TEAGES OU DA CIÊNCIA – Platão

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Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “O diálogo Teages é citado por Nietzsche em Vontade de Potência: <No Teages de Platão está escrito: ‘Cada um de nós desejaria ser o senhor de todos os homens, se possível, e o melhor de todos os deuses.’ Essa atitude deve voltar a existir>”¹ – A.P.V.

¹ Quanta ingenuidade! Como se não fossem esses os pequenos e últimos homens que tornam a Terra quase inabitável hoje! Quanta imbecilidade nos seria poupada se todos os idiotas pelo menos pudessem se envergonhar diante da própria idiotice – quantos projetos de poder não seriam abortados e quantas abominações e atrocidades lamentáveis não se nos pouparia essa humildade não fingida mas necessária do fraco-com-vontade-direcionada-para-o-poder-político! Todo filósofo na verdadeira acepção fugiria de ocupar um cargo público verdadeiramente influente e poderoso. Nietzsche demonstra sua inocência ao sublinhar as palavras do imberbe do diálogo; ou finge-se de tolo com segundas intenções.

(*) “Sócrates de nada sabe; nada ensina; mas pelo menos recebeu dos Céus o dom maravilhoso de discernir em que jovens se encontram disposições de caráter excelentes. O que Sócrates chama seu gênio ou daimon, voz interior da consciência, adverte-lhe quando deve aceder à comunicação com alguns seletos indivíduos, ou quando é preciso se recusar, pois antecipa que não será proveitoso para ambas as partes o discursarem e evidenciar exemplos de virtude, que não serão de qualquer maneira seguidos, por fatalidade do destino (inerência do caráter dos indivíduos em questão).” – P.A.

DEMÓDOCO – (…) Sem dúvida alguns de seus camaradas e alguns jovens de nosso povo, que vêm a Atenas, relatam certas conversações de que foram ouvintes, e que lhes transtornam a cabeça. Cheio do sentimento de emulação, meu filho Teages não cessa de atormentar-me, suplicando-me com insistência que zele por sua educação, pagando a um sofista. Não é o gasto o que me detém, Sócrates, mas temo que tamanha paixão ponha este garoto a perder!”

SÓCRATES – Diz-me: como devemos chamar a Bácis,(*) Sibila e nosso Anfílito?

TEAGES – Adivinhos, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem. Diz-me agora outra coisa: que nome deve-se dar a Hípias e Periandro com relação ao governo que ambos exerceram?

TEAGES – O de tiranos, Sócrates. Que outro nome mereceriam?

SÓCRATES – Logo, todo homem que deseja mandar como eles em todos os habitantes da cidade deseja adquirir um império tirânico, convertendo-se em tirano.

TEAGES – Convenho.

SÓCRATES – Pois aí tens a ciência por que tanto estás apaixonado!

TEAGES – Isso é uma conseqüência natural do que eu disse.

SÓCRATES – Ah, maroto! Tu desejas fazer-te nosso tirano, e tens o atrevimento de queixar-te, e já faz muito tempo, de que teu pai não te paga um professor que te treine no ofício de tirano! E tu, Demódoco, conhecendo a ambição de teu filho, e sabendo precisamente a quem enviá-lo a fim de torná-lo hábil na magnífica ciência que deseja, por um acaso não pões-te envergonhado ao saber que por longo intervalo priva-o já desta imensa felicidade, não tendo procurado até agora um mestre para Teages? E uma vez que se queixa de ti a mim, como bem vês, vejamos juntos aonde poderemos enviá-lo, e se conhecemos alguém que possa torná-lo um bom tirano!

(*) Bácis era um oráculo que, muito antes da invasão de Xerxes à Grécia, predissera a incursão militar deste imperador persa.”

