PADRÕES DE REPETIÇÃO APLICADOS ÀS HISTÓRIAS CHINESA, MUÇULMANA & OUTRAS

Um conceito oriental que exibe verossimilhanças com conceitos ocidentais da recorrência histórica é aquele chinês do Mandato do Firmamento, segundo o qual um governante injusto perderá o apoio do Firmamento e o governo será derrubado. No mundo islâmico, Ibn Khaldun (1332-1406) escreveu que Asabiyyah (coesão social ou unidade de grupo) tem um papel fundamental no ciclo de um reinado ou dinastia, sua ascensão e queda.

G.W. Trompf descreve vários paradigmas históricos de recorrência, incluindo alguns que compreendem fenômenos históricos de grande escala como “cíclicos”, “flutuantes”, “recíprocos”, “repetidos” ou “revividos”. Ele ainda observa: “a perspectiva provinda de uma crença na uniformidade da natureza humana – porque a natureza humana não muda, a mesma cadeia de eventos pode recorrer ao longo do tempo.” “Outros casos menores de pensamentos recorrentes incluem o isolamento de dois eventos específicos que guardam entre si uma similaridade espantosa, e a preocupação com o paralelismo, isto é, com as semelhanças, sejam gerais ou meticulosas, advindas de fenômenos históricos a priori separados.”

Maquiavel cita essa oscilação argumentando que a virtu (valor e efetividade política) produz paz, a paz produz ócio (ozio), o ócio, a desordem, e a desordem a ruína (rovina). Em contrapartida, da rovina adviria a ordem, da ordem a virtu, e a partir dela a bem-aventurança. Maquiavel, assim como o historiador grego antigo Tucídides, via a natureza humana como notavelmente estável – firme o bastante para a formulação de regras de conduta política. Maquiavel anotou em seus Discorsi:

Quem queira que considere o passado e o presente chegará à conclusão de que todas as cidades e todos os povos … sempre foram animados pelos mesmos desejos e paixões; sendo assim, mediante um diligente estudo do passado, é fácil prever o futuro de qualquer república, e aplicar os mesmos remédios usados pelos antigos ou, verificando a ausência de soluções aplicadas por eles, conceber novas decorrentes de eventos similares.

Em 1377, o erudito muçulmano Ibn Khaldun, em seu Muqaddima (ou Prolegômenos), escreveu que quando tribos nômades se unem em Asabiyya – clanismo ou a solidariedade de grupo já citada – sua organização superior bem como melhor exército subjugam as intrigas nas urbes. Inspirados o mais das vezes pela religião, conquistam cidades e criam novos regimes. Porém, com o passar de algumas gerações, as tribos vitoriosas confederadas perdem o espírito de solidariedade, corrompidos pela luxúria, extravagância e ociosidade. O governante, desconfiado da qualidade dos novos guerreiros, tem de aumentar os tributos sobre seus territórios a fim de contratar forças mercenários, o que leva a uma série de outros problemas que resultam eventualmente no fim de uma dinastia ou do Estado como um todo.

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