Conto inspirado por um jogo e por uma música.
Desapontar os outros é sempre algo horrível. Geralmente o concurso de pessoas bem-intencionadas em uma ação coletiva e planejada culmina em tragédias indizíveis. Ou pelo menos ocasionalmente, não me tirem de pessimista inveterado! No caso de Baroque, até mesmo quando estamos falando de individualidades separadas da própria divindade… o concurso de suas ações pode ser estéril. A raiz, o erro original, pode estar além de suas forças. Pode-se imaginar algo mais paralisante do que isso? Encontrar o limite das faltas de limite? Deus supostamente enlouqueceu, e por isso está acorrentado no fundo da torre. Você, dissociado, assassino do próprio irmão gêmeo, parcela-clone de deus, também não está muito bem do juízo. Na ânsia de restaurar a sanidade e de refundir as essências, simultâneos suicídio e ressurreição… Não, não falemos de fusão nuclear… Essa já aconteceu, e de modo piorado: o “mundo”, o mundo gregário da técnica, como era conhecido nos manuais, já se foi, só sobrou a Torre do Nervo. Mas há redenção?, é a pergunta premente, para os que estão presentes neste vácuo futuro. A verdade dói. E após a fusão planejada, com a ajuda insuspeita de Eliza e Alice… A Verdade do mundo é re-revelada. Ou re-velada, se é que me entende. Pois posta a nu a verdade já não tem qualquer valor. O mundo pós-apocalíptico é, afinal, tanto quanto o mundo pré-apocalíptico, obra de um mesmo Deus. Não há capacidade, ou melhor dizendo, não há necessidade de retroagir ou recuperar algo perdido. Isso seria negar a divindade, blasfêmia suprema (deus duvidar de si mesmo). Paradoxo existencial. Contrassenso. Se o universo tivesse um coração, esse coração jamais pararia, é um axioma cósmico perdido na noite dos tempos, sem autor, sem desgaste. O que aconteceu, aconteceu. O mundo presente, o resquício de mundo, é a obra de Deus. O Arcanjo, conspirador, desejava, em sua sanha e insânia, “purificar” a essência da própria corrupção. O plano era desde o início a própria consunção suprema da distorção que queria combater e refrear, uma Sefirah criada pela ruindade do mundo, um derivado, um produto, incapaz de criação de novos valores. E se… mesmo antes, mesmo agora, em nossa realidade, antediluviana em certo sentido, o mundo é distorção, e é feito para ser assim? E não há nada intrinsecamente mal nisso: as pessoas, suas vivências, são distorções, é seu modo de ser. Desesperadas, atrás de um ideal de pureza que é na verdade iníquo, por não entenderem que as pessoas devem viver com o peso de serem incompletas, elas querem a completude na ‘purificação’. E começam a inventar quimeras, ilusões, pedras barrocas e preciosas, com que adornam suas almas falidas, Sefirahs… O botão de reset apenas recoloca 12 no último andar da torre (o terraço). Esta é a condição humana, escolhida pelo homem, que afinal foi criado por e também cria deus, a cada instante renovado. Livre-se da culpa ou não livre-se da culpa. A culpa continua a existir, em algum lugar, de alguma consciência, e faz parte do universo, como o coração faz parte do universo. E é preciso aceitar. E quem aceita? Quem se recusa a aceitar?, perguntava-se #12… Horrível é sempre os outros desapontarem.
MORAL DA ESTÓRIA: O 6 e o 9 implicam o 0, independentemente da gênese, que é o rabicho da cobra. Sisifolândia.
