Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade, seguido de Primeiros escritos sobre a paranóia – Jacques Lacan (tradução de Aluisio Menezes, Marco Antonio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes da Silveira Jr.), Forense Universitária, RJ (1987). Edição original francesa de 1975.

ORELHAS: “Da Psicose Paranóica, que já foi considerada como a última grande tese da psiquiatria contemporânea, constitui, na verdade, já a primeira incursão de Lacan no campo propriamente psicanalítico. (…) Após a leitura, Salvador Dalí criaria seu método paranóico-crítico[?], o qual traria novo fôlego para o movimento surrealista.”

DA PSICOSE PARANÓICA EM SUAS RELAÇÕES COM A PERSONALIDADE (DOUTORADO EM MEDICINA ORIENTADO POR HENRI CLAUDE, 1932)

A MEU IRMÃO, O R.P. MARC-FRANÇOIS LACAN, BENEDITINO DA CONGREGAÇÃO DE FRANÇA.”

A QUE SE ACRESCENTA MENÇÃO AOS MAIS VELHOS QUE HONRO, DENTRE OS QUAIS DR. ÉDOUARD PICHON. DEPOIS UMA HOMENAGEM A MEUS COMPANHEIROAS HENRI EY E PIERRE MALE, ASSIM COMO A PIERRE MARESCHAL.”

Dentre os estados mentais da alienação, a c1ínica psiquiátrica desde há muito distinguiu a oposição entre dois grandes grupos mórbidos; trata-se, qualquer que seja o nome pelo qual tenham sido designados, segundo as épocas, na terminologia, do grupo das demências e do grupo das psicoses.”

na ausência de qualquer déficit detectável pelas provas de capacidade (de memória, de motricidade, de percepção, de orientação e de discurso), e na ausência de qualquer lesão orgânica apenas provável, existem distúrbios mentais que, relacionados, segundo as doutrinas, à <afetividade>, ao <juízo>, à <conduta>, são todos eles distúrbios específicos da síntese psíquica.” “sem uma concepção suficiente do jogo dessa síntese, a psicose permanecerá sempre como um enigma: o que sucessivamente foi expresso pelas palavras loucura, vesânia, paranóia, delírio parcial, discordância, esquizofrenia. Essa síntese, nós a denominamos personalidade, e tentamos definir objetivamente os fenômenos que lhe são próprios”

Com efeito, historicamente, os conflitos das doutrinas, cotidianamente, as dificuldades da perícia médico-legal, nos demonstram a que ambigüidades e a que contradições remete toda concepção desta psicose [a paranóica] que pretende prescindir de uma definição explícita dos fenômenos da personalidade.”

Se dedicamos algum cuidado a essa exposição, não foi apenas por um interesse de documentação cuja importância para os pesquisadores, no entanto, conhecemos, mas porque aí se revelam progressos clínicos incontestáveis.”

I. POSIÇÃO TEÓRICA E DOGMÁTICA DO PROBLEMA

I.1. FORMAÇÃO HISTÓRICA DO GRUPO DAS PSICOSES PARANÓICAS

Três escolas, em primeiro plano, trabalharam, não sem se influenciar, para o isolamento do grupo: a francesa, a alemã, a italiana.”

O termo paranóia foi conceituado cientificamente pela primeira vez pela escola alemã (Cramer, 15/12/1893). Já o “termo, já empregado pelos gregos, foi utilizado por Heinroth, em 1818, em seu Lehrbuch des Störungen des Seelenslebens, inspirado nas doutrinas kantianas.”

Kraepelin e Bouman de Utrecht (…) evocam o tempo em que 70 a 80% dos casos de asilo eram catalogados como paranóia. Tal extensão se devia às influências de Westphal e Cramer. A paranóia era então a palavra que, em psiquiatria, tinha a significação mais vasta e mais mal-definida; era também a noção mais inadequada à clínica. Com Westphal, ela se torna quase sinônimo, não só de delírio, mas de distúrbio intelectual. E isso tinha sérias conseqüências numa época em que se estava prestes a admitir delírios larvares ou <em dissolução> (zerfallen) como causas de todas as espécies de estados singularmente diferentes de um distúrbio intelectual primitivo. Kraepelin zomba desses diagnósticos de <velhos paranóicos>, atribuídos a casos correspondentes à demência precoce, a estados de estupor confusional, etc.” “as paranóias agudas, às quais Kraepelin recusa qualquer existência autônoma”

Os paranóicos são anacronismos vivos . . . O atavismo se revela ainda mais claramente na paranóia do que na imoralidade constitucional porque as idéias mudam de uma maneira mais precisa e mais visível do que os sentimentos

Riva, E. nosog. della paranoïa

ENANTIODROMIA? “Quanto ao delírio [sintoma sine qua non da paranóia], ele se elabora segundo <duas direções opostas que freqüentemente se combinam entre si> (Kraep.). São o <delírio de prejuízo em seu sentido mais geral e o delírio de grandeza>. Sob a primeira denominação se agrupam o delírio de perseguição, de ciúme e de hipocondria. Sob a segunda, os delírios dos inventores, dos interpretadores filiais, dos místicos, dos erotômanos. A ligação é estreita entre todas essas manifestações; o polimorfismo, freqüente, a associação bipolar de um grupo ao outro, comum.”

O delírio é, em regra, sistematizado. Ele é elaborado intelectualmente, coerente numa unidade, sem grosseiras contradições internas. É uma verdadeira caricatura egocêntrica de sua situação nas engrenagens da vida que o doente compõe para si, numa espécie de <visão-de-mundo>.”

I.2. CRÍTICA DA PERSONALIDADE PSICOLÓGICA

O dado clínico da evolução sem demência, o caráter contingente dos fatores orgânicos (reduzidos, de resto, a distúrbios funcionais) que podem acompanhar a psicose, a dificuldade teórica, enfim, de explicar suas particularidades (o delírio parcial) pela alteração de um mecanismo simples, intelectual ou afetivo – tais elementos, e outros ainda mais positivos, fazem com que a opinião comum dos psiquiatras, como sabemos, atribua a gênese da doença a um distúrbio evolutivo da personalidade.”

A psicologia científica se esforçou no sentido de precisar por completo a noção de personalidade, removendo-a de suas origens metafísicas, mas, como acontece em casos análogos, acabou por desembocar em definições bastante divergentes.”

a) A PERSONALIDADE SEGUNDO A CRENÇA COMUM

a personalidade é a garantia que assegura, acima das variações afetivas, as constâncias sentimentais; acima das mudanças de situação, a realização das promessas. É o fundamento de nossa responsabilidade.”

b) ANÁLISE INTROSPECTIVA DA PERSONALIDADE

Na verdade, a introspecção disciplinada só nos fornece perspectivas muito decepcionantes.” Boa.

Após algumas dessas crises, nós não nos sentimos mais responsáveis por nossos desejos antigos, nem por nossos projetos passados, nem por nossos sonhos, nem mesmo por nossos atos.” Parece que em cem anos conseguiram arruinar completamente com o conceito de “tese de doutorado”… Nada que hoje se leia parece vir de um sujeito, apenas linhas robóticas.

c) ANÁLISE OBJETIVA DA PERSONALIDADE

A personalidade, que se perde misteriosa na noite da primeira idade, afirma-se na infância segundo um modo de desejos, de necessidades, de crenças, que lhe é próprio e como tal foi estudado. Ela borbulha nos sonhos e esperanças desmedidas da adolescência, em sua fermentação intelectual,¹ em sua necessidade de absorção total do mundo sob os modos do gozar, do dominar e do compreender; ela se estende, no homem maduro, em uma aplicação de seus talentos ao real, um ajustamento imposto aos esforços, em uma adaptação eficaz ao objeto, ela pode se concluir em seu mais alto grau na criação do objeto e no dom de si mesmo. No velho, finalmente, na medida em que até aí ela soube se liberar das estruturas primitivas, ela se exprime numa segurança serena, que domina a involução afetiva.”

¹ Ver a clara ebulição destes sintomas no diário adolescente do autor desta “autobiografia prematura”: https://clubedeautores.com.br/livro/as-teorias-supremas.

Moisés escreveu o Pentateuco, pensamos, porque, se assim não o fizesse, todos os nossos hábitos religiosos deveriam ser mudados.”

William James

O “nós” implicado no itálico seria somente os hebreus contemporâneos de Moisés, ou literalmente a humanidade de todos os tempos? Seu ato foi criar uma moral redentora que não havia ainda? Ou cristalizar uma que havia mas que inelutavelmente seria perdida numa espécie de pressentimento de mais um dilúvio, sendo sua palavra escrita capaz de retardar ao máximo ou evitar essa hecatombe moral (congelamento zen-budista ou egípcio do modo de ser humano)? Questionamento absurdo.

d) DEFINIÇÃO OBJETIVA DOS FENÔMENOS DA PERSONALIDADE

(…)

e) POSIÇÃO DE NOSSA DEFINIÇÃO COM RELAÇÃO ÀS ESCOLAS DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA

(…)

f) DEFINIÇÃO DA PSICOGENIA EM PSICOPATOLOGIA

Ninguém atualmente duvida mais, efetivamente, da organicidade do psíquico, nem sonha fazer da alma uma causa eficaz.”

Contra o “inatismo” da doença ou derivação de “trauma físico”: “o evento causal só é determinante em função da história vivida do sujeito, de sua concepção sobre si mesmo e de sua situação vital com relação à sociedade; o sintoma reflete em sua forma um evento ou um estado da história psíquica, exprime os conteúdos possíveis da imaginação, do desejo ou da vontade do sujeito, possui um valor demonstrativo que visa uma outra pessoa; o tratamento pode depender de uma modificação da situação vital, quer nos próprios fatos, na reação afetiva do sujeito com relação a eles ou na representação objetiva que deles possui.” Tornar o problema consciente é o mais fácil: convencer-nos a sentir outra coisa diante do que sabemos ou promover uma mudança existencial seriam, respectivamente, da menos para a mais difícil das tarefas, as missões realmente problemáticas. “Modificação da situação vital” pode querer dizer: de forma nenhuma esse emprego! Mas somos tão passivos na questão, o mais das vezes, quanto quando torcemos pelo nosso time do coração…

No que concerne à perícia, que é o critério prático da ciência do psiquiatra, é sobre essas bases que se fundamentam, mais ou menos implicitamente, as avaliações de responsabilidade, tais como a lei as exige de nós.” Para o não-psicanalista, só seria possível uma prova negativa: não se trata de loucura traumática nem congênita, logo pode ser (ou pode não ser!) que o paciente seja psicótico! Sua biografia teria de ser avaliada, mas a carga moral excele nesse tipo de análise de medicina forense funesta. Só um verdadeiro analista poderia tentar c[r]avar mais fundo e chegar a uma intuição melhorada da coisa… Impraticável que o Estado aponsentasse o servidor no limbo entre a psicose (supostamente intratável fora de Lacan) e a “simples” neurose… O mais prático e conveniente seria exonerá-lo do cargo. Meu próprio caso é uma ilustração salutar: se, no futuro, eu me encontrar nessa situação, o que diz, por exemplo, o “complexo” laudo do meu eletroencefalograma detalhado? Que eu tenho um cérebro perfeitamente saudável, mas que ignora-se por que raios eu tenho uma calosidade ou espécie de coágulo idêntico ao do epiléptico – sem o ser! Ao ponto de o médico, com certeza um pobre coitado sem culpa de sua ignorância, mas sem as qualificações exigidas para esta grandiosa tarefa (este é o fato nu e cru), me perguntar levianamente se eu sofri alguma forte pancada na cabeça durante minha fase de crescimento! Em síntese, toda a magna ciência “desses caras” não passa de especulação da mais comezinha… Que diferença faz o episódio causador da “bolha de sangue seco” numa região cerebral que não afeta minhas faculdades intelectivas, se eles sequer sabem o motivo de eu não apresentar qualquer sintoma de epilepsia em decorrência dessa mesma “bolha”? Uma adolescência terrível seria simplesmente o chute mais plausível. E para tê-lo concluído bastou a mim, o sujeito que viveu meu enredo, sem seis ou sete anos de estudos em medicina.

g) FECUNDIDADE DAS PESQUISAS PSICOGÊNICAS

Ler o livro de um dos pais da Físico-química, Wilhelm Ostwald, sobre os maiores físicos e químicos do século XIX (Les Grands Hommes [Energetische Grundlagen der Kulturwissenschaft]). A introdução do ponto de vista energético nas leis da criação intelectual é aí muito sugestiva.”

h) VALOR PROBLEMÁTICO DOS SISTEMAS CARACTEROLÓGICOS E DA DOUTRINA CONSTITUCIONALISTA

Mas quando Kretschmer chega a formar o quadro dos diversos tipos de personalidade, encontramos nele, sob o mesmo modo de reações sintéticas, temperamentos de natureza muito diversa: assim, subjacentes à personalidade estênica [resiliente, elástica, flexível, até eufórica ou hiperativa a depender do contexto], existem temperamentos ciclotimo-hipomaníacos [Ver abaixo. Para mim, a rigor, a diferença entre ciclotimo-hipomaníaco e depressivo ciclotímico é zero, mudando apenas o momento do ciclo em que o sujeito se encontra. Não importa onde você está agora na montanha-russa, contanto que saibamos que, como todos os outros passageiros, você vai completar uma – ou umas – volta(s) e descer outra vez… Ou, enfim, numa metáfora mais literal, que nunca vai realmente descer, mas vai passar infinitas vezes pelos mesmos pontos, quer queira, quer não…], por um lado, e também esquizotimo-fanáticos [delirantes originais]: quanto à personalidade astênica [fatigada, extenuada; numa palavra: preguiçosos¹], encontramos esquizóides agudamente hiperestênicos e depressivos ciclotímicos.” No fundo, passividade é resistência, derrota é estratégia; ação é rigidez, síndrome de Pirro… Tudo é permitido. Todo mundo é cão e se vira nesse mundo de manés, malandros e cães, amarrados com cordames e lingüiças…

¹ Brincadeirinha… Parece que o termo psicastenia, mais usado na primeira metade do século XX, deriva realmente da neurastenia lida em autores do século XIX (lassidão nervosa lassidão psíquica); a astenia tem a ver com certa lassidão inata do indivíduo: em situações estressantes, ele tende mais à passividade que o não-astênico (ou estênico), chega à irritabilidade (falência emocional) mais facilmente e quando não mais suporta a hiperexcitação cai num quadro depressivo. Da mesma fontea que usei para entender esta droga de parágrafo (mais sintomático da dificuldade de Lacan com a escrita que a conduta de Rousseau de uma suposta paranóiab), segue (alto interesse pessoal nos grifos desta cor!):

a https://www.psiquiatriageral.com.br/psicopatologia/06personalidade.htm
b Lacan diz meia-dúzia de vezes neste livro que Rousseau ERA SEM SOMBRA DE DÚVIDA UM PARANÓICO, das quais devo ter transcrito pelo menos 3. Gostariamos de ver uma monografia sobre o assunto, tão detalhada quanto a de Aimmée!

Personalidade explosiva – Caracteriza-se por exagerada excitabilidade emocional, tendendo à irritabilidade e predisposição a reações motoras correspondentes a essa excitabilidade. Motivos mínimos são capazes de desencadear crises de cólera, durante as quais o indivíduo perde o domínio de si próprio. Segue-se um estado de mau humor. Também se denominam estes casos de <tipos epileptóides>.” Bastante esclarecedor, ou pelo menos intrigante, para quem leu minhas anotações mais acima

Personalidade ciclóide – Distinguem-se duas variedades: a hipomaníaca [mania leve, tendência eufórica] e a pessimista-angustiosa. No primeiro grupo vemos os indivíduos eufóricos, expansivos, comunicativos, simpáticos, sintonizando facilmente com qualquer ambiente.i [Ambos] fazem facilmente amigos, são tolerantes e conciliantes no que diz respeito à moral. Há tanta facilidade para rir como para chorar, correspondendo a alternações de excitação e depressão.ii

i Nojo!

ii Gon Freecs, é você?

O pessimista-angustioso também revela inquietação. Tristes presságios povoam seu pensamento. São indivíduos fatalistas, céticos e de exagerada crítica, tendentes ao rancor.”

Personalidade esquizóide – Caracterizam o interesse pelo que é raro e original, a tendência a fugir do meio habitual para melhor viver no mundo interior de suas próprias idéias, sonhos e desejos.”

No entanto, esse vocabulário é inútil, uma vez que das 10 personalidades listadas, possuo compatibilidade com várias, ao mesmo tempo em que sou avesso a várias (às vezes simultaneamente), e praticamente me vejo excluído apenas daquelas apontadas como “mais freqüentes em mulheres”. Também posso listar um vasto número de pessoas que se enquadrariam sem esforço em quase todas. Ou seja, trata-se de cultura inútil! Como a própria página, aliás, indica, humildemente: Acumulação de defeitos da personalidade – Não é fácil encontrar, na vida prática, os tipos puros de personalidades psicopáticas como foram descritas. O que se verifica habitualmente é a acumulação de defeitos de personalidade no mesmo indivíduo.”

* * *

O mesmo do acima expresso em outras palavras, mostrando a diferença entre psicopático ou tipo psicopata e psicótico, o doente por excelência: “As constituições psicopáticas, hereditárias ou não, são inatas . . . As constituições são apenas variações, por excesso ou por falta, das disposições normais” Delmas

i) PERSONALIDADE E CONSTITUIÇÃO

A constituição [o legado teórico que Lacan utiliza mas que pretende superar nesta monografia], com efeito, pode traduzir apenas uma fragilidade orgânica em relação a uma causa patogênica externa à personalidade, i.e., em relação a certo processo psíquico, para empregar o conceito geral elaborado por Jaspers” “Os problemas da relação da psicose com a personalidade e com a constituição não se confundem.”

I.3. CONCEPÇÕES DA PSICOSE PARANÓICA COMO DESENVOLVIMENTO DE UMA PERSONALIDADE

a) AS PSICOSES PARANÓICAS AFETAM TODA A PERSONALIDADE

Não é para nos surpreender o fato de que o doente conserve todas as suas capacidades de operação, que ele se defronte, por exemplo, com uma questão formal de matemática, de direito ou de ética. Aqui, os aparelhos de percepção, no sentido mais geral, não estão de modo algum expostos aos estragos de uma lesão orgânica. O distúrbio é de outra natureza”

b) AS PSICOSES NÃO HERDAM APENAS TENDÊNCIAS DA PERSONALIDADE; ELAS SÃO O SEU DESENVOLVIMENTO, LIGADO À SUA HISTÓRIA. – DE KRAFFT-EBBING A KRAEPELIN.

Lembremos que se encontra em Magnan o inicio da distinção entre a paranóia, desenvolvimento de uma personalidade (delírio dos degenerados) e a parafrenia, afecção progressiva (delírio crônico).”

YIN FILHO DE YANG

Desde há muito o ser íntimo, toda a evolução do caráter do candidato à paranóia, se terão revelado anormais; além disso, não se pode negar que, freqüentemente, a anomalia específica da orientação do caráter é determinante para a forma especial que mais tarde assumirá a Verrücktheit primária, embora esta equivalha a uma <hipertrofia do caráter anormal>. Assim, vemos, por exemplo, um indivíduo anteriormente desconfiado, fechado, amante da solidão, um dia se imaginar perseguido; um homem brutal, egoísta, dotado de opiniões falsas sobre seus direitos, vir a dar num querelante; um excêntrico religioso cair na paranóia mística.” Krafft-Ebing

Kraepelin critica, primeiramente, a teoria, muito vaga, dos <germes mórbidos>, em que Gaupp e também Mercklin instituem o início do delírio na personalidade, e que, em suma, vem a dar na teoria de Krafft-Ebbing.”

a conformidade (antes e durante o delírio) do colorido pessoal das reações hostis ou benevolentes com relação ao mundo externo, a concordância da desconfiança do sujeito com o sentimento de sua própria insuficiência, e também aquela de sua aspiração ambiciosa e apaixonada pela notoriedade, pela riqueza e pela potência com a superestimação desmedida que tem de si mesmo” Kraepelin

E ele lembra o fato (já assinalado por Specht) da sua freqüência nas situações sociais eminentemente favoráveis a tais conflitos, como a do professor, por exemplo.”

O que, de resto, distingue a reação do paranóico das de tantos outros psicopatas atingidos pela mesma insuficiência é sua <resistência>, <seu combate apaixonado contra os rigores da vida, em que ele reconhece influências hostis>. É dessa luta que se origina o reforço do amor próprio. Vê-se, conclui Kraepelin, <que o delírio forma aqui uma parte constituída da personalidade> (Bestandteil des Personlichkeit.)”

A exuberância da juventude, toda voltada para as grandes ações e para as experiências intensas, reflui pouco a pouco diante das resistências da vida, ou então é canalizada por uma vontade consciente de seu fim em vias ordenadas. As desilusões e os obstáculos levam ao amargor, às lutas apaixonadas ou então à renúncia que encontra seu refúgio em miúdas atividades de amador e em planos consoladores para o futuro. Mas pouco a pouco decresce a força de tensão; o pensamento e a vontade se embotam no círculo estreito da vida cotidiana, e, de tempos em tempos, apenas revivem na lembrança as esperanças e as derrotas do passado.” O paraíso do escritor-professor misantropo.

Para Kraepelin, o delírio de grandeza é então essencialmente <a trama perseguida, na idade madura, dos planos de alto vôo do tempo da juventude>.”

<recusar o juízo de outrem ou se esquivar em esperanças de futuro, que nenhum insucesso pode dissolver>. São essas as duas vias em que se engaja o pensamento delirante.” Dois gumes da mesma lâmina.

3 ESTÁGIOS DE GÊNESE DA DOENÇA: “Na juventude, a psicose, <oriunda de devaneios complacentes>, distinguir-se-ia <por seu colorido romântico, pela predominância das ilusões da memória e de um delírio de inventor>. Surgido na idade madura e ligado a idéias de perseguição, o delírio parecerá, antes de mais nada, uma medida de defesa contra as influências contrariantes da vida e se distinguirá essencialmente por uma superestimação desmedida das próprias capacidades do sujeito. Sobrevindo mais tarde [senilidade], com ou sem idéias de perseguição, o delírio se aproximará da primeira forma por seu aspecto de delírio de compensação.” Não faz sentido: a compensação perfeita é o próprio narcisismo hiperbólico!

é no sonho de aventura e onipotência da juventude, nas construções irrealizáveis da criança curiosa pelas maravilhas da técnica, que o delírio vai encontrar seu modelo.” “persiste uma certa ambigüidade entre a noção de um desenvolvimento mediante <causas internas> e a de reação às <causas exteriores>.”

c) NA PSICOGENIA DAS PSICOSES PARANÓICAS, A ESCOLA FRANCESA SE PRENDE À DETERMINAÇÃO DOS FATORES CONSTITUCIONAIS. SÉRIEUX & CAPGRAS. [PRINCIPAIS DISCÍPULOS DE MAGNAN, ESCREVIAM A 4 MÃOS] DIFICULDADES DE UMA DETERMINAÇÃO UNÍVOCA. DE PIERRE JANET A GÉNIL-PERRIN.

Sérieux & Capgras não aceitam as tentativas de autores como Griesinger, Dagonet, Féré, Specht, Nacke, para diferenciar, em seu mecanismo, a interpretação mórbida da normal. A interpretação só é mórbida em virtude da orientação e da freqüência que lhe impõe a ideologia de base afetiva, própria não só do delírio, mas do caráter anterior do sujeito. Idéias de perseguição e de grandeza são diversamente combinadas em intensidade e em sucessão, mas segundo uma ordem fixa para cada enfermo. <O plano do edifício não muda, mas suas proporções aumentam>, pois o delírio progride <por acumulação, por irradiação, por extensão>, <sua riqueza é inesgotável>.

O delirante alucinado, dizem, experimenta uma mudança que o inquieta; primeiro, ele rechaça os pensamentos que o assediam; ele tem consciência da discordância destes com sua mentalidade anterior; mostra-se indeciso. Só chega à certeza, à sistematização, no dia em que a idéia delirante se tornou sensação.”

O primeiro período do delírio crônico, período interpretativo, surgiu-nos como uma manifestação da desordem mental provocada por uma brusca ruptura entre o passado e o presente, pelas modificações da atividade mental e pelos <sentimentos de incompletude que daí resultam> (Pierre Janet). O doente, ao buscar uma explicação para esse estado de mal-estar, forja interpretações que não o satisfazem, etc. Nada de semelhante ocorre no delírio de interpretação propriamente dito, cuja origem se perde ao longe.”

No delírio de reivindicação [subtipo do de interpretação] eles dão destaque, entre outros mecanismos, ao da <idéia fixa que se impõe ao espírito de maneira obsedante, orienta sozinha toda a atividade . . . e a exalta em razão dos obstáculos encontrados>. É o próprio mecanismo da paixão.”

Em 1898, Janet observa o aparecimento de delírios de perseguição, que ele denomina paranóia rudimentar, nos mesmos sujeitos que apresentam a síndrome a que deu o nome expressivo de <obsessão dos escrupulosos>. Os modos de invasão desse delírio, seus mecanismos psicológicos, o fundo mental sobre o qual se desenvolve, mostram-se idênticos ao fundo mental e aos acidentes evolutivos da psicastenia. Notemos que, em suas observações, Janet ressalta que o delírio surge como uma reação a certos acontecimentos traumatizantes. Quanto às predisposições constitucionais, são aquelas do psicastênico: o sentimento de insuficiência de sua própria pessoa, a necessidade de apoio, a baixa da tensão psicológica [?], aí estão traços bem diferentes da constituição paranóica, tal como deveria ser ulteriormente fixada.”

Assim como um pé aleijado cresce harmoniosamente em relação ao germe no qual preexistia, do mesmo modo os erros do interpretante crescem assim como devem crescer num cérebro que os implica todos potencialmente desde sua origem. Na verdade, não existe aqui princípio nem fim.” Dromard

A noção de bovarismo foi definida originalmente por Jules de Gaultier como <o poder concedido ao homem de se conceber como aquilo que não é>.”

d) NA PSICOGENIA DAS PSICOSES PARANÓICAS, A ESCOLA ALEMÃ SE PRENDE À DETERMINAÇÃO DOS FATORES REACIONAIS. BLEULER. PROGRESSO DESTA DETERMINAÇÃO. DE GAUPP A KRETSCHMER E A KEHRER.

O caráter invasivo comparável ao câncer e a incurabilidade do delírio são determinados pela persistência do conflito entre o desejo e a realidade.” Bleuler

Desde 1905, Friedmann chama atenção para um certo número de casos, que ele designa como um subgrupo da paranóia de Kraepelin. Nesses casos, o delírio aparece claramente como uma reação a um acontecimento vivido determinado e a evolução é relativamente favorável. Ele os denomina paranóia benigna e indica três traços de caráter, próprios a tais sujeitos: eles são <sensíveis, tenazes, exaltados>.”

Em 1909, Gaupp dá o nome de <paranóia abortiva> a delírios de perseguição que, nos melhores casos, podem ser curados; e a descrição magistral que nos dá a respeito mostra-nos a evolução de um delírio paranóico num terreno tipicamente psicastênico. <Trata-se, escreve, de homens instruídos, numa idade entre 25 e 45 anos, que sempre se mostraram com humor benevolente, modesto, pouco seguros de si, antes ansiosos, muito conscienciosos, escrupulosos até, em suma, aparecendo em toda sua maneira de ser semelhantes aos doentes que sofrem de obsessões. Naturezas ponderadas, voltadas para a critica de si mesmo, sem nenhuma superestimação de si, sem humor combativo. Neles se instala de maneira inteiramente insidiosa, sobre a base de uma associação específica mórbida e, na maioria dos casos, num vínculo temporal mais ou menos estreito com um acontecimento vivido de forte carga afetiva,¹ um sentimento de inquietação ansiosa com idéia de perseguição; com isto existe uma certa consciência da enfermidade psíquica; eles se queixam de sintomas psicastênicos. Esses seres, de natureza moralmente delicada, indagam primeiro se seus inimigos de fato não têm razão de pensarem mal a seu respeito, mesmo que não tenham dado lugar, por sua conduta, a uma crítica maliciosa ou a uma perseguição policial, senão judicial. Mas não aparece nenhum estado melancólico, nenhum delírio de auto-acusação; ao contrário, surgem idéias de perseguição com uma significação sempre mais precisa, bem-fundamentadas logicamente e coerentes, que se orientam contra pessoas ou corpos profissionais determinados (a polícia, etc.). O delírio de relação não se estende a todo o meio ambiente; desse modo, por exemplo, o próprio médico nunca será incluído na formação delirante, no decurso de uma estada de vários meses na clínica; ao contrário, o doente sente certa necessidade do médico, porque a segurança de que nenhum perigo o ameaça e de que, na clínica, ajuda e proteção lhe são garantidas, por vezes age sobre ele de maneira apaziguadora. Uma conversa séria com o médico pode aliviá-lo por algum tempo, mas certamente não de maneira duradoura. Às vezes, fazem algumas concessões e admitem que se trata de uma desconfiança patológica, de uma particular associação mórbida [João & Pablo]; mas novas percepções no sentido do delírio de interpretação trazem, então, precisamente um novo material ao sistema de perseguição. Com o progresso da afecção ansiosa, desconfiada, que evolui segundo grandes oscilações, as idéias de perseguição se tornam mais precisas e ocasionais ilusões sensoriais reforçam o sentimento de sua realidade. [Eu vi, eu ouvi, eu senti, clara, issa! como a luz do dia! Mas chega de graça, pois divago e devaneio, taíscutando? Nãominimize minha capacidade de autossuperação! Passei muito tempo irreconhecível: de heleno, me tornei num jururu! Um inseto marinado em ódio, impotência e rancor… Grande alívio que tudo isso findou!] Em momentos mais calmos, mostra-se uma certa lucidez sobre as idéias de perseguição anteriores: <Por conseguinte, eu evidentemente imaginei isso>; desse modo, a enfermidade continua durante anos, ora em remissão, ora exacerbando-se [COCHICHE NA MINHA FRENTE, SUA IMBECIL DESAFORADA! – desabafo diacrônico]; sempre persiste o fundo de humor de pusilanimidade ansiosa e o doente é dominado por esta reflexão: <Em que eu mereci essas marcas de hostilidade?> É apenas de maneira passageira que ele chega a se revoltar contra essa tortura eterna, ou até a se defender contra a agressão delirante. Jamais arrogância, nem orgulho, jamais idéias de grandeza, elaboração inteiramente lógica das idéias mórbidas de relação, nenhum traço de debilidade, uma conduta inteiramente natural. Os enfermos, que chegam livremente na clínica e a deixam de acordo com sua vontade, possuem até o fim a maior confiança no médico, gostando de voltar a consultá-lo quando, na prática de sua profissão, se sentem novamente perseguidos e importunados. Chegam então com a seguinte pergunta: <Será que isso realmente não passa de imaginação?> Com muita freqüência, não se constata uma progressão clara da afecção, embora nem sempre seja assim. Num caso observado, as associações mórbidas típicas existem há 12 anos, embora nenhum sistema delirante rígido se tenha constituído; trata-se bem antes de idéias de perseguição que variam em força; com isso, o doente é capaz de atuar na profissão em que está empregado. Em períodos relativamente bons, sempre se faz valer uma semiconsciência da enfermidade; a idéia prevalente não domina o sujeito inteiramente como ocorre no delírio de reivindicação. [síntese: eu sou mais controlado e lúcido que o meu pai; eu gestiono as idéias, não o contrário.] Em todos os casos, a disposição depressiva escrupulosa existia desde sempre; assim sendo, trata-se de um quadro delirante caracterogênico que, de certa maneira, é simétrico [eu e JJ, espelhos paralelos] ao quadro delirante caracterogênico colorido de mania de tantos querelantes.>”

¹ CONVIDADO A SE RETIRAR: A EXPULSÃO QUE NÃO É UMA EXPULSÃO, CLARO, SÓ PARA INGLÊS VER! CIRCUITO DA IPSEIDADE: T. EDSON OF JUDAS DE AGUIARHELEN[JUICEofjuízo][EN]A_PAPA_CEARIBADEVOLTÀORIGEM SAUL,[OpecadoR]DENTEBASDAVIFILHOFRITOFRAC.ASSADO ADOCONVIDADO.INESPERADOzzzSONECANABILIOTECASEMINARIO.PADRE.CAPESPESCAPEI.PEIXOTO.PEIXEFISGADO.BARBAZUL.LEUQAR.SEUSPRÓPRIOSPROBLEMAS.PROFESSORCONFESSOR.MAMAMARINADÓLEOGRAXO.ÁCIDO.ASSÍDUO.DERREPENTESÓQUERDORMIR.ALERGICO.FECHEOBLOGDEVIDOAMUDANÇASNAPOLÍTICAINSTITUCIONAL.QUEBRAQUEIXOMU.DANÇA.DINHEIRROTEIRO.RO-TEI-RO.POLIGLOTAGIOTAUTODIDATA.OPERSEGUIDOTEMDESEROPRIMEIRONACORRIDADÁDIVIDA.ROLLING.INCAPAZDEPAZ.DARDO.EU.JUD.EU.SELENCIOSILÊNIOVOZALTATROVÃORIENTACAOÀSVESSAS.MIQUEIXOMEQUEIXO.MAX.ILAR.TIRITA.DESCONFORME.CONFIRMEALGUÉMCONFIRMEQUEUSOUAQUILOQUEUPENSOQUEUSOU.NAOVÁN’ADOSOUTROS.POBLA.CIÓNDEMIERDAS.US.UNDER.THE.PILE.LASTLAP,LARS.TREADINGPUNCH.WHO’R’THEY THE DAY THEY KNEW… DIFUZZ.RETOMANDOFIODAMEADA:EX-PULSO.INTEGRANTE DA ORIENTAÇÃO²coordenação todos os seus esforços anteriores foram v ã o s nesta janela fechada que n a d a representa. andando em círculos circulando pelo andaime escada fechada escura claustrofóbica claudicante suor de sangue.

SÓ METENDO A BROCA PARA APROFUNDAR O SUBSOLO

ENQUANTO A ÁRVORE DA VIDA RELUZ LÁ NO ALTO, NÃO QUE NÃO ESTEJA DALGUM MODO ABORTADA.

PORQUE CRESCEU DEMAIS. SIMBÓLIRÔNICO,NÃO?!

QUE É QUE PODE RE VE LAR

GALHOPODRE200320102017stilldigginginthisstillsea

estilingue_do_tempo it lingers it really lingers…

JUDICIALIZAÇÃO DO SEU CU GORDO QUE JÁ CAGOU CAGARÁ NETINHOS

(isso não é poesia, é só é só terapia.)

o delírio retorna a um estado de acalmia, quando a ocasião é liquidada ou seus efeitos compensados. Qualquer outro acontecimento vital ulterior poderá então desencadear a doença de maneira análoga.” Kraepelin

O paranóico não sara, ele se desarma.”

Ver a distinção entre temperamento e caráter em Ewald, Temperament und Charakter, Berlln, 1924.”

A representação do acontecimento e o estado afetivo desagradável que está ligado a ela tendem a se reproduzir indefinidamente na consciência. Assim sendo, esse modo reacional da repressão é completamente oposto ao do recalcamento que, na histeria, por exemplo, repele a <lembrança> penosa para o inconsciente.”

REAÇÃO BANAL > REPRESENTAÇÃO OBSEDANTE > HIPER-SENSIBILIDADE > NEUROSE OBSESSIVA

Do blasé ao perfeito poeta? Do you still read me?! Do you steal my stuff behind my back?

A representação consciente do trauma inicial transforma-se em representações parasitárias (Fremdkörperbildung), que lhe foram associadas, mas que não têm com ela mais nenhum elo significativo.” É ou não é meu caso, no caso? Espero que era, que essa era tenha passado… pro passado.

Pode-se constatar nos sensitivos [X obsessivos¹] uma curiosa mistura de tendências estênicas (intensidade dos sentimentos interiorizados) e astênicas (dificuldade de exteriorização, falha de condução, retenção e repressão) (…) superestimação dos fracassos² (…) É essa tensão que constitui o fator psicológico determinante nos delirantes sensitivos; estes são, em suma, completamente subjugados pelas tensões sociais e éticas, onde havíamos visto um componente essencial da personalidade.”

¹ Se essa permuta é válida não fica muito claro (em Kretschmer, de qualquer modo).

² A descrição do fenômeno não dá conta: não é possível ser um narcisista convencido e um fracassado ultimado ao mesmo tempo! Se só um passarinho pode escapar, um precisa ficar… Goleiro mão-de-gaoiola.

O melhor tratamento na juventude (~20 anos) seria: “Mãe, pelo menos o seu filho é um irresponsável!” Infelizmente comigo fizeram o inverso, retroalimentando o mal!

Fonte: vozes da minha cabeça?! Vozes antigas de desafetos reavivadas…

Por conseguinte, o sensitivo se distingue do expansivo¹ pela inferioridade considerável de sua força psíquica e pelo conflito interior resultante do fato de suas predileções éticasPoderia até fingir ser outra pessoa, mas isso vai contra meus valores mais arraigados. O tipo expansivo: Pa******, a antecessora no PG** da CA***, a vulgarmente conhecida como: grossa. O que para ela seria um sincericídio (sempre um suicídio moral com muitas testemunhas, espetaculoso) para mim é justamente preservação da minha integridade diante do espelho. O outro não me importa (mediatamente) – tant pis… Provavelmente a dita-cuja poderia alegar a mesma coisa (invertida). (P.S.: Soube a referida foi indiciada em comissão de ética por ser expansiva demais em e-mails institucionais… Cof cof… Pode até gostar de trabalho – o problema é quando gosta tanto que até dá trabalho pros outros…)

– Gostou de cima?

– Como assim? Eu nunca subi ali.

– De semancol, que eu mandei você tomar.

A PERSONALIDADE SENSITIVA DE KRETSCHMER EM POUCAS PALAVRAS: “uma extraordinária impressionabilidade, uma sensibilidade extremamente acessível e vulnerável, mas, por outro lado, certa dose consciente de ambição e de tenacidade. Os representantes acabados desse tipo são personalidades complicadas, muito inteligentes, dotados de um alto valor, homens de fina e profunda sensibilidade, de uma ética escrupulosa e cuja vida sentimental é de uma delicadeza excessiva e de um ardor todo interiorizado; são vítimas predestinadas de todas as durezas da vida. Encerram profundamente neles próprios a constância e a tensão de seus sentimentos. Possuem capacidade refinada de introspecção e de autocrítica. São muito suscetíveis e obstinados, mas, com isso, particularmente capazes de amor e de confiança. Têm por eles próprios uma justa auto-estima e, no entanto, são tímidos e muito inseguros quando se trata de se mostrar, voltados para si e no entanto abertos e filantropos, modestos mas de uma vontade ambiciosa, possuindo, de resto, altas virtudes sociais”

lutas internas tão inúteis quanto secretas”

O EM VÃO!

Depois da (auto)crítica vem o desespero, depois do desespero a nova crítica e resolução firme, e ad

A interação do caráter e da experiência representa, no delírio de relação sensitivo, a causa essencial da doença.”

A situação mais típica do sensitivo que adoece em seu meio social é a do <contexto social e espiritual, tão ambíguo, do professor primário, fértil em pretensões e que, no entanto, não recebe nenhuma consagração, colocado num plano superior e todavia mal-assegurado por uma formação espiritual [material?] incompleta.>

O ELO DURKHEIMIANO: “Quando esses 3 fatores psicológicos [de dentro para fora, nesta ordem: a personalidade inata; o <evento-catástrofe> ou uma série episódica de contradições temperamento-êxitos&fracassos, enfim, o TRAUMA; o meio social mais geral] acarretaram uma repressão mórbida, então o fator biológico do esgotamento concorre essencialmente para o desencadeamento da doença, assim como, inversamente, o estado de fadiga neurastênica pode facilitar, em primeiro plano, o aparecimento de repressão nos caracteres sensitivos.”

A experiência decisiva com a situação vital que a subtende é simplesmente tudo. Se a suprimíssemos, a doença ficaria reduzida a nada. Ela forma, por sua repetição na obsessão, o objeto sempre novo dos remorsos depressivos, dos temores hipocondríacos . . .”

O SÍTIO E O VAGABUNDO (pais e irmão)

Toda semana a mesma coisa… toda semana esse ciclo trágico… isso nunca vai acabar… isso de novo… outra vez…” “Reclamo, mas eles fingem que não me escutam ou logo se esquecem e tudo acontece como da primeira vez…” “Essas memórias continuam voltando e eu fico preso a elas por vários dias, até me recuperar e parar de sentir a dor nas costas…” “Minha vó que morreu… Ela se compadeceria por mim? Quem se compadece por mim? Isso é algum tipo de vingança dos meus ancestrais, uma maldição muito anterior a minha existência? É culpa minha?!? Por que eu não sei lidar melhor com essa MERDA?! Por que eu sou assim?! Que derrota…” “E se eu só for piorando cada vez mais e for um incapacitado minha vida inteira?” “Me jogo ou não me jogo? E se eu não morrer? Tenho coragem? Meu ‘amigo’ me falou que é só se jogar de cabeça, não tem erro, e eu não vou sentir nada, eu vou apagar antes de chegar ao chão… Por que não? Por que me sujeitar a ver e sentir todo esse ciclo se repetindo de novo e de novo e me sentir impotente sempre e sempre?… Qual o sentido nisso tudo? Eu gostaria de chamar a atenção pra minha existência da única forma que me é possível, depois de tudo que tentei… que é deixando de existir…”

O livro que me “salvou”: Vontade de Potência.

* * *

MELHOROU MAS NEM TANTO: “todas as idéias de prejuízo e de inquisição pela família e pelos colegas, pelo público e pelos jornais, todas as angústias de perseguição provocadas pela polícia e pela justiça, provêm desse acontecimento inicial e a ele retornam.”

a intensidade afetiva dos paroxismos, a ausência ordinária de reações agressivas, seu caráter apenas defensivo nos casos puros, a ênfase hipocondríaca do quadro, a amargura sentida em relação à própria inutilidade, o esforço no sentido do restabelecimento e a confiança do apelo ao médico.”

RESIGNA-TE!

Se deus (pai) morrer para mim, eu me torno uma espécie de Jason, conforme a literatura (o que me faz ser útil à sociedade e ter meu valor, ser um neurastênico, é que eu sofro continuamente sentindo o parasitismo causal dessa relação sem-saída). Um psicopata apagaria esse indesejável para-além do inconsciente e, astênico, dormente, insensível, maquínico, dissolvido, solto até mesmo do social, se realizaria, porém se perdendo, desvinculado de qualquer valor futuro… É esse altruísmo-no-egoísmo do herói que nos redime “no fim”…

Ver como eu cheguei a essa conclusão após ser um niilista conceitual virtualmente completo e agora que me entendo eticamente é uma verdadeira epopéia realizada, teatro grego in loco e na carne, mas já finalizado… Milagroso, enfim. Hic salta.

Muitos sóis sob o céu em seu ofuscante vermelho alaranjado róseo amarelado ainda quero assistir ou pressentir ou sentir, com a luz penetra assentir, menear, condescender às sombras do Hades apenas para depois me REDimir, em pele nova e calejada, ainda rosácea, mas mais de réptil, como se fosse possível continuar sofrendo e estar-agora-anestesiado tudo ao mesmo tempo e em evolução única, singular, astral, austral, hiperbórea, meridional, crítica, sub-tropical, na linha do Equador de toda a rotundidade desta vida neste planetinha neste seculozinho miserável e ingrato e que no entanto nos enche de graça e contentamento sabe-se lá pelo quê exatamente, mas sei que há algo… Tem de haver. Tende a haver. Não importa, há.

As psicoses leves não vêm às mãos do médico de asilo, mas do médico de consultório. Assistidas por ele em tempo oportuno, elas devem desaparecer completamente, deixar uma correção completa do delírio.

Algumas formas, como o delírio dos masturbadores [???], parece que, mesmo após manifestações graves, podem ser completamente curadas.”

O início da evolução é muito mais nítido do que deixa perceber a noção de insidiosidade sobre a qual insistem as descrições clássicas de Kraepelin e Gaupp.”

A evolução, assim, nada tem de esquemático: curas rápidas, reações agudas, evolução prolongada por muitos anos com cura relativa, evolução recidivante desencadeada em ocasiões absolutamente determinadas, ou oscilações durante anos na fronteira entre a eclosão delirante e sua base neurótica.”

a evolução típica não apresenta fenômenos de despersonalização.”

Eis por que Kretschmer não fica, de modo algum, embaraçado, em suas considerações doutrinais, por só ter descrito um tipo particular de psicose paranóica. Ele efetivamente nada mais quis demonstrar, diz-nos, senão que, <quanto mais sensitivo é um caráter, tanto mais especificamente ele reagirá, no caso, a um complexo de culpa mediante um delírio de relação de estrutura sutil>.”

Não existe a paranóia, mas apenas paranóicos.”

I.4. CONCEPÇÕES DA PSICOSE PARANÓICA COMO DETERMINADA POR UM PROCESSO ORGÂNICO

Um delírio, com efeito, não é um objeto da mesma natureza que uma lesão física, que um ponto doloroso ou um distúrbio motor. Ele traduz um distúrbio eletivo das condutas mais elevadas do doente: de suas atitudes mentais, de seus juízos, de seu comportamento social. Além do mais o delírio não exprime este distúrbio diretamente; ele o significa num simbolismo social. Este simbolismo não é unívoco e deve ser interpretado.”

o doente, para exprimir a convicção delirante, sintoma de seu distúrbio, pode se servir apenas da linguagem comum, que não é feita para a análise das nuanças mórbidas, mas somente para o uso das relações humanas normais.”

A concepção subjacente que ele tem de si mesmo transforma o valor do sintoma: uma convicção orgulhosa, se estiver fundada numa hiperestenia afetiva primitiva, não tem o mesmo valor que uma defesa contra a idéia fixa de um fracasso ou de uma falta”

a evolução para a atenuação, a adaptação, mesmo a cura da psicose, fatos, em suma, reconhecidos por todos os autores, virão corrigir a primeira noção da irredutibilidade do delírio.”

Existem, certamente, fatores orgânicos da psicose. Devemos precisá-los tanto quanto possível. Se nos dizem que se trata de fatores constitucionais, admitiremos de boa vontade, contanto que isto não seja pretexto para uma satisfação meramente verbal” “Este processo é menos grave ou menos aparente do que aqueles que devem ser reconhecidos na psicose maníaco-depressiva, na esquizofrenia ou nas psicoses de origem tóxica. Ele é da mesma natureza. Em todas essas psicoses, o laboratório revelou alterações humorais ou neurológicas, funcionais senão lesionais, que, por ficarem insuficientemente asseguradas, não permitem menos que se afirme a prevalência do determinismo orgânico do distúrbio mental. Ainda que tais dados faltem nas psicoses paranóicas, seu andamento clínico pode nos fazer admitir sua identidade de natureza com as psicoses orgânicas. Esta é a tese de vários autores que se opõem aos partidários da psicogênese.” “Quando se trata de precisar quais são estes distúrbios característicos, as respostas diferem de autor para autor. Contudo, o estado atual da psiquiatria pode explicar a incerteza destas respostas, e não permite afastar a hipótese que lhes é comum, a de um determinismo não-psicogênico.”

TAXONOMIA BÁSICA E RELAÇÕES DE ORIGEM (“ORGANOGÊNESE”) DESSA CORRENTE:

distúrbios do humor, mais ou menos larvares, da psicose maníaco-depressiva;

– dissociação mental, mais ou menos frustra, dos estados paranóides e da esquizofrenia;

– determinismo, mais ou menos revelável, do delírio por estados tóxicos ou infecciosos.”

Estas pesquisas gravitaram na França em torno da concepção do automatismo psicológico; elas resultaram na Alemanha na formação de um conceito analítico: o de processo, que foi especialmente criado pelas pesquisas sobre as psicoses paranóicas. Estes dois conceitos, o de automatismo e o de processo, definem-se por sua oposição às reações da personalidade. Acreditamos portanto que as pesquisas psicogênicas conservam todo seu valor.”

a) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS DA PSICOSE PARANÓICA COM OS DISTÚRBIOS DO HUMOR DA PSICOSE MANÍACO-DEPRESSIVA.

A relação das variações de humor, maníaco e melancólico, com as idéias delirantes é uma questão que nunca deixou de estar na ordem do dia das discussões psiquiátricas. Foi certamente um progresso capital da nosografia quando Lasègue isolou seu delírio das perseguições das lipemanias, com as quais Esquirol as confundia. Contudo, basta evocar o esforço de análise que teve que ser feito em seguida para discriminar os perseguidos melancólicos dos verdadeiros perseguidos para ver o quanto aparecem intrincadas variações depressivas do humor e idéias delirantes.”

A exaltação maníaca faz parte do quadro clássico dos perseguidos perseguidores. Os autores modernos: Köppen, Sérieux e Capgras, que se fundamentam numa nosografia precisa do delírio de reivindicação, reconhecem aí um dos traços essenciais da síndrome.”

Taguet insiste nas formas intermitentes do delírio, que aparecem nos estados de superexcitação periódica da inteligência, da sensibilidade e da vontade. Estes fatos, por volta de 1900, estavam na ordem do dia e eram objeto de discussões apaixonadas. Estas eram provocadas pela confiança por demais absoluta que certos autores davam ao progresso clínico representado pelo isolamento da noção de delírio sistematizado na França, da Verrücktheit ou da paranóia primária na Alemanha.” Para Kraepelin, este termo de paranóia periódica é uma contradictio in adjecto, e ele não hesita nessa época em tachar de <candura> aqueles que o usam.”

a alteração maníaca do humor, a logorréia [verbosidade], a grafomania [hábito ou compulsão da escrita, coerente ou não], a inquietude, a impulsão de agir, a ideorréia [fertilidade mental], a distração: características da mania.”

Por certo acreditamos que é preciso abster-se de confundir a variação ciclotímica com os estados afetivos secundários às idéias delirantes. Ou, melhor dizendo, acreditamos ser preciso distinguir, com Bleuler, o distúrbio global do humor, depressivo ou hiperestênico, ou variação afetiva holotímica – e os estados afetivos ligados a certos complexos representativos, que representam uma situação vital determinada, ou variação afetiva catatímica.”

b) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS [DE ORIGEM ORGÂNICA] DAS PSICOSES PARANÓICAS COM A DISSOCIAÇÃO MENTAL DAS PSICOSES PARANÓIDES E DA ESQUIZOFRENIA, CONFORME OS AUTORES.

Não há dúvida de que existem fatos freqüentes em que um surto fugaz de sintomas esquizofrênicos precedeu em alguns anos o surgimento de uma psicose paranóica que se estabelece e dura.” “Enfim, a saída de uma psicose paranóica típica, evoluindo para uma dissociação mental manifesta de tipo paranóide, não é nada incomum.”

Kahn, na Alemanha, apresenta fatos que demonstram <que muitos paranóicos legítimos atravessam em um período precoce um processo esquizofrênico e que eles conservam disso um ligeiro déficit a partir do qual a paranóia se instala>.”

Bleuler e os fatores psicogênicos da paranóia:

1. “uma afetividade com forte ação de circuito, que se distingue além disso pela estabilidade de suas reações”

2. “uma certa desproporção entre a afetividade e o entendimento.”

// “mecanismo paratímico larvar”

Bl. admite ainda a permutabilidade, em certas instâncias, entre processos esquizo e paranóicos.

