FIORIN, A PRAGMÁTICA & O LOUCO BRASIL DOS ANOS 90

Certa ocasião, perguntaram a Sérgio Buarque de Holanda se o Chico Buarque era filho dele e ele respondeu:

– Não, o Chico não é meu filho, eu é que sou pai dele.”

A Pragmática é a ciência do uso e da prática lingüísticas.

Papa(i)s da Pragmática: John Austin & Paul Grice

Você tem fogo, Prometeu?

Você tem promessa, candidato?

ENUNCIAÇÕES

a) dêiticas: eu, tu, aqui, lá, este, agora, ontem

Um dêitico só pode ser entendido dentro da situação de comunicação e, quando aparece, num texto escrito, a situação enunciativa deve ser explicitada.”

b) performativas: juro que, peço desculpas

c) conectivas: mas, porque

d) negativas: não gosto, adoro! (pseudo-paradoxo); ruim não, péssimo! (enfático)…

e) adverbiais: sinceramente, infelizmente, francamente

INFERÊNCIAS

A frase é um fato lingüístico caracterizado por uma estrutura sintática e uma significação calculada com base na significação das palavras que a compõem, enquanto o enunciado é uma frase a que se acrescem as informações retiradas da situação em que é produzida. A mesma frase pode estar vinculada a diferentes enunciados.”

INSTRUÇÕES

Nos anos 1970, a Pragmática era considerada por muitos a <lata de lixo da Linguística>” BENZADEUS

PRAGMÁTICA VS. SEMÂNTICA OU PRAGMÁTICA & SEMÂNTICA

um enunciado será performativo quando puder transformar-se em outro enunciado que tenha um verbo performativo na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa. Os enunciados que não contêm um verbo performativo na pessoa, no tempo, no modo e na voz indicados serão chamados performativos implícitos”

Vai me perdoar, mas você está demitido – é para o seu bem!!!

Austin: “quando se diz algo, realizam-se 3 atos: o ato locucionário (ou locucional), o ato ilocucionário (ou ilocucional) e o ato perlocucionário (ou perlocucional).”

ato locucionário: dizer (1)

a. iloc.: realização (interna) (2)

a. perloc.: realização (efeito, impacto sobre o interlocutor/ouvinte) (3)

(1) Digo isto; (2) isto é uma advertência (dou sinais suficientes para que você perceba); (3) você entendeu (captou) a advertência, seja lá como foi que reagiu.

Lembrar da “marcação” funcionalista: o ato ilocucional está marcado (sensível na língua, ato de comunicação), o ato perlocucional não.

a t o d e s c r i a t i v o

Searle: reformulação: ato ilocucional + conteúdo proposicional

atos de fala indiretos

súcubente de seaman de naranja

suckumbent for leather

– E esse cigarro aí, cumpadi…

– É um Camel com 0.8mg de alcatrão, conhece?

teoria interacionista

Na sociedade brasileira da primeira metade do séc. XX, como se lê nos manuais de etiqueta, não se agradecia aos criados, aos garçons, etc. Hoje, agradece-se a eles por qualquer serviço que nos prestam. (…) Por outro lado, fórmulas religiosas de agradecimento, como Que Deus lhe dê em dobro ou Que Deus lhe abençoe só subsistem nas áreas menos modernas do país.”

Austin mostrou que dizer é fazer; os interacionistas, na fórmula de Orecchioni, mostram que dizer é fazer fazer. Isso significa que os atos de linguagem têm um efeito muito grande nas relações interpessoais, o que abriu um novo campo para a Linguística, o estudo da polidez lingüística.” Infelizmente já tiramos o chapéu para o próximo cabide humano que nos “força” a falar e gesticular: como sinaleiros de trânsito que alternam do vermelho para o verde.

O mero caráter da ode “c” e a e lhe a “dá”.

OLHO NO LINCEEEEE

ÉÉÉ

do camisa 10 foi foi foi

ERATÓSTENES

OLÊ OLÊ OLÁ

A LINGUAGEM AOS 60 VAI VIRÁ

Essas regras de polidez articulam-se sobre a teoria das faces, desenvolvida por Brown e Levinson, na seqüência dos trabalhos de Goffman. Face é o amor-próprio do sujeito.”

Eu pequei contra o Espírito Santo Comteano

O Campeão Absoluto Nietzsche-ano

EcceHomodoAno2.018

atualização antivirótica

Acorda.

No aeroporto de Viracopos

Todo re-virado

no Jirinoraiya

dará, faz-se

AO DEUS DAR-A-FACE

aqui se face aqui se apaga

À qui? Ao cu de praxe

É que se mete a vara

O conselheiro teclava em seu ordenador pedindo ameaças gentis.

Faça uma ordem de pizza agora!

Sua exigência foi atendida com sucesso.

Dando conselhos a esmo.

Deposite sua proibição na caixinha de recepções januárias.

não se critica um trabalho, sem fazer uma série de preliminares que mostram que ele está bom.” Aos mal-educados basta argumentar “eu não nasci inclinado para essas falas rituais”. Isso salva a falta de educação: eu sou assim, não escolhi ser assim, os padrões impostos pela sociedade ferem minha espontaneidade que me é cara, amem-me!

tenta-se evitar o excesso de atos valorizadores da face, pois o falante poderia parecer hipócrita ou bajulador, bem como a falta de minimização de atos ameaçadores da face, pois o falante poderia parecer grosseiro.”

UMA CONVERSA MUDERNA

– Ou, você tem que mudar esse seu jeito!…

– Eu tô logada, véi!

quem diz a verdade só chama a-tensão

divulga fatos

Paulo o espalhafatoso

testemunha de Jeovaia

testículo de Jeová

DATAÇÃO DE CARBONO-14 DO TEXTO ELEVADA, QUANDO NÃO SE INCORRIA EM RISCO DE SER APEDREJADO PELOS “HOMENS DE BEM” AO ILUSTRAR CONTEÚDOS IMPLÍCITOS DESTA FORMA: “Quando se sabe que o PT é um partido que denuncia sistematicamente a corrupção nos diversos escalões do governo e se diz Certos deputados do PT são corruptos, o que se está significando é que o PT é um partido como qualquer outro e, portanto, não se pode considerar ao abrigo da corrupção.” “P.ex., é uma informação banal no Brasil dizer que o PT não ocupa a Presidência da República nem ministérios.”

versão pura 10ntada e recatada

O replicante 10rd

NEOLOGISMAR É A ULTRATRANSMITIDA MISSÃO: “Grice não usa o termo implicação, porque a noção de implicatura é mais ampla do que a de implicação, já que esta só pode ser provocada por uma expressão lingüística, enquanto aquela pode ser suscitada por expressões lingüísticas e pelo contexto ou pelos conhecimentos prévios do falante.”

LOGO SE ESTARÁ SUSPEITANDO DA PRÓPRIA SOMBRA CAÇANDO SUBENTENDIDOS A CADA VÍRGULA HONESTA (O SEGUNDO GRAU DO PARENTESCO DA SENHORA DESCONFIANÇA): “Em Ele é aluno de Letras, mas sabe escrever, há uma implicatura desencadeada pela conexão entre as duas orações com a conjunção mas: os alunos de Letras não sabem escrever. É uma implicatura convencional. No enunciado A defesa da tese de Mário correu bem, não o reprovaram, há uma implicatura de que a tese não presta. É uma implicatura conversacional, pois não advém da significação de nenhuma palavra da frase, mas dos conhecimentos prévios do interlocutor. No caso, sabe-se que dificilmente uma tese é reprovada, portanto a menção ao fato de que ele não foi reprovado significa que o falante está dizendo, implicitamente, que a tese não é boa.”

MENTE POLUÍDA (VIRGENS DA ACADEMIA): “Quando se diz André vai encontrar uma mulher à noite, a implicatura é que a mulher com quem vai encontrar-se não é sua mãe, sua irmã, sua esposa, etc., mas que esse encontro é de natureza sexual.”

princípio da cooperação

penso nos esquizos que não sabem conversar (T. & M.)

máximas conversacionais multivetoriais

what about nonsense¿

Samuel boquete

uniconversascórniocórneasfecheosolhosclimatempo

O que comprova a existência da máxima da qualidade é a impossibilidade de produzir enunciados como Comprei um revólver, mas não acredito que o tenha comprado.”

Quando no conto <A negrinha>, de Monteiro Lobato, o narrador diz A excelente Dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças, não se pode inferir a implicatura de que ele acredite que Dona Inácia era excelente, pois a ironia obriga a entender o contrário do que foi dito.”

Quando um falante diz A mulher de João o está traindo e o interlocutor percebe que João está ouvindo a conversa e diz Onde você comprou esta camisa?, a resposta não é incoerente, mas apresenta a implicatura Mudemos de assunto.”

Gosto de dois tipos de homens: os que têm bigode e os que não têm.”

Mae West

Quando dois amigos estão discutindo se vão a um jogo de futebol ou a um restaurante e um deles diz O Morumbi é muito desconfortável, infere-se que ele está dizendo que não quer ir ao jogo.”

O discurso poético cultiva a ambivalência, o discurso eufêmico infringe a máxima da quantidade, o discurso irônico viola a máxima da qualidade.”

Não se pode ser irônico o tempo todo, ou se pode?

Pode-se ser poeta a noite toda.

Principalmente dormindo.

eu-feminado à flor da pele

Quando se toma o exemplo clássico Pedro parou de fumar, nota-se que há um conteúdo explícito, Pedro não fuma atualmente, e dois conteúdos implícitos, Pedro fumava antes e Que isso sirva de exemplo para você.”

Quando alguém diz Minha mulher gastou neste ano 100 mil reais, o verdadeiro objeto do dizer não é Sou casado (pressuposto), mas Gastou neste ano 100 mil reais (posto).”

Enquanto a Linguística que tem por objeto o sistema ou o conhecimento dirá que a célebre frase de Chomsky As verdes idéias incolores dormem furiosamente é agramatical, a Pragmática afirmará que, num contexto em que se discorre sobre as idéias dos ecologistas (verdes idéias) que perderam o apelo que tinham (incolores), mas que continuam a atuar ativamente no substrato da sociedade (dormem furiosamente), ela pode perfeitamente ser usada, pois a Pragmática explica o uso real.”

APROFUNDAMENTO

Austin – Quando dizer é fazer. Palavra e ação, 1990.

Ducrot – Princípios de semântica lingüística: dizer e não dizer, 1977. (considerada uma obra clássica da pré-Pragmática)

Grice – Lógica e conversação (capítulo, disponível em diferentes coletâneas)

Ottoni – Visão performativa da linguagem, 1998. (revisão de Austin e seu legado)

Searle – Os actos de fala: um ensaio de filosofia da linguagem, 1991.

