INTRODUÇÃO
“De fato, é só relacionando-se a problemática nietzschiana do eterno retomo à problemática heideggeriana do ultrapassamento da metafísica que as esparsas e nem sempre coerentes teorizações do pós-moderno adquirem rigor e dignidade filosófica”
“Do ponto de vista de Nietzsche e Heidegger, que podemos considerar comum, não obstante as diferenças nada ligeiras, a modernidade pode caracterizar-se, de fato, por ser dominada pela idéia da história do pensamento como uma ‘iluminação’ progressiva, que se desenvolve com base na apropriação e na reapropriação cada vez mais plena dos ‘fundamentos’, que freqüentemente são pensados também como as ‘origens’, de modo que as revoluções teóricas e práticas da história ocidental se apresentam e se legitimam na maioria das vezes como ‘recuperações’, renascimentos, retornos.”
“provavelmente, retornar a Parmênides significaria apenas recomeçar tudo do início – a menos que se preconize, niilisticamente, uma casualidade absoluta do processo que levou de Parmênides à ciência-técnica moderna e à bomba atômica.”
“a idéia de uma história como processo unitário se dissolve, instaurando-se, na existência concreta, condições efetivas (não apenas a ameaça da catástrofe atômica, mas também e sobretudo a técnica e o sistema da informação) que lhe conferem uma espécie de imobilidade realmente não-histórica.”
“Assim fez a filosofia do passado, assim fez a fenomenologia husserliana, o Heidegger de Sein und Zeit, o Wittgenstein da análise dos jogos lingüísticos.”
“se considerarmos a experiência que vivemos nas atuais sociedades ocidentais, uma noção adequada para descrevê-la parece ser a de post-histoire, que foi introduzida na terminologia da cultura hodierna por Arnold Gehlen.”
“Há uma espécie de ‘imobilidade’ de fundo do mundo técnico, que os escritores de ficção científica representaram com freqüência como a redução de toda experiência da realidade a uma experiência de imagens e que já se percebe, para sermos mais realistas, no silêncio abafado e climatizado em que os computadores trabalham.”
“A história que, na visão cristã, se apresentava como história da salvação tornou-se, primeiramente, busca de uma condição de perfeição intramundana e, depois, progressivamente, história do progresso. Mas o ideal do progresso é vazio, seu valor final é o de realizar condições em que sempre seja possível um novo progresso.”
“a própria presença do marxismo em nossa cultura manteve-se mais rigorosa onde ele se separou da filosofia da história: pensamos no marxismo ‘estruturalista’ de Althusser”
“Percebeu-se que a história dos eventos – políticos, militares, dos grandes movimentos de idéias – é apenas uma história entre outras. A ela pode-se contrapor, por exemplo, a história dos modos de vida, que caminha muito mais lentamente e se aproxima quase de uma ‘história natural’ dos fatos humanos.”
“Na radicalização dessas consciências, também acabou aparecendo como uma derradeira ilusão metafísica a idéia, professada por Ernst Bloch, de que, sob as diversas imagens da história e dos diversos ritmos temporais que as caracterizam, existe um ‘tempo’ unitário forte (que seria o da classe não-classe, o proletariado, portador da verdadeira essência humana).”
“A contemporaneidade (não, é claro, a história contemporânea da subdivisão escolar, que a faz começar na Revolução francesa) é a época em que, enquanto, com o aperfeiçoamento dos instrumentos de coleta e transmissão da informação, seria possível realizar uma ‘história universal’, precisamente essa história se tomou impossível.”
“O significado da referência teórica a esses autores consiste na possibilidade que eles proporcionam de passar de uma descrição puramente crítico-negativa da condição pós-moderna, que foi típica da Kulturkritik do início do século e das suas ramificações na cultura recente, a uma consideração desta como possibilidade e chance positiva.”
PRIMEIRA PARTE
O NIILISMO COMO DESTINO
I. APOLOGIA DO NIILISMO
“O niilista consumado é aquele que compreendeu que o niilismo é a sua (única) chance. O que acontece hoje em relação ao niilismo é o seguinte: começamos a ser, a poder ser, niilistas consumados.”
“a definição heideggeriana do niilismo, que, isolada, acabaria levando-nos a considerar que Heidegger quer simplesmente inverter a relação sujeito-objeto a favor do objeto (assim Adorno lê Heidegger na Dialética Negativa).”
“Se seguirmos o fio condutor do nexo niilismo-valores, diremos que, na acepção nietzschiana-heideggeriana, o niilismo é a consumação do valor de uso no valor de troca. O niilismo não é o ser estar em poder do sujeito, mas o ser se dissolver completamente no dis-correr do valor, nas transformações indefinidas da equivalência universal.”
