HISTÓRIA DAS IDÉIAS 2: HEGELIANISMO(S): O PENSAMENTO ÚNICO QUE FALHOU

LEGENDA:

Em vermelho: trechos importantes, possivelmente contendo uma idéia completa.

Em negrito, sublinhado, itálico: trechos importantes, normalmente contendo alguma idéia incompleta ou detalhe secundário que não deve ser perdido de vista (parte da teoria que não deve ser ignorada para o entendimento completo desta).

Em vermelho e grifado: trechos mais importantes.

Em verde: pérolas do filósofo ou idéias abstrusas. Quando grifado, muito abstrusas!

Em azul: comentários meus (exegese e julgamento do filósofo).

ÍNDICE (Use control+F para pular para a seção desejada)

s/nº INTRODUÇÃO

1. PRELIMINARES

2. COMEÇA O CURSO – AS RELAÇÕES DA FILOSOFIA COM A HISTÓRIA, COM PRIMAZIA DA SEGUNDA

2.1 INDIVÍDUOS X IDÉIAS: UM FALSO DEBATE

2.2 SOBRE A BUSCA PELA VERDADE AO LONGO DO TEMPO: A ELABORAÇÃO DE SISTEMAS FILOSÓFICOS MUTUAMENTE CONTRADITÓRIOS.

2.3 PRIMEIROS ELEMENTOS DO HEGELIANISMO

2.4 DELIMITAÇÃO DO MÉTODO DO ESTUDO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA; A PAIXÃO HEGELIANA PELA RELIGIÃO E PELA ESCATOLOGIA.

2.5 DELIMITAÇÃO DO QUE É FILOSOFIA

3. PANORAMA GERAL DA FILOSOFIA GREGA

4. ANAXÁGORAS

5. PARMÊNIDES

6. PITÁGORAS

7. HERÁCLITO

8. OS ATOMISTAS

9. PROTÁGORAS

10. SÓCRATES

10.1 O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA: NEGANDO E AFIRMANDO SÓCRATES

10.2 O INDIVÍDUO SÓCRATES & O OCASO ATENIENSE: O LADO NEGATIVO DA FILOSOFIA

11. PLATÃO

11.1 O PLATONISMO

11.2 O PLATONISMO COMO ÁPICE PRECOCE DO FILOSOFAR & O LIMBOBOL COMO TÊNIS METAFÍSICO (onde o Pensamento Único é o estilo característico de cada atleta-pensador)

11.3 A MAIÊUTICA OU TEORIA DAS REMINISCÊNCIAS

11.4 TEORIA DAS IDÉIAS

11.5 O HERMETISMO PITAGÓRICO EM PLATÃO

11.6 A REPÚBLICA

11.6.1 DAS QUATRO VIRTUDES DA POPULAÇÃO DA REPÚBLICA

11.6.2. CONTINUIDADE DA REPÚBLICA NO TEMPO

11.7 ESTÉTICA

11.8 CONCLUSÃO

12. ARISTÓTELES

12.1 O VERDADEIRO TAMANHO DO LEGADO DE ARISTÓTELES; DISTORÇÕES HISTÓRICAS DE HEGEL

12.2 METAFÍSICA ARISTOTÉLICA

12.3 FÍSICA ARISTOTÉLICA

12.4 ÉTICA ARISTOTÉLICA

12.5 LÓGICA ARISTOTÉLICA

13. A RESSACA: FILOSOFIA PÓS-PLATÔNICA E PÓS-ARISTOTÉLICA

13.1 ESTOICISMO, EPICURISMO, CETICISMO & OUTRAS ESCOLAS PERIFÉRICAS DO PENSAMENTO: UMA VISÃO COMPARATIVA.

13.2 IDADE DAS TREVAS: DO NEOPLATONISMO À ESCOLÁSTICA OU O MILÊNIO PERDIDO

14. REALISMO X IDEALISMO: POR TRÁS DAS CORTINAS, NACIONALISMO.

15. BACON

16. DESCARTES

17. SPINOZA

18. O CÉTICO EMPIRISMO OU EMPÍRICO CETICISMO DOS BRITÂNICOS

19. LEIBNIZ

20. JUÍZO HEGELIANO ACERCA DA DEFICIENTE METAFÍSICA MODERNA

21. O MATERIALISMO FRANCÊS SUI GENERIS

22. KANT: A NÊMESE DO ESPÍRITO DE HEGEL

s/nº QUIXOTADAS, DITIRAMBOS & AFORISMOS SÁBIOS

s/nº MAIS HEGEL (& ASSOCIADOS)? OUTROS POSTS DO SECLUSÃO.

INTRODUÇÃO

O ensaio a seguir possui um caráter fragmentário, aforismático. Na realidade batizo-o de ensaio por falta de palavra melhor. Na sua maior extensão, são apenas citações do próprio Hegel. Mas condensam e apanham todas as observações que teci a seu respeito em outras postagens do blog, referenciadas ao final. É, primeiro, um modo de encontrar todos os meus juízos mais importantes proferidos sobre a filosofia hegeliana num único post; e uma maneira mais resumida e direta ao ponto de conhecer as próprias afirmações de Hegel. Para se ter idéia, todo o material aqui colhido se concentra em obra póstuma sua considerada periférica, e no entanto bem abrangente e reveladora: a História da Filosofia são cursos universitários ministrados por Hegel. Através deles podemos conhecer a idéia central (ou ‘a idéia que Hegel fazia da idéia central’) de praticamente todos os filósofos relevantes até sua própria época (e também a filosofia de muitas figuras irrelevantes!) – talvez exceto por Blaise Pascal, que, embora não tivesse sua existência completamente ignorada pelo “Idealista Alemão” ou “Pai da Dialética Moderna”, é citado apenas de passagem. Mas o mais importante é: através dos erros e acertos fulcrais de Hegel, podemos entender o que é o Historicismo ou Teleologia do sistema do pensamento hegeliano. Mesmo prejudicados por não adentrarmos em obras como a Filosofia do Direito, a Fenomenologia do Espírito, o Curso de Estética, a Filosofia da História (cuja proposta é simetricamente oposta à deste curso – entender o devir dos acontecimentos humanos COM BASE na filosofia hegeliana, e não explicar a sucessão dos pensamentos cronologicamente) e a Enciclopédia, espero trazer resultados conclusivos ou, pelo menos, nada desprezíveis sobre o valor do Hegelianismo, ou dos Hegelianismos, sem sobrecarregar e estafar o leitor. Uma das principais razões para isso é que o linguajar de um curso oral depois transcrito em papel é muito mais leve e didático do que o tipo de exposição bem característico de Hegel nas suas obras publicadas em vida. O homem é um só: não importa quantos livros tenha escrito, se o assunto é geral o suficiente, poderemos perscrutar seu interior e suas intenções – seu mérito, enfim.

Muito se fala de Georg Wilhelm Friedrich Hegel; mas o que podemos jogar no lixo da História e o que ainda devemos levar em conta? Em que pese haver 50 mil iniciativas do gênero, faço minha própria tentativa neste espaço. Devo dizer que não gosto de carranca: recorro ao humor para quebrar o gelo e satirizar os absurdos com que eventualmente depararemos. Ou à poesia. Porém, aquele que disser que não encontra aqui filosofia, estará distorcendo descaradamente o conteúdo do “ensaio”. Depois de explorar o cerne do pensamento de Hume e Kant de forma relativamente breve, nada mais justo que continuar a série HISTÓRIA DAS IDÉIAS, que agora sim se tornou série, com “O Homem da História”, o homem para quem a História representa ou representou pela primeira vez um papel todo especial. Não deixará de ser uma História das Idéias sobre a História em si, mas com uma limitação evidente: pára no início do século XIX. É por isso que meus comentários em azul são tão necessários, mesmo que o leitor pudesse compreender cada palavra de Hegel: dou uma perspectiva adicional, contraposta o mais das vezes, elimino certos pontos cegos que uma alma medíocre de hoje em dia pode enxergar muito bem no gênio hegeliano, existência que passou há quase 200 anos. Hegel é o continuador natural de Kant, e como todo continuador resenha seus antecessores: como Kant parte de Hume, Hegel parte de Kant e tem muito a dizer a respeito destas duas figuras, por exemplo. Hume, no entanto, que já ficava ofuscado diante de Kant, é apenas uma estrelinha num amplo firmamento iluminado nas “anotações do sistema fonador hegeliano”. Não deixa de ser, portanto, um complemento do primeiro capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS, embora o objetivo inicial seja descolado da Crítica kantiana. Desta vez a massa informacional será muito maior – páginas, páginas e páginas no seu ecrã! –, por isso prepare o corpo e a mente!

Para facilitar, minha exposição obedeceu, também, como o próprio livro que aqui usamos como base, o critério cronológico. Dividi os tópicos pelos filósofos ou fases ou escolas que Hegel comenta. Observações gerais sobre como Hegel pensava poderão, portanto, estar espalhadas por qualquer dos 22 ‘capítulos’. Achando necessário, separei algum tema que se tornava muito recorrente e insistente num tópico dedicado (os melhores exemplos são quando entramos em Platão e Aristóteles, os filósofos mais importantes da História até a época de Hegel – seus capítulos possuem várias subseções). Por fim, minhas tiradas mais sarcásticas e/ou impossíveis de contextualizar estão posicionadas num epílogo ou anexo próprios.

É importante ainda que saibam que a obra que li está em espanhol, mas para aumentar a acessibilidade desse material traduzi todos os trechos de Hegel que usei. Junto, poderão ser despejadas, na bacia, além do bebê, outras águas: citações dos filósofos que Hegel comenta. Claro que a cada novo filósofo, todos os filósofos precedentes reaparecem, de alguma forma, corroborando Hegel (embora ele exagere demais a esse respeito), e tornando tudo mais labiríntico e nuançado. Saibam de uma vez: Sócrates, Platão e Aristóteles são presença obrigatória em qualquer novo pensador que apresente seu legado ao mundo. No fim, creio que nunca me arrependerei de ter começado a HISTÓRIA DAS IDÉIAS “pelo meio”, isto é, com autores modernos, porque sem os antigos eles, por assim dizer, não existem: assim, introduzo desde o 1º capítulo da série o pensamento antigo, mesmo sem dedicar, por enquanto, um post específico a ele.

1. PRELIMINARES

CRÍTICA DOS FILOSOFASTROS¹ CONTEMPORÂNEOS DE HEGEL: “[Hegel corrigiu o erro dos historiadores de filosofia até sua época, que cometiam] o absurdo intento de destacar Anaximandro de tal forma que chegou-se mesmo a colocá-lo depois de Heráclito no história do pensamento, como se se tratasse de autor mais maduro.” É muito comum que pensemos na história como progresso. E é mais comum ainda que se escreva uma história levando-se em conta, às vezes inconscientemente, apenas uma linha reta temporal, tendente a valorizar mais só aquilo que vem a seguir em detrimento do que já é passado. Ora, Heráclito aparece primeiro; mas Hegel ajudou nossa historiografia a revisar a importância que concedíamos a ele: hoje ele é tido como um dos pré-socráticos (início da filosofia ocidental) mais importantes, superando as contribuições de Anaximandro. Os alunos de Hegel (os responsáveis por editar o livro da História da Filosofia) destacam essa faceta pioneira do mestre: ignorou a linha temporal em alguns casos em que isso melhorava o didatismo e a qualidade de seu curso. “Assim, quando Hegel não considera Heráclito entre os primeiros jônios, senão que o coloca depois dos pitagóricos e eleatas, não se encontra na cúspide da erudição de nossos dias, [ironia para se referir aos filisteus daquele tempo, filosofastros, filósofos apenas no nome] que decidiu sozinha que lugar corresponde a Heráclito baseando-se tão-somente em superficialidades.” Estas aspas são de Michelet, um dos editores da obra.

¹ “substantivo masculino Indivíduo, que se supõe filósofo, e que discorre sem acerto.”

Porém, também é verdade que, apesar de reconhecer a primazia de Heráclito na “hierarquia atemporal dos filósofos”, Hegel comete o erro de superestimar além do que seria aceitável outro filósofo pré-socrático, nomeadamente Anaxágoras, considerado o primeiro que filosofou séria e abstratamente (por conceitos determinados). Ver capítulo 4.

HEGEL, O PROLIXO: “Entre outras causas, esta História da Filosofia de Hegel conservou o caráter de conferência pela falta de tempo que tinha o autor [enquanto professor para ministrar seu curso ao longo de um semestre (na realidade entre 3 e 4 meses)]. Hegel teve de ser muito mais lacônico ao final do curso que em seu princípio. [Engraçado, eu não tive essa impressão: minhas anotações são maiores sobretudo para o terceiro volume da História, que começa, é verdade, no neoplatonismo, o que é quase um contra-senso, já que significa que ao iniciar o capítulo final da trilogia ele ainda está no próprio mundo antigo, e percorre a Idade Média e a Idade Moderna ‘na velocidade do relâmpago’ – só que o que permite que sua obra não seja tão assimétrica é que a filosofia antiga é muito mais rica que a posterior, e ainda sentimos que Hegel ‘enrola’ muito ao se arrastar sobre pensamentos nefandos, banais, irrelevantes, de joões-ninguém europeus; além disso, é muito mais raro que conheçamos a vida e a obra de Fichte¹ ou Böhme¹ do que os ensinamentos de Platão e Aristóteles, por isso a tendência é registrarmos mais informações dos sistemas mais novos, em efeito. Quem sou eu para contradizer Michelet, que estava no curso ministrado por Hegel! Mas para o leitor contemporâneo quase que só os 2 primeiros volumes têm significância; e, no 3º, pontos focais: Descartes, Spinoza, Leibniz, os intelectuais franceses e Kant.] Seja como for, a partir de Aristóteles, cuja exposição já se dava na 2ª metade do curso, as aulas já não duravam tanto tempo.” No livro, a filosofia aristotélica está no 2º volume – a verdade é, também, que Hegel não iniciava diretamente com Tales (o “primeiro filósofo”), mas dava uma Introdução Geral enorme, falando da História e da Filosofia em todos os tempos, antes de iniciar a jornada mais ou menos cronológica que se exige de uma abordagem histórica. Só esse expediente já significa que uns bons 20% ou 25% do curso já teriam se passado após sua introdução. Se ainda posso opinar mais, Fichte e Schelling, como veremos ao final, são, para mim, completamente inócuos e não faz sentido arrematar o curso com eles, desperdiçando 10 minutos sequer, considerando que antes veio o próprio Immanuel Kant, e que toda a filosofia hegeliana é – veremos – um ensaio de resposta (ou anseio de resposta, seria melhor) ou pura e simples contraposição a Kant!

¹ Porém, Fichte e Böhme não possuem relevância a ponto de estarem neste ensaio-resumo. Na continuidade do parágrafo faço o mesmo juízo de Schelling.

2. COMEÇA O CURSO – AS RELAÇÕES DA FILOSOFIA COM A HISTÓRIA, COM PRIMAZIA DA SEGUNDA

2.1 INDIVÍDUOS X IDÉIAS: UM FALSO DEBATE

longe disso, aqui as criações são tanto melhores quanto menos imputáveis forem, por seus méritos ou sua responsabilidade, ao indivíduo, [Hegel está falando da proeminência do estudo de vidas isoladas na História e, portanto, na História da Filosofia, método que ele considera equivocado] quanto mais corresponderem ao pensamento livre, ao caráter geral do homem como tal homem, quanto mais se vê através das individualidades e contingências biográficas, por trás do sujeito criador, o próprio pensamento, que não é patrimônio exclusivo de ninguém.” Toda esta lição de Hegel, não obstante, é supérflua: pouco importa. O método socrático, por exemplo, é universal, mas foi um homem chamado Sócrates que o pariu. É claro que falar de Sócrates é atingir todos os tempos, e só descrevendo Sócrates é que entendemos o método socrático. Alexandre, o Grande, para citar um não-filósofo, tem tanto de pessoal quanto tinha Sócrates: era um homem, um tipo de homem, uma síntese especial de vários indivíduos, historicamente marcada – e por isso atemporal.

2.2 SOBRE A BUSCA PELA VERDADE AO LONGO DO TEMPO: A ELABORAÇÃO DE SISTEMAS FILOSÓFICOS MUTUAMENTE CONTRADITÓRIOS.

Com efeito, ante o espetáculo de tão variegadas opiniões, de tão numerosos e diversos sistemas filosóficos, alguém sente-se arrastado pela confusão, sem encontrar um ponto de apoio firme em que se fixar. Vemos como, em torno dos grandes temas que o homem se vê solicitado a explorar filosoficamente, mesmo os maiores espíritos [homens!] erram e se equivocam,¹ invariavelmente refutados e contraditos por outros. ‘E se isso ocorre a tão insignes espíritos, como posso, ego homuncio [eu, homenzinho], ter a pretensão de decidir tais problemas?’

[¹ Hegel diz “yerran”; errar em português também tem duplo sentido: cometer um erro e andar por todo canto, explorar muitos lugares, às vezes por desorientação, às vezes por não guardar um propósito claro.]

Esta conclusão, que se extrai da grande diversidade dos sistemas filosóficos, é considerada como daninha, mas representa, ao mesmo tempo, uma vantagem subjetiva.” “…Todas as filosofias asseguram que são verdadeiras, todas indicam signos e critérios distintos por meio dos quais se há de reconhecer a verdade; por isso, o pensamento sóbrio e sereno tem que sentir, forçosamente, grandes escrúpulos antes de se decidir por uma [filosofia].

Este é o interesse maior a que deve servir a história da filosofia.”

Uma premissa correta, porém impossível de ser praticada – sem severos danos – durante a era sistemática. Heidegger teria algo a dizer sobre isso… Mas a elaboração desse meu comentário fica para um outro HISTÓRIA DAS IDÉIAS… Reparem, por ora, uma coisa que será vista com freqüência: Hegel expõe todo um argumento impecável para, a partir dele, emitir um juízo completamente deformado pela sua forma tão “presa ao século em que vivia” de enxergar todas as coisas… Isso é o que eu chamo de passar a prova toda prestes a tirar um 10 e no momento decisivo pôr tudo a perder e zerar a nota!

2.3 PRIMEIROS ELEMENTOS DO HEGELIANISMO

Seu erro consistiu em imaginar-se mais qualificado que Platão. Hierarquia entre IDÉIA-CONCEITO: “O produto do pensamento é o pensado em geral; mas o pensamento é ainda algo formal, o conceito é já o pensamento mais determinado e a idéia, finalmente, o pensamento em sua totalidade e determinado como o ser em-e-para-si.¹ Por conseguinte, a idéia é o verdadeiro e somente o verdadeiro; a natureza da idéia consiste, essencialmente, em desenvolver-se e em chegar a compreender-se somente por obra da evolução, em chegar a ser o que é.”

¹ Não se assuste com as nomenclaturas. Não é preciso desvendá-las AGORA. Continue lendo com confiança. Vamos fazer uma imersão aos poucos neste caldeirão, menos dolorosa, acostumando cada célula de nossa pele à temperatura…

A IDÉIA (de PLATÃO, que é de onde Hegel tira sua “idéia de Idéia”) NÃO EXISTE – ERA UMA METÁFORA! CONSELHO SÉRIO: Eis porque não se deve levar a filosofia tão a sério! O alemão: sujeito sem senso de humor. Destarte: incompleto. O grego é mais rico e sinuoso do que se pode pensar por meros vocábulos: quando você menos imagina, Platão deu-lhe um laço.

Por enquanto, concentre-se em mentalizar esta hierarquia básica, para Hegel, do menor para o maior:

1. pensamento

2. conceito (já é filosofia, propriamente)

3. Idéia (em maiúscula), a Verdade obtenível através da filosofia levada a cabo corretamente: primeiro por pensamentos, depois por conceitos, e finalmente pela forma correta de elaborar os conceitos num sistema coerente. Para Hegel só há uma filosofia correta, uma verdade. E é sobre esse dilema que ele – e nós, em conseqüência – irá se debater por todo o livro.

4. a Idéia consciente de si mesma – para Hegel, Platão chegou apenas à terceira etapa, não realizando todo o potencial da Filosofia. A Idéia, o pensamento supremo, que se entende enquanto ser e essência (um homem no mundo, que filosofa sobre coisas eternas) é o “fim da filosofia”, em todos os sentidos. A chave de Hegel para explicar a ocorrência da Idéia consciente de si mesma no mundo é a própria História.

PONTO NEVRÁLGICO DO HEGELIANISMO (salve este trecho como você salva seu editor de texto enquanto redige sua monografia; salve este trecho como você salva seu progresso no seu RPG favorito, porque você fatalmente terá de voltar a estas linhas varias vezes):

a possibilidade [ou] (…) ser-em-si”: o latim ESSENTIA

a realidade (entelequia)¹ [ou] ser-para-si”: o latim IN CONCRETO

¹ Só poderemos exaurir nossa explicação de enteléquia (em português) quando estivermos estudando Aristóteles via Hegel (12.2).

Todo ser-para-si é ser-em-si (toda aparência e ato está contido na essência e nas condições de possibilidade),

porém nem todo ser-em-si é ser-para-si (nem toda possibilidade torna-se realidade).

Repetindo com um pouco de economia de palavras:

Toda aparência¹ ou enteléquia (ato concreto) é essência (realização de potência).

Mas a essência não está em todas as fases (faces) da aparência.

¹ O termo aparência é pego de empréstimo das filosofias sucedâneas de Schopenhauer, Nietzsche e do existencialismo e fenomenologia do século XX.

O real (Real) de Hegel não é real.

A razão (Razão) de Hegel é onipresente (o deus operando a máquina).

Todo acontecer é deus, mas deus é algo mais que a soma dos aconteceres.

Hegel é um teleólogo.

Teleologia: substantivo feminino Ciência que se pauta no conceito de finalidade (causas finais) como essencial na sistematização das alterações da realidade, existindo uma causa fundamental que rege, através de metas, propósitos e objetivos, a humanidade, a natureza, seus seres e fenômenos.”

O mundo se revela com uma epifania. A própria realidade (fenômeno)¹ é epifenômeno.² O mundo é mero sintoma do Espírito.

¹ O mesmo que aparência.

² Trocadilho de epifenômeno com fenômeno, citado anteriormente na frase. Epifenômeno é aquilo que pode ser causado por algo, mas nunca interfere nesse algo, ou seja, um efeito secundário que não produz nova causa. Sinônimo de sintoma usado na próxima frase. Em Hegel, é Deus, ou o Espírito realizando-se na História (no tempo), através do próprio homem, o responsável pela união do ser-em-si e do ser-para-si, o objetivo final de toda Filosofia.

Desdobrar-se, realizar o que já é em essência não são processos estranhos ao homem mesmo atingindo-se algo de diferente ou pioneiro em sua vida: o filósofo tem de ser homem; nem todo homem é filósofo; todo filósofo nasce homem e devém filósofo eventualmente. Agora ele é filósofo e homem. Ele se desdobrou, duplicou, tornou-se dois, mesmo sendo um. Sem essa pseudo-duplicação (ou duplicação abstrata), não há a reunião do ser-em-si e do ser-para-si.

Tudo o que acontece no céu e na terra – o que acontece eternamente –, a vida de Deus e tudo o que sucede no tempo, tende somente a um fim: que o espírito se conheça a si mesmo, que se faça objeto para si mesmo, que se encontre, devenha para si mesmo, que conflua consigo mesmo; começa sendo duplicação, alienação, mas só para se encontrar a si mesmo, para poder retornar a si.” Muito bonito, porém sem fundamento. Ou melhor dizendo, irreal. Por isso, ao mesmo tempo que o estudo de Hegel é epistemologia e Primeira filosofia (metafísica), é também, e sem contradição, teleologia (ciência dos fins) e teologia (ciência do conhecimento humano de deus). Ele representa uma continuidade da filosofia cristã (escolástica), e não uma ruptura completa com ela, como ele mesmo pensava. Porém, sua dialética influencia a filosofia póstuma e ainda pensamos usando suas categorias lógicas.

Es un prejuicio corriente creer que la ciencia filosófica sólo maneja abstracciones, vacuas generalidades; que, por el contrario, la intuición, la conciencia empírica de nosotros mismos, el sentimiento de nosotros mismos y el sentimiento de la vida, es lo concreto de suyo, el reino determinado de suyo.”

O ÚLTIMO CONTRA-ATAQUE DO OBJETIVISMO: “É um preconceito corrente crer que a ciência filosófica só maneja abstrações, vácuas generalidades; (ou então,) pelo contrário, que a intuição, a consciência empírica de nós mesmos, o sentimento de nós mesmos e o sentimento da vida, são seu (terreno) concreto, seu reino determinado.”

