TEAGES OU DA CIÊNCIA – Platão

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Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “O diálogo Teages é citado por Nietzsche em Vontade de Potência: <No Teages de Platão está escrito: ‘Cada um de nós desejaria ser o senhor de todos os homens, se possível, e o melhor de todos os deuses.’ Essa atitude deve voltar a existir>”¹ – A.P.V.

¹ Quanta ingenuidade! Como se não fossem esses os pequenos e últimos homens que tornam a Terra quase inabitável hoje! Quanta imbecilidade nos seria poupada se todos os idiotas pelo menos pudessem se envergonhar diante da própria idiotice – quantos projetos de poder não seriam abortados e quantas abominações e atrocidades lamentáveis não se nos pouparia essa humildade não fingida mas necessária do fraco-com-vontade-direcionada-para-o-poder-político! Todo filósofo na verdadeira acepção fugiria de ocupar um cargo público verdadeiramente influente e poderoso. Nietzsche demonstra sua inocência ao sublinhar as palavras do imberbe do diálogo; ou finge-se de tolo com segundas intenções.

(*) “Sócrates de nada sabe; nada ensina; mas pelo menos recebeu dos Céus o dom maravilhoso de discernir em que jovens se encontram disposições de caráter excelentes. O que Sócrates chama seu gênio ou daimon, voz interior da consciência, adverte-lhe quando deve aceder à comunicação com alguns seletos indivíduos, ou quando é preciso se recusar, pois antecipa que não será proveitoso para ambas as partes o discursarem e evidenciar exemplos de virtude, que não serão de qualquer maneira seguidos, por fatalidade do destino (inerência do caráter dos indivíduos em questão).” – P.A.

DEMÓDOCO – (…) Sem dúvida alguns de seus camaradas e alguns jovens de nosso povo, que vêm a Atenas, relatam certas conversações de que foram ouvintes, e que lhes transtornam a cabeça. Cheio do sentimento de emulação, meu filho Teages não cessa de atormentar-me, suplicando-me com insistência que zele por sua educação, pagando a um sofista. Não é o gasto o que me detém, Sócrates, mas temo que tamanha paixão ponha este garoto a perder!”

SÓCRATES – Diz-me: como devemos chamar a Bácis,(*) Sibila e nosso Anfílito?

TEAGES – Adivinhos, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem. Diz-me agora outra coisa: que nome deve-se dar a Hípias e Periandro com relação ao governo que ambos exerceram?

TEAGES – O de tiranos, Sócrates. Que outro nome mereceriam?

SÓCRATES – Logo, todo homem que deseja mandar como eles em todos os habitantes da cidade deseja adquirir um império tirânico, convertendo-se em tirano.

TEAGES – Convenho.

SÓCRATES – Pois aí tens a ciência por que tanto estás apaixonado!

TEAGES – Isso é uma conseqüência natural do que eu disse.

SÓCRATES – Ah, maroto! Tu desejas fazer-te nosso tirano, e tens o atrevimento de queixar-te, e já faz muito tempo, de que teu pai não te paga um professor que te treine no ofício de tirano! E tu, Demódoco, conhecendo a ambição de teu filho, e sabendo precisamente a quem enviá-lo a fim de torná-lo hábil na magnífica ciência que deseja, por um acaso não pões-te envergonhado ao saber que por longo intervalo priva-o já desta imensa felicidade, não tendo procurado até agora um mestre para Teages? E uma vez que se queixa de ti a mim, como bem vês, vejamos juntos aonde poderemos enviá-lo, e se conhecemos alguém que possa torná-lo um bom tirano!

(*) Bácis era um oráculo que, muito antes da invasão de Xerxes à Grécia, predissera a incursão militar deste imperador persa.”

SÓCRATES – Teages, se faláramos com Eurípides, quem uma vez disse: Os tiranos hábeis são formados pelos hábeis; e lhe perguntáramos: Eurípides, no que é que os tiranos se fazem hábeis ao aprenderem o ofício dos hábeis? E ele, no lugar de objetar diretamente, dissera: Os lavradores hábeis são formados pelos hábeis; e, acompanhando seu raciocínio, quiséssemos, pois, saber em que os lavradores se fizeram hábeis?; não é verdade, então, que Eurípides nos responderia: <Ora, na agricultura>?”

TEAGES – Não responderia senão isso, Sócrates.

(…)

SÓCRATES – Sendo assim, uma vez que ele afirma que os tiranos hábeis são formados pelos hábeis, se lhe perguntáramos: Eurípides, no que é que esses tiranos se tornaram hábeis? No quê pode consistir sua ciência?… O que pensas que Eurípides responderia, caro Teages?

TEAGES – Por Zeus! Não entendo, Sócrates!

SÓCRATES – Então queres que te diga?

TEAGES – Sim, se não for incômodo.

SÓCRATES – É a ciência que, segundo Anacreonte,¹ ensinava Calícrates, filha de Ciana.² Não recordas nada de Anacreonte sobre isso?

TEAGES – Sim, me recordo.

SÓCRATES – E então, Teages, não desejas que te ponham nas mãos de um homem que exerça a mesma profissão desta antiga Calícrates, filha de Ciana, para saberes, tal qual ela sabia, nas palavras do poeta, a arte de formar tiranos, até que sejas tu mesmo tirano, e quem sabe um dia sejas o tirano de Atenas ou quem sabe de toda a Grécia?

TEAGES – Sócrates, já há vários minutos te estás mofando de mim!

SÓCRATES – Eu?!? Não dizes tu mesmo que a ciência que queres que te ensinem é a de governar todos os cidadãos? Podes governá-los sem fazer-te tirano, homem?!

TEAGES – Desejaria de todo o coração fazer-me o tirano de todos os homens, ou pelo menos da maior parte deles. Mas creio que tu mesmo, Sócrates, tens a mesma ambição, como todos os homens a têm! E quiçá, não satisfeito em ser tirano, preferirias até ser um deus. Mas eu não te disse, literalmente, que era isso o que eu tanto desejava.

SÓCRATES – Adianta-te pois: que é que desejas? Não é governar teus concidadãos?

TEAGES – Mas não é governá-los pela força como fazem os tiranos, mas com seu beneplácito, como fizeram os grandes homens que já tivemos em Atenas.

SÓCRATES – Te referes a Temístocles, Péricles, Címon e outros desta estirpe?

TEAGES – Exatamente.

¹ Anacreonte de Téos, poeta que viveu nos séculos VI e V a.C. Vivia como conselheiro político de tiranos gregos.

² Não confundir com o célebre arquiteto, também contemporâneo de Anacreonte, que projetou o Partenon.

SÓCRATES – (…) Acreditas poder adquirir esta habilidade, dirigindo-te a outros que não estes profundos políticos nesta ciência, que sabem conduzir não apenas sua polis, mas muitas, seja de gregos, seja de bárbaros? Ou pensas acaso que, conversando com outros além destes, far-te-ás tão hábil como eles?

TEAGES – Sócrates, ouvi de discursos alheios que tu já disseste noutras ocasiões(*) que os filhos destes grandes políticos não valiam mais que os filhos de um sapateiro velho e, tanto quanto concebo, parece-me que disseste uma verdade inconteste. Seria eu muito insensato se crera que algum destes grandes políticos poder-me-ia comunicar uma ciência, se não a puderam comunicar a seus próprios filhos, o que decerto teriam feito se fosse isso possível, preferindo ensinar um descendente seu que um mero estranho.

SÓCRATES – Que é que tu farias, Teages, se tiveras um filho, que andara atrás de ti o dia inteiro, incitando-te a caçar um mestre para si, a fim de se tornar um grande pintor? Tu, pai deste indivíduo hipotético, não deverias medir esforços a fim de satisfazer seu desejo, conquanto, por outro lado, encontrar-te-ias num impasse ou aporia, visto que teu filho já houvera deixado claro que desprezava os melhores pintores e professores de pintura existentes, resistindo a qualquer estágio em suas escolas!

(*) Ver Mênon e Górgias.” PS: Górgias já foi traduzido; Mênon está pendente.

Como podes crer surpreendente ou arengar e queixar-te de que teu pai não saiba que procedimento tomar a teu respeito, muito menos aonde enviar-te-ia a fim de que tu te fizeras realmente hábil? Porque nós, se é que o desejas, podemos neste instante mesmo colocar-te em mãos de nossos melhores e mais sábios professores de política; tu nada tens a fazer senão eleger um; nenhum deles te pedirá nada, esta parte é conosco. Tua família investirá seu patrimônio e tu adquirirás, por meio de seus ensinamentos, mais reputação perante o povo, muito mais do que poderias angariar em tuas relações e amizades habituais.”

Demódoco, tu tens mais idade que eu; desempenhaste os cargos mais importantes, és uma das pessoas mais admiradas em teu distrito de Anajira, e ninguém é mais estimado e honrado do que tu no resto da cidade; e nem teu filho nem tu podeis ver em mim nenhuma destas vantagens que possuis. Se teu filho despreza o trato com nossos políticos e busca os sofistas, que prometem educar bem à juventude, temos disponíveis na cidade Pródico de Céos, Górgias de Leôncio, Pólo de Agrigento, e tantos outros, todos hábeis; de tempos em tempos eles perambulam por todas as cidades da Grécia, atraindo jovens das casas mais ricas e nobres; jovens que poderiam ser ensinados, é verdade, sem que se lhes custasse um único óbolo, caso elegessem um concidadão como seu professor, ao invés dum estrangeiro. (…) Amaria de todo coração saber todas essas ciências, mas fiz profissão de confessar que nada sei, por assim dizer, além, é claro, duma só ciência, de pouco interesse, não obstante: a do amor.(*) De modo que lisonjeio-me verdadeiramente de ser mais profundo nesta última ciência que todos aqueles que me precederam e que vivem em nosso século.

(*) O Banquete [já traduzido]

SÓCRATES – (…) Por concessão divina, possuo um dom admirável que nunca me abandonara desde meu nascimento, quer seja: uma voz que, quando se deixa escutar, me aparta sempre do que vou fazer, mas que nunca me impele, por exemplo, a agir. (…) Sem dúvida conheceis o precioso Cármides, filho de Glauco: um dia ele me inteirou de seu projeto de combater nos jogos nemésios.(*) Mal me confidenciou isso, ouvi meu gênio interior. Tratei então de convencê-lo a abandonar seu projeto, dizendo-lhe: Mal abriste a boca, Cármides, ouvi a voz do deus, que pronunciava: Não vás à Neméia, Cármides! Me respondeu Cármides: Esta voz te adverte, talvez, que eu não serei campeão nem estarei no pódio, mas, se não obtenho a grande vitória, não importa; pois ter-me-ei exercitado, terei lutado e com isso me dou por satisfeito. Dito isto, separou-se de mim e foi à Neméia, onde combateu. Podeis vós saber que é que sucedeu, porque é coisa amplamente conhecida… Cármides morreu. Mas não só esta previsão me foi dada: Clitômaco, irmão de Timarco, poderá referir a vós as últimas palavras deste último, morto por haver desprezado as advertências dos deuses. Evatlo, atleta e corredor célebre, também conhece a história, pois que hospedava Timarco à época. Enfim, qualquer dos dois dir-vos-á que Timarco assim se pronunciou…

TEAGES – Que é que Timarco disse a Clitômaco à hora da morte, te imploro que digas!

SÓCRATES – Expiro neste momento porque não quis crer em Sócrates, irmão!, foi o que disse Timarco. Se quiserdes saber o que quis ele dizer, não adiarei a explicação: quando Timarco levantou-se da mesa com Filêmon, filho de Filemônides, com o intuito de irem matar Nícias, filho de Heroscamandro, em virtude de uma conspiração política, assim se dirigiu a mim, que estava no mesmo banquete que ele: E então, Sócrates? Segui vós aqui a beber; eu tenho necessidade de sair agora para tratar um assunto. Em um momento estarei de volta, se os deuses quiserem. Neste instante mesmo ouvi a voz de minha consciência. Chamei-lhe a atenção: Não saias, to suplico! A voz me assinalou o mal. Ele se deteve. Porém, passados mais alguns minutos, voltou a se levantar, dizendo-me: Sócrates, vou-me, sem demora. De novo, a voz repetiu sua mensagem em minha cabeça e eu o impedi. À terceira vez,¹ para livrar-se de mim sem inconvenientes, levantou-se sem me dirigir a palavra, e, aproveitando-se da ocasião de que meu espírito se concentrava noutra coisa, evadiu o banquete, indo realizar as ações que o levariam à morte. (…) Também podeis saber por inúmeros de nossos concidadãos o que eu disse à ocasião da expedição para a Sicília; e como se deu a derrota de nosso exército.

(*) Um dos 4 grandes jogos da Grécia; celebravam-se a cada 3 anos, perto da Neméia, no Peloponeso, em honra de Arquemoros.”

¹ Evento bíblico? Hehe.

Por que disse tudo isso? Para dar a entender a vós que até quando se trata daqueles que mais anelam estabelecer relações comigo, tudo depende, ao cabo, deste gênio que me governa; aqueles a quem ele se mostra contrário jamais poderão retirar de mim, Sócrates, qualquer bem ou utilidade; nem me é possível ir contra esta vontade divina. Muitos outros o gênio trata com indiferença, isto é, nada me comunica, mas mesmo que entre em conversação com estes sobre a virtude, ao fim eles nada realizam de bom; porém, aqueles que verdadeiramente mantêm relações comigo, com a aprovação explícita do gênio, são os mesmos de quem me falavas ainda agora, aqueles que em pouquíssimo tempo efetuam notáveis progressos morais – só que estes progressos não são firmes nem permanentes em uma parcela destes homens: esta classe de homens tira proveito de minha companhia enquanto me encontro a seu lado, de forma até surpreendente, mas basta que nos separemos por alguma casualidade e voltam a seu primeiro caráter, sem se diferenciarem em nada dos homens comuns. Foi isto que aconteceu a Aristides, filho de Lisímaco e neto de Aristides.(*)

(*) Rival político de Péricles.”

Tenho de contar-te, Sócrates, uma coisa incrível, porém tão incrível e fabulosa quanto segura e verdadeira. Nunca pude aprender nada de ti, como sabes muito bem. No entanto, jamais deixei de desfrutar de nossas conversações enquanto convivíamos, fosse a sós em minha casa, fosse na rua ou nos banquetes. E ainda assim há diversos graus: se estivéssemos na mesma casa, havia progressos em meu entendimento moral; mas se compartilhávamos a existência no mesmo cômodo, havia progressos ainda mais notáveis neste ponto. E enquanto estivesses apenas presente, mas calado, um era o ritmo do meu progresso; mas quando falavas e eu escutava atentamente, o ritmo era ainda mais rápido. E se eu fixava os olhos em ti, isto aumentava ainda mais a qualidade e a velocidade de minha instrução, comparado a quando eu apenas fitava outro elemento qualquer, a parede, uma cadeira, o chão. E este progresso era muito mais sensível se eu sentava a teu lado e estava em contato direto contigo. Esta minha capacidade, Sócrates, depois de que viajei e nos separamos, está, em suma, desaparecida.”

APOLOGIA DE SÓCRATES – atualizado e ampliado

Conteúdo original em https://seclusao.art.blog/2017/12/08/apologia-de-socrates/ (08/12/17) – Foram acrescentados novos trechos e editadas algumas das traduções de 2 anos atrás.

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for do tradutor Azcárate ou da editora Ana Pérez Vega, um (*) antecederá as aspas.

(*) “Os últimos acusadores de Sócrates foram Anito, que morreu posteriormente apedrejado no Ponto, Lícon, que sustentou a acusação, e Meleto.”

esta é a primeira vez na minha vida que compareço perante um tribunal de justiça, apesar de contar mais de 70 anos. (…) muitos acusadores (…) disseram-vos que há um certo Sócrates, homem sábio que indaga o que se passa nos céus e nas entranhas da terra e que sabe converter uma doutrina má em boa. (…) Por outra parte, estes acusadores são em grande número, e faz muito tempo que estão metidos nesta trama. (…) o mais injusto é que não me é permitido conhecer nem nomear meus acusadores, à exceção de um certo autor de comédias.”

Remontemos, pois, à primeira causa da acusação, sobre a que fui tão desacreditado e que deu a Meleto segurança para me arrastar a este tribunal.”

E nem é porque não considere louvável o poder instruir os homens, como fazem Górgias de Leôncio(*), Pródico de Céos(**) e Hípias de Élide(***). Estes grandes personagens têm o maravilhoso talento, aonde quer que vão, de persuadir os jovens a se unir a eles e abandonar seus concidadãos, quando poderiam estes ser seus mestres sem custar-lhes um óbolo [centavo].

(*) Górgias de Leontinos ou de Leontini [atual Sicília] (em grego, Γοργίας) (circa 485a.C.-circa 380a.C): filósofo do período antropológico da Filosofia grega.

(**) Pródico de Céos (Pródikos; circa 465(50?)a.C.-circa 395a.C.) foi um filósofo grego, que formou parte da primeira geração de sofistas. Nasceu no povoado de Yulis, na ilha egéia de Céos (uma das Cíclades, no mar Egeu).

(***) Hípias de Élide, sofista grego das primeiras gerações, nasceu aproximadamente em meados do século V a.C. e ademais foi um jovem contemporâneo de Protágoras e Sócrates. A maior fonte de conhecimento sobre ele é Platão. Aparece nos diálogos platônicos (Hípias menor e Hípias maior), além de (de forma breve) no Protágoras.”

Cálias III, filho de Hipônico [sogro de Alcibíades, neto de Cálias II], homem que gasta mais com os sofistas que todos os cidadãos juntos”

(*) “Querefonte, segundo Platão, era um cidadão ateniense que perguntou ao oráculo de Delfos se havia alguém mais sábio do que Sócrates, e a Pitonisa contestou-lhe que não havia nenhum grego mais sábio que este.”

ele não mente, a divindade não pode mentir.”

Pode muito bem suceder, que nem ele nem eu saibamos nada do que é belo e do que é bom; mas há esta diferença, que ele crê sabê-lo por mais que nada saiba, e eu, não sabendo nada, admito não saber. Me parece, pois, que nisto eu, ainda que por pouco, era mais sábio, porque não cria saber o que de fato não sabia. (…) fui em busca de outros, conhecendo bem que me fazia odioso, e fazendo-me violência, porque temia os resultados; mas me parecia que devia, sem duvidar, preferir a voz de deus a todas as coisas, e para topar com o verdadeiro sentido do oráculo, ir de porta em porta pelas casas de todos aqueles que gozavam de grande reputação (…) todos aqueles que passavam por ser os mais sábios me pareceram que não eram, ao passo que todos aqueles que não gozavam desta mesma opinião se achavam, em verdade, muito mais próximos de sê-lo.”

Depois destes grandes homens de Estado, fui então aos poetas, tantos aos tragediógrafos quanto aos ditirâmbicos, fora outros, em nada duvidando de que com eles finalmente seria pego no pulo, i.e., descoberto como mais ignorante que eles. Com esse intuito, examinei suas obras, as mais famosas e bem-escritas, e perguntei-lhes o que queriam dizer aqui e ali, e qual era seu objetivo, para que isso me instruísse. (…) Não houve um só de todos os poetas vivos que houvesse abordado que soubesse dizer ou dar razão de seus próprios poemas. Aprendi então que não é a sabedoria que guia os poetas, mas certos movimentos da natureza e um entusiasmo semelhante ao dos profetas e adivinhos; que todos dizem coisas muito boas, sem compreender nada do que dizem. Convenci-me então da presunção dos poetas, que se julgavam os mais sábios num sem-número de matérias. Deixei-os, pois, persuadido de que até eu era superior a eles, pela mesma razão que eu era superior aos políticos.”

Era melhor para mim ser como sou. Desta singela conclusão, atenienses, nasceu contra mim todo o ódio e inimizade que se me dedicam, capaz de produzir todas as calúnias que conheceis, fazendo-me adquirir esta fama injusta de homem sábio.”

Parece-me, atenienses, que somente Deus é o verdadeiro sábio, e que isto quisera dizer por intermédio de seu oráculo, deixando transparecer que toda a sabedoria humana não é grande coisa ou, por melhor dizer, que não é nada; e se o oráculo nomeou a Sócrates, sem dúvida valeu-se de meu nome como um exemplo, e como se dissesse a todos os homens: <O mais sábio de entre vós é aquele que reconhece, como Sócrates, que sua sabedoria nada é>.”

Isto tanto me preocupa que não tenho tempo para me dedicar ao serviço da república nem ao cuidado de meus assuntos pessoais, e vivo numa grande pobreza em virtude deste culto que rendo a deus. Por outro lado, muitos jovens das mais abastadas famílias, em meio a seu tempo ocioso, a mim se juntam de bom grado, e nisso sentem tanto prazer que acabam emulando meu método, e saem por aí questionando os homens auto-intitulados sábios, pondo-os à prova. E não duvideis de que acabam encontrando boa colheita, porque há muitos desses homens vãos pela cidade: tão confiantes quanto são ignorantes.

Todos aqueles que os jovens convencem de que não passam em realidade de uns ignorantes acabam por se voltar contra mim e não contra os próprios jovens, e espalha-se esse rumor de que há um tal Sócrates, malvado e infame, corruptor da juventude; quando se lhes pergunta o que faz Sócrates ou o que ensina Sócrates, não têm o que dizer, e para dissimular a debilidade de sua acusação e a vacuidade de seu argumento soltam estes impropérios de sempre dirigidos aos filósofos, coisa trivial, vós o sabeis. Alegam que Sócrates indaga o que é que se passa nos céus e nas entranhas da terra, que além disso não crê nos deuses, que explica as causas más como sendo boas. E toda essa celeuma só porque não se atrevem a dizer a verdade: que o único que faz Sócrates é pegar esses pseudo-sábios no pulo, descobrindo seu segredo (eles nada sabem).”

Meleto representa os poetas, Anito os políticos e artistas e Lícon os oradores.”

ACUSAÇÃO FORMAL: “Sócrates é réu, porque corrompe os jovens, porque não crê nos deuses do Estado, e porque no lugar destes deuses estabelece novas divindades que chama de demônios ou espíritos ou gênios.”

SÓCRATES – (…) já que encontraste quem corrompe os jovens desta cidade, e já o denunciaste aos magistrados, é necessário que digas quem fará dos jovens pessoas melhores. Fala, vejamos de quem se trata!… Vês, Meleto? Calaste-te. Estás perplexo, não atinas com que responder. Não te parece isto vergonhoso? Não é a prova cabal de que jamais te preocupaste com a educação da juventude? Mas repito, meu excelente Meleto: quem é aquele que pode melhorar os jovens?

MELETO – As leis.

SÓCRATES – Meleto, sabes que não foi esta minha pergunta. Eu te pergunto quem é o homem; porque é evidente que a primeira coisa que este homem deve conhecer são as leis.

MELETO – São, Sócrates, os magistrados aqui reunidos.

SÓCRATES – Como, Meleto?! Estes magistrados ou juízes são capazes de instruir os jovens e fazer deles pessoas melhores?

MELETO – Sim, Sócrates, certamente.

SÓCRATES – Mas são todos estes juízes, ou há entre eles uns que são capazes e outros que não?

MELETO – Todos igualmente.

SOCRATES – Hm, perfeitamente. Por Hera! De um só golpe deste a Atenas um número enorme de bons preceptores! Mas sigamos adiante, Meleto. Estes ouvintes que nos escutam, o júri, podem eles, também, fazer dos jovens melhores, ou não?

MELETO – Podem.

SÓCRATES – E os senadores?

MELETO – O mesmo digo dos senadores.

SÓCRATES – Mas, querido Meleto, todos aqueles que vêm à assembléia do povo corrompem igualmente os jovens ou são capazes de melhorá-los?

MELETO – São todos capazes.

SÓCRATES – Segue-se daí que todos os atenienses podem fazer os jovens melhores, menos eu; só eu os corrompo, não é assim, Meleto?

MELETO – Sim, Sócrates.

SÓCRATES – Ó, sou mesmo um desgraçado! Mas continua a responder-me. Parece-te que sucederá o mesmo com os cavalos? Podem todos os homens aperfeiçoá-los, e é possível que somente um indivíduo possua a capacidade de arruiná-los? (…) Há um só bom domador ou há alguns bons domadores? E o restante dos homens, que não são domadores, será que pioram os cavalos? Não seria assim com todos os animais? Ó, sem dúvida! Anito e tu já conviestes nisto! Porque seria extremamente raro e vantajoso para a juventude que um só houvera capaz de corrompê-la, enquanto todos os demais instruem-na e a conduzem no bom caminho. Mas tu provaste com sobras, Meleto, que a educação da juventude não é coisa que tenha tirado teu sono um só dia, e teus discursos evidenciam com clareza absoluta que tu jamais te ocupaste desta matéria que motiva tua perseguição contra mim.”

SÓCRATES – Existirá alguém que prefira receber dano daqueles com quem trata a tirar vantagem? Responde, porque a lei manda que me respondas neste tribunal. Há alguém em seu juízo perfeito que prefira ser piorado que melhorado, Meleto?

MELETO – Não, não há.

SÓCRATES – Mas então, vejamos: quando me acusas de corromper a juventude e torná-la pior, sustentas que faço-o deliberadamente ou sem querer?

MELETO – Sabes o que fazes, Sócrates.

SÓCRATES – Tu és jovem, eu um ancião. É possível que tua sabedoria seja assim tão superior a minha, que sabendo tu que o contato com os maus causa o mal, e o contato com os bons causa o bem, suponhas-me tão ignorante que não saiba que, se converto aqueles que me rodeiam em maus, exponho-me a receber o mesmo mal em paga? Supões que eu, apesar desta simples consequência lógica, insista e persista no mal, e isso por livre e espontânea vontade, conhecedor dos meus atos? (…) Um de dois: ou eu não corrompo os jovens, ou, corrompendo-os, fá-lo sem saber e contra minha vontade, e de qualquer maneira que seja tu és um caluniador. Se corrompo a juventude a despeito de minhas intenções, a lei não permite que se cite alguém que não pode responder pelos próprios atos no tribunal. Não é culpado aquele que erra involuntariamente; só pode ser réu aquele que peca porque quer. O procedimento nestes casos seria chamar-me e repreender-me, instruindo-me no jeito correto de fazer as coisas. É certo que, se me ensinam aquilo que não sei, não mais errarei. Mas tu, com propósito, e longe de preocupar-te em educar-me, arrastas-me a este tribunal, onde o objetivo da lei é castigar as ofensas, jamais o mero repreender ou prevenir faltas voluntárias.

SÓCRATES – (…) explica-te se me acusas de ensinar que há muitos deuses (e neste caso, se creio que há deuses, não sou ateu, e falta a matéria para que seja eu culpado), ou se estes deuses não são do Estado. (…) Ou bem me acusas de que não admito nenhum deus, e que ensino os demais a que não reconheçam nenhum?

MELETO – Acuso-te de não reconhecer nenhum deus.

SÓCRATES – Oh, maravilhoso Meleto!, por que dizes isso? O quê!! Eu não creio como os demais homens que o sol e a lua são deuses?!

MELETO – Não, por Zeus! Ateniense Sócrates, tu não crês nisto, porque afirmas que o sol é uma pedra e a lua um pedaço de terra.

SÓCRATES – Mas tu estás acusando Anaxágoras em meu lugar, querido Meleto? Creio que menosprezes estes juízes, subestimando sua inteligência, ao pensar que eles ignorem que os livros de Anaxágoras de Clazômenas estão repletos de asserções deste tipo. E que necessidade teriam os jovens de aprender comigo coisas que poderiam aprender no teatro mesmo, por um dracma quando muito?

SÓCRATES – Meleto, tu dizes coisas verdadeiramente incríveis. Nem mesmo te pões de acordo contigo! Me parece, caros atenienses, que este Meleto é um insolente, que forjou esta acusação com o único intuito de insultar-me, com toda a audácia de um imberbe, porque, justamente, só veio ao tribunal a fim de testar-me e propor um enigma, dizendo-se a si próprio: Vejamos se Sócrates, este homem que se passa por tão sábio, reconhece que me contradigo e que digo coisas absurdas, ou se consigo enganá-lo, não só a ele como a todos os presentes! Efetivamente, contradizes-te em tua acusação, porque é como se tu dissesses: Sócrates é réu; primeiro, porque não reconhece deuses; segundo, porque os reconhece! Não seria isto mangar dos outros? Pelo menos eu creio que sim. Atenienses, suplico-vos que não vos irriteis comigo, se falo de forma tão simplória. Responde mais isto, Meleto. Há alguém no mundo que crê na existências de coisas humanas mas não na existência de homens?… Juízes, mandai que ele responda, e que deixe de murmurar tanto!… Há quem acredite haver regras para domar cavalos, e que não haja cavalos? Que há tocadores de flauta e que não há som de flauta? (…) há alguém que ao mesmo tempo creia nas coisas dos demônios, e que, no entanto, creia que não há demônios?

MELETO – Não, sem dúvida.

SÓCRATES – Que trabalho custou-me arrancar-te esta confissão! Respondeste-me, mas não sem que os magistrados a isso te obrigassem!”

SÓCRATES – E estes demônios, não estamos convencidos de que são deuses ou filhos de deuses? É assim, sim ou não?

MELETO – Sim.”

…E se os demônios são filhos dos deuses, filhos bastardos, que seja, pois o que dizem é que são filhos de deuses com ninfas ou de deuses com homens quaisquer, diz-me, quem é o homem capaz de crer que há filhos de deuses, mas que não há deuses? Seria como acreditar que há mulas e jegues mas que não há cavalos nem asnos!”

Talvez alguém objete: Não tens remorso, Sócrates, de te haveres consagrado a um estudo que te põe neste momento em risco de morte?

Meu filho, se vingares a morte de Pátroclo, teu amigo, matando a Heitor, tu morrerás, porque tua morte deve seguir à de Heitor.”

É uma verdade constante, atenienses, que todo homem que escolheu um posto que tenha crido honroso, ou que foi-lhe imposto por seus superiores, deve se manter firme, e não deve temer nem a morte, nem o que há de mais terrível, antecipando-se a todo o horror.

Conduzir-me-ia de uma maneira singular e estranha, atenienses, se depois de ter guardado fielmente todos os postos a que me destinaram nossos generais em Potidéia, em Anfípolis e em Délio(*) [não confundir com Delos] e de ter arriscado minha vida tantas vezes, agora que o deus me ordenou passar meus dias no estudo da filosofia, estudando-me a mim mesmo e estudando os demais, abandonasse este posto por medo da morte ou de qualquer outro perigo. (…) Porque temer a morte, atenienses, não é outra coisa senão se crer sábio sem o ser, e crer conhecer o que não se conhece. Com efeito, ninguém conhece a morte, nem sabe se é o maior dos bens para o homem.

(*) Sócrates se distinguiu por seu valor nos dois primeiros lugares, e na batalha de Délio salvou as vidas de Xenofonte e Alcibíades, seus discípulos.”

Se me dissésseis: Sócrates, em nada estimamos a acusação de Anito, e te declaramos absolvido; mas só à condição de que cessarás de filosofar e de fazer tuas indagações de costume; e se reincidires, e se se chegar a descobri-lo, tu morrerás. Se me désseis a liberdade sob estas condições, responder-vos-ia sem hesitar: Atenienses, respeito-vos e amo-vos; mas obedecerei a deus antes que a vós, e enquanto eu viver não cessarei de filosofar, dando-vos sempre conselhos, retomando minha vida ordinária, e dizendo a cada um de vós quando vos encontrasse: – Bom homem, como, sendo ateniense e cidadão da maior cidade do mundo por sua sabedoria e por seu valor, como é que não te envergonhas de não haveres pensado senão em amontoar riquezas?

Toda minha ocupação se resume em trabalhar para persuadir-vos, jovens e velhos, de que antes do cuidado com o corpo e com as riquezas, antes de qualquer outro cuidado, vem o da alma e seu aperfeiçoamento”

Fazei o que pede Anito, ou não o façais; dai-me a liberdade, ou não ma deis; eu não posso fazer outra coisa, ainda que houvesse de morrer mil vezes… Mas não murmureis, atenienses, e concedei-me a graça que vos pedi ao princípio: escutai-me com calma. Calma que creio não resultar infrutífera; fato é que tenho de dizer-vos outras muitas coisas que, quiçá, far-vos-ão murmurar. Mas não vos deixeis levar pela paixão. Estai persuadidos de que se me fizerdes morrer com base no que acabo de declarar-vos, o mal não será só para mim. Com efeito, nem Anito nem Meleto podem causar-me mal algum, porque o mal nada pode contra o homem de bem. Far-me-ão condenarem-me à morte, é certo, ou quiçá ao desterro, ou à perda dos meus bens e dos meus direitos de cidadão”

condenar-me seria ofender o deus e desconhecer a dádiva que vos foi regalada. Morto eu, atenienses, não encontraríeis facilmente outro cidadão que o deus conceda a esta cidade – sim, sei que esta comparação vos soará ridícula e prepotente –, como se diz de um corcel nobre e generoso, porém entorpecido por sua nobreza, e que tem necessidade da espora, de ser excitado, constrangido e despertado para o bom comportamento. Figura-se-me que sou realmente aquele que deus escolheu para excitar os atenienses e retificá-los, atiçá-los, fustigá-los, espetá-los, cuidar de vós, numa só palavra, jamais abandonar-vos, nem um só instante!”

Que resultará disso, amigos? Passareis o resto da vida dormentes, profundamente insensíveis, a menos que o deus tenha compaixão de vós e vos envie um outro homem que se pareça comigo. (…) Há um quê de sobre-humano no fato de eu ter abandonado durante tantos anos meus próprios interesses a fim de me consagrar aos vossos, dirigindo-me a cada qual de vós, como se fôra um pai ou um irmão mais velho, como só um destes poderia fazer… exortando-vos sem descanso a que praticásseis a virtude.”

ZARATUSTRA II (OU ZARATUSTRA ZERO): “Talvez pareça absurdo que eu me tenha intrometido a dar lições a cada um em particular, e que jamais me tenha atrevido a me apresentar em vossas assembléias, para dar meus conselhos à pátria. Quem mo impediu, atenienses, foi este demônio familiar, esta voz divina de que tantas vezes vos falei, e que serviu a Meleto para formar admiravelmente um capítulo da acusação. (…) Essa voz é a que sempre se me opôs, quando quis mesclar-me nos negócios da república”

É preciso, de toda necessidade, que aquele que quiser combater pela justiça, por pouco que queira viver, seja tão-somente um simples particular e não um homem público.”

é impossível que eu deixe de ser vítima da injustiça.”

Já sabeis, atenienses, que nunca desempenhei nenhuma magistratura, e que fui tão-somente senador. A tribo de Antioquia, à qual pertenço, ocupava seu turno no Pritaneu quando, contra toda a lei, vos empenhastes em processar um dos dez generais que não haviam enterrado os corpos dos cidadãos mortos no combate naval das Arginusas; injustiça, reconheceis hoje, porque arrependestes-vos.¹ Fui eu o único senador que se atreveu a opor-se a vós a fim de impedir a violação das leis. Protestei contra vosso decreto, e apesar dos oradores que estavam prestes a denunciar-me, apesar de vossas ameaças e vitupérios, preferi correr este perigo ao lado da lei e da justiça que consentir convosco em tão insigne iniqüidade, sem que me impedissem nem os grilhões nem a morte.

Isto se deu quando a cidade era governada pelo povo, porém já depois que se estabeleceu a oligarquia (decadência dos costumes): havendo-nos mandado os Trinta tiranos que outros quatro e eu fôramos a Tholos(*) para um assunto, comunicaram-nos uma ordem: prender Léon de Salamina para a execução. Os Trinta davam este tipo de comando à toa, a muitas pessoas, a fim de comprometer o maior número de cidadãos o possível em seus crimes e calamidades. (…) Mas vede: todo o poder destes Trinta tiranos, por maior que fôra, não me intimidou. Não foi o bastante para turvar meu juízo ou fazer-me desobedecer à lei justa.

Assim que saímos de Tholos, dirigiram-se os outros 4 a Salamina, e mataram León. Eu voltei a minha casa. Não duvideis de que minha morte teria sido ordenada em muito pouco tempo caso naquele momento mesmo não tivesse sido abolido tal governo. Existe um grande número de cidadãos capazes de testemunhar a meu favor.

Credes que eu haveria de viver tantos anos se me mesclara ainda mais do que nestas ocasiões nos negócios da república? Se, como homem de bem, houvera combatido toda e qualquer classe de interesse bastardo, dedicando-me exclusivamente à defesa da suprema justiça? Esperança vã, atenienses! Nem eu nem nenhum outro houvera podido fazê-lo. Mas a única coisa a que me propusera em toda minha vida pública e privada foi jamais ceder ante a injustiça, jamais ceder aos tiranos que meus caluniadores querem agora convencer-vos de que são meus discípulos! (…) como meu ofício não é mercenário, não me recuso a discursar, ainda que sem a menor das retribuições; e estou sempre disposto, seja com ricos ou com pobres, a dedicar todo o tempo àquele cidadão que queira me fazer perguntas, e, se o prefere, a fazer-lhe eu mesmo as perguntas que ele queira responder, ou as que ele deseja que eu pergunte de todo o coração. E se, dentre estes que questionei, há alguns que se tornaram homens de bem ou pícaros, nem por isso devo ser exaltado ou censurado. Porque não sou eu a causa. Nunca prometi ensinar coisa alguma a ninguém.

¹ Atenas, além de ter vencido a batalha de Arginusa contra Esparta, não tinha como enterrar soldados mortos como náufragos, cujos cadáveres afundaram em alto-mar!

(*) “Sala de despacho dos Pritaneus, prítanes ou senadores – P.A. / Vestígios dessa câmara, uma sala redonda, foram escavados por arqueólogos em tempos recentes. – A.P.V.”

Como já vos disse, foi o deus mesmo quem me deu esta ordem, através dos oráculos, sonhos e outros meios de que se vale a divindade quando quer que os homens saibam qual é a sua vontade.”

Não desejo contar com a proteção dos que ‘corrompi’, porque poderiam ter razões para defender-me com unhas e dentes; mas seus pais, que não seduzi e que têm já certa idade, que outra razão podem ter para querer me proteger, senão minha inocência?”

tenho parentes e tenho três filhos, dos quais o maior está na adolescência e os outros dois na infância, e no entanto, não os farei comparecer aqui para vos comprometer a absolver-me.”

muitos que vi, que passavam por grandes personagens, agiam com uma baixeza surpreendente quando se tornavam réus de um julgamento, como que persuadidos de que seria para eles um grande mal se lhes arrancassem a vida, e de que se tornariam imortais caso viesse a sonhada absolvição. Repito que, obrando assim, só poderiam cometer uma afronta a Atenas, pois fariam com que os estrangeiros cressem que os mais virtuosos dentre nós, os favoritos e os mais dignos de louvor, em nada se diferenciavam, no fundo, de mulherzinhas miseráveis. Isso é o que não deveis absolutamente fazer, atenienses, vós que houvestes alcançado tanto renome. Se quiséramos fazê-lo, nós, grandes personagens, estais obrigados, vós magistrados, a impedir-nos, e declarar que condenareis ainda mais depressa àquele que recorrer a estas cenas trágicas para mover os juízes por compaixão, ridicularizando nossa polis. Aquele que esperar tranqüilamente vossa sentença, com efeito, demorará mais a morrer.”

* * *

não esperava ver-me condenado por tão escasso número de votos.”

(*) “A lei permitia ao acusado condenar-se a uma destas três penas: prisão perpétua, multa ou desterro. Sócrates não caiu nesta armadilha.”

Dito isto, de que sou eu merecedor? De um grande bem, sem dúvida, atenienses, se é que recompensais verdadeiramente o mérito. E que é que convém a um homem pobre, vosso benfeitor, e que tem necessidade de uma grande concessão e tolerância a fim de se ocupar exclusivamente em exortar-vos? Nada convém-lhe tanto, atenienses, quanto ser alimentado no Pritaneu, o que é-lhe muito mais devido que àqueles dentre vós que ganharam as corridas de charrete nos jogos olímpicos; porque estes, com suas vitórias, fazem que pareçamos mais felizes; eu, eu os faço, não em aparência, mas verdadeiramente, mais felizes. Acresce que os atletas de renome não carecem deste tipo de socorro – o sustento alheio –; por outro lado, eu dele necessito.”

Se tivésseis uma lei que ordenasse que um julgamento de morte durasse muitos dias, como se pratica noutras partes, estou convencido de que vos convenceria de minha inocência. Mas como hei de destruir tantas calúnias num espaço de tempo tão curto? Tenho a mais absoluta certeza que nada fiz de mal a ninguém. Como hei de fazê-lo a mim mesmo, pois, confessando que mereço ser castigado, impondo-me a mim mesmo uma pena? Por não ter de sofrer necessariamente o suplício a que me condena Metelo, suplício que, verdadeiramente, não sei se é um bem ou um mal, iria eu optar, em detrimento da pena capital, por uma dessas penas ditas ‘menores’, que tenho certeza que são realmente males? Condenar-me-ei eu, inocente, a alguma delas? Seria cabível uma prisão perpétua? E que significa viver, sendo eterno escravo dos Onze?(*) Será justo o confinamento até que pague eu a multa estipulada? Isto equivale à pena de prisão perpétua, pois que não tenho com que pagar a multa. Condenar-me-ei ao desterro? Era preciso que eu fosse obcecado pelo ‘estar vivo’, queridos atenienses, se não percebesse que, se vós, meus concidadãos, não mais suporteis meus hábitos e conversações nem minhas máximas, havendo-vos irritado a ponto de levar vosso ódio e repulsa às últimas conseqüências, com muito mais razão os homens de outros países não poderiam em absoluto suportar-me! Preciosa vida para Sócrates, se a esta idade, expulso de Atenas, se visse errante de cidade em cidade como um vagabundo e como um proscrito! Sei muito bem que, aonde quer que eu vá, os jovens me escutarão, como me escutam os de Atenas; mas se os rechaço eis que rogarão a seus pais que me desterrem; e, se não os rechaço, eis que seus próprios pais e parentes, sem nenhum rogo, se apressarão em arrojar-me da cidade ainda mais depressa!

(*) “O número de magistrados encarregados de vigiar as prisões.”

O quê, Sócrates, se fores banido não poderás manter-te em repouso e guardar silêncio? (…) se vos digo que calar no meu exílio seria o mesmo que desobedecer a Deus, e que por esta razão me é impossível guardar silêncio, não me creríeis, decerto, e entenderíeis isto como ironia!

uma vida sem avaliação moral não é vida”

Verdadeiramente, se fosse eu rico, condenar-me-ia a uma multa tal que pudesse pagá-la, porque isto não me causaria nenhum prejuízo; mas não posso, porque nada tenho, a menos que queirais que a multa seja proporcional a minha indigência, e neste particular poderia ela se estender no máximo a uma mina de prata, pois é a isto que me condeno.”

(Havendo-se Sócrates condenado a si mesmo à multa por obedecer à lei, os juízes deliberaram e o condenaram à morte…)”

E para agravar vossa vergonhosa situação, sabeis que os estrangeiros me chamarão sábio, ainda que eu não o seja! No lugar deste gravame para vós, poderíeis muito bem ter agido com mais paciência, pois minha morte adviria naturalmente. Alcançaríeis da mesma forma vosso objetivo, pois vede: na idade em que estou, já não disto muito da morte.”

Não são as palavras, atenienses, aquilo que me faltara; é a impudência de não vos haver dito aquilo que gostaríeis de ouvir. Teria sido para vós uma grande satisfação o haver-me visto lamentar, suspirar, chorar, suplicar e cometer todas as demais baixezas que estais vendo todos os dias dentre outros acusados.”

Sucede amiúde nos combates que pode-se salvar a própria vida com muita facilidade, depondo as armas e pedindo asilo e clemência ao inimigo, e o mesmo sucede em todos os demais perigos; há mil expedientes utilizáveis para evitar a morte. Quando alguém está em liberdade para escolher suas ações ou seu discurso, é realmente fácil. Ah, atenienses! Não é evitar a morte que é difícil, mas evitar a desonra, que se aproxima muito mais ligeira que a morte!

Ó vós, que me houvestes condenado à morte! Quero predizer-vos o que vos sucederá, porque me vejo naqueles instantes, quando a morte se aproxima, em que os homens são capazes de profetizar o futuro. Vo-lo anuncio: vós que me matais agora, vosso castigo não tardará, quando eu houver finalmente morrido, e será, por Zeus!, mais cruel que o castigo que me impusestes! Ao desfazer-vos de mim, só houvestes tentado em vão descarregar-vos do importuno peso da prestação de contas de vossa existência, mas vos sucederá tudo ao contrário, vo-lo predigo!”

se credes que basta matar alguém para impedir que outros vos denunciem e joguem na cara que viveis pessimamente, vos enganais de forma terrível. Esta maneira de libertar-vos de vossos censores não é decente nem sequer possível. A melhor maneira, ao mesmo tempo decente e muito simples, é, no lugar de calar os homens, fazer-vos pessoas melhores.”

Com respeito a vós que me absolvestes com vossos votos, ó, atenienses! Conversarei convosco com o maior prazer, no intervalo de tempo entre meu encarceramento e os preparativos dos Onze. Concedei-me, suplico-vos, um momento só de atenção, nesta oportunidade, pois nada impedirá que conversemos juntos; haverá tempo de sobra. Quero dizer-vos, como amigos que sois, antes disso, só uma coisa que acaba de suceder-me, e explicar-vos o que significa. Sim, meus juízes (e, chamando-vos desta maneira, não me engano no nome!), sucedeu-me hoje uma coisa muito maravilhosa. A voz divina de meu demônio familiar que me fazia advertências tantas vezes, e que às menores ocasiões não deixava jamais de separar-me de todo o mal que possivelmente viesse a empreender, hoje, que me sucede o que vós vedes, e que a maior parte dos homens tem pelo mal supremo, esta voz não me disse nada, nem esta manhã, enquanto saía de casa, nem quando cheguei ao tribunal, nem após começar a discursar a vós. E todavia muitas vezes me sucedeu ser interrompido em meio a minhas conversações por esta ‘voz’! Hoje a nada meu gênio interior se opôs, em nenhum momento de minha fala ou de minhas ações. Que quer dizer isso? Vou dizê-lo! São fortes indícios de que o que me sucedeu é um grande bem”

É preciso que de duas uma: ou que a morte seja um aniquilamento absoluto e uma privação de todo sentido, ou, como se diz, que seja um trânsito da alma de uma paragem para outra. Se é a privação de todo sentido, um sono pacífico que não é turvado por nenhum sonho, que maior vantagem poderia apresentar a morte? (…) Se a morte é semelhante coisa, chamo-a com razão de um bem; porque então o tempo todo inteiro não é mais que uma longa noite.

Mas se a morte é um trânsito de um lugar para outro, e se, segundo se diz, lá embaixo está o paradeiro de todos os que um dia viveram, que maior bem, outrossim, é possível imaginar, ó meus juízes? Porque se, ao deixar os juízes prevaricadores deste mundo, encontramos no Hades os verdadeiros juízes, que se diz que fazem, ali sim, justiça, Minos, Radamanto, Éaco, Triptólemo e todos os demais semideuses que foram justos em vida, não é esta a mudança mais feliz que há? A que preço não compraríeis a felicidade de conversar com Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero? (…) Que transporte de alegria não teria eu assim que me encontrasse com Palamedes, com Ájax, filho de Telamon, e com todos os demais heróis da antiguidade, que foram vítimas da injustiça? Que prazer o poder comparar minhas aventuras com as suas! Mas ainda seria um prazer infinitamente maior para mim passar ali os dias, interrogando e examinando e avaliando todos estes personagens, para distinguir os verdadeiramente sábios dos que apenas crêem sê-lo e não o são (os torpes). Há alguém, juízes meus, que não daria tudo aquilo que possui neste mundo para poder examinar em pessoa aquele que conduziu um vasto exército contra Tróia? Ou Ulisses, ou Sísifo, ou tantos outros, homens, mulheres, cuja conversação e avaliação moral seriam de um júbilo inexprimível? De fato é uma recompensa que não traz qualquer prejuízo! Ali entraríamos em contato com os mais felizes e os únicos que gozam de fato da imortalidade, se havemos de crer no que diz o vulgo.”

Eis, em suma, por que a voz divina nada me dissera neste dia. Não guardo nenhum rancor contra meus acusadores, nem contra os que me condenaram. (…) Um favor, apenas, peço-vos: Quando meus filhos houverem crescido, suplico-vos que os fustigai, os atormentai, como eu vos atormentei, no caso de que eles prefiram as riquezas à virtude, e de que se creiam algo quando nada são! Não deixeis de vexá-los bastante, se eles deixarem de se aplicar naquilo em que devem se aplicar, imaginando que são aquilo que não são!

Mas já é tempo de que nos retiremos daqui, eu para morrer, vós para viverdes. Entre vós e eu, quem leva a melhor parte? Isto é o que ninguém sabe, exceto Deus.”

AS LEIS – Livro IX

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

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“Para quem isso seria mais vergonhoso: Homero, Tirteu e os demais poetas haverem se enganado no que escreveram sobre os deveres da vida humana, ou porventura Licurgo, Sólon e os demais legisladores?”

“Se se mata um escravo, a lei declara o assassino-proprietário absolvido de toda e qualquer pena, contanto que proceda a suas purificações.” “Diz-se que a alma daquele que morreu por morte violenta, tendo sido um cidadão da polis, livre, conserva, por algum tempo, um ressentimento contra o homicida.” “o homicida deve ceder ante o morto que o persegue, desterrando-se voluntariamente de sua pátria e dos demais sítios que freqüentava por um ano.” “é difícil decidir se os homicídios, efeito da cólera, são todos voluntários ou não, sendo facultado ao legislador tipificar alguns como involuntários.”

“Se um escravo, num repente de cólera, mata seu amo, os parentes do morto se encarregarão de fazer com que o autor padeça o que bem quiserem, contanto que a sentença final seja a morte” Montesquieu cita este fragmento como ilustração da arbitrariedade monstruosa do direito antigo.

