MITOLOGIA – DEUSES – Maurício Horta

OS PRIMÓRDIOS

Se atravessássemos em suas entranhas a distância percorrida por uma bigorna de bronze em queda livre por 9 dias, chegaríamos novamente à desordem e à escuridão. Esse, no entanto, não era mais o Caos, mas uma derivação sua: o Tártaro, abismo das trevas insondáveis, terror de qualquer deus. Para eles, essa versão grega do inferno era pior que a morte.” “Caos, em grego, é um substantivo neutro, nem masculino nem feminino. E, ainda que Gaia fosse indiscutivelmente feminina, ainda não havia a quem ela amar, senão ao indiferenciado nada do Caos.” “O nascimento de Urano cria o princípio do masculino, que complementa a feminilidade da fértil Gaia.” Já disseram: Adão veio de Eva. “Primeiro são gerados os 6 terríveis Titãs – Oceano, Céos, Crios, Hipérion, Jápeto e Cronos – e as 6 Titânidas – Téia, Réia, Têmis, Mnemosine, Febe e Tétis.” “Nascem os 3 Ciclopes – criaturas fortes e engenhosas, com um único potente olho na testa que trarão consigo a luz do relâmpago, as nuvens de tempestade e o rugir do trovão – e 3 Hecatônquiros, gigantes com 100 braços e 50 cabeças cada um, capazes de estremecer o mundo lançando rochas com a maior facilidade.” “Tudo o que podia sentir por seus filhos era ódio, pois sabia que, tão logo viessem à luz, tentariam destroná-lo.” “Sem jamais ter saído da escuridão, nenhum dos irmãos ousa rebelar-se contra um pai tão grande, poderoso e vil. Isto é, nenhum, exceto Cronos, deus do tempo, o mais novo e mais ambicioso dos Titãs.” “Urano dá um longo grito de dor, e, num único movimento, afasta-se de Gaia até instalar-se na abóbada celeste, em cima do mundo, para nunca mais voltar ao solo.” “Desse sangue não nasceriam deuses, e sim 3 tipos de personagens, que encarnam a violência, o castigo, a guerra.

(…) Primeiro surgem do sangue paterno as vingativas Erínias – terríveis moradoras do Tártaro, de onde saem vestidas de preto, com olhos vermelhos e cabeleira entremeada de serpentes. Com elas vêm as pestes, o rancor e a loucura que punirão quem desobedecer aos pais, desrespeitar os mais velhos, fizer falso juramento ou matar.” Conflitua com versão em HERÓIS. Ou bem as Górgonas são-lhes apenas descendentes indiretas?

os Gigantes (…) Cabeludos, barbudos e com corpo terminando em um rabo de serpente, sempre carregam consigo brilhantes lanças de bronze. Nascem já adultos, sem jamais terem conhecido a inocência das crianças, e não ficariam velhos, embora sejam mortais – os Gigantes só podem ser mortos por outro mortal, nunca por um deus. Por fim, vêm as Melíades, ninfas também guerreiras, que vivem nos freixos, árvores das quais são feitas as lanças dos guerreiros.”

Nix pare o inelutável, inflexível, obscuro e invisível Destino (Moros). (…) Para ajudá-lo numa tarefa tão árdua, Moros ganha 3 irmãs chamadas Moiras” “Nix não se satisfez em dar à luz tanta infelicidade. Teve ainda a Ternura (Filotes), que alimenta as pequenas mentiras; o Escárnio (Momo), que mais tarde seria expulso do céu por ridicularizar os deuses; a Indignação (Nêmesis); a Miséria (Oizys); as 3 ninfas do pôr do sol (Hespérides), guardiãs dos jardins dos deuses; a Fraude (Apate); e a Velhice (Geras) (…) Como se não bastasse tanta desgraça, Nix pare ainda Éris, deusa da discórdia, que sozinha dará continuidade aos infortúnios do mundo com mais uma linhagem de espíritos nefandos: a Fadiga, o Esquecimento, a Fome, as Dores do Corpo e da Alma, as Batalhas, os Combates, os Homicídios, os Massacres, os Litígios, as Mentiras, as Disputas, a Falta de Lei, a Desilusão e o Espírito dos Juramentos.” “Quem será o soberano desse Universo para que Gaia não sucumba ao desgosto de uma eterna briga entre irmãos, netos, bisnetos e quantas gerações vierem?”

O IMPÉRIO DE ZEUS

Com medo de perder seu poder, o deus do tempo cíclico passa então a engolir cada filho tão logo nasce, mal saído de entre os joelhos da esposa Réia.” “De tão grato a essas mães de criação, Zeus, quando se tornar o senhor de todo o Universo, dedicará as constelações de Ursa Maior e Ursa Menor a Adrastéia e Io, e, para homenagear as abelhas que o alimentaram, dará a elas o brilho do ouro e resistência contra ventos e neve, permitindo que possam viver nas maiores altitudes.” “Ao fim do velório, Zeus eleva Amaltéia aos céus e a transforma na constelação de Capricórnio, em retribuição ao leite que o nutriu por anos.”

a titânida Tétis, que sabe mais do que todos os deuses e todos os homens” “Faça de Zeus o copeiro de Cronos, e garanta que seu marido beba deste fármaco.”

Hipérion, soberano do dia e da noite, casou-se com Téia, deusa do éter, e juntos tiveram o Sol, a Lua e a Aurora. Jápeto, deus da mortalidade, juntou-se a Têmis, deusa das leis divinas, e tiveram Átlas, Menecéio, Epimeteu e Prometeu. (…) Crios teve com a divindade menor Euríbia os filhos Astreu, Palas e Perses. Mnemosine, deusa da memorização, ficou sozinha.”

Pobre Tessália, região fértil no centro da Grécia, que abriga os dois montes em cujo pico as duas gerações adversárias se ampararão para iniciar uma guerra entre imortais igualmente fortes e determinados.”

Guardando os portões do Tártaro está a horrenda Campe. Mil víboras partem de cada pata da aberração, cuspindo veneno em direção a Zeus. Não bastasse isso, ela também solta sua horripilante e peçonhenta cabeleira de serpentes. Da cintura, 50 cabeças de bestas selvagens rugem como leão e espumam na boca com os grunhidos de javalis enfurecidos. (…) e de seu pescoço uma cauda de escorpião com um gélido ferrão retorcido mira Zeus, atacado por chamas lançadas de seus assustadores cílios.”

A Hades dão o capacete da invisibilidade.”

Enquanto a energia fornecida pelo alimento dos mortais acaba, e logo os faz voltar ao estado de fome e sede, o néctar e a ambrosia nunca deixam de existir. E de nutrir.”

As fundações que mantinham certa ordem no Universo começam a ruir, e, cabrum!, Urano, o céu, lentamente volta a se deitar no leito de Gaia, a terra. O mundo volta ao Caos, ao estado primordial de desordem, quando nada ainda possuía formas.” “Na terrível fenda pela qual se chega ao Tártaro, são enfiadas todas as raízes da terra.” “O fato de estarem presos no Tártaro não significa que os Titãs deixem de agir sobre o mundo.” “Se a escuridão é uma punição terrível para um deus, algo pior está reservado para Átlas. O líder do time titânico merece um castigo exemplar.” “Zeus condena Átlas a carregar o céu em seus ombros por toda a eternidade, para que nunca mais Urano recaia sobre Gaia no abraço primordial que deu origem aos Titãs.”

O CLUBE DOS 12

Ironicamente, Hera é a deusa do casamento.

O nome de Zeus deu origem à palavra deus, e Júpiter, sua versão latina, é a junção de <jus> (justiça) e <pater> (pai).” “aos pés, tem seu pássaro preferido – a águia, que plana no alto dos céus e cai como um raio sobre sua presa. Para mostrarem sua imparcialidade, os cretenses representam-no sem orelhas; já os lacedemônios (da região de Esparta) colocam-lhe 4 orelhas, capazes de ouvir todos os pedidos dos mortais.” “Justiça é algo que ocorre entre iguais, e Zeus está acima de todos. Ora ele age bem, ora age aparentemente mal, e ninguém sabe exatamente por quê.”

de todos os seres, nenhum alimentava mais o desejo do jovem Zeus do que sua prima Métis – aquela que preparou a poção vomitória que liberou os deuses olímpicos da barriga de Cronos. Desde que, ainda adolescente, partiu de Creta em busca de seus pais, Zeus admira a deusa da astúcia e dos conselhos sábios.” “Zeus precisa tomar de Métis para si a capacidade de prever os acontecimentos, para que conquiste a soberania em seu estado absoluto e se torne senhor eterno dos céus. <Métis lhe dará filhos que a ultrapassarão em sabedoria. A primeira será uma menina de olhos cinzentos e espírito bruto. Em seguida, dará à luz seu varão, para quem ela inventará um instrumento mais poderoso que teu relâmpago – com ele vai eclipsar-te da mesma forma como Cronos sucedeu a Urano e tu sucedeste a Cronos>, previne-o Gaia. <De nada adiantará aniquilá-lo. É necessário impedir que Métis siga com sua prole.>

Zeus reencontra então sua prima e a ama. Ao ver a barriga grávida da prima, Zeus é tomado pela felicidade de finalmente tornar-se pai. Mas, atormentado pela profecia de Gaia, passa a perseguir a amante com doces palavras. Sagaz como só ela podia ser, Métis se disfarça na forma de todos os animais – até se transformar em uma mosca. É então que Zeus abre sua boca, devora-a e toma para si a astúcia com a qual reinará eternamente sobre o céu e a terra.

Métis foi apenas a primeira das 7 deusas que Z. amou. Com ela teve Atenas (sic), deusa da sabedoria e da guerra. De sua tia Têmis – que se imortalizou em nosso imaginário como a mulher de olhos vendados que segura com uma mão a balança da justiça e com a outra, uma espada – teve 3 filhas: a Eqüidade, a Lei e a Paz, com as quais Z. estabelece a força da justiça sobre o mundo. Com Euríneme, teve as 3 Graças, que personificam a beleza e o encanto e trazem a alegria na natureza e no coração dos homens e dos deuses com as conversas e boas relações sociais.

Amou Mnemósine (sic) por 9 noites e, ao fim de 9 meses, teve como filhas as 9 Musas, ninfas virgens habitantes das montanhas, das margens dos rios e das fontes que inspiram poetas e músicos, iluminam reis para apaziguar conflitos e divertem os deuses com seus cantos e danças. De Latona, teve Apolo. Mas sua única esposa legítima foi a ciumenta irmã Hera, com quem teve Ares, Ilítia e Hebe.

Além das 7 deusas, a irrefreável potência sexual de Z. leva-o, segundo levantamento de mitógrafos, a deitar-se com 115 mulheres mortais, com quem tem uma intensa prole, igualmente mortal, porém tremendamente poderosa: Héracles, Helena, Dioscuros, Perseu, Minos, Radamante, Éaco, Arcas, Zeto, Âmfion (sic), Epafo (sic).”

Z” DE ZOOLÓGICO

Sua primeira amante mortal é Niobe. Em seguida vêm tantas outras que se pode colocá-las em ordem alfabética. Deita-se com Elara, princesa de Orcômeno e, com medo da ira de Hera, esconde-a sob a terra, onde nasce o gigante Títio. Para abduzir a princesa fenícia Europa, o rei dos deuses se metamorfoseia em um touro, que a leva até a Ilha de Creta, onde a ama. Desse rapto nascem Minos, rei de Creta, e Radamantis (sic), rei das Ilhas Cíclades. Sob o disfarce de uma formiga, Z. seduz também Eurimedusa, princesa de Etiotis, no norte da Grécia, e tem com ela Mirmidão, o homem-formiga. Já para enganar Ftia, Z. se faz passar por uma pomba.

Com a bela Lamia, rainha da Líbia, teve vários filhos, mas sua esposa Hera é tomada por tamanho ciúme que lhe rouba todos os filhos. Tão grande é o sofrimento da mulher que Z. lhe dá o poder de arrancar seus próprios olhos e colocá-los de volta no globo ocular quando se sentir mais calma. Mas, mesmo cegando-se de tempos em tempos, o horror de ter perdido os filhos não passa, e Lamia começa a seqüestrar e matar os filhos alheios, ganhando um rosto mais distorcido a cada vítima, até tornar-se um tubarão.” [!]

O desejo de Z. é tão voraz que nem mesmo os rapazes ficaram livres dele. Disfarçado de águia Z. encanta Ganimedes, príncipe de Tróia, e o abduz para o Monte Olimpo, onde este se tornará seu amante e copeiro dos deuses.”

* * *

Pandora, a 1ª mortal, criada sob ordens de Z.” “Prometeu, o 1º homem” [?]

Depois de ter devorado Métis, Z. personificou a astúcia. Isso não quer dizer que suas mulheres não tentarão manipulá-lo, mas que ele saberá contornar o que a mitologia mostra como um vício feminino.”

Liberado da opressão paterna, o rei dos deuses começa a cortejar sua irmã gêmea em Cnossos, Creta. Mas a indiferença da moça não supera a sagacidade de Z. (…) Tomada de pena pelo filhote de cuco ferido, Hera delicadamente o coloca em seu seio, como mandaria seu instinto materno. Basta ela começar a acariciá-lo para que ele tome sua forma original e a agarre à força. Desonrada, H. se vê obrigada a casar-se com o irmão para encobrir a vergonha de seu estupro.” “Terminado o casamento que lotou o Jardim das Hespérides, o casal divino parte para a Ilha de Samos, onde os noivos terão uma noite de núpcias de 300 anos.”

Divindades masculinas só passariam a se impor na região da Grécia com a vinda dos jônios, por volta de 1950 a.C.”

WHO IS HER(A)?

Nunca é representada como mãe, mas, sim, como uma esposa revanchista e madrasta terrível” “Condena Héracles à servidão sob o rei Eristeu, de Micenas, persegue Dionísio antes mesmo de seu nascimento e faz com que a mãe dele, Semele, seja acertada por um trovão de Z. Leva Ino, a ama de Dionísio, a se jogar no mar com seu filho. Condena as filhas do rei Proito a vagabundear pelo Peloponeso como vacas loucas. Persegue Io, a sacerdotisa de Argos. E gera, por partenogênese, o filho Hefesto, deus ferreiro deformado.”

Por que Z. trai a esposa de forma tão sistemática? H. acredita que tudo seja culpa da incontrolável vulnerabilidade masculina ao prazer carnal. Mas o rei dos deuses não concorda.

<Na verdade, o prazer no homem é muito mais tedioso e fraco do que aquele que vocês mulheres compartilham>, diz, para a raiva de Hera. Para esclarecerem o assunto, os dois descem à Terra e consultam alguém que conhece por experiência própria os dois lados do prazer: o velho Tirésias.

Quando jovem, Tirésias viu duas serpentes prestes a copular. Com um golpe de galho, separou as duas e imediatamente se tornou uma menina. Sob seu corpo de mulher, chegou a casar-se com um homem. Sete anos depois de sua transformação, ele (que ainda era uma mulher) encontrou serpentes copulando novamente e lhes deu um 2º golpe. E virou homem de novo.

Diante da pergunta de H. e Z., Tirésias responde, sem dúvida: <Venerável casal olímpico, numa escala de 10, a mulher goza 9x a parte do homem>.

A ira que já se acumulava no fígado celeste de H. explode, e, com essa resposta, a deusa arranca a vista do pobre velho. Z., que é infinitamente justo, tenta reparar o ato da esposa dando a Tirésias o poder de prever o futuro e prolongando sua vida.

Poseidon e Apolo são condenados a reconstruir a cidade de Tróia para o rei Laomedão”

os gregos chegaram a criar Heraia, uma versão feminina da Olimpíada. Ainda assim, os jogos de Hera não ficaram em pé de igualdade com os dedicados ao marido: as mulheres, consideradas mais fracas, corriam apenas 5/6 do percurso masculino.” [?]

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Certa manhã, quando o deus solar Hélio já fustiga seus cavalos brancos para fazer emergir do mar sua carruagem de fogo, e a deusa lunar Selene começa a afundar-se na água, sua enxaqueca é insuportável. Tanto que pede ao enteado Hefesto, o filho de H. gerado por partenogênese, que lhe quebre a cabeça imortal com uma machadada.

Qual não é a sua surpresa ao ver que de seu cérebro pula uma figura já adulta, dotada de olhos brilhantes, mente rápida e coração inflexível, vestida para a batalha, urrando um ensurdecedor grito de guerra! Nesse instante, o panteão olímpico inteiro treme, a Terra grita horrivelmente por toda sua extensão, os mares são revoltos por ondas escuras cujas espumas se espalham pelo mundo.”

Z. assume uma faceta feminina ao parir a filha de sua cabeça, enquanto Hefesto se faz de parteira com seu machado. Sem a figura da mãe, Atena cresce ligada somente à figura paterna de Zeus, e, com atributos da guerra, essencialmente masculina, ela se sente em casa no mundo dos homens, acompanhando heróis nas batalhas.” “Se a guerra é inevitável, Atena inspira os homens a provar sua bravura e, quando assim a prudência exige, refreia o instinto de Ares, impedindo que guerreiros se matem uns aos outros.”

Atena mantém sua virgindade a qualquer custo, como se negasse sua feminilidade. Já nasceu vestida, e o único homem a vê-la nua ficará cego (sim, essa é uma 2ª versão da história sobre como o velho adivinho Tirésias perde a visão).” ERRATA: Páris viu as três deusas olímpicas nuas. Cf. https://seclusao.art.blog/2017/07/16/mitologia-herois-jose-francisco-botelho/.

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Na fábula de Hans Christian Andersen, um pato estranhamente diferente foge da ninhada, rejeitado por sua feiúra, mas, quando cresce, volta como um belo cisne. Os mesmos passos trilha Hefesto, o filho deformado da deusa Hera, com uma única diferença: volta ao Olimpo como o mais habilidoso dos deuses.” “Conforme ele ensaia seus primeiros passos, os demais deuses são tomados pelo riso: o aleijado que não consegue andar senão cambaleando. Furiosa, Hera decide então livrar-se daquela deformidade. Joga Hefesto das alturas do Olimpo e busca esquecer o erro criado por sua birra.” “Nas mãos salvadoras de Tétis, filha de Nereu, e Eurínome, filha de Oceano, Hefesto sobrevive sem nenhum machucado.” “Com os metais que as duas extraem das pedras do mar, Hefesto começa a criar peças de ourivesaria delicadas como jamais vistas.” “9 anos passados desde quando adotou o garoto, Tétis decide quebrar seu silêncio ao encontrar fortuitamente a deusa H..” “Hefesto cria o mais belo trono já visto e pede ao deus mensageiro, Hermes, que envie o móvel até o Olimpo.” “H., sem dar-se conta, senta-se confortavelmente, tenta levantar-se e não consegue.” “Dionísio joga o corpo inerte de Hefesto no lombo de uma mula e o leva até o Olimpo. Os deuses estão reunidos. Desaparecido está o escárnio que levou H. a jogá-lo ao mar, e, em seu lugar, instaura-se a apreensão diante do jovem deus que já provou tanto seu talento quanto seu poder de fogo, capaz de dissuadir até mesmo o violento Ares. Agora, até Z. parece curvar-se diante dele:

– Ó Hefesto, filho de H.. Eu lhe garanto o que quiseres de nós em troca da liberdade de minha esposa, diz o rei dos deuses.” “Feio e coxo, pede como esposa a mais bela de todas as deusas, Afrodite.”

Num dia em que Z. condenou H. a ficar dependurada no céu, levando açoitadas por ter armado contra a autoridade do marido, o filho antes rejeitado corre para defendê-la. Dessa vez, é Z. quem o lança do céu. Mas Hefesto é trazido novamente ao Olimpo, recebe o perdão do rei dos céus e assume o papel de pacificador entre os imortais.”

Os Ciclopes e outras criaturas monstruosas também passam a trabalhar sob suas ordens no interior de vulcões.”

A verdadeira atração de Afrodite é por Ares” “Aproveitando o pouco tempo livre do marido, Afrodite satisfaz ilicitamente seus desejos com Ares – e com muitos outros. Ela só não conta com a aliança entre o marido e Hélio, o deus-sol.” “Por mais aleijado e lento que seja, derrotei pela 2ª vez o mais violento de todos os deuses. <Hefesto>, chama Z., irritado, <és um tolo por tornar pública uma questão pessoal destas.> Poseidon, de olho na sobrinha presa, mantém sua gravidade e se junta à opinião de Z.. <É verdade, Hefesto. Deixa Ares partir>, diz o deus dos mares. <Como Z. se recusa a tomar partido, garanto-lhe que Ares pagará em troca da liberdade o equivalente a todos os presentes de casamento que você deu a sua mulher.>”

Harmonia, filha de Ares e Afrodite.” “Com a bênção de Ares, Harmonia se unirá a Cadmo, regente da Beócia, terra onde fica Tebas. Essa será a 1ª vez que os deuses olímpicos assistirão a um matrimônio entre uma deusa e um mortal.” “Afrodite dá à filha um belo colar feito por Hefesto” “Ao vestir o colar, Harmonia se transforma em uma serpente. A jóia é herdade por Semele, sua filha, que também é destruída. Querendo manter-se bela e vigorosa, Jocasta segue na fila das portadoras do colar. Como resultado, acaba casando-se com o próprio filho e se mata ao saber disso. Polinice herda então a jóia e dá a Erifila, que morre junto a Alcmeão, Fegeu e seus filhos. E as mortes se sucederão eternamente, assim como o sofrimento de Hefesto.”

* * *

Afrodite personifica a sedução. Ela é a materialização do ideal de beleza. E é capaz de corromper qualquer um, desmanchando os mais sagrados vínculos de fidelidade. De todos os seres do Universo, somente três estão livres de sua influência encantadora: Héstia, a mais velha das filhas de Cronos [deusa do lar – Vesta é a nomenclatura romana; ou seja, figura central nos cultos da mitologia tardia], Ártemis, a deusa da caça, e Atena, a deusa da sabedoria na guerra.

O REVERSO DO BANQUETE

Afrodite entrega-se a Hermes. De seu breve amor nasce uma criança, a quem ela dá o nome do pai e da mãe: Hermafrodito.” “Salmácida simula abandonar o lago, e o rapaz se vê sozinho. Ele tira então suas roupas e se lança às águas cristalinas. Nesse momento, a ninfa grita: <Venci, ele é meu>, despe-se e o agarra nas águas, forçando-lhe beijos e carícias. Hermafrodito tenta fugir de seus braços, mas eles o prendem como um polvo que envolve sua presa.

– Tolo, podes lutar quanto quiseres, diz Salmácida. Mas jamais escapará de mim. Deuses, que não haja um dia em que nós sejamos separados.

Os deuses ouvem seu clamor, e assim os dois corpos se unem em um só – nem homem, nem mulher, mas os dois ao mesmo tempo.”

O LAGO CHINÊS

<Pai, mãe, por favor, garanti-me que todos aqueles que se banharem aqui emerjam como eu, metade homem, metade mulher.>

Os pais o ouvem e, para compensar o filho de dois sexos, enfeitiçam as águas conforme seu desejo.”

TRAQUINAS

Foi sob sua inspiração que Z. amou tantas mortais e que tantas mulheres caíram em desgraça.”

Os troianos, que me criaram, informaram-me que em tua cama devo tornar-me uma mulher casada e dar-te filhos nobres.”

* * *

dois filhos que teve com Afrodite – Deimos (o Pânico) e Fobos (o Medo) –, além de Éris (a Discórdia, mãe de todos os males humanos), Ênio (a destruidora de cidades), as Queres (seres noturnos que dilaceram os cadáveres e sugam o sangue dos mortos em batalha), Limo (a fome, que alimenta os saques), Ponos (a Fadiga, que enfraquece os combatentes), Algos (a Dor, que os imobiliza) e Lete (o Esquecimento, que joga irmãos contra irmãos).”

Por causa do temperamento violento de Ares, os gregos sempre preferem invocar Atena em vez dele. São raros os templos erigidos em sua honra na Grécia, e apenas duas estátuas suas são conhecidas – uma delas em Esparta, cidade guerreira onde se fazem sacrifícios humanos em nome de Ares.

Já os romanos veneram Marte, o nome latino de Ares. Tanto que na sua variação da mitologia, o deus da guerra é pai de Rômulo e Remo. Desde o reinado de Numa, teve a serviço de seu culto um colégio de sacerdotes.”

* * *

<É verdade que viestes aqui procurar as vacas que habitam os campos? Não vi, não sei, não escutei outros falarem disso. E não pareço um ladrão de bois. O que me interessa é o sono, o leite e minha mãe. Na verdade, grande prodígio seria que um menino recém-nascido roubasse vacas em uma montanha. Nasci ontem: os meus pés são tão delicados que não suportariam pisar na dura terra.>

Enquanto Apolo lhe responde, Hermes assovia como se ouvisse um discurso vão:

– Ó exímio charlatão e enganador. Se não queres dormir o teu último e supremo sono, desce do berço. Serás chamado para sempre o rei dos ladrões.”

<Um recém-nascido com o aspecto de um arauto? Grave questão é esta!>, diz Zeus.”

<Bandido, se ainda bebê conseguistes matar duas vacas, realmente me preocupo com a força que terás adulto>, diz Apolo. <É melhor que não cresças muito.>

Apolo então agarra as pernas de Hermes e as prende com um forte laço de vime. Nesse momento, Hermes pega sua lira e começa a tocá-la para encantar o irmão. E, conforme soam as límpidas notas, Hermes as acompanha com sua voz de menino. Apolo pára imediatamente de amarrá-lo e, maravilhado, diz:

<Tu inventastes algo que vale mais do que minhas vacas. Acredito que podemos entrar facilmente em um acordo se me presenteares com essa arte milagrosa. Se me ensinares tua arte, serás famoso entre os deuses imortais.>

<(…) Z. já te concedeu o dom das profecias. Da tua parte, meu caro, deixa para mim essa glória.>”

a profecia que me pedes… Não é lícito que nenhum imortal a aprenda, pois assim jurei a Z.. Mas, se fores até as ninfas Trias que habitam o Monte Parnasso, elas poderão te ensinar a adivinhação com pedras.”

<Prometo-te jamais mentir. Só não garanto contar sempre a verdade inteira.>

<Isso não se esperaria de ti>, diz Z., sorrindo. <Mas tuas tarefas daqui para frente incluirão a criação de tratados, a promoção do comércio, a manutenção do direito de todos os viajantes de percorrer qualquer estrada do mundo.>

E assim o rei dos deuses o acolhe como o 12º deus olímpico. Dá-lhe um bastão mágico capaz de separar brigas, um chapéu que o protege das chuvas e sandálias aladas, que o fazem voar.

Hermes também cria a escrita dos homens – diante do que ficam tão gratos que passam a dedicar-lhe a língua de todo animal sacrificado. Depois, cria a astronomia, as escalas musicais e a ginástica. Nenhum deus grego será tão próximo dos homens quanto esse talentoso mensageiro.”

* * *

A origem de Deméter data ainda dos tempos em que gregos cultuavam deusas da fertilidade em vez de divindades masculinas, trazidas por invasores nômades.”

uma vez ingerida, a romã, alimento dos mortos, jamais permitirá libertar-se inteiramente do Tártaro.”

* * *

Primeiro, Poseidon aproxima-se da Titânide Tétis, que com o Titã Oceano já deu à luz 3 mil rios e 3 mil ninfas. Mas logo muda de idéia – uma profecia de Têmis diz que qualquer filho nascido dela será maior que seu pai.”

* * *

<Querido pai, permite que eu viva para sempre virgem da mesma forma como Zeus prometeu a virgindade a Ártemis.>

Mas, ainda que seu pai conceda seu desejo, Dafne permanecerá sempre irresistivelmente amável. E Apolo, mesmo presidindo todos os oráculos do mundo, não pode deixar de se enganar pela esperança de amá-la.

