AS AVENTURAS DE TOM SAWYER

PRIMEIRO CAPÍTULO

old fools is the biggest fools there is. Can’t learn an old dog new tricks, as the saying is.”

tolo velho é os mais tolos que tem. Não pode cachorro velho aprender truque novo, como diz o ditado.”

Spare the rod and spile the child, as the Good Book says.”

Deixa pra lá’ vara e’straga’ criança, como diz na Bíblia.”

ele é o garoto da minha falecida irmã, tadinho, não tenho coragem de surrá-lo. Toda vez que deixo barato, minha consciência dói, e toda vez que o castigo meu coração só falta espedaçar. Seja como for, homem que nasceu de mulher vive pouco e cheio de problema e aflição, como diz o Livro Sagrado, e assim creio.”

É mui difícil fazer ele trabalhar sábado, quando todo outro garoto dá de descanso.”

Em 2 minutos, ou talvez menos, ele esqueceu todos os seus problemas. Não porque seus problemas fossem agora um iota a menos em carga e amargura, como são os problemas para os homens, mas porque outro interesse, forte e novo, obnubilou-os de sua mente por ora – como as desgraças dos homens são olvidadas na excitação de novas empreitadas.”

Ele se sentiu como um astrônomo se sente quando descobre um planeta novo – sem dúvida, tanto quanto prazeres podem ser puros, profundos e poderosos, a vantagem estava com o garoto agora, não com o astrônomo!”

Alguém novo de qualquer idade e qualquer sexo era a curiosidade mais incrível na pobre e arruinada cidadezinha de St. Petersburg.”

– Posso te bater!

– Vamos ver se tem coragem!

– Posso fazer sim.

– Não, não tem coragem.

– Posso!

– Não pode!

– Posso.

– Não!

Uma pausa desconfortável. Então Tom abriu o bico:

– Qual seu nome?

– Não é da sua conta, talvez.

– Hmm… Tá bom, mas vou fazer ser.

– Então por que não faz?

– Se é o que você quer, tá feito.

– Ó, muito, muito, muito. Como despertou meu interesse.

– Ah, se acha muito esperto, né? Podia te derrubar com uma mão amarrada nas costas, se eu quiser.

– Então por que não derruba, você diz que pode.

– E eu vou, se você vacilar.

– Ah, não é o primeiro nem o último que canta de galo.

– Espertinho! Se acha, né, né não? Vai pa’ casa do chapéu, fi’.

– Chapéu. Tenta amassar esse ‘chapéu’ se você é o cara. Eu te desafio. Eu te desafio a amassar o meu chapéu. Nem é tocar em mim. O primeiro que tentar vai bancar o trouxa.

– Você é um mentiroso!

– E você outro.

– Você chama pra briga mas na hora amarela.

– Vai ver se tô na esquina.

– Vem cá – se você me dá mais uma dessas respostas vou tacar uma pedra na tua cabeça!

– Ah, sim, claro.

– Eu vou.

– Então… Taca, fazendo favor. Pra que você fica dizendo tudo que quer fazer? Por que não faz em vez? É porque é menino medroso.

– Não sou medroso.

– É.

– Não.

– Você é.”

– Dá o fora!

– Vai você primeiro!

– Não.

– Eu também não.”

– Você é um covarde e um pirralho. Vou dar o recado pro meu irmão mais velho. Ele pode te arrebentar com o mindinho. E eu vou falar pra ele fazer isso.

– E eu com teu irmão mais velho, cria? Meu irmão é maior que o teu. Ele pode atirar o teu por cima daquela cerca ali. (Ambos os irmãos eram imaginários.)

– Tá mentindo.

– Só porque você diz que tô mentindo não quer dizer que tô mentindo.

Tom riscou uma linha na poeira com seu dedão, e disse:

– Eu te desafio a pisar nessa linha. Se pisar vou te moer de pancada até ficar no chão. É a mesma coisa que tentar roubar uma ovelha dum rebanho. Vai pagar.

O novo menino logo pisou a linha, e retrucou:

– Agora que você disse que ia fazer, mas ver você fazer.

– Não chega perto, truta, tô avisando.

– Você já avisou mil vezes. Por que não pára de avisar?

– Desafiou! Faço até por 2 centavos, fi’.

O novo menino pegou dois moedões do bolso e os segurou em provocação. Tom deu um tapa e os derrubou no chão. Num instante os dois garotos rolavam agarrados na terra, impossíveis de desembolar, como dois gatos. E por bons 60 segundos cada um puxou e torceu o cabelo do outro, as roupas do outro, socou, arranhou o nariz, e cada um se sujou com glória o mais que pôde. A confusão estava armada, já não se via mais nada na poeira. Depois, a silhueta de Tom surgiu primeiro do bololô, triunfante, montado no novo garoto. Tom é quem socava.

– Grita ‘desisto’!

O menino se limitava a tentar se livrar de Tom. Já chorava – principalmente de raiva.

– Grita ‘desisto’! – e continuava com seus socos.

Finalmente o estranho cedeu e gritou seu DESISTO. Tom deixou ele se soltar e se erguer e disse:

– Aprendeu a lição. Melhor prestar atenção com quem vacila na próxima, fi’.

O novo menino saiu sacudindo e batendo a roupa tentando deixá-las o mais brancas, gemendo, convulsivo, seu fim de choro, fungando e olhando para trás de vez em quando e balançando a cabeça para ameaçar Tom: dá próxima, você tá ferrado! Tom respondeu com risadas, e se pavoneou todo. Assim que Tom virou as costas levou uma pedrada do garoto, acertando-o entre os ombros. O menino recuou num átimo e correu feito um antílope. Tom o perseguiu até em casa, e descobriu onde morava. Espreitou perto dos portões um tempo, como que desafiando o outro a sair, se ousasse. Mas o menino só estava interessado em fazer-lhe caretas pela janela. Já havia desistido. Por fim apareceu a mãe do rival, chamando Tom de mau, vicioso, criança vulgar, e ordenou que desse no pé. Assim Tom fez, mas dizendo que estava ansioso para agarrar de novo seu algoz.

Ele chegou em casa bem tarde aquela noite, e quando escalou com cuidado até a janela descobriu uma embocada, isto é, sua tia, esperando-o. E quando ela notou o estado de suas roupas se decidiu a tornar o sábado festivo do garoto em cativeiro e trabalho duro, sem falta.

SEGUNDO CAPÍTULO

Ela! Ela nunca trisca em ninguém – nem dar um cascudo na cabeça com aquele dedal – e quem é que liga, tô curioso pra saber. Ela fala feio, mas fala não ofende – pelo menos se ela não fala chorando. Jim, você vai ver uma maravilha. As melhores bolinhas de gude!

Jim começou a ceder.”

Existem gentlemen ricos na Inglaterra que dirigem carros de 4 cavalos de 20 a 30 milhas diariamente, no verão, em estradas reservadas para a elite. Ricos, porque o privilégio lhes custa um bom dinheiro! Mas pense: se lhes fosse oferecido ordenado pelo serviço, isso se tornaria um trabalho, coisa de lacaio, e dele abdicariam.”

TERCEIRO CAPÍTULO

ele se sentou num tronco à beira do rio e contemplou a monótona vastidão da corrente, desejando, quase inconscientemente, na verdade, se possível, se afogar e ali ficar, assim sem mais nem menos, para não necessitar passar pelas rotinas incessantes programadas pela natureza.”

QUARTO CAPÍTULO

Tom gastou todas as suas energias para decorar 5 versos, e escolheu parte do Sermão da Montanha, porque não encontrou versos mais curtos. Depois de meia hora Tom tinha uma vaga idéia geral de sua lição, mas nada mais; sua mente atravessava todo o campo do pensamento humano, e suas mãos se encontravam ocupadas em distrações recreativas. Mary pegou seu livro para ouvir-lhe a recitação, e Tom tentou percorrer o caminho de volta em meio à neblina:

– Abençados são os-ã-ã—

– Pobres-

– Isso – pobres; abençoados são os pobres em espírito, pois eles-eles—

– É deles…

– Pois é deles. Abençoados são os pobres em espírito, pois é deles o reino dos céus. Abençados são aqueles que lamentam, porque eles-eles—

– De-

– Porque eles-ã-ã—

– D, E, V,…

– Porque eles D, E – Ai, eu não sei o que é!

– Devem!

– Ah, devem! Porque eles devem – porque eles devem-ã-ã-devem… lamentar-ãã-ãã-abençoados são aqueles que devem—aqueles que—ãã—aqueles que devem lamentar, porque eles devem—ãã—devem o quê?! Por que você não me diz, Mary? – pra que tanta crueldade?

– Ah, Tom, pobre Tom cabeça-de-vento… Não faço por mal. Não é do meu feitio. Você deve se concentrar e tentar aprender outra vez. Não se desencoraje, Tom, você vai conseguir! – e se conseguir, vou dar-lhe um presente. Um presente que você irá gostar. Tudo bem, Tom, Tom, bom menino.

– Tá bom, Mary, mas o que é então, me fala o que é.

– Nada de mais, Tom. Só que quando digo que você irá gostar, saiba que é a verdade.

– Aposto que sim, Mary, eu acredito. Eu vou tentar de novo!

E Tom “tentou de novo” – e sob a dupla pressão da curiosidade e da esperança do ganho ele tentou com tanto espírito que obteve um grande sucesso. Mary deu-lhe uma Barlow¹ novinha em folha, vendida a 12 centavos e meio. As convulsões de alegria de Tom sacudiram seu sistema até seus fundamentos. (…) É claro que essa faca não tinha fio nenhum, mas “com certeza era” uma Barlow, e havia uma grandeza inconcebível nisso – embora fosse um mistério essa noção dos meninos ocidentais de que esta faca pudesse ser falsificada só para seu descontentamento ao arranjar uma Barlow que não fosse uma Barlow… Foi e deverá continuar sendo eternamente um mistério.”

¹ Uma faca negra famosa à época, uma das primeiras de seu tipo: uma faca de bolso, que hoje chamaríamos de canivete, pois a lâmina era retrátil em relação ao cabo de madeira.

ele achava que cachos eram algo afeminado, e seus próprios cachos enchiam-no de amargura”

Ele se encontrava tão desconfortável quanto aparentava estar. Havia qualquer coisa que tornava rapazes rígidos em trajes completos e tão asseados. Ele desejava que Mary esquecesse seus sapatos, mas sabia que era um desejo destinado ao fracasso; pois ela os ensebou bem-ensebados, como era o costume, e os retirou do guarda-roupa. Ele perdeu as estribeiras e gritou que sempre era forçado a fazer o que não queria.”

e as três crianças partiram para a missa de domingo – uma cerimônia que Tom odiava com todo o coração; já Sid e Mary adoravam a ocasião.

As horas do Sabá iam de 9 às 10:30. E depois o serviço da igreja. Duas das crianças sempre permaneciam para o sermão voluntariamente, e os outros também permaneciam – por razões de força maior.”

Todas as classes de Tom tinham o mesmo padrão – agitadas, barulhentas, problemáticas. Quando a turma recitava as lições, nenhum aluno sabia seus versos direito, tinha que recebê-los soprados.”

Quantos de meus leitores teriam a indústria e a aplicação para memorizar 2 mil versos, ainda que fosse por um exemplar da Bíblia de Doré?¹ E não obstante assim foi que Mary ganhou duas Bíblias de Doré – um paciente trabalho de 2 anos – sem falar no garoto de ascendência alemã que ganhou quatro ou cinco delas! Uma vez ele recitou 3 mil versos sem parar; mas o esforço custou a suas faculdades mentais, e ele era pouco mais que um rapaz idiota desse dia em diante – uma calamidade para a escola, uma vez que, em ocasiões especiais, diante de grandes públicos, o superintendente (como Tom mesmo falava) invariavelmente chamava o mesmo rapaz para ‘exercitar-se’.”

¹ Gustave Doré (1833-1883) não só ilustrou várias passagens da Bíblia como famosamente passagens da Divina Comédia de Dante.

Quando um superintendente de missa de domingo faz sua costumeira pregação, um livro de salmos à mão é uma necessidade incontornável, igual escrituras musicais para um cantor que desempenhará um concerto-solo. Se bem que por que isto é assim é que não sabemos: nem o solista nem o superintendente fazem uso, realmente, dos papéis a sua frente.”

O homem de meia-idade revelou-se um personagem prodigioso – nada menos que o juiz do condado – a mais augusta autoridade que essas crianças já haviam contemplado na vida – e as crianças se perguntavam de que ele era feito – simultaneamente queriam que ele esbravejasse e discursasse, mas temiam-no também ao máximo. Ele era de Constantinopla, a 12 milhas dali – é o quanto ele tinha viajado – uma enormidade, percorrendo o mundo – esses mesmos olhos já se tinham posto sobre a côrte do condado – que, diziam, tinha um telhado de metal.”

O bibliotecário ‘se exibia a todos’ – correndo de lá pra cá com vários livros em punho, aproveitando-se de cada burburinho e algazarra, que autoridades-insetos sempre acolhiam como bom sinal. As jovens professorinhas ‘se exibiam a todos’, inclinando-se com meiguice sobre alunos atrasados para compor as filas, erguendo dedinhos deliciosamente advertidores aos menininhos mais malvadinhos e acarinhando os menininhos mais bonzinhos na mesma medida, afetuosamente. Os jovens professorzinhos ‘se exibiam a todos’, com pequenas broncas e outras exibições de autoridade, manifestações de atenção em disciplinar qualquer polegada em seu entorno. E, sobretudo, professorzinhos de ambos os sexos sempre achavam que fazer à biblioteca, ou então perto do púlpito. Eram sempre emergências e que necessitavam ser refeitas uma, duas vezes até. Havia muito apuro nessas providências candentes. As menininhas ‘se exibiam a todos’ de várias formas, e os menininhos ‘se exibiam a todos’ com tamanha diligência que o ar parecia mais carregado do que nunca de papéis e brochuras importantes e dos sons de disputas controladas, limitadas a murmúrios. E acima de tudo o mais o grande homem sentado e a emanar um majestoso e judicial sorriso para a contemplação dos presentes, aquecendo-se no sol de sua própria importância – porque sem dúvida ele também estava ‘se exibindo a todos’.”

