“‘Artesão da antiga e da nova forja’, tal se pretende Guillaume de Machaut, e assim se pode também definir o séc. XIV musical durante o qual se generaliza a prática de novos modos de escrita da música a partir de um material antigo.”
Jean de Murs, Ars nove musice
Philippe de Vitry, Ars nova
“Embora retomem em larga escala as formas da música dos séculos precedentes, pretendem esses teóricos que tal música já pertence à Ars Antiqua, também dita Vetus (‘velha’, ‘anterior’). São autores que devem a celebridade sobretudo a suas obras teóricas. Fato é que nenhuma obra nos resta de Jean de Murs e que apenas uma dezena de motetos do Roman de Fauvel e do manuscrito de Ivrea podem ser atribuídos a de Vitry (1291-1361). Bispo de Meaux, mas também brilhante poeta, amigo de Petrarca e dos primeiros humanistas reformadores (como Nicole d’Oresme), de Vitry adquiriu renome europeu.”
“ratificaram e generalizaram os procedimentos existentes, conferindo-lhes maior precisão.” “ao sistema ternário (…) veio acrescentar-se um modo de divisão dos valores binários” “Ou seja: quando a longa vale 3 breves, trabalha-se com o modo perfeito; quando ela vale 2 breves, com o modo imperfeito; se a breve se divide em 3 semibreves, é o tempo perfeito; se está dividida em 2, é o tempo imperfeito; finalmente, se a semibreve se divide em 3 mínimas, estamos diante de uma prolação maior, se em 2, diante de uma prolação menor.”
“O tratado de Philippe de Vitry nomeia também a semi-minime (semínima), mas trata-se decerto de um acréscimo tardio, pois esse valor quase não era empregado antes do fim do séc. XIV (uma mínima é divisível em 2 semínimas).”
“Talea: tal emprego de módulos preestabelecidos e repetidos no decorrer da obra faz pensar, de certo modo, no serialismo do séc. XX.”
“dois séculos antes do Concílio de Trento, a Igreja já se dava conta de que a música estava se tornando uma arte e já não era a ciência de dar suportes melódicos à Palavra da Verdade. Uma arte que iria proporcionar, no próprio seio da igreja, em plena celebração dos ofícios, prazeres intelectuais aliados aos prazeres dos sentidos, dispersando com isso a atenção dos fiéis e desviando-os dos mistérios divinos.
O papa João XXII, que ignorava a isorritmia, mas que mesmo assim estava a par dos progressos recentes da técnica musical, escreveu, em sua decretal Docta Sanctorum Patrum (1324), algumas linhas que manifestam uma admirável compreensão desses fenômenos e que são de grande lucidez com relação a suas conseqüências:
Certos discípulos da nova escola, enquanto dedicam toda a sua atenção a medir o tempo, estão empenhados em fazer as notas de uma nova maneira, preferem compor seus próprios cantos em lugar de cantar os antigos, dividem as peças eclesiásticas em semibreves e mínimas; estraçalham o canto com notas de curta duração, despedaçam as melodias com soluços, poluem-nas com discantes e chegam ao ponto de entulhá-las com vozes superiores em língua vulgar. Desconsideram, assim, os princípios do antifonário e do gradual, ignoram os tons que já não mais distinguem, que mesmo confundem… Correm sem fazer uma pausa para repousar, inebriam os ouvidos em lugar de acalmá-los, mimam por gestos o que fazem ouvir. Assim, a devoção que se deveria buscar é ridicularizada, e a lascívia, de que se deveria fugir, é exibida às escâncaras.”
“Muito se tem insistido em fazer de Machaut o último dos troveiros, sob o pretexto de que ele retomou algumas das formas líricas tão características destes, e também porque pôs em música uma parte de sua própria obra poética. É não reconhecer nele o homem dos novos tempos, é ignorar a força e o alcance de sua obra, ignorar também que Machaut teve perfeita consciência de ser o primeiro artista, no moderno sentido da palavra.”
“Somos anões encarapitados nos ombros de gigantes, disse Bernard de Chartres no séc. XII.” E cada vez o autor original da frase recua mais no tempo!!
“Foi ele o maior poeta francês de seu século e o primeiro grande compositor, gênio bifronte que une dois ofícios da mesma forma que sabe unir, de maneira coerente, a cultura sacra e a cultura profana – ele que, clérigo, tonsurado, cônego da catedral de Reims, passou ¾ da vida a serviço dos mais notáveis príncipes do mundo.” “pela primeira vez, a música profana era aceita e reconhecida por um clérigo nos seus efeitos benéficos sobre a alma humana.”
« Oprheüs mist hors Erudice
D’enfer, la cointe, la faitice,
Par sa harpe et par son dous chant.
Harpoit si très joliement
Et si chantoit si doucement
Que les grands arbres s’abaissoient
Et les rivières retournoient
Pour li oïr et escouter;
[…]
…ce sont miracles apertes
Que Musique fait. »
“Guillaume de Machaut era originário do povoado de Machault, na Champagne, situado a 50km de Châlons-sur-Marne e a 40km de Reims.”
