POLÍTICA 2.0 (revisitação) – Aristóteles (e cotejo com anotações sucintas de uma primeira leitura, em março de 2011)

Estou cada vez mais convencido de que este livro não passa de um rascunho com anotações desordenadas de um imaturo (ou senil?) Aristóteles, que estava destinado a aprimorar sua obra, mas foi interrompido por um “erro divino” e teve de abandonar seu projeto ou, pois não!, já agonizava na demência e nem que vivesse mais 10 anos poderia dar forma e estilo ao que essencialmente não tem conteúdo nem originalidade algumas (conforme veremos, reiteradamente)…

A natureza, com efeito, não age com parcimônia, como os artesãos de Delfos que forjam suas facas para vários fins; fins; ela destina cada coisa a um uso especial (…) Somente entre os bárbaros a mulher e o escravo estão no mesmo nível. (…) Foi isso que fez com que o poeta acreditasse que os gregos tinham, de direito, poder sobre os bárbaros, como se, na natureza, bárbaros e escravos se confundissem.” “O poeta Hesíodo tinha razão ao dizer que era preciso antes de tudo A casa, e depois a mulher e o boi lavrador, já que o boi desempenha o papel do escravo entre os pobres.”

todos os homens que antigamente viveram e ainda vivem sob reis dizem que os deuses vivem da mesma maneira, atribuindo-lhes o governo das sociedades humanas, já que os imaginam sob a forma do homem.”

Bastar-se a si mesma é uma meta a que tende toda a produção da natureza e é também o mais perfeito estado. É, portanto, evidente que toda cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem, segundo Homero(*)

Assim, o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos.”

O Estado, ou sociedade política, é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. O todo existe necessariamente antes da parte. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. (*)Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto.

Por si mesmas, as armas e a força são indiferentes ao bem e ao mal: é o princípio motor que qualifica seu uso. Servir-se delas sem nenhum direito e unicamente para saciar suas paixões rapaces ou lúbricas é atrocidade e perfídia. Seu uso só é lícito para a justiça. O discernimento e o respeito ao direito formam a base da vida social e os juízes são seus primeiros órgãos.”

Chamaremos despotismo o poder do senhor sobre o escravo; marital, o do marido sobre a mulher; paternal, o do pai sobre os filhos (dois poderes para os quais o grego não tem substantivos).”

outros consideram que o poder senhorial não tem nenhum fundamento na natureza e pretendem que esta nos criou a todos livres, e a escravidão só foi introduzida pela lei do mais forte e é, por si mesma, injusta como um puro efeito da violência.”

as propriedades são uma reunião de instrumentos e o escravo, uma propriedade instrumental animada, como um agente preposto a todos os outros meios.”

Se cada instrumento pudesse executar por si mesmo a vontade ou a intenção do agente, como faziam, dizem, as marionetes de Dédalo ou os tripés de Vulcano, que vinham por si mesmos, segundo Homero, aos combates dos deuses, se a lançadeira tecesse sozinha a tela, se o arco tirasse sozinho de uma cítara o som desejado, os arquitetos não mais precisariam de operários, nem os mestres de escravos.”

A vida consiste no uso, não na produção.” “O senhor não é senão o proprietário de seu escravo, mas não lhe pertence; o escravo, pelo contrário, não somente é destinado ao uso do senhor, como também dele é parte. Isto basta para dar uma idéia da escravidão e para fazer conhecer esta condição. O homem que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, é escravo por natureza”

Mas faz a natureza ou não de um homem um escravo? É justa e útil a escravidão ou é contra a natureza? É isto que devemos examinar agora.” “Não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um lado e obediência por outro; e todos os seres, desde o primeiro instante do nascimento, são, por assim dizer, marcados pela natureza, uns para comandar, outros para obedecer.”

A natureza ainda subordinou um dos dois animais ao outro. Em todas as espécies, o macho é evidentemente superior à fêmea: a espécie humana não é exceção.”

o uso dos escravos e dos animais é mais ou menos o mesmo e tiram-se deles os mesmos serviços para as necessidades da vida.” Tal como abanar na rede e ler uma epopéia…

Vemos corpos robustos talhados especialmente para carregar fardos e outros usos igualmente necessários; outros, pelo contrário, mais disciplinados, mas também mais esguios e incapazes de tais trabalhos, são bons apenas para a vida política, isto é, para os exercícios da paz e da guerra. Ocorre muitas vezes, porém, o contrário: brutos têm a forma exterior da liberdade e outros, sem aparentar, só têm a alma de livre.”

A deusa Hera deve ser feia por dentro.

Além da servidão natural, existe aquela que chamamos servidão estabelecida pela lei; esta lei é uma espécie de convenção geral, segundo a qual a presa tomada na guerra pertence ao vencedor.

Será justo? Sobre isso, os jurisconsultos não chegam a um acordo, nem tampouco, aliás, sobre a justiça de muitas outras decisões tomadas nas assembléias populares, contra as quais eles reclamam. Consideram cruel que um homem que sofreu violência se torne escravo do que o violentou e só tem sobre ele a vantagem da força. Este, pelo menos, é um ponto muito controverso para eles e, se têm muitos contraditores, têm também muitos partidários, mesmo entre os filósofos.” “uns não podem separar o direito da benevolência, outros afirmam que é da própria essência do direito que o mais valente comande. (…) A superioridade de coragem não é uma razão para sujeitar os outros.”

Ora, o escravo faz, por assim dizer, parte de seu senhor: embora separado na existência, é como um membro anexado a seu corpo. Ambos têm o mesmo interesse e nada impede que estejam ligados pelo sentimento da amizade, quando foi a conveniência natural que os reuniu.”

O governo doméstico é uma espécie de monarquia: toda casa se governa por uma só pessoa; o governo civil, pelo contrário, pertence a todos os que são livres e iguais.”

em Siracusa, uma espécie de preceptor abriu uma escola de escravidão e exigia dinheiro para preparar as crianças para este estado, com todos os pormenores de suas funções. Pode haver um ensino completo dessa espécie de profissão, assim como existem preceitos para a cozinha e outros gêneros de serviço, ou mais estimados, ou mais necessários, pois também o serviço tem os seus graus.”

Há servos e servos e há senhores e senhores.”

Quanto à ciência do senhor, como não é nem na aquisição, nem na posse, mas no uso de seus escravos que está o seu domínio, ela se reduz a saber fazer uso deles, isto é, a saber ordenar-lhes o que eles devem saber fazer.” APLICAÇÃO DOMÉSTICA RETROATIVA: Meu pai, senhor, não era um bom administrador, por isso perdeu o controle de seus escravos.

(cont.) “Não há aí nenhum trabalho grande ou sublime, e assim os que têm meios de evitar esse estorvo desembaraçam-se dele com algum intendente, quer para se dedicar à política, quer para se dedicar à filosofia.” Para se dedicar ao trabalho (como escravo de outros senhores), o caso do meu progenitor em particular. Com isso, nenhuma vantagem obteve, pois não havia superintendente. Nossos casos são análogos se eu pensar naquilo em que me dedico, tendo escasso tempo para ordenar uma futura humanidade a fazer o que eu quero. Mas como não viverei para fruir de uma eventual decepção, estou em vantagem. Sempre posso acreditar, até a minha morte, que fui um melhor mestre!

O talento para adquirir um bem parece-se mais com a arte militar ou com a caça.” “A arte de adquirir bens será idêntica à ciência do governo doméstico? Faz parte dela ou será apenas um de seus meios?”

É uma primeira questão dizer se a agricultura, que é apenas uma maneira de obter os alimentos necessários à vida, ou alguma outra indústria que também tenha os alimentos como objeto, pertencem à arte de se enriquecer.”

Mas existe também um outro gênero de bens e de meios que comumente chamamos, e com razão, especulativo, e que parece não ter limites.”

Tampouco foi a natureza que produziu o comércio que consiste em comprar para revender mais caro. A troca era um expediente necessário para proporcionar a cada um a satisfação de suas necessidades. Ela não era necessária na sociedade primitiva das famílias, onde tudo era comum.”

Quando uma tribo tem de sobra o que falta a outra, elas permutam o que têm de supérfluo através de trocas recíprocas; vinho por trigo ou outras coisas que lhes podem ser de uso, e nada mais. Trata-se de um gênero de comércio que não está nem fora das intenções da natureza, nem tampouco é uma das maneiras naturais de aumentar seus pertences, mas sim um modo engenhoso de satisfazer as respectivas necessidades.”

Não era cômodo transportar para longe as mercadorias ou outras produções para trazer outras, sem estar certo de encontrar aquilo que se procurava, nem que aquilo que se levava conviria. Podia acontecer que não se precisasse do supérfluo dos outros, ou que não precisassem do vosso. Estabeleceu-se, portanto, dar e receber reciprocamente em troca algo que, além de seu valor intrínseco, apresentasse a comodidade de ser mais manejável e de transporte mais fácil, como o metal, tanto o ferro quanto a prata ou qualquer outro, que primeiramente se determinou pelo volume ou pelo peso e a seguir se marcou com um sinal distintivo de seu valor, a fim de não se precisar medi-lo ou pesá-lo a toda hora.”

Tendo a moeda sido inventada, portanto, para as necessidades de comércio, originou-se dela uma nova maneira de comerciar e adquirir. A princípio, era bastante simples; depois, com o tempo, passou a ser mais refinada, quando se soube de onde e de que maneira se podia tirar dela o maior lucro possível. É este lucro pecuniário que ela postula; ela só se ocupa em procurar de onde vem mais dinheiro: é a mãe das grandes fortunas. De fato, comumente se faz consistir a riqueza na grande quantidade de dinheiro.” “Ora, é absurdo chamar riquezas um metal cuja abundância não impede de se morrer de fome; prova disso é o Midas da fábula, a quem o céu, para puni-lo de sua insaciável avareza, concedera o dom de transformar em ouro tudo o que tocasse.” “As verdadeiras riquezas são as da natureza; apenas elas são objeto da ciência econômica.”

A outra maneira de enriquecer pertence ao comércio, profissão voltada inteiramente para o dinheiro, que sonha com ele, que não tem outro elemento nem outro fim, que não tem limite onde possa deter-se a cupidez.” “O fim a que se propõe o comércio não tem limite determinado. Ele compreende todos os bens que se podem adquirir; mas é menos a sua aquisição do que seu uso o objeto da ciência econômica; esta, portanto, está necessariamente restrita a uma quantidade determinada.”

O dinheiro serve ao comerciante para dois usos análogos e alternativos: um, para comprar as coisas e revendê-las mais caro; outro, para emprestar e retirar, após o prazo estabelecido, seu capital com juros. Estes dois ramos do seu tráfico não diferem, como se vê, senão porque um interpõe as coisas para aumentar o dinheiro, enquanto o outro o faz servir imediatamente ao seu próprio aumento.”

A coragem, por exemplo, não foi dada ao homem pela natureza para acumular bens, mas para proporcionar tranqüilidade. Não é esse tampouco o objeto da profissão militar, nem o da medicina, tendo uma por objeto vencer, e outra curar.” “elas se tornam o único fim da maioria das pessoas que entram nessas carreiras e subordinam tudo à meta que se propuseram.”

para a família gozar de saúde, convém mais o médico do que o chefe de família; assim como para o abastecimento e a abundância, este cuidado pode caber antes aos ministros do Estado.”

O que há de mais odioso, sobretudo, do que o tráfico de dinheiro, que consiste em dar para ter mais e com isso desvia a moeda de sua destinação primitiva?” “em grego demos à moeda o nome de tokos, que significa progenitura, porque as coisas geradas se parecem com as que as geraram.”

Existem escritores que se ocuparam desses diversos assuntos, tais como Carés de Paros, Apolodoro de Lemnos, autores de tratados sobre a cultura dos campos e dos pomares, e outros ainda, sobre outras matérias. Os curiosos devem consultá-los.”

Como censuravam Tales de Mileto pela pobreza e zombavam de sua inútil filosofia, o conhecimento dos astros permitiu-lhe prever que haveria abundância de olivas. Tendo juntado todo o dinheiro que podia, ele alugou, antes do fim do inverno, todas as prensas de óleo de Mileto e de Quios. Conseguiu-as a bom preço, porque ninguém oferecera melhor e ele dera algum adiantamento. Feita a colheita, muitas pessoas apareceram ao mesmo tempo para conseguir as prensas e ele as alugou pelo preço que quis. Tendo ganhado muito dinheiro, mostrou a seus amigos que para os filósofos era muito fácil enriquecer, mas que eles não se importavam com isso. Foi assim que mostrou sua sabedoria. Em geral, o monopólio é um meio rápido de fazer fortuna. Assim, algumas cidades, quando precisam de dinheiro, usam desse recurso. Reservam-se a si mesmas a faculdade de vender certas mercadorias e, por conseguinte, de fixar seus preços como querem.

Na Sicília, um homem que obtivera vários depósitos de dinheiro apoderou-se dos ferros das forjas. Quando os mercadores vieram de todas as partes para obtê-los, só ele pôde vendê-los, contentando-se com o dobro, de maneira que o que lhe custara 50 talentos vendia por 100. Dionísio, o tirano, informado do caso, não confiscou seu lucro, mas ordenou-lhe que saísse de Siracusa por ter imaginado, para enriquecer, um expediente prejudicial aos interesses do chefe de Estado. Aquele homem tivera a mesma idéia que Tales: ambos do monopólio fizeram uma arte.”

É bom que os que governam os Estados conheçam esse recurso, pois é preciso dinheiro para as despesas públicas e para as despesas domésticas, e o Estado está menos do que ninguém em condições de dispensá-lo. Assim, o capítulo das finanças é quase o único a que alguns prestam atenção.”

A autoridade dos pais sobre os filhos é uma espécie de realeza; todos os títulos ali se encontram: o da geração, o da autoridade afetuosa e o da idade. É até mesmo o protótipo da autoridade real; foi o que fez com que Homero dissesse de Zeus:

É o pai imortal dos homens e dos deuses¹

¹ Interessante que é uma paternidade “que não passa”; além do mais, Zeus segue eternamente mais jovem que seus ancestrais. Ele não é o protótipo da realeza, mas do despotismo.

Deve uma mulher ser sábia, corajosa e justa? Deve uma criança ter contenção e sobriedade?”

Se as mesmas qualidades lhes são necessárias, por que então o mando cabe a um e a obediência a outro? A diferença entre os dois não é do mais para o menos, mas sim específica e produz efeitos essencialmente diversos.” Ininteligível.

Todos têm, portanto, virtudes morais, mas a temperança, a força, a justiça não devem ser, como pensava Sócrates, as mesmas num homem e numa mulher. A força de um homem consiste em se impor; a de uma mulher, em vencer a dificuldade de obedecer.”

Mais vale, como Górgias, estabelecer a lista das virtudes do que se deter em semelhantes definições e imitar, no mais, a precisão do poeta que disse que

um modesto silêncio é a honra da mulher,

ao passo que não fica bem no homem.”

um profissional está numa espécie de servidão limitada; mas a natureza que faz os escravos não faz os sapateiros, nem os outros artesãos.”

A educação das mulheres e das crianças deve ser da alçada do Estado, já que importa à felicidade do Estado que as mulheres e as crianças sejam virtuosas.”

O Estado é o sujeito constante da política e do governo; a constituição política não é senão a ordem dos habitantes que o compõem.”

Alguém que é cidadão numa democracia não o é numa oligarquia.” “É cidadão aquele que, no país em que reside, é admitido na jurisdição e na deliberação. É a universalidade deste tipo de gente, com riqueza suficiente para viver de modo independente, que constitui a cidade ou o Estado. O costume é dar o nome de cidadão apenas àquele que nasceu de pais cidadãos. De nada serviria que o pai o fosse, se a mãe não for.”

Operários (artesãos, comerciantes) livres não são cidadãos. As obras da virtude são impraticáveis para quem quer que leve uma vida mecânica e mercenária.” “Em Tebas, o próprio comércio dificulta o acesso à cidadania. Havia uma lei que exigia que se tivesse fechado a loja e deixado de vender há dez anos para ser admitido.”

HOMEM DE BEM X BOM CIDADÃO

  • virtudes absolutas (nobreza)¹ X virtude limitada ou específica (mediania)

  • Todo homem de bem é bom cidadão.

  • Poucos bons cidadãos são também homens de bem.

  • Sempre comanda (porém, via de regra, em Ari., quem sabe comandar também sabe obedecer)¹ X deve sempre saber obedecer e não lhe está vedado saber comandar (ex: o soldado de ontem pode ser o general de amanhã, que é um servo do governo)

¹ Segundo Aristóteles, as mulheres não estão excluídas da classe suprema (homens de bem), mas suas limitações são evidentes (devem mais obedecer que comandar, ser discretas, guardar-se de atos de valentia).

num grupo de dançarinos, é preciso mais talento para o papel de corifeu do que para o de corista. A desigualdade de mérito é, pois, evidente.”

Entre as pessoas que estão em servidão, é preciso contar os trabalhadores manuais que vivem, como indica seu nome, do trabalho de suas mãos e os artesãos que se ocupam dos ofícios sórdidos.” Definição do “idiota político” clássico (ou antigo), que não é nem homem de bem nem cidadão.

Ah, a poluição da palavra!

* * *

Aqueles que se propõem [a] dar aos Estados uma boa constituição prestam atenção principalmente nas virtudes e nos vícios que interessam à sociedade civil, e não há nenhuma dúvida de que a verdadeira cidade (a que não o é somente de nome) deve estimar acima de tudo a virtude.

Sem isso, não será mais do que uma liga ou associação de armas, diferindo das outras ligas apenas pelo lugar, isto é, pela circunstância indiferente da proximidade ou do afastamento respectivo dos membros. Sua lei não é senão uma simples convenção de garantia, capaz, diz o sofista Licofrão, de mantê-los no dever recíproco, mas incapaz de torná-los bons e honestos cidadãos.”

Eles fizeram um pacto de não-agressão no que toca a seus comércios e até prometeram tomar armas para sua mútua defesa, mas não têm outra comunicação a não ser o comércio e seus tratados. Mais uma vez, esta não será uma sociedade civil. Por quê, então?” “A cidade, portanto, NÃO é precisamente uma comunidade de lugar, nem foi instituída simplesmente para se defender contra as injustiças de outrem ou para estabelecer comércio. Tudo isso deve existir antes da formação do Estado, mas não basta para constituí-lo.”

É isto o que chamamos uma vida feliz e honesta. A sociedade civil é, pois, menos uma sociedade de vida comum do que uma sociedade de honra e de virtude.”

PAI & FILHO, CARA & COROA: “Todos vemos que não é pelos bens exteriores que se adquirem e conservam as virtudes, mas sim que é pelos talentos e virtudes que se adquirem e conservam os bens exteriores e que, quer se faça consistir a felicidade no prazer ou na virtude, ou em ambos, os que têm inteligência e costumes excelentes a alcançam mais facilmente com uma fortuna medíocre do que os que têm mais do que o necessário e carecem dos outros bens.” “Os bens da alma não são apenas honestos, mas também úteis, e quanto mais excederem a medida comum, mais terão utilidade.” “A felicidade é muito diferente da boa fortuna. Vêm-nos da fortuna os bens exteriores, mas ninguém é justo ou prudente graças a ela, nem por seu meio.”

Que vida preferir, a que toma parte do governo e dos negócios públicos ou a vida retirada e livre de todos os embaraços do gênero? Não entra no plano da Polítíca determinar o quê pode convir a cada indivíduo, mas sim o que convém à pluralidade. Em nossa Étíca, aliás, tratamos do primeiro ponto.

AS MELHORES CONSTITUIÇÕES APUD GRÉCIA ANTIGA: “Em Esparta e em Creta, a quase totalidade de sua disciplina e de suas numerosas regras é dirigida para a guerra. Em todas as nações que têm o poder de crescer, entre os citas, entre os persas, entre os trácios, entre os celtas, não há nenhuma profissão mais estimada do que a das armas. Em alguns lugares, existem leis para estimular a coragem guerreira. Em Cartago, as pessoas são decoradas com tantos anéis quantas foram as campanhas que fizeram. Na Macedônia, uma lei pretendia que aqueles que não houvessem matado nenhum inimigo tivessem que andar de cabresto. Entre os citas, aquele que estivesse nesse caso sofria a afronta de não beber à roda, na taça das refeições solenes. A Ibéria, nação belicosa, levanta ao redor das tumbas tantos obeliscos quantos inimigos o defunto matou.”

Não é ofício nem do médico nem do piloto persuadir ou fazer violência, um a seus doentes, o outro a seus marinheiros. Mas muitos parecem considerar a dominação como o objeto da política, e aquilo que não cremos nem justo nem útil para nós não temos vergonha de tentar contra os outros.” “Se a natureza estabeleceu esta distinção, pelo menos não se deve tentar dominar a todos, mas apenas aos que só servem para serem submetidos. É assim que não se vai à caça para pegar os homens e comê-los ou matá-los, mas apenas para pegar os animais selvagens que são comestíveis.

não é exato elevar a inação acima da vida ativa, já que a felicidade consiste em ação, e as ações dos homens justos e moderados têm sempre fins honestos.”

Entre semelhantes, a honestidade e a justiça consistem em que cada um tenha a sua vez. Apenas isto conserva a igualdade. A desigualdade entre iguais e as distinções entre semelhantes são contra a natureza e, por conseguinte, contra a honestidade. Se, porém, se encontrasse alguém que ultrapassasse todos os outros em mérito e em poder e tivesse provado seu valor com grandes façanhas, seria belo ceder a ele e justo obedecer-lhe. Mas não basta ter mérito, é preciso ter bastante energia e atividade para estar certo do êxito.”

Como a maioria dos homens tem mania de dominar os outros para obter todas as comodidades, Tíbron e todos os que escreveram sobre o governo de Esparta parecem admirar seu legislador por ter aumentado muito seu império, tendo exercitado a nação nos perigos da guerra. Mas, agora que os espartanos não dominam mais, deixaram de ser felizes, e seu legislador de merecer sua reputação. Não é ridículo que, persistindo sob as leis de Licurgo e não tendo nada que os impedisse de valer-se delas, eles tenham deixado escapar sua felicidade?”

Não é um sinal de sabedoria para o legislador treinar seu povo para vencer seus vizinhos. Disso só podem resultar grandes males, e aquele que for bem-sucedido não vai deixar de investir contra a sua própria pátria e, se puder, de assenhorear-se dela. Essa é a censura que os espartanos fazem ao rei Pausânias, cuja ambição não se contentou com este alto grau de honra.”

Ao fazer a guerra, vários Estados se conservaram, mas, assim que conquistaram a superioridade, entraram em decadência, semelhantes ao ferro que se enferruja pela inação.”

Não há repouso para os escravos, diz o provérbio. Ora, os que não têm coragem para se expor aos perigos tornam-se escravos de seus agressores.”

os que parecem felizes e, semelhantes aos habitantes das Ilhas Afortunadas de que falam os poetas, gozam de tudo o que pode contribuir para a felicidade, precisam mais do que os outros de justiça e de temperança. Quanto mais opulência e lazer tiverem, mais precisarão de filosofia, de moderação e de justiça, e o Estado que quiser ser feliz e florescente deve inculcar-lhes estas virtudes o máximo possível. Se há algo de ignóbil em não saber gozar das riquezas, há bem mais ainda em fazer mau uso delas quando só se tem isso para fazer. É revoltante que homens, aliás, dignos de estima nos trabalhos e nos perigos da guerra se comportem como escravos no descanso e na paz.”

há dois tipos de hábitos, uns apaixonados, ou provindos da sensibilidade, outros intelectuais. E, assim como o corpo é gerado antes da alma, a parte carente de razão o é, igualmente, antes da razoável. Isto se observa pelos rasgos de cólera, pelos desejos e pelas vontades mostradas pelas crianças tão logo nascem.”

deve preocupar-se com a sucessão das crianças; que não haja entre elas e os pais uma distância de idade grande demais, pois neste caso os filhos não podem mostrar seu reconhecimento aos pais na velhice, nem os pais podem ajudar seus filhos tanto quanto preciso.”

O final da procriação ocorre, para os homens, aos 70 anos; para as mulheres, aos 50. Sua união deve começar na mesma proporção. A dos adolescentes não vale nada para a progenitura. Em todas as espécies animais, os frutos prematuros de sujeitos jovens demais, sobretudo se se tratar da fêmea, são imperfeitos, fracos e de pequena estatura. O mesmo ocorre com a espécie humana. Observa-se, com efeito, esta imperfeição em todos os lugares em que as pessoas se casam jovens demais. Só nascem abortos.” Continuando com a proporção 70/50: 20/14, 30/21, 40/28, 50/35…

Aquelas que conhecem cedo demais o uso das familiaridades conjugais são de ordinário mais lascivas. Por outro lado, nada retarda ou detém mais depressa o crescimento dos moços jovens do que se entregar cedo demais ao relacionamento com as mulheres, sem esperar que a natureza tenha neles elaborado completamente o licor prolífico. Há para o crescimento uma época precisa, além da qual não se cresce mais.”

verdadeira idade para casar as moças é aos 18 anos e para os homens aos 37, aproximadamente. Com isso a conjunção dos corpos se fará em pleno vigor, e a geração, depois, terminará num tempo conveniente tanto para um como para outro. Da mesma forma, a sucessão dos filhos a seus pais estará melhor colocada, se nascerem convenientemente no intervalo entre a força da idade e o declínio, que começa por volta dos 70.” [!!!]

Quanto à estação do ano própria à geração, o inverno é a que mais convém, como hoje se observa quase em toda parte.” “os físicos ensinam que ventos são favoráveis ao ato sexual; por exemplo, eles preferem o vento do norte ao do sul.”

Diremos somente que a compleição atlética não é útil nem à saúde, nem à geração, nem aos empregos civis; o mesmo ocorre com os corpos fracos, acostumados ao regime médico.”

Pedonomia: parte da pedagogia que estipula as regras (formas) da aplicação da pedagogia, i.e., do conteúdo em si da educação.

Se o corpo precisa de movimento, o espírito necessita de repouso e de tranqüilidade. No ventre da mãe os filhos recebem, como os frutos da terra, a impressão do bem e do mal.”

Sobre o destino das crianças recém-nascidas, deve haver uma lei que decida os que serão expostos e os que serão criados. Não seja permitido criar nenhuma que nasça mutilada, isto é, sem algum de seus membros; determine-se, pelo menos, para evitar a sobrecarga do número excessivo, se não for permitido pelas leis do país abandoná-los, até que número de filhos se pode ter e se faça abortarem as mães antes que seu fruto tenha sentimento e vida, pois é nisto que se distingue a supressão perdoável da que é atroz.” Até eugênicos antigos têm escrúpulos morais “anteprotestantes”…

Desde os primeiros momentos do nascimento, é bom acostumar as crianças ao frio; isto faz um bem infinito à saúde e dispõe às funções militares.”

Na idade seguinte, até os cinco anos, não é conveniente dar nada para as crianças aprenderem, nem submetê-las a qualquer trabalho. Isto poderia impedir seu crescimento. Basta mantê-las em movimento para preservar seus corpos da preguiça e do peso. Este movimento deve consistir apenas nas funções da vida e nas brincadeiras, tomando cuidado somente para que elas não sejam nem desonestas nem penosas, nem destituídas demais de ação.”

Em certos lugares, comete-se o erro de proibir à criança o choro e os movimentos expansivos. Todos estes atos servem para seu desenvolvimento e fazem parte, por assim dizer, dos exercícios corporais. O ato de reter a respiração dá força aos que trabalham. Isto também ocorre no próprio esforço das crianças para gritar.”

impedir muita conversa e familiaridade, sobretudo com os escravos.”

SIGA SEU MESTRE: “Se proibimos as conversas indecentes, com mais forte razão proibiremos as pinturas e as exibições do mesmo gênero. Os magistrados, portanto, não admitirão nem estátuas, nem pinturas lúbricas, a não ser as de certas divindades cujo culto a lei reserva aos homens adultos, a quem ela permite sacrifícios, tanto por eles quanto por suas mulheres e crianças.”

Também se deve proibir aos jovens os teatros e sobretudo a comédia, até que tenham atingido a idade de participar das refeições públicas e a boa educação os tenha colocado em condições de experimentar impunemente a bebedeira dos banquetes, sem contrair a embriaguez ou os outros vícios que a acompanham. Passaremos rapidamente por esta matéria, para voltar a ela uma outra vez e discutir se este costume deve ser mantido, e como.

Não há de se aprovar, segundo cremos, a partilha que fazem certas pessoas que dividem toda a vida de 7 em 7 anos. Mais vale seguir o ritmo da natureza. Ela apenas esboçou suas obras. A obra da educação, assim como a de todas as artes, deve unicamente completar o que falta ao ser das obras da natureza.”

Como não há senão um fim comum a todo o Estado, só deve haver uma mesma educação para todos os súditos. Ela deve ser feita não em particular, como hoje, quando cada um cuida de seus filhos, que educa segundo sua fantasia e conforme lhe agrada; ela deve ser feita em público. Tudo o que é comum deve ter exercícios comuns. É preciso, ademais, que todo cidadão se convença de que ninguém é de si mesmo, mas todos pertencem ao Estado, de que cada um é parte e que, portanto, o governo de cada parte deve naturalmente ter como modelo o governo do todo.”

Não se sabe se se deve ensinar às crianças as coisas úteis à vida ou as que conduzem à virtude, ou as altas ciências, que se podem dispensar. Cada uma destas opiniões tem seus partidários. Não há nem mesmo nada de certo a respeito da virtude, não sendo o mesmo gênero de virtude apreciado unanimemente. Também se diverge sobre o gênero de exercícios a praticar.”

Não é fora de propósito conceder algum tempo a certas ciências, mas entregar-se a elas por inteiro e querer ser consumado nelas não deixa de ter seus inconvenientes e pode ser nocivo às graças da imaginação.”

Quanto à música, sua utilidade não é igualmente reconhecida. Muitos hoje a aprendem apenas por prazer. Mas os antigos fizeram dela, desde os primeiros tempos, uma parte da educação, pois a natureza não procura apenas dar exatidão às ações, mas também dignidade ao repouso. A música é o princípio de todos os encantos da vida.”

Se possível, é melhor descartar o jogo entre as ocupações. Quem trabalha precisa de descanso: o jogo não foi imaginado senão para isto. O trabalho é acompanhado de fadiga e de esforços. É preciso entremeá-lo convenientemente de recreações, como um remédio.”

Não que ela seja necessária: ela não o é. Não que ela tenha tanta importância quanto a escrita, que serve para o comércio, para a administração doméstica, para as ciências e para a maioria das funções civis, ou quanto a pintura, que nos permite julgar melhor a obra dos artistas, ou quanto a ginástica, que ajuda a saúde e o desenvolvimento das forças; a música não faz nada disso. Mas ela serve pelo menos para passar agradavelmente o lazer. É por isso que ela foi posta na moda. Ela pareceu a seus inventores a diversão mais conveniente às pessoas livres.

Existem povos que não evitam os massacres e são ávidos de carne humana, mas que, quando atacados, são tudo, menos valentes; por exemplo, os aqueus e os heniocos do Ponto Euxino, e outras nações mais distantes que pertencem às terras da mesma região, sendo que as outras preferem a profissão de ladrões.”

Aqueles que expõem em demasia os jovens aos exercícios do ginásio e os deixam sem instrução sobre as coisas mais necessárias, fazem deles, na verdade, apenas reles guarda-costas, que servem no máximo para uma das funções da vida civil, uma função, porém, que, se consultarmos a razão, é a menor de todas. Não é por suas proezas antigas, mas sim pelas do presente que devem ser julgados.”

até a puberdade só se praticarão exercícios leves, sem sujeitar os corpos aos excessos de alimentação, nem aos trabalhos violentos, por temor de que isso impeça o crescimento. A prova do efeito funesto deste regime forçado é que entre os que venceram nos jogos olímpicos em sua juventude dificilmente se encontrarão dois ou três que também venceram numa idade mais avançada. Por que isto? Porque a violência dos exercícios a que se tinham submetido desde a infância esgotara sua força e seu vigor.”

PRÉ-ROUSSEAU: “Com efeito, não se deve atormentar ao mesmo tempo o espírito e o corpo. Desses exercícios, um impede o outro; o do corpo é nocivo ao espírito, e o do espírito ao corpo.”

Se estiver em nosso poder escolhê-la segundo o desejo, a situação da Cidade deve ser próxima do mar e do campo; assim, a ajuda seria fácil de um lugar para outro e de toda parte, assim como a exportação e a importação das mercadorias. Haveria comodidade para transportar a madeira e todos os outros materiais do país.” “a comodidade do mar faz com que se envie para o exterior ou se receba na cidade uma multidão de mercadores, o que é igualmente pernicioso para o Estado.” “Somente a atração do lucro faz com que estabeleça em seu território mercados abertos a todos. Há aí uma avareza condenável, e não é assim que um Estado ou uma cidade devem praticar o comércio.”

Os soldados da marinha, pelo contrário, são livres e, assim como seus oficiais, provêm da infantaria. São eles que comandam os marinheiros [que, diferente dos soldados da marinha, não são cidadãos]. Quanto à tripulação, é completada com camponeses e lavradores dos arredores. É o que se pratica em certos lugares, por exemplo Heracléia, cujas galeras estão sempre bem-tripuladas, embora a cidade seja muito menor do que várias outras.”

se as águas são raras ou de diversas qualidades, deve-se separar, como se faz nas cidades bem-cuidadas, as que são boas para beber das que podem servir para outros usos.”

no que se refere às casas particulares, elas serão bem mais agradáveis e mais cômodas se seu espaço for bem-distribuído, com uma estrutura à maneira moderna, ao gosto de Hipódamos.¹”

¹ Hipódamos de Mileto foi um polímata do século V a.C., tido como fundador da concepção de Planejamento Urbano, que estendia a preocupação da arquitetura para toda a polis em si. Planejou pela primeira vez a simetria geométrica da disposição das ruas e das casas e, ao mesmo tempo, a existência de um centro despovoado e amplamente aberto, i.e., a Ágora. As casas que ele planejou eram mais espaçosas e tinham dois andares.

Não se alinharão todas as ruas de um extremo ao outro, mas apenas certas partes, tanto quanto o permitir a segurança e o exigir a decoração.”

Embora não seja muito honroso opor muros de defesa a guerreiros da mesma têmpera que não têm uma grande vantagem numérica, é possível que os sitiantes consigam um tal acréscimo de forças que todo valor humano, mas com poucas pessoas, não possa resistir-lhes. Portanto, se não se quer morrer, nem se expor ao ultraje, deve-se considerar como uma das medidas mais autorizadas pelas leis da guerra manter suas muralhas no melhor estado de fortificação, principalmente hoje, quando se imaginaram tantos instrumentos e máquinas engenhosas para atacar fortificações. Não querer cercar as cidades com muros é como abrir o país às incursões dos inimigos e retirar os obstáculos de sua frente, ou como se recusar a fechar com muros as casas particulares, de medo que os que nelas habitam se tornem medrosos.”

