SCHOPENHAUER POR THOMAS MANN: O Panóptico da Perseguida de Pandora

“O tempo, segundo uma bela fórmula de Platão, é a imagem móvel da eternidade.”

“Com efeito, conceber o mundo como uma fantasmagoria multicolor e móvel de imagens que deixam transparecer a Idéia, o Espírito, é atitude eminentemente artística, que, por assim dizer, de pronto restitui o artista a si mesmo.”

“O símbolo da lua, este emblema cósmico de toda mediação, é próprio da arte.”

“Nietzsche, o discípulo de Schopenhauer, que renegou seu mestre em espírito, escreveu sobre ele estes versos:

O que ele ensinou não mais existe. O que ele viveu permanece de pé. Contemplai-o, pois! Nada pôde submetê-lo.

“Tôdas as vezes que Schopenhauer evoca o sofrimento do mundo, a lamentável angústia e a fúria de viver das múltiplas encarnações do querer (ele trata disso freqüentemente e com minúcias), sua já excepcional eloqüência e seu gênio de escritor atingem os cimos mais resplandecentes e mais gélidos de sua perfeição.”

“nós regozijamos por nos sentirmos vingados pelo verbo grandioso.”

“todos os males oriundos da contradição interna da vontade surgem da boceta de Pandora”

A seita que dói mais. Mas deu isso. Deu nisso e naquilo e naqueloutro. Escravo do pelourinho chamado negra vida.

“para um desejo satisfeito, dez ao menos restam insatisfeitos.”

“erro que não foi ainda”

“a esmola que, dada ao mendigo, prolonga sua lamentável existência de hoje para amanhã.”

transpiro literalmente por dias mais secos e felizes.

“Perseguir, evitar, recear a infelicidade, procurar avidamente o gôzo – tudo se assemelha”

Os 50 tonéis de cinzas

Tântalo faz como tântalo fez. De que vale rômulo ninar sobre isso, vaquinha?

A soleira da humanidade (Lei de Lúcia): “o suicídio é absurdo e imoral, pois nada conserta” “O sentido da vida é a morte, Rafael.”

“É o estado sem dor que Epicuro celebrava como o maior dos bens e como condição dos deuses; nesse instante, nós nos libertamos da necessidade desprezível de querer, celebramos o sabbat dos trabalhos forçados da vontade, a roda de Íxion pára.”

“Goethe fala complacentemente de <méritos inatos>, o que é uma reunião de palavras deveras absurda do duplo ponto de vista da lógica e da moral. Porque o <mérito> é inteiramente e por natureza um conceito moral, e o que é inato, como a beleza, a inteligência, a distinção, o talento, ou, conferindo-lhe o valor do destino, a felicidade, nada disso, logicamente, pode ser mérito.”

O VÉU DE MAIA: “feliz ou infeliz, cada um sempre recebe apenas o que lhe é devido.” “Diferença e injustiça não são mais do que as conseqüências que a multiplicidade no seio do tempo e do espaço implica”

“O que, ao mesmo tempo, tu fazes de mau, o mal que cometes, tua revolta contra a injustiça da vida, e também a inveja, a aspiração e o desejo, a tua cobiça do mundo, tudo isso provém da ilusão da multiplicidade, deste erro, que tu não és o mundo e o mundo não é tu. Sim, tudo isso vem desta diferença entre <eu> e <tu>, que não é mais que uma ilusão, a ilusão de Maia. Vem daí igualmente teu medo da morte.”

“Crês que, à tua morte, este resto do mundo continuará a existir, ao passo que tu – horrível pensamento! – não existirás mais.”

“ter o sentimento de que por tudo e em todos os seres não há mais que uma só e mesma vontade é o começo e a essência de toda ética.” “A resolução que, chegado a tal compreensão, toma um homem é a da renúncia, da resignação, da suprema impassibilidade. Nele se realiza a passagem da virtude para o nobre paradoxo da ascese, um grande paradoxo, na verdade; porque acontece então que uma individuação da vontade renega o ser que nela aparece e que se exprime por seu corpo, que seus atos desmentem sua aparência e entram em luta aberta com ela.”

Seria um paradoxo afirmar que a concepção cronológica das coisas é um anacronismo?

“<O que determina a hierarquia é a aptidão para sofrer profundamente> – escreveu Nietzsche, seguindo sem reserva e até o fim o aristocratismo do sofrimento de Schopenhauer, doutrina segundo a qual a vocação do homem e do gênio, sua mais alta distinção e seu enobrecimento, é o sofrimento.”

re(t)ificação da existência

o mundo é rei ou res

o crescimento geni(t)al

das vel(h)as

“tudo o que ele escreveu durante os 72 anos de sua vida, não foram mais que peças de confirmação obstinadamente reunidas, arrimos de reforço [à obra]: <O mundo como vontade e representação>”

“o sexo perturba diabolicamente a contemplação pura e o conhecimento renega o sexo”

“na medida em que tende para uma objetividade apolínea, esta concepção do espírito e da arte se encontra com a de Goethe, apresenta caráter clássico. Mas seu extremismo e seu ascetismo são nitidamente românticos, tomada esta palavra em sentido oposto ao do gosto de Goethe, que conhecemos melhor por suas atitudes a respeito de Kleist.”

CURTINDO O ETERNO RETORNO ADOIDADO: “a forma de espírito de Schopenhauer, a sensibilidade e o ardor excessivos de seu gênio, cujo dualismo é caricatural, são menos românticos que modernos; desejaria dizer muito com esta designação, mas relacionando-a totalmente com uma alma moderna, cujo calvário [DIC – cruel sofrimento moral] só é bastante visível neste século entre Goethe e Nietzsche [o século XIX em que viveu Sch. ou o século XX de Mann, numa meridiana emocional entre esses 2 escritores?].”

AZEDO 8, PICANTE E ALTISSONANTE OITAVA, ACRE 88

O sensual que não sabe dançar

O bom pai inimaginável

O pornógrafo pouco afeito a pornografias

Extremoso em sua temperança e auto-cobrança

Pagando os boletos da vida em parcelas de centavos

Sentai-vos, e escutai-me,

Ardem esses hematomas da alma!

Massacrante massa crente arde no inferno de mármore de sua gasosa crença espirituosa,

ardente sem saber, pendente de crer,

nalgo sólido só lido não sentido,

sem auto-crítica real ter tido.

“Schopenhauer: mais moderno, mais doloroso, mais complicado que Goethe, mas muito mais <clássicos>, robusto, são que Nietzsche”

Eu 2008: clássico

não são sãos

são carecas

“o paradoxo de sua prosa clássica e clara, que revela o mais profundo, o mais noturno abismo”