E agora, quando não havia mais esperanças, Tom Sawyer se pôs à frente com nove bilhetes amarelos, novo vermelhos e dez azuis, e requereu sua bíblia. Foi um trovão em pleno céu aberto. Walters jamais esperava uma aplicação dessa proveniência pelos próximos dez anos. Mas não havia nem como duvidar – ali estavam todos os bilhetes certificados, e Walters os inspecionou e não encontrou nada de errado. Tom foi elevado, perfilado com o juiz e os demais vencedores, e as grandes notícias logo tomaram a vila. Foi a maior surpresa da década, tão profunda sensação causou nos moradores o novo herói, investido agora da proteção até da autoridade judicial. A escola tinha não só uma maravilha, a autoridade, mas duas para contemplar aquele domingo. Todos os meninos se mordiam de inveja – mas quem mais se angustiou foram os que se aperceberam tarde demais que contribuíram diretamente para esse esplendor odioso, trocando seus próprios cartões pela riqueza que Tom acumulara vendendo sua cal. Esses agora menosprezavam a si mesmos, como os tolos do mais capcioso ardil, da cobra no jardim que seduziu-os todos.

O prêmio foi entregue a Tom com tanta efusão quanto o superintendente era capaz de demonstrar; só faltou talvez aquela reverência ou bajulação devida a um legítimo ganhador, porque os instintos do pobre senhor adivinhavam a existência de circunstâncias misteriosas rondando a ocasião, impossíveis de resolver em tão pouco tempo. Era ilógico imaginar que esse garoto tinha registrado na cabeça duas mil linhas da sabedoria das Escrituras – uma dúzia só já parecia exceder seus limites, disso o superintendente não tinha dúvida.

Amy Lawrence era só orgulho e contentamento, e ela tentou chamar a atenção de Tom como pôde para demonstrar-lhe – Tom, todavia, nem a olhava. Ela se pôs pensativa, espantada mas introspectiva. Com os minutos foi-se pondo desconfiada. A seguir, tentava se prender a alguma hipótese pouco nobre. Observava furtivamente como quem devia entender o inexplicável focando o olhar em qualquer coisa no salão. Foi então que seu coração partiu, sentiu ciúmes, revolta, lágrimas jorraram e passou a odiar todos em volta. Tom principalmente (ela assim pensava no momento).

Tom foi apresentado ao juiz. Sua língua se encontrava travada. Seu fôlego era escasso, o ar vinha com dificuldade. Seu coração chacoalhava – parte pela grandeza do homem, parte porque ele era o pai da menina. Ele teria adorado se prostrar e adorar este homem, se fosse no escuro e ninguém pudesse ver. O juiz colocou a mão na cabeça de Tom e disse que ele era um belo dum rapazinho, perguntando em seguida seu nome. O rapazinho balbuciou, engasgou, mas conseguiu emitir:

– Tom.

– Ah, Tom não, deve ser—

– Thomas.

– Isso! Foi o que pensei, que era um nome mais longo. Mas eu ouso dizer que ele é ainda mais longo, não? Não quer dizê-lo por completo?

– Diga ao senhor seu outro nome, Thomas – disse Walters, – e diga ‘senhor’. Não esqueça das maneiras!

– Thomas Sawyer – senhor!”

– Creio que você não se importe em contar a mim e a esta dama algumas das coisas que aprendeu. Não, tenho certeza que não se importaria! Pois temos muito orgulho de jovens que aprendem bem. É evidente que você sabe o nome dos doze discípulos, não é assim? Por que não diz, por exemplo, o nome dos dois primeiros que foram nomeados pelo Senhor?

(…) As tripas do senhor Walters deram um nó. Ele disse a si mesmo: é impossível que o garoto responda a mais simples das questões! Por que o juiz foi perguntá-lo? Assim mesmo ele se sentiu na obrigação de falar algo, e interveio:

– Responda o juiz, Thomas – nada receie!

A garganta de Tom ainda parecia arder em chamas.

– Ah, eu sei que você sabe – atalhou a dama. Que os nomes dos dois primeiros discípulos eram…

Davi e Golias!…

Baixemos as cortinas da cortesia e da caridade sobre a continuação desta cena.”

QUINTO CAPÍTULO

Tom não tinha cachecol. E achava que os meninos que tinham era uns esnobes.”

Havia, há certo tempo, um coro de igreja que não era nada mal, mas esqueci onde ele ficava. Isso foi há muito tempo. Lembro apenas de soslaio, mas devia ser num país estrangeiro.”

Nas reuniões sociais da igreja ele sempre era chamado para declamar poesia; e assim que ele terminava as madames erguiam suas mãos só para deixá-las recair sobre seus colos, depois tapavam a vista, de repente úmida, vibravam as cabecinhas, como que querendo dizer que palavras não podiam expressar o que sentiam. Tão belo, belo DEMAIS para este mundo mortal.

Depois de cantado o hino, o Reverendo Senhor Sprague se dirigia a um quadro de avisos e lia lembretes de encontros e cerimônias da comunidade e mais este e aquele jantar beneficente, até que a lista parecia que iria até o juízo final e… um costume estranho, talvez ainda corrente na América, mesmo nas cidades, subsistente nessa idade dos jornais… Muitas vezes quanto menos razões há para preservar um costume, mais difícil é se livrar dele!

O ministro então passava a rezar. Uma oração boa e generosa. Muito específica: pedia o bem da própria igreja, o bem das criancinhas da igreja, o bem das outras igrejinhas do vilarejo, o bem do vilarejo em si, o bem da prefeitura, o bem do estado, o bem dos funcionários do estado, o bem Estados Unidos da América, o bem das igrejas de todos os Estados Unidos da América, o bem do Congresso, o bem do Presidente, o bem dos funcionários do governo norte-americano, o bem dos pobres marinheiros, à mercê de tempestades marítimas, o bem de milhões oprimidos e gemendo sob a tirania dos monarcas europeus, e também dos déspotas do Oriente, o bem a todos os que têm em si a luz da razão e uma boa alma, mas que ainda não têm olhos para ver nem ouvidos para ouvir, por assim dizer; o bem dos pagãos nas ilhas mais remotas; e fechava, esta oração bem-feitinha, com uma súplica para que as palavras que ele acabava e que ainda ia acabar de dizer fossem agraciadas com o favor divino, como sementes num solo fértil, fortalecendo, devagar e com o tempo, o bem, frutificando as coisas boas deste mundo maravilhoso. Amém.”

ele considerava acréscimos injustos e torpes. No meio da pregação uma mosca pousou na parte de trás do banco justo diante de si. Uma mosca que parecia torturar seu próprio espírito como um crente em penitência. Esfregava calmamente as patas, depois esfregando-as na cabeça, tão vigorosamente que a cabeça parecia se descolar do corpo – o fio que era o pescoço da criatura se pôs à mostra. Raspando as asas com suas patas traseiras, aplainando-as com o resto de seu corpo, parecia agora que a mosca vestia um fraque. E seguia nessa espécie de higiene individual com a tranqüilidade de quem se sabe segura. De fato a mosca estava plenamente segura. Não importa quão intenso fosse o ímpeto das mãos de Tom, se coçando para esmagar ou espantar aquela mosca, Tom acreditava que sua alma seria sumariamente destruída no caso de cometer tal ato durante o sermão.”

O ministro não só leu toda sua exortação costumeira como seguiu, no tom monocórdio possível, auto-resolvendo um argumento tão prosaico, na continuação da leitura, que não foram poucas as cabeças que começaram a pescar – e não deixava pela mundanidade de ser um argumento envolto em fogo imorredouro e enxofre e parecia reduzir a casta dos predestinados a uma companhia tão pequena que, no fim das contas, não valia o esforço da redenção. Tom contou as páginas do sermão. Depois da igreja ele sempre sabia quantas páginas haviam no discurso, porque ele se concentrava em contá-las; mas nada do conteúdo lhe era familiar.”

Tom olhou, e esperou. Mas estava fora de alcance. É de confessar que outros fiéis desinteressados do sermão encontraram alívio no besouro, e passaram a fitá-lo também. De repente um cachorro de rua entrou, parecendo tristonho, lerdo devido à calidez do verão, muito comportado, cansado, talvez, do repouso e preguiça do estar parado o dia todo, arfando por uma mudança de ares. Ele mesmo observou o besouro. O rabo se ergueu começou a abanar. Ele começou a avaliar o prêmio. Circundou-o. Cheirou-o de distância segura, voltou a rodeá-lo com cautela. Avalentonou-se, cheirou de mais perto. Elevou seu focinho e tentou uma captura escrupulosa do inseto, mas errou de mira. Mais uma vez, e outra, e o besouro se desviava. O cão começava a gostar do esporte. Mera presa de seu estômago a roncar com o besouro já em suas patas, continuou seus experimentos. Uma hora fatigou-se e, indiferente, parecia não ligar para o alvo, nem para os objetos em torno. Dispersou-se. Balançou a cabeça, de pouco em pouco o queixo foi caindo e encostou mesmo no besouro, que não recusou a interação. O cão ganiu, chacoalhou a cabeça e o besouro caiu várias jardas para lá. E caiu mais uma vez de costas, inofensivo. Os vizinhos humanos, espectadores do espetáculo, deram risotas de uma alegria terna e interna, muitos dos rostos, consternados em ser assim flagrados, esconderam-se atrás de leques e lenços, e Tom, Tom também ficou contente! O cão parecia um tolo, e na verdade parecia ter alguma consciência disso. Não pensem que cães são incapazes de rancor, porque ele foi para se vingar. Aproximando-se do besouro iniciou um ataque mais desconfiado que todas as investidas anteriores, pululando em derredor cobrindo todos os pontos de um círculo imaginário, ameaçando com suas grandes patas a uma polegada da criatura, tentando a captura bucal com seus dentes rangidos, balouçando a cabeça até suas orelhas se porem eretas novamente. Mas esse cão não podia persistir por muito tempo, e se distraiu outra vez. Tentou se divertir com uma mosca próxima, mas isso era demasiado pouco. Seguiu os passos duma formiga, o nariz colado no chão da igreja, bocejou, suspirou, já havia esquecido do besouro inteiramente, a ponto de simplesmente sentar nele sem querer. Agora o uivo foi mais estridente que da outra vez, pareceu denotar muita dor. O cachorro foi em direção à nave da igreja, querendo distância dali. Ganiu ainda por um tempo. Ele cruzou a passagem entre os fiéis e o altar. Depois já estava na outra nave, saiu pelas portas. Já estava bom de se espreguiçar por hoje! Sua angústia aumentava a cada passo, era essa a impressão pelo menos, e no fim ele parecia um ponto de lã no horizonte em trajetória errática, cedendo talvez à força da gravidade, cometa que se aproximava em elipse a algum corpo celeste pesado. Mas o sofredor se recompôs e se dirigiu então… para aquele que era seu dono, então ele tinha uma casa um dono! Alguns latidos tristes ainda foram ouvidos, mas logo foram abafados pela janela recém-fechada…

Nesse ponto, a audiência da igreja já está sufocando, de cara vermelha, prendendo o riso, e o sermão chegou no fundo do poço, como se o tempo tivesse parado. O sermonista notou-o e interrompeu-se por um hiato, depois dos barulhos da aventura anterior; o retorno à lide foi célere, no entanto, e não pareceu a nenhum ouvinte, por isso, mais instigante nem ao menos ter sido afetado por qualquer traço emocional, o que era desabonador. Nada o alteraria até o fim. Mesmo risotas que escapassem eram recebidas com a mesma gravidade inalterável, tanto faz se sensível às risotas ou não. Só o que se ouvia além da voz e de alguns sons da platéia, para ser franco, era o ranger dos bancaços de madeira.

(…) Tom Sawyer caminhou aquele dia para casa um pouco alegre, pensando consigo que havia no fim de contas alguma satisfação a ser retirada dos serviços divinos quando as circunstâncias fossem favoráveis.”

SEXTO CAPÍTULO

A segunda-feira de manhã encontrou Tom Sawyer no estado mais lamentável. Segundas de manhã sempre encontravam Tom deste jeito – porque eram o vagaroso reinício dos sofrimentos escolares semanais. Geralmente ele começava o dia desejando que o sabá nunca tivesse existido – ser liberado só fazia voltar à prisão algo mais dorido e odioso.”

De repente ele se deu conta de algo. Um de seus dentes da frente e de cima estava frouxo. Isso significava sorte. Ele começava instintivamente a gemer, o <gatilho>, como ele mesmo costumava dizer, de, quando se lhe ocorresse propício, ganhar uma causa no tribunal – até que Tom lembrou de que talvez tudo terminasse com sua tia realmente arrancando seu dente – e decerto doeria.”

Em pouco tempo Tom estava diante do pária juvenil do vilarejo, Huckleberry Finn,¹ filho do alcóolatra local.”

¹ Novela que é a seqüência direta desta.

Huckleberry ia e vinha de acordo com sua própria vontade. Dormia no batente das portas no tempo bom e em barris vazios quando estava úmido. Ele não tinha de ir à escola ou à igreja, nem tinha qualquer adulto por mestre ou amo; não obedecia a ninguém. Ele podia ir pescar ou nadar quando e onde escolhesse, e demorar o quanto quisesse. Ninguém o proibia de brigar tampouco. E nem o mandava ir para a cama. (…) também não tinha de tomar banho, nem vestir roupas limpas. Podia xingar e praguejar que era uma beleza. Em resumo, tudo o que fazia a vida de um menino a mais preciosa, ‘Huck’ tinha.”