Eis um exemplo da péssima escrita de Hegel (aqui podemos responsabilizar, também, seus alunos, na transcrição de sua oratória, que eram hegelianos, afinal). Para evidenciá-lo, mantive o original (ou melhor, a tradução alemão-espanhol) em cinza, expondo minha tradução logo abaixo. Havia a possibilidade de traduzir “concreto por si só”, “reino determinado por si só”, mas isso aumenta o nonsense do parágrafo e não é fundamental neste caso. Preferi manter a sintaxe mais óbvia ao leitor: remetendo o objeto ao sujeito inicial da frase. Se se quer que o pronome da 3ª pessoa do singular “seu” se refira a algo, tem de ser, pelo contexto, a “a ciência filosófica”. A 2ª metade da frase, após o sinal de ponto-e-vírgula, consiste naturalmente na enumeração de elementos do método hume-kantiano (empirismo, ceticismo, criticismo subjetivistas), tudo aquilo a que Hegel faz ferrenha oposição. O conhecimento mais elevado, para ele, só pode ser mediado pelo Espírito. Como Kant era o maior nome da filosofia na juventude de Hegel, era sobre ele que se deveria centrar o ataque. Expressões como “abstrações, vácuas generalidades” já resumem numa carapuça todo o objetivismo incompetente anterior a Hegel (e Kant). Quanto ao postulado da apercepção imediata de Kant,¹ o “real adversário”, nas linhas seguintes Hegel proporá sua síntese, “sua versão” (antípoda) do a priori sintético daquele filósofo.

¹ Para entender o sentido de apercepção, temos que chegar a Leibniz, tópico 19. A priori ficará claro em vários trechos referentes ainda à filosofia antiga. Mas podemos adiantar: o a priori de Kant era a consciência e aquilo de que ela era formada (tempo, espaço e noção de causalidade); o a priori de Hegel é o Espírito do Mundo, também chamado de Absoluto.

“‘A matéria tem de ser 1 de 2 coisas: ou um todo contínuo ou formada por pontos’, diz-se; e, sem embargo, vemos como obedece aos 2 critérios.” O inteligente expresso de forma que hoje nos soa burra: o ponto é uma convenção abstrata; porém se se dissera ‘a matéria enquanto onda (contínua) ou a matéria enquanto partícula (reduzida a elementos distinguíveis)’, como na física do séc. XX, aí Hegel teria acertado em cheio. Visionário, portanto.

Aqui Hegel faz o Kantismo (quando diz “o entendimento”, inferior ao “saber”, ao ‘verdadeiro’ pensar) consistir num jogo de eleição estereotipado entre sim/não, ‘isto ou aquilo’, generaliza a Crítica da razão pura como uma mera retórica ou erudição binária, escrava do PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO (Aristóteles), enquanto arroga ao seu sistema ‘Espiritual’ a supremacia por comportar dentro de si o sim e o não em simultâneo (a síntese totalizante).

Necessariamente tem que se produzir o destino destas determinações, o qual consiste, precisamente, em que se enlacem e somem todas elas, descendendo assim ao nível de simples momentos. A modalidade em que cada momento se estabelecia como algo próprio e independente se vê, por sua vez, suspensa (no sentido físico e topográfico e no sentido legal do adjetivo); após a expansão vem a contração – a unidade de que todos aqueles momentos partiram. E este terceiro termo só pode ser, por sua vez, o começo de uma nova evolução. Poder-se-ia pensar que este processo se desenvolve ao infinito; mas não é assim; pois também ele tem uma meta absoluta, que mais tarde saberemos qual é; têm que se produzir, contudo, muitas viragens antes de que o espírito cobre sua liberdade, ao adquirir a consciência de si mesmo.” Mero messianismo travestido.

A grande premissa, a de que também no mundo seguiram as coisas um curso racional, o que dá verdadeiro interesse à história da filosofia, não é outra coisa senão a fé na Providência, só que numa outra forma.” Ao menos o reconhece (que não passa de um messias imanente!).

Um dos maiores contra-argumentos a Hegel é por que o Espírito demorou tanto para “se revelar” (em sua filosofia, é óbvio), ou então ‘por que não demorou mais’, e por que houve tantos solavancos e retrocessos nessa ‘jornada’. Isso poderia ser dito por qualquer contemporâneo de Hegel. Mas o que mais nos autoriza a dizer que ele errou é que vivemos séculos depois dele, e vimos que a História não persegue um fim objetivo.

hoje já não pode haver platônicos, aristotélicos, estóicos ou epicuristas; querer ressuscitar estas filosofias equivaleria a fazer regredir a uma etapa anterior o espírito mais desenvolvido, mais imerso em si.” Não devia haver. Mas não poder é um pouco de autoritarismo, você não acha?!

2.4 DELIMITAÇÃO DO MÉTODO DO ESTUDO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA; A PAIXÃO HEGELIANA PELA RELIGIÃO E PELA ESCATOLOGIA.¹

¹ O mesmo que teleologia, porém num contexto religioso. No Cristianismo, é um estudo delimitado ao livro do Apocalipse ou de João (não confundir com o outro apóstolo João). Aquele que tiver familiaridade com esta literatura notará muitas convergências na parte dos símbolos e números com a doutrina pitagórica, que iremos investigar junto com Hegel (6.).

Esta conexão, [filosofia e história] essencial, apresenta 2 lados. O 1º é o propriamente histórico; o 2º, o que se refere (…) às relações entre a filosofia e a religião, etc.; [improcedente: num estudo de história da filosofia, investigar relações da filosofia com a religião do seu tempo não tem primazia, e estas relações poderiam ser apuradas residualmente no 1º lado, o puramente histórico] o que nos ajudará, ao mesmo tempo, a determinar com maior precisão o que é a filosofia.”

A velha teoria civilização-cultura: sempre que a primeira se funda, a segunda ainda mal começou a se consolidar. Quando a última está em seu auge, a civilização já está em decadência. E é só em períodos de efervescência cultural e, portanto, ruína civilizacional, que um povo filosofa. Sócrates-Platão-Aristóteles e o mundo heleno em desagregação; São Tomás e o mundo pós-Império Romano do Ocidente sem esteio, ao mesmo tempo em que o Estado-moderno está na pré-História; Schopenhauer, Nietzsche e a desagregação da civilização ocidental, ou pelo menos da Europa como protagonista; a Escola Crítica e a falência do Socialismo Real; os franceses dos loucos anos 1960 e avante em plena inércia pós-modernista… Curiosamente, Hegel não parece participar de um desses momentos, mas está integrado na Prússia fortalecendo-se nacionalmente. Não há cultura, há apenas filisteus (Hegel admite-o). Sempre que é necessário, nessa época, citar a cosmovisão de um grande homem, recorriam os alemães a Goethe, que foi da geração anterior.

Curiosamente, já antecipa a principal crítica anti-hegeliana de Feuerbach: “Ainda que na verdadeira religião se tenha revelado e se revele o pensamento infinito, o espírito absoluto, ela é também a taça que verte no coração, na consciência representativa e na inteligência do finito. A religião não só se dirige a toda modalidade de cultura —‘o Evangelho se predica aos pobres’— como também deve estar dirigida expressamente ao coração e ao ânimo, penetrar na esfera da subjetividade e, com isso, no campo das representações finitas.”

FILOPÊNDULO: Na época de Hegel o ateísmo estava “datado”. Dataria de novo logo depois o teísmo. Essas condições espirituais vão e voltam nos povos como modas.

sabemos que as últimas palavras de Sócrates foram para suplicar a seus amigos que sacrificassem um galo a Esculápio,¹ desejo que combinava mal, decerto, com os pensamentos sustentados por Sócrates sobre a essência de Deus e, principalmente, sobre a ética. Platão predica apaixonadamente contra os poetas e seus deuses.

¹ Divindade da medicina.

Hegel foi extremamente ingênuo nessa colocação, pois este Sócrates que conhecemos pela pena de Platão, o Sócrates “do galo de Esculápio”, é o próprio Platão, isto é, não é o Sócrates histórico, mas um personagem que serve ao Platonismo, e portanto sai de sua boca mais o que convém ao pensamento desenvolvido pelo próprio discípulo que ao ‘biografado’ em si. Sabemos, ademais, e Hegel não o nega, que Sócrates não foi condenado à morte por impiedade aos deuses, ou não exatamente por questões religiosas; se sua acusação não envolvesse corromper a juventude, não haveria como a democracia de Atenas condenar este cidadão.

Não atua de mediador entre Ormuz e Ahriman, à maneira de um pacificador, deixando subsistentes ambas as forças; não participa do bem e do mal, como um lamentável híbrido, senão que se coloca resolutamente do lado de Ormuz, e peleja com ele contra o mal. Ahriman é chamado, às vezes o filho primogênito da luz, mas só Ormuz nela permaneceu. Ao ser criado o mundo visível, Ormuz se encarregou de estender sobre a terra, em seu incompreensível reino luminoso, a firme abóbada celeste, circundada, ainda, na parte de cima, pela primeira luz primigênia. No centro da terra está a montanha Albordi, tão alta que alcança a luz primigênia. O reino luminoso de Ormuz campeia sem que nada o empane sobre a firme abóbada celeste e no alto da montanha Albordi; campeou também sobre a terra até chegar a sua terceira época. Uma vez chegada, Ahriman, cujo reino da noite se achava até agora escondido debaixo da terra, estende seus domínios ao mundo de Ormuz e reina conjuntamente com ele. O espaço que separa o céu da terra se divide ao meio entre a luz e a noite. Como Ormuz, até agora, só governava sobre um reino de espíritos da luz, Ahriman governava somente sobre um reino de espíritos tenebrosos; mas, então, ao estender seu reino, Ahriman opõe à criação luminosa da terra uma criação da terra tenebrosa. Contrapõem-se, desse modo, a partir deste instante, 2 mundos, um mundo puro e bom e outro impuro e mau, e esta contraposição se estende através de toda a natureza.

No alto do Albordi, Ormuz cria Mitra como mediador para a terra; a finalidade da criação do mundo físico não é outra senão a de voltar a seu ponto de partida, à essência, desviada de seu criador, fazê-la de novo boa e desterrar, no processo, para sempre, o mal.” Toda a sua filosofia jaz no Zend-Avesta, ó Hegel! Trata-se do livro sagrado da religião dos maniqueus.

É certo que Platão é louvado com freqüência em virtude de seus mitos, e diz-se que ele dá provas, neles, de um gênio superior ao da generalidade dos filósofos. Entende-se, ao dizer-se isso, que os mitos de Platão estão por sobre a maneira abstrata de se expressar; e não resta dúvida de que este pensador se expressa com grande beleza.” No geral, entretanto, Hegel não compreende bem Platão.

Assim, por exemplo, pode-se dizer que a eternidade é um círculo, uma serpente que morde a própria cauda; isto não passa de uma imagem, e o espírito não necessita se valer de semelhantes símbolos.” Pelo contrário: é muito diferente afirmar que o universo é infinito e eterno, simplesmente, a compará-lo à cobra que se digere a si mesma, a Ouroboros: significa que há um fim e uma genealogia determinados, que podem, no entanto, ser qualquer ponto do círculo, e que o caminho do círculo não deixa por isso de ser infinito. Isso traz conseqüências extremamente importantes para a consideração do conceito de causa e efeito na filosofia. Atende ao requisito fundamental de todo filosofar numa só imagem, também: o Um no múltiplo e o múltiplo no Um. Ao contrário do Espírito, a Vontade¹ se alimenta de si mesma, ferindo-se mortalmente, condição sine qua non de sua própria perpetuidade canibal. O Espírito não tem carne, nada sofre ao se desenrolar, entrar em sínteses e voltar a si mesmo; é morto, não é a ‘vida viva’ (a expressão é do próprio Hegel) –, ao contrário de Ouroboros, que sente na carne cada etapa da eterna criação/destruição. Quem mata, morre, quem morre mata, e participam ambos da dança e do jogo inelutável. Todo lixo é luxo e todo luxo é lixo a seu devido tempo…

¹ Expressão para se referir a um “em-si” em Schopenhauer e Nietzsche. Porém, observar: aqui o em-si foi caracterizado de forma tão dinâmica que não passa de uma simplificação grosseira falar nesses termos; falo assim apenas para que se vislumbre imediatamente a amplitude deste conceito, que merece ser estudado à parte. Além do mais, a Vontade schopenhaueriana e a Vontade nietzschiana não são concordes.

Da mesma forma que os franco-maçons manejam símbolos considerados como uma profunda sabedoria – profunda à guisa de um poço do qual não se enxerga o fundo –, o homem se inclina facilmente a considerar profundo o oculto, como se por debaixo dele houvesse algo verdadeiramente profundo.” Ao chato, o abismo não parece profundo. Não gosto dessa estreiteza hegeliana em desconsiderar o ocultismo a priori, i.e., recusando-se a investigar qualquer coisa que extrapole seus próprios critérios racionais. Não estou defendendo a maçonaria, mas há muito mais no irracionalismo do que apenas seitas “para-cristãs”, por assim dizer.

2.5 DELIMITAÇÃO DO QUE É FILOSOFIA

O verdadeiro ponto de arranque da filosofia deve ser buscado ali onde o absoluto já não existe como representação e onde o pensamento livre não pensa simplesmente o absoluto, mas capta sua idéia; isto é, ali onde o pensamento capta como pensamento o ser (que pode ser também o pensamento mesmo), conhecido por ele como a essência das coisas, como a totalidade absoluta e a essência imanente de tudo, por mais que não seja, no fim das contas, mais que um ser exterior.” “Este critério geral, o do pensamento que se pensa a si mesmo, é uma determinabilidade abstrata; é o começo da filosofia, o qual é, por sua vez, um algo histórico, a forma concreta de um povo, cujo princípio [axioma, i.e., não no sentido de ‘começo’] cifra-se no que acabamos de dizer.”

Se não fôramos capazes de dizer por nós próprios que só os gregos foram filósofos, esta afirmação (que só os gregos foram filósofos!) seria verdadeira. Como podemos enunciá-lo sem problemas, também deve ser possível a nós o filosofar. Ou seja, é uma afirmação falsa. E quando Hegel diz que a filosofia começou na Grécia Antiga, essa sua afirmação é correta de um ponto de vista evolucionista como é aquele que usaremos para investigar a história da Filosofia aqui, mas não passa de arbitrariedade, pois o fundamento para afirmá-lo é místico. Somos e não somos herdeiros dos gregos, ao mesmo tempo, pois toda cultura tem autonomia de pensamento.

O homem que vive sob o medo e o que domina pelo medo os outros homens ocupam, ambos, a mesma fase; a diferença não é outra senão a maior energia da vontade, a qual pode tender a sacrificar todo o finito a um fim especial.” “da passividade da vontade, como escravidão, se passa na prática à energia da vontade, mas sem que, tampouco, esta seja outra coisa a não ser arbitrariedade. Também na religião nos encontramos com o império absoluto dos sentidos em forma de culto religioso e, como reação contra isto, dá-se, ademais, entre os orientais, a evasão à mais vácua das abstrações como infinito, a sublimidade da renúncia a tudo, principalmente entre os hindus, que por meio do tormento remontam à abstração mais íntima; há hindus que passam 10 anos seguidos olhando fixamente a ponta do próprio nariz, alimentados pelos circunstantes, sem nenhum outro conteúdo espiritual que o da abstração consciente; indivíduos cujo conteúdo é, portanto totalmente finito. Não é este, destarte, o terreno em que pode brotar a liberdade.” Curioso como o abaixo-de-zero de Hegel (o puro arbítrio, uma espécie de estado sub-humano) é o fim-final (o mais glorioso, a meta suprema) para Schopenhauer, a liberdade fenomênica pura perante uma agora-tida-como-tirânica Vontade! Sem me estender muito, me explico: Schopenhauer crê que a vida é dor e sofrimento incessantes. Não há fuga do fenômeno, e quem rege o fenômeno é a Vontade, um substrato sem aparência que excede o controle ou a vontade humana (ironicamente, dada a nomenclatura). Mas a parte positiva de sua filosofia é uma espécie de budismo adaptado em que a meditação, o misticismo, até o êxtase do auto-suplício, são benéficos ao homem – apesar de não alterarem o único fixo e indelével da condição humana (a dor, o sofrimento e o despropósito), são a fuga em seu estado máximo, uma fuga imanente à pura aparência, uma espécie de sonífero para a Vontade, que faz parte do inconsciente humano, do impulso vital, dos instintos. Ao negar, com a ajuda da consciência, a si mesmos, ao se auto-negar, o homem atinge o único estado digno, para Schopenhauer. Não é em vão que me estendo um pouco a respeito de Arthur Schopenhauer, que viveu na geração seguinte a Hegel: ele será provavelmente o tema do HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3.

É certo que o espírito nasce no Oriente, mas de tal modo que o sujeito, aqui, não existe ainda como pessoa, senão no substancial objetivo, que em parte se representa de um modo supra-sensível e em parte também de um modo mais ligado ao material, como algo negativo e que tende a desaparecer.” A típica arrogância ocidental. Porém, se o Espírito deverá retornar a si mesmo…

Antes, se exagerava a importância da sabedoria indiana, muito embora se ignorasse o que havia por detrás disso; agora sim a compreendemos, e temos razões para afirmar que esta sabedoria não é, se nos atemos ao caráter geral, uma sabedoria filosófica.” A força do pêndulo não perdoa ninguém: como moda, o hinduísmo vai e volta na Europa…

Na Grécia vemos florescer a liberdade realpor mais que simultaneamente ainda prisioneira de uma determinada forma e com uma clara limitação, posto que na Grécia existiam escravos e os Estados gregos se achavam condicionados pela instituição da escravidão.” No superexigente molde hegeliano, a dialética do senhor-escravo nunca tem fim.

¹ Lembrete de que, em Hegel, o ideal (ou essencial) é maior do que o real, que não passa do momento concreto.

3. PANORAMA GERAL DA FILOSOFIA GREGA

No que se refere ao estado histórico externo da Grécia nesta época, diremos que os começos da filosofia grega recaem no século VI antes do nascimento de Cristo, no tempo de Ciro, na época do ocaso dos estados jônios livres da Ásia Menor. No momento em que desaparece esse formoso mundo, que havia logrado conquistar por si mesmo um elevado nível de cultura, surge a filosofia. Creso¹ e os lídios foram os primeiros que puseram em perigo a liberdade dos jônios; mas foi mais tarde a dominação persa aquela que a destruiu totalmente, obrigando a maioria dos habitantes a abandonar aquelas terras e a fundar colônias, sobretudo na parte ocidental.

[¹ Wikipédia: “Creso foi o último rei da Lídia, da dinastia Mermnada, (560 a.C.–546 a.C.), filho e sucessor de Alíates que morreu em 560 a.C. Submeteu as principais cidades da Anatólia (salvo a cidade de Mileto)”.]

E, ao mesmo tempo em que se fundiam as cidades jônicas, a outra Grécia deixava de ser governada pelas dinastias dos antigos príncipes; haviam desaparecido os Pelópidas e as outras linhagens régias, estrangeiras em sua maioria. A Grécia havia estabelecido, em parte, múltiplos contatos com o exterior e, em parte, esforçava-se por encontrar um vínculo social dentro de si mesma; a vida patriarcal havia passado à história, e em muitos Estados sentia-se a necessidade de constituir-se livremente, subordinando-se a normas e instituições legais.” Aqui é-se forçado a perguntar: que conceito de patriarcado era esse dos alemães, para julgar que justamente quando o homem se distancia mais e mais do matriarcado e sedimenta o patriarcado ele estaria fugindo do que era patriarcal?!

Uma das mais famosas sentenças dos Sete Sábios é a que se atribui a Sólon em uma conversa com Creso, que Heródoto (I, 30-33) relata, segundo seu estilo próprio, muito prolixamente e que podemos resumir assim: ‘Que ninguém pode se considerar feliz antes de morrer.’Nem Deus escapa!

Comparado com a filosofia hindu, o eudemonismo¹ é, cabalmente, o contrário daquela. No hinduísmo, o destino do homem é a liberação da alma em relação ao corporal, a abstração perfeita, a alma como algo que vive exclusivamente para si.” Cabe ainda o questionamento: no Ocidente pós-moderno, o que devemos buscar prioritariamente, sendo na prática impossível qualquer um dos dois de forma autêntica? A fuga ascética ou esse contentamento no sereno fenomênico?

¹ Eudemonismo é uma terminologia aristotélica. Para simplificação didática, podemos equiparar as correntes epicurista e estóica, na somatória, à busca de um eudemonismo, isto é, felicidade terrenal ou serenidade. Ver 12.4 e 13.1.

Mérito de Atenas para H.: ciência e belas-artes; a filosofia.

Mérito de Esparta para H.: subsumir¹ as individualidades na idéia de Estado.

¹ “[Filosofia] Conceber como compreendido dentro de um conjunto: subsumir um indivíduo numa espécie, uma espécie num gênero.”

Assim como a individualidade que se separa do geral cai na impotência e perece, tampouco pode se manter de pé o unilateralmente geral, o costume da individualidade.” Obviamente, para H., “o filósofo do Estado”, a Prússia era a síntese de Esparta-Atenas.

OS SECRETOS DESÍGNIOS DO NADA: “Assim, p.ex., na idéia de que Deus, por sua sabedoria, governa o universo no que tange aos fins, o fim se estabelece para si numa essência representativa, [contradição em termos] sábia. [?] Mas o geral do fim consiste em que, sendo uma determinação fixa para si, que domina a existência, o fim seja o verdadeiro, a alma de uma coisa. O bom encontra seu conteúdo no fim mesmo, de tal modo que, atuando com este conteúdo e depois de se manifestar ao exterior, não brote nenhum outro conteúdo além do que já existia com anterioridade.” Primeiro, devo dar os parabéns ao autor pela péssima escrita. Nem minha exímia tradução pôde salvar este trecho! Segundo, o fim de Hegel era procurar seu conceito de fim perfeito, a Idéia – mas antecipo-lhes que isso ele não logrou… Hegel é um autor que ora ou outra manda essas pérolas monumentais que estão nos anais da filosofia… Não é sua incapacidade, leitor, que o impede de ver o que há no parágrafo, mas simplesmente o fato de que não há mesmo nada a não ser uma pura tempestade de palavras pomposas (defeito que H. se jacta em colocar nos outros, aliás!).

O exemplo mais importante disto no-lo oferece a vida mesma. A vida é movida por impulsos, e estes impulsos são seus fins; mas, enquanto algo vivo simplesmente, não tem a menor noção destes fins, os quais são, simplesmente, determinações primárias e imediatas, fixas. O animal labora para satisfazer estes impulsos, isto é, para cumprir o fim; comporta-se ante as coisas exteriores mecanicamente, umas vezes, e outras vezes quimicamente. Mas a relação de sua atividade não é algo puramente mecânico ou químico; o produto é mais como o animal mesmo, o qual só se produz a si mesmo como fim de si mesmo em sua atividade enquanto que destrói e inverte aquelas relações mecânicas e químicas.” “A própria conservação é um produzir constante, na qual não nasce nada novo, mas apenas renasce, continuamente, o velho; é um constante retorno da atividade a si mesma, encaminhada a sua própria produção.” Trecho com saborzinho de Lavoisier. Marx saberia retirar de tudo isso conseqüências melhores… Por enquanto ainda não está planejado um capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS com Karl Marx como protagonista, mas diria que, a longo prazo, sua presença é mais do que certa na série…

* * *

A partir de agora segmentaremos a exposição por filósofos ou escolas de pensamento. Se parecer que passamos muito de soslaio sobre um autor ou um grupo de autores neste primeiro momento da Grécia, não tema: em Platão e Aristóteles muitos deles serão revisitados, e seu estudo adensado.

4. ANAXÁGORAS

Aristóteles (e, quase, por isso Hegel) considera o finalista Anaxágoras o primeiro filósofo “profissional”, comparado ao amadorismo anterior.

Com ele vemos a filosofia instalada na verdadeira Grécia, que até então não havia tido filosofia alguma, e, concretamente, em Atenas” Perfeito para o seu sistema de “razão da História”… E o engraçado é que isto anula tudo o que Hegel diz sobre Parmênides ser o REAL iniciador da filosofia, , no tópico seguinte!… (Não entender este REAL como o real de Hegel, i.e., mera coisa secundária!!)

5. PARMÊNIDES

a verdadeira filosofia começa, a rigor, com Parmênides.” Pouco cito Parmênides aqui, em que pese ser O MAIS IMPORTANTE DOS PRÉ-SOCRÁTICOS, por já ter publicado no blog posts dedicados ao autor.

Um dos dados mais importantes que de sua vida conhecemos é a viagem que fez com Zenão a Atenas, onde Platão os apresenta, num de seus diálogos, conversando com Sócrates.E tomas tal poema como a verdade absoluta? Pois acertaste em cheio: nada mais sensato do que atribuir imenso valor à prosa de Platão!

6. PITÁGORAS

O fundamental para nós é a filosofia pitagórica, não tanto a do próprio Pitágoras como a dos pitagóricos, tal como se expressam Aristóteles e Sexto Empírico; [comentadores posteriores] claro está que há que se distinguir entre ambas as coisas, e o cotejo do que passa por ser a doutrina pitagórica revela imediatamente uma série de diferenças e discrepâncias.” Me parece mais difícil até determinar um Pitágoras histórico do que um Sócrates histórico… Há casos em que menor número de fontes é salutar, na contramão do senso comum; ainda mais quando dentre os poucos indivíduos encarregados de perfilar Sócrates temos Platão e Xenofonte; ainda que tenham distorcido ou caricaturado alguns pontos, estão longe de ser fanáticos. Platão, ao menos, tem uma agenda própria, o que permite certo nível de isenção e distanciamento em relação ao seu outrora mestre.