Por outro lado, temos razões para admitir que na esquizofrenia existe sempre um processo anatômico, mas não nas paranóias.” B.

c) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS DA PSICOSE PARANÓICA COM AS PSICOSES DE INTOXICAÇÃO E DE AUTO-INTOXICAÇÃO. – PAPEL DO ONIRISMO E DOS ESTADOS ONIRÓIDES. – RELAÇÃO ENTRE OS ESTADOS PASSIONAIS E OS ESTADOS DE EMBRIAGUEZ PSÍQUICA. – PAPEL DOS DISTÚRBIOS FISIOLÓGICOS DA EMOÇÃO.

Encontramos incessantemente, na pena dos autores, o voto de que um estudo melhor das seqüelas delirantes, que persistem depois dos delírios agudos, dos estados confusionais, dos estados de embriaguez delirante e de diversos tipos de onirismo, venha nos dar novos esclarecimentos sobre o mecanismo dos delírios.

O estudo do alcoolismo nos trouxe fatos fortemente sugestivos de idéias fixas pós-oníricas, de delírios sistematizados pós-oníricos, de delírios sistematizados de sonho a sonho, de delírios com eclipses (Legrain).”

Desde então, a questão que se coloca é a de saber se os estados de auto-intoxicação, tais como podem ser realizados pelos distúrbios digestivos diversos, a estafa, etc., não podem desempenhar um papel essencial nas psicoses.”

O desequilíbrio parassimpático, particularmente, parece desempenhar um papel determinante no surgimento dos estados de embriaguez atípicos e dos estados sub-agudos alcoólicos.”

os estudos estatísticos de Drenkhahn (1909), onde se vê, após as medidas proibitivas tomadas contra o alcoolismo no exército alemão, a proporção dos distúrbios catalogados como neuróticos e psicóticos se elevar numa proporção estritamente compensatória da diminuição dos distúrbios ditos alcoólicos.”

James, para quem a crença comporta um elemento afetivo essencial, salientou o fato de que certos estados de embriaguez parecem determinar experimentalmente o sentimento da crença.”

Tentou-se atribuir, nas nossas psicoses, um papel todo particular à intoxicação pelo café, tão freqüentemente observada, com efeito, em certos sujeitos, mulheres próximas à menopausa, nas quais explode um delírio paranóico. Mesmo aí não se poderia falar de uma determinação exclusiva pelo tóxico.” Heuyer & Borel, Accidents subaigus du caféisme, 1922.

De resto, esses determinismos humorais, ainda que fossem mais claramente confirmados nos fatos, deixariam intacto o problema da estrutura psicológica complexa dos delírios paranóicos, que é o problema a que nos dedicamos.”

d) ANÁLISES FRANCESAS DO “AUTOMATISMO PSICOLÓGICO” NA GÊNESE DAS PSICOSES PARANÓICAS. – RECURSO À CENESTESIA POR HESNARD & GUIRAUD. – AUTOMATISMO MENTAL, DE MIGNARD & PETIT. – SIGNIFICAÇÃO DOS “SENTIMENTOS INTELECTUAIS” DE JANET. – A NOÇÃO DE ESTRUTURA EM PSICOPATOLOGIA, SEGUNDO MINKOWSKI.

O único vínculo teórico comum a essas pesquisas é a noção muito flexível de automatismo psicológico, que não tem nada em comum, senão a homonímia, com os fenômenos de automatismo neurológico. Graças à complexidade dos sentidos do termo automatismo, ele convém perfeitamente a uma série de fenômenos psicológicos que, como bem o mostrou nosso amigo H. Ey, são de ordem extremamente diversa.”

Quando a ordem da causalidade psicogênica, tal como a definimos mais acima, é modificada pela intrusão de um fenômeno de causalidade orgânica, diz-se que há um fenômeno de automatismo. Este é o único ponto de vista que resolve a ambigüidade fundamental do termo automático, permitindo compreender ao mesmo tempo seu sentido de fortuito e de neutro que se entende com relação à causalidade psicogênica, e seu sentido de determinado que se entende com relação à causalidade orgânica.”

CENESTESIA. Por este termo, compreende-se o conjunto das sensações proprioceptivas e enteroceptivas: tais como sensações viscerais, sensações musculares e articulares, mas somente enquanto elas permanecem vagas e indistintas e, propriamente falando, enquanto, como isto se passa em estado de saúde, ficam no estado de sensações puras, sem chegarem à percepção consciente.” “Ela forma a peça-mestra de uma doutrina geral da gênese dos distúrbios mentais, engenhosamente construída por Hesnard.”

Janet apresenta amplos conhecimentos sobre o mecanismo da ilusão da memória, fenômeno que depende, e no mais alto grau, das insuficiências de adaptação ao real; mas ele não ataca, para si mesmo, o fenômeno tão delicado da interpretação. Contudo sua análise impõe, quanto a esse tema, sugestões preciosas. E é muito mais concebível que a interpretação mórbida, bem diferente do mecanismo normal da indução errônea ou da lógica passional, possa depender de um distúrbio primitivo das atividades complexas, distúrbio que a personalidade imputa naturalmente a uma ação de natureza social.

Qualquer que seja a expressão intelectual que lhes imponham as necessidades da linguagem, para o doente como para o observador, é preciso conceber os sentimentos intelectuais como estados afetivos, quase inefáveis, de que o delírio representa apenas a explicação secundária, freqüentemente forjada pelo doente após uma perplexidade prolongada.”

Se o autor se recusa, com efeito, a concluir prematuramente por qualquer alteração de um sistema de neurônios especializado, cuja existência permanece cientificamente mítica, é, no entanto, a uma concepção biológica destes distúrbios que ele adere.” “A causalidade biológica desses fatos é bem acentuada pela influência de condições como as doenças, a fadiga, as emoções, as substâncias excitantes, a mudança de meio, o movimento, o esforço, a atenção, que agem não como fatores psicogênicos, mas como fatores orgânicos. § Esses sentimentos intelectuais, normalmente afetados pela regulação das ações (sentimento de esforço, de fadiga, de fracasso ou de triunfo), parecem também traduzir, com freqüência, de forma direta, uma modificação orgânica. Eles tenderão, contudo, nos dois casos, a surgir para o sujeito como condicionados pelos valores socialmente ligados ao sucesso dos atos pessoais (estima de si, auto-acusação) e uma conclusão delirante, correspondente a essas ilusões, aparecerá.” “um controle preciso desses dados poderia ser trazido pelo estudo psicológico atento dos fenômenos subjetivos da psicose maníaco­depressiva.”

A necessidade do familiar exige um trabalho de reclassificação, de reorganização. Essa reorganização se faz em torno de alguns fatos, tomados freqüentemente ao acaso, e que desempenharão o papel de cristais de poeira numa mistura em alta fusão. A cristalização será aliás pouco estável no princípio: somente mais tarde ela chegará a um sistema coerente, a expressões verbais fixas.” Meyerson & Quercy

UnB 2009: mictório FD antes da aula de TPM: o que sou eu, o que estou fazendo aqui, essa rotina apresenta algum sentido? doravante: petrificação da noção de que “ele” é o culpado por tudo. “Você é um lixo; fracassado… eu no seu lugar… VOCÊS… quem é ‘vocês’?”

[subsidiariamente (não em minha opinião, de qualquer forma),] depois, a tentativa, bem-sucedida ou não, de redução do distúrbio pelas funções conceituais, mais ou menos organizadas, da personalidade.” Vencer na vida, mesmo aos olhos cínicos, hipócritas e inconfessáveis do LIXO. Queimar qualquer centelha nesse intuito. Êxito.

Os autores são induzidos a tal concepção pelos fatos que trazem com o nome de interpretações frustradas, e que são interpretações em que faltam certos elementos da interpretação completamente desenvolvida.

Esse é o caso do doente no qual, após um período alucinatório, o delírio de perseguição se reduziu pouco a pouco a puras interpretações. Acontece um dia que uma vizinha, ocupada em podar uma cerca, solta estas palavras: <Tudo isso é selvagem.> O doente fica transtornado. No entanto, ele não pode afirmar que essas palavras o visavam. <Isso lhe pareceu engraçado.> Isso continua a lhe parecer engraçado. Ele está certo que a vizinha não pode lhe querer mal. A anamnese do doente, que merece ser lida nos pormenores, traduz ao mesmo tempo sua boa vontade (a ausência certa de reticência [não seria presença?]) e sua impotência para explicar aquilo que lhe aconteceu.

Esse doente está nesse momento perfeitamente orientado e conserva as reações intelectuais e mnêmicas na média normal.

Estamos aí na presença de uma atitude mental que se caracteriza por um estado afetivo quase puro, e em que a elaboração intelectual se reduz à percepção de uma significação pessoal impossível de precisar.

Tal redução do sintoma se apresenta como um fato de demonstração notável, mas, para que toda elaboração conceitual faltasse, parece ser necessário estarmos diante de um caso em que a reação de defesa psicológica seja má [ruim], e a observação nos indica com efeito que o caso se agrava ulteriormente e apresenta um quadro que se revela esquizofrênico.”

Quando todos os olhares são acusadores, pontiagudos, hostis, nos tornamos uma verdadeira lixa por todos os lados, e, assim como não sabemos o que fazer com essas pessoas, elas também não fazem idéia do que fazer conosco. Fica elas por elas. Cada um com seus problemas genealógicos e bons ou maus pais.

Segundo a definição de Husserl, que é seu iniciador, a fenomenologia é <a descrição do domínio neutro do vivido e das essências que aí se apresentam>. Nós não podemos dar aqui mesmo uma idéia do método de que se trata. Digamos somente que Minkowski, que parece não ignorar essas pesquisas, transforma profundamente, como costuma fazer, seu método e seu espírito.”

ENTÃO A FENOMENOLOGIA HUSSERLIANA É UMA “IDÉIA PLATÔNICA”, NO SENTIDO MAIS PEJORATIVO DO TERMO, NA PIOR COMPREENSÃO POSSÍVEL DA FILOSOFIA DE PLATÃO: “Para compreender um delírio de ciúme, por exemplo, é preciso evitar de imputar à doente, ciumenta de uma outra mulher, uma construção dedutiva ou indutiva mais ou menos racional, mas compreender que sua estrutura mental a força a se identificar com sua rival, quando ela a evoca, e a sentir que ela é substituída por esta. Em outros termos, as estereotipias mentais são consideradas nesta teoria como mecanismos de compensação, não de ordem afetiva, mas de ordem fenomenológica. Inúmeros casos clínicos foram assim interpretados por Minkowski.”

conteúdo e forma só poderão ser dissociados arbitrariamente na medida em que o papel do trauma vital nas psicoses for resolvido.” Referência ao élan vital de Minkowski.

e) ANÁLISES ALEMÃS DA ERLEBNIS PARANÓICA. – A NOÇÃO DE PROCESSO PSÍQUICO, DE JASPERS. – O DELÍRIO DE PERSEGUIÇÃO É SEMPRE ENGENDRADO POR UM PROCESSO, PARA WESTERTERP.

Inúmeros acontecimentos, que sobrevêm ao alcance dos doentes e chamam sua atenção, despertam neles sentimentos desagradáveis pouco compreensíveis. Esse fato os preocupa bastante e os aborrece. Algumas vezes tudo lhes parece tão forte, as conversas ressoam com veemência demasiada em seus ouvidos, algumas vezes mesmo qualquer barulho, um acontecimento ínfimo, é suficiente para irritá-los. Eles têm sempre a impressão de que são eles que são visados nisso. Acabam por ser completamente persuadidos disso. Observam que falam mal a seu respeito, que é precisamente a eles que prejudicam. Colocadas sob forma de juízo, essas experiências engendram o delírio de relação.” Jaspers

Ele nota o sobrevir episódico de fenômenos pseudo-alucinatórios. <Todos esses distúrbios não alcançam contudo um verdadeiro estado de psicose aguda. Os doentes orientados, ponderados, acessíveis freqüentemente até aptos ao trabalho, têm todo o lazer e o zelo necessário para elaborar, para explicar suas experiências, um sistema bem-organizado e idéias delirantes numerosas, explicativas, nas quais eles próprios não reconhecem freqüentemente mais que um caráter hipotético. Quando tais experiências se dissiparam após um tempo bastante longo [três anos, p.ex.?], não se encontra mais que os conteúdos delirantes de juízos petrificados; a experiência paranóica particular desapareceu.>”

reivindicante com tom depressivo”

Jaspers distingue ainda modificações intermediárias na reação¹ e no processo.² São aquelas que, embora sendo determinadas de modo puramente biológico e sem relação com os acontecimentos vividos pelo doente, são entretanto restauráveis e deixam intacta a personalidade: tais são os acessos, as fases, e os períodos, cujos exemplos podem ser encontrados em várias doenças mentais.”

¹ “Os episódios agudos não ocasionam nenhum transtorno duradouro. O statu quo ante se restabelece.”

² “Os episódios agudos têm por conseqüência um transtorno não-restaurável.”; “Enxerto parasitário único comparável ao progresso de um tumor.” Nascimento de uma segunda personalidade.

A organização psíquica é totalmente destruída nos processos orgânicos grosseiros: as lesões evolutivas do cérebro, na verdade, provocam distúrbios mentais que têm apenas a aparência de uma verdadeira psicose. A observação nos mostra, de fato, que a cada instante de sua evolução intervêm alterações psíquicas sempre novas, heterogêneas entre elas, sem liame estrutural comum.”

Quatro casos de delírio de ciúme, agrupados 2 a 2, ilustram de modo notável esta oposição da psicose que se apresenta como um desenvolvimento [reversível]¹ àquela que aparece como um processo.”

¹ Classificação jasperiana. Não se concorda com ele hoje: a psicose é um processo incurável. Mas, como veremos, o próprio Lacan tinha muita fé no seu oposto!

O delírio de ciúme (logo seguido de idéias de perseguição) manifesta-se num lapso de tempo relativamente curto, sem limites nítidos, mas que não ultrapassa cerca de um ano.”

idéia delirante de ser observado (<falam baixo e zombam do sujeito>) (…) sintomas somáticos interpretados (<vertigem? cefaléia? distúrbios intestinais?>).”

Ressalva: precisaríamos de um estudo sobre o advento de paranóias e manias persecutórias em tempos de derrocada da democracia…

não se encontra nenhuma adjunção de novas idéias delirantes, mas o sujeito guarda seu delírio antigo, não o esquece; ele considera seu conteúdo como a chave de seu destino e traduz sua convicção por atos. (…) O sujeito não é reticente.

Essas personalidades apresentam um complexo de sintomas que podemos aproximar da hipomania: consciência de si nunca enfraquecida, irritabilidade, tendência para a cólera e o pessimismo, disposições que, à menor ocasião, se transformam em seu contrário: atividade incessante, alegria de empreender.”

[No caso de predisposição caracterológica, sem desencadeamento de processo psíquico no delirante ciumento] persiste apenas a tendência a novas explosões durante ocasiões apropriadas. Aqui, não há idéias de perseguição, nem de envenenamento; por outro lado, forte tendência à dissimulação.”

O doente percebe que <alguma coisa nos acontecimentos tem a ver com ele sem que compreenda o que é>.” Westerterp

Westerterp evidencia aqui minuciosamente as armadilhas a que a tendência a querer tudo compreender leva o observador; ele descobre, com muita sutileza, nos casos em que foi exercida a penetração psicológica por demais hábil de pesquisadores anteriores, os defeitos da armadura dessas explicações psicogênicas demasiado satisfatórias. Os levantamentos sobre o caráter anterior também devem ser submetidos a uma crítica minuciosa.”

Sempre teremos de tratar depressões e neuroses a nossa própria maneira. Uma solução mágica infalível, digo, uma solução científico-empírica infalível de 50 anos atrás já pode ser sabotada pelo inconsciente do doente médio, posto que tal solução se tornou lugar-comum na literatura e a depressão ou neurose, como um vírus ou bactéria, já se aperfeiçoou a fim de promover sua disseminação. A teoria da couraça ou de imunidade protetiva a novos episódios depressores infelizmente é – mas apenas porque tornou-seincorreta.

4. após um curto lapso de tempo sem atribuírem qualquer causa aos sintomas que sentem tão nitidamente, os doentes encontram uma explicação que os satisfaz mais ou menos, na idéia delirante de serem perseguidos por uma certa categoria de homens por causa de uma ação precisa;

5. então, uma forte desconfiança vem cada vez mais em primeiro plano;

6. o delírio, nascido assim secundariamente, permanece alimentado pela continuação das manifestações do processo, mas tira também de si mesmo interpretações compreensíveis, como toda idéia prevalente;

7. não existe nenhuma alucinação.

II. O CASO “AIMÉE” OU A PARANÓIA DE AUTOPUNIÇÃO

Acreditamos que, em vez de ser obrigatório publicar o conjunto de nosso material de modo forçosamente resumido, é, ao contrário, pelo estudo, tão integral quanto possível, do caso que nos pareceu mais significativo que poderemos dar o máximo de alcance intrínseco e persuasivo a nossos pontos de vista.”

II.1 EXAME CLÍNICO DO CASO “AIMÉE”

Distúrbios mentais que evoluem há mais de um ano; as pessoas com as quais ela cruza na rua dirigem-lhe insultos grosseiros, acusam-na de vícios extraordinários, mesmo se essas pessoas não a conhecem; as pessoas de seu meio falam mal dela o mais que podem e toda a cidade de Melun está a par de sua conduta, considerada como depravada; ela também quis deixar a cidade, mesmo sem dinheiro, para ir a qualquer lugar.”

O delírio que apresentou a doente Aimée revela a gama quase completa dos temas paranóicos. Temas de perseguição e temas de grandeza nele se combinam estreitamente. Os primeiros se exprimem em idéias de ciúme, de dano, em interpretações delirantes típicas. Não há idéias hipocondríacas, nem idéias de envenenamento. Quanto aos temas de grandeza, eles se traduzem em sonhos de evasão para uma vida melhor, em intuições vagas de ter que realizar uma grande missão social, em idealismo reformista, enfim, numa erotomania sistematizada sobre uma personagem da realeza.”

Aimée colabora ardentemente na confecção do enxoval da criança esperada por todos. Em março de 192.. ela dá à luz uma criança do sexo feminino, natimorta. O diagnóstico é asfixia por circular de cordão. Segue-se uma grande confusão na doente. Ela atribui a desgraça a seus inimigos; de repente parece concentrar toda a responsabilidade disso numa mulher que durante 3 anos foi sua melhor amiga. Trabalhando numa cidade afastada, esta mulher telefonou pouco depois do parto para saber das novas. Isto pareceu estranho a Aimée; a cristalização hostil parece datar de então.”

Uma segunda gravidez acarreta a volta de um estado depressivo, de uma ansiedade, de interpretações análogas. Uma criança nasceu a termo em julho do ano seguinte (a doente está cem 30 anos).” “Durante a amamentação, ela se torna cada vez mais interpretante, hostil a todos, briguenta. Todos ameaçam seu filho. Ela provoca um incidente com motoristas que teriam passado perto demais do carrinho do bebê. Causa diversos escândalos com os vizinhos. Ela quer levar o caso à justiça.”

A seu favor, ela invoca o fato de querer ir aos Estados Unidos em busca do sucesso: será romancista. Ela confessa que teria abandonado seu filho.”

eu interrogo as minhas companheiras, algumas das quais são loucas e outras tão lúcidas quanto eu, e quando eu tiver [sic] saído daqui, eu me proponho a morrer de rir por causa do que me acontece, pois acabo me divertindo realmente por ser sempre uma eterna vítima, uma eterna desconhecida, Santa Virgem, que história a minha! o senhor a conhece, todo mundo a conhece mais ou menos, a tal ponto falam mal de mim”

guardava uma profunda inquietude: Quais eram os inimigos misteriosos que pareciam persegui-la? Ela não devia realizar um grandioso destino? Para procurar a resposta destas perguntas é que ela quis sair de sua casa, ir para a cidade grande.”

Um dia, diz ela, como eu trabalhava no escritório, enquanto procurava, como sempre, em mim mesma, de onde podiam vir essas ameaças contra meu filho, escutei meus colegas falarem da Sra. Z. Compreendi então que era ela quem nos queria mal.” “Uma vez, no escritório de E., eu tinha falado mal dela. Todos concordavam em considerá-la de boa família, distinta . . . Eu protestei dizendo que era uma puta. É por isso que ela devia me querer mal.”

A mais exaustiva pesquisa social não pôde nos revelar que ela tivesse falado a alguém a respeito da Sra. Z. Apenas uma de suas colegas nos relata vagas menções contra o <pessoal de teatro>.”

Um dia (ela precisa o ano e o mês), a doente lê no jornal Le Journal que seu filho ia ser morto <porque sua mãe era caluniadora>, era <vil> e que se <vingariam dela>. Isto estava claramente escrito. Havia, além disso, uma fotografia que reproduzia a empena de sua casa natal na Dordonha, onde seu filho passava férias naquele momento, e ele, de fato, aparecia num canto da foto. Uma outra vez, a doente fica sabendo que a atriz vem representar num teatro bem próximo de sua casa; ela fica transtornada. para zombar de mim.>”

Como certos personagens dos mitos primitivos se revelam como substitutos de um tipo heróico, assim aparecem atrás da atriz outras perseguidoras, cujo protótipo último, como veremos, não é ela mesma. São Sarah Bernhardt, estigmatizada nos escritos de Aimée, a Sra. C., essa romancista contra a qual quis abrir processo num jornal comunista. Vemos, a partir daí, o valor, mais representativo que pessoal, da perseguidora que a doente reconheceu. Ela é o tipo da mulher célebre, adulada pelo público, bem-sucedida, vivendo no luxo. E se a doente faz em seus escritos o processo vigoroso de tais vidas, dos artifícios e da corrupção que ela lhes imputa, é preciso sublinhar a ambivalência de sua atitude; pois ela também, como veremos, desejaria ser uma romancista, levar uma grande vida, ter uma influência sobre o mundo.”

<Pensei que a Sra. Z. não podia estar só para me fazer tanto mal impunemente, era preciso que ela fosse apoiada por alguém importante.> Leitora assídua de novos romances e seguindo avidamente o sucesso dos autores, a doente achava, com efeito, imenso o poder da celebridade literária.”

Todas essas personagens, artistas, poetas, jornalistas, são odiados coletivamente como grandes provocadores dos infortúnios da sociedade. <Trata-se de uma ralé, uma raça>; <eles não hesitam em provocar por suas bazófias o assassinato, a guerra, a corrupção dos costumes, para conseguir um pouco de glória e prazer.>”

À medida que nos aproximamos da data fatal, um tema se precisa, o de uma erotomania que tem por objeto o príncipe de Gales.” “Ela disse ao médico perito que, um pouco antes do atentado, havia em Paris grandes cartazes que informavam ao Sr. P.B. que, se ele continuasse, seria punido. Ela tem portanto protetores poderosos, mas parece que os conhece mal. Com respeito ao príncipe de Gales, a relação delirante é bem mais precisa. Temos um caderno seu onde ela anota cada dia, com data e hora, uma pequena efusão poética e apaixonada que dirige a ele.”

O quarto de hotel em que morava estava recoberto de retratos do príncipe; ela juntava igualmente os recortes de jornal relativos a seus movimentos e sua vida. Não parece que ela tenha tentado aproximar-se dele na ocasião de uma estada do príncipe em Paris, a não ser por um impulso metafórico (poemas). Por outro lado, parece que ela lhe remeteu pelo correio, por várias vezes, seus poemas (um soneto por semana), memoriais, cartas, uma das quais quando da viagem do príncipe à América do Sul, instando que desconfiasse dos embustes do Sr. de W. (já anteriormente mencionado), diretor da Imprensa Latina, que <dá a palavra de ordem aos revolucionários, pelos jornais, com as palavras em itálico>. Mas, detalhe significativo, até o fim ela não assina suas cartas.

Encontramo-nos, observemos, diante do próprio tipo da erotomania, segundo a descrição dos clássicos, retomada por Dide. O traço maior do platonismo ali se mostra com toda a nitidez desejável.

Assim constituído, e apesar dos surtos ansiosos agudos, o delírio, fato a destacar, não se traduziu em nenhuma reação delituosa durante mais de 5 anos. Certamente, nos últimos anos, certos sinais de alerta se produzem. A doente sente a necessidade de <fazer alguma coisa>. Porém, ponto notável, esta necessidade se traduz primeiro pelo sentimento de uma falta para com deveres desconhecidos que ela relaciona com os preceitos de sua missão delirante. Sem dúvida, se ela conseguir publicar seus romances, seus inimigos recuarão assustados.

Assinalamos suas queixas junto às autoridades, seus esforços para fazer com que um jornal comunista aceitasse ataques contra uma de suas inimigas, suas importunações junto ao diretor desse jornal. Estas lhe custam mesmo a visita de um inspetor de polícia, que usou de uma intimidação bastante rude.”

Eu fui ao editor perguntar se podia vê-lo, ele me disse que ele vinha todas as manhãs apanhar sua correspondência, e eu o esperei na porta, apresentei-me e ele me propôs dar uma volta de carro pelo bosque, o que aceitei; durante este passeio, eu o acusei de falar mal de mim, ele não me respondeu. Por fim, tratou-me de mulher misteriosa, depois de impertinente, e eu não tornei a vê-lo mais.”

Nos últimos 8 meses antes do atentado, a ansiedade está crescendo. Ela sente então cada vez mais a necessidade de uma ação direta. Ela pede a seu senhorio que lhe empreste um revólver e, diante de sua recusa, pelo menos uma bengala <para amedrontar essas pessoas>, quer dizer, aos editores que zombaram dela.

Ela depositava suas últimas esperanças nos romances enviados à livraria G. Daí sua imensa decepção, sua reação violenta quando eles lhe são devolvidos com uma recusa. É lamentável que não a tenham internado então.

Ela se volta ainda para um derradeiro recurso, o príncipe de Gales. Somente nesses últimos meses é que ela lhe envia cartas assinadas. Ao mesmo tempo, envia-lhe seus 2 romances, estenografados, e cobertos com uma encadernação de couro de um luxo comovente. Eles lhe foram devolvidos, acompanhados da seguinte fórmula protocolar:

Buckingham Palace

The Private Secretary is returning the typed manuscripts which Madame A. has been good enough to send, as it is contrary to Their Majesties’ rule to accept presents from those with whom they are not personally acquainted.

April, 193…

Este documento data da véspera do atentado. A doente estava presa, quando ele chegou.”

Desde então, a doente está cada vez mais desvairada. Um mês antes do atentado, ela vai <à fábrica de armas de Saint-Étienne, praça Coquillère> e escolhe um <facão de caça que tinha visto na vitrina, com uma bainha>.”

Que pensará ela de mim se eu não me mostro para defender meu filho? que eu sou uma mãe covarde.”

Uma hora ainda antes deste infeliz acontecimento, eu não sabia ainda onde iria, e se não iria visitar, como de hábito, o meu garotinho.”

Nenhum alívio se segue ao ato. Ela fica agressiva, estênica, exprime seu ódio contra sua vítima. Sustenta integralmente suas asserções delirantes diante do delegado, do diretor da prisão, do médico-perito”

Sr. Doutor – escreve ela ainda num bilhete de tom extremamente correto, no 15º dia de sua reclusão –, gostaria de pedir-lhe para que fizesse retificar o juízo dos jornalistas a meu respeito: chamaram-me de neurastênica, o que pode vir a prejudicar minha futura carreira de mulher de letras e de ciências.”

Oito dias após meu ingresso – escreveu-nos em seguida, na prisão de Saint-Lazare –, escrevi ao gerente de meu hotel para comunicar-lhe que estava muito infeliz porque ninguém quis me escutar nem acreditar no que eu dizia. Escrevi também ao Príncipe de Gales para dizer-lhe que as atrizes e escritores me causavam graves danos.”

Vinte dias depois, escreve a doente, quando todos já estavam deitados, por volta das 7 da noite, comecei a soluçar e a dizer que esta atriz não tinha nada contra mim, que não deveria tê-la assustado; as que estavam ao meu lado ficaram de tal modo surpresas que não queriam acreditar no que eu dizia, e me fizeram repetir: mas ainda ontem você falava mal dela! – e elas ficaram estupefatas com isso. Foram contar à Madre Superiora que, a todo custo, queria me enviar à enfermaria.”

A estatura da doente está acima da média. Esqueleto amplo e bem-constituído. Ossatura torácica bem desenvolvida, acima da média observada nas mulheres de sua classe. Nem gorda nem magra. Crânio regular. As proporções crânio-faciais são harmoniosas e puras. Tipo étnico bastante bonito. Ligeira dissimetria facial, que fica dentro dos limites habitualmente observados. Nenhum sinal de degenerescência. Nem sinais somáticos de insuficiência endócrina.”

Durante vários meses conserva um estado subfebril leve, criptogenético, de 3 ou 4 décimos acima da média matinal e vespertina. Contraiu, pouco antes de seu casamento, uma congestão pulmonar (de origem gripal – 1917) e suspeitou-se de bacilose. Exames radioscópicos e bacteriológicos repetidos deram um resultado negativo. A radiografia nos mostrou uma opacidade hilar à esquerda. Outros exames negativos.”

Dois partos cujas datas anotamos. Uma criança natimorta asfixiada por circular do cordão. Não se constatou anomalia fetal nem placentária. Diversas cáries dentárias por ocasião dos estados de gravidez. A doente tem uma dentadura postiça no maxilar superior.”

Assinalemos, quanto aos antecedentes somáticos, que a vida levada pela doente desde a sua estada em Paris, trabalhando no escritório das 7 às 13h, depois preparando-se para o baccalauréat (vestibular e colação de grau do ensino médio), percorrendo bibliotecas e lendo desmedidamente, caracteriza-se por um surmenage intelectual e físico evidente. Ela se alimentava de maneira muito precária, escassa e insuficiente, para não perder tempo, e em horas irregulares. Durante anos, mas só depois de sua permanência em Paris, bebeu cotidianamente 5 ou 6 xícaras de café preparado por ela mesma e muito forte.”

A família insiste muito quanto à emoção violenta sofrida pela mãe [outra <perseguida> ou <querelante>] durante a gestação de nossa doente: a morte da filha mais velha se deveu, com efeito, a um acidente trágico: ela caiu, na frente de sua mãe, na boca de um forno aceso e rapidamente morreu em decorrência de queimaduras graves.” (Lembra o caso Suzanne Urban.)

Consideram-na em seu serviço como muito trabalhadora, <pau para toda obra>, e atribuem a isso seus distúrbios de humor e de caráter.¹ Dão-lhe uma ocupação que a isola em parte. Uma sondagem junto a seus chefes não revela nenhuma falha profissional até seus últimos dias em liberdade. Muito pelo contrário, na manhã seguinte ao atentado, chega ao escritório sua nomeação para um cargo acima do que ocupava.”

¹ O velho preconceito – se é assim, deviam nos aposentar ou reduzir nossa carga horária sem prejuízo!

o ritmo do relato, fato notável numa doente como esta, não é retardado por nenhuma circunlocução, parêntese, retomada, nem raciocínio formal.”

Diminui o tempo que poderia dedicar a seus trabalhos literários favoritos para executar inúmeros trabalhos de costura com que presenteia o pessoal do serviço. Estes trabalhos são de feitura delicada, de execução cuidadosa, porém de gosto pouco sensato.” HAHAHA!

As anomalias do comportamento são raras; risos solitários aparentemente imotivados, bruscas excursões pelos corredores: estes fenômenos não são freqüentes e só foram observados pelas enfermeiras. Nenhuma variação ciclotímica perceptível.

A doente mantém uma grande reserva habitual de atitude. Por trás desta, tem-se a impressão de que suas incertezas internas não foram de modo algum apaziguadas. Vagos retornos erotomaníacos podem ser pressentidos sob suas efusões literárias, embora se limitem a isso.”

uma vida de Joana d’Arc, as cartas de Ofélia a Hamlet; Quantas coisas eu não escreveria agora se estivesse livre e tivesse livros!”

Agora que os acontecimentos me devolveram à minha modéstia, meus planos mudaram e eles já não podem perturbar em nada a segurança pública. Não me atormentarei mais por causas fictícias, cultivarei não só a calma como a expansão da alma. Cuidarei para que meu filho e minha irmã não se queixem mais de mim por causa do meu excessivo desinteresse.”

Já evocamos ou citamos alguns escritos da doente. Vamos estudar agora as produções propriamente literárias que ela destinava à publicação. Seu interesse de singularidade já justificaria o lugar que lhes atribuímos, se além disso não tivessem um grande valor clínico, e isto sob um duplo ponto de vista. Estes escritos nos informam sobre o estado mental da doente na época de sua composição; mas, sobretudo, permitem que possamos apreender ao vivo certos traços de sua personalidade, de seu caráter, dos complexos afetivos e das imagens mentais que a habitam, e estas observações proporcionarão uma matéria preciosa ao nosso estudo das relações do delírio da doente com sua personalidade.”

De fato, tivemos a felicidade de poder dispor destes dois romances que a doente, após a recusa de vários editores, enviou como último recurso à Côrte Real da Inglaterra (cf. acima). Ambos foram escritos pela doente nos 8 meses que antecederam o atentado, e sabemos em qual relação com o sentimento de sua missão e com o da ameaça iminente contra seu filho.

O primeiro data de agosto-setembro de 193.. e foi escrito, segundo a doente, de um só fôlego. Todo o trabalho não teria ultrapassado mais de 8 dias, se não houvesse sofrido uma interrupção de 3 semanas, cuja causa examinaremos mais adiante; o segundo foi composto em dezembro do mesmo ano, em um mês aproximadamente, <numa atmosfera febril>.

Lembremos desde já que os dois romances nos chegaram em forma de exemplares estenografados,¹ onde não aparece nenhuma particularidade tipográfica. Este traço se confirma nos rascunhos e manuscritos que temos em nosso poder, e se opõe à apresentação habitual dos escritos dos paranóicos interpretantes: maiúsculas iniciais nos substantivos comuns [o alemão é um povo doido mesmo!], sub-linhas [= SUBTRAÇO], palavras destacadas, vários tipos de tinta, todos traços simbólicos das estereotipias mentais.”

¹ Estenografia ou taquigrafia: a técnica aprendida por David Copperfield em seu estágio entre os Commons, parte do ofício de um advogado e também de um escrivão que deve escrever rápido e com precisão os acontecimentos de uma reunião ou depoimentos, sem deixar de incluir todas as informações necessárias. “Os sistemas típicos da taquigrafia fornecem símbolos ou abreviaturas para as palavras e as frases comuns, o que permite que alguém, bem treinado no sistema, escreva tão rapidamente que possa acompanhar as falas de um discurso.” “Marco Túlio Tirão (? – c. 4 a.C.), escravo e secretário de Cícero, é considerado o inventor da taquigrafia que elaborou o sistema Notae tironianae (abreviaturas tironianas).” “[A] Inglaterra é considerada a pátria da taquigrafia moderna. O médico e sacerdote inglês Timothy Bright (cerca de 1551—1615) publicou em 1558 [aos 7 anos de idade? HAHAHA] (sic – 1588) o sistema de taquigrafia Characterie, propiciando o renascimento da taquigrafia.” Método absurdamente ininteligível! “No Brasil o método mais usado no Legislativo e Judiciário brasileiro é o sistema inventado pelo gravador e taquigráfico espanhol Francisco de Paula Martí Mora (1761–1827), porém o método de taquigrafia mais comum é o de Oscar Leite Alves (1902–1974).”

Solicitamos a ajuda de nosso amigo Guillaume de Tarde que, iniciado desde há muito tempo por seu pai, o eminente sociólogo, na anállse grafológica, se diverte com isso nas horas vagas.”

As duas obras têm valor desigual. A segunda traduz, sem dúvida, uma baixa de nível, tanto no encadeamento das imagens quanto na qualidade do pensamento. Entretanto, o traço comum é que ambas apresentam uma grande unidade de tom e que um ritmo interior constante lhes garante uma composição. Nada, com efeito, de preestabelecido em seu plano: a doente ignora aonde será levada quando começa a escrever. Nisto ela segue, sem o saber, o conselho dos mestres (<Nada de plano. Escrever antes de pôr a nu o modelo . . . A página em branco deve sempre ser misteriosa>, P. Louys).”

Consultar nosso artigo, escrito em colaboração com Lévy-Valensi e Migault, Écrits ‘inspirés’. Schizographie. A.M.P. (Annales Médico-Psychologiques), n. 5, 1931.” (breve no Seclusão)

Quanto às circunlocuções da frase: parênteses, incidentes, subordinações intricadas, quanto a essas retomadas, repetições, rodeios da forma sintática, que exprimem nos escritos da maior parte dos paranóicos as estereotipias mentais de ordem mais elevada, é bastante notável constatar sua ausência total não só no primeiro escrito, como também no segundo.” Irônicas observações, vindas logo do rocambolesco Lacan – ou será que não?!? Talvez não houvesse melhor emissor deste ‘elogio velado da loucura’!

Revela-se uma sensibilidade que qualificaremos de essencialmente <bovariana>, referindo-nos diretamente com esta palavra ao tipo da heroína de Flaubert.” “Mas esses desvarios da alma romântica, embora freqüentemente apenas verbais, não são estéreis”

Inúmeras vezes veremos surgir sob sua pena termos de agricultura, de caça e de falcoaria. Esses toques de <regionalismo> são aliás bastante inábeis, mas são o signo de sua ingenuidade; e esse traço pode tocar exatamente aqueles que têm pouquíssimo gosto pelos artifícios de tal literatura. De resto, sente-se nela a presença de uma real cultura telúrica. A doente conhece muito bem seu patoá,¹ a ponto de ler a língua de Mistral.² Se fosse menos autodidata, poderia tirar melhor partido disso.”

¹ Dialeto campesino.

² “Frederic Mistral, also Josèp Estève Frederic Mistral (1830–1914), was an Occitan writer and lexicographer of the Occitan language.a Mistral received the 1904 Nobel Prize in Literature <in recognition of the fresh originality and true inspiration of his poetic production, which faithfully reflects the natural scenery and native spirit of his people, and, in addition, his significant work as a Provençal philologist>.”

a Dialeto românico também chamado lenga d’òc ou langue d’oc (d’où região do Languedoc), falado, entre outras regiões, no sul da França, na Gasconha, em Mônaco, no Piemonte da Itália e em algumas partes da Espanha. Considerado irmão do catalão ou mesmo abrangendo-o de todo, pelo menos nas etiologias mais disseminadas até o final do século XIX. Antigamente já foi sinônimo do Provençal, mas hoje são entidades lingüísticas distintas. Quase uma língua morta, cujos esforços de gramaticalização e conversão para a modalidade escrita esbarram em intensas diferenças de sítio a sítio, tornando uma padronização virtualmente impossível.

Cosmopolitas não falam em patoá.

PREPAREM-SE PARA O SHOW DE HORRORES E CLICHESINSÍPIDOS VERDESCAMPOS! “O título do romance [n. 1] é O Detrator; está dedicado a Sua Alteza Imperial e Real, o Príncipe de Gales.”

Em abril, os animais têm seus segredos, entre os arbustos a erva se agita ao vento, ela é fina, focinhos leitosos a descobrem. Que sorte! O leite será bom esta noite, eu beberei um bocado, diz o cão com a língua de fora. O dia inteiro as crianças brincaram umas com as outras e com os fiçhotes dos aromais, eles se acariciam, eles se amam.”

Quantas fontes você conhece, fontes que você pode esvaziar de um gole, diz o menor ao mais velho que é profeta? Eu! Quantas você quiser! Mas eu não vou mostrá-las a você, você se descalçaria para se banhar. Ah! não profanar minhas fontes. Eu posso levar você à beira do riacho se você prometer sempre responder quando eu chamar. Sempre te responderei, diz o menor, não apenas uma vez, sempre. Seus olhos são fontes vivas; eles são maiores que as tulipas.”

É isto que a fez sorrir? Ela sorri. Ela senta atrás da janela sem lâmpada. Sonha com o noivo desconhecido. Ah! se houvesse um que a amasse, que a esperasse, que desse seus olhos e seus passos para ela!”

Pensamentos ferozes, pensamentos fortes, pensamentos ciumentos, pensamentos suaves, pensamentos alegres todos vão para ele ou vêm dele. Não são mais do que os dois no claro obscuro, seu coração queima como brasa, os planetas em fogo batem asas, a lua joga suas flores purpurinas no quarto. Ela pensa em tudo que a deslumbra, na rocha adamantina da gruta, na coroa imarcescível do pinheiro, ela escuta seu murmúrio, é o prelúdio.”

David descobre seu caminho. Ele veste seguro sua farda de soldado. Esse órfão que vive com os homens manteve toda a sua rudeza. Depois de se encher de água turva, sua mãe tombou no campo num verão quente quando os peixes morrem no leito estreito da torrente. Seus cabelos estão jogados para trás como a cabeleira de uma espiga de centeio, ele é como um magnífico vespão cor de aurora e de crepúsculo. Esse camponês sabe se virar. Ninguém o iguala em arrumar, num piscar de olhos, um campo de pernas para o ar, ele reconhece o foiceiro pela foiçada, poda as árvores, doma os touros, faz trelas finas, acha a toca da lebre, as picadas de javali, sacode as sacas de sementes, sabe a idade dos pastos, evita as farpas, o precipício, os atoleiros, e sempre protege as safenas de suas pernas nuas. Ele sabe também usar a pena, evitar as lesões gramaticais, ele manda seus pensamentos para Aimée.”

As lianas que a cobrem são furadas por lagartas aneladamente dispostas ou apinhadas em grupo, ladrilhos de mosaico. Sob este emaranhado há a nota viva do coral das lesmas e dos chapeuzinhos de musgo recobrindo as sarças, os sapinhos tropeçam nas folhas aos menores toques de gafanhotos ou caem na relva seca que grita como um gonzo.”

De manhã, ao alvorecer, abro os postigos, as árvores que vejo estão aureoladas de alabastro, a penumbra as envolve, estou emocionada, esta aurora é doce como um amor.”

Ela sonha. Um marido! Ele, um carvalho, e eu, um salgueiro furta-cor, que o entualasmo do vento une e faz murmurar. Na floresta, seus ramos se cruzam, entrelaçam-se, perseguem-se nos dias de vento, as folhas amam e vibram, a chuva lhe envia os mesmos beijos. Oh! Como sou ctumenta, meu marido é um carvalho e eu uma cerejeira branca! Eu sou multo ciumenta, ele é um carvalho e eu um salgueiro furta-cor! No bosque instável, a chuva lhes envia os mesmos beijos. Curvo-me para pegar um gládio, eu o encontrei em meu caminho; é prectso conquistar o direito de amar! No entanto a alegria está na casa, o pai, a mãe são fellzes. Estes dois adultos ágeis, cujos corpos foram maltratados pela terra tenaz, com muitos ‘Y’ nas faces e rugas na testa, amam seus filhos tanto quanto a terra e a terra tanto quanto seus fllhos.”

Calcula-se que será preciso perder quatro dias para se casar, o que é multo em plena estação! um para comprar os panos, outro para comprar ouro, outro na costureira e o quarto para passar o contrato.”

À beira da torrente, deixo a madeira morta seguir o seu curso e sou toda risos quando deslizam minhas canoazinhas onde está sentada toda uma comitiva de besouros ou de escaravelhos que vão estupidamente para a morte.”

Ah! não há nada melhor que tocar violino na neve durante o inverno.”

As meninas gulosas sempre às escondidas por gulodices, eu lhes ensino a guardar na boca uma maçã ou uma noz, mesmo se a glote se levanta, em seguida eu descasco uma coxa de noz bem branca, elas a comem sem nunca pensar em minhas astúcias inocentes.”

eu como leão tenho um apetite imenso

descasco o rizoma do feto”

Eu os preveni quando o incêndio estourou no bosque. Era preciso ouvir o crepitar! As bagas de genebra estalavam seco e as fagulhas me seguiam, o assombro me havia dado asas e o pilriteiro esporões, eu parecia o pássaro aviador, em volta de minhas hélices o ar ressonava, mais rápido que as nuvens eu vencia o vento”

Na passagem, podemos notar claramente uma alusão ao príncipe de Gales, identificado com o rouxinol (Nightingale).”

A corcarne da concupiscência.

Querem diamantes para suas coroas? Estão no alto dos ramos, a seu alcance, sob seus passos. Atenção quando caminham! Se os encontrarem, não digam nada. As puritanas os quereriam para seus rosários, a cortesã em seu quarto cheio de espelhos até o teto se cobria com eles, a milionária em seu camarote no espetáculo o faria seu único enfeite, pois ela não está em absoluto vestida, seu vestido colante é da cor de sua carne, não vemos onde ele começa”

O colírio de pele de serpente tinge seus olhos viciosos. Os seus sapatos não são para andar, os chapéus de bambu, de crina, de seda, de tule, ela os veste de maneira espalhafatosa. Seus vestidos são bordados com canutilhos [fios de ouro ou prata]: é todo um museu, uma coleção de modelos inéditos ou excêntricos, neles o grotesco domina, mas há de se cobrir esse corpo sem encanto, há que se fazer olhado. Todo este aspecto artificial surpreende, ela expulsou o natural, os aldeões não olham mais as outras mulheres. Ela sabe como manejar os homens! Passa os dias na sua banheira, depois a cobrir-se de enfeites; mostra-se, intriga, maquina.”

Desde então, <cochichos, risadinhas, apartes, complôs> compõem a pintura expressiva da arnbiência do delírio de interpretação.”

No caminho, um casal vai com um grande ruído de sapatos ferrados, tão grandes quanto os seus vazios ressoam. O marido é orgulhoso e forte, ele tem um filho, ele o olha, a mulher leva a criança que se agarra a seu pescoço e a suas tetas caídas, a criança sorri, a mãe tem um semblante de animal feliz, eles se amam. Aimée inveja o par.”

Oh criança, oh meninas que morrem, flores brancas que uma surda foice abate, fonte vicejante exaurida, apartada pelo negro e sublime mistério do globo, paloma caída do ninho e que faz seu sudário no chão assassino, frágil peito de pássaro que expira no bico ensangüentado do gavião, negra visão, que

amem vocês!

Abracem este corpo de criança!

Antes que o coloquem no ataúde,

Chorem, chamem mais e mais

Terão para se consolar,

Um metro cúbico no cemitério

Onde seu corpo virá rezar

Descobrirão então

Que a terra pode ser muito querida

Quando ela os liga à criança.

Ajoelhem-se abençoando-a

Com seus olhos abrindo-a logo

Para encontrar um camafeu branco!

O autodidatismo transparece a cada momento: truísmos, declamações banais, leituras mal-compreendidas, confusão nas idéias e nos termos, erros históricos.”

O estilo permite notar traços de <automatismo>, no sentido muito amplo de um eretismo intelectual sobre um fundo deficitário.”

Encontramos a mesma busca preciosa na escolha das palavras, mas desta vez com um resultado bem menos feliz. Palavras extraídas de um dicionário explorado ao acaso seduziram a doente, verdadeira <namorada das palavras>, segundo seus próprios termos, por seu valor sonoro e sugestivo, sem que nem sempre acrescentasse a isto discernimento e atenção ao seu valor lingüístico adequado ou a seu alcance significativo.”

Em toda a parte onde vou me observam, olham-me com um ar de suspeita de modo que à minha porta a multidão não tarda em me apedrejar. O flibusteiro a incita. Quero sair, fazem uma investida que me obriga a recuar, e eu pago um direito de ancoragem. Suporto algumas avanias. É pau para toda obra, diz uma mulher. Olham-na, ela fala de Jaime I, diz uma outra. Durmo muito mal, eu caço as feras no matagal com sua Alteza. Lêem isso nos meus olhos.”

Surrealismo involuntário.

O coração me leva, o sangue me chama

Eu beijo o solo, todo banhado de seu sangue

A multidão impedida, conferencia e fugindo

Me lança uma espada de brilho rebelde

Partimos sozinhos, e a multidão suspeita

Do escaninho das janelas nos espreita ao passar.”

É um incorruptível, diz o historiador; não bebe, não tem mulheres, matou milhares como um covarde, o sangue corre da praça do Trono até a Bastilha. Foi preciso Bonaparte apontando seus canhões sobre Paris para deter a carnificina.”

Os poetas são o inverso dos Reis, estes amam o povo, os outros amam a glória e são inimigos da felicidade do gênero humano.”

A retórica de Aristóteles não repousa em base alguma, é sempre o tema da licença, dos subterfúgios com a virtude por fachada, é uma traição contra seu rei. Eis ainda Cícero, cúmplice do assassinato de César, e Shakespeare colocando o assassino na altura de grande homem. No século XVIII, os filósofos pérfidos atacam os soberanos e os nobres que os protegem e os hospedam. Outras vezes, tiram dos grandes os sentimentos que eles não têm e com os quais se enfeitam. E o povo não reage. É por isso mesmo que as nações se deixam riscar da história do mundo, e se houvesse apenas Paris na França, logo o seríamos. Se há uma ilha que esteja habitada só por animais monstruosos e horríveis, é ela, é a própria cidade com suas prostitutas às centenas de milhares, seus rufiões, suas pocilgas, auas casas de prazeres a cada cinqüenta metros enquanto que a miséria se acumula no único cômodo do pardieiro.”

Eles me matam em efígie e os bandidos matam; cortam em pedaços e os bandidos cortam em pedaços, fazem segredos e os povos fazem segredos, preparam sedições, excitam em vez de apaziguar, pilham, destroem e vocês destroem: vocês são vândalos. (…) Não há escândalo que não tenha sido sugestionado pela conduta ou manobras desenvoltas de alguns amantes das letras ou de Jornalismo.”

Os que lêem livros não são tão bestas quanto os que os fazem, eles lhes acrescentam.”

Cem vezes no ofício

Retomem seu trabalho

Pulam-no sem parar e tornem a poli-lo

Acrescentem algumas vezes e com freqüência suprimam.”

Quem vende estes sapatos, estas novidades! Tusso, espirro! Os americanos? Eu não confio em meus sapatos amarelos; eu faço a queixa, examino meu sapato. Qual o seu número?, pergunta-me um estrangeiro, e o seu?, digo-lhe. Fazemo-nos compreender a custo de mímicas.”

Embora haja matizes, as mulheres de província são mais potáveis que as das cidades”

Sem dúvida alguma lhe aconteceu ficar boa de uma enxaqueca porque uma amiga lhe conta uma história engraçada, e se você medir a extensão das emoções à grandeza do sentimento, você está em presença do milagre, é a relatividade das influências”

vou pra ilha, minha filha

uma ilhota, filhota

bem longe, um lounge

dessa bolota!

uma cabra que sai do teatro francês com uma rosa úmida e viscosa completamente desabrochada para fora e um topete louro entre os chifres, os jornalistas lhe fizeram pastar as mais belas flores do jardim de Paris, ela espalhou suas virtudes por toda parte. É preciso fugir!”

Eu não posso mais avançar, o cortejo me impede a marcha, pergunto o que isto significa, calam-se, é um segredo de comédia, está rotulado: <Honra e Pátria>.”

as crianças soletram o silabário enquanto se aromatiza a refeição. A família está em pé à minha volta, consternada, ansiosa, todos se abraçam ao mesmo tempo cheios de terror ante o Reino da Vergonha. FINIS

Este delírio merece o nome de sistematizado em toda a acepção que os antigos autores davam a este termo. Por mais importante que seja considerar a inquietação difusa que está em sua base, o delírio impressiona pela organização que liga seus diversos temas. A estranheza de sua gênese, a ausência aparente de qualquer fundamento na escolha da vítima, não lhe conferem traços particulares.”

Devem-se deixar de lado igualmente as diversas variedades de parafrenias kraepelinianas. A parafrenia expansiva apresenta alucinações, um estado de hipertonia afetiva, essencialmente eufórica, uma luxúria do delírio, que são estranhos ao nosso caso.”

