CASO SUZANNE URBAN – Binswanger (trad. Tadeu Costa Andrade)

Fonte: https://www.yumpu.com/pt/document/read/12536208/o-caso-suzanne-urban-psicopatologia-fenomenologica-

DIC:

Beeindruckbarkeit: impressionabilidade

Besessenheit: obsessão; possessão (demoníaca).

In der Wirklichkeitstehen: estar com os pés no chão (terra; realidade)

lazareto: hospital de leprosos, espaço destinado à quarentena

mit-teilsam: com-unicativo

Selbst-Verblendung: autocegamento

Verantwortlichkeit: responsabilidade


Da ist eine Fliege in meiner Suppe”

ins Dasein kommen” vir-a-ser

Desde que eu me entendo por gente

Caso Ilse: o <ponto de partida> era o amor passional pelo pai e o sofrimento constante pelos maus-tratos que ele dispensava à mãe.”

“Enquanto, no Caso Ilse, o Dasein estaba sob uma alta-tensão que durou muitos anos e <deu vazão> a si mesma primeiramente no sacrifício da queimadura, depois no delírio de perseguição e no delírio amoroso, a alta-tensão sob a qual está o Dasein no caso Suzanne Urban mostra-se não apenas em um amor <idólatra> pelos pais, mas também em um culto amoroso hipocondríaco <quase anormal> aos pais e ao esposo. Esse culto é afetado profundamente e é colocado sob a máxima prova quando o esposo (um primo) contrai câncer na bexiga.” “Além disso, ressalte-se que não se trata de um delírio de perseguição singular <residual> que se liga a uma vivência de desabamento do mundo, como no caso Schreber-Flechsig, mas, como nos casos Lola e Ilse, de um delírio de perseguição anônimo ou plural.”

(Nota: os títulos a seguir foram insertos por mim de forma arbitrária, não correspondendo nem à posição dos capítulos e tópicos do livro nem coincidindo em nomenclatura.)

1. A FAMÍLIA RELATA O CASO

“nenhuma amizade autêntica.”

“Sobretudo nos últimos anos, colocou que o ideal haveria sido não ter se casado, mas ter feito carreira no teatro. Natureza muito erótica (…) gostava de contar ao velho pai piadinhas eróticas.”

Quem não vira artista fica doido; mas e o artista, anormal, fica o quê?

“Quando menina, era notavelmente bonita. (…) Não agia como uma coquette” “Tornou-se noiva de um primo muito rapidamente”

“Aos 27 anos começaram ataques de espirro paroxísticos [?] que permaneceram fechados à influência terapêutica. A organoterapia junto a renomados laringologistas falhou completamente.”

“O marido era dominado pela esposa, cedia a ela constantemente”“só tinha interesse pelo câncer do marido, não suportava qualquer outro assunto. Indignava-se se alguém risse em sua frente. Queria acima de tudo matar o marido ela mesma e suicidar-se depois. Desejava um acidente que trouxesse a morte para os dois.” “Insultava os médicos porque eles não matavam o marido.”

“A paciente ingressou num hospital psiquiátrico (…) desde o começo, acreditava que estava sendo observada, perseguida pela polícia, radiografada; segundo ela, a família (…) estava tomando seus bens; no parque havia fios elétricos que registravam os passos de todos, ela teria sido infectada com sífilis, além de ter câncer, e todas as doenças possíveis. Recusava comida, acreditando que estava envenenada. À noite, vozes entravam-lhe na cabeça e mandavam-na repetir tudo que havia de mau; tudo seria impresso e divulgado por meio de gravadores especiais. Havia fios por toda parte. Mesmo no banho, haveria aparatos que a fotografavam nua para expô-la publicamente. Julgava que misturados aos remédios tomava sêmen de rãs e lagartos, queria vomitar tudo.”

“As idéias persecutórias pioravam cada vez mais. Gritava da janela (…) haviam cortado fora o nariz, as orelhas, os braços da mãe. Os familiares estavam enfiados em meio a fezes, batiam neles com barras de ferro, etc.”

“alta após 4 semanas”

“Nos últimos tempos, envelheceu muito, os cabelos esbranquiçaram rapidamente.”

2. COMO SUZANNE SE VÊ

“[Internada na clínica de Binswanger,] escreveu em poucos dias 2 cadernos completos, em alemão, embora esse não fosse seu idioma natal. (…) A partir dos escritos, pode-se perceber o quão exatamente as informações dadas pela paciente concordam com as dadas pelos familiares do ponto de vista do tempo e dos fatos”

Visto que a doença piorava cada vez mais, que meu marido começou a sofrer de insônia total apesar da medicação e que só comia se o forçavam e se alimentava principalmente de sangue prensado com creme, ovos e carne, os médicos sugeriram, uma vez que não se podia obter o novo medicamento (mesotório) onde morávamos, que fôssemos a Paris, ao que meus familiares também me encorajavam, dizendo que eu devia de toda maneira, embora estivesse arrasada, inconsolável, tentar também isso, a fim de nunca poder me culpar por [não] ter tentado fazer todo o possível para, se não salvar, ao menos prolongar a vida do homem. Essa estadia de 2 meses em P. foi o inferno para o pobre homem; alguns médicos queriam mandar operar meu marido, proposta, contudo, veementemente rejeitado por outros médicos.”

Enquanto eu estou andando pelo parque, eu escuto minhas expressões um tanto triviais serem repetidas por algumas mulheres que estão andando o mais perto possível de mim, a fim de me mostrar que elas ouviram tudo. Isso me deixa frenética. Até mesmo meus pensamentos são repetidos por outras pessoas. Eu digo para minha irmã ‘Nós estamos aqui entre espiões, o que eles querem de mim?’, mas ela apenas ri”

eu pressinto uma corrente elétrica”

tornei-me assassina de toda a família; não isso apenas; eu mando despedaçar a tumba do meu pai. Esses pensamentos me vêm na língua …, que eu nunca usei em casa. (…) e eu, assassina, estou deitada aqui na cama, estou sendo alimentada, estão me dando banho enquanto meus inocentes familiares atormentam-se.”

nós somos mendigas, eu caluniei vocês todos por meio do poder do diabo.”

Agora estou vivendo com a única esperança de escrever um pedido (petição) de que fuzilem as pobres pessoas sofridas ao invés de martirizarem-nas por tanto tempo.”

3. ANOTAÇÕES DE BINSWANGER

“Teriam-na mandado dizer que seu sobrinho é um socialista. Sente depois, com toda a exatidão, que estão arrancando os olhos dele.”

“tão logo conta uma piada, faz mais uma vez censuras a si mesma. (…) Conta com muito gosto as piadas mais sujas. Pergunta quem lhe tirou o entendimento.”

“Em 4 de setembro de 1920 é retirada do hospital psiquiátrico pela irmã imprudente, depois da assinatura de uma declaração rigorosa (…) Desde então, não ouvimos sequer mais uma palavra a seu respeito, e todas as buscas ficaram sem resultado devido aos caos da I e II Guerras Mundiais.”

“Até o último momento, a letra era tão precisa e pequena que a paciente podia colocar toda a história de seu sofrimento em um cartão postal”

4. ANÁLISE DO DASEIN

O médico disse-lhe que havia uma parte da bexiga que estava ferida, mas, quando ele virou as costas, fez para mim uma cara tão terrivelmente desesperançosa que fiquei completamente paralisada (…) de modo que o médico agarrou minha mão para me indicar que eu não devia mostrar a ele nenhuma das minhas sensações. Essa mímica foi uma coisa pavorosa! Meu marido também percebeu algo, talvez, mas exibiu uma expressão completamente amigável e apenas perguntou ao médico de onde isto poderia ter vindo; ele respondeu que isso frequentemente está no sangue, sem que se saiba sua origem.”

“horror mudo”

“Suzanne Urban leu no rosto e na mímica do médico não apenas a sentença de morte do marido, mas também a perspectiva das dores tormentosas que o aguardavam.”

“Todo o Dasein estava agora sob o domínio do tema de que foi encarregado na <cena original>, o tema do <câncer do marido>. Como algo de que alguém é encarregado <a partir de fora>, esse tema implica um encargo, o encargo, propriamente, de <levar a cabo> esse tema de alguma maneira, de não sucumbir a ele, mas vencê-lo.”

“Suzanne Urban agora fala consigo mesma, ouve a si mesma, escuta exclusivamente a si mesma. Se o dito de que todo monólogo é um diálogo (Vossler) é correto, isso também se aplica neste caso.”

“Enquanto o si-mesmo aberto (aberto à verdadeira comunidade) atenua a carga de tal tema falando a respeito dele com um amigo, o si-mesmo que se enclausura com o tema procura carregá-la <exclusivamente> em seus próprios ombros, sem ver que esses ombros se tornaram fracos demais para isso há muito. A essa altura estamos diante do 1º passo desse Dasein em direção ao cegamento do si-mesmo ou à extravagância.”

Vacas não-malhadas e gatos no telhado: “Nachts sind alle Kühe grau”

“Como é regra nos delírios de perseguição plurais, aqui o pretenso fundador da <desgraça de toda a família> [o psiquiatra da internação] vai depressa para o 2º plano para temporariamente dar lugar a uma pessoa completamente diferente (<a prostituta de rua>, a enfermeira) e somente ser mencionado de novo ocasionalmente. O Dr. R. figura aí como aquele que a separou de seu marido (…) o carrasco da família” “Apesar de tudo isso, não parece fora de questão que o Dr. R. deva seu significado de desgraça ou de pavor a uma <identificação atmosférica> com o urologista que <martirizou> o marido com seu exame e lhe revelou o diagnóstico de câncer tão <pavorosamente>. Pois o verdadeiro carrasco, aquele com quem <a desgraça de toda a família> começou, é decerto o médico da cena original

Te peguei pela nota de rodapé.

Tu te tornas eternamente citável pelo artigo que publicas.

“Também a autosseculusão frente aos outros é uma forma desse ser compartilhado (…) Todavia, com isso ainda estamos na superfície, completamente à parte do fato de que a passividade sempre implica uma forma de atividade e vice-versa.”

Mundchen, a boquinha de Munique.

É fitar e começar: start and resume (pressing start): starren: é ver pra crer: que fita, pode crer!

Select your destinyfreedom!

Pausar qualquer progresso.

Engessar qualquer um que deu um pau na máquina que deu pau.

Congelar, reter, dar crise de pânico e resetar.

Meu torpor seguro onde cristalizaram as emoções já faz um tempo.

Já faz um tempo que as pessoas agem como se portas-afora fossem.

Ágora é que são elas, cuspindo na cara dos carnavais.

Parcas fora do baralho, só estão no mundo real –

Presente de hilota e pelego!

Recebo, não nego, dadivoso logro quando hipomaníaco eu estiver.

Rancorosa Lola Corre do Tempo que Assedia a Moça de Somas Bonitas.

Poxa que rosa sua coxa, recorro aos meus pensamentos para encerrar o coro

Com uma mensagem que não escoe pelo ralo: uma ponte entre nossas

Aspirações.

Abismo cheio de miasma, conhecido como el mismo.

Cacarejou a cara do novo dia normal e malogrado.

O Apanhador de Sentidos no Campo do Nonsense.

Em termos de sentido da vida, a única coisa que se apanha, em muitas pessoas, é seu eu-criança. Isso é falta de apanhar, K.! Preguiça mental!

Entorpecido em suas sólidas crenças morais.

Fagulhas de luz negra em seu olhar gasoso, de névoa desinteressada.

História da Moral: Não conte.

Wish-to-do-list:

Ator: doar um

Um ator, atordoar

fina morte morna de morfina

“Em lugar da simesmação autentica do Dasein no sentido da existência, entra a errância sem-fim para o <mundo pavoroso>, para a <odisséia pavorosa>.”

“A notável idiossincrasia das narrações delirantes dos esquizofrênicos está correlacionada ao fato de que o <como> da narração, a representação linguística, pode ser extremamente sucinta e precisa – tão precisa que um leigo, em regra, dará crédito às declarações delirantes da paciente prontamente se elas não forem abstrusas demais –, enquanto o <o quê>, o conteúdo de suas narrativas, é em regra notavelmente impreciso, vago, ambíguo, até mesmo <aventuroso>.”

me sinto como se…”

“Quanto mais evidente é a sinistra entrega de Suzanne à publicidade, mais os órgãos executores dela (aqui como em outros lugares) se subtraem a uma verificação exata. Todos procedem de maneira mais ou menos secreta. (…) está cercada de espiões, contudo não consegue vê-los e identificá-los; ela escuta <um apitar policial>, mas não vê nenhum policial. (…) A despeito do sentimento de ódio para com o Dr. R e para com a <prostituta de rua>, Suzanne, ao contrário do presidente do senado Schreber, não implica com uma pessoa determinada, ao redor da qual circula amor & ódio. Não foi <ele> nem <ela> que armou, mas simplesmente <armaram> uma <armadilha pavorosa>” Bem weberiano!

“Lidamos com duas <linguagens> da paciente ao mesmo tempo: uma linguagem do pavor e uma linguagem da verificação calma e da reflexão. Delírio e reflexão sóbria não se excluem mutuamente”

“Suzanne ouve dia e noite um uivo pavoroso, como o dos lobos. <Tossem> e <cospem> alto diante da janela dela, ela vê grandes facas de cozinha que estão numa janela e grita alto ao ver algumas gotas de sangue sobre o chão, etc.”

“a criada do hospital está vestindo os aventais dela, para <mostrar-lhe> que estão fazendo <revistas> (policiais) em seu quarto. As declarações de uma senhora de que se deveria deixar o gato <dar uma boa mastigada no pássaro>, certos movimentos manuais e o ato de puxar o nariz, tudo isso tem o mesmo sentido, que algumas vezes ela escuta expresso por palavras: <a cabecinha precisa cair>.”

“Depois de pensar como seria bom se quisessem decapitar ela própria (em lugar de seus familiares), ela vê <diante de si> um menino que tem um sabre de brinquedo fazer o movimento da decapitação. Ao capinara grama <mostram> a foice significativamente: <Eu, contudo, entendi o sentido da foice>.”

zombam dela, até mesmo da doença do marido: Câncer, câncer, pelo amor de Deus! Por que não lagosta?”

“O que torna o <paciente que sofre de delírio> alheio a nós, o que o faz parecer alienado não são percepções ou idéias isoladas, mas o fato de seu enclausuramento em um esboço de mundo dominado por um único ou alguns poucos temas, ou seja, enormemente estreito.”

“há os pensamentos que mandam-na pensar!”

“obrigam-na a pensar que os familiares são cobertos com chumbo e piche.”

“O mais tormentoso de todos os tormentos é, na verdade, a obrigação, que parte de um poder diabólico, de caluniar seus familiares <em pensamentos> ou com palavras e, desse modo, de fazer-se culpável pelos martírios e pela decadência tormentosa deles, portanto, de ser uma criminosa, por assim dizer, uma criminosa a contragosto.”

1) ‘voz’ inquisidora; 2) poder caluniador dos pensamentos e das palavras; 3) instância transcendente que reflete o jogo de perguntas e respostas, sendo aceita como destino pela ‘voz’, que no entanto ‘corrige’ as respostas quando necessário.

“Aí vemos que O Dasein ainda consegue resistir à publicização dos <pensamentos> ou, ao menos, ainda consegue encará-la de frente se ela estiver em extrema contradição com o si-mesmo. No entanto, é claro que as acusações caluniadores surgem a partir do próprio Dasein.”

Detalhe curioso: a ‘voz’ diz-lhe injustamente o tempo todo que seu marido, inocente, é um falso-moedeiro. “Em Kreuzlingen [segunda internação, na Suíça], ela sempre ouve o martelar de uma forja <nos ouvidos>, que indica que ali mora a mulher do falsificador de dinheiro!”

“E se alguém designa todos esses pensamentos como idéias delirantes, declara ela energicamente: Não são idéias delirantes, são idéias verdadeiras! E logo após Suzanne faz de novo um relato completamente objetivo sobre o novo medicamento que foi inventado contra o câncer em Munique e que seu irmão buscará.”

“a intenção de matar o marido com veneno (arsênico) agora é colocada como a causa de sua internação no 1º hospital”

A paciente passa a se arranhar (no lugar da enfermeira), a se masturbar sem consideração com quem a assiste ao invés de ter vergonha de qualquer atitude em seclusão, uma vez que é sempre, de alguma forma, filmada e gravada: “O mundo compartilhado, que normalmente tem o papel principal no delírio, aqui afunda em direção à completa insignificância. O Dasein retorna à vida no próprio corpo e ao gozo do próprio corpo, agora não mais na seclusão do mundo com-partilhado, mas <diante dos olhos dele>.”

ESPACIALIZAÇÃO DO DASEIN ou TEATRO DA PERSEGUIÇÃO: “Ellen West designava seu Dasein como uma prisão, uma rede e, sobretudo, um palco, cujas saídas estão ocupadas por homens armados <de espadas sacadas>

Jemandem auf den Leibrücken

“Mesmo os pensamentos são <coisas> que são como que tiradas de um recipiente e inseridas nele.”

“mundo sinistro marionético” “Essa consciência de ser uma simples marionete nas mãos de manipuladores desconhecidos está relacionada ao que há de mais pavoroso nos pavores” “Também o predomínio da tecnologia e do maquinário tecnológico está correlacionado à redução do mundo desse delírio a um simples mundo do contato.”

Minkowski – Les notions de distance vécue

E agora, que devir poderá dar uma condição de possibilidade de me salvar? EEEEuuuuuuu

Já conhecemos da <experiência natural> o papel da polícia como um poder sinistro-anônimo. É preciso ler somente O Processo de Kafka para ter uma idéia do tipo, da dimensão e do efeito desse poder. Além da polícia, agora entram em ação também seus companheiros, seja a mando dela, seja por conta própria.” “o médico encaminhador ou ‘carrasco’, os enfermeiros, os outros pacientes, os companheiros de viagem, etc.” “órgãos executores do pavoroso

“Em todos os casos, trata-se das formas do pegar ou ser-pego por algo relacionados ao mundo compartilhado, no sentido da impressionabilidade.

“Acima desses <ramos> dos órgãos executores do pavoroso e, especialmente, acima da polícia, encontramos – como contratantes – o partido (anti-socialista), o exército de ocupação (vive-se então a Primeira Guerra Mundial) ou mesmo o Estado. E sobre tudo isso está simplesmente o poder diabólico do pavoroso, que ora é apenas pressentido, ora é ouvido como uma ‘voz’ terrível.”

“Apesar de ele assumir uma voz, não se chega manifestamente à personificação propriamente dita do poder do pavoroso na forma de um diabo ou um demônio, como muitas vezes podemos constatar em outros casos. Em todo caso, também não ouvimos dizer nada sore visões diabólicas.”

Szilasi – Potência e impotência do espírito

5.O PALCO: CASO ELLEN WEST X CASO URBAN. QUANDO A PEÇA ENCENADA E MUITO CONVINCENTE TORNA-SE POR FIM O REAL (TEATRO DO PAVOR). REFERÊNCIA À TRAGÉDIA GREGA CLÁSSICA.

“o Dasein que adentrou o símile do palco de Ellen West está de uma vez por todas cercado por cortinas que não podem ser deslocadas, por inimigos insuperáveis.”

Resignação como a “ajuda que vem do próprio Dasein”.

“Uma vez que a possibilidade de ser da impressionabilidade se autonomize completamente e, com isso, se torne desmedida e ilimitada, e, consequentemente, o Dasein se limite ao recebimento de impressões, fala-se de alucinação. Se essa receptividade estiver sob a supremacia do pavoroso e obtiver instruções dele, trata-se necessariamente de alucinações pavorosas. O mesmo vale para os pensamentos.”

“O <palco> inteiro está posto em cena por um único <diretor>, por um único poder que confere sentido e dá uma direção. É apenas a partir desse poder que todos os atos que conferem e cumprem sentidos recebem sua diretiva e seu cumprimento intencional.”

Mergulho na viscosa piscina do delírio. Fácil entrar, difícil sair.

“Enquanto o delírio é uma das formas da sujeição do Dasein a esse poder do pavoroso, o mito e a religião, a poesia e a filosofia representam, pelo contrário, formas da superação dele.” “O pavoroso diz respeito ao Dasein em seu isolamento no autismo

Partida bem disputada antes da partida bem acenada

como se…” símile, analogia, erga mínimo distanciamento, abstração, consideração fria de uma autoimagem – diferente de quando se passa ao delírio (psicose) p.d.

“O ser-espiritual é exatamente esse retorno, esse recuperar-a-si-mesmo do tumulto do mundo, a possibilidade da capacidade de ser no espírito.”

passa-se à voz passiva do ente

“O próprio pavoroso-aflitivo se transformou aqui: em lugar do marido, encontramos toda a família ameaçada pelo martírio e pela morte, no lugar do martírio por uma doença incurável, entraram os martírios feitos pela polícia, etc.”

“Daí resulta que, para a compreensão do delírio, não podemos recorrer nem a um distúrbio do juízo em termos de um equívoco, nem a um distúrbio de percepção sensorial, de ilusão por meio de alucinações. Ambos são já consequências da transformação da estrutura do ser-no-mundo como um todo, no sentido do ser-no-mundo deliróide.”

“Ele não se porta de maneira diferente de uma pessoa a quem aconteceu uma injustiça real. Não tem somente a necessidade de <dizer o que sofre>, mas também de defender a si mesmo e os outros dos sofrimentos. (…) o contato com o mundo compartilhado não está de nenhuma maneira interrompido.”

Quem tem inimigos sempre tem testemunhas e objetos neutros no universo. Não houvesse isso, seria apenas uma câmara de yin-yang e partir-se-ia para o confronto direto. No entanto, o inimigo é covarde, é astuto e “mais sujo” do que nós (os personagens delirantes), precisa recorrer a subterfúgios e a táticas infames para “ganhar de nós”. Como ainda cremos, apesar de tudo, numa justiça como princípio das coisas, olhamos em todos os recantos atrás de alguém que simpatize com nossa causa e perceba a vileza e a má-fé de nossos oponentes-perseguidores.

Desse ponto de vista, aquele que sofre de delírio de perseguição não é de forma alguma autista.” Ele sofre de hiper-realidade. Ele pensa que cometeu o crime perfeito e agora sofre uma retaliação não menos impecável…

O perseguido é um secreto exibicionista.

“a <conversão> dos acontecimentos em <ação> vai muito mais longe do que onde já se chegou ou pode se chegar na tragédia e também no mais arrepiante drama barroco. (…) o delírio (…) supera a (…) tragédia (…) [porque] (…) também os pensamentos [são] recebidos [de fora e incluídos] na ação.”

“aqui, como na tragédia, não há <rua sem-saída>, mas tudo vai a qualquer lugar e vem de qualquer lugar e claramente <se refere a um centro>”, o que, como já ressaltamos, exclui o acaso. (…) [Mas,] enquanto na tragédia o poeta é quem <transforma a matéria-prima com sua força>, no delírio o poder formador (…) é cego, e isso implica DESTRUIR A FORMA” Édipo é o autor dessa mímica infernal.

6. CONTINUAÇÃO DO TÓPICO ANTERIOR. REFERÊNCIA À POESIA DE BAUDELAIRE.

Para usar o idioleto idiótico de Einstein, no delírio de perseguição, deus joga todos os dados que tem à mão!

À procura da batida perfeita, quer dizer da cena perfeita, quer dizer, da cena original.O protótipo de todos os males.

O SONETO DA DESTRUIÇÃO AUTÔMATO-SANGRENTA

Sem cessar, ao meu lado, se agita o Demônio,

Ele nada em torno de mim como um ar impalpável

Eu o trago e sinto que queima meu pulmão

E o enche de um desejo eterno e culpável.

Por vezes ele toma, sabendo meu grande amor pela Arte,

A forma da mais sedutora das mulheres

E, sob pretextos especiosos da tristeza,

Acostuma meu lábio a filtros infames.

Ele me conduz assim, longe do olhar de Deus,

Arquejando e quebrado de fadiga, em meio

Às planícies do Tédio,¹ profundas e desertas.

E lança aos meus olhos cheios² de confusão

Vestimentas sujas, feridas abertas,

É a máquina sangrenta da Destruição!”

Baudelaire

¹ Tártaro

² de cisne

νος

Nada no ar

Ar que queima

Fogo que chamusca,

soterra

Terra que cobre

Tudo de novo.

Imagina se esse eidos pega n’olho

Você vê resultados nos testes de Rorschach?

7. A PARANÓIA DE ROUSSEAU

“nos ocuparemos de um caso especialmente famoso e bem-documentado da literatura mundial, o de Jean-Jacques Rousseau.”

“Esse caso é muito apropriado ao que nos interessa, pois a língua francesa é extraordinariamente rica em expressões metafóricas, que são aquilo de que se trata aqui.”

“Rousseau sofria de um delírio de perseguição completamente não-sangrento, puramente social ou reputacional, em termos de uma difamação levada ao extremo, e, no entanto, nele encontramos um vasto número de expressões da esfera do maquinário e da tecnologia a serviço da destruição.” UnB murky atmosphere

Rousseau, Dialogues (vol. XVIII[!] das Obras completas)

Barbarus hic ego sum quia non intelligor illis”

Ovídio

Aqui sou um bárbaro, pois não me entendem”

agrupamentos, cochichos, risos desrespeitosos, olhares cruéis e selvagens, escárnio… atentados… o inimigo sabe exatamente aquilo que mais nos pode ferir, como que magicamente… somos nós que temos rivais finalmente à nossa altura, ou nossa mente nos prega essa peça tão pesada (nosso maior inimigo é nossa própria inteligência tão sutil em seu masoquismo autoacusatório?)?

esse corredor polonês assintótico, entre a certeza absoluta de ser o bode expiatório e a certeza de ser só um ser-num-mundo-ruim, eternamente em dúvida entre os dois pólos perfeitos, eternamente num julgamento impreciso sobre todos os eventos e circunstâncias em pingue-pongue

Eles encontraram a arte de me fazer sofrer uma morte lenta me mantendo enterrado vivo”

R.

“lama”

“apunhalam-me impunemente”

“tudo é uma armadilha”

“maldade diabólica”

não soa, é!

a ameaça de um vago processo…

ocafka da Kapes

a vingança é impessoal

Imaginem pessoas que começam a colocar cada um uma boa máscara, bem ajustada, que se armam com ferro até os dentes, que surpreendem seu inimigo em seguida, o acertam por trás, colocam-no nu, atam-lhe o corpo, os braços, as mãos, os pés, a cabeça, de modo que ele não possa se mover, colocam-lhe uma mordaça na boca, furam-lhe os olhos, o estendem sobre a terra e passam, enfim, sua nobre vida a massacrá-lo de pavor docemente, de modo que, morrendo por suas feridas, ele não cesse de senti-las tão cedo … a vista cruel deles fere seus olhos por todas as partes … o espetáculo do ódio o aflige e o dilacera ainda mais [na mente que no corpo]”

…estes Senhores conjurados em um complô anônimo para difamar-me, inclusive em face do amanhã…” “o grupo parte de 2 rivais, cujo número rapidamente aumenta para 10, mas gradualmente passa a abranger o mundo inteiro (l’univers)”

neurose de transferência do inimigo mortal zena-carolina (nevrose à 4)

cassaram-lhe a aposentadoria integral

invejavam seu carrão

não o valorizavam o suficiente

obviamente falavam mal dele as suas costas (((sem provas)))

UnB – tornar-se um adulto – emular o progenitor

pessoas falam mal de mim às costas

fazem cartazes, infringem normas do Orkut (sim, com provas!)

desvalorizam-me a olhos vistos (a imbecil que desistiu do curso para cursar medicina diz que Heisenberg não pode ser citado numa aula de Introdução à sociologia, pois “não tem nada a ver”, física nada tem a ver com este mundo compartilhado em que pisamos – e mesmo se tivesse, vc fez uma analogia idiota!!)

o calouro que tomou pinho-sol (como se tivesse sido um litro, foi um gole de desafio, mas isso não importa, é a última coisa que importaria, o que importa é a mofa e a troça, passar adiante este relato mui cômico… e ele não tem direito de se enfezar com essa história, afinal, quem mandou ele… inclusive quebrar o dente numa escada numa festa… que ridículo! que ridículo ele descontar hipócrita e dissimuladamente em seu blog intelectual – ele não tem esse direito! – ele me chamou de chato lá… disse que eu dou sono, eu atrapalho, que NÓS SOMOS BURROS, inadmissível, alguém que tomou um gole de pinho-sol ser superior a nós, ovelhas de rebanho, em qualquer coisa que seja!…apague seu blog, viva de acordo com meus preceitos, seu… doido… retifico… seu menos-que-doido pois eu li em Foucault que doidos são seres complexos e honrados vc é um menos-que-nada-e-além-do-mais-vc-é-um-playboyzinho-que-estudou-no-CEUB, meu pai arquiteto que gosta de ornar a casa com colunas gregas jamais teria dinheiro para pagar 700 reais por mês numa FACULDADE para mim, embora ele custeie minha vida numa cidade longe de Fortaleza num apartamento NO CENTRO DA CIDADE, o que pelas minhas contas, para o ano de 2007, excede com facilidade as 2 mil pratas… ó!)

O curso inteiro virou meu inimigo

Mas tinha começado com um núcleo duro…

Logo me afastei até mesmo dos meus amigos mais próximos, que decerto não compactuavam com nada dessa marmotada toda…

Virei um desconfiado de carteirinha. Estava sendo observado na biblioteca, na cantina…

E depois? Ninguém me deus os parabéns, era mera obrigação… Então, a OBRIGAÇÃO de honrar os pais eu a cancelo, porque eu sou livre. Sua obrigação é sofrer seu destino.

Meu destino foi sofrer meu estágio probatório. E rir no meio de uma pandemia, rir, gargalhar, galhofar cada vez mais alto e espalhafatoso, até o dia que por acidente (pois já não mais me perseguem, as pessoas estão paranoicas com outras coisas muito mais importantes, sem dúvida! estou curado!) – por acidente eu disse! – toparem com seus nomes nodoados num post numa entrada miserável na internet e tudo recomeçar?… MAS ESTE É UM PROCESSO SEM-FIM E AUTORRETROALIMENTADO, não se esqueça! Ele faz e paga e sofre e recebe o que pagou e assim por diante incessante infinitamente até que alunos e professores todos se esmaguem num abraço coletivo cheio de ruído e cólera e, não foi nada demais… insignificante.

No fim, eles têm de admitir: eu sou marcante. Eu tenho digitais, eu marco aquilo que toco. Se transformo em ouro ou cinzas, não interessa, o Dasein não tem – para emitir diagnósticos – qualquer resquício de pressa

A vítima de racismo que comeu uma banana e deixou o agressor com cara de tacho é uma história que me lembra muito a minha!

Eu lavei minha boca e troquei a dentadura, para poder falar (com) coisas(-pessoas) melhores.

Eu sou viciado nessa história porque apesar da dor que me causou e que ainda me causa marginalmente, eu viveria todos estes capítulos de novo e de novo… Se sou doente de alguma coisa, essa é minha doença e ela é com toda certeza absolutamente intencional e culpa minha!

A provocação tem 1000 vozes. É próprio da provocação misturar os gêneros, multiplicar os vocábulos, fazer literatura, e esta integridade da matéria dura que nos provoca vai ser atacada, não somente pela mão armada, mas pelos olhos ardentes, pelas injúrias. O ardor combativo, o neikos, é polivalente.”

Bachelard

Mas e Rousseau?

8.DESCONTINUIDADE TEMPORAL

“No pavor abismal relativo ao diagnóstico de câncer e no congelamento de todo o Dasein, <o tempo> estava, por assim dizer, em repouso, não se desdobrou em seus êxtases e, portanto, o Dasein não existia mais no sentido pleno da palavra.”

ab –ismo (até o exagero)

Mitwelt

mundo.com

niilismo&vc.td.a.ver.

“Enquanto no quarto estudo, o Caso Lola Voss, tivemos que nos contentar essencialmente com a verificação e a descrição dessa transformação, esperamos, neste quinto estudo, ter dado um passo a mais na compreensão daseinanalítica [hm] dela. Temos consciência que ainda estamos longe da meta.”

“A palavra physis vem do verbo phyo (nascer, originar-se).”

Um grau além da citação cruzada ou autocitação: a citação de um livro que é dedicado à própria teoria! Grosso modo: “Como diz Binswanger apud Szilasi …” Binswanger [!!!]

“com a evolução da esquizofrenia crônica, acontece pouca coisa, e sempre menos, na medida em que os pacientes esquizofrênicos não têm experiências novas no sentido da experiência natural, i.e., que <adicionem algo novo> às antigas, mas apenas experiências em termos da monotonia do velho estribilho. Permanece-se fundamentalmente na experiência do elemento geral único, e, assim, <não acontece muita coisa>”

“uma longura que se diferencia da lentidão da depressão.”

“no delírio de perseguição, tem-se uma imensidão de <<novas>> experiências

“A temporalização da longura nunca conduz à temporalização do tédio

“Vale notar que o termo utilizado para <andamento musical> em alemão é Tempo

Adorno riria desse esforço: “Binswanger está tentando distinguir na etimologia de longura e lentidão vestígios de formas diferentes de lidar com o tempo. Infelizmente não é possível manter essas relações etimológicas em português.”

“A palavra para tédio é Langweile, formada pelo adjetivo lang e o substantivo Weile (momento, intervalo de tempo).”

“Se alguém, no convívio da vida e do trabalho, for irritado repetidamente da mesma maneira pela mesma pessoa, <ele não vai suportar para sempre>. Em verdade, aqui se experiencia a generalidade da irritação novamente em cada particularidade, mas não de maneira que (como no delírio) o particular represente o geral e exista somente pela graça dele, mas de modo que o geral se particularize de fato em toda sua dimensão, i.e., experiencie sua plena concreção em cada <ensejo> particular (…) É isso que, frente ao irritante, não suportamos para sempre.”

9. A CONSUMAÇÃO DO PAVOR

Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie

“Só se repare de passagem que eu, a despeito de minha convicção da importância filosófica e científica imperecível do método puramente fenomenológico, não estou no campo do <intuicionismo absoluto> da maneira que Husserl o advoga, razão pela qual ainda sou aberto a contemplações e reflexões, como disse Hans Kunz em O problema do espírito na Psicologia Profunda (art.).”

Dormimos todos juntos sobre vulcões”

Goethe

Naquilo que é teu, também vejo o que é meu”

Ulisses no Ájax de Sófocles

é 1000, tio! run!

é 100&cia.

10. TENTATIVAS DE DIAGNÓSTICO

“quando o clínico fala de pessoa ou personalidade, ele já deixou o campo da análise do Dasein.”

estamos demasiado acostumados a agir como se a doença invadisse uma pessoa saudável como se fosse alguém estranho!”

Tiling, Tipificação e Distúrbio Individual do Espírito, 1904.

“Eu vejo em T., a despeito de seus esquemas psicológicos historicamente condicionados, um predecessor da psiquiatria clínica moderna.”

“Suzanne Urban nunca perdeu sua <orientação> e nunca exibiu os distúrbios de pensamento esquizofrênicos formais. Isso também é importante para o tipo de ocorrência delirante de forma de delírio de nosso caso. Pois, ainda que se diferencie dos casos Strindberg e Rousseau pelo <afeto> melancólico em alto grau, tem em comum com eles a forma do delírio.”

“A alguém que leia o histórico da doença pode surgir a suspeita de que, no caso de Suzanne Urban, se tratasse de um delírio puramente depressivo (<afetivo>, <holotímico> ou <sintímico>). Esta suspeita se funda no fato de que de acordo com a família a doença começou com um <transtorno triste de humor>, que o humor permaneceu até o final depressivo e [que] os delírios [são de tipo] melancólico.”

O delírio de culpabilidade leva a acreditar que se cometeram os crimes mais graves sem que haja razão para tanto, ou transforma más ações pequenas e reais em pecados imperdoáveis. Por causa do crime, não somente o paciente é castigado de maneira atroz nessa e na outra vida, mas também todos [os] seus familiares, o mundo inteiro”

Bleuler

7 x 77: a Bíblia é um manual psiquiátrico de primeira grandeza!

“Aqui não se fala de um pecado imperdoável e de seu castigo atroz.” Suzanne sente-se injustiçada. Além disso ela foi uma “criminosa” completamente passiva (de acordo consigo mesma).

hunter x hunter

paranoid x depressed

sense vs. sense

Muito Além da Melancolia (de Ken?)

Delírio de referência: sistematizado e independente do ciclo crime-culpa-e-castigo. Perto disso, a pura mel-ancolia é uma doce brisa.

“há uma perda das inibições morais que não é conciliável com o diagnóstico de melancolia.”

“Com isso, chegamos ao terreno espinhoso da paranoidia, da parafrenia e da paranóia. Já dizemos de antemão que, juntamente com Kolle, Bleuler, Mayer-Gross e outros, somos da opinião de que, hoje em dia, tanto a paranóia (psicótica) quanto a parafrenia devem ser classificadas como esquizofrenia.”

“Do ponto de vista puramente sintomatológico, o caso S.U. poderia ser classificado como a paraphrenia systematica de Kraepelin, já que se trata aqui de um desenvolvimento sorrateiro de um delírio de perseguição constantemente em avanço sem degeneração da personalidade.” Sublinhados: discordantes do caso S.U.

Este sujeito é incurrável, disse o doktor alemal. Ele não pode ser comido!

“o fosso de lama, semelhantemente à caverna, é uma forma particular especialmente feia, fétida e pútrida de profundeza da terra.”

“Uma vez que o diagnóstico de esquizofrenia parece confirmado, e visto que, <onde idéias delirantes e alucinações … estão em primeiro plano>, fala-se (como em Bleuler) de paranoidia, precisamos incluir o caso nesse subgrupo esquizofrênico e, quanto à orientação delirante, classificá-lo como delírio de perseguição paranóide.” Ainda assim: “não vemos sintomas catatônicos, negativismos, estereotipias, excentricidades, maneirismos e também neologismos ou propriedades lingüísticas esquizofrênicas”.

“paralisia das pernas”: histeria

delírio de perseguição singular (portanto necessariamente identitário, vinculado a um sujeito) x delírio de perseguição plural identitário (teoricamente possível, mas que sempre tenderia a alargar seus inimigos, tendendo ao próximo) x delírio de perseguição plural anônimo (caso S.U.)

INFERÊNCIA DA DESCONFIANÇA

Aquele que não desconfia de ninguém… talvez desconfie de si mesmo.

Aquele que não desconfia de ninguém, nem de si mesmo… talvez simplesmente não exista!

Aquele que desconfia de si mesmo, talvez não desconfie de mais ninguém. Saudável desconfiado! Homem invejável!

Aquele que desconfia de um, mas que não desconfia de si mesmo, pode desafortunadamente desconfiar de muitos.

Mas, amigos, aquele que desconfia de muitos, esse desconfia de todos os homens, mais cedo ou mais tarde!

Schreber, por exemplo, o típico delirante singular, vai sucumbindo ao delírio em degraus – imagem perfeita, porque uma escada não é uma rampa. Há uma descontinuidade, mas a ocorrência de ataques ou surtos agudos, que, pelo menos até o segundo, são visivelmente mais importantes do ponto de vista clínico e do ponto de vista do aprofundamento do delírio. Após o segundo, Schreber já está convencido de que ele está no centro de uma trama que envolve o destino do mundo inteiro. E no entanto é só uma figura que emite a voz. Seu pai ou deus. Há posteriormente certa contração (relaxamento), que podemos chamar de descida da escada.

Suzanne, ao contrário, ignora a escada, dá um drible da vaca no real, mesmo no real do delírio, enquanto o delirante for um Schreber. Quem são os inimigos de Suzanne? A sociedade anônima. Enfermeiras, doutores, bedéis, a polícia inteira da cidade ou do país, todos os fascistas e capitalistas, em última instância. Porque de repente os Urban são um bando de socialistas. O mundo não vai ser salvo nem acabar de maneira alguma, mas esse terremoto com Suzanne no centro de seu palco seria suficiente para liquefazer toda a ordem do seu dia. Ela, a vítima. Não deixarão constar nas manchetes de jornais nem nos livros de história a verdadeira história: que Suzanne é inocente. O Grande Irmão a apanhou. E ele tem infinitos avatares intercambiáveis. O que é que fazem com os perseguidos políticos? Podem muito bem metralhar. Mas se não metralham? Talvez não metralham porque existe o risco de se tornarem mártires! Aí então são mais cosméticos e cirúrgicos: basta com exilá-los, torná-los párias inofensivos, eternas personae non gratae. Se Suzanne está viva, só pode ser esse o tratamento a ela dispensada pelos inimigos ocultos!

O dia em que cri que o apresentador do canal de esportes se dirigia a mim, porque sabia que eu estava na pior. A mim!

A internet escamoteia Cila ou Caribde.

Ou eu bem gostaria que fosse verdade, para vender mais livros…

Quem cai na boca do trombone e é o centro das fofocas quer se matar –

Porque não pode se identificar

Com o lunático solitário que só queria ser falado e criticado!

Ou vice-versa.

Schreber x Professor Flechsig

ódio concentrado, advindo do amor pelo pai

Suzanne x “autoridades”

culpa sem relação interpessoal específica, difundida por todos os sentidos alucinados

culpa totalizante, culpa da própria nulidade social

o delírio seria a vingança da moral contra um eu torpe, que se torna mera coisa, títere no teatro. e sua punição deve ser universalmente contemplada, como num reality show ou grande panóptico avant la lettre, seu corpo nu, sua micção, defecação, o ato de comer, transpirar, assoar o nariz, gozar… menos exibicionismo a contragosto que um voyeurismo de si, um sadomasoquismo em que se é boneco, personagem trágico, platéia, direção e os próprios antagonistas.

Schuld em alemão significa tanto culpa quanto dívida.”

“Uma vez que o conceito de autismo é usado ora no sentido daseinanalítico, ora no psicológico, caracterológico, psicopatológico ou psicanalítico, ele se tornou cientificamente quase inutilizável hoje em dia.”

novo demais pra ser demente, velho demais pra ser bobão.

“Nós vimos que nossa própria paciente se encontra na menopausa e os cabelos esbranquiçaram rapidamente nos últimos tempos.”

“Lembramos que Bleuler notou muito freqüentemente nos paranóides uma <sexualidade fraca>, bem como a falta de desejo por filhos. (…) um autoerotismo <forte> dificilmente pode ser concebido como um sinal de sexualidade forte.” “sem a predisposição sadomasoquista, o exame e o adoecimento do marido não teriam esse papel proeminente na doença.”

“seguimos Bleuler quando ele diz <de acordo com nossos conceitos, a constituição hipo-paranóica é uma subforma da psicopatia esquizóide, assim como a paranóia involutiva é uma subforma da esquizofrenia paranóide.>

11. DE VOLTA A HEIDEGGER& ARREMATE

“Aqui o medo não mantém o Dasein <no nada>, desse modo, ele não deixa o mundo naufragar na insignificância, antes confere a ele uma significância distinta e absolutizada, a do pavoroso e, assim, do significado pavoroso de toda singularidade.

“Vemos no conceito de necessidade de delírio o quanto a investigação do delírio (para o mal do conhecimento psiquiátrico) acabou sendo levada a reboque pela investigação normal-psicológica.”

Diretamente relacionado com as polêmicas Freud//Adler: “Bleuler observa com muita agudeza mais uma vez [péla-saco] que se alguém fala de desejo ou necessidade de estar doente, de interesse pela doença, de meta, de ganho da doença, de fuga para as doenças, de intenção e organização, é necessário ter claro em mente, por causa das conseqüências práticas, que essas expressões e conceitos são tirados das idéias de um leigo sobre a psique [!] normal e, na verdade, não deveriam ser de forma alguma empregados em relação a estados mórbidos.”

Nunca vou entender como os autores cinicamente (acordo tácito?), após ridicularizarem Freud num parágrafo, sem citar, nas suas linhas, ‘F.’ e ‘psicanálise’, procedem, logo a seguir, a uma exaltação fabulosa do <legado>: “Em F., o conceito é muito mais profundo do que naquilo que se costuma falar [mais ainda?] sobre o processo de cura, uma vez que ele está firmemente baseado na teoria (construída com muita fineza) da libido, do recalque, do retorno do recalcado e da projeção.”

Projeção continua, a meu ver, o conceito mais problemático da psicologia em geral.

“A partir desse caso de Schwab, pode-se encontrar facilmente um caminho para o <demônio diabólico> de Suzanne Urban e de muitos outros pacientes que sofrem de delírio”

“nos afastamos de Bleuler e de Jung quando eles querem desqualificar a teoria do delírio primário com a assunção e freqüente evidenciamento de motivos inconscientes

“Hans Kunz acreditava que era necessário ver a vivência de desabamento do mundo (cf. Schreber) <como o conteúdo> do delírio primário <mais adequado à ocorrência>, contudo essa vivência (como nosso caso mostra) não é de forma alguma um pressuposto necessário para o delírio primário.”

Heidenhain, J.J. Rousseaus Persönlichkeit, Philosophie und Psychose

“Vê-se quão pouco o critério da recorrência pode, do ponto de vista da <deflagração do delírio>, ser utilizado no diagnóstico diferencial de paranóia e esquizofrenia.”“Mesmo o <esquizofrênico> que chega imediatamente à certeza delirante tem, como nosso caso mostra também, experiências sempre novas que confirmam as antigas.”

“Hoje não podemos mais dizer que as idéias persecutórias se misturam ao quadro da doença <em razão de ilusões sensoriais>, como se podia ler na avaliação do hospital psiquiátrico Sonnenberg sobre o presidente do senado Schreber e infelizmente ainda se pode ler freqüentemente. Antes temos que perceber de uma vez por todas que as alucinações não são distúrbios isolados, como ressaltam Schröder e Meyer-Gross. Mas o precursor nesse tema foi Minkowski em Le Temps vécu, 1923.”

Um louco não faz mais do que perceber a condição humana a sua maneira”

Sartre

As alucinações não se originam de um distúrbio do sensório – compreendendo-se essas funções no sentido psicológico –, também não se originam de um distúrbio das funções da percepção, do pensamento, do juízo, mas partem de um distúrbio e uma variação das funções simpáticas da sensação. Visto que essas funções estão alteradas, o paciente vive outra comunicação com o mundo; mas uma vez que os modos de ser-no-mundo são fundamentais para todas as vivências, as alucinações não são distúrbios isolados”

Erwin Straus, Do Sentido dos Sentidos, 1935

“No conto Na Colônia Penal de Kafka, um viajante, ao ver um delinquente, pergunta ao oficial se ele sabia sua sentença. <Não>, diz o oficial, <seria inútil anunciá-la a ele. Ele já a sente sobre seu corpo>. Dessa maneira, Suzanne Urban não vem a saber de sua sentença, mas de seu sofrimento <sobre seu corpo>, e, por isso, é <inútil> <anunciar> ou explicar a sentença a ela, ou esclarecê-la. E quando Kafka continua: <não é fácil decifrar a escrita (da sentença) com os olhos; nosso homem a decifra, mas com suas feridas>, também nossa pobre S.U. decifra a escrita de seu <destino> não com os olhos (da compreensão), mas com suas <feridas> e as de seus familiares, com os <sofrimentos infligidos> a ela e a eles. (…) O Dasein zomba de qualquer outra experiência; pois esta é a mais <impressionante> no sentido duplo da palavra.” (íntimo e doloroso)

“Por mais que a clínica não consiga evitar todas as tentativas psicológicas, caracterológicas e biológicas de responder o porquê dessa questão em termos de um conhecimento objetificante, a tarefa da psiquiatria como ciência não se esgota nisso.”

“As capacidades anímicas, as propriedades anímicas, a alma (no sentido da psicologia e da psicopatologia), o caráter, a pessoa, a personalidade, o impulso, etc., tudo isso está ontologicamente no limbo, ou seja, não tem fundamento ontológico. Encontramos esse fundamento na analítica do Dasein de Heidegger.”

Jaeger, Paideia II [!!], Die griechische Medizin als Paideia

“o terrível não pode mais se tornar algo impessoal e extramundano contra o qual se pode invocar o destino, mas ele se tornou um ente intramundo que ainda é acessível sob o aspecto da hostilidade.”

Não existe satisfação compensatória: não é uma expiação que demande “x” de tempo ou energia, até haver a quitação. Em tese Suzanne poderia sofrer de seu delírio um tempo infinito (enquanto viver), sem tendência à cura. Realmente o poema de Baudelaire caía bem: uma máquina infernal!

Não importa o conteúdo do delírio: o médico deve analisar a vida pregressa desse tipo de paciente esquizofrênico.

Situação de partida > Autonomização delirante (a paciente perde o foco da ‘angústia original’, quando ainda tinha um ser-no-mundo autêntico)

THE NAKED THERAPIST – Sheldon Kopp em “kopperação” com outros terapeutas

“This is not the first time my writing has been informed by my dreaming self. By now I am wise enough to trust such experiences even before I can make sense of them.”

Acceptance and praise foster a feeling of well-being in the child. They encourage confidence, spontaneity, hope, and a sense of being worthwhile. Punishment and threat induce guilt feelings, moralistic self-restriction, and pressure to atone. Guilt is the anxiety that accompanies transgressions, carrying with it the feeling of having done bad things and the fear of the parents’ angry retaliation. In the interests of self-protection, the child learns to deal with this anticipated punishment preemptively by turning it into an internalized threat against himself. § Disapproval and contempt make a child feel ashamed of not being a worthwhile person. The implied danger of abandonment may make him shy, avoidant, and ever anxious about making mistakes, appearing foolish, and being open to further ridicule.” “Aceitação e elogios alimentam na criança uma sensação de bem-estar e conforto. Encorajam a confiança, espontaneidade, esperança, um senso de capacidade e de cumprir o seu papel. Punição e ameaças induzem sentimentos de culpa, auto-restrições morais, pressão corretiva. A culpa é a ansiedade que acompanha transgressões, carregando consigo o sentimento de ter feito coisas ruins e o medo da retaliação furiosa dos pais. Com a auto-preservação em vista, a criança aprende a lidar com esse castigo iminente de modo preventivo, internalizando a ameaça contra si mesma. § Desaprovação e desdém fazem a criança se sentir envergonhada por não ser uma pessoa valorosa. O perigo implicado no sentir-se abandonado é o desenvolvimento de uma personalidade tímida, esquiva, evitativa, constantemente ansiosa ou apreensiva quanto ao cometimento de erros, com medo de acabar parecendo um tolo ou de estar vulnerável ao ridículo dos outros.”

A ANTIGA SÍNDROME DE RENAN: Medo de ser expulso de casa. Medo de dar muitas despesas. Medo de ser um mero mortal.

<Look how foolish you are, how clumsy, how stupid! What will other people think of you when they see that you can’t seem to do anything right? You should be ashamed of yourself acting like that. If only you really cared, if only you wanted to act right, if only you would try harder, then you could be the kind of child we want you to be.> Repeated exposure to such abuse calls forth an inner echo of self-contempt. § Eventually the child learns to say of himself, <What an idiot I am, what a fool, what an awful person! I never do anything right. I have no self-control. I just don’t try hard enough. If I did, surely they would be satisfied.>” “<Olha quão tolo você é, desajeitado, estúpido! O que vão pensar de você, se você não consegue fazer nada direito? Você devia sentir vergonha de si mesmo agindo desse jeito. Se apenas você se importasse, se você só quisesse agir adequadamente, se você apenas tentasse mais, aí então você seria o tipo de criança que queríamos que você fosse.> A exposição repetida a tal tipo de discurso leva a uma internalização dum eco de auto-desprezo; uma voz interna passa a repetir as mesmas coisas antes faladas pelos seus superiores. § Eventualmente, chega-se ao ponto em que a própria criança dirá, diante de cada nova decepção: <Que idiota que eu sou, que imbecil, que péssima pessoa! Nunca faço nada certo. Não tenho sequer auto-controle. E eu nunca tento o bastante. Se eu tentasse, com certeza satisfaria a vontade dos outros.>”

“My own mother often told me: <I love you, but I don’t like you.> It was clear that this meant that she loved me because she was a good mother, but that she did not like me because I was an unsatisfactory child.”

“The experience of being seen as momentarily not yet able to cope is a natural part of growth. It is also natural to experience the embarrassment that accompanies making mistakes, stumbling, blundering, or fucking-up.”

“Some parents are too hard on their children because of their own personal problems, others because of harsh cultural standards. Some cultures make excessive demands for precocious maturing of the child. In such settings, shaming inculcates the feeling that other people will not like the child unless he lives up to their expectations. § When shaming arises out of the pathology of neurotic parents, the child may be expected to take care of the parents. Such a child may never learn that the natural order of things is quite the reverse. He is discouraged from ever realizing that it is the parents who are supposed to take care of the child. § Even more insidious is the impact of the parent who unconsciously needs to have an unsatisfactory child. Such a parent will never be satisfied, no matter how hard the child tries, no matter how much he accomplishes. Anything less than perfection is unacceptable. If the child gets a grade of 95 on an examination, he will be asked why he didn’t get 100. If he gets 100, he will be asked what took him so long to get a satisfactory grade. Told that he should have been getting 100 all along, he may become afraid to do well lest perfect grades be demanded of him all the time from then on. If he happens to be a chronic straight-A student, then he may be asked, <If you’re so damn smart, how come you can’t keep your room clean?>” “This can lead to his spending a lifetime vainly seeking the approval of others in the hope that he may someday be validated at last. § My own parents shamed me needlessly and often. They made it clear that it was my clumsiness, my inadequacies, and my failures that made them unhappy. Even my successes and accomplishments were made to reveal how inferior and insufficient I was.”

“<Enough,> she stilled me. <A boy doesn’t interrupt when a father is talking, a father who sweats in the city all week long for him.>”

“Those who have been shamed can some day learn to overcome feeling unworthy. Embarrassment, in contrast, is a natural reaction that is inevitable in certain social situations.”

quavering speech [fala tremida] or breaking of the voice, sweating, blanching [empalidecimento], blinking, tremor of the hand, hesitating or vacillating movement, absent-mindedness” Goffman, Interaction Ritual: Essays on Face-to-Face Behavior, 1967

“The medical term for less-than-normal breathing capacity, for instance, is respiratory embarrassment.”

“Some unexpected physical clumsiness, breach of etiquette, or interpersonal insensitivity may leave a person open to criticism for being more crude or coarse than he claims to be. But this is an issue of manners, not of morals. It may make for a temporary change of social status, but never carries with it the self-threatening sanctions of shame, with its implications of abandonment, loss of love, and ultimate emotional starvation.”

“For a moment all bets are off. Trust of myself and others is in jeopardy. All values are once again in question. First there is the question of trust in myself. Am I an adequate human being or a fool? What can I expect of myself? Do I really know what I am doing?” “It is a time for the exotic flowering of my paranoia. At such times I may mistakenly expect contempt and ridicule from loving friends and neutral strangers. It is just as though they would turn from me in disgust as my parents did when I did not meet their impossible standards.”

Where is my floor?

Please open that door

Shut those windows

Cracked room and mind

of a sweet-salty boy

Sing along and refrain

from hiding.

There seems to be no way for any of us to get through the day without making a careless error, doing something foolish, committing a gaffe or faux pas.” Gof., op. cit.

“After hitting the lamppost I sat on the curb and cried as little as possible. I was really worried. Now it was time to go home and face my mother. Instead of seeing this mishap as an unfortunate accident around which I could feel sorry for myself and expect some sympathy, I knew that I had let my parents down again. I headed home and climbed the stairs to our apartment, skates over my shoulder.”