Tom cumprimentou o romântico pária:

– Olá, Huckleberry!

– Olá você, sinta-se servido.

– O que é isso que você tem aí?

– Gato morto.

– Deixa eu ver, Huck. Ó, ele tá bem duro. Onde você achou?

– Comprei dum garoto.

– Com o quê?

– Dei um bilhete azul e uma bexiga que consegui no açougue.

– Onde você achou o bilhete azul?

– Comprei do Ben Rogers faz duas semanas por um bastão de arco de ginástica.

– Fala… o que dá pra fazer com gatos mortos, Huck?

– O que dá pra fazer? Espremer verruga.

– Não! Sério? Eu sei uma coisa melhor.

– Duvido. O que é?

– Ora, água de gambá!

– Água de gambá! Eu não dava um vintém por água de gambá.

– Tem certeza que não? Já tentou tirar verruga com água de gambá alguma vez?

– Não, nunca, mas o Bob Tanner já.

– Quem disse?!

– Ué, ele disse pro Jeff Thatcher, e o Jeff contou pro Johnny Baker, e o Johnny contou pro Jim Hollis, e o Jim contou pro Ben Rogers, e o Ben contou prum negro, e o negro me contou. Aí tem!

– Sim, mas e então? Todos eles mentem. Todos isto é, menos o negro. Eu não conheço ele. Mas eu nunca vi um negro que não mentiria. Porra! Agora me diz como o Bob Tanner fez, Huck.

– Ué, ele afundou a mão numa poça depois da chuva.

– Durante o dia?

– Acho que sim.

– Com a cara pra poça?

– Sim. Pelo menos eu diria.

– Ele falou alguma coisa?

– Eu não diria que falou. Eu não sei.

– Arrá! Curar verruga com água de gambá desse jeito não dá! Não, isso não ia dar em nada. Você tem que ir sozinho, até o meio do bosque, onde você sabe que tem uma poça velha lá, e assim que der meia-noite você fica de costas pra água podre, enfia sua mão nela e então diz: Grão de cevada, grão de cevada, comida de índio, água de gambá, água de gambá, engole essas verrugas;

e depois ir embora correndo, 11 passos, com seus olhos fechados, e depois se virar umas 3 vezes e ir direto pra casa sem falar com ninguém. Porque se você falar, o charme quebra.

– Ué, parece legal. Mas não foi o jeito que o Bob Tanner fez.

– Não senhor, com certeza absoluta não, porque ele é o moleque mais verruguento da cidade! Se ele tivesse feito ele não ia ter verruga! Eu tirei umas mil verrugas da minha mão desse jeito, Huck. Eu brinco tanto com sapo que sempre me dá verruga! Eu tiro com vagem.

– Feijão é muito bom, já fiz isso.

– Já? Como você faz?

– Você pega e divide a vagem, e corta a verruga até sair um pouco de sangue, aí você põe o sangue num pedaço do feijão e pega e cava um buraco e enterra o feijão mais ou menos meia-noite na encruzilhada na sombra da lua, e depois você queima o resto do feijão. O pedaço com sangue vai virar um ímã e vai puxar a outra metade que você cortou, aí é só você usar isso pra ressecar a verruga, e puxar ela da sua pele.

– É, é isso aí, Huck, é isso aí! Mas quando você tá enterrando o feijão, se você diz ‘Desce feijão, cai verruga, não vem mais me perturbar!’, é melhor! É assim que o Joe Harper faz, e ele já foi em Coonville, e um bando de lugar. Mas me diz – como é pra sarar com gato morto?

– Ué, você pega seu gato e vai e chega no cemitério perto de meia-noite, ou na hora do enterro de alguém mau. E meia-noite um diabo vai aparecer, ou talvez dois, três… Mas o negócio é que você não pode ver eles, você só ouve uma coisa que parece co’ vento, ou uns burburinhos. E quando eles tão levando o cadáver do homem mau, você lança o gato pra eles e grita: ‘Diabo segue corpo, gato segue diabo, verruga segue gato, sai de mim verruga!’. Isso vai curar qualquer verruga.

– É, faz sentido. Você já tentou, Huck?

– Não, mas a velha madre Hopkins que me disse.

– Hm, eu acho que é verdade então. Porque falam que ela é uma bruxa.

– Falam! Ué, Tom, eu sei que ela é. Ela enbruxou meu pai. Meu pai sabe. Ele vinha vindo um dia, aí ele viu que ela tava embruxando ele, então ele pegou uma pedra, e se ela não tivesse desviado tinha peg’em chei’! A mesma noite ele caiu rolando dum barracão em que ele tava bebendo, e quebrou o braço, cê ‘credita?!

– Cara, que horrível! Como ele sabia que ela tava embruxando ele?

– Deus, meu pai jura de mão junta. Ele diz que se elas tão olhando fixo pra você, tão embruxando você. Se elas tão murmurando é certeza, certeza! Quando elas tão murmurando elas tão falando o pai-nosso de trás pra frente!

– Hucky, me diz… Quando você vai fazer a parada com o gato?

– Essa noite. Eu acho que vão vir pro velho Hoss Williams.

– Mas o enterro foi sábado. Não pegaram o corpo dele sábado de noite?

– Ué, sabe-tudo! Com’é que o charme funciona até meia-noite então? E aí meia-noite de sábado já é domingo. Os demônios não vadiam domingo, eu diria.

– Nunca pensei nisso. Deve ser assim. Deixa eu ir contigo?

– Claro! Se você não tiver com medo…

– Com medo!! Duvido muito. Você vai miar?

– Sim. E você mia de volta, se escutar. A última vez, você me fez ficar miando um tempão até o velho Hays me tacar pedra! E ele falou: ‘Maldito seja esse gato!’. E pra me vingar eu atirei um tijolo na janela dele. Mas você não me ouviu.

– Não ouvi. Eu não pude miar aquela noite, porque minha tia tava me vigiando. Mas dessa vez eu vou miar. Ei, o que é aquilo?

– Só um carrapato.

– Onde conseguiu?

– Na floresta.

– Quer vender pelo quê?

– Não sei. Não quero vender, eu acho.

– Tá bom. É um carrapatinhozinho pequenininho mesmo.

– Qualquer um pode pegar um carrapato que não tem dono. Tô satisfeito com esse. É um carrapato bom pra mim.

– Lógico, tem carrapato pra caraca! Eu podia ter mil se eu quisesse.

– Por que você não arranja uns? Ah, você não consegue! É um carrapato recém-nascido. É o primeiro que espio esse ano!

– Ei, Huck… Eu te dou meu dente pelo carrapato.

– Hm, deixa ver.

Tom tirou um pedaço de papel do bolso e com cuidado desenrolou-o. Huckleberry estudou o dente com certa nostalgia. Era uma bagatela. Então ele disse:

– É genhuíno?

Tom levantou o beiço e mostrou a banguela.

– Ué, muito bom! – disse Huckleberry, satisfeito – Negócio fechado.

Tom encerrou o carrapato numa lata velha daquelas de armazenar balas de armas, a mesma caixa em que ultimamente Tom vinha confinando um besouro-veado. E então os garotos se separaram, cada um achando que saiu no lucro.

– Thomas Sawyer!

Tom sabia que quando seu nome era pronunciado inteiro significa problema.

– Senhor!

– Venha aqui. Agora, senhor, por que está atrasado, como aliás quase sempre?

Tom estava para se refugiar em uma de suas mentiras cultivadas, quando viu duas longas tranças de cabelo amarelas repousando ao fundo, que ele imediatamente reconheceu pelo processo elétrico chamado simpatia do amor. E ao lado da portadora dessas tranças, eis o único lugar vago restante. Ele então preparou novo discurso direto das entranhas:

– Eu parei para conversar com Huckleberry Finn!

O pulso do professor até parou, dir-se-ia. Ficou sem reação. O barulho da sala também virou silêncio. Sem dúvida todos começaram a se perguntar mentalmente se aquele toleimas tinha virado o fio de vez.

– Você—você o quê?!

– Parei para conversar com Huckleberry Finn.

Não havia confusão na audição de qualquer palavra.

– Thomas Sawyer, essa é a mais espantosa confissão que jamais ouvi. Não é qualquer palmatória que limpará tamanha ofensa! Tire sua jaqueta.

O braço do mestre executou os golpes até se cansar, de modo que as estaladas foram aumentando de intervalo entre uma e outra até pararem por completo. Em seguida veio a ordem:

– Agora, senhor, vá, e se sente com as meninas! Que isso lhe sirva de máxima lição.

O tititi que percorreu a sala pareceu desconcertar o garoto. Mas o resultado externo, essa feição de abatimento, fôra em verdade causado por sua adoração infinita ao novo ídolo e aquele medo ou frio na barriga decorrente do ambíguo prazer de receber a honra de sentar-se ao seu lado. Ele sentou na extremidade do grande banco de pinheiro e a garota retraiu-se a sua passagem, jogando a cabeça para o lado. Cotoveladas e piscadinhas e sussurros atravessaram o cômodo, mas Tom sentou quieto, em postura tranqüila, de braços estendidos sobre a longa e baixa carteira diante de si, pelo menos afetando ler seu livro.”

Então o garoto começou a olhar às furtadelas para a garota. Ela não deixou de notar, franziu os lábios em sentido de repulsa e virou o rosto em relação a ele por completo por um minuto inteiro. Quando ela cautelosamente volveu à posição antiga, viu um pêssego sobre sua carteira. Ela o jogou longe. Tom, com ternura, devolveu-o ao mesmo lugar. Ela o jogou longe de novo, mas com menos animosidade. Tom pacientemente retornou a fruta ao mesmo sítio. Então ela deixou o pêssego ficar lá. Tom garatujou em sua ardósia: ‘Por favor, fique com ele. – Eu tenho mais’. A garota mirou as palavras, mas pareceu não saber interpretá-las. Agora o garoto começou a desenhar alguma coisa, escondendo ao mesmo tempo o conteúdo com a mão esquerda. Por um tempo a garota simplesmente se negou a reparar; mas sua curiosidade humana começou a se manifestar por sinais orgânicos bastante finos e bem-disfarçados. O garoto continuava em seu trabalho, aparentemente inconsciente desses sinais. A garota entrou numa postura como que de uma tentativa passiva de enxergar algo do desenho, mas o garoto não demonstrou nenhuma perturbação diante dessa nova tática. Por fim ela cedeu e cochichou, hesitante:

– Deixa eu ver.

Tom descobriu parcialmente uma horrível caricatura duma casa de duas cumeeiras e uma chaminé com fumaça em espiral. Isso fez com que o interesse da garota pela parte ainda oculta da figura se intensificasse. Ela esqueceu de afetar qualquer discrição. Quando o desenho terminou, e Tom deixou-o a descoberto, ela olhou um instante, depois cochichou:

– É bonito. Desenha um homem.

O artista então compôs um homem no jardim frontal. O homem parecia um guindaste. Pelo seu tamanho ele podia pisar na casa e usá-la como degrau. Mas a garota não era hipercrítica. Satisfez-se com o monstro, e cochichou:

– É um homem bonito. Agora me põe do lado dele.

Tom desenhou uma ampulheta com uma lua cheia no topo, com riscos por membros, sem dizer que armou os dedos protuberantes com um portentoso leque. A garota disse:

– É muito, muito bonita. Eu gostaria de saber desenhar.

– É fácil – cochichou Tom. Eu vou te ensinar.

– Sério? Quando?

– Meio-dia. Você vai pra casa almoçar?

– Eu fico se você ficar.

– Bom – negócio fechado. Qual seu nome?

– Becky Thatcher. Qual o seu? Ah, eu já sei: é Thomas Sawyer.

– Esse é o nome por que me chamam aqui. Eu sou Tom para os íntimos. Você vai me chamar de Tom, não vai?

– Vou.

(…)

– Se eu mostrar, você vai contar.

– Não, eu não vou. Juro, juro, beijo, beijo, que não vou contar.

– Não vai contar pra ninguém? Nunca, enquanto viver?

– Não, nunca vou contar pra ninguém. Agora deixa eu ver.

– Ah, você não quer ver isso!

– Já que você me trata assim, eu vou ver. – E ela pôs sua mãozinha sobre a dele e uma ligeira luta decorreu, Tom fingindo que resistia sinceramente, mas deixando-se vencer aos milímetros até revelar as palavras EU TE AMO.

– Ai, seu malvado! – e deu uma palmada na mão trigueira de Tom, mas corou e pareceu feliz com a situação.

Exatamente nesta conjuntura o garoto sentiu um lento, fatídico agarrão que envolveu sua orelha, e um empuxo firme. Foi dessa maneira, agarrado pela aba, que ele foi conduzido através de toda a sala para seu assento de origem, debaixo de gargalhadas ardentes de toda a classe. Então o professor continuou de pé olhando para baixo, ao seu lado, por agoniantes segundos; até decidir deslocar-se a seu trono, sem mais palavras. Muito embora a orelha de Tom ardesse como o inferno, seu coração rejubilava.”

na aula de leitura Tom estava de dar pena; na aula de geografia, trocou lagos por montanhas, montanhas por rios, e rios por continentes; na aula de pronúncia e ortografia as palavras mais básicas davam nós em sua língua e em sua pena. Era como esmigalhar com um pisão a medalha platinada que ganhara com tanto esforço no fim de semana.”