“o marxismo, em suas várias declinações teóricas (com exceção, talvez, do marxismo estruturalista de Althusser), sonhou com a recuperação, antes no plano prático-político do que no plano teórico, do valor de uso e da sua normatividade.”
“A necessidade de ir além do valor de troca, na direção do valor de uso que escapa da lógica da permutabilidade, também é dominante na fenomenologia (pelo menos do ponto de vista que nos interessa aqui) e no primeiro¹ existencialismo, inclusive, portanto, em Sein und Zeit.”
¹ A-sartriano.
“Fenomenologia e primeiro existencialismo, mas também marxismo humanista e teorização das ‘ciências do espírito’, são manifestações de um fio condutor que unifica um amplo setor da cultura européia, que também poderemos distinguir como sendo caracterizado pelo ‘patos da autenticidade’ – isto é, em termos nietzschianos, da resistência à consumação do niilismo. A essa corrente também foi anexada recentemente uma tradição que, até agora, em muitas das suas manifestações, havia aparecido como alternativa: aquela que, partindo de Wittgenstein e da cultura vienense da época do Tractatus, se desenvolve até a filosofia analítica anglo-saxã.”
“Do ponto de vista do niilismo – e, por certo, com uma generalização que pode parecer exagerada –, parece que a cultura do século XX assistiu à consumação de todos os projetos de ‘reapropriação’. Nesse processo incluem-se não apenas os acontecimentos da teoria – entre os quais, por exemplo, os desenvolvimentos lacanianos do freudismo –, mas também, e mais fundamentalmente talvez, as próprias vicissitudes políticas do marxismo, das revoluções e do socialismo real.”
“Heidegger, que pareceu a tantos como o filósofo da nostalgia do ser, inclusive em suas características metafísicas de Geborgenheit, escreveu, ao contrário, que o Ge-Stell – isto é, a universal imposição e provocação do mundo técnico – também é um ‘primeiro lampejar do Ereignis’, daquele evento do ser em que qualquer ‘propriação’ – qualquer dar-se de algo enquanto algo – só se efetua como transpropriação, numa circularidade vertiginosa em que homem e ser perdem todo e qualquer caráter metafísico. A trans-propriação em que se efetua o Ereignis do ser é, no final das contas, a dissolução do ser no valor de troca”
“Escutar o apelo da essência da técnica, todavia, não significa tampouco abandonar-se sem reservas às suas leis e a seus jogos; por isso, creio eu, Heidegger insiste no fato de que a essência da técnica não é algo técnico, e é a essa essência que devemos estar atentos.”
“A técnica também é fábula, Sage, mensagem transmitida.” “O mito da técnica desumanizante e, também, a realidade desse mito nas sociedades da organização total são enrijecimentos metafísicos que continuam a ler a fábula como ‘verdade’.”
II. A CRISE DO HUMANISMO
“a negação de Deus, ou o registro da sua morte, não pode dar lugar hoje a nenhuma ‘reapropriação’ pelo homem de uma sua essência alienada no fetiche do divino.”
“Quando esse caráter redutivo da metafísica se torna explícito, como acontece, segundo Heidegger, em Nietzsche (o ser como vontade de poder), a metafísica está em seu ocaso, e com ela, como constatamos cada dia, também declina o humanismo.”
“Ainda que, nos decênios sucessivos, seja precisamente a partir da reflexão sobre as ciências do espírito que se desenvolverá a hermenêutica com as suas implicações anti-metafísicas e anti-humanistas (é a história do nexo que liga Heidegger a Dilthey), o significado originário do debate é de tipo ‘defensivo’ (…) Quem liberta esse núcleo humanista, contido no debate do início do século, das aparências de debate ‘metodológico’ e o coloca em seus termos efetivos de conteúdo teórico é o Husserl da Krisis.”
“leitura nostálgico-restauradora da crise do humanismo. (…) para esta, a crise não atinge os conteúdos do ideal humanista, e sim suas chances de sobrevivência histórica nas novas condições de vida da modernidade.”
Ernst Jünger, O Trabalhador
“[Bloch] Geist der Utopie (1918 e 1923) é, seguramente, uma das obras filosóficas do século XX que mais se abriram para explorar as possibilidades ‘positivas’ relacionadas aos aspectos aparentemente desumanizantes das novas condições de existência do mundo técnico.”