A psicose paranóide esquizofrênica, de Claude [o orientador], deve ser deixada de lado pelas mesmas razões. (…) a atividade profissional de nossa paciente prosseguiu até a véspera do atentado. Estes sinais eliminam tal diagnóstico.”

Paranóia (Verrücktheit), este é o diagnóstico ao qual nos prenderíamos a partir de agora, se uma objeção não nos parecesse poder ser levantada em virtude da evolução curável do delírio em nosso caso.”

o próprio Kraepelin abandonou o dogma da cronicidade da psicose paranóica. (…) Seja o que for, a descrição magistral de Kretschmer mostrou um tipo de delírio paranóico em que se observa a cura

A evolução curável de nosso caso pode nos permitir incluí-lo entre as esquizofrenias de evolução remitente e curável a que se refere Bleuler? Certamente (…) A esquizofrenia, como se sabe, é caracterizada pelo <afrouxamento dos elos associativos> (Abspannung der Assoziationsbindungen). O sistema associativo dos conhecimentos adquiridos é sem dúvida o elemento de redução maior destas convicções errôneas, que o homem normal elabora sem cessar e conserva de maneira mais ou menos duradoura. A ineficácia desta instância pode ser considerada como um mecanismo essencial de um delírio como o de nosso sujeito.” No entanto, cf. Lacan, é um delírio sistematizado demais para um caso de esquizofrenia.

Quanto aos distúrbios esporádicos que nossa doente apresentou, tais como sentimentos de estranheza, de déjà vu, talvez de adivinhação do pensamento, e mesmo as raríssimas alucinações, eles podem se manifestar entre os sintomas acessórios da esquizofrenia, mas de modo algum lhe pertencem especificamente. Os distúrbios mentais da primeira internação puderam nos fazer pensar por um momento num estado de discordância. Porém, nenhum documento que possuímos nos permite afirmá-lo. § Resta a hipótese de uma forma da psicose maníaco-depressiva. (…) nenhuma destas características aparece com suficiente nitidez em nosso caso”

No interior do quadro existente da paranóia, nosso diagnóstico ficará, sem dúvida alguma, com o de delírio de interpretação.”

Sérieux & Capgras: de interpretação X de reivindicação. O problema: em S. et C., o delírio é incurável.

Séglas: delírio melancólico.

II.2 A PSICOSE DE NOSSO CASO REPRESENTA UM “PROCESSO” ORGANO-PSÍQUICO?

O que importa é fazer precisar ao doente, sempre evitando sugerir-lhe algo, não seu sistema delirante, mas sim seu estado psíquico no período que precedeu a elaboração do sistema”

É antes de mais nada um sentimento de transformação da ambiência moral: <Durante minha amamentação, todo o mundo havia mudado ao meu redor … Meu marido e eu, parecia-me que nos tornáramos estranhos um ao outro.>

Um estranho no ninho: sou eu mesmo, que nem pássaro sou.

Meu bastardo diário,

Aqui no inferno dizem (Lá no inferno diziam, muitos anos atrás)…

Ele é muito inteligente mas (Síndrome de Helenojuçara)

O imbecil de hoje é o manipulador de amanhã (num jogo sem freio e sem exceções – quem tenta descer da roda, se espatifa no concreto do chão – único lugar para onde se cai)

Um certo aroma de golpe no ar

Encadeamento lógico de um tolo oportunista no poder e seus avatares espelhados

#DRINÃO

evolução em 3 fases, que designaremos:

(I) fase aguda,

(II) fase de meditação afetiva e

(III) fase de organização do delírio.”

ESTADO ONIRÓIDE: “No sonho, como se sabe, o jogo das imagens parece, ao menos em parte, desencadeado por um contato com a ambiência reduzido a um mínimo de sensação pura. Aqui, ao contrário, há percepção do mundo exterior, mas ela apresenta uma dupla alteração que a aproxima da estrutura do sonho: ela nos parece refratada num estado psíquico intermediário ao sonho e ao estado de vigília; além disso, o limiar da crença, cujo papel é essencial na percepção, está aqui diminuído.”

a doente, em sonho, caça na selva com a Alteza por quem está apaixonada”

O PERSEGUIDO PROCURA SEUS CARRASCOS (O REINO DAS SUPERINDIRETAS): “Não é, como pode parecer à primeira vista, de maneira puramente fortuita que uma significação pessoal vem transformar o alcance de certa frase escutada, de uma imagem entrevista, do gesto de um transeunte, do <fio> a que o olhar se engancha na leitura de um jornal.”

Todo hiper-interpretativo tem um quê de Fox Mulder: onde morrem a família, os amigos e as relações interpessoais no trabalho, morre também a teoria da conspiração. Ela precisa ser de amplo alcance para sua chama continuar a arder. O maior alcance possível: de preferência, a política. Prato cheio para servidores públicos.Kafka e seus processos…

Essas características nos levam a admitir que estes fenômenos dependem desses estados de insuficiências funcionais do psiquismo, que atingem eletivamente as atividades complexas e as atividades sociais, e cuja descrição e teoria foram fornecidas por Janet em sua doutrina da psicastenia. A referência a esta síndrome explica a presença, manifesta em nosso caso, de perturbações dos sentimentos intelectuais. A teoria permite, além disso, compreender que papel desempenham nas perturbações as relações sociais no sentido mais amplo, como a estrutura destes sintomas, bem-integrados à personalidade, reflete sua gênese social, e, enfim, como os estados orgânicos de fadiga, de intoxicação, podem desencadear seu aparecimento.” Um filho natimorto ou a constatação de que minha carreira é uma bosta, etc.

Sim, é como no tempo em que eu ia ao jornal comprar os números atrasados de um ou dois meses antes. Eu queria reencontrar neles o que havia lido, por exemplo, que iriam matar meu filho e a foto na qual eu o havia reconhecido. Porém, jamais reencontrei o artigo nem a foto, dos quais, no entanto, eu me recordava. No final, o quarto estava entulhado desses jornais.”

ilusão da memória: (…) [e]sses distúrbios mnêmicos são, com efeito, bem frustros: nunca constatamos, num exame clínico sistemático e minucioso, distúrbios amnésicos de evocação, a não ser os que assinalamos em nossa observação e que incidem eletivamente no momento de introdução no delírio dos principais perseguidores.”

imagem-fantasia imagem-recordação

(transformação oniróide-delirante; “crises de psicolepsia” em Janet)

Janet ressaltou admiravelmente o papel desses distúrbios da memória nos sentimentos ditos sutis, experimentados pelos perseguidos alucinados (Les sentiments dans le délire de persécution, artigo).”

o indivíduo que dorme e desperta bruscamente por um ruído provocado recorda-se de ter formado em sonho um encadeamento de imagens, que lhe parece ter tido uma duração importante e do qual, no entanto, toda ordem está manifestamente destinada a ocasionar o ruído que provocou o despertar, e do qual, aliás, o sujeito não podia prever nem a vinda inesperada nem a qualidade. Este fato, como todos aqueles que deixam tão enigmática a questão da duração dos sonhos, faz com que se perceba bem a dificuldade que apresenta uma orientação temporal objetiva no desenvolvimento representativo das imagens.”

nossa doente, como tantos outros psicopatas no período de incubação ou de eflorescência de sua doença, consultava abundantemente um destes videntes cuja propaganda se espalha livremente nos classificados dos jornais. (…) Que numa das consultas pagas de horóscopo lhe tenha sido anunciado que uma mulher loura desempenharia um importante papel em sua vida, o de uma fonte de infortúnios, esta foi a crença na qual a doente, durante sua psicose, apoiou em parte sua convicção delirante, no que concerne [a] sua principal perseguidora. Ora, hoje ela sabe, tendo sido feita a averiguação, que jamais lhe foi escrito nada semelhante.” “numerosas interpretações são ilusões da memória

Essa concepção é diferente da doutrina clássica, que vê na interpretação uma alteração do raciocínio, fundada sobre elementos constitucionais do espírito. Acreditamos que nossa análise constitui, em relação à clássica, um progresso real, ainda que seja apenas para compreender os freqüentes casos em que este suposto fator constitucional falta de maneira manifesta e onde é impossível discernir, na origem do delírio, o menor fato de raciocínio ou de indução delirante.”

II.3 A PSICOSE DE NOSSO CASO REPRESENTA UMA REAÇÃO A UM CONFLITO VITAL E A TRAUMAS AFETIVOS DETERMINADOS?

sobre a infância de um sujeito, os registros familiares parecem sofrer os mesmos mecanismos de censura e de substituição que a análise freudiana nos ensinou a conhecer no psiquismo do próprio sujeito. A razão é que neles a pura observação dos fatos é perturbada pela estreita participação afetiva que os misturou a sua própria gênese. Quanto aos parentes colaterais, entra em jogo, além disso, a defasagem vital que alguns anos bastam para produzir na época da infância. Aqueles que pudemos ver, a irmã mais velha e um dos irmãos, têm, respectivamente, 5 anos a mais que a doente e 10 anos a menos. Necessidades econômicas, por outro lado, acrescentaram seu efeito aos fatores psíquicos: a irmã que criou a doente durante seus primeiros anos teve que deixar o teto paterno aos 14 anos, a própria doente aos 18, o que nos dá os limites de observação tanto da irmã quanto do irmão.”

As esperanças que a inteligência reconhecida de nossa doente dava a seus parentes, valiam-lhe, nestes pontos, concessões, e até certos privilégios mais positivos. Alguns destes privilégios, tais como uma roupa branca mais fina que a de suas irmãs, parecem ainda provocar nelas uma amargura que não arrefeceu. O autor responsável por esta diferença de tratamento parece ter sido sua mãe. O intensíssimo vínculo afetivo que uniu Aimée de modo muito particular a sua mãe parece-nos que deve ser salientado.”

Nenhuma reação nela é comparável à que desencadeia a evocação do pesar atual de sua mãe: <Eu deveria ter ficado junto dela>, este é o tema constante das lamentações da doente.” “após os recentes acontecimentos ocorridos com sua filha, ela se fechou num isolamento feroz, imputando formalmente à ação hostil de seus vizinhos mais próximos toda a responsabilidade do drama.”

JÁ QUE VOCÊ GOSTA DE ESTUDAR… “O cultivo do devaneio é confessadamente precoce. É possível que uma parte das promessas intelectuais que a doente produziu tenha derivado disto, e que seja por conta desta particularidade que ela deva ter parecido aos seus como designada entre todas para aceder à situação superior de professora.”

esta abulia profissional e esta ambição inadaptada, que Janet também descreveu entre os sintomas psicastênicos.”

Esse tema do touro perseguindo volta com freqüência nos sonhos de Aimée (ao lado de um sonho de víbora, animal que pulula em sua terra), e é sempre de mau agouro.”

Dom-juan de cidade pequena e poetastro da igrejinha <regionalista>, essa personagem seduz Aimée pelos charmes malditos de um ar romântico e de uma reputação bastante escandalosa.” “A desproporção com o alcance real da aventura é manifesta: os encontros, bastante raros a ponto de terem escapado à espionagem de uma cidade pequena, de início desagradaram a doente; ela cede enfim, mas para ouvir logo de seu sedutor, decididamente apaixonado por seu papel, que ela não foi para ele senão o lance de uma aposta. Tudo se limita ao último mês de sua estadia na cidade pequena. Entretanto, esta aventura que leva consigo os traços clássicos do entusiasmo e da cegueira próprios à inocência, vai reter o apego de Aimée por 3 anos. Durante 3 anos, na cidade afastada em que seu trabalho a confinará, manterá seu sonho por uma correspondência trocada com o sedutor que ela não deve rever. Ele é o único objeto de seus pensamentos, e entretanto ela nada sabe nos contar sobre ele, mesmo à colega, de algum modo sua conterrânea, que é então a segunda grande ligação de amizade de sua vida.”

Seu desinteresse é então completo e se expressa de maneira comovente num pequeno traço: declina as satisfações de vaidade que lhe oferece a colaboração literária nas folhas da paróquia sob o cuidado de seu amante.”

Interiorização exclusiva, gosto pelo tormento sentimental, valor moral, todos os traços de um apego como este concordam com as reações que Kretschmer relaciona ao caráter sensitivo.”

As razões de fracasso de uma ligação como esta parecem só se dever à escolha infeliz do objeto. Esta escolha traduz, ao lado de arrebatamentos morais elevados, uma falta de instinto vital de que dá testemunho, aliás, em Aimée, a impotência sexual que o transcorrer de sua vida permite corroborar”

cansada de suas complacências tão vãs quanto dolorosas (…): <Passo bruscamente do amor ao ódio>”

Estes sentimentos hostis ainda não estão mitigados. Eles são marcados pela violência do tom das réplicas que Aimée opõe às questões com que a pusemos à prova: <Triste indivíduo>, assim o designa, empalidecendo ainda. <Ele pode morrer. Não me fale mais deste cáften … e deste grosseiro>. Tornamos a encontrar aí esta duração indefinida, na consciência, do complexo passional que Kretschmer descreve como mecanismo de repressão.”

Ela [sua melhor amiga, do escritório,] considera o trabalho a que foi compelida como muito inferior à sua condição moral, o que faz com que não se preocupe muito com ele. Toda sua atividade é empregada em manter sob seu prestígio intelectual e moral o pequeno mundo de seus colegas: ela rege suas opiniões, governa seus lazeres, assim como em nada negligencia para aumentar sua autoridade pelo rigor de suas atitudes. Grande organizadora de noitadas em que a conversa e o bridge são levados até bem tarde, ela conta ostensivamente numerosas histórias sobre as relações passadas de sua família, não desdenha em absoluto de fazer alusão às que lhe restaram. Ela representa junto a estas simplórias meninas o atrativo dos costumes nos quais ela as inicia. Por outro lado, ela sabe impor o respeito por meio de um recato e de hábitos religiosos não-desprovidos de afetação.” “através desta amiga é que pela primeira vez chegam aos ouvidos de Aimée o nome, os hábitos e os sucessos de Sra. Z., que era então vizinha de uma tia da narradora, e também o nome de Sarah Bernhardt que sua mãe teria conhecido no convento, ou seja, as duas mulheres que a doente designará mais tarde como suas maiores perseguidoras. Tudo levava Aimée a sofrer as seduções dessa pessoa, a começar pelas diferenças com que ela mesma se sente marcada em relação a seu meio: <Era a única que saía um pouco do comum, no meio de todas essas meninas feitas em série.>

<Com esta amizade, nos diz, opondo-a a suas duas primeiras amizades, eu guardava sempre um jardim secreto>: é o reduto onde a personalidade sensitiva se defende contra as investidas de seu contrário.” https://www.gutenberg.org/files/113/113-h/113-h.htm

<Eu me sinto masculina.> Ela deixou escapar a palavra-chave.”

Esse caráter de jogo na atitude sexual parece se confirmar, na época a que nos referimos, numa série de aventuras que ela dissimula muito bem dos que a cercam. Nesta menina desejável, o gosto da experiência se acomoda a uma frieza sexual real. Sua virtude, pelo menos no sentido farisaico, se acha também freqüentemente a salvo.” “Pudemos fazer uma idéia da personalidade do marido; não tivemos necessidade de solicitá-lo para que ele nos trouxesse informações tão prolixas quanto benévolas sobre sua mulher. Trata-se de um homem muito ponderado em seus julgamentos e, é bem provável, em sua conduta também, mas em quem nada dissimula a orientação muito estreitamente positiva dos pensamentos e dos desejos, e a repugnância a qualquer atitude inutilmente especulativa” “Desde esta época, imputa-se a Aimée ter se queixado de ciúme; mas seu marido também faz a mesma coisa. Os dois esposos tiram a matéria desses reproches das confissões recíprocas que eles fizeram sobre o passado deles. Parece que então, para Aimée, estes reproches nada mais são do que o que ficaram sendo para seu marido, armas com que se exprime o desentendimento que se comprova. Trata-se apenas ainda deste tipo de ciúme, qualificado por Freud, de ciúme de projeção.

Em breve Aimée retorna a este vício, a leitura, nem sempre tão <impune> quanto os poetas o crêem. Ela se isola, diz seu marido, em mutismos que duram semanas.” “ela se servirá do mais fútil pretexto para ficar em casa se, por exemplo, lhe chamam para um passeio, mas, uma vez que saiu, na hora de voltar só criará empecilhos.” A má-consciência sartriana

MULHER OMO: “Impulsões bruscas no andar, na caminhada, risos intempestivos e imotivados, acessos paroxísticos de fobia da mácula, lavagens intermináveis e repetidas das mãos; todos fenômenos típicos das agitações forçadas de Janet.”

Viúva de um tio que foi em primeiro lugar seu empregador [sua irmã mais velha], que depois fez dela sua mulher com a idade de 15 anos, esta Ruth de um Boaz merceeiro¹ não realizou uma necessidade de maternidade, profundamente sentida por sua natureza. A partir de uma histerectomia total sofrida aos 27 anos por razões que desconhecemos, esta insatisfação, exaltada pela idéia de que não há esperança para ela e sustentada pelo desequilíbrio emotivo da castração precoce, torna-se a instância dominante de seu psiquismo. Pelo menos ela nos confessou isso sem disfarce, quando nos disse com toda a candura ter encontrado seu consolo no papel de mãe que conquistou junto ao filho de sua irmã a partir do fim do primeiro ano, ou seja, desde alguns meses que antecederam a primeira internação de Aimée.”

¹ Personagens bíblicas.

ela acabou por fazer súplicas que eram, aliás, desnecesárias, para remediar tão grandes infortúnios. Acabou suas declarações com um quadro apologético de sua dedicação para com a doente, da atenção sem trégua de que dera provas ao seu lado, enfim, das angústias que tivera.”

Eu me dava conta de que não significava mais nada para ele. Pensava freqüentemente que ele seria mais feliz se eu lhe devolvesse a liberdade, e que pudesse construir sua vida com outra.

Entretanto, tendo caráter sensitivo e psicastênico, Aimée não poderia apaziguar simplesmente com tal abandono, nem mesmo se contentar com o refúgio do devaneio. Ela sente a situação como uma humilhação moral e o exprime nos reproches permanentes que lhe formulam sua consciência. Não se trata aí, porém, de uma pura reação do seu foro íntimo; esta humilhação se objetiva na reprovação, bem real, que sua irmã lhe impõe incessantemente por seus atos, por suas palavras e até em suas atitudes.

Mas a personalidade de Aimée não lhe permite reagir diretamente por uma atitude de combate, que seria a verdadeira reação paranóica, entendida no sentido que esse termo assumiu desde a descrição de uma constituição que levou esse nome. Não é, com efeito, dos elogios e da autoridade que lhe são conferidos pelos que a cercam que sua irmã vai tirar sua principal força contra Aimée, é da própria consciência de Aimée. Aimée reconhecia, por seu valor, as qualidades, as virtudes, os esforços de sua irmã. Ela é dominada por ela, que representa sob um certo ângulo a imagem mesma do ser que ela é impotente para realizar. Como ela o foi, num grau menor, diante da amiga com qualidades de líder. Sua luta surda com aquela que a humilha e lhe toma o lugar só se exprime na ambivalência singular das opiniões que ela tem a seu respeito. Com efeito, é surpreendente o contraste entre as fórmulas hiperbólicas por meio das quais presta homenagem às generosidades de sua irmã e o tom frio com que as expressa. Às vezes sem querer explode a confissão: <Minha irmã era por demais autoritária. Ela não estava comigo. Estava sempre do lado do meu marido. Sempre contra mim.>” “<jamais pôde suportar> os direitos assumidos por sua irmã na educação da criança.”

Devemos reconhecer aí a confissão do que é tão rigorosamente negado, a saber, no caso presente, da queixa que Aimée imputa à sua irmã por ter raptado seu filho, queixa em que é surpreendente reconhecer o tema que sistematizou o delírio.” “Ora, esta queixa no delírio foi afastada da irmã com uma constância cujo verdadeiro alcance a análise vai nos mostrar.”

com o trauma moral da criança natimorta aparece em Aimée a primeira sistematização do delírio em torno de uma pessoa, a quem são imputadas todas as perseguições que ela sofreu. Esta espécie de cristalização do delírio se produziu de uma forma tão súbita que o testemunho espontâneo da doente não deixa dúvida; e ela se produziu com a amiga de outrora, Senhorita C. de la N. [, avatar da irmã mais velha]” “Quando, pela primeira vez, Aimée passa a uma reação de combate (a uma reação conforme com a descrição aceita da constituição paranóica), ela só o alcança por um viés; substitui o objeto que se oferece diretamente a seu ódio por um outro objeto, que provocou nela reações análogas pela humilhação sofrida e pelo caráter secreto do conflito, mas que tem a vantagem de escapar ao alcance de seus golpes. A partir daí, Aimée não deixará de derivar seu ódio para objetos cada vez mais distanciados de seu objeto real, como também cada vez mais difíceis de atingir.” CURA: Dê um chute no patrão e um tiro no seu pai!

E os próprios temores que sua irmã manifesta atualmente quanto à própria vida, ainda que a própria doente nunca a tenha ameaçado, têm todas as características de uma advertência do seu instinto. Sem dúvida, por ocasião das últimas cenas em que Aimée queria forçar seu testemunho e falava em matar seu marido se não obtivesse o divórcio, ela pôde sentir, na violência do tom da doente, até onde iam realmente suas ameaças assassinas.”

O surto delirante difuso que desabrocha com a segunda gravidez permanece compatível com uma vida profissional e familiar sensivelmente normal até nos primeiros meses de amamentação. Observemos de passagem que a menor amplitude das desordens, a intensidade diminuída da inquietude, que distinguem este surto do primeiro, parecem ligadas ao primeiro esboço de sistematização, cujo mecanismo acabamos de descrever. Até o quinto mês de amamentação, por outro lado, Aimée é quem cuida exclusivamente de seu filho (testemunho do marido).”

Mas logo, apoiando-se em certas inexperiências de Aimée, a irmã impõe sua direção na educação da criança. As grandes reações interpretativas (querelas, escândalos, idéias delirantes) se multiplicam então, até o intento de fuga, na base de devaneios ambiciosos. Esta reação, que parece de natureza essencialmente psicastênica, leva o conflito a seu auge (<Arrancaram-me o meu filho>) e justifica a internação.”

Deixam-na, então, viver só de seu salário, em Paris. Este isolamento pode ter sido favorável como garantia imediata contra um perigo de fato; no entanto, permanece muito mais discutível como medicação psicológica.” “Suas intervenções e sua própria presença serão cada vez mais mal-recebidas em casa. Ela fingirá ignorar seu marido quando de suas visitas, depois quase não as fará, e cada vez mais se enclausurará nas atividades compensatórias e quiméricas que ela criou para si em seu isolamento parisiense.”

Enfim, suas tentativas, condenadas, para resolver o conflito por um divórcio que lhe devolvesse o filho, parecem corresponder a um sobressalto supremo da doente diante da expiração do prazo impulsivo do delírio, diante do batente inelutável que a espera na via de derivação afetiva em que seu psiquismo se comprometeu. Estes esforços últimos, que racionalmente parecem provenientes de fantasias do delírio, correspondem, não obstante, a um esforço obscuro e desesperado das forças afetivas em direção à saúde.

Ninguém no meio ambiente de Aimée estava em condições de reparar na urgência da situação. Com o mesmo desconhecimento bastante desculpável com que repetidas vezes acolheram suas tentativas de confidência delirante, os seus repeliram rudemente investidas das quais só podiam perceber o caráter inoportuno.

Por isso, com a firmeza quase consciente de uma necessidade longamente alimentada, numa última hesitação crepuscular, na hora mesmo em que pouco antes a doente pensava ainda que ia ficar junto de seu filho, ela efetivou a violência fatal contra uma pessoa irresponsável

Chegaram, entretanto, por fim, a confinar a doente numa atividade em que ela trabalha[va] sozinha, e onde eventualmente seus erros teriam o mínimo de conseqüências. Notemos, no entanto, o balanço favorável de seus esforços, que se traduz pela sanção de uma promoção”

tormentos éticos objetivados, próximos dos escrúpulos psicastênicos.”

Ao lado desta vida profissional em que a adaptação é relativamente conservada, a doente leva uma outra vida <irreal>, ela nos diz, ou <inteiramente imaginária>. <A doente, conta uma de suas colegas, vivia uma vida absurda>; mais ainda: <Ela estava fechada em seu sonho.>”

Após 3 anos, ela se recusará a fazer uso de suas férias de outra forma que não seja se dedicando inteiramente a estas atividades: <Eu passei os 20 dias de uma de minhas licenças sem sair da Biblioteca Nacional>. Reconhecemos aí o caráter forçado das perseverações psicastênicas: acontece que, conta seu marido, ela rejeita, numa ocasião particularmente favorável, rever seus parentes após uma longa separação, alegando que prepara o exame de baccalauréat. Essas atividades se mostram ineficazes: fracassa 3 vezes no baccalauréat.”

ela negligencia então seu próprio filho, parece pouco atenta por ocasião de 2 crises de apendicite que a criança apresenta. Depreendemos aí o próprio mecanismo dessas discordâncias da conduta sobre as quais insiste Blondel: a saúde da criança, que forma o tema ansioso central de seu delírio, deixa-a indiferente

Nesta vida psíquica dominada em sua maior parte pelo irreal, pelo sonho e pelo delírio, a dissimulação era de se esperar. Em tais doentes, dissimulação e reticência são apenas o avesso de uma crença delirante, cujo caráter incompleto eles indicam.” “Várias vezes ela se entrega na casa dela [?] a pequenos furtos destinados a cobrir seus déficits orçamentârios: jóias [?] e livros, que pertencem ao patrimônio, são roubados por ela sem que ninguém saiba.”

Esses temas de revolta e de ódio aparecem como secundários ao próprio delírio. Ressaltemos que na mesma época a doente chega a dar uma forma literária não-desprovida de valor, não só aos melhores élans de sua juventude, como também às experiências mais valiosas que pôde viver, as de sua infância.”

À antiga amiga, ela pedirá perdão por todo o mal que injustamente lhe desejou, do qua1 certamente nada lhe disse, senão ao romper com a correspondência, mas que poderia ter tido enormes conseqüências. Vários outros encontros, como no fim de um romance sentimental, terão por objetivo encerrar [com] o [seu] passado. Irá ter com a criada de seu hotel, etc.”

A irmã mais velha se opõe formalmente à simples idéia de ter que se encontrar com nossa doente, mesmo em nossa presença. Diante de um apelo por carta feito por esta, ela respondeu em termos tais que acreditamos ser conveniente poupar nossa doente de ouvi-los e participar-lhe somente o essencial. A própria doente, após breves conversas com seu marido, se opõe, a partir de então, a qualquer novo encontro. <Seria preciso, ela afirma, que me colocassem numa camisa-de-força para me arrastar até ele.> Ela mantém contato apenas com um irmão que a visita regularmente; e vive na esperança de encontrar seu filho.”

O balanço desta atitude se traduz praticamente em uma produção que, apesar de nossos incentivos, permaneceu quase nula desde sua entrada no serviço. Ela se restringiu a algumas poesias curtas, embora sejam de uma qualidade bem inferior não só em relação a suas produções maiores, mas também em relação a suas tentativas anteriores do mesmo gênero, nas quais ela mostrava uma alegria sem igual.”

Nada nos permite falar, em nossa doente, de disposição congênita, nem mesmo adquirida, que se exprimiria nos traços definidos da constituição paranóica.”

O sentimento da natureza, que Montassut observa com muita precisão como freqüente nos paranóicos, não é em absoluto, como ele o afirma, uma simples conseqüência de sua inadaptação social. Ele representa um sentimento de um valor humano positivo, cuja destruição no indivíduo, mesmo se ele melhora sua adaptação social, não pode ser considerada como um benefício psíquico.”

Todos os traços que, em nossa doente, poderiam se aproximar das características atribuídas à constituição dita paranóica – superestima megalomaníaca, desconfiança, hostilidade para com o meio, erros de juízo, autodidatismo, acusação de plágio, reivindicações sociais – só surgem em Aimée secundariamente à eclosão delirante.”

As magistrais descrições desses dois autores, clinicamente convergentes em numerosos pontos, são, no entanto, bastante diferentes por sua concepção patogênica. Janet tem do distúrbio fundamental da psicastenia uma concepção estrutural e energética, e parece remetê-la a um defeito congênito. Kretschmer tem do caráter sensitivo uma concepção dinâmica e evolutiva e o relaciona essencialmente à história do sujeito.”

No entanto, a mesma objeção vale tanto para os processos hiponóides cuja observação é comum não apenas em doentes bastante diferentes, como também em sujeitos normais, quanto para esses traumatismos psíquicos que formam a trama de toda vida humana: por que tanto uns quanto outros determinam num caso dado uma psicose e uma psicose paranóica, e não qualquer outro processo neurótico ou desenvolvimento reativo?”

II.4 A ANOMALIA DE ESTRUTURA E A FIXAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE DE AIMÉE SÃO AS CAUSAS PRIMEIRAS DA PSICOSE

a) DE COMO A PSICOSE DE NOSSA PACIENTE FOI REALIZADA PELOS MECANISMOS DE AUTOPUNIÇÃO QUE PREVALECEM NA ESTRUTURA DE SUA PERSONALIDADE.

Sobre a teoria da intencionalidade da consciência, reportar-se à obra fundamental de Brentano, Psychologie von empirischen Standpunkte, 1874.“

As intenções conscientes são desde há muito o objeto da crítica convergente dos <físicos> e dos moralistas, que mostraram todo o seu caráter ilusório. Esta é a razão principal da dúvida metódica lançada pela ciência sobre o sentido de todos os fenômenos psicológicos.”

O mérito desta nova disciplina, que é a psicanálise, é nos ter ensinado a conhecer essas leis, a saber: aquelas que definem a relação entre o sentido objetivo de um fenômeno de consciência e o fenômeno objetivo a que corresponde: positivo, negativo, medíato ou imediato, essa relação é, com efeito, sempre determinada.” “Este método de interpretação, cuja fecundidade objetiva se revelou nos vastos campos da patologia, se tornaria ineficaz no limiar do domínio das psicoses? Não questionamos as classificações clínicas e queremos evitar qualquer síntese, mesmo teórica, que seja prematura. Porém, trata-se aqui apenas de aplicar aos fenômenos da psicose um método de anâlise que já deu suas provas em outra parte. Se uma psicose, com efeito, entre todas as entidades mórbidas, exprime-se quase puramente através de sintomas psíquicos, recusaremos a ela por isso mesmo todo sentido psicogênico? Parece-nos que seria abusar do direito de prejulgar, e que a questão só pode ser resolvida depois de ser posta à prova.” “Talvez a natureza da cura nos demonstre a natureza da doença.” “De saída, pode-se falar em cura? Sim, se damos a esse termo o valor clínico de redução de todos os sintomas mórbidos; quanto à persistência de uma predisposição determinante, não podemos decidir sobre ela, já que é esse o problema que tentamos cingir. O fato é que no 20º dia de sua detenção, e com um caráter brusco bem nítido, a psicose manifestada pelo delírio com seus diferentes temas curou. Depois, a paciente permaneceu no asilo, e essa cura se manteve até o momento presente, ou seja, durante um ano e meio aproximadamente.”

A única intoxicação que pode ser discutida é o cafeinismo; mas não devemos exagerar o papel atribuído ao café nos distúrbios mentais.”

Tais curas instantâneas do delírio se observam num tipo único de caso, e mesmo assim eventualmente: isto é, nos delirantes ditos passionais após a realização de sua obsessão assassina. O delirante, após o assassinato, sente nesse caso um alívio característico acompanhado pela queda imediata de todo o aparelho da convicção delirante.

Não se encontra aqui nada semelhante logo após a agressão. Certamente, esta agressão fracassou e a doente não transparece nenhuma satisfação especial pela evolução favorável que se verifica rapidamente no estado de sua vítima; mas este estado persiste ainda por 20 dias. Nada mudou, então, do lado da vítima. Ao contrário, quer nos parecer que alguma coisa mudou do lado do agressor. A doente <realizou> seu castigo”

Que esses fatos se impusessem primeiramente aos praticantes da psicanálise, isto só se deve à abertura psicológica de seu método, pois nada implicava esta hipótese nas primeiras sínteses teóricas dessa doutrina. Não podemos empreender aqui a demonstração deste ponto que pensamos retomar em outro lugar: a análise dos determinismos autopunitivos e a teoria da gênese do supereu que ela engendrou representam na doutrina psicanalítica uma síntese superior e nova.”

O poder afetivo do protótipo é dado por sua existência real na vida da doente. Mostramos mais acima que ele era representado por esta irmã mais velha, de quem Aimée sofreu todos os graus de humilhação moral e de reproches de sua consciência. Num menor grau, a sua amiga intima, a Senhorita C. de la N., que para Aimée representava tão eminentemente a adaptação e a superioridade para com seu meio, objeto de sua íntima inveja, desempenhou um papel análogo; porém, segundo a relação ambivalente, própria precisamente à inveja, sentimento que comporta uma parte de identificação; e isto nos leva à segunda significação do protótipo delirante.”

Mulheres de letras, atrizes, mulheres do mundo, elas representam a imagem que Aimée concebe da mulher que, em algum grau, goza da liberdade e do poder social.” “Mas o objeto que Aimée atinge só tem um valor de puro símbolo, e ela não sente com seu gesto nenhum alívio. Contudo, pelo mesmo golpe que a torna culpada diante da lei, Aimée atinge a si mesma, e, quando ela o compreende, sente então a satisfação do desejo realizado: o delírio, tornado inútil, se desvanece.”

o que nossa pesquisa forneceu foi, insistimos neste ponto, um distúrbio que só tem sentido em função da personalidade ou, se preferirmos, um distúrbio psicogênico.”

b) DE COMO, AO CONCEBER ESTES MECANISMOS AUTOPUNITIVOS, SEGUNDO A TEORIA FREUDIANA (UMA CERTA FIXAÇÃO EVOLUTIVA DA ENERGIA PSÍQUICA CHAMADA LIBIDO), DÁ-SE CONTA DAS CORRELAÇÕES CLÍNICAS MAIS EVIDENTES DA PERSONALIDADE DO SUJEITO. [Até para redigir TÍTULOS Lacan é um boçal! Teseu sem Ariadne…]

A evolução da libido na doutrina freudiana parece corresponder com muita precisão, em nossas fórmulas, a esta parte, considerável na experiência, dos fenômenos da personalidade cujo fundamento orgânico é dado pelo desejo sexual.”

enquanto alguns veriam no presente caso uma regressão da consciência para esse estado de indiferenciação primordial (Blondel), outros sem hesitar atribuiriam o distúrbio inicial a uma deficiência deste contato vital com a realidade, que é para eles a fonte primeira de toda atividade humana; estes falariam de racionalismo mórbido (Minkowski) e nosso mestre e amigo Dr. Pichon, citando Chesterton, nos diria: <O louco não é em absoluto o homem que perdeu a razão; o louco é aquele que perdeu tudo, menos sua razão>.”

Quanto à imprecisão relativa do conceito de libido, ela não deixa para nós de ter seu valor. Tem, com efeito, o mesmo alcance geral que os conceitos de energia ou de matéria em física, e nessa qualidade representa a primeira noção que permite entrever a introdução em psicologia de leis de constância energética, bases de toda ciência.”

Encontraremos uma síntese feliz do conjunto dos trabalhos psicanalíticos sobre [sintomas da perda de objeto] no livro de O. Fenichel, Perversionen, Psychosen, Charakterstörungen, particularmente em seu capítulo das <Esquizofrenias>, p. 68-106.

A prevalência mórbida dos mecanismos de autopunição será sempre acompanhada, portanto, de distúrbios que manifestam a função sexual. A fixação sádico-anal, que eles representam na maioria das vezes, explica sua correlação com os distúrbios neuróticos obsessivos e os sintomas ditos psicastênicos.”

Se o valor patogênico de uma fixação pode ser aproximado de uma constituição, suscetível a um determinismo orgânico congênito, este valor dela se difere, quando deixa lugar à hipótese de um determinismo traumático

Esses pontos teóricos explicam a concomitância de traços de morbidez propriamente psicastênicos e obsessivos. Por outro lado, eles dão seu valor clínico às deficiências, que são negligenciadas no quadro de Janet, e que dizem respeito à esfera sexual.”

incerteza do pragmatismo sexual (escolha de parceiros de uma incompatibilidade máxima)”

Eu o amo, ele.

A primeira denegação possível: Eu não o amo. Eu o odeio, projetada secundariamente em Ele me odeia, fornece o tema de perseguição. Esta projeção secundária é imediata na fenomenologia própria ao ódio, e pode prescindir, quer nos parecer, de qualquer outro comentário.

A segunda denegação possível: Eu não o amo. É ela que eu amo, projetada secundariamente em Ela me ama, fornece o tema erotomaníaco. Aqui, a projeção secundária, pela qual a iniciativa amorosa parte do objeto, implica a intervenção de um mecanismo delirante próprio, deixado por Freud na obscuridade.

A terceira denegação possível: Eu não o amo. É ela que o ama, fornece, com ou sem inversão projetiva, o tema de ciúme.

Há, enfim, segundo Freud, uma quarta denegação possível, é aquela que incide globalmente sobre toda a fórmula e diz: Eu não o amo. Eu não amo ninguém. Amo somente a mim.”

Fixação narcísica e pulsão homossexual são, portanto, neste caso, oriundas de pontos evolutivos muito próximos da libido. Estão quase contíguas no estágio de gênese do supereu. Este fato, segundo a teoria, indica um fraco processo regressivo e explica a benignidade relativa e a curabilidade da psicose em nosso caso.” Ou do artista em geral?

c) O PROTÓTIPO “CASO AIMÉE” OU A PARANÓIA DE AUTOPUNIÇÃO FRUTOS DE SEU ESTUDO: INDICAÇÕES DE PRÁTICA MÉDICA E MÉTODOS DE PESQUISA TEÓRICA.

Não temos de modo algum, com efeito, a ambição de acrescentar uma entidade nova à nosologia já tão pesada da psiquiatria. Os quadros, como se sabe, nela se distinguem com muita freqüência pela arbitrariedade de sua delimitação, por suas imbricações recíprocas, fontes de incessantes confusões, sem falar daqueles que são puros mitos. A história da psiquiatria demonstra suficientemente seu caráter vão e efêmero.”

a psiquiatria – não é, que pena, um truismo lembrá-lo –, sendo a medicina do psíquico, tem por objeto as reações totais do ser humano, isto é, as reações da personalidade no primeiro plano. Ora, como acreditamos ter demonstrado, não há informação suficiente sobre esse plano senão através de um estudo tão exaustivo quanto possível da vida do sujeito. Contudo, a distância que separa a observação psiquiátrica da observação médica corrente não é tamanha que explique os 23 séculos que separam Hipócrates, o pai da Medicina, de Esquirol, em quem veríamos, de bom grado, o padrasto da psiquiatria.”

O isento método da observação psiquiátrica já era conhecido, com efeito, por Hipócrates e sua escola. E a cegueira secular que se seguiu só nos parece imputável à dominação inconstante, mas contínua, de preconceitos filosóficos. Tendo dominado 15 séculos com Galeno [com seu plurivitalismo, espécie de antecessor do materialismo mecanicista], esses preconceitos são mantidos de um modo notável pela psicologia atomística da Enciclopédia, reforçados ainda pela reação comtista que exclui a psicologia da ciência, e permanecem não menos florescentes na maior parte dos psiquiatras contemporâneos, quer sejam psicólogos ou supostos organicistas. O principal destes preconceitos é que a reação psicológica não oferece ao estudo interesse em si mesma, porque ela é um fenômeno complexo. Ora, isto é verdadeiro apenas em relação aos mecanismos físico-químicos e vitais que esta reação põe em jogo, mas falso no plano que lhe é próprio. Ele é, com efeito, um plano, que tentamos definir, e no qual a reação psicológica tem o valor de toda reação vital: ela é simples por sua direção e por sua significação.”

Seja como for, graças às circunstâncias históricas favoráveis, a observação do psiquismo humano, não de suas faculdades abstratas, mas de suas reações concretas, nos é de novo permitida. Pensamos que toda observação fecunda deve se impor à tarefa de fazer monografias psicopatológicas tão completas quanto possível.” “É nessa medida mesma que somos contrários a acrescer, segundo o costume, uma nova entidade mórbida, cuja autonomia não seríamos capazes de sustentar, aos quadros existentes. (…) O quadro clínico que vamos apresentar, apesar de nossas reservas, se limitará a este alcance puramente prático. (…) Se for preciso um título ao tipo clínico que vamos descrever, escolheremos o de paranóia de autopunição [em detrimento de ‘psicose paranóica’].”

c.1) Diagnóstico, Prognóstico, Profilaxia & Tratamento da Paranóia de Autopunição

A personalidade anterior do sujeito é, antes de mais nada, marcada por um inacabamento das condutas vitais (a melhor introdução ao estudo da personalidade desses sujeitos se acha nos trabalhos já citados de Janet e de Kretschmer). Este traço está próximo da descrição dada por Janet das condutas psicastênicas; ele se distingue dela no que os fracassos incidem menos sobre a eficácia do rendimento social e profissional, freqüentemente satisfatórios, que sobre a realização das relações da personalidade que se relacionam à esfera sexual, ou seja, dos vínculos amorosos, matrimoniais, familiares.”

ódio familiar (…) fuga diante do casamento e, quando realizado, desentendimento e fracassos conjugais, desconhecimento das funções de parentesco – este é o passivo do balanço social desses tipos de personalidade.”

Esses mesmos sujeitos que demonstram impotências de resultado constante nas relações afetivas para com o próximo mais imediato, revelam nas relações mais longínquas com a comunidade virtudes de uma incontestável eficácia. Desinteressados, altruístas, menos presos aos homens que à humanidade, habitualmente utopistas, esses traços não exprimem neles somente tendências afetivas, mas atividades eficazes: servidores zelozos do Estado, preceptores ou enfermeiras convencidos de seu papel, empregados ou operários excelentes, trabalhadores encarniçados, eles se conformam melhor ainda a todas as atividades entusiastas, a todos os <dons de si> que os diversos empreendimentos religiosos utilizam, e geralmente a todas as comunidades, quer sejam de natureza moral, política ou social, que se fundam sobre um vínculo supra-individual.”

descargas afetivas espaçadas, mas extremamente intensas, manifestam-se habitualmente pelo reviramento de todas as posições ideológicas (conversão), mais freqüentemente pela inversão de uma atitude sentimental: passagem brusca, a respeito de uma pessoa, do amor ao ódio,¹ e inversamente. Nenhum estudo médico da vida afetiva desses sujeitos vale as admiráveis observações que encerra a obra de Dostoiévski; ver particularmente: Humilhados e ofendidos, O eterno marido, Crime e castigo, O duplo, Os demônios.”

¹ Tipo ideal: Freud.

São hipermorais, jamais amorais. O que não quer dizer que não possam dissimular, principalmente sobre suas reações afetivas mais profundas.”

Nem acesso esquizofrênico legítimo nem fase maníaco-depressiva são oberváveis nos antecedentes. Os traços da constituição paranóica permanecem míticos.” [?]

Revela-se, o mais das vezes, uma relação manifesta entre o acontecimento crítico ou traumático [expulsão do colégio militar] e um conflito vital que persiste há vários anos. Este conflito, de forte ressonância ética, está muito freqüentemente ligado às relações parentais ou fraternas do sujeito.”

O perseguidor principal é sempre do mesmo sexo que o do sujeito, e é idêntico, ou pelo menos representa claramente, a pessoa do mesmo sexo à qual o sujeito se mantém preso mais profundamente por sua história afetiva.” Coisa curiosa… Porque tirando o pai tirânico prototípico, os únicos seres capazes de me infligir qualquer dano psicológico nesse mundo são as mulheres organizadas em bando.

As idéias de grandeza não se exprimem na consciência do sujeito por nenhuma transformação atual de sua personalidade. Devaneios ambiciosos, projetos de reforma, invenções destinadas a mudar a sorte do gênero humano, elas têm sempre um alcance futuro, do mesmo modo que um sentido nitidamente altruísta. Elas apresentam assim características simétricas das idéias de perseguição. O mesmo conteúdo simbólico é aí fácil de ser reconhecido: ele se refere tanto numas quanto noutras ao ideal do eu do sujeito. Essas idéias podem não ser desprovidas de toda ação social efetiva e as idéias ditas de grandeza podem receber assim um início de realização. Já assinalamos, aliás, o caráter convincente que as ideologias dos paranóicos devem a sua raiz catatímica.”

O PATHOS: “Nenhuma nota clínica propriamente melancólica se observa no curso do delírio; apesar da tendência auto-acusadora particular que salientamos nas idéias delirantes, não se encontra nenhum sinal de inibição psíquica. No entanto, certos estados de exaltação passageira parecem corresponder a variações holotímicas e cíclicas do humor. A convicção delirante é poderosamente sustentada por essas variações positivas estênicas.

A dissimulação desses sujeitos se deve menos aos fracassos de suas tentativas de expansão que a determinada incerteza residual de suas crenças.” “O perigo que impõem a outrem as virtualidades reacionais desses sujeitos é inversamente proporcional ao paradoxo de seu delírio. Em outros termos, quanto mais as concepções do sujeito se aproximam do normal, mais ele é perigoso. Sérieux e Capgras já sublinharam o nível bem mais elevado do perigo apresentado pelos delirantes ditos reivindicadores (querelantes de Kraepelin), tanto em virtude da violência e da eficácia de sua reação agressiva [JJ] quanto de sua iminência imediata. Os paranóicos que descrevemos estão situados entre estes sujeitos e os interpretativos [este seria eu, um ‘paranóide atenuado’], cujas reações mais tardias e menos eficazes Sérieux e Capgras já observam.

a manutenção da psicose depende da permanência do conflito gerador.”

As indicações profiláticas se impõem antes de mais nada. Elas devem se manter, para nossos sujeitos, a meio caminho de um isolamento social grande demais, que favorece o reforço de suas tendências narcísicas, e de tentativas de adaptação por demais completas, com cujos gastos afetivos eles não podem arcar, e que serão para eles a fonte de recalcamentos traumáticos. O isolamento total na natureza é uma solução válida, mas cuja indicação é puramente ideal.”

A estadia prolongada no meio familiar só fará provocar uma verdadeira estagnação afetiva, segunda anomalia, cujo efeito viria se acrescer ao distúrbio psíquico, que quase sempre foi determinado nesse próprio meio. Quando este meio, por fim, faltar (morte dos pais), a psicose encontraria, a clínica nos mostra a cada dia, seu terreno ótimo.”

A fórmula de atividade mais desejável para esses sujeitos é seu enquadramento numa comunidade laboriosa, à qual os liga um dever abstrato.” “Como professores, enfermeiras, ajudantes de laboratório ou de biblioteca, empregados, contramestres, eles revelarão qualidades morais de grande firmeza, ao mesmo tempo em que capacidades intelectuais em geral não-medíocres. Mas a sociedade moderna deixa o indivíduo num isolamento moral cruel, e de modo muito particularmente sensível nessas funções cuja situação intermediária e ambígua pode ser por si mesma a fonte de conflitos internos permanentes.”

Paris encerra, dispõe, consume ou consome a maior parte dos brilhantes infelizes cujos destinos foram chamados de profissões delirantes . . . Nomeio assim todos esses ofícios cujo principal instrumento é a opinião que se tem de si mesmo, e cuja matéria primeira é a opinião que os outros têm a seu respeito. As pessoas que os exercem, votadas a uma eterna candidatura, são necessariamente sempre afligidas por um certo delírio de grandeza que é atravessado e atormentado sem trégua por um certo delírio de perseguição. Neste povo de únicos reina a lei de fazer o que nunca ninguém fez, nem nunca fará. (…) Vivem apenas para obter e tomar duradoura a ilusão de serem sós, pois a superioridade não é senão uma solidão situada nos limites atuais de uma espécie. Cada um deles funda sua existência na inexistência dos outros, mas dos quais é preciso arrancar seu consentimento, o de que eles não existem. Eu me divirto, às vezes, com uma imagem física de nossos corações, que são feitos intimamente de uma enorme injustiça e de uma pequena justiça combinadas. Imagino que haja em cada um de nós um átomo importante entre nossos átomos, e constituído por dois grãos de energia que mais queriam é se separar. São energias contraditórias mas indivisíveis. A natureza as juntou para sempre, embora sejam furiosamente inimigas. Uma é o eterno movimento de um grande elétron posttivo, e este movimento inesgotável engendra uma seqüência de sons graves na qual o ouvido interior distingue sem nenhuma dificuldade uma profunda frase monótona: Há apenas eu. Há apenas eu. Há apenas eu, eu, eu . . . Quanto ao pequeno elétron radicalmente negativo, ele grita no ápice do agudo, fura e volta a furar de maneira mais cruel, o tema egotista do outro: Sim, mas há alguém… Sim, mas há alguém… Alguém, alguém, alguém... E outro alguém . . . Pois o nome muda com bastante freqüência . . .” Paul Valéry

O ENGAJAMENTO EM PEQUENAS ASSOCIAÇÕES DE INDIVÍDUOS COM FINS COMUNS COMO TERAPIA: “Sabe-se, por outro lado, que as tendências homossexuais recalcadas encontram nestas expansões sociais uma satisfação tanto mais perfeita quanto ao mesmo tempo é mais sublimada e mais garantida contra qualquer revelação consciente.” Realmente é assim: de células bolsonaristas a rodas literárias.

A técnica psicanalítica conveniente para estes casos ainda não está, segundo o testemunho dos mestres, madura. Aí está o problema mais atual da psicanálise e é preciso esperar que ele encontre sua solução. Pois uma estagnação dos resultados técnicos no seu alcance atual acarretaria logo o deperecimento da doutrina.”

urge corrigir as tendências narcísicas do sujeito por uma transferência tão prolongada quanto possível. Por outro lado, a transferência para o analista, despertando a pulsão homossexual, tende a produzir nesses sujeitos um recalcamento no qual a própria doutrina nos mostra o mecanismo maior do desencadeamento da psicose. (…) O mínimo que pode acontecer é o abandono rápido do tratamento pelo paciente. Mas, em nossos casos, a reação agressiva se dirige com muita freqüência contra o próprio psicanalista [e pra quem mais seria?], e pode persistir por muito tempo ainda, mesmo após a redução de sintomas importantes, e para o espanto do próprio doente. Por isso inúmeros analistas propõem, como condição primeira, a cura destes casos em clínica fechada. Notemos, entretanto, como uma outra antinomia do problema da psicanálise das psicoses, que a ação deste tratamento implica até aqui a boa vontade dos doentes como condição primeira.

PURO NADA TEÓRICO: “Por isso o problema terapêutico das psicoses nos parece tornar mais necessária uma psicanálise do eu do que uma psicanálise do inconsciente; quer dizer, é num melhor estudo das resistências do sujeito e numa experiência nova de sua <manobra> que ele deverá encontrar suas soluções técnicas.”

c.2) Métodos e Hipóteses de Pesquisa sugeridos por Nosso Estudo

Todo o delírio de Aimée, já o mostramos, pode, ao contrário, ser compreendido como uma transposição cada vez mais centrífuga de um ódio cujo objeto direto ela quer desconhecer. Curada, ela denega formalmente toda culpa que seria atribuída a esta irmã, apesar da atitude plenamente desumana que esta manifesta, então, para com ela.” Eu tenho uma tendência completamente centrípeta: a despeito de mim mesmo, só o que quero é me lembrar.

Parece-nos mesmo que ao conflito agudo e manifesto entre os pais correspondiam os raros casos de delírio paranóico precoce que vimos, a saber, em dois meninos de 14 e 16 anos: delírio nitidamente agressivo e reivindicador no mais jovem, delírio de interpretação típico no mais velho.”