Quando vê os cabelos loiros de sua amada balançando em seu pescoço, pensa: <Quão lindos seriam se ela os penteasse>. Para seus olhos, os olhos de Dafne são como estrelas; seus lábios, os mais doces para beijar; suas mãos, seus dedos, seus braços, seus ombros, tudo o que vê na ninfa é o mais belo do mundo.

De nada adianta Apolo correr atrás de Dafne, pois, ao fugir, seus delicados pés são mais rápidos que o vento.”

Dafne começa a fraquejar, e Apolo mantém seu vigor; sua respiração ofegante alcança os cabelos da amada. Ao sentir que não terá mais forças, ela invoca o pai:

– Ajude-me, pai! Cobre-me com a terra! Destrói a beleza que me feriu ou transforma o corpo que destrói a minha vida!

Antes mesmo de terminar sua prece, seu corpo é tomado pelo torpor; uma casca envolve seu seio e seus cabelos se tornam folhas. Seus braços se transformam em galhos, seus pés penetram a terra como raízes e sua face vira a copa da árvore.

Apolo abraça-a e sente os seios sob a casca do tronco. Tenta beijar seus ramos, mas eles se afastam dos lábios apolíneos.

– Tu podes não ser minha esposa, mas serás minha árvore preferida, e suas folhas, o louro, serão para sempre minha coroa.

Depois de sua prepotência ter-lhe custado Dafne, seu primeiro amor feminino, Jacinto, seu primeiro amor masculino, e quase tê-lo confinado no Tártaro, o deus da luz passa a sempre pregar a moderação. Desde então, as frases <Conhece-te a ti mesmo> e <Nada em excesso> jamais sairão de seus lábios.

Esse Apolo amadurecido passa a representar a essência dos valores da civilização helenista. Ele incorpora a pureza, a grandeza e a prudência.”

* * *

– Escolhe o que quiser, pois não há o que eu lhe possa recusar, responde o deus.

– Quero que me ames tal como recebes Hera em seus braços.

Não fosse a influência da vingativa esposa de Z., Semele jamais cometeria tamanha blasfêmia, e, se pudesse voltar atrás, Z. teria fechado os lábios da amante ou jamais teria feito sua oferta em primeiro lugar. Mas é tarde demais. E o preço por Semele se comparar aos deuses será sua vida.”

Com Semele morta, Z. precisa encontrar alguma forma de garantir a vida ao filho concebido nesse trágico encontro. Ele então costura o embrião dentro da própria coxa, e na perna do pai se dá a gestação de Dionísio.

Assim que nasce o filho de Z., H. ordena que os Titãs seqüestrem a criança, façam dela picadinho e joguem esses restos em um caldeirão. Mas a avó Réia traz o menino de volta à vida, clamando Perséfone, a rainha do Tártaro, a levá-lo à casa do rei Atamas de Orcómeno (sic), onde será criado como uma menina pela rainha Ino.

H., que não pode ser enganada, descobre a estratégia e condena Atamas e Ino à loucura. Para proteger Dionísio, Hermes o transforma em um cabrito e o oferta de presente às ninfas do Monte Nisa.” “é no vinhedo que H. o reconhece, apesar de todos os trejeitos femininos trazidos por sua criação. Para castigá-lo, a rainha dos céus o deixa louco. E assim ele passa a vagar por todo o mundo, acompanhado de seu tutor, Sileno, de ninfas, pãs, curetes e sátiros. Vai ao Egito levando consigo a vinha. Depois, segue em direção à Índia. Ao chegar ao Rio Eufrates, é combatido pelo rei de Damasco, que não quer saber de vinho em seus domínios. Mas de nada adianta opor-se a Dionísio: o rei tem o couro arrancado ainda vivo, e, para fechar a vitória com ironia, o deus constrói uma ponte de videira para atravessar o Eufrates.” “Intoxicados, os indianos matam seus bois achando que são sátiros, derrubam os carvalhos crendo que suas copas são a cabeleira de Dionísio, e alguns acabam mais dançando que lutando.

A vitória demorará bastante – o poeta grego No[n]nus precisará de 27 livros [número diverge no Wiki: 48] para descrevê-la – mas chegará [a epopéia Dionysiaca].”

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“EU SOU HEATHCLIFF!”

Roland Barthes, 1977

DIC – sortija: anel de dedo ou de cabelo; jogo de passar-o-anel, espécie de batata-quente transplantado.

anonadarse: aniquilar-se

asir: agarrar, prender, atingir

colmar: preencher, acalmar

ajetreo: atividade intensa, atarefamento, zigue-zague

esquela: necrológio

pañoleta: lenço, xale

apabullar: aporrinhar

mansalva: a mancheias

candil, plafón: candeia, lustre

guiñar, guiño: brilhar (lampejo); desprezar (indiferença); subentender (latente); talvez gracejar (gracejo).

agujero: buraco

glicina: glicina (Port.), glicocola, aminoácido presente no açúcar

embadurnar: manchar

desgarrador: pungente, lancinante

cordel: barbante

celda: cela

acertijo: adivinhação

descifrar: decifrar

anclar: ancorar

angosto: estreito

oblación/oblação: oferenda

rompecabezas: quebra-cabeça

* * *

Las palabras no son jamás locas, es la sintaxe que es loca.”

<alucinación verbal> (Freud, Lacan): frase trunca que se limita generalmente a su parte sintáctica (<Aunque seas…>, <Si debes aún…>, <Sigue siendo…>)” Quando quero me lembrar de algo esquecido numa lista de afazeres ou simplesmente algo exaustivo que tenho que fechar e soterrar de uma vez. MANTRAS AUTO-COMPLETANTES: TCHEU VÊ…

QUE MAIS? CLAC, CLAC… A BER… ENTONCES… A VECES… POR CIERTO… PERO NI SIEMPRE… !Y AL CABO!… !NO OTRA VEZ!

* * *

índice dos 80 verbetes amorosos

ABISMARSE

ABRAZO

ADORABLE

AFIRMACIÓN

ALTERACIÓN

ANGUSTIA

ANULACIÓN

ASCESIS

ÁTOPOS

AUSENCIA

CARTA

CATÁSTROFE

CELOS

CIRCUNSCRIBIR

COLOCADOS

COMPASIÓN

COMPRENDER

CONDUCTA

CONNIVENCIA

CONTACTOS

CONTINGENCIAS

CORAZÓN

CUERPO

DECLARACIÓN

DEDICATORIA

DEMONIOS

DEPENDENCIA

DESOLLADO

DESPERTAR

DESREALIDAD

DOLIDO

DRAMA

ENCUENTRO

ERRABUNDEO

ESCENA

ESCRIBIR

ESPERA

EXILIO

FADING

FALTAS

FASTIDIOSO

FIESTA

GASTO

GRADIVA

HABLADURÍA

IDENTIFICACIÓN

IMAGEN

INCOGNOSCIBLE

INDUCCIÓN

INDUMENTARIA

INFORMANTE

INSOPORTABLE

LANGUIDEZ

LOCO

LOCUELA

LLORAR

MAGIA

MONSTRUOSO

MORTIFICACIÓN

MUTISMO

NOCHE

NUBES

OBJETOS

OBSCENO

OCULTAR

POR QUÉ

QUERER-ASIR

RAPTO

RECUERDO

RESONANCIA

SACIEDAD O COLMO

SALIDAS

SIGNOS

SOLO

SUICIDIO

TAL

TE AMO

TERNURA

UNIÓN

VERDAD

ABISMARSE. Ataque de anonadamiento que se apodera del sujeto amoroso, por desesperación o plenitud.

la dulzura del abismo (…) felicidad excesiva”

nadie más a quien hablar

hemorragia suave que no mana de ningún parte de mi cuerpo” “Me instalo fugitivamente en un pensamiento falso de la muerte”

SARTRE. Sobre el desvanecimiento y la cólera como huidas, Esquisse d’une théorie des émotions.

ABRAZO. El gesto del abrazo amoroso parece cumplir, por un momento, para el sujeto, el sueño de unión con el ser amado.

ANTI-DELEUZE: “En este incesto prorrogado, nada se agota, nada se quiere: todos los deseos son abolidos, porque parecen definitivamente colmados.” “en medio de este abrazo infantil, lo genital llega infaltablemente a surgir”

la saciedad existe, y no me daré tregua hasta hacer que se repita: a través de todos los meandros de la historia amorosa me obstinaré en querer rencontrar, renovar, la contradicción – la contracción – de los dos abrazos.

ADORABLE. Al no conseguir nombrar la singularidad de su deseo por el ser amado, el sujeto amoroso desemboca en esta palabra un poco tonta: ¡adorable!

el buen humor del deseo. Todo París está a mi disposición, sin que yo quiera asirlo: ni languidez ni codicia. Olvido todo lo real que, en París, excede a su encanto”

DIDEROT. Sobre la teoría del instante fecundo

la correcta traducción de <adorable> sería el ipse latino: es él, es precisamente él en persona.”

De palabra en palabra, me canso de decir de otro modo lo que es propio de mí” “viaje al término del cual mi última filosofía no quede sino ser la de reconocer – y la de practicar – la tautología. Es adorable lo que es adorable. “Lo que clausura así el lenguaje amoroso es aquello mismo que lo ha instituido: la fascinación.” “disco rayado”

AFIRMACIÓN. Contra viento y marea, el sujeto afirma el amor como valor.

PELÉIAS: Que tens? Não me pareces feliz.

(…) Sim, sim, eu sou feliz, mas estou triste.”

indiferença perfeita”

Hago discretamente cosas locas; soy el único testigo de mi locura. Lo que el amor desnuda en mí es la energía. Todo lo que hago tiene un sentido (puedo, pues, vivir, sin quejarme), pero ese sentido es una finalidad inasequible: no es más que el sentido de mi fuerza. Las inflexiones dolientes, culpables, tristes, todo lo reactivo de mi vida cotidiana se revierte. Werther alaba [louva] su propia tensión, que él afirma, frente a la simpleza de Alberto. Nacido de la literatura, no pudiendo hablar sino con la ayuda de esos códigos usados, estoy no obstante solo con mi fuerza, consagrado a mi propia filosofía.”

ALTERACIÓN. Producción breve, en el campo amoroso, de una contraimagen del objeto amado. Al capricho de incidentes ínfimos o de rasgos tenues, el sujeto ve alterarse e invertirse repentinamente la buena Imagen.

había solamente un pequeño punto de la nariz que llevaba una marca ligera, mas una clara marca de corrupción.” Rusbrock

¿Será vulgar el otro, de quien yo alababa su elegancia y originalidad?”

estoy provisionalmente defascinado, no sin dolor.”

la vergüenza viene de la sujeción (…) a merced de un incidente fútil, que sólo mi perspicacia o mi delirio captan”

lo veo de pronto (cuestión de visión) afanándose, enloqueciéndose, o simplemente empeñándose en complacer, en respetar, en plegarse a ritos mundanos gracias a los cuales espera hacerse reconocer.” “imagen mezquina: me mostra al otro preso en la simpleza del mundo social.” “el otro se vuelve gregario.”

Muy a menudo es por el lenguaje que el otro se altera; dice una palabra diferente, y escucho zumbar de una manera amenazante todo otro mundo, que es el mundo del otro.” PIROCO QUEER – Y muy a menudo es cuando está entre sus amigos más viejos, antiguos. Una arqueología abstracta en vivo. DESALTERACIÓN o la reversión perfunctoria del proceso: No era nada. Es diferente. No quiere decir que contigo no me divierto.

el gueto temido de la homosexualidad femenina, de la seducción grosera”

La palabra está hecha de una sustancia química tenue que opera las más violentas alteraciones: el otro, mantenido largo tiempo en el capullo de mi propio discurso, da a entender, por una palabra que se le escapa, los lenguajes a los que puede recurrir y que por consecuencia otros le prestan.”

el otro se me aparece sometido a un deseo. Pero no es un deseo acabado, bien dirigido – en tal caso estaría simplemente celoso – es solamente un deseo nasciente, un impulso de deseo que detecto en el otro, sin que él mismo esté muy consciente de ello: lo veo, en la conversación, agitarse, multiplicarse, sobrepasarse, ponerse en posición de apetencia respecto de un tercero, como suspenso de él para seducirlo.” “verán a ese sujeto enloquecido por aquel otro, impulsado a establecer con él una relación más cálida, más insistente, más empalagosa [melosa, enjoativa]: sorprendo al otro, por así decir, en flagrante delito de inflación de sí mismo.”

Vi la esperma brotar de sus ojos” Sade

y a poco que la persona solicitada responda de la misma manera, la escena se hace irrisoria: tengo la visión de 2 pavorreales desplegando las colas [HAHA], uno ante el otro.”

Gide, cediendo al juego de 3 escolares argelinos, <anhelante, jadeante>, ante su mujer que fingía leer, tenía el aire <de un criminal o de un loco>. ¿Todo deseo no sea el mío no es loco?”

FLAUBERT. Bouvard et Pécuchet

Herido por un propósito que lo sorprende, Werther ve de pronto a Carlota como una parlanchina cualquiera y la incluye en el grupo de las amigas con las cuales parlotea (no es ya la otra, sino otra entre otras), y dice entonces desdeñosamente: <mis mujercitas> (meine Weibchen). Una blasfemia asciende bruscamente a los labios del sujeto y viene a romper irrespetuosamente la bendición del enamorado [O momento da quebra do tabu]: está poseído por un demonio que habla por su boca de donde salen, como en los cuentos de hadas, no ya flores, sino sapos. Horrible reflujo de la Imagen.

(El horror de herir es todavía más fuerte que la angustia de perder.)

A vulgarização da mulher, para o homem hetero, não seria já uma putificação (atestado de promiscuidade)?

ANGUSTIA. El sujeto amoroso, a merced de tal o cual contingencia, se siente asaltado por el miedo a un peligro, a una herida, a un abandono, a una mudanza, sentimiento que expresa con el nombre de angustia.

los muebles, las lámparas, son estúpidos; no hay nada de amistoso donde buscar ánimo.”

el temor clínico al desmoronamiento es el temor a un desmoronamiento que ha sido ya experimentado (primitive agony)”

WINNICOTT – La crainte de l’effondrement

ANULACIÓN. Explosión de lenguaje en el curso del cual el sujeto llega a anular al objeto amado bajo el peso del amor mismo: por una perversión típicamente amorosa, lo que el sujeto ama es el amor y no el objeto.

Carlota es muy insulsa; es el pobre personaje de una escenificación fuerte, atormentada, brillante, montada por el sujeto W.; por una decisión graciosa de este sujeto, un objeto grotesco está ubicado en el centro de la escena“objeto inerte” “es mi deseo lo que deseo, y el ser amado no es más que su agente.” “feliz de elevarme humillando al otro”

Me siento culpable y me reprocho por abandonarlo. Se opera un brusco viraje: trato de desanularlo, me obrigo a sufrir de nuevo.”

ASCESIS. Ya sea que se sienta culpable con respecto al ser amado o que quiera impresionarlo representándole su infortunio, el sujeto amoroso esboza una conducta ascética de autocastigo (régimen de vida, indumentaria, etcétera).

me entregaré al estudio de una ciencia seria y abstracta.”

Seré muy paciente, un poco triste, en una palabra digno, como corresponde al hombre del resentimiento. Remarcaré histéricamente mi duelo (el duelo que presumo) en mi vestimenta, en el corte de pelo, en la regularidad de mis hábitos. Será un retiro apacible; justo ese poco de retiro necesario para el buen funcionamiento de un patético [apaixonado] discreto.”

regresa, mírame, mira lo que haces de mí.”

O enlutado, asceta pleno, diante de si mesmo e do SOCIUS, é isso em escala absoluta: chantageia com o mundo, jamais cede. “Preferiria desaparecer, ser aniquilado, que deixar de sofrer diária e deliberadamente.” “Porque é culpa de vocês, no fundo, será que vocês não reconhecem os monstros que são, a água límpida que sorvem sem pedir licença?”

ÁTOPOS. El ser amado es reconocido por el sujeto amoroso como átopos (calificación dada a Sócrates por sus interlocutores), es decir, como inclasificable, de una originalidad incesantemente imprevisible.

Sobre la atopía de Sócrates, Michel Guérin, Nie., Socrate héroïque.”

intuyo que el verdadero lugar de la originalidad no es ni el otro ni yo, sino nuestra propia relación. Es la originalidad de la relación lo que es preciso conquistar. La mayor parte de las heridas me vienen del estereotipo: estoy obligado a estar celoso, abandonado, frustrado, como todo el mundo.” “los celos, por ejemplo, no tienen ya espacio en esa relación sin lugar”

AUSENCIA. Todo episodio de lenguaje que pone en escena la ausencia del objeto amado – sean cuales fueren la causa y la duración – y tiende a transformar esta ausencia en prueba de abandono.

Es la mujer quien da forma a la ausencia, quien elabora su ficción, puesto que tiene el tiempo para ello” “los Cantos de tejedoras” Los Cantos O(b)scuros o “b” cenos.

en todo hombre que dice la ausencia del otro, lo femenino se declara” “el origen ha pertenecido, el porvenir pertenecerá a los sujetos en quien existe lo femenino.”

destetado detestado sem teto e de vidro e desfigurado apenas verborrágico

No princípio era a Verborragia, no princípio Deus – eu sabia –

sangrava (hemorragia).

Trate de se tratar. Dá para se dar ao respeito. Considere levar-se em consideração.

Soy irregularmente infiel. Es la condición de mi supervivencia” “El enamorado que no olvida a veces, muere por exceso, fatiga y tensión de memorias (como W.).”

muchas veces pasaban los autobuses uno tras otro y ella no aparecía en ninguno.”

Com os cristãos acontece o contrário do que com essa nossa resignação madura? Primeiro a dor da morte inaudita, depois a esperança infinita…

La frustración tendría por figura la Presencia (…) La castración tendría por figura la Intermitencia” “El deseo se estrella contra la necesidad: está ahí el hecho obsesivo del sentimiento amoroso.”

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO EDIPIANO: “como una madre que viene a buscar su hijo, del brillo mundanal, de la infatuación social, que me restituya <la intimidad religiosa, la gravedad> del mundo amoroso.”

camarillas [grupo de lobistas ou influenciadores], ambiciones, promociones, tretas, alianzas, escisiones, funciones, poderes”

en el último momento: cuando hayas deseado la verdad como has deseado el aire, entonces sabrás lo que es.”

CARTA. La figura enfoca la dialéctica particular de la carta de amor; a la vez vacía (codificada) y expresiva (cargada de ganas de significar el deseo).

no tengo nada que decirte, sino que este nada es a ti a quien lo digo”

Gide: Paludes, que es el libro de la Nada.”

<cuando escribe a alguien, es para él y no para usted: debe pues buscar menos decirle lo que piensa que lo que le agrada más.> la marquesa de Merteuil, Liaisons dangereuses – ella no está enamorada; lo que ella postula es una correspondencia, es decir una empresa táctica destinada a defender posiciones, a asegurar conquistas” “(se trata pues de una verdadera correspondencia, en el sentido casi matemático del término) Pero la carta, para el enamorado, no tiene valor táctico: es puramente expresiva – en rigor aduladora”

Atenciosamente,

Aquele que preferia ficar sem uma resposta!

Perpetuos monólogos a propósito de un ser amado, que no son ni rectificados ni alimentados, desenbocan en ideas erróneas sobre las relaciones mutuas, y nos vuelven extraños uno al otro cuando nos encontramos de nuevo” Freud: Correspondance, 49 [A su novia Martha]

CATÁSTROFE. Crisis violenta en cuyo transcurso el sujeto, al experimentar la situación amorosa como un atolladero definitivo, como una trampa de la que no podrá jamás salir, se dedica a una destrucción total de sí mismo.

después de no sé qué incidente, me encierro en mi habitación y rompo en sollozos: me lleva una ola poderosa, asfixiado de dolor (…) veo como en un relámpago claro y frío, la destrucción a la que estoy condenado. Ninguna relación con la humillación insidiosa y en suma civilizada de los amores dificiles; ninguna relación con el pasmo del sujeto abandonado; no me autocompadezco.” Vó Maria sempre em meu imaginário nessas horas: qual é a razão?

(¿Causa [de la Catástrofe]? Nunca solemne, de ningún modo por declaración de ruptura)”

¿No es indecente comparar la situación de un sujeto con mal de amores a la de un recluso de Dachau? ¿Una de las injurias más inimaginables de la Historia puede reencontrarse en un incidente fútil, infantil, sofisticado, oscuro, ocurrido a un sujeto cómodo, que es sólo presa de su Imaginario? Estas dos situaciones tienen, sin embargo, algo de común: son, literalmente, pánicas”

<Pánico> se relaciona con el dios Pan; pero se pueden emplear las etimologías como las palabras y fingir creer que <pánico> viene del adjetivo griego que quiere decir <todo>.”

BETTELHEIM. La fortaleza vacía

CELOS.Sentimiento que nace en el amor y que es producido por la creencia de que la persona amada prefire a otro” (Littré).

El celoso de la novela no es W.; es el señor Schmidt, el novio de Friederike, el hombre del mal humor. (…) Se trata (y ahí está una de las bellezas del libro) de una disposición trágica y no psicológica. W. no odia a Alberto; simplemente, Alberto ocupa una plaza deseada: es un adversario”

W. es capturado por esta imagen: Carlota corta rebanadas de pan y las distribuye a sus hermanos y hermanas. Carlota es un pastel, y ese pastel se reparte: a cada uno su tajada: no soy él único”

¿las diosas del Destino no son también las diosas del Reparto, las Parcas (de las que la última es la Muda, la Muerte)?”

si no acepto la partición del ser amado niego su perfección” “Melite se reparte porque ella es perfecta, e Hiperión sufre por ello [Hölderlin]” “Así, sufro, dos veces: por el reparto mismo, y por mi impotencia para soportar su nobleza.”

Zulayha intentó seducir a José y el marido no se indignó por ello (…) la escena transcurre en Egipto y Egipto está bajo un signo zodiacal que excluye los celos: Géminis. [Djedidi: <José cede ‘en la medida de un ala de mosquito’ para que la leyenda no pueda poner en duda su virilidad.>]”

CIRCUNSCRIBIR. Para reducir su infortúnio, el sujeto pone su esperanza en un método de control que le permita circunscribir los placeres que le da la relación amorosa: por una parte, guardar estes placeres, aprovecharlos plenamente, y, por la otra, cerrar la mente a las amplias zonas depresivas que separan estos placeres: “olvidar” al ser amado fuera de los placeres que da.

Gaudium es el <placer que el alma experimenta cuando considera la posesión de un bien presente o futuro como assegurada…>”

Laetitia es un placer alegre, <un estado en que el placer predomina en nosotros> (en medio de otras sensaciones a veces contradictorias).”

LEIBNIZ. Nouveaux essais sur l’entendement humain

nada, de la imagen, puede ser olvidado; una memoria extenuante impide abandonar a voluntad al amor”

(convertir la escasez de frecuentación en lujo de la relación, a la manera epicúrea; o, mas aún, considerar al otro como perdido, y por lo tanto experimentar, cada vez que él vuelve, el alivio de una resurrección)”

la miseria amorosa es indisoluble (el amor no es ni dialéctico ni reformista).”

COLOCADOS. El sujeto amoroso ve a todos los que lo rodean colocados, y cada uno le parece como provisto de un pequeño sistema práctico y afectivo de vínculos contractuales, de los que se siente excluido; experimenta entonces un sentimiento ambiguo de envidia y de irrisión.

W. quiere una plaza que está ya tomada”

los esposos, los amantes, los tríos, los propios marginados (droga, seducción), bien alojados en su marginalidad: todo el mundo salvo yo.

Cuando el tren atraviesa, por encima, las grandes ciudades de Holanda, la mirada del viajero domina los interiores sin cortinas, bien iluminados, donde cada uno parece consagrarse a su intimidad como si no fuera visto por miles de pasajeros”

COMPASIÓN. El sujeto experimenta un sentimiento de compasión violenta con respecto al objeto amado cada vez que lo ve, lo siente o lo sabe desdichado o amenzado por tal o cual razón, exterior a la relación amorosa misma.

NIETZSCHE. Aurora, I, af. 63.

Si el otro sufre alucinaciones, si teme volverse loco, debería yo mismo alucinar, enloquecer. Ahora bien, sea cual fuere la fuerza del amor esto no se produce: estoy conmovido, angustiado, porque es horrible ver sufrir a la gente que se ama, pero, al mismo tiempo, permanezco seco, impermeable. (…) soy una Madre (el otro me da preocupaciones), pero una Madre insuficiente; me agito demasiado, en proporción incluso de la reserva profunda en que, de hecho, me mantengo. (…) siendo desgraciado por sí mismo, el otro me abandona: si sufre sin que yo sea la causa, es que no cuento para él: su sufrimiento me anula

OVERRESIS: “Sufriré por lo tanto con el otro, pero sin exagerar; sin perderme. A esta conducta, a la vez muy afectiva y muy controlada, muy amorosa y muy pulcra [formosa], se le podría dar un nombre: es la delicadeza, es como la forma <sana> (civilizada, artística) de la compasión.”

COMPRENDER. Al percibir de golpe el episodio amoroso como un nudo de razones inexplicables y de soluciones bloqueadas, el sujeto exclama: “¡Quiero comprender lo que me ocurre!”.

El lugar más sombrio – dice un proverbio chino – está siempre bajo la lámpara.”

COMO TE COMO VEGANO

Comprended vuestra locura: tal era el mandato de Zeus cuando ordenó a Apolo volver los rostros de los Andróginos divididos (…) <para que la vista de su seccionamiento los vuelva menos osados>” “el yo, órgano soberbio de la ignorancia”

no desenmascarar más, no interpretar más, sino hacer de la conciencia misma una droga y a través de ella aceder a la visión sin remanente de lo real, al gran sueño claro, al amor profético.”

(…¿Si se requiriera del análisis no ya destruir la fuerza (ni tampoco corregirla o dirigirla), sino solamente decorarla, como lo haría un artista? ¿Nos imaginamos que la ciencia de los lapsus descubra un día su propio lapsus y que ese lapsus sea: una forma nueva, inaudita, de la conciencia?)”

CONDUCTA. Figura deliberativa: el sujeto amoroso se plantea con angustia problemas con mucha frecuencia fútiles, de conducta: ante tal alternativa ¿qué hacer?, ¿cómo actuar?

hasta que, de tal cascada de alternativas, surja por fin un acto puro – puro de todo pesar, de todo estremecimiento –.”

me ato en el cálculo, me impido gozar.”

(la espontaneidad: gran sueño: paraíso, poder, goce)”

no soy el hombre de los pequeños <acting-out>; mi locura es moderada, no se ve; inmediatamente tengo miedo de las consecuencias, de toda consecuencia: es mi miedo – mi deliberación – el que es <espontáneo>.”

paz; sufro, pero al menos no tengo que decidir nada” “no tengo más que estar ahí [Edson]: el karma (la máquina, el aula) se mueve ante mí, pero sin mí.”

CONNIVENCIA. El sujeto se imagina hablando del ser amado con una persona rival y esta imagen desarrolla extrañamente en él una aceptación de complicidad.

Los celos son una ecuación con tres términos permutables (indecidibles): se está siempre celoso de dos personas a la vez (…) El odiosamato (así se dice <rival> em italiano) es también amado por mí: me interesa, me intriga, me llama (véase El eterno marido de Dostoievski).”

CONTACTOS. La figura refiere a todo discurso interior suscitado por un contacto furtivo con el cuerpo (y más precisamente la piel) del ser deseado.

(como Dios, el Fetiche no responde)”

(Presiones de manos – inmenso expediente novelesco –…)”

CONTINGENCIAS. Pequeños acontecimientos, incidentes, reveses, fruslerías, mezquindades, futilidades, pliegues de la existencia amorosa; todo nudo factual cuya resonancia llega a atravesar las miras de felicidad del sujeto amoroso, como si el azar intrigase contra él.