“a técnica, em seu projeto global de concatenar tendencialmente todos os entes em vínculos causais previsíveis e domináveis, representa o desdobramento máximo da metafísica. (…) Enquanto aspecto da metafísica, o humanismo também não pode ter a ilusão de representar valores alternativos aos valores técnicos. O fato de a técnica se apresentar como uma ameaça para a metafísica e para o humanismo é apenas uma aparência, derivada de que, na essência da técnica, desvendam-se as características próprias da metafísica e do humanismo, que estes sempre haviam mantido ocultas.” “A técnica representa a crise do humanismo não porque o triunfo da racionalização negue os valores humanistas, como uma análise superficial nos levou a crer, mas sim porque, representando a consumação da metafísica, chama o humanismo a uma superação, a uma Verwindung.”
“Mas o fato de Heidegger não se ter contentado com um retorno ao realismo aristotélico-tomista (como certos outros discípulos do primeiro Husserl), nem ter seguido o caminho do retorno à Lebenswelt, indica hoje claramente o verdadeiro sentido do seu anti-humanismo: nem uma reivindicação da ‘objetividade’ das essências, nem um remontar ao mundo da vida como âmbito precedente a qualquer enrijecimento categorial.”
“O sujeito é ‘ultrapassado’ na medida em que é um aspecto do pensamento que esquece o ser em favor da objetividade e da simples-presença.” “Por isso, o humanismo da tradição metafísica também tem um caráter repressivo e ascético, que se intensifica no pensamento moderno quanto mais a subjetividade se modela com base na objetividade científica e torna-se pura função dela.”
SEGUNDA PARTE
A VERDADE DA ARTE
III. MORTE OU OCASO DA ARTE
“Como muitos outros conceitos hegelianos, o de morte da arte também se revelou profético com respeito aos desenvolvimentos efetivamente verificados na sociedade industrial avançada, ainda que não no sentido exato que tinha em Hegel, mas, antes, como Adorno nos ensinou constantemente, num sentido estranhamente pervertido.” “O último arauto desse anúncio da morte da arte foi Herbert Marcuse – pelo menos o Marcuse mestre da revolta juvenil de 68.”
“Todas as dificuldades que a estética filosófica encontra ao encarar a experiência do ocaso da arte, da fruição distraída, da cultura massificada, nascem do fato de que ela continua a raciocinar em termos de obra como forma tendencialmente eterna e, no fundo, em termos de ser como permanência, imponência, força.”
IV. A QUEBRA DA PALAVRA POÉTICA
“Não obstante a mudança da sua terminologia, Heidegger permaneceu até os últimos escritos profundamente fiel às premissas de Sein und Zeit: a autenticidade da existência permanece sempre ainda definida pelo projetar-se explicitamente para a sua morte.”
“o fato de a verdade, a abertura dentro da qual se dá cada vez às humanidades históricas, ser evento e não estrutura estável modifica profundamente a essência da verdade.” “A evidência daquele ‘é’ que só se dá como efeito de silêncio não é a mesma evidência dos princípios metafísicos, dos quais só se teria tirado a eternidade e acrescentado a eventualidade.”
“O esforço com que o poeta trabalha a poesia, a cinzela, a escreve e reescreve, não é um esforço em direção à perfeição da coincidência entre conteúdo e forma, em direção à energheia plenamente transparente da obra clássica; ao contrário, é uma espécie de antecipação da erosão essencializante que o tempo exerce sobre a obra, reduzindo-a a monumento.”
V. ORNAMENTO MONUMENTO
(…)
VI. A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES ARTÍSTICAS
“Newton teria podido tornar visíveis e apontar precisamente para imitação, não só sua, mas de qualquer outro, todos os seus passos… mas nenhum Homero ou Wieland poderia mostrar como se produziram e se combinaram em suas cabeças as suas idéias, porque eles mesmos não sabem e, portanto, não podem ensinar aos outros.”
Kant
“não-historicidade do gênio” (vs. cumulatividade do saber científico)
“Não apenas a distinção entre os dois tipos de historicidade parece ter-se dissolvido hoje em dia, mas essa dissolução se deu mediante uma redução da própria historicidade ‘cumulativa’ à historicidade ‘genial’.” “não será difícil reconhecer que as revoluções científicas de Kuhn são amplamente moldadas com base na peculiar (e imprópria, segundo Kant) historicidade do gênio kantiano.”
“Eliminada a fé no Grund e no curso das coisas como desenvolvimento em direção a uma condição final, o mundo não aparece mais senão como uma obra de arte que se faz por si (…expressão que Nietzsche toma de Schlegel), e o artista é uma Vorstufe, um lugar em que se deu a conhecer e se realizou em pequena escala aquela que agora – como o desenvolvimento da organização técnica do mundo, entendemos nós (mas sendo fiel a N.) – pode desvelar-se como a própria essência do mundo, a vontade de poder.”