“Still, echoes of this grotesque situation can be heard at times from out of my unsettled and unworthy depths. I remember just a couple of years ago when I learned that I had to undergo a second bout of neurosurgery.”

“At such times my mother’s explicit instructions were: <Don’t fight, but never, never deny that you are a Jew.> She seemed to want me to be well-behaved, but did little to help me to avoid occasions of sin.”

“One afternoon after school Charlie started beating on me in front of a girl I had a crush on. For the first time in my unhappy marriage to Charlie Hooko, my own fear of being seen as a shamefully brutal, lower-class street fighter was overcome. The fear of being humiliated in the eyes of this girl was even more shameful. And so in the midst of the fight I punched Charlie right in the mouth. He couldn’t believe it. I could hardly believe it myself. § Charlie stopped the play at once. He took me down to the park and we both washed our faces at the fountain. Charlie announced to everyone around that I was a tough guy, that he admired me, and that we would be friends from then on. That ended months of regularly scheduled defeat.”

Punch like a girlish girl

Yea, just feel the flow

“As an early teenager I did eventually graduate to becoming a marginal member of a fighting street gang. I pretended that I was a better and more enthusiastic fighter than I ever really was.”

“As my children grew, being creatures of their age they moved toward the freak culture. Part of this involved their being the first kids in our neighborhood to let their hair grow long. So it was that another macho incident came about. One of our neighbors, strong both of will and of muscle, flew the Confederate flag.”

“What proof did he have, I demanded? His only answer was that my kids had long hair. He believed vandalism occurred only in the ghetto. Ghetto kids had long hair and they broke windows, he insisted. My kids had long hair. And so he concluded that it must have been one of them who had broken his window.”

Ironically, the blunderer often unwittingly reveals the discomfort of his predicament by the very means by which he tries to hide it: <the fixed smile, the nervous hollow laugh, the busy hands, the downward glance that conceals the expression of the eyes.>” “Ironicamente, o atabalhoado freqüente e inadvertidamente expõe seu desconforto situacional pela própria tática utilizada para disfarçá-lo: <o sorriso fixo, a risada nervosa despropositada, as mãos hiper-ativas, a vista caída que esconde a expressão dos olhos.>”

“Essa necessidade social salutar de ocultar-se o embaraço é enfatizada nas pessoas que foram excessivamente submetidas a vexames na infância. Potencialmente, o indivíduo virá a desenvolver um estilo de conduta de tipo neurótico, agindo timidamente a maior parte do tempo e preferindo evitar que outros venham a percebê-lo ou a conhecê-lo.”

“Tendo tantas dificuldades de interação, não é raro que a pessoa acredite que sua abertura para o constrangimento e a vivência de situações ridículas [pois socialmente é impossível fugir de tais ocasiões] é realmente singular. Ela pode desenvolver a crença que outras pessoas não têm a mesma tendência de <se passarem por tolas> de tempos em tempos, como ela tem.”

“Sua própria conscienciosidade de seu problema age como um efeito bola de neve: a apreensão pela sua hiper-sensibilidade eleva seu senso de isolamento, peculiaridade, solidão, enfim. Que trágico que a pessoa deva sempre sentir-se como um desajustado! Basicamente, não diferimos uns dos outros. Ninguém é capaz de lidar o tempo todo com as demandas sociais, sempre excessivas. Mas é que o comportamento tímido-neurótico é sempre desproporcional, alimentando a convicção íntima de que <há algo muito errado consigo>.”

“As maneiras reservadas do introvertido <clássico> (não-mórbido) são parte, provavelmente, de sua orientação psicológica inata; e ele estará sempre mais inclinado ao mundo interior das experiências privadas, que lhe é bem mais confortável. Certo nível de acanhamento da personalidade é mesmo, senão natural, incentivado socialmente. Algumas pessoas (como o próprio que escreve) escondem sua timidez crônica debaixo de um véu de arrogância simulada.”

“When he does try to express himself, he is likely to be hesitant, needlessly soft-spoken, ingratiating, and apologetic. Whenever possible, he simply will try to avoid contact with other people.”

A person who is not neurotically shy understands that it is the external situation that contributes to embarrassment, rather than some defect in his own character. Unlike the shy neurotic, he has come to learn that these anxieties are triggered by his reaction to particular people and situations.” “Uma pessoa que não é neuroticamente tímida compreende que é o contexto exterior que contribui para seu embaraço, em vez de qualquer defeito de seu próprio caráter. Ao contrário do tímido neurótico, aquela pessoa aprendeu a ver que essas angústias são acionadas pela sua reação a pessoas e eventos particulares.”

AUTONOOBSAIBOTADOR

 

The shy neurotic cannot get anywhere in overcoming his excessive shyness without first revealing to himself that what he truly fears most is not rejection but acceptance, not failure but success. He begins to go after what he wants out of life.” “O tímido neurótico não chegará a lugar algum, enquanto tenta superar ou minorar sua timidez, caso não admita para si mesmo que o que ele realmente mais teme NÃO é a rejeição mas a aceitação, NÃO é o fracasso, e sim o próprio sucesso! É aí que ele começa a alcançar seus verdadeiros objetivos de vida.”

we’re all looped, leaked, sinking, seeking and not finding, just overwhelmed by our own hopes’ weights… what if…

a head dive in a pool of danger

“Feeling undeserving of such unfamiliar achievement and acceptance, he has unwittingly learned to discredit these pleasureable experiences. A poignant early expression of this self-defeating attitude occurs during the first phase of psychotherapy.”

Anything that makes him feel worthwhile calls forth the echo of his mother’s voice, demanding that he question his presumption. It is as though he can almost hear her demanding, <Just who do you think you are?> Believing even for a moment that he is satisfactory as a human being evokes the underlying shameful feeling that he has presumed too much.” “Qualquer coisa que o faça sentir-se valorizado evoca o eco da voz de sua mãe, mandando que baixe a bola. É como se realmente pudesse ouvir, <Vem cá, quem você pensa que é?>. Acreditar por um só momento que ele é um ser humano completamente satisfatório é o suficiente para ter sua paz de espírito quebrada por pensamentos de culpa de que ele agiu presunçosamente.”

O supremo oposto do vaidoso dos vaidosos – e o que isso trouxe? Mais ódio dos ‘cristãos’ sobre sua cabecinha…

“So it is that each moment of decision is followed by a moment of revision. A minute later, he has reversed his thrust forward, retiring once more into his customary shyness.”

“His life is not what he meant it to be at all. It’s just not it at all.”

Evitar a confrontação é como comprar à prestação!

Guy de Maupassant’s short story, The Diamond Necklace, is a classic example of the high price of false pride. It is the story of Matilda, a woman tortured and angered by having to live a shamefully ordinary life because she does not possess the luxuries and delicacies which she insists befit her station.”

“It was my parents who started me off down my own painful path of shame and false pride. My parents are no longer responsible for this trip that I sometimes continue to make. Now the enemy is within. It is only my own overblown ego that shames me. It is only I, still sometimes arrogantly insisting on having higher standards for myself than I would impose on others. How much easier to accept the flaws in others than in myself. To the extent that I cling to being special in this way, I remain stuck with the tediously painful life of the perfectionistic striver. I must get everything right, all the time, or suffer shame. It is far too heavy a price to pay for maintaining the illusion that I might be able to rise above human frailty.”

“I give up being satisfied with myself as a pretty decent, usually competent sort of guy who, like everyone else, sometimes makes mistakes, fucks up, and plays the fool. Instead I insist that if only I tried harder, really cared, truly wanted to, I could become that wonderful person who could make my long-dead parents happy. Then they would approve of me. I would be the best. Everyone would love me.”

Guilt and shame originate from different kinds of faulty parenting. Guilt arises out of a certain kind of bad fathering, shame out of bad mothering.¹ Either parent may elicit one or the other depending on the particular parent’s role and attitude rather than on his or her gender alone.

Excessive authoritarian fathering creates guilty anticipation of punishment for transgression against the lawful order of things. Overly demanding mothering breeds shame.”

¹ Kleiniano demais…

“Paradoxically, too much shaming often produces defiance rather than propriety. No longer able to bear the overwhelming burden of shame, a child may develop a secret determination to misbehave. He comes to wear a mask of spite and shamelessness.

“We were studying Shakespeare’s Julius Caesar. At the beginning of one week, the English teacher announced that we were to memorize Marc Antony’s eulogy. I protested loudly. Memorizing materials that needlessly cluttered up my head was both a waste of my time and an intrusive violation of my mind. No arbitrary school system had any right to do that to me.”

<Ma, how come you always talk funny when you come to see a teacher?> This was one of my rare opportunities to shame her”

Straight people were simply not prepared for coping with those of us who shamelessly stepped outside of the system, acted with contempt for the rules, and covertly shamed them for the arbitrariness of their principles.”

“At times my shameless behavior has gotten me into trouble. But so long as it sometimes gets results like that, who am I not to be tempted to continue to be outrageous?”

“More privately, I had developed the false pride of perfectionism to hide my shame and worthlessness from my own eyes. I had to avoid risking further failures and more mistakes. I had to be able to change my image so that I might escape without looking like I was running away or hiding out.”

NOSSAS TORRES DE MARFIM

“No longer would I be the fumbling incompetent who was too timid to go to parties because he never knew how to go about making friends. Instead I became a <heavy> intellectual. With such profoundly developed sensitivity, I could no longer be expected to be bothered devoting my precious energies to the pursuit of the mundane social goals that somehow seemed to excite almost everyone else I knew.

Even armoring as exquisite as this was not enough. Somewhere inside I knew I was just too damn lonely. I still needed to be needed. Acting obsequious, or even <being nice>, was an unthinkable solution. Instead I began to advertise myself as ever ready to rush into the gap whenever a task presented itself that ordinary folk found too unrewarding to mess with.”

“For the first few years of my career as a therapist I worked in impossibly archaic monolithic custodial institutions such as state mental hospitals and prisons. Though allegedly established and maintained as society’s attempt to care for and rehabilitate its social deviates, these institutions turned out to be punitive warehouses for those undesirables about whom the rest of us wished to forget. I cast myself as the champion of the oppressed.¹ Doggedly and unsuccessfully I fought the administrative powers, hoping to attain decent care, effective treatment, and eventual release for the inmates.”

¹ Incrivelmente similar a minha loucura de querer me tornar professor!

“Now I had a new problem. There were no bad parents to fight. How was I to define my role in this more benevolent situation?”

“I do not usually shake hands with a new patient unless the patient gives some indication that this is part of where he starts out in social relationships, in which case I respond.”

“His opening lines were: How long have you been a therapist? Don’t you know that phobic patients can’t stand to be touched? You insist on shaking hands with me knowing that I am too compliant to refuse. It could only make me anxious. The demands you make on me!

“Should he awaken during the night and need to go to the bathroom to urinate, he must simply suffer through the hours until dawn. He was not able to risk disturbing his dog by getting out of bed. His feeling of friendship with the dog was substantiated by his bringing him along to the treatment sessions.”

“There he asked to be deported to Russia for asylum. Surely he would get better treatment under Communism than he had from the barbaric democratic psychiatric services in America’s capital.” “I described my own experience, and I pointed out that the patient was crazy. He had made me crazy. I warned this man that he would make him crazy, too, unless we all understood that just because the patient claimed that something difficult needed to be done did not mean that we had to do it. The patient was all heat and no light. We were vulnerable to his unrealistic outcries because of our own needs to meet every challenge heroically, no matter how nutty it might be. If we thought it over for a minute, we would realize that there wasn’t much in the way of disastrous consequence in this for anyone but the patient himself. That was unfortunate for him, but that was the way it had to be. Happily, the perspective I offered was sufficient to relieve the Congressional Counsel of his own anxiety.”

“The patient was an attractive woman in her early twenties whose birth defects included having no feet and only rudimentary hands. She managed to get about with a combination of prosthetic devices and monumental denial.” “Focusing on her frustrated wishes to become a star in the public eye allowed her to avoid her anxiety and despair about the oppressive difficulties that she encountered in everyday living. My own parallel defensiveness led me to join her, supporting her crazy longings with my own denial of shame-filled helplessness. She made her own contribution by avoiding my tentative therapeutic interventions. There was just no way she could hear my timid suggestions that this whole show business preoccupation was an avoidance of dealing with the day-to-day quality of her life.”

“Unattended snot ran out of her nostrils and down her face (her measure of how much messiness I could tolerate?). I listened and sympathized as if my mere presence would heal her.” “For some reason, which I still do not understand, after about a year of this circus she let me in on her <secret>. All during this time she had been seeing me on Thursday afternoons, and now she confessed that she had also been in therapy on Monday mornings at another clinic with another crazy therapist.”

“This new challenge’s chart described her as a borderline psychotic, a part-time alcoholic, an unhappy, aggressive woman with preoccupying sexual hangups and several previous unsatisfying bouts of psychotherapy. When I went out to the waiting room to invite her in for our first therapy session she struck me as a slight, timid waif of a woman. She looked more like an emaciated 12-year-old than a life-hardened 32-year-old.”

Oh, now I get it, the old color symbolism test. A male therapist with a red shirt, and now I’m supposed to tell you that I’m sometimes gay, and you probably are, too!” “You’re the therapist I’ve been looking for all of my life. I’m never, never going to leave you. I know that you’ll be able to accept whatever I do without ever making me feel bad or throwing me out.” “My relief and sense of well-being was immediately transformed. I got the sinking feeling that I had just made a lifetime contract with an albatross.”

 

“By then I was off balance, but I knew the direction in which I must go. I told her that alcoholic beverages were not permitted in the clinic. If she opened the beer here in my office that would be the end of treatment. As in the first session, she seemed relieved rather than upset by my setting some limits on her acting out.”

“She had gone to visit her dentist to have a tooth extracted. He knew that she had bad reactions to the usual anesthetics that he used. Therefore he had brought a bottle of whiskey and insisted that she have a couple of straight shots to prepare her for the extraction. She described herself as having been rather uncertain. Still she yielded to his encouragement to have one, two, and then another couple of shots. She claimed that soon she was so high that she could not resist his insistence that she perform fellatio.”

* * *

Albert Ellis

 

“While I have the floor, let me also disagree with Shelly’s [Sheldon’s] (and almost all other therapists’) allegation or implication that shame largely stems from early childhood experiences. Shit, no! If anything, early childhood experiences largely arise out of our innate predispositions toward inventing <shameful> conditions and actions and consequently idiotically making ourselves—and I mean making ourselves—unduly embarrassed about our inventions.” “Because Shelly’s feelings of shame in regard to the incident with his parents have a high degree of correlation with his feelings of shame today, he mistakenly assumes that the former caused the latter.” “Shelly’s parents indubitably taught him various standards of ‘right’ and ‘wrong’—including the standard, ‘You act rightly when you stubbornly refuse to imagine yourself letting either of your parents drown and wrongly when you even consider saving only one of them from drowning.’ Given such standards, and having the human tendency to adopt them, Shelly will assuredly believe that he acts ‘rightly’ when he tells his parents that under no conditions would he let either of them drown and ‘wrongly’ when he tells them that he would choose one over the other. Granted.”

A person’s history therefore has relatively little to do with present feelings of shame or self-downing. Shelly may have learned his standards of good and bad behavior from his parents (and others), but he decided to take them seriously and he still decides to do so if he feels ashamed of anything he does today.”

“I had a female client who had serious feelings of inadequacy about herself, especially in her relations with men, and whom I helped considerably to overcome some of these feelings. She had an attractive female friend to whom she talked about me and the way I had helped her, and who got somewhat turned on to me. This friend, in her own manipulative way, managed to meet me at a series of lectures I gave and suggested that we date.

Now I knew that I’d better not do this. Not only have I refused from my first days as a therapist to have social relations with my clients—for although this may have some advantages, I recognize that it tends to lead to more harm than good—but I also have refused to maintain close relations with any of their intimates. (…) A good idea, and I invariably—or almost invariably—stick with it. But not this time! The friend of my client seemed so charming and attractive that I decided to break my self-imposed rule and to date her. I saw her a few times, got intimate with her socially and sexually, and then decided to stop seeing her because I found her much less charming and interesting than I previously had thought. In the course of my fairly brief relations with her, I deliberately mentioned nothing about my client, since I knew that they had a somewhat close relationship, and I didn’t want to give away any confidences.

Nothing happened for several weeks; and then, after I and my client’s female friend no longer saw each other, all hell suddenly broke loose. My client, Josephine, came in one day terribly upset and said that she had discovered that I had seen her friend socially. She found this most distressing for several reasons. She thought that I might have revealed some things about her to her friend. She felt constrained, now, in telling me certain feelings that she had about this woman. She confessed a sexual interest in me and said that she felt jealous that I had shown no inclination to have sex with her while I had obviously had it with Sarah. She hated Sarah for having seduced me and then having boasted about it. Most of all, curiously enough, she felt upset because I had stupidly allowed myself to get taken in by Sarah, who, according to Josephine, had no interest in me other than as a conquest, who had fooled me into thinking she had more intelligence than she actually had, and whose inherent nastiness I had presumably entirely failed to perceive.” “I, like Josephine, at first upset myself more about my mistaken diagnosis of Sarah than about anything else.” “Her interest in me stemmed mainly from her belief that I might help her with her own personal problems and from the ego boost she experienced from telling others that she had a well-known psychotherapist interested in her. Although I had told her very specifically not to mention our association to Josephine, whom I guessed would upset herself about it, she had not only told all to her friend but had also lyingly stated that she had given me up and that I still had a great interest in resuming relations with her.” “I took a chance that my relationship with Sarah would never get back to her. I really had preferred Sarah over her, and perhaps some of this preference had come through in my relationship to Josephine. I had given her an opportunity to see some of my diagnostic weaknesses—and thereby helped remove some of her confidence in me as therapist. When she had shown an overt sexual interest in me, I had quite ethically but perhaps too brusquely repulsed her, partly because at the time I already had established a sexual relationship with Sarah, and Josephine did not seem half so attractive to me. If I had never gone with Sarah, I might well have handled rebuffing Josephine in a more tactful and more therapeutic way.” “She seemed to accept the fact that I had not deliberately done anything to hurt her and had only made some understandable errors.” “Fortuitously, she got involved with a well-known psychiatrist who treated her with a dishonesty similar to Sarah’s treatment of me, and I helped her considerably in accepting herself with her gullibility [naiveness] and in breaking away from him without feeling terribly hurt.”

“I set a few more rigorous rules for myself about socializing with the friends and relatives of my clients, and eventually I mainly forgot about the entire incident.”

“If I down ‘me’, ‘myself’, or my totality for my errors, I essentially take myself out of the human condition and view myself as a subhuman. Falsely! For, as a human, I cannot very well attain superhumanness or subhumanness except by a miracle!”

As far as I can see, you do not really admit the true wrongness of your acts if you don’t make yourself feel very guilty about them. And, even if you do acknowledge their badness, you do not motivate yourself strongly enough to change them and keep yourself from recommitting them in the future. Poppycock [Baboseira]!” “As a person who admits his own irresponsibility but who doesn’t down himself totally for having it, I save myself immense amounts of time and energy that I otherwise would spend dwelling on my poor actions, obsessively showing myself how wrongly I did them, and savagely berating myself for having such fallibility.”

“I try not to make myself guilty about making myself guilty, nor to make myself feel ashamed of making myself ashamed. I don’t find it easy! I keep slipping. My goddamned fallibility clearly remains.”

Gerald Bauman

“I felt the role of therapist to be an artificial one requiring that I adopt a facade that made me feel like the newly clothed emperor. I think I persisted in this unpleasant exercise partly because doing therapy was then the wave of the future for young clinicians, partly because I was assured by colleagues and supervisors that I was reasonably competent and talented, and partly because I tend to become stubborn under duress.”

“The most difficult <incident> of all lasted about two years. In the course of some very significant changes in my life, I was subject to severe anxiety attacks while working with clients (and at other times as well). The awful feeling would gradually well up in a great surge that might last for several minutes and then gradually subside. The experience was particularly frightening because I never felt certain how <high> the surge would go. While working, for example, I felt as though if it went much further, I might fall out of my chair or flee the room (these never happened). Though appearing to occur at random, these <attacks> themselves seemed to become more intense over about two years; then I gradually became able to overcome them and resolve the underlying issues.”

CONTRA-MEDIDAS PARA MOMENTOS DE “NUDEZ TERAPÊUTICA”:

  • “Minimize (or eliminate) pretense in self-presentation. This is especially relevant to, and difficult for, beginning therapists.”;
  • Buscar uma espécie de “acordo tácito” com o paciente sobre o nível de nudez ideal que o terapeuta e o “tratando” desejam para a terapia;
  • Sempre ter em mente flexibilidade nas regras de resolução de problemas meta-terapêuticos – incluindo seguir ou não, conforme o caso, até mesmo ESTA regra!

Howard Fink

 

O INSEGURO ESTEIO MORAL DA NAÇÃO: “He began to wonder if his suspicious attitude toward his wife was some sort of an illusion he had to maintain to give him the upper hand in the relationship, to be the constant moral superior.”

“The subject of his wife and I forming some sort of a conspiratorial love pair against him was never again mentioned without a lot of genuine humor associated with it. In fact, as if to further discount the possibility, he once said that he never thought I could lose enough weight anyway to be called slim or skinny by anybody.”

Arthur Colman

 

“While I have known her, she has worked as a topless and bottomless dancer, a masseuse in a parlor catering to conventioneers, and now nude encounter. She has been only partially successful at these jobs. She turns off as she undresses.”

“When she worked as a masseuse, she did not like to touch men’s genitals and do <a local>. It was formally against the policy of the club, although she admitted that to <jerk a customer off> got you a larger tip.”

“Here she was, earning twenty dollars a half hour (exactly my fee, dollar for minute) by sitting nude talking to men who chose their state of dress. No touching, no closeness, no real intimacy. She didn’t admit to seeing the analogies in our situations, probably because she was frightened of exploring their meaning. Her fear protected me from the full impact of the miming that she portrayed as the naked therapist.”

“Being embarrassed about experiencing a particular feeling is just the beginning of the cycle. Confronting the need to keep the feelings hidden increases its potency. Deciding to risk the uncovering process by telling the patient what has been happening inside of me can momentarily increase the embarrassment until it is released in a rush as the communication is finally made.”

O velho dilema de se apaixonar durante as sessões.

“My wife and I have written a book, Love and Ecstasy, about merger experiences in the solitary, dyadic, and group orientations.”

“I remember one patient that I worked with in the Kopp/Colman office. Yvonne was an exquisite, delicate 18-year-old rebel. Her father was a wealthy member of the State Department, her mother the dependent matron of a colonial mansion. Yvonne worked at shattering all family hypocrisy. She attacked with reckless competence, trying everything, flagrantly, desperately, and always self-destructively. She came to Shelly through some of her friends. He represented a bearded refuge for her, an adult who might understand. He sent her to me.

Her name should have been Jezebel. At that point in my life she represented impulse, license, sensuality, limitless possibilities. (…) Falling in love with her would be a lot simpler solution to my malaise than reclaiming the lost parts of my own spirit.”

“I knew I was clever enough to translate what was happening inside of me into words and actions that would facilitate her therapeutic work with me, but I wasn’t sure that I had the courage to risk such an intimate and painful personal statement, with its unknown repercussions for both of us.”

“It is not unusual now for me to feel love in a variety of forms for men and women with whom I work.” “Fantasies from therapy (in the case of Yvonne) invaded my sexual relationship with my wife and my paternal relationship with my daughter, just as those relationships entered my therapy relationship with her.” “She described her evaluation session with me and noted that she was sure I had had an erection during some of the hour. Triumphantly she proclaimed that she was positive of that fact as I got up to escort her out of the room at the end of the hour. She wondered about my ability to work in such a state and about my designs on her. She also wondered about the quality of my marriage and my sex life.” “I remembered being sexually aroused by Susan. My response had been prompted largely by the provocative role she had assumed during the hour rather than from a personal attraction. She could be very sexy, but most often used it as a weapon and a defense. I knew that precisely because of my reaction to her—arousal without great interest.” “I said I got sexually excited by many of my patients, female and male. I tried to use all my responses to an individual in my work, those of my body (including my penis) in all its states, and of my mind, with all its fantasies. I certainly did not plan to cut off parts of myself in the therapy encounter. Integrating that openness in the special setting of therapy with my family and other personal life was difficult and a challenge.”

QUANDO DOIS JUNGUIANOS SÃO CASADOS: Libby knows me and herself well enough to assume that we could experience other people sexually and still focus our most intimate sexual expressions in each other, that she as Every-woman could become a repository for all my sexual fantasies just as I could for hers.”

Arthur Reisel

 

Verdade e vitória são contraditórias.

Meu analista tem uma voz paciente, e eu ouvidos doutorais!

Arthur, it takes ten years before a therapist begins to know what he’s doing.”

 

“Thinking that a straightforward discussion of the pot experience might ease some of this mother’s extreme fears, I asked the girls what it was like for them to smoke pot. Their replies were cautious and evasive. As I should have anticipated, they hit the ball smartly back into my court, asking me if I had smoked pot and if so, why didn’t I describe how it felt? Being a more skilled player than the girls, I could have used a therapeutic trick shot to put the ball back in their court. Yet something told me that the truth was called for here even if the shocked mother were to decide that a therapist who smoked pot was not for her family. Fortunately, it turned out well. Despite her innocence the mother is an open-minded woman who accepts differences in others.”

“Used with Karen’s permission, excerpts from her letters to me will amplify and enrich my presentation.”

I think you protest too strongly and judge too harshly of a previous generation; but the protesting quite vehemently part interests me the most because I have seen it come out before with Carolyn; it wasn’t what you said as much as the intensity with which it was said. You see, on occasion I am also interested in getting into other people’s lives even though I do not get paid for it. I am interested in what makes them tick, and I try to remain as receptive as I can to subtle, non-verbal clues.”

you are very, very far from being an open book. In other words, there is much about you that I do not know. I don’t really know how it makes you feel. I know at one point in the therapy I felt like I was naked, and you were a rapist, and you called me a beggar, and it hurt, and I thought: I’d rather be a beggar than a rapist. It just seemed that you kept taking and taking”

 

you can’t beat them; you never beat them; all it accomplishes in the long run is letting them beat you. I don’t think either one of us would think that was a life well spent.” deixar-se levar é como ir para o inferno, pois não existe paraíso sem esforço. se isso significa que você “tem de dar valor”? Hoho, chega, descanse os nervos, o inferno não deve ser tão ruim… Me chama que eu vou!

I did not tell you my complete reaction to your giving away one of your pictures. My initial feeling was a tinge of jealousy that you thought enough of one of your other female patients to give her a picture you liked very much. What felt like a little child in me yelled out: What are you doing? Don’t you know? I’m supposed to be the most important one! You’re not supposed to give your favorite picture to someone else! On that same level, I’m still not exactly bouncing off the walls about it; a little of the same feeling came back when you brought it up today. However, I feel it is so ridiculous, and childish, and unrealistic that I don’t even know if I completely allow myself to feel it, much less express it.”

uimpulsaindimpulsa

She wasn’t going to think you had designs on her, was she? You didn’t, did you? Then, what’s to feel uneasy about? It was a very nice thing. People should do it more often. I’m glad you did, a little jealous, but pleased.”

 

I get the very strong impression from you that you like doing things according to schedule, and that you really do not take deviations too gracefully. It is too bad that people’s needs do not run according to schedule also, or maybe most of your patients can program them for their hour or whatever.”

 

Fuck your schedule; it might have fucked our lives. We should have gone elsewhere, but you didn’t have to worry about that because I was already too attached to you for that, and I’m sure you didn’t lose any sleep over it. I have resented it; I didn’t realize I resented it so much.”

“She then sent a brief note to apologize for blaming me for fucking up her and her husband’s lives. Karen knew they were responsible for their own lives, and she felt badly about hitting below the belt over the issue of my schedule.” Below the belt, but not too much…

Quantos anos de serviço contribuídos como “terapendo”?

Jacqulyn S. Clements

 

Alan, in his 5th year of hospitalization, had been recalling the days when he was an airplane mechanic. He concluded with the comment, <That’s why I can’t ever get married; I’m a mechanic.>

You may be noting the symbolism. What I said was, <Well, I don’t know about that. I’ve known a number of mechanics and most of them were married.>

Alan pondered this thoughtfully. Then with a twinkle in his eyes, he leaned close to me and said, <But were they schizophrenic?>

“Telling these stories is vaguely embarrassing, but, as lived, they were really good experiences for me and for the clients. My response in each case was a silent but clear <Touché!>. I don’t recommend dumb comments; but if you’ve got a Bobby or an Alan, you can learn a lot and enjoy each other.

An incident from my practice that illustrates a negative feeling of goofing and embarrassment occurred on the day I handed Mrs. B the A-child’s appointment card. My comments made it obvious that I thought she was married to Mr. A, who was also seated in the waiting room. These weren’t new people; I’d interviewed each with their real spouses. When Mrs. B pointed out my error, I wished I could disappear into a hole in the floor, and my right arm flew up in the air. I used it to touch my hair and said, <Oh, my, where is my head today?> Then, taking the A-child back to the therapy room, I quipped, <I almost got you a new mother today—ha ha.> As far as I know this had no big effect on therapeutic progress, although I certainly wouldn’t call it a confidence builder.”

“Sophisticated clients know what Gestalters and such are like; they probably saw their 6th Fritz Perls film just last week.” Um dos fundadores de um dos ramos da Gestalt (que não é monolítica): Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P., Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality (1951).

“I went to all those miscellaneous workshops and training institutes like everybody else, but I never did manage to come home a recognizable anything. I tell them I’m a Jackie-therapist, and this means, of course, my confidence rests almost solely on results. Yes, this has bothered me some. I’ve never felt ashamed not to be a walking encyclopedia on psychoanalytic theory, but often when another therapist is visiting the premises, I feel tempted to ask my client to please get down on the floor and scream like he’s having an avant-garde breakthrough.”

“I’ve had a few clients with outstanding embarrassment records. Cindy, age 14, recalled her 1st date: She spilled Coke in the boy’s lap, bowled [derrubou] a 16, and then left his car door open, resulting in $70 worth of damage. In such award-winning-goofers I also plant seeds to the effect that they’ve hit bottom, so what’s left to fear?”

“It’s amazing how many children I’ve seen who won’t run on a dropped ball. Little princesses just pose and posture the whole game—any game. The strikeout freezers can usually stay on the team if their batting average is high enough. But princesses are eventually ridiculed and chosen last.”

NÓ CEGO: “My other chronic childhood embarrassment worry had to do with body functions. In grade school about the worst thing I could imagine was wetting my pants in class. However, I was also too embarrassed to ask to be excused to go to the restroom. Would this qualify as a double bind? I am probably one of the few people in existence who neither asked to go nor went anyway.”

“It wasn’t until this very year that I got blood on my skirt in public. I was seeing a teenage boy for therapy when it happened. I laughed.” Quando crescemos e aprendemos que dar aquela freada ou mijada na rua não é nada de mais. “Now I’ll ruin the story a little bit: The teenage boy had gone before I realized it had happened, and then I laughed.”

“Life’s traumas, goofs, negative embarrassments and such should be stored lightly. If they’re off in the warehouse, they’re hard to get at when you need them and could do something constructive with them. But even sending the empty storage cabinet to the warehouse is ill advised. Then you wouldn’t have anything to put these memories in. They’d be laying around in sight too much. There are times for getting them out, but really nobody wants to see or hear that stuff all the time, even your best friends. And how about your own probable concentration on them? That’s called negative feedback overload. To avoid repression or indiscriminate hang-out, better get those storage cabinets out of storage!” O que está sempre exposto passa a ser ignorado (como certos livros na prateleira, que estão na sua frente mas você não os vê mais).

The hypothesis was born: Be they orthodox or atheists, Jews have one foot stuck on the wailing wall. This was a hunch, not a put-down.” “A hipótese havia nascido: Fossem ortodoxos ou ateus, os judeus têm um pé fincado no Muro das Lamentações. Isso era um palpite, não uma afirmação ou acusação.”

IDENTIFICAÇÃO ESPIRITUAL, NO NEED FOR SHOWING (wallpaper de estrela de Davi e correlatos): “My fantasies went even further. I pondered the possible effects of Jewish Depression on the theory and practice of psychotherapy. Since nearly all the geniuses and heroes in this field really are you-know-whats, there might be an accidental bias that could be labeled the J.D. factor. Non-Jewish therapists would pick it up by identification and introjection. By now, almost everybody probably has J.D. This means things may not be as bad as they look.” Ser antissemita é ser antiocidental como um todo, mas não significa ser pró-oriental. Na verdade o Oriente desconhece o pânico anti-judaico; isso é uma doença exclusiva do homem moderno autocastrador. Ser antissemita seria negar nossas mais vincadas raízes pagãs. Ser antissemita é ser um destruidor dos próprios antepassados, nobres e elevados (recado a Varg & simplórios desta era).

Wailing Wall. To wail is to cry. A wall is a block. A crying block? Crying because of a block?” Trocadilho impossível em Português.

“Note that Adam and Eve had no neurotic human parents and did not live in an uptight culture. They didn’t even have any childhood memories. Archetypal shame may be rather far removed from psychological theories regarding its derivatives. Note also that Adam and Eve were not Jewish; they were everybody. There was a wailing wall long before the one in Jerusalem. The latter is likely a modern intensification, or reenactment.”

“For many years, as an adult, I had frequent repeats of two rather common dream themes. In one I was to be in some play. It was opening night, and the curtain was soon to rise. I couldn’t remember any of my lines. I couldn’t recall ever having been to rehearsals. I couldn’t even find a script to refresh my memory or to take, hidden, on stage with me. In the other dream it was time to go take some school exam. I hadn’t been going to class. I’d forgotten I’d even enrolled in the course. If I’d ever had the textbook, I didn’t know where it was.

Despite years of individual therapy, group encounters, and hundreds of psychological theory and how-to books, these dreams continued unchanged. Then last year I had breakthrough dreams for both of them and have not had either one since.

In the breakthrough play dream, the curtain actually goes up and I step on stage. I not only have to improvise my lines, but I’m not dressed like the others. Six women glide by in beautiful satin gowns, and I’m standing there in a terrycloth robe with a Kotex [absorvente] sticking out of one pocket. Everybody laughs. In the school dream, I go to the room, take the exam, and presumably flunk.”

All our righteousnesses are as filthy rags (Isaiah 64:6) is a commentary on general goodness, not just what we call self-righteousness. As such, it always sounded like a real bummer to me. Maybe the frequency of righteousness wasn’t high, but what a slam on quality. I once thought: Now there’s a good recipe for neurosis.”

“Of course, the righteousness insight didn’t really pop out of nowhere. I’ve been on a gradually emerging spiritual journey for 3 or 4 years now. Sometime during this period the following dialogue probably took place, although I’m surely still working on the last line of it.”

Donald D. Lathrop

 

<I have never had a failure in psychotherapy!> My out-bragging the braggart was so incredible that it shut him up. What a blessing for me! The rationalizations that would have poured out of my mouth in justification for my clearly unreal claim humiliate me even now as I think of them. Evidently he recognized at that point that I was crazy. He never attended another supervisory session.”

“The type of therapy—the goals, the expectations, the method—defines failure. In psychoanalysis, the best studied of the therapies, failure has two important faces. One is the therapy that never ends, the <interminable analysis>. The other is the therapy that ends without a full completion of one of the technical dimensions of (psychoanalytic) treatment, namely the resolution of the transference neurosis.” “In most psychotherapies, the transference neurosis is left almost totally untouched. Good results are achieved by minimizing its development.”

“We talked about Arlene Mildred and her father. There were parallels. Arlene had been suicidal for months and was perpetually rejected by her parents. Yet if she killed herself, there is no question that her father would be on the phone screaming threats at me.”

“I feel better (as always) when I work, when I do the work that is my calling. It’s hard to concentrate, but there is relief for me in involving myself with the immediate problems of the living. Now there is something new. I am now haunted by the reality that no one in my care, not my patients, not my family, not myself, is safe from death through my unawareness. The only relief for me is talking into my machine, blindly recording for what purpose I do not know.”

“I recalled today that Mildred had had an illegitimate child and that her parents had condemned her for it; they had disinherited her, had left her with the feeling that in no way could she redeem herself. Now that she is gone, they are going to punish me.”

“But maybe not! Sometime in the late afternoon, sometime after the first woman had comforted me, I began to permit myself to think that maybe they would not sue me. Even now this goes back and forth, now one way, now the other. I know that I will just be waiting, waiting for however long it will be before the letter comes, before the papers are served, waiting and scared and at the same time a little defiant. They are not going to destroy me. I am not going to destroy myself.”

“That’s another strange quirk in this. I can no longer take comfort, as I have for so many years, in fantasies of committing suicide myself. Some recent realizations have convinced me that not only is suicide no longer a possibility for me, but comforting myself with fantasies of suicide is no longer acceptable. How strange, how ironic, that at the same time this door is closed to me, I have experienced the first suicide in my professional career.”

“These are all games. Nothing changes the reality. Mildred is dead. The games I now play to keep other men from judging me, from punishing me for my unconsciousness, for my carelessness, for whatever part is my fault, these games do not seem to me to have much to do with Mildred and me.”

“Tonight Mildred’s parents are busy making the plans and carrying out the procedure of burying their daughter. When they are through, they will come to bury me.”

“She told me that she was responsible for all of the evil in the world. I told her she did not frighten me; I told her, as I have told lots of crazy people, that I would expose myself to her and then we would see whether she was indeed the overseer of all evil. Now she is laughing. I just wish she wasn’t angry. Of all the helpers, all the professionals who have been involved with this young woman over 6 years of suicidal behavior, she saved her act of murder for me. I can stand the laughter, but the contempt, the anger, the hurt to my therapist’s arrogance, that really digs in hard.

Strange that this poor woman and I came together. We were brought together by the impersonal forces of the State. She was covered for her psychiatric care by welfare. I was and am obliged to make much of my living by treating these people. Like many such patients, she did not even pick me. I was picked for her by the good-hearted woman who runs the boarding house where Mildred was sent after her release from the state hospital. This totally untrained person gets the horribly sick, broken souls after they are hastily patched up and discharged from the state hospital. She is understandably anxious to find some professional to take care of her boarders. Many of them are as severely disturbed as any patient I have ever seen in the backward of a state hospital.

From the first time she came to my office, Mildred did not want to see me. In fact, for her first appointment, she refused to come in. I was glad. I didn’t need any more patients. I didn’t need to convince this unattractive young woman that I could help her. So I let her go. But the lady with the burden of taking care of her day in and day out was insistent, and a reappointment was made. Second try: I got her into the office. It was at this time she told me that she was the carrier of all evil. I found something to like in her. Her arrogance regarding evil stimulated my own in a competitive sort of way. I’ve known since I was a kid that no one is <badder> than I am. After that beginning, it was a succession of broken appointments, my happily giving up on her because she was stuck in a hospital in another part of the state, getting her back, working within totally unrealistic limitations of time and money imposed by welfare regulations, step by step to the final miserable result.”

“I was aware, as dawn broke this morning during my run on the beach, of Mildred’s blind eyes that do not see this sunrise. My dream last night was that I was working with some other  people, trying to finish a job. Although I was working hard and felt the importance of finishing the job, I was not frantic. Then I was relaxing with some people, perhaps having cocktails, and a young woman asked me whether I would be giving a language course. I replied, Who, me? Parlez-vous ze Deutsch? Everyone laughed, for I had demonstrated that language was my very weakest subject.

I did not understand this seemingly light-hearted and trivial dream in response to Mildred’s death. Then I went to consult my friend, my guide, Max Zeller (our relationship was called Jungian analysis, or psychotherapy, and I was the patient). Max suggested that we consult the I Ching. This was a beautiful idea. It was the very sort of objective statement that I would be willing to accept. I certainly did not want any more comforting.

I asked the I Ching about the nature of my involvement with Mildred, the meaning of this experience. The answer was hexagram 28, <The Preponderance of the Great>. In this ancient Chinese symbolism was revealed a union of solidness, steadfastness, and joy. My light-hearted dream of last night now makes sense to me. As a student, much less a teacher of the language of the unconscious, I am a rank beginner. My life is the task that must be completed. As the dream says, I no longer work frantically at the task, imagining that I will thus impress the gods or get the job done, i.e., reach perfection. The hexagram also comforts me in my experience of inner peace, my lack of grief. I had feared that this was merely denial on my part, the refusal to feel the expected emotions. But the ancient book of Chinese wisdom suggests that grief and breast-beating are simply not part of this experience.”

“Now it is years later. I never heard another word from Mildred’s parents. The boyfriend who had encouraged her to sign herself out of the hospital against my advice called a couple of times. He mainly wanted to share his feeling that all of us had been bound together by a cosmic experience. I could agree—since he made no further demand on me. I was satisfied that he had forgiven himself as I had myself.

My failure, as I now see it, was in not being aware of the purpose of my treatment of Mildred. This young woman had been in agony for years, convinced that she was personally responsible for all of the evil in the world. She had tried repeatedly to solve both her own excruciating pain and the world’s unnecessary suffering by killing herself. However, she had always been too disorganized, too fragmented to succeed. I had treated her with medication and with psychotherapy so that she finally had the necessary ego resources to carry through a definite act of self-annihilation. My job was to cure her so she could kill herself! My failure was in remaining unconscious, in not being willing to be fully responsible for my part of the therapeutic contract.

I had known for years before this incident that the danger of suicide is greatest during the recovery phase. I knew that I could have legally detained her for a while longer. It would have been a lot of trouble, but it could have been done. The fact is, I just didn’t care enough about Mildred. That’s what was lethal.

I don’t want to slip into moralizing. That has no place in a world that is moving slowly but surely away from judgment, away from manipulation through guilt. I am convinced that my own refusal of guilt in Mildred’s death was the key to my not being punished by society. If we permit guilt to take over, we communicate to others their right to take vengeance on us. Meu satânico erro em quase todos os períodos turbulentos da minha vida: ser cristão demais! Jussara, Maria das Graças, veteranos bobiólogos, até mesmo indivíduos estranhos, conhecidos na véspera… sempre se aproveitaram dessa faceta, tantos rostos descarnados disponíveis para umas pancadinhas, impunemente… Felizmente minha língua e meus dedos, embora em efeito retardado, isso lá é verdade, não seguem ordens ou ditames do “corpo típico” (o que me lembra TÍSICO), se é que se me entende. Aloprados e mais sinceros do que idiotas e bons, eles procedem à vendeta; “fora de contexto” não existe na perspectiva dessas duas instâncias, verdadeiras guias desta carne que transpira. Uma vez, em que não importa quanto veneno a serpente inoculasse eu jamais reconheceria qualquer porcentagem de culpa: Isabel the Unimportant Nóia, leprosa que se filia com os tipos mais tortos e mendicantes, desajustados, dessa Brasília imunda (e por isso me conhece!), não tinha nenhuma razão, mas, ainda pior, nenhuma chance de, com razão ou não, me convencer de minha responsabilidade no incidente que precipitou meu divórcio. Isto não é dizer que esse tipo de pessoa sem conhecimento causal algum tem qualquer ciência socrática de que nada sabe: pelo contrário, uma Unimportant Bell é sempre e perigosamente a “personalidade forte” que carrega uma fé cega, uma autoconfiança ilimitada nos próprios métodos, a pura contingência e falta de método, a vida informe e tosca, não-lixada, torpe como madeira matéria-prima. Estas pessoas são tão fanáticas em seu niilismo inócuo quanto qualquer dogmático tentando reinjetar, atavicamente, tabus e ritos milenares já superados na nossa sociedade protestantemente laica (faz parte do jogo de cena a impressão de que os evangélicos nunca foram tão poderosos, mas é uma força de castelo de açúcar, com dilúvios à vista…). Não temos rigidez e teimosia para levar adiante nenhum propósito que não tenha nascido ontem mesmo, enquanto civilização brasileira pós-moderna. Os mais doidos e inconseqüentes que já conheço há anos, mesmo que sem qualquer padrão real, são os únicos que posso descrever com precisão em seu martelar psicológico entediante.

ATENÇÃO, FIÉIS! NOSSOS PLANOS FORAM ANTECIPADOS PARA ONTEM: “All of my life I have failed. All of my life, I have suffered depression as a consequence. But I would far rather take my punishment as depression than project the responsibility for punishing me out onto the world. Others are not likely to be as merciful to me as my own educated inner Judge. I had a revelation once: There is no judgment on Judgment Day.

Vin Rosenthal

 

“Unlike Joseph K. in Kafka’s The Trial, I know what I am guilty of”

“I am so nervous! I take some Thorazine. (Why Thorazine! Especially when I’ve never taken any psychotropic drug—not even marijuana.)”

“(And now I know what my patients are talking about when they tell of their anxiety.)” Weird. Sempre achei que a descoberta antecedia a profissão!

Were you aware that a contract with a ‘schizophrenic’ often has little binding power?”

 

“The Tribunal gets really hot when it suspects sexual misconduct on my part. The judges are terribly suspicious of anything that looks the slightest bit sexual. (This sometimes is a hard one because they don’t always agree among themselves about what is sexual and about the rules of common practice and the behavior of the hypothetical <reasonable therapist.>) The Tribunal casts its confronting eyes over my writings and challenges me about such statements as follows:

She says: If it hadn’t been for your response to me, your holding me, I don’t think I would ever have come to believe anyone could find me sexually desirable; no matter how long we had just talked about it.

 

I’m amazed and overjoyed. I had picked up her message that she genuinely desired to have me-as-a-person act warmly, lovingly, intimately, with her-as-a-person, but I was uncertain whether I should risk it. Now I can see that by limiting my risk I would have seriously limited her possibilities.

 

My judges are especially wary whenever I Hold a patient.” “they often are skeptical and insist on reading between the lines and beyond what I have written.”

If I sense the person is feeling sexual as a child, I let him know he is safe. If I sense the person is sexualizing to avoid, I try to encourage his getting to his child; if he does not, we sit up and work on it. This is also true if I sense that I am sexualizing the situation. I do not continue TO HOLD a patient if I stay with my sexual feelings”

 

“The Age of Aquarius enables me to avoid detection; no one looks that closely, and whoever does is ridiculed for being <uptight>.”

“What would you have me do? What kind of job would you permit me to hold that would enable me to retain my humanity, use my skills and talents and develop my potential? Remember, my peers are no better than me. The few unflawed noble souls are, wisely, going about their business in an unpublic way; they couldn’t care less. I have to live somewhere, someone has to share my company—otherwise that would be too inhuman a punishment to fit my misdemeanors. Reforming seems like such a difficult, even impossible task. Disappearing feels easier, yet, I’d have to take myself along. I suppose I’ll just go along as I have and hope that nothing happens.”

Lora Price

 

why not just a few?

 

“In the social work profession, close, intensive working together with clients toward personality shifts and problem-solving is called <counseling>. This is a term that suggests <telling> someone what to do as a way to be helpful.” “It is the social worker—the woman—whom the public mind most often identifies as the offerer of the <concrete> service. The intangibles, the profundities, are within the male preserve.” “Sigmund Freud and Otto Rank supplied the educational approaches that dominate the field. When I was in graduate school the faculty was overwhelmingly female. The course in psychological theory was the only one not taught by a social worker. Instead, the instructor was a male psychiatrist with a faculty appointment as <consultant>.”

“Even those social work agencies most heavily invested in offering counseling rather than concrete services rely upon regularly scheduled psychiatric consultations to determine and consolidate diagnosis and the direction of treatment. When I was a caseworker in a family service agency, it was a male psychiatrist who was hired to offer his expert opinion on a weekly, one-hour consultant schedule. There were only one or two caseworkers who could <present> within this frame.”

“Mistakes or therapeutic errors (although they were not so designated) were to be kept <in house>. This was a familiar and oft-taught lesson.” “The case supervisor, my supervisor, and I would all sit there chatting amiably, awaiting the arrival of the psychiatrist. He always came late because his schedule was so busy. All four of us would then engage in seeming accord as if there was only one way to work with my clients, one direction for me to follow. Because my submitted materials reflected only that I knew exactly what to do, we could then all bask in the aura of certain knowledge and perfection.”

“Making one’s way is equated with manipulation and control. Although the kernel of this truth first became evident in my work in a social work unit (a family service agency), it was even more glaringly so when I began working in mental health facilities. Ironically, these are considered the apex of clinical social work placements because of the opportunity they offer to do counseling—or therapy—without the impediment of the concrete service traditionally found in social work agencies. I had decided to go this route because of my wish to work with clients more intensively and knowledgeably.”

“When I applied for the job I wanted, I was turned down by the woman who was the Chief Social Worker. She said I was too inexperienced and would make too many mistakes. Besides that, I had been trained as a Rankian and obviously would not fit in with the Freudian approach of that particular clinic. She knew that my being there would <embarrass> the social workers who needed to keep up with (if not be better than) the medical staff. The chief of the service was a male psychiatrist. I saw him next. He was pleased to maintain his position in the ongoing struggle by overruling her and hiring me. In any case, he could not conceive that anything I would do could be that important. He knew that it was the doctors who ran that clinic.”

“the <family> was considered to be my area of expertise. The people I saw were labeled <clients> in deference to their secondary standing in the treatment matrix.”

“In my mind, women were less likely to be accepted into medical school than men, and girls were not as skilled as boys in dealing with prerequisite subjects such as science and mathematics. Also, becoming a social worker consumes less time and less money. Clearly, expending less energy befits a profession which is only of secondary importance.”

“Away from my clients I wept copiously. With them, I insisted on appearing intact and untroubled. I feel embarrassed now by my complicity in perpetuating their assurances that I could be perfect”

Arthur L. Kovacs

 

Presented at the symposium Critical Failure Experiences in Psychotherapy, Division 29 Midwinter Meeting, 1972.”

 

“I now know that this formulation is nonsense. What we do with our patients— whether we do so deviously and cunningly or overtly and brashly—is to affirm our own identities in the struggle with their struggles. We use them, for better or worse, to secure precious nourishments, to preserve our sanity, to make our lives possible, and to reassure ourselves in the face of that ineffable dread that lurks always beyond the margins of our awareness and can be heard as a very quiet electric hum emanating from the depths of our souls when everything is silent.”

“In this way, we can use our training to utter comfortable lies to ourselves and to avoid looking at the processes by which the persons we are either catalyze or defeat those who move in communion with us.”

“…what? Disaster? Chaos? Stalemate? I do not even know the right word to describe the outcome.”

“Part of me needed a persecutor, and Gwen supplied the potential to play the part.” “When I no longer needed to be persecuted, we somehow parted.”

“subjective time is always more important than objective time”

“Gwen came to see me because she had begun to experience severe anxiety attacks in school. Most of these were evoked by encounters with her psychology instructor, a married, middle-aged man. She was convinced, in her own paranoid fashion (to which I was unutterably blind in the beginning), that he was making seductive, obscene, and shaming gestures toward her continually. When he discussed masturbation in his lectures, she believed he was shaming her before the whole class, accusing her and revealing that she was a masturbator. She would blush, feel terrified, and have to leave class. Gwen was frequently aware of his genitals bulging in his trousers. She often believed he dressed in a fashion to accentuate them and positioned himself in such a way as to exhibit his endowments to her. When he talked about sexual matters, she <knew> he was lusting after her. I need to make it clear that, as I do so often, I partly trusted Gwen’s craziness and indeed believed there was something in the instructor that longed for her. She was, I must repeat, deadly cute.”

“When she returned to her next appointment, she was furious with me. She screamed at me that I was a rotten fucker, that I had sent her to her humiliation, that I took sadistic pleasure in teasing her. The force of her violence was incredible; her features contorted into a malevolent hatred that I have seldom seen. For the first time, I sensed the presence of some awesome murderousness in her, and I felt frightened. The pitch of her screaming was louder than I had ever heard. I believe, and still do, that the instructor had manipulated her and given her a dose of clever poison to choke on as he protected himself from her paranoid wisdom. I tried to get her to hear that. Her ears were closed by the noise of her own anguished, vicious screaming. She broke out of my office, fleeing from me and from her rage, almost wrenching the door off its hinges—although she probably does not weigh more than 95 pounds [43kg].”

“My beliefs, inflicted on Gwen and most others who opened themselves to me, were my armor, my sword, and my shield at that time of my life.”

“The next many months Gwen found exquisite ways to torment me, even though I could not get her to come to my office. She began, for example, to call me, usually around 3A.M.. I would stagger out of bed to answer the phone. There would be an ominous silence, then a loud screaming, You goddam piece of shit! I want you to die! or something equally vicious and abusive. Suddenly the phone would be hung up and it would be over until the next time. I believed then that my life was in the grip of some malevolent, overwhelmingly crushing principle, for Gwen’s timing was exquisite. Most of her calls occurred at times when I felt too weary, too battered to stand one more moment of anguish in my life. My struggle to build a new existence was beginning to consume me. Most of those nights I had fallen into fitful sleep after lengthy episodes of bitter acrimony with my former wife or of crying desperate tears at having to cross such a limitless desert alone. Gwen’s calls would cause me to start up from steamy, sweat-rumpled sheets in terror; I did not feel the strength to deal with her.”

“At last, after an absence of 4 months, I finally received a daytime call from Gwen. She asked to make an appointment! When she came in, she told me that she had been thinking about her therapy a lot and that she felt she wanted to enter group therapy. Having others around would, she believed, keep the 2 of us from getting into terrible trouble together. (I often notice patients possess incredible wisdom, if we would only listen!) I also, as did she, wanted and needed to dilute the horrible intensity of what had been transpiring between us. I readily assented, and Gwen started group.”

“In her middle adolescence, Gwen’s stepfather had a psychotic episode, preceded by a period of great violence during which he brandished a pistol repeatedly, screamed at his family members often in desperate viciousness, and engaged in great, raging, hallucinatory battles with his wife—during which he sometimes bloodied her or broke her bones—before he himself finally went to a psychiatric hospital. Gwen trembled violently as she remembered and related these things. During this period of treatment, also, Gwen got herself a job as a secretary, decided to attend college at night, and moved into her own apartment, separating from her family for the first time in her life. And I felt smug, pompous, and marvelously effective as her therapist. What an ass I was!”

“Once I was working with another patient. The other patient was pouting, sullen, withholding. She had come up to the edge of something and now sat stolidly, defiantly, unyieldingly. I became exasperated and started shaking her. The next thing I knew, Gwen threw herself on me, fists flailing, screaming You fucker, you fucker! It took 10 people to pry her off of me. I was very shaken.

Another marathon. Days, months, years—I do not know how much later. I had taken 20 patients into the Sierra Nevada. We were camped out in a snow-surrounded, glacial-scoured, lake-filled paradise. I had asked a woman along to share my sleeping bag at night. As I look back, I now feel ashamed of my choice. My companion was young and very pretty but had nothing more for me than sexual compliance. For this she wished to present me with a large number of emotional demands. At that period of my life I was desperate for any crumb of nourishment, did not appreciate my worth, and would hunger after anyone I believed would have me. We fought a great deal that weekend. Gwen kept watching the two of us balefully. During the 2nd day, she asked the largest man in the group to restrain her physically while she talked to me. He did so, and once again she shifted gears into her screaming viciousness, calling me a piece of shit, a motherfucker—any obscenity she could muster. He held her so she wouldn’t hit me. She struggled hard to get free while she vilified me. The gist of her tirade was, of course, that I was a moral leper, a vile sensualist, and a user of people.

As my first marriage continued to die and as I searched for the goodness I so longed for, Gwen became somehow in my mind the world’s representation of the established moral order. She had been selected to make me suffer for my sinful attempts to make a new life. The night calls and screaming at me over the telephone continued, usually when I could least bear them. Incredible vituperation also spilled out of her in group each week.”

