Originalmente publicado em 5 de outubro de 2010
GLOSSÁRIO
beduíno: habitante do deserto
falange: infantaria; ossos dos dedos.
filisteu: inimigo dos israelitas. O vocábulo acabou se tornando usual para detratar o sujeito venal na época moderna.
hecatombe: unidade de medida (100 bestas para o sacrifício)
judeca: introdução do tempo linear
mesmerismo: capacidade de atração, carisma. Atributo óbvio do líder religioso.
Mohel: circunsidador
Nickelodeon: local de distração barata
prolegômenos: longo prefácio de uma obra
púlpito: altar
Sabá: pôr-do-sol da sexta até o pôr-do-sol de sábado
zigurate: templo piramidal
PRÓLOGO
“Nenhum povo insistiu com mais firmeza do que os judeus em que a história tem um propósito e a humanidade um destino”
PARTE I – OS ISRAELITAS
“O valor da Bíblia como um registro histórico foi tema de uma argumentação intensa durante 200 anos” “Nas primeiras décadas do século XIX (…) eruditos alemães descartaram o Velho Testamento como um registro histórico e classificaram grandes partes dele como mito religioso. Os 5 primeiros livros da Bíblia, o Pentateuco, agora eram apresentados como uma lenda transmitida oralmente de várias tribos hebréias que alcançaram uma forma escrita somente depois do Exílio, na 2ª metade do 1º milênio a.C. Essas lendas, assim se argumentava, eram cuidadosamente editadas, fundidas e adaptadas para suprir uma justificação histórica e sanção divina às crenças, práticas e rituais religiosos do estabelecimento israelita pós-exílio. Os indivíduos descritos nos livros primitivos não eram pessoas reais, mas heróis míticos ou figuras complexas que denotavam tribos inteiras.”
“O Livro do Deuteronômio, p.ex., se vê em dificuldade para fazer uma distinção entre os povos pagãos desprezados, que adoram a natureza e deuses-natureza, e os judeus que adoram Deus – a pessoa, advertindo-os de ‘que não levantem seus olhos para o céu, e quando virem o sol, e a lua, e as estrelas, mesmo toda a hoste do céu, devessem ser conduzidos a adorá-los’”
O potlatch pode até ser resquício do pretendido, mas é pedaço incompleto. Talvez não por culpa deles? O que é ritual, em todas as culturas? Ruído na comunicação… Ou são estágios intermediários de ascensão (degenerescência) da responsabilidade…
“Abraão pode, talvez, merecer uma descrição mais exata como um henoteísta: um crente em um Deus único, ligado a um povo em particular, que, não obstante, reconhecia a ligação de outras raças com seus próprios deuses.”
“Sempre existiu um problema quanto a com que nome designar os ancestrais dos judeus”
“Contudo, é importante observar que Moisés, embora uma figura desproporcionada, em nenhum sentido era uma figura de super-homem.”
“De uma forma sinistra, a escravidão faraônica foi um prenúncio remoto do programa de trabalho escravo de Hitler e até mesmo de seu Holocausto; os paralelos são perturbadores.”
PARTE II – O JUDAÍSMO
Jeremias e o paradoxo judeu por excelência: Estado, o inimigo da religião. O poder temporal corrompe o espiritual.
“constituindo os judeus cerca de 10% do império romano (…) Essa nação em expansão e uma prolífica diáspora eram as fontes da riqueza e influência de Herodes.”
PAN-JUDAÍSMO: “ele, por sua própria conta, salvou os Jogos Olímpicos do declínio e garantiu que seriam regularmente realizados, e com pompa de dignidade.”
“A morte de Herodes, o Grande, assim efetivamente encerrou a última fase do estável governo judaico na Palestina até meados do séc. XX.”
Coexistência virtualmente pacífica entre judeus e romanos durante o Alto Império, salvo por rebeliões pontuais.
No fim, os escritos de toda a humanidade não passam de xenofobia condensada.
“O rigorismo de Jesus em levar o ensinamento de Hillel a sua conclusão lógica fê-lo deixar de ser um sábio ortodoxo em qualquer sentido que tivesse significado e, de fato, deixar de ser um judeu.”
“É fora do normal falar de anti-semitismo na antiguidade pois o próprio termo não fôra cunhado até 1879.”
“Nada existe na igreja primitiva, a não ser a sua cristologia, que não tenha sido pressagiado no judaísmo.”
“Tinham o único sistema de bem-estar que existia.”
“Como o Cristianismo, o Islamismo foi originalmente um movimento heterodoxo dentro do Judaísmo, que se desviou para o ponto em que se tornou uma religião em separado, e, assim, rapidamente desenvolveu sua própria dinâmica e características.”
