(Pseudo) MINOS // OU: DA DESCOBERTA

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Na série que envolve as obras provavelmente inautênticas (identificadas pelo prefixo (Pseudo) no título), dou minha opinião pessoal ao final, contextualizando o escrito face à obra platônica canônica.

(*) “Eis aqui uma doutrina que vale bem pouco, sobretudo se se a coteja com as expostas n’O Político, A República e As Leis.”

Descobrimos o que é são e insalubre pela medicina; e o que pensam os deuses, como referem os adivinhos, pela adivinhação, porque a arte em si é um descobrimento. Não é assim?”

O AMIGO – (…) a lei em geral é a resolução do Estado.

SÓCRATES – Então para ti a Lei é uma opinião do Estado.

O AMIGO – Com certeza.”

SÓCRATES – (…) Há homens a quem chamam sábios?

O AMIGO – Sim.”

SÓCRATES – E não há resoluções boas e más?

O AMIGO – Há, sim.

SÓCRATES – Mas a Lei não pode ser má!

O AMIGO – Certamente que não.”

SÓCRATES – O que é uma boa opinião? Não é aquela fundada sobre a verdade?

O AMIGO – Exato.

SÓCRATES – E a opinião fundada na verdade, não seria um descobrimento da realidade?

(…)

O AMIGO – Sendo a lei o descobrimento da realidade, como se explicaria, Sócrates, que não sejamos governados todos pelas mesmas leis nas mesmas circunstâncias, após descobrirmos o real?

SÓCRATES – A Lei sempre é o descobrimento da realidade. Se os homens não se governam sempre pelas mesmas leis, como parece que sucede, consiste isso em que não são sempre capazes de descobrir o objeto da lei, a realidade. Mas examinaremos agora se se deve admitir como certo que nós tivéramos sempre a mesma lei ou se acaso ela mudara, e se todos os povos têm as mesmas leis ou se as têm diferentes.”

O AMIGO – (…) Entre nós não há lei que ordene imolar homens aos deuses; antes, tê-lo-íamos por franca impiedade. Os cartagineses, no entanto, imolam vítimas desta classe e entre eles se considera a imolação de gente uma prática piedosa prescrita pelas leis, chegando alguns mesmo a sacrificar os próprios filhos a Cronos, conforme creio que já escutaste.”

Mas na nossa pátria mesmo não deves tu ignorar as leis que se observavam outrora com respeito aos funerais; não era aguardado o enterro do cadáver a fim de imolar as oferendas aos deuses, bem como fazer entrar as mulheres encarregadas das libações. E em época ainda mais remota enterravam os mortos nas suas próprias casas.”

SÓCRATES – Quem dentre os antigos reis é tido por excelente legislador, cujas leis subsistem ainda hoje, tão perfeitas elas são?

O AMIGO – Confesso que não sei.

SÓCRATES – Não sabes qual é o povo grego das leis mais antigas?

O AMIGO – Falas dos espartanos, ou então de Licurgo?

SÓCRATES – Não, estas leis que citaste não têm mais que 300 anos, talvez um pouco mais. As melhores leis, não sabes realmente donde derivam?

O AMIGO – Bom, fala-se que em Creta há ótimas leis.

SÓCRATES – Sim, os cretenses são, dentre os gregos, os que têm a legislação mais arcaica.

O AMIGO – Encontramos a resposta!

SÓCRATES – E sabes quem foram os melhores reis de Creta? Não foram Minos e Radamanto, filho de Zeus e Europa, os mesmos que criaram as leis de que falamos?

O AMIGO – Dizem, Sócrates, que Radamanto foi um homem justo; mas de Minos dizem que foi feroz, mau e injusto.

SÓCRATES – Essa é uma fábula ou uma tragédia de Atenas, meu querido amigo.

O AMIGO – Como?!? Pois não é isso que se fala de Minos?

SÓCRATES – Pelo menos não é o que se encontra nem em Homero nem em Hesíodo, que são, decerto, muito mais dignos de fé que todos esses forjadores de tragédias de quem tomaste tais noções!”

Homero, falando de Creta, de seus numerosos habitantes e de seus noventa distritos,¹ assim discorre:

Entre estes está

Cnossos, o grande distrito,

Onde Minos

Reinou nove anos

Em familiaridade com

O grande Zeus.

¹ Na versão de Azcárate, Creta é “país” e os 90 distritos são “cidades”; mas, como o que mais se aproxima, em termos de dimensões geográficas, da noção intraduzível de polis no mundo moderno são nossas cidades, creio que não só não prejudique como auxilie o entendimento fazer esta transposição de escala.

