AS LEIS – Livro X

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Com respeito às demais desordens, as mais graves são a libertinagem e os excessos da juventude. São de enorme impacto quando recaem sobre as coisas sagradas, e chegam ao cúmulo quando estas coisas sagradas interessam diretamente ao Estado, ou ao menos a uma tribo, facção ou classe relevante socialmente.”

CLÍNIAS – Estrangeiro, não crês que seja mais fácil dar provas cabais da existência dos deuses?

ATENIENSE – Que provas seriam essas?

CLÍNIAS – Em primeiro lugar, a terra, o sol e todos os astros; esta bela ordem que reina entre as estações; a divisão de anos e meses; e, por fim, o consentimento de todos os povos gregos e bárbaros, que reconhecem sem exceção a existência dos deuses.

ATENIENSE – Meu querido amigo, temo muito por vós o desprezo dessa gente má, porque dizer que eu tenha vergonha de vós é coisa que jamais se poderá afirmar. Não conheceis o que os faz pensar de maneira diferente dos demais. Credes que tem isto origem unicamente nas paixões desenfreadas e numa inclinação invencível ao prazer, e que é isto que empurra suas almas em direção à impiedade?

CLÍNIAS – A que outra causa haveríamos de atribuí-lo, Estrangeiro?

ATENIENSE – A uma que não podeis adivinhar e que deve ser desconhecida para vós que viveis separados do restante dos gregos.

CLÍNIAS – Qual é, diz-me!”

ATENIENSE – Temos em nossa Grécia um grande número de obras, tanto em verso quanto em prosa, que, pelo que ouço dizer, não são conhecidas entre vós, o que explica a bondade de vosso governo. As mais antigas dentre estas obras nos dizem, no assunto dos deuses, que a primeira coisa que existiu foram os céus e os demais corpos. Um intervalo de tempo depois, situam a geração dos deuses em si, contam-nos seu nascimento e o modo como se tratavam entre si. Se estes discursos são ou não, em certos pontos, de alguma utilidade para os ouvintes e leitores, trata-se de uma questão penosa de se responder, principalmente porque não vem de hoje.”

Vejamos nossos escritos modernos, e demonstremos em que sentido esses novos sábios são um manancial de mazelas. Eis o efeito produzido por seus discursos: quando, para provar que existem deuses, nós, vós e eu, apresentamos o sol, a lua, os astros, a terra como outros tantos deuses e seres divinos, os imbuídos da doutrina destes <neo-sábios> respondem: tudo isso é uma forma poética de descrever a terra e as pedras, que são incapazes de se imiscuir nos negócios humanos”

Estrangeiro, o sistema que acabas de expor é mui complicado de refutar, ainda quando sustentado por um autor somente; mal imagino como se o refutaria, havendo uma caterva de defensores destas idéias!”

Como pode alguém se ver premido a provar a existência dos deuses sem indignação? Aqueles que foram e são a causa presente da discussão em que vamos incorrer não deveriam merecer mais do que um olhar de esguelha e um compadecimento aborrecido.” “Quem haveria de ter paciência para instruir com calma semelhante gentalha, e começar de novo a ensiná-los, da estaca zero, que os deuses realmente existem?

filho meu, és jovem; com a devida idade mudarás tuas opiniões sobre muitas coisas e adquirirás outras contrárias às de hoje. Aguarda este dia, para aí sim te decidires sobre os maiores propósitos da vida. O que agora para ti não é de nenhuma consequência é de fato o que mais pode interessar ao homem: ter idéias exatas acerca da divindade, das quais depende todo o seu bem ou mal proceder. (…) nem tu nem teus amigos sois os primeiros a pensar como pensais acerca da existência dos deuses; em todos os tempos sempre houve dessas pessoas adoecidas, ora mais, ora menos. (…) te asseguro: nenhum dos que renegaram os deuses em sua juventude persistiu neste caminho até a velhice”

ATENIENSE – Alguns defendem que todas as coisas que existem, existirão e existiram devem sua origem umas à natureza, outras à arte e outras ainda ao acaso.

CLÍNIAS – E não têm razão?”

A arte, posterior a estes dois princípios a que deve sua existência e inventada por seres mortais como a arte mesma o é, deu origem, muito tempo depois, a essas maquinações vãs, que possuem quando muito rasgos de verdade, meras aparências semelhantes somente a si próprias. Nesta categoria se encontram as pinturas, a música e as demais artes emulativas. Se há artes cujas produções são mais concretas, estas são as que unem sua virtude especial às da natureza, artes compósitas, como a medicina, a agricultura e a ginástica. A política mesma tem pouco de comum com a natureza, sendo quase todo seu conteúdo emprestado das artes.”

Com respeito aos deuses, alegam que não existem por obra da natureza, mas sim pelas mãos do homem, graças às artes e a certas leis; que aqueles são distintos entre os distintos povos, adaptando-se aos costumes de cada povo; que o bom é uma coisa segundo a natureza e outra coisa segundo a lei; que, com respeito ao justo, ele não existe na natureza, mas que os homens, sempre divididos neste ponto, ditam sem cessar novas disposições acerca dos mesmos objetos de sempre; que estas disposições são a medida do justo enquanto forem observadas”

ATENIENSE – Todas as produções da natureza e a natureza mesma, segundo o falso sentido que eles dão a esse termo, são posteriores e estão subordinadas à arte e à inteligência. Mas esses filósofos não têm razão em entender pela palavra <natureza> a geração dos primeiros seres, e por primeiros seres os corpos; porque se chegamos a demonstrar que nem o fogo, nem o ar, nem o corpo foram engendrados primeiro, e sim a alma, não poderemos sustentar, com toda a razão, que a alma ocupa o primeiro lugar entre os seres, e que esta é a ordem estabelecida pela natureza? Mas a alma é anterior ao corpo, e se isto não provássemos não poderíamos seguir adiante!

CLÍNIAS – Sim, estrangeiro, com toda a razão.”

Como aquilo que é movido por outra coisa poderia ser princípio da mudança? Isso é impossível.”

ATENIENSE – Esta alma, seria única, ou haverá muitas? Eu respondo por vós que há mais de uma, sem designar menos de duas, uma benfeitora e outra com o poder de fazer o mal.

CLÍNIAS – Ó, perfeitamente!

ATENIENSE – Assim seja. A alma governa, pois, tudo o que existe no céu, na terra e no mar, mediante os movimentos que lhe são próprios, e que nós chamamos de vontade, exame, previsão, deliberação, juízo verdadeiro ou falso, alegria, tristeza, confiança, temor, aversão, amor, e mediante outros movimentos semelhantes, que são as primeiras causas eficientes, que, valendo-se dos movimentos dos corpos, como de outras tantas causas secundárias, produzem em todos os seres sensíveis o aumento e a diminuição (…), o branco, o negro, a brandura, o áspero, o doce e o amargo.”

Todo homem vê o corpo do sol, mas ninguém vê a alma de nenhum animal vivo ou morto. Mas há motivos para crer que esta classe de substâncias é por natureza imperceptível a todos os sentidos corporais, sendo visível somente para os olhos do espírito.”

não penses que o universo não existe para ti, mas que tu existes para o universo.”

Posto que estamos de acordo em que o universo está cheio de bens e males, de forma que a soma dos males sobrepuja a de bens, deve haver entre uns e outros uma guerra imortal, que exige uma vigilância extraordinária.”

Há homens que não reconhecem a existência dos deuses, mas que, tendo, por outro lado, um caráter naturalmente amigo da igualdade, têm ódio dos homens maus; por um certo horror à injustiça, que lhes é inato, seriam incapazes de cometer ações criminosas; evitam associar-se com os perversos e se unem com outros homens de bem.”

Que ninguém possua em sua casa altar particular; e que aquele que deseje fazer sacrifícios, que se dirija aos templos públicos; que as vítimas sejam entregues aos sacerdotes e sacerdotisas encarregados especialmente de velar pela pureza dos sacrifícios”

É coisa muito comum, sobretudo entre as mulheres, os doentes, os que correm algum perigo e se acham em apuros, ou, pelo contrário, entre os que tiveram alguma sorte extraordinária, consagrar e prometer aos deuses, aos gênios e aos filhos dos deuses. E o mesmo com as pessoas que dia e noite se espantam com fantasmas, as que relembram visões em seus sonhos, e que pensam remediar algo de mal erguendo capelas e altares. Enchem com eles todas as casas, todos os bairros, numa palavra, todos os lugares, estejam purificados ou não.”

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INTRODUÇÃO À PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA (E AUTOCONTESTAÇÃO DA TEORIA FREUDIANA NÃO-APERFEIÇOADA POR LACAN & OUTROS)

Juan Carlos Kusnetzoff, 4.ed., 1982.

LEGENDA:

Azul comentários de índole mais ou menos pessoal ou poéticos;

Verde groselhas freudianas (do próprio Freud ou de maus seguidores e intérpretes);

Vermelho destaques para o conhecimento da doutrina e ênfase para futuras leituras

INTRODUÇÃO

Desde o aparecimento do Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis [em breve no Seclusão], sua leitura, consulta e releitura tem-se tornado indispensável para o estudioso da psicanálise. Esse livro deve ser o acompanhante natural do estudo dos temas psicanalíticos.”

1. ASPECTOS GENÉTICOS / O CONCEITO DE CAUSALIDADE PSICOPATOLÓGICA / AS SÉRIES COMPLEMENTARES DE FREUD

monocausalidade unidirecional”, “causalidade mecânica”

para Freud não fazia qualquer diferença se o fato passado apontado como a causa do atual tivesse realmente existido ou não.”

Se nós supusermos que o encadeamento histórico dos fatos tem um começo absoluto, automaticamente se infere que houve a participação de uma CAUSA PRIMEIRA. A suposição de uma Causa Primeira é, na prática, uma suposição teológica (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, vol. I, cap. 45, art. 2, Réplica ao Objeto 7). Facilmente se compreende que só uma deidade pode ser tão eficaz para resumir nela mesma todas as Causas Primeiras das coisas, deixando em 2o plano as assim chamadas Causas Secundárias ou Naturais.”

REI FENO . . . MENO: “o postulado do assim chamado regressus ad infinitum eleva este infinito à categoria de divindade. Assim, se a intenção é tentar explicar o desconhecido atual mediante o conhecido histórico, a regressão ao infinito faz exatamente o contrário” Síndrome de Peter Parker ou Marco Aurélio ou Guy Debord (meu G.D. – falso)

toda vez que as funções simplificadas podem ser ocupadas por personagens de um grupo familiar, podemos explicar a manutenção auto-regulada de uma doença mental.” “resistência” “mecanismo de controle”

quando um doente melhora, pois, o resto do grupo familiar tende a apresentar distúrbios de conduta que anteriormente não possuía.” EFEITO POLTERGEIST NOS ARAÚJO AGUIAR: neurótico obsessivo retentor avaro (anal) → neurótico-demente regressivo dependente químico (oral) → neurótico ansioso superdotado (fase do falo castrado) (ELEMENTO-CHAVE: aquisição do metaconhecimento do mecanismo de feedback intrafamiliar) → cura através da evasão → neurótica somática, repressão da angústia e desequilíbrio pulsional em sintomas físicos que eclodem-não-eclodem (anal) → repetição do ciclo com os 2 membros restantes (intensificação-perpetuação ad inf…)

Álcool, erva, trabalho & o demônio do ódio

Possibilidades de amor fraturadas

Concentração do sentimento de culpa no elemento-chave (luta pessoal)

A arte como único contra-ataque aos papéis falidos de filho, mãe e paisagem

Incompreensão absoluta & não-redenção (ainda que encontrado o modo, aquele que se deseja salvar está referencialmente morto)

Prognósticos de herança maldita & fantasmas

2. ETAPAS DA EVOLUÇÃO PSICOSSEXUAL / CARACTERÍSTICAS DA SEXUALIDADE INFANTIL

excesso de energia não-satisfeita” “fase perverso-polimorfa” “diferenciação”

Esse conceito ampliado da boca como modelo proporciona, então, base e fundamento para pensar nas doenças ou transtornos asmáticos como problemas relacionáveis a esse período de desenvolvimento. Pensar nestes termos implicará também imaginar que quando o bebê se sente no colo da mãe, ele vivencia sensação de ser <contido>, <tomado>, <chupado>, <tocado> por uma imensa boca. Nesse período do desenvolvimento, o bebê, em seu íntimo, não pode diferenciar o que é uma mão, uma perna ou uma boca propriamente dita.”

Falar e ser falado será para ele, em certo nível e em certa época, como tocar e ser tocado.” “confusão aparentemente sem-sentido de determinados sintomas delirantes, ou o pensamento sensorializado da esquizofrenia”

o seio será o substituto do cordão umbilical.”

neste primitivíssimo período do desenvolvimento, não há dúvida de que existem os assim chamados afetos, mas titulá-los de Amor e Ódio, como o faz, p.ex., Melanie Klein, seria adultificar e, portanto, deformar um processo”

aparecimento dos dentes (…) A incorporação dos objetos agora é predominantemente sádica, destrutiva” “Será importante voltar a este estágio e suas conseqüentes fantasias, quando falarmos de depressão e melancolia.”

chamaremos mãe a todo ser humano que alimente o neném e lhe proporcione calor, sustentação espacial, contato dérmico, estímulos auditivos, etc. Essas funções podem ser realizadas por qualquer pessoa, independente de sexo, idade ou vínculo de parentesco com a criança.”

O neném carece do sentido de vinculação entre uma representação sensorial e outra. Para ele, a visão, a audição, as multivariadas e caleidoscópicas sensações provenientes de infinitas fontes são fragmentos de uma realidade e por isso são denominadas parciais, e não-unificadas.”

ou o mundo é tenso e sem prazer, ou o mundo é relaxado e prazeroso.”

Simplificando, o homem é o único ser da natureza que nasce desarvorado, sem poder sustentar-se nem sequer engatinhar ou tatear em busca de alimento, como o faz um filhote de cachorro. Isto quer dizer que se não houver uma ajuda externa para socorrê-lo, alimentá-lo, abrigando-o, sustentando-o, contendo-o, este recém-nascido morrerá inexoravelmente.” “a criança pagará o elevado preço da dependência, já que incorpora não só o leite mas a linguagem” “IN-dependência significa literalmente incorporação, interiorização de uma dependência.”

em vez da codificação tenso x relaxado, teremos confiança ou conhecidos x estranhos ou duvidosos. Estes últimos é que são sentidos como perigosos e serão o embasamento daquilo a que nós chamaremos Ódio”

corte oral definitivo”

No nosso entender, este estágio se denomina anal porque o ato da defecação ocupa um lugar importantíssimo no desenvolvimento psicossexual da criança; porém não se resume apenas ao controle esfincteriano. Esse serve de modelo para o controle motor em geral, sensações de domínio, prazer na expulsão ou na retenção, etc.”

É preciso lembrar que uma das primeiras descobertas da psicanálise foi justamente o controle e a manipulação que os neuróticos obsessivos fazem com os objetos reais e até com os pensamentos, tratando-os como se fossem <bolos fecais>, que se retêm, que se expulsam, e com os quais se obtém prazer.” Genealogia do cuzão mão-de-vaca: hipercontrole da microexistência.

O AMIGO IMAGINÁRIO DE JESUS: “Assim, o ruminar obsessivo de um pensador qualquer tem sua origem e modelo na capacidade de controlar a musculatura esfincteriana.”