“Weekends are always terrible when marriages are dying.”

I want her dead! I suddenly knew it and began to fantasize the myriad ways I could kill her. I danced exultantly over her broken corpse. Her life must end so that mine could go on! (…) That shitty, stinking little cunt-bitch! I arrived at work trembling in fearful awe over the intensity of my own murderousness. That night in group my patience was exhausted. The 2 of us got into a screaming battle with each other. I told her how I longed for her to die. We traded insults and murderous fantasies. I felt momentarily better.

Another night—weeks later. I am talking to someone else about masturbation. Gwen’s paranoia flares up again. She accuses me of sitting with my legs apart to compel her to stare at my crotch. She insists that I am talking about masturbation to shame her. She yells that I should get it straight once and for all that she does not masturbate. I get furious. I tell her that she is a stupid little bitch. I tell her she is 20 years old and that it is time she started masturbating. I describe to her how to do it and order her to go home and carry out my instructions after group. I add that I never want to hear anything about masturbation from her again. She becomes silent. Finally, I start searching my heart about her accusations. I tell her that they are partly justified, that when I first met her I had indeed tried her on in fantasy as a possible lover. I assented that I had probably teased her provocatively and flirted with her in subtle ways. I admitted to her the crazy desperation that seized most of my life then, the hunger to be at rest in a good woman’s arms. I added that my fantasies about her had died, though, soon after my getting to know her—that she was not my other half, nor what I needed for me. I said that I regretted that fact. I believed that my inability even to imagine her any longer as a partner to me was a sad tragedy. I felt forlorn as I talked to her. I closed the group by expressing my wish that a day might come before either of us were dead when once again she could stir me in such a way as to invoke in me imagery of her being my woman. I knew that that would be a sign that something profound had happened to each of us.

Early the next morning, Gwen called. She asked if she could have an individual appointment with me. I had a cancellation that afternoon and readily assented. At the appointed hour, I opened the waiting room door. Her face was contracted with rage. As she walked by me, she slapped my face. When we entered my office, I asked her what the hell that had been for. She screamed that I had exposed, shamed, and humiliated her in front of her friends in group. Then she went berserk and threw herself on me, trying to claw my face and spitting at me as we tussled. We crashed to the floor, spilling furniture and books everywhere. I finally subdued her, and as she began to feel the assertion of my strength and control she murmured between clenched teeth: Go ahead, you bastard. Fuck me. I told her I wasn’t interested. She began to sob convulsively. I had never seen her like that. She was suddenly very little and helpless, a 3-year-old who had been running around in murderous fury, trying to pretend that she had adult competencies lest the world penetrate her disguise and annihilate her. An image is indelibly burned into my awareness: the two of us sitting there on the floor in the midst of the rubble of my office, Gwen sobbing helplessly in my arms, my rocking her and feeling rubber-kneed and weak from the awe and fearfulness of what we had just experienced.”

“She began describing her stepfather coming into her room one night. Gwen stopped, flushed, went incredibly tense, and would not go on.” “My instructions to her to enter into a dialogue with the half-fantasied, half-remembered shade of that man on that nameless occasion precipitated a kind of trance-like state. Gwen became 14 again. She relived and reproduced what I knew was in store for all of us—her stepfather’s feared, longed-for, luscious, tormenting, lacerating, hungering attempted rape of her that awful night of her memory. Who knows whether the events were real or not? I still do not. But their reality was powerful that evening she described them to us.”

“Her tear-drowned eyes remained closed. I picked her up and rocked her as I would my own daughter. At first she drank me in. Then I felt her stiffen. I knew intuitively what was happening, and I said to Gwen, No, I don’t have an erection. She realized it too, at the same time, and turned to rubber once again in my lap. Yet, at that moment, I sensed our relationship was doomed and hopeless. If I held her at some emotional distance to placate her longing, terrified struggle over being penetrated, she would rail at me for being no help, disinterested or worthless to her. If she captured my attention, and I started to move closer to her, I would become the bearded satyr—too exciting, too forbidden, and too dangerous to deal with. Either way the end result was an outburst of fearful hatred. I talked to her often about this frustrated, impotent dilemma into which she thrust me. It never did any good.

Instead, Gwen began to separate from me. She started to come to group less and less. At first I felt comfortable with this, for the events of her life demonstrated a thrust toward increasing competency and mastery. She received a significant promotion at work. She separated from her boyhood lover and began to explore the possibilities of loving a much more capable man a few years older than she was. (…) One day she called me to ask me for a referral. A friend who did not have much money wanted to enter therapy and asked her, so she said, for the name of a good clinic. I provided this to her, and I added that the friend should ask for Dr. X, if possible, at that agency for I knew he had a good reputation. Three months later I found out, when Gwen began to talk matter-of-factly about it in group, that it was Gwen herself who had gone to see Dr. X and that Dr. X had begun seeing her, not at the clinic, but in his private practice!”

“She finally mustered the courage to tell her new lover that she was falling in love with him and to ask him for more of himself than he had been willing to give her thus far. He smiled, told her that she was a sweet thing, but that all he wanted her for was an occasional night in the sack. He laughed delightedly at her precious gift of her avowing that she wanted him, and he went to the refrigerator to break out a bottle of champagne. Gwen went berserk, tore up the man’s apartment, and forced him to throw her out bodily. She then came to group the next week, started up her screaming machine again, complained that I was an evil monster who ruined people’s lives, and stormed out of the office. I did not see Gwen again for three months. I was relieved. I thought she was gone forever, and I was happy. I had at last left my previous life, was living alone, and felt joyously in love with the woman who is now my wife. Gwen’s seeming departure was a mystical sign to me that my perilous journey was at last over and that I would be able to rest in my wife’s arms, exhausted, ecstatic, and optimistic about what we were beginning to build.

Much to my surprise, Gwen signed up for a weekend marathon [!] I held the next January. My soon-to-be wife accompanied me on that occasion. As I relive those moments, I remember how Gwen stared at the two of us in hateful envy. She detested my happiness. She tried to interfere, with sarcasm and cruel mockery, in any work I attempted to do. I finally stopped everything to contend with her. I was quaking with tension. After Gwen played many screaming broken records over and over again, I asked her what the hell she wanted from me. To my astonishment, she softened and asked to be held. Haltingly, I agreed. She came and sat next to me. I put my arm around her and she leaned against me, but I felt some kind of stiffness and unyieldingness in her manner and bearing. I told her I missed the vulnerable child she had—on a precious very few occasions—allowed herself to be with me. My wife, in her usual marvelously intuitive fashion, saw the look in Gwen’s eyes and began to speak to her of her own struggles with pride and envy. They swapped tales of being children, of longing for good fathers, and of all the turmoil and fear such longings create. My wife urged that Gwen be resolute in searching for what she wanted and that she not allow her fears of other women’s retribution to turn her aside from her quest. Gwen softened and allowed herself at last to surrender to being held. Later in the night one of the women in the group asked Gwen for permission to, and indeed did, feed her from a baby’s bottle. [Ah, kleinianos!]

Gwen then disappeared from my life. Once in a while I would get a phone call from her complaining bitterly about the cold, cruel, and vicious treatment she was receiving at the hands of Dr. X. I urged her each time to discuss her grievances, real or imagined, with him and told her she was always welcome, if she wished, to return to group—that many people missed her and asked about her. Last June, I got a call from her again. She and Dr. X had gotten into a fight, and he had thrown her out of therapy, saying that he was sick of her vicious bitchiness, would not put up with it anymore, and was not going to see her again. Gwen sounded crazy and frightened on the phone. I began to get anxious.

Two weeks later I came into my office and found it at shambles. All my books had been thrown on the floor. The furniture was overturned. Papers had been ripped up. A cover from Time magazine, the one with Jesus Christ Superstar on it, had been ripped off. A knife, thrust through the face of Jesus, impaled it to my couch. I knew immediately who had done it, and I began to fear for my life. Then Gwen called and asked for an individual appointment. I refused, telling her that I was afraid of the violence in her. I urged her to come to group so that we could talk where we would both be safe. She screamed at me and hung up.”

“Three weeks later, a fireman came into my office. Gwen had been gathered in off the roof of my building after having threatened noisily for an hour to jump.” “The physician in charge called me. He said Gwen had confessed to him it was the 3rd attempt she had made on her life in 48 hours.”

“The mother reported that Gwen had assaulted her parents and her father’s psychiatrist during the past week. I begged the mother to have Gwen hospitalized. Instead the mother screamed at me for being <one of the fucking Jew-doctors> that had ruined her daughter’s life. Screaming in fury, she told me she was going to take Gwen home. For the next 3 weeks I walked in dread, not knowing whether Gwen was alive or dead, not knowing if she would come at me out of some other dark night, this time with a weapon.

Late in July, Gwen called again. She asked for an appointment. For some reason known only to my sense of the uncanny¹, I granted her request. I was terrified, but I needed to confront some primitive dread in me. I was sick to death of being a person who always ducked bullies and fled from the possibility of violence. She would be the occasion for me to confront me.”

¹ Referência freudiana

“She related to me that she had made appointments with 8 different therapists in the past 4 weeks and had physically assaulted all 8 of them and fled.”

I guess I’ll live. But I don’t think I’m going to go on with therapy.”

 

“As she disappeared down the hall she smiled bravely and called out over her shoulder, You’re the only one who always lets me come back. I have not seen or heard from her this past 3 years.”

“Gwen served me well as my vicious companion at a time I needed one. The impress of her being will always be with me.”

Hobart F. Thomas

 

“On several occasions I have experienced deep feelings of love and/or sexual attraction for clients. At other times I have felt and expressed feelings of irritation and anger. None of these emotionally charged situations, however, seems to provide the devastating frustration of those in which no truly personal contact occurred. I am recalling the long and seemingly fruitless hours spent with depressed patients in mental institutions, which seem to put one’s faith in a therapeutic process to the ultimate test.”

“Perhaps the toughest experiences of my career were the days of attempting to practice before I myself had undergone personal therapy. I had mastered the knowledge, techniques, and procedures well enough to obtain a clinical Ph.D., but the heart and guts of the process were missing. Bizarre as it may sound, I even recall on more than one occasion actually envying the experiences of some of my clients in therapy.”

“Approximately 4 years after completing a doctorate, I entered personal therapy. Reasons for the long delay are not easy to determine. In spite of episodes such as the above, I seemed to be endowed with sufficient ego strength to keep the show going. Besides, I was not convinced that the Freudian model and many of its practitioners, who represented the bulk of my exposure to clinical practice at the time, were the answer either to my own or to the world’s problems. It was then, and is now, my conviction that one best chooses a therapist out of some deep intuitive place, and one can do no better than to follow one’s feelings when making such a choice.”

Bouts with the perfection monster”

“Being <analyzed>, at least in the circles in which I traveled at the time, also qualified one for membership in a rather exclusive club. A part of me wanted to belong, to be accepted, to be part of the action. Another part, for whatever reasons, refused to join up and pay the membership dues.”

“Ironically, my impression is that, currently, the Jungian school is considered more <in> [fashion] than the Freudian. At the time, such was definitely not the case.”

“What if all of a sudden I can’t function?”

 

“The outer drama in which therapist and client each play their respective roles continues, apparently without interruption, until the end of the hour.”

“The experience of panic occasionally recurs, sometimes in the consulting room, sometimes while teaching a class, or sometimes during seemingly ordinary conversation—usually, in each case, when I feel pretty much in charge and everything appears to be running smoothly. (Another clue here, perhaps?)”

really plays well for his age”

 

“We need not always stand alone.”

Look, Mom, I finally made it!”

 

“My hunch is that the state of panic is a corrective, devised by my wiser Self to help put things back in the proper perspective—a real therapeutic kick in the ass to remind me that I’m not God.” My hunch is that my panic is for me to saying Farewell, father!

“it is essential to know how to let be.”

that’s all: [be] midwife. You can relax.”

“My perfection bogey-man stays with me a good deal of the time, however. Having experienced that paradisaical state of Being, I do keep searching for ways to get there and stay there. Even when I appear to be laying back, I’m trying—trying to do, trying not to do. And, too often, in rushing to reach home I forget to smell the flowers along the way.”

NO, NOT FREUD: “When my own therapists revealed themselves to me as persons, not gods, I soon realized that human imperfection has about it its own particular beauty.”

Joen Fagan (mulher – informação relevante para um dos casos que ela irá contar!)

 

“One of my oracles is the dictionary. Built into the derivation of words and the range of their meanings is a cohesion of human experience. So I asked Webster the meaning of naked, and found my eye pausing over and returning to <defenseless, unarmed, lacking confirmation or support.> As I sat, feeling my way into these meanings, I remembered William.”

“He sat in the front row, nodding at the right times and laughing at my jokes, behaviors much appreciated by a teacher.” “You know so much about this; don’t you think…?” or “Why wouldn’t it be true that…?”

“I was lonely, but people had to press against me to become friends; even though I needed and wanted them, my reserve and hesitancy took some broaching. It was the same with students who had asked me to counsel with them. They had to persist past my uncertainty and self-doubts. So I accepted some intrusiveness and tolerated my discomfort with him without firm limits or comments.”

Did I think he needed to go back into therapy? Did I think he was crazy? His father had said that to him this week. His wife had told him that too. But he thought he was doing well. Would I see him for therapy?

No, William.

Why not?

You’re not finished with Carl. Besides, I won’t see students who are taking courses from me for therapy. (Avoiding saying, of course, that I doubted my ability to handle him or that he was too manipulative.)

Well, will you have lunch with me? Why not?

He was becoming a nuisance. Once, as he got up to go, he suddenly leaned over and tried to kiss me. I was angry then and told him so.”

“Did I think he was crazy? He had been hospitalized before. What did I think? <I think you’re bothered about a number of things and should go back and see Carl.>

“Anyway, in another week summer vacation would start, and 3 months away from the college would solve the whole thing.”

“The next morning an envelope was in the mailbox at my house; it was a somewhat confused but humorous letter from William saying he had decided to spend the summer in a nearby public park and inviting me to join him.”

“The next day there was another letter, more angry and threatening, with some sexual allusions that were immediately denied. You know, of course, that I’m just kidding. I love you and wouldn’t hurt you or do you harm. I began feeling frightened and did not sleep well. The letter the next day was even more threatening. If you won’t see me, you won’t see anybody. I want you and I’ll get you.

“The father called me later that afternoon to say that he had found William and had had him admitted to a psychiatric ward. My relief, though, was short-lived. Letters now started coming through the mail, openly delusional, abusive, threatening, and sexually blatant. Again I waited and did nothing, not knowing anything to do. Should I contact his unit? Or him? Or his father? To do what? Say I was scared? Then his father called again. He thought I might want to know that William had escaped from the ward.

There was a paranoid somewhere in the city and I was the center of his delusions. Several days of extreme anxiety. I put chain locks on my doors and jumped at noises. I remembered a patient at the hospital where I had interned, who, ten years after his last contact with a former female therapist, still maintained a similar life-focusing preoccupation with her. The hospital viewed him as sufficiently dangerous to call and warn her when he escaped”

“I remembered other threats to therapists and attacks by patients, and I frantically found work to do and friends to be with.”

“Shortly after that an FBI agent called to say they had investigated the forgery at the request of the bank but did not recommend pressing charges since William was now in the psychiatric ward at Bellevue. Again, relief.

Once every few months a postcard came, and one time, a box of candy on Valentine’s Day. He might no longer have been paranoid, but I was; thinking there was a chance it was poisoned, I threw it away. The sight of the neat, familiar writing could still evoke anxiety, but the cards came less and less frequently until finally a year or more had passed with nothing to remind me of him.”

Do you know that you saved my life?

No, William, I didn’t know that.

 

He stood up, went to the door, paused, said goodbye, and left. I realized that I had no idea what he had meant.”

“Do you know, William, how much you taught me about the impossibility of running?”

Barbara Jo Brothers (e sim, é só uma pessoa)

“I am caught. There is no way my vanity will let me avoid rising to the challenge, no way I would decline contributing to this book…but knowing this as my personal dilemma: the risk of exposure of a place inside myself—a place I have found virtually unbearable… a place I have virtually given my life to protect.”

“When I met Jerry, I was in the first month of my first clinical job, armed with my degree and with all of the accompanying mixtures of zeal and anxiety. There was Jerry. Transferred to the local state hospital’s adolescent unit because his family’s funds had run out (after 9 months of psychoanalysis and private hospitalization), Jerry was as crazy at that point as he had been 9 months before. I had known his analyst, so I knew a bit of his history.”

“In my youthful mind, if one of the best analysts in town was giving up, I was already expiated from whatever penalties of failure might ensue and from the awesome demands of Knowing-What-I-Am-Doing.

Jerry and I did well. Then one day the hospital decided to discharge him, prematurely in my judgment. I sent him to what I considered to be the best mental health center in town and tried to tell myself something to make the  uneasiness a little easier in my hither-to-relied-on gut.”

“My own therapist comes in, tries to look like a doctor, takes my pulse. <Are you depressed?> he says. I reply, <I’m too sick to be depressed. Come back in a few days and I might have a depression for you.>

“We had lost our connection after my discharge. I had referred him to the best therapist I knew in community out patient mental health clinics. He was re-hospitalized. I vehemently protested when hospital policy dictated that he not be admitted to my unit simply because of having had one more birthday since his discharge [ultrapassou o limite de idade de sua clínica]. I might have conquered death, but I was not going to have an effect on the monolithic mental ill-health system. He went to the adult unit and killed himself while out on pass.”

“Exposure, expression, mistake, all are cyclical. My exposure is beginning to sound like my salvation. That which I fear most seems to serve my best interests most powerfully.”

I dodge and twist and evade.”

Carl Whitaker

 

“Before antibiotics, treatment of gonorrhea in the female usually consisted of months of hospital bed-rest. The Green Girls were locked in a big ward on top of the hospital in the middle of the East River. It was my job to try to keep them from becoming overly excited in order to prevent flaring up of the infection that had gotten them arrested and imprisoned.

It was a strange flip for a religious country boy to end up dealing with Broadway chorus girls. They wanted to have their operation by our own gyn department because we used a special incision below the hairline. That way they could go back on the stage and not be laughed at for exposing their surgical scar.”

I saw this big white polar bear sitting on the bed, and I knew he wasn’t real, but I had to call the nurse because he looked so real.”

 

“As I learned more about the vivid experiences of psychosis, I rapidly lost my interest in the mechanical carpentry work we call surgery.”

“A patient who was mumbling to himself explained that voices were calling him horrible things and saying that he had intercourse with his mother. I said, ‘That must be very upsetting,’ and he waved me off with, ‘Oh, no, they’ve been doing that for years, and I don’t pay attention anymore’.”

“Later I talked with an 85 year-old man who came in for molesting an 8 year-old girl. When I met the girl, who looked like a professional actress fresh out of Hollywood, it made huge gashes in my fantasy of what life and people were all about.”

“This call of the wild, the agony and ecstasy of schizophrenia, of the whole psychotic world, ballooned inside of me.” “The magic of schizophrenia, that Alice-in-Wonderland quality of spending hour after hour, sometimes all night long, with a patient whose preoccupation with delusions and hallucinations made him as fascinating as yourself, was matched by the mystery world of play therapy.”

“My discovery of Melanie Klein and her beliefs about infant sexuality was like a repetition in depth of my earlier discovery of the psychotic world.” Oh no, not this bitch again, defenestrate her, from the fifth flour, please!

“my first introduction to psychotherapy was by way of the Philadelphia social work school’s form of Rank’s process thinking. I became more and more intrigued by what brings about change. There was an 8 year-old boy who hadn’t said anything since he had whooping cough [coqueluche] at age 2. I spent 6 months seeing that boy once a week while the social worker talked to his mother upstairs. He never said anything to me either, but we threw the football out in the yard. He did listen to me talk about him. I finally gave up and admitted I couldn’t help. He and his mother went away disappointed. I thought I’d had it with psychotherapy until we got a call back 3 weeks later saying he’d started talking.”

“It became more and more clear that medical students were divided into those who didn’t know how to be tender and those who didn’t know how to be tough. How difficult it was to teach either one to have access to the other. I didn’t really know I was merely talking about myself for some years, but I did discover the joys of working with delinquents. That power! I always thought of them as Cadillacs with steering gear problems, whereas the neurotics we saw in the medical school clinic were like old Fords that were only hitting on two cylinders. Looking back, I often wonder how many of the delinquents stole cars just so they could come back and tell me about it.”

“As a matter of fact, for the next 3 or 4 years I bottle fed almost every patient I saw—man, woman, or child; neurotic, psychotic, psychopathic, or alcoholic—and with a high degree of usefulness, if not success. It was only some time later that it dawned on me that it wasn’t the patient who required the technique, but the therapist. I was learning to mother, and once that was developed I couldn’t use the technique anymore.”

“I didn’t even know then that co-therapy was a secret system for learning how to talk about emotional experiences. It allowed you to be able to objectify a subjective experience shared with someone else.”

I eventually left to work in Atlanta, where we discovered in those early days that the baby bottle was a valuable way to induce regression in the service of growth but that fighting was equally valuable. Just as the baby bottles spread from one to another in our staff group of 7, so the fighting moved until we were apt to be involved physically with almost every patient in one way or another. The intimacy of physical contact—of slapping games, of wrestling, and of arm-wrestling—became a part of our discovery of our own toughness.”

“By 1946 we had 3 daughters and 1 son. The problem of trying to be an administrator and a clinician had exteriorized a lot of my immaturity. When the stress in the hospital and medical school got high, I began to precipitate myself into psychosomatic attacks with cold sweats, chills, vomiting, diarrhea, and a half day in bed. Cuddling with my wife resolved this, but I went back into psychotherapy to help develop confidence in preventing it. Living with our own children also convinced Muriel and me that the only <unconditional positive regard> in this world comes from little children.”

“It was clear to us that the reason people work with schizophrenics is that they want to find their own psychotic inner-person, which is known more and more as the right brain—that nonanalytic total-gestalt-organized part of our cortex. We struggled over the schizophrenogenic mother and over whether the father himself can create schizophrenia. All this anteceded systems theory, which made it clear that it takes a family system (and more) to originate such a holocaust.” Quanta inocência, diria Deleuze…

“The craziness that had overlain her arteriosclerosis of the brain had long since faded into the background. She just ate and slept and smiled and went to the bathroom. But the family still loved her and still enjoyed being with her. They had not turned away from her because of her failing health.”

“It seems that the initial therapist is contaminated with all of the usual problems of being a mother: He’s all-forgiving, all-accepting, and minimally demanding. In contrast, when the consultant comes in for the second interview, he turns out to be very much like the father: He is reality-oriented, demanding, intellectual, much less tempted to accept the original complaints or the original presentation, and very much freer to think about what’s being presented in a conceptual, total gestalt manner.”

“The Atlanta clinic was our private world, and the sophisticated world of a psychoanalytic organized group left me with uncertainties, awkwardness, and the temptation to be isolated.”

“The initial phase of working with the family demands a coup d’état, in which the therapist proves his power and his control of the therapeutic process, thus enabling the family to have the courage to change their living pattern. Other concepts, such as the importance of the detumescence of the scapegoat [resolução, desinchação – conotação cancerígena] or surfacing other scapegoats in the family, spreading the anxiety around the family, and the necessity of using paradoxical intention to reverse the axis of responsibility so the family would carry the initiative for their own change, all were picked up from the residents when they were working with families as co-therapists.”

“One of the covert changes that I experienced was my increasing conviction that everybody is schizophrenic. Most of us don’t have the courage to be crazy except in the middle of the night when we’re sound asleep, and we try to forget it before we wake up. I became more and more courageous in my advancing years and tenured role, and I began to use the word with greater nonchalance. During the first 6 months to 1 year, it was quite a shock, but after that it became gradually more and more accepted, at least in my own head.”

“There is being driven crazy, which means that one’s malignant isolationism¹ is brought about by being forced out of one’s family. There is going crazy, which, in the case of falling in love, is a delightful experience, although very frightening. Going crazy also takes place in the therapeutic setting, where it’s sometimes called transference psychosis, much in the same way we talk of transference neurosis [still two words that can’t make sense]. And then there is acting crazy—the crazy responsiveness of the individual who has once been insane and who, when under stress, returns to that state of being even though he’s not out of control in the same way. He’s like the child who has just learned to walk. If he gets in a hurry, he’ll get down and crawl on his hands and knees, even though it’s slower.”

¹ O que será que quer dizer? Meu caso? Vivendo com 3 idiotas cada vez mais incapazes de me entender e na verdade cada vez mais decorativos (1988-2017), de repente meu corpo se rebela e diz: CHEGA, VOCÊ JÁ SUPORTOU DEMAIS! ACABOU SUA AUTOIMPOSTA EXPIAÇÃO! Mas quer dizer que quem fritava a batata, no fim, eram eles… Consolador!

“the quasicraziness that happens in social groups”

Alex Redmountain (“Despite his name, he is not an American Indian, but, rather improbably, a Jewish-Slavic refugee of World War II.” – Kopp)

 

The affliction is self-love, narcissism, a narrowness of vision that places everything outside oneself at the periphery. Though it appears open and seeking, it makes learning very difficult. Stop reinventing the wheel, I was told; I finally did, but since no one told me to stop reinventing the compass, and sextant, and steam engine, I kept on doing that for quite a while.”

“Out on the street, the therapist is like a hooker who’s been thrown out by her pimp. There’s no security, no status. You’re surrounded by a dozen other hustlers, each selling some exotic solution to life’s problems: astrology, card reading, Scientology, revolution, a quickie in the back of the Dodge van parked across the street. Psychotherapy looks like just another fast fix, a way to set the pain aside momentarily or to pretend to an inflated self-importance. And often it is.”

“I am a clinical psychologist, traditionally trained, and I was still doing the usual clinical psychologist things: testing, individual and group therapy, supervision, formal consultation. But I was getting restless, found it hard to stay within the confines of the clinic where I saw my patients. Little by little, mostly by self-invitation, I cultivated a street beat through familiar geography: free schools and open universities, gay people and street people, adolescents of infinite variety and the many species of chicken-hawk who prey on them, alternate enterprises of every ideology imaginable, and a total spectrum of lifestyles. It seemed like a great opportunity for checking out the barriers. It was also a great opportunity for, as we used to say in The Bronx, getting my ass handed to me—as in the sentence, When I hand you your ass, boy, your head is gonna fall so low you’ll be looking up at roach shit [cocô de barata].

“Basically, I’m a middle-class grown-up with slightly rebellious inclinations; the one time I was impulsive enough to drop out of school, I joined the U.S. Army and was promptly dispatched to die of boredom in Korea. The setting for my street-shrink activities was a deteriorating, exciting, but not especially dangerous or sinful neighborhood in a large Eastern city. It was exciting because of its variety: its residents encompassed all ages and classes, at least 3 races, and 12 ethnic groups; Maoist food <collectives> operated on the same block with 30 year-old Mom and Pop groceries; soul music blared from one record shop speaker while salsa and bomba rhythms leaped out from another around the corner; store-front churches rose from the ashes of revolutionary Trotskyite print shops—and vice versa.”

“Another source was the illusion of being a savior, a reconciliator loved by all. When I walked around the neighborhood, greeting militants and leftover flower children, precinct captains and self-actualization addicts, I imagined myself a combination of country doctor and masterful statesman, healing rifts both psychic and physical as I passed on through. And in the best Lone Ranger silver bullet tradition, I dreamed of encountering evil, overcoming it, and riding off toward the foothills and the setting sun—all within the 30 minutes normally reserved for the radio serials of my youth.

This kind of delusion wreaks havoc with the long-distance running qualities usually required of the psychotherapist. It also helped me suppress some doubts about my own endurance. With every new patient I took on in my public practice, I wondered: Can I really last the journey? As the complexity of every individual unfolded, I worried: It may be just too hard, too long, too draining. What if I want to run off and fast alongside Cesar Chavez [uma espécie de João Pedro Stédile] in the lettuce fields? What if I decide to go to Harvard Business School so I can destroy capitalism from within?

“I’m there in 20 minutes. Who said that house calls were a thing of the past? Upstairs I can hear crunching and smashing noises. Down in the <parlor> 8 resident runaways and 2 counselors mill about, looking worried, indifferent, scared, sullen—depending on whom you are looking at.” “a monstrous teenage version of an NFL defensive end, 6 foot 6, at least 240 pounds. He is methodically ripping apart the wooden bunks—the bunks that my friend Joe put together over a couple of weeks of unpaid labor, after his unemployment ran out! I am outraged.”

Sally greets me with a strange, playful look in her sensual eyes. (Whoops, it’s hard to keep lust and hubris clearly separate.) For many reasons, Sally is one of my favorite counselors.”

Shrink é uma gíria suburbana para psicólogo ou psiquiatra.

God works in mysterious ways, said Sally, having been raised a brimstone Baptist and never quite given it up. I had to agree. I often had the feeling, when I was doing therapy, that anything I said would work: insight, catharsis, epiphanies would follow some inaudible inanity from my mouth. At other times, when I thought I was being wondrous wise, my words fell as flat as a swatted bug. It all has to do with chemistry, or radiation, or smell. Or something. Before I knew that, I sometimes took the calling of therapy very seriously indeed.”

Because I think it’s just an ego trip. I don’t even call myself a therapist, you

know.”

What do you mean, even you! Who are you, Sigmund Freud?”

No, but at least I’m not trying to be something I’m not!”

Aw, fuck you!” she shouts.

Fuck you!” I yell back.

 

All that doctor done was yell at me, tell me I was a whore and would end up a junkie or dead or in prison, and I’d never have kids, or a man, or anything decent at all.”

 

“As far as I am concerned, the making of a therapist and the making of a centered person are parallel, though not congruent, journeys.”

First Tale of Lust. I had agreed to see Janet for short-term therapy at her home; she had a 1 year-old daughter, a night job as a waitress, and no one to babysit. I knew there were many caveats against this kind of thing, but I was sure I could handle it.”

“I kept trying to remember why therapists shouldn’t become sexually involved with patients. I found myself perusing, at length, articles that argued an opposing view. Even the reputable Association of Humanistic Psychology, I noted, was sponsoring a panel at its annual meeting: Sexual Relations Between Therapists and Clients.”

“She observed that the tension between us was palpable. I agreed. In fact, it was becoming intolerable. Yes, I said. Well, she wanted to know, what were we going to do about it?”

“I read Albert Ellis [logo acima!] and Martin Shepard, wrote an essay entitled Challenging Some Traditional Preconceptions in Psychotherapy—in which I never mentioned sex.”

“On the 13th day, I received a short note from Janet on the back of an old Valentine card: I’ve discovered that there are more fine lovers around than psychotherapists. Will you be my (one and only) therapist?

 

Human, all-too-human: After I daydreamed about choking her with a spiked bulldog collar, boiling her in oil, and throwing her out of a dirigible over the most polluted part of the Hudson River, I met with her—in my office. We dealt with it, as the New Yorker cartoon says, by talking about it. We actually went on to do some excellent work together, 50 minutes at a time, 2 days a week, face to face, and no hugging.”

Second Tale of Lust. Tamara was 16, dark as an Arab princess, radiating ripeness. She was a resident at one of the group foster homes at which I dispensed weekly advice. Whenever she greeted me, she would wrap herself around me like the original seductive serpent, and I would try desperately to keep my cool—without success.

I am seldom drawn to adolescents sexually, or so I like to believe. I like the way they look, I enjoy their narcissism from afar, but I’m not crazy enough to trade a tumble for a prison sentence, not even in fantasy.”

“Tamara, whose house parents I met regularly for case consultation and whose Oedipal problems I knew almost as well as my own”

“I couldn’t take my eyes off her, and I didn’t want to take the rest of me off, either.

Although I danced with many people that night, I found myself dancing with Tamara more than with anyone else: more sensually, more energetically, more proximately. After a few beers, I forgot the age gap between us. After a few more, stalwart drinker [robusto bebedor] that I am, I was carried upstairs by some friends and carefully placed upon an unoccupied mattress [colchonete]. I woke a couple of hours later to find Tamara bending over me, swaying, her hair against my face. I wasn’t very alert, but she seemed completely out of it—drunk and stoned and incoherent.

Without thinking, I pulled her down beside me, touched her, kissed her, felt her responding to me. As I caressed her, she spoke softly at first, and then more insistently. Her mumbling only gradually became comprehensible: Daddy, Daddy, Daddy…

Laying her head against the pillow, I drew away gently. The one short pang inside me yielded to tenderness. I massaged her eyes and brow until she fell asleep.”

Third Tale of Lust. It was spring, and 5 of my street clients, including one gay male, declared their love-lust for me. I knew all about transference, of course, but I was also feeling very sexual in my new, slimmed-down version.

At my therapy seminar that week, another fledgling therapist like myself spoke of how he enjoyed his patients’ sexual fantasies about him. Our teacher-supervisor looked at him wryly. <Just remember,> he said, <that there are a dozen paunchy, balding, 70 year-old therapists in this town whose patients are madly in love with them. Don’t take too much credit.>

I decided not to, either.”

Therapist hubris is based on the mutual illusion of patient and therapist that theirs is not a relationship among equals. Thus, it fires the therapist’s infantile yearnings for magical solutions, omnipotence, oceanic love.”

* * *

DE VOLTA AO KOPP (CONCLUSÃO)

 

Everything is folly in this world, except to play the fool.”

 

“The response of embarrassment is not a personal flaw. On the contrary, it is a socially oriented readjustment pattern that acts to reestablish more orderly, adequate behavior. In showing embarrassment, the flustered person (sometimes unwittingly) reveals his responsiveness to the discrepancy between expected and actual performance. This offers the blunderer a chance to get himself together while remaining in consensual accord with the rest of the group. At the same time, perceiving his reaction, his audience is in a position to help him to reestablish his earlier state of unselfconscious ease.”

“I feel less pained and alone in my embarrassment, standing among these other naked therapists.”

“But for those of us who have not been subjected to excessive shaming, failing at something may be experienced as no more than not yet attaining what we might. For others who have too often been made to feel worthless, each failed attempt may create the feeling of being a total failure.”

“It was Erasmus who gave the West the paradox of the Wise Fool. In the literature of the Middle Ages, the Fool had played a minor role. But beginning with Erasmus’ book, In Praise of Folly, the Renaissance Fool stepped forward as a major figure in the humanist vision of man. Desiderius Erasmus of Rotterdam, the bastard son of an obscure father, emerged as a great humanist who would be courted by princes, popes, and scholars of his age, a man whose Wise Fool would foster men’s self-acceptance for centuries to come.”

“Like Socrates, her only claim to wisdom is that she knows that she knows not.”

“Like all those later Fools, Don Quixote, Huck Finn, Chaplin’s little tramp, and the Marx Brothers, she does not comprehend what is expected of her by society. Like all clowns she is free to walk irreverently through the walls of convention, simply because she does not see that they exist. Often enough, these hollow boundaries collapse before the force of her ignorance.”

“The good judgment of the Wise is sometimes no more than the closed mindedness of those who know better.” I’d say Final Judgement.

“By accepting the Fool in myself, I open my imagination to all the possibilities that I was once too wise to consider.”

“So it is that when I was a young man I hoped to make fewer and fewer mistakes, while in my later life my ambition is to make more. I would sin boldly. Not that I have come to like feeling embarrassed. Not at all! Rather most of the time now it all just seems worth it to me to experience feeling foolish if that is the price of trying new ways of being.”

O palhaço que habita em mim saúda o palhaço que um dia habitará em você.

O homem ocidental se tornou zen para não apertar o botão da bomba; isso pausará sua existência cadavérica nesse mundo além de qualquer previsão legal… Eis o problema. O Último Homem aprendeu com seus erros logo após o penúltimo erro – que infortúnio e que pepino para nós! Se apenas houvesse uma máquina de auto-sepultamento, um suicídio assistido por si mesmo, uma auto-eutanásia no mais redundantemente literal dos zentidos… Ainda estamos impessoais demais diante do nosso instinto vital, não operamos a nossa própria máquina para comandar ações grandiloqüentes deste nível e desse porte! Asia Rise!

“A single individual’s solitary failing is painful, but the shared frailties of all men are ultimately comic. So it is that one stutterer is tragic, but like it or not, three stutterers having an argument is a funny scene.”

Seriousness is an accident of time. It consists in putting too high a value on time. In eternity there is no time. Eternity is a mere moment, just long enough for a joke” Herman Hesse, Steppenwolf

 

“Out of the Middle East comes the tradition of the Sufi, that mystical/intuitive aspect of Islam that ranges from the whirling trance states of the Dervishes to the teaching stories of that Wise Fool, Nasrudin. The Sufi tales offer the sort of folk wisdom that discloses that out of each situation comes its own remedy. Each mishap is an opportunity to learn if only our imagination is open to reappraising the source of our discomfort.”

Enjoy yourself, or try to learn—you will annoy someone. If you do not—you will annoy someone.”

 

Who is it who’s rejecting whom?… if somebody rejects me…who they think they’re rejecting isn’t me anyway.… By them pushing me away I see them caught in their own paranoia…” Baba Ram

Ser um incompreendido do meu tempo implica que eu mesmo não posso me compreender!

You don’t decide to give something up. They fall away, that’s the secret of it.”

 

It’s ok to fail on an impossible mission, right, Tom Cruise?

“Even when I am doing well, or being special, being judged is oppressive, carrying with it as it does the impossible ideal of perfection. How much easier is the freedom to be what I am, ordinary and imperfect as that may be, no more than a natural Fool.”

To witness my Self without blaming myself is like being a child again, only this time in a safe, warm place under the watchful eyes of loving parents. It is during such moments that I can accept whatever I do as no more than what I must do at that time. It is then that I would no more question the adequacy of what I am doing than I would wonder whether or not my cat knows just how to go about being a cat.”

Guru, If You Meet the Buddha on the Road, Kill Him!, by the same author.

MÊNON OU DA VIRTUDE Ou: Da inexistência de uma ciência política (Última tradução do ciclo “PLATÃO. Obras Completas”) + VIRGINIA WOOLF ao final!

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

MÊNON – Poderias dizer-me, Sócrates, se a virtude pode ser ensinada? E, podendo ou não, adquire-se só com a prática ou encontra-se no homem também naturalmente ou sob qualquer outra forma?

SÓCRATES – Até agora os tessálios desfrutaram de grande renome entre os gregos, e foram muitíssimo admirados por sua destreza em montar a cavalo, bem como por suas riquezas; mas hoje em dia sua fama reside, a meu ver, mais em sua sabedoria, principalmente na dos concidadãos de teu amigo Aristipo de Larissa.(*) A razão disso é que Górgias, havendo visitado esta cidade, atraiu a seu círculo, em vista de seu enorme talento, os aristocratas alêuadas, i.e., descendentes do rei Aleuas.¹ Aristipo se encontrava neste número. Apenas os mais distintos dos tessálios freqüentavam a residência de Górgias. Ele vos acostumou a responder com firmeza e imponência às perguntas, assim como os sábios respondem com naturalidade tudo aquilo que são perguntados (…)”

(*) “Que não deverá ser confundido com Aristipo de Cirene, discípulo do próprio Sócrates, que no entanto punha o Prazer no lugar do soberano Bem.” – P.A. (Mau discípulo, por sinal!)

¹ Rei mitológico, já que se diz que fôra neto do próprio Aquiles da Guerra de Tróia. Há discordância entre os escoliastas de língua portuguesa se se o chama Aleuas ou Alevas e, em conseqüência, seus descendentes poderiam tanto se chamar alêuadas como alêvadas. Aqui procedemos à opção de Azcárate.

Mas aqui em Atenas, meu querido Mênon, as coisas tomaram a contra-mão. Não sei que espécie de aridez se apoderou da ciência; até o ponto em que parece se haver retirado por completo destes lugares, para ir animar apenas vossa Tessália. Imagino que se perambularas nas ruas questionando o que me questionas serias vítima de troça, e não haveria quem não to dissesse: Estrangeiro, estou tão distante de saber se a virtude, dada sua natureza, pode ser ensinada, que ignoro mesmo o que seja essa tal virtude! Mas Mênon, eu disse isso sobre todos os atenienses: eu também não sei a resposta. Prescindo da sabedoria, como meus concidadãos. Sinto muitíssimo não possuir qualquer tipo de ciência sobre a virtude! (…) Parece-te, aliás, possível que alguém que não conhece a pessoa de Mênon afirme que seja formoso, rico e nobre, ou, enfim, destituído destas características? Crês tu?

MÊNON – Não, mas será verdade, Sócrates, que não saibas mesmo o que é a virtude? É concebível que, voltando eu a minha terra, tenha de aviltar tua imagem de sábio, confessando tua ignorância no tema?

SÓCRATES – Não só não o sei, querido Mênon, como não encontrei jamais alma que o soubesse, tanto quanto me concerne.

MÊNON – Como é? Não visitaste Górgias quando ele freqüentou Atenas?

SÓCRATES – Sim.

MÊNON – E me dizes então que ele de nada sabia?

SÓCRATES – Ando meio caduco, Mênon. Não posso dar-te um juízo exato, agora, de como avaliei Górgias então. Bom, talvez ele realmente soubesse o quê é a virtude, e dessa forma tu também, pois que tu és discípulo de Górgias.”

SÓCRATES – Deixemos Górgias em paz, uma vez que não se encontra para defender-se. Mas tu, Mênon, em nome dos deuses, o que opinas sobre a virtude? Diz-mo. Não me prives deste conhecimento! Se eu saio desta conversa convencido de que tu e Górgias sabeis quê é a virtude, terei de admitir minha derrota: incorrera em falsidade todo este tempo, uma vez que conhecia homens que sabiam o que é a virtude!

MÊNON – A coisa não é assim tão difícil, Sócrates. Queres que te diga, duma vez, em que consiste a virtude do homem? Nada mais simples: consiste em estar em posição de administrar os negócios da sua pátria; e, administrando, fazer o bem a seus amigos e o mal a seus inimigos, procurando, por sua parte, evitar todo o sofrimento. Queres conhecer em que consiste a virtude da mulher? É facílimo defini-la: o dever de uma mulher é governar bem sua casa, vigiar seu interior, ser submissa ao marido. Também há uma virtude própria para os jovens, de um e outro sexo, e para os anciãos; a que convém ao homem livre é outrossim distinta da do escravo; em suma, há uma infinidade de virtudes. Nenhum inconveniente há em responder o que é a virtude, porque cada profissão, cada idade, cada ação, tem sua virtude particular. (…)

SÓCRATES – Imensa é minha fortuna, Mênon! Estava à procura de uma virtude, e me deparo com um verdadeiro enxame delas! Mas, recorrendo a esta imagem, i.e., do enxame, se eu te houvesse questionado da natureza das abelhas, e tu me respondesses que há muitas abelhas e de muitas espécies diferentes; o que me haveria de responder se eu te contestasse: É em virtude de sua qualidade de abelhas que dizes haver grande número? Ou não diferem em nada enquanto abelhas, mas sim em razão de outros conceitos, p.ex., a beleza, a magnitude ou qualquer qualidade assim, separável do que uma abelha é? (…)

MÊNON – Ora, diria que as abelhas, enquanto abelhas, não diferem umas das outras!”

SÓCRATES – Saiba então que o mesmo sucede com as virtudes. Ainda que haja muitas e de muitos matizes e variedades, todas compartilham uma essência comum, o que possibilita que sejam chamadas virtudes.”

Te parece, Mênon, que a saúde de um homem seja distinta da saúde de uma mulher?”

Mênon, a verdade é que não buscamos mais que uma virtude. O que fizemos foi percorrer caminhos estranhos e achar várias virtudes, máscaras da virtude una.”

SÓCRATES – Agora vê se concordas: a figura é, dentre todas as coisas que existem, a única que está unida à cor. Estás satisfeito ou desejas reformular tal definição? Eu me daria por satisfeito, caso desses-me uma definição de virtude no mesmo tom.

MÊNON – Mas esta definição é impertinente, Sócrates!

SÓCRATES – Por quê?!

MÊNON – Segundo tu, a figura está sempre unida à cor.

SÓCRATES – Sim, e…?

MÊNON – Se se dissesse que não se sabe quê é a cor, e que neste ponto está-se no mesmo embaraço que quanto à definição de figura, que pensarias a respeito?

SÓCRATES – (…) minha resposta já está dada; se não é justa, a ti toca pedir a palavra e refutá-la. Mas se fossem dois amigos, como tu e eu, que quiséssemos conversar juntos, seria preciso então responder-te, não é mesmo? Desta vez, de maneira mais suave e conforme com as leis da dialética. E o que é mais conforme com as leis da dialética? Não se limitar somente a dar uma resposta verdadeira, mas fazer com que esta resposta consista em palavras que o mesmo sujeito que nos dirigiu a pergunta confesse que entendeu a todas, uma a uma. Desta maneira inicio minha tentativa de responder-te melhor que antes. Pergunto: há uma coisa que chamas de fim, i.e., limite, extremidade? Estas 3 palavras expressam uma mesma idéia. Talvez Pródico não concordasse. Mas enfim, tu não assumes que uma coisa é finita e limitada? Eis meu entendimento.

(…)

E bem, não chamas algumas coisas de superfícies, planos, e outras sólidos? P.ex., o que se chama com estes nomes na geometria.

(…)

Agora sim podes conceber o que entendo eu por figura. Porque digo em geral de toda figura que é: aquilo que limita o sólido. Para resumir esta definição em apenas dois substantivos, chamo de figura o limite do sólido.

MÊNON – Excelente, Sócrates. E qual sua definição de cor?

SÓCRATES – Ah, Mênon! Tua juventude gosta de tripudiar de um velho como eu, não?! Sufoca-me com pergunta atrás de pergunta! Enquanto isso, não queres nem te lembrar nem dizer-me como Górgias entendia a virtude!

MÊNON – To direi, Sócrates—depois de terdes respondido minha pergunta!

SÓCRATES – Ainda que tivera meus olhos vendados, somente ao ouvir-te diria: és belo e tens amantes!

MÊNON – Por que dizes isto?!

SÓCRATES – Porque em teus discursos não fazes mais que mandar; coisa muito comum entre os jovens que, orgulhosos de sua beleza, exercem uma espécie de tirania enquanto se encontram na flor dos anos. Além disso, talvez tenhas descoberto minha fraqueza, amigo, o amor pela beleza! Mas farei tua vontade, respondo-te a seguir.

MÊNON – Sim, por favor, Sócrates!

SÓCRATES – Queres que te responda como responderia Górgias, a fim de que me sigas com mais facilidade?

MÊNON – Ó, é uma ótima idéia!

SÓCRATES – Não dizeis vós, segundo o sistema de Empédocles, que os corpos produzem emanações?

MÊNON – Correto, prossegue.

SÓCRATES – E que têm poros, através dos quais passam tais emanações?

MÊNON – Decerto.

SÓCRATES – E que certas emanações são proporcionais a certos poros; enquanto que outros deles são ou demasiado largos ou demasiado estreitos para que sirvam de condutores?

MÊNON – Não mentes.

SÓCRATES – Reconheces a vista?

MÊNON – Vejo que sim.

SÓCRATES – Estabelecidas todas estas coisas, atenta agora ao que digo, tal qual o disse outrora Píndaro: <A cor não é outra coisa que uma emanação das figuras, proporcional à vista e sensível>.¹

¹ O mais impressionante dessa definição é sua atualidade, como se Sócrates já falasse da freqüência da luz e nossa percepção dos tons pela decodificação instantânea dos neurônios que desemboca na retina. Ainda mais curioso diante do fato de que em outros diálogos Platão apresenta definições assaz mequetrefes, para nosso tempo pós-goethiano, em teoria das cores! É só ler seus diálogos mais avançados, incluindo mesmo A República.

sobre a base desta resposta, ser-te-ia fácil agora explicar o que são a voz, o olfato e as coisas análogas.”

SÓCRATES – Ela (a resposta sobre a cor) tem não sei quê de trágico, querido Mênon; e por esta razão mais te agradou que a resposta sobre a figura!

(…)

Mas esta segunda definição não é tão boa quanto a primeira, ó filho de Alexidemo. O mesmo opinarias, se acaso não fosses obrigado a voltar a tua terra antes de testemunhares os mistérios, e se pudesses permanecer e ser iniciado.

MÊNON – E com muito gosto permaneceria eu, Sócrates, se consentisses em me comunicar tais coisas.

SÓCRATES – (…) Cessa de multiplicar o que é único, Mênon, pilhéria esta comum aos oradores que querem ridicularizar seu oponente. Tomando então a virtude em si, integral e inviolada, explica-ma agora no que consiste! Te dei dois modelos para servirem-te de guia.

MÊNON – A virtude consiste, Sócrates, como refere o poeta, em comprazer-se com as coisas belas e poder adquiri-las.”

SÓCRATES – Desejar as coisas belas, é a teu ver desejar as coisas boas?

MÊNON – Ora, sim.”

SÓCRATES – Mas Mênon, crês que um homem, conhecendo tanto o mal quanto o bem, pode se ver premido a desejar o mal?

MÊNON – É claro.

(…)

Sócrates, parece que tens razão; ninguém deseja o mal.”

SÓCRATES – E não é certo que a parte desta definição que expressa o querer é comum a todos os homens? E que neste conceito ninguém é melhor do que ninguém?

MÊNON – Convenho.

SÓCRATES – Está patente, portanto, que, se uns são melhores que os outros, não pode ser senão em razão do poder.

MÊNON – Isso sem dúvida.”

MÊNON – Tinha ouvido dizer, Sócrates, antes de conversar contigo, que tu não sabias outra coisa senão duvidar e encher os outros de dúvidas. Vejo agora que fascinas meu espírito com teus feitiços, tuas maldições e teus encantamentos! De maneira que me encontro repleto de dúvidas… (…) Fazes bem em não saíres de Atenas, nem visitar outros países. Porque se fazes alhures o que aqui fazes, creio que te exterminariam!

SÓCRATES – És muito astuto, Mênon, e tentaste pregar-me uma peça!”

Sei que todos os homens belos gostam de ser comparados, porque comparações são-lhes sempre vantajosas! (…) Não te devolverei outra comparação por esta! (…) se conduzo ao espírito dos outros a dúvida, não é porque saiba mais que ninguém, mas exatamente ao contrário; sou o ser que mais questiona, só isso! (…) Já com relação à virtude, meu caro, não sei o quê é; e creio que tu o sabias antes de vir ter comigo; mas depois de conversarmos um pouco, creio que agora já não saibas mais!”

SÓCRATES – Compreendo o que queres dizer, Mênon. Percebe quão pouco fecundo não é o tema que acabas de estabelecer?! Parece que não é possível ao homem indagar aquilo que sabe, nem o que não sabe, afinal se já o sabe não tem necessidade de indagação alguma. Não indagará tampouco o que não sabe, pela simples razão de que não sabe o quê deveria indagar!

MÊNON – Não te parece que falo a verdade, Sócrates?

SÓCRATES – Não.

MÊNON – Quisera dizer-me o motivo!”

Os poetas dizem¹ que a alma humana é imortal. Que logo que desaparece, ou pelo menos quando acontece o que denominam ‘morrer’, volta a aparecer; perecer, nunca. Por isso, é preciso viver da forma mais santa concebível. Porque Perséfone, após 9 anos, devolve a vida à alma do morto, de acordo com os méritos e as faltas da vida passada. Assim nascem e renascem os reis e os homens mais ilustres e sábios; nos séculos seguintes, eles são considerados pelos mortais como santos e heróis. A alma, partícipe desse ciclo infinito, tendo se deparado com as mesmas coisas tantas vezes, é por isso mesmo a coisa mais sábia que há. Seria coisa de se admirar, portanto, que ela pudesse recobrar aquilo que já abrigava, i.e., a resposta de quê é a virtude?”

¹ Píndaro

Tudo que se chama buscar e aprender nada mais é do que recordar.”

SÓCRATES – Chama algum dos muitos escravos que estão a teu serviço, quem quiseres. (…)

MÊNON – Com prazer. Vem tu, jovem.

SÓCRATES – É grego? Ou sabe o grego?

MÊNON – Excepcionalmente. Ele é como que de nossa família, sempre foi de nossa casa.

SÓCRATES – Aguarda e só observa se o escravo recorda ou aprende de mim.

MÊNON – Pois não, sou todo ouvidos.

SÓCRATES – Jovem, diz-me: sabes que isto é um quadrado?

[Sócrates desenha com um graveto na areia para que o jovem visualize.]

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – O espaço quadrado não é aquele que tem as quatro linhas que vês iguais?

ESCRAVO – Certamente.

SÓCRATES – Não tem também estas outras linhas, que dividem-no ao meio, iguais entre si? [Desenha uma cruz dentro do quadrado.]

MENON figura1¹ Supondo que o segmento BC = 2, tanto BF quanto FC = 1, nas palavras de Sócrates ao escravo logo abaixo. Cada um dos 4 quadrados que nasceram “dentro” do primeiro quadrado desenhado na areia conservam suas propriedades, só que em miniatura. E Sócrates fez tudo isso apenas riscando uma “cruz” na areia – ângulos retos, o que chamaríamos hoje, pós-Descartes, de eixos x (horizontal) e y (vertical), que não passam de lados de novos quadrados, conforme a perspectiva –, observando a proporção das medidas (a cruz, i.e., os segmentos perpendiculares entre si FH e EG, interseccionando-se no ponto zero do plano cartesiano, representado na imagem pela letra “I”).

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Não é verossímil que haja um espaço semelhante, embora maior ou menor?¹

ESCRAVO – Sem dúvida.

SÓCRATES – Se este lado fosse de 2 pés e este outro também de 2 pés, quantos pés teria o todo? Considera-o antes desta maneira, aliás: se este lado fosse de 2 pés e este de um pé só, não é certo que o espaço teria 1 vez 2 pés?²

ESCRAVO – Sim, sim, Sócrates.

SÓCRATES – Mas como na verdade este outro lado é também de 2 pés, não terá o espaço 2 vezes 2?

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Reiterando: logo, o espaço é 2×2?

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Quanto são 2×2? Conta para mim.

ESCRAVO – São 4, Sócrates.

SÓCRATES – E não poder-se-ia formar um espaço que fosse o dobro deste, ainda conservando suas mesmas propriedades, tendo lados iguais?³

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Quantos pés teria esse espaço?

ESCRAVO – 8.4

SÓCRATES – Agora diz-me: qual seria o comprimento de cada linha desse novo quadrado maior que concebemos… Veja: este quadrado traçado na areia¹ tem 2 pés de cada lado. Quantos pés teria o lado do <quadrado que é o dobro deste>?

ESCRAVO – É evidente: os lados teriam o dobro de pés!

SÓCRATES – Bem vê, Mênon, que eu não ensino nada ao jovem, tudo o que faço é interrogá-lo. E ele já imagina qual é a linha que deve traçar para formar o espaço trigonométrico de 8 pés, não te parece assim?

MÊNON – Sim, Sócrates.”

² Neste caso, seria como se a figura total fosse, p.ex., a ligação dos pontos BEGC, equivalente a um retângulo.

³ Um quadrado que fosse para o quadrado ABCD o mesmo que o quadrado BFIE é para o quadrado ABCD.