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O HISTÓRICO DA LINGUÍSTICA FUNCIONALISTA DE FURTADO DA CUNHA A PARTIR DA ESCOLA AMERICANA

Sankoff & Brown – The Origins of Syntax in Discourse (1976)

“ainda não há uma teoria gramatical funcionalista complete e unificada”

CLÁUSULAS PASSIVAS NO INGLÊS (seu entendimento ajudou a constituir um novo conceito de transitividade)

Thompson & Hopper – Transivity in gramar and discourse (1980)

OS DESERTORES

Ex-cognitivistas: Langacker, Lakoff

Ex-psicolinguistas: Tomasello, Taylor

BRASIL (ANOS 80)

Ilari – Perspectiva funcional da frase portuguesa (1987)

SINTAGMAS NOMINAIS

a) dados (cláusula anterior)

b) novos

c) disponíveis (referente contextual único possível – ex: nomes próprios ou “sol”, “lua”…)

d) inferíveis (conclusões lógicas, normalmente referenciadas por “o(a)(s)” ao invés de um, uma, uns, etc. Ex: ela correu atrás do ônibus e gritou para o motorista)

ICONICIDADE

A correlação natural e motivada entre forma e função (conteúdo)

Chomsky: “Quereis saber como funciona a língua? Investigai a mente humana! Gradue-se em neurociência!”

Funcionalistas: “Quereis saber como funciona a mente humana? Investigai a língua! Etnografe adoidado!”

P. 6: A partícula entretanto mudou de função no Português.

significado original: mientras tanto

Todo esse lenga-lenga ao meu ver só ratifica Saussure.

“erosão por atrito fonológico”

Os 3 sub-princípios do princípio da iconicidade:

a) da quantidade

“a complexidade de pensamento tende a refletir-se na complexidade de expressão” (Slobin, 1980): brecha: aqui as palavras tendem a AUMENTAR com o tempo (hmmm…) ex: quebra-molas, pneumático, etc.

b) da integração

     semântica e sintaxe refletem uma à outra

     ex: a aposição ou supressão de “:” ou “-“ num texto implicam em mudanças verbais.

c) de ordenação seqüencial

     c1. ordenação linear

            critério: tempo

     c2. ordenação tópica

            “o melhor fica pro final”

            ex: De todas as meninas da sala, a mais bonita é Fulana.

                  e não:

                Fulana é a mais bonita dentre todas as meninas da sala. (onde a ênfase estaria no sujeito, que seria uma informação velha)

MARCAÇÃO

“quando querem ser expressivos, os falantes usam formas marcadas.”

 

TRANSITIVIDADE

Há mais entre o céu (verbo transitivo) e a terra (verbo intransitivo) do que pode julgar vossa vã filosofia (gramática).

“orações com alta transitividade assinalam porções centrais do texto, correspondentes à figura, enquanto orações com baixa transitividade marcam as porções periféricas, correspondentes ao fundo.”

 

GRAMATICALIZAÇÃO

qua processus

 

“processo unidirecional”

substantivos e verbos tendem a se transformar em conjunções

 

     ex: quer chova, quer faça sol…

analogamente, nomes e verbos em morfemas

     ex: tranqüila mente tranqüilamente

           haverei de amar hei de amar amarei

A VISÃO FUNCIONALISTA DA LINGUAGEM NO SÉC. XX – Martelotta & Kenedy

Círculo Linguístico de Prag[m]a[tismo] X Escola de Copenhague

RAÍZES DO ESTRUTURALISMO-FUNCIONALISMO: Gestalt (Husserl, Bühler)

LÍNGUA & FALA: O dilema de Saussure

função comunicativa – análise das ambigüidades e subentendidos

prioridade aos elementos (x categorias/holismo metodológico)

A Dinamarca tem forte tradição nos estudos da linguagem, com lingüistas como Rask, Madvig, Noreen e Jespersen, mas foi com Hjelmslev, Uldall e, anteriormente, Brøndal que a lingüística se tornou mais formal e abstrata.” “Hjelmslev propõe que a língua não deve ser vista como o reflexo de um conjunto de fatos não lingüísticos, mas como uma <unidade encerrada em si mesma, como uma estrutura sui generis> (Hjelmslev, 1975:3).”

THE ANTI-CHOMSKY REACTION: “O pólo formalista teve sua mais forte expressão no descritivismo americano (Bloomfield, Trager, Bloch, Harris, Fries), mas foi aplicado mais rigorosamente nos sucessivos modelos de gerativismo. Embora os estudos lingüísticos tenham sido dominados pelo gerativismo, que vem mantendo uma forte tradição até os dias de hoje, o pólo funcionalista permaneceu vigoroso. Abordagens gerativas alternativas, como a semântica gerativa, ou a gramática dos casos podem ser vistas como um esforço, dentro do paradigma formalista, de questionar algumas das propostas desse paradigma, através de um ângulo semântico-funcionalista”

estilística, o estudo dos elementos afetivos da linguagem”

Martinet e Jakobson são os dois herdeiros mais importantes, no pensamento lingüístico internacional, da Escola de Praga.”

Franz Boas não influenciou apenas o descritivismo, principal tendência lingüística dos EUA, mas também a tradição etnolingüística de Sapir e Whorf, assim como os trabalhos de Bolinger, Kuno, Del Himes, Labov e muitos outros etno e sociolingüistas.”

a sintaxe não é autônoma, mas subordinada a mecanismos semânticos”

retorno do foco à mudança

A teoria da gramaticalização de Elizabeth Closs Traugott (está mais para uma teoria da oralização, though…)

O termo funcionalismo ganhou força nos Estados Unidos a partir da década de 70, passando a servir de rótulo para o trabalho de lingüistas como Paul Hopper, Sandra Thompson e Talmy Givón

Trabalho seminal do funcionalismo estadunidense: The origins of syntax in discourse: a case study of Tok Pisin relatives, publicado por Gillian Sankoff e Penelope Brown em 1976”

From discourse to syntax: grammar as a processing strategy (Givón), texto programático da lingüística funcional, explicitamente antigerativista, que afirma que a sintaxe existe para desempenhar uma certa função, e é esta função que determina a sua maneira de ser.”

F” DE FRACO: “os três dogmas centrais da lingüística estrutural: a arbitrariedade do signo lingüístico, a idealização relacionada à distinção entre langue e parole e a rígida divisão entre diacronia e sincronia.” Os dois últimos o próprio Saussure negaria, mas o primeiro é concreto e irrefutável.

O antônimo de arbitrário é icônico.

A motivação morfológica de Ullman (p. 8): é só pensar no paradigma saussureano.

Para o trabalho do lingüista [Saussure], importavam somente os fatos relativos à langue, sendo dispensada atenção diminuta à fala individual. Tal perspectiva muito pouco difere da lingüística gerativista, no que se refere à distinção entre competence e performance. Ambas as concepções priorizam a língua em detrimento da fala, considerando esta não mais que mera manifestação das possibilidades de um sistema independente.”

nível gerador

Quanto retrocesso!

Nota digna de nota:crioulos, línguas que se desenvolveram historicamente de um pidgin. Em poucas palavras, o pidgin é uma forma relativamente simplificada de falar que se desenvolveu através do contato de grupos lingüísticos heterogêneos. Ex: Tok Pisin (língua de Papua-Nova Guiné, Ilha ao Norte da Austrália).”

PARMÊNIDES II: “DA NATUREZA” (O DÉJÀ-VU DO UM & CONSIDERAÇÕES LINGÜÍSTICAS)

Edição do texto grego, tradução e comentários por Fernando Santoro (UFRJ)

Projeto OUSIA

2009

PREFÁCIO

Parm. (Pm.) inaugura a Filosofia como Ontologia. Por isso, é o filósofo que lança, em palavras e pensamentos, as bases que sempre voltarão a servir de questionamento ao longo de toda a metafísica ocidental.”

Platão (Pt.) vai dedicar ao Poema 2 dos seus mais importantes diálogos, o Sofista e Parmênides (…) ainda vai citá-lo em outros 2, o Banquete e o Teeteto. Aristóteles (A.), por sua vez, dedica à discussão com o Eleata o 1º livro de sua Física, para ter condições de falar da Natureza como princípio de movimento; também discutirá suas palavras na demonstração de teses metafísicas como o princípio de não-contradição, entre outros.”

Mais de 30 autores antigos citaram Pm. em mais de 40 diferentes obras. Os fragmentos mais extensos são os mais recentes, sobretudo os de Sexto Empírico, em sua obra contra o dogmatismo (Adversus Mathematicos) (…) Simplício explica que, devido à raridade da obra em seu tempo, precisaria citá-la de forma mais extensa, para que seu comentário fosse compreendido.”

Data de 1526 a 1ª publicação do Poema Da Natureza. Supostamente, foi retraduzida a partir da versão latina de Guilherme de Moerbecke (séc. XIII). A 1ª ed. com preocupações filológicas data de 1573, empreendida por Henri Estienne, buscando recolher a obra dos primeiros filósofos: Poesis Philosophica (…) A reconstituição do Poema é continuada por Joseph J. Scaliger (…) seu texto foi encontrado por Néstor Cordero em 1980, na Biblioteca da Univ. de Leyde. (…) Somente em 1835, temos a 1ª reconstituição com os 19 fragmentos considerados autênticos, feita por S. Karsten. (…) A obra de Karsten foi o ponto de partida para as versões publicadas por Hermann Diels, desde 1897 até a última ed. dos Fragmente der Vorsokratiker, em 1951, sob Kranz (DK.) (…) Esta é a versão considerada <ortodoxa> por todos os estudiosos e editores do Poema, desde o séc. XX. (…) Coxon (1986) também teria reconstituído o texto grego a partir da consulta de diversos manuscritos, mas seu cuidado filológico é bastante contestado.” “O texto original é um objeto, para nós, tão perdido quanto o paraíso de Adão.” “Um texto como o de Pm. já não pode aspirar a uma identidade única” “Qual é o texto verdadeiro desse pensamento originário sobre a Verdade? Parece uma armadilha armada propositadamente pela História da Filosofia”

http://www.greekphilosophy.com – a internet é rápida para aposentar colossos e criar elefantes invisíveis…

DA NATUREZA

Quem é esta Deusa? Heidegger propõe que seja a própria Verdade”

B11 (1-4):

“…como Terra e Sol e ainda Lua

e também Éter agregador e Láctea celeste e Olimpo

extremo e ainda força quente dos astros impeliram-se

para vir a ser.”

B12 (1-6):

Umas são mais estreitas, repletas de fogo sem mistura,

outras, face àquelas, de noite; ao lado jorra um lote de flama;

no meio destas <há> uma divindade, que tudo dirige:

pois de tudo governa o terrível parto e a cópula,

enviando a fêmea para unir-se ao macho e de volta

o macho à fêmea.”