El incidente es fútil (es siempre fútil), pero va a atraer hacia sí todo mi lenguaje. Lo transformo enseguida en acontecimiento importante, pensado por algo que se parece al destino. (…) Circunstancias innumerables y tenues tejen así el velo negro de la Maya, el tapiz de las ilusiones, de los sentidos, de las palabras.”

En el incidente, no es la causa lo que me retiene y repercute en mí, es la estructura. Toda la estructura de la relación viene a mí como se tiende un mantel [toalha]: sus resaltos, sus trampas, sus callejones [becos] sin salida (…) No recrimino, no sospecho, no busco las causas; veo con pavor la extensión de la situación en la que estoy preso; no soy el hombre del resentimiento, sino el de la fatalidad.”

A veces, histéricamente, mi propio cuerpo produce el incidente: (…) un cólico, una gripe: todos los sustitutos posibles de la afonía histérica [pierda de la voz].”

CORAZÓN. Esta palabra vale para toda clase de movimientos y de deseos, pero lo que es constante es que el corazón se constituya en objeto de donación – aunque sea mal apreciado o rechazado –.”


Com “c” de “confisco”.

¿Qué van a hacer de mi deseo el mundo, el otro?” “el mundo y yo no nos interesamos en la misma cosa”

(sólo los enamorados y el niño tienen el corazón oprimido).”

CUERPO. Todo pensamiento, toda emoción, todo interés suscitados en el sujeto amoroso por el cuerpo amado.

no siendo la fascinación, en suma, más que el extremo del desapego”

Seus dedos ao teclar,

Sua expressão quando está assistindo um vídeo.

DECLARACIÓN. Propensión del sujeto amoroso a conversar abundantemente, con una emoción contenida, con el ser amado, acerca de su amor, de él, de sí mismo, de ellos: la declaración no versa sobre la confesión de amor, sino sobre la forma, infinitamente comentada, de la relación amorosa.

(Hablar amorosamente es desvivirse sin término, sin crisis; es practicar una relación sin orgasmo. Existe tal vez una forma literaria de este coitus reservatus: es el galanteo.)”

DEDICATORIA. Episodio de lenguaje que acompaña todo regalo amoroso, real o proyectado, y, más generalmente, todo gesto, efectivo o interior, por el cual el sujeto dedica alguna cosa al ser amado.

El regalo amoroso es solemne; arrastrado por la metonimia voraz que regula la vida imaginaria, me transporto por entero en él. A través de ese objeto te doy mi Todo, te toco con mi falo; es por eso que estoy loco de excitación, que recorro las tiendas, que me obstino en encontrar el buen fetiche, el fetiche brillante logrado, que se adaptará perfectamente a tu deseo.”

¿el análisis como un regalo de amor?”

<¿Qué voy a hacer con tu regalo?!> se convierte en la frase-farsa del regalo amoroso.”

¡qué es lo que no te doy!”

<Te daré más de lo que me das y así te dominaré> (en los grandes potlatchs amerindios se llegaba así a incendiar aldeas, a degollar esclavos).”

Declarar lo que regalo es seguir el modelo familiar: mira los sacrificios que hacemos por ti; o más aún: nosotros te hemos dado la vida (-Pero ¡qué voy a hacer ya, con la vida!, etc.).”

No se puede regalar lenguaje, pero se lo puede dedicar – puesto que el otro es un pequeño dios –.” “es el principio mismo del Himno. No pudiendo dar nada, dedico la dedicatoria misma”

El canto es el suplemento precioso de un mensaje vacío, enteramente contenido en su intención, puesto que lo que regalo cantando es a la vez mi cuerpo (a través de mi voz) y el mutismo con que lo golpeas.”

No bien el sujeto amoroso crea o elabora una obra cualquiera, se apodera de él una pulsión de dedicatoria. Lo que hace, quiere inmediatamente, incluso por anticipado, regalarlo a quien ama, a aquel por quien ha trabajado, o trabajará.” “lo que sigue a la dedicatoria tiene poca relación con esa dedicatoria.”

por más que escriba tu nombre sobre mi obra, ésta ha sido escrita para <ellos> (los otros, los lectores). Es pues por una fatalidad de la escritura misma que no se puede decir de un texto que es amoroso, sino solamente, como máximo, que ha sido hecho <amorosamente>, como un pastel o una pantufla bordada.”

La escritura es seca, obtusa; sigue su curso, indiferente, sin delicadeza; mataría <padre, madre, amante>, antes que desviarse de su fatalidad (por lo demás enigmática). Cuando escribo, debo rendirme a esta evidencia (que, según mi Imaginario, me desgarra): no hay ninguna benevolencia en la escritura sino más bien un terror: sofoca al otro, que, lejos de percibir en ella la donación, lee una afirmación de dominio, de poder, de goce, de soledad. De ahí la cruel paradoja de la dedicatoria: quiero regalarte a cualquier precio lo que te asfixia.Verdade Fundamental: não gosto de mim. Meus sermões não são chatos como os hipócritas, e – também – servem para mim mesmo.

(Comprobamos a menudo que un sujeto que escribe no posee para nada la escritura de su imagen privada: quien me ama <por mí mismo>, no me ama por mi escritura (y yo sufro por ello). ¡Es indudable que amar a la vez dos significantes en el mismo cuerpo resulta demasiado! Eso lo sabe cualquiera…)”

PASOLINI. Teorema

O que os matemáticos denominam uma catástrofe (a descomposição de um sistema por outro)”

Catástrofe inicial translúcida tranSibéria trans-baudellairiana transuda

TRANSUBIHARDSOFT

.PUNCH

Não posso pois te dar o que cri escrever para ti; a isso devo render-me: (…) (não me contentaria com um cabeçalho mundano, preguiçoso de

dedicar-te uma obra que se nos escapa aos dois). A operação em que se apirisiona o outro não é um cabeçalho. É, mais profundamente, uma inscrição: o outro está inscrito, se inscreveu no texto, deixou aí sua impressão, múltipla. Se, desse livro, tu não fôras mais que quem o dedica, não sairias de tua dura condição de objeto (amado) – de deus –; mas tua presença no texto, já pelo fato de ser ali irreconhecível, não é a de uma figura analógica, a de um fetiche: é a de uma força, que não está, a partir desse momento, segura.”

DEMONIOS. A veces le parece al sujeto amoroso que está poseído por un demonio de lenguaje que lo impulsa a herirse a sí mismo y a expulsarse – según una expresión de Goethe – del paraíso que, en otros momentos, la relación amorosa constituye para él.

El demonio es plural (<mi nombre es Legión>, Lucas 8:30). Cuando se rechaza a un demonio, cuando por fin le impongo silencio, hay otro”

Las burbujas hacen <plop> una tras otra… <Miedo de perder la dignidad> (el más avieso de los demonios)”

sobre todo si son de lenguaje (¿y de qué otra cosa serían?), se combaten por el lenguaje. Puedo pues esperar exorcizar (por mí mismo) la palabra demoniaca que se me sugiere sustituyéndola (si tengo el talento del lenguaje)” “yo creía por fin haber salido de la crisis y he aquí que no ceso de agitarme en el pensamiento, el deseo, el disgusto, la agresión del otro; y agrego a estas heridas el desánimo de comprobar que reincido “farmacopea (veneno por un lado, remedio por el otro)”

DEPENDENCIA. Figura en la cual la opinión ve la condición misma del sujeto amoroso, sojuzgado al objeto amado.

La mecánica del vasallaje amoroso exige una futilidad sin fondo. Puesto que para que la dependencia se manifieste en su pureza es necesario que estalle en las circunstancias más irrisorias, y devenga inconfesable a fuerza de pusilanimidad: esperar un llamado telefónico es de algún modo una dependencia demasiado burda [grosseira]; es necesario que la afine, sin límites” “en el campo amoroso la futilidad no es una <debilidad> o un <ridículo>: es un signo de fuerza

estoy sujeto dos veces: de quien amo y de quien él depende.” círculo da autodependência

não escolhi seus parentes (meus novos parentes)

seus amigos (no mínimo meus novos colegas)

Estoy submetido a ese estadio histórico en que el poder aristocrático comienza a sufrir los primeros golpes de la reivindicación democrática: <No hay razón para que sea yo quien, etc.>.

DESOLLADO [?]. Sensibilidad especial del sujeto amoroso que lo hace vulnerable, ofrecido en carne viva a las heridas más ligeras.

[?] ESFOLADO (Desolado? Porém em Espanhol a palavra é idêntica, sem o segundo “l”!). Alternativamente, em sentido conotativo e coloquial, mas fora de moda, DESCARADO, SEM-VERGONHA.

EMPLUMADO (cheio de si, todo-prosa)

Soy <una masa de sustancia irritable>.”

La carta geográfica de esos puntos sólo yo la conozco” “desearía que se distribuyera preventivamente este mapa de acupuntura moral a mis nuevos conocidos (que, por otra parte, podrían utilizarlo también para hacerme sufrir más).”

EL TRAVIESO PILLO: “Para identificar mis puntos débiles existe un instrumento que semeja un clavo: es la broma; yo la soporto mal. El Imaginario es, en efecto, una materia seria (nada que ver con el <espíritu serio>: el enamorado no es hombre de buena conciencia): el niño que está en la luna no es juguetón [brincalhão]; estoy, del mismo modo, cerrado al juego: no sólo el juego amenaza incesantemente con hacer aflorar uno de mis puntos débiles sino que inclusive todo aquello con lo que el mundo se entretiene me parece siniestro” Os suscetíveis aos bromeros pirracentos?

WINNICOTT. Fragment d’une analyse

sueña poco, no practica el retruécano” tipo de jogo de palavras baseado em inversões. Ex: deves comer para viver e não viver para comer.

basta de novela, basta de Imagen simulada

DESPERTAR. Modos diversos bajo los cuales el sujeto amoroso se vuelve a encontrar, al despertar, sitiado por la inquietud de su pasión.

El desvelo amoroso implica un desgaste que afecta al cuerpo tan duramente como un trabajo físico. <Sufría tanto, dice alguien, luchaba de tal modo durante todo el día con la imagen del ser amado, que, por la noche, dormía muy bien.> Y W., poco antes de suicidarse, se acuesta y dorme prolongadamente.”

despertares pánicos (Octavio se despierta de un desmayo: <De golpe sus desdichas se presentaron ante su pensamiento: no se muere de dolor, o hubiese muerto en ese instante>).”

DESREALIDAD. Sentimiento de ausencia, disminución de realidad experimentado por el sujeto amoroso frente al mundo. // DO SENTIMENTO DE SER RABUGENTO

I. (…) atónito [DIC – assombrado por um raio; atordoado.] como un astro desierto, como una Naturaleza que el hombre no hubiera jamás habitado.

II. Hojeo el álbum de un pintor que amo; no puedo hacerlo más que con indiferencia. (…)

III. En un restaurante atestado, con amigos, sufro (palabra incomprensible para quien no está enamorado). El sufrimiento me viene del gentío, del ruido, del decorado (kitsch). (…)

IV. (…) (El mundo está lleno sin mí, como en La náusea; juega a vivir detrás de un vidrio; el mundo está en un acuario; lo veo muy cerca y sin embargo aislado, hecho de otra sustancia; elijo continuamente fuera de mí mismo, como si estuviera drogado. <¡Oh!, cuando esta magnífica Naturaleza, desplegada ante mí, me parece tan glacial como una miniatura cubierta de barniz…>)”

Eu esvazio o mundo. Eu sou o absurdo sem graça, vacilando na pista de gelo que é o reino do propósito.

Toda conversación general en la que estoy obligado a asistir (si no a participar) me desuella, me deja aterido. Me parece que el lenguaje de los otros, del que estoy excluido, esos otros lo sobremplean irrisoriamente: afirman, contestan, presumen, alardean. ¿Que tengo que ver con Portugal, el cariño a los perros o el último Petit Rapporteur? Vivo el mundo – el otro mundo – como una histeria generalizada.”

salvarme de la desrealidad – para retrasar su llegada – intento comunicarme con el mundo a través del mal humor. Pronuncio discursos contra cualquier cosa” Seria uma boa se fosse “aqui” permitido (escrito muito antes de 21/05/17, quando o digito – já não trabalho com os mesmos colegas, o que era meu supremo suplício)

Pp. 110-111, as mais ricas e pungentes do livro? Nada sobre o amor, mas justamente sua antítese, o social.

<…En el aeropuerto el taxi me pidió 14 mil liras (en lugar de 7 mil) porque era ‘Corpus Christi’. Este país pierde en los 2 planos: elimina la diferencia de los gustos pero no la división de las clases, etc.> Basta, por otra parte, que vaya un poco más lejos para que esta agresividad, que me mantenía vivo, comunicado con el mundo, vuelva al abandono: entro en las aguas taciturnas de la desrealidad. <Piazza del Popolo (es feriado), todo el mundo habla, se encuentra en estado de exhibición (¿no es eso el lenguaje: un estado de exhibición?)…> (…) Estoy de sobra, pero, doble duelo, aquello de lo que soy excluido no me inspira deseos.” Na Internet eu me realizo, pois não faço a apologia, a acepção, de nada nem ninguém. “Respeita os outros! Parece que você tem 12 anos!” Justamente até que se tenha mais de 19 não se entende a “criancice” extravasadora dos adultos.

Sufro la realidad como un sistema de poder. Roma en día feriado, todos me imponen su sistema de ser; son mal criados. ¿La descortesía no es solamente una plenitud? El mundo está completo, la plenitud es su sistema, y, como una última ofensa, ese sistema se presenta como una <naturaleza> con la que debo mantener buenas relaciones: para ser <normal> (exento de amor) [Se quer viver aqui, adeqúe-se às regras!] me sería necesario encontrar divertido a Coluche [grande humorista francês dos anos 70-80, o Didi Mocó avec élegance], bueno el restaurante J., bella la pintura de T. y animada la fiesta del <Corpus Christi>; no solamente sufrir el poder sino incluso entrar en simpatía con él: ¿<amar> la realidad? ¡Qué tedio para el enamorado (por la virtud de lo amoroso)!”

Mientras percibo al mundo como hostil permanezco ligado a él: no estoy loco. Pero, a veces, agotado el mal humor, no tengo ya ningún lenguaje [Vânia, Thaís, Nerize, Ueslei, Jussara, Davi, minha sala, o sapateiro, minha casa, o twitter…]: el mundo no es <irreal> (podría entonces hablarlo: hay artes de lo irreal, y son las mayores), sino desreal: lo real ha huido de él, a ninguna parte, de modo que ya no tengo ningún sentido; no alcanzo a definir mis relaciones con Coluche, el restaurante, el pintor, la Piazza del Popolo. ¿Qué relación puedo tener con un poder si no soy ni su esclavo, ni su cómplice, ni su testigo?”

estereotipado, laboriosamente extravagante. Lo encuentro idiota en segundo grado: idiota por representar al idiota. Mi mirada es implacable, como la de un muerto; no me divierte ningún teatro, así sea risible [o tipo risonho universitário: Thomas, Aloísio, Tucano, Saulo…], no acepto ningún guiño; estoy cerrado a todo <tráfico asociativo>: mi conciencia está separada en dos por el vidrio del café.” película cinzescura dalma Ouço risadas ao longe no Setor Bancário Norte da minha alma.

TÍTULO DE LIVRO (SUGESTÃO): O NADA & O TABU

todo <real> lo perturba” (…) ninguna sustitución imaginaria viene a compensar esta pérdida (…) no <sueño> (…) coagulado, petrificado, inmutable (…) En un primer momento estoy neurótico; en el segundo momento estoy loco“si llego, por alguna habilidad de escritura, a decir esta muerte, comienzo a revivir”

Não estou para A-literalidades…

(un loco que escribe no es jamás completamente loco; es un falsificador: ningún Elogio de la Locura es posible).”

¿Qué es lo pueril? ¿Es <cantar el tedio, los dolores, las tristezas, las melancolías, la muerte, las tinieblas, lo sombrío>, etc. – todo eso que, según se dice, hace el enamorado –?”

DOLIDO. Imaginándose muerto, el sujeto amoroso ve la vida del ser amado continuar como si nada hubiera ocurrido.

hasta qué punto sentirían el vacio que tu pérdida causaría en su destino? ¿Cuánto tiempo?…”

es que a través del luto mismo, que no niego, veo la vida de los otros continuar, sin cambio; los veo perseverar en sus ocupaciones, en sus pasatiempos, en sus problemas, frecuentar los mismos lugares, los mismos amigos; nada cambiaría en el contenido de su existencia. Del amor, asunción demencial de la Dependencia (tengo absoluta necesidad del otro), surge cruelmente la posición adversa: nadie tiene verdaderamente necesidad de mí.”

estar deprimido, se dice, es llevar la figura de la Madre tal como me imagino que me llorará para siempre: imagen inmóvil, muerta, salida de la Nekuia [Nekyia, necromancia: diferente da katabasis greco-dantesca, não inclui a jornada ao Submundo, é mais como um holograma de Guerra nas Estrelas]”

el moribundo es apresado por un papear [*]: Carlota y sus amigos son <buenas mujercitas> que hablan fútilmente de la muerte. Me veo comido de dientes afuera por la palabra de los otros, disuelto en el éter de las Habladurías. Y las habladurías continuarán sin que yo sea ya, desde hace tiempo, el objeto: una energía lingual, fútil e incansable, podrá más que mi recuerdo mismo.

[*] “<Papear (ant. <charlar> o <hablar confusamente>): pappa, papilla; pappare, probar con la punta de la lengua, parlotear y comer.”

DRAMA. El sujeto amoroso puede escribir por sí mismo su novela de amor. Sólo una forma muy arcaica podría recoger el acontecimiento que declama sin poder contarlo.

Los acontecimentos de la vida amorosa son tan fútiles que no acceden a la escritura sino a través de un inmenso esfuerzo: uno se desalienta de escribir lo que, al escribirse, denuncia so propia chatura: <Encontré a X… en compañía de Y…>, <Hoy, X… no me ha telefoneado>, <X… estaba de mal humor>, etc.: ¿quién reconocería en esto una historia? El acontecimiento, ínfimo, no existe más que a través de su repercusión, enorme: Diario de mis repercusiones (de mis heridas, de mis alegrías, de mis interpretaciones, de mis razones, de mis veleidades): ¿quién comprendería algo en él?”

Como Relato, el amor es un programa que debe ser recorrido. Para mí, por el contrario, esta historia ya ha tenido lugar. El enamoramiento es un drama, si devolvemos a esta palabra el sentido arcaico que le dio Nietzsche: <El drama antiguo tenía grandes escenas declamatorias, lo que excluía la acción (ésta se producía antes o tras la escena).> El rapto amoroso (puro momento hipnótico) se produce antes del discurso y tras el proscenio de la conciencia: el <acontecimiento> amoroso es de orden hierático” Tróia, Ulisses de Joyce, etc. – o que Afrodites magérrimas de clitóris arregaçado jamais compreenderiam.

ENCUENTRO. La figura remite al tiempo feliz que siguió inmediatamente al primer rapto, antes que nacieran las dificultades de la relación amorosa.

<exploro> con embriaguez la perfección del ser amado, es decir la adecuación inesperada de un objeto a mi deseo: es la dulzura del comienzo, el tiempo proprio del idilio.”

se opone a la <secuela>: <la secuela> es el largo reguero [regueiro, fio, corrente] de sufrimientos, heridas, angustias, desamparos, resentimientos, desesperaciones, penurias y trampas de que soy presa, viviendo entonces sin cesar bajo la amenaza de una ruina que asolaría a la vez al otro, a mí mismo y al encuentro prestigioso que en un comienzo nos ha descubierto el uno al otro.”

Hay enamorados que no se suicidan: (…) vuelvo a ver el día (…) salida dialéctica (…) vuelva a iniciar la jornada (…) afirmo la afirmación, recomienzo, sin repetir.”

(más tarde, en el recuerdo, el sujeto convertirá en un momento los tres momentos de la jornada amorosa)” 2005, 2016- – tubos

ou: -2017-…

es un descubrimiento progresivo de las afinidades, complicidades e intimidades que podré cultivar eternamente con un otro, en trance de convertirse, desde luego, en <mi otro>: voy integramente hasta este descubrimiento (me estremece sólo persarlo), toda curiosidad intensa por un ser encontrado vale en suma por el amor”

¿Quieres eso? ¡Vaya, yo también! ¿No te gusta esto? ¡A mí tampoco!”

la estupefacción de un azar sobrenatural: el amor pertenece al orden (dionisiaco) del Golpe de dados.” shuffle do reprodutor musical

(<He aqui lo que soy>. Es el goce narrativo, lo que a la vez colma y retarda el saber, reenvida [instiga, incita]. En el encuentro amoroso me reanimo incessantemente, soy ligero.)”

ERRABUNDEO [errância, vagabundagem, vadiagem]. Aunque todo amor sea vivido como único y aunque el sujeto rechace la idea de repetirlo más tarde en otra parte, sorprende a veces en él una suerte de difusión del deseo amoroso; comprende entonces que está condenado a errar hasta la muerte de amor en amor.

una especie de inocencia oculta el fin de esta cosa concebida, afirmada, vivida según la eternidad. que desaparezca o pase a la región Amistad, de todas maneras, no lo veo desvanecerse (…) (el otro no desaparece jamás cuándo y cómo se lo espera). limitación del discurso amoroso: no puedo yo mismo construir hasta el fin mi historia de amor: exactamente igual que mi propia muerte” “a los otros corresponde escribir el relato mítico.”

como si el amor pudiera un día colmarme (…) como si, a través del amor, accediera yo a otra lógica (donde el absoluto no estuviera obligado a ser único)” Recuperação mental em 2015 temporária o suficiente

Desde el momento en que no soy colmado y sin embargo no me mato, el errabundeo amoroso es fatal. W. mismo lo ha conocido – passando de la <pobre Leonor> a Carlota –; si hubiera sobrevivido, W. habría escrito las mismas cartas a otra mujer.”

parece un ballet, más o menos rápido según la velocidad del sujeto infiel, es también una gran ópera. El Holandés maldito está condenado a errar por el mar mientras no haya encontrado una mujer de una fidelidad eterna. Soy el Holandés Errante; vicio desde los tiempos remotos de mi infancia profunda, dios Imaginario, afligiéndome con una compulsión de palabra que me lleva a decir <Te amo> hasta que otro recoja esta palabra y me la devuelva <Tomara que dure…>, <Ah, não era pra ser!> <Sossegue um tempo com alguém.> <Sossegue um tempo solteiro> ad infinit.

todos los <fracasos> amorosos se parecen (y con razón: todos proceden de la misma falla).”

La <mutabilidad perpetua> (in inconstantia constans)”

ESCENA. La figura apunta a toda escena (en el sentido restringido del término) como intercambio de cuestionamientos recíprocos.

la <última palabra>” “ejercicio de un derecho” “jamás tú sin mí” “Los participantes saben que el enfrentamiento al que se entregan y que no los separará es tan inconsecuente como un goce perverso (la escena sería una manera de darse placer sin el riesgo de engendrar niños).”

Es el diálogo lo que ha corrumpido a la Tragedia incluso antes de que llegara súbitamente Sócrates.” “esquizofrenia” “soliloquio amoroso” “el proto-actor, el loco y el enamorado” “la lengua social inspirada por la malvada Eris: la de la neurosis universal.”

el héroe y el corifeo [corifeu; o líder do coro trágico, aquele que fala pelos demais personagens da peça, é tanto um representante, um delegado, quanto um metamorfo, camaleão, podendo se passar por qualquer um da estória]”

la molestia de Carlota excita todavía más a W.”

esticomitis, modelo arcaico de todas las escenas del mundo”

Esta sobrepuja no es jamás otra cosa que el grito de Narciso: ¡Y yo! ¡Y yo!

¿De qué médios podría disponer yo? ¿El silencio? No haría más que avivar la voluntad de la escena; soy pues llevado a responder para enjugar, para suavizar. ¿El razonamiento? Nadie es de un metal tan puro que deje al otro sin voz. ¿El análisis de la propia escena? Pasar de la escena a la metaescena no es nunca sino abrir otra escena. ¿La huida? Es el signo de una defección adquirida: la pareja está ya deshecha: como el amor, la escena es siempre recíproca.” Meu silêncio constrangido, minha retirada estratégica, meu bloqueio das redes sociais, meu fajuto <agir com naturalidade com ela a despeito do que está acontecendo>, todos rigorosamente impotentes.

(Lo que X… tenía de bueno era que no explotaba jamás la frase que le era dada; por una suerte de ascesis rara, no se aprovechaba del lenguaje.)” <Ah, então quer dizer que…>

La escena no es ni práctica ni dialéctica” “en Sade la violencia ya no marca: el cuerpo es instantáneamente restaurado por nuevos desgastes” “así ocurre con el participante de la escena: renace de la escena pasada, como si nada hubiera ocurrido.”

arretado ajetreo

cajetera pelota de rabia

Todo participante de una escena sueña con tener la última palabra. Hablar el último, <concluir>, es dar un destino a todo lo que se ha dicho; en el espacio de la palabra, lo que viene último ocupa un lugar soberano” “todo combate de lenguaje (maché de los antiguos sofistas, disputatio de los escolásticos) se dirige a la posesíon de ese lugar; mediante la última palabra voy a desorganizar, a <liquidar> al adversario, voy a infligirle una herida (narcísica) mortal, voy a reducirlo al silencio, voy a castrarlo de toda palabra. (…) es el último golpe de dados lo que cuenta. La escena, no se parece en nada a un juego de ajedrez sino más bien a un juego de sortija [ainda bem]: no obstante, el juego es aquí revertido, puesto que la victoria corresponde a aquel que logra tener el anillo en su mano en el momento mismo en que el juego se detiene”

<Pronto te verás desembarazada de mí> (…) mediante el anuncio del suicidio W. se convierte imediatamente en el más fuerte de los dos

Qué es un héroe? Aquel que tiene la última réplica. ¿Se ha visto alguna vez un héroe que no hable antes de morir? Renunciar a la última réplica revela pues una moral antiheroica: es la de Abraham: hasta el final del sacrificio que se le ordena, no habla. (…) ese maestro zen que, por toda respuesta a la solemne pregunta: <Quién es Buda?>, se quitó las sandalias, las puso sobre su cabeza y se fue: disolución impecable de la última réplica, dominio del no-dominio.”

ESCRIBIR. Señuelos [animal; artimanha; armadilha], debates y callejones sin salida a los que da lugar el deseo de “expresar” el sentimiento amoroso en una “creación” (especialmente de escritura).

LA PARADOJA: “el mito romántico (produciré una obra inmortal escribiendo mi pasión). Sin embargo, W., que en otro tiempo dibujaba mucho y bien, no puede hacer el retrato de Carlota (…) <He perdido… la fuerza sagrada, vivificante; con que creaba mundos en torno de mí.>”

Esa mañana de verano, en calma la bahía,

me quedé largo rato en la mesa,

sin hacer nada.”

BASHŌ – Haikú

Oscilando entre um Jimi Hendrix engasgado que morreu de cólera (o homem que morreu de raiva) e um blog adolescente: “Por una parte es no decir nada y por la otra es decir demasiado: imposible el ajuste. Mis deseos de expresión oscilan entre el haikú muy apagado, capaz de resumir una situación desmedida, y un gran torrente de trivialidades. Soy a la vez demasiado grande y demasiado débil para la escritura (…) Cierto que el amor tiene parte ligada con mi lenguaje (que lo alimenta), pero no puede alojarse en mi escritura. No puedo escribirme. ¿Cuál es ese yo que se escribiría? (escribir sobre algo es volverlo caduco) – Lo que bloquea la escritura amorosa es la ilusión de expresividad: escritor, o pensándome tal, continúo engañándome sobre los efectos del lenguaje: no sé que la palabra <sufrimiento> no expressa ningún sufrimiento y que, por consiguiente, emplearla, no solamente es no comunicar nada, sino que incluso, muy rápidamente, es provocar irritación (sin hablar del ridículo). Sería necesario que alguien me informara que no se puede escribir sin pagar la deuda de la <sinceridad> (siempre el mito de Orfeo: no volverse a mirar). Lo que la escritura demanda y lo que ningún enamorado puede acordarle sin desgarramiento es sacrificar un poco de su Imaginario y asegurar así a través de su lengua la asunción de un poco de realidad.