7. HERÁCLITO

É um modo formoso, espontâneo, infantil de expressar a verdade em termos verdadeiros. Apresenta-se aqui pela 1ª vez o geral e a unidade da essência da consciência e do objeto, e a necessidade da objetividade.” “O verdadeiro ser não é este ser imediato, mas a mediação absoluta, o ser concebido, o pensamento.” Aqui se diluem as fronteiras do que é Heráclito e do que é superinterpretação à la Hegel.

8. OS ATOMISTAS

Assim concebido, o principio atomístico não fôra superado, nem pode sê-lo; permanece para sempre; o ser para-si tem de apresentar-se necessariamente em toda filosofia lógica como um momento essencial, ainda que não como momento último.” Para quem ainda tinha dúvidas, essa é uma História da Filosofia Hegeliana (“todos os autores que me influenciaram”) e não uma história da filosofia…

9. PROTÁGORAS

Vemos em Protágoras uma grande reflexão; concretamente, é a reflexão sobre a consciência aquilo que cobra consciência em Protágoras. [seu pensamento único, o que realmente há de “progresso” em sua filosofia] Mas isto não é senão a forma do fenômeno, retomada e desenvolvida pelos céticos posteriores. O fenômeno, a aparência, não é o ser sensível, senão que, ao estabelecer isto como aquilo que aparece, estabeleço, ao mesmo tempo, seu não-ser. A tese de que ‘o que é, é somente para a consciência’, ou esta outra: ‘a verdade de todas as coisas é a manifestação destas coisas na-e-para-a consciência’, parece contradizer-se por completo a si mesma. Parece, de fato, que nela vai implícita, simultaneamente, a afirmação exatamente oposta: por um lado, nada é em-si como aparece e, por outro, tudo é verdadeiramente assim como aparece.”

Refutação de Hegel: A aparência é o ser sensível, o ser mesmo. O que é não é de forma alguma o mesmo para o outro. Essência e aparência coincidem no sujeito. Porém, cada sujeito é um mundo fenomênico à parte. Portanto, como Protágoras não considera o absoluto, seu raciocínio é impecável.

10. SÓCRATES

10.1 O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA: NEGANDO E AFIRMANDO SÓCRATES

Partamos de duas premissas: 1) o homem é burro, isto é, vil demais para criar-se uma ética. 2) o homem é sábio, isto é, virtuoso o bastante para criar-se uma ética. Ponto de vista da religião monoteísta: o homem só pode ser burro demais, do contrário não haveria religiões nem necessidade de religiões. Deus precisa ensinar a ética ao homem, eis o fundamento e o fim último da crença. Porém, se o homem é burro demais para criar-se uma ética, ele também é vil demais para aprender uma ética, incapaz que é de entender os desígnios de deus. Não está à altura de uma ética divina para os homens.

Posto que sabemos o que é ética, ela deve ser atingível. Posto que há religiões, é seguro dizer que via de regra prescinde-se de ética. Posto que há religiões há muito tempo, porém, e sua presença milenar não demonstra a aquisição da virtude pela humanidade como um todo, conclui-se que: poucos notáveis são virtuosos, a maioria é tola. Alguns notáveis assumiram papéis de pregadores, profetas, sacerdotes religiosos. Alguns notáveis seguiram o caminho da autoformação. A grande massa se subdivide igualmente entre os dois caminhos. Muitos crêem-se éticos (sábios) sem sê-lo. Sábios autointitulados, intitulados pela comunidade laica ou sancionados por aqueles que controlam os dogmas espirituais. Se a virtude fosse passível de se ensinar, não só Deus como os sábios ensiná-la-iam.

As gerações da humanidade repetem a proporção entre sábios e tolos. Desde sempre, para sempre. De qualquer modo, apenas uma pimenta para a discussão: não é possível conhecer-se a si mesmo. O sábio não se conhece; vive sempre na berlinda entre uma pretensa sabedoria e a estultícia. O muito burro vive na vaidade, crendo-se sábio. Ao notar esse comportamento dos muito estultos, o sábio aprende que ter certeza sobre sua própria sabedoria é um indício pouco auspicioso. Ele sempre oscila entre considerar-se um hipócrita ou um tolo, não importa como conduza sua vida, e a reputação que obtém entre “os outros homens”. Sua vida é uma comédia, pois só é possível agir com ética inconscientemente. Os autointitulados tolos podem ser considerados uma multitude de coisas: sábios (e portanto suscetíveis de ser tolos debaixo do véu), hipócritas que desejariam o status da sabedoria empregando uma falsa modéstia para enganar os homens, um espírito que conhece suas limitações; mas não muda o fato de que todas essas possibilidades não são dignas de crédito. Não se confia no tolo só porque ele assume sua tolice. E o parâmetro para o sábio, por mais que sábios existam, não é deste mundo. Permanece como mistério insondável da existência. Como num jogo de pega-pega entre a cabeça e a cauda, aporia, contradição insolúvel.

IRONIAS DO NÚMERO 3 (O PREFERIDO DE HEGEL): A ironia socrática não é o método socrático, mas o destino inelutável e externo do filósofo: jovem soldado, serviu três vezes. Três vezes regressou triunfante do Peloponeso, e ao cumprir regiamente seu dever para com sua pátria, ajudou a consumar o desfecho da cultura grega. Da própria cultura, da cultura socrático-platônica, modelo dos modelos de homem. O que tem de ‘cabalístico’ nisso? Pedro negou Cristo por 3 vezes!

10.2 O INDIVÍDUO SÓCRATES & O OCASO ATENIENSE: O LADO NEGATIVO DA FILOSOFIA.

nós propendemos a ver nas virtudes, como realmente são hoje, antes aspectos dos dotes ou do temperamento do homem, ou a revesti-las sob a forma do genérico e necessário; em Sócrates, no entanto, não apresentam a forma dos bons costumes, do temperamento do homem ou de uma necessidade qualquer, senão a forma de uma determinação independente. É sabido que a fisionomia de Sócrates indicava um temperamento dominado pelas paixões feias e baixas, que seu espírito soube refrear e governar, como ele mesmo nos diz em algum lugar.” Além de tudo que aqui afirma, tece depois que o belo é o santo e o sábio — mas que doutrina esta do Romantismo europeu!! Hegel, horroroso, não podia dominar nada e seria, de acordo consigo mesmo, um grande mandrião! Porém, Sócrates nunca afirmou que conseguira voluntariamente contrariar sua má natureza; o fato de ele ser feio e de Alcebíades ser belo nada tem que ver com ambos os temperamentos. Lição primária, na qual sou obrigado a reprovar o aluno extravagante Hegel.

Isto é somente um dos lados, em que Sócrates faz caso omisso de tudo o que seja contradição e apresenta como conteúdo afirmativo as leis, i.e., o direito, tal como cada qual se o representa. Porém, se perguntamos quais são estas leis, veremos que são precisamente aqueles que regem, tais como se acham presentes no Estado e na representação das gentes e que, chegado o momento, são levantadas (suspensas) como algo determinado, o que quer dizer que não são absolutas.” O que ainda é melhor que afirmar numa Filosofia do Direito que o Estado da monarquia constitucional é o non plus ultra do Espírito!

11. PLATÃO

11.1 O PLATONISMO

esta filosofia fôra concebida, em cada época, de modo distinto e sofrera, principalmente, as ingerências e tergiversações de mãos muito torpes nos tempos modernos, mãos que não acharam inconveniente introduzir nestes escritos suas próprias concepções, incapazes de captar espiritualmente o espiritual, ou considerando como o mais essencial e mais notável da filosofia platônica o que, em realidade, não pertence ao campo da filosofia, mas ao modo de pensar e de representar as coisas; todavia, a rigor, é o desconhecimento da filosofia o que entorpece a compreensão da filosofia platônica.” Que ironia, já que Hegel põe Platão abaixo de Aristóteles e não reconhece sua verdadeira grandeza!

[Por outro lado,] fazer de Platão insuperável, como o ponto de vista em que nós mesmos deveríamos nos situar, [a Alemanha do XIX!] é uma das debilidades próprias do nosso tempo.” Basta substituir debilidades por forças ou qualidades e vemos o quanto H. acertaria em cheio! A roda do tempo não perdoa, e hoje gostaríamos de poder ter ao menos a força de suportar esse pensamento: usar Platão como uma estrela-guia. O pós-modernismo é fraco demais, mas tem, melhor que a época de Hegel, esse arrependimento vivo no lugar da hipocrisia etnocêntrica.

E se se o retirasse da caverna, ficaria cego dada a luz do sol e, deslumbrado com tanta claridade, não poderia ver as coisas que chamamos reais e odiaria quem lhe houvesse arrastado à luz, como se odeia quem nos arrebatou a verdade, legando-nos, em troca, só dor e lástima.” Ao invés de mero joguete de uma má consciência (como é levado a crer freqüentes vezes em seus primeiros encontros com o absurdo e o tragicômico, principalmente na infância, adolescência e juventude), o filósofo é o único que vive verdadeiramente. Quantos milhares de seres humanos eu já não conheço, com alguma certidão, que vivem apenas nas aparências mais foscas?

A obra iniciada por Sócrates foi levada a cabo por Platão, que só reconhece como essencial o geral, a idéia, o bom. Mediante a exposição de suas idéias, Platão pôs a descoberto o mundo intelectual, sem no entanto nele ver um mundo situado mais além da realidade, no firmamento, num lugar distinto, senão no mundo real, do mesmo modo que Leucipo [atomista] havia aproximado o ideal da realidade, sem colocá-lo – metafisicamente – por trás da natureza. A essência da teoria das idéias se há de buscar, portanto, na concepção de que o verdadeiro não é o que existe para nossos sentidos, mas que o verdadeiro e único ser do mundo está no determinado por si, no geral em-e-para-si: o mundo intelectual é, assim, o verdadeiro, o digno de ser conhecido, o eterno, o divino em-e-para-si. As diferenças não são essenciais, apenas transitórias; sem embargo, o que Platão chama absoluto é, ao mesmo tempo, como algo único e idêntico consigo mesmo, algo concreto por si, enquanto que é um movimento que retorna a si mesmo e que permanece eternamente em si. E o amor pelas idéias é o que Platão chama entusiasmo.” Um lugar aqui mesmo, no mundo das aparências, em que os sábios podem conferenciar entre si, sem medo de estarem falando com espectros (solipsistas em alucinação): o termo médio em que os privilegiados realmente se entendem, porque a natureza do saber é una. Curioso que aqui H. resuma o próprio programa, sem tirar nem pôr: posteriormente, no entanto, exaltando os méritos de Aristóteles e dos filósofos modernos, ele desmentirá reiteradas vezes que Platão atinge o absoluto em-e-para-si (note que ele o citou duas vezes aqui), alegando que sua filosofia, perfeita no tocante ao geral, é carente no que respeita ao determinado, e que, portanto, desconsiderando a individualidade, não chegou a efetuar o movimento dialético completo do Espírito – coisa que H. apontou como inequivocamente realizada por Platão neste trecho!!

11.2 O PLATONISMO COMO ÁPICE PRECOCE DO FILOSOFAR & O LIMBOBOL COMO TÊNIS METAFÍSICO (onde o Pensamento Único é o estilo característico de cada atleta-pensador)

O segundo erro com que nos encontramos, no tocante às idéias, consiste não em situá-las fora de nossa consciência, mas em considerá-las como ideais necessários para nossa razão, porém de modo que os produtos desta razão não terão realidade agora nem a adquirirão jamais.”

Aí já depende, meu caro Hegel: do que estamos falando? De simples ‘discussões triviais entre filósofos’ (sobre um mundo-verdade e um mundo das aparências)a – o que é relativamente simples de imaginar que se possa ter cotidianamente, pois muitos são os filósofos, embora sejam minoria, e qualquer filósofo concebe bem esta distinção, ou não seria, por definição, filósofo –; ou do Bem e da Justiça? Porque estes seriam sóis, realmente meras figuras de linguagem, inobteníveis a não ser que estejamos falando de seres muito crédulos e supersticiosos, pasme, maioria deles filósofos! O absoluto por definição não se toca.

a Quem está acostumado com a refutação nietzschiana de um mundo-verdade pode ter ficado confuso com este parágrafo – mas alto lá! Um mundo-verdade cristalizado e eterno na acepção chinfrim de frades, é a isto que Nie. objetava! (‘Chega deste Bem, unilateral, estilizado! Para esta concepção ultrapassada, ofereço uma nova discussão, que vá além deste bem e deste mal, mal condicionado por esta visão de bem tão limitada, mal que está prestes a se tornar universal no meio acadêmico ocidental! Só assim é que poderemos recomeçar com coisas sérias! Os idiotas saturaram o nosso meio, o nosso mundo-verdade vivo, precisamos recolher o lixo – são 23:59, mas amanhã é um novo dia!’ – Esta é uma paráfrase bem realista de um Nie. mais direto ainda do que estamos acostumados a ler, explicando-se para quem tiver olhos e ouvidos. Sua presença pormenorizada na HISTÓRIA DAS IDÉIAS virá no tempo certo.) Mas o mundo-verdade exclusivo da mentalidade dos filósofos (dos filósofos verdadeiros, palavra tão desvalorizada com o tempo!) nada tem de ossificado e estável – simplesmente porque é orgânico e cambiante enquanto o filósofo vive individualmente e enquanto a raça dos filósofos vive coletivamente, jamais sendo igual a si mesmo – isso! –, um mundo-verdade riacho heraclítico! Uma verdadeira imagem do inferno para o ante-filósofo, um quadro expressionista, tolices e nada mais (estou falando novamente daquele que não tem acesso ao privilégio, o prisioneiro da caverna de Platão – para ser anti-filósofo ele ainda teria de merecê-lo; como aquele que está ‘antes do’ filosófico na gradação espiritual, ainda não merece esse título de antípoda, pois está aquém desta discussão).

Exemplo do que significa perseguir o absoluto, porém jamais tocá-lo: Posso discutir com o Pablo (outro esclarecido) sobre o ser-do-ente e o ser-aí, mas nunca poderemos propor uma síntese da condição humana ou um propósito para a existência – essa faculdade está além de qualquer evento da existência, de qualquer conciliábulo entre os grandes filósofos da História mesmo que se pudessem reunir num auditório além do tempo. De tal encontro nada sairia além do que sói acontecer nas noitadas de bar das gentes mais simples. Mas Hegel imaginou que continha esta sementinha em suas mãos, quanta candura! O girassol escolhido pelo Espírito do Mundo – perfume dos perfumes, essência das essências! ‘Não pedi para nascer no lugar e no tempo certos, ainda assim nasci…’, seria mais ou menos o que ele teria a dizer a respeito de tão imensa (e grata, para ele mesmo) coincidência… O primeiro falastrão europeu a poder dizê-lo, bem como o último!

Parafraseando Górgias, ainda que fosse possível combinar entre alguns entes um propósito para a existência, este acordo simplesmente não seria fechado nem posto em prática! Mas a verdade é que faltam inclusive as condições de possibilidade dessa suposta negociação – mesmo que houvesse um ente em algum ponto capaz de levantar um propósito universal (o que já seria absurdo), ele sequer saberia como formulá-lo em sua mente; e se, mais incrível ainda, houvesse dois desses seres, separados por várias gerações e milhares de quilômetros, e mesmo se eles pudessem conferenciar fluentemente num mesmo idioma numa representação miraculosa em que coabitassem o mesmo universo, digo, o mesmo cômodo, e pudessem até mesmo se tocar, conversar francamente tanto quanto estimassem necessário –– mesmo assim, ainda assim, esses dois seres acabariam apenas gastando saliva, quem sabe brigando feio, indo às vias de fato! Supondo que se concedesse ainda o fato de ambos estarem munidos da idéia perfeita e que entrassem em harmonia absoluta entre si, ainda assim eles se esfumariam de sua sala metafísica logo após este evento único da ‘pós-História universal hegeliana’ e não poderiam repassar as novas à humanidade – QUE PENA! Não estava na lista das coisas que as Parcas coseriam, definitivamente… Não, o jogo do filosofar é infinito, e Platão o sabia, antes do século XX, época em que encontramos seus primeiros comparsas e intérpretes à altura.

A forma ansiosa do filósofo é como ele se apresenta externamente, no mundo das aparências. O “ser” do filósofo é o anti-ansioso por excelência: ele não quer se apressar a um fim, a conclusões, ele aproveita as raquetadas do jogo! Legislador ou não (de toda forma no capitalismo é impossível), o filósofo sempre foi e sempre será pelo menos o que hoje se convenciona chamar de artista em sua arte do filosofar… É sem dúvida um jogo que se joga a sua maneira, mas essa maneira, essas regras, são idênticas para todo filósofo sério, que joga. E ainda há espaço de sobra para idiossincrasias nesses torneios e nessas justas: Roger Federer, Nadal, Sampras, Rod Laver, Borg, John McEnroe, todos eles tinham suas técnicas e estilos bem diferentes, embora compartilhassem um mesmo fim enquanto dentro da quadra… Como tenista metafísico, Hegel é um menino mimado que perde para o paredão, seu único adversário. Como poderia ele superar Platão só de boca, sem experimentar jogar contra ele? O engraçado é que os piores filósofos foram os únicos que tiveram match points. Todos perderam, entretanto…

É preciso imaginar um jogo de reflexão exaustivo, mas em que a massagem poderia nos restituir à partida, sem que jamais abandonássemos o confronto… Seria este o Sísifo contente que Albert Camus figurou?! E mesmo ele passou o jogo inteiro pensando que o principal era definir se desistia ou não…

Falando em existencialistas, esse podia muito bem ser o parágrafo que inspirou Sartre a intitular sua magnum opus: “A opinião [quando, na história da metafísica, a metafísica essencial começa a ficar chata, e o tenista prefere se desconectar do jogo, dar uma viajada, i.e., dar maior peso às aparências que ao desgastado mundo-verdade – chamemos esse momento de ‘entressafra de talentos’] é, portanto, o intermediário entre a ignorância e a ciência [o impossível] e seu conteúdo uma mescla do ser e o nada.” Chamemos esse tênis espiritual de LIMBOBOL! Quando a opinião passa a prevalecer em termos filosóficos, seria, para continuar nesta alegoria que acabo de inventar, como se alguém da arquibancada se levantasse e desafiasse um tenista profissional – e para calamidade de todos conseguisse fazer frente a ele, por um set inteiro! Filosofar com opiniões… Uma tarde (Zeitgeist) bem atípica, daquelas de que se poderá dizer: há tempo e lugar para tudo nesse mundo ao menos uma vez…

Pensamento único como lobby único do jogador! Você pode até ter e tentar outros, mas é aquele que o levará mais longe, e entrará para a história como sua marca registrada

11.3 A MAIÊUTICA OU TEORIA DAS REMINISCÊNCIAS

Claro está que a palavra ‘rememoração’(*) é, num sentido, uma expressão desafortunada:¹ concretamente, no sentido em que alude à reprodução de uma representação que se tivera já noutro tempo.²

(*) “Hegel analisa aqui o termo Erinnerung, que possui também o sentido que ele lhe atribui, [O 2º sentido, após o 1º sentido evidenciado nesta passagem, o de mergulhar em si mesmo – escolhi esta palavra em português porque ‘recordo’, do castelhano, apesar de remeter a recordação não seria o mais adequado, haja vista que –cordação não nos evoca nada; já ‘memoração’ é uma palavra dicionarizada. Por outro lado, anamnese seria ainda mais pertinente que rememoração, em termos de filosofia platônica. Obviamente, reminiscência é um sinônimo virtualmente perfeito de anamnese, exceto que esta última também seria mais empregada no sentido medicinal hoje. Ambos os termos possuem, de qualquer maneira, um sentido mitológico ou sobrenatural em Platão, que faz uma analogia com a reencarnação da alma.] implícito também no prefixo ‘re’ do termo castelhano [Editor espanhol].”

¹ Pelo contrário: é uma expressão muito afortunada, H.!

² Há mais implicações aqui do que se poderia pensar levianamente. Por exemplo, há alguma relação de continuidade entre a teoria da reminiscência e o princípio nietzschiano do eterno retorno, uma vez que se entenda que ambos os filósofos usam o termo apenas em sentido metafórico. Não existe um Espírito que começou ex nihilo e ainda não se desenvolveu completamente, nem em Platão nem em Nietzsche, e por isso Hegel é um estranho no ninho aqui e não pode ser levado muito em conta. O que Platão quer assinalar? Que o mundo já é perfeito e tudo é ‘sabido’ no fenômeno, não importa se no ‘passado’ ou no ‘futuro’, já que o tempo em si (essencialmente) não existe (apenas para o indivíduo em questão – o que também aproxima esta percepção plantonista do a priori kantiano). Só que o indivíduo não é o filósofo, i.e., é só o recipiente carnal do conhecimento filosófico, objetivo, uno. Então, por mais que para nós no cotidiano o tempo seja algo fora de nós com uma existência própria e independente, do ponto de vista filosófico consciência, conhecimento (e especificamente aquisição de conhecimento) e tempo estão como que fundidos numa unidade.

Quando Platão chama de ‘rememoração’ a este fato de que a ciência brote da consciência, vai implícito nisto o critério de que este saber tem que haver existido realmente, alguma vez, nesta consciência, ou seja, de que a consciência concreta tem por conteúdo este saber não somente em si, por sua essência, mas também enquanto consciência concreta, e não como consciência geral. Mas este momento do concreto forma simplesmente parte da representação, e a rememoração não é pensamento, pois a lembrança se refere ao homem como a um este sensível, não de um modo geral.” Hegel se atém a detalhes técnicos de zero importância. E é surpreendente que leve tão a sério o signo lingüístico nesta ocasião, quando constatamos o que escreveu na Enciclopédia (ver post anterior estrelando Derrida, “SPEECH AND WRITING ACCORDING TO HEGEL” (Fala e escrita de acordo com Hegel): https://seclusao.art.blog/2021/08/10/speech-and-writing-according-to-hegel-derrida-1971-in-w-f-hegel-critical-assessments-ed-robert-stern-1993/). Repito a indicação ao final do post.

No que se refere agora à educação e à formação da alma, é este um ponto que guarda relação com o anterior. É necessário, no entanto, não conceber o idealismo de Platão como um idealismo subjetivo, como aquele idealismo ruim que, sem dúvida, se apresenta nos tempos modernos, como se o homem não fôra capaz de aprender nada nem fôra determinado exteriormente, senão que todas as representações emanassem do sujeito.” No trecho em verde H. está dirigindo uma crítica, visivelmente, a Kant – acontece que essa crítica não procede (ele estereotipa Kant, numa retórica para atender aos seus próprios interesses).

Sobre o conteúdo do parágrafo acima, em referência, unicamente, à formação do filósofo em Platão: há um Estado em que essa formação é facilitada, mas esse Estado nunca aconteceu historicamente (e não estamos aqui apenas repetindo Platão, afirmando que até sua Atenas isso não ocorrera – estamos dizendo que nenhum Estado-nação moderno o logrou!). A República de Platão é este Estado. Mais sobre isso no tópico específico sobre a República, 11.6.

Esta noção, segundo a qual o saber vem, ìntegramente, de fora aparece sustentada nos tempos modernos por certos filósofos empíricos completamente abstratos e toscos, que afirmaram que tudo o que o homem sabe do divino sabe-o por obra da educação e do hábito e que o espírito não é, por conseguinte, uma possibilidade totalmente indeterminada. O ponto extremo disto é a doutrina da revelação, segundo a qual tudo é infundido a partir do exterior.” Já aqui H. fala de forma tão áspera que só posso imaginar que se refira aos ingleses e escoceses, e não a Kant, sem sequer dar-se ao trabalho de citar nomes! Com efeito, Kant voltar-se-á contra o empirismo extremo de Locke, Berkeley e Hume, portanto nele a experiência fica desvalorizada. São estes autores que tornaram a expressão tábula rasa consagrada (mas ela vem desde o latim, bastando suprimir o acento agudo). Chama-se de tábula rasa a mente do indivíduo para John Locke, p.ex., que nasce vazia, rudimentar.