SÉTIMO CAPÍTULO

Enquanto um menino importunasse o carrapato com interesse absorvente, o outro se interessaria na mesma medida. Ambos inclinavam a cabeça sobre a ardósia em sincronia, e ambos estavam tão entretidos que excluíam a existência do mundo exterior.”

– Não vou deixar ele quieto!

– Você deve – ele tá do meu lado da linha.

– Ei, Joe Harper, de quem é esse carrapato?

– Eu não tô nem aí de quem é o carrapato – ele tá do meu lado da linha, e você não deve tocar nele.

– Então, só vou apostar que vou, e ponto. Ele é meu carrapato e eu vou fazer a merda que eu quiser com ele ou morrer!”

– Não, não ligo muito pra ratos. Eu gosto é de chiclete.

– Bem lembrado – queria ter um agora.

– Mesmo? Eu tenho alguns. Eu vou deixar você mascar um bocado, mas você tem que me devolver depois!

Isso era vantajoso, então ambos passaram a mascar em turnos, e balançavam as pernas contra o banco, de tanta satisfação.

– Já ‘teve no circo? – perguntou Tom.

– Já, e meu pai vai me levar de novo já, já, se eu me comportar.”

– Como é? Não tem comparação com nada. Você só fala pra um garoto que não vai ter nenhum outro garoto, a vida toda, só ele! Nenhum outro garoto, nunca, nunca, nunca, e depois vocês se beijam e isso é tudo. Todo mundo pode fazer isso!

– Beijar? Mas pra que beijar?

– Hm, beijar é, você sabe, é—ué, todo mundo beija.

– Todo mundo?!

– É, todo mundo que se ama! Você lembra o que eu escrevi na ardósia?

– Si-im.

– O que foi?

– Não posso te contar.

– Eu posso te contar?

– Si-im… Mas… não agora.

– Não, agora.

– Não, agora não. Ama-anhã…

– Nana nina! Agora. Por favor, Becky. – eu vou cochichar, eu vou cochichar bem baixinho.

Becky hesitava. Tom interpretou o silêncio como consentimento, passou o braço pela sua cintura e sussurrou a frase batida no tom mais brando que encontrou, com seus lábios o mais próximo possível da orelha de Becky. E ainda acrescentou:

– Agora você cochicha pra mim – igualzinho.

Ela resistiu, pelo menos por um hiato, então falou:

– Você olha pra lá pra não me ver, então eu cochicho. Mas você nunca vai contar pra ninguém, tá entendendo, Tom?! Você NÃO vai, Tom, tá bom?!

– Não, deixa. Pode deixar que eu não vou. Vamo’, Becky.

Ele virou o rosto. Ela se inclinou com timidez se aproximando até seu hálito fazer os cachinhos de Tom se moverem, e sussurrou:

– Eu… amo… você!

Então ela o repeliu e correu para longe, circulando as carteiras e bancos, Tom seguindo-a de perto. Becky se refugiou numa das quinas, com seu lencinho cobrindo o rosto. Tom amaciou seu pescoço e implorou:

– Vem, Becky, tá tudo bem. Quase acabando. Falta só o beijo! Não tem por que ter medo – é uma bobagem! Por favor, Becky! – E ele a puxou pelo lenço e as mãos.

Ela foi cedendo aos poucos, deixando as mãozinhas caírem. Seu rosto, fulgurante de tanta resistência, se aproximou do de Tom e se submeteu. Tom encostou sua boca na boca vermelha de Becky e disse:

– Agora terminou, Becky! Está feito! E depois disso, pra sempre, você nunca vai amar ninguém, só eu, e você vai poder casar com ninguém, só comigo, pra todo o sempre e a eternidade. Né?

– Não, nunca vou amar ninguém sem ser você, Tom, e eu nunca vou casar com ninguém, só com você, Tom… E você também não pode casar, só se for comigo, Tom.

– É claro! É óbvio! É parte do ritual. E sempre, indo pra escola, ou quando a gente ‘tiver indo pra casa, você tem que andar comigo… quando ninguém ‘tiver olhando… E você me escolhe e eu te escolho nas duplas, você é sempre meu par, eu sou sempre seu par, porque é assim que se faz quando um casal se compromete.

– É tão legal! Nunca tinha ouvido falar…

– É sempre tudo de bom! Sabe, eu e a Amy Lawrence

Os olhos arregalados contaram a Tom que ele tinha pisado em ovos – e ele parou, aturdido.

– Ai, Tom! Então eu não sou a primeira que você jurou que ia…!!!

A criança desatou a chorar. Tom disse:

– Não chora, Becky, eu não ligo pra ela mais!!

– Sim, você liga, Tom – você sabe que liga.

Tom tentou circunvolver Becky pelo pescoço, mas ela o empurrou e virou a cara para a parede, sem que as lágrimas parassem de deslizar pelo seu rosto. Tom tentou de novo, cheio de consolações em suas palavras, mas foi repelido outra vez. Era o cume para seu orgulho. Ele escapuliu e se viu a céu aberto. Parou um tempo, em frenesi e aflito, fincando o olhar na porta pelo lado de fora, desejando mil vezes que ela se arrependeria e viria atrás dele. Mas ela não o fez.”

Ela ouvia com atenção, mas não houve resposta. Ela não tinha como companheiros senão o silêncio e a solidão. Então ela se sentou novamente com o intuito de chorar e infligir um castigo a si mesma. Nesse meio-tempo os alunos começaram a se reagrupar, e ela teve de esconder toda sua tristeza, embora seu coração partido não fosse se emendar. Viver aquela tarde seria um longo calvário, sem ninguém dentre pessoas estranhas que lhe dirigisse um olhar terno ou com quem pudesse desabafar.”

OITAVO CAPÍTULO

Dava-lhe a impressão que a vida não passava de uma grande peça pregada, na melhor das hipóteses, e ele muito invejava Jimmy Hodges, morto recentemente. Deve ser muito tranqüilo, ele pensava, parar e descansar e sonhar pra sempre, acompanhado do uivar do vento nas folhas e sentindo o contato com a relva e as flores, ali em cima do túmulo. Nada para encher nem lamentar, nunca, nunca mais! (…) Ele quis o melhor, e até ali fôra tratado como um cão – como o mais rueiro dos cães. Ela se arrependeria um dia – talvez quando fosse tarde demais. Se ele pudesse morrer, nem que temporariamente!

E se ele virasse as costas agora e desaparecesse misteriosamente? E se ele fosse para longe – tão longe, para países desconhecidos além dos mares – e não voltasse jamais! Como ela se sentiria então? A idéia de se tornar um palhaço voltava recorrentemente, só para terminar enchendo-lhe de desgosto no presente. A frivolidade, as piadas e suspensórios de bolinhas soavam-lhe ofensivos, pelo menos quando bancavam os intrusos num espírito desassossegado nos augustos reinos do romance como o seu. Não, melhor seria se converter em soldado, e retornar após longos, longos anos, coroado de medalhas, famoso em todo o país. Não – melhor ainda: ele se aliaria aos índios e caçaria búfalos e seguiria as trilhas montanhosas e as planícies ainda não-documentadas do Extremo Oeste, e no futuro distante se sagraria o pajé de seu povo, todo adornado de penas, temível em pintura de guerra, pavoneando-se à entrada da igreja num domingo qualquer, como se nada, com um grito de desafio que anunciava a derramada de sangue – arrancaria os olhos de seus antigos companheiros de maneira implacável. Não, não, havia algo ainda mais satisfatório que isso! Ele seria um pirata! É isso! agora sim o futuro corria nítido diante de seus olhos, brilhando em esplendor inimaginável. Seu nome encheria as páginas dos jornais do mundo, todos estremeceriam ao ouvi-lo! Com que glória ele iria de porto em porto sacando riquezas, e como sey navio de casco negro dançaria sobre as ondas – ele já tinha um nome, o Espírito da Tempestade, com sua apavorante bandeira à frente!”

Quem vem é Tom Saywer, o Pirata! – o Vingador Negro da Esquadra Espanhola!”

A verdade é que uma superstição sua tinha falhado, aqui, uma que ele e tdos os seus camaradas tinham considerado como infalível. Se você enterrasse a bola de gude com certos encantamentos e deixasse-a intocada por 2 semanas, reabrindo o lugar com os mesmos encantamentos na hora indicada, com sílabas perfeitamente espelhadas, você constataria que todas as bolinhas de gude que perdera em toda sua vida estariam agora reunidas num só lugar, não importa quão longe estivessem antes de tudo. Mas agora tudo tinha ido água abaixo, sem lugar a dúvidas. Toda a fé de Tom chacoalhou até as fundações. Ele ouvira muitas vezes de sucessos semelhantes, mas nunca de fracassos. E ele nem sequer lembrava que já havia tentado muitas vezes antes… mas no fim ele esquecia onde havia enterrado a bola de gude, então deixava a questão de lado.”

Ele sabia que era inútil discutir com bruxas, então deu de ombros. Mas de repente se lembrou da bola de gude que perdera, dando-se ao trabalho de procurá-la com a maior paciência. Nada feito. Voltando a sua casa dos tesouros, postou-se igual se havia postado quando jogou a bola de gude fora. Depois pegou outra bola do bolso e atirou-a de maneira análoga, dizendo:

– Irmão, vá procurar seu irmão!

Ele assistiu o trajeto da bola e depois correu para o lugar. Mas ou o impulso foi fraco ou forte demais. Ele ainda tentou seu plano mais duas vezes. A última repetição, quem diria, deu resultado. As duas bolas de gude estavam a cerca de 30 centímetros uma da outra.”

– Quem és tu que ousas falar em tal linguagem?

– Eu, tu perguntas! Eu sou Robin Hood, como tua carcaça verminosa logo há de atestar!

– Ó, então és aquele famoso fora-da-lei? Com muita satisfação disputarei contigo quem manda nesses bosques! Em guarda!

Ambos sacaram suas espadas de ripa, largaram seus trapos no chão e começaram uma disputa de esgrima ferrenha, pé ante pé, com cautela e seriedade, em uma melhor de três. Tom disse:

  • Vamos ver do que és feito! Mais ímpeto!

Eles realmente injetaram mais ímpeto, pintando o sete e transpirando muito. De quando em vez Tom gritava coisas como:

  • Cai! Cai! Por que não cais?

  • Não devo, não posso! Por que não cais tu?! Irás te arrepender!

  • Ora, isso nada é! Não sou homem de cair. Não é o que está escrito no livro. O livro diz, ‘Então, com uma só estocada por trás, ele matou o infeliz Guy de Guisborne.’ Você agora tem que girar e me deixar acertar suas costas!

Não tinha como disputar a autoridade. Joe se virou, recebeu a pancada e simulou a queda.

  • Agora – disse Joe, se levantando – você tem que deixar eu matar você. Mais que justo!

  • Ué, não posso, não tá no livro!

  • Isso é muita sacanagem! Pra mim chega.”

Os garotos se vestiram, esconderam seus equipamentos e foram embora, lamentando-se de não haver mais bandidos, se perguntando o que a civilização poderia oferecer em troca por tamanha perda. E cada um dizia que preferia mil vezes ser um fora-da-lei por um ano Na Floresta Sherwood que ser Presidente dos Estados Unidos para sempre.”

NONO CAPÍTULO

Ele ficou feliz, porque o tempo cessou e a eternidade começou. Ele foi caindo no sono a despeito do esforço. O relógio bateu onze vezes, mas Tom não escutou.”

Huckleberry Finn estava ali, acompanhado de seu gato morto. Os dois se moveram e desapareceram no imenso breu. Depois de meia hora já avançavam pela grama alta do cemitério.”

– Eu não sabia o que fazia. Eu quero morrer nesse minuto se eu sabia. Era culpa do uísque e da empolgação, eu acho. Nunca usei uma arma na vida, Joe. Sempre briguei, é claro, mas nunca armado. Todos sabem disso. Joe, não abre o bico! Por favor, Joe – você é um bom sujeito! Sempre gostei de você joe, sempre ‘tive do seu lado, e você do meu, é claro. Não lembra? Você não vai contar, vai, Joe?

E a pobre criatura se pôs de joelhos diante do apático assassino, e juntou suas bonitas mãos.

– Não, você sempre foi honesto e direito comigo, Muff Potter, nunca vou dedurar você. É isso o mais justo que um homem pode ser, concorda?

– Joe, você é um anjo. Eu vou sempre lembrar até o fim da vida que você é o cara e me salvou.

E Potter começou a chorar.

– Vamos, vamos, não precisa disso. E nem é hora dessas coisas. Nada de abrir o berreiro aqui. Você sai por um lado, eu por outro – vai logo, e não deixa nenhuma pegada.

Potter foi num trote que logo se converteu numa corrida desabalada. O mestiço ficou olhando ele se distanciar.

DÉCIMO CAPÍTULO

Huck Finn e Tom Sawyer juram que não vão contar nada pra mãe sobre

Isso e

Eles desejam que

Eles vão

Cair mortos

De cara no chão

Na hora

Se

Eles

Contarem

E vão apodrecer pra sempre.

Huckleberry estava repleto de admiração diante da facilidade de Tom para escrever, e da sublimidade de sua linguagem.”

– Eu conheço essa voz, é Bull Harbison.(*)

(*) Nota do Autor: Se o Senhor Harbison tivesse um escravo chamado Bull, ele diria simplesmente dele como Bull do Harbison, mas um filho ou cachorro era um nome próprio e completo, nada mais, nada menos que Bull Harbison.

– Ué, isso é bom. Tom, eu estava morrendo de medo. Eu podia apostar que era um cachorro vadio!

O cachorro voltou a uivar. Os corações dos garotos pareciam querer parar novamente.

– Não, esse não é Bull Harbinson! – sussurrou Huckleberry. – …Tom?!