Ante la muerte de su hijo-niño, para escribir (no serían más que jirones de escritura), Mallarmé se somete a la división parental:

Madre, llora

Yo, pienso”

soy mi propio niño: soy a la vez padre y madre (de mí, del otro): ¿cómo podría dividir el trabajo?”

Saber que no se escribe para el otro, saber que essas cosas que voy a escribir no me harán jamás amar por quien amo, saber que la escritura no compensa nada, no sublima nada, que es precisamente ahí donde no estás: tal es el comienzo de la escritura.”

ESPERA. Tumulto de angustia suscitado por la espera del ser amado, sometida a la posibilidad de pequeños retrasos (citas, llamadas telefónicas, cartas, atenciones recíprocas).

Espero a gaivota azul.

escenografía de la espera: destaco un trozo de tiempo en que voy a imitar la pérdida del objeto amado y provocar todos los efectos de un pequeño duelo, lo cual se representa, por lo tanto, como una pieza de teatro.”

(miro mi reloj muchas veces); el Prólogo concluye con una acción súbita: decido <preocuparme>, desencadeno la angustia de la espera. Comienza entonces el primer acto; está ocupado por suposiciones: ¿y si hubiera un malentendido sobre la hora, sobre el lugar? Intento recordar el momento en que se concretó la cita, las precisiones que fueron dadas. ¿Qué hacer (angustia de conducta)? ¿Cambiar de café? ¿Hablar por teléfono? ¿Y si el otro llega durante essas ausencias? Si no me ve lo más probable es que se vaya, etc. El segundo acto es el de la cólera; dirijo violentos reproches al ausente: <Siempre igual, él (ella) habría podido perfectamente…>, <Él (ella) sabe muy bien que…>. ¡Ah, si ella (él) pudiera estar allí, para que le pudiera reprochar no estar allí! En el tercer acto, espero (¿obtengo?) la angustia absolutamente pura: la del abandono [e o pior: lendo Kierkegaard!]; acabo de pasar en un instante de la ausencia a la muerte [não existo nessa cidade; acabou meu fim de semana]: explosión de duelo: estoy interiormente lívido. Así es la pieza; puede ser acortada por la llegada del otro; si llega en el primero, la acogida es apacible; si llega en el segundo, hay <escena>; si llega en el tercero, es el reconocimiento, la acción de gracias: respiro largamente, como Pelléas saliendo del túnel y reencontrando la vida, el olor de las rosas.” Quem me recomendou este livro?

O metrô de 100 saídas; o parque gigantesco, escuro labirinto. O banheiro com uma passagem secreta – onde me é proibido entrar. O parquinho desolado, a casa inachada longe longe de casa, pessoas sem rosto num show, ela faltou à aula hoje, justo quando mais tinha coisas a dizer, etc.

(La angustia de la espera no es continuamente violenta; tiene sus momentos apagados; espero y todo el entorno de mi espera está aquejado de irrealidad: en el café, miro a los demás que entran, charlan, bromean, leen tranquilamente: ellos no esperan.)

La espera es un encantamiento: recibí la orden de no moverme: me privo de salir de la pieza, de ir al lavabo, de hablar por teléfono incluso (para no ocupar el aparato); sufro si me telefonean (por la misma razón); me enloquece pensar que a tal hora cercana será necesario que yo salga, arriesgándome así a perder el llamado bienhechor, el regreso de la Madre.” Verdadeiro purgatório do escritor. Universo em estado de crisálida.

Y si no viene lo alucino: la espera es un delirio.” Me passou um trote! Fui a sua casa… Encontrei a roommate dela. Desconfio que ela desconfia da verdade. “Todavía el teléfono: a cada repiqueteo descuelgo rápido, creo que es el ser amado quien me llama (puesto que debe llamarme); un esfuerzo más y <reconozco> su voz, entablo el diálogo, a riesgo de volverme con ira contra el importuno que me despierta de mi delirio. En el café, toda persona que entra, si posee la menor semejanza de silueta, es de este modo, en un primer movimiento, reconocida. [!!!] Y mucho tiempo después que la relación amorosa se ha apaciguado conservo el hábito de alucinar al ser que he amado: a veces me angustio todavía por un llamado telefónico que tarda y, ante cada importuno, creo reconocer la voz que amaba: soy un mutilado al que continúa doliéndole la pierna amputada.”

recrio no recreio, não creio!

¿Estoy enamorado? – Sí, porque espero. A veces, quiero jugar al que no espera; intento ocuparme de otras cosas, de llegar con retraso; pero siempre pierdo a este juego: cualquier cosa que haga, me encuentro ocioso, exacto, es decir, adelantado.”

Erostartes: “Eu amo, logo espero.”

Más aún: si espero frente a la ventanilla de un banco, en la partida de un avión, establezco enseguida un vínculo agresivo con el empleado, con la azafata [aeromoça, recepcionista], cuya indiferencia descubre e irrita mi sujeción”

Hacer esperar: prerrogativa constante de todo poder, <pasatiempo milenario de la humanidad>.” Coitados dos apaixonados por Cristo…

Un mandarín estaba enamorado de una cortesana: <Seré tuya, dijo ella, cuando hayas pasado cien noches esperándome sentado sobre un banco, en mi jardín, bajo mi ventana.> Pero, en la nonagesimonovena noche, el mandarín se levanta, toma su banco bajo el brazo y se va.”

EXILIO. Al decidir renunciar al estado amoroso, el sujeto se ve con tristeza exiliado de su Imaginario. [AUTOLUTO]

(La pasión amorosa es un delirio; pero el delirio no es extraño; todo el mando [mundo?] habla de él, está ya domesticado. Lo que es enigmático es la pérdida del delirio: ¿se entra en qué?)”

VICTOR HUGO: “El exilio es una especie de largo insomnio” (Pierres, 62).

FREUD: “El duelo mueve al yo a renunciar al objeto declarándoselo muerto y ofreciéndole como premio el permanecer con vida” (Duelo y melancolía, 254).

(¿El punto más sensible de este duelo no es que me hace perder un lenguaje, el lenguaje amoroso? Se acabaron los <Te amo>.)”

Esta tristeza no es una melancolía, o al menos es una melancolía incompleta (de ningún modo clínica), puesto que no me acusa de nada y no estoy postrado.”

Carencia redoblada: no puedo siquiera investir mi desdicha, como en el tiempo en que sufría por estar enamorado. En ese tiempo deseaba, soñaba, luchaba; un bien estaba ante mí, simplemente retardado, atravesado por contratiempos. Ahora ya no hay resonancias; todo es calmo, y es peor.” “el duelo amoroso tiene siempre un remanente: una expresión regresa sin cesar: <¡Qué lástima!>.”

Nunca mais caminharei na passarela a passos largos, autoconfiante e de bermuda. O pôr-do-sol é triste… Mario para crianças… Jogo para crianças, com chifres, sem dinheiro, vencidas como pelo último chefe apelão da máquina… 72 horas: o tempo da crisálida? Isso de você aparecer quando você quer é que é o problema!

Prueba de amor: te sacrifico (…) una guedeja [trança]. De ese modo tal vez accederé al <amor verdadero>. (…) el analista debe despreocuparse de su paciente (a falta de lo cual el análisis amenaza con ser interminable) (…) el ser amado debe entrar en la melancolía de su propia decadencia.”

pero lo Imaginario arde por debajo, como el carbón mal apagado; se inflama de nuevo; lo que había sido abandonado resurge; de la tumba mal cerrada retumba bruscamente un largo grito.” Cenas 2007: “(Celos, angustias, posesiones, discursos, apetitos, signos, de nuevo el deseo amoroso ardía por todas partes. Era como si quisiera estrechar una última vez, con locura, a alguien que iba a morir – a quien yo dispondría a morir –; produje una negativa de separación.)

Esta renuncia puede alcanzar tal intensidad que produzca un extrañamiento de la realidad y una retención del objeto por vía de una psicosis alucinatoria de deseo” Freud

FADING. Prueba dolorosa por la cual el ser amado parece retirarse de todo contacto, sin que siquiera esa indiferencia enigmática sea dirigida contra el sujeto amoroso ni se pronuncie en provecho de quien sea otro, mundo o rival.

si la voz se pierde, es toda la imagen que se desvanece (el amor es monológico, maniaco; el texto es heterológico, perverso).”

El fading del objeto amado es el retorno terrorífico de la Mala Madre, la retracción inexplicable del amor, el desamparo bien conocido de los Místicos: Dios existe, la Madre está presente, pero ellos no aman ya.”

La voz del ser amado no la conozco nunca sino muerta, rememorada, recortada en el interior de mi cabeza, mucho más allá del oído”

la fatiga es el infinito mismo: lo que no termina de acabar.”

A Freud [a nadie, en verdad], al parecer, no le gustaba el teléfono, a él que le gustaba, sin embargo, escuchar. ¿Tal vez sentía, prevía, que el teléfono es siempre una cacofonía, y que lo que deja pasar es la mala voz, la falsa comunicación?”

FREUD, Martin. Freud, mon père

(se dice, las máscaras de la tragedia griega tenían una función mágica: dar a la voz un origen ctónico, deformarla, descentrarla, hacerla venir del más allá subterráneo)”

¿a quién hablar?” “Te voy a dejar, dice cada segundo la voz del teléfono.”

Me asusto de la fatiga del otro: es el más cruel de los objetos rivales. ¿Cómo luchar contra la fatiga?” Pero ¿qué hacer con ese paquete de fatiga depositado ante mí? ¿Qué quiere decir ese regalo? ¿Déjame? ¿Acógeme? Nadie responde, porque lo que se regala es precisamente lo que no responde.” “(En ninguna novela de amor he leído que un personaje esté fatigado.)”

BLANCHOT. Vieja conversación

FALTAS. En tal o cual ocasión ínfima de la vida cotidiana el sujeto cree haber faltado al ser amado y experimenta un sentimiento de culpabilidad.

la observación de los rótulos, el temor de estar retrasado, el hecho de alocarse en una estación, ¿no revelan una manía de viejo, de jubilado?”

A partir de entonces no vio nada, sino la parte trasera, obtusa, del último vagón, a lo lejos. (…) El tren no partía. Sin embargo, no osaba moverse, dejar el andén, aunque fuera absolutamente inútil quedarse ahí. Una especie de obligación simbólica (la obligación muy fuerte de un pequeño simbolismo) lo forzaba a quedarse ahí, mientras el tren estuviera detenido (con X… dentro). Estaba pues quieto, como un estúpido, no viendo nada, sino el tren lejano, no siendo visto por nadie, sobre el andén desierto – impaciente finalmente de que el tren partiera –. Pero hubiera sido una falta partir primero, y tal vez de hacerlo se habría sentido atormentado por mucho tiempo.”

cada vez que, para romper la servidumbre, intento <dominarme> (es el consejo unánime del mundo), me siento culpable. Soy culpable entonces, paradójicamente, de aligerar el peso, de reducir el embarazo exorbitante de mi devoción, en suma de <lograr> (según el mundo); en última instancia es ser fuerte lo que me da miedo, es el dominio (o su simple gesto)”

BANQUETE: Fedro: “si un hombre que ama hubiese cometido una mala acción […] más vergüenza le causaría presentarse ante la persona que ama que ante su padre”

FASTIDIOSO. Sentimiento de celos tenue que se apodera del sujeto amoroso cuando ve el interés del ser amado captado y desviado por personas, objetos u ocupaciones que actúan a sus ojos como otros tantos rivales secundarios.

LoL, estudos, amigos, mesmo a mãe… Ou o sono.

El mundo está lleno de vecinos indiscretos, con los que debo compartir al otro.” “Soy incesantemente perturbado por Fastidiosos: una vaga relación reencontrada por azar y que se sienta a la fuerza junto a nosotros; vecinos de mesa cuya vulgaridad visiblemente fascina al otro, al punto que no escucha si le hablo o no; un objeto, incluso, un libro, por ejemplo, en que el otro se encuentra sumergido (estoy celoso del libro).”

Carlota reparte su naranja por cortesía mundana, o, si se quiere, por bondad; pero esos son motivos que no apaciguan al enamorado: <¿De que sirvió que yo apartara esas naranjas para ella, si ella las regala a otros?>” “Contradicción insoluble: por una parte, es absolutamente preciso que Carlota sea <buena>, porque ella es un objeto perfecto; pero, por otra parte, no es necesario que esta bondad tenga por efecto abolir el privilegio que me constituye. Esa contradicción se vuelve vago resentimiento” “estoy irritado contra los otros, contra el otro, contra mí (de ahí puede surgir una <escena>).” “Não acredito que você está com ciúme disso!…”

FIESTA. El sujeto amoroso vive todo encuentro con el ser amado como una fiesta.

y sea de mí lo que fuere no podré decir no haya saboreado las alegrías, los más puros goces de la vida.” W.

(¿No es acaso nada, para ti, ser la fiesta de alguien?)”

GASTO. Figura mediante la cual el sujeto amoroso titubea y busca a la vez situar el amor en una economía del puro gasto, de la pérdida <por nada>.

Alberto, personaje plano, moral, conforme decreta (siguiendo a tantos otros) que el suicidio es una cobardía. Para W., por el contrario el suicidio no es una debilidad, puesto que procede de una tensión: <Oh! querido mío, si tensar todo el ser es dar prueba de fuerza, ¿por qué una tansión demasiado grande sería debilidad?>.” “(Un lord, después un obispo inglés, reprocharon a Goethe la epidemia de suicidios provocados por Werther. A lo que Goethe respondió en términos propiamente económicos: <Vuestro sistema comercial ha hecho por cierto miles de víctimas; ¿por qué no tolerarle alguns a Werther?>.)”

La exuberancia amorosa es la exuberancia del niño cuyo despliegue narcisista, cuyo goce múltiple, nada (todavía) contiene. Esta exuberancia puede estar atravesada de tristeza, depresiones, movimientos suicidas, porque el discurso amoroso no es un promedio de estados; pero semejante desequilibrio forma parte de esa economía negra que me marca con su aberración, y, por así decirlo, con su lujo intolerable.”

GRADIVA. Este nombre, tomado del libro de Jensen analizado por Freud, designa la imagen del ser amado en cuanto acepta entrar un poco en el delirio del sujeto amoroso a fin de ayudarlo a salir de él. FREUD. El delirio y los sueños en la “Gradiva” de Jensen

El ser amado parece entonces enpeñarse en hundirme en mi delirio, en mantener e irritar la herida amorosa: como esos padres de esquizofrénicos que, según se dice, no cesan de provocar o agravar la locura de su hijo por medio de pequeñas intervenciones conflictuales, el otro intenta volverme loco. (…) ponerme en contradicción conmigo mismo (…) alterna actos de seducción y de frustración a la frialdad, al silencio (…) <quebrar> la conversación, ya sea imponiendo pasar bruscamente de un tema serio (que me importa) a un tema trivial, o bien interesándose visiblemente, mientras hablo, en otra cosa distinta de lo que yo digo.”

una gota de estar-enamorado diluida en una vaga relación amistosa la colorea vivamente, la hace incomparable”

Si el enamorado llega a <amar> es en la medida misma en que se feminiza, en que se une a la clase de las grandes Enamoradas, de las Suficientemente Buenas.”

WINNICOTT. La Madre

Quien son Norbert y Zoe?

Qui sont N. et Z.?

Who are N&Z

Wer sin

HABLADURÍA. Herida experimentada por el sujeto amoroso cuando comprueba que el ser amado está metido en habladurías, y escucha hablar de él de una manera común.

Sobre la ruta a Falera un hombre se aburre; percibe a otro que marcha delante de él, lo alcanza y le pide que le narre el banquete dado por Agatón. Así nace la teoría del amor: de un azar, de un tedio, de un deseo de hablar, o, si se prefiere, de una habladuría de 3 kilómetros de longitud. Aristodemos asistió al famoso banquete; se lo ha contado a Apolodoro que, sobre la ruta a Falera, lo relata a Glauco (hombre, se dice, sin cultura filosófica), y, al hacerlo, por mediación del libro, nos lo cuenta a nosotros que hablamos de él nuevamente.”

conversación (hablamos de una cuestión)” x “habladuría (hablamos entre nosotros de los demás)”

la lingüística oficial sólo se ocupa del mensaje.”

(en El Banquete la disposición de los lechos tiene gran importancia)” O banquete não é numa mesa?

está ya prometido, [W.] no debe caer enamorado, etc. Así las habladurías resumen y anuncian la historia por venir.” “la amiga es un hada mala, que, so capa de disuadir, predice y apela. Cuando la amiga habla, su discurso es insensible (un hada no se apiada jamás): la habladuría es ligera, fría, adquiere asi el status de una especie de objetividad; su voz, en suma, parece doblar la voz de la ciencia. Esas dos voces son reductoras. Cuando la ciencia habla llego a veces a escuchar su discurso como el rumor de una habladuría que propala y critica ligeramente”

El pronombre de tercera persona es un pronombre pobre” “es como si lo viera muerto, reducido” “Para mí, el otro no podría ser un referente: tú no es jamás sino tú, yo no quiero que el Otro hable de ti.”

IDENTIFICACIÓN. El sujeto se identifica dolorosamente con cualquier persona (o con cualquier personaje) que ocupe en la estructura amorosa la misma posición que él.

¡Nada puede salvarte, desdichado! Veo perfectamente que nada puede salvarnos”

La estructura no tiene preferencia por nadie; es pues, terrible (como una burocracia). No se le puede suplicar, decirle: <Vea cómo soy mejor que H…>. Inexorable, responde: <Usted está en el mismo lugar; por lo tanto es H…>. Nadie puede alegar en contra de la estructura.”

Una larga cadena de equivalencias une a todos los enamorados del mundo. En la teoría de la literatura, la <proyección> (del lector en el personaje), hoy, ya no tiene curso: leyendo una novela de amor es poco decir que me proyecto; me uno a la imagen del enamorado (todos saben que esas novelas se leen en estado de secesión, de reclusión, de ausencia y de voluptuosidad: en los cuartos de baño).

IMAGEN. En el campo amoroso, las más vivas heridas provienen más de lo que se ve que de lo que se sabe.

O STALKER PERFEITO: “yo no estoy en la escena: la imagen carece de enigma.”

La imagen es perentoria; ningún conocimiento puede contradecirla, arreglarla, sutilizarla.”

Yo sé que Carlota no me pertenece, dice la razón de W., pero de todos modos, Alberto me la roba, dice la imagen que tiene bajo sus ojos.” Esperança: Kevin não existe, tenho que ver a traição com meus próprios olhos; deixa eu conhecer esse seu novo namoradinho; quem é seu novo amigo, etc.

a veces también soy apresado en la imagen.” “Não é o que você está pensando, eu posso explicar”

me veo como una estatuilla, sentado sobre uno de esos bloques, abandonado para siempre.”

El enamorado es pues artista, y su mundo es un mundo al revés, puesto que toda imagen es su propio fin (nada más allá de la imagen).” A prisão do mundo sem paixão do homem pab.-uéslico.

INCOGNOSCIBLE. Esfuerzos del sujeto amoroso por comprender y definir al ser amado <en si>, como tipo caracterial, psicológico o neurótico, independientemente de los datos particulares de la relación amorosa.

(<Yo te conozco. ¡Nadie más que yo te conoce bien!>)”

¿De dónde viene? ¿Quién es? Me agoto; no lo sabré jamás.”

¿conocer a alguien, no es solamente eso: conocer su deseo?”

el enamorado no es Edipo. No es cierto que cuanto más se ama mejor se comprende” “el otro no es para conocerlo; su opacidad no es en absoluto la pantalla de un secreto sino más bien una especie de evidencia, en la cual se anula el juego de la apariencia y del ser.” “movimiento místico: accedo al conocimiento del no conocimiento.”

INDUCCIÓN. El ser amado es deseado porque otro u otros han mostrado al sujeto que es deseable: por especial que sea, el deseo amoroso se descubre por inducción.

parte de los otros, del lenguaje, de los libros, de los amigos: ningún amor es original.”

todo rival ha sido al comienzo maestro, guía, presentador, mediador.”

INDUMENTARIA. Todo afecto suscitado o mantenido por las prendas que el sujeto viste en el encuentro amoroso o que usa con la intención de seducir al objeto amado.

Quiero ser el otro, quiero que él sea yo, como si estuviéramos unidos”

Es con esa indumentaria (traje azul y chaleco amarillo) que W. quiere ser enterrado y que se lo encuentra en trance de morir en su cuarto.” “Ese vestuario perverso ha sido usado en toda Europa por los fans de la novela, bajo el nombre de <traje à la W.>”

INFORMANTE. Figura amistosa que parece, sin embargo, tener por función constante herir al sujeto amoroso entregándole, como si tal cosa, informaciones sobre el ser amado de carácter anodino [antálgico, paliativo], pero cuyo efecto es el de perturbar la imagen que el sujeto tiene de ese ser.

el Informante, que se afana y dice todo a todo el mundo. El informante, ingenuo o perverso, tiene un papel negativo.” o tipo Pablo – ou eu mesmo? “Estoy por cierto obligado a escucharlo (mundanamente no puedo dejar ver mi irritación), pero me esfuerzo en volver a mi escucha sorda, indiferente, como comprimida.” “Lo que quiero es un pequeño cosmos (con su tiempo, con su lógica), habitado solamente por <nosotros dos> (nombre de una revista sentimental francesa). Todo lo que viene del exterior es una amenaza: ya sea bajo la forma de tedio (estoy obligado a vivir en un mundo del que el otro está ausente) o bien bajo la forma de herida (si ese mundo me endilga sobre el otro un discurso indiscreto).” “es el exterior del otro lo que se me ocultaba. El telón se abre al revés, no a una escena íntima sino a una sala pública. Cualquier cosa que diga, la información me es dolorosa: un trozo sordo, ingrato, de realidad me cae encima. Para la delicadeza amorosa, todo hecho tiene algo de agresivo” El Carnaval, tiempo universal de las ausencias.

INSOPORTABLE. La sensación de una acumulación de sufrimientos amorosos explota en este grito: <Esto no puede continuar>.

es propio de la situación amorosa ser inmediatamente intolerable” “Un demonio niega el tiempo, la maduración, la dialéctica, y dice a cada instante: ¡Esto no puede durar! Sin embargo dura, si no siempre, al menos mucho tiempo. La paciencia amorosa tiene pues por punto de partida su propia negación: no procede ni de una espera, ni de un dominio (…) una desgracia que no se usa, en proporción a su agudeza (…) la repetición (¿cómica?) del gesto por el cual yo me manifiesto que he decidido – ¡valientemente! – poner fin a la repetición; la paciencia de una impaciencia.”

ese grito: manifestándome a mí mismo que es preciso salir de el Insoportable, por cualquier medio que sea, instalo en mí el teatro marcial de la Decisión, de la Acción, de la Salida. La exaltación es como la ganancia secundaria de mi impaciencia; me nutro de ella, me revuelco [derrubo] en ella. Siempre <artista>, hago de la forma misma un contenido. Imaginando una solución dolorosa (renunciar, partir, etc.), hago retumbar en mí el fantasma exaltado de la salida; una gloria de abnegación me invade (renunciar al amor, no a la amistad, etc.), y olvido enseguida lo que debería entonces sacrificar: nada menos que mi locura – que, por definición, no puede constituirse en objeto de sacrificio

Cuando la exaltación ha decaído quedo reducido a la filosofía más simple: la de la resistencia (dimensión natural de las fatigas verdaderas).

un tentetieso [joão sorrisão, pino com peso] sin piernas al que se le dan papirotazos incesantes, pero que finalmente retoma su verticalidad, asegurada por un contrapeso interior (¿pero cuál es mi contrapeso? ¿La fuerza del amor?).”

Así es la vida;

caer 7 veces

y levantarse 8”

Ainda bem que há números infinitos (transcendência)

LANGUIDEZ. Estado sutil del deseo amoroso, experimentado en su carencia, fuera de todo querer-asir.

es como si el deseo no fuera sino esta hemorragia. He aquí la fatiga amorosa: un hambre sin satisfacción.”

la languidez sería ese pasaje extenuante de la libido narcisista a la libido objetal.”

LOCO. El sujeto amoroso es atravesado por la idea de que está o se vuelve loco.

insensato ante mis propios ojos (conozco mi delirio), simplemente irrazonable a los ojos de los demás, a quienes relato muy juiciosamente mi locura: consciente de esta locura, dando exp[l]i[c]aciones acerca de ella.”

Este hombre, en los tiempos en que estaba en el manicomio, era feliz: no sabía nada de sí mismo. W. se reconoce a medias en el loco de las flores: loco de pasión, como él, pero privado de todo acceso a la felicidad (supuesta) de la inconsciencia: sufriente por haber malogrado incluso su locura.” Impressionante como do livro lido em 2006 só retive a cena do suicídio.

Mafalda: “Yo no soy otro: es lo que compruebo con pavor.”

estoy loco puesto que consisto.” Compenso logo insisto.

Conceptos de San Agustín: “Es loco aquel que está limpio de todo poder. – ¿Cómo? ¿Acaso el enamorado no conoce ninguna excitación de poder? El sometimiento es no obstante asunto mío: sometido, queriendo someter, experimento a mi manera la ambición de poder, la libido dominandi: ¿es que no dispongo, como los sistemas políticos, de un discurso bien construido, es decir sólido, ágil, articulado?” (citado por Sainte-Beuve, II, 160) “estoy loco: no porque sea original burdo ardid de la conformidad. Si los demás hombres son siempre, en grados diversos, militantes de algo, yo no soy soldado de nada, ni siquiera de mi propia locura” “(¿Puede reconocerse aquí la escisión muy singular que deslinda, en el Enamorado, la voluntad de dominio de la voluntad de poder?)”

LOCUELA. Esta palabra, sacada de Ignacio de Loyola, designa el flujo de palabras a traves del cual el sujeto argumenta incansablemente en su cabeza los efectos de una herida o las consecuencias de una conducta; forma enfática del <discursear> amoroso.

Trop penser me font amours”

al capricho de un estímulo ínfimo, se desencadena en mi cabeza una fiebre de lenguaje, un desfile de razones, de interpretaciones, de alocuciones. No tengo conciencia sino de una máquina que se alimenta a sí misma de uma zanfonía cuyo manubrio [manivela] gira titubeante un tocador anónimo, y que no se calla nunca. En la locuela, nada impide la repetición.”

SCHUBERT. “Der Leiermann”, Winterreise, com poemas de Müller.

(hallar la palabra adecuada es eufórico); la rumio, me nutro de ella; como los niños o los dementes atacados de mericismo, vuelvo a sorber incesantemente mi herida y la regurgito. (…) y recomienzo (tales sentidos del verbo meruomai: enrollar, devanar, tramar).”

a menudo, el niño autista mira sus propios dedos mientras manosea objetos (pero no mira los objetos mismos): es el twiddling.”

Humboldt llama a la libertad del signo locuacidad. Soy (interiormente) locuaz (…) Si pudiera forzar el signo, sumeterlo a una sanción, podría finalmente encontrar descanso. ¡Que no puedan enyesarse las cabezas, como las piernas! (…) ningún director de escena está ahí para decirme: ¡Corte! (…) nadie me escucha, nadie me mira, pero (como el tocador de zanfonía de Schubert) continúo hablando, girando mi manivela.”