11.4 TEORIA DAS IDÉIAS

O equívoco está em que um conteúdo não é o verdadeiro pelo mero fato de que se incorpore a nosso sentimento. Por isso, a grande lição de Platão consiste em sustentar que o conteúdo só se torna pleno mediante o pensamento, posto que é o geral, que só se pode captar por meio da atividade do pensamento. Este conteúdo geral é precisamente o que Platão determina como a idéia.” Feuerbach se sentiria devastado caso H. fosse vivo e o rebatesse com este parágrafo. Para contextualizar, Feuerbach foi o primeiro filósofo do pós-hegelianismo que, em vez de ser seu discípulo, voltou-se contra ele numa crítica ao Sistema hegeliano. Porém, seu empreendimento fracassou, era incompleto, não passava de um esboço – calcava-se numa crítica da razão e numa exortação pueril dos sentimentos e do amor, sem contudo conseguir definir nada em termos nem concretos, nem abstratos. Essa primeira crítica seria finalmente retomada com método pelo jovem Marx, no agitado século XIX alemão, desembocando no materialismo histórico-dialético, a famosa inversão do idealismo hegeliano em prol do estudo da História e das condições materiais do ponto de vista fenomenológico e da agência humana no mundo, em detrimento de um Espírito ou Idéia que regeria a História universal (que agora não existe, pois toda História tem um ponto de vista) de forma autônoma, manifestando-se na humanidade a fim de se corporificar e se auto-realizar. Foi antes, diria Marx, o próprio homem quem criou esta noção de um Espírito impessoal – a verdadeira liberdade ou maturidade filosófica seria o aprendizado de que o homem, ser social, deve carregar a responsabilidade pelo seu próprio destino (auto-determinação). Quanto a Feuerbach, novamente, sua crítica ao hegelianismo não vai além de um ateísmo exacerbado, sem o mesmo refino dialético de Hegel, recuperado e dirigido agora a outros fins por Karl Marx.

ACIMA DA CIÊNCIA BACONIANA, O AXIOMA; ACIMA DO AXIOMA, A ONTOLOGIA SÁBIA: Conhecimento que necessite e possa ser provado é um degrau muito inferior quando o assunto é Primeira Filosofia. Quando notamos a importância que os geômetras gregos tinham para Platão, notamos por que a matemática não pode ser considerada uma ciência moderna, embora seja o protótipo para todos os campos empíricos da atualidade. Além das formas e figuras abstratas, entretanto, jaz o que só aqueles capacitados para explorar o mundo-verdade podem acessar. É por isto que a comunicação do filósofo, do saber, não existe, a rigor, com os mortais (aprendizes); [fora do LIMBOBOL] eles só podem se comunicar entre si, e quem queira se comunicar com eles deve se elevar. O legado deles é meramente para almas gêmeas, nunca para ‘o populacho’. Eles não enriquecem o mundo, quer dizer, pelo menos não diretamente.

ESCADA DO MUNDO-VERDADE À PURA REPRESENTAÇÃO: — Compreendo algo, mas não o bastante. Me parece que queres afirmar que o conhecimento que dos seres inteligíveis se adquire pela via da dialética é mais claro que o que se adquire pela via daquelas ciências para as quais as hipóteses são princípios e estão obrigadas a se valer da inteligência e não dos sentidos; mas como aquelas ciências especulam a partir de pressupostos e não se elevam até o princípio absoluto, parece que não se dá, nelas, o pensamento que se daria caso se tratasse de entes pensados segundo um princípio. Me parece, ainda, que chamas de intelectivo o modo de proceder da geometria e das ciências afins, e de tal modo que ocupam um lugar intermediário entre a razão e a representação.

Compreendeste perfeitamente bem meu pensamento. Quanto a estas 4 distinções, indicarei agora quais são as 4 maneiras da alma de se comportar: o pensamento compreensivo tende ao supremo; a inteligência ao segundo; o terceiro se chama , a última é o saber figurado. [a opinião] Ordena-as segundo sua maior ou menor evidência, segundo seus objetos participem mais ou menos da verdade.”

MAIS TRECHOS (também em português traduzido) do diálogo FILEBO em https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/.

CONSTRUÇÃO DO MUNDO-VERDADE NO SEIO DO MUNDO DAS APARÊNCIAS: “[Platão,] em geral, concebe o absoluto como a unidade do ser e do não-ser no devir, conforme as próprias palavras de Heráclito, como a unidade do uno e do múltiplo. Ademais, Platão incorpora à dialética objetiva de Heráclito a dialética eleática,¹ que consiste na ação exterior do sujeito encaminhada a pôr de manifesto a contradição, de tal modo que a mutabilidade externa das coisas é substituída agora por seus câmbios interiores em si mesmas, quer dizer, em suas idéias, que são, aqui, suas categorias.” “Os sofistas se limitam a considerar o fenomênico, cuja sede é a opinião: também eles tomam, pois, como base, evidentemente, pensamentos, mas não os pensamentos puros ou o que é em-e-para-si. § É este um dos motivos que fazem com que alguns saiam insatisfeitos do estudo das obras platônicas. Quando se começa a ler um destes diálogos, depara-se com esta maneira livre de se expressar de Platão, belas cenas naturais, uma maravilhosa introdução que promete guiar-nos à filosofia —à mais alta de todas, à filosofia platônica— através de pradarias cobertas de flores. Descobrimos aqui coisas sublimes, de que a juventude sempre gosta bastante; mas esta 1ª impressão não tarda a desaparecer. (…) Ao aterrissar no campo do verdadeiramente dialético e especulativo, o leitor tem de marchar por ásperas e empinadas veredas, deixando-se espetar pelos espinhos da metafísica.”

¹ H. desgina “dialética objetiva” o método da filosofia heraclitiana, considerada a criadora da forma lógica da dialética (raciocínio dinâmico). Aqui, ele defende que Platão funde as concepções de Heráclito e de Parmênides, dois dos pré-socráticos mais importantes, a fim de forjar sua filosofia – embora não o cite nominalmente, Parmênides era um dos “eleatas”. Acontece que, a não ser por amplos comentários aristotélicos que ficaram muito famosos, Zenão, por exemplo, outro eleata, não mereceria ser citado ao lado de Parmênides. Outros dois filósofos eleatas têm menor expressividade: Xenófanes (não confundir com Xenofonte nem Xenócrates) e Melisso.

11.5 O HERMETISMO PITAGÓRICO EM PLATÃO

Deus, mesclando o idêntico e o outro com a essência e fazendo dos três um, divide de novo este todo em partes, em tantas como julga conveniente.”

Ora, o modo de classificação desta subjetividade contém os famosos números platônicos, cujas origens se há de buscar, sem dúvida alguma, nos pitagóricos, em torno dos quais os pensadores antigos e modernos empregaram grandes esforços interpretativos, inclusive o próprio Kepler¹ em seu Harmonice Mundi, embora sem sucesso de nenhum deles em chegar a compreender exatamente o sentido [dos números].” Convenhamos: nem os pitagóricos entendiam a si mesmos, trabalho inútil aqui!

¹ O astrofísico Johannes Kepler.

Quis-se fazer de Platão o santo patrono dos estados de entusiasmo e arroubamento; mas isto é, como vemos, completamente falso.” Platão atribui as adivinhações e as profecias apenas à parte ‘má’ do organismo, a jocosa, a excretória, particularmente o fígado, na anatomia de seu tempo; daí decorreria a fascinação da consulta às vísceras de animais, ritual comum entre os antigos, e, em todos os tempos, a fascinação pelos padrões aleatórios e gesltálticos (mais propriamente falta de qualquer padrão!) das borras do café, etc.

11.6 A REPÚBLICA

(RE)VOLTANDO A/À REPÚBLICA: “e reconhecia e proclamava que a natureza moral (a livre vontade em seu caráter racional) só podia chegar a impor seus direitos e cobrar realidade¹ dentro de um verdadeiro povo.” O qual ainda não presenciamos na Terra.

¹ Expressão contumaz de Hegel. Em seu sistema, algo só pode intervir na realidade (o ato, o para-si, que emana da potência, da essência ou em-si quando as condições são logicamente satisfeitas) com o ‘aval’ do Espírito, daí o real em Hegel ser algo ‘menor’ do que a ‘existência’ em si. Quando Hegel diz que “todo real é racional” e vice-versa (famosa passagem da Fenomenologia do Espírito), significa que tudo aquilo que é parte do processo da Razão aparecerá sob alguma forma em algum momento na História – o irracional é aquilo que não pode ser formulado num determinado estágio, necessitando ser esclarecido ou iluminado, i.e., aparecer racionalmente, modificado dialeticamente como fenômeno. O irracional é aquilo que não pode cobrar realidade. Embora ‘exista’, considerando que o Espírito faz essa mediação, o irracional enquanto irracional não é ainda real. Isso nos leva ao paradoxo em que Hegel e Platão finalmente concordam: embora existente enquanto Idéia e representável mediante conceitos filosóficos, a República de Platão – que não é uma fantasia ou utopia, já que o autor captou seus fundamentos da sua realidade imediata (a Atenas antiga) – ainda não se realizara no mundo real-racional. Poderíamos, de nossa posição no século XXI, demonstrar mais ceticismo quanto a essa possibilidade – mas jamais negar o caráter sério e empírico (no bom sentido) da obra platônica, que versa sobre a formação do homem bom e quais são os limites dessa formação, i.e., da própria humanidade e em seu estrato mais superior ou excelente. Quanto a Hegel, ele imaginava que as condições do Estado ou sociedade perfeito(a), regido(a) por homens que compreendessem a Idéia absoluta, seriam satisfeitas na Alemanha dentro em breve. Hoje rimos dessa puerilidade, batizando-a de etnocêntrica. É que, para Hegel, só um povo liderava a História em cada período. Os gregos lideraram a humanidade e a cultura, criando a Filosofia, nos últimos séculos pré-cristãos; atualmente (quero dizer, no tempo de Hegel) a ‘tocha olímpica’ estaria com os teutos e o Idealismo alemão, povo eleito pelo Espírito para realizar, cobrando realidade, essa apoteose da História universal. Obviamente a partir de Marx o foco muda por completo. Não mais há um verdadeiro povo nacional ou étnico, mas uma classe internacional e cosmopolita que, impelida pelo desenvolvimento do modo produtivo vigente, haveria de suceder a burguesia na História, superando as contradições internas do capitalismo financeiro. Pior ainda, a partir do século XX não temos mais qualquer fé em nenhuma dessas teses. Podemos ser socialistas, sem dúvida, mas não vemos mais a iminência da vitória de uma classe proletária, e aliás uma análise das condições materiais nos aponta que as noções de classe, e portanto da luta entre classes, foram completamente pulverizadas (no pós-modernismo). Essencialmente, o otimismo de Marx e Engels ainda era uma espécie de avatar da fé no progresso, que com certeza já sublimamos – o problema é que estamos em estágio de carência, sem haver colocado nada no lugar. Um impasse histórico que se arrasta.

Obviamente, aqui começa a exposição a dos erros de H. a olho nu, confundindo eternamente cultura e natureza, principalmente o estado de natureza ou direito natural, concepções arbitrárias e no entanto universais no tempo de H.. Naturalizando (fetichizando, apud Marx) o Estado jurídico-moderno, imaginando a natureza enquanto o oposto da cultura letrada e filistéia exatamente como esse puro arbitrário e negativo pertencente aos primórdios do homem (sempre uma inferência nesses autores, sem qualquer base), que em realidade já vemos hoje como o próprio jogo de forças inútil e paralisante dos Estados-nações. H. serve no máximo como cura de um ultra-romantismo desenvolvido após a leitura descuidada de Rousseau (21.), mas sua Teoria do Estado chega a ser tão fabulosa quanto qualquer outra meta-narrativa antitética do período.

Estamos acostumados a partir da ficção de um estado natural, o qual não é, em realidade, um estado do espírito, da vontade racional, senão dos animais entre si. Por isso Hobbes observava, com razão, que o verdadeiro estado de natureza é a guerra de todos contra todos.” Como H. pode demonstrar tamanha lucidez ao mesmo tempo em que diz que o que vê (um número 4 gigantesco!) é tudo menos aquilo que vê (um 5 indesmentível)?!? Pois é isso que Hegel faz nessa passagem: reconhece que o estado natural é mero folclore, mas dá razão ao folclorista Hobbes (isto é, quase só falta afirmar que 2 + 2 = 5)! Nem os animais (quanto mais os humanos) vivem em guerra; a cadeia alimentar não pode ser comparada ao instituto-cultura humano(a) do conflito organizado. Essa analogia é desastrosa. Nada há de qualitativamente diferente entre o homem pré-histórico e nós. A estrondosa ingenuidade hegeliana se torna mais palpável quando se percebe seus 2 componentes principais: um biologismo rústico aplicado a um humanismo muito mal-concebido e distorcido (excessivamente confiante no Direito, no direito burguês, que é o mesmo que cria a ilusão do indivíduo livre, que ele tanto ataca como concepção desviante da legitimidade coletiva do Estado!), posto que estruturado à imagem e semelhança daquele primeiro, ainda que, nas piruetas sucessivamente negadoras do ‘Espírito’, pareça sua brilhante correção, i.e., o contrário do que é. Caminhando desde uma espécie de darwinismo social avant la lettre à apologia pura e simples da moral burguesa, nada se ganha nessa estreita jornada rumo à verdade do Espírito, num sentido hegeliano ou noutro qualquer.

Por isso se formulou acerca da República de Platão o juízo de que seu autor nela traça o chamado ideal de uma constituição política, que se cola logo à obra como um epíteto proverbial, no sentido de que esta concepção não passa de ser uma quimera, que pode, sem dúvida, se pensar e que seria também, tal como Platão a descreve, excelente e verdadeira, e mesmo realizável, mas só sob a condição de que os homens fossem excelentes, como talvez possam sê-lo na lua, mas não como é o homem na terra, com referência ao qual é simplesmente irrealizável.” Esse juízo de H. é correto: realmente é assim que a República é vista genericamente (como uma espécie de introdução à Ciência Política, como engenharia constitucional da Idade Antiga); e claro está que não pode ser chamado de um tratado político (empírico no sentido da empiria da ciência política, uma ciência de matizes ingleses – 18.), muito menos ainda de uma projeção de um ESTADO IDEAL (à guisa de um Thomas More)! Esse é, porém, um preconceito entranhado demais para se desfazer a essa altura. Enxergá-lo como um tratado ético do e para o filósofo, sem para isso tocar em nada que seja do Estado, é o mais raro entre nós. Hegel não pode enxergar a filosofia sem a questão do Estado embutida, mas nós podemos.

Eis a filosofia platônica da natureza: o mundo eterno, como o Deus bem-aventurado em si, é a realidade, não no mais-além, não na outra vida, senão que no mundo presente considerado em sua verdade, e jamais do modo que se oferece aos sentidos de quem apenas vê, escuta, etc., este mundo. Se consideramos assim o conteúdo da idéia platônica, veremos que Platão expõe, na realidade, a moralidade dos gregos em seu modo substancial, pois é a vida do Estado grego¹ e não outra o que forma o verdadeiro conteúdo da República de Platão. Platão não é homem que se perca em teorias e princípios abstratos; seu espírito verdadeiro sabe reconhecer e expor o verdadeiro.”

¹ Só um ligeiro corretivo: a vida dos espartanos, no máximo. O que os espartanos – modelo de constituição já realizada na História até o tempo de Platão que o filósofo mais admira, vivenciando já a decadência da democracia ateniense, iniciada no tempo de Sócrates, e não podendo concordar com o princípio da democracia que recai ou para o populismo ou para a tirania (um fenômeno nada estranho a nós!) – realizam em sua aristocracia bélica é o ponto de partida para Platão ir ainda além, mas não no sentido de além deste parágrafo de H., evidentemente (o outro mundo): ir além filosoficamente, ir além no raciocínio político-social imanente. Um homem dotado de arete poderá beber desse ensinamento em qualquer época da humanidade. O que mais separa Platão de Aristóteles, veremos, é que para Aristóteles e para a ciência política moderna, sua herdeira direta, Esparta seria uma espécie de ponto de chegada. A Platão não interessa estudar as boas práticas e os defeitos da constituição espartana historicamente falando, como um guia político para a posteridade. O que lhe interessa são os princípios gerais de um bom governo e de uma boa educação do povo que, enxergados indiretamente, via as instituições existentes num dado tempo (a Esparta do séc. IV a.C.), podem servir de norte atemporal do homem. Aristóteles diria “posto que temos isso, aquilo e aquiloutro, e nada mais, ‘isso’ é o máximo que se pode fazer em políticas; então façamos isso”. Esse é um curso de pensamento tão pobre comparado à Teoria das Idéias platônica de realização do potencial humano muito acima da simples pedagogia pragmática dos governantes que às vezes duvidamos que ambos tenham mesmo sido professor e aluno.

11.6.1 DAS QUATRO VIRTUDES DA POPULAÇÃO DA REPÚBLICA

A primeira virtude da República, obviamente, entre as 4 descritas por Platão, na ordem de maior para menor, é: a sabedoria, monopólio da minoria no píncaro da formação estratificada.

A segunda, a dos guerreiros, é a valentia.

A terceira, a dos comerciantes e demais profissionais liberais, é a temperança ou moderação.

A quarta, que deve ser praticada dos mais humildes aos mais sábios, é a justiça, a base incondicional da boa sociedade.

Sabedoria não é nada sem valentia. Valentia não é nada sem temperança. E temperança não é nada sem justiça. Conforme aumenta a posição hierárquica da casta, aumentam também a carga, a responsabilidade e o número de virtudes que se deve acumular.

CONTRASTE COM CÓDIGOS RELIGIOSOS OU PENAIS CIVIS: No momento em que é preciso começar a ensinar que não se devem cometer homicídios, já não há nobreza e justiça no coração dos homens. No momento em que se codificam as horas de lazer e as vestimentas, já nada há. Nem mesmo merece-se o qualificativo de escravo nessa situação. A República nada traz sobre isso.

11.6.2. CONTINUIDADE DA REPÚBLICA NO TEMPO

Os costumes não devem ser independentes das instituições; i.e., as instituições não devem se dirigir simplesmente aos costumes mediante estabelecimentos educativos, [formais], religiosos, etc. As instituições devem se considerar como o primordial, como aquilo que faz nascer os costumes, já que estes não são nada além do modo como cobram as instituições uma existência subjetiva. O próprio Platão dá a entender até que ponto espera encontrar contraditores. E entretanto hoje sói encontrar-se, como defeito seu, o de ser demasiado idealista: se é que cabe assinalar um defeito em Platão, este é cabalmente o de não ser idealista o bastante.” O que Hegel quer dizer é: Platão tem consciência de que nenhum Estado subsiste historicamente desta forma pela eternidade; há um apogeu, e há uma decadência, por mais que se tente preservar os costumes mediante as instituições, e as instituições espelhadas nos costumes. É esta queda que Platão exprime do modo mais incontroverso possível na República.

11.7 ESTÉTICA

Mas este algo geral não conserva, tampouco, a forma da generalidade, mas o geral é o conteúdo que tem como forma o modo sensível; nisso precisamente estriba a determinação do belo. Na ciência, o geral assume de novo a forma do geral ou do conceito; o belo, ao contrário, se apresenta como uma coisa real ou como uma representação em forma de linguagem, que é o modo pelo qual o real vive no espírito. A natureza, a essência e o conteúdo do belo só podem ser conhecidos e julgados pela razão, pois trata-se do mesmo conteúdo que tem a filosofia. Mas como a razão no belo [o a priori] se manifesta também de um modo real, [no fenômeno] temos que também o belo cai sob o prisma do conhecimento. [sensibilidade]Uma vez que a Crítica da Faculdade do Juízo, de Kant, é apenas uma variação do tema da Estética platônica, economizaremos em nosso curso citando apenas os pensamentos de Kant fora da ciência estética no capítulo 22.

11.8 CONCLUSÃO

Com o dito, fica exposto o conteúdo fundamental da filosofia platônica. O ponto de vista de Platão é este: em primeiro lugar, aparece a forma fortuita do diálogo, em que aparecem conversando uns tantos homens nobres e livres, sem outro interesse que não o da vida espiritual da teoria; em segundo lugar, à medida que vão mergulhando no conteúdo, descobrem os mais profundos conceitos e os mais belos pensamentos, como pedras preciosas com que se tropeçasse, não num deserto, mas propriamente num caminho seco e pedregoso; [não num meio estéril, mas numa trilha em que é possível avançar, apesar da esterilidade das opiniões] em terceiro lugar, não encontraremos aqui nenhuma conexão sistemática, ainda que tudo emane e flua de um só interesse” Hegel ainda nos dá mais duas etapas, mas elas não nos interessam.

12. ARISTÓTELES

12.1 O VERDADEIRO TAMANHO DO LEGADO DE ARISTÓTELES; DISTORÇÕES HISTÓRICAS DE HEGEL.

Embora o sistema de Aristóteles não apareça desenvolvido em suas partes partindo do conceito mesmo, mas como uma série de partes que caminham lado a lado, não resta dúvida de que [as partes] formam uma totalidade de filosofia essencialmente especulativa.” Para H. isso é um grande mérito, devido às ‘semelhanças’ que encontramos entre o próprio H. e Aristóteles. Para nós, não obstante, este consiste no maior defeito destes dois filósofos.

Uma razão para ser prolixo, tratando-se de Aristóteles, temo-la em que nenhum outro filósofo fôra objeto de tanta injustiça por parte das tradições totalmente órfãs de pensamento que se mantiveram à margem de sua filosofia e que ainda se acham na ordem do dia hoje, apesar de ter sido este pensador, durante longos séculos, o mestre de todos os filósofos.” “E, enquanto que lê-se muito Platão, o tesouro da obra aristotélica permaneceu pouco menos que ignorado séculos e séculos, até vermos reinando, até os tempos mais recentes, os mais falsos prejuízos em torno de Aristóteles.” Totalmente ao revés! A Escolástica bebeu de Aristóteles; Platão era um anexo turvo para todo um milênio, e por isso a filosofia afundou tanto na Idade Média!

É, por exemplo, uma opinião muito generalizada a de que a filosofia aristotélica e a platônica se enfrentam e opõem uma à outra, concebendo-se esta como baseada no idealismo e aquela como baseada sobre o realismo, o realismo mais trilhado e trivial.” Opinião generalizada corretíssima!

Alexandre o Grande, quando em meio a suas conquistas e achando-se já muito dentro da Ásia inteirou-se de que Aristóteles havia dado a conhecer em obras especulativas (metafísicas) a parte acromática¹ de sua filosofia, enviou-lhe uma carta reconvidando-o a dar a conhecer ao povo vulgar os frutos dos trabalhos e investigações de ambos;² a isso Aristóteles retrucou que, apesar de lhe haver dado a conhecer esta filosofia (ao povo chão), os resultados seguiriam tão desconhecidos como antes. (Aulo Gélio, Noites Áticas)”

¹ Refere-se ao mito comum de que haja uma vertente esotérica (de elite, filosófica, propriamente dita) e outra popular ou vulgar em certos autores como Platão e Aristóteles, em que a gente comum pudesse lê-lo e entendê-lo. A acromática seria esta “filosofia” vulgar (exotérica) para iniciantes. Talvez a origem do termo seja a constatação pejorativa de que esses trechos são sem cor e sem vida, inertes, desbotados? Hahaha! (acromatia: aquilo que não tem cor) Fato é que este trecho comprova que: 1) não havia esta divisão binária e didática na filosofia aristotélica, nem provavelmente em qualquer outra; 2) mesmo uma filosofia exotérica não é absorvida ou compreendida pelo povo, se é séria; ou seja, por mais elitista que soe o discurso, toda boa filosofia é esotérica, para poucos espíritos ilustrados. Há, é claro, pseudo-filósofos, mas esses realmente só escrevem para o povo, e não têm conteúdo esotérico apreciável.

² É sabido que Aristóteles foi o mestre de Alexandre, mas daí a conceber que Alexandre filosofou ao lado de Aristóteles, sendo co-responsável de seus escritos, é um exagero!

O que na educação deste personagem pode ser atribuído ao ensino filosófico de Aristóteles é o haver sabido libertar interiormente seus talentos naturais, a peculiar grandeza de seus dotes de espírito, elevando-os a um plano de completa independência consciente de si mesma, como o vemos comprovado melhor que nunca nos próprios fins buscados por Alexandre e em seus feitos. Alexandre alcançou, com efeito, essa absoluta certeza de si mesmo que só a intrepidez infinita de pensamento e a independência do espírito diante dos planos especiais, pequenos e limitados permitem. Essa intrepidez o elevava à finalidade perfeitamente geral que o animava: a ambição de organizar o mundo numa vida e num intercâmbio comuns e coletivos, mediante a fundação de Estados subtraídos à individualidade contingente e fortuita.

Alexandre pôs em prática, dessa forma, o plano que já concebera seu pai sem haver podido chegar a realizá-lo: o de se colocar à cabeça dos gregos para vingar a Europa na Ásia e submeter a Ásia à Grécia; de tal modo que, assim como no começo da história da Grécia os gregos haviam marchado unidos na guerra contra Tróia, esta união servira agora de final e de remate ao verdadeiro mundo helênico.” Tem certeza que os motivos de Filipe e Alexandre eram tão coletivos e étnicos e, o que é pior, alheios à própria dinastia? Seria único na História do Mundo, efetivamente. Não creio que Alexandre tenha submetido a Ásia para “se vingar pela Grécia”, isto me parece um daqueles absurdos possíveis apenas no Hegelianismo…

SUPERESTIMA ARISTÓTELES A PONTO DE CONCEBÊ-LO COMO MASTERMIND POR TRÁS DAS AÇÕES DE ALEXANDRE: “primeiro visitou e consultou o oráculo dos amonitas (hoje, Siwa), procedendo logo a destruir o reino persa e incendiar Persépolis, a velha inimiga da teologia hindu, para se vingar, assim, de todas as vexações causadas por Dario contra os hindus e seus irmãos de religião.”

