Um homem que decidisse, no dia de hoje, refundar suas investigações filosóficas efetuando o que Descartes efetuou no século XVII, sobre um novo método contrário ao escolástico, obedecendo aos seus sentidos, descrevendo o que vê e ouve, por exemplo, seria internado num presídio de segurança máxima (não existem mais manicômios, só o grande manicômio a céu aberto).
Isso é DUPLAMENTE desalentador: 1. No sentido em que o que é tido socialmente como óbvio não é o óbvio, mesmo se a descrição empírica tivesse o valor de verdade que já possuiu 300 anos atrás; 2. Pior ainda, pois concluímos que a internação desse estranho inovador, no final, estaria correta (o que é triste e aflitivo diante da presumível inocência de um novo ser humano na sua jornada de descoberta despida de má-fé). Aquele que ignora o que está mais oculto aos sentidos imediatos, mas que todos intuímos como o universal, é definitivamente o louco da história: este Descartes, ou sombra do Descartes original, é um átomo incapaz de notar a exploração inerente ao trabalho, a regra de ouro que rege o dueto miséria-riqueza das nações e, portanto, incapaz de se estabelecer como Homem, o “escravo dotado de agência”. É este o nível dos epistemólogos chamados fascistas, exaltadores dos grilhões, subjugados pela moral e no entanto idólatras desta mesma moral. Quer homem mais cego que este observador (e portanto cúmplice) do-que-está-aí? Um terço do eleitorado nacional clama como Verdade o que (um terço do eleitorado) escolheu ver, escolheu ouvir, escolheu sentir, lentamente, há anos, com uma persistência e consistência de formiga. Para este átomo que se acha um homem, o “social” significa: seu próprio cotidiano, sem quaisquer ajustes, reparos, parênteses, restrições, considerações. Tal qual é em sua perfeição instantânea, nascida assim, inclusive idêntica a uma pintura, sem palavras; ou então, paramentada com uma tempestade de palavras, de LOGOI, subsumida em formato de missa (mero ritual), quando reza a conveniência.
Imaginávamos que um dos maiores problemas da teoria do conhecimento na Era da Técnica seria o abismo cada vez maior entre a sabedoria de uns acerca do geral e a sabedoria de outros acerca do particular, e o choque civilizacional provocado por este descompasso entre “holistas” e “especialistas”, uma vez que um sábio nunca pode ser um sábio duplo, em simultâneo. Quem dera fosse este nosso dilema número um hoje! O Senhor Óbvio, que sabe todas as coisas, que é este milagre quântico dos dois sábios arquetípicos ao mesmo tempo, ocupa agora a Ágora. Infelizmente quem não se esqueceu, quem entendeu a, no fundo, única mensagem de Sócrates, foragiu-se para não ser linchado. Sócrates, esse Prometeu da Filosofia, com dados historiográficos e não apenas mitológicos, acendeu as primeiras fagulhas de sabedoria ao proclamar que sabia quão pouco o indivíduo tem condições de vir a saber. Um terço do eleitorado do país tem uma certeza doentia no seu mundo quimérico, que já se fundiu com seus sentidos mais imediatos. O um terço se chama Senhor Óbvio, nada lhe escapa. Oniscientes transitórios.
Perde o interesse para nós, para os outros dois terços, se o conhecimento da exploração do homem pelo homem faz parte de um saber genérico ou de um saber especial: é um saber que, muito a sério, não se leva a sério quando o assunto é autoclassificação. O que sabemos, o “nada” que sabemos, é que seu maior inimigo é a presunção cotidiana, a obviedade dos sentidos embotados, que já deram sua última palavra, equivalente a uma sentença inquisitorial. A certeza daqueles que já estão findados no mesmo lugar e instante em que começaram. Talvez advenha daí essa fobia do círculo, esse desejo pelo horizonte sem-fim retilíneo… O próprio sentido da visão do Senhor Óbvio não poderia apontar-lhe que tanto remou e nada progrediu, ou que voltou ao mesmo lugar – seria um baque muito grande para alguém que, como já se disse, desvendou tudo que havia entre o A e o Z, o alfa e o ômega, não admite autolimitações. Cega-se, que é para continuar vendo a visão antiga e desejada.
Como velhos Átlas (o Titã, não o álbum que demonstra, em contradição com os sentidos imediatos, que a Terra não é plana), carregamos nas costas muito do que sentimos por esta época ser o que é. Toda a cegueira do Senhor Óbvio é algo muito SENTIDO por nossa piedade colossal, porque caminhamos devagar NUM SENTIDO, e, ainda bem!, ignoramos quantos desertos ainda atravessaremos. Pois absorver tudo num único instante certamente nos desencaminharia de Sócrates, dessa ética titânica do ser-homem, convertendo-nos de novo em tolos que confiam demais nos cinco SENTIDOS.