“Se alguém se deixa arrastar pela cólera contra aqueles mesmos que brindaram-no com a existência, longe a ponto de matá-los, aí então, se a mãe ou o pai, antes de morrer, o houver perdoado de coração, o assassino será declarado inocente, após purificar-se enquanto homicida involuntário e cumprir algumas penas rituais menores. Mas se nenhum de seus pais não chegaram a lhe perdoar o crime, são muitas as leis que neste caso clamam pela vingança. Quem se atreve a matar o autor dos seus dias é merecedor dos maiores suplícios, em virtude de tamanhos violência, impiedade e sacrilégio perpetrados. Aqui, se fôra possível condenar tal ser à morte mais de uma vez, assim far-se-ia. Não há modo concebível pelo qual a lei consiga castigar justamente este crime e este criminoso. Nem mesmo se justifica tal ato pela ira imotivada dos pais ou por se estar visando à própria defesa! Portanto, o parricida ou matricida deverá morrer.”

“É certo que aquele que matou seu pai será morto um dia, noutra vida, pelos próprios filhos; se o fez com sua mãe, há de renascer um dia como mulher, para expiar pela ofensa sendo vítima da própria criatura que rasgou suas entranhas para ver a luz do mundo.”

“Que pena poderíamos infligir ao assassino daquilo que há de mais querido no mundo, i.e., o homicida de si mesmo, que corta, apesar da linha do Destino, o fio de seus próprios dias, mesmo em contradição com o Estado e com sua condição natural (considerando que a existência deste sujeito desconheça desgraças inomináveis e repentinas, opróbrios e calamidades tais que tornariam a vida de qualquer um odiosa e insuportável)? Sim, este homicida foi apenas covarde e débil além da conta, condenando-se dessa forma àquilo que não lhe era devido!” “Os suicidas serão enterrados à parte. Eles não são dignos de nada além de sepulturas muito confinadas e afastadas, nas regiões mais remotas das 12 divisões da polis, num terreno necessariamente inculto e infreqüentado. Seu enterro não será nem precedido nem sucedido de cerimônias. Não será edificada coluna ou monumento, nem seus nomes gravados em mármore.”

“Todo marido que surpreenda alguém violentando sua mulher está autorizado pela lei a matá-lo.”

“Se um filho fere seu pai ou sua mãe, e o mesmo para o escravo em relação ao senhor, com premeditação, a sentença é a pena de morte. E também para o irmão ou irmã que deliberadamente feriu sua irmã ou irmão. Se a esposa fere o marido ou o marido a mulher com a intenção de desfazer-se dele(a), a sentença é o exílio perpétuo.”

“O condenado por ferir alguém de modo não-letal num arrebato de cólera pagará o dobro do dano, se a lesão for curável; o quádruplo, se ela não for. No caso do ferimento curável que deixa cicatriz e produz deformidade que expõe a vítima a motejos e humilhações, o condenado também pagará o quádruplo. Quando a ferida for prejudicial não só à vítima mas também à república, uma vez que perde-se um soldado para o combate ao inimigo, o culpado será condenado, em consideração ao povo, a uma indenização especial, i.e., prestar serviço por duas pessoas (por si mesmo e por aquele que tirou de ação, de quem herda o posto), sem prejuízo de outras penas.”

“É preciso, para ser juiz em casos de agressão aos pais perpetrada pelos filhos, ter mais de 60 anos e possuir filhos legítimos (não-adotivos).”

“O cidadão que fere outro cidadão involuntariamente pagará somente o dano, porque nenhum legislador pode dispor acerca dos casos fortuitos.”

“É premente a constatação de que a velhice é muito mais respeitável que a juventude, inclusive para os deuses, mas também para todo homem que quer prover sua segurança e felicidade; é, portanto, um espetáculo odioso e indigno à Divindade ver na polis um ancião maltratado por um jovem. Quando é o jovem maltratado pelo ancião, deve sofrer com paciência os efeitos de sua cólera.”

“Que todos honrem com atos e palavras os mais velhos; que vejam como seus próprios pais todo aquele ou aquela que o excedam pelo menos 20 anos em idade.”

“Se alguém golpeia um terceiro de idade igual ou mais elevada porém despido de filho, se um ancião maltrata outro ancião, se um jovem agride outro jovem, o atacado deverá se defender com as próprias mãos, sem armas, pois está respaldado pelo direito natural. Se alguém de mais de 40 se atreve a se engalfinhar com outro, seja atacando ou se defendendo, de qualquer modo será considerado homem grosseiro, sem educação e vil, e receberá o castigo que merece.”

AS LEIS – Livro VI

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Os magistrados, depois de recolherem os nomes dos 300 com maior número de votos, exibi-los-ão em praça pública, e os eleitores deverão proceder livremente a outra eleição dentre estes 300.¹ Pela segunda vez os eleitos serão divulgados – desta vez, 100 nomes. Proceder-se-á a uma terceira eleição, e assim sucessivamente, até chegar à última subdivisão; e então os 37 candidatos com mais votos ao final serão declarados os magistrados da cidade.”

¹ Aproximadamente 0,05% dos cidadãos.

segundo o provérbio, o começo já é a metade da obra [Hesíodo].”

toda colônia em seu nascimento é como um bebê, incapaz de prover às próprias necessidades; ele depende daqueles que lhe deram a bênção da existência, e estes por esta mesma razão cumulam-no de carinhos, por mais que no dia de amanhã possa haver desavenças entre ele e a família.”

o que está bem-dito não é importuno se dizer duas vezes”

Quanto aos 37, eis suas funções: 1) guardarão as leis; 2) armazenarão os documentos onde estará discriminada a riqueza de cada cidadão, sendo vedado a qualquer um acumular mais de 4 minas ou 400 dracmas (na primeira classe), 3 minas (na 2ª), 2 (na 3ª) e 1 (4ª) (…)”

O cargo de guardiães das leis não excederá 20 anos, e não poderá ser assumido por alguém com menos de 50. E, seguindo esta regra, aquele que for eleito aos 60 poderá exercer a magistratura por no máximo 10 anos. Aos 70 anos dar-se-á irrevogavelmente a aposentadoria.”

O Senado terá 30 dúzias de membros (360 senadores); este número, não à toa, é mui cômodo para as divisões. A primeira que faremos é tomar o Senado por 4 partes iguais, cada uma constituída de 90 senadores. Estes serão os representantes inter-classes censitárias. No primeiro dia após a eleição dos magistrados, todos os cidadãos estarão obrigados a tomar parte na eleição dos senadores da primeira classe; pagará multa (fixada pela lei) todo aquele que falte com seu dever, de qualquer uma das 4 classes. (…) aqueles justamente da terceira e quarta classes que não comparecerem à votação dos senadores no terceiro e quarto dia das votações, destinados a eleger os representantes das 3ª e 4ª classes, não serão penalizados sob qualquer forma. Nem haverá qualquer tipo de sanção se nenhum candidato para estas vagas das terceira e quarta classes for apontado dentro de suas respectivas classes. Mas que fique bem claro que se os cidadãos das duas primeiras classes se ausentarem nos dias das eleições destes senadores das classes que lhes são inferiores pagarão uma multa mais pesada: o triplo da multa-padrão, no caso dos eleitores da 2ª classe, e o quádruplo, para os da 1ª. No quinto dia os magistrados abrirão as urnas para a contagem, em público. Todos, sem exceção, estão obrigados a refazer a eleição dentre os que tenham sido votados pelo menos 1 vez, num segundo turno. A pena é novamente a multa, a mesma que sofre o eleitor da 1ª classe que falta ao 1º dia de votação.”

As eleições, como acabo de descrevê-las, seriam um ponto médio entre as eleições monárquicas e as democráticas, hibridismo que considero essencial a todo bom governo (…) Não há igualdade entre coisas desiguais, a não ser considerando as devidas proporções: o que provoca sedições nos Estados são os extremos da igualdade e da desigualdade.

Parece-me que o conhecimento exato do país é uma ciência, a mais importante das ciências. Eis por que os jovens devem se dedicar à caça, com cães ou como mais for estabelecido, costume que deverá unir prazer e utilidade.”

Um juiz que nada acrescenta ao discurso dos advogados nos litígios não merece o cargo que ocupa”

ATENIENSE – Espero que saibas que o trabalho dos pintores, nas imagens que representam, em tese não tem fim, e na verdade vês que nada criam, apenas saturam ou desbotam as cores a fim de variar uma imagem já existente. Não espero que os pintores utilizem o mesmo vocabulário que o meu para sua arte. Mas quero apenas que te atenhas ao significado de minhas palavras: um quadro jamais é tão perfeito que não se possa acrescentar alguma coisa, de modo a torná-lo ainda mais belo e expressivo.

CLÍNIAS – Digamos que sei-o de ouvir dizer. Não sou conhecedor dos princípios da pintura.

ATENIENSE – E não perdeste nada.”

Agora diz-me: a empresa do legislador não parece a do pintor? O legislador propõe-se desde o começo a formar o corpo de leis mais perfeito possível; mas, com o tempo, quando a experiência já o tiver ensinado a julgar a própria obra, crês que haja um só legislador desprovido de senso a ponto de desconhecer que deixou detrás de si, e é impossível que não tenha deixado, vários traços de imperfeição, sendo seu ofício voltar atrás e dar algumas pinceladas em algumas de suas leis mais antigas, corrigindo-as? Ou, quando muito, pensa num mural público: um legislador corrige e melhora as leis de outros legisladores, como um pintor de uma obra que ele não começou também pode fazer a mesma coisa. Ora, se queremos um Estado que não decaia e degenere, não é preciso que assim sejam as coisas?”

fala-se muito dos escravos e da faca de dois gumes que é possuí-los: são úteis e perigosos.”

É evidente que o homem, animal de difícil manejo, não consente senão muito a contragosto que se estabeleça, na sociedade dos homens, esta distinção entre homem livre e escravo, senhor e servidor, dono e propriedade, que a necessidade introduziu, não é mesmo? (…) as revoltas freqüentes ocorridas entre os messênios, os males a que estão sujeitos os Estados onde há muitos escravos falando a mesma língua, e até o que se passa na Itália, em que escravos vagabundos exercem toda classe de bandoleirismo, são todos uma prova evidente disso.” “A maneira de se portar com aqueles que se pode impunemente maltratar é o que deixa ver se se ama com sinceridade a justiça e se se odeia de verdade tudo o que tem o selo da injustiça.”

Quando um escravo cometeu um mal, é preciso castigá-lo e não limitar-se a meras repreensões, como se faria se se tratasse de uma pessoa livre, porque isto fá-lo-ia mais insolente.”

Este sexo, que é de um caráter muito diferente do nosso, pela própria debilidade congênita, se vê mais inclinado que nós homens a se ocultar e caminhar por vias tortas. O legislador, vendo que era mais difícil o governá-las, errou, ao abandoná-las à própria sorte.”

Como se evitaria o ridículo caso se tentasse sujeitar as mulheres a comer e beber em público?”

É preciso que cada um compreenda que o gênero humano nunca começou nem nunca há de terminar, mas que sempre existiu e existirá sempre, ou pelo menos que sua origem se perde em tempos tão remotos que é quase impossível determinar essa época.”

O costume de sacrificar homens se conservou até nossos dias em muitos países. Em outros, por outro lado, não se atreveriam sequer a tocar a carne do boi. Neles, não se imolavam animais sobre os altares dos deuses; contentavam-se em oferecer-lhes frutas, mel e outros dons que não exigiam a derramada de sangue. Se abstinham do consumo de carne, crendo não ser lícito comê-la, muito menos manchar com sangue os altares dos deuses. Os costumes daqueles tempos é o que nos recomendam os mistérios de Orfeu, que prescreve alimentar-se daquilo que é inanimado e abster-se de tudo que é dotado de vida.”

A REPÚBLICA – Livro II

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “Os antigos criam que as serpentes se deixavam hipnotizar pelo canto. Vide Virgílio, Éclogas, 8:71.”

“Diz-se que é um bem em si o cometer a injustiça e um mal o padecê-la. E que resulta um maior mal em padecê-la que um bem em cometê-la. Que os homens cometeram e sofreram a injustiça alternativamente; experimentaram a ambas, e tendo todos os homens conhecido o que é sofrer já por bastante tempo, e não podendo os mais débeis dentre eles evitar os ataques dos mais fortes, nem atacá-los por sua vez, creram que era de interesse comum impedir que se fizesse e que se recebesse qualquer mal. Daqui nasceram as leis e as convenções. Passou-se a chamar justo e legítimo o que foi ordenado pela lei. (…) E chegou-se mesmo a amar a justiça, não porque seja um bem em si mesma, mas em razão da impossibilidade em que nos coloca de cometer a injustiça. Porque aquele que pode cometê-la e é verdadeiramente homem não se põe a negociar tratos para evitar que se cometam ou sofram injustiças, e seria isso uma loucura sua, caso negociasse. Eis aqui, Sócrates, a natureza da justiça.”

“Giges era pastor do rei da Lídia. Depois de uma tempestade seguida de violentos abalos sísmicos, a terra se abriu justo no local em que apascentava o seu gado; assombrado diante desta maravilha natural, desceu pela fenda aberta e, entre tudo o de mais estranho que encontrou, viu um cavalo de bronze, em cujo ventre havia, abertas, portinholas, pelas quais enfiou a cabeça para verificar o conteúdo das entranhas do simulacro de animal. O que encontrou foi um cadáver de porte aparentemente superior ao humano. Este cadáver, ademais, estava nu, e só possuía um adorno, um anel de ouro num dos dedos. Giges o tocou e o retirou da mão do cadáver. Posteriormente, havendo-se todos os pastores se reunido em assembléia da forma costumeira, ao fim do mês, a fim de prestar contas ao rei sobre o estado de seus rebanhos, Giges lá compareceu, usando o anel no dedo e sentando-se em meio aos demais pastores. Quando a pedra preciosa do anel, por acidente, girou para o lado de dentro (da palma da mão de Giges), ele se tornou invisível, e então dele falaram como se estivera ausente. Embasbacado com este novo prodígio, Giges girou a pedra de novo para o lado externo, e na mesma hora se fez visível.”

“Decidido, sabendo agora usar seu objeto, tramou para incluir-se entre os da comitiva de pastores que teriam uma conversação privada com o rei. Chegado ao palácio, corrompeu a rainha e com seu auxílio se desfez do rei e se apoderou do trono. Ora, se existissem dois anéis desta espécie, e se um fosse concedido a um homem justo e outro a um injusto, é consenso geral que provavelmente não haveria um só homem de caráter bastante firme para perseverar na justiça e abster-se de se apropriar dos bens alheios, sendo que poderia fazê-lo impunemente: furtar em praça pública, invadir as casas, abusar de quem fôra, matar alguns, libertar outros dos grilhões e, enfim, fazer tudo o que quisera de posse de um poder semelhante ao dos deuses em meio aos mortais. Em nada difeririam, portanto, as condutas de um e de outro: ambas tenderiam aos mesmos fins, e nada provaria melhor que ninguém é justo deliberadamente, mas tão-só por necessidade”

“O grande mérito da injustiça consiste em parecer justo sem sê-lo. É preciso dotar, portanto, o homem perfeitamente injusto da perfeita injustiça sem nada tirar dela, que, assim, mesmo cometendo os maiores crimes, saberia sempre conservar uma reputação de homem de bem; e quando ele desse um passo em falso, saberia sempre remediá-lo a tempo. Seria um homem tão eloqüente que convenceria de sua inocência aos próprios homens que se tornassem vítimas de suas ações e que fossem os seus acusadores; atrevido e poderoso, ora por si mesmo, ora através das amizades, operaria de modo a sempre conseguir pela força o que não poderia obter de outra forma.”

“O justo, dizem, o que é tal como eu o pintei, será açoitado, atormentado, acorrentado, queimar-se-á seus olhos, e, por fim, depois de terem-no feito sofrer toda a classe de males, será empalado, e assim farão compreender que não adianta tratar de ser justo, mas tão-somente de parecer sê-lo.” “enriquece, faz o bem aos seus íntimos, mal aos inimigos, oferece sacrifícios e presentes magníficos aos deuses, atrai a benevolência dos deuses e dos homens com mais facilidade e segurança do que o justo.”

“SÓCRATES – Os pais aconselham a justiça a seus filhos e os professores a seus alunos. E o fazem tendo em vista a justiça em si? Não, unicamente devido à reputação que vai embutida no conceito, a fim de que a reputação de homens justos propicie-lhes dignidades, uniões auspiciosas e todos os demais bens mencionados por Glauco. Mas vão ainda mais longe, e ensinam sobre os inesgotáveis favores e bênçãos derramados de mãos cheias sobre os justos pelos deuses. E citam Hesíodo e Homero (…) Museu¹ e seu filho vão ainda mais longe e prometem aos justos recompensas maiores ainda. Conduzem-nos para o além, no Hades; sentam-nos à mesa, coroados de flores, assegurando que passarão uma existência inteira em festas e banquetes, como se uma embriaguez eterna fosse a mais bela recompensa pela virtude. Segundo outros, estas recompensas não se limitam aos indivíduos. O homem são e fiel aos semelhantes revive em sua posteridade, que se perpetua de era em era.”

¹ Personagem mitológico. Teria criado os mistérios de Elêusis (esta uma das polis gregas), associados ao surgimento do orfismo (lado místico e oculto da religiosidade helena). Teria morrido de causas naturais (de velhice); talvez isso explique nossa instituição moderna do museu que preserva antiguidades artísticas e o dito popular de quem “quem vive de passado é museu”… Muito do que se sabe hoje sobre Museu foi retirado de Virgílio e Pausânias.

“Um único assunto como o dos ritos de sacrifício foi capaz de produzir uma vastidão de livros, entre cujos autores estão Museu e Orfeu, que os fazem descender, um das Musas, e o outro de Selene; e com estes discursos creia tu que não convencem apenas um ou outro, mas cidades inteiras! Estas, assim, pensam poder expiar qualquer culpa dos vivos e dos mortos através de um pequeno número de vítimas e de jogos regulares. Chamam tudo isso de purificações, estes sacrifícios instituídos para nos livrar dos males da próxima vida; e sustentam que aqueles que se isentam destas práticas estão sujeitos aos mais terríveis tormentos no amanhã.”

“Se se me diz que é árduo ao homem mau ocultar-se por muito tempo, responderei que todas as grandes empresas têm suas dificuldades, e que, suceda o que suceder, se desejo ser bem-sucedido, não tenho outro caminho a seguir que não o traçado pelos discursos que escuto. No mais, para escapar das inquirições, pode-se organizar seitas e irmandades. Mestres há que nos ensinarão a arte de seduzir o povo e os juízes com discursos artificiosos. Empregaremos a eloqüência e, na ausência desta, a força, a fim de escapar da punição de nossos crimes. Mas a força e o engodo nada podem contra os deuses. E na hipótese de que não haja deuses ou que eles não se imiscuam nas coisas deste mundo, ainda mais despreocupados ficamos de ludibria-los! Se há, sim, deuses, e eles participam, sim, dos negócios humanos, o fato é que deles só sabemos por ouvir falar, pelo povo, e pelos retratos dos poetas que descreveram sua genealogia; e precisamente estes mesmos poetas nos dizem que é possível aquietá-los e aplacar sua cólera por meio de sacrifícios, votos e oferendas.” “se alguém combate a injustiça, é que a covardia, a velhice ou qualquer outra debilidade tornam-no impotente para fazer o mal.”

“Muito me surpreendi, agradavelmente, dos discursos de Glauco e de Adimanto. Nunca admirei tanto quanto nesta ocasião seus dotes naturais”

“- (…) É quase impossível que um Estado encontre um ponto da terra em que não sejam necessárias as importações.

– É impossível, de fato.

– Também teria necessidade, nosso Estado, de que alguns se encarreguem de ir aos Estados vizinhos buscar o que falta.”

“- Mas no Estado mesmo, como se comunicarão uns cidadãos com outros sobre o fruto de seu trabalho? Porque esta é a primeira razão que tiveram para viver em sociedade e erigir tal Estado.

– É evidente que será por meio da compra e da venda.

– Logo, necessitar-se-á de um mercado e de uma moeda, signo do valor dos objetos trocados.”

“Quer dizer que nossa cidade não pode existir sem varejistas. Não é este o nome que se dá aos que, permanecendo na praça pública, nada mais fazem que comprar e vender, reservando-se o nome de atacadistas¹ aos que viajam e pululam de um Estado a outro?”

¹ Poder-se-ia usar o termo “traficantes”, mas a frase adquiriria duplo sentido. O sentido exato da sentença original não pode ser alcançado em Português, uma vez que para nós negociante, mercador ou comerciante adquiriram status de sinônimos, na prática. Então a oposição varejo-atacado não é exatamente a intenção original, mas não deixa de ser um substituto razoável – há o feirante ou microempresário sedentário e o verdadeiro ambulante, modesto ou opulento; mas fala-se aqui, efetivamente, do segundo tipo, empreendedor com capital suficiente para estabelecer papel em redes mais complexas de trocas.

“É provável que muitos não se dêem por satisfeitos com o gênero de vida simples que prescrevemos. Ainda acrescentarão camas, mesas, móveis de todas as sortes, refeições bem-condimentadas, perfumes, incensos, cortesãs e guloseimas de todas as classes e em profusão.”

“Será necessário aumentá-lo e fazer nele entrar uma multidão de gentes que o luxo, e não a necessidade, introduz nos Estados, como caçadores de todos os gêneros e aqueles cuja arte consiste na imitação por intermédio de figuras, cores e sons;¹ e ainda mais, os poetas, com todo seu cortejo, i.e., rapsodos, atores, dançarinos, empresários. E também fabricantes de artigos de todos os gêneros, principalmente aqueles que trabalham para o público feminino. Também precisaremos de novos servos: afinal, para tanta gente não farão falta aios e aias, amas e camareiras, cabeleireiros, garotos-de-recados, cozinheiros e mesmo porqueiros? No primeiro Estado não havia que pensar em todas essas coisas; mas neste, como passar sem elas? e sem toda classe de animais destinados a atender ao paladar dos gastrônomos?

– Com efeito: como não?

– Mas, com este gênero de vida, não crês que os médicos não se fazem mais necessários que antes?

– Muito mais importantes.”

¹ Pintores, escultores e músicos.

“SÓCRATES – Em decorrência, Glauco, faremos a guerra ou não? Vês alguma outra postura possível?

GLAUCO – Só esta tua.”

“SÓCRATES – Agora é preciso, querido amigo, dar guarida, em nosso Estado, a um numeroso exército que possa sair de encontro ao inimigo e defender o Estado e tudo o que possui das invasões do mesmo inimigo.

GLAUCO – Mas como?!?… Não poderão os próprios cidadãos atacar e se defender?

SÓCRATES – Não, se o princípio em que convimos ao formar o plano do Estado for autêntico. Convimos, para te lembrar, que era impossível que um mesmo homem desempenhasse vários ofícios.

GLAUCO – É, tens razão.”

“Mas estar ansioso por aprender e ser filósofo não são uma e a mesma coisa?”

“Formemos, pois, nossos homens como se tivéssemos tempo para contar estórias.”

“- Os discursos, em tua opinião, são parte integrante da música?

– Sim, assim os creio.

– E há discursos de duas classes, verdadeiros e falsos.

– Sim.

– Uns e outros entrarão igualmente em nosso plano de educação, começando pelos discursos falsos?

– Não compreendo teu pensamento.

– Não sabes que o primeiro que se faz com as crianças é contar-lhes fábulas, e que ainda quando se ache algo de verdadeiro nelas, não são, ordinariamente, mais que um tecido de falsidades?”

“Escolhamos os mitos convenientes e descartemos os demais. A seguir, comprometeremos as amas e as mães a entreter suas crianças com os mitos autorizados”

“…os de Hesíodo, Homero e demais poetas; porque os poetas, tanto os de hoje quanto os dos tempos antigos, não fazem nada senão divertir o gênero humano com falsas narrativas.”

“Acima de tudo, não é uma falsidade das maiores e das mais graves a de Hesíodo quanto aos atos de Urano, a vingança suscitada em Cronos, as façanhas deste e o péssimo tratamento que recebeu este de seu filho por sua vez? E ainda que tudo isso fôra exato, não são coisas que devam se contar na frente de crianças desprovidas de razão; é preciso condená-las ao silêncio; ou, se for preciso falar delas, só se deve fazê-lo em segredo, diante de uma audiência seleta, com a proibição expressa de revelar seu conteúdo aos de fora, e assim mesmo só depois de haver feito cada membro dessa audiência imolar, não um porco, mas uma vítima preciosa e rara a fim de limitar o número dos iniciados.” Não se deve contar o inato: o Complexo de Édipo.

“Pelo menos não se devem ouvir nunca em nosso Estado. Não quero que se diga na presença de um jovem que, cometendo os maiores crimes e até se vingando cruelmente de seu próprio pai pelas injúrias recebidas, alguém deixará de cometer qualquer coisa de extraordinário e assombroso, posto que há o precedente dos primeiros e maiores deuses, que deram o mau exemplo.”

“tampouco falaremos dos combates dos deuses, ou dos laços que havia entre uns e outros; lembre-se que nada disso é seguro. Menos ainda daremos a conhecer, seja em narrativas, seja através de pinturas e tapeçarias, as guerras dos gigantes e todas as querelas que houve entre os deuses e os heróis com seus parentes e amigos mais chegados.”

“Que jamais se ouça entre nós que Hera foi agrilhoada pelo próprio filho e Hefesto atirado do céu por seu pai, por ter desejado socorrer sua mãe quando este a mal tratava”

“ADIMANTO – Dizes coisas mui sensatas, mas se se nos perguntasse quais são as fábulas admissíveis, que responderíamos?

SÓCRATES – Adimanto, nem tu nem eu somos poetas. Nós fundamos uma república, e neste conceito nos cabe conhecer segundo que modelo devem os poetas compor suas fábulas, além de proibir que se separem fábula e autor um dia; mas não nos cabe compô-las.

ADIMANTO – Tem razão; mas o que as fábulas devem nos ensinar com respeito à divindade?

SÓCRATES – De imediato, é necessário que os poetas nos representem Deus tal qual é de todos os ângulos, seja na epopéia, seja na ode, seja na tragédia.”

“Deus, sendo essencialmente bom, não é causa de todas as coisas, como se diz por aí. E os bens e os males estão de tal maneira repartidos entre os homens que o mal domina, Deus não é causa senão de uma pequena parte do que nos acontece e não o é em tudo o mais (na natureza). A Deus só se devem atribuir os bens; quanto aos males, é preciso buscar outra causa que não seja a divindade.”

“Que não se dê confiança a Homero nem a qualquer outro poeta, insensato o bastante para disparatar sobre os deuses e para dizer, por exemplo, que:

Sobre o umbral do palácio de Zeus há dois tonéis,

um cheio de destinos felizes

e outro de destinos desgraçados,

Se Zeus toma de um e outro para um mortal,

Sua vida será uma mescla de bons e maus dias;

mas se toma só de um ou só de outro sem mescla,

uma terrível miséria o perseguirá sobre a divina terra.

“Não consentiríamos que se dissessem estes versos de Ésquilo¹ diante de nossa juventude:

A divindade faz crescer a culpa entre os homens

quando quer arruinar uma família totalmente.

¹ Níobe

(*) “Ínaco, drama satírico, atribuído alternadamente a Sófocles, Ésquilo e Eurípides.”

“A mentira, falando com propriedade, é a ignorância, que afeta a alma do que é enganado; porque a mentira nas palavras não é mais que uma expressão do sentimento que a alma experimenta; não é uma mentira pura, mas um fantasma filho do erro.”

“Deus é essencialmente reto e veraz em seus ditos e em suas ações, não muda de forma, nem pode enganar os demais, nem mediante fantasmas, nem mediante discursos, nem valendo-se de signos, seja durante o dia e à vigília, seja durante a noite e em sonhos.”

LORD[S] OF CHAOS: The bloody rise of the satanic metal underground (1998), revised & enlarged (2003) [Ou: uma biografia obviamente não-autorizada do delinqüente eternamente juvenil Varg. V. de VVinter e VVar / & outras estórias não-relacionadas] – Moynihan & Søderlind

Our world, increasingly homogenized and with the entire spectrum of its cultural creations adulterated for palatable mass-consumption, needs dangerous ideas more than ever. It may not need the often ill-formed and destructive ideas expressed by some of the protagonists in Lords of Chaos, but we felt all along that this is an issue for the individual reader to decide.”

The notion of a Protocols of the Elders of Zion-style Jewish cabal running the world is absurd to begin with, but all the more so in a country with practically no Jewish population, and we felt the need to point this out.”

The Satyricon single Fuel for Hatred received heavy air-play on one of Norway’s 3 biggest radio stations, and just before this revised edition went to press we heard that Dimmu Borgir’s new album will be hawked to the public through TV advertising spots.”

William Pierce – The Turner Diaries

Heavy Metal exists on the periphery of Pop music, isolated in its exaggerated imagery and venting of masculine lusts. Often ignored, scorned, or castigated by critics and parents, Heavy Metal has been forced to create its own underworld. It plays by its own rules, follows its own aesthetic prerogatives. Born from the nihilism of the 1970s, the music has followed a singular course. Now in the latter half of the 1990s it is often considered passé and irrelevant, a costume parade of the worst traits in Rock. Metal is no longer a staple of FM radio, nor are record labels pushing it like they used to. Watching MTV and reading popular music magazines, one might not even realize Heavy Metal still existed at all.”

Arthur Lyons – The Second Coming: Satanism in America

In the first half of the twentieth century, Jazz was considered particularly dangerous, with its imagined potential to unleash animal passions, especially among unsuspecting white folk. (…) In his book on the Rolling Stones, Dance With the Devil, Stanley Booth quotes the New Orleans Times-Picayune in 1918: <On certain natures sound loud and meaningless has an exciting, almost an intoxicating effect, like crude colors and strong perfumes, the sight of flesh or the sadic pleasure in blood.>”

More directly tied to deviltry than Jazz, and likewise imbued with the potency of its racial origins, was Blues. Black slaves often adopted Christianity after their enforced arrival in America, but melded it with native or Voudoun strains. Blues songs abound with references to devils, demons, and spirits. One of the most influential Blues singers of all time, Robert Johnson, is said to have sold his soul to the Devil at a crossroads in the Mississippi Delta, and the surviving recordings of his haunting songs give credence to the legend that Satan rewarded his pact with the ability to play. Johnson recorded only 29 tunes, some of the more famous being Crossroads Blues, Me and the Devil Blues, and Hellhound on My Trail. The leaden resignation of his music is a genuine reflection of his existence. Life for Johnson began on the plantations, wound through years of carousing and playing juke joints, ending abruptly in 1938 when at the age of 27 he was poisoned in a bar, probably as a result of an affair with the club owner’s wife.”

A DÉCADA QUE COMEÇOU 26 DIAS MAIS CEDO: “The Stones took their diabolical inspiration seriously, deliberately cultivating a Satanic image, from wearing Devil masks in promotional photos to conjuring up sinister album titles such as Their Satanic Majesties Request and Let it Bleed. The band’s lyrics ambivalently explored drug addiction, rape, murder, and predation. The infamous culmination of these flirtations revealed itself at the Altamont Speedway outdoor festival on December 6, 1969. Inadvertently captured on film in the live documentary Gimme Shelter, it was only moments into the song Sympathy for the Devil before all hell broke loose between the legion of Hell’s Angels <security guards> and members of the audience, ending with the fatal stabbing of Meredith Hunter, a gun-wielding black man in the crowd. The infernal, violent chaos of the event at Altamont made it abundantly clear the peace and love of the ‘60s wouldn’t survive the transition to a new decade.” 7, o mais belo número.

Page’s interest in Crowley developed to a far more serious level than the Satanic dabbling of the Stones; his collection of original Crowley books and manuscripts is among the best in the world. Page held a financial share in the Equinox occult bookshop (named after the hefty journal of <magick> Crowley edited and published between 1909–14) in London and at one point even purchased Crowley’s former Scottish Loch Ness estate, Boleskine. The property continued to perpetuate its sinister reputation under new ownership, as caretakers were confined to mental asylums, or worse, committed suicide during their tenures there.” “If there is any early Rock band bearing exemplifying the basic themes that would later preoccupy many of the Black Metal bands in the ‘90s, it is Led Zeppelin.”

I read a lot of Dennis Wheatley’s books, stuff about astral planes. I’d been having loads of these experiences since I was a child and finally I was reading stuff that was explaining them. It lead me into reading about the whole thing —black magic, white magic, every sort of magic. I found out Satanism was around before any Christian or Jewish religion. It’s an incredibly interesting subject. I sort of got more into the black side of it and was putting upside-down crosses on my wall and pictures of Satan all over. I painted my apartment black. I was getting really involved in it and all these horrible things started happening to me. You come to a point where you cross over and totally follow it and totally forget about Jesus and God.” GZR, Seconds Magazine, #39, 1996, pg. 64.

Groups further from the spotlight than Black Sabbath—such as Black Widow and Coven—could afford to be even more obsessive in their imagery. The English sextet Black Widow released three diaphanous Hard Rock albums between 1970–72, and later appear as a footnote in books that cover the history of occultism in pop culture. The chanting refrain of their song Come to the Sabbat evokes images of their concerts which featured a mock ritual sacrifice as part of the show. Beyond sketchy tales of such events, and the few recordings and photos they’ve left behind, Black Widow remains shrouded in mystery.

Coven are just as obscure, but deserve greater attention for their overtly diabolic album Witchcraft: Destroys Minds and Reaps Souls. Presented in a stunning gatefold sleeve with the possessed visages of the three band members on the front, the cover hints at a true Black Mass, showing a photo with a nude girl as the living altar. The packaging undoubtedly caused consternation for the promotional department of Mercury Records, the major label who released it, and the album quickly faded into obscurity. Today it fetches large sums from collectors, clearly due more to its bizarre impression than for any other reason. The songs themselves are standard end-of-the-‘60s Rock, not far removed from Jefferson Airplane; the infusion of unabashed Satanism throughout the album’s lyrics and artwork makes up for its lack of strong musical impact. In addition to the normal tracks, the album closes with a thirteen minute Satanic Mass.”

To the best of our knowledge, this is the first Black Mass to be recorded, either in written words or in audio. It is as authentic as hundreds of hours of research in every known source can make it. We do not recommend its use by anyone who has not thoroughly studied Black Magic and is aware of the risks and dangers involved.” Coven, Witchcraft, Mercury Records, SR 61239.

Coven included the attractive female lead singer Jinx as well as a man by the name of Oz Osbourne, who bore no relation to the British vocalist Ozzy. In an additional coincidental twist, the first track on the Coven album is titled Black Sabbath.”

Do what thou wilt shall be the whole of the law”

Stories persisted for a time of a planned Satanic Woodstock in the early ‘70s where Coven was to play as a prelude to an address by Anton LaVey, High Priest of the Church of Satan.”

King Diamond, the singer and driving force behind Mercyful Fate, one of the most important openly Satanic Metal bands of the ‘80s, acknowledges he received dramatic influences from a Black Sabbath concert he attended as a kid in his native Denmark in 1971. He also tells of finding inspiration from Coven’s lead vocalist Jinx: An amazing singer, her voice, her range… not that I stand up for the viewpoints on their Witchcraft record, which was like good old Christian Satanism. But they had something about them that I liked…

Anton Szandor LaVey made headlines when he founded the first official Church of Satan on the dark evening of Walpurgisnacht, April 30, 1966. The fundamentals of the Church were based not on shallow blasphemy, but opposition to herd mentality and dedication to a Nietzschean ethic of the antiegalitarian development of man as a veritable god on earth, freed from the chains of Christian morality.”

We played to skinheads and punks and hairies—everybody. Where some guy with long hair couldn’t come into a Punk gig, all of the sudden it was really cool to go to a Venom gig for anybody. That’s why the audience grew really quick and became very strong; they were always religiously behind Venom and they’ve always stayed the same.” Abaddon

I never thought we’d be able to enter a studio again after that because we were really dirty sounding. But it turned out that 85-90% of all the fan mail that came to the record company from that record (the compilation was titled Scandinavian Metal Attack) was about our songs. So the guy from the record company called me up and said, <Hey, you really need to put your band together again and write some songs, because you have a full-length album to record this summer>. (…) Everybody seems to think that I’m a megalomaniac with a big head or something, but it wasn’t really my fault —I should have been born in some place like San Francisco or London where I would have had a real easy time putting this band together.” Quorthon

Much of the explanation for this sound was simply the circumstances of recording an entire album in two-and-a-half days on only a few hundred dollars. The end result was more extreme than anything else being done in 1984 (save maybe for some of the more violent English Industrial <power electronics> bands like Whitehouse, Ramleh, and Sutcliffe Jugend) and made a huge impact on the underground Metal scene.”

Aplicável ao “projeto ATS”: “I’m not one inch deeper into it than I was at that time, but your mind was younger and more innocent and you tend to put more reality toward horror stories than there is really. Of course there was a huge interest and fascination, just because you are at the same time trying to rebel against the adult world, you want to show everybody that I’d rather turn to Satan than to Christ, by wearing all these crosses upside down and so forth. Initially the lyrics were not trying to put some message across or anything, they were just like horror stories and very innocent.”

Like any style hyped incessantly by the music industry, Thrash Metal’s days were ultimately numbered. The genre became too big for its own good and major labels scrambled to sign Thrash bands, who promptly cleaned up their sound or lost their original focus in self-indulgent demonstrations of technical ability.”

The whole Norwegian scene is based on Euronymous and his testimony from this shop. He convinced them what was right and what was wrong.”

Norway’s official religion is Protestantism, organized through a Norwegian Church under the State. This has deep historical roots and a membership encompassing approximately 88% of Norway’s population. However, only about 2-3% of the population are involved enough to attend regular church services. A saying goes that most Norwegians will visit church on three occasions in their lives—and on two of them, they will be carried in.”

An example of the conservative Christian influence in Norway was the banning of Monty Python’s classic comedy The Life of Brian as blasphemous. The amicable rivalry and fun-making between Norwegians and Swedes led to the movie being advertised in Sweden as <a film so funny it’s banned in Norway>.” “While America has figures like Edgar Allan Poe as a part of the literary heritage, and slasher movies are screened on National TV, Norway’s otherwise highly prolific movie industry has produced but one horror film in its 70-year history. Horror films from abroad are routinely heavily censored, if not banned outright. This taboo against violence and horror permeates every part of Norwegian media. In one case, Norwegian National Broadcasting stopped a transmission of the popular children’s TV series Colargol the Singing Bear on the grounds that the particular episode featured a gun.”

When denied something, one tends to gorge on it when access is finally gained. Black Metal adherents tend to be those in their late teens to early twenties who have recently gained a relative degree of freedom and independence from their parents and other moral authorities.” Aqui, ao contrário, o pré-adolescente se rebela e o adultinho adere ao sertanejo e forró, arrependido e tosado, quando não rebola no axé.

One strange aspect of the Black Metal mentality of the earlier days was the insistence on suffering. Unlike other belief systems, where damnation is usually reserved for one’s enemies, the Black Metalers thought that they, too, deserved eternal torment. They were also eager to begin this suffering long before meeting their master in hell.”

I think Norway, being a very wealthy country with a high standard of living, makes young kids very blasé. It’s not enough to just play pinball anymore. They need something strong, and Black Metal provides really strong impulses if you get into it.” Desse ponto de vista, era pro Aloísio virar o metaleirinho do mal e eu ser o normal dos 2, concentrado em objetivos “realistas”. Conquanto… o jovem frustrado acaba caindo de barriga no fascismo quando vislumbra o “poder-na-máquina” e sente que pode tocá-lo e participar dele… Bolsonaro é seu goregrind e nada lhe faltará!

A MAN’S DEAD BODY MUST ALWAYS HAVE BEEN A SOURCE OF INTEREST TO THOSE WHOSE COMPANION HE WAS WHILE HE LIVED…”

GEORGES BATAILLE, DEATH AND SENSUALITY

Do the names eerily reflect the karma of the personalities they denote? Or are the people destined to fulfill the fate foretold in titles they (ir)reverently adopt?”

Mayhem began in 1984, inspired by the likes of Black Metal pioneers Venom, and later Bathory and Hellhammer. Judging from an early issue of Metalion’s Slayer magazine, Aarseth initially adopted Destructor for his stage name as guitarist. The other members of the earliest incarnation of the band were bassist Necro Butcher, Manheim on drums, and lead vocalist Messiah. Not long after this Aarseth took on Euronymous as his own personal mantle—presumably it sounded less comical and more exotic than his previous pseudonym. His new name was a Greek title mentioned in occult reference books as corresponding to a <prince of death>.”

Mayhem played their first show in 1985. Their debut demo tape, Pure Fucking Armageddon, appeared a year later in a limited edition of 100 numbered copies. By 1987 someone called Maniac replaced the previous singer, whom Aarseth henceforth referred to as a <former session vocalist>, despite his appearance on the demo as well as the first proper release, that year’s Deathcrush mini-LP.” “Dead, the distinctive singer for the Stockholm cult act Morbid, joined Mayhem and moved to Oslo. A new drummer was found in Jan Axel <Hellhammer> Blomberg, one of the most talented musicians in the underground. Even with the mini-LP selling briskly, and Mayhem’s bestial reputation increasing, the band and its members remained dirt poor.”

Euronymous found him. We only had one key to the door and it was locked, and he had to go in the window. The only window that was open was in Dead’s room, so he climbed in there and found him with half of his head blown away. So he went out and drove to the nearest store to buy a camera to take some pictures of him, and then he called the police.” Hellhammer, the drummer

He just sat in his room and became more and more depressed, and there was a lot of fighting. One time Euronymous was playing some synth music that Dead hated, so he just took his pillow outside, to go sleep in the woods, and after awhile Euronymous went out with a shotgun to shoot some birds or something and Dead was upset because he couldn’t sleep out in the woods either because Euronymous was there too, making noises.”

It might sound a bit weird, but Mayhem was the band that everyone had heard of, but not many people had actually heard because they had released the demos which were quite limited and the mini-LP itself was very limited. But I was lucky because I knew Maniac, the vocalist, so he had some extra copies of the mini-album and he gave me one. I was very impressed because it was the most violent stuff I had ever heard, very brutal. I remember I thought that these people like Euronymous, Maniac, and Necro Butcher were very mysterious, because they didn’t do many interviews but they were always in magazines and I saw pictures of them. They had long black hair and you couldn’t see their faces, it was mysterious and atmospheric.” Bård Eithun

WHEN DID YOU FIRST MEET EURONYMOUS?

I met Euronymous and Dead at a gig in Oslo in 1989; it was an Anthrax concert and I met them outside”

Dead hated cats. I remember one night he was trying to sleep. A cat was outside his apartment, so he ran outside with a big knife to get the cat. The cat ran into a shed [galpão] and he went after it. Then you heard lots of noise, and screaming, and there was a hole in the shed where the cat came out again, and Dead ran after it with his big knife, screaming, hunting the cat, only dressed in his underwear. That was his idea of how to deal with a cat.”

I remember Aarseth told me, <Dead did it himself, but it is okay to let people believe that I might have done it because that will create more rumors about Mayhem>. (…) But he did use some stuff from the brain to make necklaces.”

There is a bootleg of the Sarpsborg show [1990] called Dawn of the Black Hearts: Live in Sarpsborg [vídeo?], released by someone in South America.” Metalion

That’s one thing about worshiping death—why worry when people die?”

I see Dead, people.

Where?

Oh, everywhere on the stage!

She told me that the first <plane> in the astral world has the color of blue. The earthly plane has the color of black. Then comes a gray that is very near the earthly one and is easy to come to. The next one further is blue, then it gets brighter and brighter till it “stops” at a white shining one that can’t be entered by mortals. If any mortal succeeds in entering it, that one is no longer mortal and can not come back to the earthly planes nor back to this earth.” Morto, o Místico

No one speaks ill of him, which is rare in such an insular and competitive realm as the extreme music underground. As many will testify, however, Aarseth appeared to feel little sorrow over the loss of Dead, instead glorifying his violent departure in order to cultivate a further mystique of catastrophe surrounding the band.”

This has nothing to do with black, these stupid people must fear black metal! But instead they love shitty bands like Deicide, Benediction, Napalm Death, Sepultura and all that shit!! We must take this scene to what it was in the past! Dead died for this cause and now I have declared war! I’m angry, but at the same time I have to admit that it was interesting to examine a human brain in rigor mortis. Death to false black metal or death metal!! Also to the trendy hardcore people… Aarrgghh!” Euronymous “manifesto”

Dead died wearing a white T-shirt with I ❤ Transylvania stenciled across it.”

if we ever come to, for example, India, the most evil thing that we can do there that I have in mind will be to sacrifice a holy cow on stage.” Euro.

HELL IS FULL OF MUSICAL AMATEURS;

MUSIC IS THE BRANDY OF THE DAMNED.”

GEORGE BERNARD SHAW, MAN AND SUPERMAN

I’d rather be selling Judas Priest than Napalm Death, but at least now we can be specialized within <death> metal and make a shop where all the trend people will know that they will find all the trend music.”

O que vocês fazer hoje, Cérebro Mole e Solto?

O que fazemos todas as noites, Blacky… Tentar conquistar o mundo para Satanás!

Aarseth also kept in touch with a growing number of extreme bands from outside Norway whom he likewise encouraged and made plans to release records by: Japan’s Sigh, Monumentum from Italy, and the bizarre Swedish entity Abruptum. Only a few of these schemes would ever be realized before Aarseth’s death, mostly because he was never cut out to be a businessman. He ran his label ineptly, and the capital to invest in new releases was simply not there.”

WHAT SORT OF IDEAS DID VARG HAVE WHEN YOU FIRST MET HIM?

He was a Devil worshiper and he was against Nazis, for reasons I don’t know, but that’s what he said. After the arrest in early ’93 then he got into this Nazi stuff.” Eithun

the shelves contained bands like Metallica and Godflesh.”

he had a specific taste for German electronic music like Kraftwerk.”

Politically, Aarseth was a long way from the nationalist and often pseudo-right-wing sentiments that are so prominent in Black Metal today. He proclaimed himself a communist, and for a while had been a member of the Rød Ungdom (Red Youth), the youth wing of the Arbeidernes Kommunist Parti (Marxist-Leninistene) —The Marxist/Leninist Communist Workers Party. Though rather few in number, the party had an appeal for intellectuals, including many prominent writers and politicians, and thus maintained a strong grip on Norwegian cultural life for many years. Rød Ungdom was aggressively anti-Soviet, and looked to China and Albania for inspiration. Despots like Pol Pot were also viewed as models of resistance against Western imperialism.”

Some of the treasured objects in his collection were heroic photographs of Nicolae Ceaucescu, the former dictator of Rumania and one of Aarseth’s idols. <Albania is the future>, he would muse to anyone willing to listen.”

Varg came to Oslo for a time and moved into the basement of the record shop, living in the barren space there along with Samoth, the guitarist of Emperor.”

On the second Burzum release, Aske (Ashes), bass playing would be done by Samoth, but with this sole exception Vikernes maintained his project entirely alone.”

Very few such corpse-painted portraits of Vikernes exist—the fashion seems to be something more particular to Aarseth. If it is true that Vikernes introduced the ideology of medieval-style Devil worship to Norwegian Black Metal, it must be also acknowledged that not a moment was lost before Aarseth began trumpeting it as his own.”

As many as 1,200 stave churches may have existed in the early Middle Ages; only 32 original examples survived in the second half of this century. That total has since been revised to 31.”

News of the destruction of one of Norway’s cultural landmarks made national headlines. It would not be long before other churches began to ignite in nighttime blazes. On August 1st of the same year the Revheim Church in southern Norway was torched; twenty days later the Holmenkollen Chapel in Oslo also erupted in flames. On September 1st the Ormøya Church caught fire, and on the 13th of that month Skjold Church likewise. In October the Hauketo Church burned with the others. After a short pause of a few months’ time, Åsane

Church in Bergen was consumed in flames, and the Sarpsborg Church was destroyed only two days later. In battling the blaze at Sarpsborg a member of the fire department was killed in the line of duty. Some would later consider this death the responsibility of the Black Circle.” “The authorities are reluctant to discuss the details of many of these incidents, fearing that undue attention may literally spark other firebugs or copycats to join the assault which Vikernes and his associates began in 1992.”

In eleventh-century England, arson was a crime punishable by death. Later, during the reign of King Henry II, a person convicted of arson would be exiled from the community after they had suffered the amputation of one hand and one foot.”

Lewis & Yarnell – Pathological Firesetting

True pyromaniacs tend to have a sexual impulse behind their action, according to psychologist Wilhelm Stekel, whose Peculiarities of Behavior covers the affliction in detail.”

It’s not a Satanic thing, it’s a national heathen thing. It’s not a rebellion against my parents or something, it’s serious. My mother totally agrees with it. She doesn’t mind if someone burns a church down. She hates the Church quite a lot. Also about the murder (of Østein Aarseth), she thinks that he deserved it, he asked for it. So she thinks it’s wrong to punish me for it. There’s no conflict between us at all about these things. The only thing she disliked was that I liked weapons and wanted to buy weapons, and suddenly she got a box of helmets at her place because I ordered them! Bulletproof vests, all this stuff…” Varg

TEENAGERS GONNA TEEN:

I said, I know who burned the churches, to the journalist, and I was making a lot of fun with him because we told him on the phone, we have a gun and if you try to bring anybody we’ll shoot you. Come meet me at midnight and all this, it was very theatrical. He was a Christian, and I fed him a lot of amusing info. Very amusing! Of course he twisted the words like usual. After he left we lay on the floor laughing.

We thought it would be some tiny interview in the paper and it was a big front page. The same day, an hour or so after I talked to him on the phone, the police came and arrested me. That was why I was arrested. I didn’t tell them anything. I talked to the police that time and I told them, I know who burned the churches —so what? They tried to say, We’ve seen you at the site, and all this, and I said, No you haven’t!

I’d already killed a man so it’s okay to be involved in this too, to burn down a church.” Eithun

VON [americana] were merely an obscure group who managed to release one raw-sounding demo tape, Satanic Blood, which became legendary within the Norwegian scene.” O primeiro full length (Satanic Blood, idem) dos caras é de 2012!

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IMAGEM 1. Kerrang!, 27/03/1993

The Kerrang! exposé is also notable as it appears to be the first media story which labels the Black Metal scene as <neo-fascist>. Arnopp quotes members of Venom and mainstream UK Metal band Paradise Lost (who the article claims were haphazardly attacked by teenage Black Metalers while on tour in Norway), referring to the Satanic Terrorists as Hitlerian Nazis.”