Os pesquisadores italianos modernos, como já mencionamos anteriormente (cap. I, 1ª parte), esperam obter a chave das estruturas mentais da paranóia a partir de uma aproximação com as formas, definidas pelos sociólogos, do pensamento primitivo, chamado ainda de pensamento pré-lógico. Foram levados a esse caminho pelo espírito que sobrevive das teorias lombrosianas, e encontram o melhor apoio nos trabalhos da escola sociológica francesa contemporânea.”

esse caráter de necessidade pessoal que reveste para ela a obra literária, tudo isto se deve menos à psicose que aos traços precedentes? Certamente não, pois ela só conseguiu levar a cabo o que escreveu de melhor, e de mais importante, no momento mais agudo de sua psicose e sob a influência direta das idéias delirantes. A queda da psicose parece ter acarretado a esterilidade de sua pena. Não se pode dizer, ao contrário, que só uma instrução suficiente tanto dos meios de informação quanto de crítica, numa palavra, a ajuda social, faltou-lhe para que tenha realizado obra válida? Isto nos parece patente em inúmeras linhas de seus escritos. Todo aquele que nos lê evocará aqui, sem dúvida, o exemplo de um paranóico de gênio, de Jean-Jacques Rousseau. Consideremo-lo, pois, um instante, em função de nossa doente.” “Por outro lado, só um estudo histórico muito minucioso da atividade social e da atividade criadora do escritor poderia nos permitir julgar aquilo que seus próprios meios de expressão devem de positivo a sua anomalia mental: a saber, não só sua sensibilidade estética e seu estilo, mas seu poder de trabalho, suas faculdades de arrebatamento, sua memória especial, sua excitabilidade, sua resistência à fadiga, em suma, os diversos meios de seu talento e de seu ofício.”

MISTER INDIRETAS: “Nossa análise, manifestando a inanidade de toda gênese <racional> desses fenômenos,¹ retira todo valor dos argumentos puramente fenomenológicos sobre os quais certas doutrinas se fundam para opor radicalmente a interpretação, por um lado, e, por outro, os fenômenos <impostos>, xenopáticos, que chamamos ainda de <alucinatórios> por uma extensão admitida, embora discutível, do termo alucinação.”

¹ Nisso está plenamente certo.

Pode-se dizer que, ao contrário dos sonhos, que devem ser interpretados, o delírio é por si mesmo uma atividade interpretativa do inconsciente [e quem interpreta o delírio?]. Estamos diante de um sentido inteiramente novo que se oferece ao termo delírio de interpretação.”

Nada mais difícil de apreender que o encadeamento temporal, espacial e causal das intuições iniciais, dos fatos originais, da lógica das deduções, no delírio paranóico, seja ele o mais puro.”

O parentesco, por outro lado, das concepções que citamos com as produções míticas do folclore é evidente: mitos de eterno retorno, sósias e duplos dos heróis, mito da Fênix, etc.”

Notemos o seu parentesco mais inesperado com certos princípios gerais da ciência, a saber, os princípios de constância energética, ao menos na medida em que não os completam os princípios correlativos de queda e de degradação da energia. Este paralelo não surpreenderá aqueles para quem o belo livro de Meyerson (Cheminement de la pensée) houver mostrado a identidade formal dos mecanismos profundos de todo pensamento humano. Ele tornará claro, por outro lado, o fato, indicado por Ferenczi, da predileção manifesta em inúmeros paranóicos e parafrênicos (e também dementes precoces) pela metafísica e pelas doutrinas científicas que dela se aproximam.”

A última palavra da ciência é prever, e se o determinismo, o que acreditamos, se aplica em psicologia, deve nos permitir resolver o problema prático que a cada dia é colocado ao perito a propósito dos paranóicos, a saber, em que medida um sujeito dado é perigoso e, especialmente, é capaz de realizar suas pulsões homicidas.” “Os casos não são raros, na prática da perícia psiquiátrica, em que o assassinato constitui por si só todo o quadro semiológico da anomalia psíquica presumida.”

Um sujeito de que se pode dizer que levou uma vida exemplar pelo controle de si, pela doçura manifesta do caráter, pelo rendimento laborioso e pelo exercício de todas as virtudes familiares e sociais de repente mata: mata duas vezes e dois de seus mais próximos, com uma lucidez que revela a execução meticulosa dos crimes. Pensa em matar ainda e se matar em seguida, mas de repente se detém, como saciado. Ele vê o absurdo de seus crimes. Uma motivação, no entanto, o manteve até então: a de sua inferioridade, de seu destino votado ao fracasso. Motivação ilusória, pois nada em sua situação ia pior do que lhe era costumeiro, nem do que é comum a todos. Por um momento, no entanto, epifenômeno da impulsão-suicídio, o futuro se lhe afigurou fechado. Não quis abandonar os seus a suas ameaças, e começou o massacre. O primeiro crime, impulsivo, como acontece mais freqüentemente, mas preparado por uma longa obsessão; depois, no segundo crime, execução calculada, minuciosa, refinada. O exame psiquiátrico e biológico dos peritos, a observação prolongada durante vários meses em nosso serviço, só apresentaram depois do drama resultados totalmente negativos.” “Sua conduta sem faltas, a doçura quase humilhada de todo seu comportamento, em particular conjugal, assumem, só depois, um valor sintomático.”

o perigo maior, mais imediato, mais dirigido também, que os querelantes apresentam, depende do fato de que neles o impulso homicida recebe o concurso energético da consciência moral, do supereu, que aprova e justifica o impulso. Sem dúvida, a forma sem máscara sob a qual a obsessão criminosa aparece aqui na consciência e a hiperestenia hipomaníaca concomitante se devem a esta situação afetiva, que se apresenta como o inverso do complexo de autopunição. Ao contrário, nas psicoses autopunitivas, que, como já mostramos, se traduzem clinicamente por um delírio de interpretação, as energias autopunitivas do supereu se dirigem contra as pulsões agressivas provenientes do inconsciente do sujeito, e retardam, atenuam e desviam sua execução.”

Longe de se lastimar, como, com efeito, faz o querelante, por um prejuízo preciso, realizado, que é preciso fazer com que seu autor pague, o interpretativo crê sofrer por parte de seus perseguidores danos cujo caráter ineficaz, sempre futuro, puramente demonstrativo, é surpreendente para o observador, se ele escapar, aliás, à crítica do sujeito. Na maioria das vezes, é somente após um período não apenas dubitativo, mas longânime, que os sujeitos chegam a reagir. Mesmo esta reação, como aparece em nossa doente, terá primeiro um caráter por si mesmo demonstrativo, um valor de advertência, que deve freqüentemente permitir prevenir outros mais graves: o que, como já vimos, seguramente teria podido ser feito em nossa doente. Vê-se, enfim, que na medida mesma em que a reação assassina vai atingir um objeto que só suporta a carga de um ódio diversas vezes transferido, a própria execução, ainda que preparada, é com bastante freqüência ineficaz por falta de estenia.”

Inúmeros desses casos vêm à nossa memória: um desses sujeitos, de origem estrangeira, após dez anos de perseguição delirante, suportada sem reação grave, vai ter na casa de um banqueiro de sua nacionalidade, que ele implicou, sem conhecê-lo, na conspiração de seus inimigos, e o abate com cinco tiros de revólver. Notemos que, nesses casos, se o alívio afetivo se produz após o assassinato, a convicção delirante persiste.”

III. EXPOSIÇÃO CRÍTICA, REDUZIDA EM FORMA DE APÊNDICE, DO MÉTODO DE UMA CIÊNCIA DA PERSONALIDADE E DE SEU ALCANCE NO ESTUDO DAS PSICOSES

É o postulado que cria a ciência, e a doutrina, o fato.”

É de uma confusão bastarda desses dois primeiros pontos de vista [intuitivo-lingüístico x metafísico-fenomenológico], um e outro excluídos pelas próprias condições da ciência, que nasceu a doutrina das constituições psicopatológicas. Essa doutrina estava, portanto, destinada a se esgotar, no plano dos fatos, nesse verbalismo puro nas especulações escolásticas mais vazias de substância.

O ponto de vista do social no fenômeno da personalidade nos oferece, ao contrário, uma dupla tomada científica: nas estruturas mentais de compreensão que engendra de fato, ele oferece uma armadura conceitual comunicável; nas interações fenomenais que ele apresenta, ele oferece fatos que têm todas as propriedades do quantificável, pois são moventes, mensuráveis, extensivos.

(…)

Mas, inversamente, pela via dessas relações de compreensão, é o próprio individual e o estrutural [intuitivo e metafísico] que visamos a atingir, tão longe quanto possa ser cingido o concreto absoluto.”

fazemos uma hipótese: se rejeitamos aquelas das doutrinas clássicas, não deixamos nunca nós mesmos de pretender forjar uma. Essa hipótese, é que existe um determinismo que é específico da ordem definida nos fenômenos pelas relações de compreensibilidade humana. Esse determinismo, nós o chamamos de psicogênico. Essa hipótese merece o título de postulado; indemonstrável com efeito e pedindo um assentimento arbitrário, ela é em todos os pontos homóloga aos postulados que fundam legitimamente qualquer ciência e definem para cada uma, ao mesmo tempo, seu objeto, seu método e sua autonomia.”

Pode-se dizer que esta ciência é o complemento filosófico da ciência positiva, complemento tanto mais útil que, ao ignorar seu domínio, corre-se o risco de introduzir nessas matérias delicadas graves confusões metódicas.”

a idéia que funda a caracterologia de Klages, e que ele exprime como a manifestação na ordem humana de um conflito entre o Espírito e a Vida. Consideramos que tal ponto de vista não tinha lugar em um trabalho que se apresenta como inaugural de um método rigoroso em uma ciência puramente positiva. Notemos, no entanto, que ele não deixa de trazer clarezas profundas sobre o caso fundamental do nosso estudo.”

Ao leitor curioso por se iniciar nos problemas próprios da fenomenologia da personalidade, indiquemos, além dos trabalhos de uma exposição muito rigorosa de Klages, um livro que, por ser de uma composição um pouco confusa, permanece bastante sugestivo: o de Max Scheler, Nature et Formes de la Sympathie (trad. fran. de Lefebvre, Payot); particularmente as pp. 311-84, em que é estudado o problema, tão fundamental para toda a psiquiatria e psicologia empírica, dos fundamentos fenomenológicos do eu de outrem.”

Na tripla preeminência desses dados até aqui desconhecidos na psicose, a saber das anomalias do comportamento sexual, do papel eletivo de certos conflitos e de seu elo com a história infantil, não podemos deixar de reconhecer as descobertas da psicanálise sobre o papel primordial, em psicopatologia, da sexualidade e da história infantis.”

O único dado da técnica psicanalítica que tivemos em conta foi o valor significativo que atribuímos às resistências da personalidade do sujeito, ou seja, particularmente a seus desconhecimentos e denegações sistemáticos. Mas trata-se aí de uma reação psicológica cujo alcance, por ter sido brilhantemente utilizado pela psicanálise, nem por isso deixa de ter sido reconhecido bem anteriormente ao aparecimento desta ciência. Que nos seja suficiente, sem remontar mais acima, evocar a ênfase dada a essa reação pelos ensaístas e moralistas da tradição francesa, de La Rochefoucauld a Nietzsche.

dado o pouco de realidade apreendido até aqui pela nascente ciência da personalidade, estes postulados parecem oferecer apenas um pequeno ponto de apoio ao pensamento, sobretudo para os espíritos que se formaram somente nas representações da clínica, e cuja reflexão, por esse fato mesmo, não pode prescindir de imagens intuitivas.” Hoje mesmo li um parágrafo praticamente idêntico em Jung!

Lacan diz de forma um pouco mais polida: A Psicanálise permite-nos concluir que nossa paciente psicótica é lésbica, sádico-anal e incestuosa.

Filha de neurose, psicosinha é.

A própria noção de fixação narcísica, sobre a qual a psicanálise funda sua [a-]doutrina das psicoses, permanece muito insuficiente, como manifesta bem a confusão dos debates permanentes sobre a distinção do narcisismo e do auto-erotismo primordial – sobre a natureza da libido que concerne o eu (o eu sendo definido por sua oposição ao isso a libido narcísica provém do eu ou do isso?); sobre a natureza do próprio eu

¹ O problema capital da Psicanálise: eu e isso não podem ser opostos quando, de uma perspectiva nietzscheana, p.ex., muito mais lúcida e inclusive didática, eu e isso não passam de partições arbitrárias do próprio inconsciente. E mesmo no sistema formal estilizado do freudismo clássico a eterna necessidade de montar uma tópica tripartite nunca casa com necessidades terapêuticas de pacientes para-neuróticos (ou com a explicação da própria alma humana): como explicar que a instância da censura (supereu) não seja, ela sim, a que se opõe diametralmente ao isso, o inconsciente mais arcaico e profundo? Além disso, se não se considera o eu como contido no inconsciente, o problema só piora: ele está parte dentro, parte fora? Como é isso? Se queriam uma unidade mediadora, não deviam criar uma instância ex nihilo só para isso, sob pena de ter de lidar com “estrelas-do-mar que crescem dos braços amputados de uma primeira estrela-do-mar que se tentou matar”! E como se chama ou se dá a mediação isso-eu, e a eu-supereu? Existe mediação isso-supereu (sim, claro que existe, mas um freudiano ata suas mãos com seus a priori incautos – era para ser esse fraturado eu que acaba tendo uma identificação meramente negativa!)? O freudiano diria: isso e eu são polares, e mesmo com uma instância ‘no meio’, se relacionam – porém, objeta-se com bom senso: como o eu mais espontâneo estaria na periferia a consciência e o órgão de controle superegóico (a sociedade, os pais) por detrás, quando é visivelmente o inverso?!? Em suma, quanto mais se chafurda no “pseudo-empiricismo freudista”, mais a questão fica confusa e abstrata, senão insultante! Se não se deseja abrir mão de “um eu parte consciente, parte inconsciente”, melhor seria, para início de conversa, voltar a Nietzsche. Há um consciente e inconsciente, basta. Consciente e inconsciente são sistemas interrelacionados umbilicalmente. Basta. Ou, para ser ainda mais direto: só o que existe é o Inconsciente, sendo o consciente a ponta de fenômeno visível do iceberg humano. O resto não passa de especulação de vigaristas aproveitadores.

Narcisismo e punheta são sinônimos em diferentes níveis lingüísticos.

Deus sofre de despersonalização aguda grave.

Sabe-se, com efeito, que as primeiras bases desta concepção [revisionista do narcisismo – um primeiro cisma com Freud antes da segunda tópica de Freud?] são lançadas em um estudo de Abraham sobre a demência precoce, datado de 1908 [Die psychosexuellen Differenzen der Hysterie und der Dementia praecox].” Uma cratera lunar perto do sistema solar da loucura… Cem aninhos somente…

Digamos, no entanto, que a nosso ver a oposição freudiana do eu e do isso parece sofrer de uma dessas confusões, cujo perigo sublinhamos antes, entre as definições positivas e as definições gnoseológicas que se podem dar dos fenômenos da personalidade. Em outras palavras, a concepção freudiana do eu nos parece pecar por uma distinção insuficiente entre as tendências concretas, que manifestam esse eu e apenas como tais dependem de uma gênese concreta, e a definição abstrata do eu como sujeito do conhecimento.” “esse princípio de realidade só se distingue do princípio do prazer num plano gnoseológico e, assim sendo, é ilegítimo fazê-lo intervir na gênese do eu, uma vez que ele implica o próprio eu enquanto sujeito do conhecimento.”

Esse supereu, Freud o concebe como a reincorporação (termo aqui justificado, apesar de sua estranheza aparente no estudo de fenômenos psíquicos), como a reincorporação ao eu, de uma parte do mundo exterior. Essa reincorporação incide sobre os objetos cujo valor pessoal, do ponto de vista genético social em que nós mesmos definimos este termo, é maior: com efeito, ela incide nesses objetos que resumem em si mesmos todas as coerções que a sociedade exerce sobre o sujeito, sejam os pais ou seus substitutos. Como explicar essa reintegração? Por um fim puramente econômico, isto é, inteiramente submetido ao princípio do prazer.

Podemos observar que o sujeito é aliviado da tirania dos objetos externos na medida dessa introjeção narcísica, mas na medida também em que, em razão dessa introjeção mesma, ele reproduz esses objetos e lhes obedece.

Em que medida todas as funções intencionais do eu e mesmo as primeiras definições objetivas se engendram de maneira análoga, é o que só podemos esperar saber mediante as vias de pesquisas futuras, dentre as quais o estudo das psicoses ditas discordantes parece nos oferecer esperanças maiores.”

a questão que se coloca é a de saber se todo conhecimento não é de início conhecimento de uma pessoa antes de ser conhecimento de um objeto, e se a própria noção de objeto não é, para a humanidade, uma aquisição secundária.”

vemos que se nos impõem, no estudo genético e estrutural dessas tendências concretas, noções de equivalência energética que só podem ser fecundas. Essas noções, aliás, introduzem-se por elas próprias em toda pesquisa psicológica, uma vez que esta última vise aos fenômenos concretos.”

Sem esse recurso ao conceito energético, por exemplo, a concepção kretschmeriana dos caracteres permanece ininteligível.”

As pesquisas epistemológicas mais recentes demonstraram abundantemente que é impossível pensar cientificamente, e mesmo pensar simplesmente, sem implicar de algum modo os dois princípios fundamentais de uma certa constância assim como de uma certa degradação de uma entidade, a qual desempenha um papel substancial em relação ao fenômeno. A essa entidade, a noção de energia fornece sua expressão mais neutra e mais comumente empregada. De nossa parte, ressaltemos aí, de passagem, a aura que ela parece conservar da gênese, que é preciso lhe atribuir, como a tantas outras formas de estruturas conceituais, de uma intencionalidade primitivamente social.”

Nenhum estudo da psicose passional, na literatura francesa, parece-nos demonstrar maior penetração clínica e justeza na indicação das sanções sociais do que a bela monografia de Marie Bonaparte sobre o caso, que apaixonou a opinião pública, da sogra assassina, Sra. Lefebvre.”

Somente o exame da continuidade genética e estrutural da personalidade nos elucidará, com efeito, em que casos de delírio se trata de um processo psíquico e não de um desenvolvimento, isto é, em que casos se deve reconhecer a manifestação intencional de uma pulsão que não é de origem infantil, mas de aquisição recente e exógena, e de tal ordem que, de fato, certas afecções, como a encefalite letárgica, fazem-nos conceber sua existência, ao nos demonstrar seu fenômeno primitivo.”

Este <paralelismo> [automatismo mental], que supõe que toda representação é produzida por uma reação neurônica qualquer, arruína radicalmente toda e qualquer objetividade. Basta ler o livro de Taine sobre A inteligência, que dá a essa doutrina sua mais coerente exposição, para se convencer de que ela não permite de modo algum conceber em que diferem, por exemplo, a percepção e a alucinação. Aliás, Taine induz logicamente uma definição da percepção como <alucinação verdadeira>, que é a definição mesma do milagre perpétuo. Ao menos Taine concebia as conseqüências de sua doutrina. Mas seus epígonos, nossos contemporâneos, não se sentem mais embaraçados com elas. Eles as ignoram tranqüilamente. Desconhecendo o alcance heurístico dos preceitos de seus antecessores, eles os transformam nos propósitos sem conteúdo de uma rotina intelectual, e acreditam suprir, na observação dos fenômenos, os princípios de objetividade mediante afirmações gratuitas sobre sua materialidade.”

Vê-se aqui nosso acordo com a crítica definitiva das localizações cerebrais feita por Bergson em Matière et Mémoire. O conhecimento aprofundado dessa obra deveria ser, ousamos dizer, exigido de todos aqueles a que se confira o direito de falar de psicopatologia.”

Vê-se que, em nossa concepção, aqui concordante com Aristóteles, o meio humano, no sentido que lhe dá Uexküll, seria por excelência o melo social humano. Inútil ressaltar o quanto essa concepção se opõe às doutrinas, aliás arruinadas, da antropologia individualista do século XVIII, e particularmente a uma concepção como a do Contrato social de Rousseau, cujo caráter profundamente errôneo, de resto, assinala diretamente a estrutura mental paranóica própria de seu autor.”

se define o delírio como a expressão, sob as formas da linguagem forjadas pelas relações compreensíveis de um grupo, de tendências concretas cujo insuficiente conformismo às necessidades do grupo é desconhecido pelo sujeito. Esta última definição do delírio permite conceber, de um lado, as afinidades observadas pelos psicólogos entre as formas do pensamento delirante, e as formas primitivas do pensamento; de outro, a diferença radical que as separa pelo único fato de que umas estão em harmonia com as concepções do grupo e as outras não.”

Estejamos certos de que aqueles que não julgam esses esclarecimentos necessários, que são, convenhamos, de ordem metafísica, fazem eles próprios, sem que disso suspeitem, uma metafísica, mas da ruim, atribuindo constantemente a este fenômeno mental, definido só por sua estrutura conceitual – como a paixão, a interpretação, a fantasia imaginativa, o sentimento de xenopatia –, o alcance de um sintoma objetivo sempre equivalente a si mesmo.”

CONCLUSÕES

Uma medida válida dessas tendências só pode ser dada por um estudo experimental do sujeito, do qual, até o presente momento, somente a psicanálise nos oferece a técnica aproximada. Para essa avaliação, a interpretação simbólica do material das imagens vale menos a nossos olhos do que as resistências pelas quais se mede o tratamento. Em outros termos, no estado atual da técnica, e supondo-a perfeitamente conduzida, os fracassos do tratamento possuem, para a disposição à psicose, um valor diagnóstico igual e superior às suas revelações intencionais. Somente o estudo dessas resistências e desses fracassos poderá fornecer as bases da nova técnica psicanalitica, da qual esperamos, no que diz respeito à psicose, uma psicoterapia dirigida.”

PRIMEIROS ESCRITOS SOBRE A PARANÓIA

O PROBLEMA DO ESTILO E A CONCEPÇÃO PSIQUIÁTRICA DAS FORMAS PARANÓICAS DA EXPERIÊNCIA

Entre todos os problemas da criação artística, o que mais imperiosamente requer – e até para o próprio artista, acreditamos – uma solução teórica, é o do estilo.” “Segundo a natureza desta idéia, o artista, com efeito, conceberá o estilo como o fruto de uma escolha racional, de uma escolha ética, de uma escolha arbitrária, ou então ainda de uma necessidade sentida cuja espontaneidade se impõe contra qualquer controle, ou mesmo que é conveniente liberá-la por uma ascese negativa.”

esses postulados estão suficientemente integrados à linguagem corrente para que o médico que, dentre todos os tipos de intelectuais, é o mais constantemente marcado por um leve retardamento dialético, não houvesse acreditado ingenuamente que pudesse reencontrá-los nos próprios fatos. Além disso, não se deve desconhecer que o interesse pelos doentes mentais nasceu historicamente de necessidades de origem jurídica.”A partir daí, a questão maior que se colocou à ciência dos psiquiatras foi aquela, artificial, de um tudo-ou-nada da degradação mental (art. 64 do Código Penal).” “É o triunfo do gênio intuitivo próprio à observação, que um Kraepelin, ainda que engajado completamente nesses preconceitos teóricos, tenha podido classificar, com um rigor ao qual quase nada se acrescentou, as espécies clínicas cujo enigma devia, através de aproximações freqüentemente bastardas (de que o público retém apenas as senhas: esquirofrenia, etc.), engendrar o relativismo noumenal inigualado pelos pontos de vista ditos fenomenológicos da psiquiatria contemporânea. Essas espécies clínicas nada mais são que as psicoses propriamente ditas (as verdadeiras <loucuras> do vulgo).”

o delírio se revela, com efeito, muito fecundo em fantasias de repetição cíclica, de multiplicação ubiquista, de retornos periódicos sem fim dos mesmos acontecimentos, em pares e triplas dos mesmos personagens, às vezes como alucinações de desdobramento da pessoa do sujeito. Essas intuições são manifestamente próximas de processos muito constantes da criação poética e parecem uma das condições da tipificação, criadora do estilo.”

Os delírios, com efeito, não têm necessidade de nenhuma interpretação para exprimir, só por seus temas, e à maravilha, esses complexos instintivos e sociais que a psicanálise teve grande dificuldade em descobrir entre os neuróticos.”

pode-se afirmar que Rousseau, para quem o diagnóstico de paranóia típica pode ser aplicado com a maior certeza, deve a sua experiência propriamente mórbida a fascinação que exerceu em seu século por sua pessoa e por seu estilo.”

o gesto criminoso dos paranóicos comove às vezes tão longe a simpatia trágica, que o século, para se defender, não sabe mais se ele deve despojá-lo de seu valor humano ou então oprimir o culpado sob sua responsabilidade.”

MOTIVOS DO CRIME PARANÓICO: O CRIME DAS IRMÃS PAPIN

o drama se desencadeia muito rapidamente, e sobre a forma do ataque é difícil admitir uma outra versão que a que deram as irmãs, a saber, que ele foi súbito, simultâneo, levado de saída ao paroxismo do furor: cada uma delas subjuga uma adversária, arranca-lhe, em vida, os olhos da órbita – fato inédito, dizem, nos anais do crime – e a espanca. Depois, com a ajuda do que encontram a seu alcance, martelo, pichel de estanho, faca de cozinha, elas se encarniçam no corpo de suas vítimas, esmagam-lhes as faces, e, deixando à mostra o sexo delas cortam profundamente as coxas e as nádegas de uma para ensagüentar as da outra. Lavam, em seguida, os instrumentos desses ritos atrozes, purificam-se a si mesmas, e deitam-se na mesma cama: <Agora está tudo limpo!>”

No decorrer de uma outra crise, ela tenta arrancar os olhos, por certo que em vão, porém com algumas lesões. A agitação furiosa necessita desta vez a aplicação de camisa-de-força; ela se entrega a exibições eróticas, depois aparecem sintomas de melancolia: depressão, recusa de alimentos, auto-acusação, atos expiatórios de um caráter repugnante; depois disso, várias vezes, ela diz frases de significação delirante. Lembremos que a declaração de Christine de ter simulado tais estados não pode de modo algum ser tida como a chave real de sua natureza: o sentimento de jogo é nesse caso freqüentemente sentido pelo sujeito, sem que seu comportamento seja por isso menos tipicamente mórbido.

A 30 de setembro, as irmãs são condenadas pelo júri. Christine, entendendo que sua cabeça será cortada na praça de Mans, recebe esta notícia de joelhos.

Contudo, as características do crime, os problemas de Christine na prisão, a estranheza da vida das irmãs, haviam convencido a maioria dos psiquiatras da irresponsabilidade das assassinas.”

Christine pergunta como estão passando suas duas vítimas e declara que acredita que elas voltaram num outro corpo”

É provável mesmo que elas sairiam dos quadros genéricos da paranóia para entrar no das parafrenias, isolado pelo gênio de Kraepelin como formas imediatamente contíguas.”

Ouviu-se, no decorrer dos debates, a surpreendente afirmação de que era impossível que dois seres fossem tomados juntos pela mesma loucura, ou antes a revelassem simultaneamente. É uma afirmação completamente falsa. Os delírios a dois estão dentre as formas das psicoses reconhecidas desde há muito. As observações mostram que eles se produzem eletivamente entre parentes próximos, pai e filho, mãe e filha, irmãos e irmãs.” “Nossa experiência precisa destes doentes nos fez hesitar, contudo, diante da afirmação, sobre a qual muitos passam por cima, da realidade de relações sexuais entre as irmãs. Por isso é que somos gratos ao doutor Logre pela sutileza do termo <casal psicológico>, em que se percebe sua reserva quanto a este problema. Os próprios psicanalistas, quando fazem derivar a paranóia da homossexualidade, qualificam esta homossexualidade de inconsciente, de <larvar>. Essa tendência homossexual só se exprimiria por uma negação apaixonada de si mesma, que fundaria a convicção de ser perseguido e designaria o ser amado no perseguidor. Mas o que é esta tendência singular que, tão próxima assim de sua revelação mais evidente, ficaria sempre dela separada por um obstáculo singularmente transparente?”

O <mal de ser dois> de que sofrem esses doentes pouco os libera do mal de Narciso.”

parece que entre elas as irmãs não podiam nem mesmo tomar a distância que é preciso para se matar. Verdadeiras almas siamesas, elas formam um mundo para sempre fechado; lendo seus depoimentos depois do crime, diz o doutor Logre, <tem-se a impressão de estar lendo duplo>. Com os únicos meios de sua ilhota, elas devem resolver seu enigma, o enigma humano do sexo.”

Que longo caminho de tortura ela teve de percorrer antes que a experiência desesperada do crime a dilacerasse de seu outro si-mesmo, e que ela pudesse, depois de sua primeira crise de delírio alucinatório, em que ela acredita ver sua irmã morta, morta sem dúvida por esse golpe, gritar, diante do juiz que as confronta, as palavras da paixão manifesta: <Sim, digo sim.>”

A curiosidade sacrílega que constitui a angústia do homem desde as priscas eras, é ela que as anima quando desejam suas vítimas, quando elas acossam em suas feridas hiantes [escancaradas] o que Christine mais tarde, perante o juiz, devia chamar, em sua inocência, <o mistério da vida>.”

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

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Aravantinos, Esculape et les Asclépiades, 1907. [Livro sobre as observações psiquiátricas da Antiguidade]

Chaslin, La Confusion mentale primitive

Delmas, La Personnalité humaine

Exposito, Sulle natura e Sull’unità delle cosidette psicosi affective (artigo)

Ey, La notion de constitution, Essai critique (artigo)

Génil-Perrin, Les Paranoïaques

Heuyer, Le devinement de la pensée, 1926. (artigo)

Janet, Obsessions et psychasthénie

Jaspers, Psicopatologia Geral (favoritos – passeidireto)

Jung, Der Inhalt der Psychosen

Keraval, Des délires plus ou moins cohérents désignés sous le nom de paranoïa (artigo)

Lasègue, “Délire des persécutions”, in Études médicales, t. I.

Legrand du Saulle, Délire de persécution (sobre a coincidência do mesmo distúrbio em pares familiares)

Pode-se ler aí, entre outros fatos, que o ancestral da linhagem, paranóico hipocondríaco, aterrorizava seus filhos com ameaças de morte – que fazia uso de sua filha, a mais inteligente das crianças e sua preferida, para escrever enquanto ditava suas memórias –, que, enfim, irritando-se com suas próprias dificuldades de estilo (sintoma paranóico), <mandava sua filha embora brutalmente ou a retinha para fazê-la dependurar-se numa porta até que caísse em síncope>. Não é de espantar então que após uma educação como esta, a menina, de todas as crianças, viesse [a] apresentar, por volta dos 50 anos, <um delírio de perseguição dos mais intensos com insuperáveis tendências ao suicidio>.”

Meyer, “What do histories of cases of insanity teach us concerning preventive mental hygiene during the years of school life”, in Psychological Clinic, 1908, t. II.

Régis, Les Régicides, 1890.

Russell, Analyse de l’esprit

Séglas, La Paranoïa, historique et critique

Sérieux & Capgras, Les folies raisonnantes [As loucuras racionais][*], 1906.

[*] SOBRE A OPÇÃO DE TRADUÇÃO DO TÍTULO: “Consultar a tradução brasileira de Paulo César Geraldes & Sonia Ioannides (sob supervisão de Ulysses Vianna Filho) do Manual de Psiquiatria, de Henri Ey, Ed. Masson, Rio, 1981.

Tanzi & Lugaro, Trattato delle malattie mentali, t. II.

Tarde, Philosophie pénale, 1890.

White & Jelliffe, The philosophy of occupation therapy, in Arch. of occupational therapy, z.

THE AUTOBIOGRAPHY OF FBI SPECIAL AGENT DALE COOPER (My Life, My Tapes), As heard by Scott Frost

O tanoeiro do vale. O estrabismo entre dois picos. Invisível e na frente de nossos narizes o tempo todo…

December 25, 9 P.M.

Believe the extension cord has some severe limitations. One, I cannot travel more than 75 ft. from the house, which will limit my investigations. Two, it draws attention to itself in a way that can be dangerous. I think a battery pack of some kind is the solution, and tomorrow will visit Simms’ Hardware to find the answer. Dad said that words are tools, and that tools should be taken care of or else you won’t drive a straight nail. Dad says a lot of things I don’t understand.

This is the end of Christmas Day. My presents this year were the following: underwear, socks, corduroy pants, insect field guide, five dollars from my grandmother, and a Norelco B2000 tape recorder, which is not a toy. Signing off, this is Dale Cooper.”

According to Mr. Simms, each battery will last 3 hours. I bought 3 with the money my grandmother sent, which she thinks I am putting aside for college.”

December 27, 3 A.M.

Mom just left my room because I had an asthma attack. When I can’t breathe I sometimes just lie there and think that I’m dead and float away as she is rubbing my chest with VapoRub. I might not be able to go outside tomorrow if it’s cold because of my lungs.”

She said that she was alone on a field when thousands of birds filled the sky, blocking out all of the light. That’s when she always wakes up. Mom says we can see things in our dreams that we can’t see when we’re awake. I asked her what she thought the dream meant but she just smiled and said it was nothing . . . I’m glad I have the recorder and someone I can always talk to.

I have never seen a dead person. I think I would like to, but not right now because I want to close my eyes and not think about being dead.”

January 1, 1968, 10 A.M.

Bradley Schlurman’s Stingray was stolen by members of the 24th Street gang yesterday. Two clues point to them. One, Bradley saw them as they knocked him off his bike. Two, they said this bike now belongs to the 24th Street gang. The police have been called but so far they have come up empty. I have decided to take the case myself with the aid of my tape recorder. If I can follow them and get one of them on tape talking about the bike, I believe I will crack the case. I have not told Bradley this because he has locked himself in his room and will not come out.”

The 24th Street gang stole my tape recorder. My plan was working just as I had hoped. I followed the suspect for a block but was unable to get a confession on tape. I then attempted to fool the gangsters into believing that I would like to join the gang. It was at that point that they noticed the potatoes in my pack and began taking them. When they saw my tape recorder, they grabbed that and threw the potatoes at me as I ran for cover. For two days it was in the hands of the gang. And today was recovered by police when they arrested them for stealing a car outside the Band Box Theater. I have decided that if I am going to ever fight crime again, I must be better prepared. The recorder is undamaged. Dad has checked it and says that it is A-okay. He also said that he was very proud of me fighting against the gang, but that I should use better disguises than potatoes. I also discovered that you cannot record through a glove. There is still no sign of Bradley’s bike.”

Dear Mr. Zimbalist,

Like your show very much, also like Hawaii Five-O and The Wild, Wild West. Because I sunburn very easily, I don’t think being a policeman in Hawaii would be a very good idea for me.”

Noticed this morning that my pee smells like the asparagus we had for dinner. Wonder why this does not happen when I eat a hamburger. Also this morning Mom was very quiet around the breakfast table. I think she had another dream about the birds in the sky. This dream seems to frighten her and I do not know why.”

At exactly 7:05 P.M. today I became a member of the Boy Scouts of America and immediately began my studies for my first merit badge. I expect with hard work I can attain the level of Eagle Scout in two years, far ahead of the average time required for most Scouts.”

I had not been in a girl’s room before, and did not stay long when Marie asked if I knew about breastfeeding. I do not understand why Marie seems interested in me except that she is bigger and stronger and can probably beat me in a wrestling match so is not afraid of me.”

I read in a science book that electricity is what keeps us alive. I do not understand where it comes from and where it goes when we are dead. Dad said that was the big question, and that he did not know the answer. Neither do I.”

Have just finished reading about Sherlock Holmes in The Hound of the Baskervilles. I believe Mr. Holmes is the smartest detective who has ever lived, and would very much like to live a life like he did. It is the Friends School belief that the best thing one can do in life is to do good rather than do well. I believe that in Mr. Holmes I see a way to accomplish this.”

April 4, 8 P.M.

Martin Luther King was assassinated today in Memphis, Tennessee. He was shot in the neck while standing on the balcony of a motel. I was in the car with Dad when the news came over the radio. He said shit. The first time I have ever heard him say that word. We then drove home and watched the news on the TV with Mom. There are riots in many places. I believe that the FBI must be on the trail of the man who killed him, and that they will catch him. I wish I was older. And that I knew more than I do.”

April 19, 4 P.M.

Turned fourteen today. Mom and Dad gave me a Timex watch. submerged it in bathtub for 15 minutes and it still ticks.”

June 6, 3:30 A.M.

Dad woke me up, telling me Bobby Kennedy had been shot in Los Angeles. Dad is still downstairs sitting in front of the television, waiting to hear if Bobby is alive. On the radio they played a tape of the shooting recorded by a reporter. You can hear the pop of the gunshots, then people yelling, <Get the gun, get the gun.>

She then kissed me on the lips, moving her tongue around inside my mouth in what I think was a clockwise motion. Then her eyes filled with tears and she turned and ran down the block out of sight.”

Dear Mr. Hoover,

Have made a decision today to become an FBI agent at earliest possible date. I am presently 14 years old, and on road to becoming Eagle Scout by 15. Have never broken any laws, though if you look into my records you will discover that I was recently caught audio-taping a girls’ sex education class while hidden in a heating vent. Do not feel this should be held against me, for my intent was purely scientific, and not for personal gain. Would like very much to come and meet you and discuss any experiences you may have had with audio tapes yourself.

Yours truly,

Dale Cooper”

Had a dream in the middle of the night that frightened me a great deal. A man who I have never seen was trying to break into my room. He kept calling my name and said that he wanted me. He then screamed, and after a moment it turned into a kind of roar as if he were some kind of animal. I told Mom about it and she said that she knew about <him>, and that she has the same dream, and that I must never let the man into my room. I don’t understand what it means. My chest hurts a great deal. I think I will go to sleep now. I am very tired.”

February 28, 7 A.M.

Have noticed that with great frequency I am waking up with an erection. Understand this to be part of the dream process in all mammals. Find it interesting that there is a part of the body that I seem to have no control over, which can be embarrassing when it happens at school. I have discovered, though, that by thinking very intently about Disneyland, I can suppress an erection with some success.”

It is interesting that Marie is the only girl I have ever seen naked and I can remember almost nothing of it. Our families are going to get together and watch the landing and moon walk.”

Marie smiled. I didn’t understand it until I saw men walking on the moon, but I believe God has a plan for everyone, and we are part of it. Do you understand, Dale?

I said that I thought I did.

Are you sure, Dale?

I said I was.

So am I, said Marie.

She then picked up my hand in hers and hit the nail on the head. Pray with me, Dale.

There are moments in a person’s life that you dream about and hope for. This turned out not to be one of those moments. For 2 hours we lay there together holding hands. Marie’s eyes closed in prayer. Mine opened in bewilderment.”

Wonder if I’m condemned to forever be a virgin. This situation must take full priority right behind achieving Eagle status.”

I do not know why I shot the bird. At the moment I squeezed the trigger it seemed that the only two things in the world were the crow and myself. And now there is just me.”

Have traveled 6 miles on foot so far, 170 to go. Have had no experiences to speak of yet. Believe it is about to rain.”

Am at the Post and Beam restaurant on Route 487. Cannot describe the taste of warm cherry pie to a wet and weary traveler. Have also had my very first cup of coffee, and my second. My feet seem to tingle [formigar] and are very agitated. I feel like running very fast while screaming like an Indian.”

Star is outside asleep on a rock. Was going to tell April that I am a virgin and that any help in this matter would be greatly appreciated, but before I could she took off all her clothes and went outside to chase fireflies. I attempted to follow but stepped on a stick and cut my foot several steps from the tepee [tenda]. Could do nothing but watch as her naked body ran off into the field, chasing bugs. Lost sight of her as she caught her first fly. Have dressed and cleaned the foot wound. Expect full recovery. Do not know when or if April will return. Have found a bottle of raspberry [framboesa] brandy in the van and have filled my camp cup.”

DALE: Speak right into there.

ALLEN: The sun is dying. I travel all over this state and not one person realizes that the sun is dying and that time as we know it is coming to an end, everything we do is of no importance, and not one person seems to want to do a goddamn thing about it. Art, books, television, religion – none of it matters. What we need to start doing is planning to live without our bodies once the sun craps out on us. But no one wants to talk about it. I’ve got a plan, but no one wants to listen. They would rather just walk around and pretend the sun is going to come up tomorrow just like it did today. And where do you think all those people are going to be when Mr. Sun doesn’t come up? In trouble, that’s where they are going to be, but not me. Not Allen K. Boyle. I got a plan. . . .”

Mom had another dream last night. She said that he almost got in the door. Dad has been very busy printing maps of the moon. I asked him about the dreams and he said it was something I probably understood better than he did. I don’t, and am worried.”

The doctors said it was a brain aneurysm. They operated to relieve the pressure and now we are just waiting to find out what happens.

Dad said that she had gotten up about 11:30 to get a glass of water and take an aspirin. He asked her if she was feeling all right and she said, <Oh, you know.>. She didn’t say anything else, just that. <Oh, you know.> I don’t understand, and I hate hospitals.”

An aneurysm is a permanent abnormal blood-filled dilatation of a blood vessel resulting from disease of the vessel wall. It isn’t that bad.”

Dad is going to have her cremated. I never finished my civics paper. Marie came over. Started to tell me something about Mom being with God and I told her if she said one more word I’d knock her goddamn teeth out.”

I wish my brother Emmet could come, but if he crosses the border he will be arrested. Dad talked to Emmet on the phone and told him he understood why he couldn’t come back. I wish I understood. Bradley said Emmet was a coward and that was why he was in Canada. I smacked Bradley”

Mom is on her way to the ocean. Small grayish pebbles [seixos]. We each took a handful and tossed them into the water. They sank and then the current started to take them along, bouncing across the bottom. Saw a small perch eat one and then spit it out. A crayfish [lagostim] picked up another one in its claw and walked away with it into the deep water.”

Mom has been gone for over 3 months now. Don’t know what Dad would have done without the moon map business. He talks of little else but the moon now. Spends each night before going to bed on the roof with a telescope looking into the sky, drawing pictures of craters.”

Our first assignment is to write a sonnet. I told her that I have never liked or understood poetry. She said that she would do her best to change that, then she walked away.”

She then read a D. H. Lawrence poem, Gloire de Dijon, to the class, and kept her eyes on me the whole time. Unfortunately, I only remember the last few lines:

…She stoops to the sponge, and her swung breasts

Sway like full-blown yellow

Gloire de Dijon roses. … [bonita flor]

Had an erection throughout Mr. Hord’s early American history class.”

Have finished my first poem. Am seeking a balance between the erotic and the sublime.

Alone in a tepee full of breasts

hovering above him like angels

He dreams of fireflies and pyramids

and stars sleeping on rocks.”

April suggested that poetry may not be my field of expertise.”

Am beginning to believe that she is only interested in sleeping with dead poets.”

Just awoke from a dream where I was visited by Mom. She was not the same as I remember her. She seemed to be younger, barely a woman. Her face was smooth and pale, her hair was long and fell onto her shoulders. She was trying to tell me something, but I was not able to hear her.

I woke to find myself clutching a small gold ring in my hand. I do not know where it came from, and am sure it was not there when I went to sleep.”

The ring is now locked in the drawer of my desk. Mom is dead, and it was only a dream. I will not believe this.”

The ring fits on my small finger as if it was made for it. However, it will remain in the desk until I remember where it came from.”

Found an old photograph in an album of Mom when she was a teenager. On her finger was the ring I found in my hand the other night. I asked Dad about it and he said that when they were first dating he remembers Mom wearing it. That it had been her father’s and that her mother had given it to her when he died.”

Have drunk 7 cups of coffee. Feel somewhat sick to my stomach. Am trying very hard not to think about raspberry brandy.

Started to yawn one time after another. Drank 3 more cups of coffee to perk me up. Feel like my feet want to crawl out of my ears.”

Was up to 207 when April leaned out of the window and asked what I was doing. I said that I was counting cracks in the sidewalk. She asked why. I said that I was not sure, that I was not sure of anything anymore. (…) I told her that I thought there were more than 207 cracks in her sidewalk, but that was as far as I’d gotten, but if she wanted a complete count, I would be glad to finish. She said thanks, but that it was not necessary.”

I told April how Mrs. Laudner had tripped on a crack in the sidewalk in front of her house, smashing her nose flat against her cheek, and now always looks like she’s walking sideways. A few minutes later I left after Mr. Hord talked about how George Washington’s wooden teeth disappeared after his death and then mysteriously were found 30 years later under his bed by a maid looking for loose change.”

There are those within the scouting world who say that the skill of tracking has outlived its time. I disagree. The ability to follow a trail is fundamental to understanding the world.”

Marie rose up out of the grass, unhooked her bra, and slid it down off her arms. Although I do not actually remember doing it, at that time I apparently removed my clothes. We then stood inches apart, her breasts touching my chest.

Do you believe in God?, asked Mary.

I said I most certainly did. She smiled, kissed my chest, then slid her tongue all the way down to my penis and took it into her mouth.

The explosion that followed was unlike any I have ever experienced before. The rocket landed within 30 yards and exploded with a concussion that knocked me over. Then smaller clusters began exploding and streaming into the air. I believe at that point Mary stopped sucking and began screaming.”

Few forces in nature are as frightening as fire. Particularly when one is naked. The battle that followed lasted for almost an hour. What is left of my pants could hardly make a handkerchief. The hope that Marie had run off to get help was a false one. With only my clothes as weapons, the fire and I fought a running battle up and down the clearing from one hot spot to another. I lost my shirt to a small spruce, Marie’s to a blueberry bush, and most of my pants to a large clump of grass. Believe Marie’s socks and bra were also victims because I was not able to locate them after the flames were out.”

I lied last night. I do not believe in God, at least one who isn’t actively working against me.”

Received news today that Marie drowned this morning at Promised Land Lake. She apparently hit her head while diving off the swimming platform. She was alone at the time, so there was no one there to know she was in trouble. When they found her it was too late.”

What is good either dies or is killed.”

Thanks for saving my sneakers was the last thing I will ever hear her say.

Sure thing, I said back to her.”

Don’t forget your civics homework.”

Talked with Dad for much of the night. Both agreed that change is needed, or I will lose my marbles. Dad always seems to find the right words. Told him that I feel very guilty because I was not in love with Marie and that she might be alive if I had been.”

Have decided not to take along the tape recorder, it would not be practical, and I do not feel the need of its companionship, if that is what it has provided for the last several years. Will stop on the way out of town at Marie’s grave to leave a note and the small glass pyramid April gave me. Have also made some calculations. Expect that by the time I cross my first ocean, the lightest of Mom’s ashes will be drifting out to sea.”

The following letters are the only clues as to his whereabouts for those 3 years.”

(Three very brief and superficial letters.)

April 19, 1973, 9 P.M.

(…) Will make no attempt to record the events of the last 3 years, other than to say the whole universe is one bright pearl, and there is no need to understand it.”

Awnings seem to be declining in popularity. Trust and elm trees are disappearing. And J. Edgar Hoover is dead. Do not know whether any or all of these events are related.”

I must admit that my experience of the past several years does not lend itself to the belief that good can or will defeat evil. This is not a pessimistic view, but simply an observation of facts as I have experienced them.”

Have gotten a job digging holes for trees to be planted in. Could not be happier.”

The firemen were just mopping up. Jim’s room and several of the surrounding ones were gone. The firemen said the place went up like a torch. There was little they could do but stop it from spreading to the entire building. Jim’s body was not found in the room, and no one saw him leave the building. The firemen suspect that the heat was so intense from all the paper that only a forensic examination of the room will turn up any remains.

I do not believe they will find any. As I stood watching the firemen wrap up their hoses, the shadow of a man became faintly visible for an instant in an alley across the street. I then detected what I thought to be the muffled sound of a crying. I moved through the crows toward the alley and soon realized as I drew closer and closer that it was not crying at all, but laughter. When I reached the alley it was empty. I called out, searched up and down to no avail. All that was there was a freshly sharpened pencil where the laughter had come from. A message, I suspect.”

The owner of the circus pointed out that anyone who would write a letter seeking employment from a circus was probably not the kind of person they were looking for. He also said that he was plumb full of knife throwers already and was only looking for a bearded lady at the moment.”

Dad went on at some length that Lincoln would not have wanted to be remembered as a large piece of granite hanging on the side of a mountain with rain dripping off his nose.”

Dad gave me a new tape recorder that is the size of a notebook and used cassettes of tape rather than reels. He told me to work hard and not believe a damn thing anyone tells me.”

While I have experienced a number of mind-altering fungi and natural fauna used by what we refer to as primitive cultures, never have I witnessed a tribal display of debauchery that could hold a candle to a large group of 18-year-old Americans away from home for the first time.”

I retreated to the relative quiet of my room and read the writing of a monk who lived alone on a mountaintop for 37 years in search of a deeper understanding of the world. His main conclusion, when he came down, was that you can see very far on top of a mountain unless it is cloudy. Imprisoned for his radical ideas, he died several years later in jail. The only writing from this time period that survived is the line: There are no clouds in a prison.”

I was not prepared for the fact that women as a general rule are wild savages. At least those that are studying philosophy.”

Woke from a dream. I was sitting in a darkened room. There was a door with light coming through a crack. On the outside I could hear voices. One, I thought, was my mother’s. The other was indistinct. I believe it was death. She was attempting to open the door and walk back into the room. The door handle began to turn. I heard her call my name and I realized that it was not my mother but Marie. I heard her say <Please, I’m not ready>, then her voice grew fainter and fainter until it was gone. I wish Marie was at peace, but I do not think she is at this time, and I wonder what it is that she knows that those in the physical world can never understand.”

What I felt at that time I now realize was more than terror or shock. I firmly believe that the killer was within striking distance of myself, and could easily have claimed me as his second victim. This is not intuition. The presence of the killer was as real as the shaking in my hand at this moment. I do not understand the dark forces that result in so much brutality. But I now know that it is a real thing. And is out there at this very moment. I must find someone who can help me to understand and fight this. But who?”

I am back in my rooms. If it is true that dreams are the window into the subconscious, then I fear mine is a troubled place. While judgment is certainly questionable when suffering from a 103-degree fever, I nonetheless find myself believing that it was not merely infection that attacked my body, but somehow the evil that took the life of the young woman and was in striking distance of taking mine.

Does this evil exist in as tangible a form as, say, a germ? Does it float as a feather would on the currents of air that bring life to this world; moving in and out of all our lives, and occasionally taking root on unfortunate souls? If that is true, then the battle that took place within my body was not viral in origin, but a struggle for my very soul.”

I am therefore going to attempt to establish two things. First, the duration for which my body can function effectively without sleep. And second, the minimum amount of sleep required to sustain a high level of operation. Log entries will be made on the hour beginning now.”

The intake of stimulants of any kind would render the exercise useless, so I have decided to forgo coffee for the sake of scientific accuracy. No greater sacrifice has ever been made before in the name of science.”

God spelled backward is dog. Believe the test pattern used in television is similar in its ability to clear the mind to a spinning Tibetan prayer wheel. Last hour completed 50 push-ups in 60 seconds. Aside from slight heaviness in the eyelids, feel tip-top.”

[Mais de 26h acordado] Feel alert, strong, and fit. Am beginning to think that sleep is much overrated.”

I never liked the name Dale. Always wish I had been born an Apache and named Ten Sticks. Why, I do not know.”

Am beginning to think that the controlled chaos that I see around me now in the streets is much more orderly than nature unchained.”

Why is it you can never find a policeman when you need one? I must keep moving.”

Think I may reconsider my major in anthropology.”

It should be noted that the difference between a street celebration and a protest may appear small on the surface. However, when one is approaching a mounted policeman to ask for assistance, I would advise the questioner to be sure of the intentions of the group surrounding him.