SÓCRATES – Teages, se faláramos com Eurípides, quem uma vez disse: Os tiranos hábeis são formados pelos hábeis; e lhe perguntáramos: Eurípides, no que é que os tiranos se fazem hábeis ao aprenderem o ofício dos hábeis? E ele, no lugar de objetar diretamente, dissera: Os lavradores hábeis são formados pelos hábeis; e, acompanhando seu raciocínio, quiséssemos, pois, saber em que os lavradores se fizeram hábeis?; não é verdade, então, que Eurípides nos responderia: <Ora, na agricultura>?”

TEAGES – Não responderia senão isso, Sócrates.

(…)

SÓCRATES – Sendo assim, uma vez que ele afirma que os tiranos hábeis são formados pelos hábeis, se lhe perguntáramos: Eurípides, no que é que esses tiranos se tornaram hábeis? No quê pode consistir sua ciência?… O que pensas que Eurípides responderia, caro Teages?

TEAGES – Por Zeus! Não entendo, Sócrates!

SÓCRATES – Então queres que te diga?

TEAGES – Sim, se não for incômodo.

SÓCRATES – É a ciência que, segundo Anacreonte,¹ ensinava Calícrates, filha de Ciana.² Não recordas nada de Anacreonte sobre isso?

TEAGES – Sim, me recordo.

SÓCRATES – E então, Teages, não desejas que te ponham nas mãos de um homem que exerça a mesma profissão desta antiga Calícrates, filha de Ciana, para saberes, tal qual ela sabia, nas palavras do poeta, a arte de formar tiranos, até que sejas tu mesmo tirano, e quem sabe um dia sejas o tirano de Atenas ou quem sabe de toda a Grécia?

TEAGES – Sócrates, já há vários minutos te estás mofando de mim!

SÓCRATES – Eu?!? Não dizes tu mesmo que a ciência que queres que te ensinem é a de governar todos os cidadãos? Podes governá-los sem fazer-te tirano, homem?!

TEAGES – Desejaria de todo o coração fazer-me o tirano de todos os homens, ou pelo menos da maior parte deles. Mas creio que tu mesmo, Sócrates, tens a mesma ambição, como todos os homens a têm! E quiçá, não satisfeito em ser tirano, preferirias até ser um deus. Mas eu não te disse, literalmente, que era isso o que eu tanto desejava.

SÓCRATES – Adianta-te pois: que é que desejas? Não é governar teus concidadãos?

TEAGES – Mas não é governá-los pela força como fazem os tiranos, mas com seu beneplácito, como fizeram os grandes homens que já tivemos em Atenas.

SÓCRATES – Te referes a Temístocles, Péricles, Címon e outros desta estirpe?

TEAGES – Exatamente.

¹ Anacreonte de Téos, poeta que viveu nos séculos VI e V a.C. Vivia como conselheiro político de tiranos gregos.

² Não confundir com o célebre arquiteto, também contemporâneo de Anacreonte, que projetou o Partenon.

SÓCRATES – (…) Acreditas poder adquirir esta habilidade, dirigindo-te a outros que não estes profundos políticos nesta ciência, que sabem conduzir não apenas sua polis, mas muitas, seja de gregos, seja de bárbaros? Ou pensas acaso que, conversando com outros além destes, far-te-ás tão hábil como eles?

TEAGES – Sócrates, ouvi de discursos alheios que tu já disseste noutras ocasiões(*) que os filhos destes grandes políticos não valiam mais que os filhos de um sapateiro velho e, tanto quanto concebo, parece-me que disseste uma verdade inconteste. Seria eu muito insensato se crera que algum destes grandes políticos poder-me-ia comunicar uma ciência, se não a puderam comunicar a seus próprios filhos, o que decerto teriam feito se fosse isso possível, preferindo ensinar um descendente seu que um mero estranho.