I support all dictatorships—Stalin, Hitler, Ceaucescu… and I will become the dictator of Scandinavia myself.” V.V. Mau-Mau

I didn’t care much about the value of human life. Nothing was too extreme. That there were burned churches, and people were killed, I didn’t react at all. I just thought, Excellent! I never thought, Oh, this is getting out of hand, and I still don’t. Burning churches is okay; I don’t care that much anymore because I think that point was proven. Burning churches isn’t the way to get Christianity out of Norway. More sophisticated ways should be used if you really want to get rid of it.” Ihsahn (Emperor)

I told them, why not burn up a mosque, the foreign churches from the Hindu and Islamic jerks—why not take those out instead of setting fires to some very old Norwegian artworks? They could have taken mosques instead, with plenty of people in them” Hellhammer o Batera

The epidemic mostly afflicted poor black churches in the South (States), and public outrage against a presumed conspiracy of racist terrorism resulted in the President’s formation of a National Church Arson Task Force in June, 1996. The Task Force has since concluded that no nationwide conspiracy exists, and suspects arrested in relation to the the fires have been blacks and Hispanics as well as whites. The motives in specific incidents have ranged widely, from revenge to vandalism to racial hatred.”

I understood that he was a homosexual very quickly. He was asking if I had a light, but he was already smoking. It was obvious that he wanted to have some contact. Then he asked me if we could leave this place and go up to the woods. So I agreed, because already then I had decided that I wanted to kill him, which was very weird because I’m not like this—I don’t go around and kill people. (…) He was walking behind me and I turned and stabbed him in the stomach. After that I don’t remember much, only that it was like looking at this whole incident through eyes outside of my body. It was as if I was looking at two people who were having a fight—and one had a knife, so it was easy to kill the other person. If something happens that is obscure, it’s easier for the mind to react if it acts like it is watching it from outside of yourself.” Eithun

The bizarre duo Abruptum (SUE), who allegedly recorded their music during bouts of self-inflicted torture, was praised by Aarseth as <the audial essence of Pure Black Evil>. He released their debut album Obscuritatem Advoco Amplectère Me on Deathlike Silence in 1992. Østein had also managed, with financial assistance from Varg Vikernes, to release the first Burzum CD on DSP. The second Burzum effort, Aske, was released in early 1993, some months after the burning of the Fantoft Stave Church. It was around this time, in the first months of the year, that bad blood arose between Vikernes and Aarseth. Their disagreement appears to come at the same period when Øystein was also arguing with members of the Swedish scene, causing a general animosity to surface between Black Metalers in the two neighboring countries.” “There was a certain degree of cooperation between the two groups, but the recent frictions had been strong enough that when Øystein Aarseth was found slaughtered in the stairwell of his apartment building on August 10, 1993, the initial suspicion of many was directed at the Swedes.”

People who never knew what Black Metal was, or Death Metal, or Metal at all, were attracted to this because they thought it was cool. People who never knew Grishnackh and never knew Euronymous. Oh yeah, Black Metal—that’s the new thing. There were so many new bands starting at this time in ’93 who were influenced by the writing in the newspapers.” Metalion

Aarseth had been forced to close the Helvete store a few months earlier, due to overwhelming attention from the media and police after the initial Black Metal church fire revelations. His parents were upset about all the negative publicity and, since they had helped him finance the shop, they successfully leaned on him to shut it down. Vikernes sarcastically points out how Aarseth’s inconsistent nature often resulted in deference to his parents’ wishes instead of adhering to the black and <evil> image he supposedly embodied: <Øystein once came to one of the newspapers wearing a white sweater, and later apologized to the scene, in case he had insulted anybody! It was all because of his parents. He was 26 years old!>

Øystein owed Varg a significant sum of royalty payments from the Burzum releases on Deathlike Silence, although given the poorly-run nature of the record label, this was hardly unusual or unexpected. Vikernes denies there was any monetary motive behind his actions. Others claim the attack came about as a result of a power struggle for dominance of the Black Metal scene, although astute insiders like Metalion are skeptical: That’s stupid reasoning, because you can’t expect to kill someone and have everyone think of you as the king and forget about him. That’s very, very primitive. It’s something more than that, I think.“Also Grishnackh’s mother paid for the studio recording of the first album, and Euronymous owed her money which she was supposed to get back.”

When he was sitting in his shop drinking Coca-Cola and eating Kebab from the Paki shop next door, it was all our money he bought everything with. It was dishonest pay. He was a parasite. Also he was half Lappish, a Sami, so that was a bonus. Bastard!” V.

They told the police they heard a woman screaming! I was laughing when I read about it. He ran away, pressing the doorbells and calling Help!

Bam! he was dead. Through his skull. I actually had to knock the knife out. It was stuck in his skull and I had to pry it out, he was hanging on it—and then he fell down the stairs. I hit him directly into his skull and his eyes went boing! And he was dead.”

NONE OF THE NEIGHBORS OPENED THEIR DOORS?

They didn’t dare. They thought it was some drunken fight. It’s the worst neighborhood in Oslo—60% colored people.”

When three people are going to tell the same story to the police, in interrogations lasting seven hours, it will go to hell.” Snorre Ruch, o Cúmplice

Varg was saying that what Bård had done was uncool, but inside the scene Bård’s actions commanded respect.”

The truth of the matter is that Snorre had shortly before joined Mayhem as a second guitar player. It is difficult to believe that he could have cared less about killing the founder of the band he was in—doubly difficult given Mayhem’s position as such a legendary group in the underground. In hearing his and Vikernes’s versions of the story, both are flawed. With his history of mental problems, one far-fetched explanation may be that Snorre was too daft to comprehend what he was actually participating in.”

The only foolish thing I did and the only thing I regret, is not killing (Snorre) as well. If I’d killed him as well I would not have gotten any more punishment if I was caught, and secondly, I wouldn’t have been caught. That’s what I regret.”

What is striking about members of the Scandinavian Black Metal circles in general is how little they cared about the lives or deaths of one another. When Dead killed himself, it became merely an opportunity for Aarseth to hype Mayhem to a new level. When he himself died violently two years later, his own bandmates speak of the killing with a tone of indifference more suited to a court stenographer.”

With the exception of Darkthrone, the major Norwegian Black Metal bands were now in hiatus, their key members facing prison sentences for arson, grave desecration, and murder. The legal proceedings that would follow disrupted the entire scene and pitted different factions against one another. People felt forced to choose sides: pro-Vikernes or pro-Euronymous. At this point a cult developed around the memory of Euronymous, hailed as <the King> or <Godfather of Black Metal>. As many have commented in the preceding interviews, much of this was hyperbole, emanating from a second generation of musicians trying to gain credibility by riding on the back of the legend of Aarseth’s Black Metal legacy.”

He simply refused to cooperate with the authorities, and maintained he was innocent until proven guilty. He followed the advice of his lawyer and never testified in court. The same cannot be said of the other offenders, most of whom confessed in detail once they were pressured by the police. On the one hand, this is understandable given their young age, relative naivety, and fear of worse punishments if they refused to admit their wrongdoing.”

ERROS E PUERILIDADES DA POLÍCIA NORUEGUESA: “Especially difficult to take seriously is the alleged calendar of <Satanic holy days> reprinted in the report, with many of the dates involving the sexual molestation of minors—something that is strongly condemned by all established Satanic organizations. And while it might be argued that fringe religious phenomena like Satanism are often so bewildering that it’s hard to accurately assess their practices, even complete novices in the study of New Religious Movements should begin to suspect something is wrong when they see references to dates that don’t exist, such as April 31. Unless, of course, Satanists are so evil that they follow their own calendar.” ZAGALLO (OLLAGAZ) AMOU.

Kirkebranner og satanistisk motiverte skadeverk also refers to stories that never really reached the media when the Satanic furor was at its height.”

But despite his smart-ass remarks and mental capabilities, Vikernes was no match for the seasoned investigators of the Kripos [FBI norueguês]. He sensed that the police net was tightening around him and that he was no longer in control of the situation, especially as the Oslo police dispatched its Church Fire Group to Bergen in 1993 to follow the goose steps of the Count and his subjects around Bergen.”

Lendas a respeito de Vikinho: “Vikernes knocked on the door of the police investigation’s impromptu headquarters in Room 318 of the Hotel Norge in Bergen, and seems to have virtually forced his way into the suite.”

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The word Varg has a great meaning for me. I could speak about this matter for an hour.”

Grishnackh is an evil character on the side of Sauron.”

That’s typical trial bullshit. Like my psychiatrists who examined me, one of them was a Jew and a Freemason! The other was a communist. My lawyer was a homosexual. The other lawyer was a Freemason. The one single Christian faith healer in Norway was in the jury! Can you imagine? In other words, a person who says, I can look through you and with the power of Jesus pull out the evil spirits who make you sick!

There is one person who has always stood by Varg’s side and spoken out rigorously in his defense: his mother Lene Bore. Not only has she attempted to improve the public perception of her son, she also visits him frequently, helps him deal with correspondence, and assists in business matters relating to Burzum.

A number of Burzum albums have been released since his imprisonment and all have sold admirably well on the worldwide market. Royalties for the record sales are received by Lene Bore, a fact that allegedly allowed for the development of serious trouble in the future. Lene Bore also helped provide the money for recording and releasing the early Burzum releases on Aarseth’s Deathlike Silence label, and as a result she had occasion to meet a number of Varg’s friends in the Black Metal scene. Her comments are interesting, for she has dealt with an amazing amount of unrest as a result of her son’s actions over the years, and some of her impressions of Varg’s life are quite different from his own.”

YOUR FAMILY SPENT A YEAR IN IRAQ. WHAT WAS THIS LIKE FOR VARG?

I think it might be here that Varg’s dislike toward other peoples started. He experienced a very differential treatment. The other children in his class would get slapped by their teachers; he would not be. For example when they were going to the doctor, even when there were other children waiting in line, Varg would be placed first. He reacted very strongly to this. He could not understand why we should go first when there were so many before us. He had a very strongly developed sense of justice. This created a lot of problems, because when he saw students being treated unfairly, he would intervene, and try to sort things out.”

DID VARG’S RACISM INTENSIFY AT A CERTAIN POINT?

If he had racist tendencies to begin with, I am sure that they came to the surface when he lived in Oslo.”

LONG-HAIRED SKINHEADS: “It’s difficult to say. When I was three years old we moved to a road named Odinsvei, Odin’s Walk, and we were playing with the neighbor. He had German toy soldiers, but he always wanted to have the American soldiers, because they were the big heroes in his view. So I ended up with the German soldiers, as he was five years older than I. And I actually came to like them. It developed from soldiers to running around with SS helmets and German hand grenades and a Schmeizer with a swastika on it. In time we tried to figure it out —what the hell does this mean? That’s how it really began, and it developed. I was a skinhead when I was 15 or 16. Nobody knows that. People say that suddenly I became a Nazi, but I was actually a skinhead back then. It was in waves—in ‘91 I was into occultism, in ‘92 Satanism, in ‘93 mythology and so on, in waves.

WHAT ABOUT YOUR FATHER?

I have very little contact with him. They’re divorced. He left about ten years ago. There wasn’t any big impact. I was glad to be rid of him; he was just making a lot of trouble for me, always bugging me. He was in the Navy. We were raised very orderly; it was a good experience. I had a swastika flag at home and he was hysterical about it. He’s a hypocrite.¹ He was pissed about all the colored people he saw in town, but then he’s worried about me being a Nazi. He’s very materialistic, as is my mother really, but that’s the only negative thing I can say about her.² The positive thing is that she’s very efficient, and in business I have to have someone take care of my money and I can trust her fully. I know she will do things in the best way.”

¹ Yeah, that prettily sums it up for all of us – satanists, pagans, nihilistics, depressed, guilty or innocent boys… with bad dads! Apenas troca “Nazi” por “PT” e “pessoas de cor” por “corrupção” (que ele pratica) e aí tens.

² This is war! UHHH

WHAT WAS SCHOOL LIKE?

It was an Iraqi elementary school. The English school couldn’t take us because they were full. I went to a regular Iraqi school. I could use some basic English. I think it was my mother’s idea, because she didn’t want us to stay home, bored. We couldn’t go out too much because of the rabid dogs and all this, so she put us in school, just to keep us active.”

In Bergen it’s a more aristocratic society I was part of, because of my mother mainly. I had very little contact with colored people, really. In Bergen we are still blessed with having a majority of whites—unlike Oslo, which is the biggest sewer in Norway.”

When I was a skinhead there still weren’t any colored people, but there were these punks—that was more the reason I went over to the other side.” He-he

We liked the Germans, because they always had better weapons and they looked better, they had discipline. They were like Vikings. The volunteers from America were tall, blond guys, who looked much more like the ones they were attacking than some Dagos who were waving them good luck when they left home. It’s pretty absurd.”

Our big hope was to be invaded by Americans so we could shoot them. The hope of war was all we lived for. That was until I was 17, and then I met these guys in Old Funeral.”

WHAT INFLUENCED YOU TOWARD THAT?

I got interested in occultism through other friends. We played role-playing games, and some of these guys (all older than me) started to buy books on occultism, because they were interested in magic and spell casting. They showed me the books and then I bought similar things. But the music guys weren’t interested in that stuff at all, they only cared about food. [QUE PORRA É ESSA? HAHA]

WHAT WAS THE MUSIC LIKE?

Originally it was Thrash Metal, and then it became Death-Thrash or Techno-Thrash, and I lost interest. I liked the first Old Funeral demo. It had ridiculous lyrics, but I liked the demo and that was why I joined with them. They developed into this Swedish Death Metal trend; I didn’t like that so I dropped out. But I played with them for two years.” The fart(Varg) that should’ve been.

We were drawn to Sauron and his lot, and not the hobbits, those stupid little dwarves. I hate dwarves and elves. The elves are fair, but typically Jewish—arrogant, saying, We are the chosen ones. So I don’t like them. But you have Barad-dûr, the tower of Sauron, and you have Hlidhskjálf, the tower of Odin; you have Sauron’s all-seeing-eye, and then Odin’s one eye; the ring of power, and Odin’s ring Draupnir; the trolls are like typical berserkers, big huge guys who went berserk, and the Uruk-Hai are like the Ulfhedhnar, the wolfcoats. This wolf element is typically heathen. So I sympathize with Sauron. That’s partly why I became interested in occultism, because it was a so-called <dark> thing. I was drawn to Sauron, who was supposedly <dark and evil>, so I realized there had to be a connection.”

Just like democracy claims to be <light> and <good>, I reasoned that then we obviously have to be <dark> and <evil>.” J.R.R. se revira no túmulo.

SALADA DE MAIONESE ESTRAGADA NA CAIXA ENCEFÁLICA: “I never said I will become the dictator of Scandinavia myself. I did say that I support Stalin, Hitler, and Ceaucescu, and I even said that Rumania is my favorite country—an area full of Gypsies! But the point is that Rumania is the best example of communism, and when people can realize how ridiculously the whole thing works, they can see what it really is. (…) It may be a provocative way to say it, but if there wasn’t Stalin, Hitler would look even worse. Now at least we can say, look at Stalin—he’s worse. He killed 26 million.”

Well, there was a T-shirt that Øystein printed which said <Kill the Christians.> I think that’s ridiculous. What’s the logic in that? Why should we kill our own brothers? They’re just temporarily asleep, entranced. We have to say, <Hey, wake up!> That’s what we have to do, wake them up from the Jewish trance. We don’t have to kill them—that would be killing ourselves, because they are part of us.”

He was at first allowed a computer, which he used for correspondence and for the preliminary texts which would form his nationalist heathen codex. Some of the essays he composed were forwarded to correspondents and began to appear in underground publications around Europe. Most of these concerned his investigations into the esoterica of Nordic mythology and cosmology. At a certain point, after he had compiled a large portion of his book, the prison authorities decided to take away his computer; presumably they were worried he was somehow employing it for nefarious ends.” “By titling his treatise Vargsmål, Vikernes seeks to place himself in mythic lineage as a modern-day figure worthy of the ancient sagas.” “The official publication of Vargsmål would only come about years after it was written. With Varg’s front-page notoriety there were certain publishers interested in releasing the book, obviously figuring to make a quick buck on the sensationalism that could be generated, but it appears that most backed out when they had a chance to review the actual contents. In addition to mythological commentary, the book brims with volatile statements and racial, anti-Christian, nationalist rhetoric.”

I would like to find a woman to live with in peace and quiet, far away from the world’s problems, but I cannot. It is my duty to sacrifice myself and my personal wishes for the benefit of my tribe.” He-he

Varg Vikernes serves the role of a pariah and heretic to Norwegians, similar on a number of levels to that of Charles Manson in America. Both profess a radical ideology at odds with, and at times unintelligible to the average citizen. Both insist they have done nothing wrong. Both espouse a revolutionary attitude, imbued with strong racial overtones. Both have become media bogeymen in their respective countries, and both knowingly contribute to their own mythicization. Both also understand well the inherent archetypal power of symbols and names—especially those they adopt for themselves.”

With his increasing nationalism, Vikernes has discovered his predecessor in Vidkun Quisling, the Norwegian political leader who founded a collaborationist pro-German government in the midst of the Second World War. Quisling was tried and executed for treason shortly after the war’s end. As a result his name has entered international vernacular as a synonym for <traitor>. In Norway, that name is still anathema even today.” Quisling – That Inhabited Worlds Are To Be Found Outside of the Earth, and the Significance Thereof for Our View of Life, o manifesto deste idiota.

Norway’s conversion to Christianity, made possible by St. Olav’s death as a martyr at Stiklestad, was described by Jacobsen [dissidente do quislinguismo, ainda mais extremista] as the introduction of <something false and unnatural into our folk’s life>. It was therefore logical for him to condemn Quisling’s adoption of the St. Olav’s cross as the NS symbol, declaring that the party symbol itself was non-Nordic.”

He lamented not being able to legally register his own religious organization in Norway due to his criminal record. Toward this goal he has, however, formed the Norwegian Heathen Front, a loosely knit operation through which he will issue propaganda. The members of German Black Metal band Absurd, also currently behind bars, are involved with a branch of the organization in their country.” Além de ideólogos degenerados, péssimos músicos. Um absurdo, literalmente.

he plans to employ his philosophy on the nature of women as a basis for NHF strategy. His awareness of the woman’s role in revolutionary activities is not unlike that of Charles Manson before him, although Vikernes claims to have arrived at it from personal observation during his Black Metal period.”

A PSICOLOGIA INFANTO-JUVENIL DO FASCISMO: “The groundwork of the Black Metal scene is the will to be different from the masses.¹ That’s the main object. Also girls have a very important part in this, because they like mystical things and are attracted to people who are different, who have a mystique.² When a girl says <Look how cute he is> when she sees a picture of someone, her male friends will think <She likes him. If I look like him maybe she will like me as well.> They turn toward the person she admires.² The way to make Norway heathen is to go through the girls, because the males follow the girls.³” Varg

¹ Baudrillard diria: Coitado, ele ainda está preso às concepções socialistas-revolucionárias! As massas não são nada conceituável, ou são tudo, não há relação binária passível de ser feita entre massa e não-massa, não é simples assim. Não mais. Mas sendo a massa o advento inevitável do mundo moderno decadente, negar a massa como os neo-pagãos presumem, seria negar a vida, e não reafirmá-la, como pensam os Anti-Nazarenos.

² Gado demais. Boi ou vaca.

³ No Brasil atual isso seria mais condizente com tornar-se funkeiro. Mundial e macroscopicamente falando, talvez aderir ao k-pop.

Males aren’t extreme really. You find females are more to the left or more to the right than the males. Females are more communistic, more extremely Marxist-Leninist, or more extremely rightist than the males.”

In Oslo everybody fucks everybody in the scene. If one person gets a venereal disease, everyone does. The females I know in the Black Metal scene are not very intelligent, they are basically just whores. That’s a typical Oslo phenomenon.

The people I correspond with are not Black Metal girls at all. Some of them were, but they realized that I don’t like it and then they realized they didn’t really like it either. They were just doing it because they wanted to get in touch with certain people. The way to power is through the women. Hitler knew this as well. Women elected Hitler.”

O TRAPÉZIO DOS MÍMICOS: “Ironically, while Vikernes’s name is more or less synonymous with Black Metal, he takes great care to distance himself from that musical milieu. He even now claims the early Burzum releases—records regarded today as milestones of the genre—never were Black Metal music at all, instead classifying them as <standard, bad Heavy Metal>. He passionately distances himself from all forms of Rock and Roll, stressing that Rock’s roots in Afro-American culture make it alien to white people.”

Presently, Vikernes is no longer even permitted to listen to CDs. The only music he is currently allowed to experience must come via MTV—something which, in his case, might be considered a cruel and unusual form of punishment.”

Denied a musical outlet, Vikernes has focused his strong creative drive on writing. His output has encompassed political tracts, a book on mythology called Germansk Mytologi og Verdensanskuelse (Germanic Mythology and Worldview), and fiction, including a short novel. His fictional works can be compared to the infamous neo-Nazi novels Hunter and The Turner Diaries, in the sense that much of it functions as a dramatization of National Socialist rhetoric. Vikernes seems to be slightly more aware of his literary limitations than the late author of the aforementioned books, Dr. William Pierce (a former physics professor who became director of the American racialist political group the National Alliance), who makes his characters’ tender pillow-talk read like political sermonizing.”

In the early days of the Heathen Front, the organization’s mailing address was one and the same with Vikernes’s private P.O. box prison address. This would, of course, mean that any prospective members would have their letters read and, one presumes, registered by the authorities. And this actually strengthens the Heathen Front’s assertion that Vikernes is not the leader: it would be very hard for him to do an effective job of it. Whatever his official role may be, Vikernes certainly has left a strong mark on the Heathen Front. Its program was written by Vikernes, and this is a mix of rather orthodox National Socialist doctrine and neo-Heathen, anti-Christian ideas, along with some emphasis on environmentalism.” “The Allgermanische Heidnische Front [subdivisão do já irrelevante Heathen Front] and its subdivisions in Norway, Sweden, Belgium, Denmark, Holland, Iceland, Germany, and Sweden (with <affiliated subdivisions> in Russia, Finland, and the USA) are probably little more than Internet tigers. While the AHF’s policy of concentrating on producing web pages might be a bid to attract [“““]intellectually[”””] inclined youthful recruits rather than the streetfighters that make up much of the younger rank-and-file of other European National Socialist organizations, the focus on the Internet may have a more pragmatic motive.

One of the wonders of the Internet is that, in theory, a single person with a little know-how, a modem, and an acceptable computer can create web pages just as impressive as those of any huge organization. And, still theoretically, a loose group of e-mail correspondents across Europe can take on the appearance of a tremendously organized international network. In addition to its functioning as a political equalizer, the added attraction to all this is that Net know-how is mainly the field of younger people—exactly the sort the AHF has aboard. But while Vikernes’s network might theoretically consist of one teenage computer nerd per country, each still living in his parents’ house, such an estimation would probably be way off the mark. So how real is the AHF?” “whether the AHF will be noticed in the future probably depends most on if it can succeed at recruiting young Burzum fans (its most realistic recruitment base) into political activism—or at providing a conduit for them into more militant groups and scenes.” Cenário pouco auspicioso para a “organização”.

He also explains their recruiting strategy: <We don’t approach the great masses, but rather let individuals from the masses approach us instead. This is probably why so many see us as an ‘Internet project’ or as inactive and passive.> braço sueco

National-Socialists in Sweden are as much a minority as they are everywhere else, and young activists are likely to rub brown-shirted¹ shoulders with members of other groups in informal settings like concerts, meetings, and parties.”

¹ Essencialmente, <Juventude Hitlerista>, qualquer grupo paramilitar subversivo de extrema-direita – análogo aos camisas-negras para a Alemanha.

while the Third Reich was in some ways a modern welfare state (at least for those whose blood and ideology were in line with NS doctrines), Vikernes asserts that military veterans who are disabled in future wars for the greatness of Germania should commit suicide rather than be a burden on the resources of the Nation.”

SS

solo sangue Scandinavia

The journal Kulturorgan Skadinaujo appears to be the work of young students, some of whom have adopted an academic writing style. Though the fanzine-style musings that occasionally appear in its pages detract from its academic tone, the main reason why Skadinaujo seems doomed to fail as a scholarly venture is the fact that it reviews books like the pseudo-archaeology of Graham Hancock side by side with properly executed scholarly works. The end result is hardly something to show your professor.”

He has taken to interpreting the Old Norse texts as proof of—or at the very least circumstantial evidence for—contact between humans and extra-terrestrials in ancient times.”

And in the same way that Hymir sent all his trolls out to wreak revenge on Thor for having gone fishing and catching the Midgard Serpent in one of the most well-known of the Norse myths, a war was waged on Atlantis. After the conflict, the island sank into the ocean and the Aryans sought refuge on other continents, where they eventually mixed with lower races of men. The Atlantean Aryans only survived as a pure race in Northern Europe, where they can produce children like Vikernes: blonde, blue-eyed, and long-skulled.”

LIGANDO LÉ COM CRÉ E NO KIBE DANDO RÉ: “Thor had red hair, but all our ancestors had blonde hair prior to the degeneration of the Viking Age. [?] But the planet Jupiter is the colour of rust! [?] And Thor protected men against uncontrollable natural forces, just like Jupiter’s gravitation protects earth. […] Why does Thor have a belt of strength? Does not Jupiter have a ring around it? [??]”

The roots of Nazi preoccupation with flying saucers are complex, and date back to before the Second World War. Clear indications exist that the Third Reich had a program for developing flying saucers as part of its war machine.” Legal, salvou meu dia.

After the war, the UFO myth entered the subconscious of the West, with the rumored UFO crash at Roswell and alien abduction stories becoming standard features in modern folklore. And while many of the contemporary myths dramatized by the tremendously successful TV series The X-Files might seem fantastic, the strangest ideas are the ones that people actually seem to believe in.”

While the circumstances that led to the creation of the book [ufologia babaca envolvendo a tribo Africana dos Dogon!] are convoluted (as any arguments dealing with ancient astronauts invariably are), at the root of the mystery lie the writings of the French anthropologists Marcel Griaule and Germaine Dieterlen, who did research on the Dogon in the 1930s. Twenty years later, the Frenchmen published their story of how the Dogon had revealed this astronomical knowledge about Sirius (Sigu Tolo in the native language) to them.

But other anthropologists who later visited the area have been unable to find the same astronomical knowledge circulating among the Dogon, and the most realistic hypotheses seem to be that the one Dogon informant who divulged the information to the two Frenchmen either learned his Sirius lore from earlier visitors (of the human variety), or indeed from Marcel Griaule himself, a keen astronomy fan who took along star-charts to help extract information. Either wittingly or unconsciously, the Dogon native might have had this knowledge transferred to him from his interviewer—or else Griaule overemphasized what was passed to him through his interpreter, thus finding exactly what he wanted to. Furthermore, many of the Dogon’s astronomical <facts> are just plain wrong.

In the world of the pop esotericism, however, the fact that claims are exposed as lackluster or even fraudulent often has little bearing on their continuing distribution via the myriad magazines and bookshops that cater to alternative ideas.”

Sitchin was first attracted to this peculiar field of research because he was puzzled by the Nefilim, who are mentioned in Genesis, 6. There, the Nefilim (also spelled Nephilim) are described as the sons of the gods who married the daughters of Man in the days before the great flood, the Deluge. The word Nefilim is often translated as <giants>, meaning that the Old Testament asserts there were days when giants walked upon the earth. If this sounds a bit like the occult narrative of Varg Vikernes, it only becomes more so when Sitchin claims that the correct and literal meaning of the word Nefilim is <those who have come down to earth from the heavens>. [eram filósofos: viviam com a cabeça nas nuvens!] Fallen angels procured the daughters of men as mates, which Sitchin takes to mean that the space-farers mixed their superior DNA with that of primitive mankind, leading to a quantum leap in human genetic and cultural evolution which spawned the blossoming Mesopotamian cultures.” Tão crível seria a hipótese de que caiu um meteorito radioativo na Terra e fez com que gorilas e chimpanzés entrassem em acelerada mutação – com mortalidade de virtuais 100%… Os escassos sobreviventes desta hecatombe ecológica, entretanto, viriam a ser Prometeus… Cof, cof.

IS THERE A SPECIAL CONNECTION BETWEEN NATIONAL-SOCIALISM AND UFOs?

DR. MICHAEL ROTHSTEIN [cético que estuda gente que acredita em OVNIs]: In certain ways, yes. Nazism has always had some kind of relation to the occult and certain Nazi groups (often outside the actual Nazi parties) have made a special point out of it. However, this really is fringe stuff [indie, marginal]. What is more interesting is the fact that UFOs on many occasions have been interpreted as devices developed by Nazi scientists, as German secret weapons. This is, I believe, more interesting than notions of clones of Hitler hiding under Antarctica in huge UFO-related facilities. Nazis are in many ways the demons of the modern world, at least most people find them disgusting and dangerous, and any association between the bewildering UFOs and these groups points to a certain understanding of UFOs as sinister or demonic.”

As long as people wish to believe, they will readily accept authorities that support their beliefs. The phenomenon is not that Von Däniken is able to persuade people of anything. The phenomenon is that people want Von Däniken to provide material for them to believe in. Furthermore, this is not in itself a <far-out> belief. Any belief in things out of the ordinary could be considered <far out>: God, for instance, or the Resurrection of Christ, flying yogis, whatever.”

As hinted by Rothstein, one of the most unusual marriages of UFO lore and National Socialism is the idea that the Third Reich is alive and well under the Antarctic ice-cap, keeping watch over the world by means of its flying saucers and waiting for the day to return and free the world from Zionist bankers, communists, and other enemies of the Aryan race.” “The most eloquent spiritual representative of such ideas in the present day is the Chilean dignitary and author Miguel Serrano [1917-2009], a former diplomat (to India, Yugoslavia and Austria) who counted both Carl Jung and Herman Hesse [curiosamente, anti-nazi notório – autor da novela Steppenwolf] among his circle of friends.” Serrano – C.G. Jung and Hermann Hesse: A Record of Two Friendships (1965) (original: El círculo hermético, de Hesse a Jung)

Mattias Gardell is a lecturer in religious anthropology at the University of Stockholm. He has studied radical religions extensively, and is the author of a book on the Nation of Islam, Countdown to Armageddon. His latest research project has involved a year of travelling around North America and interviewing figures involved in the neo-Nazi and Ásatru movements, two milieus that sometimes overlap—and especially so in the case of Varg Vikernes.”

Such ideas of blood as a carrier of hereditary information are common in Nazi circles, and can in some way be compared to Carl Jung’s theory of the collective unconscious.”

Their law of the strong scorns pity as a four-letter word; they await the day it is banished from the dictionaries. They despise doctrines of humility. Christ’s Sermon on the Mount is even worse poison to their ears. War is their ideal, and they romanticize the grim glory of older epochs where it was a fact of life. Where is the source for such a river of animosity and primal urges? Did torrents of hatred arise simply from the amplification of a phonograph needle vibrating through the spiralled grooves of a Venom album? Is Black Metal music possessed of the inherent power to impregnate destructive messages into the minds of the impressionable, laying a fertile seed destined to sprout into deed? To an enlightened mind it would seem unlikely.”

After reading a number of similar texts by Varg Vikernes, the Austrian artist and occult researcher named Kadmon was inspired to investigate in detail what enigmatic connections might exist between the phenomena of modern Black Metal and the ancient myths of the Oskorei. The Oskorei is the Norse name for the legion of dead souls who are witnessed flying, en masse, across the night sky on certain occasions. They are rumored to sometimes swoop down from the dark heavens and whisk a living person away with them. This army of the dead is often led by Odin or another of the heathen deities. Throughout the centuries, there are many reports from people who claim to have experienced the terrifying phenomenon—they attest to having seen and heard the Oskorei with their own eyes and ears. The tales of the Oskorei also refer to real-life folk customs which were still prevalent a few hundred years ago in rural parts of Northern Europe.” “noise, corpse-paint, ghoulish appearances, the adoption of pseudonyms, high-pitched singing, and even arson.”

In German folklore, stories of the Oskorei correspond directly to the Wild Hunt, also termed Wotan’s Host. Wotan (alternately spelled Wodan) is the continental German title for Odin, Varg Vikernes’s <patron deity>”

Gyldendal’s Store Norske Leksikon (The Large Norse Encyclopedia)

O SATÃ DE VIKERNES É O JUDEU ERRANTE: “There were often fights and killings at those places Oskoreia stopped. They could drink the yule ale and eat the food, but also carry people away if they were out in the dark. One could protect against the ride by gesturing in the shape of a cross or by throwing oneself to the ground with the arms stretched out like a cross. The best way was to place a cross above all the doors. Steel above the stalls was effective as well. The Oskorei was probably regarded as a riding company of dead people, perhaps those who deserved neither Heaven nor Hell.”

the cover of Bathory’s first <Viking> album, Blood Fire Death (1988), features a haunting depiction of the Oskorei in action. The remarkable development is how so many of the minute details of the legends would inadvertently or coincidentally resurface in unique traits of the Norwegian Black Metal adherents. This behavior had already become prominent years before the scene acquired its current attraction toward Nordic mythological themes, and before Vikernes ever began writing commentaries on such topics.”

Many of the <Satanic> bands even evince a strong fascination for native folklore and tradition, seeing them as vital allegories which represent primal energies within man. This type of viewpoint is expressed well by Erik Lancelot of the band Ulver:

<The theme of Ulver has always been the exploration of the dark sides of Norwegian folklore, which is strongly tied to the close relationship our ancestors

had to the forests, mountains, and sea. The dark side of our folklore therefore has a different outlook from the traditional Satanism using cosmic symbolism from Hebraic mythology, but the essence remains the same: the ‘demons’ represent the violent, ruthless forces feared and disclaimed by ordinary men, but without whom the world would lose the impetus which is the fundamental basis of evolution.>”

atavistic ativism

folclorenoruegues
IMAGEM 2. Extraído dum livro de lendas

Ler Two Essays on Analytical Psychology do Jung: “There are present in every individual, besides his personal memories, the great <primordial> images, as Jacob Burckhardt once aptly called them, the inherited powers of human imagination as it was from time immemorial. The fact of this inheritance explains the truly amazing phenomena that certain motifs from myths and legends repeat themselves […] It also explains why it is that our mental patients can reproduce exactly the same images and associations that are known to us from the old texts.”

Kadmon also points out a few strong contrasts between the rural folklore and Black Metal, which he sees as an urban phenomena. He is not entirely correct in this assertion, however, as many of the Norwegian Black Metal musicians do not come [from] cities such as Oslo, Bergen, or Trondheim, but live in small villages in the countryside. And Varg Vikernes, too, is proud to make the distinction that he is originally from a rural area some distance outside of Bergen, rather than the city itself. Further examples can be found with the members of Emperor, Enslaved, and a number of other bands.”

Besides Bathory, one other early Scandinavian Metal band had also extolled the religion and lifestyle of the Vikings in their music, a group from the ‘80s called Heavy Load. Possibly they also inspired some of the kids later involved in Black Metal, and indeed they have been mentioned with appreciation by some close to the scene, like Metalion.”

The group Immortal even went so far as to make a professional video clip with every band member shirtless in the midst of a freezing winter snowscape, furiously playing one of their songs. A video for the Burzum song Darkness goes much further, leaving out any human traces whatsoever—the entire 8:00 clip is based on images of runic stone carvings, over which shots flash of rushing storm clouds, sunsets, rocks, and woods. Co-directed by Vikernes from prison via written instructions, the result is impressively evocative despite the absence of any storyline or drama.”

POUCO IMANENTE VOCÊ, NÃO É, DISCÍPULO EX-QUERIDINHO DE FREUD? “According to Carl Jung, it is not always modern man who actively seeks to consciously revive a pre-Christian worldview, but rather he may become involuntarily possessed by the archetypes of the gods in question. In March, 1936, Jung published a remarkable essay in the Neue Schweizer Rundschau, which remains highly controversial to the present day. Originally written only a few years after the National-Socialists came to power in Germany, it is entitled Wotan.

Jung states in no uncertain terms his conviction that the Nazi movement is a result of <possession> by the god Wotan on a massive scale. He traces elements of the heathen revival back to various German writers, Nietzsche especially, who he feels were <seized> by Wotan and became transmitters for aspects of the god’s archetypal nature. He states, <It is curious, to say the least of it […] that an old god of storm and frenzy, the long quiescent Wotan, should awake, like an extinct volcano, to a new activity, in a country that had long been supposed to have outgrown the Middle Ages.>

Jung would some years later reveal his conviction [not proofs, like Moro] that both Nietzsche and he himself had experienced personal visits [Jung estuprado na infância?] in their dreams from the ghostly procession of the <Wild Hunt>, the German equivalent of the Oskorei.”

In Norway and Sweden there has also been growing general interest in the indigenous religion of their forefathers, to the point that at least one heathen group, Draupnir, has been recognized as a legitimate religious organization by the Norwegian government. Along with them, other Ásatrú organizations such as Bifrost also hold regular gatherings where they offer blot, or symbolic sacrifice, to the deities of old.

There is absolutely no specific connection between these Nordic religious practitioners and the Black Metal scene. In fact, public assumptions that such a link would exist have been a severe liability to these groups. Dispelling negative public impressions of their religion is made considerably more difficult with characters like Vikernes speaking so frequently of his own heathen beliefs to the press.”

VonStuck
IMAGEM 3. Franz von Stuck, A caçada selvagem

O TRÁGICO ATRASADOR DA REASCENSÃO MITOLÓGICA: “Vikernes’s extreme and bloody interpretation of indigenous Norse religion is just as problematic to the neo-heathen groups as was his flaming-stave-church and brimstone variety of Satanism a few years earlier to organizations like the Church of Satan. When contemporary figures sought to revive the old religion of Northern Europe, they had not intended to bring back uncontrollable barbarism and lawlessness with it.”

There is another obscure old fable of the Oskorei, where they fetch a dead man up from the ground, rather than their usual choice of someone among the living. It was collected by Kjetil A. Flatin in the book Tussar og trolldom (Goblins and Witchcraft) in 1930. If the folkloristic and heathen impulses of Norwegian Black Metal are in fact some untempered form of resurgent atavism, then this short tale is even more surprising in its ominously allegorical portents of events to come over 60 years later with Grishnackh, Euronymous, and the fiery deeds that swirled around them”

Originally bestowed with Kristian for his first name, Vikernes found this increasingly intolerable in his late teenage years. When he first introduced himself to the Black Metal scene it was still his forename. Sometime in 1991–92 he legally changed his name to Varg. His choice of a new title is curious in light of the actions he would later commit, and the legend that would surround him—although he claims to have adopted it mainly for its common meaning of <wolf>. If one understands the etymology and usage of the word varg in the various ancient Germanic cultures (and there is no evidence that Vikernes did at the time of his name change), his decision becomes downright ominous.

A fascinating dissertation exists entitled Wargus, Vargr—‘Criminal’ ‘Wolf’: A Linguistic and Legal Historical Investigation by Michael Jacoby, published in Uppsala, Sweden, but written in German. It is a highly detailed, heavily referenced exploration of the Germanic word Warg, or vargr in Norse.”

Qual é o lado mais podre do LobisOmen?

The designation was used in the oldest written laws of Northern Europe, often with a prefix to add a specific legal meaning, such as gorvargher (cattle thief) or morthvargr (killer).”

another ancient Germanic legal text, the Salic Law, which states: <If any one shall have dug up or despoiled an already buried corpse, let him be a varg.> Hehehe

LICANTROPIA ETIMOLOGIZADA E SOCIOLOGIZADA

Vargr is the same as u-argr, restless; argr being the same as the Anglo-Saxon earg. Vargr had its double signification in Norse. It signified a wolf, and also a godless man. […] The Anglo Saxons regarded him as an evil man: wearg, a scoundrel; Gothic vargs, a fiend. […] the ancient Norman laws said of the criminals condemned to outlawry for certain offenses, Wargus esto: be an outlaw! (be a varg!) […] among the Anglo Saxons an utlagh, or out-law, was said to have the head of a wolf. If then the term vargr was applied at one time to a wolf, at another to an outlaw who lived the life of a wild beast, away from the haunts of men—<he shall be driven away as a wolf, and chased so far as men chase wolves farthest,> was the legal form of sentence—it is certainly no matter of wonder that stories of outlaws should have become surrounded with mythical accounts of their transformation into wolves.” “As can be seen from the Baring-Gould quote above, the wolf connotation of the term later became associated with werewolves, and in certain sources the Devil himself is referred to as a werewolf. However, this negative outlook on wolves appears to surface after the onset of the Christian period of Europe; the pre-Christian heathens had a quite different perception. “A number of Black Metal bands display a fascination for the wolf. The most obvious example is Ulver, whose name itself means wolves in Norwegian.”

The wolf lives in the forest, symbol of the demonic world outside the control of human civilization, and serves thus as a link between the demonic and the cultural, chaos and order, light and dark, subconscious and conscious. Still I do not by this mean to say that the wolf represents the balance point between good and evil—rather he is the promoter of <evil> in a culture which has focused too much on the light side and disowned the animalistic. He symbolizes the forces which human civilization does not like to recognize, and is therefore looked upon with suspicion and awe.” E. Lancelot

In the older Viking times, wolves were totem animals for certain cults of warriors, the Berserkers. A specific group is mentioned in the sagas, the Ulfhethnar or <wolf-coats>, who donned the skin of wolves. Baring-Gould recounts the behavior of the Berserks who, wearing these special vestments, reached an altered state of consciousness:

<They acquired superhuman force […] No sword would wound them, no fire burn them, a club alone could destroy them, by breaking their bones, or crushing their skulls. Their eyes glared as though a flame burned in the sockets, they ground their teeth, and frothed at the mouth; they gnawed at their shield rims, and are said to have sometimes bitten them through, and as they rushed into conflict they yelped as dogs or howled as wolves.>”

Wolves are sacred to Odin, the <Allfather>, who is usually accompanied by his own two wolf-elementals, Geri and Freki. Many Germanic personal first names can be traced back to another root word for wolf, ulv or ulf, so this was clearly not an ignoble or derisive connotation, except in its varg form.” “In the old sagas Odin is bestowed with myriad names and titles, some of which include Herjan (War God), Yggr (the Terrible One), Bölverkr, (The Evil Doer), Boleyg (Fiery Eyed), and Grímnir (the Masked One).”

It happens that he betrays his believers and his protégés, and he sometimes seems to take pleasure in sowing the seeds of fatal discord..” Georges Dumézil

In her essay on the word Warg, Mary Gerstein also discusses comparative symbolism between Odin, who hung on the world tree Yggdrasil for 9 nights in order to gain wisdom, and Christ, who was hung on the cross as an outlaw [3 days], only to be reborn as an empowered heavenly deity. Vikernes, despite his heathenism, has in certain respects set himself up as both avatar and Christ-like martyr for his cause, willing to suffer in prison for his sacrifice.”

SUarEZ

zeus arrrrrrghhhhhhhhh

horror arquetípico:

argh!!!típico

GIMME THE HARP: “Odin is the embodiment of every form of frenzy, from the insane bloodlust that characterized the werewolf warriors who dedicated themselves to him, to erotic and poetic madness.” Não leia senhor dos anéis demaaais…

Odin’s hall is easy to recognize: a varg hangs before the western door, an eagle droops above.”

the renunciation oath which was enforced under Boniface among the Saxons and Thuringians, who were ordered to repeat: <I forsake all the Devil’s works and words, and Thunær (Thor) and Woden (Odin) and Saxnôt (the tribal deity of the Saxons) and all the monsters who are their companions.>”

In my town all they do is have their cars and they drive up and down the one main street. They have nothing else to do—it’s a kind of competition for who has the finest car and the loudest stereo. They basically live in their cars. Those who are younger, who don’t have a car—they sit at the side of the road and look at the cars. Their lives are extremely boring, and I can see that some people want more out of existence, they want to have their own personality and expression which makes it impossible to be associated with all those meaningless humans who walk around everywhere.” Isahn

It started up with the whole <anti-LaVey> attitude that was common within the scene, because his form of Satanism is very humane. No one wanted a humane Satanism” “When LaVey says that the simplest housewife can be a Satanist, which it seems like he does in the Satanic Bible, I guess some were terrified that he had views that would take the special thing they had away from them.” “Many people did not laugh; they were very serious all the time. Nothing should be <good>. Everybody was very grim looking. Everyone wanted to be like that, and I guess there are some who are that way still.” “Of course you were affected by the whole atmosphere, that you don’t sit and laugh in this Helvete place, and you have respect for the known figures in the scene, and were careful what to say to Euronymous in the beginning, before you got to know him.”

Normal people assume, <Oh, people into Black Metal must have had a terrible childhood and have been molested. They’re weak and come from terrible backgrounds.> But as far as I’m concerned, many people I know in the scene actually come from good families, non-religious families, and had a great childhood with very nice parents and no pressure at all. Quite wealthy families, really.”

LÁ VEM O SATANISTA: “Sometimes I think it would be great to be more anonymous—it’s a small town that I live in, everyone knows who I am. People look at me even though I don’t dress particularly extremely, just because everybody knows what I am. Also with where I work, people are very skeptical towards me, and sometimes it would be easier if no one knew.”

The essence of Black Metal is Heavy Metal culture, not Satanic philosophy. Just look at our audience. The average Black Metal record buyer is a stereotypical loser: a good-for-nothing who was teased as a child, got bad grades at school, lives on social welfare and seeks compensation for his inferiority complexes and lack of identity by feeling part of an exclusive gang of outcasts uniting against a society which has turned them down. And with Heavy Metal as a cultural and intellectual foundation, these dependents on social altruism proclaim themselves the <elite>! Hah!” E. Lancelot

MANIFESTUM UNIVERSALIS: “The Satanist is an observer of society—to him, the world is like a stage, in relation to which he chooses sometimes to be a spectator, other times a participant, according to his will. He can watch from the outside and laugh, cry, sigh, or applaud depending on the effect the scenery has on his emotions; or he can throw himself into the game for the thrill; but his nature is always that of the watcher, the artist. He is not overly concerned with changing society, for his commitment to humanity is minimal.”

An appropriate example of how such futile aspirations may end is the case of Varg Vikernes: a neo-Viking martyr. A prophet of the ego who paradoxically enough chose to be the Jesus of his ideals, and now must suffer for it behind the walls of spleen. I have much respect for this man’s conviction and courage, but not his sense of reality.” Garm

I think many of them have grown up with the Bible and phone book as the only books in the house.” Simen Midgaard, jornalista free-lancer e ocultista, líder do grupo Ordo Templi Orientis. “The O.T.O. is established in Norway, unlike the Church of Satan, Temple of Set, or other real Satanic organizations.”

if they are going to get rid of Judeo-Christianity, they will have to get rid of Satan as well, as a matter of fact. He is a sort of Trotsky in the revolution”

I’m rather indifferent to the State Church. I’m not indifferent to these terrible small sects who teach their people with fear from the day they are able to talk [essas pulgas de rodoviária!]. I support any revolt, however strong it is, against that kind of Christianity because I think it makes people into neurotics. It should be forbidden by law because they torture their own children.”

O BRASIL TEM O SATANISMO MAIS MADURO (O CARNAVALESCO – A LUBRICIDADE DA CARNE): “Satanism in Norway has become strong because it’s a despotic form of Satanism, but that is also why it’s going to fade so fast—because people are not able to live like that for a very long period of time.” Pål Mathiesen, teólogo cristão

The Satanists say—to put it brutally—that we are animals. The animal culture is the most important one, and we are losing that part of us. This is broad in the culture today, with the “wild women,” etc., this whole thing of going back to nature. Being part of nature instead of spirit or morals is very strong now.”

That struck me when I was talking to Ihsahn, the symbols he was using of 3,000 or 4,000-year-old Eastern religions, and at the same to say that it’s only Norway for me and only the Nordic religion that counts. It’s not rational on that point at all. It doesn’t relate to history as something rational—you just use it.”

I think Vikernes has been analyzing our times and thinking, what can we do to achieve something? But I also think that over the years he will find out that for us to go back to the heathen religion is very, very unrealistic. It’s not going to happen if you look at the religious aspect of it. We’re not going to go back to that kind of religious ritual. That is not going to happen.”

If you are declared a Satanist or Nazi in Norway, then you are that for the rest of your life, there’s not a question about it. You will be condemned for the rest of your life. I hate that aspect of our culture, I really think it’s a bad thing, because if we don’t have an opening for forgiveness it becomes very alien to me.”

I think in society when something like that happens it’s a very good opportunity for the media. They like it because they can start a lasting soap opera with strong characters, and these Satanic groups. The media embraced it to a certain extent, and made it really big in Norway. Of course it was big, but I would say that the media capitalized on it, because it was something extreme, new, and specifically Norwegian. For them to sell newspapers, they treat it as extremely as possible. Very early on the media started to define them as total extremists, the same way they might look upon the neo-Nazi movement. They defined them as that right away; then they had them there and they can look upon them like animals doing strange things, and they can report it like something that is very different from the rest of our society.”

This is something that’s important—individualism in Norway has been held down. That has happened. If you are different in school, or very good for example, or very intelligent, that becomes a problem for you. We don’t accept people with exceptional gifts or anything like that. In England or the US, you have schools for these kind of youngsters, you send them somewhere else, and say, <You are different, go over there>. We don’t have that. Everything is supposed to fit in, in a classroom of 25 or 30 people. If you are too weak or too healthy, or if you’re too good, you’re supposed to shut up. It’s mediocrity.” “We have a very special relationship to nature, a very close one. And during the Christian period this thing with nature has been suppressed—nature is not good, nature is <evil>, so to speak. Norwegians interact with nature and are very closely connected to it, just due to the way the country itself is formed.”

They’ve spent fifty years after the war bringing down Christianity, and for the first time they’re saying now that we need more Christianity in the schools. It shows the times have changed. Maybe we have become conscious to some extent about the Christian culture when people start to burn down our churches—maybe, you can’t rule that out.”

Asbjørn Dyrendal is a Research Fellow at the Department of Cultural Studies at the University in Oslo. He has been primarily researching the new and emergent religions, especially Wicca.”