Pularei o relato de que Aristóteles foi o dono da primeira biblioteca do mundo, pois toda essa história já está muito detalhada em meu post HIPÓCRATES OBRAS COMPLETAS VOL. I, nos prefácios especiais de Littré a essas obras, acessível em https://seclusao.art.blog/2021/04/07/les-oeuvres-completes-dhippocrate-tome-premier-trad-classica-de-littre/.

Tem diante de si a intuição em sua integridade e plenitude, e nada passa por alto, por muito vulgar que isto ou aquilo sejam.” Deveríamos criar o termo endução para explicar os casos de indução e dedução (ou endo-ção, de fora) indistintos (raciocínios perfeitos que são ambos e nenhum, não são de dentro nem de fora, apenas são).

ORA, ORA, SE NÃO É DEUS! “Ao enfocar todos os momentos contidos na representação, como se formassem uma unidade, não prescinde de nenhuma determinabilidade, não se atém primeiro a uma determinação e logo depois a outra, senão que afronta-as todas a um só tempo, enquanto que a reflexão intelectiva, [Platão] que tem como regra a identidade, só pode sair adiante com ela pela simples razão de que, ao afirmar uma determinação, olvida [ignora] a outra e dela prescinde.” Infelizmente, ainda que fosse verdade, precisamos de novos deuses e novas verdades… Claramente Aristóteles é venerado com toda a parcialidade por H. e não podemos levar sua resenha deste filósofo muito a sério!

O empirismo de Ar. é um empirismo total, posto que ele o leva, de novo, constantemente, à especulação; podemos, então, dizer que, como empirista consumado, é, ao mesmo tempo, um espírito pensante.” Já vimos esse movimento se consumar umas 300x na História; estou nauseado…

12.2 METAFÍSICA ARISTOTÉLICA

Aristóteles distingue, mais detalhadamente, 2 formas fundamentais: a da potência e a do ato.” GROSSO MODO, podemos dizer que a fonte de toda a concepção da síntese hegeliana está aqui (voltar aos trechos em negrito do 2.3): essência e aparência, racional e real, em-si e para-si. Importante frisar que o segundo, embora o fenômeno não seja o principal de Hegel, posto que seu “deus”, por assim dizer, é a Razão, é importantíssimo como esteio da essência compreendida no mundo antigo como enteléquia e hoje como teleologia ou ciência dos fins. Devemos entender o fenômeno nesse mais nobre sentido, em que participa da dialética da enteléquia, para não gerar mais dúvidas, como o nível de realidade consumada ou efetiva, ou seja, em que o Espírito exerce toda sua potência, no que Hegel chama de O CONCRETO (APARÊNCIA) ELEVADO A CONCEITO (aparência que Aristóteles chama de substantia – em oposição à Idéia platônica, que ele entendeu unilateralmente –, mas ambos são o mesmo); e no que eu chamaria de ‘fenômeno sagrado’, se posso ‘blasfemar’ o vocabulário hegeliano e neologizar à minha maneira e à minha conveniência para facilitar meu trabalho e a compreensão que o leitor deve ter de Hegel ao fim desta excursão. Muito se dirá em autores modernos pré-hegelianos que a substância é a matéria viva, em movimento ou, propriamente, contempladas por nós, i.e., não de uma maneira estritamente mecanicista (como na Física).

Curiosamente, Hegel é o acme do Idealismo e seu centro nevrálgico é o concreto ou empírico. Na filosofia subsecutiva, que teve de reparar seus pontos de vista, temos o império da Fenomenologia, em que o centro tem de ser a própria potência ou vontade (configurando a ‘substância pós-moderna’), que havia sido menosprezada até ali como provocadora última da realidade. Fazendo uma última simplificação, podemos assinalar a filosofia pós-platônica e pré-Marx-nietzscheana como excessivamente preocupada com o começo e o fim; e as filosofias DE PLATÃO SOMENTE, NA ANTIGUIDADE INTEIRA, e de Marx, Schopenhauer e Nietzsche EM DIANTE como aquelas atentas ao devir. Não preciso, espero, ter de ressalvar que a genealogia e a teleologia continuam sendo tratadas dentro da fenomenologia do séc. XX em diante e que o devir já era “conhecido” e tratado até mesmo pelos insofisticados pré-socráticos. O que eu quis dizer é que o eixo de preocupação de primeira plana sofreu uma inversão quase simétrica em termos do que é o objeto da filosofia. Numa sentença, regressamos a Platão e reiniciamos de onde ele havia parado, com alguns conselhos muito úteis achados no caminho do calvário que antecedeu nossa chegada ao deserto chamado fim do milênio. (!!!)

INFINITO É O FENÔMENO (A AÇÃO): “quando dizemos a essência, não estabelecemos com isso, ainda, a atividade, pois a essência é somente o em-si, a potência, sem forma infinita.”

Portanto, enquanto que o predominante, em Platão, é o princípio afirmativo, a idéia, como algo somente idêntico consigo mesmo no abstrato, em Aristóteles predomina o momento da negatividade, mas não como mudança, nem tampouco como o nada, senão como distinção, como determinação, destacado por ele enquanto tal. Este princípio da individuação, não no sentido de uma subjetividade contingente, particular, senão no sentido da subjetividade pura, é característico de Aristóteles.” O principium individuationis como o erro do milênio ou, antes, dos últimos três milênios!

O devir de Heráclito é uma determinação certeira e essencial; mas, em compensação, carece ainda da determinação da identidade consiga mesma, da firmeza da generalidade. O rio se modifica constantemente, mas se mantém também perene e tem, ainda mais, uma existência geral.¹ De onde se deduz imediatamente que Ar. (Metafísica IV, 3-6) polemiza principalmente contra Heráclito e outros quando diz que o ser e o não-ser não são um e o mesmo, fundamentando assim aquela famosa tese da contradição de que um homem não é ao mesmo tempo um barco.” Hahaha?!

¹ Quando Nietzsche diz que Heráclito poderia ter enunciado o eterno retorno, o que quer dizer é: faltava-lhe a condição subjetiva para afirmar a figura de linguagem do rio (o eterno, a essência) como aquilo que também se desdobra sobre si mesmo em fenômeno, repetindo-se como aparência e transitoriedade finita e fugidia (além das águas deste rio, o próprio rio, que no fim de contas é apenas um subterfúgio para se referir ao universo).

PRESENTE ETERNO (Conceito escolástico influenciado por Ar.): “Deus é a substância [ponto de encontro] em cuja potência vai também implícito, como algo inseparável, o ato; nela, a potência não se distingue da forma, já que produz a partir de si mesma suas determinações de conteúdo.” Aristóteles cria que a Idéia de Platão estava situada fora do tempo, portanto do presente, do movimento e da realidade (existência); por isso achava ter reparado Platão. Tão ingênuo quanto parece! Nível de argumentação: “Meu absoluto é melhor que o seu! Crê em Deus-Pai!”.

Deve-se considerar como a verdadeira essência, prossegue Ar. (Metaf. XII, 7) o que se move em si mesmo, o que ‘se move em círculo; e isto não se deve buscar somente na razão pensante [principium cognoscendi], senão também no fato’. (…) Como o igual a si mesmo e como algo visível, esta essência absoluta é ‘o céu eterno’; 2 modos de representação do absoluto são, portanto, a razão pensante e o céu eterno.” Formulação superingênua do eterno retorno.

CURIOSA NOTA DE RODAPÉ, DEMONSTRANDO QUE AS AULAS DE HEGEL ERAM PESADAS, INSOSSAS E CONFUSAS, E QUE O FORMATO FINAL DO LIVRO É MAIS LEVE DEVIDO À INTERFERÊNCIA DOS DISCÍPULOS: “Como esta explicação hegeliana da famosa passagem de Aristóteles tem em seu favor o testemunho de tantas autoridades, o editor não pode seguir aqui, como tantas vezes no transcurso dessas Lições, a norma estabelecida pela sociedade de amigos de Hegel a cujo encargo corre a edição de suas obras, que é a de corrigir tacitamente os erros e inexatidões que tenham podido deslizar pela exposição do autor. É evidente, de todo modo, que Ar. fala de 3 substâncias de um mundo sublunar, que move o firmamento; do firmamento mesmo, como o centro, que é ao mesmo tempo o motor e o movido, e de Deus, como o motor imóvel.” Frase original de H., para contrastar: “O céu é algo movido e é também, ao mesmo tempo, algo que move. E sendo, assim, o esférico algo tanto movente como movido, tem que haver necessariamente um centro que mova, mas seja por si mesmo imóvel e, simultaneamente, eterno e uma substância e a energiaSuas sentenças não são pontuadas, e vai elencando sinônimos após as conjunções de ligação como se enriquecesse a exposição (por si inócua) acrescentar mais nomes e sinônimos ao que já tinha nome (Deus), e aumentando a barafunda do que é, pois que estas coisas são também outras coisas: enfim, que o primum mobile ou deus aristotélico é também ETERNO (Qual a definição de eternidade? Há algum deus que seja mortal ou limitado?), é também SUBSTÂNCIA (Qual a definição de substância? Por que não é redundante ser Deus e substância ao mesmo tempo?), é também ENERGIA (Qual é a definição de energia? Por que não é redundante ser Deus, substância e energia tudo ao mesmo tempo? No que deus ficaria pior se fosse retirado algum desses sinônimos arbitrários?)!… Uma absoluta perda de tempo – e energia!

Me parece incrível, fabuloso até, que nem Ar. nem H. tenham percebido que só estão reescrevendo Platão sem o mesmo talento literário (ou percebem-no, mas fazem disso, dessa redação tecnicista, seu cínico ganha-pão): “Este sistema dura eternamente. ‘Mas a nós [como indivíduos] só por um breve tempo nele nos está reservada uma residência, que é a mais excelente que poderíamos desejar.’E ainda mais: o “filósofo da ação” (Ar., segundo a introdução de H.) é o mais contemplativo de todos! “o pensamento é fim último e absoluto para si mesmo.”

O momento fundamental da filosofia aristotélica consiste, portanto, em que a energia do pensamento e o pensado objetivo sejam uma e a mesma coisa” Ironia: Aristóteles cobra o porquê do Bem, p.ex., de Platão e Leucipo, mas tampouco dá o seu porquê energético. Não que seja um defeito seu; a energia é a mera referência de uma força física, e portanto um não-conceito, filosoficamente falando; o simples infundamentado e inessencial sobre o qual não se deve falar. O que pega mal é a hipocrisia do Estagirita (epíteto aristotélico): o parco entendimento dos outros (hipercrítica que exerce sobre o próprio mestre) e a excessiva indulgência em relação a si mesmo (a própria filosofia não é depurada e desenvolvida como seu lado crítico da tradição nos faz pensar que fosse capaz). Nesse sentido ele é o pai ancestral de filósofos como Deleuze!

BLÁ, BLÁ, BLÁ… “Em nossa linguagem, designamos o absoluto, o verdadeiro, como a unidade do subjetivo e do objetivo que, portanto, não é um nem outro, ainda que seja ambos de uma vez; pois bem, Ar. se debatera com estas formas especulativas, que ainda hoje seguem sendo as mais profundas, e as expressou com a maior clareza. (…) A unidade é, portanto, uma expressão ruim, antifilosófica, e a verdadeira filosofia não é o sistema da identidade, [referência a Platão] mas seu princípio há de se buscar numa unidade que é atividade, movimento, repulsão e, na distinção, algo idêntico a si mesmo.” Tudo isso continua a nos mostrar que, se queremos derrubar Hegel de vez, devemos levar também tudo de aristotélico a pique!

12.3 FÍSICA ARISTOTÉLICA

No que se refere ao outro caso, ou seja, a diferença entre o pesado e o leve, que se aprecia nos corpos mesmos, temos que aquele se move mais ligeiramente que este através do mesmo espaço; ‘mas esta diferença se dá somente no espaço cheio, pois o corpo pesado separa mais rapidamente o cheio, graças a sua força’. Esta concepção é absolutamente exata e vai dirigida principalmente contra uma série de representações que fazem estragos em nossa física. Estas representações [fenômeno observável] acerca do movimento igual do pesado e do leve, como as que se referem à gravidade pura, [una] ao peso puro, à matéria pura, etc., são uma abstração, como se se tratara de coisas iguais em si e diferentes somente pela resistência casual do ar. [múltipla]¹Aristóteles não tem ‘culpa’ alguma de não conhecer a aceleração da gravidade em uma mesma pressão atmosférica, mas Hegel não deveria ignorar Newton! Lembrando que nesta parte não se procede exatamente à história da filosofia, mas da própria física…

¹ Hegel confunde os reinos da aparência e da essência, como se a essência fosse figurada na própria representação! Mas, apesar do modo oblíquo que elegeu para se expressar, Hegel não colide aqui com o modelo da física experimental (contra o que ele mesmo pensa): o que ele quis dizer é simplesmente que não existe o vácuo perfeito, então, na prática, se um bloco compacto de uma liga metálica muito pesada, digamos, de 1 tonelada, cai retilineamente por um abismo ao lado de uma pessoa de 80kg, por mais que essa pessoa seja maior que o bloco e possua ‘mais superfície’ (sofrendo a resistência do vento oposto em uma área maior que a do bloco), não significa que ambos chegariam ao fim do abismo – que deveria ser profundo o suficiente – simultaneamente (após o fim da aceleração da gravidade e o começo da trajetória em que ambos cairiam a 10m/s, uniformemente), pois a resistência do ar ainda seria maior contra o bloco de metal, mais ‘pesada’, anulando sua massa gravitacional. Um tubo de ensaio em que o vácuo perfeito fosse possível seria contraditório com o célebre modelo das ‘quedas idênticas’ porque aí já nem haveria possibilidade de queda dos corpos, apenas repouso. Isso serve para nos darmos conta da futilidade da física como ensinada nos livros-textos escolares em enunciados de exercícios matemáticos: “desprezando-se a resistência do ar, etc.”

Quando a água se converte em ar, ganha em extensão; mas a matéria segue sendo a mesma, sem que a ela se some nenhuma outra coisa distinta: o que ocorre é que o que antes era em potência é-o agora em ato.” Também é incrível como o mundo moderno levou tantos séculos para chegar ao mesmo entendimento formal. Dito isto, Ar. continua péssimo metafísico; mas exímio cientista natural!

Dão uma de espertos aqueles que nos reprovam o fato de incluirmos entre os elementos a água, o ar, etc. Mas nem sequer sob o nome de ‘neutralidade’ os físicos modernos chegaram a uma generalidade concebida como unidade, como a que Ar. atribui aos elementos; em realidade, o hidrogênio, quando combinado com uma base, não segue existindo como tal, segundo às vezes se afirma, dentro da nova combinação.” É verdade que o modo descritivo moderno é pobre, mas H. se esforça além do aceitável para encimar Ar. sobre a Física moderna, vendo na física do Estagirita algo mais do que é.

12.4 ÉTICA ARISTOTÉLICA

RESERVATÓRIO: “O pensamento se converte em entendimento passivo, isto é, em algo objetivo; e assim se aclara agora até que ponto é o nihil est in intellectu, quod non fuerit sensu [nada está no intelecto que já não tenha sido sentido/passado pelos sentidos] o sentido [pun not intended] da filosofia de Ar..” Não pode ser pensado aquilo que não foi sentido Não pode ser pensado aquilo que não foi pensado, pois intelecção e sensação estão imbricados. Tudo que foi pensado foi sentido, etc., etc.. E implicações com os trechos destacados por Derrida na Enciclopédia. (ver link, já citado em outro capítulo, novamente referenciado nas referências bibliográficas ao final)

Quando o conhecimento é mau ou inclusive inexistente, mas o coração, apesar disso, se comporta bem, poderá, segundo Ar., existir bondade, mas não virtude, já que falta o fundamento, ou seja, a razão, sem a qual a virtude não pode existir.” Sempre traduzir conhecimento na Ética de Aristóteles como sabedoria no sentido schopenhaueriano, para facilitar. E coração como o verdadeiro ethos contemporâneo. Ar. repercute aqui o mito do burro bom. Na verdade eu entendo que ele pode ser no máximo inofensivo (já que a maioria dos burros é realmente ). Falo em Schopenhauer, porque ambos são concordes neste aspecto (diferença entre sabedoria e caráter). Já eu descartaria a existência de um burro bom, ou dum inteligente mau: sabedoria e caráter estão acoplados no caráter do indivíduo, muitas vezes com sua índole ou inteligência camuflada (no caso dos pseudosábios, que são maus mas ocultam sua falta de inteligência socialmente; e dos pseudobons, que são burros mas só não aparecem como maus por falta de oportunidades para exercer a maldade publicamente).

Daí que Ar., segundo víamos, censure Sócrates por condicionar a virtude exclusivamente ao conhecimento.” Naturalmente que Ar. censura Sócrates, pois que não o entendeu. Aristóteles endeusou (literalmente!) a Razão, mas não entendeu tampouco a razão socrático-platônica: não significa usar o pensamento ou acumular informações. Significa ser sábio. Logicamente, o sábio socrático é virtuoso. Não existe inteligência, para Sócrates, dissociada de caráter – logo se vê que minha concepção descrita acima não é original, mas que sou partidário de Sócrates e Platão neste tema! Ar. entende que aquele que possui a ciência filosófica alcançaria como que por milagre noções éticas em Sócrates e Platão, o que é distorcer seus pensamentos! É muito fácil estereotipar esse entendimento, dizendo que para Sócrates a virtude era uma iluminação individual. Mas esta não é a correta leitura da doutrina platônica (e afinal não sabemos exatamente o quanto da concepção socrática da virtude é apenas uma criação platônica ou não). A ocorrência moderna que chamamos de “erudito que na verdade não passa de velhaco” não refuta ‘a ingenuidade socrática’: ele é um erudito, pois que seja, porquanto querem chamá-lo de erudito, ou permitem que se chame a si de erudito; isto não importa para nós! Ele é um hipócrita que nada tem que ver com a figura do sábio. Tampouco pode-se chegar a essa condição por esforço. Daí a força atual que conserva a metáfora da reminiscência em Platão: ou se nasce bom (sábio) ou mau (ignorante). O fato de uma criança ainda ser ignorante tampouco refuta a tese: através da reminiscência, aquele nascido sábio reencontrará a sabedoria que já está dentro de si. Outro exemplo: um político maquiavélico é tolo, pois não compreende que tudo é vaidade.

Por conseguinte, na virtude, enquanto esta tende à realização e é atributo do indivíduo, não se pode dizer que seja a razão o princípio único, senão que é a inclinação o elemento propulsor, concreto, o que precisamente na prática e no sujeito tende à realização.” Hegel descreve apropriadamente Ar.. O grifo verde se destina a criticar a compreensão aristotélica da moral: ele decompõe a conduta ética em teórica e prática. Sua delimitação ética é sem dúvida a que norteia a disciplina Ética moderna. Porém, isso é um mal, um retrocesso em relação a Platão. Nietzsche foi o primeiro filósofo a apontar tal erro. A virtude é um atributo inato do indivíduo. Não se pode realizar a virtude quando é-se dela carente, daí a ilusão de que alguém dotado da capacidade teórica (todo homem) de ser virtuoso falha na execução (só executa a virtude aquele que nasceu virtuoso e sábio). Ter conhecimento teórico da virtude e não aplicá-lo na prática é o mesmo que dizer que é-se meio-virtuoso, virtuoso incompleto. Ora, ou é-se virtuoso ou não se o é. É redundante falar em virtude não-realizada, por isso Aristóteles discorda de Platão – pois crê que vale a pena falar desse tipo de meia-virtude. A razão é o princípio único, porém não a razão aristotélica. Isso faz com que Aristóteles tenha de recorrer à ‘inclinação’ como elemento propulsor, uma nomenclatura vazia. Essa inclinação é inata à razão corretamente compreendida no platonismo, e não existe tal decomposição em 2 palavras ou conceitos, em que um se subordina aleatoriamente ao outro. Assim, não é que a Ética seja uma disciplina voltada à prática; ela é teórico-prática, uma unidade, desde o início. Mas o homem moderno não enxerga a validade do teórico, preferindo expulsá-lo do campo ético.

ainda que se tenha censurado como algo muito insuficiente e indeterminado o fato de que Ar. determine a virtude mais como uma diferença de grau, há que se reconhecer que isto é algo que está implícito na natureza mesma da coisa. A virtude, e mais que nenhuma outra a virtude determinada, entra numa órbita em que ocupa um lugar o quantitativo; o pensamento aqui não permanece em-si, sendo indeterminado o limite quantitativo.” Essa definição é satisfatória no mundo dos moralistas e autores de auto-ajuda, no mundo dos comuns e plebeus. Para um filósofo, é um achado muito aquém do desejável.

Aristóteles se dava conta, mais ou menos claramente, [?] de que a substância positiva, a necessária organização e realização do espírito prático no Estado, é realizada por meio da atividade subjetiva de tal modo que esta encontra naquele sua determinação. Por isso também é que Ar. vê na filosofia política toda a filosofia prática e o fim do Estado como a felicidade geral. [eudemonismo]De novo, o mesmo erro. Não existe política apenas prática. A ciência política moderna é Aristóteles desenvolvido: é o que temos, mas não é ciência nem um conhecimento sobre política, ainda. Uma verdadeira ciência política seria A República desenvolvida sobre a Terra, na educação dos povos.

o princípio moderno, segundo o qual a vontade particular do indivíduo se erige, como o absoluto, no ponto de partida; [a revolução francesa] e assim todos contribuem, mediante a emissão de seus sufrágios, para decidir o que há de reger como lei, estabelecendo a comunidade sobre estas bases. Em Ar., ao contrário, como em Platão, o Estado¹ é o prius, [fundamento originário, pressuposto, dado a priori] o substancial, o fundamental, pois seu fim é o mais alto de todos, desde o ponto de vista da prática.”²

¹ Essa generalização de H. pode custar muito caro em mal-entendidos: “Estado” significa coisas diferentes para Platão, Aristóteles e para o próprio Hegel.

² O leitor fica tentado a se perguntar: se o princípio moderno é o individual e o princípio antigo é o coletivo, qual deve prevalecer, qual é o melhor? A resposta curta e grossa é: nenhum. Não podemos mais defender uma Teoria do Estado, nem tampouco continuar com os pressupostos do Liberalismo, que institui o Homo oeconomicus atomizado, um inútil político.

Nenhum país como a Grécia abundava tanto em múltiplas constituições quanto em variações dentro de cada uma delas num só Estado, apesar do quê os gregos não chegaram a conhecer em nenhum momento esse direito abstrato dos Estados modernos que isola o indivíduo, deixa-o viver como quer e, não obstante, mantém-no em coesão com todos os outros como num espírito invisível, de tal modo que em nenhum se dê nem a consciência nem a atividade com vistas ao conjunto, mas que cada qual atue para o todo, sem saber-se bem como, tão-só na medida em que se o reconhece essencialmente como pessoa e em que só se preocupa com a proteção de sua individualidade.¹ É uma atividade dividida, de que cada um só tem em suas mãos um fragmento: analogamente como, numa fábrica, ninguém forma um todo, senão só uma parte, e não possui as demais habilidades necessárias, já que somente alguns determinam a coesão do conjunto.” Trecho fundamental para a funda(menta)ção do Marxismo.

¹ H. exagera – e muito – a “perfeição” desse tipo de sociedade…

A liberdade burguesa, nesse sentido, consiste precisamente na carência do geral, no princípio do isolamento; mas esta liberdade constitui um momento necessário que os antigos Estados não conheciam” É como dizer que Diógenes, o Cínico era uma existência necessária – quase uma confissão de messianismo!

só agora torna-se possível a consistência interior e a indestrutível generalidade, real e consolidada em suas partes.” O Estado moderno é realmente muito consistente – como exemplifica muito bem a arbitrariedade racional-legal chamada Israel –; só esperamos que não seja exatamente indestrutível! Felizmente, entretanto, Hegel não perde muitas páginas comentando a Política de Ar., um livro ao meu ver extremamente defasado, talvez o mais obsoleto do próprio autor. Como H. deixa claro, a política, em Ar., como atividade prática, está contida na sua Ética (sobre ética, Aristóteles escreveu 3 livros, dos quais temos 2 inteiros e fragmentos de um 3º).

12.5 LÓGICA ARISTOTÉLICA

Os conceitos determinados se predicam com união ou sem união: assim, p.ex., cabe dizer: o homem vence, o boi anda, ou então: o homem, o boi, vencer, andar.”

As determinações da lógica aristotélicas já foram há muito tempo absorvidas por todos os que filosofam. Quatro noções básicas (abaixo resumo 3 delas) são: o gênero, o geral, o particular e o individual. Hoje achamos tudo isso muito “bobinho” e autoevidente.

