APOLOGIA DE SÓCRATES

Tradução de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego de Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

esta é a primeira vez na minha vida que compareço perante um tribunal de justiça, apesar de contar mais de 70 anos. (…) muitos acusadores (…) disseram-lhes, que há um certo Sócrates, homem sábio que indaga o que se passa nos céus e nas entranhas da terra e que sabe converter uma doutrina má em boa. (…) Por outra parte, estes acusadores são em grande número, e faz muito tempo que estão metidos nesta trama. (…) o mais injusto é que não me é permitido conhecer nem nomear meus acusadores, à exceção de um certo autor de comédias.”

Remontemos, pois, à primeira causa da acusação, sobre a que fui tão desacreditado e que deu a Meleto segurança para me arrastar a este tribunal.”

E nem é porque não considere louvável o poder instruir aos homens, como fazem Górgias de Leôncio1, Pródico de Céos2 e Hípias de Élide3. Estes grandes personagens têm o maravilhoso talento, aonde quer que vão, de persuadir os jovens a se unir a eles, e abandonar seus concidadãos, quando poderiam estes ser seus mestres sem custar-lhes um óbolo [centavo].

1 Górgias de Leontinos ou de Leontini [atual Sicília] (em grego, Γοργίας) (circa 485a.C.-circa 380a.C): Filósofo do período antropológico da Filosofia grega.

2 Pródico de Céos (Pródikos; circa 465(50?)a.C.-circa 395a.C.) foi um filósofo grego, que formou parte da primeira geração de sofistas. Nasceu no povoado de Yulis, na ilha egéia de Céos (uma das Cíclades, no mar Egeu).

3 Hípias de Élis, sofista grego das primeiras gerações, nasceu aproximadamente em meados do século V a.C. e ademais foi um jovem contemporâneo de Protágoras e Sócrates. A maior fonte de conhecimento sobre ele procede de Platão. Aparece nos diálogos platônicos (Hípias menor e Hípias maior), além de (de forma breve) no Protágoras.”

Hipônico [sogro de Alcibíades], homem que gasta mais com os sofistas que todos os cidadãos juntos”

[Nota] Querefonte, segundo Platão, era um cidadão ateniense que perguntou ao oráculo de Delfos se havia alguém mais sábio do que Sócrates, e a Pitonisa contestou-lhe que não havia nenhum grego mais sábio que este.”

Pode muito bem suceder, que nem ele nem eu saibamos nada do que é belo e do que é bom; mas há esta diferença, que ele crê sabê-lo por mais que não saiba nada, e eu, não sabendo nada, creio não saber. Me parece, pois, que nisto eu, ainda que por pouco, era mais sábio, porque não cria saber o que não sabia.”

fui em busca de outros, conhecendo bem que me fazia odioso, e fazendo-me violência, porque temia os resultados; mas me parecia que devia, sem duvidar, preferir a voz de deus a todas as coisas, e para topar com o verdadeiro sentido do oráculo, ir de porta em porta pelas casas de todos aqueles que gozavam de grande reputação”

Parece-me, atenienses, que somente Deus é o verdadeiro sábio, e que isto quis dizer por seu oráculo, fazendo entender que toda a sabedoria humana não é grande coisa, ou por melhor dizer, que não é nada; e se o oráculo nomeou a Sócrates, sem dúvida valeu-se de meu nome como um exemplo, e como se dissesse a todos os homens: <O mais sábio de entre vocês é aquele que reconhece, como Sócrates, que sua sabedoria não é nada>.”

Meleto representa os poetas, Anito os políticos e artistas e Lícon os oradores.”

SÓCRATES – (…) explica-te se me acusas de ensinar que há muitos deuses, (e neste caso, se creio que há deuses, não sou ateu, e falta a matéria para que seja eu culpado) ou se estes deuses não são do Estado. (…) Ou bem me acusas de que não admito nenhum deus, e que ensino os demais a que não reconheçam nenhum?

MELETO – Acuso-te de não reconhecer nenhum deus.

SÓCRATES – Oh, maravilhoso Meleto!, por que dizes isso? O quê, eu não creio como os demais homens que o sol e a lua são deuses?”

SÓCRATES – (…) há alguém que creia nas coisas dos demônios, e que, no entanto, creia que não há demônios?