Tengo en mí dos interlocutores, atareados en elevar el tono, de réplica en réplica, como en las antiguas esticomitis (…) algazara final (escena de clowns).” Devaneios & DaVanIaS…

Em vão

Em vãos não-ocupados por nenhum cérebro nem coração

(…IV. <A Los 20 años, dice la señora Desbordes-Valmore, penas profundas me forzaron a renunciar al canto, porque mi voz me hacía llorar>.)” V. Hugo + Macross Plus

LLORAR. Propensión particular del sujeto amoroso a llorar: modos de aparición y función de las lágrimas en ese sujeto.

¿En W. es el enamorado que llora o el romántico?” “se mofa de la censura que mantiene hoy al adulto lejos de las lágrimas” “sigue las órdenes del cuerpo enamorado, que es un cuerpo bañado, en expansión líquida: llorar juntos, fluir juntos”

¿Quién hará la historia de las lágrimas? ¿Desde cuándo los hombres (y no las mujeres) ya no lloran? ¿Por qué la <sensibilidad> en cierto momento se ha vuelto <sensiblería>?” “los Griegos, la gente del siglo XVII, lloraban mucho en el teatro.”

SCHUBERT. Lob der Thränen (“Elogio das lágrimas”), poesia de Schlegel.

cuando lloro me dirijo siempre a alguien: adapto mis modos de llorar al tipo de chantaje que, a través de mis lágrimas, pretendo ejercer en torno mío.” “(<Mira lo que haces de mí>)” “me pongo a llorar para probarme que mi dolor no es uma ilusión.” “produzco un mito del dolor” “<el más verdadero> de los mensajes”

MAGIA. Consultas mágicas, pequeños ritos secretos y acciones votivas no están ausentes de la vida del sujeto amoroso, sea cual fuere la cultura a la que pertenezca.

La dialéctica diría: la hoja no caerá, y después cae; pero entretanto habrás cambiado y no te plantearás ya la pregunta.”

si (tú vuelves…) entonces (cumpliré mi voto).”

MONSTRUOSO. El sujeto se da cuenta bruscamente que constriñe al objeto amado en una red de tiranías: de piadoso se siente devenir monstruoso.

desea secretamente la pérdida de lo que el amado tiene de más querido: padre, madre, parientes, amigos; no quiere para el amado ni hogar ni hijos”

Yo hablo y tú me entiendes, luego existimos” Ponge

yo, que amo, soy indeseable, alineado en las filas de los fastidiosos: los que son pesados, molestan, se inmiscuyen, complican, reclaman, intimidan (o más simplemente: los que hablan).”

(…como en esos sueños horrorosos en que una persona amada se nos aparece con la parte inferior del rostro integramente borrada, privada de su boca (…) el soliloquio hace de mí un monstruo, una enorme lengua.)”

MORTIFICACIÓN. Escena múltiple en la que lo implícito de la relación amorosa actúa como coacción y suscita un embarazo colectivo que no es explícito.

La situación está cargada. Lo pesado es el saber silencioso: yo sé que tú sabes que yo sé”

No hago más que ver lo que se habla, como en el cine mudo. Se produce en mí (contracción en los términos) una suerte de fascinación alerta: estoy metido en la escena y sin embargo bien despierto: mi atención forma parte de lo que se actúa, la escena carece de exterior y no obstante la leo; no hay candilejas [gambiarras], es un teatro extremado. De ahí el malestar – o para algunos, perversos, el goce –.”

MUTISMO. El sujeto amoroso se angustia de que el objeto amado responda parcimoniosamente, o no responda, a las palabras (discursos o cartas) que le dirige.

(…El interlocutor perfecto, el amigo, ¿no es entonces el que construye en torno nuestro la mayor resonancia posible? ¿No puede definirse la amistad como un espacio de sonoridade total?)”

como si mi cualidad excedese la del objeto amado, como si yo estuviera adelantado respecto de él.”

¿debo proseguir, hablar <en el desierto>? Necesitaría una confianza que precisamente la sensibilidad amorosa no permite. ¿Debo detenerme, renunciar? Eso tendría el aspecto de vejarme, de enjuiciar al otro y, a partir de allí, dar la señal de partida de una <escena>.”

La muerte es sobre todo esto: todo lo que ha sido visto, habrá sido visto para nada. Duelo de lo que hemos percibido.” FRANÇOIS WAHL, Chute

FREUD. “Les trois coffrets”, em Essais de Psychanalyse.

NOCHE. Todo estado que suscita en el sujeto la metáfora de la oscuridad (afectiva, intelectiva, existencial) en la que se debate o se sosiega.

No Ser y Ser, saliendo de un fondo único, no se diferencian sino por sus nombres. Ese fondo único se llama Oscuridad. – Oscurecer esta oscuridad [*], he ahí la puerta de toda maravilla” CHU. Tao Te King/Ching [taoísmo]

[*] Intepretação: ignorar?

NUBES. Sentido y uso del ensombrecimiento de humor que se apodera del sujeto amoroso bajo el efecto de circunstancias variadas.

El rostro del señor Schmidt, el prometido de Friederike, se ensombrece paralelamente; rehúsa participar en la conversación. W. enjuicia entonces el malhumor; viene de nuestros celos, de nuestra vanidad, es un descontento de nosotros mismos cuyo peso descargamos sobre los otros, etc. <¡Nómbrenme>, dice W., <el hombre que, estando de mal humor, es lo bastante honesto para disimularlo, para soportarlo completamente solo, sin destruir la alegría en torno suyo!> [A Emoção Anti-Carolíngia][*] Tal hombre es evidentemente inhallable, puesto que el malhumor no es más que un mensaje. No pudiendo estar manifiestamente celoso, sin diversos inconvenientes, de donde proviene el ridículo, desplazo mis celos, les doy un efecto derivado, atemperado, y como inacabado, cuyo motivo verdadero no se expresa abiertamente: incapaz de ocultar la herida y no osando declarar la causa, transijo; hago abortar el contenido sin renunciar a la forma [No (ex-)trabalho: a forma sem conteúdo: “Vocês não têm conteúdo.”]: aquí, usted debe leer (que algo no va bien): pongo simplemente mi pathos sobre la mesa, reservándome desatar el paquete más tarde según las circunstancias: ya sea que me descubra (al grado de llegar a una <explicación>) o bien que me encubra.” “¿El suicidio de amor será un malhumor un poco extremo?)”

Você ficou com ciúmes?”

Não, impressão sua!”

Me explica.”

[*] Você exala ódio pelas narinas! Há quem desabe se não for unanimidade…

Hay sin embargo nubes más sutiles; todas las sombras tenues, de causa ligera, incierta, que pasan por encima de la relación, cambian la luz, el relieve; hay de repente otro paisaje, una ligera embriaguez negra.” “Recorro rápidamente los estados de carencia, a través de los cuales el Zen ha codificado la sensibilidad humana (furyu): la soledad (sabi), la tristeza que me llega de la <increíble naturalidad> de las cosas (wabi), la nostalgia (aware), el sentimiento de lo extraño (yugen).”

OBJETOS. Todo objeto tocado por el cuerpo del ser amado se vuelve parte de ese cuerpo y el sujeto se apega a él apasionadamente.

Del ser amado surge una fuerza que nada puede detener y que impregna todo lo que toca, así sea con la mirada: si W., no pudiendo ir a ver a Carlota, le envía su doméstica, es esta doméstica misma, sobre la que ella ha posado su mirada, la que se convierte para W. en una parte de Carlota (<Bien le habría tomado la cabeza entre mis manos para darle un beso si no hubiera sido por el respeto humano>).”

Tan pronto el objeto metonímico es presencia (engendrando alegría) como ausencia (engendrando desamparo).”

OBSCENO. Desacreditada por la opinión moderna, la sentimentalidad del amor debe ser asumida por el sujeto amoroso como una fuerte transgresión, que lo deja solo y expuesto; por una inversión de valores, es pues esta sentimentalidad lo que constituye hoy lo obsceno del amor.

doy un curso <sobre> el amor; el auditorio es femenino, algo maduro; soy Paul Géraldy.”

los gritos de una eyaculación grandiosa pero insoportable, don extático que el ser hace de si mismo en tanto que víctima desnuda, obscena […] ante las grandes carcajadas de las prostitutas” Bataille

La verdadera música popular, la música de las masas, la música plebeya, está abierta a todos los despliegues de las subjetividades de grupo, no ya a la subjetividad única, a la bela subjetividad sentimental del sujeto aislado…” DANIEL CHARLES. Musique et oubli

THOMAS MANN. La montaña mágica

Di con un intelectual enamorado: para él, <asumir> (no reprimir) la extrema tontería, la tontería desnuda de su discurso, es lo mismo que para el sujeto batailleano desnudarse en un lugar público: es la forma necesaria del imposible y de lo soberano: una abyección tal que ningún discurso de la transgresión puede recuperarla y que se expone sin protección al moralismo de la antimoral.”

El sello distintivo de las almas modernas no es la mentira sino la inocencia, encarnada en el moralismo falso. Hacer en todas partes el descubrimiento de esta inocencia tal vez sea el aspecto más repulsivo de nuestro trabajo.” N. – G. da Mor.

(Inversión histórica: no es ya lo sexual lo que es indecente; es lo sentimental…)”

no sé ordenar mi discurso, graduarlo, disponer los enfoques, las comillas; hablo siempre en primer grado; me mantengo en un delirio prudente, ajustado, discreto, domesticado, trivializado por la literatura.”

Todo lo que es anacrónico es obsceno. Como divinidad (moderna), la Historia es represiva, la Historia nos prohíbe ser inactuales. Del pasado, no soportamos más que la ruina, el monumento, el kitsch o el retro, que es divertido“El sentimiento amoroso está pasado de moda (démodé), pero ese démodé no puede ni siquiera ser recuperado como espectáculo; el amor cae fuera del tiempo interesante; ningún sentido histórico, polémico, puede serle conferido; es en esto que es obsceno.”

Cuando imagino seriamente suicidarme por una llamada telefónica que no llega, se produce una obscenidad tan grande como cuando, en Sade, el Papa sodomiza a un pavo [pavão ou palerma].” “nada puede superar el inconveniente de un sujeto que se hunde porque su otro adopta un aire ausente, <mientras existen todavía tantos hombres en el mundo que mueren de hambre, mientras tantos pueblos luchan duramente por su liberación, etc.>.”

Todo el mundo comprenderá que X… tenga <enormes problemas> con su sexualidad, pero nadie se interesará en los que Y… pueda tener con su sentimentalidad” “(Nous deux – la revista – es más obscena que Sade.)”

(todo obsceno decible como tal no puede ya ser el último grado de lo obsceno; yo mismo diciéndolo, aunque sea a través del parpadeo de una figura, soy ya recuperado)”

OCULTAR. Figura deliberativa: el sujeto amoroso se pregunta no si debe declarar al ser amado que lo ama (ésta es una figura de declaración), sino en qué medida debe ocultarle las perturbaciones> (las turbulencias) de su pasión: sus deseos, sus desamparos, en suma, sus excesos (en lenguaje racineano: su furor).

¿Deberé ocultarle mi perturbación, ya ahora pasada (<¿Cómo estás?>)?” “Una angustia de segundo grado se apodera de mí y es la de tener que decidir el grado de publicidad que daré a mi primera angustia.”

¿El exceso, la locura, no son mi verdad, mi fuerza?”

los sinales de esta pasión amenazan con asfixiar al otro.”

a veces lo veo como objeto, a veces como sujeto; vacilo entre la tiranía y la oblación.”

trampa: estoy condenado a ser un santo o un monstruo: santo no puedo, monstruo no quiero: por consiguiente, tergiverso: muestro un poco de mi pasión.” “<Es indigno de las grandes almas difundir a su alrededor la perturbación que experimentan> (Clotilde de Vaux)” BALZAC. La fausse maîtresse “Sin embargo, ocultar totalmente una pasión (o incluso simplemente su exceso) es inconcebible: porque la pasión está hecha, por esencia, para ser vista: es preciso que el ocultar se vea: sepan que estoy ocultándoles algo, tal es la paradoja activa que debo resolver: no hay oblación amorosa sin teatro final: el signo siempre vence.”

quiero ser a la vez lastimoso y admirable, quiero ser en el mismo momento niño y adulto.” “Puedo modelar mi mensaje a mi gusto, pero no mi voz. En mi voz, diga lo que diga, el otro reconocerá que <tengo algo>. Soy mentiroso (por preterición), no comediante. Mi cuerpo es un niño encaprichado, mi lenguaje es un adulto muy civilizado.”

POR QUÉ. Al mismo tiempo que se pregunta obsesivamente por qué no es amado, el sujeto amoroso vive en la creencia de que en realidad el objeto amado lo ama, pero no se lo dice.

Existe para mí un <valor superior>: mi amor. No me digo jamás: <¿Para qué?>. No soy nihilista. No me planteo la cuestión de los fines. Nunca hay <porqués> en mi discurso monótono, sino uno solo (…) ¿Cómo puede no amarse ese yo que el amor vuelve perfecto (que da tanto, que hace feliz, etc.)?”

O sprich, mein herzallerliebstes Lieb, warum verliessest du mich?”

HEINE. Lyrisches Intermezzo

¿Cómo haces para amar un poco? Vivo bajo el régimen del demasiado o del no bastante; todo lo que no es total me parece parsimonioso; lo que busco es ocupar un lugar desde donde las cantidades no se perciban más. O incluso – puesto que soy nominalista –: ¿por qué no me dices que me amas?”

La verdad es que – paradoja exorbitante – no ceso de creer que soy amado. Alucino lo que deseo. Cada herida viene menos de una duda que de una traición: porque no puede traicionar sino quien ama, no puede estar celoso sino quien cree ser amado; el outro, episódicamente, falta a su ser, que es el de amarme; he aqui el origen de mis desgracias. Un delirio, sin embargo, sólo existe si despertamos de él (no hay sino delirios retrospectivos): un día comprendo lo que me ha ocurrido: creía sufrir por no ser amado y sin embargo sufría porque creía serlo; vivía en la complicación de creerme a la vez amado y abandonado. Cualquiera que hubiese entendido mi lenguaje íntimo no habría podido menos que exclamar, como se lo hace de un niño difícil: pero en fin, ¿qué quiere?

FREUD. Complemento metapsicológico à doutrina dos sonhos

metametempsicose

metá-metá

metametemparanoid

(Te amo se vuelve me amas. Un día, X… recibe orquídeas anónimas; enseguida alucina su origen: no pueden venir más que de quien lo ama; y quien lo ama no puede ser más que aquel a quien ama. Sólo después de mucho tiempo de crítica, llega a disociar las dos inferencias…)”

QUERER-ASIR. Comprendiendo que las dificultades de la relación amorosa provienen de que quiere incesantemente apropiarse de una manera o de otra del ser amado, el sujeto toma la decisión de abandonar en adelante a su respecto todo querer-asir.

El N.Q.A. (el no-querer-asir, expresión imitada del Oriente) es un sustituto inverso del suicidio. No matarse (de amor) quiere decir: tomar esa decisión, la de no asir al otro. Es un mismo momento aquel en que W. se mata y habría podido renunciar a asir a Carlota (momento, por lo tanto, solemne).” A plenitude da indiferença. O contrário da chantagem (chanter les gens) do tudo ou nada. A plena carência ou incompletude. O ESTAR-E-ACEITAR. O um pouco ou muito. Mas faltam pedaços. Mas há pedaços. Esperar para abocanhar. Libido com calma para devorar. Nada disso faz sentido, muito menos se matar. O desbunde do budismo. Quero bater uma no escuro, o chuveiro bem ligado.

<El mundo me debe aquello de lo que tengo necesidad. Me son necesarios la belleza, el brillo, la luz, etc.> (leído en un programa de La tetralogía, en Beirut).” Wagner

No quiero sustituir el arrebato cálido de la pasión por <la vida empobrecida, el querer-morir, el gran hastío>.” “por una parte, no me opongo al mundo sensorial; dejo circular en mí el deseo; por otra parte, lo apuntalo contra <mi verdad>; mi verdad es amar absolutamente, a falta de lo cual me retiro”

¿Y si el N.Q.A. era un pensamiento táctico (¡por fin uno!)? ¿Si yo quisiera todavía conquistar al otro fingiendo renunciar a él? ¿Si me alejara para asirlo más seguramente?” “una ficción bien conocida de los sabios (<Mi fuerza está en mi debilidad>)”

No se exhibe y brillará. No se afirma y se impondrá. Cumple su obra, no se apega a ella y puesto que no se apega a ella, su obra quedará” Tao, XXII

<Weil ich niemals dich anhielt, halt ich dich fest> (<Puesto que no te retengo nunca, te tengo firmemente>): verso de 2 melodías de Webern, 1911-12.” Rilke

Posto que nenhuma vez a ti retenho,

firme te tenho

Eu li gado mas entendi múmia.

quietude do quitute. Que tudo!

TAO BRUTAO

Última trampa: renunciando a todo querer-asir, me exalto y quedo encantado con la <buena imagen> que voy a dar de mí. No salgo del sistema” Taoísmo consciente. Heroísmo voluntário a-heróico. Sem querer precipitar-me, chovi. Fugi do céu. Talvez por isso ninguém lembre de mim… Mas há coisas inevitáveis, sabendo-se ou não. Não se pode jogar uma moeda pro alto a vida toda.

O LADO BOM DA HIPOCRISIA: “(<Sentada apaciblemente sin hacer nada la primavera llega y las hierbas crecen por sí mismas>). Y una vez más el Oriente: no querer asir el no-querer-asir; dejar venir (del otro) lo que viene, dejar pasar (del otro) lo que se va; no asir nada, no rechazar nada: recibir, no conservar, producir sin apropiarse, etc. O bien: <El Tao perfecto no ofrece dificultad, salvo que evita elegir>.”

STENDHAL. Armance: “Que el No-Querer-Asir quede pues irrigado de deseo por ese movimiento riesgoso: te amo está en mi cabeza, pero yo lo aprisiono tras de mis labios. No profiero. Digo silenciosamente a quien no es ya o no es todavía el otro: me contengo de amarte.”

alma libre y embriagada, olvidadiza, olvidada, ebria de lo que no bebe ni beberá jamás!” Rusbrock apud Laporte

Esqueçam que esqueci vocês.

RAPTO. Episodio considerado inicial (pero que puede ser reconstruido después), en el curso del cual el sujeto amoroso se encuentra raptado (capturado y encantado) por la imagen del objeto amado (flechazo, prendamiento).

Cada vez que un sujeto <cae> enamorado, prorroga un poco el tiempo arcaico en que los hombres debían raptar a las mujeres (para asegurar la exogamia)”

RAPTOSA: “curiosa contradanza: en el mito antiguo, el raptor es activo, es sujeto del rapto (cuyo objeto es una Mujer, como se sabe, siempre pasiva); en el mito el raptor no quiere nada, no hace nada; está inmóvil, y el objeto raptado es el verdadero sujeto del rapto; el enamorado es siempre implícitamente feminizado.”

AFERIDA: “el <sujeto> es para nosotros (¿desde el cristianismo?) el que sufre; die Wunde! die Wunde! [A ferida! A ferida!] disse Parsifal

nada de mundanidad, de ócio, sólo la lectura de Homero, una suerte de acunamiento [embalamento; to rock (in a cradle), movimento que lembra a inércia] cotidiano un poco vacío, prosaico (se hace cocer guisantes). Esta <maravillosa serenidad> no es más que una espera, un deseo –: no caigo nunca enamorado, si no lo he deseado; la vacancia que he creado en mí (y de la que como W., inocentemente, me enorgullezco) no es otra cosa que ese tiempo, más o menos largo, en que busco con los ojos, en torno mío, sin que lo parezca, a quien amar.

ATHANASIUS KIRCHER. Experimentum mirabile de imaginatione gallinae. In: MILLER, Gérard. Sobre la hipnosis (Ornicar, 4)

Sin embargo, el mito del <flechazo> es tan fuerte que uno se queda estupefacto al oír que alguien decide caer enamorado: como Amador viendo a Florinda en la corte del gobernador de Cataluña: <Después de haberla mirado largo tiempo resuelve amarla.> [Heptamerón] ¿Cómo, voy a decidir si devo volverme loco (el amor sería esta locura que yo quiero)?”

lo que llega bruscamente a tocarme (a raptarme) es la voz, la caída de los hombros, la esbeltez de su silueta, la tibieza de la mano, el sesgo de una sonrisa, etc. Desde ese momento, ¿qué me importa la estética de la imagen? Algo viene a ajustarse exactamente a mi deseo (del que ignoro todo); no haré pues ninguna preferencia de estilo. (…) puedo prendarme de una pose ligeramente vulgar (adoptada por provocación): hay trivialidades sutiles, móviles, que pasan rápidamente sobre el cuerpo del otro: una manera breve (pero excesiva) de separar los dedos, de abrir las piernas, de remover los carnosos labios al comer, de dedicarse a una ocupación muy prosaica, de volver idiota a su cuerpo un segundo, por continencia (lo que fascina en la <trivialidad> del otro es tal vez que, por un momento muy corto, sorprendo en él, separado del resto de su persona, como un gesto de prostitución).”

Y parece que usted está ahí cuando leo pasajes de amor en los libros. – Todo lo que se tacha allí de exagerado usted me lo hace sentir, dijo Friederike. Comprendo, W., que no cansen los panecillos [pãezinhos] de Carlota” FLAUBERT. L’éducation sentimentale

schema, es el cuerpo en movimiento, en situación, en vida.”

(ella corta rebanadas de pan para los niños: escena célebre, frecuentemente comentada): amamos primeramente un cuadro.”

lo que no había sido nunca visto es descubierto en su integridad, y desde entonces devorado con los ojos”

puedo caer enamorado de una frase que se me dice

Grusha, la joven sirvienta, produce una viva impresión en el Hombre de los Lobos: de rodillas, en tierra, está fregando el piso. Puesto que la postura de trabajo me garantiza de algún modo la inocencia de la imagen: cuanto más el otro se ofrece los signos de su ocupación, de su indiferencia (de mi ausencia), más seguro estoy de sorprenderlo, como si, para caer enamorado, me fuera necesario cumplir la formalidad ancestral del rapto, a saber la sorpresa (yo sorprendo al otro y por eso mismo él me sorprende: no esperaba sorprenderlo).”

el flechazo se dice siempre en el pasado simple (el ser de la fotografia no es representar, sino rememorar) no ceso de asombrarme de haber tenido esa oportunidad [*]: someterme de golpe a una imagen desconocida

[*] A garota bunduda e indiferente na quadra de basquete, sozinha.

RECUERDO. Rememoración feliz y/o desgarradora de un objeto, de un gesto, de una escena, vinculados al ser amado, y marcada por la intrusión de lo imperfecto en la gramática del discurso amoroso.

destiempos: es la anamnesis, que no encuentra sino rasgos insignificantes, de ningún modo dramáticos, como si me acordara del tiempo mismo y solamente del tiempo: es un perfume sin soporte, un grado de memoria, una simple fragrancia; algo así como un gesto puro, tal como sólo el haikú japonés ha sabido decirlo, sin recuperarlo en ningún destino.”

E era Abril no hemisfério norte…

<Las estrellas brillaban>. Nunca más esa dicha volverá tal cual.”

A MACIEIRA: “Lo imperfecto es el tiempo de la fascinación: parece estar vivo y sin embargo no se mueve: ni olvido, ni resurreción; Desde el origen ávida de representar un papel, las escenas se ponen en posición de recuerdo: frecuentemente lo siento, lo preveo, en el mismo momento en que se forman. – Este teatro del tiempo es precisamente lo contrario de la búsqueda del tiempo perdido; puesto que yo me acuerdo patética, pontualmente, y no filosófica, discursivamente: me acuerdo para ser infeliz/feliz – no para comprender –. No escribo, no me encierro para escribir la novela enorme del tiempo recobrado.”

Tempo sempre achado

ΔT sempre achato

mas maximizo,

na câmera lenta

desfocada

Apesar da organização alfabética, parece ter sido uma obra escrita ou intensamente revisada cronologicamente, linearmente.

RESONANCIA. Modo fundamental de la subjetividad amorosa: una palabra, una imagen resuenan dolorosamente en la conciencia afectiva del sujeto.

algo tenue y agudo despierta bruscamente a ese cuerpo que, entretanto, se embotaba en el conocimiento razonado de una situación general” O sofrimento tão restrito a essa época e a essa região que eu batizo “O VANISMO”

VAMPIRISMO

VACÚOLO DE IDÉIAS

VVV DE VACILO VICIOSO VINGATIVO

vá de ré! conde

l d Darkula|i lama

Você deve fingir que está doente”

niñería

Remete ao verbete INSOPORTABLE (“Isto não pode continuar!”): “Mi cuerpo interior se pone a vibrar, como sacudido por trompetas que se responden y se superponen: la incitación hace huella [impressão], la huella se amplía y todo es (más o menos rápidamente) devastado. En lo imaginario amoroso nada distingue la provocación más fútil de un hecho realmente consecuente; el tiempo es conmocionado hacia adelante (me suben a la cabeza predicciones catastróficas) y hacia atrás (recuerdo con pavor los <precedentes>): a partir de una pequeñez todo un discurso recuerdo y de la muerte se eleva y me arrastra: es el reino de la memoria, arma de la resonancia del <resentimiento> –.”

meMoiras podem mudar o futuro?

detesto acústicos!

(La resonancia de un <accidente imprevisto que […] cambia súbitamente el estado de los personajes>: es un golpe teatral, el <momento favorable> de una pintura: cuadro patético del sujeto asolado, postrado, etc.)”

En el temor común – el que precede alguna actividad difícil de cumplir –, me veo en el futuro en un estado de fracaso, de impostura, de escándalo. En el temor amoroso, tengo miedo de mi propia destrucción, que entreveo bruscamente”

Si la cosa resuena muy fuertemente, hace tal estrépito en mi cuerpo que estoy obligado a detener toda ocupación; me tendo en mi lecho y dejo transcurrir, sin luchar, la <tempestad interior>; al contrario del monje zen, que se vacía de imágenes, me dejo llenar por ellas, experimento hasta el fin su amargor. La depresión tiene por lo tanto su gesto – puesto en clave –, y es eso sin duda lo que la limita; puesto que basta que en cierto momento pueda sustituirlo por otro gesto (incluso vacío, como levantarme, ir a mi mesa, sin que forzosamente trabaje en ello enseguida) para que la resonancia se amortigüe y deje lugar al hipócrita taciturno. El lecho (diurno) es el lugar de lo Imaginario; la mesa es nuevamente, haga lo que haga, la realidad.” 04/03/2017 Trabalho: onde jamais se deita. “por una parte, recibo en carne viva el propósito del mensaje, me indigna su falsedad, quiero desmentir, etc.; por otra parte, percibo perfectamente el pequeño movimiento de agresividad que ha impulsado a X… – sin que lo sepa demasiado él mismo – a transmitirme una información hiriente. (…) [Trampa:] Ahora bien, ¿qué hago yo? Conjugo las dos lingüísticas, la tradicional y la filología activa: me instalo dolorosamente en la sustancia misma del mensaje (a saber, el contenido del rumor), y amargura la fuerza que lo funda: pierdo en los dos tableros, me hiere por todas partes. Tal es la resonancia: la práctica afanosa de una escucha perfecta: lejos de <flotar> mientras el otro habla, escucho completamente, en estado de conciencia total: no puedo abstenerme de escucharlo todo y es la pureza de esta escucha lo que me resulta doloroso: ¿quién podría soportar sin sufrir un sentido múltiple y sin embargo purificado de todo <ruido>? (…) estrépito inteligible (…) oyente monstruoso (…) inmenso órgano auditivo – como si la escucha misma entrara en estado de enunciación –: en mí, es la oreja la que habla.