“Com a morte do rei da Boêmia, Machaut entrou para o serviço de Bonne, filha deste, a qual morreria da peste pouco tempo depois. Para evitar a contaminação por uma doença que dizimou a metade da população da Europa, Machaut ficou um ano inteiro fechado dentro de sua casa em Reims, depois do que passou sucessivamente ao serviço de Carlos II, o Mau, rei de Navarra, de Carlos V, de Pedro I de Lusignan, rei de Chipre, do duque de Berry e de Amadeu de Savóia. Terminou seus dias retirado em seu canonicato. O artista sexagenário tinha então um caso com uma admiradora muito jovem, Péronne d’Armentières, que desejava aprender com o mestre a arte dos versos e da composição. O Voir dit (1361-1365) – Dito da verdade – narra essas trocas intelectuais e amorosas sob a forma de um romance epistolar, o primeiro da literatura francesa.”
“Machaut não inventou nenhuma forma – o que ele fez foi levar à perfeição os gêneros já existentes.”
“O compositor tinha predileção pelos motetos. Deixou 23, dos quais 19 a 3 vozes. 6 são religiosos e inteiramente em latim. 2 têm um duplum em latim e um triplum em francês. 3 têm uma voz tenor com texto francês (Fin cuer doulz, Fino e doce coração nº 11, Pourquoi me bat mes maris, Por que me bate meu marido), lassette nº 16, e Je ne suis mie certein, Não tenho a menor certeza nº 20).”
“Os cálculos rigorosos da isorritmia fascinavam Machaut, que se divertia com multiplicar as dificuldades, escrevendo uma parte contratenor semelhante à parte tenor, só que de trás para diante (nº 5), como o fez para o cantus e a tenor do rondó cujo incipit, de resto, alude ao procedimento: ‘Ma fin est mon commencement / Et mon commencement ma fin’.”
Escrevia antes de compor, e não para pôr na música composta.
“As missas da época, as Messe ditas de Tournai, de Sorbonne, de Besançon, etc., propõem modelos polifônicos a 2 e a 3 vozes, mas isolados uns dos outros e discordantes. Machaut foi o primeiro a ter composto uma missa completa, inclusive com o Ite missa est, e que é, além do mais, uma missa a 4 vozes, o que constitui outra inovação.”
“Não é difícil compreender que essas pesquisas intelectuais variadas, inseridas num conjunto de grande coerência, possam ter interessado tanto Stravinski quando este escrevia sua própria missa.
O leitor que nos perdoe esses saltos no tempo, mas a partitura do Hoquet David, escrita sobre um Alleluia-Nativitas de Pérotin, que Machaut talvez tenha desejado completar, com sua voz tenor issorrítmica e suas duas vozes superiores em hoquet, nas quais células de uma passam para a outra, trazem irresistivelmente ao pensamento, por sua economia de meios e sua clareza, a escrita de Anton Webern.”
A ARS NOVA ITALIANA
“O termo Ars Nova, que designa as formas musicais da Itália no Trecento, poderia fazer-nos pensar numa influência da escrita francesa sobre a que se desenvolvia na península e em qualquer parentesco entre as músicas dos 2 países. Não há nada disso: o movimento italiano caracteriza-se por sua independência, afirmada na adoção de uma notação própria, admirável por sua precisão e cujos princípios se acham expostos no Pomerium artis musicae (Limites da arte da música), de Machetto de Pádua (1321-1326).
Se é fato que os papas Bonifácio VIII, em Roma, e Clemente VI, em Avignon, exerceram o mais brilhante mecenato no domínio das artes visuais, estimulando o gênio de um Giotto ou de um Matteo de Viterbo, por outro, foram os príncipes das grandes cidades do norte da Itália que atraíram os músicos e os protegeram: as côrtes dos Della Scala, em Pádua e em Verona; dos Scaligari, também em Verona; dos Visconti, em Milão; e, enfim – e sobretudo – dos notáveis de Florença.
Por isso mesmo, fazia-se música quase exclusivamente profana, escrita segundo o apelo das circunstâncias, o mais das vezes para convidar aos prazeres ou cantar-lhes a nostalgia.”
“Ao inverso da polifonia francesa que se elaborou a partir da voz tenor, a italiana organizava as vozes com base na voz superior, em que se inscreviam as palavras, cujos autores podiam ser Boccaccio, Petrarca, Sachetti. Três gêneros são cultivados na Itália: o Madrigal, a Caccia (caça) e a Ballata.”
“A Caccia (que tem por pendant a Chasse francesa), mais rara, é uma composição em cânone, para as 2 vozes superiores, enquanto a voz tenor faz um contraponto não-canônico e sem texto, composto de 2 seções, a 2ª funcionando como ritornelo no estilo do madrigal. (…) com espantosa liberdade de invenção.”
“As composições de Jacopo da Bologna são as mais variadas (madrigais a 3 vozes), e a ele se deve a 1ª transposição para música de um soneto de Petrarca: Non al so amante.”
“Francesco Landini (1325-97), organista cego, foi o compositor mais importante da Florença do séc. XIV e o que deixou obra mais abundante (11 madrigais, 2 caccie, 141 baladas). (…) também influenciado pela arte de Guillaume de Machaut, seu estilo reveste-se de doçura e elegância.”
