APOLOGIA DE SÓCRATES

Tradução de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego de Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

esta é a primeira vez na minha vida que compareço perante um tribunal de justiça, apesar de contar mais de 70 anos. (…) muitos acusadores (…) disseram-lhes, que há um certo Sócrates, homem sábio que indaga o que se passa nos céus e nas entranhas da terra e que sabe converter uma doutrina má em boa. (…) Por outra parte, estes acusadores são em grande número, e faz muito tempo que estão metidos nesta trama. (…) o mais injusto é que não me é permitido conhecer nem nomear meus acusadores, à exceção de um certo autor de comédias.”

Remontemos, pois, à primeira causa da acusação, sobre a que fui tão desacreditado e que deu a Meleto segurança para me arrastar a este tribunal.”

E nem é porque não considere louvável o poder instruir aos homens, como fazem Górgias de Leôncio1, Pródico de Céos2 e Hípias de Élide3. Estes grandes personagens têm o maravilhoso talento, aonde quer que vão, de persuadir os jovens a se unir a eles, e abandonar seus concidadãos, quando poderiam estes ser seus mestres sem custar-lhes um óbolo [centavo].

1 Górgias de Leontinos ou de Leontini [atual Sicília] (em grego, Γοργίας) (circa 485a.C.-circa 380a.C): Filósofo do período antropológico da Filosofia grega.

2 Pródico de Céos (Pródikos; circa 465(50?)a.C.-circa 395a.C.) foi um filósofo grego, que formou parte da primeira geração de sofistas. Nasceu no povoado de Yulis, na ilha egéia de Céos (uma das Cíclades, no mar Egeu).

3 Hípias de Élis, sofista grego das primeiras gerações, nasceu aproximadamente em meados do século V a.C. e ademais foi um jovem contemporâneo de Protágoras e Sócrates. A maior fonte de conhecimento sobre ele procede de Platão. Aparece nos diálogos platônicos (Hípias menor e Hípias maior), além de (de forma breve) no Protágoras.”

Hipônico [sogro de Alcibíades], homem que gasta mais com os sofistas que todos os cidadãos juntos”

[Nota] Querefonte, segundo Platão, era um cidadão ateniense que perguntou ao oráculo de Delfos se havia alguém mais sábio do que Sócrates, e a Pitonisa contestou-lhe que não havia nenhum grego mais sábio que este.”

Pode muito bem suceder, que nem ele nem eu saibamos nada do que é belo e do que é bom; mas há esta diferença, que ele crê sabê-lo por mais que não saiba nada, e eu, não sabendo nada, creio não saber. Me parece, pois, que nisto eu, ainda que por pouco, era mais sábio, porque não cria saber o que não sabia.”

fui em busca de outros, conhecendo bem que me fazia odioso, e fazendo-me violência, porque temia os resultados; mas me parecia que devia, sem duvidar, preferir a voz de deus a todas as coisas, e para topar com o verdadeiro sentido do oráculo, ir de porta em porta pelas casas de todos aqueles que gozavam de grande reputação”

Parece-me, atenienses, que somente Deus é o verdadeiro sábio, e que isto quis dizer por seu oráculo, fazendo entender que toda a sabedoria humana não é grande coisa, ou por melhor dizer, que não é nada; e se o oráculo nomeou a Sócrates, sem dúvida valeu-se de meu nome como um exemplo, e como se dissesse a todos os homens: <O mais sábio de entre vocês é aquele que reconhece, como Sócrates, que sua sabedoria não é nada>.”

Meleto representa os poetas, Anito os políticos e artistas e Lícon os oradores.”

SÓCRATES – (…) explica-te se me acusas de ensinar que há muitos deuses, (e neste caso, se creio que há deuses, não sou ateu, e falta a matéria para que seja eu culpado) ou se estes deuses não são do Estado. (…) Ou bem me acusas de que não admito nenhum deus, e que ensino os demais a que não reconheçam nenhum?

MELETO – Acuso-te de não reconhecer nenhum deus.

SÓCRATES – Oh, maravilhoso Meleto!, por que dizes isso? O quê, eu não creio como os demais homens que o sol e a lua são deuses?”

SÓCRATES – (…) há alguém que creia nas coisas dos demônios, e que, no entanto, creia que não há demônios?

MELETO – Não, sem dúvida.”

SÓCRATES – E estes demônios, não estamos convencidos de que são deuses ou filhos de deuses? É assim, sim ou não?

MELETO – Sim.”

Talvez alguém me diga: Não tens remorso, Sócrates, de te haver consagrado a um estudo que te põe neste momento em risco de morte?”

Meu filho, se vingares a morte de Pátroclo, teu amigo, matando a Heitor, tu morrerás porque tua morte deve seguir à de Heitor.”

É uma verdade constante, atenienses, que todo homem que escolheu um posto que tenha crido honroso, ou que foi-lhe imposto por seus superiores, deve se manter firme, e não deve temer nem a morte, nem o que há de mais terrível, antecipando-se a todo o horror.

Conduzir-me-ia de uma maneira singular e estranha, atenienses, se depois de ter guardado fielmente todos os postos a que me destinaram nossos generais em Potidéia, em Anfípolis e em Délio¹ [não confundir com Delos] e de ter arriscado minha vida tantas vezes, agora que o deus me ordenou passar meus dias no estudo da filosofia, estudando-me a mim mesmo e estudando os demais, abandonasse este posto por medo da morte ou de qualquer outro perigo. (…) Porque temer a morte, atenienses, não é outra coisa que se crer sábio sem sê-lo, e crer conhecer o que não se sabe. Com efeito, ninguém conhece a morte, nem sabe se é o maior dos bens para o homem.

¹ Sócrates se distinguiu por seu valor nos dois primeiros lugares, e na batalha de Délio salvou a vida de Xenofonte, seu discípulo, e de Alcibíades.”

Se me dissésseis: – Sócrates, em nada estimamos a acusação de Anito, e te declaramos absolvido; mas só à condição de que cessarás de filosofar e de fazer tuas indagações de costume; e se reincidires, e se chegar a descobrir, tu morrerás; se me désseis a liberdade sob estas condições, vos responderia sem hesitar: – Atenienses, respeito-vos e amo-vos; mas obedecerei a deus antes que a vós, e enquanto eu viver não cessarei de filosofar, dando-vos sempre conselhos, retomando minha vida ordinária, e dizendo a cada um de vós quando vos encontrar: – Bom homem, como, sendo ateniense e cidadão da maior cidade do mundo por sua sabedoria e por seu valor, como é que não te envergonhas de não haver pensado senão em amontoar riquezas?”

Toda minha ocupação se resume em trabalhar para persuadir-vos, jovens e velhos, de que antes do cuidado com o corpo e com as riquezas, antes de qualquer outro cuidado, vem o da alma e seu aperfeiçoamento” Sacrílego!

Fazei o que pede Anito, ou não o fazei; dai-me a liberdade, ou não ma dai; eu não posso fazer outra coisa, ainda que houvesse de morrer mil vezes…”

condenar-me seria ofender o deus e desconhecer o presente que vos foi dado.”

ZARATUSTRA II (OU ZARATUSTRA ZERO): “Talvez pareça absurdo que eu me tenha intrometido a dar lições a cada um em particular, e que jamais me tenha atrevido a me apresentar em vossas assembléias, para dar meus conselhos à pátria. Quem mo impediu, atenienses, foi este demônio familiar, esta voz divina de que tantas vezes vos falei, e que serviu a Meleto para formar admiravelmente um capítulo da acusação. (…) Essa voz é a que sempre se me opôs, quando quis mesclar-me nos negócios da república”

É preciso, de toda necessidade, que aquele que quiser combater pela justiça, por pouco que queira viver, seja tão-somente um simples particular e não um homem público.”

é impossível que eu deixe de ser vítima da injustiça.”

tenho parentes e tenho três filhos, dos quais o maior está na adolescência e os outros dois na infância, e no entanto, não os farei comparecer aqui para vos comprometer a absolver-me.”

(…)

não esperava ver-me condenado por tão escasso número de votos.”

[Nota] A lei permitia ao acusado condenar-se a uma destas três penas; prisão perpétua, multa, desterro. Sócrates não caiu nesta armadilha.”