“A ênfase com que boa parte da filosofia do séc. XX falou do futuro é o espelho fiel de uma época que, em geral, pode legitimamente chamar-se ‘futurista’ (para usar a expressão proposta por Krzysztof Pomian num ensaio a que voltarei a referir-me).”
“a tensão ao futuro como tensão à renovação, ao retorno a uma condição de autenticidade original.”
“precisamente para escapar do risco de teorizar o fim da história (que é um risco, quando não se crê mais numa outra vida, no sentido pregado pelo cristianismo), o progresso se caracteriza cada vez mais como um valor em si; o progresso é progresso quando caminha na direção de um estado de coisas em que um progresso ulterior é possível, e nada mais”
“enquanto para a maior parte da idade moderna as descobertas ainda foram limitadas e guiadas, no plano da ciência ou da técnica, pelo valor ‘verdade’ ou pelo valor ‘utilidade para a vida’, no caso das belas-artes essas limitações, essas formas de arraigamento metafísico, caíram muito antes, pondo a arte, desde o início da idade moderna, na condição de desarraigamento em que ciência e técnica se encontram explicitamente apenas hoje.”
“o novo na ciência, na técnica, na indústria significa a pura e simples sobrevivência dessas esferas de atividade (…) A transformação do progresso em rotina, nesses campos, descarrega todo o pathos do novo no outro âmbito, o das artes e da literatura.”
Mercier, L’An 2440
“a passagem de Joyce do Ulysses ao Finnegan’s Wake, justamente apontada por Ihab Hassan como evento-chave para a definição do pós-moderno.”
“Que certas obras ‘epocais’ do séc. XX – da Recherche proustiana ao Homem sem qualidades e ao Ulysses e ao Finnegan’s Wake – estejam concentradas, inclusive quanto ao ‘conteúdo’, no problema do tempo e dos modos de vivenciar a temporalidade fora da sua linearidade pretendidamente natural, talvez não seja um fato desprovido de significado.”
TERCEIRA PARTE
O FIM DA MODERNIDADE
VII. HERMENÊUTICA E NIILISMO
“O primeiro elemento niilista na teoria hermenêutica heideggeriana pode ser encontrado na sua análise do Ser-aí como totalidade hermenêutica.” “Essa familiaridade preliminar com o mundo, que se identifica com a própria existência do Ser-aí, é o que Heidegger chama de compreensão ou pré-compreensão. Qualquer ato de conhecimento nada mais é que uma articulação, uma interpretação dessa familiaridade preliminar com o mundo.” “o Ser-aí só se funda como uma totalidade hermenêutica na medida em que vive continuamente a possibilidade de não-existir-mais.”
“An-denken [pensar rememorante] também é o que ele mesmo se esforçou em fazer, nas obras sucessivas a Sein und Zeit, em que não elabora mais um discurso sistemático, mas se limita a percorrer de novo os grandes momentos da história da metafísica, tais como se exprimem nas grandes sentenças de poetas e pensadores. É um erro considerar esse trabalho de repercurso da história da metafísica como um simples trabalho preparatório, que deveria servir para a construção de uma ontologia positiva posterior. O rememorar da metafísica é a forma definitiva do pensamento do ser que nos é dado realizar. An-denken corresponde a (…) decisão antecipadora da morte”
“O ser nunca é verdadeiramente pensável como presença; [Ser-aí] o pensamento que não o esquece é apenas o que recorda, i.e., que o pensa já sempre como desaparecido, ido embora, ausente.” “só porque as gerações se sucedem no ritmo natural de nascimento e morte, o ser é anúncio que se transmite.”
“O que liberta, no confiar-se à tradição, não é a evidência coativa de princípios, de Gründe, chegando aos quais poderíamos finalmente, reconstruindo as origens de um certo estado de coisas, explicar-nos com clareza o que nos acontece; o que liberta, ao contrário, é o salto no abismo da mortalidade.”
“Esse sentido do ser, que só se dá a nós como ligado à mortalidade, à trans-missão de mensagens lingüísticas entre as gerações, é o oposto da concepção metafísica do ser como estabilidade, força, energheia; é um ser fraco, declinante, que se desdobra no desvanecer, aquele Gering, inaparente irrelevante, de que fala a conferência sobre A coisa.”
“enquanto a coleção de arte principesca ainda era a manifestação de um certo gosto e de certas preferências qualificadas, o museu reúne tudo o que é ‘esteticamente válido’, mas, precisamente, apenas enquanto dotado de uma ‘contemplabilidade’ de todo desvinculada da experiência histórica.”