4 O sumo óbvio, que Sócrates tentava demonstrar: o não-iniciado em matemática tomará por operação aritmética (e a operação equivocada) o que era uma operação trigonométrica. Falando em linguagem mais acessível, o jovem não sabia ainda que a obtenção da área do quadrado era obtida por meio de uma MULTIPLICAÇÃO de 2, e não de uma SOMA de 2, uma vez que, no caso do número 2, a multiplicação (o quadrado) e a soma coincidem. (2+2=2×2) Daí o jovem ter dito que o quadrado com o dobro das medidas, i.e., lado = 4, teria 8 pés de área, pois ele fez mentalmente 4 + 4 e não 4². Este raciocínio todo, bem simples, serve para lembrar, também: não é todo matemático que é bom em ensinar matemática. É preciso saber o método para não fazer o aluno “descobrir a natureza” da forma indesejada (pelo ensino oficial, pelos livros, pelo próprio educador, etc.). Mostrar que o jovem se equivocava ao imaginar o quadrado e que se daria conta do erro ao contar os quadrados após desenhar o quadrado na areia favorecia Sócrates na discussão que tinha com Mênon (sobre a teoria da reminiscência).

SÓCRATES – Teu escravo não sabia a princípio qual era a linha com que se forma o espaço de 8 pés, e na verdade ainda não o sabe, porque não o fiz ir adiante.¹ Mas ele pensava que sabia. E a prova disso é que respondia sem hesitar, muito confiante de si. Ele não se imaginava ignorante em nada. Mas, por fim, quando lhe objetei que incorria em erro, reconheceu seu embaraço, e admitiu que não sabe. Houve um progresso: agora ele sabe que não sabe.

¹ Número irracional, que os gregos não se preocupavam em denotar. Muito embora, neste exemplo Sócrates tenha apresentado apenas um quadrado bidimensional. No caso do CUBO, seria possível encontrar 8 como volume da figura cujo lado é 2 pés (2³).

MÊNON – O que dizes é a suma verdade, Sócrates.

SÓCRATES – Admites que teu escravo avançou em conhecimentos?

MÊNON – Não posso negá-lo!

SÓCRATES – Pois ensinando-o a duvidar das coisas, e até de si mesmo, e fazendo-o arrefecer sua natureza antes mais arrogante, como se arrefece um tornado, crês que fizemos um bem ou que fizemos um mal a ele?

MÊNON – Um bem sem dúvida.

PLATÃO – O que fizemos foi situá-lo em uma posição privilegiada para enfim caçar a verdade. Porque agora, ainda que não saiba o que é, buscará esta coisa com prazer e ponderação. Antes chegaria a conclusões apressadas e desfiguradoras, não importa se na praça pública, crendo-se senhor da razão, ou apenas diante de si mesmo. Não veria o ridículo de sua resposta, de que o dobro da área aparecia com o dobro da longitude das linhas (acrescentando outro tanto de pés aos lados do quadrado).”

SÓCRATES – Escravo, volta. Responde, agora: este espaço, não é de 4 pés? [Sócrates volta a apontá-lo a figura 1, desenhada na areia.]

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Não se pode acrescentar a este espaço outro idêntico?¹

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – E ainda outro (um terceiro quadrado)?

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – E agora o quarto?

ESCRAVO – Sem dúvida.

SÓCRATES – Não temos então quatro espaços iguais entre si?

ESCRAVO – Sim, sim.

SÓCRATES – Mas que é todo este espaço (o quadrado maior) diante do menor?²

ESCRAVO – É o quádruplo.

SÓCRATES – Mas o que queríamos não era achar o dobro?

ESCRAVO – Evidente.

SÓCRATES – Estas duas linhas,(*) inscritas dentro do quadrado grande, não cortam em dois cada um destes espaços (os dois retângulos, que assim se tornam 4 quadrados menores)? [(*)A cruz na areia, cf. legenda da figura]

ESCRAVO – Sim, exato.

SÓCRATES – Não vês aqui, pois, 4 linhas iguais que cortam este espaço? [Decompondo a cruz: duas linhas perpendiculares são também 4 linhas ou segmentos de reta, com referência ao ponto I, o centro.]

ESCRAVO – Vejo.

SÓCRATES – Responde agora, qual a magnitude deste espaço?

ESCRAVO – Como?!

SÓCRATES – A cruz que desenhei na areia não divide este quadrado original em 4 quadrados?

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Então me diga: quantos espaços semelhantes há <dentro> desta figura?

ESCRAVO – 4.

SÓCRATES – E naquela? [Sócrates aponta para o polígono CBGE.]

ESCRAVO – 2.

SÓCRATES – Qual a proporção de 4 para 2?

ESCRAVO – 4 é o dobro de 2.

SÓCRATES – Quantos pés tem este espaço? [CBGE]

ESCRAVO – 8 pés. [4×2]

SÓCRATES – Quais as linhas que o formam?

ESCRAVO – Estas. [O escravo assinala o polígono CBGE.]

SÓCRATES – Com esta linha aqui em um dos lados? [Sócrates aponta para o segmento BC.]

ESCRAVO – Isso.

SÓCRATES – Os sofistas chamam esta linha de diâmetro. Assim, supondo que seja este o nome mais adequado, o espaço que chamamos dobro, ó escravo de Mênon, será formado de acordo com o diâmetro. Mas lembra-te que o outro lado [segmento BE] permanece do mesmo tamanho.

ESCRAVO – Perfeitamente, Sócrates!

SÓCRATES – E agora, Mênon? Crês que teu jovem escravo deu alguma resposta que lhe fôra ordenada, ou que ele chegou à resposta por seu próprio mérito?

MÊNON – Vejo o que querias demonstrar, Sócrates: ele chegou à descoberta por conta própria, sem a ajuda de ninguém.”

¹ Como vimos, aí teríamos um retângulo, pois para DOBRAR O QUADRADO seria necessário não multiplicar por 2, mas por 4 (aumentar o quadrado 4x).

² Basta visualizar sempre a figura 1 para entender o problema. Comparar o menor quadrado com o maior quadrado, não importando as dimensões numéricas do caso particular (o número de pés do quadrado, o que foi deixado de fora da imagem que inseri acima justamente para facilitar a abstração).

Daí concluímos que aquele que não sabe ou ignora tem, apesar disso, em si mesmo, faltando apenas recordar, opiniões verdadeiras relativas àquele assunto que, por enquanto, pensa ignorar totalmente.”

SÓCRATES – Não concordas que a ciência que tem hoje teu escravo, não seria preciso que ele a tivesse recebido noutro tempo, imemorável, ou que sempre a tivera consigo, embora adormecida?

MÊNON – Sou obrigado a concordar.

SÓCRATES – Mas ora: se fosse a segunda hipótese, teu escravo teria sido um sábio desde sempre! E se a recebeu, ao contrário, noutro tempo, não foi, decerto, nessa vida presente! A não ser que alguém o tenha secretamente introduzido na arte da geometria, vês? Sabes se alguém o ensinou?

MÊNON – Sócrates, este é um servo doméstico. Asseguro-te que nunca foi educado em semelhantes coisas.

(…)

SÓCRATES – Se não o foi, é claro que recebeu este ensinamento antes, e que em algum momento aprendeu o que sabe, posto que não se pode aprender aquilo de que a alma não é capaz desde sempre!

MÊNON – Mataste a charada.

SÓCRATES – Será então quando ainda não era homem: foi neste momento em que foram-lhe impressos na alma estes conhecimentos que ora manifestou.

MÊNON – Creio que sim, Sócrates.

SÓCRATES – Mênon, não é correto afirmar que embora em seu corpo atual teu escravo nada soubesse de trigonometria até o momento em sua alma ele sempre fôra um sábio?

MÊNON – Sem dúvida alguma, Sócrates.

SÓCRATES – Logo, se a verdade dos objetos está sempre em nossa alma, ela é imortal. Por isso nunca devemos depreciar este método: perguntar com confiança e persistência, indagar nossas próprias almas sobre os objetos, tentar trazer à memória aquilo de que já não mais lembrávamos!

MÊNON – Não sei exatamente como fazer o que dizes, mas concordo que falas a verdade.

SÓCRATES – E tua crítica me é tão familiar que acho que a encontro dentro de mim mesmo, Mênon. Às vezes procedemos a um método que nem bem entendemos. Porém, creio ser minha missão nesta vida defender este método com palavras e com os fatos que puder encontrar. Estou persuadido apenas disso: que é preciso indagarmo-nos a respeito daquilo que não sabemos, pois isto no mínimo nos fará melhores, ou pelo menos não nos corromperá se nada advir disso! Pois ficaremos mais resolutos, menos preguiçosos – de que adiantaria repousarmos crendo ser impossível descobrir aquilo que ignoramos agora e que seria vão empreender qualquer coisa?

MÊNON – Mas isto está excepcionalmente bem-dito, Sócrates!”

permita-me indagar, como que por hipótese, se a virtude pode ser ensinada, ou se se a adquire por qualquer outro meio. Quando digo <como que por hipótese>, entendo por hipótese o método ordinário dos geômetras.”

Se a virtude for uma ciência, é óbvio que se pode ensiná-la.” “Mas se apresenta agora outra questão igualmente problemática: será a virtude uma ciência ou não?

SÓCRATES – Se há alguma espécie de bem que seja distinta da ciência, pode então suceder que a virtude não seja uma ciência. Mas se não há nenhum gênero de bem que a ciência não abranja, teremos razões para conjeturar que a virtude é uma modalidade de conhecimento.

MÊNON – Perfeitamente.”

SÓCRATES – (…) Ora, se uma coisa qualquer, e não precisa ser a virtude, é por natureza suscetível de ser ensinada, não é sumamente necessário que nela e dela haja mestres e discípulos?

MÊNON – Creio que sim, Sócrates.

SÓCRATES – E podemos concluir que quando alguma coisa prescinde por completo de mestres é sinal de que ela não pode ser objeto de ensino?

MÊNON – Nada mais exato.”

Justamente, Mênon! Temos a felicidade de contar neste recinto, em hora muito apropriada, com Anito,¹ que estava desde o começo de nossa conversação tão perto de nós! (…) Anito é filho de um pai rico e sábio, Antemião, que não deve sua fortuna ao mero acaso, nem à liberalidade alheia, como seria o caso de Ismênias o Tebano, que não faz muito recebeu em herança todos os bens de Polícrates. Pelo contrário: tudo o que tem decorre de sabedoria e indústria. E Antemião, em que pese sua posição econômica, nada tem de arrogante, faustoso, nem desdenha os outros cidadãos; é modesto e prudente em sociedade. Um homem assim não deixaria de haver educado muitíssimo bem seu filho, pelo menos de acordo com a grande maioria dos atenienses. Tanto que ele quase sempre é eleito para os cargos mais importantes!”

¹ Conveniente lembrar: Anito seria um dos homens responsáveis pela morte de Sócrates. Conferir https://seclusao.art.blog/2017/12/08/apologia-de-socrates/.

ANITO – E quem são esses mestres, Sócrates?

SÓCRATES – Tu sabes, como eu, sem dúvida, Anito, que são os que se chamam de sofistas.

ANITO – Por Hércules! Não mo digas, Sócrates. Eu não desejaria que nenhum parente meu, nem aliado, nem amigo íntimo, concidadão ou estrangeiro sequer, fôra tão insensato a ponto de pagar para perder-se com tais gentes. São os sofistas, manifestamente, uma peste e um encosto para todos os que com eles tratam.

SÓCRATES – Como, Anito?! Entre aqueles que se arrogam o ser úteis aos homens, só os sofistas logram diferenciar-se dos demais. Queres dizer que não só eles não melhoram seus alunos como até os pioram?!? E se atrevem a exigir dinheiro por esta obra? Mal sei no que acreditar, Anito, pois estaria tudo a desmoronar se desse plena a teu discurso! Eu conheci um homem, chamado Protágoras, que acumulara com a profissão de sofista mais dinheiro que Fídias, quem possui reputação tão ilibada! Não deixa de ser fenômeno singular: se aquele que remenda trajes e calçados devolve-os piores ainda a seus donos, ao cabo de 30 dias estará sem clientela e na sarjeta! Mas então este Protágoras, que corrompera desta forma os cidadãos, não é suspeito de nada vil em toda a Grécia! E não digo que pese-lhe alguma suspeita desde ontem, e que ela pode demorar a se alastrar e se verificar: faz 40 anos que este homem é célebre! Que era, melhor dizendo, pois, morto aos 70, dizem que exerceu a Sofística desde pelo menos os 30 anos de idade… Em todo este tempo jamais foi injuriado, nem caluniado. Mas Protágoras não foi o primeiro de sua classe, nem será o último. Supondo que digas a verdade, que há de se pensar dos sofistas que estão em exercício?! Que enganam a juventude de pleno conhecimento, dolosamente, ou que não conhecem o dano que provocam? Consideraremos estes homens insensatos a tal ponto – homens, repito, tidos como sábios personagens de nossa polis?

ANITO – Bem longe se encontram de ser uns insensatos, ó Sócrates! Os insensatos de fato são os jovens que lhes dão ouvidos e dinheiro! Mais insensatos ainda os pais destes mesmos jovens, que confiam a eles a educação de seus rebentos. Mas mais insensatas de todos são as cidades que permitem a entrada destes homens nefandos, em vez de fechar os portões a estrangeiros tão mal-intencionados como eles!

SÓCRATES – Algum sofista corrompeu-te, Anito? Que razão tens para pensar tão mal deles?

ANITO – Por Zeus! Jamais cultivei o trato com semelhantes figuras… E não consentiria que nenhum conhecido se aproximasse destes sofistas!

SÓCRATES – Então conheces estes homens só pelo ouvir falar?

ANITO – E oxalá nunca por experiência própria!

SÓCRATES – E, sem contato direto com as coisas, meu querido, como podes saber se são boas ou más?

ANITO – Muito bem, Sócrates, me pegaste em teu discurso. Em todo caso, tendo eu as experimentado ou não, conheço os sofistas como a palma de minha mão, e sei o que são.”

SÓCRATES – Os homens virtuosos, fizeram-se por si mesmos, sem receber lições? Outra questão: podem eles ensinar aos demais aquilo que nem eles mesmos não aprenderam com ninguém?

ANITO – Creio que receberam sua instrução dos que os precederam, homens igualmente virtuosos. Crês que esta cidade não produziu grande número de cidadãos estimáveis por sua virtude?

SÓCRATES – Eu creio, Anito, que nesta cidade há grandes nomes de Estado, e que sempre houve alguns, a cada geração. Mas foram eles os professores de sua própria virtude, ou da de seus sucedâneos? Porque isto é o que desejamos saber, e não se há ou não homens virtuosos, nem se sempre houve ou sempre haverá! A questão é se os grandes homens de agora e de outrora dispõem e dispuseram do talento para comunicar aos outros sua virtude, em que tanto sobressaíam; senão, teríamos de admitir que a virtude é intransmissível, impassível de ensino, de um homem a outro.”

SÓCRATES – (…) Convéns em que Temístocles era um homem de bem?

ANITO – Sim.

(…)

SÓCRATES – (…) Não ouviste dizer que Temístocles ensinou seu filho Cleofanto a cavalgar? Cavalgava tão bem seu filho que podia se equilibrar de pé sobre o cavalo enquanto disparava dardos, sem falar doutros movimentos e posturas maravilhosos. O pai sabia tudo isso e comunicou cada coisa ao filho, que as aprendeu. Em todas estas coisas técnicas Cleofanto aprendeu com seu pai e os melhores mestres, naquilo em que porventura Temístocles não excelia. Os antigos referiam essa estória, te recordas?

ANITO – Sim, dizes verdade.

SÓCRATES – Deve ser correto dizer que seu filho contava com predisposições naturais…

ANITO – Provavelmente.

SÓCRATES – Mas já ouviste falar de cidadão, velho ou novo, que Cleofanto fosse homem de bem tal qual seu pai (virtuoso)?

ANITO – Neste particular, estou no escuro.

SÓCRATES – Pode ser que isto se devesse a um capricho paterno? Considerando que a virtude pudera ser ensinada, não seria a mais importante de todas as ciências a legar à própria prole?

ANITO – Por Zeus, Sócrates, todo pai desejaria o melhor para seu filho!

SÓCRATES – Vês então como Temístocles, homem de bem, fôra um péssimo professor. Mas cacemos mais exemplos: e Lisímaco, filho de Aristides? Aristides acaso foi homem virtuoso?

ANITO – Sim, e muito.

SÓCRATES – Aristides com certeza deu a seu filho Lisímaco a melhor educação com que poderíamos sonhar nós próprios. E crês que isto surtiu efeito? Conheces muito bem Lisímaco e seus dotes.(*) Por fim, analisemos, se queres, ainda, Péricles, homem de méritos extraordinários. Dizem que educou pessoalmente seus filhos Paralos e Xantipo.

ANITO – Sim, sei-o.

SÓCRATES – Não deves ignorar que estes se tornaram dois dos melhores cavaleiros vistos em Atenas; além disso, eram versados na música, em ginástica e em tudo que envolve esta arte. Mas não quis Péricles torná-los virtuosos? Seria o mesmo caso de Tucídides com Melesias e Estefanos: infelizmente os filhos destes hábeis cidadãos e políticos não tiveram vidas destacadas quanto ao mérito de governar seus conterrâneos!

(*) Para esses pormenores (Lisímaco e Melésias filho de Tucídides, citado logo a seguir), ver o diálogo Laques. Este de que se fala não é Tucídides o Historiador. – P.A.”

ANITO – Pelo que ouço, Sócrates, falas mal dos homens com demasiada liberdade! Se me queres ouvir, te aconselharia a ser um bocado mais reservado. Se é fácil noutras cidades fazer o mal a qualquer um que se queira e sair incólume, em Atenas, Sócrates, é mais fácil ainda! Creio que saibas a que me refiro…

SÓCRATES – Mênon, vem cá! Parece que Anito está muito incomodado, o que não me assusta! É um mal-entendido, Anito. Crês que desprezo estes grandes homens; e como te imaginas neste número, pegas a ofensa para ti! Mas se um dia aprendes o que é verdadeiramente <falar mal>, deixar-te-á de enfadares com bagatelas… No momento, Mênon, Anito não sabe o que diz! Mas diz-me tu, Mênon: não tendes entre vós de Larissa homens de virtude?

MÊNON – Com certeza.

SÓCRATES – E quem são os professores dessa gente?

MÊNON – Ó, Sócrates! Não conheço professores desta matéria, pelo menos não sei dizer se são realmente o que dizem ser… O fato é que os cidadãos se dividem como que por igual entre os que dizem que a virtude pode ser ensinada e os que dizem que a virtude não pode ser ensinada.

SÓCRATES – Dizes então, se a divisão está meio a meio, que entre os professores de virtude há desses que ainda não estão certos de que a virtude possa ser ensinada?!

MÊNON – Ora, mas isso não faria sentido!

SÓCRATES – Mas me diz quê pensas dos sofistas, então.

MÊNON – Sócrates, o que muito me agrada em Górgias é que nunca ouvirás dele uma promessa de tamanho quilate. Ele não afiança nem dá garantias. Ao contrário, já o vi troçando seus colegas que se jactavam de ensinar a virtude. Ele se gaba apenas daquilo que é inegável em si: de sua alta capacidade para formar belos oradores.

SÓCRATES – Não disseste, ao fim: crês que os sofistas são professores de virtude?

MÊNON – Não sei, sinceramente, caro Sócrates! Há dias em que me parece que são e dias em que não o creio minimamente.

SÓCRATES – Sabes que não sois os únicos? Muitos políticos compartilham vossa opinião, e até o poeta Teógnis!

MÊNON – Referes-me os versos a que te referes.

SÓCRATES – Em suas elegias, diz: Bebe e come com aqueles que gozam de grande crédito; mantém-te sempre próximo deles e faz o possível para agradá-los. Aprenderás coisas boas, ao conviver com os bons; mas se trava contato com os maus, até a razão que já possuis escoará ladeira abaixo!(*) Estás de acordo que subentende-se nesta passagem que a virtude pode ser ensinada?

MÊNON – Claro.

SÓCRATES – Mas eis outros fragmentos um pouco distintos: Se se pudesse dar ao homem a inteligência, indubitavelmente estes talentosos educadores se veriam ricos da noite para o dia. Nunca o filho de um pai virtuoso seria mau, só de ouvir sábios conselhos. Mas tudo isso é quimera, ser bom ou mau independe de lições! Agora não nos parece que se contradiz em absoluto?

MÊNON – Ó Sócrates, nada mais certo!

(*) Teógnis, Sentenças, 5:33:432. – P.A.”

SÓCRATES – Mas se não há mestres, tampouco haverá discípulos.

MÊNON – Penso o mesmo que tu.

SÓCRATES – E estamos conformes em que aquilo para o que não há nem mestre nem discípulo não se pode ensinar!

MÊNON – Correto, Sócrates.”

MÊNON – A meu ver, a nosso ver… não há nem sequer indícios de homens peritos e qualificados para ensinar a virtude. Porém, isso não é dizer que eu não enxergue homens virtuosos. Havendo-os realmente, não posso atinar com quê se fizeram virtuosos!

SÓCRATES – Mênon, creio que isso seja um indício de que tu e eu somos pouco habilidosos! Creio que nenhum de nós foi bem instruído; tu por Górgias, e eu por Pródico. Portanto, é preciso que nos consagremos com todo esmero a nós mesmos antes de tudo, a fim de buscarmos alguém que nos faça melhores do que somos, qualquer que seja o meio! É até ridículo não havermos notado até aqui que a ciência não é único método disponível para dotar os homens de conhecimento e torná-los hábeis a conduzir seus negócios! Ou, talvez, ainda fazendo esta concessão, havendo outro método, poderia ser que ainda assim a forma como alguém se torna virtuoso continuasse obscura para nós!

MÊNON – Que queres dizer agora, Sócrates?!”

SÓCRATES – (…) Escuta: se alguém que soubesse o caminho até Larissa estivesse no meio da estrada e servisse de guia a outros, não te parece que conduziria muito bem essas pessoas?!?

MÊNON – Não tenho dúvida.

SÓCRATES – E se um outro conjeturasse com precisão qual seria o caminho, ainda que nunca o houvesse percorrido, nem tivesse ouvido falar ou lido ou aprendido de outrem sobre isso; não daria no mesmo, i.e., não ensinaria adequadamente quem lho perguntasse?

MÊNON – Sim, Sócrates.

SÓCRATES – Tendo, um, uma mera opinião e, o outro, um conhecimento completo do objeto, não será pior condutor aquele que este? Ainda que, por puro azar, soubesse a resposta, não concordas que o guia experimentado o superaria no papel de educador?

MÊNON – Tens razão.

SÓCRATES – Então, eis outro método de ensinar as coisas: a opinião que se mostra verdadeira. A ciência é o método clássico e seguro. Parece que ignoramos essa dupla faceta durante toda nossa discussão acerca da natureza da virtude. Havíamos concluído que só a ciência ensina a bem agir, ao passo que, agora vemos, a conjetura acertada produz o mesmo efeito!

MÊNON – Dou-te razão.

SÓCRATES – Portanto, a opinião verdadeira não é menos útil do que a ciência.

MÊNON – Mas Sócrates… O possuidor do conhecimento saberá sempre alcançar seu objetivo. Já o conjeturador se extraviará um bom número de vezes!

SÓCRATES – Que dizes? Mas se alguém se aferra a uma opinião correta e ensina-a, não é correto que ensina-a corretamente?

MÊNON – Esta conclusão eu não contesto, Sócrates. Mas se fosse um dilema tão simplório, me surpreenderia que não se falasse mais sobre a arte de bem opinar do que acerca de obter o conhecimento. Mais ainda me surpreende que tratemos estas coisas como duas completamente diferentes uma da outra, se é que tens razão!

SÓCRATES – Sabes donde procede esse teu assombro? Queres que to diga?

MÊNON – Ora, já estás perdendo tempo ao não pronunciá-lo logo de uma vez!

SÓCRATES – Nunca admiraste as estátuas consagradas a Dédalo? Há dessas em tua cidade?

MÊNON – Não entendo…

SÓCRATES – Estas esculturas, ó Mênon, quando seguras por molas, são facilmente detidas e fixadas; mas sem este artifício, escapam e fogem.

MÊNON – E…?

SÓCRATES – …E daí que não significa muito ter uma dessas estátuas que escapam fácil. Mas uma estátua fixa é de muito valor. Estas sim são consideradas obras-primas! Mas que tem isso a ver?, perguntarás… É que esta imagem vem a calhar para falar sobre opiniões e conjeturas… As opiniões acertadas são como estátuas com molas, e trazem toda uma sorte de benesses… Mas vê tu que a alma do homem não as capta por muito tempo… Tampouco são caras estas obras… Só mesmo a obra derivada de um conhecimento superior, erigido pela razão, possui um preço mais elevado. Isso, essa ciência, é o que chamo de reminiscência. Uma opinião coligada com outra, logo forma reminiscências, porque cadeias de opiniões nos evocam antigos conhecimentos adormecidos… O que no começo é frouxo e resvaladiço adquire fixidez e estabilidade com o tempo. Daí vem a superioridade da ciência sobre a opinião, Mênon.

MÊNON – Por Zeus, Sócrates! Não capto todos os detalhes de teu discurso, mas do que pude compreender vejo que faz todo o sentido!…

SÓCRATES – (…) E quando afirmo que a opinião verdadeira difere em qualidade da ciência, não creio, positivamente, estar emitindo uma opinião. De quase nada sei, mas se hei de exaltar algum conhecimento meu, ei-lo: o que sei, eu sei.

MÊNON – Tens toda razão!”

SÓCRATES – A ciência não pode servir de guia nos negócios políticos.

MÊNON – Tudo indica que não.

SÓCRATES – Então não foi devido a sua sabedoria que homens como Temístocles e os demais que citei quando conversava com Anito bem governaram o Estado. Porém, devido a essa característica, eles não puderam comunicar adiante esse dom.

MÊNON – Sim, sim, continua!

SÓCRATES – Não sendo uma ciência, só a opinião verdadeira pode conduzir os políticos na boa administração das coisas públicas; quanto à sabedoria, os políticos não são em nada diferentes dos profetas e dos adivinhos em transe. Estes últimos anunciam muitas coisas verdadeiras, mas não sabem do que falam.

MÊNON – Com bastante probabilidade…

SÓCRATES – Mas que tem que o adivinho não seja dotado de inteligência? Se ao final ele adivinha mesmo assim?

MÊNON – Não há mal algum, efetivamente.

SÓCRATES – Temos razões de sobra, portanto, para chamar os profetas de homens divinos; nada diferente no que se refere aos poetas. E, como vimos, nada mais óbvio e evidente que atribuir o mesmo epíteto aos bons políticos, homens realmente entusiasmados, inspirados e animados pela divindade ao triunfarem sobre grandes empresas, sem ter nenhuma ciência exata daquilo que fazem!

MÊNON – Ó, certo!

SÓCRATES – As mulheres, com razão, chamam os homens virtuosos de divinos. Os espartanos, quando querem elogiar o homem de bem, dizem a mesma coisa.

MÊNON – Não vejo como contestá-lo, Sócrates, mas creio que Anito não ficará satisfeito!

SÓCRATES – Isso não me importa! Conversarei com ele em outra ocasião. Mas no que toca a ti e a mim, Mênon, concluíramos que a virtude não é natural ao homem, nem passível de aprender-se; ela como que aterrissa por influência divina entre os eleitos. A menos que nos apareça algum político que seja capaz de ensinar sua arte, não mudaremos de opinião! Se aparece tal figura, diremos que é, entre os vivos, o que Tirésias é entre os mortos, se havemos de dar crédito a Homero, que versa: O único sábio dos ínferos, onde todos os demais nada mais são que sombras que erram ao acaso.(*) Analogamente, um homem assim seria, comparado com os outros, em matéria de virtude, feito de carne e osso, ou a própria luz, ao passo que nós não passaríamos de sombras e de escuridão.

MÊNON – Sócrates, teu discurso foi perfeito!

SÓCRATES – Nada mais resta a dizer, Mênon: a virtude é um presente dos deuses!

(*) Odisséia X

Para todos e para ninguém cabe a tarefa de evadir a caverna. E ninguém que a evada pode sequer convencer os outros ou forçá-los a evadi-la também, dadas as circunstâncias…

* * *

PREFÁCIO DAS OBRAS COMPLETAS DE PLATÃO POR VIRGINIA WOOLF – Trechos da tradução espanhola do inglês, reconvertidos para a Língua Portuguesa

(*) “Não conheço uma definição mais eloqüente e simultaneamente lacônica da obra platônica que a de Virginia Woolf. Assim, pois, com ela a palavra.” – A.P.V., 2012.

SOBRE NÃO SABER O GREGO

(*) “Esta tradução foi feita por mim; ela foi posteriormente polida e melhorada por Daniel Nisa em O leitor comum.” A.P.V.

É um processo extenuante. Concentrar-se arduamente no significado exato das palavras; julgar o que implica cada admissão; seguir concentrada porém criticamente as oscilações dos discursos e as mudanças de opinião à medida que se endurece e se intensifica o diálogo rumo à verdade. São o mesmo o prazer e o bom? A virtude pode acaso ser ensinada? É a virtude uma espécie de ciência? Uma mente cansada ou distraída pode facilmente equivocar-se nesses meandros, enquanto tenta avançar, impiedosamente, por tais interrogatórios abrasivos e intermináveis. Mas ninguém, por mais despreparado para os ensinamentos de Platão, pode deixar de começar a amar, ainda que saia <sem nada aprender de concreto>, ou a amar cada vez mais, o próprio processo do conhecimento, como exposto por ele. À medida que o argumento ascende às nuvens, de grão em grão, de degrau em degrau, Protágoras (e Protágoras pode ser qualquer outro) vai cedendo um pouco, logo um pouco mais, Sócrates avança no mesmo ritmo, devagar mas firme. E o importante não é tanto o desfecho, mas a maneira como vai-se abrindo esse desfecho.”

É uma noite de inverno; as mesas estão prontas e bem-servidas na ampla sala de Agaton. Uma escrava toca a flauta. Sócrates fez as abluções e veste sandálias. Pára à entrada. Recusa dar mais um passo, ainda quando mandam expressamente alguém vir recepcioná-lo. . . . Agora Sócrates acabou seu discurso. Escolheu Alcibíades para ser vítima de sua ironia neste epílogo de banquete. Alcibíades não pode responder com palavras, pois só consegue admirar este homem fora de série…”

Descartaremos agora as diversões, ternuras, frivolidades da amizade, só porque aprendemos a amar a busca pela Verdade? A Verdade será encontrada mais depressa pelo fato de taparmos os ouvidos à bela música, de fecharmos a boca ao vinho, pelo fato de escolhermos dormir ao invés de virar a noite conversando? Não é o estudante enclausurado, o asceta, que se mortifica na solidão, que tem a palavra final. Então quem? A natureza ensolarada, o homem que pratica o auto-aperfeiçoamento cotidianamente, sem se deixar atrofiar pela repetição da vida, que saiba que algumas coisas possuem, de forma permanente, em meio a tudo, mais valor que outras.”

Um povo que julgava tanto, como o ateniense, através dos sentidos básicos, como a audição, acostumados ao teatro de arena, ao ar livre, ou ao escutar discussões na praça e no mercado, era muito menos hábil do que nós para fatiar frases e apreciá-las fora do contexto original em que foram produzidas. Para eles não existiam as Belas Frases de Hardy e de Meredith, nem as Sentenças de George Eliot. Somos muito mais delicados e sutis, bon-vivants, dissecadores. O escritor antigo (e a platéia antiga) se atinha muito mais ao conjunto e muito menos ao detalhe.”

ao citarmos e destacarmos passagens, trechos, distorcemos muito mais os gregos do que os ingleses. Há um aspecto de natural, de nudez, nesta literatura tão crua e límpida que pode ter um gosto azedo ou amargo para paladares contemporâneos, paladares refinados e seletos demais, acostumados a avaliar cada vírgula de obras impressas, reprovando sabores, regurgitando e detectando matizes. É-nos benquisto um esforço inaudito de alargar e distender a mente, a fim de captar esse conjunto onde não há parnasianismo nem nada de inútil, sem a ênfase moderna prestada à eloqüência. Olhamos sem pestanejar figuras em close, absorvemos palavras soltas, hipervalorizando-as, ou meditando demais sobre um nada. O grego tinha uma visão panorâmica, não se punha a caçar pulgas e lêndeas. Poderia soar até mesmo grosseiro. De fato parece que nosso olhar e nosso coração são estreitos demais para apreciar de um trago só emoções tão densas, capazes de cegar o espírito se contempladas e experimentadas diretamente, à grega.”

Os gregos podiam dizer, acerca de seus antepassados conhecidos, como que pela primeira vez na História, que ainda que mortos, não morreram. E podiam complementar: Se morrer de forma nobre é parte indispensável da excelência, a Fortuna decidiu nossa sorte; a Grécia foi coroada pelos deuses, e aqui há liberdade, fez-se o Homem, de forma que, não importa quantas gerações transcorram, não envelheceremos.(*)

(*) Simônides

Ao lermos estas frases sucintas registradas em lápides, estrofes de um coro trágico, o final ou o começo dum diálogo de Platão, um fragmento de Safo, talvez, quando passamos o dia a remoer uma metáfora grandiloqüente do Agamêmnon de Ésquilo, ao invés de <cheirar todo o jardim>, como talvez fizessemos com uma obra dita <completa> como Rei Lear, não estaríamos lendo erroneamente, estrabicamente, num nevoeiro de associações absurdas, inserindo nos versos gregos coisas que não faziam falta aos próprios gregos, mas somente a nós? Detrás de cada linha já não se é auto-suficiente naquele mundo, já não se lê a Grécia em cada estrofe de Ésquilo ou de Sófocles?”

Cada palavra tem o vigor da oliveira e do templo consagrado a algum deus e dos corpos dos jovens.”

Não, paremos de tentar esgotar a sentença grega como o fazemos com o Inglês! Não há esse polimorfismo semântico paradoxalmente tão acessível porque vizinho nosso, nossa cultura mesma encarnada, digo, letrada. A linguagem é aquilo que mais escraviza, quando o assunto são os antigos. O desejo de desvendar o que está irremediavelmente perdido nos deixa eternamente hipnotizados pelas sereias e petrificados pela medusa.”

Digo que Shelley necessita de 20 palavras em seu vernáculo para expressar 13 palavras do grego.”

…toda pessoa, inclusive se antes houvera sido totalmente alheia às humanidades ensinadas na escola, se torna um poeta tão logo seja tocada pelo amor.” O Banquete

Tudo isso para dizer que as traduções são mera equivalência um pouco vaga. Não é culpa dos tradutores. Fazemos ecos e associações demais, involuntariamente. […] Nem o erudito mais competente pode conservar a sutileza do acento, o vôo, a ascensão e a queda <icárea> das palavras:

…A ti, que eternamente choras em tua tumba de pedra.” Electra

FILEBO, Ou: Dos prazeres, da inteligência e do Bem

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Os comentaristas ressaltam que o estilo literário e a composição dramática do diálogo foram deixados em segundo plano na comparação com a obra platônica precoce, dando lugar a definições, classificações e uma linguagem técnica mais áspera, própria de uma exposição didática” – A.P.V.

SÓCRATES – Filebo diz que o Bem para todos os seres animados consiste na alegria, no prazer, no recreio e em todas as demais coisas deste gênero. Eu sustento, por outro lado, que não é isto, senão que consiste o Bem na sabedoria, na inteligência, na memória e em tudo o que for da mesma natureza. Todas essas coisas, a justa opinião e os raciocínios verdadeiros são, para todos os que os possuem, melhores e mais apreciáveis que o prazer; e são, ao mesmo tempo, mais vantajosos também, seja para seres presentes ou para seres futuros, capazes de praticá-los.”

SÓCRATES – Que é que resultaria se descobríssemos algum outro meio preferível a estes dois extremos? Não é certo que se descobrirmos nesse terceiro meio mais afinidade com o prazer estaremos, tu e eu, em situação de viver o prazer e a sabedoria simultaneamente, muito embora a vida dirigida aos prazeres exerça, dentro desse terceiro meio, mais influência sobre nós do que aquela voltada exclusivamente à sabedoria?

PROTARCO – Mas é claro que sim, Sócrates.

SÓCRATES – Porém, não seria mentira, também, que esse terceiro meio se aproximaria muito mais da sabedoria que a vida dedicada exclusivamente ao culto dos prazeres… Logo, que tal se tratássemos de descobrir, nesta espécie de união, qual fator, se os prazeres ou a sabedoria, prevalece de maneira mais decisiva? Estais de acordo, meus dois bons jovens, que é possível promover este concurso, a fim de saber quem leva a melhor?

PROTARCO – A mim me parece uma proposta justa e exeqüível.

SÓCRATES – E quanto a ti, Filebo?

FILEBO – Creio e crerei sempre que a vitória se encontra sem dúvida do lado do prazer. Não obstante, já que é assim, numa contenda entre mim e tu Protarco poderá servir de juiz.

PROTARCO – Se tu nos delega esse poder (pois não o farei sem o auxílio de Sócrates), fica atento e só escuta. Não terás o direito de negar nem conceder nada a Sócrates. Eu me encarrego de tudo.

FILEBO – Assim está ótimo, fico nesta disputa, em verdade, como mero expectador; e tomo por testemunha a própria deusa do prazer!”

SÓCRATES – Comecemos, pois, por esta mesma deusa a que se refere Filebo, ninguém menos que Afrodite, que na verdade é apenas um disfarce para seu verdadeiro nome, Prazer.

PROTARCO – Muito bem.

SÓCRATES – Sempre que pronuncio o nome dos deuses, Protarco, sinto um temor, mas não um temor humano, um temor sobre-humano que a tudo ultrapassa, de pronunciar seus nomes em vão: por isso evoco aqui o nome secreto de Afrodite, pois sei que deve ser de seu pleno agrado esse gesto de franqueza. Quanto ao prazer em si mesmo, creio que ele tenha mais de uma forma, sendo necessário apurar suas naturezas. Mas ao falarmos simplesmente em prazer e prazeres, como se o prazer fosse apenas uma palavra e nada mais, como fazem os homens, tomaríamos nosso problema pela coisa mais simples do mundo; mas incorreríamos assim em profundo erro. É preciso aqui pensar em gêneros diferentes de coisas. Sê bastante flexível a fim de que nosso exercício não seja abortado pela impossibilidade de estabelecermos um entendimento em comum. Podemos afirmar que o homem corrompido encontra prazer na libertinagem, e o homem moderado na temperança; que o insensato, cheio de crenças, caprichos, loucuras e esperanças, sente prazer, mas que o sábio também é capaz de senti-lo. (…)

PROTARCO – Concedo, Sócrates, que estes dois tipos de prazeres decorram de origens opostas, mas nem por isto se opõem um ao outro. De resto, como poderia o prazer ser diferente de si mesmo?

SÓCRATES – Então a cor, meu querido, enquanto cor, não difere em nada da cor! Sem embargo, todos sabemos que o preto, além de ser diferente do branco, é-lhe de fato o exato contrário.”

Tu dizes que todas as coisas agradáveis são boas, e ninguém em seu juízo perfeito deixará de saber distinguir o que é agradável do que não o é; mas sendo a maior parte dos prazeres má, e a minoria boa, como estabelecemos, tu dás, não obstante, a todos os tipos de prazeres, não importando sua origem, o nome de <bons>, por mais que reconheças agora que são dissemelhantes entre si, quando se te interroga com mais apuro. Que qualidade comum vês nos prazeres bons e nos prazeres maus, qualidade comum esta suficiente para reconhecer todos os prazeres sob a alcunha de Bem?”

Um prazer não difere de outro prazer: são todos semelhantes. E joguem-se fora os exemplos que antes citei! Voltemos a afirmar as coisas que afirmam aqueles homens que são incapazes de discutir qualquer assunto.”

Não devemos dissimular, caro Protarco, a diferença que há entre meu bem e o teu bem!”

SÓCRATES – (…) Não há nem pode haver um meio mais precioso para as indagações que este que adoto já há longo tempo; mas confesso que ele vem falhando bastante ultimamente, deixando-me sozinho e perplexo.

PROTARCO – Que meio é este?

SÓCRATES – Não é difícil descrevê-lo ou saber sobre ele; o difícil é segui-lo. Todas as descobertas obtidas até agora, que exigem algum conhecimento técnico, derivam deste mesmo método que vou-te apresentar.

(…)

Enquanto permaneço capaz de avaliar, é-me um presente divino. Creio que nos caiu do céu devido ao ato de algum Prometeu, pois emana do fogo sagrado. Os antigos, muito mais valorosos que nós, nos transmitiram a tradição de que todas as coisas às quais se atribui uma existência eterna se compõem de unidades, isto é, de um ou de muitos, e reúnem em sua natureza o finito e o infinito. Já que as coisas são assim, é preciso, na indagação de cada objeto, aspirar sempre à descoberta de uma idéia singular. Efetivamente só pode existir uma idéia para cada existência verdadeira; e uma vez descoberta esta idéia, é preciso examinar se não podemos ainda depurá-la mais, por estarmos diante de um coletivo de coisas existentes, i.e., se não se trata, investigando melhor, de mais de uma idéia, com certas afinidades entre si. Podem ser duas, três, quatro… não importa o número. Das idéias que descobrirmos, vale a pena apurar, de novo e de novo, se estas idéias não abrigam outras idéias em si, ou seja, se elas não passam apenas de imagens de idéias, tendo apenas aparências de unidade. É preciso chegar até o final da depuração, a fim de se descobrir, por fim, se a Idéia mais primitiva seria una, múltipla ou uma infinidade. Veja que não se deve aplicar a uma pluralidade a idéia do infinito, pelo menos não até havermos fixado o número preciso que descreve a quantidade de idéias, maior que 1 e menor que o infinito, necessariamente! Só então é que se pode deixar a cada qual que se encaixe na categoria de <infinito>.¹ Os deuses, como eu disse, nos presentearam com o dom de avaliar, de aprender e nos instruirmos entre nós; mas os sábios de hoje em dia fazem essas coisas como que a esmo, sem método consciente; digamos que eles erram mais do que seria conveniente para uma investigação digna. Ou se demoram demais sobre algo supérfluo ou se demoram de menos em algo fundamental, sem darem por isso. Depois da unidade, estes falsos sábios já passam de repente, sem transição clara, ao infinito, e os números intermediários fogem-lhes de vista. Contudo, estes números intermediários são a chave de nossa discussão, pois encerram a ordem e as leis da dialética, e diferenciam-na das artes que não passam de jogo e disputa não-verdadeira, seja oratória ou retórica ou outro nome qualquer que lhas dêem.”

¹ Podemos estar diante, basicamente, dos parágrafos que iniciam, verdadeiramente, a tradição do Idealismo alemão. Eis o que Azcárate tem a dizer sobre esta passagem: “A unidade é o gênero; o infinito é a coleção dos indivíduos; o número intermediário é o das espécies”. Não sei se mais ajuda ou atrapalha àquele não-familiarizado com o platonismo e a teoria das Idéias! Mas vejamos como poderei “mediar este debate” e traduzir com minhas próprias palavras o teor da longa passagem do discurso de Sócrates: essas considerações, embora não se deva ignorar a repercussão filosófica (metafísica) invisível destas palavras, para um começo de compreensão, não distam muito da estruturação do conhecimento do método científico do Ocidente moderno. Para que algo seja empírico e teorizável, é preciso que se organize num quadro de referências lógicas, enfim, de categorias. Assim o Homem pós-platônico estuda as coisas. Pouco importa, por exemplo, remetendo-nos à Biologia, que haja 7 bilhões de seres humanos na Terra e que não conhecemos todos. Estudamos o Homem pela unidade (gênero Homo sapiens). Não devemos ignorar que o número, por mais quantificável que seja, está sempre sujeito a alterações imediatas, seja pelas mortes ou pelos nascimentos ininterruptos, seja porque no momento somos incapazes de dizer se fora de nosso alcance (planeta Terra, atualmente) não haveria de haver outros homens. Nesse sentido, pode-se chamar a quantidade de homens de infinita, mas isso tampouco prejudica nossa faculdade investigativa. Como usei o homem como exemplo, não posso dividi-lo em sub-espécies, i.e., raças, mas isso (números intermediários) utilizamos sem problemas para os mamíferos, p.ex. Lembrar que poderíamos considerar os homens, mas de uma perspectiva outra que não a biológica, que acabei de eleger: as espécies poderiam ser cada nacionalidade. Continua a haver uma Idéia dentro da outra (homens nascidos em uma nação), mas esta Idéia de nação é concisa o suficiente para se opor à mais abrangente de Humanidade. Cientistas podem debater entre si sobre vários de seus descobrimentos, inúmeros detalhes suscetíveis de controvérsia dentro de seu campo do conhecimento, mas sempre se estabelecem verdades reconhecidas como universais que se tornam o legado das próximas gerações.

SÓCRATES – A voz, que sai da boca, é uma e ao mesmo tempo infinita em número para todos e para cada um.

PROTARCO – Estou conforme.

SÓCRATES – Não somos sábios por havê-lo afirmado; nem porque reconheçamos as naturezas infinita e una da voz. Mas saber quantos são os elementos distintos de cada uma e quais são estes não seria o objeto da Gramática?¹

PROTARCO – De pleno acordo.

SÓCRATES – O mesmo para a Música.

PROTARCO – Hein?

SÓCRATES – A voz considerada em relação a esta arte é una.

PROTARCO – Ó, sem dúvida.

SÓCRATES – Podemos considerá-la de duas maneiras: uma voz grave e uma voz aguda; e um terceiro tom uniforme. Não é assim?

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – Se não sabes mais que isto, porém, jamais serás hábil em música; e se o ignoras, tanto pior, pois nem mesmo atendes ao pré-requisito mais fundamental para entender esta arte.

PROTARCO – Isso é certo!

SÓCRATES – Mas, querido amigo, só quando tiveres aprendido a conhecer o número dos intervalos da voz – tanto para o som agudo quanto para o grave –, a qualidade e os limites destes intervalos, e os sistemas que deles resultam, é que, tal como os antigos fizeram, irás descobrir e ser capaz de transmitir aos vivos as idéias sobre harmonia; através dos ensinamentos dos antigos compreendemos tanto isso como as propriedades análogas que emanam do movimento dos corpos, que, medidos por números, devem se chamar ritmo e medida. Quando perceberes que deves portar-te desta maneira em todo saber (em tudo que é uno e múltiplo), aí então poderás enfim chamar-te a ti mesmo sábio.”

¹ Atual Lingüística.

FILEBO – Eu penso da mesma maneira. Mas que significa tudo isto, e aonde quer nos levar Sócrates?”

Descobrir que a voz é infinita foi a obra de um deus ou de algum homem divino, como se refere no Egito de um certo Tot que foi o primeiro que se apercebeu de que este infinito continha unidades chamadas vogais, distinguindo, então, que era não uma, mas muitas; depois, descobriu outras letras, cuja natureza era distinta das vogais, mas que mesmo assim participavam dos sons, vindo a reconhecer, conforme estudava e refletia, o número destas vozes não-vocálicas, que chamou de consoantes. Distinguiu até uma terceira ordem ou espécie de letras, que são o grupo que hoje chamamos de mudas.¹ Depois, ainda, aperfeiçoou seus conhecimentos e separou uma a uma as letras mudas ou privadas de som; e em seguida fez o mesmo com as vogais e as intermediárias [consoantes], até que, havendo descoberto o número das existentes, deu a todas e a cada uma o nome de elemento. Tot, notando que nenhum homem poderia aprender nenhum desses sons ou letras isoladamente, i.e., que reconhecer que uma implicava ao mesmo tempo em reconhecer todas as outras, imaginou o enlace de uma nova unidade, e ao representar-se isto, deu-lhe o nome Gramática, que então nasceu.”

¹ O lingüista sabe que aqui estamos falando de sílabas ou fonemas, não mais de letras em si, embora esta distinção não importasse no tempo de Sócrates (Gramática antiga). Se refere Sócrates, nesse discurso, a semi-vogais ou semi-consoantes, que há em todos os sistemas lingüísticos.

PROTARCO – (…) Sócrates, depois de mil rodeios, metestes-nos numa questão que não é nada fácil resolver. (…) Está-me parecendo que Sócrates nos pergunta se o prazer tem espécies ou não, quantas e quais são; e espera de nós a mesma resposta também com relação à sabedoria.

SÓCRATES – Mataste a charada, filho de Cálias!”

PROTARCO – (…) Havendo-se a discussão empenhado tanto dum lado como do outro, chegamos a ameaçar-te, em tom desafiador e confiante, de não deixar-te arredar o pé e voltar a tua casa antes de que sanasses esta questão! Tu consentiste finalmente, e estás-te dedicando a nós há vários minutos. Agora dizemos como as crianças que não se pode abandonar a meias aquilo que já está bem-desenvolvido, mais perto de terminar do que de haver começado. Portanto, cessa de enrolar-nos, Sócrates, da forma como estás fazendo, e volta a cumprir o combinado!

SÓCRATES – Mas que é que estou a fazer?

PROTARCO – Pões-nos obstáculos atrás de obstáculos e nos suscitas questões e questiúnculas, às quais não podemos dar uma resposta satisfatória sem muita meditação. Porque não imaginamos que o objeto desta conversação seja o reduzir-nos simplesmente a não saber o que dizer! (…) Já que a situação é esta, fala tu! Delibera tu mesmo e fornece-nos a divisão completa dos prazeres e das sabedorias; a menos que possas deixar isto sem exame e ainda assim possas e queiras tomar outro rumo e explicar-nos as coisas de outro modo até chegarmos a uma solução.

SÓCRATES – Depois do que acabo de ouvir, nada de mal posso temer de vossa parte! Esta frase: <a menos que… …queiras> é o que me tranqüiliza, em verdade. E, de resto, me parece que um deus acaba de visitar-me e iluminar-me a memória com certas luzes!”

Começaste prodigiosamente, Sócrates. Agora termina idem!”

SÓCRATES – Examinemos e avaliemos, pois, a vida do prazer e a vida da sabedoria, considerando cada uma à parte.

PROTARCO – Como é?!

SÓCRATES – Façamos de forma que a sabedoria não invada nunca a vida do prazer, e nem o prazer invada jamais a vida da sabedoria. Porque se um dos dois for o Bem, é preciso que não haja absolutamente nada que se mescle, e se um ou outro nos parece carente dalguma coisa, não seria já o verdadeiro Bem que buscamos.”

SÓCRATES – Consentirias tu, Protarco, em passar o resto de teus dias no gozo dos maiores prazeres?

PROTARCO – Ora, se não!

SÓCRATES – Se nada a ti faltasse, crerias então que tens ainda necessidade dalguma coisa?

PROTARCO – Evidente que não.

SÓCRATES – Examina bem se não terias necessidade de pensar, nem de conceber, nem de raciocinar quando se mostrasse necessário, nem de nada do tipo. Será que nem mesmo precisarias ver?

PROTARCO – Pra quê? Se fruísse para sempre do prazer, já tudo teria!

SÓCRATES – Não é necessário que, vivendo desta maneira, passarias os dias em meio aos maiores prazeres?

PROTARCO – Indubitavelmente.

SÓCRATES – Mas como faltar-te-ia a inteligência, a memória, a ciência, a opinião, estarias privado de toda reflexão, e é uma conseqüência que ignorarias então se sentias prazer ou não.

PROTARCO – Ora, é verdade.

SÓCRATES – Assim como assim, desprovido de memória, decorre daí obrigatoriamente que não poder-te-ias lembrar se já houveras sentido prazer ou não outrora, e que não saberias, portanto, aquilo que sentes no presente imediato. E, ao não possuir qualquer opinião verdadeira, é certo que não crerias em absoluto sentir gozo no instante em que de fato está-lo-ias sentindo! Por estar destituído da razão, serias incapaz, outrossim, de concluir que te regozijarias no futuro. Ou seja: viverias tal qual uma esponja, e não como um homem! Se não como uma esponja, pelo menos como uma espécie de animal marinho que vive encerrado em concha, fechado ao mundo, vá lá. Concordas até este ponto, ou tens algo a dizer sobre em que estado te encontrarias?

PROTARCO – Sócrates, não haveria como formar uma outra idéia melhor.

SÓCRATES – E bem: tal vida é apetecível?

PROTARCO – Sócrates, esta pergunta não faz o menor sentido.”

SÓCRATES – Será que qualquer um de nós três seria capaz de viver possuindo sabedoria, inteligência, ciência, memória, em que pese não fosse apto para sentir o mínimo prazer, nem dor, nem para experimentar qualquer sentimento correlato?

PROTARCO – Tal vida em nada me invejaria, Sócrates. Nem creio mesmo que fosse possível uma única vida assim entre todos os mortais.

SÓCRATES – E se se juntassem estas duas vidas, Protarco? E se não formassem mais que uma só, amalgamando-se prazer e sabedoria na mesma unha e carne?

(…)

PROTARCO – Não haveria ninguém que deixasse de preferir este gênero de vida aos dois extremos que elencaste, Sócrates. Insisto que não seja coisa de preferência de uns ou outros: é um juízo universal, sem exceções.

SÓCRATES – Já podemos, portanto, extrair as conclusões do que acaba de ser dito?

PROTARCO – Sim, meu caro Sócrates. Que dos três gêneros de vida apresentados, dois são insuficientes em si mesmos, e mesmo que o fossem são inapetecíveis para qualquer homem ou ser.”

SÓCRATES – Já demonstramos suficientemente que a deusa de Filebo não deve ser vista como o Bem em si.

FILEBO – Mas tua inteligência, Sócrates, tampouco poderia ser este Bem, porquanto está sujeita às mesmas objeções…

SÓCRATES – A minha sim, Filebo, talvez tenhas razão… Mas quanto à verdadeira e divina Inteligência julgo eu que seja outra coisa completamente diferente. Na vida mista não se contesta a vitória da inteligência, mas é necessário ainda avaliar que opinião adotaremos com relação ao segundo posto hierárquico. Talvez devamos dizer, cada qual: <a inteligência>, eu; <o prazer>, tu; no caso de se nos perguntar qual é a principal causa da felicidade presente na condição mista. Procedendo assim, ainda que esta causa predileta não seja o Bem em si mesmo, pelo menos vemos cada qual nosso fator favorito como causa primeira. E acerca disso estou mais excitado do que nunca para a pugna contra meu rival Filebo! Sou capaz de jurar que qualquer que seja a coisa que faz dessa vida algo apetecível, a inteligência tem, de qualquer modo, mais afinidade e semelhança com tal coisa que o prazer. Vou ainda mais longe, ousado que estou: o prazer não tem sequer o direito de aspirar ao posto de <vice> nesta eleição, e com bastante probabilidade não ocupará nem sequer o pódio ou o bronze! Mas para que eu o demonstre necessito de vossa complacência e paciência, ainda que temporárias. Ou seja, confiai em minha inteligência, por Zeus!”

Ó, Protarco! Creio que ainda temos muita estrada pela frente nesta discussão! Neste momento sinto como nossa empreitada é árdua. Porque se aspiramos ao segundo posto, e minha opinião é de que a inteligência o ocupará, é preferível, a essa altura, dadas as circunstâncias, volvermo-nos a outros métodos. Abandonemos por ora a linha de raciocínio precedente.”

SÓCRATES – Dividamos em duas ou mais partes, p.ex., 3, todos os seres deste universo.

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Repitamos algo do que já tínhamos estabelecido.

PROTARCO – Que coisa?

SÓCRATES – Disséramos, não faz muito, que deus foi quem nos fez conhecer os seres, uns como infinitos, outros como finitos.”

SÓCRATES – (…) Mas vejo que em breve serei visto como ridículo se continuar empregando estas divisões.

PROTARCO – Ora, Sócrates, não entendo-te tão bem.