Preciosa vida para Sócrates, se a esta idade, expulso de Atenas, se visse errante de cidade em cidade como um vagabundo e como um proscrito!”

O quê, Sócrates, se fores banido não poderás manter-te em repouso e guardar silêncio?”

Verdadeiramente, se fosse eu rico, me condenaria a uma multa tal que pudesse pagá-la, porque isto não me causaria nenhum prejuízo; mas não posso, porque nada tenho, a menos que queirais que a multa seja proporcional a minha indigência, e neste âmbito poderia ela se estender a até uma mina de prata, pois é a isto que me condeno.”

(Havendo-se Sócrates condenado a si mesmo à multa por obedecer à lei, os juízes deliberaram e o condenaram à morte…)”

Mas já é tempo de que nos retiremos daqui, eu para morrer, vós para viverdes. Entre vós e eu, quem leva a melhor parte? Isto é o que ninguém sabe, exceto Deus.”

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SÓCRATES, O MAIOR DOS SOFISTAS

EUTÍFRON OU DA SANTIDADE (PIEDADE)

Tradução de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego de Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

se se limitassem a se mofar de mim, como dizes que mofam-se de ti, não seria desagradável passar aqui algumas horas por brincadeira e diversão; mas se tomam a coisa seriamente, só vós os adivinhos podereis dizer o que sucederá.”

Todo mundo sabe que Zeus é o melhor e mais justo dos deuses, e todos convêm em que acorrentou seu próprio pai porque devorava seus filhos contra a razão e a justiça; e Cronos não tratou com menos rigor seu pai por outra falta.”

Eu sou mais hábil em minha arte que o era Dédalo. Este só sabia dar esta mobilidade a suas próprias obras, quando eu, não só dou-a as minhas, senão também às alheias; e o mais admirável é que sou hábil apesar de mim, porque preferiria incomparavelmente mais que meus princípios fossem fixos e inquebráveis, que ter todos os tesouros de Tântalo com toda a habilidade de meu ancestral [Sócrates se diz descendente do inventor Dédalo].”

o que canta um poeta:

Por que se teme celebrar a Zeus quem criou tudo? A vergonha é sempre companheira do medo.

Não concordo com este poeta; quer saber por quê?

(…)

E em verdade é preciso dizer:

O medo é sempre companheiro da vergonha.

Porque é falso que a vergonha se encontre onde quer que esteja o medo. O medo tem mais extensão que a vergonha. Com efeito, a vergonha é uma parte do medo, como o ímpar é uma parte do número.”

Parece que o santo não se encontra sempre com o justo, porque o santo é uma parte do justo.”

SÓCRATES – Sacrificar é dar aos deuses. Orar é pedir-lhes.

EUTÍFRON – Muito bem, S.

SÓCRATES – Segue-se deste princípio, que a santidade é a ciência de dar e de pedir aos deuses.

EUTÍFRON – Compreendeste perfeitamente meu pensamento.”

E te atreves a acusar-me de ser o Dédalo que lhes dá esta mobilidade contínua, tu que mil vezes mais astuto que Dédalo os faz girar em círculo?”

SÓCRATES – (…) não te deixarei, como outro Proteu [divindade um tanto esquiva], até que me tenhas instruído (…) Não posso duvidar de que tu crês saber perfeitamente o que é a santidade e sua contrária; diga-mas, pois, meu querido Eutífron (…)

EUTÍFRON – Assim fá-lo-ei em outra ocasião, Sócrates, porque neste momento tenho precisão de deixar-te.”

MITOLOGIA – LENDAS – Salvador Nogueira

OS CASTIGOS DE PROMETEU E IO

Zeus não pôde suportar a idéia de que, assim como seu pai, ele seria suplantado um dia. O que ele não entendeu foi a natureza de sua substituição. E por isso ele me mantém aqui, na esperança de que eu revele quem está destinado a superá-lo. Mas ele pode esperar sentado.”

NARCISO

A partir de agora, a sua palavra será sempre a última, jamais a primeira! – evocou, condenando Eco a eternamente repetir o que outros dizem, sem jamais ter iniciativa no diálogo.

A ninfa ficou arrasada. Perdera definitivamente a chance de conquistar Narciso.”

<Que aquele que não ama ninguém venha a apaixonar-se por si próprio!>

A deusa Nêmesis, cujo nome significa <ira justa>, ouviu o apelo e tratou de fazer com que se concretizasse.”

O que ele não imaginara é que nem mesmo a morte o curaria, pois, ao ser transportado pelo barqueiro Caronte através do rio dos mortos, Narciso se inclinou para fora, na tentativa de rever sua imagem refletida nas águas do Estige.”

EROS E PSIQUÊ

Todos comunicavam aos 4 ventos, sem medo de errar, que Psiquê era mais bela que a própria Afrodite, a deusa da beleza. (…) Com o passar do tempo, os templos dedicados a Afrodite começaram a sumir, assim como os cultos dedicados a ela.” “Afrodite decidiu lançar uma cruel vingança sobre Psiquê, e para isso convocou a ajuda de seu filho, o deus do amor, Eros.”

– E a flechada que quero de ti é no coração dela, e voltada para o sujeito mais horroroso que pudermos encontrar. (…)

– Hmm, está bem – respondeu Eros. – Mas pode ser depois do almoço? Estou com uma fome danada, e Zeus está servindo uma ambrosia daquelas na casa dele hoje…” HAHAHA

Assim que o deus alado do amor colocou seus olhos na princesa, foi tomado por uma paixão incontrolável. Jamais faria com que ela se apaixonasse por um qualquer. Aliás, por ninguém. Exceto ele. E trataria também de impedir que outro homem sentisse por ela nada além de uma profunda admiração platônica.

E assim foi. Dias, meses e anos se passaram, e o rei e a rainha começaram a ficar preocupados: estaria sua filha mais bela que Afrodite inacreditavelmente ficando para titia? Cansados de esperar, decidiram ir até o oráculo de Apolo em busca de orientação. Mas Eros já havia conversado previamente com o deus, pois os humanos costumavam pedir-lhe conselhos com muita freqüência, e os dois estavam mancomunados num plano.”

Mas o imponderável sempre entra em ação. Uma multidão de formigas que estava no chão se compadeceu de Psiquê. Elas caminharam laboriosamente na direção da pilha e separaram com precisão (e velocidade incrível) todos os tipos de semente. Ao fim da tarde, quando a deusa retornou, ficou chocada com o inesperado sucesso da princesa.”

Eros, Eros… você sabe que já deu muita dor de cabeça para mim, não é? Você fica disparando suas flechinhas por aí, e lá vou eu transformar em touro, em cisne, para fugir da Hera e ir atrás de garotas lá embaixo… mas eu entendo bem a situação e preciso acima de tudo ser justo. Daremos ambrosia a Psiquê e ela se tornará uma deusa, morando consigo no céu!”

ORFEU E EURÍDICE

Na Terra, houve apenas um mortal cuja música se aproximou em qualidade da música divina. Nascido na Trácia, era filho de uma das musas, de forma que considerá-lo totalmente humano seria injusto. Seu nome era Orfeu.

Admirado onde quer que fosse, Orfeu se tornou um homem importante. Na lendária viagem do Argo, sob o comando de Jasão, ele foi um importante membro da tripulação. Sempre que os heróis estavam exaustos ou o trabalho nos remos se mostrava particularmente difícil, Orfeu começava a executar canções com sua lira, uma mais bela que a outra. Logo o ânimo estava recobrado, e as pás se moviam no ritmo das notas musicais.”

Certa ocasião, Orfeu chegou mesmo a salvar toda a tripulação da morte, quando se ouviu ao longe, no mar, o sedutor canto das sereias. A embarcação já estava apontada para lá, enfeitiçados que estavam os homens pelos sons maliciosos das famosas criaturas, quando Orfeu cantou tão alto e tão bem que quebrou o efeito das sereias e fez com que o curso original do navio fosse retomado, sem ameaçar a integridade dos guerreiros.”

Não se sabe onde ele a encontrou nem como a cortejou, mas é óbvio que nenhuma jovem teria como resistir a seus talentos, uma vez que ele estivesse determinado a conquistá-la. Casaram-se, mas a felicidade do casal durou pouco. Quando Eurídice caminhava pelo campo com uma de suas damas de honra, foi picada por uma víbora e morreu.”