“O objetivo de Gadamer é recuperar a arte como experiência de verdade, contra a mentalidade cientificista moderna, que limitou a verdade ao campo das ciências matemáticas da natureza, relegando todas as outras experiências, mais ou menos explicitamente, ao domínio da poesia, da pontualidade estética, do Erlebnis [experiência, vivência, insight].”
VIII. VERDADE RETÓRICA NA ONTOLOGIA HERMENÊUTICA
“ontologia hermenêutica”: Luigi Pareyson X Paul Ricoeur X Richard Rorty X Gadamer
“É só graças a essa urbanização [que Gadamer promoveu em relação ao pensamento heideggeriano], provavelmente, que hoje podemos falar, p.ex., cada vez mais intensamente e com conseqüências cada vez mais acentuadas, numa proximidade entre Heidegger e Wittgenstein.”
O clássico de Rorty é informado por esse “encontro”: Philosophy and the Mirror of Nature
Enquanto houver linguagem haverá sentido.
“Gadamer descreve esse âmbito lingüístico-ético que rege a experiência retomando a noção grega de kalón, em conexão com a de theoría.”
Nesse sentido, Gadamer acredita no bem, isso é, o sentido apontado pela linguagem é esse bem supremo.
“O modo como o logos-linguagem comum impõe seus direitos sobre a ciência e seus resultados [verdade velha, apodrecida, ‘niilizada’] não é apenas o da transferência das concepções e terminologias científicas para a linguagem cotidiana e a mentalidade comum – transferência que se verifica, obviamente, através da vulgarização, portanto de certo empobrecimento, do alcance dos enunciados científicos e através de uma acentuação das características retóricas que todas as teorias científicas possuem. Há mais (…) os direitos do logos-comum se exercem como orientação ética sobre os usos e desenvolvimentos dos resultados das ciências. A factibilidade que as ciências e as técnicas asseguram [a tecnologia ‘pura’ em seu movimento, aparentemente auto-movimento] nunca basta para que se ponha em movimento um certo uso social da ciência; é necessária uma decisão, mesmo se implícita, de tipo ético, que às vezes age inclusive sozinha como efetivo não-prosseguimento de certo curso dos desenvolvimentos técnicos. [poderíamos ter bombas muito mais poderosas que as de fusão nuclear, por incrível que pareça…]”
“Segundo Gadamer (…) as possibilidades da engenharia genética (…) não são desenvolvidas hoje em certas direções devido ao prevalecimento de … apreciações morais.”
“as posições de Thomas Kuhn já não provocam tanto escândalo”
“a hermenêutica da retórica torna claro que o caráter público das regras de verificação das proposições das ciências não é apenas uma universalidade formal (que se refere, no máximo, à comunidade dos pesquisadores, ela mesma pensada com base no modelo do puro sujeito cognoscente), mas também seu arraigamento efetivo numa esfera pública, histórica e culturalmente determinada.” Sim, o povo também tem voz no debate sobre o que é espaço e tempo, sr. Hawking! E, resumindo, Francis Bacon só tem um, e teria de ter surgido naquele contexto se queria ser aceito e legitimado como o foi.
“Rumar para a verdade não quer dizer tanto alcançar o estado de luminosidade interior que tradicionalmente se indica como evidência, quanto, em vez disso, passar para o plano das admissões participadas e compartilhadas que, mais do que evidentes, parecem ser óbvias, não necessitar de interrogação e, portanto, não ser talvez sequer identificáveis como evidências autênticas em sentido forte.”
“a urbanização [agora entendo melhor: cosmopolitização, extensão ao social] do pensamento de Heidegger se configura aqui, num sentido muito literal, como aceitação, por uma filosofia de colocação originalmente existencialista, do caráter mais ‘externo’ do que íntimo da verdade e, portanto, do prevalecimento do momento procedimental sobre o momento intuitivo”
“Heidegger (…) [visto como expoente do] anti-humanismo [ou] anticonsciencialismo, [da] desconfiança em relação ao sujeito da metafísica moderna (que tem um precedente em Nietzsche e sua rejeição da consciência).”
“no segundo Wittgenstein (…) se coloca com particular acuidade a questão de se a maioria dos que falam certa língua pode estar em erro.”
Tanto tempo tentando encontrar a verdade, e se ela estiver na fofoca, no inautêntico?
“Esse salto não se resolverá, desse modo, numa ‘apologia do existente’?”
Contra-figuras: o revolucionário, o inovador e o profeta.
