MENEXENO

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Consiste principalmente num longo discurso fúnebre que satiriza o famoso discurso de Péricles reconstruído por Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso. Essa característica torna o Menexeno único em toda a obra de Platão” – A.P.V.

E quem são seus panegiristas? Homens hábeis, que não se precipitam na hora de elogiar, senão que preparam muito de antemão seus discursos e exprimem-se em termos tão pomposos que, proclamando as qualidades que se tem e até as que não se tem, e ponderando e embelezando as ações por intermédio das palavras, enternecem nossas almas tamanha é a destreza com que celebram, às mil maneiras, à república, aos que morrem na guerra, a nossos antepassados e aos que ainda agora vivem.”

O discurso, o ruído cadenciado dos períodos, preenchem de tal forma meus ouvidos que apenas ao quarto ou quinto dia eu volto a mim e percebo onde é que me acho; é tal a habilidade de nossos oradores que chego a imaginar por breves horas que habito as Ilhas Afortunadas!”

quando se fala para as mesmas pessoas que se tem a incumbência de elogiar não creio que seja lá muito difícil bancar o bom orador.”

Surpreende-me, ó querido Menexeno, que me questiones se sou capaz de fazer uma elegia, eu que aprendi Retórica com uma das mestras mais talentosas,(*) em cujas lições já se formaram tantos e tão célebres oradores, o principal dentre seus alunos sendo Péricles, filho de Xantipo.” (*) “A mais célebre dentre as mais célebres mulheres gregas.¹ Originária de Mileto, Aspásia era filha de Axíoco. Também era cognominada <Hera>, assim como seu aluno mais proeminente, Péricles, se tornou <O Olímpico>. Muito versada em Retórica e Política, parece ser dado real e biográfico que também ensinou Sócrates na juventude.” – P.A.

¹ Mais que Safo?

Ah, e quase me esquecia: e Cono, filho de Metróbio. Foram estes meus dois professores, Cono na Música, Aspásia em Retórica.”

SÓCRATES – Creio que vás troçar de mim, vendo-me, velho como sou, fazer coisas de jovem.

MENEXENO – De forma alguma, Sócrates. Fala sem temor!

SÓCRATES – Pois bem, é benquisto que eu te satisfaça! Se pedisses que eu me despojara de minhas vestes e começasse a dançar, confesso que não estaria longe de satisfazer-te o desejo, uma vez que, de todo modo, a rua se encontra deserta.

DISCURSO DE ASPÁSIA (…)”

A primeira regalia de nascerdes atenienses, pensai, é não serdes estrangeiros.”

Esta é a mãe que merece que rendamos nossas primeiras homenagens, a nossa terra, e render homenagens a ela nada mais é que exaltar a nobre origem destes guerreiros.”

Sabeis que o governo era antigamente o mesmo que o atual, a aristocracia; tal é a forma política sob a qual vivemos, desde sempre. É verdade que uns chamam-na democracia; outros, doutra forma, conforme o gosto de cada qual, mas é com efeito uma aristocracia com consentimento popular. Nunca deixamos de ter reis, fosse por eleição ou sucessão, ou ainda previsão constitucional. Em geral é o povo aquele que possui a autoridade soberana, confere os cargos e o poder aos que crê serem os melhores; a debilidade, a indigência, um nascimento obscuro não são, como noutros Estados, motivos de exclusão, assim como as qualidades contrárias não são motivos obrigatórios de preferência”

Os outros países se compõem de homens de outra estirpe, e assim a desigualdade de raças se reproduz em seus governos despóticos ou oligárquicos. Ali os cidadãos se dividem em escravos e senhores. Nós e os nossos, que somos irmãos e nascidos de uma mãe em comum, não cremos ser nem escravos nem senhores uns dos outros.”

Criam dever combater contra os gregos mesmos pela liberdade de uma só parte da Grécia, e contra os bárbaros em favor da Grécia inteira.”

nosso povo expulsou Eumolpo¹ e as Amazonas que se espalharam sobre nossas planícies, afora outras tribos que se haviam instalado ao longo do território desde tempos antanhos; bem como também socorreu os argivos contra os súditos de Cadmo, bem como aos heráclidas contra os próprios argivos.”