A importância que adquire o bolo fecal como campo de disputa e de controle entre os desejos do meio ambiente (mãe, pai, etc.) torna-o apto para se constituir em herdeiro

totalmente equiparável entre o relacionamento existente entre o peito e boca.”

o bolo fecal contribui para modelar a importante noção do que é interno e do que é externo ao sujeito. Compreender-se-á agora que o medo de ser deglutido na fase oral é substituído na fase anal pelo medo de ser despojado do conteúdo corporal. Essa fantasia adquire vários matizes: ser arrancado, ser violentado, e sobretudo ser esvaziado.

valor de troca (…) Eis aqui o substrato psicossexual das equivalências descritas por Freud entre as fezes – presentes que se oferecem ou se recusam – e o dinheiro”

Um indivíduo adulto será avarento, <pão-duro> ou generoso, <mão-aberta> quanto ao uso particular de seu dinheiro, conforme tenha sido uma criança retentiva ou tenha mais docilmente atravessado o complexo aprendizado de seu controle esfincteriano. Desse modo, o valor adquire historicidade concreta. Não é o valor segundo Platão, para quem as coisas tinham valor por si mesmas.¹ O valor, para Freud, é valor enquanto desejabilidade. Ou seja, enquanto existam desejos de um indivíduos dirigidos para uma determinada coisa, essa coisa estará encaixada na história desse objeto. A história do valor será a história do desejo. Freud se insere desta maneira dentro da problemática filosófica de Spinoza, Hegel, Nietzsche e Marx, os quais desenvolveram uma crítica dos valores insistindo em torno de sua subjetividade.

¹ Duvidoso

MITO DA RESPONSABILIDADE”: Controlado, mas cheio de merda no estômago e na cabeça.

A criança terá duas alternativas, a esta altura de sua evolução psicossexual:

1. Pode utilizar-se de suas fezes como um presente, para satisfazer os desejos dos outros, agradá-los, conquistar e manter seu carinho, ou simplesmente como uma demonstração de afeto, ou

2. Numa outra alternativa, que é reter as fezes durante certo tempo, o que será, na maioria dos casos, entendido como hostilidade dirigida a seus pais que estão preocupados com a produção das fezes e seu respectivo auto-heterocontrole.”

o progressivo domínio do controle esfincteriano permite à criança ter acesso à noção de propriedade privada (visto que, suas fezes, ele pode <oferecê-las> ou retê-las).”

A bissexualidade humana encontra na fase anal sua expressão mais prototípica, já que o reto, sendo um órgão de excreção oco, permite a estruturação de:

1. masculinidade (…) Não é possível entender o sentido dessa afirmação se não se compreende a historicidade desta propriedade da mucosa anal. Com efeito, ela é herdeira da mucosa oral, que forma as paredes desse primeiro oco, onde o sujeito aprendeu a <tatear> o mundo exterior. (…)

2. sensações de ordem passiva (…) Daqui derivariam as tendências femininas. (…) na hierarquia que adquirem os corpos estranhos a este oco vem em primeiro lugar o dedo, durante o ato da masturbação, que serve de exploração, descobrimento e reconhecimento das propriedades desta zona erógena. A masturbação se constitui num prelúdio importantíssimo da sexualidade definitiva.” Má notícia para os que escolheram esperar!

De modo geral, são atribuídas à urina as mesmas características das fezes, ou seja, o prazer de urinar junto com o prazer da sua retenção.”

Fenichel afirma, e alguns dados clínicos o corroboram, que o prazer passivo proporcionado pela micção está deslocado nas mulheres para o correr das lágrimas quando estas fazem parte de quadros onde o pranto ocupa um lugar destacado.”

orgulho orvalho molhado

óvulo ovário

furo vários

masturbação primária” “masturbação secundária”

Esta historicidade da excitação ou da procura ativa da excitação de uma parte do corpo, e que afunda suas raízes desde o primeiro contato de um ser humano com outro ser humano, tem sua origem na estreita ligação de <peles> e <músculos> entre o bebê e sua Mãe.”

Acariciar bebês e pets como substitutivo/ressurgimento pulsional?

Numa verdadeira repetição de fatos similares, acontecidos em sua própria infância, é que os adultos repetem – punindo, proibindo – ativamente o que sofreram passivamente.”

A amnésia infantil (…) em particular dos fatos anteriores à idade de 6/7 anos, refere-se, direta ou indiretamente, às fantasias masturbatórias.”

a diferença não é percebida e sim negada (…) tanto meninos quanto meninas acreditam <ver> o pênis mesmo onde ele não existe.” Não há o “nada”.

Toda <descoberta> começa por ser um re-conhecimento, ou seja, projetar-se-á o que já é velho conhecido sobre o que é novo (e, portanto, angustiante).” Platão diria que já nascemos com a idéia de “pênis ideal”.

Esse período do desenvolvimento, no que se refere à significação que adquire a descoberta da desigualdade da constituição humana, ficará gravado no psiquismo do sujeito como um fato muitíssimo importante”

Uma atenta observação poderá demonstrar que todas as perguntas se referirão, direta ou indiretamente, à origem das diferenças”

ele tomará conhecimento do sentido da união sexual de seus pais e ficará curioso para saber e conhecer o lugar de sua <ex-residência>” We’re all orphaned aliens. Beware the Portal!

FRUSTRATION: ORIGINS: “Desde o momento em que a criança descobre o sentido e a funcionalidade da diferença sexual anatômica, ela passa a desejar também ter filhos.”

cena primária ou primitiva” Cena do Édipo e niilismo atômico (avatar n. 1)

TEORIAS INFANTIS SOBRE A FECUNDAÇÃO

(…)

Teorias da Fecundação Oral: crenças de que, por ingestão de um alimento fantástico, ou por contato com outra boca (beijo), se produziria a gravidez humana;

Teorias da Fecundação Ano-Uretral: crenças de que os atos de urinar ou de defecar em contato com outra pessoa, ou mesmo simultaneamente, seriam os responsáveis pela gravidez.

Teorias Visuais da Fecundação: crenças de que a exibição simultânea ou sucessiva dos órgãos genitais resultariam em gravidez.”

Há uma certa confusão entre o que se denomina pênis e o que se denomina falo, já que Freud, em alguns de seus artigos, os empregava indistintamente. Com uma visão teórica mais moderna, pode-se distinguir o falo como um símbolo.” “uma fantasia que condensa a posse de uma unidade e de uma potência do ser.” Freud sem Lacan, sou eu assim sem você…

tanto meninos quanto meninas compartilham a fantasia de que só um sexo existe.” “o menino reagirá à maneira de um fóbico e a menina à maneira de um melancólico ao complexo de castração.”

Esse desejo de se ver prolongado, duplicado e transcendido num filho, fantasia comum a ambos os sexos, levará consigo a <garantia> de se preservar contra a morte.”

Deveremos ressaltar que essa fantasia de mutilação peniana não é exatamente igual ao que se conhece popularmente como castração, já que esta última consiste na extração, por meios violentos, não do pênis, e sim das gônadas.”

a angústia de castração é um fato normal, efeito do amadurecimento psicológico do indivíduo.”

Este narcisismo extremo servirá como couraça protetora frente aos danos fantasiados que seu pênis poderia vir a sofrer.”

renegação ou Verwerfung: aceita-se que em torno desse mecanismo se originam as perversões e as psicoses.”

Toda fantasia de mutilação é atribuída pelo menino a uma punição infligida pelos pais para castigar desejos de prazeres similares aos que ele mesmo sente como proibidos.” “Para ele, só aquelas mulheres que tiveram a fantasia de obter prazer pela masturbação são as que sofreram esse <castigo>.” “fantasia de uma mãe com pênis, conhecida com o nome de <mãe fálica>.”

na menina, essa constatação e a grande frustração que sobrevém logo após acontecem antes do Complexo de Édipo. Mais precisamente, a castração é justamente a comprovação que permite entrar no Édipo. Ou seja, a evidência da castração lhe permite agora voltar-se para o pai como objeto de amor, passando a ser a vagina a sede corporal de seu investimento libidinoso, enquanto que para o menino a castração, ou melhor, o temor da castração, funciona sempre como limite restritivo aos desejos incestuosos desta fase, contribuindo, portanto, para fechar [antes de abrir?], para pôr um fim ao Complexo”

na menina, a Inveja do Pênis é equivalente ao conceito de renegação da diferença por parte do menino. (…) O agente dessa perda imaginária será a mãe. (…) a menina, para entrar no Complexo de Édipo direto, deverá atacar e denegrir sua mãe” “o acesso à genitalidade adulta tem muito de reacional e defensivo, posto que <cai nos braços do pai para fugir à ameaça materna>.”

desde que todo ser humano deve sua origem a dois seres chamados Pai e Mãe, não haverá nada passível de escapar a esta triangulação que constitui o âmago essencial do conflito humano.” Não? A propósito, gostaria muito de ter acesso a uma literatura contemporânea sobre como se desenvolve o Complexo de Édipo em filhos de casais gays de ambos os sexos… Casais de 1, de 2, de 3…

Toda esta conflitiva problemática edipiana eclode entre os 3 e os 5 anos de idade.”

Na clínica, o mais freqüente é que se apresentem casos de mistura dos Complexos de Édipo positivos e negativos. É o que se denomina forma completa ou total do Complexo de Édipo.”

Não há nada fora do C. de E.. Durante a vida inteira a pessoa continua vivendo essa peça teatral, assumindo diferentes papéis de um argumento que reflete sua história passada” “o Édipo é simplesmente uma história, a história de nosso primeiro amor, nosso amor infantil, ou então é o intemporal que faz da própria vida uma história que se repete, a ponto de que esta vida corre o risco de nunca nascer? (Safouan, A sexualidade feminina na doutrina freudiana, 1977, p. 67)

Acredita-se habitualmente que o Complexo de Édipo é algo que se supera e a que não se volta mais.”

Há uma antropologia psicanalítica que, aproveitando-se das estruturas teóricas freudianas, procura semelhanças em diferentes culturas. (…) É dentro desse contexto simbólico que se transmite uma lei fundamental nas relações sociais: a proibição do incesto.”

SHANGRI-LA SEARCH: “Incesto será, para esse autor, o gozo sexual com a mãe, tanto para o menino quanto para a menina. É preciso entender que não se trata do prazer genital-sexual entendido como figura penal da legislação corrente. Este ato, observado assim, clinicamente, será um sintoma grave da ordem das psicopatias ou psicoses. É o incesto que se realiza concretamente, na idade adulta.”

LEU DELEUZE? “Alguns destes pacientes vivem, em sua vida de adultos, bloqueados, tentando levantar muros, limites, pra reconstruir <alguma coisa> (…) A oscilação neurótica fará com que tentem transgredir também esse limite.”

os estudos de etnografia e genética demonstram que os povos que praticam a endogamia por tradição não possuem efeitos aberrantes na proporção em que se poderia supor.”

Esse Chefe-Pai primitivo (arque-pai) provocava sentimentos duplos: era temido e respeitado e, ao mesmo tempo, profundamente odiado. Um dia X, hipotético, teórico, os <filhos> dessa horda primitiva, revoltados, se uniram em força, matando esse Chefe-Pai, e engolindo-o. Segundo Freud, este seria o primeiro momento da humanidade. (…) O homem começou posteriormente a lembrar o episódio através do culto e da adoração de um totem simbolicamente representativo do Pai-morto. Seria esta a primeira e mais primitiva religião da humanidade. Por sua vez, a incorporação desse Pai primitivo fez emergirem sentimentos de remorso e arrependimento nos filhos, motores da adoração e lembranças posteriores.”

Esse período pré-edípico é completamente diferente da concepção da escola kleiniana, que faz questão de enfatizar a origem do Complexo de Édipo aproximadamente aos 6 ou 8 meses de idade, na chamada <posição depressiva>.”

O conceito de a posteriori ou <posterioridade> (nachträglich) foi resgatado por Lacan, adquirindo a partir dele uma importância capital dentro da obra freudiana.” “nem tudo o que é vivido pelo sujeito se integra imediatamente dentro de seu aparelho psíquico. Só depois é que esses acontecimentos vão adquirir relevância ou significado, quando o aparelho psíquico estiver totalmente amadurecido.” “quanto mais amadurecido for o aparelho psíquico, mais <triangulado> ele será. Ao contrário, quanto mais primitivo, mais narcísico e, portanto, mais dual e mais indiscriminado.”

dois tempos de <fechamento> do ap. psíq.” “P” de “Primeiro emprego” e “Pagar as contas” – “m” de “morrer”, “matar”, “masturbar”, “mastigar”, “meditar”, “militar”, “marchar adiante”, “memorizar”, “martirizar-se”, “moita”, “mimo”, “mansidão”, “maestria”, “marasmo”.

imitar o pai funciona simultaneamente como um mecanismo de defesa que elimina o pai real (eu SOU o pai e portanto não luto com ele) e como uma forma de satisfazer, agradar o pai, deixando-se modelar, educar, <fecundar>, metaforicamente falando, por ele.”

O Untergang ou sepultamento do Complexo de Édipo implica um afundar-se, dirigir-se aos fundamentos, ou seja, ao Isso.”

o menino está em posição de relacionamento heterossexual com a mãe desde o nascimento e, portanto, tem o pai como rival; daí que o movimento exogâmico será somente um afastamento <simples> desta estrutura elementar. Na menina, porém, o relacionamento inicial é com uma pessoa do mesmo sexo, tendo o pai como rival. (…) o eixo do Complexo deverá sofrer uma espécie de torção

Porém, tal como Freud o descreveu, a menina conservará essa idéia ilusória que ele chamou de esperança <de obter um dia, apesar de tudo, um pênis, e assim tornar-se semelhante a um homem>. Esta esperança <pode persistir até uma idade incrivelmente tardia e transformar-se em motivo para ações estranhas e de outra maneira inexplicáveis>.”

se entende como Complexo de Masculinidade uma estrutura composta em primeiríssimo lugar por uma relação extremamente intensa com a mãe, mas não resolvida satisfatoriamente. Simultaneamente, é também marcante a rivalidade com o pai, o que geralmente se expressa, por parte da menina, sob diversas formas de descrédito ou desprezo.” “o que se observa na clínica é que o que se esconde por trás da agressividade masculinóide, dos ciúmes reivindicatórios, etc., é uma <revolta contra a arbitrariedade do pai>.” “esse afastamento do objeto monopolizante torna-se imprescindível para a entrada no C. de E. feminino e, portanto, na sua futura autonomia exogâmica.” “A menina, então, dirige-se ao pai para ganhar a atenção e a admiração dele, que é o objeto de amor da mãe, ou seja, a fim de seduzi-lo.” “as mulheres são mais <ambivalentes a respeito de sua mãe que os homens com relação ao seu pai>.”

É importante salientar que Freud foi vacilante em muitos escritos no que se refere à designação desse processo de desaparecimento da estrutura edipiana. Em alguns textos, ele denomina de forma precisa <Destruição do Complexo> (e em outros, dissolução), em lugar da clássica Repressão ou Recalque. O que se destrói não pode voltar, mas o que se recalca sim. A saúde mental do sujeito dependerá ou estará intimamente vinculada à distinção entre estes dois processos.”

Em comparação com o menino, o processo da menina é muito mais gradual e, de certa forma, menos completo. (…) Embora a angústia de castração esteja presente, a força que adquire o medo de perder o amor da mãe é hierarquicamente superior e contribui para que a renúncia aos desejos pelo pai não seja tão drástica como é no menino.”

