PSICANÁLISE E NAZISMO – Samuel Katz (Org.)

1. OBSERVAÇÕES SOBRE A CONJUNTURA E O DESTINO DA PSICANÁLISE E DA PSICOTERAPIA NA ALEMANHA ENTRE 1933-49 – Käthe Dräger (trad. Helena Lins e Barros)

Chega a ser paradoxal o mero surgimento, sob o nazismo, de um instituto psicoterapêutico que incluía psicoterapia analítica, pois o reconhecimento da neurose como doença e o interesse pela psique individual, pela vida interior das pessoas, opunha-se à ideologia nazista. A existência do instituto viabilizou-se pelo fato de M.H. Göring ser parente afastado de Göring, ministro do Reich, e por intermédio desse parentesco obter o apoio das autoridades.”

na DPG, ressurgida em 1946, dominava o grupo forte de Schultz-Hencke. O pequeno grupo reunido em torno de Müller-Braunschweig sentiu-se enfraquecido com a partida de Kemper, que viajou para o Brasil em 1948 e lá trabalhou por 20 anos como analista didata.”

2. PSICANÁLISE E NAZISMO – Elisabeth Brainin & Isidor J. Kaminer (trad. Angela Wittich)

Em 1932, alguns meses antes que Hitler se tornasse Chanceler, realizou-se o 12º Congresso Internacional de Psicanálise, em Wiesbaden, sob a direção de Max Eitingon. Foi o último congresso realizado em solo alemão. De acordo com o discurso inaugural de Eitingon, o congresso se realizava ali como prova do crescente estabelecimento e reconhecimento da psicanálise alemã. O perigo representado pelo ascendente poder nazista não foi, então, bem-avaliado, pois naquela época muitos analistas já deixavam a Alemanha.”

A mulher [do psicanalista não-judeu] Böhm estava muito identificada com as idéias do Partido Nazista. Jeckels, um judeu, era conhecido por seu posicionamento comunista e Paul Federn era um social-democrata engajado.”

F. parece colocar o Nazismo na continuidade da centenária perseguição aos judeus na Europa, e parece também expressar a esperança de que este pesadelo do séc. XX fosse passageiro.”

Böhm, após um relato de 3h, foi interrompido por F., com as seguintes palavras: Chega! Os judeus já sofreram centenas de anos por suas convicções. Chegou a hora dos nossos colegas cristãos sofrerem pelas suas.”

Em 1935 (…) Jones mantinha sua posição anterior, de apoio aos procedimentos da DPG, sempre disposta a firmar compromissos.”

vários oficiais de altas patentes participavam dos seminários e prática sobre terapia breve. Muitos oficiais de campanha recebiam instruções de como melhor lidar com os comandados. (…) O Instituto estava a serviço da ideologia nazista: faziam-se trabalhos sobre a infertilidade, o crescimento demográfico e a homossexualidade. Foi publicado, nessa época, o livro de Kemper: A perturbação da capacidade amorosa da mulher.”

Nas fontes a que tivemos acesso, não há nenhum caso de exclusão da WPB por atividade política [como se se pudesse confiar nas atas da Associação de Viena!]. Inclusive alguns conhecidos analistas, como Bernfeld, Nunberg, Deutsch, Friedjung, Buxbaum, tinham relacionamento íntimo com organizações de esquerda. Dentre os candidatos à formação, Marie Langer não era a única que seguia uma atividade política proibida; R. Eckstein, M. Gardiner, T. Erdheim-Genner podem ser citados como exemplo, e alguns tiveram que cumprir penas de detenção por isso.”

O químico nazista Sauerwald foi nomeado para dirigir a WPV, a Clínica Social e a Editora. A WPV foi dissolvida e a DPG, que ainda existia na época, assumiu a tutela de todos os seus direitos, deveres e bens. Bandos da SA e da Gestapo invadiram várias vezes a residência de F.. A situação estava de tal modo desesperadora que, 2º Schur, Anna chegou a pensar em suicídio. [Schur para mim não tem nenhuma credibilidade]; ao que F. teria replicado: ‘Por quê? Só porque eles gostariam disto?’.”

O índice de suicídios na Áustria duplicou e em seguida triplicou após a Anexação.”

O último ano de edição de Imago foi 1941.”

Na Itália, a Associação Psicanalítica também foi dissolvida, apesar do bom relacionamento de Edoardo Weiss com Mussolini, o que havia ajudado a salvar F. na Áustria.”

Karl Landauer, que já havia fugido dos nazistas da Alemanha para a Holanda, fundou, depois do Instituto de Frankfurt, a Associação Psicanalítica Holandesa. Foi mais tarde preso pelos nazistas, deportado para Theresienstadt e morreu no campo de Bergen-Belsen.”

O grupo de Praga também foi extinto. (…) O grupo húngaro pôde dar continuidade aos seus trabalhos, mesmo sob intensa repressão até a invasão das tropas alemãs, em 1944. Cada reunião tinha que ser comunicada com antecedência à polícia e era observada.”

O NEGACIONISMO

Lamenta-se apenas o próprio sofrimento e a perda de capacidades intelectuais ocorrida por terem ‘ido embora’ os judeus” “Por parte da Internacional mesma, nunca houve um esclarecimento sobre suas relações com os analistas alemães naquele período.”

Ainda em 1977, num congresso internacional em Jerusalém, houve uma forte discussão e protesto quando Berlim foi indicada para o próximo congresso.”

A cisão da DPV, desde a DPG, em 1950, devia dar a impressão da sua independência para com o período nazista. Os membros da DPV, no entanto, atuaram no Instituto Göring, da mesma forma que os membros da DPG. A denegação, em alguns depoimentos, vai tão longe que se considera a psicanálise ‘morta’ no período nazista, para não fazer menção de como esteve a serviço da ideologia dominante. No Instituto Göring a foto de F. ficava de frente à de Adolf Hitler, e foi retirada definitivamente em 1938.”

Todos os partidos políticos, em seus programas de atuação, estavam preocupados em deixar o passado no esquecimento. Mitscherlich fala de uma ‘defesa maníaca, pelo milagre econômico do pós-guerra, que transforma o ocorrido em não-ocorrido’

Se não for possível trabalhar tudo isto na análise didática, porque os sentimentos de contra-transferência do didata não o permitem, estes medos persistirão, como também a dificuldade de se estabelecer uma verdadeira relação com a realidade.” Não é possível. A psicanálise é uma terapia fraca, a-social.

(N.Org.) “Isto deve nos fazer voltar à tese de que as sociedades oficiais estão bem mais próximas dos fascismos do que nos atrevemos a confessar.” Finalmente!

3. PSICANÁLISE NA ALEMANHA HITLERISTA. COMO FOI REALMENTE? – Hans-Martin Lohmann & Lutz Rosenkötter (trad. A. Wittich)

Onde estavam a energia e o ímpeto quando ainda não existia o nacional-socialismo? Encontravam-se profundamente ocultos na alma germânica, muito diferente de uma lata de lixo cheia de desejos infantis familiares insatisfeitos, ressentidos e não-resolvidos.” Jung, 1934

Geoffrey Cocks (1975) demonstra-nos de forma clara essa negação da realidade, citando o caso de Georg Groddeck que, até o momento da sua morte (1934), acreditava precisar apenas de uma oportunidade de contato com o Führer para conduzi-lo à direção correta.”

Böhm que, junto com Müller-Braunschweig, era representante dos psicanalistas ‘arianos’ não-emigrados, refere-se em suas memórias a que, em todas as situações importantes para a psicanálise, quando se encontrava em apuros, sempre agia em concordância total com F.. O mesmo escreve Baumeyer (1971), que exalta a ‘aprovação’ de todos os passos, seguidos por F., Anna e Jones. (…) tudo que aconteceu à psicanálise após 1933 tinha a ‘bênção’ da autoridade vienense.”

Langer segue dizendo: Em 1936, eu e um grupo de médicos fomos presos sob a acusação de estarmos trabalhando pela paz . . . Na ausência de bases jurídicas, fomos libertados 3 dias depois.”

psiquiatras isolados, como, p.ex., Ernst Kretschmer, pertenciam à AÄGP, apesar da Psiquiatria acadêmica ser em geral contra a Psicoterapia.” “Em 06/04/33, Krestschmer, que não aceitava o NS, retirou-se da presidência da entidade. Seu sucessor foi Jung, que desde ‘30 ocupava o cargo de vice-presidente. Seguindo o plano de Jung, a Sociedade obteve status internacional”

Mathias Heinrich Göring, primo de Hermann Göring, nasceu em 1879, formou-se em Direito em 1900 e em Medicina em 1907. Em ‘09-‘10, foi assistente de Kraepelin, em Munique. A partir de ‘13, pertenceu à Clínica Universitária de Giessen. Foi lá que descobriu seu interesse pela psicoterapia e hipnose. Em ‘23, estabeleceu-se como neurologista em Wuppertal-Elberfeld. Após o término da formação e análise didática, com os discípulos de Adler, Seif e Kuenkel, em Munique, fundou uma entidade de orientação educacional e a Comunidade de Trabalho Psicoterápica de Wuppertal. Desde ‘28, pertencia à AÄGP.”

FELIZMENTE, HÁ “VIRA-CASACAS” OU “COLABORACIONISTAS” PARA O LADO CERTO DA HISTÓRIA: “A mulher de Göring, que inicialmente era tida como nazista ‘ferrenha’, submeteu-se a uma análise didática com Kemper, e se aproximou consideravelmente da forma de pensar freudiana. A Sra. Göring, por várias vezes, assinalou a Kemper algum colega que chamava atenção de forma desagradável no Partido.”