SACIEDAD O COLMO. El sujeto plantea, con obstinación, el anhelo y la posibilidad de una satisfacción plena del deseo implicado en la relación amorosa y de un éxito sin falla y como eterno de esta relación: imagen paradisíaca del Soberano Bien, dable y aceptable. [O ACHAMENTO DA CARA-METADE]

en cuanto no estoy en el exceso me siento frustrado”

sobrepaso los límites de la saciedad y, en lugar de encontrar el asco, la náusea, o incluso la embriaguez, descubro… la Coincidencia. La desmesura me ha conducido a la mesura; me ajusto a la imagen, nuestras medidas son las mismas: exactitud, precisión, música; he terminado con el no suficiente.”

la relación amorosa parece reducirse a una larga queja.” “cuando estoy colmado o recuerdo haberlo estado el lenguaje me parece pusilánime: <Se produce un encuentro que es intolerable a causa del gozo y a veces el hombre queda reducido en él a nada; es lo que llamo el transporte. El transporte es el gozo del que no se puede hablar> [Rusbrock].”

creer en el Soberano Bien es tan loco como creer en el Soberano Mal: Heinrich von Ofterdingen [personagem folclórico alemão romancizado por Novalisresponsável pela origem da imagem da flor azul e também pelo Tannhäuser de Wagner] es filosóficamente de la misma naturaleza que la Julieta de Sade.”

(Saciedad quiere decir abolición de las herencias: <El Gozo se quiere él mismo, quiere la eternidad, la repetición de las mismas cosas, quiere que todo permanezca eternamente igual> [Nie.]. El enamorado colmado no tiene ninguna necesidad de escribir…)”

SALIDAS. Señuelos de soluciones, sean cuales fueren, que proporcionan al sujeto amoroso, a despecho de su carácter a menudo catastrófico, un descanso pasajero; manipulación de las salidas posibles de la crisis amorosa.

el discurso amoroso es en cierta forma un a puertas cerradas de las salidas.”

este teatro, de género estoico, me engrandece, me da estatura. Imaginando una solución extrema, produzco una ficción, me convierto en artista, hago un cuadro, pinto mi salida”

DOUBLE BIND: Situación en la que el sujeto pierde siempre: cara, gano yo; cruz, pierdes tú” (Bettelheim, 81)”

Para que haya infortunio es necesario que el propio bien haga mal” Schiller

SIGNOS. Ya sea que quiera probar su amor o que se esfuerce por descifrar si el otro lo ama, el sujeto amoroso no tiene a su disposición ningún sistema de signos seguros.

¿soy amado (no soy ya, lo soy todavía)? Es mi futuro lo que intento leer, descifrando en lo que está inscrito el anuncio de lo que me va a ocurrir, según un procedimento que tendería a la vez a la paleografía y a la adivinación? (…) pido al rostro del otro, incansablemente, la respuesta: cuánto valgo?”

Ella era entendida y sabía que el carácter amoroso se cifra de algún modo en las cosas sin importancia. Una mujer instruida puede leer su porvenir en un simple gesto, así como Cuvier sabía decir viendo el fragmento de una pata: esto pertenece a un animal de tal dimensión, etc.” BALZAC. Les secrets de la princesse de Cadignan

Como el Octavio de Stendhal, no sé nunca lo que es normal; privado (lo sé) de toda razón, quiero refugiarme, para decidir acerca de una interpretación, en el sentido común; pero el sentido común no me suministra más que evidencias contradictorias”

Freud a su prometida: <Lo único que me hace sufrir es estar imposibilitado de probarte mi amor>. Y Gide: <Todo en su comportamiento parecia decir: puesto que no me ama nada me importa. Ahora bien, yo la amaba todavía, e incluso nunca la había amado tanto; pero probárselo me era imposible. Ahí estaba, sin duda, lo más terrible>.

Los signos no son pruebas porque cualquiera puede producirlos falsos o ambiguos. De ahí ese volverse, paradójicamente, sobre la omnipotencia del lenguaje: puesto que nada asegura el lenguaje, tendré al lenguaje por la única y última seguridad: no creeré ya en la interpretación [o que gera mágoas de vez em quando]. De mi otro recibiré toda palabra como un signo de verdad: y cuando sea yo el que hable, no pondré en duda que recibe como verdadero lo que diga. De donde se deduce la importancia de las declaraciones; quiero permanentemente arrancar al otro la fórmula de su sentimiento y le digo incesantemente por mi parte que lo amo: nada es dejado a la sugestión, a la adivinación: para que una cosa sea sabida es necesario que sea dicha

SOLO. La figura remite no a lo que puede ser la soledad humana del sujeto amoroso sino a su soledad filosófica, al no hacerse cargo hoy del amor-pasión ningún sistema importante de pensamento (de discurso).

¿Cómo se llama a ese sujeto que se obstina en un <error>, contra todos, como si tuviera ante él la eternidad para <equivocarse>? – Se lo llama un recalcitrante.” “no dejo de <recaer> en una doctrina interior que nadie comparte conmigo.”

<ningún sacerdote lo acompañó> (es la última frase de la novela). La religión no condena solamente, en W., al suicida, sino también, quizás, al enamorado, al utópico, al desclasado, a aquel que no está <religado> sino a sí mismo.”

En El banquete, Erixímaco comprueba con ironía que ha leído en alguna parte un panegírico de la sal, pero nada sobre Eros; y es porque Eros está censurado como tema de conversación que la pequeña sociedad del Banquete decide hacer de él la materia de su mesa redonda: se dirían intelectuales de hoy aceptando discutir a contracorriente, precisamente del Amor y no de política, del Deseo (amoroso) y no de la Necesidad (social).” “Eros es para cada uno de ellos un sistema. Hoy, sin embargo, no hay ningún sistema del amor: por más que se vuelva hacia tal o cual de los linguajes recibidos, ninguno le responde, si no para alejarlo de lo que ama. El discurso cristiano, si todavía existe, lo exhorta a reprimir y sublimar. El discurso psicoanalítico (que, al menos, describe su estado), lo obliga a privarse a su pesar de su Imaginario. En cuanto al discurso marxista, no dice nada.”

estoy solo para hacer el sistema (tal vez porque soy incesantemente compelido hacia el solipsismo de mi discurso). Paradoja difícil: puedo ser entendido por todo el mundo (el amor viene de los libros, su dialecto es corriente) pero no puedo ser escuchado (recibido <proféticamente>) sino por sujetos que tienen exactamente y presentemente el mismo lenguaje que yo. Los enamorados, dice Alcibíades, son semejantes a aquellos a quienes ha mordido una víbora: <No quieren, se dice, hablar de su accidente a nadie, salvo a los que han sido víctimas de una circunstancia semejante”

no enfrento ni contesto: simplemente no dialogo: no estoy forzosamente <despolitizado>: mi desviación es la de no ser <excitado>.”

Todo el mundo tiene espíritu perspicaz,

sólo yo tengo el espíritu confuso,

(…)

Todo el mundo tiene su fin pre[ci]so,

sólo yo tengo el espíritu obtuso del campesino.

Sólo yo difiero de los otros hombres”

Tao

SUICIDIO. En el campo amoroso, el deseo de suicidio es frecuente: una pequeñez lo provoca.

una especie de álgebra rápida de la que tengo necesidad en ese momento de mi discurso (…) En una frase, solamente una frase, que acaricio sombríamente: <Y el hombre que durante ¾ de hora había pensado en terminar con su vida, subía al instante sobre una silla para buscar en su biblioteca el catálogo de los cristales de Saint-Gobain> [Stendhal].”

La idea de suicidio, entonces, me salva, porque puedo contarla (y no me privo de ello): renazco y coloreo esta idea con los colores de la vida, ya sea que la dirija agresivamente contra el objeto amado (chantaje bien conocido) o que me una fantasmáticamente a él en la muerte”

Después de haberlo discutido los sabios llegaron a la conclusión de que los animales no se suicidan; a lo máximo algunos – caballos, perros – tienen deseos de mutilarse.”

Acabo de releer Werther no sin irritación. Había olvidado que empleaba tanto tiempo en morir {lo que es completamente falso — Barthes}. A las 4 o 5 recuperaciones, lo que se esperaba, su último suspiro, es seguido por otro más último todavía […] las partidas ornamentadas me exasperan” Gide

TAL. Llamado sin cesar a definir el objeto amado, y sufriendo por las incertidumbres de esta definición, el sujeto amoroso sueña con una sabiduría que lo haría tomar al otro tal cual es, eximido de todo adjetivo.

haga lo que haga, por más que me prodigue para él, no renuncia nunca a su propio sistema. Experimento contradictoriamente al otro como una divinidad caprichosa que cambia incesantemente de humor con respecto a mí (…) esta cosa envejecerá tal cual es, y por ello sufro). O también, veo al otro en sus limites. O, en fin, me interrogo: ¿hay un punto, uno solo, sobre el cual el otro podría sorprenderme? Así, curiosamente, la <libertad> del otro de <ser él mismo> la experimento como una obstinación pusilánime. (…) ese tal me es doloroso, puesto que nos separa” Uma divindade que não gosta de animes

cuanto más lo designe menos le hablaré: seré semejante al infans que se contenta con una palabra vacía para mostrar alguna cosa: Ta, Da, Tat (dice el sánscrito). Tal, dirá el enamorado: tú eres así, precisamente así.”

Accedo entonces (fugitivamente) a un lenguaje sin adjetivos. Amo al otro no según sus cualidades (compatibilizadas) sino según su existencia” “Lo que liquido, en ese movimiento, es la categoría misma del mérito: del mismo modo que el mítico se vuelve indiferente a la santidad (que sería de nuevo un atributo), accediendo al tal del otro no opongo ya la oblación al deseo”

(El enemigo negro del tal es la Habladuría, fábrica inmunda de adjetivos…)”

A****** e T*****: “Éramos amigos y nos hemos convertido en extraños uno del otro. Pero es bueno que así sea, y no buscamos disimulárnoslo ni oscurecerlo como si tuviésemos que tener vergüenza de ello. Como dos navíos que prosiguen cada uno su camino tras sus propias metas: así sin duda podemos cruzarnos y celebrar fiestas entre nosotros como ya lo hemos hecho – y entonces los buenos navíos reposaban lado a lado en el mismo puerto, bajo el sol, tan calmos que se hubiera dicho que estuviesen ya en su destino y no hubiesen tenido sino el mismo rumbo –. Pero enseguida el llamado irresistible de nuestra misión nos impulsaba de nuevo lejos uno del otro, cada uno sobre mares, hacia parajes, bajo solos diferentes – tal vez para no vernos nunca, o tal vez para volvernos a ver una vez más, pero sin reconocernos ya –: ¡mares y soles diferentes han debido cambiarnos!” La gaya ciencia af. 279

TE AMO. La figura no remite a la declaración de amor, a la confesión, sino a la proferición repetida del grito de amor.

Pasada la primera declaración de amor, <te amo> no quiere decir nada; no hace sino retomar de una manera enigmática, hasta tal punto parece vacía, el viejo mensaje. Lo repito fuera de toda pertinencia; sale del lenguaje, divaga, ¿dónde? No podría descomponer la expresión sin reír. !Cómo! Estaría <yo> de un lado, <tú> del otro, y en el medio un nexo de afecto razonable (por léxico).” “je-t-aime debe entenderse (y leerse aquí) a la húngara, por ejemplo, en que se dice con una sola palabra, szeretlek” “decir te-amo es hacer como si no hubiese ningún teatro de la palabra, y esta expresión es siempre verdadera (no hay otro referente que su proferición)” “no es metáfora” “(Aunque dicho miles de veces, te-amo está fuera del diccionario; es una figura cuya definición no puede exceder el encabezado.)” “La palabra (la frase-palabra) no tiene sentido sino en el momento en que la pronuncio” te-amo no compete ni a la lingüística ni a la semiología. Su instancia (eso a partir de lo cual se lo puede hablar) sería más bien la Música.” “El goce no se dice: pero habla y dice: te-amo.” “Te amo. – Yo tambien. (…) la forma es aquí claudicante, por el hecho de que no retoma literalmente la proferición – y es propio de la proferición ser literal –. ” “El niño proustiano – al pedir que su madre duerma en su habitación – quiere obtener el yo también” “Fantaseo lo que es empíricamente imposible: que nuestras dos profericiones sean dichas al mismo tiempo, que una no siga a la otra, como si dependiera de ella; sólo le conviene el relámpago único: la abolición de toda contabilidad.” “Te amo, dice Pelléas. – Yo te amo también, dice Mélisande.”

LACAN. Sobre la situación límite y la holofrase: Le séminaire, I, 250.

La Bestia [de RavelLes entretiens de la Belle et de la Bête, Ma Mère l’Oye] – retenida en estado de encantamiento en su fealdad – ama a la Bella; la Bella, evidentemente, no ama a la Bestia, pero, al fin, vencida (poco importa por qué; digamos: por los encuentros que tiene con la Bestia), le dice la palabra mágica: <Yo lo amo, Bestia>; y enseguida, a través de la desgarradura suntuosa de un arpegio de arpa, un sujeto nuevo aparece.”

alguien sufre porque su mujer lo a dejado; quiere que vuelva, quiere – precisamente – que le diga te amo, y corre, él también, tras la palabra; para terminar, ella se la dice, luego de lo cual él se desmaya: es un filme de 1975.”

(el esclavo es aquel que tiene la lengua cortada, que no puede hablar sino por gestos, expresiones, caras)”

TERNURA. Goce, pero también evaluación inquietante de los gestos tiernos del objeto amado, en la medida en que el sujeto comprende que carece de su privilegio.

El gesto tierno dice: pídeme lo que sea que pueda aplacar tu cuerpo, pero tampoco olvides que te deseo un poco, ligeramente, sin querer tomar nada enseguida.” ver Musil – L’homme sans qualités, II, 772.

El placer sexual no es metonímico (*): una vez tomado, se le corta. La ternura, por el contrario, no es más que una metonimia infinita, insaciable; el gesto, el episodio de ternura (el acorde delicioso de una velada) no puede interrumpirse sino con aflicción: todo parece puesto en duda: retorno del ritmo – vritti (para el Budista, es el curso de las olas, el proceso cíclico) –, alejamiento del nirvana.”

(*) Toda puta se arrepende de engolir, o promíscuo mais ainda de soltar.

L… veía con asombro a A… hacerle a la camarera de ese restaurante bávaro, al pedirle su schnitzel [costeleta], los mismos ojos tiernos, la misma mirada angélica que tanto lo commovían cuando esos gestos le estaban dirigidos.”

UNIÓN. Sueño de unión total con el ser amado.

mal dibujante o mediocre utopista, no llego a nada.”

Orfeo, debilitado, no era sino una mujer, y los dioses lo hicieron morir por las mujeres.”

la pareja perfecta es la de Aquiles y Patroclo: no por un prejuicio homosexual sino porque en el interior de un mismo sexo la diferencia permanece inscrita: uno (Patroclo) era el amante, el otro (Aquiles) era el amado.”

<¿Adónde llegaste con X…?>, yo debo responder: ahora exploro nuestros límites”

Sueño de unión total: todo el mundo dice que ese sueño es imposible y sin embargo insiste. No renuncio a él.”

VERDAD. Todo episodio de lenguaje llevado a la sensación de verdad que el sujeto amoroso experimenta pensando en su amor, ya sea que crea ser el único en ver al objeto amado en su verdad o bien que defina la especificidad de su propia exigencia como una verdad sobre la cual no puede ceder.

Me ocurre no comprender como otro la puede amar, tiene el derecho de amarla, cuando que mi amor por ella es tan exclusivo, tan profundo, tan pleno, cuando que no conozco, no me interesa, no tengo nada más que ella.” W.

Un hombre que duda de su propio amor puede, o más bien debe dudar de cualquier cosa menos importante” Freud apud Klein

(Amor ciego: este proverbio es falso. El amor hace clarividente: <Tengo, de ti, sobre ti, el saber absoluto>. Informe del sabio al amo: tú puedes todo sobre mí pero yo lo sé todo sobre ti.)”

Siempre la misma inversión: lo que el mundo tiene por <objetivo> yo lo tengo por artificial y lo que tiene por locura, ilusión, error, yo lo tengo por verdad.”

GRIMM. Periódico para eremitas

G. B. SCHOLEM. La Cábala y su simbolismo, Siglo XXI, 174.

– ¿Cuál es la única y última palabra de la verdad?

– Sí.”

Entiendo que el maestro, oponiendo curiosamente un adverbio a un pronombre, a cuál, responde al lado

* * *

Uma breve lista de livros para ler…

BATAILLE. L’oeil pinéal

BENVENISTE. Problemas de lingüística general

JEAN-LOUIS BOUTTES. Le destructeur d’intensité (manuscrito)

BRECHT. Madre coraje y sus hijos

DJEDIDI. La poésie amoureuse des arabes

MÉLANIE KLEIN. Essais de psychanalyse

LECLAIRE. Psicoanalizar

MANDELBROT. Les objets fractals

MAURICE, PERCHERON. Le Bouddha et le bouddhisme

SAINT-BEUVE. Port-Royal, Hachette, 6 vols.

SEARLES. The effort to drive the other person crazy, Nouvelle Revue de Psychanalyse, 12.

SOLLERS. “Paradis” Tel Quel, 62.

WATTS. Le bouddhisme zen

…e de músicas para escutar e filmes para assistir:

BOUCOURECHLIEV. Thrène

DEBUSSY. Pelléas et Mélisande (especialmente o ato III).

DUPARC. Chanson triste

MOZART. Les noces de Fígaro

RAVEL. Ma mère l’Oye

WAGNER. El buque fantasma

FRIEDRICH. Los restos de la esperanza captados en los espejos [???]

BUÑUEL. El discreto encanto de la burguesía, 1972.

* * *

Uma breve lista de livros para reler:

El Banquete (y Obra Completa de Platón)

Werther

Sociedade do Espetáculo

Obra Completa de Shakespeare e Sófocles

Morro dos Ventos Uivantes

O Mundo como Vontade e Representação

MITOLOGIA – HERÓIS – José Francisco Botelho

ODISSEU

A primeira parada nessa mirabolante travessia foi a Ilha dos Lotófagos. O país tinha esse nome porque seus habitantes se alimentavam do lótus: um fruto mágico que apagava todas as lembranças. Os lotófagos eram criaturas desmemoriadas e felizes: viviam num eterno presente, desconhecendo o passado e sem pensar no futuro. Alguns dos marujos de Odisseu experimentaram a guloseima local: imediatamente, esqueceram-se do lar e resolveram ficar para sempre naquela maravilhosa amnésia. Odisseu teve de arrastá-los à força de volta aos navios – e partiu dali o mais rápido possível. Ele ainda passaria por muitos perigos, mas o primeiro talvez tenha sido o maior deles: as delícias do esquecimento são uma tentação à qual é difícil resistir.”

Como de praxe naqueles tempos, Odisseu levava consigo um presente para oferecer a possíveis anfitriões. Era um vinho fortíssimo e de sabor indescritível, que trouxera da ilha de Ismaura.”

Odisseu pigarreou e deu um passo à frente; falando em palavras açucaradas e suaves, como sempre, lembrou o gigante sobre as leis da hospitalidade, respeitadas por deuses e por mortais. O cíclope soltou uma gargalhada furiosa.

– Eu sou Polifemo, filho de Posêidon! Em minha caverna, não há outra lei além de minha vontade!”

As sinistras refeições tornaram-se rotina. Todos os dias, o cíclope levava seus rebanhos para pastar, deixando a caverna selada; voltava de tardezinha, e matava a fome degustando dois gregos antes de dormir.”

ULISSES & SUA SAGA CONTRA O NADA

– Um presente magnífico – exclamou o gigante em meio a sa bebedeira. – Agora me diga o seu nome, para que eu lhe devolva essa gentileza em espécie.

– O meu nome – respondeu Odisseu – é Ninguém.

– Excelente, meu caro Ninguém! Agora, eis o meu presente para você: vou devorá-lo por último. – E com isso, o Cíclope mergulhou num sono profundo.”

– Polifemo, que mal o aflige? Quem o feriu? – perguntavam os Ciclopes.

– Ninguém! – gritou Polifemo. – Ninguém me feriu! Ninguém está escondido em minha caverna! Ninguém quer me matar!

Os demais Ciclopes foram embora.”

O senhor dos oceanos planejava uma longa e dolorosa vingança.”

Eolo deixou solto apenas o suave Zéfiro, o vento Oeste, que se encarregou de soprar a frota de Odisseu rumo à terra natal. Odisseu passou a viagem encerrado em sua cabine, agarrando com força o saco que continha os ventos; temia que um deles escapasse por engano e soprasse a frota para longe… Quando estava apenas a algumas horas de viagem de Ítaca, o comandante da esquadra caiu no sono. Sua tripulação havia dias vinha arrastando o olho para aquele presente.” “Ítaca afastou-se, afastou-se até desaparecer no encapelado horizonte…”

Navegou até os confins ocidentais do mundo, terras soturnas, cobertas por uma noite eterna – e chegou ao Rio Oceano, um gigantesco anel de águas que envolvia toda a Terra. Lá, desembarcou em um promontório coberto por bosques negros; no fundo da floresta, estava a entrada do Hades.” “o fantasma de Tirésias; o adivinho aproximou-se em meio aos nevoeiros do além, apoiado em seu cajado.”

Nem bem se livraram das Sereias, os viajantes tiveram de enfrentar o mais horripilante obstáculo da jornada: o Estreito de Cila e Caríbdis.” “De todas as coisas funestas que testemunhei, murmurou, nada me causou mais dor do que a visão de meus camaradas gritando meu nome em vão e desaparecendo na neblina sangrenta.”

O pobre herói foi mantido em uma espécie de prisão amorosa na Ilha de Ogígia por nada menos que 7 anos – tendo de atender aos desejos insaciáveis de Calipso noite e dia, sem descanso. Finalmente saciada, ela deixou que Odisseu partisse em uma jangada improvisada.”

<Que grande honra para Nausícaa se, em vez dos verdes garotões feácios, ela tivesse por marido um homem experiente, sofrido e testado nas agruras do mundo…>, o rei disse, como quem não quer nada.”

Estava cansado, infinitamente cansado; para falar a verdade, não sabia que tipo de recepção o esperava em Ítaca – e se sua esposa, Penélope, houvesse cedido aos avanços de outro homem? Afinal de contas, vinte anos haviam-se passado desde que Odisseu partira de casa.”

A última grande façanha de Odisseu em sua jornada pelo mundo foi recusar a mão da doce e inesquecível Nausícaa.”

Vinte anos são vinte anos. Árvores agora cresciam onde antes havia só campinas. Em outros pontos, bosques tinham desaparecido para dar lugar a plantações.”

Ele e Atena eram velhos amigos – mas, nos últimos anos, ela havia desaparecido de sua vida.” “Atena era tão bela e curvilínea quanto todas as deusas olímpicas – mas, ao contrário da maioria de suas parentas, vivia no mais completo celibato.”

<semelhante aos deuses> era o elogio que os heróis gregos mais gostavam de ouvir”

Por mais poderosa que fosse, Atena não era páreo para seu tio, cujas sísmicas oscilações de humor podiam sacudir os alicerces da terra e as profundezas do mar. Por sorte, Posêidon havia partido em uma longa viagem aos confins do mundo – fôra visitar os Hiperbóreos, seus servos mais queridos, que viviam nas últimas margens do Oceano.” Até os deuses viajam.

Era Argos, o cachorro que havia acompanhado Odisseu em muitos passeios e caçadas. Já tinha quase 30 anos – um verdadeiro Matusalém canino.” “Segurando as lágrimas, Odisseu fez uma breve carícia na cabeça esfalfada do amigo. Argos esticou a cabeça, fechou os olhos e morreu.”

Na sala do trono, havia um grande arco que ninguém além de Odisseu jamais conseguira disparar. Quem conseguir puxar este arco e lançar uma flecha com ele – declarou a rainha – terá a minha mão. O desafio era só uma artimanha para ganhar tempo: ela sabia que ninguém conseguiria [Ninguém conseguiria!] usar a arma além do legítimo rei de Ítaca.” referência ao Mahabharata Livro I!

Odisseu, Telêmaco e os dois criados lutaram contra mais de 100 inimigos. Foi uma luta desigual, pois Odisseu tinha do seu lado ninguém menos que Atena.”

PERSEU

O rei de Argos [líder da matilha?] jamais terá filhos; e será morto pelas mão do próprio neto.”

o rei ordenou que seus engenheiros construíssem uma torre de bronze e encerrou a princesa lá em cima. Cercou-a de trancas e paredes metálicas; ao redor da torre, prendeu cachorros furiosos.”

BARROQUIZAÇÃO DOS MITOS COM DIREITO A GOLDEN SHOWER DIVINA: “À noite, já exausta de tanto chorar, ela escorregava para sonhos úmidos em que um herói ou um deus vinha salvá-la de sua virgindade forçada. Zeus, o senhor dos deuses, acabou comovido pelas lágrimas de Dânae (…) no caminho, transformou-se em uma cálida chuva de gotas douradas. Aquela torrente brilhante e luxuriosa escorreu pelas grades das janelas, encharcou o vestido de Dânae, molhando-lhe os seios e as coxas. Meio desperta, meio acordada (sic), ela soltou um grito de prazer havia muito tempo contido no fundo de sua alma. Um deus a possuía, e por isso ela estava livre.

Naquele dia, foi concebido Perseu.”

Acrísio ordenou que a serva fosse estrangulada e tomou uma espada para trespassar o menino, que se agarrava ao pescoço de Dânae. Mas sua mão fraquejou.”

BOCETAS & MULHERES: “Sepultados sob as águas, a princesa e seu filho estavam condenados a morrer de fome e sede. Ou seriam jogados contra os rochedos e recifes do Mar Egeu. Vendo a arca desaparecer no horizonte, em meio às crespas elevações do mar, Acrísio sentiu a alma serena, pela primeira vez em muitos anos.”

PERSÉDIPO: “Se sua intenção é casar-se com Hipodâmia, e não com minha mãe, eu lhe darei qualquer coisa. – Perseu retrucou, impetuoso. – Até a cabeça de uma Górgona.” “Na época, poucos monstros eram mais temidos que as Górgonas. Séculos atrás elas haviam sido 3 jovens e formosas irmãs. Vaidosíssimas, gabaram-se de ser mais lindas que as deusas do Olimpo. A blasfêmia foi castigada de forma exemplar: as 3 irmãs foram convertidas em monstros horrendos. Suas louras madeixas se tornaram ninhos de serpente. Os lábios viraram focinhos e presas de javali brotaram de suas gengivas.” “Medusa era a mais feroz das Górgonas. E também a única mortal.”

três Gréias – criaturas decrépitas e monstruosas que dividiam entre si um único olho e um único dente. Perseu esgueirou-se até a sombria moradia das Gréias, ao pé do Monte Átlas, e roubou seu maior tesouro: o olho e o dente, sem os quais elas não podiam enxergar nem alimentar-se. Cegas e incapazes de atacá-lo, as Gréias tiveram de responder a todas as suas perguntas, revelando o caminho para o Jardim das Hespérides. Por sorte, o local ficava ali perto, à sombra do Monte Átlas. De bom grado, as ninfas entregaram a Perseu 3 artefatos fantásticos: um par de sandálias aladas, que havia pertencido a Hermes, o mensageiro dos deuses; o capacete de Hades, que tornava invisível quem o usasse; e um alforje mágico, em que Perseu poderia guardar a cabeça de Medusa sem que ela apodrecesse. Para completar o arsenal, Atena deu-lhe um escudo de bronze rutilante. A superfície era tão polida que parecia um espelho.” “Calçando as sandálias aladas, Perseu voou em direção à Hiperbórea, uma região nos confins do mundo varrida por ventos gelados e envolta em sombras permanentes. Encontrou as Górgonas adormecidas em meio a um sinistro Jardim, adornado com estátuas de homens e animais.” “o sangue de Medusa jorrou. Suas irmãs imortais, Estênelo e Euríale, despertaram enfurecidas e puseram-se a buscar o assassino. Mas Perseu usava o capacete de Hades – e voou, invisível, para bem longe dali.”