B13:

De todos os deuses que concebeu, Amor foi o primeiro.”

B14:

Brilho noturno de luz alheia vagando entorno à Terra.(*)

(*) Plutarco diz que Pm. designa a natureza da Lua. Dos mais belos versos gregos, Mourelatos faz uma análise de suas anfibologias. A palavra <phôs>, <luz>, tem um homônimo que significa <homem>; conforme este homônimo, existe a fórmula homérica <allótrios phós>, que significa <um estranho>.”

B18 (frag. 4-6):

…, se as potências lutam na mistura seminal,

então não fazem uma unidade no corpo misturado e, furiosas,

atormentam pela dupla seara o sexo nascente.”

Explicação deste mito em http://xtudotudo6.zip.net/arch2015-11-01_2015-11-30.html.

OS NOMES DOS DEUSES

A. chamou os que 1º se espantaram com o mundo de theológoi, <os que falam de deuses>, em seguida, oriundos do mesmo espanto, o filósofo apresentou os physiológoi, <os que falam da natureza>.”

Quem sabe não foi justamente para reforçar suas interpretações alegóricas sobre a poesia que fala dos deuses que os gramáticos alexandrinos inventaram essa distinção entre minúsculas e MAIÚSCULAS.”

Pelo tratamento próximo, pela descrição antropomórfica, pela retratação dos crimes humanos nos deuses é que os filósofos vão querer expulsar dos concursos e das cidades, a bastonadas, estes Homeros, e também Arquílocos e outros quantos. Mas o povo, ainda por muito tempo, iria tomar as dores dos poetas, mandando ao exílio e condenado (sic) à cicuta aqueles novos porta-vozes da verdade.” “O Sócrates d’As Nuvens é a síntese cômica desses novos homens altivos e irreverentes à tradição. O prenúncio do livre-pensador laico da modernidade.” “Aristófanes percebe o declínio do Sol, a passagem de uma era em que os deuses dominavam o quotidiano dos homens e assumiam a imagem das forças constituidoras do real, para uma era em que o homem começa a erigir o discurso conceitual para falar também das forças do real como natureza autônoma.

No Poema de Pm., estamos num desses lugares textuais, em que ganha clareza a transição da teogonia mítica para a ontologia filosófica; a transição da celebração dos deuses em suas gestas para os conceitos em sua determinação.”

terão esses nomes o estatuto de conceitos abstratos ou lhes daremos as maiúsculas iniciais, com que caracterizamos hoje a condição personificada de deuses? Optamos, na tradução, pelas maiúsculas, mesmo anacrônicas, para realçar estes nomes” “Nem sempre, porém, usamos as traduções ortodoxas, como em nossa tradução de moîra por Partida em vez de Destino, porque sempre buscamos um nome que expressasse um sentido integrado a uma interpretação total do Poema – princípio 1º da arte hermenêutica.”

A proximidade entre ser e dever ser, na expressão da indicação do caminho da verdade, é um traço decisivo do Poema. (…) Thémis, Norma, é a expressão de uma ordem primordial, de uma lei fundada na postulação divina. Não se trata de uma lei convencionada pelos homens, mas uma prescrição transcendente do que deve ser e do que é conforme à ordem dos deuses. (…) Sem dúvida, ainda é a tragédia Antígona de Sófocles a melhor exposição da diferença entre a lei divina dos laços de sangue e a lei proclamada pela palavra do governante. (…) Se fôra abrir mão de valores estéticos para uma tradução puramente conceitual, em vez de Norma, diria Imposição. Os homens podem agir conforme ou não a esta imposição primordial, isto lhes confere boa ou má partida no desempenho da vida.”

Providência [Oh, Robin Crusoe!] e Envio também são nomes aproximados para a Moîra.” “É preciso compreender que a Moîra não é essencialmente a determinação incontornável de um desfecho, como se todo o traçado de uma vida já estivesse predestinado em seu desígnio. Não, nenhuma Moîra é a consumação prévia do que está por vir. A Moîra é incontornável sim, e nem os deuses podem fugir aos seus limites, mas estes limites definem um campo do possível do qual não se pode escapar (…) Os limites da Moîra são os limites essenciais do ente”

DESTINO-PARTIDA:

Você já chegou, mas não partiu.

Enquanto isso, joga e se joga.

A Moîra tem como representação a experiência concreta do lote de terra próprio, a parte que cabe a cada um neste mundo. Depois que Zeus e os deuses olímpicos vencem a guerra contra os Titãs, vem a hora da partilha.”

O nome ‘Moîra’ significa a ‘parte’ móros, que fazemos ressoar no nome ‘Partida’. A partida é, de um lado, a parte separada de cada um, seu lote; por outro lado, é o momento da separação: o parto, a individuação – neste sentido, é também o envio à vigência e à vida, o início. (…) E, de certo modo, é o momento da despedida, em que é superada cada etapa da uma viagem (sic).”

Depois do discurso da Deusa acerca da Verdade, as descrições tendem claramente a um discurso sobre a natureza, não há sagas nem gestas como na Teogonia de Hesíodo” “Conhecerás a natureza do Éter e também todos os sinais que há no Éter” “Nestes poucos e curtos fragmentos temos o testemunho de uma visão astronômica resplendente e flamejante do Éter, do Olimpo, do Céu, da Via Láctea, do Sol, da Lua, da Terra.”

Nietzsche – Da Retórica (tradução de T.C. Cunha) – obra misteriosa?!

VARIAÇÕES DO VERBO EIMÍ

Talvez, uma das principais contribuições dos gregos na fundação do conhecimento como filosofia tenha sido a elaboração de um questionamento universal por meio da tematização de um único verbo em algumas modalidades específicas de conjugação. Todos sabemos que este verbo fundamental é o verbo eimí, que traduzimos usualmente pelo verbo ser em conjugações que gostaríamos que fossem mais ou menos equivalentes. Assim, temos a questão central da chamada <Filosofia Primeira> nomeada, desde o séc XVII, a partir deste verbo: é a Ontologia, ao pé da letra: o desdobramento compreensivo – a palavra – do ente, ‘ente’ que é, gramaticalmente, o particípio presente do verbo ser e, filosoficamente: a visada mais universalizante sobre a realidade. Visada determinada justamente pelo sentido que se dá a este verbo ser e ao seu particípio ente.

Acontece que o verbo grego eimí e seus sucessores nas línguas ocidentais, justamente por serem o lugar desta visada universalizante, carregam em suas costas séculos de metafísica a torná-los cada vez mais abstratos e mais vazios semanticamente, a ponto de toda sua significação vir a restringir-se a uma mera função copulativa entre sujeito e predicado. O verbo grego, contudo, tem uma gama de articulações modais, espectuais e relacionais de uma variedade e riqueza tais que não podem deixar de ser significativas, gama que ultrapassa o alcance da quase totalidade de suas traduções em línguas modernas. A ontologia grega, desenvolvida como questionamento fundamental da realidade e sua relação com o pensamento e a linguagem, soube explorar diversas dessas riquezas significativas e realçá-las de modo extraordinário (…)

Um dos mais ricos estudos sobre as variações do verbo ‘ser’ em grego (o verbo eimí) foi empreendido por Charles Kahn e publicado em 1973, The verb ‘Be’ in Ancient Greek [O verbo grego ‘ser’ e o conceito de ser], uma análise meticulosa dos vários usos do verbo eimí em Homero. Os estudos de Kahn sobre o verbo ‘ser’ incluem ainda numerosos artigos, vários deles traduzidos para o português e editados nos Cadernos de Tradução da PUC-RJ, em 1997, entre os quais ‘Ser em Parmênides e Platão’, originalmente publicado em 1988. Kahn explorou de modo sistemático a variedade das funções sintáticas do verbo eimí e elaborou uma classificação funcional dos seus usos extremamente útil para toda abordagem do problema do <ser> que se apóie em observações e considerações lingüísticas. Ainda que cheguemos a conclusões radicalmente diferentes e até mesmo opostas no que diz respeito ao sentido essencial e às interpretações genealógicas, as suas categorias aspectuais e modais nos serão indispensáveis.

particípio ón (estado/ente)

à força de uma língua não exprimir um problema, esse fica velado ou parece irrisório ou mesmo falso.”

Está provado que o verbo sein é mais filosófico!

É no mínimo curioso que Pm., o filósofo da unidade do Ser, 2º todos os manuais de História da Filosofia, seja o autor de um texto exemplar para mostrar as variações no aspecto sintático da linguagem que gestam, no séc. V a.C., o padrão ocidental de conhecimento. Não obstante, encontrarmos no seu Poema, pelo menos 4 modos distintos do verbo eimí. Espantosamente, não estão esses modos dispersos no texto, mas em situações bem demarcáveis, como em etapas de uma especial transformação. Será possível encontrar uma unidade que suporte a transformação dessas diferenças? É precisamente esse problema que gostaríamos de investigar neste estudo introdutório sobre a diversidade sintática de eimí no P. de Pm..”

O acompanhamento da passagem pelos diversos momentos dá-nos a impressão ilusória de que é o próprio verbo que está sofrendo transformações, mas o sistema verbal de eimí ‘ser’ ao tempo de Pm. já é um conjunto sincrônico em suas possibilidades. Contudo, há um sentido em que é mais apropriado pensar numa transformação diacrônica.”

Quando Júlio César quis condensar sua rápida vitória sobre Farnaces, no Bósforo, usou 3 verbos dissilábicos no pretérito perfeito, coordenados assindeticamente apenas pela posição sucessiva e por vírgulas: <Veni, vidi, vici.> (há, também, uma sub-articulação tônica <ve-vi-vi>, da vogal fechada <e> até a mais fechada <i>, (sic) isto confere uma forma – literalmente – mais pungente à frase, mais dinâmica, como um dardo sonoro). São 3 ações sucessivas que resumem a campanha do general: vim – empreendi, vi – analisei, venci – derrotei. Não faz, sentido usar o verbo ser – não estão sendo articulados atributos de um sujeito. Se J.C. atribuísse os predicados a si e não a suas ações, a frase ficaria assim: <Imperator sui, et videns et victor>, <sou um empreendedor, um homem de visão, um vencedor>. Seria um vaidoso, não um chefe militar. Teria escrito um auto-retrato e não uma narrativa épica como o De Bello Gallico. A narrativa de ações prescinde muito facilmente do verbo ‘ser’, ao passo que explora toda a gama dos verbos transitivos e de significado dinâmico.”

Somente a descrição do portal introduz uma imagem mais estática.”

(1) “Articulado com o advérbio de lugar aí, lá, o verbo ‘ser’ marca que em tal lugar estão situadas, estão presentes e permanecem firmes as portas dos cursos da Noite e do Dia. Kahn denomina essa classe de usos de valor <locativo-existencial>. Este sentido 1º do verbo ser, sentido de existência e presença, aparece em várias línguas ocidentais associado a um advérbio de lugar: esser-ci, da-sein, y-être. ´como se <existir> fosse originalmente percebido como <ter lugar no mundo>.”