SÓCRATES – Que é que tu farias, Teages, se tiveras um filho, que andara atrás de ti o dia inteiro, incitando-te a caçar um mestre para si, a fim de se tornar um grande pintor? Tu, pai deste indivíduo hipotético, não deverias medir esforços a fim de satisfazer seu desejo, conquanto, por outro lado, encontrar-te-ias num impasse ou aporia, visto que teu filho já houvera deixado claro que desprezava os melhores pintores e professores de pintura existentes, resistindo a qualquer estágio em suas escolas!

(*) Ver Mênon e Górgias.” PS: Górgias já foi traduzido; Mênon está pendente.

Como podes crer surpreendente ou arengar e queixar-te de que teu pai não saiba que procedimento tomar a teu respeito, muito menos aonde enviar-te-ia a fim de que tu te fizeras realmente hábil? Porque nós, se é que o desejas, podemos neste instante mesmo colocar-te em mãos de nossos melhores e mais sábios professores de política; tu nada tens a fazer senão eleger um; nenhum deles te pedirá nada, esta parte é conosco. Tua família investirá seu patrimônio e tu adquirirás, por meio de seus ensinamentos, mais reputação perante o povo, muito mais do que poderias angariar em tuas relações e amizades habituais.”

Demódoco, tu tens mais idade que eu; desempenhaste os cargos mais importantes, és uma das pessoas mais admiradas em teu distrito de Anajira, e ninguém é mais estimado e honrado do que tu no resto da cidade; e nem teu filho nem tu podeis ver em mim nenhuma destas vantagens que possuis. Se teu filho despreza o trato com nossos políticos e busca os sofistas, que prometem educar bem à juventude, temos disponíveis na cidade Pródico de Céos, Górgias de Leôncio, Pólo de Agrigento, e tantos outros, todos hábeis; de tempos em tempos eles perambulam por todas as cidades da Grécia, atraindo jovens das casas mais ricas e nobres; jovens que poderiam ser ensinados, é verdade, sem que se lhes custasse um único óbolo, caso elegessem um concidadão como seu professor, ao invés dum estrangeiro. (…) Amaria de todo coração saber todas essas ciências, mas fiz profissão de confessar que nada sei, por assim dizer, além, é claro, duma só ciência, de pouco interesse, não obstante: a do amor.(*) De modo que lisonjeio-me verdadeiramente de ser mais profundo nesta última ciência que todos aqueles que me precederam e que vivem em nosso século.

(*) O Banquete [já traduzido]

SÓCRATES – (…) Por concessão divina, possuo um dom admirável que nunca me abandonara desde meu nascimento, quer seja: uma voz que, quando se deixa escutar, me aparta sempre do que vou fazer, mas que nunca me impele, por exemplo, a agir. (…) Sem dúvida conheceis o precioso Cármides, filho de Glauco: um dia ele me inteirou de seu projeto de combater nos jogos nemésios.(*) Mal me confidenciou isso, ouvi meu gênio interior. Tratei então de convencê-lo a abandonar seu projeto, dizendo-lhe: Mal abriste a boca, Cármides, ouvi a voz do deus, que pronunciava: Não vás à Neméia, Cármides! Me respondeu Cármides: Esta voz te adverte, talvez, que eu não serei campeão nem estarei no pódio, mas, se não obtenho a grande vitória, não importa; pois ter-me-ei exercitado, terei lutado e com isso me dou por satisfeito. Dito isto, separou-se de mim e foi à Neméia, onde combateu. Podeis vós saber que é que sucedeu, porque é coisa amplamente conhecida… Cármides morreu. Mas não só esta previsão me foi dada: Clitômaco, irmão de Timarco, poderá referir a vós as últimas palavras deste último, morto por haver desprezado as advertências dos deuses. Evatlo, atleta e corredor célebre, também conhece a história, pois que hospedava Timarco à época. Enfim, qualquer dos dois dir-vos-á que Timarco assim se pronunciou…

TEAGES – Que é que Timarco disse a Clitômaco à hora da morte, te imploro que digas!