Quem não possui, é.”

introversão-regressão da libido sobre o ego, ou seja, o ego se apresenta ele próprio aos desejos libidinosos como um novo objeto de amor (identificação secundária). O resultado é uma libertação energética, que obviamente irá em busca de novos objetos para investir.”

o único complexo que habita o ser humano é o de Édipo. Não existem outros tipos de complexos, tais como <complexo de inferioridade>, de <masculinidade>, de <superioridade>, etc., porque isto suporia que tais complexos são uma parte do sujeito e Freud insistiu repetidas vezes no caráter estruturante que representa o C. de E. para um indivíduo como um todo.”

3. O EGO / O SUPEREGO / O IDEAL DO EGO

a rigor considera-se o Superego subdividido em 2 instâncias: o Superego p.d. e o chamado Ideal do Ego.” Substituirei doravante por Eu, Supereu e Isso (Id).

Identificação primária: ou nesta fase não existe objeto, ou ser o objeto e constituí-lo são a mesma coisa.” “Isto é o que se quer convencionalmente dizer com expressões tais como: <estágio de indiferenciação entre o self e o objeto>, ou <estágio de indiferenciação narcísica>, ou <estágio simbiótico>, ou <estágio autístico>, etc.” “dizer dependência e dizer identificação primária é mostrar um ou outro lado de uma mesma moeda.” Como se concilia essa abordagem (que parece dizer que migramos do total ao parcial) com a exposta mais acima, que parece dizer que migramos do parcial ao total quando crescemos (haja vista que bebê perceberia apenas “fragmentos de um real”?

Não será estranho que a problemática da identificação primária tenha profundas evocações filosóficas, que farão sentido para o leitor na medida da captação do conceito que quisemos expor. Essas expressões filosóficas são, p.ex.: <ser é ser para outro>, <ser para outro é ser com outro>, etc.”

O modelo descrito por Freud em Luto e melancolia (1917) mostra que o sujeito reestrutura dentro de si o vínculo perdido com seus pais reais e concretos devido a esse não edípico fundamental e estruturante.”

O conceito de função ultrapassa os limites desta obra. Digamos apenas que o uso do termo corresponde a toda uma tradição filosófica moderna: Leibniz, Hume, Bercovich e Kant. Função é tomada aqui como uma operação ou conjunto de operações determinantes de uma realidade, ou que permite compreender esta realidade. O uso do termo em matemática é altamente significativo: refere-se a uma relação entre quantidades que podem variar, e o que permanece constante é, precisamente, a relação. Frisa-se, aqui, a interdependência mútua dos elementos intervenientes (Ferráter Mora, Diccionario de Filosofía, Alianza Ed., 1979, vol. 2).”

e, além do mais, a palavra <ocupar> está vinculada à palavra alemã Besetzung, conhecida na terminologia psicanalítica como <carga>, <catexia>, ou <investimento>, que quer dizer, precisamente, ocupação, no sentido de ocupação de tropas, p.ex..”

a) No início da vida psíquica, identificação e catexia coincidem (ocupam <o mesmo lugar>).

b) Numa espécie de segundo tempo, ambas – idt. e cat. – se separam.

c) O destino da cat. é denominado <escolha do objeto>.

Portanto, dizer que no início da vida psíquica, identificação e catexia coincidem ou identificação e escolha de obj. coincidem ou ser e ter coincidem, é dizer, equivalentemente, a mesma coisa. (…) É um suposto teórico e, em conseqüência, inobservável, encontrando-se na mesma ordem conceitual que as fantasias primordiais, o mito da horda primitiva, ou o recalque primário.”

ALGUNS CONCEITOS LIGADOS À IDENTIFICAÇÃO USADOS EM PSICOPATOLOGIA:

1. Identificação primária ou total (ver acima)

2. Identificação parcial ou histérica

3. Identificação permanente – “a estrutura do caráter”

4. Identificação transitória

5. Identificação introjetiva (abaixo)

6. Identificação projetiva – “em Melanie Klein, acompanha-se de fantasias de controle e intrusão agressiva.”

7. Identificação com objeto total

8. Identificação com objeto parcial

9. Identificação progressiva

10. Identificação regressiva

11. Incorporação

12. Assimilação

13. Introjeção (abaixo)

14. Ejeção

15. Projeção – “É um mecanismo de defesa da série neurótica. Sua diferença para a identificação projetiva [ver mais além] consiste precisamente nisto. Esta é a série psicótica.”

16. Internalização

17. Imitação (acima)

18. Identidade (acima)

O Isso como herdeiro do narcisismo primitivo. (…) leva o sujeito a se igualar, a se modelar como os pais: Faça isso! Faça aquilo! Pense como seu pai! Seja como ele!, etc.” Easy on that one… Mas não faz sentido nenhum cotejado com o afirmado no capítulo 5 (fim da seção MODELO TÓPICO)!

O Supereu, herdeiro do Complexo Edípico. (…) esta identificação é a que fecha o <telhado> do edifício psíquico (…) Na realidade o objeto apenas mudou de lugar, já que anteriormente a pulsão procurava objetos exteriores que eram os pais reais e concretos e agora esses pais se introjetaram, transformando-se num <monumento>” “o Supereu é uma cicatriz”

Depois da orgia mística…

<Não seja como seu pai!> (Esta última expressão exprime a proibição do incesto: Eu posso ter relacionamento sexual em <sua> mãe, você não!!!)”

O Eu é um campo cênico”

3 instâncias: é o meu principal problema com o Freudismo. Continuo psicanalizando teimosamente apenas com os termos consciente-inconsciente. E não julgo que isso seja uma carência teórica minha…

sentimento inconsciente de culpa”

A auto-estima e a confiança do sujeito dependerão de um permanente balanço e ajuste entre estas duas últimas instâncias, da aprovação ou da rejeição que o sujeito sinta perante os pais interiorizados” Se entendi bem, a sentença anterior permite, em tese, baixa auto-estima conjugada com a maior confiança… Não sou aprovado, mas estou longe de ser rejeitado… Ou não se deveriam usar dois termos por preciosismo onde caberia apenas um.

4. LATÊNCIA / PUBERDADE / ADOLESCÊNCIA

PERÍODO DE LATÊNCIA

Foi assim denominado o peculiar período que se estende desde os 5 ou 6 anos de idade até as fases puberais do desenvolvimento. O nome reconhece uma certa calma, em comparação com o período precedente, a plena fase de eclosão do C.deE.”

predominância do sentimento de ternura” “Essa será também a idade do ludismo. Este ludismo tem forte sentido social, revelando o tipo de jogo, a estrutura do mesmo e as diversas temáticas existentes em seu interior – a mudança de objeto efetuada pelo aparelho psíquico.” “A aproximação com crianças, particularmente do mesmo sexo, é relativamente fácil e a crescente idealização dos vínculos, tanto de pares quanto de adultos, torna facilmente influenciável a criança nesta fase.”

A PUBERDADE

crise: (…) o aluvião pulsional que em curto lapso de tempo inunda o aparelho psíquico surpreende-o adaptado às exigências instintuais do período anterior (…) Essa luta desigual, inicialmente a favor das pulsões, produz um marcado desequilíbrio, responsável por toda uma série de sintomas [dores de cabeça e vertigens] conhecidas pelo nome de Crise Normal da Adolescência.”

A Pubescência

Ocorre precisamente uma revivescência de todas as situações edipianas que estavam em silêncio durante o período de latência.

Este reemergir das pulsões edipianas está contextuado numa verdadeira tormenta de identificação e de narcismo. Apresentam-se comumente sentimentos de angústia e dúvida – em alguns casos, com características compulsivas – sobre o corpo (tamanho, aparência, estética), o sexo (autenticidade, capacidade), o <si-mesmo> (despersonalização, estranheza). Por tudo isso, esta idade é conhecida com o nome de <idade do tonto> ou <idade ingrata>.

Juntamente com essas ansiedades, o sujeito pode apresentar fortes ansiedades paranóides, que às vezes se manifestam como verdadeiras hipocondrias circunstanciais. Todo esse cortejo de angústias, preocupações e dúvidas, acompanhado de diversos tipos de defesas, segue-se às primeiras poluções (aparecimento do sêmen nos garotos) e à menarca (primeira menstruação).”

As estruturas psíquicas, em seu circunstancial desequilíbrio, correm o risco de se desestruturarem total ou parcialmente. Mas, simultaneamente, apresenta-se ao sujeito a possibilidade de rearticulá-las agora perante esta investida pulsional. Rearticulação que será praticamente a última constitutiva do sujeito.

A ADOLESCÊNCIA

Esse processo deverá inevitavelmente se defrontar com o grupo social onde vive o adolescente, grupo este que tenderá a formar, canalizar e impor um conjunto normativo de regras, sob a forma de modelos de comportamento, costumes, leis, práticas e rituais diversos que, sem dúvida, moldarão a personalidade definitiva do futuro adulto. Mas essa modelagem é sumamente complexa, já que o jovem se vê obrigado a conciliar suas necessidades pulsionais com as normais sociais, tanto as que aprendeu na infância como as que encontra agora no contexto social em que atua. Não resta a menor dúvida de que este conflito se apresenta, por vezes, de forma tormentosa e não raro violenta. Daí a quase constante instabilidade do aparelho psíquico, em estruturação e desestruturação contínuas durante toda a adolescência.”

durante a adolescência, todas as outras manifestações auto-eróticas pré-genitais (orais, anais, fálicas) vão sendo progressivamente associadas à genitalidade, adquirindo o ato masturbatório uma satisfação com fantasias cada vez mais genitais.” “Entretanto, como toda atividade do adolescente, a masturbação será continuamente redefinida pelo grupo social onde ele atua. Isto porque a masturbação será geralmente sentida pelo jovem como uma atividade necessária e imperiosa, mas muito reprovada, gerando assim fortes sentimentos de culpa.”

crises de solidão e fastio” “verdadeiros estados esquizo-depressivos”

Pais e educadores, durante muito tempo, empreenderam verdadeira luta contra a masturbação, aludindo conseqüências nocivas a sua prática: impotência, tuberculose, loucura, esterilidade, etc.” “o sujeito entra num círculo vicioso de se proporcionar o prazer auto-erótico não apenas em busca da gratificação pulsional mas também para gratificar a necessidade de punição que é, por outro lado, a única maneira que ele encontra de redimir a culpa.”

ADULTHOOD IN A DESPERATE WORLD IN A NUTSHELL: “Em termos objetais, o dilema se apresenta entre um retorno a escolhas primárias narcísicas com características pré-genitais e tendentes a serem duais, e outra mais amadurecida que tende a <triangular> os vínculos e a genitalizá-los.”

O jovem passa por verdadeiros períodos esquizóides de introversão, que são geralmente circunstanciais mas que, em alguns casos, podem desembocar no autismo esquizofrênico.”

a criança não questiona o princípio geral da obediência.”

Só ele tem o direito de determinar o que é liberdade (Porot e Seux: Les Adolescents Parmi Nous, Ed. Flammarion, Paris, 1964)”

forte nostalgia da infância”: AS TEORIAS SUPREMAS (my newest revival book!) & O Mito do Príncipe Loiro https://www.clubedeautores.com.br/livro/as-teorias-supremas#.XWh9RuNKjIX

In search of a non-existent tail

níveis-limite”

Reuniões de família e domingos entediantes: a morte-e-o-silêncio-em-vida.

Freqüentemente, os afetos são intensos mas passageiros por pessoas da mesma idade. (…) Outro tipo de adolescente apresenta esse mesmo gênero de afeto, mas por pessoas mais velhas, às vezes bem mais velhas, representando substitutos paternos, na maioria das vezes usados como intermediários no processo de amadurecimento. (…) fixações identificatóriasCarlos Gomes e tantos professores. De fato até agora nestes comentários de índole pessoal eu citei o nome de 3 pessoas do meu passado, 2 professores do meu curso de jornalismo e um de filosofia, do meu ensino médio. Psicanaliticamente falando, eles foram o pai que eu não tive. Pulando alguns anos: E depois, já aos 22, eu era o professor, e não havia ninguém acima… E que tal abaixo?

Dentro desse contexto, a primeira escolha do adolescente como relacionamento amoroso ou de amizade é, freqüentemente, homossexual, sendo comuníssimas as experiências homossexuais ocasionais entre os adolescentes.” Engraçado que – além de não acontecer comigo – eu sequer verifiquei isso no meu próprio tempo, entre tantos colegas!

5. NOÇÕES DE METAPSICOLOGIA FREUDIANA

Os modelos da metapsicologia freudiana são fundamentalmente 3:

(1) dinâmico, onde se fala de pulsões, instintos, forças, moção impulsora;

(2) tópico, que é o ponto de vista que supõe o aparelho psíquico dividido em sistemas singulares (Consciente, Pré-Consciente, Inconsciente; ou ainda Eu, Supereu e Isso);

(3) e, finalmente, o modelo econômico, que é o ponto de vista que observa o aparelho psíq. como uma circulação, distribuição e administração de uma energia quantificável; falamos então de catexias, ou cargas, que aumentam, diminuem, sobrecarregam, etc.

Os matemáticos modernos, particularmente Carnap, chamam de <isomórfico> o modelo analógico (Introduction to Symbolic Logic and its Applications, 1958).”

será necessário ressalvar que o modelo, por mais aperfeiçoado que seja, é uma hipótese (literalmente uma sub-positio, uma sub-posição, i.e., suposição) e, portanto, proporciona uma plausibilidade em relação aos fatos, nunca suas demonstrações.”

para os quadros psicóticos e narcísicos, Freud foi reformulando sua modelística inicial até desembocar na segunda teoria dos instintos

MODELO TÓPICO

ressaltamos que o termo tópico faz cair a acentuação sobre uma certa disposição espacial das instâncias, podendo dar uma significação errônea de seu funcionamento. Provavelmente por essa razão Freud usou a palavra <aparelho>, que sublinha a funcionalidade interligada das instâncias entre si” “Como se pode observar, é muito difícil separar o modelo tópico do dinâmico, porque neste último a origem, o processamento, a distribuição e o destino final da energia estão articulados às distintas funções que correspondem a cada lugar e instância do modelo tópico.” Me pergunto qual a real utilidade do terceiro modelo, pois então…

Freud foi um brilhante expoente dos laboratórios experimentais da época e, além de dúzias de trabalhos sobre neurofisiologia, escreveu em 1891 um livro sobre as afasias. O tema critica as teorias que hierarquizavam a localização anatômico-concreta, de renomados cientistas da época.” “Sua associações com Breuer desemboca numa espécie de axioma: o espelho de um telescópio não pode ser, simultaneamente, uma chapa fotográfica.”

A Consciência será um fato fugaz, e nunca um arquivo.”

A característica do sistema Pré-Consc. é que seus conteúdos podem ser recuperados por um ato da vontade” “(diz-se então que o conteúdo estava reprimido); se não foi possível [rememorá-lo], a sua localização era no Inconsciente (diz-se, então, que o conteúdo estava recalcado).”

o Pré-Consc. contém <representações de palavras>, uma marca mnésica da palavra ouvida.” “A <representação de palavra> é uma marca acústica, que se opõe à chamada <representação de coisa>, que se encontra no Inconsciente e é predominantemente visual. A <representação de coisa> nunca pode ser consciente se não estiver associada a alguma representação verbal, encontrada no Pré-Consciente.” Lorotas. Dar nome ao silêncio dos bois. No word, no info.

Devemos também lembrar que <representação ideativa>, <traço mnêmico> e <representações de coisa> são sinônimos.”

