Pedro Oliveira é doutorando em História na Universidade Estadual de Maringá. Bolsista CAPES/Fundação Araucária
“Foi com este espírito que os neofascismos, ou seja, a conjugação das novas formas de ação dos fascismos clássicos no presente, desembarcaram na América do Sul e ampliaram a forma de agir dos militantes neofascistas europeus. Igualmente, buscaram, assim como às suas bases políticas, readequar e reformular conceitos de nacionalismos. Estas formas de agir dos fascismos encontraram na região emblemáticas heranças da presença fascista no passado, como a Aliança Integralista Brasileira, o pioneirismo de Miguel Serrano no Chile e mesmo a Tercera Fuerza na Colômbia ou o Partido Nuevo Triunfo na Argentina. Ao mesmo tempo, adaptaram ao terreno sul-americano narrativas ideológicas que pareciam inadaptáveis, gerando, com isso, uma autenticidade bastante particular. Os neofascismos sul-americanos são tão próximos dos ideais fascistas de outrora quanto são diversos em suas peculiaridades, embrionando um caso único, distinto. Veremos isso em cada exemplo utilizado neste trabalho, analisando especialmente casos no Brasil, na Argentina e no Chile.” Ótima prosa.
“Com isso, os neofascistas que produzem este tipo de música por vezes transpõem inimigos dos fascismos clássicos (como os comunistas, os liberais ou os judeus) e criam novos tendo em vista suas próprias sociedades. No Brasil, o ódio pode recair sobre os nordestinos, por exemplo, inimigo particular de parte dos neofascistas do nosso país.” Mas recai sobre o ‘comunista’ mesmo! Recai sobre o liberal, quando levamos em conta que o fascista odeia a si mesmo.
“Entre os historiadores, podemos destacar os já consagrados olhares de Francisco C. Teixeira da Silva (2004) sobre a questão, além dos esforços de laboratórios como o Grupo de Estudos do Tempo Presente, da Universidade Federal de Sergipe, que há anos vem mapeando e investigando movimentos neofascistas, resultando em robustas inspeções sob a coordenação do pesquisador Dilton Maynard (2017).”
“Faremos isso examinando letras das bandas Ultra Sur e Nüremberg (Argentina), Comando Blindado e Defesa Armada (Brasil) e Odal Sieg e Orgullo Sur (Chile). Assim, poderemos apresentar uma amostra de como os neofascismos sul-americanos estruturam seus discursos de ódio visando uma penetração maior no espectro social.” Essa abordagem da academia sobre grupos musicais analisando letras é muito limitada. Isso só daria conta do fenômeno se fossem poetas em vez de bandas; música não é só letra, é impossível fazer uma análise apenas escrita, a não ser que seja extremamente técnica, adorniana mesmo.
Nada de black metal aqui, apenas oi!
“O rock neofascista surgiu na Inglaterra no início dos anos 1980, em meio ao boom do movimento punk e do retorno da subcultura skinhead. Devemos esclarecer que até o final dos anos 1970, a subcultura skinhead não era contaminada pelas ideias neofascistas com as quais muitos de seus integrantes passariam a se identificar. Desde os anos 1960 foi uma subcultura que incorporava elementos da cultura jamaicana e operária, não a segregação racial e nacionalista com a qual se envolveria mais tarde.” Uau. Isso é totalmente novo para mim.
“No bojo desses acontecimentos, alguns skinheads foram cooptados pelos partidos neofascistas para atuarem como linha de frente da juventude, angariando possíveis eleitores e pessoas engajadas em espalhar suas ideias mesmo que pela força. Ian Stuart Donaldson foi um deles. Líder da banda londrina Skrewdriver, mudou radicalmente sua forma de compor ao passo em que mergulhou de cabeça no National Front. Suas posturas neonazistas ficaram cada vez mais claras e os discursos de ódio, em sintonia com os de seu movimento, mais acentuados. Nascia assim o rock neofascista.” grifo meu
“A organização Blood & Honour, criada por Donaldson em 1987, foi fundamental para catapultar o rock neofascista pelo mundo: divulgava, produzia, organizava e distribuía material musical muito antes de a Internet se tornar um meio de comunicação comum. Quando isto ocorreu, o gênero se disseminou com maior vigor.