There you had a lot of young people who wanted to be Satanists. Where could they hear about what you do when you’re a Satanist? They had to get it through the media and Christian sources. They got the myths, and they tried as best as they could, by their rather modest means, to live up to them. You can see that in the early interviews with Varg Vikernes. There were situations where the journalists were trying to see this in light of the stories supplied by Kobbhaug [policial que fantasiava sobre <sacrifícios de bebês>], and where Vikernes played the appropriate role. He was hinting that many people disappear each year, that these might have been killed, and then said that he cannot comment on who was doing the killings. When asked if he has killed anyone: I can’t talk about that. He was building up to get the question of whether he had killed anyone, and then denying it in a manner which implied the opposite.” Dyrendal

Vikernes was very fond of telling people that he read LaVey and Crowley. However, what he has come out with in interviews indicates that he hasn’t understood it all very well.”

WAIT & BLEED: “If you are an adolescent, you are in a period of your life where it is impossible for you to exert influence upon your surroundings. Being able to hate and feel strong can be very liberating. This is much of the same power that lay in other forms of Metal and in Punk.” “It has passed the point where people point at you and laugh, and reached the point where people shy away from you.”

Almost every form of shocking behavior will only make your parents say, <Well, we did that when we were young too>. So, to get a shock effect, you have to go much further in your symbolism. Personally, I think these explanations are a bit simplistic.”

I am of the opinion that most people see Vikernes as a rather pathetic figure—

someone with delusions of grandeur who is only able to function within this self-created image.”

The myth of the outwardly respectable, even upstanding, citizens that go out at night to do terrible things to children has been around for thousands of years and has been levelled at Christians, Jews, Catholics, Protestants, heretics, Freemasons, and lots of other groups. It was then recycled by horror writers, who fictionalized the material. It now seems to be influencing reality again. One account of <ritual abuse> I have read seems to have been lifted directly from Rosemary’s Baby, one of the great horror classics.”

There have only been a handful of Metal groups with direct ties to LaVey’s church over the years (King Diamond being one of the more outspoken), although in recent times this has begun to change. LaVey was himself a musician, specializing in lost or obscure songs of ages past, but he often mentioned a personal distaste for Rock and other modern music in interviews. This might have alienated some musicians—who otherwise exemplify LaVey’s philosophy—from any public allegiance with the Church of Satan. In reality, LaVey understood fully why a genre like Black Metal has appeal for youth, though he may not had have much interest in the cacophony of the music itself.” “The Black Metalers are also quite mistaken if they believe LaVey is merely a humanist. Even a cursory study of LaVey’s actual writings will uncover his unabashed misanthropy and derisive scorn for the follies of humankind.”

A lot of people had tried to give it exposure, as Devil’s advocates—writers like Twain and Nietzsche—but none had codified it as a religion, a belief system.” LaVey

In the case of the Nine Satanic Statements, it took me twenty minutes to write them out. I was listening to Chopin being played in the next room and I was so moved I just wrote them out on a pad of paper lying next to me. The crux of the philosophy of Satanism can be found in the Satanic Rules of the Earth, Pentagonal Revisionism, and the Nine Satanic Sins, of which of course <stupidity> is tantamount, closely followed by <pretentiousness>. Often pretentiousness comes in the form of so-called <independent thinkers> that have a knee-jerk reaction [reação reflexa, instantânea] to any association with us.” Não compreendo o sentido exato.

It sounds like there’s a lot of stupid people in Norway too, like any country.” “We get more mail from Russia than ever, now that the Soviet Union is gone. They’ve been under atheist control for so long and the new religious <freedom> is pushing bullshit they can’t swallow. They almost yearn for the good old days of Soviet atheism…”

A lot of them are kids and they like the name Satan just as they might be attracted to a swastika and the colors red and black.” “Now, if a representative of the Church of Satan had just one entire hour on national TV to say what we want to say, Christianity would be finished.”

The anti-Christian strength of National-Socialist Germany is part of the appeal to Satanists—the drama, the lighting, the choreography with which they moved millions of people. However, the Satanic attitude is that people should be judged by their own merit—in every race there are leaders and followers. Satanists are the <Others>, who will push the pendulum in the direction it needs to go to reset the balance—depending on circumstances, this could be toward fascism or in the opposite direction. Satanism is a very brutal, realistic way of looking at things sometimes.” Barton, boqueteiro (assessor, amante, secretário, sei lá!) oficial de LaVey – verde a cor do nojo

How can someone say I don’t like Rock and Roll? It’s never been defined. There’s so much that’s fallen under that general heading, but I guess it then evolved into what we have now, which I’ve described as being like a linear metronome, i.e., music without music. They’ve just run out of ideas, really.” Continua ouvindo seu Chopin no Inferno, velhote.

kids who don’t know anything besides Rock music can still gain strength and motivation from Black Metal, Death Metal, and so forth.” Enough to found a new “religion”.

…And then you have to get a job! That’s no market place for 2 (or 20, whatever) LaFEIs…

O SEGUNDO VARG É MAIS ESPERTO: “The biggest success story in Norwegian Black Metal—measured in chart positions, magazine coverage, and gaudy magazine posters—is Dimmu Borgir, a band which boasts of six-figure CD sales on the German label Nuclear Blast. Dimmu Borgir were not part of the initial waves of Norwegian Black Metal, and therefore they have neither blood nor soot on their hands. But they have been very adept at capitalizing on the shocking image of their predecessors in the genre, while at the same time carefully distancing themselves from the worst excesses so as not to lose record sales or gigs. A typical example can be seen in the promo pictures of Dimmu Borgir engaging in the mock sacrifice of a virgin —pictures that were produced in versions ranging from <softcore> (less gore) to <hardcore> (very bloody), so that different media could pick the version most suited to their audience. In other words, it seemed as if Dimmu Borgir wanted to be provocative enough to make the kids think they were cool, but not so provocative that the kids couldn’t get their parents to buy them the album for Christmas.”

Two or three years ago it was on the verge of becoming really, really big, and the international press was interested in Black Metal. If there had been more bands like Dimmu Borgir and The Kovenant that could have made it big in the mainstream, Black Metal could have been another example of an underground that stepped up to the major league. But strong forces in the scene suddenly became very introverted and reverted to an older, harder style of Black Metal.” AsbjØrn Slettemark

There is a handful of bands that sell well, about 10,000 to 20,000 copies of each release. But sales figures are hard to confirm, because labels tend to exaggerate; and on the other hand, many of the retailers for Black Metal records don’t register their sales.”

It is my impression that Nuclear Blast realized their stable of Death Metal and Speed Metal artists were starting to lag behind. It seems to me like they picked Dimmu Borgir more or less by chance, because the records that got them the contract weren’t really that special. But Dimmu Borgir were still developing as a band, and they were willing to do the image and magazine poster thing. It wouldn’t be possible to sell a more established band like Mayhem or Darkthrone the same way. I guess Dimmu Borgir have the good old Pop Star ambition, the standing in front of the mirror singing into the toothbrush thing.”

Compared to the multinational record companies, Nuclear Blast Records is like a hot dog stand. But the German label has its home base in the world’s biggest market for heavy metal, and is serious enough to have an American distribution deal with Warner Records. And Nuclear Blast know how to <move units>, in record business parlance. The Marketing Director of Nuclear Blast, Yorck Eysel, says Dimmu Borgir has sold 150,000 copies of their last album and 400,000 discs in all during the time they have been with his label. These numbers are repeated like a mantra by everyone that works with the band, but should be taken with a pinch of salt, as exaggerating sales figures is the oldest trick in the book for vinyl and CD pushers. They know that it is easier to sell you a record that has been in the charts than one which has only been coveted by a few obsessive collectors. Even if the sales figures might be inflated, Dimmu Borgir has sold an impressive amount of records, and Eysel thinks that is due to the band’s merit.”

Interestingly, during Varg Vikernes’s trial a Burzum album was reviewed in the news section of Dagbladet, one of Norway’s most important tabloids; this was at a time when his band was being treated with contempt [even] by the Rock [specialized] press.” “Pop music there generally has been difficult to export and the Metal bands regularly outsell the <commercial> Norwegian bands”

Sigurd Wongraven of Satyricon, who had earlier starred in a Rock Furore exposé about racism in Black Metal, later received the full Rock star treatment in mainstream tabloid Dagbladet for a 2-page article which focused on the fact that Wongraven liked Italian designer clothes. Black Metal had become popular enough, and house-trained enough, for the mainstream press to dispense with the barge pole when touching it, even if the specters of racism and satanism still surfaced often enough to make the bands seem somewhat scary.”

Ketil Sveen, a co-founder of the record label and distributor Voices of Wonder, was one of the first people to sell Norwegian Black Metal records on a bigger scale. He ended his cooperation with Burzum after Varg Vikernes stated that he was a National-Socialist. Today there is a racism clause in the contracts which prospective artists have to sign in order to work with Voices of Wonder.”

We sell Black Metal in 25 countries—there’s not a lot of other music that we get out to so many.” Sveen

BURZUM_lighter

IMAGEM 4. Igreja de Fantoft em brasa e logotipo da banda de Vikernes num isqueiro promocional da Voices of Wonder. “I’ve done a few stupid things in my life, and that lighter was one of the stupidest. In my defense I want to say that none of us suspected Vikernes had really done anything like that. We figured that if he was crazy enough to torch a church he would not be crazy enough to go around bragging about it.” Sveen

Welcome to the world of German Black Metal. Less well known than its Norwegian counterpart, the German scene remains genuinely underground, an obscure exit off the darkened Autobahn of extreme Rock. That changed briefly following the night of April 29, 1993, however, when the members of the Black Metal band [arguably] Absurd followed the example set by Bård Eithun and Varg Vikernes and replaced thought with crime.”

Lianne von Billerbeck & Frank Nordhausen – Satanskinder (Satan’s Children: The murder case of Sandro B., 1994)

Such curiosities were difficult to satisfy until the Wall fell in 1989 and East Germany was opened to the West. At this point previously forbidden or impossible-to-obtain records and videos steadily came within reach. The three 17-year-olds Hendrik Möbus, Sebastian Schauscheill, and Andreas Kirchner began to draw attention to themselves with their Satanic obsessions and penchant for Black Metal. They were antagonized for their interests by many of the other kids in town—both left-wing punks and right-wing skinheads [curiosamente, o som da banda é nazi, sobre guitarras punks estéreis] —but developed a group of admirers among the local schoolgirls.” “At a certain point in 1992, a younger student, a 14-year-old named Sandro, also developed a fascination for the members of this sinister band and their associates.” “Widely disliked due to his irritating manners, he had almost no real friends. He quickly began to adopt the style and interests of the satanists and desperately tried to ingratiate himself into their circle. He would ask to attend band rehearsals and began corresponding with them and the others in the clique [panela] around Absurd. Satanskinder describes a peculiar <letter writing culture> that thrived among all of these youths.” “Heated arguments also took place there between them and members of the Christian Youth Club, which met regularly at the Center as well.”

Together with a young girl named Rita, Sandro began to plot actions against Sebastian and Hendrik, hoping to make a mockery of them in Sondershausen.” “He was also aware of an ongoing affair between Sebastian and an older married woman named Heidegrit Goldhardt, now pregnant with Sebastian’s child.” “Sebastian’s romantic relationship with Heidegrit, who oddly enough was an evangelical Christian schoolteacher, had produced some unexpected results. He had joined in with her pet projects for environmentalism and animal rights, and now spent time writing polemical letters to the newspapers about such issues.” “Absurd no longer rehearsed at the Youth Center, but had moved their equipment to a small cottage built by Hendrik’s father in the nearby woods. Through the guise of a female friend, Juliane, a letter was sent to Sandro in which she confided her hatred of Absurd. She asked Sandro to meet her one evening at the Rondell, a WW1 memorial in the forest above the town, in order to discuss how she could contribute to Sandro’s campaign against the satanists.” “Juliane didn’t appear, but the members of Absurd did instead. Sandro must have been confused, but dismissed any idea that he had been set up. They then somehow convinced him to accompany them elsewhere so that they could all discuss an important matter.” “Suddenly Andreas grabbed an electrical cord and wrapped it around Sandro’s neck. A struggle ensued, Sandro tried to scream for help. At this point, Hendrik is alleged to have pulled a knife and cut Sandro. They tied his hands behind his back. Sandro begged to be let free, promising to never speak about anything that had just happened. They could even have his life savings—500 German Marks (approximately $325). The boys considered the idea of letting him go free in the woods, but feared he would not keep his promise of silence about the abduction, especially now that he had been wounded.” “On May 1st [2 dias depois] the three members of Absurd returned to the scene of the crime and dragged Sandro’s corpse, wrapped in a blanket, to a nearby excavation pit, where they quickly buried him.” “Sebastian related a strange personal anecdote: about 6 months before the murder he heard a voice in his head. It was difficult to understand; he thought it uttered the nonsensical phrase <Küster Maier>. Later he decided it probably must have said <töte Beyer> (Kill Beyer!).” “The story detailed above follows the chronology presented in Satanskinder, although the book embellishes it with endless psychological speculation. The descriptions of the authors are based entirely on comments by disgruntled ex-friends and hangers-on who had interacted with the killers, since the latter refused to speak to them. The picture painted is one of an outsider group of youths whose fantasies got the best of them.”

We used to listen to British and German Punk Rock, British Oi, as well as Thrash Metal (Slayer, Destruction, Sodom, Morbid Angel, Possessed).” Hendrik

mostly we obtained Polish or Hungarian bootlegs, or recorded stuff from the West German radio.” “I guess it was just a question of time before we became aware of splendid bands like Deicide, Beherit, Sarcófago, Bathory, Mayhem, and Darkthrone…”

Before he <moved to the beyond>, Øystein Aarseth wanted to sign Absurd to Deathlike Silence, since our Death from the Forest demo appealed to him quite a bit.”

ABSURD HAS CALLED ITSELF <LUCIFERIAN PAGANS>…

You can use the terms <Luciferian>, <Promethean>, and <Faustian> to describe one and the same principle: reaching out toward a higher stage of existence and awareness by facing and overcoming the limiting circumstances. That is the trail we are on. However, a <Luciferian will> on its own would fall into hedonism and egomania. For that reason we need heathenism; on the one hand for expression of free will, but also for its channeling toward the greater good. In other words, a person of this sort should not operate only according to self-interest, but rather should serve his ethnic community and be the <light bringer> for it.

What we didn’t know, and only first learned from the court record, was that Sandro was bisexual. With a likelihood bordering on certainty, Sandro had fallen in love with Sebastian. That is also not astonishing, as in those days Sebastian had a certain <sex appeal> among the youths.

So Sandro discovered the relationship between Sebastian and his lover, who was married and 8 years older, while Sebastian was also considered the leader of the local satanists. If this relationship were to become public—which did indeed happen after the arrests—then it would have caused a significant fuss in the small town of Sondershausen, the result being that the girl would have been expelled from her congregation.”

WHAT WERE YOU EACH FOUND GUILTY OF?

Due to our age of 17, they had to use the youth laws for punishment, which meant a maximum of ten years in detention, no matter if even for mass-murder. At the start of 1994 our trial took place, which was a giant media spectacle. Among other things, the court found us guilty of first degree murder, deprivation of liberty, threat and duress, and bodily injury. (…) Ironically, the section we were sentenced under is one of the few pieces of legislation that remains today from National-Socialist jurisprudence.

Besides the trashy book Satanskinder, at least 3 other books feature our case. However, this book is certainly wrong with its version (although several phrases sound familiar…), due to the fact we refused to cooperate. A TV-film has also been made based on the events in Sondershausen. We have become <Satan murderers> and <Children of Satan> for all time. One could laugh about these stories, which are eternally the same old thing, if only they hadn’t led to such dire consequences. Apart from the media’s self interest for an ongoing story, there are also circles of people that have utilized the media for engaging in personal conflicts with, for example, my parents. It has long since ceased to have anything to do with <discovering the truth> (if that ever had even played a role) or <informing the public>. It has to do with chicanery, with calculated slander. It can further be asserted in my case that I turn more and more into the archetype of the scapegoat. I am the modern Loki, whom the gods punished for their own sins.

Andreas was released a year before Sebastian and I. After getting reacquainted with the scene for a half-year (among other things, he attended a Mayhem reunion concert in Bischofswerda), he retreated completely back into his private life. He broke off all contacts, lives with his girlfriend, and has a good job. Even if I was unhappy about his <departure>, I nevertheless wish him all the best.

Sebastian has totally devoted himself to a folkish world of ideas. He is married and has made a small circle of friends and acquaintances in which he actually plays the same role as he once did in our clique in Sondershausen. In the meantime he has also recorded and released new Absurd material. In addition he sings with Halgadom, a joint project with the band Stahlgewitter who are friends of his. He has only a peripheral contact with the scene, a situation that has probably kept him out of the media’s sights. It is different with me, for I have always had and maintained numerous contacts in the scene. In addition, I worked at Darker Than Black Records, through which I naturally was in a more prominent situation than my two former accomplices. Since then the media has decided to put me in the stocks and clothe me as their new scapegoat. Because I also nurtured an association with nationalistically inclined people, I have been charged severely. Nobody was interested in the facts anymore, the only thing that counted was sensationalism.”

Beginning meagerly with hymns to demons discovered in Satanic horror films, the early demo cassettes of the band are low-fi chunks of adolescent noise, soaked with distortion and offering unintentionally humorous spoken introductions to the songs. Their music is more akin to ’60s garage Punk than some of the well-produced Black Metal of their contemporaries—but what they lacked by way of musical execution they were more than willing to make up for with the real-life execution of the sad figure of Sandro Beyer.” “If there is any clear spiritual mentor behind Absurd’s transformation over the years, it is Varg Vikernes. Varg himself seems to be aware of this, and smiles when talking of recent events inspired by what happened in Norway: <In Germany some churches have burned. And there are the Absurd guys, who have also turned neo-Nazi…>”

The long quotation Hendrik attributes to <Herr Wolf> at the end of the interview is in actuality the words of Adolph Hitler, speaking of the new prototype of hardened, pitiless youth which Nazi Germany would produce.”

WHITEWASHED CARBON COPY: “Such sentiments would make Varg Vikernes proud. Absurd’s own tiny record label, Burznazg, takes its name from a term Varg once planned to use for his own operations, and the most infamous criminal in Norway was surely proud to know of the Tribute to Burzum compilation CD project initiated by Hendrik Möbus and friends.”

Möbus also reveals the existence of a Germanic <Black Circle> which he claims the members of Absurd are also connected to, called Die Teutsche Brüderschaft (Teutonic Brotherhood). The Brüderschaft is mentioned prominently in the dedication list on Absurd’s debut CD.”

In July of 1999 announcements circulated about the release of Absurd’s new 4-song CD entitled Asgardsrei. The CD featured a more aesthetic presentation and an evolved sound, although with much of Absurd’s garage-band ambience still intact. Guests on the release included Graveland’s Rob Darken and well as an <ex-member of the German mainstream band Weissglut>. The end of the advertisement advised interested customers to <ORDER IT NOW before ZOG¹ take YOUR copy>.”

¹ “A sarcastic acronym for Zionist Occupational Government, often employed in radical political circles to describe any of the present-day Western democratic states.”

The public prosecutor had now decided to launch an effort to revoke Hendrik’s parole on the basis of alleged political crimes he had committed since his release from juvenile prison. These consisted of displaying banned political emblems and also giving a <Hitler salute> at a concert.” “Travelling across the USA, Hendrik passed through a string of ill-fated liaisons with racists upon whom he depended for safe-housing, culminating with two of them violently threatening him. Following this incident, he eventually made his way to the state of West Virginia and to the headquarters of William Pierce’s racialist group the National Alliance. All was relatively quiet for a number of weeks until Hendrik was arrested in late August, 2000 by US federal agents acting on an international warrant. The German government had requested to have Hendrik extradited to face his charges of parole violation.

The press treatment of the case was unusual, with Hendrik being elevated from a <Satanic murderer> to a <neo-Nazi fugitive>. He became an international cause célèbre—garnering headlines in US News and World Report, as well as major papers like the Los Angeles Times and the Washington Post—and his case raised many serious issues about the way in which modern democratic states handle persons who they deem as threats to democracy itself. Soon after his arrest, Hendrik wrote a letter to US President Bill Clinton and Attorney-General Janet Reno and requested status as a political refugee, stating that if he were extradited back to Germany he would be persecuted on account of his political beliefs.” “A <Free Hendrik Möbus> campaign was also launched on the Internet, and William Pierce produced episodes of his radio program American Dissident Voices in which he addressed the topic of Möbus’s case in detail. In the first major ruling, the U.S. magistrate decided that Hendrik was not eligible for political asylum as he was a <convicted felon> in Germany. Hendrik then attempted to appeal the decision. In their commentaries on the case, both he and William Pierce attempted to make the fundamental issue one of free speech, since the actions which resulted in the original parole revocation were not of a violent nature, but rather <political> misdeeds (which would be perfectly legal according to US laws). Both the US and German governments tried to avoid this thorny issue and confine the legal proceedings to the logistical issues of Hendrik’s parole violation itself, rather than debating the validity of the charges that led to the violation.” A FRAQUEZA CONGÊNITA DO TOTALITARISMO: “His strategy for avoiding extradition created a further paradox: he was forced to seek the mercy of liberal democratic political asylum laws—exactly the sort of laws which a strident German nationalist would vehemently oppose in their own country for anti-immigration reasons.”

Two further court judgments against him, one for public display of the Hitler salute and the other for mocking his victim in published statements, have added more than two years of additional incarceration to the time he will serve in jail. It quickly became clear that Hendrik’s personal goal of collaborating with William Pierce in a venture to promote radical Black Metal through the racial music underground would be impossible to realize from a German prison cell. An equally significant obstacle arose exactly one year later when William Pierce died suddenly from cancer on July 23, 2002.”

Gorefest, an antiracist and politically correct Death Metal group.”

The teenager’s room was described as quite ordinary, except for a collection of disturbing compact discs. His neighbors had often noticed sounds blaring from his room, <gnawing music, hard and stressful, which one would hear late at night>—not a bad description of standard Black Metal from an unfamiliar listener.”

When a black-metaller enters a party at nite, we can say he cvlt up from his home.

Jean-Paul Bourre – Les Profanateurs (The Desecrators): “The fascination surrounding the grave of Jim Morrison of The Doors (buried in Paris’ famous Père La Chaise cemetery) and those of other notable personalities is also inexplicably discussed in one chapter. Les Profanateurs desperately attempts to pull all these disparate elements into a sinister scenario in hopes of alarming its readers.” Parece até o livro que estou lendo!

They got pissed and destroyed a few graveyards and subsequently they were in prison for it. The hoo-hah died down pretty quickly over it, and that sort of thing isn’t good for a band of our stature anyway because people get the whole ideology wrong straight away. This is why we kind of branched off from the Norwegian thing because as soon as you’ve got the Black Metal tag, people assume you are a fascist and you’re into Devil worship, which can be linked to child abuse.” Dani Filth, a ovelha negra (lúcida)

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IMAGEM 5. Queen tabloid

The band began fairly quickly to distance themselves from their musical peers in Scandinavia by employing evocative aesthetics in the album artwork, and covering more romanticized themes drawn from nineteenth century literature and poetry. They wore the requisite Black Metal corpsepaint, but began to cultivate an atmosphere befitting of Hammer horror films rather than the one-dimensional <evilness> projected by other groups. Later releases Vempire and Dusk and Her Embrace brought the group to a exponentially increasing audience.”

In a strange political twist, an extremist racial group, the National Radical Party, nominated the singer of Metal band Korrozia Metalla (Коррозия Металла) as a mayoral candidate in Moscow. His name is Sergei Troitsky, AKA Spider, and he normally dresses in black T-shirts, jeans, and jackboots. Korrozia Metalla’s most popular song among fans is called Kill the Sunarefa, a slang term for darkly hued minorities from the south.” “Additional titillation regularly comes from naked females dancers who prance [rebolam, sensualizam] and masturbate on stage beside the musicians.”

The name Russia itself, after all, comes from the predominantly Swedish Viking tribe of the Rus who settled the region in the year 852C.E.[?].”

Poland, too, has a rapidly growing Black Metal scene which is closely linked to the rise of extreme right-wing activity there. The most visible band from that country is Graveland, led by the outspoken frontman Robert Fudali, AKA Darken.”

Fans of extreme Metal in this country are often far less intelligent than their Norwegian or European counterparts.” Which means, actually, that they are more intelligent.

SOCIEDADE DO ESPETÁCULO CONSUMADA: “The primary American interests outside of music include drugs and alcohol, neither of which played any significant part in the Norwegian Black Metal milieu. As a result, any antisocial actions are likely to be misdirected at best. The attempts to interrelate them into any kind of grand Satanic conspiracy are fruitless; the main similitude of these crimes lies in their irrational confusion.”

Singer Glen Benton branded an upside-down cross into his forehead years ago, and (to the obvious irritation of groups like Animal Militia) often advocates animal sacrifice in interviews. Allegedly the band’s albums have sold hundreds of thousands of copies worldwide.”

On April 13th, a group of male teenagers commenced a campaign of mayhem and terror with startling similarities in spirit to the Norse eruption in 1992–93. Calling themselves the Lords of Chaos, the cabal of six began their crusade by burning down a supermarket construction trailer. They followed this with the arson of a Baptist church. The terror spree escalated in perversity when the youths spread gasoline around a tropical aviary cage adjacent to a theme restaurant, then ignited the thatched-roof structure and watched the blaze exterminate the entire collection of exotic birds.”

Finnish groups like Beherit and Impaled Nazarene have enjoyed considerable success worldwide, paving the way for many fans to form their own bands and follow in their footsteps. And just as in Norway, segments of the Black Metal subculture also wed themselves to an especially virulent strain of teenaged Satanism. (…) They wear the distinctive Black Metal make-up, which gives cause for some Finns to call them <penguins>, and they flock to music festivals where their favorite bands play.” É o finlandês da picada…

Finnish metal him! Flo Mounier’s victory!

Unlike the scene in Norway, the crimes connected with Black Metal in Finland emanate from the fans, not the prominent artists. Despite its small size, this confused scene has produced one of the grisliest events to arise anywhere out of the Black Metal phenomenon. In one of the most notable cases in Finnish court history, four young Black Metalers murdered a friend in a scenario which featured overtones of Satanic sacrifice, cannibalism, and necrophilia.” “Reporting on the case is further complicated by the fact that the court has implemented a forty-year secrecy act on the entire legal proceedings.”

Jarno Elg’s career as a glue-sniffer and aspiring alcoholic led to psychiatric care at the young age of 11. He tried hashish the following year. By the time he was 16, young Jarno was drinking daily and devouring books on Satanism. This diet of Kilju [bebida etílica baseada na fermentação da laranja, com gusto e cheiro horríveis, típica da Finlândia], psychoactive chemicals, and teenaged Satanism was bound to go awry.”

The Poetic Edda, translated by Henry Adams Bellows

Sociologist Jeffrey Arnett has described Heavy Metal music as the <sensory equivalent of war.>” Segundo consta, numa rápida googlada, o sr. Arnett é PSICÓLOGO na área da adolescência/jovens adultos, e não SOCIÓLOGO.

[????????????????????????????] In France the journal Napalm Rock is issued regularly under the auspices of the National-Bolshevist political group Nouvelle Résistance.” Erva mais vencida que Hitler em 44.

The rebellious impulse in Metal therefore has yet to synthesize the nihilism with the fascism, and since fascism is a synthesis itself, there’s no reason this cannot eventually be achieved.” Kerry Bolton

The ‘60s music genres were thoroughly phony in their radicalism. Unlike Black Metal (and for that matter Oi, and much Industrial) the ‘60s musicians had no fundamental difference in outlook to the establishment they were supposedly rebelling against.”

ILLUMINATI: “The possibility of being bought off by the music business would most likely be by way of insisting on a return to the specifically anti-Christian themes at the expense of the heathen resurgence, since I’m sure many of the executives of the music industry can co-exist well enough and even utilize anti-Christianity, including Satanism, especially if it is of the nature of yet one more superficial American commodity.”

Será que esses albinos “phoneys” e bastardos utilizam Mozart o Maçom como garoto-propaganda de seu ideário europeu?

According to the police, the Einsatzgruppe was plotting direct action against prominent Norwegian politicians, bishops, and public figures. The group’s plans included a scheme to break Varg Vikernes out of jail by force. The Einsatzgruppe had all the trappings of a paramilitary unit: bulletproof vests, steel helmets, cartridge belts, and ski masks. In addition, the police found a list of 12 firearms and a map for a hiding place at a mountain. However, the only weapons the police confiscated right away were some sawed-off shotguns and dynamite with blasting caps. The police also found a war chest with 100,000 Norwegian Kroner (close to $20,000). This had been supplied by Lene Bore, Varg Vikernes’s mother. She was also arrested and charged with financing an illegal group. Bore confessed, but claimed she had no idea these people were <right-wing extremists>. She expressed concerns about the treatment her son received in jail, and claimed that he was subjected to violence by his fellow inmates. This was dismissed as unfounded by the prison director. However, it is true that Varg’s jaw had been broken in an altercation with another inmate in late 1996.” “Curiously, Bore could not be prosecuted under Norwegian law—conspiracy to break the law is not illegal if it is done to help a close family member.” “The group was, according to some sources, aiming to escape with the freed Vikernes to Africa—hardly the hideout of choice for passionate racists.”

The stigma associated with Nazism is much stronger in Norway than it is in neighboring Sweden or the US, where most of the Norwegian Nazis draw their inspiration from. This is largely due to the fact that Norway was occupied by Nazi Germany from 1940 to 1945.”

The Mayor of Brumunddal was subjected to what one would call low-level harassment. No physical attacks, no real serious vandalism, but an endless stream of mail-order merchandise, pizzas and ambulances ordered in his name. Pornographic photo montages were also posted along the route his children walked to school. Two of the activists from Brumunddal defecated on the steps of the town hall to express their discontent with municipal policy. They thought this was really smart, so they did it once more, and then were caught.”

Gaston Bachelard – Psychoanalysis of Fire

Fire stirs the spirit of human artistry; it is the spark of the will-to-create. It expresses the polarity of emotions, as Bachelard notes, and represents both the passionate higher ideals, as well as the hot and consuming tempers of irrationality.”

Most people have lost interaction with real fire; the once universal, mystical experience of blazing night fires is gone from their lives. Stoking the flames of resentment or dissension is frowned upon in a world which depends on the smooth exchange of services. Those possessed of unrestrained spirit are silenced, or ordered to fit in. Their tendencies must be stifled. Extreme emotions are shunned; those who act on them become outcasts. Mainstream culture produces a bulging sea of quaint diversions, the ostensible rewards for good behavior. The music and art made available to the masses has the consistency of soft, damp pulp—hardly a conducive medium for fire.”

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* * *

ANEXOS

It’s not good for us to laugh. We have nothing to laugh at in this laughable society.” Varguxo

The wild hunt appeared in many legends—a ghostly flock of dark, martial shapes riding through the night on their horses through the woods, lead by Odin, the one-eyed ruler of the dead, or sometimes by a female rider… a perception that in Christian times was transposed onto the Archangel Michael and his hosts.”

The Austrian folklorist Otto Höfler was able to prove in his books Kultische Geheimbünde der Germanen and Verwandlungskulte (Transformation Cults) that the wild hunt was not at all a mythological interpretation of storms, thunder, or flocks of birds—as many researchers thought—but a union of mythology and folklore, of myth and reality which was of great importance in the Nordic mystery cults.” “Höfler stressed that in the Germanic Weltanschauung, like that of most pre-Christian cultures, there was no sharp distinction between this world and the one beyond—the borders were fluid. The folklore of the cult groups was often very brutal. With or without drugs the members felt a furor teutonicus which Höfler called a <decidedly terroristic ecstasy> with various excesses”

Beer was was their special goal—kegs were stolen or secretly emptied, sometimes to be refilled with water or horse urine, or they themselves urinated back into the barrels. Often horses were also stolen; they became the property of the Oskorei. In the morning the farmers found their horses completely exhausted, or they had to search for them because the apocalyptic riders had set them free somewhere.”

Hoping for a rich harvest, one accepted the demands and offenses of the Oskorei as part of the bargain. Similar perceptions existed in the Alps when the Perchten were given nourishment as they went from house to house, or they were allowed to plunder the pantry.” “Gradually, however, many farmers were no longer willing to accept the outrages of the Oskorei. The cultic background of the thefts and pranks fell into oblivion, becoming superstition. The sympathy of the populace disappeared—now the disguised young men were no longer considered embodiments of the dead or fertility demons, but rather trouble-makers and evil-doers.” “The louder the drums, bells, cries, rattles, and whips, the more effective the noise magic became.”

They dress as ghostly as possible, speaking with a falsetto voice, reaching ecstasy by dancing, music and noise. … Their clothes should be as nightmarish as possible. They attempted to dress as ugly as they were able. They had terrible eyes, with big white rings or painted up with coal. (Johannessen, Norwegisches Burschenbrauchtum. Kult und Saga. Wien, 1967 (dissertation), pp. 13, 95.)”

The disguised members of the Oskorei altered their voices and gave themselves false names—they represented demons and had to remain unknown. In Black Metal as well only a few musicians use their real names; many take pseudonyms from Nordic history and mythology and in the meantime it is possible to find in Black Metal culture almost all deities of the Eddas.”

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IMAGEM 6. O Grito, de Munch, pintor norueguês expressionista.

But Black Metal is above all heathen noise, electronically enhanced. The music is powerful, violent, dark and grim; a demonic sonic art with several elements in common with the Norwegian expressionist painter Edvard Munch, whose famous work The Scream would fit well on a record cover. The eternal recurrence of certain leitmotifs, the dark blazing atmosphere, the obscure, viscous sonic landscape of many songs—often lasting more than ten minutes— have at times an almost psychedelic effect. In the heaviness and darkness of certain compositions it is possible to realize some subliminal melodies only after listening to these works several times. Black Metal is a werewolf culture, a werewolf romanticism.”

<A hard heart was placed in my breast by Wotan.> (Nietzsche, Beyond Good and Evil, aph. 260)” Muito bacana descontextualizar aforismos!

The first song I heard by Burzum was Det Som Engang Var in the CD Hvis lyset tar oss. Even now this song remains for me the most beautiful and powerful work of Burzum; its symphonic sonic violence is impressive over and over again. It is a 14-minute-long composition full of grim, blazing beauty—dark and fateful. The uniquely hair-raising, screaming-at-the-heavens vocal of Varg Vikernes turns the piece into an expressionistic shriek-opera, the words of which are probably incomprehensible even for Norwegians. The song was composed in the spring of 1992. Another work which fascinates me very much is Tomhet (Emptiness), on the same CD. This song too has an extraordinary length; from my point of view it is an exceptional soundtrack to the Norwegian landscape—that is, Norway as I imagine it, a country ruled by silence and storm, solitude and natural violence.”

I am no racist because I do not hate other races. I am no Nazi either, but I am a fascist. I love my race, my culture, and myself. I am a follower of Odin, god of war and death. He is also the god of wisdom, magic, and poetry. Those are the things I am searching for. Burzum exists only for Odin, the cyclopian enemy of the Kristian god. I do not consider my ideas to be extreme at all. That which stupid people call evil is for me the actual reason to survive.”

Daniel Bernard – Wolf und Mensch. Saarbrücken, 1983. [outro?]

Mircea Eliade – Shamanismus und archaische Ekstasetechnik. Frankfurt, 1991.

Rudolf Simek – Lexikon der Germanischen Mythologie. Stuttgart, 1984.

Grimm, Jacob – Teutonic Mythology (4 Vols). Magnolia, MA: Peter Smith, 1976.

Hoidal, Oddvar K. – Quisling: A Study in Treason. Oslo: Norwegian University Press, 1989.

Tarjei Vesaas – Land of Many Fires

O BANQUETE OU DO HOMOSSEXUALISMO SUPREMO

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

ESCLARECIMENTO INICIAL

O sufixo pejorativo –ismo, entenda-se, não é o aqui utilizado. Para o filósofo grego, a condição homossexual é a característica do homem superior, o único apto a chefiar a sociedade. Portanto, é nesse sentido que o “Homossexualismo” do título deverá ser compreendido: como no Aristocratismo a classe dos aristocratas é a líder, no Homossexualismo platônico os homossexuais detêm o poder soberano e prescrevem as Leis a si mesmos e aos demais. Obviamente, a conotação de “doença” ou “enfermidade” subjacente ao homônimo mais infeliz desaparece, assim, por completo – a homoafetividade masculina é, ao contrário da visão deturpada moderna, o suprassumo do são e do saudável. Tampouco o sufixo –idade seria adequado para expressar essa idéia, uma vez que a Homossexualidade como a entendemos hoje no Ocidente é apenas uma “escolha livre e individual”, nem melhor nem pior que as outras preferências de gênero possíveis no amor; ao passo que, em Platão e nos mestres do saber grego que conhecemos, não havia o que “escolher” ou alteridade(s) a respeitar ou considerar: todo o demais (a mulher, o escravo de ambos os sexos – meros objetos – e o homem hetero ou bissexual – “sujeitos”, porém degenerados) estava sempre escalões abaixo. Não havia traço da noção de isonomia compartilhada pelas democracias contemporâneas.

(*) “Fedro fala como um jovem, mas jovem cujas paixões foram purificadas pelo estudo da filosofia; Pausânias como homem maduro, a quem a idade e a filosofia ensinaram aquilo que a juventude não sabe; Erixímaco se aplica como médico; Aristófanes tem a eloqüência do poeta cômico, ocultando, por debaixo de uma forma festiva pensamentos profundos; Agaton/Agatão se expressa como poeta. Por fim, depois de todos os demais da roda, e quando a teoria já se elevara por graus, Sócrates completa-a, expressando-se numa linguagem maravilhosa, própria de um sábio ou inspirado.”

* * *

APOLODORO¹ – (…) Sinto imenso prazer e julgo proveitoso o filosofar e o ouvir filosofar, como nada no mundo; já ouvir-vos tratar de vossos interesses, dos ricos e dos negociantes, me mata de fastio.”

¹ Na verdade, O Banquete é um diálogo entre Apolodoro e seu amigo. Ele, que apenas ouviu o relato do banquete de um dos participantes, reconta o ocorrido, revivendo os personagens daquela noite de apologia discursiva do amor. Esta testemunha ocular é Aristodemo. Não confundir este Aristodemo com o descendente de Hércules e herói mitológico. Trata-se de um filósofo pré-socrático, pouco notório. Nunca é demais lembrar que a denominação “pré-socrático”, embora quase sempre proceda cronologicamente, neste caso nos induz a erro. Pré-socráticos podem ter existido mais jovens que Sócrates e contemporâneos de Platão; poderiam ser filósofos de menor repercussão e que insistiam na interpretação cosmogônica ou cosmológica do mundo. Este Aristodemo, mais jovem ou mais velho que Sócrates (não sabemos), venera-o como a um mestre.

O AMIGO DE APOLODORO – (…) Desconheço por que te deram o apelido de Furioso; conquanto possa ver que algo disso se capta em teus discursos. Sempre te mostras áspero contigo mesmo e com todos, exceto com Sócrates.”

–Aqui inicia o relato do banquete em si e as transcrições das falas das personagens–

SÓCRATES – Aristodemo, vou me banquetear à casa de Agaton. Recusei-me a comparecer à festa que dava ontem para celebrar sua vitória no concurso, por desagradarem-me salões repletos.”

SÓCRATES – Segue-me, então, e invertamos o provérbio, provando que um homem de bem pode comer à casa de outro homem de bem sem ser convidado. Com prazer acusaria Homero de haver na verdade adulterado este ditado, e ademais de ter feito dele pouco caso, quando depois de representar Agamenon como grande guerreiro e Menelau como combatente débil faz com que este esteja no festim daquele, sem ao menos ter sido convidado; ou seja, Homero retrata um homem de condição inferior que sem cerimônia se apresenta à mesa do homem superior.”

lá, já estavam todos à mesa, esperando apenas que fossem servidos.”

Neste momento, um criado anunciou que encontrara Sócrates de pé no umbral de uma casa vizinha, e que, havendo-o convidado ao banquete, este se recusou.”

Começamos a comer, e Sócrates não aparecia. A cada momento Agaton instava algum escravo a ir buscá-lo. Eu o preveni de que Sócrates acabaria por cumprir sua palavra, que não tivesse pressa. Enfim, Sócrates entrou, depois de nos fazer esperar, segundo seu hábito, e nós já havíamos comido metade de nossa refeição. Agaton estava só, sobre uma cama no extremo da mesa, e o convidou a sentar-se junto de si.”

ERIXÍMACO – (…) Uma vez que ninguém aqui deseja exceder-se na bebida, serei menos importuno, ao relatar-vos umas quantas verdades sobre a embriaguez.”

FEDRO – Ó, Erixímaco! não é admirável que, de tantos poetas que compuseram hinos e cânticos em honra da maior parte dos deuses, nenhum fez o elogio do Amor, que, não obstante, é um deus importante? (…) Li um livro, intitulado Elogio do sal, em que o sábio autor exagerava as maravilhosas qualidades do sal e os grandes serviços que ele presta ao homem. Noutros termos, é raro encontrares coisa que não conste dum panegírico.”

ERIXÍMACO – Cada um, pois, improvisará da melhor forma que lhe couber um discurso em honra do Amor. A ordem será da esquerda para a direita. Desta forma, Fedro falará primeiro, ainda mais porque era sua intenção desde o início, e toda a idéia deste jogo foi dele. Escutemo-lo!”

(*) Eumelo e Acusilau, historiadores antigos, segundo refere Clemente de Alexandria, transcreveram em prosa os versos de Hesíodo, publicando-os como obra sua.”

O DISCURSO DE FEDRO

Na Grécia temos o brilhante exemplo da amorosa Alceste, filha de Pélias: só ela quis morrer por seu esposo; até os pais dele se negaram.”

Orfeu, filho de Eagro, foi arrojado dos ínferos sem conseguir o que fôra pedir. No lugar de lhe devolverem sua mulher, apresentaram-lhe um fantasma, mera sombra de Eurídice, porque apesar de músico excepcional, faltava algum valor a Orfeu. Porque, longe de imitar Alceste, morrendo por quem amava, meteu-se a descer vivo ao submundo. Os deuses, indignados diante de tamanha petulância, castigaram-lhe a covardia, fazendo-o ter uma morte vexatória nas mãos de várias mulheres. Já vês que, pelo contrário, Aquiles muito fôra honrado, este filho de Tétis, recompensado com a ida às Ilhas Bem-Aventuradas.¹ Acontece que, mesmo sua mãe prevenindo-o de que, assim que matasse Heitor seria ele também morto, e de que caso não combatesse voltaria são e salvo à casa paterna, vivendo uma vida muito longa e pacífica, Aquiles não hesitou, preferindo vingar Pátroclo, provando que dava mais valor à amizade que a sua própria vida. Escolheu morrer sobre o cadáver do amigo.”

¹ Homero retrata Aquiles apenas no Hades (Odisséia).

Ésquilo está de troça quando afirma que o amado era Pátroclo. Aquiles era mais belo, não apenas que Pátroclo, mas que todos os demais heróis. Não tinha ainda barba e era muito mais jovem, conforme Homero mesmo.” “Quem ama possui um não sei quê de mais divino que quem é amado, porque em sua alma habita um deus”

* * *

O DISCURSO DE PAUSÂNIAS

se não houvesse mais que uma Vênus,¹ não haveria mais que um Amor; mas como há duas Vênus, há necessariamente dois Amores. Quem duvida que existam duas Vênus? Uma, a mais velha, filha do céu, que não tem mãe, que chamaremos simplesmente Vênus Celeste; a outra, mais jovem, filha de Zeus e Dione, que chamaremos de a Vênus popular.”

¹ Azcárate sempre traduz conforme a mitologia romana. Também Afrodite. Nas outras traduções, dei prioridade à nomenclatura grega.

O amor da Vênus popular é popular (vulgar) também, e só inspira ações baixas”

uma vez que a Vênus Celeste não nascera de mulher, mas tão-só de varão, o amor que a acompanha só busca aos jovens. Ligados a uma deusa de mais idade, e que, por conseguinte, não tem a sensualidade fogosa da juventude, os inspirados por este Amor só desejam o sexo masculino, naturalmente mais forte e mais inteligente.”

Seria verdadeiramente desejável uma lei que proibisse amar os demasiado jovens, evitando-se assim gastar tempo com coisa tão incerta; porque quem sabe o que resultará um dia de tão terna juventude? que giro tomarão o corpo e o espírito, e até que ponto se dirigirão? ao vício? à virtude?”

Não é difícil compreender as leis que regem o amor em outros países, por serem precisas e bem simples. Só mesmo os costumes de Atenas e de Esparta necessitam de explicação. Nas Élides, por exemplo, e na Beócia, onde se cultiva pouco a arte da palavra, diz-se, puerilmente, que é bom dar nossos amores a quem nos ama, e ninguém acha-o um mau conselho, jovem ou velho. É preciso crer que nesses países o amor assim é autorizado para resolver as dificuldades e para se fazer amar sem ter de recorrer aos artifícios da língua, desconhecidos para essa gente. Mas na Jônia e em todos os países submetidos à dominação dos bárbaros tem-se este comércio por infame; proíbe-se igualmente tanto a filosofia quanto a ginástica, os tiranos não suportam ver surgirem, entre os súditos, paixões e amizades nem relações vigorosas, que é o que o amor melhor sabe criar. Os tiranos de Atenas já experimentaram esse tipo de lei em tempos antanhos. A paixão de Aristogíton e a fidelidade de Harmódio transtornaram esse estado de coisas. É claro que, nesses Estados em que é vergonhoso amar a quem nos ama, toda esta severidade nasce da iniqüidade dos que a estabeleceram, da pura tirania dos governantes e da covardia dos governados; e que nos países em que simplesmente se diz que é bom corresponder a quem nos ama, esta indulgência é uma prova de grosseria. Tudo isso é bem sabido pelos atenienses. Mas, como já disse, não é fácil compreender nossos princípios nessa matéria. Por um lado, diz-se que é melhor amar às claras que às furtadelas, e que é preciso amar com preferência os mais generosos e virtuosos, por mais que estes se afigurem menos belos.”

o mais estranho é que se quer que os amantes sejam os únicos perjuros que os deuses deixem de castigar, porque, diz-se, os juramentos não obrigam nos assuntos amorosos.”

Há entre nós a crença de que se um homem se submete a servir a um outro com a esperança de aperfeiçoar-se por intermédio dele numa ciência ou em qualquer virtude particular, esta servidão voluntária não é vergonhosa e não se chama adulação.”

* * *

Aqui, tendo feito Pausânias uma pausa (e eis aqui um jogo de palavras que vossos sofistas ensinam), seria a vez de Aristófanes começar, mas este não o pôde em virtude de uma crise de soluços que lhe sobreveio, não sei se por haver comido em excesso, ou outra razão. Então se dirigiu ao médico Erixímaco que estava sentado ao seu lado e lhe disse:

– É preciso, Erixímaco, que ou me livres desse soluço (hic)… ou que fales no meu lugar até que ele tenha cessado.

– Farei um e outro – respondeu Erixímaco –, porque vou falar em teu lugar, e tu falarás no meu, quando tua incomodidade já tiver passado. Passará rápido se, enquanto eu discurso, prenderes a respiração um pouco, e, não tendo curado o soluço, terás de gargarejar com água. Se o soluço, ainda assim, persistir, por ser demasiado violento, apanha qualquer instrumento com que consiga fazer cócegas no nariz; a isto se seguirá o espirro; e se o repetires uma ou duas vezes, o soluço cessará infalivelmente, por mais grave que seja.”

* * *

O DISCURSO DE ERIXÍMACO

Também é belo e necessário ceder ao que há de bom e de são em cada temperamento, e nisto consiste a medicina; pelo contrário, é vergonhoso comprazer ao que há de depravado e de enfermiço, e é preciso combatê-lo, se é que se fala de um médico hábil. Porque, para dizer em poucas palavras, a medicina é a ciência do amor corporal com relação à repleção e evacuação¹”

¹ O encher e esvaziar.

Esculápio¹, nosso patriarca, encontrou um meio de introduzir o amor e a concórdia entre os elementos contrários, e por isso é reputado o inventor da medicina, segundo os poetas e como penso eu mesmo. Me atrevo a assegurar que o Amor preside à medicina, e assim também à ginástica e à agricultura. Sem necessidade de fixar a atenção por muito tempo, descobre-se-o na música, e acho que foi o que Heráclito quis dizer, se bem que não soube colocá-lo em palavras. O que ele falou, em forma de enigma, foi: A unidade que se opõe a si mesma concorda consigo mesma (…) A harmonia é impossível se grave e agudo permanecem sem interagir; a harmonia é uma consonância; a consonância um acordo; e não pode haver um acordo entre partes opostas enquanto no fundo já não forem mais opostas (…) Analogamente, também as sílabas longas e as breves, que são opostas entre si, compõem o ritmo, assim que entram em acordo.”

¹ Lendário fundador da arte médica.

A adivinhação é a criadora da amizade que existe entre os deuses e os homens, pois sabe tudo o que há de santo e de ímpio nas inclinações humanas.”

* * *

– Cabe a ti, Aristófanes, suprir o que eu houver omitido. Portanto, se tens o projeto de honrar ao deus doutra maneira, fá-lo e começa, de contínuo, agora que teu soluço já passou.

Aristófanes respondeu:

– Passou, em efeito. Só me ressinto do espirro. Me admira que para restabelecer a ordem na economia do corpo seja preciso um movimento como este, acompanhado de ruídos e agitações tão ridículas; porque realmente este método da pena foi o único eficaz o bastante comigo.

– Olha como te portas, Aristófanes! Estás a ponto de iniciar teu discurso e parece que já zombas as minhas custas. Agora saibas que não terás paz, pois estou cá atento, de vigia, para ver se não vais é passar o tempo a ridicularizar o amor com piadas.”

* * *

O DISCURSO DE ARISTÓFANES

Quando desejavam caminhar depressa, apoiavam-se sucessivamente sobre seus 8 membros, e avançavam com rapidez mediante um movimento circular, como o que desempenha a roda, com os pés ao vento.”