PARTE III – A CATEDOCRACIA
O “círculo vicioso” judio: quão mais oprimidos, mais recorriam à usura para com as outras raças; quanto mais faziam isso, mais eram odiados, criando um panorama insuportável.
Aqueles obrigados à conversão cristã que mantinham os ritos secretamente eram chamados de marranos.
Averróis: em outra coisa eu e os judeus somos Um só: estudamos e nos apegamos aos livros como forma de nos protegermos do “nonsense do mundo”.
Maimônides, considerado o maior catedocrata, comparado a Spinoza, devido a sua serenidade racional e ao mesmo tempo religiosa sui generis.
“Os judeus praticavam tanto a magia branca como a negra”
Os gnósticos como descendentes dos gregos místicos que infectavam o Talmude com fantasias e imagens, o que ofendia os judeus puristas.
Os franciscanos da Itália eram notórios anti-semitas.
PARTE IV – O GUETO
“a lenda do Judeu Errante assumiu forma já desenvolvida por volta dessa época.”
“a ascensão do protestantismo trouxe enorme benefício para os judeus (…) Erasmo considerava a erudição judaica mais destrutiva da fé que o obscurantismo dos escolásticos medievais. (…) Lutero, em particular, se voltou para os judeus pedindo apoio para sua nova interpretação da Bíblia e sua rejeição das reivindicações papais. (…) depois em 1543 voltou-se contra eles furioso. (…) Seu panfleto Von den Juden und ihren Lügen (‘Dos Judeus e suas Mentiras’), publicado em Wittenberg, pode ser designado como a 1ª obra do atual antissemitismo, e um gigantesco passo em direção à via para o Holocausto.”
“Judeus e marranos eram particularmente ativos em colonizar o Brasil; o 1º governador-geral, Tomé de Souza, enviado em 1549, era certamente de origem judaica. Eles possuíam a maioria das plantações de cana-de-açúcar. Controlavam o comércio de pedras preciosas e semipreciosas. Judeus expulsos do Brasil em 1654 ajudaram a criar a indústria do açúcar em Barbados e Jamaica.”
Bodin, Bacon
“A vida de um financista de guerra judeu era vulnerável. Porém, quando a vida de qualquer judeu não fôra vulnerável?” “durante a Guerra dos Trinta Anos, pela 1ª vez em sua história, os judeus foram mais bem-tratados do que a população como um todo. Enquanto a Alemanha passava pela pior angústia de sua história, os judeus sobreviveram e até mesmo prosperaram.”
“Um Eleitor da Saxônia, que empregava umas 20 famílias judias em torno de sua corte, ofereceu 5 mil táleres a um patriarca para fazer a sua barba. Porém o homem se recusou e o eleitor, em sua fúria, pediu tesouras e a cortou ele mesmo.”
Quando alguns rabinos calcularam que a vinda do messias ocorreria na ou por causa da Ilha pela diáspora, é impossível não traçar um paralelo com o marxismo e seu anti-capitalismo global que, não obstante, apresentava a Grã-Bretanha como o centro difusor da força operária.
“em 1697, de cem corretores na Bolsa de Londres, 20 eram judeus ou estrangeiros”
“A obra de Sombart foi posteriormente desacreditada porque foi usada pelos nazistas para justificar sua distinção entre o cosmopolitismo comercial judeu e a cultura nacional alemã.”
“[Spinoza] Não comia praticamente nada exceto mingau de aveia com um pouco de manteiga e sopa de cereal com passas” “Morreu, com 40 anos, de tuberculose e seu patrimônio era tão pequeno que sua irmã Rebecca recusou-se a administrá-lo” “Não é difícil ver que Spinoza apela para um tipo cerebral porém insensível de filósofo, como Bertrand Russell.”
“O Iluminismo francês era brilhante mas fundamentalmente frívolo, o alemão era sério, sincero e criativo. Daí era à versão alemã que os judeus iluminados se sentiam atraídos.”
“Em meados do século XVIII os resultados eram desprezivelmente manifestos para todos (…) os judeus pareciam aos cristãos (…) figuras de desdém e escárnio, vestidos com roupas engraçadas, presas de ridículas superstições antigas, tão distantes e isoladas da sociedade moderna como uma de suas tribos perdidas.”
Mendelssohn
PARTE V – A EMANCIPAÇÃO
“O exercício inteiro, dizia Heine com desprezo, era transformar ‘uma pequena Cristandade protestante em uma companhia judia. Eles fabricam um manto com a lã do Cordeiro de Deus, uma camisola com as penas do Espírito Santo e ceroulas com o amor cristão, e entrarão em falência e seus sucessores serão chamados: Deus, Cristo & Cia.’” “Na década de 1820 substituiu a Byron como o poeta mais grandemente aclamado da Europa.”