“muito do patos crítico heideggeriano contra o mundo do esquecimento do ser e da metafísica consumada no domínio planetário da técnica resulta amplamente atenuado, ou de todo ausente, em Gadamer, para o qual o que conta é limitar as pretensões dogmáticas das ciências-técnicas em favor de uma racionalidade social que não sente necessidade alguma de tomar demasiada distância da metafísica ocidental, mas, ao contrário, se coloca perante esta numa relação de substancial continuidade. Está aqui, bem como no maior peso que teve para ele a formação filológica, a razão do distanciamento com que Gadamer encara as interpretações heideggerianas dos filósofos e dos poetas do passado. Sabe-se que são precisamente esses os textos em que Heidegger parece mais oracular e, portanto, menos urbano; os textos que menos podem agradar a leitores como Habermas.(*) Mas, paradoxalmente, são justo esses os textos em que Heidegger se mantém fiel a uma posição de crítica em relação ao existente, que, ao contrário, em Gadamer, parece atenuar-se até perder-se.”
(*) Nesse sentido, seriam leituras interessantes:
A caminho da linguagem
Contribuições à filosofia do acontecimento apropriado
Hölderlin e a essência da poesia / Elucidations of Hölderlin’s Poetry
A Fenomenologia do espírito de Hegel
Sobre a Alegoria da Caverna e o Teeteto de Platão
A Metafísica de Aristóteles
O começo/início da filosofia ocidental: interpretação de Anaximandro e Parmênides
O Tratado de Schelling sobre a essência da liberdade humana
Black Notebooks / Cuadernos Negros
Por que poetas?
Sobre Ernst Jünger
Introdução à metafísica
“De onde se pode partir para recuperar, talvez em alternativa a Gadamer a força crítica original do pensamento heideggeriano?”
“Os traços com base nos quais Gadamer caracteriza o kalón nas páginas conclusivas de Verdade e método, todas elas dominadas pela retomada de uma metafísica da luz e, em geral, do esplendor da forma, parecem muito distantes da idéia de obra de arte como conflito sempre aberto entre mundo e terra, que Heidegger desenvolve no ensaio sobre A origem da obra de arte.”
IX. HERMENÊUTICA E ANTROPOLOGIA
“Essa crítica à ‘transcendentalização’ da antropologia, [crítica ‘niilista’ da faculdade de conhecimento, neste contexto] se assim se pode dizer e que a mim parece o sentido das recentes posições de Habermas (e de Apel), parece-me útil como ponto de partida para uma reflexão sobre hermenêutica e antropologia, [que para Rorty pode avançar, enquanto ciência da cultura, empiricamente, sem revoluções epistemológicas de grande monta] porque é avançada por Rorty no quadro de uma adesão substancial aos resultados do pensamento de Heidegger e de Gadamer, portanto do ponto de vista da hermenêutica”
“antropologia cultural, aquela que … considera os interesses cognoscitivos … resultantes da história natural” Não está preocupada em perguntar sobre o homem, quanto mais o ser, etc. Para todos os efeitos, o homem é o a priori kantiano.
“a antropologia é pensada aqui como discurso sobre as ‘outras’ culturas, e o antropólogo aparece como aquele que ‘vai o mais longe possível’.” “o modo primeiro e fundamental do discurso antropológico, a experiência do encontro com outras civilizações.” Acima de quaisquer alteridades estaria uma “essência supra-histórica”.
“o preconceito etno ou eurocêntrico – que não se manifesta apenas nas concepções mais simplistas do primitivo como fase atrasada da única civilização, mas também … nas antropologias estruturais.”
“a epistemologia [para Rorty] se baseia no pressuposto de que todos os discursos são comensuráveis e traduzíveis entre si, e de que a fundação da sua verdade consiste precisamente na tradução numa linguagem de base, a linguagem do espelhamento dos fatos, ao passo que a hermenêutica admite que essa linguagem unificadora não se dá, esforçando-se, ao contrário, por apropriar-se da linguagem do outro, em vez de traduzi-la na sua.”
“homologação metafísica do mundo” como o momento em que a técnica “vence” o homem e sobrepuja a capacidade de autenticidade. Ou não – mas ponto em que a técnica, de toda forma, atinge seu ápice e culminância na terra. Dita homologação é considerada um destino, e considera-se a hermenêutica como uma ciência dos tempos “pós-homologados”. A antropologia “nunca termina”, embora esteja sempre terminando, e a ocidentalização do mundo sempre progrida cada vez mais. No fim a antropologia deixará apenas uma decepção no ar, porque ainda será possível mesmo nesse cenário póstumo, “surpreendendo” os etnógrafos mais pessimistas: “a antropologia pensa a si mesma como um aspecto interno do processo geral de ocidentalização e homologação – processo que, de resto, só se manifesta como … ideológico.”