EXPLICAÇÃO CONTIDA NA DEFINIÇÃO DE GÊNERO: “O conceito é uma realidade lógica e, portanto, algo em si puramente pensado, i.e., possível. No juízo, postula-se o conceito A como um sujeito real e se o combina com outro algo real, como conceito B; trata-se de que B seja o conceito e de que A se ache dotado de ser com respeito àquele, mas B é somente o conceito mais geral. No silogismo, trata-se de imitar a necessidade: ao passo que no juízo contém-se a síntese de um conceito e um dever-ser, no silogismo dá-se a tal síntese a forma da necessidade, equiparando ambos os termos contrapostos dentre de um terceiro como através do termo-médio da razão, p.ex. no justo meio da virtude. A premissa maior expressa um ser lógico, a menor uma possibilidade lógica, uma vez que Caio [nome próprio] é, para a lógica, um algo simplesmente possível; a conclusão serve de laço de união entre ambos os termos.” Pela explicação, parece muito mais difícil do que é!

Há um problema com a Lógica aristotélica quando avaliada por Hegel, pois falta-lhe a noção do Absoluto, presente na lógica hegeliana. Por isso, o “geral” em Ar. é uma determinação “pobre”, aquém do “geral moderno”, ou geral em H. Veja abaixo:

O GERAL: Aquilo que não é nem ser-em-si (essência, potência, o abstrato) nem ser-para-si (aparência, ato, o concreto). Porém é algo determinável, via diferenciação (pelo princípio da individuação de Aristóteles).

O PARTICULAR: O concreto, partícipe do geral, a aparência que o sujeito pode nomear como momento seu. O predicado determinado-com-referência-a. Poderíamos dizer que se houvesse a reflexão sobre a reflexão nesse processo, seria o Absoluto hegeliano (o ser-em-e-para si); mas aqui não há este desdobrar e retornar a si mesmo da consciência individual, então o processo é incompleto.

O INDIVIDUAL: A aparência pura (fenômeno, representação). O predicado indeterminado. Chamado, em outro tópico do livro, de categoria da substância. Como é mera ação cega, um nível abaixo da concretude, mal é conceituável.

Enfim, ‘memorizar’ essas sutilezas a nada leva, senão que o raciocínio filosófico e o pensamento lógico se formam naturalmente no filósofo. O acrescer o tempo todo homônimos só confunde a cabeça dos neófitos.

A segunda obra [a Lógica é dividida em vários livros desde a Antiguidade, mas hoje todas essas partes compõem um só livro] é a que versa sobre a interpretaçãoProvavelmente o que hoje ensina-se como RACIOCÍNIO LÓGICO propriamente dito. Proposições, verdade ou falsidade (inferência e juízo do conteúdo que se contradiz).

13. A RESSACA: FILOSOFIA PÓS-PLATÔNICA E PÓS-ARISTOTÉLICA

13.1 ESTOICISMO, EPICURISMO, CETICISMO & OUTRAS ESCOLAS PERIFÉRICAS DO PENSAMENTO: UMA VISÃO COMPARATIVA.

Com efeito, se os estóicos remontassem sobre o simples conceito de agir ao serviço do fim que é em-si e penetrassem no conhecimento do conteúdo, não necessitariam expressar isto como um sujeito. A própria conservação racional do homem é, para eles, a virtude.” A filosofia estóica é uma primeira desagregação, ou segunda, após Aristóteles, da ética teórico-prática platônica: é quem dita uma ética apenas prática, como o Ocidente já a entende, mas unilateral de acordo conosco, pois que necessita da “escola gêmea”, o epicurismo, para ser total, ser uma ética completa da virtude prática (que já é em si inferior ao platonismo).

A realidade moral consiste precisamente nisto, em ser; pois do mesmo modo que a natureza é um sistema permanente e ente, [ser, contido em si mesmo, ‘independente’ do homem] também o espiritual tem que ser isso: um mundo objetivo. Mas a esta realidade não chegaram os estóicos. E este pensamento poderia se expressar também assim: sua realidade moral é só o modo, [a forma] um ideal e não uma realidade” A.k.a. Platão, principalmente n’O Banquete e no Fédon. Afinal, quem nunca foi queimado dentro dum cavalo de madeira nem cortou a própria jugular a mando do imperador nem tomou de livre e espontânea vontade a cicuta após ser condenado na assembléia ateniense nada pode discorrer sobre essas 3 consumações (a morte ‘dolorosa’): não pode dizer que morrer queimado vivo é em si pior ou melhor do que infligir-se um corte ou tomar veneno, ou mesmo que ser banido de sua polis. O sábio resigna-se ao seu fado, e é só.

H. começa a especular, p.ex., se estaria vivendo estoicamente um estóico que declarasse que é irracional, em que pese de certa forma natural, respeitar a propriedade privada, para polemizar com os apologistas do ideal estóico (já que isso não parece ter importância alguma no estoicismo concreto ou histórico): “Tratar de justificar por meio de um fundamento semelhante conteúdo é, por conseguinte, confundir o conhecimento das coisas em detalhe com o conhecimento de toda a realidade; é a superficialidade do conhecimento que se nega a reconhecer algo por não reconhecê-lo desde tal ou qual ponto de vista ou em tal ou qual aspecto, e única e exclusivamente porque só indaga e conhece as razões imediatas, sem que possa saber se existem também outros aspectos e outras razões.”

sou eu, então, quem faz surgir estas razões sábias e boas. Não são as razões mesmas a coisa, o objetivo, senão que são obra de minha livre vontade, do meu capricho, algo de que me valho eu para justificar ante mim mesmo minhas nobres intenções” Para o sábio, isto faz sentido e é seu mundo – para a maioria massacrante da população, não.

A firmeza formal do espírito que se abstrai de tudo não nos sugere nenhuma evolução de princípios objetivos, mas apenas um sujeito que se mantém em pé nesta imutabilidade e nesta indiferença, não cega, porém querida; e nisto consiste a infinitude da consciência de si mesmo.” “A força da repulsa à existência é grande e a energia desta atitude negativa, sublime.” “Ao desaparecer a existência política e a realidade moral da Grécia, e quando mais tarde tampouco o império romano pôde encontrar satisfação no presente, este mundo se recolheu sobre si mesmo, buscando dentro de si o justo e moral que havia desaparecido já da vida geral exterior. § Platão proclamou o ideal de uma república, ou seja, de uma vida racional dos homens dentro do Estado, pois esta vigência do direito, moralidade e costume era, para ele, o fundamental, o que forma o lado da realidade do racional; e só mediante este estado racional do mundo podia, segundo ele, existir a harmonia do exterior com o interior, neste sentido concreto.” H. superestima a esperança platônica de que teríamos o Estado do sábio, que fosse um programa para seguir, ainda que não fosse uma utopia no sentido de Thomas More. Como o próprio H. determinou no lugar certo, tratava-se de uma “Esparta melhorada”, concebível, ao menos, no mundo grego, antes do ocaso completo de Atenas. Ainda assim, não há nada de histórico na República. É realmente muito mais um subterfúgio para imaginar onde e quando um autoeducado sábio poderia viver para sua máxima plenitude, ao lado de outros raros como ele. A não ser que projetemos para um futuro indefinido essa realização social. De toda forma, Hegel apenas repisa a grandeza de Platão com sua escrita estrambótica (é estrambótico dizer estrambótico), i.e., empregando seus jargões “lado da realidade racional”, “estado racional do mundo”, “sentido concreto”, etc., hegelianizando o platonismo (enfeiando o belo).

É aquela anuência com que nos encontrávamos nos estóicos como o assentimento que o pensamento dava a um conteúdo; contudo, o pensamento que reconhece a coisa como algo seu e o incorpora a si não passa, nos estóicos, de algo puramente formal. Em Epicuro, ao contrário, também a unidade da representação do objeto consigo mesma se acha presente na consciência como uma recordação, mas esta recordação tem como ponto de partida o sensível; a imagem, a representação, é o assentimento prestado a uma sensação.” “O nome é certamente algo geral, pertence ao pensamento, faz do múltiplo uma coisa simples, é inclusive o mais ideal que cabe conceber: porém de tal modo que sua significação e seu conteúdo são o sensível e não devem valer como este algo simples, mas como o sensível. Esta coisa simples nos conduz não ao saber, mas à opinião.” “A opinião é, com efeito, uma representação como aplicação da opinião-como-algo-pressuposto, isto é, uma aplicação do tipo a um objeto presente, que se investiga a fim de ver se a representação do objeto coincide ou não com o objeto.” Opinião como representação fundamentada. Isto é: representação pura é apresentação. Opinião é que é re-presentação. Que são as estrelas, o firmamento? Uma apresentação à qual damos fé em virtude de nossas representações terrenas. Uma quase-opinião.

Tais são os pontos fundamentais da canônica de Epicuro, a pauta geral para a verdade; é tão simples que não pode haver nada mais simples, mas é também muito abstrata. São representações psicológicas correntes, justas em seu conjunto, embora completamente superficiais; é simplesmente a mecânica da representação do ponto de vista das primeiras manifestações da percepção.” Acontece que a filosofia voltará a essa ‘simplicidade’ depois da derrocada do Idealismo universalista.

Hoje até os céticos falam dos fatos da consciência; está claro que o que eles nos dizem não vai, tampouco, além da canônica epicurista que acabamos de expor.” Céticos: menos céticos que os cínicos; cínicos: mais cínicos que os céticos. O cinicismo (para diferenciar de cinismo, adjetivo corrente no nosso idioma e que quer dizer agora outra coisa) foi historicamente bastante anterior, em parte contemporâneo ao sofismo e a Sócrates, em parte apenas herdeiro de ambos. Não tem relevância para o percurso da Primeira filosofia, mas apenas certa repercussão biográfico-historiográfica, com relatos pitorescos de algumas personalidades como Diógenes, o pensador sarcástico ateniense que vivia, de uso, num tonel, e apenas de posse do sumamente necessário. Por essa razão (não é de absorção obrigatória para o entendimento da mais alta Filosofia), a escola cínica não consta deste Curso (até consta, mas não no meu resumo das aulas de H.).

Enquanto que Epicuro considera as coisas, segundo acabamos de ver, como repletas da multiplicidade dos átomos, temos que o pensamento é o outro momento além dos átomos, o vazio, os poros, o que permite erguer um dique diante desta enxurrada de átomos.” “apartamos a vista de algo, ou seja, interrompemos precisamente este fluxo.” Princípio da individuação e coerência – ou viver tornar-se-ia impossível. Um filósofo do momento presente.

Os átomos, enquanto átomos, devem permanecer indeterminados; mas os atomistas se viram arrastados à inconseqüência de lhes atribuir qualidades” Surpreendentemente contemporâneo, considerando os desenvolvimentos posteriores da Química. Mas o que interessa para nós é: o epicurismo é uma espécie de ‘correção de rota’ dos filósofos pré-socráticos da escola atomista.

A birra-mor de H. com o epicurismo é que seu sistema não pode ser teleologizado! “conseqüente com seus atos, Epicuro se declara imediatamente contrário à existência de um fim último geral do universo e de toda relação de fim em geral, como, p.ex., da finalidade do orgânico em si mesmo, assim como também é contra as representações teleológicas da sabedoria de um criador do universo, de seu governo do mundo, etc.;¹ e nisto sua atitude não pode ser mais lógica consigo mesma, já que em sua concepção resta eliminada toda unidade, qualquer que seja o modo como esta se represente, seja como fim da natureza nela mesma, seja como um fim que, ainda que residindo noutra coisa, faz-se valer na natureza; nos estóicos, em compensação, encontramos este ponto de vista teleológico e, ademais, bem-desenvolvido.”

¹ Agora entendo melhor a acusação de ateísmo e heresia contra Epicuro! (Não lançada por H., mas pelos próprios antigos.)

a partir do conhecido podemos deduzir o desconhecido.” Que é o homem?, teria perguntado Drácula. E ele mesmo respondeu, sem aguardar seu estupefato interlocutor, mero humano que não filosofava: É alguém incapaz de seguir Hegel! É alguém que prefere seguir pelas sendas de Epicuro e Kant para conhecer a natureza e aquilo que excede à natureza! E Drácula estava correto em seu juízo sobrenatural, i.e., de semideus que refletia sobre essas coisas…

Grosso modo, podemos ainda dizer: Hegel é aquele para quem o desconhecido é aquilo que podemos deduzir do conhecido – nenhum descalabro maior!

é, em realidade, o mesmo princípio que segue regendo hoje em dia na ciência natural comum e corrente.” Só bastaria, aliás, mais tato aos físicos quânticos: se não imaginassem demais, deduziriam coisas mais fidedignas e modestas, longe de buracos de minhoca e que-tais…

Chega-se à noção de representações, leis e forças gerais, tais como a eletricidade e o magnetismo, as quais se aplicam depois aos objetos e atividades não-suscetíveis de ser diretamente percebidas por nós. Assim, p.ex., sabemos da existência dos nervos e de sua interdependência em relação ao cérebro; e dizemos que as sensações, etc., se transmitem desde a ponta do dedo, suponhamos, até o cérebro mesmo. (…) A anatomia pode nos revelar os nervos, mas não seu modo de atuar; pois bem, não há nada senão se representar tal modo por analogia com outros fenômenos, p.ex. com as vibrações de uma corda tensa, equiparando às cordas vibráteis as vibrações dos nervos até chegar aos centros cerebrais. Ou como no conhecido fenômeno que se observa, sobretudo, numa série de bolas de bilhar colocadas muito juntas umas das outras, em que a última da fila avança quando empurra-se a primeira, enquanto que as intermediárias, cada uma das quais impulsa aquela que segue, não se movem, na aparência; nada resta, pois, senão imaginar-se os nervos como formados por bolinhas pequeníssimas, invisíveis ainda que através das mais poderosas lentes de aumento, a última destas bolas aquela que salta ao contato das anteriores e toca (movimenta) a alma. Analogamente, a luz concebe-se como uma série de fios ou raios, como vibrações do éter ou como bolinhas etéreas que se chocam entre si. [!]” Espantosamente, H. sabia muito bem no que o epicurismo repercutia em nossa epistemologia atual – mas decidia jogar tudo no lixo, enquanto se trata de hegelianismo decantado de ‘impurezas indesejáveis’. Se soubeste descrever a luz antes do séc. XX, este é um sinal de que acertaste!

Advirta-se que, nesta classe de explicações, Epicuro é expressamente bem liberal, eqüitativo e tolerante, posto que diz que as diversas representações que se formem em nós com relação aos objetos sensíveis – todas elas, por demasiadas que sejam – podem ser aplicadas ao que não podemos observar diretamente por nós mesmos; que não se pode afirmar um só modo como o acertado, mas que se pode chegar ao resultado que se busca por diversos caminhos.”

O raio pode ser explicado por meio de toda uma série de possíveis representações, p.ex. a da fricção e colisão das nuvens, que produzem a figuração do fogo e provocam o raio.” “É exatamente o mesmo método a que recorrem nossos físicos, ainda hoje, a fim de explicar como se produz a chispa elétrica nas nuvens, ao se chocarem. Com efeito, como tanto no raio como eletricidade se observa uma fagulha, toma-se este elemento comum como base para chegar a conclusões acerca da analogia entre ambos os fenômenos, afirmando-se que também o raio é um fenômeno elétrico. Ora, as nuvens não são corpos duros, e a umidade, longe de produzir eletricidade, na verdade dispersa-a; por isso estas conversas fiadas dos físicos de hoje são em realidade tão vazias como a representação de Epicuro.” Tá bom, Hegel, doutor em física fenomenológica (física do mundo experimental)!

A filosofia epicurista jogou pela janela todas aquelas crenças supersticiosas em torno do vôo das aves num sentido ou outro, da significação que podia ter a lebre cruzar o caminho, da inspeção das entranhas dos animais, da alegria ou tristeza das galinhas, [!] etc.” De novo apenas reprise de Platão.

Sendo assim, não existe qualquer diferença essencial entre o tipo de vida do estóico e do verdadeiro epicurista que se ajuste às normas e aos preceitos de seu mestre. § Todavia, ainda que à 1ª vista pareça que já os cirenaicos [escola periférica de filosofia] proclamavam o mesmo princípio moral que mais tarde haviam de preconizar os epicúreos, Diógenes Laércio (X, 139, 136-137) se encarrega de assinalar a diferença nos seguintes termos:¹ os cirenaicos se propunham como fim antes o prazer como algo concreto, ao passo que Epicuro predica-o como um meio, afirmando como prazer a ausência da dor, sem admitir nenhum estado intermediário.” Reflexões pessoais (recomendo a leitura apenas para quem já se familiarizou com Nietzsche): Talvez Nietzsche tenha compreendido mal o epicurismo e o estoicismo. Bom, não é impossível: julgo que compreendeu mal Parmênides, ao não alçá-lo à altura de um Heráclito… Ausência de dor não é um critério nobre, supra-hominídeo. Nietzsche ataca os estóicos e é claramente favorável ao epicurismo. No entanto, como enaltece o valor da dor como escape da polêmica hedonismo vs. ascetismo, procurando pensar além do binômio estéril e superficial dor-prazer, cabe aqui assinalar, se H. está correto neste ponto (e creio que esteja, que estoicismo e epicurismo são os dois lados de uma mesma moeda), que os epicuristas não haviam conseguido, ainda, escapar desse dilema, sobrevalorizando a dor em sua ética.

¹ Finalmente uma contribuição conceitual de Laércio! Diógenes Laércio, que é um historiador da filosofia, e não filósofo, é infelizmente um mau historiador. Às vezes, em termos de filosofia antiga, torna-se inevitável consultá-lo dada a falta de fontes – mas eu não recomendo sua leitura completa, muito menos de maneira inocente; é preciso sempre estar desconfiado da veracidade de suas afirmações. Ele se enquadra mais no que o próprio Hegel chamaria de “fofoca filosófica”, contando anedotas e curiosidades sobre a vida dos grandes pensadores. É difícil vê-lo falando algo relevante sobre os conceitos filosóficos desses mesmos personagens.

Além disso, os cirenaicos consideravam as dores do corpo como piores do que as da alma, ao passo que o ponto de vista de Epicuro era o oposto.” Dor física é bom demais – vocês já experimentaram correr até a exaustão?!

Epicuro quer que o homem se forme uma noção exata da morte, para que esta não turve sua tranqüilidade. (…) ‘Em seguida, acostuma-te a pensar que a morte não deve nos preocupar o mínimo que seja, pois todo o bom e o mau reside nas sensações, e a morte é o despojo de toda sensação. Daí que o pensamento certeiro de que a morte não nos afeta faça do caráter mortal da vida uma fonte de gozo, já que este pensamento nos aparta da infinitude e da ânsia da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem chegou verdadeiramente a conhecer que o não-viver não tem nada de temível.’Famoso trecho de Epicuro que, creio, Sartre citou n’O Ser e o Nada e eu cheguei a anotar num papelito que guardava na carteira, coisa de 10 anos atrás – até as chuvas brasilienses esfarelarem o pobre material!

TODOS FILHOS DE GÓRGIAS: “Há que se distinguir entre o ceticismo antigo e o novo ceticismo; a nós só nos interessa o primeiro: só ele apresenta uma natureza verdadeira e profunda, uma vez que o novo está mais próximo de ser um epicurismo. [?] Deste modo, nos últimos tempos, Schulze vem predicando em Göttingen seu ceticismo e escreveu um livro intitulado Enesidemo, com o intuito de comparar-se com este cético [este obscuro Enesidemo!], interpretando, em outras obras, o ceticismo em contraste com as doutrinas de Leibniz e Kant.” “Este e outros autores tomam como base de sua concepção a crença de que se deve ter por verdade o ser sensível, o que a consciência sensível nos entrega, duvidando, em troca, de tudo o mais. O que opinaríamos seria o último, o único importante, os fatos da consciência.” Algo me diz que estamos todos em Schulze neste momento da humanidade… Não conheço Schulze nem Enesidemo, detesto desapontá-los!

O ceticismo moderno é a subjetividade e a vaidade da consciência, evidentemente insuperável, claro que não nos terrenos da ciência e da verdade, mas somente no terreno da própria consciência, ou seja, no da subjetividade.” Não sejais cético; sede ético!

CONSUMISMO E CETICISMO ABSOLUTO: Falta de ética

O consumismo é o ceticismo individual elevado a modo de produção. Mero deixar-passar hesitante robótico. Hiato indefinido de cultura e humanidade. Recesso da História. Se o momento pode ser procrastinado por meio de simulações, há de haver uma pane da engrenagem de simulação, da matriz simulacional. Do motor que emite todos os simulacros, a simulação das simulações. Há de vir, advirá, porém são séculos de filme mudo enquanto isso…

Sexto Empírico viveu e ensinou aproximadamente em meados do século II d.C.. Suas obras se dividem em 2 partes: 1) Suas Pyrrhoniae Hypotyposes, em 3 livros, oferecem-nos, de certo modo, uma exposição geral do ceticismo em seu conjunto; 2) De seus livros Adversus Mathematicos —isto é, contra a ciência em geral e especialmente contra os geômetras, aritméticos, gramáticos, músicos, lógicos, físicos e éticos—, que constituem 11 livros no total, somente 6 são dirigidos de fato contra os matemáticos, já que os 5 restantes se dedicam a polemizar contra os filósofos.” [!]

Quem busca um objeto tem: ou que encontrá-lo; ou que negar que ele possa ser encontrado; ou seguir buscando-o. Outro tanto acontece com as investigações filosóficas: uns afirmam haver encontrado o verdadeiro, outros negam que seja possível chegar a captá-lo; os terceiros, por fim, perseveram em sua busca. Os primeiros, tais como Aristóteles, Epicuro, os estóicos e outros, são chamados dogmáticos; quem afirma a impossibilidade de chegar a captar a verdade são os acadêmicos [platônicos]; os céticos seguem na busca. Existem, pois, 3 filosofias: a dogmática, a acadêmica e a cética.” Neste conceito Platão é o rei dos céticos, e com Razão! Mas falando sério: é genialmente estúpido, ou estupidamente genial, já que Sexto Empírico inverte exatamente sua própria escola (o ceticismo não deixa de ser um dogma) com o Platonismo: a Idéia entendida corretamente (anti-hegelianamente) é a busca eterna pela sabedoria. Não estou inventando, a menos que queiram me dizer que o dito no Banquete é mera figura de retórica e que fui ludibriado: levo essa passagem ao pé da letra. Quanto ao cético, é aquele que já desistiu de encontrar a coisa, mesmo quando finge para si mesmo que se empenha em procurá-la!

O princípio eficiente do ceticismo é a esperança da imperturbabilidade.” É como dar-se por vencedor hoje de todas as tribulações do amanhã. O amanhã já foi, mas quê importa, que é que tem de mais, ser um perdedor?!? Confessar-se nada mais que um fodido é o princípio (pun intended) da vitória (Sócrates, alguém?). Tens que ter um prato de comida preferido, uma banda favorita e, claro, hobbies, ou serás só um vento mau!

OS 5 TROPOS DOS CÉTICOS (DOGMAS QUE, UMA VEZ REFUTADOS NA PRÁTICA, E NÃO NA RETÓRICA, CURAM O FILÓSOFO DO MAL DO CÉTICO, DIGO, DO MAL DO SÉCULO!)

1. As opiniões divergem. Não as ‘opiniões’ (sensações) animais nem as opiniões do simples ‘homem’. Mas as opiniões dos sábios! (rever 2.2) O argumento poderia ser resumido da forma seguinte: Se fosse possível um consenso filosófico e uma filosofia universal, este consenso e esta universalidade já teriam sido alcançados. Implicações, se não se refuta o ponto: Hegel tenta a Síntese Suprema – falha; Nietzsche, a Escola Crítica & os pós-modernos insistem em acusar o erro. Ainda estamos recolhendo os cacos e estilhaços em que a Filosofia Continental se partiu então. De fato só o ceticismo chega a sua meta em cada geração. Se muito se diz por aí que “o século XX ainda não terminou”, eu poderia levar ao extremo essa noção dizendo que, se Sexto Empírico segue atual, “o século II ainda não terminou”! O verdadeiro filósofo deve viver esta verdade (este tropo), mas seguir buscando a sua verdade, que, se for verdadeira, será universal… Deve aprender a lidar com esta contradição interna.

2. O axioma da queda no progresso (ou recesso) infinito. Cada afirmação necessita um princípio ou axioma; cada princípio ou axioma necessita de uma nova fundação; que necessita de um novo dogma assentador, etc. Um sério inimigo do Idealismo Romântico; mas Kant, p.ex., parece nada sofrer com este tipo de refutação! A cura é o a priori. E o a priori kantiano leva de volta à teoria das reminiscências ou metempsicose, que muitos atribuem, originalmente, ao hinduísmo. Podemos fazer 2 analogias a respeito do axioma da progressão/regressão infinita: a criança que sempre perguntará “por quê?” após qualquer resposta a um outro por quê; na própria mitologia hindu, quando se diz que o mundo é um disco sustentado por um elefante que jaz sobre o dorso de uma tartaruga, que faz as vezes de Átlas… Já se vê onde (não) quero chegar. Interessantíssimo: descobri que há pelo menos 3 versões independentes do mesmo mito com pequenas variações (o da tartaruga-suporte): a indiana, a chinesa e a de aborígenes americanos.