Havia tempos o reino da Etiópia era assolado por um pavoroso monstro marinho, que erguia vagalhões com seus braços, devorava navios inteiros e devastava o litoral com as chicotadas de seu rabo gigantesco. Um oráculo revelava que o levitã só seria aplacado se o rei etíope lhe entregasse a própria filha.” “Semanas depois, Perseu iria pousar na Grécia, carregando Andrômeda – com quem se casara, é claro.”

Anos mais tarde, Perseu participava de uma competição atlética na cidade de Larissa. Seu esporte favorito era o arremesso de discos. No meio de um lançamento, contudo, uma rajada de vento desviou o disco de Perseu na direção da platéia. Um dos espectadores tombou nos degraus da arena, com a cabeça fatalmente rachada. Dânae, que estava do outro lado das arquibancadas, soltou um grito ao ver aquele rosto que manchava de vermelho o mármore branco.

O oráculo se cumprira: Acrísio acabara de ser morto por seu neto.”

HÉRCULES (HÉRACLES)

Perseu foi um dos mais célebres heróis gregos – mas o que se tornou o modelo épico de todos os outros foi seu bisneto, Héracles.”

Zeus, sabendo da exemplar fidelidade de Alcmena, tomara a aparência de Anfitrião para seduzi-la”

Os 12 trabalhos

1. “arrancar o couro do monstruoso Leão da Neméia. A fera, que havia caído da Lua, tinha a pele invulnerável a qualquer arma, e ninguém jamais conseguira feri-la.

Viajando até a Neméia, Héracles encontrou a região quase deserta: o leão havia devorado a maior parte dos habitantes.”

Héracles ficou tão orgulhoso dessa proeza que, daquele dia em diante, passou a usar a pele do Leão da Neméia amarrada ao redordo corpo.”

2. “que decapitasse a Hidra de Lerna”

Héracles enterrou-a sob uma enorme pedra no meio do pântano – e a última cabeça da Hidra está lá até hoje, vivíssima e cheia de um insaciável ódio pela humanidade.”

3. “que trouxesse a famosa corça da Cerínia. A bela criatura, que tinha cascos de prata e chifres de ouro, era conhecida por sua velocidade sobrenatural.” “O herói perseguiu a corça, a pé, durante um ano inteiro, seguindo-a até os confins da terra, sem jamais disparar uma seta – pois não queria ferir um animal tão bonito. Certo dia, a corça adormeceu exausta debaixo de uma árvore, e o herói a apanhou numa rede.”

4. “que o javali de Erimanto fosse levado com vida até Micenas”

5. “que limpasse os célebres e imundos currais do rei Áugias.

Áugias, governante de Élis, possuía os maiores rebanhos do mundo: por graça divina, seus animais eram livres de doenças, além de gozar de uma fertilidade sobrenatural. Mas toda fortuna tem seu lado fétido. Áugias possuía tantos bois, cavalos e ovelhas que nem mesmo um exército de servos seria capaz de limpar diariamente os currais de Élis. Havia 30 anos que o esterco de milhares de animais se acumulava em grotescas e imensas camadas nos pátios e nas paredes. Euristeu divertiu-se imaginando o grandioso Hércules a carregar infinitos baldes de estrume em seus ombros heróicos.”

Em um único dia, e sem sujar as mãos, Héracles realizou a faxina mais célebre da mitologia grega.”

6. “As aves do Estínfale tinham bicos, patas e plumas de bronze. Ao voarem pelo céu, despejavam na terra um dilúvio de penas afiadas como punhais. Héracles [foi] encarregado de livrar a Arcádia daquela praga” “Atena presentou Herácles com 2 címbalos (castanholas de metal), forjadas por Hefesto.”

7. ONDE ESTÁ ARIADNE? “Havia décadas que a ilha de Creta era assolada por um touro selvagem que soltava chamas pelas ventas, incendiando plantações e derrubando casas com os chifres. (…) foi esse mesmo animal quem engendrou o Minotauro. (…) amansado por Héracles, o touro ficou anos perambulando pela Grécia sem causar danos.”

8. “4 éguas incrivelmente ferozes, que viviam atadas a grossas correntes de ferro. (…) Sempre que algum viajante desavisado pedia hospedagem em seu palácio, o sádico Diomedes presenteava suas éguas com um horrendo banquete. (…) Héracles desafiou Diomedes para um duelo e derrubou-o a golpes de clava. Depois, jogou-o na baia das éguas antropófagas, que devoraram seu dono ainda vivo. (…) Amansadas e tornadas herbívoras, as éguas passaram o resto de seus dias pastando em Micenas.”

9. “A região da Frígia (parte da atual Turquia) era ocupada pela belicosa nação das Amazonas. Elas eram súditas de Ares, o deus da guerra (…) Hipólita, a rainha das Amazonas, não usava coroa na cabeça: em vez disso, andava sempre com os belos quadris cingidos por um cinturão de ouro. Admeta, a mimada filha de Euristeu, sonhava em adornar-se com aquele famoso enfeite.”

O filho de Zeus reuniu uma tropa de confrades heróicos, entre os quais se incluía Teseu [Plutarco], rei de Atenas, e zarpou rumo à Frígia. Ancorou seu navio no litoral e enviou uma mensagem a Hipólita, convidando-a para um banquete a 2: pretendia usar seus dotes de sedutor para resolver a questão.”

Seduzida pelo corpo musculoso de Héracles, Hipólita lhe ofereceu de bom grado o cinturão de ouro, como prova de amor. Tudo teria acabado sem derramamento de sangue, não fosse por Hera. Transformando-se em amazona, a deusa correu pelo acampamento e gritou que os gregos haviam raptado a rainha. (…) Comandados por Héracles e Teseu, os gregos conseguiram repelir o ataque e zarparam, levando Hipólita como prisioneira. Héracles apoderou-se do cinturão, deu um rápido beijo em Hipólita e depois a entregou a Teseu. A rainha das Amazonas acabou se apaixonando pelo rei de Atenas, com quem teve um filho, chamado Hipólito.”

10. “Gerião, descendente dos antigos Titãs, era o rei da cidade de Tartessos, nos confins ocidentais do mundo, às margens do Rio Oceano. Nascera com 3 cabeças, 6 braços e 3 troncos unidos pela cintura; sua maior riqueza era um rebanho de belíssimos bois vermelhos, que ficavam a pastar nas bordas do mundo. (…) mirando um dos flancos do monstro, conseguiu trespassar-lhe os 3 corpos com uma única e compridíssima flecha. (…) atravessar toda a Europa com o gado roubado. Héracles passou anos tocando a boiada até chegar a Micenas.

11. “No dia em que se casou com Zeus, Hera recebeu de sua avó, Gaia, um presente deslumbrante: uma árvore que dava refulgentes maçãs de ouro.”

Segundo as profecias do Oráculo de Delfos, nenhum mortal podia colher os frutos da macieira sagrada sem perecer. (…) Chegando ao pé do gigante Átlas, ofereceu-se para aliviar seu fardo por algum tempo – desde que o Titã lhe trouxesse alguns frutos do jardim encantado.”

12. “Os antigos gregos conheciam duas entradas para o reino de Hades: a caverna Aquerúsia, às margens do Mar Negro, e uma fenda nos rochedos do Cabo Tênaros, no Peloponeso.”

Antes de se engalfinhar com o cão infernal, Héracles foi pedir permissão ao dono da fera – Hades. O temido Senhor dos Mortos respondeu que o herói podia levar o monstro, desde que conseguisse capturá-lo sem utilizar nenhuma arma.”

* * *

Após pagar seus pecados cumprindo as 12 tarefas colossais, Hércules continuou perambulando pela Grécia e realizando as mais variadas façanhas – tantas que seriam necessários muitos livros iguais a este para contá-las.” “Dejanira amava loucamente seu marido, mas se ressentia de suas constantes infidelidades (também nisso Héracles havia puxado ao pai).”

A GUERRA DE TRÓIA

Na época de Platão e Aristóteles, os gregos consideravam a Guerra de Tróia o marco fundador de seu país.”

Como disse Homero, em um dos mais célebres versos da Ilíada: <Os deuses criam sofrimentos e conflitos para que os homens tenham histórias para contar>.”

Quando Helena tinha apenas 12 anos, sua beleza já causava batalhas. Teseu, rei de Atenas, reuniu um exército e invadiu Esparta só para raptá-la. Enfurecidos, Cástor e Pólux convocaram um batalhão de espartanos e devastaram a Ática, região onde ficava Atenas, até encontrar e resgatar a irmã. Nascia ali a rivalidade entre Atenas e Esparta, que se estenderia até os tempos históricos.”

Tíndaro entregou sua cobiçada filha adotiva a Menelau, irmão do riquíssimo Agamênon – o mais abonado dos soberanos gregos, que governava a grande cidade de Micenas. O próprio Agamênon recebeu a mão de Clitemnestra – forjando, assim, um vínculo formidável entre duas das cidades mais poderosas da península grega.”

A belíssima Tétis já atraíra olhares cobiçosos de Zeus; mas o senhor do Olimpo não se atrevera a possuí-la: segundo uma profecia, o filho de Tétis estava destinado a ser muito mais poderoso que seu pai. Por isso, a divina Tétis foi obrigada a casar-se com um mortal. Essa união estava fadada à infelicidade: Tétis ficaria jovem para sempre, enquanto Peleu envelheceria como todos os homens. Ainda assim, as núpcias entre a Nereida e o Argonauta foram uma celebração grandiosa. O festim, organizado pelo centauro Quíron, ocorreu nos prados à sombra do Monte Pélion – e foi ali que, pela última vez, deuses e mortais se sentaram lado a lado, compartilhando a mesa.”

DON JUAN & O REINO DAS 3 MULHERES

“Ouvi dizer que ninguém conhece mais a beleza feminina do que um pastorzinho que vive nas encostas do Monte Ida. O nome dele é Páris.” “Quando estava grávida de Páris, a rainha Hécuba sonhara que dava a luz a uma tocha – e as chamas consumiam toda a cidade. Um adivinho previu que o menino em seu útero seria a ruína de todos os troianos. Por isso, tão logo nasceu, Páris foi entregue a um pastor, que o criou nas encostas do Monte Ida. Naquelas paragens idílicas, o jovem exercitou suas perícias inatas de sedutor: no seu rol de conquistas, estavam não apenas as pastoras e camponesas da vizinhança, mas também ninfas que viviam nos bosques vizinhos.” “Com palavras doces, intimaram o pastor a fazer o mais célebre e funesto julgamento de beleza na história. Páris confessou-se indeciso: todas as candidatas eram deslumbrantes.

– Ajudaria se tirássemos a roupa? – sugeriu uma.

O troiano assentiu com o mais perfeito sorriso de satisfação. Contemplou, num instante, a metafísica nudez de Hera, Atenas e Afrodite (…)

– Não tenho como decidir, são todas lindas.

As candidatas apelaram para uma estratégia tão antiga quanto homens e deuses: o suborno. Hera prometeu-lhe o domínio sobre todos os povos da Ásia. Atena jurou torná-lo o mais sábio dos homens. Mas foi Afrodite quem ofereceu a ele a propina mais sedutora:

– Se me escolher, eu lhe darei o amor de Helena de Esparta, a mais bela de todas as mortais.

O pastor troiano não teve dúvidas: escolheu Afrodite, ganhou o ódio de Hera e Atena.

Ao fazer seu julgamento, Páris era apenas um adolescente, e ainda não sabia de sua origem ilustre.”

Elevado subitamente da pobreza ao fausto, ele tornou-se um dândi na corte troiana: sempre vestido com extravagância, coberto de perfumes e com os cabelos luxuosamente penteados.”

No dia em que Páris tomou o navio para Esparta, sua irmã, Cassandra, começou a chorar convulsivamente.

– Ele nos trará a morte, o fogo e a ruína – ela soluçou; Cassandra tinha o estranho e malfadado talento de ver o futuro com minúcias, mas as pessoas preferiam não ouvir suas previsões. Isso porque, certa vez, a princesa recusara os avanços de Apolo. Como castigo, ele condenara Cassandra a vislumbrar o destino pavoroso de sua família – sem poder fazer coisa alguma para mudá-lo.”

Exemplo de lealdade fraterna, Pólux não aceitou abandonar seu querido irmão àquele destino fantasmagórico. E decidiu dividir sua imortaidade com Cástor: Assim, os dois irmãos passaram a se revezar entre o céu e o inferno: até hoje, cada um deles passa um dia no Olimpo e outro no reino dos mortos. Encontram-se, às vezes, no meio do caminho, e conversam brevemente sobre os tempos em que andavam sobre a Terra. Em honra a eles, Zeus colocou no céu a constelação de Gêmeos – hoje, um símbolo do Zodíaco.”

Os modos de Páris logo atraíram a atenção das espartanas, acostumadas a homens que pensavam apenas em matar e conquistar.” Pouco verossímil… “Helena deixou-se levar, com uma mistura de medo e excitação.”

Naquela época, vivia em Argos um célebre adivinho, de nome Calcante. Foi um dos maiores videntes do mundo antigo, superado apenas por Tirésias. Alguns dizem que Calcante era troiano, mas fugira da cidade natal depois de contemplar, em uma visão do futuro, a ruína total da cidade. O certo é que, alguns anos antes, Calcante fizera uma profecia famosa: os muros de Tróia jamais cairiam, a menos que o filho de Peleu e Tétis estivesse entre os atacantes.”

Aquiles, aos 15 anos, já tinha um insaciável apetite por fama e glória.” “Aquiles também fez questão de levar Pátroclo – seu primo mais velho, que era também seu melhor amigo.”

Alguns soldados começaram a murmurar, impacientes, que os deuses zombavam de Agamênon. Os mais ousados já começavam a ridicularizar o pomposo título do <Rei dos Heróis>.” “os deuses não esquecem – muito menos as deusas. Agora Ártemis o tinha na palma da mão.”

Aquiles, que nada sabia daquela trama, enfureceu-se. Jamais tivera grandes simpatias por Agamênon, e o complô forjado com seu nome o atingiu como uma ofensa mortal. Já sacando a espada, e carregando a lança de carvalho presa às costas, ele correu à tenda de Agamênon, onde Ifigênia estava agora presa.” “- Essa é a vontade dos deuses – disse Ifigênia. – Não deixarei que a Grécia se destrua por minha causa.” “A frota grega finalmente partiu. Mas o entusiasmo dera lugar a um ânimo sombrio. Da amurada dos navios, alguns guerreiros avistaram uma figura vestida de negro que cavalgava para longe. Era Clitemnestra, de luto, retornando a Micenas. Em seu coração destroçado ela levava um único objetivo: vingar-se, um dia, de seu desnaturado esposo, o Rei dos Heróis.”

Egeu – cujas águas tinham cor de vinho, conforme garantem os poetas antigos”

Os encantos de Helena haviam enfeitiçado Tróia. A cidade inteira se apaixonara por ela. Príamo a amava como se fosse uma filha. Na rua, as pessoas soltavam gritos de êxtase ao vê-la passar. Em sua maioria, os troianos esperavam que as ameaças gregas nã passassem de blefe.”

A disputa entre gregos e troianos se transformou em uma verdadeira obsessão para a divina família do Olimpo – cujos membros resolveram acertar suas disputas internas usando o mundo dos mortais como tabuleiro.” DV 1914

Apolo foi outro que decidiu lutar ao lado dos troianos. Já Posêidon tinha protegidos em ambas as trincheiras. As preferências de Zeus também pendiam ora para um lado, ora para outro.”

Heitor, o filho mais velho de Príamo e Hécuba, se tivesse de escolher entre a glória e a felicidade, certamente teria preferido a segunda opção.”

os gregos estavam paralisados pelo medo de uma profecia: acreditava-se que o primeiro soldado a pisar nas areias da Trôade seria morto naquele mesmo dia.

Para dar fim à hesitação geral, Odisseu recorreu a um de seus estratagemas mais traiçoeiros. Jogou seu escudo na praia e pulou sobre ele, tendo o cuidado de não encostar um único dedo na areia troiana. O barco de Protesilau, rei da Filácia, estava junto à embarcação de Ítaca. <Ótimo>, pensou Protesilau, sem reparar no escudo sob os pés de Odisseu, <a profecia cairá sobre ele. Acabaram-se seus ardis, Odisseu!>. No instante seguinte, Protesilau saltou à praia – afundando até os tornozelos nas dunas salgadas. A cavalaria troiana avançou sobre ele. O rei da Filácia derrubou vários inimigos, mas a lança de Heitor acabou por lhe atravessar o peito.”

Que os gregos ficassem lá fora, na planície, espremidos entre as muralhas e o mar. Havia fontes de água potável dentro da cidade, e caminhos secretos ligavam Tróia à região da Dardânia, no Norte. De lá, viriam suprimentos e aliados.” “Nesse impasse, correram 9 anos.”

Briseis & Criseida

Nos ataques às regiões vizinhas, os gregos não roubavam apenas jóias e armas, mas também mulheres.” “Agamênon, querendo esquecer o ódio que vira nos olhos de Clitemnestra, tomou por concubina uma bonita jovem chamada Criseida. Filha de Crises, um sacerdote de Apolo, ela fôra capturada na cidade de Moésia, a leste do Monte Ida. Durante o saque de Lirnesso, Aquiles capturou a desejável rainha Briseis.” “Por algum tempo, Briseis conseguiu apagar da atormentada mente de Aquiles a lembrança de Ifigênia.”

Naquele momento de cansaço e desânimo generalizado, gregos e troianos poderiam ter feito as pazes. Mas uma série de acontecimentos acabou precipitando uma seqüência de fatos trágicos”

No início da primavera, Crises, o sacerdote de Apolo, veio ao acampamento grego implorar a devolução de sua filha, trazendo um rico resgate. Mas Agamênon o escorraçou aos gritos. Furioso e humihado, Crises ajoelhou-se à beira do mar e invocou a vingança de Apolo. Suas preces chegaram ao Olimpo, e a face dourada de Apolo ficou escura de raiva.” “Empunhando o arco, o deus disparou suas setas contra as hostes gregas. Cada guerreiro alvejado tombava ao chão, com febre, delirando. Durante 9 dias, as flechas de Apolo espalharam uma praga mortal pelo acampamento grego. Piras crepitavam do entardecer à alvorada.”

– Fizemos por merecer a cólera de Apolo – disse Aquiles. – Que o grande Rei devolva sua concubina, e escolha outra. Graças aos nossos esforços, há muitas prisioneiras e muitas riquezas à sua disposição.

A maioria dos guerreiros apoiou a sugestão – e todos sorriram ante a agulhada indireta contra o Rei dos Heróis. Agamênon foi obrigado a ceder, mas a raiva borbulhava em sua alma: há tempos ele ressentia a popularidade de Aquiles entre os soldados.

– Muito bem, Criseida voltará aos braços de seu pai – disse o rei. – Mas com uma condição. Aquiles, você mesmo disse que posso escolher quem eu quiser, entre as nossas prisioneiras. Pois bem, tragam-me Briseis agora mesmo. Ela será a minha concubina! E esta noite o seu leito ficará vazio, filho de Peleu.

Os olhos de Aquiles coruscaram. Sua mão desceu ao cabo da espada – e ele teria decapitado Agamênon ali mesmo, de um único golpe, se não fosse por Atena.” “Invisível aos olhos mortais, ela correu feito uma rajada de vento até Aquiles e sussurrou em seu ouvido:

– Não cometa essa loucura. Aguarde. Os deuses lhe darão glória redobrada, se você obedecer.

Aquiles respirou fundo. Controlando a muito custo seu impulso assassino, o filho de Peleu abriu os braços e gritou:

– Pois então escute meu juramento, Rei dos Heróis! Os troianos jamais me ofenderam. Não roubaram meu gado nem feriram minha família. Foi em busca de glória que cruzei o mar, mas encontrei vergonha. Minha espada não vai se erguer novamente contra Tróia, e os teus soldados serão derrubados um a um pelo grande Heitor. Que desgraça ter de combater um inimigo tão valoroso, em nome de um aliado tão estúpido!”

* * *

Cansado do desprezo que lhe votavam os troianos, Paris estava disposto a provar seu valor. Desafiou os gregos a enviarem contra ele seus maiores campeões.

No mesmo instante, Menelau avançou de espada à mão, sequioso de vingança. Antes que o combate tivesse início, Heitor e Odisseu avançaram para parlamentar. Combinou-se uma trégua. Todos concordavam que aquela guerra já durava tempo demais. Ficou acertado que o vencedor daquele duelo ficaria com Helena – e o conflito chegaria ao fim, sem que mais ninguém tivesse de morrer.

A luta começou. Páris foi o primeiro a arremessar a lança, que foi cravar-se no escudo do grego. Emseguida, o troiano esquivou-se à azagaia do rei de Esparta, que em seguida o golpeou com a espada. A lâmina se partiu contra o elmo de Páris, mas o príncipe perdeu o equilíbrio e caiu para trás. Com um grito de triunfo, Menelau agarrou-o pelo capacete e começou a arrastá-lo em direção às linhas gregas. Com os cordões do elmo estrangulando seu pescoço, Páris desmaiou. A Guerra de Tróia teria acabaodo naquele momento, se não fosse por Afrodite- vendo seu querido súdito à beira da morte, ela desceu ao campo de batalha envolvida em uma nuvem de vapor e arrebatou o príncipe troiano. De repente, Páris descobriu-se em seu quarto, deitado sobre os lençóis perfumados – e, lá fora, a matança recomeçou. Enquanto Menelau procurava inutilmente o inimigo que acabara de derrubar, um arqueiro troiano chamado Pândaro cometeu a tolice de disparar seu arco – Atena o havia inspirado traiçoeiramente a alvejar o rei de Esparta. A flecha acertou a cintura de Menelau – a fivela do cinto evitou uma ferida mortal, mas o sangue escorreu por suas pernas, e um grito de indignação se levantou das linhas gregas. A trégua estava rompida.”

os mirmidões permaneciam ociosos junto aos navios, entretendo-se a tocar lira ou lançar discos, enquanto seu chefe continuava cismando com os olhos fixos no mar.”

Foi graças a Diomedes que a investida troiana foi rechaçada. Num duelo encarniçado, ele quebrou com um pedregulho a perna de Enéias – o guerrero mais hábil entre os troianos, depois de Heitor. Enéias era fruto dos amores entre Afrodite e o mortal Anquises, um nobre da família real troiana. Mais uma vez, a deusa do amor desceu à batalha – agora, para salvar seu amado filho.

Os deuses, sempre que desejavam, podiam ficar invisíveis aos olhos mortais – indo e vindo feito uma brisa ou um pensamento. Naquele dia, contudo, Atena conferiu a Diomedes um dom formidável: o poder de ver os deuses a qualquer momento, em qualquer lugar. Em meio ao furor da batalha, o jovem rei avistou a forma luminosa de Afrodite descendo em direção a Enéias. Diomedes não teve dúvidas: arremessou a lança com toda a força, rasgando o delicado vestido da deusa e perfurando a aromática pele de seu braço. Pelo pulso de Afrodite, escorreu o icor – o néctar dourado que flui nas artérias divinas, assim como o sangue corre pelas veias dos mortais. Com um grito de dor, Afrodite deixou cair Enéias e fugiu em direção ao Olimpo.

Inebriado por sua façanha, Diomedes admirou a bela figura da deusa que fugia, derramando gotas de ouro. Apolo, oculto numa nuvem de poeira, aproveitou o momento para apanhar Enéias nos braços e levá-lo para bem longe dali. Diomedes, sempre tão ponderado, estava naquele dia possuído pelo espírito da ousadia. Num salto, disparou atrás de Apolo, tentando acertar Enéias. Três vezes o golpeou com a espada, e três vezes Apolo repeliu seu ataque. Diomedes erguia a mão para desferir o quarto golpe quando Apolo voou pelos ares e depositou o filho de Afrodite no alto do Monte Pérgamo. Se não fosse por isso, toda a história do mundo teria sido diferente – pois foram os descendentes de Enéias que, muitos séculos depois, fundaram o Império Romano.

Disposto a vingar Afrodite, com quem tinha um antigo caso de amor, Ares lançou-se sobre os gregos brandindo sua acha gigantesca. Avistando o vulto monstruoso, que ceifava homens como se fossem bonecos, Diomedes correu até ele com fúria. Naquele instante, Atena conferiu ao seu braço força redobrada – e a lança de Diomedes enterrou-se no ventre de Ares, no ponto exato em que a couraça terminava. O icor jorrou, e o deus da guerra soltou um grito horrendo; por um instante, ambos os exércitos ficaram paralisados de medo.

Diomedes respirou fundo e piscou os olhos. Ares fugia pelos ares, rumo ao Olimpo. Em uma única tarde, o jovem rei de Argos havia enfrentado três deuses – façanha que os poetas do futuro jamais esqueceriam.”

Naquela mesma tarde, Heitor tentou novamente resolver a guerra com um combate singular. Erguendo a lança de bronze diante das linhas troianas, convocou nova trégua e desafiou os inimigos a enviar seu maior campeão para um duelo. Os gregos tiraram a sorte; e a escolha recaiu sobre o Grande Ájax. Ele avançou com seu famoso escudo, constituído por 7 camadas de couro de boi e uma grossa chapa de bronze. O príncipe de Tróia e o príncipe de Salamina duelaram a golpes de lança, sob os brados de ambos os exércitos, enquanto o sol caía em direção ao horizonte. No início da noite, detiveram-se, arfantes e ensangüentados: o resultado do duelo fôra um justíssimo empate. A luta renhida havia criado um laço de respeito mútuo entre os dois inimigos, que trocaram elogios e presentes. Ájax brindou Heitor com um suntuoso boldrié de cor púrpura [cinturão], enquanto o troiano lhe deu sua espada, uma formidável arma de bronze marchetada em ouro. Separaram-se como amigos, embora soubessem que no dia seguinte a guerra recomeçaria. Não desconfiavam que Moira determinara um papel sombrio para os presentes que haviam garbosamente trocado.”

– Me empreste sua armadura! – Pátroclo suplicou. – Ao me verem, os troianos pensarão que o grande Aquiles voltou à luta, e sairão em debandada!

A contragosto, Aquiles assentiu. Não queria roubar do primo a chance de mostrar seu valor. E assim, Pátroclo ajustou ao corpo a legendária armadura de Aquiles, a mesma que Peleu havia recebido no dia de seu casamento: couraça e grevas [caneleiras] banhadas em ouro, reluzentes como o sol refletido nas águas. O capacete escondia seu rosto, deixando de fora apenas os olhos e a boca.” “o deus Apolo, na forma de um nevoeiro, zproximou-se dele pelas costas e desferiu um terrível soco entre suas omoplatas. O elmo voou longe, Pátroclo perdeu o fôlego, cambaleou – e sentiu uma estocada no ventre. Num átimo, Heitor lhe havia atravessado a barriga com o pontiagudo bronze.” “Tétis viajou até as profundezas do Monte Vesúvio e pediu a Hefesto, o ferreiro dos deuses, que forjasse para Aquiles uma nova armadura e um novo escudo. Tão logo recebeu o equipamento divino, Aquiles subiu em seu carro de guerra.” “o herói, transformado em carniceiro, atirou-se nas águas atrás de suas vítimas e degolou-as a todas como se fossem cordeiros.” “Ele era apenas um homem, e teria de enfrentar um semideus em plena fúria.” “Tentou cansar Aquiles, obrigando-o a correr atrás dele, ao redor dos muros; mas por fim se deteve e avançou, de espada em punho, coberto pela armadura que tirara de Pátroclo. Aquiles abaixou-se atrás do escudo de Hefesto, buscando com os olhos algum ponto vulnerável no inimigo. Viu uma fresta entre a couraça e o elmo, e para lá dirigiu sua azagaia, com impulso brutal: a ponta de bronze entrou na garganta e saiu pela nuca. Heitor tombou numa golfada de sangue. E seu espírito despencou vertiginosamente rumo à Mansão dos Mortos, lamentando sua família, sua juventude perdida e a iminente queda de Tróia.”