MELETO – Não, sem dúvida.”

SÓCRATES – E estes demônios, não estamos convencidos de que são deuses ou filhos de deuses? É assim, sim ou não?

MELETO – Sim.”

Talvez alguém me diga: Não tens remorso, Sócrates, de te haver consagrado a um estudo que te põe neste momento em risco de morte?”

Meu filho, se vingares a morte de Pátroclo, teu amigo, matando a Heitor, tu morrerás porque tua morte deve seguir à de Heitor.”

É uma verdade constante, atenienses, que todo homem que escolheu um posto que tenha crido honroso, ou que foi-lhe imposto por seus superiores, deve se manter firme, e não deve temer nem a morte, nem o que há de mais terrível, antecipando-se a todo o horror.

Conduzir-me-ia de uma maneira singular e estranha, atenienses, se depois de ter guardado fielmente todos os postos a que me destinaram nossos generais em Potidéia, em Anfípolis e em Délio¹ [não confundir com Delos] e de ter arriscado minha vida tantas vezes, agora que o deus me ordenou passar meus dias no estudo da filosofia, estudando-me a mim mesmo e estudando os demais, abandonasse este posto por medo da morte ou de qualquer outro perigo. (…) Porque temer a morte, atenienses, não é outra coisa que se crer sábio sem sê-lo, e crer conhecer o que não se sabe. Com efeito, ninguém conhece a morte, nem sabe se é o maior dos bens para o homem.

¹ Sócrates se distinguiu por seu valor nos dois primeiros lugares, e na batalha de Délio salvou a vida de Xenofonte, seu discípulo, e de Alcibíades.”

Se me dissésseis: – Sócrates, em nada estimamos a acusação de Anito, e te declaramos absolvido; mas só à condição de que cessarás de filosofar e de fazer tuas indagações de costume; e se reincidires, e se chegar a descobrir, tu morrerás; se me désseis a liberdade sob estas condições, vos responderia sem hesitar: – Atenienses, respeito-vos e amo-vos; mas obedecerei a deus antes que a vós, e enquanto eu viver não cessarei de filosofar, dando-vos sempre conselhos, retomando minha vida ordinária, e dizendo a cada um de vós quando vos encontrar: – Bom homem, como, sendo ateniense e cidadão da maior cidade do mundo por sua sabedoria e por seu valor, como é que não te envergonhas de não haver pensado senão em amontoar riquezas?”

Toda minha ocupação se resume em trabalhar para persuadir-vos, jovens e velhos, de que antes do cuidado com o corpo e com as riquezas, antes de qualquer outro cuidado, vem o da alma e seu aperfeiçoamento” Sacrílego!

Fazei o que pede Anito, ou não o fazei; dai-me a liberdade, ou não ma dai; eu não posso fazer outra coisa, ainda que houvesse de morrer mil vezes…”

condenar-me seria ofender o deus e desconhecer o presente que vos foi dado.”

ZARATUSTRA II (OU ZARATUSTRA ZERO): “Talvez pareça absurdo que eu me tenha intrometido a dar lições a cada um em particular, e que jamais me tenha atrevido a me apresentar em vossas assembléias, para dar meus conselhos à pátria. Quem mo impediu, atenienses, foi este demônio familiar, esta voz divina de que tantas vezes vos falei, e que serviu a Meleto para formar admiravelmente um capítulo da acusação. (…) Essa voz é a que sempre se me opôs, quando quis mesclar-me nos negócios da república”

É preciso, de toda necessidade, que aquele que quiser combater pela justiça, por pouco que queira viver, seja tão-somente um simples particular e não um homem público.”

é impossível que eu deixe de ser vítima da injustiça.”

tenho parentes e tenho três filhos, dos quais o maior está na adolescência e os outros dois na infância, e no entanto, não os farei comparecer aqui para vos comprometer a absolver-me.”

(…)

não esperava ver-me condenado por tão escasso número de votos.”

[Nota] A lei permitia ao acusado condenar-se a uma destas três penas; prisão perpétua, multa, desterro. Sócrates não caiu nesta armadilha.”

Preciosa vida para Sócrates, se a esta idade, expulso de Atenas, se visse errante de cidade em cidade como um vagabundo e como um proscrito!”

O quê, Sócrates, se fores banido não poderás manter-te em repouso e guardar silêncio?”