Os casos de ‘sobrecarga psíquica’, com queixas orgânicas e alterações psicossomáticas, como cefaléias e úlceras gástricas, eram muito mais freqüentes do que os tremores da 1ª Grande Guerra. É muito interessante que o termo neurose não pudesse ser utilizado, pois era contrário aos conceitos da época. Só se podia falar de reações vivenciais anormais. Foi possível realizar um trabalho íntimo com a Luftwaffe, por intermédio de J.H. Schultz, que era também oficial sanitário.”

O episódio a seguir é uma estranha mistura de prestação de serviço à organização nazista e um comportamento profissional correto: em 1942, M.H. Göring examinou, a pedido de Himmler, a filha de 17 anos de um oficial da SS, morto na guerra, para indicar quem deveria tomá-la sob seus cuidados, já que a moça apresentava perturbações psíquicas. A freudiana Kalau von Hofe deu um parecer psicanalítico baseado nos sintomas e indicou a internação numa clínica em que houvesse possibilidade de um tratamento psicoterápico. Iniciou-se o tratamento em Munique e, mais tarde, na Clínica Infantil de Tübingen, sob a supervisão da Sra. Marzinowski. Himmler aceitou todas as sugestões e o tratamento foi custeado pela SS.”

No final de abril de ‘45, o Instituto foi totalmente destruído durante um ataque aéreo. M.H. Göring ainda lutava nas últimas semanas de guerra, segundo um relato pessoal, e foi preso em Berlim, pelos russos, morrendo de tifo no mesmo ano, num campo de prisão russo.”

4. PSICANÁLISE, PSICOTERAPIA E NACIONAL-SOCIALISMO – Geoffrey Cocks (trad. Lya Luft [!])

Rittmeister morreu nas mãos da SS, por participar de um grupo de resistência que pertencia à rede de espionagem da Rote Kapelle (Orquestra Vermelha). Embora o pensamento e ação de Rittmeister mereçam admiração, relatos hagiográficos sobre sua vida correm o perigo de desviar a atenção das questões complexas e eticamente duvidosas, em matéria de serviços psicanalíticos em favor do Estado nacional-socialista.”

A ascensão da psicanálise na década seguinte [1920] fundamentava-se em boa parte nos sucessos psicanalíticos no tratamento das neuroses da I Guerra, que os psiquiatras militares de formação tradicional tinham abandonado como enigmas.”

Em 1926 os psiquiatras Robert Sommer e Wladimir Eliasberg fundaram a Sociedade Médica Geral de Psicoterapia. Essa organização internacional deveria ser uma reunião de todos os médicos que na sua prática usassem uma ou outra espécie de psicoterapia. (…) Entre os membros notáveis da sociedade estavam Alfred Adler, Carl Jung, Frieda Fromm-Reichmann, Hans von Hattingberg, Gustav Richard Heyer, Karen Horney, Ernst Kretschmer, Erwin Liek, Felix Deutsch, Georg Groddeck, Fritz Künkel, Kurt Lewin, Ernst Simmel, Johannes Heinrich Schultz, Leonhard Seif, Viktor von Weizäcker e Harald Schultz-Hencke. A DPG negou-lhe reconhecimento.”

De modo algum, pois, o nacional-socialismo destruiu a psicoterapia, ao oprimi-la inescrupulosamente, ou tornando-a escrava muda de sua própria confusa ideologia. Muito ao contrário, a história da evolução da psicologia médica na Alemanha, modificada pela dinâmica estrutural da ditadura marrom, produziu um campo de força que ofereceu à psicoterapia depois de ‘33 uma oportunidade sem igual de sobrevivência e desenvolvimento profissional.”

Junto com uma preocupação maciça pela ‘saúde do povo’, os nacional-socialistas consideravam uma psicoterapia e psicologia arianizadas um meio importante para assegurar a lealdade e produtividade do povo alemão. A fascinante jovem disciplina parecia-lhes uma encantadora síntese de uma herança romântica com uma (segundo eles) tarefa fundamental da psicologia médica: lidar com as qualidades internas dos seres humanos.” “O fato de que psicoterapeutas tenham gozado na Alemanha, durante 9 anos, de sucesso e status profissional, jamais superado antes ou depois, deve-se a sua base institucional singular, que se originava principalmente da influência e proteção do nome Göring.” “Por que essa singular história nunca foi revelada? A maior parte das análises precedentes do III Reich veio de setores diretamente atingidos pela tirania e agressividade de Hitler.”

As exigências falsas de reforma dos nacional-socialistas logo se revelaram vazias, de modo que ascensão e declínio, triunfos e fracasso dos mais diversos órgãos da administração e governo do III Reich continuaram sendo determinados por problemas e tentativas de solução pré-nacional-socialistas.”

Essa lógica impiedosa também é responsável pelo fato de que os nacional-socialistas – ao contrário do comunismo soviético – jamais usassem a clínica psiquiátrica como local de se guardar o inimigo político. Essa espécie de ‘psiquiatrização’ dos dissidentes, apesar de tanto ferir a dignidade humana, e de todos os maus tratos que geralmente lhe aplica, ainda parte da possibilidade e desejo de uma melhoria. (…) Por mais que a Alemanha nazista e a Rússia soviética se assemelhem como sistemas totalitários, suas ideologias são basicamente diferentes. O marxismo, com seu materialismo, é essencialmente racional, e apela para a construção e asseguramento de sua sociedade igualitária, para estratégias científicas – nesse caso, para uma psiquiatria que originalmente vem da psicologia de Pavlov, e hoje se distingue por uma decisiva orientação orgânica e química (Segal, 1975).” Que marxismo? Na Rússia pós-leninista? O modelo organo-químico prosperou mesmo com o capitalismo, e as grandes empresas alemãs que se inseriram no mercado no pós-guerra – dá-lhe Pfizer!

O Instituto Göring não apenas tratava grande número de lesados de guerra; oferecia ajuda psicoterapêutica a uma série de homossexuais, entre eles muitos membros das organizações de juventude nacional-socialista, e executava pelo menos 2 projetos ordenados oficialmente: sobre homossexualismo (sic) e sobre esterilidade psicogênica.”

O período do idealismo alemão, entre 1770 e 1830, forneceu o fundamento espiritual do nacionalismo alemão que tomou forma na luta contra Napoleão – um encontro histórico que conferiu ao pensamento alemão uma mudança de orientação militante anti-ocidental, especialmente em relação aos ideais políticos da Revolução Francesa. Esse fato, junto com a continuação do particularismo dos pequenos Estados, roubou à burguesia ascendente as chances de estender seu liberalismo da esfera econômica para a política. O fracasso da revolução de 1848, e a consequente unificação da Alemanha pela Prússia, selaram essa evolução. Sob a impressão do sucesso da política real de Bismarck dentro e fora da Alemanha, os liberais alemães se acomodaram de modo geral com uma posição subordinada no autoritário II Império. (…) Não apenas as camadas de classe média recebiam de boa-vontade o lucro econômico de sua derrota política, mas apossavam-se do luxo ‘feudal’ de uma Alemanha prussificada.

A solução era dupla: de um lado, o cidadão culto podia ascender desdenhosamente sobre a política, como um terreno de gente inculta, deixando-a nas mãos do governo; ao mesmo tempo podia louvar o poder de seu Estado como um triunfo da profunda cultura alemã sobre a civilização ocidental, materialista e mole. Essas tendências chegaram ao auge em 1914, quando sólidos cidadãos alemães foram para a guerra com a firme sensação de estarem lutando por valores mais altos.”

Seu conteúdo romântico misturava-se também com traços do luteranismo conservador e crédulo na autoridade, e com o embotado movimento pietista, voltado para dentro. Essa combinação não apenas provocou o que Fritz Stern (1960) chamou de ‘o alemão apolítico’, mas produziu também na elite culta de funcionários do governo, juristas, médicos, pedagogos, etc., uma arrogância cultural e social singular, parecida com o que Fritz Ringer descreveu (1969) como ‘mandarins alemães’.”

As noções de inconsciente e da unidade de corpo e alma podem ser seguidas na história da medicina até Heráclito no séc. 6 (sic) antes de Cristo. Como Rosseau (sic – porra, Lya Luft!) mais de 2 mil anos depois, H. acreditava que a razão era comum a todos os seres humanos, mas não constituía sozinha a peculiaridade do ser humano.”

Nos meios nazistas Paracelso passava por uma figura legendária, e por sua luta em favor de uma saúde mental, e seu emprego do alemão em vez do latim como língua escrita, foi estilizado como predecessor cultural e científico da ideologia nacional-socialista. Em 1943, o diretor Friedrich Wilhelm Pabst criou uma bombástica versão de sua vida.” Tudo no Reich era BOMBAstico.

Carl Gustav Carus determinava a psicologia como ciência da evolução da alma, do inconsciente para o consciente. Seguia-se que no tratamento de doentes mentais devia-se dar importância à cura do indivíduo total, não às partes isoladas, ou órgãos. A esse princípio – e sua posterior glorificação no meio nacional e cultural alemão – pertenceu também a singular dignidade filosófica e religiosa que ele conferia à psique; foi, entre outros, esse elemento que no séc. XX tornou tão sedutora para os psicoterapeutas alemães de tendência romântica a doutrina de Jung. Carus e seu livro de maior influência, Psique, para uma história da evolução da alma (1846), tornaram-se fonte de inspiração importante para Göring e outros psicoterapeutas do III Reich.”