O cão Cérbero parecia encantado e parou de vigiar os portões do palácio de Hades. A roda de Íxion parou de girar. Sísifo fez uma pausa na tarefa de empurrar sua pedra morro acima e sentou-se nela para observar o espetáculo. Tântalo se viu sem sede, e pela primeira vez verteram lágrimas do rosto das Fúrias.”

Hades, o cruel rei dos mortos, desmanchou-se em lágrimas. Percebeu que não poderia recusar o pedido de Orfeu e o instruiu sobre como proceder:

– Vou ajudar você. Vá-te daqui, e saiba que sua Eurídice estará caminhando pouco atrás de ti. Só não olhe para trás. Acredite em mim, e ela estará lá. Será sua quando saírem do reino dos mortos e voltarem à superfície. Até lá, não olhe para trás! Jamais!”

Chocado, Orfeu tentou voltar para as trevas, em busca de sua amada, mas não o deixariam entrar mais uma vez. Agora, só retornaria ao mundo dos mortos quando fosse um deles. Arrasado, o jovem abdicou em definitivo da companhia dos homens. Ficou vagando pelos bosques da Trácia, e a lira era sua única companheira. Triste, tornou-se vítima de um bando de Mênades furiosas, que fizeram seu corpo em pedaços. Seus restos mortais acabaram recolhidos pelas Musas e Orfeu foi enterrado no sopé do Olimpo.”

PÉGASO E BELEROFONTE

Seu pai, Glauco, fôra rei de Éfira, e a paixão dele por essas criaturas era tamanha que alimentava seus animais com carne humana, no intuito de deixá-los mais fortes e poderosos. Os deuses jamais viram esse hábito selvagem e bizarro com bons olhos, e Glauco encontrou um fim justo, sob encomenda: ao ser derrubado de seu carro, foi vorazmente consumido por seus cavalos enfurecidos, recebendo assim o mesmo castigo que infligia a outros.”

– Eu… eu… sou filho de Posêidon? – perguntou Belerofonte. Esse era um rumor que se espalhara pela cidade como explicação para o fato de que o príncipe parecia ter espírito nobre demais para ter o cruel rei pai. Mas nem mesmo o próprio Belerofonte havia levado a história a sério, embora sua vaidade fosse a maior que já se vira por aquelas bandas e também fosse fato público e notório que sua mãe, Eurínome, tinha excelentes relações com os deuses, a ponto de haver recebido sua educação de Atena em pessoa.”

Pégaso não era um cavalo qualquer. Um corcel branco de longas asas, ele nascera do confronto de Perseu com a górgona Medusa. Quando o herói cortou a cabeça da criatura, seu sangue verteu no chão e desse líquido se construiu a magia de seu galope aéreo. Como domar uma criatura nascida das entranhas de um monstro? Era só o que Belerofonte conseguia se perguntar.”

– Queria que você matasse a Quimera para mim. Trata-se de uma criatura que tira o sono do meu povo. Isso, para dizer o mínimo.

A Quimera era um monstro poderosíssimo, de força descomunal e ferocidade conhecida em todo o mundo civilizado. Ela tinha o corpo de bode, a parte dianteira de leão e a parte traseira de serpente. Com o toque final: soltava labaredas poderosas pela boca.”

Assim como a Quimera e os Solimos, as guerreiras Amazonas não tiveram hipótese contra o poderoso cavaleiro voador.”

Depois de viver muitos anos de felicidade em Argos, Belerofonte se sentiu no direito de igualar-se aos deuses. Planejou cavalgar com Pégaso até o Olimpo, onde se tornaria mais um imortal. Mas o corcel alado era mais esperto. Sabia que isso nenhum dos deuses toleraria e derrubou seu cavaleiro lá do alto. (…) o cavalo, por sua sabedoria, caiu nas graças de Zeus, que o levou para o Olimpo e o abrigou nos estábulos celestiais. Lá ele pode ser visto até hoje, na constelação que leva seu nome. E Z. fez dele o seu favorito: sempre que queria usar o raio, era Pégaso quem lhe trazia o relâmpago e o trovão.”

TESEU E O MINOTAURO

– Que tipo de covarde faria essa viagem pelo mar, onde não há perigos? Vou por terra, enfrentando todos os desafios que se colocarem em meu caminho.

– Mas, meu filho, por que isso?

– Porque assim eu sou, mãe.”

Outro bandido célebre era Procusto, que amarrava suas vítimas a uma cama de ferro, e, então, dependendo da altura do coitado, ou cortava partes de seus membros ou os esticava, para que a vítima ficasse do tamanho da cama.”

Medéia, vinda de Corinto para Atenas depois que seus poderes mágicos a informaram da identidade de Teseu e de sua iminente chegada, convenceu Egeu de que aquela era a melhor estratégia – seu objetivo, entretanto, era meramente afastar o rei de seu filho, para que pudesse manter sua grande influência sobre o destino daquela cidade.”

Pai, não tire os olhos do horizonte. Se voltar de Creta com sucesso, saberás antes que eu ponha os pés no solo, pois trocaremos no barco a vela negra por uma branca. Assim que vir a embarcação, já saberá qual foi o nosso destino.” “Acreditando que seu filho estivesse morto e que sua cidade continuasse condenada a sacrificar 14 pessoas a cada 9 anos para atender à selvageria de Creta, o rei Egeu foi incapaz de lidar com tamanho sofrimento. Ele atirou-se do alto de um rochedo ao mar, que, por causa desse episódio, ganhou seu nome.”

Teseu também recebeu em sua casa o velho Édipo, que todos tinham repudiado, e o assistiu em seu leito de morte, além de garantir a proteção de suas duas filhas depois que ele se fôra. Também se manteve fiel a Herácles, mesmo quando o guerreiro perdeu completamente o juízo e matou sua mulher e os filhos. Levou o herói a Atenas e fez com que recobrasse o equilíbrio, em vez de deixá-lo se matar, como era o plano original, assim que se deu conta do que fizera.

Apesar de todos os deveres de estado, Teseu jamais renunciou ao espírito de aventura. Esteve entre os argonautas na busca pelo velocino de ouro e também conduziu uma expedição à terra das Amazonas, de onde trouxe uma mulher, com quem se casou e teve um filho, chamado Hipólito.

Por esse mesmo espírito de aventura, Teseu chegou a seqüestrar a pequena Helena de Tróia, ainda criança, com planos de se casar com ela futuramente. Seus irmãos Pólux e Castor a resgataram antes que isso pudesse acontecer, mas não encontraram o seqüestrador, que já havia saído em outra aventura, com seu amigo Pirítoo – o objetivo era nada menos que buscar Perséfone no mundo dos mortos!

Teseu quase terminou seus dias por lá, quando Hades elaborou uma armadilha para a dupla que queria roubar sua esposa. Sabedor dos planos de Teseu e Pirítoo, o deus dos mortos convidou os dois a sentar-se a seu lado. Mas eles não sabiam que se sentariam em cadeiras <especiais>: as Cadeiras do Esquecimento, em que a mente se transformava nm completo vazio, e a pessoa não conseguia sequer se mover. Teseu foi resgatado por Héracles (sic), mas Hades não permitiu que Pirítoo saísse de lá.

De volta a Atenas, nos anos que se seguiram, Teseu casou-se com Fedra, irmã de sua ex-noiva, Ariadne. Era o início de uma triste seqüência de eventos para o herói, pois sua nova esposa calhou de se apaixonar perdidamente por seu filho, Hipólito. O jovem, entretanto, nada queria com mulher alguma. Tudo o que lhe animava (sic) era a caça, sem dúvida por herança de sua mãe amazona. De sua parte, a Afrodite só restavam zombarias. Por isso mesmo a deusa tratou de arranjar a inconveniente paixão de Fedra. Hipólito ficou chocado ao conhecer as intenções da madrasta.

