DATA NO REAL

Aconteceu a primeira vez quando eu tinha 32 anos, em 27 de fevereiro de 2021. Não recebo muitas visitas. Moro só. Estamos há quase um ano vivendo a pandemia do corona. Às 20h19 recebi uma visita insólita: alguém que bateu à minha porta, sem muito estardalhaço. Não tenho campainha. Fiquei alarmado, pois é preciso ter uma chave para ter acesso às escadas que conduzem ao meu apartamento. Pensei imediatamente: “O que um vizinho quer comigo agora?”. Vivo em paz e isolamento, mal sei-lhes os rostos. Decidi usar o olho mágico, e num átimo fiquei lívido. “Eu disse para ele não vir aqui! Nós não nos falamos há anos! O que ele quer com isso?!?” Disse em voz alta que não iria abrir, que era para a visita ir embora. Mas a resposta veio num tom e numa voz que me desconcertaram. Não pode ser ele – pode? Olhei de novo. Bem, se parece muito, mas a verdade é que nem se veste como ele. Uma barba média, acho que, pensando melhor, deve ser uns 10, 20 anos mais jovem. Calça comprida, camisa social, bem-abotoada, manga longa. Chove quase sem intercursos há vários dias, coisa que eu nunca havia presenciado no Distrito Federal. Decidi abrir a porta. Voltei a ficar confuso, dei três passos para trás – antes que pudesse pronunciar qualquer sílaba, o homem ergueu o braço em sinal de que eu me tranquilizasse e de que iria esclarecer toda a situação sem que eu devera ficar nervoso. Ele deu alguns passos dentro do apartamento sem pedir licença.

– Oi, eu lembro alguém para você?

– Sim. (Ele é a cara do meu pai, porra, só pode tá de sacanagem!)

– Meu nome é Rafael…

Essas 4 palavras pareceram me dar um choque. Meu cérebro girava com mil conclusões em intensa velocidade. Emiti uma risada sarcástica involuntariamente, afinal essa era a resposta que “tudo isso” parecia pedir de qualquer mortal sensível…

– …de Araújo Aguiar. Por isso eu o lembro. Como vê, você cortou seu cabelo.

– Impossível, que porra é essa?!

– 27/02/2021, dia que recebi a visita de um cavalheiro que me disse: “Meu nome é Rafael – de Araújo Aguiar, por isso eu lembro seu pai, não tenha medo!” Como calcula, pela minha idade, “ele já morreu”, isto é, para mim. Você um dia vai usar o cabelo curto de novo, e etc., etc.

Meu sorriso amarelo de deboche continuava na cara. Mas eu tinha que me mexer e respirar, então acabei por forcejar que ele, uma vez que já tinha entrado, se pusesse à vontade, que se sentasse onde quisesse… Não havia mais hostilidade em meu ser.

– E, por fim, aos 50 anos você fará a mesma coisa, com você mesmo. É inútil explicar. Eu sempre tive um forte senso de destino, desde criança, e isso não vai mudar em tempo algum!

– Que me resta – devo acreditar em você! Se não quiser revelar muita coisa, bem. Mas então por que veio? – não vou perguntar como…

– Eu vim salvar sua vida. Não vá trabalhar amanhã! Você iria morrer nas ferragens do metrô. Assim de chofre é tudo quanto posso dizer. Ah!… Os livros! – ele vira minha estante na sala e correu para esse setor da casa de que tanto gosto. – Revelações chocantes sobre você, eu direi duas: um dia essa não será mais a sua casa. Você morará num espaço um pouco maior. E morará com algumas pessoas… – Ele continuou desfilando os olhos pelas prateleiras próximas da entrada da varanda, parecendo se agitar e querer mexer em tudo ao mesmo tempo, sem conseguir se decidir.

– Ah, é tanto tempo! Vou dizer a você, em caráter confirmatório, anedotas relacionadas a alguns desses exemplares.

Eu fiz uma cara de “Não tema, apenas continue o que você está fazendo”, sem precisar emitir sons.

Comos, Carl Sagan. O livro de que não gostamos, de que você não gosta mais. O outro dele aqui, O mundo assombrado… Ó, alguns dos nossos próprios livros! E David Harvey, Condição pós-moderna… Não se preocupe em separá-los dos outros… Dimitri acabará não os comprando…

– Eu já esperava!…

– Já tem livros em latim e italiano? Vou te dizer: eu sei 6 línguas. Leio nas seis. Tirando o português, é claro. Você aprenderá mais essas duas e enjoará de aprender outros idiomas. Assim se dará.