Para M.H. Göring, Feuchtersleben, além de Leibniz, Carus e outros, foi testemunha histórica da riqueza de uma tradição psicoterapêutica genuinamente alemã, e da conseqüente inaptidão relativa do engano mecanicista de F. quanto ao inconsciente humano.

A tradição romântica chegou ao ápice com a Filosofia do Inconsciente de Eduard von Hartmann (1869). Depois tornou-se subterrânea, limitada a alusões das obras literárias de Goethe e Dostoiévski, e da filosofia de Nietzsche, enquanto na superfície imperava o período do positivismo científico e da nosologia psiquiátrica na medicina. Assim, também Nie. tornou-se importante desbravador da moderna psicoterapia na Alemanha.”

A neurologia, ciência do sistema nervoso humano, aparecera pela 1ª vez na Inglaterra e França no séc. XVII, adornando-se do lema hipocrático de que ‘o cérebro é o centro da loucura’.”

Espírito significava o pensamento ocidental materialista do Renascimento, que vencera a plenitude e profundidade da cosmovisão medieval (alma). Pode-se supor com alguma razão que os membros da Sociedade Médica Geral de Psicoterapia – apesar da abrangência de interesses, orientações e disciplinas médicas nela representadas – mantinham uma postura básica conservadora, nacionalista (na sua maioria protestante), ao contrário dos membros antes liberais, cosmopolitas (na sua maioria judeus) da DPG.” “entre todos os grupos profissionais acadêmicos na Alemanha, os médicos tinham a mais alta porcentagem (45%) de membros do Partido Nazi em suas fileiras (Kater, 1979).”

Além disso, o entusiasmo geral de 1933 teve um efeito especial sobre os alemães ‘apolíticos’. Entusiasmo – ou mero patriotismo – especialmente depois de 1939 e da catástrofe de Stalingrado em 1943, que conseguia sufocar em germe qualquer crítica.” “Ao mesmo tempo, a imagem notada e divulgada de um Führer que pairava acima das zonas inferiores da política vinha ao encontro da repugnada má-vontade com que a maioria dos alemães de formação tinha seguido a experiência democrática materialista e ineficaz da República de Weimar.” “Mesmo a política judaica nacional-socialista corria em surtos sempre interrompidos por tréguas de calmaria.” Deve ter querido dizer política nacional-socialista anti-semita!

Talvez muitas coisas tivessem sido diferentes se os psicoterapeutas e acadêmicos alemães tivessem (sic) pronunciado todos juntos um decidido ‘Não’, ou ao menos ‘Sem mim’. Mas o que na verdade fizeram jogou uma luz esclarecedora sobre a evolução profissional e a estrutura organizacional da Alemanha nazista.”

Enquanto os habitantes dos Países Baixos enfrentavam um regime de ocupação de tempo de guerra, os alemães lidavam com seu próprio governo; e a chance (…) de progresso profissional sob a proteção do nome Göring fazia a auto-dissolução parecer uma alternativa nobre mas pouco atraente.”

Embora os nacional-socialistas anunciassem de alto e bom som¹ a uniformização da sociedade alemã, a sua forma de dominação permitia, até animava, junto com a nebulosidade de seu programa, uma postura que se podia chamar ‘auto-uniformização’. (…) Do ponto de vista ético, isso trouxe maior responsabilidade nos atos individuais, pois ainda havia certa liberdade de opção.”

¹ Lya Luft, como previsto, tradutora horrorosa…

Além dos incontáveis pacientes que procuravam psicoterapeutas no III Reich, recebendo ajuda deles, havia na guerra alguns casos de homens que, sem intervenção daqueles, seriam declarados ‘simuladores’ e fuzilados.”

Comparados a outros grupos acadêmicos, p.ex. os estudiosos da Antiguidade clássica, praticamente intocados pelo nacional-socialismo (Losemann, 1977), ou os historiadores dirigidos por Walter Frank, que instalaram um grande ‘Instituto para História da Nova Alemanha’, de cunho nazi (Heiber, 1966), os psicoterapeutas seguiram, no III Reich, um caminho intermediário.”

os físicos (como estabelecer uma ‘física ariana’?) sofreram grandes males no III Reich (Beyerchen, 1977).”

Segundo Blanck, a psicoterapia até aqui não se separou suficientemente da medicina nem da psicologia para poder valer como ramo independente, e essa é a dificuldade essencial para a sua profissionalização.”

O protesto do movimento psicodinâmico contra os establishments nosológico e neurológico da psiquiatria alemã ampliou-se, aliás, na década de 1920, com um forte desconforto diante da ‘crise da medicina’. Houve preocupação com uma profissão médica que não conseguia mais encarar pacientes como pessoas, que era demasiadamente dada à ciência natural, demasiadamente burocrática e, na sua continuação em receitas e honorários, materialista demais. A esse protesto também se ligou forçadamente a Sociedade Médica Geral de Psicoterapia. A Sociedade declarou ser seu objetivo o estímulo da psicoterapia na luta contra a ‘peste popular’ da neurose. Sublinhando a necessidade de uma campanha para profilaxia social e tratamento da neurose, ela parecia ignorar a tradicional classificação psiquiátrica, academicamente rejeitada, das doenças do cérebro e do sistema nervoso, ou até torná-las desprezíveis.”

IMPOSSÍVEL RETORNAR A HIPÓCRATES: “A formação para essa tarefa não podia se limitar às ciências médicas, mas tinha de incluir as ciências sociais e espirituais.”

um estudo de medicina, mesmo na forma abreviada do governo nacional-socialista, ainda era um processo mais complexo que o diploma universitário em psicologia com formação clínica anexa.”

Partindo do juvenil temperamento artístico do Führer, e seu faro político na tática de partilhar e governar, as intenções contraditórias e interesse de senhores feudais grandes e pequenos, que formavam a corporação liderante do nacional-socialismo, desfizeram totalmente o já tênue verniz ideológico do movimento.”

(*) “O Nazismo não terá uma linha única de pensamento. Por relação (sic) às questões do psiquismo, p.ex., em ‘33 se querem eliminar os ‘doentes mentais’, enquanto em ‘45 se querem preservá-los, pois há enorme falta de força de trabalho.”

(*) “A psicoterapia alemã será unitária, enquanto a psicanálise judaica é múltipla e diferencial (teses de Jung).” Acontece que Jung foi EXPURGADO do “Partido Fraudiano” por manifestar as suas “teses”. Hitler e Freud são simétricos nesse tocante: dois Führers centralizadores, pusilânimes e tresloucados.

5. JOHN F. RITTMEISTER E C.G. JUNG – Ludger M. Hermanns (trad. Angela Wittich)

O texto [póstumo, não-publicado, de Rittmeister], no seu conjunto, mostra-se estranhamente inconsistente. É alimentado por uma crítica intensa e atual a Jung, frente ao fascismo alemão, complementada por frutos dos seus estudos, realizados em Zurique, dos clássicos marxistas-leninistas, completando-se afinal com fatos da sua própria experiência e socialização política (…) A publicação da versão original pareceu-me válida como documento histórico: assim pensou, falou e escreveu um psicanalista alemão nos meados dos anos 30. [próximo capítulo do livro]”

Num texto humanístico publicado por uma revista científica holandesa Rittmeister viu-se obrigado a substituir o termo Materialismo histórico por Métodos históricos da crítica social moderna, sobre uma antropologia estática (1936, p. 952).”

Após uma atividade inicial como voluntário no Hospital de Burghölzli, seguiram-se 3 anos como assistente na Policlínica para doentes nervosos, da Universidade de Zurique, concluídos e seguidos por novo período como médico voluntário em Münsingen, até o outono de 1937.”

Sendo notório o seu posicionamento político, foi muitas vezes prevenido, por seus amigos, contra sua volta à Alemanha. Regressou, porém, no outono de 1937, após lhe terem sido marcadas várias datas de saída, pelos órgãos suíços de controle de estrangeiros, em conseqüência às queixas por ‘atividades comunistas’. Sua decisão de retornar teve provavelmente motivo pessoal. No diário de cárcere, escreveu: ‘retornei à Alemanha em 1937, para buscar na pátria mulher e trabalho’ (p. 71). Possivelmente, no entanto, o fato dele só mencionar fatores pessoais se explique pelas circunstâncias em que foi escrito o diário, que a qualquer momento podia ser confiscado pela Gestapo.”

Casou-se em julho de ‘39, e a partir do mês de setembro começou a trabalhar na Policlínica do Instituto Göring, cuja direção passou a ocupar mais tarde, em cargo de confiança.” “uma palestra realizada para o ‘Grupo de Trabalho A’ [psicanalistas disfarçados], muito discutida, A crise mística do jovem Descartes, foi publicada postumamente, em 1961, por um amigo de Münsingen, Alfred Storch, numa revista científica suíça (Rittmeister, 1961).”

(*) “A Resistência era considerada a maior e mais efetiva organização de resistência antifascista alemã e era conhecida pelo nome, dado pela Gestapo, de Orquestra Vermelha. Na época da guerra fria, dada sua considerável atividade de espionagem pró-União Soviética, deixou de ser vista como grupo de resistência, sendo chamada de ‘traidora da pátria’, e condenada assim pela 2ª vez.”