Tom, tremendo de pavor, sucumbium e fitou a rachadura. Seu sussuro ira quase inaudível:

– Ai, Huck, é um cachorro vadio!

– Rápido, Tom, rápido! Quem ele quer?

– Huck, acho que ele quer nós dois. A gente tá junto!

– Ué, Tom, acho que agora tamos fudidos. Eu acho que eu sei muito bem pr’onde tô indo! Eu fui muito malvado.

– Merda! Tudo isso é por ficar matando aula e fazer tudo que as pessoas boas falavam não faz isso, não faz!. Eu podia ser bom, como o Sid, se eu tivesse tentado. Mas não, eu não ia tentar ser, é óbvio. Mas se por um milagre eu escapar… Eu juro, eu juro que vou virar uma pedra na missa de domingo!”

Tom não chegou a chorar, mas fungou.

Você mau!! – Huckleberry começou a fungar também. – Vamo’ entrar de acordo, Tom Sawyer, você é fichinha, um nabo do que eu sou! Não passa nem raspando! Seu pior lado é melhor que meu lado mais bom! Ai, Jesus, Jesus, Jesusinho… Se eu tivesse metade das suas chances…

Tom engasgou e disse:

– Olha, Hucky, olha! Ele ficou des costas pra gente!

Hucky de fato olhou, e não sem estar prenho de alegria!

– Pelo pajé! Ele tá des costas! Ele ‘tav’assim?

– ‘Tava, mas eu ‘tava tão tonto que não pensei. Isso é uma peça… o tinhoso faz enigma… Agora quem você acha que ele tá atrás?

O uivo parou. Tom tapou as orelhas.”

– Fala, Tom… Dizem que um cachorro vadio veio uivando perto da casa do Johnny Miller, lá pra meia-noite, umas duas semanas atrás! E um noitibó pousou no corrimão e começou a cantar, nessa mesma noite! E ninguém morreu por lá até hoje!

– Ora, eu sabia dessa. E suponho que não morreu. Gracie Miller não caiu na cozinha e se queimou feio no fogo, logo no próximo sábado?

– Sim, sim, mas ela não morreu. E pior, ela tá melhorando da queimadura.

– ‘Tá tudo bem, mas você espera e verá. Ela tá marcada pra ir, tão finada quanto o Muff Potter! É o que os pretos dizem, e eles sabem mais dessas coisas, Huck!

Então eles se separaram, sem deixar, cada qual, de cogitar.”

Ele chorou, pediu perdão, prometeu se endireitar de novo e de novo, depois disse que podia ir embora, sentindo que vencera na argumentação, mas não de modo perfeito: estava com um mínimo de confiança.

A verdade é que ele saiu de lá tão miserável que nem teve vontade de se vingar de Sid. Era debalde, portanto, que Sid tinha empreendido a fuga pelo portão traseiro. Ele se arrastou absolutamente arrasado até a escola, e recebeu o costumeiro açoite, com Joe Harper, por matar aula no dia anterior. Mas sua mente não estava no castigo em momento algum. Na verdade, seu coração: ele tinha coisas mais pesadas que suportar. Nenhuma dessas bagatelas lhe suscetibilizava as veias.”

DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

Não era nem meio-dia e a vila inteira já estava eletrizada com as péssimas notícias. Ninguém precisava de nenhum telegrama doutra parte. Não, não havia telegramas ainda na vila! Mas a estória foi de pé de ouvido em pé de ouvido, de bípede para bípede, como costumava ser. De grupo em grupo, de casa em casa, com pouco menos do que a velocidade miraculosa dos cabos e feixes elétricos. O diretor declarou que após as doze seria feriado. Seria muito estranho que o não fizesse.

Uma faca suja foi encontrada perto do cadáver, e testemunhas declararam reconhecê-la como pertencendo a Muff Potter (…) também foi espalhado por aí que a cidade foi saqueada por esse ‘assassino’ (o povo nunca é devagar quando o assunto é eleger evidências e chegar a vereditos definitivos), porém ele não pôde ser encontrado.”

Toda a cidade estava em procissão ao cemitério. Tom não sentia mais seu coração pesado, e se juntou à procissão, e não porque ele preferiria mil vezes estar em qualquer outro lugar, mas porque uma fascinação indescritível e assustadora o puxava.”

Sid disse:

– Tom, você se mexe e fala tanto no seu sono que não consigo dormir metade do tempo.

Tom ficou pálido e baixou os olhos.

– É um mau sinal – atalhou tia Polly, com severidade. – O que é que você tem na cabeça, Tom?

– Nada. Nada qu’eu saiba. – E no entanto a mão do garoto tremeu a ponto de derramar o café.

– E você fala cada coisa! – Sid continuou. – De madrugada você disse: É sangue, é sangue, é o que é!… Você não parou de repetir isso. E você disse também: Pára de me atormentar, eu vou contar! Contar o quê? O que é que você vai contar?

Tudo dançava diante de Tom. Não tinha como adivinhar o que iria acontecer mas, por sorte, tia Polly deixou de ligar muito para o estado de Tom e sem saber ela foi um tranqüilizante para ele. Indagou:

– Xi! É esse maldito assassinato… Eu mesma sonho com isso toda noite. Às vezes até sonho que sou eu a assassina.

Mary disse que ela se sentia do mesmo jeito, ficou muito afetada. Sid pareceu satisfeito. O fato é que Tom se afastou de todas as testemunhas de sua sofreguidão o mais rápido que pôde. Depois disso ele ainda reclamaria de dor de dente uma semana inteira. Toda noite ele amarraria um lenço em sua mandíbula. Vai saber se Sid não estava à espreita do corpo adormecido de Tom! E é o que ele fazia, e ele ainda removia a bandagem e ficava a escutar os murmúrios de Tom, captando cada sílaba discernível. Ele fazia de modo que quando Tom acordava não podia suspeitar de que a bandagem fôra desamarrada e amarrada de novo. Mas o pesar e a intranqüilidade notívaga de Tom foram reduzindo a cada dia e a estória da dor de dente já não convencia mais ninguém, nem fazia sentido para ele, e foi deixada de lado.”

DÉCIMO SEGUNDO CAPÍTULO

Ele não queria mais saber de guerra, nem de ser pirata.”

Ela acreditava em tudo que se publicava nesses jornais sobre “medicina”, e comprava qualquer teoria frenológica. A ignorância solene daquelas páginas era seu oxigênio. Toda esse besteirol sobre ventilação, e como dever-se-ia ir para a cama, e como acordar melhor, o que comer, o que beber, quanto se exercitar, qual postura mental conservar durante o dia, que roupa vestir, tudo era palavra sagrada para ela. Ainda assim, ela era incapaz de observar que todas as recomendações do número atual não faziam senão contradizer todas as indicações do número anterior. Ela era tão simples de coração e confiada como o dia era longo; a vítima perfeita. Ela reunia seus periódicos medicinais de charlatania e seus remédios-engodo e, armada para a guerra, cavalgava seu cavalo de batalha espectral, com ‘o inferno atrás’. Mas o que ela não podia suspeitar é que estava longe de ser um anjo que curava e o bálsamo de Gileade reencarnado, verdadeira bênção da vizinhança.”

Tom, de forma anti-natural, foi ficando mais e mais melancólico, lívido, deprimido, enfim. Ela acrescentava banhos quentes, banhos sentado, banhos de ducha, e até imersões. O garoto continuava tão lúgubre quanto um ataúde. Ela começou a receitar, junto com tudo que continha água na higiene, farinha de aveia fina à dieta do garoto, sem falar em bandagens em pontos ‘vitais’ das articulações. Para ela, era como calcular quantos miligramas ou mililitros de algo iam para a panela – o garoto era sua cobaia de placebos que ninguém sabia placebos.”

– Eu nunca vi nada igual. O que pode ter feito esse gato ficar assim?

– Eu sei lá, tia Polly. Gatos gostam de pregar peças em humanos.”

– Pois então, senhor, por que raios você faria uma coisa dessas com uma pobre criatura incapaz de se defender, pode-se saber?

– Foi por pena – porque ele não tem nenhuma tia.

– Não tem nenhuma tia! – seu paspalho. O que é que tem a ver isso?

– Pra caramba! Porque se ele tivesse uma ela é que queimaria ele! Ela ia fritar as tripas dele com a mesma maldade dm homem!”

Tom chegou à escola com tempo de sobra. Aliás, foi logo notado que esse acontecimento extraordinário vinha se repetindo todos os dias. E agora ele ficava ali perto do portão do parquinho em vez de jogando com seus camaradas. Ele estava doente, ele dizia, e parecia estar.”

DÉCIMO TERCEIRO CAPÍTULO

Joe opinava que podia-se viver como ermitão, nos recessos profundos da caverna mais remota; e daí que se morresse em poucos anos de frio, fome, solidão? Depois de ouvir Tom, porém, ele percebeu que havia vantagens conspícuas numa vida dedicada ao crime, então consentiu em se tornar pirata.”

Quem seriam as vítimas de suas piratarias ainda não era um problema na cabeça dos garotos. Foram atrás de Huckleberry Finn, que aderiu de pronto, porque para ele tudo era indiferente. Eles se separaram, combinando de se reencontrar na margem do rio duas milhas acima da vila, na melhor hora – meia-noite.”

– Quem é?

– Tom Sawyer, o Sombrio Vingador da Marinha Espanhola. Digam seus nomes.

– Huck Finn, o Mão-Rubra, e Joe Harper, o Terror dos Mares.

Tom é que havia concebido esses títulos, das estórias de pirata que conhecia.

– Tá bom. Hey! Dêem a contrasenha.

Dois ásperos sussurros entregaram as mesmas sílabas malditas simultaneamente, ecoando na noite escura:

San-gue!

O Sombrio Vingador seguia imóvel, de braços cruzados, “pensando pela última vez” nas cenas de sua felicidade pregressa, e também seus sofrimentos recentes, e desejando que “ela” pudesse vê-lo agora, longe, em alto-mar, encarando o perigo e a morte de coração aberto, dirigindo-se à destruição com um sorriso cruel nos lábios.”

Aproximadamente às duas da madrugada a jangada ancorou na barreira 200 metros acima da cabeça da ilha, e ela ficou a balançar de um lado pro outro até a toda a carga fosse desembarcada.”

– A verdade é que um pirata não faz nada, Joe, quando ele está em terra. Mas um ermitão fica rezando toda hora, e nunca se diverte, é um solitário.

– É, é assim mesmo – disse Joe. – mas eu nunca pensei a sério sobre isso, sabe? Eu preferia mesmo é ser pirata, agora que sei como é.

– A verdade é que as pessoas não falam dos ermitões, hoje, igual falavam. Mas um pirata… um pirata é sempre respeitado! E um ermitão tem que dormir nos lugares mais duros, e pôr andrajos e cinzas na cabeça, e ficar parado na chuva e—

– Mas pra que colocar andrajos e cinzas na cabeça? – perguntou de repente Huck.

– Eu sei-lá! Mas eles têm que fazer isso! Ermitões têm que fazer essas coisas. Não dá pra ser ermitão e não fazer essas coisas.

– A merda que eu ia fazer! – respondeu Huck.

– Ué, o que você ia fazer?

– Eu sei-lá! Mas eu não ia fazer essa porra!

– Mas Huck, você ia ter que fazer. Como você ia se safar?

– Uai, só não ia agüentar. Sairia pro mundo, fugiria.

– Fugir! Ora, você ia ser um bom dum ermitão de araque! Uma desgraça dos ermitões!”

Mas os outros garotos lhe disseram que as roupas boas viriam logo, assim que começassem a saquear. Fizeram-no entender que sua roupa de maltrapilho já eram o bastante pra começar, se bem que piratas mais ricos já se lançavam aos mares com o vestuário adequado.”

Eles começaram a pressentir que fizeram mal em fugir assim. Logo pensaram na carne roubada, e a tortura de verdade começou. Eles começaram a lembrar de quantas maçãs e guloseimas já não tinham roubado antes. Mas veja, a consciência e a memória não se alimentam sem a comida real.”

Eles então concordaram que enquanto continuassem no ramo o negócio da pirataria não seria manchado pelo do roubo. Aí sim a consciência deu uma trégua, e esses curiosamente inconsistentes piratas conseguiram cair no sono dos justos.”

DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO

“‘Besourinha, besourinha, voe logo para casa, sua casa está em chamas, seus filhos sozinhos’, e então a besouro-fêmea estendeu as asas e saiu voando, o que em nada não surpreendeu o garoto”

Eles não sabiam que quão mais rápido um peixe de água fresca é assado após a pesca melhor fica. E também não pensaram muito sobre como dormir ao relento, passar o dia em atividades silvícolas, banhos de rio e tudo o mais agiam como excelentes temperos para qualquer comida.”

Mesmo Finn, o Mão-Rubra, já sonhava com o alpendre de sua casa e sua coleção de tambores vazios. Mas cada qual se envergonhava de sua fraqueza, e ninguém era valente o bastante para emitir o que pensava.”

Subitamente uma aura de heroísmo os revestia. Um tremendo triunfo. Estavam perdidos. Estavam sendo lamentados no vilarejo. Corações se rompiam por causa deles, ou da ausência deles. Lágrimas jorravam, denunciando culpas reprimidas perante esses pobres garotos finalmente aparecendo à luz do dia, desvelando arrependimentos e remorso. E o melhor de tudo: não podia haver outro assunto na cidade inteira, e os outros garotos sentiriam inveja, tanto quanto uma notoriedade tão macabra pudesse ser invejada. Tudo isso estava ótimo. Valia a pena ser pirata, afinal.”

