“Nota Preliminar
O sr. Proudhon tem a infelicidade de ser singularmente desconhecido na Europa. Na França, tem o direito de ser mau economista porque passa por ser um bom filósofo alemão. Na Alemanha, tem o direito de ser mau filósofo, porque passa por ser um dos melhores economistas franceses. Nós na nossa qualidade de alemão e economista ao mesmo tempo, quisemos protestar contra este duplo erro.
O leitor compreenderá que, neste trabalho ingrato, foi preciso que abandonássemos muitas vezes a crítica do sr. Proudhon para fazer a da filosofia alemã, e que, ao mesmo tempo, apresentássemos breves exposições de economia política.
Bruxelas, 15 de junho de 1847.
Karl Marx”
Capítulo I – Uma Descoberta Científica
§ I. Oposição do Valor de Utilidade e do Valor de Troca
“Existe para ele preço inestimável, porque não existem compradores, e ele não os encontrará jamais, enquanto fizer abstração da procura.”
“Os antigos vinhateiros da França, ao solicitarem uma lei que proibisse a plantação de novas vinhas, os holandeses, ao queimarem as especiarias da Ásia e ao arrancarem as cravoarias nas Molucas — queriam somente reduzir a abundância para elevar o valor de troca. Em toda a Idade Média, quando se limitava por leis o número de companheiros que um mestre podia empregar ou o número de instrumentos que podia utilizar, agia-se segundo este mesmo princípio. (Ver Anderson, História do Comércio)”
“Depois de ter apresentado a abundância como valor útil, e a raridade como valor de troca — nada mais fácil do que demonstrar que a abundância e a raridade estão em razão inversa — o sr. Proudhon identifica o valor de utilidade com oferta e o valor de troca com procura.”
“Aquele que procura não oferece também ele um produto qualquer, ou o sinal representativo de todos os produtos, o dinheiro, e, oferecendo-o, não representa ele, segundo o sr. Proudhon, a utilidade ou o valor de uso? § De outro lado, aquele que oferece não procura também um produto qualquer, ou o sinal representativo de todos os produtos? E não se torna ele assim o representante da opinião, do valor de opinião ou do valor em troca?”
“O sr. Proudhon opõe o comprador livre ao produtor livre. Ele atribui a um e a outro qualidades puramente metafísicas.”
“Sim, o operário que compra batatas, e a mulher mantida por outrem que compra peças de renda seguem ambos sua opinião respectiva. Mas a diversidade de suas opiniões explica-se pela diferença da posição que ocupam no mundo, a qual é produto da organização social.”
“Assim, para citar outro exemplo, a necessidade que existe de notários não supõe um dado direito civil, que não é senão a expressão de um certo desenvolvimento da propriedade, isto é, da produção?”
Capítulo I – Uma Descoberta Científica
§ II. O valor constituído ou o valor sintético
“‘A ideia sintética do valor tinha sido vagamente percebida por Adam Smith… Mas esta ideia do valor era inteiramente intuitiva em A. Smith. A sociedade não muda seus hábitos através da crença em intuições: ela não se decide senão através da autoridade dos fatos. Era preciso que a antinomia se exprimisse de uma maneira mais sensível e mais nítida: J. B. Say foi seu principal intérprete.’
Eis a história completa da descoberta do valor sintético: cabe a Adam Smith a intuição vaga, a J. B. Say a antinomia, ao sr. Proudhon a verdade constituinte e ‘constituída’. E que não haja aí nenhum engano: todos os outros economistas, de Say a Proudhon, nada mais fizeram senão se arrastar na rotina da antinomia.”
“Quando, pois, falamos de mercadorias, de seu valor de troca e dos princípios que regulam o seu preço relativo, não temos em vista senão as mercadorias cuja quantidade pode aumentar pela indústria do homem, cuja produção é encorajada pela concorrência e não é contrariada por nenhum entrave”
Ricardo
“Os produtos de que um particular ou uma companhia têm o monopólio variam de valor segundo a lei que Lord Lauderdale enunciou: baixam à proporção que são oferecidos em maior quantidade, e sobem com o desejo que demonstram os compradores de os adquirir; o seu preço não tem relação necessária com seu valor natural. Mas quanto às cousas que estão sujeitas à concorrência entre os vendedores e cuja quantidade pode aumentar em limites moderados, seu preço depende, em definitivo, não do estado da procura e do abastecimento, mas sim do aumento das despesas de produção. [trabalho]”
“A teoria dos valores de Ricardo é a interpretação científica da vida econômica atual: a teoria dos valores do sr. Proudhon é a interpretação utópica da teoria de Ricardo.”