As the words <I’ve been robbed> left my mouth, a column of mounted policemen charged toward me without any intention of offering assistance at all.”

As I understand it, Betty has died from her wounds. What was it that she was feeling when she said <I’m free>? Was it the same presence that I sensed when I found the murdered woman? Is there a beast? I do not know, and how does one fight it?” “This may be the greatest puzzle I have and will ever face.”

Have the distinct impression that Howard has plans to chemically alter his mind. Should also note that I believe President Nixon is conspiring in a cover-up and that the path he has taken can lead only to impeachment.”

There are two things I believe my life is beginning to point toward and focus on. The existence of good. And that of evil. These appear to be the two most important fundamental questions affecting daily life. The question, then, is how does one engage these two opposing forces? Evil is something that I seem to have had no trouble at all engaging. Good, and the form it takes, is a more elusive quest.”

The pursuit of good, when combined with raging hormones, is a powerful force indeed.”

Have never before danced naked with a large group of strangers. I, in general, would endorse it as an icebreaker to the shy and reserved of the world. I met several very nice women who wrote their phone numbers on my thigh with a Magic Marker. Though it is strange that I don’t seem to remember what any of them looked like naked. Where was it, I wonder, that I was looking? I seem to remember a breast here, a knee there, a foot, a shoulder, a neck. But none of them seem to add up to one entire body.”

A strange man stands outside of my building, looking up at my window. He appears to be painted blue. Am not sure what it is that he wants.”

For some reason, the management of the casinos has asked me not to come back to their tables ever again. They seem to be under the impression that the technique of card counting is a form of cheating and were in no mood to accept my argument that it was a simple form of mathematics.”

Woke in the middle of the night with a terrible sense of loss. Am not sure, but I wonder if it could be connected to the fact that my old bedroom at my father’s house has been turned into a pottery studio by Charlotte.”

Not even a large piece of pie and a cup of coffee down at the Lunch Pal restaurant could lift this fog. Studies seem of little use. Need a change.”

The tapes for the next 9 months were destroyed in a fire that started when an electric blanket ignited.” – 1975

Will miss very much the tape Howard and his girlfriend made of themselves making love as Nixon gave his resignation speech. It is a moment in history that I would have liked to have in my collection.”

Am attempting to discover how long an individual can function normally without urinating while consuming a normal amount of liquid. Will now drink 6 ounces of hot coffee.”

5 horas e algumas xícaras de café depois: “Seem to have reached a plateau.” Resistiu mais 5h08. “Urination lasted a full 2 minutes. Can safely say that they were the 2 most satisfying minutes I have ever spent in my short life. If it were not for the pain inflicted on oneself to reach the 10-hour mark, I would highly recommend it as a substitute for sex.”

The precise cause and nature of the fire that erupted in the garage at that exact moment is still under investigation by the fire marshal.”

It is difficult to describe the feeling that comes over an individual when he discovers that his girlfriend is an arsonist. While I admit to having had some suspicions at the time of the blaze, one is never quite prepared for meeting this kind of truth head-on. I believe it was Holmes who said that truth is often arrived at by 2 roads pointing in very different directions.” Visited Lena today. She seemed cheerful, happy, and for the most part normal. We talked for about 30 minutes about a wide variety of topics. Would have felt much better about the visit if she could have remembered who I was.” “I do not understand what it is about the choices I have made with women but they all seem to have been disasters.”

Three severed fingers were found in the biology building this morning. They appear to belong to a man, probably engaged in manual labor given the hair, calluses, and dirt under the fingernails. Was able to examine them for a number of minutes before the police arrived to handle the investigation.”

As I’m sitting here in my room, I find that a fire has been rekindled in me that was lost over the past several years. Spent over an hour with a special agent at the FBI booth. His name is Windom Earle, a man of uncommon intelligence. After talking with him I now believe I may have been looking to understand evil intellectually as a substitute for confronting it head-on.”

Am going to attempt to look up several of the members of the 24th Street gang that stole my tape recorder when I was 13 as a way of tracking their development. Have located the 1st individual working at a garage not far from their old hangout. Will visit him tomorrow.”

Feel myself totally focused. Find that sex is entering my thoughts only 3 or 4 times a day instead of the normal hourly preoccupation.”

All systems go. Report to the FBI Academy in Quantico, Virginia, the 1st of September [1977]. Will use the intervening time to go into the Poconos to prepare myself in body and spirit.”

Was right about John’s marksmanship abilities. He and the instructor almost outpointed me with the pistol in the standing combat position until I realized the weapon I was using had a defect in the way the bullet rotated in the barrel. Adjustments were made and I completed the round with 6 straight bull’s-eyes.”

There is no more focused mind than the one that has created its own reality. And for that reason, it is the insane criminal who is to be feared more than any other. There is no gray area in madness. It is an absolute form of twisted truth.”

The firing of a machine gun is a sobering experience.”

There is one woman in the class. A person of great drive, beauty, and excellent marksmanship. She, Robin, is to be my partner in a simulated raid during a hostage situation tomorrow.”

Never again can I allow my guard to be lowered because of personal weakness on my part.”

Had a turkey dinner of what I think was gravy, stuffing, mashed potatoes, and a green thing the best minds of the FBI could not identify.”

Disappointed that I was not able to bring anyone to justice on my first day. I have been assigned a secretary. Her name is Diane. Believe her experience will be of great help. She seems an interesting cross between a saint and a cabaret singer.”

Selected tapes throughout Agent Cooper’s FBI career have been subject to censoring for reasons of security.”

Diane, I hope that you will not mind that I address these tapes to you even when it is clear that I am talking to myself. The knowledge that someone of your insight is standing behind me is comforting. The Roe house is quiet now. We wait for the phone call that we know must be coming.”

Diane, please make a note to the procurement division about the coffee they now supply the Bureau with. Until coming to this office I had never met a bean I didn’t like. I can only wonder what hellhole of a government surplus warehouse they unearthed this blend from, and what war it was captured in.”

There are 3 bodies, Diane. All appear to be female between the ages of 16 and 30. The cause of death is as yet undetermined. Whatever could have done this, Diane, I can’t imagine was entirely human.” “The recognition that evil exists as an entity outside our understanding of life is not official policy of the Bureau.” “The file on this case remains active; all tapes pertaining to it have been withheld.”

Windom has invited me to his house tomorrow for dinner and a game of chess.” I have much to learn about the game of chess. Windom beat me in 7 moves. His wife, Caroline, is a remarkable woman. During a private moment together she told me about the first time Windom was forced to use his weapon, and that she hoped I would not let it affect my life the way it did Windom’s. I wonder what she meant.”

I believe I have encountered my first real mystery without a solution. How do they get the little snowflakes inside paperweights?”

Diane, found Windom’s car. He is nowhere to be seen. Am moving into an abandoned building. . . . I have a very bad feeling about this (…) Diane, at the top of the stairs I’ve found Windom’s wallet and ID”

I am standing in the shadows of a crane. Below, half submerged in the river, is the barge. In the faint moonlight two white items are visible in the center. . . . They are hands severed at the wrists like the others. There is a difference, however. One holds a small black square of cardboard, the other a white square, the significance of which I do not know at this time. What kind of game is being played out here, Diane?”

Is my dream connected somehow to this? A legless man telling me I cannot run from It. Corpses without hands. The abyss, and wonderful things.”

La Casa El Corazón. The house of the heart. (sic) Windom and Caroline spent their honeymoon here. A step into the past. From my balcony I look down onto the warm waters of the Caribbean. An old man sits playing chess in the courtyard. Windom told me of an old man who taught him all he knew of the game. If this is the same man, he must be 100 years old if a day.”

Caroline Earle has been kidnapped. According to my estimation, the abduction took place at the same time I found myself falling under the influence of the narcotic. How there could be a connection between events 1,500 miles apart I do not know. (…) Perhaps it is the Tibetan notion that there is no such thing as unrelated events, that everything is connected.”

Caroline smiled tonight, and held my hand. Windom seemed very pleased.”

Caroline woke with a terrible scream. I ran into the room and found Windom standing over her, speaking in soft, gentle tones. She said she saw the face of the man, that he was still coming after her, and that she knew she was going to die. However, she could not identify the man.”

Windom has decided not to remain at the safe house. He feels that his continued presence serves only to impede Caroline’s progress.”

I do not know what I will tell Windom when he arrives here in the morning. Aside from the fact that it would be useless to try, I can and will not lie to him.”

She had seen the face of the man who had taken her”

I have been stabbed . . . unconscious . . . Caroline is dead . . . Caroline is dead . . . Forgive me.”

Cooper made only two recordings over the next 6 months. His whereabouts during this time are not clear.”

February 1, 1980, 12 PM.

(…)

Windom Earle was insane long before the events of that terrible night, and is guilty of the attack on me, and the murder of his wife. I cannot prove this, for he is far too brilliant an opponent, but I am sure of it in my heart.”

Gordon and I both agreed that remaining in Pittsburgh would not be to my benefit or the Bureau’s. Gordon has really gone to bet for me. I will soon find out if the Bureau has the same confidence.”

Diane, pack your bags, we’re going to San Francisco.”

Diane, you won’t believe this, but I’ve just driven through a hole cut in a redwood tree. Never saw a tree like this in the eastern forests. These are the trees that legends are born from. Can’t imagine what a druid would have done if he was faced with this monster.”

The people in the lab have just identified the last remaining piece of evidence found on the last victim. A fiber found under one the toenails. It came from a carpet of a car. The color was blue, possibly from a Ford, though several makes use the same manufacturer.”

For the next 6 years Cooper remained in the counterintelligence division. If any tapes exist for that period of time, the FBI does not acknowledge it. The following <letters> to his father are the only pieces of audio released for these years.”

August 24, 9 A.M., 1987

Diane, I have spent 3 days with the people over at DEA now and I have yet to meet one person in a coat and tie. Also notice that they all seem to wear their body armor even when sitting in the office drinking coffee. They may be just the kind of people who can evaluate a new investigative technique I’m working on based on the writings of a Tibetan monk named Gumm.”

August 26, 10 A.M.

According to the results of my first substantial test of Gumm’s work, Lee Harvey Oswald did not act alone on that fateful day in Dallas, and Jack Ruby [o assassino de Lee Harvey – morreu na prisão enquanto aguardava julgamento] is still alive and living in Peru. . . . This may need some more work yet.”

My counterpart in the DEA is an agent named Dennis Bryson. We leave for San Diego tonight”

I have not been to a dentist in 7 years.”

While I respect and admire the job the DEA does, I do not feel that I quite fit in with the cowboy esprit de corps that is prevalent in their ranks.”

Diane, looks like I’m going to be out of town for a while. There’s been a murder in a town in the southwest part of the state of Washington. The state authorities assume from the condition of the body that kidnapping was involved and have asked the Bureau to look into the case.”

Teresa Banks, no known next of kin, residence unknown, was found lying in a drainage ditch on the outskirts of town. Her naked body was wrapped in clear plastic and secured with duct tape. Appeared to have suffered numerous contusions to and about the head. The local coroner has determined the cause of death to be brain damage caused by a blow to the right temple area that fractured the skull. None of the other blows were severe enough to cause death. She had had sexual relations within the last 12 hours of her life.”

Diane, something appears to have been forced under the nail on the ring finger. It is quite deep. I am going to try to remove it. . . . It appears to have penetrated at least ¾ of the way under the nail. . . . just a little bit deeper. Chief, I think you might feel better if you stepped outside. . . . There, got it.

Diane, what we have is a small square of white paper with the letter T typed on it. (…) Diane, as Gordon thought, everything about this has the feel of a serial killing.”

Teresa Banks worked here for a period of no more than 3 weeks, and lived in one of the cabins that tourists rent down along the river.”

Bureau training does not cover or even acknowledge the existence of forces outside of the physical world. Nothing in Western thinking does.”

Had a very strange dream last night. I was dancing with a tiny little man, and a very beautiful young woman.”

Why do you think Bobby Fisher (sic) turned to God and gave up chess?

Answer: To get to the other side.

(…)

Windom Earle”

wiki: “After forfeiting his title as World Champion, Fischer became reclusive and sometimes erratic, disappearing from both competitive chess and the public eye. In 1992, he reemerged to win an unofficial rematch against Spassky. It was held in Yugoslavia, which was under a United Nations embargo at the time. His participation led to a conflict with the US government, which warned Fischer that his participation in the match would violate an executive order imposing US sanctions on Yugoslavia. The US government ultimately issued a warrant for his arrest. After that, Fischer lived his life as an émigré. In 2004, he was arrested in Japan and held for several months for using a passport that had been revoked by the US government. Eventually, he was granted an Icelandic passport and citizenship by a special act of the Icelandic Althing, allowing him to live in Iceland until his death in 2008.” “He was too good. There was no use in playing him. It wasn’t interesting. I was getting beaten, and it wasn’t clear to me why. It wasn’t like I made this mistake or that mistake. It was like I was being gradually outplayed, from the start. He wasn’t taking any time to think. The most depressing thing about it is that I wasn’t even getting out of the middle game to an endgame. I don’t ever remember an endgame. He honestly believes there is no one for him to play, no one worthy of him. I played him, and I can attest to that.” In a 1984 letter to the editor of the Encyclopaedia Judaica, Fischer demanded that they remove his name from future editions. In an interview in the January 1962 issue of Harper’s, he was quoted as saying, <I read a book lately by Nietzsche and he says religion is just to dull the senses of the people. I agree.> Fischer associated with the Worldwide Church of God in the mid-1960s. The church prescribed Saturday Sabbath, and forbade work (and competitive chess) on Sabbath.”  “<He idolized Hitler and read everything about him that he could lay his hands on. He also championed a brand of anti-semitism that could only be thought up by a mind completely cut off from reality.> Donner took Fischer to a war museum, which <left a great impression, since (Fischer) is not an evil person, and afterwards he was more restrained in his remarks—to me, at least.>” “A notebook written by Fischer contains sentiments such as <12/13/99 It’s time to start randomly killing Jews>. Despite his views, Fischer remained on good terms with Jewish chess players.”

Diane, I’ve never asked you this before, and as a general rule I try never to mix my private and public life, but I would consider it a great honor if you would consider having dinner with me. If this in any way crosses over a line that we have long ago set for our relationship, I will understand. If not, how does 8 o’clock sound?” “It occurred to me last night while in the middle of a very fine duck that I do not know Diane’s last name.”

I’m a time traveler, slipping in and out like an archaeologist, hoping I will find clues to forgotten secrets, or guideposts to future destinations. I find neither. You can no more hold the past in your hand than you can see tomorrow.”

I don’t think I’ve ever told you this, Diane, but in 1970 my father discovered a new crater on the moon [verified – Cooper crater exists!]. It’s called Cooper’s Crater, and you can just see it on the edge of the dark side’s shadow.”

In a nutshell, Diane, I am bored, and have not found a way to combat this malaise. Holmes used cocaine, an alternative I find unacceptable. What I need, what any detective needs, is a good case. Something to test oneself to the absolute limit. To walk to the edge of the fire and risk it all. (…) Is there any great cases anymore? (…) a John Dillinger, a Professor Moriarty? If I was to say that in my heart I hoped there was, then I should hang up my badge and gun and retire.”

February 24, 6 A.M.

There’s been a body found in Washington state, Diane. A young woman, wrapped in plastic. I’m headed for a little town called Twin Peaks.”

PSICANALISAR ou: Terapia como Jogo do Zero ou do Apuro da Diferença; ou: Como reavaliar e progredir sua própria análise em retrospecto – Serge Leclaire

Ed. Perspectiva

DIC poliglota:

Babotchka: a borboleta em russo.

Babouchka: Vovozinha (afetuoso) em russo.

Bücherwurm: verme-de-livro, porém no vernáculo seria entendido como “rato de biblioteca”.

deiscência: cisão em dois de algo previamente uno, no sentido de romper-se, fender-se, reabrir-se, uma cicatriz, p.ex. Pode-se dizer que o parto é uma deiscência entre mãe e filho, bem como o desmame sua reiteração simbólica.

1. O OUVIDO COM QUE CONVÉM OUVIR

Eu não acredito que o Victor Hugo nunca tenha ouvido falar de Leclaire!

é então que tudo se passa como se o psicanalista tivesse pensado em voz alta e o paciente lhe respondesse como homem versado nos rudimentos da teoria e da prática analíticas, como são hoje quase todos os que se submetem a uma análise.”

Laios: eu-lá

MA GRITE!

MATE o pai na transparência

transferência

ferro

ferido

sangue

Irrefutável é o caralho!

2. O DESEJO INCONSCIENTE. COM FREUD, LER FREUD.

De fato atualmente ninguém pode dizer que esqueceu seu guarda-chuva ou perdeu seu isqueiro – desenhos habituais de enigmas sexuais – sem provocar imediatamente o sorriso entendido do seu interlocutor, hermeneuta de ocasião.”

sexo, drogas e freud ‘n’ roll

De todas as baboseiras referentes à auto-análise de Freud mediante a interpretação de seus sonhos, o que eu depreendo é: tios mais novos que seus próprios sobrinhos têm egos enormes!

Por outro lado, Freud não diz quase nada do amarelo como cor dos judeus. Apenas alude – analisando o sonho com o Conde Thun – a uma forma botânica do anti-semitismo, a guerra dos cravos, que assolava Viena. Os cravos brancos eram a insígnia dos anti-semitas; os vermelhos, dos sociais-democratas.” Henrique Quanto?

BLÁBLÁBLÁ: “Além disso, o amarelo – como é sabido de todo analista de criança – é a cor chave do erotismo uretral.” Preferia quando o papo era sobre cores para usar na virada de ano…

Não é nada estranho para um leitor francês ver o pissenlit se inscrever tão profundamente na série botânica.” Mijar na cama mas folha da flor dente-de-leão (Löwenzahn) ao mesmo tempo. Dandelion, Taraxacum officinale, planta de coloração amarela. Tudo indica que é um subgênero de margarida.

Leão não escova os dentes; criança que mija na cama bebe muita água. Bege. Neve.

“Depois de ter lido a narração da expedição de Nansen ao Pólo Norte, sonhou estar aplicando, naquele deserto de gelo, um tratamento elétrico no corajoso explorador para curá-lo de uma dolorosa ciática. Ao analisar esse sonho, descobrirá uma história de sua infância que torna o sonho compreensível. Lá pelos seus 3 ou 4 anos ouviu, um dia, os mais velhos falarem de viagens, de descobertas e perguntou a seu pai se aquela doença era muito perigosa. Sem dúvida, ele confundira viajar (reisen) com dor (Reissen).”

Raizen sun: Yusule

Yu Yu HakuDor

Chinese rice

Raiz de todos os males

H” is (rá é…)

Fakafka ferimento brancoabsurdo

Viagem

Viadagem

Vajem

Virgem

A última formiga se esconde (late-ant).

3. TOMAR O CORPO AO PÉ DA LETRA OU COMO FALAR DO CORPO?

Ao tentarmos fugir à ordem lógica das representações que a psicanálise promove, encontramos, como consolo, o modelo biológico em sua opacidade metafórica.”

moções de desejo (Wunschregungen)” “moções pulsionais (Triebregungen)”

O equívoco do conceito de representante, o recurso constante à hipóstase biológica são constantes importantes no pensamento de Freud. Elas correspondem, segundo M. Tort, a «um divórcio incontestável entre a elaboração da experiência clínica das neuroses (ou das psicoses) e a teoria ou doutrina das pulsões tratada por Freud de mitologia, cujo caráter necessariamente especulativo ele manteve».”

Se no momento eu declarar que o fetiche é um substituto do pênis, vou certamente causar uma desilusão. Apresso-me também a acrescentar que não é o substituto de um pênis qualquer, mas de um pênis determinado, totalmente especial e de grande significado nos primeiros anos de infância, que se perderá, porém, mais tarde.” F.

Tal explicação foi constatada como profundamente verdadeira em todas as análises de pervertidos.”

em uma história particular, o que dá tal privilégio a uma zona em vez de outra, o que estabelece de algum modo uma hierarquia dos investimentos erógenos e o que singularizaria a primazia genital?”

a zona erógena pode ser definida como um lugar do corpo onde o acesso à pura diferença (experiência do prazer) que aí se produz fica marcado por um traço distintivo, uma [primeira] letra [a “/” lacaniana], que se pode dizer estar inscrita nesse lugar ou colocada em sua abstração do corpo.”

Metaforicamente, podemos dizer que um intervalo é fixado no lugar em que se produziu a diferença e o jogo do desejo vai poder se desenrolar em tomo do cerco desse vazio, dentro da regra de seus engodos. É antes de tudo a ilusão retrospectiva de um primeiro objeto perdido em cuja falta se originaria o movimento do desejo” “É verdade que, num segundo tempo, o ciclo das repetições chega à eleição de um objeto determinado, substitutivo e, ao mesmo tempo, estranho à primeira letra.” “Para substituir ao mítico primeiro seio perdido, qualquer coisa que se leve à boca pode servir, até o dia em que a escolha se fixe na orelha do macaco de pelúcia que passa a ser, por um tempo às vezes bem longo, o novo mediador obrigatório de todas as satisfações.”

Tomar o corpo ao pé da letra é, em suma, aprender a soletrar a ortografia do nome composto pelas zonas erógenas que o constituem; é reconhecer em cada letra a singularidade do prazer (ou da dor) que ela fixa e nota ao mesmo tempo”

4. O CORPO DA LETRA OU O ENREDO DO DESEJO DA LETRA

Diferente, necessariamente, da diferença que reaviva como prazer de zona, o objeto deve ser concebido como elemento estranho ao corpo que ele excita.”

O objeto é fundamentalmente o outro corpo cujo encontro atualiza ou torna sensível a dimensão essencial da separação.” “O objeto parece se caracterizar por sua qualidade de estar separado na medida em que o intervalo dessa separação faz surgir a dimensão do espaço ao mesmo tempo que a anulação possível do intervalo que ali se inscreve.” “Desta forma, podemos dizer que o objeto, como parte (pedaço separado) do corpo, representa (no sentido comum da palavra) a dimensão de alteridade essencial implicada na concepção do corpo erógeno.”

De modo inverso poderíamos dizer que o objeto, por sua opacidade, representa segurança no lugar da falta.”

Quando viu a jovem empregada de joelhos, esfregando o chão, suas nádegas proeminentes e o dorso em posição horizontal, reviu nela a atitude tomada por sua mãe durante a cena do coito.”

Para a criança, essa situação privilegiada de ser assim promovido pela mãe à condição de um pequeno deus, constitui também uma situação fechada; isso porque uma tal conjuntura apaga, pela intensidade do gozo atingido, o efeito das insatisfações onde nasce o desejo. O ídolo-criança se vê assim preso numa espécie de relicário precioso cujo invólucro o isola de um verdadeiro acesso à realidade da letra” “Se essa mãe que o tem como objeto querido sente prazer com um outro, o seu mundo desmorona . . . a não ser que ele encontre uma defesa para esse golpe fatal.”

5. O SONHO DO UNICÓRNIO

Philippe gosta dos seus pés que não lhe parecem feios e se diverte em brincar com eles. Houve uma época de sua infância em que, andando muito com os pés descalços, esforçava-se por calejar a planta dos pés, sonhando deixá-la dura como corno para andar sem perigo sobre os solos mais ásperos e correr pela praia sem medo de estrepes [armadilhas, no chão ou sobre muros] ocultos na areia.” “invólucro de uma pele invulnerável”

Valor de representação fálica, o unicórnio constitui tema comum das narrações lendárias. O unicórnio, emblema de fidelidade, é evidentemente um animal difícil de ser pego. Diz a lenda que quem o quiser prender deve deixar, na solidão da floresta, uma jovem virgem como oferenda.”

A cicatriz, como toda a superfície do corpo, é uma recordação dos cuidados atenciosos que lhe dedicou uma mãe impaciente por satisfazer sua paixão ao nível das (sic) necessidades do corpo”

Philippe foi sem dúvida o preferido de sua mãe, mais que seu irmão, mas também mais que seu pai. Encontramos no horizonte sempre velado de sua história aquela satisfação sexual precoce. Nela Freud reconhece a experiência que marca o destino do obsessivo [que se contrapõe ao do psicótico]. Ser escolhido, mimado e saciado por sua mãe é uma beatitude e um exílio de onde é muito difícil voltar.”

O CORTE DE CABELO 2005

O CORTE DE CABELO APÓS AS FÉRIAS 2003

O CORTE DE CABELO DE VERÃO

ÚLTIMA ESTAÇÃO

AMBÍGUA

D’EROS

<Unicórnio> (licorne) marca assim em seu traço conciso o gesto de beber e o movimento das duas mãos juntas para formar uma taça – réplica côncava da convexidade do seio”

Poord’jeli – na própria escansão de sua enunciação secreta, saltando em torno do d’j central e recaindo sobre o júbilo do li – parece ser tanto o modelo como a reprodução do movimento da cambalhota. Há certo interesse em comparar esse nome secreto Poordjelli, que Philippe arranjou para si, com aquele que recebeu de seus pais: Philippe Georges Elhyani (transcrito também com o mínimo de deformações necessárias, tanto para resguardar o segredo da identidade real quanto para preservar todas as possibilidades de transgressão da análise).”

Com a evocação desse nome secreto, parece que atingimos um termo intransponível: modelo irredutível, desprovido de sentido, aparece verdadeiramente como um desses nós que constituem o inconsciente em sua singularidade.”

A rosa de Philippe é fonte inesgotável, indo do perfume das rosas à guerra das duas rosas, local mítico, tema místico, coração entre os dois seios no mais profundo de la gorge (peito) (garganta, literalmente).”

RAFAELDEARAUJOAGUIRAFAEL

nós narcisos

nós que atam os futuros-afogados n’orgulho de ser quem s’é

CAMBALHOTA, SALTO MORTAL

PIRUETA

piru

biruta

puta

punheta

chupeta

róta confulsa

pior de todas as rotas

ruas

perua que leva com motor barulhento

aos confins do vale dos fins

derradeiros

radiante

derredor

do nada real

reino do’Eu

6. O INCONSCIENTE OU A ORDEM DA LETRA

É verdade que a letra é justamente apresentada como esse traço cujo formalismo absoluto suprime toda necessidade de referi-la a outra coisa senão a outras letras, conexões que a definem como letra. Em outras palavras, é o conjunto de suas relações possíveis com outras letras que a caracteriza como tal, excluindo qualquer outra referência. Mas esse cuidado eminentemente louvável de restaurar a própria possibilidade de análise isolando, dentro de uma pretendida <pureza> formal, os termos mínimos de uma lógica não corresponde de fato senão a uma forma extrema de desconhecimento: a que patenteia a recusa sistemática de reconhecer que o conjunto da vida psíquica – e portanto de toda elaboração lógica – é constituído pela realidade do recalque.”

Já consideramos por que foram, entre outros monemas, Poor, d’j e li que se fixaram, quando analisamos as relações da fórmula (ou nome secreto) com o nome próprio do sujeito. O que não interrogamos, de propósito, foi o processo mesmo dessa fixação em torno do movimento de júbilo.”

com o esquizofrênico, achamo-nos confrontados com sombras de letras. Cada uma delas conduz ao conjunto das outras sombras indiferentemente ou exclusivamente a uma delas, que parece ter para ele papel de complemento sexual.”

No mal-estar, beirando o desmaio, da dor provocada por uma topada na quina de uma pedra subsiste apenas – ou se intensifica – o perfume da madressilva que cresce nas moitas ao redor. É como se no choque desta quase-deslocação pela erupção da dor, à beira do desvanecimento, o cheiro da madressilva se desprendesse, como único termo distinto, marcando por isso mesmo – antes que o desvanecimento propriamente dito ou a segunda dor se produzam – o próprio instante em que toda coerência parece se anular, ao mesmo tempo em que ela se mantém em torno desse único perfume.”

Mais simplesmente ainda, imaginemos, no auge do gozo amoroso, a cabeça caída da amante, cujo olhar perdido fixa em um olho sem fundo a imagem duplamente invertida que as cortinas abertas e presas por frouxos cordões desenham com a luz da janela. Teremos dessa forma evidenciado, em sua contingência, o próprio traço que parece fixar a síncope do prazer.

Assim, em todos esses casos, no instante em que se produz a diferença na extrema sensibilidade do prazer ou da dor, um termo aparece, se mantém ou se desprende, termo que parece impedir o total desfalecimento do momento

a própria letra, único termo que continua marcado pelo vazio do prazer.”

game gado save say V say F… safe giver hiver

lava life lie lavar wash is det

veremos, aliás, que tal possibilidade de formação de termos novos é uma característica necessária da ordem do inconsciente.”

Deixemos bem claro que é difícil falar com pertinência desta anulação, pois, por definição, o zero assim evocado é, por sua vez, realmente anulado como zero enquanto dele falamos como um termo.”

zero rose salmão cheiro de rosa e de peixe

o gozo é interdito ao falante como tal” Lacan

ninguém jamais pode dizer <eu gozo> sem se referir por um abuso intrínseco à linguagem, ao instante do prazer passado ou futuro – instante esse em que precisamente toda possibilidade de dizer se desvanece.”

Dentro de uma perspectiva dinâmica, o gozo designa a imediatidade do acesso à <pura diferença> que a estrutura inconsciente impede e dirige ao mesmo tempo.”

Muito sumariamente, podemos indicar aqui que a prevalência de um termo [letra-objeto-sujeito] da estrutura constitui o modelo de uma organização neurótica, ao passo que o enfraquecimento de um deles caracteriza a organização psicótica.”

Assim como na singularidade do exemplo do Homem dos Lobos a objetalidade maciça de um traseiro de mulher provoca o mais violento desejo, como o apelo de um vazio vertiginoso, assim também todo objeto, numa economia de desejo, parece haurir seu poder de atração do zero que ele mascara, dessa realidade do gozo que ele acalma para manter sua diferença em relação à morte.”

objetalização da letra, para fazer dela um sinal, assim como literalização do objeto, já descrita na origem do devir do obsessivo.”

A vida como processo do olho que vê “imparcial” seria o relógio de parede, em que, à meia-noite ou ao meio-dia o ponteiro da hora desaparece sob o ponteiro dos minutos (ou fundindo-se a sua cor e indistinguível a certa distância), e tudo se sucede sempre igual, de 12 em 12 horas (doze unidades de si mesmo). A vida daquele que vive (cada ponteiro) é sempre novidade e não se sabe que se está em círculo “esse tempo todo”, com o perdão da expressão tão cirúrgica, ovalada e cronométrica.

De modo mais aproximativo, poderíamos dizer que a função subjetiva é a contradição nela mesma e que esta particularidade a torna, em geral, difícil de conceber.”

É certo que a tríade objeto, letra e sujeito se oferece facilmente a uma esquematização simplista demais, na medida em que a trivialidade dos termos, que caracterizam as 3 funções, pode servir de pretexto para dissimular a originalidade radical de seu emprego na descrição do inconsciente.” Mas: “Parece inútil pretender evitar absolutamente o risco de redução simplificadora de uma descrição do inconsciente. Querer <colocar> de maneira radical a objetalidade, a literalidade ou a subjetividade da ordem inconsciente, para melhor distinguir o conceito da acepção comum das palavras em questão, seria encetar um processo <neurótico> (ou perverso) de objetalização da letra, negando com isso a intenção que o subentende no processo.”

o d’j da fórmula de Philippe seria provido de uma forte valência subjetiva e de uma função literal de valência fraca.” O contrário com li. Poor tem prevalência objetal, para seguir o didatismo do tripé.

com a diferença sexual, tudo já está escrito.”

é a relação bem problemática da função subjetiva com o conjunto do sistema literal assim concebido que permite caracterizar a dimensão essencialmente psicanalítica da <transferência>.”

7. O RECALQUE E A FIXAÇÃO OU A ARTICULAÇÃO DO GOZO E DA LETRA

Sem dúvida, é essa espécie de tendência fundamental do sistema primário [o inconsciente] para o seu próprio aniquilamento que Freud observou e sustentou contra todos como <pulsão de morte>. (…) o conjunto das relações recíprocas que descrevemos tendem a manter em torno do zero radical um jogo que o produz por meio do objeto, o representa pela letra e o oculta pela alternância do sujeito. Pela articulação da letra, que é a palavra, o horizonte do gozo em sua anulação não cessa, como a beatitude na palavra de Deus, prometida e recusada, outorgada somente depois da morte.”

Após essa lembrança da instabilidade do sistema oscilante que é o inconsciente – aparentemente ameaçado a todo instante de reabsorção – compreenderemos melhor por que ele tende a suscitar a organização paralela de um sistema antinômico ao seu, capaz de assegurar-lhe de algum modo uma organização menos precária.”

é próprio da ordem do inconsciente suscitar o deslize da letra em direção ao sinal indicador do objeto e gerar uma instância unificante e estável, a que chamaremos de moi. É também da natureza própria da ordem inconsciente manter a função estável do objeto, deixando <esquecer>, por assim dizer, que o objeto tem essa estabilidade devido ao absoluto do zero que ele mascara.”

Não nos deteremos nessas leis que regem o sistema da consciência. Elas são por demais conhecidas por todos, psicólogos ou não.”

O recalque é a roda que locomove os dois eixos in e cons.

levantamento do recalque. Esse passo dá acesso à ordem inconsciente como tal numa fórmula literal – Poord’jeli – desprovida de significado mas carregada, em sua permanência, de imperativos libidinosos.”

Como substituto materno, Lili constitui um objeto incestuoso – por isso mesmo interdito – que a organização consciente se vê obrigada a recalcar para as partes inferiores do inconsciente.”

Do ponto de vista consciente, a fórmula parece muito <inocente>. (…) quanto mais um elemento é estruturalmente inconsciente, no sentido em que o definimos, tanto menos poderá ter acesso a uma ordem em que nada o pode acolher, a não ser para se alterar por sua vez.”

um deslize da função literal para um valor significativo.” Cf. DIMITRI & O BILHETE

lit-lit

cama-cama

coma-coma

nurse nurse

coma — morte

s e x o

reprodução consciente

use condom

nur’s or not nur’s the q?

arse null

o interdito se apresenta como a barreira de um dito, isto é, como o fato de uma articulação literal, escrita ou falada.” NEM SEQUER PRONUNCIARÁS ISTO AQUI.

Não comerás tua mãe porque não queres que teu filho como tua esposa.

INFÂNCIA INFALADA (redundança): “Aquele que diz, por seu dito, se interdita o gozo ou, correlativamente, aquele que goza faz com que toda letra – e todo dito possível – se desvaneça no absoluto da anulação que ele celebra.” Ponto G de Gozo de Inexprimível.para.o.Homem GIH

life safe GIHver

Gozo = cegueira = bliss = blind…doublebind…morte em vida PERIGO PERIGO PERIGO

Prazer = gozo calculado (racional) +18 civilização & all (reversibilidade imediata)

Aquele que diz, por dizer, se interdiz(ta)” Lacan, intraduTZível

Aquele que dita, por ditar, se interdita

gozozero

G O Z O

Z E R O

0 E R 0 (S)

0s

Or?G

the her0

hoe

O infinito são dois zeros sucessivos com intervalo 0 entre eles.

COMO SALVAR FREUD COM UM MÍNIMO (PRÓXIMO DE ZERO) DE ESFORÇO! “o gozo não poderia, por isso mesmo, ser pura e simplesmente confundido com a morte, a não ser que se queira confundir a ordem inconsciente com a ordem biológica.”

A precariedade da ordem inconsciente, que anteriormente já apontávamos, manifesta-se clinicamente nas organizações psíquicas de tipo psicótico. Em tais casos, parece que o recalque não se teria exercido, ao mesmo tempo, na medida em que os mecanismos próprios da ordem inconsciente se manifestam de maneira mais ou menos patente à luz do dia – fato indicativo de falta de recalque propriamente dito – e na medida em que as próprias estruturas inconscientes se demonstram enfraquecidas ou, pelo menos, precárias, como se as funções que as asseguram estivessem inseguras – fato indicativo de falta de recalque originário.”

ÓLEO DA RODA DO DEVIR (DENTES SE ENTRELAÇANDO ENTRE DOIS ABISMOS INFINITOS – QUE IMAGEM!): “Assim, acham-se correlativamente perturbadas tanto a função estável [“nadal”] quanto a função tética [existencial], a ponto de – como já lembramos – uma não se poder mais distinguir da outra e as letras serem ali manipuladas como objetos ou, reciprocamente, os objetos como letras.”

O zero clama por (se)u(m) Hamlet, sem o qual ele (o nada!) não seria nada!

Mas persiste aqui uma questão de importância capital: como se realiza o recalque originário? Interrogação legítima e necessária na medida em que, como acabamos de ver, esse tempo parece faltar no caso dos destinos psicóticos.”

AS 3 ETAPAS DE QUEM SE INSCREVEU NO COMPLEXO DE ÉDIPO E PORTANTO FUGIU DA PSICOSE PRIMÁRIA

De início, é preciso que a carícia ao nível da covinha seja sentida como prazer; que uma diferença entre as duas bordas da encantadora depressão tenha sido sensível, intervalo que vai se marcar e que, por ora, reduziremos à (I) fórmula C1-C2, inscrevendo esse intervalo entre 2 pontos sensíveis, mas ainda não-erógena, da covinha. A seguir, é preciso – para que tal carícia seja tão intensamente sensível, agradável e diferente do contato de um pedaço de lã ou das costas da própria mão da criança – que a epiderme do dedo acariciador seja particularmente distinguida como sendo de outro corpo, intervalo que formularemos em (II) Cu-Do, covinha de um, dedo do outro. Finalmente, é evidente que – para que este último intervalo possa ser realmente distinguido nessa clivagem de alteridade – a condição mais importante e absoluta é que o dedo acariciador esteja constituído como erógeno (na economia do corpo do Outro), (III) intervalo que poderemos formular como D1e-D2e marcando assim a diferença sensível, e já erógena para ela [covinha da criança], da ponta do dedo da mãe.”

(I-II) sensibilidade esquisita

(II) “diferença” proximal 0

(II-III) erogeneidade do Outro

clivagina

tô fala no

Pobre da criança que não sabe o que é um cafuné…

novas zonas coloniais

ALGO TÃO BANAL PORÉM TÃO ESSENCIAL: “Mas como pode então suceder que essa operação não se produza ou se efetue de modo tão precário que pareça estar mal-assegurada, tal como supomos que deveria se produzir na origem dos destinos psicóticos?” “Precisamos, pois, considerar com mais atenção o que designamos como <intervalo erógeno do corpo do outro>, enquanto nos parece que sua dimensão própria é essencial para que seja efetuada a clivagem do recalque originário.”

O CARENTE-PADRÃO: “De um lado, podemos considerar que a perturbação do intervalo erógeno, no quadro da ordem neurótica, resulta do efeito do recalque secundário. Nada mais trivial que a extrema erogeneidade de uma zona íntima velada por uma hiperestesia ou uma anestesia que não exige analistas para despertar sua função erógena.”

ATAVICOSE: “Mas pode ser que o recalque seja mais vigoroso e que o conjunto do revestimento cutâneo caia sob o golpe dos seus efeitos. Imagina-se, então, no quadro de nosso exemplo, o pouco efeito <inscritor> que pode ter a mão de uma mãe afligida por tal recalque.” PSICOSE É LOUCURA DE FAMÍLIA

ANALFABETOS DO CORPO E DO ESPÍRITO, SEGREGAI-VOS!

MARCA DE ZONA ERÓGENA POR TELECONF.

ERAM OS MACACOS PSICOPATAS?

De um lado o fálus é aquele traço que, isolado em sua ereção em forma de estela ou de obelisco,¹ simboliza universalmente o caráter sagrado e central dessa eminente zona erógena. De outro lado, ele é, sem outra mediação, reduplicação ou representação, em si mesmo, termo diferencial que faz o corpo macho ou fêmea.”

¹ Uh, pedra filosofal da porra toda!

Afirmar que o fálus é a um só tempo a letra e o estilete que a traça não equivale a afirmar que gerar sexualmente basta para garantir, da parte do genitor, uma realização verdadeira do recalque originário. Isso porque nada impede o exercício de sua função orgânica a despeito de todo gozo digno desse nome. Contudo, a implicação fálica em tudo que se relaciona com o gozo, isto é, em tudo que se refere à afirmação da letra e à sua transgressão, deve-se ao privilégio dessa parte do corpo de ser em si mesma um termo diferencial (da fundamental diferença dos sexos) sem outra mediação, reduplicação ou representação.”

EDIPIADAS TRANSVERSAIS

O gozo genital, no homem e na mulher, parece guardar dessa determinação erógena mais ou menos antiga, suas características profundamente diferentes que Tirésias por experiência, diz a lenda, teria podido testemunhar em termos aritméticos: <…Um dia Zeus e Hera discutiam para saber quem, o homem ou a mulher, sentiria maior prazer no amor quando lhes ocorreu a idéia de consultar Tirésias, único que fizera a dupla experiência. Tirésias, sem vacilar assegurou que se o gozo do amor se compusesse de 10 partes, a mulher ficaria com 9 e o homem com 1 só>.” E com isso Hera (uma vez) arrancou a luz dos olhos de Tirésias.

Foucault banha-se milhões de vezes no rio, ao contrário de Lévi-Strauss, diria Heráclito.

O LADO ESCURO DA LUA

A conjunção dessas 3 aberturas em um mesmo eixo, produz o que se pode chamar de o contrário de um eclipse, na medida em que aquilo que é eclipsado, escondido, escamoteado, é justamente o esconderijo ou a ocultação habitual que sutura mais ou menos todo intervalo.” A diferença é que talvez só haja uma oportunidade para esse eclipse astronômico acontecer, ele não é cíclico…

O LÓBULO ESCURO E SURDO AO PÉ DA ORELHA

O músico é o lóbulo do músico.

O sol é líquido por fora e a lua é sulcada de crateras. Isso já o bastante para sermos felizes até o gás hélio acabar!

8. PSICANALISAR. NOTA SOBRE A TRANSFERÊNCIA E A CASTRAÇÃO.

O convite para falar que é feito ao paciente não se abre sobre algum acontecimento maiêutico ou alívio catártico… assemelha-se mais, em realidade, ao <diga 33, 33> do médico cujo ouvido está atento apenas à ressonância torácica da voz.”

On démolit

le Cherche-Midi

à quatorze heures

tout sera dit.” Queneau

O jogo do zero e sua representação – ou a relação do sujeito à falta que ele acentua no conjunto do qual faz <parte> – evocam esta <cena primitiva> em que Freud nos ensinou a situar o espaço do impossível saber sobre <a origem> de <cada um>.”

Quem sou eu?

Filho dos meus pais.

Filho 2 de 2 pais.

Ângulo negro de uma casa de luz fraca.

É preciso contrair uma dívida para comprar a liberdade

E viver escravizado daí em diante num novo espaço.

Confere?

No entanto não deixa de ser

Um novo zero

No bom sentido

Do número

Se é

Que m’entende!

Não há outro artifício na psicanálise que proporcionar ao paciente a suspensão necessária de nossa <compreensão>, onde o dizer poderá evoluir”

que vazio faria aparecer seu desaparecimento?”

1. nunca ter nascido

2. morrer hoje

Todo mundo já maquinou este simples exercício. Honestamente? Sabe-se lá! Mas eu já escrevi cerca de 2 necrológios para mim mesmo! Montaignesco!

a PEDRA no meu sapato que me incomoda há tanto tempo;

a TESOURA, pois eu corto com mordacidade o discurso dos Outros;

o PAPEL de mãe e ao mesmo tempo o dinheiro que eu rasgo, e que pode embrulhar a pedra e qualquer estômago de pedra, triangulando uma vitória!

tábula rasa instrumento cortante BAGULHO INÚTIL EM EXCESSO SOBRE A TERRA, sendo aliás a própria terra!

Pode ir na frente, eu vou de patinete!

Preciso manter o peso, perder se possível, não sou motorizado!

Meu combustível?! Autopropalado!

Eu ajudo quem os pais atrapalham Sociedade Anônima e Anômica

Eu sou o verdadeiro Messias da minha própria autocriada época.

Devaluei o $$. Olhos de serpente não vêem nada neste covil empoeirado, embolorado. Fica um dissabor equivalente, equidistante. Notícias boas e ruins vêm e vão em caráter indiferente. Ó, valei-me! Escapei dos braços de muitas Shivas e religiões!

A fúria e o Som (WILSON!!! – voz do solitário), não necessariamente nesta ordem. Significando tudo, retrocedendo quase nada. Epílogo da peça elizabetana. N de não-vingança. Eu adoro o mato, tanto que o verbo eu conjugaria, noutras circunstâncias e, sabe-se, eu tenho bastante mato escapando pelo couro, ah!, cabeludo, eriçado! Ar-tista sem fôlego – mas que espécie de paradoxo é esse?! Viva cada dia como se fosse seu último – IN VINO VERITAS!

Rogai por nós cobradores agora e na hora de nossa dívida, Aquém!

Eu e eles somos ambos (?!) gratos, a nosso modo.

Em uma fórmula oriunda do ensino de J. Lacan, que muitos analistas presentemente adotaram, a transferência está situada como o efeito de uma não-resposta ao pedido constituído pelo discurso do paciente.”

Seja um pai para mim ou me diga aquilo que eu quero que me digam: talvez nada! Por desencargo de consciência… Para dar uma descarga no FLUXO DE CONSCIÊNCIA, melhor dizendo.

Refletir sobre a i-nelutável disparidade i-ntelectual…

Rafa el Escritor

Resta o problema, colocado desde o primeiro capítulo, da sujeição do psicanalista ao modelo teórico que determina sua posição e sua função. Vemos à luz do que acabamos de desenvolver, que convém que este suplemento de sujeição seja reduzido ao extremo. Quer isto dizer que o modelo teórico só pode consistir numa fórmula onde apareça como dominante a função radical do zero e onde se manifeste, reduzida à sua <mesmidade>, a função alternante do sujeito.”

TOGASHI ROLUDO (OU FENDIDO): “De modo mais figurado, digamos que a castração é a cavilha ausente que junta os termos para constituir uma seqüência ou um conjunto; ou ao contrário, digamos que ela é o hiato, a clivagem que marca a separação dos elementos entre si.”

a castração – mesmo se permanece mal[-]pensada ou insuficientemente conceitualizada – entra em cena em todo processo psicanalítico, na medida em que o tratamento visa evidenciar, analisar a articulação singular de cada <um> [I] com o espaço do zero [0] que ele desvenda no conjunto dos outros <uns> [11111110101010101…].”

Houve um tempo em que a psicanálise cheirava a enxofre e fazia felizmente parte das atividades malditas: sabia-se então o que ela era: uma interrogação sobre o gozo.” “O que é bendito, benedictus, bemdito, é a afirmação redobrada e magnificada do dito que põe barreira à anulação que é o gozo. O maldito, maledictus, maldito, não é precisamente esta interrogação – diabólica – a respeito da própria função do dito?”

DEL SIGNIFICADO A LAS OPCIONES – Gillo Dorfles

Trad. Carlos Manzano (1973, 1975)

DIC:

capellone: (it.): cabeludo

engreimiento: presunção

gagà (it.): presumida

PREFACIO: PREFERENCIA Y SIGNIFICADO

El problema de la preferencia (o de la proairesis para los griegos) es un problema candente, por el cual se suele mostrar demasiado poco interés.” Em síntese, o problema monumental para o qual as massas não estão maduras (talvez jamais estejam): a relatividade e o absoluto envolvidos no <gosto>.

SEMÂNTICA PROAIRÉTICA: SIGNIFICADO (Semiótica) + PREFERÊNCIA (Estética)

A supostamente utópica ou impossível DISCUSSÃO DO GOSTO após a Metafísica.

Até que ponto e mediante que meios é possível determinar as razões primordiais que me permitem considerar algo como preferível e atribuir um significado a tal preferência?”

Superioridade intrínseca e escala de valores.

Outridade

mosaico de opções”

Que peso tem a preferência do indivíduo contra a das massas?”

Se não se pode discutir a arte, não se pode discutir mais nada.

Hume (Of the standard of taste), ensaísta e crítico do lado de lá (metafísico): a moral bíblico-alcorânica e o drama sanguinolento são inaceitáveis.

Zeitgeist da aletheia e do Belo.

SEMÂNTICA AUTOGENÉTICA: Fragmentação pós-moderna. Morte da Zeitgeist. Coabitação virtual de todas as Zeitgeister no mesmo indivíduo. Fim de um ciclo milenar e início do IMPÉRIO DA ESQUIZOFRENIA, que não sabemos quanto tempo durará.

a necessidade de restabelecer, com critérios diferentes, um critério valorativo [valor dos valores] para aplicação aos fenômenos da vida, da arte e da sociedade.”

as enquetes de Kinsey, método contestável”

Vejamos alguns exemplos de vanguardas artísticas consideradas escandalosas quando apareceram: 1) numa galeria romana, o pintor Kounellis apresentou o quadro de uma mulher grávida, nua, por cujo ventre passeavam algumas baratas; 2) o artista americano Acconci, em NY, apresentava-se confinado em uma cabine estreita de madeira dentro da qual se entregava à masturbação; 3) na exposição Documenta de Kassel (1972), o romano Vettor Pisani expôs uma mulher nua (que vinha a ser sua irmã), cujo pescoço tinha uma argola metálica, e Pisani lhe aplicava uma <tortura simulada>, cutucando uma ferida falsa pintada na perna da modelo; 4) a escultora polaca Alina Szapocznikow expunha em Paris (1970) alguns <tumores>, modelados em plástico, hiperrealistas; 5) o artista austríaco Herman Nitsch alugou um castelo nos arredores de Viena (1968-72) para representar seu <teatro das orgias e dos mistérios> (Orgien und Mysterien Theater): tratavam-se de matanças <rituais> de cordeiros e bezerros, com cujo sangue e tripas os expectadores eram banhados; para isso, Nitsch usava condutos especialmente concebidos, que derramavam o sangue e pedaços dos intestinos sobre o público; o roteiro incluía a participação dos expectadores, que deviam, além de receber os restos mortais dos animais, besuntar-se a si mesmos e aos seus vizinhos com seus próprios excrementos; havia uma série de outros <jogos> sado-masoquistas na exposição, como a celebração de missas hereges e a crucificação simbólica de algumas das ovelhas. Aos interessados, uma descrição detalhada e explicação crítica deste evento figuram em PETER GORSEN, Das Prinzip Obszön, Rowohlt Verlag, Hamburgo, 1969,(*) pp. 114-5, que transcreve também um comunicado da polícia austríaca proibindo esse gênero de <espetáculo aberrante>. Segundo Nitsch, em carta ao próprio Gorsen, o cordeiro crucificado representa simultaneamente o Pai, o Rei, a autoridade política, o ídolo estatal, a divindade. Em suma, tratava-se de uma revivificação dos cultos dionisíacos (<A revolução é um fenômeno dionisíaco>, diz Nitsch), conducentes à liberação do homem de seus tabus religiosos e políticos. (…) É típico de nossa época pretender ressuscitar cultos e práticas iniciáticos ou pseudo-mágicos pertencentes a culturas antigas, em que ditas práticas possuíam ou podiam possuir um valor autêntico; hoje sua <imitação> – seja mediante a astrologia, alucinógenos, ritos budistas, mistérios dionisíaco-órficos como neste caso, ginástica iogue, etc. – tende a ser daninha e contraproducente a despeito da intenção autoral.

(*) Até o momento, o volume-resenha mais completo sobre as relações entre arte, pornografia e sociedade.”