(2) “Enquanto a narrativa tende a ser mimética, o discurso pretende ser efetivo, prático.”

Lingüisticamente, a diferença entre narrativa e discurso aparece sobretudo nos modos verbais e nas pessoas envolvidas na ação verbal. O modo por excelência da narrativa é o indicativo, que retrata o acontecimento. A terceira pessoa – que pode ser todo o mundo fora da relação emissor-receptor – é a que mais aparece.

No Proêmio, são usados o presente e o aoristo do indicativo – os tempos por excelência da narrativa. A pessoa verbal mais usada é a terceira – isto, apesar de a personagem que mais aparece ser o próprio narrador! O narrador, em vez de aparecer como sujeito dos verbos, aparece quase sempre como objeto direto ou, no máximo, como um sujeito de um verbo na voz passiva (vs. 4).”

No discurso, por outro lado, aparecem os demais modos verbais: optativo, subjuntivo, imperativo etc. (…) As principais pessoas usadas são a primeira (eu – nós), para desejos, pedidos, preces; e a segunda (tu – vós), para orientações, persuasões, comandos”

A verdade, como a fala da Deusa, justamente por abrir-se de forma discursiva, revela um tom prescritivo, prático e ético. Não é à toa que os caminhos que levam até a entrega da lição verdadeira são promovidos por Thémis (Norma, Lei divina) e Díke (Justiça)”

Este infinitivo usado para completar expressões modais é chamado por Chantraine de infinitivo <completivo>; nessas expressões, os verbos que o precedem são auxiliares modais de necessidade, possibilidade e outras modulações do real e das intenções sobre o real.”

presença dos pronomes pessoais sujeitos, fato que, no grego, só acontece para marcar uma ênfase na presença, na diferença e na relação interpessoal:

(…)

Pois bem, agora vou eu falar, e tu, presta atenção ouvindo a palavra.

Poderíamos antever até mesmo os primeiros passos para chegar à estrutura discursiva dos Diálogos de Pl., onde o conhecimento é tratado na interlocução viva das personagens, se não fosse aqui somente a Deusa quem fala e o homem quem apenas escuta.”

para o viajante iluminado, a transposição da ação primeira de narrador para a seguinte de ouvinte já insinua a atitude de <philía amorosa> do filósofo ante a verdade e o conhecimento, do filósofo como amante atento e obediante ao saber”

São a pensar”

(3) “fórmula exortativa equivalente a <é preciso que…>” “Os caminhos não <existem> simplesmente e estão <disponíveis>, mas <devem> ser pensados!”

Há um deslocamento do peso semântico para a força sintática, esta se torna mais concreta enquanto aquele tende a se abstrair.”

Estamos no campo de um discurso que não tem uma sintaxe normativa a obedecer, que está a falar de coisas novas, de um modo que também acaba por ser inaudito”

Wrublewski:

<…necessariamente não ser é.>

Bornheim:

<…o não-ser é necessário> [neSERsário]

Cavalcante de Souza:

<…e portanto…é preciso não ser.>

Mourão:

<…ser proibido>

Trindade Santos:

<…não é para não ser

tem de não ser>

A tradução de Wrublewski como também a de Bornheim conferem às sentenças aquela frieza tautológica de que fala Nie. em seu comentário sobre o caráter de Pm..”

Mourão (…) é paráfrase (…) Cavalcante de Souza introduz um sentido de inferência lógica (…) A tradução de Trindade Santos é a única que atenta para o tom exortativo da deusa.”

onde está o verbo enunciativo? A maioria das traduções tende a acrescentar este verbo nos versos em que ele não existe”

Estamos, de fato, diante de um momento decisivo para a instauração da ontologia, em que as formas do verbo eimí estão se mostrando em uma intensidade de possibilidades realmente ímpar.”

pois o mesmo é pensar e ser”

O mesmo é a pensar e portanto ser”

denn dasselbe ist Denken und Sein”

O mesmo está-aí para ser pensado

O infinitivo grego, por não declinar, deixa bastante aberto o campo de possibilidades”

a sintaxe do Poema é sempre originariamenteprovedora de espanto e perplexidade”

o que queremos observar é como o contexto discursivo vai deslocando o sentido primeiro existencial do verbo eimí ‘ser’, passando por sua forma auxiliar na construção modal, até possibilitar a estrutura da proposição categorial, como aquela que se tornará a forma do dizer verdadeiro” “toda análise frmal da sintaxe de uma fala é sempre tardia e dependente dos desempenhos efetivos da linguagem.”

O sujeito da frase torna-se um objeto, a ação verbal desaparece numa função de cópula, o predicado torna-se simplesmente um atributo. E assim chegamos à objetividade inerte da proposição <S é P>.” “A forma semelhante entre o <é> exortativo e o <é> categorial trai uma relação íntima entre os 2 – relação, provavelmente, de parentesco em 1º grau.”

A identidade entre ser e pensar não é um dado simples, mas o valor, o peso e até o critério do caminho verdadeiro.” “hoje estamos, cartesianamente, imersos na dúvida e preocupados em justificar o conhecimento e a verdade, enquanto para os primeiros filósofos muito mais estranho e preocupante não era o conhecimento do real e verdadeiro, mas a possibilidade indevida de dizer o não ser e o falso. Como algum dizer do ente pode dizer o não ente? Toda a tradição ático-eleata, de Pm. até seus sucessores mais <traidores>, como Górgias, Pl. e A. vão debruçar-se sobre este problema.”

As coisas que, embora <ausentes>, estão, <no entanto, presentes firmemente em pensamento> não estão em certo aí, quando se afastam do ser; mas não estar aí simplesmente é, no entanto, revelado como um já sempre estar aí

Isto que nós chamamos de predicados ou categorias, a Deusa do Poema chama de <sinais>”

O caminho da Verdade mostra o real.” < < < MENTIRA! A verdade é uma coquette

A. é bastante coerente ao designar as múltiplas formas de dizer o ente com o termo ‘categoria’ kategoría. O que é uma categoria no uso coloquial da língua grega no tempo de Pm.? É uma acusação. A palavra ‘categoria’ é a realização, no grego coloquial clássico do séc. V, da ação de acusar: kategoreîn, feita por um promotor acusador: ho kategorós.”

Outro texto não por acaso igualmente exemplar é o diálogo Parmênides, entre outros de Pl.. Aliás, os diálogos de Pl. são um campo fertilíssimo para colher as mais diversas formas de linguagem tratadas com o maior refinamento. É por esta sua riqueza, ainda que para depreciá-la, que Nie. o chamou de filósofo de <caráter misto>. Dir-se-ia que Pl. quis competir, sempre à altura, com todos os demais gregos, em todas as possibilidades da palavra, em todos os seus gêneros – evidentemente, com sucesso.

Este uso presencial ou existencial, associado a um advérbio de lugar, não traz apenas o verbo eimí (ser), mas também o verbo ékho (ter), e seus correlatos em outras línguas. Daí expressões como <y avoir> no francês ou <i há> [!] no português arcaico. ‘Ser’ e ‘ter’, neste uso, são, de modo equivalente, verbos de estado. Cf. Benveniste, É., Problèmes de linguistique générale, 1966.”

<der eine Weg, dass IST ist und dass Nichtsein nicht ist, […], der andere aber, dass NICHT IST ist und dass Nichtsein erforderlich ist> 28, B, 2 (DK)”

[…] la première – comment il est et qu’il n’est pas possible qu’il ne soit pas […] La seconde, à savoir qu’il n’est pas et que le non-être est nécessaire […]Beaufret, 1996

APROFUNDAMENTO

Bailly, Anatole – Dictionnaire Grec-Français, 1950

Bernabé, Alberto – Textos órficos y filosofía presocrática

Bertrand, Joëlle – Nouvelle grammaire grecque, 2000

Chantraine – Dictionnaire étymologique de la langue grecque, 1999

______. – Grammaire Homérique

Clemente de Alexandria – Stromata

Cordero – L’Invention de l’école éléatique

Harris, Zellig – Structures mathématiques du langage, 1971

Hjelmslev, Louis – Le verbe et la phrase nominale, 1948

Kahn – The Art and Thought of Heraclitus

Liddell, Henry George & Scott, Robert – A Greek-Englich Lexicon, 1940 (1968)

Nestle – Historia de la Literatura Griega

Ragon – Grammaire Grecque, 1986

O EMPREENDIMENTO GERATIVO – José Borges Neto

DIC:

clítico: pronome da ênclise, mesóclise, ênclise

Chomsky – The Generative Enterprise (1982)

Gramática Generativa, nossa querida GG!

abordagem lakatosiana heterodoxa

Este trabalho não é um trabalho estritamente de lingüística. É antes um trabalho de história e de filosofia da ciência [hm]”

I’M SO VERY TIRED!

KUHN > POPPER > LAKATOS > FEYERABEND

PROLIFERAÇÃO coexistência de teorias científicas contraditórias

TENACIDADE movimento de pêndulo/reciclagem das ciências, auto-corrigibilidade a longo prazo de uma teoria inicialmente contestada e refutada, mas que depois reentra em voga, reformulada (anti-Popper)

a GG é um PIC” começou a falar grego e eu nem percebi!

criatividade de autômato é parte seca da calçada no dilúvio: sabemos que existe, mas não faz a menor diferença.

tudo é computador

Syntactic Structures

(minha futura nota na matéria)

A dissertação de mestrado de Ch. (1951), p.ex., foi quase completamente ignorada pela comunidade lingüística” bom pra ela

Em meados da década de 1950, Ch. terminou de escrever um livro extremamente pretensioso – The logical structure of linguistic theory em que reunia sua dissertação de mestrado e sua tese de doutorado e lançava os fundamentos de uma <nova lingüística>. O livro não conseguiu despertar o interesse dos editores e permaneceu arquivado sob a forma de microfilme até sua publicação em 1975, já então apenas com valor histórico.” “Submeti também um artigo técnico [sem alegria nas pernas] sobre uma parte da questão à revista Word, por sugestão de Jakobson, mas ele foi recusado e devolvido pelo correio.”

estruturalismo americano” (EA) X GG

Bloomfield against the world

descritismo vs explicatismo

Curiosa inversão da própria autoconcepção de Chomsky: “Com Chomsky, assume-se na ling. a prioridade do teórico sobre o empírico.” De fato, nada depõe contra um autor mais do que seu fã.

aquela escrita defasada, a teoria kuhneiforme

L-markers

OS 6 NÍVEIS GRAMATICAIS (p. 102):

fonemas

morfemas

palavras

categorias sintáticas

estrutura frasal

transformações

> > > representação < < <

conversão

derivadas

(integrais? irracionais? FRAÇÕES, NOTAÇÕES, EQUAÇÕES?!?…)

sintagma nominal

sintagma verbal

(((Caim)N)SN ((matou)V ((Abel)N)SN)SV)S

o predicado analisável de Chomsky x as formas sentenciais Harris (p. 106)

relações-em-intensão x relações-em-extensão

propriedades x classes (pares)

regra de transformação passiva x sentenças ativas/passivas

a proposta do programa é distinta da proposta do programa do estruturalismo, mas as ferramentas de análise disponíveis são essencialmente as mesmas.”

anos 60: a teoria-padrão

inatismo psicologização

teorias auxiliares

mecanismo de aquisição da linguagem (LAD)

estrutura profunda estrutura superficial EP ES

semântica => fonologia

interpretação => leitura

sintaxe

como mediadora

teoria formal da gramática

análises de fatos da língua

No final de 1965 começaram a aparecer, no interior mesmo do gerativismo, as primeiras críticas às propostas de Chomsky. A principal área de conflito, na época, era o grau de abstração das estruturas linguísticas subjacentes.”