Devemos reconhecer que esse conceito de núcleo do inconsciente é polêmico, controvertido [mas não me diga!], que deu e dá margem a acaloradas discussões, particularmente epistemológicas. Transcrevemos, porém, literalmente, a frase final da autorizada opinião de Laplanche e Pontalis: <No nosso modo de ver, as reservas suscitadas pela teoria de uma transmissão genética hereditária não devem nos fazer considerar igualmente caduca a idéia de que existem, na vida fantasiosa, estruturas irredutíveis às contingências do vivido individual>.” “Funcionalmente, representação de coisa e energia pulsional operam em conjunto.” Eu represento mais do que você!

condensação (…) é o somatório das várias cadeias de representações (…) é o sintoma, enquanto [que] o deslocamento é o mecanismo que conduz a ele. A condensação não deverá ser confundida com um resumo; é um produto da interseção circunstancial de deslocamentos em vários níveis do Inconsciente.”

Com o termo censura denominamos uma importante região fronteiriça que une e separa o Pré-Consciente/Consciente do Inconsciente.” “a censura tem no 1º tópico um caráter ainda passivo, de barreira inerte que apenas separa com rigidez os conteúdos inconscientes do outro sistema.” “Realmente, em 1923, ele incluiu entre as funções do Supereu a da censura, mas conferindo-lhe agora um sentido de coisa vigilante e dinâmica, com caracteres de instância psíquica diferenciada.”

o segundo tópico não elimina o primeiro”

A hesit he sit hesita…ção de um senhor não contribui para a refutação dos críticos à psicanálise e a in-desejada pecha de pseudo(onis)ciência, cofco(n)fere, fquerida_uck?

Os conteúdos fantasmáticos do Isso são, em sua maior parte, hereditários e o restante adquirido.”

Telebrasília desinforma…

Cláudia Busato e a aula em 2006: “O aspecto genético do Isso, como foi assinalado, é motivo de controvérsias entre partidários que salientam ora o ponto de vista filogenético, ora o ontogenético. É a metáfora freudiana que permite tal controvérsia: <No princípio tudo era Isso. O Eu tem se desenvolvido a partir do Isso, através da persistente influência do mundo exterior>.”

compress start resume

o caráter de inevitabilidade atinge o palco” “a maior parte do Eu é Inconsciente”

Peixe morre pela boca, Zeus morre pela coxa?

EM BUSCA DUM ÜBEREGO: “o Supereu está identificado com o Supereu dos próprios Pais.¹ Por tal motivo, encontram-se no Supereu os valores ditados pela cultura em que viveu o sujeito. Além dos valores, encontra-se também o que nomeamos ideologia ou ideologias, conjunto de crenças e preconceitos carregados afetivamente e que se impõem, à maneira de imperativo categórico kantiano, como mandamentos éticos.” Só um leigo absoluto em materialismo histórico e kantismo poderia misturar terminologias tão abstrusas de forma tão execrável numa só sentença! Fora o sentido indeterminado da palavra mais genérica possível, valor!

¹ Devo agradecer aos meus avós (ancestrais de forma geral) o possuir piedade e pena. Mas o que poderia qualquer melancolia nata contra o espírito do século XX (ainda ativo) e a imbecilidade que foge de si mesma?

Meu objetivo (dever) é desver, lamento! “O Supereu, instância fundamental para o entendimento da conduta do indivíduo, e sobretudo da sua psicopatologiaDeus mandou que eu não mexesse no que fede, eternamente fede…

Veja-se então como Freud se inscreve dentro de toda uma linha filosófica representada por Nietzsche, Spinoza, Hegel, onde o valor está ligado ao desejo, sendo este, por sua vez, um produto histórico (…) o Supereu outorga uma espécie de cosmovisão” Tanto e tão pouco: descobriram tudo, mas voltaram à estaca zero no mesmo ato…

Em resumo, o Isso está constituído por imagens de objetos amados, e o Supereu por objetos temidos [cicatriz cultural – nós, os especiais, detestamos o Ocidente!].”

Superergo sum achatado, Narciso estimulado (afogado)…

MODELO ECONÔMICO [Leia REICH!]

NÃO CONTE COM AS FEZES: “É o modelo mais controvertido, porque à luz da ciência moderna, particularmente das ciências físicas, não existe nenhuma precisão quanto aos componentes essenciais das energias.” Em alguns fragmentos de sua obra, F. aponta a esperança de quantificar no futuro essa energia. A energia é conhecida na teoria psicanalítica como catexia ou catexis, palavra que tenta traduzir o vocábulo alemão Besetzung. (…) A palavra em português investimento é muito mais adequada que catexia, pois até sob o ângulo da ciência econômica permite uma solidariedade entre a coisa investida e o <capitalista investidor>.

alguns quadros psicopatológicos evidenciam uma carência de energia em certas áreas, como acontece nos quadros de esquizoidia, depressões ou histerias conversivas.”

O princípio da Constância é vinculado (às vezes oposto) ao princípio do Nirvana(*), que é aquele princípio que tende a reduzir ao zero absoluto toda excitação. O princípio do Nirvana é o princípio que governa o conceito de instinto da morte (…)

(*) Tanto em O problema econômico do masoquismo quanto em Os instintos e suas vicissitudes, F. se refere a ambos como idênticos, opondo-se, sim, ao princípio do prazer: <O princípio do Nirvana (e também o da Constância) expressa a tendência do Instinto da morte; o princípio do prazer representa as exigências da libido, e a modificação desta última; o princípio da realidade representa a influência do mundo externo> [por suposto que quando se transa se transa apenas consigo mesmo, não é, Freudinho?] (…) consultar <princípio da constância> no Vocabulário da Psicanálise.

Os princípios são aceitos comumente nas ciências e, de modo geral, procedem de Aristóteles. Admite-se que o princípio é um ponto de partida, podendo logicamente existir vários princípios, que regulam determinado sistema lógico ou cognitivo.”

SÍNTESE (MANIA DE SIMETRIA OU KANTOMANIA, COMO DIRIA SCHOPENHAUER): “Como o leitor poderá observar, o conceito de prazer está perfeitamente articulado com o de processo primário, com o de energia livre e com o de identidade de percepção. Por outro lado, realidade está articulada com o processo secundário, energia ligada, identidade de pensamento. Em termos do 1º tópico, o princípio do prazer, com todas as suas séries articuladas, corresponde ao Inconsciente e o princípio de realidade ao Consciente. Em termos do 2º tópico, esta 1ª série corresponde ao Isso e à parte inconsciente do Eu. A 2ª série corresponde ao Eu consc..”

MODELO DINÂMICO

Os estímulos exteriores são passíveis de ser afastados, mediante a atividade muscular. Já os estímulos interiores exercem pressão mais ou menos contínua. (…) A isso chamamos de pulsão e instinto.”

<Por pressão (Drang) de um instinto, compreendemos seu fator motor, a quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa.> Esta é uma característica essencial de toda pulsão e até quando se fala de <pulsão passiva> está-se assinalando uma brevíssima maneira de exprimir a idéia de uma exigência ativa em procurar situações de passividade. Este ponto é de capital importância, já que F. não quis atribuir a atividade a uma pulsão específica (como Adler), pois toda pulsão tem por definição a capacidade de desencadear a atividade motora.”

Um objeto é o elemento mais variável de uma pulsão. A ligação a um objeto é feita com a exclusiva finalidade de procurar a sua descarga. Muitos fenômenos de ordem psicopatológica, especialmente os mais primitivos, são explicados por essa característica, onde o aparelho psíquico parece atuar às cegas à procura de uma descarga, tendo o objeto em si mesmo valor secundário.” “Compreende-se facilmente como o corpo pode, ao mesmo tempo, servir como fonte e como objeto, elemento fundamental para se entender o narcisismo.”

O “LIVRO” AOS 20 ANOS:Relação de objeto: Este conceito tenta exprimir que o objeto em si mesmo, <escolhido> pelo sujeito, tem uma vida própria e uma historicidade que explica o seu aparecimento nesse lugar e nesse tempo.”

Teoria das Pulsões

O protótipo da pulsão de autoconservação é a fome, e nunca F. se preocupou em descrever outro tipo. Mas admite-se que qualquer função orgânica seja fonte deste tipo de pulsão. (…) o comer muito (bulimia) ou o comer pouco (anorexia) podem ser explicados pela hiperativação, no primeiro caso, ou pela inibição no segundo, da função do apetite pelos efeitos produzidos pela pulsão sexual, apoiada nas de autoconservação.” “as pulsões de autoconservação estão regidas pelo princípio de realidade. As pulsões sexuais prescindem de objetos exteriores, sendo regidas pelo princípio de prazer. A fantasia, como expressão das pulsões sexuais, e portanto do corpo, constitui-se num refúgio, num espaço diferente do mundo anterior.”

invaginação da energia psíquica: uma dor de dentes, ou mesmo os sonhos normais, que expressam uma atividade psíquica intensa, com total afastamento do mundo exterior. Todas essas considerações levaram F. a substituir a dualidade pulsões de autoc. vs pulsões sex. pela dualidade libido do objeto vs libido do Eu.ZzZ – Reformulações e substituições que não reformulam nem reformam nada.

núcleo narcísico” “narcisismo secundário” = investimento de regresso no adulto frustrado

a dualidade pulsional, expressa nos pares antitéticos sadismo e amor, colocava problemas que durante alguns anos fizeram vacilar os textos freudianos, até seu reordenamento definitivo [sempre desconfie!] depois de 1920.”

QUANTA IRONIA: “Seguindo Laplanche, diremos que o texto de 1920 se apresenta como …o mais fascinante e mais desconcertante de toda a obra freudiana. Jamais F. se mostrou tão livre, tão audacioso, como neste grande afresco metapsicológico, metafísico e metabiológico [menos!]. Aparecem nele termos absolutamente novos: Eros, pulsão de morte, compulsão à repetição... (Laplanche, Vie et mort en Psychanalyse, 1970)”

Os casos clínicos perversos e melancólicos mostram, de modo evidente, que existe algo como uma tendência agressiva voltada contra o sujeito e permanecendo dentro dele com toda a sua força destruidora.”

qualquer problema de ordem masoquista tem a ver com uma submissão do Eu aos mandamentos agressivos e destruidores do Supereu [papai e mamãe, minha bola de ferro]. Deste modo muito particular o Eu satisfaz a energia pulsional superegóica.

A segunda teoria pulsional abalou quase todo o edifício teórico freudiano. Observado na sua totalidade, o princípio do prazer perde, depois de ‘20, a hierarquia, enquanto os problemas relativos à agressão são colocados em 1º plano.”

Vê-se aqui o âmago da filosofia de Schopenhauer.” Triste resultado para uma psicologia que se pretendia o sumo da empiria!

Teoria da Angústia

1ª teoria da angústia: 1905-1926

2ª teoria da angústia: Inibições, Sintomas e Angústia à morte de F.

em Como se origina a ansiedade (1905), F. é taxativo: a angústia reconhece uma etiologia sexual, em especial circunstâncias recentes.”

Saber demasiado sobre determinadas coisas e poder compará-las com os dados recolhidos na realidade pode desencadear até pânico. Lembremos a reação de Robinson Crusoe ao encontrar na praia uma pegada humana. Ele acreditava estar sozinho e, por conhecer o sinal que observava, inferiu rapidamente que na ilha existia pelo menos mais uma pessoa.”

a angústia real tem um desenvolvimento objetivo, concreto e exterior, mas também tem um desenvolvimento patológico incontrolado, irracional, podendo culminar num ataque ou numa reação de pânico. Isto leva-nos a procurar motivações inconscientes que atuem como desencadeantes destes afetos: portanto, subjacente a uma angústia real, na imensa maioria dos casos, encontra-se uma angústia neurótica.”

conceito de Angst: “deslizamentos confusionais compreensíveis” HAHAHAHA

NOWSEAAESxifsa

mirrormirrorwhatyouvegot

Para o medo, F. reserva o termo Furcht.” “o desenvolvimento da angústia é um preparo mínimo para os fatores traumáticos.” “Reservamos o termo ansiedade, que é quase sempre usado como sinônimo de angústia, para descrever um estado de expectativa consciente de um perigo, embora este não seja conhecido.” “Finalmente, devemos deixar claro que a palavra angústia tem sua origem no grego Anxius ou Angor, significando aperto, estrangulamento, impossibilidade de respirar.” break your neck

se aconteceu um cerceamento, haverá a possibilidade de que ele volte a se produzir. Será sempre uma ameaça”

A Lei do Pai”

6. SONHOS, FANTASIAS E FUNÇÃO IMAGINÁRIA

para expressar a idéia de posse o trabalho onírico pode nos mostrar uma pessoa sentada numa cadeira.”

isso-êntico

7. DEFESAS, MECANISMOS DE DEFESA

existe muita controvérsia entre as diferenças que poderiam existir entre uma neurose e uma psicose. Na época de F. dizia-se que a neurose consistia numa rejeição do instinto, em ficar-se à mercê do mundo exterior. Na psicose, rejeitar-se-ia o mundo exterior, obedecendo automaticamente ao Isso.”

OS “ULTRARREALISTAS” – übercríticos dos outros: idiotas quanto a si mesmos Quando passei a considerar os Outros como parte da solução, me tornei o problema. Quem renega a fraqueza fica fraco Eu sou só o melhor escritor que você jamais irá conhecer. Não me exija traquejo empresarial e domínio sobre assuntos da arraia-miúda.

Usar os mais ranzinzas como espelho do que já fui (e me envergonha): R***** e M*** S******

qualquer sintoma psicopatológico é em si mesmo uma forma de punição. O sujeito vive o conjunto sintomatológico como merecendo-o.” “2 quadros psicopatológicos clássicos: a neurose obsessiva e a melancolia”

uma pessoa não adoece por possuir defesas e sim pela sua ineficácia ou pelo mau uso que faz delas.” “estereotipia defensiva”

Quem se inicia em psicopatologia acredita que um determinado paciente está <curado> quando se conseguem <abater as defesas>. Erro grave, porque podem passar inadvertidas ao profissional mudanças nas apresentações de conduta pertencentes às defesas articuladas pelo sujeito para lidar com os estímulos internos e externos”

um neurótico diz: <eu sofro, mas não sei por quê>. Um psicótico, entretanto, e, em certa medida, um perverso, acreditam numa realidade (delírio) que implica a rejeição de uma outra realidade cuja existência tiveram previamente que admitir. É como se dissessem: <eu não sofro, isto é o que sinto e penso>. Modernamente, o mecanismo básico das psicoses e perversões recebeu denominações diversas, como repúdio, rejeição, exclusão, desmentido para traduzir a palavra alemã Verwerfung. Em francês, a tradução proposta por Lacan é forclusion. Trata-se de uma rejeição, ou afastamento, próximo do recalque, mas não se confundindo com ele.EU TE REPUDIO! “o texto onde fica mais patente este mecanismo de defesa é no caso do Homem dos Lobos (1918).” “<Uma repressão é algo muito diferente de uma rejeição.> (Eine Verdrängung ist etwas anderes als eine Verwerfung.)” “Desta maneira, a exclusão da castração implica necessariamente em ausência da existência desse fato.”

Rejeitava a castração e apegava-se a sua teoria de relação sexual pelo ânus. Quando digo que ele a havia rejeitado, o primeiro significado da frase é o de que ele não teria nada a ver com a castração, no sentido de havê-la reprimido. (…) era como se não existisse. […] Afinal, seriam encontradas nele, lado a lado, duas correntes contrárias, das quais uma abominava a idéia da castração, ao passo que a outra estava preparada para aceitá-la e consolar-se com a feminilidade, como uma compensação.” “Para além de qualquer dúvida, porém, uma terceira corrente, a mais antiga e profunda, que nem sequer levantara ainda a questão da realidade da castração, seria capaz de entrar em atividade.”