SÓCRATES – Parece-me que tenho necessidade de um quarto gênero!

PROTARCO – Qual seria esse?

SÓCRATES – Apura com o pensamento a causa da mescla das duas primeiras espécies: põe-na ao lado das três; eis a quarta.

PROTARCO – Não seria possível, procedendo assim, também um quinto gênero, com o que poderias separar os seres mais a gosto?

SÓCRATES – Ó, sim! Mas neste momento da argumentação não acho conveniente. Em todo caso, se no decorrer de nossa exposição se fizer necessário um quinto, por que não?!

PROTARCO – De acordo.

SÓCRATES – Bem, destas quatro espécies ponhamos 3 à parte; procuremos, em seguida, examinar as duas primeiras, que têm muitas ramificações e divisões; depois compreendamos cada uma sob uma só idéia; e tratemos, finalmente, de descobrir como numa e noutra se dão o Um e o Muito.

PROTARCO – Se te explicas com mais clareza, talvez eu te possa seguir, Sócrates, mas isto no momento é impossível!

SÓCRATES – As duas espécies a que me refiro são a infinita e a finita. Esforçar-me-ei por provar que a infinita é, de certa maneira, múltipla. Quanto à finita, peço que aguarde um juízo, por ora.

PROTARCO – Creio que a espécie finita não fugirá, Sócrates. Temos tempo.”

SÓCRATES – O mais e o menos, dizíamos, encontram-se sempre no mais quente e no mais frio.

PROTARCO – Com certeza.

SÓCRATES – Por conseguinte, a razão sempre nos faz entender que estas duas coisas não têm fim; e, ao não terem fim, são, por isso, infinitas.

PROTARCO – Agora definiste a coisa com exuberância!

SÓCRATES – Creio que agora fui mais didático, não, Protarco?! Por falar em exuberância e exuberante, eis aí um termo que possui seu oposto em pobre ou escasso, não di-lo-ias? E não dirias que este binômio exuberante-escasso funciona sobre as mesmas bases que o mais e o menos? Em qualquer ponto em que se encontrem, não consentem jamais que a coisa tenha uma quantidade determinada, senão que, passando sempre do mais exuberante ao mais escasso, e reciprocamente, fazem com que nasça o mais e o menos, obrigando o quantum a desaparecer. Com efeito, como já dissemos, caso essas classificações de extremo a extremo acerca de uma coisa não fizessem desaparecer o <quanto?>, deixando-o ocupar o lugar do mais e do menos, do exuberante e do pobre, sendo um intermediário polimórfico, estas coisas mesmas correriam o risco de desaparecer, pois já não faria sentido falar em exuberância, em escassez, em quente, em frio ou em algo que fosse mais e em algo que fosse menos. Ficaria tudo embaralhado, afinal um número nada é, ou pelo menos não pode ser tudo em simultâneo! Porque se se admite o quantum tem-se que a coisa não é mais quente ou mais fria, porque o mais quente cresce indefinidamente, não havendo fenômeno que o desminta; coisa igual acontece com o mais frio. Essas escalas ou retas são infinitas e inserem as coisas em transições sem começo nem final. Mas um ponto fixo será sempre um ponto fixo, não concordas? Desde que cesse o movimento, aí tens alguma propriedade bem-definida no lugar de um quantum. Convimos, portanto, que o mais quente e o mais frio são infinitos.”

Parece que faremos melhor se abrangermos na categoria do finito o que não admite essas qualidades mas sim suas contrárias, ou seja, em primeiro lugar o igual e a igualdade; em seguida o dobro; repara que sempre que tivermos um número, poderemos equivalê-lo à metade de outro número, por exemplo.”

SÓCRATES – Como é que representaremos a terceira espécie que resulta das duas anteriores?

PROTARCO – Aguardo tua lição, Sócrates, pois estou no escuro quanto a isso.

SÓCRATES – Não, não serei eu, Protarco, será um deus, se algum se digna a ouvir minhas súplicas!

PROTARCO – Suplica, então; e medita no problema.

SÓCRATES – Medito, medito… E me parece, caro Protarco… que alguma divindade nos foi favorável em nossos rogos!”

Entendo a espécie do igual, do dobro, como aquilo que faz cessar a inimizade entre contrários, produzindo entre eles a proporção e o acordo, numericamente representáveis.”

SÓCRATES – Tu opinas que limitar o prazer é destruí-lo, e eu sustento, pelo contrário, que limitar o prazer é conservá-lo!

PROTARCO – Nisso não mentes, Sócrates.

SÓCRATES – Expliquei as 3 primeiras espécies. Até agora, compreendeste minhas palavras.

PROTARCO – Sim, creio que compreendi, a maior parte. Distingues, na natureza das coisas, uma espécie que é o infinito; uma segunda espécie, que é o finito; porém, Sócrates, com respeito a essa terceira, não concebo muito bem como a defines em tua cabeça.”

SÓCRATES – (…) Compreendo numa terceira espécie tudo aquilo que é produzido pela mescla das duas primeiras, e que a medida que acompanha o finito produz as condições para a geração da essência da coisa.(*)

PROTARCO – Positivo.

SÓCRATES – Mas para além destes 3 gêneros, é preciso ver qual é aquele que eu disse ser o 4o. Façamos juntos esta apuração!”

(*) “Pela geração da essência, Platão entende neste caso a transição rumo a existência física do objeto.” – P.A. – Modo análogo de dizer: o mundo observável está contido entre as fronteiras inexpugnáveis e apenas inferíveis do finito e do infinito.

O que produz não precede sempre, por sua natureza; e o que é produzido não vem sempre depois, sendo considerado efeito?

(…)

Disso advém que são duas coisas e não uma só; causa-e-efeito (o que causa e o que obedece à causa em seu trânsito rumo à existência).

(…)

Porém, as coisas produzidas e as coisas que produzem geram, por assim dizer, 3 espécies de ser.

(…)

Digamos, então, que a causa produtora de todos esses seres constitui uma 4ª espécie, e que está suficientemente demonstrado que ela difere das outras 3.”

Portanto, vai esta suma: a primeira espécie é o infinito; a segunda, o finito; a terceira, a essência,¹ que é produzida pela mescla das duas primeiras; a quarta é a causa mesma dessa mescla e produção.²”

¹ O “fenômeno” ou “aparência” na linguagem técnica de hoje. A existência em si, poder-se-ia da mesma forma dizer, já que a <essência> do texto é um conceito bastante ardiloso, quase antagônico ao que Platão quer de fato expressar.

² O protótipo ideal ou Deus.

SÓCRATES – E tua pura vida de prazer, Filebo, em qual espécie está situada?

(…)

O prazer e a dor têm limites, ou são das coisas suscetíveis do mais e do menos?

FILEBO – São da segunda espécie, são infinitas, Sócrates. Porque o prazer não seria o soberano bem se por sua própria natureza não fosse infinito em número e em magnitude.

SÓCRATES – E portanto a dor não seria o soberano mal. Por isso é preciso contemplar as coisas de um outro ângulo, saindo da espécie do infinito, a fim de descobrirmos quê é que comunica ao prazer uma parte do bem. Conviríamos acaso que esta coisa emanasse da própria espécie do infinito? Ora, que o prazer nela esteja, se fazeis tanta questão! Mas ainda persistiria o seguinte problema: em que classe estão a sabedoria, a ciência, a inteligência, meus queridos Protarco e Filebo? Não sejamos ímpios! Parece-me que corremos grandes riscos ao ensaiar uma resposta para esta última pergunta.

FILEBO – Ó Sócrates! Será que não superestimas tua deusa?”

Diremos, Protarco, que um poder, desprovido de razão, temerário e que obra ao acaso, governa todas as coisas que formam o que chamamos universo? Ou, ao contrário, há, como disseram os antigos, uma inteligência, uma sabedoria admirável, que preside o governo do mundo?”

Com relação à natureza dos corpos de todos os animais, vemos que o fogo, a água, o ar e a terra, como dizem os velhos marinheiros, entram em sua composição.”

SÓCRATES – Não temos mais que uma pequena e desprezível parte de cada um, que não é pura de nenhuma maneira, de modo que a força que esta parte desemboca em nós não responde satisfatoriamente a sua natureza original. Tomemos um elemento em particular, com seus atributos derivados, e apliquemo-lo a todos os demais. Por exemplo, há fogo em nós, e o há, por igual, no universo.

PROTARCO – Sem dúvida assim o é.

SÓCRATES – O fogo que nós temos, não seria diminuto em quantidade, ao grau da debilidade e do desprezível, ao passo que o fogo do universo não é admirável em quantidade, beleza e força?

PROTARCO – Incontestavelmente.”

SÓCRATES – (…) Não é à reunião de todos os elementos que acabo de elencar que demos o nome de corpos?

PROTARCO – Exato.

SÓCRATES – Vê, pois, que o mesmo sucede com aquilo que chamamos de universo, porque, compondo-se este dos mesmos elementos, é o universo, por analogia, também um corpo.

PROTARCO – Disseste muito bem.”

SÓCRATES – Mas como? Não diremos que nosso corpo tem uma alma?

PROTARCO – É claro que diremos!

SÓCRATES – De onde a tiraste, querido Protarco, se o próprio corpo do universo não é animado, sendo que ele tem tudo que nossos corpos têm, e em ainda maior abundância?

(…)

E tudo isso, meu caro Protarco, porque não reparáramos até aqui que desses quatro gêneros, o finito, o infinito, o misto e a causa, este quarto e último, existindo em tudo, é que nos concede uma alma, que sustenta os corpos, que, quando enfermo, adoece a saúde, e que se combina de mil maneiras a fim de criar milhares de milhares de objetos, recebendo o nome de sabedoria absoluta e universal! Este quarto gênero está sempre presente sob uma infinda variedade de formas; o gênero mais belo e excelente se encontra na extensa região dos céus, onde sem dúvida tudo o que há são os mesmos elementos que nos constituem, conquanto em muito maior proporção, dispondo de beleza incomparável e de uma pureza sem igual.”

SÓCRATES – (…) neste universo há muito de infinito e uma quantidade suficiente de finito, mas todos são governados por uma causa, que nada tem de desprezível ou avara, pois que ajusta e ordena os anos, as estações, os meses, e merece com razão o nome de sabedoria ou inteligência.

PROTARCO – Ó Sócrates, tens toda a razão do mundo!

SÓCRATES – Mas não pode haver sabedoria e inteligência ali onde não há alma!

PROTARCO – Isso é verdade.

SÓCRATES – (…) Na natureza de Zeus, enquanto causa, há uma alma real, uma inteligência real, e na natureza dos outros deuses há muitas belas qualidades, pelo menos uma das quais cada deus gosta que se lhe atribua em especial.”

Algumas vezes o estilo festivo é uma forma de levar adiante as indagações mais sérias.”

SÓCRATES – A fome, p.ex., é uma dissolução e uma dor.

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – Comer, ao contrário, é uma repleção e um prazer.

PROTARCO – De acordo.

SÓCRATES – A sede é, de novo, dor e dissolução. Mas a qualidade do úmido, que preenche o que seca, origina um prazer. O mesmo pode ser dito da sensação de um calor excessivo e que seja anti-natural, causando segregação, dor, enfim; o restabelecimento do estado normal e o refrigério do corpo, neste caso, é encarado como um prazer.

(…)

O frio, que enregela o úmido presente no animal até o ponto de ser contra a natureza, quando excessivo, é considerado dolorido; os humores, cada um seguindo seu curso, quando em conformidade com a natureza, equivalem à sensação do prazer. (…) quando o animal se corrompe, a corrupção é uma dor; já o retrocesso de cada coisa a sua constituição primeva é um prazer.”

Eis um terceiro estado, diferente do prazer e da dor. Neste ponto é necessário um esforço intelectivo para me acompanhar. Sem compreender este estado, não resolveremos esta nossa questão. Mas continuo apenas com tua bênção.

(…)

Sabes que nada impede que viva desta maneira aquele que assumiu para si o estilo de vida do sábio?”

PROTARCO – Mas Sócrates, se estás correto isso seria indício de que os deuses não estariam sujeitos quer à alegria quer à tristeza.”

SÓCRATES – Parece-me que é preciso explicar antes o que é a memória, e antes da memória o que é a sensação, se é que pretendemos levar isso às últimas conseqüências.

PROTARCO – Não te entendo.

SÓCRATES – Dá por estabelecido, amigo, que entre as afeições que nosso corpo experimenta de ordinário algumas se estendem ao corpo sem tocar a alma, não impingindo-lhe nenhum sentimento; outras afeições são transmitidas do corpo à alma, e produzem uma espécie de comoção, que pode ser caracterizada como singular, pois que o corpo a interpreta duma maneira, a alma doutra, ainda que reste algo que seja comum às duas instâncias.”

SÓCRATES – (…) o esquecimento é a perda da memória, e no caso presente nem há que se falar propriamente de memória; seria um absurdo dizer que se pode perder aquilo que sequer existe, nem existiu jamais, não pões-te de acordo?

PROTARCO – E como não, Sócrates?

SÓCRATES – Modifica, pois, os termos um pouquinho.

PROTARCO – Ã?

SÓCRATES – Em vez de dizer que quando a alma não sente as comoções de que padece o corpo e estas comoções lhe escapam por completo há esquecimento, melhor seria dizer que há insensibilidade.

PROTARCO – Ah, agora está claro.

SÓCRATES – Mas nota que quando a afecção ou afeição é comum à alma e ao corpo, e ambos sentem-se comovidos, não te enganarás se chamares a este movimento de sensação.

PROTARCO – Continua, Sócrates, pois sigo de acordo.

(…)

SÓCRATES – Mas se se diz que a memória é a conservação da sensação, tem-se aqui uma boa definição, a meu ver.

PROTARCO – A meu ver também é uma boa definição.

SÓCRATES – Não dizíamos que a reminiscência é diferente da memória?

PROTARCO – Quem sabe…

SÓCRATES – Não consiste essa diferença no seguinte–

PROTARCO – No quê??

SÓCRATES – –que quando a alma, em condições de isolamento e julgamento equilibrado, afastada do corpo, entregue, por assim dizer, somente a si mesma, recorda o que experimentara noutro tempo, a isto chamamos reminiscência. Alguma objeção?¹

PROTARCO – De modo algum.

SÓCRATES – E quando, tendo perdido a recordação, seja de uma sensação, seja de um conhecimento, reprodu-lo em si própria, chamamos este processo reminiscência e memória, isto é, toda memória é uma reminiscência, mas jamais o contrário.”

¹ A memória diz respeito principalmente à vida fenomênica do sujeito, diria um filósofo contemporâneo. A reminiscência ajuda a explicar e fundamentar lembranças atávicas da alma, i.e., coisas vivenciadas pelo Ser antes de ser o eu atual, única explicação possível, no platonismo, para a capacidade que se tem, na vida fenomênica, de se chegar à Verdade e à Idéia das coisas. Há um quê de misticismo, por um lado, que associa Platão à Pitágoras, mas, no fundo, esta é a base da fenomenologia ocidental mais aplicada, lógica e abstrata, que não dá lugar ao inconsiderado (sobrenatural). Nossa essência, nosso Ser, diria um Heidegger, dependem desta discriminação aparentemente tão inocente entre uma simples memória e uma autêntica reminiscência.

PROTARCO – Examinemos então o desejo, como tu pedes, pois nisto nada perderemos, tendo em vista o fim que temos.

SÓCRATES – Sim, Protarco: ao encontrarmos o que tanto buscamos, desaparecerão imediatamente nossas dúvidas acerca de todos estes objetos, e parecerá que ganhamos tempo, ao invés de perdê-lo!

PROTARCO – Tua réplica é a mais justa de todas, mas de pouco adianta nos determos aqui com belas palavras, Sócrates.”

SÓCRATES – Que há de comum entre afecções tão diferentes, a ponto de denominá-las por uma mesma palavra?

PROTARCO – Por Zeus! Se eu soubesse, talvez não estivéssemos enredados em todo este imbróglio, Sócrates… É preciso, não obstante, achar algo que dizer.

SÓCRATES – Nada melhor que o ponto de partida ser o aqui e o agora.

PROTARCO – Explica isso melhor.

SÓCRATES – Não se diz, de ordinário, que tem-se sede?

PROTARCO – Ora, sim.

SÓCRATES – Ter sede, não é dar-se conta de um vazio em si?

PROTARCO – Decerto.

SÓCRATES – A sede não é um desejo?

PROTARCO – Sim, um desejo de bebida.

SÓCRATES – De bebida, ou de ver-se saciado pela bebida?

PROTARCO – Mais exatamente isto; ver-se saciado.

SÓCRATES – Então posso concluir que deseja-se o contrário daquilo que é? De maneira que quem sente-se vazio quer-se saciar.

PROTARCO – Permito-te esta conclusão.

SÓCRATES – E é possível que um homem que se encontra afetado por este vazio, pela primeira vez em sua vida chegue – seja através da sensação, seja através da memória – a preencher este vazio com algo imaginário e inaudito?

PROTARCO – Mas como poderia suceder tal loucura, Sócrates?

SÓCRATES – Todo homem que deseja, não deseja alguma coisa? É o que se diz.

PROTARCO – Conforme…

SÓCRATES – Não deseja o que ele experimenta, porque ele tem sede; a sede é um vazio e deseja suprimi-lo. Com efeito, seria contraditório dizer que ele experimenta algo e tem desejo desse algo ao mesmo tempo.

PROTARCO – Agora que o disseste…

SÓCRATES – É preciso que aquele que sente sede chegue a uma repleção exterior ou então a satisfaça com seu próprio ser.

PROTARCO – Entendo-te a meias, Sócrates.

SÓCRATES – Bem, posso-te adiantar que é impossível que com o corpo o corpo livre-se da sede, posto que é o corpo que se encontra de algum modo esvaziado.

PROTARCO – Claro…

SÓCRATES – Resta, portanto, que a alma chegue à repleção, e isto só se poderia dar mediante a memória!

PROTARCO – Isto é claro como a luz.

SÓCRATES – Por qual outro método este homem haveria de consegui-lo?

PROTARCO – Sou incapaz de conceber qualquer outro.

(…)

SÓCRATES – Esta reflexão nos faz ver, Protarco, que não há desejo do corpo.

PROTARCO – ???

SÓCRATES – O esforço de todo organismo animal se dirige sempre no sentido de atingir o estado contrário ao que experimenta no presente.

(…)

Este apetite, que arrasta dum extremo a outro através da experiência (sensações), prova que há nele uma memória congênita das coisas opostas às paixões do corpo, não vês?

(…)

Só pode ser a memória aquilo que leva o animal à realização de seu desejo e, portanto, todo desejo tem sua sede na alma, com o perdão do trocadilho.¹ A alma comanda o animal.²”

¹ Esta parte da tradução foi inovação minha: ambos conversavam sobre a <sêde> (vazio, dor ou sintomas da desidratação), e agora Sócrates fala da fonte, residência ou causa deste desejo de matar a sede (<séde>). A grafia das palavras, diferente da pronúncia, em nada difere.

² O animal deve ser entendido aqui como o homem, sob pena de comprometer-se todo o raciocínio caso estendamos esta compreensão às bestas ou criaturas irracionais, o <animal> no sentido da Biologia.

SÓCRATES – (…) Parece-me que chegamos ao ponto em que descobrimos uma espécie particular de vida.

PROTARCO – Que vida?!

SÓCRATES – Descobrimos esta vida que consiste no esvaziamento e na repleção; ou seja, tudo aquilo que se relaciona à conservação e à alteração do estado atual. É fácil notar que podemos sentir dor ou prazer independentemente do estado em que nos encontramos, não sendo o <vazio> ou o <cheio> o incômodo em si.

PROTARCO – Começo a entender onde queres chegar…

SÓCRATES – Que sucede quando nos achamos a meio caminho entre estas duas situações extremas de carência e de consumação?

PROTARCO – Agora explica isso de <meio caminho>.

SÓCRATES – Meio caminho ou ponto médio. Quando se sente dor em virtude da forma como o corpo está sendo afetado por algo, recordando-se sensações agradáveis, parece que a dor já cessa um pouco. Podes conceber que um homem sedento console-se de achar água, mesmo não achando, e consiga enganar a sede? Quem tem esperança de preencher o vazio, já não está num ponto médio entre a mais terrível sede e a realização plena do desejo de não ter mais sede?

(…)

E pensa que há algum ponto em que o homem é pura alegria? Ou pura dor?

PROTARCO – Refletindo bastante, penso que não. (…)

SÓCRATES – (…) Compreendes então que há um <duplo> invisível deste vazio ou falta de vazio, certo? Tanto quanto podemos conceber um homem esperançoso em preencher-se, há também o homem desesperado que não vê como poderia escapar de um agravamento desta sede.

PROTARCO – Consinto.”

SÓCRATES – Não seria estranho dizer que o homem e os demais animais experimentam simultaneamente dor e alegria.”

Devemos renunciar absolutamente a todos os rodeios e discussões que ainda nos separam de nosso objetivo final.”

Não é certo que aquele que forma uma opinião, seja fundada ou infundada, nem pela chance de estar errado deixa por isso de formar uma opinião?

(…)

Igualmente, não é evidente que aquele que goza uma alegria, haja ou não motivo para regozijar-se, nem por isso deixa de regozijar-se realmente?

(…)

Como seria possível que estejamos sujeitos a ter opiniões, tanto verdadeiras quanto falsas, e que nossos prazeres sejam sempre verdadeiros, como alegas, enquanto que os atos de formar uma opinião e regozijar-se existem de forma análoga e espelhada?”

SÓCRATES – Neste caso, nossa alma é parecida com um livro.

PROTARCO – Em que particularidade?

SÓCRATES – A memória e os sentidos, concorrendo ao mesmo objeto com as afecções que deles dependem, inscrevem, já que usei esta metáfora, em nossas almas, certos silogismos ou raciocínios, e quando aparece ali escrita esta verdade, nasce em todos nós uma opinião verdadeira derivada de raciocínios verdadeiros, bem como opiniões falsificadas, quando nosso secretário interior escreveu com base em opiniões fajutas, i.e., silogismos.”

SÓCRATES – As grandes e súbitas mudanças excitam-nos sentimentos de dor e prazer; já as mudanças mais matizadas ou insignificantes são incapazes de nos propiciar dor ou prazer.

(…)

Mas eis aí que o gênero de vida de que tratávamos faz sua reaparição!

(…)

Estou falando daquele gênero de vida normalmente isento da dor e do prazer.

(…)

admitamos 3 classes de vida: uma de prazer, outra de dor, e uma terceira que não é de um nem do outro. Que opinas sobre isso?

PROTARCO – Penso, como tu, que é preciso admitir estas 3 classes de vida.

SÓCRATES – Portanto, estar isento de dor nunca pode ser o mesmo que sentir prazer.

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Vejo, ó Protarco, que tu não conheces os inimigos de Filebo!

PROTARCO – E quem seriam?

SÓCRATES – Homens que passam por mui sábios sobre as coisas da natureza, capazes de sustentar, p.ex., que não há absolutamente prazer.(*)

PROTARCO – Hein?!

SÓCRATES – É isso mesmo que ouviste! Dizem que aquilo que os partidários de Filebo denominam prazer nada é senão a carência da dor.

PROTARCO – Mas e quanto a ti, Sócrates? Aconselhas-nos a seguir seu ditame?

SÓCRATES – De maneira alguma! Mas quero que os ouçamos como se fossem adivinhos ou oniscientes. Mortais assim, se existissem, ao dar-se-lhes crédito, seríamos obrigados a reconhecer que odiariam ou desprezariam o que chamamos nós de prazer. Aquilo que lhes agrada, tomam por ilusão, não algo existente. É dessa perspectiva que desejo que mireis o problema, a fim de ganharmos em conhecimento, ainda que eles não estejam certos.

(*) “Referência a Antístenes e os Cínicos.” – P.A.

Se desejássemos conhecer a natureza do que quer que seja, p.ex., da rigidez, não seria viável conhecê-la melhor fixando-nos no que há de mais rígido ao invés de entretermo-nos nas coisas mais ou menos rígidas? Anda Protarco, é necessário dar satisfação a estes homens cavilosos, como também a mim.”

Quem se encontra atormentado pela febre e outras enfermidades que-tais não sente mais sede, frio e outras afecções que o comum? Não se encontram com mais necessidades, e quando as satisfazem não experimentam certo grau de prazer? Deixaremos de confessar estas verdades?”

Não percebes na vida corrompida, senão um maior número, prazeres maiores e mais consideráveis, havendo sempre a necessidade de veemência e vivacidade por parte dessas pessoas, pelo menos muito mais do que na vida de uma pessoa moderada?”

SÓCRATES – Acaso ignoras que na comédia nossa alma se vê afetada por uma mescla de dor e prazer?

PROTARCO – Ainda não percebo muito bem esta característica.

SÓCRATES – Confesso, Protarco, que não estás de todo fora do tom: é um tipo de sentimento difícil de distinguir a princípio.

PROTARCO – Sinto que é.

(…)

SÓCRATES – Encaras como dor da alma isso que chamam de inveja?

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – E no entanto, vemos que o invejoso se regozija com o mal do próximo.

PROTARCO – E não é pouco!”

PROTARCO – Quais são os prazeres, Sócrates, que com mais razão podemos tomar por verdadeiros?

SÓCRATES – São aqueles que têm por objeto as cores belas e as belas figuras, a maior parte dos que nascem dos odores e sons, e todos aqueles, em suma, cuja privação não é sensível, nem dolorosa, e cujo gozo vai acompanhado de uma sensação agradável, sem mescla alguma de dor.¹”

¹ Platão acaba de resumir os fundamentos da ciência da Estética.

Por <beleza das figuras> não entendo o que muitos poderão imaginar: corpos formosos, pinturas de qualidade; entendo aquilo que é reto e circular, plano, sólido, obras desse gênero, trabalhadas em suas singularidades. Falo dessas figuras que poderíamos reproduzir com régua e esquadro. Será que penetras meu pensamento? A meu ver essas figuras não são como as outras, belas por comparação (relativamente belas), mas sempre e absolutamente belas, em si mesmas, naturalmente belas. (…) Outro tanto digo eu das belas cores que possuem uma beleza correlata à anterior, e de todos os prazeres que guardam relação com o que eu descrevi.

(…)

Quanto aos sons, digo que os fluidos e nítidos, componentes de uma melodia pura, são mais do que relativamente belos, são belos por si mesmos.

(…)

Já a espécie de prazer que resulta dos odores tem algo de menos divino, reconheço-o; mas os prazeres em que não se mescla nenhuma dor por necessidade devem ser classificados no gênero oposto ao dos prazeres de que falamos antes, por isso não posso me contradizer. Em suma, amigo Protarco, chegamos à definição de dois tipos diferentes de prazeres.

(…)

Não nos esqueçamos também dos prazeres que acompanham a ciência, se é que pressupomos que há qualquer coisa de gratuito no ato de conhecer, nada ligado ao desejo ou compulsão de aprender visando a outro fim, e que essa sede de ciência espontânea e como fim em si não causa qualquer tipo de dor.

(…)

Doeria na alma se, plena de conhecimento, chegasse a perder alguns por esquecimento?

(…)

Como bem concluíste, enquanto o conhecedor não refletir sobre isso, abandonando a naturalidade da questão, ele jamais sentirá qualquer dor ou pesar, enquanto não lembrar que esqueceu.

(…)

Resulta de tudo isso que os prazeres da ciência são puros e despidos de dor, e que não estão destinados a todo mundo.

(…)

Agora que já separamos com segurança os prazeres puros daqueles que não o são, acrescentemos que os prazeres violentos são desmedidos, e que os demais são comedidos. Afirmemos também que aqueles, maiores e mais fortes, fazendo-se sentir, não importa, uma ou múltiplas vezes, fato é que pertencem à classe do infinito, que atua com mais ou menos vivacidade sobre corpo e alma; estes (os comedidos) são da espécie finita.”

SÓCRATES – Como e em que consiste a pureza da brancura? Na magnitude e na quantidade? Ou no aparecer sem mescla, sem vestígio algum de outras cores?

PROTARCO – É evidente que na última característica, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem! Não diremos, pois, que esta brancura é a mais verdadeira e ao mesmo tempo a mais bela de todas as brancuras, e não a que é maior em quantidade nem em tamanho?”

Todo prazer que não carrega consigo uma dor, ainda que pequena e desprezível, é mais agradável, mais autêntico e mais belo que aqueles que a carregam, ainda que alguns prazeres que carreguem dores apareçam como mais vivos, numerosos e majestosos.”

SÓCRATES – Não ouvimos dizerem com contumácia que o prazer está sempre no caminho da gestação e nunca exatamente no estado da existência? Muitos oradores dos mais hábeis já tentaram demonstrá-lo. Nada mais poderíamos fazer senão agradecê-los!

PROTARCO – Por quê, Sócrates?

(…)

SÓCRATES – Não há duas classes de coisas, uma das que existem por si mesmas e outra das que aspiram sem cessar a ser outra coisa?” “Uma é naturalmente nobre, e a outra inferior àquela em dignidade.”

jovens formosos que tinham por amantes a homens cheios de valor.”

PROTARCO – Falaste algumas coisas que me soaram obscuras, Sócrates.

SÓCRATES – Não é bom que façamos mil recapitulações e digressões, assim não acabamos nunca. Mas, Protarco, eu não consigo evitar: a própria discussão parece ter gosto em me entorpecer! Ela quer nos fazer entender que, duas coisas consideradas, uma é sempre meio e a outra fim.

PROTARCO – Mesmo que repitas uma e duas vezes, isso não me entra na cabeça.”

SÓCRATES – Partamos de outro ponto então. Consideremos duas coisas novas…

PROTARCO – Quais?

SÓCRATES – Uma, o fenômeno; a outra, o ser.

PROTARCO – Pois bem, isto está conforme: o ser e o fenômeno.

SÓCRATES – Muito bem. Qual das duas diremos que foi feita para a outra? O fenômeno existe para a existência, ou a existência é que é causa do fenômeno?

PROTARCO – Me perguntas realmente isso: se a existência existe porque existe a aparência?

SÓCRATES – Exato!

PROTARCO – Que diabo de pergunta é essa?

SÓCRATES – Protarco, a construção dos navios se faz em nome dos navios, ou os navios em nome da construção? (…)

PROTARCO – Por que não te respondes a ti mesmo, Sócrates?

SÓCRATES – Não haveria inconveniente nisso, mas não quero falar só!

PROTARCO – Então com prazer…

SÓCRATES – Digo, então, que os ingredientes, os instrumentos, os materiais de todas as coisas servem a fenômenos; e que todo fenômeno serve a tipos de existências; e a totalidade dos fenômenos serve à totalidade da existência, que é o fim último.

PROTARCO – Perfeito.

SÓCRATES – E que, portanto, se o prazer é um fenômeno, é indispensável que seja o meio para alguma existência.

PROTARCO – Convenho totalmente.

SÓCRATES – Mas a coisa que é sempre fim para outra coisa que é sempre o meio, não deve ser esta coisa chamada de Bem? Logo, vemos que as coisas estão em classes diferentes.

PROTARCO – É óbvio.

SÓCRATES – Logo, se o prazer é um fenômeno, não diríamos que está subordinado ao Bem?

PROTARCO – Tens razão.

SÓCRATES – Desta forma, como disse no começo, precisamos ser gratos àqueles que nos fizeram conhecer que o prazer é um fenômeno e que não tem absolutamente existência em si mesmo¹”

¹ Platão volta a falar dos céticos.

SÓCRATES – Estes homens mesmos se rirão, sem dúvida, daqueles que fazem consistir sua felicidade no fenômeno.

PROTARCO – Mas de que maneira exatamente, e de quem falas?

SÓCRATES – Falo daqueles que, matando a fome e a sede e outras necessidades análogas, satisfazem-se no fenômeno. Está claro que se regozijam do prazer que lhes causa a repleção. Alegam que não gostariam de viver se não estivessem sujeitos à sede, à fome e outras tantas faltas, verificadas mediante sensações.

PROTARCO – Sim, de acordo.

SÓCRATES – Não conviremos todos em que a alteração dum fenômeno é o contrário de sua geração?

PROTARCO – Sim, conviremos.

SÓCRATES – O que elege a vida dos prazeres, elege a geração e a alteração, mas não um terceiro estado no qual não teriam lugar os prazeres, nem a dor, tão-somente a mais pura sabedoria.

PROTARCO – Agora entendo, Sócrates, que é o mais rematado absurdo eleger o prazer como o sumo Bem!”

SÓCRATES – (…) Não seria igualmente absurdo dizer que quem não experimenta o prazer e a dor é mau durante todo o tempo que sofre, ainda que estejamos falando do homem mais virtuoso do mundo? E não seria disparatado afirmar que quem experimenta o prazer é por esta mesma razão virtuoso, mais virtuoso quão maior for o prazer que experimenta?

PROTARCO – Sócrates, nada mais absurdo e disparatado que isso tudo!”

SÓCRATES – Não se dividem as ciências em dois ramos, um as artes mecânicas, o outro a educação, seja da alma ou do corpo?

PROTARCO – De acordo.”

SÓCRATES – Separemos, então, as artes que estão acima das outras.

PROTARCO – Quais seriam, e qual critério utilizaremos?

SÓCRATES – P.ex., se excluirmos dentre as diversas artes as de contar, medir e pesar, restará bem pouca coisa, não crês?

(…)

Depois, nada nos resta senão pedir socorro às probabilidades, exercitar os sentidos mediante a experiência e nos submeter a uma certa rotina, valendo-nos do talento para conjeturar, ao que muitos dão o nome de arte, pelo menos quando já se desenvolveu a um grau sublime pela reflexão e pelo trabalho nela desempenhado (aperfeiçoando o talento para conjeturas).

PROTARCO – Dizes algo irrefutável.

SÓCRATES – Não está neste último caso a música, pois que não se calcula sua harmonia, mas avança-se por conjeturas e ao azar, que depois são tornados familiares pelo hábito do tocador? Assim como a parte instrumental desta arte tampouco se submete a uma justa medida ao pôr-se em movimento cada corda, de maneira que na música há muitas coisas desconhecidas e algumas poucas seguras e certas?

PROTARCO – Nada mais verdadeiro.

SÓCRATES – Aplicando o raciocínio, veremos que é também o caso da medicina, da agricultura, da navegação e até da arte militar.

PROTARCO – Ó, sem dúvida!

SÓCRATES – E que, ao contrário, a arquitetura faz uso, a meu entender, de muitas medidas e cálculos, e instrumentos, que lhe dão grande firmeza e rigidez, fazendo-a exata, ou pelo menos mais exata que grande parte das ciências.¹”

¹ Está claro que hoje não pensamos mais assim.

Sigamos: separaremos as artes em duas ordens. Umas, dependentes da música, são mais imprecisas; outras, dependentes dos princípios arquitetônicos, são mais precisas.

PROTARCO – Assim seja.

SÓCRATES – Coloquemos entre as artes mais exatas aquelas de que primeiro faláramos.

PROTARCO – Se não me engano, falas da aritmética e das suas mais aparentadas.”

Veja a aritmética: não estamos conformes que há uma vulgar e outra própria dos filósofos?”

o vulgo faz entrar na mesma conta unidades desiguais, como dois exércitos, dois bois, duas unidades muita pequenas ou muito grandes. Os filósofos, ao contrário, jamais darão ouvidos a quem se nega a admitir que, entre todas as unidades, não há uma unidade que não difira absolutamente em nada de qualquer outra unidade.”

A arte de calcular e de medir – que empregam os arquitetos e os mercadores –, não difere ela da geometria e dos cálculos racionais dos filósofos? Diremos que é a mesma arte, ou a dividiremos em duas?”

SÓCRATES – Protarco, compreendes por que entramos neste mérito?

PROTARCO – Talvez…”

SÓCRATES – Há duas aritméticas e duas geometrias, e dependendo de quais outras múltiplas artes consideremos, por mais que vulgarmente se as compreenda sob um mesmo nome, pode muito bem haver várias artes ou ciências duplas.”

SÓCRATES – A dialética nos acusará, Protarco, de termos dado a preferência a outra ciência em detrimento dela.

PROTARCO – Que entendes por dialética, Sócrates?

SÓCRATES – É a ciência das ciências, que conhece todas as outras ciências. É o conhecimento mais verdadeiro e sem comparação, pois tem por objeto o ser mesmo, aquilo que realmente existe, e cuja natureza é inalterável. Que pensas da dialética, Protarco?

PROTARCO – Não nego, Sócrates, que ouvi muitas vezes Górgias dizer que a arte da persuasão leva vantagem sobre todas as demais. Fica tudo submetido à persuasão do orador, não pela força, mas pela vontade. Em suma, não haveria nada mais excelente. Me sinto desconfortável, portanto: não quero contradizer meu mestre Górgias, nem tampouco a ti, querido.

SÓCRATES – Me parece que no momento de alvejar tua flecha contra mim, vacilaste.

PROTARCO – Se assim o queres, digo que tu podes tratar como bem entender, nesta conversação, o estatuto destas duas ciências.

SÓCRATES – Mas é culpa minha se não entendes o que digo exatamente?

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Não te perguntei, meu querido, qual é a arte ou a ciência que se encontra no topo das outras em termos de importância, excelência e vantagens que possa conceder ao usuário, mas qual é a ciência cujo objeto é o mais claro, exato e verdadeiro, seja ou não de grande utilidade. Eis o que agora buscamos. Se ages com prudência, não cais em desgraça com Górgias, nem tampouco me afrentas.”

SÓCRATES – (…) quando alguém diz estudar a natureza, já sabes que se ocupa a vida inteira em averiguar as causas, ou seja, como veio a se produzir o universo; pois todo efeito, que se apura agora, provém de determinadas causas. Ou não?

PROTARCO – Mas é claro que sim, Sócrates.

SÓCRATES – O objeto do naturalista não é necessariamente aquilo que existe sempre? O que é, o que foi e o que será?

PROTARCO – Em última instância, é isto mesmo.

SÓCRATES – Podemos dizer que é auto-demonstrável o objeto que procuramos, que nunca existiu, nem existe, nem existirá de forma dessemelhante? Ou bem a única coisa que podemos afirmar, com base na investigação dos fenômenos, seria: nada há que permanece idêntico e estável?!

PROTARCO – O segundo, Sócrates, porque o fenômeno é o meio, mas–

SÓCRATES – …Já sei o que irás dizer! Está claro que se trata de fenômenos, mas como chegar à misteriosa causa, já que este fim é invisível e só vemos o meio?

PROTARCO – Pois creio que ficaremos eternamente no escuro quanto a isso.

SÓCRATES – Portanto, a verdade pura não se encontra na inteligência nem no conhecimento possível sobre os objetos.

PROTARCO – Com efeito.

SÓCRATES – E então é preciso que deixemos de lado tudo isso, tu, eu, Górgias e Filebo: seguindo tão-só a razão, devemos afirmar o que segue…–

PROTARCO – O quê, Sócrates?

SÓCRATES – …que a estabilidade, a pureza, a verdade e o que nós chamamos de sinceridade, não se encontram senão no que subsiste eternamente, no mesmo estado, da mesma maneira, sem mescla; e onde mais se encontra de forma menos mesclada, isto é, em segundo lugar? Podemos chegar lá? Creio que todo o demais deve ser rebaixado em nossa hierarquia de valores.

PROTARCO – Concordo plenamente.”

SÓCRATES – Não são os nomes mais preciosos os da inteligência e sabedoria?

PROTARCO – Parece que sim.”

SÓCRATES – Sigo uma velha máxima, que nunca é má: Nunca é demais indagar duas, três ou mais vezes, se preciso, sobre o quê é o Bem.

PROTARCO – Convenho, convenho.

SÓCRATES – Em nome de Zeus, muita atenção agora! Vamos recordar como começamos todo este debate, a fim de podermos rematá-lo!

(…)

Filebo sustentava que o prazer é o fim legítimo de todos os seres animados e o objeto a que se devem consagrar sem exceção; que o prazer é o supremo Bem e que estas duas palavras, bom e agradável, pertencem, no fim de contas, a uma mesma natureza. Sócrates, ao contrário, sustentava que, como bom e agradável são duas palavras distintas, expressavam igualmente duas coisas de natureza distinta, e que a sabedoria participava mais da condição do Bem que o prazer. Não começamos assim, Protarco?

PROTARCO – Sim, Sócrates, foste verdadeiro.

SÓCRATES – E, dando continuidade: convimos que o ser animado que esteja em possessão plena e integral, ininterrupta, durante toda sua vida, do Bem, não tem ele necessidade de nada mais, porque aquilo já lhe basta. Que dizes?

PROTARCO – Mais uma vez, foste impecável ao rememorar nossos passos.”

SÓCRATES – Nem o prazer nem a sabedoria são esse Bem perfeito, o bem que apetece a todos, o soberano Bem!

PROTARCO – Agora vejo que não!

SÓCRATES – Destarte, é preciso descobrir o Bem ou em si mesmo ou nalguma imagem, para ver, como já dissemos, a quem devemos adjudicar o segundo posto.”

Não cabe buscar o bem numa vida sem mescla, pois que ele reside na vida mesclada ou intermediária.”

SÓCRATES – Seja: Conseguiríamos atingir nosso objeto mesclando toda sorte de prazeres com toda sorte de sabedorias?

PROTARCO – Hm, talvez…

SÓCRATES – Não, este meio não é confiável. Vou te propor um novo método de mesclar as coisas sem tantos riscos.

(…)

Há, segundo entendo, alguns prazeres muito mais meritórios que outros; e artes mais exatas que outras.”

Segue daí que devemos mesclar só as porções mais autênticas de uma e outra parte, e cabe-nos examinar se há uma mescla verossímil o suficiente para que a classifiquemos de vida mais apetecível.”

SÓCRATES – Será preciso incluir a música, que, conforme vimos, está repleta de conjeturas e de imitação, e carente, por isso mesmo, de pureza?

PROTARCO – Isso me parece necessário, a fim de tornar a vida suportável.

SÓCRATES – Em outras palavras, queres que eu seja um porteiro relaxado e deixe que um tropel de arraias-miúdas arrombe o portão e invada, com todas as ciências e mesclas possíveis e imagináveis?

PROTARCO – Sócrates, não vejo como pode ser um mal que um homem possua em si todas as ciências, contanto que possua as principais.

SÓCRATES – Sigo, então, tua prescrição, e deixo com que todas passem pelo meu portão, para invadirem o jardim poético de Homero.”

Porém, quanto aos prazeres, ainda resta por decidir: quais classes de prazeres deixaremos entrar impunemente? Só caberão neste jardim os verdadeiros, ou aceitaremos todos sem distinção?”

A essência do Bem nos escapa novamente! Foi-se refugiar dentro da essência do Belo, porque em todo lugar e por todas as partes a justa medida e a proporção são uma beleza e uma virtude.

(…)

Mas não esqueçamos que a verdade tem de entrar com as outras coisas neste mescla.

(…)

Portanto, se não podemos abarcar o Bem sob uma só idéia, fá-lo-emos sob 3, a saber: a da Beleza, a da Proporção e a da Verdade. Digamos que, se essas 3 coisas pudessem ser 1 só, formariam assim a causa verdadeira da excelência desta mescla do tipo de vida perfeita e alcançável pelo homem. Se a causa é boa, a mescla só pode ser boa.”

PROTARCO – (…) o prazer é a coisa mais mentirosa do mundo. Assim se diz por aí. E também que os deuses perdoam todo perjúrio cometido em meio aos prazeres do amor, ou da carne, que passam por ser os mais elevados de todos; isso me faz pensar que os prazeres, tal como as crianças, não têm a menor faísca de sabedoria!”

o primeiro Bem é a medida, o justo meio, a oportunidade e todas as qualidades semelhantes, que devem ser tomadas como condições imprescindíveis de uma natureza imutável.” “o segundo Bem é a proporção, o belo, o perfeito, o que se basta a si mesmo, e tudo o mais que for deste gênero.” “E aí tens o posto da sabedoria e da inteligência: fazem parte da verdade, como terceiro Bem.”

Não situaremos em quarto lugar as ciências, as artes, as opiniões justas, que afirmamos pertencer a uma alma só, se está certo dizer que estas coisas têm um laço mais íntimo com o bem e com o prazer?”

Em quinto lugar colocaremos os prazeres, mas apenas aqueles isentos de dor, chamando-os conhecimentos puros da alma.”

SÓCRATES – À sexta geração, diz Orfeu, ponde fim a vossos cantos. Me parece que poremos fim também a este discurso com este sexto lugar. Já nada nos resta senão condensar e arredondar tudo o que descobrimos.

PROTARCO – Sem dúvida, Sócrates, não há mais remédio senão pararmos por aqui e finalizarmos com dignidade.

SÓCRATES – Voltemos, então, pela terceira vez, salvo engano, ao mesmo discurso, e demos as graças a Zeus o Conservador.

PROTARCO – Como o efetuarás, Sócrates?

SÓCRATES – Filebo qualificava o prazer perfeito e pleno como o Bem (…)”

Bem, vimos que nem um nem o outro desses bens inicialmente inferidos por nós dois é suficiente por si mesmo!” “Tendo-se apresentado diate de nós uma terceira forma de bem, superior aos outros dois, nos pareceu, também, que a inteligência tinha com a essência dessa terceira forma mais afinidade (mil vezes mais afinidade!) que o prazer mais gozoso. Mas vimos que o prazer mais puro não ocupa lugar melhor que o quinto em nossa escala de valores. Mas os bois, cavalos e demais bestas, sem exceção, não seriam a refutação do que dissemos? A maior parte dos homens, referindo-se a elas, como dizem os intérpretes do canto dos pássaros, julga que os prazeres são a principal fonte da felicidade da vida, e crê que o instinto das bestas é uma garantia mais segura e verdadeira que os discursos inspirados pela Musa.”

PROTARCO – Convimos, sem qualquer restrição, Sócrates, que tudo o que disseste é perfeitamente verdadeiro.

SÓCRATES – Então me permitireis partir!”

LÍSIS OU DA AMIZADE AMOROSA

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

– Muito bem – disse-lhe eu –, mas quem é o mestre?

– É um de teus amigos e partidários, Sócrates, chama-se Miccos.

– Por Zeus! Não é um dos néscios; é um hábil sofista!

– Pois se não! Queres seguir-me e ver a gente que se encontra ali dentro?

– Sim, mas desejava antes saber que papel me caberá uma vez inserido nesta assembléia de jovens. E outro pormenor: quem é dentre os presentes o jovem mais formoso?

– Cada um de nós tem seu gosto, Sócrates.

– Mas tu, Hipótales, diz-me por fim: qual é a tua inclinação?

Neste momento Hipótales pôs-se rubro. Então continuei:

– Hipótales, filho de Jerônimo, não tenho necessidade de me confessares se amas ou não! Me consta não só que tu amas, como que amas até demasiado! É certo que em todas as demais coisas sou um inútil, sou nulo, mas deus me deu a graça de um dom particular: conhecer através de um só olhar quem ama e quem é amado.

Ao ouvir estas palavras, ruborizou-se ainda mais.

– Coisa singular! – interveio Ctesipo. – Ruborizas-te diante de Sócrates e te mostras zeloso em guardar teu segredo amoroso; mas, quando estás apenas entre nós, poucos minutos são-te o bastante para afadigar-nos de tanto que repetes o nome de teu amado. É isso mesmo o que ouviste, Sócrates: ele nos aborrece e aporrinha, de modo que nos cremos surdos ao final de suas palestras: tudo que sói ouvirmos é: LÍSIS, LÍSIS, LÍSIS…! Pior ainda: quando se excede na bebedeira – ainda ao dia seguinte, como que ouvindo os ecos da festança anterior, nossas cabeças levemente ressaqueadas ainda escutam as sílabas <Lí>, <si> e <as> reverberando no ar, tal houvera sido seu abuso ébrio da véspera! E olha, Sócrates, que nosso Hipótales mui bem dissimula sua poderosa inclinação ao expressar-se em prosa, conversando. O verdadeiro problema é quando traveste-se de poeta, inundando-nos e a nossos tímpanos com seus versos apaixonados. O que menos podemos perdoar nele é sua perícia ao fazê-lo: entoa os louvores de seu amado e dos antepassados de seu amado com voz e harmonia de se admirar! Não obstante, sabes como são os amantes, Sócrates – ele aluga nosso tempo, não podemos nos esquivar de escutá-lo quantas vezes ele achar necessário, coisa que nunca termina! Agora, ó dissimulado!, põe-se vermelho ao ouvir-te falar desta maneira.

– Ó, Ctesipo e Hipótales, não é este tal Lísis muito jovem ainda? Isto estou supondo porque jamais ouvi este nome antes, ou pelo menos não associo às feições de nenhum dos jovens já consagrados a freqüentar este tipo de assembléia.

– E não erras, Sócrates: é que é tão jovem que por ora se apresenta somente como Lísis, filho de seu pai, pois é só seu pai, atualmente, que se conhece à larga. Em que pese esse pormenor, creio que ao menos conhece-o de vista, caro Sócrates, já que tu conheces, um por um, todos os jovens atenienses!

– Agora diz-me, de quem é Lísis filho?

– Trata-se Lísis do primogênito de Demócrates, do demo de Exone.”

quero saber se conheces a linguagem que mais convém aos amantes, estejam eles desacompanhados, isto é, apenas entre amigos e confidentes, falando do amado em terceira pessoa, ou em conversação direta com o próprio amado.”

Sem dúvida ele nos canta e nos repete tudo que já se repetiu e se cantou na cidade acerca de Demócrates e acerca de Lísis, pai de Demócrates, avô deste jovem Lísis. E mais, ainda exalta em versos todos os seus antepassados conhecidos mais remotos, suas riquezas, seus corcéis infindos, suas vitórias em Delfos, no Istmo, em Neméia, nas corridas de carro e de cavalo, e noutras estórias mais velhas que o arco da roda. Ultimamente, Sócrates, cantou-nos uma peça sobre a hospitalidade com que Hércules em pessoa havia tratado e recebido a um dos avós de Lísis, que, diz a lenda, era parente do próprio glorioso filho de Zeus. O que se conta é que este antepassado de Lísis nascera do sêmen do próprio Zeus, e a fêmea eleita para pari-lo foi a filha do fundador de Exone. Todas as velhas vivas do distrito hoje repetem essas coisas; nosso diligente Hipótales pesquisa e aprende das tradições orais tudo quanto laboriosamente recita! E, claro, nos faz de cobaias, pois temos de escutá-lo em tudo!!!

– Hipótales, mas isto é extraordinário! Compões e cantas teus elogios já antes da conquista?”

– Porque, hás de convir, se acaso és bem-sucedido com tais amores, teus versos e cantos redundarão em tua própria honra, isto é, na exaltação, em última instância, do amante que teve a fortuna de conseguir tão formidável vitória. Mas se a pessoa que amas te abandona, não importa quantos e quais tenham sido os elogios que dirigiste a ela, ou melhor ainda: quanto mais celebraste suas belas qualidades, tanto mais pôr-te-ás em ridículo ao fim, porque tudo quanto fizeras terá sido inútil. Um amante mais prudente, meu querido, não celebraria seus amores antes de haver logrado o êxito, desconfiando do porvir, tanto mais quanto que os jovens formosos, quando se os exalta e se os lisonjeia, são os primeiros a se encher de presunção e vaidade.

– Sou incapaz de negá-lo.

– E quanto mais presunçosos se mostram, mais difíceis são de conquistar, ou não?

– Exato.

– Que juízo tu mesmo atribuirias a um caçador que espantasse assim a caça, impossibilitando-se a si mesmo de apanhá-la?

– É evidente que estaríamos falando aqui de um néscio.

– Seria uma péssima política, ao invés de atrair a pessoa amada, espantá-la com palavras e canções apologéticas. Que dizes disto?

– Que essa é, idem, minha própria opinião.”

– …se pudesses conseguir que teu querido Lísis conversasse comigo, quiçá poderia eu dar-te um exemplo da classe de conversação que deverias ter com ele, em detrimento destas odes e hinos que, ao que dizem, diriges-lhe.

– Nada mais fácil; não tens mais que entrar naquele recinto com Ctesipo, sentar-te e inserir-te na conversação. E como hoje se celebra a festa de Hermes, e tanto os jovens como os adultos reúnem-se neste mesmo salão, Lísis não deixará de aproximar-se de ti. Se isso não se der, ainda assim digo que Lísis é muito chegado de Ctesipo, por causa de seu primo Menexeno, que é o melhor amigo daquele, de forma que, se tu não conseguires chamar sua atenção ao entrar, Menexeno o chamará e te o apresentará sem falta, sendo isto coisa fácil para ele.”

Hipótales, notando que o grupo ao nosso redor se avolumava, veio, mas pôs-se detrás de vários outros jovens, ficando de pé e numa posição em que não podia ser visto por Lísis, temendo, afinal, importuná-lo. Nesta atitude passiva foi que ele escutou toda nossa palestra.”

– Poupar-me-ei o trabalho de perguntar-vos qual dos dois é mais rico, porque sois amigos. Estou certo?…

– Sim – disseram ambos ao mesmo tempo.

– …E entre amigos, diz-se que todos os bens são em comum, de sorte que não há qualquer diferença entre vós em termos de riqueza, se é que sois amigos, como dizeis.”

– Eis aí uma coisa singular! Ser livre e ver-se governado por um escravo! Que faz teu pedagogo para governar-te?

– Me leva à casa do meu professor.

– E teus professores, mandam em ti por igual?

– Sim, e bastante.

– Eis um prodígio: um homem rodeado de professores, mestres e pedagogos pela vontade do próprio pai! Mas quando voltas a tua casa e estás com tua mãe, ela te deixa fazer o que tu queres fazer (pois que isso é a prerrogativa dos homens felizes)? P.ex., deixa que tu remexas a lã e toque o tear enquanto ela tece, ou será que ela te proíbe de tocar a lançadeira, a carda e os demais instrumentos de seu trabalho?

Lísis pôs-se a rir:

– Por Zeus, Sócrates! Não só me proíbe de todas estas coisas como me dá uma palmada na mão se me aventuro a tocar em seus utensílios!”

– Diz-me então, Menexeno: quando um homem ama a outro, qual dos dois se faz amigo do outro? O que ama se faz amigo da pessoa amada, ou a pessoa amada se faz amigo do que ama, ou não há entre eles diferença alguma?

– Nenhuma, a meu ver.

– Que queres dizer com isso? Ambos são amigos, quando só um ama?

– Sim, como disse, ao que me parece…

– Mas não pode suceder que o homem que ama a outro não seja correspondido?!”

– E então, qual dos dois é o amigo? É o homem que ama a outro, seja ou não correspondido, seja ou não aborrecido pelo amado? É o homem que é amado? Ou será que não seria nem o primeiro nem o segundo, posto que não se amam ambos reciprocamente?

– Nem um, nem outro, ao que me parece.

– Mas então chegamos agora a uma opinião diametralmente oposta à precedente! Porque, depois de havermos sustentado que se um dos dois amasse o outro ambos seriam amigos, dizemos agora, pelo contrário, que não há amigos ali onde a amizade não é recíproca!”

– Neste caso, Menexeno, o que é amado é amigo do que ama, seja que lhe retribua o sentimento ou seja que menospreze-o por completo, como as crianças que não só não se afeiçoam a seus pais como até têm aversão não só às lições e advertências destes, mas, de forma até mais pronunciada, quando estes tentam manifestar-lhes carinho!

– Estou de acordo.

– Logo, o amigo não é aquele que ama senão aquele que é amado.

– Sim, conforme.

– Por este princípio, é inimigo aquele que é o autor da aversão, e não aquele que é repelido (a vítima da paixão invertida)?