A solução não carecia de dificuldades; não queriam os deuses aniquilar os homens, como noutros tempos aos titãs, fulminando-os com seus raios, pois aí então desapareceriam o culto e os sacrifícios que os homens lhes prestavam; no entanto, era certo que não deixariam esta insolência passar impune.” “e se depois deste castigo ainda conserveis vossa audácia monstruosa, recusando-vos ao repouso, dividi-los-ei mais uma vez, e ver-vos-ei precisados de andar sobre um só pé, como os que dançam sobre os odres de vinho na festa de Caco.¹”

¹ Caco, Cacus ou Kakos, filho de Vulcano ou Hefesto, deus olímpico. Teria uma aparência monstruosa e força sobre-humana, sendo, ademais, canibal. Arquétipo do ladrão ominoso que aterroriza as populações pastoris. Na mitologia é morto por Hércules durante seus Doze Trabalhos. O próprio Hércules teria iniciado seu tributo anual, construindo um altar, para aplacar a fúria dos deuses pelo seu ato.

Quando uma das duas metades perecia, aquela que sobrevivia buscava outra, à qual se unia novamente, fosse a metade de uma mulher inteira, o que agora se chama propriamente mulher, fosse uma metade de homem; e dessa forma ia-se extinguindo a raça. Zeus, tomado de compaixão, imaginou outro expediente: pôs à frente os órgãos da geração, que antes estavam atrás, gerando-se e derramando-se, outrora, o sêmen, não um no outro, mas no chão, como fazem as cigarras. Com esta providência de Zeus, a concepção passou a ser feita mediante a união do varão e da fêmea. Desde então, o produto da união do homem e da mulher são os filhos; se acaso o varão se unia ao varão, a saciedade os separava logo depois, restituindo-os aos trabalhos e demais cuidados da vida.”

Da mesma forma, os homens atuais, que provêm da separação dos homens primitivos, buscam o sexo masculino. Enquanto são jovens, amam aos homens; se comprazem em dormir com eles e estar em seus braços; são os melhores dentre os adolescentes e os adultos, como que oriundos de uma constituição mais varonil. (…) com a passagem do tempo, revelam-se mais capacitados que os demais para servir ao Estado. Uma vez em idade madura, passam a amar aos jovens (…) Do que eles mais gostam é passar a vida uns com os outros em celibato.”

Quando aquele que ama aos jovens ou outros homens em geral chega a encontrar sua metade, a simpatia, a amizade, o amor os unem de uma maneira tão maravilhosa que ambos não desejam, sob circunstância alguma, separar-se por um momento que seja. Estes mesmos homens, que passam toda a vida juntos, não podem dizer o que anelam, exatamente, um do outro, porque, se sentem tanto prazer ao viver dessa forma, claro está que a causa não são os sentidos corporais. É evidente que é a própria alma de cada qual que deseja algo além, inexprimível, mas que de certa forma pressente e atina. À hipótese de Hefesto em pessoa aparecer justo quando estivessem abraçados, com os instrumentos de sua arte de ferreiro, perguntando-lhes: Ó, meus caros! Que é aquilo que exigis reciprocamente?, e ao não obter nenhuma resposta, perplexo, continuar interpelando-os: O que quereis, afinal, não é encontrar-vos unidos de tal maneira que nem de dia nem de noite estejais segregados um do outro? Se é isso mesmo que quereis, vou fundir-vos e mesclar-vos para que sejais uma só pessoa e não mais duas, tanto na vida como na morte. Apenas dizei-me, e realizá-lo-ei!… Se, dizia eu, nessa hipótese, ouvissem a proposta de Hefesto, é absolutamente certo que os casais não a recusariam jamais”

Originalmente, como já disse, éramos um só; mas depois nossa iniquidade foi castigada e Zeus nos separou, como o foram os arcádios pelos espartanos(*)”

(*) “Os espartanos invadiram a Arcádia, destruíram os muros da Mantinéia e deportaram os habitantes a quatro ou cinco pontos diferentes. Cf. Xenofonte, Helênicas, 5:2.”

Que Erixímaco não critique estas minhas últimas palavras, como se fizessem alusão a Pausânias e a Agaton, porque quiçá estes dois são deste pequeno número, e pertencem ambos à natureza originalmente masculina.”

* * *

ainda não discursaram Agaton nem Sócrates.”

FEDRO – Meu querido Agaton, se continuas respondendo a Sócrates, isto não acabará; ele, quando tem com quem conversar, fica contente ao máximo e não pensa em nada mais – sobretudo se seu interlocutor é formoso.”

* * *

O DISCURSO DE AGATON

Estando de acordo com Fedro acerca de todo o demais, não posso convir com ele quanto a que o Amor seja mais antigo que Cronos e Jápeto.¹ Sustento, pelo contrário, que é o mais jovem dos deuses, e que sempre se conserva jovem. Essas velhas querelas dos deuses, que nos remetem a Hesíodo e Parmênides, se é que têm algo de verdadeiro, tiveram lugar no império da Necessidade, e não sob o reino do Amor; porque não teria havido qualquer desentendimento entre os deuses, castrações e mutilações, correntes, violências que-tais, se o Amor presidisse desde o início. A paz e a amizade, como sucede no presente, são a ordem do dia. É certo que o Amor é jovem e extremamente delicado, mas foi necessário um poeta – como Homero – para expressar a delicadeza deste deus sublime. Homero refere que Ate é deusa e delicada. Seus pés, diz ele, são tão leves que nunca os pousa em terra, mas pisa sobre a cabeça dos homens.”

¹ Titã primordial – filho de Urano e Gaia (como o próprio Cronos) e pai dos titãs Átlas e Prometeu, entre outros.

Só por livre e espontânea vontade se submete alguém ao Amor. Bem como a todo tipo de acordo, destes que não nascem da violência: quando a lei é justa. E o Amor não só é justo como moderado no mais alto grau, porque consiste a temperança em triunfar dos prazeres e das paixões; e há prazer superior ao Amor? Se todos os prazeres e todas as paixões estão abaixo do Amor, é que ele os domina; e se os domina, é de precisão que esteja dotado de um equilíbrio incomparável. Quanto à força, Marte não pode igualá-lo. Não é Marte que possui ao Amor, mas o Amor que possui a Marte, o Amor de Vênus, como dizem os poetas; porque aquele que possui é mais forte que o objeto possuído; e superar o que supera aos demais, não seria ser o mais forte de todos?”

o Amor é um poeta tão entendido que converte em poeta àquele que quer; e isto sucede até aos que são estranhos às Musas, logo que se sentem inspirados pelo Amor; o que prova que o Amor é notável nisto de consumar as obras que são da competência das Musas; afinal, não se ensina aquilo que não se conhece, bem como não se dá aquilo que não se tem”

Antes do Amor, como disse ao princípio, aconteceram entre os deuses muitas coisas deploráveis, durante o reinado da Necessidade.”

* * *

Sinto-me tão incapaz de dizer algo tão belo que, repleto de vergonha, de bom grado abandonaria o posto, se realmente pudera, porque a eloquência de Agaton me recordou a de Górgias, até se passar comigo o que diz Homero: temia eu que Agaton, ao arrematar, lançasse sobre meu discurso a cabeça de Górgias, este orador terrível, petrificando minha língua!”

Permita-me ainda, Fedro, proceder a algumas perguntas a Agaton, a fim de que com seu auxílio possa falar com mais segurança.”

desejo possuir no futuro aquilo que tenho neste instante.

(…)

E não seria isso amar o que não se tem certeza de possuir, aquilo que ainda não se possui, e desejar conservar para o dia de amanhã aquilo que se possui no momento presente?”

* * *

(*) “Por um artifício de composição que parece uma espécie de protesto implícito contra o papel tão inferior que a mulher desempenhou até este momento na conversação sobre o amor, Platão expõe suas opiniões pela boca de uma, a estrangeira de Mantinéia, que faz o prólogo¹ de Sócrates no famoso discurso.”

¹ Um prólogo tão extenso que chega a ser a metade do discurso socrático na obra!

* * *

SÓCRATES – Que é afinal o Amor, Diotima, se não é mortal nem tampouco imortal?

DIOTIMA – Um grande demônio,¹ Sócrates; porque todo demônio ocupa um lugar intermédio entre os deuses e os homens.”

¹ Daimon

DIOTIMA – (…) Como a natureza divina nunca entra em comunicação direta com o homem, ela se vale de demônios para se relacionar e conversar conosco, seja enquanto estamos acordados ou sonhando. (…) Os demônios são muitos e de muitas classes, e o Amor é um deles.”

DIOTIMA – Quando do nascimento de Vênus, houve entre os deuses um banquete, no qual se encontrava Poros,¹ filho de Métis,² em particular. Depois da refeição, Pênia³ pôs-se à porta, para mendigar migalhas e sobras. Nesta hora, Poros, embriagado pelo néctar dos deuses (ainda não haviam inventado o vinho) saiu da sala, entrando no jardim de Zeus, onde o sono não tardou a fechar suas pálpebras cada vez mais pesadas. Pênia, premida por seu estado de miséria, aproveitou para conceber um filho de Poros. Deitou-se com ele enquanto estava inconsciente, e como resultado dessa união nasceu o Amor. É por esta razão que o Amor se tornou o companheiro e serviçal número 1 de Vênus, porque foi concebido no mesmo dia de seu nascimento; sem falar que o Amor ama naturalmente a beleza, e Vênus é bela.”

¹ A Abundância.

² A Prudência.

³ A Penúria.

Tudo o que adquire, dissipa sem cessar, de sorte que nunca é rico nem pobre. Ocupa um posto intermediário entre a sabedoria e a ignorância, porque nenhum deus filosofa, nem deseja fazer-se sábio, posto que a natureza divina já contém a sabedoria. Sabeis, pois, que o sábio não filosofa. Idem para os ignaros: nenhum deles filosofa nem deseja fazer-se sábio, porque a ignorância produz precisamente o péssimo efeito de persuadir os feios, os maus e os estúpidos de que são belos, bons e sábios. E ninguém deseja as coisas de que já se crê portador.” “A sabedoria é uma das coisas mais belas do mundo, e, como o Amor ama o que é belo, é preciso concluir que o Amor é amante da sabedoria, i.e., filósofo”

DIOTIMA – distinguimos uma espécie particular de amor, e chamamo-la amor, usando o nome que corresponderia na verdade ao gênero inteiro; enquanto isso, para as demais espécies empregamos termos diferentes.”

é preciso unir ao desejo do bom o desejo da imortalidade, posto que o amor consiste em aspirar a que o bom nos pertença sempre.”

DIOTIMA – Os que são fecundos com relação ao corpo amam as mulheres, e se inclinam com preferência a elas, crendo assegurar, mediante a procriação dos filhos, a imortalidade e a perpetuidade do seu nome, e a felicidade que se imaginam no curso dos tempos. Mas aqueles que são fecundos com relação ao espírito…”

Sólon mesmo é honrado por vós como pai das leis, assim como outros grandes homens o são também em diversos países, seja na Grécia, seja entre os bárbaros, porque produziram uma infinidade de obras admiráveis e criaram toda classe de virtudes. Estes filhos lhes valeram templos, enquanto que os filhos carnais dos homens, aqueles que saem das entranhas da mulher, jamais engrandeceram ninguém.”

o caminho reto do amor, já se guie por si mesmo, já seja guiado por outro, é começar pelas belezas inferiores e elevar-se até a beleza suprema, passando, por assim dizer, por todos os graus da escala de um só corpo belo a dois, de dois a todos os demais, dos corpos belos às ocupações belas e às ciências belas, até que, de ciência em ciência, chegue-se à ciência por excelência, a ciência do belo mesmo, finalizando-se por conhecer esta ciência tal como ela é em si.”

* * *

(*) “Depois do discurso de Sócrates, parece que nada resta a dizer sobre o amor, e que o Banquete deve ser concluído. Mas Platão achou conveniente ressaltar, quando menos se esperava, a elevação moral de sua teoria mediante o contraste que apresenta frente à baixeza das inclinações ordinárias dos homens. É por esta razão que, neste instante, aparecem de improviso Alcibíades¹, embriagado, com a cabeça coroada de hera e violetas, acompanhado de tocadores de flauta e de uma porção de seus companheiros de bebedeira. Que representa essa orgia em meio a estes filósofos? Não faz saltar à vista a eterna diferença, para usar o próprio jargão platônico, entre a Vênus popular e a Vênus celeste? Mas o engenhoso autor do Banquete faz derivar daí outro resultado importante. A orgia, que ameaçava tornar-se contagiosa, cessa como por encanto no momento em que Alcibíades reconhece Sócrates entre os convivas.

¹ A eterna chacota de Platão. Como péssimo aluno de Sócrates, que se tornou um político tirânico e traidor da polis, nada mais justo que sempre figure assim nos diálogos que foram preservados para a posteridade.

* * *

Um instante após, ouvimos no pátio a voz de Alcibíades, meio ébrio e gritando”

ALCIBÍADES – Rides de mim porque estou bêbado? Ride o quanto quiserdes! Sei que digo a verdade. Mas vejamos, respondeis: entrarei sob esta condição ou não entrarei? Bebereis comigo ou não?”

ALCIBÍADES – Por Hércules! Que é isto? Sócrates, vejo-te cá à espera a fim de surpreender-me, segundo teus costumes, aparecendo de repente quando menos te esperava! Que vieste fazer aqui hoje?! Por que ocupas este lugar no banquete? Como é que, em vez de te pores ao lado de Aristófanes ou de qualquer outro mais complacente contigo, ou que ao menos se esforce em sê-lo, tu soubeste colocar-te tão bem que te encontro, afinal, junto do mais formoso da reunião?

SÓCRATES – Imploro teu socorro, Agaton. O amor deste homem não é para mim um embaraço pequeno. Desde a época em que comecei a amá-lo, eu não posso mais contemplar ou conversar com nenhum outro jovem, sem que, agitado e ciumento, ele se entregue a incríveis excessos, enchendo-me de injúrias, e por pouco é que não transforma em agressões físicas suas ameaças! Tendes cuidado, convivas, para que não vos deixeis levar por um arrebatamento do gênero nesta hora tão delicada; procura, Agaton, assegurar meu sossego, ou protege-me, enfim, se estás disposto a alguma violência; receio este seu amor e seus ciúmes furiosos!”

ALCIBÍADES – Pois bem, amigos, que fazemos? Me pareceis excessivamente comedidos e nisso não posso consentir; é preciso beber; este é o trato que fizemos! (…) Agaton, por favor, que me tragam uma taça grande, se a tiveres; senão, ó escravo!, dá-me cá aquele cântaro! Porque aquele cântaro já leva bem uns dois litros.”

ALCIBÍADES – Que não levem para o lado malicioso aquilo que vou fazer na seqüência, porque Sócrates poderá beber o quanto queira, e nem por isso vós o vereis embriagado!

O cântaro preenchido pelo escravo, Sócrates o bebeu. Então Erixímaco, tomando a palavra:

ERIXÍMACO – Que faremos, Alcibíades? Seguiremos bebendo, sem falar nem cantar, e nos contentaremos com o mesmo que os beberrões que só sabem matar a sede?

ALCIBÍADES – Saúde, Erixímaco, digno filho do melhor e mais sábio dos pais!

ERIXÍMACO – Também te saúdo. Mas: que faremos?

(…)

ERIXÍMACO – Então escuta! Antes de tua chegada tínhamos convindo em que cada um de nós, seguindo um turno rigoroso, faria elogios ao Amor, o melhor que pudesse, começando pela direita. Todos cumprimos com nossa obrigação, e é, pois, justo que tu, que nada disseste e que não por isso bebeste menos, cumpras por tua vez com tua parte do negócio. Quando houveres concluído, elegerás um tema a Sócrates, de tua preferência; este a teu vizinho da direita, e assim sucessivamente.

ALCIBÍADES – (…) querer que um bêbado dispute em eloquência com gente comedida e de sangue frio é desigual em demasia!”

* * *

O DISCURSO DE ALCIBÍADES

Que outro fale, ainda que seja o orador mais hábil, e não causará impressão alguma sobre nós; mas tu, Sócrates – ou alguém que repita teus dizeres, por pouco versado que seja na arte da palavra –, fazes todos os ouvintes, homens, mulheres, crianças, se sentirem convencidos e hipnotizados.”

Ao ouvir Péricles e tantos de nossos grandes oradores, apreendi que são eloqüentes, mas nada de semelhante me fizeram experimentar. Minha alma não se turbava nem se indignava contra si mesma devido a sua escravidão. Mas, quando escuto esse Marsias,¹ a vida que levo me parece de repente insuportável!”

¹ Sátiro mitológico, um encantador nato. Punido por Apolo por sua vaidade, acaba, na posteridade, dando seu nome a um rio da Frígia.

vejo-me obrigado a dele fugir tapando meus ouvidos, como se se tratasse das sereias. Não fosse esse proceder, creio que permaneceria sentado a seu lado até o fim dos meus dias. Este homem desperta em mim um sentimento de que não se me creria capaz, isto é, o do pudor. É verdade, apenas Sócrates consegue me ruborizar, porque estou bem ciente de nada poder opor a seus conselhos! (…) Fujo-lhe, procuro evitá-lo; mas, quando volto a vê-lo, me envergonho, em sua presença, de haver desmentido minhas palavras com minha conduta; às vezes preferiria que ele não existisse; no entanto, se isso acontecera, estou convencido de que seria eu ainda mais desgraçado; de maneira que este homem é para mim um enigma!

Tamanha é a impressão que ele produz sobre minha pessoa, e a que a flauta deste sátiro produz sobre os outros! Mas talvez minhas palavras não dêem o termo exato do poder extraordinário que este homem exerce sobre quem o escuta; estejais convencidos de que nenhum de nós compreende a Sócrates. Já que comecei, continuo…

Sabeis do ardor que manifesta Sócrates pelos jovens formosos; com que empenho os busca, e até que ponto deles está enamorado; vedes, outrossim, o quanto a sociedade como um todo o menospreza, que ele nada sabe, ou, pelo menos, dissimula não saber. Tudo isso não é coisa de um Sileno¹?

Até mesmo na aparência ele lembra a fisionomia das estátuas de Sileno. Mas, convivas de banquete, abri-o, e que tesouros não vereis dentro dele! Sabei que a beleza de um homem é para ele o aspecto mais indiferente. É inconcebível imaginar até que ponto a desdenha, bem como a riqueza e as demais vantagens cobiçadas pelo vulgo. Sócrates as enxerga sem qualquer valor, e a nós mesmos, aliás, como se nada fôramos. Passa toda sua existência a zombar e a debochar de todo mundo! Porém, quando fala a sério e deixa ver seu interior–ignoro mesmo se outros chegaram a ver o que vi, vista tão divina, preciosa, majestosa, encantadora! Sócrates é simplesmente irresistível! Crendo ao princípio que ele se apaixonava por minha beleza, me vangloriava de minha grande sorte, e pensava em sua conquista como um meio certo a fim de receber em troca toda sua sabedoria! Sim, sempre me admirei muito ao espelho… Manifestei meus desejos a meu aio, que logo providenciou um encontro nosso, a sós. Agora é preciso que eu conte tudo, portanto atenção! E tu, Sócrates, se acaso incorro em erro, me adverte. A sós com Sócrates, esperava sempre que a conversação chegasse àqueles temas que só são desenvolvidos quando o amante não encontra testemunhas que possam atrapalhar seu discurso com o objeto amado! Nesta expectativa me auto-lisonjeava e somente dela já usufruía prazer. Mas minhas esperanças foram morrendo pouco a pouco. Sócrates passou o dia inteiro conversando comigo da sua forma usual, e depois se recolheu ao leito. Depois disso, desafiei-lhe a fazer exercícios ginásticos, esperando, por este método, ganhar algum terreno. Exercitamo-nos e lutamos muitas vezes, sem testemunhas. Que poderei atestar-lhes? Que nem assim obtive qualquer avanço! Sem poder conquistá-lo dessa forma velada, decidi-me ao ataque franco. Uma vez tendo começado, não seria lícito abandoná-lo sem ir às últimas conseqüências! Convidei-o para comer, como fazem os amantes que estendem um laço àqueles que amam; de chofre recusou, mas aos poucos foi cedendo e enfim resolveu-se por aceitar. Veio e comeu; mas quando terminou, fez menção de ir-se. Uma espécie de pudor me impediu de retê-lo. Mas logo lancei-lhe mais um laço; e depois de mais uma vez banquetearmos juntos, prolonguei desta vez a conversação até avançada a noite; e quando quis ir embora, intimei-o a dormir sob meu teto, sob o pretexto de que já era muito tarde. Deitou-se no mesmo banco em que comera; este banco estava próximo ao meu, e éramos só nós dois na casa.”

¹ Discípulo mitológico do deus Dionísio. Wikipédia: “Sileno era descrito como o mais velho, o mais sábio e o mais beberrão dos seguidores de Dioniso, e era descrito como tutor do jovem deus nos hinos órficos.”

as crianças e os bêbados dizem a verdade”

estou mordido e ferido pelos raciocínios da filosofia, cujos tiros são mais inclementes e afiados que o dardo duma víbora, assim que atingem uma alma jovem e bem-nascida. Fazem-na, enfim, dizer ou fazer mil coisas extravagantes; e vendo aqui neste banquete o ferro que me acutilou tantas vezes, Agaton, Erixímaco, Pausânias, Aristodemo, Aristófanes, deixando Sócrates de lado, e os demais, atacados todos como eu dessa mania e desse frenesi filosóficos, me dou por vencido e, mesmo que pouco inclinado a prosseguir minha história, diante de tantos ouvidos e olhares, fá-lo-ei, porque sabereis excusar minhas ações de então, e minhas palavras de agora. Mas quanto aos escravos e a todo profano sem cultura, ponde-os daqui para fora, e cerrem-lhes três portas para que nada ouçam!

Continuando, amigos: logo que acabou a luz do crepúsculo, e se retiraram os escravos de minha habitação, cri que não devia mais dar rodeios com Sócrates, e devia ser o mais direto possível. Toquei-o e disse-lhe:

– Sócrates, dormes tu?

– Não – respondeu.

– Pois bem, sabes o que eu penso?

– O quê?

– Que tu és o único amado digno de mim, e me parece que não te atreves a revelar teus sentimentos. E eu me julgaria sem razão se, a partir de minha descoberta, não procurasse comprazer-te em todas as ocasiões que pudesse. Faço isso porque só tenho a ganhar em nobreza, e assim também meus amigos, indiretamente. Neste momento nenhum pensamento me fustiga tanto quanto o de me aperfeiçoar o quanto puder, e ninguém vejo que pudesse ser de mais auxílio do que tu. Temeria mil vezes mais o ser criticado pelos sábios ao recusar algo a um homem como tu, que sê-lo pelo vulgo e pelos ignaros ao conceder-te tudo.

A tudo isto que eu disse, Sócrates respondeu com sua ironia habitual”

SÓCRATES – (…) Os olhos do espírito não começam a se fazer proféticos até que os do corpo comecem a se debilitar, e tu ainda não estás neste estágio.”

no fim, vedes que Sócrates nada me dedicou, senão desdém e desprezo a minha beleza, não fazendo mais do que insultá-la; e pensava eu que ela tinha bastante mérito, amigos! Sim, sede juízes da insolência de Sócrates; os deuses e as deusas serão testemunhas; àquela noite, saí de seu lado, no leito, como se despertasse após dormir com meu pai ou com meu irmãos mais novo!”

Mais submisso a esse homem do que um escravo o pode estar a seu dono, andava eu errante aqui e ali, sem saber que rumo tomar. Essas foram minhas primeiras relações com Sócrates. Depois nos encontramos de novo, no exército, na expedição contra a Potidéia, e fomos companheiros de quarto. Nos combates, vi Sócrates sobressair, não só a mim, mas também a todos os demais. Ele tinha a maior paciência para suportar todas as fadigas. Se faltava comida, coisa comum em campanha, Sócrates não dava sinais de sofrer de fome e de sede. Se nos encontrávamos na abundância, sabia desfrutar dela mais que qualquer um. Sem sequer apreciar a bebida, bebia mais que os demais se lhe estendiam a taça! (…) Naquele país o inverno é muito rigoroso, e a maneira como Sócrates resistia ao frio não era menos do que prodigiosa. Em tempos de grandes geadas, quando ninguém se atrevia a sair, ou, pelo menos, ninguém saía sem ir-se bem encasacado e calçado, e com os pés envoltos em feltro e peles de cordeiro, ele ia e vinha com a mesma capa que soía levar, caminhava com os pés nus com a facilidade típica de quem usava botas, ao ponto dos soldados olharem-no com despeito, achando-se por isso humilhados. Assim se conduzia Sócrates no exército.”

Mas o que faz de meu Sócrates digno de uma admiração particular é que não se acha outro que se lhe pareça, nem entre os antigos, nem entre nossos contemporâneos. Poder-se-ia, p.ex., comparar-se Brásidas¹ com Aquiles, Péricles com Nestor ou Antenor; e há ainda personagens que, contrastados, dão azo a semelhanças. Mas, repito, ninguém, antigo ou moderno, se aproxima, nem remotamente, a este homem, ou a seus discursos, nem a sua originalidade, a não ser que se comparassem ele e seus discursos não a um homem, como já o disse, mas aos silenos e aos sátiros; porque até esqueci de dizer, quando principiei meu discurso, que os discursos deste homem se parecem também, perfeitamente, com os dos silenos quando se expandem. Com efeito, apesar do desejo que se tem de ouvir Sócrates, o que disse parece, à primeira vista, inteiramente grotesco. As expressões com que ele veste seu pensamento são grosseiras, como a pele de um sátiro impudente. Não vos fala mais que de asnos com selas, de ferreiros, sapateiros, peliceiros, e aparenta sempre dizer uma mesma coisa nos mesmos termos; de sorte que não há ignorante ou néscio que não sinta a tentação de rir-se. Mas, como eu venho dizendo, abri seus discursos e examinai seu interior: encontrar-se-á de imediato que não há nada mais coerente e cheio de sentido; concedais só um pouco mais, e logo direis que são de natureza divina, encerrando em si as imagens mais nobres da virtude; numa só palavra, tudo quanto aquele que quer fazer-se um homem de bem deve ter em vista. (…) E não falo só por mim; outros recusados por Sócrates são Cármides, filho de Glauco; Eutidemo, filho de Díocles, e tantos mais, a quem enganou, simulando querer ser seu amante, quando não representou para com eles senão o papel da pessoa muito amada. Sendo assim, Agaton, aproveita-te destes exemplos e não te deixes enganar por este homem! Que minha triste experiência te ilumine, e não imites o insensato que, segundo o provérbio, não se faz sábio senão as suas custas.”

¹ General espartano na época da Guerra do Peloponeso.

* * *

Havendo cessado Alcibíades seu discurso, todos começaram a rir ao testemunhar sua franqueza, e percebendo que ainda estava muito apaixonado por Sócrates.

Este, tomando a palavra, disse então:

SÓCRATES – Imagino que hoje estiveste pouco expansivo, meu caro Alcibíades; doutra forma, não poderias, artificiosamente, e com amplo vocábulo e talento verbal, haver ocultado o verdadeiro motivo do teu discurso, o que só revelaste justo ao final, fazendo parecer que não era teu único objetivo colocar Agaton e eu em maus lençóis! Tens a pretensão de que eu devo amar-te, e não amar a mais ninguém, e que Agaton deve ser amado exclusivamente por ti. Mas teu artifício não passou despercebido; logo intuímos aonde ia a fábula dos sátiros e dos silenos; assim, meu querido Agaton, desfaçamos o projeto de Alcibíades, e faz de sorte que ninguém possa nos separar um do outro.

AGATON – Ó, creio que tens razão, Sócrates; estou certo de que seu esquema de se interpor entre mim e tu foi todo pensando com vistas a nossa separação! Mas de nada serviu, porque agora mesmo irei pôr-me a teu lado!

SÓCRATES – Ótimo, senta-te a minha direita!

ALCIBÍADES – Por Zeus! Quanto não me faz sofrer este homem! Imagina-se no direito de dar-me sua lei em tudo! Permite-me, pelo menos, ó maravilho Sócrates, que Agaton se ponha entre nós dois (a sua esquerda).”

SÓCRATES – Impossível! Tu acabas de fazer minha apologia, e agora me toca fazer a do meu vizinho da direita. (…) Deixa que venha este jovem, Alcibíades, e não o invejes as lisonjas que com impaciência desejo prestar-lhe!

AGATON – Não há modo de que eu permaneça aqui, Alcibíades. Quero resolutamente mudar de sítio, para ser elogiado por Sócrates!

ALCIBÍADES – Isto é o que sempre sucede! Onde quer que esteja Sócrates, somente ele tem lugar garantido ao lado dos jovens formosos. E agora mesmo, vede que pretexto simples e plausível encontrara a fim de que Agaton sentasse a seu lado!”

(*) “Após Alcibíades arrematar sua fala, a taça começa a circular entre os convidados, até que não resta um que não sucumbe por seu turno à embriaguez. Sócrates, único impassível, pois seu pensamento, estranho às desordens, faz seu corpo imune a elas, conversa sobre diversas temáticas com os restantes, os que resistem até os primeiros albores do dia. Finalmente, quando todos ali se entregam ao sono, abandona a casa do anfitrião do banquete Agaton, para ir dedicar-se a suas ocupações rotineiras: última manifestação desta alma forte, que a filosofia tinha tornado invulnerável às paixões.”

que o mesmo homem deve ser poeta trágico e poeta cômico, e que, quando se sabe tratar a tragédia segundo as regras da arte, deve-se saber por igual tratar a comédia. Obrigados a convir com as afirmações de Sócrates, e estando como que embotados pela longa noite de discussões, começaram a sentir sono. Aristófanes adormeceu primeiro, depois Agaton, com o sol já bastante alto; Sócrates, vendo ambos já inconscientes, levantou-se e saiu acompanhado, como de costume, por Aristodemo; dali foi-se ao Liceu, banhou-se, e passou o restante do dia em suas ocupações habituais, de modo que não regressou a sua casa até de tarde, quando enfim foi descansar.”

FÉDON OU DA ALMA

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “Ao redor de seus 40 anos, após regressar a Atenas de uma viagem à Sicília (Carta VII, 324a), Platão funda a academia e redige o Fédon, o Banquete, a República e o Fedro, aproximadamente nesta ordem. Isto se sucede aproximadamente no ano 387 a.C. O autor chega não só a forjar e expressar, nestas obras consideradas de <período intermediário>, suas principais idéias de maneira cabal, como também atinge o epítome de seu estilo e capacidade de composição.”

EQUÉCRATES – Fédon, estiveste tu ao lado de Sócrates no dia em que bebeu da cicuta na prisão, ou sabes somente de ouvido tudo aquilo que se passou?

FÉDON – Eu fui testemunha dos acontecimentos, Equécrates.”

FÉDON – Não soubestes nada do processo nem das coisas que se sucederam após?

EQUÉCRATES – Sim, sim; soubemo-lo, porque há muitos que nos contam desse dia; só achamos estranho que a sentença tenha demorado tanto para ser executada. Sabes o motivo disso, Fédon?

FÉDON – Uma circunstância bem particular. É que justo na véspera do julgamento os atenienses haviam coroado a popa do navio que enviam ritualmente a Delos.

EQUÉCRATES – Que navio é esse?

FÉDON – Pelo que ouvi dizer, trata-se do mesmo navio em que supostamente Teseu navegou até Creta, acompanhado dos 7 jovens de cada sexo, que iam para sacrifício, mas que ele acabou por salvar, e a si junto. Dizem, ainda, que quando o navio partiu os atenienses juraram fazer oferendas anuais a Apolo, caso a expedição regressasse bem-sucedida; e desde então esse voto foi sempre respeitado. Quando é chegada a época, a lei ordena que a cidade esteja pura, proibindo-se execuções antes da chegada do navio a Delos e de seu pronto retorno à cidade; e não é de estranhar que dadas algumas contingências o navio possa demorar um bocado para estar de volta, como no caso de muitos ventos contrários. (…)

EQUÉCRATES – E que foi que sucedeu, pois? O que Sócrates disse e fez? Quem esteve a seu lado até o fim? Talvez os magistrados não tenham permitido que Sócrates fosse acompanhado em seus momentos finais, e ele tenha morrido privado da companhia de seus mais próximos?

FÉDON – Não; muitos de seus amigos estavam presentes; era realmente uma procissão invejável!”

FÉDON – (…) te enganas, Equécrates, estou ocioso o bastante para entrar nos mais ínfimos detalhes; não há memória mais agradável que essa das últimas horas de Sócrates, seja eu o interlocutor ativo ou esteja eu apenas calado ouvindo quem sobre esses momentos discurse. Pois acima de tudo sou grato a este filósofo, que mediante súplicas a Alcibíades¹ me libertara da escravidão.”

¹ Outros dizem que foi Críton quem pagou pela liberdade de Fédon.

FÉDON – Para dizer a verdade, este espetáculo deixou impressões imperecíveis em minha alma. Ao lado daquele homem, nem sequer podia sentir a compaixão e o aperto no coração naturais de alguém que estava prestes a experienciar a morte dum amigo íntimo. Ao contrário, Equécrates: ao vê-lo e escutá-lo, só conseguia entrever nele felicidade; a firmeza e a dignidade que sustivera até os estertores foram invejáveis. Naquele momento concebi, no íntimo, que Sócrates só deixava esse mundo com a permissão e o beneplácito dos deuses”

FÉDON – De nossos compatriotas, lá estavam: Apolodoro, Critóbulo e seu pai, Críton, Hermógenes, Epígenes, Ésquines e Antístenes. Além destes, Ctesipo – de Peânia¹ –, Menexeno e outros helenos. Creio que nesse dia seu discípulo e favorito Platão se encontrava doente e de cama.”

¹ Como se fosse um subúrbio ou periferia, municipalidade vizinha ou considerada “anexa” a Atenas, pois havia uma conurbação entre as duas cidades. Distava 11km do centro de Atenas. Outra famosa figura antiga que provém desta localidade é Demóstenes, orador que ainda não havia nascido na época do julgamento de Sócrates.

– Sócrates! – ela gritou –, é hoje o último dia em que teus amigos te falarão e em que tu falar-lhes-ás!

Porém Sócrates, dirigindo a vista a Críton, disse-lhe: levam-na para casa. E num instante alguns escravos de Críton conduziram Xantipa, que não cessava de gritar e espernear, batendo-se no rosto. Foi então que Sócrates, tomando assento, dobrou a perna, já livre dos grilhões, esfregou-a com a mão e nos dirigiu a palavra:

– (…) Pressinto que Esopo sequer considerou a idéia, caso contrário a teria retratado numa fábula, mostrando-nos que Deus quis um dia reconciliar estes dois inimigos, mas, sem conseguir, atou-os à mesma corrente; eis a razão por que quando um chega logo atrás vem o outro. Acabo de comprovar eu mesmo; vede que à dor, provocada pela corrente atada a esta perna, sucede agora o prazer.

– [Cebes] (…) por que, Sócrates, tens-te dedicado a compor versos desde que estás confinado, sendo que nunca o fizeste em toda tua vida?

– (…) A verdade é que fi-lo a fim de interpretar alguns sonhos e conseqüentemente tranqüilizar minha consciência (…) um mesmo sonho teima em sobrevir-me, numa forma ou noutra, querendo dizer a mesma coisa: ó, Sócrates, cultiva as belas-artes!

– [cont.] Até agora interpretava esta <ordem> como uma simples sugestão, e imaginava que, como tantas exortações dadas a amigos e que realmente nada querem dizer, só buscava, eu mesmo, indicar a mim que o certo seria manter-me em minhas ocupações de hábito, sem pestanejar nem esmorecer. Isso porque a filosofia é a primeira das belas-artes, e sempre me dediquei por inteiro a ela! O que mudou depois de minha sentença, tendo em vista este longo intervalo propiciado pela festa do Deus, foi que, se por um acaso meus sonhos falam de outras belas-artes, as de sentido estrito e literal, seria preciso dar logo curso à ordem, antes que fosse tarde demais! (…) refletindo que um poeta, para ser um autêntico poeta, não deve, por assim dizer, discursar em verso, e sim ficcionalizar, uma vez que nunca enxerguei em mim este talento, decidi-me então a trabalhar exclusivamente sobre as fábulas de Esopo”

– Pois bem – disse Sócrates –, Eveno será meu sucessor, bem como todo homem digno de praticar a filosofia. Que ele blefe, pois – não se suicidará, isto não seria nada lícito!

(…)

Cebes perguntou-lhe:

– Por que, Sócrates, seria proibido o suicídio, sendo que acabaste de afirmar que Eveno deveria ser seu sucessor?

– E essa agora, caro Cebes! – replicou – Nem tu nem Símias teriam ouvido falar do parecer de Filolau acerca disso?”

Não há uma ocupação melhor para um homem que logo irá partir que a de examinar e procurar conhecer a fundo acerca da viagem que fará; é de interesse apurar que pensam dela os outros homens. Em que atividade gastaríamos melhor o tempo até o pôr-do-sol?”

[Cebes] Pois escutei de Filolau, mas não só dele, que isto era ruim; mas ainda não me dou por satisfeito neste assunto.”

[Sócrates] o viver é para todos os homens uma necessidade absoluta e invariável, até para aqueles para quem a morte seria preferível à vida; considerarás estranho que mesmo nesta última hipótese seja um tabu que o homem procure tirar a própria vida, decerto. Pois a vida é um bem, e devemos esperar que outro libertador no-la saque!”

Não quero defender aqui a máxima, ensinada nas iniciações, de que cada qual está no papel que lhe cabe e que merece por justiça, sendo proibido abdicar deste papel sem permissão especial. Esta máxima é por demais nobre, e não é tão fácil abarcar tudo que por ela é pensável. Vamos então, com passos mais seguros, aproveitar uma outra máxima, que ainda me soa inconteste: os deuses cuidam de nosso destino, e somos seus objetos. Tu mesmo, Cebes, pensa comigo: se um de teus escravos se suicidasse sem tua permissão, tu não te porias zangado, a ponto de submetê-lo a um castigo, claro, se isso fosse possível, dadas as circunstâncias?”

como podem os filósofos desejar não existir, eximindo-se da tutela dos deuses, isto é, abandonando voluntariamente uma vida submetida aos cuidados dos melhores governantes do mundo?”

[Cebes] Mas um homem sábio deve desejar permanecer sempre sob a dependência dalguém melhor do que ele próprio. Donde concluo pelo oposto do que disseste; para mim, os sábios temem a morte, e os mentecaptos a apreciam.”

Ah, Símias e Cebes, se eu não acreditasse que no outro mundo me depararia com deuses tão bons e tão sábios, e homens melhores que os que aqui deixo, seria eu um néscio, no caso de não sentir pesar diante da idéia de morrer! Mas sabei que espero encontrar-me com os justos. Pode ser que esteja enganado neste tocante; mas quanto a me deparar com deuses que seriam senhores excepcionais, não me resta a menor dúvida.”

[Críton] (…) Disse o homem que há de dar-te o veneno, reiteradamente, que não deves falar muito, posto que o falar muito acalora, e isso faz com que o veneno demore a agir. Quando alguém se acalora tanto, disse ainda que é necessário tomar duas ou três doses!

– Então deixa que fale – respondeu Sócrates –; e que prepare a cicuta, se necessário na quantidade suficiente para a terceira dose.

– Rá, pois eu tinha certeza que dirias isso mesmo!”

Os homens ignoram que os verdadeiros filósofos não trabalham durante sua vida senão com o fito de preparar-se para deixar este mundo; sendo assim, seria ridículo que, depois de perseguir sem trégua este fim único, um homem desta marca hesitasse e tremesse, quando finalmente a hora se apresenta!”

– …Creio que os tebanos, principalmente, consentiriam de bom grado que os filósofos todos aprendessem a morrer; diriam mais: diriam que esta é a justa paga para eles.

– E estariam sendo honestos, Símias – respondeu Sócrates –; salvo que ignoram o motivo do filósofo desejar morrer, que tem a ver com a dignidade do ato.”

NIILISMO CONSUMADO: O NASCER COMO NÃO SÓ ABSURDO MAS TAMBÉM CONDENÁVEL

Existe algum outro sentido corpóreo mediante o qual percebeste antes estes objetos, de que falamos, como a magnitude, a saúde, a força; numa só palavra, a essência de todas as coisas, ou seja, aquilo que elas são em si mesmas? É por meio do corpo que se conhece a realidade de todas essas coisas? Ou seria ainda mais certo que qualquer um de nós que quisesse examinar através do pensamento o mais profundamente possível aquilo que quer conhecer, sem a mediação do corpo, aproximar-se-ia mais do objeto, chegando assim a conhecê-lo melhor?” “de onde é que nascem as guerras, as sedições e os combates? Do corpo com todas as suas paixões. Com efeito, todas as guerras não procedem senão da ânsia de amontoar riquezas, e nos vemos obrigados a amontoá-las por causa do corpo; para servir como escravos a suas necessidades.” “Está demonstrado que se queremos saber verdadeiramente alguma coisa, é preciso que abandonemos o corpo, e que a alma unicamente examine os objetos que quer conhecer. Só então gozamos da sabedoria, da qual corremos atrás com tanto zelo; isto é, depois da morte, e não em vida. A razão mesma é que o dita: se é impossível o conhecimento puro enquanto não nos desembaraçarmos do corpo, é preciso que suceda uma de duas coisas: ou que deixemos a verdade para lá, ou que a conheçamos depois da morte, porque então a alma, livre desta carga, pertencerá a si mesma”

Muitos homens, por haver perdido seus amigos, suas esposas, seus filhos, desceram voluntariamente aos ínferos, conduzidos pela única esperança de voltar a ver os que perderam, e viver dentre eles; e um homem que ama verdadeiramente a sabedoria e que tem a firme esperança de encontrá-la, nem que seja nos infernos, temerá a morte? não irá ele cheio de contentamento àqueles reinos sombrios, onde gozará do que tanto ama?”

os homens são fortes por causa do medo, exceto os filósofos: e não é lá muito ridículo que um homem seja valente exatamente por tibieza?”

há muitos indícios para crermos que os que estabeleceram as purificações não eram personagens desprezíveis, mas sim grandes gênios, que desde os primórdios(*) quiserem nos fazer compreender, por meio destes enigmas, que aquele que viajar aos infernos sem preparação (iniciado e purificado) será precipitado no humo”

(*) “Ver o segundo livro da República.”

Perguntemo-nos, de imediato, se as almas dos mortos estão ou não nos infernos. Segundo uma opinião muito antiga¹, as almas, ao abandonar este mundo, descem aos infernos, e dali voltam ao mundo e à vida, depois de passarem pelos estágios da morte. Se isso é certo, e os homens ressuscitam, é natural esperar que as almas passem esse intervalo entre a morte e a volta à vida nos infernos, pois o que não existisse não poderia voltar ao mundo, e é prova suficiente do que digo minha afirmação de que os vivos só nascem dos mortos; não fôra assim, teríamos de buscar novas evidências.”

¹ “Muito antiga” não parece se referir a Pitágoras, que não viveu tantos anos antes de Platão, mas aqui não sabemos a gradação e a noção de tempo que vigoravam na mentalidade dos gregos para descartar a referência ao fundador do Pitagorismo, ao invés de atribuir a crença da metempsicose a entidades ainda anteriores.

– É isto, Cebes: todas as coisas advêm de suas contrárias; isto já está demonstrado.

– Com certeza, caro Sócrates.

– Mas entre estas duas contrárias, não haveria um ponto médio, uma dupla operação, um mediador encarregado de levar desta àquela e daquela de volta a esta? Entre uma coisa maior e uma coisa menor, o <meio> da viagem não seriam o <crescimento> e a <diminuição>? Um movimento chamamos de crescer; o outro, de diminuir.

– Com efeito.

– O mesmo sucede-se com aquilo que se chama mesclar-se, separar-se, aquecer-se, esfriar-se e tudo o demais. E ainda que em certas circunstâncias não tenhamos vocábulos para expressar uma mudança de estado determinada, vemos, não obstante, por experiência, que é sempre por necessidade absoluta que as coisas nasçam umas das outras, e que passem de uma a outra com o auxílio de um meio.

– Isso é inquestionável.

– Mas então vê! – redargüiu Sócrates –, a vida não possui ela também sua contrária, como a vigília tem o sono?

– Ora, sem dúvida – disse Cebes.

– Qual é esta contrária?

– A morte.”

Digo, pois, tomando o sono e a vigília como exemplos: do sono nasce a vigília, e da vigília nasce o sono; o caminho da vigília ao sono é o adormecimento, e o do sono à vigília o ato de despertar.”

– O que é que nasce, em decorrência, da vida?

– A morte.

– O que nasce da morte?

– É preciso confessar: a vida.

– Do que morre – replicou Sócrates – nasce, por conseguinte, tudo o que vive e tem vida.

– É razoável.

– Doravante – respondeu Sócrates –, nossas almas se encontram nos infernos após a morte.”

– (…) Não é necessário, em absoluto, que o morrer tenha seu contrário?

– É sim.

– E qual é este contrário?

– Reviver.”

NIILISMO & APOCALIPSE

– (…) Se todos esses contrários não se gerassem reciprocamente, girando, por assim dizer, em círculo; e se não houvesse mais que uma produção direta de um por outro, sem nenhum regresso desse último ao primeiro contrário que o produzira, então, neste caso, compreendes que todas as coisas seriam imagens iguais, teriam a mesma forma, e que toda a produção cessaria?

(…)

– (…) Se nada existisse além do sono, sem o ato de despertar (que ele mesmo é que produz), todas as coisas seriam representantes de uma fábula de Endimião, sem se diferenciarem entre si, sendo todas elas como Endimião; submergidas eternamente num sono profundo. Se tudo estivesse mesclado sem que essa mescla produzisse jamais separação alguma, logo o mundo seria aquilo que Anaxágoras pregava: todas as coisas estariam juntas. Meu querido Cebes, quer dizer que se tudo o que recebera o dom da vida chegasse a morrer e, uma vez morto, assim permanecesse, ou, o que dá no mesmo, nunca revivesse… Não está aí a chave para pensarmos que as coisas chegariam a um fim, após o que nada restaria?”

– Aquilo que dizes é um resultado necessário doutro princípio que ouvi de ti como certo muitas vezes antes: que nosso saber não é mais que uma reminiscência. Se este princípio for verdadeiro, é absolutamente necessário que tenhamos aprendido aquilo de que agora podemos nos lembrar em tempos mais arcaicos; e se nossa alma não existisse antes de que assumíssemos esta forma humana, significa que isto seria impossível. Trata-se, portanto, de uma prova irrefutável da imortalidade da alma.

Símias, interrompendo Cebes, disse:

– Prova? Mas como se pode demonstrar esse princípio? Seria necessário que me despertassem essas reminiscências!

– Conheço uma demonstração muito valiosa – respondeu Cebes –: que todos os homens, quando se os interroga bem o bastante, podem de tudo se lembrar sem mesmo saírem do lugar ou de seus corpos para tal, o que seria impraticável se dentro de si mesmos não possuíssem desde já as luzes da reta razão. Nada mais tens de fazer, a fim de testar minhas palavras, senão mostrar-lhes figuras geométricas e enumerar suas diversas leis e incontestes relações; a verdade torna-se então cristalina.”

– Pois bem – continuou Sócrates –: não sabes o que se dá com os amantes, quando se deparam com uma lira, uma roupa ou qualquer outro objeto que esteja associado ao sujeito amado? Assim que reconhece a lira, vem logo a sua mente a imagem do dono da lira. Isto é o que se chama de reminiscência; freqüentemente, quando vemos Símias, nos lembramos de Cebes. E eu poderia citar milhões de exemplos análogos.”

a reminiscência é basicamente este poder de voltar a ter presentes, mentalmente, coisas que, devido ao curso do tempo, haviam sido longamente esquecidas ou deixadas de lado.”

– Qual será tua escolha, Símias? Nascemos dotados de conhecimentos, ou será que apenas nos recordamos, depois de algum intervalo de tempo, de que tínhamos nos esquecido de que sabíamos das coisas?

– Sócrates, deixaste-me confuso e não me atrevo a te responder.”

A Grécia é grande, Cebes – retrucou Sócrates –; e nela podereis encontrar muitas pessoas sábias. Por outro lado, há além da Grécia inumeráveis povos estrangeiros, e é preciso investigar todos eles, e interrogá-los, a fim de encontrar o encantador de que falamos, sem medir esforços ou energia; se pensar bem, em nada podereis aspirar a ser mais afortunados. Não nego que ele poderá estar dentro de vosso círculo restrito, afinal, pode muito bem ser que não encontreis ninguém mais capaz que vós mesmos para levar estes encantamentos a efeito neste vasto mundo.”

– Observa que, depois que o homem morre, sua parte visível, o corpo, a única exposta a nossas perscrutadas, que chamamos neste estado de cadáver, e que não cessa agora de dissolver-se e dissipar-se, não sofre tão rapidamente nenhum destes acidentes; dura, até, um tempo considerável antes da decomposição. Diria até que se conserva mais tempo conforme o morto, em vida, era mais belo e se encontrava na flor da idade. Os corpos que se envolvem e embalsamam, como no Egito, duram, em sua integridade, um número absurdo de anos; mas mesmo nos cadáveres que se corrompem há sempre tecidos mais resistentes, tais como os ossos, os nervos e outros membros, que guardam qualquer similitude com o que denominaríamos <imortal>. Não crês que digo a verdade?

– Sim, Sócrates.

– Mas a alma, este ser invisível que se move a um domínio próprio, também invisível, necessariamente excelente, puro, tanto quanto inefável, digo, esta alma, que percorre sua trilha aos infernos, aproximando-se de um Deus repleto de bondade e sabedoria, sítio em que espero que minha alma também esteja um dia, com a bênção de Deus; pois então, crês que realmente uma alma, de natureza dita incorruptível, dissipar-se-ia, aniquilar-se-ia, instantes depois de abandonar seu corpo, assim como crê a maioria dos mortais? De forma alguma!” Ah, isso sim seria desabonador, correto, meu caro?

crês tu que uma alma que se encontra em tal estado possa sair do corpo assim, pura e livre?”

como se diz por aí, meu querido Cebes, a alma anda errante pelos cemitérios que existem ao redor das tumbas, onde se viram muitos fantasmas tenebrosos”

– Digo, p.ex., Cebes, que aqueles que deificaram seu próprio ventre, amando a intemperança, sem qualquer pudor, sem qualquer cautela, provavelmente reencarnam em asnos e outros animais semelhantes quando chega a hora; isso não te parece exato?