O fato de que Homero não concedera a nenhum de seus heróis esta mesma honra (a de ser instruído por Zeus em pessoa) constitui um elogio admirável. No descenso aos ínferos na Odisséia, Minos é quem Homero apresenta julgando com um cetro de ouro nas mãos, e não Radamanto.”

viver em familiaridade com alguém é escutá-lo. (…) Alguns supõem que familiar de Zeus quereria dizer algo como comensal ou companheiro de jogo ou de pândega, enfim. Mas eis aqui uma prova da falsidade dessa concepção. Em todo o mundo, considerando seja gregos, seja bárbaros, não há homens como os cretenses e os espartanos, que aprenderam o hábito dos próprios cretenses, os maiores abstêmios dos prazeres da mesa e dos prazeres etílicos que se conhece. Uma das leis de Minos em Creta foi: proíbe-se beber em sociedade até a embriaguez.

SÓCRATES – (…) Radamanto também era homem de bem, porque se educou com Minos. (…) Essa conexão é a real origem de sua celebridade como excelente juiz. Minos nomeou-o guardião das leis na região urbana de Cnossos, enquanto que em todo o território restante de Creta revestiu como ocupante das mesmas funções a Talos. Talos percorria três vezes por ano todos os povos da ilha, velando pela execução das leis, que conservava gravadas em tábuas de bronze, o que granjeou-lhe o apelido de Talos o de Bronze.¹”

¹ É como se Pseudo-Platão quisesse historicizar a mitologia grega: Talos é descrito nas lendas como um gigante de bronze, que inclusive teria seu ponto de vulnerabilidade no tornozelo (relação paralela com Aquiles). O Sócrates deste diálogo insinua que <aumentaram> mas não <inventaram> nada: ao invés de um gigante físico feito de bronze que guardava a ilha de Creta como um cão de caça supereficaz, era um homem culto e bom, legislador, que viajava pela ilha carregando placas de bronze com seus bons preceitos.

Hesíodo fala basicamente o mesmo de Minos:

Era o rei mais real dentre todos os reis mortais.

Reinou sobre toda a multidão de gente que o rodeava.

Com o cetro de Zeus na mão.

E com este cetro governava os Estados.(*)

O cetro de Zeus não é outra coisa, no léxico de Hesíodo, que a educação que Minos recebeu deste deus, e que permitiu-lhe governar Creta com tanta sabedoria.

O AMIGO – Mas, Sócrates, como se explica essa tradição universal que representa Minos como homem ignorante e cruel?

SÓCRATES – Isto é para servir-te de advertência, se te consideras prudente; e para servir a qualquer cidadão que estime sua própria reputação: DEVE-SE EVITAR A INIMIZADE COM OS POETAS EM GERAL. Eles controlam a opinião das gentes e a memória dos povos, pelo simples elogio ou crítica de homens do seu tempo. Minos cometeu um único erro, e um erro grave: fez guerra a Atenas, atraindo a inimizade de todos os poetas da nação, principalmente dos autores de tragédia, que aqui floresciam como em nenhuma outra parte. A tragédia é inominavelmente antiga entre nós. Não começa, como se diz, com Téspis nem com Frínico,(**) senão que, se prestares atenção, verás que fôra descoberta nesta cidade numa época muito mais remota. Entre todos os gêneros de poesia, a tragédia é o mais popular e o mais propício para moldar as impressões nos espíritos. Fazendo Minos aparecer como tirano no teatro, os atenienses se vingaram dos tributos que obrigou nossa cidade a pagar.

(*) “Fragmento de obra atualmente perdida.”

(**) “Frínico, menos conhecido que Téspis, inventou o jambo tetrâmetro, muito usado nas tragédias, além de ter introduzido personagens femininas (homens sob máscaras de mulheres, na realidade). Embora toda sua obra se tenha perdido, considera-se-o autor de 9 tragédias, entre as quais uma batizada A tomada de Mileto.”

SÓCRATES – (…) Suas leis permaneceram indeléveis, como permanecem as de um homem sábio que soubera descobrir em toda sua verdade a arte de governar Estados.

O AMIGO – Tudo que acabas de dizer, Sócrates, parece-me perfeitamente verossímil.”

JULGAMENTO DA AUTENTICIDADE DA OBRA

De novo o interlocutor de Sócrates é um anônimo (O AMIGO), e de novo o autor provável é apontado como Símon, um filósofo ou sofista pós-platônico de quarta ou quinta plana (vide post anterior). A única parte interessante talvez seja o fortuito achado do conceito de descoberta ou desvelamento, se me é permitido o trocadilho – mas não a tese legal aplicada a este caso.

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