é claro que num Estado tão perfeitamente constituído que não admita como cidadãos senão pessoas de bem, não apenas sob certos aspectos, mas integralmente virtuosos, não devemos contar entre eles aqueles que exercem profissões mecânicas ou comerciais, sendo esse gênero de vida ignóbil e contrário à virtude” TERCEIRA REPETIÇÃO!

primeiro, na juventude, o comando da força armada para defender o Estado; depois, quando maduros, a autoridade para governá-lo.”

Convém não ligar ao culto divino senão cidadãos, e não se devem educar para o sacerdócio nem lavradores que puxam arado, nem trabalhadores que saem de sua forja. Tendo a universalidade dos cidadãos sido dividida em duas classes, a dos homens de guerra e a dos homens de lei, é aí que se devem tomar os ministros da religião.”

Esta necessidade de dividir o Estado em classes diversas, segundo a variedade das funções, e de separar os homens de guerra dos lavradores não é uma invenção de hoje, nem um segredo recém-descoberto pelos filósofos que se ocupam de política. Tal distinção foi introduzida no Egito pelas leis de Sesóstris e em Creta pelas de Minos.¹ Elas ainda subsistem atualmente nestes lugares.”

¹ Afinal de contas Minos ter existido como homem de carne e osso é hipótese tão verossímil quanto com Licurgo e Sólon?

Os sábios do país contam que um certo Italus foi rei na Enótria. Os habitantes tomaram seu nome e, em vez de enotrianos, se chamaram italianos. O nome de Itália ficou também para a costa da Europa entre o golfo de Cilética e o golfo Lamético, distantes meia jornada um do outro. Segundo estes historiadores, foi Italus quem, de pastores errantes, tornou os enotrianos lavradores sedentários. Entre outras leis que lhes deu, estabeleceu pela primeira vez que comessem juntos. Este costume ainda hoje se observa entre alguns de seus descendentes, assim como algumas outras de suas leis. Os ópicos, antigamente chamados ou cognominados ausônios, nome que lhes ficou, habitavam a costa do Tirreno; e os caonianos, descendentes dos enotrianos, a praia chamada Sirtes, entre a Lapígia e a Jônia.”

É bem crível que muitas outras coisas foram inventadas várias vezes, talvez ao infinito, na longa seqüência dos séculos. Ao que parece, inicialmente a necessidade inventou as coisas necessárias; em seguida, por adjunção, as que servem para um maior conforto e para ornamento. O mesmo ocorre com a legislação e as constituições civis. Podemos conjeturar como elas são antigas pelo exemplo dos egípcios, que remontam à mais alta antiguidade e desde sempre tiveram leis e uma constituição. Cabe a nós aproveitar suas boas invenções e lhes acrescentar o que lhes falta.”

Todos concordam que as mesas comuns e as refeições públicas convêm às cidades bem-organizadas politicamente. Isto também nos agrada, mas é preciso que nelas todos os cidadãos sejam recebidos gratuitamente; caso contrário, não será fácil para aqueles que só têm o estrito necessário fornecer a sua parte e ainda arcar com o sustento de sua família.”

* * *

DA CÉLEBRE DIVISÃO ENTRE AS FORMAS DE GOVERNO

MODALIDADES IDEAIS: “Chamamos monarquia (1) o Estado em que o governo que visa a este interesse comum pertence a um só; aristocracia (2), aquele em que ele é confiado a mais de um, denominação tomada ou do fato de que as poucas pessoas a que o governo é confiado são escolhidas entre as mais honestas, ou de que elas só têm em vista o maior bem do Estado e de seus membros [aristo+cracia = governo dos melhores]; república (3), aquele em que a multidão governa para a utilidade pública; este nome também é comum a todos os Estados.

MODALIDADES CORROMPIDAS: “A tirania (4) não é, de fato, senão a monarquia voltada para a utilidade do monarca; a oligarquia (5), a aristocracia voltada para a utilidade dos ricos; a democracia (6), a república voltada para a utilidade dos pobres.”

A oligarquia estabeleceu-se desde os tempos mais remotos em todos os lugares que tinham na cavalaria a sua principal força, como os eretrianos, os de Cálcides, os magnésios do Meandro e vários outros povos asiáticos. Montava-se a cavalo para combater os inimigos dos arredores.”

1. MONARQUIA

No Estado de Esparta,¹ p.ex., há uma monarquia das mais legítimas, mas o poder do rei não é absoluto, a não ser quando o monarca estiver fora de seus Estados e em situação de guerra, pois então ele tem a autoridade suprema sobre seu exército. Além disso, ele tem no interior a superintendência do culto e das coisas sagradas. Esta espécie de monarquia não é, pois, senão um generalato perpétuo, com plenos poderes, sem porém ter o direito de vida e de morte, a não ser em certo domínio ou, nas expedições militares, quando se está combatendo, como era costume antigamente. É o que se chama lei do golpe de mão. Homero refere-se a ela. Segundo ele, Agamêmnon, na Assembléia do povo, tolerava as palavras menos respeitosas. Fora dali, de armas na mão, tinha o poder de morte sobre os soldados delinqüentes.”

¹ Platão e Montesquieu, por exemplo, recusam o status de monarquia a Esparta/Lacedemônia.

O comando militar inamovível é, portanto, um primeiro tipo de monarquia, sendo umas hereditárias e outras eletivas.”

DESACERTO NOS CRITÉRIOS: “Tendo os bárbaros naturalmente a alma mais servil do que os gregos e os asiáticos, eles suportam mais do que os europeus, sem murmúrios, que sejam governados pelos senhores. É por isso que essas monarquias, embora despóticas, não deixam de ser estáveis e sólidas, fundadas que são na lei e transmissíveis de pai para filho. Pela mesma razão, sua guarda é real, e não tirânica, pois os reis são protegidos por cidadãos armados, ao passo que os déspotas recorrem a estrangeiros. Aqueles governam de acordo com a lei súditos de boa vontade; estes, pessoas que só obedecem contrafeitas. Aqueles são protegidos pelos cidadãos; estes, contra os cidadãos. São, portanto, dois tipos diferentes de monarquia.”

Antes do aparecimento da figura de um César, A. prefigura a instituição do ditador da República Romana final, no plano teóricoa, como sendo um governo monárquico não-tirânico, posto que legal. É verdade que matiza este raciocínio depois: “Estes principados são, portanto, ao mesmo tempo despóticos pela maneira com que a autoridade é exercida e reais pela eleição e submissão espontânea do povo.” Este último critério transformaria quase todos os governos atuais da Terra em monarquias constitucionais, quando vemos não passar de tiranias, se é para dicotomizar entre as duas! Hitler como um monarca constitucional seria uma piada de humor negro. Mas é ao que a taxonomia aristotélica conduz…

Os reis dos primeiros séculos tinham autoridade sobre todos os negócios de Estado, tanto dentro quanto fora, e para sempre. A partir daí, quer porque abandonaram por si mesmos uma parte da autoridade, quer porque tenham sido despojados dela pelo povo, foram reduzidos em alguns Estados à simples qualidade de soberanos sacrificadores ou pontífices e, nos lugares onde se conservou o nome de rei, à simples faculdade de comandar os exércitos além das fronteiras.”

2. ARISTOCRACIA

O nome de aristocracia convém perfeitamente ao regime que já mencionamos acima, pois não se deve, com efeito, dar este nome senão à magistratura composta de pessoas de bem sem restrição e não a essas boas pessoas em que toda a retidão se limita ao patriotismo.”

Aristóteles perde a mão em suas classificações, sem uma exceção sequer! “Há um ar de aristocracia em toda parte onde se observa a virtude, embora sejam prezadas também a riqueza e a popularidade, como entre os espartanos, que unem a popularidade às considerações devidas à virtude. São estas duas espécies de aristocracia, além da primeira [essas subdivisões não guardam o menor interesse], as únicas a merecerem o nome de excelente e perfeita República [no sentido lato: todos os seis governos!].”

3. “REPÚBLICA” (é o próprio Aristóteles que coloca o título entre aspas!)

Reservamo-la para o final [meio!] não por ser uma depravação da aristocracia, de que acabamos de falar (pois é normal começar, como fizemos, pelas formas puras e depois ir às formas desviadas), mas porque ela reúne o que há de bom em dois regimes degenerados, a oligarquia e a democracia.

Na oligarquia, a lei não concede aos pobres nenhum salário para administrar a justiça e estabelece penas contra os ricos, caso se recusem a fazer parte de uma assembléia; na democracia, a lei dá um salário aos pobres mas não aplica nenhuma pena aos ricos. A mistura conveniente ao Estado, que ocupa o meio entre estes governos e é composta pelos dois, é conceder o salário aos pobres e aplicar a multa aos ricos.” “É democrático, por exemplo, escolher os magistrados por sorteio; oligárquico, elegê-los; democrático, não considerar a renda”

SÓ PIORA: “É o que se observa em Esparta: muitos, com efeito, a colocam na classe das democracias, porque ela tem muitas instituições dessa natureza. [!!!] Na educação das crianças, a comida é a mesma para os filhos dos ricos e para os dos pobres, a mesma instrução, a mesma severidade no trato; na idade seguinte, o mesmo gênero de vida quando se tornam homens.”

Apenas definições negativas e compósitas de “república”, além de ininteligíveis! Desistam de se apoiar nesses conceitos aristotélico, pelo BEM de todos nós!

4. TIRANIA

Quanto mais a monarquia se aproxima idealmente do governo celeste, mais sua alteração é detestável. A monarquia não passa de um vão nome, se não se distingue pela grande excelência de quem reina. O vício mais diametralmente contrário a sua instituição é a tirania. Portanto, é também o pior dos governos.”

5. OLIGARQUIA

Os postos são concedidos aos mais ricos e nomeiam a si próprios em caso de vacância. Se a escolha se fizesse entre todos, seria aristocrática; o que a torna oligárquica é que ela se faz numa classe determinada. Todavia, não sendo poderosos o suficiente para governar sem leis, transformam em leis a preferência que se arrogam.

Se seu número diminuir e sua riqueza tiver novos aumentos, forma-se um segundo grau de oligarquia, no qual, aproveitando a ascendência que adquiriram por seus postos, fazem com que se ordene por uma nova lei que seus filhos serão seus sucessores.”

Tendo aumentado ainda mais sua riqueza e seu crédito, a potência dos oligarcas aproxima-se da monarquia. Este vício é semelhante tanto à tirania que se introduz nas monarquias quanto à última espécie de democracia, de que falaremos. Chama-se dinastia ou, mais exatamente, politirania.”

6. DEMOCRACIA

INDIRETA A PLATÃO? “Não se deve, como costumavam fazer certas pessoas, definir simplesmente a democracia como o governo em que a maioria domina. Nas próprias oligarquias e em qualquer outra parte, é sempre a maioria que se sobressai.”

Se os poderes se distribuíssem de acordo com a estatura [!], como acontece, segundo certos autores, na Etiópia, ou de acordo com a beleza [Ganimedolândia ou quiçá Ilha dos alcibíadas], haveria oligarquia, porque a beleza e a alta estatura não pertencem à maioria.”

Aristóteles se esquece do espírito de um governo e da tendência das sociedades. Procura uma classificação tirando fotos, ou seja, espúria e ingênua.

Uns e outros abundam em alguns lugares, como os pescadores em Tarento e em Bizâncio, os marinheiros em Atenas, os negociantes na ilha de Egina e em Quios, os barqueiros em Tenedos. Devem-se juntar a eles os trabalhadores manuais e todos os que não são abastados o suficiente para ficar sem fazer nada, os que não nasceram de pai e mãe livres e toda espécie de populaça semelhante.”

Como o Estado não pode existir sem magistrados e precisa de homens capazes de realizar suas funções, precisa também de pessoas que executem suas ordens e estejam encarregadas do serviço, quer para sempre, quer alienadamente.”

A CARICATURA ARISTOTÉLICA (JULGA QUE NÃO HÁ DINÂMICA DE CLASSES OU ESTRATOS, E QUE QUEM ASCENDE AO PODER NÃO ENRIQUECE NEM SE DISTINGUE EM POUCO TEMPO): “A quarta é aquela que se introduziu em último lugar nas Cidades que se tornaram maiores e mais opulentas do que eram nos primeiros tempos. Ela exibe a igualdade absoluta, isto é, a lei coloca os pobres no mesmo nível que os ricos e pretende que uns não tenham mais direito ao governo do que os outros, mas que a condição destes e daqueles seja semelhante. Pois se a alma da democracia consiste, como pensam alguns, na liberdade, sendo todos iguais a este respeito, devem ter a mesma parte nos bens civis e principalmente nos grandes cargos; e, como o povo é superior em número e o que agrada à pluralidade é lei, tal Estado deve necessariamente ser popular. Mas, se todos são indistintamente admitidos no governo, é a massa que se sobressai e, sendo os pobres assalariados, podem deixar o trabalho e permanecer ociosos, não os retendo em casa a preocupação com seus próprios negócios. É, pelo contrário, um obstáculo para os ricos que não assistem às Assembléias nem se preocupam com o papel de juiz. Resulta daí que o Estado cai no domínio da multidão indigente e se vê subtraído ao império das leis. Os demagogos calcam-nas com os pés e fazem predominar os decretos. Tal gentalha é desconhecida nas democracias que a lei governa. Os melhores cidadãos têm ali o primeiro lugar. Mas onde as leis não têm força pululam os demagogos. O povo torna-se tirano. Trata-se de um ser composto de várias cabeças; elas dominam não cada uma separadamente, mas todas juntas. Não se sabe se é desta multidão ou do governo alternado e singular de vários de que fala Homero quando diz que <não é bom ter vários senhores>. De qualquer modo, o povo, tendo sacudido o jugo da lei, quer governar só e se torna déspota. Seu governo não difere em nada da tirania. Os bajuladores são honrados, os homens de bem sujeitados. O mesmo arbítrio reina nos decretos do povo e nas ordens dos tiranos. Trata-se dos mesmos costumes. O que fazem os bajuladores de côrte junto a estes, fazem os demagogos junto ao povo. Gozam do mesmo crédito.”

Se pretendermos que a democracia seja uma das formas de governo, então não se deverá nem mesmo dar este nome a esse caos em que tudo é governado pelos decretos do dia, não sendo então nem universal nem perpétua nenhuma medida.”

* * *

Sobre a divisão dos poderes, existente em qualquer forma de governo, em tempos bem anteriores a Montesquieu e às noções modernas…

1. ???

Devo ter ficado burro, porque me tornei incapaz de entender Aristóteles: “No que se chama democracia, principalmente na de hoje, em que o povo é senhor de tudo, até das leis, seria bom, para se conseguirem boas deliberações, que as Assembléias fossem ordenadas e regulamentadas como os tribunais das oligarquias, ou ainda melhor, se possível. Ali são aplicadas penas aos que são nomeados para a judicatura, a fim de obrigá-los a julgar, ao passo que na democracia é proposto um salário aos pobres. Ora, delibera-se melhor quando todos deliberam em comum, o povo com os nobres e os nobres com a multidão.”

o corpo deliberativo, o verdadeiro soberano do Estado.” Quem é o <corpo deliberativo> (que deveria ser o título deste tópico 1)? Por eliminação (categorias a seguir), seria o poder legislativo. Mas pelo que se lê acima esta categoria ou corpo ou poder é uma composição caótica de tudo que entendemos por poder executivo, legislativo e judiciário hoje

2. O PODER EXECUTIVO

Já é difícil determinar quem são os que devem chamar-se magistrados. A sociedade civil precisa de vários servidores. O nome de magistrados não convém a todos os que são nomeados por eleição ou por sorteio. É o caso dos sacerdotes, sendo seu ministério de natureza diferente da dos ofícios políticos, dos diretores de coro, dos arautos, dos embaixadores, embora também eles sejam eletivos.” “É de pouca utilidade o modo como são chamados, já que sua denominação, que é discutível, ainda não ficou bem decidida. Mas não é de pouca importância bem distinguir os seus atributos.”

O primeiro cuidado do governo é fazer com que se encontrem nos mercados os víveres necessários. Para tanto, deve haver um magistrado que cuide de que tudo seja feito de boa fé e que a decência seja observada.” O Brasil de hoje já não atende ao primeiro requisito de Aristóteles…

O oficio que se segue imediatamente é de primeira necessidade, mas também de enorme dificuldade: é o de executor das sentenças de condenação, o de pregoeiro de bens apreendidos e o de guarda das prisões. É difícil prestar-se a estas funções por causa dos ódios a que elas expõem, e não se aceitam semelhantes trabalhos a menos que sejam muito lucrativos [ou que estejamos falando de indivíduos sádicos]. Quando são aceitos, não se ousa seguir o rigor da lei, que é, porém, algo indispensável. De nada serviria sustentar uma causa e obter uma sentença se não houvesse ninguém para fazer com que ela fosse obedecida. Sem a execução, é impossível que a sociedade subsista.”

Se a mesma pessoa condena e faz executar, é alvo de um duplo ódio. Se se depara com o mesmo executor em toda parte, trata-se de um meio de fazer com que ele seja universalmente odiado.

Em vários lugares, a profissão de carcereiro é separada da de executor, como em Atenas, no tribunal dos Onze. Esta separação é uma atenuação não menos necessária do que a precedente. Tais ofícios têm a desvantagem de serem evitados pelas pessoas de bem tanto quanto possível, e não é seguro confiá-los a malandros. Estes precisam muito mais ser eles próprios vigiados do que vigiarem. Portanto, estas funções não devem pertencer a um cargo fixo, nem estar sempre nas mesmas mãos, mas sim ser realizadas ora por um, ora por outro, principalmente nos lugares em que a guarda da cidade é confiada a companhias de jovens.”

POLÍCIA: “Depois destes ofícios de maior urgência, vêm outros não menos necessários, mas de uma ordem mais elevada e de um maior valor representativo, pois exigem mais experiência e necessitam de maior confiança.” “Nos pequenos [lugares], basta para todos um comandante em chefe. Chamam-se estes chefes Estrategos ou Polemicas, a cavalaria, a infantaria ligeira, os arqueiros, a marinha têm cada qual seus oficiais particulares chamados Navarcas (almirantes), Hiparcas (generais de cavalaria), Taxiarcas (coronéis), e seus oficiais subalternos, Trierarcas, Locagos, Filarcas e outros subordinados, todos ocupados única e exclusivamente com os trabalhos de guerra.”

Embora nem todas as funções de que acabamos de falar participem do manejo do dinheiro público, mas como algumas estão amplamente envolvidas nisso, é preciso que haja acima delas um outro magistrado que, sem que ele mesmo administre coisa alguma, faça com que os outros prestem contas de sua administração e a corrijam. Uns o chamam auditor; outros, inspetor de contas; outros, grande procurador.

Além disso, uma magistratura suprema de que dependam todas as outras é, enfim, necessária. Ela tem ao mesmo tempo o direito ordinário de impor os impostos e de inspecionar a sua percepção. Em toda parte onde o povo é senhor, ela preside às Assembléias (pois é preciso que aqueles que as convocam tenham nelas a principal autoridade). Em alguns lugares, ela é chamada a Probulia, ou Consulta, porque prepara as deliberações. Nas democracias, em que a massa decide soberanamente, dão-lhe o nome de senado.” Realmente é curioso: senado executor!

Recapitulando toda esta exposição, constataremos que todos os ofícios ou ministérios necessários têm por objeto quer as honras devidas ao Ser supremo, quer o serviço militar, quer a administração das finanças, vale dizer, a receita ou a despesa das rendas públicas, quer o abastecimento dos mercados ou a polícia das cidades, dos portos e dos campos, além da administração da justiça, o tabelionato dos contratos, a execução das sentenças, a guarda das prisões, a auditoria e o exame das contas, a reforma dos abusos e das prevaricações, enfim, as deliberações sobre os negócios de Estado.

Os povos que gozam de maior lazer e de uma paz profunda, ou que estão em condições de sentir o secreto encanto do bem-estar e de obtê-lo para si mesmos, têm ofícios próprios, como a Nomofilacia ou guarda das leis, a inspeção do comportamento das mulheres, a disciplina das crianças, o reitorado dos ginásios, a intendência dos exercícios ginásticos, das festas de Baco e outros espetáculos do mesmo gênero.

Destes ofícios, alguns – como a disciplina das mulheres e das crianças – não convêm à democracia, cujo povo quase só é composto de pobres que, não tendo condições de se fazer servir por outros, são forçados a empregar suas mulheres e suas crianças como domésticos.”

Nas cidades pequenas, a falta de gente força a que se confiram vários ofícios à mesma pessoa. Não se encontram pessoas nem para todas as funções, nem para a sucessão de cada uma delas. Às vezes, porém, elas precisam das mesmas magistraturas e da mesma constituição que as grandes, com a única diferença de que umas são com freqüência forçadas a voltar sempre às mesmas pessoas, e as outras só são obrigadas a isto após longos intervalos. É assim que se suspendem em um mesmo lustre várias velas.”

É própria da aristocracia a inspeção das mulheres e das crianças. Tal função não é nem democrática, nem oligárquica. Como, com efeito, impedir as mulheres dos pobres de saírem ou censurar as mulheres dos oligarcas, acostumadas a viver no luxo?”

Estas diversidades podem combinar-se duas a duas, de modo que tais magistrados sejam eleitos por tais cidadãos e os outros por todos; uns escolhidos dentre eles, outros tirados de tal classe; uns escolhidos por sorteio, outros por eleição.”

3. O PODER JUDICIÁRIO

Além destes tribunais [sete], existem juízes para os casos mínimos, tais como os de 1 até 5 dracmas, ou pouco mais, pois, se é preciso julgar estas queixas, elas não merecem ser levadas diante dos grandes tribunais.”

Nada de relevo neste tópico. Aliás, a obra como um todo se mostra fraca, indigna do maior discípulo de Platão.

* * *

Os povos que habitam as regiões frias, principalmente da Europa, são pessoas corajosas, mas de pouca inteligência e poucos talentos. Vivem melhor em liberdade, pouco civilizados, de resto, e incapazes de governar seus vizinhos.

Os asiáticos são mais inteligentes e mais próprios para as artes, mas nem um pouco corajosos, e por isso mesmo são sujeitados por quase todos e estão sempre sob o domínio de algum senhor.” Um preconceito eterno?

Situados entre as duas regiões, os gregos também participam de ambas. (…) Poderiam mandar no mundo inteiro se formassem um só povo e tivessem um só governo.”

PSICOLOGIA AGORA? “O coração é, de fato, a faculdade da alma de que procede a benevolência e pela qual nós amamos; quando, porém, ele se crê desprezado, irrita-se mais contra as pessoas que são conhecidas e com as quais convive do que contra os desconhecidos.”

PSEUDO-OVO DE COLOMBO: “Pois não é suficiente conhecer a melhor forma, é preciso ver, em cada caso particular, qual é aquela que é possível estabelecer”

Corrigir a constituição que existe não é menos incômodo do que instituir outras, assim como é tão difícil perder quanto contrair hábitos.”

UM POLEMISTA DE ÉPOCA: “Ora, como pode conseguir isto se ignorar quantas espécies de governo existem? Nossos atuais políticos, por exemplo, só conhecem uma espécie de democracia e de oligarquia; trata-se, como vimos, de um erro, pois existem várias.”

VIM PARA CONFUNDIR, NÃO PARA ESCLARECER: “Dir-se-á, talvez, que cabe à lei dominar e que não se pode agir de pior maneira do que substituindo-a pela vontade de um homem, sujeito como os demais a suas paixões. Mas, se a própria lei for ditada pelo espírito de oligarquia ou de democracia, de que nos servirá para elucidar a questão proposta?”

há uma enorme afinidade entre a monarquia e a aristocracia, elas têm quase a mesma disciplina e os mesmos costumes e seus chefes não precisam de educação diferente da que forma o homem virtuoso.” “A monarquia é, na nossa opinião, um dos melhores regimes.” Vozes da cabeça de Ari.. De todo modo, ser “um dos melhores” quando existem 4 ou 5 tipos de governo não é lá grande coisa, concordam?!

SÓ FIZ MARIAS, DIGO, SOFISMARIAS: “Querer que o espírito comande equivale a querer que o comando pertença a Deus e às leis. Entregá-lo ao homem é associá-lo ao animal irracional. Com efeito, a paixão transforma todos os homens em irracionais. (…) A lei, pelo contrário, é o espírito desembaraçado de qualquer paixão.”

A amizade supõe igualdade e semelhança.” Não leu o Lísis.

Se antigamente se deixaram governar por reis, é, sem dúvida, porque raramente se encontravam ao mesmo tempo várias pessoas eminentes quanto ao mérito, sobretudo nas pequenas cidades, como eram as dos velhos tempos.”

ISSO É UM DADO HISTÓRICO OU UMA ASSUNÇÃO METAFÍSICA? “Mas, quando os homens de mérito começaram a se multiplicar, não se quis mais aquele governo; procurou-se algo mais conveniente ao interesse comum e se formou uma República.”

Se supusermos, porém, que em geral a monarquia convém mais aos grandes Estados, que partido tomar com relação aos filhos dos reis? Deve ser hereditário o cetro? Ficaremos expostos a cair nas mãos de maus sucessores, como aconteceu algumas vezes. Dir-se-á que o pai terá o poder de não lhe passar a coroa. Mas não devemos esperar por isto: esta renúncia está muito acima da virtude que a natureza humana comporta.”

alguém aconselhou aos siracusanos que regulassem da mesma forma a importância da guarda que lhes pedia Dionísio.” Quem você quer nomear quando não nomeia?

Mas já falei bastante da monarquia” Sim, já falaste bastante de muitas coisas e mal cheguei à metade da obra…

DANCE CONFORME A MÚSICA: “como a harmonia é dividida por alguns em dois modos, o dórico e o frígio, aos quais relacionam todos os demais e dão nome a todas as suas composições musicais, de ordinário se formam, a exemplo desses dois modos, todas as Repúblicas. Mas é melhor só admitir como bem-constituídas uma ou no máximo duas espécies. As outras são como que desvios ou da boa harmonia, ou do bom governo”

A igualdade parece ser a base do direito, e o é efetivamente, mas unicamente para os iguais e não para todos. A desigualdade também o é, mas apenas para os desiguais. Ora uns e outros põem de lado esta restrição e se iludem, já que é sobre eles próprios que sentenciam; pois de maneira bastante ordinária os homens são maus juízes a seu próprio respeito. A igualdade da qual resulta a justiça ocorre, como igualmente o demonstra a nossa Ética, nas pessoas e nas coisas. Concorda-se facilmente sobre a igualdade das coisas.”

Os Estados democráticos ostentam acima de tudo a igualdade. Foi este zelo que fez com que imaginassem o ostracismo. Nenhuma ascendência é tolerada, nem por riqueza, nem por credibilidade, nem por poder, e desde que um homem alcance tal preponderância é banido por um tempo determinado pela lei. A mitologia ensina-nos que foi este o motivo pelo qual os argonautas devolveram Hércules à terra e o abandonaram. Não queria remar com os outros no Argos, acreditando-se muito acima dos marinheiros.”

O ostracismo tem por objeto apenas deter e afastar os que se distinguem demais. Os soberanos agem da mesma forma para com Estados ou nações inteiras. Foi assim que agiram os atenienses para com os de Samos, de Quios e de Lesbos. Tão logo puderam, os rebaixaram, contra a fé dos tratados. Da mesma forma, o rei da Pérsia humilhou e saqueou os medos, os babilônios e outros insolentes que não se cuidaram durante a prosperidade.”

NADA MAIS ERRADO: “o público julga melhor do que ninguém sobre música ou poesia. Uns criticam um trecho, os demais um outro, e todos captam o forte e o fraco do conjunto da obra.”

AH, ZEITGEIST! “Entendemos por médico tanto aquele que pratica a medicina como artista [acepção de formado profissionalmente] como aquele que ordena e aquele que adquiriu conhecimentos na arte tais como se encontram em todos os demais [autodidata]. Estes últimos não são menos competentes para julgar do que os doutores.”

* * *

IGUALDADE E IGUALDADE

Ora, um dos apanágios da liberdade é que todos alternadamente mandem e obedeçam. Desta diferença entre perpetuidade e alternância dependem a disciplina e a instituição. Se houvesse uma raça de homens que superasse tanto os outros quanto imaginamos que os deuses e os heróis o fazem; se essa superioridade se manifestasse primeiramente pelo porte e pela boa aparência, depois pelas qualidades da alma, e fosse indubitável para os inferiores, o melhor sem contestação seria que seu governo fosse perpétuo e que as pessoas se submetessem a ele de uma vez por todas. Mas como, com exceção, segundo Scyllax, dos indianos, de ordinário os reis não apresentam superioridade tão acentuada sobre seus súditos, é preciso que todos os cidadãos mandem e obedeçam alternadamente, e isto por várias razões.”

Aos descontentes se soma a gente do campo, sempre ávida de novidades, e qualquer que seja o número dos altos funcionários não pode ser grande o bastante para que eles sejam os mais fortes.”

Ninguém se zanga ou se sente desonrado por ceder aos mais velhos, na esperança de alcançar as mesmas honras quando tiver a idade conveniente. Pode-se, portanto, dizer que os mesmos mandam e obedecem, mas são, porém, diferentes; assim, a disciplina deve ser em parte a mesma e em parte diferente. Pois, de acordo com o provérbio, para bem comandar é preciso ter antes obedecido.

várias funções que à primeira vista pareceriam servis podem ser executadas honestamente por homens livres. A honestidade e a torpeza residem menos na natureza do ato do que no motivo que faz agir.”

um homem não deve se submeter a ninguém, ou que isto só deve acontecer se houver desforra, conseqüência necessária da liberdade distribuída a todos em igual medida.” Memes de internet são desforra?

PRINCÍPIOS DEMOCRÁTICO-ARISTOTÉLICOS:

(*)“os magistrados devem ser sorteados, ou todos sem exceção, ou pelo menos aqueles cujo cargo não requer nem luzes, nem experiência”

(*)“não se deve ter (…) nenhuma consideração para com a fortuna”

(*)“a mesma magistratura não deve ser conferida mais de uma vez à mesma pessoa, ou pelo menos que isto aconteça raramente e para pouquíssimos cargos, a não ser os militares”

(*)“todos os cargos devem ser de curta duração, ou pelo menos aqueles onde esta breve duração for conveniente”

(*)“todos devem passar pela judicatura, de qualquer classe que sejam, e ter poder para julgar sobre todos os casos em qualquer matéria, mesmo as causas da mais alta importância para o Estado, tais como as contas e a censura, a reforma do governo, assim como as convenções particulares”

(*)Judiciário fraco, legislativo e executivo sumamente poderosos (limite da abordagem pré-Montesquieu).

(*)“os membros do senado não devem ser indistintamente assalariados. Os salários arruínam o poder da magistratura; o povo, ávido de salários, atrai tudo para si”

(*)“Não se deve tolerar nenhuma magistratura perpétua. Portanto, se sobrar alguma magistratura do antigo regime, suas atribuições serão reduzidas e, de eletiva, passará a depender de sorteio. Eis o espírito de todas as democracias.

Sem contestação, o melhor povo é o que se ocupa de agricultura. Existe, pois, disposição natural para a democracia em todos os lugares em que o povo tira sua subsistência da agricultura ou da criação de gado.” “Consideram mais agradável trabalhar do que permanecer sentadas, de braços cruzados, a deliberar sobre o governo ou gerir magistraturas, a menos que haja muito que ganhar neste trabalho, pois a maioria prefere o lucro à honra. A prova de sua despreocupação quando não se desperta sua cupidez é que suportaram muito bem seus antigos déspotas e ainda hoje se acostumam com a oligarquia quando os deixam trabalhar e não tiram seus pertences. Então, eles logo alcançam a riqueza, ou pelo menos a abastança. Se tiverem além disso alguma ambição, ela é mais do que satisfeita pelo direito de voto que lhes dão nas eleições e na auditoria das contas. E mesmo que nem todos tivessem direito de assistir a elas, mas apenas o de ser voz deliberativa nas Assembléias primárias. Com efeito, é preciso considerar isto como uma das formas do governo democrático. Era esta que havia em Mantinéia.”

Esta Constituição deixará contentes os homens de bem e os nobres. Por um lado, terão a vantagem de não serem governados por pessoas baixas; por outro lado, quando chegar a sua vez, tomarão mais cuidado para governar eqüitativamente, pois terão contas a prestar e outras pessoas que os julgarão, pois é bom depender de alguém e não ter toda a liberdade para fazer o que se quer. Esta liberdade indefinida é uma má garantia contra o fundo de maldade que todo homem traz consigo ao nascer. Resulta necessariamente desta precaução a maior vantagem para todo Estado, que é ser governado por pessoas de bem que a responsabilidade torna por assim dizer impecáveis, e isto sem ameaçar a superioridade do povo. É evidente que a melhor de todas as democracias é a que é assim constituída. Por quê? Porque nela o povo tem sua importância.”

Dentre as excelentes leis que existiam antigamente entre vários povos, observamos sobretudo as que não permitiam a ninguém possuir terras ou acima de certa quantidade, ou a uma distância grande demais da cidade onde se mora. Em vários Estados era proibido alienar a herança paterna. Uma lei de Oxilus, cujo efeito é aproximadamente o mesmo, proibia que se hipotecasse parte dela aos credores. Podemos retificá-la por um texto dos afitianos que vem bem a propósito. Esse povo, embora numeroso, possuía um território bastante pequeno; todos eram lavradores, mas nos registros do censo não constava a totalidade de suas propriedades. Dividiam-nas em certo número de partes disponíveis, para que os pobres pudessem adquiri-las em quantidade suficiente para ultrapassar até mesmo os ricos.

Depois dos agricultores, o melhor povo é o que leva a vida pastoril e explora o gado. Tem muitas afinidades com o primeiro. Ambos, habituados ao trabalho corporal, são excelentes para as expedições militares e resistem perfeitamente aos incômodos do bivaque [acampamento e vigília militar].

Quase todos os outros povos que compõem o restante das democracias estão muito abaixo destes dois. Nada de mais vil, nem de mais alheio a todo tipo de virtude do que esta multidão de operários, de mercenários e de gente sem profissão. Esta espécie de indivíduos corre sem parar pela cidade e pelas praças públicas e só fica contente nas Assembléias.”

Vemos como deve ser constituída a primeira e a melhor democracia, e também como podem sê-lo as outras. Basta que nos afastemos gradualmente da primeira e adicionemos aos poucos a populaça, à medida que a democracia for piorando.”

A XENOFOBIA DE VERDADE NASCE QUANDO A XENOFOBIA PASSA A SER COISA DO PASSADO: “Para constituí-la [a última democracia] e firmar o poder do povo, os governantes costumam receber o máximo possível de pessoas e conceder direito de cidadania não apenas aos que têm um nascimento legítimo mas até aos bastardos e aos mestiços de qualquer dos dois lados, paterno ou materno.” “preciso introduzir a atenuante de só admitir recém-chegados na medida em que forem necessários para intimidar os nobres e a classe média, sem jamais ultrapassar este limite. Se isso acontecer, a desordem não tardará a reinar por toda parte. Os nobres, que já têm muita dificuldade para suportar este governo, se irritarão cada vez mais. Esta foi a causa do levante de Cirene. Fecham-se os olhos diante de um pequeno inconveniente, mas quando ele assume certa dimensão, não podemos deixar de vê-lo.”

