“O organismo é uma melodia que se canta, diz Merleau-Ponty citando o biólogo Uexküll.”
“Não conheço ninguém que, havendo pertencido à confraria dos scholars, tenha rompido com ela de forma mais radical que Nietzsche. Nenhum dos seus livros seria aceito em nossas universidades sequer como tese de mestrado, muito embora seja possível escrever teses eruditas sobre eles, bastando, para isso, que o estilo selvagem de Nietzsche seja moído e ‘interpretado’ pela linguagem ortodoxa. Referindo-se à sua experiência, ele diz o seguinte: ‘Enquanto eu dormia, um carneiro comeu o meu diploma – comeu e disse, Zaratustra deixou de ser um scholar. Disse-o e se foi trotando, equiarrogantemente. Isso foi uma criança que me contou. Gosto de me assentar aqui onde as crianças brincam, ao lado da parede em ruínas, entre os espinhos e as papoulas vermelhas. Para as crianças eu sou ainda um sábio, e também para os espinhos e as papoulas vermelhas’ [FN II (II), p. 654, Assim falou Zaratustra].”
“Uma sinfonia está para o compositor assim como o sistema está para o filósofo: um gigantesco esforço para dizer um universo. Schumann preferia, em vez disso, pequenas visões, miniaturas, quase haikais, quadros, aparições.”
“As crianças não aprendem saberes sobre a linguagem. Elas simplesmente aprendem a falar. Já nós, adultos, que vamos às escolas de língua para aprender uma língua estrangeira, e aprendemos a língua através dos saberes, nunca falamos a outra língua direito, temos de pensar, falamos com sotaque, e erramos a todo momento, a despeito de sabermos as regras da gramática: somos a centopeia que não consegue andar…”
“A experiência do prazer, tão boa, sempre nos coloca diante de um vazio. A teologia de santo Agostinho se constrói sobre esse vazio que se segue ao prazer. Depois de esgotado o prazer, existe, na alma, a nostalgia por algo indefinível. Que indefinível é esse que, se encontrado, nos traria a alegria? Estou pronto a concordar com o santo: um indefinível que, se encontrado, me traria alegria, eu o adoraria como deus, a ele entregaria a minha vida.” O para-quê, que Alves confunde com hedonismo ou tartufismo.
“As variações agradam tanto porque elas são o espelho da alma. Quando a alma gosta de uma coisa, ela quer que ela seja repetida, indefinidamente. Ela quer repetir o poema que a emocionou, o abraço, a comida, o perfume, a ideia, o pôr do sol, a paisagem.”
“Lênin confessava ter muito medo da sonata Appassionata, de Beethoven. Felizmente (ou infelizmente, tudo depende do ponto de vista), no tempo dele ainda não havia CDs. Para que a música fosse ouvida era preciso que alguém a tocasse. Eu já ouvi Beethoven muito mais vezes que ele mesmo. Não tenho informações históricas sobre se Lênin tinha uma ‘victrola’ (palavra que, aprendi faz poucos dias, se deriva de RCA Victor…) para ouvir a música.”
“Um texto sobre o prazer e a alegria há de ser prazeroso e alegre. Um texto científico sobre o prazer seria o mesmo que tocar uma sonata para piano, de Mozart, numa máquina de escrever. A ciência não é instrumento para se tocar prazer e alegria.”
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