DÉCIMO QUINTO CAPÍTULO

Sid! – Tom sentiu o olhar da velha sobre si, mesmo que não pudesse vê-la. – Nenhuma palavra contra o meu Tom, agora que ele se foi! Deus vai tomar conta dele – jamais se preocupe com essas coisas, senhor! Ah, senhora Harper, eu não sei como fazer isso passar! Eu não consigo fazer passar! Ele era tão querido pra mim, mesmo atormentando meu coração e quase botando meus bofes pra fora!

– O Senhor dá e o Senhor tira – Abençoado seja o nome do Senhor! Mas é muito duro – Ah, como é duro! No último sábado meu Joe estourou uma bombinha bem debaixo do meu nariz e eu dei-lhe um bofetão que deixou ele no chão. Se eu soubesse que logo mais… Ah, se eu pudesse voltar no tempo eu teria dado um abraço no meu Joe e dado as bênçãos pelo que ele fez!”

DÉCIMO SEXTO CAPÍTULO

Uma dificuldade se apresentava: índios hostis não podiam entrar em guerra sem primeiro fazer as pazes, e isso não era concebível sem fumar um cachimbo da paz. Não havia nenhum outro processo do qual eles tivessem ouvido falar. Dois dos selvagens quase desejaram em voz alta naquele momento não ter deixado de ser piratas. Mas, as coisas como eram, não havia outro jeito. Fingindo estar à vontade como melhor podiam, providenciaram o cachimbo e passaram de mão em mão, cada qual dando sua baforada, na forma estabelecida.

E finalmente os garotos estavam gratos de terem se tornado selvagens, porque tinham ganho algo: podiam dar umas baforadas sem ter de passar o tempo procurando uma faca perdida. Não estavam fora de si o bastante para se sentirem aporrinhados de verdade. Não queriam jogar essa oportunidade única fora por falta de esforço. Não, eles praticaram cautelosamente, depois da refeição, com êxito razoável, e passaram uma tarde esplêndida. Sentiam-se mais orgulhosos e contentes em suas novas posições do que se estivessem de fato no escalpo e na pele das Seis Nações.¹”

¹ As tribos nativas norte-americanas Mohawks, Oneidas, Onandagas, Cayugas, Senecas (todos somados eram os iroqueses) e os Tuscaroras, inimigos daqueles.

DÉCIMO SÉTIMO CAPÍTULO

Houve então uma disputa para determinar quem vira os meninos mortos por último, e cada um puxava a lúgubre façanha para si, e fornecia até provas, mais ou menos adulterada pela testemunha. E quando finalmente ficou estabelecido quem afinal viu os meninos mortos por último, e quem foi o último a trocar palavras com eles, os partidos eleitos ganharam uma espécie de aura, e foram objeto da estupefação e inveja de todo o resto. Um pobre rapaz, sem muito de que se gabar, disse com orgulho se lembrar de que ‘Tom Sawyer me deu uma sova certa vez’.

Mas essa tentativa de ter uma recordação venerável foi por água abaixo. Maioria dos garotos da vila podia dizer o mesmo, o que nivelava a distinção.”

Um hino enternecedor foi cantado, e assim dizia a letra: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’.

À medida que o serviço funerário prosseguiu, o pároco, pintando uma tal figura e uma tal imagem dos garotas perdidos, dessas promessas abortadas, da rareza de cada alma do bando, passou a acreditar na própria imagem que construía e foi abatido pelo remorso de, durante suas vidas, não ter-lhes dado o devido crédito, tendo olhos apenas para seus pecados e falhas. O ministro relatou ainda uma anedota para quase cada garoto da comitiva, que demonstrava suas naturezas doces e generosas, e para as pessoas se tornou mais fácil enxergar quão nobres e edificantes eram genuinamente tais episódios, mas a memória de que no passado tais momentos tivessem se assemelhado a velhacarias e torpezas das grandes só tornava o presente mais amargo e difícil de conciliar. A congregação se sensibilizava mais e mais pela vida das pobres criaturas, que antes só recebiam desconfiança e o jugo do chicote. As carpideiras não foram portanto as únicas a chorar no enterro. Mesmo o pastor não se conteve e se desmanchou sobre o púlpito.

Houve um farfalhar na galeria, não notado por ninguém. Um momento depois a porta da igreja rangeu, o ministro ergueu seus olhos úmidos para enxergar por sobre o lenço e pôs-se transfixo! Primeiro um par de olhos, depois dois, depois mais, seguiram o gesto do ministro. Como que fundida num só organismo, a congregação ergueu-se e fitou três garotos mortos caminhando pela nave, Tom na frente, Joe a seguir, Huck por último, todos em absolutos farrapos, mas Huck pior que os outros dois! Eles tinham se escondido na galeria abandonada durante todo o sermão!

Tia Polly, Mary e os Harpers se jogaram para abraçar seus restaurados ao reino dos vivos, cobriram-nos de beijos e deram as graças aos céus, enquanto o pobre Huck seguia cabisbaixo e pouco à vontade, sem saber o que fazer ou onde se esconder de tantos olhares perscrutantes.”

– Tia Polly, não é justo. Alguém tem de estar feliz por ver o Huck.

– E tem mesmo. Eu estou feliz por ver ele, pobre coisa órfã!

E a atenção amorosa que a tia Polly prestou a Huck foi justamente a única coisa capaz de deixar o menino ainda mais embaraçado do que já estava.

De repente o ministro gritou com todo o ímpeto de sua voz:

– Louvai a Deus por todas as bênçãos que Ele derrama – cantai! – e ponde todos os vossos corações nisto!”

Tom Sawyer o Pirata olhou ao redor entre todos os garotos cheios de inveja e confessou diante de seu coração que esse era o momento de sua vida que lhe dava mais orgulho.”

Tom recebeu mais abraços e beijos aquele dia – baseado nos humores de tia Polly – do que em todo o ano anterior. E ele tinha dificuldade em saber se o que eles mais expressavam era agradecimento ao bom Deus ou afeição pelo pequeno.”

DÉCIMO OITAVO CAPÍTULO

Esse era o grande segredo de Tom – o plano para regressar ao lar com seus irmãos-piratas e assistir seus próprios funerais.”

Tia Polly e Mary foram muito amáveis com Tom, e muito atentas a suas necessidades. Havia uma quantidade infreqüente de conversa. No decurso de uma delas tia Polly disse:

– Sabe, não digo que não tenha sido uma ótima piada, Tom, deixar todo mundo sofrendo bas’camente uma semana pra vocês garotos ficarem no bem-bom. Mas é uma pena que você pudesse ter o coração tão duro a ponto de fazer essa piada justo comigo. Se você podia vir num tronco para ver seu funeral, creio que podia ter vindo me ver só para me dar uma pista de que não estava morto de verdade.

– É, você podia, Tom – disse Mary – e eu acho que você teria se tivesse pensado nisso.

– Teria, Tom? – perguntou tia Polly, sua face reluzindo melancolicamente – Teria, se tivesse pensado nisso?

– Eu… não sei. Teria estragado tudo.

– Tom, eu esperava que você me amasse desse tanto. – respondeu tia Polly num tom enlutado que desconcertou o garoto – Já seria algo se você se importasse o bastante para pensar a respeito, mesmo que não fizesse.”

– Sid teria pensado. E aliás Sid teria pensado e vindo fazer. Tom, você vai olhar pra trás um dia, quando for muito tarde, e vai querer ter se importado um pouquinho mais comigo, quando não custava absolutamente nada!

– Não é nada de mais. Um gato seria capaz de sonhar com alguém. Mas é melhor que nada, eu acho. Com o que você sonhou?

– Quarta-feira à noite sonhei que você estava sentada ali do lado da cama, e Sid sentado perto da caixa de lenha, e Mary perto dele.

– Aconteceu isso mesmo. Acontece sempre. Fico feliz que seu sonho tenha se preocupado em nos mostrar como somos de verdade.

– Sonhei também que a mãe do Joe Harper estava aqui.

– Ué, ela tava aqui! Você sonhou algo mais?

– Ah, muita coisa. Mas já esqueci quase tudo agora.

– Tente se lembrar; não consegue?

– De algum jeito acho que o vento – o vento soprou a – a

– Tente com mais ímpeto, Tom! O vento realmente soprou alguma coisa. Vamos!

Tom apertou os dedos em sua testa por um ansioso minuto e então pronunciou:

– Lembrei! Lembrei! O vento apagou a vela!

– Misericórdia de nós! Continue, Tom, continue!

– E se não me engano nesse momento você falou: “Ué, eu acho que aquela porta—”

– Prossiga, Tom!

– Deixa eu pensar um pouco. Só um momento. Ah sim, você disse que acreditava que a porta estava aberta.

– Assim como estava sentada aqui, eu fiz isso! Não fiz, Mary? Continue!

– E depois… e depois… Não tem como ter certeza, mas era como se você mandasse o Sid conferir e… e…

– E então, e então?!? O que eu fiz o Sid fazer, Tom? O quê, o quê?

– Você fez ele… você… Ah, você mandou ele fechar a porta!

– Pela nossa terra santa! Eu nunca ouvi uma coisa assim em toda a minha vida! Não me diga que não existe nada nos sonhos… Sereny Harper tem que saber disso antes que eu seja uma hora mais velha. Quero só ver ela desmerecer esse sonho com aquele papinho anti-superstição. Que mais, Tom?

– Ah, tudo tá mais claro como o dia agora. Depois você disse que eu não era ruim, só muito malcriado e bicho-do-mato, e de modo algum mais responsável que… que… eu acho que você disse que um potro ou coisa assim.

– E foi isso mesmo! Deus é o maior! Continue, Tom!

– E depois você começou a chorar.

– E foi isso mesmo. Foi isso mesmo que eu fiz. Não a primeira vez. E depois…

– Depois a senhora Harper também começou a chorar e disse que o Joe era igual, e desejou que ela não tivesse chicoteado ele por pegar o creme que ela mesma tinha vomitado…

– Tom! O períspirito estava sobre você! Você estava profetizando – é o que você estava fazendo! Ó terra bendita do Senhor, continue, continue, Tom!

– Então o Sid disse… disse…

– Eu acho que eu não falei nada, não – interpolou Sid.

– Sim, você disse, Sid – atalhou Mary.

– Aquietem suas cabeças e deixem o Tom falar. O que foi que ele disse, Tom?

– Ele disse – eu acho que ele disse que esperava que eu ‘tivesse melhor pr’onde eu tinha ido, mas que se eu tivesse sido melhor algumas vezes…

É isso, você escutou isso?!? Foram essas mesmas as suas palavras!

– E você calou a boca dele de modo ríspido.

– Eu calei sim! Acho que foi um anjo que me auxiliou. Tinha um anjo lá, nalgum lugar!

– E a senhora Harper contou do Joe assustando ela com uma bombinha, e você falou de Pedro e do calmante…

– Tão genuíno quanto eu estar viva!

– E acho que depois falaram sobre drenar o rio pra procurar a gente, e sobre o funeral ser domingo, e depois você e irmã Harper mais velha se abraçaram e choraram, e elas foram embora.

– Aconteceu assim mesmo! Assim tintim por tintim, tão certo como eu estar sentada aqui com essas pernas! Tom, você não podia contar com mais precisura nem que ‘tivesse aqui na hora! E depois o quê? Desembucha, Tom!

– Acho que você rezou pra mim – e eu podia ver você e ouvir cada palavra que você disse. Você foi pra cama, e eu fiquei com tanta pena que escrevi num pedaço de casca de sicômoro “Não morremos… A gente só deu um tempo sendo piratas”. E deixei na mesa do lado da vela. E depois você parecia tão em paz dormindo… acho que eu fui e me inclinei e te dei um beijo nos lábios.

– Você fez isso, Tom? Fez isso? Eu te desculpo por tudo por esse gesto! E ela prendeu o garoto num abraço tão apertado que fê-lo se sentir o pior dos vilões.

– Muito bonito, Tom, mesmo sendo só um sonho – Sid, soliloquando, deixou-se ouvir.

Que herói não tinha se tornado Tom! E ele não andava mais saltitando e empinando o nariz, como antes, mas numa postura digna, não sem molejo, como a de um pirata que sabe que é alvo das atenções. Ele tentava não transparecer que reparava nos olhares ou escutava os comentários que despertava ao passar, mas eles eram como manjares para Tom. Os garotos mais novos que ele se apinhavam em seus tornozelos, orgulhosos por estarem por perto e por serem tolerados por Tom tanto quanto alguém se junta à bateria à cabeça duma procissão ou sobe ao elefante que capitaneia a caravana à cidade. Garotos da sua idade tentavam fingir que ele nunca esteve ausente da vila, mas a verdade é que estavam corroídos de inveja. Dariam tudo pela mesma pele bronzeada de Tom, ou sua reluzente notoriedade súbita. E Tom agradecia o fato de ter tantos puxa-sacos, não desejando o fim do espetáculo, que ele achava inclusive mais divertido que a chegada de um circo.

Nessas circunstâncias, seria estranho que o silêncio de Joe e Tom perdurasse por mais tempo. E então eles cederam e começaram a desabafar e aumentar suas histórias. Foi o acme da glória.