Metaforicamente, e para esclarecer esse complicado e fundamental mecanismo de defesa, transcreveremos uma expressiva e notável explicação de Leclaire (À propos de l’Episode que présenta l’Homme aux Loups): Se imaginamos a experiência como um tecido, ou seja, ao pé da letra, como um pedaço de fazenda constituída por fios entrecruzados, poderíamos dizer que o recalque estaria representado por alguma ruptura ou por algum rasgão, importante e sempre passível de ser cerzido e reparado, enquanto que a exclusão estaria representada por alguma abertura devida ao tecido mesmo, i.e., por um buraco original que jamais seria suscetível de encontrar sua própria substância, já que esta nunca teria sido outra coisa senão substância de buraco, e que nunca poderia ser preenchido senão de modo imperfeito por um <remendo>, para retomar o termo freudiano.” “a alucinação, o delírio, será a <realidade> que <tampará> o buraco”

neurose: os sucessivos deslocamentos, condensações e distorções fizeram perder o sentido original, que se recupera com o trabalho interpretativo.

psicose: a estrutura desarticulada não é passível de ser representada simbolicamente, daí resultando que a interpretação, como recurso terapêutico, é inadequada”

8. OS CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO E AS OPERAÇÕES DEFENSIVAS

Cotas para esquizos

Uma personalidade histérica pode se apresentar com uma estrutura fóbica e, em outros momentos, com estrutura conversiva, estruturas que, por sua vez, são organizações defensivas de estruturas esquizóides ou melancólicas subjacentes.”

Ex-neurótico

Interessa pesquisar não só a fluidez da divisão destes níveis no plano sincrônico (diagnosticador/diagnosticado)[?], mas também no plano diacrônico (em que época da vida se quebrou, se se manteve da mesma maneira, etc.).”

NEUROTISMO

PSICOTISMO

ansiedade¹

enfermidade orgânica atual[?];

tensão¹

transferência neurótica[?]

narcisismo

manutenção da clivagem

clivagem não-conservada ou em risco de perder-se [NÃO HÁ TRAUMAS, É-SE O TRAUMA!]

Defesas: (…) [“maldição” – ver 2ª tabela e trechos de T&T mais abaixo: o rancor ao pai que volta contra si depois de morto]

Defesas: caracteropáticas[?]

Versão simplificada em relação à das pp. 204-5 (fig. 19).

¹ E qual seria a distinção fundamental entre ambas?

O esquema apresentado acima possui forte influência jacksoniana. Este neurologista inglês, herdeiro da doutrina <evolucionista spenceriana>, formulou, no final do século passado, sua célebre Teoria da Dissolução, que encontrou importante repercussão nos meios neurológicos e psiquiátricos.”

uma disciplina, cujo primeiro objetivo é analisar e interpretar as diferenças, poupa-se muitos problemas ao considerar somente as diferenças” (Lévi-Strauss, Raça e história)

Teoricamente, um sujeito seria capaz de apresentar todas as condutas possíveis se a situação, o contexto onde ele se inscreve, assim lho exigisse. Porém, todo sujeito tem <selecionado>, inconscientemente, um certo número, bastante restrito, de estruturas defensivas, que utiliza para lidar contra os perigos internos e externos em quase todos os contextos e meios sociais em que lhe cabe viver. Esta seleção apresenta-se como um estilo muito particular e característico”

Derrubam-se diques, erguem-se outros…

Normalmente, entende-se por contracatexia uma espécie de barreira levantada perante outras catexias transportadas pelas pulsões e desejos inconscientes.”

GENEALOGIA DO BLASÉ: “Esta <retirada> é conhecida com o nome de descatexia ou descatexização.”

Facilmente se deduz que a luta estabelecida entre os desejos originais e as defesas levantadas contra eles exige um permanente gasto psíquico.”

Para Fenichel, a contracatexia é o sinal da angústia” “reação do Eu, não criada por ele e sim usada por ele”

Deveremos frisar, insistentemente, que <neurotismo> e <psicotismo> são simplesmente duas séries ordenadas, numa escala complementar, e não podem ser tomadas como padrões rígidos ou como um guia dogmático.”

(*) O livro inverte as colunas abaixo (fig. 20, pp. 209-10), colocando PSICOTISMO à esquerda e NEUROTISMO à direita, erro que retificamos. Em negrito – após os títulos – aqueles conceitos que são pormenorizados num nível satisfatório mais à frente. A tabela também foi encolhida (como a de cima), pois apresenta um excesso de conceitos que só atrapalharia:

NEUROTISMO

PSICOTISMO

Projeção [“Eu sou o Goku” → “eu queria muito ser o Goku, mas não sou, ele está na TV” (mecanismo normal da criança que matura) – sentimento de decepção face a quem despe essa máscara, e sempre há um bode expiatório que não é o Eu.]

Identificação projetiva[-introjetiva]

[Mais para “o Goku sou eu, eu sou todo o possível, pois esqueci o que é faz-de-conta” – sentimento de indiferença, autossuficiência hipostásica]

repressão (recalque)

[negação → afirmação

(autores também usam denegar: odiar, trair)]

renegação (forclusão)

[de certa forma, encarnação do paradoxo – para além até da simples ambivalência da má-fé]

deslocamento [crise, accountability com o passado e somatização]

divisão [a-historicidade, indiferenciação]

regressão parcial

regressão total

inibição

¹

reatividade

¹

¹ Não há contrário equivalente na tabela.

Fosse a neurose uma figura geométrica, seria provavelmente um círculo; fosse a psicopatia uma figura geométrica, seria um ponto.

Quanticopata

Projeção

expulsão de uma idéia intolerável. <Portanto, o propósito da paranóia é rechaçar uma idéia que é incompatível com o Eu, projetando seu conteúdo no mundo externo>” Culpabilização do Outro.

repressão de um sentimento de amor, retorno do amor em seu contrário (o ódio) e responsabilização do ódio ao objeto que havia originalmente suscitado amor. <Eu não o amo – eu o odeio, porque ELE ME PERSEGUE>.”

Não se pode dizer que estejam alegres por se haverem livrado do morto; pelo contrário, estão de luto por ele, mas, é estranho dizê-lo, ele transformou-se num demônio perverso, pronto a tripudiar sobre os seus infortúnios e ansioso por matá-los. Torna-se, então, necessário aos sobreviventes defender-se contra o inimigo malvado; aliviaram-se da pressão provinda de dentro, mas apenas a trocaram pela pressão vinda de fora.” Totem & Tabu

Se já sinto meus avós no cangote…

Está fora de discussão que esse processo de projeção que transforma um morto num inimigo maligno, pode encontrar apoio em quaisquer atos reais de hostilidade de sua parte(*), os quais podem ser relembrados e sentidos como rancor contra ele: sua severidade, seu amor ao poder, sua injustiça, ou qualquer outra coisa que possa estar por trás até mesmo das relações humanas mais ternas”

(*) Grifo do próprio Freud

Laplanche e Pontalis, ao percorrerem os diversos sentidos adquiridos para Freud pelo termo <projeção>, concluem que o termo aparece sempre como uma defesa.“a tendência ao uso da projeção, sem desaparecer totalmente, é substituída e de certa forma compensada pela experiência ativa, objetiva, do sujeito no mundo exterior.”

Como fazendo parte de um amplo espectro de possibilidades, o mecanismo projetivo também aparece em estados <normais>: irritação por frustração, cansaço, alcoolismo leve, etc. Passado esse estado transitório [no caso do alcoolismo pouco acentuado, semanal?], passa também a tendência projetiva.” Pubescência…

OXÍMORO

Frustrado com a vida

Que me mata dia a dia

Cansado da minha pele

Que me retrai e vulnerabiliza

Nauseado dessa substância chamada

Oxigênio

Que me arranca o fôlego.

Deslocamento

O estudo de F. sobre o pequeno Hans demonstra que o objeto-cavalo possuía atributos para deslocar sobre si mesmo atributos do pai do menino: tamanho, força, incontrolabilidade muscular, possibilidade de ataque, etc.”

um fóbico pode ter uma monofobia, mas o mais freqüente é que possua várias e que, em certas ocasiões, tudo lhe produza medo (pantofobia).”

Regressão parcial

A regressão, como muitos outros mecanismos, faz parte da vida normal do sujeito. Assim, o ato de dormir, cotidiano, explica-se por este mecanismo.”

Introjeção

Se as características parciais ou totais do objeto perdido tomam conta, invasoramente, do sujeito, e este se comporta <como se> fosse realmente o objeto perdido, dir-se-á que ocorreu um fenômeno de identificação introjetiva, fazendo parte então dos processos psicóticos.” “a introjeção tem especial relevância na formação do Supereu.”

Isolamento

Geralmente faz parte da estrutura obsessiva, já que aqui os processos de recalque não são suficientes para manter inconscientes as representações causadoras de desprazer que retornam permanentemente.”

Formação reativa

É o mecanismo de defesa que leva o sujeito a efetuar o que é totalmente oposto àquilo inconsciente que se quer rejeitar. Tendências agressivas contra determinado objeto provocam reativamente uma extrema solicitude para com o mesmo.” “no período de latência todo o sistema ético de valores familiares e culturais atua como formações reativas das pulsões eróticas” O menininho calmo, familiar e hipócrita, enfim, o mais-normal-de-todos-os-Rafaéis, em seu mundo de respeito-aos-pais e videogames. Muito estudioso, cultivador da amizade ideal, e que dava a outra face diante do Outro da mesma faixa etária, pubescentes precoces [M*****].

Mas mesmo para uma teoria psicanalítica refeita e modernizada, este contínuo entre neurose e psicose parece coincidir em pontos excessivos! Reatividade é considerada, num patamar saudável, a conquista da saúde e superação (nunca definitiva) do Édipo; desregulada, é paranóide, e pode haver a recaída dos casos saudáveis; mas rejeição (verbo rejeitar usado acima) é claramente associada à psicotização (renegação)!

Sublimação [Hello Aristoteles my old friend!] ou: A ÉTICA DOS CASTRADOS

Fenichel a considera um mecanismo de defesa <bem-sucedido>. Mas Bergeret a considera uma defesa não-verdadeira (Abregé de Psychologie Pathologique, 1975). A polêmica continua ainda hoje.”

Nem sempre são claras as diferenças entre uma formação reativa e uma sublimação. Enquanto nesta última as atividades proporcionam imenso prazer, naquela existe um caráter forçado e por vezes compulsivo que desperta angústia assim que é deixado de lado. [falar gentilmente com minions gera esse quadro exato!]. O exemplo típico é qualquer espécie de trabalho. Se o sujeito pode deixá-lo, desfrutando periodicamente de seu tempo livre, aquele tenderá a ser visto como atividade sublimada [sou bergeretiano!].

Devemos reconhecer, com Laplanche e Pontalis, que a psicanálise apresenta lacunas importantes neste tópico.”

Negação negativa

Durante o percurso da cura típica, uma das melhores provas da queda parcial das barreiras do recalque consiste no estudo da fala dos pacientes, que expressam: Não, jamais pensei isso.

APROFUNDAMENTO

A. Godino Gabas, Oedipus Complexus Est, 1979.

E. Westermarck, The history of human marriage, 1920.

J. Bleger, Psicología de la Conducta, 1963.

K. Lewin, Principles of Topological Psychology, 1936.

Kusnetzoff, Psicanálise e Psicoterapia Breve na Adolescência, Zahar, RJ, 1980.

L. Morgan, Systems of consanguinity and affinity of the human family, 1871.

L. Grimberg & D. Liberman, Identificación proyectiva y comunicación en la situación transferencial (artigo), In: Psicoanálisis de la manía y la psicopatía, 1966.

M. Knobel, El Sindrome de la Adolescencia Normal, in: Adolescencia Normal. Paidós, 5a ed. 1977.

O. Fenichel, Teoría psicanalítica de las neurosis, 1966.

S. Freud, A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão, 1910.

______, A negativa (artigo), 1925.

______, O Moisés de Michelangelo, 1914.

______, O Narcisismo: uma introdução.

AS LEIS – Livro IV

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Com efeito, a vizinhança do mar é coisa doce e agradável para uma cidade, caso se considere apenas o presente imediato; a longo prazo, torna-se uma circunstância amarga.”

ATENIENSE – A maioria dos gregos e bárbaros concordaria contigo – já Megilo e eu nos contrapomos a todos vós. Para nós, a vitória terrestre de Maratona foi o fundamento da salvação da Grécia (depois consumada pela vitória de Platéia), e não a vitória naval de Salamina. Guerrear no solo serviu para fazer dos gregos melhores; nem de Salamina nem de Artemísio pode-se dizer que tirou-se tanto proveito para nossa redenção. (…) o mais importante para o homem não é, como se imagina, a existência e a autoconservação, mas o tornar-se tão virtuoso quanto é possível chegar a ser e sê-lo durante toda a vida.Vontade de Potência em germe.

a legislação e a fundação de cidades são os elementos mais favoráveis para o alcance da virtude.” Lúgubre inversão milenar…

lei alguma é obra de mortais: quase todos os negócios humanos, em verdade, estão nas mãos da fortuna. Me parece que se pode dizer o mesmo da navegação, da cosmografia, da medicina, da arte da guerra.”

CLÍNIAS – Deveras, Estrangeiro? Crês que basta um tirano jovem, moderado, penetrante, de boa memória, valoroso e possuidor de grandes sentimentos, a fim de se criar um bom Estado em que boas leis são estabelecidas e conservadas?”

ATENIENSE – (…) O segundo cenário mais viável para uma boa legislação seria que se encontrassem dois chefes tais quais aquele que pintei como o chefe perfeito; o terceiro, aquele em que aparecessem três destes. Quero dizer com isso que a dificuldade da empreitada só aumenta à medida que se amplia o número de governantes aptos (…)

CLÍNIAS – De maneira então que pretendes que a situação mais favorável para se chegar a um bom governo é a tirania, quando o tirano é moderado e secundado por um hábil legislador; e que em nenhum outro caso a transição de uma anarquia ou mau governo para o bom governo seria tão ligeira e fácil? (…)

ATENIENSE – (…) Apenas reitero, caro Clínias: considero a opção mais viável uma tirania; no segundo posto situo a monarquia; no terceiro, uma democracia de determinado tipo; no quarto, a oligarquia que por si só é a menos indicada como meio de dar a luz a um governo perfeito, já que a oligarquia é o sistema com mais governantes.”²

¹ Se é que Platão ainda segue a tipologia exposta n’A República, a oligarquia é a aristocracia arruinada. Veja nota abaixo.

² Caberia um questionamento de grande monta, para o qual eu necessitaria de mais investigações: teriam as desilusões biográficas de Platão alterado a olhos vistos a filosofia platônica, a ponto de termos uma hierarquia, n’As Leis, totalmente remodelada e contrastante com a d’A República (obra cronologicamente anterior)? Ou este efeito de matiz e alteridade (embora às vezes pareça tão severo quanto o contraste luz-sombra) é meramente calculado e intencional, devendo ser entendido com auxílio de uma nova roupagem (o contexto com que o próprio Platão adorna o diálogo)? De qualquer modo, o dado de que é um personagem apócrifo, oriundo de Atenas, quem dá essa resposta apologética da tirania (e usa o critério do número intransigentemente) não deve ser ignorado. N’As Leis este sábio visa a orientar a legislação de um Estado que será fundado em breve, numa terra antes inabitada, após ser consultado por outros doutos em comitiva. N’A República, Sócrates (mestre incontestável e ilibado) dá seu parecer sobre qual seria o melhor Estado de todos os tempos, nas condições perfeitas, tendo à disposição os melhores homens, e como far-se-ia para que ele perdurasse o máximo de gerações possíveis, o que, se por um lado passa a noção de ser uma tarefa bem mais fácil e criativa, também pode ser encarado como um raciocínio muito mais delicado e abrangente.

