A BIOGRAFIA LITERÁRIA DE COLERIDGE
“Mesmo que nunca tenha lido Coleridge, nem estudado teoria literária, você já deve estar familiarizado com o termo ‘suspensão de descrença’ – i.e. o esforço extra para não se pensar ‘que besteira, isso nunca aconteceria!’ que o leitor faz ao ler um texto ficcional que, a rigor, lide em algum grau com o fantástico (apesar de existirem várias narrativas não-fantásticas que forçam a barra no quesito suspensão de descrença, mas tudo bem). Coleridge, de quem já tratamos aqui no escamandro num post anterior sobre o seu ‘Kubla Khan’, pensou nesse termo como um modo de defender a sua ‘Balada do Velho Marinheiro’, publicada no volume Baladas Líricas, de autoria conjunta com Wordsworth, que deu início ao romantismo inglês.”

“É um velho Marinheiro,
E detém um, de três que vê:
– Por tua barba branca e cintilante olhar,
Tu me deténs por quê?
Agora o noivo escancarou as suas portas,
E eu sou seu familiar.
O comensal se apresta, principia a festa;
Ouve o alegre exultar.”
“Solta-me! Solta-me barbado vagabundo!”
“Agora a noiva já ingressara no salão,
Rubor rosa tem;
A inclinar as cabeças, menestréis alegres
À sua frente vêm.
O ouvinte contrafeito aqui bateu no peito,
Mas é forçado a ouvir;
E sua fala prossegue o Marinheiro antigo
De olhar a refulgir.”
“E de repente nos envolvem névoa e neve,
Com um frio assassino;
E, alto de um mastro ao vê-lo, flutuava gelo
De um verde esmeraldino.”

“Enfim passou por nós, bem no alto, um Albatroz,
Vindo da cerração;
Em nome do Senhor nós o saudamos,
Como se fosse outro cristão.
Comeu o que jamais comera, e lá na altura
Volteava sobranceiro;
Rompeu-se o gelo então com o estrondo de um trovão…
Passou o timoneiro!
E do sul um bom vento nos soprava alento;
O Albatroz nos seguia,
E à nossa saudação, por fome ou diversão,
Buscava todo dia!”
“Mas ave não se via
Que à nossa saudação, por fome ou diversão,
Acorresse algum dia!”
“Justo era, em seu pensar, tal pássaro matar
Que traz névoa e neblina.
A branda brisa arfava, a espuma alva voava,
E o sulco solto a esfiar…
Jamais humana voz soara antes de nós
Naquele mudo mar.”
“Água, água, quanta água em toda a parte,
E a madeira a encolher;
Água, água, quanta água em toda a parte,
Sem gota que beber.”
“Seus lábios eram rubros; seu olhar, lascivo;
Sua trança, auri-amarela;
Sua pele, como a lepra, era de um branco forte;
Ela era o próprio Pesadelo VIDA-EM-MORTE,
Que o sangue humano gela.”
“Apagam-se as estrelas, densa é a escuridão;
Lívida a face do piloto à luz junto ao timão!
Nas velas o orvalho é um suor…
Até que a Lua sobe ao longe no oriente,
Nos cornos envolvendo estrela refulgente
Junto à porta inferior.”
“Quatro vezes cinquenta a soma de homens vivos
Que, sem suspiro e sem gemido algum,
Com um baque pesado, quais massas inertes,
Caíram um por um.”
“Mesmo à alma superior a maldição de um órfão
Pode danar com seu poder;
Mais horrível, porém,
É quando o olhar de um morto
A nós vem maldizer!
Sete dias e noites vi tal maldição,
E não podia morrer.”
“E o albatroz, meu colar,
Se desprendeu de meu pescoço,
E mergulhou como chumbo no mar.”
“Mesmo em sonho, era estranho ver tanto homem morto
Do chão se levantar.”
“Instrumentos sem vida tornam-se seus membros…
Que tétrica equipagem!“
“Porém o que, sem vento ou vaga,
a esse navio ir tão depressa faz?”
“Ó sonho jubiloso! É o topo do farol
O que avisto afinal?
Aquilo é promontório?
Aquilo é mesmo a igreja?
É o meu país natal?”
“Tenho um estranho dom do verbo; e, como a noite,
Errar de terra em terra é meu destino;
No momento em que vejo um rosto num lugar,
Eu sei que é o homem que precisa me escutar,
E meu caso lhe ensino.”
SOBRE “A BALADA DO VELHO MARINHEIRO”
Superestimado.
GLOSSÁRIO:
albatroz
“substantivo masculino
Ave de habitat marinho, da família dos diomedeídeos, migradoras, de cor branca, corpo robusto, asas longas e cauda curta; com mais 3,5 metros de envergadura, sendo encontrada no hemisfério sul, é considerada a maior ave voadora do mundo.
Etimologia (origem da palavra albatroz). Do árabe al-gattas; do inglês albatross; pelo francês albatros.”
arrebol
“Cor avermelhada das nuvens quando o sol nasce ou se põe no horizonte.”
besta
“Arma portátil composta por um arco de madeira, ou de aço, cujas extremidades estão ligadas por uma corda que, ativada pelo gatilho, é esticada para arremessar setas ou balas de metal (pelouros).”
bruma
“Nebulosidade causada por gotículas de água que ficam suspensas e diminuem a visibilidade; nevoeiro.”
cambaxirra
“Nome comum a várias aves da família dos trogloditídeos, também chamada carriça, camaxirra, corruíra, garrincha, garriça.”
ovém
“Náutica Nome genérico do calabre que se fixa (ovém de avante e ovém de ré) para servir de apoio aos mastros e mastaréus de um navio.”
penha
“Rochedo grande, saliente e de localização isolada, normalmente numa encosta ou serra; penedo, penhasco, rocha.”