Verdadeiramente, se fosse eu rico, me condenaria a uma multa tal que pudesse pagá-la, porque isto não me causaria nenhum prejuízo; mas não posso, porque nada tenho, a menos que queirais que a multa seja proporcional a minha indigência, e neste âmbito poderia ela se estender a até uma mina de prata, pois é a isto que me condeno.”

(Havendo-se Sócrates condenado a si mesmo à multa por obedecer à lei, os juízes deliberaram e o condenaram à morte…)”

Mas já é tempo de que nos retiremos daqui, eu para morrer, vós para viverdes. Entre vós e eu, quem leva a melhor parte? Isto é o que ninguém sabe, exceto Deus.”

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SÓCRATES, O MAIOR DOS SOFISTAS

EUTÍFRON OU DA SANTIDADE (PIEDADE)

Tradução de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego de Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

se se limitassem a se mofar de mim, como dizes que mofam-se de ti, não seria desagradável passar aqui algumas horas por brincadeira e diversão; mas se tomam a coisa seriamente, só vós os adivinhos podereis dizer o que sucederá.”

Todo mundo sabe que Zeus é o melhor e mais justo dos deuses, e todos convêm em que acorrentou seu próprio pai porque devorava seus filhos contra a razão e a justiça; e Cronos não tratou com menos rigor seu pai por outra falta.”

Eu sou mais hábil em minha arte que o era Dédalo. Este só sabia dar esta mobilidade a suas próprias obras, quando eu, não só dou-a as minhas, senão também às alheias; e o mais admirável é que sou hábil apesar de mim, porque preferiria incomparavelmente mais que meus princípios fossem fixos e inquebráveis, que ter todos os tesouros de Tântalo com toda a habilidade de meu ancestral [Sócrates se diz descendente do inventor Dédalo].”

o que canta um poeta:

Por que se teme celebrar a Zeus quem criou tudo? A vergonha é sempre companheira do medo.

Não concordo com este poeta; quer saber por quê?

(…)

E em verdade é preciso dizer:

O medo é sempre companheiro da vergonha.

Porque é falso que a vergonha se encontre onde quer que esteja o medo. O medo tem mais extensão que a vergonha. Com efeito, a vergonha é uma parte do medo, como o ímpar é uma parte do número.”

Parece que o santo não se encontra sempre com o justo, porque o santo é uma parte do justo.”

SÓCRATES – Sacrificar é dar aos deuses. Orar é pedir-lhes.

EUTÍFRON – Muito bem, S.

SÓCRATES – Segue-se deste princípio, que a santidade é a ciência de dar e de pedir aos deuses.

EUTÍFRON – Compreendeste perfeitamente meu pensamento.”

E te atreves a acusar-me de ser o Dédalo que lhes dá esta mobilidade contínua, tu que mil vezes mais astuto que Dédalo os faz girar em círculo?”

SÓCRATES – (…) não te deixarei, como outro Proteu [divindade um tanto esquiva], até que me tenhas instruído (…) Não posso duvidar de que tu crês saber perfeitamente o que é a santidade e sua contrária; diga-mas, pois, meu querido Eutífron (…)

EUTÍFRON – Assim fá-lo-ei em outra ocasião, Sócrates, porque neste momento tenho precisão de deixar-te.”

AS ARMAS CÔMICAS – Os interlocutores de Platão no Crátilo. Luisa Buarque. in: Estudos Clássicos. UFRJ/Cofecub (CAPES)

…os próprios deuses são brincalhões.”

Aristófanes – Acarnenses

A. – Aves

A. – Cavaleiros

A. – Pássaros

A. – Rãs

A. – Vespas

Ricoeur – La Métaphore Vive

Schleiermacher – Introductions aux Dialogues de Platon, 2004

Platão não faz uma história da filosofia, ou doxografia, à maneira aristotélica – corrigindo calculadamente os seus erros. Platão nos expõe, no fim das contas, um páthos da disputa.” “mais um sinal de que o filósofo não concebe predecessores históricos, já que apresenta discussões entre concepções vivas e atuantes.”

anonimato platônico” “tática do camaleão”

Sócrates se censura por ter sido mais agonista do que filósofo.”

erística, a arte da controvérsia”

a República, onde são tecidos os mais altos e respeitosos louvores a Homero e à sua obra, e onde, simultaneamente, o autor dedica boa parte de um grande livro a contestar a poesia homérica como método pedagógico, e a propor a substituição dessa poesia por sua própria filosofia. E também o Sofista, onde a reverência sincera ao mestre Parmênides acaba dando lugar a um parricídio que mais parece um genocídio, visto que leva ao túmulo junto com Parmênides grande parte da tradição eleata, assim como parte da sofística”

quais são as personagens históricas implicitamente chamadas à cena junto com Sócrates, Crátilo e Hermógenes?”