Nada se faz do dia para a noite, nada se faz em tempo algum, mas num tempo certo que uma hora sobrevém.

TEIAS E ESPELHOS: O Sócrates platônico. O Platão platônico. O Platão jaegeriano. O Sócrates jaegeriano. O Jaeger platônico. O Sócrates platônico jaegeriano. O Jaeger socrático-platônico. O Platão de Cila. O Sócrates platônico de Cila. O Jaeger de Cila. Platão, Cila, dois pontos, uma reta e o torvelinho. Pseudo-Platão ao meio-dia e o Platão cavernoso que ecoa pela eternidade em minha consciência fugaz.

Segundo dizem, Nestor superava todos em temperança e moderação, até mais que na eloquência, na qual já era mestre. Tamanho prodígio foi revelado aos homens, segundo a lenda, durante o sítio de Tróia. Em nossos dias nada se lhe assemelha.”

Cronos, convencido de que nenhum homem teria capacidade de governar seus iguais com autoridade absoluta sem ao mesmo tempo recair na licenciosidade e injustiça, estabeleceu como chefes e reis, nas cidades, não homens, mas inteligências de uma natureza mais divina e insólita que a nossa, ou seja, demônios, de modo que éramos em relação a eles o que os rebanhos quadrúpedes são em relação a nós.”

Deus é a justa medida de todas as coisas, muito mais que o homem, de qualquer homem que estivermos falando. Destarte, nenhum meio há de se fazer amado por Deus senão esforçar-se em ser a sua imagem e semelhança.”

é preciso convencer-se de uma vez que todos os bens que se possui pertencem àqueles de quem se recebeu o nascimento e a educação, e que convém consagrá-los sem reservas a seu serviço, começando pelos bens supérfluos, seguidos pelos do corpo, e por fim consagrando-lhes os da alma; pagando-lhes com juros os cuidados, sufocos e tribulações que nossa infância lhes causou noutro tempo, redobrando nossas atenções aos velhos conforme as debilidades da idade as tornam mais e mais inevitáveis. (…) De modo que é preciso ser compassivo com a cólera do idoso, fazer pouco caso de seus ressentimentos, manifestem-se eles por palavras ou ações, e desculpá-lo de todo, ao deliberarmos que um pai que se sente ofendido pelo filho tem o direito legítimo de com ele se irritar.” “Vivendo dessa forma, receberemos dos deuses e dos seres de natureza mais perfeita que a nossa a recompensa de nossa piedade, e passaremos a maior parte de nossa existência tomados pelas mais doces esperanças.”

quando um poeta está sentado no tripé das Musas¹ não é dono de si mesmo. Semelhante a uma fonte, deixa correr tudo que está alojado em seu espírito. E sua arte, que não é mais que imitação, ao descrever os homens em situações opostas, se vê obrigada muitas vezes a dizer o contrário do que antes dissera, sem saber de que lado se encontra a verdade. Mas com o legislador não é assim: suas leis não podem falar de dois jeitos diferentes sobre uma mesma coisa; eis um texto que se expressa numa só unidade.”

¹ Assento do oráculo: significa que o que sai da pena do poeta enquanto ele não é um simples homem, mas está possuído pelo espírito das Musas, nada tem a ver com o indivíduo, é coisa divina e automática, por assim dizer, de uma perspectiva antropológica. Supera a nossa própria condição frágil e limitada – mas não podemos sustentar esse estado senão por breves momentos em nossas vidas (e isso falando-se dos raros indivíduos que recebem esses dons especiais dos deuses).

Problema: nosso legislador deverá fazer anteceder cada lei por um preâmbulo, isto é, uma cabeça;¹ ou bem deverá expressar do modo mais sucinto e direto possível aquilo que se deve fazer e aquilo que se deve evitar?

¹ O caput dos juristas.

Todo mundo está obrigado a casar entre os 30 e os 35 anos. O que não o fizer será punido com multas e desonras.”

A duração do gênero humano é a mesma que a do tempo; os homens sucedem-se sem interrupção, bem como um ano sucede ao outro, porque essa é sua forma de anelar à imortalidade, de modo que uma geração passa o bastão a outra, e a espécie é sempre a mesma. Todo homem carrega o pecado,¹ embora a humanidade seja inocente. A fim de compreender-me, analisai, primeiro, pelo ângulo dos indivíduos: nenhum animal tem vida eterna, todos envelhecem, passam, desaparecem, aniquilam-se; analisai, em segundo lugar, pelo ângulo das espécies: tudo subsiste, tudo é permanente e imutável.”

¹ O original de Azcárate é “Es un crimen en todo.” Minha opção de tradução se justifica pela linha que Platão segue fielmente em todos os livros d’As Leis. O mais proeminente nesta obra, em seu conjunto, é que Platão se tornou uma fonte indispensável para a religião cristã e seus dogmas. Dou-me esta liberdade “antecipatória”, portanto.

O grego antigo não possuía a idéia de pecado comum a virtualmente todo monoteísmo. Por outro lado, Platão se situa quase no fim da cultura helênica, e contribui com sua derrocada e com criação de uma nova cultura, internacional. A Atenas decadente de seu tempo já não tinha forças para se regenerar; quanto ao homem, como entidade universal, talvez a única forma de reinventar-se fosse modificando-se metafisicamente, já que uma volta ao passado seria inconcebível. Além do mais, em Platão qualquer “volta ao passado” teria de ser para tempos pré-homéricos, pois nem mesmo o apogeu da era heróica dos gregos encaixa-se em seu ideal de paideia (educação).

Uma versão menos “cristófila” seria: “Todo homem carrega a expiação / Todo homem expia por igual”, já que a seguir Platão fala da inevitabilidade da morte. Então por que não usá-la? Porque expiação já está suficientemente carregada de conotações cristãs, e no fim a percepção do leitor seria quase a mesma…

AS LEIS – Livro III: DA GENEALOGIA DA GRÉCIA

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

ATENIENSE – Para se descobrir a origem de algo, o método mais simples e seguro é aquele que apura as transformações que sobrevêm sucessivamente às coisas (aos Estados, em nosso caso), não importa se para o bem ou para o mal.”

Diz-me: és capaz de computar o tempo que faz que se fundaram as primeiras sociedades, e que os homens vivem sob leis? (…) Sem dúvida que se trata de época já muito remota, perdida no infinito.”

Reza a lenda que o gênero humano foi destruído diversas vezes por dilúvios, pragas e acidentes que-tais, dos quais na realidade se salvavam sempre alguns poucos indivíduos.” “Os sobreviventes imediatos do último dilúvio não duvidavam que antes deles já havia transcorrido milhares e milhares de anos; e sem dúvida assumimos que não faz nem mil ou 2 mil anos que se produziram as descobertas atribuídas em mitos a Dédalo, Orfeu e Palamedes; que Mársias e/ou Olimpo inventou(aram) a flauta; que Anfião inventou a lira; trocando em miúdos, é como se todos esses nomes legendários tivessem nascido ontem mesmo.” “A tudo o que deveio recentemente, portanto, é que podemos atribuir aquilo que vemos hoje: as sociedades, os governos, as artes, as leis, os vícios e as virtudes.”

A metalurgia é uma arte que foi inventada, esquecida e perdida, e depois reinventada, uma série de vezes. Os instrumentos desta arte perecem em pouco tempo, e no entanto logo esta técnica e esta sabedoria voltam a ser necessárias para os homens.” “Durante este hiato de esquecimento da metalurgia, até mesmo as guerras e as discórdias ficam, por assim dizer, hibernadas.”

Noutros tempos não havia a menor carência de um legislador; assim que um se faz necessário, nascem as leis. Nos tempos sem esta necessidade o homem sequer conhece a escrita; bastam-lhe os costumes e as tradições orais.”

Estes homens não conheciam outro governo senão o patriarcal. Vestígios disso continuam a haver entre gregos e bárbaros indistintamente. Homero diz a certa altura que este era o governo dentre os ciclopes: <Entre eles, não se delibera em assembléia, não existe administração nem justiça. Vivem em cavernas profundas no cume das mais altas montanhas,¹ e ali cada um dá a lei a sua mulher e a seus filhos, ignorando seus vizinhos.>”

¹ Uma curiosa antítese, tão poética quanto carregada de significados concretos… O mais elevado e o mais rebaixado. O celeste e o infernal. O supremo do inatingível. Pense-se num pico, inalcançável pelas populações pacíficas da superfície, que apenas em seu píncaro possui uma abertura para um precipício avassalador, que aloja estes proto-homens, caolhos, grotescos e bélicos, porém apenas lá em seu fundo imperscrutável até para a imaginação mais florescente; uma cidade povoada, funda e subterrânea o bastante para, mesmo que seus habitantes sejam monstros gigantes, impedir que qualquer um em seu seio possa escalar rumo ao exterior da caverna e evadir. Qualquer evocação do sétimo livro da República a esta baixíssima altura não seria apenas curiosidade de pé de página…

MEGILO – Lemos muito Homero, e o consideramos superior a todos os outros poetas, ainda que os costumes que descreva sejam mais de estirpe jônia que espartana.”

Durante este longo período que durou o sítio de Tróia, na pátria da maioria dos sitiadores, em sua ausência, ocorreram grandes males, incluindo revoltas dos jovens que cresciam sem os pais; estes jovens que não tinham idade para ir à guerra receberam bastante mal os vencedores, quando de seu regresso ao seio familiar; por todo lado o único assunto nas polis da confederação dos vitoriosos eram as mortes, assassinatos e desterros que aí se seguiram. Mas os desterrados, a velha geração, conseguiram recuperar o poder à força e deixaram de ser conhecidos apenas como aqueus – estes foram os dórios, e assim se batizavam porque seu líder se chamava Dório. Diria que é aqui que começa a história grega.”

Existe uma recomendação hipócrita que se faz aos legisladores: que as leis que eles criam sejam tais que o povo e a nação a elas possam se submeter voluntariamente. É como pedir a um médico que cure as doenças sem infligir o menor grau de sofrimento aos pacientes; ou a um mestre de ginástica que desenvolva o corpo de seu alunado proporcionando apenas práticas suaves e agradáveis a ele.”

Por mais igualitárias que tenham podido ser as primeiras constituições das polis, os legisladores não mexeram no núcleo da questão mais espinhosa, o que, se feito, impossibilitaria seus projetos de governar e unir os povos. A saber: abolir as dívidas de todos e repartir a terra de forma totalmente igual entre os cidadãos, eis o que jamais ousaram fazer. Um legislador pode ousar em outros aspectos impunemente, mas no momento em que demonstrar o menor interesse na divisão igualitária das terras, encontrará a mais ferrenha oposição.”

Os dórios criam estar suficientemente garantidos, enquanto país, dado o equilíbrio de forças tripartite que se estabeleceu internamente entre suas maiores polis: três reis irmãos entre si, filhos de Hércules; e havia um exército já muito superior àquele que sitiou Tróia.”

ATENIENSE – Mas tanto poder, um poder que se imaginava sólido, ruiu de uma hora para outra. De todo aquele poder não restou senão uma pequena parcela, que hoje é Esparta, que desde aquela época até a nossa nunca cessou de fazer a guerra às outras duas potências dóricas; e pensar que se se formasse uma liga entre as 3, naqueles tempos, teriam sido invencíveis!

MEGILO – Concordo.”

De certa maneira, podemos concordar que há duas classes de constituições políticas primordiais: monarquia e democracia. A monarquia, entre os persas; e entre nós, atenienses, a democracia; ambas representam todo o desenvolvimento possível das classes. Quase todas as demais constituições são como que composições e mesclas destas duas. É absolutamente imprescindível que um governo tome leis e preceitos de uma e de outra, se sua meta máxima for a liberdade, a cultura e a concórdia” “Os persas e os atenienses se separaram desse meio-termo, que haveria de proporcionar-lhes largas vantagens. Uns optaram por levar ao extremo os direitos da monarquia; os outros, o amor à liberdade. Este termo-médio se conservou melhor em Creta e em Esparta.

Dario não era filho de rei nem havia recebido uma educação afeminada e voluptuosa, Viu-se dono do império persa com o consentimento dos outros seis candidatos ao trono. Dividiu então a Pérsia em 7 regiões, configuração cujos vestígios ainda podemos notar. Em seguida promulgou leis acima de si mesmo, a fim de administrar seu império sendo o primeiro dos administrados. Não deixa de ser uma espécie de igualdade possível na monarquia. Fixou a distribuição que seu antecessor Ciro havia prometido aos persas; consolidou a união do império e favoreceu o comércio.”

Depois de Dario, assumiu Xerxes, educado, tal qual Cambises, na pompa e no fausto da côrte. Ó Dario! Pode-se acusar-te sem receios de não teres reconhecido a falta que cometera Ciro, quando destes a teu filho a mesma educação que Ciro consentira em dar ao seu. Xerxes teve então um destino mais ou menos igual ao de Cambises. Desde esta época a Pérsia não teve reis verdadeiramente grandes, a não ser no nome. Não tem a ver com sorte, mas com a vida afeminada e voluptuosa que vivem de ordinário os filhos dos reis e dos ricos.”

Quando aconteceu dos persas ameaçarem os gregos, quiçá com o propósito em mente de invadir logo depois toda a Europa, os atenienses sustinham ainda a antiga forma de governo, a da distribuição dos cargos públicos conforme os 4 censos em que estava estratificada a população. Reinava certo pudor em todos os espíritos, e esse pudor fazia desejarmos viver sob o império de nossas leis. Ademais, o formidável aparato do exército persa que nos ameaçava tanto com a invasão por mar quanto por terra, tendo infundido o terror em todos os corações, aumentou a submissão às leis e aos magistrados. (…) Dez anos antes do combate naval de Salamina, Datis veio à Grécia com um numeroso exército – enviado por Dario, que declarou guerra aos atenienses e eritréios, os quais desejava escravizar –, sabendo que, se não cumprisse as exigências de seu rei, sua cabeça estaria a prêmio.”