3. O tropo que eu chamo de “Zagallo” (o patriota fake): Nenhum juiz é isento para julgar o que quer que seja, pois só ocupa um lugar relativo, e portanto errado de acordo com todo outro juiz. Com efeito, é um argumento muito sagaz contra patriotas de última ocasião e/ou numerólogos maníacos (Olavos)! Falando mais sério, significa que nem mesmo se se admitisse em geral que Platão é ‘o filósofo’ e encontrara a Verdade, por exemplo, nem mesmo isto é aceito pelos céticos.

4. Este argumento é engenhoso porque parece uma refutação cética contra os próprios argumentos 1-2-3: Existe sim este Absoluto do qual derivam todas as causas. Ex: a matemática de Euclides. Ou seja, é possível aceitar um princípio sem prova. Mas o hic salta (o momento da verdade ou, neste caso, da falta de verdade) é: o cético se beneficiaria da mesma regra. Significa parar de remar e aceitar que tudo é água (mais uma vez atestando que são os céticos que “param de procurar”, não os platônicos!). A suprema resignação. A opinião do sábio aplanada, nivelada à opinião vulgar. (Argumento engenhoso, que já denota, porém, o desespero do filósofo cético.)

5. Prova circular. Variante do 2º tropo, mas em que em vez de derivar-se de axioma em axioma em linha reta ao infinito, deriva-se em um círculo vicioso. Situação do viajante no tempo e do destino inalterável: tudo é a causa de tudo, nada é a causa de nada. A e B se sobredeterminam. Aporia. É um infinito-no-finito. A solução parece ser a mais fácil de todas: a correta compreensão da imanência (compreensão do mundo como aparências auto-suficientes, contidas em si mesmas, consigo mesmas como fundamento primeiro e fim último) leva à consideração desta derivação axiomática não como um círculo vicioso, mas como um círculo virtuoso. Autoevidência da verdade.

Esses 5 pontos seriam os Elementos ou a Bíblia dos Céticos. Atemporais e independentes de demonstrações no mundo fenomênico.

De modo que os adversários de Sexto Empírico se vêem forçosamente na situação do ladrão que perdeu e foi pego já antes de empreender sua fuga, pois não conseguem abstrair até que ponto vai a malícia e a antecipação do daimon (gênio) de seu rival, o captor:

Supondo que o ladrão antecipasse que, na única via que pode usar para fazer a travessia, o amontoado de moitas estranhamente situado sobre a grama ou a estrada na verdade ocultam um insidioso alçapão, e pule para a esquerda ou para a direita, rente ao muro, para tentar atravessar pelo estreito umbral que lhe resta, eis que descobre que o umbral era a verdadeira armadilha, pois aciona uma corrente que o prende ou então uma bigorna que cai do céu em sua cabeça; não que a moita realmente não cobrisse um buraco, mas ela servia apenas para dar confiança ao suposto astuto ladrão e forçá-lo ao xeque-mate (distração antecipada). Uma amarelinha maldosa em que o jogador já perdeu antes de começar.

Como falei de Kant como panacéia ao 2º tropo, H. também o considera na continuidade do texto (aula): “Para o criticismo, que não conhece em-si algum, nada absoluto, todo saber sobre o que é em-si como tal é dogmatismo, quando em realidade é o mais furioso dos dogmatismos, enquanto assegura que o Eu, a unidade da consciência de si mesmo, oposta ao ser, é em-e-para-si e que à margem dela está o em-si, como 2 fatores que não podem, em absoluto, coincidir.” O engraçado é que Hegel vê em Kant tudo o que nós não vemos: uma repulsão extrema ao Absoluto. Quando o que mais se critica na epistemologia kantiana é seguir se referindo ao que não existe como se existisse (este em-si divorciado da realidade fenomênica)! Ou seja: Hegel tacha Kant de radical; nós de carola! Ainda era possível ir além, e a filosofia pós-hegeliana mostrou que a solução era voltar a Kant para enfim superá-lo. De certo modo a Filosofia Continental sempre pode ser caracterizada como a oposição polar de 2 figuras, desde Platão-Aristóteles a várias duplas mais recentes, Marx-Nietzsche, por exemplo: dois sucessores-negadores. Marx continua o historicismo hegeliano subvertendo-o; Nietzsche, acerbo crítico da moral (cristã, ocidental), na verdade é um salvador da moral (no sentido mais universal) e da noção de valor, destarte tributário do Kantismo…

* * *

Honra ao ceticismo o haver chegado a adquirir esta consciência acerca do negativo, concebendo as formas do negativo deste modo determinado.”

Se, não obstante, o ceticismo se atreve a se enfrentar com este algo propriamente especulativo, não poderá atentar contra ele em nada; seu procedimento contra o racional consiste, pois, em geral, em fazer dele algo determinado, nele introduzindo uma determinação finita do pensamento ou um conceito de relação ao qual se atém, mas que não reside, muito menos, no infinito, argumentando logo contra ele; quer dizer, consiste em concebê-lo de um modo falso, assim o refutando. Ou antes diríamos que arma ele mesmo ao infinito com as unhas com que há de arranhá-lo.” The dog that bites the hand that feeds. O cachorro que morde a mão que alimenta.

Hoje até o especulativo se converte em algo tosco; pode alguém ater-se à palavra e, no entanto, aparece invertida a coisa, ao despojar-se o especulativo da identidade do determinado.” Convenhamos que não teria graça refutar Max Stirner pela lógica.

Ora, o saber do especulativo requer, além da disjuntiva, um terceiro termo; é um tanto este como o outro e um nem este nem o outro.”

Um todo, ou o Um, não é só Um, embora não seja dois. É que o Um é a negação de si. Neste sentido é que H. prefacia sua história com a estranha terminologia “o Um (se des)dobra”, a consciência, o filosofar, se duplica sobre si mesmo(a). O todo é sempre o todo em relação consigo. A consciência é sempre a consciência de si mesma (consciência x consciência, onde ‘x’ é o terceiro termo ou a ‘relação’ – relação-com-a-consciência é uma contradição ou insuficiência, pois só pode haver relação-com-a-consciência-e-a-consciência, desdobramento ensimesmado). Toda consciência necessariamente se nega, porém necessariamente apenas para se reafirmar ao fim do processo. “O compreender-se a si mesma da razão é precisamente o modo como o todo compreende todas as suas partes, quando se o enfoca em seu verdadeiro sentido especulativo, e só neste sentido pode-se falar aqui desta relação.” “O ceticismo pertence, portanto, ao período de decadência da filosofia e do mundo.”

13.2 IDADE DAS TREVAS: DO NEOPLATONISMO À ESCOLÁSTICA OU O MILÊNIO PERDIDO

FOSSILIZAÇÃO DO MUNDO-VERDADE CUJO AUGE SE DEU EM PLATÃO: “O ponto de vista geral da filosofia neoplatônica ou alexandrina consiste, portanto, em se criar sobre a base da perda do universo que seja, dentro de sua exterioridade, um mundo interior e, portanto, um mundo reconciliado; e este mundo é o da espiritualidade, que aqui começa.”

A mesma liberdade, bem-aventurança, imperturbabilidade que perseguiam como fim o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo segue sendo agora, é verdade, uma aspiração para o sujeito; mas facilitadas essencialmente pela orientação em direção a Deus, do interesse pelo verdadeiro em-e-para-si, e não da evasão do objetivo” Eis o maior erro: pressupor que as massas podem cumprir esse desígnio sábio imanente!

É falso o que sói dizer-se, que não é necessário conhecer Deus para conceber esta relação. Porquanto Deus é o primeiro, é Ele quem determina a reação; destarte, a fim de chegar a saber o quê é o verdadeiro da relação é necessário conhecer Deus.” Supondo que isso estivesse correto, também estaria correto que matar Deus é igualmente necessário ao final do processo…

A palavra tem sido considerada sempre como uma manifestação de Deus, porque não é corporal; enquanto som, desaparece imediatamente; sua existência é, pois, imaterial.” A música e a palavra como símiles eternos de Hegel para a transitoriedade e o efêmero, como a chave para entender, ao menos, sua Estética.

em realidade, quando estabelecemos o ser, o nada do ser é o pensamento, algo muito positivo.” Por mais boba, pedestre e trivial que soe, esta frase é fundamental para compreender H.!

Proclo marca a culminação da filosofia neoplatônica; ora, esta filosofia segue se manifestando até uma época muito tardia, inclusive através de toda a Idade Média.” Período nulo em termos de filosofia. Não perder nenhum segundo com estes autores!

Um paradoxo: Hegel chama os gregos de incompletos e ingênuos, mas a primeira parte de suas aulas, módulo 1 de 3, dedicado ao mundo antigo, ocupa 75% de sua obra… Agora a marcha do Espírito mal tem o que fazer…

Dessa forma, a Igreja se acha governada pelo Espírito para poder se ater às determinações da idéia, mas sempre de um modo histórico. Tal é a filosofia dos Padres da Igreja” Em outras palavras: os Padres da Igreja estavam certos até serem abandonados pelo Espírito, que se alojou em Luteros e Calvinos! Pra onde Ele foi? Onde estará agora?!

A maior obra do período escolástico (que alguns subdividem em patrística-escolástica, sendo esta pertencente à 1ª parte), Cidade de Deus, de Sto. Agostinho, não consta das palestras hegelianas…

14. REALISMO X IDEALISMO: POR TRÁS DAS CORTINAS, NACIONALISMO.

H. deixa claro – realismo e idealismo não são 2 rios ou 2 vias de mão única. Não há simetria. O realismo certamente só pode confluir num sentido – do particular (dados imediatos, que não deixam por isso de ser mentais), pois são fenômenos, para AS IDÉIAS; e ainda assim não A IDÉIA, isto é, a mais elevada de todas, o ABSOLUTO. Para H., a investigação empírica só funciona para descobrir leis da física ou uma ou outra lei política ou princípio ou axioma do Direito. Mas o idealismo conflui nos 2 sentidos, é muito mais perfeito. Pelo pensamento (o Único) se acessam as coisas; pelas coisas – o particular – se chega ao geral, ao pensamento do absoluto (A IDÉIA). Em síntese, a experiência é limitada, embora seja humana e, de qualquer forma, melhor do que a abstração vácua (escolástica). Veja que há “geral” e “geral” em H.: gerais e gerais; uns são apenas conceitos (o limite do realismo), outros são apenas uma fase intermediária do idealismo. O geral está sempre em contraposição ao determinado, que é o fenômeno puro, poder-se-ia dizer, carente da generalização sistemática – mas tem-se de perguntar: em qual contexto? De qual geral se está falando? Sempre que se ler H. isto tem sua importância.

I – As coisas são sempre meio, nunca fins.

II – Os fins, se determinados pela experiência, são apenas meios para os fins absolutos ideais.

E contudo ambas as direções vêm convergir num ponto comum, já que também a experiência, por sua vez, se esforça por derivar das observações princípios e leis gerais; já o pensamento, partindo do geral abstrato, necessita se dar um conteúdo determinado, por onde o apriorístico e o aposteriorístico não formem 2 campos absolutamente deslindados. Na França, impôs-se preferencialmente o geral abstrato; na Inglaterra prevaleceu, na contramão, o geral, o critério da experiência, que ainda hoje goza de grande recomendação naquele país; a Alemanha, em compensação, tomou como ponto de partida a idéia concreta, o interior do homem, pleno de ânimo e espírito.” Nonsense. Hegel quer dizer que em seu país se está no melhor dos mundos; que em sua filosofia se está no verdadeiro. No mais verdadeiro que os outros verdadeiros! O difícil para Hegel é ir além do a priori kantiano, que é um tipo muito especial de a priori, mais elevado que o a priori francês, se podemos assim dizer. Aqui não é o lugar para tratar do criticismo kantiano, que é, efetivamente, a síntese correta, e antes mesmo de Hegel aparecer. Seja como for, Hegel tem de recorrer a um suposto Espírito do Mundo para pretender estar um grau acima de Kant em objetividade. Uma objetividade divina (em-si!)! Alega que não só a representação mental, mas o mundo como matéria viva, o em-si kantiano, não-partícipe da experiência, é sinônimo com sua representação mental, mas se, e somente se, se souber “rastreá-lo”, “sentir seu cheiro”, que é o que ele faz em seu Historicismo. Isso, no entanto, é o vulgar e depreciativo de sua filosofia. O em-si só pode ser em-si enquanto for inessencial no sentido hegeliano, i.e., o que se chama a partir de Schopenhauer de vontade, e que a terminologia existencialista abandonará, mas continuará usando implicitamente. O que é inessencial não tem “agenda própria”, não tem fim em vista, teleologia, apenas é, com-o-homem.

15. BACON

Ainda que não o soubesse nem se desse conta, a filosofia de Bacon empurrava a essa confusão quanto ao conteúdo. Pois ainda que em rigor rechaçasse a dedução de um modo geral e só admitisse as conclusões indutivas, não resta dúvida de que ele mesmo incorre, inconscientemente, em deduções. Em parte, todos aqueles heróis da experiência que, seguindo Bacon, puseram em prática seus postulados e que crêem chegar ao conhecimento puro da coisa pela via da observação, o experimento e a experiência, o que fazem é proceder sem nenhuma classe de conclusões nem conceitos, compreendendo e concluindo tanto pior quanto mais crêem não ter nada a ver com os conceitos e, ademais, não remontam nunca o plano da indução até o conhecimento imanente e verdadeiro. Portanto, quando Bacon contrapõe a indução ao silogismo, formula uma contraposição puramente formal; toda indução é, ao mesmo tempo, uma dedução, coisa que já sabia também Aristóteles. Toda observação é ideológica. Mas é possível construir novas ideologias mediante observações. Isso se conforma ao que eu havia afirmado parodicamente sobre criarmos o neologismo endução (12.1).

16. DESCARTES

A 2ª fase é a da conciliação metafísica; e é realmente aqui onde, com Descartes, começa a filosofia da época moderna enquanto pensamento abstrato.” Descartes resumido como SUSPENSÃO ACEITAÇÃO. Pseudo-suspensão, já que depois todo o fenomênico é automaticamente aceito, pois provém de Deus em última instância, i.e., provém imediatamente de mim, da consciência pensante, e Deus não pode dotar meu intelecto de um erro ou de uma fraude metafísica. E no entanto isto já é suficiente, conforme H., para se adentrar a modernidade: “E assim se apresenta o problema de como é ou pode ser o pensamento idêntico ao objetivo. Com isso, destaca-se por si mesmo e se converte em objeto o interior, o que serve de base a esta metafísica; estamos já plenamente dentro da filosofia moderna.” “agora os pensadores vivem em condições completamente distintas daquelas em que viveram os filósofos dos tempos antigos.”

Para que haja um silogismo tem de haver 3 termos; aqui, concretamente, teria que haver um 3º que servisse de mediador, de elo entre o pensar e o ser; mas este 3º termo não existe. [13.1] O «logo» ou «portanto» que enlaça ambos os lados não é o «logo» ou o «portanto» de um silogismo; a conexão entre o ser e o pensar se estabelece somente de um modo imediato. Esta certeza é, desta forma, o prius; todas as demais proposições vêm depois.” penso existo – um pleonasmo, redundância, tautologia, auto-referência e nada mais. Não no sentido de deboche do que é. A auto-referência por excelência, além do mais. O “ponto zero” do plano cartesiano, de onde parte todo o pensamento metafísico moderno.

no ser não há de representar-se, muito menos, um conteúdo concreto; daí que é a mesma identidade imediata a que constitui também o pensamento. (…) a imediatidade é uma determinação unilateral; o pensamento não contém esta determinação somente, senão também a de servir de mediador consigo mesmo: a imediatidade existe precisamente pelo fato de que o mediar é, simultaneamente, suspender [erguer e sustar] a mediação.” eu penso eu existo; (eu) (eu); je = je, eu = eu; a rigor, não existe sequer o “”, elemento relacional, que designa ou conota MEDIAÇÃO, já que é uma Imediação. O (je)² é a própria mediação. pensexisto. pensamentosser. É o principio de individuação de Aristóteles em seu grau máximo formulado da forma mais sintética. Esta imediação não contempla, ainda, o inconsciente enquanto talo ser no aqui e agora, mas não o Ser total).

como com freqüência sucede em sonhos, posso crer que vejo ou que me desloco, apesar de que sequer abra meus olhos nem me mova do lugar” A rigor, pensa-se no sonho, o que enfraquece o discurso cartesiano. Ainda que em simulacro, há uma certeza na representação onírica de que se pensa, pois apesar de não ser em vigília o ato é efetivamente levado a cabo, idêntico ao pensar.

O 3º é, assim, o trânsito desta certeza rumo à verdade, ao determinado; também este trânsito apresenta em Descartes um caráter simplista, e com isso se oferece a nossa consideração, pela 1ª vez, a metafísica cartesiana.” “Ora, a verdade de todo saber descansa sobre a prova da existência de Deus” Podemos resumir as meditações cartesianas como uma tentativa mal-sucedida (mas corajosa) de resgatar a alegoria da caverna de Platão; obviamente, o que este magnânimo pensador consegue de modo completo numa fábula autocontida, Descarte mal e mal consegue em uma frase, ou seja, não consegue sustentar por mais do que 3 palavras, com o mesmo poder, o tipo de raciocínio-em-direção-à-essência. Não é culpa do francês: o fato de haver um Deus monoteísta a que se deve remeter todos os achados atrapalha bastante…

A suprema ironia é que o que prova ontologicamente o eu e a outridade neste caso é o princípio <NIHIL EX NIHILO> (nada deriva do nada), quando na era cristã, justamente, tudo depende desse motto. Ter-se-ia que imaginar uma sociedade (a Atenas clássica?) que não crê em genealogia ou escatologia (o contrário dos modernos) e que fundamentasse sua filosofia no Nada (o contrário dos modernos) para se dar conta de tamanho paradoxo!

17. SPINOZA

Muito encontrado em outras grafias, como Espinosa.

«Deus é causa imanente, mas não transitiva (transiens) de todas as coisas», quer dizer, externa. Sua essência e sua existência são o mesmo, a saber: a verdade. Uma coisa que fôra determinada a fazer algo, fôra necessariamente determinada por Deus, já que Deus é a causa: e sendo esse seu destino, não pode carecer de determinação. Na natureza não há nada contingente. A vontade não é uma causa livre, senão exclusivamente necessária, exclusivamente um modo; isto quer dizer que se acha determinado por outro. Deus não atua com vistas a causas finais (sub ratione boni). Quem o afirma parece estatuir, ao lado de Deus, algo que não depende de Deus e sem relação com os desígnios de Deus, como se fôra um fim. Concebido assim o problema, Deus não seria uma causa livre, mas achar-se-ia submetido ao fatal. E igualmente insustentável é querer submeter tudo à arbitrariedade, isto é, a uma vontade indiferente de Deus.” Sp., Éticaos trechos em vermelho são muito importantes, pois mostram que Spinoza não está submetido a nenhuma teleologia, i.e., historicismo, hegelianismo… Obviamente ele é muito criticado por H. devido a essa escolha filosófica.

O desenvolvimento de seu pensamento é extraordinariamente simples ou, melhor dizendo, não é desenvolvimento algum; arranca diretamente do espírito.” Algo mais específico eu deixarei para evidenciar quando ler a Ética em si, por isso não sublinhei de verde, embora desse vontade! Quem sabe Spinoza não figurará num novo capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS?

Spinoza afirma que o que se chama universo não existe de modo algum, pois é só uma forma de Deus e não algo em-e-para-si. O universo não possui uma realidade verdadeira; o todo se lança ao abismo de uma identidade única. Nada é, portanto, na realidade finita: esta não possui verdade alguma; para Spinoza, somente Deus é.” H. chama isso de acosmismo (meu deus, quanta expressão feia nesse trabalho!).

Quem pinta nosso filósofo com cores tão negras esquece de manter Deus de pé, valorizando em troca o finito, o temporal; e esfrega na cara de Spinoza sua própria anulação e a do mundo.” Porque ele disse que tudo era vaidade, em termos filosóficos, aí está! Todo filósofo é odiado por isso pelos filosofastros…

O sistema spinozista é o do panteísmo e o do monoteísmo absolutos, elevados ao plano do pensamento. O spninozismo dista muito, então, de ser um ateísmo no sentido corrente da palavra; mas efetivamente o é no sentido de que nele não se concebe Deus como espírito. Nesse mesmo sentido poderíamos, todavia, acusar de ateísmo muitos teólogos que só denominam Deus o Ser supremo, onipotente, etc., e que não querem, na realidade, reconhecer Deus, só atribuindo verdade ao finito; e as doutrinas destes são bastante mais perigosas que as de Spinoza.” Um livro interessante para quem está no seminário DE PADRES (me refiro a este de H., mas não nego que a Ética de Spinoza, pelas citações já lidas, também deva sê-lo bastante!).

E, assim como Spinoza se limitava a considerar estas representações, já que o mais alto, para ele, era sua desaparição na Substância una, Locke se detém a investigar como nascem estas representações [filósofo especializado no para-si] e Leibniz, por sua parte, contrapõe a Spinoza a pluralidade infinita dos indivíduos, se bem que todas as suas mônadas têm como essência fundamental a mônada una. [filósofo especializado no em-si] Ambas as filosofias surgem, pois, como reação contra as unilateralidades spinozistas, aqui postas de manifesto.” Podemos dizer que Spinoza foi o maior filósofo do ser-em-si-e-para-si até seu tempo (obviamente estou excluindo Platão), na nomenclatura de Hegel. Até mesmo H. – que é nosso antípoda tantas vezes – teria de concordar!

18. O CÉTICO EMPIRISMO OU EMPÍRICO CETICISMO DOS BRITÂNICOS

A idéia de substância (que Locke toma em pior sentido que Spinoza), idéia complexa, procede do fato de que percebemos, com freqüência, idéias simples tais como a idéia de azul, a idéia de algo pensado, etc. Nos representamos esta justaposição como algo que sustenta por igual aquelas idéias simples, no que estas idéias existem, etc. Assim deduz Locke também o conceito geral de potência. E pela mesma via deriva, à continuação, as determinações de liberdade e necessidade, de causa e de efeito.” Tudo o que Kant resolve em um enunciado este senhor tem de debulhar mal e mal em páginas e páginas…

Bem podemos afirmar que não cabe conceber nada mais superficial que esta derivação das idéias.” “Ao falar do espaço, p.ex., confessa Locke que não sabe o que é em-si. Esta chamada análise lockeana das representações complexas e sua chamada explicação das mesmas lograram encontrar uma acolhida geral em razão de sua clareza e nitidez pouco comuns. Afinal, existe algo mais claro que dizer que o conceito de tempo provém de que percebamos o tempo, e o conceito de espaço de que vejamos o espaço? Os franceses, sobretudo, aceitaram-no de contínuo e o desenvolveram; sua Ideologia não contém, na verdade, mais do que isso.”

ali onde o pensamento é algo concreto por natureza, onde o pensamento e o geral aparecem identificados com o extenso, carece de todo interesse e inclusive de sentido o perguntar-se qual é a relação entre ambos, que o pensamento desdobrara. Como supera o pensamento das dificuldades que ele mesmo [o pensamento] criara? Ocorre que em Locke não se cria nem se desperta nenhuma dificuldade. [muito menos solução] E para que possa se satisfazer a necessidade de reconciliação é necessário que se comece por sentir a dor do desdobramento.” Na filosofia continental, filosofa-se com a dor (digo, ela é sintoma, ou pode ser sintoma, de que se está filosofando, efetivamente); na filosofia britânica, filosofa-se com o tédio, l’ennui.

A sociabilidade, p.ex., é um momento que encontramos na experiência, já que o homem obtém da sociedade múltiplos benefícios. Ora, em que se baseia a necessidade do Estado, da sociedade? Em uma inclinação social. Esta é a causa. Exatamente o mesmo que na Física: o físico efetua sempre este tipo de tradução formal. [vazia] A necessidade de uma existência, p.ex. a dos fenômenos da eletricidade, encontra sua fundamentação em uma causa que os produz; é simplesmente a forma da redução do exterior ao interior, do ente ao pensado, o qual se representa, não obstante, por sua vez, como um ente.” A conta quem paga somos nós, dos séculos XX e XXI, herdeiros da Colônia inglesa nas Américas. Do mais vil imperialismo que já grassou neste so-called planet. Se Hegel soubesse que o Espírito do Mundo reuniria a Terra numa Aldeia Global com estes ‘capitães’, teria reformulado seu sistema ainda em vida.

Newton foi indubitavelmente quem mais contribuiu para a difusão da filosofia de Locke ou da maneira inglesa de filosofar, em geral, e em particular para sua aplicação a todas as ciências físicas. Seu lema era «Física, guarda-te de metafísica!», o que vem a querer-dizer, mais ou menos: ciência, guarda-te de pensar!HAHAHAHAHA!