– Assim parece.

– Neste conceito, muitos são amados por seus inimigos e rejeitados pelos próprios amigos, posto que o amigo é aquele que é amado, e não aquele que ama. Mas isso me parece absurdo, Menexeno, senão impossível! Como é que alguém se faz <amigo de seu inimigo e inimigo de seu amigo>?

– Confesso que estou confuso, Sócrates.

– Se tal coisa é inadmissível, quem ama é naturalmente amigo do que é amado?

– Sim, sim, estou de acordo.

– E o que desdenha é, então, inimigo do que é desdenhado?

– Necessariamente!

– Ah, olha-nos aqui de novo enredados na mesma opinião que manifestáramos primeiro! Muitos são amigos dos que não são seus amigos, e muitas vezes dos seus próprios inimigos, quando amam quem não só não os ama de volta como até os aborrece! Ademais, muitas vezes somos inimigos de pessoas que não são inimigos nossos, e que quiçá sejam até nossos amigos, como quando desdenhamos quem nunca nos desdenha, e quem sabe até nos ame!

– É provável que raciocines de forma correta, Sócrates.

– Se o amigo não é aquele que ama, nem o que é amado, nem tampouco o homem que ama e é amado ao mesmo tempo, que é deduzimos de tudo isto?

Desejando dar uma trégua a Menexeno, encantado como estava eu com o desejo do jovem Lísis de instruir-se, continuei o diálogo, agora me dirigindo a este último.”

Mais vale voltar ao que os poetas nos franquearam, porque os poetas, até certo ponto, são nossos pais e nossos guias quanto à sabedoria. Talvez não tenham falado em vão quando disseram, sobre a amizade, que é deus mesmo quem constrói as amizades e que faz uns atraírem-se pelos outros. (…) Um deus conduz o semelhante a seu semelhante – Empédocles.”

só os homens de bem são semelhantes aos homens de bem e, portanto, podem ser amigos entre si, ao passo que os maus, ao contrário do que muitos pensam, não são semelhantes de maneira alguma entre si, nem um para com o outro nas relações, nem mesmo quanto a si próprios – isto é, são caracteres altamente mutáveis e variáveis, incapazes de manter uma coerência interna, sempre contradizendo a si próprios. Neste caso não seria surpresa que o que é diferente de si mesmo não se pareça nunca com nada mais no universo, não sendo, desta maneira, amigo de nada nem ninguém.”

E para quê seres semelhantes haveriam de aproximar-se uns dos outros, se não haveriam de tirar dessa aproximação proveito algum? E o homem que não tem necessidade de buscar (uma vez que já é auto-suficiente, i.e., amigo de si mesmo), o homem que não é amado (porque os outros homens de bem são também amigos de si próprios e auto-suficientes), não será ele jamais um amigo de quem quer que seja?”

– …mas discordas do que assentei há pouco, que o bom se basta a si mesmo, enquanto ainda for <bem>?

– Não discordo de forma alguma, Sócrates.

– Mas o que se basta a si mesmo, tem necessidade de alguém mais ou não?

– Não.

– Não tendo necessidade de ninguém, não buscará ninguém!

– Correto.

– Se não busca ninguém, não ama ninguém.

– Com certeza que não.

– E se não ama ninguém, ele mesmo jamais será amado!

– Creio que jamais será amado.

– Como os bons podem ser amigos dos bons, quando, estando uns separados dos outros por distâncias infinitas no que concerne à alma, não se desejam mutuamente, uma vez que se bastam a si próprios, e que estando uns próximos dos outros fisicamente, nem sequer consideram-se como mutuamente úteis? Qual seria o meio de que tais pessoas se pudessem estimar entre elas mesmas, aproximando-se não só nos corpos mas também nas almas?

– É impossível!

– Mas se não se estimam, então nunca haveria amizade?!

– Dizes a verdade.

– Olha, Lísias, parece que tudo que concluímos não passa de mal-entendido e fumaça! Nada do que concluímos pode estar certo!

– Como assim?

– Ouvi, certa ocasião, as seguintes palavras, que agora se me ocorrem: o semelhante é o mais hostil ao próprio semelhante; os homens de bem os mais hostis aos demais homens de bem. Quem mo disse isso? Não me lembro, mas o que lembro é que para justificar-se ele até citou uns versos de Hesíodo: O oleiro é, por inveja, inimigo do oleiro; o cantor do cantor; e o pobre do pobre.¹ Este homem ainda acrescentava: Em todas as coisas os seres que mais se parecem são os mais invejosos, rancorosos e hostis um para com o outro; quanto aos que mais se distinguem e diferenciam, são necessariamente mais amigos. O pobre é amigo do rico, o débil do forte, porque uns esperam socorro dos outros, como o doente espera do médico. O ignorante, pela mesma razão, busca e ama ao sábio. E essa pessoa continuava a sustentar sua tese com uma abundância de razões, alegando que tão distante está o semelhante de amar o semelhante quanto próximo está o semelhante de odiar o semelhante; e como está patente que o odeia, aí vês. Enfim, continuava este homem: Todo ser deseja o oposto a sua própria natureza. Assim, o seco é amigo do úmido, o frio do quente, o amargo do doce, o sensível do obtuso, o vazio do cheio, o cheio do vazio, e assim por diante.

¹ Os trabalhos e os dias, 25

Seria o ódio amigo da amizade e a amizade amiga do ódio?”

– Minha impressão é que se a dessemelhança engendrasse a amizade, estas coisas contrárias deveriam ser realmente amigas!

– É necessário.

– Por conseguinte, o semelhante não é amigo do semelhante, nem o contrário amigo do contrário!

– Não é mesmo possível que assim fosse.”

– …Enfim, digo-te que o bom é o belo. E tu, que pensas?

– O mesmo que tu, Sócrates.

– Como que por adivinhação, digo ainda: o que não é nem bom nem mau, é amigo do bom e do belo. Escuta agora sobre o quê fundo tal conjetura. Parece-me que existem três gêneros: o bom; e o mau, naturalmente; mas, por último, aquilo que não é nem bom nem mau. (…) Nossas indagações precedentes, se um tanto inócuas, me levaram pelo menos a intuir que o bom não pode ser amigo do bom, nem o mau do mau, nem o bom do mau. Resta, então, para que a amizade seja possível entre dois gêneros, que o que não é nem bom nem mau seja o amigo do bom, ou de uma coisa que se lhe aproxime, porque, com respeito ao mau, nunca poderia ele concitar à amizade.

– Correto.

– O semelhante, como já estabelecemos, não pode ser, tampouco, o amigo do semelhante, não te lembras?

– Perfeitamente.

– E o que não é nem bom nem mau, não amará ele, tampouco, aquilo que se assemelha consigo.

– De fato, seria impossível.

– Logo, o que não é nem bom nem mau não pode amar nada a não ser o bom.”

– Não estás conforme que, por conta da doença, o corpo está de alguma forma obrigado a buscar e a amar a medicina?

– Sim.

– Logo, o que não é nem mau nem bom é amigo do que é bom, justamente pela existência do que é mau.

– Faz sentido.”

– Se se tingissem de branco teus cabelos, que são louros, seriam brancos em realidade ou em aparência?

– Em aparência.

– E no entanto, a brancura não se encontraria nos cabelos?

– Sim.

– E nem por isto seriam teus cabelos brancos de verdade! De sorte que, neste caso, apesar da brancura que neles se manifestasse, não seriam nem brancos nem negros.

– Isso é evidente.

– Mas, amigo, quando a velhice os houver tornado deste mesmo tom, não serão de fato semelhantes ao que se verá na aparência, isto é, seus fios de cabelo não serão na aparência e na verdade brancos?”

quando uma coisa se encontra com outra coisa, faz-se ela a mesma que esta outra coisa?”

– Deriva daí que, apesar da presença do mal, o que não é mau nem bom não se faz mau, e isso justamente porque a presença mesma do mal faz este intermediário desejar com afinco alcançar o bem; se por acidente o que não é bom nem mau se faz com efeito mau, a presença do mal o afastará naturalmente do desejo e do amor do bem, posto que, neste caso excepcional, já não é um ser que não era bom nem mau, mas um ser unicamente mau, e incapaz de amar o bem.

– Sim, Sócrates.

– Continuando meu raciocínio, poderíamos dizer que os que são já sábios, sejam deuses ou homens, não podem, com sinceridade, amar a sabedoria, assim como não podem amá-la aqueles que, em virtude de ignorarem completamente o que é o bem, acabaram se tornando maus, porque ignorantes e maus, por igual, detestam e abominam a sabedoria. Restam, então, aqueles que, não se encontrando absolutamente isentos nem do mal nem da ignorância, não foram, contudo, pervertidos até o ponto de perderem a consciência de seu estado algo faltoso, havendo nestes seres a capacidade de buscar se melhorarem.”

Creio que agora, Lísias e Menexeno, descobrimos de forma mais clara que antes no que consiste o ser amigo e o não o ser.”

– Ah, Lísis e Menexeno! Grande risco corremos de que o dito até aqui não seja mais que névoa e engodo.

– Mas por quê? – me perguntou Menexeno.

– Temo que caímos de novo no abismo do ridículo tergiversando sobre a amizade, como sucede aos charlatães!

– Como isso se deu?

– Assim: não é verdade que quem ama, ama alguma coisa? Ou não?

– Ama alguma coisa, Sócrates.

– Ama-o gratuitamente, ou ama-o por alguma coisa e com vistas a alguma coisa?

– Ama porque tem alguma razão para amar.”

– O doente, como já dissemos, é amigo do médico. Não é assim?

– Sim.

– Se ama o médico, é por causa da doença e porque busca a saúde.

– Sim.

– Mas a doença é um mal.

– E como não seria?

– E a saúde, é um bem ou um mal? Ou seria um intermediário entre os dois?

– Um bem, em absoluto.

– É, já concluímos antes que o corpo é que é a instância intermediária: nem bom e nem mau por si mesmo, ele ama a medicina por conta da doença de que padece, i.e., por causa do mal; enquanto que a medicina é um bem, e qualquer um que esteja na condição do corpo ama a medicina, invariavelmente, porque deseja ser são. Concordas mesmo que a saúde seja um bem?!

– Acabaste de perguntar a mesma coisa e eu acabei de dizer que sim, Sócrates!

– Pois bem: e a saúde, é amiga ou inimiga?

– Do corpo? Amiga.

– E a enfermidade, é inimiga sua?

– Com certeza.

– Logo, o que em si não é nem mau nem bom ama o que é bom, por causa do que é mau, e justamente porque busca e tem um afã pelo que é bom!

– Estiveste perfeito em tuas palavras, Sócrates.”

Prosseguindo assim indefinidamente, é necessário que cheguemos a um princípio que não suponha nenhuma outra coisa amada, isto é, a um princípio primeiro da amizade, o mesmo em virtude do qual dizemos amar todas as demais coisas.” “Todas as demais coisas que amamos em virtude deste primeiro princípio não passam de ilusão, a dizer verdade. Não são mais que imagens; o primeiro princípio mesmo é que deve ser o único e mais importante dos bens, aquilo que amamos por trás e acima de tudo.”

– …nada no mundo é mais amigo que este princípio, que rege todas as amizades existentes.

– É bastante provável.

– Por conseguinte, o verdadeiro amigo jamais é amado por causa de outro amigo. Antes, teria de dar-se o contrário.

– Isso é uma conseqüência lógica imprescindível.”

– Se o mal desse origem à amizade, uma vez destruído o mal, a amizade não poderia existir, porque quando a causa cessa, é impossível que o efeito perdure.

– Exato.”

De duas, uma: Se o conveniente difere do semelhante, parece-me, Lísis e Menexeno, que finalmente encontramos o discurso final sobre a amizade, o santo graal neste tema. Mas se o conveniente e o semelhante resultam ser, afinal, uma mesma coisa, não nos será nada simples nos subtrairmos à terrível objeção de que o semelhante é inútil ao semelhante, uma vez que idênticos não se interessam um pelo outro; e, além disso, defender, a partir daí, que o amigo não é útil seria um absurdo completo, embora fosse a consequência mais lógica das premissas! Quereis, para não alucinarmos com nossos próprios discursos disparatados, que demos por consumado de uma vez por todas que o conveniente e o semelhante são, pois, diferentes entre si?”

– Mas quê! Se o bom e conveniente não são senão uma mesma coisa, só o bom pode ser amigo do bom!

– Decerto.

– E creio que já nos cansamos de refutar esta possibilidade, não é assim?

– Sim.

– Então, para quê continuar? Não está claro que não chegaremos a lugar nenhum?

Quando já nos íamos, disse a Lísis e Menexeno que ao que parece passamos por uns patetas e caímos no maior ridículo, eles e eu, naquela reunião anagógica. Velho como já sou, isto é vergonhoso sobretudo para mim! Porque todos os ouvintes de nosso diálogo com certeza dirão: estes três consideram-se amigos – mas não chegaram a nenhuma conclusão sobre o quê é um amigo!

(Pseudo?) CARTA VII. Platão aos parentes e amigos de Díon, Sabedoria.

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

(*) “As epístolas atribuídas a Platão que nos legou a tradição são 18, conquanto 5 delas (as de nº XIV a XVIII) são tão explicitamente falsas que a maioria dos editores nem sequer se dá ao trabalho de publicá-las. O resto permanece questão indecidida, pelo menos desde o Renascimento. Durante a segunda metade do século XIX operou-se uma grande revolução em historiografia da Grécia Antiga, colocando-se em claro vários aspectos da época; de modo geral, detalhes das cartas que se julgavam inexatos ou forjados passaram a ser dignos de crédito. Na questão estilística, a opinião também está mais favorável que antes para uma autêntica autoria de Platão, principalmente quanto à carta sétima. Em estilometria – determinação da coerência interna de um texto com ajuda da estatística –, quanto maior for o fragmento textual, mais fiável costuma ser o juízo. Ainda é perfeitamente possível que todas as cartas, sem excetuar uma só, sejam obras de discípulos de Platão, para fins publicitários (divulgar a Academia). Seja como for, algumas cartas são discrepantes entre si, o que certamente significa que uma ou outra são fabricações, avaliando por eliminação. Isso é especialmente verdadeiro para as oito cartas que tratam sobre a política de Siracusa. (…) Ao mesmo tempo, não se pode negar o fato de que a existência desta tradição de cartas platônicas, ainda que todas fossem apócrifas, remete eventualmente a cartas mais antigas que podem ter perecido fisicamente, mas que teriam sido a fonte bibliográfica deste conteúdo remanescente ou restaurado (por discípulos, hipoteticamente). Se fôssemos eleger a carta autêntica mais provável, seria sem dúvida a de nº VII.”

Se realmente participais das idéias e projetos de Díon, podeis contar comigo; do contrário, tenho necessidade de meditar bastante a respeito. Quais eram essas idéias e projetos?”

Como havia Díon chegado a formar este projeto? É matéria digna de conhecimento, por jovens e idosos indistintamente, e referir-vos-ei desde seu princípio, uma vez que as presentes circunstâncias tornam todo este enredo muito oportuno.

Sendo eu jovem, incorri nos mesmos erros em que incorre a maioria dos jovens. Me lisonjeava a idéia de que o dia que chegasse a ser dono de minhas próprias ações deveria ser o dia da minha entrada na política.”

Os Trinta tomaram o poder soberano. Alguns de meus parentes e amigos eram deste número, e comigo contaram para o desempenho de funções que criam convir a mim e ser-lhes de auxílio. O que então me aconteceu nada tem de estranho, se se tem em conta minha juventude. Julgava que estes homens governariam o Estado, fazendo Atenas sair das vias da injustiça e reingressar nas da justiça. Jamais perdi de vista os protagonistas deste período e suas ações, portanto. Não demorou muito para tudo revirar de ponta-cabeça a partir da tomada de poder dos Trinta. Em contraste, o período anterior, antes tão tumultuado, parecia, agora, uma idade de ouro! Entre outros descalabros, mandaram Sócrates, meu velho amigo Sócrates, a quem não temo proclamar o mais justo dos homens vivos daquela geração, se juntar a alguns outros que deveriam se apoderar pela violência de um cidadão que os Trinta haviam condenado à morte, obsequiando, desta maneira, que Sócrates se fizesse cúmplice deste crime, quisera ele ou não. Mas Sócrates não obedeceu à ordem, preferindo expor-se a todos os perigos a associar-se com esta gente. Tendo este cenário diante dos olhos, afastei-me da coisa pública, indignado, antes que virasse testemunha de maiores desgraças.

Pouco tempo se passou até a queda dos Trinta tiranos, e juntamente com eles a das instituições neste tempo estabelecidas. Ainda que com menos vivacidade, quando veio a paz, despertou-se em mim de novo o desejo de mesclar-me nos negócios da administração. Mas nesta época, como aliás em todo tempo de revolução, ocorreram coisas deploráveis; e não se estranha que, em meio às desordens, o espírito partidário conduzisse a vinganças cruentas. E, no entanto, é preciso confessar que os emigrados restituídos ao país demonstraram, majoritariamente, muita moderação. Eis que, não sei por que nova fatalidade, alguns homens maus se valeram de alguma reputação que tinham para levar Sócrates aos tribunais, acusando-o e caluniando-o com a autoria dos mais horrendos crimes, justamente aqueles de que era menos capaz. Acusaram-no, em suma, de impiedade, e os cidadãos de Atenas condenaram-no, condenaram um homem que se havia negado a tomar parte nos desmandos dos Trinta, e os Trinta, repatriados em sua maioria, e seus amigos o condenaram sem remorso, ele que se negara a coadunar com a sentença de morte de um dos amigos daqueles, por ser sentença viciada, estando estes mesmos amigos do réu exilados e cobertos de desgraça, à época! Considerei estes crimes; considerei os homens que governavam agora, as leis e os costumes regentes, e quanto mais envelhecia, mais impossível me parecia dar aos negócios da praça pública boa direção.”

terminei por concluir que todos os Estados deste tempo estão mal-governados. Suas leis são corrompidas em tal grau que estes governos só subsistem por uma casualidade feliz. Vi-me obrigado a confessar a mim mesmo, em tributo à verdadeira filosofia, que só ela podia distinguir o justo no tocante aos indivíduos e aos povos, e que os males dos homens não teriam fim enquanto verdadeiros filósofos não estivessem à cabeça dos Estados, ou enquanto aqueles que se acham no poder nas cidades não fossem, por graça dos deuses, verdadeiramente filósofos.

Tais foram as reflexões que me levaram à Itália e à Sicília pela primeira vez. À minha chegada, vi, ainda que desgostoso, a vida que se leva ali, e que ousam denominar feliz; os perpétuos festins sicilianos e siracusanos,¹ aqueles dois banquetes suntuosos diários, aquelas noites sempre passadas em bandos, e todos os prazeres análogos. Educado desde a infância em meio a estes costumes tão corrompidos, haverá um só homem sob o céu, admiráveis que sejam suas disposições naturais, que possa fazer-se sábio? Há uma só alma que se possa formar em temperança e dotada das demais virtudes? Há um só Estado que possa encontrar a paz e a estabilidade nas leis, quando seus cidadãos se imaginam dever prodigar loucamente o ouro e a prata, e quando se crê que o melhor que se pode fazer é saborear os prazeres da mesa e levar aos extremos os caprichos do amor? Necessariamente, semelhantes Estados hão de passar por todas as formas de governo, a tirania, a oligarquia, a democracia, sem repouso ou trégua, não podendo os que exercem o poder suportar nem mesmo ouvir os nomes <justiça> e <igualdade>. Eu tinha todas estas idéias presentes ao espírito enquanto percorria Siracusa. Seria talvez obra do azar, mas me parecia que nestes instantes a mão de um deus se ocupava em arrojar as sementes do que depois sucedeu a Díon e aos siracusanos, e do que ainda sucederá a vós mesmos, temo, em caso de que não sigais os conselhos que dou pela segunda vez.”

¹ Siracusa era a capital da Sicília.

seria agora ou nunca a ocasião de eu ver homens que ao mesmo tempo professassem a filosofia e governassem poderosos Estados. (…) Jamais deixei de ter bastantes reservas quanto aos humores e paixões dos jovens, pois nada há de mais inconstante. Lançam-se muitas vezes de um extremo a outro – embora neste caso a gravidade natural e a experiência de Díon me deixassem otimista.”

Se não houvera adotado este partido, tenho certeza que me considerariam o mais magnífico dos charlatães, aquele que se entretém com vãos discursos, mas que nunca age.”

Obedeci aos motivos mais justos e dignos que me mandavam partir, renunciando ao mais estimável dos gêneros de vida para ir viver sob um governo tirânico, que não parecia convir nem a meus princípios nem a minha pessoa. Mas, partindo, deixava Zeus Hospitaleiro satisfeito, assim como a filosofia, em cujas maldições teria incorrido, se me desonrara a ponto de ceder à covardia e ao temor das coisas.”

Dionísio sabia que andávamos em guarda; temeu que nossa excessiva precaução nos levasse a alguma iniciativa atrevida, e por isso nos tratou com benevolência; exortou a mim, animou-me e suplicou-me que permanecesse sempre perto de si. Neste cenário, se fugia, injuriava Dionísio; se permanecia, honrava-o. E nesse raciocínio fundavam-se suas próprias súplicas, que ele fingidamente me dirigia. Sabemos que as súplicas dos tiranos equivalem a ordens. Dionísio soube, desta feita, fazer de minha fuga algo impossível, fazendo com que eu me deixasse conduzir à cidadela, onde deu-me uma habitação que sabia ser bem-vigiada, para que nenhum capitão de navio que embarcasse no porto vindo de fora pudesse buscar-me às escondidas. A verdade é que tudo que entrasse e saísse por aquele porto dependia exclusivamente de ordens formais do tirano. Não havia um só funcionário, dos encarregados de vigiar os embarques, que não se apressaria ao palácio de Dionísio para contar-lhe as novas caso me visse tentando escapar; com efeito, seria estranha tal reação, haja vista que segundo as aparências trabalhadas por Dionísio, ele e eu vivíamos em concórdia, e ele fazia questão de dissimular que <Platão gozava de muito prestígio na côrte>, o que só aumentaria a estranheza de uma saída minha à revelia. Quanto a tais impressões, imagem compartilhada pelo populacho, o que tinham elas de fundamentadas? Dir-vos-ei. Dionísio se deixava seduzir mais e mais pelo encanto de nossas conversas e pela dignidade de minha conduta; queria que eu passara a considerá-lo mais que a Díon, dispensando-lhe mais estima que a este; para lográ-lo não media esforços. Devo dizer que ele, porém, desprezou o meio mais seguro ao alcance, se de algum podia se valer, i.e., a única maneira de exercer real atração sobre mim: aplicando-se e estudando verdadeiramente a filosofia, apropriando-se da sabedoria que tanto procurava em palavras, e unindo-se assim mais estreitamente a mim como fazem aprendiz e mestre; mas Dionísio temia, como diziam os vilões caluniadores que o rodeavam, se deixar comprometer nesse projeto, vendo assim se realizarem, em vez disso, os intentos de seu rival Díon. Eu armei-me de paciência e prossegui com a execução do plano que me havia feito desembarcar em Siracusa, esforçando-me o quanto pude a fim de inspirar em Dionísio o amor à vida filosófica.”

Se um homem está doente e observa um regime funesto à saúde, o médico que for consultado deve começar por prescrever novos hábitos; se o doente obedece, deve o médico continuar lhe dando assistência; mas se o paciente resiste aos seus conselhos, o dever de um bom e verdadeiro médico, digno de quem exerce a medicina, é se retirar, pois aquele que insistisse em tratar um tal homem recalcitrante seria tido, com razão, como despudorado e ignorante.”

Poderia eu impor meus ditames a um escravo, decerto, mas a um pai, a uma mãe? Não se lhes coíbe de ser livres sem incorrer em impiedade, a não ser que estivessem dementes. Se vivem uma vida conforme o próprio gosto e que me desagrade, que farei eu? Não é meu papel estragar a convivência e o respeito mútuo com repreensões inúteis, muito menos permanecer ao lado de tais pessoas todo o tempo, adulando e anuindo complacentemente com seus vícios. Se eles cultivam hábitos a que eu não me consagraria em hipótese alguma, o mais que posso fazer é distanciar-me em indiferença. Eis, em escala reduzida, a conduta que deve ter o sábio perante o Estado: quando vê que a polis é mal-governada, ele deve se manifestar, caso seus conselhos sejam úteis e seu prêmio não seja a morte; mas não tem o direito de fazer violência à pátria a fim de realizar uma revolução política, quando tal revolução só for alcançável mediante matanças e desterros. Seu dever, nesta hipótese, é permanecer quieto, fazendo votos aos deuses pela felicidade de seu país.”

não há prova mais evidente de vício ou de virtude que ter ou não ter a seu redor amigos dignos de confiança.”

toda vez que se cogita responsabilizar os atenienses por este assassinato abominável, é minha obrigação defendê-los. Também era um ateniense, afirmo à viva voz, aquele que se negara a trair Díon a despeito das honras e riquezas que o esperavam caso assentira. E isto foi porque a amizade que os unia não era mera mercadoria, objeto venal, mas sim fundada na comunhão de estudos liberais, que é a única que merece a confiança do sábio, porque esta confiança campeia por cima dos laços de carinho e de sangue. Os assassinos de Díon não podem lançar esta mancha sobre toda uma cidade, afinal nada que emana de gente tão vil e desprezível tem tanto poder.”

um, que rechaçou meus conselhos, vive atualmente em opróbrio; o outro, que os seguiu como ninguém, morreu coberto de honras. Sim, porque àquele que só almeja para si e para sua pátria o que há de melhor nada pode suceder que não seja justo e bom. Ninguém dentre nós é naturalmente imortal, e o que o fôra não seria por isso mais feliz, em contrário à opinião do vulgo.”

A ignorância, raiz e tronco de todos os males, produz os frutos mais amargos; ela é a que pela segunda vez transtornou nossas reformas. Mas agora usemos apenas de boas palavras, para que bons augúrios nos favoreçam nesta terceira tentativa.” “Se algum dentre vós é incapaz de viver à maneira dórica dos antepassados; se está apegado aos mesmos costumes dos assassinos de Díon, os costumes sicilianos, guardai-vos de chamar este alguém para tomar parte no governo”

Não temais nada por parte de Atenas; ali também há homens que sobressaem por sua virtude e que detestam os criminosos que assassinaram seu próprio benfeitor.”

É preciso que o partido vencedor, se quer se sustentar, escolha em seu próprio seio os que lhe pareçam os melhores, em idade provecta, e que possuam domicílio, mulher e filhos, uma larga série de ilustres antepassados e uma fortuna conveniente. Numa cidade de 10 mil habitantes, bastam 50 cidadãos com estas qualidades. É preciso atraí-los à base de súplicas e honras, e instá-los, sob juramento, a ditarem leis que estabeleçam uma igualdade perfeita entre os cidadãos sem favorecer mais aos vencedores que aos vencidos. Estabelecidas estas leis, vede do que tudo o mais depende. Se os vencedores se submetem às leis com mais gosto que os próprios vencidos, tanto melhor: estão assegurados o bem-estar e a felicidade; todos os males desaparecerão como que por encanto; de modo que não há a mínima necessidade de chamar-me a mim ou a alguém em absoluto ou em específico para tomar parte no governo, se este mesmo governo faz-se surdo aos bons conselhos. Difere este projeto que ditei bem pouco daquele que concebêramos Díon e eu, movidos por nosso zelo, para Siracusa, e que não era senão o segundo projeto desta ordem. O primeiro consistia em conseguir do próprio Dionísio que governasse para todos os cidadãos. Mas a sorte, mais poderosa que os homens, a isso se opôs. Procurai levar as reformas a termos melhores, com a permissão da fortuna e o auxílio dos deuses. (…) Quanto a minha segunda viagem, vou provar a quem queira ler até o final que fui obrigado pela razão e aconselhado pela prudência. (…) Fiz o quanto pude ante Dionísio para que me deixara partir, e convimos nisso: que quando se fizesse a paz – porque naquele momento a guerra devastava a Sicília – e quando se houvesse afiançado seu poder, Dionísio chamar-nos-ia a ambos, Díon e eu, em sua presença. Mas, até a chegada deste dia, queria que Díon considerasse seu afastamento da pátria não como um desterro, mas como mera viagem. Eu dei minha palavra a Dionísio que voltaria sob estas condições. E, chegada a paz, Dionísio voltou a chamar-me, mas em <súplicas> de que eu fosse primeiro, e que Díon se juntasse a nós dois somente mais tarde, dilatando sua volta por mais um ano (…) Díon mesmo me escreveu rogando a que eu me dirigisse à Sicília sem ele. Corriam rumores de que Dionísio se encontrava cegamente apaixonado pela filosofia. Díon acreditava nas notícias, e alegava que eu não devia titubear e que embarcasse o quanto antes. Não ignorava eu que os jovens às vezes se sentem impelidos pela filosofia; no entanto, cri mais seguro nem aceder às instâncias de Díon nem às de Dionísio. Nisso desagradei a ambos – respondi suas cartas dizendo que já era muito velho para essas viagens e que, ademais, Dionísio faltava com a palavra, pois que o combinado fôra que Díon voltasse imediatamente e se reunisse conosco. Enquanto isso, Arquitas viajou por sua vez a Siracusa e se encontrou com Dionísio. Antes de minha partida quando lá estive a primeira vez, facilitei-lhe o trânsito, deste e de outros filósofos tarentinos, pela côrte. Sem falar que também se encontravam em Siracusa outros que haviam estado presentes nos discursos de Díon, gente mais ou menos versada em matérias filosóficas. (…) Dionísio não era incapaz de entender estes assuntos, sendo dotado de um imenso amor-próprio; comprazia-se muito com esse tipo de discussões, mas temia, por outro lado, acabar por perceber ou deixar que outros percebessem que ele próprio não havia penetrado fundo o bastante nas lições que eu dera; esse temor o inspirou a conhecer mais distintamente a minha filosofia, inflamando mais e mais sua ambição.”

Voltando a me convidar, já pela terceira vez, Dionísio enviou-me um navio para tornar a viagem mais cômoda, bem como colocou na nave Arquidemo, um siciliano a quem Dionísio sabia que eu muito estimava, e com ele outros sicilianos ainda, todos figuras importantes. Todos se dirigiram a mim do mesmo modo, dizendo que o interesse que Dionísio tomara pela filosofia era uma coisa admirável. Não só isso, mas Dionísio enviou-me uma carta muito longa, insistindo em minha forte ligação com Díon, e no quanto este último mesmo desejava meu traslado imediato a Siracusa.”

Se te deixas convencer e vens à Sicília, os negócios de Díon serão resolvidos a teu contento. O que me pedires haverá de ser razoável e to concederei. Mas se resistes, Platão, nada espera de favorável, nem quanto à integridade de Díon nem quanto a seus bens.”

Eu mesmo achava apenas natural que um jovem dotado de belas disposições, depois de haver rechaçado, ao princípio, a filosofia, a ela acabasse por se voltar. Eu devia, portanto, esclarecer suas verdadeiras intenções, e não desperdiçar aquela oportunidade de encontrar um jovem rei que possivelmente se inclinasse à sabedoria para governar; nem me permitiam as circunstâncias que eu me acovardasse, o que mereceria as mais graves censuras de Díon, se ele estivesse correto.”

Cheguei, então, à Sicília pela terceira vez, protegido por Zeus Salvador. Porque se eu salvei minha vida, é sem dúvida a este deus que o devo, assim como ao próprio Dionísio. Quando muitos na côrte queriam minha cabeça, o tirano a isso se opôs, e me tratou sempre com certo respeito.”

Alguns estão persuadidos de que sabem quanto há que saber, e que não necessitam saber um grão a mais. Eis a prova mais clara e mais certa para julgar os homens entregues à preguiça e incapazes de se dedicar ao trabalho árduo.”

Não sucede com esta ciência (a filosofia) o mesmo que com as demais, porque não se transmite pela palavra. Depois de repetidas conversas, depois de muitos dias passados em mútuas meditações acerca destes problemas, é que esta ciência surge, de repente, como a faísca que emana do fogo ardente, e se apresenta como alimento à alma.”

estou convencido de que não é conveniente mostrar estas coisas aos homens; só aos poucos capazes de descobrir estas coisas por si mesmos depois de rápidas alusões. Quanto à multidão, nada mais far-se-ia que inspirar em uns – os tontos – um injusto desprezo por estas coisas; e em outros – aqueles que se crêem em posse dos mais sublimes conhecimentos – soberba, vaidade e presunção.”

Em todo ser a ciência tem necessidade de 3 coisas elementares, que dão azo a 2 resultados, que chamaremos de mais 2 coisas, uma quarta e uma quinta. Começando pelo fim, a quarta coisa é a ciência em si. A quinta é a verdade. A primeira das 3 coisas que a ciência requer? O nome. A segunda? A definição. A terceira? A imagem. Com estas 3 chega-se à quarta. Tomai um objeto qualquer, a fim de compreender melhor o que eu disse; então podereis sem dúvida dizer que o mesmo princípio se aplicará a todos os demais objetos dignos de ser pensados. Seja o círculo, então, nosso objeto. Tem um nome: círculo. Tem uma definição, composta de nomes e de verbos, a saber: aquele cujos extremos estão equidistantes do centro. Tal é a definição não só de círculo, mas de esfera e circunferência. Tem uma imagem, o desenho que se traça e que se apaga, a figura que se fabrica e se destrói. Quanto ao círculo em si, ele não é nem o nome, nem a definição e nem a imagem. Ele é essencialmente diferente de tudo que dissemos. O que se chama ciência, ou conhecimento, é a opinião correta quanto ao círculo. Vede que todas as 5 coisas, ao final, estão interligadas, e formam, se se quiser, uma unidade. Esta unidade não reside nem na linguagem nem na figura do corpo (matéria), mas está impressa na própria alma, o que prova que este novo elemento é de outra natureza que todos os fenômenos, ou seja, que o próprio círculo <formal> ou <real> e que as três coisas de que ele é externamente composto (nome, definição, figura). Pois agora, se acrescentamos a ciência ou conhecimento ou inteligência, a quarta coisa, às três precedentes, vemos que a inteligência é a que tem mais parecença e semelhança em relação à quinta coisa, a verdade. As demais encontram-se infinitamente distantes. O mesmo se aplica às figuras retilíneas ou esféricas, às cores, ao bem, ao belo, ao justo, aos corpos fabricados pela mão do homem ou produzidos pela natureza, o fogo, a água e seus análogos, a toda espécie de animais e aos diversos modos de ser das almas, às ações e paixões de todos os gêneros. Sem as 4 primeiras coisas, não se chega à quinta. O homem não aspira menos a compreender as qualidades das coisas do que a compreender sua própria essência, mesmo que nossa razão pareça insuficiente para tamanha proeza. Pois bem: essa impotência da razão será sempre um obstáculo para que um homem perspicaz e talentoso ordene seus pensamentos em sistema, em sistema imutável, como sucede quando está escrito e fixado com caracteres permanentes. (…)

Cada um dos círculos desenhados ou fabricados, de que nos servimos na prática, está cheio de contradições com o quinto elemento (a verdade), porque em todas as suas partes se encontram a linha reta, quando o círculo verdadeiro não pode ter em si mesmo, nem em pequena nem em grande quantidade, nada que seja contrário a sua natureza. O nome com que designamos estas coisas não tem, tampouco, fixidez nenhuma, e nada impede de se chamar reto ao que chamamos de esférico, nem de chamar esférico ao que chamamos reto, e uma vez feita essa inversão de sentido estranha ao uso habitual o novo nome não seria menos fixo que o primeiro. O mesmo sucede com a definição; composta de nomes e verbos que não são fixos, como poderia sê-lo ela mesma? Há mil provas da incerteza de nossos 4 primeiros elementos, mas a maior está na distinção que acabo de enunciar entre essência e qualidade. Quando a alma tenta conhecer não a qualidade, mas a essência, somente cada um de nossos 4 elementos é que se apresenta, tanto nos raciocínios quanto nas coisas (círculos, rodas, conceitos, palavras como virtude ou política), contradições sensíveis quanto ao que se diz e ao que se mostra; portanto, o espírito de todo homem se entrega a mil dúvidas e mil obscuridades. Esta é a razão porque, nas coisas em que não temos o costume de buscar a verdade, devido a nossa má educação, e nas coisas que nos contentamos em definir como verdadeiras à primeira vista, sem mais reflexão, em nenhum desses casos nos ocorre de considerarmo-nos uns aos outros ridículos, quando assim procedemos, porque podemos sempre discutir e refutar estes quatro princípios. Mas nas coisas em que exigimos rapidamente, e impreterivelmente, o quinto elemento, e que se o demonstre, aquele que sabe refutar os demais não necessita mais que empregar sua arte a fim de vencer aos olhos dos outros, e impressionar quantos ouvintes houver, fazendo-os crer que não sabem absolutamente nada das coisas sobre as quais põem-se rotineiramente a discursar e escrever. E nesse engodo caem todos, porque se ignora muitas vezes que não é o espírito do escritor ou do orador aquilo que se refuta, mas o vício inerente aos 4 princípios. Recorrendo com a razão todos esses elementos, e examinando de um extremo a outro cada um deles, mal se pode chegar à ciência, e isto quando as coisas estão excelentemente dispostas e o próprio espírito do sujeito bem-preparado. Aqueles que não têm uma predisposição natural para as ciências e a virtude, e são muitos os que se encontram neste triste estado, não poderiam ver ainda que tivessem os olhos de Linceu. Em uma palavra, sem afinidade com o objeto que se pretende conhecer, nem a inteligência nem a memória são coisa alguma, porque nada se colhe de um terreno estéril. De sorte que nem aqueles que não têm afinidade natural para o justo e para o belo – ainda que dotados de inteligência e memória –, nem os que têm essa afinidade – mas que se encontram despidos de inteligência e memória –, chegam a conhecer toda a verdade que se pode conhecer no que toca ao vício e à virtude.”

Por tudo isso é que um homem sério que estuda coisas sérias se guardará sempre de escrever para a massa, a fim de não atrair a inveja e outros mil desgostos desnecessários. Donde concluímos, ao encontrarmos um livro de um legislador que comenta as leis, p.ex., que o autor jamais fala a sério, ainda que seja um homem demasiado sério, porque deixou reservada para si mesmo a melhor parte daquilo que tinha a dizer. Se ele realmente tivesse depositado num escrito seus mais graves pensamentos, nada mais restaria a dizer. Não, não são os deuses senão os homens mesmos os que privaram-no da razão!”

Não há risco de se perder estas verdades íntimas, uma vez que o ânimo as compreendeu muito bem; não há coisa que se compreenda mais depressa.”

Me parecia dever acusar não tanto a Dionísio como a mim próprio, e aqueles que me haviam comprometido a cruzar pela terceira vez o estreito de Cila, e de arrostar-me outra vez com a fatal Caribde.”

Não pude persuadir Díon e os seus, e sua obstinação foi a causa de todas as desgraças que sobrevieram; desgraças que não haveriam tido lugar, tanto quanto se pode dizer dos negócios humanos, se Dionísio houvera devolvido a Díon sua fortuna ou, ainda melhor, se se houvera reconciliado com ele, porque, então, haveria eu podido facilmente, com meus conselhos e minha autoridade, conter o ímpeto de Díon.”

Aí tendes como portou-se Díon; preferindo mil vezes sofrer a injustiça que cometê-la, e esforçando-se, contudo, para livrar-se dela se possível, sucumbiu no momento em que ia triunfar sobre seus inimigos, sem que esse resultado possa nos admirar. De que é que o homem virtuoso pode se assegurar, sendo sábio e prudente em meio a malvados? Como poderia ele estar imune ao que pode suceder ao melhor dos pilotos, que, conquanto preveja a tempestade, nem por isso pode sempre fazer frente ao extraordinário furor dos ventos desencadeados tão de repente, violência que pode facilmente produzir vítimas fatais?”

Agora já sabeis os conselhos que devo dar-vos, e nada tenho que acrescentar a esta carta. Me pareceu dever explicar-vos os motivos que me obrigaram a empreender uma segunda viagem à Sicília, diante dos ruidosos e calamitosos sucessos que se deram mais tarde, e que poderiam ser considerados efeitos, enquanto que minha viagem seria a causa.”

(Pseudo?) EPÍNOMIS OU O FILÓSOFO // Popularmente conhecido como “Leis XIII” // “DA ASTRONOMIA” ou “A ASCENDÊNCIA DO SÁBIO” seriam minhas sugestões de título.

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Na série que envolve as obras provavelmente inautênticas (identificadas pelo prefixo (Pseudo) no título), dou minha opinião pessoal ao final, contextualizando o escrito face à obra platônica canônica.

CLÍNIAS – Cá estamos reunidos novamente nós três, como havíamos disposto, tu, Estrangeiro, Megilo e eu, a fim de examinar de que maneira trataremos o tema da prudência, que, em nossa opinião, prepararia perfeitamente o homem que a houvesse adquirido para obter toda a sabedoria de que a natureza humana é capaz. Os demais pontos da legislação, nos parece que já os tratamos suficientemente. Esta questão remanescente, por outro lado, talvez seja a mais importante. Resumindo, o problema seria: que ciências podem fazer do homem mortal sábio?¹ Isto ainda não conseguimos esclarecer. Dediquemo-nos a sua resolução no dia de hoje. Do contrário, deixaríamos esta obra – a constituição da nova polis – imperfeita. Ademais, a nada se destinava nossa conversação anterior senão à compreensão cabal dos altos valores, tais quais a própria prudência.

ATENIENSE – (…) A maior parte dos que têm experiência de vida está conforme em dizer que o gênero humano não pode chegar à verdadeira felicidade. Escutai-me, e vede se neste ponto penso como esta maioria. Convenho em que é absolutamente impossível aos homens o ser verdadeiramente feliz, com a exceção de uma casta privilegiada, se bem que a verdade desta proposição me parece limitada à vida presente, e sustento que todo homem tem uma esperança legítima de gozar, depois da morte, daqueles bens, pelos quais, afinal, esforçara-se tanto sobre a terra em seguir uma vida virtuosa até o fim.

¹ Para resumir de forma ainda mais direta a pergunta-mote: Como um sábio se torna um sábio? Infelizmente diria que a resposta CERTA a esta pergunta não está em lugar algum de nossos milênios de filosofia.

a sabedoria se afasta de nós à medida que nos aproximamos do que chamam artes, conhecimentos e todas as demais ciências parelhas que tomamos falsamente por ciências, porque nenhum dos conhecimentos que têm por objeto as coisas humanas merece este nome.”

O primeiro passo é enumerar todas as ciências que levam vulgarmente este nome, ainda que não comuniquem a sabedoria”

se aquele que as possuiu pôde passar-se por sábio em tempos mui recuados, hoje, longe de ser um título de sabedoria, possuir conhecimento nestas pretensas ciências é um motivo de críticas amargas e injuriosas.”

A primeira arte, se havemos de crer na tradição, é a que fez com que os primeiros homens deixassem de se alimentar de carne humana, ensinando-os a se servir da carne dos animais. Perdoem-me os homens destes séculos remotos; mas não são estes os sábios que buscamos.”

Outro tanto deve-se dizer, pouco mais ou menos, de toda classe de agricultura.”

A construção de casas e a arquitetura, a arte de trabalhar toda classe de móveis em metal, madeira, barro, tecidos, de fabricar ferramentas de todo gênero; todos estes procedimentos são, sem dúvida, úteis à sociedade, mas nada têm que ver com a virtude.

Igualmente, a arte da caça, que abraça tantos objetos e supõe tanto trabalho, não dá nem grandeza de alma nem sabedoria; tampouco a arte da adivinhação e da interpretação dos augúrios, as quais concebem unicamente o sentido das palavras, mas ignoram a verdade última das próprias palavras.”

Passemos a examinar as artes de puro entretenimento, que são imitativas na maior parte e que nada têm de sério. Imitam por meio de uma infinidade de instrumentos, e dão ao corpo diferentes atitudes, que não são de todo decentes. Por exemplo a prosa ou qualquer modalidade de escrita em versos; outras artes são filhas do desenho e expressam uma infinidade de figuras diferentes, com materiais secos ou brandos.”

Depois de todas essas artes, temos outras cujo fim é ser úteis ao homem numa infinidade de ocasiões. Delas, a mais importante e variada é a arte da guerra.” “Sem dúvida que a arte que leva o nome de medicina nos presta grande auxílio contra os estragos que as estações, o frio, e o calor extemporâneos, bem como outros acidentes, causam aos seres animados.” “O mesmo sucede com os que se dedicam a defender os direitos dos outros ante os tribunais, mediante o talento com as palavras. Todo seu mérito consiste em possuir memória e conhecer certa rotina; são capazes de discernir o que a praça pública chama de ‘justo’.”

Seria preciso descobrirmos alguma ciência que dê a quem a possui uma sabedoria real e não apenas aparente.”

Chame-se-o mundo, Olimpo ou céu, pouco importa, contanto que, elevando-se à verdadeira contemplação deste deus, observe-se como ele se apresenta sob mil disfarces.” Este trecho é fundamental para compreender o restante do diálogo, principalmente o conceito de “oitavo planeta”, “oitavo céu” ou ainda de “mundo superior”.

se o número fosse retirado da humanidade, a prudência far-se-lhe-ia impossível.”

e todo aquele que não tem sabedoria, que é a parte principal de toda virtude, não podendo fazer-se perfeitamente bom, não pode pelo mesmo motivo chegar à felicidade.”

não é dado a todo mundo compreender toda a virtude e eficácia da essência dos números. É evidente, p.ex., que a música em seu conjunto não pode existir sem movimentos e sem sons medidos pelo número. O mais admirável é que esta ciência, ao mesmo tempo que é origem de todos os bens, não é origem de nenhum mal, coisa de que é fácil se convencer.”

Dizei-me: donde provém nosso conhecimento acerca da unidade e do número dois? Nós, que somos os únicos seres do universo dotados naturalmente da capacidade de refletir?” “o céu não cessa de ensinar aos homens o que é 1 e o que são 2, até que mesmo o mais estúpido tenha aprendido a contar; porque esta mesma série de dias e noites ensina a cada um de nós o que são 3, 4 e muitos.”

são cinco os corpos elementares: o fogo e a água; o terceiro o ar, o quarto a terra, e o quinto o éter.” Cheirado.

Tomemos pela primeira unidade a espécie terrestre, que compreende todos os homens, todos os animais, de muitos pés e sem nenhum, todos os que se movem e os que são imóveis e estão presos por raízes.”

Na segunda espécie, coloquemos outros animais, cuja natureza consiste em ao mesmo tempo serem produzidos e estarem submetidos pelo sentido da visão. Estes participam principalmente do fogo, mas neles também entram pequenas porções de terra, de ar e de outros elementos. Desta mescla resulta uma infinidade de animais que são diferentes entre si, todos visíveis. É preciso crer que estes animais são os que vemos na abóbada celeste, e cuja reunião forma a espécie divina dos astros.”

A espécie terrestre se move sem nenhuma regra; a espécie ígnea, ao contrário, tem seus movimentos definidos por uma ordem admirável. Mas tudo o que se move sem ordem alguma deve ser considerado como desprovido de razão; e neste caso se encontram, com efeito, quase todos os animais terrestres.”

A necessidade que domina a alma inteligente é a mais forte de todas as necessidades, posto que é por suas leis, e não pelas de outros, que semelhante alma se governa”

O diamante mesmo não tem mais solidez e consistência, e pode-se dizer com sinceridade que as três Parcas mantêm e garantem a execução perfeita do que cada um dos deuses resolvera baseado na mais sábia das deliberações.”

Mas, por incrível que pareça, alguns homens, ao perceber que os astros fazem sempre as mesmas coisas, e da mesma forma, creram, por esta mesma razão, que os astros não possuíam alma!” “o que se deve reconhecer como dotado de inteligência é precisamente aquilo que faz sempre as mesmas coisas”

ZEUS & OS DEMÔNIOS NA TERRA DO SOL

Para demonstrar que temos razão em sustentar que os corpos celestes estão animados, basta que fixemos nossa atenção em sua magnitude; porque não é certo que sejam tão pequenos como nos parecem; antes, pelo contrário, sua massa é de uma densidade prodigiosa, o que ninguém pode negar, porque isso se apóia em numerosas provas. Assim, não haverá equívoco em supor o corpo do sol maior que o da terra. Sem falar que os outros corpos celestes têm também uma magnitude que a simples imaginação do homem é incapaz de graduar. Agora, dizei-me, por favor: que natureza poderia imprimir a massas tão gigantescas um movimento circular, que há tantos séculos é exatamente o mesmo de hoje?“não é falar de forma inteligível o atribuir a causa desses movimentos a não sei que força inerente aos corpos, a certas propriedades ou a outras coisas semelhantes.”

Depois do fogo, insiramos o éter e digamos que a alma forma com ele uma espécie que, semelhante neste ponto às outras espécies, participa principalmente do elemento de que está formada, entrando os outros elementos em quantidade bem menor, e só na medida em que são necessários para unir todas as partes. Depois do éter vem o ar, do qual a alma forma outra espécie de animais. Enfim, a terceira espécie se forma da água.”

Com respeito aos deuses conhecidos com os nomes de Zeus e Hera, e todos os outros, podem ocupar o ponto que se queira, contanto que não se altere por isso a ordem que acabamos de estabelecer, e que não se nos desminta. É preciso, pois, afirmar que os astros e todos os demais seres que julgamos através dos sentidos, que foram inclusive formados com e por eles, são, entre os deuses visíveis, os primeiros, os maiores, os mais dignos de honra, e aqueles cuja visão é mais perspicaz. Imediatamente após, situam-se os demônios, espécie aérea, ocupantes do terceiro lugar, mediano, servindo de intérpretes aos homens. (…) Estas duas espécies de seres animados, uns de natureza etérea, outros de natureza aérea, não são visíveis para nós, e por mais que estejam próximos de nós não conseguimos percebê-los.”

Só Deus, que reúne em si a perfeição da divindade, está isento de todo sentimento de alegria e de tristeza; dele são próprias a sabedoria e a inteligência supremas.”

A água é o elemento da quinta espécie de animais que podemos citar como pertencentes à linhagem dos semi-deuses. Algumas vezes se revelam a nós, outras se ocultam; mal vemos traços de sua existência e a visão espectral que deles obtemos vem sempre acompanhada de uma indisfarçável surpresa.” Um velho hábito de endeusar jubartes e monstros que-tais…

PLATÃO CONTRA O FILHO CRISTIANISMO

A razão [de a palavra planeta não ter nome na língua grega] é que o primeiro a descobri-los foi um bárbaro. Os primeiros nomes que se empregaram nesse estudo provêm de civilizações mais antigas que a nossa e favorecidas pela beleza do estio, isto é, pela clareza e transparência do firmamento no verão em seus países. Falo do Egito e da Síria, onde os sábios podiam monitorar livremente todos os astros, que não se escondiam atrás de véus. As nuvens e as chuvas davam sempre trégua nessa estação. Suas longas e insistentes observações, acumuladas durante uma série infinita de anos, são um conhecimento hoje assimilado por quase todos os povos, particularmente pelos gregos. Por isso é que podemos aceitar suas lições com confiança, como aceitamos outras leis que nós mesmos descobrimos. Pretender, aliás, que o que é divino não mereça nossa veneração, ou que os astros não sejam divinos, é uma extravagância manifesta.”

a estrela da manhã, que também é, em verdade, a estrela da tarde,¹ parece chamar-se Vênus,(*) nome que, de acordo com o sírio que a nomeou, é o que mais convém a este astro. O segundo astro, que caminha conforme o sol e Vênus, chama-se Mercúrio. Há ainda três poderes que se movem da esquerda para a direita, como o sol e a lua. Com respeito ao oitavo,² deve-se compreendê-lo sob um só nome, e nenhum é melhor que o de mundo superior,³ que segue um movimento oposto ao das demais estrelas, arrastando-as em sua esfera de ação,4 pelo menos assim julgamos, com nossos parcos conhecimentos neste ponto.”

(*) “Vênus foi conhecida e reverenciada pelos povos orientais com diferentes nomes: Astarte (Astarote), Milita, Alita, Derceto, Atargátide, Ishtar. Ver Heródoto, 1:105 e Luciano, De dea Syria, 100:22.”

¹ É notável que já a geração de Platão reconheça sem controvérsia que as supostas “estrela da manhã” e “estrela da tarde” não eram 2 corpos celestes, senão um e o mesmo, descoberta atribuída a Pitágoras, do século anterior ao platônico.

² A terra, com letra minúscula, inclusive, em nossa notação (os gregos não diferenciavam minúscula e maiúscula), não era considerada um “planeta”. Mas temos então a lista para formar os 7 astros que enumera Pseudo-Platão, antes, naturalmente, de explicar do que se trataria o misterioso oitavo, na nota nº 3 (e é bom que não discriminemos, como astrônomos modernos que somos, planetas, estrelas e satélites, o que então não se fazia): o sol (1), a lua (2), a Estrela d’Alva ou Vênus (3), Mercúrio (4), e os “3 poderes” que Ps.-Platão cita em seguida. De fato, além de Marte (Ares), Júpiter (Zeus) e Saturno (Cronos), dentre os planetas do sistema solar que estão mais longe do sol que a Terra (no cinturão exterior), não havia outros que pudessem ser percebidos a olho nu. A rigor, Urano o pode, em condições extremamente favoráveis, mas sua descoberta enquanto planeta se deu só com a ajuda do telescópio, já no séc. XVIII.

³ Até o trecho mais adiante, em que Pseudo-Platão finalmente enumera os três corpos dos quais ainda não havia falado, o leitor contemporâneo leigo fica na dúvida, deixado em suspenso, se o Ateniense descreve realmente um “planeta”, que entende ter um movimento circular e “na contra-mão” dos outros. Mas o leitor familiarizado de Platão já sabe que ele não nomeará nenhum planeta: descreve poética e filosoficamente, de forma sem sombra de dúvida derivada da escola pitagórica, a simples abóbada celeste como este misterioso “mundo superior”, uma vez que, como bem sabemos através da obra canônica de Platão, muito se valorizava a questão da harmonia e perfeição do céu que serviria para validar sua Idéia e Divindade, então ele criou este artifício explicativo, até para contemplar o número 8 e associá-lo à escala musical e à figura tridimensional por excelência (o cubo).

A abóbada celeste também evoca o Um de Parmênides, posto que o firmamento ou “todo o céu visível” seria a quimera conceitual de Platão a fim de evocar o real perfeito e acabado, fechado em si mesmo. A redoma definitiva e inultrapassável pela mera intuição do homem.

Auxiliarmente, podemos dizer que a idéia de céu e firmamento sempre nos remete a Urano, o avô de Zeus na mitologia, mas não levar isso seriamente e tentar ligar os pontos no âmbito da Astronomia! Eis um planeta que foi batizado por causa da influência universal do mito grego e não por terem os astrônomos gregos conseguido identificá-lo nalgum momento sob qualquer forma – hipótese esta completamente descartada por nossa historiografia e teoria do conhecimento.

4 Possível vislumbre da força da gravidade?

Temos, pois, que falar ainda de 3 astros, dentre os quais o mais lento no céu é chamado por alguns de Saturno, assim como o segundo em velocidade é chamado de Júpiter; Marte é o mais veloz, e o de cor vermelha e mais intensa.”