Ele falou isso porque viu uma folha com uma conjugação de verbos em Latim.

– Schur… Haha! Você já se desiludiu com a psicanálise, não é verdade? Roazen, já quase sem lombada… É, é pra essa época que eu vim!

– Caralho!…

– Os exemplares de jornal da Escala, a obra completa de Nietzsche que eu comprei no curso de sociologia!

Ele parecia estar mais falando consigo mesmo do que… Quero dizer, parecia estar sozinho na sala! Passou a mão por mais algumas lombadas de livros

Foi há pouco que você os meteu em ordem alfabética de novo, não foi? Você vai ler todos estes que ainda não leu e tem dúvida se vai viver o suficiente para ler de fato… José Lins do Rego, Pedra BonitaO apanhador no banco de centeio… campo de centeio Solha, Israel Rêmora ou o Sacrifício das Fêmeas… Aquele It ali em cima… E este computador…

Ele apontou para meu PC ligado.

-…Ele tem uns 2 tera de HD, não é isso mesmo?

– É.

Ele parecia rir de uma coisa nostálgica e bem antiga, como um tamagotchi para mim.

– Em qual tomo do Sítio do Pica-Pau Amarelo você está?

– O quinto. Você deve lembrar que eu lia sempre no banheiro… O exemplar está ao lado da pia…

– É mesmo!!

E continuou o exame…

O Capital… Sabe, Rafa… As revoluções mentais e de caráter que mudaram sua vida até aqui… Houve várias, não houve? O contato com Nietzsche, a conversão desabrida ao marxismo, depois a virada em 180 graus quanto a Platão… A descoberta dos reais méritos da “Pseudanálise” de “Fraude”… Você ainda viverá duas revoluções nessa mesma escala de valores… Continuará perfeiçoando sua ética, lixando sua estátua moral, melhorando e ficando mais e mais conformado consigo mesmo…

– Interessante. Só que eu não consigo imaginar…

– Se pensa que vou contar essa parte em detalhes, ou o que acontece lá fora, está muito enganado!

– Muito bem – talvez seja melhor assim!

– Ah, os CDs… O que você anda escutando na last.fm?

Agora nós dois sorríamos, cúmplices de um crime perfeito incomunicado.

– Eu estou no meu “mês de fevereiro de Overkill”… Se tornou minha terceira banda, só atrás de Metallica e Black Sabbath. Nós montamos umas listas bem fodas, divididas em “gêneros” que “enxergamos” nas canções…

– É, é isso mesmo! Uau!

– Você se surpreende com o próprio passado! E eu que recebo um “viajante no tempo” estou aqui, com sangue frio…

Eu queria terminar a frase para ele não me crer tão pedante ou não aproveitar qualquer brecha, mas ele deu de ombros. Nós não iríamos conversar sobre nosso pai, é claro que não.

– Então… eu só vim reiterar: não vá trabalhar amanhã, e um dia você estará contando isso a você mesmo também… Era o objetivo total da minha visita, o resto foi bônus!

– Não imaginava coisa diferente, até porque hoje…

– Mas vou quebrar sua expectativa…

Ele retirou do bolso da calça um cartão que eu nunca vira. Disse que era para eu usar em 2030, ou assim que a tecnologia o permitisse. Que todos os dados necessários estavam no próprio cartão, não havia uma senha, meu corpo bastaria para ser reconhecido como dono legítimo do objeto e daquilo que eu possuiria através dele… E ele me disse:

– Você encontrará algum dinheiro. Ele é seu. Eu vou embora agora… Você queria ter me perguntado no início… É, aconteceu dessa mesma maneira, e eu lembrava algumas reações que você forçosamente teria… Eu mesmo me embananei e esqueci de dizer que tinha a chave, mas que importância tinha, quando você percebeu que era eu! Agora vejo que o homem que me visitou também havia se embananado! Por isso abri lá embaixo, mas não queria ser mal-educado e deixar de bater, aqui em cima… É verdade, não me esforcei para cumprir um script ou atuar… Não é que, como antes ele tinha batido, eu bati também… É que realmente não me parecia idéia boa… Queria também que coincidisse de você estar em casa, não tinha certeza mais se o horário estava correto, se essa primeira visita daria certo… Mas pode deixar, eu vou te trancar aqui.

E riu.

– Até sempre!

– Até sempre!

Eu manuseei aquele cartão de crédito do futuro, e deplorei a tragédia da condição humana: então é sempre assim mesmo! quando finalmente conseguimos dinheiro, é quando já nos tornamos indiferentes a ele…

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre Seclusão Anagógica

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo