A BALADA DO VELHO MARINHEIRO — Samuel Coleridge (trad. Adriano Scandolara)

A BIOGRAFIA LITERÁRIA DE COLERIDGE

Mesmo que nunca tenha lido Coleridge, nem estudado teoria literária, você já deve estar familiarizado com o termo ‘suspensão de descrença’ – i.e. o esforço extra para não se pensar ‘que besteira, isso nunca aconteceria!’ que o leitor faz ao ler um texto ficcional que, a rigor, lide em algum grau com o fantástico (apesar de existirem várias narrativas não-fantásticas que forçam a barra no quesito suspensão de descrença, mas tudo bem). Coleridge, de quem já tratamos aqui no escamandro num post anterior sobre o seu ‘Kubla Khan’, pensou nesse termo como um modo de defender a sua ‘Balada do Velho Marinheiro’, publicada no volume Baladas Líricas, de autoria conjunta com Wordsworth, que deu início ao romantismo inglês.”

É um velho Marinheiro,

E detém um, de três que vê:

– Por tua barba branca e cintilante olhar,

Tu me deténs por quê?


Agora o noivo escancarou as suas portas,

E eu sou seu familiar.

O comensal se apresta, principia a festa;

Ouve o alegre exultar.”


Solta-me! Solta-me barbado vagabundo!”


Agora a noiva já ingressara no salão,

Rubor rosa tem;

A inclinar as cabeças, menestréis alegres

À sua frente vêm.


O ouvinte contrafeito aqui bateu no peito,

Mas é forçado a ouvir;

E sua fala prossegue o Marinheiro antigo

De olhar a refulgir.”


E de repente nos envolvem névoa e neve,

Com um frio assassino;

E, alto de um mastro ao vê-lo, flutuava gelo

De um verde esmeraldino.”

 

Enfim passou por nós, bem no alto, um Albatroz,

Vindo da cerração;

Em nome do Senhor nós o saudamos,

Como se fosse outro cristão.


Comeu o que jamais comera, e lá na altura

Volteava sobranceiro;

Rompeu-se o gelo então com o estrondo de um trovão…

Passou o timoneiro!


E do sul um bom vento nos soprava alento;

O Albatroz nos seguia,

E à nossa saudação, por fome ou diversão,

Buscava todo dia!”


Mas ave não se via

Que à nossa saudação, por fome ou diversão,

Acorresse algum dia!”


Justo era, em seu pensar, tal pássaro matar

Que traz névoa e neblina.

A branda brisa arfava, a espuma alva voava,

E o sulco solto a esfiar…

Jamais humana voz soara antes de nós

Naquele mudo mar.”


Água, água, quanta água em toda a parte,

E a madeira a encolher;

Água, água, quanta água em toda a parte,

Sem gota que beber.”


Seus lábios eram rubros; seu olhar, lascivo;

Sua trança, auri-amarela;

Sua pele, como a lepra, era de um branco forte;

Ela era o próprio Pesadelo VIDA-EM-MORTE,

Que o sangue humano gela.”


Apagam-se as estrelas, densa é a escuridão;

Lívida a face do piloto à luz junto ao timão!

Nas velas o orvalho é um suor…

Até que a Lua sobe ao longe no oriente,

Nos cornos envolvendo estrela refulgente

Junto à porta inferior.”


Quatro vezes cinquenta a soma de homens vivos

Que, sem suspiro e sem gemido algum,

Com um baque pesado, quais massas inertes,

Caíram um por um.”


Mesmo à alma superior a maldição de um órfão

Pode danar com seu poder;

Mais horrível, porém,

É quando o olhar de um morto

A nós vem maldizer!

Sete dias e noites vi tal maldição,

E não podia morrer.”


E o albatroz, meu colar,

Se desprendeu de meu pescoço,

E mergulhou como chumbo no mar.”


Mesmo em sonho, era estranho ver tanto homem morto

Do chão se levantar.”


Instrumentos sem vida tornam-se seus membros…

Que tétrica equipagem!“


Porém o que, sem vento ou vaga,

a esse navio ir tão depressa faz?”


Ó sonho jubiloso! É o topo do farol

O que avisto afinal?

Aquilo é promontório?

Aquilo é mesmo a igreja?

É o meu país natal?”


Tenho um estranho dom do verbo; e, como a noite,

Errar de terra em terra é meu destino;

No momento em que vejo um rosto num lugar,

Eu sei que é o homem que precisa me escutar,

E meu caso lhe ensino.”


SOBRE “A BALADA DO VELHO MARINHEIRO”

Superestimado.


GLOSSÁRIO:

albatroz

substantivo masculino

Ave de habitat marinho, da família dos diomedeídeos, migradoras, de cor branca, corpo robusto, asas longas e cauda curta; com mais 3,5 metros de envergadura, sendo encontrada no hemisfério sul, é considerada a maior ave voadora do mundo.

Etimologia (origem da palavra albatroz). Do árabe al-gattas; do inglês albatross; pelo francês albatros.”

arrebol

Cor avermelhada das nuvens quando o sol nasce ou se põe no horizonte.”

besta

Arma portátil composta por um arco de madeira, ou de aço, cujas extremidades estão ligadas por uma corda que, ativada pelo gatilho, é esticada para arremessar setas ou balas de metal (pelouros).”

bruma

Nebulosidade causada por gotículas de água que ficam suspensas e diminuem a visibilidade; nevoeiro.”

cambaxirra

Nome comum a várias aves da família dos trogloditídeos, também chamada carriça, camaxirra, corruíra, garrincha, garriça.”

ovém

Náutica Nome genérico do calabre que se fixa (ovém de avante e ovém de ré) para servir de apoio aos mastros e mastaréus de um navio.”

penha

Rochedo grande, saliente e de localização isolada, normalmente numa encosta ou serra; penedo, penhasco, rocha.”

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