A hipótese da interpretação semântica se dar ao nível da EP leva muitos linguistas a concluírem que tudo o que se considerar como fazendo parte do significado da sentença deve constar da EP.”

Nasce a escola dos extremistas que é o suicídio da GG: os abstracionistas ou movimento da semântica gerativa (SG)

Para mais: Newmeyer (1980); Borges Neto (1991 [sabichão!]), Harris (1993 – ver final do post).

tese GG

antítese abstracionistas

síntese teoria-padrão estendida (TPE) (1967-1971)

aaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhrrrrgggghhhhhhhhhgrrrrrrr… cof cof

TPE = TP + X/

novidade: relações lexicais

a teoria é explicativamente adequada quando reproduz o comportamento da criança que adquire linguagem”

máquina de Turing: basicamente o que eu chamaria de primeiro protótipo de um computador pessoal

Ao invés de ter a proposição de sistemas computacionais como a tarefa mais importante, a restrição dos sistemas já propostos anteriormente passa a ter prioridade.”

ilhas de regras (princípios, i.e., regras muito mais flexíveis)

condições para transformações

a restrição da preservação de estrutura de Emonds nos diz que não se pode fazer nenhum apagamento na estrutura que não possa ser estruturalmente recuperado: só é possível apagar o sujeito de uma sentença em italiano (e em português, até onde consigo ver) porque a flexão verbal nos permite recuperar a posição de sujeito; numa língua sem flexão verbal, como o inglês, o apagamento do sujeito fica impedido.”

MOVA ALFA (mova tal sintagma da sentença para produzir modificação ‘x’ no sentido…)

teoria theta

teoria dos vestígios

a teoria dos vestígios restringe o número de locais para onde os elementos movidos podem ir, enquanto a teoria dos Casos torna certos movimentos obrigatórios.”

perspectiva derivacional: as várias representações dos níveis linguísticos são derivadas umas das outras por meio de regras. Até meados dos anos 1970 todas as propostas de gramáticas feitas no interior da GG eram derivacionais.

perspectiva representacional: as várias representações refletem propriedades estruturais das teorias restritoras”

programa minimalista

estado mínimo beleza

mas língua mínima já é o fim da picada

Resumo – último par. p. 124

sub-GG ano

SS 54-65

TP 65-76

(P&P 76-hoje

*PM 95-hoje)

TODOS PRECISAM MORRER UM DIA: “Ch. sempre foi o grande líder da comunidade gerativista. Ele age como o <dono> do programa, a pessoa que diz o que deve e o que não deve ser pesquisado. Por mais interessantes que sejam as propostas apresentadas pelos colaboradores, elas só são incorporadas se explicitamente avalizadas por C. O poder de C. é tão grande que é possível encontrarmos um livro de 250pp. dedicado a um levantamento do destino – invariavelmente infeliz – daqueles que ousaram desafiá-lo (Botha, 1989).”

PRÓXIMAS LEITURAS

BOTHA – Challenging Chomsky: the generative garden game

GALMICHE – Semântica gerativa (1979)

HARRIS – The linguistic wars (1993)

LOBATO – Sintaxe gerativa do português: da teoria-padrão à teoria de regência e ligação (1986)

QUÍCOLI – Conditions on clitic movement in Portuguese (1976)

CHOMSKYNTESSENCIAL

O CONHECIMENTO DA LÍNGUA: Sua Natureza, Origem e Uso, 1986 (ed. brasileira)

PREFÁCIO (P. 15)

SÃO OS BRAINSTORMS DE MARÇO BAGUNÇANDO O VERÃO

Problema de Platão X Problema de Orwell X Problema de Freud

sistemas cognitivos

equipamento inato           <faculdade da linguagem> como caso particular de sistema cognitivo

princípios da faculdade da linguagem

foco > > > solução do Problema de Platão (P.P.)

O P.P. consiste em explicar como sabemos tanto quando a evidência que nos é acessível é tão escassa.” P.O.: seu oposto exato

P.F.: almoço bom se come em família (brincadeirinha)

engenharia do consentimento”

RASCUNHO DO DIABO (shitstorm)

Já discuti estas questões noutras obras, e espero fazê-lo de novo, mas o contexto de uma investigação sobre a natureza da linguagem não é, provavelmente, o local apropriado [SIM, PROVAVELMENTE], não obstante a crença comum, que pessoalmente apenas partilho em parte [como pessoa você compartilha pessoalmente?], de que o abuso ou o controle da linguagem é um aspecto fundamental do problema [o problema de você ser tão prolixo assim?]. Incluí, contudo, um breve apêndice que aborda esta questão, uma versão revista de um artigo que apareceu na … [nome da revista, foda-se], que espero vir a publicar numa versão mais extensa e documentada. [Não li, não leio, não lerei.]”

Se eu fosse um tradutor do estilo abreviador:

Já discuti estas questões antes. Neste contexto, investigaremos apenas a natureza da linguagem. Partilho da crença de que o abuso político da linguagem é uma discussão necessária. Para os interessados, incluí material relacionado no apêndice.”

Eu bato sempre na mesma tecla, eu faço o sistema operacional rodar, eu previno as catástrofes, meu nome é Desmond, o operário. Lubrificado, eu não durmo. Meus colegas morreram de subdosagem (de seiva vital). Quando alguém virá me substituir? Você é Ele?

* * *

CAPÍTULO I – O QUE OS OUTROS DIZEM ANTES DO QUE EU VOU DIZER QUE É A FACULDADE DA LINGUAGEM (P. 18)

A <gramática particular> não é uma verdadeira <ciência>, no sentido desta tradição racionalista, porque não se baseia unicamente em leis necessárias universais; é uma <arte> ou técnica que mostra o modo como certas línguas realizam os princípios gerais da razão humana.”

instruções genéticas”

“efeitos deflagrador e modelador de fatores ambientais”

<gramática genera[l]tiva> (nenhuma relação com a gênese),

na contra-mão de Saussure – atual GRAMÁTICA UNIVERSAL (G.U.)

O seu ponto de referência é o da psicologia individual.”

mecanismo de aquisição

nomenclaturas incognoscíveis ou vazias como “sistema de conhecimento” e “experiência vivida” – já não basta sistemas cognitivos (supra)? Experiência ideada? Como seria?

o objeto de investigação deixou de ser o comportamento lingüístico ou os produtos deste comportamento para passar a ser os estados da mente/cérebro que fazem parte de tal comportamento.”

gramática universal particular

parabéns aos envolvidos!

quando mente e experiência se entrecruzam

o concreto do abstrato

A G.U. é uma teoria do <estado inicial> da faculdade da linguagem, anterior a qualquer experiência lingüística” CHATOVSKY

questões clássicas

Não se trata de tópicos para especulação ou para uma reflexão a priori, mas sim para uma pesquisa empírica” irônico…

EUREKA: “Não está em questão que o Homem possa atingir o conhecimento do Inglês, do Japonês e de outras línguas, enquanto as rochas, os pássaros ou os símios não o atingem, sob as mesmas condições”

sistemas computacionais

COMO EU ODEIO OS ANOS 50! Se bem que esse homem transportou a tara pelas maravilhas da computação até os estertores dos 80!

teoria da regência e da ligação (TRL)

A gramática tradicional e a estruturalista não trataram do objeto do conhecimento da ciência lingüística, a primeira pela sua confiança implícita, a segunda pelo seu escopo limitado.” “uma boa gramática tradicional ou pedagógica apresenta uma lista completa de exceções (verbos irregulares, etc.), paradigmas [aparentemente, no sentido saussureano: possibilidades de associações por jogos de palavras, etc.] e exemplos de construções regulares e observações com vários níveis de pormenor e de generalidade acerca da forma e do significado das expressões. Sem exagerar demasiado, poder-se-ia descrever uma tal gramática como uma versão estruturada e organizada dos dados apresentados a uma criança que aprende uma língua, com alguns comentários gerais e, por vezes, algumas observações criteriosas.”

Mas nós, os generativistas, nós não subestimos a inteligência do leitor, e tratamo-lo como autêntico homem adulto que é! – Chomsky político

As teorias estruturalistas, tanto na tradição americana como na européia, ocupam-se dos processos analíticos para derivar dos dados alguns aspectos da gramática”

pobreza do estímulo”

sabemos demais ou sabemos de menos ou não sabemos que tudo sabemos que nada sabemos só não sabemos que sábado somos banidos da existência – sabemos na medida o que é o peso da balança conveniente e oportuno o interesse do filósofo é público eu digo em todas as línguas

o problema está na burrice dos teus olhos – meu caro watch-son

O ESTUDO DA PELUGEM OVÓIDE

(belo título para um livro)

O que tem a ver com a Teoria das Idéias o fato de crianças serem muito espertas para aprender a língua?

DE LUA: “Duas pessoas podem partilhar exatamente o mesmo conhecimento da língua, mas podem diferir marcadamente na capacidade para pôr em uso tal conhecimento. A capacidade para usar a língua pode progredir ou regredir, sem que se registre qualquer alteração no conhecimento. A mesma capacidade pode também diminuir, em parte ou de um modo geral, sem perda de conhecimento, fato que se torna claro se os danos que provocam essa diminuição desaparecerem e a capacidade perdida for recuperada. Muitas destas considerações suportam a assunção do senso comum de que o conhecimento não pode ser descrito adequadamente como uma capacidade prática.

capacidade é uma coisa, conhecimento é outra”

<mecanismos de aprendizagem generalizada>

Deveríamos pensar no conhecimento da língua como um <módulo> da mente.”