Por terra não contavam com o auxílio de nenhum povo da Magna Grécia, afinal, recordando o ocorrido na primeira invasão persa, quando da ruína da Eritréia, sabiam que não havia possibilidade de qualquer espírito de união entre os helenos. Por via marítima, atacados por uma frota de mil navios, quiçá mais, tampouco vislumbravam qualquer salvação. (…) compreenderam por fim que seu único refúgio estava em si mesmos e nos deuses.”

sem este temor incutido no coração de todos os atenienses, não haveria também nenhuma unidade de propósito, nem chance de que partissem resolutos em defesa de seus templos, das tumbas de seus antepassados, de seus parentes e amigos”

Nossa música se encontrava, antigamente, dividida em muitas espécies e formas particulares. As súplicas dirigidas aos deuses formavam a primeira espécie de canto, e foram chamadas hinos. A segunda, de caráter diametralmente oposto, se chamava treno (lamentações). As peãs (cantos em honra de Apolo) constituíam a terceira. E, creio eu, o ditirambo a quarta, forma de celebrar o nascimento de Dionísio. A todo canto, de qualquer espécie que fosse, se dava antigamente o nome de lei. Mas, para distinguir essas das outras leis, as leis do direito, chamou-se-as então de <leis de alaúde> (laudatórias). Uma vez estabelecidos esses tipos de canto (não descarto que houvesse mais espécies que as que citei), não mais era possível modificar sua melodia. Eles canonizaram-se na forma. Os silvos e os clamores da multidão, os apupos e aplausos, não eram, então, como hoje, juízes da boa observância das regras, nem carrascos encarregados de castigar os cantores avessos à norma. Essa tarefa competia a homens versados na ciência da música, os quais ouviam silenciosos até o final, e portavam uma vara, que fustigava os jovens que ultrapassassem os limites do decoro”

Os poetas foram os primeiros que com o tempo introduziram a desordem e a indignidade no canto das Musas. Não por lhes faltar gênio; mas, conhecendo mal a natureza, o que significa conhecer mal as verdadeiras regras da música, abandonaram-se a um entusiasmo insensato e se deixaram carregar demasiado longe pelo sentido do prazer. Confundiram os hinos e os trenos, as peãs e os ditirambos; imitaram com o alaúde o som da flauta; e, mesclando tudo, chegaram, em sua extravagância, até a imaginar que a música não possui beleza congênita”

foi uma conseqüência necessária que os teatros, mudos até aí, levantaram também a voz, como se fossem entendidos em música, para sair criando e hierarquizando categorias dentro desta arte! E foi outra conseqüência necessária que o governo ateniense, de cariz aristocrático, se converteu, para sua própria desgraça, em teatrocrático! Em que pese toda a decadência da música, o mal não teria sido tão nefasto, caso a democracia se houvesse estendido apenas aos homens livres; mas, varrendo tudo que encontrava, a desordem da música afetou toda a coletividade dos seres;¹ cada qual crendo-se árbitro competente de toda as criações, um espírito generalizado de independência contaminou a polis. Cada um pensando muito de si próprio fez desaparecer a modéstia e o pudor, e disseminou a impudência. E a pior de todas as impudências é aquela que se origina de uma independência desenfreada e consiste em levar a audácia ao cume: até o ponto em que o juiz leigo atropela, com seu juízo torpe, todos os outros juízos dos entendidos em estética.”

¹ Não é simples questão de ranço ao gosto do “populacho”, como se diria hoje em tempos de indústria cultural e cultura de massa: com estas afirmações, Platão quer dizer: os escravos, menos-que-homens, é que passaram a ditar a moda em Atenas.

imitam e renovam a audácia dos antigos titãs; e, tal como eles, hão de terminar nos suplícios de uma existência horrível, uma vida que nada é senão uma cadeia inquebrantável de males.”

Em resumo, dissemos que o legislador deve propor 3 coisas na instituição de suas leis, a saber: o reino da liberdade, da concórdia e da cultura no âmbito do Estado.”

CLÍNIAS – (…) Ajudai-me a filtrar, em tudo o que discursáramos, os elementos essenciais a fim de que construamos, por entendimento mútuo, uma cidade como se nós mesmos a cimentássemos com nossas mãos, conforme nossas disposições mais íntimas. Através deste procedimento, chegaremos à descoberta do que tanto buscamos neste simpósio, sem desconsiderar que este plano me servirá como pedra fundamental da nova cidade que me incumbiram de fundar.”

AS LEIS – Livro I

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “A cripteia (derivada do grego para ocultar, κρυπτεία) consistia no seguinte (apud Heráclito e Plutarco): os jovens espartanos se dispersavam sobre o campo, emboscavam-se de dia e saíam de seus esconderijos com o pôr-do-sol, a fim de surpreender e matar ilotas.¹ Por este meio intentava-se, ademais de treinar os soldados, controlar o aumento da população escrava da polis. Segundo o comentário canônico da obra platônica, a cripteia era simplesmente um exercício militar destinado a acostumar o jovem a uma vida repleta de emboscadas e fadigas. Os jovens espartanos que acaso se deixassem apanhar eram severamente castigados nessa <gincana séria>.”

¹ Gente que vivia em Esparte sem direitos, i.e., escravos do regime espartano.

“CLÍNIAS – Assim me parece enquanto falas. Mas crer nas coisas assim de supetão em matérias de suma importância não quadraria melhor aos jovens e aos imprudentes que a nós?”

“ATENIENSE – (…) vossos ginásios e vossos banquetes são superiores à educação e convivência em muitos Estados sob múltiplos pontos de vista, mas possuem graves inconvenientes no que respeita às sedições.”

“qualquer outra união de varões com varões e de fêmeas com fêmeas (fora a reprodutiva) é um atentado contra a natureza¹ (…) Todos acusam os cretenses de haver inventado a fábula de Ganimedes. Imaginando-se Zeus como o autor de suas leis, eles criaram estas coisas sobre este deus, com a segunda intenção de desfrutar deste prazer impunemente; mas abandonemos de uma vez por todas essa ficção!”

¹ Nesta sua última fase, mais prefiguradora do cristianismo e cada vez mais radical, Platão já nem sequer contempla a relação da pederastia helena institucionalizada (erastas-eromenos, amante-amado), que fazia parte da paideia (formação do homem grego). Ele passa a aceitar apenas a cópula heterossexual – e ainda assim estritamente em período fértil com o fito de gerar descendentes –, ou seja, iguala-se, em retrospectiva, ao moralismo ascético da futura Igreja, a que sem dúvida dá um grande impulso iniciador em obras como A República e As Leis.

(*) “Em Atenas, durante as Bacanais, pessoas mascaradas andavam em carros abertos pelas vias da cidade, xingando e lançando impropérios a todos que aparecessem. Agiam como atores num espetáculo, muitas vezes dando vazão a diálogos ou representações dramáticas sem qualquer vinculação pessoal (encarnando terceiros ou entidades). O escólio (conjunto de interpretações eruditas sobre a Grécia) aventa a possibilidade de esse costume ser muito antigo e ter sido, por si mesmo, a fonte da qual brotou o próprio Teatro enquanto arte.”

“Não falo sobre o vinho em si, nem julgo aqui se é de mais valia bebê-lo ou deixar de bebê-lo. Falo do abuso dos bebedores e me pergunto se seria mais conveniente usá-lo como usam os citas, os persas, os cartagineses, os celtas, os iberos e os trácios, nações todas elas belicosas, ou como vós espartanos o usais. Vós, como dissestes, vos abstendes por completo deste licor; já os citas e trácios bebem-no puro, e até suas esposas; e chegam a derramar vinho sobre as vestes, persuadidos de que isso não é em nada extraordinário ou extravagante, mas que, pelo contrário, é o resumo da felicidade na vida. Os persas, em que pese mais moderados que os primeiros, têm pelo vinho um vício em grau suficiente para repugnar qualquer espartano.”

“E não nos sirvamos da história, das batalhas vencidas ou perdidas, como prova decisiva do valor ou falta de valor de uma constituição. Em tempos de guerra, os Estados grandes vencem e subjugam os menores. Assim os siracusanos subjugaram os lócrios, que têm a reputação de povo mais culto da região, assim como os atenienses submeteram os habitantes de Ceos.”

“Segundo o parecer de toda a Grécia, os atenienses amam falar, e falam muito; os espartanos, pelo contrário, têm fama de ser lacônicos; já os cretenses, de ser mais pensadores que faladores.”

“Vê-se com freqüência entre os jovens viajantes que aquela cidade que os acolhe tempo o bastante para neles gerar afeto é tomada a partir daí como uma segunda pátria, pouco menos considerada que a pátria-mãe, que lhes concedeu a existência; pelo menos eu vivenciei isso.”

“é preciso dirigir o gosto e as inclinações da criança por meio de jogos e brincadeiras que lhe são indispensáveis, caso os pais queiram que cumpra seu destino.”

“a espera pela dor se chama propriamente temor; a pelo prazer, esperança. A razão preside a todas essas paixões, e ela declara o que têm de bom e de ruim; e quando o juízo da razão se converte numa decisão geral para o Estado, neste ponto é que adquire o nome de lei.”

“ATENIENSE – A embriaguez faz regredir o homem, quanto à alma, ao mesmo estado de quando era menino.

CLÍNIAS – Perfeito.

ATENIENSE – Sem dúvida que numa tal situação a última coisa que será é dono de si mesmo.

CLÍNIAS – Certamente.

ATENIENSE – Não é muito má a disposição de um homem que se encontra neste estado?

CLÍNIAS – Péssima!

ATENIENSE – Doravante, meu caro, parece que não é só o ancião que volta a ser criança, mas assim o é com todos os bêbados.”

“Qual! Creremos que aqueles que vão à casa do médico para tomar remédios ignoram que estas drogas, desde que são absorvidas pelo corpo, pô-los-ão de cama por muitos dias, numa situação tão torturante que prefeririam antes morrer a ter de passar por isso? Não sabemos, de igual modo, que aqueles que se devotam aos exercícios ginásticos se vêem, nos primeiros dias, dominados pela debilidade?”

“E que faremos nós a fim de inspirar nos outros o temor àquilo que devem com justiça temer? Não os colocaremos frente a frente com a impudência? E, exercitando-se contra ela, não aprenderão, assim, a combater-se a si próprios e triunfar sobre os prazeres? Não é lutando sem cessar contra suas tendências habituais, e reprimindo-as, que se ensina alguém a chegar à perfeição da força? Quem não tem experiência, nem o costume neste gênero de coisas não passará nunca de um meio-virtuoso. Não atingirá a moderação perfeita, caso não tenha combatido uma vastidão de sentimentos voluptuosos e de desejos, que nos conduzem a não mais nos envergonharmos de coisa alguma e a cometer toda classe de injustiças”

“Não tem esta bebida¹ uma virtude completamente oposta à beberagem que acabamos de citar,² alegrando o homem dum só golpe, preenchendo sua alma, à medida que bebe, de mil belas esperanças? Dando-lhe uma idéia mais vantajosa de seu poder e, por último, inspirando-lhe uma plena segurança para falar sobre tudo como se fôra onisciente? Tornando-o de tal feita livre, de tal feita superior a todo temor, que, sem deter-se, diz e faz tudo o que lhe vêm à mente?”

¹ O vinho

² A “beberagem” que o Ateniense acaba de citar na conversa seria uma bebida criada pelo gênio de Platão, que apresentaria efeitos antitéticos aos do vinho: ao invés de tornar os covardes corajosos e firmes, despertaria o medo e o terror em qualquer valente herói, comprometendo sua percepção do presente imediato. Seria um “tônico” invertido e infernal, a bebida do pessimismo irrestrito e desenfreado, emudecendo seu usuário, tamanha a insegurança e impotência que provocaria neste ser imaginário. Uma bebida que ensinaria o mais tolo dos homens a empregar toda a cautela em cada minúcia, ao invés da audácia ignóbil (temeridade, palavra de curiosa e irônica raiz!) que o ébrio etílico exibe diante de perigos colossais, dos quais muito pode se arrepender no futuro próximo.

“A fim de reconhecer um caráter excêntrico e arisco, capaz de mil injustiças, não é muito mais arriscado tratar com ele pessoalmente e a sós do que examiná-lo num festim báquico?”

OS ALOGON: Uma história dos números irracionais

Trechos de artigo de LORIN, João Henrique & REZENDE, Veridiana, da Unespar/Fecilcam. Não sou o responsável pelo nem clamo a autoria do conteúdo entre aspas e fora de colchetes; o artigo original possui o mesmo título.

HISTÓRIA DA FÓRMULA DE BHASKARA (Índia) (PARTE I & PARTE II!): “Esse método para resolução de equações do 2º grau aparece oficialmente pela 1ª vez no tratado do indiano Aryabhata, por volta do século V d.C. Porém, comentários sobre este tratado foram escritos por Bhaskara I, em 629, e por Brahmagupta, em 628. Os comentários sobre os procedimentos de resolução de equações do 2º grau realizados por Brahmagupta foram citados mais tarde por Bhaskara II, autor de livros populares de aritmética e álgebra do século XII.”

“De acordo com Lorin (2009), o Teorema de Pitágoras causou um forte abalo nas explicações … acerca da origem e natureza do Universo – o problema da archê – que permeou a filosofia dos pré-socráticos. O abalo começou com as tentativas de se determinar a medida da diagonal de um quadrado, utilizando dados aritméticos decorrentes do [supracitado] teorema …”

“Como, para os pitagóricos, os números se resumiam aos inteiros positivos e às razões entre eles, não foi possível encontrar um número que correspondesse exatamente à medida do comprimento AC e, portanto, não conseguiram estabelecer nenhuma relação entre a medida encontrada e a medida do lado do quadrado.”

Parmên1des e Zerão

 

“com essa teoria das proporções, pode-se reabilitar a geometria, que se apresentava incompleta como deixada pelos pitagóricos” Lintz, 1999, sobre o legado de Eudoxo (da escola platônica)

“o método criado por Eudoxo <evitava as dificuldades dos infinitesimais renunciando simplesmente a eles, pela redução dos problemas que conduzem a infinitesimais a problemas que envolviam o uso da lógica formal> (STRUIK, 1992, p. 84).”

“o critério de convergência elaborado por Eudoxo aparece na proposição I do livro X dos Elementos de Euclides:

Sendo expostas duas magnitudes desiguais, caso da maior seja subtraída uma maior do que a metade e, da que é deixada, uma maior do que a metade, e isso aconteça sempre, alguma magnitude será deixada, a qual será menor do que a menor magnitude exposta (EUCLIDES, 2009, p.354).”

Essa proposição serviu como preparação para que se pudesse dar uma definição para grandezas incomensuráveis, que é a proposição II (…):

Caso[,] sendo subtraída, de duas magnitudes (expostas) desiguais, sempre por sua vez a menor da maior, a que é deixada nunca meça exatamente a antes de si mesma, as magnitudes serão incomensuráveis.

“Um dos matemáticos mais conhecidos no período pós-euclidiano foi Arquimedes, sua obra tinha um caráter mais voltado para a resolução de problemas e não parece ter sofrido influência do método axiomático que caracteriza os Elementos de Euclides. Em uma de suas obras Arquimedes apresenta um processo infinito para estabelecer limites para a razão entre comprimento de uma circunferência e o seu raio, isto é, para o que chamamos hoje de PI (Roque, 2012).”

“A álgebra dos árabes ultrapassou a divisão entre número e grandeza, que era constituinte da matemática euclidiana. Além da teoria das equações, eles criaram um cálculo algébrico sobre expressões polinomiais e estenderam as operações aritméticas a essas expressões, bem como a quantidades que os antigos não consideravam números, caso dos irracionais.” ROQUE, 2012, p. 249.

“A matemática produzida pelos árabes teve influência tanto de matemáticos gregos  quanto de matemáticos hindus – talvez seja esta dupla influência que produziu a tradição árabe de se tratar a álgebra tanto pela visão geométrica dos gregos quanto pela visão aritmética dos hindus.”

“Muitas traduções árabes de trabalhos hindus e gregos são as únicas cópias hoje conhecidas.”

BAUMGART, 1992

“Esta influência desses dois povos, hindus e gregos, na álgebra dos árabes também pode ser a resposta para [a] notação utilizada hoje[,] que chamamos de raiz quadrada e aparece na obra de matemático árabe Abu Kamil em 900.

“Kamil usava termos <quadrado> e <raiz>. Os gregos concebiam o 5 como o lado de um quadrado de área 25; os árabes, seguindo os hindus, concebiam o 25 como uma árvore que crescia a partir do número 5, sua raiz. Os dois conceitos aparecem em <raiz quadrada>. A palavra latina para raiz é radix; daí nossa palavra <radical>” (BAUMGART, 1992, p. 98.