– De fato.

– E as almas que se dedicaram a amar a injustiça, a tirania e as rapinas, terminam por animar os corpos dos lobos, dos gaviões, dos falcões. Almas assim constituídas poderiam ir para algum outro lugar?

– Não tenho dúvida que isso seria impossível, Sócrates.”

– Como os virtuosos podem ser os mais felizes?

– Porque é provável que suas almas entrem em corpos de animais pacíficos e doces, como as abelhas, as vespas [!], as formigas; ou pode acontecer, ainda, que voltem a ocupar corpos humanos, constituindo homens de bem.

– É condizente.”

a alma jamais crerá que a filosofia queira desligá-la, para que, vivendo livre, o filósofo¹ se abandone aos prazeres e às tristezas, deixando-se acorrentar por eles, preso a um ciclo improdutivo, como a mortalha de Penélope. (…) a alma do filósofo contempla incessantemente o verdadeiro, o divino, o imutável, que sobrepuja o senso comum dos mortais²”

¹ Ou, antes, o homem que se diz filósofo. O pseudo-filósofo.

² O reino das opiniões, estas mortalhas vivas de Penélope, se se permite o trocadilho.

Supões-me, Símias, ao que parece, muito inferior aos cisnes, quanto à capacidade premonitória e à adivinhação. Os cisnes, quando pressentem que vão morrer, cantam, no último dia, um canto ainda mais belo do que nunca, devido à alegria que sentem por estarem prestes a se unir ao deus que servem. Mas o temor que os homens têm à morte faz com que caluniem os cisnes, alegando que choram porque sabem que vão morrer, e que seu canto final é de tristeza. Não consideram que não há ave que cante quando tem fome ou frio, ou simplesmente sofre, nem mesmo nos casos do rouxinol¹, da andorinha e da poupa, cujos talentos melodiosos as pessoas sempre atribuíram à capacidade de exprimir a dor.”

¹ Luscinia megarhynchos, popularmente, o “pássaro-das-cem-línguas”.

Depois que a lira está em pedaços ou estão arrebentadas suas cordas, alguém poderia continuar sustentando, com argumentos iguais aos teus, que é preciso que a harmonia subsista, necessariamente, e nunca pereça; porque é impossível que a lira subsista, uma vez despedaçadas as cordas; que as cordas, que são coisas deste mundo, subsistam depois de quebrada a lira; e que a harmonia, que é da mesma natureza do ser imortal e divino, pereça antes do que é mortal e terreno.”

Fédon, amanhã cortarás estes teus lindos cabelos, não é verdade?”(*)

(*) “Os gregos costumavam cortar os cabelos quando morria um amigo, oferecendo-os em seu túmulo.”

Não vês que é raro encontrar um homem muito grande ou um homem muito pequeno? Também é assim com os cachorros e as demais coisas; com tudo que é rápido e tudo que é lento; com o belo e o feio; o branco e o preto.”

A única semelhança que há entre idéias e homens é esta: quando se admite um raciocínio por verdadeiro, sem se conhecer a arte da dialética, mais tarde ele parecerá falso, sendo-o ou não de fato, e diferente e contraditório consigo próprio; já quando alguém tem de há muito o hábito de disputar enumerando as vantagens e as desvantagens das coisas, crê-se, ao fim, habilíssimo, o único ser capaz de compreender que nem nas coisas nem nas proposições há algo que seja intrinsecamente verdadeiro ou certo, e que, por conseguinte, tudo está em fluxo e refluxo perpétuos, como as águas do Euripo.¹”

¹ Estreito marítimo no Mediterrâneo que separa as regiões gregas centrais da Eubéia e da Beócia. Há, nessas coordenadas, fortes flutuações da maré, implicando em súbitas inversões no vetor da correnteza, várias vezes ao dia. É provável que este e outros fenômenos, conhecidos desde a mais remota antiguidade, tenham influenciado na concepção de criaturas mitológicas que causavam naufrágios, como Caríbdis.

meu principal objetivo é convencer-me a mim mesmo.”

Quando eu era jovem, sentia um vivo desejo de aprender essa ciência chamada Física; porque me parecia uma coisa sublime saber as causas de todos os fenômenos, de todas as coisas; o que as faz nascer, o que as faz morrer, o que as faz existir; e não havia sacrifícios que eu omitisse a fim de examinar, em primeiro lugar, se era do quente ou do frio, depois de sofrerem alguma espécie de corrupção, como alguns alegam, donde procedem os animais (…) Minha curiosidade sondava dos céus às entranhas da terra, para descobrir o que produz todos os fenômenos; e no fim me vi tão incapacitado quanto se pode ser para responder a estas indagações. (…) qual é a causa de que o homem cresça? Pensava eu que era muito claro para todo mundo que o homem não cresce senão porque come e bebe; posto que, por meio do alimento, unindo-se à carne a carne, aos ossos os ossos, e a todos os demais elementos os seus semelhantes, o que, no princípio, não é mais que um pequeno volume aumenta e cresce” “Me encontro tão longe de acreditar que conheço as causas de qualquer uma das coisas, que nem ao menos presumo saber se, quando a um se agrega mais um, é este um de que falei primeiro, ao qual se acrescentou outro, que faz-se dois; porque poderia bem ser que não só o <acrescentado> mas também o <acrescentador> constituam juntos o dois, em virtude do princípio da adição! O que mais me surpreende nisso tudo é que, enquanto estavam separados, cada um dos termos era um e não eram dois! (…) E mais: não acredito saber por que o um é um; tampouco, fisicamente falando, como uma coisa, por menor que seja, nasce, perece ou existe”

Adoraria cruzar com um mestre como Anaxágoras, que com certeza me explicaria, atendendo a meu desejo, a causa de todas as coisas; depois de me haver dito, p.ex., se a terra é plana ou redonda, ele certamente dir-me-ia qual a causa ou a necessidade por trás disso; e me diria ainda qual é o melhor no caso, e por que razão. Pois não bastaria que dissesse que crê que a terra é o centro do mundo, não! Esperaria, ainda, que me ensinasse por que se trataria da melhor disposição das coisas que a terra fosse o centro. Ah, se eu ouvisse tudo o que ele tivesse a dizer sobre isso, garanto-vos que estaria decidido a nunca, daí em diante, partir em busca de novas explicações ou causas primeiras. É claro que eu estaria disposto, antes disso, a perguntar-lhe, ainda, acerca do sol, da lua e dos demais astros, a fim de conhecer os motivos de suas revoluções (…) eu mal concebo que, depois de dizer que a inteligência os havia assim disposto, ele pudesse insinuar que a causa desta ordem das coisas seria outra afora esta: não é possível nada melhor (…) E, com efeito, nada, naquele instante, enfraqueceria minhas esperanças.

Como eu dizia, dediquei-me, pois, com vivacidade a estes livros, lendo-os com toda a voracidade, até aprender de uma vez o bom e o mau de todas as coisas; mas logo perdi minhas esperanças, porque conforme progredia nas leituras percebia que meu mestre nunca fazia intervir a inteligência, não tratando de explicar a ordem das coisas, e que meu mestre situava, ora o ar, ora o éter, ora a água, ora outras coisas igualmente absurdas, no lugar da inteligência como princípio de tudo. É como se me dissesse: Sócrates faz, mediante a inteligência, tudo aquilo que faz; mas logo em seguida, tentando ser mais minucioso em suas explicações: hoje Sócrates está sentado em sua cama, porque seu corpo se compõe de ossos e de nervos; sendo os ossos duros e sólidos, estão separados por ligamentos; os nervos, podendo esticar-se ou encolher-se, unem os ossos com a carne e com a pele, que encerra e envolve tanto uns como outros (…) Seria o mesmo, aliás, que se eu vos dissesse, à guisa de explicar a causa de nossa presente conversação, que as causas são a voz, o ar, o ouvido e outras coisas similares, sem no entanto pronunciar uma só palavra acerca da verdadeira causa, que é os atenienses haverem decidido que o melhor para eles era condenar-me à morte, o que eu, por minha vez, assumi como causa correta e verdadeira para que eu me encontrasse agora sentado nesta cama, aguardando tranqüilamente a pena que se me hão imposto. (…) agora, se é para dizer que estes ossos e estes nervos são a causa do que faço, e não a eleição do que é o melhor para mim, para que é que me serviria a inteligência? isso é o maior absurdo, porque equivaleria a desconhecer a seguinte distinção: uma coisa é a causa, e outra a coisa, e sem a coisa jamais a causa seria causa”

#IdeiadeTítulodeLivro AS CAUSAS E AS COUSAS

Eis por que é que uns consideram ser a terra rodeada por um turbilhão, supondo-se-a em estado fixo no centro do universo; outros já a concebem como uma mesa retangular, cuja base seria o ar; mas não dão atenção ao problema da causa que a dispôs desse modo, o necessário para que fosse o melhor possível; não crêem na existência de nenhum poder divino, salvo pelo fato, é claro, de imaginarem haver encontrado um Átlas ainda mais forte que o mitológico, mais imortal também, e capaz de sustentar todas as coisas como nenhum outro”

Cansado de examinar todas as coisas, cri que deveria estar prevenido para que não me sucedesse o mesmo que aos que observam um eclipse solar; estes perdem a vista caso não tomem a precaução de fazer uma observação indireta, pelo reflexo da água ou mediante qualquer outra superfície que reflita a imagem do astro. Algo análogo se passou em meu espírito; temi perder a profundidade do olhar caso contemplasse os objetos com os olhos do corpo, servindo-me de meus sentidos para tocá-los e conhecê-los. (…) mas eu mesmo discordo de que quem vê as coisas com os olhos da razão as vê mais e melhor que quem enxerga apenas os fenômenos (…) Vou explicar com mais clareza, porque parece que ainda não me entendes bem.”

continuo dizendo o que já manifestei em mil ocasiões pretéritas, e aquilo que acaso já afirmei na discussão imediatamente anterior. Para explicar-te o método de que me hei servido quanto à indagação das causas, necessito fazer esse recuo; vou começar de novo, tomando o afirmado como fundamento. Digo, então, que há algo que é bom, que é belo, que é grande por si só. Se me concedes este postulado, espero te demonstrar que a alma é imortal.

caso alguém me afirme que o que constitui a beleza de uma coisa é a vivacidade das cores, ou a proporção das partes ou coisas assim, abandono completamente todos esses argumentos que só servem para turvar minha vista; respondo, como que por instinto, sem artifícios, com simplicidade – reconheço – até demasiada, que nada torna algo belo mais do que a presença ou a comunicação de uma beleza primitiva, não importa como seja essa comunicação; este é o limite de minhas convicções.”

Vejo que já chegamos a um acordo: nunca um contrário pode se converter no contrário de si mesmo.”

não te parece que o número 3 deva sempre ser chamado pelo seu nome, e ao mesmo tempo pelo nome ímpar, ainda que ímpar não seja o mesmo que o número 3?”

– E no entanto – disse Sócrates –, o 2 não é contrário ao 3.

– Não mesmo.

– Logo, as contrárias não são as únicas coisas que não consentem com suas contrárias, senão que há ainda outras coisas igualmente incompatíveis.”

Pensa-o muito bem, pois não se perde tempo em repeti-lo muitas vezes. O 5 não será nunca compatível com a idéia de par; como o 10, que é 2 vezes aquele, não o será nunca com a idéia de ímpar; e este 2, ainda que seu contrário não seja a idéia de ímpar, não admitirá jamais a idéia do ímpar, como também não consentirão com a idéia do inteiro os três quartos, o um terço, nem qualquer outra fração”

– A alma consente com a morte?

– Não.

– Então a alma é imortal!”

– Quando a morte surpreende o homem, o que há nele de mortal morre, e o que há de imortal se retira, são e incorruptível, cedendo seu posto.

– É lógico.

– Destarte, se há algo imortal e imperecível, meu querido Cebes, esse algo deve ser a alma; com isso, sabemos de antemão: nossas almas existirão em outro mundo.”

– Diz-se que, depois da morte, o daemon, que o conduzira durante toda a vida, leva a alma a certo sítio, onde todos os mortos se reúnem para serem julgados, a fim de irem, depois, aos ínferos com a ajuda de um guia, que é o encarregado de deslocar toda e qualquer alma dentro do submundo; e, uma vez que a alma já tenha recebido, naqueles recessos, todos os bens e males de que era tributária segundo a divindade, permanecendo pelo tempo previamente designado, outro condutor, diferente do primeiro, fá-la reencarnar neste mundo, num processo que deve durar muitos séculos terrestres. Mas esta via não é aquela que Telefo descreveu em Ésquilo; <um caminho simples conduz aos ínferos>. Não é nem único nem simples; se o fôra, não haveria a necessidade de um guia, porque ninguém pode se extraviar quando o caminho é um só; tem, ao contrário, muitos rodopios e encruzilhadas, como infiro dos nossos ritos sagrados. A alma em posse de sabedoria e temperança segue seu guia por vontade própria, pois sabe que é afortunada; mas as almas que estão por demais apegadas ao corpo mortal e pelas paixões carnais, como antecipei, fazendo de tudo para não se desvincularem do mundo visível enquanto podem, têm de encarar muitos sofrimentos e pôr sua resistência à prova, antes do daemon escolhido para conduzi-la conseguir movê-la a bel prazer. Quando as almas do segundo tipo chegam ao sítio onde se reúnem todas as almas sem exceção, no caso das almas ainda mais impuras que a mediania (isto é, manchadas por crimes atrozes como o assassinato), todas as demais lhes fogem, de asco; ali, as piores dentre as almas se encontram sem companhia e sem guia; andam errantes e abandonadas, sendo a necessidade seu guia subjacente, até as aflições a que fazem jus. Mas dizia eu, a alma que viveu guiada pela moderação e pela pureza tem nos próprios deuses companhia e orientação. Há uma infinita variedade de lugares diferentes nos ínferos, tal qual mal se pode imaginar. Seria perda de tempo tentar descrever essas regiões inacessíveis para nossos sentidos.

Então Símias disse:

– Mas que dizes, Sócrates? Já ouvi muitas histórias a respeito destes confins, mas nenhuma delas se assemelha a tua descrição. Continuarei a te ouvir, com bastante antecipação.

– Para contar-lhe mais a respeito, meu caro, creio não haver a necessidade da arte de Glauco.” (*)

(*) “Glauco foi um ferreiro muito hábil. Esta comparação era um ditado popular na época de Platão. Dizia-se sempre que a intenção do interlocutor era expressar como alguém fazia com excelência algo muito difícil.” Portanto, descrever o ciclo da alma não era coisa tão difícil quanto se imaginava: Sócrates não se gabava de poder contar acerca destes mistérios, como se fôra algo de miraculoso. Não é preciso saber o moonwalk para elevar-se, dançante, aos astros!

– Em primeiro lugar – continuou Sócrates –, estou persuadido de que se a terra está em meio ao céu e é esférica, não tem necessidade seja do ar ou de qualquer outro apoio, como se sem ele fôra cair; senão que o céu mesmo, que a rodeia por todos os lados, e seu próprio equilíbrio, bastam para que se sustenha, já que tudo o que se encontra em equilíbrio, submetido a uma pressão que é semelhante em todos os espaços, não pode tender a uma direção ou outra, nem estar em movimento. Acredite, disso estou convicto.

– E parece que com razão – redargüiu Símias.

– Por outro lado, estou também convencido de que a terra é muito grande, e que nós só habitamos a parte que se estende desde o rio Fásis, além da Cólquida, a leste,¹ até as colunas de Hércules, a oeste, sendo nossa situação parelha à de um formigueiro sediado na beira da praia ou de rãs habitantes das margens de um lago. Há mais povos, nativos de regiões de nós incógnitas, porque creio que a superfície da terra seja habitada mais ou menos uniformemente, havendo cavernas de todas as formas e dimensões, preenchidas de vapores e densos ares, como também de águas que para ali afluem de inumeráveis partes. Mas a terra mesma está no alto, nesse céu mais puro,² mais perto dos astros, espaço que a maior parte dos físicos designa como Éter, sendo o ar que respiramos mero sedimento, pequena porção mais grosseira, do éter total. Como que alojados no fundo de uma caverna relativamente muito pequena, que julgamos gigantesca, nós cremos resolutamente habitar o sítio mais elevado da terra. Comparo esta prepotência com a de um morador das profundezas do oceano que se julgasse sobreaquático [!!!]; este ignorante, vendo o sol e as estrelas através da difração das águas, pensaria se tratar o próprio mar do elevado firmamento. Mas como alguém pesado e débil para subir e constatar outra coisa poderia pensar de modo diferente, sem ter ao menos quem lhe ensinasse o mais correto? Repito: nossa situação não é muito distinta. Confinados no fundo duma gruta, cremos habitar os píncaros do mundo. Julgamos que este ar que respiramos é emanação do céu mais puro, o verdadeiro céu, o mesmo céu em que os astros, perfeitos, praticam suas revoluções imorredouras. Vê-se bem que a causa de nosso erro é que nosso peso e nossa fraqueza nos impedem de nos elevarmos por sobre o ar, pois se um homem pudesse planar e investigar essas alturas, dotado de asas, logo que metesse a cabeça para fora de nosso espesso e impuro ar se daria conta de como a próxima estância é radicalmente diversa, como o próprio habitante das profundezas oceânicas, na hipótese de poder boiar até a superfície, acharia o mundo fora d’água muito mais maravilhoso que o seu de origem. Mas ele se enganaria pomposamente ao pensar que nossa caverna tão rebaixada seria o real firmamento máximo! A terra que pisamos, as pedras, as cercanias donde habitamos, está tudo corroído e degenerado, como o está ainda mais tudo que sofre a ação erosiva das águas salinas. No mar as coisas nascem repletas de imperfeições e feias; tudo não passa de cavernas informes e desajeitadas, areia, limo; o mais puro deste <terceiro mundo>³, portanto, é comparável ao esterco de nosso microcosmo. Quem poderá dizer, por conseguinte, o quanto as dejeções do mundo mais alto não superam nossas maiores maravilhas?

¹ Atual Rússia ocidental.

² Acima do nível do mar.

³ Neste parágrafo (tão extenso) recorri a uma tradução bastante livre!

…Habitada por toda classe de animais e por homens espalhados uns pelos campos, outros ao redor do ar, assim como nós estamos situados circundando o mar. Há quem habite em ilhas, que o ar forma próximo à terra, isto é, ao continente da morada mais alta, a verdadeira terra; o ar (falo do nosso ar) é para eles o que a água é para nós; útil, de alguma forma, inútil, de tantos outros ângulos, mas, como quer que seja, pesado demais para que vivam dentro dele ou que nele afundem em explorações vãs”

* * *

Homero e a maior parte dos poetas chamam este lugar de o Tártaro. Ali é aonde a água de todos os rios de nossa superfície conflui”

há quem corra em círculos, e que depois de haver dado uma ou mais voltas na terra explorável, tal qual as serpentes que se enroscam sobre si próprias, descendendo o máximo de que são capazes nos buracos, penetram, por assim dizer, o abismo, até, quando muito, pela metade”

Quanto às águas que contornam este mundo subterrâneo e servem de fronteiras inexpugnáveis entre seus moradores e nós próprios, são de 4 classes: a mais ampla e mais exterior de todas é o Oceano, o Grande Rio do mundo. Depois vem o Aqueronte, de corrente contrária, percorrendo ermos, em passagens subterrâneas, despejando-se finalmente na lagoa Aquerúsia, região habitada por grande parte das almas dos mortos, não eternamente, é claro, como já o expliquei. Mas olvidei-me de explicar que entre o Aqueronte e o Oceano na verdade há um terceiro rio, que não muito longe de sua nascente deságua num local banhado em fogo, ali formando um lago maior que o próprio Oceano que nos envolve”

Vejam que já é tempo das minhas abluções, porque me parece que é melhor não beber o veneno até estar completamente limpo; assim pouparei as mulheres do trabalho de lavarem meu cadáver.

(…)

– Bem, Sócrates, não tens nada que nos recomendar no que se refere a teus filhos ou qualquer outro negócio que deixas para trás?

– Nada, Críton, além do que sempre vos recomendei, ou seja, cuidar de vós mesmos, o que é um serviço também a mim, a minha família e sumamente a vós próprios; mas chega de palavrório, não é preciso promessas! Vede que por mais que me prometêsseis seguir pelas mais justas das veredas, se acabáreis por abandonar o caminho da justiça, abandonando assim a vós mesmos, de nada terá adiantado dardes a palavra.

– Te asseguro que pelo menos nos esforçaremos ao máximo – respondeu Críton – para agir conforme teus preceitos; agora, como queres que te enterremos?

– Como quiserdes – atalhou Sócrates –; contanto que se satisfaça a lei.

E, sorrindo de si para si e nos olhando atentamente ao mesmo tempo, tratou de dizer:

– (…) E todo esse longo discurso que acabo de vos dirigir a fim de que saibais que após beber a cicuta já não estarei convosco, mas que ao fazer isso rumarei à felicidade dos bem-aventurados – eu estava prestes a dizer, Críton, por vossas reações: parece que disse tudo isso em vão!

Depois que terminou seu banho, levaram-lhe seus filhos; tinha 3, dois mui jovens e um já crescido. Com eles entraram todas as mulheres da família.”

MACHACAR, EMPODERAR

Nós somos cicutas ambulantes, precisamos ser esmagados a fim de demonstrarmos todo nosso potencial.

– Muito bem, meu amigo; é preciso que me digas agora que tenho eu de fazer; porque só tu podes dizê-lo.

– Nada mais – disse-lhe este homem da polis –, além de te pores a passear pela tua cela, depois de beberes a cicuta, até que sintas que teus membros inferiores estão fracos; aí então, te deitarás.

Ao mesmo tempo, estendeu-lhe a taça. Sócrates tomou-a, Equécrates! sem expressar nenhuma emoção, tranqüilo, sem mudar de cor nem semblante; e, fitando o homem do qual falei, o ateniense encarregado da execução, com olhos firmes e serenos, como de costume, disse-lhe: é permitido fazer a libação usual com o que resta desta beberagem?”

Que fazeis, amigos? Não foi o temor dessas debilidades inconvenientes que motivou a retirada das mulheres deste aposento? Por que é que sempre ouvi dizer que se deve morrer escutando palavras lisonjeiras? Mantende-vos tranqüilos e dai provas de mais firmeza.

(…)

Sócrates, que estava caminhando de lá para cá, disse que já sentia desfalecerem-lhe as pernas, então se pôs de costas no leito, justo como fôra ordenado. Neste ínterim, o homem que lhe instruíra e lhe dera o veneno havia se aproximado do condenado, para examinar os pés e as pernas. Apertou um de seus pés com força, perguntando se sentia o apertão. Sócrates replicou que não. Estirou as duas pernas e, levando suas mãos mais acima, fez-nos ver que o corpo já gelava e endurecia. Ao depositar as mãos sobre seu coração, disse que no momento em que o veneno atingisse o órgão, Sócrates deixaria de existir.”

Críton, devemos um galo a Esculápio; não te esqueças do tributo.” (*)

(*) “Sacrifício em ação de graças ao deus da medicina, que, no momento da morte, livrava o finado de todas os males da vida.”

Eis, Equécrates, as últimas horas de nosso amigo, do melhor homem, é seguro dizer, que Atenas conheceu em nossa geração; não só isso, mas o mais sábio e o mais justo de todos os homens conhecidos.”

EUTIDEMO OU DO DISPUTADOR, OU DA MENTIRA SOFÍSTICA FRENTE À VERDADE DIALÉTICA

Tradução de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego de Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

 

“SÓCRATES – (…) Com respeito a sua ciência, asseguro-te, Críton, que é uma maravilha, porque de tudo eles sabem. Eu ignorava o que fossem atletas consumados; mas aqui tens estes, que conhecem toda sorte de lutas, não como os dois irmãos acarnânios¹, que só se sobressaem nos exercícios físicos, mas que se destacam, além de nesse gênero corporal, mais mais, e sobretudo, nos duelos mentais, não cessando de combater até montarem por sobre seus adversários, que ficam irremediavelmente vencidos; e o mais admirável é que sabem manusear todos os tipos de armas, e por simples pagos transmitem ao mundo inteiro esse conhecimento, sem contar que são invencíveis em matéria jurídica, e ensinam a advogar e a compor defesas forenses. Até agora só me eram hábeis nessas poucas coisas, mas hoje descobri que retêm também o segredo universal das justas, inventando inclusive uma nova, onde é claro que são invictos, e, se não superam todos os adversários do mundo, ao menos não são tampouco superados por ninguém, e com os mais competentes se igualam. Tudo pode ser combatido, seja quimera ou realidade. Assim, Críton, confio em ti; e me disporei a servir-lhes, pois prometem transformar qualquer cidadão, em mui pouco tempo, nalguém tão sábio em sua própria arte disputatória quanto eles mesmos.”

¹ Da Acarnânia, região mais ou menos central e montanhosa da Grécia. Devia se referir a lutadores famosos da época, pois sua fama atravessava as cidades da Magna Grécia.

“O que temo é que um aluno da minha idade já não passe de alvo de chacotas, igual me acontece diante de Connos¹, o professor de cítara, filho de Metróbio², que até hoje me dá aulas, e na presença de quem, ao lado de muitos jovens, meus colegas de classe, sou tratado com motejos, e Connos chamado de <pedagogo de velhotes>. Temo, pois então, que estes estrangeiros também exponham o ridículo de minha situação e nem queiram me receber.”

¹ Não encontrei uma possível tradução, conservando o nome como está grafado na edição espanhola de Azcárate. Encontrei, porém, uma tradução alternativa em espanhol que grafa Cono.

² Tampouco esse é um nome sobre o qual seja fácil investigar, e quase não há referência segura sobre um Metróbio fora do cânon platônico. Acrescentei o acento à segunda sílaba do Metrobio de Azcárate.

“Eutidemo e Dionisidoro¹ entraram, seguidos de muitos jovens, que me pareciam ser seus discípulos.”

¹ Dionisiodoro em algumas fontes.

“Clínias, vendo, ao entrar, que estava eu sentado e sozinho, de mim se aproximou, e como observaste, sentou-se a minha direita. Havendo-o percebido Dionisidoro e Eutidemo, pararam por um instante e conversaram entre si. De tempos em tempos fixavam suas vistas em nós dois, porque eu os observava cauteloso, de minha parte, mas ao fim se aproximaram e também se sentaram, Eutidemo mais próximo de Clínias, e Dionisidoro a minha esquerda.”

“Aqui tens, meu querido Clínias, dois homens, Eutidemo e Dionisidoro, que não se ocupam de bagatelas e que têm um perfeito conhecimento da arte militar, e do que se deve praticar a fim de ter um bom e maleável exército.”

“Eutidemo e Dionisidoro como que se compadeceram ao ouvir-me falar nesse tom, e, entreolhando-se, caíram na risada. Eutidemo, conduzindo-se a mim, assim falou:

– Nós não levamos a sério estas coisas, Sócrates; são mero passatempo.”

“- Estamos convencidos, Sócrates – me disse –, de que ninguém pode ensinar tão fácil ou rapidamente a virtude quanto nós dois.

– Por Zeus! – exclamei –; que dizeis? Ó! Como haveis chegado a semelhante descoberta? Eu cria que só sobressaísseis na arte militar, como antes manifestei, e só nisso é que vos enaltecia; lembro-me ainda de que quando viestes à primeira vez a Atenas, vos apreciáveis, senhores, somente de dominar esta ciência, disso estou seguro. Mas se possuís ainda a de transmitir a virtude aos homens, sejais propícios, saúdo-vos em nome dos deuses, e peço-vos como já o pedi. Apenas atenção, Eutidemo e tu, Dionisidoro, para não nos enganardes; e não estranheis que a magnitude de vossas promessas me ponha um pouco incrédulo.”

“desejamos apaixonadamente que seja o melhor dos homens. É filho de Axíoco, neto do antigo Alcibíades, primo-irmão do Alcibíades agora vivo, chamado Clínias.”

“- Quem aprende, Clínias, é sábio ou ignorante?

O jovem, como se a pergunta fosse difícil, ficou vermelho, e me olhou, aturdido. Vendo sua vexação, acudi-o:

– Ânimo, Clínias! Responde com resolução aquilo que o melhor te pareça, porque esse é o melhor procedimento. Vamos.

            Não obstante, Dionisidoro, inclinando-se até mim, rindo-se, me disse em cochicho:

– Sócrates, responda ele o que responder, cairá no laço.”

“Eutidemo se preparava para desferir um terceiro golpe em Clínias, como se faz na luta, mas, vendo-o quase que encolhido, acuado à parede, cheio de discursos contraditórios reverberando na cabeça, tive eu compaixão deste ser, e intervim primeiro:

– Não te assustes, Clínias, nem esmoreça perante essa maneira de conduzir-se o debate, só por não se estar acostumado. Creio que ainda não desvendaste a real intenção destes dois estrangeiros; querem fazer contigo aquilo que os coribantes¹ promovem com os que estão apenas sendo batizados nestes mistérios. Não foste tu admitido neste culto, em cerimônia cheia de jogos e danças? De modo análogo, estes dois estrangeiros dançam e jogam ao teu redor, a fim de iniciar-te. Imagina-te que são prelúdios para os mistérios dos sofistas, porque, em primeiro lugar, como Pródico ordenara, é preciso saber a propriedade das palavras. Isto é o que estes dois estrangeiros te estão ensinando. Ignoravas até então que aprender significa adquirir um conhecimento que não se tinha antes, e o mesmo quando, depois de haver adquirido o conhecimento de uma coisa, se reflete por meio deste conhecimento sobre esta mesma coisa, não importa se um fato ou mera idéia.

¹ Os barulhentos e festeiros sacerdotes da deusa Cibele.

“chamo de jogo porque, ainda que se soubesse um número enorme desses objetos, ainda sabendo-os todos, aliás, nem por isso estar-se-ia isento de cair em ciladas ou ser-se-ia o mais hábil no quesito conhecer. Em verdade, fácil é surpreender as gentes, valendo-se de equívocos, como aqueles que passam uma banda para derrubar os passantes desprevenidos, ou que retiram furtivamente o assento de quem está prestes a sentar-se, dando ocasiões fortuitas de riso à multidão que assiste a cena. Considera, ó Clínias, tudo que se passou até agora como uma simples brincadeira destes dois estrangeiros. O sério virá depois, e nessa hora eu, primeiro, pedirei que cumpram a promessa que fizeram no começo.

“o desejo íntimo que tenho de aproveitar-me de vossos ensinamentos me impede de tratar-vos com a devida circunspecção. Reptio que tanto vós como vossos discípulos deveis ter paciência para escutar-me, e sem rirdes-vos!”

“não é garantido que quem menos trabalha menos erra? que quem menos erra, menos sofre? que quem menos sofre, em exata proporção, é o menos desgraçado?”

“- Então, Clínias é ou não é sábio?

– Diz ele não sê-lo ainda, porque é um raro jovem sem soberba.

– Quereis, pois, que Clínias seja sábio e não ignorante?

– Óbvio.

– Destarte, quereis que venha a ser o que não é, e que não mais seja o que agora é?”

“posto que quereis que Clínias não seja, em seu devir, o que agora é, quereríais que ele não mais fosse (e morresse)? Veja que grandes amigos e excelentes espécimes desejam o fim de uma pessoa, de um seu tão querido semelhante!”

“- As coisas que não existem, não existem de forma alguma?

– De forma alguma.

– Mas pode um homem agir sobre aquilo que não existe, ou fazer o que não existe sob qualquer forma?

– Eu não o creria – respondeu Ctesipo.

– Quando os oradores disputam com o povo, nada fazem?

– Fazem algo.

– Se fazem algo, então agem.

– Sim.

Disputar é agir, é fazer.

– Sem dúvida.

Ninguém diz o que não é, porque faria alguma coisa, e acabaste de me confessar que é impossível nada fazer, com respeito ao que nem sequer existe. Então, segundo tua própria opinião, ninguém pode dizer falsidades; e se Dionisidoro falou, falou então coisas verdadeiras, efetivamente existentes.

– Por Zeus! – respondeu Ctesipo –, Dionisidoro disse o que é, mas não disse como é.

– Que dizes? Ctesipo – respondeu de imediato Dionisidoro –; por um acaso alguém descreve as coisas como elas são?

– Sim – completou Ctesipo –, e estes são os homens de bem, os verazes.

– Mas – replicou Dionisidoro –, o bem não é bem, e o mal não é mal?

– Aham.

– Não acabaste de dizer que os homens de bem dizem as coisas como elas são?

– Disse-o.

– Portanto, os tais homens de bem não dizem o mal, posto que dizem as coisas como são?

– É isso mesmo, por Zeus! – replicou ainda Ctesipo –, e falam mal principalmente dos homens maus, e te policia para não seres deste número, a fim de evitar que falem mal de ti. Não és ingênuo a ponto de ignorar que os bons falam mal dos maus!

“é menor a perda dum velho que a de um jovem, e assim entrego-me a Dionisidoro como a uma segunda Medéia de Colcos. Que me mate, que me apoquente o quanto quiser, contanto que ao fim me faça homem de bem.”

“Então Dionisidoro tomou a palavra:

– Acreditas tu que haja alguma coisa que admita a contradição?

– Sim, creio-o; mas tu, Dionisidoro, não crês igualmente?

– Te desafio a me comprovar que já hajam existido dois homens que se contradiziam um ao outro.

“- Incorriríamos em contradição, quando um diz uma coisa como ela é, e o outro uma coisa distinta, resultando em que um fale duma coisa, e o outro de outra? Se houvesse neste caso contradição, aquele que não diz nada, contradiz o que diz algo?

            A isto Ctesipo não respondeu. E eu continuava estupefato diante do que meus ouvidos ouviam.”

“- (…) Não é o teu propósito fazer ver que é impossível dizer o falso, e que é preciso necessariamente que se diga a verdade quando se diz, ou então que se não diga nada?

            Dionisidoro confessou-o.

            Acrescentei:

– Isso quer dizer que não se pode dizer o falso, e que só se o pode pensar?

– Nem mesmo pensar – disse ele, convicto.

– Então é impossível formar juízos falsos?

“-…se alguém enganasse, seria por ignorância?

– Decerto.

– Mas isto é impossível!

– Decerto que não.

– Por favor, Dionisidoro, diz-me: quando assim falas, tu o fazes por divertimento, e para nos pregar uma peça, ou crês efetivamente que não há ignorantes no mundo?

– Prova que eu incorro em erro!

– Como se há de redargüir-te, se insistes em que não é possível o erro?”

“- Estás gagá, caro Sócrates – replicou Dionisidoro –, ao repetir nosso argumento de outrora! Neste ritmo, se eu dissesse tal e qual há um ano, agora é que tu mo jogaria na cara; percebe que o que convém é que te fixes no que discutimos no momento.”

“- Vamos, Dionisidoro, te exorto a responder.

– Por que não queres tu responder?

– Antes? Não é justo! – repliquei por minha vez.

– Pelo contrário, meu amigo; muito justo.

– Ah! e por quê?! Sem dúvida porque, sendo tu um homem versadíssimo na arte do falar, sabes perfeitamente quando se deve responder e quando não. Elegeste, pois, não me responder, porque segundo tu, seria um erro de cálculo agora.

– Estás gracejando – disse Dionisidoro –, pois isso não é resposta que se dê. Faz o que te digo, te suplico, pelo menos se és veraz quando dizes que sou mais habilidoso do que tu.”

“são estes discursos montados de tal forma que, destruindo todos os demais, destróem, não obstante, a si mesmos, e neste aspecto encontro-vos pouco precavidos, senhores, por mais que muito admire a sutileza de vossas palavras.”

“- (…) Os geômetras, os astrônomos, os aritméticos são também caçadores; não criam as figuras ou os números; encontram-nos já feitos, e quando não sabem deles se servir entregam-nos aos dialéticos para que estes façam bom proveito.

– Ó, Clínias, tu, o mais elegante e sábio dos jovens, estás seguro do que dizes?

– Mais impossível; tanto, pelo menos, quanto os generais de exército assim que terminam de se apossar de uma praça ou de um país inteiro, abandonando-o em seguida aos políticos”

“CRÍTON – Brincas então, Sócrates? É mesmo possível que Clínias tenha dito o que acabo de ouvir de tua boca?

SÓCRATES – Duvidas?

CRÍTON – Sim, por Zeus!, duvido, porque se assim se expressou não deveria se preocupar em buscar-se alguém como Eutidemo nem qualquer outro para mestre.”

“Mas, iguais àquele que, explorando o labirinto, crendo estar próximo à saída, vê-se de repente e novamente num beco, como ao princípio da exploração, e como se nenhum progresso tivesse na prática realizado — assim de fatigados e frustrados nos sentíamos.”

“Vendo que a arte militar e todas as demais ciências submetem suas realizações à Política, como única ciência capaz de manejá-las, críamos ser desta ciência que estávamos nas pegadas, sendo seu conhecer sinônimo de reter a causa da felicidade pública e até, como diz Ésquilo, de agradar a todos, pois que o cumprimento do interesse geral dela decorre como que automaticamente.”

“A arte de reinar, a que todos estão submetidos, exceto o rei, faz algo ou não faz nada?”

“A obra principal da Política parece ser a riqueza, a liberdade e a união dos cidadãos. No entanto, nós demonstramos que nenhuma dessas coisas é um bem, nem, em verdade, um mal em si. Por conseguinte, é preciso que a Política, se quiser ser uma ciência de fato útil, capaz de tornar o homem feliz, torne os homens sábios.”

“SÓCRATES – Mas a ciência de reinar, faz dos homens bons e sábios?

CRÍTON – Que teria eu a objetar, Sócrates?

SÓCRATES – Faz de todo mundo bom em tudo, proporcionando aos cidadãos todos os saberes, como por exemplo a arte de curtir o couro, ou a de carpir o solo, bem como todas as demais?

CRÍTON – Sócrates, estou convicto de que ela não faz tudo isso.”

“Mas então qual é a utilidade e qual a vantagem de haver homens virtuosos? Diremos que eles se fazem fonte de inspiração, espalhando imitadores por aí; e imitadores dos imitadores, por toda a polis? Mas como avaliar sua qualidade e utilidade total, se não sabemos todos os produtos derivados da Política? Vê como até aqui só nos repetimos sem cessar!”

“-…Estais dizendo-me que se eu sei uma coisa, logo é preciso que saiba todas elas, porque é impossível ser ao mesmo tempo sábio e ignorante, e que se eu sei todas as coisas, necessariamente, possuo também esta ciência? Assim raciocinais, e é isto aquilo que chamais <verdadeira sabedoria>?

(…)

-…Vamos com isso: quereis dizer que há coisas que sabeis, e coisas que não sabeis?

– Não – me respondeu Dionisidoro.

– Como é? – repliquei – então não sabeis nada?

– Sim.

– Uma vez que saibais alguma coisa, sabereis todas?

– Sim, nós sabemos todas as coisas, e tu as sabes igualmente, se é que sabe algumas.

(…)

– Diremos que todos os homens sabem tudo, desde que, é claro, saibam uma só coisa.

– Pelos deuses do Olimpo!, agora sinto que atendêsteis por fim minha súplica, e que falais a sério; mas voltando, é assim tão certo que vós sabeis todas as coisas? Sois tão bons carpinteiros quanto sois toneleiros?

(…)

– Não ignorais o número dos astros no céu, nem o de grãos de areia, quero crer?!

– Tudo isso abarca nosso imenso conhecimento. Crês que blefamos?”

“Isto me deu uma brecha para perguntar a Eutidemo se Dionisidoro sabia dançar.

– Eutidemo me assegurou que sim.

– E saltaria ele de ponta-cabeça sobre espadas desembainhadas? Faria o número da roda? É bem exigente segundo sua idade o exercício, mas não disseste que ele possui esta ciência?

Não há nada que Eutidemo ignore – respondeu.”

“- Como é que passas a bancar o inquisidor, Sócrates, quando és tu o interrogado?

– Confesso minha culpa, mas que queres que eu faça? Manda, e só me restará obedecer-te, ainda que não saiba bem com quê responder. É que exiges que eu responda e que nunca interrogue de volta.”

“- Não responderei, por Zeus! – exclamei –, sem que saiba aquilo que me é perguntado.

– Não respondes sempre de acordo com o que pensas de verdade, porque não fazes mais que jogar e bancar o néscio.”

“Me lembrei, na hora, de Connos, que sempre se aborrece comigo, porque nunca faço o que ele quer de mim”

“- Responde, então: o que sabes, sabes por meio de alguma coisa ou de nada mais?

– Sei-o mediante meu espírito.

– Ora, eis aqui um homem que responde sempre mais ainda do que se o pergunta! Não te havia perguntado por que o sabes, mas se o sabes mediante algo.

– Minha ignorância é o que me faz responder mais do que aquilo que me foi perguntado; mas te peço perdão; agora te responderei com exatidão, dizendo: sei-o por meio de algo.

– Mas sabes-lo sempre por um mesmo meio ou tanto por um meio quanto por outro meio qualquer?

Quando eu sei, é sempre por meio da coisa mesma pela qual eu sei.

– Nunca respondes nada sem acrescentar alguma coisa! – exclamou o homem, impaciente.

– Ora – fiz questão de objetar –, é por temor de que esse sempre que usaste nunca nos engane!

– Não digas <nos engane>, apenas <me engane>. Responde agora, sabes sempre pelo mesmo meio?

– Sempre, posto que é preciso extrair da resposta aquele quando.

(…)

Por este meio – continuei –, é como eu sei tudo o que eu sei.

(…)

– Com efeito, Eutidemo, eu sei tudo, ao que parece, se não levares em conta a parte da frase, daquilo que eu sei.

– …Disso se depreende, Sócrates, com toda a segurança, que, quando criança, quando nasceste, aliás, antes de nascer, inclusive, e antes do mundo ser mundo, sabias desde já todas as coisas, pois sabes sempre; e, em nome de Zeus no Olimpo, sabê-las-ás todas, e sempre, sempre que eu quiser.

(…)

– Faz muito tempo que disso eu já sabia, mas não foi isso que eu perguntei, e sim em que momento, eu aprendi que os homens de bem são injustos.

– Isso tu não aprendeste, replicou Dionisidoro.

– Logo eu não sei.

Neste ponto, Eutidemo interveio:

– Dionisidoro, assim tu pões tudo a perder; não vês que cedendo neste ponto fá-lo ao mesmo tempo sábio e ignorante?

            Dionisidoro ficou corado. E eu, dirigindo-me a Eutidemo:

– Que dizes tu? Como é que teu irmão respondeu tão mal, quando sabe todas as coisas?

            Dionisidoro replicou energicamente:

– Eu, dizes, irmão de Eutidemo?

(…)

– …Eu não sou tão forte quanto Hércules, que nem ele mesmo poderia resistir à Hidra, uma mulher sofista que apresentava muitas cabeças inauditas, sempre que se lhe cortava uma antiga; e nem a Câncer (Caranguejo¹), outro sofista, procedente do mar, que não desembarcou faz muito tempo, creio eu²; e Hércules, acossado tão de perto, não teria podido vencer sem o socorro de seu sobrinho Iolau, que veio tão a contento…

– ….Responde-me então: Iolau seria mais sobrinho de Hércules que teu mesmo?

(…)

– Quer dizer então que Pátroclo é o teu irmão?

– Sim, irmão de mãe mas não de pai.

– De maneira que é teu irmão e não é teu irmão?

– Isso; não é irmão paterno, porque seu pai se chamava Queredemo, e o meu, Sofronisco.”

– Queredemo era pai, e Sofronisco também??

– Sem dúvida; Queredemo era pai de Pátroclo e Sofronisco era meu pai.

– Queredemo era outra coisa senão pai?

– Sim, outra coisa, posto que não era meu pai.

– Era pai sendo outra coisa que pai? Ou és uma pedra, tu?

– Temo que me pareça excessivamente com uma pedra a teus olhos; por mais que uma eu não seja.

– Tu és algo mais que uma simples pedra?

– Ah, por Zeus! Sou!

– Se és algo mais que uma pedra, não és, portanto, uma pedra; e se és outra coisa que não o ouro, não és ouro.

¹ Animal que, na Grécia, representa a fecundidade.

² Alusão enigmática.

“Por conseguinte, Sócrates, tu não tens pai.”

“- Tem o cuidado, Eutidemo, de não misturar, como reza o provérbio, alhos com bugalhos.¹”

¹ Solução que julguei apropriada para o dificílimo original: “no mezclar, como dice el proverbio, cerros con estopas”.

“O cão é pai e teu, logo é teu pai, e portanto és irmão dos filhotinhos.”

“- Mas Eutidemo, vosso pai, que é pai de todos os cães da terra, tirou algum proveito de vossa incrível sabedoria?

– Nem ele nem tu, Ctesipo, tendes tanta necessidade assim do bem.”

– …Crês que será um bem ou um mal para um doente tomar uma bebida restabelecedora da saúde? E um homem que sai para guerrear, faz melhor em levar armas ou em não levá-las?

– Até aí bem o creio; mas daí imagino-me que darás um salto inconcebível…

– Assim tu julgas que farei, mas antes responde-me: uma vez que confessas que seria bom para um doente tomar uma bebida, quando dela tem precisão, faria ele bem em tragar o máximo de quantidade possível, e todo o suco proveniente de um carregamento inteiro de heléboro, chegando assim a proporcionar-se um bem extraordinário?

– Com a condição, Eutidemo, de que o doente fosse corporalmente tão grande como a estátua de Delfos.

– E uma vez que é conveniente armar-se quando se vai à guerra – continuou impassível Eutidemo –, não se deve transportar o maior número possível de lanças e broquéis¹?

– Estou plenamente convencido – disse Ctesipo –; mas tu, Eutidemo, não crês; contentar-te-ia, pelo contrário, em levar contigo uma só lança e um só broquel.

(…)

– …Eutidemo, sendo como sois vós mestres das armas, concebia-vos mais hábeis, teu irmão e tu.

¹ Escudos

Nada é, Eutidemo! Penso que tu mesmo em nada crês disso tudo; que teus sentidos possam ver. Em verdade, caro contendor, pode-se dizer, sonhas desperto, e se é que é possível falar e não dizer nada ao mesmo tempo, julgo-te perito em fazê-lo.”

“- E tu calas as coisas que falam? Porque entre todas as coisas estão aquelas que falam.

– Mas – Ctesipo interpôs –, calam todas as coisas?

– Não, decerto – atalhou Eutidemo.

– Logo, meu querido, todas as coisas falam.

As que falam.

– Não é isso que questiono – disse Ctesipo –, porém: se todas as coisas calam ou se todas as coisas falam.

– Nem um, nem outro, e um e outro de uma vez – disse Dionisidoro, imiscuindo-se precipitadamente na disputa –; e certamente nada tens a opor a esta resposta.

            Ctesipo, seguindo seu costume, começou a rir.

– Ah, Eutidemo! – exclamou –; teu irmão ignora o chão em que pisa, já perdeu a discussão por todos os lados.

            Clínias, comprazendo-se com o discurso de Ctesipo, olhou-o sorrindo, e Ctesipo, recompondo-se, pareceu ser 10 vezes maior do que fisicamente é.

            No que tange a mim, vi, logo que eclodiu a piada, que Ctesipo, empreendendo seu tempo utilmente em ouvi-los, aprendeu em pouco tempo, e voltava agora o feitiço contra os feiticeiros; porque, no mais, é preciso convir que a sabedoria de Eutidemo e de Dionisidoro não tem igual no mundo.

“- Não consideras animal ao dotado de ânima (alma)?

– Por evidente – respondi.”

“- Diz-me, Sócrates, não tens um Zeus paternal?

            Sem duvidar eu sobre onde queria chegar meu interlocutor, e onde acabou efetivamente por chegar, busquei um subterfúgio a fim de evitar cair no laço preparado para mim, então lhe disse:

– Não o tenho, Dionisidoro.

– …Tens certeza que és ateniense? Como assim não tens deuses, nem fazes sacrifícios familiares, nem participa destas belas coisas?

(…)

– Nem os jônios – foi minha resposta –, nem todos os que procedem de Atenas, conhecem semelhante nome. Temos um Apolo paterno, pai de Íon; mas nós não chamamos Zeus de pai, chamamos-lhe protetor de Atenas, guardião sobre nossas tribos, assim como Atena mesma é a guardiã.”

– Não são estes deuses animais? Têm anima, por certo, e tu convieste que tudo o que tem alma é animal.

– Sim, têm uma alma.

– Logo são animais.

– De acordo, animais.

– Dizias, porém, que eras dono dos teus animais, e que podias vendê-los e sacrificá-los.

– Não posso negar que confessei-o.

            Então, animado, Dionisidoro soltou:

– Posto que dizes que Zeus e os outros deuses são teus, é-te permitido vendê-los a teu próprio capricho ou doá-los como animais quaisquer que um cidadão possui?

(…)

– Ah, Poseidon! – exclamou Ctesipo, sem poder mais se conter –, abandono o ringue; estes homens são invencíveis.

            Daí em diante, amigo Críton, nenhuma das testemunhas presentes deixava de demonstrar surpresa e admiração diante do nível dos argumentos dos nossos adversários; no que Dionisidoro e Eutidemo gargalharam com tal vigor que temi até pela integridade física deles. Para dizer a verdade, muito antes dessa cena seus discípulos já haviam batido palmas várias vezes após suas bem-pensadas respostas, mas, nesta hora, cada coluna do Liceu parecia aplaudir junto. Quanto a mim, confessarei, ingenuamente, nunca haver conhecido personagens tão hábeis; tão apreciador me tornei de sua imensa sabedoria, fui pródigo em elogios.

 A dialética é um prato que se come ora quente, ora frio, mas ao cabo morno.

“sei, acho, que só os que se parecem convosco são capazes de estimar vossa ciência. Poderia assegurar-vos que o resto dos homens a deprecia a ponto de achar mais embaraçoso sair por aí ganhando discussões desta maneira que simplesmente se deixar ser convencido de uma vez. (…) Falai só entre vós e vossos amigos, e não ensineis essa ciência por outra razão que não a financeira; e, se quereis mesmo que prossiga em meus conselhos, preveni vossos discípulos de praticar com os de fora do vosso círculo, porque já sabeis que a escassez aumenta o preço da commodity. A água, como diz Píndaro, é excelente; mas por ser tão abundante não é devidamente valorizada. No demais, fazei-nos, a Clínias e a mim, o favor de receber-nos no número de vossos discípulos.