Deve-se dividir o povo em tribos e cúrias, dissolver os cultos particulares e reconduzi-los à unidade do culto público; numa palavra, imaginar todos os meios possíveis para unir todos os cidadãos e extinguir todas as corporações anteriores; nem mesmo desdenhar certas invenções que, embora de origem tirânica, não deixam de ser populares, como o desregramento dos escravos, que pode ser útil até certo ponto, a emancipação das mulheres e das crianças, a conivência sobre o gênero de vida que agrada a cada um: nada tem melhores efeitos para essa democracia. A dissolução agrada a muito mais gente do que uma conduta regrada.”

* * *

NA PLUTOCRACIA

Na melhor oligarquia: “A divisão pelo censo deve ser tal que aqueles que têm a renda exigida sejam mais numerosos e mais fortes dos que os que não são admissíveis. Mas também é preciso ter sempre a intenção de que aqueles que são associados ao governo venham somente da parte sadia do povo.”

É o número e a abundância de homens que salvam as democracias; sua consistência vem de uma razão diametralmente oposta ao mérito. A oligarquia, pelo contrário, só pode conservar-se pela melhor ordem de suas partes.

Assim como a multidão se compõe principalmente de quatro classes, a saber: 1a os agricultores, 2a os ligados às artes e ofícios, 3a os comerciantes, 4a os trabalhadores manuais,¹ assim também existem quatro tipos de guerreiros, a saber: 1° a cavalaria, 2° os hoplitas ou infantaria armada dos pés à cabeça, 3° a infantaria ligeira, 4° a marinha.”

¹ Curioso como hoje em dia mal se pode distinguir uma da outra!

Os lugares mais propícios à primeira espécie de oligarquias são os chamados bippasimos, isto é, próprios, por suas campinas, à criação de cavalos. Esses lugares são propícios à oligarquia mais poderosa. Seus habitantes são protegidos e conservados pela cavalaria. Ora,

só a classe opulenta pode ter haras.

Quando o lugar só oferece homens e armas, a segunda oligarquia convém-lhe mais. A armadura completa necessária à grande infantaria só pode ser fornecida pelos ricos e ultrapassa os recursos dos pobres.

É a arraia-miúda que compõe a infantaria ligeira e os marinheiros. Em toda parte onde abunda essa turbaperigo de democracia para os ricos. Se acontece alguma divisão, os combates de ordinário terminam desfavoravelmente para eles. Para sanar este inconveniente, é preciso contar com hábeis generais que misturem à cavalaria e à infantaria pesada um número suficiente dessa tropa ligeira; assim apoiada, ela combate com maior desenvoltura. Porém, criar uma força dessa espécie, vinda do seio do povo, é armar-se contra si mesmo e trabalhar para sua própria destruição. Nas sedições, o povo vence os ricos através da infantaria ligeira. Ágil e alerta, ela facilmente domina a cavalaria e a infantaria pesada. Portanto, distinguindo as idades, é preciso encarregar os velhos de fazer com que seus filhos pratiquem os exercícios ligeiros e, ao sair da juventude, tomem os melhores destes alunos para colocá-los à frente dos outros.

Quanto ao restante do povo será admitido, como já se disse, no controle dos negócios públicos, quando atingir a taxa do censo exigido, ou, como entre os tebanos, depois que se tiver abstido das profissões mecânicas durante o número prescrito de anos, ou, como em Marselha, quando, tendo passado pela censura, tiver sido considerado digno do título de cidadãos e das funções cívicas.

Devem-se impor às grandes dignidades pesados encargos, para que o povo renuncie a eles de boa vontade e os deixe aos ricos, como se assim lhe pagassem os juros. Com efeito, os ricos, ao assumir o exercício, oferecerão pomposos sacrifícios, mandarão construir salas de banquetes ou outros edifícios destinados ao público, para que o povo, convidado a estes banquetes e encantado com a magnificência dos edifícios e outras decorações, veja com prazer o governo perpetuar-se.”

Não é isso o que hoje fazem os grandes de nossas oligarquias. Procuram nas dignidades, pelo contrário, não menos o lucro do que a honra. Dir-se-ia que são menos oligarquias do que democracias em transformação.”

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E VIVA O GOVERNO MISTO…

Os que se chamam aristocráticos estabeleceram-se em muitos países por imitação de governos estrangeiros, e se aproximam tanto da República propriamente dita que de agora em diante falaremos destas duas formas como sendo uma só.”

…E VIVA A MEDIOCRIDADE: “O que dissemos de melhor em nossa Ética é que a vida feliz consiste no livre exercício da virtude, e a virtude na mediania; segue-se necessariamente daí que a melhor vida deve ser a vida média, encerrada nos limites de uma abastança que todos possam conseguir.”

UM LOUVOR (ANTIGO!) AO ÚLTIMO HOMEM, ‘INDA TÃO DISTANTE NO ESPECTRO DA (NOSSA) HISTÓRIA: “Em todos os lugares, encontram-se 3 tipos de homens: alguns muito ricos, outros muito pobres, e outros ainda que ocupam uma situação média entre esses dois extremos. É uma verdade reconhecida [por quem, cara pálida e exangue?] que a mediania é boa em tudo.”

Os da primeira classe, favorecidos demais pela natureza ou pela fortuna, poderosos, ricos e rodeados de amigos ou de protegidos, não querem nem sabem obedecer. Desde a infância, são tomados por essa arrogância doméstica e a tal ponto corrompidos pelo luxo que desdenham na escola até mesmo escutar o professor. Os da outra classe, abatidos pela miséria e pelas preocupações, curvam-se diante dos outros de modo que esses últimos, incapazes de comandar, só sabem obedecer servilmente. Os primeiros, pelo contrário, não obedecem a nenhuma ordem, mas mandam despoticamente.” Também é uma verdade, paradoxal que seja, que os melhores filósofos emanam justamente da CLASSE MÉDIA.

Por isso Focílides dizia que uma modesta abastança era o objeto de seus desejos, só pedindo ao céu ser ele próprio medíocre em sua pátria.”

a tirania surge de igual modo da insolente e desenfreada democracia e da oligarquia”

NOMENCLATURAS MONTESQUIEUANAS: Quando os pobres não têm este contrapeso, e começam a prevalecer pelo número, tudo vai mal e a democracia não tarda a cair no aniquilamento.”

Um poderoso argumento a favor da mediocridade é que os melhores legisladores foram cidadãos de média fortuna. Sólon declara-se tal em suas poesias, Licurgo tornou-se tal quando parou de reinar e Carondas também o era, como quase todos os outros.”

jamais ou raramente aconteceu, e entre muito poucos povos, que se tenha optado por uma República média. Entre os príncipes não há um só exemplo desta moderação, em toda a antiguidade; em todas as outras partes, virou costume recusar a igualdade e procurar dominar quando se sai vencedor, ou ceder e obedecer quando se é vencido.”

o árbitro mais conveniente é aquele que, colocado entre dois, não pende mais para um lado do que para o outro” Infelizmente a classe média brasileira pende mais para o tio do pavê e o véio da Havan…

O censo não pode determinar-se pura e simplesmente. É preciso, porém, que o seja com a máxima amplitude possível, para que os participantes sejam mais numerosos do que os não-participantes. Quanto aos pobres, eles se consolam por não participarem e ficam descansados se não os ultrajam e lhes deixam os poucos bens que possuem, o que nem sempre acontece, pois os indivíduos de condição que pretendem os cargos públicos às vezes não são nem corteses, nem humanos. Resulta daí que, se houver guerra, os pobres a evitam, a menos que os sustentem. Mas se os sustentarem, passam a desejá-la.

Em alguns lugares, o governo é formado não apenas por aqueles que portam armas, mas pelos que as portavam. Os malianos escolhiam seu Conselho dentre estes, e seus magistrados dentre os guerreiros em atividade. O primeiro Estado entre os gregos foi organizado com esta espécie de cidadãos, depois da extinção das monarquias; e em primeiro lugar com cavaleiros, pois a força e a superioridade dos exércitos consistiam então na cavalaria. Pois as outras tropas de nada servem se não tiverem disciplina, e antigamente não havia nem disciplina, nem experiência na infantaria, de sorte que a cavalaria sozinha constituía toda a força do Estado.

Mas como os Estados cresceram e ganharam consideração através das outras armas, o governo foi comunicado a um maior número de pessoas. Assim, o que hoje chamamos de República era então chamado de democracia.¹”

¹ Resta saber a quando remonta esse “então” de Aristóteles: poderia estar falando já do tempo de Sócrates, não tão pretérito ao seu? Tem-se aí que Aristóteles já divisava o que a ciência política moderna divisa entre os gregos: sua democracia era com certeza uma oligarquia ou aristocracia, conforme fosse saudável ou decadente (ainda sem contar a chusma de escravos da polis).

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STOP THE REVOLUTION!

Para terminar, é normal examinar de onde vêm as revoluções dos Estados, quantas causas podem provocá-las e quais são elas, a que depravações cada governo em particular está sujeito e quais são os meios de preservação, os remédios gerais e específicos para essas perturbações.”

A excelência do mérito é a única superioridade absoluta, e os homens que se sobressaem quanto ao mérito são os que menos provocam revoltas.”

INCÊNDIO NA BABILÔNIA DEMORA A ESPALHAR: “Do fato de as pessoas habitarem o mesmo lugar não se segue que se trata de uma única e mesma Cidade. Os muros não podem servir de critério, pois todo o Peloponeso poderia ser cercado por uma mesma muralha. Não seria a primeira vez que vastos espaços seriam assim fechados. Assim são todas as grandes cidades, que se parecem menos com cidades do que com uma nação inteira, como a Babilônia. Três dias já se haviam passado, dizem, desde que fôra tomada e em vários bairros ainda de nada se sabia.”

São também questões de política saber se convém que um Estado só contenha uma nação ou várias, se continua a ser o mesmo enquanto conserva o mesmo gênero de habitantes, apesar da morte de uns e do nascimento de outros, como os rios e as fontes, cuja água corre sem cessar para dar lugar à água que sucede.”

permanecendo os mesmos atores, o coro não deixa de mudar quando passa do cômico ao trágico.” “Permanecendo as mesmas vozes e os mesmos instrumentos, o canto não é mais o mesmo quando passa do modo dórico ao modo frígio. Isto posto, é a forma e não a matéria que decide se um Estado permanece o mesmo e se se deve, apesar da identidade de habitantes, chamá-lo de outro nome ou conservar-lhe o nome, embora seus habitantes tenham mudado.”

PRINCÍPIO DA DISTRIBUIÇÃO DE RENDA PAULATINA (COMO NA SOLTURA DE ESCRAVOS): “Os crescimentos desmedidos de uma classe relativamente às outras também são causas de revolução. Assim, os membros que compõem um corpo devem crescer proporcionalmente, para que subsista a mesma comensura. O animal morreria se o pé, por exemplo, crescesse até 4 côvados, não tendo o resto do corpo mais do que 2 palmos”

MEGA-SENA DA VIRADA: “As modificações ocorrem com as democracias, mas são mais raras. Por exemplo, quando a quantidade de pobres aumenta e vários deles se tornam ricos, ou então quando os bens dos ricos aumentam de valor, passa-se à oligarquia, e até à oligarquia concentrada que chamamos politirania.

Às vezes, sem que haja sedição, o governo muda em razão de seu aviltamento, como em Heréia, onde começaram a se envergonhar das eleições e os magistrados foram depois sorteados, por causa da torpeza dos eleitos.”

Algumas vezes a mudança se realiza através de progressos imperceptíveis; no final, fica-se admirado vendo os costumes e as leis mudadas sem que se tenha atentado para as causas ligeiras e silenciosas que preparam as mudanças. Na Ambrácia, por exemplo, depois de ter escolhido magistrados de pequena fortuna, passou-se a admitir pouco a pouco alguns que não possuíam nada. Ora, há pouca ou nenhuma diferença entre nada e muito pouco.”

Todos os que admitiram estrangeiros para residir em sua cidade, foram quase sempre enganados por eles, como os de Trezena, que, em Síbaris, receberam os aqueus. Foram obrigados a ceder-lhes o lugar quando o número deles aumentou, o que causou a desgraça. Os sibaritas retiraram-se para Túrio e ali fizeram a mesma tentativa, mas, querendo dispor do território como senhores, foram vencidos e expulsos. Os bizantinos sofreram algo semelhante da parte de estrangeiros e tiveram subitamente que recorrer às armas para repeli-los. Os antisianos, que de modo semelhante haviam aceitado os banidos de Quios, também se viram obrigados a livrar-se deles pela força. Os zanclianos foram vencidos e expulsos pelos de Samos, que os tinham recebido. Também foram estrangeiros que perturbaram os apoloniatas do Ponto Euxino. Os siracusanos, após a expulsão de seus tiranos, tendo tornado cidadãos alguns soldados e mercenários estrangeiros, tiveram tantos aborrecimentos por causa disso que foi preciso romper com eles. Os de Anfípolis foram quase todos expulsos pelos de Cálcis, por tê-los recebido em sua cidade.”

Às vezes a sedição parece derivar da própria natureza do lugar que foi mal-escolhido para habitação. Em Clazômenas, os habitantes do Centro (ou bairro dos banhos) detestam os da ilha; em Cólofon, a parte do norte odeia a do sul; em Atenas, o pireu é mais democrático do que a cidade. Pois, assim como num exército, um riacho, mesmo bem pequeno, pode romper a falange, assim também, numa cidade, qualquer diferença de habitação basta para quebrar, o entendimento e o acordo entre os habitantes.”

Antigamente, em Siracusa, o Estado foi perturbado por dois jovens magistrados rivais em amor. Durante a ausência de um, o outro conquistou sua amada. O despeito, quando ele voltou, sugeriu-lhe atrair e seduzir a mulher de seu rival. Tendo cada um deles conseguido o apoio de outros magistrados, a discórdia espalhou-se por toda a cidade. Portanto, nunca é cedo demais para abafar as brigas dos altos funcionários e dos grandes. O mal está na origem. Em tudo, o que começou já está feito pela metade. O menor erro cometido no início repercute em tudo que se segue.”

O noivo, por lhe terem predito que a união lhe traria desgraça, hesitou em tomar sua noiva e a deixou sem nada concluir. Os pais da moça, considerando-se insultados, acusaram falsamente o jovem de ter roubado durante a celebração de um sacrifício o dinheiro do tesouro sagrado e o fizeram morrer como sacrílego.”

todos os que, quer na condição privada, quer na magistratura, quer em família, quer em tribo ou qualquer outra associação que possa haver, proporcionaram ao Estado algum acréscimo de potência, sempre ocasionaram certa perturbação, quer começada por invejosos, quer por terem eles próprios, envaidecidos com o sucesso, desdenhado permanecer nos limites da igualdade.”

se uma das duas facções se torna muito superior, a porção média não quer arriscar-se contra quem tem uma superioridade evidente.”

em Atenas os Quatrocentos lograram o povo com a falsa esperança de que o rei da Pérsia ajudaria com seu dinheiro os atenienses a fazerem guerra contra os espartanos, e assim se apossaram do governo.”

o temor diante do perigo comum tem o efeito de reconciliar os maiores inimigos.”

Em Rodes, distribuíram aos soldados todo o dinheiro proveniente dos impostos e impediram que os capitães das galeras recebessem o que lhes era devido, acusando-os de vários delitos. Para evitar, então, a punição, os acusados foram obrigados a conspirar contra a democracia e a derrubaram.”

Antigamente, quando o mesmo personagem era demagogo e general de exército, as democracias não deixavam de se transformar em Estados despóticos. Com toda certeza, os antigos tiranos originaram-se dos demagogos. Isso já não acontece com tanta freqüência quanto antigamente, pois então, não estando ainda exercitados comumente na arte de bem falar, as armas eram o único meio de se obter poder. Hoje que a eloqüência foi levada ao mais alto grau de perfeição e goza da maior estima, são os oradores que governam o povo. (…) Assim, as usurpações da suprema autoridade eram mais freqüentes no passado do que no presente, porque se davam a alguns cidadãos magistraturas de alta importância, como em Mileto a Pritania, e se submetiam à decisão deles os maiores interesses. Aliás, as cidades estavam longe de ser tão grandes, já que o povo preferia morar no campo, ocupando-se com seus trabalhos rústicos. Portanto, se esses magistrados eram guerreiros, apossavam-se do governo. Seu principal recurso era a confiança que obtinham do povo, pelo ódio que demonstravam contra os ricos. Foi assim que Pisístrato obteve a tirania de Atenas; querelando contra os habitantes da planície; Teagênio, a de Mégara, mandando matar o gado dos proprietários, quando o encontrou passando à margem do rio; e Dionísio, a de Siracusa, acusando de traição Dafne e os grandes, artifícios que eram tidos como ímpetos de patriotismo e davam popularidade.”

quando a oligarquia está de acordo consigo mesma, não é fácil destruí-la. Temos um exemplo disto no Estado de Farsala, onde poucos homens mantêm grande número deles na obediência, porque estão em harmonia e se conduzem bem entre si.”

Em tempo de guerra, os magistrados, desconfiando do povo, são obrigados a chamar tropas estrangeiras e não raro aquele a quem confiam o comando se torna seu tirano, como Timófanes em Corinto. Se tal comando é confiado a vários, estes se coalizam numa dinastia, ou então, temerosos de serem pegos no mesmo truque, fazem com que o povo participe do governo, para reconciliarem-se com ele. Em tempo de paz, os oligarcas, desconfiados uns dos outros, entregam a guarda do Estado a seus soldados, sob o comando de algum general neutro, o qual às vezes acaba por se tornar senhor dos dois partidos, como aconteceu em Larissa sob o comando dos Alevadas (Aleuadas) de Samos e em Ábido, no tempo das facções, das quais uma era a de Ifíade.” “Várias oligarquias, como as de Cnido e de Quios, também foram destruídas por serem despóticas demais, e isso por senadores irritados com a insolência dos outros.”

A tirania reúne os vícios da democracia aos da oligarquia. Ela tem em comum com a segunda o fato de propor-se a opulência como fim (sem isso ela não teria condições de manter a guarda e a magnificência), de desconfiar do povo, de desarmá-lo, de oprimi-lo, de expulsá-lo das cidades e dispersá-lo pelos campos ou colônias. Da democracia, ela toma a guerra aos nobres, sua destruição aberta ou clandestina, seu banimento, considerando-os como rivais ou como inimigos de seu governo. De fato, é de ordinário desta classe que procedem as conspirações, querendo alguns deles dominar eles próprios, e outros temendo ser escravos. Assim, vimos Periandro aconselhar Trasíbulo a cortar as espigas mais altas, isto é, desfazer-se dos cidadãos mais eminentes.

Os ofendidos conspiram, na maioria dos casos, para se vingarem, e não em seu próprio proveito. Assim foi a conjuração contra os filhos de Pisístrato; ela teve por causa a injúria feita à irmã de Harmódio e a ofensa que ele próprio sentira na ocasião. Harmódio armou-se para vingar a irmã, Aristogíton para vingar Harmódio. Periandro, tirano de Ambrácia, permitiu que conjurassem contra ele por ter perguntado num banquete a uma de suas amantes se estava grávida de um filho seu. Pausânias matou o rei Filipe porque este desdenhava vingá-lo do ultraje que Átalo lhe fizera. Derdas conspirou contra Amintas, que se vangloriava de ter colhido a flor de sua juventude. Evágoras de Chipre foi morto por Eunucus, cuja esposa fôra raptada pelo filho daquele príncipe.” “Xerxes, bêbado de vinho, encarregara Artábano de crucificar Dario. Artábano, crendo que o príncipe se esqueceria dessa ordem por ter sido dada no auge da embriaguez, não a executou. Quando Xerxes deu mostras de sua cólera por isso, Artábano o matou para evitar sua própria perda.”

O desprezo torna infiéis até mesmo os protegidos. A confiança com que são honrados persuade-os de que poderão de repente tentar um golpe seguro. O pouco caso que têm pelo monarca também torna audaciosos os que ganharam poder e acreditam poder tornar-se senhores do Estado. (…) foi o que fez Ciro contra Astiago, cujos costumes eram desprezíveis e a incapacidade evidente, já que vivia na moleza e seu exército estava irritado com a ociosidade.”

A magnanimidade somada ao poder transforma-se em ousadia.”

Os que conspiram para conseguir um nome são de uma espécie completamente diferente. Não atacam os tiranos pelas honras e pelas riquezas, mas sim para conquistar a glória e fazer com que falem deles. O desejo de um grande nome e da memória da posteridade faz com que arrisquem grandes façanhas, mas pessoas deste tipo são raras. É preciso estar, como Díon, O Bravo, disposto ao sacrifício da própria vida e a perder tudo, se falhar o golpe. A natureza não engendra facilmente almas tão heróicas.”

Os Estados opostos, por exemplo uma democracia vizinha a uma tirania, são tão inimigos quanto os oleiros o são dos oleiros, no dizer de Hesíodo, pois a pior espécie de democracia é ela própria uma tirania. O mesmo ocorre com a monarquia e a aristocracia. Por isso os espartanos e os siracusanos, enquanto foram bem-governados, destruíram várias tiranias.

Algumas vezes a tirania morre por si mesma, quando ocorre uma divisão entre os pretendentes, como outrora a de Gelão e em nossos dias a de Dionísio.”

quase todos os usurpadores conservaram a soberania durante a vida, apesar do ódio público, mas quase todos os seus sucessores perderam-na incontinente. A vida dissoluta que levam faz com que caiam no desprezo e dá mil ocasiões de os exterminar.”

CÓLERA COM “CO” DE “CORAÇÃO PURO”: “A cólera está ligada ao ódio e produz quase os mesmos efeitos, mas é ainda mais enérgica. Os que são animados por ela insurgem-se com mais violência, não podendo, na perturbação da paixão, ouvir os conselhos da razão.” “Ao passo que a cólera é acompanhada de uma dor que não permite raciocinar, a animosidade isenta desse ardor calcula e age silenciosamente.”

vemos hoje muito poucos Estados governados por reis. [!] Se existem ainda alguns, são de preferência monarquias absolutas e tiranias. A realeza é uma dignidade estabelecida voluntariamente, cujo poder se estende às maiores coisas. Ora, como a maioria dos homens se assemelha e raramente se encontra alguém tão perfeito para corresponder à grandeza e à dignidade do cargo, as pessoas não se submetem de bom grado a semelhantes instituições. Se alguém quiser reinar por astúcia ou por violência, não haverá monarquia, mas sim tirania.”

Historicamente, a monarquia tirânica é, juntamente com a oligarquia, a forma de Estado menos duradoura. A mais longa tirania foi a de Ortógoras e de seus descendentes, em Sícion. Durou cem anos. (…) 73 anos e 6 meses reinou a dinastia: Cipselo reinou 30 anos, Periandro, 40, e Psamético, filho de Górdias, 3.” “A terceira [tirania mais longa] foi a dos Pisistrátidas, em Atenas. Mesmo assim, a tirania de Pisístrato se viu duas vezes interrompida por sua expulsão, de modo que, de 33 anos, só reinou de fato por 17 e seus filhos mais 18, o que perfaz no total 35.”

Só se sente o mal quando está consumado. Como ele não acontece de uma vez, seus progressos escapam ao entendimento e se parecem àquele sofisma que do fato de cada parte ser pequena inferir-se que o todo seja também pequeno.”

Assim, aqueles que velam pela sua segurança devem inventar de tempos em tempos alguns perigos e tornar mais próximos os perigos que estão distantes, a fim de que os cidadãos informados estejam sempre alertas, como sentinelas noturnas.”

MUITA HORA NESTA CALMA: “Não valorizar demais quem quer que seja e não distribuir nenhuma honra excessiva, mesmo que breve. Se se acumulam muitos cargos em uma só pessoa, tais cargos devem ser-lhe retirados aos poucos, e não todos de uma vez. Será sobretudo conveniente estabelecer através das leis que ninguém possa adquirir poder, crédito ou riqueza demais, ou que sejam afastados os que tiverem demais.”

O vulgo zanga-se menos por estar excluído do governo do que por ver os magistrados viverem às custas do tesouro público. É até muito cômodo dispor de todo o tempo para cuidar dos negócios particulares. Mas se estiver persuadido de que os titulares dos cargos públicos pilham o Estado, terá a dupla vexação de estar afastado tanto dos cargos públicos quanto dos lucros pecuniários.”

ENTÃO ME PROCESSA! “Aqueles que se preocupam com a segurança do Estado devem, em vez de se apoderar em proveito do povo dos bens dos condenados, consagrá-los à religião. A pena será a mesma e deterá igualmente os crimes, mas o povo terá menos pressa para condenar, pois não tirará nenhum proveito da sentença. Além disso, os legisladores devem fazer com que as acusações públicas se tornem muito raras, estabelecendo penas pesadas contra os que agirem levianamente, pois não são as pessoas do povo, mas sim as dos meios refinados que assim se costumam atacar e humilhar.”

Se houver rendas suficientes, não se deve, como fazem os demagogos, distribuir à arraia-miúda o dinheiro que sobrar. Mal o recebem e já voltam a cair na indigência, pois essas pessoas são tonéis furados a que essa liberalidade não traz nenhum proveito.”

O melhor emprego das rendas públicas, quando a sua percepção está terminada, é auxiliar amplamente os pobres, para colocá-los em condições ou de comprar um pedaço de terra ou os instrumentos para a lavoura, ou de abrir um pequeno comércio. Se não for possível ajudá-los a todos, deve-se pelo menos verter os subsídios na caixa de alguma tribo ou cúria ou de alguma porção do Estado, ora uma, ora outra. Far-se-á com que os ricos contribuam para as despesas das Assembléias necessárias, de preferência a esbanjamentos frívolos e meramente aparatosos. Por meio disso, o governo cartaginês tornou-se popular, empregando sempre alguém do povo nas administrações provinciais, para que aí fizessem fortuna.”

para eleger um general de exército, deve-se considerar mais a experiência militar do que a virtude, pois há menos generais experientes do que homens virtuosos. O caso é totalmente contrário no que diz respeito à administração das finanças, pois aí é preciso mais probidade do que tem o comum dos homens.”

A FEIÚRA DO ESTADO: “Um nariz que se afasta da linha reta, que tende para o aquilino ou é arrebitado, ainda pode agradar; mas se se alongar ou se encurtar demais, primeiro sairá da justa medida e, por fim, cairá tanto no excesso ou na falta que não será mais um nariz. O mesmo ocorre com as outras partes do corpo, e também com os regimes. A oligarquia e a democracia podem subsistir, embora se afastando de seu desígnio e de sua perfeição. Mas se dermos demasiada extensão ao seu princípio, primeiro tornaremos pior o governo, e, no final, chegaremos a tal ponto que ele nem será mais digno deste nome.”

SEJA UM MILIONÁRIO APUD CF88 (SÓ PODIA DAR MERDA): “O mais importante meio para a conservação dos Estados, mas também o mais negligenciado, é fazer combinarem a educação dos cidadãos e a Constituição. Com efeito, de que servem as melhores leis e os mais estimáveis decretos se não se acostumar os súditos a viverem segundo a forma de seu governo? Assim, se a Constituição for popular, é preciso que sejam educados popularmente; se for oligárquica, oligarquicamente; pois se houver desregramento em um só súdito, este desregramento estará então em todo o Estado.”

MANUAL DO TIRANO PRUDENTE (QUASE UMA ANTINOMIA): “Deve-se manter espiões por toda parte, saber tudo o que se faz e tudo o que se diz, destacar agentes e espiões, como fazia Hierão em Siracusa, colocando-os em toda parte onde havia uma reunião ou um conciliábulo. Não se é tão ousado quando se tem algo a temer de tais vigilantes e, quando se é, fica-se sabendo.” “Empobrecer os cidadãos, a fim de que não possam formar uma guarda armada e, absorvidos nos trabalhos de que precisam para viver, não tenham tempo de conspirar. Como exemplo dessas manobras, temos as pirâmides do Egito, os templos dedicados aos deuses pelos Cipsélidas, o de Zeus Olímpico pelos filhos de Pisístrato, as fortificações de Samos por Polícrates, que são todas coisas que tendem aos mesmos fins de ocupação e empobrecimento. Aumentar o peso dos impostos, como em Siracusa no tempo de Dionísio onde, em 5 anos, foram obrigados a dar em contribuições tudo o que valia a terra.” “Fazer uso dos recursos da extrema democracia, como a atribuição do governo doméstico às mulheres, para que elas revelem os segredos de seus maridos, e o afrouxamento da escravidão, para que também os escravos denunciem seus senhores.

SÍNDROME DE ESTOU-CALMO: “Os escravos e as mulheres nada tramam contra os tiranos e até, se tiverem a felicidade de ser bem-tratados por eles, afeiçoam-se necessariamente à tirania, ou à democracia, pois o povo também pode ser um tirano.”

Um prego expulsa outro” “os tiranos declaram guerra a todo homem de bem que tiver coragem. Esta categoria de pessoas é perniciosa a seu regime, por não quererem deixar-se tratar servilmente, serem francos com todos, sobretudo entre eles, e não denunciarem ninguém.” Vale para instituições na “democracia”. Beware where you step, fella.

Sendo senhor do Estado, não deve temer a falta de dinheiro. Mais vale para ele estar sem dinheiro para suas campanhas do que deixar em casa tesouros empilhados; com isto, ficarão menos tentados de abusar desse dinheiro os que, em sua ausência, governarem o Estado, pessoas muito mais temíveis para ele do que os meros cidadãos. Estes marcham com ele para o combate, enquanto que aqueles ficam na retaguarda.”

Que o tirano tenha também uma abordagem fácil e um ar grave, de modo que os que tiverem acesso a ele pareçam menos temê-lo do que respeitá-lo, o que homens desprezíveis não conseguem facilmente. Se não se preocupar com nenhuma outra virtude, que pelo menos seja cortês, tenha a política de passar por virtuoso, e se abstenha não apenas ele mesmo de toda injúria contra seus súditos, de qualquer sexo que for, mas também não tolere que nenhum de seus domésticos ofenda ninguém, e cuide de que suas mulheres se comportem da mesma maneira para com as outras mulheres. Pois há injúrias feitas por mulheres de tiranos que arruínam a tirania.”

Sobre a questão dos prazeres sensuais, que faça o contrário de seus êmulos de hoje, que não se contentam em se entregar a eles da manhã à noite, durante vários dias, mas ainda querem que todos saibam a vida que levam, para serem admirados como seres felizes. Que use moderadamente deste tipo de prazeres; que pelo menos tenha a aparência de não correr atrás deles, e até de procurar furtar-se a eles. Não se surpreende com facilidade e não se despreza um homem sóbrio, mas sim um homem bêbado, nem um homem vigilante, mas sim um homem sonolento.” “Que demonstre principalmente muito zelo pela religião. Teme-se menos injustiça da parte de um príncipe que se crê seja religioso e parece temer aos deuses, e se está menos tentado a conspirar contra ele quando se presume que tem a assistência e o favor do Céu. Mas é preciso que sua piedade não seja afetada, nem supersticiosa.” “Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais e aos juízes as punições.” “A própria punição das faltas deve evitar o ultraje. Só se deve fazer uso dele com uma espécie de jeito paternal.”

* * *

CONSTITUIÇÕES REAIS E IDEAIS, DEVANEIOS DE UM DISCÍPULO!

Em sua República, Platão propõe que as mulheres, as crianças e os bens sejam comuns aos cidadãos. De fato, neste diálogo, Sócrates preconiza a comunidade total.”

A comunidade de mulheres oferece grandes dificuldades, e se fosse preciso estabelecê-la não seria pela razão apresentada por Sócrates. O próprio fim suposto por ele para a associação política torna impossível este estabelecimento, e assim ele nada diz de preciso sobre este assunto.” Desapega!

ARISTÓTELES NÃO COMPREENDEU SEU PRÓPRIO MESTRE: “É, portanto, claro que a unidade, como alguns a apresentam, não pertence à essência de um Estado, e o que chamam de seu maior bem é a sua ruína.”

no serviço doméstico, quanto mais empregados houver, menos o trabalho é bem-feito.”

Haveria alguma dúvida em preferir a mera qualidade de primo em nosso costume à de filho no de Sócrates?” Sim.

ANÁLISE MAIS PERFUNCTÓRIA DO MAIOR LIVRO DA IDADE ANTIGA AINDA NÃO NASCEU: “Outro absurdo da comunidade de crianças é só se ter proibido o comércio amoroso dos dois sexos, e não o amor e suas intimidades de pai para filho, de irmão para irmão, que são o cúmulo da indecência e da torpeza [com referência em que absoluto? Que declaração mais platônica!]. Ora, não é estranho proibir as relações entre os dois sexos, em razão dos perigos da volúpia excessiva, e ser indiferente sobre essas familiaridades entre pai e filho, irmão e irmão?”

O encanto da propriedade é inexprimível. Não é em vão que cada um ama a si mesmo; tal amor é inato; só é repreensível o excesso chamado amor-próprio, que consiste em se amar mais do que convém. Tampouco é proibido amar o dinheiro, nem outra coisa da mesma natureza: todos o fazem.”

LONGO E INÚTIL IMBRÓGLIO, NO QUAL ROUSSEAU JÁ APARECERIA DANDO VOADORA PARA DEFENDER PLATÃO: “também contribui o preconceito existente de que os vícios que grassam em certos regimes procedem da propriedade, como esses eternos processos que sempre renascem entre os cidadãos por ocasião dos contratos, a corrupção de testemunhas e a adulação a que as pessoas se rebaixam diante dos ricos. Mas não é da propriedade dos bens que derivam esses males, mas da improbidade dos homens.” Engraçado como contradiz os capítulos precedentes da própria Política!

SERÁ QUE SE FAZ DE IMBECIL? “basta submeter a uma tentativa a comunidade socrática e se terá a prova de que ela é impraticável.” Dêem o Übermensch ao Último Homem e ele apenas será morto, dizimado, castrado ou ignorado…

De resto, Sócrates não explica e não deixa entrever facilmente qual será a forma de governo entre seus comunistas.” Haha. Bom, qual seria a graça se a República tivesse 80 tomos e não precisássemos pensar em nada?! Para começo de conversa, nem saberíamos quem foi Aristóteles…

Platão ou, se quiserem, Sócrates, que ele faz falar, tampouco trata de uma maneira satisfatória das revoluções ou das transformações de Estado.” Hm, verdade?

É da ordem da natureza que nada seja eterno e tudo mude após certo período de tempo. A mudança ocorre quando o número elementar epiternário, combinado com o número quinário, dá dois acordes e é elevado ao cubo.”

Comete o erro torpe e juvenil de misturar seu sistema completamente arbitrário de formas de governo com um outro, que aliás não entendeu (pois se entendesse, não teria criado o seu): “E por que essa República passaria a ter a forma espartana, se a maior parte das outras se transforma no Estado contrário e não no que se lhes aproxima? Deve haver a mesma razão em toda mudança. Segundo ele, a forma espartana se transformará em oligarquia; a oligarquia, em democracia; a democracia, em tirania, embora também se transformem no sentido contrário, a saber, a democracia em oligarquia, mais até do que em monarquia. Além disso, não fala da tirania e não diz se sofre ou não mutação, nem por que causa, nem em que espécie de República. Deixa este ponto indeterminado, como algo em que a exatidão não seja fácil.¹ Segundo ele, a mudança deveria retornar à primeira e melhor espécie, de tal forma que haveria um circuito contínuo; mas a tirania algumas vezes dá lugar a outra tirania, como em Sícion a de Míron sucedeu à de Clístenes; ou a uma oligarquia, como em Cálcis, a de Antileo; ou uma democracia, como em Siracusa, a de Gelão; ou à aristocracia, como a de Carilau na Lacedemônia, e também em Cartago.²”

¹ Na verdade não precisou falar da tirania pela razão oposta: porque é muito fácil; todo homem sabe o que é e no que consiste a tirania.