¹ Rei trácio legendário. Conta-se que perdeu a guerra, mesmo sendo descendente de Poseidon; em compensação, os elêusidas, seus aliados na guerra, ganharam o direito, na celebração da paz, de habitarem uma porção da península ática e de celebrarem seus mistérios religiosos, que ficaram conhecidos como Mistérios de Elêusis.

Quando os persas, senhores de toda a Ásia, iniciaram sua marcha para conquistar e escravizar a Europa, nossos pais, os filhos desta terra, os expulsaram. É sumamente justo e nosso primeiro dever fazer desta recordação uma tradição entre nós; e exaltar sem limites o valor destes heróis. Porém, a fim de bem apreciar seu valor, transportemo-nos com a ajuda da imaginação àquela época em que a Ásia obedecia ao seu terceiro imperador. O primeiro, Ciro, depois de libertar os persas com gênio, subjugou os medos, seus ancestrais tiranos, e reinou sobre o restante da Ásia, até as fronteiras com o Egito. Seu filho submeteu o próprio Egito e todos os territórios da África que invadiu. Dario, o neto de Ciro, estendeu ainda mais os limites do império persa até a Cítia, graças à coragem de sua infantaria e de sua marinha; assim este tirano tornou-se senhor dos mares e das ilhas ao alcance das vistas. Nada era brioso e temerário a ponto de resistir a um ataque deste rei; os povos vencidos eram escravizados e o jugo dos persas se fazia sentir sobre as mais poderosas e belicosas nações.”

Os vencedores de Maratona ensinaram os gregos que um punhado de homens livres basta para expulsar por terra uma multidão de bárbaros, embora ainda não estivesse provado que isso poderia ser feito por mar. Nesse ínterim, os persas tinham fama de invencíveis nessa frente, pois sua frota dominava o oceano, seus soldados eram em maior número, suas riquezas eram mais amplas, sua habilidade e seu valor, inquestionáveis. Merecem, pois, nossos sumos elogios estes bravos marinheiros que por fim livraram os gregos do terror que inspirava a esquadra persa. Dentro em pouco os navios persas passaram a ser alvos de ridículo tanto quanto seus soldados de terra, inferiores a nós.”

A terceira façanha da independência grega, tanto cronologicamente quanto em importância, foi a batalha de Platéia, a primeira cuja glória foi dividida entre espartanos e atenienses. A conjuntura era crítica, o perigo iminente, e o triunfo foi completo.”

primeiro despertou a inveja; depois da inveja veio o ódio; e Atenas se viu necessitada, apesar de todos os seus méritos, a voltar as armas contra os próprios gregos. Começada a nova guerra, combateu em Tanagra contra os espartanos pela liberdade dos beócios. Esta primeira ação não obteve êxito, mas uma segunda foi decisiva, porque os demais aliados dos beócios os abandonaram e se retiram; porém, os outros aliados de Atenas, após vencerem a batalha de Oinófita, no terceiro dia, puderam deslocar suas tropas e favoreceram, no último momento, nossa causa. Os beócios, injustamente desterrados pelos espartanos, foram devolvidos a sua pátria.”

todos os gregos invadiram e arrasaram a Ática, e pagaram Atenas com tremenda ingratidão todos os seus feitos anteriores. Ainda assim, fomos capazes de vencê-los, graças a nossa superioridade marítima.”

Os espartanos, ao invés de matar os prisioneiros atenienses, os livraram e devolveram, concluindo assim a paz. Cria este povo eminentemente guerreiro que no caso dos bárbaros era preciso promover uma guerra de extermínio incondicional, mas que, tratando-se de homens de uma origem comum, só se devia combater até ficar clara a vitória de um dos lados. Porque não era justo que por um ressentimento particular de uma cidade contra outra se arruinasse todo o país, isto é, a Grécia.”