Neste grupo discutiam-se principalmente temas políticos, lia-se literatura em conjunto e organizavam-se campanhas de ajuda a judeus e trabalhadores estrangeiros. Por volta do natal de 1941 travou conhecimento com Harro Schulze-Boyse, obtendo assim acesso à [outras figuras mais militantes da] Resistência”

Preso em 26/9/1942, foi condenado à morte pelo Tribunal de Guerra do Reich, tendo sido aplicada a mesma pena aos seus companheiros. Com alguns deles, foi executado em 13/5/1943, em Plötzensee, pelos nazistas. Ver Gilles Perrault, A orquestra vermelha, trad. Nova Época Editorial, SP.”

passei a me interessar cada vez mais por Jung e lia com avidez e entusiasmo Transformações e símbolos da libido

Após um rompimento afetivo, lançou-se ‘ainda mais nos desdobramentos dos assuntos russo e revolucionário (Bakunin) e na teoria junguiana, seguindo-se um estudo mais aprofundado, de julho a agosto, em Londres, de O Capital’ (R., 1942-3)”

não me agradava neste Círculo o clima nebuloso, místico e saturado. Por outro lado, eu não me sentia ali muito à vontade e cada vez mais era levado à indiferença, ligado não ao devir ou à contemplação de cultos passados e culturas orientais, mas à realidade: aqui, o mundo estava pegando fogo”

seu 1º trabalho científico publicado, com o título Energética da alma em C.G. Jung, é um relatório elogioso e muito detalhado da obra de J. (1930). Apesar deste entusiasmo, isto nunca invalidou sua posição por relação a F. [?? – não é possível ser anti-junguiano e anti-freudiano ao mesmo tempo? Negar um é afirmar o outro?]”

R. começa a desenvolver uma crítica à teoria junguiana, como reflexo às simpatias iniciais de J. pelo nacional-socialismo. Esta crítica à teoria dos arquétipos, somada a um estudo humanístico de ‘36, formam uma unidade e expressam o seu afastamento de J.”

Jung relata o caso de uma paciente que, nascida na Índia, foi para a Europa aos 6 anos de idade, apresentando mais tarde uma grave neurose. Ela adquirira, segundo o autor, através do leite de sua ama, fantasias e sonhos que se pode interpretar apenas pela ioga tântrica e regras indianas dos Chakras.”

Jung era realmente nacional-socialista?”

Hitler é o megafone que amplia os murmúrios inaudíveis da alma alemã, até que possam ser captados pelo ouvido inconsciente dos alemães citado através de Balmer, 1972.

Gustav Bally, psicanalista em Zurique, que realizou sua formação em Berlim, no antigo Instituto Psicanalítico, foi o 1º a erguer a voz contra o fato de um suíço, como J., vir a ser o editor da Zentralblatt für Psychotherapie. [antifascismo ou xenofobia? Não ficou claro!]”

O que J. quer dizer com isso? Deseja que nos perguntemos cientificamente se a origem da psicologia é germânica ou judaica? Como diferenciar 2 psicologias? Qual valor teria, nas ciências humanas, considerar as obras do judeu Husserl ‘diferentes’ das de Meinong ou Dilthey? Usando-se o critério racial nos trabalhos sobre psicologia gestáltica, seriam ‘germânicos’ Ehrenfels e Wolfgang Köhler, enquanto que Koffka e Wertheimer seriam ‘judeus’? O que espera J. de uma avaliação racial das inteligentes concepções do etnólogo Lévy-Bruhl em comparação com o diligente Frazer? Por que estas diferenciações seriam tão importantes, a ponto da sua omissão, segundo ele, levar a uma falsificação dos resultados na prática e na teoria?”

É a ressurreição da demonologia, com suas luas e crepúsculos determinados, o triunfo do talismã e a mágica dos curandeiros. Este curandeiro, porém, é um professor de Psiquiatria. Seu poder e sua doutrina não são compatíveis com a sua função. Exorcismo, não, ele traz consigo 7 demônios ainda piores. Interessa-se pela doença, a cura é secundária. Os vários pacientes de Jung não sofrem de deficiências específicas como, p.ex., um amor não-correspondido ou um desemprego [a bem da verdade, nem os de F.: tudo neles é amor frustrado pelo papai ou mamãe ou recalque homossexual]: sofrem de uma deficiência de demônios; segundo Jung, porque não são suficientemente inconscientes, arcaicos, primitivos e ‘profundos’. Ele proporciona-lhes então um contato, perdido em 5 mil anos de civilização, com os poderes e mitos do inconsciente coletivo!” Schumacher, Mitologistas modernos, Vencedores do progresso pela via retrógrada, Geômetras do espaço irracional, pp. 103-4.

O filósofo Ernst Bloch, em seu ensaio Imago, um clarão do inconsciente, já antes de 1933, chamava Prinzhorn, Jung e Klages de ‘criptofascistas da psicologia’” (Bloch, 1935)

O irônico dos críticos socialistas de Jung dos anos 30 ou 40 é que eles justificavam a cegueira do suíço apelando para sua ‘falta de visão do conjunto social’, quando esta deveria ser a mesma crítica a disparar contra Freud, o ‘queridinho das ciências sociais’ por algum tempo, não sabemos hoje, direito, baseados no quê! Brincadeira, sabemos: na falsificação da história da psicanálise. Mas ainda assim é espantoso: embora não pudessem saber, nem os intelectuais mais vanguardistas, então, que o inconsciente de Freud era uma charlatanice, podia-se facilmente constatar sua opinião sobre o comunismo em qualquer de seus escritos; mas não se fazia essa análise – ou diremos exame, para não parecer uma sessão pseudanalítica?

Incomoda também muito pouco a Jung que nem todos os filósofos que refletem sobre o sentido da vida sejam neuróticos.” Bloch

6. HIPÓTESE E CONSEQÜÊNCIAS DA TEORIA DOS ARQUÉTIPOS DE JUNG – Rittmeister (trad. Angela Wittich)

Jung, durante algum tempo, seguiu o mesmo caminho que F., como Marx em relação a Hegel. Os sinais de separação foram semelhantes, porém, nos últimos anos, se deram de forma mais decente e menos ruidosa.”

Não fossem 2 pontos, diria até que se trata de um paralelo bastante interessante!

  1. Hegel não era contemporâneo de Marx;

  2. A tese é tão forçada quanto um trabalho de graduação de um ardoroso estudante do 2º semestre de sociologia: ao mesmo tempo em que o autor é freudomarxista (uma bizarrice por si), segundo ele Marx ao romper com Hegel triunfou; por isso o paralelo não funciona: ele quer que F. seja o “Marx da psicanálise”. Retificação: F. É o Marx da psicanálise. O problema todo aqui é o seguinte: a psicanálise é uma cosmovisão reacionária! Jung está errado porque é um racista ou pelo menos um simulacro de racista enquanto perdurou o III Reich, que se vendeu para sobreviver, não porque tenha “abandonado a psicanálise”!

R. já tinha consciência da ciclotimia das idéias: alternância entre racionalismo-irracionalismo, realismo-idealismo, etc. Prefigurou, de alguma forma, a condição pós-moderna. Entendeu até que o tempo entre as alternâncias estava acelerando cada vez mais… Nisto, foi sagaz.

Concede, também, que F. traiu o próprio legado (ademais hipervalorizado) ao publicar Para além do princípio do prazer. E seu fel não se limita aos anos 20 do “papa”:

F. não via nada além de pulsões e hipostasiava conceitos um tanto obscuros sobre a sexualidade. Também não via nada mais além do indivíduo isolado, numa realidade estática de Viena [uma espécie de Inferno do século XIX, a Viena freudiana], no período pré-guerra, à qual o neurótico tinha que se adaptar. No terreno sociológico, F. fantasiava, e seus discípulos ainda mais.” Agora sim estou vendo um Hegel II!

Jung deu à teoria da libido um aspecto mais abrangente e transcendeu o princípio estático e entediante da ambivalência, preconizado por F.. (…) Apontou incansavelmente para a literatura e religião chinesa, hindu e da Idade Média, acrescentando ao termo já conhecido Inconsciente dos antepassados, outro, Inconsciente coletivo” Mas: “J. não conseguiu estabelecer a ligação da filosofia clássica com a moderna, de modo que seu ponto de vista não se encaixa com o dos filósofos antigos, e o seu termo ‘coletivo’ não estabelece nenhuma relação com certos grupamentos raciais e culturais, muito bem-descritos em termos sociológicos.”

Hegel aceita a contradição de uma forma objetiva, mas essa objetividade é o espírito objetivo.” “Num enfoque geral, J. ficou estacionário numa etapa correspondente ao Idealismo romântico. Para ele, o absoluto é o Makranthropos, o homem gigante contido na alma, o ultrapassado homem coletivo, que acumula arquétipos hiper-individuais sobre… mas sobre o quê? (…) o Inconsciente coletivo é a coisa-em-si”

Para Berkeley [o cara vai fundo mesmo!] esse = percipi e as sensações que temos são dadas por Deus. Então só existem o Eu e Deus” “Para J., não só o mundo exterior, mas também Deus, foi incluído na subjetividade. O mundo dos arquétipos, os complexos autônomos recebem o atributo de serem ‘divinos’, e um deles (Self) é o ‘Deus em nós’.