² Parabéns, discípulo, fez o dever de casa: mas és filósofo ou historiador? É que estou com a memória ruim hoje…

As leis, que Platão escreveu depois, são aproximadamente do mesmo gênero que A República.” Mas com muito mais homofobia, não é mesmo? Afinal, por que, já tão velho, se dar ao trabalho de escrever tanto?

FIGHT RANÇO WITH RANÇO (A ARTE DAS CAROLINAS): “Todas as palavras que neste livro atribui a Sócrates são cheias de superfluidades pomposas e de novidades problemáticas, cuja apologia talvez fosse difícil fazer.”

O mesmo autor contenta-se com dizer que, assim como a cadeia difere da trama pela lã, deve haver algum atributo que distinga os que mandam e os que obedecem, mas não explicita quais são estas marcas distintivas.” Ele queria que você adivinhasse.

NÃO ERGAS PONTES QUE NÃO TENS O TALENTO DE ERGUER! “Sua forma de governo não é nem uma democracia, nem uma oligarquia, mas um regime médio que ele chama propriamente de ‘republicano’, composto inteiramente de militares. Se propôs esta forma por ser a mais geralmente consagrada em todas as sociedades civis, talvez tenha razão; se foi como a melhor depois da primeira d’A República, ele está enganado. Sem contestação, preferir-se-á o Estado de Esparta ou algum outro mais aristocrático.” Até hoje não se sabe muito bem a relação entre as Leis e a República, falo isso por experiência própria. Na dúvida quanto ao que falar, melhor calar a boca. E olha que eu meti o pau em metade dos livros das Leis nas minhas traduções!

Obrigado pela explicação, mas eu não pedi – e, ademais, achei que você disse a mesma coisa ali em cima, com suas próprias palavras (“o rico deve ser punido pela apatia política, o pobre incentivado”, é mais ou menos a sinopse de tudo), e sem nenhum indício de ironia (há poucos parágrafos, Ari. tinha criticado Sócrates-Platão por NÃO haver estipulado classes na República, mas agora o critica por segregar nitidamente sua polis, nas Leis!): “Na verdade, todos são convocados para as eleições, mas são obrigados a escolher primeiro entre a primeira classe de ricos, depois na segunda e depois na terceira; os da terceira e da quarta classes, porém, não são forçados a dar seu voto, e só é permitido aos da primeira e da segunda eleger entre os da quarta; é preciso apenas que cada classe forneça o mesmo número de eleitos. Portanto, a maioria e os principais sairão do grupo dos mais ricos, não se envolvendo o povo na eleição porque a lei não o força a isso.”

* * *

Faléias de Calcedônia põe os artesãos no grupo dos escravos públicos, sem lhes dar nenhum lugar entre os cidadãos. Quanto aos que se empregam nos trabalhos públicos, vá lá. Mas, mesmo assim, isso deve ser feito como se estabeleceu em Epidamno, ou como Diofante determinou antigamente em Atenas.”

Hipódamo de Mileto não deseja que os julgamentos se façam por meio de bolas; pretende que cada um traga uma tabuleta onde inscreva seu assentimento, se simplesmente condenar, ou então indique que condena sobre o principal e absolve quanto ao resto. Condena a forma empregada em nossos tribunais, pela qual, diz ele, os juízes não-raro são forçados a julgar contra a consciência e contra o juramento que prestaram.”

A medicina, por exemplo, a ginástica e todas as artes e talentos ganharam ao reformar suas velhas máximas. Ocupando, pois, a política um lugar entre as ciências, parece que também ela pode admitir o mesmo princípio. De fato, os antigos Estados mudaram muito de feição. O que há de mais ingênuo e de mais grosseiro do que suas leis e costumes primitivos, mesmo as dos gregos, que antigamente andavam cobertos de ferro? O que existe de mais pobre e de mais imbecil do que sua jurisprudência, como em Cumas, onde, para condenar à morte um homem acusado de homicídio, bastava que o acusador apresentasse várias testemunhas tomadas de sua própria família?”

ISSO É SÉRIO, ARI.? “É muito provável que os primeiros homens, tanto os que saíram do seio da terra quanto os que escaparam da calamidade geral da espécie humana [tebanos ou egípcios, em suma], eram tão rudes quanto o vulgo de hoje, como são representados os antigos gigantes; seria uma extravagância limitarmo-nos a seus decretos.” Haha

AGORA, PRESTA UM TÁCITO TRIBUTO À REPÚBLICA DE PLATÃO PELA SUA INTENSA PREOCUPAÇÃO DE “UNISSEXUALIZAR” A POLIS… E DEPOIS ENVOLVE-SE NUMA BARAFUNDA SEM SIM, DEPRECIANDO ESPARTA SEM FUNDAMENTO (E SENDO O AVESSO DO “PLATÃO FINAL” OUTRA VEZ, AO SER HOMÓFILO: “Como o homem e a mulher fazem parte de cada família, é de se esperar que o Estado esteja dividido em dois, metade homens, metade mulheres; donde se segue que todo Estado em que as mulheres não têm leis está na anarquia pela metade. É o que acontece em Esparta. Licurgo, que pretendia enrijecer seu povo com todos os trabalhos penosos, só pensou nos homens e não prestou nenhuma atenção nas mulheres. Elas se entregam a todos os excessos da intemperança e da dissolução; assim, em tal Estado é necessário que as riquezas sejam honradas, principalmente quando as mulheres dominarem, como acontece na maioria das nações guerreiras, com exceção dos celtas e dos povos em que o amor pelos rapazes está publicamente em uso. [PROGRAMA PEDERASTIA PARA TODOS?] Não é sem razão que a fábula associa Marte a Vênus, pois todos os povos guerreiros são dados tanto ao amor dos jovens quanto ao amor das mulheres. [E ESPARTA NÃO? NÃO ENTENDO ISSO.] Este mal manifestou-se ainda mais em Esparta, onde, desde a origem, as mulheres se envolveram em tudo. [COMO, SE LICURGO AS OLVIDOU?] Pois o que importa que as mulheres mandem ou que os que mandam sejam comandados pelas mulheres? É a mesma coisa.”

o legislador permaneceu longe do alvo a que se propunha; fez apenas um Estado pobre e particulares avarentos.”

Um homem do tempo de Aristóteles já não pode julgar a Esparta de Licurgo no seu momento presente, ainda mais levando-se em conta a assimilação da Grécia pela Macadônia!

Logo após falar mal dos éforos: “quer os éforos tenham sido instituídos por Licurgo desde sua primeira legislação, quer sejam de criação mais recente, não foram inúteis à prosperidade da nação.” [!!] Quem é capaz de entender Aristóteles, que sequer segue seu princípio da não-contradição quando se trata de Política?!

As virtudes guerreiras, a que se relaciona toda a Constituição de Licurgo, não são senão uma parte da virtude integral, e são boas apenas para dominar os outros homens. Assim, os espartanos conservaram-se bastante bem enquanto guerreavam, mas quando submeteram a seu domínio todos os seus vizinhos começaram a decair, não sabendo o que fazer de seu ócio, não tendo aprendido nada melhor do que os exercícios militares.”

A ilha de Creta parece ter sido disposta pela natureza para comandar a Grécia, cujos povos, em sua quase totalidade, habitam as costas do mar: por um lado, ela está situada a pouca distância do Peloponeso; por outro lado, ela toca na Ásia, confinando com Triópia e Rodes. Foi graças a esta posição que Minos se tornou senhor do mar, reduziu quase todas as outras ilhas à obediência ou as povoou com suas colônias. Pensava também em se apoderar da Sicília, quando morreu perto de Camico.”

Os que são chamados de éforos na Lacedemônia chamam-se cosmos em Creta, com a única diferença de que são somente 5 na Lacedemônia e 10 em Creta.” Só isso? Bom, na essência eram ministros que atuavam como contrapeso do rei, i.e., poder moderador institucionalizado (não-encarnado num ou dois monarcas).

Em Esparta, o povo que escolhe os éforos tem também a faculdade de escolhê-los dentre aqueles que bem quiser e, por conseguinte, de sua própria classe, assim como de todas as outras, o que faz com que tenha interesse em conservar o Estado. Em Creta, pelo contrário, os cosmos provêm não de todas as classes, mas sim de certas famílias. Dos que foram cosmos, tiram-se os senadores, dos quais se pode dizer tudo o que se disse dos de Esparta. A dispensa da prestação de contas e a perpetuidade são prerrogativas muito acima de seu mérito.” “Cassam-se os cosmos sem processo e, de ordinário, pela insurreição de outros cosmos ou de particulares amotinados. A única graça que lhes concedem é deixar-lhes, antes da expulsão, a faculdade de se demitir.”

O regime de Cartago, em geral, é sabiamente ordenado. A pedra de toque de uma boa Constituição é a perseverança voluntária e livre do povo na ordem estabelecida, sem que jamais tenha ocorrido nem alguma sedição notável de sua parte nem opressão da parte dos que a governam.”

A República de Cartago tem em comum com a de Esparta:¹ 1° o que nesta se chama Fidítias, ou refeições públicas entre pessoas da mesma classe; 2° seu Centunvirato, que corresponde ao colégio dos éforos, com a diferença de ser composto de 140 membros e de ser mais bem-recrutado, isto é, não-escolhido ao acaso e dentre o vulgo, mas sim dentre o que há de mais eminente em matéria de mérito²”

¹ Não disse no começo da obra que Esparta era uma monarquia? O próprio Montesquieu é dessa opinião!

² Mas Aristóteles cita como um mérito dos cargos de éforos espartanos serem abertos à arraia-miúda, quando não o são entre os cartagineses!

ARISTÓTELES NÃO SABE O QUE DIZ OU TODO O TEMPO SE CONTRADIZ! “A maior parte dos pontos que criticamos por se afastarem dos princípios de toda boa Constituição são comuns às três Repúblicas. No entanto, embora todas elas tenham um jeito de aristocracia ou de República, inclinam-se um pouco mais para a democracia, sob certos aspectos, e, sob outros, para a oligarquia.”

De resto, embora a República de Cartago se incline bastante para a oligarquia, ela escapa com bastante agilidade dos seus inconvenientes, através das colônias de pobres que envia para que façam fortuna nas cidades de sua dependência. Este recurso prolonga a duração do Estado, mas é confiar demais no acaso; devem-se abolir pela própria Constituição todas as causas de sedição. Se acontecer alguma calamidade e a massa se revoltar contra a autoridade não haverá leis que possam deter sua audácia, nem remediar a desordem.”

Dentre aqueles que escreveram sobre o governo civil, alguns sempre levaram uma vida privada sem participar em nada dos negócios públicos; passamo-los quase todos em revista, ao menos os que deixaram escritos dignos de atenção; os outros foram legisladores quer em sua própria pátria, quer em outro lugar. Dentre estes, alguns foram simplesmente autores de leis, outros, autores de Constituição, como Licurgo e Sólon. Falamos bastante do primeiro quando tratamos da República espartana. Alguns contam o segundo entre os bons legisladores, por ter destruído a oligarquia imoderada demais dos atenienses, libertado o povo da servidão e estabelecido uma democracia bem-temperada pela mistura das outras formas, aproximadamente tal como era antigamente. O Conselho, ou Senado do Areópago, é de fato oligárquico; a eleição dos magistrados, aristocrática e a administração da justiça, muito popular. O Areópago existia antes dele, assim como o modo de eleição dos magistrados. Ele parece só ter tido o mérito de sua conservação. No entanto, foi com certeza ele quem reergueu o povo, ao determinar que os juízes fossem tirados de todas as classes. Assim, censuram-no por ter ele próprio arruinado um ou outro, ou mesmo os dois outros poderes de sua Constituição, entregando ao sorteio, quanto ao terceiro, a nomeação dos juízes, e pondo todos sob a autoridade deles. Mal esta inovação foi recebida e já fez nascer a raça dos demagogos, que, adulando o povo, como se adulam os tiranos, reduziram o Estado à democracia atual.” Bem-lhe-quer mal-lhe-quer

Sem dúvida, era necessário entregar ao povo, como fez Sólon, a nomeação e a censura dos magistrados, sem o que ele seria escravo e, conseqüentemente, inimigo do Estado. Mas Sólon quis ao mesmo tempo que os magistrados fossem escolhidos dentre os nobres e os ricos: aqueles que possuíssem 500 medinos [?] de renda, os que podiam alimentar um par de bois, ou zeugitas, e enfim os cavaleiros, que formavam a terceira classe. A quarta classe, composta de trabalhadores manuais, não tinha acesso a nenhuma magistratura.” ?!

Alguns tentam fazer crer que Onomacrito de Lócris tenha sido o primeiro a saber fazer leis e que, tendo passado de sua pátria a Creta, ali pôs à prova este talento, embora não tivesse vindo senão para trabalhar como adivinho; dizem também que teve por companheiro Tales, cujos discípulos foram Licurgo e Zaleuco, que, por sua vez, teve Carondas como aluno. Há, porém, muitos anacronismos nessa história.

Filolau, natural de Corinto, da raça dos Baquíadas, também deu leis aos tebanos. Apaixonou-se por Díocles, vencedor nos jogos olímpicos, que, detestando o amor incestuoso de Alcíone, sua mãe, [?] deixou sua cidade e o seguiu até Tebas, onde ambos morreram. Ainda hoje se mostram seus túmulos, um em frente ao outro, mas colocados de tal forma que apenas de um deles se pode ver o istmo de Corinto. Dizem que isto foi assim arranjado por eles próprios, sobretudo por Díocles, em memória de sua desgraça, para subtrair seu sepulcro dos olhares de Corinto, pela interposição do mausoléu de Filolau.” Intercala análises de engenharia constitucional e da biografia dos grandes legisladores com casos comezinhos e romances, tsc…

Platão, a comunidade das mulheres, das crianças e dos bens, além dos banquetes públicos femininos; também é conhecida a sua lei contra a embriaguez, a lei em favor da sobriedade dos presidentes de banquetes e a que diz respeito aos exercícios militares e ao uso das duas mãos, pois ele não podia tolerar que se servissem de uma e a outra permanecesse inútil. Existem também algumas leis de Drácon, que ele acrescentou, por assim dizer, à Constituição existente; distinguem-se pela extrema severidade das penas.”

Pítaco é também mais autor de leis do que fundador de República. Cita-se uma lei sua contra os bêbados, que diz que as brigas entre eles, em estado de embriaguez, serão punidas mais severamente do que se não tivessem bebido.”

* * * PRIMEIRA LEITURA DA REPÚBLICA (CONTEÚDO IMPORTADO – COM EDIÇÕES – DO ANTIGO BLOG DO AUTOR, PRÉ-Seclusão Anagógica) * * *

[PREFÁCIO DA EDIÇÃO – COMENTADOR] Foi, como é fato conhecido, o preceptor de Alexandre, O Grande, mas não por muito tempo: “Romperá com seu real discípulo depois do assassínio de Calístenes” No entanto eis a comprovação de sua imaturidade prática, até maior que a de Platão, que tanto criticou: “Jamais se envolveu com política prática.”

Meu limite: é que o pai que temos determina o raio de nossa genialidade. O meu, infelizmente, é bem curto. Zeus não respeitou seu pai, por que esperaria receber o respeito dos filhos sem o emprego da violência? O fosso etário entre pais e filhos. Profilática: que o filho seja gerado no inverno! Adoro meus “rasgos de cólera”, “Dia de fúria”. Estranhamente encarnado numa fazenda abelhuda…

Muitas de suas obras se perderam. Algumas são atribuídas a si, mas provavelmente provêm de discípulos.

Estudou 158 Constituições de Estados – na época a Grécia estava em dissolução, e a República Romana em ascensão. Havia “zilhões” de pequenos Estados (cidades-Estados) – a geografia política do mundo era bem diferente do que é hoje. Contribuiu com as bases do Direito Moderno, mas foi muito ultrapassado por Montesquieu & al.

ECONOMIA (*)  CREMATÍSTICA

(Modesta e nobre X Supérflua, grotesca e vil)

(*) despida em absoluto do “D” marxista (ciclos D-M)

P. 24: o médico vendido. O professor vendido.

a bondade intrínseca do Estado”

a mulher passaria por atrevida se não fosse mais reservada do que um homem em suas palavras.”

São as primeiras impressões as que mais nos afetam”

a beleza e a estatura não pertencem à maioria.” Ora, veja só, às vezes me acho um não-maldito!

Democracia” não é o governo da maioria, etimologicamente, mas dos pobres.

Uma hora fala em Deus, noutra fala em Zeus.

Pelo fim do serviço militar obrigatório! Vote 25050.” Minha plataforma.

Os homens facilmente se corrompem pela prosperidade, pois nem todos são capazes de suportá-la”

161: bem atual – sobre os parlamentares e seus vencimentos: A idéia aristotélica de se não auferir SALÁRIO ao político profissional. Assim, será uma função por VOCAÇÃO, e não COBIÇA. Só os mais ricos, que já são ricos, estariam aptos, mas eles teriam menos chances de legislar em causa própria; e os pobres não se sentiriam ultrajados como hoje se vê com os sucessivos “auto-aumentos” que se concedem os deputados.

Já cobrava TRANSPARÊNCIA das autoridades em relação às receitas e gastos, mesmo sem um site na internet para publicá-lo.

No caso de algum rico ultrajar [aos mendigos], será punido mais severamente do que se tivesse insultado um igual.”

Da liberdade e da igualdade na Democracia: “sofisma miserável.”

170: “Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais a aos juízes as punições.” Maquiavélico, literalmente. Não seria o caso, aliás, de Maquiavel ser um aristotélico?

178: Aristóteles X Platão-Marx no tocante à propriedade privada.

Recomenda-se também, como medida anti-viciosa, um teto para rendimentos por indivíduo ou família, sem falar na dignidade do pão (banquetes públicos) aos indigentes.

Não se deve exigir que um mesmo homem seja flautista e sapateiro.”

Platão: famoso precursor do feminismo [P.S.: quem diria…]

CLITOFONTE

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Clitofonte defende que, ainda que ninguém se equipare a Sócrates na exortação das virtudes da vida filosófica, na prática não há pessoa mais inútil que um filósofo ou moralista e, portanto, que o próprio Sócrates, no convívio social, em que pese o próprio Sócrates estar convencido do contrário. O diálogo termina em monólogo, i.e., depois de uma breve pergunta de Sócrates há um discurso de Clitofonte de mediana duração e então um fim abrupto. A tradição antiga nunca pôs em questão a autenticidade desta que é a obra mais curta do cânon de Platão, sendo que sua autoria é corroborada por nomes como Olimpiodoro, Apuleio, Hipólito e Alcino. A primeira suspeita sobre o Clitofonte foi levantada na Renascença, quando Marsílio Ficino escreveu: hic liber non est Platonis na cabeceira de sua tradução do diálogo, muito contrariado, sem sombra de dúvida, pelo inusitado da forma e a falta do remate socrático. Mas muitos dos escoliastas mais modernos continuam a considerar o Clitofonte como obra íntegra, incluindo as pesquisas de Mark Kremer, David Roochnik, Clifford Orwin, Jan Blits e S.R. Slings.” – A.P.V. – O diálogo Mênon pode, além disso, ser considerado a “continuação” deste, senão pelos personagens envolvidos, pelo menos quanto ao conteúdo. Será ele o último diálogo traduzido em nosso ciclo de Platão, que finalmente se fecha com êxito na próxima postagem (não sem um pequeno bônus, uma ligeira tradução de prefácio de Virgina Woolf a comentar Platão e sua contribuição ao Ocidente)!

Qual arte se destina a educar a alma na virtude? Responde-me, Sócrates.”

Mas não basta com que me digas o nome desta arte. A medicina é uma arte, mas tem um duplo propósito: primeiro, formar novos médicos mediante os cuidados dos que já o são; segundo, curar. Um destes dois não é a arte em si mesma, mas o produto da arte ensinada ou aprendida, i.e., a saúde. De igual forma, em arquitetura é preciso distinguir o produto da arte mesma. De um lado estão os princípios que se comunicam, de outro a obra, i.e., as casas. Agora com respeito à justiça, sabemos que há a formação de homens justos, exatamente como cada arte forma o artista, e, em contrapartida, a justiça mesma. Mas de que falo eu? Onde se encontra esta justiça, ou a obra a ela equivalente? Qual é o produto executado pelo homem justo? Como é que se chama, anda, responde!

Um de teus discípulos disse-me: eu creio que a justiça é o vantajoso; outro respondeu-me que era o conveniente; um terceiro, o útil; mais um, finalmente, que era o proveitoso.”

Digo que, com referência a essa proclamada justiça, não se conhece nem seu próprio objeto nem a obra que ela realiza. (…) Tu me disseste que a justiça consiste em fazer mal a seus inimigos e bem a seus amigos. (…) ou bem tua capacidade não excede esta mesma afirmação assaz simplória (o que não seria inusitado: por exemplo, sem ser piloto, pode-se exaltar as habilidades de um e elogiar a técnica da pilotagem, provando como ela é imprescindível ao gênero humano; tu mesmo poderias, sem sequer conhecer a justiça, exaltá-la ao ponto máximo, embora reconhecendo, sem contradição alguma, que não conheces o quê é a justiça – mas ainda que o afirmes com humildade, em ti eu não creio, Sócrates!–), ou bem não desejas comunicar-nos o conhecimento que possuis. Eis a razão que me compele, depois de expor-te este dilema, a ir diretamente a Trasímaco, ou qualquer outro competente, na esperança de aprender o que é a justiça, a menos que tu mesmo o faças, e já.”

Supõe que Clitofonte te concede que é ridículo ocupar-se de tudo o mais e desprezar a alma, objeto verdadeiro de todas as preocupações (…) e repito-o: para aquele a quem jamais fôra exortada antes a virtude, tu és o mais precioso dos homens, ó Sócrates!… Mas, para quem já foi alertado de que a virtude é a principal questão na vida, tu serias, o mais das vezes, mero empecilho, pois não vais além disso, e como que impedes o indivíduo interessado de chegar ao verdadeiro objeto da virtude, i.e., a felicidade!”

A reação que vem do fundo do poço à moeda jogada…

Estou centrando minha existência na desgraça alheia e na punição invisível de quem ousa ter uma vida completamente distinta da minha e ainda tem a CARA-DE-PAU de se atribuir qualquer VALOR, quem dirá SUPERIORIDADE INCONTESTE! “Viu só… eu não te disse?” Mas na verdade eu não te disse… Porque eu detesto dar conselhos, isso não é do meu feitio… Mas agora você sabe que não deveria ter desperdiçado o SEU tempo dando-me conselhos, eu, um MESTRE DA MORAL. Porque você cometeu um erro infantil ao demonstrar quão hipócrita é… Ops, deslize! Pois é, eu não te disse, mas ESTAVA NA CARA! Nisso eu gozo. No devir dos imbecis, sendo eu o exato contrário. Eu gosto de ver os mais velhos se fodendo, e sentir meus cabelos brancos cada vez mais próximos de aparecerem… Eu gosto de ver o überfit adquirindo uma doença letal e limitante, o defensor da família vendo sua família e sua felicidade-do-lar se desintegrando em pó… O curser testemunhando o meu sucesso e independência. A profecia se tornando verdade. A ironia socrática de cada dia nos dai hoje…

Sim, o Senhor Metafísica há de se comover com cada tropicão de escada, com cada má-nova de cada ex-conhecido seu… Esse é o alento necessário para se respirar no Céu-pedestal dos grandes homens. Compreenda-me como uma árvore que chupa sua vida, ou melhor, se nutre, do seu dejeto involuntário, o gás carbônico da sua falação diuturna sem-sentido… Uma árvore cuja seiva é mais e mais pura e retribui com obras cristalinas o falatório sujo e vil dos homenzinhos passeando no jardim… Lá embaixo.

FILEBO, Ou: Dos prazeres, da inteligência e do Bem

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Os comentaristas ressaltam que o estilo literário e a composição dramática do diálogo foram deixados em segundo plano na comparação com a obra platônica precoce, dando lugar a definições, classificações e uma linguagem técnica mais áspera, própria de uma exposição didática” – A.P.V.

SÓCRATES – Filebo diz que o Bem para todos os seres animados consiste na alegria, no prazer, no recreio e em todas as demais coisas deste gênero. Eu sustento, por outro lado, que não é isto, senão que consiste o Bem na sabedoria, na inteligência, na memória e em tudo o que for da mesma natureza. Todas essas coisas, a justa opinião e os raciocínios verdadeiros são, para todos os que os possuem, melhores e mais apreciáveis que o prazer; e são, ao mesmo tempo, mais vantajosos também, seja para seres presentes ou para seres futuros, capazes de praticá-los.”

SÓCRATES – Que é que resultaria se descobríssemos algum outro meio preferível a estes dois extremos? Não é certo que se descobrirmos nesse terceiro meio mais afinidade com o prazer estaremos, tu e eu, em situação de viver o prazer e a sabedoria simultaneamente, muito embora a vida dirigida aos prazeres exerça, dentro desse terceiro meio, mais influência sobre nós do que aquela voltada exclusivamente à sabedoria?

PROTARCO – Mas é claro que sim, Sócrates.

SÓCRATES – Porém, não seria mentira, também, que esse terceiro meio se aproximaria muito mais da sabedoria que a vida dedicada exclusivamente ao culto dos prazeres… Logo, que tal se tratássemos de descobrir, nesta espécie de união, qual fator, se os prazeres ou a sabedoria, prevalece de maneira mais decisiva? Estais de acordo, meus dois bons jovens, que é possível promover este concurso, a fim de saber quem leva a melhor?

PROTARCO – A mim me parece uma proposta justa e exeqüível.

SÓCRATES – E quanto a ti, Filebo?

FILEBO – Creio e crerei sempre que a vitória se encontra sem dúvida do lado do prazer. Não obstante, já que é assim, numa contenda entre mim e tu Protarco poderá servir de juiz.

PROTARCO – Se tu nos delega esse poder (pois não o farei sem o auxílio de Sócrates), fica atento e só escuta. Não terás o direito de negar nem conceder nada a Sócrates. Eu me encarrego de tudo.

FILEBO – Assim está ótimo, fico nesta disputa, em verdade, como mero expectador; e tomo por testemunha a própria deusa do prazer!”

SÓCRATES – Comecemos, pois, por esta mesma deusa a que se refere Filebo, ninguém menos que Afrodite, que na verdade é apenas um disfarce para seu verdadeiro nome, Prazer.

PROTARCO – Muito bem.

SÓCRATES – Sempre que pronuncio o nome dos deuses, Protarco, sinto um temor, mas não um temor humano, um temor sobre-humano que a tudo ultrapassa, de pronunciar seus nomes em vão: por isso evoco aqui o nome secreto de Afrodite, pois sei que deve ser de seu pleno agrado esse gesto de franqueza. Quanto ao prazer em si mesmo, creio que ele tenha mais de uma forma, sendo necessário apurar suas naturezas. Mas ao falarmos simplesmente em prazer e prazeres, como se o prazer fosse apenas uma palavra e nada mais, como fazem os homens, tomaríamos nosso problema pela coisa mais simples do mundo; mas incorreríamos assim em profundo erro. É preciso aqui pensar em gêneros diferentes de coisas. Sê bastante flexível a fim de que nosso exercício não seja abortado pela impossibilidade de estabelecermos um entendimento em comum. Podemos afirmar que o homem corrompido encontra prazer na libertinagem, e o homem moderado na temperança; que o insensato, cheio de crenças, caprichos, loucuras e esperanças, sente prazer, mas que o sábio também é capaz de senti-lo. (…)

PROTARCO – Concedo, Sócrates, que estes dois tipos de prazeres decorram de origens opostas, mas nem por isto se opõem um ao outro. De resto, como poderia o prazer ser diferente de si mesmo?

SÓCRATES – Então a cor, meu querido, enquanto cor, não difere em nada da cor! Sem embargo, todos sabemos que o preto, além de ser diferente do branco, é-lhe de fato o exato contrário.”

Tu dizes que todas as coisas agradáveis são boas, e ninguém em seu juízo perfeito deixará de saber distinguir o que é agradável do que não o é; mas sendo a maior parte dos prazeres má, e a minoria boa, como estabelecemos, tu dás, não obstante, a todos os tipos de prazeres, não importando sua origem, o nome de <bons>, por mais que reconheças agora que são dissemelhantes entre si, quando se te interroga com mais apuro. Que qualidade comum vês nos prazeres bons e nos prazeres maus, qualidade comum esta suficiente para reconhecer todos os prazeres sob a alcunha de Bem?”

Um prazer não difere de outro prazer: são todos semelhantes. E joguem-se fora os exemplos que antes citei! Voltemos a afirmar as coisas que afirmam aqueles homens que são incapazes de discutir qualquer assunto.”

Não devemos dissimular, caro Protarco, a diferença que há entre meu bem e o teu bem!”

SÓCRATES – (…) Não há nem pode haver um meio mais precioso para as indagações que este que adoto já há longo tempo; mas confesso que ele vem falhando bastante ultimamente, deixando-me sozinho e perplexo.

PROTARCO – Que meio é este?

SÓCRATES – Não é difícil descrevê-lo ou saber sobre ele; o difícil é segui-lo. Todas as descobertas obtidas até agora, que exigem algum conhecimento técnico, derivam deste mesmo método que vou-te apresentar.

(…)

Enquanto permaneço capaz de avaliar, é-me um presente divino. Creio que nos caiu do céu devido ao ato de algum Prometeu, pois emana do fogo sagrado. Os antigos, muito mais valorosos que nós, nos transmitiram a tradição de que todas as coisas às quais se atribui uma existência eterna se compõem de unidades, isto é, de um ou de muitos, e reúnem em sua natureza o finito e o infinito. Já que as coisas são assim, é preciso, na indagação de cada objeto, aspirar sempre à descoberta de uma idéia singular. Efetivamente só pode existir uma idéia para cada existência verdadeira; e uma vez descoberta esta idéia, é preciso examinar se não podemos ainda depurá-la mais, por estarmos diante de um coletivo de coisas existentes, i.e., se não se trata, investigando melhor, de mais de uma idéia, com certas afinidades entre si. Podem ser duas, três, quatro… não importa o número. Das idéias que descobrirmos, vale a pena apurar, de novo e de novo, se estas idéias não abrigam outras idéias em si, ou seja, se elas não passam apenas de imagens de idéias, tendo apenas aparências de unidade. É preciso chegar até o final da depuração, a fim de se descobrir, por fim, se a Idéia mais primitiva seria una, múltipla ou uma infinidade. Veja que não se deve aplicar a uma pluralidade a idéia do infinito, pelo menos não até havermos fixado o número preciso que descreve a quantidade de idéias, maior que 1 e menor que o infinito, necessariamente! Só então é que se pode deixar a cada qual que se encaixe na categoria de <infinito>.¹ Os deuses, como eu disse, nos presentearam com o dom de avaliar, de aprender e nos instruirmos entre nós; mas os sábios de hoje em dia fazem essas coisas como que a esmo, sem método consciente; digamos que eles erram mais do que seria conveniente para uma investigação digna. Ou se demoram demais sobre algo supérfluo ou se demoram de menos em algo fundamental, sem darem por isso. Depois da unidade, estes falsos sábios já passam de repente, sem transição clara, ao infinito, e os números intermediários fogem-lhes de vista. Contudo, estes números intermediários são a chave de nossa discussão, pois encerram a ordem e as leis da dialética, e diferenciam-na das artes que não passam de jogo e disputa não-verdadeira, seja oratória ou retórica ou outro nome qualquer que lhas dêem.”

¹ Podemos estar diante, basicamente, dos parágrafos que iniciam, verdadeiramente, a tradição do Idealismo alemão. Eis o que Azcárate tem a dizer sobre esta passagem: “A unidade é o gênero; o infinito é a coleção dos indivíduos; o número intermediário é o das espécies”. Não sei se mais ajuda ou atrapalha àquele não-familiarizado com o platonismo e a teoria das Idéias! Mas vejamos como poderei “mediar este debate” e traduzir com minhas próprias palavras o teor da longa passagem do discurso de Sócrates: essas considerações, embora não se deva ignorar a repercussão filosófica (metafísica) invisível destas palavras, para um começo de compreensão, não distam muito da estruturação do conhecimento do método científico do Ocidente moderno. Para que algo seja empírico e teorizável, é preciso que se organize num quadro de referências lógicas, enfim, de categorias. Assim o Homem pós-platônico estuda as coisas. Pouco importa, por exemplo, remetendo-nos à Biologia, que haja 7 bilhões de seres humanos na Terra e que não conhecemos todos. Estudamos o Homem pela unidade (gênero Homo sapiens). Não devemos ignorar que o número, por mais quantificável que seja, está sempre sujeito a alterações imediatas, seja pelas mortes ou pelos nascimentos ininterruptos, seja porque no momento somos incapazes de dizer se fora de nosso alcance (planeta Terra, atualmente) não haveria de haver outros homens. Nesse sentido, pode-se chamar a quantidade de homens de infinita, mas isso tampouco prejudica nossa faculdade investigativa. Como usei o homem como exemplo, não posso dividi-lo em sub-espécies, i.e., raças, mas isso (números intermediários) utilizamos sem problemas para os mamíferos, p.ex. Lembrar que poderíamos considerar os homens, mas de uma perspectiva outra que não a biológica, que acabei de eleger: as espécies poderiam ser cada nacionalidade. Continua a haver uma Idéia dentro da outra (homens nascidos em uma nação), mas esta Idéia de nação é concisa o suficiente para se opor à mais abrangente de Humanidade. Cientistas podem debater entre si sobre vários de seus descobrimentos, inúmeros detalhes suscetíveis de controvérsia dentro de seu campo do conhecimento, mas sempre se estabelecem verdades reconhecidas como universais que se tornam o legado das próximas gerações.

SÓCRATES – A voz, que sai da boca, é uma e ao mesmo tempo infinita em número para todos e para cada um.

PROTARCO – Estou conforme.

SÓCRATES – Não somos sábios por havê-lo afirmado; nem porque reconheçamos as naturezas infinita e una da voz. Mas saber quantos são os elementos distintos de cada uma e quais são estes não seria o objeto da Gramática?¹

PROTARCO – De pleno acordo.

SÓCRATES – O mesmo para a Música.

PROTARCO – Hein?

SÓCRATES – A voz considerada em relação a esta arte é una.

PROTARCO – Ó, sem dúvida.

SÓCRATES – Podemos considerá-la de duas maneiras: uma voz grave e uma voz aguda; e um terceiro tom uniforme. Não é assim?

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – Se não sabes mais que isto, porém, jamais serás hábil em música; e se o ignoras, tanto pior, pois nem mesmo atendes ao pré-requisito mais fundamental para entender esta arte.

PROTARCO – Isso é certo!

SÓCRATES – Mas, querido amigo, só quando tiveres aprendido a conhecer o número dos intervalos da voz – tanto para o som agudo quanto para o grave –, a qualidade e os limites destes intervalos, e os sistemas que deles resultam, é que, tal como os antigos fizeram, irás descobrir e ser capaz de transmitir aos vivos as idéias sobre harmonia; através dos ensinamentos dos antigos compreendemos tanto isso como as propriedades análogas que emanam do movimento dos corpos, que, medidos por números, devem se chamar ritmo e medida. Quando perceberes que deves portar-te desta maneira em todo saber (em tudo que é uno e múltiplo), aí então poderás enfim chamar-te a ti mesmo sábio.”

¹ Atual Lingüística.

FILEBO – Eu penso da mesma maneira. Mas que significa tudo isto, e aonde quer nos levar Sócrates?”

Descobrir que a voz é infinita foi a obra de um deus ou de algum homem divino, como se refere no Egito de um certo Tot que foi o primeiro que se apercebeu de que este infinito continha unidades chamadas vogais, distinguindo, então, que era não uma, mas muitas; depois, descobriu outras letras, cuja natureza era distinta das vogais, mas que mesmo assim participavam dos sons, vindo a reconhecer, conforme estudava e refletia, o número destas vozes não-vocálicas, que chamou de consoantes. Distinguiu até uma terceira ordem ou espécie de letras, que são o grupo que hoje chamamos de mudas.¹ Depois, ainda, aperfeiçoou seus conhecimentos e separou uma a uma as letras mudas ou privadas de som; e em seguida fez o mesmo com as vogais e as intermediárias [consoantes], até que, havendo descoberto o número das existentes, deu a todas e a cada uma o nome de elemento. Tot, notando que nenhum homem poderia aprender nenhum desses sons ou letras isoladamente, i.e., que reconhecer que uma implicava ao mesmo tempo em reconhecer todas as outras, imaginou o enlace de uma nova unidade, e ao representar-se isto, deu-lhe o nome Gramática, que então nasceu.”

¹ O lingüista sabe que aqui estamos falando de sílabas ou fonemas, não mais de letras em si, embora esta distinção não importasse no tempo de Sócrates (Gramática antiga). Se refere Sócrates, nesse discurso, a semi-vogais ou semi-consoantes, que há em todos os sistemas lingüísticos.

PROTARCO – (…) Sócrates, depois de mil rodeios, metestes-nos numa questão que não é nada fácil resolver. (…) Está-me parecendo que Sócrates nos pergunta se o prazer tem espécies ou não, quantas e quais são; e espera de nós a mesma resposta também com relação à sabedoria.

SÓCRATES – Mataste a charada, filho de Cálias!”

PROTARCO – (…) Havendo-se a discussão empenhado tanto dum lado como do outro, chegamos a ameaçar-te, em tom desafiador e confiante, de não deixar-te arredar o pé e voltar a tua casa antes de que sanasses esta questão! Tu consentiste finalmente, e estás-te dedicando a nós há vários minutos. Agora dizemos como as crianças que não se pode abandonar a meias aquilo que já está bem-desenvolvido, mais perto de terminar do que de haver começado. Portanto, cessa de enrolar-nos, Sócrates, da forma como estás fazendo, e volta a cumprir o combinado!

SÓCRATES – Mas que é que estou a fazer?

PROTARCO – Pões-nos obstáculos atrás de obstáculos e nos suscitas questões e questiúnculas, às quais não podemos dar uma resposta satisfatória sem muita meditação. Porque não imaginamos que o objeto desta conversação seja o reduzir-nos simplesmente a não saber o que dizer! (…) Já que a situação é esta, fala tu! Delibera tu mesmo e fornece-nos a divisão completa dos prazeres e das sabedorias; a menos que possas deixar isto sem exame e ainda assim possas e queiras tomar outro rumo e explicar-nos as coisas de outro modo até chegarmos a uma solução.

SÓCRATES – Depois do que acabo de ouvir, nada de mal posso temer de vossa parte! Esta frase: <a menos que… …queiras> é o que me tranqüiliza, em verdade. E, de resto, me parece que um deus acaba de visitar-me e iluminar-me a memória com certas luzes!”

Começaste prodigiosamente, Sócrates. Agora termina idem!”

SÓCRATES – Examinemos e avaliemos, pois, a vida do prazer e a vida da sabedoria, considerando cada uma à parte.

PROTARCO – Como é?!

SÓCRATES – Façamos de forma que a sabedoria não invada nunca a vida do prazer, e nem o prazer invada jamais a vida da sabedoria. Porque se um dos dois for o Bem, é preciso que não haja absolutamente nada que se mescle, e se um ou outro nos parece carente dalguma coisa, não seria já o verdadeiro Bem que buscamos.”

SÓCRATES – Consentirias tu, Protarco, em passar o resto de teus dias no gozo dos maiores prazeres?

PROTARCO – Ora, se não!

SÓCRATES – Se nada a ti faltasse, crerias então que tens ainda necessidade dalguma coisa?

PROTARCO – Evidente que não.

SÓCRATES – Examina bem se não terias necessidade de pensar, nem de conceber, nem de raciocinar quando se mostrasse necessário, nem de nada do tipo. Será que nem mesmo precisarias ver?

PROTARCO – Pra quê? Se fruísse para sempre do prazer, já tudo teria!

SÓCRATES – Não é necessário que, vivendo desta maneira, passarias os dias em meio aos maiores prazeres?

PROTARCO – Indubitavelmente.

SÓCRATES – Mas como faltar-te-ia a inteligência, a memória, a ciência, a opinião, estarias privado de toda reflexão, e é uma conseqüência que ignorarias então se sentias prazer ou não.

PROTARCO – Ora, é verdade.

SÓCRATES – Assim como assim, desprovido de memória, decorre daí obrigatoriamente que não poder-te-ias lembrar se já houveras sentido prazer ou não outrora, e que não saberias, portanto, aquilo que sentes no presente imediato. E, ao não possuir qualquer opinião verdadeira, é certo que não crerias em absoluto sentir gozo no instante em que de fato está-lo-ias sentindo! Por estar destituído da razão, serias incapaz, outrossim, de concluir que te regozijarias no futuro. Ou seja: viverias tal qual uma esponja, e não como um homem! Se não como uma esponja, pelo menos como uma espécie de animal marinho que vive encerrado em concha, fechado ao mundo, vá lá. Concordas até este ponto, ou tens algo a dizer sobre em que estado te encontrarias?

PROTARCO – Sócrates, não haveria como formar uma outra idéia melhor.

SÓCRATES – E bem: tal vida é apetecível?

PROTARCO – Sócrates, esta pergunta não faz o menor sentido.”

SÓCRATES – Será que qualquer um de nós três seria capaz de viver possuindo sabedoria, inteligência, ciência, memória, em que pese não fosse apto para sentir o mínimo prazer, nem dor, nem para experimentar qualquer sentimento correlato?

PROTARCO – Tal vida em nada me invejaria, Sócrates. Nem creio mesmo que fosse possível uma única vida assim entre todos os mortais.

SÓCRATES – E se se juntassem estas duas vidas, Protarco? E se não formassem mais que uma só, amalgamando-se prazer e sabedoria na mesma unha e carne?

(…)

PROTARCO – Não haveria ninguém que deixasse de preferir este gênero de vida aos dois extremos que elencaste, Sócrates. Insisto que não seja coisa de preferência de uns ou outros: é um juízo universal, sem exceções.

SÓCRATES – Já podemos, portanto, extrair as conclusões do que acaba de ser dito?

PROTARCO – Sim, meu caro Sócrates. Que dos três gêneros de vida apresentados, dois são insuficientes em si mesmos, e mesmo que o fossem são inapetecíveis para qualquer homem ou ser.”

SÓCRATES – Já demonstramos suficientemente que a deusa de Filebo não deve ser vista como o Bem em si.

FILEBO – Mas tua inteligência, Sócrates, tampouco poderia ser este Bem, porquanto está sujeita às mesmas objeções…

SÓCRATES – A minha sim, Filebo, talvez tenhas razão… Mas quanto à verdadeira e divina Inteligência julgo eu que seja outra coisa completamente diferente. Na vida mista não se contesta a vitória da inteligência, mas é necessário ainda avaliar que opinião adotaremos com relação ao segundo posto hierárquico. Talvez devamos dizer, cada qual: <a inteligência>, eu; <o prazer>, tu; no caso de se nos perguntar qual é a principal causa da felicidade presente na condição mista. Procedendo assim, ainda que esta causa predileta não seja o Bem em si mesmo, pelo menos vemos cada qual nosso fator favorito como causa primeira. E acerca disso estou mais excitado do que nunca para a pugna contra meu rival Filebo! Sou capaz de jurar que qualquer que seja a coisa que faz dessa vida algo apetecível, a inteligência tem, de qualquer modo, mais afinidade e semelhança com tal coisa que o prazer. Vou ainda mais longe, ousado que estou: o prazer não tem sequer o direito de aspirar ao posto de <vice> nesta eleição, e com bastante probabilidade não ocupará nem sequer o pódio ou o bronze! Mas para que eu o demonstre necessito de vossa complacência e paciência, ainda que temporárias. Ou seja, confiai em minha inteligência, por Zeus!”

Ó, Protarco! Creio que ainda temos muita estrada pela frente nesta discussão! Neste momento sinto como nossa empreitada é árdua. Porque se aspiramos ao segundo posto, e minha opinião é de que a inteligência o ocupará, é preferível, a essa altura, dadas as circunstâncias, volvermo-nos a outros métodos. Abandonemos por ora a linha de raciocínio precedente.”

SÓCRATES – Dividamos em duas ou mais partes, p.ex., 3, todos os seres deste universo.

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Repitamos algo do que já tínhamos estabelecido.

PROTARCO – Que coisa?

SÓCRATES – Disséramos, não faz muito, que deus foi quem nos fez conhecer os seres, uns como infinitos, outros como finitos.”

SÓCRATES – (…) Mas vejo que em breve serei visto como ridículo se continuar empregando estas divisões.

PROTARCO – Ora, Sócrates, não entendo-te tão bem.

SÓCRATES – Parece-me que tenho necessidade de um quarto gênero!

PROTARCO – Qual seria esse?

SÓCRATES – Apura com o pensamento a causa da mescla das duas primeiras espécies: põe-na ao lado das três; eis a quarta.

PROTARCO – Não seria possível, procedendo assim, também um quinto gênero, com o que poderias separar os seres mais a gosto?

SÓCRATES – Ó, sim! Mas neste momento da argumentação não acho conveniente. Em todo caso, se no decorrer de nossa exposição se fizer necessário um quinto, por que não?!

PROTARCO – De acordo.

SÓCRATES – Bem, destas quatro espécies ponhamos 3 à parte; procuremos, em seguida, examinar as duas primeiras, que têm muitas ramificações e divisões; depois compreendamos cada uma sob uma só idéia; e tratemos, finalmente, de descobrir como numa e noutra se dão o Um e o Muito.

PROTARCO – Se te explicas com mais clareza, talvez eu te possa seguir, Sócrates, mas isto no momento é impossível!

SÓCRATES – As duas espécies a que me refiro são a infinita e a finita. Esforçar-me-ei por provar que a infinita é, de certa maneira, múltipla. Quanto à finita, peço que aguarde um juízo, por ora.

PROTARCO – Creio que a espécie finita não fugirá, Sócrates. Temos tempo.”

SÓCRATES – O mais e o menos, dizíamos, encontram-se sempre no mais quente e no mais frio.

PROTARCO – Com certeza.

SÓCRATES – Por conseguinte, a razão sempre nos faz entender que estas duas coisas não têm fim; e, ao não terem fim, são, por isso, infinitas.

PROTARCO – Agora definiste a coisa com exuberância!

SÓCRATES – Creio que agora fui mais didático, não, Protarco?! Por falar em exuberância e exuberante, eis aí um termo que possui seu oposto em pobre ou escasso, não di-lo-ias? E não dirias que este binômio exuberante-escasso funciona sobre as mesmas bases que o mais e o menos? Em qualquer ponto em que se encontrem, não consentem jamais que a coisa tenha uma quantidade determinada, senão que, passando sempre do mais exuberante ao mais escasso, e reciprocamente, fazem com que nasça o mais e o menos, obrigando o quantum a desaparecer. Com efeito, como já dissemos, caso essas classificações de extremo a extremo acerca de uma coisa não fizessem desaparecer o <quanto?>, deixando-o ocupar o lugar do mais e do menos, do exuberante e do pobre, sendo um intermediário polimórfico, estas coisas mesmas correriam o risco de desaparecer, pois já não faria sentido falar em exuberância, em escassez, em quente, em frio ou em algo que fosse mais e em algo que fosse menos. Ficaria tudo embaralhado, afinal um número nada é, ou pelo menos não pode ser tudo em simultâneo! Porque se se admite o quantum tem-se que a coisa não é mais quente ou mais fria, porque o mais quente cresce indefinidamente, não havendo fenômeno que o desminta; coisa igual acontece com o mais frio. Essas escalas ou retas são infinitas e inserem as coisas em transições sem começo nem final. Mas um ponto fixo será sempre um ponto fixo, não concordas? Desde que cesse o movimento, aí tens alguma propriedade bem-definida no lugar de um quantum. Convimos, portanto, que o mais quente e o mais frio são infinitos.”

Parece que faremos melhor se abrangermos na categoria do finito o que não admite essas qualidades mas sim suas contrárias, ou seja, em primeiro lugar o igual e a igualdade; em seguida o dobro; repara que sempre que tivermos um número, poderemos equivalê-lo à metade de outro número, por exemplo.”

SÓCRATES – Como é que representaremos a terceira espécie que resulta das duas anteriores?

PROTARCO – Aguardo tua lição, Sócrates, pois estou no escuro quanto a isso.

SÓCRATES – Não, não serei eu, Protarco, será um deus, se algum se digna a ouvir minhas súplicas!

PROTARCO – Suplica, então; e medita no problema.

SÓCRATES – Medito, medito… E me parece, caro Protarco… que alguma divindade nos foi favorável em nossos rogos!”

Entendo a espécie do igual, do dobro, como aquilo que faz cessar a inimizade entre contrários, produzindo entre eles a proporção e o acordo, numericamente representáveis.”

SÓCRATES – Tu opinas que limitar o prazer é destruí-lo, e eu sustento, pelo contrário, que limitar o prazer é conservá-lo!

PROTARCO – Nisso não mentes, Sócrates.

SÓCRATES – Expliquei as 3 primeiras espécies. Até agora, compreendeste minhas palavras.

PROTARCO – Sim, creio que compreendi, a maior parte. Distingues, na natureza das coisas, uma espécie que é o infinito; uma segunda espécie, que é o finito; porém, Sócrates, com respeito a essa terceira, não concebo muito bem como a defines em tua cabeça.”

SÓCRATES – (…) Compreendo numa terceira espécie tudo aquilo que é produzido pela mescla das duas primeiras, e que a medida que acompanha o finito produz as condições para a geração da essência da coisa.(*)

PROTARCO – Positivo.

SÓCRATES – Mas para além destes 3 gêneros, é preciso ver qual é aquele que eu disse ser o 4o. Façamos juntos esta apuração!”

(*) “Pela geração da essência, Platão entende neste caso a transição rumo a existência física do objeto.” – P.A. – Modo análogo de dizer: o mundo observável está contido entre as fronteiras inexpugnáveis e apenas inferíveis do finito e do infinito.

O que produz não precede sempre, por sua natureza; e o que é produzido não vem sempre depois, sendo considerado efeito?

(…)

Disso advém que são duas coisas e não uma só; causa-e-efeito (o que causa e o que obedece à causa em seu trânsito rumo à existência).

(…)

Porém, as coisas produzidas e as coisas que produzem geram, por assim dizer, 3 espécies de ser.

(…)

Digamos, então, que a causa produtora de todos esses seres constitui uma 4ª espécie, e que está suficientemente demonstrado que ela difere das outras 3.”

Portanto, vai esta suma: a primeira espécie é o infinito; a segunda, o finito; a terceira, a essência,¹ que é produzida pela mescla das duas primeiras; a quarta é a causa mesma dessa mescla e produção.²”

¹ O “fenômeno” ou “aparência” na linguagem técnica de hoje. A existência em si, poder-se-ia da mesma forma dizer, já que a <essência> do texto é um conceito bastante ardiloso, quase antagônico ao que Platão quer de fato expressar.

² O protótipo ideal ou Deus.

SÓCRATES – E tua pura vida de prazer, Filebo, em qual espécie está situada?

(…)

O prazer e a dor têm limites, ou são das coisas suscetíveis do mais e do menos?

FILEBO – São da segunda espécie, são infinitas, Sócrates. Porque o prazer não seria o soberano bem se por sua própria natureza não fosse infinito em número e em magnitude.

SÓCRATES – E portanto a dor não seria o soberano mal. Por isso é preciso contemplar as coisas de um outro ângulo, saindo da espécie do infinito, a fim de descobrirmos quê é que comunica ao prazer uma parte do bem. Conviríamos acaso que esta coisa emanasse da própria espécie do infinito? Ora, que o prazer nela esteja, se fazeis tanta questão! Mas ainda persistiria o seguinte problema: em que classe estão a sabedoria, a ciência, a inteligência, meus queridos Protarco e Filebo? Não sejamos ímpios! Parece-me que corremos grandes riscos ao ensaiar uma resposta para esta última pergunta.

FILEBO – Ó Sócrates! Será que não superestimas tua deusa?”

Diremos, Protarco, que um poder, desprovido de razão, temerário e que obra ao acaso, governa todas as coisas que formam o que chamamos universo? Ou, ao contrário, há, como disseram os antigos, uma inteligência, uma sabedoria admirável, que preside o governo do mundo?”

Com relação à natureza dos corpos de todos os animais, vemos que o fogo, a água, o ar e a terra, como dizem os velhos marinheiros, entram em sua composição.”

SÓCRATES – Não temos mais que uma pequena e desprezível parte de cada um, que não é pura de nenhuma maneira, de modo que a força que esta parte desemboca em nós não responde satisfatoriamente a sua natureza original. Tomemos um elemento em particular, com seus atributos derivados, e apliquemo-lo a todos os demais. Por exemplo, há fogo em nós, e o há, por igual, no universo.

PROTARCO – Sem dúvida assim o é.

SÓCRATES – O fogo que nós temos, não seria diminuto em quantidade, ao grau da debilidade e do desprezível, ao passo que o fogo do universo não é admirável em quantidade, beleza e força?

PROTARCO – Incontestavelmente.”

SÓCRATES – (…) Não é à reunião de todos os elementos que acabo de elencar que demos o nome de corpos?

PROTARCO – Exato.

SÓCRATES – Vê, pois, que o mesmo sucede com aquilo que chamamos de universo, porque, compondo-se este dos mesmos elementos, é o universo, por analogia, também um corpo.

PROTARCO – Disseste muito bem.”

SÓCRATES – Mas como? Não diremos que nosso corpo tem uma alma?

PROTARCO – É claro que diremos!

SÓCRATES – De onde a tiraste, querido Protarco, se o próprio corpo do universo não é animado, sendo que ele tem tudo que nossos corpos têm, e em ainda maior abundância?

(…)

E tudo isso, meu caro Protarco, porque não reparáramos até aqui que desses quatro gêneros, o finito, o infinito, o misto e a causa, este quarto e último, existindo em tudo, é que nos concede uma alma, que sustenta os corpos, que, quando enfermo, adoece a saúde, e que se combina de mil maneiras a fim de criar milhares de milhares de objetos, recebendo o nome de sabedoria absoluta e universal! Este quarto gênero está sempre presente sob uma infinda variedade de formas; o gênero mais belo e excelente se encontra na extensa região dos céus, onde sem dúvida tudo o que há são os mesmos elementos que nos constituem, conquanto em muito maior proporção, dispondo de beleza incomparável e de uma pureza sem igual.”

SÓCRATES – (…) neste universo há muito de infinito e uma quantidade suficiente de finito, mas todos são governados por uma causa, que nada tem de desprezível ou avara, pois que ajusta e ordena os anos, as estações, os meses, e merece com razão o nome de sabedoria ou inteligência.

PROTARCO – Ó Sócrates, tens toda a razão do mundo!

SÓCRATES – Mas não pode haver sabedoria e inteligência ali onde não há alma!

PROTARCO – Isso é verdade.

SÓCRATES – (…) Na natureza de Zeus, enquanto causa, há uma alma real, uma inteligência real, e na natureza dos outros deuses há muitas belas qualidades, pelo menos uma das quais cada deus gosta que se lhe atribua em especial.”

Algumas vezes o estilo festivo é uma forma de levar adiante as indagações mais sérias.”

SÓCRATES – A fome, p.ex., é uma dissolução e uma dor.

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – Comer, ao contrário, é uma repleção e um prazer.

PROTARCO – De acordo.

SÓCRATES – A sede é, de novo, dor e dissolução. Mas a qualidade do úmido, que preenche o que seca, origina um prazer. O mesmo pode ser dito da sensação de um calor excessivo e que seja anti-natural, causando segregação, dor, enfim; o restabelecimento do estado normal e o refrigério do corpo, neste caso, é encarado como um prazer.

(…)

O frio, que enregela o úmido presente no animal até o ponto de ser contra a natureza, quando excessivo, é considerado dolorido; os humores, cada um seguindo seu curso, quando em conformidade com a natureza, equivalem à sensação do prazer. (…) quando o animal se corrompe, a corrupção é uma dor; já o retrocesso de cada coisa a sua constituição primeva é um prazer.”

Eis um terceiro estado, diferente do prazer e da dor. Neste ponto é necessário um esforço intelectivo para me acompanhar. Sem compreender este estado, não resolveremos esta nossa questão. Mas continuo apenas com tua bênção.

(…)

Sabes que nada impede que viva desta maneira aquele que assumiu para si o estilo de vida do sábio?”

PROTARCO – Mas Sócrates, se estás correto isso seria indício de que os deuses não estariam sujeitos quer à alegria quer à tristeza.”

SÓCRATES – Parece-me que é preciso explicar antes o que é a memória, e antes da memória o que é a sensação, se é que pretendemos levar isso às últimas conseqüências.

PROTARCO – Não te entendo.

SÓCRATES – Dá por estabelecido, amigo, que entre as afeições que nosso corpo experimenta de ordinário algumas se estendem ao corpo sem tocar a alma, não impingindo-lhe nenhum sentimento; outras afeições são transmitidas do corpo à alma, e produzem uma espécie de comoção, que pode ser caracterizada como singular, pois que o corpo a interpreta duma maneira, a alma doutra, ainda que reste algo que seja comum às duas instâncias.”

SÓCRATES – (…) o esquecimento é a perda da memória, e no caso presente nem há que se falar propriamente de memória; seria um absurdo dizer que se pode perder aquilo que sequer existe, nem existiu jamais, não pões-te de acordo?

PROTARCO – E como não, Sócrates?

SÓCRATES – Modifica, pois, os termos um pouquinho.

PROTARCO – Ã?

SÓCRATES – Em vez de dizer que quando a alma não sente as comoções de que padece o corpo e estas comoções lhe escapam por completo há esquecimento, melhor seria dizer que há insensibilidade.

PROTARCO – Ah, agora está claro.

SÓCRATES – Mas nota que quando a afecção ou afeição é comum à alma e ao corpo, e ambos sentem-se comovidos, não te enganarás se chamares a este movimento de sensação.

PROTARCO – Continua, Sócrates, pois sigo de acordo.

(…)

SÓCRATES – Mas se se diz que a memória é a conservação da sensação, tem-se aqui uma boa definição, a meu ver.

PROTARCO – A meu ver também é uma boa definição.

SÓCRATES – Não dizíamos que a reminiscência é diferente da memória?

PROTARCO – Quem sabe…

SÓCRATES – Não consiste essa diferença no seguinte–

PROTARCO – No quê??

SÓCRATES – –que quando a alma, em condições de isolamento e julgamento equilibrado, afastada do corpo, entregue, por assim dizer, somente a si mesma, recorda o que experimentara noutro tempo, a isto chamamos reminiscência. Alguma objeção?¹

PROTARCO – De modo algum.

SÓCRATES – E quando, tendo perdido a recordação, seja de uma sensação, seja de um conhecimento, reprodu-lo em si própria, chamamos este processo reminiscência e memória, isto é, toda memória é uma reminiscência, mas jamais o contrário.”

¹ A memória diz respeito principalmente à vida fenomênica do sujeito, diria um filósofo contemporâneo. A reminiscência ajuda a explicar e fundamentar lembranças atávicas da alma, i.e., coisas vivenciadas pelo Ser antes de ser o eu atual, única explicação possível, no platonismo, para a capacidade que se tem, na vida fenomênica, de se chegar à Verdade e à Idéia das coisas. Há um quê de misticismo, por um lado, que associa Platão à Pitágoras, mas, no fundo, esta é a base da fenomenologia ocidental mais aplicada, lógica e abstrata, que não dá lugar ao inconsiderado (sobrenatural). Nossa essência, nosso Ser, diria um Heidegger, dependem desta discriminação aparentemente tão inocente entre uma simples memória e uma autêntica reminiscência.

PROTARCO – Examinemos então o desejo, como tu pedes, pois nisto nada perderemos, tendo em vista o fim que temos.

SÓCRATES – Sim, Protarco: ao encontrarmos o que tanto buscamos, desaparecerão imediatamente nossas dúvidas acerca de todos estes objetos, e parecerá que ganhamos tempo, ao invés de perdê-lo!

PROTARCO – Tua réplica é a mais justa de todas, mas de pouco adianta nos determos aqui com belas palavras, Sócrates.”

SÓCRATES – Que há de comum entre afecções tão diferentes, a ponto de denominá-las por uma mesma palavra?

PROTARCO – Por Zeus! Se eu soubesse, talvez não estivéssemos enredados em todo este imbróglio, Sócrates… É preciso, não obstante, achar algo que dizer.

SÓCRATES – Nada melhor que o ponto de partida ser o aqui e o agora.

PROTARCO – Explica isso melhor.

SÓCRATES – Não se diz, de ordinário, que tem-se sede?

PROTARCO – Ora, sim.

SÓCRATES – Ter sede, não é dar-se conta de um vazio em si?

PROTARCO – Decerto.

SÓCRATES – A sede não é um desejo?

PROTARCO – Sim, um desejo de bebida.

SÓCRATES – De bebida, ou de ver-se saciado pela bebida?

PROTARCO – Mais exatamente isto; ver-se saciado.

SÓCRATES – Então posso concluir que deseja-se o contrário daquilo que é? De maneira que quem sente-se vazio quer-se saciar.

PROTARCO – Permito-te esta conclusão.

SÓCRATES – E é possível que um homem que se encontra afetado por este vazio, pela primeira vez em sua vida chegue – seja através da sensação, seja através da memória – a preencher este vazio com algo imaginário e inaudito?

PROTARCO – Mas como poderia suceder tal loucura, Sócrates?

SÓCRATES – Todo homem que deseja, não deseja alguma coisa? É o que se diz.

PROTARCO – Conforme…

SÓCRATES – Não deseja o que ele experimenta, porque ele tem sede; a sede é um vazio e deseja suprimi-lo. Com efeito, seria contraditório dizer que ele experimenta algo e tem desejo desse algo ao mesmo tempo.

PROTARCO – Agora que o disseste…

SÓCRATES – É preciso que aquele que sente sede chegue a uma repleção exterior ou então a satisfaça com seu próprio ser.

PROTARCO – Entendo-te a meias, Sócrates.

SÓCRATES – Bem, posso-te adiantar que é impossível que com o corpo o corpo livre-se da sede, posto que é o corpo que se encontra de algum modo esvaziado.

PROTARCO – Claro…

SÓCRATES – Resta, portanto, que a alma chegue à repleção, e isto só se poderia dar mediante a memória!

PROTARCO – Isto é claro como a luz.

SÓCRATES – Por qual outro método este homem haveria de consegui-lo?

PROTARCO – Sou incapaz de conceber qualquer outro.

(…)

SÓCRATES – Esta reflexão nos faz ver, Protarco, que não há desejo do corpo.

PROTARCO – ???

SÓCRATES – O esforço de todo organismo animal se dirige sempre no sentido de atingir o estado contrário ao que experimenta no presente.

(…)

Este apetite, que arrasta dum extremo a outro através da experiência (sensações), prova que há nele uma memória congênita das coisas opostas às paixões do corpo, não vês?

(…)

Só pode ser a memória aquilo que leva o animal à realização de seu desejo e, portanto, todo desejo tem sua sede na alma, com o perdão do trocadilho.¹ A alma comanda o animal.²”

¹ Esta parte da tradução foi inovação minha: ambos conversavam sobre a <sêde> (vazio, dor ou sintomas da desidratação), e agora Sócrates fala da fonte, residência ou causa deste desejo de matar a sede (<séde>). A grafia das palavras, diferente da pronúncia, em nada difere.

² O animal deve ser entendido aqui como o homem, sob pena de comprometer-se todo o raciocínio caso estendamos esta compreensão às bestas ou criaturas irracionais, o <animal> no sentido da Biologia.

SÓCRATES – (…) Parece-me que chegamos ao ponto em que descobrimos uma espécie particular de vida.

PROTARCO – Que vida?!

SÓCRATES – Descobrimos esta vida que consiste no esvaziamento e na repleção; ou seja, tudo aquilo que se relaciona à conservação e à alteração do estado atual. É fácil notar que podemos sentir dor ou prazer independentemente do estado em que nos encontramos, não sendo o <vazio> ou o <cheio> o incômodo em si.

PROTARCO – Começo a entender onde queres chegar…

SÓCRATES – Que sucede quando nos achamos a meio caminho entre estas duas situações extremas de carência e de consumação?

PROTARCO – Agora explica isso de <meio caminho>.

SÓCRATES – Meio caminho ou ponto médio. Quando se sente dor em virtude da forma como o corpo está sendo afetado por algo, recordando-se sensações agradáveis, parece que a dor já cessa um pouco. Podes conceber que um homem sedento console-se de achar água, mesmo não achando, e consiga enganar a sede? Quem tem esperança de preencher o vazio, já não está num ponto médio entre a mais terrível sede e a realização plena do desejo de não ter mais sede?

(…)

E pensa que há algum ponto em que o homem é pura alegria? Ou pura dor?

PROTARCO – Refletindo bastante, penso que não. (…)

SÓCRATES – (…) Compreendes então que há um <duplo> invisível deste vazio ou falta de vazio, certo? Tanto quanto podemos conceber um homem esperançoso em preencher-se, há também o homem desesperado que não vê como poderia escapar de um agravamento desta sede.

PROTARCO – Consinto.”

SÓCRATES – Não seria estranho dizer que o homem e os demais animais experimentam simultaneamente dor e alegria.”

Devemos renunciar absolutamente a todos os rodeios e discussões que ainda nos separam de nosso objetivo final.”

Não é certo que aquele que forma uma opinião, seja fundada ou infundada, nem pela chance de estar errado deixa por isso de formar uma opinião?

(…)

Igualmente, não é evidente que aquele que goza uma alegria, haja ou não motivo para regozijar-se, nem por isso deixa de regozijar-se realmente?

(…)

Como seria possível que estejamos sujeitos a ter opiniões, tanto verdadeiras quanto falsas, e que nossos prazeres sejam sempre verdadeiros, como alegas, enquanto que os atos de formar uma opinião e regozijar-se existem de forma análoga e espelhada?”

SÓCRATES – Neste caso, nossa alma é parecida com um livro.

PROTARCO – Em que particularidade?

SÓCRATES – A memória e os sentidos, concorrendo ao mesmo objeto com as afecções que deles dependem, inscrevem, já que usei esta metáfora, em nossas almas, certos silogismos ou raciocínios, e quando aparece ali escrita esta verdade, nasce em todos nós uma opinião verdadeira derivada de raciocínios verdadeiros, bem como opiniões falsificadas, quando nosso secretário interior escreveu com base em opiniões fajutas, i.e., silogismos.”

SÓCRATES – As grandes e súbitas mudanças excitam-nos sentimentos de dor e prazer; já as mudanças mais matizadas ou insignificantes são incapazes de nos propiciar dor ou prazer.

(…)

Mas eis aí que o gênero de vida de que tratávamos faz sua reaparição!

(…)

Estou falando daquele gênero de vida normalmente isento da dor e do prazer.

(…)

admitamos 3 classes de vida: uma de prazer, outra de dor, e uma terceira que não é de um nem do outro. Que opinas sobre isso?

PROTARCO – Penso, como tu, que é preciso admitir estas 3 classes de vida.

SÓCRATES – Portanto, estar isento de dor nunca pode ser o mesmo que sentir prazer.

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Vejo, ó Protarco, que tu não conheces os inimigos de Filebo!

PROTARCO – E quem seriam?

SÓCRATES – Homens que passam por mui sábios sobre as coisas da natureza, capazes de sustentar, p.ex., que não há absolutamente prazer.(*)

PROTARCO – Hein?!

SÓCRATES – É isso mesmo que ouviste! Dizem que aquilo que os partidários de Filebo denominam prazer nada é senão a carência da dor.

PROTARCO – Mas e quanto a ti, Sócrates? Aconselhas-nos a seguir seu ditame?

SÓCRATES – De maneira alguma! Mas quero que os ouçamos como se fossem adivinhos ou oniscientes. Mortais assim, se existissem, ao dar-se-lhes crédito, seríamos obrigados a reconhecer que odiariam ou desprezariam o que chamamos nós de prazer. Aquilo que lhes agrada, tomam por ilusão, não algo existente. É dessa perspectiva que desejo que mireis o problema, a fim de ganharmos em conhecimento, ainda que eles não estejam certos.

(*) “Referência a Antístenes e os Cínicos.” – P.A.

Se desejássemos conhecer a natureza do que quer que seja, p.ex., da rigidez, não seria viável conhecê-la melhor fixando-nos no que há de mais rígido ao invés de entretermo-nos nas coisas mais ou menos rígidas? Anda Protarco, é necessário dar satisfação a estes homens cavilosos, como também a mim.”

Quem se encontra atormentado pela febre e outras enfermidades que-tais não sente mais sede, frio e outras afecções que o comum? Não se encontram com mais necessidades, e quando as satisfazem não experimentam certo grau de prazer? Deixaremos de confessar estas verdades?”

Não percebes na vida corrompida, senão um maior número, prazeres maiores e mais consideráveis, havendo sempre a necessidade de veemência e vivacidade por parte dessas pessoas, pelo menos muito mais do que na vida de uma pessoa moderada?”

SÓCRATES – Acaso ignoras que na comédia nossa alma se vê afetada por uma mescla de dor e prazer?

PROTARCO – Ainda não percebo muito bem esta característica.

SÓCRATES – Confesso, Protarco, que não estás de todo fora do tom: é um tipo de sentimento difícil de distinguir a princípio.

PROTARCO – Sinto que é.

(…)

SÓCRATES – Encaras como dor da alma isso que chamam de inveja?

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – E no entanto, vemos que o invejoso se regozija com o mal do próximo.

PROTARCO – E não é pouco!”

PROTARCO – Quais são os prazeres, Sócrates, que com mais razão podemos tomar por verdadeiros?