“Assim como a condição de alteridade radical das outras culturas se revela um ideal talvez nunca realizado, e certamente irrealizável para nós, do mesmo modo, no processo de homologação-contaminação, também os textos pertencentes à nossa tradição, os ‘clássicos’ no sentido literal, com os quais a nossa humanidade desde sempre se mediu, perdem progressivamente a sua coatividade de modelos, entrando igualmente no grande estaleiro das sobrevivências. [Homero tão periférico quanto um pataxó]”
“(Talvez o cargo cult(*) também seja ‘um primeiro lampejar do Ereignis’.”
(*) “Um ‘culto de carga’ refere-se a um movimento religioso que surgiu em algumas sociedades tribais da Melanésia, onde os seguidores acreditavam que a prosperidade viria através de rituais que imitavam o comportamento dos ocidentais que trouxeram bens (carga) para eles.”
Guidieri, Les sociétés primitives aujourd’hui, in: DELACAMPAGNE e MAGGIORI, Philosopher: les interrogations contemporaines, 1980.
Pellizzi, Misioneros y cargos: notas sobre identidad y aculturación en los altos de Chiapas
X. NIILISMO E PÓS-MODERNO EM FILOSOFIA
“Nietzsche vê com muita clareza, já no ensaio de 1874, que o ultrapassamento é uma categoria tipicamente moderna e, portanto, não é capaz de determinar uma saída da modernidade.”
“a idéia do eterno retorno do igual, que significa, entre outras coisas, o fim da época da superação, i.e., da época do ser pensado sob o signo do novum. Quaisquer que sejam os outros significados, deveras problemáticos, da idéia do eterno retorno no plano metafísico, ela tem, pelo menos, com certeza, esse sentido ‘seletivo’; ou seja, para nós, de revelar a essência da modernidade como época da redução do ser ao novum. Tanto as vanguardas artísticas do início do século (sobretudo o futurismo), quanto certas filosofias, como o hegeliano-marxismo de Bloch, mas também de Adorno e Benjamin, podem ser evocadas aqui como exemplos de tal redução.”
“Todas as obras do período iniciado com Humano, demasiado humano (ou seja, principalmente Aurora e A gaia ciência) são um esforço para determinar a idéia dessa filosofia da manhã. As próprias teses, aparentemente mais ‘metafísicas’, dos escritos mais tardios e dos fragmentos póstumos editados na Der Wille zur Macht deveriam ser lidas, muito mais do que se costuma lê-las, em relação com esse esforço:”
“viver plenamente a experiência da necessidade do erro (…) viver a errância com uma atitude diferente.”
“O texto menos ambíguo, do ponto de vista que nos interessa, encontra-se na primeira parte de Identidade e diferença (…) Onde fala do Ge-Stell, isto é, do mundo da tecnologia moderna como conjunto de stellen, de pôr (dispor, impor, etc., por isso proponho traduzir por im-posição), Heidegger escreve que ‘aquilo que experimentamos no Ge-Stell… é um prelúdio do que se chama Er-eignis (evento, apropriação, etc.). Este, porém, não se enrijece necessariamente no seu prelúdio. Já que no Ereignis se anuncia (spricht… an) a possibilidade de o puro e simples desenvolver-se e viger [Walten] do Ge-Stell verwindet num Ereignis mais de princípio’.”
“para Heidegger, a possibilidade de uma mudança que nos leve a um Ereignis mais de princípio – ou seja: fora, além, da metafísica – está ligada a uma Verwindung desta.”
“jogando com a polivalência do termo italiano rimettersi, [a metafísica] é algo de que alguém se restabelece, se recupera, a que alguém se remete, que alguém remete (que envia).”
“pode-se viver a metafísica e o Ge-Stell como uma chance, como a possibilidade de uma mudança em virtude da qual aquela e este se torcem numa direção que não é a prevista por sua essência própria, mas que a ela está relacionada.”
“A ‘reviravolta’, ou Kehre, do pensamento de Heidegger é, como se sabe, a passagem de um plano em que existe apenas o homem (o existencialismo humanista à Sartre) a um plano em que há principalmente o ser, como diz o escrito de 1946 sobre o humanismo.”
“também o esquecimento do ser está inscrito, pelo menos em certo sentido, no próprio ser (não depende de nós nem mesmo o esquecimento). O ser nunca se pode dar todo em presença.”