Se alguém pudesse supor que houve na guerra contra os bárbaros povo mais valente ou mais hábil que os atenienses, o que relatei, e as lápides destes heróis testemunham por mim, acabaríamos de comprovar-lhe que esta seria uma falsa suposição. Em meio a tantas secessões entre os gregos, os atenienses mantiveram-se superiores, triunfando nas batalhas contra cidades de mais renome guerreiro do que nós. E quase sempre Atenas venceu sozinha, sem contar com tropas aliadas estrangeiras. Mas quando a luta era contra os bárbaros, Atenas se unia a seus rivais gregos, e então conseguiam repeli-los. Depois desta última paz, uma terceira guerra eclodiu, tão terrível quanto inesperada.”

Uma vez asseguradas a paz e a tranqüilidade exteriores, nos entregamos a dissensões intestinas; e estas foram tais que, se a discórdia for mesmo uma lei inevitável do destino, não estaria fora dos desejos de cada indivíduo que seu país jamais experimentasse semelhantes turbações.”

somos de origem puramente grega e sem mescla com eles. Entre nós não há nada de Pélops, nem de Cadmo, nem do Egito, nem de Dánao, nem de tantos outros verdadeiros bárbaros de origem, gregos tão-só na lei adotada. O sangue grego puro corre por nossas veias sem qualquer mistura de sangue bárbaro, e disso decorre o incorruptível ódio que se inocula nas próprias entranhas da república que sentimos por tudo que provém do estrangeiro. Vimo-nos, pois, abandonados mais uma vez, tudo por não termos desejado cometer a vergonhosa e ímpia ação de entregar os demais gregos aos bárbaros! (…) ao celebrar-se a paz, conservamos nossa frota, nossos muros e nossas colônias; tão ansioso estava o inimigo em evadir a guerra” (*) “A paz de Antálcidas teve lugar 3 anos depois da morte de Sócrates. Este anacronismo não prova nada contra a autenticidade do Menexeno, já que, segundo Victor Cousin, encontram-se outros tantos em diálogos incontestavelmente platônicos.” – P.A. / “Paz ignominiosa do espartano Antálcidas com Artaxerxes II.” – A.P.V.

Tracei-vos as ações dos que aqui repousam debaixo da terra, que se sacrificaram por sua e por vossa pátria.”

Filhos, tudo quanto vos rodeia fala da nobreza do sangue de que descendeis. Pudéramos sobreviver sem honra, mas preferimos uma morta honrosa no lugar de condenar à infâmia vossos nomes e nossa posteridade!”

As riquezas não lustram a vida de nenhum homem despido de valor inerente; rico para os demais, pode sê-lo; mas nunca para si próprio. A força e a beleza do corpo não têm nenhum mérito no homem tímido e sem coração. São prendas impróprias que o põem cada vez mais em evidência, ou seja, evidenciam cada vez mais sua covardia. O próprio talento, separado da justiça e da virtude, nada mais é que uma habilidade desprezível, longe da sabedoria.”

não abuseis da glória de vossos pais, não a dissipeis, e sabei que nada é mais lastimável a um homem, um homem que tenha alguma noção de que é homem, que apresentar-se com nomes e títulos de que espera de contínuo a estima, e não advinda dos próprios méritos. Pensais que alguém é homem só por ser neto de gloriosos avós?!? A glória dos pais é, sem dúvida, o bem mais belo para seus descendentes, mas gozar deste sem a capacidade de transmiti-lo a seus próprios rebentos, e sem acrescentar a esta glória nada de si mesmo, é o cúmulo da abjeção.”

Sempre se considerou este aforismo sábio: nada em demasia; e ele contém muitos sentidos. O homem que não depende dos outros nem confia exclusivamente na sorte ou no azar para se tornar imortal tem todas as condições de se tornar um sábio e modelo de homem firme e prudente. Que a sorte lhe dê riquezas e filhos ou que as retire é o mais indiferente; mas se segue o sábio o preceito mencionado e consagrado pelas eras, excesso de alegria e excesso de pesar ser-lhe-ão igualmente estranhos; só em si mesmo e de si mesmo ele extrairá a confiança de que necessita.”

* * *

SÓCRATES – Eis aqui, ó Menexeno, a oração fúnebre de Aspásia de Mileto!

MENEXENO – Por Zeus, Sócrates! Bem-afortunada é Aspásia, se na qualidade de mulher é capaz de compor tão belos discursos!”