– Por que apreciável? Nenhum proveito se consegue tirar dela. Se tiveras comparecido a esta polêmica, compadecer-te-ias de teu amigo, porque é deveras ridículo, tendo ele tomado por mestres estes sofistas. Toda a suposta ciência desses <mestres> não é mais do que um imenso jogo de palavras; a essa altura do campeonato, já renunciaram completamente a chegar ao sentido das coisas. Qualquer um que resolva se consagrar a esta profissão, é forçoso que passe a vida entregue a tais sutilezas. Para ser sincero, Críton, a filosofia, como aqueles que a ela se consagram, é um conjunto de frivolidades e ridiculices.

– Eu não vejo como, caro Sócrates, se possa falar tão mal desses estudos, nem ele nem ninguém, ainda mais porque ele parece ter empregado muitos desses estudos a fim de criticar os próprios contendores de praça pública, estes que vivem em richas com os estrangeiros.

“Se a filosofia é uma coisa boa e o é também a ciência política¹, e ambas têm fins divergentes, os que participam de uma e da outra e que se encontram entre as duas não são nem tão bons quanto os filósofos, nem tão bons quanto os políticos; e se a filosofia é um bem e a política um mal, serão melhores que os primeiros, mas piores que os segundos; e se por um acaso trata-se de dois males, aí sim é que estarão certos, mas só assim. (…) Estes semi-políticos e semi-filósofos não podem tomar assento senão após os filósofos e após os políticos, mas ao invés de se resignarem com o terceiro posto, eles pretendem ter sempre o primeiro lugar.”

¹ Neste contexto, tem mais a acepção de “arte política”. No fundo, para Sócrates trata-se sempre do contraste: arte de conhecer X arte de reinar.

“CRÍTON – (…) quando avalio aqueles que têm por profissão educar a juventude, é verdade que muito me aterram, ao me parecerem tão indignos quanto incapazes da tarefa. Não vejo por que me daria ao trabalho de educar meu filho em filosofia.

SÓCRATES – Ah, meu querido Críton! Ignoras que meio-mundo é constituído de sujeitos que desconhecem o próprio ofício?

“Não consideres, daqui em diante, se os professores de filosofia são bons ou péssimos, mas fixa-te sobre a filosofia mesma. Se a julgares má, afasta dela não só teus filhos mas todo o povo; se a vires como eu mesmo a vejo e a vi desde sempre, então aplica teus filhos neste estudo, e a ti mesmo, com todas as forças de que és capaz.”

PARMÊNIDES II: “DA NATUREZA” (O DÉJÀ-VU DO UM & CONSIDERAÇÕES LINGÜÍSTICAS)

Edição do texto grego, tradução e comentários por Fernando Santoro (UFRJ)

Projeto OUSIA

2009

PREFÁCIO

Parm. (Pm.) inaugura a Filosofia como Ontologia. Por isso, é o filósofo que lança, em palavras e pensamentos, as bases que sempre voltarão a servir de questionamento ao longo de toda a metafísica ocidental.”

Platão (Pt.) vai dedicar ao Poema 2 dos seus mais importantes diálogos, o Sofista e Parmênides (…) ainda vai citá-lo em outros 2, o Banquete e o Teeteto. Aristóteles (A.), por sua vez, dedica à discussão com o Eleata o 1º livro de sua Física, para ter condições de falar da Natureza como princípio de movimento; também discutirá suas palavras na demonstração de teses metafísicas como o princípio de não-contradição, entre outros.”

Mais de 30 autores antigos citaram Pm. em mais de 40 diferentes obras. Os fragmentos mais extensos são os mais recentes, sobretudo os de Sexto Empírico, em sua obra contra o dogmatismo (Adversus Mathematicos) (…) Simplício explica que, devido à raridade da obra em seu tempo, precisaria citá-la de forma mais extensa, para que seu comentário fosse compreendido.”

Data de 1526 a 1ª publicação do Poema Da Natureza. Supostamente, foi retraduzida a partir da versão latina de Guilherme de Moerbecke (séc. XIII). A 1ª ed. com preocupações filológicas data de 1573, empreendida por Henri Estienne, buscando recolher a obra dos primeiros filósofos: Poesis Philosophica (…) A reconstituição do Poema é continuada por Joseph J. Scaliger (…) seu texto foi encontrado por Néstor Cordero em 1980, na Biblioteca da Univ. de Leyde. (…) Somente em 1835, temos a 1ª reconstituição com os 19 fragmentos considerados autênticos, feita por S. Karsten. (…) A obra de Karsten foi o ponto de partida para as versões publicadas por Hermann Diels, desde 1897 até a última ed. dos Fragmente der Vorsokratiker, em 1951, sob Kranz (DK.) (…) Esta é a versão considerada <ortodoxa> por todos os estudiosos e editores do Poema, desde o séc. XX. (…) Coxon (1986) também teria reconstituído o texto grego a partir da consulta de diversos manuscritos, mas seu cuidado filológico é bastante contestado.” “O texto original é um objeto, para nós, tão perdido quanto o paraíso de Adão.” “Um texto como o de Pm. já não pode aspirar a uma identidade única” “Qual é o texto verdadeiro desse pensamento originário sobre a Verdade? Parece uma armadilha armada propositadamente pela História da Filosofia”

http://www.greekphilosophy.com – a internet é rápida para aposentar colossos e criar elefantes invisíveis…

DA NATUREZA

Quem é esta Deusa? Heidegger propõe que seja a própria Verdade”

B11 (1-4):

“…como Terra e Sol e ainda Lua

e também Éter agregador e Láctea celeste e Olimpo

extremo e ainda força quente dos astros impeliram-se

para vir a ser.”

B12 (1-6):

Umas são mais estreitas, repletas de fogo sem mistura,

outras, face àquelas, de noite; ao lado jorra um lote de flama;

no meio destas <há> uma divindade, que tudo dirige:

pois de tudo governa o terrível parto e a cópula,

enviando a fêmea para unir-se ao macho e de volta

o macho à fêmea.”

B13:

De todos os deuses que concebeu, Amor foi o primeiro.”

B14:

Brilho noturno de luz alheia vagando entorno à Terra.(*)

(*) Plutarco diz que Pm. designa a natureza da Lua. Dos mais belos versos gregos, Mourelatos faz uma análise de suas anfibologias. A palavra <phôs>, <luz>, tem um homônimo que significa <homem>; conforme este homônimo, existe a fórmula homérica <allótrios phós>, que significa <um estranho>.”

B18 (frag. 4-6):

…, se as potências lutam na mistura seminal,

então não fazem uma unidade no corpo misturado e, furiosas,

atormentam pela dupla seara o sexo nascente.”

Explicação deste mito em http://xtudotudo6.zip.net/arch2015-11-01_2015-11-30.html.

OS NOMES DOS DEUSES

A. chamou os que 1º se espantaram com o mundo de theológoi, <os que falam de deuses>, em seguida, oriundos do mesmo espanto, o filósofo apresentou os physiológoi, <os que falam da natureza>.”

Quem sabe não foi justamente para reforçar suas interpretações alegóricas sobre a poesia que fala dos deuses que os gramáticos alexandrinos inventaram essa distinção entre minúsculas e MAIÚSCULAS.”

Pelo tratamento próximo, pela descrição antropomórfica, pela retratação dos crimes humanos nos deuses é que os filósofos vão querer expulsar dos concursos e das cidades, a bastonadas, estes Homeros, e também Arquílocos e outros quantos. Mas o povo, ainda por muito tempo, iria tomar as dores dos poetas, mandando ao exílio e condenado (sic) à cicuta aqueles novos porta-vozes da verdade.” “O Sócrates d’As Nuvens é a síntese cômica desses novos homens altivos e irreverentes à tradição. O prenúncio do livre-pensador laico da modernidade.” “Aristófanes percebe o declínio do Sol, a passagem de uma era em que os deuses dominavam o quotidiano dos homens e assumiam a imagem das forças constituidoras do real, para uma era em que o homem começa a erigir o discurso conceitual para falar também das forças do real como natureza autônoma.

No Poema de Pm., estamos num desses lugares textuais, em que ganha clareza a transição da teogonia mítica para a ontologia filosófica; a transição da celebração dos deuses em suas gestas para os conceitos em sua determinação.”

terão esses nomes o estatuto de conceitos abstratos ou lhes daremos as maiúsculas iniciais, com que caracterizamos hoje a condição personificada de deuses? Optamos, na tradução, pelas maiúsculas, mesmo anacrônicas, para realçar estes nomes” “Nem sempre, porém, usamos as traduções ortodoxas, como em nossa tradução de moîra por Partida em vez de Destino, porque sempre buscamos um nome que expressasse um sentido integrado a uma interpretação total do Poema – princípio 1º da arte hermenêutica.”

A proximidade entre ser e dever ser, na expressão da indicação do caminho da verdade, é um traço decisivo do Poema. (…) Thémis, Norma, é a expressão de uma ordem primordial, de uma lei fundada na postulação divina. Não se trata de uma lei convencionada pelos homens, mas uma prescrição transcendente do que deve ser e do que é conforme à ordem dos deuses. (…) Sem dúvida, ainda é a tragédia Antígona de Sófocles a melhor exposição da diferença entre a lei divina dos laços de sangue e a lei proclamada pela palavra do governante. (…) Se fôra abrir mão de valores estéticos para uma tradução puramente conceitual, em vez de Norma, diria Imposição. Os homens podem agir conforme ou não a esta imposição primordial, isto lhes confere boa ou má partida no desempenho da vida.”

Providência [Oh, Robin Crusoe!] e Envio também são nomes aproximados para a Moîra.” “É preciso compreender que a Moîra não é essencialmente a determinação incontornável de um desfecho, como se todo o traçado de uma vida já estivesse predestinado em seu desígnio. Não, nenhuma Moîra é a consumação prévia do que está por vir. A Moîra é incontornável sim, e nem os deuses podem fugir aos seus limites, mas estes limites definem um campo do possível do qual não se pode escapar (…) Os limites da Moîra são os limites essenciais do ente”

DESTINO-PARTIDA:

Você já chegou, mas não partiu.

Enquanto isso, joga e se joga.

A Moîra tem como representação a experiência concreta do lote de terra próprio, a parte que cabe a cada um neste mundo. Depois que Zeus e os deuses olímpicos vencem a guerra contra os Titãs, vem a hora da partilha.”

O nome ‘Moîra’ significa a ‘parte’ móros, que fazemos ressoar no nome ‘Partida’. A partida é, de um lado, a parte separada de cada um, seu lote; por outro lado, é o momento da separação: o parto, a individuação – neste sentido, é também o envio à vigência e à vida, o início. (…) E, de certo modo, é o momento da despedida, em que é superada cada etapa da uma viagem (sic).”

Depois do discurso da Deusa acerca da Verdade, as descrições tendem claramente a um discurso sobre a natureza, não há sagas nem gestas como na Teogonia de Hesíodo” “Conhecerás a natureza do Éter e também todos os sinais que há no Éter” “Nestes poucos e curtos fragmentos temos o testemunho de uma visão astronômica resplendente e flamejante do Éter, do Olimpo, do Céu, da Via Láctea, do Sol, da Lua, da Terra.”

Nietzsche – Da Retórica (tradução de T.C. Cunha) – obra misteriosa?!

VARIAÇÕES DO VERBO EIMÍ

Talvez, uma das principais contribuições dos gregos na fundação do conhecimento como filosofia tenha sido a elaboração de um questionamento universal por meio da tematização de um único verbo em algumas modalidades específicas de conjugação. Todos sabemos que este verbo fundamental é o verbo eimí, que traduzimos usualmente pelo verbo ser em conjugações que gostaríamos que fossem mais ou menos equivalentes. Assim, temos a questão central da chamada <Filosofia Primeira> nomeada, desde o séc XVII, a partir deste verbo: é a Ontologia, ao pé da letra: o desdobramento compreensivo – a palavra – do ente, ‘ente’ que é, gramaticalmente, o particípio presente do verbo ser e, filosoficamente: a visada mais universalizante sobre a realidade. Visada determinada justamente pelo sentido que se dá a este verbo ser e ao seu particípio ente.

Acontece que o verbo grego eimí e seus sucessores nas línguas ocidentais, justamente por serem o lugar desta visada universalizante, carregam em suas costas séculos de metafísica a torná-los cada vez mais abstratos e mais vazios semanticamente, a ponto de toda sua significação vir a restringir-se a uma mera função copulativa entre sujeito e predicado. O verbo grego, contudo, tem uma gama de articulações modais, espectuais e relacionais de uma variedade e riqueza tais que não podem deixar de ser significativas, gama que ultrapassa o alcance da quase totalidade de suas traduções em línguas modernas. A ontologia grega, desenvolvida como questionamento fundamental da realidade e sua relação com o pensamento e a linguagem, soube explorar diversas dessas riquezas significativas e realçá-las de modo extraordinário (…)

Um dos mais ricos estudos sobre as variações do verbo ‘ser’ em grego (o verbo eimí) foi empreendido por Charles Kahn e publicado em 1973, The verb ‘Be’ in Ancient Greek [O verbo grego ‘ser’ e o conceito de ser], uma análise meticulosa dos vários usos do verbo eimí em Homero. Os estudos de Kahn sobre o verbo ‘ser’ incluem ainda numerosos artigos, vários deles traduzidos para o português e editados nos Cadernos de Tradução da PUC-RJ, em 1997, entre os quais ‘Ser em Parmênides e Platão’, originalmente publicado em 1988. Kahn explorou de modo sistemático a variedade das funções sintáticas do verbo eimí e elaborou uma classificação funcional dos seus usos extremamente útil para toda abordagem do problema do <ser> que se apóie em observações e considerações lingüísticas. Ainda que cheguemos a conclusões radicalmente diferentes e até mesmo opostas no que diz respeito ao sentido essencial e às interpretações genealógicas, as suas categorias aspectuais e modais nos serão indispensáveis.

particípio ón (estado/ente)

à força de uma língua não exprimir um problema, esse fica velado ou parece irrisório ou mesmo falso.”

Está provado que o verbo sein é mais filosófico!

É no mínimo curioso que Pm., o filósofo da unidade do Ser, 2º todos os manuais de História da Filosofia, seja o autor de um texto exemplar para mostrar as variações no aspecto sintático da linguagem que gestam, no séc. V a.C., o padrão ocidental de conhecimento. Não obstante, encontrarmos no seu Poema, pelo menos 4 modos distintos do verbo eimí. Espantosamente, não estão esses modos dispersos no texto, mas em situações bem demarcáveis, como em etapas de uma especial transformação. Será possível encontrar uma unidade que suporte a transformação dessas diferenças? É precisamente esse problema que gostaríamos de investigar neste estudo introdutório sobre a diversidade sintática de eimí no P. de Pm..”

O acompanhamento da passagem pelos diversos momentos dá-nos a impressão ilusória de que é o próprio verbo que está sofrendo transformações, mas o sistema verbal de eimí ‘ser’ ao tempo de Pm. já é um conjunto sincrônico em suas possibilidades. Contudo, há um sentido em que é mais apropriado pensar numa transformação diacrônica.”

Quando Júlio César quis condensar sua rápida vitória sobre Farnaces, no Bósforo, usou 3 verbos dissilábicos no pretérito perfeito, coordenados assindeticamente apenas pela posição sucessiva e por vírgulas: <Veni, vidi, vici.> (há, também, uma sub-articulação tônica <ve-vi-vi>, da vogal fechada <e> até a mais fechada <i>, (sic) isto confere uma forma – literalmente – mais pungente à frase, mais dinâmica, como um dardo sonoro). São 3 ações sucessivas que resumem a campanha do general: vim – empreendi, vi – analisei, venci – derrotei. Não faz, sentido usar o verbo ser – não estão sendo articulados atributos de um sujeito. Se J.C. atribuísse os predicados a si e não a suas ações, a frase ficaria assim: <Imperator sui, et videns et victor>, <sou um empreendedor, um homem de visão, um vencedor>. Seria um vaidoso, não um chefe militar. Teria escrito um auto-retrato e não uma narrativa épica como o De Bello Gallico. A narrativa de ações prescinde muito facilmente do verbo ‘ser’, ao passo que explora toda a gama dos verbos transitivos e de significado dinâmico.”

Somente a descrição do portal introduz uma imagem mais estática.”

(1) “Articulado com o advérbio de lugar aí, lá, o verbo ‘ser’ marca que em tal lugar estão situadas, estão presentes e permanecem firmes as portas dos cursos da Noite e do Dia. Kahn denomina essa classe de usos de valor <locativo-existencial>. Este sentido 1º do verbo ser, sentido de existência e presença, aparece em várias línguas ocidentais associado a um advérbio de lugar: esser-ci, da-sein, y-être. ´como se <existir> fosse originalmente percebido como <ter lugar no mundo>.”

(2) “Enquanto a narrativa tende a ser mimética, o discurso pretende ser efetivo, prático.”

Lingüisticamente, a diferença entre narrativa e discurso aparece sobretudo nos modos verbais e nas pessoas envolvidas na ação verbal. O modo por excelência da narrativa é o indicativo, que retrata o acontecimento. A terceira pessoa – que pode ser todo o mundo fora da relação emissor-receptor – é a que mais aparece.

No Proêmio, são usados o presente e o aoristo do indicativo – os tempos por excelência da narrativa. A pessoa verbal mais usada é a terceira – isto, apesar de a personagem que mais aparece ser o próprio narrador! O narrador, em vez de aparecer como sujeito dos verbos, aparece quase sempre como objeto direto ou, no máximo, como um sujeito de um verbo na voz passiva (vs. 4).”

No discurso, por outro lado, aparecem os demais modos verbais: optativo, subjuntivo, imperativo etc. (…) As principais pessoas usadas são a primeira (eu – nós), para desejos, pedidos, preces; e a segunda (tu – vós), para orientações, persuasões, comandos”

A verdade, como a fala da Deusa, justamente por abrir-se de forma discursiva, revela um tom prescritivo, prático e ético. Não é à toa que os caminhos que levam até a entrega da lição verdadeira são promovidos por Thémis (Norma, Lei divina) e Díke (Justiça)”

Este infinitivo usado para completar expressões modais é chamado por Chantraine de infinitivo <completivo>; nessas expressões, os verbos que o precedem são auxiliares modais de necessidade, possibilidade e outras modulações do real e das intenções sobre o real.”

presença dos pronomes pessoais sujeitos, fato que, no grego, só acontece para marcar uma ênfase na presença, na diferença e na relação interpessoal:

(…)

Pois bem, agora vou eu falar, e tu, presta atenção ouvindo a palavra.

Poderíamos antever até mesmo os primeiros passos para chegar à estrutura discursiva dos Diálogos de Pl., onde o conhecimento é tratado na interlocução viva das personagens, se não fosse aqui somente a Deusa quem fala e o homem quem apenas escuta.”

para o viajante iluminado, a transposição da ação primeira de narrador para a seguinte de ouvinte já insinua a atitude de <philía amorosa> do filósofo ante a verdade e o conhecimento, do filósofo como amante atento e obediante ao saber”

São a pensar”

(3) “fórmula exortativa equivalente a <é preciso que…>” “Os caminhos não <existem> simplesmente e estão <disponíveis>, mas <devem> ser pensados!”

Há um deslocamento do peso semântico para a força sintática, esta se torna mais concreta enquanto aquele tende a se abstrair.”

Estamos no campo de um discurso que não tem uma sintaxe normativa a obedecer, que está a falar de coisas novas, de um modo que também acaba por ser inaudito”

Wrublewski:

<…necessariamente não ser é.>

Bornheim:

<…o não-ser é necessário> [neSERsário]

Cavalcante de Souza:

<…e portanto…é preciso não ser.>

Mourão:

<…ser proibido>

Trindade Santos:

<…não é para não ser

tem de não ser>

A tradução de Wrublewski como também a de Bornheim conferem às sentenças aquela frieza tautológica de que fala Nie. em seu comentário sobre o caráter de Pm..”

Mourão (…) é paráfrase (…) Cavalcante de Souza introduz um sentido de inferência lógica (…) A tradução de Trindade Santos é a única que atenta para o tom exortativo da deusa.”

onde está o verbo enunciativo? A maioria das traduções tende a acrescentar este verbo nos versos em que ele não existe”

Estamos, de fato, diante de um momento decisivo para a instauração da ontologia, em que as formas do verbo eimí estão se mostrando em uma intensidade de possibilidades realmente ímpar.”

pois o mesmo é pensar e ser”

O mesmo é a pensar e portanto ser”

denn dasselbe ist Denken und Sein”

O mesmo está-aí para ser pensado

O infinitivo grego, por não declinar, deixa bastante aberto o campo de possibilidades”

a sintaxe do Poema é sempre originariamenteprovedora de espanto e perplexidade”

o que queremos observar é como o contexto discursivo vai deslocando o sentido primeiro existencial do verbo eimí ‘ser’, passando por sua forma auxiliar na construção modal, até possibilitar a estrutura da proposição categorial, como aquela que se tornará a forma do dizer verdadeiro” “toda análise frmal da sintaxe de uma fala é sempre tardia e dependente dos desempenhos efetivos da linguagem.”

O sujeito da frase torna-se um objeto, a ação verbal desaparece numa função de cópula, o predicado torna-se simplesmente um atributo. E assim chegamos à objetividade inerte da proposição <S é P>.” “A forma semelhante entre o <é> exortativo e o <é> categorial trai uma relação íntima entre os 2 – relação, provavelmente, de parentesco em 1º grau.”

A identidade entre ser e pensar não é um dado simples, mas o valor, o peso e até o critério do caminho verdadeiro.” “hoje estamos, cartesianamente, imersos na dúvida e preocupados em justificar o conhecimento e a verdade, enquanto para os primeiros filósofos muito mais estranho e preocupante não era o conhecimento do real e verdadeiro, mas a possibilidade indevida de dizer o não ser e o falso. Como algum dizer do ente pode dizer o não ente? Toda a tradição ático-eleata, de Pm. até seus sucessores mais <traidores>, como Górgias, Pl. e A. vão debruçar-se sobre este problema.”

As coisas que, embora <ausentes>, estão, <no entanto, presentes firmemente em pensamento> não estão em certo aí, quando se afastam do ser; mas não estar aí simplesmente é, no entanto, revelado como um já sempre estar aí

Isto que nós chamamos de predicados ou categorias, a Deusa do Poema chama de <sinais>”

O caminho da Verdade mostra o real.” < < < MENTIRA! A verdade é uma coquette

A. é bastante coerente ao designar as múltiplas formas de dizer o ente com o termo ‘categoria’ kategoría. O que é uma categoria no uso coloquial da língua grega no tempo de Pm.? É uma acusação. A palavra ‘categoria’ é a realização, no grego coloquial clássico do séc. V, da ação de acusar: kategoreîn, feita por um promotor acusador: ho kategorós.”

Outro texto não por acaso igualmente exemplar é o diálogo Parmênides, entre outros de Pl.. Aliás, os diálogos de Pl. são um campo fertilíssimo para colher as mais diversas formas de linguagem tratadas com o maior refinamento. É por esta sua riqueza, ainda que para depreciá-la, que Nie. o chamou de filósofo de <caráter misto>. Dir-se-ia que Pl. quis competir, sempre à altura, com todos os demais gregos, em todas as possibilidades da palavra, em todos os seus gêneros – evidentemente, com sucesso.

Este uso presencial ou existencial, associado a um advérbio de lugar, não traz apenas o verbo eimí (ser), mas também o verbo ékho (ter), e seus correlatos em outras línguas. Daí expressões como <y avoir> no francês ou <i há> [!] no português arcaico. ‘Ser’ e ‘ter’, neste uso, são, de modo equivalente, verbos de estado. Cf. Benveniste, É., Problèmes de linguistique générale, 1966.”

<der eine Weg, dass IST ist und dass Nichtsein nicht ist, […], der andere aber, dass NICHT IST ist und dass Nichtsein erforderlich ist> 28, B, 2 (DK)”

[…] la première – comment il est et qu’il n’est pas possible qu’il ne soit pas […] La seconde, à savoir qu’il n’est pas et que le non-être est nécessaire […]Beaufret, 1996

APROFUNDAMENTO

Bailly, Anatole – Dictionnaire Grec-Français, 1950

Bernabé, Alberto – Textos órficos y filosofía presocrática

Bertrand, Joëlle – Nouvelle grammaire grecque, 2000

Chantraine – Dictionnaire étymologique de la langue grecque, 1999

______. – Grammaire Homérique

Clemente de Alexandria – Stromata

Cordero – L’Invention de l’école éléatique

Harris, Zellig – Structures mathématiques du langage, 1971

Hjelmslev, Louis – Le verbe et la phrase nominale, 1948

Kahn – The Art and Thought of Heraclitus

Liddell, Henry George & Scott, Robert – A Greek-Englich Lexicon, 1940 (1968)

Nestle – Historia de la Literatura Griega

Ragon – Grammaire Grecque, 1986

THE ZEND-AVESTA by DARMESTETER, 1880.

BREVIÁRIO DOS CONTEÚDOS DESTE ARTIGO:

Introdução 1

Fargards (1 a 21)

Introdução 2

Sîrôzahs (1 e 2)

Yasts (1 a 24)

Nyâyis (1 a 5)

Introdução 3

Yasnas (28 a 34)

Yasnas (43 a 51)

Yasna 53

Yasnas (1 a 26)

Yasna 57

Recomendações de Leitura

Introdução

* * *

DIC:

cuneiforme: “Diz-se da antiga escrita persa, meda e assíria formada de .caracteres em forma de cunha.”

<cuneiforme>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, https://www.priberam.pt/dlpo/cuneiforme [consultado em 29-09-2017].”

sleet: granizo

stork: cegonha

to dally: vadiar

1. OS CEM ANOS DE DISPUTA SOBRE A AUTENTICIDADE DO AVESTA E DA LÍNGUA SUI GENERIS ZEND

The Zend-Avesta is the sacred book of the Parsis, that is to say, of the few remaining followers of that religion which feigned over Persia at the time when the second successor of Mohammed overthrew the Sassanian dynasty (7th century A.D.), and which has been called Dualism, or Mazdeism, or Magism, or Zoroastrianism, or Fire-worship, according as its main tenet, or its supreme God (Ahura Mazda) [Baal?], or its priests, or its supposed founder, or its apparent object of worship has been most kept in view. In less than a century after their defeat, nearly all the conquered people were brought over to the faith of their new rulers, either by force, or policy, or the attractive power of a simpler form of creed. But many of those who clung to the faith of their fathers, went and sought abroad for a new home, where they might freely worship their old gods, say their old prayers, and perform their old rites. That home they found at last among the tolerant Hindus, on the western coast of India and in the peninsula of Guzerat. There they throve and there they live still, while the ranks of their co-religionists in Persia are daily thinning and dwindling away. A century ago [séc. XVIII], it is said, they still numbered nearly 100,000 souls; but there now [yesterday!] remain no more than 8,000 or 9,000 souls, scattered in Yezd and the surrounding villages (Dosabhoy Framjee, The Parsees).”

There has been no other great belief in the world that ever left such poor and meagre monuments of its past splendour.” “Persia, it is known, had much influence on each of the movements which produced, or proceeded from, those three books [Gospels; Talmud; Quran]; she lent much to the first heresiarchs, much to the Rabbis, much to Mohammed.” “the Avesta, which saw the blending of the Aryan mind with the Semitic, and thus opened the 2nd stage of Aryan thought.”

Aristotle, Hermippus and many others wrote of it in books of which, unfortunately, nothing more than a few fragments or merely the titles have come down to us.” “It was never more eagerly studied than in the 1st centuries of the Christian era; but that study had no longer anything of the disinterested and almost scientific character it had in earlier times. Religious and philosophic sects, in search of new dogmas, eagerly received whatever came to them bearing the name of Zoroaster.” “Zoroaster and Plato were treated as if they had been philosophers of the same school, and Hierocles expounded their doctrines in the same book. Proclus collected 70 Tetrads of Zoroaster and wrote commentaries on them; but we need hardly say that Zoroaster commented on by Proclus was nothing more or less than Proclus commented on by Proclus. [haha]” “Throughout the Middle Ages nothing was known of Mazdeism but the name of its founder, who from a Magus was converted into a magician and master of the hidden sciences. It was not until the Renaissance that real inquiry was resumed.” the book of Thomas Hyde was the first complete and true picture of modern Parsîism “Eighteen years later, a countryman of Hyde, George Boucher, received from the Parsis in Surat a copy of the Vendîdâd Sâdah, which was brought to England in 1723 by Richard Cobbe. But the old manuscript was a sealed book, and the most that could then be made of it was to hang it by an iron chain to the wall of the Bodleian Library, as a curiosity to be shown to foreigners. A few years later, a Scotch-man, named Fraser, went to Surat, with the view of obtaining from the Parsis, not only their books, but also a knowledge of their contents. He was not very successful in the first undertaking, and utterly failed in the second.” “Anquetil Duperron came out of Surat victorious, and succeeded at last in winning from the Parsis both their books and their knowledge.” “He spent 10 years in studying the material he had collected, and published in 1771 the first European translation of the Zend-Avesta.

half the learned world denied the authenticity of the Avesta, which it pronounced a forgery. It was the future founder of the Royal Asiatic Society, William Jones, a young Oxonian then [estudante de Oxford], who opened the war. He had been wounded to the quick by the scornful tone adopted by Anquetil towards Hyde and a few other English scholars: the Zend-Avesta suffered for the fault of its introducer, Zoroaster for Anquetil. In a pamphlet written in French[*], with a verve and in a style which showed him to be a good disciple of Voltaire, W. Jones pointed out, and dwelt upon, the oddities and absurdities with which the so-called sacred books of Zoroaster teemed.” “[*] Lettre à M. A*** du P*** dans laquelle est compris l’examen de sa traduction des livres attribués à Zoroastre.” “It is true that Anquetil had given full scope to satire by the style he had adopted: he cared very little for literary elegance, and did not mind writing Zend and Persian in French; so the new and strange ideas he had to express looked stranger still in the outlandish garb he gave them.” “In fact the only thing in which Jones succeeded was to prove in a decisive manner that the ancient Persians were not equal to the lumières of the 18th century, and that the authors of the Avesta had not read the Encyclopédie.HAHAHA! Ver ZOROASTRO na Enc.

[P-S.: Não há um verbete para Zaratustra ou “Zoroastre”. O que pude encontrar que mais se aproximava da temática foi o seguinte:

PARSIS, (Hist. moderne) nom que l’on donne dans l’Indostan aux adorateurs du feu, ou sectateurs de la religion fondée en Perse par Zerdust ou Zoroastre. Les Parsis qui se trouvent aujourd’hui dans l’Inde, sont venus de Perse, comme leur nom l’indique; leurs ancêtres se sont refugiés dans ce pays pour se soustraire aux persécutions des Mahométans arabes & tartares qui avoient fait la conquéte de leur patrie. Ils sont vétus comme les autres indiens, à l’exception de leur barbe qu’ils laissent croître; ils se livrent ordinairement à l’agriculture & à la culture de la vigne & des arbres. Ils ne communiquent point avec ceux d’une autre religion, de peur de se souiller [contaminar]; il leur est permis de manger des animaux, mais ils s’abstiennent de faire usage de la viande de porc & de celle de vache, de peur d’offenser les Mahométans & les Banians. Ils ont une grande vénération pour le coq; leurs prétres, qu’ils nomment darous, sont chargés du soin d’entretenir le feu sacré que leurs ancètres ont autrefois apporté de Perse; ce seroit un crime irrémissible que de le laisser éteindre. Ce ne seroit pas un péché moins grand que de répandre de l’eau ou de cracher sur le feu ordinaire qui sert dans le ménage. Il est pareillement un objet de vénération pour les Parsis; & il y auroit de l’impiété à l’entretenir avec quelque chose d’impur. Leur respect pour le feu va jusqu’au point de ne point vouloir l’éteindre avec de l’eau, quand même leur maison seroit en danger d’en être consumee: par la même raison ils ne consentiroient jamais à étndre une chandelle. En un mot, il ne leur est jamais permis de rien faire pour éteindre le feu; il faut qu’il s’éteigne de lui-même. Les Parsis regardent le mariage comme un état qui conduit au bonheur éternel; ils ont en horreur le célibat, au point que si le fils ou la fille d’un homme riche viennent à mourir avant que d’avoir été mariés, le pere cherche des gens, qui pour de l’argent consentent à épouser la personne qui est morte. La céremonie du mariage des Parsis consiste à faire venir deux darous ou prétres, dont l’un place un doigt sur le front de la fille, tandis que l’autre place le sien sur le front de l’epoux. Chacun de ces prêtres demande à l’une des parties, si elle consent à épouser l’autre: après quoi ils répandent du ris sur la téte des nouveaux maries; ce qui est un emblème de la fécondité qu’ils leur souhaitent. Les Parsis n’enterrent point leurs morts; ils les exposent à l’air dans une enceinte environnée d’un mur où ils restent pour servir de proie aux vautours [abutres]. Le terrein de cette enceinte va en pente de la circonference au centre: c’est-là que l’on expose les morts, qui dans un climat si chaud, répandent une odeur très-incommode pour les vivans. Quelques jours après qu’un corps a été exposé dans cet endroit, les amis & les parens du defunt vont se rendre au lieu de la sépulture; ils examinent ses yeux; si les vautours ont commencé par lui arracher l’oeil droit, on ne doute pas que le mort ne jouisse de la béatitude; si au contraire l’oeil gauche a été emporté le premier, on conclut que le mort est malheureux dans l’autre vie [se ficar o bicho pega, se correr…?]. C’est aux environs de Surate que demeurent la plûpart des Parsis de l’Indostan.”]

Aprender Sânscrito?!?

À procura da missa perfeita

Pray, who would dare ascribe to Zoroaster books in which are found numberless names of trees, animals, men, and demons unknown to the Ancient Persians; in which are invoked an incredible number of pure animals and other things, which, as appears in the silence of ancient writers, were never known, or at least never worshipped, in Persia? What Greek ever spoke of Hom, of Jemshîd, and, of such other personages as the fabricators of that rhapsody exalt with every kind of praise, as divine heroes?” Meiners “in the midst of his Ciceronian nonsense, there was something like the germ of comparative mythology; seldom has a man approached the truth so closely and then departed from it so widely.” “Meiners had pointed out the mythical identity of the Mount Alborg of the Parsis with the Mount Meru of the Hindus, as a proof that the Parsis had borrowed their mythology from the Hindus: the conclusion was incorrect, but the remark itself was not so.” “Meiners had said that the name of the Parsi demons was of Indian origin, as both languages knew them by the Latin name <Deus>. This was an incorrect statement, and yet an important observation. The word which means <a demon> in Persia, means quite the contrary in India [um deus?], and that radical difference is just a proof of the two systems being independent of one another [pelo contrário: Freud/Saussure: os contrários significam derivação de uma mesma raiz – PRECEITO BÁSICO DA LINGÜÍSTICA!].Zend has no Arabic elements in it, and that Pahlavi [idioma] itself, which is more modern than Zend, does not contain any Arabic, but only Semitic words of the Aramean dialect”

Plutarch agrees so well with the Zend books that I think no one will deny the close resemblance of doctrines and identity of origin.” Tychsen

<…it follows that the language of the Zend was at least a dialect of the Sanscrit, approaching perhaps as nearly to it as the Prácrit [grafia diferente ao longo do volume], or other popular idioms, which we know to have been spoken in India 2,000 years ago> [William Jones]. This conclusion, that Zend is a Sanskrit dialect, was incorrect, the connection assumed being too close; but it was a great thing that the near relationship of the two languages should have been brought to light.” “the Zend is not derived from the Sanskrit, but both are derived from another and older language.”

The first 25 of this century [1800-1825] were void of results, but the old and sterile discussions as to the authenticity of the texts continued in England.”

Rhode sketched the religious history of Persia after the translations of Anquetil”

Emmanuel Rask, one of the most gifted minds in the new school of philology (…) [wrote] the first essay on Zend grammar, and it was a masterly one.”

Eugène Burnouf founded the only correct method [?] of interpreting the Avesta.” “He also gave the first notions of a comparative mythology of the Avesta and the Veda, by showing the identity of the Vedic Yama with the Avesta Yima, and of Traitâna with Thraêtaona and Ferîdûn. Thus he made his Commentaire sur le Yasna, a marvellous and unparalleled model of critical insight and steady good sense, equally opposed to the narrowness of mind which clings to matters of fact without rising to their cause and connecting them with the series of associated phenomena, and to the wild and uncontrolled spirit of comparison, which, by comparing everything, confounds everything.

2. O AVESTA “REAL”/”ORIGINAL”/PAHLAVI VS. O AVESTA “SAGRADO”/”VÉDICO”: O ELO PERDIDO DOS LIVROS HISTÓRICO-RELIGIOSOS – Anjos, Demônios & A Síntese Metódica

DIZEM OS CONVENCIONALISTAS/COMPARATISTAS…

tradition [language] is always either new sense or nonsense. The key to the Avesta is not the Pahlavi, but the Veda. The Avesta and the Veda are two echoes of one and the same voice, the reflex of one and the same thought: the Vedas, therefore, are both the best lexicon and the best commentary to the Avesta.”

DIZEM OS HIPER-EMPÍRICOS/LINGÜISTAS/TRADICIONALISTAS…

<the demons,> the Daêvas, would ascend from their dwelling in hell up to heaven, to meet their philological brothers, the Indian Devas. The traditional method, as it starts from matters of facts [coisas-em-si], moves always in the field of reality; the comparative method starts from an hypothesis, moves in a vacuum, and builds up a fanciful religion and a fanciful language.”

DIZ A SÍNTESE…

the divergence between the two methods is more apparent than real” “No language, no religion, that has lived long and changed much, can be understood at any moment of its development, unless we know what it became afterwards, and what it was before. The language and religion of the Avesta record but a moment in the long life of the Iranian language and thought, so that we are unable to understand them, unless we know what they became and whence they came.” “it cannot happen that the tradition [o oral, o real, como se o passado fosse realmente acessível a nós do presente] and the Veda [a convenção, a ficção cristalizada, a memória comparada, como se a verdade já tivesse sido dita de uma vez por todas] will really contradict one another, if we take care to ask from each only what it knows” “The Veda, generally speaking, cannot help in discovering matters of fact in the Avesta, but only in explaining them when discovered by tradition.O Veda também é real, a tra[d]ição também é ficção.

Quando a gramática (a língua de hoje) não era entendida como convenção (de outrora)!

Quando a mitologia (a mentira infantil de hoje) não era entendida como a realidade (de ontem)!

Quando aprender línguas não era compará-las…

Quando ler um livro não era vivenciá-lo…

Prega o prego que não se deve pregar

encaixotando o último prego do caixão

que levou um caixote no mar ventoso

queonda!

Roth showed after Burnouf how the epical history of Iran was derived from the same source as the myths of Vedic India, and pointed out the primitive identity of Ahura Mazda, the supreme god of Iran, with Varuna, the supreme god of the Vedic age.” “the dangers of the method came to light in the works of Haug, who, giving a definite form to a system still fluctuating, converted Mazdeism into a religious revolution against Vedic polytheism, found historical allusions to that schism both in the Avesta and in the Veda, pointed out curses against Zoroaster in the Vedas, and, in short, transformed, as it were, the two books into historical pamphlets.”

3. “ZEND NÃO É ZEND”; VÁRIOS LIVROS DENTRO DE UM LIVRO & SUAS GENEALOGIAS E APOCALIPSES

Zend-Avesta” quer dizer: A Explicação da Lei. A prístina e utópica forma do Livro teria de ser o Avesta (a Lei). Vendîdâd Sâdah é o mesmo conteúdo, apenas com a ordem trocada.

What it is customary to call, <the Zend languag > ought to be named, <the Avesta language>; the Zend being no language at all; and, if the word be used as the designation of one, it can be rightly applied only to the Pahlavi.”

O Zend-bundismo

It is a tradition with the Parsis, that the Yasts were originally 30 in number, there having been 1 for each of the 30 Izads who preside over the 30 days of the month; yet there are only 18 still extant.”

The cause that preserved the Avesta is obvious; taken as a whole, it does not profess to be a religious encyclopedia, but only a liturgical collection, and it bears more likeness to a Prayer Book than to the Bible.”

ALEXANDRIA NÃO FOI NADA: “The primitive Avesta, as revealed by Ormazd to Zoroaster and by Zoroaster to Vistâsp, king of Bactria, was supposed to have been composed of 21 Nosks or Books, the greater part of which was burnt by Iskander the Rûmi (Alexander the Great). After his death the priests of the Zoroastrian religion met together, and by collecting the various fragments that had escaped the ravages of the war and others that they knew by heart, they formed the present collection, which is a very small part of the original book, as out of the 21 Nosks there was only one that was preserved in its entirety, the Vendîdâd

There were, in fact, 4 kings at least who bore the name of Valkhash: the most celebrated and best known of the four was Vologeses I, the contemporary of Nero. Now that Zoroastrianism prevailed with him, or at least with members of his family, we see from the conduct of his brother Tiridates, who was a Magian (Magus); and by this term we must not understand a magician, but a priest, and one of the Zoroastrian religion.” “Pliny very often confounds Magism and Magia, Magians and Magicians. We know from Pliny, too, that Tiridates refused to initiate Nero into his art: but the cause was not, as he assumes, that it was <a detestable, frivolous, and vain art>, but because Mazdean law forbids the holy knowledge to be revealed to laymen, much more to foreigners”

Now the language used in Persia after the death of Alexander, under the Arsacides and Sassanides, that is, during the period in which the Avesta must have been edited, was Pahlavi, which is not derived from Zend, but from ancient Persian, being the middle dialect between ancient and modern Persian. Therefore, if the Sassanian kings had conceived the project of having religious books of their own written and composed, it is not likely that they would have had them written in an old foreign dialect, but in the old national language, the more so, because, owing both to their origin and their policy, they were bound to be the representatives of the genuine old Persian tradition.”

The bulk of the book is a rebuke.

Mazdeism had just been threatened with destruction by a new religion sprung from itself, the religion of Mânî, which for a while numbered a king amongst its followers (Shapûr I, 240-270). Mazdeism was shaken for a long time, and when Mânî was put to death, his work did not perish with him. In the Kissah-i Sangâh, Zoroaster is introduced prophesying that the holy religion will be overthrown three times and restored three times; overthrown the first time by Iskander, it will be restored by Ardeshîr; overthrown again, it will be restored by Shapûr II and Âdarbâd Mahraspand; and, lastly, it will be overthrown by the Arabs and restored at the end of time by Soshyos.”

And he who would set that man at liberty, when bound in prison, does no better deed than if he should flay a man alive and cut off his head.”

that Mânî should have rejected many Zoroastrian practices is not unlikely, as his aim was to found a universal religion.”

And of two men, he who fills himself with meat is filled with the good spirit much more than he who does not so; the latter is all but dead; the former is above him by the worth of an Asperena, by the worth of a sheep, by the worth of an ox, by the worth of a man.”

MANI, O PRIMEIRO VEGAN: “Like Mânî, Christian teachers held the single life holier than the state of matrimony, yet they had not forbidden marriage, which Mânî did; they never prohibited the eating of flesh, which was one of the chief precepts of Mânî” “The patriarch of Alexandria, Timotheus, allowed the other patriarchs, bishops, and monks to eat meat on Sundays, in order to recognise those who belonged to the Manichean sect”

All the main features of Mazdean belief, namely, the existence of two principles, a good and an evil one, Ormazd and Ahriman, the antithetical creations of the two supreme powers, the division of all the beings in nature into two corresponding classes, the limited duration of the world, the end of the struggle between Ormazd and Ahriman by the defeat and destruction of the evil principle, the resurrection of the dead, and the everlasting life, all these tenets of the Avesta had already been established at the time of Philip and Aristotle.”

According to the Avesta burying corpses in the earth is one of the most heinous sins that can be committed; we know that under the Sassanians a prime minister, Seoses, paid with his life for an infraction of that law. Corpses were to be laid down on the summits of mountains, there to be devoured by birds and dogs; the exposure of corpses, was the most striking practice of Mazdean profession, and its adoption was the sign of conversion. (…) Persians, says Herodotus, bury their dead in the earth, after having coated them with wax. But Herodotus, immediately after stating that the Persians inter their dead, adds that the Magi do not follow the general practice, but lay the corpses down on the ground, to be devoured by birds.” “There were therefore, practically, two religions in Iran, the one for laymen and the other for priests. The Avesta was originally the sacred book only of the Magi, and the progress of the religious evolution was to extend to laymen what was the custom of the priests.” “Between the priests and the people there was not only a difference of calling, but also a difference of race, as the sacerdotal caste came from a non-Persian province.” “when we learn from Herodotus (I, 101) that the Medes were divided into several tribes, Busae, Paraetakeni, Strouchates, Arizanti, Budii, and Magi, without his making any remark on the last name, we can hardly have any doubt that the priests known as Magi belonged to the tribe of the Magi, that they were named after their origin, and that the account of Marcellinus may be correct even for so early a period as that of Herodotus.”

UMA RELIGIÃO QUE NÃO É DE EXTREMOS: “That they came from Media, we see from the traditions about the native place of Zoroaster, their chief and the founder of their religion. Although epic legends place the cradle of Mazdean power in Bactria, at the court of King Vistâsp, Bactria was only the first conquest of Zoroaster, it was neither his native place, nor the cradle of his religion.”

The Pahlavi names of the cardinal points show that Media was the centre of orientation in Magian geography (Garrez, Journal Asiatique, 1869, II).”

< How many masters are there?>

<There are the master of the house, the lord of the borough, the lord of the town, the lord of the province, and the Zarathustra (the high-priest) as the fifth. So is it in all lands, except in the Zarathustrian realm; for there are there only four masters, in Ragha, the Zarathustrian city>”

NIE. O INCOMPREENDIDO FILÓSOFO-LEGISLADOR: “The temple of Azerekhsh is ascribed to Zeratusht, the founder of the Magian religion, who went, it is said, from Shîz to the mountain of Sebîlân, and, after remaining there some time in retirement, returned with the Zend-Avesta, which, although written in the old Persian language, could not be understood without a commentary. After this he declared himself to be a prophet

In the Avesta itself we read that Zoroaster was born and received the law from Ormazd on a mountain, by the river Darega

Cyrus is said to have introduced the Magian priesthood into Persia (Xenophon, Cyrop. VIII, I, 23)”

The proper word for a priest in the Avesta is Âthravan, literally, fire-man, and that this was his name with the Persians too appears from the statement in Strabo (XV, 733)”

NÓS GOSTAMOS DE MISSAS PORQUE AO SAIR DELAS NOS ACHAMOS MAIS IGNORANTES DO QUE QUANDO ENTRAMOS: “The very fact that no sacrifice could be performed without the assistance of the Magi makes it highly probable that they were in possession of rites, prayers, and hymns very well composed and arranged, and not unlike those of the Brahmans (…) it is quite possible that Herodotus may have heard the Magi sing, in the fifth century B.C., the very same Gâthas which are sung nowadays by the Mobeds in Bombay. A part of the Avesta, the liturgical part, would therefore have been, in fact, a sacred book for the Persians. It had not been written by them, but it was sung for their benefit. That Zend hymns should have been sung before a Persian-speaking people is not stranger than Latin words being sung by Frenchmen, Germans, and Italians; the only difference being that, owing to the close affinity of Zend to Persian, the Persians may have been able to understand the prayers of their priests.

KANT 0: “The theory of time and space as first principles of the world, of which only the germs are found in the Avesta, was fully developed in the time of Eudemos, a disciple of Aristotle.”

CARNE PODRE MISTURADA COM O AR – NÃO, ORA ESSA, CARNE É AR!: “The new principle they introduced, or, rather, developed into new consequences, was that of the purity of the elements. Fire, earth, and water had always been considered sacred things, and had received worship: the Magi drew from that principle the conclusion that burying the dead or burning the dead was defiling a god: as early as Herodotus they had already succeeded in preserving fire from that pollution, and cremation was a capital crime. The earth still continued to be defiled, notwithstanding the example they set; and it was only under the Sassanians, when Mazdeism became the religion of the state, that they won this point also.”

A CASTA DOS MAGOS GANHOU LENTAMENTE O PODER NO IRÃ, MAS HÁ UM MARCO: “Artaxerxes Longimanus. The epic history of Iran, as preserved in the Shah Nâmah, passes suddenly from the field of mythology to that of history with the reign of that king, which makes it likely that it was in his time that the legends of Media became national in Persia”

O FIM TRÁGICO: “their principles required an effort too continuous and too severe to be ever made by any but priests, who might concentrate all their faculties in watching whether they had not dropped a hair upon the ground. A working people could not be imprisoned in such a religion, though it might be pure and high in its ethics. The triumph of Islam was a deliverance for the consciences of many, and Magism, by enforcing its observances upon the nation, brought about the ruin of its dogmas, which were swept away at the same time: its triumph was the cause and signal of its fall”

He seems to have been a man of contemplative mind rather than a man of action, which often excited the anger or scorn of his people against him”

Men, when raised from the dead, shall have no shadow any longer (μήτεσκιν ποιοντας). In India, gods have no shadows (Nalus); in Persia, Râshidaddîn was recognised to be a god from his producing no shadow (Guyard, Un grand maitre, des Assassins, Journal Asiatique, 1877, I, 392); the plant of eternal life, Haoma, has no shadow (Henry Lord).

the holiness of marriage between next of kin, even to incest, was unknown to Persia under Cambyses (Herod. III, 31), but it is highly praised in the Avesta, and was practised under the Sassanians (Agathias II, 31); in the times before the Sassanians it is mentioned only as a law of the Magi (Diog. Laert. Prooem. 6; Catullus, Carm. XC).”

The struggle of Haoma against Keresâni is an old Indo-European myth, Keresâni being the same as the Vedic Krisânu, who wants to keep away Soma from the hands of men.”

Nothing is known of any Scythian religion, and what is ascribed to a so-called Scythian influence, the worship of the elements, is one of the oldest and most essential features of the Aryan religions.”