A natureza mesma se encarrega de refutar essa deplorável maneira de experimentar, pois a natureza é algo muito mais excelente que o que esses míseros experimentos dela nos dizem: ela mesma e o contínuo experimentar dão o melhor desmentido desses falsos métodos. E, assim, vemos que dos esplêndidos descobrimentos newtonianos em matéria de ótica só um fica de pé: a divisão da luz em 7 cores: em parte porque o que se ventila aqui é o conceito do todo e das partes, e também graças a uma determinação insensível perante o contraposto.” Já dediquei até um post sobre isso. Mas uma última palavra: creio que um dia diremos, esquecendo Cristo, e nos lembrando de Isaac Newton somente para esquecê-lo (lembrarmo-nos constantemente de conservá-lo esquecido): ANO XXX DEPOIS DE NÃO-NEWTON (ex: 272 d.¬N., para assinalar que não vivemos mais no mundo ocidental ou na modernidade que conhecemos). Obviamente meus tetranetos já serão caveiras até lá. Mas já vivemos em algum ano a.¬N., se serve de consolo!

O HOMEM-ESCADA: “Devemos expor, na seqüência, o ceticismo de Hume, que adquiriu maior notoriedade histórica do que em si merece; o importante nele, do ponto de vista histórico, consiste em que Kant arranca, em realidade, desta doutrina a fim de construir sua própria filosofia.”

19. LEIBNIZ

Muito encontrado em outras grafias, como Leibnitz.

Gottfried Wilhelm (barão de) Leibniz nasceu em 1646, em Leipzig, onde seu pai era professor de filosofia.” Deve ser o único filósofo da história filho de outro filósofo!

Todas estas ocupações, tão díspares, não foram obstáculo para que descobrisse, em 1677, o cálculo diferencial, a propósito do qual se viu arrastado a uma disputa com Newton, na qual, por certo, mantiveram uma atitude pouco nobre tanto este como a Sociedade de Ciências de Londres. Os ingleses, que propendiam a atribuir todo este método matemático a Newton e eram bastante injustos com os demais, não levavam em conta que os Principia newtonianos viram a luz com posterioridade ao descobrimento de Leibniz, e em uma nota à 1ª edição, que mais tarde desapareceu, faz-se o elogio do filósofo alemão.” ‘Obscenidades’ que não deveriam estar num livro hegeliano de história da filosofia, digo, do Espírito do Mundo. A verdade é que este assunto, além disso, mesmo para uma historiografia da matemática, seria controverso e haveria necessidade de abordá-lo em mais parágrafos: ao que tudo indica, Newton já possuía o conhecimento do cálculo diferencial (não se descobre algo assim, o termo correto seria inventar), porém tinha o hábito de publicar apenas muito vagarosamente, após reunir mais material e ‘sentir a recepção’ das idéias na comunidade matemática, ao passo que outros autores como René Descartes e o próprio Leibniz publicavam imediatamente após concluírem artigos e teses, sem constrangimento em se autocontradizerem ou desmentirem de seguida. Aqui o patriotismo de H. foi provavelmente em vão, apesar de estar certo quanto ao caráter protecionista dos ingleses! Ler https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/.

às percepções da consciência Leibniz chama apercepções.” O vocabulário da filosofia vai enriquecendo, mas com isso não se garante que enriqueça a filosofia mesma. Apercepção, que em Kant é um termo incognoscível (o que não compromete compreendê-lo), significa, pois, originalmente: a representação conceituável (pensável). O que é mais que pura aparência (a dor, as cores, o mais primitivo de cada sentido), embora decorra evidentemente do fenômeno.

+ 2 VOCABULÁRIOS KANTIANOS: «Estas verdades eternas descansam sobre 2 princípios: um é o da contradição, outro o da razão suficiente

20. JUÍZO HEGELIANO ACERCA DA DEFICIENTE METAFÍSICA MODERNA

À filosofia antiga podemos retornar constantemente, compreendendo-a e reconhecendo-a; é uma filosofia satisfatória, situada em sua própria fase de evolução, um ponto central concreto que dá satisfação à missão do pensamento, tal e como se a enfoca. Em troca, esta metafísica moderna a que nos estamos referindo não faz outra coisa senão desenvolver os antagonismos até convertê-los em contradições absolutas. Tudo bem que se indica a solução absoluta delas, Deus, mas somente como uma solução abstrata, situada no além; no aquém, ficam de pé todas as contradições, sem resolução quanto a seu conteúdo.”

21. O MATERIALISMO FRANCÊS SUI GENERIS

Esta essência vazia é para nós, em geral, o pensamento puro, o que os franceses chamam o être suprème (ser supremo), ou se representa objetivamente como algo que é, como algo que aparece diante da consciência, como a matéria.” “É o conceito que se apresenta numa atitude puramente destrutiva, que não se desenvolve de novo com base nesta matéria ou neste pensamento puro, nesta pura substancialidade. Aqui vemos manifestar-se livremente, então, o chamado materialismo e ateísmo, como resultado necessário da pura consciência-de-si compreensiva. “Só permanece a essência presente e real, pois a consciência-de-si só reconhece o em-si como algo que existe para ela como consciência-de-si, na qual se sabe, portanto, real: a matéria, como aquilo em que pode estender-se e realizar-se na pluralidade, a natureza. No presente, tenho a consciência de minha realidade; e, em conseqüência, a consciência-de-si se encontra a si mesma como matéria, a alma como algo material, as representações como movimentos e câmbios no órgão interior do cérebro, que seguem as impressões externas dos sentidos.” Ultrapassado? Talvez. Mas sempre que relembramos esta etapa do pensamento, nos excitamos, como por exemplo diante das ingênuas questiúnculas de Descartes. Ah, França!

O estado religioso, com seu poder e sua magnificência, com a corrupção dos costumes, com a cobiça, a sede de honras, a canalhice, para as quais se pede, entretanto, reverência e acatamento: toda esta contradição que existia na realidade se deve ter bem presente se se quiser compreender o sentimento de rebelião que se apoderou destes escritores.” Atualíssimo!

H. diz: apesar de Hume muito ter contribuído, a verdadeira transição da filosofia carente-moderna ao Kantismo (a filosofia moderna verdadeira que começa, não isso de cartesianismo!) se dá mesmo é com Rousseau. Ele é a ponte entre a Grã-Bretanha e a Alemanha, (!) nada de Canal da Mancha!

22. KANT: A NÊMESE DO ESPÍRITO DE HEGEL

O próprio espírito deve dar testemunho ao espírito de que Deus é o espírito; o conteúdo deve ser o verdadeiro. Mas isto não se comprova porque se me revele a mim, porque a mim se me assegure.” E com esse delírio que é um recuo escolástico, mas que H. pensa que é seu passo a mais, chegamos à conclusão de que ele e Kant são como água e óleo, pois K. é opaco a H.!

Claro está que agora tudo se chama intuição, inclusive o pensamento, a consciência; Deus, apesar de pertencer só ao pensamento, pode ser captado também mediante a intuição, por meio da chamada consciência imediata.” O que há que resetar do kantismo é a parte em verde.

Trata-se de uma faculdade de caráter especial; e somente quando se sucedem ambas as coisas, i.e., quando os sentidos prescrevem a matéria, e o entendimento tenha com ela combinado seus pensamentos, brota o conhecimento. Os pensamentos do entendimento como tal são, destarte, pensamentos limitados, pensamentos do finito.

Pois bem, a lógica, enquanto lógica transcendental, estabelece os conceitos que o entendimento encontra a priori nele mesmo e mediante os quais pensa os objetos completamente a priori. Os pensamentos têm esta forma: são a função sintetizadora através da qual o múltiplo se reduz à unidade. Esta unidade sou eu, é a apercepção transcendental, o aperceber puro da consciência de si, eu = eu; o eu deve «acompanhar» todas as nossas representações.” Recordando: Percepção: sensação pura e simples. Apercepção: sensação que é mais geral que a anterior, embora siga sendo imediata, e que não é conceitual por assim dizer, dado nosso próprio nível de exigência do que deva ser um conceito. Isto é: não só as rachaduras da parede do meu quarto, cujo padrão é mais ou menos indescritível, mas os próprios tempo e espaço: estas são apercepções. Diferente da qualidade da mesa na qual apóio agora meus cotovelos, a umidade de meus cachos agora que acabei de sair de um banho, o ruído ambiente… Espaço e tempo são de onde emanam todos esses fenômenos, e eu apenas acabo de abstrair o que é a extensão territorial e a dinâmica da sucessão em duas palavras específicas; porém não posso manusear tempo e espaço como um relógio e dizer mais do que isso sem incorrer em besteirol; esse é meu limite. Posso fazer poesia sobre espaço e tempo, sobre as rachaduras na minha parede (sobre estas últimas, posso até escrever de forma técnica), mas continuará sendo uma determinação fundamental que determina meu próprio ânimo (visão, tato, no máximo, no caso das rachaduras) e o limite do que posso expressar nesta poesia.

Existem, portanto, segundo Kant, 12 categorias fundamentais, divididas em 4 classes; e não deixa de ser curioso, e ademais meritório, que cada gênero esteja formado, por sua vez, por uma tríade.” Poderemos seguir fazendo uma pseudometafísica só reformulando essas categorias ad infinitum… Pouco importa seu número, seus nomes… Pelo menos pouco importa segundo o que o indivíduo quer com o mundo e com a vida – que esteja claro! E essa obsessão hegeliano-pitagórica pelo número 3 é algo que não cabe em filosofia séria.

4) A 4ª classe são as categorias da modalidade, da relação do objetivo sobre nosso pensamento; possibilidade, existência (realidade) e necessidade. A possibilidade deveria ser o 2º; mas, com relação ao pensamento abstrato, a representação vazia é o 1º.” Incluí esse trecho para ilustrar um dos vários momentos em que não sabemos se é H. que está superinterpretando e julgando ou se está apenas expondo ipsis litteris a filosofia kantiana. Como é um detalhe sem relevância da Crítica da Razão Pura, eu não me recordo dessa passagem – não sei se quem o diz é Kant ou Hegel, querendo corrigi-lo! Eu até chutaria que é o 2º, pois julgo que Kant não concordaria com o termo “representação vazia”.

O enlace deste algo duplo é, a propósito, uma das páginas mais belas da filosofia kantiana, em que se unem a sensibilidade pura e o entendimento puro, predicados anteriormente como termos absolutamente antagônicos. Contém-se aqui um entendimento intuitivo ou uma intuição intelectiva; mas não é assim como o entende Kant, que não junta estes pensamentos: não compreende que unifica, deste modo, ambas as partes integrantes do conhecimento, expressando com isso o em-si do mesmo.” O mais engraçado dos grandes filósofos é que avançam precursoramente dizendo aquilo que nem eles mesmos entendem, para que em seguida alguém os interprete corretamente (e por sua vez cometa mais erros parecidos lá na frente)! Se isso não é intuição transcendental da mais enraizada e incontestável eu não sei o que é!

A razão é, portanto, segundo Kant, a faculdade para conhecer a partir de princípios, i.e., para conhecer o particular no geral, por meio de conceitos; o entendimento, pelo contrário, chega ao particular pela via da intuição. Mas as próprias categorias são algo particular. O princípio da razão em geral é, segundo Kant, o geral, enquanto que encontra o incondicionado para o conhecimento condicionado do entendimento. Sendo assim, o entendimento é, para ele, o pensamento em condições finitas; a razão, na outra mão, o pensamento que faz do incondicionado seu objeto. Desde então, a terminologia filosófica se acostuma a distinguir entre o (simples) entendimento e a (elaborada) razão, distinção com que não nos encontramos nos filósofos antigos. O produto da razão é, segundo Kant, a idéia—expressão platônica—; por idéia entende Kant o incondicionado, o infinito. É uma grande frase esta de que a razão produz idéias; mas em Kant a idéia é somente o geral abstrato, o indeterminado.” E se Platão concorda com Kant, como ficamos, H.?

é o Eu, o pensante, uma substância, uma alma, uma coisa anímica? Mais adiante se pergunta se é algo permanente, imaterial, incorruptível, pessoal, imortal, e algo que mantenha uma comunidade real com os corpos. A falsidade do raciocínio consiste em que a idéia racional necessária da unidade do sujeito transcendental predique-se como uma coisa, pois só assim se converte em substância o que há nela de permanente. De outro modo, encontrar-me-ia a mim mesmo evidentemente como algo permanente em meu pensamento; mas somente na consciência perceptiva e não fora dela. O Eu é, assim, o sujeito vazio, transcendental, de nossos pensamentos, que só por meio de seus pensamentos é conhecido; mas sem que, partindo daí, possamos chegar a formar-nos nem o mais leve conceito do que é em-si. (É esta uma distinção demasiado repelente, pois o pensamento não é outra coisa que o em-si!) Não podemos predicar dele nenhum ser, pois o pensamento é uma mera forma, e não obtemos a representação da essência pensante por uma experiência externa, mas simplesmente pela consciência-de-si, ou seja, porque não podemos tomar o Eu nas mãos, não podemos vê-lo, cheirá-lo, etc. Sabemos perfeitamente bem, sem dúvida, que o Eu é o sujeito; mas, se remontamos sobre a consciência-de-si e dizemos que é substância, vamos além do que temos o direito de ir. O Eu não pode, pois, dar ao sujeito nenhuma realidade.

Aqui vemos Kant cair na contradição entre a barbárie das idéias que refuta e a barbárie de suas próprias idéias, que não saem do marco daquelas refutadas. Tem, em 1º lugar, toda a razão quando afirma que o Eu não é uma coisa anímica, um algo permanente e morto, dotado de existência sensível; e, em realidade, se houvesse de ser uma coisa comum e corrente, teria que cair também, necessariamente, dentro do campo da experiência; em 2º lugar, Kant não sustenta o contrário disso, a saber, que o Eu, como este pensar-o-geral e pensar-se-a-si, tenha em si mesmo a verdadeira realidade que exige como modo objetivo, senão que não sai da representação da realidade segundo a qual esta consiste em ser uma existência sensível, em vista do quê, como o Eu não se dá em nenhuma experiência externa, não é real. (…) dito de outro modo: Kant só concebe a consciência-de-si, pura e simplesmente, como algo sensível.” Ao exportar o em-si, K. recai para trás até de Descartes com sua certeza!

A necessidade destas contradições é justamente o lado interessante que Kant (Crítica da razão pura, p. 324) traz a nossa consciência, já que segundo a metafísica comum e corrente se o um rege há que dar-se o outro lado por refutado. E, no entanto, o que há de importante nesta afirmação de Kant vai dirigido contra sua intenção. Pois ainda que seja certo que Kant (Crítica da razão pura, pp. 385 e seguinte) dissolva estas antinomias, dissolve-as somente no peculiar sentido do idealismo transcendental, que não nega ou põe em dúvida a existência das coisas exteriores, apenas «permite que as coisas sejam intuídas no espaço e no tempo» (para o qual não se necessita contar com nenhuma autorização); porém, para ele «o espaço e o tempo não são, em si mesmos, tais <coisas>; eles não existem fora de nosso ânimo»; quer dizer, todas estas determinações de princípio no tempo, etc., não correspondem às coisas, ao em-si do mundo mesmo dos fenômenos, que existe para-si fora de nosso pensamento subjetivo.” Sim, são mera retórica kantiana, que ‘inventa’ uma antinomia, i.e., uma possibilidade de refutação de seu sistema, que apenas jogará aos leões, porque seu sistema já nasce irrefutável. A lógica usada em cada uma é a antiga (pré-criticismo), e a síntese é a lógica a partir de Kant. É um artifício que infla muito a espessura da Crítica da Razão Pura.

Isto é, Kant não chega a estabelecer justo aquela síntese do conceito e do ser, ou seja, a compreender a existência, a estabelecê-la como um conceito; a existência segue sendo para ele simplesmente algo diferente do conceito.” Não chegou aos existencialistas.

Deste ponto de vista, a consciência-de-si-mesmo é sua própria essência, enquanto que a razão teórica tinha outra, distinta: concretamente, no primeiro caso o Eu é, em seu caráter individual, essência imediata, generalidade, objetividade; a subjetividade tende, em segundo lugar, à realidade, mas não à realidade sensível, a que antes encontrávamos, senão que, aqui, [na Crítica da Razão Prática] a razão faz-se passar pelo real. Aqui, é o conceito aquele que tem a consciência de sua defeituosidade, coisa que não devia ter a razão teórica, já que o conceito tem de seguir sendo tal conceito. Impõe-se, então, aqui, o ponto de vista do absoluto, já que o homem encerra em seu peito algo infinito. Tal é o que há de satisfatório na filosofia kantiana: ela cifra o verdadeiro ao menos no ânimo do homem, só mediante o qual reconheço aquilo que se acha em harmonia com minha própria determinação.” Obviamente que a Crítica da Razão Prática seria o livro mais adorado pelo protestante Hegel! Matou o Sol Absoluto de Platão no peito e saiu jogando – fintando dialeticamente – no time da Metafísica (talvez contra o Entendimento Pensante Futebol Clube) para marcar um GOOOLAÇO… Infelizmente para Hegel, não aposentaram a camisa 10 após sua morte, porque a despeito de toda sua autopresunção ele não era Pelé e as próximas gerações ofuscaram-no…

Uma das determinações extraordinariamente importantes da filosofia kantiana é a de que deve se reduzir a si mesma aquilo que a consciência-de-si considera como a essência, a lei e o em-si. Conforme o homem persiga este ou aquele fim, conforme julgue desta ou doutra maneira o mundo ou a história, o quê deve reputar como seu fim último? Para a vontade, não existe outro fim senão aquele retirado dela própria, o fim de sua liberdade.” A brecha perfeita para o Historicismo hegeliano: uma mal-formulada ética laico-cristã!

QUIXOTADAS, DITIRAMBOS & AFORISMOS SÁBIOS

Todos queriam ser Hegel.

Todos queriam estar depois de Hegel.

Não, todos queriam estar depois deste sujeito pós-hegeliano!

Eis o pau que não matará nenhuma cobra

Nem mostrará o instrumento homicida a ninguém!

Quem chegar por último…

Morre nauseado e solteiro.

Dom Quixote tem uma história. Não existe um Dom Quixote que se olvide.

O filósofo não tem o direito de censurar seus amigos por esquecerem que ele existe! Esse é um problema muito pessoal

O FILÓSOFO COMO UM ELETRICISTA: Fases de curto-circuito da verdade.

TWIN PEAKS & DAVID LYNCH: Tudo tem um propósito, o resto é garmonbozia.

QUANDO O IDEAL É MAIS REAL DO QUE O REAL: O real é uma parte pequena do meu feudo. O contrato ideal.

Como se poderia pensar que se poderia pensar exatamente o que Tales pensou?! Tendo uma auto-estima de mil Budas, talvez, ou nem assim!

Eu escrevo que Hegel escreveu que Aristóteles escreveu que Tales disse (escreveu, por suposto, mas este escrito não sobreviveu) que o princípio (não no sentido de começo mas de importância) de todas as coisas era a água. Ironicamente qualquer manuscrito único, por mais importante que fosse, não poderia dar notícias ao futuro se fosse umedecido.

Um elo entre um nada e outro nada ainda menor.

A avant-garde do Nada. A retaguarda do império.

Não só mataram Deus como transaram com seu cadáver.

Nem todo humanismo é uma filosofia, mas toda filosofia é um humanismo.

Quando você desenvolve uma dialética só para poder ser autocontraditório à vontade (e se masturbar para o número 3)!

Na missa a missiva: às premissas, mas sem pressa!

Um filósofo que subestima Platão NÃO é um filósofo.

Diógenes Laércio e Plutarco só servem para confundir as gerações futuras. São ilegíveis hoje!

Nunca se conseguiu comprovar se Pitágoras realmente existiu. Às vezes era só uma pegadinha de estudantes, e deram o nome de Pitágoras a um burro que era o mascote oficial da seita!

O MONÓLOGO-DIÁLOGO ILUSTRADO

Kant: O conceito é pensável porque é antes de tudo sensível…

Hegel: O conceito é sensível porque é antes de tudo pensável!!!

Kant & Hegel: O conceito só pode ser pensado porque é essência-e-aparência!

Kant: Sim, finalmente estamos de acordo em alguma coisa!…

Hegel: No que mais poderíamos concordar?

Kant: Hm, deixe-me ver… Se eu fosse você, acho que me aprazeria exprimir assim: o não-conceito não pode ser pensado, pois ou é só essência ou é só aparência.

Hegel: Com efeito! E você, Kant, escreve frases tais quais: o não-conceito pode ser sentido quando é só aparência; o não-conceito não pode ser sentido quando é só essência (sua coisa-em-si!). Ou seja, o conceito é sentido como não-conceito (apenas como aparência)…

Kant: Ficamos bons na arte de invertermos os papéis! E assim você concluiria, Hegel: a essência pura é inacessível enquanto não integrar um conceito.

Esculpir bebês para parir estátuas.

Sócrates foi condenado à morte porque descobriu o inconsciente. 2200 anos depois um austríaco fraudulento vai criar uma associação internacional para enganar a civilização dizendo que ele descobriu o inconsciente!

mundo verdade, mundo-vedado.

Hegel se embaralha metendo Deus no bagulho do Um!

O único espelho do mundo é o mundo mesmo.

Portanto, desça do púlpito e volte ao mundo-verdade verdadeiro!

Percebe o que deixaste para trás na primeira olhada abstrato-panorâmica do cenário!

Conceptos como cáscaras vacías del Ser.

Deus como uma rodinha de skate.

O ponto euclidiano como patas de uma aranha em eterno debate descoordenado.

Seria o niilismo apenas um subconjunto do hegelianismo? A exportação lenta e gradualíssima de um mal da intelligentsia ao “povão”? A história desse espraiamento?

Talvez o maior livro de meta-dados que se pudesse escrever fosse uma biografia de Diógenes Laércio! Fonte: Diog. Laér.

Os maiores rivais dos escépticos eram os assépticos, pois gostavam de ter uma discussão muito limpa!…

6º “Empírico” era cético, grande tirada!

É essencial que saibas que a essência não existe!

Em si o ceticismo está correto – era uma piada!! Cof, cof… A evolução final do sofista, o SUPERSOFISTA.

A Roma nossa de todos os dias. O Protestantismo da Filosofia procrastina a morte da Filosofia, para o mal de todos… Rola-se a dívida especulativa (duplo sentido desdobrado, arrotado e peidado em si mesmo saindo como suor pelos poros respirados em seqüência)…

Jesus, o primeiro teleólogo da Terra.

A solução mundial deveria consistir em vedar qualquer trânsito e comunicação entre ocidente e oriente. Cultural ou de ogivas nucleares. Tudo que for cultura ocidental e bomba atômica fica do lado do Tio Sam. A nós, orientalistas, nossos nirvanas sutis, mil odores de rosas que aprendemos a distinguir… E então chega-se à Unidade do Mundo verdadeira, já que o Ocidente – para lá – é só um além, nem é mais mundo

Aporia… Ah, poria… algo mais?! Limite fenomênico. Limite-se, fenomênico! KNOW HOW TO LIE – LIE & REST. Já deuS.

MAIS HEGEL (& ASSOCIADOS)? OUTROS POSTS DO SECLUSÃO, referenciados durante o artigo.

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 1: Introdução à Epistemologia Hume-kantiana

https://seclusao.art.blog/2021/05/13/historia-das-ideias-introducao-a-epistemologia-hume-kantiana/

SPEECH AND WRITING ACCORDING TO HEGEL – Derrida, 1971 (in: W.F. Hegel, Critical Assessments, ed. Robert Stern, 1993). https://seclusao.art.blog/2021/08/10/speech-and-writing-according-to-hegel-derrida-1971-in-w-f-hegel-critical-assessments-ed-robert-stern-1993/

FILEBO, Ou: Dos prazeres, da inteligência e do Bem – tradução comentada de trechos [Platão]

https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/

LES OEUVRES COMPLÈTES D’HIPPOCRATE – Tome Premier (trad. clássica de Littré) [Hipócrates, ‘Pai da Medicina’]

https://seclusao.art.blog/2021/04/07/les-oeuvres-completes-dhippocrate-tome-premier-trad-classica-de-littre/

O QUE ARISTÓTELES E STEPHEN HAWKING TÊM EM COMUM? Um pouco sobre a contenda edipiana Física x Metafísica: Mal-entendidos comuns entre uma e outra, do ponto de vista filosófico, passando por figuras ilustríssimas como Von Humboldt, Freud e Alfred Jarry!

https://seclusao.art.blog/2021/08/05/o-que-aristoteles-e-stephen-hawking-tem-em-comum-um-pouco-sobre-a-contenda-edipiana-fisica-x-metafisica-mal-entendidos-comuns-entre-uma-e-outra-do-ponto-de-vista-filosofico-passando-por-figuras-il/

HISTÓRIA DA MATEMÁTICA: Uma visão crítica, desfazendo mitos e lendas – Tatiana Roque, 2012.

https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/

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