Parece até um dos meus escritos de 2008 sobre o capitalismo tardio:

Este ser vampiresco, esta subjetividade divina, absorveu todo o mundo em si, o fez desaparecer, e se inflou em conseqüência disto, até alcançar uma universalidade coletiva em que Eu, de acordo com a demanda, sou uma vivência da criação do mundo, conforme Prometeu, ou diante da qual tenho que me subjugar, fazendo assim submergir minha própria consciência pessoal efêmera.

Minha alma é o continente desta divindade criadora de mil facetas, soberana, plena de Mana, que cria o mundo externo e o não-eu, que domina, que impulsiona, e com deuses e demônios no corpo, se eleva ao céu num inesperado agradecimento. Com toda minha atividade, eu me identifico com todas as possibilidades criativas coletivas de todos os tempos e povos, sou um Napoleão do armazenamento de todo possível inventário de conhecimentos arqueológicos.

Mas, ao mesmo tempo, eu sou pequeno, uma gota no mar do Inconsciente coletivo, ao qual tenho que sacrificar minha consciência egoísta e minha inteligência híbrida, e ao qual tenho que me submeter e adaptar pela intuição e pelos sentimentos.” [!!!]

O outro, a natureza, as leis do passado e do futuro, tudo isto é ou passa a ser fantasma desta teoria umbilicada.”

Lenin, Individualismo filosófico

hoje em dia o mundo é essencialmente interpretado como sonho, complexos e imagens interpessoais, de acordo com a teoria ‘pastoral’ da moderna psicanálise. Mesmo para F., todo o sentido da vida é a morte.” De fato! Como puderam canonizar este homem entre os maiores pensadores de um séc. inteiro? O maior enigma!

Cansado da crescente ambigüidade do mundo, que foge à vontade e à determinação do burguês, passa este a lançar mão da análise, do budismo, da ‘ciência cristã’, da teosofia e da psicologia, como se fossem um enquadramento do que é interno, de forma ainda cambaleante, em busca a todo momento de um denominador comum palpável, uma tábua de salvação.”

O homem permanece retraído apesar deste interior grandioso e multicolorido.” “Mas espere um momento! será que vemos o verdadeiro sol, as verdadeiras pradarias, nas quais nos enlevamos para fugir da solidão e da frieza dos escritórios e das fábricas?”

…as leis destes anos malditos em que vivemos.” Ah, Rittmeister, como 2020-21 está sendo um pandemônio junguiano, você mal imagina!

Será que posso considerar como importante a minha pessoa e buscar salvação em uma ilha de tranqüilidade aparente, mantendo escondido de mim mesmo o ruído e as lutas desta época, os possíveis privilégios materiais de minha classe, que gozo, apesar dos conflitos psíquicos?”

Vamos permitir que nossos brilhantes contemporâneos manipulem estas psicologias reluzentes de fogo fátuo, em pompa e honra? [E também em bomba!]

Vamos simplesmente observar a parede nebulosa que se ergue entre homens, classes, raças e povos, cada vez mais às expensas destas psicologias da moda, ao invés de fazê-las em união com a ciência e a sociologia?”

É trágico mas verdadeiro que mesmo o mais sublime e teórico idealismo leve sempre ao sofismo, ao endeusamento do Eu de uma elite, de uma raça, e termina finalmente no mais sangrento imperialismo.”

7. A NEO-PSICANÁLISE DE SCHULTZ-HENCKE (1892-1953): UMA VISÃO HISTÓRICA E CRÍTICA – Helmut Thomä (trad. Helena Lins e Barros)

Desde que Fenichel (1929) publicou um comentário crítico sobre o livro Einführung in die Psychoanalyse (Introdução à Psicanálise) de Schultz-Hencke, há mais de 30 anos, nada de importância substancial voltou a aparecer nas páginas psicanalíticas sobre a teoria das neuroses que S-H chamou de Desmologia a partir de 1934 e que após o término da 2ª guerra recebeu o nome de neo-psicanálise. (…) A partir de 1937, o desenvolvimento da psicanálise se deu no lugar onde a maior parte dos analistas que buscavam refúgio encontrou melhores possibilidades de trabalho: nos países anglo-americanos.”

Quando, após a guerra, S-H mudou o nome da Desmólise para neo-psicanálise, surgiram diferenças científicas que passaram a ser discutidas por psicanalistas e neo-psicanalistas. Entretanto, pouca coisa veio a público. Müller-Braunschweig, como expoente de um grupo, expôs rapidamente em uma brochura intitulada Streizüge durch die Psychoanalyse (Incursões em psicanálise) sua posição em relação à neo-psi.. Por ocasião do 1º Congresso Internacional do pós-guerra, realizado em Zurique em 1949, ele pronunciou uma conferência sobre a neo-psi. de S-H. A súmula inglesa dessa palestra ficou um tanto desconhecida. O próprio S-H foi bem mais produtivo e publicou várias apresentações sistemáticas, como Der gehemmte Mensch (O homem inibido) (1940), Lehrbuch der Traumanalyse (Compêndio da análise dos sonhos) (1949) e Lehrbuch der analytischen Psychotherapie (Compêndio de psicoterapia analítica) (1931). Além disso, empreendeu uma interpretação psicanalítica da esquizofrenia em seu livro Das Problem der Schizophrenie (O problema da esquizofrenia) (1952). No estado em que as coisas se encontravam, uma crítica à neo-psi. proveniente da psi. só poderia vir de dentro da Alemanha. (…) No livro de Munroe, Schools of Psychoanalytic Thought, p.ex., não consta o nome de Schultz-Hencke.”

A posição de S-H no III Reich era bastante cômoda, pois com as mudanças terminológicas por ele implementadas desde antes de 1933 não teve sua liberdade didática molestada.”

Naquela época, os congressos médicos de psicoterapia eram de alto nível” HAHAHAHA

A Psicologia Individual pressupõe a existência de sintomas e acaba a análise naquele fenômeno que seria descrito pela psi. como benefício secundário da doença.”

S-H retirou seus conceitos mais importantes (impulsão e inibição) de F. e Klages.”

A vontade não pode jamais produzir movimento, mas apenas dar subsídio a um movimento de fuga” Kl.

Ele faz parte daqueles autores que raramente fazem citações ou fundamentam com maior precisão as mudanças terminológicas. Não tenho conhecimento de que exista em alguma parte qualquer explicação de qual seria a vantagem de falar-se em inibição no lugar de recalcamento.”

Fenichel via com certa simpatia o esforço de Schultz-Hencke que, numa Introdução à psicanálise, procurava atrair o leitor com a descrição dos fatos, e não com artifícios de nomenclatura.”

Em S-H os 3 estágios (oral-anal-fálico) se tornam 7.

S-H não considera as fases pré-genitais do desenvolvimento como sub-espécies do conflito edípico, mas as toma em sua significação específica.” No que está correto.

A CRÍTICA SENTIU: “As imagens e equações de S-H, incomparavelmente mais pobres que as de F., favorecem especialmente a mistura da teoria com a experiência cotidiana”

A censura oficial do III Reich parece ter agido diferentemente em épocas distintas. Pois embora não haja teoricamente diferença substancial entre O homem inibido e os livros Lições sobre sonhos e Técnicas da Desmólise cujos esboços datavam de 1933, Schultz-Hencke foi proibido de publicá-los, como ele próprios nos informa.”

A psicanálise, excetuando-se seu método especulativo e teórico, é o estudo do homem inibido. Nem mais, nem menos. Na verdade, é uma desmologia e seu método o da desmólise. Se seus seguidores ortodoxos teimaram em proteger sob qualquer circunstância sua teoria especulativa de uma justa decadência e em chamar de ‘psicanálise’ apenas a este todo de verdade empírica, definições e especulação, então seus elementos básicos verificáveis deverão receber um novo nome . . . Não se pode imaginar que a ciência se adaptará a seu mundo conceitual insuficiente. A psi. não é uma ‘nova psicologia’ e sim um setor desta. E a este setor diz respeito a inibitoriedade de todos os seres humanos, com suas conseqüência. Investiga e tira conclusões sobre o homem inibido, e não sobre o homem em geral. (…) Este mal-entendido, como se se tratasse do restabelecimento da desinibição, pôde se manter porque mesclaram-se muitas especulações, definições e erros teóricas à teoria freudiana, cometidos pelo próprio F. e seus alunos. Especialmente a teoria da libido, o pan-sexualismo. Apenas o observador mais atento pôde perceber que dos fatos psíquicos descritos (e não da especulação sobre eles!), uma parte considerável nada tinha a ver com a sexualidade, que, surpreendentemente, no máximo a ela se acoplavam. (…) A própria literatura psicanalítica é em grande parte culpada, se o mundo não se preocupa com os fatos expansivos mencionados, e a psicologia comum dos homens sensatos fêz muito bem quando recusou a teoria sexual. ” S-H

S-H sabia que a agressividade já tinha há longo tempo um papel independente na teoria psicanalítica. Melanie Klein já publicara 2 obras importantes (1928 a 30), postulando a hipótese da destrutividade primária como uma das pedras angulares de sua técnica. (…) A maioria dos psicanalistas percebeu a ameaça de aniquilamento e conseguiu pôr-se a salvo.”

S-H é o bode expiatório: ele não citava o Édipo! Herético!

Resumindo, podemos dizer que todos os princípios característicos da neo-psi. estão contidos no livro representativo dessa fase, O homem inibido, de ‘40.”