Exemplos como os acima multiplicam-se em outros segmentos: já pude discorrer em outra obra sobre o caso do musicólogo que gravou em fita magnética os últimos gemidos de um homem agonizante após um acidente de trânsito; bastante conhecido é ainda o caso do cineasta japonês que filmou o transcurso dos últimos instantes da vida de seu pai moribundo de câncer.”

um deslizamento (contínuo) do significado por debaixo do significanteLacan

Conceito de ASSIMETRIA ESTÉTICA por VON WRIGHT (ou mais bem uma primeira lei da assimetria): “Assimetria significa que se um estado é preferido em relação a outro, necessariamente o segundo estado não é preferido em detrimento do primeiro; i.e., pelo mesmo sujeito na mesma ocasião” Relação subsumida na fórmula-função (pPq) ~(qPp), p≠q.

O assimétrico é a premissa de qualquer proairesis.” “O simétrico se identifica com a geometrização mórbida da esquizofrenia.” Paradoxo: a ERA DA ASSIMETRIA é a ERA DA ESQUIZOFRENIA. Que seja apenas um estágio transitório entre duas eras mais autênticas, não destrói-se a contradição inerente. Resta saber se ficaremos indefinidamente presos a uma simulação indefinida desta mesma condição, como diz Baudrillard, ou se essa dialética deixa de ser estéril e se torna propulsora da superação em algum momento. Em suma, se o “novo elemento” vitorioso será ou seguirá sendo a esquizofrenia, em seu sentido pejorativo, ou a assimetria. Em busca de uma nova simetria, de um novo pathos normal.

moral corrente: contradição em termos! moral petrificada

PRIMERA PARTE – UN ANÁLISIS PROAIRÉTICO

CAPÍTULO 1. PREFERENCIA, PREVISIÓN Y CAUSALIDAD

belief is nothing but a strong and lively idea derived from a present impression (perception) related to it” HUME, A Treatise of Human Nature, 1739

A maioria das vezes, os lingüistas realizam o estudo dessas modificações [de significante-significado] exclusivamente por zelo científico e erudito, sem ter em conta adequadamente as premissas socioantropológicas que as originam (ou, se se quer, invertendo os termos da proposição no sentido de Whorf, até que se vejam as próprias premissas socioantropológicas determinadas por tais modificações!).”

Quando, p.ex., um termo como o italiano testa (para nos atermos a um dos exemplos oferecidos por Guiraud, La sémantique), originariamente uma metáfora estilística nascida da associação da cabeça (caput) com o vaso de terracota (latim testa), passou a significar cabeça, com o que se semantizou de outro modo, enquanto que – acrescentaria eu – em outras línguas românicas adquiriu um significado mais parcial e setorial: testa em português = <frente> ou, inclusive, permaneceu unido ao lexema antigo (cabeza em espanhol = caput), etc., encontramo-nos perante um exemplo fácil do difícil que resulta <prognosticar> a evolução semântica de um termo – do difícil que resulta a previsão de um significado –, mas ao mesmo tempo da importância que pode ter para os efeitos denotativos e conotativos de uma língua o fato de que se produzam semelhantes transformações.

Outro exemplo: a palavra italiana finestra – em espanhol ventana, em português janela – apresenta, ainda considerando só estes 3 idiomas, conotações completamente diferentes, relacionadas com as condições de <abertura ao exterior> (finestra e também no caso do alemão fenster), de <proteção contra o vento> (ventana e também no caso do inglês window) ou de <porta pequena> (janela, de janua).”

Our ideia of necessity and causation arises entirely from the uniformity observable in the operations of Nature.” Hume

Max Müller, para quem a própria interpretação falsa ou aberrante de algumas normas é a que abre caminho para muitas interpretações míticas destinadas a se consolidar depois com o hábito e a adquirir valor de norma. Müller explica as razões do mito de Deucalião e Pirra, que fazem nascer os homens das pedras, pela analogia entre as expressões laoi e laas; e o mito de Dafne, transformada em planta de laurel, pelo fato de que a palavra dafne tem a mesma raiz sânscrita ahana, que significa aurora, etc.” “Pouco tempo depois Cassirer viria a refutar tal teoria, detalhadamente.”

Segundo Julius Schwabe (em seu riquíssimo volume sobre os signos do zodíaco, Archetyp und Tierkreis. Grundlinien einer kosmischen Symbolik und Mythologie, 1951), a constelação de Gêmeos conotava no passado um elemento masculino em Pólux e outro feminino (ou fracamente masculino) em Cástor. Prova-o o fato de que entre os romanos os homens <juravam a Pólux> e as mulheres a Cástor. Outra prova desta masculinidade duvidosa de um dos gêmeos da constelação seria seu próprio nome, que apresenta um evidente significado castratório, como, além do mais, a própria lenda sobre o animal castor. De acordo com a lenda, esse animal, quando caçado, preferia autocastrar-se antes que ver-se privado de seus testículos pelo caçador: segundo os antigos, nestes órgãos encontrava-se uma substância utilíssima para o preparo de medicamentos contra a histeria, o tifo e outras doenças.”

Segundo a concepção da alternância de grandes ciclos temporais (que alguns chamam de <grande ano platônico>), à medida que avançam as diferentes constelações no céu, entra-se ou sai-se de uma era determinada. Cada grande era <cósmica> pertenceria a uma constelação zodiacal determinada e se veria influenciada por ela. Pois bem: podemos comprovar então que o nascimento de Cristo se produziu ou coincidiu com a passagem do sol da constelação de Áries para a de Peixes (e temos de sobra exemplos e conotações, não só astrológicos, como geofísicos, geográficos e lingüísticos para a sucessão dos <anos platônicos>), o que nos levaria a reconhecer uma razão muito mais profunda e <oculta> para o uso do nome e da imagem do peixe como símbolo de Cristo, além da aparição do nome peixe em grego para se referir algumas vezes a Jesus Cristo no Novo Testamento. A passagem da Era de Áries à Era de Touro, e desta à de Peixes (que coincide precisamente com o cristianismo e, portanto, com nossa era), à qual sucederá a de Aquário, aparece agora ilustrada com muitos dados inéditos a respeito dos já conhecidos à época de Schwabe. A propósito da denominação das <eras cósmicas> a partir dos signos do zodíaco, consultar o referido autor.”

Ist es nötig noch darauf hinzuweisen, dass die Urchristen, als sie das uralte Fischsymbol aufgriffen, sich damit eben als eine Gemeinschaft kennzeichnen wollten, die an Wiedergeburt im Geiste, Auferstehung, und Unsterblichkeit glaubte? Sie knüpften damit an die orphischpythagoreische Vorstellung der delphinischen Menschenseele an.” Schwabe “Is it necessary to point out that when the original Christians picked up the ancient fish symbol, they were trying to identify themselves as a community that believed in rebirth in the spirit, resurrection, and immortality? In doing so, they followed up on the Orphic-Pythagorean concept of the Dolphinic human soul.”

Quanto à relação entre peixe e golfinho, considerado como animal fundamental, veja-se KARL KERÉNYI, Einführung in das Wesen der Mythologie.”

as discussões sobre a importância que esses deslocamentos das constelações no firmamento poderiam ter para a confecção do horóscopo, segundo se tenha ou não em conta a posição astronômica e real do sol com respeito ao zodíaco, foram e seguem sendo numerosíssimas e encarniçadas: alguns astrólogos sustentam que o horóscopo não deveria considerar deslocamentos puramente físicos; outros afirmam que tais modificações contam também para fins astrológicos. Vemos que até o possível aspecto premonitório, presente nas práticas astrológicas, se encontra subordinado a um aspecto puramente semiótico, ou pelo menos se discute a partir dele – algo no mínimo curioso para uma crença esotérica!”

Só a arte está em condições de propor os invólucros vazios de um significado ainda não exposto à luz do dia.”

Por lo demás, estudios recientes sobre el factor tiempo, sobre su base fisiológica, biológica, patológica, han demostrado de sobra la posibilidad de una dilatación o de una restricción de lo <vivido> temporal y la posibilidad de obtener (mediante drogas, medicamentos y ejercicios especiales del tipo del Yoga, como el <training autógeno> de J.H. Schultz) las modificaciones más variadas de la temporalidad.”

CAPÍTULO 2. EL SIMBOLISMO DEL TIEMPO EN EL ARTE DE HOY

Mucho más evidente es el aspecto simbolizador del tiempo en la categoría limítrofe del arte óptico-cinético (op art) en la que nos encontramos con obras inmóviles en realidad, pero que <sugieren> el movimiento (Bridget Riley, Alviani, Soto, Cruz Díez, etc.). En dichas obras – que hace unos 10 años [1962] aproximadamente estuvieron muy en boga – el tiempo existe <potencialmente>”

Por que o ritmo é tão importante para nossa existência e por que uma alteração daquele se reflete num mal-estar profundo?”

No me parece que haya otra forma de explicar la razón por la que muchas creaciones de nuestros días – basadas en tiempos alterados (en sentido psicodélico, en sentido musical-aleatorio, en sentido poético, etc.) – conducen a otras tantas situaciones de malestar físico y psíquico.”

Así, pues, esa sensación de ligereza y de <ausencia de tiempo> que se puede experimentar en un rápido vuelo transoceánico (en el que la única sensación experimentada es, no la de la velocidad, sino la de la lentitud, dado que así se nos aparece el movimiento del avión frente a la vastedad y a la inmovilidad del paisaje de nubes y del océano situado debajo) corresponde a la ausencia de tiempo de muchos ejemplos de música moderna y de algunas situaciones de las artes visuales que hoy utilizan la dimensión temporal para expresarse.”

la obsolescencia de la obra (de arte o producida por la industria) – hoy tan aguda, tan paradigmática – demuestra tangiblemente la invasión y la acción de la <consunción> [destruição lenta mas progressiva], del factor temporal, sobre las obras del hombre y la necesidad de su simbolización por parte de las diferentes artes”

la marcada separación entre mentalidad y comportamiento juvenil y senil encuentra una contrapartida en una diversificación igualmente marcada en la mentalidad y en las actitudes de quienes tienen 16, 25, 30 años. Así, pues, existe una diferenciación destacada entre grados que todavía pueden referirse a una edad juvenil, cosa que no me parece sucediera con igual relieve hace 20 o 40 años.” [!]

En mi opinión, ese hecho significa que se está produciendo una aceleración del tiempo <existencial> con respecto al fisio-patológico. El tiempo – como símbolo de un devenir que no se detiene – ha invadido estructuras todavía ayer sólidas y consistentes.”

la sensación de una <amenaza temporal>, propensa a resquebrajar la seguridad de la existencia, está presente por todas partes y la simbolizan los aspectos artísticos y pseudoartísticos a los que he aludido”

O conceito de tempo “SAE (Standard Average European” de Whorf.

No hay duda de que el fenómeno de la progresiva desaparición o atrofiamiento del pretérito indefinido en lenguas como el italiano (a excepción del toscano) y el francés (y NO en el español), o como la eficacia cada vez menor del futuro (en lenguas que lo presentan, p.ej., en forma compuesta exclusivamente: alemán, griego moderno, croata, esloveno) o <asimilado> al presente (como el ruso y otras lenguas eslavas, cuando utilizan el presente del aspecto perfectivo para indicar el futuro) o recurren a construcciones complejas en lugar de utilizar la forma originaria del futuro (como el francés: je vais faire, el español: voy a hacer, y el propio italiano: conto di fare, sto per fare, mi accingo a fare, por no hablar del futuro japonés, que muchas veces se puede identificar con el presente), demuestra que la actitud del hablante tiende la mayoría de las veces a eludir las situaciones temporales <definitivas> o bien definidas y a adoptar otras más desdibujadas y ambiguas.”

CAPÍTULO 3. ARTE CONCEPTUAL: PREFERENCIA Y TESAURIZACIÓN [“MAL DO ACUMULADOR”]

El abismo que separa a 2 Weltanschauungen – o, mejor, a dos Kunstanschauungen – a sólo pocos años de distancia parece insalvable.”

¿Por qué kitsch? Porque el cielo es demasiado azul, la vegetación demasiado verde, la superficie de la figura demasiado translúcida; y, en consecuencia, el conjunto aparece ya manipulado en gran medida y preparado para que se lo comercialice y se lo ofrezca a los turistas, para uso del <delfín burgués>, que pasará en este lugar vacaciones suficientemente prestigiosas como para que sirvan de status symbol de cara a los amigos y a los conocidos.”

la presentación más o menos exacta, más o menos magnificada, de la realidad, ya sea la fotográfica, ya sea – con mayor razón aún – la impresionista o la enteramente abstracta, resulta estar superada.”

Aquí quisiera limitarme a precisar el porqué de la aparición de una clase de preferencia por el aspecto conceptual en el arte visual, tal como se ha ido revelando en el último decenio, porque me parece uno de los temas en que la separación entre la época actual y la que acaba de transcurrir resulta más marcada, en que resulta más sintomática la afirmación de un tipo de preferencia hasta hace poco inimaginable.”

dadá, el surrealismo, fueron las consecuencias extremas de un persiflage de la presentación naturalista del mundo exterior. El informalismo señaló un regreso inútil a una especie de impresionismo pictórico, sin <contenidos>, pero no sine materia; e incluso la pintura-objeto, que desembocó, por un lado, en el pop-art y, por otro, en el arte programado y cinético (me excuso por la rapidez telegráfica y por la aproximación de estas definiciones), seguía recurriendo, a pesar de todo, a la tangibilidad densa y manipulable de la obra.”

Por lo demás, no es casualidad que un movimiento tan vasto y, en definitiva, tan <incómodo> como el del conceptualismo se haya revelado precisamente en estos últimos años (de 1965 en adelante): años que han visto el surgimiento de las sublevaciones estudiantiles de 66-8 y su decadencia, la extensión y continuación de la guerra en Vietnam y de las guerrillas en tantas partes del mundo, la difusión de la droga, la decadencia de los movimientos de vanguardia en el cine y en el teatro underground, la crisis de la novela y de la música dodecafónica y, después, de la aleatoria”

un nihilismo diferente del dadaísta, porque carece de fermentos irónicos y humorísticos, un nihilismo ya no propio de Duchamp, con frecuencia macabro, a veces irritante, otras masoquista o sádico.”

hace 20 años [1952], la única o más importante tarea del crítico comprometido, del estetólogo, era la de defender la vanguardia, de intentar hacer de mediador entre el universo circunscrito, circunspecto, del artista y el obtuso, cargado de anteojos culturales y morales, del público.”

la temporada de los happenings fue de corta duración, y en muchos casos se vio <comercializada> mediante la reproducción cinematográfica.”

nuestra época ha llegado a un punto en que la escisión entre arte <puro> y arte utilitario es cada vez más clara y cruel. El primer sector se va alejando cada día más de la comprensión y del interés del gran público (incluso de un público relativamente culto), más aún de lo que ocurría con el arte abstracto de los años 30, con el op y el pop de los años 60; el segundo sector se acerca cada vez más al producto del diseño industrial y se une a la gran familia del kitsch.”

El público se alimenta constantemente, de um modo que ya otras veces he definido como absurdo, de <sonidos musicales>, casi siempre carentes de interés artístico alguno, sin propósito renovador alguno, con una función de <relleno sonoro> exclusivamente, ni más ni menos que la del ruido que sube de la calle o del <gorjeo de los pájaros> de los tiempos remotos.” Aqui, muita coisa mudou!

el llamado público de conciertos, los viejos ambientes de los aficionados a la <música clásica>, incluso gran parte de los profesionales (directores de orquestra, profesores de conservatorio, etc.) desarrollan sólo programas a base de música del pasado, sin interés ni comprensión algunos por la música de nuestros días (me refiero a la de Stockhausen, Schnebel, Berio, Cage, Donatoni, etc.). Las obras de los músicos contemporáneos están destinadas a pocos centenares de personas dispersas por el mundo, todavía menos que las que se interesan por el arte conceptual, por el land art, por el arte pobre.”

Algunos de esos conceptos (como los de tesaurización y analidad aplicados al coleccionismo) surgieron en una discusión con el neurofisiólogo y psicoanalista Mauro Mancia.”

CONCEITO DE ANALIDADE POBREMENTE APLICADO AO COLECIONADOR: “Para muitos colecionadores, o fato de entrar em posse do quadro, da estátua, é por si mesmo fonte de gozo, de igual modo que o é o entesouramento [retenção] de suas próprias fezes pela criança.”

Muchas veces, las casas de los coleccionistas tienen pocos muebles y objetos, están mal conservadas, con mobiliario anticuado y desmesuradamente moderno, incluso de gusto dudoso. Las obras están amontonadas en las paredes, una junto a otra, sin ningún respeto por su naturaleza particular, sin ninguna preocupación por ese <espacio vital> que cada una necesitaría ni por su convivencia recíproca.”

En realidad, poetas concretos tradicionales como Ferdinand Kriwet, Rot, De Campos, etc., siguen ateniéndose, como por lo demás, Gominger (quizás el más riguroso y más imaginativo de los concretistas), al aspecto semántico del lenguaje verbal”

En definitiva: muchos artistas conceptuales han tenido que someterse al deseo de los aficionados. Han tenido que encontrar el modo de saciar el apetito voraz de los <objetos>, siempre renovado, de aquéllos; han tenido que renunciar a sus sueños de pureza, de transitoriedade, de pobreza.”

CAPÍTULO 4. LA MODA COMO EXALTACIÓN PROAIRÉTICA

Nenhum outro setor da atividade e da criatividade humana é mais representativo que a moda para uma investigação de caráter proairético [que versa sobre as preferências estéticas do público].” “a moda encarna, quase em estado puro, a preferencialidade, que, ressaltamos, não é a <superioridade> de determinada situação.” Sendo assim, a moda não é uma arte. Ou quem sabe seja o que vem depois do fim da arte.

Quando dizemos hoje: <a lingüística, o estruturalismo, a psicanálise, o marxismo, a fenomenologia, etc., estão na moda>, no fundo reconhecemos que essas doutrinas poderosas, que essas solenes correntes do pensamentos, podem-se reduzir, no final, a simples momentos efêmeros de preferência, e que, portanto, depois de saboreadas o suficiente, destrinchadas e ostentadas, acabarão rápida e afortunadamente sendo substituídas por outras.”

A palavra alemã Genuss, que os dicionários costumam traduzir por: gozo, posse, desfrute, uso, etc., significa na realidade: saboreio unido a gozo de uma substância ou situação determinada, e não me parece que exista uma palavra em nossa língua com a qual se a possa substituir. Fala-se de um Genuss pelo café, pelo álcool, pela droga, etc.”

Estilo X Styling (kitsch)

(passado – séc. XIX X séc. XX)

ex: Estilo Império, estilo Luís XVI, rococó, estilo Rainha Ana…

Havia um sincronismo e validades universais (ditados pela aristocracia).

Bastaria recordar os numerosos trabalhos de Wölfflin, Dvorak, Panofsky, para se dar conta de que muitas de suas análises já não se podem aplicar às formas artísticas de nossos dias. Mas hoje – dado que nossa análise é predominantemente sincrônica – já nem podemos falar de estilo a propósito de certos móveis dinamarqueses, ou eletrodomésticos italianos, senão, sobretudo, de moda e de styling. É um fato – e muitos o afirmaram com razão – que o Art Nouveau, o Jugendstil, constituiu-se como o último estilo autêntico de nossa época.”

A moda do kitsch e o kitsch da moda.

El propio hecho de haber considerado que se pudieran aplicar esquemas estructuralistas a la moda (como ha hecho Barthes en su Système de la mode), pero limitando en realidad su análisis al aspecto <verbal>, de nomenclatura, relacionado con ella, ha hecho que muchos prediquen la necesidad, o la oportunidad, de incluir la moda dentro de un aspecto lingüístico-estructuralista, como tantos otros sectores de la sociedad y de las ciencias humanas en general. Y la cosa no presentaría dificultad, si no se diera en este caso una eventualidad que no me parece se haya considerado: la de una institucionalización a priori, y no a posteriori, de los elementos lingüísticos relativos a dicho supuesto código.”

Con frecuencia se afirma que la moda es un fenómeno vinculado a la sociedad capitalista y desconocido, o poco conocido, en los países socialistas y revolucionarios; no resulta muy difícil demostrar la falsedad de esa hipótesis.”

A redundância: tudo é um invólucro teatral e barroco da propriedade doméstica: a mesa é coberta por uma toalha de mesa, ela mesma protegida por uma outra toalha de plástico. Cortinas e cortinas duplas às janelas. Tapetes, capas, revestimentos, abajures…” Baudrillard

se o fato de trajar mangas de jaqueta excessivamente largas ou calças excessivamente apertadas (nos períodos em que <é moda>) deve ser considerado de mau gosto – kitsch –, podíamos também ampliar este juízo a outros setores para além da moda. Sempre voltará a época da lâmpada com luz oblíqua, talheres escandinavos, louça de aço inox, etc.”

Mesmo no cinema, apenas em casos excepcionais – Potemkin, Greta Garbo, Buster Keaton, O vampiro de Düsseldorf (para citar 4 exemplos bem distintos entre si) – as imensas qualidades artísticas conseguem <vencer> o desgaste estilístico devido a uma questão de moda, que predomina nos longas bons mas não <ótimos>. O modo de se mover dos personagens, as frases pronunciadas, a entonação das vozes, certas atitudes românticas ou passionais hoje completamente defasadas e consideradas ingenuamente românticas, ou ridiculamente licenciosas, acabam contaminando mesmo as cenas que eram (e seriam ainda) de qualidade estética e técnica.”

observar os rostos carrancudos e truculentos ou então inexpressivos, severos e carnavalescos dos diferentes hierarcas nazifascistas é – para todos, hoje – um espetáculo grotesco, ainda mais cômico que propriamente penoso e entristecedor. Como justificar o fato, senão pensando que um grande componente de moda interveio para dar àquela época o trato que ela merece?”

De praxe, consideramos a toilette (a higiene, os hábitos e estilo) de nossos pais mais ridícula e démodé que a de nossos avós ou bisavós.”

Na música, teatro, poesia não se adverte esse envelhecimento estético tão veloz decorrente da passagem da moda, uma vez que conseguimos substituir instintivamente com nosso modo de ser e de nos comportarmos aquilo que está descrito na novela ou indicado na peça. No cinema e na fotografia (meios <realistas>) isso é impossível. (…) Uma possível fonte de retroalimentação, que pode ser causa, ainda que também efeito de um espírito de época, desse estado de coisas efêmero é o fato de que no passado não era possível apresentar aos próprios descendentes, documentalmente, e com absoluta fidelidade, uma dada moda, sendo assim imperceptível, senão menos evidente e estridente, o contraste entre o ontem e o hoje.”

Está ligeiramente out (fora de moda) quem ostenta nas paredes de seu chalé ou casa de verão uma pintura informal (em 1972), como também o está quem usa como música de fundo para receber seus amigos um Respighi¹ ou Pfitzner², embora o mesmo não se possa dizer de quem opta pelo jazz de vanguarda mais recente ou uma marcha de Bach.”

¹ Compositor italiano do XIX-XX, já ele mesmo um nostálgico de períodos ainda mais remotos (sécs. XVI ao XVIII).

² Praticamente o mesmo se pode dizer deste segundo compositor alemão, incluindo o período em que viveu e exerceu sua influência e seu gosto nostálgico, particularmente entusiasta de Palestrina.

…e as coisas estão mudando enquanto escrevo”

na Itália, basta seguir um automóvel para observar um exemplo perfeito dessa veemência gesticulatória do povo (não só abundante como até excessiva), com freqüência a causa de acidentes de trânsito, graves até: a maioria das vezes ambas as mãos do motorista abandonam o volante para que ele possa comunicar a seu companheiro a profundidade de seu pensamento de maneira apropriada (que o <co-piloto> decerto não vê, ocupado em vigiar o tráfego!).” “um baixo contínuo que acompanha a palavra”

o V de vitória com a mão era quase desconhecido, antes de Churchill popularizar o gesto”

A saudação de punho cerrado de tipo comunista está, talvez, em fase de decadência, como muitos gestos indicativos de <ter fome>, <enganar>, <vou dormir>. A saudação fascista, que esteve em voga, desgraçadamente, por muitos anos, seguiu, depois, existindo com um valor de saudação <normal>, desde que fosse executada com menor elevação do braço e com menos vigor (perdendo assim seu ar <romano>).”

O ciao ou adeus italiano na estação de trem, p.ex., antes de uma larga viagem, era vertical ou frontal (oscilações do braço entre a pessoa que saúda e a direção do viajante); com o tempo, passaram a usar o tchau que hoje conhecemos: oscilações laterais, à moda anglo-saxã ou germânica. Mais curioso ainda: em poucos anos, usos gestuais passaram por transformações importantes: antes mexiam-se os dedos das mãos no adeus, e a palma ficava imóvel; depois, os dedos ficavam juntos e sem se mexerem, e a mão adquiriu dinamismo.

a passagem do tabaco da aspiração ao fumo se deveu a um aperfeiçoamento do gosto, ou <mudança de moda>. Não se pode dizer que amanhã não se voltará à moda de aspirar o tabaco ou de fumar o café ou mascar o chá.” Congelamento!

é provável que num futuro próximo (quando, como é verossímil, se tenha liberado a maconha e substâncias semelhantes) o período atual pareça fortemente condicionado: primeiro, pelo proibicionismo; depois, pela liberação; e, finalmente, pela provável decadência do uso de tais substâncias.”

Isso é o que não me parece admissível: buscar refúgio numa abolição ou atenuação da própria atividade consciente mediante fármacos que a embotam (ou a exaltam, mas desfigurando-a, desegotizando-a) é contrário a todos os princípios a que se dirigiu a civilização ocidental; é ainda adverso buscar refúgio ou auxílio em tentativas mecânicas de vidência ou de visões supressensíveis (práticas iogues, p.ex.).”

conhecida é a relação entre sexualidade e iniciação no budismo clássico, como na prática do despertar do Chakra” “métodos ocultos que não são apropriados para nossa época”

Um tal Timothy Leary, psicólogo doidão, prescrevia o cogumelo Teonanacatl, tradicional entre aborígenes mexicanos, a seus pacientes nos anos 70. O Dalai-Lama rebateu este “profissional” em 1971: “O que mais falta aos próprios usuários desses narcóticos é o que poderia ser benéfico em seu uso – a Claridade, a Pureza e a Liberdade.”

CAPÍTULO 5. IDEOLOGÍA COMO PROAIRÉTICA PATOLÓGICA

Joseph Gabel, em seu La conciencia falsa, que segue sendo indubitavelmente o melhor estudo dum aspecto patológico-político ou, se se quer, psicanalítico-marxista da ideologia, analizou bastante bem este <ponto fraco> do fanatismo ideológico.”

Segundo Dévreux, se podemos considerar o período nazi como o estabelecimento de uma forma esquizofrênica, poderíamos, igualmente, considerar a sociedade européia de finais do séc. XIX como tendencialmente <histérica>.”

Talvez não se possa dizer o mesmo da Itália em sua relação com o fascismo o mesmo da Alemanha em sua relação com o nazismo; a <cura> italiana não se produziu com o mesmo vigor.”

Um caso de paranóia política poderia ser o de Israel: o enlace com pontos de partida ético-religiosos, que remontam a milhares de anos; a incrível firmeza na perseguição de um ideal construído sobre um conceito de <nação>, totalmente teórico; o fato de ter ressuscitado uma língua morta há vários séculos…”

É sabido que a ignorância das funções mais elementares relacionados com o sexo era (até há pouco, se bem que segue sendo em parte) enorme, como também é conhecida a razão para isso: religião ou confissão (catolicismo), falso moralismo (vitoriano) ou alegações puritanas de virtude hipócritas (quakers, calvinistas e protestantes no geral).”

O VOCÁBULO “TEMPO” NOS IDIOMAS ESLAVOS (TEMPO METEOROLÓGICO, TEMPO CRONOLÓGICO):

Croata – vrijeme (clima); goda, rok (devir)

Eslovaco – cas (devir)

Esloveno – vreme (clima); ura (devir)

Polaco – cas (devir)

Russo – vremja (raiz ambivalente); pogoda (clima); cas (devir)

Tcheco – cas (devir)

SEGUNDA PARTE – LAS OPCIONES ECOLÓGICO-URBANÍSTICAS

INTRODUCCIÓN

A arte (pintura e escultura, mas inclusive a poesia) deixou-se implicar nessa <glorificação do objeto> (a partir do surrealismo, percorrendo a pop art e a op art) de tal modo que não consegue mais livrar-se dessa objetualização dominante.”

O sutil mal-estar, o sentimento de frustração que experimenta hoje um homem que tenha vivido sua infância no tempo pré-guerras, especialmente nas zonas densamente industrializadas, talvez passem batidos ao jovem nascido no pós-guerras, quando o estrondo das motos, a concentração de fumaça, o estrépito do tráfego, a poluição dos mares eram já uma realidade. E é igualmente possível imaginar que o homem de um futuro próximo esteja já imunizado, ainda mais que o jovem contemporâneo [1972!], contra o barulho e o ar poluído e cinzento onipresentes.”

Numa praia contaminada nos arredores de Roma tive a ocasião de presenciar um filho perguntar ao pai se podia encher seu baldinho de água do mar: estava o menino tão impregnado da noção de contaminação que não podia deixar de considerar a água do mar como uma espécie de veneno, que se deveria evitar ao máximo.”

Expressões como “o céu azul” e “os eternos cumes nevados da montanha” já se tornaram tão kitsch quanto “amor à pátria” ou “lar doce lar” ou “a moral cristã”, “o seio materno”, “o espírito do corpo” e por aí vai…

Seria hoje absurdo seguir falando de construção e urbanismo nos termos caros a um Le Corbusier ou um Lúcio Costa há não mais de 20 anos, ou a um Gropius, por exemplo.”

1. DESFASE [DEFASAGEM] ECOLÓGICO Y RESEMANTIZACIÓN URBANÍSTICA

a indiferença quase total quanto à contribuição e à missão das <artes visuais> em integração com o meio ambiente tem feito com que o que se chama de arquitetura perca quase toda conexão com sua matriz expressiva primária.”

RECADO A LÚCIO COSTA: “A utopia do Bauhaus, que creu poder predicar e pôr em prática a identificação absoluta entre <utilidade> e <beleza> chegou ao fim.”

Em lugar de almejar colonizar montes de pedra sem atmosfera como os da Lua (meta de aventuras recentes, já nada empolgantes, uma vez que nem as crianças assistem mais os programas dedicados aos vôos lunares na TV [1972!]), seria melhor que o homem tentasse não arruinar em definitivo o belíssimo planeta no qual teve a ventura de nascer.”

Em primeiro lugar, é necessário livrar-se de formulações estéticas antiquadas que se obstinam em considerar a arquitetura como uma arte plástica, irmã da pintura e da escultura, como se fôra uma espécie de superdecoração em escala de cidade.”

Se bem que em algumas artes (música e poesia) se possa apontar os equivalentes das partículas elementares da fala (morfemas, lexemas, sintagmas), no caso da arquitetura e urbanismo isso é muito mais problemático.”

De um ponto de vista semiótico-territorial serão mais aceitáveis as tristíssimas favelas brasileiras, ou tugúrios colombianos, que as villas miseria argentinas. Talvez esta afirmação necessite um esclarecimento: significará, então, o que eu disse que não se pode identificar o aspecto semiológico com o sociológico? Se nos dispusermos a aceitar as abomináveis favelas, por se integrarem de modo mais <orgânico> à cidade do Rio, somos por isso insensíveis às conotações sociais que esta preferência supõe? Aí está o núcleo do problema: também na antiguidade romana, babilônica, grega, pré-colombiana, existiram as injustiças sociais mais inacreditáveis, mas não monstruosidades urbanístico-arquitetônicas como nas atuais Milan, Roma e Buenos Aires.”

Os centros das cidades-satélites suecas não são nada senão shopping centers de tipo americano, enquanto que, na contra-mão, o <não-centro> das grandes cidades ianques (Cleveland, Atlanta, Houston) – excluindo-se talvez Manhattan, Boston e São Francisco da conta – já deixaram de existir, degradaram-se até se converter em setor de negócios ou mera sede administrativo-bancário-política, onde ninguém vive, onde a vida cessa quando cessa o expediente. E esse fenômeno começa a prevalecer em algumas cidades alemãs de design <americanizado>.”

2. LOS FACTORES PROAIRÉTICOS EN EL DESIGN AMBIENTAL

Alvin Toffler contaba cómo en 70 de las mayores ciudades americanas el tiempo de residencia media en el mismo lugar era menos de 4 años. El desarraigo con respecto al hábitat propio no sería grave por sí mismo, si condujese a la reconstrucción en otro lugar de otro Heimat; pero eso es precisamente lo que ya no sucede a causa del carácter provisional del empleo, de la familia, que provocan el desinterés afectivo por el suelo urbano o por el natural.”

3. PREFERENCIAS Y PREVENCIONES EN LA ARQUITECTURA INDUSTRIALIZADA Y EN EL DESIGN

a arquitetura industralizada (ou pré-fabricada, como com freqüência se diz, erroneamente) constitui um dos pontos delicados da exposição, que reaparece sempre que se fala de originalidade dos edifícios, de fantasia construtiva, da tão necessária luta contra o descenso do nível inventivo, contra a uniformização e a homogeneização das construções arquitetônicas de nossos dias.”

4. LOS PRECEDENTES DE UNA SEMIÓTICA ARQUITECTÓNICA

Por mi parte, estoy convencido de que antes que nada hay que considerar la lingüística como una de las ramas de la semiótica, y no al revés (…) (como sostienen con frecuencia algunos autores franceses).” “En el caso de la arquitectura es evidente que no se puede hablar de una división en fonemas, sino, si acaso, sólo en <morfemas> (o sea, en partículas morfológicamente significativas, ¡ya que el elemento fonético está ausente!)” Um capítulo que não faz o menor sentido (como quase toda a segunda parte do livro)!

Desgraçado do edifício que se disfarça sob o aspecto de outro, como – desgraçadamente – ocorre com freqüência: igreja com aparência de night club; estádio com a de templo; escola com a de açougue [!!!] (a menos que não seja incomum alguns prédios constituírem uma espécie de curiosidade <agradável>, conquanto isso parece ter sido moda passageira dos 1800)!”

si una partitura de Bussotti puede considerarse con el mismo criterio que una pintura o un diseño moderno, también algunas notaciones arquitectónicas (croquis, proyectos, etc.), modernas y antiguas, tienen ya de por sí un gran valor artístico: basta con pensar en los célebres esbozos de Mendelssohn, en los de Haering o, sobre todo, en los de Scharoun, y, en el pasado, en algunos proyectos, realizados o no, de Ammannati, de Leonardo, de Miguel Angel, de Leon Battista Alberti. El valor artístico de dichos proyectos – prescindiendo de su <colocación semiótica> – es notable, y sería muy difícil decidir hasta qué punto se trata de obras de diseño, de maqueta, o equiparables a las realizaciones arquitectónicas auténticas. Como es sabido, según algunos, el croquis y el proyecto, si se desarrollaran y profundizaran lo suficiente, equivaldrían perfectamente a la obra ya realizada. (Y en cierto sentido lo vimos, cuando, durante la última guerra, se pudieron reconstruir algunas arquitecturas de la antigüedad sobre la base y con la ayuda de diseños de la época conservados y, por tanto, realizables.)”

La lectura de la partitura, aunque informa, incluso de forma muy precisa, sobre determinado fragmento musical, no por ello deja de ser una lectura-no-musical (o, por lo menos, no sonora); según la opinión de algunos músicos (Stockhausen, Castaldi) no es otra cosa que el registro mediante un código muy perfeccionado de un objeto sonoro cuyo auténtico disfrute sólo puede producirse a través del órgano del oído. Stockhausen, p.ej., afirma que el tipo de <goce> que le produce el recorrer rápidamente una partitura (incluso saltando de un ponto a otro de la composición) es totalmente diferente al de la audición del mismo fragmento.” Cf. STOCKHAUSEN, Texte zur elektronischen und instrumentale Musik, 1963.

5. LA OPCIÓN POR LO ASIMÉTRICO Y LA ASIMETRÍA DE LAS OPCIONES

en la Weltanschauung zen y taoísta predomina la tendencia a lo asimétrico, y algunos conceptos como los de wabí y de sabi podrían aproximarse al de asimetría.”

Parece impossível, mas minha criada de quarto não admite que eu coloque minhas coisas na cômoda de forma assimétrica; quando limpa minha casa se apressa em <colocar simetricamente>, de acordo com um esquema fixo seu, todos os objetos que eu havia colocado de propósito fora do lugar.” Léger

Podemos antecipar o começo do fenômeno, se pensamos na marcada tendência nessa direção que se pode advertir a partir dos últimos anos do séc. XIX com o florescimento do simbolismo na França e ainda antes, com o do pré-rafaelismo na Inglaterra: pintores e decoradores como Gustave Moreau, D.G. Rossetti, Burnes Jones, Odilon Redon, Khnopff, Puvis de Chavanne e, à geração seguinte, os austríacos da Secessão: Klimt, Schiele, etc., são todos tendencialmente assimétricos, pois começam a olhar com simpatia para o Extremo Oriente” “a adoração pelo número áureo, derivada dos círculos renascentistas, teria de ceder e ver-se invertida por novos módulos estéticos.”

por que o coração está à esquerda e o fígado à direita? por que é mais comum ser destro? por que a mãe costuma segurar o recém-nascido pelo lado esquerdo?”

O rosto esquerdo revela o lado oculto ou noturno (sinistro) da vida.” Werner Wolff

…ao passo que a metade direita – precisamente por <depender> do hemisfério cerebral esquerdo, sede dos processos de criação de idéias mais racionalizados – parece ser o <espelho> da personalidade humana mais socializada e consciente.”

normalmente o homem entrelaça as mãos de com o polegar direito superposto ao esquerdo, e a mulher ao contrário”

e como pode ser que o laevus latino não se conservou no italiano (enquanto que se conservou no left inglês, no link alemão, no lijevo esloveno e croata e no lievyi russo?)”

derecho droit destro direito

izquierdo gauche sinistro esquerdo

Se consideramos alguns esquemas urbanísticos clássicos – dos hipodâmicos aos estelares (tipo Palmanova), aos de L’Enfant (tipo Washington) ou Haussmann (tipo Paris) ou inclusive à aparente heterodoxia de Lúcio Costa no caso de Brasília –, vemos facilmente que em quase todos predomina um princípio de euritmia e equilíbrio, i.e., de obtenção do máximo de equilíbrio baseando-se numa simetria <dinâmica>, numa pseudo-assimetria, à la Hambidge. Hoje (1972!), até esse tipo de equilíbrio me parece pouco aceitável rumo a uma evolução da ordenação territorial e do <caráter distributivo> de nossos edifícios.”

Na linguagem e no pensamento a assimetria está em todo lugar ou, para ser assimétrico, em quase todo lugar: podemos considerar simétricas as manobras analogizantes ensaiadas – de forma muitas vezes ingênua, mecânica – por um Lévi-Strauss? Sim, sem dúvida; mas isso seria pertencente à exceção: uma tentativa ou mania de assimilar códigos diferentes (sociológicos, alimentares, musicais, etnológicos!) sobretudo dum ponto de vista meramente sintático e sem levar em conta, salvo superficialmente, os autênticos aspectos semânticos e axiológicos que se interrelacionam. Mas, continuando, o fato de considerar como analógicas as metáforas propriamente ditas conduzirá à descoberta dum aspecto assimétrico também nelas, i.e., porque unem dois signifiés diferentes por meio dum signifiant único.”

#SugestõesdeTítulosdeLivros

OXÍMORO OU CARÍBDIS

LEITURAS PROSPECTIVAS

YASUICHI ARAKAWA, Die malerei des Zen-Buddhismus. Pinselstriche des Unendlichen, 1970

JEAN BAUDRILLARD, Le système des objets, 1968

MARIO BUNGE, The Place of the Causal Principle in Modern Science, 1963

GERMANO CELANT, Arte povera

Revista “Noigandres” (São Paulo), sobre a vertente mais séria da dita poesia concreta de origem germano-suíço-brasileira

GILLO DORFLES, Il Kitsch, antologia del cattuvi gusto, 1969 (1972) / El kitsch, antología del mal gusto, 1973

LUDWIG GIESZ, Phänomenologie des Kitsches, 1960 / Fenomenología del kitsh, 1973

HECAEN, La Symétrie en Neuropsychologie, 1970

EUGÈNE MINKOWSKI, Les conséquences psychopatologiques de la guerre et du nazisme, 1948

ALEXANDER MITSCHERLICH, La inhospitalidad de nuestras ciudades, 1969

EDWIN SCHUR, The Family and the Sexual Revolution, 1964

DAISETZ SUZUKI, Zen and Japanese Culture, 1959

VÁRIOS AUTORES, Psicología del vestir, 1975

HERMANN WEYL, Symmetry, 1952

IVOR DE WOLFE, Civilia, Architectural Press, Londres, 1972

KANT AVEC SADE, 1962

Ainda kantiano, demasiado kantiano

Nous choisissons cette place pour remarquer que, s’il y a toute chance pour que cette édition, qui s’annonce elle-même comme « définitive », soit menée à bonne fin, il n’y a pas encore en français d’édition des oeuvres complètes de Kant, non plus que de Freud. Il est vrai qu’il eût fallu que fût poursuivie une traduction systématique de ces oeuvres. Une telle entreprise eût semblé s’imposer pour Kant dans un pays où tant de jeunes forces se qualifient par l’enseignement de la philosophie. Sa carence à beaucoup près laisse à réfléchir sur la direction assurée aux travaux par les cadres responsables.”

Ici SADE est le pas inaugural d’une subversion, dont, si piquant que cela semble au regard de la froideur de l’homme, KANT est le point tournant, et jamais repéré [diagnosticado, reconhecido] – que nous sachions – comme tel.

La Philosophie dans le boudoir vient 8 ans après la Critique de la raison pratique.”

Todo diabo é fundado por um beato.

La recherche du bien serait donc une impasse, s’il ne renaissait, das Gute, le bien qui est l’objet de la loi morale. Il nous est indiqué par l’expérience que nous faisons d’entendre au-dedans de nous des commandements, dont l’impératif se présente comme catégorique, autrement dit inconditionnel.”

padecer o pai descer

pas d’être

Retenons le paradoxe que ce soit au moment où ce sujet n’a plus en face de lui aucun objet, qu’il rencontre une loi, laquelle n’a d’autre phénomène que quelque chose de signifiant déjà, qu’on obtient d’une voix dans la conscience, et qui, à s’y articuler en maxime, y propose l’ordre d’une raison purement pratique ou volonté.”

« J’ai le droit de jouir de ton corps, peut me dire quiconque, et ce droit je l’exercerai sans qu’aucune limite m’arrête dans le caprice des exactions que j’aie le goût d’y assouvir »

entre deux l’impudeur de l’un à elle seule faisant le viol de la pudeur de l’autre.”

Tels phénomènes de la voix, nommément ceux de la psychose, ont bien cet aspect de l’objet. Et la psychanalyse n’était pas loin en son aurore d’y référer la voix de la conscience.”

Assurément le christianisme a éduqué les hommes à être peu regardants du côté de la jouissance de Dieu, et c’est en quoi KANT fait passer son volontarisme de la Loi pour la Loi, lequel en remet, peut-on dire, sur l’ataraxie de l’expérience stoïcienne.”

Quand la jouissance s’y pétrifie, il devient le fétiche noir, où se reconnaît la forme bel et bien offerte en tel temps et lieu, et de nos jours encore, pour qu’on y adore la Présence de Dieu.”

Le désir, qui est le suppôt de cette refente du sujet, s’accommoderait sans doute de se dire volonté de jouissance. Mais cette appellation ne le rendrait pas plus digne de la volonté qu’il invoque chez l’Autre en la tentant jusqu’à l’extrême de sa division d’avec son pathos, car pour ce faire, il part battu, promis à l’impuissance. Puisqu’il part soumis au plaisir, dont c’est la loi de le faire tourner en sa visée toujours trop court. Homéostase toujours trop vite retrouvée du vivant au seuil le plus bas de la tension dont il vivote.”

L’expérience physiologique démontre que la douleur est d’un cycle plus long à tous égards que le plaisir, puisqu’une stimulation la provoque au point où le plaisir finit. Si prolongée qu’on la suppose, elle a pourtant comme le plaisir son terme: dans l’évanouissement du sujet.”

Une structure quadripartite est depuis l’inconscient toujours exigible dans la construction d’une ordonnance subjective. Ce à quoi satisfont nos schémas didactiques.”

la peu croyable survie dont SADE dote les victimes des sévices et tribulations qu’il leur inflige en sa fable.”

Unique (Justine) ou multiple, la victime a la monotonie de la relation du sujet au signifiant”

L’exigence dans la figure des victimes d’une beauté toujours classée incomparable (et d’ailleurs inaltérable, cf. plus haut) est une autre affaire, dont on ne saurait s’acquitter avec quelques postulats banaux, bientôt controuvés, sur l’attrait sexuel. On y verra plutôt la grimace de ce que nous avons démontré dans la tragédie, de la fonction de la beauté: barrière extrême à interdire l’accès à une horreur fondamentale.”

On le voit bien au paradoxe que constitue dans SADE sa position à l’endroit de l’enfer. “L’idée de l’enfer, cent fois réfutée par lui et maudite comme moyen de sujétion de la tyrannie religieuse, revient curieusement motiver les gestes d’un de ses héros, pourtant des plus férus de la subversion libertine dans sa forme raisonnante, nommément le hideux SAINT-FOND. Les pratiques, dont il impose à ses victimes le supplice dernier, se fondent sur la croyance qu’il peut en rendre pour elles dans l’au-delà le tourment éternel.

Cette incohérence dans SADE, négligée par les sadistes, un peu hagiographes eux aussi, s’éclairerait à relever sous sa plume le terme formellement exprimé de la seconde mort. Dont l’assurance qu’il en attend contre l’affreuse routine de la nature (celle qu’à l’entendre ailleurs, le crime a la fonction de rompre) exigerait qu’elle allât à une extrémité où se redouble l’évanouissement du sujet: avec lequel il symbolise dans le voeu que les éléments décomposés de notre corps, pour ne pas s’assembler à nouveau, soient eux-mêmes anéantis.”

pulsão de quase nada

Ni recueilli un de ces rêves dont le rêveur reste bouleversé, d’avoir dans la condition ressentie d’une renaissance intarissable, été au fond de la douleur d’exister?”

…la relation de réversion qui unirait le sadisme à un masochisme dont on imagine mal au dehors le pêle-mêle qu’elle supporte. Mieux vaut d’y trouver le prix d’une historiette, fameuse, sur l’exploitation de l’homme par l’homme: définition du capitalisme on le sait.

Et le socialisme alors? C’est le contraire…”

Ótima piada!

L’objet, nous l’avons montré dans l’expérience freudienne, l’objet du désir là où il se propose nu, n’est que la scorie d’un fantasme où le sujet ne revient pas de sa syncope. C’est un cas de nécrophilie.”

le moraliste nous paraît toujours plus impudent encore qu’imprudent.”

Il n’y a de fourgon que de la police, laquelle peut bien être l’État comme on le dit du côté de HEGEL, mais la loi est autre chose comme on le sait depuis ANTIGONE.”

Treize ans de Charenton pour SADE en sont en effet de ce pas – mais ce n’était pas sa place – tout est là. C’est cela même qui l’y mène. Car pour sa place, tout ce qui pense est d’accord là-dessus, elle [sa <folie>] était ailleurs. Mais voilà: ceux qui pensent bien, pensent qu’elle était dehors, et les bien-pensants, depuis ROYER-COLLARD qui le réclama à l’époque, le voudraient au bagne, voire sur l’échafaud.”

Si le bonheur est agrément sans rupture du sujet à sa vie, comme le définit très classiquement la Critique, il est clair qu’il se refuse à qui ne renonce pas à la voie du désir. Ce renoncement peut être voulu, mais au prix de la vérité de l’homme, ce qui est assez clair par la réprobation qu’ont encourue devant l’idéal commun les épicuriens, voire les stoïciens. Leur ataraxie destitue leur sagesse.”

Que le bonheur soit devenu un facteur de la politique est une proposition impropre. Il l’a toujours été et ramènera le sceptre et l’encensoir qui s’en accommodent fort bien.”

La tête de SAINT-JUST, fût-elle restée habitée des fantasmes d’Organt, il eût peut-être fait de Thermidor son triomphe.”

Nous voilà enfin en demeure d’interroger le « Sade, mon prochain », dont nous devons l’invocation à l’extrême perspicacité de Pierre KLOSSOWSKI. Disons que c’est la seule contribution de notre temps à la question sadienne qui ne nous paraisse pas entachée des tics du « bel esprit ».”

Nous croyons que SADE n’est pas assez voisin de sa propre méchanceté, pour y rencontrer son prochain. Trait qu’il partage avec beaucoup et avec FREUD notamment.” Homo tempranus

Chez SADE, nous en voyons le test, à nos yeux crucial, dans son refus de la peine de mort, dont l’histoire suffirait à prouver – sinon la logique – qu’elle est un des corrélats de la Charité.”

Nenhum personagem sádico infringiu o C.d.E.

THE NAKED THERAPIST – Sheldon Kopp em “kopperação” com outros terapeutas

“This is not the first time my writing has been informed by my dreaming self. By now I am wise enough to trust such experiences even before I can make sense of them.”

Acceptance and praise foster a feeling of well-being in the child. They encourage confidence, spontaneity, hope, and a sense of being worthwhile. Punishment and threat induce guilt feelings, moralistic self-restriction, and pressure to atone. Guilt is the anxiety that accompanies transgressions, carrying with it the feeling of having done bad things and the fear of the parents’ angry retaliation. In the interests of self-protection, the child learns to deal with this anticipated punishment preemptively by turning it into an internalized threat against himself. § Disapproval and contempt make a child feel ashamed of not being a worthwhile person. The implied danger of abandonment may make him shy, avoidant, and ever anxious about making mistakes, appearing foolish, and being open to further ridicule.” “Aceitação e elogios alimentam na criança uma sensação de bem-estar e conforto. Encorajam a confiança, espontaneidade, esperança, um senso de capacidade e de cumprir o seu papel. Punição e ameaças induzem sentimentos de culpa, auto-restrições morais, pressão corretiva. A culpa é a ansiedade que acompanha transgressões, carregando consigo o sentimento de ter feito coisas ruins e o medo da retaliação furiosa dos pais. Com a auto-preservação em vista, a criança aprende a lidar com esse castigo iminente de modo preventivo, internalizando a ameaça contra si mesma. § Desaprovação e desdém fazem a criança se sentir envergonhada por não ser uma pessoa valorosa. O perigo implicado no sentir-se abandonado é o desenvolvimento de uma personalidade tímida, esquiva, evitativa, constantemente ansiosa ou apreensiva quanto ao cometimento de erros, com medo de acabar parecendo um tolo ou de estar vulnerável ao ridículo dos outros.”

A ANTIGA SÍNDROME DE RENAN: Medo de ser expulso de casa. Medo de dar muitas despesas. Medo de ser um mero mortal.

<Look how foolish you are, how clumsy, how stupid! What will other people think of you when they see that you can’t seem to do anything right? You should be ashamed of yourself acting like that. If only you really cared, if only you wanted to act right, if only you would try harder, then you could be the kind of child we want you to be.> Repeated exposure to such abuse calls forth an inner echo of self-contempt. § Eventually the child learns to say of himself, <What an idiot I am, what a fool, what an awful person! I never do anything right. I have no self-control. I just don’t try hard enough. If I did, surely they would be satisfied.>” “<Olha quão tolo você é, desajeitado, estúpido! O que vão pensar de você, se você não consegue fazer nada direito? Você devia sentir vergonha de si mesmo agindo desse jeito. Se apenas você se importasse, se você só quisesse agir adequadamente, se você apenas tentasse mais, aí então você seria o tipo de criança que queríamos que você fosse.> A exposição repetida a tal tipo de discurso leva a uma internalização dum eco de auto-desprezo; uma voz interna passa a repetir as mesmas coisas antes faladas pelos seus superiores. § Eventualmente, chega-se ao ponto em que a própria criança dirá, diante de cada nova decepção: <Que idiota que eu sou, que imbecil, que péssima pessoa! Nunca faço nada certo. Não tenho sequer auto-controle. E eu nunca tento o bastante. Se eu tentasse, com certeza satisfaria a vontade dos outros.>”

“My own mother often told me: <I love you, but I don’t like you.> It was clear that this meant that she loved me because she was a good mother, but that she did not like me because I was an unsatisfactory child.”