4. EVOLUÇÃO DO MAZDEÍSMO DO HINDUÍSMO

There were, therefore, in the Indo-Iranian religion a latent monotheism and an unconscious dualism; both of which, in the further development of Indian thought, slowly disappeared; but Mazdeism lost neither of these two notions”

Asureavisvavedas” = o Senhor onisciente

in the middle of the Vedic period. Indra, the dazzling god of storm, rose to supremacy in the Indian Pantheon, and outshines Varuna with the roar and splendour of his feats; but soon to give way to a new and mystic king, Prayer or Brahman.”

§7. The Indo-Iranian Asura was often conceived as sevenfold: by the play of certain mythical formulae and the strength of certain mythical numbers, the ancestors of the Indo-Iranians had been led to speak of seven worlds, and the supreme god was often made sevenfold, as well as the worlds over which he ruled. The names and the several attributes of the seven gods had not been as yet defined, nor could they be then; after the separation of the two religions, these gods, named Âditya, <the infinite ones,> in India, were by and by identified there with the sun, and their number was afterwards raised to twelve, to correspond to the twelve successive aspects of the sun. In Persia, the seven gods are known as Amesha Spentas, <the undying and well-doing ones;> they by and by, according to the new spirit that breathed in the religion, received the names of the deified abstractions, Vohu-manô (good thought), Asha Vahista (excellent holiness), Khshathravairya (perfect sovereignty), Spenta Ârmaiti (divine piety), Haurvatât and Ameretât (health and immortality). The first of them all was and remained Ahura Mazda; but whereas formerly he had been only the first of them, he was now their father.”

In the Veda, they are invoked as a pair (Mitrâ-Varunâ), which enjoys the same power and rights as Varuna alone, as there is nothing more in Mitrâ-Varunâ than in Varuna alone, Mitra being the light of Heaven, that is, the light of Varuna. But Ahura Mazda could no longer bear an equal, and Mithra became one of his creatures” “the Creator was formerly a brother to his creature.”

Yet, with all his might, he still needs the help of some god, of such as free the oppressed heavens from the grasp of the fiend. When storm rages in the atmosphere he offers up a sacrifice to Vayu, the bright storm god, who moves in the wind, he entreats him: <Grant me the favour, thou Vayu whose action is most high, that I may smite the world of Angra Mainyu, and that he may not smite mine! Vayu, whose action is most high, granted the asked-for favour to the creator Ahura Mazda.>”

Whereas in India the fiends were daily driven farther and farther into the background, and by the prevalence of the metaphysical spirit gods and fiends came to be nothing more than changing and fleeting creatures of the everlasting, indifferent Being, Persia took her demons in real earnest; she feared them, she hated them, and the vague and unconscious dualism that lay at the bottom of the Indo-Iranian religion has its unsteady outlines sharply defined, and became the very form and frame of Mazdeism.”

§11. The war in nature was waged in the storm. The Vedas describe it as a battle fought by a god, Indra, armed with the lightning and thunder, against a serpent, Ahi, who has carried off the dawns or the rivers, described as goddesses or as milch cows [vacas leiteiras!], and who keeps them captive in the folds of the cloud.” Rios de leite, montanhas de baunilha: talvez tenha sido a concepção inicial de uma sociedade obesa mórbida como a nossa…

<The son of waters> is both in the Vedas and in the Avesta a name of the fire-god, as born from the cloud, in the lightning.”

Râma é o mortal mais forte que habitou a terra, o sal da raça humana.

Num mundo perfeitamente maniqueísta, necessariamente pai ou mãe são diabólico(a)s, mãe ou pai são angelicais. O Ocidente já escolheu sua versão, sua restrição além-aquém do ou. Esteril-o-tipo. Satanização do Destino.

Yâtu, o Deus do Tédio

There was a class of myths, in which, instead of being carried off, she was supposed to have given herself up, of her own free will, to the demon, and to have betrayed the god, her lover. In another form of myth, still more distant from the naturalistic origin, the Pairikas were <nymphs of a fair, but erring line,> who seduced the heroes to lead them to their ruin. Afterwards the Pari became at length the seduction of idolatry”

Páris com P de Pecado

Saoshyant, the son of Zarathustra”

Ano-novo é que faz comida boa (quando passa)

The sacrifice is more than an act of worship, it is an act of assistance to the gods.” Haoma, the Indian Soma, is an intoxicating plant, the juice of which is drunk by the faithful for their own benefit and for the benefit of their gods. It comprises in it the powers of life of all the vegetable kingdom.” “There are two Haomas: one is the yellow or golden Haoma, which is the earthly Haoma, and which, when prepared for the sacrifice, is the king of healing plants; the other is the white Haoma or Gaokerena, which grows up in the middle of the sea Vouru-kasha, surrounded by the ten thousand healing plants. It is by the drinking of Gaokerena that men, on the day of the resurrection, will become immortal.” “Spell or prayer is not less powerful than the offerings.”

Agni, as a messenger between gods and men, was known to the Vedas as Narâ-sansa; hence came the Avesta messenger of Ahura, Nairyô-sangha.”

HARD HARD LIFE

FACILITY OF FELICITIES

EASINESS OF DIZZINESS

FABRIC OF CORRUPTION

NECESSITY OF CRISIS

The Amesha Spentas projected, as it were, out of themselves, as many Daêvas or demons, who, either in their being or functions, were, most of them, hardly more than dim [vis, decaídas] inverted images of the very gods they were to oppose, and whom they followed through all their successive evolutions. Haurvatât and Ameretât, health and life, were opposed by Tauru and Zairi, sickness and decay, who changed into rulers of thirst and hunger when Haurvatât and Ameretât had become the Amshaspands of waters and trees.”

In the eyes of the Parsis, animals belong either to Ormazd or Ahriman according as they are useful or hurtful to man; but, in fact, they belonged originally to either the one or the other, according as they had been incarnations of the god or of the fiend, that is, as they chanced to have lent their forms to either in the storm tales”

Persia was on the brink of zoolatry, and escaped it only by misunderstanding the principle she followed.”

as Tistrya had been compared to a shining star on account of the gleaming of lightning, the stars joined in the fray, where they stood with Tistrya on Ahura’s side; and partly for the sake of symmetry, partly owing to Chaldaean influences, the planets passed into the army of Ahriman.”

In the Veda Yama, the son of Vivasvat, is the first man and, therefore, the first of the dead, the king of the dead. As such he is the centre of gathering for the departed, and he presides over them in heaven, in the Yamasâdanam, as king of men, near Varuna the king of gods.

His Avesta twin-brother, Yima, the son of Vîvanghat, is no longer the first man, as this character had been transferred to another hero, of later growth, Gayô Maratan; yet he has kept nearly all the attributes which were derived from his former character: on the one hand he is the first king, and the founder of civilisation; on the other hand, <the best mortals> gather around him in a marvellous palace, in Airyanem Vaêgô

WINTER WON’T COME: “The world was imagined as lasting a long year of 12 millenniums. There had been an old myth, connected with that notion, which made the world end in a frightful winter, to be succeeded by an eternal spring, when the blessed would come down from the Vara of Yima to repeople the earth. But as storm was the ordinary and more dramatic form of the strife, there was another version, according to which the world ended in a storm, and this version became the definitive one.” (Director’s Cut)

This brings us to the question whether any historical reality underlies the legend of Zarathustra or Zoroaster.”

N[A]DA

A Lei e a Verdade são Figuras, Imagens, Símbolos, Sensaborões, Não! Não as Quero Não os Quero de Forma ou Conteúdo algum!

Imortalidade e Clareza são meros contos do vigário

O que há é Nada, depois de Nada,

Nada há!

A vida veio da água e termina no breu oceânico

Anunciador que admoesta

Admoestador que anuncia

Como um raio

e cuspo gases

Que nada!, isso é tudo…

Mazdeism has often been called Zoroaster’s religion, in the same sense as Islam is called Muhammed’s religion, that is, as being the work of a man named Zoroaster, a view which was favoured, not only by the Parsi and Greek accounts, but by the strong unity and symmetry of the whole system.” “it was thought that Zoroaster’s work had been a work of reaction against Indian polytheism, in fact, a religious schism. When he lived no one knows, and every one agrees that all that the Parsis and the Greeks tell of him is mere legend, through which no solid historical facts can be arrived at. The question is whether Zoroaster was a man converted into a god, or a god converted into a man.”

* * *

profeta de deus, organizador da liturgia, com o objetivo de ser <intermediário> entre Ormuz, o princípio do bem, experimentado na luz do sol e cujo animal simbólico é a águia real, e Ahriman, o princípio do mal, experimentado nas trevas e cujo animal simbólico é a serpente (Janz, 1985, p. 183-184).”Apud Flávio Senra, 2010

Segundo Janz, foi em Basiléia que o jovem Nietzsche conheceu um teórico que haveria de influenciá-lo em seus primeiros escritos. Teria sido o Sr. Johann Jakob Bachofen responsável por influenciar a leitura que Nietzsche fez da tragédia grega e, também, responsável por oferecer o referencial bibliográfico para o conhecimento que o filósofo teria da religião de Zoroastro. Trata-se de Friedrich Creuzer (1771-1858), o autor compartilhado por Bachofen e o jovem Nietzsche. Creuzer foi autor de Symbolik und Mithologie der alten Völker besonders der Griechen (Simbólica e mitologia dos povos primitivos, especialmente dos gregos), obra publicada entre 1810-12, em quatro volumosos tomos. Através de Thomas Gelzer, estudioso do pensamento de Bachofen, organizador de Die Bachofen-Briefe (As cartas de Bachofen), publicadas em 1969, chegamos a conhecer um pouco mais sobre esse elo de ligação (sic) entre os autores aqui citados. Creuzer foi estudioso de Plotino e Proclo. A partir desse último, chegou a influenciar o romantismo e Goethe. Foi em Creuzer, entre outros, que Nietzsche se apoiou para preparar o curso de inverno de 1875-76, curso repetido no semestre de inverno de 1877-78, sobre os arcaísmos da cultura religiosa dos gregos. Segundo o importante biógrafo de Nietzsche que foi Janz, a obra de Creuzer foi retirada da biblioteca da Universidade da Basiléia em 1871, momento da redação de O Nascimento da Tragédia e, posteriormente, foi adquirida por Nietzsche.”

A tradução [do nome Zaratustra em persa] sugerida pelo literato é Estrela de ouro, Estrela de fulgor, o que destelha ouro.”

Por Salomé, Nietzsche perdeu a cabeça!

Bibliografia:

BOYCE, M. Zoroastrismo. In. BLEEKER, C. J.; WIDENGREN, G. Historia religionun. Manual de historia de las religiones. Religiones del presente. p. 211-236.

GADAMER, H-G. Nietzsche l’antipode. Le drame de Zarathoustra. Paris: Editions Allia, 2000.

GÂTHAS. Traduzido do avestano para o inglês por Ali A. Jafarey e do inglês para o português por Onaldo A. Pereira. Goiânia: Comunidade Ascha, [s.d.].

HEIDEGGER, M. ¿Quien és el Zaratustra de Nietzsche? In. Conferencias y artículos. Barcelona: Editiones del Serbal. p. 75-93.

TATSCH, F. G. Persas. In. FUNARI, P. P. (Org.) As religiões que o mundo esqueceu. São Paulo: Contexto, 2009. p. 102-143.

WINDEGREN, G. Fenomenología de la religion. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1976.

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But the great weapon of Zarathustra is neither the thunder-stones he hurls, nor the glory with which he is surrounded, it is the Word.”

the Romans worshipped the thunder as a goddess, Fama

MEU ANCESTRAL ERA UM YOUKAI E EU NASCI POR INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL INCUBADA INDIRETA”: “As he overwhelmed Angra Mainyu during his lifetime by his spell, he is to overwhelm him at the end of time by the hands of a son yet unborn. <Three times he came near unto his wife Hrôgvi, and three times the seed fell upon the ground. The Ized Neriosengh took what was bright and strong in it and intrusted it to the Ized Anâhita. At the appointed time, it will be united again with a maternal womb: 99,999 Fravashis of the faithful watch over it, lest the fiends destroy it.> A maid bathing in the lake Kãsava will conceive by it and bring forth the victorious Saoshyant (Sôshyôs), who will come from the region of the dawn to free the world from death and decay, from corruption and rottenness” O homem que é num só ruptura e continuidade.

Etymology was unable to preserve the Daêvas from this degradation, as the root div, <to shine,> was lost in Zend, and thus the primitive meaning being forgotten, the word was ready to take any new meaning which chance or necessity should give to it.”

VIRA VILÃO: “Though the word Indra is the name of a fiend in the Avesta, the Vedic god it denotes was as bright and as mighty in Iran as in India under the name of Verethraghnaa

NÃO HÁ DIALÉTICA, THOMAS EDSON: “There was no religious revolution: there was only a long and slow movement which led, by insensible degrees, the vague and unconscious dualism of the Indo-Iranian religion onwards to the sharply defined dualism of the Magi.” O mesmo é a gota que precede a tempestade, o raio anunciador, o Zaratustra do XIX.

there is hardly any religion in which slow growth and continual change is more apparent. When the Magi had accounted for the existence of evil by the existence of two principles, there arose the question how there could be 2 principles, and a longing for unity was felt, which found its satisfaction in the assumption that both are derived from one and the same principle. This principle was, according to divers sects, either Space, or Infinite Light, or Boundless Time, or Fate.” “at any rate, no one can think of ascribing to one man, or to one time, that slow change from dualism to monotheism”

The seven worlds became in Persia the seven Karshvare of the earth: the earth is divided into seven Karshvare, only one of which is known and accessible to man, the one on which we live, namely, Hvaniratha; which amounts to saying that there are seven earths.”

Mitra means literally, <a friend>”

Ahriman created a lovely bird, the peacock, to show that he did not do evil from any incapacity of doing well, but through wilful wickedness (Eznik); Satan is still nowadays invoked by the Yezidis as Melek Taus (<angel peacock>).”

5. O VENDÎDÂD: PRÓLOGO-SINOPSE / PREPARAÇÃO PARA A LEITURA: O PURO E O IMPURO

There is nothing in worship but what existed before in mythology.” “The Parsis, being at a loss to find 4-eyed dogs, interpret the name as meaning a dog with 2 spots above the eyes” “This reminds one at once of the three-headed Kerberos, watching at the doors of hell, and, still more, of the two brown, four-eyed dogs of Yama, who guard the ways to the realm of death” “the notion of uncleanness is quite the reverse of what thought elsewhere: the corpse, when rotten, is less unclean than the body still all but warm with life; death defiles least when it looks most hideous, and defiles most when it might look majestic. The cause is that in the latter case the death-demon has just arrived in the fullness of his strength, whereas in the former case time has exhausted his power.” “The Indo-Europeans either burnt the corpse or buried it: both customs are held to be sacrilegious in the Avesta.” “the dead man was a traveller to the other world, whom the fire kindly carried to his heavenly abode [nos Vedas]” “burning the dead is the most heinous of sins: in the times of Strabo it was a capital crime”

The Magi are said to have overthrown a king for having built bath-houses, as they cared more for the cleanness of water than for their own.”

Everything that goes out of the body of man is dead, and becomes the property of the demon. The going breath is unclean, it is forbidden to blow the fire with it, and even to approach the fire without screening it from the contagion with a Penôm. Parings of nails and cuttings or shavings of hair are unclean, and become weapons in the hands of the demons unless they have been protected by certain rites and spells. Any phenomenon by which the bodily nature is altered, whether accompanied with danger to health or not, was viewed as a work of the demon, and made the person unclean in whom it took place. One of these phenomena, which is a special object of attention in the Vendîdâd, is the uncleanness of women during their menses. The menses are sent by Ahriman, especially when they last beyond the usual time: therefore a woman, as long as they last, is unclean and possessed of the demon: she must be kept confined, apart from the faithful whom her touch would defile, and from the fire which her very look would injure; she is not allowed to eat as much as she wishes, as the strength she might acquire would accrue to the fiends. Her food is not given to her from hand to hand, but is passed to her from a distance, in a long leaden spoon. The origin of all these notions is in certain physical instincts, in physiological psychology, which is the reason why they are found among peoples very far removed from one another by race or religion.”

Only the case when the woman has been delivered of a still-born child is examined in the Vendîdâd. She is unclean as having been in contact with a dead creature; and she must first drink gômêz [urina de vaca] to wash over the grave in her womb. So utterly unclean is she, that she is not even allowed to drink water, unless she is in danger of death; and even then, as the sacred element has been defiled, she is liable to the penalty of a Peshôtanu [proscrito que é melhor matar do que deixar que viva na comunidade].”

metal vessels, can be cleansed, earthen vessels cannot; leather is more easily cleansed than woven cloth; dry wood than soft wood.”

Assaults are of 7 degrees: âgerepta, avaoirista, stroke, sore wound, bloody wound, broken bone, and manslaughter. The gravity of the guilt does not depend on the gravity of the deed only, but also on its frequency. Each of these 7 crimes amounts, by its being repeated without having been atoned for, to the crime that immediately follows in the scale, so that an âgerepta 7x repeated amounts to manslaughter.”

The lowest penalty in the Vendîdâd is five stripes, and the degrees from five stripes to Peshôtanu [pena capital] are ten, fifteen, thirty, fifty, seventy, ninety, two hundred. For instance, âgerepta is punished with five stripes, avaoirista with ten, stroke with fifteen, sore wound with thirty, bloody wound with fifty, broken bone with seventy, manslaughter with ninety; a second manslaughter, committed without the former being atoned for, is punished with the Peshôtanu penalty. In the same way the 6 other crimes, repeated eight, or seven, or six, or five, or four, or three times make the committer go through the whole series of penalties up to the Peshôtanu penalty.” “400 stripes if one, being in a state of uncleanness, touches water or trees, 400 if one covers with cloth a dead man’s feet, 600 if one covers his legs, 800 if the whole body. 500 stripes for killing a whelp, 600 for killing a stray dog, 700 for a house dog, 800 for a shepherd’s dog, 1000 stripes for killing a Vanhâpara dog, 10,000 for killing a water dog.” “Yet any one who bethinks himself of the spirit of the old Aryan legislation will easily conceive that there may be in its eyes many crimes more heinous, and to be punished more severely, than manslaughter: offences against man injure only one man; offences against gods endanger all mankind. No one should wonder at the unqualified cleanser being put to death who reads Demosthenes’ Neaera” “It may be doubted whether the murder of a shepherd’s dog could have been actually punished with 800 stripes, much more whether the murder of a water dog could have been really punished with 10,000 stripes, unless we suppose that human endurance was different in ancient Persia from what it is elsewhere, or even in modern Persia herself” “In the Ravâets, 200 stripes, or a Tanâfûhr, are estimated as equal to 300 istîrs or 1200 dirhems, or 1350 rupees; a stripe is therefore about equal to 6 rupees. How far that system prevailed in practice, whether the guilty might take advantage of this commutation of his own accord, or only with the assent of the judge, we cannot decide. It is very likely that the riches of the fire-temples came for the most part from that source, and that the sound of the dirhems often made the Sraoshô-karana fall from the hands of the Mobeds. That the system of financial penalties did not, however, suppress the system of bodily penalties, appears from the customs of the Parsis who apply both, and from the Pahlavi Commentary which expressly distinguishes three sorts of atonement: the atonement by money (khvâstak), the atonement by the Sraoshô-karana, and the atonement by cleansing.”

The outward form of the Vendîdâd has been often compared with that of the Books of Moses. But in reality, in the Bible, there is no conversation between God and the lawgiver: the law comes down unasked, and God gives commands, but gives no answers. In the Vendîdâd, on the contrary, it is the wish of man, not the will of God, that is the first cause of the revelation.”

No momento, tenho 4 anos de cão.

Ravâet (l.c.): “Ormazd, wishing to keep the body of the first man, Gayômart, from the assaults of Ahriman, who tried to kill him, cried out: <O thou-yellow-eared dog, arise!>”

<The Dakhma is a round building, and is designated by some writers, ‘The Tower of Silence.’ A round pit, about six feet deep, is surrounded by an annular stone pavement, about seven feet wide, on which the dead bodies are placed. This place is enclosed all round by a stone wall some twenty feet high, with a small door on one side for taking the body in. The whole is built up of and paved with stone. The pit has communication with three or more closed pits, at some distance into which the rain washes out the liquids and the remains of the dead bodies> (Dadabhai Naoroji, The Manners and Customs of the Parsees, Bombay, 1864, p. 16). Cf. Farg. 6:50. A Dakhma is the first building the Parsis erect when settling on a new place (Dosabhoy Framjee).”

The Avesta and the Commentator attach great importance to that point [deixar o cadaver ao relento no topo de montanhas, ao invés de enterrá-los ou, muito menos, cremá-los]: it is as if the dead man’s life were thus prolonged, since he can still behold the sun. <Grant us that we may long behold the sun,> said the Indian Rishi.”

DEUSA DA LAREIRA: “<When the child is being born, one brandishes a sword on the four sides, lest fairy Aal kill it> (Polack, Persien, 1:223). In Rome, three gods, Intercidona, Pilumnus, and Deverra, keep her threshold, lest Sylvanus come in and harm her (Augustinus, A Cidade de Deus, 6:9).”

Conversão monetária: “An istîr (στατήρ) is as much as 4 dirhems (δραχμή). The dirhem is estimated by modern tradition a little more than a rupee.”

Sraoshô-karana is translated by kâbuk, <a whip,> which agrees with the Sanskrit translation of the sî-srôshkaranâm sin”

Enfraquecimento paulatino do (coração?) do homem: “In the time of Chardin, the number of stripes inflicted on the guilty never exceeded 300; in the old German law, 200; in the Hebrew law, 40.”

In later Parsîism every sin (and every good deed) has its value in money fixed, and may thus be weighed in the scales of Rashnu. If the number of sin dirhems outweigh the number of the good deed dirhems, the soul is saved. Herodotus noticed the same principle of compensation in the Persian law of his time (1:137; 7:194).”

Complete translations of the Vendîdâd have been published by Anquetil Duperron in France (Paris, 1771), by Professor Spiegel in Germany (Leipzig, 1852), by Canon de Harlez in Belgium (Louvain, 1877). The translation of Professor Spiegel was translated into English by Professor Bleeck, who added useful information from inedited Gujarathi translations (Hertford, 1864).”

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O ZEND-AVESTA COMENTADO

Vendîdâd

Fargard I

Okeanos, the river that divides the gods from the fiends.”

As Irân Vêg is a place of refuge for mankind and all life from the winter that is to destroy the world, winter was thought, by a mythical misunderstanding, to be the counter-creation of Irân Vêg: hence the glacial description of that strange paradise.”

os contos sobre pessoas sem-cabeça, com olhos sobre os ombros, que Plínio recebeu de Ctésias, o meio-persa (História Natural, 5:8; 7:2; apud St. Agostinho (…)). Geógrafos persas mencionam tal povo, localizado nas ilhas orientais próximas à China. A origem mitológica dos relatos deve ser atribuível à Grécia ou à Índia (cf. Pausânias (…)).” O Cavaleiro Sem-Cabeça é a Primeira Vinda da Anarquia, a Morte de Deus Número Um!

Fargard II

Antediluvianos somos. Haverá mais livros. Noé era o Anjo Vingador, a Fome, a Guerra, a Peste e a Morte num(a) só. E esta é a Cidade de Deus dos Escolhidos. Mas tudo se torna chato com o Tempo. Anti-luvas de pelica para disputas e atritos! Anti-ONU, anti-onipotência.

The world, lasting a long year of 12 millenniums, was to end by a dire winter, like the Eddic Fimbul winter, to be followed by an everlasting spring, when men, sent back to earth from the heavens, should enjoy, in an eternal earthly life, the same happiness that they had enjoyed after their death in the realm of Yima [the first man, Iran’s Adam]. But as in the definitive form which was taken by Mazdean cosmology the world was made to end by fire, its destruction by winter was no longer the last incident of its life, and therefore, the Var of Yima, instead of remaining, as it was originally, the paradise that gives back to earth its inhabitants, came to be nothing more than a sort of Noah’s ark.” “Yima had once the same right as his Indian brother [Yama] to the title of a founder of religion: he lost it as, in the course of the development of Mazdeism, Zarathustra became the titular law-giver.”

Eu tenho um anel e um punhal, mas o que eu queria mesmo era um pônei…

A Terra não suporta 300 anos de prosperidade…

In Aryan mythology, the sun is, as is well known, the symbol and source of royalty: Persian kings in particular are <the brothers of the sun>.”

And Yima made the earth grow larger by one-third than it was before, and there came flocks and herds and men”

Três impérios de 300 anos, totalizando 900 anos. Aproximadamente o mesmo ciclo de vida de Adão…

And Yima made the earth grow larger by two-thirds than it was before”

And Yima made the earth grow larger by three-thirds than it was before”

REBOOT DA MATRIX 2.0: “There shall be no humpbacked, none bulged forward there; no impotent, no lunatic; no poverty, no lying, no meanness, no jealousy; no decayed tooth, no leprous to be confined”

O Mito da kilométrica Macross: “In the largest part of the place thou shalt make 9 streets, 6 in the middle part, 3 in the smallest.”

Vamos fazer uma Arca de Noé ecológica movida a engenhos de cana-de-açúcar! Com um Lollapalooza todo dia ali dentro, para nos matar intoxicados de tanto ócio sonoro opiado. Era negra esta nau? Sim, tanto faz, sou indiferente, mas duvido que oriental!

Teto solar não funciona na chuva.

As the bird, because of the swiftness of his flight, was often considered an incarnation of lightning, and as thunder was supposed to be the voice of a god speaking from above, the song of the bird was often thought to be the utterance of a god and a revelation.”

Fargard III

Although the erection of Dakhmas is enjoined by the law, yet the Dakhma in itself is as unclean as any spot on the earth can be, since it is always in contact with the dead. The impurity which would otherwise be scattered over the whole world, is thus brought together to one and the same spot. Yet even that spot, in spite of the Ravaet, is not to lie defiled for ever, as every 50 years the Dakhmas ought to be pulled down, so that their sites may be restored to their natural purity.”

Um homem quando não dá mais esperma, já não pode dar passos firmes com as pernas. São muitas e permanentes as perdas.

Fargard IV

A responsabilidade conjunta da família [até o nono grau de parentesco] era um princípio da lei persa, bem como da lei germânica antiga (cf. Marcellinus)”

Atenuantes acrescidas com a passagem do tempo (para a herança da culpa):“ só o filho nascido depois da quebra de contrato é responsável por ela; os corretos não o são; quando o pai morre, o filho, se honesto, não tem nada a temer para si. Os Ravaets [os que enterram corpos sozinhos] não podem transferir sua punição (…); a alma daquele que rompe um contrato verbal demora 300 anos no inferno” Em regime fechado ou semi-aberto? Domiciliar, para o capeta (Arihman)?

Fargard V

There is no sin upon a man for any dead matter that has been brought by dogs, by birds, by wolves, by winds, or by flies.”

The Ratu is the chief priest, the spiritual head of the community.”

The frog is a creature of Ahriman’s, and one of the most hateful; for, in the sea Vouru-kasha, it goes swimming around the white Hom, the tree of everlasting life, and would gnaw it down, but for the godlike fish Kar-mâhî, that keeps watch and guards the tree wherever the frog would slip in”

A grávida que abortou deve tomar gômêz com cinzas, três, seis ou nove taças, até lavar o túmulo que tem no útero” “e a ela não está permitido, até o quarto dia, tomar água ou sal, ou qualquer comida cozida com água ou sal: no quarto dia deve ser-lhe dado nîtrang, para se lavar e lavar suas vestes, e não lhe está permitido lavar-se e lavar suas vestes com água até o quadragésimo primeiro dia” “a roupa poluída pelo morto só pode vestir mulheres, mesmo depois de lavada e exposta por 6 meses à luz do sol e da lua”

Fargard VI

the dead shall become immortal by tasting of the white Haoma”

Fargard VII

O solene momento da morte: “the Drug Nasu [corrupção, poluição] comes and rushes upon the dead, from the regions of the north, in the shape of a raging fly, with knees and tail sticking out, all stained with stains, and like unto the foulest Khrafstras

Fargard VIII

Quatro sujeitos podem ser mortos sem uma ordem do Dastur [sacerdote]: o Nasâ-burner [quem queima cadáveres], o andarilho, o sodomita, e o criminoso pego em flagrante”

Fargard IX-XI

(…)

Fargard XII

So, besides the general uncleanness arising from actual contact with a corpse, there was another form of uncleanness arising from relationship with the dead. (…) Whether this is the primitive form of mourning, or only a later form of it, we will not discuss here.”

The son deserts the house where his father has died; he could not live and walk in it”

Fargard XIII

Sobre os cães no lato senso.

I a. i. Which is the good creature among the creatures of the good spirit that from midnight till the sun is up goes and kills thousands of the creatures of the evil spirit? § Ahura Mazda answered: <The dog with the prickly back, with the long and thin muzzle, the dog Vanghâpara or Duzaka [hedgehog]>.” Quem matar um porco-espinho que caça os animais malignos entre meia-noite e o nascer-do-sol vai para o inferno e sua descendência é castigada por 9 gerações. O cágado é o “porco-espinho do mal”. A doninha, o castor e a raposa também são espíritos benignos.

The young dog enters the community of the faithful at the age of 4 months, when he can smite the Nasu.”

Whenever one eats bread one must put aside 3 mouthfuls and give them to the dog… for among all the poor there is none poorer than the dog.” “Bring ye unto him milk and fat with meat; this is the right food for the dog.”

De acordo com a lei de Sólon, o cão que morder alguém deve ser entregue à vítima amarrado a um bloco de 4 cúbitos de comprimento (Plutarchus, Solon, 24); o cavalo que matou um homem é condenado à morte (Eusebius, Prep. Evang., 5).”

If there be in the house of a worshipper of Mazda a mad dog, or one that bites without barking, what shall the worshippers of Mazda do?

They shall put a wooden collar around his neck, and they shall tie him to a post, an asti thick if the wood be hard, two astis thick if it be soft. To that post they shall tie him; by the 2 sides of the collar they shall tie him.”

If they shall not do so [tratar o cão enfermo], and the scentless dog [cão sem faro] fall into a hole, or a well, or a precipice, or a river, or a canal, and he be wounded and die thereof, they shall be Peshôtanus [pecadores irretratáveis].”

Which of the 2 wolves deserves more to be killed, the one that is born of a he-dog and of a she-wolf, or the one that is born of a she-dog and of a he-wolf?

Of these 2 wolves, the one that is born of a he-dog and of a she-wolf deserves more to be killed than the one that is born of a she-dog and a he-wolf.

For there are born of a he-dog and of a she-wolf such dogs as fall on the shepherd’s dog, on the house dog, on the Vohunazga dog, on the trained dog, and destroy the folds; such dogs are born as are more murderous, more mischievous, more destructive to the folds than any other dogs.”

Um cachorro come comida podre, como um padre; ele possui gratidão, como um padre; ele é facilmente satisfeito, como um padre; ele só quer um pequeno pedaço de pão, como um padre; nessas coisas ele é exatamente como um padre.

Ele marcha à frente, como um guerreiro; ele luta pelas pacíficas vacas, como um guerreiro; ele é o primeiro é sair de casa, como um guerreiro. (…)

Ele está sempre atento e tem o sono leve, como um pastor; ele é o primeiro a sair de casa, como um pastor; e o último a retornar para casa, como um pastor.

Ele canta como um trovador; ele é intrusivo, como um trovador; ele é esquálido, como um trovador; ele é pobre, como um trovador.

Ele gosta da escuridão, como um bandido; ele espreita à escuridão, como um bandido; ele é um comilão imoderado, como um bandido; ele é um guardião não-confiável, como um bandido.

(…)

Ele adora dormir, como uma criança; ele pode sair correndo sem destino e se perder, como uma criança; ele é linguarudo e babão, como uma criança, ele caminha de 4 pela casa, como uma criança.”

Os indianos e Platão concordam com a medula sendo a origem do sêmen; Aristóteles discorda.

FADO-LESÃO

epilep(oe)sia

Fargard XIV

Mil almas de cachorros mortos se juntam para formar um cachorro d’água (??). E aquele que o matar será o responsável por uma peste inteira a devastar os campos (10 mil chicotadas de cada um dos 2 tipos existentes, o que soa inverossímil como legislação real jamais aplicada; ou multa exorbitante; ou o sacrifício de 10 mil cobras venenosas, ou tartarugas, ou sapos, ou formigas [??], ou vermes da terra ou moscas).

A “cobra venenosa” do parágrafo acima pode ser uma forma de se referir ao gato, já que é reputado como “tendo o mesmo formato do cão”, mas sendo maligno.

Os animais a que os Gaures [indianos] mais têm repulsa são as serpentes, os vermes, os lagartos e outros dessa espécie, os sapos, os caranguejos, os ratos e os morcegos, e sobretudo os gatos” G. du ChinonEles dizem, ainda, que os sapos são a causa da morte dos homens, pois envenenam as águas que habitam continuamente, e quanto mais destes espécimes houver mais doenças vão causar”

Fargard XV

He who gives too hot food to a dog so as to burn his throat is margarzân (guilty of death)”

Fargard XVI-XVII

(…)

Fargard XVIII

If a Gahi (courtezan) look at running waters, they fall; if at trees, they are stunted; if she converse with a pious man, his intelligence and his holiness are withered by it (Saddar 67 Hyde 74). Cf. Manu, 4:40-ss.

O Zartust Isfitamân! with regard to woman, I say to thee that any woman that has given up her body to two men in one day is sooner to be killed than a wolf, a lion, or a snake: any one who kills such a woman will gain as much merit by it as if he had provided with wood 1000 fire-temples or destroyed the dens of adders [ninhos de víboras], scorpions, lions, wolves, or snakes”

Fargard XIX

an old myth in which Zarathustra and Angra Mainyu played respectively the parts of Oedipus and the Sphinx.”

A ponte que passa pelo Inferno mas leva para o Céu: “This bridge is known in many mythologies; it is the Sirath bridge of the Musulmans; not long ago they sang in Yorkshire of <the Brig o’ Dread, na brader than a thread> (Thoms, Anecdotes, 89), and even nowadays the peasant in Nièvre tells of a little board–

<Pas pu longue, pas pu large

Qu’un ch’veu de la Sainte Viarge,>

which was put by Saint Jean d’Archange between the earth and paradise”

A teoria de anjos do mal: “Indra the Daêva, Sâuru the Daêva, Naunghaithya the Daêva, Taurvi and Zairi, Aêshma of the wounding spear, Akatasha the Daêva, Zaurva, baneful to the fathers, Bûiti the Daêva, Driwi the Daêva, Daiwi the Daêva, Kasvi the Daêva, Paitisha the most Daêva-like amongst the Dâevas [Opposition, or counter-action, a personification of the doings of Ahriman/Angra Mainyu and of his marring power].”

Fargard XX

Thrita, o primeiro médico.

As funções de médico e matador (logo, encantador) de serpentes eram unificadas. Princípio de HxH: quem tem o veneno, tem o remédio.

Eram 8 as doenças.

Fargard XXI

There were old myths in which a cloud was compared to a bull in the atmosphere, from whom rain was supposed to come.”

As light rises up from Hara Berezaiti [Alborz, the mountain by which the earth is surrounded], so waters spring up from it and come back to it”

In the Avesta the word Airyaman has the same meaning as in the Veda; but the character of the god is more fully developed, and whereas he has no distinct personality in the Vedic hymns, he appears here in the character of a healing god, which is derived in a very natural manner from his primitive and general character.”

the ruffian Angra Mainyu wrought by his witchcraft 9 diseases, and 90, and 900, and 9000, and 9 times 10.000 diseases [ou seja, 9.999].”

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Introdução ao Segundo Volume do Zend-Avesta de Darmesteter (compilação em 3vol.)

These writings are generally of a higher poetical and epical character than the rest of the Avesta, and are most valuable records of the old mythology and historical legends of Iran.”

In India the Sîrôzah is recited in honour of the dead, on the 30th day after the death, on the 30th day of the 6th month, on the 30th day of the 12th month, and then every year on the 30th day from the anniversary day (Anquetil, Zend-Avesta, II, 315).”

the attribution of each of the 30 days of the month to certain gods, seems to have been borrowed from the Semites: the tablets found in the library of Assurbanipal contain an Assyrian Sîrôzah, that is, a complete list of the Assyrian gods that preside over the 30 days of the month”

The Ormazd Yast is recited every day at the Hâvan Gâh, after the morning prayer (Anquetil, Zend-Avesta, II, 143): it is well also to recite it when going to sleep and when changing one’s residence (§17).”

Como se trata de uma religião humilde, o Masdeísmo possui cerca de duas dúzias de nomes para Ormazd. “With the Musulmans, Allah had 1001 names. On the names of God among the Jews, see Zeitschrift der Deutschen Morgenlandischen Gesellschaft, XXXV, pp. 162, 532.”

Sîrôzahs, Yasts and Nyâyis

Sîrôzah I

A paz que quebra pernas.

The month was divided into four weeks, the first two numbering seven days, the last two numbering eight.”

A lua engravidou do touro. E assim nasceram as 208 espécies animais, devidamente salvas no Dilúvio.

Sîrôzah II

(…)

Ormazd Yast

MAZDA significa: onisciente.

AHURA MAZDA: Senhor Onisciente.

Bahman Yast

Assim Falou: “Foi no topo da montanha que Ahura revelou a lei”

Haptân Yast

(…)

Ardibehist Yast

The Airyaman prayer is the greatest of spells, the best of spells, the very best of all spells; the fairest of spells, the very fairest of all spells; the fearful one amongst spells, the most fearful of all spells; the firm one amongst spells, the firmest of all spells; the victorious one amongst spells, the most victorious of all spells; the healing one amongst spells, the best-healing of all spells.”

Khordâd Yast

(…)

Âbân Yast

One must be cautious in the use of the Greek sources, as the Greeks, with the eclectic turn of their mind, were inclined to confound under the name of Anâhita all the great female deities of Asia Minor, and her name became a common appellation for the Aphrodites as well as for the Artemides of the East.”

she, Ardvi Sûra Anâhita, who has a thousand cells and a thousand channels: the extent of each of those cells, of each of those channels is as much as a man can ride in 40 days, riding on a good horse.”

Beautiful were her white arms, thick as a horse’s shoulder or still thicker; beautiful was her…”

A Parsi poem, of a very late date, gives further details about Gandarewa. It was a monster who lived <in the sea, on the mountain, and in the valley>; he was called Pâshnah zarah, because the sea did not go above his heel (a misinterpretation of his Avestean epithet zairi pashna, golden-heeled, the Zend zairi being mistaken for the Persian zarah, sea); his head would rise to the sun and rub the sky; he could swallow up 12 men at once. Keresâspa fought him for 9 days and 9 nights together; he drew him at last from the bottom of the sea and smashed his head with his club: when he fell on the ground, many countries were spoiled by his fall (Spiegel, Die traditionnelle Literatur der Parsen, p. 339, and West, Pahlavi Texts, II, pp. 369ss.).

In the Vedic mythology the Gandharva is the keeper of Soma, and is described now as a god, now as a fiend, according as he is a heavenly Soma-priest or a jealous possessor who grudges it to man. What was the original form of the myth in Mazdeism is not clear. In the Shâh Nâmah he appears as the minister of Azi Dahâka [rei tirânico, vinculado ao símbolo da cobra]. Cf Yt. XV, 27 seq., and Ormazd et Ahriman, pp. 99, note 5; 215, note 1.

Frangrasyan (Afrâsyâb) was king of Tûrân for 200 years. The perpetual struggle between Irân and Tûrân, which lasts to this day, was represented in the legend by the deadly and endless wars between Afrâsyâb and the Iranian kings from Minokihr down to Kai Khosrav (Kavi Husravah). The chief cause of the feud was the murder of Syâvakhsh (Syâvarshâna) by Afrâsyâb; Syâvakhsh, son of Kai Kaus (Kava Usa), having been exiled by his father, at the instigation of his mother-in-law, took refuge with Afrâsyâb, who received him with honour, and gave him his daughter in marriage: but the fortune of Syâvakhsh raised the jealousy of Afrâsyâb’s brother, Karsîvaz (Keresavazda), who by means of calumnious accusations extorted from Afrâsyâb an order for putting him to death (see Yt. XIX, 77). Afrâsyâb was revenged by his son, Kai Khosrav, the grandson of Afrâsyâb (Yt. IX, 22).”

Os avós de Moisés: “A part of the waters she made stand still, a part of the waters she made flow forward, and she left him a dry passage to pass over the good Vitanghuhaiti.”

Outro mito bastante difundido é o da esfinge (às vezes antropomórfica!) fazedora de enigmas e do herói que é capaz de responder às perguntas corretamente: “This legend is fully told in the Pahlavi tale of Gôsti Fryân (edited and translated by West): a sorcerer, named Akht, comes with an immense army to the city of the enigma-expounders, threatening to make it a beaten track for elephants, if his enigmas are not solved. A Mazdayasnian, named Gôsti Fryân, guesses the 33 riddles proposed by Akht; then, in his turn, he proposes him 3 riddles which the sorcerer is unable to guess, and, in the end, he destroys him by the strength of a Nirang. Cf. Yt. XIII, 120. This tale, which belongs to the same widespread cycle as the myth of Oedipus and the Germanic legend of the Wartburg battle, is found in the Zarathustra legend too (Vendîdâd XIX, 4).” “Grant me this, O good, most beneficent Ardvi Sûra Anâhita! that I may overcome the evil-doing Akhtya[?], the offspring of darkness, and that I may answer the 99[?] hard riddles that he asks me maliciously, the evil-doing Akhtya, the offspring of darkness.”

Between the earth and the region of infinite light there are 3 intermediate regions, the star region, the moon region, and the sun region. The star region is the nearest to the earth, and the sun region is the remotest from it. Ardvi Sûra has her seat in the star region.”

The Hvôva or Hvôgva family plays as great a part in the religious legend, as the Naotara family in the heroic one. Two of the Hvôvas, Frashaostra and Gâmâspa, were among the 1st disciples of Zarathustra and the prophet married Frashaostra’s daughter, Hvôgvi (cf. Yt.XIII, 139).”

The conversion of Vistâspa by Zarathustra is the turning-point in the earthly history of Mazdeism, as the conversion of Zarathustra by Ahura himself is in its heavenly history.”

Aregat-aspa is the celebrated Argâsp, who waged a deadly war against Gustâsp to suppress the new religion: he stormed Balkh, slaughtered Lôhrâsp and Zartûst (Zarathustra), and was at last defeated and killed by Gustâsp’s son, Isfendyâr.”

the skin of the beaver [na verdade, lontra, otter] that lives in water is the finest-coloured of all skins”

Khôrshêd [Sun] Yast

Darmesteter – Études Iraniennes

Mâh [Moon] Yast

(…)

Tîr Yast

Estrelas contra planetas

Pena que a Terra é um planeta

Oh, o Mal venceu!

Tistryia (o protagonista “não-antropomórfico” deste capítulo) é Sirius, a estrela que está no céu no Ano-Novo. Canino-maior. Adviria daí a famosa expressão “calor do cão”.

Morte e Vida Tempestiva

Haptoiriwga (Ursa Major) is the leader of the stars in the north (Bund. II, 7). It is entrusted with the gate and passage of hell” Cérbero, O Urso

The age of 15 is the paradisiacal age in the Avesta (Yasna LX, 5 [18]).”

Gôs [Vaca] Yast

(…)

Mihir [Luz, Verdade…] Yast

mithra” (com letra minúscula) é contrato.

2. (…) Break not the contract, O Spitama! neither the one that thou hadst entered into with one of the unfaithful, nor the one that thou hadst entered into with one of the faithful who is one of thy own faith. For Mithra stands for both the faithful and the unfaithful.

3. Mithra, the lord of wide pastures, gives swiftness to the horses of those who lie not unto Mithra.

(…)”

Mithra is closely connected with the sun, but not yet identical with it, as he became in later times”

OS 6 MUNDOS INÚTEIS (DV!): “The earth is divided into 7 Karshvares, separated from one another by seas and mountains impassable to men. Arezahi and Savahi are the western and the eastern Karshvare; Fradadhafshu and Vîdadhafshu are in the south; Vourubaresti and Vourugaresti are in the north; Hvaniratha is the central Karshvare.– Hvaniratha is the only Karshvare inhabited by man (Bundahis XI, 3).” SOBERBO E HUMILDE AO MESMO TEMPO.

Those who lie unto Mithra, however swift they may be running, cannot overtake (…) The wind drives away the spear that the foe of Mithra flings, for the number of the evil spells that the foe of Mithra works out.”

71. Who, eagerly clinging to the fleeing foe, along with Manly Courage, smites the foe in battle, and does not think he has smitten him, nor does he consider it a blow till he has smitten away the marrow and the column of life, the marrow and the spring of existence.

72. He cuts all the limbs to pieces, and mingles, together with the earth, the bones, hair, brains, and blood of the men who have lied unto Mithra.”

The Hindus supposed that the sun had a bright face and a dark one, and that during the night it returned from the west to the east with its dark face turned towards the earth.”

he who stands up upon this earth as the strongest of all gods, the most valiant of all gods, the most energetic of all gods, the swiftest of all gods, the most fiend-smiting of all gods, he, Mithra, the lord of wide pastures”

Mithra está vinte vezes entre dois amigos”

Mithra está cinqüenta vezes entre dois amantes”

Mithra está sessenta vezes entre dois pupilos do mesmo mestre”

Mithra está oitenta vezes entre o genro e o seu sogro”

Mithra está noventa vezes entre dois irmãos”

Mithra está cem vezes entre pai e filho”

Mithra está mil vezes entre duas nações”

Mithra está dez mil vezes quando unido à Lei de Mazda”

He is the stoutest of the stoutest, he is the strongest of the strongest, he is the most intelligent of the gods, he is victorious and endowed with Glory”

Srôsh Yast Hâdhôkht

(…)

Rashn [Verdade/Justiça] Yast

Derivação, avatar ou afluente do outro deus da verdade, Mithra.

Farvardîn Yast

This latter part is like a Homer’s catalogue of Mazdeism. The greatest part of the historical legends of Iran lies here condensed into a register of proper names.”

There are five classes of animals: those living in waters (upâpa), those living under the ground (upasma = upa-zema), the flying ones (fraptargat), the running ones (ravaskarant), the grazing ones [animais de pasto] (kangranghâk); Vispêrad 1:1 e seg..; Yt. 13:74. The representatives of those several classes are the kar mâhi fish, the ermine, the karsipt, the hare, and the ass-goat (Pahl. Comm. ad Visp. 1. 1.).”

Gaotema, the heretic.”Siddhartha, o Buda.

The 6th and last Gâhambâr (see Âfrigân Gâhambâr), or the last 10 days of the year (10th-20th March), including the last 5 days of the last month, Sapendârmad, and the 5 complementary days. These last 10 days should be spent in deeds of charity, religious banquets (gasan), and ceremonies in memory of the dead. It was also at the approach of the spring that the Romans and the Athenians used to offer annual sacrifices to the dead; the Romans in February <qui tunc extremus anni mensis erat> (Cicero, De Legibus, II, 21), the Athenians on the 3rd day of the Anthesterion feast (in the same month). The souls of the dead were supposed to partake of the new life then beginning to circulate through nature, that had also been dead during the long months of winter.”

<Zartûst went near unto Hvôv (Hvôgvi, his wife) 3 times, and each time the seed went to the ground; the angel Nêryôsang received the brilliance and strength of that seed, delivered it with care to the angel Anâhîd, and in time will blend it with a mother> (Bundahis, 32:8). A maid, Eredat-fedhri, bathing in Lake Kãsava, will conceive by that seed and bring forth the Saviour Saoshyant; his two fore-runners, Ukhshyat-ereta and Ukhshyat-nemah, will be born in the same way of Srûtat-fedhri and Vanghu-fedhri (Yt. 13:141-142).”

By Zartûst were begotten three sons and three daughters; one son was Isadvâstar, one Aûrvatad-nar, and one Khûrshêd-kîhar; as Isadvâstar was chief of the priests he became the Môbad of Môbads, and passed away in the 100th year of the religion; Aûrvatad-nar was an agriculturist, and the chief of the enclosure formed by Yim, which is below the earth (see Vend. 2:43[141]); Khûrshêd-kîhar was a warrior, commander of the army of Pêshyôtanû, son of Vistâsp (see Yt. 24:4), and dwells in Kangdez; and of the three daughters the name of one was Frên, of one Srît, and of one Pôrukîst (see Yt. 13:139). Aûrvatad-nar and Khûrshêd-kîhar were from a serving (kakar) wife, the rest were from a privileged (pâdakhshah) wife”

bathing in Lake Kãsava, she will become pregnant from the seed of Zarathustra, that is preserved there, and she will bring forth a son, Oshedar bâmî.”

Bahrâm [Genius of Victory] Yast

The raven was sacred to Apollo. The priests of the sun in Persia are said to have been named ravens (Porphyrius). Cf. Georgica, I, 45.”

Râm Yast

Takhma Urupa (in later legend Tahmûrâf) was a brother to Yima. He reigned for 30 years and rode Ahriman, turned into a horse. But at last his wife, deceived by Ahriman, revealed to him the secret of her husband’s power, and Tahmûrâf was swallowed up by his horse. But Yima managed to take back his brother’s body from the body of Ahriman and recovered thereby the arts and civilisation which had disappeared along with Tahmûrâf (see Minokhired XXVII, 32; Ravâet apud Spiegel, Einleitung in die traditionelle Literatur, pp. 317 seq.; Ormazd et Ahriman, §137 seq.).”

My name is the Overtaker (apaêta), O holy Zarathustra! My name is the Overtaker, because I can overtake the creatures of both worlds, the one that the Good Spirit has made and the one that the Evil Spirit has made.”

Dîn [O Caminho do Nirvana] Yast

Deidade relacionada ao cumprimento da Lei e à busca da Felicidade que foi deixada de lado no Zoroastrismo tardio. Na realidade, tratavam-se de duas gênias, as entidades femininas Daêna e Kista.

Ashi Yast

11. The men whom thou dost attend, O Ashi Vanguhi! have daughters that sit….; thin is their waist, beautiful is their body, long are their fingers; they are as fair of shape as those who look on can wish. Happy the man whom thou dost attend! Do thou attend me, thou rich in all sorts of desirable things and strong!”

Âstâd Yast

(…)

Zamyâd Yast

This