Também é indispensável que todo grego saiba que o clima da Grécia é, com bastante probabilidade, o mais saudável de todos para a formação da virtude. Sua principal vantagem consiste em que sua temperatura é um meio-termo entre o frio do inverno e o calor do verão. Não obstante, como nosso verão não é tão sereno como o dos países que comentei, não fomos propiciados senão muito mais tarde com o conhecimento da ordem destes deuses no céu. Por outro lado, tenhamos em conta que os gregos trataram de aperfeiçoar tudo o que receberam dos bárbaros; e sobre o objeto que tratamos (a prudência), devemos nos persuadir de que, se foi difícil descobrir tudo isto com segurança, devemos nos prometer, entre nós gregos, que o ensino de tal objeto, bem como o devido culto a todos os deuses da forma mais racional possível, com o auxílio do oráculo de Delfos, fiel na observância das leis, hão de ser proporcionados às futuras gerações. E que culto e reverência mais perfeitos que o próprio estudo da Astronomia? Assim nos distanciaremos das tradições irracionais dos bárbaros. E que nenhum grego tema ou censure, tampouco, indagações mortais sobre as coisas divinas, crendo que seria um tabu questionar-se ou até mesmo pronunciar-se sobre estas coisas. Afinal, Deus sendo previdente, dotado de razão e em nada ignorante da extensão da inteligência humana, por que haveria Ele de duvidar, quando é Ele mesmo quem ensina, que os homens estão aptos a aprender sobre o assunto? (…) Se Deus desconhecesse o potencial da razão humana, seria o mais insensato de todos os seres, porque neste caso Se desconheceria a Si próprio, ofendendo-Se ao julgar que o homem não deveria se dedicar a aprender o que Ele sabe, ou seja, julgando que o homem não pudesse ser de fato homem! Porque seria um ser invejoso se testemunhasse os esforços humanos para se aperfeiçoar com o auxílio da própria sabedoria divina, e nisso não Se regozijasse!”

Com efeito, necessita-se certo temperamento, uma mescla de lassidão e vivacidade, para que uma alma se mostre ao mesmo tempo suave, dócil, digna e receptiva às lições da temperança. Também é necessário que a essas qualidades se una, para a prática das ciências, uma boa memória, que faça o sujeito derivar prazer do próprio estudo; do contrário, ele jamais se consagraria a esta profissão. (…) é uma necessidade para as pessoas desta feliz condição aprenderem a sabedoria, como é para mim o ensiná-la.¹ Tratemos, portanto, de explicar, aplicando nossas luzes, e segundo a capacidade das pessoas para quem me dirijo, qual é esta ciência própria para inspirar a piedade com respeito aos deuses, e como se a deve aprender. (…) Ignorais acaso que é indispensável que o verdadeiro astrônomo seja também muito sábio? Não falo daquele que observa os astros segundo o método de Hesíodo ou de autores semelhantes, limitando-se a estudá-los quando nascem e se põem, senão daquele que, dentre as 8 revoluções, compreendeu pelo menos as revoluções dos 7 planetas,² cada um dos quais descreve sua órbita de uma maneira diferente, coisa que não é possível ao homem comum conhecer”

¹ Para mim, esta frase sozinha serve como prova de que Platão não é o autor do escrito. Quem leu O Banquete sabe muito bem…

² Como dito, os gregos conheciam 5 planetas, com exclusão da Terra: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Urano, Netuno e Plutão, este último rebaixado a menos-que-planeta no século XXI, são descobertas modernas, relativamente recentes. Portanto, a contagem “7 planetas” na verdade inclui o sol e a lua, pois na idade de Platão pensava-se que o sol orbitava a terra e que era uma esfera sólida como os demais corpos visíveis no firmamento.

Mas por que venho falando do firmamento como esta “oitava revolução”, se não há qualquer menção explícita a isso nesta obra? Porque ao comentar que há oito revoluções mas que só sete são “de planetas”, o Ateniense ou Estrangeiro confirma mais uma vez que a oitava revolução é a da abóbada celeste, que governa todos os astros. É como se o Ateniense, pedantemente, dissesse: “Filósofos (logo, políticos e legisladores da República perfeita) há que compreenderiam as revoluções dos 7 planetas, e isso já nos basta para termos a melhor polis. Se o critério a fim de formar os governantes desta cidade fosse ainda mais rigoroso, é mesmo possível que apenas alguns homens muito privilegiados e eu mesmo pudéssemos ocupar a posição, o que inviabilizaria este projeto.”

JULGAMENTO DA AUTENTICIDADE DA OBRA

Epínomis possui uma indisfarçável estilística platônica, mas sua dialética é tão irregular e contraditória, beirando a escolástica, que mais me parece um esboço que resultaria na versão definitiva d’A República VII, sendo otimista e condescendente. Sendo mais pragmático, entendo este livro como uma falsificação, posterior à vida de Platão. Para acompanhar meu raciocínio, recomendo apreciar o capítulo 7 da magnum opus citada em seus melhores momentos: https://seclusao.art.blog/2019/07/21/a-republica-livro-vii/.

A Astronomia jamais seria a ciência mais importante na República perfeita. Mas entende-se por que o vulgo batizou a obra de Leis 13: o Ateniense terminava aquele extenso diálogo (Leis 12) afirmando que a ciência política (a ciência do conhecer-se, no fundo) não era exata (ao ponto disso se ter tornado um enorme pleonasmo hoje em dia, embora não o fosse na época de Platão). Sendo assim, interpretaram esse dito como se o político devesse se dedicar a conhecimentos mais exatos ao invés de depender da sorte. Mas foi uma interpretação realmente ingênua! A política só pode ser feita arriscando-se, e entre homens, e será sempre uma coisa incerta, seja Grande Política ou política mesquinha… Nunca se fará através das estrelas! Platão jamais incorreria num erro tão lastimável… Fosse este o pensamento de Platão, e Aristófanes ser-lhe-ia um pensador infinitamente superior (ler As Nuvens)!

A REPÚBLICA – Livro IX

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

– De que desejos falas?

– Falo dos que são despertados durante o sonho; quando esta parte d’alma, que é racional, pacífica e está constituída a propósito para comandar, encontra-se como que inativa, e a parte animal e feroz, excitada pelo vinho e pela boa comida, se rebela e, rechaçando a dormência e a letargia da parte saudável do organismo, tenta sobressair e satisfazer seus apetites nesse ínterim. Sabes que em tais ocasiões esta parte d’alma se atreve a qualquer coisa, como se houvesse se libertado, através da violência, de todas as leis da conveniência e do pudor; não se priva, em sua fantasia, nem mesmo de dormir com a própria mãe nem com nenhum outro ser, humano, divino ou bestial. Nenhum assassinato, ademais, nenhum alimento indigno, causam-lhe horror; em suma, não há ação, extravagante e infame que seja, que não se sinta preparada a executar.

– Proferes uma grande verdade.

– Mas quando um homem se conduz sóbria e justamente; quando antes de se entregar ao sono reanima a chama da razão, alimentando-a com reflexões saudáveis, conversando consigo mesmo; quando, em que pese sem saciar a parte animal, concede-lhe aquele mínimo que seria impossível recusar, para que se ponha tranqüila e não turve, com sua euforia ou melancolia, a parte inteligente d’alma; quando este homem mantém a parte inteligente d’alma idêntica a seu ser, pura e natural, a fim de continuar suas observações sobre aquilo que ignora acerca do passado, do presente e do futuro; quando este homem apazigua assim dessa maneira a parte em que reside a impetuosidade, recolhe-se tranqüilo e sereno ao leito, sem ressentimento contra criatura alguma; enfim, quando, a despeito da inquietude das outras partes, põe em movimento aquela terceira (a residência do juízo), então vê mais facilmente a verdade e não se sente importunado por fantasmas impuros nem sonhos criminosos.”

Não seria essa a razão de Eros ter sido chamado depois de tirano?

– Me parece que tens razão.

– O homem embriagado, não tem também tendências à tirania?

– Óbvio que as tem.

– Igualmente, um homem demente não imagina acaso que é capaz de mandar nos demais e até nos deuses?

– Não duvido.

– Então, diz-me, que é o homem tirânico? Algo diferente de alguém a quem a natureza, ou a educação, ou ambas, tornaram ébrio, apaixonado e louco?

– De forma alguma.”

– Assim seja. Tudo se tornaria uma grande festa: jogos, festins, bebedeiras e banquetes, cortesãs e toda sorte de prazeres imagináveis, aos quais Eros o tirano arrojará esta classe de homens, i.e., o homem que deixou que Eros penetrasse em sua alma, dirigindo a partir daí todas as suas faculdades.

– Em absoluto.

– E a torrente de desejos, dia e noite, não irá se avolumando, desejos tão indômitos quanto insaciáveis?

– Uma torrente interminável, com efeito.

– E assim as rendas deste homem, se é que as tem, vão-se de pronto desmilingüir nessa busca infrutífera de satisfação.

– Como não?

– E aí tens os empréstimos; sua fortuna estará inteiramente comprometida.

– E que remédio teria ele contra essa inelutável dissipação, Sócrates? Seria sua sina.”

agora que o amor se tornou seu tirano, conduzirá todo homem torpe, cem vezes ao dia, às mesmas ações que raras vezes, antigamente, experimentava, e apenas em sonhos. Nem os assassinatos, nem as terríveis orgias, nem todo tipo de crime terão fim, porque, preenchida de amor tirânico, a alma humana cultivará a licença e o desprezo por todas as leis”

– Este homem já apresentava esse caráter na vida particular muito antes de assumir o governo. Está invariavelmente cercado de uma multidão de aduladores, muito solícitos a seus ímpetos; se não é este o caso, é porque é ele um dos aduladores dessa multidão, bajulando um outro qualquer, rastejando frente a outro de sua laia; mas uma vez que este dissoluto, esteja em posição de protagonista ou de simples lacaio, haja obtido aquilo que a princípio desejava – o poder –, virará as costas a todo bajulador, ídolo ou <amigo>.

– Isso é evidente.

– Ao cabo vês: estes homens passam a vida inteira sem ser amigos de ninguém, sendo donos ou escravos exclusivamente de vontades alheias, porque é um sinal do caráter tirânico o desconhecimento da autêntica liberdade e da autêntica amizade.

– De acordo.”

Está na hora de resumir, pois então, os traços do criminoso perfeito. Há de ser no mundo real tal como o descrevemos em fantasia.”

Se é o pior dos homens, não será também o mais desgraçado, e não o será tanto mais quanto maior for o tempo e maior for a intensidade em que desempenhou a tirania? Porém sabes que o vulgo tem opinião distinta a esse respeito!”

E que tal se supusermos por um momento que nós mesmos podemos julgar o caso, pois vivêramos entre tiranos; precisamos fazer essa encenação, para imaginar alguém que nos respondesse!”

Trancafiado em seu palácio, como uma mulher, o tirano inveja a felicidade dos súditos, pois muitos deles empreendem viagens, e o tirano decerto é alguém que necessita constantemente estimular e excitar sua curiosidade vendo novos objetos exteriores.”

sendo incapaz de dirigir-se a si mesmo, terá de conduzir os demais. Compartilha a condição do doente que, sem ter ele mesmo forças, é compelido a, em vez de repousar, queimar sua vida em combates atléticos.”

SÓCRATES – Semelhante condição não é a mais triste imaginável? Mas ser tirano no lugar dum mero moribundo não multiplica várias vezes esse estado de desgraça, daquele sujeito que considerávamos já o campeão em desgraça e infortúnio?

GLAUCO – Disseste-o bem, Sócrates.

SÓCRATES – Sendo assim, quaisquer que sejam as aparências externas, o tirano não passa de escravo, escravo submetido à mais inclemente servidão, o adulador oficial do que existe de mais abjeto na sociedade. Impossibilitado de chegar à satisfação de seus desejos, sempre lhe faltará muito mais do que ele tem, por mais que seja muito rico e tenha muitas coisas. (…) ele viverá sempre alarmado, vítima de grandes sofrimentos e angústias”

Podemos resumir dizendo que há três caracteres de homens: o filosófico, o ambicioso e o avaro? (…) Se tu perguntasses a cada um desses três em particular: Qual é a vida mais feliz? Já sabes por antecipação o que cada um deles diria. O avaro decerto colocará o prazer do lucro sobre todos os demais, desprezando a sabedoria e as honras, isto é, como fins; porque não se descarta que podem ser meios para a obtenção de mais dinheiro.

Que dirá o ambicioso, por seu turno? Não achará vil e indigno acumular tesouros, e vaidade o estudo, a não ser que obter algum tesouro e adquirir algum conhecimento lhe facultem a glória e a honra, reputação, enfim?

Quanto ao filósofo, o últimos dos três, é seguro que não dá valor a nada que não seja o prazer que lhe proporciona o conhecimento da verdade tal qual é, bem como sua aplicação contínua neste mesmo estudo; quanto aos demais prazeres listados, o filósofo prefere chamá-los necessidades materiais, ou seja, deles ele vai atrás somente naquele quinhão indispensável à subsistência.”

[comentário pessoal] Minha reputação é nula, meu patrimônio inexistente, e quanto ao que eu sei, nem eu mesmo posso medir o quanto eu sei; as traças o saberão melhor depois que eu partir. Fica o meu legado, semi-invisível.

CAMALEOMEM: “desde a infância o filósofo encontra-se em posição de buscar outros prazeres que não os da inteligência, uma vez que todo trabalho tem sua folga”

GLAUCO – (…) avaliador soberano das coisas que é, o homem inteligente exalta sua própria vida.

SÓCRATES – Que tipo de existência e que prazeres deverão estar em segundo na hierarquia?

GLAUCO – Os do guerreiro e do ambicioso, os quais estão tão próximos do filósofo quanto o homem <interessado>, o último da escala, se encontra próximo deles mesmos.

SÓCRATES – Segundo tudo que vês, o avaro corresponderá ao último patamar da existência.”

SÓCRATES – Não existe um estado em que não se experimenta nem prazer nem dor?

GLAUCO – Sim, sem dúvida se o reconhece.

SÓCRATES – Esse estado, que é uma espécie de meio-termo entre dois antípodas extremos, não consiste em certo repouso d’alma com referência ao estado habitual dos outros? Que te parece?

GLAUCO – Me parece adequado que fales assim.

SÓCRATES – És capaz de lembrar o que dizem os doentes em suas crises?

GLAUCO – Não, Sócrates; que é que dizem?

SÓCRATES – Que o maior bem é a saúde, mas que não sabiam disso antes de ficar doentes.

GLAUCO – Ah, sim, perfeitamente.

SÓCRATES – Não ouves de quem sofre de dor que nada há de mais agradável e terno que a cessação dessa mesma dor?

GLAUCO – Sim, ouço.

SÓCRATES – E observarás, creio eu, que em todas as circunstâncias da vida não é o prazer o objetivo dos homens sofredores, mas tão-só a supressão da dor e o repouso.”

Em todas essas aparências não há prazer real; tudo isto não é mais que uma alucinação.”

Seria acaso inquietante que essa gente que nunca experimentou o verdadeiro prazer e que não considera o prazer senão negativamente (pelo contraste entre a dor e a ausência da dor) se engane em seus juízos? Mal comparando, não estariam na mesma situação de alguém que, ao desconhecer a cor branca, pensasse ser o cinza o contrário do preto? Que achas?”

SÓCRATES – Encara agora ao revés esta progressão: se desejarmos averiguar em quantos graus o prazer do rei é mais verdadeiro que o do tirano, resultará, feito o cálculo, que a vida do rei é 729x(*) mais grata que a do tirano, e que a deste último é mais ingrata que a do rei nesta mesma proporção.

GLAUCO – Acabas de encontrar, mediante uma fórmula surpreendente, o intervalo numérico que separa, em termos de prazer e dor, o homem justo do injusto!”

(*) “A felicidade do tirano tem 3x menos realidade que a do oligarca; a do oligarca, 3x menos que a do rei; logo, a felicidade do tirano tem 9x menos realidade que a do rei. O número 9 é plano,¹ sendo o quadrado de 3. Em seguida, Platão, considerando estas duas felicidades (uma real, outra aparente) como dois sólidos de dimensões inteiramente proporcionais entre si, com suas distâncias em relação à realidade – representadas pelos números 1 e 9, respectivamente² – compondo cada uma das dimensões da figura tridimensional (lembrando que se trata do cubo, então as três medidas de cada cubo são idênticas), a fim de encontrar a razão entre ambos os sólidos, procede ao cálculo do volume de cada cubo, em unidade numérica pura, i.e.:

1x1x1=1

e

9x9x9=729

¹ Número plano: que possui uma raiz quadrada racional: 1, 4, 9, 16, 25, 36, 49, 64 (= 4³), 81 (= 9³)…

² Por que 9? Porque é o produto encontrado acima, a conversão no mundo físico (em verdade, aritmético, mas que exige a demonstração geométrica primeiro, etapa que aqui suprimimos dada sua simplicidade para o leitor atual) da distância entre as felicidades do rei e do tirano. Se a pergunta retroagir para “por que 3 é o número que simboliza a distância entre a felicidade de dois políticos de governos considerados vizinhos hierarquicamente (recapitulando: monarquia–oligarquia–tirania do melhor para o pior)?”, a resposta é simples: porque a geometria euclidiana o exige: o espaço possui 3 dimensões.

Já a realidade é Um por definição (igual a si mesma).

– Se alguém soubesse que uma coisa necessariamente acompanha a outra, aumentaria suas riquezas até o infinito para aumentar seus males na mesma proporção?

– Duvido muito.”

– Esse alguém que atingiu a sabedoria terá gosto pelo governo do próprio Estado interior (a alma); mas, quanto ao governo de sua pátria, duvido que lhe apetecesse, a menos que sucedera algo de verdadeiramente divino no mundo exterior.

– Entendo, Sócrates: quando dizes <divino> neste contexto, falas somente em caso de surgimento daquele Estado que cogitáramos durante toda esta nossa conversação e que por ora só existe em nosso pensamento; já disseste que não crês na possibilidade deste Estado sobre a terra.

– Mas pelo menos há, talvez, no céu um modelo para quem quiser fitá-lo e fundar, a sua imagem e semelhança, sua cidade interior. Além do mais, pouco importa se existe ou não tal Estado, ou que ele jamais haja de existir sobre a terra; o certo é que o verdadeiramente sábio não consentirá jamais em governar outro Estado senão esse.

– É bastante provável.”

A REPÚBLICA – Livro VII

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

#Educação #Ética #arete #FiloPol #Guerra #Psicologia #grandesaúde #Tradução #platonismo #controvérsiadofilósofoRei #OUm #Epistemo #sofistas #juventude #Velhice #Matemática #Geometria #Astronomia #Música

– Crês acaso que estes homens acorrentados possam ver outra coisa, de si mesmos e dos companheiros que estão ao lado, senão as sombras que o fogo projeta à frente deles, no fundo da caverna?

– Como poderiam ver, se desde o nascimento estão obrigados a manter a cabeça imóvel?

– E quanto aos objetos que passam por detrás deles, podem ver outra coisa senão as sombras dos mesmos?

– Somente as sombras, Sócrates.

– Se pudessem conversar uns com os outros, não conviriam por fim em dar às sombras que vêem os nomes das coisas mesmas?

– Necessariamente.

– E se no fundo de seu cativeiro houvesse um eco que repetisse as palavras dos transeuntes, imaginar-se-iam outra coisa senão que as próprias sombras que desfilam diante de seus olhos é que emitem essas vozes?

– Não, por Zeus! Só teriam como imaginar isso mesmo.”

Se naquele ato recordava sua primeira estância e a idéia que ali se tem da sabedoria, entre seus companheiros de escravidão, não se regozijaria ele de sua mudança e não se compadeceria da desgraça daqueles primeiros companheiros?”

Dir-lhes-emos: noutros Estados pode-se escusar aos filósofos que evitam a moléstia dos negócios públicos, porque devem sua sabedoria somente a si próprios, uma vez que se formaram sozinhos (num Estado imperfeito, só assim o filósofo se forma, isto é, tornam-se filósofos, apesar do Estado)”

OS ILUMINADOS & OS PERSEFONISTAS: “Nossos discípulos recusarão, portanto, as nossas disposições? Negar-se-ão a arcar alternativamente com o peso do governo, pré-requisito se quiserem usufruir maior parte de sua vida juntos na região da luz pura?”

Desejas agora examinar de que maneira formaremos os homens deste caráter, e como fá-los-emos passar das trevas à luz, como se diz de alguns que atravessaram do Hades à estância dos deuses?”

Ora Palamedes, vês tu que nas tragédias sempre se nos representam Agamemnon como um general peculiar? Não observaste que Agamemnon, nestas representações, se jacta de haver inventado os números, de haver elaborado o plano de campanha diante de Ílion, e de haver procedido à enumeração dos navios e de tudo o mais, como se antes dele fôra impossível praticar tudo isto?? Como se antes de Agamemnon não se soubesse quantos pés tem algo ou alguém, não havendo criatura que soubesse como contar, se é que devemos crer na palavra do personagem dos poemas?!”

– …O conhecimento da unidade é uma das coisas que elevam a alma e fazem-na se voltar à contemplação do ser.

– Mas a visão da unidade produz em nós, Sócrates, o efeito de que falas; porque vemos a mesma coisa sendo ao mesmo tempo una e múltipla, até o infinito.”

Se tentas dividir a unidade propriamente dita diante dos matemáticos, riem-se de ti, tornam-se indiferentes ao que fazes; e se perseveras e divides a unidade, eles a multiplicam outras tantas vezes, temendo que a unidade não se pareça com o que ela é,¹ em outras palavras, una, idêntica a si mesma, e sim que acabe parecendo um conjunto de várias partes.”

¹ Ou: “apareça diferente de como sói aparecer”, tradução alternativa.

– Nunca observaste que os que nasceram para calcular têm mais facilidade para aprender todas as ciências, e que até os espíritos mais vagarosos, quando se exercitam com a devida constância na arte do cálculo, alcançam, no mínimo, a vantagem de adquirirem maior flexibilidade e penetração no ato de aprender?

– É assim, sim.

– Além do mais, não te seria fácil encontrar muitas ciências mais penosas para aprender e praticar do que esta.

– Com certeza não.”

Pois bem, ninguém que possua a menor experiência em geometria negar-nos-á que o objeto desta ciência é diretamente contrário à linguagem que usa aquele que dela trata.

– Que queres dizer com isso?

– Ora, a linguagem dos geômetras é ridícula e forçada. Falam pomposamente em equalizar, aplicar, transpor, somar, e assim por diante, como se eles lidassem com matéria real e fossem artífices, como se suas demonstrações tendessem à prática e atuassem, sendo que esta ciência, toda ela, nunca ultrapassa o puro conhecer.

– Estou conforme.

– E tens de convir também noutra coisa.

– E no que seria?

– Que a geometria tem por objeto o conhecimento do que existe sempre, e não do que nasce e perece em algum momento.

(*) “Calipolis, <bela cidade>, nome apto a um Estado ideal.”

Para Platão, o jovem grego deve ser instruído nos seguintes conhecimentos, pela ordem:

1. A arte da guerra;

2. A geometria;

(conforme seguirá na exposição:)

3. A astronomia;

4. A música;

5. A dialética (filosofia);

6. A política e a filosofia, alternativamente, a partir deste ponto.

SÓCRATES – E a astronomia será o terceiro. Que achas disso?”

As ciências de que falamos (a matemática e a astronomia) têm uma grande vantagem: purificam e reanimam um órgão da alma extinto e embotado pelas demais ocupações da vida.”

seja olhando para o alto e de boca aberta ou olhando para baixo e semicerrando os olhos, se alguém tenta conhecer algo sensível, nego que chegue a conhecer alguma coisa; pois nada do sensível é objeto da ciência, e sustento que a alma não contempla o céu e as imensidões do espaço, mas aponta sempre e inexoravelmente para baixo, ainda quando seu portador esteja apenas nadando de costas, com a boca voltada para o firmamento, ou estirado sobre a terra, na mesma posição.”

Que se admire a beleza e a ordem dos astros que adornam o céu, nada mais justo; mas como, depois de tudo, não deixam de ser objetos sensíveis, quero que se ponha sua beleza ainda em um patamar inferior (muito inferior, na verdade) ao da beleza verdadeira, da que produzem a velocidade e a lentidão reais em si em suas relações mútuas e nos movimentos que comunicam aos astros, segundo o verdadeiro número e todos os verdadeiros avatares.”

Quero, pois, que o céu recamado não seja mais que uma imagem que nos sirva para nossa instrução como serviriam a um geômetra as figuras executadas por Dédalo ou por qualquer outro escultor ou pintor.”

– Esquartejem-me os deuses se o ensino da música hoje não se anda fazendo tão aborrecido quanto o da astronomia pelos eruditos do dia! Nossos músicos falam sem cessar de intervalos condensados(*), aprumam seus ouvidos como que para catalogar os sons que se sucedem; e uns professores dizem que ouvem um som médio entre dois tons, e que este som é o menor intervalo que os separa e que há que se medir todos os outros com esta unidade; outros sustentam, ao contrário, que as cordas produziram dois tons perfeitamente semelhantes; e todos preferem o juízo do ouvido ao da mente.

– Falas desses músicos agora famosos que não dão descanso às cordas, torturando-as e atormentando-as com seus martinetes.”

(*) “Bemol, o semitom típico da lira de 4 cordas, que conforme a posição na notação determina os diferentes modos musicais, mas que na harmonia não-temperada tinha apenas duas possibilidades: ascendente ou descendente.”

Aqui tens, meu querido Glauco, o canto mesmo que interpreta a dialética. Esta, por mais que seja inteligível, pode ser representada pelo órgão da vista que, segundo demonstramos, eleva-se gradualmente do espetáculo dos animais ao dos astros e, por fim, à contemplação do sol mesmo. E assim, aquele que se dedica à dialética, renunciando em absoluto ao uso dos sentidos, eleva-se, exclusivamente pelo uso da razão, até o que é cada coisa em si; e, se continua suas indagações até haver percebido, mediante o pensamento, o bem em si, chega ao término dos conhecimentos inteligíveis. Assim também, o que vê o sol chegou ao término do conhecimento das coisas visíveis.”

(*) “Veja-se Euclides, livro X, sobre as linhas incomensuráveis (como a da diagonal do quadrado).”

Não basta ser em parte laborioso e em parte indolente, que é o que acontece quando um jovem, cheio de ardor na ginástica, na caça e em todos os exercícios corporais rechaça todo estudo e conversação ou indagação científicas, esquivando-se desta classe de trabalhos.”

Não se deve crer em Sólon quando diz que um ancião pode aprender muitas coisas; mais fácil seria para ele correr. Não! Todos os grandes trabalhos estão reservados para a juventude.”

Que os exercícios do corpo sejam forçados ou voluntários, nem por isso o corpo deixa de tirar proveito; mas as lições que se faz entrar compulsoriamente alma adentro não produzem qualquer efeito.”

Logo que tiverem concluído sua formação de exercícios ginásticos (o que dura por volta de dois a três anos), ser-lhes-á impossível dedicar-se a outra coisa, pois nada há de mais adverso às ciências que a fadiga e o sono. Por outro lado, os exercícios ginásticos são uma prova a que é essencial submeter a juventude.

Passado este tempo, e quando já tiverem por volta dos 20 anos, conceder-se-lhes-á, pelo menos aos que demonstrarem aptidão, distinções honrosas, e se lhes apresentarão em conjunto os conhecimentos que adquiriram em separado durante a vida pregressa, a fim de que se acostumem a ver de um golpe só, e de um ponto de vista geral, as relações que as disciplinas guardam entre si, pré-requisito para se conhecer a natureza do ser.”

aquele que sabe reunir os objetos de uma perspectiva geral nasceu para a dialética; os que não estão neste caso, melhor esquecer.”

Portanto, depois de se observar atentamente quais são os melhores para este gênero de vida, priorizando-se aqueles que demonstraram mais zelo e constância, tanto nos estudos quanto nos trabalhos da guerra e nas demais provas prescritas, ao atingirem estes eleitos a casa dos 30 anos, conceder-se-lhes-ão as maiores honras. Dedicando-se à dialética, serão distinguidos aqueles que, sem necessitar do auxílio dos olhos e dos demais sentidos, podem se elevar ao conhecimento do ser, o que exige unicamente a vocação para a verdade; é neste ponto, amigo, que se devem tomar as maiores precauções.”

Pode ser que lhes ocorra como com um filho aristocrata que, educado na nobreza e na opulência, em meio ao fausto e rodeado de aduladores, se apercebesse, já adulto, de que aqueles que alegam ser seus pais de fato não o são, sem no entanto dispor de mais qualquer recurso para descobrir a identidade dos verdadeiros.”

– É uma excelente precaução afastar as crianças ou os púberes da dialética. Não ignoras, sem dúvida, que os jovens, quando se enamoram de algo, principalmente os primeiros argumentos de um saber, gostam de se servir disso como de um passatempo, e têm prazer em provocar controvérsias sem fim. Assim como podem ser facilmente enganados, tendem a tentar enganar o próximo; semelhantes aos cães filhotes, comprazem-se em dar puxões e mordiscadas verbais em toda gente que aparece.

– Os jovens são exatamente o que descreveste, sensualistas extravagantes!

– Após inumeráveis disputas, em que tanto perderam quanto venceram, concluem, o mais das vezes, por não mais acreditarem em nada daquilo em que antes acreditavam e que com ímpeto defendiam. Tornam-se céticos. Desta maneira, facilitam que todos os demais cidadãos não lhes dêem crédito ou reputação, e também maculam a imagem da filosofia.

– Ó, nada mais certo!”

– Seria bastante dar à dialética um tempo dobrado em relação à formação em ginástica, fazendo os aprendizes dialéticos se consagrarem a sua arte sem trégua e com exclusividade, pelo menos de forma tão exclusiva quanto se fez antes, na idade dos exercícios corporais?

– Estás falando, então, de um tempo de 4, 6 anos…?

– Isso não é o mais importante, atenção: passemos adiante, então, dando um número médio para tua pergunta: 5 – se fazes questão de uma resposta exata… Depois deste tempo o Estado fá-los-á descer de novo à caverna, obrigando-os a passar pelo exército e pelas demais ocupações da faixa etária. Além de ser dialéticos, não deverão perder para os demais em termos de experiência. Durante este período, serão cuidadosamente observados, para se constatar se ainda se mantêm firmes, diante de mil contingências, não só em assuntos filosóficos ou militares, mas para o que quer que se dirijam em seu tempo livre ou por encargo da sociedade; ou se vacilam como cidadãos.

– Mas quanto tempo deverão durar estas provas?

– Quinze anos. Então é chegada a ocasião de conduzir ao termo aqueles que, aos 50 anos de idade, tiverem saído incólumes de todas estas provas, havendo-se destacado nos estudos e na conduta.”

A REPÚBLICA – Livro VI

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“- Crês com efeito que uma grande alma, que abarca em seu pensamento todos os tempos e todos os seres, contemple a vida do homem como coisa importante?

– Impossível.”

“Vendo que trabalha sem fruto, não se verá, ao fim, precisado de odiar-se a si mesmo e de odiar tal trabalho?”

“ADIMANTO – (…) Com efeito, se te deve dizer que é impossível, em verdade, nada opor a cada uma de tuas perguntas em particular, mas que, se se examina a coisa em si, vê-se que os que se consagram à filosofia – e não os que o fazem só durante sua juventude para completar sua educação, senão os que envelhecem neste estudo – são em sua grande parte de um caráter extravagante e incômodo, para não dizer pior, e os mais capazes fazem-se inúteis para a sociedade por terem abraçado este estudo, o qual tanto elogias.”

“O tratamento que se reserva aos sábios nos Estados é tão cruel que ninguém experimentou nunca algo que se aproxime disso”

“- Diz-lhe também que ele tem razão ao considerar aos mais sábios filósofos agentes inúteis para o Estado; mas que não é a estes a quem é preciso atacar, jogando-lhes na cara sua inutilidade. Deve-se atacar, no lugar, aqueles que não se dignam em empregá-los, pois que não é natural que o piloto suplique à tripulação que lhe permita conduzir o navio, nem que os sábios vão de porta em porta suplicar aos ricos (…) Mas as maiores e mais fortes calúnias dirigidas à filosofia partem daqueles que dizem praticá-la. A eles é que se refere teu acusador da filosofia ao dizer que grande parte dos que a cultivam são homens perversos, e que os melhores dentre eles são, quando muito, uns inúteis; acusação que tu e eu tivemos por fundamentada.”

“- Crês, como muitos imaginam, que os que desencaminham alguns jovens são alguns sofistas que, atendendo em particular, corrompem-nos grandemente? ou ainda melhor, os que o atribuem aos sofistas (corromper a juventude) são eles mesmos sofistas ainda mais perigosos, porque valendo-se de suas próprias máximas sabem formar e distorcer a seu gosto o espírito dos homens e das mulheres, dos jovens e dos velhos?

– Mas em que ocasião o fazem?

– Quando nas assembleias públicas, no teatro, no campo, ou em qualquer outro lugar onde a multidão se reúne, aprovam ou desaprovam certas palavras e certas ações com grande estrondo, grandes gritos e palmadas, redobrados ao retumbar os ecos nas pedras do lugar.”

“Todos esses mercenários particulares que o povo chama de sofistas, e que julga que as lições que dão são contrárias àquilo em que o próprio povo crê, nada fazem senão repetir à juventude as máximas que o povo professa em suas assembléias, e a isto é que chamam <sabedoria>.”

“Pois bem: qual é o refúgio onde o verdadeiro filósofo pode se retirar a fim de perseverar na profissão que abraçou e chegar à perfeição que tanto aspira?”

“Desde a infância, será tal o primeiro entre seus iguais, sobretudo se as perfeições do corpo nele corresponderem às da alma? Quando houver chegado à idade madura, seus pais e seus concidadãos se apressarão em servir-se de seus talentos e em confiar-lhe seus interesses. Lhe abrumarão com lisonjas e súplicas, prevendo de antemão o crédito que algum dia alcançará em sua pátria, e lhe obsequiarão a fim de tê-lo em seu favor desde já. E que queres que ele faça rodeado por tantos aduladores, sobretudo se nascera num Estado poderoso, se for rico, distinto de nascimento, formoso de rosto e de talhe avantajado? Não alimentará ele próprio as mais desvairadas esperanças, até imaginar que possui todo o talento necessário para governar os gregos e os bárbaros, exaltando-se, atulhado de orgulho e arrogância assim como de vacuidade e louca vaidade? Se enquanto se encontrar em tal disposição de espírito alguém se aproximar com doçura, atrevendo-se a contar-lhe a verdade, dizendo que falta-lhe a razão e que tem grande precisão dela a fim de governar, mas que isso não se adquire senão a um alto preço, i.e., grandes esforços; crês tu, amigo, que em um cenário destes, uma verdadeira côrte de bajuladores, onde brilha a ilusão noite e dia, este candidato a sábio e político ouça de bom grado e com ouvidos atentos semelhante admoestação?”

“Homens de pouco valor, ao ver o posto desocupado, alucinados por nomes de distinção e os títulos que trazem, abandonam livremente uma profissão obscura, chegando, eventualmente, a demonstrar grandes habilidades através de sua técnica modesta, andando de mãos dadas com a filosofia, hipòcritamente, iguais a esses criminosos foragidos das prisões que vão e se refugiam nos templos. Porque a filosofia, a despeito do estado de abandono a que se vê reduzida, conserva, ainda, sobre as demais artes um ascendente e uma superioridade que, apesar dos pesares, atrai os olhares daqueles que não nasceram para ela… Assim se conduzem esses vis artesãos que com obras servis aviltaram e desfiguraram o corpo e, ao mesmo tempo, degradaram a alma!”

“Quanto a mim, ora, não vale a pena falar desse gênio que me acompanha e me aconselha sem cessar. Apenas um exemplo disso há em todo o passado.”

“ -… assim como um viajante, assaltado por uma borrasca violenta, considera-se sortudo se encontra um paredão que lhe sirva de abrigo contra a água e os ventos, da mesma forma, vendo que a injustiça reina em todas as partes e impune, dá-se por satisfeito se pode, isento de iniqüidades e de crimes, passar seus dias em inocência, e sair dessa vida tranqüilo, alegre e repleto de belas esperanças.

– Não é de se desprezar conseguir levar uma tal vida.

– Mas não cumpriu o fim mais elevado que seu destino encerra, por não haver encontrado uma forma de governo na qual se enquadrasse. Num governo de tais condições, o filósofo teria se aperfeiçoado mais e teria sido útil a si mesmo e à comunidade.”

– …Mas diz-me, Sócrates: de todos os governos atuais, qual é o que conviria a um filósofo?

– Nenhum; precisamente o que lamento é que não encontramos nem uma só forma de governo que convenha ao filósofo.”

“- Dedica-se hoje à filosofia gente demasiado jovem, recém-saída da infância, que renuncia a ela justo quando está a ponto de entrar na parte mais difícil, quero dizer, na dialética, porque vai-se dedicar aos assuntos domésticos e aos negócios; e assim se a considera, desde já, grandes filósofos. Depois estas pessoas crêem dar seu máximo ao comparecerem de vez em quando a discussões filosóficas, quando convidadas; enxergam isso, mais que como ocupação, como um ligeiro passatempo. Quando atingem a velhice, salvo pouquíssimas exceções, seu ardor por esta ciência já se extinguiu mais rápido que o sol de Heráclito, não mais voltando a luzir.

– E como se procede a partir daí?

– Fazendo tudo ao contrário, meu amigo. É preciso que as crianças e os jovens se dediquem aos estudos próprios a sua idade (a música e a ginástica), e que neste período da vida, em que o corpo cresce e fortifica, tenha-se um cuidado especial com ele, a fim de que possa, em seu devido dia, melhor auxiliar o espírito em seus trabalhos filosóficos. Com o tempo, e à medida que o espírito se forma e amadurece, serão reforçados os exercícios a que se tenha de sujeitar. E quando, gastas suas forças, não seja possível a esses cidadãos nem ir à guerra nem se ocupar dos negócios do Estado, permitir-se-á que pastem e ruminem em liberdade sem fazerem mais nada, isto é, por obrigação, ao menos, a fim de que alcancem uma vida feliz neste mundo, e obtenham, após a morte, outra que corresponda à felicidade que terão gozado aqui na terra.”

“Nunca se viu nada disso posto em plano. Longe disso, sobre estas matérias não se escutam, de ordinário, mais que discursos polidos de modo que as frases soam harmoniosas e consonantes, como obra pronta, nada improvisada. Mas, acima de tudo, o que nunca se viu foi um homem cujos feitos e palavras estivessem em real consonância com a virtude, já considerando toda a debilidade da natureza humana e consentindo com alguns erros impossíveis de se eliminar.”

Logo, se nos infinitos séculos passados se viu algum verdadeiro filósofo na necessidade de reger o timão do Estado, ou se isto se verifica mesmo agora em algum país bárbaro tão distante que desconheçamos, ou se chegará a dar-se um dia, estamos prontos a afirmar que houvera, há ou que haverá um Estado tal qual o nosso modelo, quando esta Musa (a Filosofia) nele exercer sua suprema autoridade. Nada de impossível ou quimérico há em nosso projeto; se bem que somos os primeiros a confessar: a execução é dificílima, mas não impossível.”

“aquele que objetiva tão-só a contemplação da verdade não tem tempo para baixar a vista sobre a conduta dos homens nem para pôr-se a lutar com eles cheio de inveja e acritude, pois, tendo o espírito fixo e incessantemente sobre os objetos que guardam entre si uma ordem constante e imutável, os quais, sem prejudicar-se uns aos outros, conservam sempre os mesmos postos e as mesmas relações, consagra toda sua atenção a imitar e a expressar em si esta ordem invariável.”

“Contemplarão o Estado e a alma de cada cidadão como se fôra uma tabuinha que é preciso antes de tudo limpar, o que não é fácil; porque os filósofos, diferente dos legisladores ordinários, não quererão se ocupar de ditar leis a um Estado ou a um indivíduo se não os tiverem recebido puros e limpos, ou se os mesmos filósofos não os limparem dalgum modo.”

“- …Quem pode duvidar que os filhos dos reis e dos chefes dos Estados podem nascer com disposições naturais para a filosofia?

– Ninguém.

– Poder-se-ia dizer que, ainda quando nasçam com semelhante disposição, é uma necessidade inevitável que se pervertam? Conviéramos que é difícil que se salvem da corrupção generalizada, mas que – em todo o curso dos tempos – <nunca se salve um só>, haveria alguém com atrevimento o bastante para dizê-lo?”

“- …agora digamos abertamente que os melhores guardiães do Estado devem ser outros tantos filósofos.

– Sim, sustentemo-lo resolutamente!

– Suplico-te que observes quão reduzido será seu número, porque raras vezes sucede que as qualidades que em nossa opinião devem participar do caráter do filósofo se encontrem reunidas num só indivíduo

“E os homens que por casualidade encontram a verdade, mas de modo inconsciente, se diferenciam acaso dos cegos que andam em linha reta?”

“GLAUCO – (…) Nós nos daremos por satisfeitos caso expliques a natureza do bem da forma como explicaste a da justiça, a da temperança e a das demais virtudes.

SÓCRATES – Também eu ficaria muito contente, companheiro, mas temo que semelhante questão seja superior as minhas forças (…) Crede, meus queridos amigos; deixemos por ora a indagação do bem tal como é em si mesmo, porque nos leva muito longe e seria muito penoso para mim explicar-vos sua natureza tal como eu a concebo, seguindo o caminho que traçáramos. No lugar, se vos apetece, que tal conversarmos sobre uma espécie de <filho do bem>, que é a representação exata do bem mesmo? Mas se não vos agrada, passemos a outra coisa.

GLAUCO – Não! Fala-nos do filho, e em outra ocasião falarás do pai. Esta dívida a reclamaremos no devido tempo.”

“- Existe, além do belo em si e do bom em si, também o belo e o bom que podem se aplicar a uma infinidade de outras coisas; este segundo tipo de fenômeno nós chamamos de belezas e bondades particulares. O particular é cada coisa, o que a ela se aplica (o belo e o bom) é uma idéia simples e universal. Concordas que denominamos cada coisa <o que é>?

– Sim, concordo.

– Das coisas em sua multiplicidade dizemos que são vistas mas não concebidas, e das idéias, em compensação, dizemos que são concebidas, mas jamais vistas.

– Conforme. Prossegue!

– Através de que sentido percebemos os objetos visíveis?

– Pela vista.

– E percebemos os sons pelos ouvidos, e todas as demais coisas sensíveis pelos demais sentidos, não é assim?

– Inegável.

– Já observaste que o autor de nossos sentidos empreendera um gasto maior com o órgão da vista que com os demais sentidos?

– Nunca havia pensado nisso, Sócrates.

– Repara bem: o ouvido e a voz têm necessidade de uma terceira coisa, um para ouvir, a outra para ser ouvida; uma vez que esta terceira coisa falte, nem o ouvido ouvirá nem a voz será ouvida(*)?

– Com certeza não.

– Creio também que a maior parte dos demais sentidos, para não dizer todos, não tem necessidade de uma mediação semelhante. Há alguma exceção?

– Decerto que não.

– Quanto à vista, não te apercebeste de que ela necessita uma mediação?

– Não te entendo, Sócrates.

– Quero dizer que, ainda quando há visão nos olhos e se os utiliza, e há cor no objeto, caso não intervenha uma terceira coisa destinada a concorrer à visão os olhos nada verão e as cores serão invisíveis.

– Que coisa é essa?

– O que chamas de luz.¹”

(*) “A terceira coisa que falta é o <ar>, para se complementar às duplas <som+tímpanos> e <som+cordas vocais>.”

¹ Assim como acima, tem-se necessidade de três coisas: olhos (1), cores (2), luz (3). O homem grego, obviamente, ignorava que cada cor é uma freqüência diferente da própria luz.

“- De todos os deuses que estão no céu, qual é o dono destas coisas e fabricador da luz, que faz com que nossos olhos vejam e com que os objetos sejam vistos com a maior perfeição possível?

– Ao meu ver, como aliás na opinião de todo mundo, inclusive a tua — o sol!

– Muito bem! Agora avalia se a relação que une a vista a este deus é conforme o que vou relatar.”

“De todos os órgãos de nossos sentidos, o olho é, ao que parece, o que mais semelhança possui com o sol.”(*)

(*) “O olho é o sol do corpo – Aristófanes, Tesmoforias, 17

quando falo do filho do bem, é do sol que quero falar. O filho apresenta uma analogia perfeita com seu pai. Um está para a esfera visível da visão como o outro está para a esfera ideal da inteligência.”

“no mundo inteligível podem-se considerar a ciência e a verdade como imagens do bem”

“- Vejamos agora como deve se dividir o segmento do inteligível.

– Como?

– Em duas partes: a primeira das quais não pode alcançar a alma senão servindo-se das coisas do mundo visível, que antes considerávamos imitadas, como de outras tantas imagens, partindo de certas hipóteses, não para remontar ao princípio, mas para baixar às conclusões mais remotas; enquanto que para obter a segunda parte, vai da hipótese até o princípio independente de toda hipótese sem fazer nenhum uso de imagens como no primeiro caso e procedendo unicamente mediante as idéias consideradas em si mesmas.

– Não logro compreender-te, Sócrates.”

“Presta atenção agora, pois relato o que situo no segundo segmento do inteligível. É aquilo que a alma compreende imediatamente por meio do poder dialético, tecendo algumas hipóteses que não considera como princípios, senão como simples suposições, e que lhe servem de graus e de pontos de apoio para se elevar até um primeiro princípio independente de toda hipótese. A alma se apodera deste princípio e, aderindo-se a todas as conclusões que dele dependem, baixa dali à última conclusão; mas sem se apoiar em nada sensível, somente em idéias puras, pelas quais começa, desenvolve e termina sua demonstração.

– Compreendo algo, mas não muito; esta tarefa da alma me parece hercúlea!”

A REPÚBLICA – Livro V

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“Que te parece mais ridículo nisso tudo? Provavelmente me dirá que são as mulheres exercitando-se nuas misturadas com os homens no ginásio – e não falo só das jovens, mas também das velhas, a exemplo daqueles anciãos que se comprazem nesse tipo de exercícios, em que pese as rugas e o aspecto desagradável que oferecem à vista.”

“Recordemos que não faz muito os gregos ainda acreditavam, como hoje a maioria das nações bárbaras, que a visão de um homem nu é um espetáculo vergonhoso e ridículo; e quando os ginásios foram abertos pela primeira vez em Creta, e logo depois em Esparta, os burlões daquele tempo tiveram muitos motivos para caçoadas. Porém, depois de a experiência ter demonstrado, creio eu, que era melhor fazer os exercícios estando nu que ocultando certas partes do corpo, a razão, atendendo ao que era mais conveniente, dissipou essa impressão de ridículo que produzia a visão da nudez, e comprovou que é coisa para néscios achar algo ridículo que não seja mal por si só; que não merece consideração aquele que tudo faz para promover o riso, inclusive tomando por objeto coisas distantes do irracional e do mal, muito menos aquele que se dirige com seriedade a fins outros que não o bem.”

“- E aí vês, meu querido amigo, que no governo dum Estado não há ocupação que seja própria da mulher ou do homem enquanto tais, senão que, havendo dotado a natureza a ambos os sexos das mesmas faculdades, todos os ofícios pertencem aos dois em comum, a única diferença sendo que a mulher é mais fraca que o homem.

– Correto.

– Imporemos, pois, tudo aos homens, sem reservar trabalho algum às mulheres?”

“- Há mulheres adequadas para o ofício de guardiãs, como há as que não o são; porque não são aquelas as qualidades que exigimos em nossos guerreiros?

– Sim.

– A natureza da mulher, concluindo, é tão própria para a guarda do Estado quanto a do homem.”

“Deriva daí que as esposas de nossos guerreiros deverão despojar-se de seus vestidos, posto que a virtude ocupará seu lugar. Participarão dos trabalhos da guerra e de todos os que a guarda do Estado exija, sem se ocupar de qualquer outra coisa. Só se terá em conta a fraqueza natural de seu sexo, atribuindo-lhes pesos e cargas menores que os dos homens. Quanto àquele que rir da visão das mulheres que se exercitarem nuas visando a um fim bom, este é um disparatado que nem sequer sabe o que faz, nem mesmo por que é que ri; porque há e haverá sempre razões para dizer que o útil é belo, e que é feio aquilo que é daninho.”

os esposos serão tirados pela sorte, o que elimina o subterfúgio dos súditos inferiores culparem os magistrados ao invés da mera fortuna.”

“A mulher dará filhos ao Estado a partir dos 20 e até os 40 anos, e o homem desde que já tenha ultrapassado <o momento de maior ímpeto de sua corrida>(*) e até os 55.”

(*) “O trecho entre aspas é provavelmente uma citação de verso perdido de Píndaro.”

“Se um cidadão procria antes ou depois desse prazo, declaramo-lo culpado de injustiça e sacrilégio por haver engendrado um filho cujo nascimento é obra de trevas e libertinagem”

O RELACIONAMENTO EQUILIBRADO EXIGE A PARIDADE ETÁRIA: “quando ambos os sexos já tiverem ultrapassado a idade fixada para dar filhos à pátria, deixaremos os homens em liberdade de ter relações com as mulheres que desejarem, menos com suas avós, suas mães, suas filhas e suas netas. As mulheres terão a mesma liberdade com relação aos homens, menos com seus avôs, pais, filhos e netos. Mas só serão permitidas tais uniões após prevenir-se o casal de que não deverá ter descendentes (pois a pessoa escolhida pelo cidadão já maduro poderá ainda não ser estéril).”

“Te parece justo que os gregos reduzam cidades gregas à servidão? Não deveriam proibir essa prática de forma geral, tanto quanto for possível, assentando por princípio que não haja escravidão de povos gregos, para evitar que caiam na escravidão dos bárbaros?”

“E não é vil e concupiscência imoral despojar um morto? Não é uma pequeneza de espírito, que apenas seria perdoável a uma mulher, tratar como inimigo o cadáver do adversário, quando a qualidade de inimigo já desapareceu, ficando só o instrumento de que se servia para combater? Os que agem desta maneira fazem o mesmo que os cães que mordem a pedra¹ que os feriu, em vez de atacarem a mão que a arremessou.”

¹ Essa ilustração do animal que morde a pedra, como que estabelecendo uma lei de talião com o sujeito-objeto equivocado, atribuindo entidade e intencionalidade ao reino mineral, ficou famosa na Filosofia. Spinoza, Schopenhauer, Nietzsche e diversos outros autores voltam a citar o exemplo.

“- Minha opinião é de que não se deve devastar nem queimar os campos dos gregos vencidos; e sim contentar-se com tomar todos os grãos e frutos da safra. E queres saber por quê?

– Com toda certeza.

– Parece-me que assim como a guerra e a discórdia têm nomes diferentes, são também duas coisas distintas que se relacionam com dois objetos paralelos. Uma ocorre por conta de laços de sangue e de amizade preexistentes entre nós, a outra por conta do que nos é absolutamente estranho. A inimizade entre chegados se chama discórdia; entre estranhos, guerra.¹

¹ Platão (pela boca de Sócrates) tenta aqui diferenciar o conflito militar entre Estados de uma guerra civil propriamente dita, conceito até então inexistente (na realidade há indistinção entre as esferas civil e militar para esse período histórico). Discórdia, o mesmo que desentendimento, desacordo, desavença, é um conceito negativo: ora, onde há desentendimento e desacordo, pressupõe-se que havia antes um entendimento ou um acordo (a atual “sociedade civil”), e que a tensão e violência que subitamente arrebentam farão com que um dia essa concórdia original seja restabelecida. A princípio, os dois (conflitos militares e discórdias entre co-irmãos) seriam inerentes à natureza humana. Mas a República representaria uma mudança importante nessa visão.

Já que a natureza parece incitar o homem a entrar em conflitos com seus semelhantes de tempos em tempos, o que se deveria ao menos tentar evitar é que em virtude deste tipo de conflito (onde imperam desde sempre uma certa ética e nobreza) fosse estabelecido, de forma artificial e inecessária, o ódio duradouro entre indivíduos que sequer se conhecem, intensificando as perdas e danos para ambos os lados. Não há qualquer razão lógica para incendiar plantações de um território adversário na guerra, promovendo a escassez e a fome de outros homens, “estranhos”, pessoas que não dizem respeito às dissensões intestinas daqueles poucos que iniciaram a luta.

Chegados”, pronunciado por Sócrates, não é o mesmo que família ou amigos íntimos, mas tem um sentido mais amplo para o homem antigo, que não podemos capturar com tanta facilidade. Qualquer cidadão da polis era de certa forma chegado um do outro (num governo equilibrado, i.e., a Atenas da época de Sócrates). Os homens participavam da política, votavam pela declaração ou não da guerra e viviam num pequeno território e em pequeno número, reconhecendo-se e estabelecendo convívio fraterno (o que não implica “harmonioso”, mas ao menos submetido a regras consensuais, mais até do que existiria hoje entre irmãos sangüíneos que habitam a mesma casa). Mesmo entre as polis havia laços que denominaríamos hoje “pan-nacionais” ou civilizacionais, pois reconheciam-se como helenos, em contraste com os bárbaros. Mas mesmo entre gregos e persas, p.ex., quer seja, helenos e bárbaros, havia idealmente um código de ética e admiração e respeito mútuos. Só era digno pelejar contra o inimigo porque ele era grandioso, e essa rixa deveria durar apenas enquanto perdurasse o estado de guerra, acontecimento o mais das vezes breve.

Para Platão, mesmo a guerra ética de helenos contra helenos já é um absurdo, o que é um pensamento anti-homérico. Não obstante, no caso de uma guerra entre gregos e persas pode-se até admitir, dependendo da estratégia e do contexto, aquilo que ele proíbe acima para guerras entre gregos (devastar e queimar os campos dos vencidos).

“Por conseguinte, quando entre gregos e bárbaros surja qualquer desavença e venham às vias de fato, essa, em nossa opinião, será uma verdadeira guerra; mas quando sobrevenha uma coisa semelhante entre os gregos, diremos que são naturalmente amigos, que isto é uma aberração ou doença, divisão intestina, que turva a Hélade,¹ e daremos então a essa inimizade o nome de discórdia.²”

¹ Sentimento nacional mais fundo, os laços mais primitivos do homem grego.

² Em decorrência disso, uma coisa que parece ser normalizada ou naturalizada é a própria guerra ao bárbaro em si, como se este assunto não admitisse reflexão, ou talvez porque a necessidade de concisão na estrutura do diálogo d’A República não permitisse essa digressão aqui.

“Quanto mais brecha encontramos, tanto mais te estreitamos para que nos expliques como é possível realizar teu Estado; fala, pois, e não nos faças mais esperar.”

“- Quando indagávamos qual era a essência da justiça e como devia ser o homem justo, supondo que existia, e quais as essências da injustiça e do homem injusto, nada mais propúnhamos que encontrar modelos, fixar nossas vistas em um e noutro, a fim de julgar a felicidade ou desgraça que acompanha cada um deles, e assim nos obrigar a concluir com relação a nós mesmos que seremos mais ou menos felizes segundo nos pareçamos mais a um modelo que a outro; mas nosso desígnio nunca foi assinalar a possibilidade da existência real desses modelos.

– Dizes a verdade.”

“- E nós, que foi que fizemos neste diálogo senão traçar o modelo de um Estado perfeito?

– Não fizemos nada senão isso.

– E o que dissemos, perde em alguma coisa se não podemos demonstrar a possibilidade da formação de um Estado segundo este modelo?”

“Trataremos agora de descobrir por que os Estados atuais estão mal-governados e que mudanças mínimas será possível neles introduzir, para que seu governo se faça semelhante ao nosso modelo.”