O antigo Instituto Psicanalítico de Berlim, o 1º de seu tipo no mundo, não fôra restabelecido ao mesmo tempo que a Sociedade. Isto deve, antes de tudo, ser imputado ao fato de que nos 1os anos do pós-guerra a idéia de um trabalho comum abrangendo diversas correntes, como o extinto Instituto alemão, ainda não perdera seus atrativos.”

A idéia de representação de todos os psicoterapeutas por uma única instituição, a comissão docente, foi interrompida pelo desligamento de um grupo de junguianos (Bügler, Lemke). Mas, como outros psicoterapeutas igualmente junguianos ou simpatizantes (Kranefeldt, Schirren) permaneceram na ‘comissão’, esta abrangia representantes de todas as correntes, assim como também seu sucessor, o Instituto de Psicoterapia, fundado em 09/05/49.”

Se no mundo todo a todo-poderosa psicanálise fosse obrigada a submeter seus formandos a centros policlínicos, muitos dos absurdos e abusos dessa ‘escola’ jamais viriam à tona.

S-H (…) Acreditava ter separado o ouro da psi. de todas as impurezas, e criado uma síntese com os metais nobres das outras correntes.” Verdade ou não, isso nem Klein, nem Lacan tampouco estiveram perto de conseguir!

Segundo consta, ao amalgamar Adler, F. e Jung, foi este último quem “se deu pior” na neo-psicanálise, porque seus conceitos esotéricos eram realmente inassimiláveis por uma psicoterapia séria!

Consta da ata não-publicada da assembléia geral da DPG de 17 de abril de ‘48 que S-H achava que as variações de teoria freudiana ocorridas na América caminhavam na mesma direção que sua neo-psi.. E como na América não havia um Hitler, deve-se deduzir que este foi menos responsável pelo desenvolvimento científico na Alemanha do que uma tendência geral e independente da própria ciência.”

Um leitor pouco familiarizado com a história poderia deduzir do programa deste Congresso Internacional de Düsseldorf (1961) que a atual DPG é a herdeira espiritual daquela sociedade fundada em 1910. Na realidade, a continuidade organizacional e científica da psicanálise alemã foi destruída pelo nazismo. (…) De fato, era tão grande o predomínio do grupo neo-psicanalítico, que os psicanalistas que cercavam Müller-Braunschweig e que não queriam a Sociedade nova fundada sobre os pilares da teoria de S-H se viram forçados, em 1950, a fundar a DPV (que neste ínterim obtivera o reconhecimento internacional).”

A galera que o Manual de Psiquiatría designa como neo-psicanalistas: “Há trabalhos de outros autores, como, p.ex., Nunberg, Anna F., H. Hartmann, Rapaport (sic), Abraham, Rado, Fenichel e M. Klein.”

Este povo, outrora glorioso, não dá mais conta de ‘carregar’ seu passado histórico. Por quê? Pela decadência e degenerescência dos arianos, desde sua mistura com o povo ralé (Pöbelvolk), que torna a raça mais forte impura e enfraquecida.” Theodor Fritsch, Handbuch der Judenfrage (Manual de Questões Judaicas), 1919.

Säuberung é a palavra utilizada na língua alemã para designar os processos de Moscou, [?] é a palavra que Heidegger utiliza (na Introdução à Metafísica) para significar os expurgos nazistas de 1933-35 nas universidades, i.e., exatamente, a exclusão dos professores de origem judaica e de ideologia marxista ou democrática.”

O próprio Abraão, patriarca do povo judeu, teria sido um desses expulsos (de Ur na Caldéia). São Tschandala, i.e., os excluídos, criminosos, leprosos, vergonhosos, sem-raça, doentes contagiosos, etc.”

8. NAZISMO E PSICANÁLISE: OUTRAS RELAÇÕES – Chaim Samuel Katz

Por vezes, quando se lêem certos estudos acerca da psic. em suas relações com o nazismo, fica a impressão de que cada uma destas ‘entidades’ (a psicanálise, o nazismo) seguia um destino essencialmente marcado e distinto, e que seu encontro se deu unicamente por exercício e inscrição violento da parte do nazismo. Ou seja, nada haveria na psic. que a aproximasse do nazismo, a não ser sua coerção. Esta é a concepção que se funda, p.ex., no livro de Jones, obra histórica oficial da psicanálise erigida em torno de F..”

Como, então, explicar, p.ex., que as 2 sociedades psicanalíticas alemãs contemporâneas – a ‘nazista’ DPG e a ‘não-nazista’ DPV (ligada à IPA) se reuniram para formar uma sociedade mais ampla?”

a psicanálise jamais se preocupou diretamente com o nazismo, a não ser quando o nazismo começou a se preocupar diretamente com a psicanálise.”

se os psiquismos se fazem sempre iguais, não haveria ao menos que perguntar sobre quantos psicanalistas negros existem no Brasil? E quantos analisandos negros temos? Mas não se devem procurar elaborações sobre o assunto nas publicações da IPA, uma vez que o assunto é rapidamente eliminado, desde sua não-pertinência (atitude semelhante à da Direita estruturalista, da escola de Lacan [!]).”

FREUD IN A NUTSHELL: “Escolhi trabalhar com uma linha de investigação do que se poderia denominar de ‘saber impotente’, i.e., um conhecimento que, não propondo uma linha do vir-a-ser ou de dever-ser mas examinando o que é, perde as características do saber que idealiza, projeta, recomenda, modifica.”

Observe-se que depois da guerra só se diz IPA, enquanto que até 1936 mais ou menos esta se conhecia como IPV [seu equivalente germanófilo].”

Em 1932 o IZP publicou 2 ensaios, um de Reich criticando as concepções freudianas sobre a pulsão de morte, e outro de Bernfeld, criticando o ensaio de Reich. [Rs!] Deve-se levar em conta a importância de Reich para o movimento psicanalítico (o leitor conhece geralmente as críticas e análises políticas de Reich, mas ignora que ele fez a mais importante pesquisa sobre as técnicas psicanalíticas, especialmente de suas facetas não-verbais), e também o fato de que Bernfeld foi vice-diretor do Instituto de Formação psic. de Viena, em 1926.” “Os participantes da Sexpol podem elaborar teorias diferenciadas sobre aspectos teóricos e técnicos, o que não se admite é que o político apareça com características factuais (e foi exatamente esta faceta que marcou a Sexpol).”

Podem-se procurar todos os volumes posteriores das revistas oficiais, e jamais se encontrará nenhuma referência à similitude de certas concepções da psic. com a escola de Frankfurt. (…) [Mas] quando há proximidade entre as teorias psicanalíticas e a política oficial soviética (ambas anti-religiosas), certas notícias podem se manifestar.”

Fenichel, seguramente o mais proficiente resenhista de todos os que escreveram em órgãos oficiais da IPA, produz amplamente. Só no caderno 3 do IZP-IMAGO de ‘39 há 58 resenhas de Fenichel de livros e ensaios! Mas, para se entender suas posições ‘micro-políticas’, há que lê-lo em outras publicações.”

Ainda no caderno 3 deste ano, Fenichel, ao resenhar um ensaio de Reich (‘As necessidades sexuais das massas trabalhadoras e as dificuldades do tratamento sexual’), chegará a afirmar que ‘as neuroses das massas não podem ser tratadas nas grandes massas através de terapia individual, mas só combatidas profilaticamente’. Ora, esta ‘técnica ativa’ é uma modalidade política, e suas conseqüências (bem como o instrumento teórico que as funda) serão inteiramente distintas daquelas da psicanálise ‘normal’.”

No Boletim, editado por Anna F., nos avisos da Executiva Central, lê-se: ‘II – O Congresso – Em virtude da situação interna séria na Alemanha, cuja duração e extensão ainda não pode ser prevista, a Executiva Central resolve adiar para o próximo ano o 12º congresso internacional (…), que se deveria ter reunido em Interlaken (Suíça)’. O que é ‘situação interna séria’ na Alemanha? Se o leitor consultar todos os volumes citados, jamais saberá.”

Por que a assimetria URSS-Alemanha? “É que a Alemanha é uma Sorgenkind, mas aliada, passível de recuperação; enquanto a ‘Rússia’ [os malditos da IPA nem sequer se prestavam a escrever UNIÃO SOVIÉTICA!] é inimiga, irrecuperável.”

Para Jones, exclua-se, mate-se, inclua-se, salve-se: a psicanálise como essência será sempre igual a si mesma! A Sociedade de Viena passou de 112 psicanalistas e candidatos para 6 membros. Mas isto pouco importa, pois os fenômenos históricos, políticos e sociais não destruirão jamais o noumeno psicanalítico!!”

no informe da Sociedade francesa sobre o que aconteceu durante a Ocupação diz-se que ela se reduziu a DOIS membros, alguns morreram (de quê? como?), outros se juntaram ao exército (de Pétain ou de De Gaulle?), os judeus caíram na clandestinidade. Mas nunca se sabe se alguém colaborou com os nazistas; parece que isto é inteiramente indiferente à feitura da psic.”

Lagache faz um relatório explícito: foi impossível estudar, pois os alemães levaram os livros e proibiram até a citação do nome de F.. Mas durante a Guerra, segundo o psicanalista francês, ‘houve um movimento psicanalítico de resistência’, o que permitirá a retomada da psic.”

Esparsamente pode aparecer alguma notícia sobre campos de concentração: ‘O dr. Ernst Paul Hoffmann (antigo membro da Sociedade de Viena) morreu na Basiléia, em 23/12/44, depois de ter vivido 3 anos num campo francês de internamento (sob o governo de Vichy, controlado pelos alemães).”