Fedra, depressiva, já sabia exatamente como se vingar. Cometeu suicídio e morreu com uma carta na mão, destinada a Teseu. Quando ele chegou em casa, leu as últimas palavras de sua esposa. Ela dizia que Hipólito a teria atacado, primeiro para agarrá-la, depois de raiva, pela recusa dela em sucumbir. Quando o jovem chegou, o pai imediatamente o expulsou de casa, chocado com as <revelações>. Todos os apelos do filho pareciam em vão, diante de algo tão impactante quando (sic) um suicídio recheado de denúncias.”

TÂNTALO E A CASA DE ATREU

a casa de Atreu, assim chamada em homenagem ao pai de Agamenon, sempre escondeu grandes infortúnios (…) Tântalo era apenas semideus, mas era o mais querido entre os olímpicos. (…) Mandou matar seu filho Pélops, cozinhá-lo e servi-lo num grande banquete para os olímpicos. Imaginou que poderia se safar enganando-os e tornando-os legítimos canibais” “Acorrentado para todo o sempre no Hades, o semideus estava destinado a uma eternidade de fome e sede.” “Quanto a Pélops, os deuses decidiram devolver-lhe a vida. O único inconveniente foi que tiveram de dar-lhe um ombro de marfim, uma vez que o seu <de fábrica> já havia sido inadvertidamente consumido naquele jantar medonho. Pélops foi praticamente o único membro da família que pôde viver o resto de seus dias em relativa paz e felicidade.”

Como assim? Ifigênia estava morta fazia muito tempo! Mas a mulher explicou que, no momento de seu sacrifício, fôra transportada magicamente pelos deuses para a terra dos táuridas. Ali, acabou sendo condenada a cuidar de sacrifícios semelhantes.”

ÉDIPO E A CASA REAL DE TEBAS

ADESTRAMENTO E SELEÇÃO: “como poderia Cadmo criar sozinho uma cidade? § Eis que Atena apareceu para ele e o orientou a semear a terra com os dentes do dragão. Então, dos sulcos do solo começaram a surgir homens, armados. O príncipe esperava que eles pudessem ajudá-lo, mas os guerreiros <brotados> tinham outros planos. Travaram entre si uma imensa batalha, e mataram uns aos outros, restando apenas 5 sobreviventes. Cadmo apelou a esses 5 e conseguiu convencê-los a ajudar na empreitada. Assim foi fundada a cidade de Tebas. § Cadmo governou por muitos anos e transformou a cidade em uma referência de prosperidade. Diz-se que foi o primeiro a introduzir o alfabeto na Grécia.”

Os descendentes de Cadmo tiveram muitas histórias tristes, mas nenhuma se comparou em drama à vivida por seu trineto Édipo, o mais famoso soberano da casa real de Tebas.

O rei Laio foi o quarto homem a ocupar o trono real de Tebas. Ele era bisneto de Cadmo e casou-se com uma prima distante, também bisneta do fundador da cidade. Seu nome era Jocasta.

Como fôra o oráculo de Delfos o responsável pelas instruções que levaram ao surgimento de Tebas, os soberanos daquela localidade cultivaram o costume de consultá-lo sobre os rumos de seu reino.”

Édipo, desesperançoso acerca da própria vida e sem amigos, animou-se com a possibilidade de enfrentar a tal Esfinge.”

O casal viveu feliz durante longos anos e teve 2 filhos e 2 filhas. Quando os meninos já haviam atingido a idade adulta, a cidade foi infestada por uma praga terrível.”

– Apolo se diz disposto a acabar com a praga que assola Tebas – disse Creonte. – Mas, para isso é preciso castigar o assassino de Laio.

– Ótimo – respondeu Édipo. – Convocaremos o mais venerado de todos os tebanos, o profeta Tirésias.

Cego e idoso, o vidente foi trazido à presença do rei.”

Esses profetas e oráculos não sabem de nada. Pois saiba que Laio ouviu em Delfos que seria morto pelo próprio filho. Mas impedimos isso, abandonando nosso filho numa montanha, onde certamente morreria. E todos sabem que Laio morreu pelas mãos de assaltantes, numa encruzilhada de 3 estradas no caminho que leva a Delfos.”

MOTE HINDU: “Ele tentou me jogar para fora da estrada e me bateu com seu bordão. Mas caí sobre eles e matei-os todos.”

Renunciou ao trono, e seu filho mais velho, Polinice, recusou a coroação. Ficou decidido que Creonte, irmão de Jocasta, assumiria o poder”

RESSACA DA GUERRA DOS 7 CONTRA TEBAS: “Sem herdeiros aparentes para o trono, Creonte voltou ao poder mais cruel e furioso do que nunca. Decidiu que todos os combatentes que avançaram contra Tebas não poderiam ser enterrados, condenando suas almas a um vagar eterno, sem chances de adentrar o mundo dos mortos. Antígona, já de volta à cidade após a morte de Édipo, decidiu contrariar as ordens do novo soberano tebano, uma vez que as leis divinas estavam acima de qualquer declaração de um líder humano.”

Dez anos depois, Tebas encontraria sua ruína. Invadidos por Argos, os tebanos foram vencidos e se espalharam pela Grécia. A cidade em si foi reduzida a ruínas. E o único sinal remanescente da grandeza que outrora teve a casa real de Tebas foi o colar dado por Afrodite a Harmonia.”

CÉCROPE E A CASA REAL DE ATENAS

Cécrope não era completamente humano. Seu pai era um homem, mas ele havia nascido de um dragão, de quem herdara os membros inferiores na forma do animal. Com o surgimento de Atenas, coube a ele, como soberano, decidir qual dos deuses serviria como protetor da cidade.

Era uma decisão importante, e, embora tivesse reservado para si a palavra final, Cécrope optou por consultar antes seus súditos. Na disputa eleitoral figuravam Poseidon e Atena. O primeiro, durante a campanha, para mostrar como poderia ser bom para a cidade, fez cair seu tridente sobre o rochedo da Acrópole; a água salgada que brotou da fenda produzida veio a formar um poço de grande profundidade. O benfeitor se propunha ser um grande <tocador de obras>, caso eleito fosse. [haha – ASSOLA MAS FAZ]”

todos foram reunidos para a grande votação. Verificou-se que os homens, em sua totalidade, votaram em Poseidon. Mas as mulheres estavam em maior número, e todas elas acabaram votando em Atena, que saiu vencedora. Cécrope aceitou o resultado e proclamou Atena protetora” “Enquanto o deus dos mares providenciou um dilúvio para castigar a pólis, os homens decidiram que a partir daquele instante as mulheres não teriam mais direito a voto. E assim foi durante toda a Antiguidade clássica, mesmo na época da era de ouro da democracia ateniense.”

quando chegaram à terra firme, ele disse a Filomela ter recebido a triste notícia da morte de Procne. Era tudo mentira, mas foi o que bastou para que fizesse um casamento falso com a irmã de sua mulher. Em pouco tempo, contudo, a verdade foi revelada (…) Para evitar que ela contasse a verdade a todos na Trácia, Tereu não teve dúvida: cortou sua língua.” “Pegou o filho Ítis, que a irritava profundamente por ser <a cara do pai>, e mandou matá-lo, picá-lo e cozinhá-lo, para servir ao marido.” Mais comum que inveja divina nestes tempos!

Os deuses interferiram, transformando Procne e Filomela em dois pássaros. A primeira, em um rouxinol, e a segunda, em uma andorinha, ave que é incapaz de cantar.”

Mas, também, um deus que sai por aí estuprando jovens [Apolo] não merece nem o respeito, que dirá a adoração”

O REI MIDAS

Teve de implorar a Baco que desfizesse o pedido. O deus do vinho o instruiu então que a lavar-se na nascente do rio Páctolo, para que a dádiva perdesse o seu efeito. O rei seguiu à risca as instruções e voltou ao normal. Sua passagem por lá ficou marcada, entretanto, pela descoberta de vários grãos de ouro nas areias daquele curso d’água.

Midas voltava ao normal e continuava tão idiota quanto sempre. Diz-se que algum tempo depois foi convidado a ser jurado numa disputa musical entre Pã e Apolo. Sabe-se que Pã é muito bom com sua flauta, mas ainda assim tosco perto do deus da verdade com sua lira prateada. O rei, entretanto, nunca soube nada de música – nem de coisa alguma, para ser honesto – e declarou Pã seu vencedor. Apolo ficou tão furioso com o negócio que deu a Midas orelhas de burro.”