SÓCRATES – São aqueles que têm por objeto as cores belas e as belas figuras, a maior parte dos que nascem dos odores e sons, e todos aqueles, em suma, cuja privação não é sensível, nem dolorosa, e cujo gozo vai acompanhado de uma sensação agradável, sem mescla alguma de dor.¹”

¹ Platão acaba de resumir os fundamentos da ciência da Estética.

Por <beleza das figuras> não entendo o que muitos poderão imaginar: corpos formosos, pinturas de qualidade; entendo aquilo que é reto e circular, plano, sólido, obras desse gênero, trabalhadas em suas singularidades. Falo dessas figuras que poderíamos reproduzir com régua e esquadro. Será que penetras meu pensamento? A meu ver essas figuras não são como as outras, belas por comparação (relativamente belas), mas sempre e absolutamente belas, em si mesmas, naturalmente belas. (…) Outro tanto digo eu das belas cores que possuem uma beleza correlata à anterior, e de todos os prazeres que guardam relação com o que eu descrevi.

(…)

Quanto aos sons, digo que os fluidos e nítidos, componentes de uma melodia pura, são mais do que relativamente belos, são belos por si mesmos.

(…)

Já a espécie de prazer que resulta dos odores tem algo de menos divino, reconheço-o; mas os prazeres em que não se mescla nenhuma dor por necessidade devem ser classificados no gênero oposto ao dos prazeres de que falamos antes, por isso não posso me contradizer. Em suma, amigo Protarco, chegamos à definição de dois tipos diferentes de prazeres.

(…)

Não nos esqueçamos também dos prazeres que acompanham a ciência, se é que pressupomos que há qualquer coisa de gratuito no ato de conhecer, nada ligado ao desejo ou compulsão de aprender visando a outro fim, e que essa sede de ciência espontânea e como fim em si não causa qualquer tipo de dor.

(…)

Doeria na alma se, plena de conhecimento, chegasse a perder alguns por esquecimento?

(…)

Como bem concluíste, enquanto o conhecedor não refletir sobre isso, abandonando a naturalidade da questão, ele jamais sentirá qualquer dor ou pesar, enquanto não lembrar que esqueceu.

(…)

Resulta de tudo isso que os prazeres da ciência são puros e despidos de dor, e que não estão destinados a todo mundo.

(…)

Agora que já separamos com segurança os prazeres puros daqueles que não o são, acrescentemos que os prazeres violentos são desmedidos, e que os demais são comedidos. Afirmemos também que aqueles, maiores e mais fortes, fazendo-se sentir, não importa, uma ou múltiplas vezes, fato é que pertencem à classe do infinito, que atua com mais ou menos vivacidade sobre corpo e alma; estes (os comedidos) são da espécie finita.”

SÓCRATES – Como e em que consiste a pureza da brancura? Na magnitude e na quantidade? Ou no aparecer sem mescla, sem vestígio algum de outras cores?

PROTARCO – É evidente que na última característica, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem! Não diremos, pois, que esta brancura é a mais verdadeira e ao mesmo tempo a mais bela de todas as brancuras, e não a que é maior em quantidade nem em tamanho?”

Todo prazer que não carrega consigo uma dor, ainda que pequena e desprezível, é mais agradável, mais autêntico e mais belo que aqueles que a carregam, ainda que alguns prazeres que carreguem dores apareçam como mais vivos, numerosos e majestosos.”

SÓCRATES – Não ouvimos dizerem com contumácia que o prazer está sempre no caminho da gestação e nunca exatamente no estado da existência? Muitos oradores dos mais hábeis já tentaram demonstrá-lo. Nada mais poderíamos fazer senão agradecê-los!

PROTARCO – Por quê, Sócrates?

(…)

SÓCRATES – Não há duas classes de coisas, uma das que existem por si mesmas e outra das que aspiram sem cessar a ser outra coisa?” “Uma é naturalmente nobre, e a outra inferior àquela em dignidade.”

jovens formosos que tinham por amantes a homens cheios de valor.”

PROTARCO – Falaste algumas coisas que me soaram obscuras, Sócrates.

SÓCRATES – Não é bom que façamos mil recapitulações e digressões, assim não acabamos nunca. Mas, Protarco, eu não consigo evitar: a própria discussão parece ter gosto em me entorpecer! Ela quer nos fazer entender que, duas coisas consideradas, uma é sempre meio e a outra fim.

PROTARCO – Mesmo que repitas uma e duas vezes, isso não me entra na cabeça.”

SÓCRATES – Partamos de outro ponto então. Consideremos duas coisas novas…

PROTARCO – Quais?

SÓCRATES – Uma, o fenômeno; a outra, o ser.

PROTARCO – Pois bem, isto está conforme: o ser e o fenômeno.

SÓCRATES – Muito bem. Qual das duas diremos que foi feita para a outra? O fenômeno existe para a existência, ou a existência é que é causa do fenômeno?

PROTARCO – Me perguntas realmente isso: se a existência existe porque existe a aparência?

SÓCRATES – Exato!

PROTARCO – Que diabo de pergunta é essa?

SÓCRATES – Protarco, a construção dos navios se faz em nome dos navios, ou os navios em nome da construção? (…)

PROTARCO – Por que não te respondes a ti mesmo, Sócrates?

SÓCRATES – Não haveria inconveniente nisso, mas não quero falar só!

PROTARCO – Então com prazer…

SÓCRATES – Digo, então, que os ingredientes, os instrumentos, os materiais de todas as coisas servem a fenômenos; e que todo fenômeno serve a tipos de existências; e a totalidade dos fenômenos serve à totalidade da existência, que é o fim último.

PROTARCO – Perfeito.

SÓCRATES – E que, portanto, se o prazer é um fenômeno, é indispensável que seja o meio para alguma existência.

PROTARCO – Convenho totalmente.

SÓCRATES – Mas a coisa que é sempre fim para outra coisa que é sempre o meio, não deve ser esta coisa chamada de Bem? Logo, vemos que as coisas estão em classes diferentes.

PROTARCO – É óbvio.

SÓCRATES – Logo, se o prazer é um fenômeno, não diríamos que está subordinado ao Bem?

PROTARCO – Tens razão.

SÓCRATES – Desta forma, como disse no começo, precisamos ser gratos àqueles que nos fizeram conhecer que o prazer é um fenômeno e que não tem absolutamente existência em si mesmo¹”

¹ Platão volta a falar dos céticos.

SÓCRATES – Estes homens mesmos se rirão, sem dúvida, daqueles que fazem consistir sua felicidade no fenômeno.

PROTARCO – Mas de que maneira exatamente, e de quem falas?

SÓCRATES – Falo daqueles que, matando a fome e a sede e outras necessidades análogas, satisfazem-se no fenômeno. Está claro que se regozijam do prazer que lhes causa a repleção. Alegam que não gostariam de viver se não estivessem sujeitos à sede, à fome e outras tantas faltas, verificadas mediante sensações.

PROTARCO – Sim, de acordo.

SÓCRATES – Não conviremos todos em que a alteração dum fenômeno é o contrário de sua geração?

PROTARCO – Sim, conviremos.

SÓCRATES – O que elege a vida dos prazeres, elege a geração e a alteração, mas não um terceiro estado no qual não teriam lugar os prazeres, nem a dor, tão-somente a mais pura sabedoria.

PROTARCO – Agora entendo, Sócrates, que é o mais rematado absurdo eleger o prazer como o sumo Bem!”

SÓCRATES – (…) Não seria igualmente absurdo dizer que quem não experimenta o prazer e a dor é mau durante todo o tempo que sofre, ainda que estejamos falando do homem mais virtuoso do mundo? E não seria disparatado afirmar que quem experimenta o prazer é por esta mesma razão virtuoso, mais virtuoso quão maior for o prazer que experimenta?

PROTARCO – Sócrates, nada mais absurdo e disparatado que isso tudo!”

SÓCRATES – Não se dividem as ciências em dois ramos, um as artes mecânicas, o outro a educação, seja da alma ou do corpo?

PROTARCO – De acordo.”

SÓCRATES – Separemos, então, as artes que estão acima das outras.

PROTARCO – Quais seriam, e qual critério utilizaremos?

SÓCRATES – P.ex., se excluirmos dentre as diversas artes as de contar, medir e pesar, restará bem pouca coisa, não crês?

(…)

Depois, nada nos resta senão pedir socorro às probabilidades, exercitar os sentidos mediante a experiência e nos submeter a uma certa rotina, valendo-nos do talento para conjeturar, ao que muitos dão o nome de arte, pelo menos quando já se desenvolveu a um grau sublime pela reflexão e pelo trabalho nela desempenhado (aperfeiçoando o talento para conjeturas).

PROTARCO – Dizes algo irrefutável.

SÓCRATES – Não está neste último caso a música, pois que não se calcula sua harmonia, mas avança-se por conjeturas e ao azar, que depois são tornados familiares pelo hábito do tocador? Assim como a parte instrumental desta arte tampouco se submete a uma justa medida ao pôr-se em movimento cada corda, de maneira que na música há muitas coisas desconhecidas e algumas poucas seguras e certas?

PROTARCO – Nada mais verdadeiro.

SÓCRATES – Aplicando o raciocínio, veremos que é também o caso da medicina, da agricultura, da navegação e até da arte militar.

PROTARCO – Ó, sem dúvida!

SÓCRATES – E que, ao contrário, a arquitetura faz uso, a meu entender, de muitas medidas e cálculos, e instrumentos, que lhe dão grande firmeza e rigidez, fazendo-a exata, ou pelo menos mais exata que grande parte das ciências.¹”

¹ Está claro que hoje não pensamos mais assim.

Sigamos: separaremos as artes em duas ordens. Umas, dependentes da música, são mais imprecisas; outras, dependentes dos princípios arquitetônicos, são mais precisas.

PROTARCO – Assim seja.

SÓCRATES – Coloquemos entre as artes mais exatas aquelas de que primeiro faláramos.

PROTARCO – Se não me engano, falas da aritmética e das suas mais aparentadas.”

Veja a aritmética: não estamos conformes que há uma vulgar e outra própria dos filósofos?”

o vulgo faz entrar na mesma conta unidades desiguais, como dois exércitos, dois bois, duas unidades muita pequenas ou muito grandes. Os filósofos, ao contrário, jamais darão ouvidos a quem se nega a admitir que, entre todas as unidades, não há uma unidade que não difira absolutamente em nada de qualquer outra unidade.”

A arte de calcular e de medir – que empregam os arquitetos e os mercadores –, não difere ela da geometria e dos cálculos racionais dos filósofos? Diremos que é a mesma arte, ou a dividiremos em duas?”

SÓCRATES – Protarco, compreendes por que entramos neste mérito?

PROTARCO – Talvez…”

SÓCRATES – Há duas aritméticas e duas geometrias, e dependendo de quais outras múltiplas artes consideremos, por mais que vulgarmente se as compreenda sob um mesmo nome, pode muito bem haver várias artes ou ciências duplas.”

SÓCRATES – A dialética nos acusará, Protarco, de termos dado a preferência a outra ciência em detrimento dela.

PROTARCO – Que entendes por dialética, Sócrates?

SÓCRATES – É a ciência das ciências, que conhece todas as outras ciências. É o conhecimento mais verdadeiro e sem comparação, pois tem por objeto o ser mesmo, aquilo que realmente existe, e cuja natureza é inalterável. Que pensas da dialética, Protarco?

PROTARCO – Não nego, Sócrates, que ouvi muitas vezes Górgias dizer que a arte da persuasão leva vantagem sobre todas as demais. Fica tudo submetido à persuasão do orador, não pela força, mas pela vontade. Em suma, não haveria nada mais excelente. Me sinto desconfortável, portanto: não quero contradizer meu mestre Górgias, nem tampouco a ti, querido.

SÓCRATES – Me parece que no momento de alvejar tua flecha contra mim, vacilaste.

PROTARCO – Se assim o queres, digo que tu podes tratar como bem entender, nesta conversação, o estatuto destas duas ciências.

SÓCRATES – Mas é culpa minha se não entendes o que digo exatamente?

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Não te perguntei, meu querido, qual é a arte ou a ciência que se encontra no topo das outras em termos de importância, excelência e vantagens que possa conceder ao usuário, mas qual é a ciência cujo objeto é o mais claro, exato e verdadeiro, seja ou não de grande utilidade. Eis o que agora buscamos. Se ages com prudência, não cais em desgraça com Górgias, nem tampouco me afrentas.”

SÓCRATES – (…) quando alguém diz estudar a natureza, já sabes que se ocupa a vida inteira em averiguar as causas, ou seja, como veio a se produzir o universo; pois todo efeito, que se apura agora, provém de determinadas causas. Ou não?

PROTARCO – Mas é claro que sim, Sócrates.

SÓCRATES – O objeto do naturalista não é necessariamente aquilo que existe sempre? O que é, o que foi e o que será?

PROTARCO – Em última instância, é isto mesmo.

SÓCRATES – Podemos dizer que é auto-demonstrável o objeto que procuramos, que nunca existiu, nem existe, nem existirá de forma dessemelhante? Ou bem a única coisa que podemos afirmar, com base na investigação dos fenômenos, seria: nada há que permanece idêntico e estável?!

PROTARCO – O segundo, Sócrates, porque o fenômeno é o meio, mas–

SÓCRATES – …Já sei o que irás dizer! Está claro que se trata de fenômenos, mas como chegar à misteriosa causa, já que este fim é invisível e só vemos o meio?

PROTARCO – Pois creio que ficaremos eternamente no escuro quanto a isso.

SÓCRATES – Portanto, a verdade pura não se encontra na inteligência nem no conhecimento possível sobre os objetos.

PROTARCO – Com efeito.

SÓCRATES – E então é preciso que deixemos de lado tudo isso, tu, eu, Górgias e Filebo: seguindo tão-só a razão, devemos afirmar o que segue…–

PROTARCO – O quê, Sócrates?

SÓCRATES – …que a estabilidade, a pureza, a verdade e o que nós chamamos de sinceridade, não se encontram senão no que subsiste eternamente, no mesmo estado, da mesma maneira, sem mescla; e onde mais se encontra de forma menos mesclada, isto é, em segundo lugar? Podemos chegar lá? Creio que todo o demais deve ser rebaixado em nossa hierarquia de valores.

PROTARCO – Concordo plenamente.”

SÓCRATES – Não são os nomes mais preciosos os da inteligência e sabedoria?

PROTARCO – Parece que sim.”

SÓCRATES – Sigo uma velha máxima, que nunca é má: Nunca é demais indagar duas, três ou mais vezes, se preciso, sobre o quê é o Bem.

PROTARCO – Convenho, convenho.

SÓCRATES – Em nome de Zeus, muita atenção agora! Vamos recordar como começamos todo este debate, a fim de podermos rematá-lo!

(…)

Filebo sustentava que o prazer é o fim legítimo de todos os seres animados e o objeto a que se devem consagrar sem exceção; que o prazer é o supremo Bem e que estas duas palavras, bom e agradável, pertencem, no fim de contas, a uma mesma natureza. Sócrates, ao contrário, sustentava que, como bom e agradável são duas palavras distintas, expressavam igualmente duas coisas de natureza distinta, e que a sabedoria participava mais da condição do Bem que o prazer. Não começamos assim, Protarco?

PROTARCO – Sim, Sócrates, foste verdadeiro.

SÓCRATES – E, dando continuidade: convimos que o ser animado que esteja em possessão plena e integral, ininterrupta, durante toda sua vida, do Bem, não tem ele necessidade de nada mais, porque aquilo já lhe basta. Que dizes?

PROTARCO – Mais uma vez, foste impecável ao rememorar nossos passos.”

SÓCRATES – Nem o prazer nem a sabedoria são esse Bem perfeito, o bem que apetece a todos, o soberano Bem!

PROTARCO – Agora vejo que não!

SÓCRATES – Destarte, é preciso descobrir o Bem ou em si mesmo ou nalguma imagem, para ver, como já dissemos, a quem devemos adjudicar o segundo posto.”

Não cabe buscar o bem numa vida sem mescla, pois que ele reside na vida mesclada ou intermediária.”

SÓCRATES – Seja: Conseguiríamos atingir nosso objeto mesclando toda sorte de prazeres com toda sorte de sabedorias?

PROTARCO – Hm, talvez…

SÓCRATES – Não, este meio não é confiável. Vou te propor um novo método de mesclar as coisas sem tantos riscos.

(…)

Há, segundo entendo, alguns prazeres muito mais meritórios que outros; e artes mais exatas que outras.”

Segue daí que devemos mesclar só as porções mais autênticas de uma e outra parte, e cabe-nos examinar se há uma mescla verossímil o suficiente para que a classifiquemos de vida mais apetecível.”

SÓCRATES – Será preciso incluir a música, que, conforme vimos, está repleta de conjeturas e de imitação, e carente, por isso mesmo, de pureza?

PROTARCO – Isso me parece necessário, a fim de tornar a vida suportável.

SÓCRATES – Em outras palavras, queres que eu seja um porteiro relaxado e deixe que um tropel de arraias-miúdas arrombe o portão e invada, com todas as ciências e mesclas possíveis e imagináveis?

PROTARCO – Sócrates, não vejo como pode ser um mal que um homem possua em si todas as ciências, contanto que possua as principais.

SÓCRATES – Sigo, então, tua prescrição, e deixo com que todas passem pelo meu portão, para invadirem o jardim poético de Homero.”

Porém, quanto aos prazeres, ainda resta por decidir: quais classes de prazeres deixaremos entrar impunemente? Só caberão neste jardim os verdadeiros, ou aceitaremos todos sem distinção?”

A essência do Bem nos escapa novamente! Foi-se refugiar dentro da essência do Belo, porque em todo lugar e por todas as partes a justa medida e a proporção são uma beleza e uma virtude.

(…)

Mas não esqueçamos que a verdade tem de entrar com as outras coisas neste mescla.

(…)

Portanto, se não podemos abarcar o Bem sob uma só idéia, fá-lo-emos sob 3, a saber: a da Beleza, a da Proporção e a da Verdade. Digamos que, se essas 3 coisas pudessem ser 1 só, formariam assim a causa verdadeira da excelência desta mescla do tipo de vida perfeita e alcançável pelo homem. Se a causa é boa, a mescla só pode ser boa.”

PROTARCO – (…) o prazer é a coisa mais mentirosa do mundo. Assim se diz por aí. E também que os deuses perdoam todo perjúrio cometido em meio aos prazeres do amor, ou da carne, que passam por ser os mais elevados de todos; isso me faz pensar que os prazeres, tal como as crianças, não têm a menor faísca de sabedoria!”

o primeiro Bem é a medida, o justo meio, a oportunidade e todas as qualidades semelhantes, que devem ser tomadas como condições imprescindíveis de uma natureza imutável.” “o segundo Bem é a proporção, o belo, o perfeito, o que se basta a si mesmo, e tudo o mais que for deste gênero.” “E aí tens o posto da sabedoria e da inteligência: fazem parte da verdade, como terceiro Bem.”

Não situaremos em quarto lugar as ciências, as artes, as opiniões justas, que afirmamos pertencer a uma alma só, se está certo dizer que estas coisas têm um laço mais íntimo com o bem e com o prazer?”

Em quinto lugar colocaremos os prazeres, mas apenas aqueles isentos de dor, chamando-os conhecimentos puros da alma.”

SÓCRATES – À sexta geração, diz Orfeu, ponde fim a vossos cantos. Me parece que poremos fim também a este discurso com este sexto lugar. Já nada nos resta senão condensar e arredondar tudo o que descobrimos.

PROTARCO – Sem dúvida, Sócrates, não há mais remédio senão pararmos por aqui e finalizarmos com dignidade.

SÓCRATES – Voltemos, então, pela terceira vez, salvo engano, ao mesmo discurso, e demos as graças a Zeus o Conservador.

PROTARCO – Como o efetuarás, Sócrates?

SÓCRATES – Filebo qualificava o prazer perfeito e pleno como o Bem (…)”

Bem, vimos que nem um nem o outro desses bens inicialmente inferidos por nós dois é suficiente por si mesmo!” “Tendo-se apresentado diate de nós uma terceira forma de bem, superior aos outros dois, nos pareceu, também, que a inteligência tinha com a essência dessa terceira forma mais afinidade (mil vezes mais afinidade!) que o prazer mais gozoso. Mas vimos que o prazer mais puro não ocupa lugar melhor que o quinto em nossa escala de valores. Mas os bois, cavalos e demais bestas, sem exceção, não seriam a refutação do que dissemos? A maior parte dos homens, referindo-se a elas, como dizem os intérpretes do canto dos pássaros, julga que os prazeres são a principal fonte da felicidade da vida, e crê que o instinto das bestas é uma garantia mais segura e verdadeira que os discursos inspirados pela Musa.”

PROTARCO – Convimos, sem qualquer restrição, Sócrates, que tudo o que disseste é perfeitamente verdadeiro.

SÓCRATES – Então me permitireis partir!”

VIDA E MORTE EM CONTEXTO DE DOMINAÇÃO BIOPOLÍTICA – Peter Pál Pelbart

Nunca o poder chegou tão longe e tão fundo no cerne da subjetividade e da própria vida.”

quando parece que <está tudo dominado>, como diz um rap brasileiro, no extremo da linha se insinua uma reviravolta: aquilo que parecia submetido, controlado, dominado, isto é, <a vida>, revela no processo mesmo de expropriação sua potência indomável.

Retomo brevemente a descrição feita por Giorgio Agamben a respeito daqueles que, no campo de concentração, recebiam essa designação terminal (muçulmanos). O <muçulmano> era o cadáver ambulante” “O <muçulmano> era o detido que havia desistido, indiferente a tudo que o rodeava, exausto demais para compreender aquilo que o esperava em breve, a morte. Essa vida não-humana já estava excessivamente esvaziada para que pudesse sequer sofrer. Por que muçulmano, já que se tratava sobretudo de judeus? Porque entregava sua vida ao destino, conforme a imagem simplória, preconceituosa e certamente injusta de um suposto fatalismo islâmico: o muslim é aquele que se submete sem reserva à vontade divina.” “O biopoder contemporâneo, conclui Agamben torcendo um pouco a concepção de Foucault, reduz a vida à sobrevida biológica, produz sobreviventes. De Guantánamo à África, isso se confirma a cada dia.”

Gerir a vida, mais do que exigir a morte. Assim, se antes o poder consistia num mecanismo de subtração ou extorsão, seja da riqueza, do trabalho, do corpo, do sangue, culminando com o privilégio de suprimir a própria vida, o biopoder passa agora a funcionar na base da incitação, do reforço e da vigilância, visando à otimização das forças vitais que ele submete” “Claro que o nazismo consiste num cruzamento extremo entre a soberania e o biopoder, ao fazer viver (a <raça ariana>), e fazer morrer (as raças ditas <inferiores>), um em nome do outro.”

A sobrevida é a vida humana reduzida a seu mínimo biológico, à sua nudez última, à vida sem forma, ao mero fato da vida, ao que Agamben chama de vida nua.” “de certa maneira estamos todos nessa condição terminal. Até Bruno Bettelheim, sobrevivente de Dachau, quando descreve o comandante do campo, qualifica-o como uma espécie de <muçulmano>, <bem-alimentado e bem-vestido>.”

ele não se restringe aos regimes totalitários, e inclui plenamente a democracia ocidental, a sociedade de consumo, o hedonismo de massa, a medicalização da existência”

Agora cada um se submete voluntariamente a uma ascese, seguindo um preceito científico e estético, nas academias ou nos consultórios cirúrgicos” “corpo fascista – diante do modelo inalcançável, boa parcela da população é jogada numa condição de inferioridade sub-humana.”

faço parte do grupo dos hipertensos, dos soropositivos, etc…”, isto só vem fortalecer os riscos da eugenia.”

Na sua análise do 11 de setembro, Slavoj Zizek (Bem-vindo ao deserto do real) contestou o adjetivo de covardes imputado aos terroristas que perpetraram o atentado contra as torres gêmeas. Afinal, eles não tiveram medo da morte, contrariamente aos ocidentais, que não só prezam a vida, conforme se alega, mas querem preservá-la a todo custo, prolongá-la ao máximo.”

até os prazeres são controlados e artificializados: café sem cafeína, cerveja sem álcool, sexo sem sexo, guerra sem baixas, política sem política – a realidade virtualizada.”

Baudrillard (Power Inferno) parece ir numa direção similar, ao tentar pensar o 11 de setembro em função da suspensão de sentido que ele suscita.”

A assertividade da fé ali presente nos impede de entrever nesses atos qualquer traço de niilismo ativo, já que eles se realizam justamente sob o signo daqueles valores que a morte de Deus parecia ter inteiramente soterrado”

Dostoiévski jamais se livrou do fascínio por esses homens monstruosos, e talvez a fronteira decisiva não seja entre os bons e os maus, mas como o diz o artigo de Raskolnikov em Crime e Castigo, entre os ordinários e os extraordinários, entre os que se submetem em sua mediocridade às leis morais, e os homens que criam para si mesmos as leis, e para quem ‘tudo é permitido’, e cuja consciência sanciona até o crime – com o que os termos bem e mal deixam de ter importância.”

Raskolnikov se colocava já para além do bem e do mal, quando Nietzsche ainda era estudante e todavia sonhava com ideais sublimes, comenta Chestov. Eis uma concepção original de Dostoiévski, que nem Shakespeare possuía, em quem o crime e o mal ainda estão rodeados de remorso.” “Dostoiévski só conseguia descrever e só se interessava pelos espíritos revoltados, aventureiros, os inquietos experimentadores. Quando se punha a descrever os bondosos, caía numa banalidade decepcionante.”

o terrorismo atual não descende de uma história tradicional da anarquia, do niilismo” Baudrillard

O que detestamos em nós, lembra o autor, é aquilo que o Grande Inquisidor de Dostoiévski promete às massas domesticadas, o excesso de realidade, de conforto, de realização, o reino de Deus sobre a terra.”

Quando a vida é reduzida à vida besta em escala planetária, quando o niilismo se dá a ver de maneira tão gritante em nossa própria lassidão, nesse estado hipnótico consumista do Bloom ou do Homo Otarius ou da gorda saúde dominante, cabe perguntar o que poderia ainda sacudir-nos de tal estado de letargia, e se a catástrofe não estaria aí instalada cotidianamente (<o mais sinistro dos hóspedes>), ao invés de ser ela apenas a irrupção súbita de um ato espetacular através de um atentado contra a capital do Império.

À vida sem forma do homem comum, nas condições do niilismo, a revista Tiqqun deu o nome de Bloom. Inspirado no personagem de Joyce, Bloom seria um tipo humano recentemente aparecido no planeta, e que designa essas existências brancas, presenças indiferentes, sem espessura, o homem ordinário, anônimo, talvez agitado quando tem a ilusão de que com isso pode encobrir o tédio, a solidão, a separação, a incompletude, a contingência – o nada.” “o Bloom é já incapaz de alegria assim como de sofrimento, analfabeto das emoções de que recolhe ecos difratados.”

O corpo é aquele que não aguenta mais” Lapoujade

o que o corpo não agüenta mais é a mutilação biopolítica, a intervenção biotecnológica, a modulação estética, a digitalização bioinformática do corpo, o entorpecimento sensorial que esse contexto anestésico lhe inflige… Em suma, e num sentido muito amplo, o que o corpo não agüenta mais é a mortificação sobrevivencialista, seja no estado de exceção, seja na banalidade cotidiana. O muçulmano, o ciberzumbi, o corpo-espetáculo e a gorda saúde (conceito de Deleuze), bloom, por extremas que pareçam suas diferenças, ressoam no efeito anestésico e narcótico, configurando a impermeabilidade de um <corpo blindado> em condições de niilismo terminal.

A ironia da semântica de BLOOM… Mundo cheio de blooms outinais e de Marias-Molly…

Como o observa Barbara Stiegler, para Nietzsche todo sujeito vivo é primeiramente um sujeito afetado, um corpo que sofre de suas afecções, de seus encontros, da alteridade que o atinge, da multidão de estímulos e excitações que lhe cabe selecionar, evitar, escolher, acolher…”

Como então preservar a capacidade de ser afetado? Não seria preciso cultivar uma certa porosidade, até mesmo uma fragilidade, uma sensibilidade que nos devolvesse o poder de ser afetado? Mas como ter a força de estar à altura de sua fraqueza, ao invés de permanecer na fraqueza de cultivar apenas a força?”

Num âmbito mais geral, talvez por isso tantos personagens literários, de Bartleby ao artista da fome, precisem de sua imobilidade, esvaziamento, palidez, no limite do corpo morto, numa espécie de greve branca. (…) Como diz Deleuze, é preciso não mexer-se demais para não espantar os devires.”

Com o bebê só se tem relação afetiva, atlética, impessoal, vital, pois o pequeno é a sede irredutível das forças, a prova mais reveladora das forças. É como se Deleuze perscrutasse um aquém do corpo empírico e da vida individuada, como se ele buscasse, não só em Kafka, Lawrence, Artaud, Nietzsche, mas ao longo de toda sua própria obra, e também, poderíamos dizer, dos efeitos que ela produziu nos mais diversos campos, como se ele buscasse aquele limiar entre a vida e a morte, entre o homem e o animal, entre a loucura e a sanidade, onde nascer e perecer se repercutem mutuamente, pondo em xeque tantas divisões e dicotomias, legadas por nossa tradição.”

ESPINOZA VS. A BIOTECNOLOGIA

Toda a tematização do corpo-sem-órgãos é uma variação em torno desse tema biopolítico por excelência, a vida desfazendo-se do que a aprisiona, do organismo, dos órgãos, da inscrição dos poderes diversos sobre o corpo, ou mesmo de sua redução à vida nua, vida-morta, vida-múmia, vida-concha.”

Eu sou um genital inato, ao enxergar isso de perto isso quer dizer que eu nunca me realizei.

Há imbecis que se crêem seres, seres por inatismo.

Eu sou aquele que para ser deve chicotear seu inatismo” A.A.

E Uno [tradutor japonês de Artaud] comenta que um genital inato é alguém que tenta nascer por si mesmo, fazer um segundo nascimento, para além de sua natureza biológica dada.” “Trata-se de um corpo que tem a coragem de desafiar esse complexo sócio-político que Artaud chamou de juízo de Deus, e que nós chamaríamos de um biopoder, de um poder que se abate sobre nosso corpo…”

Pensemos em Beckett ouvindo Jung dizer, sobre uma paciente: O fato é que ela nunca nasceu. E ele transporta essa frase para o contexto de sua obra.”

NÃO QUIS TER NASCIDO, MAS AGORA NASCEREI: “Essa recusa do nascimento biológico não é a recusa proveniente de um ser que não quer viver, mas daquele que exige nascer de novo, sempre, o tempo todo.”

Rafael foi filho de quem foi e foi quem foi, isto já não interessa… Estou falando de outras coisas, mais fundamentais para mim agora!

vida nua: banalidade biológica

vida besta, exacerbação e disseminação entrópica da vida nua, no seu limite niilista.”

Se os que melhor diagnosticaram a vida bestificada, de Nietzsche e Artaud até os jovens experimentadores e pesquisadores de hoje, têm condições de retomar o corpo como afectibilidade, fluxo, vibração, intensidade, e até mesmo como um poder de começar, não será porque neles a vida besta atingiu um ponto intolerável? Não estamos nós todos nesse ponto de sufocamento, que justamente por isso nos impele numa outra direção? Talvez haja algo na extorsão da vida que deve vir a termo para que esta vida possa aparecer diferentemente… Algo deve ser esgotado, como o pressentiu Deleuze em L’épuisé, para que um outro jogo seja pensável.” Barris de petróleo, talvez…

Bin Laden seria, aos olhos de Chomsky, tudo menos um lunático niilista – seu objetivo consiste em derrubar os governos corruptos instalados e sustentados pelos <infiéis> nos territórios muçulmanos, para ali instituir uma versão extremista do Islã”

O poder dominante é aquele que consegue impor e assim legitimar, na verdade até legalizar…, em um palco nacional ou mundial, a terminologia e a interpretação que mais lhe convém em uma determinada situação. Foi assim no curso de uma longa e complicada história que os Estados Unidos conseguiram atingir um consenso intergovernamental na América do Sul, para oficialmente chamar de <terrorismo> qualquer resistência política organizada aos poderes estabelecidos.” Derrida, Filosofia em Tempo de Terror

O alargamento da noção de terrorismo nos leva às portas da visionária análise de Virilio sobre o Estado mundial absoluto, à caça do inimigo qualquer. É a idéia necrófila que Deleuze já vê inscrita no próprio Apocalipse.”

Obsessão niilística com a Nova Jerusalém: Cada vez que se programa uma cidade radiosa, sabemos perfeitamente que é uma maneira de destruir o mundo, de torná-lo “inabitável e de inaugurar a caça ao inimigo qualquer. (Deleuze, Crítica e Clínica)”

Não há combate que não se trave também contra nós mesmos, contra certos poderes que nos atravessam e nos constituem e dos quais nós resultamos e que nós mesmos sustentamos e aos quais aderimos, à nossa revelia. Ninguém pode imaginar-se habitando o lado certo, a margem independente, o lugar da Grande Recusa, pois ninguém pode considerar-se protegido do que nos constitui por fora e por dentro. Isso pode dar uma impressão claustrofóbica ou sem saída para aqueles que anseiam por dicotomias fáceis, inimigos visíveis, resoluções definitivas, o assalto final ao Palácio de Inverno. Mas o contexto contemporâneo que alguns chamam de Império é mais complexo e sutil, mais móvel e molecular. Contudo, apesar da inimaginável capacidade de expansão e de anexação e depauperação da vida que empreende, está mais próximo da descrição feita por Kafka a Janoush: Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.”

[+] LEITURAS PÓS-INSENSÍVEIS

Juliano Pessanha, Certeza do Agora

Witold Gombrowicz, Contre les poètes

HISTÓRIA DA MATEMÁTICA: Uma visão crítica, desfazendo mitos e lendas – Tatiana Roque, 2012. – CAPÍTULO 7. O século XIX inventa a matemática “pura” ou “A ERA DO RIGOR”

no século XIX, a análise matemática adquiriu a forma que reconhecemos, ainda hoje, como válida. O movimento de rigorização pode ser dividido em duas fases: uma francesa, na qual se destaca a figura de Cauchy; e outra alemã.”

não bastava reconhecer que infinitésimos, ou limites, eram fundamentos inadequados para a análise; uma doutrina positiva se fazia necessária.”

Não que os matemáticos, preocupados com um suposto estado caótico de sua disciplina, tenham feito uma reunião e combinado os novos padrões que deveriam substituir os que estavam em uso. Os pesquisadores do século XVIII sequer percebiam seus métodos como pouco rigorosos ou desorganizados. Portanto, não podemos afirmar que seus resultados carecessem de rigor, como se eles tivessem o objetivo de avançar sem preocupações com a fundamentação de seus métodos. A noção de rigor se transformou na virada do século XVIII para o XIX porque os matemáticos da época se baseavam em crenças e técnicas que não eram mais capazes de resolver os problemas que surgiam no interior da própria matemática. Ou seja, isso não se deu por preocupações formalistas, nem por um interesse metamatemático de fundamentar essa disciplina. O rigor é um conceito histórico, e a noção de rigor de Lagrange era diferente da de Cauchy, que, por sua vez, também seria criticado por Weierstrass, baseado em sua própria concepção aritmética.”