INSTITUTO CHACRINHA: “este é o modo tradicional de produzir história à la IPA: primeiro, nada informa; segundo, se informa, não explica.”

Nem o exílio do próprio Freud é lembrado! Quanto à Índia, colônia inglesa, bem, esta vive nirvanicamente!”

O IJP se publicava na Inglaterra. Contudo, manteve uma distância acrítica do nazismo tão grande que jamais se suspeitaria que nesta época os 2 países [nazismo é um país?] estivessem em guerra.”

Quem leu as publicações oficiais da IPA antes e depois da guerra aprendeu, com surpresa, que um psicanalista como Wilhelm Reich é considerado mais inimigo da psicanálise oficial que um Matthias Heinrich Göring.” Nada a acrescentar!

Wälder resenhara um número do Zeitschrift für politische Psychologie und Sexualoekonomie (IMAGO, 1934, vol. XX, caderno 4, p. 504) para afirmar que ou se é marxista ou psicanalista.” “Wälder separa a psicanálise do ‘social’ (e, é claro, do político) e resolve as questões do ‘social’ desde uma certa leitura psicanalítica redutora. Contudo, e sempre, o ‘social’ estará apresentado convertido à psicanálise, e só aí merecerá ser considerado.”

9. A PSICANÁLISE EM BERLIM DE 1950 A 1970 – Gerhard Maetze (trad. Helena Lins e Barros)

A base financeira dos candidatos à formação naquele tempo era muito precária, pois os salários dos jovens médicos não passavam de uma[s] poucas centenas de marcos. Após os exames finais, alguns trabalhavam de graça nas clínicas buscando fazer jus a uma futura colocação remunerada. Após duras reivindicações, o Departamento de Saúde recém-começara a remunerar os serviços profissionais nas clínicas, pagando 50 marcos mensais em dinheiro em lugar do almoço gratuito na estação, à guisa de remuneração.”

APÊNDICE I

(…)

APÊNDICE II

A grande maioria dos teóricos procura pensar os fascismos como uma teoria da totalidade. Num determinado momento algo acontece e – plim, plim – surge o regime fascista. A melhor saída é atribuir tudo ao Estado (quer como fenômeno social novo, quer como manifestação fenomênica de outros fenômenos que não se evidenciam imediatamente), como seu centro organizador exclusivo.

(…)

É o que faz um psicanalista lacaniano. Comparando o fascismo com o despotismo, Mladen Dolar¹ diz que temos inicialmente a história de um nome, o nome do déspota (Mladen Dolar, Prolégomènes à une théorie du discours fasciste in: Analytica, vol. 33, Navarin, Paris, 1983): ‘E que este nome seja capital, pode-se prová-lo pelo absurdo: o acontecimento indiscutivelmente mais decisivo na vida de Hitler aconteceu 13 anos antes do seu nascimento, quando o seu pai trocou o sobrenome familiar, Schichklgruber, por Hitler. Imaginai as massas gritar: Heil Schichklgruber!’ ‘A presença do déspota se faz sentir por um escrito, um sinete – letra volante, significante despido de sentido. Pois o Führer não escreve, e é isto que o caracteriza: dita seu livro na prisão, jamais escreve uma linha.’ E os aspectos econômicos do Nazismo? Dolar diz: ‘É certo que o Führer não quer saber nada dos assuntos econômicos (e, de fato, nada sabe deles). Mas não se dá ao gozo enquanto os outros governam, ao contrário, vive uma vida de ascese para o único emprego digno de um mestre: o de guerreiro’.”

¹ Ele deve encher o cu de dinheiro… Quase que nos sai um BIN LADEN DOLLAR, aliás… Seria o NOME DO SÉCULO…

tais teses pertinentes e cêntricas têm interesse teórico, pois tornam inteiramente desnecessário perguntar sobre o fascismo psicanalítico.”

Bergman (O ovo da serpente) nos ensina mais sobre o assunto dos microaparelhos de poder que um grande número de teorias. Toda teoria ampla tem ainda capacidade de nos ensinar, quando apela para análises concretas (ver, p.ex., Nicos Poulantzas, O Estado, o Poder, o Socialismo, Graal, Rio, 1981, especialmente a ‘Primeira parte’, ‘A materialidade institucional do Estado’).”

Fascismo é um termo lançado pelos próprios fascistas – mais especificamente por Mussolini – consagrado pelos estudiosos e utilizado por políticos, religiosos, etc., e pelo povo em geral. Esta utilização suprimiu – como não poderia deixar de ser – um certo caráter científico da palavra.”

A esquerda muitas vezes, serve-se dele como ‘epíteto injurioso’ contra as forças de direita.” Pois esse termo já estava quase esquecido, quando o fascismo voltou, literalmente, e se tornou de uso banal 40 anos ou 45 anos depois deste texto…

ORIGEM DO “FASCISMO É DE ESQUERDA”: “A direita, por sua vez, aproveitando-se justamente do uso que do termo se faz na linguagem corrente, de se o estender a todos os regimes de inspiração semelhante aos da Itália fascista e da Alemanha hitlerista, sugerem aproximações entre o regime soviético por um lado e as ‘ditaduras fascistas’ por outro.”

Propondo uma interpretação do fascismo com a clara finalidade de inocentar o capitalismo, ou melhor, o capital financeiro de sua formação, William Ebenstein compara-o com o comunismo, usando para isso o conceito de Totalitarismo desenvolvido a partir da reativação dos sentimentos anticomunistas no Ocidente com a ‘guerra fria’.”

Segundo Leandro Konder, é Hannah Arendt que dá o apoio teórico mais consistente para uma crítica ao fascismo baseada no conceito de Totalitarismo: As Origens do Totalitarismo (1951).”

enquanto o comunismo é a forma de totalitarismo tipicamente ligada a povos pobres e subdesenvolvidos, o fascismo é a forma de totalitarismo que aparece em nações mais ricas e tecnicamente mais avançadas” Ebenstein

No caso do (…) fascismo (…) se apóia não somente em uma classe social mas sim ‘em todos os grupos sociais’: os industriais ricos e os latifundiários apoiam o fascismo na esperança de se livrarem dos sindicatos; a classe média o faz ante o temor de unir-se ao proletariado; os trabalhadores juntam-se a estes na busca de melhores condições” “há todavia que contar os nacionalistas que cada país tem, que são vulneráveis a toda promessa de conquista e império”

Esta fundamentação do fascismo em ‘todos os grupos sociais’ é uma de suas grandes debilidades (…) ela implica fazer promessas as mais contraditórias para satisfazer todos que a ele aderiram.”

el fascismo no tiene una declaración de princípios autoritária como la que tiene el comunismo Ebenstein – que tal “metralhar a petralhada”??? fascismo 2.0

Il nostro programa è símplice: vogliamo governare l’Italia” Mussolini

As relações familiares esclarecem este princípio de autoridade: as mulheres, por serem incapazes de usar armas, são ‘automaticamente cidadãs de 2ª categoria e devem ser excluídas das posições de chefatura no governo ou no partido’. A Alemanha nazi demonstrou o seu total desprezo pelas mulheres no ‘ridículo oficial a que se submeteu o matrimônio como um falso preconceito judaico-cristão e ao incitamento às mulheres alemãs para que dessem filhos à pátria fora do casamento.’

O emprego da palavra totalitarismo tem como efeito – e talvez para alguns represente uma finalidade – mascarar as diferenças que se encontram na própria essência dos regimes (comunista e fascista) e de sugerir certas aproximações nem sempre convincentes.” Jean Touchard

Segundo Leandro Konder (…) [o demérito de autores que delimitaram o fascismo ao período entreguerras, como Ernst Nolte, Franz Gress e Renzo De Felice, é que] eles ‘expulsaram o conceito da história que está sendo feita em nossos dias, obrigando-o a exilar-se no passado; acabaram contribuindo para confundir e desarmar as forças antifascistas, levando-as a não poderem identificar claramente as dimensões mundiais com que o fenômeno fascista pode reaparecer, modificado, em nossa época, no interior do capitalismo monopolista do Estado’.”

Não faz o menor sentido criar um conceito que só se aplicaria à Alemanha e à Itália das décadas de 20 a 40! Em vez de restringir o termo fascismo a estas duas instâncias, esses autores datados deviam é ter abolido o termo e se recusado a usar qualquer um para descrever o que houve nos dois países… Hitlerismo e mussolinismo seriam já o bastante enquanto nomenclaturas ‘exaustivas’.

A direita é o gênero de que o fascismo é uma espécie.” Franz Gress

É preciso não considerar o fascismo como qualquer coisa de definitivamente caracterizado, é preciso considerá-lo no seu desenvolvimento. Nunca como algo fixo, nunca como um esquema ou como um modelo.” Togliatti

O fascismo é uma tendência que surge na fase imperialista do capitalismo que procura se fortalecer nas condições de implantação do capitalismo monopolista de Estado, exprimindo-se através de uma política favorável à crescente concentração do capital; é um movimento político de conteúdo social conservador, que se disfarça sob uma máscara ‘modernizadora’, guiado pela ideologia de um dogmatismo radical, servindo-se de mitos irracionalistas e conciliando-os com procedimentos racionalistas formais do tipo manipulatório. O fascismo é um movimento chauvinista, antiliberal, antidemocrático, antissocialista, anti-operário. Seu crescimento num país pressupõe uma preparação reacionária que tenha sido capaz de minar as bases das forças potencialmente antifascistas (enfraquecendo-lhes a influência junto às massas); e pressupõe também as condições da chamada sociedade de massas de consumo dirigido, bem como a existência nele de um certo nível de fusão do capital bancário com o capital industrial, i.e., a existência do capital financeiro.” Leandro Konder, Introdução ao Fascismo, 1979

Nolte, El fascismo en su época, 1967

APÊNDICE III

Outra boa parte dos saberes, diante da impossibilidade de inscrever a realidade dos fatos, apela para o desespero. Se o real é impossível, nada há a fazer (menos, é claro, ganhar muito poder e dinheiro com tais teorias; mas afinal, dinheiro e poder são sempre ‘alguma coisa’ contra o desespero, não?).”