Mandou confeccionar um chapéu especialmente projetado para escondê-las, mas nada podia fazer a respeito do criado que cortava seu cabelo.”

MITOLOGIA – DEUSES – Maurício Horta

OS PRIMÓRDIOS

Se atravessássemos em suas entranhas a distância percorrida por uma bigorna de bronze em queda livre por 9 dias, chegaríamos novamente à desordem e à escuridão. Esse, no entanto, não era mais o Caos, mas uma derivação sua: o Tártaro, abismo das trevas insondáveis, terror de qualquer deus. Para eles, essa versão grega do inferno era pior que a morte.” “Caos, em grego, é um substantivo neutro, nem masculino nem feminino. E, ainda que Gaia fosse indiscutivelmente feminina, ainda não havia a quem ela amar, senão ao indiferenciado nada do Caos.” “O nascimento de Urano cria o princípio do masculino, que complementa a feminilidade da fértil Gaia.” Já disseram: Adão veio de Eva. “Primeiro são gerados os 6 terríveis Titãs – Oceano, Céos, Crios, Hipérion, Jápeto e Cronos – e as 6 Titânidas – Téia, Réia, Têmis, Mnemosine, Febe e Tétis.” “Nascem os 3 Ciclopes – criaturas fortes e engenhosas, com um único potente olho na testa que trarão consigo a luz do relâmpago, as nuvens de tempestade e o rugir do trovão – e 3 Hecatônquiros, gigantes com 100 braços e 50 cabeças cada um, capazes de estremecer o mundo lançando rochas com a maior facilidade.” “Tudo o que podia sentir por seus filhos era ódio, pois sabia que, tão logo viessem à luz, tentariam destroná-lo.” “Sem jamais ter saído da escuridão, nenhum dos irmãos ousa rebelar-se contra um pai tão grande, poderoso e vil. Isto é, nenhum, exceto Cronos, deus do tempo, o mais novo e mais ambicioso dos Titãs.” “Urano dá um longo grito de dor, e, num único movimento, afasta-se de Gaia até instalar-se na abóbada celeste, em cima do mundo, para nunca mais voltar ao solo.” “Desse sangue não nasceriam deuses, e sim 3 tipos de personagens, que encarnam a violência, o castigo, a guerra.

(…) Primeiro surgem do sangue paterno as vingativas Erínias – terríveis moradoras do Tártaro, de onde saem vestidas de preto, com olhos vermelhos e cabeleira entremeada de serpentes. Com elas vêm as pestes, o rancor e a loucura que punirão quem desobedecer aos pais, desrespeitar os mais velhos, fizer falso juramento ou matar.” Conflitua com versão em HERÓIS. Ou bem as Górgonas são-lhes apenas descendentes indiretas?

os Gigantes (…) Cabeludos, barbudos e com corpo terminando em um rabo de serpente, sempre carregam consigo brilhantes lanças de bronze. Nascem já adultos, sem jamais terem conhecido a inocência das crianças, e não ficariam velhos, embora sejam mortais – os Gigantes só podem ser mortos por outro mortal, nunca por um deus. Por fim, vêm as Melíades, ninfas também guerreiras, que vivem nos freixos, árvores das quais são feitas as lanças dos guerreiros.”

Nix pare o inelutável, inflexível, obscuro e invisível Destino (Moros). (…) Para ajudá-lo numa tarefa tão árdua, Moros ganha 3 irmãs chamadas Moiras” “Nix não se satisfez em dar à luz tanta infelicidade. Teve ainda a Ternura (Filotes), que alimenta as pequenas mentiras; o Escárnio (Momo), que mais tarde seria expulso do céu por ridicularizar os deuses; a Indignação (Nêmesis); a Miséria (Oizys); as 3 ninfas do pôr do sol (Hespérides), guardiãs dos jardins dos deuses; a Fraude (Apate); e a Velhice (Geras) (…) Como se não bastasse tanta desgraça, Nix pare ainda Éris, deusa da discórdia, que sozinha dará continuidade aos infortúnios do mundo com mais uma linhagem de espíritos nefandos: a Fadiga, o Esquecimento, a Fome, as Dores do Corpo e da Alma, as Batalhas, os Combates, os Homicídios, os Massacres, os Litígios, as Mentiras, as Disputas, a Falta de Lei, a Desilusão e o Espírito dos Juramentos.” “Quem será o soberano desse Universo para que Gaia não sucumba ao desgosto de uma eterna briga entre irmãos, netos, bisnetos e quantas gerações vierem?”

O IMPÉRIO DE ZEUS

Com medo de perder seu poder, o deus do tempo cíclico passa então a engolir cada filho tão logo nasce, mal saído de entre os joelhos da esposa Réia.” “De tão grato a essas mães de criação, Zeus, quando se tornar o senhor de todo o Universo, dedicará as constelações de Ursa Maior e Ursa Menor a Adrastéia e Io, e, para homenagear as abelhas que o alimentaram, dará a elas o brilho do ouro e resistência contra ventos e neve, permitindo que possam viver nas maiores altitudes.” “Ao fim do velório, Zeus eleva Amaltéia aos céus e a transforma na constelação de Capricórnio, em retribuição ao leite que o nutriu por anos.”

a titânida Tétis, que sabe mais do que todos os deuses e todos os homens” “Faça de Zeus o copeiro de Cronos, e garanta que seu marido beba deste fármaco.”

Hipérion, soberano do dia e da noite, casou-se com Téia, deusa do éter, e juntos tiveram o Sol, a Lua e a Aurora. Jápeto, deus da mortalidade, juntou-se a Têmis, deusa das leis divinas, e tiveram Átlas, Menecéio, Epimeteu e Prometeu. (…) Crios teve com a divindade menor Euríbia os filhos Astreu, Palas e Perses. Mnemosine, deusa da memorização, ficou sozinha.”

Pobre Tessália, região fértil no centro da Grécia, que abriga os dois montes em cujo pico as duas gerações adversárias se ampararão para iniciar uma guerra entre imortais igualmente fortes e determinados.”

Guardando os portões do Tártaro está a horrenda Campe. Mil víboras partem de cada pata da aberração, cuspindo veneno em direção a Zeus. Não bastasse isso, ela também solta sua horripilante e peçonhenta cabeleira de serpentes. Da cintura, 50 cabeças de bestas selvagens rugem como leão e espumam na boca com os grunhidos de javalis enfurecidos. (…) e de seu pescoço uma cauda de escorpião com um gélido ferrão retorcido mira Zeus, atacado por chamas lançadas de seus assustadores cílios.”

A Hades dão o capacete da invisibilidade.”

Enquanto a energia fornecida pelo alimento dos mortais acaba, e logo os faz voltar ao estado de fome e sede, o néctar e a ambrosia nunca deixam de existir. E de nutrir.”

As fundações que mantinham certa ordem no Universo começam a ruir, e, cabrum!, Urano, o céu, lentamente volta a se deitar no leito de Gaia, a terra. O mundo volta ao Caos, ao estado primordial de desordem, quando nada ainda possuía formas.” “Na terrível fenda pela qual se chega ao Tártaro, são enfiadas todas as raízes da terra.” “O fato de estarem presos no Tártaro não significa que os Titãs deixem de agir sobre o mundo.” “Se a escuridão é uma punição terrível para um deus, algo pior está reservado para Átlas. O líder do time titânico merece um castigo exemplar.” “Zeus condena Átlas a carregar o céu em seus ombros por toda a eternidade, para que nunca mais Urano recaia sobre Gaia no abraço primordial que deu origem aos Titãs.”

O CLUBE DOS 12

Ironicamente, Hera é a deusa do casamento.