Burke
“1881 [grande êxodo russo] foi o ano mais importante na história judaica desde 1648, na verdade desde a expulsão dos judeus da Espanha em 1492.”
Waldo Emerson
Daniel Deronda, de George Eliot, “pouco lido”, mas “provavelmente o romance de maior influência do século XIX”.
Gide
“Em 1886, a Alemanha elegeu seu 1º deputado antissemita oficial: por volta de 1890 havia quatro; e 16 em 1893. Em 1895, os antissemitas eram praticamente a maioria na pequena assembléia legislativa.”
“Nas duas primeiras décadas dos Jogos Olímpicos ressuscitados, os judeus alemães ganharam 13 medalhas de ouro e 3 de prata em esgrima com florete e sabre. (…) Homens cujos avós falavam iídiche, que não possuía palavras para a guerra, chegaram, em 1914-18, a acumular mais de 31.500 Cruzes de Ferro como condecoração.”
Mahler, Schönber, Alban Berg
PARTE VI – HOLOCAUSTO
“Lenin, em particular, tornou-se um oponente feroz dos direitos especificamente judeus, ‘A idéia de uma <nacionalidade> judaica é definitivamente reacionária’, ele escreveu em 1903.”
“Isaac Babel (1894-1940), talvez o único grande escritor judeu que a Revolução Russa produziu.” “Ele apareceu no Congresso de Escritores de 1934, para fazer um discurso misterioso, irônico, pedindo que o partido, em sua infinita benevolência, privasse os escritores de apenas uma liberdade – a liberdade de escrever mal. Ele mesmo, disse ele, estava praticando um novo gênero literário e estava se tornando ‘um mestre do silêncio’. ‘Eu tenho tanto respeito pelo leitor’, ele acrescentou, ‘que eu estou mudo’. A seu devido tempo ele foi preso, e desapareceu para sempre, provavelmente sendo morto no início de 1940. A culpa alegada foi tomar parte em uma ‘conspiração literária’, mas a verdadeira foi simplesmente que ele uma vez conhecera a esposa de Nicholai Yezhov, o desfavorecido chefe político do NKVD. Na Rússia de Stalin isso era o bastante – especialmente para um judeu.”
ANOS DE KU KLUX KLAN: “os judeus consideravam um triunfo que, nos 9 anos difíceis, 1933-41, eles conseguiram fazer entrar 157 mil judeus alemães nos EUA, cerca do mesmo número que entrara no único ano de 1906.”
“O aspecto médico-sexual do antissemitismo de Hitler era provavelmente o mais importante (…) Um judeu que detinha uma cátedra universitária, que escrevesse um alemão impecável, que havia servido durante toda a guerra e recebido a Cruz de Ferro, era apenas tão perigoso como poluidor da raça como um comissário judeu bolchevista.”
“A partir de setembro de 1941 todos os judeus de 6 anos de idade ou mais tiveram de usar uma estrela de Davi, preta sobre um fundo amarelo, do tamanho da palma da mão, com a palavra Jude em seu centro.” “Os SS praticavam orgias de surras e açoitamentos: em Nasielsky, já em 1940, 1600 judeus foram açoitados a noite inteira. O exército alemão, que se antipatizava com os SS, mantinha arquivos desses incidentes, e alguns sobreviveram.” “Sem as ferrovias, o Holocausto não teria sido possível” “Os austríacos eram piores que os alemães. Desempenharam um papel no Holocausto em completa desproporção com o número deles.” “Os romenos não eram melhores que os austríacos. De um e de outro modo até piores.” “as notícias sobre o Holocausto tinham reportagem deficiente e tendiam a desaparecer no aturdimento geral da guerra de histórias de horror.” “Nenhum judeu era velho demais para não ser assassinado.” “Nenhuma igreja teve bom comportamento durante a guerra.”
PARTE VII – SIÃO
Três correntes sionistas: bengurionistas, weizmannistas e sternistas, cada uma mais radical que a outra; até entrar em campo uma quarta, ainda mais radical, capitaneada pelo sobrevivente do Holocausto Menachem Begin.
“Os países árabes podiam se permitir perder muitas guerras. Israel não podia se permitir perder nenhuma. Uma vitória israelense não podia conseguir a paz. Porém uma derrota israelense significava catástrofe. Israel sempre vira o Egito como seu inimigo mais perigoso, aquele mais provável de desfechar o golpe de nocaute. Porém o Egito também era o mais sintético dos opositores de Israel. Seu povo não era constituído de árabes autênticos.”