Certa noite, quando o acampamento grego estava mergulhado no sono, Hermes, o arauto divino, conduziu o rei Príamo à tenda de Aquiles. O soberano de Tróia, devastado por anos de perdas e sofrimentos, viera implorar que lhe entregassem o corpo do filho. De joelhos, fez uma das súplicas mais célebres nas histórias e nas lendas antigas:

– Para que Heitor tenha o funeral que merece, farei agora o que ninguém mais suportaria fazer: vou beijar a mão do homem que matou meu filho.” “Aquiles escoltou Príamo até o território troiano e prometeu-lhe uma trégua de 11 dias para que a cidade celebrasse os funerais do grande Heitor.”

O filho de Peleu e Tétis estava cansado daquela guerra, que lhe parecia sem sentido. Já se arrependia da escolha que fizera anos atrás – seria tarde demais para mudar de idéia e trocar a glória letal por uma tranqüila e vulgar felicidade?

Em vez de combater, ele agora preferia freqüentar o templo de Apolo Timbriano, uma singela construção nos arrabaldes da cidade, que era considerada território neutro. Lá, gregos e troianos às vezes se encontravam quando iam fazer preces e oferendas. Numa dessas ocasiões, Aquiles avistou Polixena, uma das filhas mais novas de Príamo. Foi só então que a lembrança de Ifigênia desapareceu de sua mente. O guerreiro invencível foi sobrepujado por uma paixão incontrolável pela princesa troiana. Era um amor tão avassalador que Aquiles se dispôs a trair os companheiros. Enviou mensageiros a Príamo, garantindo que ajudaria os troianos contra os gregos, se Polixena lhe fosse dada em casamento. O rei de Tróia concordou; mas Polixena e seus irmãos odiavam Aquiles amargamente, e aproveitaram-se daquela paixão para vingar a morte de Heitor. Encontrando-o em segredo no templo de Apolo, Polixena envolveu o grego em seduções e indiretas, até fazê-lo confessar qual era seu único ponto invulnerável – o calcanhar [Sansão, o Plágio]. Depois, pediu que Aquiles voltasse ao templo dali a alguns dias, sozinho e desarmado, para celebrar o matrimônio.

Jamais saberemos se Aquiles desconfiou de alguma coisa. O fato é que cumpriu o desejo de sua amada. Deífobo, irmão de Heitor e Polixena, recebeu-o junto ao altar e lhe deu um abraço, fingindo acolhê-lo como membro da família. Mas, naquele momento, Páris, tocaiado atrás da estátua de Apolo, disparou uma flecha envenenada no único ponto fraco do mais poderoso dos gregos. Outros troianos, que estavam escondidos atrás do altar, saltaram sobre Aquiles. Mesmo ferido e desarmado, ele matou vários inimigos a socos.” Cronologia bastante desrespeitada pelas adaptações.

Após a morte de Aquiles e Ájax, os gregos começaram a se desesperar.”

Filoctetes embarcou rumo às praias de Tróia, com 10 anos de atraso. Sua ferida, com efeito, foi tratada e curada por Macaôn e Podalírio, filhos de Esculápio, deus da medicina – que tinham vindo da Tessália, para se juntar às tropas gregas.

Tão logo sentiu a perna sarar, Filoctetes desafiou Páris a um duelo de arco e flecha. Páris disparou a primeira seta, e errou; Filoctetes atirou 3 projéteis na seqüência, acertando o troiano na perna, no peito e no rosto. E, assim, o maior mulherengo das lendas e dos mitos encontrou seu fim, trespassado de setas e fulminado pelo nefasto sangue da Hidra de Lerna – que, anos depois de sua derrota às mãos de Héracles, continuava fazendo vítimas entre os humanos.

Os gregos haviam queimado o próprio acampamento. Todos os navios tinham zarpado.” “O vidente Calcante anunciou que, se essa estátua fosse levada para o interior de Tróia, o rei Príamo acabaria por derrotar os gregos. Por isso, a estátua fôra construída de tal forma que não pudesse ser transportada pelos portões da cidade.” “Príamo foi massacrado, com grande parte de seus filhos, no pátio do templo de Zeus. Cassandra refugiou-se no templo de Atena, mas o Pequeno Ájax a perseguiu sem piedade, e alguns dizem que ele a violentou ali mesmo, sobre o altar da deusa. Menelau finalmente reencontrou Helena, e estava prestes a degolá-la por sua mortífera infelidade quando a filha de Leda abriu o vestido, mostrando-lhe seus mitológicos seios [HAHA!]. Helena já tinha quase 50 anos à época, mas as gotas de icor em suas veias lhe conservavam o frescor de eterna adolescente. Menelau foi incapaz de destruir tanta beleza e levou-a de volta a Esparta, onde Helena remoeu remorsos, lembranças e saudade até o fim de seus dias.” “Embora odiasse os troianos, Atena ficara enojada com o estupro de Cassandra em seu altar. Quando o navio do Pequeno Ájax se aproximava da Lócrida, ela jogou sobre ele uma tremenda tempestade. O navio afundou, mas Ájax, que era exímio nadador, conseguiu salvar-se com vigorosas braçadas. Escalou um penhasco que se erguia entre as ondas e, lá do alto, gritou:

– Nem mesmo os deuses podem me matar!

Irritado com aquela arrogância, Posêidon ergueu-se do fundo do mar e destroçou o Pequeno Ájax com um golpe de tridente.”

Agamênon retornou a Micenas levando Cassandra como concubina. Mas sua esposa, Clitemnestra, jamais lhe perdoara o sacrifício de Ifigênia. Com a ajuda de um amante, chamado Egisto, a rainha tramou o assassinato do esposo. Durante um banquete, Agamênon foi enveneado e esfaqueado até a morte. Electra e Orestes, filhos do casal, eram pequenos demais quando a irmã Ifigênia fôra morta e mal se lembravam dela. Por isso, ficaram horrorizados com o assassinato do pai. A tragédia completou-se quando Orestes e Electra resolveram vingar a morte de Agamênon, encurralando e matando Egisto e Clitemnestra. A terrível história da família de Agamênon é um dos temas das peças de Ésquilo e Eurípides, dois dos maiores escritores gregos.

OS ARGONAUTAS

O Oráculo de Delfos assim havia determinado: os campos de Orcômenos só voltariam a florescer quando o rei sacrificasse os próprios filhos, o príncipe Frixo e a princesa Hele.”

Assim como havia ninfas dos rios, das florestas e das montanhas, também havia ninfas das nuvens – e Nefele era uma delas. Naqueles tempos, aliás, o céu era habitado por uma ampla variedade de criaturas voadoras. Nefele desfrutava a amizade do famoso Carneiro Dourado. Filho de Posêidon e da mortal Teofane, o animal tinha lãs de ouro, era inteligente como um ser humano e capaz de voar como um pássaro.” “Segundos depois, Frixo e Hele cruzavam o céu, agarrados à lã dourada. Lá embaixo, terras e mares sucediam-se loucamente, e o vôo do divino animal os arrebatava para longe da Grécia. Encantada por aquela visão, Hele inclinou-se demais, perdeu o equilíbrio e despencou pelos ares. A princesa tombou e afundou nas águas de um estreito entre o Mar Negro e o Mar Egeu. E o local passou a ser conhecido como Helesponto, ou Mar de Hele (hoje o nome do estreito é <Dardanelos>).” “Eram os picos do Cáucaso, no limite entre a Europa e a Ásia. E o Carneiro pousou.

Exausto, o fantástico animal soltou o último suspiro. Mas seu espírito disparou rumo às alturas, e subiu e subiu até ultrapassar as nuvens e chegar às estrelas, onde está até hoje – o Carneiro do Zodíaco. Já sua lã dourada ficou aqui embaixo – com ela, Frixo confeccionou o Velocino de Ouro.”

DIC – velocino: diminutivo de tosão, velo

O homem destinado a roubar o Velocino era Jasao, filho de Éson, rei da cidade de Iolcos, na Tessália. Quando Jasão era ainda criança, Éson foi destronado pelo irmão, Pélias. O usurpador trancafiou o rei no calabouço e enviou soldados para capturar o bebê. Mas Alcimede, mãe de Jasão, conseguiu enviar o filho, em segredo, para fora da cidade. O príncipe sem reino foi entregue ao centauro Quíron, que o educou no costumeiro curriculo dos heróis gregos.”

Pélias não queria matar um parente – pois poderia incorrer na vingança das Erínias [Fúrias], que punem todos aqueles que vertem o sangue da própria família. (…)

– Eu lhe entregarei o trono – disse – se você viajar até a Cólquida e me trouxer o Velocino de Ouro.” “Em seguida, Jasão enviou emissários a todas as côrtes da Grécia, convocando voluntários para aquela missão. A fama do Velocino de Ouro e a perspectiva de gloriosas aventuras atraíram alguns dos maiores heróis da época. O primeiro a atender a seu chamado foi Argus, um célebre construtor naval. Ele projetou o maior navio dos tempos mitológicos: uma galera com 50 remos – batizada de Argo, em honra ao seu construtor. E 50 guerreiros foram escolhidos para tripular o navio – dali por diante conhecidos como Argonautas.

O grande Héracles fez uma pausa em seus 12 Trabalhos, trazendo consigo Hilas, seu filho com a ninfa Melite. Cástor e Pólux, irmãos de Helena, foram os representantes de Esparta. De Atenas, vieram Zetes e Calais – marinheiros alados, filhos da princesa Orítia e de Bóreas, o tormentoso Vento Norte. Do pai, haviam herdado as asas majestosas e rápidas. Outro Argonauta célebre foi Orfeu, o maior poeta e músico dos mitos gregos. Seu talento era sublime: quando dedilhava sua harpa na solidão das florestas, as árvores moviam-se lentamente em suas raízes, ao ritmo da música, e os animais selvagens vinham deitar-se a seus pés.

(…) Eufemo, timoneiro do Argo, que por ser filho de Posêidon caminhava sobre as águas; os irmãos Peleu e Telamon, que teriam filhos famosos – Peleu é o pai de Aquiles e Telamon, do Grande Ájax. Era a maior aventura marítima que o mundo já vira.”

Para os gregos, a Cólquida [atual Geórgia] era um desses lugares tão remotos que sua localização se perdia nas fronteiras da fábula.” “Depois de várias semanas de viagem, fizeram uma parada em Quios.”

De súbito, Hilas sentiu que muitas mãos frias e suaves o prendiam em um abraço irresistível – eram as náiades, ninfas das águas, que haviam se apaixonado pelo belo filho de Héracles. Incapaz de resistir, o rapaz deslizou para o fundo do rio, acariciado pelos dedos gélidos da correnteza.” “Os dias se passaram. O Argos estava pronto para zarpar. Jasão esperou o máximo que pôde – mas finalmente percebeu que Héracles não voltaria. E assim a expedição partiu, deixando para trás seu mais poderoso tripulante.

Depois de Quios, os Argonautas deram voltas e mais voltas pelas águas – sua navegação completa é narrada no poema Argonâutica de Apolônio de Rodes.

Ilha de Salmidesso, no Mar Negro. Lá vivia, solitário e esfomeado, um adivinho chamado Fineu – que certa vez havia enfurecido Zeus com a atrevida precisão de suas adivinhações. Achando que Fineu já havia revelado muitos planos divinos aos mortais, o senhor do Olimpo o amaldiçoou com a cegueira e o jogou naquela ilha deserta – onde o desditado adivinho era constantemente atormentado pelas Harpias. Sempre que Fineu conseguia juntar, às apalpadelas, algumas frutas ou nozes para comer, gritos esganiçados rasgavam o céu, e lá do alto desciam duas criaturas horrendas, que misturavam no mesmo corpo a cabeça de mulher com as asas e garras de pássaro.

As Harpias arrancavam a comida às fracas mãos de Fineu, que era obrigado a alimentar-se de migalhas.

O adivinho amaldiçoado implorou ajuda ao grupo de viajantes. Jasão conferenciou com Zetes e Calais, e depois ordenou que os tripulantes preparassem uma fogueira para assar carnes. Quando o cheiro de comida começou a se espalhar, duas sombras se precipitaram das nuvens e vieram em vôo rasante atacar o banquete. Nisso, os filhos do Vento Norte sacaram as espadas e abriram as asas. Lâminas de bronze engancharam-se nas ferozes garras, e penas ensangüentadas caíram. Por fim, as Harpias debandaram. Zetes e Calais as perseguiram até que os monstros tombaram exaustos no mar, de onde jamais emergiram.”

Medéia & Jasão

A neta do Sol amava as sombras. Sem medo de monstros ou fantasmas, ela embrenhava-se nos recantos mais obscuros e selvagens colhendo raízes e ervas – para suas poções e feitiços, pois Medéia era sacerdotisa de Hécate, a terrível deusa das bruxas. Com a ajuda de sua infernal protetora, a princesa da Cólquida podia conversar com os animais, invocar o repelir tempestades acalmar ou enfurecer os mares.”

Afrodite, a deusa do amor, jogou seus laços irresistíveis sobre o espírito da princesa bruxa.” “diante do altar de Hécate, decidiu trair a própria família e ajudar Jasão.

– Mas, antes, você deve jurar que me amará para sempre – ela disse. E, agora, não havia doçura em sua voz, apenas a sombra de uma ameaça.

Jasão estendeu os dedos para tocar a pedra do altar.

– Por Hécate, eu juro.”

Jasão trazia não apenas o legendário artefato, mas também a bela e misteriosa princesa da Cólquida. Mesmo assim, Pélias recusou-se a ceder o trono – na verdade, nem sequer permitiu que Jasão entrasse em Iolcos. Numa barulhenta assembléia, os Argonautas se dispuseram a invadir a cidade. Mais uma vez contudo, foi Medéia quem salvou Jasão.” “Medéia reuniu as filhas de Pélias e fez uma demonstração de seus poderes mágicos: degolou um carneiro velho, desmembrou-o e jogou os pedaços dentro de um caldeirão com ervas e raízes. De lá, emergiu um imaculado cordeirinho.

Ante os olhos assombrados das princesas, Medéia garantiu que podia também rejuvenescer o velho rei.

– Para isso – ela acrescentou – vocês precisam fazer com ele o mesmo que fiz àquele carneiro.

As filhas de Pélias caíram na armadilha: degolaram o próprio pai enquanto ele dormia, cortaram-no em pedaços e o levaram ao caldeirão de Medéia. Mas a feiticeira não colocou no caldo borbulhante os ingredientes corretos – Pélias continuou morto, e suas filhas enlouqueceram de culpa.”

Jasão sentia mais medo que afeto por aquela que tanto o ajudara. O povo de Iolcos, horrorizado com o assassinato de Pélias, recusou-se a receber Jasão na cidade.

Os Argonautas se dispersaram – e Jasão foi embora com Medéia, para nunca mais voltar ali.”

No código das bruxas, as coisas eram simples: Hécate as livrava de qualquer peso na consciência. Para Medéia, o remorso e as recriminações de seu marido eram pura hipocrisia.

Depois de perambular pela Grécia, o casal se refugiou em Corinto, cujo rei, Creonte, era amigo de Jasão. Lá, ele e Medéia tiveram dois filhos, Mêrmeros e Feres. Apesar disso, Medéia percebeu que o marido se tornava cada vez mais distante. Agora, ele a tratava como um fardo. Na côrte de Creonte, todos a olhavam com desconfiança. (…) Na penumbra do quarto, Medéia ouviu de seu amado e ingrato Jasão as terríveis palavras:

– Você precisa ir embora.

Creonte havia oferecido a mão de sua filha, Creúsa, ao príncipe destronado de Iolcos. Mas impusera uma condição: Medéia tinha de partir. A feiticeira ouviu tudo em silêncio. Quando falou, sua voz era calma e fria como o vento que sopra à meia-noite. Relembrou tudo o que havia feito por Jasão: a ele entregara sua virgindade; por ele, abandonara seu país e renegara sua família. Se não fosse por ela, Jasão não seria ninguém.

– Não foi você quem me ajudou – o herói respondeu bruscamente, lembrando as palavras de Fineu. – É a Afrodite que devo agradecer.”

Ante aquela réplica, Medéia se calou. E assentiu, em silêncio. Jasão se surpreendeu: a inflexível Medéia havia cedido. A feiticeira parecia realmente conformada com seu destino – chegou mesmo a oferecer à princesa Creúsa um maravilhoso vestido para o casamento.

No dia da cerimônia, Creúsa entrou no templo usando a veste que Medéia lhe dera. (…) [PARASITE EVE (MITO-CÔNDRIA):] Um esgar de pânico distorceu as belas feições de Creúsa. O tecido de sua túnica se converteu em línguas de fogo.

Queria matar Medéia, sim, apagá-la da face da terra – mas, ao mesmo tempo, recordava aquele entardecer no bosque de Hécate, e o corpo nu da princesa da Cólquida sobre a relva. Lembrava também a noite em que haviam fugido, a bordo do Argo, com o luminoso Velocino nas mãos – ele e Medéia triunfantes, apaixonados. Tudo aquilo parecia ter acontecido havia muito tempo, havia séculos ou milênios.

A porta da casa se abre. Jasão estaca, incapaz de se mover. O que vê está além dos pesadelos mais sádicos. Os olhos de Medéia ressaltam em um rosto ensangüentado. Uma gargalhada sacode a feiticeira. E suas mãos vermelhas seguram o corpo dos filhos. Feridas horrendas rasgam suas carnes. A mãe ri; ri sem loucura, ri no gozo da vingança. Jasão cai de joelhos, definitivamente derrotado por aquela que mais o amou.

Um clarão o ofusca. Hélios, o deus do Sol, enviou sua carruagem, puxada por serpentes, para resgatar sua neta Medéia. Antes que os soldados de Creonte a alcancem, a feiticeira sobe ao carro dourado com o corpo dos filhos nos braços. As serpentes solares sibilam, e Jasão vê o rosto de Medéia pela última vez, enquanto ela sobe vertiginosamente ao céu.

(…) Hécate, a deusa das sombras, não esquece juras quebradas. Por ter repudiado Medéia, o herói é amaldiçoado pela senhora das feiticeiras. E vaga pela Grécia, sem que ninguém ouse acolhê-lo – solitário, esquecido e miserável.” Judeu Holandês, Errante Voador

Quem não se mata em Esparta?

Quem, aqueu, não mata bem?

Grego apaixonado, agonal e patético: vontade trágica visceral do cego. Você tem honra, mas seu ego é gratuito…

BIBLIOGRAFIA

APOLODORO. Biblioteca Mitológica

APOLÔNIO DE RODES. Argonáutica

ÉSQUILO. A Oréstia

EURÍPIDES. Ifigênia em Áulis

EURÍPIDES. Medéia

HIGINO. Fábulas

SÓFOCLES. Ájax

SÓFOCLES. Filoctetes

AS ARMAS CÔMICAS – Os interlocutores de Platão no Crátilo. Luisa Buarque. in: Estudos Clássicos. UFRJ/Cofecub (CAPES)

…os próprios deuses são brincalhões.”

Aristófanes – Acarnenses

A. – Aves

A. – Cavaleiros

A. – Pássaros

A. – Rãs

A. – Vespas

Ricoeur – La Métaphore Vive

Schleiermacher – Introductions aux Dialogues de Platon, 2004

Platão não faz uma história da filosofia, ou doxografia, à maneira aristotélica – corrigindo calculadamente os seus erros. Platão nos expõe, no fim das contas, um páthos da disputa.” “mais um sinal de que o filósofo não concebe predecessores históricos, já que apresenta discussões entre concepções vivas e atuantes.”

anonimato platônico” “tática do camaleão”

Sócrates se censura por ter sido mais agonista do que filósofo.”

erística, a arte da controvérsia”

a República, onde são tecidos os mais altos e respeitosos louvores a Homero e à sua obra, e onde, simultaneamente, o autor dedica boa parte de um grande livro a contestar a poesia homérica como método pedagógico, e a propor a substituição dessa poesia por sua própria filosofia. E também o Sofista, onde a reverência sincera ao mestre Parmênides acaba dando lugar a um parricídio que mais parece um genocídio, visto que leva ao túmulo junto com Parmênides grande parte da tradição eleata, assim como parte da sofística”

quais são as personagens históricas implicitamente chamadas à cena junto com Sócrates, Crátilo e Hermógenes?”

Com o nascimento da etimologia científica no início do séc. XIX, iniciou-se uma forte tendência a tratar o Crátilo como um diálogo distinto da maioria dos outros diálogos platônicos.” “a prática desenvolvida no Crátilo só pode ser considerada <etimológica> se esse termo for entendido em um sentido distinto do sentido moderno.”

P. está atacando uma tendência do pensamento grego de superestimar as palavras; um tal ataque frontal à cultura grega requer uma exposição meticulosa dos maus hábitos lingüísticos.” Baxter, 1992

P. tenta exorcizar a fascinação generalizada de seus contemporâneos por todas as hermenêuticas de seu tempo, rapsódica, trágica, religiosa e gramatical, que pretendiam fazer economia de uma ontologia.” Dalimier, 1998

Cálias gastara muito dinheiro com os sofistas; esse é, diga-se de passagem, um dos chistesmais bem formulados do diálogo”

O adivinho Eutífron, como se sabe, é personagem central do diálogo homônimo, que não por acaso é também um diálogo de coloração cômica. Eutífron, <espírito obtuso> segundo Méridier (2003), p. 17, costuma ser motivo de zombaria; o povo de Atenas escarnece dos seus delírios oraculares.”

se muitos afirmavam ser impossível dizer o falso tomando como base a identificação parmenídica entre ser, pensar e falar, o corolário mais perigoso de tais afirmações pode ser resumido, precisamente, pela idéia protagórica de que a diferença entre os discursos está apenas em sua eficácia e utilidade, e não em sua verdade, ou capacidade de gerar conhecimento.”

o essencial da cultura grega era heraclítico avant la lettre.” “Heráclito é o corifeu de um coro, é a mosca de um alvo que deve ser derrubado por inteiro.” “afirmar que tudo flui significa afirmar que o que antes era verdadeiro pode virar falso, de modo que não há nem sujeito de conhecimento estável nem objeto de conhecimento para ser conhecido. A ética se torna cambiante, a linguagem se torna praticamente inútil e o conhecimento impossível.” “o relativismo protagórico tem sua versão ontológica na transformação incessante dos entes, isto é, no relativismo heraclítico, e este encontra sua versão ética nas afirmações protagóricas.” “a doutrina heraclítica do fluxo e a doutrina protagórica do homem-medida.”

<A medida de todas as coisas é deus> P. em seu último diálogo, Leis, 716c4. Dinamitando a Antropologia Existencialista! Erguendo picos de dinamite para que a Europa vivesse sempre no perigo de explodir tudo…

Crátilo fala por meio de oráculos – talvez imitando seu mestre Heráclito”

O nome, para os gregos, possui uma virtude mágica, ele pode exprimir o caráter daquele que o leva e está ligado misteriosamente à sua pessoa. Donde as práticas de feitiço e de sortilégio que repousam freqüentemente sobre a crença de que se pode ter poder sobre um homem por intermédio de seu nome. Os nomes dos deuses são sagrados; as teogonias costumam explicar a essência de uma divindade pelo seu nome.” Goldschmidt, 1940

a etimologia do nome de Hermógenes é absolutamente simples e clara”

Ver, quanto às etimologias dos nomes de Aquiles, Pátroclo, Héracles, Enéas e Demódoco, entre outros, G. Nagy (1979).”

em Homero, e talvez na épica em geral, por exemplo, o nome, muitas vezes, traz em seu bojo toda a história da personagem, contém em potência o desenvolvimento do enredo daquela vida.”

os jambos, dos quais parece derivar a comédia.”

1) provavelmente a injúria pode ser assimilada ao nome próprio porque desempenha a mesma função de apelativo; 2) distintamente do nome próprio, que identifica sem atribuir nenhuma qualidade ao seu portador, aquela qualifica.” Saetta-Crotone (2005)

Crátilo é conhecido pelo extremismo narrado por Arist.: não é possível entrar nem mesmo uma vez no rio de Heráclito. Crátilo é, por assim dizer, mais realista que o rei.” “na Metafísica, Arist. diz que Crátilo fôra o primeiro professor de P., de modo que o filósofo ateniense teria sido extremamente marcado pela doutrina heraclítica.”

Aristófanes é um escritor particularmente sensível aos níveis de linguagem e à tonalidade das palavras. Foi possível provar, p. ex., que ele conhecia perfeitamente o vocabulário técnico da medicina e que suas comédias apresentavam inúmeros pontos de encontro com o corpus hipocrático. Da mesma forma, ele tem consciência da distância que separa a linguagem épica da linguagem comum.” Lamberterie, 1998

A relação de profunda admiração e rivalidade entre Aristófanes e Eurípides se revela das mais variadas maneiras e é assunto para toda uma vasta bibliografia.” “Eur. é assim tratado em As Aves como os próprios sofistas, sem maldade, mas antes com uma simpatia um pouco irônica, que mostra que aquele que zomba dele não é insensível ao que ele tem de sedutor.”

O trocadilho de Strepsíades, que liga o início e o fim da obra, tem muito mais importância do que aparenta ter à primeira vista.” “Sócrates se posiciona claramente contra a tese de que tudo flui, afirmando que, segundo ela, <nada é são, e tudo escoa e vai como vasos de argila>.” “o filósofo apresenta a mesma comparação entre o movimento rotatório dos pensamentos e dos argumentos dos sábios e o movimento giratório da fabricação da cerâmica: a vertigem circular dos sábios em geral (que também se encontram embaralhados em um mesmo saco)” Barthes diria: mas não é isso o ápice do dizer-sim nietzscheano?

uma utilização platônica de noções portadora da crítica aos pretensos sábios, que com sua propalada sabedoria, acabam por confundir-se e levar os outros à confusão.” Reversão ad infinitum do argumento: seu autor, sua melhor vítima. Está para nascer o homem que irá parar a roda…

Ao reino do turbilhão no pensatório, que se revela ao fim ser um mero reino do vaso de argila” Há quem enalteça a olaria!

utilização dúbia, em ambos os contextos, da crítica ao deus ex-machina. Na peça, é a máquina que traz Sócrates. Ela é utilizada, portanto, como recurso do próprio comediógrafo para destacar a entrada em cena de um de seus personagens principais. Recurso verdadeiramente cômico, porém, já que, ao contrário da utilização tradicional deste mesmo expediente pelos tragediógrafos, o fato de chamar atenção para o próprio recurso utilizado é parte integrante do uso aristofânico. (…) O curioso é que o Sócrates platônico, assim como o de A., utiliza a mechané. Porém, ao contrário deste, utiliza-a, mas rejeita-a posteriormente, explicitando que sua utilização anterior havia sido desonesta com seu interlocutor”

<quanto mais alto é o coqueiro, maior é o tombo do coco>. Eleva-se à maior altura possível a tese adversária para que sua queda seja mais longa e definitiva.”

Aristófanes opera um redobro da anedota: se Tales havia apenas caído em um buraco, o que já era ridículo, Sócrates torna-se duas vezes mais ridículo. Pelos mesmos motivos (isto é, por olhar para o céu para examinar os astros), uma lagartixa defeca em sua boca, o que faz com que Strepsíades corra para a sua escola, julgando que, sendo duas vezes mais ridículo do que Tales, será também duplamente útil a seus propósitos.”

Como nota Chambry (1967), no diálogo Protágoras, todo o ambiente foi tomado de empréstimo da comédia de Êupolis, Os Aduladores, também passada na casa do rico Cálias e que pinta como aduladores os sofistas, dentre os quais figura o próprio Sócrates.”

O filósofo não é retórico (Górgias), nem sofista (Sofista), nem político (Político), nem poeta (República). Mas, por outro lado, é o verdadeiro retórico (Fedro, 271a-272b), o verdadeiro Político (Górgias, 521d) e o verdadeiro poeta (Fédon, 61a e Leis, 817b2-3).”