O nome de Zeus deu origem à palavra deus, e Júpiter, sua versão latina, é a junção de <jus> (justiça) e <pater> (pai).” “aos pés, tem seu pássaro preferido – a águia, que plana no alto dos céus e cai como um raio sobre sua presa. Para mostrarem sua imparcialidade, os cretenses representam-no sem orelhas; já os lacedemônios (da região de Esparta) colocam-lhe 4 orelhas, capazes de ouvir todos os pedidos dos mortais.” “Justiça é algo que ocorre entre iguais, e Zeus está acima de todos. Ora ele age bem, ora age aparentemente mal, e ninguém sabe exatamente por quê.”

de todos os seres, nenhum alimentava mais o desejo do jovem Zeus do que sua prima Métis – aquela que preparou a poção vomitória que liberou os deuses olímpicos da barriga de Cronos. Desde que, ainda adolescente, partiu de Creta em busca de seus pais, Zeus admira a deusa da astúcia e dos conselhos sábios.” “Zeus precisa tomar de Métis para si a capacidade de prever os acontecimentos, para que conquiste a soberania em seu estado absoluto e se torne senhor eterno dos céus. <Métis lhe dará filhos que a ultrapassarão em sabedoria. A primeira será uma menina de olhos cinzentos e espírito bruto. Em seguida, dará à luz seu varão, para quem ela inventará um instrumento mais poderoso que teu relâmpago – com ele vai eclipsar-te da mesma forma como Cronos sucedeu a Urano e tu sucedeste a Cronos>, previne-o Gaia. <De nada adiantará aniquilá-lo. É necessário impedir que Métis siga com sua prole.>

Zeus reencontra então sua prima e a ama. Ao ver a barriga grávida da prima, Zeus é tomado pela felicidade de finalmente tornar-se pai. Mas, atormentado pela profecia de Gaia, passa a perseguir a amante com doces palavras. Sagaz como só ela podia ser, Métis se disfarça na forma de todos os animais – até se transformar em uma mosca. É então que Zeus abre sua boca, devora-a e toma para si a astúcia com a qual reinará eternamente sobre o céu e a terra.

Métis foi apenas a primeira das 7 deusas que Z. amou. Com ela teve Atenas (sic), deusa da sabedoria e da guerra. De sua tia Têmis – que se imortalizou em nosso imaginário como a mulher de olhos vendados que segura com uma mão a balança da justiça e com a outra, uma espada – teve 3 filhas: a Eqüidade, a Lei e a Paz, com as quais Z. estabelece a força da justiça sobre o mundo. Com Euríneme, teve as 3 Graças, que personificam a beleza e o encanto e trazem a alegria na natureza e no coração dos homens e dos deuses com as conversas e boas relações sociais.

Amou Mnemósine (sic) por 9 noites e, ao fim de 9 meses, teve como filhas as 9 Musas, ninfas virgens habitantes das montanhas, das margens dos rios e das fontes que inspiram poetas e músicos, iluminam reis para apaziguar conflitos e divertem os deuses com seus cantos e danças. De Latona, teve Apolo. Mas sua única esposa legítima foi a ciumenta irmã Hera, com quem teve Ares, Ilítia e Hebe.

Além das 7 deusas, a irrefreável potência sexual de Z. leva-o, segundo levantamento de mitógrafos, a deitar-se com 115 mulheres mortais, com quem tem uma intensa prole, igualmente mortal, porém tremendamente poderosa: Héracles, Helena, Dioscuros, Perseu, Minos, Radamante, Éaco, Arcas, Zeto, Âmfion (sic), Epafo (sic).”

Z” DE ZOOLÓGICO

Sua primeira amante mortal é Niobe. Em seguida vêm tantas outras que se pode colocá-las em ordem alfabética. Deita-se com Elara, princesa de Orcômeno e, com medo da ira de Hera, esconde-a sob a terra, onde nasce o gigante Títio. Para abduzir a princesa fenícia Europa, o rei dos deuses se metamorfoseia em um touro, que a leva até a Ilha de Creta, onde a ama. Desse rapto nascem Minos, rei de Creta, e Radamantis (sic), rei das Ilhas Cíclades. Sob o disfarce de uma formiga, Z. seduz também Eurimedusa, princesa de Etiotis, no norte da Grécia, e tem com ela Mirmidão, o homem-formiga. Já para enganar Ftia, Z. se faz passar por uma pomba.

Com a bela Lamia, rainha da Líbia, teve vários filhos, mas sua esposa Hera é tomada por tamanho ciúme que lhe rouba todos os filhos. Tão grande é o sofrimento da mulher que Z. lhe dá o poder de arrancar seus próprios olhos e colocá-los de volta no globo ocular quando se sentir mais calma. Mas, mesmo cegando-se de tempos em tempos, o horror de ter perdido os filhos não passa, e Lamia começa a seqüestrar e matar os filhos alheios, ganhando um rosto mais distorcido a cada vítima, até tornar-se um tubarão.” [!]

O desejo de Z. é tão voraz que nem mesmo os rapazes ficaram livres dele. Disfarçado de águia Z. encanta Ganimedes, príncipe de Tróia, e o abduz para o Monte Olimpo, onde este se tornará seu amante e copeiro dos deuses.”

* * *

Pandora, a 1ª mortal, criada sob ordens de Z.” “Prometeu, o 1º homem” [?]

Depois de ter devorado Métis, Z. personificou a astúcia. Isso não quer dizer que suas mulheres não tentarão manipulá-lo, mas que ele saberá contornar o que a mitologia mostra como um vício feminino.”

Liberado da opressão paterna, o rei dos deuses começa a cortejar sua irmã gêmea em Cnossos, Creta. Mas a indiferença da moça não supera a sagacidade de Z. (…) Tomada de pena pelo filhote de cuco ferido, Hera delicadamente o coloca em seu seio, como mandaria seu instinto materno. Basta ela começar a acariciá-lo para que ele tome sua forma original e a agarre à força. Desonrada, H. se vê obrigada a casar-se com o irmão para encobrir a vergonha de seu estupro.” “Terminado o casamento que lotou o Jardim das Hespérides, o casal divino parte para a Ilha de Samos, onde os noivos terão uma noite de núpcias de 300 anos.”

Divindades masculinas só passariam a se impor na região da Grécia com a vinda dos jônios, por volta de 1950 a.C.”

WHO IS HER(A)?

Nunca é representada como mãe, mas, sim, como uma esposa revanchista e madrasta terrível” “Condena Héracles à servidão sob o rei Eristeu, de Micenas, persegue Dionísio antes mesmo de seu nascimento e faz com que a mãe dele, Semele, seja acertada por um trovão de Z. Leva Ino, a ama de Dionísio, a se jogar no mar com seu filho. Condena as filhas do rei Proito a vagabundear pelo Peloponeso como vacas loucas. Persegue Io, a sacerdotisa de Argos. E gera, por partenogênese, o filho Hefesto, deus ferreiro deformado.”

Por que Z. trai a esposa de forma tão sistemática? H. acredita que tudo seja culpa da incontrolável vulnerabilidade masculina ao prazer carnal. Mas o rei dos deuses não concorda.

<Na verdade, o prazer no homem é muito mais tedioso e fraco do que aquele que vocês mulheres compartilham>, diz, para a raiva de Hera. Para esclarecerem o assunto, os dois descem à Terra e consultam alguém que conhece por experiência própria os dois lados do prazer: o velho Tirésias.

Quando jovem, Tirésias viu duas serpentes prestes a copular. Com um golpe de galho, separou as duas e imediatamente se tornou uma menina. Sob seu corpo de mulher, chegou a casar-se com um homem. Sete anos depois de sua transformação, ele (que ainda era uma mulher) encontrou serpentes copulando novamente e lhes deu um 2º golpe. E virou homem de novo.

Diante da pergunta de H. e Z., Tirésias responde, sem dúvida: <Venerável casal olímpico, numa escala de 10, a mulher goza 9x a parte do homem>.

A ira que já se acumulava no fígado celeste de H. explode, e, com essa resposta, a deusa arranca a vista do pobre velho. Z., que é infinitamente justo, tenta reparar o ato da esposa dando a Tirésias o poder de prever o futuro e prolongando sua vida.

Poseidon e Apolo são condenados a reconstruir a cidade de Tróia para o rei Laomedão”

os gregos chegaram a criar Heraia, uma versão feminina da Olimpíada. Ainda assim, os jogos de Hera não ficaram em pé de igualdade com os dedicados ao marido: as mulheres, consideradas mais fracas, corriam apenas 5/6 do percurso masculino.” [?]