* * *

CAPÍTULO II – LÍNGUAS E LETRAS SEM SENTIDO! (P. 25)

Falamos do Neerlandês e do Alemão como sendo duas línguas separadas, apesar de alguns dialectos do Alemão estarem muito próximos de dialectos a que chamamos <Neerlandês> e não serem mutuamente inteligíveis com outros a que chamamos <Alemão>. Um aviso habitual em cursos de introdução à linguística é que uma língua é um dialecto com um exército e com uma marinha (Max Weinreich).”

Da perspectiva social ou cognitivista, sempre se trata, no final, de idealizações: “É plausível supor que, com exceção de casos patológicos (provavelmente uma importante área de investigação), uma tal variação seja marginal e possa ser ignorada com segurança numa vasta área de investigação lingüística.”

No uso convencional, uma gramática é uma descrição ou uma teoria de uma língua, um objeto construído por um linguista.”

No estruturalismo saussuriano, a noção de frase foi deixada numa espécie de limbo, talvez a ser integrada no estudo do uso da língua.”

LINGUA EXTERNA (LÍNGUA-E)

uma gramática é uma coleção de afirmações descritivas que dizem respeito à língua-E, a atos linguísticos reais ou potenciais.” “caráter ilimitado”

a teoria da GU consiste em asserções que são verdadeiras em relação a muitas ou mesmo todas as línguas humanas, constituindo um conjunto de condições satisfeito por todas as línguas-E.”

P. 40: Franz Boas e novamente a afirmação da infinitude de cada língua particular, e impossibilidade de efetuarem-se comparações científicas, calcadas em Whitney e Sapir – “tendência relativista que denegriu o estudo da GU”

foi desenvolvido por Joseph Greenberg um trabalho no domínio dos universais linguísticos, que conduziu à formulação de uma generalização: uma língua que tenha a ordem sujeito-objeto-verbo manifesta tendência para ter posposições em vez de preposições, etc.”

LÍNGUA INTERNA (LÍNGUA-I)

noção de estrutura na mente (Jespersen)

a gramática seria então uma teoria da língua-I” – gramáticas podem ser contestadas

Neuronal prescriptions: “Conhecer a língua L é uma propriedade de uma pessoa H; uma das tarefas das ciências do cérebro é a de determinar aquilo que existe no cérebro de H que é responsável pela existência desta propriedade. Sugerimos que dizer que H conhece a língua L significa que a mente/cérebro de H está num certo estado EL.” “é como uma teoria do séc. XIX acerca de valências ou de propriedades expressas na tabela periódica.”

as línguas-I que são humanamente acessíveis em condições normais. Estas são as línguas-I L, tal que R(H, L) pode ser verdadeira (para um H normal, em circunstâncias normais).”

É claro que não há garantias de que esta maneira de abordar os problemas apresentados seja correta. Esta abordagem pode tornar-se completamente disparatada, mesmo que obtenha um sucesso substancial – tal como uma teoria de valências, ou outra, pode ter acabado por ficar completamente fora do caminho, apesar do seu grande sucesso na química do séc. XIX.” VTNC, PALHAÇO!

PREFERÊNCIA PELA INCERTA LÍNGUA-I

Uma gramática generativa pretende representar exatamente aquilo que uma pessoa sabe quando sabe uma língua, ou seja, aquilo que foi aprendido, porque complementado por princípios inatos.”

a GU é um estudo desses princípios inatos que é um componente da faculdade da linguagem.”

A língua-E que foi objeto de estudo na maior parte das gramáticas tradicionais ou estruturalistas ou na psicologia comportamental é agora encarada como um epifenômeno, na melhor das hipóteses.”

P. 44: “Resumindo, a faculdade da linguagem é um sistema distinto da mente/cérebro, com um estado inicial E0 comum à espécie (numa primeira aproximação). Dada experiência apropriada, esta faculdade passa de um estado inicial E0 para um estado final relativamente estável EE, que sofre apenas modificações periféricas (ex: aquisição de vocabulário). O estado atingido incorpora uma língua-I. A GU é a teoria do E0; as gramáticas particulares são teorias das várias línguas-I. As línguas-I que podem ser atingidas com o E0 fixo e a experiência linguística variável são as línguas humanas atingíveis, em que <língua> significa agora língua-I. O estado estável [ou limite] de uma língua particular é a combinação do que é <aprendido> com o que já se sabe de modo inato (E0). As línguas-E são meros artefatos.”

A linguística torna-se parte da psicologia e, em última análise, da biologia. A linguística será incorporada nas ciências naturais à medida que forem descobertos mecanismos que tenham as propriedades reveladas nestes estudos mais abstratos.”

EXPONDO OS PRÓPRIOS PARADOXOS (MEA CULPA)

No meu livro de 1965, Aspects of the Theory of Syntax, p.ex., não há qualquer entrada no índice para <língua>, mas há muitas entradas para <gramática>, que se referem geralmente à língua-I. Desconfio que o debate do passado acerca dos alegados problemas respeitantes aos conceitos da gramática e de conhecimento de gramática pode em parte ter sido originado por estas escolhas terminológicas infelizes, que reforçaram analogias inadequadas com as ciências formais e deram origem à idéia errônea de que o estudo da língua coloca questões filosóficas novas, complexas e talvez impossíveis de ser tratadas quando comparadas com o estudo da língua-E.

O estudo da gramática generativa desenvolveu-se a partir da confluência de duas tradições intelectuais: a da gramática tradicional e estruturalista [iguais?] e a do estudo de sistemas formais. Embora tenha havido precursores importantes, foi apenas em meados dos anos 50 que estas correntes se fundiram verdadeiramente (…) Tornou-se assim possível dar algum conteúdo ao aforismo de Humboldt, segundo o qual a língua envolve <o uso infinito de meios finitos>”

ANTI-SAUSSURE: “É de notar que as caracterizações familiares de <língua> como um código ou como um jogo apontam corretamente para a <língua-I> e não para a construção artificial que é a língua-E.”

Um código não é um conjunto de representações, mas antes um sistema específico de regras que atribui representações codificadas ao par mensagem-representações.” Um código é um sistema de códigos? Acho que não!

O estruturalismo saussuriano colocou as observações de Jespersen acerca das <expressões livres> fora do escopo do estudo da língua”

Bloomfield afirmou que, quando um falante produz formas linguísticas que nunca ouviu, <dizemos que ele as produz por analogia com formas semelhantes que ouviu>, uma posição adotada mais tarde por Quine, C.F. Hockett, etc.”

MAYON-EGGS-TRIP: “Por vezes tem sido sugerido que o conhecimento da língua deve ser compreendido por analogia com o conhecimento da aritmética, sendo esta considerada como uma entidade <platônica> abstrata que existe separadamente de quaisquer estruturas mentais. O que está presente aqui não é a idéia de que existe aquilo a que chamamos uma língua interna (descrito por aquilo a que Thomas Bever chama <uma psicogramática>) e de que descobri-la é a tarefa das ciências naturais. O que se afirma aqui é que, para além das línguas-I, existe algo mais, algo a que poderemos chamar línguas-P (Inglês-P, Japonês-P, etc.), que vivem num céu platônico ao lado da aritmética e (talvez) da teoria dos conjuntos.”

É perfeitamente legítimo desenvolver o tema da mecânica racional, um ramo da matemática abstraído da física que trata os planetas como pontos de massa que obedecem a certas leis, ou desenvolver teorias que consideram aspectos da língua-I fazendo abstração da sua realização física ou de outras propriedades; de fato, esta é a prática generalizada. Mas não se é por isso levado erradamente a acreditar que o objeto da mecânica racional é uma entidade de um céu platônico”

EMPIRISMO (OU I-MPIRISMO?)

Em geral, os juízos dos informantes não refletem diretamente a estrutura da língua; os juízos de aceitabilidade, p.ex., podem falhar no que se refere a fornecer evidência direta quanto ao estatuto de gramaticalidade, devido à intromissão de muitos outros fatores. O mesmo se pode dizer acerca de outros juízos que dizem respeito à forma e ao significado. Estes são, ou deviam ser, truísmos.”

O estudo da estrutura da língua, tal como é atualmente praticado [o do próprio Chomsky?], devia eventualmente desaparecer como disciplina, à medida que novos tipos de evidência vão ficando disponíveis. Só deveria permanecer distinto porque o seu objeto é uma faculdade particular da mente, em última instância o cérebro: o seu estado inicial e os vários estados de maturação que pode atingir.”

esta ideologia relativista de certas variedades da linguística descritiva tem de ser abandonada”

a interdependência das ciências do cérebro [neurologia] e do estudo da mente [psicolinguística] é recíproca. [??] A teoria da mente visa a determinar as propriedades do estado inicial E0 e de cada um dos estados EL da faculdade da linguagem; e as ciências do cérebro procuram descobrir os mecanismos [coisa-em-si, hehehe!] do cérebro que são realizações físicas desses estados. (…) Na medida em que tais conexões possam ser estabelecidas, o estudo da mente – em particular, da língua-I – será assimilado à corrente principal das ciências naturais.” O engraçado é por que não se poderia assimilar a neurologia ao estudo da língua…

Embora resultados deste tipo sejam remotos no atual estado de conhecimento, eles são possíveis.” São?

Resumindo, a faculdade da linguagem parece ser, no seu âmago, um sistema computacional rico, restritivo na estrutura e rígido nas suas operações essenciais, não se parecendo em nada com um complexo de disposições ou com um sistema de hábitos e de analogias.” “a mudança em direção a uma teoria computacional da mente contém também uma parte substancial daquilo a que se tem chamado <semântica>, conclusão que só é fortalecida se considerarmos abordagens manifestamente mais <conceitualistas> destes tópicos.” É fortalecida apenas na hipótese conceitualista ou é MUITO FORTALECIDA neste caso?

Achar uma língua-I correta para cada língua até formarem uma GU (com umas 6.000 líguas-I)? Como é tolo!

Notas

Considerem-se objeções involuntariamente cômicas, como a acusação feita pelo professor Roy Harris, em 1983, segundo quem a idealização-padrão (que ele atribui a Saussure-Bloomfield-Chomsky) reflete <um conceito fascista de língua, se é que alguma vez existiu algum>”

Whitney, que teve uma grande influência sobre Saussure e sobre a linguística americana, criticava a abordagem humboldtiana de Steinthal

Se se quiser considerar a questão do realismo, a psicologia e a linguística parecem ser escolhas pobres; a questão devia colocar-se relativamente às ciências mais avançadas, onde há muito mais esperança de se conseguir descobrir algo sobre essa matéria.”