“The experience of being seen as momentarily not yet able to cope is a natural part of growth. It is also natural to experience the embarrassment that accompanies making mistakes, stumbling, blundering, or fucking-up.”

“Some parents are too hard on their children because of their own personal problems, others because of harsh cultural standards. Some cultures make excessive demands for precocious maturing of the child. In such settings, shaming inculcates the feeling that other people will not like the child unless he lives up to their expectations. § When shaming arises out of the pathology of neurotic parents, the child may be expected to take care of the parents. Such a child may never learn that the natural order of things is quite the reverse. He is discouraged from ever realizing that it is the parents who are supposed to take care of the child. § Even more insidious is the impact of the parent who unconsciously needs to have an unsatisfactory child. Such a parent will never be satisfied, no matter how hard the child tries, no matter how much he accomplishes. Anything less than perfection is unacceptable. If the child gets a grade of 95 on an examination, he will be asked why he didn’t get 100. If he gets 100, he will be asked what took him so long to get a satisfactory grade. Told that he should have been getting 100 all along, he may become afraid to do well lest perfect grades be demanded of him all the time from then on. If he happens to be a chronic straight-A student, then he may be asked, <If you’re so damn smart, how come you can’t keep your room clean?>” “This can lead to his spending a lifetime vainly seeking the approval of others in the hope that he may someday be validated at last. § My own parents shamed me needlessly and often. They made it clear that it was my clumsiness, my inadequacies, and my failures that made them unhappy. Even my successes and accomplishments were made to reveal how inferior and insufficient I was.”

“<Enough,> she stilled me. <A boy doesn’t interrupt when a father is talking, a father who sweats in the city all week long for him.>”

“Those who have been shamed can some day learn to overcome feeling unworthy. Embarrassment, in contrast, is a natural reaction that is inevitable in certain social situations.”

quavering speech [fala tremida] or breaking of the voice, sweating, blanching [empalidecimento], blinking, tremor of the hand, hesitating or vacillating movement, absent-mindedness” Goffman, Interaction Ritual: Essays on Face-to-Face Behavior, 1967

“The medical term for less-than-normal breathing capacity, for instance, is respiratory embarrassment.”

“Some unexpected physical clumsiness, breach of etiquette, or interpersonal insensitivity may leave a person open to criticism for being more crude or coarse than he claims to be. But this is an issue of manners, not of morals. It may make for a temporary change of social status, but never carries with it the self-threatening sanctions of shame, with its implications of abandonment, loss of love, and ultimate emotional starvation.”

“For a moment all bets are off. Trust of myself and others is in jeopardy. All values are once again in question. First there is the question of trust in myself. Am I an adequate human being or a fool? What can I expect of myself? Do I really know what I am doing?” “It is a time for the exotic flowering of my paranoia. At such times I may mistakenly expect contempt and ridicule from loving friends and neutral strangers. It is just as though they would turn from me in disgust as my parents did when I did not meet their impossible standards.”

Where is my floor?

Please open that door

Shut those windows

Cracked room and mind

of a sweet-salty boy

Sing along and refrain

from hiding.

There seems to be no way for any of us to get through the day without making a careless error, doing something foolish, committing a gaffe or faux pas.” Gof., op. cit.

“After hitting the lamppost I sat on the curb and cried as little as possible. I was really worried. Now it was time to go home and face my mother. Instead of seeing this mishap as an unfortunate accident around which I could feel sorry for myself and expect some sympathy, I knew that I had let my parents down again. I headed home and climbed the stairs to our apartment, skates over my shoulder.”

“Still, echoes of this grotesque situation can be heard at times from out of my unsettled and unworthy depths. I remember just a couple of years ago when I learned that I had to undergo a second bout of neurosurgery.”

“At such times my mother’s explicit instructions were: <Don’t fight, but never, never deny that you are a Jew.> She seemed to want me to be well-behaved, but did little to help me to avoid occasions of sin.”

“One afternoon after school Charlie started beating on me in front of a girl I had a crush on. For the first time in my unhappy marriage to Charlie Hooko, my own fear of being seen as a shamefully brutal, lower-class street fighter was overcome. The fear of being humiliated in the eyes of this girl was even more shameful. And so in the midst of the fight I punched Charlie right in the mouth. He couldn’t believe it. I could hardly believe it myself. § Charlie stopped the play at once. He took me down to the park and we both washed our faces at the fountain. Charlie announced to everyone around that I was a tough guy, that he admired me, and that we would be friends from then on. That ended months of regularly scheduled defeat.”

Punch like a girlish girl

Yea, just feel the flow

“As an early teenager I did eventually graduate to becoming a marginal member of a fighting street gang. I pretended that I was a better and more enthusiastic fighter than I ever really was.”

“As my children grew, being creatures of their age they moved toward the freak culture. Part of this involved their being the first kids in our neighborhood to let their hair grow long. So it was that another macho incident came about. One of our neighbors, strong both of will and of muscle, flew the Confederate flag.”

“What proof did he have, I demanded? His only answer was that my kids had long hair. He believed vandalism occurred only in the ghetto. Ghetto kids had long hair and they broke windows, he insisted. My kids had long hair. And so he concluded that it must have been one of them who had broken his window.”

Ironically, the blunderer often unwittingly reveals the discomfort of his predicament by the very means by which he tries to hide it: <the fixed smile, the nervous hollow laugh, the busy hands, the downward glance that conceals the expression of the eyes.>” “Ironicamente, o atabalhoado freqüente e inadvertidamente expõe seu desconforto situacional pela própria tática utilizada para disfarçá-lo: <o sorriso fixo, a risada nervosa despropositada, as mãos hiper-ativas, a vista caída que esconde a expressão dos olhos.>”

“Essa necessidade social salutar de ocultar-se o embaraço é enfatizada nas pessoas que foram excessivamente submetidas a vexames na infância. Potencialmente, o indivíduo virá a desenvolver um estilo de conduta de tipo neurótico, agindo timidamente a maior parte do tempo e preferindo evitar que outros venham a percebê-lo ou a conhecê-lo.”

“Tendo tantas dificuldades de interação, não é raro que a pessoa acredite que sua abertura para o constrangimento e a vivência de situações ridículas [pois socialmente é impossível fugir de tais ocasiões] é realmente singular. Ela pode desenvolver a crença que outras pessoas não têm a mesma tendência de <se passarem por tolas> de tempos em tempos, como ela tem.”

“Sua própria conscienciosidade de seu problema age como um efeito bola de neve: a apreensão pela sua hiper-sensibilidade eleva seu senso de isolamento, peculiaridade, solidão, enfim. Que trágico que a pessoa deva sempre sentir-se como um desajustado! Basicamente, não diferimos uns dos outros. Ninguém é capaz de lidar o tempo todo com as demandas sociais, sempre excessivas. Mas é que o comportamento tímido-neurótico é sempre desproporcional, alimentando a convicção íntima de que <há algo muito errado consigo>.”

“As maneiras reservadas do introvertido <clássico> (não-mórbido) são parte, provavelmente, de sua orientação psicológica inata; e ele estará sempre mais inclinado ao mundo interior das experiências privadas, que lhe é bem mais confortável. Certo nível de acanhamento da personalidade é mesmo, senão natural, incentivado socialmente. Algumas pessoas (como o próprio que escreve) escondem sua timidez crônica debaixo de um véu de arrogância simulada.”

“When he does try to express himself, he is likely to be hesitant, needlessly soft-spoken, ingratiating, and apologetic. Whenever possible, he simply will try to avoid contact with other people.”

A person who is not neurotically shy understands that it is the external situation that contributes to embarrassment, rather than some defect in his own character. Unlike the shy neurotic, he has come to learn that these anxieties are triggered by his reaction to particular people and situations.” “Uma pessoa que não é neuroticamente tímida compreende que é o contexto exterior que contribui para seu embaraço, em vez de qualquer defeito de seu próprio caráter. Ao contrário do tímido neurótico, aquela pessoa aprendeu a ver que essas angústias são acionadas pela sua reação a pessoas e eventos particulares.”

AUTONOOBSAIBOTADOR

 

The shy neurotic cannot get anywhere in overcoming his excessive shyness without first revealing to himself that what he truly fears most is not rejection but acceptance, not failure but success. He begins to go after what he wants out of life.” “O tímido neurótico não chegará a lugar algum, enquanto tenta superar ou minorar sua timidez, caso não admita para si mesmo que o que ele realmente mais teme NÃO é a rejeição mas a aceitação, NÃO é o fracasso, e sim o próprio sucesso! É aí que ele começa a alcançar seus verdadeiros objetivos de vida.”

we’re all looped, leaked, sinking, seeking and not finding, just overwhelmed by our own hopes’ weights… what if…

a head dive in a pool of danger

“Feeling undeserving of such unfamiliar achievement and acceptance, he has unwittingly learned to discredit these pleasureable experiences. A poignant early expression of this self-defeating attitude occurs during the first phase of psychotherapy.”

Anything that makes him feel worthwhile calls forth the echo of his mother’s voice, demanding that he question his presumption. It is as though he can almost hear her demanding, <Just who do you think you are?> Believing even for a moment that he is satisfactory as a human being evokes the underlying shameful feeling that he has presumed too much.” “Qualquer coisa que o faça sentir-se valorizado evoca o eco da voz de sua mãe, mandando que baixe a bola. É como se realmente pudesse ouvir, <Vem cá, quem você pensa que é?>. Acreditar por um só momento que ele é um ser humano completamente satisfatório é o suficiente para ter sua paz de espírito quebrada por pensamentos de culpa de que ele agiu presunçosamente.”

O supremo oposto do vaidoso dos vaidosos – e o que isso trouxe? Mais ódio dos ‘cristãos’ sobre sua cabecinha…

“So it is that each moment of decision is followed by a moment of revision. A minute later, he has reversed his thrust forward, retiring once more into his customary shyness.”

“His life is not what he meant it to be at all. It’s just not it at all.”

Evitar a confrontação é como comprar à prestação!

Guy de Maupassant’s short story, The Diamond Necklace, is a classic example of the high price of false pride. It is the story of Matilda, a woman tortured and angered by having to live a shamefully ordinary life because she does not possess the luxuries and delicacies which she insists befit her station.”

“It was my parents who started me off down my own painful path of shame and false pride. My parents are no longer responsible for this trip that I sometimes continue to make. Now the enemy is within. It is only my own overblown ego that shames me. It is only I, still sometimes arrogantly insisting on having higher standards for myself than I would impose on others. How much easier to accept the flaws in others than in myself. To the extent that I cling to being special in this way, I remain stuck with the tediously painful life of the perfectionistic striver. I must get everything right, all the time, or suffer shame. It is far too heavy a price to pay for maintaining the illusion that I might be able to rise above human frailty.”

“I give up being satisfied with myself as a pretty decent, usually competent sort of guy who, like everyone else, sometimes makes mistakes, fucks up, and plays the fool. Instead I insist that if only I tried harder, really cared, truly wanted to, I could become that wonderful person who could make my long-dead parents happy. Then they would approve of me. I would be the best. Everyone would love me.”

Guilt and shame originate from different kinds of faulty parenting. Guilt arises out of a certain kind of bad fathering, shame out of bad mothering.¹ Either parent may elicit one or the other depending on the particular parent’s role and attitude rather than on his or her gender alone.

Excessive authoritarian fathering creates guilty anticipation of punishment for transgression against the lawful order of things. Overly demanding mothering breeds shame.”

¹ Kleiniano demais…

“Paradoxically, too much shaming often produces defiance rather than propriety. No longer able to bear the overwhelming burden of shame, a child may develop a secret determination to misbehave. He comes to wear a mask of spite and shamelessness.

“We were studying Shakespeare’s Julius Caesar. At the beginning of one week, the English teacher announced that we were to memorize Marc Antony’s eulogy. I protested loudly. Memorizing materials that needlessly cluttered up my head was both a waste of my time and an intrusive violation of my mind. No arbitrary school system had any right to do that to me.”

<Ma, how come you always talk funny when you come to see a teacher?> This was one of my rare opportunities to shame her”

Straight people were simply not prepared for coping with those of us who shamelessly stepped outside of the system, acted with contempt for the rules, and covertly shamed them for the arbitrariness of their principles.”

“At times my shameless behavior has gotten me into trouble. But so long as it sometimes gets results like that, who am I not to be tempted to continue to be outrageous?”

“More privately, I had developed the false pride of perfectionism to hide my shame and worthlessness from my own eyes. I had to avoid risking further failures and more mistakes. I had to be able to change my image so that I might escape without looking like I was running away or hiding out.”

NOSSAS TORRES DE MARFIM

“No longer would I be the fumbling incompetent who was too timid to go to parties because he never knew how to go about making friends. Instead I became a <heavy> intellectual. With such profoundly developed sensitivity, I could no longer be expected to be bothered devoting my precious energies to the pursuit of the mundane social goals that somehow seemed to excite almost everyone else I knew.

Even armoring as exquisite as this was not enough. Somewhere inside I knew I was just too damn lonely. I still needed to be needed. Acting obsequious, or even <being nice>, was an unthinkable solution. Instead I began to advertise myself as ever ready to rush into the gap whenever a task presented itself that ordinary folk found too unrewarding to mess with.”

“For the first few years of my career as a therapist I worked in impossibly archaic monolithic custodial institutions such as state mental hospitals and prisons. Though allegedly established and maintained as society’s attempt to care for and rehabilitate its social deviates, these institutions turned out to be punitive warehouses for those undesirables about whom the rest of us wished to forget. I cast myself as the champion of the oppressed.¹ Doggedly and unsuccessfully I fought the administrative powers, hoping to attain decent care, effective treatment, and eventual release for the inmates.”

¹ Incrivelmente similar a minha loucura de querer me tornar professor!

“Now I had a new problem. There were no bad parents to fight. How was I to define my role in this more benevolent situation?”

“I do not usually shake hands with a new patient unless the patient gives some indication that this is part of where he starts out in social relationships, in which case I respond.”

“His opening lines were: How long have you been a therapist? Don’t you know that phobic patients can’t stand to be touched? You insist on shaking hands with me knowing that I am too compliant to refuse. It could only make me anxious. The demands you make on me!

“Should he awaken during the night and need to go to the bathroom to urinate, he must simply suffer through the hours until dawn. He was not able to risk disturbing his dog by getting out of bed. His feeling of friendship with the dog was substantiated by his bringing him along to the treatment sessions.”

“There he asked to be deported to Russia for asylum. Surely he would get better treatment under Communism than he had from the barbaric democratic psychiatric services in America’s capital.” “I described my own experience, and I pointed out that the patient was crazy. He had made me crazy. I warned this man that he would make him crazy, too, unless we all understood that just because the patient claimed that something difficult needed to be done did not mean that we had to do it. The patient was all heat and no light. We were vulnerable to his unrealistic outcries because of our own needs to meet every challenge heroically, no matter how nutty it might be. If we thought it over for a minute, we would realize that there wasn’t much in the way of disastrous consequence in this for anyone but the patient himself. That was unfortunate for him, but that was the way it had to be. Happily, the perspective I offered was sufficient to relieve the Congressional Counsel of his own anxiety.”

“The patient was an attractive woman in her early twenties whose birth defects included having no feet and only rudimentary hands. She managed to get about with a combination of prosthetic devices and monumental denial.” “Focusing on her frustrated wishes to become a star in the public eye allowed her to avoid her anxiety and despair about the oppressive difficulties that she encountered in everyday living. My own parallel defensiveness led me to join her, supporting her crazy longings with my own denial of shame-filled helplessness. She made her own contribution by avoiding my tentative therapeutic interventions. There was just no way she could hear my timid suggestions that this whole show business preoccupation was an avoidance of dealing with the day-to-day quality of her life.”

“Unattended snot ran out of her nostrils and down her face (her measure of how much messiness I could tolerate?). I listened and sympathized as if my mere presence would heal her.” “For some reason, which I still do not understand, after about a year of this circus she let me in on her <secret>. All during this time she had been seeing me on Thursday afternoons, and now she confessed that she had also been in therapy on Monday mornings at another clinic with another crazy therapist.”

“This new challenge’s chart described her as a borderline psychotic, a part-time alcoholic, an unhappy, aggressive woman with preoccupying sexual hangups and several previous unsatisfying bouts of psychotherapy. When I went out to the waiting room to invite her in for our first therapy session she struck me as a slight, timid waif of a woman. She looked more like an emaciated 12-year-old than a life-hardened 32-year-old.”

Oh, now I get it, the old color symbolism test. A male therapist with a red shirt, and now I’m supposed to tell you that I’m sometimes gay, and you probably are, too!” “You’re the therapist I’ve been looking for all of my life. I’m never, never going to leave you. I know that you’ll be able to accept whatever I do without ever making me feel bad or throwing me out.” “My relief and sense of well-being was immediately transformed. I got the sinking feeling that I had just made a lifetime contract with an albatross.”

 

“By then I was off balance, but I knew the direction in which I must go. I told her that alcoholic beverages were not permitted in the clinic. If she opened the beer here in my office that would be the end of treatment. As in the first session, she seemed relieved rather than upset by my setting some limits on her acting out.”

“She had gone to visit her dentist to have a tooth extracted. He knew that she had bad reactions to the usual anesthetics that he used. Therefore he had brought a bottle of whiskey and insisted that she have a couple of straight shots to prepare her for the extraction. She described herself as having been rather uncertain. Still she yielded to his encouragement to have one, two, and then another couple of shots. She claimed that soon she was so high that she could not resist his insistence that she perform fellatio.”

* * *

Albert Ellis

 

“While I have the floor, let me also disagree with Shelly’s [Sheldon’s] (and almost all other therapists’) allegation or implication that shame largely stems from early childhood experiences. Shit, no! If anything, early childhood experiences largely arise out of our innate predispositions toward inventing <shameful> conditions and actions and consequently idiotically making ourselves—and I mean making ourselves—unduly embarrassed about our inventions.” “Because Shelly’s feelings of shame in regard to the incident with his parents have a high degree of correlation with his feelings of shame today, he mistakenly assumes that the former caused the latter.” “Shelly’s parents indubitably taught him various standards of ‘right’ and ‘wrong’—including the standard, ‘You act rightly when you stubbornly refuse to imagine yourself letting either of your parents drown and wrongly when you even consider saving only one of them from drowning.’ Given such standards, and having the human tendency to adopt them, Shelly will assuredly believe that he acts ‘rightly’ when he tells his parents that under no conditions would he let either of them drown and ‘wrongly’ when he tells them that he would choose one over the other. Granted.”

A person’s history therefore has relatively little to do with present feelings of shame or self-downing. Shelly may have learned his standards of good and bad behavior from his parents (and others), but he decided to take them seriously and he still decides to do so if he feels ashamed of anything he does today.”

“I had a female client who had serious feelings of inadequacy about herself, especially in her relations with men, and whom I helped considerably to overcome some of these feelings. She had an attractive female friend to whom she talked about me and the way I had helped her, and who got somewhat turned on to me. This friend, in her own manipulative way, managed to meet me at a series of lectures I gave and suggested that we date.

Now I knew that I’d better not do this. Not only have I refused from my first days as a therapist to have social relations with my clients—for although this may have some advantages, I recognize that it tends to lead to more harm than good—but I also have refused to maintain close relations with any of their intimates. (…) A good idea, and I invariably—or almost invariably—stick with it. But not this time! The friend of my client seemed so charming and attractive that I decided to break my self-imposed rule and to date her. I saw her a few times, got intimate with her socially and sexually, and then decided to stop seeing her because I found her much less charming and interesting than I previously had thought. In the course of my fairly brief relations with her, I deliberately mentioned nothing about my client, since I knew that they had a somewhat close relationship, and I didn’t want to give away any confidences.

Nothing happened for several weeks; and then, after I and my client’s female friend no longer saw each other, all hell suddenly broke loose. My client, Josephine, came in one day terribly upset and said that she had discovered that I had seen her friend socially. She found this most distressing for several reasons. She thought that I might have revealed some things about her to her friend. She felt constrained, now, in telling me certain feelings that she had about this woman. She confessed a sexual interest in me and said that she felt jealous that I had shown no inclination to have sex with her while I had obviously had it with Sarah. She hated Sarah for having seduced me and then having boasted about it. Most of all, curiously enough, she felt upset because I had stupidly allowed myself to get taken in by Sarah, who, according to Josephine, had no interest in me other than as a conquest, who had fooled me into thinking she had more intelligence than she actually had, and whose inherent nastiness I had presumably entirely failed to perceive.” “I, like Josephine, at first upset myself more about my mistaken diagnosis of Sarah than about anything else.” “Her interest in me stemmed mainly from her belief that I might help her with her own personal problems and from the ego boost she experienced from telling others that she had a well-known psychotherapist interested in her. Although I had told her very specifically not to mention our association to Josephine, whom I guessed would upset herself about it, she had not only told all to her friend but had also lyingly stated that she had given me up and that I still had a great interest in resuming relations with her.” “I took a chance that my relationship with Sarah would never get back to her. I really had preferred Sarah over her, and perhaps some of this preference had come through in my relationship to Josephine. I had given her an opportunity to see some of my diagnostic weaknesses—and thereby helped remove some of her confidence in me as therapist. When she had shown an overt sexual interest in me, I had quite ethically but perhaps too brusquely repulsed her, partly because at the time I already had established a sexual relationship with Sarah, and Josephine did not seem half so attractive to me. If I had never gone with Sarah, I might well have handled rebuffing Josephine in a more tactful and more therapeutic way.” “She seemed to accept the fact that I had not deliberately done anything to hurt her and had only made some understandable errors.” “Fortuitously, she got involved with a well-known psychiatrist who treated her with a dishonesty similar to Sarah’s treatment of me, and I helped her considerably in accepting herself with her gullibility [naiveness] and in breaking away from him without feeling terribly hurt.”

“I set a few more rigorous rules for myself about socializing with the friends and relatives of my clients, and eventually I mainly forgot about the entire incident.”

“If I down ‘me’, ‘myself’, or my totality for my errors, I essentially take myself out of the human condition and view myself as a subhuman. Falsely! For, as a human, I cannot very well attain superhumanness or subhumanness except by a miracle!”

As far as I can see, you do not really admit the true wrongness of your acts if you don’t make yourself feel very guilty about them. And, even if you do acknowledge their badness, you do not motivate yourself strongly enough to change them and keep yourself from recommitting them in the future. Poppycock [Baboseira]!” “As a person who admits his own irresponsibility but who doesn’t down himself totally for having it, I save myself immense amounts of time and energy that I otherwise would spend dwelling on my poor actions, obsessively showing myself how wrongly I did them, and savagely berating myself for having such fallibility.”

“I try not to make myself guilty about making myself guilty, nor to make myself feel ashamed of making myself ashamed. I don’t find it easy! I keep slipping. My goddamned fallibility clearly remains.”

Gerald Bauman

“I felt the role of therapist to be an artificial one requiring that I adopt a facade that made me feel like the newly clothed emperor. I think I persisted in this unpleasant exercise partly because doing therapy was then the wave of the future for young clinicians, partly because I was assured by colleagues and supervisors that I was reasonably competent and talented, and partly because I tend to become stubborn under duress.”

“The most difficult <incident> of all lasted about two years. In the course of some very significant changes in my life, I was subject to severe anxiety attacks while working with clients (and at other times as well). The awful feeling would gradually well up in a great surge that might last for several minutes and then gradually subside. The experience was particularly frightening because I never felt certain how <high> the surge would go. While working, for example, I felt as though if it went much further, I might fall out of my chair or flee the room (these never happened). Though appearing to occur at random, these <attacks> themselves seemed to become more intense over about two years; then I gradually became able to overcome them and resolve the underlying issues.”

CONTRA-MEDIDAS PARA MOMENTOS DE “NUDEZ TERAPÊUTICA”:

  • “Minimize (or eliminate) pretense in self-presentation. This is especially relevant to, and difficult for, beginning therapists.”;
  • Buscar uma espécie de “acordo tácito” com o paciente sobre o nível de nudez ideal que o terapeuta e o “tratando” desejam para a terapia;
  • Sempre ter em mente flexibilidade nas regras de resolução de problemas meta-terapêuticos – incluindo seguir ou não, conforme o caso, até mesmo ESTA regra!

Howard Fink

 

O INSEGURO ESTEIO MORAL DA NAÇÃO: “He began to wonder if his suspicious attitude toward his wife was some sort of an illusion he had to maintain to give him the upper hand in the relationship, to be the constant moral superior.”

“The subject of his wife and I forming some sort of a conspiratorial love pair against him was never again mentioned without a lot of genuine humor associated with it. In fact, as if to further discount the possibility, he once said that he never thought I could lose enough weight anyway to be called slim or skinny by anybody.”

Arthur Colman

 

“While I have known her, she has worked as a topless and bottomless dancer, a masseuse in a parlor catering to conventioneers, and now nude encounter. She has been only partially successful at these jobs. She turns off as she undresses.”

“When she worked as a masseuse, she did not like to touch men’s genitals and do <a local>. It was formally against the policy of the club, although she admitted that to <jerk a customer off> got you a larger tip.”

“Here she was, earning twenty dollars a half hour (exactly my fee, dollar for minute) by sitting nude talking to men who chose their state of dress. No touching, no closeness, no real intimacy. She didn’t admit to seeing the analogies in our situations, probably because she was frightened of exploring their meaning. Her fear protected me from the full impact of the miming that she portrayed as the naked therapist.”

“Being embarrassed about experiencing a particular feeling is just the beginning of the cycle. Confronting the need to keep the feelings hidden increases its potency. Deciding to risk the uncovering process by telling the patient what has been happening inside of me can momentarily increase the embarrassment until it is released in a rush as the communication is finally made.”

O velho dilema de se apaixonar durante as sessões.

“My wife and I have written a book, Love and Ecstasy, about merger experiences in the solitary, dyadic, and group orientations.”

“I remember one patient that I worked with in the Kopp/Colman office. Yvonne was an exquisite, delicate 18-year-old rebel. Her father was a wealthy member of the State Department, her mother the dependent matron of a colonial mansion. Yvonne worked at shattering all family hypocrisy. She attacked with reckless competence, trying everything, flagrantly, desperately, and always self-destructively. She came to Shelly through some of her friends. He represented a bearded refuge for her, an adult who might understand. He sent her to me.

Her name should have been Jezebel. At that point in my life she represented impulse, license, sensuality, limitless possibilities. (…) Falling in love with her would be a lot simpler solution to my malaise than reclaiming the lost parts of my own spirit.”

“I knew I was clever enough to translate what was happening inside of me into words and actions that would facilitate her therapeutic work with me, but I wasn’t sure that I had the courage to risk such an intimate and painful personal statement, with its unknown repercussions for both of us.”

“It is not unusual now for me to feel love in a variety of forms for men and women with whom I work.” “Fantasies from therapy (in the case of Yvonne) invaded my sexual relationship with my wife and my paternal relationship with my daughter, just as those relationships entered my therapy relationship with her.” “She described her evaluation session with me and noted that she was sure I had had an erection during some of the hour. Triumphantly she proclaimed that she was positive of that fact as I got up to escort her out of the room at the end of the hour. She wondered about my ability to work in such a state and about my designs on her. She also wondered about the quality of my marriage and my sex life.” “I remembered being sexually aroused by Susan. My response had been prompted largely by the provocative role she had assumed during the hour rather than from a personal attraction. She could be very sexy, but most often used it as a weapon and a defense. I knew that precisely because of my reaction to her—arousal without great interest.” “I said I got sexually excited by many of my patients, female and male. I tried to use all my responses to an individual in my work, those of my body (including my penis) in all its states, and of my mind, with all its fantasies. I certainly did not plan to cut off parts of myself in the therapy encounter. Integrating that openness in the special setting of therapy with my family and other personal life was difficult and a challenge.”

QUANDO DOIS JUNGUIANOS SÃO CASADOS: Libby knows me and herself well enough to assume that we could experience other people sexually and still focus our most intimate sexual expressions in each other, that she as Every-woman could become a repository for all my sexual fantasies just as I could for hers.”

Arthur Reisel

 

Verdade e vitória são contraditórias.

Meu analista tem uma voz paciente, e eu ouvidos doutorais!

Arthur, it takes ten years before a therapist begins to know what he’s doing.”

 

“Thinking that a straightforward discussion of the pot experience might ease some of this mother’s extreme fears, I asked the girls what it was like for them to smoke pot. Their replies were cautious and evasive. As I should have anticipated, they hit the ball smartly back into my court, asking me if I had smoked pot and if so, why didn’t I describe how it felt? Being a more skilled player than the girls, I could have used a therapeutic trick shot to put the ball back in their court. Yet something told me that the truth was called for here even if the shocked mother were to decide that a therapist who smoked pot was not for her family. Fortunately, it turned out well. Despite her innocence the mother is an open-minded woman who accepts differences in others.”

“Used with Karen’s permission, excerpts from her letters to me will amplify and enrich my presentation.”

I think you protest too strongly and judge too harshly of a previous generation; but the protesting quite vehemently part interests me the most because I have seen it come out before with Carolyn; it wasn’t what you said as much as the intensity with which it was said. You see, on occasion I am also interested in getting into other people’s lives even though I do not get paid for it. I am interested in what makes them tick, and I try to remain as receptive as I can to subtle, non-verbal clues.”

you are very, very far from being an open book. In other words, there is much about you that I do not know. I don’t really know how it makes you feel. I know at one point in the therapy I felt like I was naked, and you were a rapist, and you called me a beggar, and it hurt, and I thought: I’d rather be a beggar than a rapist. It just seemed that you kept taking and taking”

 

you can’t beat them; you never beat them; all it accomplishes in the long run is letting them beat you. I don’t think either one of us would think that was a life well spent.” deixar-se levar é como ir para o inferno, pois não existe paraíso sem esforço. se isso significa que você “tem de dar valor”? Hoho, chega, descanse os nervos, o inferno não deve ser tão ruim… Me chama que eu vou!

I did not tell you my complete reaction to your giving away one of your pictures. My initial feeling was a tinge of jealousy that you thought enough of one of your other female patients to give her a picture you liked very much. What felt like a little child in me yelled out: What are you doing? Don’t you know? I’m supposed to be the most important one! You’re not supposed to give your favorite picture to someone else! On that same level, I’m still not exactly bouncing off the walls about it; a little of the same feeling came back when you brought it up today. However, I feel it is so ridiculous, and childish, and unrealistic that I don’t even know if I completely allow myself to feel it, much less express it.”

uimpulsaindimpulsa

She wasn’t going to think you had designs on her, was she? You didn’t, did you? Then, what’s to feel uneasy about? It was a very nice thing. People should do it more often. I’m glad you did, a little jealous, but pleased.”

 

I get the very strong impression from you that you like doing things according to schedule, and that you really do not take deviations too gracefully. It is too bad that people’s needs do not run according to schedule also, or maybe most of your patients can program them for their hour or whatever.”

 

Fuck your schedule; it might have fucked our lives. We should have gone elsewhere, but you didn’t have to worry about that because I was already too attached to you for that, and I’m sure you didn’t lose any sleep over it. I have resented it; I didn’t realize I resented it so much.”

“She then sent a brief note to apologize for blaming me for fucking up her and her husband’s lives. Karen knew they were responsible for their own lives, and she felt badly about hitting below the belt over the issue of my schedule.” Below the belt, but not too much…

Quantos anos de serviço contribuídos como “terapendo”?

Jacqulyn S. Clements

 

Alan, in his 5th year of hospitalization, had been recalling the days when he was an airplane mechanic. He concluded with the comment, <That’s why I can’t ever get married; I’m a mechanic.>

You may be noting the symbolism. What I said was, <Well, I don’t know about that. I’ve known a number of mechanics and most of them were married.>

Alan pondered this thoughtfully. Then with a twinkle in his eyes, he leaned close to me and said, <But were they schizophrenic?>

“Telling these stories is vaguely embarrassing, but, as lived, they were really good experiences for me and for the clients. My response in each case was a silent but clear <Touché!>. I don’t recommend dumb comments; but if you’ve got a Bobby or an Alan, you can learn a lot and enjoy each other.

An incident from my practice that illustrates a negative feeling of goofing and embarrassment occurred on the day I handed Mrs. B the A-child’s appointment card. My comments made it obvious that I thought she was married to Mr. A, who was also seated in the waiting room. These weren’t new people; I’d interviewed each with their real spouses. When Mrs. B pointed out my error, I wished I could disappear into a hole in the floor, and my right arm flew up in the air. I used it to touch my hair and said, <Oh, my, where is my head today?> Then, taking the A-child back to the therapy room, I quipped, <I almost got you a new mother today—ha ha.> As far as I know this had no big effect on therapeutic progress, although I certainly wouldn’t call it a confidence builder.”

“Sophisticated clients know what Gestalters and such are like; they probably saw their 6th Fritz Perls film just last week.” Um dos fundadores de um dos ramos da Gestalt (que não é monolítica): Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P., Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality (1951).

“I went to all those miscellaneous workshops and training institutes like everybody else, but I never did manage to come home a recognizable anything. I tell them I’m a Jackie-therapist, and this means, of course, my confidence rests almost solely on results. Yes, this has bothered me some. I’ve never felt ashamed not to be a walking encyclopedia on psychoanalytic theory, but often when another therapist is visiting the premises, I feel tempted to ask my client to please get down on the floor and scream like he’s having an avant-garde breakthrough.”

“I’ve had a few clients with outstanding embarrassment records. Cindy, age 14, recalled her 1st date: She spilled Coke in the boy’s lap, bowled [derrubou] a 16, and then left his car door open, resulting in $70 worth of damage. In such award-winning-goofers I also plant seeds to the effect that they’ve hit bottom, so what’s left to fear?”

“It’s amazing how many children I’ve seen who won’t run on a dropped ball. Little princesses just pose and posture the whole game—any game. The strikeout freezers can usually stay on the team if their batting average is high enough. But princesses are eventually ridiculed and chosen last.”

NÓ CEGO: “My other chronic childhood embarrassment worry had to do with body functions. In grade school about the worst thing I could imagine was wetting my pants in class. However, I was also too embarrassed to ask to be excused to go to the restroom. Would this qualify as a double bind? I am probably one of the few people in existence who neither asked to go nor went anyway.”

“It wasn’t until this very year that I got blood on my skirt in public. I was seeing a teenage boy for therapy when it happened. I laughed.” Quando crescemos e aprendemos que dar aquela freada ou mijada na rua não é nada de mais. “Now I’ll ruin the story a little bit: The teenage boy had gone before I realized it had happened, and then I laughed.”

“Life’s traumas, goofs, negative embarrassments and such should be stored lightly. If they’re off in the warehouse, they’re hard to get at when you need them and could do something constructive with them. But even sending the empty storage cabinet to the warehouse is ill advised. Then you wouldn’t have anything to put these memories in. They’d be laying around in sight too much. There are times for getting them out, but really nobody wants to see or hear that stuff all the time, even your best friends. And how about your own probable concentration on them? That’s called negative feedback overload. To avoid repression or indiscriminate hang-out, better get those storage cabinets out of storage!” O que está sempre exposto passa a ser ignorado (como certos livros na prateleira, que estão na sua frente mas você não os vê mais).

The hypothesis was born: Be they orthodox or atheists, Jews have one foot stuck on the wailing wall. This was a hunch, not a put-down.” “A hipótese havia nascido: Fossem ortodoxos ou ateus, os judeus têm um pé fincado no Muro das Lamentações. Isso era um palpite, não uma afirmação ou acusação.”

IDENTIFICAÇÃO ESPIRITUAL, NO NEED FOR SHOWING (wallpaper de estrela de Davi e correlatos): “My fantasies went even further. I pondered the possible effects of Jewish Depression on the theory and practice of psychotherapy. Since nearly all the geniuses and heroes in this field really are you-know-whats, there might be an accidental bias that could be labeled the J.D. factor. Non-Jewish therapists would pick it up by identification and introjection. By now, almost everybody probably has J.D. This means things may not be as bad as they look.” Ser antissemita é ser antiocidental como um todo, mas não significa ser pró-oriental. Na verdade o Oriente desconhece o pânico anti-judaico; isso é uma doença exclusiva do homem moderno autocastrador. Ser antissemita seria negar nossas mais vincadas raízes pagãs. Ser antissemita é ser um destruidor dos próprios antepassados, nobres e elevados (recado a Varg & simplórios desta era).

Wailing Wall. To wail is to cry. A wall is a block. A crying block? Crying because of a block?” Trocadilho impossível em Português.

“Note that Adam and Eve had no neurotic human parents and did not live in an uptight culture. They didn’t even have any childhood memories. Archetypal shame may be rather far removed from psychological theories regarding its derivatives. Note also that Adam and Eve were not Jewish; they were everybody. There was a wailing wall long before the one in Jerusalem. The latter is likely a modern intensification, or reenactment.”

“For many years, as an adult, I had frequent repeats of two rather common dream themes. In one I was to be in some play. It was opening night, and the curtain was soon to rise. I couldn’t remember any of my lines. I couldn’t recall ever having been to rehearsals. I couldn’t even find a script to refresh my memory or to take, hidden, on stage with me. In the other dream it was time to go take some school exam. I hadn’t been going to class. I’d forgotten I’d even enrolled in the course. If I’d ever had the textbook, I didn’t know where it was.

Despite years of individual therapy, group encounters, and hundreds of psychological theory and how-to books, these dreams continued unchanged. Then last year I had breakthrough dreams for both of them and have not had either one since.

In the breakthrough play dream, the curtain actually goes up and I step on stage. I not only have to improvise my lines, but I’m not dressed like the others. Six women glide by in beautiful satin gowns, and I’m standing there in a terrycloth robe with a Kotex [absorvente] sticking out of one pocket. Everybody laughs. In the school dream, I go to the room, take the exam, and presumably flunk.”

All our righteousnesses are as filthy rags (Isaiah 64:6) is a commentary on general goodness, not just what we call self-righteousness. As such, it always sounded like a real bummer to me. Maybe the frequency of righteousness wasn’t high, but what a slam on quality. I once thought: Now there’s a good recipe for neurosis.”

“Of course, the righteousness insight didn’t really pop out of nowhere. I’ve been on a gradually emerging spiritual journey for 3 or 4 years now. Sometime during this period the following dialogue probably took place, although I’m surely still working on the last line of it.”

Donald D. Lathrop

 

<I have never had a failure in psychotherapy!> My out-bragging the braggart was so incredible that it shut him up. What a blessing for me! The rationalizations that would have poured out of my mouth in justification for my clearly unreal claim humiliate me even now as I think of them. Evidently he recognized at that point that I was crazy. He never attended another supervisory session.”

“The type of therapy—the goals, the expectations, the method—defines failure. In psychoanalysis, the best studied of the therapies, failure has two important faces. One is the therapy that never ends, the <interminable analysis>. The other is the therapy that ends without a full completion of one of the technical dimensions of (psychoanalytic) treatment, namely the resolution of the transference neurosis.” “In most psychotherapies, the transference neurosis is left almost totally untouched. Good results are achieved by minimizing its development.”

“We talked about Arlene Mildred and her father. There were parallels. Arlene had been suicidal for months and was perpetually rejected by her parents. Yet if she killed herself, there is no question that her father would be on the phone screaming threats at me.”

“I feel better (as always) when I work, when I do the work that is my calling. It’s hard to concentrate, but there is relief for me in involving myself with the immediate problems of the living. Now there is something new. I am now haunted by the reality that no one in my care, not my patients, not my family, not myself, is safe from death through my unawareness. The only relief for me is talking into my machine, blindly recording for what purpose I do not know.”

“I recalled today that Mildred had had an illegitimate child and that her parents had condemned her for it; they had disinherited her, had left her with the feeling that in no way could she redeem herself. Now that she is gone, they are going to punish me.”

“But maybe not! Sometime in the late afternoon, sometime after the first woman had comforted me, I began to permit myself to think that maybe they would not sue me. Even now this goes back and forth, now one way, now the other. I know that I will just be waiting, waiting for however long it will be before the letter comes, before the papers are served, waiting and scared and at the same time a little defiant. They are not going to destroy me. I am not going to destroy myself.”

“That’s another strange quirk in this. I can no longer take comfort, as I have for so many years, in fantasies of committing suicide myself. Some recent realizations have convinced me that not only is suicide no longer a possibility for me, but comforting myself with fantasies of suicide is no longer acceptable. How strange, how ironic, that at the same time this door is closed to me, I have experienced the first suicide in my professional career.”

“These are all games. Nothing changes the reality. Mildred is dead. The games I now play to keep other men from judging me, from punishing me for my unconsciousness, for my carelessness, for whatever part is my fault, these games do not seem to me to have much to do with Mildred and me.”

“Tonight Mildred’s parents are busy making the plans and carrying out the procedure of burying their daughter. When they are through, they will come to bury me.”

“She told me that she was responsible for all of the evil in the world. I told her she did not frighten me; I told her, as I have told lots of crazy people, that I would expose myself to her and then we would see whether she was indeed the overseer of all evil. Now she is laughing. I just wish she wasn’t angry. Of all the helpers, all the professionals who have been involved with this young woman over 6 years of suicidal behavior, she saved her act of murder for me. I can stand the laughter, but the contempt, the anger, the hurt to my therapist’s arrogance, that really digs in hard.

Strange that this poor woman and I came together. We were brought together by the impersonal forces of the State. She was covered for her psychiatric care by welfare. I was and am obliged to make much of my living by treating these people. Like many such patients, she did not even pick me. I was picked for her by the good-hearted woman who runs the boarding house where Mildred was sent after her release from the state hospital. This totally untrained person gets the horribly sick, broken souls after they are hastily patched up and discharged from the state hospital. She is understandably anxious to find some professional to take care of her boarders. Many of them are as severely disturbed as any patient I have ever seen in the backward of a state hospital.

From the first time she came to my office, Mildred did not want to see me. In fact, for her first appointment, she refused to come in. I was glad. I didn’t need any more patients. I didn’t need to convince this unattractive young woman that I could help her. So I let her go. But the lady with the burden of taking care of her day in and day out was insistent, and a reappointment was made. Second try: I got her into the office. It was at this time she told me that she was the carrier of all evil. I found something to like in her. Her arrogance regarding evil stimulated my own in a competitive sort of way. I’ve known since I was a kid that no one is <badder> than I am. After that beginning, it was a succession of broken appointments, my happily giving up on her because she was stuck in a hospital in another part of the state, getting her back, working within totally unrealistic limitations of time and money imposed by welfare regulations, step by step to the final miserable result.”

“I was aware, as dawn broke this morning during my run on the beach, of Mildred’s blind eyes that do not see this sunrise. My dream last night was that I was working with some other  people, trying to finish a job. Although I was working hard and felt the importance of finishing the job, I was not frantic. Then I was relaxing with some people, perhaps having cocktails, and a young woman asked me whether I would be giving a language course. I replied, Who, me? Parlez-vous ze Deutsch? Everyone laughed, for I had demonstrated that language was my very weakest subject.

I did not understand this seemingly light-hearted and trivial dream in response to Mildred’s death. Then I went to consult my friend, my guide, Max Zeller (our relationship was called Jungian analysis, or psychotherapy, and I was the patient). Max suggested that we consult the I Ching. This was a beautiful idea. It was the very sort of objective statement that I would be willing to accept. I certainly did not want any more comforting.

I asked the I Ching about the nature of my involvement with Mildred, the meaning of this experience. The answer was hexagram 28, <The Preponderance of the Great>. In this ancient Chinese symbolism was revealed a union of solidness, steadfastness, and joy. My light-hearted dream of last night now makes sense to me. As a student, much less a teacher of the language of the unconscious, I am a rank beginner. My life is the task that must be completed. As the dream says, I no longer work frantically at the task, imagining that I will thus impress the gods or get the job done, i.e., reach perfection. The hexagram also comforts me in my experience of inner peace, my lack of grief. I had feared that this was merely denial on my part, the refusal to feel the expected emotions. But the ancient book of Chinese wisdom suggests that grief and breast-beating are simply not part of this experience.”

“Now it is years later. I never heard another word from Mildred’s parents. The boyfriend who had encouraged her to sign herself out of the hospital against my advice called a couple of times. He mainly wanted to share his feeling that all of us had been bound together by a cosmic experience. I could agree—since he made no further demand on me. I was satisfied that he had forgiven himself as I had myself.

My failure, as I now see it, was in not being aware of the purpose of my treatment of Mildred. This young woman had been in agony for years, convinced that she was personally responsible for all of the evil in the world. She had tried repeatedly to solve both her own excruciating pain and the world’s unnecessary suffering by killing herself. However, she had always been too disorganized, too fragmented to succeed. I had treated her with medication and with psychotherapy so that she finally had the necessary ego resources to carry through a definite act of self-annihilation. My job was to cure her so she could kill herself! My failure was in remaining unconscious, in not being willing to be fully responsible for my part of the therapeutic contract.

I had known for years before this incident that the danger of suicide is greatest during the recovery phase. I knew that I could have legally detained her for a while longer. It would have been a lot of trouble, but it could have been done. The fact is, I just didn’t care enough about Mildred. That’s what was lethal.

I don’t want to slip into moralizing. That has no place in a world that is moving slowly but surely away from judgment, away from manipulation through guilt. I am convinced that my own refusal of guilt in Mildred’s death was the key to my not being punished by society. If we permit guilt to take over, we communicate to others their right to take vengeance on us. Meu satânico erro em quase todos os períodos turbulentos da minha vida: ser cristão demais! Jussara, Maria das Graças, veteranos bobiólogos, até mesmo indivíduos estranhos, conhecidos na véspera… sempre se aproveitaram dessa faceta, tantos rostos descarnados disponíveis para umas pancadinhas, impunemente… Felizmente minha língua e meus dedos, embora em efeito retardado, isso lá é verdade, não seguem ordens ou ditames do “corpo típico” (o que me lembra TÍSICO), se é que se me entende. Aloprados e mais sinceros do que idiotas e bons, eles procedem à vendeta; “fora de contexto” não existe na perspectiva dessas duas instâncias, verdadeiras guias desta carne que transpira. Uma vez, em que não importa quanto veneno a serpente inoculasse eu jamais reconheceria qualquer porcentagem de culpa: Isabel the Unimportant Nóia, leprosa que se filia com os tipos mais tortos e mendicantes, desajustados, dessa Brasília imunda (e por isso me conhece!), não tinha nenhuma razão, mas, ainda pior, nenhuma chance de, com razão ou não, me convencer de minha responsabilidade no incidente que precipitou meu divórcio. Isto não é dizer que esse tipo de pessoa sem conhecimento causal algum tem qualquer ciência socrática de que nada sabe: pelo contrário, uma Unimportant Bell é sempre e perigosamente a “personalidade forte” que carrega uma fé cega, uma autoconfiança ilimitada nos próprios métodos, a pura contingência e falta de método, a vida informe e tosca, não-lixada, torpe como madeira matéria-prima. Estas pessoas são tão fanáticas em seu niilismo inócuo quanto qualquer dogmático tentando reinjetar, atavicamente, tabus e ritos milenares já superados na nossa sociedade protestantemente laica (faz parte do jogo de cena a impressão de que os evangélicos nunca foram tão poderosos, mas é uma força de castelo de açúcar, com dilúvios à vista…). Não temos rigidez e teimosia para levar adiante nenhum propósito que não tenha nascido ontem mesmo, enquanto civilização brasileira pós-moderna. Os mais doidos e inconseqüentes que já conheço há anos, mesmo que sem qualquer padrão real, são os únicos que posso descrever com precisão em seu martelar psicológico entediante.

ATENÇÃO, FIÉIS! NOSSOS PLANOS FORAM ANTECIPADOS PARA ONTEM: “All of my life I have failed. All of my life, I have suffered depression as a consequence. But I would far rather take my punishment as depression than project the responsibility for punishing me out onto the world. Others are not likely to be as merciful to me as my own educated inner Judge. I had a revelation once: There is no judgment on Judgment Day.

Vin Rosenthal

 

“Unlike Joseph K. in Kafka’s The Trial, I know what I am guilty of”

“I am so nervous! I take some Thorazine. (Why Thorazine! Especially when I’ve never taken any psychotropic drug—not even marijuana.)”

“(And now I know what my patients are talking about when they tell of their anxiety.)” Weird. Sempre achei que a descoberta antecedia a profissão!

Were you aware that a contract with a ‘schizophrenic’ often has little binding power?”

 

“The Tribunal gets really hot when it suspects sexual misconduct on my part. The judges are terribly suspicious of anything that looks the slightest bit sexual. (This sometimes is a hard one because they don’t always agree among themselves about what is sexual and about the rules of common practice and the behavior of the hypothetical <reasonable therapist.>) The Tribunal casts its confronting eyes over my writings and challenges me about such statements as follows:

She says: If it hadn’t been for your response to me, your holding me, I don’t think I would ever have come to believe anyone could find me sexually desirable; no matter how long we had just talked about it.

 

I’m amazed and overjoyed. I had picked up her message that she genuinely desired to have me-as-a-person act warmly, lovingly, intimately, with her-as-a-person, but I was uncertain whether I should risk it. Now I can see that by limiting my risk I would have seriously limited her possibilities.

 

My judges are especially wary whenever I Hold a patient.” “they often are skeptical and insist on reading between the lines and beyond what I have written.”

If I sense the person is feeling sexual as a child, I let him know he is safe. If I sense the person is sexualizing to avoid, I try to encourage his getting to his child; if he does not, we sit up and work on it. This is also true if I sense that I am sexualizing the situation. I do not continue TO HOLD a patient if I stay with my sexual feelings”

 

“The Age of Aquarius enables me to avoid detection; no one looks that closely, and whoever does is ridiculed for being <uptight>.”

“What would you have me do? What kind of job would you permit me to hold that would enable me to retain my humanity, use my skills and talents and develop my potential? Remember, my peers are no better than me. The few unflawed noble souls are, wisely, going about their business in an unpublic way; they couldn’t care less. I have to live somewhere, someone has to share my company—otherwise that would be too inhuman a punishment to fit my misdemeanors. Reforming seems like such a difficult, even impossible task. Disappearing feels easier, yet, I’d have to take myself along. I suppose I’ll just go along as I have and hope that nothing happens.”

Lora Price

 

why not just a few?

 

“In the social work profession, close, intensive working together with clients toward personality shifts and problem-solving is called <counseling>. This is a term that suggests <telling> someone what to do as a way to be helpful.” “It is the social worker—the woman—whom the public mind most often identifies as the offerer of the <concrete> service. The intangibles, the profundities, are within the male preserve.” “Sigmund Freud and Otto Rank supplied the educational approaches that dominate the field. When I was in graduate school the faculty was overwhelmingly female. The course in psychological theory was the only one not taught by a social worker. Instead, the instructor was a male psychiatrist with a faculty appointment as <consultant>.”

“Even those social work agencies most heavily invested in offering counseling rather than concrete services rely upon regularly scheduled psychiatric consultations to determine and consolidate diagnosis and the direction of treatment. When I was a caseworker in a family service agency, it was a male psychiatrist who was hired to offer his expert opinion on a weekly, one-hour consultant schedule. There were only one or two caseworkers who could <present> within this frame.”