* * *

Certa manhã, quando o deus solar Hélio já fustiga seus cavalos brancos para fazer emergir do mar sua carruagem de fogo, e a deusa lunar Selene começa a afundar-se na água, sua enxaqueca é insuportável. Tanto que pede ao enteado Hefesto, o filho de H. gerado por partenogênese, que lhe quebre a cabeça imortal com uma machadada.

Qual não é a sua surpresa ao ver que de seu cérebro pula uma figura já adulta, dotada de olhos brilhantes, mente rápida e coração inflexível, vestida para a batalha, urrando um ensurdecedor grito de guerra! Nesse instante, o panteão olímpico inteiro treme, a Terra grita horrivelmente por toda sua extensão, os mares são revoltos por ondas escuras cujas espumas se espalham pelo mundo.”

Z. assume uma faceta feminina ao parir a filha de sua cabeça, enquanto Hefesto se faz de parteira com seu machado. Sem a figura da mãe, Atena cresce ligada somente à figura paterna de Zeus, e, com atributos da guerra, essencialmente masculina, ela se sente em casa no mundo dos homens, acompanhando heróis nas batalhas.” “Se a guerra é inevitável, Atena inspira os homens a provar sua bravura e, quando assim a prudência exige, refreia o instinto de Ares, impedindo que guerreiros se matem uns aos outros.”

Atena mantém sua virgindade a qualquer custo, como se negasse sua feminilidade. Já nasceu vestida, e o único homem a vê-la nua ficará cego (sim, essa é uma 2ª versão da história sobre como o velho adivinho Tirésias perde a visão).” ERRATA: Páris viu as três deusas olímpicas nuas. Cf. https://seclusao.art.blog/2017/07/16/mitologia-herois-jose-francisco-botelho/.

* * *

Na fábula de Hans Christian Andersen, um pato estranhamente diferente foge da ninhada, rejeitado por sua feiúra, mas, quando cresce, volta como um belo cisne. Os mesmos passos trilha Hefesto, o filho deformado da deusa Hera, com uma única diferença: volta ao Olimpo como o mais habilidoso dos deuses.” “Conforme ele ensaia seus primeiros passos, os demais deuses são tomados pelo riso: o aleijado que não consegue andar senão cambaleando. Furiosa, Hera decide então livrar-se daquela deformidade. Joga Hefesto das alturas do Olimpo e busca esquecer o erro criado por sua birra.” “Nas mãos salvadoras de Tétis, filha de Nereu, e Eurínome, filha de Oceano, Hefesto sobrevive sem nenhum machucado.” “Com os metais que as duas extraem das pedras do mar, Hefesto começa a criar peças de ourivesaria delicadas como jamais vistas.” “9 anos passados desde quando adotou o garoto, Tétis decide quebrar seu silêncio ao encontrar fortuitamente a deusa H..” “Hefesto cria o mais belo trono já visto e pede ao deus mensageiro, Hermes, que envie o móvel até o Olimpo.” “H., sem dar-se conta, senta-se confortavelmente, tenta levantar-se e não consegue.” “Dionísio joga o corpo inerte de Hefesto no lombo de uma mula e o leva até o Olimpo. Os deuses estão reunidos. Desaparecido está o escárnio que levou H. a jogá-lo ao mar, e, em seu lugar, instaura-se a apreensão diante do jovem deus que já provou tanto seu talento quanto seu poder de fogo, capaz de dissuadir até mesmo o violento Ares. Agora, até Z. parece curvar-se diante dele:

– Ó Hefesto, filho de H.. Eu lhe garanto o que quiseres de nós em troca da liberdade de minha esposa, diz o rei dos deuses.” “Feio e coxo, pede como esposa a mais bela de todas as deusas, Afrodite.”

Num dia em que Z. condenou H. a ficar dependurada no céu, levando açoitadas por ter armado contra a autoridade do marido, o filho antes rejeitado corre para defendê-la. Dessa vez, é Z. quem o lança do céu. Mas Hefesto é trazido novamente ao Olimpo, recebe o perdão do rei dos céus e assume o papel de pacificador entre os imortais.”

Os Ciclopes e outras criaturas monstruosas também passam a trabalhar sob suas ordens no interior de vulcões.”

A verdadeira atração de Afrodite é por Ares” “Aproveitando o pouco tempo livre do marido, Afrodite satisfaz ilicitamente seus desejos com Ares – e com muitos outros. Ela só não conta com a aliança entre o marido e Hélio, o deus-sol.” “Por mais aleijado e lento que seja, derrotei pela 2ª vez o mais violento de todos os deuses. <Hefesto>, chama Z., irritado, <és um tolo por tornar pública uma questão pessoal destas.> Poseidon, de olho na sobrinha presa, mantém sua gravidade e se junta à opinião de Z.. <É verdade, Hefesto. Deixa Ares partir>, diz o deus dos mares. <Como Z. se recusa a tomar partido, garanto-lhe que Ares pagará em troca da liberdade o equivalente a todos os presentes de casamento que você deu a sua mulher.>”

Harmonia, filha de Ares e Afrodite.” “Com a bênção de Ares, Harmonia se unirá a Cadmo, regente da Beócia, terra onde fica Tebas. Essa será a 1ª vez que os deuses olímpicos assistirão a um matrimônio entre uma deusa e um mortal.” “Afrodite dá à filha um belo colar feito por Hefesto” “Ao vestir o colar, Harmonia se transforma em uma serpente. A jóia é herdade por Semele, sua filha, que também é destruída. Querendo manter-se bela e vigorosa, Jocasta segue na fila das portadoras do colar. Como resultado, acaba casando-se com o próprio filho e se mata ao saber disso. Polinice herda então a jóia e dá a Erifila, que morre junto a Alcmeão, Fegeu e seus filhos. E as mortes se sucederão eternamente, assim como o sofrimento de Hefesto.”

* * *

Afrodite personifica a sedução. Ela é a materialização do ideal de beleza. E é capaz de corromper qualquer um, desmanchando os mais sagrados vínculos de fidelidade. De todos os seres do Universo, somente três estão livres de sua influência encantadora: Héstia, a mais velha das filhas de Cronos [deusa do lar – Vesta é a nomenclatura romana; ou seja, figura central nos cultos da mitologia tardia], Ártemis, a deusa da caça, e Atena, a deusa da sabedoria na guerra.

O REVERSO DO BANQUETE

Afrodite entrega-se a Hermes. De seu breve amor nasce uma criança, a quem ela dá o nome do pai e da mãe: Hermafrodito.” “Salmácida simula abandonar o lago, e o rapaz se vê sozinho. Ele tira então suas roupas e se lança às águas cristalinas. Nesse momento, a ninfa grita: <Venci, ele é meu>, despe-se e o agarra nas águas, forçando-lhe beijos e carícias. Hermafrodito tenta fugir de seus braços, mas eles o prendem como um polvo que envolve sua presa.

– Tolo, podes lutar quanto quiseres, diz Salmácida. Mas jamais escapará de mim. Deuses, que não haja um dia em que nós sejamos separados.

Os deuses ouvem seu clamor, e assim os dois corpos se unem em um só – nem homem, nem mulher, mas os dois ao mesmo tempo.”

O LAGO CHINÊS

<Pai, mãe, por favor, garanti-me que todos aqueles que se banharem aqui emerjam como eu, metade homem, metade mulher.>

Os pais o ouvem e, para compensar o filho de dois sexos, enfeitiçam as águas conforme seu desejo.”

TRAQUINAS

Foi sob sua inspiração que Z. amou tantas mortais e que tantas mulheres caíram em desgraça.”

Os troianos, que me criaram, informaram-me que em tua cama devo tornar-me uma mulher casada e dar-te filhos nobres.”

* * *

dois filhos que teve com Afrodite – Deimos (o Pânico) e Fobos (o Medo) –, além de Éris (a Discórdia, mãe de todos os males humanos), Ênio (a destruidora de cidades), as Queres (seres noturnos que dilaceram os cadáveres e sugam o sangue dos mortos em batalha), Limo (a fome, que alimenta os saques), Ponos (a Fadiga, que enfraquece os combatentes), Algos (a Dor, que os imobiliza) e Lete (o Esquecimento, que joga irmãos contra irmãos).”

