A MUDANÇA LINGUÍSTICA – Paulo Chagas

“Essa construção, perdida no português atual e em outras línguas românicas, é frequente nas línguas germânicas e no francês. Em francês, p.ex., o pronome on (originalmente o caso sujeito correspondente à forma regida ome, omne, todas elas formas do substantivo com o significado original de <homem>) é utilizado e, frases como on parle français. Da mesma forma, em várias línguas germânicas, como o alemão, encontramos o pronome man com esses mesmos sentidos, como em man spricht Deutsch

“Das numerosas palavras de origem árabe que entraram no português durante o domínio mouro na Península Ibérica, muitas se fixaram na forma precedida do artigo definido al, por exemplo alfaiate, álgebra. Outras se fixaram sem o artigo. Provavelmente houve variação com algumas delas. Nas palavras cuja forma em árabe era iniciada por uma consoante coronal, ou seja, uma consoante produzida com a ponta da língua, havia assimilação do l do artigo definido a essa consoante coronal, surgindo uma consoante geminada ou dobrada, pronunciada mais longa do que a consoante simples. Essa é a origem de palavras como arroz e azeite. A consoante geminada só se manteve nas palavras com r. A palavra rebaldes é a mesma que se manteve na forma arrabalde, tendo sido utilizada, portanto, quer em sua forma sem artigo, quer na forma precedida do artigo definido, que se assimilou ao r seguinte”

exemplo de fato diacrônico e dinâmico: a perda da mesóclise como fenômeno vernáculo no português do Brasil. Vernáculo deve ser entendido aqui no sentido de Labov, um tipo de construção que os falantes usam enquanto estão conversando à vontade e sem fazer esforço consciente para falar <corretamente>.”

“na região mais ocidental do Império Romano, houve a sonorização das oclusivas surdas intervocálicas não-geminadas (p, t e k), ao passo que em regiões mais orientais, como a Itália central e meridional ou a Dácia (correspondente à atual Romênia), não ocorreu essa sonorização. Na região em que se formou o francês, essas oclusivas passaram por uma transformação mais radical ainda, tendo sido apagadas após terem se sonorizado.”

variações latinas

“no português do Brasil, teve-se um substrato indígena (tupi e outras línguas nativas), principalmente com relação ao Sul e ao Sudeste; podemos também dizer que nele houve um superestrato de origem diversa: italiano, alemão, japonês, etc. Além disso, nas regiões de fronteira, há o adstrato espanhol.”

“A influência do francês sobre o inglês teve como marco importante o ano de 1066, quando a Grã-Bretanha foi invadida pelos normandos, que implantaram o francês da época como língua da côrte, fazendo com que o inglês da época fosse socialmente menos prestigiado.”

latim portugues

“No caso do português, houve perda de distinções existentes no latim. Enquanto o latim tinha 10 vogais diferentes, o port. ficou com 7, se excluirmos as vogais nasais, como normalmente se faz. Temos 3 casos de fusão: do a longo e do a breve, que produziram a em português; do e longo e do i breve, que produziram e fechado; e do o longo e do u breve, que produziram o fechado. Isso está indicado na tabela pela ausência de divisão nas células correspondentes aos resultados em português das vogais que se fundiram.”

“Um exemplo bastante dramático desse tipo de mudança linguística é a chamada Grande Mutação Vocálica ocorrida em inglês, que se iniciou por volta do século XV. Ela é um exemplo de mutação em cadeia, na qual uma vogal se altera e provoca alterações em outra, e assim por diante. A tabela a seguir, extraída de Aitchison (1991:153), ilustra o grande rearranjo ocorrido no sistema vocálico do inglês médio para o período inicial do inglês moderno:”

revolucao ingles

“Se antigamente só ocorria o primeiro tipo de sentença (o guarda não queria me deixar entrar) e mais recentemente passou a ocorrer o segundo (o guardo não queria deixar eu entrar), isso indica que sentenças como o guarda não queria deixar o menino entrar foram reanalisadas, de forma que o menino passou a ser sentido intuitivamente como sujeito, e não mais como objeto.”

“Casos excepcionais em que a gramática normativa prescreve pares de singular e plural que se afastam desse padrão são sentidos como estranhos pela maioria dos falantes. Por exemplo, a palavra caráter tem o plural caracteres. Provavelmente, para a maior parte dos falantes esse tipo de informação soa estranho. É comum utilizarmos o plural para falar de letras ou números digitados, p.ex., a senha terá de conter 8 caracteres. É tão forte o estranhamento dos falantes quanto a esse tipo de par singular-plural que acabou sendo criado o singular caractere para se falar de letras e números digitados. Dizemos então que pelo menos um caractere deve ser algum número.”

TEORIA DAS RESTRIÇÕES: Se há uma aplicação de regra que feriria o universal de outra regra canônica ou então que, numa solução alternativa, feriria demais a si mesma, opta-se por uma exceção “mais branda”. Ex:

ônibus

plural: ônibus

Porque:

(REGRA 1) Plurais com consoantes ao final geram nova sílaba; a pronúncia da sílaba tônica permanece a mesma. Teríamos ônibuses.

(REGRA 2) Não há no português palavras ante-proparoxítonas: ônibuses feriria esta regra. Como a construção oníbuses também feriria a regra canônica 1, optou-se por uma “solução intermediária”: manter a palavra invariável. Os ônibus.

CURIOSIDADE: O plural de simples já foi simpleses!

Tarallo – Tempos linguísticos, 1990

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