Por meio de um procedimento similar, poderíamos estabelecer a <biologia platonista>, que se ocuparia, p.ex., daquilo a que Katz chama a <propriedade essencial> de um coração (que é uma bomba), fazendo, portanto, abstração das leis físicas que o fazem bater (uma propriedade não-essencial). Então, talvez pudéssemos descobrir que a melhor teoria biológica é diferente da melhor teoria da biologia platonista” “Katz insiste na idéia de que disciplinas como a química, a biologia e outras têm fronteiras inerentes, conceitualmente determinadas. De fato, para ele, esta afirmação não é controversa, sendo a alternativa uma forma de <niilismo> que transformaria num caos o espectro das disciplinas acadêmicas com um objeto bem-definido.” “Katz apresenta também uma descrição da história da gramática generativa e de documentos que cita, gravemente inexata, como é muitas vezes evidente, mesmo em nível fundamental”

SAUSSUREAL

DIC:

adeleiro: pessoa que compra para revender, vendedor de 2ª mão (principalmente de roupas)

SIGNO, SIGNIFICADO, SIGNIFICANTE

Crítica da língua como “nomenclatura”: como se o signo lingüístico (ver abaixo) fosse apenas a imagem acústica ou significante.

signolinguisticosaussure

P. 79: “os termos implicados no SIGNO LINGÜÍSTICO são ambos psíquicos

I. coisa<->palavra (concepção ultrapassada)

II. conceito<->imagem acústica(*) (concepção saussuriana – momento I – notar a antítese, formulação de quem quer expressar algo novo)

III. significado<->significante  (concepção saussuriana – momento II)

(*) idéia de “fonema” inaplicável à imagem acústica como entendida por Saussure.

 

“Sem movermos os lábios nem a língua, podemos falar conosco ou recitar mentalmente um poema.”

“{Nota do organizador da tradução} Para F. de Saussure, a língua é essencialmente um depósito, uma coisa recebida de fora. A imagem acústica é, por excelência, a representação natural da palavra enquanto fato de língua virtual, fora de toda realização pela fala. O aspecto motor pode, então, ficar subentendido ou, em todo caso, não ocupar mais que um lugar subordinado em relação à imagem acústica.”

                        nte

sign|ifica|

                        d[o]

signo-do-ente

PRIMEIRO PRINCÍPIO: A arbitrariedade do signo

pantomima: espécie de “signo inteiramente natural”

com isso querer-se-ia dizer que trata-se de exceção, não-arbitrária?

Semiologia: ciência que estuda os modos dos sistemas de comunicação (ciência do signo) // nomenclatura nasce com Peirce // vertente europeia da “semiótica” (americana)

A Lingüística é apenas um ramo especial da Semiótica, porém…

…“a Linguística pode erigir-se em padrão de toda Semiologia, se bem a língua não seja senão um sistema particular.” (p. 82)

 

SÍMBOLO não é sinônimo de SIGNIFICANTE por não ser arbitrário.

DUAS OBJEÇÕES:

a) OBJEÇÃO ONOMATOPEICA:

 – onomatopeias contingentes: derivadas da evolução linguística (comprova a arbitrariedade do signo)

   – onomatopeias autênticas: atribui-se literalidade entre significado-significante (ex: glu glu, tic-tac…), mas no “frigir dos ovos”, isso também são convenções!

pigeon, do latim vulgar pipio, derivado de uma onomatopeia”

 

b) OBJEÇÃO EXCLAMATIVA

o argumento é parecido

SEGUNDO PRINCÍPIO: A linearidade do signo

delta-T

Todo significante é passível de registro escrito, logo, é linear.

a sílaba e seu acento constituem apenas um ato fonatório; não existe dualidade no interior desse ato, mas somente oposições diferentes com o que se acha a seu lado”

* * *

“a questão da origem da linguagem não tem a importância que geralmente se lhe atribui. (…) o único objeto real da Linguística é a vida normal e regular de um idioma já constituído.”

Recorre à sociologia para explicar o poder imperativo e “maior que o indivíduo” das instituições.

“a reflexão não intervém na prática de um idioma; os indivíduos em larga medida não têm consciência das leis da língua; e se não as percebem, como poderiam modificá-las? Ainda que delas tivessem consciência, é preciso lembrar que os fatos linguísticos não provocam a crítica, no sentido de que cada povo geralmente está satisfeito com a língua que recebeu.”

O LGBT É AUTOFÁGICO: “A língua, de todas as instituições sociais, é a que oferece menos oportunidades às iniciativas. A língua forma um todo com a vida da massa social e esta, sendo naturalmente inerte, aparece antes de tudo como um fator de conservação.”

“{Nota} a língua se transforma sem que os indivíduos possam transformá-la.

ALTERAÇÃO: “deslocamento da relação entre o significado e o significante.”

 

“Para mostrar bem que a língua é uma instituição pura, Whitney insistiu, com razão, no caráter arbitrário dos signos; com isso, colocou a Linguística em seu verdadeiro eixo.”

ESPERANTO

  1. criação (reflexão)
  2. circulação => período semiológico (instinto)

“O homem que pretendesse criar uma língua imutável, que a posteridade deveria aceitar tal qual a recebesse, se assemelharia à galinha que chocou um ovo de pata: a língua criada por ele seria arrastada, quer ele quisesse ou não, pela corrente que abarca todas as línguas.”

* * *

“[a LÍNGUA é para nós a LINGUAGEM menos a FALA]. É o conjunto dos hábitos linguísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazer-se compreender.”

[  ] equação SOCIAL

[ ] + delta-T

“fora do tempo, a realidade linguística não é completa e nenhuma conclusão se faz possível.”

LÍNGUA REAL = (LINGUAGEM – FALA)sxT ,

tal que:

s = social

T = tempo

“o princípio da continuidade, que anula a liberdade.”

DUALIDADE INTERNA DE TODAS AS CIÊNCIAS QUE OPERAM COM VALORES

Mexer com a História é complicado, trutas!

Casos e casos:

DIREITO DESCRITIVO X HISTÓRIA DO DIREITO

CIÊNCIA POLÍTICA = POLÍTICA + HISTÓRIA

CIÊNCIA HISTÓRICA = HISTÓRIA + POLÍTICA

(não há distinção fundamental entre ambas, a não ser o objeto de enfoque – no entanto, essa distinção já está enraizada e não gera confusão metodológica)

ECONOMIA POLÍTICA X HISTÓRIA ECONÔMICA (???)

necessidade interior, prática e absoluta

 

“A multiplicidade dos signos, já invocada para explicar a continuidade da língua, nos impede absolutamente de estudar-lhe, ao mesmo tempo, as relações no tempo e no sistema.”

  • LINGUÍSTICA EVOLUTIVA > DIACRÔNICA
  • LINGUÍSTICA ESTÁTICA > SINCRÔNICA

o movimento BORRA a percepção

“Vamos congelar o tempo!”, says Só-se, in summa, ao final.

“Desde que a Linguística moderna existe, pode-se dizer que se absorve inteiramente na diacronia. A gramática comparada do indo-europeu utiliza os dados que tem em mãos para reconstituir hipoteticamente um tipo de língua antecedente; a comparação é, para ela, apenas um meio de reconstruir o passado. O método é o mesmo no estudo particular dos subgrupos (línguas românicas, línguas germânicas etc.); os estados não intervêm senão por fragmentos, e de modo muito imperfeito. Tal é a tendência inaugurada por Bopp; também sua concepção da língua é híbrida e vacilante.”

Gramáticos antigos > neo-gramáticos (maturidade sincrônica)

“a gramática de Port-Royal tenta descrever o estado da língua francesa no tempo de Luís XIV e determinar-lhe os valores. Não tem ela, por isso, necessidade da língua medieval”

“A oposição entre os dois pontos de vista é absoluta e não admite compromissos.”

“O latim crispus, <crespo, ondulado>, deu em francês um radical crep, de onde os verbos crépir, <rebocar>, e décrépir, <retirar o reboco>. Por outro lado, em certo momento, tomou-se emprestada do latim a palavra decrēpitus, <gasto pela idade>, da qual se ignora a etimologia, e dela se fez décrépit. Ora, é certo que, hoje, a massa dos falantes estabelece uma relação entre <un mur décrépi> e <un homme décrépit>, conquanto històricamente esses dois têrmos nada tenham a ver um com o outro; fala-se da fachada décrépite de uma casa. É um fato estático, pois trata-se duma relação entre 2 têrmos coexistentes na língua.”

“no antigo alto alemão, o plural de gast, <hóspede>, foi inicialmente gasti; o de hant, <mão>, foi hanti etc. Mais tarde, esse i– produziu uma metafonia, i.e., teve por efeito mudar o a em e na sílaba anterior: gasti -> gesti, hanti -> henti. Depois, esse –i perdeu seu timbre, donde: gesti -> geste, henti -> hente etc. Em consequência, tem-se hoje: Gast : Gäste; Hand : Hände, e uma classe inteira de palavras apresenta a mesma diferença entre o singular e o plural. (…) fato semelhante se produziu no inglês”

“um fato diacrônico é um acontecimento que tem sua razão de ser em si mesmo; as consequências sincrônicas particulares que dele podem derivar são-lhe totalmente estranhas.” “não foi o conjunto que se deslocou, nem um sistema que engendrou outro, mas um elemento do primeiro mudou e isso basta para fazer surgir outro sistema.”

“Em francês, o acento recai sempre sobre a última sílaba, a não ser que esta tenha um e mudo. Trata-se de um fato sincrônico, de uma relação entre o conjunto das palavras francesas e o acento. Donde deriva? De um estado anterior. O latim apresentava um sistema de acentuação diferente e mais complicado: o acento recaía na penúltima sílaba quando esta era longe; se fosse breve, o acento recaía na antepenúltima (cf. aMIcus, Anima). Esta lei evoca relações que não têm a menor analogia com a lei francesa. Sem dúvida, é o mesmo acento, no sentido de ter permanecido nos mesmos lugares; na palavra francesa recai sempre na sílaba que o levava em latim: aMIcum -> ami, Animam -> âme. No entanto, as duas fórmulas são diferentes nos dois momentos, pois a forma das palavras mudou. Sabemos que tudo que vinha após o acento ou desapareceu ou se reduziu a e mudo. (…) desde então, as pessoas conscientes dessa nova relação colocaram instintivamente o acento sobre a última sílaba, mesmo em palavras de empréstimo, transmitidas pela escrita (facile, consul, ticket, burgrave etc.). É evidente que não se quis mudar de sistema”

“Uma lei de acento, como tudo quanto respeita ao sistema linguístico, é uma disposição de termos, um resultado fortuito e involuntário da evolução.”

“em tcheco, zena, <mulher>, acusativo singular zenu, nominativo plural zeny, genitivo plural zen. (…) Parece estranho, à primeira vista, que uma idéia tão particular como a do genitivo plural tenha tomado o signo zero; mas é justamente a prova de que tudo provém de um puro acidente.”

solidariedade sincrônica

 

P. 104: a metáfora do jogo de xadrez

A fala é o lugar da sincronia. O postulante a linguista deve escolher entre ser linguista e ser historiador das línguas.