“Certamente, a linguagem de Ricardo não podia ser mais cínica. Colocar no mesmo plano as despesas de fabricação dos chapéus e as despesas da manutenção do homem é transformar o homem em chapéu. O cinismo está nas cousas e não nas palavras que exprimem as cousas. Escritores franceses, tais como os srs. Droz, Blanqui, Rossi e outros, proporcionam-se a inocente satisfação de provar a sua superioridade sobre os economistas ingleses, procurando observar a etiqueta de uma linguagem ‘humanitária’; se reprovam a Ricardo e à sua escola sua linguagem cínica, é que se sentem vexados de verem as relações econômicas expostas em toda a sua crueza, de verem traídos os mistérios da burguesia.”
“não se deve dizer que uma hora de um homem vale uma hora de outro homem, mas antes que um homem de uma hora vale outro homem de uma hora. O tempo é tudo, o homem não é mais nada; ele é quando muito a carcaça do tempo. Não se trata mais de qualidade. A quantidade decide tudo sozinha: hora por hora, dia por dia. Mas esta igualação do trabalho não é obra da justiça eterna do sr. Proudhon; é simplesmente a consequência da indústria moderna.”
“Adam Smith toma por medida de valor ora o tempo do trabalho necessário para a produção de uma mercadoria, ora o valor do trabalho. Ricardo mostrou este erro fazendo ver claramente a disparidade destas maneiras de medir. O sr. Proudhon vai além do erro de Adam Smith identificando as duas cousas, com as quais este não tinha feito senão uma justaposição.”
“No trabalho-mercadoria, que é uma realidade assustadora, ele não vê senão uma elipse gramatical. Assim, toda a sociedade atual, fundada sobre o trabalho-mercadoria, passa a fundar-se sobre uma licença poética, sobre uma expressão figurada. A sociedade quer ‘eliminar todos os inconvenientes’ que a atormentam. Pois bem! Que elimine os termos malsonantes, que mude de linguagem, e para isso nada mais tem a fazer senão se dirigir à Academia para pedir-lhe uma nova edição de seu dicionário.”
“A própria prova de sua tese, o sr. Proudhon vai encontrá-la na observação de que as cousas mais úteis custam menos tempo de produção, que a sociedade começa sempre pelas indústrias mais fáceis, e que sucessivamente ela ‘se entrega à produção dos objetos que custam maior tempo de trabalho e que correspondem à necessidade de uma ordem mais elevada’.”
“Em toda a Idade Média, os produtos agrícolas eram relativamente mais baratos do que os produtos manufaturados; nos tempos modernos eles estão em razão inversa. A utilidade dos produtos agrícolas terá por isso diminuído depois da Idade Média?”
“Durante um século inteiro os governos lutaram em vão contra o ópio europeu; a economia prevaleceu, e ditou suas ordens ao consumo.”
“É importante insistir sobre este ponto: aquilo que determina o valor não é o tempo no qual a coisa tenha sido produzida, mas o mínimo de tempo no qual ela é suscetível de ser produzida, e este mínimo é verificado pela concorrência.”
“A depreciação contínua do trabalho não é senão um dos lados, uma das consequências da avaliação dos artigos pelo tempo de trabalho. A elevação dos preços, a superprodução, e muitos outros fenômenos de anarquia industrial têm a sua interpretação neste modo de avaliação.”
“mas à medida que o preço do algodão baixa, o preço do linho deve comparativamente subir. Que resultará disso? O linho será substituído pelo algodão. É desta maneira que o linho foi expelido de quase toda a América do Norte. E obtivemos, no lugar da variedade proporcional dos produtos, o reino do algodão.”
“Todas as nações tentaram em diversas épocas, por meio de numerosos regulamentos e restrições comerciais, realizar até um certo ponto esta lei de proporcionalidade; mas o egoísmo, inerente à natureza do homem, levou-o a subverter todo este regime regulamentar.” Atkinson
“A produção precede o consumo, a oferta força a procura.”
“Assim, das duas coisas, uma:
Ou quereis as proporções justas dos séculos passados com os meios de produção de nossa época, e então sereis ao mesmo tempo reacionários e utopistas.
Ou quereis o progresso sem a anarquia: então, para conservar as forças produtivas, tereis de abandonar as trocas individuais.”
“E caberá a ele censurar os comunistas — gente desprovida de qualquer conhecimento de economia política, ‘homens obstinadamente estúpidos’, ‘estes sonhadores paradisíacos’ — por não terem encontrado, antes dele, esta ‘solução do problema do proletariado’?”