A discussão sobre as quantidades negativas, durante o século XVIII, mostra que somente os números absolutos eram aceitos, pois se pretendia relacionar a existência em matemática a uma noção qualquer de <realidade>. Para avançar, era preciso migrar para um conceito abstrato de número não subordinado à ideia de quantidade.”

Por volta de 1800, a matemática era teórica e prática ao mesmo tempo. Fazia parte de seu projeto representar a natureza por equações, e os matemáticos teóricos se viam como pertencentes à mesma tradição inaugurada por Newton e outros. Uma das consequências da reflexão sobre a estrutura interna da matemática, que ocupou o século XIX, foi a sua separação da física. Ainda que procurasse se estabelecer como uma disciplina independente, a análise do século XVIII era motivada por problemas físicos que continuaram a exercer grande influência por alguns anos.”

Ainda que, desde o século XVII, as entidades algébricas tenham adquirido um lugar de destaque na matemática, até o final do século XVIII as raízes negativas e imaginárias de equações eram consideradas quantidades irreais. Os números que hoje chamamos de <irracionais> apareciam na resolução de problemas, mas também não tinham um estatuto definido.”

A partir daí, a noção de função terá um papel central na matemática, no lugar das curvas ou das expressões analíticas que as representavam. A expressão <ponto de vista dos Conjuntos> não se refere ainda à teoria dos conjuntos. Essa distinção é importante em nossa abordagem, pois pretendemos contextualizar as contribuições de Cantor¹ para a definição de conjunto no desenvolvimento conceitual e abstrato da matemática na Alemanha, ligado aos nomes de Dirichlet, Riemann e Dedekind.”

¹ Ainda hoje tratado como louco e contestado na própria Matemática.

Os métodos sintéticos voltaram a ser defendidos e o valor atribuído à possibilidade de generalização fornecida pela álgebra passou a ser criticado em prol de métodos que pudessem ser mais intuitivos. O ápice desse movimento ocorreu em 1811 e um de seus protagonistas foi Lazare Carnot.”

Nos últimos anos do século XVIII, Laplace adquiriu grande poder na cena francesa, sobretudo depois de se tornar ministro, com o golpe de Napoleão, em 1799. A partir daí, ele passou a incentivar uma padronização do ensino na École Polytechnique com base na análise e na mecânica. O curso de análise deveria ser dividido em 3 partes: análise pura (ou análise algébrica); cálculo diferencial; e cálculo integral. Além disso, a introdução ao cálculo deveria ser feita com base no método de limites, exposto por Lacroix.”

Segundo Schubring, Lazare Carnot é o melhor símbolo da discussão sobre o rigor em análise que teve lugar na França naquele momento, anteriormente esboçada por d’Alembert. As principais contradições dessa reação consistiam em tentar obter, ao mesmo tempo, uma maior generalização da matemática, mas mantendo o apelo à intuição. Em 1797, Carnot já havia publicado uma obra sobre os fundamentos do cálculo chamada Réflexions sur la métaphysique du calcul infinitesimal (Reflexões sobre a metafísica do cálculo infinitesimal), segunda versão de um texto de 1785.”

Não houve descoberta que tivesse produzido, nas ciências matemáticas, uma revolução tão feliz e tão rápida quanto a da análise infinitesimal; nenhuma forneceu meios mais simples, nem mais eficazes, para penetrar no conhecimento das leis da natureza. Decompondo, por assim dizer, os corpos até os seus elementos, ela parece ter indicado sua estrutura interior e sua organização; mas, como tudo o que é extremo escapa aos sentidos e à imaginação, só se pôde formar uma ideia imperfeita desses elementos, espécies de seres singulares que tanto fazem o papel de quantidades verdadeiras quanto devem ser tratados como absolutamente nulos e parecem, por suas propriedades equívocas, permanecer a meio caminho entre a grandeza e o zero, entre a existência e o nada.” Carnot

Mas sua posição mudará depois dessa data. Carnot foi exilado por razões políticas e retornou à França em 1800, graças a Napoleão, que o designou ministro da guerra. Em pouco tempo, contudo, renunciou ao cargo e passou a se dedicar às questões ligadas aos fundamentos da matemática, publicando, em 1813, uma nova edição de seu livro. Nessa nova versão, reviu suas posições sobre a álgebra, afirmando que seus princípios são ainda menos claros do que os do cálculo infinitesimal. Tal posição refletia a concepção mais geral da época, que voltava a valorizar a geometria e o saber dos antigos. Inspirado por essa tendência, Carnot passou a defender o método dos infinitamente pequenos contra o dos limites e propôs seguir os princípios de Leibniz em análise.

Maine de Biran integrou uma segunda geração do grupo dos idéologues franceses e atacou os defensores da álgebra, destacando o caráter obscuro de seus métodos. Segundo ele, a linguagem algébrica é uma prática cega e mecânica que não possui a clareza da geometria.”

A noção de função será então definida antes das noções de continuidade, limite e derivada, a fim de eliminar as incertezas ligadas à concepção sobre essas noções.”

Quando quantidades variáveis são ligadas de modo que, quando o valor de uma delas é dado, pode-se inferir os valores das outras, concebemos ordinariamente essas várias quantidades como expressas por meio de uma delas que recebe, portanto, o nome de <variável independente>; e as outras quantidades, expressas por meio da variável independente, são as que chamamos funções desta variável.” Cauchy

Durante muito tempo a historiografia da matemática enxergou Cauchy como o pai fundador do movimento de rigor na análise, até que começaram a ser identificados alguns erros em sua concepção de continuidade. As duas imagens são as duas faces da mesma moeda. Ao procurar na obra desse matemático francês antecedentes das noções modernas em análise, podemos nos deparar com erros que frustrarão nossas expectativas. Pensamos ser mais proveitoso ver Cauchy como um homem de seu tempo, que buscava um tipo de rigor que já não era o do século XVIII, fundado na algebrização, mas que também não era o rigor típico do século XIX. Para ele, o conceito de continuidade era fundamental, e essa idéia se associava ao universo das curvas. A noção de função se relacionava implicitamente a essas curvas, uma vez que exemplos de funções que não podem ser vistas como curvas ainda não intervinham na matemática da época.

A matemática não era a ferramenta central de uma busca especulativa pela verdade, e sim o elemento principal de uma cultura ligada à engenharia. Esse papel da matemática ajudou a configurar um certo espírito de corpo na elite francesa, que adquiria uma identidade científica. A Revolução democratizara o ideal meritocrático, que substituiu os critérios de nascimento no acesso aos serviços. A admissão na École Polytechnique passou a se dar por concurso e a matemática ganhou status nessa meritocracia, uma vez que tal saber era tido como capaz de medir a inteligência.”

A física matemática e a mecânica celeste eram os principais campos de pesquisa dos matemáticos franceses no século XIX. Eles procuravam estudar as equações que governam fenômenos físicos em mecânica dos fluidos, eletrostática e eletrodinâmica, teoria do calor e da luz, etc. A análise complexa, desenvolvida por Cauchy, emergiu do estudo de equações diferenciais parciais, ligadas a problemas físicos. Em 1824, o secretário perpétuo da Academia de Ciências de Paris, Joseph Fourier, ao relatar os avanços daquele ano, proclamava: O tempo das grandes aplicações das ciências chegou.

Existia uma separação entre, de um lado, a física matemática e a mecânica celeste; e, de outro, a mecânica que lidava com artefatos para a engenharia ou a indústria. Além disso, havia também a geometria, que trabalhava com instrumentos óticos e sobrevivia desde o século XVII. Mesmo para Cauchy o rigor não era uma restrição nem um objetivo em si mesmo; era a condição para o desenvolvimento de métodos gerais com vistas à aplicação. A prática da matemática não era muito valorizada por si mesma, sobretudo em comparação com seu desenvolvimento na Alemanha das décadas seguintes.

Ao afirmarmos que a pesquisa matemática na França inspirava-se nas aplicações não queremos dizer que sua orientação não fosse eminentemente teórica. O domínio de aplicação de uma teoria era tanto maior quanto mais elevado era seu ponto de vista. Esse princípio levava à busca de uma ciência derivada de uma ideia unificadora, caso da análise para Lagrange. O mesmo princípio levou Fourier a constituir sua análise sobre as séries trigonométricas. Logo, como afirma B. Belhoste, o movimento de teorização não se opunha às aplicações; encontrava nelas sua inspiração. O interesse pela solução de problemas de física ou de engenharia e a busca por teorias cada vez mais gerais eram os dois lados da mesma moeda.” Quanto mais se abre a perspectiva de uma “ciência ‘x’ aplicada”, mais se consolida a ciência “x” em sua modalidade teórico-epistemológica – vide desdobramentos da psicanálise científica no século XX. O “científica” como sobrenome da psicanálise eu insiro aqui num sentido extra-moral: os acadêmicos empiricistas, psicólogos de araque e teólogos que se virem para desmoralizá-la, ou seja, aplicar sua crítica enviesada e altamente interessada… Contra ou a favor da Psicanálise como um todo, não poderíamos ter a má-fé de considerá-la um esoterismo judaico, como alguns proto-nazistas insinuaram e ainda insinuam…

Paris deixava de ser o principal centro da atividade matemática e a École Polytechnique perdia seu caráter inovador. O clima de autoritarismo do final do Segundo Império tornou ambíguo o papel da matemática, que era divorciado da pesquisa. Seu estudo era incentivado, acima de tudo, por sua utilidade prática no treinamento de engenheiros e a sociedade se interessava cada vez menos por pesquisas teóricas e abstratas.”

A invasão napoleônica, no início do século XIX, motivou a necessidade de elevar o nível de sofisticação militar e científica da Alemanha. Os alemães explicavam a própria derrota apontando para o alto nível de educação científica dos franceses, consequência da reforma educacional implantada após a Revolução Francesa. O traço característico das universidades que se desenvolviam na Alemanha a partir de 1810 era o papel indissociável entre o ensino e a pesquisa. Essa estreita relação permitia aos professores ir além dos cursos padronizados e elementares, baseados em livros-textos, para introduzir novos resultados, ligados a pesquisas.

O estilo dos matemáticos alemães da época pode ser explicado, em grande parte, pela proximidade com a faculdade de filosofia e pelo contato com filósofos. Promoviam-se, assim, orientações mais teóricas, motivadas também por pressuposições filosóficas. O grupo dos neo-kantianos do início do século XIX, que se opunha ao idealismo de Hegel, exerceu forte influência sobre diversos matemáticos alemães algumas décadas depois. Os valores neo-humanistas enxergavam a matemática como uma ciência pura, o que era expresso na visão de vários pensadores da época. Os conceitos fundamentais deviam ser definidos por meio de outras definições claramente explicitadas e nunca se basear em intuições [e isso foi empreendido por neo-kantianos, quão paradoxal!].

Por favor, não metam Kant no meio! “A matemática em si mesma, ou a assim chamada matemática pura, não depende de suas aplicações. Ela é completamente idealista; seus objetos, número, espaço e força, não são tomados do mundo externo, são idéias primitivas. [Que não derivam do espaço, do tempo, logo do contável, nem do princípio da causalidade! Ok!] Eles seguem seu desenvolvimento independentemente, por meio de deduções a partir de conceitos básicos. … Qualquer adição de aplicações ou ligação com estas, das quais ela não depende, são, portanto, desvantajosas para a própria ciência.”

Os matemáticos não eram mais vistos como práticos; participavam de uma elite intelectual de professores universitários que valorizava o saber puro, principalmente no contexto das humanidades enfatizadas por Humboldt.” Nada mais inconcebível para o Brasil em qualquer período.

Em Berlim, a matemática passou a se basear em noções puramente aritméticas. Nessa atmosfera, Cantor recebeu sua educação matemática entre 1863 e 1869. Weierstrass preferia apresentar seus resultados nos cursos, por isso eles permaneceram praticamente inéditos até 1895, quando foi editado o primeiro volume de suas obras. Mas, durante os anos 1870, sua fama se espalhou. Muitos convidados vinham assistir a seus cursos e escreviam anotações que acabavam circulando. No final do século, a noção de rigor defendida por Weierstrass se tornou predominante, repousando sobre a aritmetização da matemática, conforme essa tendência foi denominada por Felix Klein em 1895, na ocasião do aniversário de 80 anos de Weierstrass.”

As tentativas anteriores de assegurar as bases ontológicas dos conceitos fundamentais da matemática a partir da relação com uma certa realidade, não importa qual fosse, colocavam os alicerces dessa disciplina no mundo externo.”

Dizia eu que a aritmética não existe, a priori

Os seguidores de Al-Khwarizmi resolviam equações e admitiam o caso de raízes irracionais. Ao traduzir o termo grego alogos, que também possui o sentido de <inexprimível>, essas soluções foram chamadas de <mudas> (jidr assam). Nas versões latinas, a designação árabe foi, algumas vezes, traduzida por <números surdos>, que é como os irracionais ficaram conhecidos. Como mencionado no Capítulo 4, os métodos algébricos adquiriram grande autonomia com os árabes (começando a ficar independentes com relação à geometria). Além dos irracionais quadráticos, eles calculavam raízes de ordem qualquer, obtidas pela inversão da operação de potenciação e aproximadas por métodos elaborados que também permitiam resolver equações numéricas.”

Em 1585, o holandês Simon Stevin publicou um texto de popularização em holandês e francês, chamado De Thiende (O décimo, traduzido para o francês como La disme), defendendo uma representação decimal para os números fracionários e mostrando como estender os princípios da aritmética com algarismos indo-arábicos para realizar cálculos com tais números. Apesar de seu sistema ser bastante complexo, sem o uso de vírgulas, o fato de escrever as casas decimais de um número tornava mais evidente a possibilidade de se aumentar o número de casas, o que é útil se quisermos aproximar um número irracional por um racional.

A introdução da representação decimal com vírgulas foi um passo importante na legitimação dos irracionais, uma vez que fornecia uma intuição de que entre dois números quaisquer é sempre viável encontrar um terceiro, aumentando o número de casas decimais. Nota-se, por meio dessa representação, que, apesar de os irracionais escaparem, é possível que racionais cheguem muito perto.”

Raiz de 2 ao longo do tempo, conforme os matemáticos se tornavam cada vez mais especializados em sua “decifração”:

  1. 3/2 =1,5

  2. 7/5 = 1,4

  3. 41/29 = 1,41379310…

  4. 99/70 = 1,41428571…

  5. 17/12 = 1,41666…

Numa linha contínua (eixo x), apenas as divisões (3) e (4) chegavam mais próximas do que seria a “raiz de 2”.

Descoberta, no séc. XVII, do TEOREMA FUNDAMENTAL DA ÁLGEBRA: “O nº de raízes de uma equação é dado pelo seu grau.”

Ex: 2x4 + 5x³ − 35x² − 80x + 48 = 2(x + 3)(x + 4)(x − 4)(x − ½) = 0

Obviamente, para admitir esse número de soluções, será necessário admitir como válidas as soluções que Girard designa <impossíveis>. Mas para que servem essas soluções se elas são impossíveis?”

tanto as verdadeiras raízes quanto as falsas não são sempre reais, mas às vezes apenas imaginárias; o que quer dizer que podemos sempre imaginar tantas quanto dissemos em cada equação, mas às vezes não há nenhuma quantidade que corresponda àquelas que imaginamos.” Descartes, The Geometry, livro III, p. 86, tradução da própria Tatiana Roque.

O exemplo utilizado [por Descartes] para ilustrar esse caso é o da equação dada por x³ − 6x² + 13x − 10 = 0, para a qual podemos imaginar três soluções, das quais apenas uma é real, dada pelo número 2. Quanto às outras, mesmo que as aumentássemos, diminuíssemos ou multiplicássemos, não conseguiríamos fazer com que deixassem de ser imaginárias. A palavra <imaginária>, talvez devido à grande influência da obra de Descartes, passará a ser a mais usada para designar essas quantidades.

Enquanto um número negativo −a era entendido como 0 − a, não se punha o problema de defini-lo em si mesmo.” “Em alguns tratados do século XV os resultados negativos eram usados sem grandes discussões.” “É interessante observar que números negativos, quando apareciam nos cálculos, podiam ser chamados <negativos>, entretanto, quando representavam a solução de uma equação eram ditos <fictícios>.” “Apesar de afirmar explicitamente que a raiz quadrada de um número negativo não é correta, Cardano não se privava de operar com raízes de números negativos.”

Bombelli não usava essa notação. Designando a raiz quadrada por R.q. e a raiz cúbica por R.c., escrevia que R.c. 2.p.dm.R.q.121 + R.c. 2.m.dm.R.q.121. Observamos que ele usava a notação dm.R.q.121 para (raiz quadrada ou simples de -121), o que é diferente de R.q.m.121 [o que diabos é o “d”? ver abaixo!]. Isso indica que a sua notação para (raiz quadrada ou simples de -121) privilegiava a operação realizada com esse número e não o número obtido como raiz de uma quantidade negativa.”

p.dm., que é a abreviação para più di meno, em italiano, designa que estamos somando a raiz quadrada do nº negativo 121 e m.dm., abreviação de meno di meno, designa a subtração dessa mesma quantidade.”

A historiografia retrospectiva da matemática, praticada, por exemplo, por Bourbaki, chega a afirmar que più, meno, meno di meno e più di meno são, respectivamente, 1, −1, −i e i.” “porém, dizer isso hoje soa inadequado. A razão é porque o símbolo i será utilizado como uma unidade imaginária, ao passo que più di meno e meno di meno contêm em suas expressões as idéias de adição e de subtração, ou seja, relacionam-se a operações.”

numerro e³zat0

A introdução de uma nova notação, com os trabalhos de Viète, desviou a atenção dos matemáticos que sucederam os algebristas do século XVI, e ele não admitia nem números negativos e imaginários como raízes de equações, apesar de operar com a regra dos sinais de modo pragmático.”

O livro de Arnauld Nouveaux éléments de géometrie (Novos elementos de geometria) traz o primeiro debate explícito entre dois matemáticos sobre o modo de conceber as quantidades negativas. Schubring mostra que Arnauld recorre a justificativas geométricas, similares às de Cardano, para defender que <menos com menos deve dar menos>. Seu opositor, Prestet, mencionado no Capítulo 6, afirma, ao contrário, que as quantidades negativas devem ter o mesmo estatuto das positivas. Além disso, a regra dos sinais deve ser provada algebricamente e não geometricamente, como Cardano havia proposto e Arnauld justificado.”

Uma novidade é que suas considerações eram escritas em francês e não em latim, como antes. Logo, tiveram grande impacto nos meios cultos franceses até o início do século XVIII.”

TODA RAIZ É UMA CURVA (NENHUMA POTÊNCIA É LINEAR), O MUNDO MESMO É CIRCULAR! “Pascal e Barrow afirmavam que números irracionais deviam ser entendidos somente como símbolos, não possuindo existência independente de grandezas geométricas contínuas. Um número como (raiz de 3), por exemplo, deveria ser entendido como uma grandeza geométrica. § Com Leibniz e Newton, o cálculo infinitesimal passou a usar sistematicamente as séries infinitas. A noção de que a um ponto qualquer da reta está associado um número ficava implícita.” Comentário acima sobre a raiz de 2 e suas 5 respostas.

Nesse período, o cálculo de áreas já estava distante da tradição euclidiana e buscava associar a área a um número. O método utilizado era baseado, primordialmente, na manipulação de séries infinitas, como já era o caso da técnica usada por Pascal e Fermat descrita no Capítulo 6. A solução de problemas envolvendo quadraturas e equações diferenciais fez proliferar o uso dessas séries.”

Arquimedes já havia encontrado limites para a razão entre o perímetro e o diâmetro da circunferência, e outros matemáticos já tinham aproximado o valor dessa razão, mas no contexto do cálculo leibniziano se colocará o problema de admitir π como um número.”

No século XVI, alguns matemáticos, como M. Stifel, já haviam aventado a hipótese de a quadratura ser impossível. Para demonstrar isso, era necessário verificar que o perímetro não está para o diâmetro assim como um número inteiro para outro. Em meados do século XVIII essa possibilidade não surpreendia mais os matemáticos, sobretudo devido à grande variedade de séries infinitas que se relacionavam à quadratura do círculo. Se a soma dessas séries for uma quantidade racional, ela será um número inteiro ou uma fração; caso contrário, pode ser um número transcendente. Desde o século XVII eram fornecidas diversas aproximações para o valor da razão entre o diâmetro e a circunferência do círculo. Mas apenas em meados desse século os matemáticos perceberão que, ao invés de buscar o verdadeiro valor de π, poderiam mostrar que não há <verdadeiro valor>, ou que esse valor é impossível.”

A designação de número <real> começou a ser empregada por volta de 1700 para distinguir essas quantidades das negativas e imaginárias, que ainda não eram consideradas reais.”

Durante os séculos XVII e XVIII, com o estudo das funções transcendentes o logaritmo se tornou um conceito importante para esclarecer as ferramentas algébricas da análise e dar-lhes consistência.”

Clairaut seguiu a mesma linha de Fontenelle, admitindo quantidades negativas como soluções das equações. No entanto, os escritos de ambos foram atacados duramente por d’Alembert, que, na Encyclopédie, criticou radicalmente a aceitação dos números negativos, atitude que, conforme seu pensamento, partia de uma falsa metafísica. Do mesmo modo, devia se rejeitar, ainda segundo ele, a generalidade obtida pela álgebra na resolução de equações. Essa posição contradizia sua defesa do poder de generalização da álgebra no contexto da análise, mas, para d’Alembert, na resolução de equações o uso da álgebra dava lugar a uma metafísica equivocada sobre as quantidades negativas. Ou seja, podia-se aceitar a regra dos sinais nas operações, no entanto não era legítimo conceber quantidades negativas como sendo menores que zero, pois essa idéia é incorreta.

A ruptura provocada por d’Alembert devia-se às suas posições em relação ao logaritmo de números negativos, que requeria a intervenção de números imaginários. Em uma controvérsia com Euler, que descreveremos a seguir, d’Alembert acreditava que esses logaritmos deviam ser reais, o que tentava demonstrar a todo custo. Isso o fez questionar, em geral, o estatuto dos números negativos, evitando o problema de dar consistência a seus logaritmos.”

Se log(1) = 0, aceitar-se-ia log(-1) = 0?

Logo, um nº e seu oposto devem possuir o mesmo logaritmo. Leibniz tinha enunciado a regra de que a derivada de log(x) é igual a 1/x, mas afirmava que ela só era válida para valores reais de x.”

os logaritmos de números negativos devem ser imaginários, e não reais.”

notações como o símbolo (raiz de -1) só começaram a ser usadas no final do séc. XVII.”

D’Alembert registrou em 1784, em sua Encyclopédie, a importância de seu próprio trabalho nos verbetes denominados Équation e Imaginaire. Ele ressaltava ter sido pioneiro em demonstrar que qualquer quantidade imaginária, tomada à vontade, pode sempre ser reduzida à forma (e + função de raiz de -1), com e e f sendo quantidades reais.”

Euler já via a álgebra como uma ciência dos números, e não das quantidades. Para ele, todas as grandezas podiam ser expressas por números e a base da matemática devia se constituir de uma exposição clara do conceito de números e das operações. Entretanto, suas propostas não foram reconhecidas no século XVIII. Para Euler, o modo de se obter os números negativos era similar ao modo de se obter os positivos.”

Chega a ser surpreendente, logo depois de 1800, o número de trabalhos sobre a representação geométrica dos negativos e imaginários escritos por pessoas que não participavam da comunidade matemática. Um exemplo conhecido é o do dinamarquês Caspar Wessel, mas no meio francês houve também o caso do padre Adrien-Quentin Buée, que não integrava a comunidade científica.”

Outro personagem mítico é Jean-Robert Argand. Na historiografia tradicional, diz-se que se tratava de um suíço, amador em matemática, que trabalhava como guardador de livros. Mas essa versão é falsa. Hoje só se pode afirmar que, entre 1806 e 1814, um certo Argand parece ter sido um técnico que estava a par do desenvolvimento da ciência na época.”

Annales de Mathématiques Pures et Appliquées, a primeira revista especializada em matemática, editada fora de Paris por J.D. Gergonne.” “Argand publicou, ainda em 1813, nos Annales de Gergonne, o artigo Essai sur une manière de représenter les quantités imaginaires dans les constructions géométriques (Ensaio sobre uma maneira de representar as quantidades imaginárias nas construções geométricas).” “Supondo uma balança com dois pratos, A e B. Acrescentemos ao prato A as quantidades a, 2a, 3a, 4a, e assim sucessivamente, fazendo com que a balança pese para o lado do prato A. Se quisermos, podemos retirar uma quantidade a de cada vez, restabelecendo o equilíbrio. E quando chegamos a 0? Podemos continuar retirando essas quantidades? Sim, afirmava Argand; basta acrescentá-las ao prato B. Ou seja, introduz-se aqui uma noção relativa do que <retirar> significa: retirar do prato A significa acrescentar ao prato B. Desse modo, as quantidades negativas puderam deixar de ser <imaginárias> para se tornarem <relativas>. [Nasce aí] a grandeza negativa –a

Na balança de Argand, o 0 pode ser visto como ponto de apoio entre os braços. Esse 0 não é propriamente um <nada>, nem o número negativo é um <menos que nada>; o 0 é o referencial que permite a escolha (decisão) de uma orientação que tornará um número positivo ou negativo. Se considerarmos os números um agregado de coisas, como uma pluralidade, o +1 será sempre ligado a acrescentar algo mais, operação que pode ser repetida infinitas vezes, mas não o inverso. A balança de Argand consegue reverter essa dessimetria entre positivos e negativos e o 0 pode ser visto como ponto de apoio dos braços que devem se reequilibrar, à direita e à esquerda, enquanto colocamos pesos em cada um dos pratos ou deles os retiramos.” “A multiplicação deve ser entendida agora como uma rotação em sentido horário, quando se multiplica por (- raiz de -1); e anti-horário quando se multiplica por (+ raiz de -1)” “Temos então, no lugar de uma reflexão, uma rotação.”

Essas primeiras propostas sobre o fundamento dos negativos e imaginários, apresentadas por pensadores que não eram centrais na matemática, revelam que o pensamento da época tinha necessidade de se apoiar em uma epistemologia baseada em uma relação geométrica com a realidade. A tentativa de estender a análise às variáveis complexas, feita por Cauchy, trazia novos problemas e, logo, uma nova demanda quanto à definição desses números de modo formal. A matemática que se desenvolverá a partir de meados do século XIX passará a privilegiar a coerência interna dos enunciados e a definição de seus objetos prescindirá dessa conexão com o mundo externo. A concepção de objetos matemáticos plenamente abstratos é marcante no trabalho de Gauss sobre os números imaginários, o que sugerirá que esses números sejam admitidos em matemática tanto quanto os outros, não sendo mais chamados de <imaginários> e sim de <complexos>.”

Quando, em 1831, Gauss publicou o que denominava <metafísica das grandezas imaginárias>, no artigo Theoria residuorum biquadraticum (Teoria dos resíduos biquadráticos), já tinha renome. Foi o primeiro matemático influente a defender publicamente as quantidades imaginárias, desde seus trabalhos sobre a demonstração do teorema fundamental da álgebra, editado em 1799. De certo modo, pode ser visto como um homem do século XVIII, por não distinguir suas pesquisas das realizadas em física, astronomia e geodésia, além de escrever em latim. Contudo, seus temas de estudo e suas ideias sobre a matemática, sobretudo sua concepção de rigor, aproximam-no das novas tendências do século XIX.”

Na Alemanha, a influência da filosofia de Kant fazia com que os matemáticos se baseassem em concepções epistemológicas diferentes dos franceses. Como mostra Schubring, Gauss retirou boa parte de suas teorias sobre os números negativos e complexos dos trabalhos de um professor do secundário chamado W.A. Förstemann, que, por sua vez, usou os escritos sobre os números negativos que Kant havia publicado em 1763 (Attempt to introduce the conception of Negative Quantities into Philosophy).”

A aritmética generalizada, criada na Idade Moderna, era superior à geometria dos antigos, pois, partindo do conceito de inteiros absolutos, foi possível estender seus domínios passo a passo: de inteiros a frações, de números racionais a números irracionais, de positivos a negativos, de números reais a números imaginários.” “Basta lembrar que Gauss estava envolvido na invenção de uma nova geometria, não-euclidiana, que não se apóia na intuição. As restrições que os objetos matemáticos deviam sofrer para se adequarem ao espaço euclidiano deviam ser, de acordo com sua concepção, eliminadas.” “mas o passo decisivo para que o estatuto dos números complexos fosse firmemente estabelecido foi dado com a introdução da noção de vetor. Esse conceito apareceu na Inglaterra, no século XIX, nos trabalhos de W.R. Hamilton. No final desse século, o plano como conjunto de pontos e o plano como composto de vetores passaram a ser vistos como dois conceitos distintos.”

Dirichlet havia estudado em Paris nos anos 1820 e logo se tornou fundamental para a disseminação da análise e da física matemática francesas na Alemanha. Havia participado do círculo de Fourier, que era secretário-geral da Academia de Ciências, onde Dirichlet conheceu Alexander von Humboldt, que promoveria sua carreira na Alemanha. Dirichlet trabalhou em Berlim até os anos 1850 e, no início da carreira, estudou e divulgou os trabalhos de Gauss sobre a análise de Fourier, a teoria da integração e a física matemática. Na época, a Universidade de Göttingen ainda não era um centro de matemática avançado. Gauss era professor de astronomia e não se via estimulado a transmitir suas descobertas a alunos pouco preparados.” “A presença de Dirichlet, juntamente com Riemann e Dedekind, que se via como seu discípulo, mudaria a matemática praticada na Universidade de Göttingen. Os três inspiravam-se em Gauss e propunham uma visão abstrata e conceitual dessa disciplina. Apesar das diferenças entre seus campos de pesquisa, eles convergiam nas

preferências metodológicas e teóricas e podem ser considerados um grupo.”

o exemplo de Dirichlet é tido como o primeiro passo para que se percebesse a necessidade de expandir a noção de função, uma vez que, nesse caso, esta não tinha nenhuma das propriedades admitidas tacitamente como gerais: não pode ser escrita como uma expressão analítica (segundo Dirichlet); não pode ser representada por uma série de potências; e não é contínua em nenhum ponto (também não é derivável nem integrável).” “Logo, o exemplo de Dirichlet só pode ser visto como uma função se esse conceito for entendido como uma relação arbitrária entre variáveis numéricas.” “Ou seja, apesar de aquilo que ele considerava <arbitrário> ser mais um caso particular do que se entende hoje do uso desse adjetivo, parecia importante, naquele momento, afirmar a generalidade como forma de questionar a redução da prática matemática ao escopo das expressões analíticas.”

Depois da estranha função sugerida por Dirichlet, proliferarão exemplos de funções patológicas, sobretudo na segunda metade do século XIX, que incitarão uma revisão da definição de função. Um exemplo famoso desses <monstros>, como se dizia no meio, era a função construída por Weierstrass, que desafiava o senso comum da época. Por volta de 1860, Weierstrass adotava uma definição de função semelhante à de Dirichlet, mas, em 1872, apresentou à Academia de Ciências de Berlim um exemplo de função contínua não derivável em nenhum ponto. Esse tipo de função contraria nossa intuição geométrica de que uma função traçada continuamente, por um desenho a mão livre, deve ser suave, salvo em pontos excepcionais, ou seja, não pode ter bicos em absolutamente todos os seus pontos.

Diversos exemplos contra-intuitivos surgiram nesse período. Riemann foi responsável pela criação de alguns deles ao longo de seu estudo da integração; a investigação das séries trigonométricas também deu origem a funções bizarras, como a proposta por Du Bois-Reymond (que é contínua mas não pode ser desenvolvida em séries de Fourier); Hankel e Darboux construíram outras funções patológicas e investigaram suas propriedades. Antes, as funções surgiam de problemas concretos, como os de natureza física; agora vinham do interior da matemática, a partir dos esforços dos matemáticos para delimitar os novos conceitos que estavam sendo forjados e deviam servir de fundamento para a análise, como os de função, continuidade e diferenciabilidade.”

A curva de Koch é obtida quando as iterações se repetem ao infinito. No limite, chega-se a uma curva contínua em todos os pontos que não é derivável em nenhum desses pontos (ou seja, é constituída exclusivamente por bicos).” Parece uma moita – um fractal.

Antes desse momento supunha-se, de modo geral, que a reta contivesse todos os números reais. Por isso não havia preocupação em se definir esse tipo de número. Um exemplo disso foi visto anteriormente, no estudo das raízes de uma equação de grau ímpar, ao se admitir que o gráfico de uma função, positiva (para x positivo) e negativa (para x negativo), deve cortar o eixo das abscissas em um ponto que é assumido como um número real.”

Cantor concluiu que a unicidade também pode ser verificada quando a série trigonométrica deixa de ser convergente, ou deixa de representar a função, em um número finito de pontos excepcionais. Logo depois, ele refinou mais uma vez o argumento, ao perceber que sua conclusão ainda era válida mesmo que o número desses pontos excepcionais fosse infinito, desde que estivessem distribuídos sobre a reta de um modo específico. Para estudar essa distribuição dos pontos, era necessário descrever os números reais de um modo mais meticuloso e detalhado, sem supor, implicitamente e de modo vago, que esses números fossem dados pelos pontos da reta.”

A fim de caracterizar a continuidade, Dedekind julgava necessário investigar suas origens aritméticas. Foi o estudo aritmético da continuidade que levou à proposição dos chamados <cortes de Dedekind>. Ele começou por estudar as relações de ordem no conjunto dos números racionais, explicitando verdades tidas como óbvias, por exemplo: se a>b e b>c, então a>c. A partir daí, deduziu propriedades menos evidentes, como a de que há infinitos números racionais entre dois racionais distintos a e c. Dedekind notou que um racional a qualquer divide os números racionais em duas classes, A1 e A2, a primeira contendo os números menores que a; a segunda contendo os números maiores que a. Podemos concluir, assim, que qualquer número em A1 é menor do que um número em A2.”

A argumentação de Dedekind recorria aos gregos para dizer que eles já sabiam da existência de grandezas incomensuráveis. No entanto, não é possível usar a reta para definir os números aritmeticamente, pois os conceitos matemáticos não devem ser estabelecidos com base na intuição geométrica.

Logo, era necessário criar novos números, de tal forma que <o domínio descontínuo dos números racionais R possa ser tornado completo para formar um domínio contínuo>, como é o caso da linha reta. A palavra usada para designar a propriedade da reta que distingue os reais dos racionais é <continuidade>, que seria equivalente ao que chamamos de <completude>. Apesar de Dedekind afirmar que é preciso <completar> os racionais, esse termo não era empregado com sentido técnico.”

Apesar da compreensão comum da palavra <multiplicidade> estar associada à ideia de algo que é <múltiplo> (ou vários), não é nesse sentido que a estamos empregando, o que fica claro quando se fala de <uma multiplicidade>. Usamos <multiplicidade> para indicar algo que possui vários aspectos, ou várias dimensões.”