Tom decidiu que estava oficialmente em condições de declarar a independência em relação a Becky Thatcher agora. Bastava-lhe a glória não-amorosa. Agora tão distinguido por suas façanhas, quem sabe ela é que não se arrastasse atrás dele desejando ‘fazer as pazes’. Que ela tentasse, pois ele bancaria o perfeito indiferente. E chegou o dia em que ela apareceu em seu campo de visão. Tom fingiu que não a viu. Ele se moveu e se juntou a um grupo de garotas e garotos, puxando conversa. E ele percebeu que ela tentava capturar sua atenção, com o rosto vermelho e se movendo com graça e alegria para trás e para diante, o olhar nunca parado. Mas ela queria dar a impressão que na verdade estava atrás de outros garotos, ou sempre ocupada com alguém, para despertar-lhe ciúmes. E constantemente ela gargalhava alto para demonstrar que não estava carente de nada. Tom não era tolo e percebeu que ela sempre agia do modo mais eufórico bem perto dele, o que era suspeito. Toda a vaidade viciada de Tom se alimentava dessa atitude de Becky. Portanto, a tática da garota ia mal, e Tom só aumentava seu distanciamento e presunção. Becky se deu conta eventualmente e acabou desistindo. Ela notou que Tom se aproximara de Amy Lawrence mais que de qualquer outra pessoa em particular. Ela não conseguiu conter o desconforto. Mesmo tentando sair de cena, o fato era que seus pés tinham-na fincado no chão, e ela se sentia imobilizada. Ela disse a uma garota, praticamente às costas de Tom, com vivacidade simulada:

– Ora, Mary Austin! Marota, por que não apareceu no domingo?

– Mas eu vim; você não me viu?

– Ora, de modo algum. Você veio mesmo? Onde você sentou?

– Na sala da senhora Peters, como sempre. Inclusive, eu te vi.

– Você me viu? Ora, que engraçado, porque não te notei. Eu queria te falar do piquenique.

– Ah, que legal! Quem vai dar?

– Minha mãe vai dar um piquenique.”

– Ai, maravilha, espero que ela deixe eu participar!

– Vai sim! O piquenique é pra mim mesmo. Ela vai deixar qualquer um que eu queira, e quero que você apareça.

– Muito obrigada pela gentileza. E quando vai ser?

– Hm, acho que perto do período de férias.

– Vai ser muito divertido! Você vai chamar todos os garotos e garotas?

– Sim, todo mundo que é meu amigo – ou que queira ser. – Então ela olhou em direção de Tom, furtivamente, mas continuou falando com Amy Laurence sobre a terrível tempestade na ilha e como um relâmpago deixou o grande sicômoro em pedaços, caindo a um metro dele.

– Ei, posso ir? – disse Grace Miller.

– Sim.

– E eu? – essa foi Sally Rogers.

– Sim.

– Eu também? – Susy Harper dessa vez. – Com o Joe?

– Podem.

E essa cena continuou, cheio de bater de palmas, até que todo o grupo tinha, indivíduo após indivíduo pedido sua permissão, exceto Tom e Amy. Tom se virou e afastou com cálculo, ainda conversando, puxando Amy consigo. Os lábios de Becky tremeram e seus olhos umedeceram.”

Os ciúmes borbulharam no sangue de Tom. Ele começou a se odiar por jogar fora a chance de reconciliação que Becky lhe oferecera.”

ela sabia que estava ganhando a guerra, e estava contente por vê-lo sofrer enquanto ela mesma sofria.”

– Qualquer outro garoto! – Tom pensou, rangendo os dentes. – Qualquer outro da cidade, menos aquele espertinho de Saint Louis que acha que se veste como um dândi e que é aristocracia! Muito bem, eu te dei uma sova a primeira vez que você pisou nessa cidade, senhor, e vou te dar outra sova! Espere pelo seu! Só espere! Eu só vou—

E ele acompanhou a ameaça mental pelos gestos físicos de espancar um garoto invisível.

Becky continuou seu teatro com Alfred, mas como os minutos fossem passando e um Tom amargurado e mordido pelos ciúmes não apareceu sua vitória parecia agora um céu feio e cinzento, e ela foi perdendo o interesse. Ela foi ficando sisuda e distraída, logo depois melancólica. Duas ou três vezes ela focou a audição ao ouvir passos, mas eram falsos alarmes. Tom não veio. Ela por fim se arrependeu de levar sua provocação tão longe.”

DÉCIMO NONO CAPÍTULO

– Auntie, I know now it was mean, but I didn’t mean to be mean. I didn’t, honest. And besides, I didn’t come over here to laugh at you that night.

– What did you come for, then?

– It was to tell you not to be uneasy about us, because we hadn’t got drowned.”

VIGÉSIMO CAPÍTULO

– What a curious kind of a fool a girl is! Never been licked in school! Shucks! What’s a licking! That’s just like a girl – they’re so thin-skinned and chicken-hearted. Well, of course I ain’t going to tell old Dobbins on this little fool, because there’s other ways of getting even on her, that ain’t so mean; but what of it? Old Dobbins will ask who it was tore his book. (…) Girls’ faces always tell on them. They ain’t got any backbone. She’ll get licked. Well, it’s a kind of a tight place for Becky Thatcher, because there ain’t any way out of it.”

VIGÉSIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

There is no school in all our land where the young ladies do not feel obliged to close their compositions with a sermon; and you will find that the sermon of the most frivolous and the least religious girl in the school is always the longest and the most relentlessly pious. But enough of this. Homely truth is unpalatable.”

VIGÉSIMO SEGUNDO CAPÍTULO

to promise not to do a thing is the surest way in the world to make a body want to go and do that very thing. Tom soon found himself tormented with a desire to drink and swear”

The dreadful secret of the murder was a chronic misery. It was a very cancer for permanency and pain.

Then came the measles. [catapora ou sarampo?]

During 2 long weeks Tom lay a prisoner, dead to the world and its happenings. He was very ill, he was interested in nothing. When he got upon his feet at last and moved feebly downtown, a melancholy change had come over everything and every creature. There had been a ‘revival’, and everybody had ‘got religion’, not only the adults, but even the boys and girls. Tom went about, hoping against hope for the sight of one blessed sinful face, but disappointment crossed him everywhere. He found Joe Harper studying a Testament, and turned sadly away from the depressing spectacle. He sought Ben Rogers, and found him visiting the poor with a basket of tracts. He hunted up Jim Hollis, who called his attention to the precious blessing of his late measles as a warning. Every boy he encountered added another ton to his depression; and when, in desperation, he flew for refuge at last to the bosom of Huckleberry Finn and was received with a Scriptural quotation, his heart broke and he crept home and to bed realizing that he alone of all the town was lost, forever and forever.

And that night there came on a terrific storm, with driving rain, awful claps of thunder and blinding sheets of lightning. He covered his head with the bedclothes and waited in a horror of suspense for his doom; for he had not the shadow of a doubt that all this hubbub was about him. He believed he had taxed the forbearance of the powers above to the extremity of endurance and that this was the result. It might have seemed to him a waste of pomp and ammunition to kill a bug with a battery of artillery, but there seemed nothing incongruous about the getting up such an expensive thunderstorm as this to knock the turf from under an insect like himself.

By and by the tempest spent itself and died without accomplishing its object. The boy’s first impulse was to be grateful, and reform. His second was to wait – for there might not be any more storms.”

When he got abroad at last he was hardly grateful that he had been spared, remembering how lonely was his estate, how companionless and forlorn he was. He drifted listlessly down the street and found Jim Hollis acting as judge in a juvenile court that was trying a cat for murder, in the presence of her victim, a bird.”

VIGÉSIMO TERCEIRO CAPÍTULO

he did not see how he could be suspected of knowing anything about the murder, but still he could not be comfortable in the midst of this gossip. It kept him in a cold shiver all the time. He took Huck to a lonely place to have a talk with him. It would be some relief to unseal his tongue for a little while; to divide his burden of distress with another sufferer.”

– Why, Tom Sawyer, we wouldn’t be alive 2 days if that got found out. You know that.

(…) After a pause:

– Huck, they couldn’t anybody get you to tell, could they?

– Get me to tell? Why, if I wanted that halfbreed [mestiço] devil to drownd me they could get me to tell. They ain’t no different way.”

– You’ve been mighty good to me, boys – better’n anybody else in this town. And I don’t forget it, I don’t. Often I says to myself, says I, ‘I used to mend all the boys’ kites and things, and show ‘em where the good fishin’ places was, and befriend ‘em what I could, and now they’ve all forgot old Muff when he’s in trouble; but Tom don’t, and Huck don’t – they don’t forget him, says I, ‘and I don’t forget them.’ Well, boys, I done an awful thing – drunk and crazy at the time – that’s the only way I account for it – and now I got to swing for it, and it’s right. Right, and best, too, I reckon – hope so, anyway. Well, we won’t talk about that. I don’t want to make you feel bad; you’ve befriended me. But what I want to say, is, don’t you ever get drunk – then you won’t ever get here. Stand a litter furder west – so – that’s it; it’s a prime comfort to see faces that’s friendly when a body’s in such a muck of trouble, and there don’t none come here but yourn.”

Tom went home miserable, and his dreams that night were full of horrors. The next day and the day after, he hung about the courtroom, drawn by an almost irresistible impulse to go in, but forcing himself to stay out. Huck was having the same experience.”

Counsel for Potter declined to question him. The faces of the audience began to betray annoyance. Did this attorney mean to throw away his client’s life without an effort?”

The perplexity and dissatisfaction of the house expressed itself in murmurs and provoked a reproof from the bench. Counsel for the prosecution now said:

– By the oaths of citizens whose simple word is above suspicion, we have fastened this awful crime, beyond all possibility of question, upon the unhappy prisoner at the bar. We rest our case here.”

-Your honor, in our remarks at the opening of this trial, we foreshadowed our purpose to prove that our client did this fearful deed while under the influence of a blind and irresponsible delirium produced by drink. We have changed our mind. We shall not offer that plea. [Then to the clerk:] Call Thomas Sawyer!

A puzzled amazement awoke in every face in the house, not even excepting Potter’s. Every eye fastened itself with wondering interest upon Tom as he rose and took his place upon the stand. The boy looked wild enough, for he was badly scared. The oath was administered.

– Thomas Sawyer, where were you on the 17th of June, about the hour of midnight?

– Tom glanced at Injun Joe’s [Joe o Mameluco] iron face and his tongue failed him. The audience listened breathless, but the words refused to come. After a few moments, however, the boy got a little of his strength back, and managed to put enough of it into his voice to make part of the house hear:

– In the graveyard!

– A little bit louder, please. Don’t be afraid. You were—

– In the graveyard.

A contemptuous smile flitted across Injun Joe’s face.

– Were you anywhere near Horse Williams’ grave?

– Yes, sir.

– Speak up – just a trifle louder. How near were you?

– Near as I am to you.

– Were you hidden, or not?

– I was hid.

– Where?

– Behind the elms that’s on the edge of the grave.

Injue Joe gave a barely perceptible start.

– Any one with you?

– Yes, sir. I went there with—

– Wait – wait a moment. Never mind mentioning your companion’s name. We will produce him at the proper time. Did you carry anything there with you?

Tom hesitated and looked confused.

– Speak out, my boy – don’t be diffident. The truth is always respectable. What did you take there?

– Only a—a—dead cat.

There was a ripple of mirth, which the court checked.

– We will produce the skeleton of that cat. Now, my boy, tell us everything that occurred – tell it in your own way – don’t skip anything, and don’t be afraid.

The strain upon pent emotion reached its climax when the boy said:

– …and as the doctor fetched the board around and Muff Potter fell, Injun Joe jumped with the knife and—

Crash! Quick as lightning the halfbreed sprang for a window, tore his way through all opposers, and was gone!

VIGÉSIMO QUARTO CAPÍTULO

SIDESHOW BOB’S PRECEDENT!

Tom was a glittering hero once more – the pet of the old, the envy of the young. His name even went into immortal print, for the village paper magnified him. There were some that believed he would be President, yet, if he escaped hanging.

As usual, the fickle, unreasoning world took Muff Potter to its bosom and fondled him as lavishly as it had abused him before. But that sort of conduct is to the world’s credit; therefore it is not well to find fault with it.

Tom’s days were days of splendor and exultation to him, but his nights were seasons of horror. Injun Joe infested all his dreams, and always with doom in his eye.”

Huck’s confidence in the human race was wellnigh obliterated.”

He felt sure he never could draw a safe breath again until that man was dead and he had seen the corpse.

Rewards had been offered, the country had been scoured, but no Injun Joe was found. One of those omniscient and awe-inspiring marvels, a detective, came up from St. Louis, moused around, shook his head, looked wise, and made that sort of astounding success which members of that craft usually achieve. That is to say, he ‘found a clew’. But you can’t hang a ‘clew’ for murder, and so after that detective had got through and gone home, Tom felt just as insecure as he was before.”

VIGÉSIMO QUINTO CAPÍTULO

There comes a time in every rightly-constructed boy’s life when he has a raging desire to go somewhere and dig for hidden treasures.”

Huck was always willing to take a hand in any enterprise that offered entertainment and required no capital, for he had a troublesome superabundance of that sort of time which is not money. ‘Where’ll we dig?” said Huck:

– Oh, most anywhere.

– Why, is it hid all around?

– No, indeed it ain’t. It’s hid in mighty particular places, Huck – sometimes on islands, sometimes in rotten chests under the end of a limb of an old dead tree, just where the shadow falls at midnight; but mostly under the floor in ha’nted houses.

– Who hides it?

– Why, robbers, of course – who’d you reckon? Sunday-school sup’rintendents?

– (…) I wouldn’t hide it; I’d spend it and have a good time.

– So would I. But robbers don’t do that way. They always hide it and leave it there.

– Don’t they come after it any more?

– No, they think they will, but they generally forget the marks, or else they die. Anyway, it lays there a long time and gets rusty; and by and by somebody finds an old yellow paper that tells how to find the marks – a paper that’s got to be ciphered over about a week because it’s mostly signs and hy’roglyphics.

– Hyro–which?

– Hy’rogryplhics – pictures and things, you know, that don’t seem to mean anything.

– Have you got one of them papers, Tom?

– No.

– Well then, how you going to find the marks?