Com o nascimento da etimologia científica no início do séc. XIX, iniciou-se uma forte tendência a tratar o Crátilo como um diálogo distinto da maioria dos outros diálogos platônicos.” “a prática desenvolvida no Crátilo só pode ser considerada <etimológica> se esse termo for entendido em um sentido distinto do sentido moderno.”

P. está atacando uma tendência do pensamento grego de superestimar as palavras; um tal ataque frontal à cultura grega requer uma exposição meticulosa dos maus hábitos lingüísticos.” Baxter, 1992

P. tenta exorcizar a fascinação generalizada de seus contemporâneos por todas as hermenêuticas de seu tempo, rapsódica, trágica, religiosa e gramatical, que pretendiam fazer economia de uma ontologia.” Dalimier, 1998

Cálias gastara muito dinheiro com os sofistas; esse é, diga-se de passagem, um dos chistesmais bem formulados do diálogo”

O adivinho Eutífron, como se sabe, é personagem central do diálogo homônimo, que não por acaso é também um diálogo de coloração cômica. Eutífron, <espírito obtuso> segundo Méridier (2003), p. 17, costuma ser motivo de zombaria; o povo de Atenas escarnece dos seus delírios oraculares.”

se muitos afirmavam ser impossível dizer o falso tomando como base a identificação parmenídica entre ser, pensar e falar, o corolário mais perigoso de tais afirmações pode ser resumido, precisamente, pela idéia protagórica de que a diferença entre os discursos está apenas em sua eficácia e utilidade, e não em sua verdade, ou capacidade de gerar conhecimento.”

o essencial da cultura grega era heraclítico avant la lettre.” “Heráclito é o corifeu de um coro, é a mosca de um alvo que deve ser derrubado por inteiro.” “afirmar que tudo flui significa afirmar que o que antes era verdadeiro pode virar falso, de modo que não há nem sujeito de conhecimento estável nem objeto de conhecimento para ser conhecido. A ética se torna cambiante, a linguagem se torna praticamente inútil e o conhecimento impossível.” “o relativismo protagórico tem sua versão ontológica na transformação incessante dos entes, isto é, no relativismo heraclítico, e este encontra sua versão ética nas afirmações protagóricas.” “a doutrina heraclítica do fluxo e a doutrina protagórica do homem-medida.”

<A medida de todas as coisas é deus> P. em seu último diálogo, Leis, 716c4. Dinamitando a Antropologia Existencialista! Erguendo picos de dinamite para que a Europa vivesse sempre no perigo de explodir tudo…

Crátilo fala por meio de oráculos – talvez imitando seu mestre Heráclito”

O nome, para os gregos, possui uma virtude mágica, ele pode exprimir o caráter daquele que o leva e está ligado misteriosamente à sua pessoa. Donde as práticas de feitiço e de sortilégio que repousam freqüentemente sobre a crença de que se pode ter poder sobre um homem por intermédio de seu nome. Os nomes dos deuses são sagrados; as teogonias costumam explicar a essência de uma divindade pelo seu nome.” Goldschmidt, 1940

a etimologia do nome de Hermógenes é absolutamente simples e clara”

Ver, quanto às etimologias dos nomes de Aquiles, Pátroclo, Héracles, Enéas e Demódoco, entre outros, G. Nagy (1979).”

em Homero, e talvez na épica em geral, por exemplo, o nome, muitas vezes, traz em seu bojo toda a história da personagem, contém em potência o desenvolvimento do enredo daquela vida.”

os jambos, dos quais parece derivar a comédia.”