APÊNDICE IV

F. dizia que aquele que não recorda (e perlabora) está fadado a repetir. A colaboração da psicanálise com o nazismo não se fez unicamente na Europa, e se repetirá, ao menos enquanto ‘casos’ como o de Amilcar Lobo estiverem destinados ao esquecimento. Os fascismos são uma virtualidade ao exercício psicanalítico, e não mero acidente de seu ‘percurso libertário’.”

* * *

O torturador precisa do torturado vivo, para exercer sua condição de torturador. Assim como o senhor não existe sem o escravo, assim também o torturador não vive sem o torturado. Os defuntos têm um soberano desprezo pela tortura e, nesta medida, representam a morte do torturador. Um médico que cuida do torturado, como membro da equipe torturadora, serve ao torturador e à tortura, desonra o juramento hipocrático, o código de ética, e avilta o exercício da profissão.”

Em 1973, foi o dr. Lobo acusado de torturador pela revista argentina CUESTIONAMOS, em artigo assinado por Marie Langer e Armando Bauleo.” “O dr. Lobo, na ocasião, foi rigorosamente poupado, ao passo que a dra. Helena Viana, sua presumível acusadora, por pouco não se viu obrigada a mudar de país.”

Helio Pelegrino, A crise na psicanálise (pp. 44-6)

De quando a ISTOÉ valia pelo menos o papel em que era impressa (11 de fevereiro de 1981):

Inês. Dr. Lobo, eu acho que conheço o senhor. Meu nome é Inês Etienne Romeu, e eu estive com um médico chamado dr. Lobo na casa de Petrópolis. Outros presos políticos também o conheceram na PE [Polícia do Exército] da Barão de Mesquita.

(…)

Lobo. Eu fui convocado. Eu não fiz o serviço militar e, após terminar o curso de medicina, fui convocado pelo Exército. O que se está levantando é um assunto muito sério: que eu teria participado de tortura. Minha função lá foi exclusivamente de atendimento médico.

(…)

Lobo. Naquela casa não. Lá só estive com ela. Ajudei muita gente, posso chamar várias pessoas. Eu nem sei onde é esta casa, eu era levado lá encapuzado. (…)

Inês. (…) O dr. Lobo nunca conversou comigo. Ele só se dirigia ou ao dr. Pepe, ou ao dr. Teixeira, ou ao dr. Bruno.

Lobo. Eu não sei quem eram.

(…)

Inês. (…) O seu nome de guerra lá era dr. Carneiro.

(…)

Lobo. Minha posição é uma posição de esquerda, [?] podiam até me chamar de dr. Satanás… Eu não me lembro de ter feito essas transfusões de sangue. Só atendi o ferimento.

(…)

Lúcia. Gostaria que Inês rememorasse a cena em que o dr. Lobo lhe aplicou o Pentotal, já que ele não se lembra…

Lobo. Não é que eu não me lembre, eu nego isso.

(…)

Lobo. Posso ter aplicado nela um soro. Glicose. Nunca Pentotal.

(…)

Lobo. Três vezes tentei desligar-me do Exército, numa das vezes me responderam que o requerimento tinha ido parar na 6ª Seção. E o Exército só tem 5 seções.

(…)

Lobo. Esse é o tipo de ajuda que eu posso dar… eu ainda sou oficial da reserva…

Modesto. O senhor é R-1?

Lobo. R-2.”

Nessa casa, entre 8 de maio e 11 de agosto de 1971, Inês Etienne, militante da organização clandestina Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), acusada de participar do seqüestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, em 1970, presa pelo delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury na avenida Santo Amaro, em São Paulo, em 1971, e condenada à prisão perpétua, depois reduzida para 8 anos, que cumpriu integralmente, passou 96 dos piores dias de sua vida.” “Pentotal Sódico, o chamado ‘soro da verdade’” “foi torturada, estuprada (…) e, depois de cada uma de suas 2 tentativas de suicídio, medicada para recuperar as forças e ser de novo supliciada. Dez anos depois, graças ao telefone 40-90, número que ouviu em uma conversa de seus carcereiros e memorizou, Inês Etienne conseguiu localizar a casa de seus pesadelos.” “Explicou que emprestou a casa, entre 71 e 78, ao ex-comandante da Panair e ex-interventor na prefeitura de Petrópolis Fernando Aires da Mota, ligado segundo Lodders a um grupo paramilitar. ‘Ele é um prócer da Revolução de 64 (SIC), um homem de muito prestígio político’, conta Lodders, ‘eu não tinha como negar’. Ele nega, porém, que tivesse conhecimento de que na sua casa se praticavam torturas.” “Fernando Eduardo Aires da Mota, presidente da seccional da OAB de Petrópolis e filho do ex-interventor, chegou a tentar matar o dono da casa.” “O coronel Homem de Carvalho [Pinóquio], comandante da Polícia do Exér. entre 1971 e 72, e hoje na reserva e próspero empresário, proprietário da Homem de Carvalho Incorporações, também nega qualquer envolvimento”

Apesar de profundamente anticomunista e de ser considerado um dos oficiais mais ‘duros’ do Exér., o general Sylvio Frota nunca tolerou o uso de torturas contra prisioneiros políticos. Por isso suas relações com os homens do COD-DOI (sic) do Rio de Janeiro nunca foram muito cordiais. Elas se deterioraram ainda mais, entretanto, com a prisão por agentes (…) de um parente de um dos oficiais de seu gabinete.”

A casa da rua Arthur Barbosa, n. 668, passou a ser conhecida entre agentes dos órgãos de segurança e prisioneiros políticos como ‘Codão’, e ali foram torturados – e desapareceram – prisioneiros não apenas do RJ mas também de BH, Goiás, Espírito Santo e até do RS, do Nordeste e de SP.”

* * *

Citado por Amilcar Lobo como o outro médico que assistia os presos políticos na PE, em 71, o major Ricardo Falal disse ontem à ‘Folha’, por telefone, que nada tem a declarar sobre a questão, pois está sujeito ao Regulamento Disciplinar do Exército.”

Folha de SP, 7 de fevereiro de 1981.

Nas várias entrevistas que já deu depois das denúncias e reconhecimento por ex-presos políticos, Amilcar Lobo diz muitas vezes que ‘não quer se complicar’, que quer ‘ficar em paz’. Fala tão baixo que quase não se ouve, resiste muitíssimo a tomadas para a televisão, enfim, aparentemente, está com medo. Mas afirma que atualmente não teme nenhuma represália porque seu caso ‘tornou-se público demais’. Ou seja, qualquer ato contra ele seria imediatamente detectado.” “Depois de um estágio de 3 meses no Forte Copacabana, foi para a PE em função de seu aproveitamento, segundo ele, ‘péssimo’.” “Na PE, ele conta que (…) teve seu filho de 8 anos sequestrado ‘apenas como aviso’ durante algumas horas”

Na entrevista coletiva que deu na noite de sexta-feira, minutos antes de receber 6 ex-presos políticos torturados, disse não enxergar, do ponto de vista psicológico, grande diferença entre os terroristas de esquerda e seus torturadores, já que ‘não há distinção entre o sádico e o masoquista, porque todos são sádicos. (…)’”

O psicanalista se diz ‘bode expiatório’. ‘De quem, dr. Amilcar?’ Ele responde: ‘De todos.’ Ou seja, da esquerda terrorista que foi torturada – e que ele considera tão ‘mentalmente desequilibrada’ quanto os torturadores, duas faces da mesma moeda; dos médicos e psicanalistas que, na abertura, cobram das entidades a que pertence o dr. Amilcar Lobo. Ele se declara admirador da Social Democracia, como a praticada na Escandinávia, e aos 6 ex-presos políticos que o identificaram na noite de sexta-feira (…) ele se disse ‘socialista.’”

Amilcar Lobo afirma que seu trabalho na PE era conhecido de seu analista, já que representava enorme fonte de conflito. E que a conclusão chegada em análise era a de que ele deveria deixar o Exército, o que no entanto não foi possível.”

Para ‘dar liberdade à instituição de investigar livremente seu caso’, Amilcar Lobo voluntariamente se afastou da SRPJ (sic) em 1974 e 75, sendo reintegrado em 1976, o que supõe ter a Sociedade concluído por sua inocência.” “De acordo com o próprio Amilcar Lobo, o dr. Leão Cabernite [fascistóide-mor!] apurou ser da psicanalista Helena Beserman a caligrafia na margem da folha da ‘Voz Operária’, enviada à dra. Langer.”

Não se pode, diz Lobo, querer fazer política dentro de uma instituição científica.”

Folha, 8/2/81.

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