“No fundo, o termo sincrônico não é bastante preciso; deveria ser substituído pela designação idiossincrônico.” É necessário impor uma barreira entre você e sua língua, quem fala sua língua e o primeiro que não mais a fala (o primeiro estrangeiro é somente o menos estranho, mesmo que haja milhões de tipos de estranheza, e não o ‘mais familiar’).

Nada da perspectiva histórica extremada parece repetir-se: língua convulsa frenética.

LEIS LINGÜÍSTICAS

IMPERATIVA

UNIVERSAL

NÃO-ABSOLUTA

falar de lei linguística em geral é querer abraçar um fantasma.”

 P. 108: rol de PSEUDO-LEIS

“a lei sincrônica é geral, mas não é imperativa.”

“a lei diacrônica é imperativa, mas não é geral.”

Gauthiot – La fin de mot en indo-européen

“não existe nada mais regular que a lei que rege o acento latino; contudo, esse regime acentual não resistiu aos fatôres de alteração e cedeu a uma nova lei, a do francês”

princípio de regularidade

 

“quando se fala de fatos particulares e tangíveis, já não há ponto de vista pancrônico.”

“Seja a palavra francesa chose, <coisa>: do ponto de vista diacrônico, ela se opõe à palavra latina causa, da qual deriva; do ponto de vista sincrônico, se opõe a todos os termos que lhe podem estar associados em francês moderno.”

“Não é um valor porque não tem sentido.”

realidadepelamet

            ade

escolha 1: língua x FALA

escolha 2: diacronia x SINCRONIA

“O alemão moderno diz: ich war, wir waren, enquanto o antigo alemão, do séc. XVI, conjugava: ich was, wir waren (o inglês diz ainda: I was, we were). Como se efetuou essa substituição de war por was? Algumas pessoas, influenciadas por waren, criaram war por analogia; era um fato da fala; esta forma, freqüentemente repetida e aceita pela comunidade, tornou-se um fato de língua.”

“se cada idioma forma um sistema fechado, todos supõem certos princípios constantes, que encontramos ao passar de um para outro, porque permanecemos na mesma ordem.”

“a disparidade dos idiomas oculta uma unidade profunda.”

Linguística sincrônica: sistema de uma consciência coletiva (próx. cap.)

LINGUÍSTICA SINCRÔNICA OU ESTÁTICA

gramática geral

mais difícil

Ser humano, o animal irrequieto: “é cômodo e, com frequência, até divertido acompanhar uma série de transformações.”

QUAL É O TEMPO DE “UMA SINCRONIA”? Variável.

…10 anos — vários séculos…

irregularidades (ondas de mutações)

desprezar as “casas infinitesimais depois da vírgula”

PERÍODO > ÉPOCA (história política) (???)

estado: mais ou menos a cristalização de uma época (sempre acertada convencionalmente)

“o começo e o fim de uma época são geralmente marcados por alguma revolução mais ou menos brusca”

Signos: entidades concretas da ciência da língua

“a sílaba só tem valor em Fonologia.” Como o puro conceito só tem valor em Psicologia (pelo menos no entender saussuriano) – no fim, trata-se de um berro-manifesto: “Nós, os não-fonoaudiólogos, os não-psicólogos!”

entidades delimitadas, unidades: “porções de sonoridade que, com exclusão do que precede e do que segue na cadeia falada, é significante de um certo conceito.”

 

“a cadeia fônica tem, como caráter primário, ser linear. Considerada em si própria, ela é apenas uma linha, uma tira contínua, na qual o ouvido não percebe nenhuma divisão suficiente e precisa” DIFICULDADE DE APREENSÃO DE UM IDIOMA ESTRANGEIRO fragmentos e decomposição

 

atenção

hábito

 

as linhas paralelas:

conceitos (a)

imagens acústicas (b)

 

sizlaprã

si je la prends si je l’apprends

 

as mesmas palavras podem constituir unidades distintas e vice-versa

“Deve-se procurar a unidade concreta fora da palavra.”

“Sem dúvida, os falantes não conhecem essas dificuldades; tudo o que for significativo num grau qualquer aparece-lhes como um elemento concreto, e eles o distinguem infalivelmente no discurso. Mas uma coisa é sentir esse jogo rápido e delicado de unidades, outra é dar-se conta dele por meio de uma análise metódica.”

“Uma teoria assaz difundida pretende que as únicas unidades concretas sejam as frases”

Não há ponto em comum necessário entre quaisquer grupos de frases

ciências “intuitivas” ou “indutivas”:

Zoologia: seu objeto é o ANIMAL

Astronomia: seu obj. são os ASTROS

Química: elementos QUÍMICOS

“Quando uma ciência não apresenta unidades concretas imediatamente reconhecíveis, é porque elas não são essenciais. Em História, seria o indivíduo, a época, a nação?” Produz-se história “inconscientemente” – cita-se os romanos, “modelos universais”.

“a língua tem o caráter de um sistema baseado completamente na oposição de suas unidades concretas.”

IDENTIDADE

binômio identidade-diferença

“Sempre que se realizam as mesmas condições, obtêm-se as mesmas entidades.”

REALIDADE

“a distinção das palavras em substantivos, verbos, adjetivos etc., não é uma realidade lingüística inegável. Dessarte, a Linguística trabalha incessantemente com conceitos forjados pelos gramáticos, e sem saber se eles correspondem realmente a fatores constitutivos do sistema da língua.”

VALOR

“Vê-se que nos sistemas semiológicos, como a língua, nos quais os elementos se mantêm reciprocamente em equilíbrio de acordo com regras determinadas [NOÇÃO DE JOGO], a noção de identidade se confunde com a de valor, e reciprocamente. Eis porque, em definitivo, a noção de valor recobre as de unidade, de entidade concreta e de realidade.” CONCEITOS VALORES UNIDADES INTERCAMBIÁVEIS

“Não se pode dizer que os linguistas se tenham jamais colocado diante desse problema central, nem que lhe tenham compreendido a importância e a dificuldade; em matéria de língua, contentaram-se sempre em operar com unidades mal-definidas.”

A teoria nega a prática: não se pode iniciar um estudo linguístico sério e preciso pela unidade, é preciso virar o tabuleiro e começar pela noção que nos parece ter caído dos céus de VALOR.

VALOR II

valores puros

idéias

sons

“Filósofos e linguistas sempre concordaram em reconhecer que, sem o recurso dos signos, seríamos incapazes de distinguir 2 idéias de modo claro e constante. Tomado em si, o pensamento é como uma nebulosa onde nada está necessariamente delimitado. Não existem idéias preestabelecidas, e nada é distinto antes do aparecimento da língua.”

Entendeu ou quer que eu desenhe?

pensamentosom1pensamentosom2

pensamento-som

“valor” é a própria idéia inerente de um “relativo absoluto”

O “NOVO ÁTOMO”: “Não podemos captar diretamente as entidades concretas ou unidades da língua”

A Linguistica é quase que uma miragem refletida, o reflexo de uma miragem, um retrato gasto do inefável, um aedo descrevendo um vapor… A palavra, guia fiel ou pelo menos o mais sólido, se desmancha mais do que ciclos do capital, é mais invisível que a dialética incessante e incessantemente ignorada das infra e superestruturas…

“os princípios obtidos a propósito das palavras serão válidos para as entidades em geral.”

VALOR-CONCEITO

O paradoxo por trás do conceito de valor

Conceito negativo

Papel-moeda como ilustração

Dicionário & sinônimos

“O português carneiro ou o francês mouton podem ter a mesma significação que o inglês sheep, mas não o mesmo valor, isso por várias razões, em particular porque, ao falar de uma porção de carne preparada e servida à mesa, o inglês diz mutton e não sheep. A diferença de valor entre sheep e mouton ou carneiro se deve a que o primeiro tem a seu lado um segundo termo, o que não ocorre com a palavra francesa ou portuguesa.”

“sinônimos como recear, temer, ter medo só têm valor próprio pela oposição; se recear não existisse, todo seu conteúdo iria para os seus concorrentes.”

VALOR-SIGNIFICANTE

Arbitrário e diferencial são duas qualidades correlativas.”

“Os fonemas são, antes de tudo, entidades opositivas, relativas e negativas.”

A caligrafia e a importância da definição negativa (caso contrário todas as provas dissertativas teriam que ser realizadas num terminal de computador cujo editor de texto padronizasse sempre a fonte).

t

VALOR-SIGNO TOTAL

“dizer que na língua tudo é negativo só é verdade em relação ao significante e ao significado tomados separadamente: desde que consideremos o signo em sua totalidade, achamo-nos perante uma coisa positiva em sua ordem.”

“dois signos que comportam cada qual um significado e um significante não são diferentes, são somente distintos. Entre eles existe apenas oposição.”

“os caracteres da unidade se confundem com a própria unidade

 

fatos de gramática estão subordinados à definição da unidade

ex: formação especiais dos plurais em uma língua

“pode-se expressar a relação Nacht : Nächte por uma fórmula algébrica a/b onde a e b são termos simples, mas resultam cada um de um conjunto de relações. A língua é, por assim dizer, uma álgebra que teria somente termos complexos. Entre as oposições que abarca, há umas mais significativas que outras; mas unidade e <fato de gramática> são apenas nomes diferentes para designar aspectos diversos de um mesmo fato geral: o jogo das oposições lingüísticas.”

SINTAGMA & ASSOCIAÇÃO

SINTAGMA: Encadeamento linear de termos no discurso. Aparição concreta (principalmente na fala). O valor individual do termo está calcado nas relações diferenciais ou de oposição em relação ao(s) outro(s) termo(s) do sintagma.

sinta

RELAÇÕES ASSOCIATIVAS: Cadeias não-lineares de termos presentes no caos do pensar. “série mnemônica virtual” (de potencial praticamente infinito)

“Desse duplo ponto de vista, uma unidade lingüística é comparável a uma parte determinada de um edifício, uma coluna, p.ex.; a coluna se acha, de um lado, numa certa relação com a arquitrave que a sustém; essa disposição de 2 unidades igualmente presentes no espaço faz pensar na relação sintagmática; de outro lado, se a coluna é de ordem dórica, ela evoca a comparação mental com outras ordens (jônica, coríntia etc.), que são elementos não presentes no espaço: a relação é associativa.”

“A frase é o tipo por excelência de sintagma.”

frases feitas

fato de língua x fato de fala

      (social)       (idiossincrático)

“o espírito descarta naturalmente as associações capazes de perturbarem a inteligência do discurso” “categoria inferior de jogos de palavras” “Os músicos produzem as notas e os perdulários as gastam” “etimologia popular”

* * *

Leitura interrompida em MECANISMO DA LÍNGUA (p. 148).