1) provavelmente a injúria pode ser assimilada ao nome próprio porque desempenha a mesma função de apelativo; 2) distintamente do nome próprio, que identifica sem atribuir nenhuma qualidade ao seu portador, aquela qualifica.” Saetta-Crotone (2005)

Crátilo é conhecido pelo extremismo narrado por Arist.: não é possível entrar nem mesmo uma vez no rio de Heráclito. Crátilo é, por assim dizer, mais realista que o rei.” “na Metafísica, Arist. diz que Crátilo fôra o primeiro professor de P., de modo que o filósofo ateniense teria sido extremamente marcado pela doutrina heraclítica.”

Aristófanes é um escritor particularmente sensível aos níveis de linguagem e à tonalidade das palavras. Foi possível provar, p. ex., que ele conhecia perfeitamente o vocabulário técnico da medicina e que suas comédias apresentavam inúmeros pontos de encontro com o corpus hipocrático. Da mesma forma, ele tem consciência da distância que separa a linguagem épica da linguagem comum.” Lamberterie, 1998

A relação de profunda admiração e rivalidade entre Aristófanes e Eurípides se revela das mais variadas maneiras e é assunto para toda uma vasta bibliografia.” “Eur. é assim tratado em As Aves como os próprios sofistas, sem maldade, mas antes com uma simpatia um pouco irônica, que mostra que aquele que zomba dele não é insensível ao que ele tem de sedutor.”

O trocadilho de Strepsíades, que liga o início e o fim da obra, tem muito mais importância do que aparenta ter à primeira vista.” “Sócrates se posiciona claramente contra a tese de que tudo flui, afirmando que, segundo ela, <nada é são, e tudo escoa e vai como vasos de argila>.” “o filósofo apresenta a mesma comparação entre o movimento rotatório dos pensamentos e dos argumentos dos sábios e o movimento giratório da fabricação da cerâmica: a vertigem circular dos sábios em geral (que também se encontram embaralhados em um mesmo saco)” Barthes diria: mas não é isso o ápice do dizer-sim nietzscheano?

uma utilização platônica de noções portadora da crítica aos pretensos sábios, que com sua propalada sabedoria, acabam por confundir-se e levar os outros à confusão.” Reversão ad infinitum do argumento: seu autor, sua melhor vítima. Está para nascer o homem que irá parar a roda…

Ao reino do turbilhão no pensatório, que se revela ao fim ser um mero reino do vaso de argila” Há quem enalteça a olaria!

utilização dúbia, em ambos os contextos, da crítica ao deus ex-machina. Na peça, é a máquina que traz Sócrates. Ela é utilizada, portanto, como recurso do próprio comediógrafo para destacar a entrada em cena de um de seus personagens principais. Recurso verdadeiramente cômico, porém, já que, ao contrário da utilização tradicional deste mesmo expediente pelos tragediógrafos, o fato de chamar atenção para o próprio recurso utilizado é parte integrante do uso aristofânico. (…) O curioso é que o Sócrates platônico, assim como o de A., utiliza a mechané. Porém, ao contrário deste, utiliza-a, mas rejeita-a posteriormente, explicitando que sua utilização anterior havia sido desonesta com seu interlocutor”

<quanto mais alto é o coqueiro, maior é o tombo do coco>. Eleva-se à maior altura possível a tese adversária para que sua queda seja mais longa e definitiva.”

Aristófanes opera um redobro da anedota: se Tales havia apenas caído em um buraco, o que já era ridículo, Sócrates torna-se duas vezes mais ridículo. Pelos mesmos motivos (isto é, por olhar para o céu para examinar os astros), uma lagartixa defeca em sua boca, o que faz com que Strepsíades corra para a sua escola, julgando que, sendo duas vezes mais ridículo do que Tales, será também duplamente útil a seus propósitos.”

Como nota Chambry (1967), no diálogo Protágoras, todo o ambiente foi tomado de empréstimo da comédia de Êupolis, Os Aduladores, também passada na casa do rico Cálias e que pinta como aduladores os sofistas, dentre os quais figura o próprio Sócrates.”

O filósofo não é retórico (Górgias), nem sofista (Sofista), nem político (Político), nem poeta (República). Mas, por outro lado, é o verdadeiro retórico (Fedro, 271a-272b), o verdadeiro Político (Górgias, 521d) e o verdadeiro poeta (Fédon, 61a e Leis, 817b2-3).”