“Por volta do ano 1200 o matemático italiano Leonardo de Pisa, também conhecido como Fibonacci deu uma contribuição específica sobre o número de ouro, que é um número irracional, em um dos seus problemas mais famosos, o problema dos coelhos publicado em seu livro Liber Abaci.”

“o objetivo de Viète era mostrar que a álgebra podia ser útil aos problemas de construção que tinham ocupado os gregos, uma vez que pretendia fundar uma nova álgebra com o mesmo prestígio da geometria (apud Roque)”

“Segundo Boyer (1996), o XIX é considerado o século de ouro da Matemática. (…) Vários matemáticos desse período ofereceram contribuições para a institucionalização do conceito de números irracionais. No entanto, no presente trabalho, optamos por descrever as contribuições dos matemáticos Cantor e Dedekind.”

“Para completar o domínio dos números racionais R para os reais, Dedekind (2008) introduz o conceito de Cortes. Cada Corte está relacionado a duas classes A1 e A2 de números racionais, denominado por (A1,A2).”

Os Cortes que não são operados por números racionais possuem a propriedade referente à incompletude ou descontinuidade do domínio R dos números racionais. Cada vez que estamos na presença de um Corte (A1,A2) não operado por um número racional, nós criamos um novo número α correspondente a este Corte; dizemos que o número α corresponde a este Corte ou que ele opera este Corte. De agora em diante, todo Corte determinado corresponde a um e somente um número, racional ou irracional, e consideramos dois números como diferentes ou desiguais se e somente se eles correspondem a dois Cortes essencialmente distintos (DEDEKIND, 2008, p. 77, tradução nossa).”

“Assim como Dedekind e na mesma época, porém com uma abordagem completamente diferente, Geog Cantor oferece suas valiosas contribuições para a construção dos números irracionais, por meio de seqüências de Cauchy, garantindo a existência do conjunto dos números reais como um corpo ordenado completo. Permitindo, tal como na teoria de Dedekind, operar com os números reais.”

“Enquanto que as classes B e A são tais que se pode igualar cada a a um b, mas não cada b a um a, pode-se igualar não somente cada b a um c, mas também cada c a um b. Ainda que as classes B e C possam em certa medida ser identificadas, é essencial, na teoria que eu apresento, manter a distinção abstrata entre as classes B e C (…) A classe C e aquelas que a precedem produzem de maneira análoga uma classe D; estas produzem uma classe E, e assim por diante” CANTOR, 1872 apud COUSQUER – Infelizmente a exposição já ficou abstrata demais para um ente limitado como eu…

 

REFERÊNCIAS

COUSQUER, Eliane. La fabuleuse Histoire des Nombres. Diderot Editeur, Arts et Sciences, 1998.

EUCLIDES, Os elementos. Tradução e Introdução de Irineu Bicudo. São Paulo: Editora Unesp, 2009.

 

A REPÚBLICA – Livro IX

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

#sonhos #amor #amizade #niilismo #Matemática #OUm

– De que desejos falas?

– Falo dos que são despertados durante o sonho; quando esta parte d’alma, que é racional, pacífica e está constituída a propósito para comandar, encontra-se como que inativa, e a parte animal e feroz, excitada pelo vinho e pela boa comida, se rebela e, rechaçando a dormência e a letargia da parte saudável do organismo, tenta sobressair e satisfazer seus apetites nesse ínterim. Sabes que em tais ocasiões esta parte d’alma se atreve a qualquer coisa, como se houvesse se libertado, através da violência, de todas as leis da conveniência e do pudor; não se priva, em sua fantasia, nem mesmo de dormir com a própria mãe nem com nenhum outro ser, humano, divino ou bestial. Nenhum assassinato, ademais, nenhum alimento indigno, causam-lhe horror; em suma, não há ação, extravagante e infame que seja, que não se sinta preparada a executar.

– Proferes uma grande verdade.

– Mas quando um homem se conduz sóbria e justamente; quando antes de se entregar ao sono reanima a chama da razão, alimentando-a com reflexões saudáveis, conversando consigo mesmo; quando, em que pese sem saciar a parte animal, concede-lhe aquele mínimo que seria impossível recusar, para que se ponha tranqüila e não turve, com sua euforia ou melancolia, a parte inteligente d’alma; quando este homem mantém a parte inteligente d’alma idêntica a seu ser, pura e natural, a fim de continuar suas observações sobre aquilo que ignora acerca do passado, do presente e do futuro; quando este homem apazigua assim dessa maneira a parte em que reside a impetuosidade, recolhe-se tranqüilo e sereno ao leito, sem ressentimento contra criatura alguma; enfim, quando, a despeito da inquietude das outras partes, põe em movimento aquela terceira (a residência do juízo), então vê mais facilmente a verdade e não se sente importunado por fantasmas impuros nem sonhos criminosos.”

Não seria essa a razão de Eros ter sido chamado depois de tirano?

– Me parece que tens razão.

– O homem embriagado, não tem também tendências à tirania?

– Óbvio que as tem.

– Igualmente, um homem demente não imagina acaso que é capaz de mandar nos demais e até nos deuses?

– Não duvido.

– Então, diz-me, que é o homem tirânico? Algo diferente de alguém a quem a natureza, ou a educação, ou ambas, tornaram ébrio, apaixonado e louco?

– De forma alguma.”

– Assim seja. Tudo se tornaria uma grande festa: jogos, festins, bebedeiras e banquetes, cortesãs e toda sorte de prazeres imagináveis, aos quais Eros o tirano arrojará esta classe de homens, i.e., o homem que deixou que Eros penetrasse em sua alma, dirigindo a partir daí todas as suas faculdades.

– Em absoluto.

– E a torrente de desejos, dia e noite, não irá se avolumando, desejos tão indômitos quanto insaciáveis?

– Uma torrente interminável, com efeito.

– E assim as rendas deste homem, se é que as tem, vão-se de pronto desmilingüir nessa busca infrutífera de satisfação.

– Como não?

– E aí tens os empréstimos; sua fortuna estará inteiramente comprometida.

– E que remédio teria ele contra essa inelutável dissipação, Sócrates? Seria sua sina.”

agora que o amor se tornou seu tirano, conduzirá todo homem torpe, cem vezes ao dia, às mesmas ações que raras vezes, antigamente, experimentava, e apenas em sonhos. Nem os assassinatos, nem as terríveis orgias, nem todo tipo de crime terão fim, porque, preenchida de amor tirânico, a alma humana cultivará a licença e o desprezo por todas as leis”

– Este homem já apresentava esse caráter na vida particular muito antes de assumir o governo. Está invariavelmente cercado de uma multidão de aduladores, muito solícitos a seus ímpetos; se não é este o caso, é porque é ele um dos aduladores dessa multidão, bajulando um outro qualquer, rastejando frente a outro de sua laia; mas uma vez que este dissoluto, esteja em posição de protagonista ou de simples lacaio, haja obtido aquilo que a princípio desejava – o poder –, virará as costas a todo bajulador, ídolo ou <amigo>.

– Isso é evidente.

– Ao cabo vês: estes homens passam a vida inteira sem ser amigos de ninguém, sendo donos ou escravos exclusivamente de vontades alheias, porque é um sinal do caráter tirânico o desconhecimento da autêntica liberdade e da autêntica amizade.

– De acordo.”

Está na hora de resumir, pois então, os traços do criminoso perfeito. Há de ser no mundo real tal como o descrevemos em fantasia.”

Se é o pior dos homens, não será também o mais desgraçado, e não o será tanto mais quanto maior for o tempo e maior for a intensidade em que desempenhou a tirania? Porém sabes que o vulgo tem opinião distinta a esse respeito!”

E que tal se supusermos por um momento que nós mesmos podemos julgar o caso, pois vivêramos entre tiranos; precisamos fazer essa encenação, para imaginar alguém que nos respondesse!”

Trancafiado em seu palácio, como uma mulher, o tirano inveja a felicidade dos súditos, pois muitos deles empreendem viagens, e o tirano decerto é alguém que necessita constantemente estimular e excitar sua curiosidade vendo novos objetos exteriores.”

sendo incapaz de dirigir-se a si mesmo, terá de conduzir os demais. Compartilha a condição do doente que, sem ter ele mesmo forças, é compelido a, em vez de repousar, queimar sua vida em combates atléticos.”

SÓCRATES – Semelhante condição não é a mais triste imaginável? Mas ser tirano no lugar dum mero moribundo não multiplica várias vezes esse estado de desgraça, daquele sujeito que considerávamos já o campeão em desgraça e infortúnio?

GLAUCO – Disseste-o bem, Sócrates.

SÓCRATES – Sendo assim, quaisquer que sejam as aparências externas, o tirano não passa de escravo, escravo submetido à mais inclemente servidão, o adulador oficial do que existe de mais abjeto na sociedade. Impossibilitado de chegar à satisfação de seus desejos, sempre lhe faltará muito mais do que ele tem, por mais que seja muito rico e tenha muitas coisas. (…) ele viverá sempre alarmado, vítima de grandes sofrimentos e angústias”

Podemos resumir dizendo que há três caracteres de homens: o filosófico, o ambicioso e o avaro? (…) Se tu perguntasses a cada um desses três em particular: Qual é a vida mais feliz? Já sabes por antecipação o que cada um deles diria. O avaro decerto colocará o prazer do lucro sobre todos os demais, desprezando a sabedoria e as honras, isto é, como fins; porque não se descarta que podem ser meios para a obtenção de mais dinheiro.

Que dirá o ambicioso, por seu turno? Não achará vil e indigno acumular tesouros, e vaidade o estudo, a não ser que obter algum tesouro e adquirir algum conhecimento lhe facultem a glória e a honra, reputação, enfim?

Quanto ao filósofo, o últimos dos três, é seguro que não dá valor a nada que não seja o prazer que lhe proporciona o conhecimento da verdade tal qual é, bem como sua aplicação contínua neste mesmo estudo; quanto aos demais prazeres listados, o filósofo prefere chamá-los necessidades materiais, ou seja, deles ele vai atrás somente naquele quinhão indispensável à subsistência.”

[comentário pessoal] Minha reputação é nula, meu patrimônio inexistente, e quanto ao que eu sei, nem eu mesmo posso medir o quanto eu sei; as traças o saberão melhor depois que eu partir. Fica o meu legado, semi-invisível.

CAMALEOMEM: “desde a infância o filósofo encontra-se em posição de buscar outros prazeres que não os da inteligência, uma vez que todo trabalho tem sua folga”

GLAUCO – (…) avaliador soberano das coisas que é, o homem inteligente exalta sua própria vida.

SÓCRATES – Que tipo de existência e que prazeres deverão estar em segundo na hierarquia?

GLAUCO – Os do guerreiro e do ambicioso, os quais estão tão próximos do filósofo quanto o homem <interessado>, o último da escala, se encontra próximo deles mesmos.

SÓCRATES – Segundo tudo que vês, o avaro corresponderá ao último patamar da existência.”

SÓCRATES – Não existe um estado em que não se experimenta nem prazer nem dor?

GLAUCO – Sim, sem dúvida se o reconhece.

SÓCRATES – Esse estado, que é uma espécie de meio-termo entre dois antípodas extremos, não consiste em certo repouso d’alma com referência ao estado habitual dos outros? Que te parece?

GLAUCO – Me parece adequado que fales assim.

SÓCRATES – És capaz de lembrar o que dizem os doentes em suas crises?

GLAUCO – Não, Sócrates; que é que dizem?

SÓCRATES – Que o maior bem é a saúde, mas que não sabiam disso antes de ficar doentes.

GLAUCO – Ah, sim, perfeitamente.

SÓCRATES – Não ouves de quem sofre de dor que nada há de mais agradável e terno que a cessação dessa mesma dor?

GLAUCO – Sim, ouço.

SÓCRATES – E observarás, creio eu, que em todas as circunstâncias da vida não é o prazer o objetivo dos homens sofredores, mas tão-só a supressão da dor e o repouso.”

Em todas essas aparências não há prazer real; tudo isto não é mais que uma alucinação.”

Seria acaso inquietante que essa gente que nunca experimentou o verdadeiro prazer e que não considera o prazer senão negativamente (pelo contraste entre a dor e a ausência da dor) se engane em seus juízos? Mal comparando, não estariam na mesma situação de alguém que, ao desconhecer a cor branca, pensasse ser o cinza o contrário do preto? Que achas?”

SÓCRATES – Encara agora ao revés esta progressão: se desejarmos averiguar em quantos graus o prazer do rei é mais verdadeiro que o do tirano, resultará, feito o cálculo, que a vida do rei é 729x(*) mais grata que a do tirano, e que a deste último é mais ingrata que a do rei nesta mesma proporção.

GLAUCO – Acabas de encontrar, mediante uma fórmula surpreendente, o intervalo numérico que separa, em termos de prazer e dor, o homem justo do injusto!”

(*) “A felicidade do tirano tem 3x menos realidade que a do oligarca; a do oligarca, 3x menos que a do rei; logo, a felicidade do tirano tem 9x menos realidade que a do rei. O número 9 é plano,¹ sendo o quadrado de 3. Em seguida, Platão, considerando estas duas felicidades (uma real, outra aparente) como dois sólidos de dimensões inteiramente proporcionais entre si, com suas distâncias em relação à realidade – representadas pelos números 1 e 9, respectivamente² – compondo cada uma das dimensões da figura tridimensional (lembrando que se trata do cubo, então as três medidas de cada cubo são idênticas), a fim de encontrar a razão entre ambos os sólidos, procede ao cálculo do volume de cada cubo, em unidade numérica pura, i.e.:

1x1x1=1

e

9x9x9=729

¹ Número plano: que possui uma raiz quadrada racional: 1, 4, 9, 16, 25, 36, 49, 64 (= 4³), 81 (= 9³)…

² Por que 9? Porque é o produto encontrado acima, a conversão no mundo físico (em verdade, aritmético, mas que exige a demonstração geométrica primeiro, etapa que aqui suprimimos dada sua simplicidade para o leitor atual) da distância entre as felicidades do rei e do tirano. Se a pergunta retroagir para “por que 3 é o número que simboliza a distância entre a felicidade de dois políticos de governos considerados vizinhos hierarquicamente (recapitulando: monarquia–oligarquia–tirania do melhor para o pior)?”, a resposta é simples: porque a geometria euclidiana o exige: o espaço possui 3 dimensões.

Já a realidade é Um por definição (igual a si mesma).

– Se alguém soubesse que uma coisa necessariamente acompanha a outra, aumentaria suas riquezas até o infinito para aumentar seus males na mesma proporção?

– Duvido muito.”

– Esse alguém que atingiu a sabedoria terá gosto pelo governo do próprio Estado interior (a alma); mas, quanto ao governo de sua pátria, duvido que lhe apetecesse, a menos que sucedera algo de verdadeiramente divino no mundo exterior.

– Entendo, Sócrates: quando dizes <divino> neste contexto, falas somente em caso de surgimento daquele Estado que cogitáramos durante toda esta nossa conversação e que por ora só existe em nosso pensamento; já disseste que não crês na possibilidade deste Estado sobre a terra.

– Mas pelo menos há, talvez, no céu um modelo para quem quiser fitá-lo e fundar, a sua imagem e semelhança, sua cidade interior. Além do mais, pouco importa se existe ou não tal Estado, ou que ele jamais haja de existir sobre a terra; o certo é que o verdadeiramente sábio não consentirá jamais em governar outro Estado senão esse.

– É bastante provável.”