Organizações como a estadunidense Hammerskin e lojas virtuais como a NS88 Division organizam eventos e vendem produtos de rock neofascista desde os anos 2000 de forma simples, estando a poucos cliques de qualquer pessoa. Não estão em páginas obscuras da rede, pois podem ser facilmente encontradas em sites de busca. Redes de streaming como Spotify e Deezer abrigavam, sem saber, vastas discografias de bandas neofascistas há pouco tempo. Blogs e fóruns voltados à divulgação deste tipo de música são numerosos. Isto certamente possibilitou a amplitude do perímetro no qual [o] gênero é ouvido e produzido na América do Sul.”
“Alguns autores, a exemplo de Antonio Salas (2006), referem-se a este gênero como hate music. Outros, como nós, já utilizamos o termo hate rock para reduzir sua escala de alcance e circunscrevê-lo em sua especificidade sonora. Não se trata de um gênero que abarca diversos tipos de música, mas sim um tipo específico: o rock.”
“Na Argentina, a banda Comando Suicida, fundada em 1983, deixou de ser uma banda próxima à Oi! music para se converter em símbolo da penetração neofascista no país.”
“Foi nos anos 1990, contudo, que vimos um crescimento assombroso do rock neofascista sul-americano. No Brasil, bandas como Locomotiva e Grupo Separatista Branco se tornaram proeminentes. A Odal Sieg deu seus primeiros passos no Chile, enquanto a Nüremberg e Ultra Sur engatinhavam na Argentina para, mais tarde, tornarem-se grandes nomes em suas respectivas cenas musicais.” Herança maldita de FhC.
“Sincronicamente, nas últimas décadas do século XX, o Chile se convertia na capital sul-americana do neonazismo, sobretudo pela atuação de indivíduos como Miguel Serrano, Alex López, Ernesto Lutz e organizações como a Patria Nueva Sociedad, Frente Orden Nacional e Acción Nacional-Socialista de Chile (MOURA; MAYNARD, 2012).”
“Já no México, um mapeamento da confluência de forças políticas deste tipo ainda necessita ser realizado com maior zelo, visto que ainda conhecemos muito pouco sobre eles.”
“Uma das mais importantes vem do Rio Grande do Sul e se chamava Comando Blindado. Formada ainda no final dos anos 90, chegou a lançar um álbum pelo selo Zyklon-B Records, dos Estados Unidos, em 2006. Intitulado Marchando rumo à vitória, o disco tem sua capa ilustrada por soldados e bandeiras nazistas. Nele, encontramos a música ‘Nutrindo raiva, causando dor’, na qual ouvimos:
O inimigo está perto, está controlando você
Invade sua mente através do jornal e da TV
São os malditos judeus que têm o controle das massas
Que dominam a mídia e promovem tanta desgraça”
“Em ‘Cada vez te odeio mais’, a banda se manifesta sobre outros alvos de seu ódio:
Cresce a violência e meu ódio aumenta mais
E o podre comunismo se alastra como doença ruim
Nordestinos vem pro Sul, que infelicidade
Estamos perdendo nossa identidade”
Constrangedor.
OS CACHORRINHOS DOS DECADENTES: “Este reducionismo, que à época era deficiente de críticas a problemática relação entre moderno-arcaico, foi amplamente utilizados por teóricos como Oliveira Viana para difundir, à luz de pseudociências eugenistas, a ideia de que o Sul-Sudeste era naturalmente superior ao Norte-Nordeste. Havia nisso uma necessidade de estabelecer vínculo com uma cultura europeia, da qual as pessoas desta região seriam majoritariamente herdeiras.”
LEITURAS RECOMENDADAS:
MAYNARD, Dilton Cândido Santo (Org.). Extremismos no Tempo Presente. Rio de Janeiro: Autografia, 2017;
SALAS, Antonio. Diário de um skinhead: um infiltrado no movimento neonazista. São Paulo: Editora Planeta, 2006.