“Mistakes or therapeutic errors (although they were not so designated) were to be kept <in house>. This was a familiar and oft-taught lesson.” “The case supervisor, my supervisor, and I would all sit there chatting amiably, awaiting the arrival of the psychiatrist. He always came late because his schedule was so busy. All four of us would then engage in seeming accord as if there was only one way to work with my clients, one direction for me to follow. Because my submitted materials reflected only that I knew exactly what to do, we could then all bask in the aura of certain knowledge and perfection.”

“Making one’s way is equated with manipulation and control. Although the kernel of this truth first became evident in my work in a social work unit (a family service agency), it was even more glaringly so when I began working in mental health facilities. Ironically, these are considered the apex of clinical social work placements because of the opportunity they offer to do counseling—or therapy—without the impediment of the concrete service traditionally found in social work agencies. I had decided to go this route because of my wish to work with clients more intensively and knowledgeably.”

“When I applied for the job I wanted, I was turned down by the woman who was the Chief Social Worker. She said I was too inexperienced and would make too many mistakes. Besides that, I had been trained as a Rankian and obviously would not fit in with the Freudian approach of that particular clinic. She knew that my being there would <embarrass> the social workers who needed to keep up with (if not be better than) the medical staff. The chief of the service was a male psychiatrist. I saw him next. He was pleased to maintain his position in the ongoing struggle by overruling her and hiring me. In any case, he could not conceive that anything I would do could be that important. He knew that it was the doctors who ran that clinic.”

“the <family> was considered to be my area of expertise. The people I saw were labeled <clients> in deference to their secondary standing in the treatment matrix.”

“In my mind, women were less likely to be accepted into medical school than men, and girls were not as skilled as boys in dealing with prerequisite subjects such as science and mathematics. Also, becoming a social worker consumes less time and less money. Clearly, expending less energy befits a profession which is only of secondary importance.”

“Away from my clients I wept copiously. With them, I insisted on appearing intact and untroubled. I feel embarrassed now by my complicity in perpetuating their assurances that I could be perfect”

Arthur L. Kovacs

 

Presented at the symposium Critical Failure Experiences in Psychotherapy, Division 29 Midwinter Meeting, 1972.”

 

“I now know that this formulation is nonsense. What we do with our patients— whether we do so deviously and cunningly or overtly and brashly—is to affirm our own identities in the struggle with their struggles. We use them, for better or worse, to secure precious nourishments, to preserve our sanity, to make our lives possible, and to reassure ourselves in the face of that ineffable dread that lurks always beyond the margins of our awareness and can be heard as a very quiet electric hum emanating from the depths of our souls when everything is silent.”

“In this way, we can use our training to utter comfortable lies to ourselves and to avoid looking at the processes by which the persons we are either catalyze or defeat those who move in communion with us.”

“…what? Disaster? Chaos? Stalemate? I do not even know the right word to describe the outcome.”

“Part of me needed a persecutor, and Gwen supplied the potential to play the part.” “When I no longer needed to be persecuted, we somehow parted.”

“subjective time is always more important than objective time”

“Gwen came to see me because she had begun to experience severe anxiety attacks in school. Most of these were evoked by encounters with her psychology instructor, a married, middle-aged man. She was convinced, in her own paranoid fashion (to which I was unutterably blind in the beginning), that he was making seductive, obscene, and shaming gestures toward her continually. When he discussed masturbation in his lectures, she believed he was shaming her before the whole class, accusing her and revealing that she was a masturbator. She would blush, feel terrified, and have to leave class. Gwen was frequently aware of his genitals bulging in his trousers. She often believed he dressed in a fashion to accentuate them and positioned himself in such a way as to exhibit his endowments to her. When he talked about sexual matters, she <knew> he was lusting after her. I need to make it clear that, as I do so often, I partly trusted Gwen’s craziness and indeed believed there was something in the instructor that longed for her. She was, I must repeat, deadly cute.”

“When she returned to her next appointment, she was furious with me. She screamed at me that I was a rotten fucker, that I had sent her to her humiliation, that I took sadistic pleasure in teasing her. The force of her violence was incredible; her features contorted into a malevolent hatred that I have seldom seen. For the first time, I sensed the presence of some awesome murderousness in her, and I felt frightened. The pitch of her screaming was louder than I had ever heard. I believe, and still do, that the instructor had manipulated her and given her a dose of clever poison to choke on as he protected himself from her paranoid wisdom. I tried to get her to hear that. Her ears were closed by the noise of her own anguished, vicious screaming. She broke out of my office, fleeing from me and from her rage, almost wrenching the door off its hinges—although she probably does not weigh more than 95 pounds [43kg].”

“My beliefs, inflicted on Gwen and most others who opened themselves to me, were my armor, my sword, and my shield at that time of my life.”

“The next many months Gwen found exquisite ways to torment me, even though I could not get her to come to my office. She began, for example, to call me, usually around 3A.M.. I would stagger out of bed to answer the phone. There would be an ominous silence, then a loud screaming, You goddam piece of shit! I want you to die! or something equally vicious and abusive. Suddenly the phone would be hung up and it would be over until the next time. I believed then that my life was in the grip of some malevolent, overwhelmingly crushing principle, for Gwen’s timing was exquisite. Most of her calls occurred at times when I felt too weary, too battered to stand one more moment of anguish in my life. My struggle to build a new existence was beginning to consume me. Most of those nights I had fallen into fitful sleep after lengthy episodes of bitter acrimony with my former wife or of crying desperate tears at having to cross such a limitless desert alone. Gwen’s calls would cause me to start up from steamy, sweat-rumpled sheets in terror; I did not feel the strength to deal with her.”

“At last, after an absence of 4 months, I finally received a daytime call from Gwen. She asked to make an appointment! When she came in, she told me that she had been thinking about her therapy a lot and that she felt she wanted to enter group therapy. Having others around would, she believed, keep the 2 of us from getting into terrible trouble together. (I often notice patients possess incredible wisdom, if we would only listen!) I also, as did she, wanted and needed to dilute the horrible intensity of what had been transpiring between us. I readily assented, and Gwen started group.”

“In her middle adolescence, Gwen’s stepfather had a psychotic episode, preceded by a period of great violence during which he brandished a pistol repeatedly, screamed at his family members often in desperate viciousness, and engaged in great, raging, hallucinatory battles with his wife—during which he sometimes bloodied her or broke her bones—before he himself finally went to a psychiatric hospital. Gwen trembled violently as she remembered and related these things. During this period of treatment, also, Gwen got herself a job as a secretary, decided to attend college at night, and moved into her own apartment, separating from her family for the first time in her life. And I felt smug, pompous, and marvelously effective as her therapist. What an ass I was!”

“Once I was working with another patient. The other patient was pouting, sullen, withholding. She had come up to the edge of something and now sat stolidly, defiantly, unyieldingly. I became exasperated and started shaking her. The next thing I knew, Gwen threw herself on me, fists flailing, screaming You fucker, you fucker! It took 10 people to pry her off of me. I was very shaken.

Another marathon. Days, months, years—I do not know how much later. I had taken 20 patients into the Sierra Nevada. We were camped out in a snow-surrounded, glacial-scoured, lake-filled paradise. I had asked a woman along to share my sleeping bag at night. As I look back, I now feel ashamed of my choice. My companion was young and very pretty but had nothing more for me than sexual compliance. For this she wished to present me with a large number of emotional demands. At that period of my life I was desperate for any crumb of nourishment, did not appreciate my worth, and would hunger after anyone I believed would have me. We fought a great deal that weekend. Gwen kept watching the two of us balefully. During the 2nd day, she asked the largest man in the group to restrain her physically while she talked to me. He did so, and once again she shifted gears into her screaming viciousness, calling me a piece of shit, a motherfucker—any obscenity she could muster. He held her so she wouldn’t hit me. She struggled hard to get free while she vilified me. The gist of her tirade was, of course, that I was a moral leper, a vile sensualist, and a user of people.

As my first marriage continued to die and as I searched for the goodness I so longed for, Gwen became somehow in my mind the world’s representation of the established moral order. She had been selected to make me suffer for my sinful attempts to make a new life. The night calls and screaming at me over the telephone continued, usually when I could least bear them. Incredible vituperation also spilled out of her in group each week.”

“Weekends are always terrible when marriages are dying.”

I want her dead! I suddenly knew it and began to fantasize the myriad ways I could kill her. I danced exultantly over her broken corpse. Her life must end so that mine could go on! (…) That shitty, stinking little cunt-bitch! I arrived at work trembling in fearful awe over the intensity of my own murderousness. That night in group my patience was exhausted. The 2 of us got into a screaming battle with each other. I told her how I longed for her to die. We traded insults and murderous fantasies. I felt momentarily better.

Another night—weeks later. I am talking to someone else about masturbation. Gwen’s paranoia flares up again. She accuses me of sitting with my legs apart to compel her to stare at my crotch. She insists that I am talking about masturbation to shame her. She yells that I should get it straight once and for all that she does not masturbate. I get furious. I tell her that she is a stupid little bitch. I tell her she is 20 years old and that it is time she started masturbating. I describe to her how to do it and order her to go home and carry out my instructions after group. I add that I never want to hear anything about masturbation from her again. She becomes silent. Finally, I start searching my heart about her accusations. I tell her that they are partly justified, that when I first met her I had indeed tried her on in fantasy as a possible lover. I assented that I had probably teased her provocatively and flirted with her in subtle ways. I admitted to her the crazy desperation that seized most of my life then, the hunger to be at rest in a good woman’s arms. I added that my fantasies about her had died, though, soon after my getting to know her—that she was not my other half, nor what I needed for me. I said that I regretted that fact. I believed that my inability even to imagine her any longer as a partner to me was a sad tragedy. I felt forlorn as I talked to her. I closed the group by expressing my wish that a day might come before either of us were dead when once again she could stir me in such a way as to invoke in me imagery of her being my woman. I knew that that would be a sign that something profound had happened to each of us.

Early the next morning, Gwen called. She asked if she could have an individual appointment with me. I had a cancellation that afternoon and readily assented. At the appointed hour, I opened the waiting room door. Her face was contracted with rage. As she walked by me, she slapped my face. When we entered my office, I asked her what the hell that had been for. She screamed that I had exposed, shamed, and humiliated her in front of her friends in group. Then she went berserk and threw herself on me, trying to claw my face and spitting at me as we tussled. We crashed to the floor, spilling furniture and books everywhere. I finally subdued her, and as she began to feel the assertion of my strength and control she murmured between clenched teeth: Go ahead, you bastard. Fuck me. I told her I wasn’t interested. She began to sob convulsively. I had never seen her like that. She was suddenly very little and helpless, a 3-year-old who had been running around in murderous fury, trying to pretend that she had adult competencies lest the world penetrate her disguise and annihilate her. An image is indelibly burned into my awareness: the two of us sitting there on the floor in the midst of the rubble of my office, Gwen sobbing helplessly in my arms, my rocking her and feeling rubber-kneed and weak from the awe and fearfulness of what we had just experienced.”

“She began describing her stepfather coming into her room one night. Gwen stopped, flushed, went incredibly tense, and would not go on.” “My instructions to her to enter into a dialogue with the half-fantasied, half-remembered shade of that man on that nameless occasion precipitated a kind of trance-like state. Gwen became 14 again. She relived and reproduced what I knew was in store for all of us—her stepfather’s feared, longed-for, luscious, tormenting, lacerating, hungering attempted rape of her that awful night of her memory. Who knows whether the events were real or not? I still do not. But their reality was powerful that evening she described them to us.”

“Her tear-drowned eyes remained closed. I picked her up and rocked her as I would my own daughter. At first she drank me in. Then I felt her stiffen. I knew intuitively what was happening, and I said to Gwen, No, I don’t have an erection. She realized it too, at the same time, and turned to rubber once again in my lap. Yet, at that moment, I sensed our relationship was doomed and hopeless. If I held her at some emotional distance to placate her longing, terrified struggle over being penetrated, she would rail at me for being no help, disinterested or worthless to her. If she captured my attention, and I started to move closer to her, I would become the bearded satyr—too exciting, too forbidden, and too dangerous to deal with. Either way the end result was an outburst of fearful hatred. I talked to her often about this frustrated, impotent dilemma into which she thrust me. It never did any good.

Instead, Gwen began to separate from me. She started to come to group less and less. At first I felt comfortable with this, for the events of her life demonstrated a thrust toward increasing competency and mastery. She received a significant promotion at work. She separated from her boyhood lover and began to explore the possibilities of loving a much more capable man a few years older than she was. (…) One day she called me to ask me for a referral. A friend who did not have much money wanted to enter therapy and asked her, so she said, for the name of a good clinic. I provided this to her, and I added that the friend should ask for Dr. X, if possible, at that agency for I knew he had a good reputation. Three months later I found out, when Gwen began to talk matter-of-factly about it in group, that it was Gwen herself who had gone to see Dr. X and that Dr. X had begun seeing her, not at the clinic, but in his private practice!”

“She finally mustered the courage to tell her new lover that she was falling in love with him and to ask him for more of himself than he had been willing to give her thus far. He smiled, told her that she was a sweet thing, but that all he wanted her for was an occasional night in the sack. He laughed delightedly at her precious gift of her avowing that she wanted him, and he went to the refrigerator to break out a bottle of champagne. Gwen went berserk, tore up the man’s apartment, and forced him to throw her out bodily. She then came to group the next week, started up her screaming machine again, complained that I was an evil monster who ruined people’s lives, and stormed out of the office. I did not see Gwen again for three months. I was relieved. I thought she was gone forever, and I was happy. I had at last left my previous life, was living alone, and felt joyously in love with the woman who is now my wife. Gwen’s seeming departure was a mystical sign to me that my perilous journey was at last over and that I would be able to rest in my wife’s arms, exhausted, ecstatic, and optimistic about what we were beginning to build.

Much to my surprise, Gwen signed up for a weekend marathon [!] I held the next January. My soon-to-be wife accompanied me on that occasion. As I relive those moments, I remember how Gwen stared at the two of us in hateful envy. She detested my happiness. She tried to interfere, with sarcasm and cruel mockery, in any work I attempted to do. I finally stopped everything to contend with her. I was quaking with tension. After Gwen played many screaming broken records over and over again, I asked her what the hell she wanted from me. To my astonishment, she softened and asked to be held. Haltingly, I agreed. She came and sat next to me. I put my arm around her and she leaned against me, but I felt some kind of stiffness and unyieldingness in her manner and bearing. I told her I missed the vulnerable child she had—on a precious very few occasions—allowed herself to be with me. My wife, in her usual marvelously intuitive fashion, saw the look in Gwen’s eyes and began to speak to her of her own struggles with pride and envy. They swapped tales of being children, of longing for good fathers, and of all the turmoil and fear such longings create. My wife urged that Gwen be resolute in searching for what she wanted and that she not allow her fears of other women’s retribution to turn her aside from her quest. Gwen softened and allowed herself at last to surrender to being held. Later in the night one of the women in the group asked Gwen for permission to, and indeed did, feed her from a baby’s bottle. [Ah, kleinianos!]

Gwen then disappeared from my life. Once in a while I would get a phone call from her complaining bitterly about the cold, cruel, and vicious treatment she was receiving at the hands of Dr. X. I urged her each time to discuss her grievances, real or imagined, with him and told her she was always welcome, if she wished, to return to group—that many people missed her and asked about her. Last June, I got a call from her again. She and Dr. X had gotten into a fight, and he had thrown her out of therapy, saying that he was sick of her vicious bitchiness, would not put up with it anymore, and was not going to see her again. Gwen sounded crazy and frightened on the phone. I began to get anxious.

Two weeks later I came into my office and found it at shambles. All my books had been thrown on the floor. The furniture was overturned. Papers had been ripped up. A cover from Time magazine, the one with Jesus Christ Superstar on it, had been ripped off. A knife, thrust through the face of Jesus, impaled it to my couch. I knew immediately who had done it, and I began to fear for my life. Then Gwen called and asked for an individual appointment. I refused, telling her that I was afraid of the violence in her. I urged her to come to group so that we could talk where we would both be safe. She screamed at me and hung up.”

“Three weeks later, a fireman came into my office. Gwen had been gathered in off the roof of my building after having threatened noisily for an hour to jump.” “The physician in charge called me. He said Gwen had confessed to him it was the 3rd attempt she had made on her life in 48 hours.”

“The mother reported that Gwen had assaulted her parents and her father’s psychiatrist during the past week. I begged the mother to have Gwen hospitalized. Instead the mother screamed at me for being <one of the fucking Jew-doctors> that had ruined her daughter’s life. Screaming in fury, she told me she was going to take Gwen home. For the next 3 weeks I walked in dread, not knowing whether Gwen was alive or dead, not knowing if she would come at me out of some other dark night, this time with a weapon.

Late in July, Gwen called again. She asked for an appointment. For some reason known only to my sense of the uncanny¹, I granted her request. I was terrified, but I needed to confront some primitive dread in me. I was sick to death of being a person who always ducked bullies and fled from the possibility of violence. She would be the occasion for me to confront me.”

¹ Referência freudiana

“She related to me that she had made appointments with 8 different therapists in the past 4 weeks and had physically assaulted all 8 of them and fled.”

I guess I’ll live. But I don’t think I’m going to go on with therapy.”

 

“As she disappeared down the hall she smiled bravely and called out over her shoulder, You’re the only one who always lets me come back. I have not seen or heard from her this past 3 years.”

“Gwen served me well as my vicious companion at a time I needed one. The impress of her being will always be with me.”

Hobart F. Thomas

 

“On several occasions I have experienced deep feelings of love and/or sexual attraction for clients. At other times I have felt and expressed feelings of irritation and anger. None of these emotionally charged situations, however, seems to provide the devastating frustration of those in which no truly personal contact occurred. I am recalling the long and seemingly fruitless hours spent with depressed patients in mental institutions, which seem to put one’s faith in a therapeutic process to the ultimate test.”

“Perhaps the toughest experiences of my career were the days of attempting to practice before I myself had undergone personal therapy. I had mastered the knowledge, techniques, and procedures well enough to obtain a clinical Ph.D., but the heart and guts of the process were missing. Bizarre as it may sound, I even recall on more than one occasion actually envying the experiences of some of my clients in therapy.”

“Approximately 4 years after completing a doctorate, I entered personal therapy. Reasons for the long delay are not easy to determine. In spite of episodes such as the above, I seemed to be endowed with sufficient ego strength to keep the show going. Besides, I was not convinced that the Freudian model and many of its practitioners, who represented the bulk of my exposure to clinical practice at the time, were the answer either to my own or to the world’s problems. It was then, and is now, my conviction that one best chooses a therapist out of some deep intuitive place, and one can do no better than to follow one’s feelings when making such a choice.”

Bouts with the perfection monster”

“Being <analyzed>, at least in the circles in which I traveled at the time, also qualified one for membership in a rather exclusive club. A part of me wanted to belong, to be accepted, to be part of the action. Another part, for whatever reasons, refused to join up and pay the membership dues.”

“Ironically, my impression is that, currently, the Jungian school is considered more <in> [fashion] than the Freudian. At the time, such was definitely not the case.”

“What if all of a sudden I can’t function?”

 

“The outer drama in which therapist and client each play their respective roles continues, apparently without interruption, until the end of the hour.”

“The experience of panic occasionally recurs, sometimes in the consulting room, sometimes while teaching a class, or sometimes during seemingly ordinary conversation—usually, in each case, when I feel pretty much in charge and everything appears to be running smoothly. (Another clue here, perhaps?)”

really plays well for his age”

 

“We need not always stand alone.”

Look, Mom, I finally made it!”

 

“My hunch is that the state of panic is a corrective, devised by my wiser Self to help put things back in the proper perspective—a real therapeutic kick in the ass to remind me that I’m not God.” My hunch is that my panic is for me to saying Farewell, father!

“it is essential to know how to let be.”

that’s all: [be] midwife. You can relax.”

“My perfection bogey-man stays with me a good deal of the time, however. Having experienced that paradisaical state of Being, I do keep searching for ways to get there and stay there. Even when I appear to be laying back, I’m trying—trying to do, trying not to do. And, too often, in rushing to reach home I forget to smell the flowers along the way.”

NO, NOT FREUD: “When my own therapists revealed themselves to me as persons, not gods, I soon realized that human imperfection has about it its own particular beauty.”

Joen Fagan (mulher – informação relevante para um dos casos que ela irá contar!)

 

“One of my oracles is the dictionary. Built into the derivation of words and the range of their meanings is a cohesion of human experience. So I asked Webster the meaning of naked, and found my eye pausing over and returning to <defenseless, unarmed, lacking confirmation or support.> As I sat, feeling my way into these meanings, I remembered William.”

“He sat in the front row, nodding at the right times and laughing at my jokes, behaviors much appreciated by a teacher.” “You know so much about this; don’t you think…?” or “Why wouldn’t it be true that…?”

“I was lonely, but people had to press against me to become friends; even though I needed and wanted them, my reserve and hesitancy took some broaching. It was the same with students who had asked me to counsel with them. They had to persist past my uncertainty and self-doubts. So I accepted some intrusiveness and tolerated my discomfort with him without firm limits or comments.”

Did I think he needed to go back into therapy? Did I think he was crazy? His father had said that to him this week. His wife had told him that too. But he thought he was doing well. Would I see him for therapy?

No, William.

Why not?

You’re not finished with Carl. Besides, I won’t see students who are taking courses from me for therapy. (Avoiding saying, of course, that I doubted my ability to handle him or that he was too manipulative.)

Well, will you have lunch with me? Why not?

He was becoming a nuisance. Once, as he got up to go, he suddenly leaned over and tried to kiss me. I was angry then and told him so.”

“Did I think he was crazy? He had been hospitalized before. What did I think? <I think you’re bothered about a number of things and should go back and see Carl.>

“Anyway, in another week summer vacation would start, and 3 months away from the college would solve the whole thing.”

“The next morning an envelope was in the mailbox at my house; it was a somewhat confused but humorous letter from William saying he had decided to spend the summer in a nearby public park and inviting me to join him.”

“The next day there was another letter, more angry and threatening, with some sexual allusions that were immediately denied. You know, of course, that I’m just kidding. I love you and wouldn’t hurt you or do you harm. I began feeling frightened and did not sleep well. The letter the next day was even more threatening. If you won’t see me, you won’t see anybody. I want you and I’ll get you.

“The father called me later that afternoon to say that he had found William and had had him admitted to a psychiatric ward. My relief, though, was short-lived. Letters now started coming through the mail, openly delusional, abusive, threatening, and sexually blatant. Again I waited and did nothing, not knowing anything to do. Should I contact his unit? Or him? Or his father? To do what? Say I was scared? Then his father called again. He thought I might want to know that William had escaped from the ward.

There was a paranoid somewhere in the city and I was the center of his delusions. Several days of extreme anxiety. I put chain locks on my doors and jumped at noises. I remembered a patient at the hospital where I had interned, who, ten years after his last contact with a former female therapist, still maintained a similar life-focusing preoccupation with her. The hospital viewed him as sufficiently dangerous to call and warn her when he escaped”

“I remembered other threats to therapists and attacks by patients, and I frantically found work to do and friends to be with.”

“Shortly after that an FBI agent called to say they had investigated the forgery at the request of the bank but did not recommend pressing charges since William was now in the psychiatric ward at Bellevue. Again, relief.

Once every few months a postcard came, and one time, a box of candy on Valentine’s Day. He might no longer have been paranoid, but I was; thinking there was a chance it was poisoned, I threw it away. The sight of the neat, familiar writing could still evoke anxiety, but the cards came less and less frequently until finally a year or more had passed with nothing to remind me of him.”

Do you know that you saved my life?

No, William, I didn’t know that.

 

He stood up, went to the door, paused, said goodbye, and left. I realized that I had no idea what he had meant.”

“Do you know, William, how much you taught me about the impossibility of running?”

Barbara Jo Brothers (e sim, é só uma pessoa)

“I am caught. There is no way my vanity will let me avoid rising to the challenge, no way I would decline contributing to this book…but knowing this as my personal dilemma: the risk of exposure of a place inside myself—a place I have found virtually unbearable… a place I have virtually given my life to protect.”

“When I met Jerry, I was in the first month of my first clinical job, armed with my degree and with all of the accompanying mixtures of zeal and anxiety. There was Jerry. Transferred to the local state hospital’s adolescent unit because his family’s funds had run out (after 9 months of psychoanalysis and private hospitalization), Jerry was as crazy at that point as he had been 9 months before. I had known his analyst, so I knew a bit of his history.”

“In my youthful mind, if one of the best analysts in town was giving up, I was already expiated from whatever penalties of failure might ensue and from the awesome demands of Knowing-What-I-Am-Doing.

Jerry and I did well. Then one day the hospital decided to discharge him, prematurely in my judgment. I sent him to what I considered to be the best mental health center in town and tried to tell myself something to make the  uneasiness a little easier in my hither-to-relied-on gut.”

“My own therapist comes in, tries to look like a doctor, takes my pulse. <Are you depressed?> he says. I reply, <I’m too sick to be depressed. Come back in a few days and I might have a depression for you.>

“We had lost our connection after my discharge. I had referred him to the best therapist I knew in community out patient mental health clinics. He was re-hospitalized. I vehemently protested when hospital policy dictated that he not be admitted to my unit simply because of having had one more birthday since his discharge [ultrapassou o limite de idade de sua clínica]. I might have conquered death, but I was not going to have an effect on the monolithic mental ill-health system. He went to the adult unit and killed himself while out on pass.”

“Exposure, expression, mistake, all are cyclical. My exposure is beginning to sound like my salvation. That which I fear most seems to serve my best interests most powerfully.”

I dodge and twist and evade.”

Carl Whitaker

 

“Before antibiotics, treatment of gonorrhea in the female usually consisted of months of hospital bed-rest. The Green Girls were locked in a big ward on top of the hospital in the middle of the East River. It was my job to try to keep them from becoming overly excited in order to prevent flaring up of the infection that had gotten them arrested and imprisoned.

It was a strange flip for a religious country boy to end up dealing with Broadway chorus girls. They wanted to have their operation by our own gyn department because we used a special incision below the hairline. That way they could go back on the stage and not be laughed at for exposing their surgical scar.”

I saw this big white polar bear sitting on the bed, and I knew he wasn’t real, but I had to call the nurse because he looked so real.”

 

“As I learned more about the vivid experiences of psychosis, I rapidly lost my interest in the mechanical carpentry work we call surgery.”

“A patient who was mumbling to himself explained that voices were calling him horrible things and saying that he had intercourse with his mother. I said, ‘That must be very upsetting,’ and he waved me off with, ‘Oh, no, they’ve been doing that for years, and I don’t pay attention anymore’.”

“Later I talked with an 85 year-old man who came in for molesting an 8 year-old girl. When I met the girl, who looked like a professional actress fresh out of Hollywood, it made huge gashes in my fantasy of what life and people were all about.”

“This call of the wild, the agony and ecstasy of schizophrenia, of the whole psychotic world, ballooned inside of me.” “The magic of schizophrenia, that Alice-in-Wonderland quality of spending hour after hour, sometimes all night long, with a patient whose preoccupation with delusions and hallucinations made him as fascinating as yourself, was matched by the mystery world of play therapy.”

“My discovery of Melanie Klein and her beliefs about infant sexuality was like a repetition in depth of my earlier discovery of the psychotic world.” Oh no, not this bitch again, defenestrate her, from the fifth flour, please!

“my first introduction to psychotherapy was by way of the Philadelphia social work school’s form of Rank’s process thinking. I became more and more intrigued by what brings about change. There was an 8 year-old boy who hadn’t said anything since he had whooping cough [coqueluche] at age 2. I spent 6 months seeing that boy once a week while the social worker talked to his mother upstairs. He never said anything to me either, but we threw the football out in the yard. He did listen to me talk about him. I finally gave up and admitted I couldn’t help. He and his mother went away disappointed. I thought I’d had it with psychotherapy until we got a call back 3 weeks later saying he’d started talking.”

“It became more and more clear that medical students were divided into those who didn’t know how to be tender and those who didn’t know how to be tough. How difficult it was to teach either one to have access to the other. I didn’t really know I was merely talking about myself for some years, but I did discover the joys of working with delinquents. That power! I always thought of them as Cadillacs with steering gear problems, whereas the neurotics we saw in the medical school clinic were like old Fords that were only hitting on two cylinders. Looking back, I often wonder how many of the delinquents stole cars just so they could come back and tell me about it.”

“As a matter of fact, for the next 3 or 4 years I bottle fed almost every patient I saw—man, woman, or child; neurotic, psychotic, psychopathic, or alcoholic—and with a high degree of usefulness, if not success. It was only some time later that it dawned on me that it wasn’t the patient who required the technique, but the therapist. I was learning to mother, and once that was developed I couldn’t use the technique anymore.”

“I didn’t even know then that co-therapy was a secret system for learning how to talk about emotional experiences. It allowed you to be able to objectify a subjective experience shared with someone else.”

I eventually left to work in Atlanta, where we discovered in those early days that the baby bottle was a valuable way to induce regression in the service of growth but that fighting was equally valuable. Just as the baby bottles spread from one to another in our staff group of 7, so the fighting moved until we were apt to be involved physically with almost every patient in one way or another. The intimacy of physical contact—of slapping games, of wrestling, and of arm-wrestling—became a part of our discovery of our own toughness.”

“By 1946 we had 3 daughters and 1 son. The problem of trying to be an administrator and a clinician had exteriorized a lot of my immaturity. When the stress in the hospital and medical school got high, I began to precipitate myself into psychosomatic attacks with cold sweats, chills, vomiting, diarrhea, and a half day in bed. Cuddling with my wife resolved this, but I went back into psychotherapy to help develop confidence in preventing it. Living with our own children also convinced Muriel and me that the only <unconditional positive regard> in this world comes from little children.”

“It was clear to us that the reason people work with schizophrenics is that they want to find their own psychotic inner-person, which is known more and more as the right brain—that nonanalytic total-gestalt-organized part of our cortex. We struggled over the schizophrenogenic mother and over whether the father himself can create schizophrenia. All this anteceded systems theory, which made it clear that it takes a family system (and more) to originate such a holocaust.” Quanta inocência, diria Deleuze…

“The craziness that had overlain her arteriosclerosis of the brain had long since faded into the background. She just ate and slept and smiled and went to the bathroom. But the family still loved her and still enjoyed being with her. They had not turned away from her because of her failing health.”

“It seems that the initial therapist is contaminated with all of the usual problems of being a mother: He’s all-forgiving, all-accepting, and minimally demanding. In contrast, when the consultant comes in for the second interview, he turns out to be very much like the father: He is reality-oriented, demanding, intellectual, much less tempted to accept the original complaints or the original presentation, and very much freer to think about what’s being presented in a conceptual, total gestalt manner.”

“The Atlanta clinic was our private world, and the sophisticated world of a psychoanalytic organized group left me with uncertainties, awkwardness, and the temptation to be isolated.”

“The initial phase of working with the family demands a coup d’état, in which the therapist proves his power and his control of the therapeutic process, thus enabling the family to have the courage to change their living pattern. Other concepts, such as the importance of the detumescence of the scapegoat [resolução, desinchação – conotação cancerígena] or surfacing other scapegoats in the family, spreading the anxiety around the family, and the necessity of using paradoxical intention to reverse the axis of responsibility so the family would carry the initiative for their own change, all were picked up from the residents when they were working with families as co-therapists.”

“One of the covert changes that I experienced was my increasing conviction that everybody is schizophrenic. Most of us don’t have the courage to be crazy except in the middle of the night when we’re sound asleep, and we try to forget it before we wake up. I became more and more courageous in my advancing years and tenured role, and I began to use the word with greater nonchalance. During the first 6 months to 1 year, it was quite a shock, but after that it became gradually more and more accepted, at least in my own head.”

“There is being driven crazy, which means that one’s malignant isolationism¹ is brought about by being forced out of one’s family. There is going crazy, which, in the case of falling in love, is a delightful experience, although very frightening. Going crazy also takes place in the therapeutic setting, where it’s sometimes called transference psychosis, much in the same way we talk of transference neurosis [still two words that can’t make sense]. And then there is acting crazy—the crazy responsiveness of the individual who has once been insane and who, when under stress, returns to that state of being even though he’s not out of control in the same way. He’s like the child who has just learned to walk. If he gets in a hurry, he’ll get down and crawl on his hands and knees, even though it’s slower.”

¹ O que será que quer dizer? Meu caso? Vivendo com 3 idiotas cada vez mais incapazes de me entender e na verdade cada vez mais decorativos (1988-2017), de repente meu corpo se rebela e diz: CHEGA, VOCÊ JÁ SUPORTOU DEMAIS! ACABOU SUA AUTOIMPOSTA EXPIAÇÃO! Mas quer dizer que quem fritava a batata, no fim, eram eles… Consolador!

“the quasicraziness that happens in social groups”

Alex Redmountain (“Despite his name, he is not an American Indian, but, rather improbably, a Jewish-Slavic refugee of World War II.” – Kopp)

 

The affliction is self-love, narcissism, a narrowness of vision that places everything outside oneself at the periphery. Though it appears open and seeking, it makes learning very difficult. Stop reinventing the wheel, I was told; I finally did, but since no one told me to stop reinventing the compass, and sextant, and steam engine, I kept on doing that for quite a while.”

“Out on the street, the therapist is like a hooker who’s been thrown out by her pimp. There’s no security, no status. You’re surrounded by a dozen other hustlers, each selling some exotic solution to life’s problems: astrology, card reading, Scientology, revolution, a quickie in the back of the Dodge van parked across the street. Psychotherapy looks like just another fast fix, a way to set the pain aside momentarily or to pretend to an inflated self-importance. And often it is.”

“I am a clinical psychologist, traditionally trained, and I was still doing the usual clinical psychologist things: testing, individual and group therapy, supervision, formal consultation. But I was getting restless, found it hard to stay within the confines of the clinic where I saw my patients. Little by little, mostly by self-invitation, I cultivated a street beat through familiar geography: free schools and open universities, gay people and street people, adolescents of infinite variety and the many species of chicken-hawk who prey on them, alternate enterprises of every ideology imaginable, and a total spectrum of lifestyles. It seemed like a great opportunity for checking out the barriers. It was also a great opportunity for, as we used to say in The Bronx, getting my ass handed to me—as in the sentence, When I hand you your ass, boy, your head is gonna fall so low you’ll be looking up at roach shit [cocô de barata].

“Basically, I’m a middle-class grown-up with slightly rebellious inclinations; the one time I was impulsive enough to drop out of school, I joined the U.S. Army and was promptly dispatched to die of boredom in Korea. The setting for my street-shrink activities was a deteriorating, exciting, but not especially dangerous or sinful neighborhood in a large Eastern city. It was exciting because of its variety: its residents encompassed all ages and classes, at least 3 races, and 12 ethnic groups; Maoist food <collectives> operated on the same block with 30 year-old Mom and Pop groceries; soul music blared from one record shop speaker while salsa and bomba rhythms leaped out from another around the corner; store-front churches rose from the ashes of revolutionary Trotskyite print shops—and vice versa.”

“Another source was the illusion of being a savior, a reconciliator loved by all. When I walked around the neighborhood, greeting militants and leftover flower children, precinct captains and self-actualization addicts, I imagined myself a combination of country doctor and masterful statesman, healing rifts both psychic and physical as I passed on through. And in the best Lone Ranger silver bullet tradition, I dreamed of encountering evil, overcoming it, and riding off toward the foothills and the setting sun—all within the 30 minutes normally reserved for the radio serials of my youth.

This kind of delusion wreaks havoc with the long-distance running qualities usually required of the psychotherapist. It also helped me suppress some doubts about my own endurance. With every new patient I took on in my public practice, I wondered: Can I really last the journey? As the complexity of every individual unfolded, I worried: It may be just too hard, too long, too draining. What if I want to run off and fast alongside Cesar Chavez [uma espécie de João Pedro Stédile] in the lettuce fields? What if I decide to go to Harvard Business School so I can destroy capitalism from within?

“I’m there in 20 minutes. Who said that house calls were a thing of the past? Upstairs I can hear crunching and smashing noises. Down in the <parlor> 8 resident runaways and 2 counselors mill about, looking worried, indifferent, scared, sullen—depending on whom you are looking at.” “a monstrous teenage version of an NFL defensive end, 6 foot 6, at least 240 pounds. He is methodically ripping apart the wooden bunks—the bunks that my friend Joe put together over a couple of weeks of unpaid labor, after his unemployment ran out! I am outraged.”

Sally greets me with a strange, playful look in her sensual eyes. (Whoops, it’s hard to keep lust and hubris clearly separate.) For many reasons, Sally is one of my favorite counselors.”

Shrink é uma gíria suburbana para psicólogo ou psiquiatra.

God works in mysterious ways, said Sally, having been raised a brimstone Baptist and never quite given it up. I had to agree. I often had the feeling, when I was doing therapy, that anything I said would work: insight, catharsis, epiphanies would follow some inaudible inanity from my mouth. At other times, when I thought I was being wondrous wise, my words fell as flat as a swatted bug. It all has to do with chemistry, or radiation, or smell. Or something. Before I knew that, I sometimes took the calling of therapy very seriously indeed.”

Because I think it’s just an ego trip. I don’t even call myself a therapist, you

know.”

What do you mean, even you! Who are you, Sigmund Freud?”

No, but at least I’m not trying to be something I’m not!”

Aw, fuck you!” she shouts.

Fuck you!” I yell back.

 

All that doctor done was yell at me, tell me I was a whore and would end up a junkie or dead or in prison, and I’d never have kids, or a man, or anything decent at all.”

 

“As far as I am concerned, the making of a therapist and the making of a centered person are parallel, though not congruent, journeys.”

First Tale of Lust. I had agreed to see Janet for short-term therapy at her home; she had a 1 year-old daughter, a night job as a waitress, and no one to babysit. I knew there were many caveats against this kind of thing, but I was sure I could handle it.”

“I kept trying to remember why therapists shouldn’t become sexually involved with patients. I found myself perusing, at length, articles that argued an opposing view. Even the reputable Association of Humanistic Psychology, I noted, was sponsoring a panel at its annual meeting: Sexual Relations Between Therapists and Clients.”

“She observed that the tension between us was palpable. I agreed. In fact, it was becoming intolerable. Yes, I said. Well, she wanted to know, what were we going to do about it?”

“I read Albert Ellis [logo acima!] and Martin Shepard, wrote an essay entitled Challenging Some Traditional Preconceptions in Psychotherapy—in which I never mentioned sex.”

“On the 13th day, I received a short note from Janet on the back of an old Valentine card: I’ve discovered that there are more fine lovers around than psychotherapists. Will you be my (one and only) therapist?

 

Human, all-too-human: After I daydreamed about choking her with a spiked bulldog collar, boiling her in oil, and throwing her out of a dirigible over the most polluted part of the Hudson River, I met with her—in my office. We dealt with it, as the New Yorker cartoon says, by talking about it. We actually went on to do some excellent work together, 50 minutes at a time, 2 days a week, face to face, and no hugging.”

Second Tale of Lust. Tamara was 16, dark as an Arab princess, radiating ripeness. She was a resident at one of the group foster homes at which I dispensed weekly advice. Whenever she greeted me, she would wrap herself around me like the original seductive serpent, and I would try desperately to keep my cool—without success.

I am seldom drawn to adolescents sexually, or so I like to believe. I like the way they look, I enjoy their narcissism from afar, but I’m not crazy enough to trade a tumble for a prison sentence, not even in fantasy.”

“Tamara, whose house parents I met regularly for case consultation and whose Oedipal problems I knew almost as well as my own”

“I couldn’t take my eyes off her, and I didn’t want to take the rest of me off, either.

Although I danced with many people that night, I found myself dancing with Tamara more than with anyone else: more sensually, more energetically, more proximately. After a few beers, I forgot the age gap between us. After a few more, stalwart drinker [robusto bebedor] that I am, I was carried upstairs by some friends and carefully placed upon an unoccupied mattress [colchonete]. I woke a couple of hours later to find Tamara bending over me, swaying, her hair against my face. I wasn’t very alert, but she seemed completely out of it—drunk and stoned and incoherent.

Without thinking, I pulled her down beside me, touched her, kissed her, felt her responding to me. As I caressed her, she spoke softly at first, and then more insistently. Her mumbling only gradually became comprehensible: Daddy, Daddy, Daddy…

Laying her head against the pillow, I drew away gently. The one short pang inside me yielded to tenderness. I massaged her eyes and brow until she fell asleep.”

Third Tale of Lust. It was spring, and 5 of my street clients, including one gay male, declared their love-lust for me. I knew all about transference, of course, but I was also feeling very sexual in my new, slimmed-down version.

At my therapy seminar that week, another fledgling therapist like myself spoke of how he enjoyed his patients’ sexual fantasies about him. Our teacher-supervisor looked at him wryly. <Just remember,> he said, <that there are a dozen paunchy, balding, 70 year-old therapists in this town whose patients are madly in love with them. Don’t take too much credit.>

I decided not to, either.”

Therapist hubris is based on the mutual illusion of patient and therapist that theirs is not a relationship among equals. Thus, it fires the therapist’s infantile yearnings for magical solutions, omnipotence, oceanic love.”

* * *

DE VOLTA AO KOPP (CONCLUSÃO)

 

Everything is folly in this world, except to play the fool.”

 

“The response of embarrassment is not a personal flaw. On the contrary, it is a socially oriented readjustment pattern that acts to reestablish more orderly, adequate behavior. In showing embarrassment, the flustered person (sometimes unwittingly) reveals his responsiveness to the discrepancy between expected and actual performance. This offers the blunderer a chance to get himself together while remaining in consensual accord with the rest of the group. At the same time, perceiving his reaction, his audience is in a position to help him to reestablish his earlier state of unselfconscious ease.”

“I feel less pained and alone in my embarrassment, standing among these other naked therapists.”

“But for those of us who have not been subjected to excessive shaming, failing at something may be experienced as no more than not yet attaining what we might. For others who have too often been made to feel worthless, each failed attempt may create the feeling of being a total failure.”

“It was Erasmus who gave the West the paradox of the Wise Fool. In the literature of the Middle Ages, the Fool had played a minor role. But beginning with Erasmus’ book, In Praise of Folly, the Renaissance Fool stepped forward as a major figure in the humanist vision of man. Desiderius Erasmus of Rotterdam, the bastard son of an obscure father, emerged as a great humanist who would be courted by princes, popes, and scholars of his age, a man whose Wise Fool would foster men’s self-acceptance for centuries to come.”

“Like Socrates, her only claim to wisdom is that she knows that she knows not.”

“Like all those later Fools, Don Quixote, Huck Finn, Chaplin’s little tramp, and the Marx Brothers, she does not comprehend what is expected of her by society. Like all clowns she is free to walk irreverently through the walls of convention, simply because she does not see that they exist. Often enough, these hollow boundaries collapse before the force of her ignorance.”

“The good judgment of the Wise is sometimes no more than the closed mindedness of those who know better.” I’d say Final Judgement.

“By accepting the Fool in myself, I open my imagination to all the possibilities that I was once too wise to consider.”

“So it is that when I was a young man I hoped to make fewer and fewer mistakes, while in my later life my ambition is to make more. I would sin boldly. Not that I have come to like feeling embarrassed. Not at all! Rather most of the time now it all just seems worth it to me to experience feeling foolish if that is the price of trying new ways of being.”

O palhaço que habita em mim saúda o palhaço que um dia habitará em você.

O homem ocidental se tornou zen para não apertar o botão da bomba; isso pausará sua existência cadavérica nesse mundo além de qualquer previsão legal… Eis o problema. O Último Homem aprendeu com seus erros logo após o penúltimo erro – que infortúnio e que pepino para nós! Se apenas houvesse uma máquina de auto-sepultamento, um suicídio assistido por si mesmo, uma auto-eutanásia no mais redundantemente literal dos zentidos… Ainda estamos impessoais demais diante do nosso instinto vital, não operamos a nossa própria máquina para comandar ações grandiloqüentes deste nível e desse porte! Asia Rise!

“A single individual’s solitary failing is painful, but the shared frailties of all men are ultimately comic. So it is that one stutterer is tragic, but like it or not, three stutterers having an argument is a funny scene.”

Seriousness is an accident of time. It consists in putting too high a value on time. In eternity there is no time. Eternity is a mere moment, just long enough for a joke” Herman Hesse, Steppenwolf

 

“Out of the Middle East comes the tradition of the Sufi, that mystical/intuitive aspect of Islam that ranges from the whirling trance states of the Dervishes to the teaching stories of that Wise Fool, Nasrudin. The Sufi tales offer the sort of folk wisdom that discloses that out of each situation comes its own remedy. Each mishap is an opportunity to learn if only our imagination is open to reappraising the source of our discomfort.”

Enjoy yourself, or try to learn—you will annoy someone. If you do not—you will annoy someone.”

 

Who is it who’s rejecting whom?… if somebody rejects me…who they think they’re rejecting isn’t me anyway.… By them pushing me away I see them caught in their own paranoia…” Baba Ram

Ser um incompreendido do meu tempo implica que eu mesmo não posso me compreender!

You don’t decide to give something up. They fall away, that’s the secret of it.”

 

It’s ok to fail on an impossible mission, right, Tom Cruise?

“Even when I am doing well, or being special, being judged is oppressive, carrying with it as it does the impossible ideal of perfection. How much easier is the freedom to be what I am, ordinary and imperfect as that may be, no more than a natural Fool.”

To witness my Self without blaming myself is like being a child again, only this time in a safe, warm place under the watchful eyes of loving parents. It is during such moments that I can accept whatever I do as no more than what I must do at that time. It is then that I would no more question the adequacy of what I am doing than I would wonder whether or not my cat knows just how to go about being a cat.”

Guru, If You Meet the Buddha on the Road, Kill Him!, by the same author.

GLOSSÁRIO PSICANALÍTICO ou A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CASOS ou ainda “NOVELA DAS NOJEIRAS E SUJIDADES DAS BIOGRAFIAS DOS PSICANALISTAS ATÉ AQUI (2001, por falta de dados mais atuais)”

considerações preliminares (Roud. & Plon)

a terminologia analítica dá uma impressão insólita que a língua de Freud não dá, se os recursos da língua do tradutor não (sic) forem sempre explorados; em outros casos é a simplicidade da expressão freudiana que torna imperceptível o seu tecnicismo.” “O método conveniente é antes de mais nada histórico-crítico, como o do Vocabulaire technique et critique de la philosophie, de André Lalande. Eram estas as intenções iniciais quando, por volta de 1937-39, se começou a executar o projeto de um vocabulário da psicanálise. Os dados recolhidos perderam-se”

a oposição entre <pulsão> e <instinto>, necessária para a compreensão da teoria psicanalítica, em nenhum lugar é formulada por Freud: a oposição entre <escolha por apoio> de objeto (ou anaclítica) e <escolha narcísica de objeto>, embora retomada pela maior parte dos autores, nem sempre é relacionada com aquilo que em Freud a esclarece: o <apoio> ou <anáclise> das <pulsões sexuais> sobre as funções de <auto-conservação>; a articulação entre <narcisismo> e <auto-erotismo>, sem a qual não se pode situar estas duas noções, perdeu rapidamente a sua primitiva nitidez, e isto até no próprio Freud.”

Psicanalistas não batem cabeça.

O primeiro dicionário de psicanálise, intitulado Handwörterbuch der Psychoanalyse, foi elaborado por Richard Sterba, entre 1931 e 1938. Foram publicados cinco fascículos, até o momento em que a ocupação da Áustria pelos nazistas pôs fim ao empreendimento. A intenção era compor um léxico geral dos termos freudianos, um vocabulário mais do que um recenseamento dos conceitos: <Não desconheço, escreveu Freud em uma carta a seu discípulo, que o caminho que parte da letra A e passa por todo o alfabeto é muito longo, e que percorrê-lo significaria para você uma enorme carga de trabalho. Assim, não o faça, a menos que se sinta internamente levado a isso. Apenas sob o efeito desse impulso, mas certamente não a partir de uma incitação externa!>” “Em sua famosa análise do caso Dora (Ida Bauer), ele frisava que um dicionário é sempre objeto de um prazer solitário e proibido, no qual a criança descobre, à revelia dos adultos, a verdade das palavras, a história do mundo ou a geografia do sexo.” “Sterba interrompeu a redação do seu Handwörterbuch na letra L, e a impressão do último volume na palavra Grössenwahn: <Não sei, declarou vinte anos depois em uma carta a Daniel Lagache, se esse termo se refere à minha megalomania ou à de Hitler.> De qualquer forma, o Handwörterbuch inacabado serviu de modelo para as obras do gênero, todas publicadas na mesma data (1967-1968), em uma época em que o movimento psicanalítico internacional, envolvido em rupturas e dúvidas, experimentava a necessidade de fazer um balanço e recompor, através de um saber comum, a sua unidade perdida. Diversas denominações foram utilizadas: GLOSSÁRIO, dicionário, enciclopédia, vocabulário.” “o Critical Dictionary of Psychoanalysis (600 verbetes) do psicanalista inglês Charles Rycroft, claro, conciso e racional, tinha a vantagem de não ser uma obra coletiva. (…) Rycroft foi também o primeiro a pensar o freudismo sem com isso deixar de considerar a terminologia pós-freudiana (especialmente a de Melanie Klein e de Donald Woods Winnicott).”

Quanto ao célebre Vocabulário da psicanálise(417 verbetes) de Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, foi o primeiro e único a estabelecer os conceitos da psicanálise encontrando as <palavras> para traduzi-los, segundo uma perspectiva estrutural aplicada à obra de Freud. Composto de verdadeiros artigos (de 20 linhas a 15 páginas), e não de curtas notas técnicas, como os precedentes, inaugurou um novo estilo, optando por analisar <o aparelho nocional da psicanálise>, isto é, os conceitos elaborados por esta para <explicar suas descobertas específicas>. Marcados pelo ensino de Lacan e pela tradição francesa da história das ciências, os autores conseguiram a proeza de realizar uma escrita a duas vozes, impulsionada por um vigor teórico ausente nas outras obras. É a essas qualidades que ela deve seu sucesso.

Os insucessos terapêuticos, a invasão dos jargões e das lendas hagiográficas levaram a uma fragmentação generalizada do movimento freudiano, deixando livre curso à ofensiva fin-de-siècle das técnicas corporais. Relegada entre a magia e o cientificismo, entre o irracionalismo e a farmacologia, a psicanálise logo tomou o aspecto de uma respeitável velha senhora perdida em seus devaneios acadêmicos. O universalismo freudiano teve então o seu crepúsculo, mergulhando seus adeptos na nostalgia das origens heróicas.” Ó! “apareceram monstros polimorfos [Cilas], com entradas anárquicas e profusas, nas quais a lista dos verbetes, artigos e autores estendia-se infinitamente, pretendendo esgotar o saber do mundo, sob o risco de mergulhar as boas contribuições em um terrível caos.” Ver Bouvard e Pécuchet, de Flaubert!

Foram incluídos, enfim, os membros da família de Sigmund Freud, seus mestres diretos, os escritores e artistas com os quais ele manteve correspondência importante ou contato pessoal determinante, [PARTE DA FOFOCA E BASTIDORES] e os 23 livros por ele publicados entre 1891 e 1938, inclusive o segundo, escrito com Josef Breuer (Estudos sobre a histeria), e o último, inacabado e publicado a título póstumo (Esboço de psicanálise). Foi acrescentada uma outra obra póstuma, O presidente Thomas Woodrow Wilson, da qual Freud redigiu apenas o prefácio, mas à qual deu contribuição essencial como co-autor ao lado de William Bullitt.”

ABREVIATURAS BIBLIOGRÁFICAS

ESB Sigmund Freud, Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 24 vols., Rio de Janeiro, Imago, 1977