Por causa do temperamento violento de Ares, os gregos sempre preferem invocar Atena em vez dele. São raros os templos erigidos em sua honra na Grécia, e apenas duas estátuas suas são conhecidas – uma delas em Esparta, cidade guerreira onde se fazem sacrifícios humanos em nome de Ares.

Já os romanos veneram Marte, o nome latino de Ares. Tanto que na sua variação da mitologia, o deus da guerra é pai de Rômulo e Remo. Desde o reinado de Numa, teve a serviço de seu culto um colégio de sacerdotes.”

* * *

<É verdade que viestes aqui procurar as vacas que habitam os campos? Não vi, não sei, não escutei outros falarem disso. E não pareço um ladrão de bois. O que me interessa é o sono, o leite e minha mãe. Na verdade, grande prodígio seria que um menino recém-nascido roubasse vacas em uma montanha. Nasci ontem: os meus pés são tão delicados que não suportariam pisar na dura terra.>

Enquanto Apolo lhe responde, Hermes assovia como se ouvisse um discurso vão:

– Ó exímio charlatão e enganador. Se não queres dormir o teu último e supremo sono, desce do berço. Serás chamado para sempre o rei dos ladrões.”

<Um recém-nascido com o aspecto de um arauto? Grave questão é esta!>, diz Zeus.”

<Bandido, se ainda bebê conseguistes matar duas vacas, realmente me preocupo com a força que terás adulto>, diz Apolo. <É melhor que não cresças muito.>

Apolo então agarra as pernas de Hermes e as prende com um forte laço de vime. Nesse momento, Hermes pega sua lira e começa a tocá-la para encantar o irmão. E, conforme soam as límpidas notas, Hermes as acompanha com sua voz de menino. Apolo pára imediatamente de amarrá-lo e, maravilhado, diz:

<Tu inventastes algo que vale mais do que minhas vacas. Acredito que podemos entrar facilmente em um acordo se me presenteares com essa arte milagrosa. Se me ensinares tua arte, serás famoso entre os deuses imortais.>

<(…) Z. já te concedeu o dom das profecias. Da tua parte, meu caro, deixa para mim essa glória.>”

a profecia que me pedes… Não é lícito que nenhum imortal a aprenda, pois assim jurei a Z.. Mas, se fores até as ninfas Trias que habitam o Monte Parnasso, elas poderão te ensinar a adivinhação com pedras.”

<Prometo-te jamais mentir. Só não garanto contar sempre a verdade inteira.>

<Isso não se esperaria de ti>, diz Z., sorrindo. <Mas tuas tarefas daqui para frente incluirão a criação de tratados, a promoção do comércio, a manutenção do direito de todos os viajantes de percorrer qualquer estrada do mundo.>

E assim o rei dos deuses o acolhe como o 12º deus olímpico. Dá-lhe um bastão mágico capaz de separar brigas, um chapéu que o protege das chuvas e sandálias aladas, que o fazem voar.

Hermes também cria a escrita dos homens – diante do que ficam tão gratos que passam a dedicar-lhe a língua de todo animal sacrificado. Depois, cria a astronomia, as escalas musicais e a ginástica. Nenhum deus grego será tão próximo dos homens quanto esse talentoso mensageiro.”

* * *

A origem de Deméter data ainda dos tempos em que gregos cultuavam deusas da fertilidade em vez de divindades masculinas, trazidas por invasores nômades.”

uma vez ingerida, a romã, alimento dos mortos, jamais permitirá libertar-se inteiramente do Tártaro.”

* * *

Primeiro, Poseidon aproxima-se da Titânide Tétis, que com o Titã Oceano já deu à luz 3 mil rios e 3 mil ninfas. Mas logo muda de idéia – uma profecia de Têmis diz que qualquer filho nascido dela será maior que seu pai.”

* * *

<Querido pai, permite que eu viva para sempre virgem da mesma forma como Zeus prometeu a virgindade a Ártemis.>

Mas, ainda que seu pai conceda seu desejo, Dafne permanecerá sempre irresistivelmente amável. E Apolo, mesmo presidindo todos os oráculos do mundo, não pode deixar de se enganar pela esperança de amá-la.

Quando vê os cabelos loiros de sua amada balançando em seu pescoço, pensa: <Quão lindos seriam se ela os penteasse>. Para seus olhos, os olhos de Dafne são como estrelas; seus lábios, os mais doces para beijar; suas mãos, seus dedos, seus braços, seus ombros, tudo o que vê na ninfa é o mais belo do mundo.

De nada adianta Apolo correr atrás de Dafne, pois, ao fugir, seus delicados pés são mais rápidos que o vento.”

Dafne começa a fraquejar, e Apolo mantém seu vigor; sua respiração ofegante alcança os cabelos da amada. Ao sentir que não terá mais forças, ela invoca o pai:

– Ajude-me, pai! Cobre-me com a terra! Destrói a beleza que me feriu ou transforma o corpo que destrói a minha vida!

Antes mesmo de terminar sua prece, seu corpo é tomado pelo torpor; uma casca envolve seu seio e seus cabelos se tornam folhas. Seus braços se transformam em galhos, seus pés penetram a terra como raízes e sua face vira a copa da árvore.

Apolo abraça-a e sente os seios sob a casca do tronco. Tenta beijar seus ramos, mas eles se afastam dos lábios apolíneos.

– Tu podes não ser minha esposa, mas serás minha árvore preferida, e suas folhas, o louro, serão para sempre minha coroa.

Depois de sua prepotência ter-lhe custado Dafne, seu primeiro amor feminino, Jacinto, seu primeiro amor masculino, e quase tê-lo confinado no Tártaro, o deus da luz passa a sempre pregar a moderação. Desde então, as frases <Conhece-te a ti mesmo> e <Nada em excesso> jamais sairão de seus lábios.

Esse Apolo amadurecido passa a representar a essência dos valores da civilização helenista. Ele incorpora a pureza, a grandeza e a prudência.”

* * *

– Escolhe o que quiser, pois não há o que eu lhe possa recusar, responde o deus.

– Quero que me ames tal como recebes Hera em seus braços.

Não fosse a influência da vingativa esposa de Z., Semele jamais cometeria tamanha blasfêmia, e, se pudesse voltar atrás, Z. teria fechado os lábios da amante ou jamais teria feito sua oferta em primeiro lugar. Mas é tarde demais. E o preço por Semele se comparar aos deuses será sua vida.”

Com Semele morta, Z. precisa encontrar alguma forma de garantir a vida ao filho concebido nesse trágico encontro. Ele então costura o embrião dentro da própria coxa, e na perna do pai se dá a gestação de Dionísio.

Assim que nasce o filho de Z., H. ordena que os Titãs seqüestrem a criança, façam dela picadinho e joguem esses restos em um caldeirão. Mas a avó Réia traz o menino de volta à vida, clamando Perséfone, a rainha do Tártaro, a levá-lo à casa do rei Atamas de Orcómeno (sic), onde será criado como uma menina pela rainha Ino.

H., que não pode ser enganada, descobre a estratégia e condena Atamas e Ino à loucura. Para proteger Dionísio, Hermes o transforma em um cabrito e o oferta de presente às ninfas do Monte Nisa.” “é no vinhedo que H. o reconhece, apesar de todos os trejeitos femininos trazidos por sua criação. Para castigá-lo, a rainha dos céus o deixa louco. E assim ele passa a vagar por todo o mundo, acompanhado de seu tutor, Sileno, de ninfas, pãs, curetes e sátiros. Vai ao Egito levando consigo a vinha. Depois, segue em direção à Índia. Ao chegar ao Rio Eufrates, é combatido pelo rei de Damasco, que não quer saber de vinho em seus domínios. Mas de nada adianta opor-se a Dionísio: o rei tem o couro arrancado ainda vivo, e, para fechar a vitória com ironia, o deus constrói uma ponte de videira para atravessar o Eufrates.” “Intoxicados, os indianos matam seus bois achando que são sátiros, derrubam os carvalhos crendo que suas copas são a cabeleira de Dionísio, e alguns acabam mais dançando que lutando.

A vitória demorará bastante – o poeta grego No[n]nus precisará de 27 livros [número diverge no Wiki: 48] para descrevê-la – mas chegará [a epopéia Dionysiaca].”