“- Como os filósofos não governam os Estados, ou como os que hoje se chamam reis e soberanos não são verdadeira e seriamente filósofos, de sorte que a autoridade pública e a filosofia se encontrassem juntas no mesmo sujeito; e como não se excluem, absolutamente, do governo tantas pessoas que aspiram hoje a um desses dois termos somente, em detrimento do outro; como nada do nosso modelo se verifica, portanto, meu querido Glauco, não há remédio possível para os males que arruínam os Estados nem para os do gênero humano; nem este Estado perfeito, cujo plano traçamos, aparecerá jamais sobre a terra, nem verá a luz do dia. Eis aqui o que há muito tempo duvidava se devia mesmo dizer, porque previa que a opinião pública se sublevaria contra semelhante pensar, porque é difícil aceitar que a felicidade pública e a privada só se podem realizar num Estado assim.

– Ao proferires um discurso semelhante, meu querido Sócrates, deves esperar que muitos, e entre eles gente de grandes méritos, se despojem, por assim dizer, de suas roupas e, armados com tudo o que tiverem ao alcance das mãos, arrojem-se sobre ti com todas as forças e dispostos a tudo. Se não os rechaças com as armas da razão, viverás continuamente atormentado graças a tuas próprias brincadeiras, e receberás um castigo por seres tão temerário.”

“todos os demais¹ não devem nem filosofar nem se mesclar no governo, senão seguir aos que dirigem.”

¹ Todos a não ser os políticos e o sábios, que são sempre uma coisa só, o rei ou os príncipes-filósofos.

“GLAUCO – Segundo tua explicação, o número de filósofos teria de ser infinito, e todos de um caráter bem estranho; porque seria preciso compreender sob este nome todos os que são aficionados pelos espetáculos, que também gostam de saber, e seria coisa singular ver entre os filósofos estas figuras que tanto aprovam as audições, que decerto nem sequer tirariam proveito dessa nossa conversação, mas que têm como que alugados seus ouvidos para todos os coros, e suas pernas para concorrer a todas as festas de Dionísio sem excetuar uma única, seja na cidade ou no campo. E chamaremos <filósofos> aos que não demonstram ardor senão para aprender tais coisas ou que se consagram ao conhecimento das artes mais ínfimas?

SÓCRATES – De maneira alguma; estes são filósofos apenas em aparência.

GLAUCO – Então quem são, segundo teu parecer, os verdadeiros filósofos?

SÓCRATES – Os que gostam de contemplar a verdade.”

SÓCRATES – Os primeiros, cuja curiosidade está por inteiro nos olhos e nos ouvidos, se comprazem em ouvir belas vozes, ver belas cores, belas figuras e todas as obras de arte ou da natureza em que entra o belo; mas sua mente é incapaz de ver e de apreciar a essência da beleza mesma, reconhecê-la e unir-se a ela.

GLAUCO – De fato.

SÓCRATES – Não são raríssimos os que podem se elevar ao belo em si e contemplá-lo em sua essência?

GLAUCO – São.

SÓCRATES – Um homem que, então, crê nas coisas belas, mas que não tem nenhuma idéia da beleza em si mesma, nem é capaz de seguir aqueles que queiram torná-la conhecida, vive ele em sonhos ou desperto? Atenta tu: que é sonhar? Não consiste em, seja dormindo seja acordado, tomar a imagem de uma coisa pela coisa mesma?”

“- …Diz-me: aquele que conhece, conhece alguma coisa ou nada? Responde no lugar do conhecedor de opiniões.

– Respondo que conhece alguma coisa.

– Este algo existe ou não existe?

– Existe, ora. Como se poderia conhecer o que não existe?

– De maneira que, sem levar mais adiante nossas indagações, sabemos, sem dúvida, que o que existe absolutamente é absolutamente cognoscível, e o que de maneira alguma existe, de maneira alguma pode ser conhecido.

– Perfeito.

– Mas se houvesse uma coisa que existisse e não existisse ao mesmo tempo, não ocuparia um lugar intermediário entre o que existe pura e simplesmente e o que não existe em absoluto?

– Estaria no meio de ambos.

– Portanto, se a ciência tem por objeto o ser, e a ignorância o não-ser, é preciso buscar, com respeito ao que ocupa o meio-termo entre o ser e o não-ser, uma maneira de conhecer que seja intermediária entre a ciência e a ignorância, supondo que haja tal coisa.

– Inquestionável.

– Sustentaremos que há algo chamado opinião?

– E como não o faríamos?

– Trata-se de faculdade distinta da ciência, ou sinônima?

– Distinta.

– Portanto, a opinião tem seu próprio objeto, e a ciência tem o seu, sendo que são reciprocamente exclusivos.

(…)

– Se o ser é objeto da ciência, o da opinião será outra coisa distinta do ser.

– Sim, outra.

– Será o não-ser? Ou é impossível que o não-ser seja o objeto da opinião? Atenta no que vou dizer agora: aquele que tem uma opinião, não tem opinião sobre alguma coisa? Pode-se ter uma opinião que recaia sobre nada?

(…)

– Então é forçoso dizer que o objeto da opinião não é nem o ser nem o não-ser.

– Nenhum dos dois, decerto.

– Por conseguinte, a opinião não é ciência nem ignorância.

– Pelo menos, não parece.

– Mas a opinião acaso vai mais longe que uma e se detém aquém da outra, de forma que seja mais luminosa que a ciência e mais obscura que a ignorância?

– Nada disso! Nem uma coisa nem outra!

– Acontece, então, o exato oposto? É mais obscura que a ciência e mais clarividente que a ignorância?

– Agora arremataste.

– Então, a opinião está na metade do percurso entre a iluminação total da ciência e a escuridão plena da ignorância?

– Absolutamente!”

Havendo assentado tudo isso de uma vez por todas, que me responda este homem que não crê que haja nada belo em si, nem que a idéia do belo seja imutável, e que só admite coisas belas; esse enamorado pelos espetáculos que não pode consentir que se lhe diga que o belo é uno e o justo é uno — que me responda este homem, pois (agora falo diretamente com ele): Não te parece que estas coisas mesmas, que tu julgas belas, justas e puras, sob outras relações não seriam também não-belas, não-justas e não-puras?

* * *

O que é, o que é? Adivinhação infantil na Grécia Antiga:

Um homem que não é homem

viu e não viu

um pássaro que não é pássaro

parado sobre um pau que não é pau

e atirou-lhe uma pedra que não é pedra”

RESOLUÇÃO: Um eunuco entreviu um morcego parado sobre uma cana e atirou-lhe sem querer uma pedra-pomes.

TIMEU OU DA NATUREZA

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“Quanto às mulheres, declaramos que seria preciso pôr suas naturezas em harmonia com a dos homens, da qual não diferem, e dar a todas as mesmas ocupações que a eles se dá, inclusive as da guerra, e não só num caso ou noutro, mas em todas as circunstâncias da vida.”

“CRÍTIAS – Escuta, Sócrates, uma história bastante singular, mas inteiramente verdadeira, que no passado contava aquele que era o mais sábio dentre os Sete Sábios, Sólon em pessoa.”

(*) “Para informações biográficas de Sólon, Dropides e dos dois Crítias, cfr. as notas do diálogo Cármides. [a ser publicado no Seclusão]

“CRÍTIAS – (…) disse Elanciano Crítias [Crítias o velho]: <Aminandro, se Sólon, em lugar de compor versos por passatempo, se consagrara a sério à poesia, como muitos de seu tempo; se levara a cabo a obra que começara a escrever no Egito; se não tivera precisão de dedicar-se a combater as facções e os males de toda classe, que não cessavam de aparecer em torno seu; em minha opinião, nem Hesíodo nem Homero nem ninguém teriam tido chance de superá-lo enquanto poeta.> A conversa continuou:

– [Animandro] Que obra era essa que Sólon começara a compor no Egito?

– [Crítias velho] Tratava-se da história do acontecimento mais grandioso e de maior renome que se sucedera nesta cidade, cuja recordação, dado o transcurso do tempo e a morte de seus atores originais, não nos foi comunicado a nós.

– [Animandro] Ora, quero ouvir bem do começo tudo que Sólon relataria, do que se tratava esse grande evento, e quem o contou com aparência verídica pela primeira vez.

– [Crítias velho] Há no delta do Nilo, em cujo extremo este rio divide suas águas, um território chamado Saiticos, distrito cuja principal cidade é Saís, pátria do rei Amósis [ou Amásis]. Os habitantes honravam uma divindade como a fundadora desta cidade, chamada por eles de Neith, ninguém menos que nossa Atena, se havemos de crer em tal relato.(*)

(*) “Sobre a identidade de Neith de Saís com Atena ou Minerva, ver Heródoto, II, 28, 59, 170 e 176; Pausânias, II, 36; Cícero, Da natureza [ou genealogia] dos deuses, III, 23; e Plutarco, Sobre Ísis e Osíris, 9, 32 e 62.”

(*) “Níobe, filha de Foroneu,¹,² que deu a luz a um filho de Zeus, Argos, em honra do qual seria fundada a cidade homônima.³ [Fonte: Pseudo-Apolodoro]”

¹ Reza o mito que Níobe teria sido a(o) primeira(o) felizarda(o) mortal escolhida(o) por um deus olímpico para procriar.

² Foroneu é, por sua vez, neto de Oceano (titã) com Tétis.

³ Como se a mitografia já não fosse confusa o bastante, noutras fontes Argos (o rei) é ainda o quarto monarca da dinastia que fundou e governou Argos ou Argus (a cidade)!

“CRÍTIAS VELHO – [Sacerdote egípcio] <Sólon, Sólon! vós gregos sereis sempre umas crianças… na Grécia não há anciãos!>

– [Sólon] Que queres com isso dizer?

– [Sacerdote] Sois crianças na alma. Não possuís tradições remotas nem conhecimentos veneráveis por sua antiguidade. Eis o motivo. Mil vezes e de mil maneiras os homens se extinguiram, e ainda se extinguirão, o mais das vezes perecendo pelo fogo e pela água, mas outras tantas também por uma infinidade doutras causas.

“SACERDOTE – (…) no espaço que rodeia a terra e no céu realizam-se grandes revoluções. Os objetos que cobrem o globo desaparecem a cada grande intervalo de tempo num vasto incêndio. (…) O Nilo, nosso constante salvador, ao transbordar, salvara-nos de tal calamidade. E quando os deuses, purificando a terra por meio das águas, a submergem totalmente, os pastores no alto das montanhas e seus rebanhos se vêem salvos; mas os habitantes de vossas cidades litorâneas são arrastados ao mar pela corrente dos rios. Acontece que, no Egito, as águas nunca se precipitam do alto rumo às campinas; pelo contrário, manam das próprias entranhas da terra. É por isso que, diz-se, entre nós conservaram-se as mais antigas tradições, porque nós moramos num sítio privilegiado, em que um determinado número de homens sempre sobreviveu aos cíclicos desastres naturais. Decorre daí que, segundo nossa sabedoria muito mais longeva que a vossa, nada há que seja belo, grande e notável em qualquer matéria neste mundo que não tenha sido registrado por escrito por nossa civilização. No que se refere a vós gregos e tantos outros povos, apenas aprendestes a utilizar o alfabeto escrito e as coisas necessárias para o Estado, terríveis chuvas prorromperam sobre vós como raios, deixando remanescer somente alguns iletrados e gente estranha às Musas; desta feita, começais sempre de novo, sois verdadeiras crianças ignorantes dos sucessos antigos tanto deste país, o Egito, quanto do vosso próprio. Decerto essas genealogias, que acabas de expor, Sólon, parecem-se muito com contos de fadas; além de mencionares um só dilúvio, coisa inverossímil, posto que precedido por muitos outros, ignoras que a melhor e mais perfeita raça de homens existira em teu país, e que de um só germe desta raça que escapara à aniquilação total descende tua cidade. (…) uma mesma deusa protegera, instruíra e engrandecera a tua cidade e a nossa; a tua mil anos antes, formando-a de uma semente tomada da terra e de Hefesto. Nota que, segundo nossos livros sagrados, passaram-se 8 mil anos desde a fundação de nossa cidade. Vou dar-te, portanto, uma noção das instituições que tinham teus concidadãos de 9 mil anos atrás, sem olvidar de relatar-te os mais gloriosos de seus feitos.”

“Amiga da guerra e do conhecimento, a deusa devia escolher, para fundar um Estado, o país mais capaz de produzir homens que se parecessem com ela.”

“Nossos livros contam como Atenas destruiu um poderoso exército, que, partindo do Oceano Atlântico, invadira insolentemente a Europa e a Ásia. Naquela época era possível atravessar este oceano. Havia em suas águas uma ilha, situada em frente ao estreito, que em vossa língua chamais de <as colunas de Hércules>.¹ Esta ilha era maior que a Líbia e a Ásia juntas; os navegadores cruzavam dali às demais pequenas ilhas, e destas ao continente banhado pelo oceano digno de seu nome.²”

¹ O limite ocidental da Europa.

² “Atlântico” de Átlas, o Titã que suporta o globo celeste nas costas.

“este vasto poder, reunindo todas as suas forças, tentara um dia subjugar de uma só vez o teu e o nosso país, bem como todos os povos situados deste lado oriental do estreito.”

“Nos tempos que se sucederam a estes, grandes tremores de terra provocaram inundações; e em um só dia, digo, em uma só e fatal noite, a terra tragou todos os vossos guerreiros, e a ilha de Atlântida desapareceu entre as águas. Como resultado, não é possível, desde então, explorar este oceano, muito em decorrência do grande lodo deixado por esta imensa ilha no momento em que soçobrava até os confins das profundezas, que hoje serve de obstáculo insuperável para os navios.”

“esta imagem eterna, conquanto divisível, que chamamos de tempo. (…) o futuro e o passado são formas que em nossa ignorância aplicamos indevidamente ao Ser eterno. Dele nós dizemos: foi, é, será; quando só se pode dizer, verdadeiramente: ele é.”

a unidade perfeita do tempo, o ano perfeito, realiza-se quando as 8 revoluções de velocidades diferentes voltaram a seu ponto de partida”¹

¹ Segundo M. Martin, refere-se Platão ao “mínimo múltiplo comum” dos anos da Lua, de Mercúrio e dos outros planetas conhecidos então em seu percurso de translação ao redor do Sol, o que resultaria no ano perfeito ou grande ano para o observador terrestre, quando finalmente acontece de estarem todos os corpos celestes alinhados e tudo se reinicia do zero na grande corrida circular periódica e eterna da existência.

“…que o que fizer bom uso do tempo que lhe fôra dado para viver voltará ao astro que lhe é próprio, ali permanecerá e ali atravessará uma vida feliz; que o que delinqüir será transformado em mulher num segundo nascimento, e se ainda assim não cessar de ser mau encarnará outra vez no formato de seus vícios, como aquele animal a cujos costumes mais se tiver assemelhado na vida anterior; e, por fim, nem suas metamorfoses nem seus tormentos concluirão enquanto não se fizer digno de recobrar sua primeira e excelente condição, o que alcançará deixando-se governar pela revolução do mesmo e do semelhante e domando mediante a razão esta massa irracional, refrega tumultuosa das partes de fogo, água, ar e terra que vão se acrescentando ao longo do tempo a sua natureza.

Promulgadas estas leis, e com o objetivo de não responder, para o sucessivo, pela maldade destas almas,¹ Deus as semeou, estas na Terra, aquelas na Lua, e outras nos demais órgãos do tempo [planetas].”

¹ Este motivo reaparece no Fédon, quando Zeus resolve delegar o poder de julgar os mortos, no Submundo, a seus filhos. Aparentemente, a divindade se cansa de cuidar diretamente do problema de “avaliar o comportamento das almas pecadoras” em seus erros sem conta…

“O Ser, feito presa das águas por todos os lados, caminhava adiante, para trás, para a direita, para a esquerda, para cima, para baixo. A onda, que avançando e retrocedendo dava ao corpo seu alimento, estava já bastante agitada.”

“Os deuses encerraram os dois círculos divinos da alma num corpo esférico, que construíram à imagem da forma redonda do universo, que é aquilo que nós chamamos de cabeça, a parte mais divina de nosso corpo e a que manda em todas as demais.”

A observação do dia e da noite, as revoluções dos meses e dos anos, nos ensinaram o número, o tempo e o desejo de conhecer a natureza e o mundo. (…) Quanto aos demais benefícios, infinitamente menores, para quê celebrá-los? Só quem não é filósofo ou o cego de espírito que não sente aqueles primeiros benefícios poderiam se queixar, mas se queixariam em vão.”

“A harmonia, cujos movimentos são semelhantes aos de nossa alma, o tino dos que com inteligência cultivam o comércio das Musas — harmonia esta reduzida agora a servir, quão trágico!, a prazeres frívolos.”

MOIRA VENCIDA: “Superior à necessidade, a inteligência convencera a primeira de que devia dirigir a maior parte das coisas criadas ao bem; e, por haver-se deixado persuadir pelos conselhos da sabedoria, a necessidade deu azo a que se formara, no começo de tudo, o universo.”

“quanto ao fogo, p.ex., deixemos de dizer: isto é fogo; e da água não digamos: aquilo é água; mas sim: parece água. Procedamos da mesma forma com todas as coisas variáveis, às quais atribuímos erroneamente estabilidade sempre que, diante de seu aparecimento, as designamos por <isto> e <aquilo>.”

“Existe um número infinito de mundos ou somente um número limitado? Quem refletir atentamente compreenderá que não se pode sustentar a existência de um número infinito sem que isto denuncie o desconhecimento de coisas que pessoa alguma pode ignorar. Mas não há mais do que um mundo, ou é preciso admitir que haja cinco? É esta uma questão dificílima. A nós nos parece que a preferência por um mundo único é a mais correta; mas outros, encarando a questão sob outro ponto de vista, poderiam muito bem se opor.”

MARTIN (HIGH DAGGER) E EU – A A-D[R]AGA QUE NOS SOBRE-VOA AO IN-VÉS DE PER-FURAR

GLOSSÁRIO PRÉ-FACIAL

Puesto que las relaciones en el interior de las familias de palavras desempeñan un importante papel en el texto de Heidegger y pueden quedar ocultas por la traducción, el glosario está ordenado de acuerdo con ellas. [Mas preferi indexar prioritariamente em ordem alfabética, aqui, na medida do possível, o trabalhoso léxico alemão.]”

Anblick: visão i’m-age’m

Einblick: compreensão

andenken: pensar-em

an-denken: lembrar

an-drängen: in-vestir

überdrangen: sobrepujar

Anfang: início

An-fang: in-ício

incipio (latim): in+capio: eu pego (I seize)

An-wesen: “natureza-do-Ser”

anwesen: presenciar

Anwesenheit: presença

Dada la opción tomada, que prima la correlación esencia-presencia, la expresión participial das Anwesende queda en una cierta ambigüedad, que constituye por otra parte uno de los centros de lo que está en discusión: «lo que presencia», «lo presenciante», o simplemente «lo presente», en el cual, al igual que antes con «esencia», queda de cierto modo oculto el movimiento de llegar a la presencia, el desocultamiento.”

apremiante (espanhol): urgente, obrigatório

[!]

aufbleiben: manter-se receptivo, resistir

ausbleiben: falhar / não se dar / não ter lugar

Aufgang: surgimento

Aufgang Amadeus Mozart! Surja, Klassische Musik!

Auseinandersetzung: confrontação

de-fim-a-diante-com próximoutro?

einander: um ao outro, cada um

Ersetzung: compensação, reembolso

setzen: set, pôr sunset

o olhar perspectivístico de Nietzsche

austragen: levar às últimas conseqüências (de-encerrado)

quitar

resolver, chegar à síntese do problema

dirimir

Beginn: começo que não é um início

bergen: cobijar (cuidado com o falso cognato – salvar, resgatar, albergar, COBRIR, OCULTAR, MENTIR)

salvaguardar = verwahren, preservar = einmachen

entbergen: desocultar, de certa forma CONDENAR, MATAR EXPOSTO AO SOL DA VERDADE

Beständigkeit: consistência, com-insistência = Inständigkeit, disponível-sem-p-terno

Beständsicherung: aseguramiento de la existencia consistente”

Bewusst-sein: ser-consciente

blicken: olhar, contemplar

consunção: definhamento

dichten: poetizar; inventar.

obrar = wirken

erwirken: levar a efeito

wirkend: eficiente

Wirklichkeit: realidade efetiva

Wirksamkeit: eficácia

ob-rar o-brar

eigentlich: em-si

EntZWEIung: des-união

ereignen: acontecer = geschehen (historiar)

Ereignis: acontecimento

ereignung: apropriação

Erinnerung: recordação, lembrança

festhalten: assegurar = sichern; deter.

festmachen: fixar, tornar consistente

festsetzen/feststellen: determinar = bestimmen

Fort-gang: pro-gresso pró-gesso

Gesetz: lei (ou seja, o [im]posto – setzen no passivo)

Gesichtskreis: círculo visual, campo-de-visão

Ge-stell: dis-positivo dis-pôr isto não está disposto como diria o preguiçoso Ed-som que é um des-afino para meus ou-vidos.

das Gewesene: «lo ya sido» [jazido], lo que no quiere decir lo simplemente pasado, por lo que es importante seguir teniendo presente el wesen que está en el participio; cfr. II 12, 28. Die Gewesenheit: «lo esencialmente sido»; cfr. II 12. Das Ge-wesen: «lo esenciado»; con la separación del «ge-», Heideg«ge-»r [hehe-gege] quiere señalar su carácter de recogimiento de lo múltiple (como en el término Ge-birge, montañas, cadena montañosa, respecto de Berg, montaña singular); cfr. II 315. Das Gewesende: «lo ya sido esenciante»; cfr. II 397.”

Gleich: O Mesmo

Eingleichung: assimilação = Einverleibung

Grundfrage: pergunta fundamental

Ab-grund: ab-ismo

herstellen: produzir

Hipóstase/hipostasiar (português): ser ou existência e não “invenção”? Polissemia medicinal-teológica.

Leib: corpo com-vida (mas não aceitei)

lichten: despejar (não é alumiar ou iluminar)

liegen: sein/be, ou pelo menos a parte do “estar”

Machenschaft: maquinação

machten: exercer-poder

Bemächtingung: a/em-poderamento, o substantivo favorito das feminazis.

mentar (espanhol): mencionar

Mit-teilen: com-partir

Not-Wendigkeit: agilidade da necessidade! [k]Nót górdio da vida cal-do-que-nó!

Sache: coisa no sentido abstrato (contraparte de Ding, material)

Satz: princípio

Setzung: posição

Voraus-setzung: pressu-posição

selbständig: independente, aquele que se mantém de pé por si mesmo, autossustém-se.

Stimme: voz

Stimmung: temperamento, ânimo

Trieb: pulsão carpe-dia-trieb nehmen-the-day!

übersinnlich: suprassensível

überwinden: superar

ungut: engraçado (e não mau ou não-bom!)

Unheimische: desamparo

Unheimlische: inquietante

Untergang: ocaso

Unterkunft: albergue, guarida

Unwesen: «inesencia»; la palabra, que es claramente una negación de Wesen (esencia), existe en el lenguaje corriente y tiene una connotación peyorativa, de abuso, confusión. Sobre su relación con la esencia, cfr. esp. II 294.”

Unwillen: fúria (e não passivo ou não-vontade!) – mesma raiz de in-dignação, mal-dizer, não-aceitar.

Verfestigung: consolidação

verlassen: abandonar, esquecer

unterlassen: omitir

veranlassen: ocasionar ocaso-nar, derivar… brotar, nascer, partir é perder-se. É ser autêntico.

verrechnen: computar

Versuch: tentativa

Versuchender: tentador

vollENDung: acabamento

vollziehen: levar a cabo

wahren: conservar; durar.

anwähren: perdurar

Weile: morada; intervalo, instante, lapso (justamente com sua correlação espácio-temporal: espaço de abrigo, tempo de abrigo do Ser)

jeweilig: o particular

Wert: valor setzen des Werte (= Wertsetzung)

Umwert: não-valor, desvalor

Umwertung: transvaloração (desvalorização de todos os valores!)

Wesen: essência (et al.) (daí a correspondência pós-nietzschiana entre essenciar e presenciar)

La forma wesen deriva de una raíz indogermánica que comparte con otras el sentido de <ser> y que es posteriormente sustituida por ésta. En alemán queda en el participio pasado de ser (gewesen) y en las expresiones anwesen (presente) y abwesen (ausente). Wesen en sentido verbal es empleado por Heidegger para decir «ser», sin que por ello se tenga que pensar que aquello de lo que se dice sea algo «ente», reservando entonces la palabra «ser» para los entes (cfr., p.ej., II, 177). Acuñamos entonces para «wesen» (en sentido verbal) el verbo «esenciar». En el Wesen entendido como «esencia», quididad, «qué-es», queda oculto ese carácter verbal, lo que implica también que en ocasiones debe dejarse traslucir y entenderse como <el esencial>. «Das wesende» será «lo que esencía» o «lo esenciante».

Ziel: meta

Zweck: fim

(relativamente intercambiáveis)

Züchtung: adestramento

zustellen: remeter-a, proporcionar

* * *

La primera edición de la La voluntad de poder abarcaba 483 fragmentos numerados. Pronto se vió que esta edición había resultado muy incompleta en relación con el material manuscrito existente [vide esclarecimentos em azul bem adiante neste trabalho]. En 1906 apareció una nueva edición, sustancialmente aumentada, manteniendo el mismo plan anterior. Abarcaba 1067 fragmentos, es decir, más del doble de los que tenía la primera. Esta edición apareció en 1911 formando los tomos XV y XVI de la llamada «edición en gran octavo» de las obras de Nietzsche. Sin embago, tampoco ella contiene todo el material; lo que no fue incluido en el plan apareció en los dos tomos de la citada edición dedicados a la obra postuma (XIII y XIV).La gran cantidad de cartas de que se dispone, que sigue aumentando contínuamente gracias a nuevos e importantes descubrimientos, también habrá de publicarse en orden cronológico.”

Para el uso diario durante este curso es recomendable la edición de La voluntad de poder preparada por A. Baeumler para la colección de bolsillo de la editorial Kröner. Es una reproducción fiel de los tomos XV y XVI de las Obras Completas y contiene un sensato epílogo y un resumen breve y bien hecho de la vida de Nietzsche. Además, Baeumler ha editado en la misma colección un volumen titulado Nietzsche in seinen Briefen und Berichten der Zeitgenossen [Nietzsche en sus cartas y en relatos de sus contemporáneos]. El libro resulta útil para una primera toma de contacto. Para el conocimiento de su vida sigue conservando su importancia la exposición hecha por su hermana [!!], Elisabeth Förster-Nietzsche: Das Leben Friedrich Nietzsches [La vida de Friedrich Nietzsche], 1895-1904.

Efectivamente, el desierto a mi alrededor es inmenso; en realidad sólo soporto a quienes son totalmente extraños y casuales o a quienes están vinculados a mi desde hace mucho o desde la infancia. Todo lo demás se ha desmoronado o ha sido directamente rechazado (ha habido en esto mucha violencia y mucho dolor).”

Con su doctrina del eterno retorno Nietzsche no hace más que pensar a su modo el pensamiento que, de modo oculto, pero constituyendo su auténtico motor, domina toda la filosofía occidental. Nietzsche piensa este pensamiento de manera tal que con su metafísica vuelve al inicio de la filosofía occidental; o, expresado con mayor claridad: al inicio tal como la filosofía occidental se ha acostumbrado a verlo en el curso de su historia, a lo cual también Nietzsche ha contribuido, a pesar de tener, por otra parte, una comprensión originaria de la filosofía presocrática.”

La eternidad, no como un ahora detenido, ni como una serie de ahoras desarrollándose al infinito, sino como el ahora que repercute sobre sí mismo: ¿qué otra cosa es esto sino la oculta esencia del tiempo? Pensar el ser, la voluntad de poder, como eterno retorno, pensar el pensamiento más grave de la filosofía, quiere decir pensar el ser como tiempo. Nietzsche pensó este pensamiento, pero no lo pensó aún como la pregunta por ser y tiempo. También Platón y Aristóteles, al comprender el ser como ουσία (presencia), pensaron este pensamiento, pero al igual que Nietzsche, tampoco lo pensaron como pregunta.”

Baeumler presenta lo que Nietzsche denomina el pensamiento más grave y la cima de la consideración como una convicción «religiosa» totalmente personal, y agrega: «Sólo una de las dos puede tener validez: o bien la doctrina del eterno retorno o bien la de la voluntad de poder» (p. 80). «El fundador de religiones Nietzsche es también el que lleva a cabo una egiptización del mundo heraclíteo». De acuerdo con ello, la doctrina del eterno retorno significa una detención del devenir. En este dictamen, Baeumler supone que Heráclito enseña el eterno flujo de las cosas en el sentido de un continuar indefinido. Hace ya algún tiempo que sabemos que esa comprensión de la doctrina heraclitea no es griega. Pero tan cuestionable como esa [primeira] interpretación de Heráclito es que pueda tomarse sin más la voluntad de poder de Nietzsche como devenir en el sentido de un continuo fluir. la doctrina del eterno retorno, en la que él teme un egipticismo, va en contra de su concepción de la voluntad de poder, a la cual, a pesar de hablar de metafísica, no concibe de modo metafísico sino que interpreta de modo político.”

La segunda interpretación de la doctrina nietzscheana del eterno retorno es la de Karl Jaspers. Por una parte, Jaspers se ocupa de ella de modo más detenido y ve que constituye un pensamiento decisivo de Nietzsche. Sin embargo, y a pesar de hablar de ser, Jaspers no lleva este pensamiento al ámbito de la pregunta fundamental de la filosofía occidental y por lo tanto tampoco lo pone en verdadera conexión con la doctrina de la voluntad de poder.”

A MÁSCARA DO ESQUERDOPATA METALEIRO: «Pero nosotros, nuevos filósofos, no sólo comenzamos con la exposición de la jerarquía y la diferencia de valor fáctica entre los hombres, sino que además queremos precisamente lo contrario de una equiparación, de una igualación: enseñamos el extrañamiento en todo sentido, abrimos abismos como nunca los ha habido, queremos que el hombre sea más malo de lo que nunca lo fue. Entretanto vivimos aún ocultos y extraños unos de otros. Por muchos motivos nos será necesario ser ermitaños e incluso emplear máscaras, por lo que difícilmente serviremos para buscar a nuestros semejantes. Viviremos solos y conoceremos probablemente los martirios de cada una de las siete soledades. Y si por casualidad nos cruzamos en el mismo camino, puede apostarse a que no nos reconoceremos o nos engañaremos mutuamente» (La voluntad de poder, n. 988)

¡Gracias a la mera eliminación habría de surgir por sí mismo algo nuevo!”

Una proposición en cuanto proposición no puede ser nunca un principio.”

La interpretación del libro no la comenzaremos, sin embargo, con su primer capítulo, «La voluntad de poder como conocimiento», sino con el cuarto y último: «La voluntad de poder como arte».”

PARA UMA HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA? “La obra capital de Schopenhauer apareció en el año 1818. Es profundamente deudora de las obras capitales de Schelling y Hegel, por entonces ya publicadas. La mejor prueba de ello son los insultos desmedidos y faltos de gusto que Schopenhauer propinó a Hegel y Schelling durante toda su vida. Schopenhauer llama a Schelling «cabeza hueca» y a Hegel, «burdo charlatán». Estos insultos a la filosofía, frecuentemente imitados en la época posterior a Schopenhauer, ni siquiera tienen el dudoso privilegio de ser especialmente «nuevos».

En una de sus obras más profundas, el tratado Sobre la esencia de la libertad humana, aparecido en 1809, Schelling expresó: «En última y suprema instancia no hay más ser que el querer. Querer es el ser originario» (I, VII, 350). Y Hegel, en su Fenomenología del espíritu (1807), concibió a la esencia del ser como saber, pero al saber como esencialmente igual al querer.

Schelling y Hegel tenían la certeza de que con la interpretación del ser como voluntad no hacían más que pensar el pensamiento essencial de otro gran pensador alemán, el concepto de ser de Leibniz, quien determinó la esencia del ser como la unidad originaria de perceptio y appetitus, como representación y voluntad. No es casual que el propio Nietzsche nombre a Leibniz dos veces en La voluntad de poder en passajes decisivos: «La filosofía alemana como un todo —Leibniz, Kant, Hegel, Schopenhauer, para nombrar a los grandes— es el tipo más profundo de romanticismo y nostalgia que haya habido hasta ahora: el anhelo de lo mejor que jamás haya existido» (n. 419) .Y: «Händel, Leibniz, Goethe, Bismarck: característicos del tipo alemán fuerte» (n. 884).”

«Dependencia» no es un concepto que pueda expresar la relación de los grandes entre sí.”

Todas las ciencias, en cambio, piensan sólo un ente entre otros, un determinado ámbito del ente. Sólo están vinculadas inmediatamente por él, pero nunca de modo absoluto. Puesto que en el pensamiento filosófico reina el mayor vínculo posible, todos los grandes pensadores piensan lo mismo. Pero este «mismo» es tan esencial y tan rico que ninguno puede agotarlo, sino que cada uno no hace más que vincular a cada uno de los otros de modo más riguroso.

«El querer me parece sobre todo algo complejo, algo que sólo como palabra tiene una unidad—y precisamente en una palabra está encerrado el prejuicio popular que se ha adueñado de la precaución siempre escasa de los filósofos» (Más allá del bien γ del mal; VII, 28)—. Nietzsche se dirige aquí sobre todo contra Schopenhauer, que opinaba que la voluntad era la cosa más simple y conocida del mundo.” “Pero este planteamiento es un error. Según la convicción de Nietzsche, el error básico de Schopenhauer está en pensar que hay algo así como un querer puro, que sería más puro cuanto más completamente indeterminado se deje lo querido y más decididamente se excluya al que quiere. Por el contrario, en la esencia del querer radica que lo querido y el que quiere sean integrados en el querer

O ENSIMESMADO ESTÁ FORA DE SI: “La ira no podemos proponérnosla ni decidirla, sino que nos asalta, nos ataca, nos «afecta». Este asalto es repentino e impetuoso; nuestro ser se agita en el modo de la excitación; nos sobreexcita, es decir, nos lleva más allá de nosotros mismos, pero de manera tal que en la excitación ya no somos dueños de nosotros mismos. Se dice: actuó presa de sus afectos. El lenguaje popular muestra una visión aguda cuando respecto de alguien presa de excitación dice que «no se contiene». En el asalto de la excitación el contenerse desaparece y se transforma en explosión. Decimos: está fuera de sí de alegría.”

UM HOMEM E/OU UM RATO

O HOMEM REVOLTADO, O HOMEM INDISPOSTO

O HOMEM SOBREPOSTO, O HOMEM QUE PAGUIMPOSTO

O HOMEM SUPOSTO APENAS SUPOSTO HOMEM

O RATO ROEDOR-O HOMEM HONRADO

O HUMANÓIDE ROÍDO, O IMPÉRIO RUÍDO

O RATO RASGADO, O RATO HORRÍVEL

O HOMEM-RATO FUDIDO

O TATO EM FALTA O TETO PREENCHIDO

QUEM MEXEU NO MEU RATO

QUEM ESFAQUEOU O MEU HOMEM

QUEM ESCAPOU

PELO BURACO DA RATOEIRA

SEM DEIXAR VESTÍGIO

EIS A Q.: PEDIDO DE SOCORRO? “El odio no se esfuma después de una explosión, sino que crece y se endurece, carcome y consume nuestro ser.” “El irascible pierde la capacidad de meditar. El que odia potencia la meditación y la reflexión hasta el extremo de la astuta malevolencia.” Sou astuto ou me deixo levar como um balão mal-cuidado?

HOJE, EU TE JURO, ESTOU SUPERIOR A VOCÊ: “El amor no es ciego, sino clarividente; sólo el enamoramiento es ciego, fugaz y sorpresivo, un afecto, no una pasión. (…) gran pasión — el derroche y la invención, no sólo el poder dar sino el tener que dar y, al mismo tiempo, esa despreocupación por lo que ocurra con lo que se derrocha, esa superioridad que descansa en sí misma que caracteriza a la gran voluntad.” la interna ligereza de lo superior”

Nietzsche se queda en camino y le es siempre más urgente la caracterización inmediata de lo que quiere. Con tal actitud, adopta inmediatamente el lenguaje de su tiempo y de la «ciencia» contemporánea. Al hacerlo, no se arredra ante exageraciones conscientes e interpretaciones unilaterales, creyendo que de este modo puede destacar de la manera más clara posible lo que diferencia sus concepciones y sus preguntas de las corrientes. Al seguir este proceder mantiene, sin embargo, una visión del conjunto, y, por así decirlo, puede permitirse esas unilateralidades. El proceder se vuelve fatal, en cambio, cuando otros, sus lectores, recogen desde fuera esas proposiciones y, dependiendo de lo que se quiera que ofrezca Nietzsche en la ocasión, o bien las exponen como su opinión única, o bien lo refutan gratuitamente basándose en tales expresiones aisladas.O tipo Ceariba da minha contemporaneidade (os atrasados).

O ser consiste no consentimento.”

Aristóteles – Da Alma: “Su contenido no es una psicología, ni tampoco una biología. Es una metafísica de lo viviente, de lo cual también forma parte el hombre.”

Para Heidegger, Aristóteles, Leibniz e Kant não são idealistas, em que pese o que afirma: “Tomados en conjunto, los grandes pensadores no han otorgado nunca el primer rango a la representación en sus concepciones de la voluntad.” [!!!]

AGORA FALOU A MINHA LÍNGUA: “Da igual que se la llame idealista o no idealista, emocional o biológica, racional o irracional, en cualquier caso será una falsificación.”

sólo en la continua elevación lo elevado puede seguir siendo elevado y seguir estando en lo alto.”

GRANDE FALA DE HEGEL: “La belleza sin fuerza odia al entendimiento, porque éste le exige aquello de lo que no es capaz. Pero la vida del espíritu no es la vida que retrocede ante la muerte y se mantiene pura frente a la desolación, sino la que la soporta y se conserva en ella. El espíritu sólo conquista su verdad encontrándose a sí mismo en el desgarramiento absoluto. Es ese poder no como lo positivo que prescinde de lo negativo, como cuando decimos de algo que no es nada o es falso, y habiéndolo liquidado nos alejamos de él para pasar a otra cosa; sino que es ese poder en la medida en que mira a la cara a lo negativo, en que se detiene en él.”

Schopenhauer aparece, al contrario [da dissimulação e da hipocrisia do status quo, do Estado], como el testarudo [obstinado] moralista que en última instancia, para seguir teniendo razón con su apreciación moral, se convierte en negador del mundo. Finalmente en <místico>.” VdP

Die Briefe des Freiherrn Carl von Gersdorff an Friedrich Nietzsche, ed. por K. Schlechta.

Schopenhauer interpretó el hecho de ser ávidamente leído por el público culto como un triunfo filosófico sobre el idealismo alemán. Pero la razón de que Schopenhauer ocupara el primer lugar en la filosofía de esa época no radicaba en que su filosofía hubiera triunfado sobre el idealismo alemán sino en que los alemanes habían sucumbido ante el idealismo alemán, en que ya no sabían estar a su altura. Esta decadencia hizo de Schopenhauer un gran hombre, lo que tuvo como consecuencia que la filosofía del idealismo alemán, vista desde los lugares comunes schopenhauerianos, se convirtiera en algo extraño y extravagante y cayera en el olvido. Sólo con rodeos y extravíos volvemos a encontrar el camino que conduce hacia esta época del espíritu alemán. Estamos, sin embargo, muy alejados de una relación verdaderamente histórica con nuestra historia. Nietzsche sintió que aquí operaba una «grandiosa iniciativa» del pensamiento metafísico. Se quedó, no obstante, en este presentimiento, y así tenía que ser, pues la década de trabajo dedicada a la obra capital no le dejó la serenidad necesaria para demorarse en las espaciosas construcciones de la obra de Hegel y Schelling.”

El poder es la voluntad en cuanto querer-ir-más-allá-de-sí, pero precisamente por ello es volver-a-sí, encontrarse y afirmarse en la conclusa sencillez de la esencia”

Lo que se encuentra en Aristóteles como saber es aún filosofía, es decir, el libro citado de la Metafísica [o IX] es el más digno de cuestión de toda la filosofía aristotélica. (…) Pero la propia doctrina aristotélica es sólo una salida en una determinada dirección, el llegar-a-un-primer-final del primer inicio de la filosofía occidental en Anaximandro, Heráclito y Parménides”

Ser artista es un poder-producir. Pero producir quiere decir: llevar a ser algo que aún no es. En la producción asistimos, por así decirlo, al devenir del ente y nos es posible observar con limpidez su esencia.”

En qué medida el artista sólo es un estadio previo. El mundo como una obra de arte que se da a luz a sí misma…” VdP

Arte no mienta [nomeia] aquí el estrecho concepto actual, con el significado de «bellas artes» como producción de lo bello en la obra. Este antiguo uso de la palabra arte en un sentido más amplio, según el cual las bellas artes son sólo un tipo de arte entre otros, es interpretado por Nietzsche en el sentido de comprender toda producción como una correspondencia con las bellas artes y el artista respectivo. «El artista es sólo un estadio previo» se refiere al artista en sentido estrecho, al que produce obras de arte.”

ya en su primer escrito (El nacimiento de la tragedia a partir del espíritu de la música), ve Nietzsche al arte como carácter fundamental del ente. Así podemos comprender que en la época en que trabaja en La voluntad de poder vuelva a la posición sobre el arte que había formulado en El nacimiento de la tragédia

esa profesión de fe, ese evangelio del artista” VdP

A arte é a conexão entre o real e o fantástico de cada era, perfeitamente circulares, reversíveis, retroalimentares. Paifilhopai A conexão entre dois abismos centrípetos Eu não sou o fim, eu sou a conexão. Eu sou o Messias, mas o Messias traz a Mensagem.

El concepto de filosofía no debe determinarse más siguiendo la figura del moralista, de aquel que a este mundo, que no valdría nada, le opone otro más elevado. Por el contrario, en contra de estos filósofos morales nihilistas (cuyo ejemplo más reciente ve Nietzsche en Schopenhauer), hay que poner al antifilósofo, al filósofo que surge del contramovimiento, al «filósofo artista».”

Morreu um tipo de homem.

Antropomorfizou-se um tipo de morte.

(Ejercicios previos: 1) el que se configura a sí mismo, el ermitaño; 2) el artista, tal como ha sido hasta ahora, como pequeño ejecutor, en una materia [meu limite (infra-da20ano)])” VdP

Toda elevación creadora y todo el orgullo de la vida que descansa sobre sí misma constituyen, por el contrario, rebelión, ceguera y pecado.”

Felizmente los griegos no tenían vivencias, pero sí, en cambio,
un saber tan claro y originariamente desarrollado y una tal pasión por
el saber que en esa claridad del saber no precisaban «estética» alguna.”

El gran arte no es sólo grande ni se vuelve grande por la superior calidad de lo creado, sino porque es una «necesidad absoluta». Su rango es superior porque es esta necesidad, y mientras lo siga siendo; pues sólo en razón de la grandeza de su esencialidad crea a su vez un ámbito de grandeza para lo producido. Paralelamente al desarrollo del dominio de la estética y de la relación estética con el arte se produce en la época moderna la decadencia del gran arte en el sentido señalado. Esta decadencia no consiste en que la «calidad» sea inferior y el estilo descienda, sino en que se pierde la relación inmediata a la tarea fundamental de exponer lo absoluto, es decir, de ponerlo en cuanto tal como determinante dentro del ámbito del hombre histórico.“En el instante histórico en el que el desarrollo de la estética alcanza el punto más alto, abarcador y estricto posible, el gran arte ya ha llegado a su fin. El acabamiento de la estética tiene su grandeza por reconocer y expresar este final del gran arte como tal. La última y mayor estética de occidente es la de Hegel. Está formulada en sus Lecciones de estética, impartidas por última vez en 1928-1929 en la Universidad de Berlín.” «Los bellos días del arte griego ya se han ido, como la edad de oro de la baja Edad Media.» H.

Frente al hecho de que el arte ha abandonado su esencia, el siglo XIX acomete una vez más el intento de una «obra de arte total». Este esfuerzo está ligado al nombre de Richard Wagner. No es nada casual que no se limite a la creación de obras que sirvieran a ese fin, sino que esté acompañado y apoyado por reflexiones de principio, con sus correspondientes escritos. Citemos los más importantes: El arte y la revolución, 1849; La obra de arte del futuro, 1850; Ópera y drama, 1851; El arte alemán y la política alemana, 1865. No es posible aquí aclarar, ni siquiera en grandes rasgos, la complicada y confusa situación histórico-espiritual de mediados del siglo XIX. En la década de 1850 a 1860 se mezclan nuevamente, entrelazándose de extraña manera, la auténtica y bien conservada tradición de la gran época del movimiento alemán y el penoso vacío y desarraigo de la existencia que saldrán completamente a la luz en los «Gründerjahre» [1871-1873]. No podrá comprenderse nunca este siglo sumamente ambiguo recurriendo a una descripción sucesiva de sus diferentes períodos. Es necesario delimitarlo desde dos lados en dirección convergente, desde el último tercio del siglo XVIII y desde el primer tercio del siglo XX.”

la obra de arte debe ser una celebración de la comunidad del pueblo: «la» religión. Para ello, las artes determinantes son la poesía y la música. El propósito era que la música fuera un medio para hacer valer el drama, pero en realidad, en la forma de ópera, se convierte en el auténtico arte. El drama no tiene su peso y su esencia en la originariedad poética, es decir en la verdad conformada en la obra lingüística, sino en el carácter escénico de lo representado y de la gran coreografía. La arquitectura sólo vale en cuanto construcción de teatros, la pintura en cuanto decorado, la plástica en cuanto representación gestual del actor. La poesía y el lenguaje se quedan sin la esencial y decisiva fuerza conformadora del auténtico saber. Se busca el dominio del arte como música, y con él el domínio del puro estado sentimental: el frenesí y el ardor de los sentidos, la gran convulsión, el feliz terror de fundirse en el gozo, la desaparición en el «mar sin fondo de las armonías», el hundimiento en la embriaguez, la disolución en el puro sentimiento como forma de redención: «la vivencia» [antítese suprema do grego, certa falta inata de inocência ou transparência, pesantez, neblina, cenho e vida sobrecarregados, densos ao insuportável cúbico…] en cuanto tal se vuelve decisiva. La obra es ya sólo un excitante de la vivencia. Todo lo que se represente ha de actuar sólo [en soledad] como primer plano, como fachada, con la mira puesta en la impresión, el efecto, la voluntad de excitar: «teatro». El teatro y la orquesta determinan el arte.”

¿Y el estado en el que el preludio de Lohengrin, por ejemplo, transporta al oyente, y más aún a la oyente, se diferencia esencialmente del éxtasis sonambúlico? Después de escuchar este preludio le oí decir una vez a una italiana, con esos ojos belamente embelesados que saben poner las wagnerianas: <come si dorme con questa música!>”

Pero lo absoluto es ahora experimentado sólo como lo puramente carente de determinación, como la total disolución en el puro sentimiento, como el balancearse que se hunde en la nada. No es de sorprender que Wagner encontrara en la obra capital de Schopenhauer, que leyó detenidamente cuatro veces, la confirmación y explicación metafísica de su arte. Por más que, en su realización y en sus consecuencias, la voluntad wagneriana de construir la «obra de arte total» se convirtió de modo inevitable en lo contrario del gran arte, tal voluntad es, sin embargo, única en su tiempo y, a pesar de lo mucho de histriónico y aventurero que tuviera, eleva a Wagner por encima de los demás esfuerzos que se han hecho por el arte y por mantener su carácter esencial en la existencia.”

«Sin ninguna duda, Wagner les dio a los alemanes de esta época la idea más abarcadora de lo que podría ser un artista: el respeto por “<el artista> creció de pronto enormemente; suscitó por todas partes nuevas valoraciones, nuevos deseos, nuevas esperanzas; y quizás no en último término precisamente por el carácter meramente anunciador, incompleto, imperfecto de sus creaciones artísticas. ¡Quién no ha aprendido de él!»

NASCI “CERTO” AFINAL DE CONTAS: “Que el intento de Richard Wagner tuviera que fracasar se debe no solamente al predominio de la música respecto de las otras artes. Al contrario: que la música haya podido asumir esa preeminencia tiene ya su razón en el creciente desarrollo de una posición fundamental de tipo estético respecto del arte en su conjunto; se trata de la concepción y valoración del arte desde el mero estado sentimental y de la creciente barbarización de este último que lo convierte en la mera ebullición del sentimiento abandonado a sí mismo. Por otra parte, esta excitación de la embriaguez de los sentimientos, este desencadenarse de los afectos, podía tomarse como una salvación de la «vida», sobre todo frente al creciente desencanto y desolación de la existencia provocados por la industria, la técnica y la economía, en conjunción con el debilitamiento y vaciamiento de la fuerza conformadora del saber y la tradición, para no hablar de la falta de toda gran finalidad de la existencia. La ascensión a la ola de los sentimientos debía ofrecer ese espacio que faltaba, el espacio para una posición fundada y estructurada en medio del ente, posición que sólo la gran poesía y el gran pensar son capaces de crear.”

Pero puesto que Wagner buscaba meramente la ascensión de lo dionisíaco y desbordarse en él, mientras que Nietzsche queria sujetarlo y conformarlo, la ruptura entre ambos estaba ya predeterminada.”

Wagner no pertenecía a esa clase de personas para las que lo más horroroso son sus propios seguidores. Wagner necesitaba wagnerianos y wagnerianas. Nietzsche, en cambio, quiso y admiró a Wagner toda su vida; su disputa con él era de contenido y tenía una carácter esencial. Durante años aguardó y mantuvo la esperanza de que surgiera la posibilidad de una confrontación fértil.”

Sobre la relación entre Wagner y Nietzsche, cfr. Kurt Hildebrand, Wagner und Nietzsche; ihr Kampf gegen das 19. Jahrhundert [Wagner y Nietzsche; su lucha contra el siglo XIX], 1924.”

sabemos, por ejemplo, lo mucho que apreciaba Nietzsche una obra como el Nachsommer [Verano tardío] de Stifter, casi exactamente el mundo opuesto al de Wagner.”

GENEALOGIA SINUOSA DO FASCISMO: “Lo que en la época de Herder y Winckelmann estaba al servicio de una gran autorreflexión de la existencia histórica, es ejercido ahora por sí mismo, es decir como disciplina profesional; comienza la investigación histórica del arte propiamente dicha, aunque figuras como las de Jakob Burckhardt e Hippolyte Taine, a su vez totalmente diferentes entre sí, no pueden calibrarse con los instrumentos de medida de la especialización profesional. La investigación de la poesía desemboca en el ámbito de la filologia [temos de saber trafegar nas duas vias]; «creció con el sentido por lo pequeño, por la auténtica filología» (Dilthey, Gesammelte Schriften, XI, 216). La estética se convierte en una psicología que trabaja con métodos científico-naturales, es decir, los estados sentimentales son sometidos por sí mismos a experimentación, observación y medida en cuanto hechos que suceden; también aquí F. T. Vischer y W. Dilthey son excepciones, sostenidas y guiadas por la tradición de Hegel y Schiller. La historia de la poesía y de las artes plásticas consiste en que haya una ciencia de ellas que saque a la luz importantes conocimientos y al mismo tiempo mantenga despierta una disciplina de pensamiento. El cultivo de estas ciencias pasa por ser la auténtica realidad del «espíritu». La propia ciencia es, al igual que el arte, un fenómeno y un campo de actividad cultural. Pero allí donde lo «estético» no se convierte en objeto de investigación sino que determina la actitud del hombre, el estado estético se convierte en uno entre otros estados posibles, como p.ej. el político o el científico; el «hombre estético» es un producto del siglo XIX.”

VOLTAR AO FENÔMENO: “Lo que Hegel formulara respecto del arte —que había perdido poder en cuanto configuración y preservación determinante de lo absoluto— lo reconoce Nietzsche respecto de los «valores supremos» religión, moral y filosofía: la ausencia y la falta de fuerza creadora y de capacidad vinculante para fundar la existencia humano-histórica sobre el ente [sendo] en su totalidad. Pero mientras que para Hegel el arte, a diferencia de la religión, la moral y la filosofía, había caído en el nihilismo y se había transformado en algo pasado y carente de realidad efectiva, Nietzsche busca en él el contramovimiento [acabou X só está começando…]. En ello se muestra, a pesar de su essencial separación de Wagner, una repercusión de la voluntad wagneriana de «obra de arte total». (…) mientras que la estética hegeliana encontraba su desarrollo en una metafísica del espíritu, la meditación nietzscheana sobre el arte se convertía en una «fisiología del arte».”

«La estética no es más que una fisiología aplicada». De este modo, ya ni siquiera es «psicología», como ocurre en general en el siglo XIX, sino investigación científico-natural de los estados y processos corporales y de las causas que los provocan. (…) aquí se piensan hasta el final las consecuencias últimas del preguntar estético por el arte. El estado sentimental es reducido a excitaciones de las vías nerviosas, a estados corporales.

todo suceder es igualmente esencial e inesencial; en ese ámbito no hay ningún orden jerárquico ni se establecen criterios; todo es tal como es y sigue siendo lo que es, y su simple derecho radica en el hecho de que es. La fisiología no conoce ningún ámbito en el que algo estuviera sometido a decisión y elección. Dejar el arte en manos de la fisiología parece ser como rebajar el arte al nivel del funcionamento de los jugos gástricos. ¿Cómo podría el arte al mismo tiempo fundar y determinar la posición de valores auténtica y decisiva? El arte como contramovimiento al nihilismo y el arte como objeto de la fisiología, esto equivale a querer mezclar fuego y agua. Si aun es posible aquí un acuerdo, sólo lo será en el sentido de declarar que el arte, en cuanto objeto de la fisiología, no es el contramovimiento sino el movimiento capital y extremo del nihilismo.”

4) (…) la peligrosidad fisiológica del arte. Considerar: en qué medida nuestro valor «bello» es completamente antropomórfico: basado en presupuestos biológicos relativos al crecimiento y el progreso. (…)

7) La colaboración de las facultades artísticas en la vida normal, su ejercicio tonificante: inversamente lo feo.

8) La cuestión de las epidemias y el contagio.

9) El problema de la «salud» y la «histeria»; genio = neurosis.

10) El arte como sugestión, como medio de comunicación, como ámbito de invención de la induction psycho-motrice.

(…) 16) El tipo del romántico: ambiguo. Su consecuencia es el «naturalismo».

17) Problema del actor. La «falta de sinceridad», la típica capacidade de transformación como defecto de carácter… La falta de pudor, el payaso, el sátiro, el bufo, el Gil Blas, el actor que hace de artista…

Todo cuerpo viviente (Leib) es también un cuerpo físico (Körper), pero no todo cuerpo físico es un cuerpo viviente.”

la embriaguez de la fiesta, de la competición, de los accesos de valentía, de la victoria, de todo movimiento extremo; la embriaguez de la destrucción; la embriaguez bajo ciertas influencias meteorológicas, por ejemplo la embriaguez primaveral; finalmente la embriaguez de la voluntad, la embriaguez de una voluntad colmada y exhuberante.” “a embriaguez da festa, da competição, dos acessos de valentia, da vitória, de todo movimento extremo; a embriaguez da destruição; a embriaguez sob certas influências meteorológicas,