– I don’t want any marks. They always bury it under a ha’nted house or on an island, or under a dead tree that’s got one limb sticking out. Well, we’ve tried Jackson’s Island a little, and we can try it again some time; and there’s the old ha’nted house up the Still-House branch, and there’s lots of dead-limb trees – dead loads of ‘em.

– Is it under all of them?

– How you talk! No!

– Then how you going to know which one to go for?

– Go for all of ‘em!

– Why, Tom, it’ll take all summer.

– Well, what of that? Suppose you find a brass pot with 100 dollars in it, all rusty and gray, or rotten chest full of di’monds. How’s that?

Huck’s eyes glowed.

– That’s bully. Plenty bully enough for me. Just you gimme the hundred dollars and I don’t want no di’monds.”

– Richard? What’s his other name?

– He didn’t have any other name. Kings don’t have any but a given name.

– No?

– But they don’t.

– Well, if they like it, Tom, all right; but I don’t want to be a king and have only just a given name, like a nigger. But say—where you going to dig first?”

– Well, I’ll have pie and a glass of soda every day, and I’ll go to every circus that comes along. I bet I’ll have a gay time.

– Well, ain’t you going to save any of it?

– Save it? What for?

– Why, so as to have something to live on, by and by.

– Oh, that ain’t any use. Pap would come back to thish-yer town some day and get his claws on it if I didn’t hurry up, and I tell you he’d clean it out pretty quick. What you going to do with yourn, Tom?

– I’m going to buy a new drum, and a sure’nough sword, and a red necktie and a bull pup, and get married.

– Married!

– That’s it.

– Tom, you – why, you ain’t in your right mind.

– Wait – you’ll see.

– Well, that’s the foolishest thing you could do. Look at pap and my mother. Fight! Why, they used to fight all the time. I remember, mighty well.

– That ain’t anything. The girl I’m going to marry won’t fight.

– Tom, I reckon they’re all alike. They’ll all comb a body. Now you better think ‘bout this awhile. I tell you you better. What’s the name of the gal?

– It ain’t a gal at all – it’s a girl. [Não é uma garota – é uma moça.]

– It’s all the same, I reckon; some says gal, some says girl – both’s right, like enough. Anyway, what’s her name, Tom?

– I’ll tell you some time – not now.

– All right – that’ll do. Only if you get married I’ll be more lonesomer than ever.

– No you won’t. You’ll come and live with me. Now stir out of this and we’ll go to digging.

They worked and sweated for half an hour. No result. They tolled another half-hour. Still no result. Huck said:

– Do they Always bury it as deep as this?

– Sometimes – not always. Not generally. I reckon we haven’t got the right place.”

– It is mighty curious, Huck. I don’t understand it. Sometimes witches interfere. I reckon maybe that’s what’s the trouble now.

– Shucks! [Putz?] Witches ain’t got no power in the daytime.

– Well, that’s so. I didn’t think of that. Oh, I know what the matter is! What a blamed lot of fools we are! You got to find out where the shadow of the limb falls at midnight, and that’s where you dig!

– Then consound it, we’ve fooled away all this work for nothing. Now hang it all, we got to come back in the night. It’s an awful long way. Can you get out?

– I bet I will. We’ve got to do it tonight, too, because if somebody sees these holes they’ll know in a minute what’s here and they’ll go for it.

– Well, I’ll come around and maow tonight.

– All right. Let’s hide the tools in the bushes.

The boys were there that night, about the appointed time. They sat in the shadow waiting. It was a lonely place, and an hour made solemn by old traditions. Spirits whispered in the rustling leaves, ghosts lurked in the murky nooks, the deep baying of a hound floated up out of the distance, an owl answered with his sepulchral note. The boys were subdued by these solemnities, and talked little. By and by they judged that 12 had come (…) Their interest grew stronger, and their industry kept pace with it. The hole deepened and still deepened, but every time their hearts jumped to hear the pick strike upon something, they only suffered a new disappointment. It was only a stone or a chunk.”

– (…) I feel as if something’s behind me all the time; and I’m afeard to turn around, becuz maybe there’s others in front a-waiting a chance. I been creeping all over, ever since I got here.

– Well, I’ve been pretty much so, too, Huck. They most always put in a dead man when they bury a treasure under a tree, to look out for it.

– Lordy!

– Yes, they do. I’ve always heard that.

– Tom, I don’t like to fool around much where there’s dead people. A body’s bound to get into trouble with ‘em, sure.

– (…) S’pose this one here was to stick his skull out and say something!

– Don’t Tom! It’s awful.;

– Well, it jus tis. Huck, I don’t feel comfortable a bit.

– Say, Tom, let’s give this place up, and try somewhere else.

– All right, I reckon we better.”

– Well, all right. We’ll tackle the ha’nted house if you say so – but I reckon it’s talking chances.”

VIGÉSIMO SEXTO CAPÍTULO

– Lookyhere, Tom, do you know what day it is?

Tom mentally ran over the days of the week, and then quickly lifted his eyes with a startled look in them—

– My! I never once thought of it, Huck!

– Well, I didn’t neither, but all at once it popped onto me that it was Friday.

– Blame it, a body can’t be too careful, Huck. We might ‘a’ got into an awful scrape, tackling such a thing on a Friday.

Might! Better say we would! There’s some lucky days, maybe, but Friday ain’t.

– Any fool knows that. I don’t reckon you was the first that found it out, Huck.

– Well, I never said I was, did I? And Friday ain’t all, neither. I hada rotten bad dream last night – dreamt about rats.

– No! Sure sign of trouble. Did they fight?

– No.

– Well, that’s good, Huck. When they don’t fight it’s only a sign that there’s trouble around, you know. All we got to do is to look mighty sharp and keep out of it. We’ll drop this thing for today, and play. Do you know Robin Hood, Huck?

– No. Who’s Robin Hood?

– Why, he was one of the greatest men that was ever in England – and the best. He was a robber.

– Cracky, I wisht I was. Who did he rob?

– Only sheriffs and bishops and rich people and kings, and such like. But he never bothered the poor. He loved ‘em. He Always divided up with ‘em perfectly square.

– Well, he must ‘a’ been a brick.

– I bet you he was, Huck. Oh, he was the noblest man that ever was. They ain’t any such men now, I can tell you. He could lick any man in England, with one hand tied behind him”

On Saturday, shortly after noon, the boys were at the dead tree again. They had a smoke and a chat in the shade, and then dug a little in their last hole, not with great hope, but merely because Tom said there were so many cases where people had given up a treasure after getting down within 6 inches of it, and then somebody else had come along and turned it up with a single thrust of a shovel. The thing failed this time, however, so the boys shouldered their tools and went away feeling that they had not trifled with fortune, but had fulfilled all the requirements that belong to the business of treasure-hunting.”

– They’ve stopped… No – coming… Here they are. Don’t whisper another word, Huck. My goodness, I wish I was out of this!

Two men entered. Each boy said to himself: ‘There’s the old deaf and dumb Spaniard that’s been about town once or twice lately – never saw t’other man before.’”

– Dangerous!, grunted the ‘deaf and dumb’ Spaniard – to the vast surprise of the boys. ‘Milksop!’

This voice made the boys gasp and quake. It was Injun Joe’s! There was silence for some time. Then Joe said:

– What’s any more dangerous than that job up yonder – but nothing’s come of it.”

– Look here, lad – you go back up the river where you belong. Wait there till you hear from me. I’ll take the chances on dropping into this town just once more, for a look. We’ll do that ‘dangerous’ job after I’ve spied around a little and think things look well for it. Then for Texas! We’ll leg it together!

This was satisfactory. Both men presently fell to yawning, and Injun Joe said:

– I’m dead for sleep! It’s your turn to watch.”

The boys drew a long, grateful breath. Tom whispered:

– Now’s our chance – come!

Huck said:

– I can’t – I’d die if they was to wake.

Tom urged – Huck held back. At last Tom rose slowly and softly, and started alone. But the first step he made wrung such a hideous creak from the crazy floor that he sank down almost dead with fright. He never made a second attempt. The boys lay there counting the dragging moments till it seemed to them that time must be done and eternity growing gray; and then they were grateful to note that at last the sun was setting.

Now one snore ceased. Injun Joe sat up, stared around – smiled grimly upon his comrade, whose head was drooping upon his knees – stirred him up with his foot and said:

– Here! You’re a watchman, ain’t you! All right, though – nothing’s happened.”

– I don’t know – leave it here as we’ve always done, I reckon. No use to take it away till we start south. 650 silver’s something to carry.”

accidents might happen; ‘tain’t in such a very good place; we’ll just regularly bury it deep.”

The boys forgot all their fears, all their miseries in an instant. With gloating eyes they watched every movement. Luck! – the splendor of it was beyond all imagination! 600 dollars was Money enough to make half a dozen boys rich! Here was treasure-hunting under the happiest auspices – there would not be any bothersome uncertainty as to where to dig. They nudged each other every moment – eloquent nudges and easily understood, for they simply meant – ‘Oh, but ain’t you glad now we’re here!’

Joe’s knife struck upon something.

– Hello!, said he.

– What is it?, said his comrade.

– Half-rotten plank – no, it’s a box, I believe. Here – bear a hand and we’ll see what it’s here for. Never mind, I’ve broken a hole.

He reached his hand in and drew it out—

– Man, it’s money!

The two men examined the handful of coins. They were gold. The boys above were as excited as themselves, and as delighted.

Joe’s comrade said:

– We’ll make quick work of this. There’s an old rusty pick over amongst the weeds in the corner the other side of the fireplace – I saw it a minute ago.

He ran and brought the boys’ pick and shovel. Injun Joe took the pick, looked it over critically, shook his head, muttered something to himself, and then began to use it.”

– Pard, there’s thousands of dollars here, said Injun Joe.”

– Now you won’t need to do that job.”

-You don’t know me. Least you don’t know all about that thing. ‘Tain’t robbery altogether – it’s revenge! – And a wicked light flamed in his eyes. – I’ll need your help in it. When it’s finished, then Texas. Go home to your Nance and your kids, and stand by till you hear from me.

– Well – if you say so; what’ll we do with this – bury it again?

– Yes. [Ravishing delight overhead.] No! by the great Sachem, no! [Profound distress overhead.] I’d nearly forgot. That pick had fresh earth on it! [The boys were sick with terror in a moment.] What business has a pick and a shovel here? What business with fresh earth on them? Who brought them here – and where are they gone? Have you heard anybody? – seen anybody? What! bury it again and leave them to come and see the ground disturbed? Not exactly – not exactly. We’ll take it to my den.

– Why, of course! Might have thought of that before. You mean Number One?

– No – Number Two – under the cross. The other place is bad – too common.

– All right. It’s nearly dark enough to start.

Injue Joe got up and went about from window to window cautiously peeping out. Presently he said:

– Who could have brought those tools here? Do you reckon they can be upstairs?

The boys’ breath forsook them. Injue Joe put his hand on his knife, halted a moment, undecided, and then turned toward the stairway. The boys thought of the closet, but their strength was gone. The steps came creaking up the stairs – the intolerable distress of the situation woke the stricken resolution of the lads – they were about to spring for the closet, when there was a crash of rotten timbers and Injun Joe landed on the ground amid the debris of the ruined stairway. He gathered himself up cursing, and his comrade said:

– Now what’s the use of all that? If it’s anybody, and they’re up there, let them stay there – who cares? If they want to jump down, now, and get into trouble, who objects? It will be dark in 15 minutes – and then let them follow us if they want to. I’m willing. In my opinion, whoever hove those things in here caught a sight of us and took us for ghosts or devils or something. I’ll bet they’re running yet.

Joe grumbled awhile, then he agreed with his friend that what daylight was left ought to be economized in getting things ready for leaving. Shortly afterward they slipped out of the house in the deepening twilight, and moved toward the river with their precious box.”

Follow? Not they. They were contente to reach ground again without broken necks (…) They did not talk much. They were too much absorbed in hating themselves – hating the ill luck that made them take the spade and the pick there. But for that, Injun Joe never would have suspected. He would have hidden the silver with the gold to wait there till his ‘revenge’ was satisfied, and then he would have had the misfortune to find that money turn up missing. Bitter, bitter luck that the tools were ever brought there!”

Very, very small comfort it was to Tom to be alone in danger! Company would be a palpable improvement, he thought.”

VIGÉSIMO SÉTIMO CAPÍTULO

the quantity of coin he had seen was too vast to be real.” “he was like all boys of his age and station in life, in that he imagined that all references to ‘hundreds’ and ‘thousands’ were mere fanciful forms of speech, and that no such sums really existed in the world.”

VIGÉSIMO OITAVO CAPÍTULO

– Yes! He was lying there, sound asleep on the floor, with his old patch on his eye and his arms spread out.

– Lordy, what did you do? Did he wake up?

– No, never budged. Drunk, I reckon. I just grabbed that towel and started!

– I’d never ‘a’ thought of the towel, I bet!

– Well, I would. My aunt would make me mighty sick if I lost it.

– Say, Tom, did you see that box?

– … U didn’t see the cross. I didn’t see anything but a bottle and a tin cup on the floor by Injun Joe (…) Don’t you see, now, what’s the matter with that ha’nted room?

– How?

– Why, it’s ha’nted with whiskey! Maybe all the Temperance Taverns have got a ha’nted room, hey, Huck?”

– I said I would, Tom, and I will. I’ll ha’ntt that tavern every night for a year! I’ll sleep all day and I’ll stand watch all night.”

That’s a mighty good nigger, Tom. He

TOM SAWYER .76

GLOSSÁRIO INGLÊS

andiron: cão-de-lareira (móvel antigo onde se deixavam as toras de madeira ainda não usadas)

brass: latão

clodding: tolo (arc.)

knob: maçaneta

marble: bola de gude (de vidro), por extensão white marble, já que o mármore é branco.

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