SÓCRATES – Expiro neste momento porque não quis crer em Sócrates, irmão!, foi o que disse Timarco. Se quiserdes saber o que quis ele dizer, não adiarei a explicação: quando Timarco levantou-se da mesa com Filêmon, filho de Filemônides, com o intuito de irem matar Nícias, filho de Heroscamandro, em virtude de uma conspiração política, assim se dirigiu a mim, que estava no mesmo banquete que ele: E então, Sócrates? Segui vós aqui a beber; eu tenho necessidade de sair agora para tratar um assunto. Em um momento estarei de volta, se os deuses quiserem. Neste instante mesmo ouvi a voz de minha consciência. Chamei-lhe a atenção: Não saias, to suplico! A voz me assinalou o mal. Ele se deteve. Porém, passados mais alguns minutos, voltou a se levantar, dizendo-me: Sócrates, vou-me, sem demora. De novo, a voz repetiu sua mensagem em minha cabeça e eu o impedi. À terceira vez,¹ para livrar-se de mim sem inconvenientes, levantou-se sem me dirigir a palavra, e, aproveitando-se da ocasião de que meu espírito se concentrava noutra coisa, evadiu o banquete, indo realizar as ações que o levariam à morte. (…) Também podeis saber por inúmeros de nossos concidadãos o que eu disse à ocasião da expedição para a Sicília; e como se deu a derrota de nosso exército.

(*) Um dos 4 grandes jogos da Grécia; celebravam-se a cada 3 anos, perto da Neméia, no Peloponeso, em honra de Arquemoros.”

¹ Evento bíblico? Hehe.

Por que disse tudo isso? Para dar a entender a vós que até quando se trata daqueles que mais anelam estabelecer relações comigo, tudo depende, ao cabo, deste gênio que me governa; aqueles a quem ele se mostra contrário jamais poderão retirar de mim, Sócrates, qualquer bem ou utilidade; nem me é possível ir contra esta vontade divina. Muitos outros o gênio trata com indiferença, isto é, nada me comunica, mas mesmo que entre em conversação com estes sobre a virtude, ao fim eles nada realizam de bom; porém, aqueles que verdadeiramente mantêm relações comigo, com a aprovação explícita do gênio, são os mesmos de quem me falavas ainda agora, aqueles que em pouquíssimo tempo efetuam notáveis progressos morais – só que estes progressos não são firmes nem permanentes em uma parcela destes homens: esta classe de homens tira proveito de minha companhia enquanto me encontro a seu lado, de forma até surpreendente, mas basta que nos separemos por alguma casualidade e voltam a seu primeiro caráter, sem se diferenciarem em nada dos homens comuns. Foi isto que aconteceu a Aristides, filho de Lisímaco e neto de Aristides.(*)

(*) Rival político de Péricles.”

Tenho de contar-te, Sócrates, uma coisa incrível, porém tão incrível e fabulosa quanto segura e verdadeira. Nunca pude aprender nada de ti, como sabes muito bem. No entanto, jamais deixei de desfrutar de nossas conversações enquanto convivíamos, fosse a sós em minha casa, fosse na rua ou nos banquetes. E ainda assim há diversos graus: se estivéssemos na mesma casa, havia progressos em meu entendimento moral; mas se compartilhávamos a existência no mesmo cômodo, havia progressos ainda mais notáveis neste ponto. E enquanto estivesses apenas presente, mas calado, um era o ritmo do meu progresso; mas quando falavas e eu escutava atentamente, o ritmo era ainda mais rápido. E se eu fixava os olhos em ti, isto aumentava ainda mais a qualidade e a velocidade de minha instrução, comparado a quando eu apenas fitava outro elemento qualquer, a parede, uma cadeira, o chão. E este progresso era muito mais sensível se eu sentava a teu lado e estava em contato direto contigo. Esta minha capacidade, Sócrates, depois de que viajei e nos separamos, está, em suma, desaparecida.”

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