Dedekind expôs essa questão em uma correspondência com outro matemático alemão, R. Lipschitz, aluno de Dirichlet, na qual diz que a continuidade do domínio das quantidades era uma pressuposição implícita dos matemáticos, além da noção de quantidade não ter sido definida de modo preciso. Até ali, os objetos da matemática, as quantidades, existiam e a necessidade de definir sua existência não se colocava. Ao contrário dessas suposições, no texto Was Sind und was Sollen die Zahlen? (O que são e o que devem ser os números?), Dedekind insiste que o fenômeno do corte, em sua pureza lógica, não tem nenhuma semelhança com a admissão da existência de quantidades mensuráveis, uma noção que ele rejeitava veementemente.” “Retomando as duas classes A1 e A2 definidas anteriormente, ele afirma que a essência da continuidade está no fato de que todos os pontos da reta estão em uma das duas classes, de modo que se todo ponto da primeira classe está à esquerda de todo ponto da segunda classe, então existe apenas um ponto que produz essa divisão.”

Para obter um conjunto numérico que traduza fielmente a continuidade da reta, Dedekind usou um procedimento que se tornaria muito freqüente na matemática. Sempre que encontrarmos um número não-racional produzindo um corte, deveremos incluir esse número na nova categoria a ser criada, que deve admitir racionais e não-racionais. Ou seja, quando o corte é um número irracional, esse número será reunido aos racionais formando um conjunto, que gozará da propriedade de continuidade da reta, chamado de <conjunto dos números reais>.”

A principal propriedade dos números racionais, que os torna essencialmente distintos dos reais, é o fato de poderem ser enumerados. O que é isso? Eles são pontos discretos, não-imbricados entre si, logo, podemos associá-los a números naturais e contá-los. O resultado dessa contagem será um número infinito, mas ela permite enumerar os racionais.

Essa propriedade levará Cantor a concluir que o conjunto dos números racionais é infinito de uma maneira distinta do conjunto dos números reais, que não podem ser enumerados. O procedimento de <enumeração> dos elementos de um conjunto é feito por meio da associação de cada um desses elementos a um número natural; e a associação é definida como uma função de um conjunto no outro, uma correspondência biunívoca entre seus elementos.” “Uma função é dita biunívoca se diferentes elementos no seu domínio estão associados a diferentes elementos no contra-domínio e se cada elemento y no contra-domínio está associado a algum x no domínio.

Podemos pensar na relação <ser filho de> entre os conjuntos A = {alunos de uma turma} e B = {mães dos alunos}. Tal relação constitui uma função, pois não há aluno sem mãe biológica (ainda que esta não esteja mais viva) e cada aluno possui apenas uma mãe biológica. Porém, essa função não é biunívoca, pois pode haver alunos irmãos, isto é, eles terão a mesma mãe (diferentes elementos do domínio com a mesma imagem).

Considere agora a relação <ser o dobro de> entre os conjuntos A = {números naturais} e B = {números pares}. Tal relação constitui uma função biunívoca, pois ao dobrar números naturais diferentes os resultados serão diferentes e cada número par é o dobro de algum número natural (a sua metade).”

Nesse contexto surgirá a idéia de função como uma correspondência entre dois conjuntos numéricos. Se x é um elemento do conjunto dos reais, e n um elemento do conjunto dos naturais, pode ser estabelecida uma correspondência entre x e n, de modo que cada elemento de um conjunto seja associado a um, e somente um, elemento do outro? Essa é a pergunta que Cantor formula para Dedekind em 1873. Ele mesmo provou que é impossível encontrar tal correspondência, estabelecendo uma diferença fundamental entre o número de elementos (cardinalidade) do conjunto de números reais e o número de elementos do conjunto dos números naturais.

O conceito de correspondência biunívoca servirá de base para a constituição da nova teoria dos conjuntos, por volta de 1879. Dois conjuntos são ditos com a mesma <potência> se existe correspondência biunívoca entre seus elementos. Os conjuntos que possuem a mesma potência dos naturais são chamados <enumeráveis>, e os outros são <não-enumeráveis>. A resposta ao critério para que uma série trigonométrica represente uma função, fornecida por Cantor, repousa sobre essa diferenciação, e essa resposta é afirmativa no caso de a série deixar de convergir em infinitos pontos, contanto que eles formem um subconjunto enumerável da reta.”

coisas distintas são entendidas de um mesmo ponto de vista quando consideradas a partir de seus números. Nesse caso, podemos dizer que essas coisas formam um conjunto.”

O ponto de vista de Weierstrass também pode ser dito conceitual, mas de um modo diferente dos matemáticos de Göttingen, pois ele não tinha o mesmo entendimento do tipo de abstração que estava em jogo ao se definirem os conceitos básicos da análise. Cantor foi inspirado por Weierstrass, mas, como mostra Ferreirós, sua dedicação à teoria dos conjuntos levou-o a se afastar do grupo de Berlim. Ele chegou a ser criticado por Weierstrass, e o caráter abstrato de suas definições pode ser relacionado à influência crescente de Riemann e Dedekind em seus trabalhos, a partir dos anos 1880.”

A história da análise matemática é vista, freqüentemente, como uma evolução dos conceitos intuitivos usados no cálculo do século XVII às definições rigorosas propostas pelo movimento de aritmetização da análise e pela teoria dos conjuntos. Um bom exemplo é o título do livro editado por Grattan-Guinness em 1980, From Calculus to Set Theory (Do cálculo à teoria dos conjuntos).”

Na última metade do século XIX, Cantor teria introduzido o infinito na matemática, um dos ingredientes principais para o florescimento espetacular da matemática moderna. Na narrativa tradicional, a repulsa ao infinito, o horror infiniti, teria reinado entre os matemáticos desde os gregos, impedindo os avanços dessa ciência, até que Cantor venceu todas as barreiras e logrou fazer com que o infinito fosse, finalmente, aceito.” Ao preço da própria loucura…

Eu espiei, através das páginas de Russell, a doutrina dos conjuntos, a Mengenlehre, que postula e explora vastos números que um homem imortal não atingiria mesmo se exaurisse suas eternidades contando, e cujas dinastias imaginárias possuem as letras do alfabeto hebreu como cifras. Não me foi dado entrar neste delicado labirinto.” Jorge Luis Borges

Muitas narrativas do início do século XX atribuem a Cantor o papel de pai fundador da moderna teoria dos conjuntos. Como mostra Ferreirós na introdução dessa sua obra monumental sobre a história dessa teoria, em 1914 Hausdorff dedicou o primeiro manual da teoria dos conjuntos a seu criador, Cantor; e Hilbert escolheu a teoria dos conjuntos como um exemplo-chave do tipo de matemática defendida por ele, freqüentemente associada ao nome de Cantor.” “Mas muitos matemáticos e filósofos já haviam tratado rigorosa e positivamente da noção de infinito antes de Cantor. Só para dar dois exemplos na Alemanha: Dedekind, na matemática; e Hegel, na filosofia.” HM

A noção de conjunto não é uma descoberta do século XIX executada por mentes geniais que, finalmente, desvendaram o fundamento correto da matemática, tido como eternamente válido e implícito em todos os tempos, mas que vinha sendo usado por pessoas ainda despreparadas para penetrar seu misterioso labirinto, como na citação de Borges. Preferimos pensar que a matemática efetivamente praticada pelos matemáticos do século XIX partia de pressupostos que os fizeram inventar noções que participavam de uma [cosmo-]visão conceitual e abstrata, propícia ao desenvolvimento da noção de conjunto e à sua aplicação em problemas de naturezas diferentes. Esse ponto de vista, que chamamos <conjuntista>, tem sua própria história, que não se identifica com a história da teoria dos conjuntos, como procuramos mostrar aqui.” “A teoria dos conjuntos emergiu, assim, da investigação de conjuntos concretos, encarados de modo cada vez mais conceitual e abstrato. Essa história é detalhada por Ferreirós. Usamos sua distinção entre a teoria dos conjuntos, como ramo da matemática, e a abordagem conjuntista, como concepção sobre a matemática, com o fim de caracterizar a imagem da matemática que moldou também a maneira de escrever sua história até meados do século XX.”

A visão modernista da matemática prega uma renúncia ao mundo, uma vez que não se deve fazer geometria ou análise com os objetos dados pelo senso comum, mas sim construir o edifício da matemática sobre noções dotadas de uma consistência interna.”

A imagem de que a matemática é um saber axiomatizado baseado nas noções de conjunto e estrutura foi popularizada por Nicolas Bourbaki, a partir de 1939, com o início da publicação de seus Éléments des mathématiques: les structures fondamentales de l’analyse (Elementos de matemática: as estruturas fundamentais da análise). <Bourbaki> é o pseudônimo adotado por um grupo de matemáticos franceses dos anos 1930 cujo objetivo era elaborar livros atualizados sobre todos os ramos da matemática, que pudessem servir de referência para estudantes e pesquisadores. Cada um desses ramos era visto como uma investigação sobre estruturas próprias, tendo como principal ferramenta o método axiomático. Uma de suas principais contribuições foi organizar as subdisciplinas da matemática, selecionando seus conceitos básicos, suas ferramentas e seus problemas. Nesse quadro, a definição de função usada por Dedekind e Cantor será considerada insuficiente e, em seu lugar, Bourbaki proporá:

Definição bourbakista de função: Sejam E e F dois conjuntos, que podem ser distintos ou não. Uma relação entre um elemento variável x de E e um elemento variável y de F é dita uma relação funcional se, para todo x pertencente a E, existe um único y pertencente a F que possui a relação dada com x. Damos o nome função à operação que associa, desse modo, a todo elemento x, pertencente a E, o elemento y, pertencente a F que possui a relação dada com x; y será dito o valor da função no elemento x.

Em seguida, essa primeira versão será reformulada e a função será definida como um determinado subconjunto do produto cartesiano dos dois conjuntos E × F. Ou seja, (…)” Ou seja: falaram merda sem pensar, tsk. “Conjunto e variação passam a ser idéias inconciliáveis.” Não se fala mais de x nem de y.

A definição formal de função, que aprendemos na escola, segue o padrão bourbakista, o que provoca uma dificuldade de conciliação em relação aos exemplos de função que são efetivamente estudados. É difícil associar a noção dinâmica de função, que aparece em situações físicas, à definição formal, de natureza estática. Na história da física, a função serviu para estudar a variação, ou a mudança, a partir de uma escolha de variáveis relevantes em um certo fenômeno. Além dos exemplos físicos, as funções são exemplificadas por curvas ou expressões analíticas, que foram outros modos de conceber funções ao longo da história. Isso mostra que, isolada de seu contexto histórico, a definição de função e as funções que conhecemos durante nosso aprendizado de matemática não convergem. Podemos dizer que se trata de uma deficiência do ensino, porém, não fazemos essas considerações para discutir a educação.” Azar o seu, pois deviam.

Nos Elementos de matemática de Bourbaki, cada um dos livros sobre certa sub-área era introduzido por um relato sobre a evolução histórica daquele assunto até ali. Esses relatos foram reunidos em um só volume, publicado em 1960 como Éléments d’histoire des mathématiques (Elementos de história da matemática), com critérios idênticos para avaliar as idéias importantes do presente e do passado. Não foi à toa que os bourbakistas se preocuparam em escrever uma história da matemática. Alguns de seus membros mais ilustres, como André Weil e Dieudonné, publicaram escritos de história independentemente do grupo, mas reproduzindo o mesmo ponto de vista. A historiografia tradicional da matemática, muitas vezes criticada por nós, foi impulsionada pelo estilo bourbakista.” “Foi, portanto, quando a matemática passou a se enxergar como matemática <pura> que a distinção entre teoria e prática se tornou importante na escrita de sua história.” A arrogância lhe subiu a cabeça e não quis mais andar com os primos… Uma conduta irracional!

Por volta dos anos 1960, as ideias de Bourbaki contaminaram a educação, o que ajudou a cristalizar a concepção pouco, ou nada, histórica da matemática. Com o movimento da matemática moderna, que teve grande repercussão no Brasil, defendia-se que essa disciplina devia ser ensinada com os conceitos de base definidos à maneira bourbakista, que seria adaptada às nossas estruturas cognitivas. Nessa época, muitos matemáticos e educadores compartilhavam a crença de que os alunos têm de ser acostumados a pensar em termos de conjuntos e operações. Piaget chegou a estabelecer uma correspondência entre as estruturas defendidas por Bourbaki e as primeiras operações por meio das quais as crianças interagem com o mundo.” Não é o que a nossa posição nos rankings indica…

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Corry, Modern Algebra and the Rise of Mathematical Structures

Ferreirós, Labyrinth of Thought

Grattan-Guinness, The Development of the Foundations of Mathematical Analysis from Euler to Riemann

Gray, Plato’s Ghost: the Modernist Transformation of Mathematics

Sir Isaac Newton, Two Treatises of the Quadrature of Curves

Lacroix, Traité du calcul différentiel et du calcul intégral

LÍSIS OU DA AMIZADE AMOROSA

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

– Muito bem – disse-lhe eu –, mas quem é o mestre?

– É um de teus amigos e partidários, Sócrates, chama-se Miccos.

– Por Zeus! Não é um dos néscios; é um hábil sofista!

– Pois se não! Queres seguir-me e ver a gente que se encontra ali dentro?

– Sim, mas desejava antes saber que papel me caberá uma vez inserido nesta assembléia de jovens. E outro pormenor: quem é dentre os presentes o jovem mais formoso?

– Cada um de nós tem seu gosto, Sócrates.

– Mas tu, Hipótales, diz-me por fim: qual é a tua inclinação?

Neste momento Hipótales pôs-se rubro. Então continuei:

– Hipótales, filho de Jerônimo, não tenho necessidade de me confessares se amas ou não! Me consta não só que tu amas, como que amas até demasiado! É certo que em todas as demais coisas sou um inútil, sou nulo, mas deus me deu a graça de um dom particular: conhecer através de um só olhar quem ama e quem é amado.

Ao ouvir estas palavras, ruborizou-se ainda mais.

– Coisa singular! – interveio Ctesipo. – Ruborizas-te diante de Sócrates e te mostras zeloso em guardar teu segredo amoroso; mas, quando estás apenas entre nós, poucos minutos são-te o bastante para afadigar-nos de tanto que repetes o nome de teu amado. É isso mesmo o que ouviste, Sócrates: ele nos aborrece e aporrinha, de modo que nos cremos surdos ao final de suas palestras: tudo que sói ouvirmos é: LÍSIS, LÍSIS, LÍSIS…! Pior ainda: quando se excede na bebedeira – ainda ao dia seguinte, como que ouvindo os ecos da festança anterior, nossas cabeças levemente ressaqueadas ainda escutam as sílabas <Lí>, <si> e <as> reverberando no ar, tal houvera sido seu abuso ébrio da véspera! E olha, Sócrates, que nosso Hipótales mui bem dissimula sua poderosa inclinação ao expressar-se em prosa, conversando. O verdadeiro problema é quando traveste-se de poeta, inundando-nos e a nossos tímpanos com seus versos apaixonados. O que menos podemos perdoar nele é sua perícia ao fazê-lo: entoa os louvores de seu amado e dos antepassados de seu amado com voz e harmonia de se admirar! Não obstante, sabes como são os amantes, Sócrates – ele aluga nosso tempo, não podemos nos esquivar de escutá-lo quantas vezes ele achar necessário, coisa que nunca termina! Agora, ó dissimulado!, põe-se vermelho ao ouvir-te falar desta maneira.

– Ó, Ctesipo e Hipótales, não é este tal Lísis muito jovem ainda? Isto estou supondo porque jamais ouvi este nome antes, ou pelo menos não associo às feições de nenhum dos jovens já consagrados a freqüentar este tipo de assembléia.

– E não erras, Sócrates: é que é tão jovem que por ora se apresenta somente como Lísis, filho de seu pai, pois é só seu pai, atualmente, que se conhece à larga. Em que pese esse pormenor, creio que ao menos conhece-o de vista, caro Sócrates, já que tu conheces, um por um, todos os jovens atenienses!

– Agora diz-me, de quem é Lísis filho?

– Trata-se Lísis do primogênito de Demócrates, do demo de Exone.”

quero saber se conheces a linguagem que mais convém aos amantes, estejam eles desacompanhados, isto é, apenas entre amigos e confidentes, falando do amado em terceira pessoa, ou em conversação direta com o próprio amado.”

Sem dúvida ele nos canta e nos repete tudo que já se repetiu e se cantou na cidade acerca de Demócrates e acerca de Lísis, pai de Demócrates, avô deste jovem Lísis. E mais, ainda exalta em versos todos os seus antepassados conhecidos mais remotos, suas riquezas, seus corcéis infindos, suas vitórias em Delfos, no Istmo, em Neméia, nas corridas de carro e de cavalo, e noutras estórias mais velhas que o arco da roda. Ultimamente, Sócrates, cantou-nos uma peça sobre a hospitalidade com que Hércules em pessoa havia tratado e recebido a um dos avós de Lísis, que, diz a lenda, era parente do próprio glorioso filho de Zeus. O que se conta é que este antepassado de Lísis nascera do sêmen do próprio Zeus, e a fêmea eleita para pari-lo foi a filha do fundador de Exone. Todas as velhas vivas do distrito hoje repetem essas coisas; nosso diligente Hipótales pesquisa e aprende das tradições orais tudo quanto laboriosamente recita! E, claro, nos faz de cobaias, pois temos de escutá-lo em tudo!!!

– Hipótales, mas isto é extraordinário! Compões e cantas teus elogios já antes da conquista?”

– Porque, hás de convir, se acaso és bem-sucedido com tais amores, teus versos e cantos redundarão em tua própria honra, isto é, na exaltação, em última instância, do amante que teve a fortuna de conseguir tão formidável vitória. Mas se a pessoa que amas te abandona, não importa quantos e quais tenham sido os elogios que dirigiste a ela, ou melhor ainda: quanto mais celebraste suas belas qualidades, tanto mais pôr-te-ás em ridículo ao fim, porque tudo quanto fizeras terá sido inútil. Um amante mais prudente, meu querido, não celebraria seus amores antes de haver logrado o êxito, desconfiando do porvir, tanto mais quanto que os jovens formosos, quando se os exalta e se os lisonjeia, são os primeiros a se encher de presunção e vaidade.

– Sou incapaz de negá-lo.

– E quanto mais presunçosos se mostram, mais difíceis são de conquistar, ou não?

– Exato.

– Que juízo tu mesmo atribuirias a um caçador que espantasse assim a caça, impossibilitando-se a si mesmo de apanhá-la?

– É evidente que estaríamos falando aqui de um néscio.

– Seria uma péssima política, ao invés de atrair a pessoa amada, espantá-la com palavras e canções apologéticas. Que dizes disto?

– Que essa é, idem, minha própria opinião.”

– …se pudesses conseguir que teu querido Lísis conversasse comigo, quiçá poderia eu dar-te um exemplo da classe de conversação que deverias ter com ele, em detrimento destas odes e hinos que, ao que dizem, diriges-lhe.

– Nada mais fácil; não tens mais que entrar naquele recinto com Ctesipo, sentar-te e inserir-te na conversação. E como hoje se celebra a festa de Hermes, e tanto os jovens como os adultos reúnem-se neste mesmo salão, Lísis não deixará de aproximar-se de ti. Se isso não se der, ainda assim digo que Lísis é muito chegado de Ctesipo, por causa de seu primo Menexeno, que é o melhor amigo daquele, de forma que, se tu não conseguires chamar sua atenção ao entrar, Menexeno o chamará e te o apresentará sem falta, sendo isto coisa fácil para ele.”

Hipótales, notando que o grupo ao nosso redor se avolumava, veio, mas pôs-se detrás de vários outros jovens, ficando de pé e numa posição em que não podia ser visto por Lísis, temendo, afinal, importuná-lo. Nesta atitude passiva foi que ele escutou toda nossa palestra.”

– Poupar-me-ei o trabalho de perguntar-vos qual dos dois é mais rico, porque sois amigos. Estou certo?…

– Sim – disseram ambos ao mesmo tempo.

– …E entre amigos, diz-se que todos os bens são em comum, de sorte que não há qualquer diferença entre vós em termos de riqueza, se é que sois amigos, como dizeis.”

– Eis aí uma coisa singular! Ser livre e ver-se governado por um escravo! Que faz teu pedagogo para governar-te?

– Me leva à casa do meu professor.

– E teus professores, mandam em ti por igual?

– Sim, e bastante.

– Eis um prodígio: um homem rodeado de professores, mestres e pedagogos pela vontade do próprio pai! Mas quando voltas a tua casa e estás com tua mãe, ela te deixa fazer o que tu queres fazer (pois que isso é a prerrogativa dos homens felizes)? P.ex., deixa que tu remexas a lã e toque o tear enquanto ela tece, ou será que ela te proíbe de tocar a lançadeira, a carda e os demais instrumentos de seu trabalho?

Lísis pôs-se a rir:

– Por Zeus, Sócrates! Não só me proíbe de todas estas coisas como me dá uma palmada na mão se me aventuro a tocar em seus utensílios!”

– Diz-me então, Menexeno: quando um homem ama a outro, qual dos dois se faz amigo do outro? O que ama se faz amigo da pessoa amada, ou a pessoa amada se faz amigo do que ama, ou não há entre eles diferença alguma?

– Nenhuma, a meu ver.

– Que queres dizer com isso? Ambos são amigos, quando só um ama?

– Sim, como disse, ao que me parece…

– Mas não pode suceder que o homem que ama a outro não seja correspondido?!”

– E então, qual dos dois é o amigo? É o homem que ama a outro, seja ou não correspondido, seja ou não aborrecido pelo amado? É o homem que é amado? Ou será que não seria nem o primeiro nem o segundo, posto que não se amam ambos reciprocamente?

– Nem um, nem outro, ao que me parece.

– Mas então chegamos agora a uma opinião diametralmente oposta à precedente! Porque, depois de havermos sustentado que se um dos dois amasse o outro ambos seriam amigos, dizemos agora, pelo contrário, que não há amigos ali onde a amizade não é recíproca!”

– Neste caso, Menexeno, o que é amado é amigo do que ama, seja que lhe retribua o sentimento ou seja que menospreze-o por completo, como as crianças que não só não se afeiçoam a seus pais como até têm aversão não só às lições e advertências destes, mas, de forma até mais pronunciada, quando estes tentam manifestar-lhes carinho!

– Estou de acordo.

– Logo, o amigo não é aquele que ama senão aquele que é amado.

– Sim, conforme.

– Por este princípio, é inimigo aquele que é o autor da aversão, e não aquele que é repelido (a vítima da paixão invertida)?

– Assim parece.

– Neste conceito, muitos são amados por seus inimigos e rejeitados pelos próprios amigos, posto que o amigo é aquele que é amado, e não aquele que ama. Mas isso me parece absurdo, Menexeno, senão impossível! Como é que alguém se faz <amigo de seu inimigo e inimigo de seu amigo>?

– Confesso que estou confuso, Sócrates.

– Se tal coisa é inadmissível, quem ama é naturalmente amigo do que é amado?

– Sim, sim, estou de acordo.

– E o que desdenha é, então, inimigo do que é desdenhado?

– Necessariamente!

– Ah, olha-nos aqui de novo enredados na mesma opinião que manifestáramos primeiro! Muitos são amigos dos que não são seus amigos, e muitas vezes dos seus próprios inimigos, quando amam quem não só não os ama de volta como até os aborrece! Ademais, muitas vezes somos inimigos de pessoas que não são inimigos nossos, e que quiçá sejam até nossos amigos, como quando desdenhamos quem nunca nos desdenha, e quem sabe até nos ame!

– É provável que raciocines de forma correta, Sócrates.

– Se o amigo não é aquele que ama, nem o que é amado, nem tampouco o homem que ama e é amado ao mesmo tempo, que é deduzimos de tudo isto?

Desejando dar uma trégua a Menexeno, encantado como estava eu com o desejo do jovem Lísis de instruir-se, continuei o diálogo, agora me dirigindo a este último.”

Mais vale voltar ao que os poetas nos franquearam, porque os poetas, até certo ponto, são nossos pais e nossos guias quanto à sabedoria. Talvez não tenham falado em vão quando disseram, sobre a amizade, que é deus mesmo quem constrói as amizades e que faz uns atraírem-se pelos outros. (…) Um deus conduz o semelhante a seu semelhante – Empédocles.”

só os homens de bem são semelhantes aos homens de bem e, portanto, podem ser amigos entre si, ao passo que os maus, ao contrário do que muitos pensam, não são semelhantes de maneira alguma entre si, nem um para com o outro nas relações, nem mesmo quanto a si próprios – isto é, são caracteres altamente mutáveis e variáveis, incapazes de manter uma coerência interna, sempre contradizendo a si próprios. Neste caso não seria surpresa que o que é diferente de si mesmo não se pareça nunca com nada mais no universo, não sendo, desta maneira, amigo de nada nem ninguém.”

E para quê seres semelhantes haveriam de aproximar-se uns dos outros, se não haveriam de tirar dessa aproximação proveito algum? E o homem que não tem necessidade de buscar (uma vez que já é auto-suficiente, i.e., amigo de si mesmo), o homem que não é amado (porque os outros homens de bem são também amigos de si próprios e auto-suficientes), não será ele jamais um amigo de quem quer que seja?”

– …mas discordas do que assentei há pouco, que o bom se basta a si mesmo, enquanto ainda for <bem>?

– Não discordo de forma alguma, Sócrates.

– Mas o que se basta a si mesmo, tem necessidade de alguém mais ou não?

– Não.

– Não tendo necessidade de ninguém, não buscará ninguém!

– Correto.

– Se não busca ninguém, não ama ninguém.

– Com certeza que não.

– E se não ama ninguém, ele mesmo jamais será amado!

– Creio que jamais será amado.

– Como os bons podem ser amigos dos bons, quando, estando uns separados dos outros por distâncias infinitas no que concerne à alma, não se desejam mutuamente, uma vez que se bastam a si próprios, e que estando uns próximos dos outros fisicamente, nem sequer consideram-se como mutuamente úteis? Qual seria o meio de que tais pessoas se pudessem estimar entre elas mesmas, aproximando-se não só nos corpos mas também nas almas?

– É impossível!

– Mas se não se estimam, então nunca haveria amizade?!

– Dizes a verdade.

– Olha, Lísias, parece que tudo que concluímos não passa de mal-entendido e fumaça! Nada do que concluímos pode estar certo!

– Como assim?

– Ouvi, certa ocasião, as seguintes palavras, que agora se me ocorrem: o semelhante é o mais hostil ao próprio semelhante; os homens de bem os mais hostis aos demais homens de bem. Quem mo disse isso? Não me lembro, mas o que lembro é que para justificar-se ele até citou uns versos de Hesíodo: O oleiro é, por inveja, inimigo do oleiro; o cantor do cantor; e o pobre do pobre.¹ Este homem ainda acrescentava: Em todas as coisas os seres que mais se parecem são os mais invejosos, rancorosos e hostis um para com o outro; quanto aos que mais se distinguem e diferenciam, são necessariamente mais amigos. O pobre é amigo do rico, o débil do forte, porque uns esperam socorro dos outros, como o doente espera do médico. O ignorante, pela mesma razão, busca e ama ao sábio. E essa pessoa continuava a sustentar sua tese com uma abundância de razões, alegando que tão distante está o semelhante de amar o semelhante quanto próximo está o semelhante de odiar o semelhante; e como está patente que o odeia, aí vês. Enfim, continuava este homem: Todo ser deseja o oposto a sua própria natureza. Assim, o seco é amigo do úmido, o frio do quente, o amargo do doce, o sensível do obtuso, o vazio do cheio, o cheio do vazio, e assim por diante.

¹ Os trabalhos e os dias, 25

Seria o ódio amigo da amizade e a amizade amiga do ódio?”

– Minha impressão é que se a dessemelhança engendrasse a amizade, estas coisas contrárias deveriam ser realmente amigas!

– É necessário.

– Por conseguinte, o semelhante não é amigo do semelhante, nem o contrário amigo do contrário!

– Não é mesmo possível que assim fosse.”

– …Enfim, digo-te que o bom é o belo. E tu, que pensas?

– O mesmo que tu, Sócrates.

– Como que por adivinhação, digo ainda: o que não é nem bom nem mau, é amigo do bom e do belo. Escuta agora sobre o quê fundo tal conjetura. Parece-me que existem três gêneros: o bom; e o mau, naturalmente; mas, por último, aquilo que não é nem bom nem mau. (…) Nossas indagações precedentes, se um tanto inócuas, me levaram pelo menos a intuir que o bom não pode ser amigo do bom, nem o mau do mau, nem o bom do mau. Resta, então, para que a amizade seja possível entre dois gêneros, que o que não é nem bom nem mau seja o amigo do bom, ou de uma coisa que se lhe aproxime, porque, com respeito ao mau, nunca poderia ele concitar à amizade.

– Correto.

– O semelhante, como já estabelecemos, não pode ser, tampouco, o amigo do semelhante, não te lembras?

– Perfeitamente.

– E o que não é nem bom nem mau, não amará ele, tampouco, aquilo que se assemelha consigo.

– De fato, seria impossível.

– Logo, o que não é nem bom nem mau não pode amar nada a não ser o bom.”

– Não estás conforme que, por conta da doença, o corpo está de alguma forma obrigado a buscar e a amar a medicina?

– Sim.

– Logo, o que não é nem mau nem bom é amigo do que é bom, justamente pela existência do que é mau.

– Faz sentido.”

– Se se tingissem de branco teus cabelos, que são louros, seriam brancos em realidade ou em aparência?

– Em aparência.

– E no entanto, a brancura não se encontraria nos cabelos?

– Sim.

– E nem por isto seriam teus cabelos brancos de verdade! De sorte que, neste caso, apesar da brancura que neles se manifestasse, não seriam nem brancos nem negros.

– Isso é evidente.

– Mas, amigo, quando a velhice os houver tornado deste mesmo tom, não serão de fato semelhantes ao que se verá na aparência, isto é, seus fios de cabelo não serão na aparência e na verdade brancos?”

quando uma coisa se encontra com outra coisa, faz-se ela a mesma que esta outra coisa?”

– Deriva daí que, apesar da presença do mal, o que não é mau nem bom não se faz mau, e isso justamente porque a presença mesma do mal faz este intermediário desejar com afinco alcançar o bem; se por acidente o que não é bom nem mau se faz com efeito mau, a presença do mal o afastará naturalmente do desejo e do amor do bem, posto que, neste caso excepcional, já não é um ser que não era bom nem mau, mas um ser unicamente mau, e incapaz de amar o bem.

– Sim, Sócrates.

– Continuando meu raciocínio, poderíamos dizer que os que são já sábios, sejam deuses ou homens, não podem, com sinceridade, amar a sabedoria, assim como não podem amá-la aqueles que, em virtude de ignorarem completamente o que é o bem, acabaram se tornando maus, porque ignorantes e maus, por igual, detestam e abominam a sabedoria. Restam, então, aqueles que, não se encontrando absolutamente isentos nem do mal nem da ignorância, não foram, contudo, pervertidos até o ponto de perderem a consciência de seu estado algo faltoso, havendo nestes seres a capacidade de buscar se melhorarem.”

Creio que agora, Lísias e Menexeno, descobrimos de forma mais clara que antes no que consiste o ser amigo e o não o ser.”

– Ah, Lísis e Menexeno! Grande risco corremos de que o dito até aqui não seja mais que névoa e engodo.

– Mas por quê? – me perguntou Menexeno.

– Temo que caímos de novo no abismo do ridículo tergiversando sobre a amizade, como sucede aos charlatães!

– Como isso se deu?

– Assim: não é verdade que quem ama, ama alguma coisa? Ou não?

– Ama alguma coisa, Sócrates.

– Ama-o gratuitamente, ou ama-o por alguma coisa e com vistas a alguma coisa?

– Ama porque tem alguma razão para amar.”

– O doente, como já dissemos, é amigo do médico. Não é assim?

– Sim.

– Se ama o médico, é por causa da doença e porque busca a saúde.

– Sim.

– Mas a doença é um mal.

– E como não seria?

– E a saúde, é um bem ou um mal? Ou seria um intermediário entre os dois?

– Um bem, em absoluto.

– É, já concluímos antes que o corpo é que é a instância intermediária: nem bom e nem mau por si mesmo, ele ama a medicina por conta da doença de que padece, i.e., por causa do mal; enquanto que a medicina é um bem, e qualquer um que esteja na condição do corpo ama a medicina, invariavelmente, porque deseja ser são. Concordas mesmo que a saúde seja um bem?!

– Acabaste de perguntar a mesma coisa e eu acabei de dizer que sim, Sócrates!

– Pois bem: e a saúde, é amiga ou inimiga?

– Do corpo? Amiga.

– E a enfermidade, é inimiga sua?

– Com certeza.

– Logo, o que em si não é nem mau nem bom ama o que é bom, por causa do que é mau, e justamente porque busca e tem um afã pelo que é bom!

– Estiveste perfeito em tuas palavras, Sócrates.”

Prosseguindo assim indefinidamente, é necessário que cheguemos a um princípio que não suponha nenhuma outra coisa amada, isto é, a um princípio primeiro da amizade, o mesmo em virtude do qual dizemos amar todas as demais coisas.” “Todas as demais coisas que amamos em virtude deste primeiro princípio não passam de ilusão, a dizer verdade. Não são mais que imagens; o primeiro princípio mesmo é que deve ser o único e mais importante dos bens, aquilo que amamos por trás e acima de tudo.”

– …nada no mundo é mais amigo que este princípio, que rege todas as amizades existentes.

– É bastante provável.

– Por conseguinte, o verdadeiro amigo jamais é amado por causa de outro amigo. Antes, teria de dar-se o contrário.

– Isso é uma conseqüência lógica imprescindível.”

– Se o mal desse origem à amizade, uma vez destruído o mal, a amizade não poderia existir, porque quando a causa cessa, é impossível que o efeito perdure.

– Exato.”

De duas, uma: Se o conveniente difere do semelhante, parece-me, Lísis e Menexeno, que finalmente encontramos o discurso final sobre a amizade, o santo graal neste tema. Mas se o conveniente e o semelhante resultam ser, afinal, uma mesma coisa, não nos será nada simples nos subtrairmos à terrível objeção de que o semelhante é inútil ao semelhante, uma vez que idênticos não se interessam um pelo outro; e, além disso, defender, a partir daí, que o amigo não é útil seria um absurdo completo, embora fosse a consequência mais lógica das premissas! Quereis, para não alucinarmos com nossos próprios discursos disparatados, que demos por consumado de uma vez por todas que o conveniente e o semelhante são, pois, diferentes entre si?”

– Mas quê! Se o bom e conveniente não são senão uma mesma coisa, só o bom pode ser amigo do bom!

– Decerto.

– E creio que já nos cansamos de refutar esta possibilidade, não é assim?

– Sim.

– Então, para quê continuar? Não está claro que não chegaremos a lugar nenhum?

Quando já nos íamos, disse a Lísis e Menexeno que ao que parece passamos por uns patetas e caímos no maior ridículo, eles e eu, naquela reunião anagógica. Velho como já sou, isto é vergonhoso sobretudo para mim! Porque todos os ouvintes de nosso diálogo com certeza dirão: estes três consideram-se amigos – mas não chegaram a nenhuma conclusão sobre o quê é um amigo!