mulher, com duas iniciais indicadoras do nome da dona primitiva, desenhadas com tachas e aqui e ali costuradas com barbante.”

“um monstro, um verdadeiro monstro nos trajes, não se parecendo em nada com um pajem cristão ou com o criado de um gentil-homem.”

“Aposto um bom vintém em que um cavalo só e um homem, mais ninguém, se eu junto os colocar não formarão um par.”

“Ela se casa comigo apenas, não com minha roupa.”

“Ao perguntar-lhe o padre se por esposa ele aceitava a noiva, <Sim, pelo raio!> disse, de tal modo gritando que, de medo, o sacerdote deixou cair o livro, e, ao abaixar-se para apanhá-lo, o noivo tresloucado deu-lhe tamanho murro que rolaram pelo chão padre e livro, livro e padre. <Quem quiser>, disse, <que os levante agora>. (…) Nunca houve casamento tão maluco.”

“Quero ser dono do que me pertence; ela é minha fazenda, meus bens móveis, a mobília, o celeiro, a casa, o campo, meu burro, meu cavalo, minha vaca, meu tudo, enfim.”

“Petrucchio está catarinado, juro-o.”

“Com um tempo destes, um homem mais alto do que eu se resfriaria facilmente.”

“CURTIS – E ela, é a megera furibunda de que todos falam?

GRÚMIO – Foi, Curtis, antes desta geada. Mas, como sabes, o inverno amansa o homem, a mulher e o animal, pois assim o fez com meu velho amo, com minha nova patroa e comigo mesmo”

“Será melhor para ambos jejuarmos – sendo por natureza tão coléricos – do que carne ingerirmos tão assada.”

“Tenho também outro processo para deixar manso o gavião, fazer que volte e habituá-lo ao meu grito, i.e., forçá-lo a ficar acordado, como é de hábito fazer com esses milhanos indomáveis que se debatem muito.” “Essa é a maneira de matar com carícias uma esposa. Dobrarei desse modo o gênio dela, opinoso e violento. Se alguém sabe como amansar melhor uma megera, venha ensinar-me, que aqui fico à espera.”

Bianca Indomada

“BIANCA – Como! Aulas de domar? Há escola disso?

TRÂNIO – Sim, senhor; e Petrucchio é o professor. Meios conhece de amansar a bruxa, deixando-a mui discreta e não perluxa [presumida].”

“Fico acordada com pragas; alimento-me de gritos. E o que mais me magoa nisso tudo é fazer ele tudo sob a capa do amor mais atencioso, parecendo que, se eu viesse a dormir ou a alimentar-me cairia logo doente, ou perecera sem maiores delongas.”

“Só com o nome dos pratos me alimentas? Sejas maldito, e assim toda essa súcia que com meu sofrimento se empavona.”

Ergo me, logo ando.

“Não posso ficar mais tempo. Conheço uma rapariga que se casou numa tarde, ao ir à horta apanhar salsa para encher um coelho. O mesmo podereis fazer, meu senhor.”

“PROFESSOR [O Vicêncio farsante] – Quem é que bate como se quisesse derrubar a porta?

VICÊNCIO – O signior Lucêncio está, meu senhor?

PROFESSOR – Está, sim senhor; mas não pode atender a ninguém.

VICÊNCIO – Como! E se alguém lhe trouxesse 100 ou 200 libras, para maior animação de seus divertimentos?

PROFESSOR – Guardai para vós mesmos vossas 200 libras; enquanto eu tiver vida ele não precisará disso.”

“VICÊNCIO – Vinde cá, meu velhaco. Então, já vos esquecestes de quem eu sou?

BIONDELLO – Se já me esqueci de vós? Não, senhor; não poderia ter-me esquecido de vós, porque nunca vos vi em toda a vida.

VICÊNCIO – Como, notório biltre! Nunca viste o pai de teu amo, nunca viste Vicêncio?”

“Estou arruinado! Estou arruinado! Enquanto em casa eu faço o papel de marido econômico, meu filho e meu criado esbanjam tudo na universidade.”

“BATISTA – Que fizeste? Onde ficou Lucêncio?

LUCÊNCIO – Aqui está ele, o verdadeiro filho do Vicêncio verdadeiro, que pelo casamento fez dele a tua filha, enquanto os olhos uns mistificadores te enganavam.”

“VIÚVA – Quem tem vertigens diz que o mundo roda.

PETRUCCHIO – Resposta bem redonda.

CATARINA – Explicai-me, vos peço, essa sentença.

VIÚVA – Que tendo vosso esposo uma megera, julga a mulher do próximo uma fera.”

“Paz, amor, vida tranqüila, máxima respeitada e uma legítima supremacia. Em suma: tudo quanto torna doce e feliz nossa existência.”

A mulher irritada é como fonte remexida: limbosa, repulsiva, privada da beleza; e assim mantendo-se, não há ninguém, por mais que tenha sede, que se atreva a encostar os lábios nela, a sorver uma gota.” “Por que motivo temos o corpo delicado e fraco, pouco afeito aos trabalhos e experiências do mundo, se não for apenas para que nossas qualidades delicadas e nossos corações de acordo fiquem com nosso hábito externo? Deixai disso, vermezinhos teimosos e impotentes! agora vejo que nossas lanças são de palha, apenas. Nossa força é fraqueza; somos criança que muito ambicionando logo cansa.”