“O recontar a história da metafísica, que Heidegger efetua sempre de novo nos escritos subseqüentes à reviravolta, possui a estrutura do regressus in infinitum, emblematicamente característico da reconstrução etimológica. Esse remontar não nos leva a lugar nenhum, a não ser a recordar-nos do ser como daquilo de que já sempre nos despedimos. O ser só se dá aqui na forma do Geschick (o conjunto do envio) e da Überlieferung (a trans-missão). Nos termos de Nietzsche, o pensamento não remonta à origem para dela se apropriar; ele apenas torna a percorrer os caminhos da errância, que é a única riqueza, o único ser, que nos é dado.”
“não se repensa Platão colocando-se o problema de se é ou não verdadeira a doutrina das idéias, mas procurando rememorar a Lichtung, a abertura destinal preliminar dentro da qual algo como a doutrina das idéias pôde apresentar-se.”
“ver as teses da metafísica como Ge-Schick, envio, trans-missão histórico-destinal, tira toda a força das pretensões de coatividade metafísica.” Isso vai acontecer, porque o homem vai querer, porque a Idéia nele quis, mas ele não vai se atoleimar à Idéia, ele vai querer e fazer (resumo brabo).
“o ser nada mais é que a trans-missão das aberturas histórico-destinais que constituem, para cada humanidade histórica, je und je, a sua específica possibilidade de acesso ao mundo.” Agora creio que entendi quando Heidegger diz, em Nietzsche, que o filósofo é figura atemporal. Porque ele sempre trata do ser que pode tratar, à sua maneira, de forma plena. O ser é linguagem. E o ser descrever o que ele é é seu destino. Não seria assim se ele fosse dado ex nihilo. Porém, ele, a linguagem são circulares, ele se produz como a linguagem se produz. Nada há nisso de oracular. Creio que os filósofos de 2300 dirão que os filósofos dos séculos XX e XXI eram todos metafísicos e escravos de um sistema moral e de verdade que lhes pregava antolhos, que finalmente em seu tempo puderam ser removidos, isto é, Maia descortinada – os mais ingênuos, é óbvio, os que não lerem estes textos compreendendo a circularidade a qual também estão expostos. Porém é digno de nota que Kant, Descartes, Platão sempre nos parecerão mais ingênuos e engessados, pueris, em sua forma de filosofar, porque afinal a circularidade só se tornou patente para nós pelo menos, e bem poucamente, i.e., restrita a apenas uma mente, no século XIX. Mas que o ser “se esqueça” após ter sido lembrado em nova configuração, muito distinta da doutrina das idéias, isso é mesmo necessário, e outra vez teremos filósofos como Kant, como Kant, não exatamente Kant.
“Mas o que está claro desde já é que a ontologia hermenêutica implica uma ética que poderia ser definida como uma ética dos bens em oposição a uma ética dos imperativos. Entendo esses dois termos no sentido que possuem na ética de Schleiermacher, que também foi um dos primeiros teóricos da hermenêutica.” E afinal de contas vou ter de ler esse cara!
“A re-memoração, ou, antes, a fruição (o reviver), também entendida em sentido ‘estético’, das formas espirituais do passado não tem a função de preparar alguma outra coisa, mas tem um efeito emancipador em si mesma.”
“A conferência sobre O fim da filosofia, por exemplo (1964), conclui, depois de ter falado da Lichtung e da sua irredutibilidade à verdade (já que ela é, antes, a alétheia), com a hipótese de que ‘a tarefa (Aufgabe) do pensamento poderia ser, então, o abandono (Preisgabe) da idéia de que o pensamento esteve até agora a favor da Bestimmung (vocação, determinação) da Sache do pensamento’. [bastante niilista!] Essa tensão no sentido de um além da metafísica é acompanhada, porém, em Heidegger, de um trabalho filosófico que tem por conteúdo principal a metafísica e suas errância.” Isto é: Heidegger sempre insiste na errância, em re-percorrer os caminhos e avatares da aletheia através dos tempos, mas às vezes insinua outra coisa. Um pensar metafísico (de coloração própria) e pessimista.
“essa outra Verwindung da hermenêutica proposta por Gadamer abre possibilidades muito sugestivas para o desenvolvimento de uma filosofia pós-moderna no sentido que poderíamos chamar da contaminação. Tratar-se-ia de não voltar mais a empresa hermenêutica apenas para o passado e suas mensagens, mas de exercê-la também em relação aos múltiplos conteúdos do saber contemporâneo, da ciência à técnica, das artes àquele ‘saber’ que se exprime nos mass-media, para levá-los sempre de novo a uma unidade” Sempre o mesmo papo interdisciplinar – mas quem seriam os loucos a se lançar em tal mega-empreendimento? Discípulos de Gadamer?
GLOSSÁRIO:
grumo: pequeno coágulo
ontos on: o ‘sendo sendo’, o mesmo que presente, existência, ente, ser (na filosofia platônica).
